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AULA 1 TECNOLOGIAS DE INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO PARA O ENSINO Profª Aline Álvares Machado 2 CONVERSA INICIAL Expressões como “mundo digital”, “cibercultura”, “era da informação”, entre outras, são comumente utilizadas nos últimos 15 anos para designar a atual situação da sociedade em relação ao desenvolvimento das novas tecnologias e suas influências nas relações humanas. A educação, por ser um produto social dos seres humanos, não pode se furtar a essas influências. Nesta aula, serão abordadas algumas informações relevantes com relação ao início da introdução das tecnologias digitais nos ambientes de educação formal, resgatando brevemente parte desse histórico. Em seguida, o modelo educacional inovador, com foco na disponibilização de ferramentas, será questionado e discutido, sob o enfoque de José Manuel Moran. Na sequência, o papel do estudante e o papel do educador sob a influência dos meios digitais serão objeto de análise, ressaltando as novas características que emergem dentro do paradigma das novas tecnologias. TEMA 1 – POR QUE TIC OU TDIC NOS AMBIENTES EDUCACIONAIS? É fundamental refletir sobre o espaço das Tecnologias da Comunicação e Informação (TIC), ou, como nomeia José Armando Valente, Tecnologias Digitais de Informação e Comunicação (TDIC) na aprendizagem, especialmente nos últimos 10 anos. Isso porque as TIC ou TDIC alteram profundamente nossa forma de nos relacionarmos com o mundo: criar, transmitir, e consumir informações hoje é muito diferente de duas décadas atrás, quando muitos dos atuais profissionais do mercado ainda eram crianças. Veja o crescimento da modalidade a distância nos cursos de graduação, por exemplo. Segundo dados do INEP, em 2006, apenas 4% das matrículas em cursos de graduação eram para cursos a distância, ou semipresenciais. Dez anos depois, em 2016, as matrículas nessa modalidade correspondiam a 19% do total de matriculados no Ensino Superior no Brasil. Embora observamos que a procura pelo Ensino Superior presencial no Brasil ainda seja bem mais acentuada, a modalidade a distância vem crescendo muito, por uma diversidade de motivos. Sem dúvida, um dos fatores que corroboram com o crescimento do ensino a distância é a ampliação do acesso às TDIC, que facilitam o processo de ensino 3 e aprendizagem nessa abordagem – sempre levando em conta que outras tecnologias analógicas, como o serviço de correio, o sinal de rádio AM e, posteriormente, a televisão, por exemplo, foram responsáveis pelo surgimento e desenvolvimento dos primeiros cursos a distância no Brasil no início do século XX. Primeiramente, porém, é necessário compreender o espaço que as TIC ocupam na sociedade atual, como um todo, e como chegamos até aqui. Nos anos 1980, os primeiros computadores chegavam aos espaços educativos no Brasil. Em tempos anteriores aos sistemas operacionais, e na sociedade industrial, o objetivo foi fortalecer a aprendizagem profissional dos estudantes, em aulas de informática curriculares ou extracurriculares, em que novas habilidades seriam requeridas, tais como digitar, salvar arquivos, microfilmar, instalar e operar os microcomputadores. Nesse período, uma das diretrizes mais importantes da educação no Brasil era formar profissionais capazes de atuar nas indústrias; daí a importância da introdução ao ambiente computacional. Por esse mesmo motivo, o uso dos computadores nos ambientes de educação básica aconteceu primeiro nos chamados anos colegiais, atual Ensino Médio, pouco após a adoção dessas tecnologias nos ambientes universitários. Somente alguns anos mais tarde, já no início dos anos 1990, as políticas públicas para uso das TDIC começaram a apontar na direção do Ensino Fundamental. Figura 1 – Exemplo de um microcomputador dos anos 1980 Crédito: Oleksandr Lysenko/Shutterstock. 4 Desde então, percebe-se que a adoção das tecnologias digitais vem em uma crescente, a ponto de hoje significar um diferencial importante na escolha de um curso ou escola. Esse processo, porém, vai muito além da aquisição de equipamentos, passando pela própria estrutura física das instituições de ensino, e chegando à formação dos profissionais: não basta mais ensinar a utilizar um mouse ou como fazer uma impressão. É preciso contextualizar o uso dessas ferramentas nos currículos de forma inteligente e favorecendo os múltiplos estilos de aprendizagem. Assim, não basta introduzir uma disciplina de robótica educativa, com o ensino de técnicas de montagem e programação; é necessário que esse trabalho tenha relação com os usos sociais que se pode fazer dessa tecnologia. Nesse contexto, portanto, não basta um professor de informática. O papel do professor é indispensável, mas tem contornos bem diferentes em relação ao que se esperava 25 anos atrás. A robótica, os computadores e dispositivos móveis, a internet, não estão mais restritos a um espaço especial – o laboratório de informática –, mas estão presentes em todas as salas de aula de todas as áreas do currículo. Além de favorecer a aprendizagem como um todo e desenvolver novas habilidades, essa expansão das tecnologias nos ambientes educacionais favorece o desenvolvimento de sujeitos mais aptos às relações de trabalho no futuro. Embora a educação brasileira tenha deixado para trás a perspectiva tecnicista, é preciso perceber que as crianças de hoje terão trabalhos que envolverão mais ou menos diretamente usos das tecnologias digitais bastante diferentes daqueles que fazemos hoje. Segundo dados divulgados na revista norte-americana Forbes, em 2017, 65% dos empregos que as crianças de hoje terão em 20 anos ainda não existem, a maioria deles relacionada com aspectos que hoje negligenciamos na educação dessas crianças. É imperioso reconhecer que a maioria desses aspectos são habilidades socioemocionais que podem ser trabalhadas com abordagens diferenciadas, dentre as quais as atividades conduzidas pelo viés das tecnologias. 5 Figura 2 – O ideal em uma sala de aula atual: o uso das tecnologias protagonizado pelos estudantes, de maneira não isolada e não restrita aos meios digitais, e sempre acompanhado e orientado pelo professor Crédito: Monkey Business Images/Shutterstock. Um exemplo de abordagem diferenciada para o desenvolvimento de competências socioemocionais críticas com o uso de TDIC é a proposta da metodologia de robótica Lego para os níveis Fundamental e Médio. Dentro de quatro pilares – explorar, criar, compartilhar e testar –, são estimulados o trabalho em equipe, o pensamento crítico, a empatia, o ouvir, respeitar e compartilhar ideias, a resolução de problemas, a criatividade, entre outros. Moacir Gadotti (2009) pontua a necessidade do uso das TDIC para uma educação integral, integradora, pela cidadania e para a cidadania. Em sua obra, ele afirma: Não há desenvolvimento sem inovação tecnológica e não há inovação sem pesquisa, sem educação, sem escola. As crianças precisam envolver-se desde muito cedo na educação tecnológica, indispensável numa sociedade baseada na informação e no uso intensivo da tecnologia. (Gadotti, 2009, p. 55) A partir daí, percebe-se que a presença das TIC ou TDIC na educação tem sido algo cada vez mais perceptível e, é possível dizer, até mesmo desejável, na grande maioria dos casos. Sua presença na educação vem transformando significativamente a prática educativa, desde a Educação Infantil até o Ensino Superior. Por isso, cabe o questionamento: de que tipo de transformação estamos falando? Como está sendo feita essa transformação, e por quem? 6 TEMA 2 – FERRAMENTAS DIGITAIS X INOVAÇÃO: É PRECISO TECNOLOGIA DE PONTA PARA TER UM AMBIENTE INOVADOR? A inovação vem sendo um fator crítico nos ambientes formais de ensino da atualidade. Para Moran (2018b), há sete processos fundamentais quecaracterizam uma instituição de ensino inovadora: • Ambientes educacionais acolhedores e que incentivam a experimentação; • Currículos transdisciplinares (ou sem disciplinas), flexíveis, ou seja, que permitam a personalização total ou parcial, e híbridos (superam a dicotomia presencial X à distância); • Uso de metodologias ativas de aprendizagem; • Integração profunda com o meio – a cidade, o mundo –, incentivando não apenas o estudo da sociedade, mas a transformação dela; • Professores mentores; • Avaliação e certificação diferenciados; • Uso de tecnologias digitais para ampliação das possibilidades de pesquisa, autoria, compartilhamento e publicação. É possível perceber que, para Moran, assim como para outros autores, a presença das TDIC é fator intrínseco à mudança das metodologias e à inovação na educação. Gadotti (2009) entende a inovação na educação como uma “mudança no sistema de ensino, com o objetivo de produzir melhoria no cumprimento de suas finalidades, renovadas, em função de uma concepção emancipadora da educação”. Assim, não basta inovar nos processos: é essencial que a educação seja emancipadora dos sujeitos, permitindo que estes sejam cada vez mais protagonistas da sua própria aprendizagem. As tecnologias digitais, notadamente a internet, promoveram uma revolução na forma de ler e compreender as informações e o mundo. Todavia, ainda é possível encontrar professores, em todos os níveis de ensino, usando as novas tecnologias para perpetuar formas de ensinar e aprender que já não respondem às necessidades da sociedade, e especificamente dos estudantes. O ilustrador francês Jean-Marc Cotê produziu, no final do século XIX, uma série de ilustrações que mostravam impressões de como seria a sociedade no século XXI. Uma delas é intitulada “At school”, e mostra como o artista imaginava o processo 7 de ensino no futuro. Entre as várias observações que se pode fazer na imagem, é possível destacar que a sala de aula é dominada por uma máquina na qual o professor introduz aquilo que julga conveniente e por meio da qual os estudantes recebem passivamente o conhecimento. Também chama a atenção o número de livros que o professor está colocando na máquina, demonstrando a importância do acúmulo de saberes. Figura 3 – Escola futura: França, cartão de papel –reprodução do início do século XX Crédito: Jean-Marc Cotê. É preciso compreender, portanto, que usar as TDIC para continuar fazendo mais do mesmo não é ensinar ou aprender de forma inovadora, mas apenas repetir os processos já conhecidos com outras mídias. Conforme Moran (2007), há três estágios de incorporação das tecnologias nos ambientes educacionais: o uso das tecnologias com o objetivo de facilitar o trabalho que o professor já domina, mas sem grandes mudanças na prática pedagógica; posteriormente, já mais seguro, o professor passa a fazer uso das tecnologias digitais pedagogicamente, mas ainda reproduzindo aquilo que já fazia no analógico, e de forma majoritariamente presencial, com atividades pontuais à distância, como fóruns, lista de e-mails etc.; e o último estágio corresponderia àqueles profissionais que já conseguem conduzir suas aulas 8 com o uso das tecnologias, presencialmente ou à distância, de forma instigante e motivadora para os estudantes. Isso geralmente ocorre quando o profissional já utiliza as TDIC de forma segura e confortável também em seu cotidiano pessoal; confiante, ele consegue visualizar possibilidades pedagógicas para aquilo que já faz uso pessoal ou em outras esferas. Ele consegue enxergar as TDIC como catalisadoras da aprendizagem em diferentes contextos. Assim, não basta disponibilizar novas tecnologias no ambiente educacional: é preciso que os professores se apropriem das tecnologias de forma plena, a fim de as utilizar em favor de formas inovadoras de ensinar, sob pena de dar continuidade a um modelo que não mais responde às demandas educacionais atuais. É sabido que, muitas vezes, a infraestrutura das instituições está aquém do ideal: máquinas em número insatisfatório, velocidade de acesso à internet limitante, salas sucateadas. Ainda assim, é primordial perceber que a postura inovadora parte do professor, e que, mesmo com baixa tecnologia e recursos limitados, é possível adotar uma postura mais ativa e menos conservadora, em favor de uma aprendizagem mais criativa, mais efetiva, mais significativa e motivadora. Nos próximos capítulos, esse assunto será abordado com maior profundidade, especialmente no que toca a aprendizagem por meio da robótica educacional. TEMA 3 – O PAPEL DO APRENDIZ E DO EDUCADOR Durante as décadas de 1970 e 1980, quando os microcomputadores começaram a tomar espaço nos ambientes universitários, um dos objetivos centrais era aprimorar processos que já existiam, como no caso dos cálculos matemáticos complexos utilizados nas engenharias. O computador tomava o lugar do caderno, e os estudantes executavam com ele algoritmos que antes demandariam maior tempo e esforço, e com o benefício de uma maior precisão. Além disso, era preciso treinar os futuros analistas e engenheiros para operar os sistemas computacionais. Assim, inicialmente, a era da informática pouco alterou a prática pedagógica, que naquele momento precisou sofrer ajustes apenas de ordem estrutural e organizacional. O ensino continuou centrado na figura docente, com os professores a repassar o conhecimento que acumularam em seus anos de estudo e experiência profissional, e os estudantes passivamente recebendo as 9 instruções, demonstrando o que memorizaram e aprenderam numa avaliação escrita ou prática, num modelo que Paulo Freire denomina de “educação bancária” (Freire, 1996). Na transição para a educação básica, não foi diferente. A informática, na figura dos computadores, foi vista como algo para “melhorar” o que já vinha sendo feito. No entanto, o matemático sul-africano e pesquisador do MIT, Seymour Papert, percebeu o quanto as tecnologias digitais poderiam transformar a forma de ensinar e aprender. Em seu livro A máquina das crianças, ele propõe as bases de uma nova forma de ensinar, a que ele chama de Construcionismo. Na perspectiva construcionista, o computador não é mais uma forma de aprender, e sim um artefato que muda completamente a relação de ensino e aprendizagem, sendo um instrumento que permite o protagonismo das crianças em projetos orientados por um professor que, longe de ter uma postura de transmissor do conhecimento, é um mediador das situações de aprendizagem (Papert, 1994). Para a perspectiva construcionista, que é muito comumente adotada nas aulas de tecnologias, o professor tem o papel de propor aos estudantes a observação e a reflexão acerca do seu entorno, instigando-os a questionarem e problematizarem as situações vividas ou observadas dentro de projetos bem delineados. Além disso, o professor tem papel fundamental em orientar o trabalho, indicando fontes de consulta, bem como as tecnologias que podem auxiliar os estudantes em seu percurso de aprendizagem, que será único para cada um, individualmente, e também na perspectiva do conjunto – mesmo que os resultados sejam muito próximos, o percurso e as aprendizagens de cada turma são particulares. Para trabalhar nessa perspectiva, é preciso que o profissional tenha em mente que ele não será mais visto como aquele que domina todas as informações e conhecimentos em sala de aula, haja vista, inclusive, o contexto social em que estamos imersos, numa sociedade em que o acesso a informação não é mais tão restrito como outrora. A formação básica dos professores, nos cursos de graduação, por vezes não é suficiente para abordar esse aspecto tão sensível e tão essencial do trabalho docente nos dias atuais. Embora muitos cursos de licenciatura tenham sido remodelados nos últimos anos, no sentido de incorporar uma oumais disciplinas sobre os usos das TDIC na educação, parece não ser o suficiente para instigar uma mudança na postura profissional, já que continua sendo comum o modelo de ensino a que chamamos de “tradicional”, por privilegiar 10 uma prática de mais de 150 anos: o professor como preletor, os alunos passivos, que visam entregar a seu “mestre” aquilo que espera deles. Claro que, muitas vezes, a própria instituição limita a transformação da atuação docente, seja por ter uma diretriz mais conservadora, seja por não ter recursos financeiros suficientes para adequação de sua estrutura. Por isso, não há uma solução única, mas todas passam, necessariamente, pela formação docente, que deve atuar como mediador da aprendizagem, e não mais como sujeito principal dela. O professor que vivencia a sociedade da informação, e está imerso na cultura digital, ou cibercultura, como Pierre Levy aponta (Levy, 1999), necessariamente utiliza as TDIC em seu cotidiano profissional, em maior ou menor medida, segundo uma série de fatores, dentre os quais podemos dizer que o fundamental seria a adaptação e a identidade com os meios digitais: o que não é vivenciado no âmbito pessoal tem pouca ou nenhuma relevância na prática profissional. Em outras palavras, só é possível que o profissional utilize de forma inovadora os recursos digitais se ele o faz também fora do seu ambiente de trabalho. Aqui, no entanto, não há uma relação de causalidade: a incorporação das TDIC de maneira inovadora na sala de aula atrelada a metodologias mais ativas pode se dar antes ou após a sua incorporação fora da sala de aula. Sobretudo, aquele profissional que tem uma visão conservadora a respeito da dinâmica de ensinar e aprender, não terá condições de ter uma prática pedagógica diferente disso. Quanto à postura do estudante perante as tecnologias, também se observam muitas mudanças em relação ao modelo conservador ou tradicional. Isso porque as pessoas estão conectadas o tempo todo, notadamente por meio dos dispositivos móveis. Essa conexão em tempo integral, no entanto, pode ser bem ou mal utilizada nos ambientes educacionais. Não raro, o uso das tecnologias é feito sem um direcionamento pedagógico, motivo pelo qual muitas instituições, de todos os níveis de ensino, acabam proibindo seu uso durante as aulas. Nesse sentido, o uso da internet acaba sendo mais uma forma de procrastinar do que uma forma de produzir. Como mudar isso? 11 Figura 4 – Pessoas conectadas praticamente todo o tempo: como lidar com essa realidade nos ambientes de educação formal? Crédito: DisobeyArt/Shutterstock. Parece claro que as instituições têm sua parcela de responsabilidade, diante da necessidade urgente de se adequarem tanto fisicamente, ao reorganizarem seus espaços e estruturas, quanto pedagogicamente, contemplando em seus projetos político-pedagógicos a tecnologia como parte indissociável do processo de aprendizagem na era da informação. Num ambiente de trabalho que fomente o uso das TDIC como parte essencial do trabalho pedagógico, os docentes vão se apropriando gradativamente das novas tecnologias, o que não pode se dar sem adequada formação profissional continuada, a qual deve, por sua vez, transcender a perspectiva instrumentalista, abordando não apenas as ferramentas, mas também as contextualizando em relação ao currículo. Uma vez presentes no cotidiano das aulas, dentro de uma concepção diversa da tradicional transmissão de saberes do professor para o aluno, os estudantes precisam se adequar, adotando uma postura mais ativa diante das atividades propostas, utilizando os dispositivos e a rede de forma eficiente, segura e objetiva. Portanto, o uso pedagógico dos recursos digitais em ambientes educativos inovadores, ou não tradicionais, demanda que todas as instâncias envolvidas – instituições, professores e alunos, assumam seus papéis ativamente, numa perspectiva em que a aprendizagem do estudante é uma responsabilidade compartilhada por todos os atores desse processo. 12 TEMA 4 – CURADOR INFORMACIONAL Conforme já discutido anteriormente, o papel do docente precisa se modificar, assumindo uma postura de mediador da aprendizagem do estudante, este o sujeito central da ação educativa nesse modelo. Numa aula ou instituição não tradicional, em que o estudante é o ator principal do processo de ensino e aprendizagem, as ações iniciais podem ser propostas ou direcionadas pelo professor, mas é o estudante quem indica a direção na qual aquele projeto vai apontar. Os recursos digitais estarão presentes em todo o processo, seja no momento da apresentação, na elaboração de um eventual produto final, no desenvolvimento da pesquisa ou nos resultados parciais. No entanto, o que de fato caracteriza essa postura de mediador da aprendizagem? Para Moran (2004), “o professor, em qualquer curso presencial, precisa hoje aprender a gerenciar vários espaços e a integrá-los de forma aberta, equilibrada e inovadora”. Nessa mesma obra, o autor assevera que, para educar com qualidade, o professor precisa atuar em pelo menos quatro diferentes espaços educativos: a sala de aula conectada, o laboratório de informática, os ambientes virtuais de aprendizagem e os ambientes experimentais ou profissionais, no caso de cursos profissionalizantes. Para o autor, a sala de aula deve ser espaço de encontro, troca de ideias entre professores e alunos, e orientação do projeto. É nesse espaço que o professor teria a oportunidade de perceber nuances da aprendizagem de cada estudante que não poderia capturar a distância, além de fazer orientações específicas quanto à área do conhecimento que domina e tem mais experiência. Embora já não seja mais o ideal, a realidade da maioria das escolas e instituições de ensino superior envolve a existência de um espaço específico chamado de laboratório de informática, no qual devem acontecer atividades direcionadas, orientação quanto a fontes de pesquisa ou novas ferramentas, entre outras atividades que seriam impossíveis, ou mais difíceis, de serem realizadas à distância. Claro que a autonomia dos estudantes influencia diretamente no uso que se faz desse tipo de espaço: em geral, alunos mais jovens precisam de orientações mais diretas e específicas, por exemplo, na apropriação de uma nova ferramenta digital; ou de um direcionamento mais fechado em algumas atividades, 13 no que esse tipo de espaço pode facilitar. A ida ao laboratório de informática pode servir para subsidiar, também, as atividades a distância, servindo como um espaço para apresentar e explorar as ferramentas que serão utilizadas nesse trabalho. O ambiente virtual, por sua vez, pode ser uma plataforma formal e institucionalizada, como acontece na maioria das vezes nas instituições de ensino superior ou em cursos profissionalizantes, mas também ser constituído sobre uma base aberta, como as “salas de aula Google”, amplamente utilizadas por serem um serviço gratuito, ou outros mecanismos e redes sociais que possam servir e apoio para a criação de um ambiente virtual de troca entre professores e estudantes. Por último, o autor enfatiza a necessidade de vivenciar a realidade do cotidiano do projeto sobre o qual os estudantes trabalharam, destacando a necessidade de o professor mediar as relações entre a teoria e a vivência prática dos conhecimentos. As TDIC se tornaram sinônimo de informação fácil e rápida. Se em tempos anteriores a informação era escassa e estava dispersa em diferentes veículos de comunicação, em diferentes línguas, hoje a informação é abundante e nos chega por meio da internet: jornais eletrônicos e sites de notícias, redes sociais, páginas pessoais de opinião etc. É nesse contexto que se coloca a proposta de Moran. Nele, a escola deixa de ser o local em que se obtêm o conhecimento historicamente acumulado, e passa a ser o localem que se aprende a diferenciar o conhecimento do senso comum; a identificar as características de uma fonte confiável; passa, assim, a ser um local em que o senso crítico deve ser o pilar central de todas as ações. Por isso, pode-se dizer que o professor hoje atua muito mais no sentido de ser um curador informacional. O curador pesquisa, se atualiza, compara, emite suas opiniões e indica, ou não, páginas, portais de conteúdos, aplicativos, e outras informações relevantes. Ajuda o estudante a identificar as características e tendências de uma determinada fonte de informação, auxiliando-o no posicionamento em relação a ela. Sob esse olhar, o professor de Biologia, por exemplo, poderá indicar aos estudantes bons vídeos e textos sobre os benefícios e malefícios da vacinação em crianças; apontar aplicativos e páginas já testados e avaliados por ele, com simulações em 3D do corpo humano, para que os estudantes possam 14 compreender melhor um projeto sobre saúde; orientar sobre ferramentas que eles possam utilizar para organizar as ideias que encontrarem num trabalho em equipe, ou para a apresentação dos resultados; e uma série de outras funções. Importante destacar que o professor curador de informações pode e deve ter formação em uma área do conhecimento específica. O que muda não é a sua formação docente básica, mas a forma como ele conduzirá os estudantes para que cheguem até o seu objetivo, cujo percurso é cada vez mais guiado pelo próprio estudante. TEMA 5 – ALFABETIZAÇÃO DIGITAL E LETRAMENTO DIGITAL: ESTUDANTE COMO PRODUTOR DE INFORMAÇÃO RELEVANTE Ainda muito se fala sobre inclusão e alfabetização digital, que são termos que guardam bastante proximidade, mas são diferentes entre si. Entende-se que a inclusão digital é fornecer oportunidade de uso e acesso àqueles sujeitos que não dispõem de meios digitais como computador, smartphone, internet. O processo de inclusão é o início do acesso às TDIC, e inevitavelmente conflui para o processo de alfabetização digital. Nesse contexto, a alfabetização digital pode ser resumidamente definida como o processo de escrita que envolve signos e gestos requeridos para ler e escrever nos meios digitais (Frade, 2018). Em Machado (2016), a alfabetização digital é definida como o uso das “TIC de forma plena, efetiva e crítica, indo além daquilo que se aprende intuitivamente”. Para a autora, o uso autoinstrucional dos recursos básicos de um dispositivo eletrônico caracterizam ações de um sujeito que se pode considerar como “alfabetizado digitalmente”. Já o letramento digital pode ser definido como a capacidade de interpretar situações que envolvem a leitura de informações no meio digital e comunicá-las adequadamente, bem como se expressar por meios digitais. Podemos ilustrar a diferença entre esses três processos em uma situação progressiva: ao ser “incluído digitalmente”, um sujeito tem acesso ao computador e à internet, mas não tem conhecimento de todos os seus potenciais nem domínio suficiente para fazer uso relevante dessas mídias, um uso que contribua com a sua formação pessoal, profissional ou acadêmica. Se, posteriormente, esse sujeito aprende que existe a possibilidade de se comunicar por meio de correio 15 eletrônico, e consegue criá-lo para si, embora não dominando muitas de suas ferramentas, podemos dizer que essa seria uma ação de alfabetização digital; contudo, se com base em estudos e/ou suas experiências, o sujeito percebe que existem diferentes plataformas de e-mails, que funcionam de formas diferentes, consegue utilizar essas diferentes plataformas com facilidade, e aprende a fazer uso adequado dessa ferramenta, pessoal e profissionalmente, podemos dizer que esse sujeito já experimentou um processo de letramento digital. Hoje, portanto, não se fala mais em letramento, mas sim em letramentos, ou ainda, multiletramentos. Rojo e Moura (2012) deixam claro que existem dois tipos de multiletramentos: o multiletramento cultural, que se refere à diversidade das populações, principalmente em centros urbanos, e multiletramento semiótico, que diz respeito à multiplicidade de mídias e tecnologias. Para a autora, os multiletramentos são colaborativos, não obedecem às relações de poder vigentes, e podem ser considerados híbridos, por se originarem de hábitos, mídias e culturas de origens diversas. A perspectiva do multiletramento proposta por Rojo e Moura supõe que os estudantes se informam e produzem informações não apenas textualmente. Para a autora, as diferentes mídias e tecnologias colocam formas dinâmicas e não estáticas de consumir e produzir informação à disposição dos estudantes. Os estudantes produzem pelo meio linguístico, mas também integram a esta imagem, som, vídeo, consumindo e produzindo hipertextos, que Pierre Levy (1999) define como uma estrutura textual constituída por “nós”, que seriam, por exemplo, imagens, sons ou vídeos, os quais são ligados entre si (possuem links), sendo essas ligações indicadas por meio de recursos visuais, com botões, setas, ponteiros ou outros, os quais ligam um “nó” a outro. Na posição de sujeito protagonista de sua própria aprendizagem, o estudante precisa estar apropriado, devidamente letrado em relação aos meios digitais de consumo e produção de informação, sendo capaz de manipular com facilidade todas as ferramentas necessárias para a sua aprendizagem. Nesse aspecto, o professor, além de curador informacional, atua mais adiante ainda de sua área de domínio do currículo, utilizando este a seu favor para incluir, alfabetizar e letrar os estudantes não apenas cientificamente, mas também, e ao mesmo tempo, digitalmente. 16 Figura 6 – Trabalho em equipe, juntamente com o uso das TDIC, pode ser um grande aliado no desenvolvimento de competências socioemocionais Fonte: Syda Productions/Shutterstock. O estudante protagonista de sua aprendizagem se apropria das novas tecnologias, faz uso crítico destas e enxerga nelas o potencial para alcançar seus objetivos de estudos, sendo capaz de produzir vídeos, podcasts, boletins ou jornais eletrônicos, animações, aplicativos, sistemas, entre outros, que proponham soluções para os problemas apresentados em sala de aula. O letramento digital pressupõe o uso social e crítico das mídias digitais na produção, com a consciência de que não há neutralidade nesse processo. Ao produzir conteúdo para as disciplinas do currículo, sob a orientação atenta do professor, o uso das TDIC deve acontecer de forma integrada e integradora, com senso crítico e estético, ética, responsabilidade, em favor da construção de uma educação cidadã e do desenvolvimento do estudante de forma integral, abrangendo o desenvolvimento de habilidades cognitivas, mas também o desenvolvimento de habilidades socioemocionais, por exemplo, a capacidade de trabalhar em equipe, a percepção e resolução de problemas, tomada de decisões, e a criatividade, que são características cada vez mais exigidas pelo mundo do trabalho e pela sociedade como um todo. 17 Questões (as respostas estão ao final do documento) 1. Como Moran compreende a apropriação das TDIC no contexto educacional? 2. Qual a diferença entre inclusão, alfabetização e letramento digital? 3. Cite três características das escolas inovadoras segundo Moran e dê exemplos dessas características que podem ser observadas nas práticas cotidianas. 4. As TDIC foram vistas na educação, durante algum tempo, como uma ferramenta capaz de facilitar o trabalho de professores e alunos, reproduzindo comportamentos já estabelecidos na dinâmica professor-alunos. Dê um exemplo histórico que demonstre essa afirmação. 5. Qual a relação entre TDIC e inovação na educação? 18 REFERÊNCIAS ARTHUR, R. This Wearable Helps Kids Learn Tech Skills Through Active Play. Disponível em: <www.forbes.com/sites/rachelarthur/2016/05/11/this-wearable-helps-kids-learn-creative-tech-skills-through-active-play/amp/>. Acesso em: 26 abr. 2023. FRADE, I. C. A. da S. Alfabetização digital. In: UFMG – UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS. Faculdade de Educação. Glossário Ceale. Disponível em: <https://www.ceale.fae.ufmg.br/glossarioceale/verbetes/alfabetizacao-digital>. Acesso em: 26 abr. 2023. FREIRE, P. Pedagogia do oprimido. São Paulo: Paz e Terra, 1996. GADOTTI, M. Educação integral no Brasil: inovações em processo. São Paulo: Editora e Livraria Instituto Paulo Freire, 2009. LEVY, P. Cibercultura. São Paulo: Editora 34, 1999. MACHADO, A. A. Alfabetização digital. Curitiba: São Braz, 2016. MORAN, J. M. A educação que desejamos: novos desafios e como chegar lá. Campinas: Papirus, 2007. _____. Como transformar nossas escolas: novas formas de ensinar a alunos sempre conectados. Disponível em <http://www2.eca.usp.br/moran/wp- content/uploads/2017/08/transformar_escolas.pdf>. Acesso em: 26 abr. 2023. _____. Os novos espaços de atuação do professor com as tecnologias. Revista Diálogo Educacional, Curitiba, v. 4, n. 12, p. 13-21, maio/ago. 2004. _____. Principais diferenciais das escolas mais inovadoras. <http://www2.eca.usp.br/moran/wp-content/uploads/2013/12/diferenciais.pdf>. Acesso em: 26 abr. 2023. PAPERT, S. A máquina das crianças. Porto Alegre: Artes Médicas, 1994. PORVIR. Especial socioemocionais. Saiba o que são e como desenvolver competências socioemocionais a partir de experiências e recomendações voltadas a preparar os alunos para enfrentar os desafios do século 21. Disponível em: <http://porvir.org/especiais/socioemocionais/>. Acesso em: 26 abr. 2023. 19 ROJO, R.; MOURA, E. Multiletramentos na escola. São Paulo: Parábola Editoral, 2012. RESPOSTAS 1. São três estágios de apropriação: utilizar as tecnologias para facilitar o trabalho; utilizar as tecnologias em práticas com inovações pontuais; utilizar as tecnologias de forma de quebrar as barreiras espaço-temporais na educação, promovendo a inovação. 2. Inclusão digital é o processo inicial de apreensão dos conhecimentos relacionados às TDIC. Alfabetização diz respeito à fase inicial de apropriação, quando o domínio técnico e uso social são restritos a ações limitadas. Letramento digital acontece quando há domínio dos meios digitais para comunicação e expressão de pensamentos e emoções. 3. Ambientes educacionais acolhedores e que incentivam a experimentação; currículos transdisciplinares (ou sem disciplinas), flexíveis, ou seja, que permitam a personalização total ou parcial, e híbridos (superam a dicotomia presencial X à distância); uso de metodologias ativas de aprendizagem; integração profunda com o meio – a cidade, o mundo, incentivando não apenas o estudo da sociedade, mas a transformação dela; professores mentores; avaliação e certificação diferenciados; uso de tecnologias digitais para ampliação das possibilidades de pesquisa, autoria, compartilhamento e publicação; exemplos pessoais. 4. Exemplos pessoais. Projetores multimídia sendo usadas como quadros, para que os alunos lessem e copiassem, a exemplo do que faziam no quadro negro. 5. As TDIC favorecem a inovação pelas suas características, mas não as promovem sozinhas. Elas facilitam alguns processos, como a comunicação a distância e atemporal, embora a inovação deva partir dos atores do processo educacional – professores e estudantes.