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ebook-1-sociologia-e-etica-profissional.pdf Unidade 1 Livro Didático Digital Silvia Cristina da Silva e Stephanie Freire Brito Sociologia e Ética Profissional Diretor Executivo DAVID LIRA STEPHEN BARROS Diretora Editorial CRISTIANE SILVEIRA CESAR DE OLIVEIRA Projeto Gráfico TIAGO DA ROCHA Autor SILVIA CRISTINA DA SILVA E STEPHANIE FREIRE BRITO Silvia Cristina da Silva Eu, Silvia, sou mestre interdisciplinar em Educação, Ambiente e Sociedade – Unifae, participante docente e discente no mestrado em Análise do Discurso – Universidade Federal de Buenos Aires. Sou especialista em Docência do Ensino Superior e Direito e Educação – Faculdade Campos Elíseos. Pós-graduanda em EAD – Faculdade Campos Elíseos. Graduada em Ciências Jurídicas e Sociais – Unifeob. Vice-diretora acadêmica na Agência Nacional de Estudos em Direito ao Desenvolvimento – Anedd. Especialista em investigação de antecedentes em instituições públicas e privadas. Docente e conteudista em diversas instituições educacionais para cursos de graduação e pós-graduação. Elaboradora de questões para concursos públicos em várias organizadoras. Gravadora, redatora, tradutora e intérprete da língua espanhola. Stephanie Freire Brito Eu, Stephanie, sou mestranda em Administração – PPGA/UFCG, com MBA em Marketing e Inteligência de Mercado. Desenvolvo a escrita de materiais didáticos na área de Ciências Sociais, Educação, Tecnologias, Administração e Ambiente. Somos apaixonadas pelo que fazemos e gostamos muito de transmitir nossas experiências de vida àqueles que estão se iniciando em suas profissões. Por isso, fomos convidadas pela Editora Telesapiens para integrar seu elenco de autores independentes. Estamos muito felizes em poder ajudar vocês nesta fase de muito estudo e trabalho. Conte conosco! AS AUTORAS Olá. Esses ícones irão aparecer em sua trilha de aprendizagem toda vez que: ICONOGRÁFICOS INTRODUÇÃO: para o início do desenvolvimento de uma nova com- petência; DEFINIÇÃO: houver necessidade de se apresentar um novo conceito; NOTA: quando forem necessários obser- vações ou comple- mentações para o seu conhecimento; IMPORTANTE: as observações escritas tiveram que ser priorizadas para você; EXPLICANDO MELHOR: algo precisa ser melhor explicado ou detalhado; VOCÊ SABIA? curiosidades e indagações lúdicas sobre o tema em estudo, se forem necessárias; SAIBA MAIS: textos, referências bibliográficas e links para aprofundamen- to do seu conheci- mento; REFLITA: se houver a neces- sidade de chamar a atenção sobre algo a ser refletido ou discutido sobre; ACESSE: se for preciso aces- sar um ou mais sites para fazer download, assistir vídeos, ler textos, ouvir podcast; RESUMINDO: quando for preciso se fazer um resumo acumulativo das últimas abordagens; ATIVIDADES: quando alguma atividade de au- toaprendizagem for aplicada; TESTANDO: quando o desen- volvimento de uma competência for concluído e questões forem explicadas; SUMÁRIO A construção do campo da Sociologia.......................................10 Preparação para o nascimento da Sociologia......................................10 Como e por que a Sociologia surge?..........................................................12 Conceitos básicos e conhecimentos em Sociologia............19 O que é de fato a Sociologia?............................................................................19 Como surgiu a Sociologia no Brasil?............................................................24 Percurso de ética sociológica e atribuições práticas..........28 Ética sociológica............................................................................................................28 O que é sociologia moral?.....................................................................................33 A Sociologia no campo científico relacionada ao contexto prático.......................................................................................................36 Conhecimento em Sociologia: da ciência à prática social.......36 Técnicas de pesquisa em Sociologia.........................................................40 Sociologia e Ética Profissional 7 UNIDADE 01 Sociologia e Ética Profissional8 Você sabia que o campo da Sociologia é importante para todas as profissões e que o conhecimento sobre sua construção nos faz compreender claramente a estrutura de sociedade que temos hoje? Isso mesmo, sem falar que a compreensão da Sociologia e de seus temas vinculados nos transformam em profissionais cada vez mais capazes de beneficiar o mundo e agregar boas práticas a partir de nossos ofícios. Elementos de estudo, como a ética relacionada aos fatores sociais, fazem- nos compreender como contribuir para o bem-estar de uma sociedade e é possível vincular esse tipo de prática a qualquer que seja nosso ambiente profissional. Conhecer os tipos, as dificuldades e os exemplos de práticas com embasamento sociológico pode fazer toda a diferença na sua carreira. Entendeu? Ao longo desta unidade letiva, você mergulhará nesse universo! INTRODUÇÃO Sociologia e Ética Profissional 9 Olá. Seja muito bem-vindo à Unidade 1. Nosso propósito é auxiliar você no desenvolvimento das seguintes objetivos de aprendizagem até o término desta etapa de estudos: 1. Compreender os fundamentos do processo de construção da Sociologia. 2. Conhecer os conceitos básicos e fundamentais da Sociologia e como ocorreu o seu surgimento no Brasil. 3. Inteirar-se sobre a ética no âmbito da Sociologia e as práticas da sociologia moral. 4. Compreender as formas de produção de conhecimento em Sociologia e os referentes métodos de pesquisa. Então? Preparado para uma viagem sem volta rumo ao conhecimento? Ao trabalho! OBJETIVOS Sociologia e Ética Profissional10 A construção do campo da Sociologia INTRODUÇÃO: Ao término deste capítulo, você será capaz de entender os fundamentos básicos que propiciaram o surgimento da Sociologia e o que embasará os estudos sociológicos. Isso será fundamental para o exercício de sua profissão. E aí, motivado para desenvolver essa competência? Então, vamos lá. Avante! Preparação para o nascimento da Sociologia Antes de iniciarmos com maior afinco sobre a construção da Sociologia, convém compreender a evolução dos estudos relacionados aos homens, a sua organização em grupos e como eles construíram a sociedade. O conhecimento a respeito das relações entre os homens e o seu convívio social começou a ser desenvolvido muito antes do século XIX. No entanto, o enfoque utilizado era predominantemente apoiado nos requisitos religiosos ou fundamentados nas leis e regras definidas a fim de manter uma ordem de comportamento entre os homens. EXPLICANDO MELHOR: Na verdade, o pensamento social tem seus primeiros registros na Grécia Antiga, partindo de pensadores clássicos e helênicos, como Platão e Aristóteles. Na ocasião, o pensador já desenvolvia teses e hipóteses sobre uma preocupação com a sociedade. Alguns questionamentos, como “Que modelo de sociedade deveria ser constituído?” ou “Que formas de relação social são válidas?”, são exemplos dos pensamentos com foco social daquele período. Sociologia e Ética Profissional 11 No mesmo sentido, setores de estudos, como a república, a política e as jurisdições, foram aspectos que separaram os modelos de comportamento e os problemas sociais do tempo de uma perspectiva puramente religiosa, para uma visão mais sistemática. Adiante, após percorrer períodos do pensamento medieval, ainda mais durante a Renascença, autores como Thomas Morus, Maquiavel, Hobbes, Locke e Rousseau trabalhavam formas sobre como as questões sociais eram pensadas. Ao passo que os processos de produção e os modelos econômicos foram crescendo, obras comentando fatores sociais passaram a incluir as suas relações no campo da Economia, da Política e da Democracia. A partir desse contexto econômico e social, surgiu, no século XVIII, a “doutrina socialista”, que tinha como foco questionar as injustiças de distribuição de renda e exploração de trabalhadores e exigir mudanças mais equitativas em relação à sociedade. Tabela 1 – Evolução do pensamento social Período Principais pensadores Principais ideias sociais Helenístico e Clássico (civilização grega) – entre 338 e 146 a.C. Platão (429-341 a.C.), Aristóteles (384-322 a.C.). Pensamentos sociais baseados em questionamentos sobre modelos ideais de sociedade. Idade Média – entre 476 e 1453. Ibn Khaldun (1332- 1406), São Tomás de Aquino (1332-1406). Ideias sociais baseadas no cristianismo. Renascença – entre 1300 e 1600. Thomas Morus (1478- 1535), Maquiavel (1469-1527), Hobbes (1588-1679), Locke (1632-1704). Pensamentos sobre os problemas sociais se relacionavam com questões comerciais e econômicas. User Rectangle User Rectangle User Rectangle Sociologia e Ética Profissional12 Século XVIII – entre 1701 e 1800. Montesquieu (1689- 1755), Hume (1711- 1776), Adam Smith (1723-1790), Jean Jacques Rousseau (1712-1778), Malthus (1766-1834). Questionamentos sobre realidade social de desigualdade e exploração e debates sobre relações equitativas entre os homens. Fonte: Elaborado pelas autoras. IMPORTANTE: É importante pontuar que esses pensamentos, construídos até o século XVIII, caracterizavam uma filosofia social, e não um pensamento sociológico científico ou institucionalizado de fato. Sobre essa etapa, falaremos a seguir. Como e por que a Sociologia surge? A Sociologia procura estudar sociedades, instituições que a nossa sociedade desenvolve, relações de poder entre os seres humanos e diversas culturas que o homem em sociedade vai formando. O problema é que tudo isso já existia na época da criação da Sociologia. Na verdade, sempre existiu, desde que o homem desenvolveu a cultura e fez relações sociais com os outros. O ser humano formou sociedades, estabeleceu instituições, relacionou-se com poderes e desenvolveu culturas diferentes. Mas por que a Sociologia surge apenas no século XIX, sendo que todos esses elementos já existiam? Esta é uma questão que responderemos ao longo deste capítulo. Para surgir um pensamento sobre alguma área de conhecimento humano, são necessárias condições históricas. Nenhum pensamento ou ciência surge do nada. Para que isso ocorra, é necessário algum motivo histórico concreto que propicie seu surgimento, e com a Sociologia aconteceu justamente dessa forma. User Rectangle User Rectangle Sociologia e Ética Profissional 13 Não bastam as sociedades, instituições e relações de poder e cultura para ter algum estudo sistemático sobre o tema. É necessária alguma ou várias condições históricas. Vejamos os principais motivos na ocasião da Sociologia, na figura a seguir: Figura 1 – Efeitos modificados pelas revoluções Fonte: Elaborado pelas autoras. A Revolução Industrial e a Revolução Francesa geraram muitas mudanças. Com elas, vieram outras muito maiores, mudanças de valores, por exemplo. Os valores morais, as normas ou regras em relação à maneira de agir sofreram modificações. Os hábitos também mudaram, uma vez que até o local de moradia também se alterou. Anteriormente, as pessoas estavam em um ambiente rural, a partir das Revoluções, ocorreu um processo de urbanização e modificaram seus hábitos. Isto é, toda a maneira de viver também mudou, e, por sua vez, a própria relação política encadeando o sistema econômico. Ou seja, houve mudança em relação a toda a estrutura de vida das pessoas, de todas as classes sociais. Inclusive, novas classes surgiram e classes antigas deixaram de existir. A vida das pessoas mudou por completo e, consequentemente, isso gerou certa insegurança, e uma instabilidade se instaurou na sociedade a partir desses acontecimentos. Observe a figura a seguir: Sociologia e Ética Profissional14 Figura 2 – Os comedores de batatas Fonte: Wikimedia Commons. Em sua obra, Os comedores de batatas, Van Gogh retrata trabalhadores de minas de carvão, que vivem na miséria, conseguindo finalmente comer alguma coisa, que no caso são batatas. A pintura representa pessoas que estão em estado calamitoso, passando por transformações sociais oriundas das Revoluções Industrial e Francesa. Essas pessoas vivem o momento de instabilidade e insegurança em relação à sobrevivência. A urbanização, que viria para melhorar esse tipo de situação, não apresentou resultados bons como se esperava. Dessa forma, surgiram situações de total desigualdade social, causando o sofrimento de grande parcela da sociedade, na qual não é possível comparar política e economicamente ricos e pobres, devido ao gigantesco contraste da situação social. Sociologia e Ética Profissional 15 Figura 3 – Efeitos da urbanização: nativos indianos esperando alívio da fome, em 1877 EXPLICANDO MELHOR: Com base nos exemplos expostos, a compreensão sobre o motivo pelo qual a Sociologia surge no século XIX fica mais facilitada: seu surgimento veio para tentar responder questões voltadas à insegurança e à desigualdade, provocadas pelas mudanças acarretadas pelas Revoluções, além de buscar alguma solução que pudesse modificar esse cenário problemático. Fonte: Wikimedia Commons. De modo geral, a Sociologia ganha espaço ao dedicar como objeto de seus estudos o homem e a sua situação social, em uma época em que os estudos primordiais tinham maior foco em questões transcendentais, filosóficas e religiosas. Atualmente, as questões sociais se ampliaram e podem se dedicar com maior ênfase a trabalhar problemas que abordam as seguintes questões: Sociologia e Ética Profissional16 • Movimentos pela igualdade racial. • Movimentos pela igualdade de gênero. • Movimento em defesa dos LGBTs. • Movimento social em defesa das pessoas xportadoras de necessidades especiais. • Movimentos indígenas. • Questões socioambientais. • Empoderamento e inclusão social. Figura 4 – Movimento pela igualdade de gênero Fonte: Freepik. A sociedade é ampla e assume um caráter de intensa diversidade, as questões sociais são adaptáveis e modificam-se de acordo com a evolução de todos os aspectos que envolvem as transformações e os direitos individuais e coletivos. Sociologia e Ética Profissional 17 ACESSE: O artigo “Movimentos sociais, educação e emancipação: o caso do movimento negro brasileiro” (GOMES, 2017) faz uma reflexão sobre como o movimento negro brasileiro é responsável por sistematizar e produzir saberes por meio de suas lutas por emancipação. Esses saberes reeducam a população brasileira, sobretudo no que diz respeito às relações étnico-raciais, e sustentam a demanda e a implementação de uma série de políticas públicas que visam à promoção da igualdade étnico-racial. Disponível em: https://bit.ly/34gahRu . Acesso em: 08/02/2020. RESUMINDO: E, então, gostou dessa primeira competência? Agora, só para termos certeza de que você realmente entendeu o tema de estudo deste primeiro capítulo, vamos resumir tudo o que vimos. Você deve ter aprendido que os contextos dos estudos da Sociologia não são nem um pouco recentes. Vimos que, antes mesmo de ser institucionalizada como ciência, os grandes sábios, filósofos e pensadores já iniciavam a filosofia social, que prestava atenção aos aspectos comportamentais, morais e filosóficos a respeito da vida do homem em sociedade. Também podemos nos lembrar de como as etapas da modificação dos processos de produção industrial provocaram o surgimento de novas classes sociais e mudaram completamente a vida das pessoas, contribuindo, assim, para o incômodo dos pensadores, que passaram a questionar certos comportamentos coletivos em relação ao modo de vida das pessoas. Dessa forma, surgiu a Sociologia. É importante pontuar que os efeitos decorrentes dessas mudanças explicam muito bem a estrutura social de hoje. Por meio de observação de como ocorreu o processo de urbanização na época e como isso foi útil para a marginalização de grande parcela da sociedade, devido à concentração de riqueza ser distribuída na mão de poucos burgueses, compreendemos que a nossa sociedade atual Sociologia e Ética Profissional18 RESUMINDO: arrasta alguns efeitos desse fenômeno. É importante relembrar que a sociedade é ampla e mutável e que, apesar da passagem do tempo, os seus problemas não se extinguiram por completo, mas se adaptaram a uma nova realidade, desencadeando novas intervenções sociais na luta por direitos dos grupos. Tomando por base esses aprendizados, o profissional, em qualquer que seja a sua área de atuação, estará preparado para entender as responsabilidades das ações e promover em seu ofício as melhores decisões possíveis. Sociologia e Ética Profissional 19 Conceitos básicos e conhecimentos em Sociologia INTRODUÇÃO: Nesta unidade, discutiremos sobre os conceitos basilares da Sociologia, os seus efeitos e os desafios históricos. Além disso, estudaremos o surgimento dessa ciência no Brasil, os seus campos mais abordados e os seus principais pensadores. O que é de fato a Sociologia? Já estudamos anteriormente o surgimento da Sociologia e como ocorreu a construção do seu campo de estudo. Convém conhecermos de fato qual a definição do termo, antes de estudarmos os seus outros aspectos. DEFINIÇÃO: A Sociologia é uma ciência em constante aprimoramento, que procura compreender e estudar as estruturas sociais, políticas, econômicas e culturais que estão relacionadas com a sociedade moderna. A Sociologia foi constituída como ciência, efetivamente, a partir da consolidação da burguesia, como forma de questionamento de situações de exploração e discrepante desigualdade de classes. Pode-se afirmar que sua constituição é decorrente do regime capitalista e sua interferência na sociedade moderna. Sociologia e Ética Profissional20 DEFINIÇÃO: A sociedade é o objeto de estudo da Sociologia. O termo é utilizado para traduzir um grupo de pessoas organizadas, compartilhando uma mesma cultura e território. Vejamos a seguir algumas características de sociedade: • Composta de uma rede de relações sociais. • As relações entre as pessoas são um requisito da sociedade. • Esse relacionamento por vezes é indireto ou inconsciente. • Não há delimitação geográfica. • Universal, generalizada, ampla e abstrata. • Comunidades com interesses comuns estão presentes na sociedade. NOTA: As grandes rupturas no modo de viver da sociedade, como vimos na seção anterior, foram motivadas pela industrialização, pelas novas formas de economia, pelo processo de urbanização, pela desigualdade de classes e pela exploração trabalhista. Esse cenário favoreceu o desencadeamento de revoltas populares nos centros urbanos industriais, no momento em que nascia também a Sociologia. Sociologia e Ética Profissional 21 Figura 5 – Revolta popular em 1877 Fonte: Wikimedia Commons. É possível afirmar que a Sociologia nasceu no mundo moderno e nessa dinâmica podemos visualizar a participação de alguns entes importantes para a construção da sociedade, que são as organizações. Em um contexto social, vamos entender a definição de organizações: DEFINIÇÃO: Podemos defini-las de duas formas: sob um enfoque social, que demonstra que a organização é uma junção de vários esforços individuais com propósito coletivo único; e sob uma perspectiva administrativa, as organizações são empresas, fundações, instituições, órgãos públicos etc. Sociologicamente, é possível estudar as duas. A respeito do cenário social que se constrói no período do mundo moderno, em relação à economia e à sociedade, Ferreira comenta: Sociologia e Ética Profissional22 Trata-se de uma época em que a originalidade e as contradições do Estado burguês se encarregam de construir e fortalecer os alicerces da atual sociedade. De lá para cá, se aprimora a construção das estruturas da economia e do Estado, das tecnologias, dos atores e dos sujeitos sociais que assegurarão a originalidade do capitalismo. Se estrutura uma sociedade que produz mais-valia ou trabalho não pago. Uma sociedade que vai se tornando cada vez mais complexa; uma sociedade que concentra, de um lado, os meios de produção e a riqueza nas mãos de poucos e, de outro lado, cria uma imensa massa original e diferenciada de trabalhadores. Estes deverão vender sua própria força de trabalho para se manterem vivos, para reproduzirem trabalhadores novos que continuarão a produzir, de forma cada vez mais sofisticada, a magia da mercadoria. (FERREIRA, 2014, p. 14) IMPORTANTE: É importante pontuar que o produto desse cenário descrito pelo autor é a sociedade que conhecemos atualmente, baseada em um processo histórico que inclui fatores produtores de fenômenos sociais extremamente complexos e diversificados. A diversificação dos fenômenos sociais justifica a situação de constante ajuste e construção que a Sociologia apresenta como ciência. O objetivo dos estudos e das investigações da Sociologia é adaptável, dependendo sempre de contextos específicos para desvendar o comportamento da sociedade nessas diferentes situações. REFLITA: De acordo com o exposto até aqui, você consegue identificar qual o ofício de um profissional de análise social? De que maneira ele executa o seu trabalho? Sociologia e Ética Profissional 23 O sociólogo ou profissional de áreas afins trabalha construindo o objeto de estudo, delineando o método para análise do objeto e a forma de como explicar as estruturas e os diversos fenômenos sociais que permeiam esse ambiente. O ofício consiste, verdadeiramente, em ver, analisar e explicar as relações entre as classes, os seus interesses e as suas lutas. Figura 6 – Profissional realizando análise social Fonte: Freepik. Além disso, faz parte do seu escopo de observação fatores políticos, como a organização do Estado, da sociedade civil, as relações e os efeitos dos serviços e as instituições públicas e privadas, o capital, os níveis de concentração de poder e riquezas, os fenômenos de inclusão e exclusão social e as causas e efeitos, além de aspectos de globalização. A atividade advinda desse ofício e do estudo da sociedade refere- se a um requisito útil, que é necessário para melhor compreensão dos movimentos da vida em sociedade. Essa compreensão é indispensável no que se refere à competência técnica em qualquer âmbito profissional, uma vez que não existe nenhuma área técnica que não se relacione com a política e que não sirva à sociedade. Sociologia e Ética Profissional24 Como surgiu a Sociologia no Brasil? VOCÊ SABIA? Você já sabe que o surgimento e a institucionalização da Sociologia aconteceram na Europa, mas sabe como ocorreu no Brasil e o que estava acontecendo por aqui? Bem, existe certa semelhança entre os dois casos. No Brasil, a Sociologia também aparece motivada pelo desenvolvimento do capitalismo e, um pouco mais tarde, das formas de produção industrializadas, a partir de 1930, depois de a Sociologia, como ciência, estar mais sólida. Basicamente, houve três movimentos que trouxeram transformações em muitos fatores da sociedade. Devido ao caráter de avanço da Sociologia no que se refere à ciência, os estudos desse ramo se vincularam à literatura e à arte, no entanto, ela só se firma como ciência no Brasil no século XX. Assim como ocorreu na Europa em meados da década de 1870, as mudanças sociais, econômicas, políticas e culturais acabaram por incomodar alguns pensadores e despertaram interesse em aprofundarem- se mais na ciência social diante desse contexto. O desenvolvimento da Sociologia no Brasil pode ser dividido em três momentos, descritos a seguir: • 1ª geração – Conhecida como geração pré-científica, é muito vinculada à literatura nacional e os seus grandes expoentes, como Machado de Assis, Lima Barreto e Luiz de Azevedo, e também dos autores da ciência, principalmente, da área de Biologia, que vieram para explicar a realidade brasileira. Em datas, essa geração vai de 1860 a 1920. • 2ª geração – Conhecida como geração científica, é a mais intelectualizada da Sociologia, com obras mais densas e profundamente científicas, surge por volta de 1925 a 1930 Sociologia e Ética Profissional 25 e transcorre até o final da década de 1950. Nessa fase, temos autores universitários que fazem discussões em campo acadêmico. • 3ª geração – Uma geração mais próxima do nosso tempo atual, em que muitos de seus intelectuais ainda estão vivos. Essa geração traz maiores discussões sobre poder, política, economia e o subdesenvolvimento do Brasil. IMPORTANTE: A consolidação da Sociologia no Brasil contou com a contribuição de intelectuais extremamente importantes, inicialmente sob influência do positivismo de Augusto Comte e posteriormente de Marx Weber e Karl Marx. Entre esses pensadores temos: Na primeira geração, Gilberto Freyre, com a obra Casa- grande e senzala, e também o autor Sílvio Romero discutem o racismo e o papel social do negro. No mesmo contexto, trabalhou Sérgio Buarque de Holanda, introduzindo no Brasil as leituras de Weber. Sociologia e Ética Profissional26 Figura 7 – Gilberto Freyre, autor da obra Casa-grande e senzala Fonte: Wikimédia Commons. Na segunda geração, contamos com o autor e sociólogo Caio Prado Júnior, com influência marxista, muito conhecido por separar o percurso econômico em ciclos, dividindo os períodos em ciclo do ouro, ciclo do café, ciclo da colonização e extração do pau-brasil. Na terceira geração, há autores muito influentes internacionalmente, como Fernando Henrique Cardoso, que posteriormente se tornou presidente do Brasil, Maurício Tragtenberg, demonstrando posturas desvinculadas dos parâmetros religiosos, e Darcy Ribeiro, que discute em suas obras questões indígenas. A Sociologia no Brasil ainda produz obras importantíssimas de cunho internacional, mas nós estamos falando dos autores clássicos, renomados no passado, como autores obrigatórios de leitura com produções muito atualizadas, que facilitam a compreensão dos fenômenos sociais atuais. Sociologia e Ética Profissional 27 SAIBA MAIS: Quer se aprofundar nesse tema? Leia o artigo “A herança oculta da migração no Brasil: uma discussão acerca do combate ao trabalho escravo” (MARÇAL, et al., 2019). A questão tratada nesse artigo é a problemática na qual o Brasil é envolvido historicamente, no que se refere ao fluxo de migração para trabalho e moradia, abordando as repercussões jurídicas contemporâneas. Disponível em: https://bit.ly/3gjkYoC. Acesso em 06/02/2020. RESUMINDO: Chegamos ao final de mais uma seção desta unidade, na qual tratamos inicialmente dos aspectos conceituais e introdutórios sobre os conceitos basilares que circundam o ambiente do campo da Sociologia, de modo que se inicia a sua familiarização com aspectos do tema que estão relacionados aos principais escopos de observação da ciência em sua composição. Você deve ter aprendido que é de extrema importância para o profissional que atua nas mais diversas áreas reconhecer os componentes e processos da ciência que estuda a sociedade, bem como os elementos que contribuíram para a sua construção em seu país de origem e como esses estudos explicam a realidade atual da sociedade em que você está inserido. Também podemos relembrar que as fases de aprimoramento da Sociologia no Brasil passaram por três gerações, sendo elas: a primeira geração, pré-científica, com estudos mais dedicados à situação de escravidão, que ainda acontecia na época; a segunda geração, com maior produção no ambiente acadêmico, trazendo para as produções um caráter mais científico; e, posteriormente, a terceira geração, que ainda é muito semelhante ao nosso contexto atual, trabalhando com maior afinco fatores políticos, econômicos e de subdesenvolvimento do país. Por fim, conhecemos os principais pensadores, autores brasileiros, internacionalmente conhecidos e suas clássicas obras sobre a Sociologia, contextualizando problemas reais totalmente aplicáveis aos dias atuais. Sociologia e Ética Profissional28 Percurso de ética sociológica e atribuições práticas INTRODUÇÃO: Nesta competência, vamos aprender sobre um embasamento teórico e prático acerca da ética sociológica, com maior dedicação, assim como os principais modos de aplicação e a transição do estudo da ética da Filosofia para a Sociologia, por meio da utilização dos métodos mais eficazes. Ética sociológica Antes de iniciarmos os estudos sobre a ética e os seus vínculos com a ciência da sociedade, convém conhecer a conceituação do seu termo. Vejamos a seguir: DEFINIÇÃO: O conceito de ética é de extrema complexidade e pode ter diversas aplicações, dependendo do contexto. É referente a um princípio filosófico relacionado ao estudo dos valores morais. Sua aplicação é realizada individual e coletivamente, que impacta na vida cotidiana, nas empresas, nas políticas, entre outros. Onde a ética e a sociedade se encontram? A ética, como teoria sobre o comportamento humano, subdivide-se em duas partes, são elas: a moral e os valores. A ideia de como se dá o comportamento humano permite a compreensão dessa teoria, baseando-se na moral e nos valores. Desde as origens da Sociologia, seus “pais fundadores”, ao debaterem exaustivamente questões metodológicas, traziam junto com o debate princípios éticos que indicavam condutas a serem observadas nas pesquisas. Principalmente, o respeito às populações vulneráveis, desde sempre, seu foco de Sociologia e Ética Profissional 29 investigação. Como estudar as populações vulneráveis, como os trabalhadores e seus espaços de trabalho; os imigrantes em processo de reorganização social; camponeses; as formas de segregação social, racial, espacial; como entrar no campo e fazer um trabalho etnográfico em áreas urbanas, e outras temáticas afins. Embora a formalização dos procedimentos éticos tenha sido gradativa, acompanhando a crescente formação e profissionalização da área, ela é constituinte da própria disciplina. (LIMA, 2015, p. 220) Figura 8 – Composição básica da ética Valores → Ética ← Moral Fonte: Elaborado pelas autoras. A moral é um conceito coletivo, é algo que todos têm e concordam que está correto por meio de um acordo implícito na própria sociedade, e todo o grupo social que fazemos parte aceita esses comportamentos como absolutamente naturais. EXPLICANDO MELHOR: Contudo, não podemos deixar de pontuar que a moral não é fixa e rígida, está sujeita a mudanças com o decorrer do tempo e com o contexto cultural em que estiver inserida. Por exemplo, no século XIX, no Brasil, era moralmente aceita a posse de humanos escravizados prestando serviço a qualquer indivíduo sem qualquer dignidade oferecida em troca, e a sociedade tratava isso com muita naturalidade. Porém, atualmente, isso é crime e está constantemente em pauta na luta por direitos humanos e individuais. A figura a seguir demonstra a naturalidade como a escravidão era vista no século XIX no Brasil. Na ocasião, a fuga de um escravo é anunciada nos jornais e oferece-se recompensa financeira por seu resgate. Casos como anúncios de compra e venda de escravos nos veículos de comunicação também eram normais na época. Sociologia e Ética Profissional30 Figura 9 – Anúncio em jornal de recompensa para escravo fugido Fonte: Wikimedia Commons. Entretanto, é natural que dentro desse grupo social sempre existam pessoas que discordem do que é moralmente aceito em sociedade, pois, nesse sentido, entra a questão dos valores. O já comentado acordo socialmente aceito é modificado ao longo do tempo, devido à manifestação dos valores. Um exemplo disso são as manifestações sociais que mobilizam um número de pessoas, por vezes é comunicada na mídia, e realizam um papel de educação, orientando a sociedade para a valorização de algum direito e modificando a percepção e os comportamentos moralmente aceitos, porém danosos, nessa sociedade. Os valores são individuais e imutáveis, ou seja, fatores como o passar do tempo e o contexto cultural não os modificam. Por exemplo, Sociologia e Ética Profissional 31 honestidade, no ano de 2020, tem o mesmo sentido de honestidade no ano 300 a.C. e no ano de 1800. IMPORTANTE: Integridade e solidariedade são valores pessoais imutáveis carregados pelo, indivíduo, independentemente do que a sociedade acha que deve ser feito ou não. Um exemplo disso é a seguinte situação: “O ano é 1800, é moralmente permitido ter escravos servindo à sociedade, no entanto, você não concorda e opta por ter alguém trabalhando para você de forma justa e recompensada e, além de não ter nenhum escravo, lutará contra quem tem”. Sempre que a crença coletiva bater de frente com o que o indivíduo acredita impessoalmente, surgem novos comportamentos. Estes, dependendo de como a sociedade está organizada, são entendidos como subversivos ou contrários. Vemos cada vez mais isso nas manifestações sociais, nos protestos, entre outros. A atual comunicação, veloz e efetiva por meio das redes sociais e acesso facilitado à Internet, permite às pessoas de se inteirar e obter informações sobre o que acontece no conjunto inteiro, que é a nossa sociedade. Cada vez que temos uma visão sobre como a sociedade está se comportando, individualmente nos adequamos a como iremos nos comportar. Exemplo: Um exemplo bem prático disso é o que diz respeito à política nos dias atuais. Independentemente do que dizem as propagandas, por meio dos meios de comunicação, incluindo a Internet e as redes sociais, cada pessoa tem acesso a vários pontos de vista e, no entanto, constrói a sua opinião a partir disso, de acordo com os seus valores e preferências. Sociologia e Ética Profissional32 Figura 10 – Formação de opiniões por meio de redes sociais Fonte: Freepik. Ou seja, mesmo que haja uma tendência publicitária indicando que 99% das pessoas concordam com o posicionamento X, existirá 1% que discorda, por isso existem as discussões. RESUMINDO: Em suma, a ética é composta por essas duas questões, que se referem ao que o coletivo está pensando organizadamente, no entanto, considerando também as ações e a opinião do que cada um pensa individualmente. Dessas partes, então, surge a sociedade que é um sistema complexo, ou seja, um sistema composto de muitas partes, como uma teia ou uma rede, e essa sociedade precisa do contexto de ética para estabelecer as suas regras. Em uma visão sociológica, a ética nada mais é do que um mecanismo para garantir as relações benéficas e saudáveis entre os indivíduos do mesmo coletivo. Como seria algo saudável? Podemos exemplificar como: saber ouvir, pensar antes de falar, respeitar ideias e opiniões diferentes das suas, ser solidário, generoso etc. Sociologia e Ética Profissional 33 O que é sociologia moral? DEFINIÇÃO: A sociologia moral se refere a um ponto de vista sobre a vida em sociedade, na qual a moral se manifesta, apesar de sua revelação ocorrer nas entrelinhas dessa rotina social. A sociologia moral busca responder três questionamentos sobre a complexa teoria social. São elas: • O que é ação social? • Como é possível a ordem social? • Quais são as condições para a mudança social? NOTA: Essas perguntas buscam pelas respostas que envolvem aspectos éticos e esclarecedores a respeito da dimensão moral do cotidiano da sociedade. O seu propósito é afirmar que os princípios, normas e valores preestabelecidos em um acordo social, não são apenas mecanismos de regulação comportamental, mas também fatores que desencadeiam a sua constituição. Como a moralidade é parte da cultura, a sociologia moral é, por definição, uma sociologia cultural. Como a cultura, a moralidade constitui um sistema referencial de ação relativamente autônomo. O que distingue moralidade de cultura é sua relação intrínseca com padrões normativos de avaliação, julgamento e justificação em termos de entendimentos sobre o que é certo e errado, bom e mau, com valor e sem valor, justo e injusto. (SMITH, 2003, p. 8) Sociologia e Ética Profissional34 É interessante pontuar que, apesar de as questões éticas e morais que estudamos serem de natureza filosófica, quando aplicadas ao contexto de sociedade para investigar os atores sociais, torna a aplicação dos princípios éticos mais sociológicos. No entanto, para realizar a transferência de contexto da filosofia moral para a sociologia moral é necessário que as pesquisas sejam realizadas por meio de técnicas e métodos adequados de investigação moral. O que é necessário aqui é uma boa articulação entre i) descritivo e prescritivo, ii) externo e interno, iii) posições de observador e de ator: (i) A partir dessa perspectiva dialógica, é preciso, primeiro, estudar as prescrições normativas de filósofos, para melhor descrever a dimensão normativa da vida social. (VANDENBERGHE, 2015) Nesse caso, as pesquisas em torno do objeto social devem realizar métodos empíricos e científicos, de modo a coletar dados e informações sobre a percepção dos indivíduos e como os atores sociais ponderam, pensam, avaliam, justificam e atuam moralmente em situações rotineiras e casuais do cotidiano social. Denominamos construção de conhecimento a operacionalização desse tipo de pesquisa. Para garantir que esse conhecimento em torno da moral sociológica seja bem estruturado e eficiente, trabalharemos no capítulo seguinte as formas de construção de conhecimento, bem como os métodos adequados de pesquisa. SAIBA MAIS: Quer saber mais sobre a ética e a moralidade no âmbito da Sociologia? Recomendamos a leitura do artigo “A Sociologia como uma filosofia prática e moral (e vice versa)” (VANDENBERGHE, 2015) . Embora boa parte da Sociologia contemporânea tenha um caráter político e moralizante, a sociologia da moral como tal permanece pouco desenvolvida. Diferentemente da sociologia da religião, do conhecimento ou das artes, a sociologia da moral não Sociologia e Ética Profissional 35 Também podemos relembrar os obstáculos que os estudos sobre a sociologia ética enfrentam para caracterizarem-se como tal, por a ética ser um campo do estudo filosófico, mas, diante do comportamento da sociedade, existem meios de integrá-la para a possibilidade de uma melhor compreensão sobre os comportamentos éticos em uma esfera social. SAIBA MAIS: possui uma verdadeira tradição, ainda que os pais fundadores da disciplina tivessem, é claro, grande interesse sobre os temas da moral e da ética. Disponível em: https://bit.ly/3hjksID Acesso em 11/02/2020. IMPORTANTE: É importante relembrar que a moral é algo mais amplo e aceitável socialmente, no entanto os valores são características essencialmente individuais e imutáveis com o tempo e a situação. No debate, também foram expostas as formas de aplicação dos princípios da ética social nos dias atuais, por meio dos diferentes meios de comunicação e como os valores se comportam diante de tudo isso, inclusive como os impactos do comportamento em sociedade por meio das redes sociais impactam todo o setor público. RESUMINDO: Até agora está gostando do que tem estudado? Para garantir que você realmente entendeu o tema de estudo deste capítulo, vamos resumir mais uma vez todo o assunto que trabalhamos. Iniciamos a seção 3 com um embasamento teórico e contextualizado acerca da ética no contexto da Sociologia, bem como o seu crescimento, aplicação prática e relação com o contexto social até os dias atuais. É interessante relembrar a variedade de aplicações possíveis para a ética e os conceitos relativos aos elementos de sua composição, que são: a moral e os valores. Sociologia e Ética Profissional36 A Sociologia no campo científico relacionada ao contexto prático INTRODUÇÃO: Nesse encontro, vamos trabalhar brevemente as formas de produção do conhecimento em Sociologia, bem como suas aplicações práticas após a concepção científica. Além disso, conheceremos os diferentes tipos de técnicas e métodos adequados para a área de conhecimento em Sociologia. Conhecimento em Sociologia: da ciência à prática social Os estudos e as investigações para compreender os fenômenos sociais são delineados por vários tipos de metodologias que auxiliam a construção de conhecimento em sociologia. Esses conhecimentos podem ser produzidos, na maioria das vezes, pelo senso comum ou adotando meios científicos. A seguir iremos distinguir e exemplificar esses dois tipos de conhecimento. O primeiro deles é o senso comum. A sua criação acontece por meio do conhecimento empírico ou do conhecimento popular, que é baseado na observação, na vivência. Na maioria das vezes, é um conhecimento que pode ser desenvolvido individualmente e/ou coletivamente, por meio de uma percepção sobre alguma situação ou fenômeno. Normalmente, esse conhecimento é transmitido de uma pessoa para outra ou de geração em geração, informalmente, sem qualquer comprovação científica, vindo a se tornar senso comum. EXPLICANDO MELHOR: O senso comum é um conhecimento popular, difundido boca a boca por meio de uma identificação cultural. Ao passo que as pessoas dividem um mesmo costume e um mesmo ambiente e vivem coincidentemente as mesmas situações, as ideias combinam e se tornam uma espécie de sabedoria popular. Sociologia e Ética Profissional 37 Figura 11 – Senso comum: combinação de ideias e experiências Fonte: Freepik. Exemplo: Em um contexto mais generalizado, um exemplo de conhecimento empírico e de senso comum é a afirmação bem conhecida que diz: “leite com manga faz mal”, ou que o noivo não pode ver a noiva usando o vestido de casamento antes da cerimônia. Essas afirmações ultrapassaram horizontes temporais e geográficos, mesmo não tendo nenhum respaldo científico. Esse tipo de conhecimento requer alguns cuidados, pois provavelmente o que pode acontecer é a nivelação do todo, com base em um caso individual, que não foi comprovado e transformou-se em uma informação falível e inexata. No entanto, como é um acontecimento ligado ao dia a dia, existe a possibilidade de investigação por meio de métodos científicos, a fim de confirmar sua veracidade. De toda forma, o senso comum não deve ser totalmente subestimado, uma vez que é fruto de observação popular e admite os fatos sociais, além de orientar as pessoas sobre questões importantes do cenário social, por exemplo: desemprego, prostituição, decomposição das famílias, fome, baixos salários, doenças, exclusão social, racismo, preconceitos e outras situações que envolvem o contexto de comportamento das pessoas sobre uma visão coletiva. Sociologia e Ética Profissional38 Profissionalmente, o senso comum possibilita uma riqueza de detalhes, uma vez que informações podem ser coletadas na fonte, com quem vive o problema, que são pessoas, e essas informações favorecem o direcionamento de trabalhos e projetos maiores, principalmente, os que se situam em uma esfera política superior. Além da imprescindível participação dos poderes públicos municipais, estaduais e/ou federais, as empresas como atores sociais têm o papel de direcionar bem seus esforços em prol dos problemas sociais, e também a organização e a luta dos trabalhadores são extremamente importantes para a regulação de deficiências que permeiam a sociedade. Figura 12 – Luta social NOTA: Essas situações são problemas sociais que necessitam de soluções, mas, para isso, precisam antes ser percebidos, compreendidos e explicados. A rápida comunicação por identificação cultural educa e orienta as pessoas sobre os fenômenos sociais de uma maneira natural, prática e de fácil entendimento. Fonte: Freepik. Sociologia e Ética Profissional 39 Para garantir a confiabilidade, os fatos devem ser testados e comprovados em prol de uma maior assertividade de ações. Desse modo, a produção de conhecimento sobre a sociedade deve adotar bases científicas. Outro tipo de conhecimento que iremos tratar nesta seção é o científico. Trata-se de um conhecimento baseado em fatos, que passou por análises e comprovações e é afirmado com convicção, evidências e provas. Esse conhecimento pode ser transmitido por intermédio e ambiente formais por meio de treinamentos, metodologias e técnicas específicas e apropriadas. É adquirido racionalmente por meio da utilização de procedimentos científicos. O conhecimento científico tem como finalidade trazer evidências e responder aos questionamentos “por que”, “de que maneira”, “em quais circunstâncias” os fenômenos acontecem, ou não acontecem – caso não seja comprovado a veracidade sobre algum fato. No entanto, o conhecimento empírico e o científico não são concorrentes nem se opõem completamente. Por muitas vezes, eles podem ser complementares, pois o caminho para o saber e a verdade não depende ou é limitado exclusivamente aos métodos científicos. A respeito da correlação entre os dois, Marconi e Lakatos afirmam: [...] O conhecimento vulgar ou popular, às vezes denominado senso comum, não se distingue do conhecimento científico nem pela veracidade nem pela natureza do objeto conhecido: o que os diferencia é a forma, o modo ou o método e os instrumentos do “conhecer”. Saber que determinada planta necessita de uma quantidade “X” de água e que, se não a receber de forma “natural”, deve ser irrigada pode ser um conhecimento verdadeiro e comprovável, mas, nem por isso, científico. Dessa forma, patenteiam-se dois aspectos: a) A ciência não é o único caminho de acesso ao conhecimento e à verdade. b) Um mesmo objeto ou fenômeno – uma planta, um mineral, uma comunidade ou as relações entre chefes e Sociologia e Ética Profissional40 subordinados – pode ser matéria de observação tanto para o cientista quanto para o homem comum; o que leva um ao conhecimento científico e outro ao vulgar ou popular é a forma de observação. (MARCONI; LAKATOS, 2003, p. 75) Para compreender a dinâmica de funcionamento da sociedade, são dedicados esforços intelectuais, e todo processo de análise requer também um processo de interpretação. O estudo na prática social requer um compromisso de classe, com foco na população, que é o principal alvo da formulação das políticas públicas. Técnicas de pesquisa em Sociologia A produção de conhecimento científico é realizada por meio da orientação dos métodos de pesquisa científica. Vale destacar que as técnicas de pesquisa garantem a confiabilidade dos resultados que serão apresentados pelo estudo, além disso, o cuidado na utilização de meios adequados determina a ética da pesquisa e do produtor de conhecimento que está a realizando. De acordo com Lakatos (1990), as principais técnicas de pesquisa em Sociologia são: Pesquisa documental – Fontes primárias de coleta de dados: • Arquivos públicos e particulares. • Estatísticas oficiais. • Censos. • Livro do tombo etc. Fontes secundárias • Obras e trabalhos elaborados. • Jornais. • Revistas e outros. Sociologia e Ética Profissional 41 Figura 13 – Profissional realizando pesquisa documental Fonte: Freepik. Pesquisa de sociometria – A coleta e a interpretação dos dados acontecem por meio da descrição quantitativa das relações interpessoais com o objetivo de descobrir, principalmente, os padrões de liderança de um determinado grupo. Por esse motivo, esse tipo de pesquisa tem relação com a estrutura interna dos grupos sociais e investiga as formas mais complexas que despontam das forças de atração e repulsão entre os membros de um determinado grupo. História de vida – O objeto de pesquisa nesse caso é um determinado indivíduo que representa um grupo, a técnica consiste em obter todos os dados referentes a uma ou mais pessoas, em todas as fases de sua vida, de modo que os dados e as informações permitam o mapeamento do comportamento de um grupo social por meio dessa amostragem, determinada pelo próprio pesquisador. Entrevista – Essa técnica consiste em obter informações sobre a percepção do entrevistado, por meio de um contato direto entre o pesquisador e o respondente, por meio da conversação com perguntas e Sociologia e Ética Profissional42 respostas, o pesquisador obtém dados pertinentes. Esse tipo de técnica pode ocorrer de duas formas: • Dirigida – por meio de um roteiro pré-estruturado. • Não dirigida – o entrevistado tem total liberdade para expor suas ideias e percepções sobre o assunto mencionado pelo pesquisador. Pesquisa com questionário – O objetivo é coletar dados por meio de uma série de perguntas e/ou afirmações escritas, nesse caso as respostas fornecidas pelo respondente não têm qualquer contato direto com o pesquisador. Formulário – Essa técnica é bastante semelhante à técnica anterior, porém, nesse caso, o pesquisador realiza as perguntas e registra as respostas incluindo observações complementares. Essa observação pode ser de dois tipos: • Sistemática – Neste tipo de observação o pesquisador observa de forma sistematizada os fenômenos do grupo que podem ser interessantes para a sua pesquisa. Essa observação pode ser feita de forma direta, quando observa os fatos pessoalmente no local de trabalho, ou de forma indireta, feita por meio de outras pessoas. • Participante – O pesquisador, nesse caso, tenta vivenciar as experiências de determinado grupo, incorporando-se a ele, usando técnicas de ganho de confiança e participando de todas as vivências costumeiras do grupo, podendo revelar a sua condição de pesquisador ou não. Sociologia e Ética Profissional 43 Figura 14 – Pesquisa com questionário Fonte: Freepik. Pesquisa cartográfica – Essa técnica consiste no uso de instrumentos de mapeamento geográfico, o pesquisador faz uso de mapas, cartas, desenhos, gráficos, tabelas, entre outros. O objetivo é tornar expressivos os dados complexos. NOTA: Cada um dos métodos supramencionados exige o emprego de várias outras técnicas que serão definidas pelo pesquisador e dependem do tipo de estudo que está sendo realizado. A produção do conhecimento científico é feita por meio de instrumentos, ainda mais nesse contexto sociológico, no qual o cenário desfruta de extensa complexidade para garantir um bom resultado do conhecimento que está sendo produzido, é necessário que as técnicas e os métodos adequados sejam cuidadosamente escolhidos. Sociologia e Ética Profissional44 SAIBA MAIS: Quer se aprofundar sobre o senso comum nos estudos em Sociologia? Recomendamos a leitura do texto “A formação docente na universidade e a ressignificação do senso comum” (CUNHA, 2019), disponível em: https:// bit.ly/3gcFXJX. O texto se insere no campo da formação para a docência da educação superior e procura avançar na discussão fundamentada em teorias do conhecimento que valorizam o senso comum e a sua relação com o cotidiano. Registra os desafios para esse campo e quer ampliar a compreensão e a construção de algumas teses que possam fazer avançar os estudos sobre a docência nas universidades. RESUMINDO: E, então, gostou do que mostramos? Aprendeu mesmo tudinho? Agora, só para termos certeza de que você realmente entendeu o tema de estudo deste capítulo, vamos resumir tudo o que vimos. Você deve ter aprendido que os estudos e as investigações sobre os fenômenos sociais são realizados por meio de diferentes técnicas e métodos de construção do conhecimento. Explicamos o senso comum, suas práticas e aplicações nos mais diversos contextos, bem como as vantagens e desvantagens de sua utilização para a compreensão dos fenômenos sociais e como esse modelo orienta e se comunica com maior facilidade com a sociedade em geral. Também podemos relembrar como o conhecimento científico colabora com a construção confiável e técnica dos conhecimentos na área, por meio da utilização das técnicas adequadas pelo pesquisador. Depois disso, finalizamos a unidade com a exposição das diferentes técnicas de pesquisa, aplicáveis ao estudo sociológico. Ao compreender toda essa dinâmica que envolve a sociedade, esperamos que você entenda que está caminhando os passos certos profissionalmente rumo ao que o mercado, a sociedade e o mundo necessitam. Sucesso e parabéns por finalizar a unidade com êxito! Sociologia e Ética Profissional 45 REFERÊNCIAS CUNHA, M. I. da. A formação docente na universidade e a ressignificação do senso comum. Curitiba, 28 de maio de 2019. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104- 40602019000300121&script=sci_arttext. Acesso em: 11 fev. 2020. FERREIRA, E. de C. Introdução à Sociologia. CNTE/ESFORCE. Brasília, DF. 2014. Disponível em: https://www.cnte.org.br/images/stories/esforce/ pdf/programaformacao_eixo01_fasciculo01_introducaosociologia.pdf. Acesso em: 09 fev. 2020. GOMES, N. L. O movimento negro educador: saberes construídos nas lutas por emancipação. Petrópolis, RJ: Vozes, 2017, 149p. Disponível em: https://revistacafecomsociologia.com/revista/index.php/revista/ article/view/1098/pdf. Acesso em: 08 fev. 2020. LAKATOS, E. M. Sociologia geral. São Paulo: Atlas, 1990. LIMA, J. Ética da pesquisa e ética profissional em Sociologia: um começo de conversa. (2015). Revista Brasileira de Sociologia. 3. 215-239. 10.20336/rbs.101. Disponível em: https://www.researchgate. net/publ icat ion/283212789_ETICA_DA_PESQUISA_E_ETICA_ PROFISSIONAL_EM_SOCIOLOGIA_UM_COMECO_DE_CONVERSA/ citation/download. Acesso em: 10 fev. 2020. MARÇAL, M. V.; BEZERRA NETO, F. das C.; CAIANA, C. R. A., NÓBREGA, M. P.; LIMA, C. J. de. A herança oculta da migração no Brasil: uma discussão acerca do combate ao trabalho escravo. Revista Brasileira de Filosofia e História, Editora Verde, Pombal, jan.-dez. 2019. Disponível em: https://editoraverde.org/gvaa.com.br/revista/index.php/RBFH/ article/view/7353/6597. Acesso em: 06 fev. 2020. MARCONI, M. A.; LAKATOS, E. M. Fundamentos de metodologia científica. 5. ed. São Paulo: Atlas, 2003. SMITH, C. Moral, Believing Animals: Human Personhood and Culture. Oxford: Oxford University Press, 2003. Sociologia e Ética Profissional46 VANDENBERGHE, F. A Sociologia como uma Filosofia Prática e Moral (e vice versa). Sociologias, Porto Alegre, v. 17, n. 39, p. 60-109, ago. 2015. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_ arttext&pid=S1517-45222015000200060&lng=en&nrm=iso. Acesso em: 11 fev. 2020. Silvia Cristina da Silva e Stephanie Freire Brito Sociologia e Ética Profissional A construção do campo da Sociologia Preparação para o nascimento da Sociologia Como e por que a Sociologia surge? Conceitos básicos e conhecimentos em Sociologia O que é de fato a Sociologia? Como surgiu a Sociologia no Brasil? Percurso de ética sociológica e atribuições práticas Ética sociológica O que é sociologia moral? A Sociologia no campo científico relacionada ao contexto prático Conhecimento em Sociologia: da ciência à prática social Técnicas de pesquisa em Sociologia ebook-2-sociologia-e-etica-profissional.pdf Unidade 2 Livro Didático Digital Silvia Cristina da Silva e Stephanie Freire Brito Sociologia e Ética Profissional Diretor Executivo DAVID LIRA STEPHEN BARROS Diretora Editorial CRISTIANE SILVEIRA CESAR DE OLIVEIRA Projeto Gráfico TIAGO DA ROCHA Autor SILVIA CRISTINA DA SILVA E STEPHANIE FREIRE BRITO Silvia Cristina da Silva Eu, Silvia, sou mestre interdisciplinar em Educação, Ambiente e Sociedade – Unifae, participante docente e discente no mestrado em Análise do Discurso – Universidade Federal de Buenos Aires. Sou especialista em Docência do Ensino Superior e Direito e Educação – Faculdade Campos Elíseos. Pós-graduanda em EAD – Faculdade Campos Elíseos. Graduada em Ciências Jurídicas e Sociais – Unifeob. Vice-diretora acadêmica na Agência Nacional de Estudos em Direito ao Desenvolvimento – Anedd. Especialista em investigação de antecedentes em instituições públicas e privadas. Docente e conteudista em diversas instituições educacionais para cursos de graduação e pós-graduação. Elaboradora de questões para concursos públicos em várias organizadoras. Gravadora, redatora, tradutora e intérprete da língua espanhola. Stephanie Freire Brito Eu, Stephanie, sou mestranda em Administração – PPGA/UFCG, com MBA em Marketing e Inteligência de Mercado. Desenvolvo a escrita de materiais didáticos na área de Ciências Sociais, Educação, Tecnologias, Administração e Ambiente. Somos apaixonadas pelo que fazemos e gostamos muito de transmitir nossas experiências de vida àqueles que estão se iniciando em suas profissões. Por isso, fomos convidadas pela Editora Telesapiens para integrar seu elenco de autores independentes. Estamos muito felizes em poder ajudar vocês nesta fase de muito estudo e trabalho. Conte conosco! AS AUTORAS Olá. Esses ícones irão aparecer em sua trilha de aprendizagem toda vez que: ICONOGRÁFICOS INTRODUÇÃO: para o início do desenvolvimento de uma nova com- petência; DEFINIÇÃO: houver necessidade de se apresentar um novo conceito; NOTA: quando forem necessários obser- vações ou comple- mentações para o seu conhecimento; IMPORTANTE: as observações escritas tiveram que ser priorizadas para você; EXPLICANDO MELHOR: algo precisa ser melhor explicado ou detalhado; VOCÊ SABIA? curiosidades e indagações lúdicas sobre o tema em estudo, se forem necessárias; SAIBA MAIS: textos, referências bibliográficas e links para aprofundamen- to do seu conheci- mento; REFLITA: se houver a neces- sidade de chamar a atenção sobre algo a ser refletido ou discutido sobre; ACESSE: se for preciso aces- sar um ou mais sites para fazer download, assistir vídeos, ler textos, ouvir podcast; RESUMINDO: quando for preciso se fazer um resumo acumulativo das últimas abordagens; ATIVIDADES: quando alguma atividade de au- toaprendizagem for aplicada; TESTANDO: quando o desen- volvimento de uma competência for concluído e questões forem explicadas; SUMÁRIO Positivismo de Augusto Comte e o crescimento moral.....10 Preparação para o nascimento da Sociologia....................................10 O Positivismo para o crescimento moral da sociedade na prática......................................................................................................................................13 O materialismo de Karl Marx e os rumos do desenvolvimento..................................................................................19 Quem foi Karl Marx e qual sua contribuição na Sociologia?....19 O capitalismo e suas implicações rumo ao desenvolvimento .......................................................................................................................................................22 Os impactos concretos do funcionalismo de Émile Durkheim..................................................................................................28 Princípios de Durkheim............................................................................................28 O que é sociologia moral?....................................................................................33 Weber e ação social na prática.....................................................37 Quem foi Max Weber e como ele trabalhou a ética social?....37 Teoria da ação social de Weber.......................................................................41 Sociologia e Ética Profissional 7 UNIDADE 02 Sociologia e Ética Profissional8 Você sabia que o campo da Sociologia é importante para todas as profissões e que o conhecimento sobre sua construção nos faz compreender claramente a estrutura de sociedade que temos hoje? Isso mesmo, sem falar que a compreensão da Sociologia e de seus temas vinculados nos transformam em profissionais cada vez mais capazes de beneficiar o mundo e agregar boas práticas a partir de nossos ofícios. Os principais pensadores que trabalharam com afinco na construção e no desenvolvimento da Sociologia têm importantes teorias para nos apresentar e suas contribuições derrubam as barreiras do tempo, aplicando-se a uma imensa diversidade de contextos. Obter o conhecimento sobre as diferentes vertentes que constroem esse campo tão amplo e tão importante para qualquer que seja a área profissional, que é a Sociologia, pode fazer toda a diferença na sua carreira. Entendeu? Ao longo desta unidade letiva você vai mergulhar nesse universo! INTRODUÇÃO Sociologia e Ética Profissional 9 Olá. Seja muito bem-vindo à Unidade 2. Nosso propósito é auxiliar você no desenvolvimento das seguintes objetivos de aprendizagem até o término desta etapa de estudos: 1. Compreender a perspectiva teórica positivista instituída por Augusto Comte e seus reflexos práticos para o crescimento e o desenvolvimento moral. 2. Conhecer os conceitos básicos e fundamentais sobre a teoria materialista de Karl Marx e suas implicações para o desenvolvimento. 3. Inteirar-se sobre os impactos e a contribuição de Durkheim para a Sociologia. 4. Conhecer os tipos de ação social estabelecidos por Max Weber e as aplicações na prática. Então? Preparado para uma viagem sem volta rumo ao conhecimento? Ao trabalho! OBJETIVOS Sociologia e Ética Profissional10 Positivismo de Augusto Comte e o crescimento moral INTRODUÇÃO: Ao término deste capítulo, você será capaz de entender os fundamentos básicos que propiciaram o surgimento do Positivismo como método para criação de conhecimento aplicado aos estudos sociológicos. Isso será fundamental para o exercício de sua profissão. E aí, motivado para desenvolver essa competência? Então, vamos lá. Avante! Preparação para o nascimento da Sociologia A área dos estudos das ciências sociais conta com importantes pensadores da Sociologia, que proporcionaram grande contribuição para o surgimento e o desenvolvimento desse conhecimento como ciência, e que não podemos deixar de conhecer para compreender melhor a dinâmica da sociedade e da ética nas nossas vidas pessoais e profissionais. Vamos começar pela virada do século XVIII para o século XIX, quando estava imperando o cientificismo. Mas o que é o cientificismo? Convém conhecer melhor a definição desse termo para que possamos prosseguir em nossos estudos. DEFINIÇÃO: O termo “cientificismo” se refere a uma vertente do pensamento humano que coloca a razão como poder absoluto. Ou seja, o pensamento construído pela razão tem maior poder de explicar o mundo (tanto o físico como o social) por meio de sua união com a ciência. Para a época, tanto no mundo físico como no social, havia predomínio das ciências naturais, como as ciências exatas existiam com muita força nesse momento. Por meio desse contexto, surge Augusto Sociologia e Ética Profissional 11 Comte, trazendo um grande avanço para o conhecimento, foi o principal responsável por desenvolver o Positivismo. Figura 1 – Auguste Comte Fonte: Wikimedia Commons. O pensador positivista Auguste Comte nasceu em Montpellier, na França (1798-1857), e foi o responsável pelas primeiras delimitações no campo de estudo da Sociologia. A origem do Positivismo é atribuída ao francês, que foi bastante influenciado pelos grandes eventos de sua época, como a Revolução Francesa e a próspera Revolução Industrial. O Positivismo determina os princípios reguladores para o mundo, foi o primeiro pensamento sociológico sistemático. O trabalho de Comte com o positivismo merece tanto destaque, pois foi a primeira área do conhecimento que tratou a Sociologia de forma sistemática, institucionalizando-a como ciência. A ideia de que o conhecimento genuíno só pode ser obtido por meio da experimentação e da conferência científica. Assim, a ciência deve se fundamentar apenas em observações meticulosas feitas a partir da experimentação sensorial. Para Comte, essa Sociologia e Ética Profissional12 seria a única forma possível de inferir leis que explicariam a relação entre os acontecimentos sociais observados. Não podemos deixar de mencionar o grande progresso científico durante a Revolução Industrial, que permitiu o avanço tecnológico durante esse período, dessa forma, essas vantagens permitiram modificações profundas na sociedade europeia. O pensamento sociológico sistemático incluído nesse contexto envolve o conceito de sistema. Mas o que isso quer dizer? Sistema, nesse caso, significa que o roteiro do estudo científico obedecerá a uma sequência que começa pela definição de um objeto, seguido pelo estabelecimento de conceitos e, depois disso, adotará um método para gerar conhecimento. Figura 2 – Estrutura do pensamento sociológico sistemático Fonte: Elaborado pelas autoras. Comte, ao observar os fenômenos sociais decorrentes da Revolução Industrial e da Revolução Francesa, classificou-os como “novos problemas”, como sintomas de uma doença a ser tratada e curada. Ele acreditava que os problemas sociais e as sociedades, em geral, deveriam ser estudados com o mesmo rigor científico que as demais ciências naturais tratavam seus respectivos objetos de estudo. Os fenômenos sociais, por exemplo, deveriam ser observados da mesma forma que um biólogo observa os espécimes de seus estudos. Sociologia e Ética Profissional 13 Comte propunha uma ciência da sociedade, capaz de explicar e compreender todos esses fenômenos da mesma forma que as ciências naturais buscavam interpelar seus objetos de estudo. O Positivismo para o crescimento moral da sociedade na prática Uma vez que o Positivismo defende que a ciência deve estar preocupada com as experiências reais da sociedade, esse campo ganha enorme contribuição na inferência de leis que expliquem com maior assertividade e lógica as relações entre os fenômenos sociais observados na prática. Compreendendo o relacionamento causal entre acontecimentos, os cientistas podem então prever o modo como futuros acontecimentos poderão ocorrer. A abordagem positivista da Sociologia acredita na produção de conhecimento acerca da sociedade com base em provas empíricas retiradas da observação, da comparação e da experimentação. (GIDDENS, 2008, p. 8) Comte entendia que a história do pensamento humano se desenvolvia em estágios. Nessa filosofia da história, ele elaborou a Lei dos Três Estádios, na qual afirmava que o pensamento e o espírito humano progrediam por meio de três fases diferentes: a teológica, a metafísica e a positiva. Sociologia e Ética Profissional14 Quadro 1 - Lei dos Três Estádios Estádio Principais ideias Teológico A religião e as crenças levavam a concluir que tudo que acontecia na sociedade era uma expressão da vontade de Deus, ou seja, as ideias baseadas em Deus guiavam o pensamento e todo o conhecimento que se tinha sobre a sociedade. Metafísico As visões de pensamentos relacionavam os acontecimentos com as leis naturais, e não mais as sobrenaturais, como predominavam no estádio teológico. Positivo As ideias positivistas contaram com grandes contribuições das descobertas e feitos de Copérnico, Galileu e Newton, que inseriram no contexto dos estudos e das pesquisas sociais a aplicação de técnicas científicas. Este foi o método adotado por Comte no contexto da Sociologia. Fonte: Elaborado pelas autoras. Na prática, o Positivismo veio a se estender com maior afinco nos termos da educação em que o conhecimento ensinado por meios não comprováveis passou a ser visto com descredibilidade, por não haver confiabilidade ou evidências comprovadas. Dessa forma, o crescimento, o desenvolvimento, a ordem e o progresso da sociedade são pavimentados com base no Positivismo. Sociologia e Ética Profissional 15 Desse modo, o aperfeiçoamento da sociedade, a evolução dos indivíduos e o processo de educação em massa dependem muito dos instrumentos operacionais que forem utilizados. Enfaticamente, Augusto Comte quer erradicar a anarquia mental tanto das classes ilustradas como dos ágrafos. Por isso, a política popular sempre social “deve ser acima de tudo moral”. A escola constitui, pois, o espaço privilegiado de ordem e progresso da razão natural. O discurso sobre o espírito positivo culmina com a ordem necessária dos estudos positivos [...]. (MEDINA, 2014) No Brasil, o Positivismo teve sua maior aplicabilidade no contexto militar, sendo conduzido com mais ênfase por muitos oficiais do exército. No ambiente acadêmico, inicialmente, houve maior aceitação nas ciências exatas e áreas de educação. VOCÊ SABIA? As palavras “ordem e progresso”, escritas no centro da bandeira brasileira, evidenciam a influência positiva instaurada por Augusto Comte no âmbito da Sociologia, que passou a ser praticada e valorizada no Brasil nas áreas educacionais e políticas. Figura 3 – Bandeira do Brasil com influência positivista Fonte: Wikimedia Commons. Sociologia e Ética Profissional16 A partir da década de 1970, aumentou a presença de escolas utilizando os meios tecnicistas de ensino, valorizou-se mais a ciência como um conhecimento objetivo, uma vez que as informações transmitidas eram obtidas por meio desse método. EXPLICANDO MELHOR: Reconhecendo que o processo de educação alcança uma dimensão em massa, aplica-se ao contexto de todas as formações profissionais e acontece permanentemente em todas as dimensões, seja por meio de um ambiente escolar, acadêmico, de transmissão de informações pela mídia e até mesmo pela comunicação informal e cotidiana entre as pessoas. Por meio da educação, uma geração pode construir seus aspectos políticos, éticos, morais e seus valores, além de transmitir para as gerações futuras tanto esses elementos quanto o seu aspecto físico, social e espiritual. Figura 4 – Processos de educação Fonte: Freepik. Sociologia e Ética Profissional 17 É inegável reconhecer a importância e o valor do Positivismo no processo de construção do conhecimento, no ambiente educacional e sua utilização no meio sociológico. No entanto, deve-se entender que existem outros meios também importantes que atuam nessas mesmas esferas e que contribuem para a construção da educação e do conhecimento. A educação tem o poder de mudar o homem e, consequentemente, toda uma sociedade. Como, então, considerar apenas uma dimensão da realidade, ou seja, a dimensão do que é concreto? Negar o que transcende o fato, o real, o concreto, não seria perder a chance de refletir sobre suas causas últimas? Há coisas que não podem ser explicadas ou verificadas pela experiência. As matérias de formação geral são fundamentais para as matérias profissionalizantes. Não seria exagero dizer que aquelas podem servir de substrato para estas. A ciência não é fonte soberana de conhecimento, como queria o Positivismo. (ISKANDAR; LEAL, 2002, p. 5) Assim, concluímos que a perspectiva teórica do Positivismo de Augusto Comte impactou a sociedade por todos os tempos à frente, no que diz respeito a educação, formação de conhecimento, jurisdições, condutas morais, formas de comunicação e estruturas técnicas e políticas, entre outros. E como os reflexos do Positivismo impactaram na prática na construção ética e moral de toda a sociedade. ACESSE: O artigo “O Positivismo percebido nas etapas de desenvolvimento do DNA da marca” (BRAUN et al., 2014) faz uma reflexão sobre os questionamentos que sofre a base científica, valida os processos e métodos e busca conceituar uma metodologia para criação de marcas com base no positivismo. Disponível em: https://bit.ly/2K9BeLk (Acesso em: 16/02/2020). Sociologia e Ética Profissional18 RESUMINDO: E então, gostou dessa primeira competência? Agora, só para termos certeza de que você realmente entendeu o tema de estudo deste primeiro capítulo, vamos resumir tudo o que vimos. Você deve ter aprendido que a construção da Sociologia conta com a contribuição de grandes pensadores para promover a criação do conhecimento e de teorias a respeito do seu objeto de estudo, que é a sociedade. Também podemos relembrar como o cientificismo modifica a história do conhecimento em todas as perspectivas, mas em especial o conhecimento social, que conta com importante participação do francês Augusto Comte, que influenciado pelas Revoluções promove a ideia do conhecimento genuíno, por meio do Positivismo. É importante pontuar que a estrutura do pensamento sistemático na Sociologia é constituída por três elementos: definição de um objeto, estabelecimento de conceitos e adoção de um método para gerar conhecimento. É importante, também, relembrar que a contribuição do método positivista de Augusto Comte auxilia fortemente na constituição moral das políticas sociais e sua aplicabilidade na construção do conhecimento e fomento da educação em todos os níveis. Tomando por base os aprendizados em torno da teoria positivista de Comte, o profissional, em qualquer que seja a sua área de atuação, estará preparado para agregar com maior confiança e responsabilidade as suas ações e contribuições, beneficiando assertivamente toda a sociedade. Sociologia e Ética Profissional 19 O materialismo de Karl Marx e os rumos do desenvolvimento INTRODUÇÃO: Nesta unidade, discutiremos Karl Marx, sua história e principais obras. Além disso, estudaremos as contribuições dessa vertente de pensamento para o entendimento de fenômenos sociais e como o sistema econômico capitalista interfere no desenvolvimento ou no não desenvolvimento da sociedade. Quem foi Karl Marx e qual sua contribuição na Sociologia? Considerado no campo de estudo das ciências sociais um dos mais influentes sociólogos, Karl Marx nasceu na Prússia, em 5 de maio de 1818, região localizada na atual Polônia, e morreu em Londres, em 14 de março de 1883. Ele não tem uma classificação única, a verdade é que Marx foi um grande estudioso do seu tempo. Foi filósofo, economista, jornalista, sociólogo e historiador. Publicou vários livros durante sua vida, sendo O manifesto comunista (1848) e O capital (1867-1894) os mais famosos. Figura 5 – Karl Marx Fonte: Wikimedia Commons. Sociologia e Ética Profissional20 Marx estudou nas universidades de Bonn e Berlim, lá se interessou pelas ideias filosóficas dos jovens hegelianos. Depois dos estudos, começou a trabalhar em um jornal radical, no qual deu início aos estudos da teoria da concepção materialista da história. Sofreu perseguições e, em 1843, mudou-se para Paris com sua família, onde conheceu o jovem alemão Friedrich Engels, seu amigo e colaborador dos seus escritos. Mesmo em Paris, Marx não deixou de fazer duras críticas ao governo prussiano e por essa razão, exilado da França, foi viver em Londres, onde continuou a escrever sobre a atividade econômica e social. Também fez campanha para o socialismo e tornou- se um personagem importante para a Associação Internacional dos Trabalhadores. Mas o que essas características pessoais têm a ver com a sua importante participação na construção da Sociologia? Ora, o ponto alto de Marx acontece quando ele estabelece o vínculo de seus pensamentos a um elemento importante: a prática. Para ele, “os filósofos limitaram-se a interpretar o mundo de diversas formas; o que importa é modificá-lo” (Karl Marx). As contribuições de Karl Marx ao pensamento universal podem ser separadas em três terrenos: filosofia, economia e política. Seu pensamento filosófico se manifesta no materialismo dialético e no materialismo histórico. Toda coisa, todo fenômeno da natureza, incluída a sociedade, vê-se submetido a um processo ininterrupto de nascimento, desenvolvimento e morte. Karl Marx e seu amigo e colaborador, Friedrich Engels, criaram uma mudança de paradigmas no pensamento da história humana. Deram respostas às questões sobre a maneira pela qual, durante o transcurso histórico, passa-se de uma forma de sociedade à outra; como nascem, crescem e morrem os grandes impérios da humanidade. Sociologia e Ética Profissional 21 Figura 6 – Karl Marx e Friedrich Engels Fonte: Wikimedia Commmons. A exemplo disso, podemos citar do Egito dos faraós ao império britânico, passando por Alexandre, o Grande, Felipe da Macedônia, o império romano de Júlio César etc. O motor dessas transformações sucessivas, para Marx, é a luta de classes. O segundo grande descobrimento de Marx foi em relação ao pensamento econômico, que é sua obra exclusiva, a teoria da mais-valia. Essa teoria se desenvolveu na obra O capital: “O objetivo final desta obra é descobrir a lei econômica do movimento da sociedade moderna”, aqui “sociedade moderna” é uma analogia à sociedade capitalista, diz Marx no prólogo do livro. Com a elaboração da teoria da mais-valia, Marx explica o mecanismo de exploração do operário pelo capitalista, além de demonstrar o processo inevitável do enriquecimento dos empresários e, de outro lado, a pobreza Sociologia e Ética Profissional22 dos trabalhadores e sua progressiva exclusão do processo de produção pelas máquinas, o que leva ao desemprego e às crises do sistema capitalista. Nesse sentido, Marx previu também os desastres que seriam provocados no meio ambiente pela exploração selvagem e descontrolada das riquezas da Terra. Em relação ao terreno político, Marx e Engels concluíram sobre a necessidade da luta dos produtores e dos oprimidos contra o sistema, demonstram ao proletariado e aos povos do mundo a natureza de sua luta pela libertação, tanto da exploração do capital quanto da dominação imperialista. Sobretudo, demonstraram que essa luta conduz, necessariamente, em um primeiro momento, à vitória do proletariado sobre a burguesia e, mais tarde, a suspensão das classes, com o desaparecimento da exploração do homem pelo homem. O capitalismo e suas implicações rumo ao desenvolvimento No campo das ciências sociais, do conhecimento da filosofia, da política e da economia, Marx formulou a concepção materialista da história, na qual identificou as relações sociais de produção, aquela que os homens estabelecem entre si e com a natureza na produção social de sua existência, com a estrutura econômica da sociedade, sobre a qual se ergue a ordem política e jurídica, bem como as formas pelas quais os indivíduos representam a realidade e a consciência social. Nessa concepção, fica clara a dialética da evolução do ser finito à essência, que Marx retoma da filosofia clássica alemã, despojando-a do mato idealista que então era coberta. EXPLICANDO MELHOR: Ao identificar a estrutura econômica como determinante central de uma formação social, concentrou sua atenção no estudo das relações sociais de produção, que definem o modo de produção capitalista, sendo esse o trabalho que desenvolve com profundidade em seu livro intitulado O capital. Sociologia e Ética Profissional 23 Figura 7 – A obra O capital, de Marx e Engels Fonte: Pixabay. Essa obra se inicia a partir da análise do trabalho como mercadoria. Produto do trabalho humano destinado à produção e a riqueza privada pode considerar-se como trabalho concreto. O ciclo do capital funciona exitosamente quando este, em forma de dinheiro, compra matérias- primas, força de trabalho e máquinas para executar o processo produtivo. NOTA: O verdadeiro limite da produção capitalista é o próprio capital, e nele está sua valorização. O que constituem o ponto de partida e de chegada, o motivo e o fim da produção; o fato de que aqui a produção só é produção para o capital, e não o contrário, os meios de produção são simples meios para ampliar cada vez mais a estrutura do processo de vida da sociedade dos produtores. O conceito de crise, em referência ao capitalismo, indica que se produziu uma ruptura no ciclo de funcionamento normal do capital, que é um ciclo de expansão contínua. Essa crise, na qual o sistema não funciona Sociologia e Ética Profissional24 com normalidade, é uma crise de realização do capital, equivalente a um estancamento. O capital se encontra em crise, entre outros cenários, quando: o capitalista prefere manter o capital em forma de dinheiro sem investir porque entende que a perspectiva da economia não lhe garante o nível de lucro esperado. Ele para de circular em forma de dinheiro quando não consegue as matérias-primas necessárias para sua materialização. Na fase de capital produtivo, pode haver estancamento se não forem usadas as máquinas em seu pleno potencial produtivo – por exemplo, quando há parada forçosa –, quando não circulam as mercadorias porque não encontram compradores a um determinado nível de preços etc. Para Marx, as crises do sistema capitalista são inerentes, formam parte da lógica do seu funcionamento. As crises surgem às contradições internas do sistema, daí por que, quando não estamos diante de um evento de crise e o sistema se encontra funcionando “normalmente”, os fatores de contradição em seu interior estão gerando permanentemente as condições que induzem às crises. Figura 8 – Crise econômica do sistema capitalista Fonte: Pixabay. Sociologia e Ética Profissional 25 As condições nas quais se realizam os processos de acumulação levam à redução em forma progressiva. O que expressa uma tremenda contradição no interior do próprio capital: o mesmo processo que possibilita o seu crescimento se torna, em longo prazo, seu próprio freio: é o que Marx chama de tendência decrescente da quota ou taxa de lucro. Segundo Marx, a taxa de exploração é o resultado da relação entre mais-valia e valor de trabalho. A redução do trabalho necessário à reprodução da força de trabalho é obtida mediante duas alternativas: com a redução dos salários reais dos trabalhadores ou com o aumento da sua produtividade (menos tempo de trabalho com a mesma quantidade de produtos). A principal consequência da baixa taxa de lucro é que dá lugar à força de trabalho barata. Nessa situação, os capitalistas insistirão, por necessidade, em resolver sua crise, apelando para a baixa dos salários diretamente ou por meio de tecnologia, importando mão de obra barata e/ou exportando capital para onde considerar que sua rentabilidade será maior. Entre as sequelas das crises, além da tendência aos monopólios, deve-se adicionar que o decréscimo da economia aumenta o desemprego, o qual induzirá, por sua vez, os trabalhadores a aceitarem piores condições de exploração, a fim de manter o posto de trabalho. VOCÊ SABIA? O capitalismo é uma estrutura de classes em que a existência e a permanência da classe capitalista requer a existência e a permanência da classe trabalhadora, e essas classes acabam entrando em conflito entre si, promovendo o que Marx chama de “luta de classes”. Sociologia e Ética Profissional26 Figura 9 – Desigualdade social Fonte: Pixabay. Essas piores condições de exploração implicam menor poder aquisitivo e menor demanda no mercado, que, por sua vez, deprime os preços das mercadorias e, portanto, é como retornássemos a um ponto morto. Pois é sabido que, se produz e não vende, não há circulação no mercado. Sem isto, não há realização efetiva da mercadoria, uma das formas de existência do capital. Marx se concentra em fazer esse tipo de análise por uma visão que defende primordialmente o lado negativo que a mecânica do capitalismo promove diante de uma grande parcela da sociedade. As dificuldades e as crises que o autor debate se arrastam ao longo do tempo e os fatores que as provocaram por muitas vezes é responsabilidade do sistema macroeconômico capitalista. Sociologia e Ética Profissional 27 SAIBA MAIS: Quer se aprofundar nesse tema? Leia o artigo “Há duzentos anos do seu nascimento, o que Karl Marx tem a oferecer ao século XXI?” (COSTA, 2018). Nele, o autor comenta os elementos centrais do debate imposto por Marx e faz uma relação sobre a aplicação dessa teoria nos dias atuais, além de tratar sobre as possibilidades de alternativas ao capitalismo. Disponível em: https://bit.ly/2RNo62H. Acesso em: 18/02/2020. RESUMINDO: Chegamos ao final de mais uma seção desta unidade, na qual tratamos inicialmente dos aspectos conceituais e introdutórios sobre as teorias desenvolvidas por Karl Marx e como a sua trajetória pessoal contribuiu para o desenvolvimento da Sociologia, aliando vários conhecimentos para obter um importante elemento tanto para o ambiente acadêmico quanto para a sociedade em geral: a prática. Você deve ter aprendido que os estudos de Karl Marx e Friedrich Engels chamam atenção para a luta de classes como fator principal em relação ao nascimento, crescimento e morte dos grandes impérios da sociedade, permitindo, assim, entendermos que a maior parcela da população pode ter o maior poder em mudar os cenários existentes, se assim quiser. Também podemos relembrar que Marx formulou a teoria materialista, identificando as relações de produção entre os atores da sociedade, e a sua dinâmica interfere provocando as maiores dificuldades sociais existentes ao longo da história. Mais adiante, comentamos que as dificuldades decorrentes do capitalismo afetam profundamente os atores mais vulneráveis da sociedade, como as crises econômicas que provocam menor margem de lucro para os empresários e maior exploração de trabalho. Sociologia e Ética Profissional28 Os impactos concretos do funcionalismo de Émile Durkheim INTRODUÇÃO: Nesta competência, vamos aprender sobre um embasamento teórico e prático acerca do funcionalismo de Durkheim, com ênfase nas características, nos tipos e nos impactos dos fatos sociais! Princípios de Durkheim Também considerado um dos maiores sociólogos de todos os tempos, ele é conhecido por ser um dos pais da Sociologia. Mas o que quer isso? Quer dizer que ele foi um dos fundadores e principais pensadores da Sociologia. Vamos conhecê-lo um pouco melhor a partir de agora. Émile Durkheim nasceu em 15 de abril de 1858, na França, e morreu em 15 de novembro de 1917. Sociólogo, cientista político, antropólogo, psicólogo social e filósofo, fez da Sociologia uma ciência, por isso é frequentemente chamado de pai da Sociologia, o que fez sua obra ter um impacto mais duradouro. Figura 10 – Émile Durkheim Fonte: Wikimedia Commons. Sociologia e Ética Profissional 29 Durkheim foi estudante de Direito e Economia e usou esses conhecimentos de jurisprudência e elementos econômicos para interpretar a sociedade. Feito isso, foi estudar na Universidade de Sorbonne, em Paris, onde ele fundou a Escola Sociológica Francesa. A partir desse momento, o estudo de Sociologia começa a ganhar um novo panorama. Embora, em determinados aspectos, se apoiasse nas obras de Comte, Durkheim pensava que muitas das ideias do seu antecessor positivista eram demasiadamente especulativas e vagas e que Comte não realizara com sucesso o seu programa – dar à Sociologia um caráter científico. Apesar de assumir essa profunda influência positivista, ao pensar na vida social, concluiu que a vida pode ser regida por leis e cabe à Sociologia encontrar, descobrir ou estabelecê-las. Seus trabalhos são caracterizados como positivistas, pois inserem os métodos científicos aplicados à sociedade. Esta foi uma influência que Durkheim teve de Comte, por exemplo. Com essa vertente, a Sociologia, que estava surgindo com o Durkheim, observa os fenômenos sociológicos, porém com um olhar um pouco diferente do que estava sendo feito até então. De acordo com o senso comum, a vida em sociedade é feita por experimentos, experiências e vivências individuais. A sociedade é composta pela vida privada e individual de cada um, e esses fenômenos sociais são os objetos de estudo da Sociologia. Apesar disso, Durkheim olha para essa hipótese e a nega, começa, então, a pensar algo diferente, trazer uma nova perspectiva para a Sociologia e destaca dentro desse estudo com diversas obras, por exemplo, uma das primeiras e mais significativas, Da divisão do trabalho social (1893) e As regras do método sociológico (1895). Sociologia e Ética Profissional30 Figura 11 – Obra de Durkheim, Da divisão do trabalho social Fonte: Wikimedia Commons. Uma de suas maiores e mais conhecidas obras, publicada em 1897, trata-se de sua monografia, intitulada O suicídio, um estudo sobre as taxas de suicídio em populações católicas e protestantes, uma investigação pioneira e moderna. O seu trabalho científico era voltado para forma como as sociedades poderiam manter sua integridade e coerência na modernidade. Durkheim via a Sociologia como uma nova ciência, que podia ser usada para elucidar questões filosóficas tradicionais, examinando-as de modo empírico. Ele acreditava que deveríamos estudar a vida social com a mesma objetividade com que cientistas estudavam o mundo natural. Seu princípio básico era estudar os fatos sociais como coisas exteriores pelo investigador, porém ele não pretendia que uma organização social fosse encarada como objeto da mesma natureza que os fenômenos naturais, ao contrário, insistiu que a sociedade consistia essencialmente de “representações” de crenças e sentimentos. Sociedades tradicionais com laços sociais e religiosos não são mais assumidas e têm surgido em que novas instituições sociais. Sociologia e Ética Profissional 31 A principal preocupação intelectual da Sociologia, para o autor, reside no estudo dos fatos sociais. Ele defendia que os sociólogos deviam primeiro analisar os fatos sociais, ou seja, os aspectos da vida social que determinam a sua ação enquanto indivíduos, tais como o estado da economia ou a influência da religião. Durkheim acreditava que as sociedades tinham uma realidade própria e que os fatos sociais eram formas de agir, pensar ou sentir, externas aos indivíduos, tendo uma realidade própria à vida e percepções individuais. Outra característica relevante dos fatos sociais é eles exercerem um poder coercitivo sobre os indivíduos. A obra do sociólogo abrange uma vasta gama de assuntos, entre eles: • A importância da Sociologia como ciência empírica. • A emergência do indivíduo e a formação de uma ordem social. • As origens e o caráter da autoridade moral na sociedade. Assuntos estes abordados em temas como religião, teoria do desvio e o crime, do trabalho e da vida econômica. Contudo, a natureza coercitiva dos fatos sociais raramente é vista como constrangedora, pois, de forma abrangente, atuam de livre vontade de acordo com os fatos sociais. Assim, no livro As regras do método sociológico, Durkheim trata do conceito de representações coletivas em estreita conexão com o conceito mais abrangente de fatos sociais. Assim, esclarece que fatos sociais são todas as maneiras de fazer, fixa ou não, suscetíveis de realizar sobre o indivíduo uma coação exterior, ou, ainda, que é geral no conjunto de cada sociedade tendo, ao mesmo tempo, existência própria, independentemente de suas manifestações individuais. Sociologia e Ética Profissional32 Figura 12 – Fatos sociais MANEIRA DE FAZER = MANEIRA DE AGIR = MANEIRA DE PENSAR = MANEIRA DE SENTIR Fonte: Elaborado pelas autoras. Características dos fatos sociais: • São exteriores à consciência individual. • Possuem capacidade de coação sobre indivíduos. • São ao mesmo tempo gerais em uma dada sociedade e independentes de suas expressões individuais. Dessa forma, destaca Durkheim (1999): “para que exista fato social é preciso que pelo menos vários indivíduos tenham misturado suas ações, e que dessa combinação se tenha desprendido um produto novo”. Seu efeito é necessariamente fixar, instituir certas maneiras de agir e determinados julgamentos que existem fora de nós e que não dependem da vontade particular. Como os fatos sociais existem fora de nós e não somos capazes de suprimir ou modificá-los à vontade, não temos outro remédio senão nos conformar com sua existência. Isto, porém, não significa que ele considere a capacidade de coação dos fatos sociais em tudo semelhante à coação física. O estudioso afirma que a coação social “é devida não à rigidez de certos arranjos moleculares, e sim ao prestígio de que estão investidas certas representações: nisto está o que apresentam de inteiramente especial”. Sob a noção de coercitividade, a teoria durkheimiana engloba, na verdade, diferentes aspectos da relação indivíduo/sociedade. Em alguns contextos, a teoria se refere à existência de normas sociais apoiadas em sanções que obrigam os indivíduos a obedecê-las. Em outros, à existência de condições; ou à existência de condições sociais que o indivíduo deve obrigatoriamente considerar como meios necessários para alcançar os fins que se propõem. De outra forma, enquanto normas, os fatos sociais são pensados como aquilo que governa a conduta do indivíduo, mas não se confunde Sociologia e Ética Profissional 33 com ela. Dessa forma, conclui Durkheim, existe um tempo que exprime razoavelmente essa maneira de ser muito especial, uma vez ampliado um pouco seu significado habitual, é o tempo instituição. Com efeito, pode-se chamar instituição toda crença, todo comportamento pela coletividade, sem desnaturalizar o sentimento da expressão. A Sociologia seria, então, definida como a ciência das instituições, de sua gênese e de seu funcionamento. O que é sociologia moral? Durkheim trata de separar o social do individual, como duas esferas independentes da realidade humana, e insiste que a sociedade não é mera soma de indivíduos, ao contrário. Ele se preocupava com as mudanças que transformavam a sociedade. Entre a solidariedade social e moral, naquilo que mantém a sociedade unida e impede a sua destruição no caos. A solidariedade é mantida quando os indivíduos se integram com sucesso em grupos sociais e seguem um conjunto de valores e costumes partilhados. No seu livro Da divisão social do trabalho, Durkheim expressa uma análise da mudança social, defendendo que o advento da era industrial representava a emergência de um novo tipo de solidariedade. Figura 13 – Sociedade Fonte: Pixabay. O sociólogo comparou dois tipos de solidariedade, a mecânica e a orgânica. Para ele, as culturas tradicionais com um nível reduzido de divisão do trabalho caracterizam-se pela solidariedade mecânica. A Sociologia e Ética Profissional34 maior parte dos indivíduos dessa sociedade deve estar envolvida em ocupações similares, unidos em torno de uma experiência comum e de crenças partilhadas. As sociedades de culturas tradicionais são de natureza repressiva, ou seja, a comunidade castiga prontamente quem colocar em causa os modos de vida convencionais, não sobra espaço para desarmonia individuais. Já na solidariedade orgânica, as forças da industrialização e da urbanização conduzem a uma maior divisão do trabalho, a especialização de tarefas e a cada vez maior diferenciação social nas sociedades desenvolvidas haveria de conduzir a uma nova ordem caracterizada por ela. SAIBA MAIS: Esse tipo de sociedade está unido pelos laços da interdependência econômica entre as pessoas e pelo reconhecimento da importância da contribuição dos outros, visto que cada indivíduo necessita dos bens e serviços que só outras pessoas com ocupações diferentes podem fornecer. As causas do aumento da divisão do trabalho, para Durkheim, o Direito Repressivo compreende tudo aquilo que em linguagem jurídica se denomina Direito Penal, e o que ele classifica como Direito Restitutivo é o englobado pelo Direito Processual, Comercial, Civil, Administrativo e Constitucional. Comparando esses dois Direitos, Repressivo e Restitutivo, em diferentes situações históricas, Durkheim conclui pelo aumento progressivo da importância do Direito Restitutivo nas sociedades modernas. Isso prova a influência da divisão do trabalho como fator de integração social. O progresso da divisão social do trabalho lhe parece como o fio de ligação do processo evolutivo das formas de sociedade mais simples às mais complexas, isso se deve ao fato de que os segmentos sociais Sociologia e Ética Profissional 35 perdem sua individualidade, e as barreiras que os separam se tornam permeáveis. Assim, ele busca explicar um processo relevante observado ao nível da fisiologia social por mudanças concomitantes da estrutura social, a progressiva aderência dos segmentos ou grupos secundários que compõem a sociedade. EXPLICANDO MELHOR: Durkheim afirma que o sentido geral da evolução das sociedades conduz de uma “estrutura segmentar” a uma “estrutura organizada”. Na estrutura segmentar, a debilidade dos laços entre os segmentos sociais se traduz na existência de vazios morais que os separam. A vida social se generaliza quando tais vazios se somam e desaparecem, assim, a sociedade se torna madura para o aparecimento de formas mais complexas de cooperação entre indivíduos e grupos. Portanto, a divisão do trabalho progride tanto quanto mais existem indivíduos que estejam suficientemente em contato para poder agir e reagir uns sobre os outros, o sociólogo chama de densidade dinâmica ou moral. Podemos dizer que os progressos da divisão estão em relação direta com a densidade moral ou dinâmica da sociedade. SAIBA MAIS: Quer saber mais sobre os estudos provocados por Durkheim? Recomendamos a leitura do artigo “100 anos sem Durkheim. 100 anos com Durkheim” (WEISS; BENTHIEN, 2017). O artigo debate os principais aspectos da teoria de Émile Durkheim, que caracterizam as ciências sociais, bem como a construção de um dossiê comentando a aplicação da teoria na sociologia dos tempos atuais. Disponível em: https://bit.ly/2VfUrkJ. Acesso em: 19/02/2020. Sociologia e Ética Profissional36 RESUMINDO: Até agora está gostando do que tem estudado? Neste momento, para garantir que você realmente entendeu o tema de estudo deste capítulo, vamos resumir mais uma vez todo o assunto que nele foi trabalhado. Iniciamos a seção 3.1 com um embasamento teórico e contextualizado acerca da caracterização e dos princípios de Durkheim e explicamos os motivos pelos quais ele é conhecido como “pai da Sociologia”. É interessante relembrar que Durkheim utilizou os seus conhecimentos de Direito e Economia para realizar a análise e a interpretação da sociedade, o sociólogo conta com o método positivista para conceber suas teorias, sendo fortemente influenciado por Augusto Comte. É importante relembrar que Durkheim nega a opinião de que a sociedade é feita por experimentos, experiências e vivências individuais e passa a expor em suas obras novas formas e métodos científicos de analisar o objeto de estudo da Sociologia, que é a sociedade. No debate, também foi exposto algumas das obras de Durkheim e como ele defendia o fato de não utilizar os métodos de estudo naturalistas, uma vez que seu foco era investigar os fatos sociais, levando em consideração as representações de suas crenças e sentimentos em cada um de seus contextos. Também podemos relembrar como os fatos sociais, intrinsecamente, exercerem um poder coercitivo sobre os indivíduos. Entre os principais temas tratados pelas obras de Émile Durkheim estão: a importância da Sociologia como ciência empírica, a emergência do indivíduo e a formação de uma ordem social e as origens e caráter da autoridade moral na sociedade. Sociologia e Ética Profissional 37 Weber e ação social na prática INTRODUÇÃO: Nessa competência, trabalharemos brevemente sobre quem foi Max Weber e as formas de contribuição para a Sociologia do século XIX. Além disso, conheceremos os diferentes modelos de ação social na perspectiva weberiana. Quem foi Max Weber e como ele trabalhou a ética social? A literatura afirma que considerar o alemão Max Weber (1864-1920) apenas como um sociólogo é uma maneira limitada e, de certa forma, equivocada de defini-lo, uma vez que os seus principais instrumentos de estudo envolviam uma diversidade de áreas. As obras de Weber, da virada do século XIX para o século XX, cobriam campos de estudos como História, Direito, Filosofia e Economia. Caminhar por esses campos permitiu que Weber adquirisse uma diversidade de conhecimento que seria útil para os estudos e entendimentos da sociedade, o que o auxilia no processo de desenvolvimento do conhecimento do campo da Sociologia. Figura 14 – Retrato de Max Weber Fonte: Wikimedia Commons Sociologia e Ética Profissional38 Weber foi professor em Heildeberg, cidade alemã onde aplicou o seu conhecimento, suas ideias e teorias na prática, durante o período da Primeira Guerra Mundial. Após esse período, foi conselheiro do Tratado de Versalhes – a negociação da rendição alemã –, e o seu papel foi tentar amenizar os prejuízos que a Alemanha sofreu após a derrota na guerra. Com o fim da Primeira Guerra, a Alemanha modifica o seu sistema político e surge, então, a República de Weimer, que precisou de uma nova constituição, e um dos responsáveis por elaborá-la foi Weber. EXPLICANDO MELHOR: Diante disso, é possível reparar que o sociólogo foi, além de um grande pensador, um grande político, que desenvolveu suas ideias, teorias e produção intelectual por meio da universidade e da sua experiência prática. Dessa forma, é possível destacar uma importante obra do autor denominada A ética protestante e o “espírito” do capitalismo. Dessa obra, Weber vincula assuntos pertinentes à religião e à política, buscando entender qual a função da religião na política, dentro das práticas da sociedade. Pensando esses dois temas, percebe e diagnostica quais são os valores que ordenam o capitalismo. A estrutura do sistema macroeconômico que nós vivemos, o capitalismo, é apoiada em valores e princípios, os quais o pensador vincula de acordo com a abordagem da religião e da política. Além disso, o autor afirma que, com a mudança de tempo, a maneira como os seres humanos vivem vai mudar. IMPORTANTE: Outro importante fator considerado, nesse mesmo sentido, por Weber é a racionalidade. O pensador faz relações práticas entre o desenvolvimento do capitalismo, da ciência, das técnicas e da tecnologia, enfatizando a ocorrência dos fatos do modelo macroeconômico, em sua produção intelectual, por meio desses elementos. Aliando esses pensamentos, ele chama atenção para uma extrema racionalidade existente em nosso mundo. Sociologia e Ética Profissional 39 Figura 15 – Racionalidade Fonte: Pixabay. Para ilustrar um pouquinho do trabalho que Weber desenvolveu e como ele relaciona a ética nesse contexto, a seguir um fragmento de seu livro: Na verdade, esta ideia peculiar do dever profissional, tão familiar a nós hoje, mas, na realidade, tão pouco evidente, é a maior característica da “ética social” da cultura capitalista e, em certo sentido, sua base fundamental. (WEBER, 1967, p. 38) Mas o que Weber está dizendo nesse pequeno trecho transcrito? De certa forma, a mensagem se retrata sobre algo muito comum atualmente, como um dever profissional, tem sua base na religião. O autor traz para análise como a igreja protestante influenciou no dever profissional, na ética profissional e no modo de lidar com o trabalho e o mundo do trabalho. Isso determina os valores que nos orientam, a maneira como lidamos com o tempo e interfere sobre uma maneira mais racional de ações e pensamentos do ser humano. Ou seja, o ser humano se torna mais racional, uma vez que a sociedade capitalista se racionaliza, com o objetivo de colocar esse sistema em movimento. Sociologia e Ética Profissional40 Você muito provavelmente vai seguir uma carreira profissional e, embora nós saibamos disso, infelizmente a influência dessa ética colocada por Weber não é tão evidente assim. Por esse motivo, as ideias e o conhecimento produzidos por Weber são tão importantes de serem estudados no processo de formação profissional. No entanto, questionamos os meios pelos quais Weber produziu esse tipo de conhecimento com toda assertividade e confiabilidade de suas ideias. Vale relembrar que, antes de Weber chegar às suas teorias, foi preciso utilizar algum método. O método utilizado por ele inclui estatística, que é fundamental para se entender a sociedade. Além disso, os métodos de comparação e interpretação são aplicados nessa produção de conhecimento para entender a sociedade, comparando casos e interpretando dados coletados. Figura 16 – Métodos estatísticos Fonte: Freepik. Sociologia e Ética Profissional 41 Por fim, o entendimento da história é um recurso fundamental e inovador que o Weber traz para a Sociologia, e muitos autores consideram esta a maior inovação que o pensador aplica aos estudos desenvolvidos por ele, sobre a sociedade. Teoria da ação social de Weber Para Weber, uma das funções da Sociologia é compreender a ação social, interpretando-a, para explicar os seus desenvolvimentos e efeitos. Em sua metodologia, a compreensão consiste na absorção do sentido subjetivo da ação. Ele distingue a Sociologia das disciplinas “dogmáticas”, como a jurisprudência, a Ética e a Lógica, que se preocupam em definir o sentido exato de seus objetos. Compreender a ação humana, para Weber, é assimilar seu sentido subjetivo, a compreensão não é um processo exclusivo do conhecimento científico. Qualquer pessoa passa boa parte do seu tempo tentando compreender a ação de outras pessoas do seu grupo social. Ele buscava compreender as bases do entendimento humano e quais operações mentais as pessoas realizavam para entender os atos do outro. Figura 17 – Ação social Fonte: Pixabay. Sociologia e Ética Profissional42 Existem ações que passam despercebidas pelo nosso entendimento, pois ganharam o status de “hábito”. Por exemplo, imagine chegar à casa dos seus avós no fim do dia, você vai até a cozinha e encontra sua avó lidando com panelas no fogão, como costuma fazer todas as tardes. Você não precisa perguntar-lhe para saber que ela está preparando o jantar, que é com essa habitualidade que ela mexe nas panelas e no fogão a essa hora. Desse modo, Weber denomina de compreensão atual esse tipo de percepção de sentido que decorre diretamente do curso observável da ação. Continuando com o mesmo exemplo, suponha que ao chegar à casa da sua avó você não a encontre cozinhando, mas arrumando as malas. Nesse caso, não bastaria olhar para entender, seria preciso perguntar a ela para saber que sua tia está passando mal em outra cidade e que sua avó foi chamada às pressas. Weber denominou isso de compreensão explicativa, pois estas não se contêm ao sentido da ação, mas chama seus motivos velados. No entanto, para ele, a ação que liga racionalmente meio a fins permanece como a mais importante para interpretação significativa, sendo as várias formas de conduta irracionais interpretadas, o mais das vezes, como graus de afastamento em relação a uma hipotética conduta irracional. Porém, essa forma de estabelecer um tipo ideal racional e evidente da atividade social, com base na compreensão, e dar ao seu método compreensivo a maior validade objetiva possível são criticados por outros estudiosos, apresentam alguns problemas, mas devemos compreender o que é “tipo ideal” na perspectiva weberiana. Sociologia e Ética Profissional 43 Quadro 2 – Tipos de ação social Ação social racional com relação a fins Determinada por expectativas no comportamento tanto de objetos do mundo exterior como de outros homens, utilizando essas experiências como condições e meios para alcançar fins próprios. Ação social com relação aos valores Determinada pela crença consciente no valor, ético, estético, religioso ou de qualquer outra forma como seja interpretado. Ação social afetiva Principalmente emotiva, determinada pelos afetos e estado sentimental. Ação social tradicional Determinada por um costume arraigado. Fonte: Elaborado pelas autoras. Para Weber, a noção de tipo ideal decorre da concepção acerca da infinita complexidade do real diante do alcance limitado dos conceitos elaborados pela mente humana. Todo conceito selecionado é orientado por valores. O sociólogo seleciona aspectos da ação humana que considera culturalmente relevantes para o estudo e o faz segundo seus próprios valores. Ao mesmo tempo que busca encontrar consciência lógica para esses aspectos relacionados à realidade. Ele indica que a seleção do objeto de estudo não termina na escolha do problema. Uma vez que a problemática foi definida, o pesquisador se verá diante de numerosas possibilidades de respostas e situações, Sociologia e Ética Profissional44 contudo, cabe a ele mesmo encontrar explicação diante de algumas possibilidades, delimitando suas hipóteses. SAIBA MAIS: Quer se aprofundar nos estudos de Weber e a ação social? Recomendamos a leitura do texto “O paradigma weberiano da ação social: um ensaio sobre a compreensão do sentido, a criação de tipos ideais e suas aplicações na teoria organizacional” (MORAES; MAESTRO FILHO; DIAS, 2003). O trabalho resgata a relação da teoria de Weber nas organizações, além de abordar a compreensão da ação social burocrática e a interferência do capitalismo nos programas de treinamento e desenvolvimento empresarial. Disponível em: https://bit.ly/34Hgcxc RESUMINDO: E, então, gostou do que mostramos? Aprendeu mesmo tudinho? Agora, só para termos certeza de que você realmente entendeu o tema de estudo deste capítulo, vamos resumir tudo o que vimos. Você deve ter aprendido que a participação de Max Weber no processo de desenvolvimento da Sociologia como ciência foi de extrema relevância, devido, principalmente, à sua diversidade de conhecimento para entender melhor a sociedade. Iniciamos explicando sobre sua história, o contexto de seus estudos e suas principais obras. Seguimos comentando sobre a visão do mundo sociológico que Weber tinha em relação, principalmente, à mudança do tempo. Também podemos relembrar um fator muito importante tratado por Weber, que é a racionalidade, inserindo assuntos como a ética e a religião no dever profissional e na ética profissional. Outro pronto importante tratado por Weber é a teoria da ação social e seus tipos ideais na perspectiva weberiana. Os tipos de ação são: a ação social racional com relação a fins; a ação social com relação aos valores; a ação social afetiva; e a ação social tradicional. Ao compreender toda essa dinâmica que envolve a sociedade, esperamos que você entenda que está caminhando pelos passos certos profissionalmente, rumo ao que o mercado, a sociedade e o mundo necessitam. Sucesso e parabéns por finalizar esta unidade com êxito! Sociologia e Ética Profissional 45 REFERÊNCIAS BRAUN, J. R. R.; LOPES, D.; WERNE,R L.; PERASSI, R.; GOMEZ, L. S. R. O Positivismo percebido nas etapas de desenvolvimento do DNA da marca. Arcos Design, v. 8, n. 1 (2014): jun. 2014. Disponível em: https:// www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/arcosdesign/article/view/13020. Acesso em: 16 fev. 2020. COSTA, F. J. F. Há duzentos anos do seu nascimento, o que Karl Marx tem a oferecer ao século XXI?. Repositório, 2018. Disponível em: http://repositorio.ufc.br/bitstream/riufc/39629/1/2018_art_fjfcosta.pdf. Acesso em: 18 fev. 2020. DURKHEIM, E. As Regras do Método Sociológico. São Paulo: Martins Fontes, 1999. GIDDENS, A. Sociologia. 6. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2008. ISKANDAR, J. I.; LEAL, M. R. Sobre positivismo e educação. Revista Diálogo Educacional, v. 3, n. 7, p. 89-94, 2002. MORAES, L.; MAESTRO FILHO, A.; DIAS, D. O paradigma weberiano da ação social: um ensaio sobre a compreensão do sentido, a criação de tipos ideais e suas aplicações na teoria organizacional. Revista de Administração Conteporânea. vol. 7. n. 2. Curitiba. abr.-jun. 2003. Disponível em: http:// www.scielo.br/scielo.php?pid=S1415-65552003000200004&script=sci_ arttext&tlng=pt. Acesso em: 20 fev. 2020. MEDINA, C. A. Ciência e jornalismo [Recurso Eletrônico]: da herança positiva ao diálogo dos afetos. 1. ed. São Paulo: Summus, 2014. WEBER, M. A ética protestante e o espírito do capitalismo. Tradução: MIQF Szmrecsáyi; TJMK Szmrecsáyi. São Paulo: Livraria Pioneira, 1904. WEISS, R.; BENTHIEN, R. 100 anos sem Durkheim. 100 anos com Durkheim. Sociologias. vol. 19, n. 44. Porto Alegre, jan.-abr. 2017. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1517- 45222017000100016&script=sci_arttext&tlng=pt. Acesso em: 19 fev. 2020. Silvia Cristina da Silva e Stephanie Freire Brito Sociologia e Ética Profissional Positivismo de Augusto Comte e o crescimento moral Preparação para o nascimento da Sociologia O Positivismo para o crescimento moral da sociedade na prática O materialismo de Karl Marx e os rumos do desenvolvimento Quem foi Karl Marx e qual sua contribuição na Sociologia? O capitalismo e suas implicações rumo ao desenvolvimento Os impactos concretos do funcionalismo de Émile Durkheim Princípios de Durkheim O que é sociologia moral? Weber e ação social na prática Quem foi Max Weber e como ele trabalhou a ética social? Teoria da ação social de Weber ebook-3-sociologia-e-etica-profissional.pdf Unidade 3 Livro Didático Digital Silvia Cristina da Silva e Stephanie Freire Brito Sociologia e Ética Profissional Diretor Executivo DAVID LIRA STEPHEN BARROS Diretora Editorial CRISTIANE SILVEIRA CESAR DE OLIVEIRA Projeto Gráfico TIAGO DA ROCHA Autor SILVIA CRISTINA DA SILVA E STEPHANIE FREIRE BRITO Silvia Cristina da Silva Eu, Silvia, sou mestre interdisciplinar em Educação, Ambiente e Sociedade – Unifae, participante docente e discente no mestrado em Análise do Discurso – Universidade Federal de Buenos Aires. Sou especialista em Docência do Ensino Superior e Direito e Educação – Faculdade Campos Elíseos. Pós-graduanda em EAD – Faculdade Campos Elíseos. Graduada em Ciências Jurídicas e Sociais – Unifeob. Vice-diretora acadêmica na Agência Nacional de Estudos em Direito ao Desenvolvimento – Anedd. Especialista em investigação de antecedentes em instituições públicas e privadas. Docente e conteudista em diversas instituições educacionais para cursos de graduação e pós-graduação. Elaboradora de questões para concursos públicos em várias organizadoras. Gravadora, redatora, tradutora e intérprete da língua espanhola. Stephanie Freire Brito Eu, Stephanie, sou mestranda em Administração – PPGA/UFCG, com MBA em Marketing e Inteligência de Mercado. Desenvolvo a escrita de materiais didáticos na área de Ciências Sociais, Educação, Tecnologias, Administração e Ambiente. Somos apaixonadas pelo que fazemos e gostamos muito de transmitir nossas experiências de vida àqueles que estão se iniciando em suas profissões. Por isso, fomos convidadas pela Editora Telesapiens para integrar seu elenco de autores independentes. Estamos muito felizes em poder ajudar vocês nesta fase de muito estudo e trabalho. Conte conosco! AS AUTORAS Olá. Esses ícones irão aparecer em sua trilha de aprendizagem toda vez que: ICONOGRÁFICOS INTRODUÇÃO: para o início do desenvolvimento de uma nova com- petência; DEFINIÇÃO: houver necessidade de se apresentar um novo conceito; NOTA: quando forem necessários obser- vações ou comple- mentações para o seu conhecimento; IMPORTANTE: as observações escritas tiveram que ser priorizadas para você; EXPLICANDO MELHOR: algo precisa ser melhor explicado ou detalhado; VOCÊ SABIA? curiosidades e indagações lúdicas sobre o tema em estudo, se forem necessárias; SAIBA MAIS: textos, referências bibliográficas e links para aprofundamen- to do seu conheci- mento; REFLITA: se houver a neces- sidade de chamar a atenção sobre algo a ser refletido ou discutido sobre; ACESSE: se for preciso aces- sar um ou mais sites para fazer download, assistir vídeos, ler textos, ouvir podcast; RESUMINDO: quando for preciso se fazer um resumo acumulativo das últimas abordagens; ATIVIDADES: quando alguma atividade de au- toaprendizagem for aplicada; TESTANDO: quando o desen- volvimento de uma competência for concluído e questões forem explicadas; SUMÁRIO O design da sociedade......................................................................10 Estrutura social...............................................................................................................10 Como a estratificação social funciona nos dias atuais?..............15 Organização e mudança social.....................................................20 O que é organização social?..............................................................................20 Como ocorre a mudança social?....................................................................24 Dimensões da sociedade.................................................................29 Indivíduos e grupos....................................................................................................29 Comunidade e sociedade.....................................................................................34 Pré-capitalismo e capitalismo.......................................................39 O capitalismo e suas fases..................................................................................39 Sociologia e Ética Profissional 7 UNIDADE 03 Sociologia e Ética Profissional8 Você sabia que somos produtos da Sociologia e que o nosso comportamento, assim como o nosso papel nessa existência são reflexos de uma estrutura social histórica? Isso mesmo, sem falar que o estudo sobre os elementos que compõem a Sociologia pode nos tornar profissionais cada vez mais capacitados e bem-sucedidos em qualquer que seja a nossa área de atuação, pois trabalhamos para pessoas e somos servidos por pessoas, que constituem grupos e instituições alimentando uma teia econômica. A oportunidade de acesso a uma compreensão crítica e esclarecedora desse universo social nos possibilita sermos profissionais com maior valor moral e ético, e isso pode fazer toda a diferença na sua carreira e no tipo de competência que você desenvolverá. Entendeu? Ao longo desta unidade letiva, você vai mergulhar nesse universo! INTRODUÇÃO Sociologia e Ética Profissional 9 Olá. Seja muito bem-vindo à Unidade 3 Nosso propósito é auxiliar você no desenvolvimento das seguintes objetivos de aprendizagem até o término desta etapa de estudos: 1. Compreender os fundamentos da estrutura social e suas funções no fenômeno de estratificação na sociedade atual. 2. Conhecer os modos de organização social e como ocorrem as mudanças sociais. 3. Inteirar-se sobre as dimensões da sociedade em níveis de indivíduo, grupos, comunidades e sociedade. 4. Aprender detalhadamente as teorias que circundam o capitalismo, suas fases e conceitos fundamentais. Então? Preparado para uma viagem sem volta rumo ao conhecimento? Ao trabalho! OBJETIVOS Sociologia e Ética Profissional10 O design da sociedade INTRODUÇÃO: Ao término deste capitulo, você será capaz de entender os fundamentos básicos que detalharão a estrutura da sociedade e como sua divisão é explicada ao longo da história. Isto será fundamental para o exercício de sua profissão. E aí, motivado para desenvolver essa competência? Então, vamos lá. Avante! Estrutura social Antes de iniciarmos com maior afinco os estudos sobre a estrutura social, convém compreender o contexto histórico pelo qual essa configuração acontece, com o objetivo de compreender melhor a dinâmica do cenário atual e os fenômenos desse contexto, que podem ocorrer futuramente. Vimos que historicamente a Sociologia como ciência surge em um momento de desenvolvimento econômico e impulsionamento do capitalismo, em que ocorre a Revolução Industrial e a Revolução Francesa, possibilitando as principais observações em torno de suas consequências negativas para grande parcela da sociedade. Atravessando uma fronteira temporal mais significativa, chega-se a um debate sobre a questão estrutural. Essa questão demonstra como a sociedade tem sido organizada e como cada uma de suas partes se complementam, por possuírem vínculos entre si, que dão origem às causas e consequências. O estudo sobre a estrutura social tem o principal objetivo de possibilitar melhor entendimento sobre a composição das relações sociais e suas complexidades. Dessa forma, surge uma vertente teórica de pensamento, fortemente ligada a esse contexto, denominada por estruturalismo. Sociologia e Ética Profissional 11 A definição dessa arquitetura, que é desenhada pela própria sociedade, é construída pelas diversas interações entre os indivíduos por meio de um longo processo que percorre a história da humanidade. Devido a isso, a estrutura social pode ser considerada como o design que a sociedade constrói por meio das relações entre seus atores, os quais podem ser exemplificados por indivíduos, instituições etc. Figura 1 – Relações sociais IMPORTANTE: É importante pontuar que a estrutura da sociedade é constituída por meio de elementos humanos e, dessa forma, envolve diversos outros fatores que estão ligados à sua existência. A esse respeito, é importante notar que essa construção humana da estrutura da sociedade é, por vezes, permanente e estável, trilhando caminhos em direção à sua perpetuação. Fonte: Freepik. Entendendo que o conceito de estrutura social está ligado à maneira como a sociedade se organiza por meio de relações diferentes, complexas que se complementam e integram, é importante ressaltar o fato de que as relações construídas pelos próprios indivíduos por meio dos seus papéis diante da sociedade, que cada um deles assume. Sociologia e Ética Profissional12 A ideia de estrutura da sociedade, para ser considerada em conformidade com o conceito geral de estrutura, deve preencher certos requisitos. Considera as relações das partes com o todo, o arranjo no qual os elementos da vida social estão ligado. Estas relações devem ser vistas como construídas umas sobre as outras, pois são séries de ordens diversas de complexidade. Precisam ser de significado não simplesmente momentâneo uma vez que fatores de constância ou continuidade devem estar envolvidos nelas. (FIRTH, 1971, p. 35) A concepção de estruturas sociais como uma organização de um sistema reificado em que as suas partes estão inter-relacionadas de forma padronizadas, separadas por limites, é uma representação recorrente nas definições que encontramos na literatura de Sociologia. Ao se considerar algumas das perspectivas teóricas clássicas da Sociologia, estudadas na unidade 02, veremos que cada uma delas destaca aquilo que lhe parece os pontos mais importantes para a compreensão das estruturas sociais. Podemos começar citando, por exemplo, que as teorias funcionalistas de Durkheim enfatizam os diferentes papéis que cada uma das partes assume, tendo em vista a integração, o equilíbrio e a estabilidade do sistema. Já para o pensamento marxista, a estrutura de uma sociedade pode ser pensada em função de uma infraestrutura e da superestrutura que a compõem, sendo esta uma dimensão que diz respeito às forças produtivas e relações de produção em certo estágio do desenvolvimento histórico. Como exemplo, podemos citar o escravismo, o feudalismo e até o próprio capitalismo. Sociologia e Ética Profissional 13 Figura 2 – O jantar Fonte: Wikimedia Commons. Na obra de Debret, temos uma ilustração da estrutura da sociedade nos tempos da escravidão, vemos claramente a divisão entre duas classes em um cenário social familiar, no qual os brancos ricos estão sentados à mesa, enquanto os negros escravizados os servem. Esse tipo de situação configura uma estrutura social que perdura ao decorrer dos anos marcando a história da humanidade. As contribuições de Marx e Weber no sentido das estruturas sociais se referem a instituições jurídicas, políticas e formas de consciência social. O sentido que se reveste dos conteúdos das relações sociais é aquele estabelecido pela vontade dominante, seja na família, na igreja, na escola, no casamento, no Estado, entre outros sistemas. A estrutura social também pode ser entendida como um processo, nesse caso, a interação simbólica tem um importante papel. Sociologia e Ética Profissional14 A nossa estrutura social compreende várias ordens: políticas, econômicas, de democracia, capitalismo, religiosidade e aspectos culturais. Essas ordens são mecanismos de relação entre indivíduos, e é a dinâmica que ocorre entre elas e os indivíduos que determina como a sociedade se moldará. Devido a isto, convém chamar maior atenção para o fato de que o capitalismo e suas mecânicas de funcionamento têm uma das mais importantes participações no processo de construção da estrutura social, uma vez que ela provoca igualdades entre alguns e desigualdades entre outros grupos. Não é nenhuma novidade que existem em nossa sociedade os grupos da elite, uma burguesia, uma camada mais rica e abastada. Esses grupos possuem certo tipo de igualdade entre eles em relação a um grau de consumo, acesso a educação e estudo, de certa forma, padronizados, e assumem funções sociais semelhantes. Nesses casos, há uma relação de desigualdade com outros grupos de uma classe menos abastada, chegando ao nível de pessoas que são extremamente pobres, sem acesso a quase nenhum recurso social, nenhum poder de consumo etc. SAIBA MAIS: Com base no pensamento dos teóricos liberais clássicos, a explicação sobre o funcionamento do mundo social deve considerar que os indivíduos, a partir de escolhas racionais, buscam minimizar as perdas e maximizar os ganhos. Ou seja, realizar trocas orientadas pela relação existente entre os custos e os benefícios de suas ações. Algo quase consciente. Sociologia e Ética Profissional 15 Figura 3 – Relações sociais por desigualdade econômica Fonte: Pixabay. Além desses aspectos econômicos já mencionados, é importante pontuar que a divisão social, historicamente, é dada por outros fatores, como: diferenças raciais, religiosas, culturais, geográficas, entre outros. Sendo assim, o preconceito e a discriminação também são pensados dentro dessa questão estrutural por fenômenos de exclusão, distinção, inferioridade e exploração, por exemplo, executados por indivíduos dos grupos “superiores”. Como a estratificação social funciona nos dias atuais? A Sociologia dedica parte dos seus estudos ao tema da estratificação social. Desde os clássicos, o assunto é debatido, no entanto, nesse ponto definiremos o que é a estratificação para estudar sua origem, ocorrência e impacto diante da sociedade ao longo de todo o seu processo histórico. Antes de entrar com um pouco mais de profundidade no tema, convém conhecer melhor a definição do termo. Sociologia e Ética Profissional16 Ou seja, grosso modo, podemos entender que a estratificação é a separação entre indivíduos e grupos a partir de uma distribuição desigual de dinheiro, de poder e de prestígio. Logo, quando mencionamos uma sociedade estratificada economicamente, nos referimos a uma sociedade de ricos e pobres. Boa parte da estratificação e mobilidade sociais tem ocorrido por meio das ocupações. Sabe-se que o emprego é um fenômeno moderno, consolidado com o avanço da industrialização no mundo, a partir da existência da administração burocrático- racional. Assim, para se tratar da estratificação social na sociedade moderna, faz-se necessário abordar inicialmente o processo de industrialização e as organizações burocráticas. (HELAL, 2008, p. 19-20) Na dinâmica da sociedade em que vivemos, a riqueza pode, em muitos casos, garantir o poder. Esse fato em relação à posse do recurso econômico e, consequentemente, do poder, além de possibilitar, facilita a influência do indivíduo que está inserido nesse contexto, na vida política. Esse fato explica o motivo pelo qual a sociedade, além de ser dividida entre grupos com maior e menor posse econômica, é segregada de maneira fortalecida pelo fato de que a classe com maior posse econômica tem mais chance de ter também poder, possibilitando a construção de relação entre dominantes e dominados. Com base nessa análise, podemos entender que a estratificação social, além de ser baseada em uma estratificação econômica, também pode adotar um caráter político, que por sua vez alimenta a estratificação econômica, considerando que a tomada de decisões vai atingir DEFINIÇÃO: O conceito de “estratificação social” está ligado à desigualdade decorrente de uma distribuição diferenciada de riquezas, poder, honras e privilégios dentro de uma sociedade, a partir de uma combinação variada de elementos diferenciadores, ainda que haja predominância de um ou alguns deles. Sociologia e Ética Profissional 17 diretamente e positivamente aqueles grupos que estão no topo da nossa escala de distribuição de poder e dinheiro. Figura 4 – Legitimação da estratificação social Fonte: Elaborado pelas autoras. Essa lógica tende a configurar um movimento cíclico e retroalimentar, no qual a ordem é legitimada pela estratificação social, pois a distribuição de prestígio estará ligada diretamente à possibilidade de um indivíduo comprar ou ter determinados bens, morar em determinados lugares. Nessa situação, percebemos que todos os elementos estão ligados um ao outro, assumindo uma cadeia constante. Exemplo: Vamos tomar como exemplo a estrutura social do Brasil escravista colonial. Nesse contexto, verificamos que vários elementos diferenciadores combinados entre si corriam para produzir as desigualdades, tais como o acesso à terra e aos mercados, as prerrogativas de ser homem ou mulher, o fato de ser branco, negro ou mestiço, as condições de ser livre ou escravo, a assimilação ou não do credo cristão, entre outros. Sociologia e Ética Profissional18 O tema da estratificação social tem sido um dos principais objetivos de reflexão da Sociologia desde seus primórdios. Os tipos de sociedade estratificada são divididos em classe social, status, castas, de alguma forma condicionaram a conversão do nosso olhar sobre as distinções sociais. Em suma, os estudos em torno da estrutura social servem para que possamos compreender melhor de que forma e os motivos pelos quais os homens se comportam socialmente. As relações sociais precisam ser compreendidas, uma vez que a forma da sociedade de explica por meio delas. Além disso, esse conceito nos permite compreender outro, o de organização social. ACESSE: O artigo “Tendências da desigualdade de oportunidades no Brasil: mobilidade social e estratificação educacional” (RIBEIRO, 2017) trabalha uma perspectiva sociológica para os estudos em relação a desigualdade e oportunidades no Brasil a partir da estratificação e mobilidade social. Disponível em: https://bit.ly/31ezlGD (Acesso em: 26/02/2020). RESUMINDO: E, então, gostou dessa primeira competência? Agora, só para termos certeza de que você realmente entendeu o tema de estudo deste primeiro capítulo, vamos resumir tudo o que vimos. Você deve ter aprendido que a estrutura social é construída a partir das relações sociais e suas complexidades, e que essa estrutura vem de um longo processo que percorre a história da humanidade. No entanto, a estrutura para se consolidar deve preencher alguns requisitos, como considerar as relações como um todo, além de considerar a constância e a continuidade das relações. Também podemos relembrar que acontecimentos históricos, como a escravidão, deixaram como herança um formato social que perdura ao decorrer dos anos, marcando a história da humanidade perpetuamente. Sociologia e Ética Profissional 19 RESUMINDO: É importante pontuar que a estrutura social compreende ordens políticas, econômicas, democráticas e culturais entre os indivíduos, além de ser fortemente impactada pelos efeitos do capitalismo, que provocaram um efeito de estratificação social desde os tempos de sua institucionalização até os dias atuais. É importante relembrar que a estratificação da sociedade tem como base outros tipos de estratificação, seja econômica, política ou de prestígio. No Brasil, o escravismo colonial provocou uma estratificação por diferença racial que se arrasta ao longo dos anos. Tomando por base esses aprendizados, o profissional, em qualquer que seja a sua área de atuação, estará preparado para entender como a sociedade está desenhada e como as suas ações, junto às ações das instituições nas quais está inserido, podem interferir no destino da sociedade atual e futura, proporcionando senso crítico para melhores tomadas de decisões pessoais e profissionais. Sociologia e Ética Profissional20 Organização e mudança social INTRODUÇÃO: Nesta unidade, discutiremos sobre os conceitos em relação à organização social e à mudança social, o vínculo com a estrutura social e como o capitalismo participa de todo o processo de divisão da sociedade ao longo da história. O que é organização social? É de suma importância conhecer com maior dedicação do que se trata a organização social para que entendamos melhor os pontos referentes ao funcionamento da sociedade. Para isso, vamos entender melhor a sua definição. DEFINIÇÃO: A definição do construto “organização social” em Sociologia se refere ao formato pelo qual a sociedade está estruturada, além dos papéis que cada um dos elementos dessa sociedade recebe e desempenha para seu funcionamento. Sobre esse tema, Karl Marx tem como ponto de partida a abordagem sobre as condições materiais de sobrevivência ou, como pode-se dizer: o que é necessário para o ser humano sobreviver? A resposta é simples, podemos citar: alimento, água, moradia, entre outros. Visto isso, surge outra questão: “Como o ser humano obtém esses recursos?”. O homem precisa fazer algo para obter esses recursos essenciais para sua sobrevivência. Nesse caso, Marx nos diz que os seres humanos se organizam para extrair da natureza o necessário à sua sobrevivência. Nesse processo, estabelece com outros seres humanos relações sociais ou relações produtivas. Um exemplo disso é quando agricultores se organizam em uma cooperativa para produzir alimentos, eles não só produzem alimentos para Sociologia e Ética Profissional 21 si mesmos, como podem produzir para comercializar a um comprador externo e, nessa dinâmica, criam uma relação entre si. Figura 5 – Relações produtivas na agricultura Fonte: Freepik. REFLITA: Imagine que, supostamente, essa cooperativa dos produtores de agricultura venha a repassar os seus produtos para um feirante, que também precisa garantir as suas condições materiais de sobrevivência, então ele vende esses alimentos por um determinado preço pra conseguir certo lucro que garanta a conquista desses recursos essenciais dos quais ele necessita. Caso a cooperativa consiga que uma grande empresa compre esses alimentos para comercializar de forma industrializada, também precisa garantir os seus custos de operação, assegurando as condições materiais para sua existência. Ou seja, nesse processo de construir relações sociais com os seres humanos, de compra, venda, produção etc., a sociedade como um todo Sociologia e Ética Profissional22 surge, em resumo, a partir da busca do ser humanos pelas condições materiais de sobrevivência. Para Marx, as relações produtivas é que estão na base da sociedade, pois são elas que constituirão o que chamamos de economia, e a produção de bens e serviços é que vai determinar todo o resto da organização da sociedade como um todo. Vamos entender isto um pouco melhor. De que forma isso vai acontecer? Como os seres humanos se organizam para produzir? É possível compreender que essas formas, que os seres humanos encontram para produzir as condições materiais para sua sobrevivência, variam de acordo com a época, e a elas Karl Marx dá o nome de “modos de produção”, porém estes necessitam de meios de produção, que são todos aqueles recursos necessários para se produzir. Na pré-história, o modo de produção é o que Marx chama de “comunismo primitivo”, pois não havia desigualdade entre os seres humanos, os meios de produção e as ferramentas utilizadas para caça e coleta não eram de ninguém, não havia a ideia de propriedade privada e por isso dava-se o nome de comunismo primitivo. Figura 6 – Comunismo primitivo Fonte: Pixabay. Sociologia e Ética Profissional 23 Na antiguidade, na Grécia e no Império Romano, o modo de produção é denominado por “escravismo”, pois os meios de produção eram os próprios escravos, que trabalhavam, e os cidadãos romanos e gregos se serviam do produto do trabalho desses escravos. Seguindo na história, chegamos ao feudalismo, que já utiliza outro modo de produção: as terras, nas quais os servos de um feudo cultivavam as terras e parte ficava para o servo e parte para o senhor feudal. Chegando aos dias atuais, a sociedade capitalista tem como meios de produção: maquinário, equipamentos, robôs, computadores etc. Dessa forma, entendemos que os meios de produção são característicos de cada modo de produção. Com base nisso, como podemos entender a organização da sociedade? É necessário ter em mente dois elementos básicos referentes aos meios e aos modos de produção. Para Marx, a posse dos meios de produção e a posse do poder dentro da sociedade são coisas que sempre estão juntas. Quem controla as empresas e as indústrias no capitalismo controla o poder dentro da sociedade capitalista. Outra ideia que Marx coloca é que “somente o trabalho gera riqueza”, quando só o trabalho é capaz de produzir. Então, ao longo da história das sociedades, tem-se uma tensão entre aqueles que trabalham e geram riqueza e aqueles que possuem a posse dos meios de produção, bem como a posse do poder dentro da sociedade. Em resumo, ao possuir os meios de produção, a classe dominante tem o poder sob a geração das condições materiais de sobrevivência. Como todas as pessoas precisam sobreviver, essa estrutura dá poder à classe dominante sob a sociedade e resta, então, aos demais seres humanos trabalharem para a classe dominante, que se apropria da riqueza gerada pelos trabalhadores, uma vez que apenas o trabalho gera riqueza. Dessa forma, Marx explica como a sociedade está organizada e como acontece a desigualdade social no capitalismo. Em relação à sobrevivência da sociedade, é necessário que a organização esteja Sociologia e Ética Profissional24 nivelada em várias esferas, como a cultural, a econômica, a familiar e a política. Como ocorre a mudança social? A estrutura e a organização da sociedade consideram várias esferas que contribuem com a necessidade de mudança da sociedade ao longo do tempo. DEFINIÇÃO: Nesse contexto, a definição para “mudança social” é referente à transformação da sociedade e da maneira como ela está organizada. Ou seja, os hábitos e os costumes habitualmente praticados pelas pessoas deixam de existir e dão espaço às novas práticas, configurando, assim, uma mudança social. Organização social implica algum grau de unificação, a união de diversos elementos numa relação comum. Para isto, pode ser conveniente supor a existência de princípios estruturais, ou vários processos podem ser adotados. Isto envolve o exercício da escolha, o tomar decisões. Estas, como tais, dependem de avaliações pessoais, que são a transformação dos fins ou valores grupais em termos que adquiram significado para o indivíduo. [...] Implica o reconhecimento do fator tempo na ordenação das relações sociais. [...] O conceito de organização social, também, leva em conta as magnitudes. [...] pressupõe também elementos de representação e responsabilidade. [...] O conceito de organização social é importante também para a compreensão da mudança social. (FIRTH, 1973, p. 41-43) O tempo é um fator que interfere diretamente no reajuste e na modificação das relações sociais. Além disso, existem outros elementos que constituem o design ou o formato de uma sociedade, determinado pela repetição de comportamentos. Como sugeria Durkheim nos estudos sobre o fato social em relação aos modos de ação da sociedade predeterminados, outra ótica sobre Sociologia e Ética Profissional 25 o tema possibilita entender que esses mecanismos reguladores do comportamento são um manual que assegura a ação dos indivíduos e a estrutura da sociedade os fornece isto por meio da família, das relações entre as diferentes classes, da distribuição de tarefas, que estabelecem obediências e regras em cima de hierarquias, por exemplo. Figura 7 – Divisão de papéis na sociedade Fonte: Freepik. As formas de comunicação, a moda, as relações de trabalho, os meios de transporte, a composição familiar, as formas de comercialização e as maneiras de fazer educação são somente alguns exemplos de elementos que se transformaram e trouxeram mudanças significantes na vida e no formato da sociedade. Podemos denominar esses exemplos de ocorrências de mudanças sociais. A mudança da sociedade deve ser observada com a devida contextualização histórica. A mudança social não é reversível tampouco interrupta, é um acontecimento constante e provoca impactos diretos na maneira como a sociedade se desenvolve. Outra importante característica da mudança social é o ritmo com o qual ela varia, dependendo do contexto ao qual se observa. Um exemplo disso é a comparação entre a mudança social na zona rural e na zona Sociologia e Ética Profissional26 urbana, é possível inferir que o meio urbano absorve e adota com maior velocidade as mudanças do que o meio rural. Além disso, a mudança social de fato ocorre individualmente, mas provoca efeitos coletivos que não são breves, por muitas vezes, são permanentes e modificam perpetuamente o modo de vida da sociedade ao longo da história. A mudança alcança níveis políticos e culturais que impactam fortemente a sociedade, como exemplo é possível detalhar melhor os seguintes: Tabela 1 – Exemplos de mudanças sociais Direitos femininos Direitos como o voto e trabalhar fora de casa foram conquistados apenas a partir da década de 1930. No século XXI, leis contra violência da mulher, políticas de empoderamento e equiparação salarial são exemplos de novas conquistas. Meios de comunicação Diminuição da comunicação por carta, criação do telefone e posteriormente utilização da Internet facilitaram o contato entre pessoas de qualquer lugar do mundo, com alta velocidade e baixo custo, além de favorecer atividades comerciais e produtivas. Modelo familiar Menor número de filhos, instituição do divórcio, casamento entre pessoas do mesmo sexo, bem como a adoção por esses novos casais modificam o modelo familiar. Sociologia e Ética Profissional 27 Formas de trabalho Profissões foram extintas e novas profissões surgiram, além da possibilidade de executar o trabalho por meios digitais, sem necessariamente estar em um ambiente físico já é uma realidade. Meios de transporte Transportes como carros, ônibus e aviões democratizaram e agilizaram o processo de deslocamento das pessoas, além de favorecer atividades produtivas. Fonte: Elaborado pelas autoras. Vimos que os exemplos de mudança social são bastante variados e estão relacionados a vários contextos da vida do ser humano. Em praticamente todos os casos há interferência dos fatores tecnológicos como a causa maior dessas mudanças. SAIBA MAIS: Quer se aprofundar neste tema? Leia o artigo “Um novo pensamento da comunicação para a mudança social” (AYRES, 2019). O estudo comenta como a utilização da mídia digital, associada aos movimentos sociais, tem configurado novíssimas possibilidades para a evolução da disciplina e prática da comunicação para o desenvolvimento e mudanças sociais em diversos contextos culturais, vindo a romper com estruturas consolidadas. Disponível em: https://bit.ly/3aWIF5n. Acesso em: 27/02/2020. Sociologia e Ética Profissional28 RESUMINDO: Chegamos ao final de mais uma seção desta unidade, na qual tratamos inicialmente dos aspectos conceituais e introdutórios sobre os conceitos que complementam o que vimos em relação à estrutura e estratificação social, detalhando e exemplificando melhor a organização social e as mudanças em torno desse modelo organizado. Você deve ter aprendido que a organização social se refere aos papéis que cada um dos elementos da sociedade recebe e desempenha para contribuir com o seu funcionamento, principalmente no que se trata de condições materiais de sobrevivência humana, como as condutas desempenhadas para conquistar os recursos, as relações sociais e produtivas. Também podemos relembrar que toda a estrutura e a organização da sociedade são baseadas nas relações produtivas, pelas quais se constitui o sistema econômico, uma vez que a produção de bens e serviços é que vai determinar todo o resto da organização da sociedade como um todo. As relações produtivas ocorrem entre os detentores dos modos e meios de produção e dos indivíduos que precisam vender sua força de trabalho de modo que a produção realmente ocorra e eles consigam os recursos necessários para sua sobrevivência. Nessa dinâmica de relações sociais em torno da produção, desencadeiam certos progressos nos modos de produção, que, por sua vez, implicam em mudanças sociais. Os hábitos e os costumes habitualmente praticados pelas pessoas deixam de existir e dão espaço às novas práticas. A mudança alcança níveis políticos e culturais que impactam fortemente a sociedade, de maneira irreversível, como os meios de comunicação e as atividades econômicas. Por fim, entendemos que os exemplos de mudança social são bastante variados e que estão relacionados a vários contextos da vida do ser humano, ao longo da história e também nos dias atuais. Sociologia e Ética Profissional 29 Dimensões da sociedade INTRODUÇÃO: Nesta competência, vamos aprender sobre as dimensões das divisões estruturais da sociedade, bem como cada um de seus níveis, com o objetivo de entender que as decisões e as políticas instituídas devem ter alcances diferentes e que a complexidade das relações depende de cada nível social. Indivíduos e grupos Na Sociologia, há estudos que compreendem também diversas dimensões de organização social, que facilitam o entendimento sobre a conduta dos indivíduos em vários níveis. Nesta unidade, conheceremos melhor a conceituação e a aplicação dos níveis divididos em quatro tipos: o indivíduo, os grupos, as comunidades e a sociedade. Neste contexto de estudo, iremos nos dedicar a identificar o funcionamento e as características de cada um desses quatro níveis. Iniciaremos pelo nível individual, que na Sociologia é estudado e analisado, basicamente, por meio de um contexto em conjunto com grupos e instituições. Sobre isso, Andery comenta: O indivíduo, na sua relação com o ambiente social, interioriza o mundo como realidade concreta, subjetiva, na medida em que é pertinente ao indivíduo em questão, e que por sua vez se exterioriza em seus comportamentos. Assim, a capacidade de resposta do homem decorre de sua adaptação ao meio no qual ele se insere, sendo que as atividades tendem a se repetir quando os resultados são positivos para o indivíduo, fazendo com que estas atividades se tornem habituais. Todos os processos de formação de hábitos antecedem a institucionalização dos membros, ocorrendo sempre quando as atividades tornadas hábitos se amoldam em tipos de ações Sociologia e Ética Profissional30 que são executadas por determinados indivíduos. (ANDERY, 1984, p. 83) Uma visão clássica da Sociologia, como Marx, defende que os indivíduos devem ser analisados de acordo que o contexto e suas condições e situações sociais, já que produzem sua existência em grupos. Os indivíduos construíram sua história de existência alocando- se, mesmo que de forma inconsciente, em um grupo social. Portanto, a relação entre trabalhador e empresário não é apenas entre indivíduos, mas também entre classes sociais. O Estado aparece para tentar reduzir o conflito entre essas duas classes, principalmente, mesmo tendo leis que normalmente são a favor dos capitalistas. Embora o foco dos estudos de Marx esteja nas classes sociais, o indivíduo está presente nessa discussão, isso fica claro quando Marx afirma que os seres humanos constroem sua história, mas não da maneira que querem, pois existem situações anteriores que condicionam o modo como ocorre essa construção. De fato, existem condicionantes estruturais que levam o indivíduo, os grupos e as classes a determinado caminho. No entanto, há quem afirme que todos têm a capacidade de reagir a esse condicionamento e até mesmo transformá-lo e o princípio dessa reação começa pela consciência de uma luta de classes. Para Durkheim, o indivíduo está sujeito a regras impostas pela sociedade, para assegurar sua perpetuação. Weber tem a preocupação de compreender o indivíduo e suas ações e saber o motivo pelo qual as pessoas tomam determinadas decisões, quais são as razões para os seus atos para, então, compreender a sociedade como um todo. Em suma, os indivíduos constituem a sociedade, e as particularidades inerentes a cada um deles constituem seu caráter dinâmico e diverso. Contudo, não é correto se prender apenas a essa ideia, pois a sociedade não se constitui por indivíduos apenas, mas também pelas suas ligações Sociologia e Ética Profissional 31 pessoais, motivadas tanto pelas afinidades quanto pelas necessidades mútuas. Dessa forma, originam-se os grupos. Figura 8 – Grupos sociais Fonte: Freepik. O conhecimento de si é dado pelo reconhecimento recíproco dos indivíduos identificados através de um determinado grupo social que existe objetivamente, com sua história, suas tradições, suas normas, seus interesses, etc. Mas, se é verdade que minha identidade é constituída pelos diversos grupos de que faço parte, esta constatação pode nos levar a um erro, qual seja o de pensar que os substantivos com os quais nos descrevemos que nos tornaria um sujeito imutável, idêntico a si mesmo, manifestação daquela substância. (ANDERY, 1984, p. 83) Os grupos sociais são indivíduos que estão mutuamente em interação, e essa interação pode assumir, normalmente, dois tipos de contato social que podem se estabelecer entre os indivíduos da sociedade: o contato social primário e o secundário. Sociologia e Ética Profissional32 O contato social primário é embasado com intimidade, identificação, conhecimento mútuo e informalidade entre os indivíduos que interagem. Já o contato social secundário é aquele permeado com certo distanciamento e formalidade entre as pessoas que precisam manter uma relação social. A partir desses tipos de contatos, podemos citar os grupos sociais que se estabelecerão com base neles, ou seja, agrupamentos sociais que primam por um contato mais íntimo, informal entre os indivíduos, seriam os grupos sociais primários, por exemplo, a família, os vizinhos, os grupos de amigos. NOTA: Os grupos sociais secundários se estabelecem quando precisamos interagir com um grau de formalidade maior, como um ambiente de trabalho, um sindicato, um estabelecimento de serviço, um órgão público, entre outros ambientes nos quais interagimos com certo nível de formalidade. Entre esses dois tipos de grupos sociais, baseados nos dois tipos de contato que os indivíduos conseguem manter, podemos citar um terceiro: o grupo social intermediário, que é uma mescla dos grupos sociais primário e secundário. No caso do grupo social intermediário, podemos citar o ambiente escolar como exemplo, onde o aluno desenvolve uma interação de modo primário entre os colegas de classe, que acontece por identificação, afinidade e menor grau de formalidade. Sociologia e Ética Profissional 33 Figura 9 – Interação social do tipo secundária Fonte: Freepik. Entretanto, no mesmo ambiente, é possível utilizar outro tipo de contato, o secundário, uma vez que o aluno utiliza uma postura mais formal com professores, inspetores, diretores etc. Ou seja, no mesmo grupo social é possível ter dois tipos de comportamento. Os grupos sociais se caracterizam por preencherem os seguintes requisitos: • Pluralidade de indivíduos – Sempre mais de um indivíduo produzindo interação. • Interação social – Seja do tipo primário ou secundário. • Organização – Por vezes organizado por uma hierarquia. • Objetivo comum – Estão unidos por afinidade ou propósito comum. • Continuidade – A inserção de um indivíduo em um grupo contribui com a sua perpetuação. Sociologia e Ética Profissional34 • Consciência grupal – O pensamento de um grupo social deverá considerar o contexto coletivo. Comunidade e sociedade O conceito de comunidade na Sociologia tende a conflitar com as características dos grupos sociais e com a definição de sociedade. Para melhor entendimento, vejamos a conceituação do termo: DEFINIÇÃO: O termo “comunidade” em Sociologia corresponde a um conjunto de pessoas que estão organizadas por normas e regras em comum. Normalmente, essas pessoas estão situadas em uma delimitação geográfica próxima e compartilham a mesma cultura, história, estrutura política e econômica, entre outros. A localização geográfica é uma característica predominante para a comunidade, que reúne pessoas com vidas em comum. Dessa forma, tanto um povoado pode ser considerado uma comunidade, quanto uma nação de extensão maior. Figura 10 – Comunidade Fonte: Freepik. Sociologia e Ética Profissional 35 Outro ponto a destacar é que a comunidade dispõe de certa proximidade entre seus integrantes, em que eles compartilham os mesmos interesses e recursos de infraestrutura em sua delimitação geográfica, como escolas, postos de saúde, pavimentação das ruas etc. É interessante pontuar que as relações estabelecidas em uma comunidade são baseadas em uma necessidade individual de segurança, conforto, familiaridade e do sentimento de pertencimento, é justamente nesse ponto que ocorre a delimitação entre o que é familiar (nós) e o que é estranho (outros). Pertencer a uma comunidade significa renegar parte de nossa individualidade em nome de uma estrutura montada para satisfazer nossas necessidades de intimidade e da construção de uma “identidade”. (BAUMAN, 2003, p. 10) A delimitação do espaço entre o familiar (nós) e o estranho (outros) é o que estabelece de fato uma comunidade. Um exemplo bem prático disso acontece no esporte, por exemplo. VOCÊ SABIA? As comunidades reúnem algumas outras características em sua definição. É importante ressaltar que se trata de um agrupamento humano que envolve uma delimitação de elementos comportamentais, culturais, religiosos, morais etc. REFLITA: Quando um time ou um atleta de nossa região, cidade, estado ou país está concorrendo a uma disputa de grande importância em seu segmento, é provável que a maioria das pessoas torça pela vitória do time de sua região nesse evento, mesmo que este não seja o seu time de coração. Isto acontece devido à sensação de pertencimento, ao que é familiar a seu espaço, especificamente. Sociologia e Ética Profissional36 Enquanto a comunidade assume essa forma de relacionamento caracterizado por um elevado grau de intimidade pessoal, profundeza emocional, engajamento moral, coesão social e continuidade no tempo, as relações na sociedade acontecem de modo racional motivadas por interesses exteriores e são de domínio público. Historicamente, houve uma transição de comunidade para sociedade (embora a comunidade nunca tenha sido extinta). Após haver uma mudança no padrão de vida das pessoas com o advento do capitalismo, a organização dos grupos em comunidades, que possuíam aquela intimidade e força entre a sensação familiar, tornou-se mais frágil e impessoal, devido ao desenvolvimento das cidades e aos efeitos da urbanização. Figura 11 – Sociedade Fonte: Freepik. As relações passaram a incluir aspectos utilitaristas e a partir desse momento os indivíduos estabeleciam entre si relações comerciais e mercadológicas. Dessa forma, a sociedade se liga diretamente ao Estado, utilizando seus mecanismos regulatórios como a legislação e a ciência, por exemplo. Sociologia e Ética Profissional 37 É possível identificar que no meio da sociedade existem também culturas de comunidade muito fortes, um exemplo disso são as iniciativas cooperativistas de movimento dos trabalhadores. Os elementos característicos de comunidade não deixaram de existir definitivamente com o processo de urbanização, no entanto, sofreram grande redução na maioria dos casos. A comunidade é um elemento que constitui a sociedade, integrando grupos e indivíduos. SAIBA MAIS: Quer saber mais sobre os estudos em relação à comunidade e à sociedade? Então, leia o artigo “Comunidade e sociedade: norteadoras das relações sociais” (TRINDADE, 2001). O estudo comenta algumas considerações acerca de dois conceitos que na tradição sociológica são relevantes como base de explicação das dicotomias existentes nas relações sociais: a comunidade e a sociedade. Disponível em: https://bit.ly/31fOMyc. Acesso em: 28/02/2020. RESUMINDO: Até agora está gostando do que tem estudado? Para garantir que você realmente entendeu o tema de estudo deste capítulo, vamos resumir mais uma vez todo o assunto que trabalhamos neste capítulo. Iniciamos a seção 3.1 com um embasamento teórico e contextualizado acerca dos estudos sobre as diversas dimensões da organização social com o objetivo de compreender melhor a complexidade do comportamento em cada nível. É interessante relembrar que o estudo acerca do nível individual, na Sociologia, está sempre relacionado à sua interação com as instituições, além da história de existência do indivíduo construída devido a sua participação na formação do grupo social. É importante relembrar que a sociedade não é constituída apenas por indivíduos, mas também por suas aglomerações, que ocorrem devido às ligações pessoais motivadas tanto pelas afinidades quanto pelas necessidades mútuas, dando origem aos grupos. Sociologia e Ética Profissional38 RESUMINDO: Essa origem decorre dos contatos primário e secundário, que podem ser divididos entre grupos sociais primários, intermediários e secundários. No debate, também foram expostos os conceitos em torno das dimensões sociais de comunidade e sociedade, definidos por características delimitadas, como contexto cultural, geográfico, histórico, político e econômico. Também podemos relembrar que houve uma transição de comunidade para sociedade depois da mudança no padrão de vida da sociedade com o advento do capitalismo. O processo de urbanização tornou as pessoas mais distantes e as relações mais vazias, predominando os aspectos utilitaristas por motivações comerciais, que podem ser vistas facilmente no decorrer da história das relações humanas, e mantendo-se presente até os dias de hoje. Sociologia e Ética Profissional 39 Pré-capitalismo e capitalismo INTRODUÇÃO: Nesta competência, vamos trabalhar mais detalhadamente os conceitos do capitalismo, suas formas de aplicação e a maneira como esse sistema econômico interferiu e interfere na vida de cada indivíduo da sociedade ao longo de toda a sua existência. O capitalismo e suas fases Até aqui é possível reconhecer que em todas as pautas vistas sobre a Sociologia, o capitalismo estava envolvido. Em torno dessa teoria econômica, circunda todos os debates sociológicos, e por esse motivo detalharemos melhor as fases do capitalismo e sua importância para a compreensão dos fenômenos da nossa sociedade. O conhecimento acerca do capitalismo é baseado em contextualização histórica, que possibilita o entendimento de suas razões, conceitos e movimentos. Dessa forma, conseguimos ver os caminhos percorridos ao longo da evolução da sociedade, compreender a sua dinâmica e impactos na sociedade atual e levantar hipóteses sobre seus acontecimentos futuros. O Capitalismo é um sistema econômico no qual o principal objetivo se dá pela obtenção do lucro e da proteção da propriedade privada. O acúmulo de capital, tanto pelos governos quanto pelos indivíduos, é representado na forma de bens e dinheiro. Apesar de ser considerado, na teoria, um sistema econômico, o Capitalismo expande sua influência em praticamente todos os campos da organização social, como na política, nas práticas sociais e culturais, nos limites éticos e em vários outros aspectos. Dessa forma, o Capitalismo ocupa o espaço geográfico em, basicamente, todas as suas vertentes. As bases do Capitalismo estão consolidadas na divisão da sociedade em classes, de maneira semelhante a Sociologia e Ética Profissional40 outros sistemas experimentados pela humanidade ao longo da História. (CELI, 2019, s.p.) O capitalismo é o sistema que organiza a sociedade em que vivemos atualmente, e conhecê-lo na sua origem com todos os seus detalhes significa compreender por que e de que forma estamos vivenciando os dias de hoje a nossa atuação como ser humano. Inicia-se como um processo na fase do mercantilismo, as grandes potências da época, Portugal, França, Espanha, Holanda, entre outras, comercializavam escravos e metais preciosos a partir da exploração de riquezas com o único objetivo: lucro. Figura 12 – Capitalismo comercial Fonte: Wikimedia Commons. No declínio do feudalismo, quando as terras começaram a ser arrendadas e a mão de obra passa a ser remunerada, surge uma nova classe ou nova categoria, os artesãos. Esses profissionais começaram a comercializar os seus produtos e também o excedente de produtos de outros produtores. Sociologia e Ética Profissional 41 Os artesãos habitavam uma região externa às terras dos nobres, e os nobres denominavam a comunidade da região externa de “burgos”. Daí surge a denominação de burgueses como sinônimo de comerciantes. Os burgueses se instituem e se organizam com a busca do lucro e o incentivo ao consumo. Com o crescimento do consumo e o aumento da demanda pelos produtos que os artesãos vendiam, foi preciso escalar a produção. Nesse caso, o indivíduo que detém os meios de produção, emprega pessoas que não têm qualquer meio de produção para que ganhem uma remuneração auxiliando os burgueses em sua atividade de produtiva. Assim surge a classe operária, que fica conhecida como proletários. Esse período tem como característica a doutrina econômica mercantilista. O capitalismo como sistema complexo caracteriza-se como um sistema socioeconômico, e quando observamos a partícula “sócio” podemos entender que não dita só as regras da questão econômica, mas também dita as regras do comportamento da sociedade. Até aqui definimos o pré-capitalismo, ou a primeira fase do capitalismo, denominada capitalismo comercial, que ocorre entre os séculos XV e XVIII, e a sua migração para a segunda fase, denominada capitalismo industrial, entre os séculos XVIII e XIX. A evolução desse capitalismo ocorre na Europa, a partir do século XVIII, quando foi criada a máquina a vapor, que utilizava como combustível o carvão mineral. Nesse contexto, também surge a Revolução Industrial, o que significa que o lucro passa a ser obtido pela produção da indústria, configurando a segunda fase do capitalismo. Sociologia e Ética Profissional42 Figura 13 – Capitalismo industrial Fonte: Wikimedia Commons. Essa primeira Revolução Industrial muda não só a forma de produção como também todo o espaço geográfico, por meio dos processos de urbanização. Nesse período, o lucro passa a ser obtido pela comercialização dos produtos e pela exploração da mão de obra. Os donos dos meios de produção e os trabalhadores são as classes sociais desse momento. Essa Revolução Industrial representa uma necessidade muito maior para os mercados consumidores e as matérias- primas, surgindo a divisão internacional do trabalho – DIT. Cada país do mundo se especializa na produção de um determinado tipo de produto, como há países não industrializados, por exemplo, os situados no continente americano, estes são os fornecedores de matéria- prima para os países industrializados, que fornecem produtos finais. A doutrina econômica característica do período do capitalismo industrial é o liberalismo econômico, bem diferente do mercantilismo. Nesse momento, o Estado não deveria mais interferir na economia, deixando as empresas livres para fazerem os seus negócios. Na verdade, Sociologia e Ética Profissional 43 os preços seriam regulamentados pela mão invisível do mercado, ou seja, baseado na lei de oferta e procura. O capitalismo industrial mudou bastante a vida das pessoas, no entanto, mais uma fase se aproxima: o capitalismo financeiro. Ele surge, pois, após a Revolução Industrial, as tecnologias continuaram a evoluir e grandes mudanças aconteceram. A partir daí, constitui-se a Segunda Revolução Industrial, na qual há, como grandes inovações, o uso do motor de combustão interna, a utilização do petróleo como fonte de energia e a eletricidade. Essa fase do capitalismo vai do século XIX até meados do século XX. Mas por que capitalismo financeiro? Porque, nesse momento, as indústrias, que já ganhavam muito dinheiro, vão se associar a grandes instituições financeiras – entenda com isso os bancos –, que acumulavam também muito dinheiro durante o capitalismo industrial, e a partir de então fornecerão empréstimos a empresas e também a pessoas, para que estas possam comprar ainda mais produtos e aquelas possam fazer investimentos, aumentando ainda mais a sua produção. Uma outra forma que as indústrias passam a utilizar para ganhar mais dinheiro é a venda de ações nas bolsas de valores, ou seja, as empresas são divididas em milhares de ações em papéis que serão negociados nas bolsas. Figura 14 – Capitalismo financeiro: bolsa de valores Fonte: Pixabay. Sociologia e Ética Profissional44 Ou seja, é a associação do setor produtivo com o setor financeiro que vai dar origem a esse capitalismo financeiro. Esse modelo também é denominado capitalismo monopolista, pois é justamente nessa fase que surgem os grandes monopólios. As empresas, nessa época, tinham alcançado grandes dimensões, mas ainda assim queriam dominar todo o mercado. Elas pretendiam fazer isso, basicamente, de duas formas: a primeira delas era comprando as empresas menores, com o objetivo de tornarem-se as únicas em determinados segmentos. A segunda forma acontecia quando essa empresa não pudesse ser comprada, elas eram levadas a falência, com uma concorrência muitas vezes desleal por parte das maiores, com o intuito de falir as menores, e assim obter sua predominância no mercado. Exemplo: Um grande exemplo disso aconteceu nos Estados Unidos com as empresas de petróleo, em específico o caso da Standard Oil Company, fundada por Jonh Davison Rockefeller, que se beneficiou das economias de escala e se tornou a maior empresa do mundo em seu tempo. A Standard Oil tornou-se líder do mercado, fazendo que seus concorrentes fossem engolidos, dessa forma, tinham controle sobre aproximadamente 90% das refinarias de petróleo na América. No entanto, em 1911, o poder jurídico americano julgou a empresa como monopólio e ordenou a criação de mais de 30 empresas menores, com o intuito de que a prática de monopólio fosse desfeita e mais empresas pudessem atuar no setor. Quando existe o monopólio, a sociedade não tem escolha para consumo, torna-se obrigada a consumir do único fornecedor. Assim, a empresa se aproveita para controlar e impor os seus preços, uma vez que ela não tem concorrência. O monopólio provoca uma situação que torna a sociedade refém de uma única empresa, e a opção entre oferta e procura acaba sendo ignorada e deixada para segundo plano. Sociologia e Ética Profissional 45 Nessa fase do capitalismo financeiro, outros países de fora da Europa começaram a ganhar importância no processo produtivo, por exemplo, o Japão, no continente asiático, e os Estados Unidos, na América. Este, inclusive, torna-se o grande precursor da Segunda Revolução Industrial. EXPLICANDO MELHOR: É justamente nesse período que há o fortalecimento do processo imperialista. Mas o que é o imperialismo? O imperialismo ocorre quando os países buscam, em outros continentes, fontes de matéria-prima e mercados consumidores, mas, muitas vezes, para que isso ocorresse, os países mais ricos tinham que entrar à força. Exércitos e marinha, por exemplo, eram enviados aos territórios para dominar a população e garantir que os territórios fossem conquistados. Mas o capitalismo não parou de evoluir, atualmente alguns autores afirmam que o capitalismo financeiro já evoluiu para uma quarta fase do processo, a qual chamamos de capitalismo informacional. Esse modelo de capitalismo tem origem depois da Segunda Guerra Mundial e é marcado pela Terceira Revolução Industrial, também chamada de revolução de técnico-científica. Figura 15 – Capitalismo informacional – startups Fonte: Freepik. Sociologia e Ética Profissional46 Agora surge um novo tipo de empresa que ganha espaço, as multinacionais, principalmente aquelas ligadas à tecnologia de informação. Empresas como Google, Facebook, Apple, IBM, Microsoft e startups, que causam disrupção na forma como a sociedade passa a se comportar, assim como as formas de comercialização tomam posturas completamente digitais. SAIBA MAIS: Quer se aprofundar na evolução do capitalismo nos dias atuais? Recomendamos a leitura do texto “Os impactos da Quarta Revolução Industrial” (MAGALHÃES; VENDRAMINI, 2018). A matéria expõe debate em torno da seguinte problemática: “O Brasil será uma potência sustentável com condições de capturar as oportunidades que surgem com as mudanças econômicas, ambientais, sociais e éticas provocadas pelas novas tecnologias?”. A publicação está disponível em: https://bit.ly/3lgWlge. Acesso em: 01/03/2020. RESUMINDO: E, então, gostou do que mostramos? Aprendeu mesmo tudinho? Agora, só para termos certeza de que você realmente entendeu o tema de estudo deste capítulo, vamos resumir tudo o que trabalhamos. Você deve ter entendido que é impossível compreender qualquer lógica do sistema capitalista sem que antes seja realizada uma contextualização histórica para obter melhor entendimento sobre seu nascimento, conceitos e cadeias de evolução. Iniciamos explicando que o capitalismo é o sistema que organiza a sociedade que nós vivemos hoje, no entanto, o seu funcionamento impactou o padrão de vida das pessoas historicamente desde o mercantilismo no século XV, passando por revoluções industriais, sendo a primeira no continente europeu, no século XVIII, e a segunda em outros continentes, entre os séculos XIX e XX, finalizando o debate do capítulo com a Quarta Revolução, denominada revolução industrial técnico-científica. Também podemos Sociologia e Ética Profissional 47 RESUMINDO: relembrar como o capitalismo adotou novas formas de acordo com cada uma dessas revoluções, suas denominações sugerem a descrição, sendo a primeira fase do capitalismo chamada de capitalismo mercantil, a segunda fase é conhecida como capitalismo industrial, a terceira fase leva o nome de capitalismo financeiro e a quarta fase, que é a atual, conhecida como capitalismo informacional. Ao compreender toda essa dinâmica do sistema capitalista que envolve a sociedade, esperamos que você possa desenvolver habilidades de pensamento crítico acerca da composição e da estrutura da sociedade e consiga aplicar os conhecimentos em torno do universo social que compreende além de apenas as pessoas e relações, como também as instituições formadas a partir delas. Sucesso e parabéns por finalizar mais uma unidade com êxito! Sociologia e Ética Profissional48 REFERÊNCIAS ANDERY, A. A. Psicologia na comunidade. Psicologia social: o homem em movimento, p. 203-220, 1984. AYRES, C. Um novo pensamento da comunicação para a mudança social. Intercom, Revista Brasileira de Ciências da Comunicação. vol. 42, n. 3. São Paulo, set.-dez. 2019. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo. php?pid=S1809-58442019000300241&script=sci_arttext. Acesso em: 27 fev. 2020. BAUMAN, Z. Comunidade: a busca por segurança no mundo atual. Zahar, 2003. CELI, R. Capitalismo: o que é, fases e características. 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Silvia Cristina da Silva e Stephanie Freire Brito Sociologia e Ética Profissional O design da sociedade Estrutura social Como a estratificação social funciona nos dias atuais? Organização e mudança social O que é organização social? Como ocorre a mudança social? Dimensões da sociedade Indivíduos e grupos Comunidade e sociedade Pré-capitalismo e capitalismo O capitalismo e suas fases ebook-4-sociologia-e-etica-profissional.pdf Unidade 4 Livro Didático Digital Silvia Cristina da Silva e Stephanie Brito Freire Sociologia e Ética Profissional Diretor Executivo DAVID LIRA STEPHEN BARROS Diretora Editorial CRISTIANE SILVEIRA CESAR DE OLIVEIRA Projeto Gráfico TIAGO DA ROCHA Autor SILVIA CRISTINA DA SILVA E STEPHANIE BRITO FREIRE Silvia Cristina da Silva Eu, Silvia, sou mestre interdisciplinar em Educação, Ambiente e Sociedade – Unifae, participante docente e discente no mestrado em Análise do Discurso – Universidade Federal de Buenos Aires. Sou especialista em Docência do Ensino Superior e Direito e Educação – Faculdade Campos Elíseos. Pós-graduanda em EAD – Faculdade Campos Elíseos. Graduada em Ciências Jurídicas e Sociais – Unifeob. Vice-diretora acadêmica na Agência Nacional de Estudos em Direito ao Desenvolvimento – Anedd. Especialista em investigação de antecedentes em instituições públicas e privadas. Docente e conteudista em diversas instituições educacionais para cursos de graduação e pós-graduação. Elaboradora de questões para concursos públicos em várias organizadoras. Gravadora, redatora, tradutora e intérprete da língua espanhola. Stephanie Brito Freire Eu, Stephanie, sou mestranda em Administração – PPGA/UFCG, com MBA em Marketing e Inteligência de Mercado. Desenvolvo a escrita de materiais didáticos na área de Ciências Sociais, Educação, Tecnologias, Administração e Ambiente. Somos apaixonadas pelo que fazemos e gostamos muito de transmitir nossas experiências de vida àqueles que estão se iniciando em suas profissões. Por isso, fomos convidadas pela Editora Telesapiens para integrar seu elenco de autores independentes. Estamos muito felizes em poder ajudar vocês nesta fase de muito estudo e trabalho. Conte conosco! AS AUTORAS Olá. Esses ícones irão aparecer em sua trilha de aprendizagem toda vez que: ICONOGRÁFICOS INTRODUÇÃO: para o início do desenvolvimento de uma nova com- petência; DEFINIÇÃO: houver necessidade de se apresentar um novo conceito; NOTA: quando forem necessários obser- vações ou comple- mentações para o seu conhecimento; IMPORTANTE: as observações escritas tiveram que ser priorizadas para você; EXPLICANDO MELHOR: algo precisa ser melhor explicado ou detalhado; VOCÊ SABIA? curiosidades e indagações lúdicas sobre o tema em estudo, se forem necessárias; SAIBA MAIS: textos, referências bibliográficas e links para aprofundamen- to do seu conheci- mento; REFLITA: se houver a neces- sidade de chamar a atenção sobre algo a ser refletido ou discutido sobre; ACESSE: se for preciso aces- sar um ou mais sites para fazer download, assistir vídeos, ler textos, ouvir podcast; RESUMINDO: quando for preciso se fazer um resumo acumulativo das últimas abordagens; ATIVIDADES: quando alguma atividade de au- toaprendizagem for aplicada; TESTANDO: quando o desen- volvimento de uma competência for concluído e questões forem explicadas; SUMÁRIO Trabalho e sociedade.........................................................................10 Ética profissional.............................................................................................................10 Organização do trabalho nos dias de hoje.............................................15 Ética e sociedade.................................................................................20 Fundamentos da ética.............................................................................................20 Como a ética interfere na sociedade?........................................................25 A ética empresarial e a pós-modernidade..............................29 A ética na conjuntura empresarial.................................................................29 Pós-modernidade........................................................................................................34 Relações entre a ética e as profissões: contexto empresarial e profissional .........................................................................................39 A organização do trabalho na história........................................................39 Ética no trabalho.............................................................................................................44 Sociologia e Ética Profissional 7 UNIDADE 04 Sociologia e Ética Profissional8 Você sabia que o campo da Sociologia tem como principal objeto de estudo a sociedade, as relações de trabalho e o comportamento individual, que provoca efeito coletivo? Isso mesmo, por isso é tão importante conhecer seus estudos, pois as nossas estratégias pessoais e profissionais exigem um conhecimento acerca desses fatores, sem falar que a compreensão da Sociologia e seus temas vinculados nos transformam em profissionais cada vez mais capazes de beneficiar o trabalho e o mundo e agregar boas práticas a partir de nossos ofícios. Elementos de estudo como a ética e seus desdobramentos em relação aos fatores sociais nos fazem compreender como contribuir para o bem-estar de uma sociedade e como é possível vincular esse tipo de prática em qualquer que seja nosso ambiente profissional. Conhecer os fundamentos da ética na estrutura profissional pode fazer toda a diferença na sua carreira. Entendeu? Ao longo desta unidade letiva, você mergulhará nesse universo! INTRODUÇÃO Sociologia e Ética Profissional 9 Olá. Seja muito bem-vindo à Unidade 4. Nosso propósito é auxiliar você no desenvolvimento das seguintes objetivos de aprendizagem até o término desta etapa de estudos: 1. Compreender os aspectos sobre a ética profissional e a organização do trabalho. 2. Conhecer os fundamentos da ética e sua interferência na vida em sociedade. 3. Identificar potenciais éticos da conjuntura empresarial e no contexto pós-moderno. 4. Inteirar-se sobre as relações entre a ética e o ambiente de trabalho. Então? Preparado para uma viagem sem volta rumo ao conhecimento? Ao trabalho! OBJETIVOS Sociologia e Ética Profissional10 Trabalho e sociedade INTRODUÇÃO: Ao término deste capítulo, você será capaz de entender os conceitos básicos sobre ética profissional, além de conhecer as premissas básicas da organização social do trabalho nos dias de hoje. Isto será fundamental para o exercício de sua profissão. E aí, motivado para desenvolver essa competência? Então, vamos lá. Avante! Ética profissional A vida do ser humano, individualmente, é marcada por diferentes elementos de grande importância, que, provavelmente, quando estão em pleno equilíbrio, podem gerar maior bem-estar e qualidade de vida. Nesse sentido, podemos citar os aspectos familiares, crenças religiosas ou espirituais, saúde do corpo físico, saúde mental e emocional, aspectos profissionais e boas relações sociais. Neste capítulo, iremos nos dedicar aos conhecimentos em relação aos aspectos profissionais, mais especificamente ao trabalho e sua organização social. Esse debate possibilita melhor compreensão em relação às nossas práticas individuais e aos efeitos coletivos e sociais que são causados, respectivamente. Dessa forma, convém conhecermos melhor o conceito e a definição do termo “trabalho”: DEFINIÇÃO: O conceito do termo “trabalho” tem relação com um conjunto de atividades e esforços realizados pelos indivíduos com o intuito de atingir determinados objetivos, possibilitando ao homem os elementos essenciais para a sua sobrevivência, bem como a concretização de seus sonhos. Sociologia e Ética Profissional 11 No entanto, podemos entender que o contexto que corresponde ao trabalho vai muito além dessa definição, pois o trabalho sempre esteve presente na história da humanidade, sendo que o seu principal objetivo era a sobrevivência. Além disso, é a atividade por meio da qual o ser humano produz sua própria existência. Figura 1 – O termo “trabalho” Fonte: Freepik. Essa opinião confirma, de certa forma, a ideia que Karl Marx coloca em relação ao trabalho, afirmando que não é que o ser humano exista em função do trabalho, mas que é com ele que produz os meios para manter a sua existência. “Ganharás teu pão à custa do suor de tua fronte”. Parece que o trabalho sempre esteve associado ao sofrimento, não é para menos, sua origem etimológica vem de “tripalium”, instrumento de tortura. Na França, da Idade Média à Revolução, designou sempre as atividades braçais, desprezíveis, daqueles que só tinham a força de seus braços para viver. Hoje, do diretor ao “peão”, todos são enquadrados como trabalhadores. (TELLES, 1982, p. 1) Sociologia e Ética Profissional12 Ao afirmarmos isso, podemos entender que o impacto do trabalho e o seu contexto de existência assumem importante papel e exercem grande influência na construção de quem somos. Dessa maneira, observamos que existem áreas do conhecimento, como a Sociologia, dedicadas apenas a estudar as diversas maneiras em que se constituem as relações de trabalho e seus desdobramentos na vida e na sociedade. Conseguimos visualizar bem as razões e os momentos em que, quando as relações de trabalho se alteram no fluxo de nossa história, as nossas estruturas sociais também são modificadas, principalmente a forma como são constituídas as nossas relações, as posições dos atores na hierarquia social, nas formas de segregação, além dos aspectos culturais erguidos em torno das relações de trabalho. O surgimento da indústria acarretou uma modificação profunda do sentido estabelecido para o trabalho e para a relação do indivíduo com isso. As linhas de montagem, característica fundamental do fordismo, eram marcadas pela individualidade, nas quais milhares de pessoas ficavam amontoadas diante de uma atividade repetitiva em uma linha de montagem, sem muitas vezes nem ver o resultado final de seu esforço, e essa situação se tornou a principal característica para definir o trabalho industrial. Figura 2 – Linha de montagem Fonte: Pixabay. Sociologia e Ética Profissional 13 A Segunda Revolução Industrial diferencia-se da Primeira pelo fato de trazer o progresso técnico-científico, que possibilitou o desenvolvimento de novas máquinas, a utilização do aço, do petróleo e da eletricidade, a evolução dos meios de transporte e a expansão dos meios de comunicação. Nesse momento, diversifica-se as relações de trabalho com maior dinamização de cargos e profissões. Na década de 1970, acontece a Terceira Revolução Industrial. Nesse momento, ocorre uma forte modificação do panorama produtivo global, devido ao desenvolvimento de tecnologias microeletrônica e ao fomento de informações sobre a automatização e a robotização de praticamente todos os processos de produção. Ainda nesse período, há o surgimento de novos mercados e, consequentemente, de novos setores industriais, como exemplo podemos citar a indústria de computadores e softwares, de telecomunicações, de robótica e biotecnologia, entre outros. A relação do trabalho é modificada mais uma vez, tanto em relação à mão de obra qualificada quanto em termos de multiplicação de profissões, uma vez que muitas novas profissões são voluntariamente criadas, e, portanto, há maior liberdade de escolha, além de direitos trabalhistas, que modificam o padrão de vida de toda a sociedade Historicamente, podemos classificar o processo de trabalho no meio de produção capitalista sob etapas. Vejamos na tabela a seguir algumas delas: Tabela 1 – Formas de trabalho na indústria Cooperação simples O trabalhador desenvolve basicamente atividades artesanais. Por outro lado, o proprietário de terras compra a força de trabalho dos indivíduos. Manufatura Trabalhadores executam tarefas sem qualquer capacitação para isso, com foco principal na produtividade. Sociologia e Ética Profissional14 Maquinaria Ocorre a inserção das máquinas no processo de produção, dispensando grande parte da força de trabalho humana que não tem capacitação. Maquinaria simples O trabalhador aciona as máquinas, controlando o ritmo da produção e sendo remunerado de acordo com o resultado da produção. Organização científica O ritmo da produção é determinado pelas máquinas. O taylorismo se refere à redução do tempo de execução e o fordismo implanta a esteira de produção, que define o ritmo do trabalho. Automação Por meio do desenvolvimento técnico científico, o trabalhador apenas acompanha e controla a produção. Fonte: Elaborado pelas autoras. O decorrer do tempo em união com o processo de evolução tecnológica do setor produtivo altera o modelo de organização do trabalho com o objetivo de aumentar a produtividade e as margens de lucro. Existem diferentes escolas que descrevem como o sentido do trabalho acompanha as fases da modificação, são elas: • Escola científica ou Escola clássica – Fundada por Frederick Taylor, Henri Fayol e Henry Ford, essa escola defende, em suma, que o trabalhador é impulsionado pelo espírito competitivo, em que basta recompensar economicamente que é eliminado qualquer tipo de conflito. A organização é hierarquizada, autoritária e racional, com foco no aumento da produtividade. Nesse momento, ocorre intenso controle e exploração da classe dominante sobre os trabalhadores. A neutralização da atividade mental e o prejuízo à saúde física dos operários prejudicam a relação homem/trabalho. Sociologia e Ética Profissional 15 • Escola das relações humanas – Fundada por Elton Mayo, essa escola defende a necessidade psicológica do homem em se sentir parte de um grupo social em conjunto com a recompensa financeira. Nesse caso, o trabalho deve ser um meio de realização pessoal e o incentivo às relações pessoais, socialização e atenção aos fatores psicológicos motivam os trabalhadores e aumentam a produtividade. • Teorias modernas da administração – Sugere a participação dos trabalhadores no processo de organização da produção, na qual ele exerce a comunicação e desenvolve a motivação no trabalho. Ocorre uma redução da hierarquização, descentralizando as decisões e delegando autoridades. Essa modificação tem o intuito de promover saúde mental e qualidade de vida no trabalho. A evolução das condições de trabalho resulta em um contraponto aos modelos de organização do trabalho visto na escola clássica, fazendo que por meio de um novo paradigma os trabalhadores se sintam participativos no processo produtivo, valorizando suas atividades, elevando sua autoestima e contribuindo para melhorar sua qualidade de vida e satisfação no trabalho. Organização do trabalho nos dias de hoje As transformações das nossas relações de trabalho não ficaram estagnadas na Terceira Revolução Industrial, pois atualmente o modelo de nossas atividades se modifica constantemente. No entanto, as forças que causam essas mudanças são um pouco diferentes das que modificavam as relações de trabalho durante as revoluções industriais. Podemos citar a globalização como um dos fenômenos mais significativos da história da humanidade e, da mesma forma que provocou mudanças em nosso padrão de vida e nas nossas relações sociais mais íntimas, modificou também nossas relações de trabalho. Sociologia e Ética Profissional16 O trabalho formal remunerado, que antes acontecia exclusivamente entre as paredes das fábricas e escritórios, hoje pode ser exercido remotamente em nossa casa ou em qualquer parte do mundo. Figura 3 – Trabalho remoto Fonte: Freepik. Um produto da globalização nos modelos de organização do trabalho atualmente também está relacionado com a grande flexibilidade e a demanda por mão de obra ainda mais especializada, resultando com que o trabalhador concentre mais esforços em torno de seu aprimoramento pessoal e profissional. A chance de estarmos interconectados a todo o momento é uma realidade, encurtou distâncias e tornou o nosso período de trabalho ainda mais longo. Entretanto, há uma crescente competitividade inerente ao mercado de trabalho devido às inúmeras dinâmicas e facilidades de se capacitar. No mundo contemporâneo, o motivo de uma das maiores desigualdades sociais em decorrência do trabalho é justamente o Sociologia e Ética Profissional 17 acesso das classes com menor poder aquisitivo disporem basicamente de tempo e recurso financeiro para que possam se dedicar com maior afinco ao processo de formação e capacitação profissional, aumentando a possibilidade de subir na hierarquia social e econômica, embora o processo já esteja mais democratizado. A sedução de uma nova economia, exercida numa nova realidade – a das empresas pontocom captura um desejo. Na análise do curso da história temos o rastro do enlaçamento dos sentidos e da constituição da subjetividade como seu efeito. Assim, têm-se como objeto de estudo escolhido as representações de trabalho nas empresas pontocom, apreendidas através de reportagens da revista Exame, nos números 709 e 719, além da edição especial Odisseia Digital (2000) alusivas ao “boom” das empresas pontocom, e portando depoimentos de trabalhadores que migraram (seduzidos) por essa realidade. (ZILIOTTO, 2002, p. 99) Além dessas questões, é importante pontuar um fenômeno que causa bastante desigualdade atualmente no contexto do trabalho que se justifica pela introdução da automação no processo de produção de bens de consumo. Figura 4 – Processo de produção automatizado Fonte: Freepik. O fenômeno da automação provocou, em muitos setores, a obsolescência da mão de obra humana, por vezes aumentando o número de trabalhadores desempregados, o que, por consequência, acaba diminuindo o valor da força de trabalho humana, principalmente Sociologia e Ética Profissional18 nos países que dispõem de grande população, mas com baixo nível de especialização. Do ponto de vista das empresas, a sua competitividade no mercado aumenta quando o lucro monetário é maior. Nesse sentido, a situação do trabalho só piora, pois se preocupar com o bem-estar do empregado, geralmente, é algo caro, não sendo um investimento que garanta retorno imediato. SAIBA MAIS: O artigo “A indústria 4.0 e o futuro do trabalho: tensões e perspectivas” (GRAGLIA; LAZZARESCHI, 2018) procura demonstrar as tensões sociais que resultam das profundas mudanças dos mercados de trabalho a partir da reestruturação produtiva provocada pela introdução das novas tecnologias e técnicas de gerenciamento do processo de trabalho, ressaltando o aumento do desemprego e as possibilidades de um futuro brilhante para toda a humanidade. Disponível em: https://bit.ly/3hhGN9q. Acesso em: 13 ago. 2020. RESUMINDO: E, então, gostou dessa primeira competência? Agora, só para termos certeza de que você realmente entendeu o tema de estudo deste primeiro capítulo, vamos resumir tudo o que vimos. Você deve ter aprendido que é de suma importância para o profissional obter conhecimentos em relação aos aspectos profissionais, mais especificamente ao trabalho e sua organização social, bem como a modificação que as relações de trabalho e as estruturas sociais sofrem ao longo da nossa história. Também podemos relembrar como as modificações históricas das formas de trabalho na indústria ilustram bem a vida do trabalhador atualmente, destacando que a primeira forma se resumia a produção artesanal e venda de força de trabalho para proprietários de terras, passando por etapas de industrialização, em que sua saúde física e mental eram totalmente ignoradas, até o Sociologia e Ética Profissional 19 RESUMINDO: E, então, gostou dessa primeira competência? Agora, só para termos certeza de que você realmente entendeu o tema de estudo deste primeiro capítulo, vamos resumir tudo o que vimos. Você deve ter aprendido que é de suma importância para o profissional obter conhecimentos em relação aos aspectos profissionais, mais especificamente ao trabalho e sua organização social, bem como a modificação que as relações de trabalho e as estruturas sociais sofrem ao longo da nossa história. Também podemos relembrar como as modificações históricas das formas de trabalho na indústria ilustram bem a vida do trabalhador atualmente, destacando que a primeira forma se resumia a produção artesanal e venda de força de trabalho para proprietários de terras, passando por etapas de industrialização, em que sua saúde física e mental eram totalmente ignoradas, até o Sociologia e Ética Profissional20 Ética e sociedade INTRODUÇÃO: Nesta unidade, discutiremos sobre os conceitos basilares da ética. Além disso, estudaremos como a integração de aspectos éticos ao comportamento humano interfere na sociedade. Vamos aprender mais essa competência? Avante! Fundamentos da ética Que os estudos de Sociologia mantêm vínculo direto com a ética e a moral não é novidade. Esse vínculo pode ser reafirmado a partir da definição de “ética” segundo o Dicionário Aurélio (2004), é o “estudo dos juízos de apreciação referentes à conduta humana suscetível de qualificação do ponto de vista do bem e do mal, seja relativamente à determinada sociedade, seja de modo absoluto”. O termo “ética” é de origem grega, traduzida de ethos, que diz respeito ao costume, aos hábitos dos humanos. Em latim, é “mores”, dando, assim, origem à palavra “moral”. Outra possível conceituação da palavra “ética” em bases filosóficas e sociológicas lida diretamente com o envolvimento das noções e dos princípios que sustentam os pilares da moralidade social e da vida individual. Em outros termos, podemos entender que se trata de uma união entre o pensamento que envolve o valor de cada uma das ações sociais consideradas tanto sob uma perspectiva coletiva como em uma perspectiva individual. Sociologia e Ética Profissional 21 Figura 5 – Indivíduo e coletivo Fonte: Pixabay. Baseando-se nessas definições, entendemos que ética é produto do comportamento do próprio ser humano como indivíduo, do que ele aprende em seu ambiente de formação e educação como ser social. Ou seja, para ser ético, é necessário fazer o certo mesmo que não haja ninguém para testemunhar. A moral e a ética são os princípios obrigatórios no processo de construção das condutas de um homem, uma vez que são estes os responsáveis por identificar e construir o seu caráter e as suas virtudes, além de nortear o seu comportamento diante da sociedade. Segundo Vázquez (2003, p. 63), “a moral é um conjunto de normas, aceitas livre e conscientemente, que regulam o comportamento individual e social dos homens”. No contexto social, a moral determina principalmente o comportamento coletivo e se as ações dos indivíduos nesse coletivo estão sendo congruentes com o que é certo e permitido diante de um contexto mais geral. Partindo do pressuposto que todo ser individual interage em algum momento com a coletividade, entende-se que as suas ações provocam efeito em algum outro indivíduo, ou seja, interfere na Sociologia e Ética Profissional22 coletividade, por esse motivo que volta e meia uma pessoa pode se tornar objeto de julgamento sobre aprovação ou reprovação. A função social da moral consiste na regulamentação das relações entre os homens (entre os indivíduos e entre o indivíduo e a comunidade) para contribuir assim no sentido de manter e garantir uma determinada ordem social. (VÁZQUEZ, 2003, p. 69) No período da Antiguidade Clássica, os conhecidos filósofos gregos Aristóteles, Sócrates e Platão começaram a prática de um exercício crítico e reflexivo sobre os costumes e valores presentes na sociedade da época. Depois de iniciarem a inquietação desse pensamento, os filósofos passaram a questionar essas práticas e as tornaram objeto de seus estudos, de modo a entender os elementos que realmente poderiam ser considerados valores universais em um âmbito social, caracterizando os requisitos de ser correto, virtuoso e ético. O contexto social e histórico aos quais os filósofos estavam inseridos nesse período da Grécia Antiga tinham atenção fortemente voltada para a preocupação com a política. Figura 6 – Sócrates Fonte: Wikimedia Commons. Sociologia e Ética Profissional 23 No ambiente de análise da política, a ética exerce o papel de uma reflexão sobre a influência que as práticas determinadas no código moral exerciam sobre a subjetividade dos indivíduos, além de avaliar a forma como eles executavam suas condutas, se aceitavam ou não esses valores normativos e até que ponto davam o efetivo valor aos valores impostos. Segundo alguns filósofos, as vontades e os desejos dos indivíduos podem assumir uma configuração de inconstância, muitas vezes. Essa mesma inconstância, caso não controlada, tornaria a vida social extremamente difícil de lidar, caso não houvesse alguns valores que possibilitassem a vida em comum, pois, dessa forma, a vida em sociedade se tornaria um verdadeiro caos. Diante dessa reflexão, reconhecemos que é necessário educar nossa vontade, e um caminho para isto é trilhado por meio do recebimento de uma educação racional, para que dessa forma o indivíduo tenha a capacidade de escolher de forma assertiva entre o que é justo e o que é injusto ou entre o que é certo e o que é errado. A filosofia moral ou a disciplina denominada ética nasce quando se passa a indagar o que são, de onde vêm e o que valem os costumes. [...] A filosofia moral ou a ética nasce quando, além das questões sobre os costumes, também se busca compreender o caráter de cada pessoa, isto é, o senso moral e a consciência moral individuais. (CHAUI, 2010, p. 310) De acordo com o exposto, podemos compreender que a ética acontece de acordo com a educação da vontade de cada um. Ou seja, ela é concebida e executada ao passo que também busca entender sob qual nível se considera a moral em cada ser humano. Com base na afirmação de Marilena Chauí, podemos entender que o que ela expõe sobre o senso moral tem a ver com a maneira pela qual pensamos que ocorre a nossa situação e a dos outros por meio das ideias em relação a justo e injusto, bondade e maldade, por exemplo. Dessa forma, tratam dos sentimentos morais. Sociologia e Ética Profissional24 Figura 7 – Cadeia da disciplina da ética Fonte: Elaborado pelas autoras. No entanto, ao que se trata da consciência moral, a autora demonstra que esta, por sua vez, não se trata exclusivamente dos sentimentos morais, mas também se refere a avaliações de comportamento que levam os indivíduos a tomarem decisões pensando apenas em si mesmos, agindo em conformidade consigo e a responder por si perante os outros. Esse tipo de comportamento corresponde à ideia de ser responsável pelas consequências das próprias ações. Dessa maneira, podemos entender que tanto o senso moral como a consciência moral são elementos que cooperam com o processo da educação de nossa vontade. O senso moral e a consciência moral têm como ideia principal um agente moral, o qual é assumido de forma pessoal por cada um de nós. Logo, espera-se que o agente moral exerça a sua autonomia como indivíduo, libertando-se de qualquer amarra social, devido ao fato de que o indivíduo que possui um comportamento submisso apenas aceita influências e nega a educação da sua própria vontade. Dessa forma, a consciência e a responsabilidade são elementos imprescindíveis à vida ética ou moralmente correta. Sociologia e Ética Profissional 25 Como a ética interfere na sociedade? Antes de termos capacidade de compreender que somos seres individuais e que fazemos parte de uma sociedade, temos uma família, ou maiores responsáveis, que nos ensinam os valores da sociedade por meio de uma direção entre o que devemos e o que não devemos fazer, falar e como nos comportar de maneira geral. Ou seja, as ações que somos ensinados a exercer desde o nosso nascimento passaram por um processo de formatação de acordo com as regras impostas pela sociedade e, quando essas regras não são devidamente obedecidas, a repreensão ocorre por algum modo de castigo ou, por outro lado, recebe-se uma recompensa quando as regras não são infringidas. Figura 8 – Repreensão por atitudes inadequadas Fonte: Pixabay. Apesar das repreensões, todos os indivíduos são livres para agir dentro das regras impostas pela ética e pela moral, estabelecidas na sociedade. Dessa forma, enquanto respeitarmos os direitos dos outros indivíduos, teremos liberdade para agir conforme a nossa escolha. Não é difícil enxergar um paradoxo nessa situação de liberdade e respeito ao próximo, uma vez que na vida prática o respeito ao indivíduo em si por vezes é considerado inexistente, considera-se que esse tipo Sociologia e Ética Profissional26 de respeito existe apenas na forma da consciência humana, enquanto há uma busca constante em torno de si próprio. Para esclarecer melhor, podemos citar alguns exemplos comuns de nossa vida cotidiana, como situações que todos nós nos deparamos e conhecemos por meio de notícias de jornais, que comunicam certas condutas absolutamente reprováveis de alguns indivíduos. Nesse momento, é comum também escutar outros indivíduos questionando se existe uma sociedade que conhece e considera os princípios éticos e morais ou se os valores realmente se perderam e, além disso, questionam os comportamentos que podemos esperar das próximas gerações. O debate entre a ética e a sociedade ocorre porque entendemos que existe um vínculo insuperável entre eles. O homem nasce e estabelece o seu convívio em uma sociedade que já passou por uma longa e imensa jornada histórica, e por esse motivo carrega em sua configuração os efeitos colecionados ao longo do tempo. Sempre vivemos em grupos, mas ocorre o interessante fato que se refere a cada geração como construtor de parte da história. Dessa forma, as adaptações em torno dos valores e da moral vão sendo implantadas de acordo com seu contexto. Afirmar que a vida humana se realiza na sociedade não significa que o homem não tenha intimidade com si próprio ou com os grupos que se insere. Ele está parte do tempo consigo, mas o seu lado subjetivo não corresponde à parte do que o cerca. O ser humano se constrói em uma determinada cultura dominada por valores antecedidos historicamente e naturalmente se adapta a esse padrão de comportamento já preconcebido. Sociologia e Ética Profissional 27 Figura 9 – Valores éticos de acordo com a cultura Fonte: Pixabay. Nesse sentido, quando falamos da vida em sociedade, reconhecemos que ela possui um pressuposto moral, uma vez que os indivíduos, organizados em forma de grupos humanos e comunidades, movimentam-se em espaços de relacionamento, provocam modificações na natureza, desenvolvem ciência, comportamentos e normas de convivência a partir dos valores que alimentam e objetivam. Os elementos e princípios morais não são determinados nem assumidos de forma automática, e isto faz da liberdade um aspecto fundamental para a existência. A vida humana é uma jornada de liberdade possível, pois a liberdade se realiza de acordo com o contexto em que ela nasce e do reconhecimento de que há exigências que não podem ser desconsideradas no âmbito da vida individual e da vida em sociedade. As crises da cultura ocorrem quando a sociedade não encontra conforto entre o contexto histórico e cultural e as normas de convivência. Essas crises não são feitas apenas de momentos ruins, elas proporcionam a avaliação dos valores estabelecidos. Sociologia e Ética Profissional28 SAIBA MAIS: Quer saber mais sobre o assunto? Sugerimos o artigo “Ética: normas e princípios para uma sociedade mais empática” (SANTOS, 2017), que trata como a ética e a Filosofia guardam profunda correlação. A visão do homem como um ser social e histórico é uma concepção filosófica que representa o fundamento da ética. Além de detalhar os parâmetros sociais adotados por determinada sociedade que nortearão a vida do indivíduo e lhe permitir conviver com outras pessoas. Disponível em: https://bit.ly/32bpYqo. Acesso em: 13 ago. 2020. RESUMINDO: Chegamos ao final de mais uma seção desta unidade, na qual tratamos inicialmente dos aspectos conceituais e introdutórios sobre os fundamentos da ética na sociedade, e como a integração dos seus aspectos ao comportamento humano é importante para a harmonia e o bem-estar da sociedade. Você deve ter aprendido que a moral e a ética são produtos do comportamento do próprio ser humano como indivíduo e são obrigatórios no processo de construção de suas condutas, que devem ser respeitadas, uma vez que vivemos em sociedade e a ação de um indivíduo que interage em algum momento com a coletividade, entende-se que as suas ações provocam efeito em algum outro indivíduo, ou seja, interfere na coletividade. Pontuamos também que a importância de entender o processo de aprendizagem sobre a ética começa desde o nosso nascimento, uma vez que temos nossos pais ou responsáveis para conduzir-nos em direção a essa ética, aplicando repreensões quando a infringimos e sendo recompensados quando obedecemos. Posteriormente, na vida adulta, as recompensas pelas atitudes corretas deixam de acontecer, mas as infrações são penalizadas de acordo com a legislação. Esse mecanismo de controle é eficaz, uma vez que zela pelo bem-estar da sociedade. No entanto, é importante pontuar que, apesar desses mecanismos de controle, a vida humana é uma jornada de liberdade possível. Sociologia e Ética Profissional 29 A ética empresarial e a pós-modernidade INTRODUÇÃO: Nesta competência, vamos aprender o embasamento teórico e prático acerca da prática da ética no meio organizacional, além de pontuar os elementos pós- modernos e suas modificações sociais com o decorrer da história! A ética na conjuntura empresarial Nos veículos de comunicação e nos debates dentro do ecossistema empresarial, muitas questões em torno da ética são um dos assuntos mais discutidos. Atualmente, temos conhecimento de muitos episódios lamentáveis que envolvem a falta de ética, ou a falha dela, no meio empresarial e no meio político. As últimas eleições que ocorreram em nosso país contaram com um número muito grande, e que vem crescendo, de abstenções da população, que opta por não exercer o seu direito de voto. Supõe-se que essa parcela tão grandiosa de abstenções esteja diretamente ligada ao fato de que as pessoas vêm desacreditando cada vez mais nos políticos, especialmente, pela falta de ética em suas condutas. Em muitos casos, as notícias sobre a falta de ética dos políticos ocorrem em conjunto com as atitudes de empresários e profissionais do meio empresarial. Diante de circunstâncias desse tipo, como ficam as imagens dessas empresas? Debateremos sobre a ética empresarial com maior riqueza de detalhes a seguir. Sociologia e Ética Profissional30 Figura 10 – Falta de ética política e empresarial Fonte: Freepik. REFLITA: Sabemos que a ética é a parte da Filosofia dedicada aos assuntos morais e, com o objetivo de facilitar a sua compreensão, demonstraremos exemplos desse conceito em nosso cotidiano pessoal e profissional em uma empresa. Pare um pouco e pense nos comportamentos que você desenvolve em seu dia a dia ou nas condutas de outros profissionais, como advogados, médicos, professores, empresários ou políticos. As atitudes que você pensou se referem à ética. Não é incomum confundir a ética com as regras e a legislação que a sociedade deve seguir no curso de sua vida. Para a legislação ser constituída, envolve aspectos éticos, quem não os cumprir pode sofrer repreensões. É importante pontuar que a ética não faz que indivíduos sejam coagidos pelos demais ou pelo Estado por transgressão às normas éticas que comandam nossa sociedade. Sociologia e Ética Profissional 31 No entanto, esse contexto é diferente em relação ao que deve ocorrer dentro das organizações públicas ou privadas, quando as regras são estabelecidas, as empresas podem exigir de seus colaboradores obediência. Isso é o que podemos chamar de ética empresarial. IMPORTANTE: Até agora você tem estudado muito sobre o conceito de ética e sua aplicação de um modo geral, vamos nos aprofundar melhor em relação à ética e às organizações empresariais. A ética empresarial pode ser identificada por regras internas que determinam a moral e a conduta dentro das empresas e sobre assuntos inerentes a esse ambiente. Antes que uma organização ganhe seu espaço no mercado, seja qual for o seu tamanho, é necessário que ela siga certos aspectos voltados à ética empresarial. Primordialmente, os assuntos voltados para ética nas empresas não eram tão comuns, pois as atenções das suas atividades estavam voltadas, basicamente, para o melhoramento dos processos e os alcances mais altos de lucro monetário. O posicionamento ético dos indivíduos em uma empresa, sejam eles empresários, colaboradores ou outros profissionais que trabalhavam para as organizações, era algo subjetivo, que estava relacionado à formação de cada um. A ética empresarial está vinculada aos valores morais e éticos de uma empresa em conjunto tanto com o seu ramo de atuação como no que se refere aos seus clientes e concorrentes. A empresa não está acima da ética de uma forma geral, os seus valores são os mesmos que direcionam a ética, em qualquer que seja o contexto de análise e a conduta dos relacionamentos sob todas as formas de interação social. O resultado significante da imposição de condutas éticas nas empresas ocorre quando uma organização, além de adotar, executa a ética em seus princípios básicos, pois ela desenvolve potencial para manter-se no mercado de maneira sustentável. As condutas alinhadas à ética fazem que os colaboradores, concorrentes e clientes a enxerguem como uma empresa séria e responsável. Sociologia e Ética Profissional32 Por outro lado, existem empresas e instituições que abusam e desrespeitam seus consumidores e o público em geral, fazendo uso de propagandas enganosas ou ofertas mentirosas, principalmente, com o intuito de ganhar dinheiro mais rapidamente, e são condenadas ao fracasso. Figura 11 – Propaganda enganosa Fonte: Pixabay. Os resultados positivos advindos dessas iniciativas desonestas costumam ser passageiros e, da mesma forma que ela teve a chance de crescer dessa forma, assume um alto risco de se prejudicar e ter imensos prejuízos, podendo até desaparecer permanentemente. Nos domínios da organização, a ética empresarial incentiva as boas relações tanto entre os próprios funcionários quanto em relação ao seu público consumidor. Dessa forma, o relacionamento entre as partes envolvidas nesse ambiente passa a ser mais incontestável, vindo a alcançar maiores níveis de satisfação para todos os elementos envolvidos. Contemporaneamente, no meio organizacional, a ética empresarial passou a ser encarada, principalmente por seus gestores, como um objetivo essencial que deve ser realizado. O aprimoramento dos aspectos éticos nas organizações passou a ser cuidado com tanta importância quanto os resultados anteriormente Sociologia e Ética Profissional 33 mais almejados pela direção empresarial, como o sucesso financeiro, o crescimento e a implantação da inovação e a excelência nos processos. Com esses aspectos, tão valorizados pelo público e pelo mercado, em evidência, os gestores e colaboradores passam a vincular incansavelmente os valores e a missão da empresa a que fazem parte, com foco em comprovar a transparência de suas ações e a seriedade dos propósitos. E, dessa forma, a ética passa a ser vivenciada dentro das organizações com maior verdade e clareza. Para a efetividade dessas ações, é importante que as condutas em coesão com a ética sejam executadas cotidianamente e incentivadas a todos os atores envolvidos pelas ações de seus líderes. Uma boa liderança acontece quando o seu representante tem a capacidade de lidar com todas as situações sem ser incoerente com o que está sendo exigido de seus liderados. Seu comportamento deve estar em plena adequação com as normas determinadas pela empresa. Figura 12 – Exemplo de conduta ética do líder Fonte: Freepik. Sociologia e Ética Profissional34 Dessa forma, para que todos os colaboradores possam executar as suas ações e tomar as suas atitudes de maneira coerente, é necessário que as regras estabelecidas e exigidas sejam abertamente comunicadas. As regras da empresa têm o papel de fomentar um desenvolvimento interno positivo tanto em relação aos seus clientes internos, sejam os líderes ou colaboradores, quanto aos seus clientes externos, que são os consumidores e defensores da marca. Pós-modernidade Na literatura, o período moderno é associado ao período da Revolução Industrial, quando houve uma intensa quebra de paradigmas e padrões de comportamento dos indivíduos. O período pós-moderno ocorre desde que as mudanças na vida social do último século impactaram fortemente a sociedade e foram percebidas como crise. Grandes pensadores e estudiosos da área da Filosofia e da Sociologia passaram a questionar algumas provocações do tipo: “Será que a crise representa um rompimento com os valores centrais de nossa cultura?” e “Podemos falar de transformação substancial desses valores?”. O consenso sobre o assunto demonstra que a resposta não é otimista para nenhum desses questionamentos. NOTA: A razão para o otimismo em relação a essas questões levantadas não acontecer está diretamente relacionada ao que é válido e aos valores primordiais enraizados na cultura ocidental, como a dignidade do ser humano, o amor e a liberdade de viver a vida. Além de aspectos mais técnicos da área política social, como a democracia liberal, o estado de direito, entre outros. Retomando o que se refere à crise, questionamos o que a motivou, como ela ocorreu de fato e quais elementos a incentivaram: Eis o principal na primeira parte do século: revolução soviética de 1917, a crise da bolsa de Nova York de 1929, a ameaça Sociologia e Ética Profissional 35 dos totalitarismos, as duas guerras mundiais, a 1914-1919 e a de 1939-1945 com suas consequências: a guerra fria, a nova família, novos focos de tensão entre pais e filhos, ingresso da mulher no mercado de trabalho, consumo de massa, o despertar das nações asiáticas e africanas e as guerras étnicas, culminando numa espécie de autoesquecimento da condição humana. (CARVALHO, 2017, p. 2) Figura 13 – Mulheres no mercado de trabalho Fonte: Pixabay. As situações que o autor menciona se tornaram objetos de estudo no campo da Filosofia e da Sociologia nos últimos tempos, enraizando para áreas como Antropologia, estudos históricos e culturais. Dessa forma, o período pós-moderno se dedicou a realizar um levantamento sob um modelo de pensamento que esclarece como a bondosa ciência pode fazer a humanidade acreditar em um futuro glorioso para a raça humana na Terra, sem exigir o esforço individual de cada um. Essa opinião é um contraponto ao tipo de personalidade dos indivíduos que conhecemos atualmente, construídos por meio de um resultado dos acontecimentos históricos, que seria o homem como parte Sociologia e Ética Profissional36 da grande massa, com as opiniões muito formatadas pelo senso comum e pouco dedicado a viver o que realmente deseja. As últimas décadas do século XX foram protagonizadas por grandes mudanças no padrão de vida da sociedade, e esse período passou a ser denominado “pós-moderno”. Essa nova denominação tinha o intuito de sinalizar que a crise estaria determinando o estabelecimento de um novo tempo, que, no entanto, ainda não estava plenamente definido, porém se caracterizava como uma nova era. IMPORTANTE: É interessante avaliar que a diferença substancial das práticas sociais do período moderno para o que vivenciamos nos dias atuais nos permite, sem qualquer equívoco, avaliar essa nova era de uma outra forma. O que se chamou de pós-modernidade foi o aprofundamento da revisão iniciada na primeira metade do século com a introdução de novos elementos, a percepção: de que as relações pessoais só se justificam quando valem a pena resultando num número alto de separações e novos casamentos, de que o trabalho expressa vocação íntima e não é só o ganha pão diário, que todos têm direitos iguais de ocupar os cargos e espaços públicos, que os dogmas religiosos não são mais aceitos como antes, que cada um é responsável por sua vida, que a política é mais espaço de resultados do que de ideologias. (CARVALHO, 2017, p. 2) O que antes era visto como comum dentro dos elementos de comportamento ocidental passa a tomar uma forma diferente nessa nova etapa histórica que se vive durante o novo período. As mudanças não deixam dúvida, os aspectos estéticos, a moda, as novas formas de se comportar, de se comunicar e o sentido emocional e com fundo de propósito com o qual a profissão se tornou para os indivíduos são elementos que levam a observar que o homem da massa passa a assumir seu protagonismo com maior propriedade. Sociologia e Ética Profissional 37 Figura 14 – Indivíduo como parte da massa Fonte: Pixabay. No entanto, apesar dessas transformações, o comportamento do homem-massa ainda está distante de acabar e assume uma nova versão. Esse novo estereótipo do homem-massa pode ser uma ameaça para os velhos comportamentos, mas ainda não representou o real rompimento com o estado da modernidade ou com os valores do Ocidente, nomeados anteriormente. SAIBA MAIS: Quer saber mais sobre a ética profissional no período pós-moderno? Sugerimos que visite o livro de Zygmunt Bauman (2011), intitulado “Vida em fragmentos: sobre a ética pós-moderna”. O livro analisa mudanças que a nova perspectiva pós-moderna trouxe e pode trazer para a nossa compreensão ortodoxa da moralidade e vida moral. Disponível em: https://bit.ly/2FM7zJj Sociologia e Ética Profissional38 RESUMINDO: Até agora está gostando do que tem estudado? Para garantir que você realmente entendeu o tema de estudo deste capítulo, vamos resumir mais uma vez todo o assunto que trabalhamos neste capítulo. Iniciamos a seção 3.1 com um embasamento teórico e contextualizado acerca dos aspectos éticos tanto no contexto geral de vivência em sociedade quanto na conjuntura empresarial. É interessante relembrar como somos bombardeados diariamente com notícias de transgressões éticas e suas penalidades, além de entender a relação da ética e da moral e suas práticas no cotidiano pessoal e profissional. Outro fato importante é reforçar os ganhos que as empresas passam a ter por conduzirem suas ações alinhadas à ética que se referem a uma possibilidade de desenvolver seu potencial para manter-se no mercado de maneira sustentável. Os aspectos éticos são tão relevantes para as organizações quanto o sucesso financeiro, o crescimento e a implantação da inovação e a excelência nos processos. Entender essa dinâmica da ética nas organizações é entender como a mudança pós-moderna acontece, uma vez que novos elementos são introduzidos e renovados incessantemente, e as condutas éticas na pós-modernidade são adaptadas de acordo com a nova realidade. Sociologia e Ética Profissional 39 Relações entre a ética e as profissões: contexto empresarial e profissional INTRODUÇÃO: Nesta competência, vamos trabalhar mais um aspecto de estudo da Sociologia: os modelos de organização do trabalho em vínculo com a ética, posteriormente conheceremos importantes aspectos da ética no ambiente de trabalho. A organização do trabalho na história Atualmente, o exercício do trabalho subsidiado pela ética é considerado um critério muito enaltecido, não só no mercado de trabalho como nas relações típicas de uma vivência em sociedade. O profissional que executa as suas atividades laborais prezando por uma conduta honesta no ambiente de trabalho está destinado a alcançar níveis inquestionáveis de sucesso em sua carreira. Para a sua formação profissional, reconhecer a relevância de prezar pelos aspectos éticos na prática das atividades determinará muito o seu destino no seu setor de atuação. Enfim, o que é a ética no contexto das profissões e qual o benefício disso para a sua formação? Uma vez que somos indivíduos e que necessitamos manter relações saudáveis com outros, caracterizamos nessa dinâmica de interação como um ser social. A vivência em sociedade não deve interferir no bem-estar de qualquer outro ator social, por esse motivo que se justifica as práticas éticas em nossas condutas particulares. Sociologia e Ética Profissional40 Figura 15 – Bem-estar coletivo Fonte: Freepik. Apesar de o correto ser que esses pontos sejam considerados em qualquer que seja o contexto social, no ambiente de trabalho os elementos da ética profissional não são menos importantes. As organizações sempre voltam muito as suas atenções para as possibilidades de ganhos, sejam em relação ao lucro monetário, ao aumento da produtividade, melhor relacionamento entre os funcionários, entre outros. A ética integrada nas práticas desse ambiente favorece maior alcance de todos esses resultados. No ambiente profissional, o comportamento ético preenche algumas características fundamentais. Observe a tabela a seguir: Sociologia e Ética Profissional 41 Tabela 2 – Características do comportamento ético profissional Altruísmo Preocupar e importar-se com o próximo de forma livre de interesses. Moralidade Integrar valores em seu comportamento no momento da tomada de decisões, escolhas e ações. Virtude Considerar o que é correto e desejável e realizar as atividades com excelência. Solidariedade Ter o compromisso de ser solícito aos outros, colaborar com o desempenho do próximo e zelar pela harmonia do indivíduo com os demais. Consciência Ser capaz de ter discernimento entre certo e errado e integrar valores nos pensamentos e nas ações. Responsabilidade ética Conseguir assumir a própria responsabilidade sobre as atitudes, executado por si próprio e pelos outros. Fonte: Elaborado pelas autoras. O que é ética profissional? Quando o profissional exerce suas atividades laborais integrando determinados valores e normas predefinidos em seus modos dentro da organização, podemos dizer que essa pessoa é um profissional ético. Ou seja, a ética profissional se molda pela forma como o profissional se porta diante das suas obrigações no ambiente organizacional. Sociologia e Ética Profissional42 A conduta ética de um profissional deve ser trabalhada com tanta dedicação quanto a luta por adquirir novos conhecimentos, capacitações e experiências em seu setor de atuação. Esse tipo de profissional é sempre valorizado e sustenta o seu desempenho em longo prazo. Figura 16 – Reconhecimento de ética profissional Fonte: Freepik. NOTA: Além de ser uma obrigação, o comportamento limpo e ético do profissional o faz conquistar respeito, confiança e admiração dos clientes, colegas de profissão, superiores e todo o público que conhece o seu trabalho, aumentando sua competitividade no mercado de forma sustentável e reconhecida. O modo de se comportar eticamente é valorizado pela empresa, pois reflete diretamente nos desempenhos internos da organização, tais como melhor andamento dos processos internos, aumento da produtividade, alcance de objetivos, clareza e bem-estar nas interações interpessoais, além de evitar conflitos que prejudiquem o clima organizacional. Sociologia e Ética Profissional 43 Os bons relacionamentos dentro da organização são estabelecidos por meio da valorização de certos princípios éticos, por exemplo, amabilidade, empatia, educação, paciência, solidariedade, entre outros. Dessa maneira, quando o profissional e a empresa fixam suas condutas nesses valores, é possível estabelecer formalmente um código interno de ética, no qual todos os colaboradores devem conhecer seu conteúdo e agir dentro do que está determinado. Os valores desse código de ética assumem um papel espontâneo que resultam em ações de responsabilidade social, uma vez que as diretrizes apontadas normalmente defendem os interesses de todas as pessoas envolvidas com a organização. O papel ético da organização alcança camadas externas às suas instalações e ocorre quando a empresa se interessa em ajudar a resolver alguma demanda social existente no cenário da população no ambiente em que ela desempenha suas atividades. As iniciativas em torno dessa prática de responsabilidade social podem ocorrer por meio de ações que cuidem de assuntos vinculados à redução do impacto ambiental, fornecimento de educação à comunidade, uso de produtos não poluentes, ações de voluntariado, doações para instituições sociais, entre outros. Dessa forma, a empresa consegue promover o desenvolvimento mútuo com a sociedade. Figura 17 – Ação de responsabilidade social Fonte: Freepik. Sociologia e Ética Profissional44 Em suma, a ética profissional passa por várias instâncias dentro dos domínios da organização, e a exigência por profissionais que não dispensem os seus princípios é uma demanda do mercado que está para ser atendida. Ou seja, os profissionais que desejam ganhar espaço no mercado devem adotar princípios éticos às suas condutas para conseguir evoluir cada vez mais pessoal e profissionalmente. Ética no trabalho Os estudos em Sociologia sempre mantêm seus assuntos vinculados ao trabalho sendo debatidos. O trabalho é basicamente uma teia de relacionamentos recheada de tensões. Entretanto, a era industrial trouxe uma concepção de trabalho com uma isenção de prazer. Antes da era industrial, o trabalhador agrícola ainda conseguia ter identificação em relação ao processo de plantio e colheita. Na era industrial, o homem foi levado pra um ambiente inóspito e fechado, onde o que interessava era apenas a sua força de trabalho, e a sua vida passou a girar em torno apenas das atividades dos trabalhos. No filme Tempos modernos, Charles Chaplin ilustra de uma maneira muito criativa o dilema e os problemas do trabalhador industrial. Nos dias de hoje, podemos acompanhar estatísticas assustadoras sobre adoecimento decorrente do trabalho, além do índice de suicídio no Brasil, que vem aumentando de forma vertiginosa. É justamente esse ponto que tem causado muita estranheza. Figura 18 – Tempos modernos, de Charles Chaplin Fonte: Wikimedia Commons Sociologia e Ética Profissional 45 Em relação à cultura de resultados, ainda há muita resistência no mundo corporativo sempre que se bate uma meta, surge outra maior. O resultado não é satisfatório em médio prazo. Sabemos que as empresas precisam gerar resultados e lucros, mas até que limite os trabalhadores aguentarão? Devemos chamar atenção do profissional sobre a dignidade humana e os limites profissionais de cada um de nós. Sociólogos contemporâneos e algumas empresas tentam constantemente levar essa questão, não só ao que se refere à qualidade de vida no ambiente de trabalho, mas também à criação de um ambiente produtivo sustentável, por meio de adoção de posturas éticas. ACESSE: Humilhar e constranger um trabalhador no ambiente de trabalho não é legal. Essa conduta demonstra descontrole emocional e gera um ambiente negativo. O assédio moral pode fazer com que a empresa perca um funcionário valioso, crie uma imagem negativa perante toda a equipe e a comunidade e sofra penalidades legais. Para conhecer melhor como funciona uma situação desse tipo, assista ao vídeo “Assédio Moral no Trabalho”, produzido por Allegro – Tecnologias de gestão (2012). Disponível em: https://bit. ly/3l2W805. Acesso em: 13 ago. 2020. A ética deve considerar todas as condições sociais. O debate não nega a necessidade de as empresas lutarem por resultados sim, resultados financeiros, competitividade, superação e inovação, no entanto, respeitando o bem mais precioso que existe na sociedade: a vida. Do ponto de vista da estratégia empresarial, é inteiramente racional tornar o processo de produção tão independente quanto possível deste “fator humano”, especialmente quando ele pode produzir incerteza e perturbação. Entretanto, na medida em que as precondições estruturais e o espaço autônomo para as orientações “morais” ao trabalho são “racionalizadas”, não se pode esperar nem reivindicar estas orientações. Junto com a degradação e a desqualificação do Sociologia e Ética Profissional46 trabalho (Crusius & Wilke, 1982), frequentemente observadas, a dimensão subjetiva do trabalho – o feixe de obrigações e demandas associadas ao “orgulho do produtor” e seu reconhecimento social – também se enfraquece. (OFFE, 1989, p. 7) No entanto, sem o trabalhador, não existe mão de obra especializada e a economia fica comprometida. A ética nas organizações se propõe a abordar extremos, que dizem respeito aos nossos limites e os seus impactos na produtividade. SAIBA MAIS: Quer saber mais sobre o assunto? Leia o artigo “A influência da ética e moral e a importância da contribuição do Código de Ética no Trabalho” (MACIEL; PEREIRA; SALGADO; DAL PAI, 2016). O estudo mostra a influência da ética e da moral e analisa em qual sentido elas contribuem para a formação de um cidadão dentro da sociedade, a importância do código de ética para um bom desempenho e sucesso de um funcionário. Disponível em: https://bit.ly/34lGarH Acesso em: 14 ago. 2020 RESUMINDO: E, então, gostou do que mostramos? Aprendeu mesmo tudinho? Agora, só para termos certeza de que você realmente entendeu o tema de estudo deste capítulo, vamos resumir tudo o que vimos neste último capítulo da unidade 04. Você deve ter aprendido que reconhecer a relevância de prezar pelos aspectos éticos na prática das atividades determinará muito o seu destino no setor de atuação que escolher, uma vez que a ética no contexto das profissões está relacionada diretamente com o sentido da nossa vida, pois somos seres individuais que necessitamos manter relações saudáveis com outros, caracterizamos nessa dinâmica de interação como um ser social. Encontramos essa interação no nosso ambiente de trabalho. Também podemos relembrar que o trabalho é Sociologia e Ética Profissional 47 RESUMINDO: basicamente uma teia de relacionamentos recheada de tensões, e como é importante que os profissionais envolvidos se atentem aos possíveis conflitos que possam surgir de modo a preservar o bem-estar de todos e a qualidade de vida no ambiente de trabalho, exercendo as posturas éticas com o objetivo de impactar no desenvolvimento de um ambiente produtivo sustentável. Após a compreensão desse panorama em relação ao mercado de trabalho e à sociedade, esperamos que você entenda que está caminhando os passos certos profissionalmente rumo ao que o mercado necessita, e o mundo também. Parabéns por finalizar mais uma unidade com sucesso! Sociologia e Ética Profissional48 REFERÊNCIAS ALLEGRO – Tecnologias de gestão. Assédio moral no trabalho. 2012. Disponível em: www.youtube.com/ watch?v=8WnHwvJmWAU&list=PL229DCDDE74045639.Acesso em: 12 mar. 2020 BAUMAN, Z. Vida em fragmentos: sobre a ética pós-moderna. Rio de Janeiro: Zahar, 2011. Disponível em: https://bit.ly/2FM7zJj . Acesso em: 12 mar. 2020. CARVALHO, J. M. Ética e Sociedade. Revista Estudos Filosóficos, n. 1, 2017. Disponível em: https://www.ufsj.edu.br/portal2-repositorio/File/ revistaestudosfilosoficos/art7_-rev1.pdf. Acesso em: 10 mar. 2020. CHAUÍ, M. Convite à filosofia. 14. ed. São Paulo: Ática, 2010. FERREIRA, A. B. de H. Novo dicionário Aurélio da língua portuguesa. 2004. GRAGLIA, M. A. 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A ética empresarial e a pós-modernidade A ética na conjuntura empresarial Pós-modernidade Relações entre a ética e as profissões: contexto empresarial e profissional A organização do trabalho na história Ética no trabalho