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Divisão do trabalho e interdependência A questão-chave para Durkheim compreender o que se passava na época dele era: como é possível explicar a integração e a coesão sociais em um mundo cada vez mais dividido, cada vez mais especializado em funções tão diferentes? No final do século XIX, a divisão do trabalho em diferentes funções já existia e poderia, se não devidamente regulamentada socialmente, provocar o avanço do individualis- mo utilitarista e, por consequência, fraturas e “doenças sociais” que romperiam os laços sociais de interdependência, frutos da divisão do trabalho. Sobretudo em seu primeiro livro sobre a divisão do trabalho, Durkheim parte do postulado de que, em todas as sociedades, não importa o tempo histórico, a região ou a cultura, haveria alguma divisão do trabalho. Naquelas sociedades em que a divisão do trabalho era ainda incipiente, ou seja, inicial, os laços sociais seriam conservados por aquilo que Durkheim chamou de solidariedade mecânica, isto é, um conjunto de crenças que garantiriam a unidade e a integração social. Porém, com o desenvolvimento da divisão do trabalho, esse tipo de solidarie- dade cederia lugar a uma interdependência funcional entre diferentes tipos de trabalho. Durkheim chamou essa interdependência funcional de solidariedade orgânica. É ela que ocorre em sociedades como a nossa, com uma unidade so- cial baseada na integração e na coesão social dada pela divisão do trabalho, isto é, uma sociedade na qual os laços sociais são constituídos predominantemente pela divisão do trabalho. Portanto, para Durkheim, quanto maior a diferenciação social dada pela divisão do trabalho, mais coesa e integrada é uma sociedade, ou seja, mais forte é o tecido social e, portanto, menores as chances de rupturas na organização dessa sociedade. Assim, ele observa uma dinâmica ambivalente: de um lado, há um processo de diferenciação social – somos, cada vez mais, funcionalmente diferentes uns dos outros. De outro, com base nessa diferenciação, são constituídos os laços de inter- dependência – à medida que o trabalho se torna mais especializado, precisamos mais dos outros. Para elucidar como esse processo ocorre, vamos comparar a sociedade brasileira do início do século XX com a do início do século XXI, com base nas cate- gorias de Durkheim. No início do século XX, no Brasil, o trabalho era, sobretudo, realizado no campo, com a agricultura e a pecuária, e era ainda pouco dividido se comparado ao de uma sociedade do século XXI. No início do século XXI, temos um número muito maior de profissões, de cargos e de especializações que, para o autor, são fundamentais para criar a inter- dependência social e o desenvolvimento da solida- riedade orgânica. Em síntese, para Durkheim, essas especializações profissionais são divisões funcionais do trabalho. Elas contribuem para dar coesão à sociedade na medida em que cada indivíduo depende de um conjunto de ou- tros indivíduos. Há, com isso, uma dependência social recíproca que acaba por formar uma estrutura social mais densa, visto que a divisão do trabalho se acentua. Fato social Toda a obra de Durkheim se estrutura metodologica- mente em torno do con- ceito de fato social. Para ele, esse conceito está rela- cionado às formas de pen- sar, de agir e de sentir, que exercem força e coerção externa sobre os indivíduos, condicionando socialmente suas condutas. Daí a célebre expressão de Durkheim: “a sociedade age sobre o in- divíduo”. O sistema meto- dológico de Durkheim foi sintetizado em sua segunda grande obra: Regras do mé- todo sociológico, de 1895. Conceito Mulheres e homens trabalhando em uma indústria de aparelhos de áudio e projetos de sonorização – trabalho altamente especializado – em Regente Feijó (SP), em 2019. A d ri a n o K ir ih a ra /P u ls a r Im a g e n s 27 V4_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap1_016-039.indd 27V4_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap1_016-039.indd 27 14/09/2020 11:4614/09/2020 11:46 1. Leia, a seguir, um trecho do artigo do sociólogo Gabriel Cohn e analise as imagens. Individualidade e cidadania num mundo dividido E se Durkheim desembarcasse aqui e agora, para avaliar o mundo que dei- xou? Não se sentiria um estranho nem deixaria de reconhecer progressos. Afi- nal, ele jamais tivera ilusões. Sempre soubera que o mundo cuja unidade bus- cava era irreparavelmente dividido. Mas provavelmente se surpreenderia com a persistência de problemas que buscara enfrentar com os recursos de uma ciência social teoricamente bem fundada e praticamente relevante, da qual se propunha ser o criador. Egoísmo selvagem e predatório como valor dominante no lugar do individualismo moral que imaginava estar em ascensão; anomia; dificuldades para lidar com a diversidade cultural; fortalecimento de particularismo; enfim, um mundo que o levaria a interrogar-se, no fundo, se a ciência social que propu- sera não teria se revelado insuficiente. Ou talvez não tivesse sido estudada com a devida atenção? Que cada qual imagine a resposta íntima do velho mestre. COHN, Gabriel. Individualidade e cidadania num mundo dividido. Perspectiva, São Paulo, v. 22, 1999. p. 37-38. Disponível em: https://periodicos.fclar.unesp.br/perspectivas/article/view/2080/1702. Acesso em: 15 jul. 2020. Explorando Professor, no Manual você encontra orientações sobre esta atividade. NÃO ESCREVA NO LIVRO anomia: patologia social fruto da ausência de regras e normas sociais. a) A partir da leitura e da análise das imagens, redija um texto abordando o que, do seu ponto de vista, possibilitaria a unidade em uma sociedade tão frag- mentada como a nossa. b) Reflita sobre como distintos locais de trabalho são retratados nas duas ima- gens e responda: seria possível ampliar a integração social considerando a divisão do trabalho? Engenheiros de software trabalhando em uma sala com vista privilegiada e uma mesa de pebolim em Kirkland, Washington, Estados Unidos, em 2009. Trabalhadores em uma das fábricas de um dos maiores produtores de celulares e de componentes eletrônicos do mundo, em Tamil Nadu, Índia, em 2019. S te p h e n B ra s h e a r/ G e tt y I m a g e s O cientista social britânico Steven Lukes, em 2015. Nascido em 1941, Steven Lukes é um cientista so- cial britânico e um dos maiores comentadores da obra de Émile Durkheim. Atualmente, é professor de Sociologia e Ciência Política da Universidade de Nova York, nos Es- tados Unidos. Além de pesquisas em variados te - mas, como liberalismo, individualismo, Sociolo- gia da moral e marxismo, Lukes escreveu a biografia Émile Durkheim: su vida y su obra: estudio histó- rico-crítico, referência no aprofundamento da aná- lise do autor clássico. Pe rfil R e p ro d u ç ã o /A rq u iv o p e s s o a l K a re n D ia s /B lo o m b e rg /G e tt y I m a g e s 28 V4_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap1_016-039.indd 28V4_Cie_HUM_Igor_g21Sc_Cap1_016-039.indd 28 14/09/2020 11:4614/09/2020 11:46