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Sumário
Capa
Folha de rosto
PREFÁCIO
INTRODUÇÃO
1. O PANO DE FUNDO DE UM DILEMA
2. A RESPOSTA DA IGREJA
3. A TAREFA DO ARTISTA CRISTÃO
4. DIRETRIZES AOS ARTISTAS
Créditos
clbr://internal.invalid/book/OEBPS/Text/cover.xhtml
Os textos das referências bíblicas foram extraídos da
versão Almeida Revista e Atualizada, 2. ed., da Sociedade
Bíblica do Brasil.
PREFÁCIO
O PROFESSOR ROOKMAAKER estava trabalhando neste
livro no momento de sua morte, em 13 de março de 1977.
Sua inten ção de escrever um suplemento jamais se tornou
realidade. O material foi reorganizado e revisado, mas é
essencialmente o que o autor redigiu. Em nossa tentativa
de sermos fiéis às suas intenções, fomos grandemente
auxiliados por seu colega da Universidade Livre de
Amsterdã, Graham Birtwistle.
A Arte Não Precisa de Justificativa não é uma obra
técnica nem é direcionada exclusivamente aos artistas. É
uma leitura para todos os cristãos que desejam usar os
talentos que rece beram de Deus para a glória daquele que
os presenteou. Não se trata de uma pesquisa da cena
artística, nem de uma análise detalhada das origens dos
problemas enfrentados pela civiliza ção. É uma chamada
profética aos artistas, artesãos e músicos cristãos para que
pranteiem, orem, pensem e trabalhem antes que seja tarde
demais.
OS EDITORES
INTRODUÇÃO
Os ARTISTAs em nossa sociedade estão em uma posição
muito particular. Por um lado, são bastante considerados,
sendo vistos como sumos sacerdotes da cultura,
conhecedores dos segredos internos da realidade. Por
outro, são vistos como pessoas completamente supérfluas.
Respeitados, sim. Porém, muitos estão prontos a permitir
que morram de fome. Quere mos que os artistas sejam
sérios e criem coisas profundas com um valor quase eterno,
coisas sobre as quais as pessoas ligadas àquela cultura
possam conversar séculos mais tarde. Porém, se eles
quiserem alcançar sucesso, são forçados a aderir aos
gostos do momento, a ser comerciais e a fazer papel de
palhaço em vez de sábio. Claro que esse não é um
problema novo. Tem sido assim deste o século 18, quando o
antigo conceito do artista como artesão começou a ser
trocado por um conceito que o considerava tanto um gênio
talentoso quanto um segregado social e econômico.
Os artistas cristãos também têm de lidar com essas com‐ 
plicadas tensões. Contudo, seus problemas frequentemente
são maiores porque é difícil para qualquer cristão viver em
um mundo pós-cristão. Espera-se que os artistas trabalhem
a partir de suas convicções, mas isso pode ser visto por
seus contemporâneos ateus como ultraconservador ou
totalmente ultrapassado. Além disso, eles geralmente não
contam com o apoio de sua própria comunidade, igreja e
família, que os consideram radicais ou desocupados
imprestáveis. Eles são acusados de estarem no caminho
errado desde o princípio. Assim, os artistas cristãos
frequentemente trabalham debaixo de forte pressão.
Por outro lado, precisamos muito de uma arte que seja
saudável e boa, e que as pessoas entendam. Se os cristãos
fize rem esse tipo de trabalho, talvez não alcancem grande
fama, mas muitos amarão suas obras. E muitos conseguirão
ganhar a vida assim. Portanto, não há razão para
autopiedade. Há uma contribuição a ser feita em uma
época que é, de maneira geral, explicitamente anticristã.
A Arte Não Precisa de Justificativa é dedicado aos artistas
cristãos que tive a honra de conhecer e cujo trabalho
considero importante em vários aspectos. É resultado de
uma palestra realizada em 1975 no Festival de Artes na
Inglaterra, ao qual compareceram algumas centenas de
jovens artistas que se professavam cristãos ou que eram,
pelo menos, interessados na questão. Agradeço a Nigel
Goodwin e sua equipe — que organizaram essa e outras
conferências similares — pelo convite, uma das muitas
demonstrações de amizade baseadas em fé e interesse
comuns.
Deve ficar claro que falo primeiramente ao pintor e ao
escultor, criadores das artes visuais. Assim o faço pelo fato
de meu conhecimento estar primariamente nesse campo.
Con tudo, a situação e os problemas são similares aos
enfrentados por muitos artistas, músicos, compositores,
atores, escritores, dançarinos, comediantes e outros.
1.
O PANO DE FUNDO DE UM DILEMA
O PAPEL DOS ARTISTAS nem sempre foi o que é hoje. Em
muitas culturas, incluindo a nossa, antes do novo período
que começou entre 1500 e 1800, os artistas eram princi‐ 
palmente artesãos. Fazer arte significava fazer as coisas de
acordo com certas regras — as regras da classe dos
artesãos. Os artistas eram exímios trabalhadores que
sabiam como entalhar uma imagem, pintar uma Madona,
construir um baú, fazer um portão de ferro fundido,
produzir um cande labro de bronze, tecer uma peça de
tapeçaria, trabalhar em ouro ou prata, fazer uma sela de
couro e assim por diante. Eles eram membros de
associações de classes assim como outros trabalhadores
habilidosos. Alguns eram mestres e investiam suas
comissões na loja. Outros eram ajudantes, aprendizes e
servos. O ateliê era, na verdade, uma oficina com divisões
sutis de trabalho, liderado por alguém que hoje
chamaríamos de artista e cujo nome talvez ainda saibamos.
Entretanto, mesmo que os artistas não tivessem a honra
que costumamos conceder-lhes hoje em dia (havia
exceções, como os artistas que eram honrados por seus
mecenas), eles realmente fizeram coisas lindas que, mesmo
após muitos séculos, ainda apreciamos. Além disso,
frequentemente contribuímos para a restauração de suas
obras, visando passá-las para a geração seguinte. Não
existe um único folheto turístico de uma cidade ou país que
não exiba com orgulho os monumentos duradouros do
passado. Seja lá o que esses artistas ganharam produzindo
tais tesouros — igrejas, estátuas, monumentos em túmulos,
pinturas em paredes, relicários, candelabros, pinturas,
livros ilustrados, casas, vitrais e muito mais — atualmente
seus valores econômicos para o turismo são bem mais
elevados. Por que será que ainda vale a pena apreciar essas
obras? Obviamente, algumas dessas peças são verdadeiras
obras de arte — mas não todas. A maioria delas tem uma
realidade, uma solidez, um valor humano, que testifica
grande habilidade artística. Os artistas trabalhavam
alinhados a uma forte tradição que envolvia modelos e
esque mas, conhecimento de técnicas, ferramentas e o
manuseio delas; eles eram e se sentiam herdeiros das
realizações de seus predecessores.
Não se buscava originalidade, mas um trabalho sério e de
boa qualidade. A beleza não era um simples aditivo, mas o
resultado natural dos materiais e técnicas adequados
manuseados com destreza. Suas obras não exigiam debate
e interpretação de especialistas, mesmo que às vezes elas
fossem discutidas, elogiadas ou criticadas. O grande São
Bernardo de Claraval, líder da ordem cisterciense no século
12, fez objeção às estranhas criaturas, monstros e animais
fantásticos encontrados nos capitéis dos claustros; contudo,
mesmo os condenando, ele percebeu e criticou sua
impropriedade, não sua beleza ou a habilidade do artista
que os produzira.
Essa arte foi a expressão de um valor comum, muito mais
profundo do que afluência e status, e que estava inserido
em um entendimento básico sobre a vida. Porém, dentro da
tradi ção, da rígida estrutura de habilidades, regras e
padrões, havia liberdade. Se alguém fosse solicitado a
reproduzir certa obra, não teria de agir como um robô;
haveria espaço para mostrar sua técnica e suas qualidades.
Valorizava-se a qualidade em vez da originalidade e da
novidade; ainda assim, os artistas poderiam ser eles
mesmos.
Somente dessa maneira podemos compreender a imensa
quantidade de obras vistas ainda hoje por toda a Europa.
Mesmo sem a intenção de romantizar a época em que se
trabalhava duro e o pagamento era frequentemente
limitado, os antigos monumentos testificam que a obra de
arte não era simplesmente algo complementar. Ao
contrário, a arte era parte integral do desenho de um
prédio. Aquilo que chamamos de arte era a beleza natural
esperada das coisas feitas humanamente. E não havia
distinção claraentre a arte da pintura e escultura e aquilo
que hoje chamamos de artes manuais. Habilidade,
qualidade e adequação eram diretrizes.
ARTE COM “A” MAIÚSCULO
O papel dos artistas, assim como o das artes, começou a
mudar em alguns países europeus durante o Renascimento.
No Iluminismo (século 18, a Idade da Razão), o
movimento ganhou força e avançou. A arte tornou-se “belas
artes” e as artes manuais foram postas de lado, como algo
inferior. O artista tornou-se um gênio, alguém com dons
especiais, que poderiam ser usados para dar a humanidade
algo de uma importância quase religiosa — a obra de arte.
De certa forma, a arte tomou o lugar da religião. Descartes,
em sua filoso fia, disse que somente as coisas que podia
compreender de forma racional, clara e distinta eram reais
e importantes. O filósofo Baumgarten, partindo da mesma
base iluminista da metade do século 18, escreveu Estética.
O livro aborda coisas que não são claras e distintas, que
precedem o co nhecimento e baseiam-se em sentimentos.
Coisas estéticas — obras de arte. Dessa forma, ele
fragmentou o mundo ocidental em duas culturas: as
ciências e as artes — o que é uma realidade presente até
hoje. Muito já foi escrito sobre a arte no século 18,
especialmente na Inglaterra. Escreveu-se sobre bom gosto,
beleza e o que vem a ser sublime, e sobre os princípios da
arte. Aqui vemos o início da história da arte moderna.
Muito disso estava atrelado ao mundo do connoisseur, a
pessoa de bom gosto e conhecimento, cole cionadora de
obras de arte. A arte tornou-se desconectada das funções
normais da vida e a beleza passou a ser vista como uma
qualidade abstrata, com sentido próprio e sem relação com
o que era retratado.
A partir de Kant — e em seus passos, Schelling e Hegel —
a arte passou a ser vista como a solução final para as con‐ 
tradições internas dos sistemas filosóficos elaborados para
formar um entendimento integrado da realidade. A
humanidade é livre e, ainda assim, presa a um universo
mecanicista; a arte pode revelar a unidade interna e
contornar as tensões racionais.
Talvez por essa razão a música tornou-se a maior das
artes. Ele nos domina emocionalmente e, ainda assim, não
pode ser facilmente analisada. Seu conteúdo vai além
daquilo que podemos verbalizar.
Antes disso, não se fazia obra de arte. Altares, retratos,
paisagens, pinturas ou esculturas eram desenhadas para
preencher uma função específica, que podia ser decorar ou
metaforizar valores grandiosos, personagens sacros, a
virgem e os santos. As obras de arte vieram a ser
consideradas inde pendentemente do contexto e alguém na
metade do século 19 poderia escrever que a natureza
morta de uma lagosta de Chardin era tão importante
quanto uma Madona de Rafael. O tema em questão foi
lentamente se tornando cada vez mais secundário,
culminando em nosso século com o aparecimento da arte
não-figurativa. A fotografia pode ter contribuído, mas as
tendências já estavam presentes antes de sua invenção. A
arte no século 19 expressou novas abordagens da
realidade. Ela mostrava que as antigas normas e valores
haviam ficado para trás, que os conceitos cristãos haviam
deixado de atrair a mente das pessoas.
Há algo mais a pensar. Apesar de o século 18 não ser
abertamente anticristão, havia uma profunda busca por um
mundo descristianizado. A religião não era problema, desde
que ela fosse de ordem puramente particular e não interfe‐ 
risse nas coisas importantes deste mundo, como a ciência,
a filosofia, a erudição e as belas artes. Assim, desenvolveu-
se o princípio da neutralidade: no trabalho erudito,
deveríamos deixar para trás as coisas irrelevantes e
totalmente subjetivas, tais como nossas convicções
religiosas. Precisávamos buscar aquilo que fosse objetivo,
que fosse verdade independente mente da nossa fé.
Basicamente, os termos subjetivo e objetivo são definidos
por tendências de pensamento cartesianas, que foram as
forças propulsoras da Idade da Razão. Tais termos só fazem
sentido em uma estrutura de pensamento que parte do
princípio de que o homem é um ser autônomo e racional,
que se relaciona com, e é confrontado por, uma natureza
objetiva, regida por leis matemáticas que têm seu próprio
tipo de autonomia. É um sistema fechado, ao qual Deus ou
qualquer outro tipo de força não-humana ou não-natural
perde o acesso — um mundo onde o princípio da
uniformidade reina e nenhuma força além daquelas
conhecidas no mundo atual (as que podemos ver, medir,
controlar e compreender) jamais operou ou operará. Isso
influenciou não somente a visão dos artistas, mas também a
dos historiadores.
Hoje, se estudarmos os grandes artistas e seus feitos, não
conseguiremos identificar qual era a força propulsora de
sua vida, no que eles criam, o que defendiam. Essas coisas,
vistas como subjetivas, são deixadas de fora. Temos a
impressão de que esses grandes nomes do passado eram
capazes de produzir suas obras de arte a partir de sua
própria genialidade e ideias, e que a religião tinha pouco a
ver com isso. Precisamos nos atentar para esse fato para
não cairmos nessa perversão inerente, pois ela é
fundamentalmente uma inverdade. Os estudiosos
modernos, os historiadores, os historiadores da arte e os
filósofos (assim como os artistas), fazem muito mais do que
apenas seguir as tendências. Eles operam a partir de uma
perspectiva básica da vida e da realidade. Essa perspectiva
geralmente se configura como uma religião irreligiosa.
A CRISE NAS ARTES
A partir daí, surgiu uma crise nas artes. Embora a arte
fosse tida como um tipo de religião, uma revelação, uma
solução mística para as buscas mais profundas da
humanidade, os artistas frequentemente permaneciam
famintos e segregados. Se não se rendessem ao mau gosto
e passassem a expressar conteúdos sentimentalistas e
baratos, eles eram abandonados. A arte, a forma elevada
dela, foi retirada da realidade diária e posta em seu próprio
templo, o museu, onde o catálogo é uma espécie de guia da
liturgia.
Tal atitude tem dificultado a vida de muitos artistas e
estu dantes de arte. Por que e pelo que estão trabalhando?
Para muitos, a arte tornou-se uma busca individualista de
sua própria identidade, revelada em seu trabalho e por
meio dele. São como alguém que se olha no espelho — tudo
é uma expressão do eu; o resto, torna-se irreal. A arte deve
ser uma expressão do que há de mais profundo em nós.
Mas e se en contrarmos pouco?
Diz-se que os artistas são geniais. O problema é que,
como os gênios não são ensináveis, concluímos que sua
delicada sub jetividade não deve ser perturbada por pessoas
que lhes dizem haver algo a aprender. Assim, os jovens
artistas se entregam a uma busca e a uma expressão
solitárias.
Alguns chegam ao desespero — até que se lembram que
é a própria arte que trará libertação. Os pobres trabalhos
desses tristes artistas geralmente desmoronam sob pressão
e se desintegram. Basicamente, os artistas são impelidos a
descrever uma religião sobre a qual podemos falar, mas na
qual jamais somos solicitados a crer. A menos que ele seja
forte e talentoso, ou tomado por uma poderosa força
motriz, será difícil alcançar sucesso no mundo da arte.
Ela tornou-se arte pela arte, um tipo de religião
irreligiosa em que a religião não possui um papel
claramente definido. Significa que a arte é algo tão raro e
especial que as pessoas precisam de cursos de apreciação
artística e palestras para conseguir compreendê-la. De fato,
alguns se sentem como se estivessem olhando para as
roupas novas do imperador.
Como resultado, vemos pessoas em todos os lugares
buscan do o sentido da arte. A quantidade de livros
publicados sobre artes não prova que as pessoas sabem o
que ela significa. Pelo contrário — essa busca pelo sentido
da arte é um sinal de crise. E na maioria das vezes essa
busca termina em contradições. A arte precisa ter uma
mensagem, mas não deve ser didática; precisa enriquecer a
vida, mas apenas em relação aos ricos e detentores de uma
educação especializada. De certa forma, a arte realmente
boa, famosa e refinada está muito aquém das pessoas, e as
artes“populares” estão abaixo do nível de aceitabilidade.
Claro que as diferenças de qualidade e tipo sempre
existiram, mas a contundente divisão de hoje é um
fenômeno novo.
Isso acontece quando a arte é posta em um patamar
muito alto. Chega-se ao nível da arte dos museus e dos gê‐ 
nios e rompem-se os laços com a realidade cotidiana. A arte
tem sofrido com isso. A arte superior tem eximido todas as
exigências práticas, tais como decoração, entretenimento
ou qualquer outra função que exige envolvimento com a
vida real. Não obstante, esse tipo de arte inevitavelmente
atrai quase todos que possuem algum talento. Nas
faculdades de arte há muitas pessoas estudando pintura ou
escultura como uma vocação livre. Elas se tornarão os
artistas livres do amanhã e a maioria não será capaz de se
sustentar com seu trabalho. Inevitavelmente, a arte inferior
também tem sofrido. Ela se tornou arte popular e às vezes
é chamada de arte comercial. Arte a serviço de Mamon.
Como todas as pessoas genuinamen te talentosas tendem a
rejeitar essa área, sua qualidade acaba por se deteriorar e
muitas vezes o que é produzido é destituído de imaginação
e qualidade. Como esse é geralmente o tipo de arte
oferecida ao consumo, todas as pessoas, conscientemente
ou não, acabam sofrendo — o que salienta a feiura do
mundo em que vivemos.
É bom analisarmos os livros e nos perguntarmos o que
estamos fazendo e até que ponto chegamos. Um amigo
disse-me há algum tempo: “Quando você publicou seu livro
sobre a morte de uma cultura, achei você pessimista
demais. Mas hoje, ao observar o campo das artes
superiores, inferiores ou medianas, acho que você está
certo”.
Sempre há exceções, como nas artes gráficas e no
desenho industrial, ainda que não encontremos muitas
novidades ou descobertas animadoras nessas áreas.
Contudo, se há melhorias, elas certamente resultam do
trabalho de muitas pessoas conscientes. Desde o século
passado ouvimos lamen tos sobre a baixa qualidade das
artes que foram produzidas particularmente no campo das
artes manuais — o desenho estético de objetos para
utilização diária. Posso citar os no mes de Ruskin, Morris e
seu movimento de Artes Manuais e muitos outros.1 Sem
mencionar Bauhaus, que influenciou – design de forma
geral. Contudo, olhando para todos esses esforços, não
podemos dizer que os objetivos propostos há mais de um
século foram alcançados.
A conclusão de que a arte do design precisa de renovação
e fortalecimento pode ser tendenciosa. Talvez devêssemos
ter discutido mais sobre a pretensiosidade da arte superior.
Porém, os envolvidos certamente estavam preocupados
também com – bem da sociedade, não apenas com a
estética e a qualidade artística.
UMA CRISE EM NOSSA CULTURA
A maior parte dos ativistas, críticos e artistas que tentaram
renovar as artes e dar ao nosso mundo uma face mais bela
ar gumentaram de uma ou de outra forma que não era
suficiente enfrentar os problemas da arte. Eles
compreendiam, de forma mais ou menos clara, que a crise
nas artes era a expressão de uma crise mais profunda, de
natureza espiritual e que afeta todos os aspectos da
sociedade, incluindo a economia, a tecno logia e a
moralidade. A qualidade da nossa vida é maculada e
palavras como alienação, desespero e solidão —
desumanização, em suma — são todas relevantes e têm
sido frequentemente usadas.
Não analisaremos todas elas. Certamente, os problemas
estão relacionados ao fato de que desde a Idade da Razão
nossa cultura tem visto o relacionamento da humanidade
com a natureza apenas como forma de dominar a realidade
e utilizá-la em nosso favor. Porém, conforme a irônica
análise de C. S. Lewis em Abolição do Homem, dominar a
natureza e ser capaz de usar suas forças é privilégio para
poucos. Portanto, os poucos se tornam capazes de exercer
poder sobre muitos. O resultado é a manipulação e a perda
do verdadeiro poder para viver a vida que o indivíduo
deseja. Esforços contrários são feitos por toda parte a fim
de mudar as coisas ou tentar vencer os males do sistema.
Os marxistas se destacam nesse sentido. Muitos os ouvem,
já que eles pelo menos apontam os males. A questão é se o
remédio deles não é pior do que a doença. Se a alienação
significar apenas que nosso relacionamento com as coisas
está rompido, se a dominação da natureza ainda for vista
como um objetivo, se os valores materiais ainda forem o
alvo primário, e se o problema do pecado continuar a ser
evitado, então as questões mais sérias permanecerão.
Ainda assim, se trabalharmos por uma sociedade melhor
e pela resolução da crise nas artes, as mudanças virão. É
im portante pensar bem nesses problemas. Não devemos
esperar que as soluções batam à nossa porta. Será preciso
tempo. Mas todos nós precisamos agir, inclusive os artistas.
1. Veja PEVSNER, Nikolaus. Pioneiros do desenho moderno. São Paulo: Martins
Fontes, 1994. ↩
2.
A RESPOSTA DA IGREJA
ONDE ESTAVAM OS CRISTÃOS quando o mundo começou
a mudar, no século 18? Quando a orientação interna do
mundo enveredou pelos trilhos humanistas, em que os
homens são os mestres e o prazer (por meio do dinheiro) e
o poder são os valores máximos? E não existiam poucos
cristãos. Alguns chegaram até mesmo a considerar tal
período como de grande avivamento.
O cristianismo convencional se tornou um tipo de pietis-
mo no qual a ideia de aliança — conforme pregada nos
livros de Moisés e por toda Escritura — foi abandonada. O
Antigo Testamento foi, em geral, negligenciado, e o
significado da vida cristã foi rebaixado apenas à vida
devocional. De forma branda, extensas áreas da realidade
humana, como a filosofia, a ciência, as artes, a economia e
a política, foram entregues ao “mundo”, já que os cristãos
se concentravam principalmente em atividades piedosas.
Se o sistema do mundo era secularizado, destituído de
verdadeira espiritualidade, o comportamento dos cristãos
tam bém deixou a desejar. E por causa do desinteresse para
com o mundo criado, tal comportamento não era
fundamentado na realidade. Parecia, às vezes, uma
espiritualidade fantasmagóri ca, sem corpo. De fato, os
cristãos têm sido ativos. Porém, de forma otimista, eles com
frequência acreditam que é suficiente pregar o evangelho e
fazer caridades. Ao concentrarem-se em salvar almas, eles
se esquecem que Deus é o Deus da vida e que a Bíblia
ensina como as pessoas devem viver e como devem lidar
com o mundo, a criação de Deus. O resultado é que, apesar
de muitas pessoas terem se tornado cristãs, o mundo se
tornou totalmente secularizado — um lugar em que a
influência cristã é praticamente nula. O impulso de nossa
sociedade é determinado pelo mundo e por seus valores (ou
a falta deles).
AS CONSEQUÊNCIAS DO RETROCESSO
Se dissermos que trabalhar como artista não é uma
atividade suficientemente espiritual e que a arte não tem
lugar na vida cristã, estaremos abertos a profundos
conflitos e contradições. Conheço uma escola de teologia
que organizou um curso sobre cristianismo e cultura. A
primeira questão era: “O que o cristianismo tem a ver com
a cultura?”. Como eles não conseguiram responder, surgiu
a seguinte pergunta: “Por que este curso existe?”.
Entretanto, o que acontecerá quando esses estudantes
saí rem do seminário, começarem a trabalhar com
evangelismo, por exemplo, e iniciarem uma campanha em
algum lugar?
Talvez eles arranjem uma grande tenda e um ótimo
pregador. Mas e a música que será tocada antes de o
pregador falar? Ou não haverá música? E se houver, de que
tipo será? Ou isso não deve ser considerado? Ou será que
não importa? Música também é comunicação. E se essa
comunicação contradisser o discurso do pregador?
O mesmo se aplica aos panfletos distribuídos e aos car‐ 
tazes confeccionados. Eles devem ser bem desenhados e de
bom gosto, pois geralmente são o primeiro contato que as
pessoas de fora têm com os cristãos e, de certa forma, são
nossa face e aparência externas. Assim como as pessoas
mostram quem são por meio de suas roupas e movimentos,
essas coisas (música, cartazes ou, em uma palavra, arte)
são os elementos que formam nossa primeira — e muitasvezes, definitiva — comunicação.
Se formos responsáveis pela construção de uma igreja,
será que ela deverá ter uma aparência totalmente des‐ 
pojada? São Bernardo de Claraval queria que as igrejas
monásticas fossem despojadas e simples; porém, sua ar‐ 
quitetura era linda. Até hoje as pessoas vão aos mosteiros
apreciá-las. Contudo, se não chegarmos a esse extremo e
buscarmos uma decoração apropriada (um vitral, por
exemplo), será que não precisaremos encontrar um bom
artista? E quem vai tocar órgão? E o que o organista
tocará? Com muita frequência criamos barreiras à
comunicação do evangelho porque pregamos que nos
importamos com as pessoas e que este mundo é de Deus,
mas não agimos por esses princípios. Nossa falta de
cuidado demonstra que na realidade não nos interessamos
pelas pessoas ou pela criação de Deus.
Em contraste, a partir da Idade Média até a Reforma, por
volta de 1800, quando o pietismo espiritualista começou a
expulsar da igreja a beleza (como se alguém pudesse ter
be leza interior sem seus sinais externos), pode até ter
havido simplicidade; contudo, sempre houve beleza nas
coisas que os cristãos produziam. E não era um processo
artificialmente imposto; era apenas a maneira natural de
fazer as coisas; a arte ainda não havia se tornado Arte. De
fato, as coisas produzi das naquela época eram tão belas
que as pessoas até hoje as apreciam. As pinturas de
Rembrandt (de “Cristo na Estrada para Emaús” à natureza
morta), as belas igrejas, o crucifixo, a música de Bach
(tanto as cantatas de igreja quanto os “Con certos de
Brandenburgo”), os poemas de John Donne, “O Messias” e
a “Música Aquática”, de Handel. São tantas obras que
testificam em nossa era secularizada que o cristianismo um
dia significou algo que é impossível contabilizá-las. E essas
obras ainda comunicam sua mensagem. Mesmo sem se dar
conta, essas pessoas — os patronos, os artistas e os cristãos
daquela época — erigiram sinais de que o Senhor havia
feito grandes coisas no mundo. Hoje em dia, essas
geralmente são as únicas testemunhas da mentalidade
cristã em nossa vida pública. Por essa razão é bom que os
cristãos trabalhem como historiadores de arte e
funcionários de museus, mantendo vivo o entendimento
dessas obras antigas, que apontam para a eterna Palavra
de Deus.
Não discutiremos todas as facetas da fé cristã. Contudo,
precisamos perceber a segunda consequência: ainda há
uma atitude negativa nos círculos cristãos em relação à
cultura (em sentido restrito) e às artes.
Cristo não veio apenas para nos tornar cristãos ou salvar
nossa alma; ele veio também para nos redimir, de forma
que pudéssemos ser humanos no sentido mais amplo da
palavra. Ser novas pessoas significa que podemos usar
nossa capacidade humana de forma plena e livre em todas
as facetas de nossa vida. Portanto, ser cristão significa que
temos humanidade — a liberdade de trabalhar na criação
de Deus e usar os talentos que ele deu a cada um de nós
para sua glória e para o bene fício do próximo. Assim, se
tivermos talentos artísticos, eles devem ser usados.
E o Senhor sabe por que ele nos concede tais talentos.
Pau lo, em sua Primeira Carta aos Coríntios (12.12-27), fala
sobre a comunidade cristã como corpo de Cristo. Cada
pessoa tem uma função específica no corpo e ninguém pode
ser deixado de fora. Certamente há quem toque música,
desenhe retratos, fotografe e escreva histórias.
Esses são os artistas. Eles possuem um lugar de direito
na fa mília de Deus. Assim, a vida do corpo de Cristo e,
certamente, um renovo, um avivamento, é impossível sem
esses membros chamados por Deus a fazerem seu trabalho.
Como o corpo se move, trabalha, pensa e fala não ape nas
para si mesmo, mas porque é chamado por Deus para ser o
sal da terra, os artistas não são apenas servos de uma
subcultura cristã — eles são também chamados a trabalhar
para o benefício de todos. Claro que às vezes pode ser ine‐ 
vitável que trabalhemos para a subcultura ou que sejamos
uma subcultura. Às vezes temos de nos retirar se o mundo
nos pedir para fazer coisas negativas e destrutivas. Porém,
se formos rejeitados, não por sermos tolos ou teimosos, ou
por estarmos tentando forçar as pessoas a aderirem aos
nossos modos e costumes, mas por não querermos
comprometer nossos princípios bíblicos, podemos esperar
confiantemente que o Senhor nos ajude. Lembre-se que
Cristo disse aos seus discípulos que, se por sua causa
abandonássemos coisas que valorizamos e que estão no
centro de nossa vida, ele mesmo ainda nesta vida nos
devolveria de outra forma o que foi per dido. Ele cuidará de
nós (Mc 10.28-31). Não devemos deixar os seus caminhos.
Nós somos livres e não apenas livres, mas também
chamados a trabalhar para o bem das pessoas a nossa
volta.
UM CHAMADO À REFORMA
Se como cristãos nos sentimos tão à vontade neste mundo,
precisamos nos perguntar se não temos sido influenciados
por seus padrões.
Talvez nossa fé esteja restrita a um pequeno espaço de
nossa vida, em que a piedade e a literatura devocional
ainda têm lugar. Mas e o nosso estilo de vida, a música que
ouvimos e os valores que endossamos na prática? Eles são
diferentes dos valores da sociedade? Não é de se admirar
que o curto sermão semanal que ouvimos em nossas
confortáveis cadeiras se torne distante e impraticável,
religioso no sentido mais raso, uma questão de sentimentos
e não de realidade diária. Cantamos que Jesus é a resposta,
mas para quê?
Estou convencido de que apenas uma verdadeira reforma
pode gerar um renovo em nossa cultura. Uma reforma não
apenas do cristianismo — mesmo que certamente tenha de
começar por ele —, mas também de nosso mundo ocidental.
Não creio na solução marxista ou na solução tecnológica.
Os cristãos precisam acordar. Essa sensação de
impotência ou futilidade precisa ser substituída por um
novo ímpeto ao trabalho. Em suma, os próprios cristãos
precisam perceber que a única palavra profética para hoje
é voltar ao Senhor e buscar nele as soluções. Ouçamos
novamente a sua Palavra. Os profetas do Antigo
Testamento falaram a um mundo que conhecia a Palavra do
Senhor e havia se desviado e passado a viver o que
atualmente chamaríamos de uma vida secularizada.
Ignoraram de forma jubilosa muitas das mazelas de sua
época. Os profetas não falavam de uma doce e salvadora
graça sem relação com o afastamento dos males de seus
dias e o retorno aos seus mandamentos. Ler os profetas não
é fácil. Suas pa lavras são alarmantemente apropriadas para
o nosso tempo. Claro que nada pode ser feito se o Senhor
não for adiante de nós. Não podemos criar um novo espírito
ou transformar julgamento e maldição em bênçãos. É o
Senhor que tem de se mover. Nossa oração é como a dos
irmãos do passado, que compuseram e cantaram canções
como o Salmo 10: “Por que te conservas ao longe, Senhor?
Por que te escondes em tempos de angústia?”.
Somos admoestados em Sofonias 2.3, em uma situação
muito parecida com a atual: “Buscai ao Senhor, vós todos
os mansos da terra, que tendes posto por obra o seu juízo;
buscai a justiça, buscai a mansidão”.
Apesar de não haver promessa alguma de que o cristia‐ 
nismo voltará a ser reconhecido como influente em nossa
sociedade, nossa tarefa é não nos esquivarmos de nossas
responsabilidades. Somos chamados a ser o sal da terra, a
trabalhar contra a corrupção. Somos admoestados a ser
humildes e a nem sonhar em fazer a obra de Deus com
nossa própria força. Simultaneamente, somos ordenados a
ser justos, a cumprir nossa tarefa, a caminhar nos
caminhos de Deus. Isso significa se interessar por essa
realidade, que é sua criação. Se realmente amarmos ao
Senhor e, portanto, quisermos que seu nome seja
santificado e que venha o seu reino, temos uma tarefa
diante de nós. Todos, cada um em seu próprio lugar, devem
começar por esse princípio. Os artistas não ficam de fora.
De fato, eles têm um importante papel a desempenhar.
PRANTEIEM, OREM, PENSEM E TRABALHEM
O princípio ao qual me refiro pode ser resumido na
seguinte fórmula: prantear, orar, pensar e trabalhar. Foi
isso que o pro feta quis dizer em sua época, quandoescreveu: “Eu, porém, confiarei no Senhor” (Mq 7.7-11).
Pranteie pela situação atual. Veja o quanto nos desviamos
de um fundamento aceitável. Cuide dos muitos que levam
vidas que parecem vazias e inúteis. Até o mundo se
preocupa com essas coisas. A televisão mostra que o
consumismo, a violência, o sexo e o entretenimento e o
escapismo fáceis em um mundo totalmente secularizado
são as únicas realidades que sobraram. É preciso
redescobrir e restaurar o significado de nossas ações e
esforços. Precisamos analisar a situação, descobrir o que
está errado e identificar o nosso papel nisso tudo.
Prantear é perceber que as coisas devem mudar, começar
a cuidar das vítimas e orar por perdão. Frequentemente
temos sido cúmplices de tudo o que tem acontecido. Será
que o Senhor não falará conosco como nos dias de Amós?
Estas coisas foram escritas para que aprendamos com elas:
“Ai dos que dormem em camas de marfim [...], que
garganteiam ao som da lira [...], que bebem vinho em taças,
e se ungem com o mais excelente óleo; mas não se afligem
por causa da ruína de José!” (Am 6.4-6). A questão é até
que ponto a nossa afluência atual pode ser vista como uma
bênção e até que ponto é uma bênção transformada em
maldição. Será que conseguimos ficar à vontade diante de
Deus com todas as nossas comodidades, essas coisas
inventadas para tornar nossas vidas fáceis e luxuosas?
Prantear também é ver nossa própria fraqueza e nossas
limitações. É ver onde o nosso amor, cuidado e esforços
têm sido falhos. Isso nos impele à oração.
Oramos sabendo que não podemos mudar as coisas por
nós mesmos e que precisamos de ajuda. Oramos pedindo
sabedoria, força e perseverança para trabalhar em busca
de uma solução melhor. A perseverança certamente é o
mais difícil. Saber que levará tempo, que nosso trabalho
não será suficiente, mas que devemos seguir adiante assim
mesmo e que talvez jamais vejamos os resultados.
A Reforma de Lutero e Calvino ocorreu no começo do
século 16. No restante do século, o que se viu foi uma situ‐ 
ação de confusão em meio à busca por novos princípios e
métodos. Não obstante, a partir de todo o trabalho feito em
obediência ao Senhor e ao ouvir novamente a sua Palavra,
surgiu outra cultura, que de muitas formas era melhor e
mais rica em sua essência. As artes da primeira metade do
século 17 foram fruto disso; não eram perfeitas, mas ricas.
Como leva tempo para mudar uma sociedade por completo,
reorganizar as formas de pensamento, costumes e
percepções, as mudanças foram apenas parcialmente
percebidas. Porém, as artes foram parte disso tudo.
Quando pedimos ao Senhor que nos ajude e ouvimos as
suas palavras, precisamos refletir sobre nossa posição,
sobre onde e como começar. Estou convencido de que
jamais saire mos da crise, dos problemas, a menos que
percebamos como temos sido pegos pelo espírito do
Iluminismo. Temos crido no poder da razão e relegado
qualquer crença em Deus a uma esfera subjetiva e
estritamente pessoal. Deus é bom em salvar almas, mas o
temos mantido fora de nossas grandes decisões sobre
educação, ciência, política etc. Temos de compreender as
formas de pensamento da história intelectual ocidental e
suas consequências — o mundo reduzido, o relativismo, o
neu-tralismo, a neutralidade de valores que são acristãos,
quando não são anticristãos. Temos de pensar com
profundidade nas soluções propostas, inclusive pelo
marxismo, e nos preparar. Pensar não é tarefa somente
para grandes filósofos. Nós esta mos todos envolvidos.
Precisamos pensar profundamente no que significa o cris‐ 
tianismo e sua relação com as questões culturais. Por muito
tempo, temos tratado a questão com descaso e nos
contentado com as palavras das poucas pessoas que
lidaram com ela. Na realidade, nosso cristianismo deve ser
completamente repen sado. Não há reforma sem renovação
teológica ou, melhor ainda, sem um fortalecimento das
percepções bíblicas.
Somente depois disso é que poderemos entrar em ação e
fazer algo com perseverança. E então poderemos começar
de novo — e a sequência tem sua própria lógica. Um não
pode ser iniciado sem que o outro seja feito.
Pranteie, ore, pense e trabalhe.
3.
A TAREFA DO ARTISTA CRISTÃO
O ARTISTA NÃO PODE esperar (na realidade, ninguém
pode) o mundo ser renovado, a crise ser solucionada e os
novos prin cípios culturais serem desenvolvidos. Temos de
participar da vida agora. De fato, o artista pode até estar
em uma posição mais difícil, pois o espírito do
anticristianismo, da desumani-zação e do desespero
prevalece desde a vanguarda das artes. Porém, talvez ainda
reste algo das antigas tradições que possa ser usado como
ponto de partida. Contudo, esse algo precisa receber um
novo fundamento, para que seja uma realidade viva, não
apenas uma tradição.
O PAPEL DOS ARTISTAS NA REFORMA
Os artistas estão em uma posição crucial. Eles têm de
tomar parte nesse movimento que não tem organização ou
nome, um movimento que chamo de “reforma”, um retorno
ao Senhor em busca da verdade, do caminho e da vida que
estão em Cristo Jesus. Os artistas devem ser parte disso. As
artes são em princípio muito dedicadas ao protesto contra a
tecnocracia e à busca por alternativas. Os artistas são
aqueles que criam poemas, canções, imagens, metáforas —
formas que podem tanto expressar o que foi obtido por
meio da inspiração, da sabedoria e da direção, quanto
passar essas coisas aos outros de forma positiva e incisiva.
Uma questão recorrente é se existe espaço nas artes para
o cristianismo. Precisamos dela? E a resposta é: depende
do que você está falando. Se isso significa que um
percentual da arte produzida para os museus deve ser
cristã, então certamente podemos dizer que há espaço, já
que a presença dos cristãos é notável. Porém,
primariamente, estamos buscando artistas que trabalhem
dentro da sociedade e que, dessa forma, tenham sua
participação em tornar a vida vivível, rica no sentido
espiritual, profunda e estimulante.
E não é algo superficial ou fácil. É preciso fazer
sacrifícios, fazer coisas que os outros acham irrelevantes.
Economica mente, talvez signifique estar em uma posição
de fraqueza e vulnerabilidade. Os artistas não podem
cumprir plenamente a sua tarefa sozinhos. Um senso
comum de teoria artística — uma diretriz para os artistas
que não seja um conjunto legalista de regras — é algo
muito necessário. Porém, como há pouca ajuda dos líderes
da igreja, os cristãos intelectuais, todo artista tem de
resolver essas questões sozinho. Assim, se quisermos dar
aos artistas uma parcela na totalidade da vida cristã
(pranteando, orando, pensando e trabalhando), se
compreendermos que sem eles e sem o seu trabalho uma
reforma não se torna apenas improvável, mas também
inviável, então temos de pensar sobre essas responsabi‐ 
lidades. Isso implica pensarmos bem em nossa posição
cristã e no que significa o cristianismo em todos os níveis
da vida humana.
Essa não é apenas uma reforma da igreja. A totalidade de
nosso ser está em jogo. Certamente precisamos considerar
o evangelismo e o trabalho na igreja. Contudo, pregar o
evan gelho e dizer que em Cristo há vida sem ser capaz de
mostrar algo da realidade dessa vida é falar ao vento. Logo
começa a soar falso.
A diferença deve ser visível em todos os campos. Como
diz C. S. Lewis de maneira tão bela, já temos livretos e pan‐ 
fletos cristãos em número suficiente; porém, se quisermos
a recristianização da Europa e dos Estados Unidos, isso não
acontecerá se as pessoas não conseguirem encontrar um
bom livro em certa área do conhecimento e descobrir que
ele foi produzido por cristãos. O mundo não se tornou ateu
porque os ateus pregaram arduamente, mas porque
trabalharam ar duamente. Eles tomaram a liderança em
muitas áreas. Eles deram o tom. A arte certamente tem
muita influência sobre as pessoas. Pense no papel do rock
nos anos 60. Se naquela época houvesse música cristã
criativa, estimulante e boa, se houvesse arte visual que
fosse verdadeiramente diferente, não estranha, mas boa, o
cristianismo teria mais a dizer. Ele teria mais a dizer ao
mundo fora doocidente, ao Terceiro Mundo.
Com frequência nos damos por satisfeitos cedo demais.
Pegamos o que o mundo faz, mudamos as coisas óbvias e
pensamos que é suficiente. Às vezes, nossas pinturas são
iguais às deles, talvez apenas um pouco menos chocantes
ou radicais. Entretanto, ser cristão não é ser conservador
ou apá tico. Obviamente, os artistas não podem fazer isso
sozinhos. Eles precisam de escritores para os livros, de
pensadores que tenham novos pensamentos, de políticos
que ofereçam outras soluções e de pregadores e pastores
que os ajudem a ver o caminho e trilhá-lo.
Somente numa comunidade assim é que podemos avan‐ 
çar. Contudo, se por qualquer razão os outros falharem ou
forem fracos, precisamos seguir adiante e mostrar o que
pode ser feito. Talvez o que os artistas façam seja fraco e
precário. Porém, não esperemos. Talvez a reforma que bus‐ 
camos jamais venha se não chorarmos, orarmos, pensarmos
e trabalharmos.
Tudo o que foi dito é óbvio. Os artistas não necessitam de
justificativa. Deus os chamou e lhes deu talentos. Não
pode mos prosseguir sem eles. Portanto, vamos ajudá-los
em oração e encorajamento, não somente com as palavras,
mas com as ações que nos são possíveis.
De fato, aquilo que não podemos viver sem, não precisa
de justificativa.
ARTE EVANGELÍSTICA?
Com frequência as pessoas dizem aos artistas: “Não há
problema em ser artista, desde que sua arte possa ser
usada para evangelizar”. E assim a arte tem se tornado
uma ferra menta para o evangelismo. Mas sejamos precisos:
não há nada de errado nisso. Precisamos é nos atentar para
o fato de que a arte não pode ser usada para mostrar a
validade do cristianismo — deve ser o contrário. O
cristianismo é verdadeiro; as coisas, ações e esforços
humanos só alcançam seu significado a partir de seu
relacionamento com Deus. Se Cristo veio para nos tornar
humanos, a humanidade e a realidade da arte encontram
seu fundamento nele. Então, a arte não deve ser usada para
pregação, mesmo que isso seja útil. Existe outra forma pela
qual a arte pode ser ou é significativa.
Com o intuito de se encaixar aos padrões do evange-
lismo, os artistas frequentemente têm comprometido e,
como consequência, prostituído sua arte. Contudo, Handel
com seu “Messias”, Bach com sua “Paixão de São Mateus”,
Rembrandt com sua “Negação de Pedro”, e os arquitetos
das igrejas cistercienses não estavam evangelizando ou
pro duzindo ferramentas de evangelismo; eles trabalhavam
para a glória de Deus.
Eles não comprometeram a sua arte. Não estavam produ‐
zindo ferramentas de propaganda religiosa ou publicidade
santa. E precisamente por isso suas obras foram tão
profundas e importantes. Elas não eram um meio para o
fim de ganhar almas; eram significativas em si e um fim em
si mesmas. Elas eram para a glória de Deus.
A arte com frequência tem-se tornado insincera e inferior
em seu esforço de falar às pessoas e comunicar uma
mensagem que não lhe compete. Em suma, a arte tem sua
própria validade e significado, especialmente no
cristianismo. Retornarei a esse tópico mais adiante.
Em um sentido profundo, a arte dos cristãos deve ser
cristã e mostrar o fruto do Espírito com uma mentalidade e
um entusiasmo positivos devido à grandeza da vida que
recebemos. Isso não quer dizer que os sujeitos tenham de
ser cristãos em um sentido superficial. Os “Concertos de
Brandenburgo”, de Bach, não são menos cristãos que sua
“Paixão”, nem a “Noiva Judia”, de Rembrandt, que seus
temas bíblicos. Na realidade, pedir ao artista que se torne
um evangelista reflete a total confusão sobre o significado
da arte e, consequentemente, de outras ativi dades
humanas.
Somos cristãos quer durmamos, comamos ou
trabalhemos; qualquer coisa que fizermos, faremos como
filhos de Deus. Nosso cristianismo não serve apenas para
os momentos piedosos ou atos religiosos. E o propósito da
vida não é o evangelismo; é a busca do reino de Deus.
Para utilizar uma metáfora, a arte não deve ser
comparada à pregação. Mesmo a melhor obra de arte ainda
seria uma pregação ruim. Ela pode ser comparada ao
ensino, mas o professor frequentemente tem de falar sobre
matemática, geografia, história, botânica e, às vezes,
mesmo que rara mente, sobre religião. A melhor
comparação talvez seja com um encanamento. Embora ele
seja algo totalmente indispensável em nossas casas,
raramente nos damos conta de sua existência.
Similarmente, a arte tem uma função importante em
nossa vida, ao criar a atmosfera na qual vivemos, ao nos
dar as palavras para falar e ao nos oferecer a estrutura
(uma paisagem, por exemplo) na qual podemos absorver as
coisas sem sequer notarmos. A arte raramente é uma
propaganda, mas tem sido muito influente em moldar as
formas de pen samento de nossos tempos, os valores que
temos. Por isso, a mentalidade transmitida pela arte é
importante. Talvez sua maior influência esteja no aspecto
que mais se parece com o encanamento e que não
percebemos.
Não devemos dizer que há algo por trás de nossas ações.
Os grandes conflitos, o amor e o ódio, a sabedoria e a
tolice, – conhecimento e a percepção, assim como a falta de
visão e o falso idealismo, não estão por trás da ação, mas
dentro dela.
Portanto, trabalhar como cristão não é fazer uma arte e
adicionar um complemento, o elemento cristão. Uma
pintura cristã, no sentido sério e intrínseco do termo, não
deve ser apenas uma pintura com um complemento
adicional. Também não deve ser santa em um sentido
especial. A arte tem sua própria justificativa.
Já que a pintura é uma criação humana e, como tal, é a
realização da imaginação humana, ela é espiritual; isto é,
ela mostra o que significa ser humano. Essas coisas são
comu nicadas, pois a arte também é comunicação. Tudo o
que é humano testifica do que é humano, pois o que é
humano nunca é neutro, vazio. A pintura é carregada de
significado. Quanto melhor ela for, mais isso será
verdadeiro. Quando entendemos um pouco de arte,
sabemos que as técnicas, os materiais, o tamanho — todos
esses elementos técnicos — são escolhidos para ajudar a
expressar o que se quer. Então, o espiritual e o material
estão necessariamente interconecta-dos. Portanto, a
afirmação de que no fim das contas uma pintura é apenas
uma pintura não tem fundamento. Isso é constantemente
dito para enfatizar que nossa espiritualida de pessoal nada
tem a ver com a arte — o que implica que – indivíduo nada
tem a dizer e que não há humanidade expressa na obra.
Assim, lutamos para expressar claramente o que é o
elemento cristão na obra do cristão, aquilo que a Bíblia
chama de fruto do Espírito (Gl 5.22). O que precisa ser
enfatizado é que a arte deve ser humana, real. O elemento
cristão nunca vem simplesmente como um anexo. Sem pre
me perguntam o que o indivíduo deve fazer se quiser
trabalhar como cristão. Tenho a sensação de que essas
perguntas pertencem a um contexto legalista, como se –
elemento cristão consistisse em seguir algumas regras,
frequentemente negativas. Posso fazer isso? E aquilo? Se
fosse assim, estaríamos entendendo nossa própria espi‐ 
ritualidade de forma mecânica demais. Nós não somos
humanos dotados de um complemento chamado cristia‐ 
nismo. Não, nossa humanidade reage ao mundo inteiro e à
Palavra de Deus de uma maneira específica em relação à
nossa personalidade.
Ser um artista cristão significa que o indivíduo é
chamado para utilizar seus talentos para a glória de Deus,
como ato de amor a ele e serviço amoroso ao próximo.
Significa estar na caminhada, preparando-se da melhor
maneira possível, apren dendo as técnicas e princípios da
profissão, aprendendo com – trabalho dos outros e a partir
de seus erros, encontrando direção, experimentando,
cumprindo aquilo que se propôs a fazer ou, possivelmente,
falhando. Trabalhar assim, de todo nosso coração, mente e
espírito, com todos os nossos talentos em potencial, com
abertura e liberdade, orando por sabedoria e
direcionamento, pensando antes de agir, é aceitar nossa
responsabilidade.
Claro que a autocrítica é necessária; porém, ser um
artista cristão não significa ser perfeito ou produzircoisas
sem falhas.
Nós, cristãos, às vezes somos tolos e cometemos erros —
talvez por causa de nossa pecaminosidade, porque a tarefa
é difícil demais, ou porque recebemos conselhos errados;
certamen te, porque somos humanos e vivemos em um
mundo caído, que está sob uma maldição. Ser cristão não
significa ser um gênio.
Se você é cristão, não se envergonhe disso. Trabalhe a
partir da plenitude de seu ser e dê o melhor que tiver. Você
não poderá ser melhor do que é. Vai se envergonhar se for
pior, mas cairá em orgulho e insensatez se quiser ser
melhor. Isso significa não ter medo e viver a sua liberdade.
Não deixe que ela seja arruinada por sua pecaminosidade.
O pecado tira a liberdade. Ande no caminho de Cristo, mas
com base em suas convicções, a partir de seu
entendimento, e em amor e liberdade. Nunca é apenas a
aplicação de algumas regras proibitivas. É mais real, mais
honesto. Deve ser um compromisso.
Devemos trabalhar da melhor maneira que pudermos. Se
assim o fizermos, já estaremos participando da
transformação das coisas. Ser cristão é ser diferente — mas
não totalmente; ninguém pode ser assim. Se fôssemos,
seríamos completamente estranhos, falaríamos uma língua
estranha e não conseguiría mos nos comunicar.
Também é impossível pensar em todas as coisas; conse‐ 
quentemente, em vários aspectos, seremos fruto da nossa
própria era. Inevitavelmente, teremos muito em comum
com nossos contemporâneos. Comeremos a mesma comi da,
usaremos as mesmas roupas, iremos às mesmas lojas,
falaremos o mesmo idioma, leremos os mesmos jornais,
receberemos a mesma educação escolar, passaremos pelas
mesmas experiências de seca, inflação, altos e baixos,
guerra e paz. Não obstante, seremos diferentes.
Há coisas que odiaremos e que eles amarão, mesmo
sabendo que elas levam à morte, como diz Paulo no final de
Romanos 1. Há também coisas que faremos, amaremos,
buscaremos e pelas quais trabalharemos porque as
consideraremos parte da caminhada. Teremos fome e sede
de justiça e buscaremos aquilo que é positivo.
Os cristãos são diferentes; eles estão inseridos na estru‐ 
tura de seu tempo e a complementam. Talvez a estrutura
do cristão como um todo seja maior e mais rica por causa
disso. Acreditamos nisso e percebemos que as diferenças
são importantes. Não fazer o que é o óbvio — ou fazer algo
que ninguém faz — é relevante. E jamais agimos sozinhos.
Aprendemos com nossos amigos e também lhes ensinamos
algumas coisas. Trabalhamos juntos. E nosso grupo, nossos
companheiros de estrada, que seguem pelo caminho de
Cristo, são parte de um grupo maior que, no fim das contas,
faz parte da totalidade de seu povo, a santa igreja de Deus,
a comunhão dos santos.
E assim, ao criticar, protestar e mostrar o melhor
caminho, podemos influenciar as pessoas. E isso pode ser o
início de algo que Deus pode usar na reforma; mas aí é com
ele. Nossa responsabilidade é ser bons servos e fazer tudo
quanto nos vier à mão para fazer. Enquanto estivermos
fazendo a nossa parte, não devemos perder as esperanças.
Futuramente, talvez só após o último dia, veremos que isso
realmente fez diferença.
Então aqueles que temiam ao Senhor falaram uns aos outros; e o Senhor
atentou e ouviu, e um memorial foi escrito diante dele, para os que temiam
ao Senhor, e para os que se lembravam do seu nome. E eles serão meus,
diz o Senhor dos exércitos, minha possessão particular naquele dia que
prepararei [...]. Então vereis outra vez a diferença entre o justo e o ímpio;
entre o que serve a Deus, e o que o não serve.
MALAQUIAS 3.16-18
4.
DIRETRIZES AOS ARTISTAS
COMO FOI DITO, a arte se tornou Arte no século 18 e as
consequências foram desastrosas. Ainda assim, é verdade
que a arte tem seu próprio lugar. Não podemos justificá-la
dizendo que ela preenche esta ou aquela função, apesar
das diversas tentativas de fazê-lo. Mesmo que a arte às
vezes preencha uma ou outra função, isso não pode ser seu
significado mais profundo. Quando os tempos mudam e as
antigas funções se tornam obsoletas, colocamos as obras de
arte no museu; elas perdem sua função, mas ainda são
obras de arte e, portanto, são significativas.
O VALOR INTRÍNSECO DA ARTE
Pense numa árvore. Ela tem muitas funções: tem beleza,
pode lançar sombra, serve para os pássaros construírem
ninhos, produz oxigênio, serve como lenha ao morrer e
muito mais. Não obstante, o sentido da árvore, sua
existência e sua realidade como criatura, não está nessas
funções ou na totalidade delas, mas exatamente em ser
uma criatura que deve sua existência ao grande Deus Todo-
Poderoso, o Criador. A árvore tem o seu próprio sentido
dado por Deus. Ela não é menos árvore quando algumas de
suas funções, por alguma razão, não são realizadas. Ao
contrário, por possuir um signi ficado, ela realiza muitas
funções.
O mesmo é verdade a respeito dos seres humanos. Somos
significativos por quem somos, não pelo que temos. Nosso
significado não está nas posses que temos nem em nossas
qua lidades ou talentos. Os pregadores com talento para
discursar não perderão sua humanidade nem seu
significado perante Deus e o próximo caso adoeçam e não
possam mais falar. O significado está no que somos, não no
que temos.
O mesmo é verdade a respeito da arte. Deus deu à huma‐ 
nidade a habilidade de fazer coisas belas: compor músicas,
escrever poemas, produzir esculturas e decorar coisas. As
possibilidades artísticas existem para serem percebidas e
exe cutadas por nós e para receberem uma forma concreta.
Deus deu isso à humanidade e seu sentido está exatamente
nessa doação. É algo dado por Deus, que tem de ser feito
por meio dele, ou seja, por meio dos talentos que ele dá, em
obediência e em amor a ele e às pessoas. É assim que a
arte é devolvida como oferta a Deus.
Assim, a arte tem seu próprio significado como criação de
Deus — ela não precisa de justificativa. Sua justificativa é
ser uma possibilidade dada por Deus. Não obstante, ela
pode desempenhar muitas funções. Isso é prova da riqueza
e da unidade da criação de Deus. Ela pode ser usada para
comunicar, para representar valores elevados, para decorar
nosso ambiente ou simplesmente para ser algo belo. Ela
pode ser utilizada na igreja. Fabricamos uma linda fonte
batismal; usamos prataria de boa qualidade em nossos
cultos de comu nhão e assim por diante. Contudo, sua
utilidade é muito maior que isso — é imensa. Ainda assim,
todas essas possibilidades juntas não justificam a arte.
A arte tem seu próprio significado. Uma obra de arte
pode ser posta em uma galeria e admirada. Escutamos uma
música simplesmente por apreciação. Um tipo de
apreciação que não é meramente hedonista; vai muito além
disso, apesar de, em alguns casos, nos dar grande prazer.
Entretanto, há a possibi lidade de um grande número de
funções, que resultam desse forte elo da arte com a
realidade. É exatamente esse último elemento que tem sido
subestimado pelas pessoas que falam da Arte elevada como
algo autônomo, para o seu próprio benefício.
Já que a arte não precisa de justificativa, ninguém precisa
se desculpar por fazer arte. Os artistas não necessitam de
justifi cativa, da mesma forma que os açougueiros, os
jardineiros, os motoristas de táxi, os policiais ou as
enfermeiras não precisam justificar com argumentos
sagazes o porquê de estarem fazendo o seu trabalho.
E eles certamente não o fazem como forma de conseguir
uma oportunidade para pregar ou testemunhar.
Encanadores que fazem grandes discursos evangelísticos,
mas deixam a tor neira vazando, não estão cumprindo o seu
papel. São maus encanadores. Fica claro que eles não
amam ao próximo. O significado do trabalho está no amor a
Deus e ao próximo. Cada pessoa deve orar de forma
pessoal (santificado seja o teu nome. Que venha o teu
reino) e trabalhar por isso em sua própria profissão.
Quando falamos sobre desempenhar um papel ou cumprir
uma função, minimizamos e de certa forma destruímos
nosso entendimento a respeito do que Deus nos chama a
fazer. Há muito mais além disso. E acontece o mesmo com
os artistas. Eles não precisam de justificativa. É claro que,assim como qualquer um, eles precisam de justi ficativa no
sentido teológico do termo. Os artistas são seres humanos,
pecadores que carecem de justificação por meio da obra
completa de Cristo na cruz. Ainda assim, os cristãos agem
como novas criaturas, conforme Romanos 6. Sua obra de
arte é tão parte de seu ser cristão como qualquer outra
atividade mencionada; tão válida quanto as atividades do
pregador e do evangelista.
Se virmos uma boa obra de arte, não é inapropriado
orarmos dizendo: “Obrigado, Senhor”. É um dom de Deus.
Talvez estejamos agradecendo a Deus porque ele
respondeu à oração do artista, que pediu ajuda e
direcionamento. E certamente não haveria arte de boa
qualidade se Cristo não tivesse vindo para retirar a
maldição do mundo e impedir que ele virasse o próprio
inferno. A arte em si é um potencial dado por Deus. Nós,
seres humanos, apenas a descobrimos e a utilizamos da
melhor ou da pior maneira. Essa verdade também impede
que a arte seja transformada em um tipo de religião, o que
geralmente ocorre com a arte moderna. Deus não quer que
transformemos a arte em um deus, tornando a beleza o
nosso objetivo último. Esteticismo significa dar a arte um
lugar que ela não merece — e isso pode ser muito
destrutivo.
Não significa que a arte não pode ter um lugar na
adoração religiosa. De fato, a confecção de ídolos é
proibida; mas, da mesma forma que somos cuidadosos ao
preparar um presente para alguém que amamos ou
estimamos (o amor que temos é demonstrado e expresso
tanto na escolha quanto na emba lagem), nos esmeramos
para fazer nossas canções da melhor maneira possível, para
construir os prédios mais belos que conseguirmos. A beleza
pode ser algo muito simples. O bom gosto não pode ser
comprado com dinheiro, apesar de o di nheiro às vezes ser
apropriadamente gasto nele.
ARTE E REALIDADE
A comunicação e a forma são as duas facetas, as duas
qualidades da arte. A comunicação acontece sempre por
meio da forma, e a forma sempre comunica valores e signi‐
ficados. Ela pode retratar a realidade fora de nós mesmos,
como entendida e vista por nós. Tal realidade pode ser as
coisas que vemos, mas também as coisas que experimen‐ 
tamos — amor, fé, afeto, justiça e todos os seus respectivos
antônimos. A realidade existe fora de nós. É um potencial a
ser descoberto e percebido. Por exemplo, a América existia
antes de qualquer europeu a visitar. Não obstante, ela
ainda não existia para as pessoas do mundo europeu. Ela
teve de ser descoberta e, quando isso ocorreu, suas
possibilida des tiveram de ser percebidas, abertas e
disponibilizadas. Hoje, ao olharmos para a mesma América,
após tantos séculos, vemos o que os ocidentais fizeram com
ela. Eles desbravaram, fizeram pontes, estradas, cidades e
parques. Eles perceberam o potencial de dar frutos e ser
um lugar habitável. Contudo, houve muita destruição.
Assim, vemos que há muitas feridas na realidade dessa
terra e de seus habitantes: sejam humanos, animais ou
vegetais. Portanto, a América que existe agora é uma
realidade percebida, que mostra o que as pessoas fizeram
dela. A qualidade disso é que conta.
Assim, a realidade não é simplesmente (objetivamente)
que está lá. Ela é uma potencialidade. A realidade que
conhecemos é sempre uma realidade percebida. Nós a
descobrimos, nomeamos e a tornamos acessível. Assim,
podemos declarar que sempre vemos o que sabemos ou
entendemos com relação ao mundo exterior. A realidade é
isto: o potencial do mundo exterior como o conhecemos, da
forma que o conhecemos. O interessante é que o pintor
pinta o que vê, mas como ele vê o que conhece, podemos
dizer também que ele pinta o que conhece. Na pintura, na
comunicação visual, podemos ver o que um artista, como
membro da raça humana, posicionado em certo ponto da
história, conhecia e entendia da realidade. Porém, nossa
visão da realidade não é apenas conhecimento, no sen tido
de conhecer o que existe. É também criação, já que as
pessoas querem ter a sua própria percepção da mesma
realidade. A qualidade dessa visão é importante. Ela pode
ser edificante, esclarecedora, positiva, bela e boa; ou pode
ser negativa, destrutiva, feia e pobre. Geralmente, ela é
uma mistura desses dois extremos.
A realidade é o presente e também engloba o passado.
São as coisas vistas e as coisas não vistas que, ainda assim,
são muito reais, como o amor, o ódio, a justiça, a beleza, a
bondade e o mal. Assim, ao pintar, os pintores sempre vão
escolher o que acham relevante, importante para eles e
para nós. Se pintarem o passado, o farão porque julgam
que ele é significativo para nós agora. E ao fazê-lo,
demonstrarão seu entendimento dele. Se um artista retrata
a história do Natal, ele não o faz simplesmente porque
ocorreu há muitos anos, mas porque compreende que o
Natal ainda é de grande valor e importância para nós. E ele
demonstrará seu entendimento a respeito disso. Portanto,
ao vermos tanto cartões de Natal banais e sentimentalistas,
temos de questionar o que eles representam. Será que esse
deve ser o entendimento da história do Natal no tempo
presente? Não serão eles ordinários demais, indignos da
realidade do Filho de Deus vindo a este mundo? Será essa a
qualidade de nosso cristianismo? Se assim for — e penso
que é — então surgem muitas questões!
A arte não é neutra. Podemos e devemos julgar seu
conte údo, seu significado e a qualidade do entendimento
acerca da realidade que está incorporada nela.
Há ainda uma segunda maneira de abordarmos a qua‐ 
lidade, a maneira que a obra é feita, o tipo de cores utili‐ 
zadas, a beleza das linhas; em suma, a qualidade artística.
Teoricamente, essas duas formas de julgar a arte podem
ser separadas. Porém, na verdade, elas geralmente são
indis sociáveis, porque só temos a visão e o entendimento
nos incorporando na composição e na percepção artística
da obra de arte. Como a arte está amarrada à realidade, há
um espaço para falar sobre a verdade na arte. Será que ela
faz jus ao que representa? Será que o faz de maneira
positiva?
Será que demonstra a profundidade e a complexidade do
que aborda? A arte talvez seja simples; porém, ela deve ser
clara, nunca tola ou superficial.
ARTE E SOCIEDADE
A arte tem um lugar complexo na sociedade. Ela cria as
imagens significativas pelas quais são expressas coisas
impor tantes e comuns. Por meio da imagem artística, a
essência de uma sociedade torna-se uma propriedade e
uma realidade comuns. Ela dá forma a essas coisas não só
intelectualmente, mas também de modo que elas sejam
absorvidas emocional mente, em sentido bem amplo.
Emocional não quer dizer anti-intelectual. É mais que
intelectual.
Pensemos nas bandeiras, paisagens, retratos e canções
entoadas sobre o país que amamos. É estranho, mas por
meio da arte as coisas nos são aproximadas. De certo
modo, começamos a vê-las porque o artista as tornou
visíveis para nós. Ver, como compreendo o termo aqui, está
intimamente relacionado com entender, apreender o
sentido de algo, desenvolver um relacionamento emocional.
Assim, na casa das pessoas, é mais comum vermos pinturas
de coisas que estão bem próximas do que de coisas que
estão distantes. Em um chalé suíço, pode-se ver pinturas de
chalés e monta nhas, talvez as mesmas vistas da janela. No
Canadá, numa casa que visitei, vi a pintura de uma
cachoeira que ficava a cerca de trinta quilômetros. Nas
escolas de equitação, vemos pinturas de cavalos; em uma
fazenda holandesa, de vacas. Os que amam carros possuem
figuras de automóveis. De fato, é assim que essas coisas
vão ganhando realidade.
Da mesma forma que, até certo ponto, algo não existe se
não receber um nome, se não for formulado verbalmente,
as coisas que não forem retratadas permanecerão turvas e
vagas, já que não aprendemos a vê-las.
Os artistas revelam o mundo para nós e lhe dão uma
forma. Conhecemos as coisas pela maneira que eles as
formularam para nós. Às vezes, até o nosso estilo de vida é
moldado ou pelo menos influenciado pelos artistas.
Sabemos como os filmes influenciam profundamente a
forma como as pessoas vivem e pensam. Seus heróis,suas
visões de mundo, seus so nhos e assim por diante. Os filmes
geralmente têm um papel importante na formação de uma
nova moda, que certamente é mais do que a simples
escolha de cores ou do comprimen to da saia; ela representa
a maneira que nos movemos e até sentimos. Por exemplo: a
nova dança introduzida por Irene e Vernon Castle entre
1910 e 1920, em Nova York, época em que surgia o jazz de
Jim Europe, influenciou um novo modo de vida, uma nova
forma de se mover e se vestir. Isso significou o fim da
formalidade e o início do comportamento informal e
descontraído.
A arte também pode dar forma ao nosso
descontentamento, nosso desconforto em relação a certos
fenômenos. Ela pode dar forma ao protesto. Se feito da
maneira certa, ela não deve ser destrutiva ou fragmentar o
que é bom. Usando uma lin guagem atual, podemos traduzir
a injunção bíblica “ter fome e sede de justiça” por “protesto
em amor”.
As ferramentas para isso podem ser os filmes, as
canções, as pinturas, os desenhos animados e os slogans. A
literatura e a poesia também têm suas funções.
De certa forma, a arte desempenha um importante papel
na liturgia da vida. E escolhi esse termo em analogia à
liturgia que temos na igreja, as formas estabelecidas nas
quais mol damos nossos cultos. A liturgia da vida é a
maneira como fazemos as coisas. A arte cria os ambientes,
confecciona roupas, esculpe a taça dada ao vencedor e a
escultura que é a representação de uma ovação como o
Oscar. As artes ajudam de muitas formas. A organização de
um evento solene, como a posse de um presidente, é em si
uma obra de arte. A forma como um restaurante é
projetado é importante (design inte rior), de forma que até
nossas refeições são influenciadas. A música também tem
uma função importante em nossa vida. E essa função está
em seu significado, que está arraigado em seu sentido
interno.
NORMAS DE ARTE
A grande norma em tudo isso é o amor a Deus e ao
próximo. Na Idade Média, as pessoas falavam dos sentidos
múltiplos de um texto ou obra de arte. Seu sentido não era
apenas literal (o que era dito ou retratado), mas também
alegórico (aquilo a que se faz referência por meio das
imagens ou figuras histó ricas), moral (as implicações das
normas aceitas) e analógico (o impacto da obra e como ela
leva nossos pensamentos e emoções para perto ou para
longe de Deus e de sua aliança). A questão crucial é: a arte
representa a verdade (veja João 3.20-21)? Se amamos o
próximo, certamente não devemos olhá-lo com desprezo.
Qualquer atitude esnobe ou elitista representa um desvio.
Um belo exemplo é Isaac Watts, o conhecido compositor
de hinos e salmos métricos do início do século 18. Ele
deliberadamente compôs suas canções de maneira simples,
abstendo-se da linguagem intricada e floreada que era
utilizada por poetas que geralmente escreviam para uma
plateia restrita e letrada. Eles faziam todos os tipos de re‐ 
ferências aos mitos, às histórias e às figuras literárias e os
menos educados mal conseguiam entender. Há lugar para
esse tipo de poesia, mas não ao compor músicas e hinos
para igreja. Watts queria que os membros mais simples da
igreja pudessem compreendê-las. Não obstante — e nisso
está a beleza de seu trabalho — ele fez sua poesia de forma
tão excelente que conseguiu resistir à prova do tempo. De
fato, sua obra tem resistido aos séculos e muitos dos hinos
que ele escreveu ainda são cantados hoje. Muitas pessoas
conhecem seu trabalho, mesmo sem conhecer o compositor
ou perceber que sua obra foi deliberadamente composta
para ser apreciada por pessoas comuns.
Se dissermos que o amor é, como em tudo mais, a su‐ 
prema forma de arte, isso certamente afeta os temas que
escolhemos, a maneira como os tratamos, as formas que
lhes damos, os materiais que manuseamos e as técnicas
que empregamos. Em Filipenses 4.8, Paulo faz uma
afirmação para a vida como um todo, incluindo a arte. No
último capítulo do meu livro sobre arte moderna, elaboro
isso de forma mais detalhada. Essa norma certamente não
está acima ou além da arte. Está nas próprias pinceladas
que pomos no papel, na batida do tambor, na nota que
produ zimos na trombeta, no tipo de tinta que utilizamos. A
arte representa a verdade?
A arte mostra a nossa mentalidade, a maneira como
vemos as coisas, como abordamos a vida e a realidade. Se
estivermos entre artistas, pode haver uma discussão sobre
os detalhes, sobre as técnicas, sobre os prós e contras
desta ou daquela forma de lidar com o problema artístico.
Não discutirei isso. Quero só destacar que nenhuma dessas
coisas é neutra.
Isso certamente se aplica à maneira como lidamos com o
assunto. No passado, isso era chamado de decoro. Tínha‐ 
mos de escolher as formas, os tipos e expressões em
relação ao assunto e à situação na qual a arte
desempenharia uma função. Se virmos uma peça de
Shakespeare, saberemos depois de três minutos se é uma
comédia ou uma tragédia. Da mesma maneira, quando
procuramos alguma música no rádio, algumas notas já
bastam para sabermos que tipo de música estamos
ouvindo.
Em nossos tempos, essa sensibilidade para com o decoro
tem-se perdido. Um bom exemplo é o musical Godspell.
Nele vemos alguns limites sendo negligenciados, um erro
contra a norma do decoro. Tratar um tema sublime como a
Paixão como se fosse um musical, que por definição é um
gênero leve e voltado para o entretenimento, é errado sob
qualquer aspecto. A forma não faz jus ao tema; e o tema é
tratado de forma irreverente. É uma experiência dolorosa
assisti-lo. É comparável ao exemplo dado anteriormente
sobre os cartões de Natal. Não é de se admirar que o
cristia nismo perca a força. Será que esses exemplos não
mostram o quanto ele enfraqueceu? Contudo, muitos outros
exemplos podem ser encontrados. Vá ao museu de arte
moderna e veja como coisas ordinárias às vezes são
tratadas como se fossem importantes e grandiosas, uma
exaltação ao que é comum demais. Claro que isso pode ser
feito de maneira irônica. Entretanto, é uma demonstração
do relativismo de nossos tempos, em que qualquer coisa é
válida.
Tenho visto muitos jovens artistas desprezarem a
decência e o decoro. Vi uma pintura que retratava a coluna
de fogo no monte Sinai. Foi feita na forma e no estilo de um
cartaz. Vi um jovem artista pintando “Ecce Homo”, Cristo
entre seus inimigos. Porém, tinha sido mal feito e, portanto,
era infe rior. Se você nem consegue pintar uma cabeça
direito, como pode querer abordar um tema que muitos
artistas antigos evitaram por ser tão difícil retratar de
maneira convincente? Precisamos conhecer nossos limites
e escolher nosso gênero, assim como nosso tema, já que o
gênero em si é parte da comunicação.
NORMA E GOSTO
“Gosto não se discute”, diz o antigo ditado. Não nego isso.
Uma pessoa prefere paisagens; outra, retratos; uns gostam
de música coral, uns gostam de orquestra e uns gostam de
música de câmara. Não discutiremos se uma ópera é
melhor que uma sinfonia, ou se o blues é melhor do que o
jazz. Porém, ainda que nossas preferências não possam ser
discutidas, nossas escolhas podem, já que a qualidade e o
conteúdo não são apenas questão de gosto, mas questão de
norma. Se falarmos de retratos, alguns são mais belos,
outros são menos, uns têm mais qualidade, outros têm
menos. Ainda assim, nosso parâmetro não é definido
apenas pela qualidade artística. Na verdade, quanto mais
elevada a qualidade, mais importante se torna a discussão
do conteúdo, do significado, da direção analógica.
Similarmente, um livro de teologia escrito por um autor
conhecido e brilhante não se torna aceitável simples mente
por ser bem escrito ou profundamente ponderado. Mesmo
que ele realmente seja bom, pode ser avaliado com cuidado
e talvez refutado como herético, antibíblico ou mal-
direcionado.
Não é errado alguém dizer: “Gosto de sinfonias, mas não
de rock”. Mesmo que pareça uma visão limitada, é uma
questão de gosto. E dentro desses limites, alguém pode
preferir Haydn a Mozart, Brahms a Schubert. No entanto,
nem toda sinfonia é boa só por ser sinfonia. Sempre há a
questão do conteúdo e do significado;o que isso significa
analogicamente? A questão do decoro também pode ser
relevante.
Como exemplo, Mozart compôs diversas peças musicais
para missa. A música é linda e poderia ser apropriada se
estivéssemos ouvindo uma ópera. Porém, não acho que
esse tipo de música, seu tom e sua expressão, seja
adequado para uma missa. Tais exemplos, porém, são sobre
música antiga. Nosso pensamento sobre ela não muda a
história, mesmo que argumentemos sobre a influência do
conteúdo dessa música sobre nós hoje. Nunca é algo
neutro. Contudo, se estivermos falando de coisas
contemporâneas, nossa avaliação se torna mais importante.
Se um disco chega ao topo das paradas de sucesso
(refiro-me ao rock e ao pop), quer dizer que muitas pessoas
o estão ouvindo. Portanto, torna-se imprescindível discutir
o signifi cado, o conteúdo e a influência que ele tem sobre
as pessoas, ainda que não no sentido exato de uma palavra
ou linha, ou apenas das letras das canções. A música com
seu impacto total, ou seja, sua melodia, seu ritmo e sua
harmonia, expressa uma mentalidade, um estilo de vida,
um modo de pensar e sentir, uma forma de lidar com a vida
e com a realidade. É importante discutirmos isso, pois esse
tipo de música ajuda a formar os estilos de vida daqueles
que apreciam.
E como reagimos a isso? Nossas opiniões não são irre‐ 
levantes. Nossa reação cria ondas que influenciam nossa
época. Quanto melhor o disco, artisticamente falando, mais
importante será essa discussão. E se compreendermos que
a música que estamos analisando é a expressão de uma
mentalidade, há mais duas considerações a serem feitas. Se
a energia dessa música for mundana, antinominista
(anarquista), e expressar incerteza e até desespero, então,
que devemos fazer com ela? A música que nos rodeia parte
de nosso ambiente e de nosso estilo de vida, isto é, de nós
mesmos.
O Senhor disse que não é o que entra em nós que nos
torna impuros, mas o que sai de nós (Mt 15.11).
O ambiente que criamos é algo que sai de nós. Entre‐ 
tanto, por essa mesma razão, jamais devemos concluir que
não podemos escutar esse tipo de música. Isso significa nos
desconectar de nosso próprio tempo. Tal comportamento é
empobrecedor e significa que não conseguimos entender
nossos contemporâneos, aqueles com quem queremos com‐ 
partilhar sobre o Senhor e a Palavra que ele nos deu e
sobre que ele requer de todas as pessoas em obediência a
essa palavra.
Outra questão é se podemos adaptar o que é criado pelo
mundo (isto é, pelas pessoas que não conhecem ou não
amam ao Senhor) e utilizar. Não há uma resposta fácil, já
que a norma é que a música ou a arte em geral deve ser
boa nos dois sentidos já explicados: no sentido da qualidade
e no sentido da men talidade expressa. Às vezes os cristãos
produzem música ruim porque não têm talento, porque não
se esforçam o suficiente ou porque demonstram sua
natureza pecaminosa. Às vezes o mundo produz boa
música, como o blues de Mississippi John Hurt. Se for boa,
ela pode ser seguida; se não for, é melhor deixar para lá.
Finalmente, perguntamos em que nível, em que situação
tal música pode ser adequada. As marchas de Sousa são
ótimas, mas totalmente inadequadas para serem usadas em
cultos na igreja. E o rock de hoje? Será que é adaptável à
expressão cristã? Será que basta mudar as letras? A música
não é apenas letra. Sua expressão é total, e mais na
melodia, no ritmo e na harmonia do que nas letras.
Obviamente, não significa que se pode escrever qualquer
coisa. Deve haver não somente uma unidade entre as letras
e a música (a música deve carregar o texto, enfatizando-o)
— a expres são encontrada na música tem de estar alinhada
ao texto. Entretanto, o texto em si certamente tem de se
sustentar. Já ouvi rock “cristão” cujas letras eram
praticamente heréticas e antibíblicas.
É aí que entram as questões de decoro, estilo de vida,
entendimento, emoção e gosto. Gosto é a sensação boa em
relação à nota certa, ao ritmo certo, à forma certa no
tempo certo, acompanhados da escolha da palavra certa;
em suma, é o sentimento em relação ao que pode ou não
ser feito em um tempo e lugar específicos. Além disso,
devemos consi derar o impacto que a obra terá sobre as
pessoas, onde ela os está levando e como será
compreendida. A comunicação é complexa e tem muitos
níveis.
A vida e a arte são complexas demais para aplicarmos
regras legalistas. Porém, não significa que não há normas.
Mesmo não sendo possível definirmos o tipo ruim de
sedução ou o tipo certo de beleza e atração de uma mulher
só pelo compri mento da saia ou pela profundidade do
decote, elas sabem os limites exatos — particularmente as
sedutoras, que passam propositalmente dos limites.
Portanto, tanto na música quanto na arte, os bons artistas
sabem muito bem o que deve ser feito em um determinado
lugar e momento, o que é apropriado. É uma questão de
bom gosto.
Acrescentarei mais uma questão. Falar de música cristã
não significa necessariamente falar de uma música cuja
letra transmita uma mensagem bíblica explícita ou
expresse a experiência de uma vida de fé e obediência
piedosa. A obediência não está restrita às questões de fé e
ética. E aí entra a totalidade da vida. É a mentalidade, o
estilo de vida, que recebe forma e expressão artística. A
“Paixão de São Mateus”, de Bach, é cristã, assim como os
“Concertos de Brandenburgo”. Não são apenas as letras
das cantatas que são cristãs, mas também a parte
instrumental. Se não for assim, estaremos reduzindo o
cristianismo e excluindo do comprometimento com Deus,
nosso Senhor e Salvador, uma grande parte da nossa vida,
que deve manifestar o fruto do Espírito. Por outro lado,
conheço pinturas que iconografi-camente representam um
tema cristão, mas seu conteúdo e impacto são negativos e
blasfemos — uma grande mentira. Contudo, outra obra do
mesmo artista talvez expresse uma mentalidade quase
anticristã.
PROBLEMAS DE ARTE E ESTILO
Devido à maneira bicentenária de ver a arte como algo
sublime, autônomo e quase religioso, hoje há uma
tendência de chamar de arte apenas as obras que estão em
museus, como as pinturas, a música clássica dos grandes
composito res românticos e a boa literatura. Não há como
negar que isso é arte nem que é importante. Porém,
frequentemente, significa que alguns tipos de artes
manuais ou música fol clórica passam despercebidos e não
são considerados dignos de nossa atenção.
Certa vez conheci uma moça que me disse que sempre
sonhara em ser artista. Ela me pediu conselhos. Entretanto,
os desenhos dela não eram tão bons a ponto de eu achar
que devesse encorajá-la. Por outro lado, eu sabia que ela
era muito boa em desenhar roupas e produzir tecidos.
Meu conselho foi que ela não ingressasse no
departamento de pintura de alguma escola de arte. Isso
significaria arrastar-se por anos, ao final dos quais ela
talvez recebesse um tapinha nas costas, mas
provavelmente acabaria com uma pilha de qua dros não-
vendidos no porão. Disse-lhe então que procurasse uma boa
escola de artes manuais, têxteis e moda. Ela seguiu meu
conselho e, quando a reencontrei algum tempo depois, ela
estava feliz. Sentia inclusive que estava em um lugar mais
desafiador, aprendendo mais do que aprenderia na escola
de artes, onde as pessoas discutiam o dia inteiro e
trabalhavam e aprendiam pouco — semelhantes a pequenos
gênios sem objetivo.
Assim, é bom considerar o que é arte, focando na pintura
e na escultura e sabendo que distinções parecidas podem
ser feitas em outras áreas. Tratando-se de artes visuais,
duas qualidades distintas podem ser observadas. A
primeira é a quantidade de naturalidade, de força
descritiva, de qualidade representacional. Aqui se pode
pontuar de zero, totalmente não-figurativo (a forma pura),
até o naturalismo extremo. Em um extremo está a curva, o
círculo ou o quadrado, a cor pura ou o padrão simples. No
outro está a precisa descrição das impressões visuais, como
em uma natureza morta de Harnett ou na precisão de Jan
van Eyck, que descreve as coisas de forma tão detalhada.
A segunda é a carga de significado que a obra carrega.
Nonível mais baixo (que não significa inferior) encontra‐ 
mos os ornamentos, as formas embelezadoras e as cores —
todos valiosos por si. É certo que, frequentemente, isso tem
um grande significado. No nível mais alto está o ícone, a
carga da obra que, por carregar muitos valores e
realidades, possui vários significados. O ídolo é um exem plo
específico e, em um sentido profundo, pecaminoso de um
ícone. É um deus. Ainda assim, também pensamos no
“Davi”, de Michelangelo, como se fosse a personificação de
tudo o que representa a Renascença de Florença: a
grandeza da humanidade. Ou pensamos na “Noiva Judia”,
de Rembrandt, que representa não somente Rembrandt ou
a Holanda do século 17, mas também a grandeza do amor
humano no casamento. Claro que também podemos
lembrar-nos dos ícones bizantinos. Entre esses dois extre‐ 
mos, todas as obras de arte têm um lugar, às vezes mais
significativo, às vezes menos.
Toda obra de arte é caracterizada por esses dois
elementos. Ela pode ser decorativa, pobre em significado
icônico, ainda que apresente flores precisamente pintadas
como, por exemplo, os papéis de parede do século 19. E
pode ser iconi-camente importante, mesmo que seu valor
representacional seja baixo, como o de Paul Klee ou as
obras expressionistas abstratas.
A questão é que todos esses tipos de arte, com ou sem va‐ 
lor icônico elevado, com ou sem qualidade representacional
precisa, são válidos. Vai depender apenas da função que
deve exercer. Repito, o decoro é a norma. Um trabalho
decorativo bem feito pode até ter um valor icônico menor;
porém, não significa que ele possui um valor artístico
inferior ou com menos significância. E também não
significa que a pessoa que o produziu é um artista inferior.
A arte realmente grandiosa opera em vários níveis ao
mes mo tempo. Pense numa igreja barroca no sul da
Alemanha. Ottobeuren é um ótimo exemplo. Nela as obras
de arte operam decorativamente. Estão lá apenas para
adornar a igreja. Porém, se olharmos mais de perto,
veremos uma ornamentação floral magnífica um pouco
mais de tempo, veremos as histórias e, começando a
entendê-las, veremos seu significado em rela ção à
totalidade da igreja e sua função. Finalmente, podemos
apreender o conjunto total. Ali todos os níveis de
iconicidade e de valor representacional estão presentes. É
decorativo e ao mesmo tempo carregado de significado.
Possui um esquema de cores e de ornamentação e também
uma representação precisa.
Se compreendermos tais coisas, entenderemos também
que não é tão relevante discutir se o mais importante nas
artes visuais é o figurativo ou o não-figurativo. Evito o
termo abstrato propositalmente. A arte não-figurativa
sempre existiu, principalmente em ornamentos. As pinturas
nobres sempre incluíram esse nível, independentemente da
figuração que apresentam e da significância da história
retratada. E a figu-ratividade nem sempre envolve um
significado profundo e intrínseco. A questão não é se a arte
não-figurativa é certa ou não.
Se quisermos discutir a questão de forma relevante, duas
outras questões precisam ser levantadas.
A primeira é a questão do decoro, a função da obra de
arte em seu próprio cenário. Um ornamento ou estilo de
tecido pode ser não-figurativo. Porém, uma grande
escultura também pode, caso seja posta em um lugar
apropriado. De certa forma, a Torre Eiffel era uma
escultura não-figurativa, o marco de uma exibição em 1889.
A segunda é a questão do significado em relação à fun‐ 
ção. Pense no formato de nossos relógios ou carros. Mesmo
que geralmente chamemos isso de desenho industrial, há
um significado inerente. O desenho de um carro pode
representar luxo, velocidade ou eficiência. Para decorar o
saguão de um hotel, pode-se se utilizar um painel figurativo
e decorativo, mas também pode ser apropriado escolher um
modelo com grandes áreas coloridas. Aqui, o gosto é um
princípio direcionador, um sentimento acerca do que é
apropriado.
Para mim, o que nunca é bom é o abstrato, que significa a
negação ou rejeição da realidade: uma atitude negativa em
relação a ela. Ser negativo não quer dizer mostrar o errado
como errado, trazer para a arte a percepção da maldição,
do pecado e daquilo que é inaceitável. Não estou pedindo
apenas pinturas agradáveis e idealistas. Elas também
podem representar mentiras ao mascarar as realidades da
vida, como fazem algumas pinturas natalinas. Uma atitude
negativa é quando a realidade como tal é considerada
negativa.
Então, o que deve ser levado em conta é o lugar, o
decoro. O que deve ser discutido é o significado inerente da
obra de arte em relação a essa função. Repito: a arte jamais
é neutra e, se quisermos discuti-la adequadamente, a
totalidade de nossa humanidade sempre estará envolvida.
Agora, algumas palavras sobre estilo. Frequentemente,
jovens artistas me perguntam que estilo devem escolher.
Para mim, é uma pergunta constrangedora. Não se pode
escolher um estilo de maneira aleatória. Ele faz parte do
conteúdo, já que a expressão da obra de arte é parte da
própria forma artística. De certo modo, o artista não tem
um estilo que pode ser mudado para outro. Com seu estilo,
o artista revela quem é. Não significa que dentro da
totalidade de um estilo não possa haver diferenças em
relação à função e ao lugar de uma obra específica: ela será
delicada em um casamento, profunda e solene em uma
ocasião social importante, trági ca e triste em um funeral.
Contudo, o estilo não pode ser escolhido ao acaso.
Não devemos escolher um estilo simplesmente porque
queremos tornar nosso trabalho mais vendável ou popular.
Devemos ter coragem de sermos nós mesmos, de sermos
honestos. Este é o requisito mínimo para qualquer obra de
arte. Jamais devemos comprometer nossos princípios ou
objetivos profundos. Além disso, não devemos simples‐ 
mente seguir as tendências e a moda conforme elas vêm e
vão. Isso pode ser negativamente “mundano” e demonstrar
que não temos muito a oferecer por nós mesmos. É
facilmente compreensível que os jovens artistas estão em
busca de um es tilo, que estão experimentando as
possibilidades de expressão. Porém, uma vez encontrado, o
estilo passa a expressar quem eles são. Naturalmente, não
significa que o estilo é imutável. Ele cresce com cada
artista em profundidade e abrangência. Em uma palavra,
http://outro.com/
ele amadurece. Geralmente isso significa também
simplicidade e direcionamento, pois as complexidades são
dominadas e o muito é introduzido em poucas imagens. É
uma obra de mestre!
Ambos os elementos podem ser vistos na história da arte.
Vemos no trabalho de um artista um desenvolvimento, um
processo de maturação, de mudanças graduais que
acompa nham a vida. Às vezes vemos mudanças repentinas
no estilo, nas formas de expressão. Significa que uma
mudança drástica ocorreu em relação à vida do artista: ou
uma conversão a outro princípio espiritual ou a influência e
impacto de uma pessoa ou movimento.
FAMA E ANONIMATO
Alguns artistas se tornam famosos e seus nomes são ampla‐ 
mente conhecidos. Não significa necessariamente que suas
obras são conhecidas por todos. Em contraste, há milhares
de artistas desconhecidos — basta consultarmos um
dicionário artístico-biográfico para vermos vários. Pelo
menos os espe cialistas os conhecem. Tirando esses,
existem muitos sobre os quais ninguém jamais ouviu falar.
Alguém teve de construir determinada estátua que encanta
a todos que viajam a certo lugar com olhos atentos. Talvez
ela seja bastante apreciada pelos moradores locais. E
quando eles dizem que amam sua cidade, aquela estátua
faz parte da imagem do lugar. Se ela não estivesse lá,
muitas pessoas sentiriam sua falta. A estátua é famosa —
mas e o artista? Quem o conhece? Pergunte às pessoas
quem fez o marco de Copenhagen, ou quem desenhou o
monumento na praça Trafalgar e os leões que todos
conhecem.
A maior parte do trabalho do artista é anônima. Nesse
sentido, ele tem o mesmo destino que muitos que
trabalham em benefício público. Quem fez o trem no qual
você viaja? Quem foi o gênio que criou a programação da
televisão? Quemprojetou aquele objeto prático que você
utiliza todos os dias?
Talvez o anonimato não seja um destino ou uma tragédia,
mas algo muito normal. O elogio por aquele monumento ou
por aquele objeto prático é a maior recom pensa que
alguém pode receber. Um belo cartaz — quem o desenhou?
Quem se importa? Talvez os colegas do artista o conheçam.
Os especialistas saberão. No entanto, a pes soa será
esquecida com o tempo. Quem conhece o autor daquela
linda estátua na Babilônia, no Egito, na Grécia ou em
Roma? Quem fez a famosa estátua de Marco Auré lio na
Colina do Capitólio, em Roma? Ou quem erigiu o obelisco
de Washington?
Sinto que tudo isso é correto. A fama acompanha a obra,
se ela for bem feita.
Panofsky, em seu livro sobre Suger, fala disso de forma
sábia. Ele compara Suger a Michelangelo. Suger foi um
grande bispo na França do século 12. De muitas formas, ele
foi responsável pelo estilo gótico. Foi o construtor de
St. Denis, a pessoa que escolheu e orientou os artistas. Ele
foi um homem muito importante em sua época — embora
só os especialistas tenham ouvido falar dele. Não obstante,
todos que admiram o estilo gótico exaltam a visão de Suger
e suas habilidades.
Suger, afirma Panofsky, buscava fama, mas era algo cen‐ 
trífugo. A fama estava nas coisas que ele fazia. A fama de
Michelangelo era centrípeta, ou seja, ela sempre termina
no próprio Michelangelo. Vejamos a “Pietá”. O que
buscamos? Uma linda Madona? Uma emocionante imagem
do corpo de Cristo? Ou vemos Michelangelo? Isso também
vale para suas outras obras. Assim, acabamos esquecendo
o que estamos observando e ao sairmos não dizemos:
“Como o juízo final é terrível e jubiloso!”, mas “foi
Michelangelo quem fez. Como ele era grandioso!”.
Você se identifica com Suger ou com Michelangelo?
Pode mos criticar Suger por alguns de seus ideais. Se
dissermos que as igrejas católicas são exageradamente
adornadas, que a arte extrapola os limites, em certo sentido
estaremos criticando a visão de Suger. Contudo, o seu ideal
de fama é mais cristão que o de Michelangelo ou, pelo
menos, que o das pessoas que lhe deram esse louvor.
Não devemos buscar fama — isso pode acender o peca do
do orgulho. Pode implicar a perda da humildade. E o
louvor, que pertence a Deus, não vai ser dado a ele. Essa é
a lição que aprendemos em Eclesiastes. Todas as coisas são
vaidade e até o mais elevado louvor desaparece no ar após
um ano, um século ou centenas de anos. Porém, a
significância de um trabalho bem feito está na alegria de
ter feito algo útil para alguém e, dessa forma, ter
contribuído positivamente com o fluxo da história em
direção ao reino de Deus. Os jovens talvez sonhem em
tornarem-se famosos. Contudo, isso pode ser perigoso. A
busca pela fama fácil pode ser comprometedora e
incentivar a desonestidade. É melhor sonhar em
desenvolver seus talentos, fazer o melhor que puder. Deixe
que os outros decidam, julguem e elogiem. Não deixe que a
fama o engane. No final, você terá de prestar contas diante
do supremo juiz, o grande Senhor Todo-Poderoso.
Provavelmente, você dirá: “Senhor, fui apenas um servo
indigno de ti, mas tentei usar meus talentos. Não fui
perfeito, mas o Senhor me deu tanto que tenho que
agradecer-te por qualquer coisa que o mundo diga que
produzi”.
No fim, a arte é anônima. Quem sabe o nome dos grandes
escultores das catedrais góticas? Quem sabe os nomes dos
arquitetos que desenharam um prédio construído recente‐ 
mente? Sabemos que um bom desempenho jamais é fruto
de uma única pessoa, que ela precisou da ajuda de outras.
De certa forma, uma delas se torna a marca, o registro. As
pinturas, as músicas, os belos desenhos de carros e outros
produtos industriais são anônimos. É bom que seja assim,
pois apenas complementamos o mundo que Deus nos deu
para desenvolver, para embelezar. Acrescentamos à vida de
muitos e amamos nossos vizinhos. Essa deve ser nossa
maior conquista.
AS QUALIDADES Do ARTISTA
Quatro qualidades determinam o escopo, a profundidade e
a importância de qualquer artista: talento, inteligência,
caráter e aplicação. O termo talento é extraído da Bíblia, da
parábola dos talentos contada por Jesus. De fato, um
talento é algo recebido. É um potencial que o indivíduo
deve usar com responsabilidade. Nosso Senhor tem o
direito de pergun tar, e certamente o fará, o que fizemos
com nossos talen tos. Algo pelo que agradecer? Certamente.
Sem talentos nenhum artista pode ter qualquer relevância.
Todavia, isso não é algo exclusivo do artista. Outras
pessoas têm talentos. Todas recebem características
positivas, para usar e desenvolver, e negativas, que são as
fraquezas que temos de combater.
Por inteligência nos referimos à qualidade de analisar a
situação, encontrar a forma correta, dar a melhor solução,
dominar as complexidades da arte e expressar claramente
o que se quer alcançar. De certa forma, essa também é uma
qualidade recebida. Algumas pessoas talvez a descrevam
como talento. Porém, é necessário que esse talento seja
desenvolvido.
O caráter é uma qualidade muito importante para o
artista. Frequentemente, ele determina a grandeza e
importância do artista. E muitos têm falhado nesse ponto.
Alguns, logo no início da vida, obtêm sucesso com algum
trabalho e conti nuam fazendo a mesma coisa. O que era um
ato criativo, o desenvolvimento de um novo princípio, acaba
se tornando um truque, uma conquista fácil. Esses artistas
definham e se tornam inferiores. E muita gente renomada
terminou assim. Outra tentação para os artistas é usar os
talentos de forma restrita, visando apenas o lucro, a
popularidade e a aceitação.
Comparemos Jelly Roll Morton e Louis Armstrong. O jazz
havia se tornado uma grande influência na música po pular
americana e a tentação de tornar-se comercial e popu lar
era enorme. Louis Armstrong caiu nessa cilada. Por volta
de 1930, seu trabalho se tornou leviano e popular, cheio de
truques e efeitos. Ás vezes ele tentava voltar a produzir
algo bom e criativo, mas quase sempre fracassava. Chegou
ao ponto de se tornar uma espécie de palhaço televisivo,
que cantava canções ridículas de ninar para crianças. Ele
realmente era um grande músico, um grande trompetista.
Todavia, para apreciá-lo, é preciso ouvir seu trabalho com
os Hot Five ou Hot Seven (1926-27), ou com o grande King
Oliver Creole Jazz Band (1922-23). Felizmente ainda temos
as gravações.
O que aconteceu é entendível. Depois da crise de 1929,
ganhar a vida como músico se tornou muito difícil. A
música de boa qualidade não era tão apreciada pelo
público, que preferia algo leve e sentimental. A tentação de
ceder a esse mau gosto era grande. Como sempre, além da
fraqueza e do pecado pessoal, há também a culpa coletiva
— as circunstâncias e o ambiente em que nossa sociedade
nos coloca. Jelly Roll Morton, o grande pianista de jazz,
recusou-se a submeter sua arte à baixaria. Ele lutou pela
qualidade e pelos princípios que defendia. Como resultado,
ele ainda é um grande artista, que possui um capítulo em
qualquer livro respeitável sobre a história do jazz. No
entanto, seu nome foi esquecido pelo público para o qual
ele se recusou a fazer papel de palhaço ou de manipulador
de sons.
Ele lutou durante anos com a pobreza e a rejeição. E o
mesmo aconteceu como muitos outros jazzistas brilhantes
— alguns dos quais inclusive morreram durante os anos 30.
Não se deve interpretar que o entretenimento em si é
errado. Até certo ponto, toda arte é entretenimento, uma
oportunidade dada por Deus para relaxar com boa música,
boa arte e bons livros. Nada há de errado com a balada,
com a música dançante (Mozart compôs várias desse tipo);
nada há de errado em se produzir desenhos, cartazes e
ilustrações. Porém, tudo terá de ser feito com qualidade.
Lembre-se do que dissemos sobre Isaac Watts. Ele
escreveu canções populares de alto nível. Pense também
em Toulouse Lautrec, cujos cartazes continuam a decorar
ambientes, ainda que as performances que anunciavam já
tenham ocorrido há anos. A maioria das pessoas sequer
sabe que tipo de música eles anunciavam. Se o trabalho for
bem feito,ele sobreviverá à ocasião, como a música de
Mozart que ainda ouvimos. Ainda apreciamos Bob Dylan,
mesmo que tenha passado o período de protesto em que
sua músi ca teve um papel importante. Ainda podemos
assistir com prazer aos bons filmes antigos de
entretenimento, mesmo que o estilo seja ultrapassado.
Lógico que tudo está datado. Não importa o que façamos,
jamais deixaremos de estar em nosso próprio tempo.
Inevita velmente, vivemos no agora. Porém, algo belo
sobrevive — se suas qualidades não forem efêmeras.
A última qualidade de todo bom artista é a aplicação. O
antigo ditado diz que qualquer boa obra de arte é 95%
transpiração e 5% inspiração. Algumas pessoas talvez quei‐ 
ram colocar o trabalho árduo dentro da categoria caráter.
Seja como for, nenhuma obra de arte surge por si só, como
produto do acaso. Não existe arte instantânea, com exceção
do café, nada é instantâneo nesse mundo! Recordo as
palavras de um grande pianista: “Se eu deixar de fazer
meus exercícios por um dia, perceberei no dia seguinte. Se
deixar de fazer por dois, minha esposa perceberá. Se deixar
de fazer por três, meus amigos mais próximos perceberão.
Após quatro dias, o público perceberá”.
Há também a fascinante história do Hokusai, o grande
pintor japonês e criador de xilogravuras que viveu por volta
de 1800. Certa vez, alguém lhe encomendou o desenho de
um galo. Ele respondeu: “Pois bem, volte daqui a uma
semana”. Quando o homem voltou, Hokusai prolongou o
prazo por mais duas semanas. Depois, por mais dois meses;
em seguida, por mais meio ano.
Passados três anos, o cliente estava tão furioso que se re‐ 
cusou a continuar esperando. Então Hokusai disse-lhe que
entregaria a encomenda naquele momento. Ele pegou um
pincel e um papel e desenhou um belo galo, em
pouquíssimo tempo. O homem ficou irado: “Por que você
me fez esperar anos se consegue fazê-lo em tão pouco
tempo?”. “Você não entende”, disse Hokusai. “Venha
comigo.” E então levou o homem até o seu ateliê e mostrou-
lhe as paredes cobertas de desenhos de galos, que ele
vinha desenhando há três anos. Foi dessa prática que veio
sua destreza genial.
Claro, não significa que podemos deixar as pessoas espe‐ 
rando ou que não precisamos cumprir nossas promessas. A
lição é que até a improvisação e os atos espontâneos
resultam de um trabalho árduo. Nenhum artista jamais
conseguirá alcançar o topo se não começar seu dia
praticando; o pintor deve desenhar por algumas horas e o
músico deve ensaiar.
Qualquer pessoa deve estudar. Genialidade por si só não
basta.
O CAMINHO
É claro que oramos e pedimos a ajuda de Deus. É claro que
o Espírito Santo está na retaguarda. Porém, Deus, por sua
grande misericórdia e sabedoria, nos leva a sério — somos
suas criatu ras, feitas à sua imagem. De forma alguma
somos instrumen tos passivos do Espírito de Deus. Ele nos
deu personalidade, liberdade e responsabilidade. Portanto,
jamais poderemos dizer que nosso trabalho é diretamente
inspirado e feito por ele. Seria blasfêmia dizer que nosso
trabalho é obra de Deus. Contudo, podemos louvá-lo pela
força renovadora que ele nos deu em Cristo e por sua ajuda
quando conquistamos algo que reflete amor, vida, beleza,
justiça, paz e alegria — talvez após muitas pesquisas e
estudos.
Os artistas cristãos são pessoas que trabalham, pensam e
agem como artistas, usando seus talentos e possibilidades.
Porém, trabalham com outra mentalidade e com outra prio‐ 
ridade em suas vidas. Essa mentalidade implica trabalhar
com liberdade. Não precisamos provar nada a nós mesmos,
já que a busca por fama e a preservação do nosso orgulho
pessoal não nos incomodam, pois não precisamos construir
nossa própria eternidade.
Talvez a melhor maneira de expressar isso é dizer que
estamos no caminho. A Bíblia sempre usa essa metáfora. A
Escritura é a lâmpada para nossos pés, que caminham em
meio a este mundo tenebroso. Prossiga no caminho
estreito. Pode ser difícil e requererá esforço. Porém, seguir
a estrada larga do pecado, deixando-se levar, fazendo o que
se quer, te levará à destruição, aqui e agora. “Siga-me” —
são as palavras de Cristo! Saiba onde você está indo. Cristo
aponta para si mesmo quando diz que ele é o caminho.
Viver é seguir no ca minho com ele — um caminho de vida
profunda e verdadeira e um caminho de verdade, pois ele é
a verdade. E devemos fazer o que é verdadeiro, ou seja,
amar a Deus e ao próximo. O caminho é de liberdade, amor
e humildade, mas é também de santidade. E Deus nos ajuda
e direciona. O caminho às vezes é difícil e requer
sacrifícios. Em casos extremos, exige até nossos corpos
mortais em martírio. Contudo, ele é também estimulante,
cheio de novas paisagens. É um caminho em di reção à
Terra Prometida. E agora mesmo já experimentamos muito
do que nos aguarda.
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A ARTE NÃO PRECISA DE JUSTIFICATIVA 
Categoria: Espiritualidade / Vida cristã / Ética
Copyright © Hans Rookmaaker
Traduzido do original em inglês Art Needs No Justification mediante acordo
entre Editora Ultimato e The Piquant Agency
Primeira edição: Novembro de 2010
Coordenação editorial: Bernadete Ribeiro
Tradução: Fernando Guarany Jr.
Preparação e revisão de texto: Paula Mazzini Mendes
Capa: Souto Crescimento de Marca
Produção do arquivo ePub: Booknando
ISBN 978-65-86173-52-9
PUBLICADO NO BRASIL COM TODOS OS DIREITOS RESERVADOS POR:
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	PREFÁCIO
	INTRODUÇÃO
	1. O PANO DE FUNDO DE UM DILEMA
	2. A RESPOSTA DA IGREJA
	3. A TAREFA DO ARTISTA CRISTÃO
	4. DIRETRIZES AOS ARTISTAS
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