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AULA 1 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
TECNOLOGIAS DE 
INFORMAÇÃO E 
COMUNICAÇÃO PARA 
O ENSINO 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Profª Aline Álvares Machado 
 
 
2 
CONVERSA INICIAL 
Expressões como “mundo digital”, “cibercultura”, “era da informação”, entre 
outras, são comumente utilizadas nos últimos 15 anos para designar a atual 
situação da sociedade em relação ao desenvolvimento das novas tecnologias e 
suas influências nas relações humanas. A educação, por ser um produto social 
dos seres humanos, não pode se furtar a essas influências. 
Nesta aula, serão abordadas algumas informações relevantes com relação 
ao início da introdução das tecnologias digitais nos ambientes de educação 
formal, resgatando brevemente parte desse histórico. Em seguida, o modelo 
educacional inovador, com foco na disponibilização de ferramentas, será 
questionado e discutido, sob o enfoque de José Manuel Moran. Na sequência, o 
papel do estudante e o papel do educador sob a influência dos meios digitais serão 
objeto de análise, ressaltando as novas características que emergem dentro do 
paradigma das novas tecnologias. 
TEMA 1 – POR QUE TIC OU TDIC NOS AMBIENTES EDUCACIONAIS? 
É fundamental refletir sobre o espaço das Tecnologias da Comunicação e 
Informação (TIC), ou, como nomeia José Armando Valente, Tecnologias Digitais 
de Informação e Comunicação (TDIC) na aprendizagem, especialmente nos 
últimos 10 anos. 
Isso porque as TIC ou TDIC alteram profundamente nossa forma de nos 
relacionarmos com o mundo: criar, transmitir, e consumir informações hoje é muito 
diferente de duas décadas atrás, quando muitos dos atuais profissionais do 
mercado ainda eram crianças. 
Veja o crescimento da modalidade a distância nos cursos de graduação, 
por exemplo. Segundo dados do INEP, em 2006, apenas 4% das matrículas em 
cursos de graduação eram para cursos a distância, ou semipresenciais. Dez anos 
depois, em 2016, as matrículas nessa modalidade correspondiam a 19% do total 
de matriculados no Ensino Superior no Brasil. Embora observamos que a procura 
pelo Ensino Superior presencial no Brasil ainda seja bem mais acentuada, a 
modalidade a distância vem crescendo muito, por uma diversidade de motivos. 
Sem dúvida, um dos fatores que corroboram com o crescimento do ensino 
a distância é a ampliação do acesso às TDIC, que facilitam o processo de ensino 
 
 
3 
e aprendizagem nessa abordagem – sempre levando em conta que outras 
tecnologias analógicas, como o serviço de correio, o sinal de rádio AM e, 
posteriormente, a televisão, por exemplo, foram responsáveis pelo surgimento e 
desenvolvimento dos primeiros cursos a distância no Brasil no início do século XX. 
Primeiramente, porém, é necessário compreender o espaço que as TIC 
ocupam na sociedade atual, como um todo, e como chegamos até aqui. 
Nos anos 1980, os primeiros computadores chegavam aos espaços 
educativos no Brasil. Em tempos anteriores aos sistemas operacionais, e na 
sociedade industrial, o objetivo foi fortalecer a aprendizagem profissional dos 
estudantes, em aulas de informática curriculares ou extracurriculares, em que 
novas habilidades seriam requeridas, tais como digitar, salvar arquivos, 
microfilmar, instalar e operar os microcomputadores. Nesse período, uma das 
diretrizes mais importantes da educação no Brasil era formar profissionais 
capazes de atuar nas indústrias; daí a importância da introdução ao ambiente 
computacional. Por esse mesmo motivo, o uso dos computadores nos ambientes 
de educação básica aconteceu primeiro nos chamados anos colegiais, atual 
Ensino Médio, pouco após a adoção dessas tecnologias nos ambientes 
universitários. Somente alguns anos mais tarde, já no início dos anos 1990, as 
políticas públicas para uso das TDIC começaram a apontar na direção do Ensino 
Fundamental. 
Figura 1 – Exemplo de um microcomputador dos anos 1980 
 
Crédito: Oleksandr Lysenko/Shutterstock. 
 
 
4 
Desde então, percebe-se que a adoção das tecnologias digitais vem em 
uma crescente, a ponto de hoje significar um diferencial importante na escolha de 
um curso ou escola. Esse processo, porém, vai muito além da aquisição de 
equipamentos, passando pela própria estrutura física das instituições de ensino, 
e chegando à formação dos profissionais: não basta mais ensinar a utilizar um 
mouse ou como fazer uma impressão. É preciso contextualizar o uso dessas 
ferramentas nos currículos de forma inteligente e favorecendo os múltiplos estilos 
de aprendizagem. Assim, não basta introduzir uma disciplina de robótica 
educativa, com o ensino de técnicas de montagem e programação; é necessário 
que esse trabalho tenha relação com os usos sociais que se pode fazer dessa 
tecnologia. 
Nesse contexto, portanto, não basta um professor de informática. O papel 
do professor é indispensável, mas tem contornos bem diferentes em relação ao 
que se esperava 25 anos atrás. A robótica, os computadores e dispositivos 
móveis, a internet, não estão mais restritos a um espaço especial – o laboratório 
de informática –, mas estão presentes em todas as salas de aula de todas as 
áreas do currículo. 
Além de favorecer a aprendizagem como um todo e desenvolver novas 
habilidades, essa expansão das tecnologias nos ambientes educacionais favorece 
o desenvolvimento de sujeitos mais aptos às relações de trabalho no futuro. 
Embora a educação brasileira tenha deixado para trás a perspectiva tecnicista, é 
preciso perceber que as crianças de hoje terão trabalhos que envolverão mais ou 
menos diretamente usos das tecnologias digitais bastante diferentes daqueles que 
fazemos hoje. Segundo dados divulgados na revista norte-americana Forbes, em 
2017, 65% dos empregos que as crianças de hoje terão em 20 anos ainda não 
existem, a maioria deles relacionada com aspectos que hoje negligenciamos na 
educação dessas crianças. É imperioso reconhecer que a maioria desses 
aspectos são habilidades socioemocionais que podem ser trabalhadas com 
abordagens diferenciadas, dentre as quais as atividades conduzidas pelo viés das 
tecnologias. 
 
 
5 
Figura 2 – O ideal em uma sala de aula atual: o uso das tecnologias protagonizado 
pelos estudantes, de maneira não isolada e não restrita aos meios digitais, e sempre 
acompanhado e orientado pelo professor 
 
Crédito: Monkey Business Images/Shutterstock. 
Um exemplo de abordagem diferenciada para o desenvolvimento de 
competências socioemocionais críticas com o uso de TDIC é a proposta da 
metodologia de robótica Lego para os níveis Fundamental e Médio. Dentro de 
quatro pilares – explorar, criar, compartilhar e testar –, são estimulados o trabalho 
em equipe, o pensamento crítico, a empatia, o ouvir, respeitar e compartilhar 
ideias, a resolução de problemas, a criatividade, entre outros. 
Moacir Gadotti (2009) pontua a necessidade do uso das TDIC para uma 
educação integral, integradora, pela cidadania e para a cidadania. Em sua obra, 
ele afirma: 
Não há desenvolvimento sem inovação tecnológica e não há inovação 
sem pesquisa, sem educação, sem escola. As crianças precisam 
envolver-se desde muito cedo na educação tecnológica, indispensável 
numa sociedade baseada na informação e no uso intensivo da 
tecnologia. (Gadotti, 2009, p. 55) 
A partir daí, percebe-se que a presença das TIC ou TDIC na educação tem 
sido algo cada vez mais perceptível e, é possível dizer, até mesmo desejável, na 
grande maioria dos casos. Sua presença na educação vem transformando 
significativamente a prática educativa, desde a Educação Infantil até o Ensino 
Superior. Por isso, cabe o questionamento: de que tipo de transformação estamos 
falando? Como está sendo feita essa transformação, e por quem? 
 
 
6 
TEMA 2 – FERRAMENTAS DIGITAIS X INOVAÇÃO: É PRECISO TECNOLOGIA 
DE PONTA PARA TER UM AMBIENTE INOVADOR? 
A inovação vem sendo um fator crítico nos ambientes formais de ensino da 
atualidade. Para Moran (2018b), há sete processos fundamentais quecaracterizam uma instituição de ensino inovadora: 
• Ambientes educacionais acolhedores e que incentivam a experimentação; 
• Currículos transdisciplinares (ou sem disciplinas), flexíveis, ou seja, que 
permitam a personalização total ou parcial, e híbridos (superam a dicotomia 
presencial X à distância); 
• Uso de metodologias ativas de aprendizagem; 
• Integração profunda com o meio – a cidade, o mundo –, incentivando não 
apenas o estudo da sociedade, mas a transformação dela; 
• Professores mentores; 
• Avaliação e certificação diferenciados; 
• Uso de tecnologias digitais para ampliação das possibilidades de pesquisa, 
autoria, compartilhamento e publicação. 
É possível perceber que, para Moran, assim como para outros autores, a 
presença das TDIC é fator intrínseco à mudança das metodologias e à inovação 
na educação. 
Gadotti (2009) entende a inovação na educação como uma “mudança no 
sistema de ensino, com o objetivo de produzir melhoria no cumprimento de suas 
finalidades, renovadas, em função de uma concepção emancipadora da 
educação”. Assim, não basta inovar nos processos: é essencial que a educação 
seja emancipadora dos sujeitos, permitindo que estes sejam cada vez mais 
protagonistas da sua própria aprendizagem. 
As tecnologias digitais, notadamente a internet, promoveram uma 
revolução na forma de ler e compreender as informações e o mundo. Todavia, 
ainda é possível encontrar professores, em todos os níveis de ensino, usando as 
novas tecnologias para perpetuar formas de ensinar e aprender que já não 
respondem às necessidades da sociedade, e especificamente dos estudantes. O 
ilustrador francês Jean-Marc Cotê produziu, no final do século XIX, uma série de 
ilustrações que mostravam impressões de como seria a sociedade no século XXI. 
Uma delas é intitulada “At school”, e mostra como o artista imaginava o processo 
 
 
7 
de ensino no futuro. Entre as várias observações que se pode fazer na imagem, 
é possível destacar que a sala de aula é dominada por uma máquina na qual o 
professor introduz aquilo que julga conveniente e por meio da qual os estudantes 
recebem passivamente o conhecimento. Também chama a atenção o número de 
livros que o professor está colocando na máquina, demonstrando a importância 
do acúmulo de saberes. 
Figura 3 – Escola futura: França, cartão de papel –reprodução do início do século 
XX 
Crédito: Jean-Marc Cotê. 
É preciso compreender, portanto, que usar as TDIC para continuar fazendo 
mais do mesmo não é ensinar ou aprender de forma inovadora, mas apenas 
repetir os processos já conhecidos com outras mídias. 
Conforme Moran (2007), há três estágios de incorporação das tecnologias 
nos ambientes educacionais: o uso das tecnologias com o objetivo de facilitar o 
trabalho que o professor já domina, mas sem grandes mudanças na prática 
pedagógica; posteriormente, já mais seguro, o professor passa a fazer uso das 
tecnologias digitais pedagogicamente, mas ainda reproduzindo aquilo que já 
fazia no analógico, e de forma majoritariamente presencial, com atividades 
pontuais à distância, como fóruns, lista de e-mails etc.; e o último estágio 
corresponderia àqueles profissionais que já conseguem conduzir suas aulas 
 
 
8 
com o uso das tecnologias, presencialmente ou à distância, de forma 
instigante e motivadora para os estudantes. Isso geralmente ocorre quando o 
profissional já utiliza as TDIC de forma segura e confortável também em seu 
cotidiano pessoal; confiante, ele consegue visualizar possibilidades pedagógicas 
para aquilo que já faz uso pessoal ou em outras esferas. Ele consegue enxergar 
as TDIC como catalisadoras da aprendizagem em diferentes contextos. 
Assim, não basta disponibilizar novas tecnologias no ambiente 
educacional: é preciso que os professores se apropriem das tecnologias de forma 
plena, a fim de as utilizar em favor de formas inovadoras de ensinar, sob pena de 
dar continuidade a um modelo que não mais responde às demandas educacionais 
atuais. 
É sabido que, muitas vezes, a infraestrutura das instituições está aquém do 
ideal: máquinas em número insatisfatório, velocidade de acesso à internet 
limitante, salas sucateadas. Ainda assim, é primordial perceber que a postura 
inovadora parte do professor, e que, mesmo com baixa tecnologia e recursos 
limitados, é possível adotar uma postura mais ativa e menos conservadora, em 
favor de uma aprendizagem mais criativa, mais efetiva, mais significativa e 
motivadora. Nos próximos capítulos, esse assunto será abordado com maior 
profundidade, especialmente no que toca a aprendizagem por meio da robótica 
educacional. 
TEMA 3 – O PAPEL DO APRENDIZ E DO EDUCADOR 
Durante as décadas de 1970 e 1980, quando os microcomputadores 
começaram a tomar espaço nos ambientes universitários, um dos objetivos 
centrais era aprimorar processos que já existiam, como no caso dos cálculos 
matemáticos complexos utilizados nas engenharias. O computador tomava o lugar 
do caderno, e os estudantes executavam com ele algoritmos que antes 
demandariam maior tempo e esforço, e com o benefício de uma maior precisão. 
Além disso, era preciso treinar os futuros analistas e engenheiros para operar os 
sistemas computacionais. Assim, inicialmente, a era da informática pouco alterou 
a prática pedagógica, que naquele momento precisou sofrer ajustes apenas de 
ordem estrutural e organizacional. O ensino continuou centrado na figura docente, 
com os professores a repassar o conhecimento que acumularam em seus anos 
de estudo e experiência profissional, e os estudantes passivamente recebendo as 
 
 
9 
instruções, demonstrando o que memorizaram e aprenderam numa avaliação 
escrita ou prática, num modelo que Paulo Freire denomina de “educação 
bancária” (Freire, 1996). 
Na transição para a educação básica, não foi diferente. A informática, na 
figura dos computadores, foi vista como algo para “melhorar” o que já vinha sendo 
feito. No entanto, o matemático sul-africano e pesquisador do MIT, Seymour 
Papert, percebeu o quanto as tecnologias digitais poderiam transformar a forma 
de ensinar e aprender. Em seu livro A máquina das crianças, ele propõe as bases 
de uma nova forma de ensinar, a que ele chama de Construcionismo. Na 
perspectiva construcionista, o computador não é mais uma forma de aprender, e 
sim um artefato que muda completamente a relação de ensino e aprendizagem, 
sendo um instrumento que permite o protagonismo das crianças em projetos 
orientados por um professor que, longe de ter uma postura de transmissor do 
conhecimento, é um mediador das situações de aprendizagem (Papert, 1994). 
Para a perspectiva construcionista, que é muito comumente adotada nas 
aulas de tecnologias, o professor tem o papel de propor aos estudantes a 
observação e a reflexão acerca do seu entorno, instigando-os a questionarem e 
problematizarem as situações vividas ou observadas dentro de projetos bem 
delineados. Além disso, o professor tem papel fundamental em orientar o trabalho, 
indicando fontes de consulta, bem como as tecnologias que podem auxiliar os 
estudantes em seu percurso de aprendizagem, que será único para cada um, 
individualmente, e também na perspectiva do conjunto – mesmo que os resultados 
sejam muito próximos, o percurso e as aprendizagens de cada turma são 
particulares. 
Para trabalhar nessa perspectiva, é preciso que o profissional tenha em 
mente que ele não será mais visto como aquele que domina todas as informações 
e conhecimentos em sala de aula, haja vista, inclusive, o contexto social em que 
estamos imersos, numa sociedade em que o acesso a informação não é mais tão 
restrito como outrora. A formação básica dos professores, nos cursos de 
graduação, por vezes não é suficiente para abordar esse aspecto tão sensível e 
tão essencial do trabalho docente nos dias atuais. Embora muitos cursos de 
licenciatura tenham sido remodelados nos últimos anos, no sentido de incorporar 
uma oumais disciplinas sobre os usos das TDIC na educação, parece não ser o 
suficiente para instigar uma mudança na postura profissional, já que continua 
sendo comum o modelo de ensino a que chamamos de “tradicional”, por privilegiar 
 
 
10 
uma prática de mais de 150 anos: o professor como preletor, os alunos passivos, 
que visam entregar a seu “mestre” aquilo que espera deles. Claro que, muitas 
vezes, a própria instituição limita a transformação da atuação docente, seja por 
ter uma diretriz mais conservadora, seja por não ter recursos financeiros 
suficientes para adequação de sua estrutura. Por isso, não há uma solução única, 
mas todas passam, necessariamente, pela formação docente, que deve atuar 
como mediador da aprendizagem, e não mais como sujeito principal dela. 
O professor que vivencia a sociedade da informação, e está imerso na 
cultura digital, ou cibercultura, como Pierre Levy aponta (Levy, 1999), 
necessariamente utiliza as TDIC em seu cotidiano profissional, em maior ou 
menor medida, segundo uma série de fatores, dentre os quais podemos dizer que 
o fundamental seria a adaptação e a identidade com os meios digitais: o que não 
é vivenciado no âmbito pessoal tem pouca ou nenhuma relevância na prática 
profissional. Em outras palavras, só é possível que o profissional utilize de forma 
inovadora os recursos digitais se ele o faz também fora do seu ambiente de 
trabalho. Aqui, no entanto, não há uma relação de causalidade: a incorporação 
das TDIC de maneira inovadora na sala de aula atrelada a metodologias mais 
ativas pode se dar antes ou após a sua incorporação fora da sala de aula. 
Sobretudo, aquele profissional que tem uma visão conservadora a respeito da 
dinâmica de ensinar e aprender, não terá condições de ter uma prática pedagógica 
diferente disso. 
Quanto à postura do estudante perante as tecnologias, também se 
observam muitas mudanças em relação ao modelo conservador ou tradicional. 
Isso porque as pessoas estão conectadas o tempo todo, notadamente por meio 
dos dispositivos móveis. Essa conexão em tempo integral, no entanto, pode ser 
bem ou mal utilizada nos ambientes educacionais. Não raro, o uso das tecnologias 
é feito sem um direcionamento pedagógico, motivo pelo qual muitas instituições, 
de todos os níveis de ensino, acabam proibindo seu uso durante as aulas. Nesse 
sentido, o uso da internet acaba sendo mais uma forma de procrastinar do que 
uma forma de produzir. Como mudar isso? 
 
 
11 
Figura 4 – Pessoas conectadas praticamente todo o tempo: como lidar com essa 
realidade nos ambientes de educação formal? 
 
Crédito: DisobeyArt/Shutterstock. 
Parece claro que as instituições têm sua parcela de responsabilidade, 
diante da necessidade urgente de se adequarem tanto fisicamente, ao 
reorganizarem seus espaços e estruturas, quanto pedagogicamente, 
contemplando em seus projetos político-pedagógicos a tecnologia como parte 
indissociável do processo de aprendizagem na era da informação. Num ambiente 
de trabalho que fomente o uso das TDIC como parte essencial do trabalho 
pedagógico, os docentes vão se apropriando gradativamente das novas 
tecnologias, o que não pode se dar sem adequada formação profissional 
continuada, a qual deve, por sua vez, transcender a perspectiva instrumentalista, 
abordando não apenas as ferramentas, mas também as contextualizando em 
relação ao currículo. Uma vez presentes no cotidiano das aulas, dentro de uma 
concepção diversa da tradicional transmissão de saberes do professor para o 
aluno, os estudantes precisam se adequar, adotando uma postura mais ativa 
diante das atividades propostas, utilizando os dispositivos e a rede de forma 
eficiente, segura e objetiva. Portanto, o uso pedagógico dos recursos digitais em 
ambientes educativos inovadores, ou não tradicionais, demanda que todas as 
instâncias envolvidas – instituições, professores e alunos, assumam seus papéis 
ativamente, numa perspectiva em que a aprendizagem do estudante é uma 
responsabilidade compartilhada por todos os atores desse processo. 
 
 
12 
TEMA 4 – CURADOR INFORMACIONAL 
Conforme já discutido anteriormente, o papel do docente precisa se 
modificar, assumindo uma postura de mediador da aprendizagem do estudante, 
este o sujeito central da ação educativa nesse modelo. 
Numa aula ou instituição não tradicional, em que o estudante é o ator 
principal do processo de ensino e aprendizagem, as ações iniciais podem ser 
propostas ou direcionadas pelo professor, mas é o estudante quem indica a 
direção na qual aquele projeto vai apontar. Os recursos digitais estarão presentes 
em todo o processo, seja no momento da apresentação, na elaboração de um 
eventual produto final, no desenvolvimento da pesquisa ou nos resultados 
parciais. 
No entanto, o que de fato caracteriza essa postura de mediador da 
aprendizagem? 
Para Moran (2004), “o professor, em qualquer curso presencial, precisa 
hoje aprender a gerenciar vários espaços e a integrá-los de forma aberta, 
equilibrada e inovadora”. Nessa mesma obra, o autor assevera que, para educar 
com qualidade, o professor precisa atuar em pelo menos quatro diferentes 
espaços educativos: a sala de aula conectada, o laboratório de informática, os 
ambientes virtuais de aprendizagem e os ambientes experimentais ou 
profissionais, no caso de cursos profissionalizantes. Para o autor, a sala de aula 
deve ser espaço de encontro, troca de ideias entre professores e alunos, e 
orientação do projeto. É nesse espaço que o professor teria a oportunidade de 
perceber nuances da aprendizagem de cada estudante que não poderia capturar 
a distância, além de fazer orientações específicas quanto à área do conhecimento 
que domina e tem mais experiência. 
Embora já não seja mais o ideal, a realidade da maioria das escolas e 
instituições de ensino superior envolve a existência de um espaço específico 
chamado de laboratório de informática, no qual devem acontecer atividades 
direcionadas, orientação quanto a fontes de pesquisa ou novas ferramentas, entre 
outras atividades que seriam impossíveis, ou mais difíceis, de serem realizadas à 
distância. Claro que a autonomia dos estudantes influencia diretamente no uso 
que se faz desse tipo de espaço: em geral, alunos mais jovens precisam de 
orientações mais diretas e específicas, por exemplo, na apropriação de uma nova 
ferramenta digital; ou de um direcionamento mais fechado em algumas atividades, 
 
 
13 
no que esse tipo de espaço pode facilitar. A ida ao laboratório de informática pode 
servir para subsidiar, também, as atividades a distância, servindo como um 
espaço para apresentar e explorar as ferramentas que serão utilizadas nesse 
trabalho. 
O ambiente virtual, por sua vez, pode ser uma plataforma formal e 
institucionalizada, como acontece na maioria das vezes nas instituições de ensino 
superior ou em cursos profissionalizantes, mas também ser constituído sobre uma 
base aberta, como as “salas de aula Google”, amplamente utilizadas por serem 
um serviço gratuito, ou outros mecanismos e redes sociais que possam servir e 
apoio para a criação de um ambiente virtual de troca entre professores e 
estudantes. 
 Por último, o autor enfatiza a necessidade de vivenciar a realidade do 
cotidiano do projeto sobre o qual os estudantes trabalharam, destacando a 
necessidade de o professor mediar as relações entre a teoria e a vivência prática 
dos conhecimentos. 
As TDIC se tornaram sinônimo de informação fácil e rápida. Se em tempos 
anteriores a informação era escassa e estava dispersa em diferentes veículos de 
comunicação, em diferentes línguas, hoje a informação é abundante e nos chega 
por meio da internet: jornais eletrônicos e sites de notícias, redes sociais, páginas 
pessoais de opinião etc. É nesse contexto que se coloca a proposta de Moran. 
Nele, a escola deixa de ser o local em que se obtêm o conhecimento 
historicamente acumulado, e passa a ser o localem que se aprende a diferenciar 
o conhecimento do senso comum; a identificar as características de uma fonte 
confiável; passa, assim, a ser um local em que o senso crítico deve ser o pilar 
central de todas as ações. 
Por isso, pode-se dizer que o professor hoje atua muito mais no sentido de 
ser um curador informacional. O curador pesquisa, se atualiza, compara, emite 
suas opiniões e indica, ou não, páginas, portais de conteúdos, aplicativos, e outras 
informações relevantes. Ajuda o estudante a identificar as características e 
tendências de uma determinada fonte de informação, auxiliando-o no 
posicionamento em relação a ela. 
Sob esse olhar, o professor de Biologia, por exemplo, poderá indicar aos 
estudantes bons vídeos e textos sobre os benefícios e malefícios da vacinação 
em crianças; apontar aplicativos e páginas já testados e avaliados por ele, com 
simulações em 3D do corpo humano, para que os estudantes possam 
 
 
14 
compreender melhor um projeto sobre saúde; orientar sobre ferramentas que eles 
possam utilizar para organizar as ideias que encontrarem num trabalho em 
equipe, ou para a apresentação dos resultados; e uma série de outras funções. 
Importante destacar que o professor curador de informações pode e deve 
ter formação em uma área do conhecimento específica. O que muda não é a sua 
formação docente básica, mas a forma como ele conduzirá os estudantes para 
que cheguem até o seu objetivo, cujo percurso é cada vez mais guiado pelo 
próprio estudante. 
TEMA 5 – ALFABETIZAÇÃO DIGITAL E LETRAMENTO DIGITAL: ESTUDANTE 
COMO PRODUTOR DE INFORMAÇÃO RELEVANTE 
Ainda muito se fala sobre inclusão e alfabetização digital, que são termos 
que guardam bastante proximidade, mas são diferentes entre si. 
Entende-se que a inclusão digital é fornecer oportunidade de uso e acesso 
àqueles sujeitos que não dispõem de meios digitais como computador, 
smartphone, internet. O processo de inclusão é o início do acesso às TDIC, e 
inevitavelmente conflui para o processo de alfabetização digital. Nesse contexto, 
a alfabetização digital pode ser resumidamente definida como o processo de 
escrita que envolve signos e gestos requeridos para ler e escrever nos meios 
digitais (Frade, 2018). 
Em Machado (2016), a alfabetização digital é definida como o uso das “TIC 
de forma plena, efetiva e crítica, indo além daquilo que se aprende intuitivamente”. 
Para a autora, o uso autoinstrucional dos recursos básicos de um dispositivo 
eletrônico caracterizam ações de um sujeito que se pode considerar como 
“alfabetizado digitalmente”. 
Já o letramento digital pode ser definido como a capacidade de interpretar 
situações que envolvem a leitura de informações no meio digital e comunicá-las 
adequadamente, bem como se expressar por meios digitais. 
Podemos ilustrar a diferença entre esses três processos em uma situação 
progressiva: ao ser “incluído digitalmente”, um sujeito tem acesso ao computador 
e à internet, mas não tem conhecimento de todos os seus potenciais nem domínio 
suficiente para fazer uso relevante dessas mídias, um uso que contribua com a 
sua formação pessoal, profissional ou acadêmica. Se, posteriormente, esse 
sujeito aprende que existe a possibilidade de se comunicar por meio de correio 
 
 
15 
eletrônico, e consegue criá-lo para si, embora não dominando muitas de suas 
ferramentas, podemos dizer que essa seria uma ação de alfabetização digital; 
contudo, se com base em estudos e/ou suas experiências, o sujeito percebe que 
existem diferentes plataformas de e-mails, que funcionam de formas diferentes, 
consegue utilizar essas diferentes plataformas com facilidade, e aprende a fazer 
uso adequado dessa ferramenta, pessoal e profissionalmente, podemos dizer que 
esse sujeito já experimentou um processo de letramento digital. 
Hoje, portanto, não se fala mais em letramento, mas sim em letramentos, 
ou ainda, multiletramentos. 
Rojo e Moura (2012) deixam claro que existem dois tipos de 
multiletramentos: o multiletramento cultural, que se refere à diversidade das 
populações, principalmente em centros urbanos, e multiletramento semiótico, 
que diz respeito à multiplicidade de mídias e tecnologias. Para a autora, os 
multiletramentos são colaborativos, não obedecem às relações de poder vigentes, 
e podem ser considerados híbridos, por se originarem de hábitos, mídias e 
culturas de origens diversas. 
A perspectiva do multiletramento proposta por Rojo e Moura supõe que os 
estudantes se informam e produzem informações não apenas textualmente. Para 
a autora, as diferentes mídias e tecnologias colocam formas dinâmicas e não 
estáticas de consumir e produzir informação à disposição dos estudantes. Os 
estudantes produzem pelo meio linguístico, mas também integram a esta imagem, 
som, vídeo, consumindo e produzindo hipertextos, que Pierre Levy (1999) define 
como uma estrutura textual constituída por “nós”, que seriam, por exemplo, 
imagens, sons ou vídeos, os quais são ligados entre si (possuem links), sendo 
essas ligações indicadas por meio de recursos visuais, com botões, setas, 
ponteiros ou outros, os quais ligam um “nó” a outro. 
Na posição de sujeito protagonista de sua própria aprendizagem, o 
estudante precisa estar apropriado, devidamente letrado em relação aos meios 
digitais de consumo e produção de informação, sendo capaz de manipular com 
facilidade todas as ferramentas necessárias para a sua aprendizagem. Nesse 
aspecto, o professor, além de curador informacional, atua mais adiante ainda de 
sua área de domínio do currículo, utilizando este a seu favor para incluir, 
alfabetizar e letrar os estudantes não apenas cientificamente, mas também, e ao 
mesmo tempo, digitalmente. 
 
 
16 
Figura 6 – Trabalho em equipe, juntamente com o uso das TDIC, pode ser um 
grande aliado no desenvolvimento de competências socioemocionais 
 
Fonte: Syda Productions/Shutterstock. 
O estudante protagonista de sua aprendizagem se apropria das novas 
tecnologias, faz uso crítico destas e enxerga nelas o potencial para alcançar seus 
objetivos de estudos, sendo capaz de produzir vídeos, podcasts, boletins ou 
jornais eletrônicos, animações, aplicativos, sistemas, entre outros, que 
proponham soluções para os problemas apresentados em sala de aula. 
O letramento digital pressupõe o uso social e crítico das mídias digitais na 
produção, com a consciência de que não há neutralidade nesse processo. Ao 
produzir conteúdo para as disciplinas do currículo, sob a orientação atenta do 
professor, o uso das TDIC deve acontecer de forma integrada e integradora, com 
senso crítico e estético, ética, responsabilidade, em favor da construção de uma 
educação cidadã e do desenvolvimento do estudante de forma integral, 
abrangendo o desenvolvimento de habilidades cognitivas, mas também o 
desenvolvimento de habilidades socioemocionais, por exemplo, a capacidade de 
trabalhar em equipe, a percepção e resolução de problemas, tomada de decisões, 
e a criatividade, que são características cada vez mais exigidas pelo mundo do 
trabalho e pela sociedade como um todo. 
 
 
 
17 
Questões (as respostas estão ao final do documento) 
1. Como Moran compreende a apropriação das TDIC no contexto educacional? 
2. Qual a diferença entre inclusão, alfabetização e letramento digital? 
3. Cite três características das escolas inovadoras segundo Moran e dê exemplos 
dessas características que podem ser observadas nas práticas cotidianas. 
4. As TDIC foram vistas na educação, durante algum tempo, como uma 
ferramenta capaz de facilitar o trabalho de professores e alunos, reproduzindo 
comportamentos já estabelecidos na dinâmica professor-alunos. Dê um 
exemplo histórico que demonstre essa afirmação. 
5. Qual a relação entre TDIC e inovação na educação? 
 
 
 
18 
REFERÊNCIAS 
ARTHUR, R. This Wearable Helps Kids Learn Tech Skills Through Active Play. 
Disponível em: <www.forbes.com/sites/rachelarthur/2016/05/11/this-wearable-helps-kids-learn-creative-tech-skills-through-active-play/amp/>. Acesso em: 26 abr. 2023. 
FRADE, I. C. A. da S. Alfabetização digital. In: UFMG – UNIVERSIDADE 
FEDERAL DE MINAS GERAIS. Faculdade de Educação. Glossário Ceale. 
Disponível em: 
<https://www.ceale.fae.ufmg.br/glossarioceale/verbetes/alfabetizacao-digital>. 
Acesso em: 26 abr. 2023. 
FREIRE, P. Pedagogia do oprimido. São Paulo: Paz e Terra, 1996. 
GADOTTI, M. Educação integral no Brasil: inovações em processo. São Paulo: 
Editora e Livraria Instituto Paulo Freire, 2009. 
LEVY, P. Cibercultura. São Paulo: Editora 34, 1999. 
MACHADO, A. A. Alfabetização digital. Curitiba: São Braz, 2016. 
MORAN, J. M. A educação que desejamos: novos desafios e como chegar lá. 
Campinas: Papirus, 2007. 
_____. Como transformar nossas escolas: novas formas de ensinar a alunos 
sempre conectados. Disponível em <http://www2.eca.usp.br/moran/wp-
content/uploads/2017/08/transformar_escolas.pdf>. Acesso em: 26 abr. 2023. 
_____. Os novos espaços de atuação do professor com as tecnologias. Revista 
Diálogo Educacional, Curitiba, v. 4, n. 12, p. 13-21, maio/ago. 2004. 
_____. Principais diferenciais das escolas mais inovadoras. 
<http://www2.eca.usp.br/moran/wp-content/uploads/2013/12/diferenciais.pdf>. 
Acesso em: 26 abr. 2023. 
PAPERT, S. A máquina das crianças. Porto Alegre: Artes Médicas, 1994. 
PORVIR. Especial socioemocionais. Saiba o que são e como desenvolver 
competências socioemocionais a partir de experiências e recomendações voltadas 
a preparar os alunos para enfrentar os desafios do século 21. Disponível em: 
<http://porvir.org/especiais/socioemocionais/>. Acesso em: 26 abr. 2023. 
 
 
19 
ROJO, R.; MOURA, E. Multiletramentos na escola. São Paulo: Parábola Editoral, 
2012. 
RESPOSTAS 
1. São três estágios de apropriação: utilizar as tecnologias para facilitar o trabalho; 
utilizar as tecnologias em práticas com inovações pontuais; utilizar as 
tecnologias de forma de quebrar as barreiras espaço-temporais na educação, 
promovendo a inovação. 
2. Inclusão digital é o processo inicial de apreensão dos conhecimentos 
relacionados às TDIC. Alfabetização diz respeito à fase inicial de apropriação, 
quando o domínio técnico e uso social são restritos a ações limitadas. 
Letramento digital acontece quando há domínio dos meios digitais para 
comunicação e expressão de pensamentos e emoções. 
3. Ambientes educacionais acolhedores e que incentivam a experimentação; 
currículos transdisciplinares (ou sem disciplinas), flexíveis, ou seja, que 
permitam a personalização total ou parcial, e híbridos (superam a dicotomia 
presencial X à distância); uso de metodologias ativas de aprendizagem; 
integração profunda com o meio – a cidade, o mundo, incentivando não apenas 
o estudo da sociedade, mas a transformação dela; professores mentores; 
avaliação e certificação diferenciados; uso de tecnologias digitais para 
ampliação das possibilidades de pesquisa, autoria, compartilhamento e 
publicação; exemplos pessoais. 
4. Exemplos pessoais. Projetores multimídia sendo usadas como quadros, para 
que os alunos lessem e copiassem, a exemplo do que faziam no quadro negro. 
5. As TDIC favorecem a inovação pelas suas características, mas não as 
promovem sozinhas. Elas facilitam alguns processos, como a comunicação a 
distância e atemporal, embora a inovação deva partir dos atores do processo 
educacional – professores e estudantes.

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