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Sumário Capa Folha de rosto PREFÁCIO INTRODUÇÃO 1. O PANO DE FUNDO DE UM DILEMA 2. A RESPOSTA DA IGREJA 3. A TAREFA DO ARTISTA CRISTÃO 4. DIRETRIZES AOS ARTISTAS Créditos clbr://internal.invalid/book/OEBPS/Text/cover.xhtml Os textos das referências bíblicas foram extraídos da versão Almeida Revista e Atualizada, 2. ed., da Sociedade Bíblica do Brasil. PREFÁCIO O PROFESSOR ROOKMAAKER estava trabalhando neste livro no momento de sua morte, em 13 de março de 1977. Sua inten ção de escrever um suplemento jamais se tornou realidade. O material foi reorganizado e revisado, mas é essencialmente o que o autor redigiu. Em nossa tentativa de sermos fiéis às suas intenções, fomos grandemente auxiliados por seu colega da Universidade Livre de Amsterdã, Graham Birtwistle. A Arte Não Precisa de Justificativa não é uma obra técnica nem é direcionada exclusivamente aos artistas. É uma leitura para todos os cristãos que desejam usar os talentos que rece beram de Deus para a glória daquele que os presenteou. Não se trata de uma pesquisa da cena artística, nem de uma análise detalhada das origens dos problemas enfrentados pela civiliza ção. É uma chamada profética aos artistas, artesãos e músicos cristãos para que pranteiem, orem, pensem e trabalhem antes que seja tarde demais. OS EDITORES INTRODUÇÃO Os ARTISTAs em nossa sociedade estão em uma posição muito particular. Por um lado, são bastante considerados, sendo vistos como sumos sacerdotes da cultura, conhecedores dos segredos internos da realidade. Por outro, são vistos como pessoas completamente supérfluas. Respeitados, sim. Porém, muitos estão prontos a permitir que morram de fome. Quere mos que os artistas sejam sérios e criem coisas profundas com um valor quase eterno, coisas sobre as quais as pessoas ligadas àquela cultura possam conversar séculos mais tarde. Porém, se eles quiserem alcançar sucesso, são forçados a aderir aos gostos do momento, a ser comerciais e a fazer papel de palhaço em vez de sábio. Claro que esse não é um problema novo. Tem sido assim deste o século 18, quando o antigo conceito do artista como artesão começou a ser trocado por um conceito que o considerava tanto um gênio talentoso quanto um segregado social e econômico. Os artistas cristãos também têm de lidar com essas com‐ plicadas tensões. Contudo, seus problemas frequentemente são maiores porque é difícil para qualquer cristão viver em um mundo pós-cristão. Espera-se que os artistas trabalhem a partir de suas convicções, mas isso pode ser visto por seus contemporâneos ateus como ultraconservador ou totalmente ultrapassado. Além disso, eles geralmente não contam com o apoio de sua própria comunidade, igreja e família, que os consideram radicais ou desocupados imprestáveis. Eles são acusados de estarem no caminho errado desde o princípio. Assim, os artistas cristãos frequentemente trabalham debaixo de forte pressão. Por outro lado, precisamos muito de uma arte que seja saudável e boa, e que as pessoas entendam. Se os cristãos fize rem esse tipo de trabalho, talvez não alcancem grande fama, mas muitos amarão suas obras. E muitos conseguirão ganhar a vida assim. Portanto, não há razão para autopiedade. Há uma contribuição a ser feita em uma época que é, de maneira geral, explicitamente anticristã. A Arte Não Precisa de Justificativa é dedicado aos artistas cristãos que tive a honra de conhecer e cujo trabalho considero importante em vários aspectos. É resultado de uma palestra realizada em 1975 no Festival de Artes na Inglaterra, ao qual compareceram algumas centenas de jovens artistas que se professavam cristãos ou que eram, pelo menos, interessados na questão. Agradeço a Nigel Goodwin e sua equipe — que organizaram essa e outras conferências similares — pelo convite, uma das muitas demonstrações de amizade baseadas em fé e interesse comuns. Deve ficar claro que falo primeiramente ao pintor e ao escultor, criadores das artes visuais. Assim o faço pelo fato de meu conhecimento estar primariamente nesse campo. Con tudo, a situação e os problemas são similares aos enfrentados por muitos artistas, músicos, compositores, atores, escritores, dançarinos, comediantes e outros. 1. O PANO DE FUNDO DE UM DILEMA O PAPEL DOS ARTISTAS nem sempre foi o que é hoje. Em muitas culturas, incluindo a nossa, antes do novo período que começou entre 1500 e 1800, os artistas eram princi‐ palmente artesãos. Fazer arte significava fazer as coisas de acordo com certas regras — as regras da classe dos artesãos. Os artistas eram exímios trabalhadores que sabiam como entalhar uma imagem, pintar uma Madona, construir um baú, fazer um portão de ferro fundido, produzir um cande labro de bronze, tecer uma peça de tapeçaria, trabalhar em ouro ou prata, fazer uma sela de couro e assim por diante. Eles eram membros de associações de classes assim como outros trabalhadores habilidosos. Alguns eram mestres e investiam suas comissões na loja. Outros eram ajudantes, aprendizes e servos. O ateliê era, na verdade, uma oficina com divisões sutis de trabalho, liderado por alguém que hoje chamaríamos de artista e cujo nome talvez ainda saibamos. Entretanto, mesmo que os artistas não tivessem a honra que costumamos conceder-lhes hoje em dia (havia exceções, como os artistas que eram honrados por seus mecenas), eles realmente fizeram coisas lindas que, mesmo após muitos séculos, ainda apreciamos. Além disso, frequentemente contribuímos para a restauração de suas obras, visando passá-las para a geração seguinte. Não existe um único folheto turístico de uma cidade ou país que não exiba com orgulho os monumentos duradouros do passado. Seja lá o que esses artistas ganharam produzindo tais tesouros — igrejas, estátuas, monumentos em túmulos, pinturas em paredes, relicários, candelabros, pinturas, livros ilustrados, casas, vitrais e muito mais — atualmente seus valores econômicos para o turismo são bem mais elevados. Por que será que ainda vale a pena apreciar essas obras? Obviamente, algumas dessas peças são verdadeiras obras de arte — mas não todas. A maioria delas tem uma realidade, uma solidez, um valor humano, que testifica grande habilidade artística. Os artistas trabalhavam alinhados a uma forte tradição que envolvia modelos e esque mas, conhecimento de técnicas, ferramentas e o manuseio delas; eles eram e se sentiam herdeiros das realizações de seus predecessores. Não se buscava originalidade, mas um trabalho sério e de boa qualidade. A beleza não era um simples aditivo, mas o resultado natural dos materiais e técnicas adequados manuseados com destreza. Suas obras não exigiam debate e interpretação de especialistas, mesmo que às vezes elas fossem discutidas, elogiadas ou criticadas. O grande São Bernardo de Claraval, líder da ordem cisterciense no século 12, fez objeção às estranhas criaturas, monstros e animais fantásticos encontrados nos capitéis dos claustros; contudo, mesmo os condenando, ele percebeu e criticou sua impropriedade, não sua beleza ou a habilidade do artista que os produzira. Essa arte foi a expressão de um valor comum, muito mais profundo do que afluência e status, e que estava inserido em um entendimento básico sobre a vida. Porém, dentro da tradi ção, da rígida estrutura de habilidades, regras e padrões, havia liberdade. Se alguém fosse solicitado a reproduzir certa obra, não teria de agir como um robô; haveria espaço para mostrar sua técnica e suas qualidades. Valorizava-se a qualidade em vez da originalidade e da novidade; ainda assim, os artistas poderiam ser eles mesmos. Somente dessa maneira podemos compreender a imensa quantidade de obras vistas ainda hoje por toda a Europa. Mesmo sem a intenção de romantizar a época em que se trabalhava duro e o pagamento era frequentemente limitado, os antigos monumentos testificam que a obra de arte não era simplesmente algo complementar. Ao contrário, a arte era parte integral do desenho de um prédio. Aquilo que chamamos de arte era a beleza natural esperada das coisas feitas humanamente. E não havia distinção claraentre a arte da pintura e escultura e aquilo que hoje chamamos de artes manuais. Habilidade, qualidade e adequação eram diretrizes. ARTE COM “A” MAIÚSCULO O papel dos artistas, assim como o das artes, começou a mudar em alguns países europeus durante o Renascimento. No Iluminismo (século 18, a Idade da Razão), o movimento ganhou força e avançou. A arte tornou-se “belas artes” e as artes manuais foram postas de lado, como algo inferior. O artista tornou-se um gênio, alguém com dons especiais, que poderiam ser usados para dar a humanidade algo de uma importância quase religiosa — a obra de arte. De certa forma, a arte tomou o lugar da religião. Descartes, em sua filoso fia, disse que somente as coisas que podia compreender de forma racional, clara e distinta eram reais e importantes. O filósofo Baumgarten, partindo da mesma base iluminista da metade do século 18, escreveu Estética. O livro aborda coisas que não são claras e distintas, que precedem o co nhecimento e baseiam-se em sentimentos. Coisas estéticas — obras de arte. Dessa forma, ele fragmentou o mundo ocidental em duas culturas: as ciências e as artes — o que é uma realidade presente até hoje. Muito já foi escrito sobre a arte no século 18, especialmente na Inglaterra. Escreveu-se sobre bom gosto, beleza e o que vem a ser sublime, e sobre os princípios da arte. Aqui vemos o início da história da arte moderna. Muito disso estava atrelado ao mundo do connoisseur, a pessoa de bom gosto e conhecimento, cole cionadora de obras de arte. A arte tornou-se desconectada das funções normais da vida e a beleza passou a ser vista como uma qualidade abstrata, com sentido próprio e sem relação com o que era retratado. A partir de Kant — e em seus passos, Schelling e Hegel — a arte passou a ser vista como a solução final para as con‐ tradições internas dos sistemas filosóficos elaborados para formar um entendimento integrado da realidade. A humanidade é livre e, ainda assim, presa a um universo mecanicista; a arte pode revelar a unidade interna e contornar as tensões racionais. Talvez por essa razão a música tornou-se a maior das artes. Ele nos domina emocionalmente e, ainda assim, não pode ser facilmente analisada. Seu conteúdo vai além daquilo que podemos verbalizar. Antes disso, não se fazia obra de arte. Altares, retratos, paisagens, pinturas ou esculturas eram desenhadas para preencher uma função específica, que podia ser decorar ou metaforizar valores grandiosos, personagens sacros, a virgem e os santos. As obras de arte vieram a ser consideradas inde pendentemente do contexto e alguém na metade do século 19 poderia escrever que a natureza morta de uma lagosta de Chardin era tão importante quanto uma Madona de Rafael. O tema em questão foi lentamente se tornando cada vez mais secundário, culminando em nosso século com o aparecimento da arte não-figurativa. A fotografia pode ter contribuído, mas as tendências já estavam presentes antes de sua invenção. A arte no século 19 expressou novas abordagens da realidade. Ela mostrava que as antigas normas e valores haviam ficado para trás, que os conceitos cristãos haviam deixado de atrair a mente das pessoas. Há algo mais a pensar. Apesar de o século 18 não ser abertamente anticristão, havia uma profunda busca por um mundo descristianizado. A religião não era problema, desde que ela fosse de ordem puramente particular e não interfe‐ risse nas coisas importantes deste mundo, como a ciência, a filosofia, a erudição e as belas artes. Assim, desenvolveu- se o princípio da neutralidade: no trabalho erudito, deveríamos deixar para trás as coisas irrelevantes e totalmente subjetivas, tais como nossas convicções religiosas. Precisávamos buscar aquilo que fosse objetivo, que fosse verdade independente mente da nossa fé. Basicamente, os termos subjetivo e objetivo são definidos por tendências de pensamento cartesianas, que foram as forças propulsoras da Idade da Razão. Tais termos só fazem sentido em uma estrutura de pensamento que parte do princípio de que o homem é um ser autônomo e racional, que se relaciona com, e é confrontado por, uma natureza objetiva, regida por leis matemáticas que têm seu próprio tipo de autonomia. É um sistema fechado, ao qual Deus ou qualquer outro tipo de força não-humana ou não-natural perde o acesso — um mundo onde o princípio da uniformidade reina e nenhuma força além daquelas conhecidas no mundo atual (as que podemos ver, medir, controlar e compreender) jamais operou ou operará. Isso influenciou não somente a visão dos artistas, mas também a dos historiadores. Hoje, se estudarmos os grandes artistas e seus feitos, não conseguiremos identificar qual era a força propulsora de sua vida, no que eles criam, o que defendiam. Essas coisas, vistas como subjetivas, são deixadas de fora. Temos a impressão de que esses grandes nomes do passado eram capazes de produzir suas obras de arte a partir de sua própria genialidade e ideias, e que a religião tinha pouco a ver com isso. Precisamos nos atentar para esse fato para não cairmos nessa perversão inerente, pois ela é fundamentalmente uma inverdade. Os estudiosos modernos, os historiadores, os historiadores da arte e os filósofos (assim como os artistas), fazem muito mais do que apenas seguir as tendências. Eles operam a partir de uma perspectiva básica da vida e da realidade. Essa perspectiva geralmente se configura como uma religião irreligiosa. A CRISE NAS ARTES A partir daí, surgiu uma crise nas artes. Embora a arte fosse tida como um tipo de religião, uma revelação, uma solução mística para as buscas mais profundas da humanidade, os artistas frequentemente permaneciam famintos e segregados. Se não se rendessem ao mau gosto e passassem a expressar conteúdos sentimentalistas e baratos, eles eram abandonados. A arte, a forma elevada dela, foi retirada da realidade diária e posta em seu próprio templo, o museu, onde o catálogo é uma espécie de guia da liturgia. Tal atitude tem dificultado a vida de muitos artistas e estu dantes de arte. Por que e pelo que estão trabalhando? Para muitos, a arte tornou-se uma busca individualista de sua própria identidade, revelada em seu trabalho e por meio dele. São como alguém que se olha no espelho — tudo é uma expressão do eu; o resto, torna-se irreal. A arte deve ser uma expressão do que há de mais profundo em nós. Mas e se en contrarmos pouco? Diz-se que os artistas são geniais. O problema é que, como os gênios não são ensináveis, concluímos que sua delicada sub jetividade não deve ser perturbada por pessoas que lhes dizem haver algo a aprender. Assim, os jovens artistas se entregam a uma busca e a uma expressão solitárias. Alguns chegam ao desespero — até que se lembram que é a própria arte que trará libertação. Os pobres trabalhos desses tristes artistas geralmente desmoronam sob pressão e se desintegram. Basicamente, os artistas são impelidos a descrever uma religião sobre a qual podemos falar, mas na qual jamais somos solicitados a crer. A menos que ele seja forte e talentoso, ou tomado por uma poderosa força motriz, será difícil alcançar sucesso no mundo da arte. Ela tornou-se arte pela arte, um tipo de religião irreligiosa em que a religião não possui um papel claramente definido. Significa que a arte é algo tão raro e especial que as pessoas precisam de cursos de apreciação artística e palestras para conseguir compreendê-la. De fato, alguns se sentem como se estivessem olhando para as roupas novas do imperador. Como resultado, vemos pessoas em todos os lugares buscan do o sentido da arte. A quantidade de livros publicados sobre artes não prova que as pessoas sabem o que ela significa. Pelo contrário — essa busca pelo sentido da arte é um sinal de crise. E na maioria das vezes essa busca termina em contradições. A arte precisa ter uma mensagem, mas não deve ser didática; precisa enriquecer a vida, mas apenas em relação aos ricos e detentores de uma educação especializada. De certa forma, a arte realmente boa, famosa e refinada está muito aquém das pessoas, e as artes“populares” estão abaixo do nível de aceitabilidade. Claro que as diferenças de qualidade e tipo sempre existiram, mas a contundente divisão de hoje é um fenômeno novo. Isso acontece quando a arte é posta em um patamar muito alto. Chega-se ao nível da arte dos museus e dos gê‐ nios e rompem-se os laços com a realidade cotidiana. A arte tem sofrido com isso. A arte superior tem eximido todas as exigências práticas, tais como decoração, entretenimento ou qualquer outra função que exige envolvimento com a vida real. Não obstante, esse tipo de arte inevitavelmente atrai quase todos que possuem algum talento. Nas faculdades de arte há muitas pessoas estudando pintura ou escultura como uma vocação livre. Elas se tornarão os artistas livres do amanhã e a maioria não será capaz de se sustentar com seu trabalho. Inevitavelmente, a arte inferior também tem sofrido. Ela se tornou arte popular e às vezes é chamada de arte comercial. Arte a serviço de Mamon. Como todas as pessoas genuinamen te talentosas tendem a rejeitar essa área, sua qualidade acaba por se deteriorar e muitas vezes o que é produzido é destituído de imaginação e qualidade. Como esse é geralmente o tipo de arte oferecida ao consumo, todas as pessoas, conscientemente ou não, acabam sofrendo — o que salienta a feiura do mundo em que vivemos. É bom analisarmos os livros e nos perguntarmos o que estamos fazendo e até que ponto chegamos. Um amigo disse-me há algum tempo: “Quando você publicou seu livro sobre a morte de uma cultura, achei você pessimista demais. Mas hoje, ao observar o campo das artes superiores, inferiores ou medianas, acho que você está certo”. Sempre há exceções, como nas artes gráficas e no desenho industrial, ainda que não encontremos muitas novidades ou descobertas animadoras nessas áreas. Contudo, se há melhorias, elas certamente resultam do trabalho de muitas pessoas conscientes. Desde o século passado ouvimos lamen tos sobre a baixa qualidade das artes que foram produzidas particularmente no campo das artes manuais — o desenho estético de objetos para utilização diária. Posso citar os no mes de Ruskin, Morris e seu movimento de Artes Manuais e muitos outros.1 Sem mencionar Bauhaus, que influenciou – design de forma geral. Contudo, olhando para todos esses esforços, não podemos dizer que os objetivos propostos há mais de um século foram alcançados. A conclusão de que a arte do design precisa de renovação e fortalecimento pode ser tendenciosa. Talvez devêssemos ter discutido mais sobre a pretensiosidade da arte superior. Porém, os envolvidos certamente estavam preocupados também com – bem da sociedade, não apenas com a estética e a qualidade artística. UMA CRISE EM NOSSA CULTURA A maior parte dos ativistas, críticos e artistas que tentaram renovar as artes e dar ao nosso mundo uma face mais bela ar gumentaram de uma ou de outra forma que não era suficiente enfrentar os problemas da arte. Eles compreendiam, de forma mais ou menos clara, que a crise nas artes era a expressão de uma crise mais profunda, de natureza espiritual e que afeta todos os aspectos da sociedade, incluindo a economia, a tecno logia e a moralidade. A qualidade da nossa vida é maculada e palavras como alienação, desespero e solidão — desumanização, em suma — são todas relevantes e têm sido frequentemente usadas. Não analisaremos todas elas. Certamente, os problemas estão relacionados ao fato de que desde a Idade da Razão nossa cultura tem visto o relacionamento da humanidade com a natureza apenas como forma de dominar a realidade e utilizá-la em nosso favor. Porém, conforme a irônica análise de C. S. Lewis em Abolição do Homem, dominar a natureza e ser capaz de usar suas forças é privilégio para poucos. Portanto, os poucos se tornam capazes de exercer poder sobre muitos. O resultado é a manipulação e a perda do verdadeiro poder para viver a vida que o indivíduo deseja. Esforços contrários são feitos por toda parte a fim de mudar as coisas ou tentar vencer os males do sistema. Os marxistas se destacam nesse sentido. Muitos os ouvem, já que eles pelo menos apontam os males. A questão é se o remédio deles não é pior do que a doença. Se a alienação significar apenas que nosso relacionamento com as coisas está rompido, se a dominação da natureza ainda for vista como um objetivo, se os valores materiais ainda forem o alvo primário, e se o problema do pecado continuar a ser evitado, então as questões mais sérias permanecerão. Ainda assim, se trabalharmos por uma sociedade melhor e pela resolução da crise nas artes, as mudanças virão. É im portante pensar bem nesses problemas. Não devemos esperar que as soluções batam à nossa porta. Será preciso tempo. Mas todos nós precisamos agir, inclusive os artistas. 1. Veja PEVSNER, Nikolaus. Pioneiros do desenho moderno. São Paulo: Martins Fontes, 1994. ↩ 2. A RESPOSTA DA IGREJA ONDE ESTAVAM OS CRISTÃOS quando o mundo começou a mudar, no século 18? Quando a orientação interna do mundo enveredou pelos trilhos humanistas, em que os homens são os mestres e o prazer (por meio do dinheiro) e o poder são os valores máximos? E não existiam poucos cristãos. Alguns chegaram até mesmo a considerar tal período como de grande avivamento. O cristianismo convencional se tornou um tipo de pietis- mo no qual a ideia de aliança — conforme pregada nos livros de Moisés e por toda Escritura — foi abandonada. O Antigo Testamento foi, em geral, negligenciado, e o significado da vida cristã foi rebaixado apenas à vida devocional. De forma branda, extensas áreas da realidade humana, como a filosofia, a ciência, as artes, a economia e a política, foram entregues ao “mundo”, já que os cristãos se concentravam principalmente em atividades piedosas. Se o sistema do mundo era secularizado, destituído de verdadeira espiritualidade, o comportamento dos cristãos tam bém deixou a desejar. E por causa do desinteresse para com o mundo criado, tal comportamento não era fundamentado na realidade. Parecia, às vezes, uma espiritualidade fantasmagóri ca, sem corpo. De fato, os cristãos têm sido ativos. Porém, de forma otimista, eles com frequência acreditam que é suficiente pregar o evangelho e fazer caridades. Ao concentrarem-se em salvar almas, eles se esquecem que Deus é o Deus da vida e que a Bíblia ensina como as pessoas devem viver e como devem lidar com o mundo, a criação de Deus. O resultado é que, apesar de muitas pessoas terem se tornado cristãs, o mundo se tornou totalmente secularizado — um lugar em que a influência cristã é praticamente nula. O impulso de nossa sociedade é determinado pelo mundo e por seus valores (ou a falta deles). AS CONSEQUÊNCIAS DO RETROCESSO Se dissermos que trabalhar como artista não é uma atividade suficientemente espiritual e que a arte não tem lugar na vida cristã, estaremos abertos a profundos conflitos e contradições. Conheço uma escola de teologia que organizou um curso sobre cristianismo e cultura. A primeira questão era: “O que o cristianismo tem a ver com a cultura?”. Como eles não conseguiram responder, surgiu a seguinte pergunta: “Por que este curso existe?”. Entretanto, o que acontecerá quando esses estudantes saí rem do seminário, começarem a trabalhar com evangelismo, por exemplo, e iniciarem uma campanha em algum lugar? Talvez eles arranjem uma grande tenda e um ótimo pregador. Mas e a música que será tocada antes de o pregador falar? Ou não haverá música? E se houver, de que tipo será? Ou isso não deve ser considerado? Ou será que não importa? Música também é comunicação. E se essa comunicação contradisser o discurso do pregador? O mesmo se aplica aos panfletos distribuídos e aos car‐ tazes confeccionados. Eles devem ser bem desenhados e de bom gosto, pois geralmente são o primeiro contato que as pessoas de fora têm com os cristãos e, de certa forma, são nossa face e aparência externas. Assim como as pessoas mostram quem são por meio de suas roupas e movimentos, essas coisas (música, cartazes ou, em uma palavra, arte) são os elementos que formam nossa primeira — e muitasvezes, definitiva — comunicação. Se formos responsáveis pela construção de uma igreja, será que ela deverá ter uma aparência totalmente des‐ pojada? São Bernardo de Claraval queria que as igrejas monásticas fossem despojadas e simples; porém, sua ar‐ quitetura era linda. Até hoje as pessoas vão aos mosteiros apreciá-las. Contudo, se não chegarmos a esse extremo e buscarmos uma decoração apropriada (um vitral, por exemplo), será que não precisaremos encontrar um bom artista? E quem vai tocar órgão? E o que o organista tocará? Com muita frequência criamos barreiras à comunicação do evangelho porque pregamos que nos importamos com as pessoas e que este mundo é de Deus, mas não agimos por esses princípios. Nossa falta de cuidado demonstra que na realidade não nos interessamos pelas pessoas ou pela criação de Deus. Em contraste, a partir da Idade Média até a Reforma, por volta de 1800, quando o pietismo espiritualista começou a expulsar da igreja a beleza (como se alguém pudesse ter be leza interior sem seus sinais externos), pode até ter havido simplicidade; contudo, sempre houve beleza nas coisas que os cristãos produziam. E não era um processo artificialmente imposto; era apenas a maneira natural de fazer as coisas; a arte ainda não havia se tornado Arte. De fato, as coisas produzi das naquela época eram tão belas que as pessoas até hoje as apreciam. As pinturas de Rembrandt (de “Cristo na Estrada para Emaús” à natureza morta), as belas igrejas, o crucifixo, a música de Bach (tanto as cantatas de igreja quanto os “Con certos de Brandenburgo”), os poemas de John Donne, “O Messias” e a “Música Aquática”, de Handel. São tantas obras que testificam em nossa era secularizada que o cristianismo um dia significou algo que é impossível contabilizá-las. E essas obras ainda comunicam sua mensagem. Mesmo sem se dar conta, essas pessoas — os patronos, os artistas e os cristãos daquela época — erigiram sinais de que o Senhor havia feito grandes coisas no mundo. Hoje em dia, essas geralmente são as únicas testemunhas da mentalidade cristã em nossa vida pública. Por essa razão é bom que os cristãos trabalhem como historiadores de arte e funcionários de museus, mantendo vivo o entendimento dessas obras antigas, que apontam para a eterna Palavra de Deus. Não discutiremos todas as facetas da fé cristã. Contudo, precisamos perceber a segunda consequência: ainda há uma atitude negativa nos círculos cristãos em relação à cultura (em sentido restrito) e às artes. Cristo não veio apenas para nos tornar cristãos ou salvar nossa alma; ele veio também para nos redimir, de forma que pudéssemos ser humanos no sentido mais amplo da palavra. Ser novas pessoas significa que podemos usar nossa capacidade humana de forma plena e livre em todas as facetas de nossa vida. Portanto, ser cristão significa que temos humanidade — a liberdade de trabalhar na criação de Deus e usar os talentos que ele deu a cada um de nós para sua glória e para o bene fício do próximo. Assim, se tivermos talentos artísticos, eles devem ser usados. E o Senhor sabe por que ele nos concede tais talentos. Pau lo, em sua Primeira Carta aos Coríntios (12.12-27), fala sobre a comunidade cristã como corpo de Cristo. Cada pessoa tem uma função específica no corpo e ninguém pode ser deixado de fora. Certamente há quem toque música, desenhe retratos, fotografe e escreva histórias. Esses são os artistas. Eles possuem um lugar de direito na fa mília de Deus. Assim, a vida do corpo de Cristo e, certamente, um renovo, um avivamento, é impossível sem esses membros chamados por Deus a fazerem seu trabalho. Como o corpo se move, trabalha, pensa e fala não ape nas para si mesmo, mas porque é chamado por Deus para ser o sal da terra, os artistas não são apenas servos de uma subcultura cristã — eles são também chamados a trabalhar para o benefício de todos. Claro que às vezes pode ser ine‐ vitável que trabalhemos para a subcultura ou que sejamos uma subcultura. Às vezes temos de nos retirar se o mundo nos pedir para fazer coisas negativas e destrutivas. Porém, se formos rejeitados, não por sermos tolos ou teimosos, ou por estarmos tentando forçar as pessoas a aderirem aos nossos modos e costumes, mas por não querermos comprometer nossos princípios bíblicos, podemos esperar confiantemente que o Senhor nos ajude. Lembre-se que Cristo disse aos seus discípulos que, se por sua causa abandonássemos coisas que valorizamos e que estão no centro de nossa vida, ele mesmo ainda nesta vida nos devolveria de outra forma o que foi per dido. Ele cuidará de nós (Mc 10.28-31). Não devemos deixar os seus caminhos. Nós somos livres e não apenas livres, mas também chamados a trabalhar para o bem das pessoas a nossa volta. UM CHAMADO À REFORMA Se como cristãos nos sentimos tão à vontade neste mundo, precisamos nos perguntar se não temos sido influenciados por seus padrões. Talvez nossa fé esteja restrita a um pequeno espaço de nossa vida, em que a piedade e a literatura devocional ainda têm lugar. Mas e o nosso estilo de vida, a música que ouvimos e os valores que endossamos na prática? Eles são diferentes dos valores da sociedade? Não é de se admirar que o curto sermão semanal que ouvimos em nossas confortáveis cadeiras se torne distante e impraticável, religioso no sentido mais raso, uma questão de sentimentos e não de realidade diária. Cantamos que Jesus é a resposta, mas para quê? Estou convencido de que apenas uma verdadeira reforma pode gerar um renovo em nossa cultura. Uma reforma não apenas do cristianismo — mesmo que certamente tenha de começar por ele —, mas também de nosso mundo ocidental. Não creio na solução marxista ou na solução tecnológica. Os cristãos precisam acordar. Essa sensação de impotência ou futilidade precisa ser substituída por um novo ímpeto ao trabalho. Em suma, os próprios cristãos precisam perceber que a única palavra profética para hoje é voltar ao Senhor e buscar nele as soluções. Ouçamos novamente a sua Palavra. Os profetas do Antigo Testamento falaram a um mundo que conhecia a Palavra do Senhor e havia se desviado e passado a viver o que atualmente chamaríamos de uma vida secularizada. Ignoraram de forma jubilosa muitas das mazelas de sua época. Os profetas não falavam de uma doce e salvadora graça sem relação com o afastamento dos males de seus dias e o retorno aos seus mandamentos. Ler os profetas não é fácil. Suas pa lavras são alarmantemente apropriadas para o nosso tempo. Claro que nada pode ser feito se o Senhor não for adiante de nós. Não podemos criar um novo espírito ou transformar julgamento e maldição em bênçãos. É o Senhor que tem de se mover. Nossa oração é como a dos irmãos do passado, que compuseram e cantaram canções como o Salmo 10: “Por que te conservas ao longe, Senhor? Por que te escondes em tempos de angústia?”. Somos admoestados em Sofonias 2.3, em uma situação muito parecida com a atual: “Buscai ao Senhor, vós todos os mansos da terra, que tendes posto por obra o seu juízo; buscai a justiça, buscai a mansidão”. Apesar de não haver promessa alguma de que o cristia‐ nismo voltará a ser reconhecido como influente em nossa sociedade, nossa tarefa é não nos esquivarmos de nossas responsabilidades. Somos chamados a ser o sal da terra, a trabalhar contra a corrupção. Somos admoestados a ser humildes e a nem sonhar em fazer a obra de Deus com nossa própria força. Simultaneamente, somos ordenados a ser justos, a cumprir nossa tarefa, a caminhar nos caminhos de Deus. Isso significa se interessar por essa realidade, que é sua criação. Se realmente amarmos ao Senhor e, portanto, quisermos que seu nome seja santificado e que venha o seu reino, temos uma tarefa diante de nós. Todos, cada um em seu próprio lugar, devem começar por esse princípio. Os artistas não ficam de fora. De fato, eles têm um importante papel a desempenhar. PRANTEIEM, OREM, PENSEM E TRABALHEM O princípio ao qual me refiro pode ser resumido na seguinte fórmula: prantear, orar, pensar e trabalhar. Foi isso que o pro feta quis dizer em sua época, quandoescreveu: “Eu, porém, confiarei no Senhor” (Mq 7.7-11). Pranteie pela situação atual. Veja o quanto nos desviamos de um fundamento aceitável. Cuide dos muitos que levam vidas que parecem vazias e inúteis. Até o mundo se preocupa com essas coisas. A televisão mostra que o consumismo, a violência, o sexo e o entretenimento e o escapismo fáceis em um mundo totalmente secularizado são as únicas realidades que sobraram. É preciso redescobrir e restaurar o significado de nossas ações e esforços. Precisamos analisar a situação, descobrir o que está errado e identificar o nosso papel nisso tudo. Prantear é perceber que as coisas devem mudar, começar a cuidar das vítimas e orar por perdão. Frequentemente temos sido cúmplices de tudo o que tem acontecido. Será que o Senhor não falará conosco como nos dias de Amós? Estas coisas foram escritas para que aprendamos com elas: “Ai dos que dormem em camas de marfim [...], que garganteiam ao som da lira [...], que bebem vinho em taças, e se ungem com o mais excelente óleo; mas não se afligem por causa da ruína de José!” (Am 6.4-6). A questão é até que ponto a nossa afluência atual pode ser vista como uma bênção e até que ponto é uma bênção transformada em maldição. Será que conseguimos ficar à vontade diante de Deus com todas as nossas comodidades, essas coisas inventadas para tornar nossas vidas fáceis e luxuosas? Prantear também é ver nossa própria fraqueza e nossas limitações. É ver onde o nosso amor, cuidado e esforços têm sido falhos. Isso nos impele à oração. Oramos sabendo que não podemos mudar as coisas por nós mesmos e que precisamos de ajuda. Oramos pedindo sabedoria, força e perseverança para trabalhar em busca de uma solução melhor. A perseverança certamente é o mais difícil. Saber que levará tempo, que nosso trabalho não será suficiente, mas que devemos seguir adiante assim mesmo e que talvez jamais vejamos os resultados. A Reforma de Lutero e Calvino ocorreu no começo do século 16. No restante do século, o que se viu foi uma situ‐ ação de confusão em meio à busca por novos princípios e métodos. Não obstante, a partir de todo o trabalho feito em obediência ao Senhor e ao ouvir novamente a sua Palavra, surgiu outra cultura, que de muitas formas era melhor e mais rica em sua essência. As artes da primeira metade do século 17 foram fruto disso; não eram perfeitas, mas ricas. Como leva tempo para mudar uma sociedade por completo, reorganizar as formas de pensamento, costumes e percepções, as mudanças foram apenas parcialmente percebidas. Porém, as artes foram parte disso tudo. Quando pedimos ao Senhor que nos ajude e ouvimos as suas palavras, precisamos refletir sobre nossa posição, sobre onde e como começar. Estou convencido de que jamais saire mos da crise, dos problemas, a menos que percebamos como temos sido pegos pelo espírito do Iluminismo. Temos crido no poder da razão e relegado qualquer crença em Deus a uma esfera subjetiva e estritamente pessoal. Deus é bom em salvar almas, mas o temos mantido fora de nossas grandes decisões sobre educação, ciência, política etc. Temos de compreender as formas de pensamento da história intelectual ocidental e suas consequências — o mundo reduzido, o relativismo, o neu-tralismo, a neutralidade de valores que são acristãos, quando não são anticristãos. Temos de pensar com profundidade nas soluções propostas, inclusive pelo marxismo, e nos preparar. Pensar não é tarefa somente para grandes filósofos. Nós esta mos todos envolvidos. Precisamos pensar profundamente no que significa o cris‐ tianismo e sua relação com as questões culturais. Por muito tempo, temos tratado a questão com descaso e nos contentado com as palavras das poucas pessoas que lidaram com ela. Na realidade, nosso cristianismo deve ser completamente repen sado. Não há reforma sem renovação teológica ou, melhor ainda, sem um fortalecimento das percepções bíblicas. Somente depois disso é que poderemos entrar em ação e fazer algo com perseverança. E então poderemos começar de novo — e a sequência tem sua própria lógica. Um não pode ser iniciado sem que o outro seja feito. Pranteie, ore, pense e trabalhe. 3. A TAREFA DO ARTISTA CRISTÃO O ARTISTA NÃO PODE esperar (na realidade, ninguém pode) o mundo ser renovado, a crise ser solucionada e os novos prin cípios culturais serem desenvolvidos. Temos de participar da vida agora. De fato, o artista pode até estar em uma posição mais difícil, pois o espírito do anticristianismo, da desumani-zação e do desespero prevalece desde a vanguarda das artes. Porém, talvez ainda reste algo das antigas tradições que possa ser usado como ponto de partida. Contudo, esse algo precisa receber um novo fundamento, para que seja uma realidade viva, não apenas uma tradição. O PAPEL DOS ARTISTAS NA REFORMA Os artistas estão em uma posição crucial. Eles têm de tomar parte nesse movimento que não tem organização ou nome, um movimento que chamo de “reforma”, um retorno ao Senhor em busca da verdade, do caminho e da vida que estão em Cristo Jesus. Os artistas devem ser parte disso. As artes são em princípio muito dedicadas ao protesto contra a tecnocracia e à busca por alternativas. Os artistas são aqueles que criam poemas, canções, imagens, metáforas — formas que podem tanto expressar o que foi obtido por meio da inspiração, da sabedoria e da direção, quanto passar essas coisas aos outros de forma positiva e incisiva. Uma questão recorrente é se existe espaço nas artes para o cristianismo. Precisamos dela? E a resposta é: depende do que você está falando. Se isso significa que um percentual da arte produzida para os museus deve ser cristã, então certamente podemos dizer que há espaço, já que a presença dos cristãos é notável. Porém, primariamente, estamos buscando artistas que trabalhem dentro da sociedade e que, dessa forma, tenham sua participação em tornar a vida vivível, rica no sentido espiritual, profunda e estimulante. E não é algo superficial ou fácil. É preciso fazer sacrifícios, fazer coisas que os outros acham irrelevantes. Economica mente, talvez signifique estar em uma posição de fraqueza e vulnerabilidade. Os artistas não podem cumprir plenamente a sua tarefa sozinhos. Um senso comum de teoria artística — uma diretriz para os artistas que não seja um conjunto legalista de regras — é algo muito necessário. Porém, como há pouca ajuda dos líderes da igreja, os cristãos intelectuais, todo artista tem de resolver essas questões sozinho. Assim, se quisermos dar aos artistas uma parcela na totalidade da vida cristã (pranteando, orando, pensando e trabalhando), se compreendermos que sem eles e sem o seu trabalho uma reforma não se torna apenas improvável, mas também inviável, então temos de pensar sobre essas responsabi‐ lidades. Isso implica pensarmos bem em nossa posição cristã e no que significa o cristianismo em todos os níveis da vida humana. Essa não é apenas uma reforma da igreja. A totalidade de nosso ser está em jogo. Certamente precisamos considerar o evangelismo e o trabalho na igreja. Contudo, pregar o evan gelho e dizer que em Cristo há vida sem ser capaz de mostrar algo da realidade dessa vida é falar ao vento. Logo começa a soar falso. A diferença deve ser visível em todos os campos. Como diz C. S. Lewis de maneira tão bela, já temos livretos e pan‐ fletos cristãos em número suficiente; porém, se quisermos a recristianização da Europa e dos Estados Unidos, isso não acontecerá se as pessoas não conseguirem encontrar um bom livro em certa área do conhecimento e descobrir que ele foi produzido por cristãos. O mundo não se tornou ateu porque os ateus pregaram arduamente, mas porque trabalharam ar duamente. Eles tomaram a liderança em muitas áreas. Eles deram o tom. A arte certamente tem muita influência sobre as pessoas. Pense no papel do rock nos anos 60. Se naquela época houvesse música cristã criativa, estimulante e boa, se houvesse arte visual que fosse verdadeiramente diferente, não estranha, mas boa, o cristianismo teria mais a dizer. Ele teria mais a dizer ao mundo fora doocidente, ao Terceiro Mundo. Com frequência nos damos por satisfeitos cedo demais. Pegamos o que o mundo faz, mudamos as coisas óbvias e pensamos que é suficiente. Às vezes, nossas pinturas são iguais às deles, talvez apenas um pouco menos chocantes ou radicais. Entretanto, ser cristão não é ser conservador ou apá tico. Obviamente, os artistas não podem fazer isso sozinhos. Eles precisam de escritores para os livros, de pensadores que tenham novos pensamentos, de políticos que ofereçam outras soluções e de pregadores e pastores que os ajudem a ver o caminho e trilhá-lo. Somente numa comunidade assim é que podemos avan‐ çar. Contudo, se por qualquer razão os outros falharem ou forem fracos, precisamos seguir adiante e mostrar o que pode ser feito. Talvez o que os artistas façam seja fraco e precário. Porém, não esperemos. Talvez a reforma que bus‐ camos jamais venha se não chorarmos, orarmos, pensarmos e trabalharmos. Tudo o que foi dito é óbvio. Os artistas não necessitam de justificativa. Deus os chamou e lhes deu talentos. Não pode mos prosseguir sem eles. Portanto, vamos ajudá-los em oração e encorajamento, não somente com as palavras, mas com as ações que nos são possíveis. De fato, aquilo que não podemos viver sem, não precisa de justificativa. ARTE EVANGELÍSTICA? Com frequência as pessoas dizem aos artistas: “Não há problema em ser artista, desde que sua arte possa ser usada para evangelizar”. E assim a arte tem se tornado uma ferra menta para o evangelismo. Mas sejamos precisos: não há nada de errado nisso. Precisamos é nos atentar para o fato de que a arte não pode ser usada para mostrar a validade do cristianismo — deve ser o contrário. O cristianismo é verdadeiro; as coisas, ações e esforços humanos só alcançam seu significado a partir de seu relacionamento com Deus. Se Cristo veio para nos tornar humanos, a humanidade e a realidade da arte encontram seu fundamento nele. Então, a arte não deve ser usada para pregação, mesmo que isso seja útil. Existe outra forma pela qual a arte pode ser ou é significativa. Com o intuito de se encaixar aos padrões do evange- lismo, os artistas frequentemente têm comprometido e, como consequência, prostituído sua arte. Contudo, Handel com seu “Messias”, Bach com sua “Paixão de São Mateus”, Rembrandt com sua “Negação de Pedro”, e os arquitetos das igrejas cistercienses não estavam evangelizando ou pro duzindo ferramentas de evangelismo; eles trabalhavam para a glória de Deus. Eles não comprometeram a sua arte. Não estavam produ‐ zindo ferramentas de propaganda religiosa ou publicidade santa. E precisamente por isso suas obras foram tão profundas e importantes. Elas não eram um meio para o fim de ganhar almas; eram significativas em si e um fim em si mesmas. Elas eram para a glória de Deus. A arte com frequência tem-se tornado insincera e inferior em seu esforço de falar às pessoas e comunicar uma mensagem que não lhe compete. Em suma, a arte tem sua própria validade e significado, especialmente no cristianismo. Retornarei a esse tópico mais adiante. Em um sentido profundo, a arte dos cristãos deve ser cristã e mostrar o fruto do Espírito com uma mentalidade e um entusiasmo positivos devido à grandeza da vida que recebemos. Isso não quer dizer que os sujeitos tenham de ser cristãos em um sentido superficial. Os “Concertos de Brandenburgo”, de Bach, não são menos cristãos que sua “Paixão”, nem a “Noiva Judia”, de Rembrandt, que seus temas bíblicos. Na realidade, pedir ao artista que se torne um evangelista reflete a total confusão sobre o significado da arte e, consequentemente, de outras ativi dades humanas. Somos cristãos quer durmamos, comamos ou trabalhemos; qualquer coisa que fizermos, faremos como filhos de Deus. Nosso cristianismo não serve apenas para os momentos piedosos ou atos religiosos. E o propósito da vida não é o evangelismo; é a busca do reino de Deus. Para utilizar uma metáfora, a arte não deve ser comparada à pregação. Mesmo a melhor obra de arte ainda seria uma pregação ruim. Ela pode ser comparada ao ensino, mas o professor frequentemente tem de falar sobre matemática, geografia, história, botânica e, às vezes, mesmo que rara mente, sobre religião. A melhor comparação talvez seja com um encanamento. Embora ele seja algo totalmente indispensável em nossas casas, raramente nos damos conta de sua existência. Similarmente, a arte tem uma função importante em nossa vida, ao criar a atmosfera na qual vivemos, ao nos dar as palavras para falar e ao nos oferecer a estrutura (uma paisagem, por exemplo) na qual podemos absorver as coisas sem sequer notarmos. A arte raramente é uma propaganda, mas tem sido muito influente em moldar as formas de pen samento de nossos tempos, os valores que temos. Por isso, a mentalidade transmitida pela arte é importante. Talvez sua maior influência esteja no aspecto que mais se parece com o encanamento e que não percebemos. Não devemos dizer que há algo por trás de nossas ações. Os grandes conflitos, o amor e o ódio, a sabedoria e a tolice, – conhecimento e a percepção, assim como a falta de visão e o falso idealismo, não estão por trás da ação, mas dentro dela. Portanto, trabalhar como cristão não é fazer uma arte e adicionar um complemento, o elemento cristão. Uma pintura cristã, no sentido sério e intrínseco do termo, não deve ser apenas uma pintura com um complemento adicional. Também não deve ser santa em um sentido especial. A arte tem sua própria justificativa. Já que a pintura é uma criação humana e, como tal, é a realização da imaginação humana, ela é espiritual; isto é, ela mostra o que significa ser humano. Essas coisas são comu nicadas, pois a arte também é comunicação. Tudo o que é humano testifica do que é humano, pois o que é humano nunca é neutro, vazio. A pintura é carregada de significado. Quanto melhor ela for, mais isso será verdadeiro. Quando entendemos um pouco de arte, sabemos que as técnicas, os materiais, o tamanho — todos esses elementos técnicos — são escolhidos para ajudar a expressar o que se quer. Então, o espiritual e o material estão necessariamente interconecta-dos. Portanto, a afirmação de que no fim das contas uma pintura é apenas uma pintura não tem fundamento. Isso é constantemente dito para enfatizar que nossa espiritualida de pessoal nada tem a ver com a arte — o que implica que – indivíduo nada tem a dizer e que não há humanidade expressa na obra. Assim, lutamos para expressar claramente o que é o elemento cristão na obra do cristão, aquilo que a Bíblia chama de fruto do Espírito (Gl 5.22). O que precisa ser enfatizado é que a arte deve ser humana, real. O elemento cristão nunca vem simplesmente como um anexo. Sem pre me perguntam o que o indivíduo deve fazer se quiser trabalhar como cristão. Tenho a sensação de que essas perguntas pertencem a um contexto legalista, como se – elemento cristão consistisse em seguir algumas regras, frequentemente negativas. Posso fazer isso? E aquilo? Se fosse assim, estaríamos entendendo nossa própria espi‐ ritualidade de forma mecânica demais. Nós não somos humanos dotados de um complemento chamado cristia‐ nismo. Não, nossa humanidade reage ao mundo inteiro e à Palavra de Deus de uma maneira específica em relação à nossa personalidade. Ser um artista cristão significa que o indivíduo é chamado para utilizar seus talentos para a glória de Deus, como ato de amor a ele e serviço amoroso ao próximo. Significa estar na caminhada, preparando-se da melhor maneira possível, apren dendo as técnicas e princípios da profissão, aprendendo com – trabalho dos outros e a partir de seus erros, encontrando direção, experimentando, cumprindo aquilo que se propôs a fazer ou, possivelmente, falhando. Trabalhar assim, de todo nosso coração, mente e espírito, com todos os nossos talentos em potencial, com abertura e liberdade, orando por sabedoria e direcionamento, pensando antes de agir, é aceitar nossa responsabilidade. Claro que a autocrítica é necessária; porém, ser um artista cristão não significa ser perfeito ou produzircoisas sem falhas. Nós, cristãos, às vezes somos tolos e cometemos erros — talvez por causa de nossa pecaminosidade, porque a tarefa é difícil demais, ou porque recebemos conselhos errados; certamen te, porque somos humanos e vivemos em um mundo caído, que está sob uma maldição. Ser cristão não significa ser um gênio. Se você é cristão, não se envergonhe disso. Trabalhe a partir da plenitude de seu ser e dê o melhor que tiver. Você não poderá ser melhor do que é. Vai se envergonhar se for pior, mas cairá em orgulho e insensatez se quiser ser melhor. Isso significa não ter medo e viver a sua liberdade. Não deixe que ela seja arruinada por sua pecaminosidade. O pecado tira a liberdade. Ande no caminho de Cristo, mas com base em suas convicções, a partir de seu entendimento, e em amor e liberdade. Nunca é apenas a aplicação de algumas regras proibitivas. É mais real, mais honesto. Deve ser um compromisso. Devemos trabalhar da melhor maneira que pudermos. Se assim o fizermos, já estaremos participando da transformação das coisas. Ser cristão é ser diferente — mas não totalmente; ninguém pode ser assim. Se fôssemos, seríamos completamente estranhos, falaríamos uma língua estranha e não conseguiría mos nos comunicar. Também é impossível pensar em todas as coisas; conse‐ quentemente, em vários aspectos, seremos fruto da nossa própria era. Inevitavelmente, teremos muito em comum com nossos contemporâneos. Comeremos a mesma comi da, usaremos as mesmas roupas, iremos às mesmas lojas, falaremos o mesmo idioma, leremos os mesmos jornais, receberemos a mesma educação escolar, passaremos pelas mesmas experiências de seca, inflação, altos e baixos, guerra e paz. Não obstante, seremos diferentes. Há coisas que odiaremos e que eles amarão, mesmo sabendo que elas levam à morte, como diz Paulo no final de Romanos 1. Há também coisas que faremos, amaremos, buscaremos e pelas quais trabalharemos porque as consideraremos parte da caminhada. Teremos fome e sede de justiça e buscaremos aquilo que é positivo. Os cristãos são diferentes; eles estão inseridos na estru‐ tura de seu tempo e a complementam. Talvez a estrutura do cristão como um todo seja maior e mais rica por causa disso. Acreditamos nisso e percebemos que as diferenças são importantes. Não fazer o que é o óbvio — ou fazer algo que ninguém faz — é relevante. E jamais agimos sozinhos. Aprendemos com nossos amigos e também lhes ensinamos algumas coisas. Trabalhamos juntos. E nosso grupo, nossos companheiros de estrada, que seguem pelo caminho de Cristo, são parte de um grupo maior que, no fim das contas, faz parte da totalidade de seu povo, a santa igreja de Deus, a comunhão dos santos. E assim, ao criticar, protestar e mostrar o melhor caminho, podemos influenciar as pessoas. E isso pode ser o início de algo que Deus pode usar na reforma; mas aí é com ele. Nossa responsabilidade é ser bons servos e fazer tudo quanto nos vier à mão para fazer. Enquanto estivermos fazendo a nossa parte, não devemos perder as esperanças. Futuramente, talvez só após o último dia, veremos que isso realmente fez diferença. Então aqueles que temiam ao Senhor falaram uns aos outros; e o Senhor atentou e ouviu, e um memorial foi escrito diante dele, para os que temiam ao Senhor, e para os que se lembravam do seu nome. E eles serão meus, diz o Senhor dos exércitos, minha possessão particular naquele dia que prepararei [...]. Então vereis outra vez a diferença entre o justo e o ímpio; entre o que serve a Deus, e o que o não serve. MALAQUIAS 3.16-18 4. DIRETRIZES AOS ARTISTAS COMO FOI DITO, a arte se tornou Arte no século 18 e as consequências foram desastrosas. Ainda assim, é verdade que a arte tem seu próprio lugar. Não podemos justificá-la dizendo que ela preenche esta ou aquela função, apesar das diversas tentativas de fazê-lo. Mesmo que a arte às vezes preencha uma ou outra função, isso não pode ser seu significado mais profundo. Quando os tempos mudam e as antigas funções se tornam obsoletas, colocamos as obras de arte no museu; elas perdem sua função, mas ainda são obras de arte e, portanto, são significativas. O VALOR INTRÍNSECO DA ARTE Pense numa árvore. Ela tem muitas funções: tem beleza, pode lançar sombra, serve para os pássaros construírem ninhos, produz oxigênio, serve como lenha ao morrer e muito mais. Não obstante, o sentido da árvore, sua existência e sua realidade como criatura, não está nessas funções ou na totalidade delas, mas exatamente em ser uma criatura que deve sua existência ao grande Deus Todo- Poderoso, o Criador. A árvore tem o seu próprio sentido dado por Deus. Ela não é menos árvore quando algumas de suas funções, por alguma razão, não são realizadas. Ao contrário, por possuir um signi ficado, ela realiza muitas funções. O mesmo é verdade a respeito dos seres humanos. Somos significativos por quem somos, não pelo que temos. Nosso significado não está nas posses que temos nem em nossas qua lidades ou talentos. Os pregadores com talento para discursar não perderão sua humanidade nem seu significado perante Deus e o próximo caso adoeçam e não possam mais falar. O significado está no que somos, não no que temos. O mesmo é verdade a respeito da arte. Deus deu à huma‐ nidade a habilidade de fazer coisas belas: compor músicas, escrever poemas, produzir esculturas e decorar coisas. As possibilidades artísticas existem para serem percebidas e exe cutadas por nós e para receberem uma forma concreta. Deus deu isso à humanidade e seu sentido está exatamente nessa doação. É algo dado por Deus, que tem de ser feito por meio dele, ou seja, por meio dos talentos que ele dá, em obediência e em amor a ele e às pessoas. É assim que a arte é devolvida como oferta a Deus. Assim, a arte tem seu próprio significado como criação de Deus — ela não precisa de justificativa. Sua justificativa é ser uma possibilidade dada por Deus. Não obstante, ela pode desempenhar muitas funções. Isso é prova da riqueza e da unidade da criação de Deus. Ela pode ser usada para comunicar, para representar valores elevados, para decorar nosso ambiente ou simplesmente para ser algo belo. Ela pode ser utilizada na igreja. Fabricamos uma linda fonte batismal; usamos prataria de boa qualidade em nossos cultos de comu nhão e assim por diante. Contudo, sua utilidade é muito maior que isso — é imensa. Ainda assim, todas essas possibilidades juntas não justificam a arte. A arte tem seu próprio significado. Uma obra de arte pode ser posta em uma galeria e admirada. Escutamos uma música simplesmente por apreciação. Um tipo de apreciação que não é meramente hedonista; vai muito além disso, apesar de, em alguns casos, nos dar grande prazer. Entretanto, há a possibi lidade de um grande número de funções, que resultam desse forte elo da arte com a realidade. É exatamente esse último elemento que tem sido subestimado pelas pessoas que falam da Arte elevada como algo autônomo, para o seu próprio benefício. Já que a arte não precisa de justificativa, ninguém precisa se desculpar por fazer arte. Os artistas não necessitam de justifi cativa, da mesma forma que os açougueiros, os jardineiros, os motoristas de táxi, os policiais ou as enfermeiras não precisam justificar com argumentos sagazes o porquê de estarem fazendo o seu trabalho. E eles certamente não o fazem como forma de conseguir uma oportunidade para pregar ou testemunhar. Encanadores que fazem grandes discursos evangelísticos, mas deixam a tor neira vazando, não estão cumprindo o seu papel. São maus encanadores. Fica claro que eles não amam ao próximo. O significado do trabalho está no amor a Deus e ao próximo. Cada pessoa deve orar de forma pessoal (santificado seja o teu nome. Que venha o teu reino) e trabalhar por isso em sua própria profissão. Quando falamos sobre desempenhar um papel ou cumprir uma função, minimizamos e de certa forma destruímos nosso entendimento a respeito do que Deus nos chama a fazer. Há muito mais além disso. E acontece o mesmo com os artistas. Eles não precisam de justificativa. É claro que,assim como qualquer um, eles precisam de justi ficativa no sentido teológico do termo. Os artistas são seres humanos, pecadores que carecem de justificação por meio da obra completa de Cristo na cruz. Ainda assim, os cristãos agem como novas criaturas, conforme Romanos 6. Sua obra de arte é tão parte de seu ser cristão como qualquer outra atividade mencionada; tão válida quanto as atividades do pregador e do evangelista. Se virmos uma boa obra de arte, não é inapropriado orarmos dizendo: “Obrigado, Senhor”. É um dom de Deus. Talvez estejamos agradecendo a Deus porque ele respondeu à oração do artista, que pediu ajuda e direcionamento. E certamente não haveria arte de boa qualidade se Cristo não tivesse vindo para retirar a maldição do mundo e impedir que ele virasse o próprio inferno. A arte em si é um potencial dado por Deus. Nós, seres humanos, apenas a descobrimos e a utilizamos da melhor ou da pior maneira. Essa verdade também impede que a arte seja transformada em um tipo de religião, o que geralmente ocorre com a arte moderna. Deus não quer que transformemos a arte em um deus, tornando a beleza o nosso objetivo último. Esteticismo significa dar a arte um lugar que ela não merece — e isso pode ser muito destrutivo. Não significa que a arte não pode ter um lugar na adoração religiosa. De fato, a confecção de ídolos é proibida; mas, da mesma forma que somos cuidadosos ao preparar um presente para alguém que amamos ou estimamos (o amor que temos é demonstrado e expresso tanto na escolha quanto na emba lagem), nos esmeramos para fazer nossas canções da melhor maneira possível, para construir os prédios mais belos que conseguirmos. A beleza pode ser algo muito simples. O bom gosto não pode ser comprado com dinheiro, apesar de o di nheiro às vezes ser apropriadamente gasto nele. ARTE E REALIDADE A comunicação e a forma são as duas facetas, as duas qualidades da arte. A comunicação acontece sempre por meio da forma, e a forma sempre comunica valores e signi‐ ficados. Ela pode retratar a realidade fora de nós mesmos, como entendida e vista por nós. Tal realidade pode ser as coisas que vemos, mas também as coisas que experimen‐ tamos — amor, fé, afeto, justiça e todos os seus respectivos antônimos. A realidade existe fora de nós. É um potencial a ser descoberto e percebido. Por exemplo, a América existia antes de qualquer europeu a visitar. Não obstante, ela ainda não existia para as pessoas do mundo europeu. Ela teve de ser descoberta e, quando isso ocorreu, suas possibilida des tiveram de ser percebidas, abertas e disponibilizadas. Hoje, ao olharmos para a mesma América, após tantos séculos, vemos o que os ocidentais fizeram com ela. Eles desbravaram, fizeram pontes, estradas, cidades e parques. Eles perceberam o potencial de dar frutos e ser um lugar habitável. Contudo, houve muita destruição. Assim, vemos que há muitas feridas na realidade dessa terra e de seus habitantes: sejam humanos, animais ou vegetais. Portanto, a América que existe agora é uma realidade percebida, que mostra o que as pessoas fizeram dela. A qualidade disso é que conta. Assim, a realidade não é simplesmente (objetivamente) que está lá. Ela é uma potencialidade. A realidade que conhecemos é sempre uma realidade percebida. Nós a descobrimos, nomeamos e a tornamos acessível. Assim, podemos declarar que sempre vemos o que sabemos ou entendemos com relação ao mundo exterior. A realidade é isto: o potencial do mundo exterior como o conhecemos, da forma que o conhecemos. O interessante é que o pintor pinta o que vê, mas como ele vê o que conhece, podemos dizer também que ele pinta o que conhece. Na pintura, na comunicação visual, podemos ver o que um artista, como membro da raça humana, posicionado em certo ponto da história, conhecia e entendia da realidade. Porém, nossa visão da realidade não é apenas conhecimento, no sen tido de conhecer o que existe. É também criação, já que as pessoas querem ter a sua própria percepção da mesma realidade. A qualidade dessa visão é importante. Ela pode ser edificante, esclarecedora, positiva, bela e boa; ou pode ser negativa, destrutiva, feia e pobre. Geralmente, ela é uma mistura desses dois extremos. A realidade é o presente e também engloba o passado. São as coisas vistas e as coisas não vistas que, ainda assim, são muito reais, como o amor, o ódio, a justiça, a beleza, a bondade e o mal. Assim, ao pintar, os pintores sempre vão escolher o que acham relevante, importante para eles e para nós. Se pintarem o passado, o farão porque julgam que ele é significativo para nós agora. E ao fazê-lo, demonstrarão seu entendimento dele. Se um artista retrata a história do Natal, ele não o faz simplesmente porque ocorreu há muitos anos, mas porque compreende que o Natal ainda é de grande valor e importância para nós. E ele demonstrará seu entendimento a respeito disso. Portanto, ao vermos tanto cartões de Natal banais e sentimentalistas, temos de questionar o que eles representam. Será que esse deve ser o entendimento da história do Natal no tempo presente? Não serão eles ordinários demais, indignos da realidade do Filho de Deus vindo a este mundo? Será essa a qualidade de nosso cristianismo? Se assim for — e penso que é — então surgem muitas questões! A arte não é neutra. Podemos e devemos julgar seu conte údo, seu significado e a qualidade do entendimento acerca da realidade que está incorporada nela. Há ainda uma segunda maneira de abordarmos a qua‐ lidade, a maneira que a obra é feita, o tipo de cores utili‐ zadas, a beleza das linhas; em suma, a qualidade artística. Teoricamente, essas duas formas de julgar a arte podem ser separadas. Porém, na verdade, elas geralmente são indis sociáveis, porque só temos a visão e o entendimento nos incorporando na composição e na percepção artística da obra de arte. Como a arte está amarrada à realidade, há um espaço para falar sobre a verdade na arte. Será que ela faz jus ao que representa? Será que o faz de maneira positiva? Será que demonstra a profundidade e a complexidade do que aborda? A arte talvez seja simples; porém, ela deve ser clara, nunca tola ou superficial. ARTE E SOCIEDADE A arte tem um lugar complexo na sociedade. Ela cria as imagens significativas pelas quais são expressas coisas impor tantes e comuns. Por meio da imagem artística, a essência de uma sociedade torna-se uma propriedade e uma realidade comuns. Ela dá forma a essas coisas não só intelectualmente, mas também de modo que elas sejam absorvidas emocional mente, em sentido bem amplo. Emocional não quer dizer anti-intelectual. É mais que intelectual. Pensemos nas bandeiras, paisagens, retratos e canções entoadas sobre o país que amamos. É estranho, mas por meio da arte as coisas nos são aproximadas. De certo modo, começamos a vê-las porque o artista as tornou visíveis para nós. Ver, como compreendo o termo aqui, está intimamente relacionado com entender, apreender o sentido de algo, desenvolver um relacionamento emocional. Assim, na casa das pessoas, é mais comum vermos pinturas de coisas que estão bem próximas do que de coisas que estão distantes. Em um chalé suíço, pode-se ver pinturas de chalés e monta nhas, talvez as mesmas vistas da janela. No Canadá, numa casa que visitei, vi a pintura de uma cachoeira que ficava a cerca de trinta quilômetros. Nas escolas de equitação, vemos pinturas de cavalos; em uma fazenda holandesa, de vacas. Os que amam carros possuem figuras de automóveis. De fato, é assim que essas coisas vão ganhando realidade. Da mesma forma que, até certo ponto, algo não existe se não receber um nome, se não for formulado verbalmente, as coisas que não forem retratadas permanecerão turvas e vagas, já que não aprendemos a vê-las. Os artistas revelam o mundo para nós e lhe dão uma forma. Conhecemos as coisas pela maneira que eles as formularam para nós. Às vezes, até o nosso estilo de vida é moldado ou pelo menos influenciado pelos artistas. Sabemos como os filmes influenciam profundamente a forma como as pessoas vivem e pensam. Seus heróis,suas visões de mundo, seus so nhos e assim por diante. Os filmes geralmente têm um papel importante na formação de uma nova moda, que certamente é mais do que a simples escolha de cores ou do comprimen to da saia; ela representa a maneira que nos movemos e até sentimos. Por exemplo: a nova dança introduzida por Irene e Vernon Castle entre 1910 e 1920, em Nova York, época em que surgia o jazz de Jim Europe, influenciou um novo modo de vida, uma nova forma de se mover e se vestir. Isso significou o fim da formalidade e o início do comportamento informal e descontraído. A arte também pode dar forma ao nosso descontentamento, nosso desconforto em relação a certos fenômenos. Ela pode dar forma ao protesto. Se feito da maneira certa, ela não deve ser destrutiva ou fragmentar o que é bom. Usando uma lin guagem atual, podemos traduzir a injunção bíblica “ter fome e sede de justiça” por “protesto em amor”. As ferramentas para isso podem ser os filmes, as canções, as pinturas, os desenhos animados e os slogans. A literatura e a poesia também têm suas funções. De certa forma, a arte desempenha um importante papel na liturgia da vida. E escolhi esse termo em analogia à liturgia que temos na igreja, as formas estabelecidas nas quais mol damos nossos cultos. A liturgia da vida é a maneira como fazemos as coisas. A arte cria os ambientes, confecciona roupas, esculpe a taça dada ao vencedor e a escultura que é a representação de uma ovação como o Oscar. As artes ajudam de muitas formas. A organização de um evento solene, como a posse de um presidente, é em si uma obra de arte. A forma como um restaurante é projetado é importante (design inte rior), de forma que até nossas refeições são influenciadas. A música também tem uma função importante em nossa vida. E essa função está em seu significado, que está arraigado em seu sentido interno. NORMAS DE ARTE A grande norma em tudo isso é o amor a Deus e ao próximo. Na Idade Média, as pessoas falavam dos sentidos múltiplos de um texto ou obra de arte. Seu sentido não era apenas literal (o que era dito ou retratado), mas também alegórico (aquilo a que se faz referência por meio das imagens ou figuras histó ricas), moral (as implicações das normas aceitas) e analógico (o impacto da obra e como ela leva nossos pensamentos e emoções para perto ou para longe de Deus e de sua aliança). A questão crucial é: a arte representa a verdade (veja João 3.20-21)? Se amamos o próximo, certamente não devemos olhá-lo com desprezo. Qualquer atitude esnobe ou elitista representa um desvio. Um belo exemplo é Isaac Watts, o conhecido compositor de hinos e salmos métricos do início do século 18. Ele deliberadamente compôs suas canções de maneira simples, abstendo-se da linguagem intricada e floreada que era utilizada por poetas que geralmente escreviam para uma plateia restrita e letrada. Eles faziam todos os tipos de re‐ ferências aos mitos, às histórias e às figuras literárias e os menos educados mal conseguiam entender. Há lugar para esse tipo de poesia, mas não ao compor músicas e hinos para igreja. Watts queria que os membros mais simples da igreja pudessem compreendê-las. Não obstante — e nisso está a beleza de seu trabalho — ele fez sua poesia de forma tão excelente que conseguiu resistir à prova do tempo. De fato, sua obra tem resistido aos séculos e muitos dos hinos que ele escreveu ainda são cantados hoje. Muitas pessoas conhecem seu trabalho, mesmo sem conhecer o compositor ou perceber que sua obra foi deliberadamente composta para ser apreciada por pessoas comuns. Se dissermos que o amor é, como em tudo mais, a su‐ prema forma de arte, isso certamente afeta os temas que escolhemos, a maneira como os tratamos, as formas que lhes damos, os materiais que manuseamos e as técnicas que empregamos. Em Filipenses 4.8, Paulo faz uma afirmação para a vida como um todo, incluindo a arte. No último capítulo do meu livro sobre arte moderna, elaboro isso de forma mais detalhada. Essa norma certamente não está acima ou além da arte. Está nas próprias pinceladas que pomos no papel, na batida do tambor, na nota que produ zimos na trombeta, no tipo de tinta que utilizamos. A arte representa a verdade? A arte mostra a nossa mentalidade, a maneira como vemos as coisas, como abordamos a vida e a realidade. Se estivermos entre artistas, pode haver uma discussão sobre os detalhes, sobre as técnicas, sobre os prós e contras desta ou daquela forma de lidar com o problema artístico. Não discutirei isso. Quero só destacar que nenhuma dessas coisas é neutra. Isso certamente se aplica à maneira como lidamos com o assunto. No passado, isso era chamado de decoro. Tínha‐ mos de escolher as formas, os tipos e expressões em relação ao assunto e à situação na qual a arte desempenharia uma função. Se virmos uma peça de Shakespeare, saberemos depois de três minutos se é uma comédia ou uma tragédia. Da mesma maneira, quando procuramos alguma música no rádio, algumas notas já bastam para sabermos que tipo de música estamos ouvindo. Em nossos tempos, essa sensibilidade para com o decoro tem-se perdido. Um bom exemplo é o musical Godspell. Nele vemos alguns limites sendo negligenciados, um erro contra a norma do decoro. Tratar um tema sublime como a Paixão como se fosse um musical, que por definição é um gênero leve e voltado para o entretenimento, é errado sob qualquer aspecto. A forma não faz jus ao tema; e o tema é tratado de forma irreverente. É uma experiência dolorosa assisti-lo. É comparável ao exemplo dado anteriormente sobre os cartões de Natal. Não é de se admirar que o cristia nismo perca a força. Será que esses exemplos não mostram o quanto ele enfraqueceu? Contudo, muitos outros exemplos podem ser encontrados. Vá ao museu de arte moderna e veja como coisas ordinárias às vezes são tratadas como se fossem importantes e grandiosas, uma exaltação ao que é comum demais. Claro que isso pode ser feito de maneira irônica. Entretanto, é uma demonstração do relativismo de nossos tempos, em que qualquer coisa é válida. Tenho visto muitos jovens artistas desprezarem a decência e o decoro. Vi uma pintura que retratava a coluna de fogo no monte Sinai. Foi feita na forma e no estilo de um cartaz. Vi um jovem artista pintando “Ecce Homo”, Cristo entre seus inimigos. Porém, tinha sido mal feito e, portanto, era infe rior. Se você nem consegue pintar uma cabeça direito, como pode querer abordar um tema que muitos artistas antigos evitaram por ser tão difícil retratar de maneira convincente? Precisamos conhecer nossos limites e escolher nosso gênero, assim como nosso tema, já que o gênero em si é parte da comunicação. NORMA E GOSTO “Gosto não se discute”, diz o antigo ditado. Não nego isso. Uma pessoa prefere paisagens; outra, retratos; uns gostam de música coral, uns gostam de orquestra e uns gostam de música de câmara. Não discutiremos se uma ópera é melhor que uma sinfonia, ou se o blues é melhor do que o jazz. Porém, ainda que nossas preferências não possam ser discutidas, nossas escolhas podem, já que a qualidade e o conteúdo não são apenas questão de gosto, mas questão de norma. Se falarmos de retratos, alguns são mais belos, outros são menos, uns têm mais qualidade, outros têm menos. Ainda assim, nosso parâmetro não é definido apenas pela qualidade artística. Na verdade, quanto mais elevada a qualidade, mais importante se torna a discussão do conteúdo, do significado, da direção analógica. Similarmente, um livro de teologia escrito por um autor conhecido e brilhante não se torna aceitável simples mente por ser bem escrito ou profundamente ponderado. Mesmo que ele realmente seja bom, pode ser avaliado com cuidado e talvez refutado como herético, antibíblico ou mal- direcionado. Não é errado alguém dizer: “Gosto de sinfonias, mas não de rock”. Mesmo que pareça uma visão limitada, é uma questão de gosto. E dentro desses limites, alguém pode preferir Haydn a Mozart, Brahms a Schubert. No entanto, nem toda sinfonia é boa só por ser sinfonia. Sempre há a questão do conteúdo e do significado;o que isso significa analogicamente? A questão do decoro também pode ser relevante. Como exemplo, Mozart compôs diversas peças musicais para missa. A música é linda e poderia ser apropriada se estivéssemos ouvindo uma ópera. Porém, não acho que esse tipo de música, seu tom e sua expressão, seja adequado para uma missa. Tais exemplos, porém, são sobre música antiga. Nosso pensamento sobre ela não muda a história, mesmo que argumentemos sobre a influência do conteúdo dessa música sobre nós hoje. Nunca é algo neutro. Contudo, se estivermos falando de coisas contemporâneas, nossa avaliação se torna mais importante. Se um disco chega ao topo das paradas de sucesso (refiro-me ao rock e ao pop), quer dizer que muitas pessoas o estão ouvindo. Portanto, torna-se imprescindível discutir o signifi cado, o conteúdo e a influência que ele tem sobre as pessoas, ainda que não no sentido exato de uma palavra ou linha, ou apenas das letras das canções. A música com seu impacto total, ou seja, sua melodia, seu ritmo e sua harmonia, expressa uma mentalidade, um estilo de vida, um modo de pensar e sentir, uma forma de lidar com a vida e com a realidade. É importante discutirmos isso, pois esse tipo de música ajuda a formar os estilos de vida daqueles que apreciam. E como reagimos a isso? Nossas opiniões não são irre‐ levantes. Nossa reação cria ondas que influenciam nossa época. Quanto melhor o disco, artisticamente falando, mais importante será essa discussão. E se compreendermos que a música que estamos analisando é a expressão de uma mentalidade, há mais duas considerações a serem feitas. Se a energia dessa música for mundana, antinominista (anarquista), e expressar incerteza e até desespero, então, que devemos fazer com ela? A música que nos rodeia parte de nosso ambiente e de nosso estilo de vida, isto é, de nós mesmos. O Senhor disse que não é o que entra em nós que nos torna impuros, mas o que sai de nós (Mt 15.11). O ambiente que criamos é algo que sai de nós. Entre‐ tanto, por essa mesma razão, jamais devemos concluir que não podemos escutar esse tipo de música. Isso significa nos desconectar de nosso próprio tempo. Tal comportamento é empobrecedor e significa que não conseguimos entender nossos contemporâneos, aqueles com quem queremos com‐ partilhar sobre o Senhor e a Palavra que ele nos deu e sobre que ele requer de todas as pessoas em obediência a essa palavra. Outra questão é se podemos adaptar o que é criado pelo mundo (isto é, pelas pessoas que não conhecem ou não amam ao Senhor) e utilizar. Não há uma resposta fácil, já que a norma é que a música ou a arte em geral deve ser boa nos dois sentidos já explicados: no sentido da qualidade e no sentido da men talidade expressa. Às vezes os cristãos produzem música ruim porque não têm talento, porque não se esforçam o suficiente ou porque demonstram sua natureza pecaminosa. Às vezes o mundo produz boa música, como o blues de Mississippi John Hurt. Se for boa, ela pode ser seguida; se não for, é melhor deixar para lá. Finalmente, perguntamos em que nível, em que situação tal música pode ser adequada. As marchas de Sousa são ótimas, mas totalmente inadequadas para serem usadas em cultos na igreja. E o rock de hoje? Será que é adaptável à expressão cristã? Será que basta mudar as letras? A música não é apenas letra. Sua expressão é total, e mais na melodia, no ritmo e na harmonia do que nas letras. Obviamente, não significa que se pode escrever qualquer coisa. Deve haver não somente uma unidade entre as letras e a música (a música deve carregar o texto, enfatizando-o) — a expres são encontrada na música tem de estar alinhada ao texto. Entretanto, o texto em si certamente tem de se sustentar. Já ouvi rock “cristão” cujas letras eram praticamente heréticas e antibíblicas. É aí que entram as questões de decoro, estilo de vida, entendimento, emoção e gosto. Gosto é a sensação boa em relação à nota certa, ao ritmo certo, à forma certa no tempo certo, acompanhados da escolha da palavra certa; em suma, é o sentimento em relação ao que pode ou não ser feito em um tempo e lugar específicos. Além disso, devemos consi derar o impacto que a obra terá sobre as pessoas, onde ela os está levando e como será compreendida. A comunicação é complexa e tem muitos níveis. A vida e a arte são complexas demais para aplicarmos regras legalistas. Porém, não significa que não há normas. Mesmo não sendo possível definirmos o tipo ruim de sedução ou o tipo certo de beleza e atração de uma mulher só pelo compri mento da saia ou pela profundidade do decote, elas sabem os limites exatos — particularmente as sedutoras, que passam propositalmente dos limites. Portanto, tanto na música quanto na arte, os bons artistas sabem muito bem o que deve ser feito em um determinado lugar e momento, o que é apropriado. É uma questão de bom gosto. Acrescentarei mais uma questão. Falar de música cristã não significa necessariamente falar de uma música cuja letra transmita uma mensagem bíblica explícita ou expresse a experiência de uma vida de fé e obediência piedosa. A obediência não está restrita às questões de fé e ética. E aí entra a totalidade da vida. É a mentalidade, o estilo de vida, que recebe forma e expressão artística. A “Paixão de São Mateus”, de Bach, é cristã, assim como os “Concertos de Brandenburgo”. Não são apenas as letras das cantatas que são cristãs, mas também a parte instrumental. Se não for assim, estaremos reduzindo o cristianismo e excluindo do comprometimento com Deus, nosso Senhor e Salvador, uma grande parte da nossa vida, que deve manifestar o fruto do Espírito. Por outro lado, conheço pinturas que iconografi-camente representam um tema cristão, mas seu conteúdo e impacto são negativos e blasfemos — uma grande mentira. Contudo, outra obra do mesmo artista talvez expresse uma mentalidade quase anticristã. PROBLEMAS DE ARTE E ESTILO Devido à maneira bicentenária de ver a arte como algo sublime, autônomo e quase religioso, hoje há uma tendência de chamar de arte apenas as obras que estão em museus, como as pinturas, a música clássica dos grandes composito res românticos e a boa literatura. Não há como negar que isso é arte nem que é importante. Porém, frequentemente, significa que alguns tipos de artes manuais ou música fol clórica passam despercebidos e não são considerados dignos de nossa atenção. Certa vez conheci uma moça que me disse que sempre sonhara em ser artista. Ela me pediu conselhos. Entretanto, os desenhos dela não eram tão bons a ponto de eu achar que devesse encorajá-la. Por outro lado, eu sabia que ela era muito boa em desenhar roupas e produzir tecidos. Meu conselho foi que ela não ingressasse no departamento de pintura de alguma escola de arte. Isso significaria arrastar-se por anos, ao final dos quais ela talvez recebesse um tapinha nas costas, mas provavelmente acabaria com uma pilha de qua dros não- vendidos no porão. Disse-lhe então que procurasse uma boa escola de artes manuais, têxteis e moda. Ela seguiu meu conselho e, quando a reencontrei algum tempo depois, ela estava feliz. Sentia inclusive que estava em um lugar mais desafiador, aprendendo mais do que aprenderia na escola de artes, onde as pessoas discutiam o dia inteiro e trabalhavam e aprendiam pouco — semelhantes a pequenos gênios sem objetivo. Assim, é bom considerar o que é arte, focando na pintura e na escultura e sabendo que distinções parecidas podem ser feitas em outras áreas. Tratando-se de artes visuais, duas qualidades distintas podem ser observadas. A primeira é a quantidade de naturalidade, de força descritiva, de qualidade representacional. Aqui se pode pontuar de zero, totalmente não-figurativo (a forma pura), até o naturalismo extremo. Em um extremo está a curva, o círculo ou o quadrado, a cor pura ou o padrão simples. No outro está a precisa descrição das impressões visuais, como em uma natureza morta de Harnett ou na precisão de Jan van Eyck, que descreve as coisas de forma tão detalhada. A segunda é a carga de significado que a obra carrega. Nonível mais baixo (que não significa inferior) encontra‐ mos os ornamentos, as formas embelezadoras e as cores — todos valiosos por si. É certo que, frequentemente, isso tem um grande significado. No nível mais alto está o ícone, a carga da obra que, por carregar muitos valores e realidades, possui vários significados. O ídolo é um exem plo específico e, em um sentido profundo, pecaminoso de um ícone. É um deus. Ainda assim, também pensamos no “Davi”, de Michelangelo, como se fosse a personificação de tudo o que representa a Renascença de Florença: a grandeza da humanidade. Ou pensamos na “Noiva Judia”, de Rembrandt, que representa não somente Rembrandt ou a Holanda do século 17, mas também a grandeza do amor humano no casamento. Claro que também podemos lembrar-nos dos ícones bizantinos. Entre esses dois extre‐ mos, todas as obras de arte têm um lugar, às vezes mais significativo, às vezes menos. Toda obra de arte é caracterizada por esses dois elementos. Ela pode ser decorativa, pobre em significado icônico, ainda que apresente flores precisamente pintadas como, por exemplo, os papéis de parede do século 19. E pode ser iconi-camente importante, mesmo que seu valor representacional seja baixo, como o de Paul Klee ou as obras expressionistas abstratas. A questão é que todos esses tipos de arte, com ou sem va‐ lor icônico elevado, com ou sem qualidade representacional precisa, são válidos. Vai depender apenas da função que deve exercer. Repito, o decoro é a norma. Um trabalho decorativo bem feito pode até ter um valor icônico menor; porém, não significa que ele possui um valor artístico inferior ou com menos significância. E também não significa que a pessoa que o produziu é um artista inferior. A arte realmente grandiosa opera em vários níveis ao mes mo tempo. Pense numa igreja barroca no sul da Alemanha. Ottobeuren é um ótimo exemplo. Nela as obras de arte operam decorativamente. Estão lá apenas para adornar a igreja. Porém, se olharmos mais de perto, veremos uma ornamentação floral magnífica um pouco mais de tempo, veremos as histórias e, começando a entendê-las, veremos seu significado em rela ção à totalidade da igreja e sua função. Finalmente, podemos apreender o conjunto total. Ali todos os níveis de iconicidade e de valor representacional estão presentes. É decorativo e ao mesmo tempo carregado de significado. Possui um esquema de cores e de ornamentação e também uma representação precisa. Se compreendermos tais coisas, entenderemos também que não é tão relevante discutir se o mais importante nas artes visuais é o figurativo ou o não-figurativo. Evito o termo abstrato propositalmente. A arte não-figurativa sempre existiu, principalmente em ornamentos. As pinturas nobres sempre incluíram esse nível, independentemente da figuração que apresentam e da significância da história retratada. E a figu-ratividade nem sempre envolve um significado profundo e intrínseco. A questão não é se a arte não-figurativa é certa ou não. Se quisermos discutir a questão de forma relevante, duas outras questões precisam ser levantadas. A primeira é a questão do decoro, a função da obra de arte em seu próprio cenário. Um ornamento ou estilo de tecido pode ser não-figurativo. Porém, uma grande escultura também pode, caso seja posta em um lugar apropriado. De certa forma, a Torre Eiffel era uma escultura não-figurativa, o marco de uma exibição em 1889. A segunda é a questão do significado em relação à fun‐ ção. Pense no formato de nossos relógios ou carros. Mesmo que geralmente chamemos isso de desenho industrial, há um significado inerente. O desenho de um carro pode representar luxo, velocidade ou eficiência. Para decorar o saguão de um hotel, pode-se se utilizar um painel figurativo e decorativo, mas também pode ser apropriado escolher um modelo com grandes áreas coloridas. Aqui, o gosto é um princípio direcionador, um sentimento acerca do que é apropriado. Para mim, o que nunca é bom é o abstrato, que significa a negação ou rejeição da realidade: uma atitude negativa em relação a ela. Ser negativo não quer dizer mostrar o errado como errado, trazer para a arte a percepção da maldição, do pecado e daquilo que é inaceitável. Não estou pedindo apenas pinturas agradáveis e idealistas. Elas também podem representar mentiras ao mascarar as realidades da vida, como fazem algumas pinturas natalinas. Uma atitude negativa é quando a realidade como tal é considerada negativa. Então, o que deve ser levado em conta é o lugar, o decoro. O que deve ser discutido é o significado inerente da obra de arte em relação a essa função. Repito: a arte jamais é neutra e, se quisermos discuti-la adequadamente, a totalidade de nossa humanidade sempre estará envolvida. Agora, algumas palavras sobre estilo. Frequentemente, jovens artistas me perguntam que estilo devem escolher. Para mim, é uma pergunta constrangedora. Não se pode escolher um estilo de maneira aleatória. Ele faz parte do conteúdo, já que a expressão da obra de arte é parte da própria forma artística. De certo modo, o artista não tem um estilo que pode ser mudado para outro. Com seu estilo, o artista revela quem é. Não significa que dentro da totalidade de um estilo não possa haver diferenças em relação à função e ao lugar de uma obra específica: ela será delicada em um casamento, profunda e solene em uma ocasião social importante, trági ca e triste em um funeral. Contudo, o estilo não pode ser escolhido ao acaso. Não devemos escolher um estilo simplesmente porque queremos tornar nosso trabalho mais vendável ou popular. Devemos ter coragem de sermos nós mesmos, de sermos honestos. Este é o requisito mínimo para qualquer obra de arte. Jamais devemos comprometer nossos princípios ou objetivos profundos. Além disso, não devemos simples‐ mente seguir as tendências e a moda conforme elas vêm e vão. Isso pode ser negativamente “mundano” e demonstrar que não temos muito a oferecer por nós mesmos. É facilmente compreensível que os jovens artistas estão em busca de um es tilo, que estão experimentando as possibilidades de expressão. Porém, uma vez encontrado, o estilo passa a expressar quem eles são. Naturalmente, não significa que o estilo é imutável. Ele cresce com cada artista em profundidade e abrangência. Em uma palavra, http://outro.com/ ele amadurece. Geralmente isso significa também simplicidade e direcionamento, pois as complexidades são dominadas e o muito é introduzido em poucas imagens. É uma obra de mestre! Ambos os elementos podem ser vistos na história da arte. Vemos no trabalho de um artista um desenvolvimento, um processo de maturação, de mudanças graduais que acompa nham a vida. Às vezes vemos mudanças repentinas no estilo, nas formas de expressão. Significa que uma mudança drástica ocorreu em relação à vida do artista: ou uma conversão a outro princípio espiritual ou a influência e impacto de uma pessoa ou movimento. FAMA E ANONIMATO Alguns artistas se tornam famosos e seus nomes são ampla‐ mente conhecidos. Não significa necessariamente que suas obras são conhecidas por todos. Em contraste, há milhares de artistas desconhecidos — basta consultarmos um dicionário artístico-biográfico para vermos vários. Pelo menos os espe cialistas os conhecem. Tirando esses, existem muitos sobre os quais ninguém jamais ouviu falar. Alguém teve de construir determinada estátua que encanta a todos que viajam a certo lugar com olhos atentos. Talvez ela seja bastante apreciada pelos moradores locais. E quando eles dizem que amam sua cidade, aquela estátua faz parte da imagem do lugar. Se ela não estivesse lá, muitas pessoas sentiriam sua falta. A estátua é famosa — mas e o artista? Quem o conhece? Pergunte às pessoas quem fez o marco de Copenhagen, ou quem desenhou o monumento na praça Trafalgar e os leões que todos conhecem. A maior parte do trabalho do artista é anônima. Nesse sentido, ele tem o mesmo destino que muitos que trabalham em benefício público. Quem fez o trem no qual você viaja? Quem foi o gênio que criou a programação da televisão? Quemprojetou aquele objeto prático que você utiliza todos os dias? Talvez o anonimato não seja um destino ou uma tragédia, mas algo muito normal. O elogio por aquele monumento ou por aquele objeto prático é a maior recom pensa que alguém pode receber. Um belo cartaz — quem o desenhou? Quem se importa? Talvez os colegas do artista o conheçam. Os especialistas saberão. No entanto, a pes soa será esquecida com o tempo. Quem conhece o autor daquela linda estátua na Babilônia, no Egito, na Grécia ou em Roma? Quem fez a famosa estátua de Marco Auré lio na Colina do Capitólio, em Roma? Ou quem erigiu o obelisco de Washington? Sinto que tudo isso é correto. A fama acompanha a obra, se ela for bem feita. Panofsky, em seu livro sobre Suger, fala disso de forma sábia. Ele compara Suger a Michelangelo. Suger foi um grande bispo na França do século 12. De muitas formas, ele foi responsável pelo estilo gótico. Foi o construtor de St. Denis, a pessoa que escolheu e orientou os artistas. Ele foi um homem muito importante em sua época — embora só os especialistas tenham ouvido falar dele. Não obstante, todos que admiram o estilo gótico exaltam a visão de Suger e suas habilidades. Suger, afirma Panofsky, buscava fama, mas era algo cen‐ trífugo. A fama estava nas coisas que ele fazia. A fama de Michelangelo era centrípeta, ou seja, ela sempre termina no próprio Michelangelo. Vejamos a “Pietá”. O que buscamos? Uma linda Madona? Uma emocionante imagem do corpo de Cristo? Ou vemos Michelangelo? Isso também vale para suas outras obras. Assim, acabamos esquecendo o que estamos observando e ao sairmos não dizemos: “Como o juízo final é terrível e jubiloso!”, mas “foi Michelangelo quem fez. Como ele era grandioso!”. Você se identifica com Suger ou com Michelangelo? Pode mos criticar Suger por alguns de seus ideais. Se dissermos que as igrejas católicas são exageradamente adornadas, que a arte extrapola os limites, em certo sentido estaremos criticando a visão de Suger. Contudo, o seu ideal de fama é mais cristão que o de Michelangelo ou, pelo menos, que o das pessoas que lhe deram esse louvor. Não devemos buscar fama — isso pode acender o peca do do orgulho. Pode implicar a perda da humildade. E o louvor, que pertence a Deus, não vai ser dado a ele. Essa é a lição que aprendemos em Eclesiastes. Todas as coisas são vaidade e até o mais elevado louvor desaparece no ar após um ano, um século ou centenas de anos. Porém, a significância de um trabalho bem feito está na alegria de ter feito algo útil para alguém e, dessa forma, ter contribuído positivamente com o fluxo da história em direção ao reino de Deus. Os jovens talvez sonhem em tornarem-se famosos. Contudo, isso pode ser perigoso. A busca pela fama fácil pode ser comprometedora e incentivar a desonestidade. É melhor sonhar em desenvolver seus talentos, fazer o melhor que puder. Deixe que os outros decidam, julguem e elogiem. Não deixe que a fama o engane. No final, você terá de prestar contas diante do supremo juiz, o grande Senhor Todo-Poderoso. Provavelmente, você dirá: “Senhor, fui apenas um servo indigno de ti, mas tentei usar meus talentos. Não fui perfeito, mas o Senhor me deu tanto que tenho que agradecer-te por qualquer coisa que o mundo diga que produzi”. No fim, a arte é anônima. Quem sabe o nome dos grandes escultores das catedrais góticas? Quem sabe os nomes dos arquitetos que desenharam um prédio construído recente‐ mente? Sabemos que um bom desempenho jamais é fruto de uma única pessoa, que ela precisou da ajuda de outras. De certa forma, uma delas se torna a marca, o registro. As pinturas, as músicas, os belos desenhos de carros e outros produtos industriais são anônimos. É bom que seja assim, pois apenas complementamos o mundo que Deus nos deu para desenvolver, para embelezar. Acrescentamos à vida de muitos e amamos nossos vizinhos. Essa deve ser nossa maior conquista. AS QUALIDADES Do ARTISTA Quatro qualidades determinam o escopo, a profundidade e a importância de qualquer artista: talento, inteligência, caráter e aplicação. O termo talento é extraído da Bíblia, da parábola dos talentos contada por Jesus. De fato, um talento é algo recebido. É um potencial que o indivíduo deve usar com responsabilidade. Nosso Senhor tem o direito de pergun tar, e certamente o fará, o que fizemos com nossos talen tos. Algo pelo que agradecer? Certamente. Sem talentos nenhum artista pode ter qualquer relevância. Todavia, isso não é algo exclusivo do artista. Outras pessoas têm talentos. Todas recebem características positivas, para usar e desenvolver, e negativas, que são as fraquezas que temos de combater. Por inteligência nos referimos à qualidade de analisar a situação, encontrar a forma correta, dar a melhor solução, dominar as complexidades da arte e expressar claramente o que se quer alcançar. De certa forma, essa também é uma qualidade recebida. Algumas pessoas talvez a descrevam como talento. Porém, é necessário que esse talento seja desenvolvido. O caráter é uma qualidade muito importante para o artista. Frequentemente, ele determina a grandeza e importância do artista. E muitos têm falhado nesse ponto. Alguns, logo no início da vida, obtêm sucesso com algum trabalho e conti nuam fazendo a mesma coisa. O que era um ato criativo, o desenvolvimento de um novo princípio, acaba se tornando um truque, uma conquista fácil. Esses artistas definham e se tornam inferiores. E muita gente renomada terminou assim. Outra tentação para os artistas é usar os talentos de forma restrita, visando apenas o lucro, a popularidade e a aceitação. Comparemos Jelly Roll Morton e Louis Armstrong. O jazz havia se tornado uma grande influência na música po pular americana e a tentação de tornar-se comercial e popu lar era enorme. Louis Armstrong caiu nessa cilada. Por volta de 1930, seu trabalho se tornou leviano e popular, cheio de truques e efeitos. Ás vezes ele tentava voltar a produzir algo bom e criativo, mas quase sempre fracassava. Chegou ao ponto de se tornar uma espécie de palhaço televisivo, que cantava canções ridículas de ninar para crianças. Ele realmente era um grande músico, um grande trompetista. Todavia, para apreciá-lo, é preciso ouvir seu trabalho com os Hot Five ou Hot Seven (1926-27), ou com o grande King Oliver Creole Jazz Band (1922-23). Felizmente ainda temos as gravações. O que aconteceu é entendível. Depois da crise de 1929, ganhar a vida como músico se tornou muito difícil. A música de boa qualidade não era tão apreciada pelo público, que preferia algo leve e sentimental. A tentação de ceder a esse mau gosto era grande. Como sempre, além da fraqueza e do pecado pessoal, há também a culpa coletiva — as circunstâncias e o ambiente em que nossa sociedade nos coloca. Jelly Roll Morton, o grande pianista de jazz, recusou-se a submeter sua arte à baixaria. Ele lutou pela qualidade e pelos princípios que defendia. Como resultado, ele ainda é um grande artista, que possui um capítulo em qualquer livro respeitável sobre a história do jazz. No entanto, seu nome foi esquecido pelo público para o qual ele se recusou a fazer papel de palhaço ou de manipulador de sons. Ele lutou durante anos com a pobreza e a rejeição. E o mesmo aconteceu como muitos outros jazzistas brilhantes — alguns dos quais inclusive morreram durante os anos 30. Não se deve interpretar que o entretenimento em si é errado. Até certo ponto, toda arte é entretenimento, uma oportunidade dada por Deus para relaxar com boa música, boa arte e bons livros. Nada há de errado com a balada, com a música dançante (Mozart compôs várias desse tipo); nada há de errado em se produzir desenhos, cartazes e ilustrações. Porém, tudo terá de ser feito com qualidade. Lembre-se do que dissemos sobre Isaac Watts. Ele escreveu canções populares de alto nível. Pense também em Toulouse Lautrec, cujos cartazes continuam a decorar ambientes, ainda que as performances que anunciavam já tenham ocorrido há anos. A maioria das pessoas sequer sabe que tipo de música eles anunciavam. Se o trabalho for bem feito,ele sobreviverá à ocasião, como a música de Mozart que ainda ouvimos. Ainda apreciamos Bob Dylan, mesmo que tenha passado o período de protesto em que sua músi ca teve um papel importante. Ainda podemos assistir com prazer aos bons filmes antigos de entretenimento, mesmo que o estilo seja ultrapassado. Lógico que tudo está datado. Não importa o que façamos, jamais deixaremos de estar em nosso próprio tempo. Inevita velmente, vivemos no agora. Porém, algo belo sobrevive — se suas qualidades não forem efêmeras. A última qualidade de todo bom artista é a aplicação. O antigo ditado diz que qualquer boa obra de arte é 95% transpiração e 5% inspiração. Algumas pessoas talvez quei‐ ram colocar o trabalho árduo dentro da categoria caráter. Seja como for, nenhuma obra de arte surge por si só, como produto do acaso. Não existe arte instantânea, com exceção do café, nada é instantâneo nesse mundo! Recordo as palavras de um grande pianista: “Se eu deixar de fazer meus exercícios por um dia, perceberei no dia seguinte. Se deixar de fazer por dois, minha esposa perceberá. Se deixar de fazer por três, meus amigos mais próximos perceberão. Após quatro dias, o público perceberá”. Há também a fascinante história do Hokusai, o grande pintor japonês e criador de xilogravuras que viveu por volta de 1800. Certa vez, alguém lhe encomendou o desenho de um galo. Ele respondeu: “Pois bem, volte daqui a uma semana”. Quando o homem voltou, Hokusai prolongou o prazo por mais duas semanas. Depois, por mais dois meses; em seguida, por mais meio ano. Passados três anos, o cliente estava tão furioso que se re‐ cusou a continuar esperando. Então Hokusai disse-lhe que entregaria a encomenda naquele momento. Ele pegou um pincel e um papel e desenhou um belo galo, em pouquíssimo tempo. O homem ficou irado: “Por que você me fez esperar anos se consegue fazê-lo em tão pouco tempo?”. “Você não entende”, disse Hokusai. “Venha comigo.” E então levou o homem até o seu ateliê e mostrou- lhe as paredes cobertas de desenhos de galos, que ele vinha desenhando há três anos. Foi dessa prática que veio sua destreza genial. Claro, não significa que podemos deixar as pessoas espe‐ rando ou que não precisamos cumprir nossas promessas. A lição é que até a improvisação e os atos espontâneos resultam de um trabalho árduo. Nenhum artista jamais conseguirá alcançar o topo se não começar seu dia praticando; o pintor deve desenhar por algumas horas e o músico deve ensaiar. Qualquer pessoa deve estudar. Genialidade por si só não basta. O CAMINHO É claro que oramos e pedimos a ajuda de Deus. É claro que o Espírito Santo está na retaguarda. Porém, Deus, por sua grande misericórdia e sabedoria, nos leva a sério — somos suas criatu ras, feitas à sua imagem. De forma alguma somos instrumen tos passivos do Espírito de Deus. Ele nos deu personalidade, liberdade e responsabilidade. Portanto, jamais poderemos dizer que nosso trabalho é diretamente inspirado e feito por ele. Seria blasfêmia dizer que nosso trabalho é obra de Deus. Contudo, podemos louvá-lo pela força renovadora que ele nos deu em Cristo e por sua ajuda quando conquistamos algo que reflete amor, vida, beleza, justiça, paz e alegria — talvez após muitas pesquisas e estudos. Os artistas cristãos são pessoas que trabalham, pensam e agem como artistas, usando seus talentos e possibilidades. Porém, trabalham com outra mentalidade e com outra prio‐ ridade em suas vidas. Essa mentalidade implica trabalhar com liberdade. Não precisamos provar nada a nós mesmos, já que a busca por fama e a preservação do nosso orgulho pessoal não nos incomodam, pois não precisamos construir nossa própria eternidade. Talvez a melhor maneira de expressar isso é dizer que estamos no caminho. A Bíblia sempre usa essa metáfora. A Escritura é a lâmpada para nossos pés, que caminham em meio a este mundo tenebroso. Prossiga no caminho estreito. Pode ser difícil e requererá esforço. Porém, seguir a estrada larga do pecado, deixando-se levar, fazendo o que se quer, te levará à destruição, aqui e agora. “Siga-me” — são as palavras de Cristo! Saiba onde você está indo. Cristo aponta para si mesmo quando diz que ele é o caminho. Viver é seguir no ca minho com ele — um caminho de vida profunda e verdadeira e um caminho de verdade, pois ele é a verdade. E devemos fazer o que é verdadeiro, ou seja, amar a Deus e ao próximo. O caminho é de liberdade, amor e humildade, mas é também de santidade. E Deus nos ajuda e direciona. O caminho às vezes é difícil e requer sacrifícios. Em casos extremos, exige até nossos corpos mortais em martírio. Contudo, ele é também estimulante, cheio de novas paisagens. É um caminho em di reção à Terra Prometida. E agora mesmo já experimentamos muito do que nos aguarda. Caro leitor: Acesse www.ultimato.com.br e faça seu comentário sobre este livro. Conheça também outros títulos da editora e a revista Ultimato. http://www.ultimato.com.br/ A ARTE NÃO PRECISA DE JUSTIFICATIVA Categoria: Espiritualidade / Vida cristã / Ética Copyright © Hans Rookmaaker Traduzido do original em inglês Art Needs No Justification mediante acordo entre Editora Ultimato e The Piquant Agency Primeira edição: Novembro de 2010 Coordenação editorial: Bernadete Ribeiro Tradução: Fernando Guarany Jr. Preparação e revisão de texto: Paula Mazzini Mendes Capa: Souto Crescimento de Marca Produção do arquivo ePub: Booknando ISBN 978-65-86173-52-9 PUBLICADO NO BRASIL COM TODOS OS DIREITOS RESERVADOS POR: EDITORA ULTIMATO LTDA Caixa Postal 43 36570-970 Viçosa, MG Telefone: 31 3611-8500 www.ultimato.com.br facebook.com/editora.ultimato twitter.com/ultimato instagram.com/editoraultimato http://facebook.com/editora.ultimato http://twitter.com/ultimato http://instagram.com/editoraultimato Folha de rosto PREFÁCIO INTRODUÇÃO 1. O PANO DE FUNDO DE UM DILEMA 2. A RESPOSTA DA IGREJA 3. A TAREFA DO ARTISTA CRISTÃO 4. DIRETRIZES AOS ARTISTAS Créditos