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89 MIDIAEDUCAÇÃO 3 PROJETO INTEGRADOR Produto O produto fi nal será uma campa- nha social de orientação sobre o “bom uso” das redes digitais. Tema Contemporâneo Transversal Cidadania e civismo. QUESTÕES DESAFIADORAS Você já prestou atenção em quantas vezes por dia acessa as redes sociais? Quantas horas por dia você gasta nessa atividade? Seu celular caiu e você precisou levá-lo para o conserto. Ou você foi viajar para um lugar em que o sinal de internet é fraco. Você terá de fi car sem celular e sem acesso à internet por 24 horas. Como seria essa experiência? Como seria seu dia sem internet? Competências Enfoque prioritário nas competências gerais 4, 5 e 7. Competência específi ca da área de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas: 1, 4. Habilidades em Ciências Humanas e Sociais Aplicadas: (EM13CHS101), (EM13CHS102), (EM13CHS103), (EM13CHS106), (EM13CHS404) PI_CH_Marcia_g21Sa_Projeto3_088a115_LA.indd 89PI_CH_Marcia_g21Sa_Projeto3_088a115_LA.indd 89 2/21/20 9:53 AM2/21/20 9:53 AM 90 1FASE CONECTIVIDADE E ACESSO MÓVEL À INTERNET (Brasil, 2017) ■ 85% das crianças e adolescentes de 9 a 17 anos eram usuários de internet (cerca de 24,7 milhões). ■ 93% dessas crianças e adolescentes utilizaram o telefone celular. Destes, 44% acessaram a internet exclusivamente pelo celular (cerca de 11 milhões de pessoas). ■ 8% nunca haviam acessado a rede (2,2 milhões de pessoas). Encontro 1 O que dizem os números? CONHECER PARA ENFRENTAR MELHOR Vamos começar nossa conversa apresentando alguns dados estatísticos sobre a interação de jovens com a internet e as redes sociais. Esses dados foram extraídos de uma pesquisa encomendada pelo governo federal e publicada em 2018. Observe com atenção os gráfi cos a seguir e depois, com a ajuda do professor, procure entender o que os dados representam. Todos os dias ou quase todos os dias Pelo menos uma vez por semana Menos de uma vez por mês Pelo menos uma vez por mês Não sabe/não respondeu *Em 2012, a pesquisa tinha como população-alvo usuários de Internet de 9 a 16 anos. 0 2012* 2013 2014 2015 2016 2017 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100 47 38 10 5 63 27 8 2 81 13 4 2 84 11 2 2 84 9 4 3 88 6 33 Total de usu‡rios de internet de 9 a 17 anos (%) CRIANÇAS E ADOLESCENTES, POR FREQUÊNCIA DE USO DA INTERNET (2012-2017) No Manual do Professor, na parte específi ca dedicada ao Projeto 3, há orientações e comentários relacionados aos encontros em que está organizado este projeto. Não deixe de consultá-los, pois eles podem ajudá-lo a desenvolver melhor os trabalhos aqui propostos. H a rb u ck s /S h u tt e rs to ck D is o b e y A rt /S h u tt e rs to ck M o to rt io n F ilm s /S h u tt e rs to ck B a n c o d e i m a g e n s /A rq u iv o d a e d it o ra Fonte: elaborado com base em Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR. Pesquisa sobre o uso da internet por crianças e adolescentes no Brasil. TIC Kids Online Brasil 2017. São Paulo: Comitê Gestor da Internet no Brasil, 2018. Disponível em: www.cgi.br/publicacao/pesquisa-sobre-o-uso-da-internet-por-criancas-e-adolescentes-no-brasil- tic-kids-online-brasil-2017/. Acesso em: 22 out. 2020. P2_PI_CH_Marcia_g21Sa_Projeto3_088a115_LA.indd 90P2_PI_CH_Marcia_g21Sa_Projeto3_088a115_LA.indd 90 26/10/20 13:4326/10/20 13:43 91 CIDADANIA E ENGAJAMENTO NA REDE (Brasil, 2017) ■ 40% das crianças e adolescentes conversaram com pessoas de outras cidades, países ou culturas. ■ 36% participaram de uma página ou grupo na internet para conversar sobre assuntos de que gostam. ■ 12% conversaram sobre problemas da cidade ou do país na internet. ■ 4% participaram de campanhas ou protestos na rede. MEDIAÇÃO PARENTAL (Brasil, 2017) ■ 50% relataram que seus pais ou responsáveis sabem mais ou menos ou nada sobre suas atividades na internet. ■ 70% tinham a percepção de que sabem muitas coisas sobre como usar a rede. ■ 76% afi rmaram que sabem usar a rede melhor que seus pais. RISCOS DE CONTEÚDO NA INTERNET (Brasil, 2017) ■ 22% declararam que já foram tratados de forma ofensiva, de uma maneira de que não gostaram ou que os chateou na internet. ■ 39% tiveram contato com conteúdo de natureza intolerante ou discurso de ódio e afi rma- ram ter visto alguém sendo discriminado ou sofrendo preconceito na internet. ■ 8% declararam que já se sentiram discriminados na internet. Fonte de consulta: Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR. Pesquisa sobre o uso da internet por crianças e adolescentes no Brasil. TIC Kids Online Brasil 2017. São Paulo: Comitê Gestor da Internet no Brasil, 2018. Disponível em: www.cgi.br/publicacao/pesquisa-sobre-o-uso-da-internet-por-criancas-e-adolescentes-no-brasil-tic- kids-online-brasil-2017/. Acesso em: 10 out. 2019. Parental diz respeito aos pais ou responsáveis. Fonte: elaborado com base em Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR. Pesquisa sobre o uso da internet por crianças e adolescentes no Brasil. TIC Kids Online Brasil 2017. São Paulo: Comitê Gestor da Internet no Brasil, 2018. Disponível em: www.cgi.br/publicacao/pesquisa-sobre-o-uso-da-internet-por-criancas-e-adolescentes-no-brasil-tic-kids- online-brasil-2017/. Acesso em: 22 out. 2020. 0 Realizou compras na Internet Jogou na Internet, conectado com outros jogadores Baixou músicas ou filmes Jogou na Internet, não conectado com outros jogadores Baixou aplicativos Ouviu música na Internet Assistiu a vídeos, programas, filmes ou séries na Internet 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100 8 91 38 62 52 48 58 42 66 33 75 25 77 23 Sim Não sabeNão Não respondeu Percentual sobre o total de usuários de internet de 9 a 17 anos (%) CRIANÇAS E ADOLESCENTES, POR ATIVIDADES REALIZADAS NA INTERNET – MULTIMÍDIA, ENTRETENIMENTO, DOWNLOADS E CONSUMO (2017) B a n c o d e i m a g e n s /A rq u iv o d a e d it o ra P2_PI_CH_Marcia_g21Sa_Projeto3_088a115_LA.indd 91P2_PI_CH_Marcia_g21Sa_Projeto3_088a115_LA.indd 91 26/10/20 13:4626/10/20 13:46 92 Refl etindo sobre os dados A turma toda: Formem uma roda de conversa e refl itam sobre os dados da pesquisa representa- dos nos gráfi cos. Levem em conta algumas questões: 1. De acordo com os dados, o acesso de crianças e adolescentes à internet, no Brasil, é eleva- do? Por que ainda existem 8% de crianças e adolescentes que nunca acessaram a internet? Você conhece alguém nessa situação? Sabe qual o motivo? 2. É realmente necessário ter acesso à internet todos os dias? Por que alguns jovens sentem necessidade de entrar diariamente nas redes sociais? 3. Algumas das atividades mais comuns entre os jovens na internet são baixar música, assistir a fi lmes, comunicar-se com outras pessoas. Há alguma outra que você considera importan- te? Por quê? 4. Os jovens poderiam utilizar mais a internet para promover ações de cidadania e defesa de direitos? Que tipo de ação? Você conhece algum site que faça campanhas usando a inter- net? 5. Você acredita que os familiares devem acompanhar as atividades dos fi lhos na internet? Em sua opinião, deveria haver algum tipo de regra ou controle estabelecido pelos pais nesse sentido? Por quê? Que ação você sugeriria? 6. Como você resolveria o problema dos conteúdos de ódio e de intolerância na internet? Em sua opinião, é grave uma criança ou um adolescente terem contato com esse tipo de con- teúdo ou serem tratados de forma desrespeitosa? Você conhece alguém que já enfrentou essa situação? Se sim, conte aos colegas. Refl etindo sobre as minhas práticas Agora, a pergunta mais importante (sobre a qual gostaríamos que você fosse sincero ao res- ponder!): Como você utiliza as redes sociais? Para facilitar, vamos dividir essa questão em cinco pontos principais: 1. Quantas horas por dia você utiliza o celular ou outros dispositivos para acessar plataformas de redes sociais ou plataformas de comunicação instantânea? 2. Você já deixou de fazer alguma atividade presencial (como ir a umafesta, conversar com amigos, participar de algum evento familiar, etc.) porque preferiu interagir pelas redes sociais? 3. Você já fi cou sem acesso à internet durante um dia inteiro? O que você fez ao longo desse dia? 4. Como você reage diante das interações com outras pessoas nas redes sociais? Você se sen- te irritado com certos posts? De que tipo? Fica orgulhoso quando alguém de quem você gosta ou a quem admira “curte” uma foto no seu perfi l social? Já fi cou interessado em co- nhecer alguém por meio das redes sociais? Conte como foi essa experiência. 5. Você adora uma selfi e ou odeia? O que mobiliza esse sentimento ou impressão? Essas perguntas são um ponto de partida para você pensar não só sobre seus hábitos em relação ao uso da inter- net, mas também sobre sua participação em eventos com pessoas do seu convívio. Esse é o momento de partilhar opiniões – e até, se possível, sentimentos – com o grupo em uma roda de conversa. É importante que todos se sintam confortáveis para falar abertamente, sem constrangimentos, pois o objetivo aqui é verifi car como o grupo utiliza as redes sociais, e não criticar alguém por suas práticas e seus valores. PI_CH_Marcia_g21Sa_Projeto3_088a115_LA.indd 92PI_CH_Marcia_g21Sa_Projeto3_088a115_LA.indd 92 2/21/20 9:53 AM2/21/20 9:53 AM 93 2FASE Encontro 2 A presença da cultura digital no dia a dia Na última década, no Brasil, verifi cou-se uma espantosa ampliação do uso dos chamados smartphones (ou celulares inteligentes, em português), como mostram os dados que discu- timos em nosso encontro anterior. Graças a importantes mudanças tecnológicas, entre elas o aperfeiçoamento de microchips com alta capacidade de processamento de dados e com tamanho muito reduzido (muito mesmo!), esses celulares permitem executar ações que antes só podiam ser realizadas em computadores, como o acesso à internet e o processa- mento de jogos em 3D. A difusão do consumo desses celulares e a melhoria do acesso à internet, por meio das redes sem fi o (wi-fi ) nas casas e nos am- bientes profi ssionais e também pelo uso das redes 4G oferecidas pelas empresas de telecomunicação, resultaram nesse cenário de uso intensivo da internet por uma parcela signifi cativa da po- pulação. Essa mudança cultural provocou outras transformações na vida cotidiana, como a facilidade de comunicação virtual, a criação de redes sociais que integram milhões de usuários e a ampliação do comércio eletrônico (em inglês, e-commerce). Esse fenômeno transformou também o modo como intera- gimos com as pessoas a nossa volta e como agimos diante de nossos desejos, expectativas e sonhos. Para refl etir sobre isso, selecionamos dois artigos com opiniões distintas sobre os efeitos da cultura digital no mundo contemporâneo. Afi nal, utilizar a internet com muita frequência pode ser prejudicial? Como adequar esse uso aos nossos interesses e às nossas necessidades? Leia os artigos com atenção. Depois, vamos organizar um debate sobre o conteúdo deles. QUEM TEM MEDO DAS REDES SOCIAIS? 4G sigla de um protocolo de comunicação de quarta geração que envia e recebe pacotes de informações e dados. Tem velocidade de transmissão mais rápida e segura que o 3G, o que permite ampliar as comunicações digitais. Mau uso de redes sociais agrava sinais depressivos nos jovens Segundo estudo, meninas são mais afetadas pela conexão entre mídias sociais e doenças psicológicas Na era do troco likes, me segue que eu sigo de volta e muitas retuitadas, a depressão é quem está se conectando aos jovens que mais usam as redes sociais – principalmente as garotas. Segundo um estudo da Universidade de Londres, adolescentes do sexo feminino apresentam duas vezes mais chances de terem depressão ao utilizar redes sociais do que homens da mesma faixa etária. Entre garotas de 14 anos, cerca de 75% sofrem de depressão por baixa autoestima, insatisfação com sua aparência e por dormir sete horas ou menos por noite. Os pesquisadores analisaram os processos que poderiam estar ligados ao uso de mídias sociais e depressão e descobriram que 40% das meninas e 25% dos meninos tinham experiência de assédio on-line ou cyberbullying. O levantamento ainda aponta que 12% dos usuários considerados moderados e 38% dos que fazem uso intenso de mídias sociais mostraram sinais de depressão mais graves. Para completar esta relação, no fi nal do ano passado a Universidade da Pensilvânia comprovou, pela primeira vez, uma conexão da redução do bem-estar com o uso do Facebook, Snapchat e o Instagram. PI_CH_Marcia_g21Sa_Projeto3_088a115_LA.indd 93PI_CH_Marcia_g21Sa_Projeto3_088a115_LA.indd 93 2/21/20 9:53 AM2/21/20 9:53 AM 94 O professor Joel Rennó Júnior, do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) e diretor do Programa de Saúde Mental da Mulher do Instituto de Psiquiatria (IPq) do Hospital das Clínicas (HC), ressalta que o fenômeno das redes sociais é algo recente e com poucas conclusões, mas que já existe ligação entre quadros propícios à depressão e internet. “Há uma relação importante do perfi l de personalidade do adolescente, seu gênero – o feminino sendo mais afetado – e o tempo de exposição. É o conjunto de fatores que torna o adolescente mais vulnerável ao quadro de depressão.” Porém, as redes sociais, por si só, não são culpadas pelos quadros depressivos. Rennó Júnior entende que a questão está no tempo gasto e no isolamento que ela provoca na rotina dos jovens, além da fase vivenciada. “Isso acaba combinado, muitas vezes, com algumas características da adolescência. No caso das meninas, muitas têm baixa autoestima, distorção de imagem corporal, ansiedade e são meninas que sofrem assédio on-line.” Neste ponto, o especialista enfatiza: “As pessoas se mascaram, criam outra identidade até para atrair crianças e adolescentes. É algo muito sério. Muitas vezes as meninas expõem fotos – de forma ingênua – para outras meninas, para o namorado, e aí que vêm a difamação e a calúnia. Em adolescentes vulneráveis, isso pode causar grandes estragos psíquicos”. É necessário o uso de ações públicas conjuntas para traçar estratégias que solucionem o problema, segundo o professor do Departamento de Psiquiatria. EZEQUIEL, Pedro. Mau uso de redes sociais agrava sinais depressivos nos jovens. Jornal da USP, 5 fev. 2019. Disponível em: https://jornal.usp.br/atualidades/mau-uso-de-redes-sociais-agrava-sinais-depressivos-nos-jovens/. Acesso em: 8 out. 2019. Como o uso de redes sociais impacta nossa saœde mental Pesquisas indicam que tempo demais na internet tem relação com aumento da ansiedade e da depressão, mas que redes sociais também têm efeitos positivos. Entenda a mudança de comportamento global causada por elas e saiba como usá-las para o bem. “Eu sei que não deveria, mas não posso evitar” ou “ter este objeto perto de mim enquanto estou dormindo é um conforto” são frases típicas de quem sofre de algum tipo de dependência. Neste caso, o vício é em redes sociais. As duas declarações foram ouvidas pela professora de psicologia da Universidade de San Diego, nos Estados Unidos, Jean Twenge, autora do livro “The Narcissism Epidemic”, ou “A Epidemia do Narcisismo”, em tradução livre (Free Press, 2010). Em um artigo de opinião publicado na revista The Atlantic, Twenge afi rmou que o uso exagerado de internet e redes sociais pode ter relação direta com o aumento exponencial de ansiedade e depressão – de acordo com a ONU, elas incidem em 3,6% e 4,4% da população mundial, respectivamente. [...] Para o professor de sociologia da Universidade da Califórnia em Berkeley Claude Fischer, que estuda redes sociais analógicas e digitais desde os anos 1970, há um certo exagero no ímpeto de atribuir problemas de saúde mental exclusivamente às mídias sociais. Em artigo de opinião publicado no jornal Boston Review, ele até defende que as redes sociais colaboram para melhorar as habilidadessociais de seus usuários. Fischer cita uma pesquisa realizada pelo Pew Research Center que demonstra o uso social da ferramenta – além dos limites digitais. O levantamento mostra que, de todos que usam o smartphone para postar fotos ou vídeos, 45% o fazem a partir de encontros sociais, e que 38% das pessoas usam seus smartphones para obter informações relevantes para seus grupos sociais. No geral, 78% dos entrevistados revelam que usam suas redes sociais digitais para estreitar laços com sua comunidade – e não para se isolar. PI_CH_Marcia_g21Sa_Projeto3_088a115_LA.indd 94PI_CH_Marcia_g21Sa_Projeto3_088a115_LA.indd 94 2/21/20 9:53 AM2/21/20 9:53 AM 95 A pesquisa da Royal Society for Public Health também destaca a forma como o uso das redes sociais colabora para a construção da sensação de comunidade. Sensação de pertencimento, informações sobre condições de saúde, suporte emocional, autoidentidade e autoexpressão são outros fatores desenvolvidos, sobretudo no Facebook e no Twitter, diz o levantamento. [...] Em outro estudo, produzido pela Universidade Carnegie Mellon, foi possível observar que a troca de mensagens, postagens e comentários positivos são importantes elementos de apoio social para pessoas com sintomas de solidão e depressão – os efeitos positivos foram ainda mais fortes quando os contatos eram entre amigos próximos. A conclusão é de que embora atualizações de status, curtidas e interações superfi ciais não sejam sufi cientes para gerar bem-estar, engajamento ativo e interação signifi cativa efetivamente fazem bem. Redes sociais: causa ou consequência de doenças psicológicas? “Que prática estranha é essa que um homem deve sentar-se à mesa do café da manhã e, em vez de conversar com a esposa e os fi lhos, segura diante de seu rosto uma espécie de tela na qual está inscrita uma rede mundial de fofoca”. A frase é do sociólogo norte-americano Charles Cooley e proferida em 1909 – ou mais de um século atrás. O objeto em questão não era um smartphone nem um iPad, mas o jornal, identifi cado à época por Cooley como responsável pelo fi m da conversa. Toda nova tecnologia, sobretudo aquelas ligadas à informação e à comunicação, é recebida com um misto de euforia e desconfi ança. Jornal, rádio e televisão passaram por questionamentos semelhantes. Uns diziam que eles provocariam o fi m da leitura, outros que seriam objetos de idiotização em massa. Até hoje, há um debate acalorado, com argumentos a favor e contra essas teses. O uso intensivo das redes sociais passa pelo mesmo processo. Mas há um agravante, que faz do fenômeno algo mais preocupante. [...] Em artigo, Jean Twenge informa que adolescentes que passam três horas ou mais por dia usando dispositivos eletrônicos têm 35% mais chances de desenvolver um fator de risco para o suicídio. [...] O que ninguém nega é que a ferramenta mudou de vez o comportamento humano. Principalmente entre os mais jovens. Segundo Twenge, nos EUA, já há pesquisas que comprovam o “alargamento” da infância. Ou seja, adolescentes apresentam, cada vez mais tardiamente, padrões de comportamento condizente com suas faixas etárias, como dirigir, sair sem a família e namorar. “Jovens de 18 anos agem agora como os de 15 anos e os de 15 anos, como os de 13 anos. A infância agora se estende até o Ensino Médio (High School)”, afi rma. [...] COMO o uso de redes sociais impacta nossa saúde mental, 22 abr. 2019. Disponível em: https://bluevisionbraskem.com/desenvolvimento-humano/como-o-uso-de-redes-sociais- impacta-nossa-saude-mental/. Acesso em: 17 jan. 2020. fi z k e s /S h u tt e rs to c k PI_CH_Marcia_g21Sa_Projeto3_088a115_LA.indd 95PI_CH_Marcia_g21Sa_Projeto3_088a115_LA.indd 95 2/21/20 9:53 AM2/21/20 9:53 AM 96 Desenvolvendo e defendendo argumentos Em dois grupos: Vamos refl etir, por meio de um debate, sobre o conteúdo dos textos lidos? Para isso, dividam a turma em duas equipes: a primeira fi ca responsável por desenvolver mais argumentos relativos ao primeiro artigo, a fi m de confi rmar as opiniões apresentadas. A segunda equipe defenderá os argumentos do segundo artigo. ■ Antes de dar início ao debate, é preciso identifi car e elencar os argumentos relativos a cada posicionamento. ■ Esta atividade colabora para a construção de argumentos e de alternância de posições. Isso signifi ca que é possível que tenhamos de defender um argumento, mesmo que não concor- demos com ele. Ao formular opiniões e argumentos usando como base um ponto de vista diferente do nosso, podemos compreender melhor as opiniões contrárias às nossas e, assim, aprender a respeitá-las. ■ Duração sugerida do debate: 15 minutos. Se houver tempo, um segundo debate pode ser or- ganizado, com a inversão dos grupos e a defesa da posição contrária. D ja n g o /E + /G e tt y I m a g e s Ao fi nal do debate, organizem uma roda de conversa sem divisão em grupos e refl itam sobre o que aprenderam sobre os usos da internet e das redes sociais. Cada um pode par- tilhar sua opinião com a turma, levando em conta os diferentes argumentos utilizados pelos colegas. A proposta da atividade é debater e instigar uma refl exão pessoal sobre o tema, mas ninguém deverá se sentir constrangido a mudar de opinião simplesmente porque outras pessoas pensam diferente. Cada um deve construir os próprios argumentos e ter convic- ção para reconhecer suas práticas e valores. É importante que haja um clima em que os questionamentos, as diferenças e as discordâncias sejam não apenas respeitadas, mas bem-vindas. PI_CH_Marcia_g21Sa_Projeto3_088a115_LA.indd 96PI_CH_Marcia_g21Sa_Projeto3_088a115_LA.indd 96 2/21/20 9:53 AM2/21/20 9:53 AM 97 3FASE Encontro 3 As redes sociais na escola Nos encontros anteriores, discutimos o uso das redes sociais empregando algumas es- tratégias: ■ análise de dados estatísticos; ■ apresentação de relatos dos integrantes do grupo; ■ debate sobre dois artigos argumentativos com posições diferentes em relação ao tema. Agora, vamos fazer uma investigação na escola onde vocês estudam, partindo de uma pergunta central: “Como os alunos da escola onde eu estudo interagem com as redes sociais?”. Para responder a essa questão, propomos dois caminhos de pesquisa, os quais você tri- lhará com os colegas e o professor. O primeiro se baseia em um experimento social contro- lado dentro do próprio grupo, e o segundo percurso se apoia em uma ferramenta chamada entrevista semiestruturada (você vai saber como usá-la na próxima página) com grupos específi cos da escola. Experimento social controlado Inicialmente, propomos, então, um experimento social controlado. Ele permitirá que a turma vivencie de forma mais intensa os tipos de interação com as redes sociais e com a internet em geral. Para isso, a turma vai escolher dois estudantes para o experimento. Alguém se oferece como voluntário? ■ Estudante 1: fi cará 24 horas sem utilizar nenhum dispositivo digital, como celulares, tablets e computadores; portanto, não poderá acessar as redes sociais (não pode responder a mensa- gens de texto nem a áudio ou e-mails), procurar informações na internet, utilizar jogos nem aplicativos de entretenimento. Exceções: emergências médicas ou familiares e situações que coloquem em risco a segurança do estudante. ■ Estudante 2: fi cará 24 horas imerso nas redes sociais, utilizando todos os aplicativos necessá- rios para se comunicar, pesquisar informações, entreter-se ou estudar. Deve ainda reduzir as interações diretas e presenciais apenas ao necessário. Exceções: emergências médicas ou familiares e situações que coloquem em risco a segurança do estudante. Também seria oportuno se comunicar para não parecer grosseiro com pessoas que não estão envolvidas no experimento. Ambos devem: a) informar os familiares ou responsáveis e os amigos mais próximos sobre o experimento; b) defi nir o horário de início do experimento (que deve acabar 24 horasdepois); c) registrar, por escrito, as impressões, sentimentos e percepções identifi cados durante o experimento. EXPERIMENTO SOCIAL CONTROLADO E ENTREVISTA SEMIESTRUTURADA PI_CH_Marcia_g21Sa_Projeto3_088a115_LA.indd 97PI_CH_Marcia_g21Sa_Projeto3_088a115_LA.indd 97 2/21/20 9:53 AM2/21/20 9:53 AM 98 Encontro 4 Analisando os resultados do experimento Cada estudante do experimento do encontro anterior deve relatar para a turma como se sentiu durante as 24 horas, destacando as vantagens e as desvantagens que identifi cou, bem como o que mais fez falta e o que foi mais prazeroso. Para ouvir os colegas que participaram do experimento, organizem uma roda de con- versa. Depois do relato, pode-se destinar um tempinho para perguntas e refl exões. Ao fi nal, seria muito importante registrar, por escrito, as principais refl exões e conclusões do grupo a partir das indagações a seguir. De novo, quem se candidata? ■ Quais foram as principais impressões e percepções de quem fi cou 24 horas sem acessar as redes sociais? ■ Como o estudante que fi cou sem redes sociais se sentiu? Ansioso, tranquilo, inseguro, intros- pectivo, triste? ■ Quais foram as principais impressões e percepções de quem fi cou 24 horas com acesso con- tínuo às redes sociais? ■ Como o estudante que fi cou com acesso contínuo às redes sociais se sentiu? Ansioso, tranqui- lo, inseguro, afl ito, eufórico? Encontro 5 Entrevista semiestruturada Entrevistas semiestruturadas (também chamadas de semidirigidas) são aquelas em que o entrevistador prepara um roteiro de perguntas diretas e objetivas sobre um tema do seu interesse, mas conduz a entrevista com fl exibilidade, deixando-a fl uir. Em geral, a entrevista começa com as perguntas previamente formuladas e, à medida que o diálogo se desenvol- ve, entrevistado e entrevistador sentem-se à vontade para refl etir sobre outras questões em torno do tema proposto. Nesse ponto, a entrevista se transforma em uma conversa. Mas lembre-se desta dica: para o diálogo não se tornar um bate-papo sem objetivos, o entrevis- tador tem de estar ligado na condução geral da entrevista. Assim, garante-se que os temas selecionados e as questões fundamentais ligadas e eles serão devidamente explorados. W A Y H O M E s tu d io /S h u tt e rs to c k PI_CH_Marcia_g21Sa_Projeto3_088a115_LA.indd 98PI_CH_Marcia_g21Sa_Projeto3_088a115_LA.indd 98 2/21/20 9:53 AM2/21/20 9:53 AM