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5 3CAPÍTULO 2
 Compartilhe com os colegas o que lhe pareceu surpreendente na biografia de Cora Coralina.
3
 
Leia um trecho da entrevista de Cora Coralina à Revista Mulherio, em 1984.
Uma entrevista raríssima com Cora Coralina
ANA LINS DOS GUIMARÃES PEIXOTO BRETAS (1889-1985) nasceu na Cidade de Goiás (GO). 
Embora tenha estudado pouco, desde cedo demonstrou grande interesse pelos livros e, ainda 
adolescente, começou a escrever poemas e contos. Aos 14 anos, criou o pseudônimo pelo 
qual se tornaria conhecida: Cora Coralina. Anos mais tarde, se casou com Cantídio Tolentino 
Bretas. Com ele, mudou-se para São Paulo e teve seis filhos. Ela ficou viúva em 1934 e, a partir 
de então, passou a trabalhar e garantir o próprio sustento. Em 1956, regressou à Cidade de 
Goiás, onde começou a fazer e vender doces. Apesar de seu gosto pela escrita, foi apenas em 
1965, aos 76 anos, que teve seu primeiro livro publicado, Poemas dos Becos de Goiás e Estórias 
Mais. Seus textos se tornaram conhecidos do grande público em 1980, quando o poeta mineiro 
Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) publicou a crônica “Cora Coralina de Goiás” no Jornal 
do Brasil. A partir daí, ela passou a trocar cartas com seu amigo Drummond. Essas cartas hoje 
fazem parte do acervo do museu da Casa Velha da Ponte, onde ela passou a infância. Cora 
Coralina continuou escrevendo e publicando até o final de sua vida – ela faleceu em Goiânia.
Matu
iti
 M
ay
ez
o
/F
o
lh
a
p
re
s
s
[...]
Fale um pouco do seu trabalho...
Meu trabalho, minha menina, o trabalho principal de mi-
nha vida, eu fui dona de sítio, eu criei porcos, eu tive vacas 
de leite, eu tive lavoura, eu tive paiol de milho, eu tive tuia 
cheia de arroz. Eu colhi e vendi algodão, colhi e vendi feijão, 
engordei porcos e vendi porcos e ninguém teve porcos mais 
bonitos e mais bem tratados que os meus. Isso no tempo 
em que eu vivi em São Paulo e depois de viúva. Os filhos já 
tinham todos se casado, tive sítio, tive chácara, sempre fui 
independente, nunca fui dependente de filho. Tanto, que 
hoje meus filhos moram todos em São Paulo e eu aqui. Nem 
eu tenho vontade de ir para perto deles, nem tenho vontade 
que eles venham para perto de mim. Porque acho bom as-
sim. Não quero mais limitação na minha vida. Fui limitada 
na primeira infância, fui limitada de menina, fui limitada 
de adolescente, fui limitada de casada e não quero ser limi-
tada depois de velha. 
Você se sente livre hoje?
Oooooooh... Absolutamente livre. Não me sinto livre, me sin-
to liberta. Não há nada que valha para mim a minha liberta-
ção. Libertação de sentimentalismo, de necessidade de viver 
perto de filho, libertação de medos de viver sozinha, liberta-
ção de qualquer coisa, libertação de medo de cair, libertação 
de assalto com a minha porta aberta, libertação da minha casa 
que eu durmo com a minha janela aberta para o lado do rio, 
não há nada que valha para mim a minha libertação do medo. 
O medo é a escravidão maior da criatura, e hoje eu não tenho 
medo e tenho noventa e quatro anos de idade, nasci em 1889, 
tem vinte e sete anos que eu voltei para Goiás e deixei filhos e 
netos, noras e genro, e todo mundo me quer bem e me respei-
ta, não tenho queixas de nenhum deles.
E quando você começou a fazer poemas?
Aos catorze anos de idade. Mas com a idade de catorze anos eu 
só tinha feito na vida um curso primário e muito incompleto. 
Eu na vida só tive uma professora – mestra, como se dizia no 
passado. Nunca tive duas, minha professora foi uma só e so-
zinha na sua sala de aula. E ela era cinquenta anos mais velha 
do que eu, e já tinha ensinado à geração de minha mãe. Abriu 
uma escolinha primária, ela era aposentada e a aposentadoria 
muito pequena, muito insuficiente para a vida modesta dela, 
e ela abriu uma escolinha primária e suas ex-alunas matricu-
lavam lá os filhos, como minha mãe, outras mães foram alu-
nas dela. E o nome dela, quando eu falo, representa hoje para 
mim uma pauta musical – Silvinha Ermelinda Xavier de Brito.
[...]
Uma entrevista raríssima com Cora Coralina. Letras In.verso 
e Re.verso. 21 abr. 2008. In: Revista Mulherio, maio/jun. 1984. 
Disponível em: http://www.blogletras.com/2008/04/uma-
entrevista-rarissima-com-cora.html. Acesso em: 2 jul. 2020.
a) Qual é o efeito de sentido da repetição da expressão “fui limitada” no final da primeira pergunta feita a Cora 
Coralina?
b) Embora inicie a segunda resposta afirmando ser absolutamente livre, Cora Coralina marca a diferença entre 
sentir-se livre e sentir-se liberta. Que diferença é essa?
c) Ao se referir à sua professora, Cora afirma que o nome dela representa uma “pauta musical”. Que efeito de 
sentido essa expressão traduz?
a) O efeito de sentido é intensi�car a limitação que a acompanhou por várias etapas da vida, desde a infância.
2. Resposta pessoal. Peça aos estudantes que comparem as respostas: embora o texto seja o mesmo, diferentes leitores tendem a destacar elementos varia-
dos, isto é, o que chama a atenção de um pode passar despercebido por outros – por exemplo, enquanto um estudante aponta que o mais surpreendente na 
biogra�a de Cora Coralina é o fato de ela ter publicado seu primeiro livro só aos 76 anos de idade, outro pode dizer que considerou mais curioso o fato de ela 
trocar cartas com o poeta Carlos Drummond de Andrade. Isso tem a ver com a subjetividade e os interesses de cada leitor, o que não deve ser confundido com 
“não existe a leitura errada”. A leitura errada existe e, segundo o linguista brasileiro Sírio Possenti, é aquela que não pode ser autorizada pelo texto (POSSENTI, 
Sírio. A leitura errada existe. In: BARZOTTO, V. (org.) Estado da leitura. Campinas: ALB Mercado de Letras, 1999. p.169-178.).
b) Sentir-se liberta implica a superação de uma limitação; no caso da 
poeta, implica a superação do medo. Comente com os estudantes que 
o termo “liberta” soa mais forte graças ao sentido de “posto em liberdade”, isto é, ressalta o fato de que o que foi vivido pela poeta a aprisionava.
c) Resposta pessoal. Uma possibilidade é considerar que a comparação do nome da professora a 
uma pauta musical revela o carinho, o respeito, a delicadeza e a beleza pelo muito que a professora 
representou na vida da poeta.
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5 4 CAPÍTULO 2
4
 
As memórias, pessoais e coletivas, sempre foram um tema muito presente nas produções literárias. No Brasil, 
autores de várias épocas escreveram obras marcadas pelo memorialismo: o carioca Lima Barreto (1881-1922), o 
alagoano Graciliano Ramos (1892-1953), o mineiro Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) e a própria Cora 
Coralina. 
 Leia a seguir o poema “Todas as vidas”, um dos mais conhecidos da escritora goiana. 
Todas as vidas
Vive dentro de mim
uma cabocla velha
de mau-olhado,
acocorada ao pé do borralho,
olhando para o fogo.
Benze quebranto.
Bota feitiço...
Ogum. Orixá.
Macumba, terreiro.
Ogã, pai de santo...
Vive dentro de mim
a lavadeira do Rio Vermelho.
Seu cheiro gostoso
d’água e sabão.
Rodilha de pano.
Trouxa de roupa,
pedra de anil.
Sua coroa verde de são-caetano.
Vive dentro de mim
a mulher cozinheira.
Pimenta e cebola.
Quitute benfeito.
Panela de barro.
Taipa de lenha.
Cozinha antiga
toda pretinha.
Bem cacheada de picumã.
Pedra pontuda.
Cumbuco de coco.
Pisando alho-sal.
Vive dentro de mim
a mulher do povo.
Bem proletária.
Bem linguaruda,
desabusada, sem preconceitos,
de casca-grossa,
de chinelinha,
e filharada.
Vive dentro de mim
a mulher roceira.
— Enxerto da terra,
meio casmurra.
Trabalhadeira.
Madrugadeira.
Analfabeta.
De pé no chão.
Bem parideira.
Bem criadeira.
Seus doze filhos
Seus vinte netos.
Vive dentro de mim
a mulher da vida.
Minha irmãzinha...
tão desprezada,
tão murmurada...
Fingindo alegre seu triste fado.
Todas as vidas dentro de mim:
Na minha vida —
avida mera das obscuras.
CORALINA, Cora. Poema dos becos de Goiás e estórias mais. 24. ed. Salvador: LDM, 2018. p. 33-35.
a) O poema apresenta referência a figuras femininas sociais presentes no contexto em que Cora Coralina viveu. 
O que essas mulheres têm em comum? 
• Você também tem alguma mulher como referência em sua história? Compartilhe essa memória com a 
turma e o professor.
b) Os versos do poema “Todas as vidas” são marcados por 
imagens de cenários e objetos do cotidiano no contexto 
do eu lírico. Dê dois exemplos dessas imagens e obje-
tos, indicando a que figuras eles se referem. 
• “Cabocla velha”, “lavadeira do Rio Vermelho”, “mu-
lher cozinheira”, “mulher do povo”, “mulher roceira”, 
“mulher da vida”: O que todas elas têm em comum? 
Como o modo pelo qual o eu lírico se refere a elas 
ajuda a construir os sentidos do poema?
c) Como a linguagem do poema pode ser descrita: simples 
ou rebuscada? Como as escolhas linguísticas se relacio-
nam aos efeitos de sentido do texto?
Leia o texto em voz alta ou peça a um estudante voluntário para fazê-lo. O objetivo da leitura é identificar as principais características 
da escrita de Cora Coralina, como as memórias, a linguagem, as menções a figuras e temáticas do cotidiano, que serão retomadas 
nas atividades posteriores. 
M
a
ri
s
h
/S
h
u
tt
e
rs
to
ck
4. a) Espera-se que os estudantes reflitam que todas elas são representações de mu-
lheres simples e/ou à margem da sociedade, com as quais provavelmente a poeta se 
identificava. Resposta pessoal.
4. b) Resposta pessoal. Algumas possibilidades são: o borralho, a macumba e o terreiro, referentes à cabocla velha; a trouxa 
de roupa da lavadeira; a panela de barro, o fogo de lenha e o cumbuco de coco, que remetem à mulher cozinheira; a chinelinha, 
símbolo da mulher do povo; etc. Espera-se que os estudantes mencionem que elas têm em comum o fato de viverem à margem 
da sociedade.
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