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MALÁRIA 1 A malária é a parasitose humana doença humana. Seus agentes são protozoários (esporozoários) do gênero Plasmodium. Agente Etiológicos 1. Plasmodium falciparum (Welch, 1897), que produz a “febre terçã maligna”. O quadro clínico caracteriza-se por apresentar acessos febris repetindo-se com intervalos de 36 a 48 horas. É responsável pela maioria dos casos fatais. 2. Plasmodium vivax (Grassi e Feletti, 1890), agente da “febre terçã benigna” com ciclo febril que se repete cada 48 horas (A) e é a mais freqüente no Brasil. 3. Plasmodium ovale (Stephens, 1922), tem sua distribuição limitada à África e é responsável por outra forma de “febre terçã benigna”. 4. Plasmodium malariae (Laveran, 1881), o agente da “febre quartã”, com acessos febris a cada 72 horas (B). É pouco freqüente no Brasil. 2 Tem como vetor os mosquitos anofelinos Anopheles (Nyssorhynchus) darlingi 3 Ciclo da Malária 4 Malária: a doença A malária é também denominada paludismo, impaludismo e febre palustre ou segundo seus agentes e formas clínicas: • febre terçã benigna (Plasmodium vivax), • febre terçã maligna (P. falciparum) e • febre quartã (P. malariae). A malária é doença sistêmica que pode afetar a maioria dos órgãos, variando sua gravidade dentro de amplos limites. Produz anóxia dos tecidos devido a vários fatores: Um é a destruição de hemácias, ao serem liberados os merozoítas, no fim de cada ciclo esquizogônico. 5 Patologia da malária (1) • A circulação do organismo pode ser afetada pela vasoconstrição arteriolar e pela dilatação capilar, que agravam a anóxia; • Obstrução de pequenos vasos, sobretudo no sistema nervoso central (SNC); • Nas células do fígado e de outros tecidos, a atividade oxidativa das mitocôndrias é inibida promovendo o metabolismo anaeróbio; • Há acumulação de ácido láctico, com aumento do consumo de glicose (hipoglicemia); • Este se soma ao consumo dos plasmódios, que é intenso, reduzindo as reservas hepáticas de glicogênio. 6 Patologia da malária (2) • A hemozoína produzida pelo metabolismo dos plasmódios acumula-se nos restos celulares (corpos residuais etc.). • Os corpos residuais são fagocitados por macrófagos, e levam a uma pigmentação escura do fígado, baço e outros órgãos, sobretudo na malária crônica. • Mas, lentamente, a hemozoína é transformada em hemossiderina e reaproveitada pelo organismo do hospedeiro. • Nos rins podem acumular-se imunocomplexos resul-tantes da combinação dos antígenos circulantes dos plasmódios com os anti-corpos correspondentes e o complemento (C3). • A nefrite produzida pela febre quartã pode advir do depósito renal desses com-plexos. • No sangue – Há anemia de grau variável visto que, na terçã benigna, são destruídas 0,5 a 1% das hemácias, em cada esquizogonia eritrocítica 7 Alterações anátomo e fisiopatológicas 8 Diferentes graus de esplenomegalia No baço - O órgão apresenta-se dila- tado, congesto e de tonalidade escura, com os capilares e seios venosos repletos de hemácias parasitadas: Esplenomegalia de grau variável com fagocitose intensa. No fígado - O mesmo se passa nesse órgão, podendo haver hepatomegalia nas formas crônicas. Na medula - Hiperplasia do sistema fagocitário e reação eritroblástica. Redução da granulocitose. No cérebro - Na terçã maligna, há congestão, edema, microembolias ou tromboses capilares. O quadro clínico da malária (1) O período de incubação dura cerca de 12 dias na terçã maligna, 14 dias na terçã benigna e 30 na quartã, com amplas variações. Sintomas precursores po- dem surgir nesse período, como cefaléia, mal-estar, do- res pelo corpo e ligeira febre, mas o quadro típico costuma instalar-se com as esquizogo- nias sanguíneas. O acesso malárico apresen- ta 3 fases: 1. O início costuma ser súbi- to, com sensação de frio inten- so ou calafrios, quando a febre já se encontra em elevação. 9 O paciente apresenta-se pálido e cianótico, com a pele fria. O frio passa depois de 15 minutos a meia hora. 2. Em seguida, o pacien- te sente muito calor, com forte cefaléia, rosto afo- gueado e a temperatura elevada (39-40ºC), durante 2 a 4 horas, o que o faz rejeitar as cobertas que havia pedido. 3. Na última fase, a tem- peratura cai, ocorre sudo- rese abundante e o doente sente-se aliviado. Distribuição Mundial da Malária 10 Distribuição Mundial da malária por P. falciparum Formas graves da malária (3) Malária cerebral. É vista em 1 a 2% das infec- ções por P. falciparum, em indivíduos não imunes, sendo responsável por 80% dos óbitos por malária. Malária grave em crianças. A infecção congênita é rara, mas a malária é grave e potencialmente fatal em lactentes e crianças com menos de 5 anos. A imunida-de materna pode protegê-las nos primeiros meses. Nefropatias maláricas. Glomerulonefrite e síndromes nefróticas agudas ou leves, reversíveis, foram descritas em casos de terçã maligna aguda, com deposito de imunoglobuli-nas (geralmente IgM) e com-plemento no glomérulo renal. Malária grave na gestação. Complicação que ocorre na gravidez e pode causar a morte materna, a natimor-talidade ou o abortamento. Febre hemoglobinúrica. Complicação rara da terçã malígna, com crises hemolí-ticas, em geral em casos tratados com quinina; ou com primaquina, se houver déficit de glicose-6-fosfato desidrogenase. Síndrome esplenomegálica tropical. A esplenomegalia é normal na malária crônica e diminui com o tempo e a imunidade. Mas na síndrome tropical, ob- servada em formas recorrentes de malária, é resposta imune aberrante, com níveis elevados de IgM específico no soro. 11 Diagnóstico clínico da malária 1. Febre intermitente com sintomas que se repetem com regularidade a cada 48 ou 72 horas. 2. Sinais clínicos de anemia hipocrômica 3. Baço aumentado e doloroso (mas pouco freqüente na Amazônia). 4. Residência ou procedência de zona endêmica. 5. Resposta favorável e rápida aos antimaláricos. 12 Diagnóstico laboratorial da malária O método mais seguro e mais utilizado para o diagnóstico é demonstrar a presença de Plasmodium no sangue do paciente. O exame deve ser feito o mais breve possível para se evitarem as formas grave da malária. Preparar um esfregaço de sangue, como indica a figura, fixá-lo e corá-lo pelo método de Giemsa ou equivalente. Recomenda-se também fazer uma preparação de “gota espessa”, que será desemoglobinizada, fixada e corada. A busca de plasmódios deve ser minuciosa e feita por um profissional competente. A espécie do plasmódio deve ser identificada, para orientar a escolha da terapêutica adequada a cada caso. 13 Diagnóstico imunológico da malária Fazer uma gota de sangue do paciente (1), lisada ao ser misturada com a solução “buffer” A (2), migrar por capilaridade sobre uma fita de nitrocelulose (3) que contém os anti- corpos monoclonais de plasmódios. Estes estão dispostos em 3 sítios ao longo da fita: O 1º, contendo a proteína II (rica em histidina) testemunha se o teste está funcionando. O 2º, contendo a desidrogenase láctica (existente nas formas asse- xuadas dos 4 plasmódios), diz se há anticorpos de algum plasmódio: diagnóstico positivo para malária. O 3º, diz se eles são de P. falcipa- rum: diagnóstico de terçã maligna. Os complexos antígeno-anticor- pos formados são revelados pela solução “buffer” B, que migra ao longo da fita e opera a lavagem, tornando visível o resultado (4). 14 Tratamento da malária (1) • Aminoquinoleínas são muito eficazes contra as formas assexuadas. • Cloroquina é a mais usada por ter absorção rápida e alta concentração no plasma. • A modiaquina é menos eficiente. • Quinina – alcalóide encontrado na casca da quina (Cinchona ledgeriana) Foi o primeiro antimalárico utilizado e o único disponível, durante anos. • Mefloquina (análoga da quinina) usada em casos resistentes à cloroquina. Reservada só para tratamento dos casos polifármaco-resistentes da terçãmaligna. • Trimetoprim que desenvolve ação potenciadora sobre as sulfonamidas e as sulfonas. • Pirimetamina - É uma pentamidina e poderoso supressivo da malária que age contra o ciclo esquizogônico hepático e impede a evolução dos gametócitos no tubo digestivo dos mosquitos. • Sulfamidas: ação prolongada são inadequadas isoladamente para o tratamento da malária. Mas mostram-se úteis como potenciadoras de outros medica-mentos. • Sulfadoxina é usada juntamente com pirimetamina, encontrando-se já associadas no comércio sob o nome de Fansidar. • Dapsona (DDS), de uso corrente na hanseníase e outras infecções micobacterianas possui ação anti-malárica, como clinoprofilático e supressivo. • Artemisina e derivados: rincipio ativo da planta chine-sa (Artemisia annua) de uso popular contra a febre há mais de 1.000 anos – de nome qinghaosu. 15 Tratamento segundo o nível de atendimento Em nível periférico (cuidados primários de saúde): O agente sanitário ou enfer- meiro deve tomar uma amostra de sangue em todos os casos de febre (excluídos os casos de etiologia clara, como sarampo, amigdalites, otites etc.). Aos suspeitos de malária administrar o tratamento pre- suntivo (600 mg de cloroquina- base ou amodiaquina, via oral, um só dia, para os adultos). Se comprovado o diagnóstico laboratorial, dar o tratamento radical. Os pacientes graves serão encaminhados ao Centro de Saúde ou Hospital. Nos Centros de Saúde ou Hospitais: Estabelecer sem demora o diagnóstico laboratorial e, se positivo, instituir o tratamento radical. Onde não houver resistência, tratar com cloroquina. As formas mais graves devem receber a orientação de um especialista. Depois, medicamentos ade- quados devem ser dados para prevenir recrudescências ou re- caídas, assim como impedir a transmissão pelos mosquitos (medicamentos anti-recidivantes e gametocitocidas ou esporonti- cidas). 16 Prognóstico na malária (1) Um tratamento correto assegura quase sempre um excelente prognóstico, com total recuperação do pa- ciente. Nas infecções por P. vivax, costuma haver recaídas, nos casos tra- tados, até 3 anos depois da cura. Só a medicação com as amino-8-quinoleínas pode impedi-las. É com P. malariae que se observam as recaídas mais tardias, podendo ocorrer mesmo depois de 20 anos da cura. A freqüência das recaídas depende inclusive das con- dições epidemiológicas. Ela varia de 15%, em áreas de baixa endemici- dade, a 80% nos focos epidêmicos de P. vivax. 17 Prognóstico na malária (2) Curva térmica da malária por P. falciparum antes e depois do tratamento (OMS). Nas infecções por Plas- modium falciparum só podem ocorrer recaídas a curto prazo, isto é, recrudescên- cias. Na terçã maligna não tra- tada, o prognóstico é grave, podendo resultar na morte do paciente, sobretudo em cri- anças pequenas, gestantes e adultos procedentes das áreas não-endêmicas. Na malária cerebral, a mortalidade varia de 5 a 25% dos casos e, se aparecerem convulsões ou coma, os óbitos chegam a 80% dos casos. 18 19 Leituras recomendadas HAWORTH, J. – Malaria in man: its epidemiology, clinical aspects and control. Tropical Disease Bulletin, 86, 1989. GOMES, M. et al. – Antimalarial suppositories set to reduce malaria deaths in children. TDR news, 69 (Nov. 2002), Rectal artesunate: last steps to registration. IOC - 7ª Reunião Nacional de Pesquisa em Malária. Rio de Janeiro, Instituto Oswaldo Cruz, 2000. MS/ Fundação Nacional de Saúde – Manual de terapêutica de Malária. Brasília, 1990. OMS – Tratamento da Malária Grave e Complicada. Condutas práticas. Genebra, 1991; Brasília, 1995. REY, L. – Bases da Parasitologia. 2ª edição. Rio de Janeiro, Editora Guanabara, 2002 [380 páginas]. REY, L. – Parasitologia. 3ª edição. Rio de Janeiro, Editora Guanabara, 2001 [856 páginas]. WORLD HEALTH ORGANIZATION – Guidelines for the diagnosis and treatment of malaria in Africa. Brazzaville, WHO, 1992.