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116 Elinor Goldschmied e Sonia Jackson
pelo ambiente, parecem dizer: “O que posso fazer com isto?” (Hutt, 1979).
Então, outros horizontes emocionantes abrir-se-ão para eles, se lhes oferecer-
mos as ferramentas de que precisam.
A concentração de um bebê nos conteúdos de um Cesto de Tesouros é
algo que assombra os observadores que a notam pela primeira vez. A atenção
concentrada dos bebês pode durar até uma hora ou mais. Há dois fatores por
trás disso, e é difícil dizer qual vem primeiro; na verdade, eles operam em
conjunto. Há a vívida curiosidade da criança, que a variedade de objetos elicita,
e sua vontade de praticar sua crescente habilidade de tomar posse, por sua
própria vontade, daquilo que é novo, atraente e próximo. Junto a isso se en-
contra a confiança que oferece a presença atenta, mas não ativa, do adulto.
O fato de que o adulto não é ativo não significa que simplesmente colo-
camos o Cesto ao lado do bebê e deixamos que ele brinque sozinho. Ele preci-
sa da segurança que a nossa presença interessada dá, quando ele encarar o
desafio que os objetos, que ele pode estar manipulando pela primeira vez,
apresentam.
Nós, como adultos, temos dois tipos de sentimento quando passamos por
uma experiência nova. Uma situação nova e estranha nos deixa curiosos e
animados, mas também nos traz dúvidas e ansiedade. Antes de tomarmos
uma iniciativa nova ou seguirmos uma oportunidade para mudança, busca-
mos informações e segurança por meio de outras pessoas que achamos que já
conhecem o caminho. Algumas delas parecem ter, por temperamento, uma
disposição maior para empreender algo que possa acarretar riscos; outras são
mais cautelosas. Mas, se temos um amigo em quem confiamos para nos enco-
rajar, pegamos um pouco da sua confiança e descobrimos que pular na piscina
ou subir um morro pedregoso não é tão assustador assim.
Não é uma questão de ter de estimular os bebês a manipular o material
para o brincar – desde que tenham essa chance, eles o farão. Mas no desco-
nhecido sempre há algo ameaçador, e é a atitude de calmo interesse do adulto
que acalma a ansiedade do bebê, e assim libera sua energia para desfrutar do
brincar de maneira concentrada.
PRIMEIROS PASSOS NA TOMADA DE DECISÕES
Ao observarmos um bebê explorar os itens de um Cesto de Tesouros, é
fascinante ver o prazer e o interesse com que ele escolhe os objetos que o
atraem, a precisão que ele mostra ao levá-los à boca ou passá-los de uma mão
à outra e a qualidade de sua concentração ao tomar contato com o material
para o brincar. Notamos sua observação concentrada, sua habilidade para
escolher e voltar a um item preferido que a atrai, às vezes compartilhando seu
prazer com o adulto responsivo. Ele não tem dúvidas acerca da sua capacidade
de selecionar e experimentar. A noção de que duas coisas são semelhantes
parece estar presente em sua mente enquanto ele continua a manipular, com-
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parar e descartar itens, ao mesmo tempo em que seu aprendizado ativo pros-
segue desenvolvendo-se rapidamente.
Todos conhecemos pessoas que, quando confrontadas com uma ampla
variedade de estilos e modelos em uma loja de sapatos, são bastante incapa-
zes de decidir o que querem. Talvez não seja tão presunçoso afirmar que, se
essas pessoas tivessem iniciado com uma experiência do Cesto de Tesouros,
essa experiência teria sido bem mais vantajosa para elas mais tarde em suas
vidas (ver Figuras 6.1 e 6.2). A habilidade para escolher de modo inteligente,
em relação tanto a coisas simples, como alimentos ou roupas quanto a coisas
complexas, como amizades e empregos, é algo que as crianças precisam de
oportunidades adequadas para praticar desde muito cedo – adequadas na ma-
neira com que as escolhas se relacionam com o estágio em que elas se encon-
tram e com a quantidade de informações que elas possuem nesse momento.
Assim que o Cesto de Tesouros tenha sido montado, ele oferece oportunidades
infinitas para o processo de tomada de decisões da criança, exigindo poucos
esforços da cuidadora, mas ela deve especialmente assegurar-se de que os
itens no Cesto de Tesouros estão limpos e que ele seja regularmente suprido
com novos objetos.
A importância dessa última questão talvez precise ser enfatizada. Ao con-
trário dos brinquedos comprados, que permanecem iguais até que sejam que-
brados ou que a criança esteja muito crescida para gostar deles, um Cesto de
Tesouros deve estar sempre em mutação e em desenvolvimento. Talvez o pa-
ralelo mais próximo para isso seja o quadro de avisos das funcionárias na
creche. Se ele é utilizado ativamente para passar informações, com a adição
FIGURA 6.1 O que é isto?
Foto: Wendy Clark
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frequente de novos itens e a eliminação de avisos já antigos, somos inclinados
a observá-lo animadamente toda manhã, esperando encontrar algo novo ou
interessante. Se a tarefa de manter o quadro em ordem não é responsabilidade
de ninguém, e os avisos atualizados ficam perdidos no meio de um monte de
avisos antigos, e a cada dia vemos nele as mesmas coisas, logo perdemos o
interesse, por fim, paramos totalmente de olhar para ele. É provável que um
bebê que encontra sempre os mesmos velhos objetos no seu Cesto de Tesouros
sinta algo muito semelhante.
Os bebês, como os adultos, precisam de posições confortáveis para traba-
lhar. Aqueles que ainda não ficam muito firmes ao sentar podem cair e preci-
sar de ajuda para levantar-se. Eles precisarão de uma almofada atrás deles, se
ainda tiverem a tendência de cair para trás. A melhor posição consiste em
fazer com que cada bebê fique sentado em um ângulo tal em relação ao Cesto
que ele possa deixar um cotovelo apoiado em sua beirada, e ao estender sua
mão possa alcançar com facilidade seus objetos – e por essa razão não mais do
que três bebês devem ser acomodados ao mesmo tempo junto a um Cesto.
O PAPEL DO ADULTO
Talvez uma das coisas que o adulto possa achar difícil, em um primeiro
momento, é não intervir, e sim permanecer calmo e atento. Se pensarmos por
um momento em como nos sentimos quando nos concentramos em alguma
FIGURA 6.2 O que mais posso achar?
Foto: Wendy Clark
Educação de 0 a 3 anos 119
atividade prazerosa e que nos exige bastante, veremos que não queremos ou
precisamos de alguém que fique sempre dando sugestões e conselhos e elo-
giando nosso trabalho; só queremos continuar a trabalhar, embora possamos
ficar contentes de ter essa companhia amigável ao nosso lado. Nesse sentido,
os bebês não são muito diferentes dos adultos.
Algumas vezes os adultos, em especial as cuidadoras, sentem que, a me-
nos que tenham um comportamento ativo junto do Cesto de Tesouros, ofere-
cendo objetos ao bebê, ajudando-o a segurar na extremidade “correta” de um
objeto e assim por diante, elas não têm papel algum a desempenhar, deixando
assim de perceber a importância da ancoragem emocional que oferecem,
criando pela sua presença a confiança que faz com que os bebês brinquem e
aprendam.
Quando um bebê está em casa, ou com uma mãe-crecheira, e brinca com
seu Cesto, não há necessidade do adulto devotar todo seu tempo e atenção à
criança, desde que ele não se afaste muito e possa trocar olhares e palavras
que mantenham o contato entre os dois. Um centro de cuidado em grupo é
muito diferente, e quando dois, ou no máximo três bebês estão sentados ao
redor de um Cesto, eles precisam de supervisão próxima de um adulto. Os
bebês também precisam ser protegidos de crianças que já são capazes de se
mover, que aparecem para investigar a situação. Caso as crianças mais velhas
apareçam continuamente, querendo juntar-se aos bebês e usar o Cesto de
Tesouros, isso significa que não há materiais para o brincar que os interessem
nas outras partes da sala, e deve-se tomar providências para remediar isso. O
direito dos bebês de não serem perturbados, bem como o valor educacional
do seu brincar, precisa ser reconhecido apropriadamente.
É necessário, ainda, levar em conta os possíveis perigos que um bebê
sentado junto a um Cesto de Tesouros podecorrer quando há crianças que já
conseguem mover-se ao redor. Uma criança mais velha tem força para erguer
objetos que são muito pesados para um bebê, e em suas mãos uma pedra
pesada, ou uma colher de metal, que são completamente seguras para um
bebê brincar, podem produzir sérios danos em um instante. Isso não é razão
para privar o bebê das experiências interessantes que tais objetos podem ofe-
recer, mas enfatiza a importância da supervisão próxima, quando crianças de
idades diferentes ficam na mesma sala.
O BRINCAR INTERATIVO ENTRE BEBÊS
O Cesto de Tesouros oferece uma oportunidade para observar a interação
social entre bebês em uma idade na qual se costumava dizer que eles não
teriam interesse uns pelos outros. Observando dois ou três bebês sentados
junto ao Cesto de Tesouros, podemos ver de imediato que isso não é verdadei-
ro, como o vídeo Infants at Work (Goldschmied, 1987) demonstra claramen-
te. Os bebês, apesar de se concentrarem em manipular os objetos que escolhe-
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ram, não somente estão cientes da presença do outro, como também estão
envolvidos em trocas interativas na maior parte do tempo. A disponibilidade
dos objetos é o que estimula essas trocas, que às vezes se tornam pequenas
lutas pela posse. Essas trocas interativas com outros bebês são diferentes da-
quelas que eles têm com os adultos, e devem ser realmente um choque quan-
do nos deparamos com elas pela primeira vez. Nesses momentos, o que atrai
a energia do bebê são o outro bebê e o objeto que tem interesse para os dois,
dentro do contexto da presença do adulto atento.
As mães às vezes acham isso difícil de aceitar; para elas, significa o
comecinho da separação, o passo em direção à posterior independência que é
uma parte central do desenvolvimento do bebê. A opinião de que os bebês não
estão interessados uns nos outros talvez seja originária da nossa própria difi-
culdade de reconhecer que, mesmo nessa tenra idade, os bebês podem criar
para si, por curtos períodos, um pequeno ambiente social uns com os outros,
no qual nós, como adultos, temos um papel apenas marginal.
Entretanto, as trocas de olhares intensos, sorrisos, sons pré-verbais de
grande variedade, o tocar uns aos outros e o compartilhamento de objetos
provêm diretamente das experiências que os bebês têm com seus adultos mais
próximos. Os bebês criados em instituições, que tiveram múltiplas cuidadoras,
ou aqueles cujos lares não ofereceram cuidado suficientes e estímulos com
amor, não respondem dessa maneira. Os bebês “abandonados e ilegítimos”,
com os quais Elinor Goldschmied trabalhou na Itália do pós-guerra, não intera-
giam uns com outros de nenhuma forma, apesar de ficarem todo o tempo em
que permaneciam acordados, deitados ou sentados juntos uns com os outros
em um cercadinho. Eles permaneciam calados, sem sorrir, sem fazer barulhos,
somente se balançando para confortar a si mesmos, imersos em profundo iso-
lamento. Esses bebês, bem-cuidados do ponto de vista físico, não tinham rela-
ções pessoais ou estímulos por meio do brincar. Seu contato com suas mães
havia sido de tão curta duração que, tendo recebido tão pouco, também não
podiam dar. Eles não tiveram nenhuma oportunidade de aprender os inícios
do comportamento social.
MOVENDO-SE PARA O PRÓXIMO ESTÁGIO
Os bebês apresentam grandes diferenças na velocidade com que conse-
guem fazer movimentos independentes, e aos 8 ou 9 meses alguns já estarão
fazendo as primeiras tentativas de engatinhar e começando a se mover pelo
ambiente, ao passo que outros ainda estarão no estágio em que rolam e se
contorcem pelo chão. A mobilidade abre o caminho para todo tipo de ativida-
de exploratória, e é nesse estágio que a atividade de transferir coisas de den-
tro para fora (e vice-versa) de recipientes torna-se uma ocupação que absorve
sua atenção. Esse interesse aparece cedo em alguns bebês, e uma lata de bom
tamanho, colocada ao lado de um bebê sentado junto a um Cesto de Tesouros,

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