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Educação em Direitos Humanos reflexões e experiências Educação em Direitos Humanos reflexões e experiências Douglas Ferreira dos Santos Sheila Stolz Vinícius Vianna Gonçalves Organizadores 2021 E24 Educação em direitos humanos / organizadores Douglas Ferreira dos Santos, Sheila Stolz, Vinícius Vianna Gonçalves. – Pelotas: Editora Morus, 2021. 632p.: il.; Fotografia de capa Camila Hein. - 1. Direitos Humanos. 2. Educação 3. Gênero 4. Relações étnico-raciais. 5. Saúde. 6. Meio ambiente. 7. Cultura. 8. Pandemia. 9. Geração de Renda I. Santos, Douglas Ferreira dos. II. Stolz, Sheila. III. Gonçalves, Vinícius Vianna. CDD 361 - Problemas sociais e bem-estar social em geral Produção Editorial Simone Xavier Moreira Equipe Técnica Douglas Ferreira dos Santos Sheila Stolz Vinícius Vianna Gonçalves Organização Cristiane de Oliveira Antunes Laís Silva Garcia Sabrina Siqueira Revisão textual Simone Xavier Moreira Diagramação Capa Ruan Isnardi Leandro Dorneles dos Santos Catalogação na Fonte: Virgínia Oliveira Borges – CRB-10/1952 O conteúdo desta obra é licenciado sob uma licença Creative Commons Atribuição Não-Comercial 4.0 Internacional (CC BY-NC 4.0). Editora Morus editoramorus.com.br contato@editoramorus.com.br (55) 984457210 ISBN 978-65-995604-1-5 (digital) ISBN 978-65-995604-2-2 (impresso) “Por um mundo onde sejamos socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres.” Rosa Luxemburgo Sumário PREFÁCIO 11 INTRODUÇÃO 15 SEÇÃO 1 | DIREITOS HUMANOS EDUCAÇÃO E PRÁXIS PEDAGÓGICAS Análise de um tweet do ministro da educação Abraham Weintraub (2019-2020) à luz da Declaração Universal dos Direitos Linguísticos 19 A docência negra em Canguçu: desdobramentos sobre educação e racismo 39 Um fazer docente entrelaçado à aprendizagem baseada em projetos como proposta de educação humanizadora 51 Educação em Direitos Humanos e formação docente: uma proposta para práxis pedagógica 67 Propostas de escolas sem partido no Brasil: a inconstitucionalidade dos projetos de lei 83 Direitos Humanos x escola: questões emergentes 99 Professora: a profissional cuja essencialidade e importância social ainda não foram reconhecidas 113 Direitos Humanos na escola: um plano de ação que visa à interação, à vivência, ao conhecimento e à apropriação dos artigos da Declaração Universal dos Direitos Humanos pelas(os) estudantes 127 Escola: um espaço de diálogo em Educação e Direitos Humanos 145 A educação em e para os Direitos Humanos como forma de prevenir e mitigar os casos de violência na escola 163 Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos: práxis pedagógicas como alternativa no combate à violência contra a mulher 183 Educação em Direitos Humanos, Base Nacional Comum Curricular e ensino remoto: aproximações e desafios 203 Os Direitos Humanos: da teoria educacional à prática escolar 225 A educação popular e os Direitos Humanos: concepções dos educandos sobre o tema no Curso pré-universitário popular Up 251 SEÇÃO 2 | DIREITOS HUMANOS GÊNERO E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS A importância das terras indígenas para a conservação da biodiversidade e garantia da vida como um princípio do Direito Humano 279 Uma análise sobre os Direitos Humanos dos imigrantes refugiados no Brasil 293 Povos quilombolas: Direitos Humanos e identidade de resistência 309 Breve análise das campanhas de promoção de igualdade racial e Direitos Humanos da Defensoria Pública do estado do RS 327 O estado como máquina de extermínio da população negra 339 Femicídio: um estudo histórico sobre o tema 365 A busca do espaço feminino no mercado de trabalho e a respectiva luta pelos Direitos Humanos das mulheres: uma revisão de literatura 383 Direitos Humanos na América Latina: um olhar interseccional de classe, raça e gênero 399 SEÇÃO 3 | DIREITOS HUMANOS SAÚDE, EDUCAÇÃO E PANDEMIA Política de saúde mental brasileira: uma breve retrospectiva sobre a sua constituição 421 Direitos em saúde das comunidades remanescentes de quilombos e os desafios enfrentados em meio à pandemia da Covid-19 438 Pandemia e infodemia: o posicionamento oficial anticiência e as suas violações aos Direitos Humanos fundamentais no Brasil 457 Análise das contribuições de educação igualitária de Direitos Humanos no contexto perceptivo de pandemia 487 Pessoas em situação de rua e Covid-19: vulnerabilidade e atendimento na cidade do Rio Grande/RS 507 SEÇÃO 4 | DIREITOS HUMANOS MEIO AMBIENTE, CULTURA, GERAÇÃO DE RENDA E O FAZER PROFISSIONAL Os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável da ONU e o entrelaçamento com o código de ética mundial do turismo 541 Educação e Economia Solidária: possibilidades de educação ambiental para um novo paradigma social em Curso Técnico em Meio Ambiente 561 Comunicação como um direito: a dimensão pedagógica do trabalho do assistente social na área da comunicação 573 Direitos Humanos: desenvolvimento, cultura e direito ambiental – um recorte investigativo 591 Direitos Humanos e Educação Ambiental: desafios pedagógicos em tempos de pandemia 613 SOBRE OS ORGANIZADORES 627 11 | Prefácio Prefácio Passadas as duas primeiras décadas do século XXI, e iniciando uma terceira, o panorama da humanidade pode ser caracterizado pelo agravamento das desigualdades sociais, econômicas, culturais e, agora, face à pandemia do coronavírus (Sars-CoV-2) 1, também sanitárias. Requerimentos elementares – tais como o acesso à água potável e ao saneamento básico, à alimentação adequada, à educação e à saúde de qualidade – são direitos imprescindíveis e inalienáveis de crianças, adolescentes, mulheres e homens que continuam a ser violados em grande parte do mundo e, particularmente, no Brasil. A intensificação dos conflitos armados, as manifestações de violência, o desemprego e o subemprego massivos, a exploração do trabalho infantil e análogo à escravidão, as migrações em massa, o racismo, a xenofobia, a discriminação por sexo, raça e etnia, a pobreza extrema, as endemias somam-se à contínua degradação ambiental e às catástrofes ecológicas. Por tudo isso, a Educação em e para os Direitos Humanos (EDH) é indispensável. Começo recordando que a educação em todos os níveis não é apenas um direito de todas as pessoas, posto que contribui para o desenvolvimento da personalidade, à autonomia pessoal e à tomada de decisões plausíveis, assim como para a compreensão de conceitos valorativos básicos como liberdade, 1 Segundo a FIUCRUZ: “os coronavírus causam infecções respiratórias em seres humanos e em animais. Geralmente, são doenças respiratórias leves a moderadas, semelhantes a um resfriado comum. Já o novo coronavírus é uma nova cepa do vírus (2019-nCoV) que foi notificada em humanos pela primeira vez na cidade de Wuhan, na província de Hubei, na China”. Disponível em: https://portal.fiocruz.br/pergunta/o-que-e-o-novo-coronavirus. Acesso em: 13 jul. 2020. 12 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências igualdade e solidariedade, é, também, para a melhoria individual e coletiva da qualidade de vida. A necessidade de educar em e para os Direitos Humanos está contida na Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH), onde se afirma, no artigo 26, que “toda pessoa tem direito à educação” e que esta, a educação, “terá como objetivo o pleno desenvolvimento da personalidade humana e o respeito pelos Direitos Humanos e liberdades fundamentais, promoverá a compreensão, a tolerância e a amizade entre todas as nações e todos os grupos étnicos e religiosos e promoverá a atividade das Nações Unidaspara a manutenção da paz.2 Antes mesmo da promulgação da DUDH, em 10 de dezembro de 1948, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) enaltecia a importância da Educação e, particularmente, da EDH, pois, desde o preâmbulo de sua própria Constituição, afirmava que se “as guerras nascem na mente dos homens, é na mente dos homens que os baluartes da paz devem ser fundados.” (UNESCO, 1945, p. 7).3 Em outros termos, a UNESCO desde sua criação defende, propaga e incentiva a Educação em e para os Direitos Humanos (EDH). Neste sentido, vale destacar o documento Declaração e Plano de Ação Integrado sobre a Educação para a Paz, os Direitos Humanos e a Democracia, promulgado durante a 44ª sessão da Conferência Internacional sobre Educação (Genebra, outubro de 2 Declaração Universal dos Direitos Humanos. Adotada e proclamada pela resolução 217 A (III) da Assembleia Geral das Nações Unidas em 10 de dezembro de 1948. Paris: ONU, 1948. 3 Constituição da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura. Adotada em Londres em 16 de novembro de 1945 e alterada pela Conferência Geral; em vigor desde 4 de novembro de 1946 após a ratificação. Londres: UNESCO, 1946. 13 | Prefácio 1994) e endossado pela Conferência Geral da UNESCO em sua 28ª sessão (Paris, novembro de 1995). Perspectiva que foi reforçada pela ONU, tanto ao proclamar o período datado de 1995 a 2004 como a “Década da EDH”, como também ao aprovar, em 2003, uma nova estratégia de atuação da UNESCO/ONU, a saber: 1. Apresentação de uma visão holística dos DDHH em todos os programas da Unesco; 2. Fortalecimento das alianças com outras instituições para promover a Educação em e para os Direitos Humanos; 3. Promoção de ações de vigilância sobre o cumprimento das convenções internacionais sobre a Educação em e para os Direitos Humanos. Convém recordar que os instrumentos internacionais de Educação em e para os Direitos Humanos (EDH) pressupõem que as políticas educacionais desenvolvidas pelos estados devem contribuir para a promoção da solidariedade e da tolerância entre grupos e nações, pois o objetivo supremo da EDH é a construção de uma cultura de paz baseada na dignidade humana, no respeito à diversidade, no desenvolvimento sustentável e na justiça. Uma educação de qualidade não requer somente o aprendizado de idiomas nacionais ou estrangeiros, operações matemáticas ou conhecimentos de biologia, botânica, química e física, mas também, e sobretudo, a aprendizagem de valores ético- humanistas fundamentais e tão bem enumerados na Constituição Federal de 1988 que, desde seu preâmbulo, instituiu o Estado de Direito Democrático brasileiro e que em essência se destina a “assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, 14 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução pacífica das controvérsias” 4. Portanto, o direito à educação, e particularmente o direito à EDH, vai além da mera divisão didática dos Direitos Humanos em direitos civis e políticos, por um lado, e direitos econômicos, sociais, culturais e ambientais, por outro. A EDH é holística, afirma a universalidade conceitual dos DDHH e pode ser pensada/projetada de três formas diferentes, ainda que conexas: 1. por meio de práticas que privilegiam a formação eminentemente jurídica; 2. por meio de práticas que se baseiam em uma educação de valores, ou seja, na transmissão de certos valores universais que os indivíduos devem incorporar em sua vida; 3. por meio de práticas que partem de uma realidade social e política, inscrevendo os DDHH como construção do saber no marco da luta pela cidadania e pela democracia. Os textos desta Coletânea a que tenho a satisfação de prefaciar são frutos dos estudos e reflexões havidas no âmbito da terceira edição (2019-2020) do Curso de Pós-Graduação em Educação em Direitos Humanos (PGEDH) – Modalidade à Distância, oferecido pela Faculdade de Direito da Universidade Federal do Rio Grande (FADIR/FURG) e vinculado ao Sistema Universidade Aberta do Brasil (UAB) e à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). Portanto, cumprem, desde as mais distintas perspectivas, os requisitos da EDH e, sendo assim, recomendo sua benfazeja leitura. 4 BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. Assembleia Nacional Constituinte/Congresso Nacional: Brasília, DF, 1988. 15 | Prefácio Introdução Esta obra tem por objetivo ecoar elementos produzidos por aqueles que se dedicam a disseminar, consolidar e construir de maneira prática os Direitos Humanos em nossa sociedade. A estrutura literária desta compilação contempla aspectos importantes desta temática, com o intuito de oferecer ao leitor produções diversificadas envolvendo os direitos humanitários, para transformar e proporcionar elementos combativos à sua violação. As produções aqui dispostas são o resultado de trabalhos de conclusão do Curso de Especialização Lato sensu em Educação em Direitos Humanos, da Faculdade de Direito (FADIR), da Universidade Federal do Rio Grande (FURG). Trata-se de relatos de experiências e pesquisas de sujeitos de diversos contextos. A referida obra está organizada por seções que dialogam, diretamente, com a temática principal. Boa leitura! Douglas Ferreira dos Santos Vinícius Viana Gonçalves 16 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências 17 | Prefácio 18 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências 19 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas ANÁLISE DE UM TWEET DO MINISTRO DA EDUCAÇÃO, ABRAHAM WEINTRAUB (2019-2020), À LUZ DA DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS LINGUÍSTICOS Maicon Farias Vieira 5 Uma introdução ao momento político brasileiro O atual momento político brasileiro vem sendo protagonizado por constantes sucessões, retiradas e nomeações de membros em escala micro e macro. Durante os primeiros vinte e sete meses de governo do presidente Jair Bolsonaro, o Ministério da Saúde (MS) teve a presença de quatro responsáveis: Luiz Henrique Mandetta (1º de janeiro de 2019 – 16 de abril de 2020), Nelson Teich (17 de abril de 2020 – 15 de maio de 2020) e Eduardo Pazuello (interinamente, de 2 de junho de 2020 a 13 de setembro de 2020 e, oficialmente, desde 14 de setembro de 2020). Nesse meio tempo, uma vacância entre os dias 16 de maio e 1º de junho de 2020 deixou a pasta ministerial sem nenhum representante/ responsável. 5 Graduado em Letras com habilitação em Português (UNIFACVEST) e Espanhol (UFPel), tecnólogo em Viticultura e Enologia (UFPel), especialista em Educação em Direitos Humanos (FURG), mestre em Educação (IFSUL) e doutorando em Letras (PPGL-UFPel). Atua como professor de espanhol da rede municipal de Pelotas. E-mail: maiconfariasvieira@gmail.com. 20 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências O Ministério da Educação (MEC) não recebeu melhor atenção. No mesmo período, três pessoas estiveram responsáveis pela pasta ministerial: Ricardo Vélez (1 de janeiro de 2019 – 8 de abril de 2019), Abraham Weintraub (9 de abril de 2019 – 19 de junho de 2020) e Milton Ribeiro (atual responsável, desde 16 de julho de 2020). Entre a atuação dos dois últimos ministros, há um período em que o cargo esteve vago por 25 dias. Contudo, a ocupação do cargo passou por duas tentativas frustradas. A primeira foi a nomeação de Carlos Alberto Decotelli para o cargo, inclusive divulgada no Diário Oficial da União. Porém, foi tomada como sem efeito após uma série de denúncias de sua formação. As informaçõesapresentadas por Decotelli na Plataforma Lattes, foram contestadas por instituições de ensino, resultando na alteração dos dados cadastrais na Plataforma e na ruptura da posse frente ao Ministério. A segunda tentativa foi com o nome de Renato Feder que, após três dias do convite para o cargo, acabou desistindo. Em uma de suas redes sociais, Feder divulgou o convite e a desistência, como mostra a figura a seguir: 21 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas Figura 1 – Anúncio, de Renato Feder, do convite para o Ministério da Educação Fonte: FEDER (2020a; 2020b) 6. A falta de incentivos financeiros significativos e a constante mudança nos quadros ministeriais são o pleno reflexo do fato de que, na atual gestão nacional, saúde e educação não vêm recebendo a devida atenção. As trocas dos ministros não aconteceram em vão, com especial atenção àquelas vinculadas ao Ministério da Saúde. Vive-se a 6 “Agradeço ao presidente Jair Bolsonaro, por quem tenho grande apreço, mas declino do convite recebido. Sigo com o projeto no Paraná, desejo sorte ao presidente e uma boa gestão no Ministério da Educação.” (FEDER, 2020a, on-line); “Recebi na noite da última quinta-feira uma ligação do presidente Jair Bolsonaro me convidando para ser ministro da Educação. Fiquei muito honrado com o convite, que coroa o bom trabalho feito por 90 mil profissionais da Educação do Paraná.” (FEDER, 2020a, on-line). 22 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências pandemia do novo coronavírus (Covid-19), que já matou mais de 2.7000.000 pessoas e infectou mais de 120.000.000, reconhecido inicialmente na China, mas que já está presente por todo o mundo. Luiz Henrique Mandetta, médico e primeiro ministro da saúde do governo Bolsonaro, deixou o governo após ser contrariado inúmeras vezes pelo presidente brasileiro sobre as propostas de políticas públicas para frear o avanço do novo coronavírus. Seu sucessor, Nelson Teich – que também é médico – deixou a posição de ministro pelo mesmo motivo. Desde então, interinamente, e depois oficialmente, foi apresentado o nome do general do Exército, Eduardo Pazuello, que corrobora com as práticas de Jair Bolsonaro, dentre elas a falta de propostas que visem ao controle da pandemia. Já no Ministério da Educação, a saída de Ricardo Vélez não possuiu relação com o Covid-19, já que ocorreu no início de 2019. O enfraquecimento de sua imagem e sua saída foram motivados por discussões entre as diferentes alas do governo. O atual ministro, Milton Ribeiro, teve, desde sua entrada no MEC, um apagamento significativo, sendo raramente mencionado. Já a saída do segundo ministro da pasta, Abraham Weintraub, foi repleta de polêmicas. Alinhado declaradamente às políticas de Jair Bolsonaro, Weintraub foi responsável pela diminuição dos orçamentos das instituições federais, reorganização do período de aplicação do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM)7 e, como ato derradeiro, no dia de sua saída, pela revogação da Portaria Normativa nº 13, de 11 de maio de 2016, do MEC, que dispõe sobre a indução de ações afirmativas na pós-graduação, garantindo percentual de cotas para indígenas, 7 As datas de aplicação do ENEM 2020 foram reorganizadas em função do cancelamento temporário das aulas em todo o Brasil, devido à proliferação da Covid-19. Foi feita uma enquete pelo MEC, aberta para que todas as pessoas pudessem votar, mas a data determinada pelo MEC não foi a que recebeu a maior quantidade de votos. 23 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas negras/os e pessoas com deficiência8. Ademais, foi de Weintraub um tweet em que era creditada à China a criação e expansão do coronavírus como uma prática para estabelecer uma crise mundial e favorecer a economia chinesa. Para tanto, o então ministro recorre a uma escrita pautada na representação do personagem da Turma da Mônica, Cebolinha, relacionando a fala do personagem a chineses falantes de português, o que fere princípios universais relacionados à linguagem. Tendo como base os destaques feitos até aqui, este trabalho possui como objetivo discutir como o tweet de Abraham Weintraub fere a Declaração Universal do Direito Linguístico, um dos principais documentos, relacionados à linguagem, a nível mundial. Este artigo possui cunho qualitativo e utilizou como metodologia o estudo de caso, posto que se busca “estudar uma unidade, bem delimitada e contextualizada, com a preocupação de não analisar apenas o caso em si, como algo à parte, mas o que ele representa dentro do todo e a partir daí” (VENTURA, 2007, p. 386). Toma-se como caso, portanto, o tweet de Abraham Weintraub apresentado no dia 4 de abril de 2020. A escolha da metodologia revela “a multiplicidade de dimensões de um problema, focalizando-o como um todo e apresenta [...] simplicidade nos procedimentos [...]” (VENTURA, 2007, p. 386). Será tomado como problema o tweet do então ministro, que será analisado a partir da Declaração Universal do Direito Linguístico. 8 A Portaria nº 545, de 16 de junho de 2020, assinada por Weintraub, tornou-se sem efeito em menos de uma semana, pela Portaria nº 559, de 22 de junho de 2020. 24 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências Linguagem e direitos Este artigo possui a linguística aplicada indisciplinar (LAI) como fio condutor. A LAI é compreendida como uma área de “natureza do tipo de investigação autorreflexiva [...] que requer um exercício constante de atravessamento de fronteiras” (MOITA LOPES, 2006, p. 26), buscando quebrar com os ideais de verdades instituídas e absolutas, que “represent[am] muitas vezes uma ameaça para aqueles que vivem dentro de limites disciplinares.” (MOITA LOPES, 2006, p. 26). A LAI não é compreendida como indisciplinar porque se rebela ou se revolta com algo ou alguém, mas sim porque transgride o caráter das disciplinas, buscando relação entre elas, desestandarizando e mestiçando os conhecimentos que são dados como “verdades únicas, transparentes e imutáveis.” (MOITA LOPES, 2006, p. 26). No contexto atual, “são necessárias teorizações que dialoguem com o mundo contemporâneo, com as práticas sociais que as pessoas vivem.” (MOITA LOPES, 2006, p. 23) e é esse papel que a LAI exerce neste artigo ao se fazer valer de que somos constituídos pelo discurso – nós e o mundo social –, já que não há nada antes da linguagem. Assim, segundo Moita Lopes (2006): [...] falar à vida contemporânea é essencial, não a teorização elegante e abstrata que ignora a prática, mas uma teorização em que teoria e prática sejam conjuntamente consideradas em uma formulação do conhecimento na qual a teorização pode ser muito mais que um trabalho de bricolagem, tendo em vista a multiplicidade dos contextos sociais e daqueles que os vivem (MOITA LOPES, 2006, p. 101). 25 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas Na contramão desse pensamento, encontramos muitas manifestações ancoradas na valorização de um ideal nacional singular, como base na segregação daqueles que estão fora do paradigma social dominante (PSD). Pode-se compreender tal paradigma “por todas as categorias sociais em que [...] sujeitos minoritários não se enquadram: masculina, branca, heterossexual e cisgênera.” (GONÇALVES, 2018, p. 25), não ficando de fora o pertencimento ao Ocidente, podendo cada pessoa ser constituída por mais de uma dessas categorias. Ao estipular o PSD, afirmamos quem é/está no centro e quem não faz parte deste centro, através da linguagem. Lembremos que “todos são iguais perante a lei e têm direito, sem qualquer distinção, à igual proteção da lei. Todos têm direito à igual proteção contra qualquer discriminação que viole a presente Declaração e contra qualquer incitamento a tal discriminação.” (ONU, 1948, n.p.), como consta no artigo 7º da Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH).Também lembremos que, segundo o artigo 5º da Constituição Federal Brasileira (CF), “todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no país a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade.” (BRASIL, 1988). Mas, na prática, a igualdade é vivenciada? As assertivas da DUDH e da CF apresentadas podem ser bastante questionadas. Se representassem a realidade, pelo menos no território brasileiro, possivelmente não estaríamos em meio a uma “tendência secular e unificadora da maioria dos estados para reduzir a diversidade e favorecer atitudes contrárias à pluralidade cultural e ao pluralismo Linguístico.” (UNESCO, 1993, n.p.), como bem elenca a Declaração Universal dos Direitos Linguísticos (DUDL). 26 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências A DUDL, conhecida também como Declaração de Barcelona, devido ao seu local de promulgação, foi publicada durante a Conferência Mundial sobre Direitos Linguísticos, entre os dias 06 e 09 de junho de 1996. “A Declaração é assinada pela UNESCO em conjunto com várias organizações não governamentais com o intuito de apoiar e promover os direitos linguísticos.” (RODRIGUES; BEER, 2016, p. 671). Compreende-se a DUDL como [...] herdeira de uma proposta institucional oficial que se funda nos princípios históricos propostos desde a Carta das Nações Unidas em 1945. Da mesma maneira, estabelece-se como produto de um debate acadêmico orientado ao reconhecimento e à promoção da diversidade linguística como parte do patrimônio cultural necessário para o desenvolvimento no texto da Declaração, a fim de determinar como se relaciona com a língua e como a história entra nela para constituir um processo de institucionalização da memória (SUVDERLAN; STURZA, 2014, p. 4). Muitos dos direitos presentes na DUDL são rompidos pelas discussões feitas no Brasil por quem está no PSD, dentre eles, membros do governo nacional. Assim, “a privação da linguagem, o glotocídio, a discriminação e o preconceito linguísticos não podem ter lugar quando se fala em direitos humanos ou, mais especificamente, em direitos humanos linguísticos.” (RODRIGUES; BEER, 2016, p. 671-672). A seguir, veremos como são desconsiderados os direitos constitutivos da DUDL, tendo como referência o tweet do ex-ministro da educação, Abraham Weintraub. 27 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas Um tweet, uma fala, alguns artigos da DUDL O coronavírus foi reconhecido, pela primeira vez, na China e logo tomou conta do mundo, tornando-se a pior pandemia das últimas décadas. Acredita-se que os traslados de pessoas e a falta de cuidados higiênicos foram alguns dos fatores responsáveis pela pandemia. Mas nem todos pensam assim. Durante seu período frente ao Ministério da Educação, o ex- ministro Abraham Weintraub se mostrou muito polêmico em questões que envolviam grupos aquém do PSD. Em consonância com a administração nacional, dita ultraconservadora, o ex-ministro travou grandes batalhas com aqueles considerados, em caráter partidário, oposição, denominando de comunistas a todos os contrários ao governo. A China, por tratar-se de uma nação comandada por um partido comunista, não poderia ficar de fora dos ataques do então ministro. Na manhã do dia 04 de abril de 2020, Weintraub foi até sua conta da rede social Twitter – www.twitter.com/@AbrahamWeint – e publicou a seguinte mensagem: 28 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências Figura 2 – Publicação de Abraham Weintraub Fonte: REDAÇÃO (2020). O que levou Weintraub a realizar este ataque a uma nação que, naquele momento, assim como grande parte do mundo, estava fragilizada pela presença de um vírus que acabava de forma abrupta com a vida de muitos de seus habitantes? Provavelmente não 29 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas saberemos os motivos pessoais, mas é possível concordar que a ação do ex-ministro foi bastante intolerante, pois é manifestada de maneira superficial, territorial e com relações emocionais (ECO, 2020). A ação de Abraham Weintraub trata-se de uma fala com características xenófobas. De maneira histórica, “em contextos de crises e epidemias a xenofobia tende a se intensificar, pois o medo do desconhecido que prevalece nas sociedades costuma ser traduzido na busca por um ‘bode expiatório’.” (MORTARI, 2020, p. 111). O “desconhecido”, neste caso, trata-se do outro do PSD. O outro representa tudo aquilo que não está no PSD, é formado por uma composição de negatividades, é subjugado à opressão e, ao conseguir romper com qualquer uma das estruturas descritas, fere a noção de privilégio do PSD. Além disso, como análise principal deste trabalho, salientamos o papel da linguagem como responsável pela manutenção do poder, pois “a depender da forma como é utilizada, pode [...] criar mais espaços de poder em vez de compartilhamento, além de ser um – entre tantos outros – impeditivos para uma educação transgressora.” (RIBEIRO, 2017, p. 26). Ao se fazer utilizar da fala “Geopolíticamente, quem podeLá saiL foLtalecido, em teLmos Lelativos, dessa cLise mundial? PodeLia seL o Cebolinha? Quem são os aliados no BLasil do plano infalível do Cebolinha paLa dominaL o mundo? SeLia o Cascão ou há mais amiguinhos?”, Weintraub tem, portanto, uma colocação que reproduz intolerância e xenofobia e infringe diversos artigos da DUDL. O segundo item do artigo 1º da DUDL apresenta a seguinte descrição: 30 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências Esta Declaração parte do princípio de que os direitos linguísticos são simultaneamente individuais e coletivos, e adota como referência da plenitude dos direitos linguísticos, o caso de uma comunidade linguística histórica no respectivo espaço territorial, entendendo-se este não apenas como a área geográfica onde esta comunidade vive, mas também como um espaço social e funcional indispensável ao pleno desenvolvimento da língua [...]. (UNESCO, 1996, n.p.). Ao observarmos o item destacado, podemos compreender que todas as comunidades linguísticas são abarcadas pela DUDL. Independentemente do local que estejam, não podem ter seus princípios abalados ou violados. Com isso, podemos notar que a fala do ex-ministro Abraham Weintraub vai de encontro ao segundo item do artigo 1º da DUDL, já que ao fazer uso da troca da letra “R” por “L” nas palavras, é proposto um menosprezo das comunidades orientais em território brasileiro que, comumente, fazem essa equivalência em suas falas. O descumprimento do segundo item do artigo 1º corrobora para que observemos o quanto o item terceiro do artigo 3º também é rechaçado pela fala de Weintraub: Os direitos das pessoas e dos grupos linguísticos [...] não devem representar qualquer obstáculo à sua interrelação e à integração na comunidade linguística de acolhimento, nem qualquer limitação dos direitos desta comunidade ou dos seus membros ao pleno uso público da própria língua na totalidade do seu espaço territorial. (UNESCO, 1996, n.p.). Ao culpar a comunidade chinesa pela proliferação do Covid-19, o ex-ministro cria um obstáculo de inter-relação entre esta e as demais comunidades que vivem no Brasil. Tal acontecimento pode, inclusive, provocar reações adversas em diferentes grupos setoriais que vivem no país. 31 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas Destacamos que a permanência territorial por parte de orientais, bem como o uso de suas línguas, podem revelar-se como aspectos de desintegração e/ou não integração de pessoas às comunidades do território brasileiro por aqueles que corroboram com a fala de Weintraub. Este acontecimento colocaria em pé de igualdade todos que possuíssem algum traço oriental – fenótipo ou uso de línguas – que poderiam ser contrapostospor um olhar de quem acredita ser representado pela fala do ex-ministro ou pelo PSD. A reação descrita imediatamente romperia com itens de dois diferentes artigos da DUDL. No que tange ao item um do artigo 7º, é anunciado que “todas as línguas são a expressão de uma identidade coletiva e de uma maneira distinta de apreender e descrever a realidade, pelo que devem poder beneficiar das condições necessárias ao seu desenvolvimento em todas as funções.” (UNESCO, 1996, n.p.). Desta forma, os falantes de línguas orientais teriam prejudicadas as condições necessárias para o desenvolvimento de todas as funções de seus idiomas. Já no artigo 9º, em seu item único, há a descrição de que “todas as comunidades linguísticas têm direito a codificar, estandardizar, preservar, desenvolver e promover o seu sistema linguístico, sem interferências induzidas ou forçadas.” (UNESCO, 1996, n.p.). Assim, na ocasião da não possibilidade de uso de seu idioma, a comunidade chinesa – e a oriental, se considerarmos de maneira generalizada – seria privada de um dos principais artigos da DUDL. Vemos que o artigo 9º é letalmente atravessado pela fala de Weintraub quando aproximamos o trecho que menciona que não devem ocorrer interferências induzidas ou forçadas nas comunidades linguísticas (UNESCO, 1996, n.p.) com o excerto do ex-ministro. A fala de Abraham Weintraub ridiculariza a comunidade linguística chinesa, induzindo que se pense que todos os chineses transpõem a 32 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências letra “R” por “L” nas palavras, o que é feito forçadamente, indo contra o que está presente na DUDL. Ao ridicularizar a comunidade chinesa, Weintraub infringe, também, o artigo 10º, já que seu primeiro item elenca que “todas as comunidades linguísticas são iguais em direito.” (UNESCO, 1996, n.p.). A afronta não viola apenas a DUDL, mas também o artigo 7º da DUDH e o artigo 5º da CF – “todos são iguais perante a lei e têm direito, sem qualquer distinção, à igual proteção da lei [...].” (ONU, 1948, n.p.) e “todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no país a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade.” (BRASIL, 1988). Não se pode esquecer que o mesmo artigo ainda menciona que “todos têm direito à igual proteção contra qualquer discriminação que viole a presente Declaração e contra qualquer incitamento a tal discriminação.” (ONU, 1948, n.p.). Ao passo que se observa tal trecho, compreende-se que a fala do ex-ministro transpassa o conceito de intolerância (ECO, 2020), podendo ser compreendida como um “curto-circuito categorial que posteriormente pode ser emprestado a qualquer doutrina” (ECO, 2020, p. 49) que deve ser combatido “antes que se torne uma casaca comportamental espessa e dura demais” (ECO, 2020, p. 52-53), isto é, a intolerância selvagem. Outro ponto afetado com a fala de Weintraub é o item dois do artigo 10º da DUDL. Segundo a redação de tal item (UNESCO, 1996, n.p.), em relação à DUDL: Esta Declaração considera inadmissíveis as discriminações contra as comunidades linguísticas baseadas em critérios como o seu grau de soberania política, a sua situação social, econômica ou qualquer outra, ou o nível de codificação, atualização ou modernização alcançado pelas suas línguas. 33 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas O ex-ministro se faz valer do PSD, bem como de sua significância na soberania política e social, para efetuar palavras discriminatórias sobre a comunidade chinesa. Possivelmente, sua motivação está na contrariedade de ideias entre o sistema de governo Chinês, considerado comunista, e a visão do governo brasileiro atual no qual impera uma “guerra” ideológica contra o comunismo. Em concordância com os dois itens do artigo 10º, o artigo 38º também defende a igualdade entre as comunidades linguísticas ao afirmar que “todas as línguas e todas as culturas das comunidades linguísticas devem receber um tratamento equitativo e não discriminatório nos conteúdos dos meios de comunicação do mundo inteiro.” (UNESCO, 1996, n.p.). Porém, a fala de Weintraub finda com qualquer possibilidade de equidade, devido a seu caráter discriminatório. Também é possível observar a presença do glotocídio ao ter os artigos 10º e 38º transgredidos. Estaríamos, então, à mercê de falas intolerantes de quem se vê pertencente ao PSD? Por um lado, sim, pois a linguagem é constituidora de sentidos, inclusive dos discursos intolerantes, e se manifesta a partir da atividade humana. Por outro lado, se nos voltarmos a buscar uma consciência crítica, seja nos meios virtuais como nos reais, discutindo problemáticas que afetam diversos grupos minoritários em termos de direitos (RIBEIRO, 2017), como é o caso da comunidade chinesa na fala de Weintraub, poderemos tomar “consciência de que trabalhar com a linguagem é necessariamente agir politicamente, com toda a responsabilidade ética que isso acarreta.” (RAJAGOPALAN, 2003, p. 125). O descumprimento de leis é também um ato simbólico, principalmente quando vem de um representante institucional da política nacional. “Acordar para os privilégios que certos grupos sociais têm e praticar pequenos exercícios de percepção pode 34 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências transformar situações de violência que antes do processo de conscientização não seriam questionadas.” (RIBEIRO, 2019, p. 107). Lutar em prol do cumprimento de leis que respaldam os grupos e comunidades linguísticos não é algo que apenas pertencentes a esses grupos devem buscar, mas toda a comunidade. Provoquemos e convoquemos todos a uma luta contra o PSD. Considerações finais Este trabalho focou na análise das transgressões da DUDL, por parte do ex-ministro da educação, Abraham Weintraub, em um tweet discriminatório em relação à comunidade chinesa. Ao longo da análise, foi possível observar que o tweet teve cunho xenófobo, ridicularizando a pronúncia da comunidade chinesa quando falante de Língua Portuguesa, além de induzir à ideia de que o coronavírus tenha sido uma produção chinesa disseminada propositalmente para o restante do mundo. A fala de Weintraub rompe com ideais, presentes na CF e na DUDH, de igualdade entre os diferentes grupos sociais. Já na DUDL, a fala do ex-ministro contraria os artigos 1º, 3º, 7º, 9º, 10º e 38º. Esses artigos percorrem desde a relação de igualdade entre as comunidades linguísticas independentemente do território, passando pela impossibilidade de criação de obstáculos para a integração de diferentes grupos, direito da preservação linguística, impedimento de discriminação linguística e necessidade de tratamento equitativo entre comunidades linguísticas. Ainda que o tweet de Weintraub seja um ato individual, o papel de representante de uma pasta ministerial subentende que esta não 35 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas é apenas uma ação individual, mas sim a representação de uma coletividade político-partidária. Ademais, a difusão de ideias na rede social Twitter demonstra uma maneira fluida de comunicação. As redes sociais e os discursos nelas produzidos “não fixam o espaço nem prendem o tempo. [...] não se atêm muito a qualquer forma e estão constantemente prontos (e propensos) a mudá-las.” (BAUMAN, 2001, p. 8). Ainda que seja um espaço de comunicação não oficial, o perfil de Weintraub, no Twitter, apresenta, aos seus mais de 950.000 seguidores, um modo de representação de um grupo. Como afirma Krenak (2020, p. 96) “[...] cada movimento que um de nós faz, todos fazemos. Foi-se a ideia de que cada um deixa sua pegada individual no mundo; quando eu piso no chão, não é o meu rastro que fica, é o nosso.”. A quebra do PSD ainda é uma batalha a ser superada pela populaçãoque vive no território brasileiro. Entender-se como uma nação plurilíngue, desfazendo a ideologia da “língua única” (OLIVEIRA, 2007), é o primeiro passo para a compreensão do papel da linguagem como prática social. Referências BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Trad. Plínio Dentzien. Rio de Janeiro: Zahar, 2001. BRASIL. Constituição Federal de 1988 . Promulgada em 5 de outubro de 1988. Lex: Brasília, DF, 1988. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituição.htm. Acesso em: 16 mar. 2021. ECO, Umberto. Migração e intolerância. Rio de Janeiro: Record, 2020. FEDER, Renato (@ProfRenatoFeder). 5 jul 2020a, 14:51h. Tweet. Disponível em: https://twitter.com/ProfRenatoFeder/status/1279835407543414784. Acesso em: 16 mar. 2020. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituição.htm https://twitter.com/ProfRenatoFeder/status/1279835407543414784 36 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências FEDER, Renato (@ProfRenatoFeder). 5 jul 2020b, 14:51h. Tweet. Disponível em: https://twitter.com/ProfRenatoFeder/status/1279835406016614402. Acesso em: 16 mar. 2020. GONÇALVES, Cássia Rodrigues. Masculino, Branco, Heterossexual e Cisgênero: o paradigma social dominante e o novo mal-estar na cultura. 2018. Tese (Doutorado) – Universidade Federal de Pelotas. Programa de Pós-Graduação em Letras, Pelotas, 2018. KRENAK, Ailton. A vida não é útil. São Paulo: Companhia das Letras, 2020. MOITA LOPES, Luiz Paulo da. (org.). Por uma Linguística Aplicada Indisciplinar. São Paulo: Parábola Editorial, 2006. MORTARI, Paulo. Migração e Saúde – Determinantes socioeconômicos e transição epidemiológica: aportes iniciais para se pensar na relação entre migração e saúde no contexto da pandemia de Sars-CoV-2 (2020). In: SILVA, C. et al. (org.). Emergências epidemiológicas e mobilidade urbana . São Paulo: Centro Paula Souza, 2020. p. 74-102. OLIVEIRA, Gilvan Müller de. Prefácio. In: CALVET, L. As políticas linguísticas. Trad. 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Florianópolis/SC: FENEIS, 1996. Trad. Universal Declaration of Linguistic Rights. Disponível em: http://www.dhnet.org.br/direitos/deconu/a_pdf/dec_universal_direitos_linguisticos.pdf. Acesso em: 15 mar. 2021. VENTURA, Magda Maria. O estudo de caso como modalidade de pesquisa. Revista SOCERJ, v. 20, n. 5, p. 383-386, set./out. 2007. http://www.dhnet.org.br/direitos/deconu/a_pdf/dec_universal_direitos_linguisticos.pdf 38 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências 39 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas A DOCÊNCIA NEGRA EM CANGUÇU: DESDOBRAMENTOS SOBRE EDUCAÇÃO E RACISMO Liana Barcelos Porto 9 Sheila Stolz 10 Introdução O presente trabalho buscou promover a reflexão sobre as questões acerca do racismo estrutural que envolve todos os seguimentos da sociedade, não excluindo a Educação. Primeiramente, foi realizado um mapeamento quantitativo das(os) docentes negras(os) em todas as instituições de ensino do município (escolas: municipais, estaduais e particulares). Juntas, essas instituições somam um total de 775 professoras(es); destes, 41 são autodeclaradas(os) negras(os). Em posse destas primeiras informações quantitativas, decidimos entender como essas(es) profissionais percebem sua realidade. Para tal fim, elaboramos o 9 Professora de Ensino Religioso dos anos finais do ensino fundamental na rede municipal de Canguçu. Graduada em Pedagogia; Teologia e História, com especializações na área da Educação; mestrado em Educação (UFPEL) e doutoranda em Educação em Ciências (FURG). E-mail: liana.porto@hotmail.com. 10 Professora do curso de Direito e do mestrado em Direito e Justiça Social (FURG). Doutora em Direito (PUCRS). Mestre em Direito pela Universitat Pompeu Fabra (Barcelona, Espanha). Coordenadora Geral do Núcleo de Pesquisa e Extensão em Direitos Humanos (FURG). Coordenadora da especialização em Educação em Direitos Humanos. Coordenadora do Grupo de Pesquisa Direito, Gênero e Identidades Plurais (FURG). Orcid: https://orcid.org/0000-0003- 3591-7153. E-mail: sheilastolz@gmail.com. 40 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências projeto de pesquisa intitulado “Mapeamento da identidade racial e das trajetórias da docência negra no município de Canguçu/RS”, aprovado pelo Conselho da Faculdade de Direito, sob o número 1249. Desse projeto, constou o questionário que foi, devido à pandemia do coronavírus (Sars-CoV-2), enviado a todas(os) as(os) professoras(es) e aplicado de forma on-line. Entramos em contato com todos os referidos professores, mas nem todos se disponibilizaram a responder tal instrumento de pesquisa. Com base nos dados produzidos pela pesquisa, observou-se que a maioria das(os) partícipes já sofreu alguma situação de racismo em seu ambiente de trabalho (instituição escolar). Essas situações foram presenciadas por outras pessoas que, além de não se envolverem no caso durante o momento em que estava ocorrendo, acabaram se abstendo de prestar qualquer tipo de ato de solidariedade, a posteriori. Questionadas(os) sobre o racismo em Canguçu, todas(os) disseram que ele existe, pois, enraizado na cultura local, que faz questão de negar sua existência. Delimitando o campo de estudo O estudo realizado abordou aspectos da experiência de professoras(es) negras(os) do município de Canguçu, situado na região sul do Rio Grande do Sul. Canguçu11 é considerado o município com maior número de minifúndios do Brasil, possuindo cerca de quatorze mil propriedades rurais, reconhecido como a Capital Nacional da Agricultura Familiar. O município está localizado 11 Informações obtidas em pesquisa ao site da Prefeitura Municipal de Canguçu. Disponível em: http://www.cangucu.rs.gov.br/site/home/pagina/id/133/?Historia.html. http://www.cangucu.rs.gov.br/site/home/pagina/id/133/?Historia.html 41 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas na Serra dos Tapes, termo que alude aos antigos habitantes destas terras. Apopulação autodeclarada negra (pretos e pardos) do Rio Grande do Sul totaliza 1.725.166 pessoas, segundo o Censo Demográfico de 2010, realizado pelo IBGE, o que representa 16,13% dos habitantes do estado. Segundo informações desse mesmo censo, Canguçu conta com uma população de 53.259 habitantes e tem, ao todo, quinze associações remanescentes de quilombos, sendo que a maioria está localizada no interior do município. Ainda segundo esse Censo, a população negra totaliza 4.731 pessoas, ou seja, 9,38 % da população total do município. A população negra trabalha principalmente na agricultura familiar, comércio, na prefeitura municipal e em atividades autônomas. A maioria dessa população é residente na parte urbana da cidade, tendo suas moradias localizadas nos bairros mais afastados da área central, na região periférica do município. Durante a realização das leituras prévias e levantamento inicial de bibliografia e de dados estatísticos e censitários, percebemos, no âmbito do convívio escolar e das atividades de capacitação desenvolvidas pela Secretaria Municipal de Educação, que o número de professoras(es) negras(os) na cidade era reduzido e, a partir desta constatação fática, mas não científica, algumas questões emergiram, a saber: 1) Quantas(os) docentes negras(os) existem no Município?; 2) Quem são essas pessoas?; 3) Quais as memórias escolares e de práticas pedagógicas possuem?; 4) Onde estudaram? Vislumbramos, portanto, responder essas questões, mas, sobretudo, conhecer e dar visibilidade à docência negra, resgatando as memórias subjetivas desses profissionais. 42 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências Fundamentação teórica Em pesquisa realizada junto ao banco de teses e dissertações da CAPES, encontramos vários estudos que fazem referência à questão do acesso da pessoa negra à Educação. Refinando a busca e focalizando em pesquisas que tratassem especificamente sobre a docência negra, identificamos em torno de 600 títulos sobre esse tema. Isso posto, acreditamos que se fazem necessários mais pesquisas e estudos sobre essa temática. Canguçu possui 35 (trinta e cinco) escolas municipais; dessas, 10 (dez) estão localizadas na área urbana e as outras 25 (vinte e cinco) na zona rural. Na cidade também existem 16 (dezesseis) escolas estaduais, 3 (três) escolas particulares, uma Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE) e a Escola Família Agrícola da Região Sul (EFASUL). Juntas, essas instituições somam um total de 775 professoras(es). Destas(es), 41 são negras(os), conforme é possível observar no gráfico da Figura 1, ou seja, 5,29 % do total de docentes de Canguçu. Figura 1: Docentes negras(os) em Canguçu Fonte: Gráfico elaborado com base no primeiro levantamento realizado em jan. 2020. 43 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas O racismo é um dos pilares que estrutura as relações sociais no Brasil, inclusive no campo da Educação. Teixeira (2006, p. 15) baseia-se nos dados censitários do ano 2000 para afirmar que a ocupação da categoria professora/professor é expressivamente branca em todas as regiões e unidades da federação. O professor Márcio Caetano, a assistente social Soledad Gaivizzo e a educadora Treyce Ellen Goulart (2017, p. 97) afirmam que: A discriminação histórico-social de que foram vítimas as gerações passadas tendem a transmitir às futuras as consequências de suas desigualdades estruturantes, constituindo-se em uma insuportável e inadmissível atribuição de ônus social, econômico, cultural, estético e subjetivo a ser carregado pela posteridade. As sequelas das discriminações não somente abatem os indivíduos, povos e populações, elas se fazem sentir no desenvolvimento da sociedade, afetando a identidade jurídica da democracia e o regime da cidadania. Essas sequelas dos processos discriminatórios mencionados aparecem nas respostas dadas pelas(os) docentes que participaram da pesquisa. E, nesse sentido, convém citar Elizeu Clementino de Souza (2007, p. 66) quando declara que: Narrar é enunciar uma experiência particular refletida sobre a qual construímos um sentido e damos um significado. Garimpamos em nossa memória, consciente ou inconscientemente, aquilo que deve ser dito e o que deve ser calado. Buscamos analisar as respostas abertas como narrativas que as(os) participantes produziram ao pensar, ao falar e ao escrever sobre si deixando emergir suas subjetividades e experiências particulares. Esse conceito exposto por Elizeu Souza está entrelaçado aos objetivos desta pesquisa, visto que queremos tomar conhecimento 44 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências das memórias e das representações construídas pelas(os) próprias(os) docentes. Caminhos metodológicos Para trilhar este caminho, vamos recorrer à pesquisa e à técnica do questionário enviado de forma on-line, preenchido livremente e não identificado. Para escolher os sujeitos que fizeram parte desta pesquisa, entramos em contato com todas(os) as(os) 41 professoras(es) negras(os) atuantes no Município por intermédio das Secretarias de Educação: Municipal de Canguçu e Estadual do Rio Grande do Sul, que cederam os nomes completos e os contatos (e-mail e WhatsApp) das(os) referidas(os) docentes. Como mencionado anteriormente, para a coleta de dados utilizamos o questionário. Este, segundo Eva Maria Lakatos e Marina Marconi (2003, p. 201), são [...] um instrumento de coleta de dados, constituído por uma série ordenada de perguntas, que devem ser respondidas por escrito e sem a presença do entrevistador. Em geral, o pesquisador envia o questionário ao informante, pelo correio ou por um portador; depois de preenchido, o pesquisado devolve- o do mesmo modo. As autoras supracitadas, pela questão do período histórico em que estavam inseridas, não mencionam a questão do envio on-line dos questionários, mas suas ponderações sobre a técnica continuam pertinentes e por esse motivo estão presentes neste estudo. Elas comentam que, ao utilizar essa técnica, a(o) pesquisador(a) deve, junto com o questionário, enviar uma carta ou nota, explicando a natureza da pesquisa, sua importância e a necessidade de obter 45 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas respostas, tentando despertar o interesse do recebedor, no sentido de que ele preencha e devolva o questionário dentro do prazo estipulado. Precisamente, essa foi a postura por nós adotada e, juntamente com o questionário, foram enviados termo de consentimento e carta de apresentação das pesquisadoras. Com relação às vantagens e desvantagens dessa técnica, as autoras apontam: Vantagens: Economiza tempo, viagens e obtém grande número de dados. Atinge maior número de pessoas simultaneamente. Abrange uma área geográfica mais ampla. Economiza pessoal, tanto em adestramento quanto em trabalho de campo. Obtém respostas mais rápidas e mais precisas. Há maior liberdade nas respostas, em razão do anonimato. Há mais segurança, pelo fato de as respostas não serem identificadas. Há menor risco de distorção, pela não influência do pesquisador. Há mais tempo para responder e em hora mais favorável. Há mais uniformidade na avaliação em virtude da natureza impessoal do instrumento. Obtém respostas que materialmente seriam inacessíveis. (LAKATOS; MARCONI, 2003, p. 201-202). Desvantagens: Percentagem pequena dos questionários que voltam. Grande número de perguntas sem respostas. Não pode ser aplicado a pessoas analfabetas. Impossibilidade de ajudar o informante em questões mal compreendidas. A dificuldade de compreensão, por parte dos informantes, leva a uma uniformidade aparente. Na leitura de todas as perguntas, antes de respondê-las, pode uma questão influenciar a outra. A devolução tardia prejudica o calendário ou sua utilização. O desconhecimento das circunstâncias em que forampreenchidos tornam difíceis o controle e a verificação. 46 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências Nem sempre é o escolhido quem responde ao questionário, invalidando, portanto, as questões. Exige um universo mais homogêneo. (LAKATOS; MARCONI, 2003, p. 201-202). O questionário foi enviado para as(os) 41 professoras(es) negras(os) de Canguçu; foram respondidos 11 questionários, ou seja, 26,8 % do total de docentes negras(os). Análise dos dados obtidos Tendo como base as respostas dos sujeitos pesquisados, podemos traçar alguns pontos importantes para melhor contextualização e posterior reflexão. A maioria das(os) participantes tem entre 38 e 40 anos de idade, se autodeclaram pretas(os), vivem em união afetiva com alguém e têm filhas(os). Todas(os) as(os) participantes têm graduação na área das Ciências Humanas, possuem pós-graduação amplo senso na área da Educação e atuam como educadoras(es) há mais de 5 anos. Também averiguamos que a maioria exerce outras atividades de trabalho além da docência, atuando, entre outras atividades, como garçonete, garçom, personal trainer, microempresário. Nenhum(a) delas(es) possui ou cursa mestrado ou doutorado. A pergunta sobre a presença negra no processo formativo foi respondida pela maioria como negativa, ou seja, não tiveram docentes negras(os), as(os) poucas(os) que sinalizaram ter tido professoras(es) negras(os) durante o seu processo formativo (educação básica, ensino médio, graduação e especialização) quantificaram entre 1 ou 2 professoras(es). Com relação às(os) 47 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas colegas de classe negras(os) todas(os) relataram ter tido, mas a quantificação máxima foi de 4 colegas. A maioria disse já ter se visto frente a situações preconceituosas advindas principalmente da parte de mães e pais de alunas(os). 99 % das pessoas pesquisadas dizem ter vivenciado situações de racismo no seu ambiente de trabalho e que essas vivências foram presenciadas por outras pessoas que se mantiveram “desapercebidas” sobre esse fato, sem demonstrar qualquer tipo de atitude solidária. Entre as respostas quase unânimes, destaca-se que 90% das(os) respondentes se manifestaram favoravelmente às políticas de ações afirmativas (cotas). Refletindo sobre os enfrentamentos preconceituosos vivenciados pelas(os) docentes negras(os) Pensando nas falas das(os) entrevistadas(os), podemos pensar no que Kabengele Munanga (2008) afirma sobre uma particularidade do racismo no Brasil; peculiaridade esta que se configura numa voz que grita, ecoa dentro de cada brasileira(o) “eu não sou racista” e, para o autor, esse grito é nada mais do que a voz da inércia. Em outros termos, se eu não sou racista, não existe racismo e não precisamos falar/pensar sobre o racismo. O mito da democracia racial, instaurado por Gilberto Freyre em sua obra “Casa Grande e Senzala”, e que se perpetua até os dias de hoje, é um exemplo do que assevera Munanga. Não querer admitir que o preconceito existe representa uma forma de evitar o conflito, a discussão sobre o tema e/ou ainda reconhecer os privilégios da branquitude, condicionamentos e circunstâncias que também podem servir de mecanismo de autodefesa daquelas(es) que, sentindo o menosprezo, acabam utilizando-se da negação como um subterfúgio 48 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências para a dor causada pela exclusão e pelos conflitos que ainda envolvem as relações raciais. Isso podemos constatar pelos excertos das falas das(os) professoras(es) que responderam ao chamado da nossa pesquisa e que foram renomeadas a seguir com codinomes: “Queria falar com a professora do meu filho... Pois não, sou eu. Você?! Pessoas de cor agora dão aula?! Que coisa, esse mundo ta que ta!” (Carolina de Jesus). “Algumas pessoas não valorizam o trabalho profissional por ser um negro, usam palavras pejorativas e racistas. Criticam as leis de igualdade racial. Também não reconhecem a importância do negro na sociedade e na história de nosso país.” (Nelson Mandela). “Teve uma situação, onde um pai chegou para fazer uma solicitação, entrou na secretaria e se direcionou direto a uma colega(branca) que estava na sala, ela passou a palavra pra mim, outras várias vezes eles perguntam, tu é merendeira da escola? Coisas assim acontecem todos os dias...” (Elizabeth Eckford). “Que cabelo ruim tu tem? Porque não alisa.” (Conceição Evaristo). “Fui xingado por pais de alunos várias vezes, mas isso antigamente, hoje têm medo das leis, mas vejo olhares de reprovação sempre, já acostumei. E percebo a discriminação na sala de aula, entre os alunos em um momento de atividade de grupos, um grupo de alunos de descendência alemã, não deixavam outros participarem do grupo em atividades de sala de aula.” (Martin Luther King). Considerações finais Com base nos escritos de Frantz Fanon (2008) podemos concluir que o racismo se veste de máscaras diversas e se põe a “bailar” pela vida e pelos espaços sociais. Assim, por vezes disfarçado, vagando de forma sutil em meio à multidão e à 49 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas depreciação da história da(o) outra(o) vai legitimando-se e deixando pegadas de violência e sofrimento que insistem em reinventar-se e em se manter-se presentes. Dessa forma, esperamos que este artigo traga contribuições para a compreensão do sentido do preconceito racial, que ora se operacionaliza externamente, ora, não menos grave, se camufla, se disfarça, mas só vem a demarcar que, segundo ele, o lugar da pessoa negra jamais pode estar acima de uma posição ocupada por um sujeito branco. Que possamos ficar atentos à astúcia que marca a indumentária racista, que dificulta a descrição e a identificação dos seus tiranos pós-modernos cada vez mais encobertos em suas máscaras. Que os trechos das falas das(os) docentes negras(os) das instituições de ensino da cidade de Canguçu aqui reproduzidas nos conduzam à compreensão de que, atrás de suas lutas, muitas vezes silenciosas ou emudecidas, na busca por igualdade, justiça e reparação social, existe uma extensa caminhada ainda desconhecida e/ou negada pela branquitude. E que essa caminhada, essa marcha, esse movimento, infelizmente não sinalizam a efetivação dos seus direitos como cidadão(s), apresentando-se ainda rodeada por obstáculos e entraves que persistem em criar atalhos de perpetuação da segregação e do menosprezo ao invés de propiciarem pontes de aproximação e respeito. Vibramos na expectativa de que esta produção nos faça pensar que, se a escola, instituição primeira de contato social, ainda persiste em mostrar-se como muros na formação de seus sujeitos, é extremamente urgente uma reflexão séria e complexa sobre o papel da própria Educação. E que nós, profissionais da área, tenhamos clareza das diferenciações raciais que existem, venhamos a tomar 50 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências consciência desse processo e engajarmo-nos na luta por uma Educação efetivamente antirracista e antifascista. Referências CAETANO, Márcio; GAIVIZZO, Soledad Bech; GOULAR, Treyce Ellen Silva. Multiculturalismo e justiça social: reflexões sobre as políticas de ação afirmativa e o ensino superior. Revista Textura, Canoas, v. 19, n. 41, set./dez., 2017, p. 93-113. Disponível em: http://www.periodicos.ulbra.br/index.php/txra/article/view/2421/2425 . Acesso em: 20 jun. 2020. FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Trad. Renato da Silveira. Salvador: Editora Edufba, 2008. LAKATOS, Eva Maria; MARCONI, Marina de Andrade. Metodologia do trabalho científico: procedimentos básicos, pesquisa bibliográfica, projeto e relató rio, publicações e trabalhos científicos. 5. ed. São Paulo: Atlas, 2003. MUNANGA, Kabengele. Superando o racismo na Escola. Brasília, DF: Ministério da Educação, Secretariade Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade, 2008. SOUZA, Elizeu Clementino de. (Auto)biografia, histórias de vida e práticas de formação. Salvador: EDUFBA, 2007. Disponível em: http://books.scielo.org/id/f5jk5/pdf/nascimento-9788523209186-04.pdf. Acesso em: 10 set. 2020. 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Nesse contexto, emerge o Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos (PNEDH), elencando uma série de dimensões, objetivos, linhas de ações e ações programáticas envolvendo a educação básica, educação superior, educação não-formal, educação dos sistemas de justiça e segurança e educação e mídia. Em sua amplitude, o PNEDH aborda uma concepção contemporânea de DH integrando valores humanistas alicerçados 12 Mestra em Ensino de Ciências e Tecnologias na Educação. Especialista em Educação em Direitos Humanos, em Ciências e Tecnologias na Educação e em Práticas Pedagógicas Interdisciplinares. Bacharel e licenciada em Química. Professora da educação básica na Rede Pública Estadual e Municipal em Canguçu/RS. E-mail: valesca.gat.mesko@gmail.com. 52 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências “[...] nos princípios da liberdade, da igualdade, da equidade e da diversidade, afirmando sua universalidade, indivisibilidade e interdependência” (BRASIL, 2007, p. 23), inserindo, assim, conceitos de cidadania democrática, ativa e planetária. Ao realizar a leitura e análise do PNEDH na educação básica, optei por abordar, neste trabalho, a seguinte Ação Programática: 9. fomentar a inclusão, no currículo escolar, das temáticas relativas a gênero, identidade de gênero, raça e etnia, religião, orientação sexual, pessoas com deficiências, entre outros, bem como todas as formas de discriminação e violações de direitos, assegurando a formação continuada dos(as) trabalhadores(as) da educação para lidar criticamente com esses temas. (BRASIL, 2007, p. 33). A escolha se deu em virtude de meu fazer docente envolver o processo de ensinar e aprender através dos princípios da metodologia da Aprendizagem Baseada em Projetos (ABP) nas duas escolas onde trabalho. Por conseguinte, o presente artigo versa sobre a promoção de uma Educação Humanizadora em um processo de ensinar e aprender contextualizado ao cotidiano através da metodologia ABP colocados em prática no projeto VIDA! O que é? ESCOLHAS!, no componente curricular Ciências, no ensino fundamental - anos finais de uma escola da rede pública municipal do município de Canguçu/RS, no ano de 2019. A leitura do artigo de Martins (2011) “Ciência e Cidadania – Perspectivas de Educação em Ciências”, apresenta a relevância da educação em Ciências contextualizada com o cotidiano de nossas vivências e ao analisá-lo lembrei-me da seguinte reflexão: Ciência é viver e conviver, sentir-se parte integrante do meio, ter capacidade de desvelar os próprios olhos e os olhos do outro, transcender entre o real e o imaginário a fim de 53 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas evidenciar os fenômenos científicos que passam despercebidos no cotidiano. [...] Torna-se indispensável fazer uso dos sentidos e sentimentos de maneira ampla, em próprio favor, para a humanização do humano. Somos seres incompletos, em constante aprendizado e transformação, com capacidades plurais de interpretação da vida. Para tanto, a observação e a experimentação, sejam elas em laboratório científico ou ao ar livre, são fundamentais para incorporar, permutar, reconhecer as vivências e perceber que são conhecimentos relacionados à Ciência. Na docência torna-se salutar fazer com que os alunos percebam sua importância no mundo. Que através da troca de experiências tenham a oportunidade de realizar descobertas sobre novos saberes, que adquiram confiança em si, para que assim possam construir o próprio conhecimento, que trabalhem em cooperação para que haja o crescimento mútuo, que sejam protagonistas de seu aprendizado e que este seja voltado para a sua formação integral. (DUARTE; BROD; MANZKE, 2017, p. 129). As palavras por mim escritas, há alguns anos, se encaixam na relação de Ciências e Cidadania hoje abordada. Reflexões acerca da escola, de uma Educação Humanizadora, da promoção da cidadania, das experiências vivenciadas na convivência, das perspectivas de humanizar com vistas a possibilidades de um exercício coletivo de direitos justificam a elaboração e execução do projeto e, por consequência, esta escrita. Um projeto que apresentou a perspectiva de Educação Humanizadora com o sentido de que “Educar é construir a humanidade” (RIOS, 2017, p. 9), de cidadania social com o reconhecimento d@ discente enquanto cidadão dotado de direitos e deveres que os permitem usufruírem de uma vida digna nos locais onde estão inseridos. Não esquecendo também de uma abordagem pela perspectiva da cidadania ambiental com a proposição do 54 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências desenvolvimento de um novo modo de pensar e agir para um mundo globalizado mais sustentável. Nesse contexto, questiono: como fomentar uma prática de Educação Humanizadora que possibilite aos discentes a análise de diferentes realidades e o conhecimento de seus direitos e deveres para o exercício da cidadania? Talvez seja um questionamento utópico, porém, faz-se necessário reflexões sobre nossos saberes e fazeres relacionados ao real sentido de uma Educação humanizadora e de cidadania na busca por construções e reconstruções com a perspectiva de, ao menos, proporcionar um processo educativo menos transmissivo e mais colaborativo. A presente escrita manifesta por objetivo abordar aspectos relacionados à Educação Humanizadora, a um fazer docente entrelaçado à ABP e à exteriorização metodológica do desenvolvimento de um projeto escolar com vistas a um processo educativo ativo com socialização de culturas, de criações colaborativas e partilhas de vivências e aprendizagens. Educação humanizadora Quando abordo a expressão Educação humanizadora refiro- me a Rios (2017); para a autora, toda a educação é um ato de humanizar. É educar pessoas, é pensar no ser humano, é buscar possibilidades que nos tornem mais humanos, é propiciar a formação integral não centrada apenas em aspectos cognitivos e sim éticos, críticos, colaborativos e de valorização da vida. “Nascemos humanos, mas isso não basta: temos também que chegar a sê-lo.” (SAVATER, 1993, p. 29). Somos humanos 55 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas inconclusos em constante mutação e o processo de ensinar e aprender em reciprocidade observando as vivências sociais, culturais e históricas permite que sejamos capazes de tornarmo-nos mais humanos a cada dia e por consequência humanizarmos a vida. O que justifica, dá vida e sentido à escola, à relação pedagógica, ao trabalho de docentes e discentes, é o processo de formação humana que aí se realiza e a relação professores e estudantes com a cultura, o pensamento,com o saber vivo, instigante e que a cada momento se produz, se interroga e se recria. (COÊLHO, 2009, p. 16). Nesse sentido, é relevante a observação crítica do próprio fazer docente a fim de sua análise: Será que ele vai de encontro à realidade da sociedade atual e da formação de cidadãos ativos e protagonistas? Caso a resposta seja não, penso ser interessante transformá-lo e guiá-lo na perspectiva da criação de redes de conversação colaborativas, de convivência harmoniosa entre os seres e de prática de valores e princípios que sustentem uma educação humanizadora. O grande desafio é construir o humano na medida dos princípios éticos: o respeito, a justiça, a solidariedade. O horizonte da ética é a dignidade humana, a afirmação dos direitos de cada homem ou mulher, a possibilidade de sua participação na construção de uma história em que identidade e alteridade, diferença e igualdade se estabeleçam e se afirmem a cada momento. (RIOS, 2017, p. 12). A Educação Humanizadora consiste em um ensino e aprendizagem embasados em reflexões e saberes relacionados aos Direitos Humanos com o intuito de oportunizar uma cultura preventiva com o propósito de minimizar sua violação. “Com ela conseguiremos efetivamente dar a conhecer os direitos humanos, distingui-los, atuar a seu favor e, sobretudo, desfrutá-los.” (GORCZEVSKI, 2017, p. 25). 56 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências O processo educativo, em especial relacionado aos Direitos Humanos, possibilita fomentar a criticidade de discentes frente à dignidade do humano, estando aptos a fazerem valer os seus próprios direitos e deveres, assim como o dos outros, através de propostas metodológicas que tenham por intuito observar a realidade e agir em favor da erradicação das injustiças, nesse caso, em especial, as sociais e ambientais. Gorczevski (2017), baseado em Gil, Jover e Reyero (2001) elenca 3 objetivos para uma Educação em Direitos Humanos, são eles: (1) descobrir o valor de todos e de cada ser humano; (2) adotar um compromisso humanizador para estender os valores dos direitos humanos em nosso entorno; e, (3) valorar criticamente a situação do lugar onde vivemos tomando como critério o desenvolvimento e o cumprimento dos direitos humanos. (GORCZEVSKI, 2017, p. 27). Em resumo, fundamental educar para a vida comunitária, para a vida humanizada com respeito e amorosidade a si e ao próximo a fim de aprendermos a vivermos em harmonia, pois as “[...] interações recorrentes com o outro fazem do outro um legítimo outro na convivência.” (MATURANA, 2002, p. 22). Por certo, para a efetivação de uma Educação Humanizadora é essencial conhecimento, sobretudo dos Direitos Humanos, mas para além dos abordados em documentos oficiais, para contextos vivenciados na atualidade. Não é somente o ser que condiciona o conhecer, mas também o conhecer condiciona o ser; essas duas proposições geram uma à outra um círculo retroativo. Dito de outra maneira a vida só pode se auto-organizar-se com o conhecimento. A vida só é viável e passível de ser vivida com conhecimento. Nascer é conhecer. (MORIN, 2008, p. 58). 57 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas Dito isso, temáticas referentes às questões relacionadas à degradação ambiental, às desigualdades sociais, ao risco do avanço tecnológico desenfreado, às manifestações de discriminação e violência de qualquer tipo, às responsabilidades e deveres na vida em sociedade, além de outros, são essenciais na formação de um humano humanizado. Observar a vida e suas relações são processos fundamentais em Educação em Direitos Humanos, “[...] viver é conhecer [...].” (MATURANA; VARELA, 2001, p. 201). No conhecimento adquirido e do que se faz com ele nas ações diárias está o desenrolar do futuro da humanidade. Com o desenvolvimento de uma educação orientada para um repensar de concepções e atitudes através do favorecimento de redes de conversação, do viver e conviver, do entrelaçamento de linguagens e emoções há “possibilidades” de efetivação da aceitação do outro como legítimo outro em reciprocidade (MATURANA, 2002) e do respeito à vida digna. Com a finalidade de colocar em prática uma Educação Humanizadora, na sequência discorro sobre o fazer docente associado à ABP. Fazer docente entrelaçado à Aprendizagem Baseada em Projetos O fazer docente apresentado nesta escrita está diretamente ligado à pesquisa-ação, pois propõe transformações de sentidos e ressignificações de forma mútua naqueles que se sentem “emocionados” pelas vivências oportunizadas pela execução de um projeto. Engel (2000) salienta a pesquisa-ação como um modo 58 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências inovador que busca a intervenção conforme o próprio processo de pesquisa vai ocorrendo e não apenas em sua etapa final. Um fazer docente humanizador transpõe o processo educativo por uma simples transmissão de conteúdos curriculares. Ele se dá articulado às realidades vivenciadas na contemporaneidade, almeja a criação de redes de conversação (MATURANA, 2001), possibilita um novo olhar e, por consequência, um ressignificar de ideias e valores, oportuniza o protagonismo discente através de estratégias metodológicas que favorecem reflexões acerca de si e do outro em um conviver harmonioso onde o humano é percebido como um ser plural, dotado das mais diversificadas emoções e experiências, mas que acima de tudo valorize a vida (DUARTE, 2017). Ensinar não é transferir conhecimentos, nem formar é a ação pela qual um sujeito criador dá forma, estilo ou alma a um corpo indeciso e acomodado. Não há docência sem discência, as duas se explicam e seus sujeitos, apesar das diferenças que os conotam não se reduzem à condição de objeto, um do outro. Quem ensina aprende ao ensinar, e quem aprende ensina ao aprender. (FREIRE, 2011, p. 25). Nesse sentido, um docente deve ser capaz de analisar criticamente as diferentes realidades vivenciadas pela humanidade ao longo dos tempos e compreender que, em uma turma, há diversas culturas, crenças, gêneros, raças e experiências de vida que influenciam no modo do exercício docente e nas aprendizagens discentes. Sendo assim, o ensino e a aprendizagem, em um processo humanizador, está imbricado com metodologias que promovam a análise do viver e conviver interativo e em constante transformação e, acima de tudo, com a aceitação do outro como legítimo outro. (MATURANA; VERDEN-ZÖLLER, 2004). Prima-se por: 59 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas Um fazer docente que valorize as vivências e conhecimentos da comunidade escolar, que propicie a formação humana integral, significativa e realista, que leve em conta o interesse discente oportunizando o entendimento do homem como um ser de relações que está com o mundo e que compreende os aspectos científicos, tecnológicos, humanísticos e culturais da vida em sociedade. (DUARTE, 2019, p. 3). A Educação requer docentes críticos, reflexivos e humanizadores no intuito de promoverem a formação integral por meio da competência e do compromisso ético baseado na análise das transformações sociais, culturais e ambientais em busca de um efetivo exercício da cidadania. De acordo com Duarte (2019, p. 4), Através do estudo, do conversar, da reflexão e da reelaboração das concepções sobre a prática educativa, o docente pode apoderar-se de metodologias amplas que promovem a construção de uma educação com sentidos e significados entrelaçados com suas percepções, gerando ações concretas, efetivadas em um fazer pedagógico que valoriza a construção do conhecimento pela pesquisa na forma de projetos colaborativos. Ademais, a presente reflexão apresenta, na sequência, os princípios da ABP como possiblidade de apoio num trabalho colaborativo, interativo e humanizador. Na atualidade, o processo educativo através da APB prioriza oenvolvimento de docentes e discentes com os objetos de conhecimento integrados sustentado por um trabalho colaborativo na execução de projetos pragmáticos, genuínos e significativos. A ABP envolve uma mudança importante na responsabilidade de ensinar, na qual o professor para de servir como um fornecedor de informações e, em vez disso, serve como facilitador da aprendizagem no contexto da resolução de problemas. [...] é uma maneira excelente de envolver os alunos, para aumentar a sua motivação e o seu rendimento e para diferenciar o ensino, de modo que todos os alunos 60 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências possam participar de forma significativa. (BENDER, 2014, p. 42). Outrossim, a ABP propicia a conversação, o convívio com o outro e a efetivação de atitudes responsáveis para o exercício da cidadania em benefício do bem comum. Com essa perspectiva, docentes que tenham sua prática associada ao uso da metodologia da ABP criam redes de conversação, oportunizando aos discentes resolver problemas, planejar e avaliar seu próprio desempenho, assim como expor suas ideias, demonstrando aprendizagem. Consideramos ultrapassar o contato pedagógico pela mera transmissão de conteúdos e acreditamos que a pesquisa e a execução de projetos corroboram para um processo de ensino e de aprendizagem colaborativo com vistas à formação integral. (DUARTE, 2017, p. 53). Ao ensinar e aprender em ABP, o tempo é respeitado, ocorrendo apreço à pluralização das ideias, das aprendizagens, dos significados, tornando a metodologia contextualizada e relevante. Em um processo educativo humanizador, é considerável que a aprendizagem seja um ato de desejo, de construção e isso não se efetiva com a sucessão de objetos de conhecimentos repassados que precisam ser memorizados. Maturana (2001) nos proporciona o entendimento que educar é emocionar, conviver em espaço de aceitação recíproca, onde haja o conversar, o amar, o respeito consigo e com o outro, delineando-se, assim, um novo caminho a ser percorrido. Nesse sentido, a APB é uma metodologia que busca contribuir com as várias nuances necessárias à harmonia entre o ensino e a aprendizagem, promotora de uma educação humanizadora e do exercício da cidadania. (DUARTE, 2017). 61 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas Como forma de exemplificar o dito acima, no seguimento, exponho considerações sobre a efetivação metodológica de um projeto. Projeto Vida! O que é? Escolhas! O processo de ensinar e aprender através dos princípios da metodologia da ABP foi realizado no componente curricular Ciências, nas turmas dos anos finais do ensino fundamental de uma escola da rede pública municipal do município de Canguçu/RS em 2019. O projeto apresentou como tema o Ser Adolescente, explorando o universo da vida como um todo. As problematizações e ações foram baseadas na seguinte inquietação: Como promover a valorização da vida com direcionamento para escolhas assertivas? A execução justificou-se na busca por um processo educativo no qual os conteúdos curriculares estejam atrelados às vivências cotidianas da comunidade, problematizando, em especial, as escolhas que fazemos durante a vida. Além disso, a proposta corroborou com a efetivação de um trabalho colaborativo, com vistas às possibilidades de tornar o discente protagonista e o docente orientador de aprendizagens, aproximando-se de sua formação integral. Apontou os seguintes objetivos: Geral: Promover escolhas nos âmbitos conceituais, procedimentais e atitudinais de valorização da vida. Específicos: ✓ Proporcionar o protagonismo juvenil e a formação integral; 62 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências ✓ Oportunizar o desenvolvimento na prática do que foi aprendido em teoria; ✓ Direcionar a participação ativa positiva do discente nas vivências escolares, familiares e comunitárias. Metodologicamente, contemplou @s discentes dos ano finais do ensino fundamental com propostas de atividades envolvendo os seguintes subtemas referenciados nos conteúdos curriculares: ✓ 6º ano A e B/ ensino fundamental: Meio Ambiente e Sustentabilidade. ✓ 7º ano A e B/ ensino fundamental: Igualdade nos Direitos e Deveres. ✓ 8º ano A e B/ ensino fundamental: Saúde na Adolescência. ✓ 9º ano/ ensino fundamental: Humanização x Robotização. Para o desenvolvimento do projeto, houve trabalho coletivo entre docentes, gestores, funcionários e colaboradores externos. As atividades foram efetivadas a partir do seguinte cronograma: 1º Trimestre: ✓ Análises reflexivas sobre: - Valores humanos: Respeito – Reponsabilidade – Amizade - Por que educar transforma? ✓ Proposição de título para o projeto ✓ Elaboração de logomarca para o projeto ✓ Filmes: - 6º ano: Rio - 7º ano, 9º ano: O date perfeito - 8º anos: O mínimo para viver ✓ Palestras: - A vida na África: Os povos de Guiné Bissau - Escolhas 63 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas - No trânsito o sentido é a vida ✓ Produção textual coletiva: Ser adolescente 2º Trimestre: ✓ Palestras: - Vida estudantil - Ser adolescente - Cidadão de bem - Meio ambiente e Sustentabilidade - Escolhas na vida ✓ Filme: - O menino que descobriu o vento ✓ Produção textual: - Identidade secreta (Sou... mas a noite me transformo em...) ✓ Gincana cultural de integração e conhecimento ✓ Pesquisa e elaboração de trabalho escrito sobre os subtemas das turmas (subdivisões de 2 a 5 grupos por turma). 3º Trimestre: ✓ Palestras: - A saúde do ser humano - Drogas ilícitas - Alimentação saudável ✓ Seminário - Apresentações para a comunidade escolar acompanhadas de slides dos subtemas das turmas (subdivisões de 2 a 5 grupos por turma). ✓ Mostra Cultural 64 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências - Apresentações teatrais e musicais para a comunidade em geral referentes aos subtemas das turmas (subdivisões em 2 grupos por turma). ✓ I Festival de Vídeos Estudantis do município de Canguçu - Produções de vídeos (1 por turma) apresentando situações cotidianas escolares relacionadas, em sua integralidade, à Educação em Direitos Humanos, abordando temas como preconceito, exclusão e desigualdade. As atividades efetivadas no projeto fizeram parte da avaliação dos discentes no componente curricular Ciências contemplando, ao longo do ano letivo, um sistema de avaliação diversificado com análises diagnósticas, formativas e somativas. O projeto possibilitou aprendizagens de conteúdos curriculares integrados com o cotidiano através de formas diferentes de ensinar e de aprender, resultando na pluralidade de possibilidades frente aos desafios da Educação atual, com ações fundamentadas em solidariedade, amorosidade, cooperação, respeito às diferenças e reciprocidade. Além disso, ocorreu a proposição de atividades diversificadas com contribuição para o entendimento da vida humana relacionada a questões ambientais, sociais, culturais, científicas e tecnológicas com reflexos nas vivências da comunidade escolar. Concluo o exemplo enaltecendo a relevância da Educação Humanizadora, da Ciência e da Cidadania, repetindo “Ensinar Ciência é viver, conviver e amar a si, ao próximo e ao ambiente, acreditando na capacidade de emocionar o outro e na reciprocidade entre os seres [...].” (DUARTE; BROD; MANZKE, 2017, p. 137). 65 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas Conclusão Na atualidade, emerge a necessidade de valorizar a vida em sua plenitude, promovendo ações que se movimentem no sentido de vivências contemporâneas humanitárias com o conhecimento e execução dos diretos dos seres humanos independente de raça, classes sociais, nacionalidade, religião, orientação sexual, opinião política e/ou pertencimento a movimentos sociais. Nesse contexto,o ensinar e aprender através de metodologias ativas como a ABP apresentam-se como possibilidades de desenvolvimento de um processo educativo voltado ao conhecimento e exercício dos Direitos Humanos. Mostra-se, assim, um processo evidenciando o protagonismo discente, o que possibilita a narrativa dos pensamentos e vivências estudantis, bem como as problematizações cotidianas que envolvem a comunidade local e a sociedade em geral como prática promotora da formação integral. Reforço o pensamento de que, em nossas vivências cotidianas, é essencial a promoção da aceitação do outro como legítimo outro, do emocionar, da amorosidade, da reciprocidade e do respeito em uma convivência humana harmoniosa. Que possamos, juntos, transformar vidas através de uma Educação Humanizadora. Referências BENDER, Willian. Aprendizagem baseada em projetos: educação diferenciada para o século XXI. Porto Alegre: Penso, 2014. BRASIL. Secretaria Especial de Direitos Humanos. Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos – PNEDH. 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Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS E FORMAÇÃO DOCENTE: UMA PROPOSTA PARA PRÁXIS PEDAGÓGICA Débora da Silva Olivo 13 Introdução A proposta de Educação em Direitos Humanos (EDH), apresentada pelo Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH3) e pelo Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos (PNEDH), bem como pelos conceitos de cidadania, democracia, globalização e participação ativa, visa ao desenvolvimento de processos de construção social democrática no que tange ao (re)conhecimento dos indivíduos sobre seus direitos e ao compromisso do Estado com relação a eles. Entende os contextos de desigualdades econômicas e de discriminação social por diferentes fatores, incentivando ações que diminuam as formas de violação aos Direitos Humanos, reconhecidos tanto por lei quanto por aspectos éticos, morais e sociais. Além disso, os documentos em foco buscam promover mecanismos para a efetiva concretização da cultura em Direitos Humanos, com base em ações educativas que contemplem possibilidades de construção de uma sociedade mais justa e menos 13 Doutoranda em Sociologia. Professora na rede pública de ensino. E-mail: deboraolivo83@gmail.com. 68 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências desigual, fundamentada nos princípios de igualdade, solidariedade e dignidade. Direitos Humanos (DHs), concebidos em seu percurso histórico como formas de garantir a existência dos referidos princípios, justamente pelo fato de o indivíduo ser humano, demonstram o nível mais profundo de proteção aos direitos individuais e coletivos nas formas de sua representação, uma vez que racionalizam a amplitude de significados do sujeito, tendo na importância também da área da Educação um potencial para a sua projeção, considerando o exercício da cidadania sua possibilidade de real efetivação. A Educação, entendida como uma das ferramentas apontadas para a consolidação dos objetivos elencados pelos Planos, representa a possibilidade para a formação do pensamento social e para o efetivo alcance das práticas em DHs. As contribuições dessa área referem-se à formação crítica social, cidadã, coletiva, transformadora, digna, democratizante, nas quais valores solidários e libertários se desenvolvem. (PNEDH, 2007, p. 25-26). Fundamentadas nesse entendimento, as ações gerais e os objetivos propostos nos textos em questão, reconhecem que, para a efetivação dos DHs, é necessária a formação de uma cultura que considere a existência desses direitos, tendo como premissa o acesso à informação e ao conhecimento, requisito para a efetiva cidadania. Nesse sentido, a formação docente e a práxis pedagógica voltadas à Educação em Direitos Humanos correspondem aos elementos fundamentais para a construção dessa cultura como estrutura para as relações humanas e sociais. Portanto, contemplar a EDH em processos de formação docente e em práxis pedagógicas cotidianas significa construir práticas baseadas nesses direitos, promovendo a humanização dos sujeitos envolvidos nos processos educativos, com vistas à formação de uma sociedade igualitária. 69 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas Contudo, para tal ação, a formação docente, em seus diferentes níveis, precisa reconhecer a EDH como princípio formador, identificando, especialmente no PNDH3 e no PNEDH, as possibilidades de efetivação dessa educação. Nessa perspectiva, a reflexão acerca dos Direitos Humanos, contemplada desde processos de formação docente até as práxis pedagógicas, torna-se o desafio para a construção da Educação em Direitos Humanos. Com base no exposto, o presente trabalho busca discutir a EDH como premissa para processos de formação docente e de práxis pedagógicas, a fim de reconhecer nos Planos aqui abordados a possibilidade de efetivação da Educação em Direitos Humanos. Sua metodologia baseia-se em análise documental, bem como em experiências que confirmam a necessidade de considerar-se tais Planos como referências para a EDH. Educação em Direitos Humanos A prática docente tem permitido observar o espaço educacional como reflexo das relações humanas fragmentadas e dos conflitos sociais cuja origem encontra-se substancialmentenas desigualdades socioeconômicas e na violação dos Direitos Humanos. Constantemente, identificam-se no contexto educativo elementos relacionados às desigualdades, os quais multiplicam uma cultura de ignorância acerca das próprias origens destas. Cattani (2018), ao considerar aspectos referentes à produção das desigualdades socioeconômicas, percebe na concentração de renda e nas práticas de enriquecimento a origem dessas desigualdades. Para o autor: 70 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências De uma forma ou de outra, a concentração de renda afeta a todos os que estão inseridos na economia capitalista. Seus desdobramentos são graves, atentam contra a democracia e impedem a construção de sociedades mais justas e livres. [...] a riqueza concentrada está sempre associada a privilégios e, muitas vezes, ligada a fraudes, à corrupção, à sonegação e a outros crimes, além da velha conhecida exploração do trabalho. (CATTANI, 2018, p. 15). Nessa esfera, considerar a Educação pressupõe compreender processos sociais e econômicos que a subjazem. Henri Léfèbvre (1991), ao analisar a formação da sociedade moderna e suas mudanças históricas, apresenta o mal-estar social e o terrorismo a que as relações sociais ficaram submetidas devido a processos de industrialização, de repetição de trabalho, de fragmentação das relações sociais, de manipulação da capacidade criadora, da arte, do subjetivo, da linguagem, e de incentivo ao individualismo. Para o autor, a perda das referências atribuiu às relações sociais o caráter de superficialidade, no qual elaborações ideológicas ocuparam a racionalidade coletiva e onde o passado e a História sucumbiram às necessidades de satisfação efêmera. Nesse âmbito, observa-se que a instituição educacional, tanto referente à educação básica quanto ao ensino superior, inserida em uma configuração social que segue a lógica de um sistema economicamente desigual, representa tendências educacionais associadas às proposições políticas vigentes em seu período, embora sua função maior tenha fundamento na transformação da realidade em questão. Seu ambiente consiste, majoritariamente, na execução de projetos pedagógicos realizadores de políticas sociais associadas às demandas de mercado, conformando-se com o currículo determinado, com a padronização do ensino, com a limitação das práticas pedagógicas e das metodologias 71 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas desenvolvidas, com a gestão e as políticas educacionais, com os impedimentos acerca da formação contínua de professores e docentes, com a subestima e o silenciamento simbólico das reflexões desses profissionais, e com a cultura14 coletiva que incorpora ideais de reprodução de desigualdades nos quais os processos de formação humana e de relações sociais estão a serviço de uma lógica social, seguindo o que Léfèbvre chama de “Sociedade Burocrática de Consumo Dirigido” (1991, p. 77). Pierre Bourdieu (1989), ao tratar dos diferentes campos como espaços de dominação e de hierarquias, identifica no conceito de habitus disposições que levam as pessoas a fazerem escolhas sem terem consciência delas. Na lógica de manutenção de poder de cada campo, o capital simbólico se constrói nas relações subjetivas. No campo educacional, processos que cristalizam as desigualdades e a violação dos direitos são identificados nas práticas cotidianas, nas quais também podem ser desfeitos. A Educação, sob esse ponto de vista, representa um conjunto de possibilidades para a transformação social, a fim de romper com ciclos de violação dos Direitos Humanos, bem como com a manutenção das desigualdades sociais. As construções subjetivas das práticas sociais educacionais, formadoras da Educação em Direitos Humanos têm seus processos desenvolvidos em ações cotidianas, as quais podem reproduzir desigualdade ou romper com a sua cultura. Nessa conjuntura, considerar o PNDH3 e o PNEDH torna-se um meio para efetivar a 14 Stuart Hall (1997), ao tratar de processos relacionados à formação da cultura, e sobre a virada cultural, salienta o conceito desse termo e seu significado no mundo contemporâneo, problematizando a massificação dessa esfera no contexto da globalização. Em sua análise, o autor pontua o papel social exercido pela mídia, o qual pode limitar o conhecimento e incentivar práticas relacionadas à lógica de mercado, ao mesmo tempo em que pode auxiliar n a mudança de comportamentos que visem à tomada de consciência acerca da coletividade. Infelizmente, o que constatamos em nosso cotidiano não é esta segunda perspectiva. 72 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências EDH, de modo a promover os princípios humanos e sociais por ela defendidos. No que tange aos direitos sociais, a Educação, como segunda dimensão dos Direitos Humanos, deve alcançar, dentre outros, o valor da igualdade, potencializando práticas de efetivação desses direitos, ainda que imposições do sistema social encaminhem ações para o descumprimento desse significado inclusive no espaço educacional. Isabel Maria de Farias (2009), ao estudar os elementos quase invisíveis nos fundamentos da Educação, aponta para os princípios que norteiam as tendências pedagógicas, dando ênfase às que são reformistas, nas quais os processos de ensino e aprendizagem não consideram as realidades sociais ou as experiências dos sujeitos, mas, sim a transferência de conhecimento, e as que são libertárias ou transformadoras, as quais consideram os sujeitos como protagonistas do seu conhecimento, reconhecendo as experiências de vida e os saberes locais como pontos de partida para questionamentos, reflexões, soluções e análises para a transformação da realidade que se apresenta. Além disso, a autora salienta a relação entre a Educação, a Escola e a Didática, reconhecendo a Educação como um ato político, a Escola (ou a Universidade) como um espaço para o enfrentamento social, e a Didática como ferramenta para a transformação social, processada através da criação de espaços e setores democráticos, nos quais os sujeitos educacionais e comunitários são atores para o desenvolvimento de aspectos cognitivos bem como para a harmonia nas relações sociais que se estabelecem a partir do espaço em questão. Vera Maria Candau e Antônio Moreira (2003), ao analisarem construções culturais no espaço educacional, apontam para as 73 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas relações entre escola e cultura, defendendo que ambas estão interligadas como uma teia, na qual os fios são articulados no cotidiano, onde encontram conflitos e problemas a serem solucionados. Além disso, os autores reconhecem a escola como um espaço diverso e multicultural, que precisa superar práticas de violação aos Direitos Humanos, não tratando questões discriminatórias como naturais ou como necessárias à manutenção de um sistema desigual. Cabe ressaltar, aqui, que a referência ao espaço escolar, citada pelas autoras em foco, parece atribuir à educação básica o compromisso com a EDH. Entretanto, é relevante salientar que, para que esse objetivo seja alcançado, há a necessidade da formação docente que considere tal realidade, tendo como orientação, também, os Planos PNDH3 e PNEDH. Em outros termos, o nível superior de ensino deve promover a EDH em seus processos docentes formativos, a fim de que as práxis escolares surtam o efeito desejado. A formação docente encontra sua base na universidade, a qual precisa romper com ciclos de reprodução de desigualdades, seja através de seu currículo ou de seus processos seletivos de ingresso na pós-graduação que, em favor de outros motivos, desconsideram estudos sobre a EDH, a fim de que, de fato, esta perspectiva seja considerada desde o início dessa formação. Direitos Humanos e formação docente: propostas para práxis pedagógicasEm 10 de dezembro de 1948, após reunião entre líderes das nações envolvidas na 2ª Guerra Mundial, a qual excedeu todo o limite de crueldade humana, a ONU (Organização das Nações Unidas) 74 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências proclamou a elaborada Declaração Universal dos Direitos Humanos, a fim de impedir a ocorrência de uma terceira guerra e de garantir direitos naturais, de primeira, segunda e terceira gerações. O documento buscava, e ainda o faz, garantir as liberdades fundamentais do ser humano, como o direito à vida, à autonomia e à dignidade, através da configuração dos seus trinta artigos, tendo como marco histórico o conceito de estado de bem-estar social. Situações históricas de tortura e de desrespeito à vida humana foram repensadas e a atenção às questões humanas e sociais tornaram-se objeto desses direitos. Embora os Direitos Humanos tenham surgido como prevenção e responsabilidade sobre atos de crueldade, é relevante pontuar que ações que os violam são constantemente observadas e sentidas em nossa sociedade, uma vez que seu efetivo alcance demanda processos contínuos de educação. Sheila Stolz (2012), ao aprofundar estudos sobre os Direitos Humanos, discute o caráter universal, indivisível e interdependente desses direitos, apontando para os campos político, econômico e social como áreas para sua efetivação. Para a autora, [...] os Direitos Humanos devem ser concebidos como um continum, no qual os direitos civis e políticos são condições prévias necessárias, mas não suficientes da liberdade e igualdade/solidariedade, valores transfigurados em direitos que somente serão reais com sua extensiva garantia e efetividade. (STOLZ, 2012, p. 7). Confirma-se, com o caráter de indivisibilidade, que aspectos econômicos e políticos alteram os aspectos sociais relacionados aos direitos em foco. Entende-se, portanto, que a Educação possui estreita articulação com esses fatores, uma vez que os campos sociais em questão também determinam as práticas educacionais. 75 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas No que concerne ao conceito de práxis, observa-se que ele supõe a relação entre teoria e prática, entre os conhecimentos abstratos e os concretos. Nesse sentido, pensar a Educação em Direitos Humanos, considerando, neste caso, o PNDH3 e o PNEDH, requer a apropriação do conjunto de conceitos que essa expressão carrega para que possa relacionar-se com construções empíricas tanto no contexto educacional quanto fora dele. A questão central, todavia, é garantir que a formação docente e a práxis pedagógica contemplem teoria e prática no que se refere à EDH. Paulo César Carbonari (2016), ao discutir a práxis pedagógica e a formação docente na Educação em Direitos Humanos, aponta para o fato de que há um estranhamento por parte dos professores, para não dizer uma recusa, acerca da EDH. Ao reconhecer questões de ordem econômica, política e social, o autor pontua a redução de gastos e o congelamento de verbas públicas destinadas à Educação como um fator de impedimento aos incentivos para a promoção da EDH. Dentre outros apontamentos relevantes para a compreensão da EDH como práxis pedagógica, o autor reconhece o contexto educacional como fundamental para incentivar essa educação e indica o uso de procedimentos restaurativos nesse contexto, a fim de problematizar questões de violação aos Direitos Humanos e de promover a educação como forma de humanização. Nesse sentido, a proposta de EDH presente no PNDH3 e no PNEDH encontra-se associada a essas práticas, uma vez que também promove a problematização da realidade bem como suas possibilidades de educação. Em acréscimo à reflexão de Carbonari, é possível questionar os motivos pelos quais há o referido estranhamento por parte dos docentes ou professores quanto à proposta de trabalho com a EDH, uma vez que a necessidade de formação nessa perspectiva e a possível lacuna quanto a essa abordagem parecem atribuir ao 76 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências profissional a insegurança para desenvolvê-la. Nesse sentido, a ênfase sobre a carência de formação em nível superior em relação ao tema torna-se mais evidente. Vera Candau (2011), em apontamentos sobre a EDH, salienta a necessidade de esclarecer, no contexto educacional, sobretudo, conceitos utilizados de forma generalizada que desfavorecem a reflexão acerca do real sentido da proposta de EDH, como, por exemplo, o entendimento de que promover a igualdade não reconhece a existência das diferenças. Além disso, a autora explica que é necessário reconhecer o contexto e a situação para o estímulo às reflexões e ações em EDH, pois entende que não há uma fórmula única que combata as violações ou que eduque para o respeito aos Direitos Humanos. Cabe pontuar aqui a relação dessa perspectiva com as orientações presentes no PNDH3 e no PNEDH, visto que elas contemplam as especificidades de cada situação em que a promoção de valores como a igualdade estão presentes. Com relação à proposta de Educação em Direitos Humanos do PNEDH e do PNDH3, é possível observar que há um significativo esforço para a efetivação desses Planos como uma política em desenvolvimento, tendo como base diferentes formas de manifestação, já que os documentos citados preveem ações programáticas que orientam para a formação de uma cidadania ativa e para a construção de conhecimentos sobre os DHs, especialmente em contextos educacionais de vulnerabilidade social, onde discriminações referentes à raça, ao gênero, à religião, à geração, dentre outras, e violações desses direitos se fazem frequentes. A Educação, assim, é reconhecida como um potencial transformador da sociedade, que em muito pode contribuir para o aprimoramento de questões relativas aos DHs. 77 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas Com base no exposto, é possível reconhecer o empenho em transformar a Educação por meio da EDH, ao se valorizarem questões que contemplem a diversidade humana bem como o direito a ela. Nesse âmbito, pensar a EDH como práxis pedagógica libertadora e emancipatória, como propunha Paulo Freire (s/d), ao falar das marchas que contestam as desigualdades e a violação dos Direitos Humanos, e que buscam a transformação, atribui à formação docente sua possibilidade. Apesar desse reconhecimento, observa-se a resistência político-pedagógica em aderir à inserção dos DHs como fundamento para a práxis, já que a participação dos atores comunitários se faz cada vez menos notável no espaço educacional; a discriminação por raça e cor é sentida nos julgamentos feitos sobre o território que pessoas em situação de vulnerabilidade ocupam; diferenças econômicas não são contempladas quando se institui um planejamento único e padronizado para diferentes contextos sociais; a formação docente raramente pontua o significado da EDH como premissa para a práxis pedagógica; há pouco incentivo à efetivação da EDH, seja pela ausência de políticas públicas que financiem tal perspectiva, ou seja por processos seletivos de mestrado e doutorado que excluem estudos sobre essa temática, formando um conjunto de fatores que influem nos processos educativos que, dentre outras questões, identificam o sistema educacional como um recurso para a reprodução de ciclos de desigualdades. Nesse contexto, o desafio que se apresenta corresponde à formação docente em EDH, visto que são as práxis pedagógicas que guiarão ações para a construção desses direitos. Em uma breve pesquisa entre professores da rede pública de ensino acerca do seu conhecimento sobre os Planos PNEDH e PNDH3, foi possível constatar que, de dezenove respostas para a 78 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências pergunta "Você conhece o Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH3) e/ou o Plano Nacional deEducação em Direitos Humanos (PNEDH)?, quatro indicaram conhecimento sobre esses documentos, dois o conheciam somente por terem ouvido falar deles e treze professores afirmaram não conhecer tais propostas, indicando uma lacuna no que tange à formação docente em EDH. Nesse sentido, cabe refletir sobre os processos formativos de professores, tanto no âmbito da educação básica quanto no do ensino superior, a fim de reconhecer a necessidade de promoção da EDH em sua amplitude, considerando a universidade, a escola, a sociedade e todos os aspectos que contribuem para a efetivação da EDH ou para o seu impedimento. Os processos de formação docente, sobretudo os presentes nos níveis acadêmicos (graduação, pós-graduação, pesquisa, extensão), precisam reconhecer a EDH, através também do Programa Nacional de Direitos Humanos e do Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos, como premissa para a Educação e para as relações humanas e sociais, a fim de que as práxis sejam capazes de promover a construção de uma sociedade mais justa, fraterna e igualitária. Os Planos aqui abordados constituem uma referência para que a Educação em Direitos Humanos seja um princípio para essa formação, considerando o contexto social, as desigualdades econômicas, as realidades diversas, as questões subjetivas, as formas de interação, os papéis sociais dos indivíduos e, sobretudo, a preservação dos valores defendidos pelos Direitos Humanos. 79 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas Conclusão O conhecimento sobre os documentos aqui referidos serve de sustentação para práticas que viabilizem a Educação em Direitos Humanos, considerando desde processos formadores docentes até as práxis pedagógicas desenvolvidas em diferentes contextos educacionais. As propostas apresentadas por eles, cujos princípios encontram-se em práticas libertadoras, críticas e emancipatórias, que transformam a realidade social, assim como o exercício docente em contexto de vulnerabilidade social, identificam a necessidade de considerar-se a EDH como premissa para a construção de uma sociedade mais humanizada. Reconhecer as orientações, as diretrizes, os eixos, os objetivos, as estratégias, as secretarias responsáveis e as recomendações feitas por esses documentos significa ampliar a argumentação com relação à efetivação dos Direitos Humanos em seus aspectos econômicos, culturais, políticos, educacionais, permitindo a reflexão que não se limita ao espaço institucional, mas que considera a Educação como potencial para a defesa desses direitos. Promover a EDH significa, dentre outras perspectivas, desenvolver as ações propostas pelo Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH3) e pelo Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos (PNEDH), a fim de assumir a relevância da ação pedagógica na construção social e de contribuir com processos sociais cujos princípios sejam a Educação e os Direitos Humanos. Entender as lacunas existentes na práxis pedagógica a partir do desconhecimento dos Planos aqui referidos, permite identificar, nos processos de formação docente, desde a universidade até a educação básica, a necessidade de se repensarem práticas 80 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências educacionais, a fim de romper com ciclos reprodutores de desigualdades, presentes nas diferentes esferas da Educação. Nesse sentido, os Planos PNDH3 e PNEDH apontam para possibilidades de práxis pedagógicas e de formação docente centradas na transformação social, alcançada por processos de construção na Educação em Direitos Humanos. Referências BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Lisboa: Deifel, 1989. CANDAU, Vera. Entrevista Puc Rio, 2011. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=bP-DNlSKXqQ. Acesso em: 15 ago. 2020. CANDAU, Vera; MOREIRA, Antônio. Educação escolar e cultura(s). Construindo Caminhos, v. 23, PUCRJ, 2003. CARBONARI, Paulo César. Palestra "Direitos Humanos, ambiente escolar e práxis pedagógica". Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=jWIiA3eoJMw. Acesso em: 15 ago. 2020. CATTANI, Antônio David. Ricos, podres de ricos. Porto Alegre: Tomo Editorial; 2018. FARIAS, Isabel Maria Sabino de et al. Didática e docência: aprendendo a profissão. Brasília, DF: Liber Livros, 2009. FREIRE, Paulo. Paulo Freire e direitos. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=FpUCftNVC-I. 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Brasília, DF: SDH/PR, 2010. https://www.youtube.com/watch?v=bP-DNlSKXqQ https://www.youtube.com/watch?v=jWIiA3eoJMw https://www.youtube.com/watch?v=FpUCftNVC-I http://www.seer.ufrgs.br/educacaoerealidade/article/view/71361 http://portal.mec.gov.br/docman/2191-plano-nacional-pdf/file 81 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas Disponível em: https://www.ohchr.org/Documents/Issues/NHRA/ProgrammaNacional DireitosHumanos2010.pdf. Acesso em: 12 abr. 2020 STOLZ, Sheila. O caráter universal, indivisível e interdependente dos Direitos Humanos: a exigibilidade/justiciabilidade dos direitos econômicos, sociais e culturais previstos pelo direito internacional. Curso de Especialização em Educação em Direitos Humanos. FURG, 2019. STOLZ, Sheila. A Organização das Nações Unidas (ONU) e a Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH): significado e consequências. Curso de Especialização em Educação em Direitos Humanos. FURG, 2019. Disponível em: http://sabercom.furg.br/handle/1/893. Acesso em: 22 nov. 2019. https://www.ohchr.org/Documents/Issues/NHRA/ProgrammaNacional%20DireitosHumanos2010.pdf https://www.ohchr.org/Documents/Issues/NHRA/ProgrammaNacional%20DireitosHumanos2010.pdf http://sabercom.furg.br/handle/1/893 82 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências 83 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas PROPOSTAS DE ESCOLAS SEM PARTIDO NO BRASIL: A INCONSTITUCIONALIDADE DOS PROJETOS DE LEI Davi Silveira 15 Introdução Nos últimos anos, um movimento denominado “Escola Sem Partido” (ESP) ganhou força no Brasil. Vários fatores levaram ao crescimento do movimento no país, entre eles a “ameaça comunista”, o crescimento do nacionalismo, notícias de que partidos de esquerda, militantes dos Direitos Humanos e feministas estariam a implementar a “ideologia de gênero” nas escolas. Por volta do ano de 2015, mesmo ano em que foi votado grande parte dos planos de educação municipais e estaduais, circulou notícias falsas (fake news) sobre a então “ideologia de gênero”, assim denominada pelo movimento ESP, o que levaria ao fim da família tradicional brasileira. Criou-se um verdadeiro pânico moral, o que mobilizou milhares de pessoas a combater a “ideologia de gênero” nas escolas. Devido aos esforços e mobilização do movimento ESP, foram propostos e aprovados diversos projetos de lei (PL) que visam a combater a “ideologia de gênero” nas escolas. De forma geral, esses 15 Graduado em Direito (FURG). Advogado. E-mail: davisilveira08@gmail.com. 84 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências PL propõem a exclusão de qualquer debate sobresexualidades e gêneros nas escolas. Na prática, representa uma censura aos educadores e educandos, atacando a educação livre, plural e sem censura; uma verdadeira afronta à Constituição Federal (CF) e aos Direitos Humanos. Diante dessas violações à Educação, o Supremo Tribunal Federal (STF) foi suscitado, mediante ações de Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 16, a se pronunciar sobre os PL e sua inconstitucionalidade. Partindo dessa breve exposição, o presente artigo tem como problemática pensar-se a inconstitucionalidade dos projetos de lei impulsionados pelo movimento Escola Sem Partido. Em busca de respostas, inicialmente foi realizada uma breve explicação sobre teorias de gênero e uma análise dos Programas Nacionais de Direitos Humanos (PNDH) e o Plano Nacional de Educação (PNE) (BRASIL, 2014). Ao final, a partir das teorias de gênero e das decisões já proferidas pelo Supremo Tribunal Federal relativas aos projetos de lei, pretende-se verificar sobre a possibilidade de declarar-se a inconstitucionalidade de qualquer projeto de lei que vise a acabar com a “ideologia de gênero” nas escolas. A Hipótese inicial é que qualquer projeto de lei que vise a diminuir ou excluir o debate sobre sexualidade ou gênero nas escolas é uma forma de censura e, dessa forma, deve ser considerado inconstitucional. 16 Lei nº 9.882/99. Art. 1º “A arguição prevista no § 1º do art. 102 da Constituição Federal será proposta perante o Supremo Tribunal Federal, e terá por objeto evitar ou reparar lesão a preceito fundamental, resultante de ato do poder público. Parágrafo único. Caberá também arguição de descumprimento de preceito fundamental: I - quando for relevante o fundamento da controvérsia constitucional sobre lei ou ato normativo federal, estadual ou municipal, incluídos os anteriores à Constituição”. 85 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas A presente investigação tem como objetivo geral avaliar a constitucionalidade dos projetos de lei do movimento ESP. Assim, busca analisar as decisões já proferidas pelo Supremo Tribunal Federal quanto ao tema dos projetos de lei do movimento Escola Sem Partido. No tocante aos objetivos específicos do presente trabalho, busca-se: a) realizar uma breve análise quanto às teorias de gênero; b) analisar quais são as legislações e documentos referentes ao tema do trabalho; c) quais são os principais agentes envolvidos nas demandas levadas até o STF. Acredita-se que a presente investigação possui grande relevância social, devido a tratar-se da Educação e seu potencial de transformação cultural e social. Assim, o trabalho contribuirá para os estudantes e a sociedade de forma geral. Para a elaboração da pesquisa, utilizou-se do método hipotético dedutivo. Foi utilizada, como modalidade de estudo, a pesquisa bibliográfica e documental, examinando legislações, tratados, convenções e declarações internacionais das quais o Brasil faz parte, assim como matérias jornalísticas. O trabalho está dividido em três partes. Inicialmente, abordou- se questões relativas aos gêneros e sexualidades; posteriormente, foram analisadas as questões e decisões relativas aos projetos de lei junto ao Supremo Tribunal Federal. Por fim, realiza uma conclusão. Gênero e sexualidade A autora Judith Butler (2018) questiona a compreensão que temos sobre sexo, sexualidade e gênero, e propõe que não é o gênero um efeito do sexo, mas sim que o sexo é um efeito das 86 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências relações de poder e dos discursos sobre gênero e sexualidade. Não é possível que exista uma única identidade, mas sim identidades, pensadas de forma plural. O trabalho inicial de Butler sobre gênero concentra-se na teoria da performatividade, cujo embasamento teórico remonta à constituição histórica do dispositivo da sexualidade (FOUCAULT, 1988). Como demonstra Foucault, um sistema de sexualidade surgiu a partir de formas de parentesco e adquiriu uma significativa autonomia: As sociedades ocidentais modernas inventaram e instalaram, sobretudo a partir do século XVIII, um novo dispositivo que se superpõe ao primeiro e que, sem o pôr de lado, contribui para reduzir sua importância. É o dispositivo de sexualidade [...]. Para o primeiro [aliança], o que é pertinente é o vínculo entre parceiros com status definido; para o segundo [sexualidade], são as sensações do corpo, a qualidade dos prazeres, a natureza das impressões [...]. (FOUCAULT, 1988, p. 102). Esse sistema sexual se desenvolveu e se produziu no contexto das relações de gênero historicamente específicas. Uma parte da ideologia moderna do sexo pressupõe que o desejo sexual é um atributo do homem e a pureza como atributo da mulher. (RUBIN, 2017). A sexualidade seria um modelo/sistema construído socialmente, e não se refere às diferenças biológicas, mas que orienta a expressão dos desejos, emoções, condutas e práticas corporais, que individualiza a pessoa de maneira física e psicológica. Esse modelo está orientado pelos discursos e práticas normatizadoras da família e da ordem social, corroborados pelo discurso médico-científico do século XIX (FOUCAULT, 1988). Sendo assim, para o autor: 87 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas O sexo, ao longo de todo o século XIX, parece inscrever-se em dois registros de saber bem distintos: uma biologia da reprodução desenvolvida continuamente segundo uma normatividade científica geral, e uma medicina do sexo obediente a regras de origens inteiramente diversas. Entre uma e outra nenhum intercâmbio real, nenhuma estruturação, a primeira desempenhou apenas, em relação à outra, o papel de uma garantia longínqua e, ainda assim, bem fictícia: de uma caução global sob cujo disfarce os obstáculos morais, as opções econômicas ou políticas, os medos tradicionais podiam-se reescrever num vocabulário de consonância científica. Tudo se passaria como se uma resistência fundamental se opusesse à enunciação de um discurso racional sobre o sexo humano, suas correlações e efeitos. (FOUCAULT, 1988, p. 53). A medicina psiquiátrica do século XIX reforçou, em termos científicos, a separação entre o normal e o saudável, o desviante e o corruptor da natural sexualidade humana. As medicalizações, juntamente com as estratégias de domínio, tiveram como principal resultado: o controle da sexualidade infantil (sexualização da criança); a especificação das perversões (tem como norma o casal heterossexual/monogâmico, assim como as relações sexuais visavam à reprodução biológica e não ao prazer); a medicalização como nova esfera de poder (psiquiatrização do prazer perverso); e a histerização da mulher. (FOUCAULT, 1988). Embora a vigilância da sexualidade ser presumida para todos, os mecanismos ideológicos e efetivos para promover e estimular a contenção são diversos e correlacionados. Com isso, tanto mulheres quanto homens, adultos e crianças, devem agir de maneiras específicas para serem considerados normais e saudáveis. Os que desviam dessa normalidade (os desviantes) devem ser objeto de estudo e/ou intervenção. 88 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências Para a cultura popular, tem-se a ideia que a variedade erótica é perigosa, doentia, depravada e uma ameaça a tudo que existe. Na ideologia sexual popular, reúne-se ideias de pecado sexual, conceitos de inferiorização psicológica e histeria coletiva. “Todas essas hierarquias de valores sexuais – religiosos, psiquiátricos e populares – funcionam de forma muito semelhante aos sistemas ideológicos do racismo, do etnocentrismo e do chauvinismo religioso.” (RUBIN, 2017, p. 85). Trabalhos de pesquisadoras/es que estudam sobre gêneros buscam analisar, verificar, discutir etc., (trabalhos científicos) sobre questões/discursos historicamente construídos, entre eles o deinferiorização de determinados grupos/gêneros. Já a questão da “ideologia de gênero” nada mais é que criação de um senso comum (não científico), baseado em narrativas preconceituosas e reativas à crescente demanda/reconhecimento por igualdade de direitos (DH) para parcela da população historicamente relegada. Portanto, essa narrativa/discurso visa a opor-se aos estudos de gênero, apresentam conceitos descontextualizados e distorcidos como, por exemplo, que devemos impor às crianças que não são meninas ou meninos, mas que cada um deve inventar um gênero para si, verdadeiras fake news. É de suma importância que tenhamos em nossas escolas um ensino diverso, livre e sem censura, não apenas para compreenderem o seu papel na sociedade, mas de serem mais críticos e aptos a analisar o papel e as contribuições das outras pessoas na sociedade (mulheres, indígenas, LGBTQI+). Na busca por essa educação mais inclusiva e com respeito às diversidades, foram elaborados Programas e Planos Nacionais que preveem ações e diretrizes para a Educação. Dentre elas, observa- se que há diretrizes e ações programáticas previstas no Programa 89 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas Nacional de Direitos Humanos – PNDH-3 e no Plano Nacional de Educação, que prevê a inclusão, no currículo escolar, de temas relativos a gênero, identidade de gênero, etnia e raça, orientação sexual, entre outros, bem como todas as formas de discriminação e violação de direitos, a ser cumprida pelo Estado brasileiro. O dever de debater sobre sexualidade e gênero nas escolas No ano de 2004, é lançado “Brasil Sem Homofobia”, um programa de combate à violência e à discriminação contra pessoas lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais, intersexo, e demais orientações e expressões de gênero (LGBTI+) e de promoção da cidadania homossexual. (BRASIL, 2004). Dentre os programas de ação, está previsto o seguinte: IX – Política para a Juventude 37 - Apoiar a realização de estudos e pesquisas na área dos direitos e da situação socioeconômica dos adolescentes GLTB, em parceria com agências internacionais de cooperação e com a sociedade civil organizada. 38 - Apoiar a implementação de projetos de prevenção da discriminação e da homofobia nas escolas, em parceria com agências internacionais de cooperação e com a sociedade civil organizada. 39 - Capacitar profissionais de casas de apoio e de abrigos para jovens em assuntos ligados à orientação sexual e ao combate à discriminação e à violência contra homossexuais, em parceria com agências internacionais de cooperação e a sociedade civil organizada. (BRASIL, 2004, p. 25). Para o fortalecimento do programa “Brasil Sem Homofobia” e continuidade na tentativa de aplicação e fortalecimento das ações propostas nos PNEDH (BRASIL, 2007) e PNDH-3 (BRASIL, 2009a), elaborou-se através da Comissão Técnica Interministerial da 90 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República (SEDH) o “Plano Nacional de Promoção da Cidadania e Direitos Humanos de LGBT: Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais” (PNPCDH-LGBT) (BRASIL, 2009b). Um esforço da sociedade civil e do governo em elaborar políticas públicas que consigam responder às necessidades da população envolvida. Dentre as estratégias previstas pelo PNPCDH-LGBT para a promoção e socialização do conhecimento, a formação de atores, a defesa e proteção dos direitos, a sensibilização e mobilização, destaca-se a seguinte: Quadro 1 – Estratégia 2: Formação de atores no tema LGBT nº Ação Competência Prazo 1.2.1 Propor, por meio dos fóruns distrital, estaduais e municipais, às secretarias distrital, estaduais e municipais de cultura, políticas públicas de editais que beneficiem projetos específicos do segmento, inclusive aqueles que preveem pesquisa em cultura e arte LGBT, visando à catalogação e valorização dos movimentos culturais LGBT e à promoção da cidadania LGBT. MinC 2010/2011 (Continua...) 91 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas Quadro 1 – Estratégia 2: Formação de atores no tema LGBT (continuação) nº Ação Competência Prazo 1.2.2 Criar um projeto de cooperação público- governamental de extensão nas escolas públicas, utilizando produções artístico- culturais com temática de sexualidade, diversidade sexual e identidade de gênero, com recorte de raça e etnia, como forma de educar para a cidadania e a inclusão. MinC/MEC 2010/2011 Fonte: PNPCDH-LGBT (2009, p. 24, grifo do autor). O programa PNDH-3 e os planos PNPCDH-LGBT e PNEDH são complementares e fortalecidos entre si, e preveem um conjunto de diretrizes que visam à promoção, à cidadania e aos Direitos Humanos da população LGBTI+, o plano PNPCDH-LGBT insere nas escolas o Projeto “Escola Sem Homofobia”, através de material didático (filmes e cartilhas). Esse Kit, do Projeto “Escola Sem Homofobia”, foi “batizado” com o nome de “kit gay” pelo atual presidente da República, Jair Messias Bolsonaro. Com a oposição da parte considerada conservadora do congresso nacional, o kit acabou por não ser divulgado/inserido nas escolas (e nunca foi). O Programa Nacional de Direitos Humanos – PNDH-3 e o Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos pretendem, 92 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências dentre suas ações previstas, a inclusão de uma educação que debata questões de gênero e de diversidade sexual, conforme segue: EDUCAÇÃO BÁSICA Ações programáticas Fomentar a inclusão, no currículo escolar, das temáticas relativas a gênero, identidade de gênero, raça e etnia, religião, orientação sexual, pessoas com deficiências, entre outros, bem como todas as formas de discriminação e violações de direitos, assegurando a formação continuada dos(as) trabalhadores(as) da educação para lidar criticamente com esses temas. EDUCAÇÃO SUPERIOR Concepção e princípios O Programa Mundial de Educação em Direitos Humanos (ONU, 2005), ao propor a construção de uma cultura universal de direitos humanos por meio do conhecimento, de habilidades e atitudes, aponta para as instituições de ensino superior a nobre tarefa de formação de cidadãos(ãs) hábeis para participar de uma sociedade livre, democrática e tolerante com as diferenças étnico-racial, religiosa, cultural, territorial, físico- individual, geracional, de gênero, de orientação sexual, de opção política, de nacionalidade, dentre outras. Ações programáticas Desenvolver políticas estratégicas de ação afirmativa nas IES que possibilitem a inclusão, o acesso e a permanência de pessoas com deficiência e aquelas alvo de discriminação por motivo de gênero, de orientação sexual e religiosa, entre outros e seguimentos geracionais e étnico-raciais. (PNEDH) Já o Programa Nacional de Direitos Humanos – PNDH-3 traz o seguinte: Diretriz 8: Promoção dos direitos de crianças e adolescentes para o seu desenvolvimento integral, de forma não discriminatória, assegurando seu direito de opinião e participação. [...] Objetivo estratégico III: Proteger e defender os direitos de crianças e adolescentes com maior vulnerabilidade. Ações programáticas: 93 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas Responsável: Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República l) Exigir em todos os projetos financiados pelo Governo Federal a adoção de estratégias de não discriminação de crianças e adolescentes em razão de classe, raça, etnia, crença, gênero, orientação sexual, identidade de gênero, deficiência, prática de ato infracional e origem. Ao se ler tais artigos, é praticamente inevitável em não pensar as queimadas na Floresta Amazônica. Nota-se no caso da Amazônia a tentativa ou o esforço conjunto de vários países em prol da preservação, preocupados com a qualidade e a integridade do meio ambiente.[...] Diretriz 13: Prevenção da violência e da criminalidade e profissionalização da investigação de atos criminosos. [...] Objetivo estratégico V: Garantia do respeito à livre orientação sexual e identidade de gênero. Ações programáticas: a) Desenvolver políticas afirmativas e de promoção de cultura de respeito à livre orientação sexual e identidade de gênero, favorecendo a visibilidade e o reconhecimento social. Responsável: Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República [...] Diretriz 19: Fortalecimento dos princípios da democracia e dos Direitos Humanos nos sistemas de educação básica, nas instituições de ensino superior e outras instituições formadoras. Objetivo Estratégico I: Inclusão da temática de Educação e Cultura em Direitos Humanos nas escolas de educação básica e em outras instituições formadoras. Ações Programáticas: a) Estabelecer diretrizes curriculares para todos os níveis e modalidades de ensino da educação básica para a inclusão da temática de educação e cultura em Direitos Humanos, promovendo o reconhecimento e o respeito das diversidades de gênero, orientação sexual, identidade de gênero, geracional, étnico-racial, religiosa, com educação igualitária, não discriminatória e democrática. Responsáveis: Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República; Ministério da Educação; Secretaria 94 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências Especial de Políticas para as Mulheres da Presidência da República. (grifos do autor). Com os seguintes trechos extraídos dos documentos, já se demonstra sobre o dever em debater-se nas escolas e universidades sobre gênero, orientação sexual e identidade de gênero.17 Mas devido ao movimento “Escola Sem Partido”, que atualmente se detém na educação básica, com relação à Educação superior também ocorreu o movimento para barrar com questões que versam sobre gênero (não heteronormativos). A questão do ensino superior foi debatida pelo STF na ADPF 548 18. O Supremo Tribunal Federal já não deixou claro, claríssimo, o papel do ensino e, por que não, da educação tout court quando do julgamento da ADPF 548? E não existem cinco cautelares que dizem o contrário do que diz Desembargadora (ADI 5.537/AL e das ADPF 457/GO, 461/PR, 465/TO e 526/PR)? As cinco cautelares dizem respeito à, exatamente, mesma matéria. Mas vou mais longe, porque invoco a ADPF 548. “Ah, é diferente. O assunto da ADPF 548 era a liberdade de cátedra universitária”. Dando de barato que não há nenhum cinismo por trás dessa possível réplica, respondo. Em três pontos. (STRECK, 2019). Ocorre que ainda há vários projetos de lei e até mesmo leis que visam à exclusão do debate de gênero nas escolas. As decisões para 17 A Lei nº 11.340/2006 (Lei Maria da Penha), também se refere ao dever em debater-se sobre gênero e violência de gênero nas escolas. “Art. 8º A política pública que visa coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher far-se-á por meio de um conjunto articulado de ações da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios e de ações não-governamentais, tendo por diretrizes: [...] V - a promoção e a realização de campanhas educativas de prevenção da violência doméstica e familiar contra a mulher, voltadas ao público escolar e à sociedade em geral, e a difusão desta Lei e dos instrumentos de proteção aos Direitos Humanos das mulheres; [...] IX - o destaque, nos currículos escolares de todos os níveis de ensino, para os conteúdos relativos aos Direitos Humanos, à equidade de gênero e de raça ou etnia e ao problema da violência doméstica e familiar contra a mulher”. (grifo do autor). 18 BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Acompanhamento processual. Disponível em: http://www.stf.jus.br/portal/processo/pesquisarProcesso.asp. http://www.stf.jus.br/portal/processo/pesquisarProcesso.asp 95 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas declararem a inconstitucionalidades desses projetos de lei e Leis são pontuais, o que por diversas vezes acaba por geram uma incerteza e acaba por inibir a implementação das ações programadas nos planos e programas que visam dar uma educação mais inclusiva e ampla. As escolas também são espaços responsáveis pelo controle da heteronormatividade compulsória, o que demostra mais uma vez a importância em se lutar por inclusão, debater, discutir, apreender sobre gênero, sexualidade e diversidade dentro das escolas. O Supremo Tribunal Federal e o movimento das escolas sem partido O Poder Judiciário, em especial o Supremo Tribunal Federal, teve e tem um papel de protagonista em causas que se referem as questões de gênero, tanto nas demandas da população de lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais, transgêneros e intersexuais e outras orientações sexuais, identidades e expressões de gênero (LGBTI+), quanto das mulheres. Em diversas ações o Supremo teve de exercer seu papel contramajoritário e tutelar por minorias políticas, foi assim no caso da Ação Direta de Inconstitucionalidade por Omissão (ADO) nº 26 e no Mandado de Injunção (MI) nº 4733, que reconheceu o dever de tutelar a população LGBTI+ e a omissão do Congresso Nacional em criminalizar a LGBTIfobia. Outro exemplo é a ADPF 54, que garantiu a interrupção da gravidez de feto anencéfalo. Na tentativa de dar continuidade às políticas públicas já existentes, que visam à implementação de uma educação com respeito às diversidades e que assegura a educação sobre gênero nas escolas, foram impetradas diversas ações de Arguição de 96 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências Descumprimento de Preceito Fundamental no Supremo Tribunal Federal, as quais visavam declarar a inconstitucionalidade dos projetos de lei do movimento Escola Sem Partido, podemos destacar as seguintes: 457; 461; 462; 465; 466; 467; 522; 526 e 600. Somente as ações nº 462, 466 e 522 ainda não foram julgadas. As demais ações foram julgadas procedentes e declararam a inconstitucionalidade de leis e projetos de lei que buscavam limitar ou barrar o ensino sobre gênero nas escolas. Na tentativa de dar uma maior segurança jurídica, foi ajuizada ação pela então Procuradora-Geral da República, Raquel Dodge, no Supremo Tribunal Federal, a ADPF nº 624, para declarar inconstitucional qualquer ato do poder público: A fim de afastar qualquer interpretação que viabilize a realização de vigilância e censura da atividade docente com base em vedações genéricas e vagas à ‘doutrinação’ política e ideológica, à emissão de opiniões político-partidárias, religiosas ou filosóficas, à manifestação de convicções morais, religiosas ou ideológicas eventualmente contrárias às de estudantes, pais ou responsáveis, e à abordagem de questões relacionadas a gênero e sexualidade no ambiente escolar. O ministro Celso de Mello, em decisão monocrática, negou seguimento da ADPF nº 624, em 25 de setembro de 2020. Na tentativa de dar maior segurança, o requerido na ação foi muito abrangente e não indicou com precisão o(s) ato(s) nem o preceito(s) fundamental(ais) violado(s). O pedido foi para barrar qualquer ato (não especificados), presente e/ou futuro, sendo, pois, abrangente e impreciso. Dizendo de outra forma, o pedido da ADPF foi negado por não ser a ADPF o meio adequado para postular tal pretensão. 97 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas Conclusão No decorrer do trabalho, buscou-se deixar evidente o dever do Estado em criar políticas públicas de enfrentamento da violência de gênero, dentre elas a LGBTIfobia, no processo no qual as escolas têm um papel fundamental na diminuição do preconceito e da violência contra essas minorias políticas. Portanto, o questionamento inicial proposto sobre a possibilidade de declarar-se a inconstitucionalidade dos projetos de lei que visem acabar com a “ideologia de gênero” nas escolas, verificou-se que tais projetossão inconstitucionais, mas que a ADPF nº 624 não foi o instrumento adequado para evitar novas proposição de projetos de lei, que qualquer novo projeto de lei que visar à exclusão do debate livre, plural sobre temas relativos à sexualidade, à orientação sexual e de gênero, deve ser considerado inconstitucional. Referências BRASIL. Lei nº 13.005, de 25 de julho de 2014 . Aprova o Plano Nacional de Educação – PNE e dá outras providências. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2014/lei/l13005.htm. Acesso em: 26 out. 2020. BRASIL. Brasil Sem Homofobia. Programa de Combate à Violência e à Discriminação contra GLTB e de Promoção da Cidadania Homossexual, 2004, p. 1-38. Disponível em: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/brasil_sem_homofobia.pdf . 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Para tanto, uma escola municipal de ensino fundamental do município de Gravataí/RS foi escolhida para a realização de uma análise documental do seu Plano de Ensino Anual. A etapa escolhida para estudo foi a dos anos iniciais do ensino fundamental. Para esta definição, a vivência da pesquisadora em escolas, bem como um levantamento realizado com a colaboração da equipe diretiva foram determinados como critérios de seleção. Ao considerar os eventos cotidianos da instituição percebe-se o aumento de casos de violência entre os alunos, como a discriminação social, racial e a não inclusão de pessoas com deficiência. Estas circunstâncias muitas vezes levam a consequências drásticas. Nesse sentido, o objetivo do estudo é investigar o modo como a escola tem tratado o tema em seu contexto, 19 Mestranda em Educação (PPGEDU/UFRGS). Especialista em Educação em Direitos Humanos (FURG). Professora dos anos iniciais do ensino fundamental no município de Gravataí/RS. E-mail: monique83brito@gmail.com. 100 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências visando entender a medida que os Direitos Humanos estão de fato sendo assegurados no ambiente escolar e quais os principais desafios que ainda necessitam ser superados. As principais fontes utilizadas no desenvolvimento e análise da pesquisa foram: o Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos (PNEDH); o Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH-3); a Declaração sobre as Responsabilidades das Gerações Presentes em Relação às Gerações Futuras (UNESCO); Freire (1996); as Diretrizes Curriculares Nacionais para Educação Básica (DCNs) e; o plano de ensino anual da referida escola. Os Direitos Humanos são os direitos inerentes a todos os seres humanos, independente de raça, gênero, nacionalidade, etnia, idioma, crença ou qualquer outra condição. Este conceito tornou-se conhecido com a Declaração Universal dos Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU) de 10 de dezembro de 1948. Desde então, fala-se em Direitos Humanos, mas é preciso avançar, ou seja, colocar em prática atitudes que reafirmem estas normas, o que ainda é um desafio a ser superado em determinados ambientes, entre eles, algumas instituições de ensino. A escola é um lugar privilegiado para o desenvolvimento dos Direitos Humanos, pois é um dos espaços que se encontra o diferente. Nela, é possível romper com questões instituídas que se apresentam como diferenças, as quais frequentemente não sabemos enfrentar. É importante que crianças, adolescentes e adultos compreendam que ser diferente não está associado a ser rejeitado ou excluído. Inclusive, ao pensar em sentido amplo, todos somos diferentes. É necessário promover momentos de reflexão coletiva para efetivar práticas voltadas aos Direitos Humanos. Diversos problemas, entre eles os sociais e os familiares, integram o ambiente escolar e contribuem para o surgimento e a 101 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas consolidação de atos violentos. Fatores como a desigualdade social, o desemprego, a corrupção, a precariedade na saúde e na justiça, assim como a falta de limites na educação dos filhos, a dependência de álcool e/ou drogas, dentre outros, geram um ambiente hostil que requer uma ampla análise por parte dos professores. É preciso promover o ensino de habilidades de convivência, bem como a divulgação de informações sobre os direitos e deveres das crianças e adolescentes no ensino fundamental a fim de proporcionar um ambiente confortável para a comunidade escolar. Cabe a todos que compõem o ambiente escolar, combater a violência, bem como, refletir sobre atitudes que podem provocar alguma mudança. Estes indivíduos atuantes na instituição, tem que entender que, agressões físicas e verbais estão relacionadas a diversos problemas de saúde nos alunos como depressão, ansiedade e problemas de aprendizado. Ainda estamos muito distantes de onde deveríamos estar. Espera-se que este movimento se efetive em todas as escolas. Para este propósito, faz-se necessário o acesso a informação, bem como, a promoção de espaços de discussõesconscientes sobre os Direitos Humanos. “Na educação básica, a ênfase do PNDH-3 é possibilitar, desde a infância, a formação de sujeitos de direito, priorizando as populações historicamente vulnerabilizadas [...]”. (BRASIL, 2010, p. 150). Não é apenas na escola que se produz e reproduz o conhecimento, mas é nela que esse saber aparece sistematizado e codificado. Ela é um espaço social privilegiado onde se definem a ação institucional pedagógica e a prática e vivência dos direitos humanos. [...]. (PNEDH, 2008, p. 31). Portanto, torna-se emergente a necessidade da efetivação dos Direitos Humanos dentro das escolas. A introdução de espaços de 102 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências discussão auxiliará na construção de uma sociedade menos discriminatória, julgadora e seletiva, formando alunos multiplicadores e defensores de seus direitos. Dentre os objetivos estão a efetivação dos Direitos Humanos no âmbito escolar, pois, não é um assunto comum nas escolas, todavia, é importante para que estudantes e professores possam entender e praticar o respeito à diversidade humana sendo capazes de multiplicar este conhecimento para além do ambiente escolar bem como, a reflexão sobre os conflitos existentes dentro da escola que precisam ser transformados, tais como, humilhação, desrespeito, bullying, preconceito, racismo, inclusão de alunos da educação especial, pois são condições que não possibilitam um ambiente de aprendizagem e a compreensão dos mecanismos que ocorrem no âmbito da escola, para cada indivíduo que faz parte dela para a tomada de consciência dos agentes envolvidos na atividade investigada. Os Direitos Humanos na perspectiva dos anos iniciais do ensino fundamental O ensino fundamental vem sofrendo mudanças em sua organização. Como exemplo, pode ser mencionado o aperfeiçoamento de leis em busca de melhoria e qualidade no ensino. Outra alteração importante foi a transformação do ensino fundamental de oito para nove anos, com matrícula obrigatória para crianças de seis anos de idade. A etapa dos anos iniciais do ensino fundamental é importante para o desenvolvimento do ser humano. Neste período, a criança 103 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas vivencia múltiplas experiências e começa a estabelecer alguns conceitos. De acordo com as Diretrizes Curriculares Nacionais: Os alunos do Ensino Fundamental regular são crianças e adolescentes de faixas etárias cujo desenvolvimento está marcado por interesses próprios, relacionado aos seus aspectos físico, emocional, social e cognitivo, em constante interação. Como sujeitos históricos que são, as características de desenvolvimento dos alunos estão muito relacionadas com seus modos próprios de vida e suas múltiplas experiências culturais e sociais, de sorte que mais adequado seria falar de infâncias e adolescências no plural. (BRASIL, 2013, p. 110). Ao iniciar o período escolar, a criança, que já possui uma trajetória em seu ambiente familiar, inicia o processo de aprendizagem e passa a organizar os conhecimentos e experiências já obtidos durante sua vida. Neste momento, ela começa a praticar a sistematização de seus aprendizados para, então, adquirir os fundamentos necessários para o mundo social em que vivemos. Logo, faz-se importante o desenvolvimento de experiências que promovam bons resultados na trajetória escolar do aluno. O Eixo Orientador V do Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH-3): Educação e Cultura em Direitos Humanos composto pelas diretrizes 18, 19, 20, 21 e 22 destaca: Na educação básica, a ênfase do PNDH-3, é possibilitar, desde a infância, a formação de sujeitos de direito, priorizando as populações historicamente vulnerabilizadas. A troca de experiência de crianças de diferentes raças e etnias, imigrantes, com deficiência física ou mental fortalece, desde cedo, um sentimento de convivência pacífica. Conhecer o diferente desde tenra idade, é perder o medo do desconhecido, formar opinião respeitosa e combater o preconceito, às vezes arraigado na própria família. (BRASIL, 2009, p. 150). No contexto de sala de aula, não há uma disciplina destinada exclusivamente para a discussão dos Direitos Humanos, estes 104 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências espaços, portanto, surgem de outras maneiras. Um exemplo está no estabelecimento das regras de convivência discutidas, normalmente, com turmas de primeiro ano do ensino fundamental ainda no início do período letivo. Muitas vezes, este é o momento em que as crianças têm o primeiro contato com pessoas que não familiares. A educação e a cultura em Direitos Humanos visam à formação de nova mentalidade coletiva para o exercício da solidariedade, do respeito às diversidades e da tolerância. Como processo sistemático e multidimensional que orienta a formação do sujeito de direitos, seu objetivo é combater o preconceito, a discriminação e a violência, promovendo a adoção de novos valores de liberdade, justiça e igualdade. (BRASIL, 2009, p. 150). O sistema educacional precisa valorizar as diferentes manifestações culturais, considerando os interesses e conhecimentos das crianças. Esta estratégia pode ser alcançada por meio do desenvolvimento de projetos de trabalhos interdisciplinares. Como exemplo, pode-se pensar na elaboração de metodologias interdisciplinares desenvolvidas para os anos iniciais. Neste caso, o professor deve elaborar um trabalho diversificado, garantindo que a aprendizagem aconteça de forma participativa, do educando, estimando suas opiniões, questionamentos, seus anseios e suas ideias. Ainda neste viés, o Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos (PNEDH), afirma que: Assim, a Educação em Direitos Humanos deve abarcar questões concernentes aos campos da educação formal, à escola, aos procedimentos pedagógicos, às agendas e instrumentos que possibilitem uma ação pedagógica conscientizadora e libertadora, voltada para o respeito e valorização da diversidade, aos conceitos de sustentabilidade e de formação da cidadania ativa. (BRASIL, 2007, p. 31). 105 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas Em sala de aula, o professor atua como mediador do conhecimento. Logo, ouvir seus alunos e ter uma percepção sensível, aliados a maturidade e flexibilidade o facilitam no enfrentamento das ocorrências diárias deste contexto. As crianças alcançam melhores resultados quando trabalham num ambiente harmonioso que as possibilitem interagir, questionar e expor suas ideias. Respeitar o outro, valorizar suas descobertas, promover trocas, orientar, mostrar que diferenças devem ser respeitadas e que cada ser é importante, é um grande ganho para a sociedade. Contextualização do campo de pesquisa A escola selecionada para a realização do presente trabalho está situada em uma região próxima ao centro da cidade de Gravataí/RS, cercada por vilas bastante populosas. O perfil econômico do bairro é vinculado a áreas de serviços e pequenos comerciantes. Em relação ao público, a escola atende pessoas de média e baixa renda, com baixa escolaridade – majoritariamente com ensino fundamental incompleto – e com núcleos familiares constituídos por cerca de seis pessoas. Entre as maiores dificuldades do local em que se insere a escola estão a violência, a gravidez na adolescência e a educação dos filhos. Ainda que haja pouca participação do núcleo familiar no processo escolar dos filhos, o cuidado com a educação é um fator preponderante aos pais da comunidade. Nesta circunstância, o grupo de professores, comprometido com as questões da comunidade escolar, fomenta discussões sobre as práticas pedagógicas e busca soluções para uma participação efetiva e eficaz das famílias no desenvolvimento de seus filhos. 106 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências O processo de Gestão Democráticaé constituído de forma participativa. Assim, pais, professores, alunos e funcionários elegem seus representantes para constituir o Conselho Escolar e garantem suas participações em assembleias escolares. Nesta parceria, a escola garante a construção coletiva e democrática do Projeto Político Pedagógico, do Regimento Escolar e de seus Planos de Estudos. Para a Escola analisada neste trabalho, a construção do conhecimento ocorre a partir da ação de ensinar e aprender pela interação com o outro, com informações significativas e atividades desafiadoras, tendo o professor como mediador deste processo. Quando vivemos a autenticidade exigida pela prática de ensinar-aprender participamos de uma experiência total, diretiva, política, ideológica, gnosiológica, pedagógica, estética e ética, em que a boniteza deve achar-se de mãos dadas com a decência e com a serenidade. (FREIRE, 1996, p. 13). A inclusão de alunos com necessidades especiais faz parte constante do processo de reflexão pedagógica, visando a um atendimento de qualidade alicerçado na garantia de atendimento de profissionais especializados. Apesar da percepção de diversos cuidados por parte da escola em relação ao ensino dos alunos, verifica-se também que os Direitos Humanos são abordados apenas nas disciplinas de História e Ensino Religioso. Nas duas áreas, o tema é tratado sob a óptica dos vínculos pessoais, grupo social, “o eu, o outro e o nós” com atividades de pesquisas na internet, em livros e em jornais, sem estabelecer relações com situações reais do cotidiano da instituição. 107 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas Sociedade e Educação Sociedade são as relações humanas que se dão, através do convívio entre as pessoas, nos relacionamentos sociais. Essas formas de relacionamento desenvolvem-se no ambiente familiar, na escola e grupos em que o indivíduo se encontra inserido; nas relações que estabelecem com outras pessoas e nas experiências concretas de vida. O Homem é um ser da integração, precisa das relações com a realidade que é o resultado de estar nela. Com a vivência em sociedade, o ser humano constrói aspectos culturais e desenvolve a coletividade. Nessa relação, a valoração do outro surge a partir do respeito, do acolhimento e da sensibilidade em relação aos sujeitos. A socialização permite que a realidade seja pensada por meio de outras perspectivas, as quais possuem grande importância em nossa formação. Como afirma Freire (1996, p. 28): Se trabalho com crianças, devo estar atento à difícil passagem ou caminhada da heteronomia para a autonomia, atento à responsabilidade de minha presença que tanto pode ser auxiliadora como pode virar perturbadora da busca inquieta dos educandos; se trabalho com jovens ou adultos, não menos atento devo estar com relação a que meu trabalho possa significar como estímulo ou não à ruptura necessária com algo defeituosamente assentado e à espera de superação [...]. Nessa perspectiva, os espaços sociais têm grande importância para nossa formação, uma vez que promovem transformações, viabilizam a formação de sujeitos adaptáveis e com maior senso crítico. A escola torna-se um destes ambientes, visto que proporciona ao aluno o exercício das relações sociais, bem como promove o acesso à informação e assegura espaços de aprendizagem e desenvolvimento de habilidades. 108 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências O ensino nas diferentes áreas do conhecimento O ensino na escola deve procurar atender e desenvolver as habilidades do aluno de forma organizada. Antes mesmo de iniciar a trajetória escolar, a criança é exposta à educação familiar e, neste contexto, adquire experiências e estabelece conceitos. Na escola, o aluno poderá receber estratégias que o ensinará a equilibrar suas concepções pessoais com as exigências instituídas pela sociedade. [...] Pelo menos nas escolas de ensino fundamental e médio, é raro que sejam trazidas para o processo considerações sobre as origens do conflito e suas consequências de longo prazo. A maior parte da educação para resolução de conflitos, na forma como geralmente é praticada, não ensina os estudantes a compreender os aspectos estruturais e sistêmicos do conflito, e em apenas alguns poucos casos engloba os elementos culturais do conflito, deixando de lado questões de valores. (ANDREOPOULOS; CLAUDE, 2007, p. 65). O professor, como mediador do conhecimento, é o sujeito que deve valorizar as experiências vividas pelos alunos e aliar estes conhecimentos aos conteúdos obrigatórios das disciplinas. Desta forma, torna-se viável o estabelecimento da relação entre professor e aluno. Reconhecer os alicerces educacionais das crianças é fundamental para a estruturação do trabalho pedagógico do professor, já que, desta maneira, há a possibilidade de aprofundar e amplificar suas concepções estimulando o desenvolvimento da autonomia dos alunos. “[...] Para a educação para paz, os objetivos do ensino de habilidades de resolução de conflitos são ampliar as possibilidades de prevenção, para que os conflitos não se tronem violentos, e assegurar esforços para conseguir apenas soluções que honrem a dignidade humana. (ANDREOPOULOS; CLAUDE, 2007, p. 66). 109 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas Os planejamentos são instrumentos norteadores do projeto escolar. São preparados pela equipe de profissionais, por alunos e pela comunidade. De modo geral, eles devem ser compostos por diferentes áreas do conhecimento integradas entre si. Além disso, devem considerar os níveis, especificidades e características dos elementos envolvidos. Por obterem caráter flexível, a produção dos planejamentos possibilita ao educador analisar as estratégias de ensino positivas, bem como as que merecem ajustes. Também, por meio dos planejamentos, o professor é capaz de adequar o conhecimento de acordo com a necessidade e realidade do aluno. Porque não discutir com os alunos a realidade concreta a que se deva associar a disciplina cujo conteúdo se ensina, a realidade agressiva em que a violência é a constante e a convivência das pessoas é muito maior com a morte do que com a vida? Porque não estabelecer uma necessária “intimidade” entre os saberes curriculares fundamentais aos alunos e a experiência social que eles têm como indivíduos? Porque não discutir as implicações políticas e ideológicas de um tal descaso dos dominantes elas áreas pobres da cidade? A ética de classe embutida neste descaso? Porque, dirá um educador reacionariamente pragmático, a escola não tem nada a ver com isso. A escola não é partido. Ela tem que ensinar os conteúdos, transferi-los aos alunos. Aprendidos, estes operam por si mesmos. (FREIRE, 1996, p. 15). Nesse sentido, as diferentes áreas do conhecimento propiciam a construção de um planejamento com características e possibilidades de efetivação. Sua preparação é realizada coletivamente pela integração de interesses dos educandos com as necessidades evidenciadas pelos docentes – seja dificuldades dos alunos sobre o conteúdo, discussão de aspectos culturais ou vivências do contexto de sala de aula. 110 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências Tecendo algumas considerações Este estudo buscou analisar a efetivação prática dos Direitos Humanos em uma escola municipal de ensino fundamental do município de Gravataí/RS. Para tanto, realizou-se uma análise do Plano Anual de Ensino da escola, o qual se revelou inconsistente no desenvolvimento dos direitos no ambiente escolar. A educação precisa valorizar as diferentes manifestações culturais, partindo dos interesses e conhecimentos das crianças e incluindo metodologias de trabalho interdisciplinares na educação básica. A partir deste plano, é possível conduzir o aluno a autopercepção de um sujeito de direitos, respeitável e capaz de consideraros outros e suas múltiplas perspectivas. O ensino plural e interdisciplinar pode ser efetivado por meio do movimento transformador na escola, a qual se destaca como espaço privilegiado capaz de modificar a realidade dos indivíduos. As instituições de ensino desenvolvem um papel fundamental, que atravessa o ensino de conteúdos e conhecimentos pedagógicos, e desenvolve socialização, a participação em grupos e a formação integral dos sujeitos. É preciso abordar temas sobre a discriminação e promover o debate na área da educação demonstrando a importância de ter atitudes altruístas e de tratar as pessoas de forma respeitosa. Estas atitudes demonstram, de forma prática, que todos detêm os mesmos direitos, e que não deve haver distinção e/ou discriminação de cor, gênero, etnia. De acordo com os quatro pilares da Educação para o século XXI, segundo a UNESCO, “aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a conviver e aprender a ser” são princípios 111 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas fundamentais da educação para proporcionar o desenvolvimento de sujeitos capazes de se colocarem no lugar do outro. Em conclusão, acredita-se que o ambiente escolar impõe uma forma de ser e, ao mesmo tempo, abre possibilidades para que o sujeito construa os meios para agir sobre si mesmo e criar sua própria singularidade. O estudo e a prática dos Direitos Humanos nas escolas servem como estratégias para a formação de uma sociedade menos discriminatória, julgadora e seletiva, abrindo portas para seres multiplicadores e defensores de seus direitos. Referências ANDREOPOULOS, G. J.; CLAUDE, R. P. (org.). Educação em Direitos Humanos para o Século XXI. São Paulo: Edusp, 2007. Disponível em: https://www.edusp.com.br/livros/educacao-em-direitos-humanos-para-o-seculo-21/. Acesso em: 8 nov. 2020. BRASIL. Comitê Nacional de Educação em Direitos Humanos. Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos. Brasília, DF: Secretaria Especial dos Direitos Humanos, Ministério da Educação, Ministério da Justiça, UNESCO, 2007. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/docman/2191-plano-nacional-pdf/. Acesso em: 25 abr. 2020. BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Básica. Diretoria de Currículos e Educação Integral. Diretrizes Curriculares Nacionais para Educação Básica . Brasília, DF: MEC, SEB, DICEI, 2013. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=13448- diretrizes-curiculares-nacionais-2013-pdf&Itemid=30192. Acesso em: 20 jun. 2020. BRASIL. Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República. Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH-3). Brasília, DF: SEDH/PR, 2009. Disponível em: http://dhnet.org.br/dados/pp/a_pdf/pndh3_programa_nacional_direitos_humanos_3.pdf . Acesso em: 20 jun. 2020. FREIRE, P. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996. (Coleção Leitura). https://www.edusp.com.br/livros/educacao-em-direitos-humanos-para-o-seculo-21/ http://portal.mec.gov.br/docman/2191-plano-nacional-pdf/ http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=13448-diretrizes-curiculares-nacionais-2013-pdf&Itemid=30192 http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=13448-diretrizes-curiculares-nacionais-2013-pdf&Itemid=30192 http://dhnet.org.br/dados/pp/a_pdf/pndh3_programa_nacional_direitos_humanos_3.pdf 112 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências 113 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas PROFESSORA: A PROFISSIONAL CUJAS ESSENCIALIDADE E IMPORTÂNCIA SOCIAL AINDA NÃO FORAM RECONHECIDAS Sidinéia Santiago Rodrigues 20 Introdução O presente artigo vai discorrer sobre a problemática do papel da professora em nossa sociedade. Para melhor compreensão do cenário atual, é necessário visitarmos o passado do Brasil a partir do seu período colonial para conhecermos o surgimento da profissão e toda identidade sociocultural que foi forjada com ela para, dessa forma, compreendermos os desafios atuais em relação à falta de valorização profissional intensificados em função da pandemia de Covid-19. A produção deste artigo teve como base a pesquisa bibliográfica, trabalhando principalmente com autoras que tratam da temática de gênero. Teremos a historiadora Mary Del Priore para nos ajudar a compreender o contexto histórico, Guacira Lopes Louro que aborda a questão da educação das mulheres; o patriarcado é explorado principalmente a partir da obra da historiadora e professora 20 Especialista em Educação em Direitos Humanos (FURG). Licenciada em História (FACCAT), especialista em Ensino de Sociologia (FURG), mestranda em Educação Universitária (UNR/Argentina). E-mail: sidi_santiago@hotmail.com 114 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências Gerda Lerner. Além, é claro, de outros nomes igualmente respeitáveis que contribuíram para o desenvolvimento do presente artigo. Teremos, também, um questionário estruturado, para uma breve análise quantitativa de dados, no formato anônimo, com seis questões, cinco objetivas e uma dissertativa. A entrevista foi produzida no Google Forms e disponibilizada em grupos pedagógicos escolares das redes sociais (WhatsApp) e também enviada no privado para colegas e ex-colegas docentes. A educação das mulheres e o patriarcado Em termos históricos, a educação da mulher não era valorizada ou considerada necessária até o século XIX. A sociedade da época, regida pelas ideias patriarcais, determinava o papel da mulher a partir do casamento e da maternidade. Educação e profissionalização eram atributos masculinos, a mulher deveria ter sua vida restrita aos afazeres domésticos. O patriarcado é uma criação histórica formada por homens e mulheres em um processo que levou quase 2.500 até ser concluído. A princípio, o patriarcado apareceu como Estado arcaico. A unidade da sua organização foi a família patriarcal, que expressava e criava de modo incessante suas regras e valores. (LERNER, 2019, p. 261). Durante boa parte da nossa História, desde o período colonial, a ideia da mulher dentro do lar era o seu destino natural de acordo com os costumes e moral do período, ela devia cuidar da casa, do marido e da educação dos filhos. Essa premissa segue os costumes e hábitos do patriarcado, no qual as tarefas eram divididas de acordo com o gênero e a subordinação, na qual a mulher era subordinada ao 115 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas homem ao longo de toda a sua vida. Incialmente, devia obediência ao pai e depois ao marido. Essa família estava inteiramente subordinada à figura paterna. Rei em casa, ali representou o Estado e a Igreja. Além da submissão, esperava-se que as mulheres exercessem plenamente a função de nutrir e transmitir os valores morais e éticos aos filhos. (DEL PRIORE, 2013, p. 20). A mulher, desde menina, estava envolta pelos afazeres domésticos, cuidadora dos irmãos menores e ajudava, também, na lida da roça, quando se tratava das famílias mais humildes e do meio rural, maioria da população na época. Uma sociedade muito subordinada aos ensinamentos católicos via a mulher como detentora da moral e dos bons costumes e, portanto, a Educação não era recomendada devido à ideia de pureza e fragilidade que a mulher representava, devendo ser sempre protegida ou subordinada à autoridade do pai ou do marido. Com as mudanças sociais que aos poucos chegaram ao Brasil, a lei de instrução pública de 1827, aos poucos abriu caminho para a instrução feminina, mas a sociedade ainda priorizava sua educação para ser tornar uma boa esposa e mãe. Após o ano de 1827, as escolas normais passaram a aceitar moças, ainda que em classe separada dos rapazes. Com o passar das décadas e sua estruturação enquanto instituição de ensino, o número de matrículas acabasendo muito maior de moças do que de rapazes porque, com o processo de urbanização e industrialização, novo postos de trabalho e oportunidades de empregos para os rapazes começaram a surgir e ser uma alternativa profissional em relação ao magistério. “A tradição e a aceitação de salários menores fizeram com que, com o tempo, as mulheres predominassem no ensino de crianças e garotas.” (PINSKY, 2012, p. 275). 116 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências As autoras Guacira Louro e Fúlvia Rosemberg concordam no ponto que o magistério no século XIX se estruturou como uma profissão feminina e digna para as moças de família, uma profissão respeitável para aquelas que gostariam de uma vida com um maior nível de independência. O fato de o salário ser mais baixo não era um obstáculo diante da oportunidade de trabalhar fora de casa. Porém, a presença da mulher na sala de aula como professora foi algo que gerou polêmica na época devido à mentalidade tradicional e patriarcal. É nesse momento que se cria uma referência entre a docência e a maternidade que ainda nos dias de hoje são utilizadas para não dar a devida valorização social e profissional para as professoras. Se o destino primordial da mulher era a maternidade, basta pensar que o magistério representava, de certa forma a ‘extensão da maternidade’, o aluno ou aluna visto como um filho ou filha espiritual. O argumento parecia perfeito, a docência não subverteria a função feminina fundamental, ao contrário, poderia ampliá-la, sublimá-la. Para tanto seria importante que o magistério fosse também representado como atividade de amor, de entrega e doação. (LOURO, 2004, p. 450). Esse aspecto demonstra que a construção sociocultural do papel da professora vinculado ao papel de mãe, trazendo a ideia do amor como pré-requisito para que o exercício da profissão fosse aceito pela sociedade do século XIX, continua ativo nos dias de hoje, inclusive como argumento pra justificar a desvalorização profissional das professoras. Mais uma vez, os interesses sociais e políticos criam subterfúgios para justificar seus interesses e conquistarem a opinião pública. Temos aqui a influência do patriarcado cuja narrativa permeia o senso comum. 117 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas O patriarcado é uma ordem política fundamental baseada no controle, disciplina e opressão das mulheres por meio de narrativas amplamente diversas e difundidas. São narrativas de várias religiões, de culturas diferentes, que são narrativas morais diversas, mas por trás das quais está essa ordem política de dominação que diz que as mulheres são moralmente desconfiadas, uma moral vulnerável ao mal, à tentação. (SEGATO, 2019). A lógica do patriarcado, entre outras coisas, exerce seu poder a partir da carência educacional, a coerção, da divisão de mulheres em grupos ou categorias que as enfraquecem enquanto coletividade e da normalização do papel da mulher sendo inferior ao do homem em relação de prestígio e poder. A partir dessa premissa da construção do papel da professora, e da sua falta de prestígio e de respeito pela profissão na nossa sociedade, podemos perceber como a cidadania em muitos aspectos não beneficiava a mulher, colocando esse grupo majoritário na maioria das vezes como uma minoria social. A desvalorização profissional frente à pandemia de Covid-19 Ao longo das décadas, as mulheres se tornaram a maioria do corpo docente nas escolas, porém, isso não muda o cenário social no qual a mulher tem dupla ou tripla jornada, com as responsabilidades pela educação dos filhos e afazeres domésticos, além, é claro, de dar conta das suas atividades profissionais em casa, como planejamento de aula e correções das avaliações. As mulheres estão cada vez mais sobrecarregadas. Têm as mesmas responsabilidades de provedoras que seus maridos/companheiros, mas não conseguem dividir com eles o trabalho doméstico. Em países com maior desenvolvimento social, os homens compartilham cada vez mais um conjunto 118 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências das tarefas domésticas e familiares, comprovando que a democratização das relações entre homens e mulheres é um índice da qualidade da cidadania. (MORAES, 2012, p. 503). Isso demonstra que necessitamos avançar em termos de cidadania e igualdade de direitos, sendo que atualmente as questões de gênero no país e em muitos outros lugares do mundo vêm sofrendo com o avanço da extrema direita, que não aceita o fato das mulheres terem acesso a uma carreira profissional e acadêmica, bem como a um espaço na admistração pública com cargos políticos. Nas últimas décadas as mulheres ocuparam espaços antes dominados apenas pelos homens. Esse avanço social ocorreu com maior intusiasmo a partir do início do século XXI no nosso país, época em que novas políticas públicas começaram a ser insieridas na sociedade brasileira, permitindo o maior acesso de mulheres às universidades. De acordo com Pinsky e Pedro (2012, p. 272): As mulheres, porém, constituem um caso especial entre os desfavorecidos pela cidadania, pois não colhem na mesma medida que os homens do povo os avanços na legislação, sendo que, algumas vezes, esses próprios avanços significaram para elas discriminiações ainda mais evidentes. A trajetória da mulher na educação e profissionalização ocorreu ao longo das décadas marcadas pela segregação de gênero, mesmo com acesso à educação básica e universitária, sendo maioria nas turmas e muitas vezes destaque no aspecto de aprendizagem, as carreiras profissionais até a década de 1970 encaminhavam a mulher ao magistério, mantendo a “tradição”. De maneira geral os artigos concluem que a discriminação no campo intelectual não ocorre quanto ao acesso, permanência e rendimento escolar feminino, mas na guetização sexual das carreiras escolares. Os artigos mostram, então, que estudantes de sexo masculino seguem, preferencialmente cursos de 119 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas conteúdo técnico e científico; as estudantes do sexo feminino seguem trajetórias escolares vinculadas às letras e humanidades, com nítidas vistas à preparação ao magistério. (ROSEMBERG; AMADO, 1992, p. 63-64). Os costumes patriarcais chegaram ao Brasil através do colonizador, explorador europeu e sua estrutura se manteve ao longo dos séculos, mesmo com alguns avanços ocorridos a partir de meados do século XX, mas como as mudanças ocorridas ainda não permitiram igualdade de gênero, tornou-se necessário pensar nesse assunto de modo a criar algo que pudesse auxiliar as sociedades a se tornarem mais igualitárias. Logo, é possível compreender que a Declaração Universal dos Direitos Humanos (ONU, 1948), sozinha, não foi capaz de lidar com essa distinção entre os gêneros. Fez-se necessário que a Organização das Nações Unidas (ONU) criasse a Convenção sobre os Direitos Políticos da Mulher 21 na tentativa de minimizar as distinções de gênero no âmbito dos direitos políticos. Ambos os documentos de significativa importância que foram redigidos no século XX ainda enfrentam desafios e barreiras sociais promovidos por interesses políticos e de classes sociais e gênero, mas contribuíram para que em 2010 fosse lançada a ONU Mulheres, Entidade das Nações Unidas para a Igualdade de gênero e empoderamento das mulheres.22 21 A ONU Mulheres foi criada em 2010 para unir, fortalecer e ampliar os esforços mundiais em defesa dos Direitos Humanos das mulheres. Segue o legado de duas décadas do Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher (UNIFEM) em defesa dos Direitos Humanos das mulheres, especialmente pelo apoio a articulações e movimento de mulheres e feministas, entre elas, mulheres negras, indígenas, jovens, trabalhadoras domésticas e trabalhadoras rurais. São seis áreas prioritárias de atuação. 22 O mandato daONU Mulheres inclui um componente de coordenação das ações em prol da igualdade de gênero no Sistema das Nações Unidas. A organização lidera o Grupo de Trabalho “Gênero, Raça e Etnia” para incorporação da intersetorialidade da perspectiva de gênero, raça e etnia no escopo da equipe-país das Nações Unidas. São alguns dos pontos de atenção do GT: 120 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências O fato da carreira do magistério ter sido aceita ao longo da história do Brasil como uma carreira feminina devido aos dotes maternais das mulheres criou essa ideia que vincula ambos os papéis na profissão, o que acaba por contribuir para a sua não valorização. A professora não é vista na nossa sociedade como uma profissional graduada e com alta formação acadêmica. O ano de 2020 trouxe à tona inúmeras mazelas sociais, algumas estavam escondidas, submersas e emergiram diante de um cenário federal que tem características fascistas. Isso tornou a defesa dos Direitos Humanos um ato de risco no Brasil, um país que, além de não defender esses ativistas, ainda permite que alguns sejam assassinados. Dentro dessa premissa, temos a dificuldade de promover o conhecimento dos Direitos Humanos, saber este que com certeza traria maior número de pessoas para essa luta. A Educação é o canal perfeito para estabelecer essa conexão, mas a Educação, em tempos de pandemia, tem mostrado toda sua fragilidade e sua face excludente. Nesse cenário de pandemia, nós professoras novamente fomos abandonadas, tendo nossa carga de trabalho aumentada significativamente, fomos submetidas a novas metodologias e tecnologias para as quais tivemos que buscar o conhecimento sozinhas, e usamos nossos parcos recursos nesses novos métodos. E, assim, começam inúmeros problemas, muitas colegas não dominam as tecnologias, muitas colegas não tem internet de qualidade, muitas colegas moram em áreas rurais, mas isso não importa a nenhuma gestão. Defensoras de Direitos Humanos – apoio à defesa pública de mulheres ameaçadas, intimidadas, perseguidas e vítimas de violência política face à sua atuação em defesa dos Direitos Humanos das mulheres e promoção de diálogo entre as diversas organizações da sociedade civil e movimentos de mulheres e feministas do Brasil e da América Latina e Caribe. 121 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas O governo tem o interesse político na Educação, o componente humano não é relevante. Além desses aspectos, nós professoras perdemos nossa privacidade, nosso celular tornou-se um instrumento de trabalho, para o qual os direitos de carga horária não existem mais. Temos que estar sempre disponíveis para os alunos, os pais, a supervisão e direção da escola, essas últimas muitas vezes também desconhecem os nossos direitos e se posicionam ao lado dos gestores. Resultado: professoras adoecidas emocionalmente e fisicamente, mesmo aquelas que contraíram a Covid-19 devem seguir no teletrabalho, ou seja, professoras não são sujeitos dos Direitos Humanos. Desde o início da Pandemia de Covid-19, a classe profissional das professoras foi a que mais precisou se reinventar para trabalhar em uma nova modalidade de ensino, para qual não foi formada. Ainda assim, nós, profissionais da Educação, estamos diariamente lutando, pesquisando, fazendo tutorial na internet, invenções para conseguirmos gravar vídeo, mas não somos reconhecidas pelos gestores e tampouco pela sociedade. A seguir disponibilizo um trecho de uma entrevista de uma professora para o Centro dos Professores do estado do Rio Grande do Sul em Sindicato (CPERS). 23 Essa entrevista mostra a realidade que nós professoras estamos vivenciando: “Mudei minha rotina diária de trabalho faz uns dois meses, pois tive muitos problemas relacionados à ansiedade e ao estresse, inclusive três ataques de pânico, sendo dois em agosto, 23 Fundado em 21 de abril de 1945, o CPERS-Sindicato representa mais de 80 mil professores (as), funcionários (as) de escola e especialistas da rede estadual de todo o Rio Grande do Sul. Desde seu nascimento, manteve-se sempre firme em seus propósitos: dignidade e valorização profissional, defesa intransigente da democracia e de uma educação pública, universal, laica e de qualidade. É, hoje, o segundo maior sindicato da América Latina e uma referência para a luta e a organização de classe no país e no mundo. 122 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências quando decidi mudar a rotina, mas não sei quais serão as consequências”, esse é o relato da professora de Sociologia e História, Estela Simone Rodrigues de Menezes, 43 anos, de Uruguaiana. De maio a agosto, quando decidiu priorizar a saúde física e mental, a professora conta que trabalhava o dia inteiro, incluindo os finais de semana, parava somente para dormir e ainda não dava conta da demanda. “Trabalhava de 10 a 16 horas por dia. Agora decidi trabalhar apenas as 20 horas de minha carga horária. Para isso, tive que passar a usar recurso de áudio para os conteúdos e sintetizar e simplificar ao máximo as aulas e as atividades de avaliação”, explica. (In: CPERS, 2020). Essa realidade de sobrecarga de trabalha foi constatada num breve questionário realizado com 57 professoras, sendo que 84,2 % responderam que com a pandemia a carga de trabalho aumentou consideravelmente e 12,3 % respondeu que aumentou um pouco. Isso demonstra que houve um aumento na demanda de trabalho por conta do ensino híbrido, que passou a ocorrer na casa das docentes, sendo que, na maioria das residências, não há um espaço próprio para o desenvolvimento das atividades laborais. Muitas vezes a professora, que também é mãe, dona de casa e esposa, se percebe numa situação de múltiplas tarefas a cumprir, sendo que em relação às escolas existe sempre a pressão e o trabalho burocrático através de relatórios, planilhas e pareceres, tornando a rotina algo estressante e tornando-se, muitas vezes, causa de doenças, além da falta de apoio e reconhecimento por parte da sociedade. Muitas vezes nem a própria família da docente entende sua responsabilidade frente à Educação, ou seja, a desvalorização é algo predominante e enraizado na sociedade. Em relação ao senso comum e à construção sociocultural que perdura até os dias de hoje, que relaciona o trabalho docente da professora com a vocação para a maternidade, não percebendo a formação acadêmica e a importância da Educação para a sociedade, 123 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas isto é, não reconhecendo a profissional professora, vejamos a seguinte declaração do atual ministro da Educação, Milton Ribeiro, que reforça essa ideia equivocada: “Hoje ser professor é ter uma declaração que a pessoa não conseguiu fazer outra coisa”. (SALDANHA; PALHARES, 2020). O ministro se referiu aos profissionais de modo geral, mas sabemos o corpo docente no Brasil tem maioria feminina, o que demonstra a ideia de desvalorização profissional das professoras. Num contraponto em relação a essa declaração infeliz e maldosa que acontece em um momento em que o saber, o conhecimento e a ciência estão sendo colocados à prova, a nossa pesquisa questionou as professoras em relação aos motivos que as levaram a escolher a profissão. 52, 6 % responderam que escolheram a profissão por terem o sonho de serem professoras, 19 % outro motivo, 14 % por ser opção ao serviço público, e 10,5 % por tratar-se de uma graduação com valor mais acessível. A alternativa que contemplava a ideia de que a escolha ocorreu por falta de opção, não teve votos. Contrariando o atual ministro da Educação, a maioria escolheu a profissão por tratar-se de ter o sonho de ser professora. Por outro lado, a profissional professora segue sem a devida valorização que seu ofício merece, de acordo com sua formação, e toda a dedicação e comprometimento que a Educação, os alunos e as escolasexigem. Em tempos de pandemia, nosso trabalho tornou- se mais complexo, com uma maior demanda, com uso constante das tecnologias que, por sua vez, significam um maior gasto com conexão à internet e aparelhos tecnológicos, tudo isso somado a um trabalho de plantão presencial nas escolas. Um dos indicadores mais consistentes com respeito à discriminação feminina concerne à permanência de guetos ocupacionais. Os censos demográficos continuam registrando 124 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências a concentração de mão de obra feminina em um pequeno número de atividades, todas consideradas de baixo prestígio e remuneração: empregadas domésticas, trabalhadoras rurais, professoras primárias, serviços. (MORAES, 2012, p. 503). Os dados, acima citados, da autora Maria Lygia Quartin de Moraes, também se confirmaram na pesquisa realizada, onde 71,9 % das professoras entrevistadas se consideram pouco valorizadas, 17,5 % se consideram nada valorizadas e 8,8 % se consideram valorizadas. Logo, temos uma maioria totalizando 89,4 % que acreditam não serem valorizadas enquanto profissionais essenciais que são na nossa sociedade. Considerações finais É importante ressaltar toda a trajetória histórica da profissão docente no Brasil para melhor compreendermos a situação profissional da atualidade, que envolve um trabalho árduo, que não se limita ao ambiente escolar, com alta demanda de cobrança, salários defasados, planos de carreiras sendo alterados, prejudicando as professoras. A própria alteração na reforma da previdência foi extremamente cruel com mulheres que são professoras, aumentando o período de trabalho que permite obter o direito de solicitar suas aposentadorias. O contexto histórico trouxe a ideia da professora como profissional maternal, que segue como justificativa para que não tenham o devido reconhecimento na profissão, independente da formação acadêmica, formação continuada. Professoras são cobradas constantemente, nada disso resulta numa valorização social, salarial e profissional. Logo, percebe-se a questão de gênero e os ideais do patriarcado enraizados na sociedade. Basta uma 125 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas manifestação, uma greve em prol dos seus direitos para serem vítimas de infâmia, calúnias, desrespeito e até de violência policial, ou seja, as professoras são toleradas quando estão em silêncio, no cumprimento dos seus deveres, submissas aos governos e invisíveis perante a sociedade. Porém, as professoras são mulheres letradas, fortes, que consideram a educação de qualidade como chave para o desenvolvimento social, humano e econômico do país, logo o silêncio da categoria é oportuno para o projeto político que visa à elite e à necropolítica, ambos em curso no país. A referência que historicamente diz que é necessário ter amor para ser professora é verdadeira no sentido de que só o amor permite suportar toda a desvalorização à qual são submetidas ao longo da História. Mas o que as torna professoras são os seus conhecimentos adquiridos e a nobreza de compartilhar esses conhecimentos e mediar os processos de ensino e aprendizagem dos alunos. A pandemia colocou as professoras à prova, aumentou o trabalho, as colocou para lecionar de dentro de suas casas, houve a perda do contato e da interação pessoal com os alunos, aumentaram a demanda de cobrança, mas as professoras seguem resistindo. Muitas famílias somente agora perceberam o valor que possui o trabalho das professoras. As gestões municipais e estaduais seguem no seu espiral de desvalorização docente, professoras e educadoras não são ouvidas na tomada de decisões referentes à Educação, apenas são comunicadas de decisões e punições que podem sofrer caso não acatem as ordens superiores. Por isso, ainda são necessárias lutas e batalhas, bem como organizações como a ONU Mulheres, para mostrar que as professoras têm direito à cidadania e que são sujeitos de Direitos Humanos. Ser professora atualmente é um ato de resistência, cujo 126 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências amor pela Educação é o motor e a esperança de um reconhecimento, e valorização profissional é um sonho pelo qual sempre vale a pena lutar. Referências CPERS. “Trabalhava de 10 a 16 horas por dia. Me sinto esgotada”; sobrecarga massacra educadores em meio à pandemia. 2020. Disponível em: https://cpers.com.br/trabalhava- de-10-a-16-horas-por-dia-me-sinto-esgotada-sobrecarga-massacra-educadores-em-meio- a-pandemia/. Acesso em: 20 out. 2020. DEL PRIORE, Mary. História e conversas de mulher. São Paulo: Planeta, 2013. LERNER, Gerda. A Criação do Patriarcado: história da opressão das mulheres pelos homens. São Paulo: Cultrix, 2019. LOURO, Guacira Lopes. 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Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas DIREITOS HUMANOS NA ESCOLA: UM PLANO DE AÇÃO QUE VISA À INTERAÇÃO, À VIVÊNCIA, AO CONHECIMENTO E À APROPRIAÇÃO DOS ARTIGOS DA DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS PELAS(OS) ESTUDANTES Elivane de Souza Fumagalli 24 Camila Botelho Schuck 25 Sheila Stolz 26 INTRODUÇÃO O Plano de Ação em Educação em Direitos Humanos foi pensado a partir de uma atividade proposta no Curso de Pós- Graduação em Educação em Direitos Humanos, da FURG, no Polo de Sapiranga, no estado do Rio Grande do Sul e será trabalhado em 24 Graduada em História (Feevale). Especialista em Filosofia para o Ensino Médio (UFSM), em Atendimento Educacional Especializado (UERGS) e em Educação em Direitos Humanos (FURG). E-mail: fumagallielivanebrasil@hotmail.com. 25 Doutoranda em Ciências Sociais (Unisinos); mestre em Sociologia (UFPel). Professora tutora na especialização em Educação em Direitos Humanos (FURG). E-mail: camila.seer@gmail.com. 26 Professora do curso de Direito e do Programa de Pós-graduação (mestrado) em Direito eJustiça Social (FURG). Doutora em Direito (PUCRS). Mestre em Direito pela Universitat Pompeu Fabra (Barcelona/Espanha). Coordenadora Geral do Núcleo de Pesquisa e Extensão em Direitos Humanos (FURG). Coordenadora da especialização em Educação em Direitos Humanos e do Grupo de Pesquisa Direito, Gênero e Identidades Plurais (FURG). Orcid: https://orcid.org/0000-0003-3591-7153. E-mail: sheilastolz@gmail.com. 128 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências uma instituição pública de ensino de nível médio, inserida na periferia do município de Novo Hamburgo/RS, com aproximadamente 1500 alunas(os) distribuídas(os) nos três turnos, manhã, tarde e noite. Nesse sentido, tomaremos como fundamento o Programa Mundial para Educação em Direitos Humanos (PMEDH, 2006), que recomenda que as atividades educacionais sejam direcionadas na transmissão dos princípios fundamentais dos Direitos Humanos, tais como a liberdade, a igualdade e a não discriminação, bem como focadas nas relações que ditos Direitos Humanos possuam com as experiências vivenciais das(os) estudantes. A aplicação do referido plano deverá ocorrer de forma interdisciplinar, ou seja, entre as disciplinas de Filosofia e Sociologia. A ideia inicial será trabalhar os 30 artigos da Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH) a partir da organização de grupos de cinco integrantes cada, das três turmas do primeiro ano do ensino médio, em que cada grupo escolherá um ou mais artigos e desenvolverá pesquisas sobre o(s) artigo(s) escolhido(s), assim como ações para promover a efetivação de ditos direitos, tanto dentro do espaço escolar, como no entorno da escola e também onde residem. Para concluir o trabalho, realizarão um seminário e uma banca temática, com banner, registros fotográficos e a exposição do trabalho escrito. As atividades propostas27 pretendem dotar as(os) educandas(os) dos meios necessários para que busquem soluções compatíveis com as normas estabelecidas na (DUDH). Tanto o que é ensinado como o modo como é ensinado devem refletir os valores 27 Para o cronograma completo serão necessários 24 períodos de hora-aula, sendo quatro períodos por semana, dentro das disciplinas de Filosofia e de Sociologia, mais uma semana de exposição no interior da escola e uma manhã para o seminário. Totalizando sete semanas e uma manhã, o que equivale a 1/3 do trimestre escolar, portanto um projeto que requer grande envolvimento docente e discente. 129 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas dos DH, estimulando a participação e fomentando ambientes de aprendizagem dialógicos e participativos. Levar as(os) alunas(os) para o campo da pesquisa, em que possam partir dos seus conhecimentos prévios e de suas realidades para construir com o conhecimento teórico suas verdades e modificar suas certezas, efetivando assim o saber escolar baseado no protagonismo e na autonomia do sujeito é o intuito deste Plano de Ação, para que os Direitos Humanos saiam do mundo das ideias e sejam empregados na rotina diária, podendo assim tornar possível a compreensão de que tais direitos em forma de artigos declarativos estão presentes no cotidiano, e se não é possível identificá-los, então há uma ausência destes direitos. Uma sociedade mais consciente e responsável, em que a DUDH seja efetivamente aplicada, sem que nenhum fenômeno econômico, religioso ou político possa suprimir leis de igualdade, de justiça e de direitos, só será possível se a educação tenha como escopo priorizar a autonomia, a capacidade reflexiva, responsiva e solidária das(os) educandos. Como afirmou Paulo Freire (2000, p. 67), “se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda”. Com base nessa premissa freireana, analisaremos na primeira seção deste artigo e tendo como base as propostas do Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos (PNEDH), como pode a educação ser uma ponte de mudanças sociais. Para a partir destes fundamentos, refletiremos sobre os limites da Educação à distância, particularmente no ensino público, reflexões que pretendem pensar as possíveis limitações que o Plano de Ação em análise poderá ter em sua aplicabilidade. 130 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências A educação como ponte para mudar a sociedade No Brasil há uma perante desqualificação e falta de conhecimento do que são Direitos Humanos, muitas vezes com expressões que beiram o ridículo, tais como: “Direitos Humanos são para defender bandido”, “Bandido bom é bandido morto”, que, repetidas tantas vezes, são absorvidas pela sociedade como verdades e que acabam tornando-se consenso. Os baixos índices de acesso à educação e os altos índices de defasagem escolar afetam o cenário nacional, criando abismos sociais que tornam aceitável a ausência de direitos para as camadas mais pobres, que muitas vezes quase desconhecem por completo sua condição humana. Também é preciso salientar que a Constituição Federal, que é a nossa carta magna ao que tange os direitos e deveres dos cidadãos brasileiros, foi criada com base na DUDH, à qual o país é signatário, e está entre os conjuntos de leis mais avançados do mundo. Portanto, fazem-se urgentes e necessárias abordagens mais abrangentes sobre essa temática, principalmente na área da educação. Promover o desenvolvimento de artigos científicos vinculados aos Direitos Humanos é promover maior acesso a documentos que primam pela vida, pela dignidade, liberdade e solidariedade entre os povos de todas as nações, ampliando o debate acerca dos estigmas sociais tais como pobreza, homofobia, crimes raciais, violências por questões religiosas ou de gênero, tão presentes na sociedade brasileira e em tantos outros locais deste globo terrestre. A Educação em Direitos Humanos deve abarcar questões concernentes aos campos da educação formal, à escola, aos procedimentos pedagógicos, às agendas e instrumentos que possibilitem uma ação pedagógica conscientizadora e 131 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas libertadora, voltada para o respeito e valorização da diversidade, aos conceitos de sustentabilidade e de formação da cidadania ativa. (BRASIL, 2007, p. 29). Outra situação bastante comum é a desqualificação da educação pública, característica na sociedade brasileira. Seguidamente, vemos reportagens que reforçam os déficits das estruturas escolares, governos que cortam verbas, que alteram programas de ensino, formulam políticas de desvalorização docente, fecham escolas e lotam salas de aula. Paulo Freire traz essa trágica ideologia em A Pedagogia da Autonomia, em que aborda a globalização e o discurso neoliberal. A ideologia fatalista, imobilizante, que anima o discurso neoliberal anda solta no mundo. Com ares de pós- modernidade, insiste em convencer-nos de que nada podemos contra a realidade social que, de histórica e cultural, passa a ser ou a virar “quase natural”. (FREIRE, 2000, p. 21). Pensando a escola como agente transformador, organizar e aplicar o trabalho sobre os artigos dos Direitos Humanos promoverá o aprofundando das discussões sobre racismo, população carcerária, violência contra a mulher, homofobia, desemprego, subemprego, escravidão ou tantas outras questões latentes na sociedade, que ficam em segundo plano por questões limitadoras, mas que precisam ser debatidas e estudadas dentro da comunidade escolar, a fim de que as barreiras dos preconceitos sejam quebradas. Desse modo, a educação é compreendida como um direito em si mesmo e um meio indispensável para o acesso a outros direitos. A educação ganha, portanto, mais importância quando direcionada ao pleno desenvolvimento humano e às suas potencialidades, valorizando o respeito aos grupos socialmente excluídos. Essa concepção de educação busca efetivar a cidadania plena para a construção de conhecimentos, o desenvolvimentode valores, atitudes e comportamentos, além 132 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências da defesa socioambiental e da justiça social. (BRASIL, 2007, p. 23). Abordar cada artigo de forma individual pelos grupos trará maior propriedade sobre o tema norteador do plano de ação, que é a DUDH, principalmente ao que tange à ligação do artigo escolhido com questões presente na vida das(os) alunas(os). Essa perspectiva de trabalho vai ao encontro das propostas do Programa Mundial de Educação em Direitos Humanos (PMEDH) e do Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos, que faz referência à educação na contribuição do exercício ao respeito e à tolerância ao que nos é diferente. Exercitar o respeito, a tolerância, a promoção e a valorização das diversidades (étnico-racial, religiosa, cultural, geracional, territorial, físico-individual, de gênero, de orientação sexual, de nacionalidade, de opção política, dentre outras) e a solidariedade entre povos e nações. (BRASIL, 2007, p. 23). Com o Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos, o país toma um importante passo para a consolidação da DUDH, promovendo ações tanto na área da educação como nos demais setores da sociedade, e como a proposta foi de ampliar as ações na educação, cabe aos docentes, comprometidos com o desenvolvimento integral dos discentes, buscar ações que integralizem a DUDH no cotidiano escolar e social. O Estado brasileiro tem como princípio a afirmação dos direitos humanos como universais, indivisíveis e interdependentes e, para sua efetivação, todas as políticas públicas devem considerá-los na perspectiva da construção de uma sociedade baseada na promoção da igualdade de oportunidades e da equidade, no respeito à diversidade e na consolidação de uma cultura democrática e cidadã. (BRASIL, 2007, p. 11). 133 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas É preciso frisar que o plano de ação que norteia este artigo está relacionado com a grade curricular da Especialização da Educação em Direitos Humanos, da Universidade Federal do Rio Grande, que entende que é urgente e fundamental o reconhecimento e o respeito aos Direitos Humanos. De acordo com Stolz (2015, p. 11): Os Direitos Humanos são um compromisso de transformação para uma sociedade mais justa e solidária e, portanto, devem ser introjetados e vivenciados como uma bandeira de Justiça, Liberdade, Solidariedade, Igualdade, Paz e Tolerância. Os desdobramentos do plano de ação se darão para além das datas propostas, porque o que buscamos não é a execução de um trabalho escolar, é a integralidade e disseminação do que está expresso nos 30 artigos da DUDH, como o primordial direito à vida. Diagnóstico social A escola que será palco para esta ação está inserida na periferia do município de Novo Hamburgo, que atualmente tem uma população de aproximadamente 246 mil habitantes, conforme dados do IBGE, de 2018. Atualmente, a escola tem um público médio de 1500 alunas(os), distribuídos em três turnos, com turmas que vão do ensino fundamental, anos iniciais, até o ensino médio. Nosso objeto de estudo são as turmas de primeiro ano do ensino médio, do turno da manhã, cada uma tendo em média 35 alunas(os) que tem entre 15 e 18 anos. Essas(es) alunas(os) serão organizadas(os) em grupos de cinco integrantes e terão a liberdade de escolher o(s) artigo(s) que mais lhes chamar a atenção, desde que todos os artigos sejam contemplados. O tempo estimado de trabalho será de sete semanas, distribuídas em cinco semanas de quatro períodos cada, para 134 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências pesquisa de campo e bibliográfica, uma semana para bancas e exposição de trabalho e uma semana para seminário e avaliação. Como a realidade econômica do entorno da escola é bastante carente, o seu quadro discente também reflete esse aspecto, o que torna nosso projeto um grande desafio a ser superado. Ao que se refere à realidade material da escola, ela tem um bom aporte físico, com sala de informática, de vídeo, acesso à internet e biblioteca com bibliotecária no turno da manhã, espaço adequado para pesquisa e mostra de trabalhos. A direção é comprometida com propostas inovadoras e que desenvolvam práticas cidadãs, conforme as propostas da BNCC. O público alvo são as(os) alunas(os) do primeiro ano do ensino médio, cerca de 100 alunas(os), distribuídos em três turmas de adolescentes que estão entre 15 e 18 anos de idade, com grande variedade de orientações sexuais e religiosas, tendo a heterossexualidade com a maior incidência, e ligados às religiões de cunho evangélico pentecostal. Quanto à raça, há maioria absoluta de não negros e uma porcentagem expressiva de mulheres. Do grupo total de alunas(os), temos um que é de inclusão. Objetivos, Metas e Estratégia Trabalhar a pesquisa como forma de aproximação de teoria e prática no cotidiano escolar, estimular o senso crítico e a capacidade de compreensão sobre os artigos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, promovendo um debate acerca da importância de se cobrar a empregabilidade de políticas públicas voltadas aos direitos inerentes aos seres humanos, é uma das propostas do PNEDH. 135 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas O processo de construção da concepção de uma cidadania planetária e do exercício da cidadania ativa requer, necessariamente, a formação de cidadãos(ãs) conscientes de seus direitos e deveres, protagonistas da materialidade das normas e pactos que os(as) protegem, reconhecendo o princípio normativo da dignidade humana, englobando a solidariedade internacional e o compromisso com outros povos e nações. (BRASIL, 2007, p. 21). Dentro do que foi planejado para esse plano de ação, estão as seguintes propostas: 1. Desenvolver a prática de pesquisa, o questionamento e a cobrança de estratégias políticas para a aplicabilidade do que é de direito dos cidadãos dentro de uma sociedade. 2. Tornar o adolescente mais consciente do seu papel social a partir do reconhecimento do seu espaço de ação e de como ele pode estimular outras pessoas a cobrar políticas públicas, e a responsabilidade dos representantes políticos para melhorias no meio onde está inserido. 3. Formular uma apresentação clara e concisa do que será o plano de ação, o que se esperar dele e o papel de cada um dos envolvidos na construção e desenvolvimento do que for proposto. 4. Motivar a curiosidade, a liberdade, o protagonismo e a confiança dos grupos, de forma que sintam que são a engrenagem principal para que o resultado do plano de ação seja o reflexo de um trabalho comprometido com algo real e concreto, ligado intimamente com o mundo de cada um dos envolvidos. 5. Levantamento de campo: onde as(os) alunas(os) irão a campo observar, fotografar e aplicar questionários. Pesquisa bibliográfica: base para a apresentação da banca, 136 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências tendo como principais referências a Declaração Universal dos Direitos Humanos e o Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos. Além da pesquisa, as(os) alunas(os) farão uma banca onde ficará exposto o resultado final do trabalho, que poderá ser fotos, cartazes ou vídeo, que terá a visitação dos demais alunas(os) da escola. O processo formativo pressupõe o reconhecimento da pluralidade e da alteridade, condições básicas da liberdade para o exercício da crítica, da criatividade, do debate de ideias e para o reconhecimento, respeito, promoção e valorização da diversidade. (BRASIL, 2007, p. 29). O encerramento dar-se-á por meio de seminário, em que cada grupo apresentará para os demais suas considerações e conclusões das pesquisas bibliográficas e do levantamento de campo. Nossa meta principal para esse plano de ação é transformar a concepção existente e errônea de que Direitos Humanosservem apenas para defender bandidos, e que seja possível abordar essa afirmação de forma clara e concisa de que Direitos Humanos não defendem bandidos e sim a vida e a dignidade humana, e que embora tenhamos cometido algum crime, temos o direito de um julgamento justo, e que estando vivendo em reclusão, não podemos ser feridos em questões básicas como dignidade e respeito. O artigo 5º da DUDH diz que ninguém será submetido à tortura, nem a penas ou tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes. É nesse direito humano que queremos que o plano de ação seja estruturado, que cada grupo possa ter o embasamento teórico do que forem desenvolver. 137 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas Sabemos que não é só a questão carcerária que pesa na discussão sobre a temática de Direitos Humanos, a questão racial também é relevante neste debate, pois o Brasil, mesmo tendo a Lei Áurea mais de um século, ainda tem em suas mãos um racismo latente e institucionalizado e é dentro do espaço escolar que podemos diagnosticar e tratar esse estigma social. O preconceito racial cria um estigma, uma marca, uma relação perversa e/ou negativa quanto a tudo o que diz respeito ao negro, às suas formas de ser e de significar o mundo. Essas elaborações preconceituosas, que criam ideais estéticos, epistemológicos e culturais, são reproduzidas dentro do espaço escolar, local onde paradoxalmente se atribui, na atualidade, a responsabilidade pela promoção de valores de respeito pelas diversidades. (PEREIRA, 2014, p. 6). Ao desenvolver o trabalho proposto, os grupos poderão ver o quanto o senso comum é presente no nosso cotidiano e que tanto a questão carcerária, quanto racismo, homofobia e machismo são tão enraizados no nosso subconsciente, que se tornam banais e são cometidos diariamente por todos e nem nos damos conta, que somente o conhecimento de causa e a cobrança permanente, inclusive de nós para nós mesmos, será capaz de mudar as estruturas sociais viciadas, assim como é necessário cobrar do poder público políticas que promovam a igualdade, a justiça e a inclusão de todos e todas em todo e qualquer espaço público ou privado desta Nação, porque o Brasil é um país de formação étnico-racial plural, miscigenado e multicultural. A educação em Direitos Humanos pode ser definida como um conjunto de atividades de educação, de capacitação e de difusão de informação, orientadas para criar uma cultura universal de direitos humanos. Uma educação integral em Direitos Humanos não somente proporciona conhecimentos sobre os direitos humanos e os mecanismos para protegê-los, 138 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências mas que, além disso, transmite as aptidões necessárias para promover, defender e aplicar os Direitos Humanos na vida cotidiana. A educação em Direitos Humanos promove as atitudes e o comportamento necessários para que os Direitos Humanos de todos os membros da sociedade sejam respeitados. (ONU, 2006, p. 6). O Programa Mundial para Educação em Direitos Humanos (PMEDH) e o Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos (PNEDH) nos dá o norte das ações para que o plano de ação proposto seja alicerçado nas bases estruturantes da DUDH. A pandemia de Covid-19 e a fragilidade da EAD para ensino básico O ano de 2019 para a China terminou de forma surpreendente, porque foi lá o caso número um da Covid-19. No início do ano, a Europa já estava com alto índice de contágio e para que o restante do mundo, inclusive o Brasil, entrasse para as estatísticas, foi abrupto. Em março de 2020 tomamos ciência da gravidade da pandemia do coronavírus. O país adotou os protocolos da Organização Mundial da Saúde (OMS), impondo o isolamento social, o que alterou a rotina de toda a população, inclusive nas escolas, tanto públicas, quanto privadas, que tiveram que adotar métodos de trabalhos alternativos, com plataformas de ensino EAD. A necessidade de acesso à internet tornou visível o grande abismo social que o país tem, realidade que não é recente, vem desde os primórdios do Império, quando somente os abastados detinham os direitos eleitorais e fortaleciam a manutenção da pobreza. 139 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas Dados de 2019 referentes a uma pesquisa feita pelo Centro Regional para o Desenvolvimento de Estudos sobre a Sociedade da Informação (Cetic.br) apontam que 134 milhões de brasileiros acessaram a internet, uma média de três em cada quatro pessoas. Segundo o que foi analisado, embora o acesso de serviços on-line tenha aumentado e de usuários também, ainda persistem diferenças de renda, gênero, raça e regiões. A dependência de muitos brasileiros dos dispositivos móveis impacta a qualidade dos acessos, uma vez que esta modalidade possui franquias com quantidade limitada de dados, o que restringe a quantidade de serviços que podem ser utilizados ao longo do mês. (AGÊNCIA BRASIL, 2020). Ao implementar o ensino remoto, os governantes não levaram em consideração aspectos como a forma de acesso à internet, porque tem-se uma falsa ideia de que há um amplo acesso, mas não avaliaram a qualidade desses acessos. Um estudante, ao entrar em uma plataforma de ensino, necessariamente, tem que ter um aparelho de telefone adequado ou um tablet, computador ou notebook, que é preciso ter ferramentas para a produção das atividades propostas e que, em um país que não atingiu as metas de saneamento básico e de redução da miséria, é utópico acreditar que o ensino remoto seria a melhor opção para a educação. Há de se avaliar ainda, nesse quesito de ensino, a educação especial, o atendimento ao aluno de inclusão, quais os mecanismos de trabalho seriam adotados pelos docentes. As lacunas existentes na educação pública ficarão ainda mais expandidas após o fim do isolamento social. Teremos que aprofundar as pesquisas nesta área, para promover ou ao menos reduzir os impactos na aprendizagem dessas crianças e adolescentes. 140 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências O Brasil, ao impactar o ensino público com cortes severos ao repasse de verbas para a educação, fere o artigo 26º da DUDH, que diz que toda pessoa tem direito à educação. Desde que o país retomou a democracia, nunca vivenciamos tantos retrocessos institucionais como no presente momento, principalmente ao que se refere aos direitos dos cidadãos. A Constituição Federal e a DUDH, da qual somos signatários, vêm sendo sistematicamente feridas, deixando a população desamparada em todos os aspectos. Vivemos um período histórico demasiadamente constrangedor e desolador. Por um viés mais positivo, em relação às ações das escolas públicas e de alguns governos municipais e estaduais, é possível dizer que não tínhamos conhecimento em questões pandêmicas, e que tudo foi construindo-se ao longo dos meses, que podemos retirar dessas experiências ações mais qualificadas para situações calamitosas, como as que a Covid-19 nos apresentou. É relevante supor que a(o) docente deva estar em formação contínua, principalmente em conteúdos referentes às novas ferramentas tecnológicas, como equipamentos eletrônicos, mas também temos que frisar que a valorização profissional é fundamental no processo formador do professor, pois sem recursos financeiros não é possível se especializar. Sem suporte pedagógico e sem estruturas de trabalho, não há motivação para o aprimoramento e qualificação do seu trabalho. O ano de 2020 mostrou as fragilidades das relações econômicas e sociais durante os meses que se passaram, não só no Brasil, mas em vários lugares do mundo. O aumento dos crimes raciais, os protestos e a derrubada de representações escravagistas foram um marco importante da história, e certamente entrarão nos anais da História Mundial. 141 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas Outra marcadesse 2020 será a face da desigualdade social, que mostrou que são os mais pobres que sofrem em meio às crises mundiais, sejam essas econômicas, políticas, religiosas ou sanitárias, como a pandemia da Covid-19. Considerações finais Ao propor uma atividade tão ampla como a Declaração Universal dos Direitos Humanos, é preciso ter em mente que teremos dificuldades, que nem todos estarão interagindo como havia sido planejado, porque a escola é uma estrutura viva, e no seu vértice todas as ideias se encontram, e é isso que faz com que, mesmo sendo uma instituição obsoleta, nós tenhamos um campo fértil para desenvolver ideias e ideais de igualdade, de justiça e solidariedade. Devido ao avanço pandêmico da Covid-19 pelo mundo, o país, desde março de 2020, tem promovido o distanciamento social e as aulas passaram a ser na modalidade EAD, onde trabalhamos com turmas de forma individual e não existe uma ampla participação dos discentes, devido ao difícil acesso à internet, realidade essa que a Covid-19 trouxe à tona, dados que estão relacionados diretamente ao ensino público, que é de onde falo com maior propriedade e que pesquisas recentes foram feitas. Em função do novo contexto pedagógico, os resultados ainda não foram possíveis de serem coletados, pois a ideia inicial era a interação em sala de aula e com os demais turnos da escola, numa exposição de painéis temáticos e no seminário. Atualmente, governos discutem um possível retorno das aulas, porque vários setores pressionam a volta à “normalidade”, e como é o mercado que manda nas nossas rotinas, é possível que tenhamos 142 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências um retorno em breve, e assim daremos continuidade neste projeto tão empolgante e que certamente trará reflexos positivos na vida dos envolvidos, pois a criticidade e a autonomia são aspectos que melhoram os índices de qualidade de vida. Diante do atual contexto mundial, em que as discussões sobre o racismo reascenderam os protestos antirracistas em vários países, bem como a retomada dos movimentos de grupos extremistas como a Klu Klux Klan nos mostrando o quão frágeis são os direitos das minorias e o quanto é imprescindível governos alinhados com a DUDH, e que promovam a justiça social, pois é inadmissível que ainda hoje pessoas percam a vida por sua cor, condição social, religiosa ou de gênero. Portanto nosso principal foco é a ampla discussão do que são Direitos Humanos, da relevância da DUDH, de como impacta nossas vidas e porque há uma busca incessante de desqualificação dos seus artigos, principalmente por políticos que usufruem da ignorância da população. Nenhum trabalho ou projeto tem um ponto final. A pesquisa deve ser contínua, bem como a busca pelo conhecimento é uma fonte que deve ser exaurida e renovada sistematicamente. Enquanto houver fome, crimes por racismo, orientação ou gênero, os Direitos Humanos deverão estar em foco, tanto na escola, como nas nossas rotinas diárias. Aos docentes, assim como nós, deixamos nossos anseios e desejos de que os Direitos Humanos passem a ser recorrentes em suas práticas pedagógicas, que suas ações estejam baseadas na autonomia dos discentes e na liberdade do pensar, construindo assim, uma consciência cidadã, baseada no respeito e na integralidade de cada um. Que a escola seja um campo fértil de 143 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas ideias, e que o prazer do aprender seja o norteador das ações das instituições de ensino. Que sigamos buscando a luz da sabedoria. Referências AGÊNCIA BRASIL. Brasil tem 134 milhões de usuários de internet, aponta pesquisa. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2020-05/brasil-tem-134-milhoes-de- usuarios-de-internet-aponta-pesquisa. Acesso em: 20 maio 2020. BRASIL. Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos. Comitê Nacional de Educação em Direitos Humanos. Secretaria Especial dos Direitos Humanos, Ministério da Educação, Ministério da Justiça, UNESCO. Brasília, DF: 2007. FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler em três artigos que se completam. 22. ed. São Paulo: Autores Associados: Cortez, 1988. FREIRE, Paulo. Pedagogia da indignação: cartas pedagógicas e outros escritos. São Paulo: UNESP, 2000. ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Plano de ação. Programa Mundial para Educação em Direitos Humanos. 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Atribui-se à escola o papel de “ensinar” os indivíduos a respeitarem as diferenças entre as pessoas, suas singularidades e pluralidades, tornando a escola palco para incentivar os indivíduos a pensarem e agirem coletivamente sobre a diversidade e o respeito. Como falar em igualdade, respeito e diversidade sem falar em Direitos Humanos? Por esse motivo, o presente artigo, através de pesquisa bibliográfica, trazendo a contribuição de variados autores, busca a discussão de como tornar o ambiente escolar e da sala de aula um espaço para o diálogo entre alunos e professoras(es) sobre 28 Especialista em Educação em Direitos Humanos (FURG), em Alfabetização e Letramento (Uniasselvi), em Gestão Escolar (Uniasselvi) e em Psicopedagogia Institucional e Clínica (Faccat). Licenciada em Pedagogia (Faccat). E-mail: gabi.lamberty@gmail.com. 146 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências a Educação em Direitos Humanos (EDH). Traz ainda a proposta de um plano de ação elaborado para a disciplina “Plano de Ação em Direitos Humanos: Promoção de uma Cultura de Respeito e Salvaguarda dos Direitos Humanos”. A educação em Direitos Humanos tem um papel significativo, pois a mesma é um dos direitos fundamentais do ser humano. As Diretrizes Nacionais para a Educação em Direitos Humanos mencionam que: Os Direitos Humanos são frutos da luta pelo reconhecimento, realização e universalização da dignidade humana. Histórica e socialmente construídos, dizem respeito a um processo em constante elaboração, ampliando o reconhecimento de direitos face às transformações ocorridas nos diferentes contextos sociais, históricos e políticos. Nesse processo, a educação vem sendo entendida como uma das mediações fundamentais tanto para o acesso ao legado histórico dos Direitos Humanos, quanto para a compreensão de que a cultura dos Direitos Humanos é um dosalicerces para a mudança social. Assim sendo, a educação é reconhecida como um dos Direitos Humanos e a Educação em Direitos Humanos é parte fundamental do conjunto desses direitos, inclusive do próprio direito à educação. (BRASIL, 2012, on-line). A escola, sendo para muitos o local de transformação social e abrigo de seus anseios, deve estar preparada para tratar abertamente da temática Educação em Direitos Humanos e não apenas “práticas ocultas”, isoladas em seu dia a dia. Somente através da fala aberta dentro da escola, os Direitos Humanos poderão transcender para além dos muros da escola, sendo efetivos na sociedade, combatendo a violação diária dos direitos de todas as pessoas. Assim como menciona Rayo (2018, p. 86): 147 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas O desafio da educação está, sem dúvida, em colaborar na tarefa da humanidade de tratar de encaminhar-se para formas futuras de organização social e de relações com o entorno que sejam justas e ecologicamente perduráveis. A educação, entendida como um processo global de conscientização e de reconstrução cultural da sociedade, tem como missão primeira informar sobre o conhecimento cada vez mais profundo dos problemas globais da população mundial e do estado do planeta, de seu desenvolvimento e tendências, dos resultados das indagações sobre suas causas e dos obstáculos que dificultam sua resolução positiva, assim como refletir sobre como os agentes sociais poderiam promover as transformações emancipatórias necessárias. Além de informar o que são e quais são os Direitos Humanos, é necessário oferecer ferramentas para que os sujeitos, além de conhecerem, possam se empoderar desses direitos/deveres e protegê-los, para que de fato, os seus e de outros sujeitos, possam se efetivar. Educação em Direitos Humanos Conceituando Direitos Humanos Os Direitos Humanos surgem trazendo questionamentos à necessidade de respeito, valorização e igualdade de todos os seres humanos, independendo de sua cor, raça, opção sexual ou credo. Como nos fala a Declaração Universal dos Direitos Humanos – DUDH, em seu artigo 2, 1. Todo ser humano tem capacidade para gozar dos direitos e das liberdades estabelecidas nesta Declaração, sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, idioma, religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento, ou qualquer outra condição. 2. Não será também feita nenhuma distinção fundada na 148 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências condição política, jurídica ou internacional do país ou território a que pertença uma pessoa, quer se trate de um território independente, sob tutela, sem governo próprio, quer sujeito a qualquer outra limitação de soberania. (UNESCO, 1998). Os Direitos Humanos nada mais são do que o respeito às pessoas, à solidariedade, a uma cultura de paz, onde, indo ao encontro das ideias de Dallari (2004), correspondem às necessidades essenciais da pessoa humana. Aquelas necessidades que são iguais para todos os seres humanos e que devem ser atendidas para que a pessoa possa viver com dignidade, que deve ser assegurada a todas as pessoas. Assim, a vida é um direito fundamental do ser humano, bem como as suas necessidades diárias, como a alimentação, a saúde, a moradia, a educação e tantas outras. De acordo com Schütz e Fuchs (2017, p. 41): [...] não sendo os Direitos Humanos uma concessão da sociedade política, eles são fruto de construções históricas marcadas por confrontos e contradições da realidade, após a ocorrência de injustiças e constantes desigualdades no debate sobre a necessidade de exigir direitos a esses indivíduos que sofreram com essas e outras violências. Ademais, os DH, por mais fundamentais que possam ser, são construções históricas, isto é, nascem em diferentes conjunturas, caracterizadas por lutas em defesa de novas liberdades contra antigos modos de poder, por isso, nascem de forma gradual e lenta. É sabido que diariamente ocorrem violações a esses direitos fundamentais à existência humana. Desse modo, o espaço escolar para discussão e execução de assuntos e estratégias ligadas aos Direitos Humanos se faz necessário. De acordo com Benevides (2007, p. 3): 149 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas Direitos humanos são aqueles considerados essenciais a todas as pessoas, sem quaisquer distinções de sexo, nacionalidade, etnia, cor da pele, faixa etária, meio socioeconômico, profissão, condição de saúde física e mental, opinião política, religião, nível de instrução e julgamento moral. Sabemos que “no tempo” em que estamos vivendo, são assuntos delicados, porém, necessários, e quando a família possui uma visão um pouco mais “conservadora”, cabe à escola abrir o diálogo sobre tais assuntos. Os Direitos Humanos, segundo Gorczevski e Tauchen (2008, p. 66), nascem com o homem, fazem parte da própria natureza humana e da dignidade que lhe é inerente, e são fundamentais, porque sem eles o homem não é capaz de existir, de se desenvolver e participar plenamente da vida, e são universais, porque exigíveis de qualquer autoridade política, em qualquer lugar. Eles representam as condições mínimas necessárias para uma vida digna. Somente através de uma educação pautada no diálogo e na coerência de nossas ações, através do exemplo, buscaremos, ao longo das décadas, transformar a sociedade em que nos encontramos, tornando-a mais justa e menos desigual. O compromisso com a Educação em Direitos Humanos A fim de que a Educação em Direitos Humanos se tornasse um compromisso do Estado para realmente acontecer sua efetivação, foi criado o Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos (PNEDH), norteando e tornando sério o trabalho em prol de uma educação para a paz. 150 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências São objetivos balizadores do PNEDH, conforme estabelecido no artigo 2°: a) fortalecer o respeito aos direitos humanos e liberdades fundamentais; b) promover o pleno desenvolvimento da personalidade e dignidade humana; c) fomentar o entendimento, a tolerância, a igualdade de gênero e a amizade entre as nações, os povos indígenas e grupos raciais, nacionais, étnicos, religiosos e linguísticos; d) estimular a participação efetiva das pessoas em uma sociedade livre e democrática governada pelo Estado de Direito; e) construir, promover e manter a paz. (BRASIL, 2007, p. 24). De acordo com a ação programática número sete do Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos (PNEDH), que trata da educação básica: “tornar a Educação em Direitos Humanos um elemento relevante para a vida dos(as) alunos(as) e dos(as) trabalhadores(as) da educação, envolvendo-os(as) em um diálogo sobre maneiras de aplicar os Direitos Humanos em sua prática cotidiana”. Coloca-se a necessidade de trazer a EDH (Educação em Direitos Humanos) para dentro do âmbito escolar, uma vez que, tomando conhecimento dos seus direitos e dos demais, a vida escolar e em sociedade torna-se mais respeitosa e solidária. Em 2012, o Ministério da Educação elaborou as Diretrizes Nacionais para Educação em Direitos Humanos – DNEDH. Se o Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos torna a Educação em Direitos Humanos um compromisso sério, as DNEDH, oferecem caminhos de como educar para uma mudança em relação a uma educação para paz. De acordo com Chicarino (2016, p. 81), Um dos princípios das DNEDH é provocar no sujeito aprendiz uma nova interpretação de sua existência, de modo que ele possa cooperar positivamente para o fim das violações e dos preconceitos que ocorrem em seu entorno. O indivíduo deve ser levado ao entendimento crítico de suas próprias experiências, deve, ainda, questionar-se primeiro para, então, voltar os olhos críticos ao mundo, transformando-o por meio de valores humanísticos aprendidos e interiorizados.151 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas A escola é palco de democracia e participação, lutas, conflitos, inclusão, respeito a opiniões; portanto, o diálogo é elemento imprescindível neste ambiente, como ferramenta reflexiva e crítica. A formação continuada dos profissionais da educação é condição determinante para a disseminação do conhecimento no âmbito escolar e pelos esforços de difusão das informações em todos os segmentos da sociedade civil, posto que a ação docente tem repercussão para além dos muros da escola, por meio da sedimentação das práticas pedagógicas desenvolvidas no “chão da escola.” (GUIMARÃES, 2016, p. 78). Dessa forma, as ações para a implementação da Educação em Direitos Humanos devem ser pautadas nos princípios da universalidade, interdependência dos direitos, diversidade, igualdade, indivisibilidade e liberdade, de maneira que possam favorecer o aprimoramento tanto da cidadania ativa quanto das cidadanias democrática e planetária. (BRASIL, 2007). Educação em Direitos Humanos dentro da escola A educação, antes de qualquer coisa, é um compromisso com o outro, com o cuidado, o respeito e o olhar atento às demandas da sociedade. Dessa forma, a Educação em Direitos Humanos se faz necessária diariamente, em todo o contexto escolar, uma vez que se busca através da educação, e da Educação em Direitos Humanos, uma educação crítica, em que os cidadãos tenham consciência e possam exercer a sua cidadania com autonomia. 152 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências Comprova-se a necessidade de se educar em e para os Direitos Humanos, uma vez que tal movimento deve possuir como objetivo a discussão dos conhecimentos historicamente construídos pela humanidade sobre os DH, além de reafirmar valores e práticas que possam consolidar a cultura dos direitos e o exercício do respeito, bem como promover a valorização das diversidades – de cunho étnico-racial, religioso, cultural, gênero, orientação sexual, entre outros. (FUCHS; SCHÜTZ, 2017, p. 45). É no âmbito escolar que os DH se legitimam, ganham força para se perpetuarem e não se tornarem mera repetição de conteúdo. É necessário que o grupo escolar esteja alinhado, a fim de que a cultura de respeito à dignidade humana, por meio de vivências, se torne hábito e possa disseminar uma cultura de paz, tolerância, solidariedade, entre outros comportamentos e valores. As experiências do dia a dia escolar “ensinam” às pessoas novos hábitos, sejam eles bons ou ruins. É na troca que seres humanos aprendem, na interação com o meio e com o outro. A paz é uma prática cultural que precisa ser aprendida, cultivada. Não é algo pronto; é um contínuo aprender, fazer, refazer, um dos maiores desejos e desafios da grande maioria da humanidade. Entender a paz como construção cultural e como noção pedagógica leva-nos a superar uma certa compreensão abstrata e idealista, e coloca-a como uma ação que está ao nosso alcance. (GORCZEVSKI; TAUCHEN, 2008, p. 72). Quando falamos em DH estamos falando de uma cultura de paz. Precisamos incorporar no currículo da escola uma cultura humanizadora de escuta, respeito às opiniões divergentes, que nossos alunos e nossos pares, enquanto colegas de trabalho, saibam se expressar e expressar suas ideias sem agressividade. Nossos alunos, entre as mais variadas formas que usamos para ensinar, 153 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas aprendem pelo exemplo, então, faz-se necessário que toda a escola esteja alinhada no discurso de uma cultura de paz. É sabido que todos temos nossas próprias experiências e referências aprendidas ao longo da vida, mas somos seres em constante movimento, o que nos permite refletir sobre nossos atos e mudar infinitas vezes de opinião e mesmo de “versão”. [...] o cerne da Educação em Direitos Humanos é fazer que os indivíduos se tornem protagonistas da sua própria história e da história do mundo, fazendo escolhas melhores e buscando viver de maneira mais harmônica. É incoerente, por exemplo, exigir do governo a higiene e a limpeza das vias públicas, se a cada dia jogamos entulhos e mais entulhos em áreas verdes, se a cada dia deixamos nas calçadas embalagens e restos de alimentação. A ação parte da pessoa humana, independente da existência e de seu papel exercido na sociedade. (CHICARINO, 2016, p. 61). Por isso, é preciso que o projeto político pedagógico (PPP) e o regimento da escola estejam alinhados com este processo de “difusão dos direitos fundamentais” e deveres de todos os seres humanos. Mais do que promover conteúdos curriculares em ações de projetos isolados e ações pontuais, deve-se buscar o compromisso de exemplos e atitudes articulados a realidades sociais e individuais, refletindo suas ações enquanto cidadãos do mundo. Para tanto, a educação escolar precisa ser um espaço tempo que propicie, contextualizadamente, a compreensão da realidade. Precisamos compreender que, enquanto homens, mulheres e crianças, necessitamos aprender a ser gente, a ser humanos, como também precisamos compreender que essa aprendizagem se dá dentro de uma realidade que precisa ser conhecida, desvelada e transformada. (GORCZEVSKI; TAUCHEN, 2008, p. 73). 154 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências Os conteúdos abordados em nossos currículos precisam combater o racismo, discriminações em todas as suas raízes, sejam elas sexuais, culturais ou religiosas. A valorização da vida e o respeito a todos os seres humanos. Uma proposta de plano de ação em EDH Tornar a Educação em Direitos Humanos parte do cotidiano escolar, abordando temas relacionados, de maneira transdisciplinar, desde os primeiros anos de escolarização é de suma importância para a construção de uma sociedade mais justa, com cidadãos conscientes dos seus direitos e da sua responsabilidade diante dos mais vulneráveis. O educador em direitos humanos na escola sabe que não terá resultados no final do ano, como ao ensinar uma matéria que será completada à medida que o conjunto daquele programa for bem entendido e avaliado pelos alunos. Trata-se de uma educação permanente e global, complexa e difícil, mas não impossível. É certamente uma utopia, mas que se realiza na própria tentativa de realizá-la, os direitos humanos terão sempre, nas sociedades contemporâneas, a dupla função de ser, ao mesmo tempo, crítica e utopia frente à realidade social. (BENEVIDES, 2007, p. 8). Desse modo, apresenta-se o plano de ação, para torná-lo parte do cotidiano da escola, como um espiral, que tem seu início e fim sobre si, vai e volta, de acordo com as necessidades. Busca-se que nossos alunos possam perceber e entender que cada uma das suas escolhas pessoais poderá acarretar em consequências sociais, tanto para melhorar quanto para “arruinar” o meio que os cerca. Os objetivos de um plano de ação para Educação em Direitos Humanos consideram a formação humana, o respeito à dignidade, à diversidade e à diferença. (CHICARINO, 2016). 155 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas O Plano de Ação será desenvolvido em uma instituição de ensino privada no município de Taquara, localizado na região metropolitana de Porto Alegre. A escola atende cerca de 500 alunos, em duas unidades, sendo a Unidade II da Educação Infantil ao 1° ano do ensino fundamental e a Unidade I do 2° ano do ensino fundamental ao ensino médio. Apesar de ser uma instituição filantrópica, com alguns alunos bolsistas, a maioria das famílias atendidas é de classe média alta, visto que a mensalidade é a mais alta entre as escolas dessa modalidade na região. Considerando a faixa etária dos alunos atendidos (cinco a oito anos), o plano de ação pretende fazer uma introdução aos Direitos Humanos, iniciando com uma sondagem sobre o que as crianças já sabem sobre o conceito de direitos e também sobre a situação dasociedade em que estão inseridas, para além do seu convívio, visto que são crianças de classe média alta. A realidade dos nossos alunos é uma “exceção” à realidade que nos cerca, surgindo assim a necessidade de trazer a EDH para uma discussão na escola que poderá e deverá contribuir para a formação de uma sociedade mais empática e justa, baseada na equidade. As atividades serão realizadas com duas turmas dos anos iniciais do ensino fundamental. Uma delas de primeiro ano, com 15 alunos com faixa etária entre cinco e sete anos. A outra será uma turma de segundo ano, com 17 alunos de sete a oito anos de idade. Objetivo geral Apresentar aos alunos envolvidos no projeto conceitos importantes relacionados à Educação em Direitos Humanos, tais como Direitos Humanos e igualdade social, para que, dessa forma, identifiquem no seu cotidiano situações que demonstrem o quanto 156 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências são privilegiados por terem acesso às coisas básicas como: alimentação, moradia, educação de qualidade e saúde. E, ao compreenderem que existem pessoas que não têm o mínimo necessário para uma vida digna, reflitam em como podem agir para transformar, de alguma maneira, a realidade de algumas dessas pessoas. É a formação de uma cultura de respeito à dignidade humana através da promoção e da vivência dos valores da liberdade, da justiça, da igualdade, da solidariedade, da cooperação, da tolerância e da paz. Isso significa criar, influenciar, compartilhar e consolidar mentalidades, costumes, atitudes, hábitos e comportamentos que decorrem, todos, daqueles valores essenciais citados – os quais devem se transformar em práticas. (BENEVIDES, 2007, p. 1). Dessa forma, temos como problema: Os nossos alunos conhecem a expressão “Direitos Humanos”? O que sabem sobre o assunto? Objetivos específicos ✓ Proporcionar aos alunos atendidos momentos reflexivos, partindo da realidade em que vivem, para que percebam o quanto são crianças privilegiadas por terem muito mais do que o básico para viverem, visto que muitas pessoas não têm nem o “básico” para sobrevirem com dignidade; ✓ Apresentar aos alunos atendidos conceitos importantes à Educação em Direitos Humanos, tais como: Direitos Humanos, responsabilidade social, empatia, solidariedade, entre outros; para que dessa forma possam refletir, a partir do diálogo e da troca com os colegas e professoras, a realidade em que a maioria da população que os cerca vive; 157 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas ✓ Tornar a Educação em Direitos Humanos um tema significativo aos alunos envolvidos, para que percebam a sua responsabilidade social diante daqueles menos favorecidos. Metas ✓ Tornar o ambiente da sala de aula um espaço para o diálogo entre alunos e professoras sobre a realidade atual, tanto a que estão inseridos, uma realidade distante para a maioria dos brasileiros, quanto a na qual vive a grande maioria das pessoas fora do círculo de convivência dos mesmos; ✓ Realizar atividades lúdicas, que tornem a Educação em Direitos Humanos um tema significativo aos alunos atendidos; ✓ Realizar ações concretas de arrecadação de alimentos não perecíveis para doação às instituições do município que atendem a população em situação de vulnerabilidade social. O que sabem? O que saberão? A partir das hipóteses trazidas pelos alunos, serão elaboradas as ações que ambas as professoras irão desenvolver nas suas turmas já citadas, partindo de situações concretas, de maneira lúdica (contação de história sobre o assunto, vídeos, atividades de desenho). Temos uma gama infinita de assuntos que podem servir de introdução para que cheguemos ao assunto pretendido, dentre eles: alimentação, tipos de moradia, configurações familiares e educação financeira. Na escola em que trabalhamos, o projeto de 158 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências educação financeira é aplicado através do viés da solidariedade. Acreditamos ser um bom assunto para iniciar a discussão com nossos alunos, uma vez que a solidariedade exige que tenhamos respeito e empatia para com quem está recebendo nossa atenção. Na semana do Projeto de Educação Financeira, traremos a ação programática número sete como eixo transversal. Iniciaremos contando a história “Declaração Universal dos Direitos Humanos” dos autores Ruth Rocha e Otávio Roth, solicitando que os alunos(as) observem as imagens e leiam com atenção os textos. Após, conversaremos sobre o que entenderam e quais são suas dúvidas sobre o assunto. Como atividade, iremos dividir os alunos em grupos e solicitar que escolham a parte do livro que mais lhes foi interessante, para que possam reescrever, ilustrar e para que possamos expor nos corredores da escola, para que todos que por ali circulam possam tomar conhecimento. Após essa atividade, mostraremos vídeos referentes ao assunto escolhido, que é a solidariedade. Prática O plano de ação culminará com a elaboração de um fôlder informativo sobre os Direitos Humanos, a gravação de um vídeo com a dramatização de parte da Declaração Universal dos Direitos Humanos, que será enviado às famílias e compartilhado com as demais turmas da escola e, ainda, para os alunos do 1º ano do ensino fundamental, a confecção de marca-páginas a serem trocados por alimentos não perecíveis na Feira Solidária da Escola e, para os alunos do 2º ano do ensino fundamental, um brique, e a moeda de 159 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas troca serão alimentos não perecíveis a serem doados para instituições do município. Considerações finais Educação em Direitos Humanos, uma educação voltada para a paz e para o respeito. Pautada nas liberdades individuais e comum de todos os seres humanos, deveria ser uma habilidade desenvolvida dentro da escola, como a importância destinada à matemática e ao português. Pensando na temática em Educação em Direitos Humanos, parece ser um assunto de abordagem e entendimento fácil dentro da escola e demais espaços, porém, não é a realidade. O tema é delicado, pois os indivíduos, em suas singularidades, vêm com seus valores enraizados para dentro do âmbito escolar e para a vida em sociedade. Especialmente nos últimos quatro anos, desde as eleições americanas de 2016, somos bombardeados por informações distorcidas/falsas/rasas e a maioria das pessoas acredita na primeira informação que lê/recebe para leitura. São as chamadas fake news. Os Direitos Humanos e seus estudiosos sofrem com a disseminação dessas mentiras. Muito ainda se ouve que Direitos Humanos são a defesa de bandidos. A especialização em Educação em Direitos Humanos abre infinitas possibilidades para o trabalho na escola e, ainda, na sociedade. Porém, não se finda com a conclusão deste artigo. Direitos humanos são mutáveis todos os dias, pois surgem novos direitos com base nas violações diárias. E quantas violações, diante de uma pandemia mundial. O Brasil deixou ultrapassar 160 mil mortes, milhões de desempregados, escolas fechadas, mais milhões de estudantes sem acesso as suas aulas. Quantos direitos 160 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências fundamentais são/estão sendo violados? E quantas pessoas conhecem e respeitam os seus e os direitos dos demais? Sempre se atribui à escola o dever de “salvar” a sociedade e eu, enquanto professora, creio nisso com todas as minhas forças. Se lá na educação infantil começarmos a falar abertamente sobre a temática dos Direitos Humanos, quando chegarmos nos cursos de graduação/pós-graduação, teremos uma sociedade mais “humana” e “empática”. Uma vez que é a escola quem “cuida e olha” pelas futuras gerações. É a partir da educação que também se acolhe os recém- chegados, que têm o direito de conhecer o mundo, de se apropriar dele para depois buscar seus próprios caminhose intervir naquilo que compartilham com os outros (SCHÜTZ, 2016). Por sorte, somos mutáveis e todos os dias temos a chance do recomeço. Na escola, todo dia é dia de aprender e ensinar. Educar em e para os Direitos Humanos passa, antes de tudo, pelo educador. Precisamos estar em consonância com os movimentos da sociedade e assumir o compromisso de despertar em cada um de nossos educandos a responsabilidade de defesa e respeito de todas as pessoas, colocando em prática os conhecimentos adquiridos ao longo da nossa trajetória. Quero deixar o registro das inquietações e preocupações assumidas ao longo deste estudo e da especialização. Que essas infinitas possibilidades que surgiram ao longo dessa caminhada sirvam de catalizador para novas pesquisas e coragem para que possamos sempre acreditar que a educação é o melhor caminho. 161 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas Referências BENEVIDES, Maria Victoria. Educação em Direitos Humanos: de que se trata? Programa Ética e Cidadania: construindo valores na escola e na sociedade, 2007. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/Etica/9_benevides.pdf . Acesso em: 12 maio 2020. BRASIL. Comitê Nacional de Educação em Direitos Humanos. Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos. Brasília, DF: Secretaria Especial dos Direitos Humanos, 2007. BRASIL. Diretrizes Nacionais para a Educação em Direitos Humanos . Brasília, DF: Secretaria Especial dos Direitos Humanos. 2012. 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Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas A EDUCAÇÃO EM E PARA OS DIREITOS HUMANOS COMO FORMA DE PREVENIR E MITIGAR OS CASOS DE VIOLÊNCIA NA ESCOLA Jonas Cristiano Beck 29 Camila da Silva Guimarães 30 Introdução A escola tem suas raízes na antiguidade clássica, com os filósofos Gregos e as Academias. Desde a sua criação, foi um lugar de transmissão de valores, de conhecimentos, de cultura, assim como de ideologias dominantes, preconceitos e violências. A história da escola e da instituição escolar está em constante modificação. Atualmente é crescente o número de profissionais da educação que buscam maneiras, baseadas nas políticas de Direitos Humanos (DH) e na Educação em Direitos Humanos (EDH), de desenvolverem projetos que tornem a instituição escolar um lugar de tolerância, 29 Professor da rede pública municipal e estadual na cidade de Igrejinha/RS, licenciado em História e Ciências Biológicas e pós-graduado em Política e Sociedade, Impactos da Violência na Escola, em Metodologia do Ensino de Filosofia e em Educação em Direitos Humanos. E-mail: jonascbeck@hotmail.com. 30 Professora da rede municipal da cidade de Rio Grande, mestre em Educação Ambiental pelo Programa de Pós-graduação em Educação Ambiental (FURG). E-mail: camilapedag@gmail.com. 164 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências buscando o combate à violência no contexto escolar, com ênfase na prevenção antes da repressão do ato violento. Conforme Sonia e Silva (2013, p. 28), o processo de educação em Direitos Humanos deve envolver diferentes ações e caminhos, com a sensibilização dos sujeitos envolvidos, a proximidade com a realidade e vivência escolar e social da escola, conhecimento e problematização dos Direitos Humanos e de sua violação, no contexto escolar e comunitário, aliando a fundamentação teórico- metodológica para compreender de que modo os Direitos Humanos são importantes na consolidação de uma cultura democrática, com a construção coletiva de ações culturais e educativas que respondam às demandas sociais. Os Direitos Humanos e a Educação em Direitos Humanos Conforme as Diretrizes Nacionais para a Educação em Direitos Humanos (2012, p. 3), a ideia de Direitos Humanos diz respeito a um conjunto de direitos internacionalmente reconhecidos, como os direitos civis, políticos, sociais, econômicos, culturais e ambientais, sejam eles individuais, coletivos, transindividuais ou difusos, que se referem à necessidade de igualdade e de defesa da dignidade humana. Ainda, conforme o mesmo documento, tendo seus valores no âmbito universal e dialogando com os estados democráticos de direito, a política dos Direitos Humanos pretende, segundo o mesmo parecer, fazer cumprir: a) os Direitos Humanos que estão preconizados e trabalhar pela sua universalização e b) os princípios da contemporaneidade: da solidariedade, da singularidade, da coletividade, da igualdade e da liberdade. 165 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas Ao conceber a educação como um fenômeno amplo e contínuo, Candau já afirma A educação é um elemento fundamental para a realização dessa vocação humana. Não apenas a educação escolar, mas a educação no seu sentido amplo, a educação pensada num sistema geral, que implica na educação escolar, mas que não se basta nela, porque o processo educativo começa com o nascimento e termina apenas no momento da morte do ser humano. Isso pode ocorrer no âmbito familiar, na sua comunidade, no trabalho, junto com seus amigos, nas igrejas, etc. Os processos educativos permeiam a vida das pessoas. (CANDAU et al., 2013, p. 720). Assim, a EDH vem ao encontro dos princípios de reconhecimento dos Direitos Humanos através do seu conhecimento e também utilizando os princípios de Direitos Humanos como norteadores das práticas docentes, da construção do ambiente educativo democrático, diverso e que respeite o educando e sua comunidade, agindo assim como propagador e amplificador deuma cultura de direitos, entendendo então que a Educação em Direitos Humanos requer a construção de concepções e práticas que compõem os Direitos Humanos e seus processos de promoção, proteção, defesa e aplicação na vida cotidiana, ela se destina a formar crianças, jovens e adultos para participar ativamente da vida democrática e exercitar seus direitos e responsabilidades na sociedade, também respeitando e promovendo os direitos das demais pessoas. (BRASIL, 2012, p. 2). A escola, como local privilegiado para a prática dos Direitos Humanos, como afirmam as Diretrizes Nacionais para a Educação em Direitos Humanos, “é chamando a atenção para esses aspectos que a ideia de ambiente educacional pode ser entendida como tempo e espaço potenciais para a vivência e promoção dos Direitos Humanos e da prática da Educação em Direitos Humanos (BRASIL, 166 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências 2012, p. 11). O mesmo parecer reforça a necessidade de a escola atuar como ambiente promotor de direitos, A ideia de um ambiente educacional promotor dos Direitos Humanos liga-se ao reconhecimento da necessidade de respeito às diferenças, garantindo a realização de práticas democráticas e inclusivas, livres de preconceitos, discriminações, violências, assédios e abusos sexuais, dentre outras formas de violação à dignidade humana. (BRASIL, 2012, p. 11). Nesse sentido, em que a escola se torna um espaço de vivência e promoção dos Direitos Humanos, os professores assumem um papel importante, como mobilizadores, orientadores e incentivadores de práticas que permitam esse ambiente. Nesse aspecto, aponta-nos Candau (2008, p. 83): Um ponto de partida que se considera fundamental é não conceber os professores como “meros técnicos, instrutores, responsáveis unicamente pelo ensino de diferentes conteúdos e por funções de normalização e disciplinamento”. Para que haja, de fato, a formação de professores em Direitos Humanos, é necessário que esses sejam percebidos como profissionais mobilizadores de processos pessoais e grupais, de natureza cultural e social. Assim, devemos caminhar para “desnaturalizar” a posição que supõe que basta a transmissão de conhecimentos sobre Direitos Humanos, que necessariamente a educação em Direitos Humanos está presente (CANDAU et al., 2013, p. 63), então não é necessária a implementação de uma disciplina específica, sendo que o importante na educação em Direitos Humanos é ter clareza do que se pretende atingir e construir estratégias metodológicas coerentes com a visão que assumamos, privilegiando a atividade e participação dos sujeitos envolvidos no processo. Trata-se de educar em Direitos Humanos, isto é, 167 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas propiciar experiências em que se vivenciem os Direitos Humanos. (CANDAU et al., 2013, p. 65). Buscar a efetivação da EDH na escola envolve uma mudança de paradigmas, em que se supere ainda a prática de trabalhar a história dos Direitos Humanos sem a sua devida contextualização com os momentos históricos da sua criação e ainda seus significados e ressignificados na atualidade, além disso, o processo de discussão dos direitos humanos na sala de aula não é significativo apenas à medida que possibilita potencializar a ação política, posteriormente fora da escola, ele é válido em si mesmo, como uma instância de investigação aberta e ética do coletivo. (MCCOWAN, 2015, p. 44). A violência e a escola Segundo Becker e Kassouf (2016, p. 654), “a violência na escola constitui-se em um grande problema social e pode ser vista como um comportamento agressivo que abrange os conflitos interpessoais, os danos ao patrimônio e os atos criminosos, podendo ter consequências negativas sobre os resultados escolares dos alunos”. Por diversos fatores, como o tempo em que o aluno passa na escola, a interação social com outros jovens e adultos, os momentos de participação e avaliação, a violência ganha visibilidade, sendo então notada como problema que atinge um grupo maior e não somente um indivíduo. Para prevenir a violência é preciso entendê-la, mas, Assis e Mariel nos trazem a dificuldade em conceituá-la: Não é nada fácil conceituar violência! Fenômeno complexo e multicausal, ela atinge todas as pessoas, grupos, instituições e povos, e por todos é produzida. Expressa-se sob formas 168 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências distintas, cada qual com suas características e especificidades. Cada termo utilizado para definir a violência conduz a um mundo conceitual cujos contornos são determinados por uma tradição sociocultural e pela experiência de vida de cada indivíduo. Por essa razão, inevitavelmente, projetamos sobre as palavras as nossas emoções e conhecimentos, colorindo ou desbotando as verdadeiras cores do fenômeno e seus sentidos. (In: ASSIS; CONSTANTINO; AVANCI, 2010, p. 41). Ao entender a violência como um fenômeno complexo, que atinge a sua vítima de uma forma ampla, a Organização Mundial da Saúde (OMS) utiliza a seguinte definição de violência: O uso intencional da força física ou do poder, real ou em ameaça, contra si próprio, contra outra pessoa, ou contra um grupo ou uma comunidade, que resulte ou tenha grande possibilidade de resultar em lesão, morte, dano psicológico, deficiência de desenvolvimento ou privação. (KRUG et al., 2002 apud ASSIS; CONSTANTINO; AVANCI, 2010, p. 42). A violência também deve ser contextualizada dentro das relações sociais que a envolvem, como questões de vulnerabilidades socioeconômicas, questões políticas e administrativas dos órgãos que fazem e pensam a regulamentação das nossas leis. Quanto às diferentes formas de violência, são também classificadas pela OMS segundo a “natureza” dos atos cometidos. Podendo-se destacar: Violência física: uso da força para produzir lesões, traumas, feridas, dores ou incapacidades. Violência psicológica: agressões verbais ou gestuais com o objetivo de aterrorizar, rejeitar, humilhar a pessoa, restringir sua liberdade, ou ainda isolá-la do convívio social. Violência sexual: ato ou jogo sexual que ocorre nas relações hétero ou homossexuais e visa a estimular a vítima ou a utilizá- la para obter excitação sexual e práticas eróticas, pornográficas e sexuais impostas por meio de aliciamento, violência física ou ameaças. 169 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas Negligência ou abandono: ausência, recusa ou a deserção da atenção necessária a alguém que deveria receber cuidados. (BRASIL, 2001; KRUG et al., 2002. In: ASSIS; CONSTANTINO; AVANCI, 2010, p. 46). Ainda, essa forma de classificação da natureza da violência exemplificada pelos autores, assim como qualquer outra, é imperfeita, não traduzindo completamente a complexidade do tema. Todavia, “fornece uma estrutura útil para se compreender os complexos padrões de violência que ocorrem no mundo, bem como a violência na vida diária das pessoas, das famílias e das comunidades” (KRUG et al., 2002. In: ASSIS; CONSTANTINO; AVANCI, 2010, p. 43). Devido a sua complexidade, a violência pode estar presente como fator anterior ao fato explícito, como nos trazem os autores Assis e Mariel na definição de violência estrutural: Diz respeito às diferentes formas de manutenção das desigualdades sociais, culturais, de gênero, etárias e étnicas que produzem a miséria, a fome e as várias formas de submissão e exploração de umas pessoas pelas outras. Está diretamente relacionada à situação de exclusão social de parcela significativa da população de países com precário nível de desenvolvimento social e econômico. (In: ASSIS; CONSTANTINO; AVANCI, 2010, p. 49). Violência estrutural A violência estrutural nota-se principalmente na comparação entre a escola pública e privada, onde a primeira carece de estrutura e equipamentos, tornando-se uma reprodutora de desigualdades e evidenciandoa disparidade de oportunidades dadas aos egressos da escola pública, se comparados à escola privada. 170 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências Outra forma de violência apresentada pelos autores Assis e Marriel é a violência institucional: Ocorre dentro das instituições, sobretudo por meio de regras, normas de funcionamento e relações burocráticas e políticas que reproduzem estruturas sociais injustas. A fragilidade de recursos materiais, físicos e humanos, existentes em muitas escolas, e a precária qualidade do ensino público oferecido à população são uma forma de violência institucional existente em muitos países e ocorre no Brasil. (In: ASSIS; CONSTANTINO; AVANCI, 2010, p. 50). Ainda segundo Fernandez (apud In: ASSIS; CONSTANTINO; AVANCI, 2010, p. 52), dentre os fatores que contribuem para a existência de problemas nas relações entre educadores, fragilizando o clima escolar estão: a. divisão dos educadores em grupos rivais; b. falta de consenso sobre estilos de ensino e normas de convivência; c. inconsistência na atuação perante os alunos; d. dificuldades no trabalho em equipe; e. falta de respeito ao valor pessoal de outros professores, falta de apoio aos colegas; f. pouca influência na tomada de decisões; g. falta de envolvimento entre professores e equipe orientadora, e com o projeto educativo da escola; h. sentimento de que está sendo prejudicado pela direção ou por outros colegas com poder dentro da escola. Em vários estudos faz-se referência à violência simbólica, na perspectiva de Bourdieu (apud ASSIS; CONSTANTINO; AVANCI, 2010, p. 50), como a principal violência promovida pela instituição escolar. 171 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas Violência simbólica O Sociólogo francês Pierre Bourdieu, principalmente em sua obra Poder Simbólico, aborda como o poder simbólico se manifesta em nossa sociedade, conforme pontuado por Ristum: Bourdieu considera o campo do poder como um campo de forças definido, em sua estrutura, pelo estado de relação de forças entre formas de poder ou espécies de capital diferentes. Trata-se de um campo em que se processam as lutas pelo poder, envolvendo os detentores de diferentes poderes; trata- se de um espaço de jogo em que agentes e instituições, ao possuírem uma quantidade de capital específico (especialmente econômico ou cultural) suficiente para ocupar posições dominantes no interior de seus respectivos campos, afrontam-se em estratégias destinadas a conservar ou a transformar essa relação de forças. (BOURDIEU, 1989 apud RISTUM. In: ASSIS; CONSTANTINO; AVANCI, 2010, p. 74). De acordo com Bourdieu (1989 apud RISTUM. In: ASSIS; CONSTANTINO; AVANCI, 2010, p. 75), o poder exercido no sistema de ensino é o poder simbólico: “Poder invisível o qual só pode ser exercido com a cumplicidade daqueles que não querem saber que lhe estão sujeitos ou mesmo que o exercem”. A escola, por seu ensino da repetição/memorização, que Paulo Freire já definia como “bancário, onde educador e educandos se arquivam na medida em que, nesta distorcida visão da educação, não há criatividade, não há transformação, não há saber” (FREIRE, 1987, p. 58). Atua como reprodutora das ações sociais, conceito criado por Max Weber, uma das fontes, assim como Marx e Durkheim, que Bourdieu busca para conceituar seu modelo sociológico. A aparente concordância com esse tipo de poder é explicada por meio do conceito de habitus. 172 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências O autor lança mão de um conceito que ajuda a entender o fato de um grupo de pessoas se fechar em torno de um consenso ou de haver concordância por parte de várias pessoas a respeito das normas instituídas pelo poder simbólico: o conceito de habitus. Esse conceito refere-se a um conjunto de padrões de pensamento, comportamento e gosto que relaciona a estrutura com a prática social. (RISTUM In: ASSIS; CONSTANTINO; AVANCI, 2010, p. 75). A escola como instituição do estado, que garante o seu acesso aos jovens, também obriga os responsáveis pelos jovens a mantê-los nessa instituição, atua em sua complexidade “como um campo de dominação e de reprodução dissimulada das desigualdades sociais nas instituições, o que contraria a ideia de igualdade de oportunidades” (RISTUM. In: ASSIS; CONSTANTINO; AVANCI, 2010, p. 76). Essa contradição se amplifica em situações em que a escola abriga estudantes de realidades socioeconômicas diferentes, em que se cria um ambiente de tensão na escola (ALVES. In: MARTINS; MACHADO; FURLANETTO, 2016). Ao estudante são propostas estratégias pedagógicas e avaliativas que não abrangem suas vivências e seu capital cultural, acarretando sua alienação, quando não vê propósito no que é ensinado e se reflete no seu aproveitamento nas avaliações, levando à reprovação e/ou evasão escolar. Nesse contexto, forma-se um ambiente de frustração pelo aluno, que não reconhece a escola pertencente a ele, mas sim como um símbolo da sua “incapacidade”, e então o aluno parte para a representação dessa frustração para a violência em suas diversas formas. Esse sentimento de frustração e inconformidade também atinge os profissionais que atuam na escola, tanto corpo diretivo, quanto professores. 173 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas Em trabalho em que analisa as relações de poder na escola, utilizando as propostas de Weber e Bourdieu, Castro (1998) identifica duas situações que as caracterizam. No cotidiano, predominam as relações de um poder formal e impessoal, próprio das organizações burocráticas, exercido em nome dos órgãos administrativos do sistema. Esse poder é usado como escudo e justificativa para o exercício do poder simbólico pelos dirigentes da instituição: “Os atores se submetem às ordens e exigências de superiores ‘bons’, ‘amigos’ e ‘compreensivos’ que não as impõem por uma vontade própria, mas enquanto ‘arautos’ dos órgãos oficiais – os verdadeiros impositores” [...] nessa ordem hierárquica, as exigências são externas aos atores, vindas de normas regimentais, de leis e ordens dos órgãos administrativos do sistema de ensino. É isto que torna o poder aparentemente impessoal, sugerindo que todos gostariam de colaborar, mas as ordens precisam ser cumpridas. Quantas vezes já ouvimos um diretor dizer que sente muito, mas que, infelizmente, as determinações precisam ser cumpridas, não por exigência dele, mas por exigência da Secretaria ou de qualquer outro órgão hierarquicamente superior? “Além disso, todos estão envolvidos em um processo educativo, em torno do qual há uma mobilização dos atores, em uma prática do poder simbólico, reconhecido, não conhecido como arbitrário, exercido com a conivência de todos”. (CASTRO, 1998, p. 11- 12 apud RISTUM. In: ASSIS; CONSTANTINO; AVANCI, 2010, p. 76). Assis e Marriel (In: ASSIS; CONSTANTINO; AVANCI, 2010), ao abordarem as manifestações da violência na escola, procuram conceituar violência, conflitos e agressividade, pois, muitas vezes, esses são confundidos e combatidos da mesma forma. Para tanto, a escola que trabalhar para eliminar os conflitos estará, de alguma forma, eliminando o caráter democrático, pois a eliminação dos mesmos vai em direção da supressão de formas de pensar diferentes. 174 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências Conflito é um fenômeno social normal e importante que existe em todas as sociedades, sobretudo nas sociedades democráticas. Expressa diferenças nas formas de pensar, sentir e agir dos membros de uma família, de escolas, de gerações opostas, de classes sociais antagônicas ou dos vários segmentos de qualquer grupo social. O conflito quando socialmente aceito e explicitado pelas várias partes em um ambiente passível de escuta ou de negociação é bom e produz mais democracia e cidadania, seja quando leva a consenso, seja quando permite a cada um aprofundarsuas posições. O conflito se transforma em violência quando uma das partes se sente dona da verdade e impõe sua vontade ao outro (indivíduo ou coletividade) por meios autoritários, agressivos ou com armas. (MINAYO, 2009 apud ASSIS; MARRIEL. In: ASSIS; CONSTANTINO; AVANCI, 2010, p. 58). O desafio da comunidade escolar estaria em utilizar a EDH para promover ambientes e situações para prevenir e mitigar os casos em que o conflito se transforme em violência, seja auto infligida ou exercida contra o outro, seja colega ou professor, que leve aos casos de violência a serem combatidos. A violência na escola e suas consequências A violência na escola se apresenta como um grande problema social, e que segundo pesquisas realizadas nos Estados Unidos, reduz a probabilidade de os alunos concluírem os estudos. Utilizando dados de escolas nos Estados Unidos, Grogger (1997) mostrou que a violência reduz a probabilidade de um aluno concluir o ensino médio em 5,1% (high school graduation) e diminui em 6,9% a probabilidade de o aluno ingressar na faculdade. Com dados das escolas no Brasil, Sevenini e Firpo (2009) observaram que a ocorrência de um evento violento adicional em uma dada escola reduz aproximadamente 0,47% a proficiência do aluno. (BECKER; KASSOUF, 2016, p. 654). 175 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas Além da evasão escolar, surgem outros problemas decorrentes, como desemprego ou subemprego, envolvimento em brigas e discussões, entre outros, que podem levar à criminalidade. A evidência disso pode ser encontrada no estudo de Farrington (1990), que, mediante uma amostra de dados longitudinais, analisou a relação entre a agressividade manifestada na infância e os resultados na vida dos homens com 32 anos. O autor observou que 57% dos homens identificados como agressivos em idade entre 8 e 10 anos foram condenados por algum tipo de crime, ao passo que, entre os indivíduos que não apresentaram agressividade na infância, o percentual observado foi de 31%. (BECKER; KASSOUF, 2016, p. 655). Apesar desses fatores, não é tão simples a constatação que jovens que apresentam comportamento violento na escola venham a se tornar no futuro transgressores da lei. Os efeitos podem ser mais diversos, como os apontados por Mendes (2011, p. 582): Uma criança vítima de maus tratos, de forma repetida e regular, pode apresentar sequelas graves, como o desenvolvimento de distúrbios de ansiedade, depressão crônica e até mesmo o suicídio e o homicídio. Quanto mais jovem for o agressor, maior será o risco de apresentar problemas associados a comportamentos antissociais em adultos e à perda de oportunidades, como a instabilidade no trabalho e relacionamentos afetivos pouco duradouros. Portanto, as ocorrências da violência trazem um amplo leque de consequências negativas, que atingem os jovens, vítimas ou agressores, famílias, comunidade escolar, enfim, a sociedade em diversos graus. 176 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências O papel da escola na prevenção da violência A existência da escola, por vezes, pode representar que o direito à educação está garantido pelo Estado, ainda que desse é dever “ensino fundamental, obrigatório e gratuito, inclusive para os que a ele não tiveram acesso na idade própria” (BRASIL, 1990, Art. 54, § I). Mas, como nos alertam Fernandes e Paludeto (2010, p. 238), Assegurar o direito à educação significa não só o acesso e permanência, mas a qualidade do ensino, estruturas escolares adequadas, condições básicas de trabalho aos profissionais da escola, enfim, tornar as leis um fato, ou seja, sair do texto e se direcionar para o contexto. Assim, a escola, ao cumprir o dever da educação do Estado, é entendida como um dos atores a compor a rede de proteção à criança e adolescente, pois grande parte da infância e da adolescência se passam no ambiente escolar. Cabe então à escola compreender que a violência não é um fenômeno externo à escola, mas sim presente dentro e fora de seus muros. A esses somaram-se grades, câmeras e, em algumas escolas, até detectores de metais, que foram as respostas da instituição escolar à violência, o que veio a se explicitar no decorrer da segunda metade do século XX e, a partir dessa compreensão sobre a violência, buscar meios para a sua prevenção e mitigação. (RISTUM In: ASSIS; CONSTANTINO; AVANCI, 2010). Como local privilegiado para a implementação da EDH, a escola deve caminhar para o “Fortalecimento de práticas individuais e sociais que gerem ações e instrumentos em favor da promoção, da proteção e da defesa dos direitos humanos, bem como da reparação das violações.” (FERNANDES; PALUDETO, 2010, on-line). Dessa forma, agindo pela prevenção, por meio da consciência de que todos são portadores de direitos. 177 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas A cultura de paz e Direitos Humanos A construção de uma cultura de paz passa por uma cultura de Direitos Humanos, Direitos Humanos efetivos, difundidos e defendidos por todos em uma sociedade livre, inclusiva, democrática e diversa. Dessa forma, a EDH, como traz o Programa Mundial de Educação em Direitos Humanos (PMDH), contribui também para: a. criar uma cultura universal dos direitos humanos; b. exercitar o respeito, a tolerância, a promoção e a valorização das diversidades (étnico-racial, religiosa, cultural, geracional, territorial, físico-individual, de gênero, de orientação sexual, de nacionalidade, de opção política, dentre outras) e a solidariedade entre povos e nações; c. assegurar a todas as pessoas o acesso à participação efetiva em uma sociedade livre. (UNESCO, 2006, p. 25). O conceito de cultura de paz foi formulado no Congresso Internacional sobre a Paz nas Mentes dos Homens, realizado na Costa do Marfim, em 1989. A iniciativa está relacionada ao contexto da queda do Muro de Berlim e do desaparecimento das tensões relacionadas à Guerra Fria. (UNESCO, 1999). O termo cultura da paz vem sendo usado para descrever um conjunto de valores, atitudes, comportamentos e modos de vida que rejeitam a violência e previnem os conflitos, atacando suas causas para resolver os problemas por meio do diálogo e negociação entre indivíduos, grupos e nações. (NOLETO, 2008). Nesses conjuntos de valores, a contemplação da EDH nas escolas, agindo como formadora de valores de respeito ao outro, e quanto a esses valores: 178 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências E quais seriam estes valores a serem trabalhados nas escolas? A premissa que utilizamos é a da existência de alguns valores definidos como valores universalmente desejáveis. Vivemos hoje numa cultura que almeja a democracia, ou seja, uma ordem social pautada em valores como a justiça, a igualdade, a eqüidade e a participação coletiva na vida pública e política de todos os membros da sociedade, e esses são os valores basais da Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948). Dessa maneira, os princípios presentes na referida Declaração devem ser guias de referência para a elaboração de projetos educativos que objetivem a educação para a cidadania e para a construção de personalidades morais autônomas. (ARAÚJO, 2012, p. 5). No contexto escolar, a construção da cultura de paz está referida no artigo 4° da Declaração e Programa de Ação sobre uma Cultura de Paz, “A educação, em todos os níveis, é um dos meios fundamentais para construir uma Cultura de Paz. Dessa forma, a educação sobre os Direitos Humanos é de particular relevância. (BRASIL, 2002, p. 2). Assim, a escola se mostra lugar privilegiado como incentivador e propagador de práticas que construam essa cultura de paz, estando a compreensão e empatia com o próximo como bases para essa construção, segundo Morin, em sua obra Os sete saberes necessários ao futuro, a educação para a compreensão é tida como fundamental para o desenvolvimentode uma cultura de paz. A educação para a compreensão está ausente do ensino. O planeta necessita em todos os sentidos da compreensão recíproca. O ensino e a aprendizagem da compreensão pedem a reforma das mentalidades. Esta deve ser a obra para a educação do futuro. Daí deriva a necessidade de estudar a incompreensão a partir de suas raízes, suas modalidades e seus efeitos, como por exemplo, as causas do racismo, da xenofobia, do desprezo. O ensino da compreensão será a base para o desenvolvimento de uma educação para a paz. (MORIN, 2001, p. 17). 179 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas Ainda, segundo Noleto (2008), a cultura de paz é uma construção cotidiana e permanente, que requer participação e reconhecimento da diversidade, respeito ao outro e tolerância, buscando reduzir as desigualdades e injustiças sociais, e para tanto a escola pode e deve ser protagonista nessa construção. A proposta de uma nova cultura educacional, que se amplifique em uma nova cultura de paz e tolerância, significa o envolvimento de vários atores, como afirma Mccowan: “a construção de uma cultura de Direitos Humanos implica o envolvimento de todos na aprovação dos direitos. Como afirma Freire (1972 apud MCCOWAN, 2015, p. 37), “os opressores, bem como os oprimidos, necessitam passar pelo processo de humanização”, e que esse envolvimento de todos possa modificar o paradigma atual. O autor ainda reforça que O processo de discussão dos direitos humanos na sala de aula não é significativo apenas à medida que possibilita potencializar a ação política, posteriormente fora da escola, ele é válido em si mesmo, como uma instância de investigação aberta e ética do coletivo. (MCCOWAN, 2015, p. 44). Assim compreendendo que aqueles que se apresentam como violadores dos Direitos Humanos, por vezes sem a consciência disso, também são portadores de direitos, e devem passar pelo processo de educação em e para os Direitos Humanos efetivamente, podendo compreendê-los, vivenciá-los e defendê-los perante a sociedade que almeja a cultura de paz. Considerações finais A violência é um fenômeno complexo e multifacetado, assim como são complexas e variadas as formas de sua prevenção e 180 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências combate. A escola não está alheia a esse fenômeno, sofre violência quando é furtada e depredada, presencia violência quando acontece em suas salas e corredores, com vítimas e agressores entre professores e alunos. Ela também pratica violência de forma estrutural, nos seus métodos de ensino e avaliação não inclusivos a toda a gama de alunos; e ainda, de forma simbólica, quando age como instrumento de reprodução de práticas, métodos e abordagens autoritárias, preconceituosas, que não respeitam a diversidade encontrada no ambiente escolar, e em toda a sociedade. Portanto, entendemos que a escola, por seu caráter educativo e formativo, pode e deve propor ações através da EDH que levem à construção de uma sociedade mais tolerante, que saiba lidar com a diversidade de uma maneira não violenta, mas sim inclusiva e acolhedora a todos da comunidade escolar, que utilize os seus conflitos para promover debates e deliberações de forma democrática, respeitando a diversidade e, assim, contribuindo para a construção de uma cultura de Direitos Humanos e, consequentemente, de Paz. Referências ARAÚJO, Ulisses F. A construção da cidadania e das relações democráticas no cotidiano escolar. 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Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas PLANO NACIONAL DE EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS: PRÁXIS PEDAGÓGICAS COMO ALTERNATIVA NO COMBATE À VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER Renan Raimundo Torma 31 Introdução A Declaração Universal dos Direitos Humanos é um dos principais documentos que norteia os estados na construção de políticas públicas que visam à cooperação entre os seres, na busca por uma sociedade mais fraterna e justa, em que todas e todos, independentemente de suas individualidades, possam desfrutar de seus direitos na busca de uma vida digna. No Brasil, entre as políticas de promoção dos Direitos Humanos, podemos destacar o Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos (PNEDH). Esse plano ressalta a importância da educação na construção de uma sociedade mais justa e também possibilita a inserção de práxis na promoção dos Direitos Humanos. Em nosso país, diariamente, direitos fundamentais são violados e alguns grupos sofrem mais com a violação de seus 31 Especialista em Educação em Direitos Humanos (FURG) e licenciado em Geografia (ULBRA). E-mail: renanrrt@gmail.com. 184 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências direitos, como é caso das mulheres. Mulheres são violentadas diariamente e muitas dessas agressões são frutos da sociedade patriarcal na qual estamos inseridos. Entendendo que as mulheres estão mais vulneráveis a violências diárias, foram desenvolvidas práxis pedagógicas, aplicadas como projeto de pesquisa, que buscavam promover a informação sobre situações que precisam de um olhar atento por parte da sociedade. Este projeto pedagógico buscou a promoção dos Direitos Humanos em Presidente Lucena/RS. Ele foi desenvolvido com um grupo de alunos e alunas de uma escola pública do município. Através do projeto, foi possível compreender como a população reproduz ações que contribuem para que mulheres sejam violentadas diariamente, mostrando que a busca por igualdade de gênero faz-se necessária. Tendo o projeto como amostra podemos entender a importância da escola e de práxis pedagógicas efetivas na busca por uma sociedade mais justa para todas(os). Os Direitos Humanos numa perspectiva frente à violência contra a mulher Segundo a Organização das Nações Unidas, o conceito de Direitos Humanos “[...] reconhece que cada ser humano pode desfrutar de seus direitos humanos sem distinção de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião política ou de outro tipo, origem social ou nacional, ou condição de nascimento ou riqueza” (ONU, 1948). Direitos esses que são garantidos pela lei de Direitos Humanos, que protegem os seres humanos contra ações que interferem na dignidade humana. 185 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas A Declaração Universal dos Direitos Humanos, criada em 1948 pela ONU, prevê trinta artigos que buscam promover o respeito aos direitos fundamentais dos seres humanos, visando a uma vida digna e justa a todos. Já o primeiro artigo da Declaração Internacional dos Direitos Humanos (1948) destaca que “todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade”. Sendo assim, somos todos iguais em dignidade e direitos, sem distinções por nossas individualidades, devendo sempre agir com respeito mútuo e sem agredir e violentar outros humanos. Violência, que segundo Santos (1995), é caracterizada pelo uso real ou virtual da coerção, impedindo o reconhecimento do outro, mediante o uso da força ou da repressão, assim provocando algum tipo de dano. Quando falamos em violência de gênero, tal termo está diretamente ligado à relação de poder do homem e, consequentemente, submissão da mulher, que se consolidaram ao longo da construção da nossa sociedade, tida essa como patriarcal. Saffioti (2004) afirma que patriarcado se trata do poder político do homem, podendo variar a escala, mas sempre predominando a dominação e exploração sobre as mulheres. Porém, a propagação do patriarcado é reproduzida por diversas classes. Muitas vezes, as mulheres também contribuem para a perpetuação da sociedade patriarcal. Assim pode-se reiterar: O conceito de patriarcado nas análises teóricas das ciências sociais: uma contribuição feminista quase automática, pois pode ser acionada por qualquer um, inclusive por mulheres. [...] Aliás, imbuídas da ideologia que dá cobertura ao patriarcado, as mulheres desempenham com maior ou menor frequência e com mais ou menos rudeza as funções do patriarca, 186 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências disciplinando filhos e outras crianças e adolescentes, segundo a lei do pai. Ainda que não sejam cúmplices deste regime, colaboram para alimentá-lo. (SAFFIOTI, 2004, p. 101). Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (2017), em 2016, 135 mulheres foram estupradas por dia e, naquele ano, 533 foram vítimas de feminicídio. Assim, entende-se que essa continuidade do patriarcalismo é fundamental para a construção do grande número de violência contra a mulher no Brasil. No Brasil, apenas em sete de agosto de 2006 foi sancionada a Lei nº 11.340, com o objetivo de proteger as mulheres das diferentes formas de violência a que estão expostas. Conhecida como Lei Maria da Penha, essa lei cria mecanismos para coibir e prevenir a violência doméstica e familiar contra a mulher e tipifica cinco tipos de agressão: física, psicológica, sexual, moral e patrimonial. (BRASIL, 2006). A lei não revelou apenas a necessidade de punir os agressores, mas de debater com toda a sociedade, levantar questões, definir o que é violência, no sentido mais amplo do termo. Assim, a luta é contínua e os desafios da referida Lei estão apenas engatinhando. (ALVES; OLIVEIRA, 2017). Sendo essa lei tão recente, é de se entender que o acesso a ela não chegou a todos. Pompeo (2016) traz que o não reconhecimento de certas atitudes como violadoras e o medo das mulheres não serem culpabilizadas pelas atitudes dos agressores vela o número de casos de violência contra a mulher. Por isso a importância do constante debate sobre o assunto. Essa falta de informação e o não entendimento desses tipos de violência é fundamental para que ocorra a perpetuação de tantos números de feminicídios no Brasil. 187 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas Plano Nacional de Educação dm Direitos Humanos: um marco legal na promoção dos Direitos Humanos e a busca pela igualdade de gênero na escola O Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos (PNEDH), publicado em 2003, faz do Brasil um Estado que busca a promoção do desenvolvimento da personalidade e dignidade humana em âmbito escolar. Esse plano tem como objetivo fortalecer o respeito aos Direitos Humanos, fomentar o entendimento às minorias, fortalecer a democracia e o estado de direito, além de promover e manter a paz. A escola é uma importante instituição na promoção dos Direitos Humanos, pois é nela que muitos constroem suas percepções sociais e críticas da sociedade. E para que isso ocorra, o Estado precisa se fazer presente, principalmente encontrando ações que visem o respeito mútuo entre os seres humanos. O Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos prevê isso.Nesse documento também constam várias ações pragmáticas, como: fomentar a inclusão, no currículo escolar, das temáticas relativas a gênero, identidade de gênero, raça e etnia, religião, orientação sexual, pessoas com deficiências, entre outros, bem como todas as formas de discriminação e violações de direitos, assegurando a formação continuada dos(as) trabalhadores(as) da educação para lidar criticamente com esses temas. (BRASIL, 2007). Desse modo, professores e professoras do Brasil devem incluir a temática de Direitos Humanos entre seus conteúdos pragmáticos, utilizando suas aulas e práxis pedagógicas como promotoras de Direitos humanos. Abordagens relacionadas à promoção de Direitos 188 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências Humanos devem ser trabalhadas transversalmente dentro das disciplinas. A Educação em Direitos Humanos não se trata de apenas um discurso, é preciso compreender que cabe a(o) docente fazer a aplicação efetiva de práxis envolvendo as(os) discentes, para que consigam se entender dentro das dinâmicas sociais. a Educação em Direitos Humanos não é a construção de um discurso externo ou a apreensão de mais um conteúdo estanque no repertório dos muitos que estão disponíveis ou são disponibilizados. A Educação em Direitos Humanos ou toma os sujeitos implicados no processo desde dentro e os põe dentro das dinâmicas que abre, ou resta inviabilizada por não atingir sua finalidade básica, que é exatamente a de abrir-se para os sujeitos pluridimensionais que estão em interação. Um exemplo talvez ajude a ilustrar: um estudo sobre violência contra a mulher não é apenas a identificação de uma situação estatística ou cientificamente descrita e catalogada; faz da mulher concreta, aquela que é vítima da violência, um sujeito presente no intervalo da relação educativa – não é apenas um sujeito abstrato ou objeto de estudo. (CARBONARI, 2007). Além do Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos – PNEDH (2003), a Constituição Federal reafirma o compromisso do Estado com os Direitos Humanos ao trazer que “todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza [...] nos termos seguintes: [...] I - homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações.” (BRASIL, 1988). Precisamos refletir sobre como é a realidade no mundo e especialmente no nosso país. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2018, mostram que as mulheres no Brasil ganham em média 79,5 % do salário dos homens. (PERET, 2018). Essa mesma pesquisa mostra também que as mulheres ocupam menos cargos de gerentes e diretores, apenas 41,8 % desses cargos. Já em relação a trabalhadores de serviços 189 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas domésticos em geral, as mulheres correspondem a 95 % de toda a força de trabalho. A CF88 ressalta ainda, no art. 7º, incisos XXX e XXXI, que é vedada a diferença de salários, de exercício de funções, ou de critério de admissão por motivo de gênero, idade, cor, estado civil ou deficiência. O PNEDH possibilita que todas(os) as(os) docentes do Brasil apliquem conteúdos pragmáticos voltados aos Direitos Humanos, entre esses conteúdos precisamos reafirmar a busca pela igualdade de gênero e a desconstrução de uma sociedade machista. Mostrando a todas(os) as(os) alunas(os) que é possível combater os malefícios sociais que estão tão enraizados. Projeto “Os assustadores números de violência contra a mulher em Presidente Lucena: o combate através da informação” A pesquisa conscientizante é uma metodologia que possibilita a aplicação dos Direitos Humanos dentro da sala de aula. Segundo Adnilson José da Silva e Darlan Faccin Weide (2014), essa é uma linha de investigação em que os resultados da pesquisa não são reservados a quem os detêm, os resultados devem ser difundidos com a sociedade. Andreola (1993) destaca que através de situações concretas é possível trazer reflexões ao povo e organizar ações políticas. O problema, além de uma resposta intelectual, exige ações e busca por mudança. Ao incluirmos as(os) alunas(os) nessa realidade problematizadora, é possível auxiliar no processo construtivo de seres humanos que buscam construir uma sociedade mais justa e igualitária. 190 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências Somente quando os oprimidos descobrem, nitidamente, o opressor, e se engajam na luta organizada por sua libertação, começam a crer em si mesmos, superando, assim, sua ‘conivência’ com o regime opressor. Se essa descoberta não pode ser feita em nível puramente intelectual, mas da ação, o que nos parece fundamental é que essa não se cinja a mero ativismo, mas esteja associada a sério empenho de reflexão, para que seja práxis. (FREIRE, 2018). Por essa linha teórica, que entende que as(os) alunas(os) são protagonistas no processo de ensino-aprendizagem e que o povo deve ser agente transformador, foi elaborado um projeto que buscava entender o quanto a população do munícipio de Presidente Lucena/RS conhece os diferentes tipos de violência contra a mulher e o quanto isso pode contribuir para os assustadores números de violência contra a mulher. Entendendo que a violência contra a mulher é um tema que vem cada vez mais sendo abordado nos veículos de comunicação brasileiros e que a notória busca da sociedade em abrir os olhos para essas questões sociais que estão enraizadas e naturalizadas no nosso cotidiano, o projeto também buscava informar o maior número de pessoas sobre os diferentes tipos de violência contra a mulher, conscientizar a população o quanto isto está presente na realidade do município e principalmente tornar as(os) alunas(os) pessoas críticas, com uma consciência social sobre o tema abordado. Metodologia e aplicação do projeto O projeto denominado “Os assustadores números de violência contra a mulher em Presidente Lucena: o combate através da informação” foi elaborado e aplicado em algumas etapas, que serão discorridas a seguir: 191 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas A primeira etapa do projeto foi uma aprofundada pesquisa bibliográfica, em que foram compreendidos os tipos de violência contra a mulher, bem como leis de proteção à mulher e estatísticas de violência de gênero. Nesse momento, as(os) alunas(os), com o auxílio do professor, realizaram diversas leituras individuais e em grupo, assistiram filmes, trouxeram experiências para debate a fim de ter propriedade para debater sobre o assunto. A segunda etapa consistia na elaboração dos questionários que futuramente seriam aplicados na comunidade do município, na produção do material para a apresentação à população e na organização e ensaios para o momento da aplicação dos questionários. Esse foi um momento de grande cuidado, pois seria quando o grupo de alunas e alunos conseguiria os dados que contribuiriam para a continuação da pesquisa. Já na terceira etapa do projeto aconteceria a aplicação dos questionários em homens e mulheres de Presidente Lucena. No dia seis de maio de 2018 ocorreu um evento na Escola Estadual de Ensino Médio Guilherme Exner, onde foi possível reunir um grande número de habitantes da população do município de Presidente Lucena. Alunos e alunas entregaram questionários à população presente e, de forma individual e anônima, as pessoas respondiam. A pesquisa foi realizada da seguinte forma: foi pedido para que todas as mulheres maiores de 18 anos se dirigissem a uma sala, onde todas juntas participariam da pesquisa. O primeiro questionário continha as seguintes perguntas: “1. Você já foi violentada por algum homem?”. As opções para resposta eram “sim” ou “não”; “2. Quantas vezes isso aconteceu?”. As opções de respostas para esta pergunta eram: nenhuma, 1 vez, 2 vezes, 3 vezes, 4 vezes e mais de 4 vezes; “3. O que você fez após ser violentada?”. Para esta pergunta,as opções de respostas eram: nada, procurou ajuda familiar, procurou uma 192 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências delegacia da mulher e outra; “4. Quem foi o agressor?”. Nessa pergunta havia possibilidades de resposta: companheiro, ex- companheiro, desconhecido, outra pessoa. Após esse momento, as alunas e alunos recolheram os questionários que já haviam sido respondidos. As entrevistadas colocavam suas respostas em uma urna lacrada. Depois do recolhimento dos questionários, as alunas e alunos explicaram os cinco tipos de violência contra a mulher segundo à Lei nº 11.340, de sete de agosto de 2006. Além da explicação dos tipos de violência as(os) alunas(os) trouxeram também alguns dados sobre violência contra a mulher no Brasil, mostrando de que maneira isso se faz presente no nosso dia a dia e como isso contribui para a perpetuação do patriarcado na sociedade. Ao término das explicações, as alunas e alunos aplicaram novamente o mesmo questionário – também de forma anônima, na mesma dinâmica anterior, porém agregando uma pergunta ao questionário aplicado. A pergunta adicionada ao novo questionário era: “Que tipo de violência sofreu?”. Para essa pergunta havia os cinco tipos de violência como opção: física, sexual patrimonial, psicológica e moral. Os questionários foram novamente recolhidos e as mulheres então saíram da sala para que agora os homens presentes participassem da pesquisa. Os homens maiores de 18 anos presentes se dirigiram à sala para que a pesquisa fosse aplicada. Aos homens a dinâmica da aplicação dos questionários foi a mesma das mulheres. No primeiro momento eles responderam a um questionário que continha apenas uma pergunta. A pergunta aplicada foi a seguinte: “Você já violentou alguma mulher?”. As opções para resposta eram “sim” ou “não”. 193 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas Após responderem essa pergunta, as alunas e alunos fizeram a mesma apresentação que haviam feito para as mulheres e então passaram um novo questionário. Esse questionário a ser aplicado possuía duas perguntas: “1. Você já violentou alguma mulher?”. As opções para resposta eram “sim” ou “não”; “2. Se sim, que violência praticou?”. Para essa pergunta havia os cinco tipos de violência como opção: física, sexual, patrimonial, psicológica e moral. As alunas e alunos então recolheram a nova pesquisa, em que os homens depositavam suas respostas de forma anônima em uma urna lacrada. Assim então se finalizava a coleta dos dados da pesquisa. A quarta etapa da pesquisa consistiu na tabulação dos dados coletados e elaboração de gráficos. Na aula seguinte à aplicação dos questionários foram abertas as urnas que continham os questionários aplicados. O professor e alunas(os) iniciaram a contagem dos dados coletados. Incialmente foram contabilizados os dados e após isso os dados foram transformados em porcentagem para finalmente transformar os resultados da pesquisa em gráficos. Nesse momento foi possível trabalhar de forma transdisciplinar com a disciplina de matemática. A quinta etapa do projeto e uma das mais importantes foi um momento de reflexão. O que poderia ser feito após uma de nossas hipóteses da pesquisa se concretizar? Nesse momento, o grupo envolvido na pesquisa optou por fazer campanhas de conscientização sobre o tema na escola e mostrar os resultados da pesquisa para os órgãos públicos, para que, conjuntamente, pudessem criar políticas públicas, visando a um entendimento maior da população do município sobre o assunto da pesquisa. Após conversa em reunião com Secretaria da Saúde e Secretaria da Educação do município, foi traçada então a sexta etapa 194 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências do projeto, que consistiria na aplicação de políticas públicas de prevenção e conscientização da população. Entre as perspectivas estavam explanação dos dados da pesquisa, palestras de conscientização com adolescentes, adultos e idosos. Além disso também seria elaborado um panfleto a ser distribuído para a população do município. Todas as ações foram elaboradas e aplicadas pelo grupo de alunas(os), com a orientação do professor. Resultados e Discussão Ao tabular os dados foi constatado que quase 40 % das mulheres entrevistadas já havia sofrido algum tipo de agressão. A maioria delas sofreu violência psicológica e moral, também houve casos de violência física, sexual e patrimonial. Comparado ao primeiro questionário, o número de mulheres que responderam que foram agredidas subiu mais de 30 %. Outro dado alarmante foi que 32 % das mulheres admitiram terem sido violentadas mais de quatro vezes. Assim como com as mulheres, com os homens também houve uma diferença do primeiro para o segundo questionário, essa em menor dimensão. Concretizando-se o que se tinha como hipótese: a população lucenense não reconhece todos os tipos de violência contra a mulher. Resultados dos questionários aplicados às mulheres: 195 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas Gráfico 1 – Percentual de mulheres violentadas por algum homem Fonte: elaborado pelo autor (2020). Gráfico 2 – Percentual de vezes que as mulheres entrevistadas foram violentadas Fonte: elaborado pelo autor (2020). 0 20 40 60 80 100 Nenhuma Uma Mais de 4 P e rc e n tu a l d e m u lh e re s Respostas das mulheres Quantas vezes foi violentada por um homem Questionário 1 Questionário 2 0 20 40 60 80 100 Sim Não P e rc e n tu a l d e m u lh e re s Respostas das mulheres Já foi violentada por algum homem: Questionário 1 Questionário 2 196 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências Gráfico 3 – Quem foi o agressor Fonte: elaborado pelo autor (2020). Gráfico 4 – O que foi feito após sofrer a violência Fonte: elaborado pelo autor (2020). 0 20 40 60 80 100 Nada Procurou ajuda familiar Procurou uma delegacia da mulher P e rc e n tu a l d e m u lh e re s Respostas das mulheres O que foi feito após sofrer a violência: Questionário 1 Questionário 2 0 10 20 30 40 50 60 Companheiro Ex companheiro Desconhecido Outros P e rc e n tu a l d e m u lh e re s Respostas das mulheres Quem foi o agressor: Questionário 1 Questionário 2 197 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas Gráfico 5 – Que tipo de violência as mulheres entrevistadas sofreram Fonte: elaborado pelo autor (2020). Resultado dos questionários aplicados aos homens: Gráfico 6 – Percentual de homens entrevistados que já violentou alguma mulher Fonte: elaborado pelo autor (2020). 0 10 20 30 40 Psicológica Moral Física Sexual PatrimonialP e rc e n tu a l d e m u lh e re s Tipos de violência Que tipo de violência as mulheres violentadas sofreram: 0 20 40 60 80 100 Não SimP e rc e n tu a l d e h o m e n s Respostas dos homens Já violentou alguma mulher: Questionário 1 Questionário 2 198 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências Gráfico 7 – Violências cometidas pelos homens entrevistados Fonte: elaborado pelo autor (2020). Compreendendo a diferença de respostas do primeiro para o segundo questionário e as questões que se acercam do assunto, foram elaboradas diversas políticas para informação e conscientização da população do município, políticas essas aplicadas no decorrer do ano de 2018. Visto que em 2018 foram feitas diversas campanhas de conscientização e esclarecimento sobre o tema, buscou-se compreender se tudo o que fora feito surtiu algum efeito na população. Para isso, foi aplicado um novo questionário, em maio de 2019. Esse questionário foi aplicado de forma anônima, em que as(os) estudantes fizeram a entrega dos questionários e a população presente deveria responder a três perguntas. Essas perguntas deveriam ser respondidasde forma dissertativa. As questões do questionário eram as seguintes: 1. “Quais tipos de violência contra a mulher você conhece ou já ouviu falar? Como ela pode ser caracterizada?”; 2. “Você acha que existe algum tipo de justificativa 0 20 40 60 Moral Patrimonial P e rc e n tu a l d e h o m e m Repostas dos homens Que tipo de violência foi cometida: 199 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas para as violências cometidas contra as mulheres?”; e 3. “O que você acha das mulheres que têm atitudes tidas por alguns como ‘inadequadas’ (usam roupas curtas, ficam com várias pessoas, dançam funk etc.)?”. As respostas vindas dos questionários foram bastante reveladoras. Hoje, boa parte da população do município já reconhece os tipos de violência contra a mulher. Todos os tipos de violência foram citadas e muitos dos entrevistados e entrevistadas conseguiram caracterizá-las corretamente. Boa parte da população expressou que a mulher não é a culpada pelos atos de violência cometidas contra elas, entendendo que o agressor é o responsável por tal fatalidade. Embora tenham havido algumas respostas machistas, de forma velada, quase unanimemente a população já está consciente das diferentes formas de agressão e entendendo que todos têm o direito de ser, vestir-se e agir da forma que quiserem, isso não sendo motivo para serem julgadas ou agredidas. Conclusão Ao término do projeto foi possível constatar que, de fato, a população não reconhecia os diferentes tipos de violência contra a mulher. A desinformação, que é resultado da falta de ações por parte do poder público, demonstra que o patriarcado presente em nossa sociedade faz com que os habituais casos de violência contra a mulher acabem sendo tidos como “normais”, não compreendendo que a violência vai além da agressão física. Por isso é de extrema importância que sejam feitas ações para informar a população sobre a construção da sociedade machista na qual estamos inseridos, mostrando os diferentes tipos de violência e 200 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências salientando a importância de se eliminar atitudes tomadas diariamente, que acabam perpetuando o patriarcado. Com essas atitudes construiremos uma sociedade mais consciente, empática e com uma visão mais abrangente sobre a construção histórica que moldou nossa sociedade, assim desmontando o patriarcado e, consequentemente, diminuindo os casos de violência contra as mulheres. Assim, pode-se entender que o Estado é o principal responsável pela não aplicação do Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos. E isso acontece pela falta de suporte que nossos governantes dão para a aplicação eficaz desse plano. Sabe-se que essa falta de suporte por parte do Estado é uma questão histórica e que por muitos séculos a educação em nosso país nunca foi prioridade. O Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos é fundamental para que a escola consiga trabalhar assuntos pertinentes aos Direitos Humanos. As estatísticas de violência contra a mulher são alarmantes. Estamos presentes em uma sociedade com hábitos machistas, que são tidos como comuns. As práxis que trazem esse assunto para a sala de aula podem trazer resultados significativos para todos e todas que direta ou indiretamente estão envolvidos na aplicação e desenvolvimento dessas práxis. Todos saem ganhando, professores(as), sociedade e principalmente as(os) discentes. O projeto realizado nesses últimos anos me ajudou muito. Durante a realização pude abrir meus olhos para questões que antes eu considerava algo ‘normal’ ou que deixava passar despercebido. Tive uma ampla visão do que realmente é o feminismo (que é bem diferente do que muitas pessoas pensam). Tive diversos estudos sobre o tema violência contra a mulher, tendo assim um bom domínio para falar sobre o 201 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas assunto. O projeto me ajudou a abrir os olhos para questões do cotidiano que são totalmente erradas, essas situações acontecem com tanta frequência que nem víamos como algo errado. Trabalhar isso na sala de aula ajudou-me a ver isso, ajudou-me a perceber que como mulher eu estou no meu direito de não aceitar algo que me incomoda e, se achar necessário, reclamar, ou até mesmo ajudar outra mulher que esteja passando por momento de incômodo. O projeto fez de mim orgulhosamente uma pessoa feminista, que busca direitos iguais para as mulheres e que tem orgulho de falar sobre o assunto. Como o professor dizia, é um ‘trabalho de formiguinha’, mas seguimos na luta por um mundo melhor. (N. Y. R., aluna integrante do projeto). Referências ALVES, A. A.; OLIVEIRA M. T. Lei Maria da Penha e o enfrentamento à violênci a contra a mulher. In: NETO, C. A.; MARQUES, D. de O. (org.). Leituras de Direito: violência doméstica e familiar contra a mulher. Natal: Fórum nacional de juízes de violência doméstica e familiar contra a mulher, 2017. Disponível em: https://www.amb.com.br/fonavid/files/livro-fonavid.pdf. Acesso em: 17 mar. 2021. ANDREOLA, B. A. O processo de conhecimento em Paulo Freire. Educação e Realidade, Porto Alegre, v. 18, n. 1, p. 32-42, jan./jun. 1993. BRASIL. Comitê Nacional de Educação em Direitos Humanos. Plano nacional de Educação em Direitos Humanos: 2007 . Brasília, DF: Secretaria Especial dos Direitos Humanos, 2007. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/docman/2191-plano-nacional-pdf/. Acesso em: 16 mar. 2021. BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 . Brasília, DF: Presidência da República, 1988. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm . Acesso em: 16 mar. 2021. BRASIL. Lei nº 11.340, de 7 de agosto de 2006 . Cria mecanismos para coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher, nos termos do § 8º do art. 226 da Constituição Federal, da convenção sobre a eliminação de todas as formas de discriminação contra as mulheres e da convenção interamericana para prevenir, punir e erradicar a violência contra a mulher; dispõe sobre a criação dos juizados de violência doméstica e familiar contra a mulher; altera o Código de Processo Penal, o Código Penal e a Lei de Execução Penal; e dá outras providências. Brasília, DF: Presidência da República, 2006. https://www.amb.com.br/fonavid/files/livro-fonavid.pdf http://portal.mec.gov.br/docman/2191-plano-nacional-pdf/ http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm 202 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2004-2006/2006/Lei/L11340.htm. Acesso em: 16 mar. 2021. CARBONARI, P. Sujeito de Direitos Humanos: questões abertas e em construção. In: GODOY, R. et al. Educação em Direitos Humanos: fundamentos teórico-metodológicos. Brasília, DF: SEDH; UFPB, 2007. FREIRE, P. Pedagogia do oprimido. 66. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2018. ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS – ONU. Declaração Universal dos Direitos Humanos. Adotada e proclamada pela resolução 217 A (III) da Assembleia Geral das Nações Unidas em 10 de dezembro de 1948. Paris, 1948. In: UNICEF Brasil. Brasília, DF, 2021. 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Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS, BASE NACIONAL COMUM CURRICULAR E ENSINO REMOTO: APROXIMAÇÕES E DESAFIOS Andressa Marques da Silva 32 Camila Botelho Schuck 33 Introdução Os Direitos Humanos foram consolidados no Brasil como garantias fundamentais presentes no artigo 5º da Constituição Federal de 1988. Esses direitos fundamentais estão estruturados de modo a garantir o respeito aos direitos individuais, civis, políticos e sociais, balizados pelo respeito à vida, igualdade, liberdade, segurança e propriedade. Tais pressupostos dos Direitos Humanos estão referenciados na Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH), que foi proclamada pela Assembleia geral da Organização das Nações Unidas (ONU), no ano de 1948, e cujo objetivo é promover os Direitos Humanos em todos os povos e todas as nações, desenvolvendo o respeito desses direitos e liberdades (ONU, 1948, p. 2). 32 Especialista em Educação em Direitos Humanos (FURG). Doutoranda em Ciências do Movimento Humano (UFRGS). E-mail: dessa.marqs@gmail.com. 33 Doutoranda em Ciências Sociais (Unisinos); mestre em Sociologia (UFPel). Professora tutora na especialização em Educação em Direitos Humanos (FURG). E-mail: camila.seer@gmail.com. 204 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências A DUDH inspirou transformações nas normativas dos Estados membros das Nações Unidas e provocou esforços dos governos em promover os Direitos Humanos, valendo-se dos princípios da democracia, dignidade humana, cidadania, justiça social e promoção de uma cultura de paz. No contexto educacional, os documentos normativos brasileiros sobre Direitos humanos, a saber: Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos (2007) e Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH-3) (2010), revelaram a preocupação em estabelecer ações para incluir de modo efetivo a Educação em Direitos Humanos (EDH) na educação básica, no sentido de colaborar com a propagação e fortalecimento desta temática na sociedade. Afinada ao propósito supracitado, implantou-se recentemente a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) como uma política curricular do governo federal, focada em uniformizar o ensino do país, garantindo uma formação comum aos estudantes brasileiros. A BNCC propõe que a EDH seja incorporada aos currículos das instituições de ensino. O ano de 2020, em todo território brasileiro, iniciou com esforços para consagrar a implementação da BNCC e, consequentemente reorganizar os Currículos Estaduais, Municipais e os Projetos Políticos Pedagógicos das Instituições de Ensino. No entanto, a partir do momento em que o surto de coronavírus, causador da doença Covid-19, inicialmente identificada na China, começou a se espalhar para outros países, a Organização Mundial de Saúde (OMS) definiu o alerta da situação como pandemia (ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DA SAÚDE, 2020) e, em seguida houve a suspensão das aulas em todas as etapas da educação básica. 205 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas Neste cenário pandêmico, no contexto da Secretaria de Educação de Novo Hamburgo, foi implementado o ensino remoto a partir de agosto de 2020. Entre as demais orientações da Secretaria do Município está a necessidade dos professores ampararem suas aulas do ensino remoto no documento “Marcos de aprendizagem” (NOVO HAMBURGO, 2020a), que é um compilado das expectativas de aprendizagem previstas na BNCC. Assim, os professores, dispondo de seus equipamentos e serviços de uso pessoal, como computadores, notebooks, celulares e planos de internet, começaram a enviar aulas e fazer atendimentos aos alunos e familiares via Google Sala de Aula, Whatsapp e/ou outros meios de comunicação, além de enviar trabalhos para serem retirados na escola, para os alunos que não possuem acesso à rede. A partir da minha inserção como professora e pesquisadora neste contexto, percebo, assim como Letícia Vieira e Maike Ricci (2020. p. 4), que a pandemia trouxe à tona “a necessidade de formação docente para este “reinventar da escola”. A exigência de ter que readequar o planejamento pedagógico à BNCC e ainda adaptar essas habilidades e objetos de conhecimento para aulas remotas com uso de tecnologias é desafiador e, de certo modo, promove o arrefecimento da EDH do currículo escolar. Desse modo, é válido salientar a fala da professora Cleuza Repulho em um webinar sobre Covid e BNCC (abril de 2020), no qual enfatiza que mesmo em tempos de pandemia “a BNCC não é sobre que conteúdo precisa saber. É sobre o ser humano que queremos formar.” (REPULHO, 2020). Por isso, o objetivo deste trabalho é compreender de que modo a EDH vem sendo incluída na prática pedagógica do corpo docente de uma escola de ensino fundamental do município de Novo Hamburgo/RS, bem como promover reflexões sobre o tema, 206 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências auxiliando na adequação das práticas pedagógicas aos novos pressupostos da Educação Nacional e às novas demandas do ensino remoto. A partir de uma pesquisa-ação pretendeu-se conscientizar/sensibilizar as professoras da referida escola, a partir de espaços de debate e reflexão sobre a articulação da EDH com a BNCC, planejamento e prática pedagógica. Portanto, na primeira parte deste trabalho faremos uma abordagem sobre a EDH de um modo geral, na segunda apresentaremos algumas aproximações entre a BNCC e a EDH, na terceira, trataremos dos aportes metodológicos e, na quarta, dos resultados obtidos com esta investigação. Por que falar de Educação em Direitos Humanos? O surgimento da Declaração Universal dos Direitos Humanos, em 1948, serviu de base para consagrar os Direitos Humanos no Brasil, incluindo na CF/88, os direitos e garantias fundamentais, e dispondo sobre os direitos e deveres individuais e coletivos. Esse cenário evoca a noção de República e garante que todo povo tenha participação civil, política e social, preocupando-setambém com as condições dessa participação, tendo em vista que a sociedade foi construída em condições desiguais. Nesse contexto, segundo Hannah Arendt (1972), a cidadania é o direito a ter direitos, pois a igualdade em dignidade e direitos dos seres humanos não é um dado e sim uma construção coletiva. Sendo assim, é a partir da DUDH que a cidadania passou a ser uma preocupação internacional, pois a ONU definiu um sistema global de proteção que abarca os três tipos de cidadania: a cívica, a política e a social. 207 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas (i) “cidadania cívica” (reconhecimento de direitos civis dos cidadãos como liberdade de pensamento e de expressão, proteção contra qualquer forma de discriminação e respeito pela lei); (ii) “cidadania política” (direito dos cidadãos intervirem na sociedade civil e na política, nos regimes democráticos); e (iii) “cidadania social” (reconhecimento dos direitos de todos os cidadãos a alcançarem um nível de vida digno e adequado ao contexto em que se inserem). (MARTINS, 2011, p. 2). A cidadania pressupõe a participação dos cidadãos na sociedade, além da possibilidade de exercerem o sufrágio universal. Nesse sentido, entende-se que é responsabilidade dos sujeitos sociais atuar ativamente no mundo, provocando transformações e melhorias na sociedade. Para promover essa “cidadania ativa”, faz- se necessário uma educação pautada na promoção da democracia, que conforme Martins (2011, p. 3), está vinculada a uma cultura de paz, justiça social, formação cívica e pluralismo para recriar, permanentemente, o conceito de democracia. É justamente neste contexto, de promoção da cidadania e da participação democrática, que se estabelece o papel da EDH. Partindo desse entendimento, a educação é o meio facilitador para promover um significativo avanço na efetivação dos Direitos Humanos, sendo a escola esse lugar capaz de propiciar aos discentes a capacidade de analisar, refletir e transformar a sociedade. A BNCC e a Educação em Direitos Humanos: aproximações e desafios A partir do momento em que a educação é vista como aporte para a construção de uma cultura de respeito aos Direitos Humanos e à dignidade humana, torna-se importante perceber o currículo como o espaço onde ocorrerão essas implicações. No contexto brasileiro, 208 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências a educação está em processo de implementação de políticas curriculares. A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) é uma proposta em âmbito federal, que tem por objetivo fixar conteúdos mínimos para a educação básica, garantindo uma formação comum a todos os sistemas de ensino do país. Tal proposição vem a colocar em prática os marcos legais sobre a educação, que residem na Constituição Federal (BRASIL, 1988), na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN) (BRASIL, 1996) e no Plano Nacional de Educação (PNE) (BRASIL, 2014). O artigo 210 da Constituição Federal explicita que “serão fixados conteúdos mínimos para o ensino fundamental, de maneira a assegurar formação básica comum e respeito aos valores culturais e artísticos, nacionais e regionais” (BRASIL, 1988). Nessa mesma direção a LDBEN, desde sua promulgação, defende que “os currículos da educação infantil, do ensino fundamental e do ensino médio devem ter base nacional comum, a ser complementada em cada sistema de ensino e em cada estabelecimento escolar, por uma parte diversificada [...]”. (BRASIL, 1996). Em consonância com as normativas supracitadas, o Plano Nacional de Educação, com intuito de “assegurar a manutenção e desenvolvimento do ensino em seus diversos níveis, etapas e modalidades” 34 (BRASIL, 1988) trouxe, a partir da meta número sete, a incumbência de fomentar a qualidade da educação, utilizando como uma das estratégias o estabelecimento de: diretrizes pedagógicas para a educação básica e a base nacional comum dos currículos, com direitos e objetivos de aprendizagem e desenvolvimento dos(as) alunos(as) para 34 Redação dada pelo artigo 214 da Constituição Federal. 209 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas cada ano do ensino fundamental e médio, respeitada a diversidade regional, estadual e local. (BRASIL, 2014). A partir dessa política Estatal, a BNCC surge com o propósito de uniformizar o ensino em todo país, definindo aprendizagens essenciais que devem ser desenvolvidas na educação básica. A ideia da base é promover um currículo comum e uma parte diversificada, levando em consideração as diferenças sócio-culturais de cada região do país, pois o Brasil é um país dotado de grandes dimensões territoriais que, pelo processo de imigração diverso, acabou por desenvolver diferentes características culturais. A BNCC está amparada no desenvolvimento de dez competências gerais, definidas como a “mobilização de conhecimentos [...], habilidades [...], atitudes e valores para resolver demandas complexas da vida cotidiana, do pleno exercício da cidadania e do mundo do trabalho.” (BRASIL, 2017). Assim, considerando que a cidadania, segundo a terminologia de Hannah Arendt, é “direito a ter direitos” e se constitui como uma das finalidades educacionais, ou seja, é o resultado esperado a partir do desenvolvimento das competências gerais descritas na BNCC, a educação tem a incumbência de promover uma articulação de saberes que consiga ampliar a garantia dos Direitos Humanos (direitos civis, políticos e sociais). Fica evidente na BNCC que as dez competências gerais para a educação básica possuem uma estreita relação com a EDH. De modo sintético, as competências abarcam a construção de uma sociedade justa, democrática e inclusiva, o exercício de análise crítica e do protagonismo, a valorização da diversidade humana e cultural, a promoção de entendimento mútuo através das diferentes linguagens, a tomada de decisões com base em princípios éticos, 210 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências democráticos, inclusivos, sustentáveis e solidários, e o exercício da cidadania e ao projeto de vida através da liberdade, autonomia, consciência crítica e responsabilidade. A partir do conteúdo que compõem as competências gerais da educação básica é possível perceber o caráter transversal que os Direitos Humanos assumem no currículo da escola. A própria BNCC corrobora com essa perspectiva ao afirmar que a EDH é um dos temas que devem ser incorporados aos currículos, “preferencialmente de forma transversal e integradora” (BRASIL, 2017, p. 19). Na mesma direção, o documento orientador – Caderno I da Rede Municipal de Novo Hamburgo, evoca a abordagem dos Direitos Humanos no currículo escolar, frisando que, inclusive “a legislação vigente já apresentou e estabeleceu diretrizes curriculares para muitas dessas temáticas” 35 (NOVO HAMBURGO, 2019, p. 27). As Diretrizes Nacionais para a EDH foram apresentadas pelo Conselho Nacional de Educação a partir da resolução nº 1, de 30 de maio de 2012. Esse documento norteia as ações dos sistemas de ensinos e deixa claro que a abordagem curricular desta temática poderá ser transversal, disciplinar ou mista, em que essa última seria a combinação de aspectos transversais e disciplinares (BRASIL, 2012). Por isso, na BNCC, dentro das especificidades de cada componente curricular, também existem habilidades que contemplam a inserção dos Direitos Humanos relacionadas aos “objetos de conhecimento”/conteúdos estudados. No entanto, mesmo com o amparo normativo existente no contexto brasileiro, a EDH possui uma construção frágil e ainda não se consolidou plenamente nos currículos escolares. (FERNANDES; 35 Direitos da criança e do adolescente, Educação para o trânsito, Educação ambiental, Educação em Direitos Humanos, entre outras. 211 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas PALUDETO, 2010, p. 247).A partir disso, é imperativo pensar na revisão dos currículos das escolas e em uma formação docente (inicial e continuada) voltada aos pressupostos da EDH, que consiga suprir as necessidades conceituais e didático-pedagógicas para atuação profissional. Nesse sentido, se por um lado existem marcos normativos e um currículo em âmbito nacional que inclui a perspectiva da EDH na formação de crianças e adolescentes, por outro, existe a necessidade de uma formação docente que abarque de modo efetivo estas temáticas e ofereçam aportes para a construção de uma práxis pedagógica que venha a contribuir para transformar a sociedade. (FREIRE, 1987). A EDH precisa ser estimulada junto aos professores. A formação inicial não é suficiente para enfrentar as inúmeras mudanças no contexto social e educacional. Os professores necessitam de melhores condições de trabalho, em que se inclui uma formação em serviço adequada aos seus interesses, que seja capaz de auxiliar na sua prática pedagógica diária, caso contrário, a inclusão dos Direitos Humanos no âmbito da educação básica poderá ficar apenas “no papel” ou surgir de modo raso e descontextualizado. Além disso, com a suspensão do ano letivo da educação básica, em março de 2020, por motivo de calamidade pública ocasionada pela pandemia de Covid-19, e o Decreto de reinício das aulas na Rede Municipal de Novo Hamburgo a partir de 03 de agosto de 2020, através de atividades remotas, buscamos evidenciar os desafios da inclusão da EDH na percepção das professoras investigadas. (NOVO HAMBURGO, 2020b). 212 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências Metodologia A partir de uma pesquisa-ação que, de acordo com Engel (2000), é um tipo de pesquisa participante engajada, na qual se busca desenvolver o conhecimento e a compreensão como parte da intervenção prática no campo de estudo, foram realizadas algumas intervenções formativas com o corpo docente de uma escola municipal de ensino fundamental da cidade de Novo Hamburgo/RS. A escola atende apenas os anos iniciais do ensino fundamental e, nesse contexto, sou a única professora de Educação Física da escola. Por isso, desenvolvi este estudo com o restante do corpo docente da instituição, que totalizam 10 professoras pedagogas. Este estudo ocorreu durante o período de ensino remoto devido à Covid-19 e, portanto, foi necessário utilizar das tecnologias de informação e comunicação (TICs) para intervir de modo efetivo no campo de estudo. Nesse sentido, foram realizados três momentos de intervenção durante a pesquisa, no período de cinco de junho até cinco de setembro de 2020. Em um primeiro momento foi solicitada a participação efetiva das professoras, através da criação de uma nuvem de palavras com a temática “Educação em Direitos humanos”. Por isso, com a utilização da plataforma interativa “Ahaslides” foi requisitado a cada professora da escola escolher três palavras que tivessem relação com a EDH. No sentido de captar aquilo que rapidamente vinha à mente das professoras ao pensar nessa temática. O tempo disponível para o preenchimento das três palavras foi definido para um minuto. Em um segundo momento foi disponibilizado, no aplicativo Google Sala de Aula, um vídeo sobre Direitos Humanos do Canal “ONU Mulheres Brasil” (2016), da plataforma YouTube, para 213 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas introduzir a temática no grupo de estudo. A partir desse vídeo, de modo compulsório, as professoras poderiam realizar reflexões e compartilhar com os demais colegas. Em seguida, como terceiro momento, foi realizado um questionário com as professoras da escola para perceber como a EDH vem sendo incluída na prática pedagógica dos professores e como o ensino remoto influencia nesse processo. A primeira questão, voltada à inclusão da EDH transversal no currículo, foi baseada no modo que as professoras incluem ou já tenham incluído a EDH no seu cotidiano docente. A segunda questão, com o foco disciplinar, questionou os objetos de conhecimento/ conteúdos tematizados em aula, que abordam a EDH. Por fim, as professoras foram questionadas sobre o ensino remoto e a EDH, no sentido de identificar se o ensino remoto facilita, dificulta ou não interfere na EDH no processo de ensino- aprendizagem. Nessa questão em específico, as professoras foram solicitadas a justificar a resposta, para que fosse possível compreender as possibilidades e os limites do ensino remoto nesse contexto. Os dados coletados nesta pesquisa foram analisados a partir da análise de conteúdo que, segundo Franco (2005), parte da apreciação das mensagens, sejam elas verbais, gestuais, silenciosas, figurativas, documentais ou diretamente provocadas. Além disso, “torna-se indispensável considerar que a relação que vincula a emissão das mensagens (que podem ser uma palavra, um texto, um enunciado ou até mesmo um discurso) estão, necessariamente, vinculadas às condições contextuais de seus produtores”. (FRANCO, 2005, p. 13). 214 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências Resultados e Discussão A partir dessa pesquisa-ação foi possível incorporar a EDH nas discussões do processo formativo das professoras de uma escola municipal do município de Novo Hamburgo. A primeira proposta realizada com as professoras consistia em um diagnóstico sobre qual era a percepção delas em relação ao tema de estudo. Utilizando um recurso on-line chamado “AhaSlides” foi possível gerar um link, enviado pelo WhatsApp, em que as professoras puderam escrever três palavras que, na sua percepção, tivessem relação com a EDH. No final da participação das 10 professoras, automaticamente foi gerada uma nuvem de palavras, na qual o destaque esteve centrado no termo Igualdade. Além disso, tiveram uma incidência maior de citação as palavras respeito, equidade, empatia, dignidade, ética e liberdade. Isso mostra que as professoras pesquisadas, de um modo geral, possuem uma percepção de EDH afinada com uma cultura de respeito e preservação do ser humano, uma vez que conhecem alguns dos valores que compõem a noção de Direitos Humanos. Todavia, a concepção de EDH dessas professoras ainda não se encontra plenamente construída, e é justamente nesse processo que a pesquisa-ação se insere. Por isso, a segunda proposta desta pesquisa consistiu em assistir um vídeo sobre “Direitos humanos” e, compulsoriamente, fazer alguma reflexão sobre o vídeo. Nesse primeiro momento, as dez professoras assistiram ao vídeo, mas apenas três se dispuseram a realizar alguma reflexão sobre o tema. A primeira enfatizou o quanto o tema é interessante e pertinente para a educação, a segunda declarou que educar para a cidadania é a principal finalidade da educação e, portanto, é necessário incluir a 215 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas temática de modo transversal no currículo, e a terceira destacou o caráter fundamental que a EDH assume na escola e na formação das crianças. Essa primeira proposta compulsória obteve pouca adesão das professoras, pois a maioria preferiu se abster de realizar comentários sobre o vídeo proposto. Por isso, ao propor uma próxima atividade, solicitamos que as professoras acessassem um link do Google Formulário, enviado pelo WhatsApp, sobre o tema EDH. Esse questionário foi elaborado com questões que necessitavam uma leitura atenta e análise detalhada sobre as práticas pedagógicas das professoras. Logo, em um primeiro momento, o objetivo das questões visou a ampliar as possibilidades de enxergar a EDH nas aulas e, em seguida, compreender de que modo as professoras estavam incluindo transversalmente essa temática nas suas aulas. A primeira questão, voltada ao modo em que as professoras incluem a EDH transversalmente no currículo, obteve as seguintes respostas: 90 % das professoras declararamincluir a EDH durante a prática pedagógica, levando em consideração o tempo de aprendizagem de cada aluno(a), as condições cognitivas, sociais, suas vivências e experiências. Esse mesmo percentual de professoras realizam o processo de avaliação individual, considerando o que o aluno(a) produziu, e promovem a reflexão sobre valores, tais como igualdade, liberdade, justiça, respeito, solidariedade, cooperação, fraternidade, alteridade e consciência socioambiental. Além disso, 80 % das professoras também declararam incluir a EDH durante a prática pedagógica, nas intervenções disciplinares, realizando reflexões sobre atitudes e conflitos discentes que surgem na escola, e também ao realizar explicações a partir de questionamentos dos(as) alunos(as) sobre temas que fazem parte 216 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências dos Direitos Humanos. O estudo também apontou que 70 % das professoras declararam incluir a EDH durante a prática pedagógica, utilizando metodologias ativas e favorecendo a participação democrática do corpo discente. Ao incluir a EDH como objeto de conhecimento/conteúdo das aulas, apenas a metade das professoras (50 %) fez essa abordagem na aula. E, por fim, 10 % do grupo pesquisado decidiu incluir uma nova categoria na questão, especificando que já fez a inclusão da EDH ao questionar "verdades postas", contribuindo para a reflexão do que vem imposto e/ou é meramente "reproduzido". Nessa asserção, é possível compreender que, a partir de um viés crítico, a professora realiza debates sobre determinadas crenças, atitudes e comportamentos, para que as crianças analisem as representações sociais antes de aceitá-las como verdades absolutas. No que se refere à segunda questão do estudo, foi possível relacionar a EDH com os conhecimentos/conteúdos tematizados durante as aulas das professoras. Ficou evidente que todas as professoras, independentemente do ano de ensino em que lecionam, trabalham com o objeto de conhecimento “Cidadania, diversidade cultural e respeito às diferenças sociais, culturais e históricas”. O segundo objeto de conhecimento mais trabalhado entre as professoras, com 80 % da amostra, é “Meio ambiente” seguido de “Promulgação dos Direitos Humanos e os direitos da criança e do adolescente”, “Crenças religiosas e filosofias de vida” e “Corpo humano: Gênero (meninos e meninas)” que correspondem a 70 % de incidência entre as entrevistadas. Os objetos de conhecimento “Análise dos meios de comunicação sobre violação dos Direitos Humanos” e “Cultura indígena e Cultura afrodescendente” são trabalhados por 60 % das 217 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas professoras, seguido do objeto “A Organização das Nações Unidas (ONU)”, que é trabalhado por 50 % do corpo docente estudado. Por fim, apenas 20 % das professoras tematizam em suas aulas “A ditadura civil-militar e os processos de resistência” e 10 % “Direitos fundamentais e acessibilidade”. A partir dessas considerações sobre EDH como conteúdo das aulas é possível verificar que, em grande medida, as professoras investigadas estão incluindo objetos de conhecimentos sobre Direitos Humanos nas suas aulas, pois todas declararam incluir, pelo menos, uma dessas temáticas. Tal cenário gera uma contradição com a primeira questão, a qual mostrou que apenas a metade das professoras estudadas realizava a inclusão da EDH como objeto de conhecimento/conteúdo das aulas. A explicação dessa incongruência reside no fato de que as professoras, por vezes, incluem objetos de conhecimento vinculados à EDH nas suas práticas, mas os desconhecem nestes termos. Logo, ao encontrar na segunda questão os objetos de conhecimento tipificados, as professoras perceberam que realizam tais abordagens em suas aulas e, portanto, o questionário auxiliou na compreensão e na reflexão sobre o que já vem sendo realizado e aquilo que é possível incluir nas aulas. Por fim, ao serem questionadas sobre a EDH e o ensino remoto, todas as professoras responderam que o ensino remoto dificulta a inserção da EDH nas aulas. As justificativas de todas elas estão pautadas na impossibilidade de estabelecer relações síncronas e diretas com os/as aluno/as a partir das situações reais que acontecem no contexto escolar, assim como é possível evidenciar no discurso da Professora A: 218 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências Acredito que a Educação em Direitos Humanos necessita de uma comunicação mais efetiva, presencial, envolvendo situações e vivências reais, em que o aluno e o professor possam se colocar em diferentes posições e debater essas questões que surgem com certa frequência nas inter-relações. (Trecho do questionário – Professora A). Nessa mesma direção, 30 % das professoras ressaltaram que a dificuldade no acesso à internet é um fator limitante; pois, nesse caso, sequer o acesso à educação está sendo garantido para todas as crianças. Além disso, 40 % das professoras consideram que o acompanhamento dos pais ou responsáveis pela criança durante as atividades é diverso e faz com que cada família opte por uma maneira de realizar as aulas, que por sua vez, pode desconsiderar elementos que incluem a EDH, os quais seriam refletidos e debatidos em um contexto presencial. Considerações finais As propostas de intervenção realizadas com as professoras pesquisadas mostraram-se efetivas para colocar em pauta a EDH no contexto escolar. Ao explorar esta temática a partir de uma “nuvem de palavras” foi possível perceber que, de modo geral, as professoras possuíam conhecimento sobre alguns aspectos que ajudam a compor o conceito de EDH, mas não conseguiam estabelecer uma referência afinada entre si. Isso demonstrou que faltava clareza para determinar a centralidade do debate sobre EDH. Por isso, as demais propostas de intervenção estiveram pautadas na exploração da temática. Ao disponibilizar um momento de debate a partir de um vídeo e um questionário interativo com conteúdos elucidativos sobre EDH, as professoras demonstraram 219 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas que vem pautando-se nessa temática em suas práticas pedagógicas, seja de modo transversal, disciplinar ou misto. Em termos transversais, chama a atenção o fato de que 90% das professoras entendem incluir a EDH nas aulas, pela avaliação individual de cada aluno, considerando o seu tempo de aprendizagem e suas condições cognitivas e sociais. A postura pedagógica dessas professoras, ao realizar esse tipo de leitura do corpo discente, está afinada aos pressupostos de uma EDH, considerando que cada ser humano é único e possui vivências e/ou experiências que afetam diretamente no processo de ensino-aprendizagem. Além disso, o direito à educação é um direito de toda criança e adolescente, e preocupar-se com as condições do processo de ensinar e aprender é também preocupar-se com a efetividade do direito à educação. No que tange ao aspecto disciplinar, o estudo revelou que 50 % das professoras pesquisadas desconheciam que a EDH havia sido abordada como objeto de conhecimento nas suas aulas. No entanto, ao conhecer as possibilidades presentes na BNCC, que tratam da EDH, as professoras que disseram não ter incluído a temática como conteúdo de aula, reconsideraram suas respostas. Então, o objeto de conhecimento mais trabalhado pelas professoras (em todos os anos do ensino fundamental) é “Cidadania, diversidade cultural e respeito às diferenças sociais, culturais e históricas”. Esse é um conteúdo que aparece frequentemente na escola, devido ao estudo dos processos históricos do Brasil e as diferenças culturais presentes em todo território nacional. Ao considerar o debate com as professoras durante as intervenções foi possível constatar que a grande maioria teve acesso superficial sobre a EDH na sua formação inicial e sentefalta de um espaço de formação continuada que auxilie a pensar a EDH nas especificidades das áreas do conhecimento. Fica evidente, assim 220 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências como aponta Fernandes e Paludero (2010, p. 247), que “a educação voltada para os Direitos Humanos ainda não faz parte da prática, nem do currículo da escola como deveria”, e a ausência de uma formação em serviço, capaz de suprir as lacunas de conhecimento, principalmente neste momento de implementação de uma nova política curricular (BNCC), acaba deixando em segundo plano a EDH no currículo escolar. Devido à “precarização do trabalho docente” (SAMPAIO; MARIN, 2004), aos professores falta tempo hábil para desempenhar todas as demandas que a escola necessita, tais como estudar, planejar, participar de reuniões com familiares de alunos e preencher os documentos formais (cadernos de chamada, fichas de acompanhamento de alunos, pareceres, fichas de avaliação etc.). Tal situação, aliada à falta de formação continuada, acaba dificultando que os professores realizem estudos dos documentos normativos e realizem sínteses e propostas de readequação na sua prática pedagógica, favorecendo a compulsoriedade para abordar a EDH em suas aulas. Além disso, a pandemia de Covid-19 e a consequente adoção do ensino remoto na Rede Municipal de Novo Hamburgo são vistas pelas professoras como aspectos limitantes na inclusão da EDH nas aulas. As professoras percebem a necessidade de uma relação mais próxima e síncrona com os alunos, para que possam efetivamente incluir a EDH nas práticas pedagógicas. De fato, as relações humanas na escola geram ricas situações de aprendizado, nas quais incluem-se aspectos da EDH. Neste momento de aula remota, baseadas nas normativas municipais vigentes, as professoras estão focando no português e na matemática e, ao privilegiar alguns objetos de conhecimento em 221 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas detrimento de outros, as possibilidades de incluir a EDH diminuem consideravelmente. Além disso, as professoras explicitam que outro aspecto limitante é o próprio fato de algumas famílias não terem acesso à internet e precisarem retirar materiais impressos na escola. Nesse sentido, a garantia da Educação não está sendo plenamente atendida, à medida que as crianças sem acesso à internet não possuem a mesma aula que as demais. As aulas on-line contam com recursos multimídia que facilitam o ensino, já as aulas presenciais com textos e imagens acabam necessitando que as famílias leiam e interpretem a aula, tendo mais dificuldades no ensino. Por fim, esta pesquisa-ação cumpriu o papel de fornecer subsídios sobre EDH para as professoras participantes, pois as intervenções de caráter formativo contribuíram para repensar o currículo escolar, suas práticas pedagógicas e a relação com os Direitos humanos. Nesse sentido, cabe dizer que a pandemia provocou a aproximação entre as professoras de escola, que puderam estar debatendo e conversando, ainda que remotamente, sobre temas pertinentes à Educação. Todavia, o estudo forneceu reflexões sobre o ensino remoto e o seu caráter limitante em relação ao trabalho da EDH. Cabe ressaltar que, mesmo no contexto presencial a EDH ainda não está consolidada na escola e, com o advento da pandemia, essas lacunas no ensino-aprendizagem se tornaram mais evidentes, mostrando a necessidade de criação de mais espaços de discussão sobre a temática, no sentido de elaborar estratégias efetivas para incluir a EDH nas aulas, remotas ou presenciais. A EDH precisa ser estimulada junto aos professores. A formação inicial não é suficiente para enfrentar as inúmeras mudanças no contexto social e educacional. Os professores 222 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências necessitam de melhores condições de trabalho, em que se inclui uma formação em serviço adequada aos seus interesses, que seja capaz de auxiliar na sua prática pedagógica diária. Caso contrário, a inclusão dos Direitos Humanos no âmbito da educação básica poderá ficar apenas “no papel” ou surgir de modo raso e descontextualizado. Referências ARENDT, Hannah. Entre o passado e o futuro. São Paulo: Perspectiva Universitária, 1972. BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil . Brasília, DF: Senado Federal, 1988. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constitui caocompilado.htm. Acesso em: 11 abr. 2020. BRASIL. Ministério da Educação e Cultura. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996 . Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Brasília , DF: MEC/FAE, 1996. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9394.htm. Acesso em: 10 maio 2020. BRASIL. Comitê Nacional de Educação em Direitos Humanos. Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos: 2007 . Brasília, DF: Secretaria Especial dos Direitos Humanos, 2007. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/docman/2191-plano-nacional-pdf/. Acesso em: 14 abr. 2020. BRASIL. Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República. Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH-3). Brasília, DF: SDH/PR, 2010. BRASIL. Parecer nº 8, de 6 de março de 2012. 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Como Orientar as Escolas na Implementação da BNCC após a Pandemia. Webinar. Produção Instituto Votorantin. 81 min. 2020. In: Parceria pela Valorização da Educação (PVE). Disponível em: https://pve.institutovotorantim.org.br/2020/04/24/a-bncc-nao-e-sobre-que-conteudo- precisa-saber-e-sobre-o-ser-humano-que-queremos-formar-afirma-cleuza-repulho-ex- presidente-da-undime/. Acesso em: 15 maio 2020. SAMPAIO, M. M. F.; MARIN, A. J. Precarização do trabalho docente e seus efeitos sobre as práticas curriculares. Revista Educ. Soc., Campinas, v. 25, n. 89, p. 1203-1225, set./dez. 2004. Disponível em: https://www.scielo.br/pdf/es/v25n89/22618.pdf. Acesso em: 20 abr. 2020. VIEIRA, Letícia; RICCI, Maikel. A Educação em tempos de pandemia: soluções emergenciais pelo mundo. Observatório do Ensino Médio em Santa Catarina – Editorial, 2020. Disponível em: https://www.udesc.br/arquivos/udesc/id_cpmenu/7432/EDITORIAL_DE_ABRIL___Let_cia_ Vieira_e_Maike_Ricci_final_15882101662453_7432.pdf . 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Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas OS DIREITOS HUMANOS: DA TEORIA EDUCACIONAL À PRÁTICA ESCOLAR Moisés Rabaiolli Tonelli 36 Camila Botelho Schuck 37 Sheila Stolz 38 Introdução A passagem do humano para o “ser humano” implica na absorção, por parte do sujeito, de uma vasta bagagem cultural e de um conjunto de elementos científicos, atrelados aos conteúdos escolares. Essa noção de construção do sujeito “humano” está associada ao histórico evolutivo das diferentes civilizações. Desde a Grécia Antiga, embora estando naquele cenário, a educação vinculada ao pensar era disponível apenas para os homens gregos e 36 Professor da educação básica. Graduado em Filosofia. Especialista em Ensino de Filosofia no ensino médio e em Educação em Direitos Humanos. Pós-graduado em Supervisão e Orientação Escolar. E-mail: moises.tonelli@hotmail.com. 37 Doutoranda em Ciências Sociais (Unisinos). Mestre em Sociologia (UFPel). Professora tutora na especialização em Educação em Direitos Humanos (FURG). E-mail: camila.seer@gmail.com. 38 Professora do curso de Direito e do Programa de Pós-graduação (mestrado) em Direito e Justiça Social (FURG). Doutora em Direito (PUCRS). Mestre em Direito pela Universitat Pompeu Fabra (Barcelona, Espanha). Coordenadora Geral do Núcleo de Pesquisa e Extensão em Direitos Humanos (FURG). Coordenadora da especialização em Educação em Direitos Humanos e do Grupo de Pesquisa Direito, Gênero e Identidades Plurais (FURG). Orcid: https://orcid.org/0000-0003-3591-7153. E-mail: sheilastolz@gmail.com. mailto:moises.tonelli@hotmail.com 226 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências livres, a instrução era elemento presente na formação da paideia humana. Ainda no percurso da história, com pensamento similar ao grego, a Idade Média preservou o direito de acesso à educação para um seleto grupo, formado por membros que possuíam, em algum grau, associação com a Igreja Católica. A mudança de olhar para com a educação deu-se somente a partir da queda de Constantinopla e do advento da Idade Moderna. Aqui, já no século XV da Era Cristã, o movimento Iluminista, motivado pelos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade, passa a soprar, da Europa para o mundo, novos ares sobre a educação. Naquele período, pensadores como Voltaire passam a defender a instrução educacional universal, no intuito de que mais pessoas, independente da condição social, deixassem de ser enganadas por não serem letradas ou alfabetizadas. Mais tarde emerge o pensamento de Jean- Jacques Rousseau (2007), para quem a educação é apresentada como elemento fundamental para o equilíbrio social e a recondução humana para os primórdios do “bom selvagem”. Ainda refletindo sobre as contribuições iluministas para o cenário educacional, é importante considerar o propósito do movimento enciclopedista, o qual desejava que o conhecimento humano até então produzido fosse levado a todo homem, no propósito de torná-lo civilizado e apto a fazer parte de uma sociedade de forma qualificada e responsável, a tal ponto que, muito além de se considerar parte dela, se sentisse responsável por ela. A preocupação com a educação também é parte integrante das inquietações da contemporaneidade. Tal período é marcado pela elaboração de diferentes teses cognitivas, de quando um novo questionamento é feito: para o mundo que se construiu mediante os grandes avanços científicos e tecnológicos e a vasta bagagem de 227 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas informações acumulada pela humanidade, o que ensinar nas escolas? Inicialmente, certamente se deve considerar a formação técnica do sujeito, com vistas a sua qualificação profissional, fator que potencialmente lhe capacitará para a conquista de trabalho e renda. Além disso, é fundamental receber as instruções sobre os conhecimentos geraisdo mundo, afinal, é importante conhecer a realidade a que se está inserido. Somado a isso, a construção integral de um cidadão perpassa o ambiente cognitivo e exige a construção de habilidades humano-afetivas, no propósito de qualificar esse sujeito para bem exercer sua cidadania, enquanto alguém que faz parte do mundo e convive com outras pessoas. O “ser cidadão” no contexto atual precisa ser entendido como aquele sujeito, que membro de um Estado, goza de uma gama de direitos considerados importantes no processo de interação e vivência pública. (PINSKY, 2003). Assim, é notório que, no decurso de construção de sua cidadania, implica na necessidade da imersão do sujeito num contexto de Educação em Direitos Humanos. No caso específico da legislação educacional brasileira, esta pesquisa toma por questão norteadora: de que forma está prevista a inclusão desta temática nos conteúdos pragmáticos escolares? Este trabalho objetiva lançar luz sobre a Base Nacional Comum Curricular, aprovada em dezembro de 2017, e verificar a abordagem relacionada à Educação em Direitos Humanos nela prevista. Enquanto motivação pessoal para a realização da pesquisa está o interesse em se apropriar da nova legislação, no intuito de promover, a partir do conhecimento dela, a análise de uma realidade concreta. O trabalho será construído mediante uma pesquisa teórica sobre o processo de construção da legislação educacional do Brasil 228 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências redemocratizado e a apreciação de autores que se ocuparam da temática. Posteriormente a abordagem será construída exclusivamente sobre a Base Nacional Comum Curricular e a forma como ela conduz o ensino/aprendizagem dos Direitos Humanos. Por fim, considerando a legislação, far-se-á a análise da Matrizes de Referência para o Ensino Híbrido da Rede Estadual de Ensino, documento editado pela Secretaria de Estado da Educação do Rio Grande do Sul, a ser seguido como parâmetro para a definição dos conteúdos programáticos e habilidades a serem desenvolvidas por todos os estudantes das escolas gaúchas no período da pandemia. O propósito maior da análise é verificar a consonância entre a teoria proposta na legislação e a prática escolar. O ensino dos Direitos Humanos e a Legislação Brasileira Panorama geral dos Direitos Humanos e sua presença na legislação educacional brasileira A realidade global atual congrega transformações geográficas e de relacionamentos em escala monumental. Vivem-se períodos de alternância nos modelos econômicos, políticos, sociais na mesma velocidade de propagação de uma notícia. Porém, nesta mesma frequência não se constroem os valores igualitários, humanitários e de busca pelo bem-comum. Pelo contrário, o que se percebe é a multiplicação dos discursos de ódio, movidos por xenofobia, homofobia, preconceito de gênero, intolerância religiosa, etnocentrismo, dentre tantos combustíveis capazes de inflar ainda mais as divergências. 229 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas Numa outra baila, mas da mesma forma amplamente depreciativa e, muitas vezes, naturalizada, impera o universo das desigualdades sociais, com suas problemáticas cíclicas, reveladas em miséria, fome, violência e vulnerabilidade. A mudança acontece em diferentes segmentos da sociedade, contudo, em se tratando da construção dos direitos de minorias e dos menos favorecidos das camadas sociais, tais mudanças ocorrem de modo absolutamente lento, quando acontecem. Como seria possível alterar este cenário? Certamente pela construção nos sujeitos da noção de cidadania. E, para tanto, a discussão da temática dos Direitos Humanos na escola é de fundamental importância. Com relação a esse aspecto, diz Bertholino (s/d, p. 2) que: Se hoje os direitos humanos ainda não estão enraizados na consciência dos brasileiros, parte dessa responsabilidade é da própria sociedade civil que não requer seus direitos e não ensina aos pequenos a requererem também. Os educadores têm a obrigação de abordar o tema em sala de aula para que a construção de uma sociedade mais democrática, justa e igualitária seja um objetivo de todos os cidadãos. A escola é o espaço ideal para que tais princípios sejam abordados. Lá que as crianças terão noções de disciplina, de convivência, de interação. Na escola que sua criticidade começará a ser construída e é nesse ambiente tão rico e acolhedor que a criança começará a enxergar o seu colega como um igual. Assim, a esperança de alteração social deve considerar o protagonismo da educação e do ensino, o qual deve promover uma cultura de mudança do pensar, afinal, nas expressões de Paulo Freire (1987, p. 87), “educação não muda o mundo, muda pessoas e pessoas mudam o mundo” e, no processo de transformação de uma realidade, é imprescindível capacitar o sujeito de cidadania, com o conhecimento de seus direitos e deveres, iniciando-se por aqueles 230 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências denominados por vários pensadores clássicos de direitos naturais. Afinal, segundo Hannah Arendt (2004, p. 299), a cidadania é o direito a ter direitos, pois a igualdade em dignidade e direitos dos seres humanos não é um dado. É um construído da convivência coletiva, que requer o acesso ao espaço público. É esse acesso ao espaço público que permite a construção de um mundo comum através do processo de asserção dos direitos humanos. Este propósito de inclusão da temática dos Direitos Humanos, mesmo que de modo teórico, está contido na realidade da legislação educacional brasileira. A Constituição Federal, já em seu artigo 4º menciona a necessidade do país se deixar reger por alguns princípios internacionais, dentre eles, no inciso II consta a “prevalência dos direitos humanos” (BRASIL, 1988). No tocante à educação, alguns cenários aproximam a Carta Magna da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Ao se ter o cuidado de, por exemplo, abordar a necessidade de uma educação universal acessível a todos, garantido o acesso ao ensino por povos indígenas, no parágrafo segundo do artigo 210, quando se pode ler que “o ensino fundamental regular será ministrado em língua portuguesa, assegurada às comunidades indígenas também a utilização de suas línguas maternas e processos próprios de aprendizagem” (BRASIL, 1988), percebe-se a presença dos nuances da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Em se tratando de legislação direcionada à educação, a regulamentação constitucional deu-se pela Lei n. º 9.394/96 – Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, de quando a temática dos Direitos Humanos também pode ser observada. No parágrafo nono do artigo 26, considera-se que os “conteúdos relativos aos Direitos Humanos e à prevenção de todas as formas de violência contra a criança e o adolescente serão incluídos, como temas transversais, 231 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas nos currículos escolares de que trata o caput deste artigo” (BRASIL, 1996). Contudo, se uma análise prática for efetuada, no atual contexto, certamente essa transversalidade não ocorre como se idealizou no processo de criação da legislação. Quando da vigência e observância dos Parâmetros Curriculares na educação nacional, podia-se encontrar neles diversos aportes voltados aos Direitos Humanos. No tomo responsável por abordar a temática da pluralidade cultural e orientação sexual, apresenta-se este formato de direito “como uma conquista da humanidade para todos os seres humanos” (BRASIL, 1997, p. 59) e se estabelece como conteúdo programático a ser inserido nas escolas do país o ensino do “repúdio às causas das injustiças sociais e às violações dos direitos humanos” (BRASIL, 1997, p. 60). Posto isso tudo, pode-se adentrar no Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos, política construída desde o início do ano2000 e concretizada em 2006. No plano, considera-se a relevância da temática em cinco eixos diferentes. No primeiro deles, que versa sobre a “educação básica”, afirma-se que a Educação em Direitos Humanos vai além de uma aprendizagem cognitiva, incluindo o desenvolvimento social e emocional de quem se envolve no processo ensino- aprendizagem. A educação, nesse entendimento, deve ocorrer na comunidade escolar em interação com a comunidade local. (BRASIL, 2008, p. 31). A construção de sujeitos que desfrutam de cidadania plena exige a promoção de processo educacional que priorize o conhecimento dos direitos e a consequente vivência dos deveres. Nesse cenário, o Plano Nacional em Educação em Direitos Humanos enfatiza que a Educação em Direitos Humanos deve ser um processo 232 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências sistemático, dentro de um contexto multidisciplinar, no intuito da promoção de direitos, produzidos mediante as seguintes dimensões: a) apreensão de conhecimentos historicamente construídos sobre direitos humanos e a sua relação com os contextos internacional, nacional e local; b) afirmação de valores, atitudes e práticas sociais que expressem a cultura dos direitos humanos em todos os espaços da sociedade; c) formação de uma consciência cidadã capaz de se fazer presente em níveis cognitivo, social, ético e político; d) desenvolvimento de processos metodológicos participativos e de construção coletiva, utilizando linguagens e materiais didáticos contextualizados; e) fortalecimento de práticas individuais e sociais que gerem ações e instrumentos em favor da promoção, da proteção e da defesa dos direitos humanos, bem como da reparação das violações. (BRASIL, 2008, p. 25). Segundo o Plano Nacional em Educação em Direitos Humanos (BRASIL, 2008), com o desenvolvimento dessas dimensões, é possível desenvolver a cidadania nos sujeitos, de tal forma que sejam capazes de reconhecer a importância da defesa de um Estado Democrático de Direito e do papel a ser desenvolvido pela cultura dos Direitos Humanos na construção de um território mais justo e igualitário. Dessa forma, segundo o plano, a educação escolar deve considerar a formação integral do sujeito e, em se tratando da vida social, nada melhor de que uma forte e íntegra Educação em Direitos Humanos, no intuito de se promover uma sociedade mais igualitária, de respeito e construída ao entorno de uma cultura de paz. Porém, ao se observar o contexto pragmático da sociedade atual, percebe-se uma deficiência no processo de construção de políticas promotoras de Educação em Direitos Humanos. Trata-se de um caminho em início de construção, a tal ponto que, se políticas de 233 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas Estado não forem organizadas no propósito de gerar territórios pacíficos, a possibilidade de se continuar vivenciando cenários de desrespeito aos mais diferentes direitos é muito grande. No cenário, o ambiente escolar deve ser um “espelho”, um reflexo daquilo que se deseja atingir, dado ser o cotidiano vivo fator educador e formador do sujeito e, ao vivenciar políticas de Direitos Humanos, provavelmente assumirá o sujeito postura coerente com esses direitos. E, para que o processo possa acontecer “e a escola possa contribuir para a Educação em Direitos Humanos, é importante garantir dignidade, igualdade de oportunidades, exercício da participação e da autonomia aos membros da comunidade escolar” (BRASIL, 2006, p. 31), deve “a educação ter a função de desenvolver uma cultura de direitos humanos em todos os espaços sociais” (BRASIL, 2006, p. 32). Atualmente, enquanto legislação direcionada à educação nacional, os parâmetros estão definidos pela Base Nacional Comum Curricular – BNCC, a qual receberá especial atenção no subitem seguinte. Por fim, é preciso dizer que, embora o esplendor teórico da legislação produza uma sensação de que a presença dos Direitos Humanos no seio da educação seja uma constante, na prática a realidade vivenciada apresenta-se de modo bem diferente. O que se percebe por parte de agentes governamentais é um menosprezo pelas políticas de Educação em Direitos Humanos, fator que dificulta, inclusive, o trabalho de muitos educadores de diferentes escolas brasileiras. 234 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências Base Nacional Comum Curricular (BNCC): novos rumos para a educação nacional A Constituição Federal, produzida mediante o processo de redemocratização do país em 1988, prevê no inciso XXIV do artigo 22 que caberia à União o processo de legislar sobre as “diretrizes e bases da educação nacional” (BRASIL, 1988). Além disso, o artigo 210 estabelece que “serão fixados conteúdos mínimos para o ensino fundamental, de maneira a assegurar formação básica comum e respeito aos valores culturais e artísticos, nacionais e regionais” (BRASIL, 1988), estabelecendo a necessidade da produção de referencial curricular único, a ser adotado em todo território nacional. No intuito de atender o disposto no artigo 210 da Constituição Federal, legislações posteriores foram sendo constituídas e serviram de base legal para a criação da Base Nacional Comum Curricular (BNCC). No ano de 1996, mediante a Lei nº 9.394, são criadas as Diretrizes Básicas da Educação que, em seu artigo 26, determinam a adoção de uma base curricular comum a ser utilizada em todas as escolas brasileiras no ensino básico. Mais tarde, no ano de 2014, a Lei nº 13.005 instituiu o Plano Nacional de Educação, o qual sustenta a necessidade de uma padronização curricular, no propósito de se atingirem as metas esperadas para a educação no período. Na síntese apresentada, percebe-se que, no decorrer de aproximadamente três décadas, o país caminhou para a elaboração de um documento norteador das políticas de Estado no processo de formação educacional do cidadão brasileiro, até que, em 20 de dezembro de 2017, como resultado de uma terceira versão produzida, o documento final da Base Nacional Comum Curricular – BNCC é homologada pelo Ministério da Educação. Cabe salientar que a parte da base curricular vigente versa sobre o ensino básico de 235 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas nível fundamental, uma vez que a parte destinada ao ensino médio, embora homologada em 14 de dezembro de 2018, tem obrigatoriedade de adoção para as escolas a partir do ano letivo de 2022. Depois de ter-se apresentado o histórico de constituição, agora se pode encaminhar os trabalhos para o ponto central da investigação, a qual versa sobre a legislação educacional e os Direitos Humanos. Embora a compreensão do processo de formação intelectual de um sujeito exija que a Base seja analisada em sua íntegra, a abordagem a ser aqui desenvolvida se guiará pelo correspondente à parte direcionada ao ensino fundamental II39. Logo no início, ao se voltar para o objeto de conhecimento, a BNCC aponta que “cabe aos sistemas e redes de ensino [...] incorporar aos currículos e às propostas pedagógicas a abordagem de temas contemporâneos que afetam a vida humana em escala local, regional e global” (BRASIL, 2017, p. 21) e, no hall desses temas é incluído o Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos. Posteriormente, ao explanar os objetivos do ensino, a BNCC faz menção de que os educandários devem considerar a promoção de “uma formação integral, balizada pelos direitos humanos e princípios democráticos” (BRASIL, 2017, p. 63), no intuito de “promover uma consciência dos direitos, uma valorização dos direitos humanos e a formação de uma ética da responsabilidade” (BRASIL, 2017, p. 139), tendo-se presente que a “ética [da responsabilidade] pressupõe a compreensão da importância dos direitos humanos e de se aderir a eles de forma ativa no cotidiano” (BRASIL, 2017, p. 569). 39 O ensino fundamental IIcorresponde ao 6º até o 9º ano escolar. A justificativa para a escolha deste recorte e não do todo da BNCC é minha atuação profissional estar ligada com estes anos de ensino e não com o ensino fundamental I, em sua integralidade. 236 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências Seguindo no texto e, ao estabelecer a abrangência dos Direitos Humanos, a Base Nacional Comum Curricular afirma que eles perpassam todos os campos de diferentes formas: seja no debate de ideias e organização de formas de defesa dos direitos humanos (campo jornalístico-midiático e campo de atuação na vida pública), seja no exercício desses direitos à literatura e à arte, direito à informação e aos conhecimentos disponíveis. (BRASIL, 2017, p. 88). Ao tratar de conteúdos e disciplinas que precisam se ocupar do ensino e abordagem da temática dos Direitos Humanos, a BNCC aposta na transversalidade de temáticas nos diferentes componentes que compõem o currículo, as quais, no propósito de desenvolver uma Educação em Direitos Humanos, além de desenvolverem estudos direcionados às questões humanísticas, precisam levar ao conhecimento do estudante o histórico de construção e a importância da observância prática de cada um dos 30 artigos que compõem a Declaração Universal dos Direitos Humanos, objetivando a construção de uma sociedade com valores democráticos e voltada a uma cultura de paz, elementos repetidos e apontados como competências a serem desenvolvidas pelos estudantes do país. Por fim, considerando aquilo que foi apontado até aqui, percebe-se que a legislação educacional brasileira está estruturada no propósito de ofertar um ensino promotor e enaltecedor dos Direitos Humanos. Contudo, a previsão legal apenas não é suficiente para que os educandos recebam tais instruções. Para que isso ocorra, é fundamental que a escola e o corpo docente estejam preparados para acolher e aplicar aquilo que é previsto enquanto objetos de conhecimento na Base Nacional Comum Curricular, e que as políticas de governo estejam voltadas a cumprir tais objetivos. 237 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas Direitos Humanos e BNCC: que reflexões foram produzidas até então? O cenário educacional é um fértil terreno de construções reflexivas e inspiração intelectual para diferentes estudos desenvolvidos nos mais distintos lugares. Contudo, por ser a Base Nacional Comum Curricular uma temática relativamente nova, dado que a homologação só aconteceu no ano de 2017, tem-se um número limitado de produções teóricas elaboradas 40 e, quando se faz a relação BNCC e Direitos Humanos, as obras acabam se tornando ainda mais restritas, denotando-se a necessidade de ampliação e aprofundamento nos estudos das temáticas em questão. Inicialmente, lança-se luz sobre o artigo Direitos humanos na Base Nacional Comum Curricular: Resistências para o trabalho docente, da professora Constantina Xavier Filha. No texto, Constantina apresenta o resultado de uma análise construída por ela depois de efetuar a leitura da parte da BNCC direcionada ao ensino fundamental I, que vai até o 5º ano, de quando ela destaca que o termo “direitos humanos aparece quatro vezes no corpo do documento, aplicado ao currículo da educação infantil e primeiros anos do ensino fundamental” (XAVIER FILHA, 2020, p. 7). Ela lamenta a pouca relevância dada ao assunto nos primeiros anos de educação escolar. De outra baila, Renan da Costa Ferreira e Laude Erandi Brandenburg, no artigo O ensino religioso e a BNCC: possibilidades para se educar para a paz, evidenciam a importância atribuída pela BNCC à disciplina de ensino religioso, de modo a torná-la aliada 40 Prova disso é o fato de que, no site Scielo, para as buscas “BNCC e Direitos Humanos”, nenhum conteúdo foi localizado. 238 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências importante no processo de Educação em Direitos Humanos e com vista à promoção de uma cultura de paz. Contudo, na visão dos autores e em consonância com o que já foi apresentado anteriormente neste trabalho, a previsão legal do ensino de Direitos Humanos na Base não garante a efetividade prática. No entender deles, garantir que tudo o que é proposto para o Ensino Religioso [incluindo-se aqui temáticas direcionadas aos direitos humanos] conforme a BNCC aconteça não está somente sob a responsabilidade daqueles que educam. Não está nas mãos da escola ou das secretarias de educação. É, antes de tudo, uma responsabilidade do governo federal. (FERREIRA; BRANDENBURG, 2019, p. 13). No trabalho Expectativas norteadoras da Educação em Direitos Humanos para a educação básica, realizado por Jacqueline Lopes Freire, é possível encontrar uma abordagem bastante ampla e significante sobre os possíveis resultados que se poderiam construir na prática em educação para os Direitos Humanos, se as diretrizes da Base Nacional Comum Curricular fossem aplicadas no contexto prático do ensino público. Muito provavelmente por fazer uma análise geral do documento e não só à parte que se ocupa do ensino infantil, Flores difere do pensamento de Constantina Xavier Filha. Segundo ela, no corpo da BNCC é possível perceber a presença de uma proposta promotora de uma Educação em Direitos Humanos, mediante o fato dela prever a obrigatoriedade dos ambientes educacionais transmitirem para os estudantes, enquanto conteúdo de estudos, ensinamentos sobre “cidadania, democracia e cultura em direitos humanos” (FREIRE, 2018, p. 111), dentre outras temáticas e legislações voltadas à construção de direitos individuais. Dos trabalhos localizados, pode-se perceber que não há uma unicidade de pensamento, fator que, associado ao pouco número de 239 | Seção 1. Direitos Humanos: Educação e práxis pedagógicas produções localizadas, denota a necessidade de se produzir estudos mais amplos, tendo-se como foco a análise dos Direitos Humanos no contexto da Base Nacional Comum Curricular. Metodologia O processo de construção deste estudo, inicialmente objetivava analisar a legislação educacional brasileira naquilo que diz respeito à forma como os Direitos Humanos são abordados e às orientações de como deve-se proceder com o processo de ensino- aprendizagem deles. A princípio, nas legislações gerais, identificou- se a forma como a temática dos Direitos Humanos foi se desenvolvendo no contexto da legislação educacional do Brasil redemocratizado até a mais recente legislação que versa sobre a educação brasileira: a Base Nacional Comum Curricular. Na continuidade do processo, o intuito era partir para a análise dos Planos de Estudos da Escola Estadual de Ensino Médio Vera Cruz, localizada no município de Vera Cruz, no estado do Rio Grande do Sul. Contudo, ao se chegar nesse ponto do planejamento, uma nova rota foi traçada e seguida, por dois motivos. Inicialmente, ao tomar conhecimento dos documentos da Escola Vera Cruz, pode-se constatar que eles foram redigidos no ano de 2012, ou seja, não estão alinhados com a Base Nacional Comum Curricular, o que tornaria o trabalho insignificante, uma vez que não dialoga com a realidade. Além disso, com o processo de pandemia, as aulas passaram a ser suspensas em diversos territórios mundiais. No estado do Rio Grande do Sul não foi diferente. Em 17 de março o governador do estado, Eduardo Leite, decretou a interrupção das aulas presenciais 240 | Educação em Direitos Humanos: reflexões e experiências no estado gaúcho, suspensão essa que no mês de setembro ainda se mantinha. Mediante o processo de alteração do fluxo escolar normal, a Secretaria de Estado de Educação passou a adotar alguns procedimentos gerais com relação à educação. Uma dessas mudanças deu-se com relação aos conteúdos e habilidades a serem ministradas nas escolas gaúchas. A Secretaria de Educação, no final do mês de junho, apresentou o documento Matriz de