Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.

Prévia do material em texto

E B O O K
EBOOK INTERATIVO
Ao final de cada página, no canto 
esquerdo inferior, utilize o botão 
“home” para retornar rapidamente 
ao índice.
Este e-book contém hyperlinks para facilitar 
sua leitura. Toque ou clique nos capítulos e 
seções do índice para ser direcionado ao seu 
conteúdo correspondente.
ÍN
D
IC
E
O CASO DE MARIA DA PENHA 05
APRESENTAÇÃO DO CASO 06
TEORIA 1 08
TEORIA 2 13
CONCLUSÃO DO CASO 32
A História de Maria da Penha 07
A Versão da Vítima 09
Dupla Tentativa de Feminicídio 10
A Injustiça não terminaria em casa 11
Quando tudo Mudou 12
O Outro Lado do Caso 14
A Calma Antes da Tempestade 16
Um Pesadelo se Torna Realidade 17
A Perícia Criminal 19
As Notícias Sobre Maria Chegam 20
O Tratamento no Hospital 21
O Ponto de Virada da História 22
Onde Estão as Armas do Crime? 23
A Espingarda dos Assaltantes 24
Outra Acusação Seria Feita Contra Marco 25
Uma Nova Descoberta 26
O Depoimento das Testemunhas 27
O Argumento Para Premeditação 28
O Processo Sob a Ótica Feminista 29
A Criação da Lei Maria da Penha 30
Marco Heredia Seria Preso 31
A Dignidade de um Homem 33
E - B O O K B P | O C A S O D E M A R I A D A P E N H A
Conhecida e premiada internacionalmente, Maria 
da Penha é lembrada até hoje como uma das poucas 
mulheres, vítima de violência doméstica, que não 
se calou ante às agressões sofridas pelo marido e 
conseguiu justiça, mesmo que tardiamente. Sua 
história teve um impacto tão imenso que em 7 de 
agosto de 2006, a lei n.º 11.340 foi sancionada 
em seu nome em proteção das mulheres. É 
justo dizer que todo brasileiro conheça Maria 
da Penha, ou tenha, ao menos, escutado seu 
nome; no entanto, sua história está sob uma 
luz tênue, que mantém muitos detalhes 
escurecidos ao indivíduo pouco informado. 
Todo crime é composto da dualidade 
entre a versão da vítima e do agressor. 
Se nos interessa saber a verdade, como 
bons investigadores, precisamos 
reavaliar cada mínimo aspecto 
da história para entender o seu 
real significado. Afinal, como 
foi de fato A história de 
Maria da Penha
5E - B O O K B P | O C A S O D E M A R I A D A P E N H A
6E - B O O K B P | O C A S O D E M A R I A D A P E N H A
A HISTÓRIA DE
MARIA DA
PENHA
Como tudo começou
Nascida em Fortaleza no dia primeiro de 
fevereiro de 1945, Maria da Penha Maia 
Fernandes conheceu o colombiano, Marco 
Heredia, quando estava cursando seu 
mestrado na Faculdade de Ciências Far-
macêuticas da Universidade de São Paulo 
em 1974. Naquele ano, eles começaram 
a namorar, e Marco Antonio demonstrava 
ser muito amável, educado e solidário com 
todos à sua volta. Naturalmente, o relacio-
namento parecia promissor e assim, ambos 
decidiram se casar em 1976. 
Após o nascimento da primeira filha e da 
finalização do mestrado de Maria, o casal 
voltou para Fortaleza, onde nasceram suas 
duas outras filhas. Contudo, foi a partir desse 
momento que a história de amor passou por 
uma mudança sombria.
7E - B O O K B P | O C A S O D E M A R I A D A P E N H A
8E - B O O K B P | O S A R Q U I V O S S E C R E T O S D E J F K
A VERSÃO 
DA VÍTIMA
Teoria 1
Para ser fiel às alegações de Maria da Penha, as seguintes 
informações foram retiradas diretamente do site do Instituto 
Maria da Penha. Após conseguir sua cidadania brasileira e 
se estabilizar financeira e profissionalmente, Marco mudou 
completamente. Conforme é relatado, ele agia sempre com 
intolerância, exaltando-se com facilidade e tinha comporta-
mentos explosivos não só com a esposa, mas também com 
as próprias filhas. O medo constante, a tensão diária e as 
atitudes violentas tornaram-se cada vez mais frequentes. 
Formou-se, assim, o ciclo da violência: aumento da 
tensão, atos de violência, arrependimento e comporta-
mento carinhoso. Foi nessa última fase, também conhecida 
como “lua de mel”, que, na esperança de uma mudança real 
por parte do ex-marido, Maria da Penha teve a sua terceira 
filha. Entretanto, isso não resolveria a situação, que estava 
prestes a piorar.
9E - B O O K B P | O C A S O D E M A R I A D A P E N H A
im.01
im.02
im.03
DUPLA TENTATIVA 
DE FEMINICÍDIO
Teoria 1
Em 1983, Maria da Penha foi vítima de 
duas tentativas de feminicídio por parte de 
Marco Heredia. Primeiro, ele disparou em 
suas costas enquanto ela dormia. Por con-
sequência, Maria ficou paraplégica devido a:
- lesões irreversíveis na terceira e quarta 
vértebras torácicas (im.01);
- lacerações na dura-máter (im.02) e;
- destruição de um terço da medula à 
esquerda (im.03) — sem contar ainda outras 
complicações físicas, bem como os traumas 
psicológicos decorrentes. 
Quatro meses depois, quando Maria da 
Penha voltou para casa, após duas cirur-
gias, internações e tratamentos, Marco 
manteve-a em cárcere privado durante 15 
dias e tentou eletrocutá-la durante o banho. 
Juntando as peças de um quebra-cabeça 
perverso montado pelo agressor, Maria da 
Penha compreendeu os diversos movimentos 
feitos pelo ex-marido: ele insistiu para que 
a investigação sobre o suposto assalto não 
fosse levada adiante.
As manipulações não paravam por aí. 
Marco fez com que ela assinasse uma procu-
ração que o autorizava a agir em seu nome, 
inventou uma história trágica sobre a perda 
do automóvel do casal, tinha várias cópias 
de documentos autenticados de Maria da 
Penha e ainda, para a surpresa de Maria, 
tinha uma amante com quem trocava cartas.
As agressões tomaram um rumo além do controle
1 0E - B O O K B P | O C A S O D E M A R I A D A P E N H A
A INJUSTIÇA
NÃO TERMINARIA
EM CASA
Teoria 1
Além do crime sofrido dentro do seu pró-
prio lar, outra injustiça aconteceu, dessa 
vez, por parte do poder judiciário: o primeiro 
julgamento de Marco Heredia aconteceu 
somente em 1991, oito anos após o crime. 
O agressor foi sentenciado a 15 anos de 
prisão, mas, graças aos recursos solicitados 
pela defesa, ele saiu do fórum em liberdade. 
Mesmo fragilizada, Maria da Penha conti-
nuou dando voz a sua causa e escreveu o 
livro “Sobrevivi… posso contar”, publicado 
em 1994, relatando sua história e os anda-
mentos do processo contra Marco. 
O segundo julgamento foi somente reali-
zado em 1996, em que o seu ex-marido foi 
condenado a 10 anos e 6 meses de prisão. 
Contudo, sob a alegação de irregularidades 
processuais por parte dos advogados de 
defesa, mais uma vez a sentença não foi 
cumprida. Dois anos mais tarde, o caso 
começou a ganhar atenção, agora interna-
cionalmente. 
Em parceria com algumas ONGs, Maria 
da Penha denunciou o caso para a Comissão 
Interamericana de Direitos Humanos da 
OEA. Entretanto, mesmo diante do litígio 
internacional, o Estado brasileiro per-
maneceu omisso e não se pronunciou em 
nenhum momento durante o processo.
O processo do caso na lei
1 1E - B O O K B P | O C A S O D E M A R I A D A P E N H A
2009
Ordem de 
Rio Branco
2010
International Women 
of Courage Award
2011
Orden de Isabel 
la Católica
2012
TEDx
Fortaleza
2013
Prêmio Direitos 
Humanos
2015
Medalha da 
Abolição
2016
Prêmio Franco-alemão 
de Direitos Humanos e 
do Estado de Direito
2017
Indicação ao 
Prêmio Nobel 
da Paz
2018
Grande-Colar do 
Mérito do Tribunal de 
Contas da União
Somente em 2001, após receber quatro 
ofícios da OEA, o Brasil foi responsabilizado 
por negligência, omissão e tolerância em 
relação à violência doméstica praticada 
contra as mulheres brasileiras. A história de 
Maria da Penha significava mais do que um 
caso isolado: era um exemplo do que acon-
tecia no Brasil sistematicamente sem que os 
agressores fossem punidos. 
Em 2002 foi formado um Consórcio de 
ONGs Feministas para a elaboração de uma 
lei de combate à violência doméstica e fami-
liar contra a mulher. Após muitos debates, o 
Projeto de Lei foi aprovado por unanimidade 
em ambas as Casas. Assim, em 7 de agosto 
de 2006, o então presidente Luiz Inácio Lula 
da Silva sancionou a Lei N.º 11.340, conhe-
cida até hoje como a Lei Maria Da Penha.
Por consequência,a contribuição de 
Maria da Penha com essa importante con-
quista para as mulheres brasileiras tem 
lhe proporcionado, no Brasil e no exterior, 
muitas homenagens.
QUANDO TUDO 
MUDOU
Teoria 1
A virada do século trouxe uma resolução para o caso
1 2E - B O O K B P | O C A S O D E M A R I A D A P E N H A
1 3E - B O O K B P | O C A S O D E M A R I A D A P E N H A
Teoria 2
Nascido em Medellín, Colômbia, Marco 
Antonio Heredia Viveros foi o filho mais 
velho de três homens, e irmão de sete 
mulheres, as quais desde cedo eram suas 
melhores amigas. Após se formar em Eco-
nomia e Administração pela Universi-
dade de Bogotá, Marco veio para 
o Brasil em março de 1973 por 
intermédio de uma bolsa de 
pós-graduação na USP — 
oportunidade de somente 
duas vagas oferecida pela 
embaixada brasileira.
Em 1976, três anos da sua 
estadia no Brasil, Marco conhece 
Maria da Penha em uma festa. Em 
um ano, eles estavam namorando 
e ao saber da notícia da gravidez, 
decidiram comprar um apartamento 
juntos. Vivendo em São Paulo, a 
vida do casal era agitada, mas 
feliz: com o carro que com-
praram, Marco deixava 
Maria no hospital onde 
trabalhava e ia para 
USP ministrar aulas. 
Em 25 de dezembro de 
1977 nascia a pri-
meira filha do casal, 
Viviane. 
O OUTRO LADO DO CASO
A história de Marco Heredia
Alguns meses se passaram e Maria con-
vida Marco para conhecer a sua família 
em Fortaleza. A viagem é feita e uma boa 
relação é estabelecida com os familiares da 
esposa. Quando voltaram para São 
Paulo, Maria da Penha revela 
que sua licença para o 
mestrado estava ter-
minando, e ela pre-
cisaria voltar para 
trabalhar no IPEC 
de Fortaleza.
1 4E - B O O K B P | O C A S O D E M A R I A D A P E N H A
Assim, Marco decide abandonar a vida 
em São Paulo para acompanhar Maria até 
Fortaleza, onde ficava a família e o emprego 
da namorada. Maria se muda primeiro, indo 
para a casa dos pais, e Marco fica um tempo 
em São Paulo estudando, terminando suas 
pesquisas e fazendo palestras para juntar 
dinheiro — pelo telefone, eles mantinham 
contato. Em 1978, Marco visita sua família 
na Colômbia e volta para o Brasil com um 
rifle de pressão, “inofensivo” e com a “pape-
lada feita”, como relatou. Com o seu Che-
vrolet Chevette, ele viaja de São Paulo para 
Fortaleza, onde moraria em uma pequena 
casa de 50m² no mesmo quarteirão do 
sogro. 
Em 1979, é concluído o processo de sepa-
ração do primeiro casamento de Maria da 
Penha. Ela já estava separada do ex-ma-
rido antes de conhecer Marco, mas só pode 
se divorciar oficialmente depois da pro-
mulgação da lei do divórcio em dezembro 
daquele ano — motivo esse pelo qual Marco 
e ela ainda não haviam se casado; o que 
fizera 6 meses depois no cartório João de 
Deus em Fortaleza. Também em 79, nascia 
a segunda filha do casal, Cláudia Fernanda. 
Na separação, Maria da Penha recebe um 
terreno. Marco então pega um emprés-
timo e contrata um engenheiro para cons-
truir uma nova casa para a família, onde se 
mudam em 1980. No ano seguinte, nasce a 
terceira filha, Fabíola. Então, Marco recebe 
um convite da Universidade Federal do 
Ceará para se tornar professor titular, mas 
havia uma condição: ele precisaria ser natu-
ralizado como brasileiro.
Teoria 2
Família Heredia Viveros
1 5E - B O O K B P | O C A S O D E M A R I A D A P E N H A
A CALMA ANTES 
DA TEMPESTADE
Teoria 2
Apesar de já ter visto de estadia perma-
nente e não almejar a naturalização, Marco 
fez o pedido para que pudesse trabalhar 
próximo da família. Assim, mesmo a contra 
gosto, sua naturalização foi concedida 
em janeiro de 1982. No entanto, 
Maria da Penha afirmou que esse 
era um dos objetivos ulteriores 
de Marco que, após ter as filhas, 
poderia se aproveitar da família 
para se naturalizar: momento esse 
que ela “passou a não reconhecê-lo 
mais (...) foi aí que começou o rela-
cionamento abusivo”, como relatou 
em uma entrevista.
Curiosamente, em março de 
1983, Marco recebe um con-
vite da USP para viajar para Bru-
xelas, na Bélgica, em setembro, 
em um congresso sobre a consul-
toria da empresa Fonds Bekaert. 
Para acompanhá-lo, Marco ins-
creve Maria da Penha, que fica 
animada com sua primeira viagem 
para Europa — o que parece con-
traditório se o relacionamento dos 
dois já estivesse prejudicado pelos 
supostos abusos.
Mas o casal jamais embarcaria 
nessa viagem. No dia 24 de maio, 
Marco vai a São Luiz do Maranhão 
a trabalho, recebe 375 mil cru-
zeiros por uma consultoria e volta 
para Fortaleza de avião no dia 25, 
E as primeiras contradições do caso
sendo recebido por Maria no aeroporto 
com as filhas. Após encontrarem uma 
colega de Maria e voltarem para casa, a 
família foi dormir, sem imaginar, entre-
tanto, o que aconteceria naquela noite.
1 6E - B O O K B P | O C A S O D E M A R I A D A P E N H A
UM PESADELO SE 
TORNA REALIDADE
Teoria 2
Por volta das 4h30 da madrugada, 
Marco despertou com sua cadela latindo 
e ouviu um barulho no forro. A pastora-
-alemã grunhia e se jogava contra o portão 
da lavanderia, o que fez Marco pensar que 
fosse um gato chamando sua atenção. No 
entanto, o barulho no forro não cessava. 
Suspeitando que algo estivesse errado, 
Marco pega um revólver e uma lanterna e 
saiu descalço, checando cada cômodo. Ele 
chegou onde estava a cadela, mas não viu 
nada e acalmou o animal, que ainda gru-
nhia. Quando foi sair, Marco percebeu que 
a entrada no forro, com as grades de ferro, 
ainda estava trancada com cadeado, mas 
percebeu que a faltava a tampa de madeira 
por cima — foi aí que ele viu o vulto de uma 
pessoa. 
Quando mirou o revólver na direção do 
forro, subitamente, alguém enlaçou Marco 
por de trás, asfixiando-lhe pelo pescoço. 
Assustado, ele gritou e disparou. Nesse 
mesmo momento, em outro cômodo, Marco 
ouviu outro tiro. Com uma das mãos livres, 
Marco tentou puxar a corda do pescoço, se 
debatendo com o corpo contra o invasor, mas 
não conseguiu se soltar. Então, outro homem 
entrou no cômodo com uma espingarda de 
cano serrado, colocou-a contra a parede e 
ajudou o outro invasor a desarmar Marco.
O assalto do dia 29 de maio de 1983
Reconstituição do assalto baseado no depoimento de Marco Antonio Heredia
1 7E - B O O K B P | O C A S O D E M A R I A D A P E N H A
Teoria 2
— Negão! Embora! Sujou! 
Foi o que eles ouviram três vezes naquela 
hora e como reação, o invasor que asfixiava 
Marco soltou a corda e lhe empurrou para 
frente, na linha de tiro do outro assaltante 
que lhe disparou com um revólver no ombro. 
Paralisado pela dor, Marco ficou no chão e 
os três homens fugiram da casa. Reanimado 
somente pela adrenalina, Marco correu 
para o escritório e pegou um machete e 
voltou para procurar os ladrões, mas por 
essa altura, eles já deviam estar longe. 
Atordoado, Marco ficou de cócoras frente 
ao portão da lavanderia, por onde deveriam 
entrar as empregadas domésticas. Por não 
encontrar a chave, uma delas, Rita, pulou 
pela janela e encontrou Marco ensaguen-
tado no chão. Momentos depois, a outra 
empregada entrou e viu a mesma cena.
— Como está a patroa e as crianças?! — 
perguntou, Marco. 
— Estão bem!
— Então você vai ficar com as crianças e 
você me traz uma toalha!
Uma das empregadas vai até Maria da 
Penha, que pede para que ela ligue para 
sua mãe, mas sequer comenta sobre estar 
alvejada — fato esse que a empregada não 
percebe. Foi só quando os vizinhos, um casal 
de médicos, entram na casa e percebem que 
Maria estava, de fato, ferida e encaminha-
ram-na para o pronto-socorro. Momentos 
em seguida, pela porta da cozinha, entram 
policiais dizendo que vão levar Marco para 
o hospital, e ele assente, supondo que 
somente ele havia sido ferido. No hospital, 
o médico constatou que o tiro foi à queima-
-roupa e por isso, Marco foi transferido para 
o Hospital Geral de Fortaleza.
Reconstituição do assalto baseado no depoimento de Marco Antonio Heredia
1 8E - B O O K B P | O C A S O D E M A R I A D A P E N H A
A PERÍCIA CRIMINAL
Teoria 2Quando os peritos chegaram na cena do 
crime, eles vasculharam o perímetro e não 
encontraram nenhuma arma. Conforme o laudo 
firmado pelos especialistas, haviam vestígios de 
que os assaltantes tiveram acesso para casa 
escalando o muro lateral, conseguindo chegar 
na garagem. Dias depois, na delegacia, foi apre-
sentado um cartucho de espingarda, calibre 20 
— o mesmo calibre que atingiu Maria da Penha. 
Além disso, a porta principal estava aberta 
com características de arrombamento, bem 
como na dependência da sala e do escritório. 
Mais importante, é que os objetos que seriam 
roubados já estavam organizados dentro do 
carro de Marco, tais como: gravadores, rádio, 
bebidas, dentre outros. 
O laudo da perícia afirma que nada foi 
levado, no entanto, Marco responde dizendo 
que levaram não só sua arma, como 375.000 
cruzeiros que estava na sua gaveta. Além 
disso, Marco havia disparado a arma quando 
foi asfixiado, deixando vestígios no telhado, no 
entanto, a perícia não menciona esse fato em 
momento algum do laudo.
No dia seguinte do assalto, Marco estava 
no hospital acompanhado de um amigo do tra-
balho, José Nilton, que foi lhe visitar, quando 
dois policiais entraram com um álbum de cri-
minosos. Como depôs Nilton, “os policiais exi-
biram álbuns de fotografias de marginais ao 
réu e este reconheceu dois assaltantes da sua 
casa em álbuns diferentes” — atestando o que 
Marco sempre afirmaria posteriormente ante 
acusações e suspeitas. E de fato, a vítima reco-
nheceu os dois assaltantes: Paulo Maravilha e 
Oclécio “Negão”, o que chamou a atenção dos 
policiais, que comentaram que ambos eram 
violentos, matando todo tipo de pessoa sem 
hesitar. Por outro lado, em entrevista, Maria da 
Penha afirmou que Marco nunca identificou os 
agressores do “suposto” assalto.
Descobertas e furos de investigação
Reprodução fictícia dos álbuns mostrados a Marco Antonio Heredia
1 9E - B O O K B P | O C A S O D E M A R I A D A P E N H A
AS NOTÍCIAS SOBRE 
MARIA CHEGAM
Teoria 2
Naquele mesmo dia, quando foi aten-
dido por uma enfermeira, Marco pergunta 
porque sua esposa não veio lhe visitar e 
quando informou para ela o nome de Maria, 
a enfermeira contou que ela estava inter-
nada na UTI do mesmo hospital por um dis-
paro nas costas. Marco ficou desesperado 
e tentou sair do quarto, mas foi impedido 
pelos técnicos de enfermagem, que lhe 
deram um calmante e colocaram de volta 
no quarto.
Ainda sem conseguir ver a esposa, no dia 
3 de junho, após receber alta, Marco é tra-
zido do hospital pelo cunhado Itamar para 
a casa dos sogros, onde estavam as filhas. 
Na manhã seguinte, ele pega um táxi e 
vai visitar Maria na UTI, mas por conta da 
sedação dos remédios, ele não pode con-
versar com a esposa. No dia 6, Marco foi 
levado para fazer os exames dos múltiplos 
ferimentos que ainda lhe impediam até de 
se mover normalmente, e atestando sua 
versão, o próprio corpo de delito indica a 
perfuração do tiro no seu ombro direito, 
que passou pelas costas — por lógica, sendo 
destro, Marco não poderia ter atirado em si 
caso quisesse forjar um assalto. 
Mas existe outra evidência mais impor-
tante para comprovar que, de fato, um 
assalto aconteceu no dia 29. Quando voltou 
para casa com suas filhas, Marco percebeu 
que o telhado do quarto de uma das filhas, 
Viviane, estava pingando. Ao subir para 
checar, ele viu que algumas telhas estavam 
soltas, fora do lugar: é nesse momento que 
Marco toma conhecimento que Itamar teria 
subido no telhado para religar o fio de tele-
fone que havia sido cortado — fato esse que 
atesta o depoimento das empregadas que 
afirmaram que tentaram ligar para o polícia 
no dia do assalto, mas o telefone não fun-
cionava.
Marco não era o único internado naquele hospital
Trecho do depoimento das empregadas da família
2 0E - B O O K B P | O C A S O D E M A R I A D A P E N H A
O TRATAMENTO NO 
HOSPITAL
Teoria 2
Ao saber da notícia que a lesão de medula 
da esposa era grave, e que ela precisaria 
de cuidados mais contundentes, Marco 
consegue, por meio de uma amiga de tra-
balho, que ela seja transferida para o hos-
pital Sarah Kubitschek em Brasília, onde 
ele a visitava a cada 15 dias. Ele via Maria 
por meses seguidos enquanto ela tentava 
reestabelecer a movimentação das pernas. 
Apesar de manter uma renda boa e estável, 
o aporte econômico do casal não era sufi-
ciente para cobrir as despesas de voo — 
ainda assim, Marco se fazia presente para 
não deixar que a esposa se sentisse sozinha. 
Nas condições que se encontrava, a 
única coisa que o hospital poderia fazer era 
reverter uma situação de tetraplegia para 
paraplegia, de forma que Maria poderia, ao 
menos, mover o corpo da cintura para cima. 
Marco estava pronto, inclusive, para fazer 
um transplante de medula óssea, caso fosse 
o necessário para a esposa. Para ajudá-lo, 
Maria da Penha voluntariamente pediu que 
ele trouxesse alguém do cartório, pois ela 
iria fazer uma procuração para movimentar 
seu salário para Marco, que expressou não 
precisar disso. 
Para evitar complicações na sua reabili-
tação, a doutora que cuidava de Maria pediu 
para que Marco até mentisse, mas que não 
trouxesse mais preocupações para a esposa 
sobre quaisquer dificuldades. Assim, ele 
mentiu três vezes: que perdeu o carro em um 
acidente, sendo que o tinha vendido para 
cobrir as despesas de casa, dos remédios 
e equipamentos, como a própria cadeira 
de rodas que ela usaria. Também, mentiu 
sobre as passagens que pagava constante-
mente para visitá-la, dizendo que a empresa 
estava cobrindo; além da pensão que estava 
bancando para ficar em Brasília, deixando 
até de comer para economizar. Por ironia 
ou infortúnio, todas essas mentiras que fez 
por ela, foram usadas contra ele anos mais 
tarde para incriminá-lo.
Nesse período do tratamento, Marco 
também estava trabalhando para bancar 
as despesas das reformas na casa para aco-
lher Maria na sua atual condição: alargou 
portas, instalou corrimãos, rampas etc. — 
tudo para que pudesse dar uma vida con-
fortável para a esposa. Os gestos não foram 
despercebidos, visto que Maria lhe enviava 
cartas três vezes por semana expressando 
sua gratidão, detalhando como ele era 
“o melhor homem do mundo”, e naquele 
momento, Marco sabia que o que estava 
fazendo, era o certo.
Marco fez tudo para ajudar a esposa: inclusive mentir 
sobre suas dificuldades
2 1E - B O O K B P | O C A S O D E M A R I A D A P E N H A
O PONTO DE VIRADA 
DA HISTÓRIA
Teoria 2
Ao terminar o tratamento, Maria retorna 
para fortaleza. Marco já estava recupe-
rado e voltado a trabalhar, então os pais de 
Maria cuidavam dela, levando para fisiote-
rapia e ajudando-a com quaisquer outras 
necessidades. Em casa, um dia, Maria 
encontrou uma carta de Marco. A partir 
dali tudo mudou: era uma mensagem de 
sua amante, que conheceu em uma de suas 
viagens a trabalho para Natal, ainda antes 
do assalto. Por consequência, eles iriam se 
separar e Maria levaria as cartas consigo, 
pois mais tarde, ela iria usá-las contra ele 
no processo.
Marco somente descobriria isso pela 
filha, Viviane, que um dia lhe esperava no 
seu quarto, sentada na cama. Em segredo, 
a menina contou que sua mãe estava 
falando com um juiz e advogado no tele-
fone. Ao buscar a separação, Maria afirmou 
que foi vítima de um assalto e que Marco, 
no máximo, lhe fazia maus tratos em casa. 
Então, o advogado entra com um pedido de 
urgência porque, como relatado, “ela tinha 
medo”. 
Maria da Penha havia encontrado 
as cartas no dia 27 de outubro, 5 meses 
após o assalto. No dia 1º de novembro ela 
registra a primeira queixa contra Marco, 
relatando os maus tratos do marido. 14 dias 
depois é expedido o alvará de separação. 
Então, Maria da Penha, com as empregas 
e as filhas, sai de casa. Em entrevistas, ela 
conta que pedia para Marco a separação, 
mas por ele não aceitar, ela não podia fazer 
nada — refém do marido e do sistema judi-
Maria descobre uma carta do marido
ciário.
— Tá, mas ela começa as denúnciascontra ele, dias depois de ter encontrado 
as cartas da amante? — Pergunta Benke, 
nosso investigador do episódio, para Zin-
gano.
— Isso.
— Mas se ele deu um tiro nela com uma 
espingarda, depois pegou um revólver, deu 
um tiro nele mesmo… 
2 2E - B O O K B P | O C A S O D E M A R I A D A P E N H A
ONDE ESTÃO AS 
ARMAS DO CRIME?
Teoria 2
Após o assalto, a casa 
ficou repleta de pes-
soas — as empregas, a 
polícia, vizinhos, dete-
tives — e em momento 
algum, as armas foram 
encontradas. Como as empregadas che-
garam logo após o segundo disparo que 
feriu Marco, encontrando-o no chão imo-
bilizado pelo ferimento, o que significa que 
não poderia ter sido ele quem escondeu ou 
levou as armas. 
As armas do crime foram duas: a espin-
garda de calibre .20, que disparou contra as 
costas de Maria da Penha, e o revólver .38 
de Marco, tirado de sua mão e usado pelos 
assaltantes. Elas nunca foram encontradas, 
no entanto, após a separação do casal, no 
dia 26 de junho de 1984, a polícia entrou no 
O revólver de Marco
Reprodução do modelo do revólver apreendido com base nas descrições do processo
apartamento onde Marco morava sozinho, 
sem qualquer ordem judicial, e levaram-no 
para a delegacia. Enquanto isso, os policiais 
fazem uma diligência na casa de Marco e 
encontram um revólver .38 — esse, no 
entanto, não era a arma do crime, mas um 
revólver que Marco havia comprado após 
o assalto e levado consigo para o aparta-
mento. No entanto, a arma é adiciona no 
processo, e usado na sua acusação pelo juíz, 
como evidência para o tiro que Marco teria 
infligido em si, mesmo ele tendo um laudo 
da fabricante, Taurus, que atestava que a 
arma só havia sido fabricada após o assalto, 
no dia 21 de julho de 1983 — 2 meses após 
os fatos.
2 3E - B O O K B P | O C A S O D E M A R I A D A P E N H A
A ESPINGARDA DOS 
ASSALTANTES
Teoria 2
Detido, sem mandado, Marco dorme na 
delegacia e no dia seguinte, 27 de junho, 
ele é interrogado. Em dado momento, per-
guntam se ele tem uma espingarda e Marco 
nega, afirmando que “a única arma de fogo 
que possuía era o revólver”, como está no 
processo. No entanto, posteriormente, em 
depoimentos, as empregadas afirmam 
que viram-no limpando sua espingarda — 
arma essa que era, na verdade, seu rifle de 
pressão trazido da Colômbia anos atrás. 
Os policiais mostraram a foto de uma esco-
peta para elas, que afirmaram ser igual à 
arma em questão, fato que seria facilmente 
refutado se outra diligência fosse feita para 
encontrar o rifle de pressão, inofensivo e 
conhecido por toda família, que já havia vis-
to-o em outras ocasiões. 
O rifle de pressão é, então, entregue 
pela defesa de Marco para a justiça, para 
que fosse levado para análise na perícia. 
Os resultados saem somente no dia 09 de 
fevereiro de 1991, em que se afirma que a 
arma apresentada era “classificada como 
espingarda de pressão, do calibre nominal 
4,5mm. O laudo é entregue para a justiça 
com a arma, entretanto, o instituto cri-
minal escreve que estavam devolvendo 
uma espingarda de pressão esportiva de 
calibre .20 — uma contradição judicial que 
confunde ainda mais os fatos. E, de fato, a 
arma devolvida não era o rifle de pressão de 
Marco, mas outra de um calibre diferente, 
o que significa que em algum momento, as 
armas foram confundidas, ou mais estra-
nhamente, trocadas.
A arma que se tornou outra no processo
Fotografia do rifle de pressão de Marco Antonio Heredia
2 4E - B O O K B P | O C A S O D E M A R I A D A P E N H A
OUTRA ACUSAÇÃO 
SERIA FEITA
CONTRA MARCO
Teoria 2
Em dado momento do processo, Maria 
da Penha vai à delegacia fazer um boletim 
de ocorrência. Nele, como foi transcrito no 
processo, ela afirma que “certo dia foi tomar 
banho de chuveiro elétrico, ocasião que 
notou que o mesmo estava dando choque, 
tendo indagado de Marco o que estava 
acontecendo, tendo este respondido que 
era porque estava acontecendo o fio terra 
e que depois colocaria; Que após esse fato a 
declarante não usou mais aquele banheiro, 
temendo ser eletrocutada”. Isto é, após 
essa ocasião, Maria acreditava que Marco 
estava tentando lhe matar.
Como descreveu em uma entrevista, “ele 
disse que ia me levar no banheiro, no banho, 
e quando eu cheguei no banheiro, ele abriu 
o chuveiro e no lugar dele me empurrar, eu 
disse “deixa eu ver a temperatura da água”, 
aí passou corrente. Aí eu disse “está dando 
choque”. “Esse choque sempre ela deu”, eu 
digo “não, está dando choque”. Nessa hora 
eu gritei. As moças vieram e me tiraram, 
entendeu? Aí, coincidentemente, depois (...) 
ele nunca havia tomado mais banho naquele 
banheiro, ele só tomava no banheiro das 
crianças. Então, o que ele ajeitou, realmente, 
no período que ele estava hospitalizado, ele 
ajeitou o chuveiro para dar choque… pre-
meditou”. 
Não por acidente, essa acusação acon-
teceu no dia 29 de outubro de 1983, 
somente dois dias depois de ter descoberto 
as cartas para a amante.
A suposta tentativa de eletrocutamento
Trecho do depoimento de Maria da Penha
2 5E - B O O K B P | O C A S O D E M A R I A D A P E N H A
UMA NOVA
DESCOBERTA
Teoria 2
Poucos dias antes da gravação do epi-
sódio, Dr. Otacílio — um dos entrevistados 
— conta que recebeu um e-mail de um 
advogado, que se interessou com o caso, 
com uma cópia integral do processo digita-
lizado, questionando Otacílio onde estavam 
o laudo das lesões, pois não estava encon-
trando no documento. Vasculhando a cópia 
do processo, Otacílio, de fato, não encontra 
o laudo das lesões e entra em contato com 
Marco Heredia, que tinha o documento ori-
ginal.
Comparando os dois, ele percebeu que no 
documento digitalizado, usado como base 
para acusação, não constavam os tiros, nem 
as lesões em Marco. Mais importante, nos 
dois documentos, a assinatura do perito 
que assinou o documento estava diferente: 
ela havia sido forjada na versão mais atual 
para atestar o documento que omitia deta-
lhes imprescindíveis — sendo que, por lei, as 
cópias deveriam ser fidedignas, exatamente 
iguais.
Isso significa que o novo laudo do pro-
cesso favorecia somente uma das partes: 
a da acusante, Maria da Penha. Esse, 
no entanto, não é o único fator digno de 
atenção no caso.
O processo de Marco havia sido fraudado
O trecho do laudo original, “Presença de marcas de arranhaduras recentes e contínuas contornando o pescoço, 
a região ântero-superior do queixo - MAXILAR INFERIOR e na face interna da mão esquerda - (provacadas por, 
fricção violenta de corda)”, foi subtraído do laudo que entrou no processo.
2 6E - B O O K B P | O C A S O D E M A R I A D A P E N H A
O DEPOIMENTO DAS 
TESTEMUNHAS
Teoria 2
Um vigia afirma que escutou dois disparos 
vindos da casa de Maria da Penha e que, logo 
após o segundo tiro, ele foi para a frente do 
local e não viu ninguém, o que significa que se 
houve, de fato, três tiros, como Marco afirma, 
o vigia deveria ter escutado o último e se depa-
rado com os assaltantes em fuga. No entanto, 
como o próprio Marco nos contou momentos 
atrás no episódio, o primeiro e segundo tiro 
foram sucessivos, acontecendo virtualmente 
no mesmo momento: o primeiro, aquele disparo 
por ele contra o telhado quando foi asfixiado, e 
o segundo, aquele que acerta Maria nas costas.
Considerando que o segundo tiro veio de uma 
espingarda, que é perceptivelmente mais alto 
que o de um revólver, é possível que o som tenha 
abafado o do primeiro tiro, de forma que o vizi-
nhou pensou ser só um. Assim, quando o ter-
ceiro tiro aconteceu — aquele que atinge Marco 
no ombro —, o vigia pensou estar escutando, 
na verdade, o segundo. Fato esse que explica 
porque, quando ele chegou lá, os ladrões já 
haviam escapado, atestando a veracidade da 
narrativa de Marco de que três tiros aconte-
ceram.
Isso pode ser provado, pois Rita Teles Souza, 
uma das empregadas da família, depôs que 
“notou um buraco de bala próximo à entrada 
que dá para o forro da casa”. Sendo que, na 
versão de somente dois tiros, os únicosque 
poderiam acontecer era o que atingiu Maria no 
quarto e o que atingiu Marco no ombro, ferin-
do-o. Logo, mesmo com a perícia afirmando que 
não se encontraram vestígios de todos os tiros, o 
próprio depoimento das testemunhas oculares 
provam essa versão.
Ainda assim, a versão da vítima se manteve 
vitoriosa, e isso pode também ter acontecido, 
dentre os vários motivos, porque os próprios 
advogados do réu, Marco Heredia, não arro-
laram com as testemunhas que ele pediu que 
fossem chamadas, nem cumpriram todas as 
suas diligências — fora que a própria defesa 
técnica não questionou nenhuma vez as contra-
dições já citadas, o que complicou ainda mais a 
resolução justa do caso.
E a contradição de seus relatos
Trecho do depoimento de Rita Teles de Souza, empregada da família e testemunha ocular
2 7E - B O O K B P | O C A S O D E M A R I A D A P E N H A
O ARGUMENTO PARA 
PREMEDITAÇÃO
Teoria 2
Afinal, se Marco Heredia tivesse, 
de fato, cometido o crime pelo qual 
foi acusado, qual seria seu obje-
tivo? O que ele ganharia com isso? 
Para Maria da Penha, ele estaria 
interessado em receber um seguro 
com a sua morte, conseguindo todo 
dinheiro necessário para o que qui-
sesse: mais precisamente, para viver 
com a amante. 
Em mais uma entrevista, Maria 
da Penha conta que ele teve a ideia 
de fazer um seguro para si, e que 
também poderia fazer um para ela. 
Prontamente, Maria negou. “Nós 
não somos um casal que a gente 
pode se permitir a isso não. Eu não 
vou fazer um seguro de vida para 
você e nem quero que você faça 
para mim. Se você quiser fazer, pode 
fazer, mas eu não faço para você.”, 
afirmou.
Assim, Maria afirma que Marco 
a obrigou a fazer um seguro de vida 
para ela, em que ele seria benefici-
ário. Mas a realidade era outra. Na 
verdade, Marco fez, ainda em 1980, 
um seguro em segredo em que, caso 
ele morresse, ela e as filhas seriam os 
beneficiários — fato que ela desco-
briu somente anos depois.
Se fosse mesmo o culpado,
qual seria a motivação de Marco?
Apólice feita por Marco Antonio em 1980 em que, caso ele morresse, 
Maria da Penha e as filhas seriam os beneficiários
2 8E - B O O K B P | O C A S O D E M A R I A D A P E N H A
O PROCESSO SOB A 
ÓTICA FEMINISTA
Teoria 2
O primeiro julgamento demorou 8 anos para acontecer e no seu 
decorrer, para Maria da Penha, o processo era sempre engavetado 
“por isso, e por aquilo, porque os advogados de defesa sempre inter-
feriam e aquilo demorava”. Quando Marco foi condenado, de 6 a 1, 
como autor da tentativa de homicídio, “na mesma hora, os advogados 
dele colocaram um recurso e ele saiu do fórum em liberdade (...) e 
aí, eu comecei a confirmar a história do movimento de mulheres: 
o próprio judiciário é machista.”, afirmou em entrevista.
Assim, para Maria da Penha, o processo 
durou ao todo 19 anos, porque o próprio sis-
tema judiciário funcionava para blindar o 
homem, sendo intrinsecamente machista 
e patriarcal. Foi nesse contexto que 
ela decidiu publicar o seu livro, acu-
sando as “contradições” do réu, 
que em 1997 — por um amigo, 
deputado do Ceará — é enviado 
para a OEA com ajuda de uma 
ONG.
Com o livro em mãos, a OEA 
começa a intimar o Brasil 
para reparar essa atitude 
de negligência, que por não 
condenar Marco Heredia, 
prejudicava não só Maria 
da Penha, mas como 
todas as mulheres.
Como o caso se tornou uma pauta político-social
2 9E - B O O K B P | O C A S O D E M A R I A D A P E N H A
Teoria 2
A CRIAÇÃO 
DA LEI 
MARIA DA 
PENHA
Depois de muitas cartas, 
cobranças de comprometimento 
prévio e pressão, em 2001, a OEA 
envia uma última carta com um rela-
tório intimando o governo para que, 
de uma vez por todas, se criasse uma 
lei em defesa das mulheres. Dentre 
as nove recomendações do rela-
tório, uma delas definia que Marco 
Heredia deveria ser preso. O Brasil, 
enfim, decidiu aceitar e em agosto 
daquele ano, o então presidente Lula 
sancionou a Lei Maria da Penha.
Existe, no entanto, algo de mais 
profundo e obscuro nessa concessão. 
Nesse período, o Brasil já almejava 
uma cadeira no Conselho de Segu-
rança da ONU. No entanto, a própria 
ONU usou o caso de Maria da Penha 
como exemplo de que, ainda, o país 
não “merecia” essa posição. Natural-
mente, a pressão para a criação de 
uma lei não era mais internacional, 
mas também nacional. Agora, o 
governo federal ditaria o ultimato: 
a lei seria criada e Marco Heredia 
seria preso.
Apesar da intimação, o 
Brasil viu uma vantagem 
em conceder o pedido
Lula sanciona a Lei n.º 11.340 de 2006, a Lei Maria da Penha
3 0E - B O O K B P | O C A S O D E M A R I A D A P E N H A
Teoria 2
MARCO HEREDIA 
SERIA PRESO
No final de novembro de 2002, Marco 
é apreendido quando estava ministrando 
uma de suas aulas na universidade, sendo 
recolhido para o IPPS, o Instituto Penal 
Paulo Sarasate. Assim, como explica 
Ricardo Ventura, “num estalar de dedos, 
dezenove anos e seis meses depois, o 
Heredia é condenado, o Brasil é aceito 
para fazer parte da ONU e é criado a Lei 
Maria da Penha”, cunhada por recomen-
dação da OEA com o nome de Maria, 
como uma “reparação simbólica por sua 
luta”.
Então, Marco passa dois anos em 
regime fechado no Ceará, depois mais seis 
anos em regime semi-aberto, por fim, mais 
um ano em liberdade condicional. Talvez 
o mais surpreendente, e certamente ines-
perado, é o fato contado pelo próprio 
Marco de que, quando estava preso, ele 
encontrou um dos assaltantes, Oclécio, o 
“Negão”, que esteve na sua casa naquela 
noite de 1983. Pessoalmente, e sobre o 
testemunho de várias pessoas, Oclécio 
não só conversou com Marco, chaman-
do-lhe de “professor”, como admitiu, 
sem qualquer remorso ou vergonha, que 
ele de fato foi um dos autores do crime, 
e que Paulo Maravilha havia sido morto 
em fuga. Assim, somente quando estava 
preso, Marco pode confirmar que, apesar 
de todas as acusações, ele sempre contou 
a verdade.
E algo completamente inesperado aconteceria na cadeia
Registro criminal de Marco Antonio
3 1E - B O O K B P | O C A S O D E M A R I A D A P E N H A
3 2E - B O O K B P | O C A S O D E M A R I A D A P E N H A
Se a Lei Maria da Penha é realmente eficaz ou 
não, na punição de agressores familiares e domés-
ticos, é outra pauta a ser discutida. O que importa, 
após todos esses anos de acusações e divergências 
de opiniões, é que essa foi uma lei sancionada sobre 
o custo da dignidade de um homem, que, conforme 
todos os fatos indicam, é inocente. 
Até hoje, Marco Heredia é lembrado como aquele 
que tentou matar Maria da Penha, mesmo que todas 
as suas intenções tivessem sido de protegê-la e 
garantir seu bem-estar após a hospitalização. Não 
é possível dizer com exatidão se as acusações de 
Maria decorreram de uma vingança pela traição do 
marido. Mas, assim como expressa Marco em suas 
últimas palavras no episódio, pior que ser difamado 
e preso, é perder tudo aquilo que importa para um 
homem, e para um pai: o amadurecimento, o con-
tato, e o amor de suas filhas.
Por fim, as palavras de Ricardo Ventura servem, 
possivelmente, como a conclusão mais assertiva 
possível para o fechamento deste episódio. Como 
afirmou, essa “(...) é uma grande oportunidade para 
as pessoas, agora, terem contato com a história na 
íntegra e que você, tire suas conclusões. Você foi 
enganado, ou não?
A DIGNIDADE
DE UM HOMEM
Conclusão do caso
3 3E - B O O K B P | O C A S O D E M A R I A D A P E N H A