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que os envolvem? Analisando de maneira superficial, somos tentados a atribuir o suicídio de Cobain ao uso de drogas, à sua vida desregrada e às distintas formas de pressão que ele sofreu. Porém, essa explicação cai por terra sob um olhar mais atento, pois basta observar a maneira como Cobain reagia às críticas da imprensa e de seus fãs para perceber que o problema era estrutural. Ele era extremamente suscetível a qualquer opinião. Uma simples crítica negativa da imprensa o atingia a ponto de querer tirar sua própria vida (e foi o que ele fez). O problema da dependência em heroína era uma consequência da dificuldade de lidar com todas essas situações. O que aconteceu com Cobain, e que pode ser chamado de Fator Cobain, foi uma espécie de perda absoluta de identidade. Sem uma identidade própria, ele passou a se agarrar às imagens que a imprensa construía dele. Um elogio lhe dava ânimo ao passo que uma crítica o desestabilizava completamente. O Fator Cobain é um problema muito mais comum do que podemos imaginar. Lidamos com seus efeitos diariamente, experimentando sentimentos confusos sobre quem realmente somos. Em outras palavras, o Fator Cobain é a incapacidade de assumirmos nossa própria identidade e ignorarmos o discurso social que nos diz o que devemos ser e como devemos agir. Observe as pessoas ao seu redor: o garçom, a atendente de uma loja, o corretor de imóveis, o político, o padre, o dono da padaria que fica na esquina de sua casa. Todos demonstram um estranho comportamento, como se estivessem desempenhando um papel completamente alheio ao que são em outras circunstâncias. O garçom, por exemplo, faz movimentos rápidos, regidos pela situação; o padre assume um ar de seriedade quando sobe ao altar; o político se torna simpático; a balconista se torna amigável e sorridente. O que eles estão fazendo? Estão representando um papel, sendo algo que eles não são. Essas pessoas agem de acordo com sua atividade para realizá-la. O problema que chamo de