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Sumário Capa Folha de rosto Prefácio à primeira edição (1979) Prefácio à segunda edição (1997) Prefácio à edição brasileira Introdução PARTE 1 A DESTRUIÇÃO DAS BARREIRAS AO PROGRESSO 1. A ordem social como uma expressão da cultura 2. A barreira da igreja e do céu 3. A barreira do destino e da providência 4. Intermezzo avaliativo 5. A barreira do paraíso perdido PARTE 2 A EVOLUÇÃO DO CAPITALISMO MODERNO 6. A revolução industrial e suas consequências 7. O contramovimento socialista 8. O desenvolvimento da fé no progresso depois de 1850 9. Mudanças no capitalismo desde 1850 10. Progresso, partidos políticos e o movimento trabalhista PARTE 3 OS DESAPONTAMENTOS DO PROGRESSO 11. A vulnerabilidade do progresso: introdução 12. A vulnerabilidade do ambiente 13. A vulnerabilidade do sistema 14. A vulnerabilidade do homem ocidental 15. A dialética do progresso PARTE 4 RUMO À ABERTURA DA SOCIEDADE 16. Uma miscelânea de respostas 17. Não há saída fácil 18. O paraíso perdido revisitado 19. Destino e providência revisitados 20. Intermezzo: possibilidades e limites de abertura 21. Igreja e céu revisitados 22. Epílogo Créditos Conheci Bob Goudzwaard pessoalmente na África do Sul em 2015, no dia do seu aniversário. Goudzwaard e eu divergimos sobre a intervenção estatal após a crise financeira de 2008/2009. E, mesmo discordando das aplicações específicas, ambos estávamos partindo de pressupostos bíblicos para fundamentar nossa argumentação. Capitalismo e Progresso serve de modelo não só para seus discípulos, mas também para os que, como eu, discordam respeitosamente de suas conclusões: um modelo de engajamento sério com uma ciência social partindo dos fundamentos da cosmovisão cristã, um modelo de uma vida inteira de dedicação prática e teórica com a tradição reformacional e um modelo de reflexão profunda e crítica em diálogo com outras vertentes do pensamento. – LUCAS FREIRE, doutor em ciência política pela Universidade de Exeter e professor da Universidade Mackenzie. Foi pesquisador associado ao Kirby Laing Institute, em Cambridge, e docente nas Universidades de Plymouth e Exeter. Agraciado com o prêmio H.G. Stoker em 2017 e o prêmio Novak conferido pelo Acton Institute em 2018. O capitalismo continua sendo o sistema de organização econômica e social dominante do mundo ocidental. E, ainda que se discorde sobre a coerência de suas múltiplas expressões contemporâneas, é certo que ele representa o fenômeno cultural de maior impacto no mundo contemporâneo. É no reconhecimento deste contexto que Capitalismo e Progresso se torna um acréscimo valioso nas discussões atuais sobre os limites, potenciais e riscos do capitalismo como forma de organização da vida. Evitando argumentos batidos sobre a bondade ou maldade absolutas do capitalismo, Goudzwaard trilha um caminho distinto de discernimento cultural e suas manifestações políticas, sociais e econômicas. Sua obra é a aplicação mais coerente do sistema filosófico holandês denominado filosofia cosmonômica ao campo da economia. Que sua publicação em língua portuguesa amplie os horizontes de discussão sobre os méritos e deméritos do capitalismo e aponte horizontes de atuação para a comunidade cristã diante deste sistema de crenças e organização social que nos afeta a todos. – RODOLFO AMORIM, obreiro de L’Abri Brasil, especializado em gestão do terceiro setor e mestre em sociologia. Coautor de Fé Cristã e Cultura Contemporânea e Cosmovisão Cristã e Transformação (Editora Ultimato). Capitalismo e Progresso tem moldado a mente de muitos cristãos – estudantes, acadêmicos e políticos. Goudzwaard oferece visões profundas sobre as motivações da cultura ocidental e sobre o contexto espiritual das crises econômicas de nosso tempo. É um dos meus clássicos imortais. – Dr. ROEL KUIPER, reitor da Theological University Kampen, membro do Senado holandês Bob Goudzwaard é um daqueles raros economistas que reconhecem que a vida econômica não é apenas uma questão de maximizar serviços e expandir a riqueza. Na realidade, trata-se de algo regido por normas que Deus nos deu, ordenadas para desenvolvimento geral do ser humano. Em Capitalismo e Progresso, o autor examina as raízes espirituais de nossos modelos econômicos atuais, observando em particular que o “progresso” que tantas vezes se espera deles apenas exacerba caráter desequilibrado de nossas sociedades, contribuindo para a degradação ambiental e a desumanização do trabalho. Fico feliz em ver a edição brasileira deste importante livro e oro para que Deus o use a fim de avançar seu reino em um país cuja bandeira fala de “Ordem e Progresso”. – Dr. DAVID KOYZIS, doutor em filosofia pela Universidade de Notre Dame, pesquisador em política no St. George’s Centre for Biblical and Public Theology, no Canadá. Autor de Visões e Ilusões Políticas (Vida Nova) Em Capitalismo e Progresso, Goudzwaard nos dá uma perspectiva nova sobre o desenvolvimento do capitalismo e nos convida a questionar uma suposição que parece guiar a política econômica dos países do Ocidente: o mais importante na economia é o crescimento econômico como tal. Nós, cristãos, faríamos bem em nos perguntar se o crescimento econômico realmente deveria ser o guia na política econômica, especialmente em países onde a população desfruta de um alto padrão de vida. – Dr. ADOLFO GARCÍA DE LA SIENRA, pesquisador, Instituto de Filosofía, Universidad Veracruzana, no México É com alegria que saúdo Capitalismo e Progresso – um importante livro que aponta para um novo estilo de vida. – JOHN STOTT Capitalismo e Progresso é um livro profético. – RENÉ PADILLA CIÊNCIA E FÉ CRISTÃ AS ÚLTIMAS DÉCADAS testemunharam um florescimento mundial sem precedentes do diálogo entre a religião e as ciências, particularmente entre a teologia cristã e o campo científico. Atualmente várias associações internacionais, instituições acadêmicas, igrejas e missões cristãs contribuem para um esforço conjunto de construção de pontes entre a fé cristã e a ciência contemporânea. No Brasil, tanto as pressões laicizantes dentro e fora das igrejas quanto o próprio amadurecimento intelectual e cultural dos cristãos vêm aprofundando e expandindo o debate sobre fé e ciência, fazendo dele um imperativo espiritual e testemunhal para nossa geração. Para ajudar a comunidade cristã e a comunidade científica na compreensão da importância e do caráter desse diálogo global, e visando uma comunicação rica e significativa entre esses campos, apresentamos a série “Ciência e Fé Cristã”. Apresentará perspectivas cristãs sobre campos diversos, como a teologia natural ou teologia da natureza, filosofia da tecnologia, biologia e teoria evolucionária, história da ciência, temas de filosofia da ciência, neurociências, física e cosmologia, e a relação entre a Bíblia e a ciência. A amostragem de obras incluídas nesta série privilegia contribuições substanciais a esse diálogo contemporâneo realizadas a partir da tradição cristã evangélica ou compatíveis com essa tradição de fé. Com isso, a série procura fertilizar a reflexão avançada sobre tais temas no contexto evangelical brasileiro e entre aqueles interessados no diálogo, com vistas a uma participação mais rica e independente na conversação pública dos evangélicos com outras tradições religiosas ou seculares. Esperamos, ainda, promover uma contribuição amadurecida para o universo acadêmico brasileiro. A série “Ciência e Fé Cristã” é, enfim, um convite a todos aqueles que queiram mergulhar nesse fantástico universo de debates, conhecimentos e questões que tocam a nossa existência. Afinal, tanto o Livro da Criação quanto o Livro da Revelação merecem lugar em nossas cabeceiras. Soli Deo Gloria. GUILHERME DE CARVALHO e ROBERTO COVOLAN Editores MARCELO CABRAL Editor assistente Esta publicação contou com o apoio e financiamento da Templeton World Charity Foundation, Inc. As opiniões aqui expressas não refletem necessariamente aquelas da TWCF. PREFÁCIO À PRIMEIRA EDIÇÃO (1979) APROXIMADAMENTE meio século atrás o famosolivro de Oswald Spengler, A Decadência do Ocidente* foi publicado em alemão. Em dois extensos volumes, Spengler expôs a bem conhecida tese de que a lei do nascimento, maturidade e morte aplica-se não apenas às plantas e aos animais, mas também às civilizações. Ele estava convencido de que num futuro próximo a cultura do Ocidente desapareceria no ocaso da história mundial como aconteceu com o Império Romano. Como evidência para essa afirmação ele apontou para a desintegração da autoridade, a atenção exagerada dada à juventude e o desejo por poder e luxúria como fins em si mesmos. Ele interpretou esses fenômenos como sinais de deterioração cultural, comparáveis aos que acompanharam a queda do Império Romano. Nesse ínterim, mais de cinquenta anos se passaram. De fato, com relação à vida das civilizações, deve-se pensar em termos de séculos em vez de em décadas. Não obstante, já passou tempo suficiente para julgarmos se o curso dos acontecimentos confirmou a predição de Spengler. Não. A sociedade ocidental ainda existe e com frequência nos impressiona mais pelo seu entusiasmo pela vida do que pelo seu desejo de morrer. Civilizações simplesmente não são plantas que nascem, florescem e morrem de acordo com um ritmo de vida estabelecido. Sentimo-nos mais à vontade com Arnold Toynbee, que afirma que o destino das civilizações é, em primeiro lugar, moldado pelo próprio homem, particularmente pela maneira na qual ele reage aos desafios no seu desenvolvimento cultural. Em todo caso, a atual condição da cultura ocidental definitivamente nos leva a uma profunda preocupação. Isso se deve não apenas ao fato de que sinais distintos de deterioração podem ser detectados; é talvez muito mais significativo o fato de o Ocidente estar sendo gradativamente confrontado com problemas independentes de um modo tão incisivo que, no conjunto, podem se tornar um desafio decisivo para toda a cultura ocidental. ACUMULAÇÃO E FRUSTRAÇÃO Essa linguagem um tanto forte não parece incorreta à luz das seguintes considerações. Em primeiro lugar, é importante observar que muitas questões com as quais o Ocidente se defronta são particularmente notáveis, não por causa da sua novidade, mas devido à maneira nada usual da sua acumulação. Os problemas ambientais, por exemplo, não são novos, assim como o desemprego crônico. O primeiro era encontrado nas cidades industriais inglesas em meados do século 18, enquanto o último marcou a crise econômica da década de 1930. Além disso, anteriormente também houve períodos de crescente incerteza e até mesmo de ruína iminente. A história registra que na véspera do ano-novo em 999 o papa e o imperador se ajoelharam juntos numa das torres da cidade de Roma para esperar, piedosamente, o fim do mundo. Sentimentos semelhantes de desalento eram comuns no final da Idade Média. E também, a escassez de matérias-primas não é algo novo: por volta de 1870, o economista inglês Stanley Jevons estava muito preocupado com o iminente esgotamento das minas de carvão na Inglaterra. De fato, nenhum desses problemas é novo na história do Ocidente. Nós os vivenciamos antes – em uma ocasião ou outra. Mas hoje a situação é visivelmente distinta. Não apenas nos encontramos confrontando todos esses problemas ao mesmo tempo, mas eles também são interdependentes e se reforçam mutuamente. Desemprego e inflação agora ocorrem conjuntamente; uma escassez de energia agrava os problemas ambientais e coincide com predições de sérias crises de alimentos. Além disso, enquanto aumentam as diferenças em outros lugares, especialmente entre os países ricos e pobres, as tensões internas também aumentam, especialmente entre trabalho e capital, jovens e velhos, negros e brancos. Economistas levantam vozes de alerta. O mesmo fazem os estudiosos de relações internacionais que percebem o crescimento e a proliferação das armas nucleares – agora no estágio de “excessiva capacidade” – com temor e tremor. E o mesmo acontece com os biólogos, dada a profunda preocupação deles com o ecossistema mundial. Psicólogos, cujas salas de espera estão repletas de pessoas não mais capazes de lidar com o ritmo da sociedade atual e preparadas para enterrar sua solidão em comprimidos e drogas, da mesma maneira expressam sua preocupação. A combinação de todos esses problemas, que se reforçam mutuamente, deve certamente ser considerada algo incomum. Mas há ainda mais que se nos apresentam como incomuns: soluções para esses problemas são difíceis de serem alcançadas. Com relação às questões econômicas, é digno de nota o fato de os métodos “conhecidos” de combate à inflação e ao desemprego não mais lograrem êxito. Economistas proeminentes nos dizem que até certo ponto nós simplesmente temos de aprender a conviver com a inflação. O desemprego cada vez mais apresenta núcleos “duros” que não são mais passíveis de serem combatidos com as medidas “clássicas”, como redução de impostos ou políticas públicas de geração de emprego. E já nos é dito que as crises de alimentos previstas para os anos 1980 não podem ser evitadas – além de serem de difícil combate. Do mesmo modo, soluções efetivas para os problemas de natureza não econômica não parecem estar disponíveis. Quais são as respostas reais para as tensões emocionais tão comuns hoje, tais como a solidão de muitas pessoas nas nossas grandes cidades? O que realmente pode ser feito para lidarmos com a força brutal dos terroristas que atacam quase todos os aspectos da nossa complexa sociedade? Finalmente, também vivenciamos as deficiências de muitas soluções políticas. O controle efetivo da produção e da distribuição das armas nucleares tem se tornado praticamente impossível. Os países ricos do Ocidente estão se tornando cada vez mais politicamente impotentes devido a uma crescente dependência da importação de energia e de matérias-primas. Como resultado dessa dependência, esses países dificilmente se encontram numa posição de apoiar, de maneira imparcial, a soluções verdadeiramente imparciais dos problemas na África, na América Latina e no Oriente Médio. Há uma sensação de impotência no Ocidente; e seguramente isso contribui para a tentação de empregar de maneira irresponsável os meios remanescentes de poder. A cultura ocidental é de fato desafiada hoje. É desafiada não apenas no acúmulo de problemas, mas também na ineficácia das soluções clássicas. Seremos capazes de encontrar as respostas corretas em tempo hábil? Essa é a pergunta inevitável com a qual nos deparamos. Uma vez que a existência da sociedade Ocidental está em risco, a busca por soluções tem se tornado uma questão de vida ou morte, especialmente dado que a impotência pode facilmente levar ao desespero. NECESSIDADE DE REFLEXÃO Felizmente, pouco a pouco as pessoas se dão conta de que a situação na qual o Ocidente se encontra é motivo de profunda preocupação. Contudo, isso aumenta o risco de uma reação equivocada. Em especial, há o risco de que, numa situação de pânico, busquemos uma resposta separada para cada um dos problemas que nos afligem, da maneira como estamos acostumados. Essa reação é especialmente perigosa uma vez que pode impedir a necessária reflexão profunda sobre as causas do dilema presente – e essa reflexão é indispensável para que se encontrem soluções verdadeiramente efetivas. Uma analogia tornará isso mais claro. Quando alguém quebra um braço, a solução é simples – o braço deve ser imobilizado. Contudo, quando um paciente apresenta uma série de sintomas negativos simultaneamente, que se estendem da indiferença à dor física, um tratamento efetivo é frequentemente possível apenas depois de uma busca por uma única causa para tais sintomas. De qualquer modo, não se pode excluir a possibilidade de que esses sintomas indiquem uma única causa, mais profunda. Esta é a difícil situação da sociedade ocidental –ao meramente tratar os sintomas podemos muito bem negligenciar a causa verdadeira. Em termos práticos, a maneira tipicamente ocidental de resolver os problemas pode ter agravado as causas subjacentes. Por exemplo, a condição de um pacientepiora quando lhe é dado estimulante para contrabalançar a letargia resultante do remédio para a dor. No Ocidente corremos um risco semelhante de estarmos satisfeitos com remédios superficiais que apenas agravam a doença. Talvez estejamos temerosos de uma reflexão verdadeira a respeito das causas porque isso inevitavelmente nos levaria a uma confrontação com nós mesmos. A cultura ocidental ousa se olhar no espelho? Contudo, uma reflexão e um diagnóstico detalhados devem ocorrer, mesmo que apenas por causa do que ainda estimamos na civilização ocidental. Este livro é uma contribuição pessoal para esse tipo de reflexão sobre as causas das nossas enfermidades e dos nossos erros. A palavra pessoal é apropriada neste contexto, pois não quero argumentar que meu diagnóstico é o único correto ou o único possível. Além disso, na minha análise estou em desvantagem, uma vez que não tenho as qualificações de um filósofo, historiador ou sociólogo. Mais propriamente, sou um economista de formação e profissão. Essa limitação é um obstáculo num estudo que também terá de lidar com uma série de aspectos socioculturais e filosóficos da sociedade ocidental no passado e no presente. Ao mesmo tempo, penso que há um mérito em ter um economista lidando com esse tipo de questão em vez de um filósofo ou um sociólogo, pois na fronteira da cultura ocidental estamos sendo constantemente desafiados, em primeiro lugar, pelas questões econômicas. Neste ponto, eu gostaria de fazer um comentário adicional, especialmente para o benefício dos leitores norte-americanos. Com frequência, os estudos europeus sobre os problemas da nossa época têm uma tendência mais forte de olhar para o passado do que os estudos norte-americanos de orientação mais prática. Nesse sentido, este é um livro europeu. Em minha opinião, uma reflexão mais detalhada sobre as questões em voga não pode ocorrer sem a devida atenção às suas raízes. Quando encontramos problemas na nossa vida pessoal, buscamos suas raízes no passado. Quando entendemos o passado, o discernimento em relação ao presente torna-se mais profundo. Esse discernimento mais profundo deve inquietar a todos nós dada a situação crítica de hoje. Concluindo, alguns comentários pessoais e técnicos são desejáveis. A edição em língua inglesa deste livro foi inicialmente preparada tendo como base a primeira edição holandesa publicada no outono de 1976. Uma segunda edição holandesa foi exigida em relativamente pouco tempo. Em vez de meramente republicar o livro, decidi reescrever aquelas partes que têm sido sujeitas à crítica construtiva na imprensa holandesa, tendo como resultado que a Parte Quatro foi quase completamente revisada e consideravelmente expandida. Mudanças de menor importância foram feitas em outras partes. Quase todas as alterações foram incorporadas no texto na língua inglesa. Tenho uma dívida para com várias pessoas que ajudaram a tornar este livro no que ele é. Não consigo mencionar todos pelo nome, mas gostaria de escolher dois que deram uma contribuição verdadeiramente indispensável para esta edição: Josina Zylstra, que traduziu e editou este livro com grande dedicação e precisão, e Bernard Zylstra, que fez numerosas sugestões valiosas que melhoraram o texto. Agradeço sinceramente a ambos pelo que fizeram. Bob Goudzwaard Universidade Livre de Amsterdã * SPENGLER, Oswald. A decadência do Ocidente; esboço de uma morfologia da história universal. Rio de Janeiro: Zahar, 1973. (N.T.)↩ PREFÁCIO À SEGUNDA EDIÇÃO (1997) * O TEXTO PRINCIPAL deste livro foi escrito entre 1975 e 1978, uma época que em muitos aspectos era muito diferente da atual. Naquela época, não havia indícios de que o comunismo entraria em colapso repentinamente dentro de alguns anos ou que a Guerra do Golfo era iminente. A ascensão dos países recentemente industrializados do Extremo Oriente ainda era modesta, e os fenômenos culturais do pós-modernismo e da Nova Era ainda não tinham sido amplamente observados. Havia pouca referência à possibilidade de mudanças climáticas globais aceleradas ou à autoestrada elétrica e a realidade virtual. Então, por que reimprimir um livro sobre a sociedade atual que foi escrito naquela época – exceto pelo seu interesse histórico atual? O cerne da minha resposta a essa pergunta é que, até certo ponto, o livro apareceu prematuramente. Em 1978, ainda estávamos presos no clima da Guerra Fria com sua controvérsia ideológica entre comunismo e capitalismo. Claramente, cada um desses sistemas de organização da sociedade baseava-se nos seus próprios pressupostos culturais e religiosos. Mas poucos anos depois da queda do Muro de Berlim, o debate se voltou para a nova situação com a qual o mundo então se confrontava. Essa nova situação poderia ser descrita como um mundo sem ideologias (Daniel Bell) ou como o fim da história [e] de todas as ideologias (Francis Fukuyama)? Parecia que a chamada economia “mista” ou “economia social de mercado” combinada com uma estrutura política parlamentar democrática havia se tornado a única estrutura restante, efetiva e amplamente aceita da sociedade moderna – sem alternativas à vista. E assim, visões como as de François Lyotard, que ensinam que todas as grandes narrativas, as metanarrativas, da civilização ocidental terminaram para sempre e transformaram suas promessas de paraíso numa falência real, foram amplamente aplaudidas. Parecia que um novo tipo de neutralidade havia nascido. No entanto, os problemas não terminaram. Pelo contrário, aumentaram em número e em complexidade, às vezes paradoxalmente – o aumento da pobreza em meio à abundância, a erosão do cuidado pela humanidade e pela natureza enquanto havia mais dinheiro disponível do que nunca, o aumento do desemprego ao mesmo tempo em que se observa um rápido aumento da força de trabalho humana e a escassez no local e na hora exatos em que esperávamos a abundância. Esses problemas não foram resolvidos ou satisfeitos pela simples declaração de que as antigas ideologias tinham terminado. Em vez disso, esses problemas aumentaram com uma resistência interna que desafiava as soluções convencionalmente usadas para curá-los – como insetos que se tornaram imunes aos inseticidas usados contra eles. Ficou claro que havia algo mais, que a maioria desses problemas emerge a partir de raízes profundas que se encontram dentro da estrutura e da cultura da nossa sociedade (pós)moderna. É por isso que, na nossa época, há um verdadeiro retorno do debate sobre se as raízes da nossa sociedade ocidental moderna têm sido o terreno fértil para os nossos atuais e insuperáveis problemas sociais e econômicos. Não é mais possível argumentar que esses problemas estão relacionados apenas a políticas equivocadas e que uma mudança na organização da sociedade trará uma solução. É notável que alguns filósofos pós-modernos concordem amplamente com essa conclusão, mas se recusem a encontrar qualquer elemento de esperança de que haja uma possível saída para essa situação. Um pensador pós-moderno como Jean Baudrillard, por exemplo, explica os problemas atuais apenas em termos do mundo dos objetos que assumiram a liderança no desenvolvimento contemporâneo. “As coisas”, escreve ele na primeira frase do seu livro As Estratégias Fatais, “têm tido sucesso em sair da influência dos significados e opiniões humanos subjetivos que as importunavam e agora se estendem rumo à infinitude, a um futuro desconhecido.”* É uma tese que parece tão interessante quanto alarmante, mas também superficial. Isso porque, se ela é verdadeira, como o mundo dos objetos (tecnológico, científico, econômico) chegou a ocupar um lugar tão dominante na nossa sociedade? Esse lugar não lhes teria sido dado pela nossa cultura ocidental? E, se esse for o caso, esse modo de pensar pós- moderno não é expressão de um abandono prematuro da responsabilidade, uma retirada deliberada por parte dos próprios sujeitos? O principal interesse deste livro são as muitas e diversas dimensões culturais e estruturais que se encontram por trás dos nossos problemas sociais atuais.Ele afirma que nem a estrutura nem a cultura da sociedade podem se sustentar independentemente, mas têm raízes religiosas. Ambas são sempre, de um modo ou de outro, a expressão de uma compreensão particular do significado, que pode ter duas origens: ou ela é autorreferente, o que leva à ideologia, ou tem sua origem na Revelação. Portanto, em minha opinião é até mesmo perigoso excluir de modo simultâneo e sistemático os elementos da fé e da ideologia como componentes profundos e efetivos da nossa atual sociedade. E é aí que começa a busca deste livro, e é por isso que ele continua sendo relevante. Ele não é mais nem menos do que a continuação de uma busca pelas dimensões reveladas e ocultadas da fé da sociedade ocidental. Além disso, ele baseia-se na afirmação de que toda sociedade é mais do que um corpo, um quadro organizacional. Cada sociedade também tem uma alma, um espírito que permeia o todo e que é capaz de conduzir o corpo ao abismo ou a formas de cura. Permitam-me concluir encorajando especialmente os cristãos de hoje que permanecem conscientes da dimensão espiritual da nossa sociedade (pós) moderna. Em primeiro lugar, porque sem essa consciência há o grande perigo de que possamos sucumbir facilmente a um tipo de fé ou espiritualidade estranha e oposta à espiritualidade da Palavra viva de Deus. Em segundo lugar, porque sem essa visão e esse conhecimento, podemos facilmente deixar de encontrar e defender a verdadeira esperança para um mundo tenebroso. * Disponível em: http://www.allofliferedeemed.co.uk/Goudzwaard/BG69.pdf. Acessado em 21 fev. 2014.↩ * BAUDRILLARD, Jean. As estratégias fatais. Rio de Janeiro: Rocco, 1996.↩ PREFÁCIO À EDIÇÃO BRASILEIRA HÁ CERCA de quatorze ou quinze anos começamos a conversar seriamente, em nosso pequeno círculo kuyperiano-belorizontino, sobre a necessidade de disponibilizar o clássico Capitalismo e Progresso, de Bob Goudzwaard, em língua portuguesa. Em nossas acaloradas discussões sobre economia política e as possíveis leituras cristãs da história econômica moderna, a questão era premente. Haveria uma abordagem distintamente cristã para a economia? Haveria uma alternativa sólida à adaptação da economia política marxiana realizada pela teologia da libertação e frequentemente copiada por evangélicos latino- americanos? A oportunidade de encontrar o doutor Goudzwaard pessoalmente ocorreu em 2007, no evento de aposentadoria de Egbert Schuurman, em Wageningen, e, depois, numa visita sua ao L’Abri Holanda – o que ele fazia desde os tempos de Rookmaaker. Lá, ele dissertava sobre como a vida é colorida como um arco-íris, como a luz com suas frequências, e que o reducionismo rouba as cores da existência! Mas foi outro encontro com Goudzwaard, dessa vez na Conferência da Associação para a Filosofia Reformacional em 2012, na Vrije, que forneceu o estímulo que faltava ao colega Leonardo Ramos para iniciar o trabalho de tradução, feito com perseverança em meio às obrigações acadêmicas. E, assim, temos mais um clássico da tradição reformacional em língua portuguesa. Apesar da diversidade nas opiniões políticas de nosso grupo, o ponto de convergência era a tradição holandesa de filosofia cristã inspirada pelo teólogo e estadista Abraham Kuyper e efetivamente fundada por Herman Dooyeweerd e Dirk Vollenhoven no segundo quartel do século 20. Essa forma de filosofia, eventualmente denominada “Wetsidee”, ou "filosofia da ideia cosmonômicá, procura empreender uma reforma radical do pensamento teórico a partir da descoberta do coração como o centro da existência e do pensamento, e do impacto da fundamental orientação religiosa da alma em direção ao absoluto sobre o modo como a realidade é experimentada e interpretada. Afinal, se todo pensamento nasce no coração, não seria aquilo que amamos a verdadeira chave do conhecimento? A revolução filosófica cosmonômica levou a um largo movimento de “reforma interna do pensamento teórico”, com intelectuais de vários campos desenvolvendo aplicações criativas desse novíssimo “Órganon” (ou instrumento) desenvolvido por Dooyeweerd – um Órganon bíblico e cristão para o diálogo crítico com a mente secular e as várias ciências. Assim, surgiram ao longo dos anos contribuições criativas para diferentes campos, como a física, a psicologia, a filosofia da tecnologia, a história, as ciências sociais, o direito, entre outras. A teoria econômica, naturalmente, não poderia ficar de fora. Bob Goudzwaard foi pioneiro na aplicação da heurística filosófica reformacional ao campo da economia, não apenas submetendo as teorias dominantes a uma crítica cristã, mas também oferecendo em seus livros e artigos interpretações originais da formação econômica do Ocidente e de conceitos fundamentais da ciência econômica, como a natureza do “econômico”, “escassez”, “utilidade”, “preço”, entre outros. Em Capitalismo e Progresso, o doutor Goudzwaard expõe o ideal moderno de progresso, dominante na cultura ocidental e ponto de convergência e simbiose entre capitalistas e socialistas, e submete-o a uma crítica detalhada. Mostra como ele se constituiu a partir da destruição de barreiras espirituais e religiosas medievais e da ascensão do mesmo dualismo moderno de natureza e liberdade descrito antes por Herman Dooyeweerd. Goudzwaard classifica esse ideal de progresso como uma forma de idolatria que legitima a confiança e a subserviência sem questionamento da sociedade às forças do avanço tecnológico e do crescimento econômico. E no “túnel” histórico construído para veicular a fé no progresso, o conjunto da vida humana é escravizado e espremido, dentro de uma lógica utilitarista. Além de discutir a formação histórica da doutrina do progresso, o autor apresenta a vulnerabilidade e as contradições dessa ideologia, ressaltando seu impacto no trabalho, nos esportes, na sexualidade, no tempo, e classifica essa ideologia como um processo genuinamente irracional e contraditório e perigoso para o Ocidente. Depois de discutir as várias respostas ao capitalismo, Goudzwaard enfim introduz sua própria resposta: uma revisitação das barreiras derrubadas e a promoção de economias normativas, capazes de reconhecer a integrali-dade das normas divinas para a vida, como as da mordomia, da tecnologia, da moralidade e da justiça; economias livres de fins terrenos absolutos e idolátricos que forcem a sociedade a um túnel de progresso; economias que respeitem o processo de abertura e enriquecimento cultural livre, sem ídolos nem planejamento central. Sua posição, em síntese, favorece o livre mercado, mas redefine a natureza do verdadeiro desenvolvimento em termos holísticos e teocêntricos. A obra de Goudzwaard vem preencher uma notória lacuna na literatura cristã brasileira sobre a interação entre fé e pensamento econômico, enriquecendo de modo substancial a série "Ciência e Fé Cristã, publicada pelo consórcio entre a ABC2 e a Editora Ultimato. Considerando o peso ideológico da economia política na formação universitária dos brasileiros, ela se provará uma obra indispensável e essencial para o diálogo entre fé e humanidades em nosso país. GUILHERME DE CARVALHO INTRODUÇÃO UMA AFIRMAÇÃO DO PROBLEMA DOIS NÍVEIS PROFUNDOS Quando tentamos descobrir as causas do acúmulo dos problemas dos dias de hoje na sociedade ocidental e tentamos estabelecer como esses problemas são mutuamente interdependentes, logo percebemos que em ampla medida eles estão relacionados às estruturações sociais. Com frequência eles estão completamente entrelaçados com a estrutura ou a arquitetura da sociedade ocidental como um todo. Os problemas da inflação e do desemprego facilmente ilustram isso. Evidentemente, esses problemas também estão presentes nas sociedades não ocidentais, mas no nosso contexto o caráter específico deles é definitivamente vinculado ao sistema econômico no qual vivemos, isto é, com a maneira pela qual organizamos nossa vida socioeconômica. Essa interdependência também se faz presente – embora de modo menos marcante – entre o sistema econômico e os problemas atuais por um lado, ea oferta de recursos minerais e o controle ambiental por outro. Finalmente, muitos problemas emocionais e socioculturais não podem ser divorciados do modo específico em que organizamos as relações de produção, emprego e consumo. Nesse ponto encontramos um nível profundo que subjaz aos problemas que nos ocupam de maneira tão intensa nos dias de hoje. Não há nada de novo em relacionar uma multiplicidade de problemas a uma estrutura comum, subjacente. De fato, essa relação tem levado à concepção amplamente apoiada de que a causa real dos nossos problemas encontra-se na estrutura equivocada da nossa sociedade, e que nesse sentido a maioria desses males seria rapidamente eliminada se nós simplesmente tivéssemos a coragem de substituir a atual estrutura da sociedade por uma melhor. Estamos tão acostumados a esse tipo de argumento que geralmente não notamos a fraqueza inerente na sua lógica. Em primeiro lugar, esse argumento aparentemente assume que a estrutura da sociedade não apenas veio à existência à parte de nós, mas que continua a existir fora de nós, como uma entidade objetiva. Isso é realmente verdadeiro? Não é a estrutura da sociedade, pelo menos em parte, uma expressão das nossas intenções mais profundas – uma expressão da cultura que ajudamos a moldar? O óbvio relacionamento entre nossos problemas e um sistema social aparentemente distorcido não garante necessariamente a conclusão de que esse sistema em si é a causa mais profunda dos males. Esse argumento apenas se apega a uma espécie de “teoria do bode expiatório” na qual primeiro separamos o sistema econômico da nossa vida como um fator independente e, depois, atribuímos a culpa pelas dificuldades que nos cercam a esse fator; e, finalmente, nos iludimos na crença de que ficaremos completamente livres de punição ao enviarmos o “bode expiatório” para o deserto! É imperativo apontar as sérias deficiências no nosso sistema econômico, mas é perigoso, e errado, concluir que o sistema em si está errado enquanto nós – os agentes humanos que operam nesse sistema – estamos isentos de culpa. Escolher a estrutura da sociedade ocidental como o verdadeiro culpado é um equívoco também por outras razões. Deve-se destacar que o acúmulo de problemas que temos discutido também se faz presente na estrutura social de países que se encontram do outro lado da cortina de ferro. Em conexão com o rápido aumento na produção nos sistemas econômicos comunistas, surgem problemas relacionados à ecologia e à oferta de energia e matérias-primas; também encontramos tensões emocionais semelhantes como resultado da solidão e da alienação. Em outras palavras, uma vez que descobrimos uma gama de problemas paralelos em sociedades com estruturas claramente diferentes, podemos facilmente constatar que, a despeito do quão interconectados esses problemas estejam com as estruturas sociais, esta não pode ser o único e decisivo fator que leva à emergência deles. A conclusão é evidente por si mesma: na nossa reflexão temos de penetrar num segundo nível, mais fundamental e profundo, subjacente às estruturas das sociedades – um nível mais profundo que codetermina e molda essas estruturas. Esse segundo nível profundo só pode consistir nos motivos religiosos centrais que fundamentalmente direcionam uma cultura e sua sociedade. Esses motivos podem ser descritos como religiosos porque incluem a esperança no futuro, a fé em Deus ou no homem, e o amor por si ou pelos outros. Desse nível profundo temos constantemente recebido, e ainda hoje recebemos, o impulso para pensar, viver, trabalhar e, desse modo, contribuir para a construção e reconstrução contínua do gigantesco recife de coral chamado sociedade ocidental. O PAPEL DA FÉ NO PROGRESSO Pelo estabelecimento de uma relação entre os motivos religiosos centrais da cultura ocidental por um lado, e a ordem social ocidental por outro, tocamos num tema que causou tantos problemas no passado que é quase impossível discuti-lo novamente de uma maneira significativa. A relação entre religião e ordem social é um dos problemas mais difíceis na sociologia da cultura, particularmente desde 1904-1905 quando Max Weber publicou seu famoso ensaio sobre a ligação entre calvinismo e capitalismo.¹ Discussões subsequentes têm mostrado o quanto é perigoso generalizar no que diz respeito à relação entre essas estruturas sociais. E é isso particularmente assim desde que essa questão tem sido incessantemente alvo de veementes ataques por parte de historiadores e sociólogos marxistas e neomarxistas que rejeitam, de maneira absoluta, a ideia de que impulsos religiosos poderiam codeterminar a natureza e a constelação das estruturas sociais. No marxismo, a infraestrutura socioeconômica determina a superestrutura cultural e religiosa – e não o contrário. Não obstante, não devemos nos deixar desencorajar por isso. De fato, ainda está por ser provado se é realmente necessário reconsiderar esse debate. É bem possível que hoje em dia, nos países ocidentais, estejamos sendo confrontados com problemas que, em sua essência, resultam de impulsos culturais e religiosos – assumindo que esses impulsos existem – diferentes daqueles que ainda podem ser atribuídos à “ética puritana calvinista” dos séculos 16 e 17. Com base nesse breve pano de fundo, reconheço que neste livro foi feita uma escolha consciente, embora levemente arriscada. Em vez de empreender uma busca impossível pelas exatas influências que cada uma das principais correntes espirituais – humanismo, catolicismo e Reforma – tem, de várias maneiras, exercido na estrutura da sociedade ocidental, neste estudo uma corrente distinta ou motif é trazido à tona. Esse motif talvez forneça a base mais plausível para explicar o surgimento e o desenvolvimento do capitalismo moderno até o presente, incluindo os problemas contemporâneos gerados pelo próprio capitalismo. Esse motif é a ideia de progresso humano. Bem recentemente na história da cultura ocidental – ou seja, no século 18 – essa ideia foi totalmente desenvolvida como uma fé no progresso. Antes disso, contudo, ela passou por um longo período de incubação ou preparação – do período de um escolasticismo que se prolongava e o início da Renascença até o período do Iluminismo. Durante esse período de preparação, cada movimento espiritual na cultura ocidental, mas notadamente o humanismo, influenciou a ideia de progresso humano. Portanto, devemos ser capazes de detectar nesse motif de progresso humano a rivalidade entre os impulsos espirituais que têm exercido impacto na cultura ocidental. As seguintes motivações podem ser apresentadas para justificar essa escolha. Em primeiro lugar, não pode ser negado que o tema do progresso humano nunca esteve completamente ausente da cultura ocidental, e que floresceu particularmente durante o Iluminismo, pouco antes da Revolução Industrial. Não é totalmente improvável que foram precisamente os impulsos da era do Iluminismo que tiveram um efeito modelador distinto no padrão da sociedade ocidental moderna. Em segundo lugar, é intrigante observar que esse motif do progresso de fato tenha com frequência se apresentado como uma fé, e como um resultado que muitas vezes tem sido descrito em termos das dinâmicas inspiradoras de uma fé autêntica.² Nesse contexto, evidentemente a palavra fé não se refere à adesão formal a uma confissão religiosa/eclesiástica precisa. Mais propriamente, refere- se às visões abrangentes que direcionam as pessoas em tudo o que sentem, pensam e fazem. Na medida em que uma opinião ou convicção se torna uma questão de fé nesse sentido, sua influência irá inescapavelmente ser observada na arquitetura da sociedade. Em terceiro lugar, chama a atenção o fato de que os problemas mutuamente entrelaçados sobre os quais falávamos anteriormente também estão, de um modo ou de outro, relacionados ao progresso tecnicamente e economicamente orientado do Ocidente. Isso é verdadeiro não apenas quanto aos problemas ambientais e de escassez de recursos, mas também quanto ao caráter peculiar da inflação e do desemprego.Além disso, a alienação e a solidão também estão estreitamente conectadas com o progresso técnico e econômico. Sem dúvida, o mesmo é verdadeiro quanto ao que Alvin Toffler descreve como “choque do futuro”³ – a falta de habilidade emocional para lidar com mudanças rápidas no mundo moderno. Além disso, o tema do progresso tem sido uma ocasião oportuna para que vários intérpretes da nossa cultura nutrissem noções de fatalismo e sentimentos de profunda impotência.⁴ Em quarto lugar, não é acidental que a palavra progresso tenha servido a uma série de escritores na descrição que fazem da essência do capitalismo. A descrição mais sucinta do capitalismo talvez tenha sido feita por Joseph Schumpeter, que o definiu como “uma forma ou um método de mudança econômica”.⁵ A mudança que ele tem em mente é principalmente aquela concernente ao progresso econômico e tecnológico. De acordo com Schumpeter, o capitalismo iria à ruína não porque foi malsucedido, mas por causa do seu sucesso técnico e econômico. Revisando todas essas questões, certamente podemos concluir que será recompensador investigar as seguintes questões: (a) se a ordem social ocidental tem de fato sofrido influências distintas da fé ocidental no progresso; (b) se essas influências continuam a ocorrer no surgimento dos desafios contemporâneos à sociedade ocidental. Em nossa reflexão a respeito dessas questões, o leitor deve ter em mente que este livro não tem por objetivo ser um tratamento de toda a relação entre a cultura e a estruturação social da civilização ocidental. Isso seria um empreendimento ambicioso demais e dificilmente proveitoso. O tema deste livro foi de modo consciente tornado mais específico. Ele diz respeito à possível conexão entre um motif cultural dominante na sociedade ocidental – a busca do progresso e a fé no progresso – e um componente crucial da estrutura da sociedade ocidental – o capitalismo. Sem dúvida essa é uma limitação considerável. Em primeiro lugar, deve ser reconhecido que há muitos outros fatores determinantes na nossa cultura, incluindo aqueles que afetam a estrutura da sociedade, além do desejo pelo progresso apenas. Isso é certamente verdadeiro se o progresso for adicionalmente especificado como o avanço da humanidade em compreender, dominar e desenvolver a natureza que a cerca. Em segundo lugar, a estrutura da nossa sociedade consiste de uma constelação de componentes que certamente não podem ser simplesmente colocados conjuntamente sob o rótulo “capitalismo”. Por exemplo, tentativas de explicar a ordem legal e a democracia ocidentais como produtos da busca pelo lucro não apenas causam uma impressão artificial e forçada, mas também são absolutamente equivocadas e perigosas. Portanto, uma investigação a respeito da relação entre a cultura ocidental e a estrutura social nos termos dos conceitos capitalismo e progresso é algo que tem claras limitações. Contudo, isso não a torna sem sentido; em todo caso, o oposto é verdadeiro. Isso é claramente evidente, por exemplo, a partir do fato de que a busca pelo progresso tem sido a “companhia cultural” constante da sociedade ocidental desde que esta foi submetida a um programa de reconstrução radical a partir da época da Revolução Industrial. E o capitalismo em si não é, por natureza, orientado para o progresso? O capitalismo é um modo de organização social que é direcionada especificamente para o crescimento e a mudança. Com essa orientação específica em direção ao progresso, o capitalismo parece ser hoje em dia um elemento reconhecível e essencial da nossa estruturação social. O OBJETIVO DESTE LIVRO Se é verdadeiro que o motif do progresso desempenhou um papel decisivo no desenvolvimento da sociedade capitalista moderna, então devemos ser capazes de traçar isso na história do Ocidente. Isso é o que pretendo fazer na Parte Um. Irei começar perguntando sobre quais barreiras sucessivas tiveram de ser quebradas antes que o capitalismo moderno pudesse de fato se estabelecer na cultura ocidental. Se minha suposição estiver correta, então descobriremos que, nessa queda das barreiras, o motif do progresso emergiu como um fator decisivo. Na Parte Dois irei lidar com o desenvolvimento interno do capitalismo moderno da época da Revolução Industrial até o presente. Nesse ponto novamente buscarei estabelecer uma relação entre esse desenvolvimento e o motif do progresso. Na Parte Três irei tentar demonstrar que a análise feita nas duas primeiras partes pode esclarecer nosso entendimento a respeito da origem dos problemas que estão se acumulando na nossa época. Isso deverá colocar o desafio atual da cultura ocidental a uma luz correta. Nesse ponto irei discutir a questão da ideia de progresso em si, em que medida ela está envolvida na atual crise da nossa cultura e, além disso, se esse envolvimento seria talvez uma das causas do recente acúmulo de problemas. Finalmente, na Parte Quatro nossa atenção será primeiramente focada nas várias soluções divergentes à crise que emerge na nossa sociedade. Feito isso, irei esboçar aquele que seria o esqueleto da minha própria alternativa. Isso será introduzido sob o título de a abertura da sociedade. UMA NOTA AOS ESPECIALISTAS Este livro não é direcionado especificamente a economistas ou especialistas de áreas afins. Não obstante, ao final desta Introdução gostaria de me dirigir a eles de maneira breve, em particular no que diz respeito a uma questão importante na teoria econômica. Na discussão até este ponto, tenho assumido de modo implícito uma posição relacionada à subdisciplina na Economia chamada teoria dos sistemas econômicos. Além disso, minha posição diverge em certos aspectos das abordagens comumente aceitas. Em linhas gerais, podem-se distinguir duas direções principais na teoria dos sistemas econômicos. A primeira direção, influenciada especialmente pelo marxismo, é determinista. Ela vê o sistema econômico como um objeto de determinada evolução no tempo, cujos principais contornos são, portanto, sujeitos à predição. Nessa evolução, o desenvolvimento da técnica de produção coloca uma marca decisiva nos sistemas econômicos como os padrões de sociedade; e num dado momento esse desenvolvimento causa a transição de um sistema anterior – por exemplo, o sistema capitalista –, mediante um salto qualitativo para um novo sistema econômico – por exemplo, o socialista. Parcialmente em reação a essa concepção determinista, foi desenvolvida uma teoria mais voluntarista que, em princípio, enfatiza a livre escolha de um sistema econômico como um sistema organizacional e administrativo da sociedade. A diferença, por exemplo, entre uma economia planejada e uma economia de mercado deriva dessa teoria voluntarista. Assim, se os padrões comportamentais dos sujeitos econômicos numa economia nacional devem ser coordenados, então o sistema de coordenação tem de ser o mercado ou o planejamento, ou uma mistura de ambos. Nessa concepção, o sistema econômico é visto em primeiro lugar como um sistema voluntariamente escolhido no qual uma economia nacional é administrada ou organizada. A maioria dos livros-texto na área de sistemas econômicos apresenta posições levemente diferentes dentro da estrutura voluntarista. Ambas as concepções dos sistemas econômicos apresentam nítidas deficiências. Por um lado, a abordagem determinista exagera, uma vez que interpreta um sistema econômico como uma força cega, impessoal, que segue seu próprio caminho, absolutamente soberano, pela história. Por outro lado, a interpretação voluntarista é limitada, uma vez que tende a uma abordagem muito estática e atemporal ao problema ao reduzir um sistema econômico a um mero sistema técnico de organização. Em reação a essas duas interpretações, sou atraído por uma terceira alternativa, segundo a qual os sistemas econômicos e o desenvolvimento deles são abordados especialmente a partir do conjunto da cultura social da qual eles se originam e dos quais eles são, no mínimo, parcialmente uma expressão. Um exemplo pode ilustrar o que tenho em mente. A abordagem deterministainterpreta a economia japonesa como capitalista, enquanto a abordagem voluntarista a interpreta como uma economia de mercado. Mas uma dessas interpretações toca na essência do sistema econômico japonês? De fato, não! A economia japonesa apresenta várias peculiaridades, variando do emprego vitalício à prática do dumping, o que só pode ser explicado nos termos de uma cultura japonesa única que põe a sua marca em quase todas as relações e instituições econômicas naquele país. Outro exemplo ilustra o mesmo ponto. Em teoria, tanto a economia chinesa quanto a economia soviética pertencem às economias socialistas ou planejadas, mas na realidade elas diferem radicalmente. Nessas diferenças pode-se claramente detectar influências culturais diversas. Assim, pode-se corretamente perguntar se a economia comunista da China não é, pelo menos em parte, um reflexo direto da própria cultura chinesa. Por essa razão, ela simplesmente não se encaixa na categoria que descreve o sistema russo. À essa luz, faz sentido abordar a origem e o desenvolvimento do sistema econômico ocidental no contexto da cultura ocidental e das suas forças motrizes centrais. Reconheço prontamente que minha insatisfação com as atuais abordagens não culturais na teoria dos sistemas econômicos motivou-me a escrever este livro. Um último comentário, novamente voltado primeiramente para os especialistas, ainda se faz necessário. Ele diz respeito ao meu uso do termo capitalismo. Eu o emprego para descrever os principais aspectos da estrutura da sociedade ocidental. Eu poderia ter escolhido outro termo para descrever essa estrutura, mas uma vez que cada termo descritivo essencial está carregado de significados não intencionados, um pouco de arbitrariedade na escolha dificilmente pode ser evitado. Contudo, o leitor deve ter em mente que não emprego o termo capitalismo no seu sentido marxista clássico com seus conceitos adjacentes de proletariado, exploração, classes, luta de classes, etc. Além do mais, ao usar esse termo não pretendo dar a impressão de que toda a estrutura da sociedade ocidental pode ser plenamente descrita por ele, como se essa estrutura fosse um sistema holístico que não mais permita a liberdade pessoal ou o redirecionamento institucional em qualquer sentido. Isso também implica que minha interpretação do capitalismo e do comunismo como contrapartes dialéticas no curso do humanismo não deve ser vista como um nivelamento de diferenças qualitativas importantes existentes nas sociedades comunistas e não comunistas. No entanto, essas qualificações não devem de maneira alguma nos impedir de um diagnóstico pleno da crise presente no nosso mundo ocidental. Este livro busca ser uma pequena contribuição para esse fim. WEBER, Max. A ética protestante e o espírito do capitalismo. 10. ed. São Paulo: Pioneira, 1996.↩ Cf. os títulos dos bem conhecidos estudos de DAWSON, Christopher. Progress and religion: A historical inquiry. Londres: Sheed & Ward, 1929 e BAILIE, John. The belief in progress. Londres: Oxford University Press, 1950.↩ TOFFLER, Alvin. Future shock. Nova York: Randomhouse, 1970.↩ Cf., por exemplo, a expressão de Karl Löwith “o destino do progresso”. LÖWITH, Karl. Nature, history and existentialism and other essays in the philosophy of history. Evanston: Northwestern University Press, 1966 – capítulo 9: “Fate of progress”. p. 145-161.↩ SCHUMPETER, Joseph A. Capitalism, socialism, and democracy. Nova York / Londres: Harper and Brothers, 1942. p. 82.↩ Cf., por exemplo, GROSSMAN, Gregory. Economic systems. Englewood Cliffs: Prentice-Hall, 1967; HALM, George N. Economic systems: A comparative analysis. Nova York: Holt, Rinehart and Winston, 1960; LOUCKS, William N. Comparative economic systems. Nova York: Harper & Row, 1965; e PRYBYLA, Jan S. Comparative economic systems. Nova York: Appleton- Century-Crofts, 1969. Talvez esses títulos reflitam uma falta de originalidade.↩ PARTE 1 A DESTRUIÇÃO DAS BARREIRAS AO PROGRESSO 1 A ORDEM SOCIAL COMO UMA EXPRESSÃO DA CULTURA PELOS EVANGELHOS sabemos que qualquer fé, não importa o quanto ela seja pequena, contém em si o poder para mover montanhas. Não há razão para pensar que a fé ocidental no progresso não teria esse poder. Se de fato a noção de progresso se transformou numa fé verdadeira, então seguramente podemos supor que ela tem o poder para mudar o mundo e até mesmo para mover a sólida montanha da ordem social ocidental. Essa fé realmente desenvolveu esse poder? Essa é a pergunta a que devemos responder. Ao comparar a estrutura da sociedade no período da Revolução Industrial com a estrutura dela no período da Idade Média pode-se rapidamente detectar uma série de contrastes. Mas como iremos determinar se essa mudança nas estruturas sociais deve ser atribuída de modo mais amplo à fé no progresso? Por que ela não poderia ser simplesmente o resultado de um desenvolvimento das necessidades históricas, tal como uma mudança interna nas técnicas de produção humana? Não seria o avanço da ciência e da tecnologia o verdadeiro motor por trás de praticamente todas as mudanças sociais no Ocidente? NÃO HÁ TECNOLOGIA AUTÔNOMA Vários argumentos podem ser apresentados contra essa interpretação tão simplista. Em primeiro lugar, uma mudança nas técnicas de produção de- finitivamente não surge do nada. Certo solo espiritual fértil é necessário para essa mudança. Definitivamente, na Idade Média não havia o contexto para uma drástica mudança na tecnologia. É claro que, mesmo nesse caso, havia exceções. Podemos ilustrar isso com o conselho “científico” do monge franciscano Roger Bacon às autoridades eclesiásticas para seus empreendimentos missionários, ou seja, para equiparem os cruzados com refletores que os capacitariam, de certa distância, a queimar vivos os muçulmanos que ocupavam a Terra Sagrada.¹ Outra ilustração de mudança tecnológica é a interessante e incrível história do monge beneditino Eilmer, que em 1010 construiu um planador com o qual saltou da torre da Abadia de Malmesbury na Inglaterra. Depois de um voo de mais de 200 metros ele colidiu com o solo e quebrou ambas as pernas. Como explicação para esse percalço, ele destacou o fato de ter se esquecido de colocar uma cauda na parte traseira da sua máquina – “caudam in posteriore parte”.² Além disso, é de conhecimento geral que durante a Idade Média mudanças significativas ocorreram nos métodos de produção agrícola.³ Contudo, esses incidentes são exceções mais propriamente do que a regra. De fato, na Idade Média encontramos certa apreensão com relação à mudança tecnológica, especialmente se ela pudesse afetar substancialmente a ordem social e suas inerentes relações sociais de poder. De acordo com Heilbroner,⁴ já em 1623, uma patente revolucionária para uma máquina de tecer meias foi recusada na Inglaterra, e o Conselho Privado exigiu a destruição dessa máquina perigosa. Contudo, uma máquina semelhante seria entusiasticamente saudada dois séculos depois, durante a primeira fase da Revolução Industrial. A história também relata que numa cidade francesa, numa única ocasião no início do século 17, 77 pessoas foram sentenciadas à pena de morte por enforcamento, 58 à pena de morte na roda e 631 condenadas a servir nas galeras devido ao perverso crime de comercializar algodão estampado.⁵ Mas também na França essa atitude com relação ao avanço da tecnologia mudou drasticamente em poucos séculos. Em 1783, por exemplo, metade da população de Paris saiu às ruas para assistir ao primeiro voo de balão de Montgolfier, e as pessoas se abraçaram entusiasticamente enquanto choravam de alegria por essa nova alvorada para a humanidade. Esses contrastes indicam que as mudanças tecnológicas necessitam dos seus próprios solos férteis e contextos para emergirem. Podemos rapidamente apontar para exemplos paralelos. Consideramos Colombo como sendo o descobridor do continente americano, embora antes dele vários outros, como os Vikings, já tivessem feitos viagens para o continente americano. Contudo, Colombo ganhou a reputação de ter sido overdadeiro descobridor porque sua geração viu suas jornadas de uma perspectiva inteiramente nova, ou seja, a da aspiração renascentista de conquistar o mundo. Naturalmente isso não deveria nos levar a adotar o ponto de visto oposto, no sentido de que apenas os fatores culturais foram determinantes para o surgimento da sociedade capitalista. Deve ser honestamente reconhecido que o advento do capitalismo moderno foi também o resultado de uma série de desenvolvimentos e circunstâncias práticas, tais como o surgimento do Estado-nação, a extensão do alcance geográfico (viagens de descoberta, estabelecimento de colônias), o gradual crescimento das cidades e dos ofícios, a crescente mudança dos pagamentos em espécie para as transações monetárias e, não menos importante, os avanços nas ciências naturais por meio dos quais novos produtos e técnicas se tornaram possíveis. Certamente não devemos negar uma influência direta do desenvolvimento das técnicas de produção na formação da nossa sociedade. A estrutura da sociedade claramente difere, em proporção, da complexidade e sofisticação da tecnologia da produção. Por exemplo, a estruturação de uma sociedade que acompanha um sistema de produção baseado no trabalho manual será diferente daquela que acompanha um sistema baseado na energia atômica. Uma vez que o desenvolvimento na tecnologia da produção tenha chegado a um determinado patamar, no decorrer do tempo ele pode muito bem começar a apresentar aspectos independentes. Nesse sentido, o desenvolvimento tecnológico pode rebelar-se contra os valores e visões existentes numa cultura. (Essa afirmação será ilustrada adicionalmente no restante do livro, especialmente nas Partes Três e Quatro.) Porém, a despeito do quanto tudo isso seja verdadeiro, nenhuma ordem social pode ser estabelecida ou mantida a menos que haja uma matriz cultural na qual ela possa prosperar. Isso também parece ser verdadeiro com relação ao surgimento do capitalismo moderno. A ordem social que precedeu o capitalismo (sociedade medieval) não era apenas uma dentre várias. Tratava-se de uma estrutura social com uma base espiritual única e com uma matriz cultural específica. Não pode ser negado que o capitalismo como uma nova ordem social poderia tomar sua forma final apenas mediante uma demolição desse complexo composto de religião, cultura e estrutura. Portanto, o surgimento do capitalismo moderno na sociedade ocidental é de fato muito mais do que a aplicação de um tipo de método ou organização um tanto diferente na vida socioeconômica, ou do que a transição para um novo sistema de gerenciamento social. Ao mesmo tempo, é um irrevogável abandono das bases espirituais e culturais subjacentes à sociedade medieval. Num sentido importante, a escolha em favor da ordem capitalista da sociedade foi uma escolha cultural, que tinha significado para o mundo como um todo. Mas o que, na matriz, no terreno fértil da sociedade medieval, tanto cultural quanto espiritualmente, colocava obstáculos para a ascensão da estrutura capitalista de sociedade? Essa é a pergunta a que devemos responder em primeiro lugar. O TERRENO FÉRTIL DA SOCIEDADE MEDIEVAL Há uma segunda razão pela qual a transição da sociedade medieval para uma sociedade capitalista moderna não pode ser vista meramente como um processo de necessidade tecnológica histórica. Isso diz respeito à base espiritual sobre a qual a sociedade medieval foi fundada e que, enquanto prevaleceu, formou uma barreira essencial à emergência de novas estruturas sociais. Uma das muitas expressões da sociedade medieval pode ser encontrada nas catedrais góticas que foram construídas em toda a Europa medieval. Essas catedrais podem ser vistas como uma imagem em espelho da sociedade da qual elas nasceram. Assim como a catedral gótica, a sociedade medieval era verticalmente estruturada. Todos os seus aspectos e elementos eram ordenados e relacionados de um modo que ascendiam do reino da natureza para o que unicamente poderia, em última instância, dar significado à existência na Terra – o reino da graça. Numa catedral medieval, o altar é localizado na cabeça ou na intersecção de um plano cruciforme. Ali os sacramentos são servidos para a bênção e santificação de toda a congregação. Quem quer que entre pelo portal do juízo no pé do plano cruciforme pode imediatamente observar o sinal da sua própria libertação e redenção a distância, iluminado pela luz celestial filtrada pelos vitrais. Ao longo dos corredores laterais da nave da catedral com frequência vemos janelas e capelas de oração representando as várias guildas medievais. Estas também, com uma hierarquia social própria, pertencem à totalidade da congregação que é construída no “fundamento dos apóstolos e profetas”,⁷ que por essa razão são conjuntamente representados pela fileira mais baixa de esculturas na catedral gótica.⁸ Na sua arquitetura, a catedral medieval proclama que a vida natural do homem não é santa e perfeita em si, mas necessita constantemente da mediação sacramental oferecida pela santa mãe igreja que pode elevar o homem natural perante o trono do Deus vivo nos céus. A transubstanciação, a crença na transformação real do pão e do vinho no corpo e no sangue de Cristo durante a missa encaixa-se perfeitamente nessa imagem. Nossa carne e nosso sangue não podem herdar o reino de Deus; a matéria, nossa vida natural, deve ser transformada e estar disposta a ser transformada para compartilhar da graça de Deus. A sociedade medieval fora da catedral é caracterizada por um mistério semelhante. Encontramos grupos e classes que se ligam como as pedras de uma catedral, apresentando o padrão de uma hierarquia gradualmente ascendente. Trabalhadores do campo, artesãos e comerciantes constituem o nível mais baixo da sociedade, seguidos pelos militares. Acima de ambos estão aqueles que dirigem e governam a sociedade: a nobreza e o clero. Essa imagem, embora tenha certas características platônicas, lembra-nos da imagem que Paulo usa na sua carta aos coríntios quando fala do corpo de Cristo: Mas Deus dispôs os membros, colocando cada um deles no corpo, como lhe aprouve. Se todos, porém, fossem um só membro, onde estaria o corpo? O certo é que há muitos membros, mas um só corpo. Não podem os olhos dizer à mão: Não precisamos de ti; nem ainda a cabeça, aos pés: Não preciso de vós. Pelo contrário, os membros do corpo que parecem ser mais fracos são necessários [...] Ora, vós sois corpo de Cristo; e, individualmente, membros desse corpo. Assim como Paulo, os escolásticos medievais chegaram à mesma conclusão quanto à sociedade deles: “Irmãos, cada um permaneça diante de Deus naquilo em que foi chamado”.¹ Apenas aqueles que desempenham suas limitadas tarefas no conjunto do corpo podem ser incluídos no processo de santificação da sociedade pelos meios eclesiásticos oficiais de graça. À essa luz, chegaremos a um melhor entendimento das complexas regras e regulações medievais concernentes aos preços impostos à classe comerciante. Tanto a doutrina do justum precium, o preço justo, quanto a proibição dos juros serviam para manter os comerciantes e os artesãos nos seus devidos lugares sociais. Essas regulações evitavam que uma classe ultrapassasse outra na escala social mediante o aumento de sua riqueza ou poder. Caso isso ocorresse, a santificação da sociedade como um todo seria ameaçada, e a própria catedral social poderia colapsar de modo parcial ou totalmente. A sociedade medieval é envolta num mistério próprio. Por essa razão ela escapa da crítica vulgar e banal. Ao mesmo tempo, não devemos idealizar sua estrutura social apresentando-a, em cada um dos seus aspectos, como um modelo para nossa própria época. Não devemos ignorar o fato de que a sociedade medieval era permeada por uma hierarquia frequentemente insuportável na qual os escravos e servos padeciam uma existência geralmente miserável lado a lado de cavaleiros e da nobreza. Além do mais, ver o todo da vida humana no contexto de uma perspectiva natureza-graça com frequência leva a uma deformação da vida naturaluma vez que ela era aprisionada na camisa de força de uma estrutura social vertical, orientada para objetivos, e assim privada das oportunidades do desenvolvimento normal. O modo pelo qual o desenvolvimento do comércio durante a Idade Média era às vezes conduzido lembra-nos da abordagem por demais severa e autoritária da criação de crianças, que em parte se torna a causa da rebelião delas. Também nos lembra daquelas catedrais medievais nas quais as esculturas nas colunas foram artificialmente alongadas e torcidas para fazer com que elas se encaixassem na estrutura da catedral como um todo, ou das catedrais que foram construídas tão altas que durante sua construção elas desmoronavam, como a de Beauvais. Foi somente na época da Reforma que houve a emergência da consciência de que nada na vida natural é, em si, pecaminoso, e que em todas as áreas, incluindo a área econômica, o homem vive e trabalha diretamente perante a face do Deus vivo – coram Deo – sem requerer a mediação dos meios de graça da igreja para tornar a vida santa. Sem dúvida, a origem, o contexto e a atmosfera propícia da estrutura social medieval são de uma natureza espiritual, profundamente influenciada pelo cristianismo. Também encontramos evidência dessa influência nas várias categorias e classes e nas famílias individuais que formavam os blocos construtores desse tipo de hierarquia. Embora limitadas, as guildas medievais e as casas senhoriais revelavam um autêntico elemento de comunidade humana. Por exemplo, numa fazenda medieval até mesmo o trabalho do servo era visto como uma parte de um corpo de direitos e deveres sociais que incluíam o direito ao cuidado quando o servo passasse por problemas de saúde, o direito ao alimento em épocas de crise alimentar e o direito à proteção em épocas de ataque. O TERRENO FÉRTIL DA SOCIEDADE CAPITALISTA A estrutura da sociedade medieval era profundamente enraizada em impulsos ou motivos culturais religiosamente moldados. Mas que impulsos ou motivos estão na raiz do capitalismo como um tipo de sociedade? Essa é uma pergunta legítima neste ponto do nosso argumento. Tanto a demolição de uma ordem social existente quanto o estabelecimento de uma nova ordem social são, num sentido importante, uma questão de estilo, de “fazer” cultura. Cada estilo de cultura é, por sua vez, relacionado à questão religiosa de como as pessoas veem o significado último da sua vida e da sua sociedade. Contudo, a pergunta quanto aos impulsos religioculturais por trás do surgimento do capitalismo é mais fácil de ser feita do que respondida. Uma famosa tese relacionada a essa questão, proposta por Max Weber, afirma que o espírito do capitalismo foi moldado especialmente pelo calvinismo. Na sua famosa obra A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo,¹¹ Weber argumenta que o capitalismo pode ser caracterizado, em termos de tipos ideais, como um sistema social no qual a acumulação do capital é central, e no qual, portanto, é constantemente imperativo poupar. Assim, esse sistema pressupõe uma Wirtschaftsgeist, um espírito de indústria, que considera trabalho, produção e acumulação de capital como algo significativo mesmo quando não levam diretamente a um aumento mensurável nas possibilidades de consumo. Weber afirma que o surgimento desse espírito se deu graças ao calvinismo, que não apenas enfatiza a ideia de vocação na vida socioeconômica, mas também combina essa ideia de vocação com uma doutrina da eleição que afirma que uma pessoa pode confirmar sua própria eleição mediante o trabalho na sua vocação. Então, por um lado o trabalho racional adquire um significado ético à parte das possibilidades de consumo que ele cria, enquanto por outro lado poupar e investir tornam-se virtudes independentes, no conhecimento de que no futuro cada ser humano deverá prestar contas das suas posses perante Deus. Este não é o lugar para revisar a discussão provocada pela tese de Weber. O leitor interessado poderá consultar os excelentes estudos de Richard H. Tawney,¹² Kurt Samuelsson¹³ e André Biéler.¹⁴ Não obstante, pode-se chegar a três conclusões gerais a parir dessa discussão: primeira, historicamente falando, definitivamente há uma conexão entre capitalismo e calvinismo mediante a intermediação do puritanismo, que surge posteriormente. Segunda, tem se mostrado muito mais difícil estabelecer uma conexão histórica direta entre capitalismo e calvinismo. Finalmente, alguns escritores têm levantado dúvidas quanto a se os elementos derivados do calvinismo e do puritanismo seriam suficientes para explicar o espírito característico do capitalismo. A evidência para o primeiro ponto – a relação entre calvinismo e capitalismo via puritanismo – é encontrada especialmente na ênfase do calvinismo na dedicação e esforço pessoais no trabalho, o “trabalho ético” que é exigido era promovido pela identificação de todo trabalho útil com o cumprimento de uma vocação divina. Com relação ao segundo ponto, os comentários seguintes são relevantes. O fato de que o puritanismo deve necessariamente servir de ligação intermediária depende do fato de que no calvinismo original a apreciação positiva do trabalho humano era acompanhada por advertências explícitas contra os perigos da riqueza, do acúmulo de posses e do lucro excessivo. Tawney observa que Calvino lidava com os juros do mesmo modo que um farmacêutico lida com o veneno. Ele argumenta que o calvinismo, “fez o seu melhor para tornar a vida intolerável para o rico. Perante o paraíso do conforto terreno ele levantou uma ardente flâmula, abanada pelas sombras implacáveis de Moisés e Arão”.¹⁵ Na verdade, é difícil tornar o calvinismo original responsável pela ascensão do espírito do capitalismo. Com relação ao terceiro ponto, Brentano ressaltou que o racionalismo que é tão característico do espírito do capitalismo é claramente originário da Renascença mais propriamente do que da Reforma. Então, as caracterizações de “tipo ideal” de Max Weber parecem discutíveis tanto no caso do calvinismo quanto no caso do capitalismo. Elas dão a impressão de terem sido escritas com um objetivo de combinar traços comuns com o resultado de que diferenças evidentes são negligenciadas. Assim, a descrição do capitalismo feita por Weber não menciona a busca por renda e maior consumo como um elemento independente original, enquanto sua descrição do calvinismo autêntico omite a ênfase (característica dos reformadores) na sola gratia – viver e ser salvo apenas pela graça, em vez de que pelas atividades humanas. Então, se o impulso do calvinismo não pode servir como uma explicação suficiente para a ascensão do capitalismo na cultura ocidental, para que outras direções devemos olhar? Em vez de começar pelo calvinismo, seria significativo tomarmos como ponto de partida a Reforma e a Renascença conjuntamente? Certamente isso não seria algo sem sentido. Mas novamente há a mesma objeção de que mais de dois séculos separam a Renascença do capitalismo moderno. Portanto, parece prudente seguir um caminho diferente. Devemos nos perguntar: que colapso do contexto espiritual da sociedade medieval seria minimamente necessário para preparar o solo no qual a semente da sociedade capitalista como conhecemos poderia criar raízes? Ou, para colocar de outro modo, quais barreiras espirituais relacionadas às principais características da sociedade medieval tinham de ser sucessivamente removidas antes que o capitalismo moderno, via revolução industrial dos séculos 18 e 19, pudesse tornar-se a vanguarda da cultura ocidental? Apenas após encontrarmos uma resposta a essa pergunta é que poderemos esperar explicar mais claramente os profundos impulsos espirituais subjacentes à ascensão da sociedade capitalista moderna. Parece muito provável que as forças que, em última instância, tornaram possível o aniquilamento dessas barreiras são as mesmas que, num sentido positivo, em parte deram origem ao espírito e a realidade do capitalismo moderno. 2 A BARREIRA DA IGREJA E DO CÉU NO RESUMO ANTERIOR sobre os contornos da sociedade medieval, o aspectomais notável era sua orientação vertical. Em termos terrenos, a vida natural não tinha significado em si. Ela estava condenada à pecamino-sidade eterna a menos que fosse elevada, ordenada e direcionada para o céu e o reino da graça. Desse reino a vida natural derivava seu significado mais profundo. Apenas na sua orientação vertical ela seria santificada e redimida pela mediação da igreja como a instituição da graça. Evidentemente essa não é uma imagem completa. Características de uma orientação horizontal também podem ser encontradas na visão medieval da vida natural. É surpreendente, por exemplo, observar em que medida os teólogos medievais, os chamados escolásticos, atribuíam um papel independente à razão humana (ratio). Na visão deles, a aquisição de conhecimento pelo homem obedecia a leis naturais que não poderiam ser derivadas diretamente da revelação divina. Natureza e graça de fato diziam respeito a duas áreas distintas da vida, com certo grau de independência atribuída à vida natural. Nisso uma antecipação dos tempos modernos se torna visível; no meio da cultura medieval estava sendo estabelecida a base para um sentido posterior de autonomia e para o advento de um tipo autossuficiente de homem. No entanto, em tudo isso não devemos esquecer que raramente as ordens sociais mudam de modo abrupto. Numa mesma cultura, correntes contraditórias podem existir lado a lado. Um expansionismo capitalista comercial incipiente estava emergindo nas cidades mercantis na Itália (e posteriormente também em Flandres) quando o escolasticismo atingiu seu ápice na obra de Tomás de Aquino e seus seguidores. Mesmo a ideia medieval de cavalaria pode ser considerada em alguns aspectos como precursora do burguês empreendedor do período posterior; isso foi demonstrada por Johan Huizinga na sua obra magistral The Waning of the Middle Ages [O declínio da Idade Média].¹ Não obstante, permanece verdadeiro que a atmosfera social e cultural da Idade Média foi marcada por uma clara sujeição às regras eclesiásticas e a uma orientação na direção do futuro. Enquanto estas dominaram, elas claramente constituíram uma barreira real ao livre desenvolvimento das forças econômicas e tecnológicas. É importante observar isso porque é precisamente a expansão econômica e a inovação tecnológica que constituem uma marca essencial da sociedade capitalista que viria posteriormente. Podemos descrever o capitalismo moderno como a estrutura social (1) na qual a ordem legal, a moralidade pública prevalecente, bem como a organização da vida socioeconômica asseguram uma admissão desobstruída às forças de crescimento econômico e de de- senvolvimento tecnológico; e (2) na qual essas forças subsequentemente se manifestam mediante um processo de “seleção natural” na medida em que tomam forma mediante uma competição contínua no mercado entre unidades independentes de produção organizadas com base nos retornos de capital. Nesse tipo de estrutura social, uma orientação na direção de uma organização vertical da vida não faz sentido. Em vez disso, uma orientação horizontal domina; o propósito do desenvolvimento e expansão é direcionado para possibilidades terrenas. Por exemplo, numa sociedade capitalista não adulterada, regulações nos preços são naturalmente consideradas intervenções ilícitas no mecanismo de mercado. O mesmo pode ser dito sobre a proibição dos juros. Por essa razão, a primeira barreira que necessariamente deveria ser removida era a da igreja e do céu. A orientação vertical da vida tinha de ser transformada numa orientação predominantemente horizontal. Essa transformação foi a realização tanto da Reforma quanto da Renascença. Mas em primeiro lugar devemos mencionar a Renascença, dado que, embora os reformadores tenham reconhecido que a vida natural, incluindo a vida econômica, era santificada por Deus e desse modo não requeria a mediação constante da igreja para esse propósito, apesar disso eles enfatizavam o significado permanente e duradouro da lei de Deus para a vida econômica. Eles eram particularmente apreensivos quanto aos perigos do desejo compulsivo por dinheiro e riquezas que poderia acompanhar a expansão e a autonomia do comércio e da indústria. Em vista disso, a contribuição dos reformadores pressupondo a reabilitação da vida natural em si, pode ser mais bem descrita como uma batalha contra a maneira “prolongada”, não natural de verticalização da vida econômica sob a influência do escolasticismo medieval do que uma licenciosidade de um desenvolvimento horizontal ilimitado e autônomo. Em vez disso, o primeiro impulso primário espiritual para esse desenvolvimento deve ser localizado na Renascença. O MOTIVO-BASE DA RENASCENÇA Qualquer tentativa de descrever o motivo-base da Renascença em poucas palavras está praticamente fadada a ser malsucedida. Que momento notável deve ter sido quando – em 1486 – Giovanni Pico della Mirandola ousou apresentar seu discurso sobre a “dignidade do homem”, apelando do início ao fim tanto a Platão quanto a Paulo, a Averroës bem como a Tomás de Aquino; quando Leonardo da Vinci declarou que a pesquisa experimental poderia, sozinha, ser o intérprete correto entre o homem e a natureza, e relacionou isso a uma prece à Renascença: “Tu, ó Deus, nos vendeste todas as coisas pelo preço do trabalho”;¹⁷ quando as artes, novamente orientadas para os princípios clássicos e para as formas matemáticas, começaram a florescer, e o projeto das construções tinha mudado de algo cruciforme para um quadrado, retângulo ou círculo (o Deus da Renascença havia se tornado um grande matemático!); quando viagens de descoberta abriram o mundo para uma expansão até então desconhecida do comércio e da diligência humana; e quando, finalmente, até mesmo a moralidade passou a ser caracterizada pela vontade desenfreada de autoexpressão humana, impelindo Bandello, escritor da Renascença, a escrever a seguinte lamentação: Eu desejaria que não fôssemos forçados diariamente a ouvir que um homem assassinou sua mulher porque suspeitava da infidelidade dela; que outro homem matou a filha por causa de um casamento secreto; que um terceiro homem fez com que a irmã fosse assassinada porque esta não queria se casar conforme o desejo do irmão! É uma grande crueldade que reivindiquemos o direito de fazer tudo o que desejamos e não permitir o mesmo às mulheres.¹⁸ Em vez de fornecer um resumo próprio a respeito do que moveu esses homens naquela época, irei tomar como base o que competentes historiadores como Jacob Burckhardt, Dagobert Frey, Alfred Von Martin e Peter Gay escreveram sobre o período em questão. É verdade que suas interpretações divergem, o que deve ser esperado de bons historiadores.¹ Assim, Von Martin² descreve a Renascença primariamente como um movimento de emancipação da nova burguesia na busca por um novo estilo de vida para substituir a ética tradicional, mas essencialmente desintegrada, prescrita pela igreja católica medieval. Por outro lado, Frey²¹ enfatiza a nova perspectiva sobre o todo da realidade, que então toma como seu ponto de partida a visão da pessoa individual; as leis de perspectiva tornam-se a moda. Por sua vez, Burckhardt destaca não apenas o desenvolvimento do individual e o renascimento da antiguidade clássica, mas também a descoberta do mundo e do lugar do homem nele. É importante destacar que no seu famoso livro sobre a Renascença ele inicia o capítulo sobre a descoberta do homem com a seguinte citação da História da França, de Michelet: “À descoberta do mundo exterior, a Renascença acrescentou uma façanha ainda maior ao primeiro discernir e trazer à luz a natureza total, completa do homem”.²² A despeito das diferentes ênfases de interpretação, esses escritores compartilham de um mesmo tema subjacente, a saber, o nascimento de uma nova imagem do homem e do mundo, na qual, nas palavras de Peter Gay, “o homem é livre, o dono do seu destino, não preso ao seu lugar numa hierarquia universal, mas capaz de todas as coisas”.²³ Em outras palavras, a terra se torna domínio do homem como a plataforma eo instrumento com o qual ele pode se perceber nas artes assim como na ciência, no comércio assim como no seu contato com o outro sexo. O homem direciona sua atenção para este mundo para ter um melhor entendimento dele e, consequentemente, de si mesmo. Nesse contexto, o filósofo e jurista contemporâneo Herman Dooyeweerd fala do caráter dialético do motivo-base de toda forma de humanismo desde a Renascença. É dialético porque tenta unir numa única concepção o polo da liberdade pessoal completamente autônoma e o polo contrário de controle absoluto e racional sobre a natureza. Em essência, esses polos se contradizem. Não obstante, o homem da Renascença via tais polos como extensões um do outro.²⁴ É precisamente no controle da natureza, na descoberta de novos campos de pesquisa e na nova direção das artes e da moralidade que a liberdade e a dignidade do homem da Renascença encontravam sua expressão inimitável. Até mesmo Pico della Mirandola testifica disso no seu supracitado discurso, no diálogo entre o Criador e Adão: Coloquei-te no meio do mundo para que possas mais facilmente observar e notar tudo o que há nele. Criei-te como um ser que não é nem celeste nem terreno [...] para que possas ter a liberdade para formar-te e superar a ti mesmo. Deves rebaixar-te a um animal, e nascer novamente à semelhança divina. [...] A ti somente é dado um crescimento e um desenvolvimento que dependem de tua livre e espontânea vontade. Tu portas os germes de uma vida universal.²⁵ A Renascença situa-se na fronteira entre a Idade Média e um novo período. Ela também se encontra na fronteira entre o cristianismo e o humanismo, como é evidente a partir das palavras de Pico. Durante a Renascença, cristianismo e humanismo ainda estavam juntos, totalmente misturados. Os putti se assemelhavam aos anjos; os estudiosos da antiguidade, embora presentes, não haviam substituído os mestres da igreja. Mas então, num momento seguinte, pode-se observar o divórcio entre humanismo e cristianismo. Burckhardt descreve a complexidade dos motivos deste modo: "É curioso, por exemplo, perceber o quão longe Gioviano Pontano leva essa confusão. Ele fala de um santo não apenas como divus, mas como deus; ele afirma que os anjos são idênticos aos genii da antiguidade; e sua noção de imortalidade nos remete ao velho Reino das Sombras'.² Essa síntese, esse esforço para fundir dois mundos diferentes não poderia sobreviver. E em breve perceberemos o cristianismo e o humanismo oferecendo bases espirituais distintas para a cultura da era moderna. Facilmente podemos perceber paralelos entre a emergência da nova visão de mundo do homem da Renascença e o rápido florescimento do chamado capitalismo nascente. Por exemplo, quando Werner Sombart pergunta que elemento novo é introduzido na organização do comportamento econômico pelo capitalismo, sua resposta imediata é: “A resposta não pode ser difícil de encontrar: a iniciativa e o empreendimento agora são autônomos'.²⁷ A Renascença em particular estabeleceu a base para esse conceito de autonomia, essa noção da autodeterminação das leis que governam o comportamento da pessoa. A descoberta de novos mercados e o controle deles, de acordo com Sombart, constitui a nova mentalidade. De modo incisivo, Hobbes descreveu a atitude moderna de autonomia nestas poucas palavras:”Não há regra moral para além da letra da lei'. Durante esse mesmo período, a coesão do contexto social medieval foi dissolvida pela crescente influência de uma economia orientada pelo dinheiro. Trabalho, terra e capital tornaram-se elementos separados de produção, cada um dos quais podendo ser comprado ou alugado mediante o uso do dinheiro.²⁸ O homem escolheu apenas este mundo como o seu, incluindo aí sua dimensão econômica, e na sua conquista deste mundo ele não toleraria outros padrões que não fossem aqueles que ele mesmo estabelece. 3 A BARREIRA DO DESTINO E DA PROVIDÊNCIA ACABAMOS DE ALUDIR à mistura entre os motivos cristãos e humanistas presentes na visão de mundo da Renascença. As doutrinas da providência e do juízo de Deus eram ainda formalmente mantidas. Contudo, no devido tempo uma escolha inevitável teria de ser feita entre duas convicções divergentes: entre a crença que em última análise Deus direciona o destino da vida humana e a crença que é o próprio homem quem determina seu destino. Essa escolha nos apresenta a uma nova barreira que teria de ser superada na transição da Idade Média para a emergência da sociedade capitalista moderna. Essa é a barreira da doutrina da providência divina como ela era ensinada e confessada na Idade Média. Muito mais estava envolvido nessa crença do que apenas uma generalização universal de que Deus dominava o mundo. Ela claramente implicava uma condenação da busca pela felicidade e pela prosperidade que tivesse por base a força e o potencial do homem. Uma vez que a visão medieval de providência divina remonta particularmente a Agostinho, será útil voltar brevemente nossa atenção para esse Pai da igreja. AGOSTINHO A expressão providência divina não aparece na Bíblia. Antes, ela advém da literatura dos estoicos. Esses filósofos, que escreveram antes e por volta do início da era cristã, viam o mundo como uma entidade material parcialmente lapidada que recebeu sua forma da deidade. Essa deidade permeia o mundo e ao mesmo tempo é a alma dele; ela dirige a história humana com absoluta precisão. Nada na história mundial ocorre acidentalmente, de acordo com os estoicos Zenão, Diógenes e posteriormente Catão. Tudo que acontece está contido na Providentia, a ordem providencial do mundo. Tudo o que acontece é previsto, “pro-vido”, pela deidade. Agostinho (354-430) se apropria da ideia estoica de providência: no entanto, ele a enxerta numa raiz cristã. O Deus vivo e pessoal não apenas fez o mundo, mas também o governa providencialmente dia a dia. Seu governo diz respeito tanto à cidade de Deus quanto à cidade deste mundo. Nesse ponto surge a imagem das duas cidades sobre a qual Agostinho trabalhou tão cuidadosamente em A Cidade de Deus, e que exerceu uma influência imensa em todo o pensamento ocidental posterior. Para nosso propósito, o que Agostinho disse a respeito da cidade dos homens é particularmente importante. É a cidade da Babilônia, à qual pertencem os filhos das trevas, e distinta da cidade de Deus, Jerusalém, à qual pertencem os filhos de Deus. De acordo com Agostinho, ambas as cidades existem de modo próximo e se mesclam ao longo de toda história mundial até que, na segunda vinda de Cristo, elas serão finalmente separadas. Contudo, essas duas cidades podem ser prontamente distinguidas mediante seus dois princípios de vida totalmente diferentes. O princípio da cidade de Deus é o amor a Deus, a ponto de a pessoa desprezar a si mesma; na cidade dos homens o princípio é o amor a si mesmo, a ponto de a pessoa desprezar a Deus. Ambas as cidades têm também suas próprias instituições. A cidade dos homens conhece a propriedade privada, a escravidão e o Estado. As instituições do Estado e da propriedade são necessárias para pôr um freio nos pecados dos homens e evitar a desintegração do mundo num caos completo. Em outras palavras, elas existem “por causa do pecado”. É surpreendente ver como, na cidade dos homens, Agostinho coloca a vida, incluindo a vida econômica, à luz da sua visão da providência divina. Ele diz que “Deus não deixou o reino dos homens, seus domínios e servidões, fora das leis da sua providência”.² Deus não permite que esses reinos terminem no caos antes do tempo determinado. Sua mão divina é capaz de estabelecer uma harmonia relativa em meio a todos esses interesses humanos antagônicos e formas de egoísmo que vem à tona na cidade deste mundo.³ Isso significa que o fim da cidade deste mundo ainda será relativamente bom? Certamente não; isso porque, embora a providência de Deus possa trazer uma relativa harmonia entre os interesses humanos antagônicos, o fim da cidade dos homens é, segundo Agostinho, sua ruína, do mesmo modo que a destruição da Babilônia é descritano último livro da Bíblia. E a base para sua destruição é a confiança do homem em sua própria habilidade, prosperidade e competência. Em nenhum outro escrito Agostinho expressa isso de modo tão sucinto e intenso quanto no seu comentário sobre Salmos 137, que descreve o destino dos israelitas que, longe da sua amada cidade de Jerusalém, choravam às margens dos rios da Babilônia: Os rios da Babilônia são todas as coisas que são amadas aqui e que desapare- cerão. Por exemplo, um homem ama a prática da agricultura, ama enriquecer mediante essa atividade, empregar sua mente nisso, tirar dela seu prazer. Que ele observe a questão e veja que o que ele tem amado não é uma fundação de Jerusalém, mas um rio da Babilônia. Outro homem diz, é um grande feito ser um soldado; todos os agricultores temem os soldados, lhes são subservientes, tremem perante eles. Se eu sou um agricultor, devo temer os soldados; se sou um soldado, os agricultores me temerão. Louco! Tu tens te lançado de cabeça em outro rio da Babilônia, agora mais turbulento e impetuoso. Tu desejaste ser temido pelos teus inferiores; tema a ele que é maior que tu. O que te teme pode, de repente, se tornar maior que tu, mas Aquele a quem deves temer nunca se tornará menor. Ser um advogado, diz outro, é um grande feito; a eloquência é mais poderosa; sempre ter clientes dependentes dos lábios dos seus eloquentes advogados, e que das suas palavras esperam a perda ou o ganho, a morte ou a vida, a ruína ou a segurança. Tu não sabes onde tens te lançado. Trata-se de outro rio da Babilônia, e seu som estrondoso é o estrondo das águas batendo contra as pedras. Atentes para o fato de que ele flui, transborda, desliza; fica atento, pois ele leva coisas consigo. Navegar, dizem outros, e comercializar, é um grande feito – conhecer muitas terras, obter ganhos em cada parte do mundo, nunca ter de prestar contas a qualquer homem poderoso em teu país, estar sempre viajando, alimentar tua mente com a diversidade das nações e com os negócios estabelecidos com elas, e voltar enriquecido pelo aumento dos teus ganhos. Isso também se trata de um rio da Babilônia. Quando os ganhos terminarão? Quando terás confiança e segurança nos ganhos que tiveste? Quanto mais rico ficas, maior teu medo. Uma vez naufragado, tu estarás arruinado, e lamentarás teu destino nos rios da Babilônia, porque não sentaste e choraste junto aos rios da Babilônia.³¹ Essa eloquente citação confirma que a fé que Agostinho tinha na providência divina com relação a este mundo não pode ser explicada como uma fé num resultado favorável e garantido acerca do que ocorrerá com a cidade deste mundo. O contrário é mais próximo da verdade: Deus preserva o mundo, mas ele o faz em parte até que ele próprio o julgue. A relativa harmonia que ele efetua pela sua mão serve ao fluxo dos rios da Babilônia. Nesses rios, pela sua própria vontade o homem se deixa ser arrebatado para o naufrágio que o aguarda no final. Essa é a fé que permeia o sentido medieval da providência. A imagem de Agostinho dos rios da Babilônia encontra seu paralelo no fim da Idade Média no alarmante quadro pintado por Hieronymus Bosch chamado O carro de feno (Prado, Madrid). Nesse quadro, o carro de feno é o símbolo da prosperidade humana e da abundância ao redor da qual todos, clérigos e leigos, se acotovelam para colher e pegar. No entanto, ninguém parece perceber que o carro de feno em si é puxado por monstruosos demônios que arrastam toda essa ridícula pantomima para o fogo ardente do inferno e da destruição. Na medida em que a fé na providência divina acarreta a preparação deste mundo para sua própria destruição, ela claramente constitui uma enorme barreira a qualquer busca da felicidade por meios econômicos e tecnológicos. Se o ato de tomar o destino nas próprias mãos é equivalente a suscitar seu próprio destino, então qualquer desenvolvimento em direção a uma sociedade capitalista em expansão está condenado. A construção dessa sociedade não tolera a imagem de um Deus que governa o mundo, que estabelece os destinos dos homens e mulheres, e nos momentos da própria escolha interfere diretamente nos assuntos deles com o seu juízo. Por essa razão, no seu profundo estudo J. B. Bury observou corretamente que a ideia de progresso só poderia se estabelecer permanentemente no Ocidente depois que a fé ortodoxa na providência tivesse perdido seu impacto universal: “O processo [de desenvolvimento humano] deve ser o resultado necessário da natureza social e psíquica do homem; ele não deve estar à mercê de qualquer vontade externa; caso contrário não haveria garantia da sua continuidade e sua consequência, e a ideia de Progresso iria cair na ideia de Providência”.³² Por essa razão também a barreira da direção divina do destino da história, que é parte e parcela do legado espiritual da sociedade medieval, tinha de ser removida antes que a estrutura da ordem social capitalista moderna pudesse ser coroada com o sucesso. Essa enorme tarefa foi acompanhada por um movimento espiritual conhecido como deísmo. Entre os séculos 16 e 18 quase todo pensador e filósofo ocidental foi influenciado por essa corrente espiritual. Na verdade, o deísmo manteve o termo providência, mas deu a ele significado totalmente diferente. AUTOABSOLVIÇÃO E AUTORREVELAÇÃO Uma breve definição de deísmo numa linguagem contemporânea o descreveria como a concepção de que Deus criou o mundo de uma maneira tão perfeita que imediatamente depois da criação ele pôde dar-se ao luxo de uma aposentadoria antecipada. Na verdade, com frequência o Deus do deísmo tem sido comparado a um relojoeiro, a um técnico de nível superior e a um matemático, que é capaz de produzir um relógio tão perfeito que, uma vez colocado em funcionamento, não necessita mais de atenção. Nessa concepção, a história do mundo se desdobra de acordo com a ordem natural que o Grande Matemático ordenou no seu princípio de maneira definitiva. “De acordo com a filosofia deísta, o papel de Deus já foi desempenhado na criação da ordem natural, e [...] ele pode tranquilamente ser desconsiderado como um elemento presente.”³³ Podemos falar da providência de Deus apenas na medida em que ela se refira aos atos de Deus antes do início da história mundial. Isso exclui toda atividade da parte de Deus durante o desdobramento da história mundial. Ou, nas palavras de Hugo Grotius, o grande jurista holandês, “o direito natural é tão inalterável que o próprio Deus não pode mudá-lo”.³⁴ Portanto, é esse direito natural que ocupa o lugar de Deus e desempenha o papel de providência neste mundo. Dificilmente precisamos argumentar que uma influência persistente do deísmo poderia de fato eliminar radicalmente a barreira do destino e da providência. De fato, ele mudou de maneira fundamental a fé medieval na providência de duas maneiras: primeira, ao forçar o papel de um Deus que governa e intervém desde antes do início da história humana; segunda, ao esconder esse controle divino “indireto” num relógio da “providência” que garante apenas bons resultados, pelo menos para aqueles que estão dispostos a levar a ordem natural em contínua consideração. Isso também pode ser formulado em termos mais positivos. Assim que Deus se move para o segundo plano, como aquele que molda o destino presente do homem, é criado um ambiente legítimo para que o homem tome o seu destino nas próprias mãos. O Deus que se retira é o complemento do homem que vai para frente. E enquanto Deus na sua providência não pode mais julgar e punir o homem, este pode começar a garantir para si uma boa vida nesta terra. O homem pode agora “prover” para si mesmo! Assim, o Deus que não julga é o complemento do homem que absolve a si mesmo. A autoprovidência e a autoabsolvição, que de fato são autorrevelação, irão em breve tomar a frente na cultura ocidental. A imagem ocidental de Deus é inclinada para uma direção deísta. Assim, Peter Gay descreve corretamente o deísmo como “um último compromisso com a religião”.³⁵ Deus se torna uma hipótese operante que poderá, de fato, ser facilmenteeliminada num estágio posterior. Também não há mais espaço – nem necessidade – para milagres da parte de Deus: “para os deístas, o único milagre era o milagre não da irregularidade, mas o da regularidade”³ . Para nossos propósitos, é importante observar neste ponto o impacto do deísmo no surgimento da ciência da economia, uma vez que essa nova disciplina tem exercido uma imensa influência na estrutura da sociedade ocidental desde a época do Iluminismo. O DEÍSMO DE ADAM SMITH Adam Smith (1723-1790) é o pai da ciência da economia. O fato de que ele também era um deísta não é, como frequentemente tem sido observado, meramente uma coincidência. Era precisamente no contexto espiritual provido pelo deísmo, que via a vida social e econômica do homem como um cosmo controlado por leis naturais e completamente acessível à análise humana, que a ciência da economia poderia emergir gradualmente. É claro que o caráter dessa ciência pressupunha uma visão primariamente mecani-cista do mundo. Então o cronômetro fabricado pelo relojoeiro poderia, por assim dizer, ser explorado pelo homem, e a engrenagem dentro dele poderia ser analisada tão cuidadosamente quanto possível. Como é bem conhecido, Adam Smith ligou o funcionamento de todos os processos econômicos com a ideia de uma “mão” invisível. Uma mão invisível guia o homem para servir ao bem geral até mesmo quando ele pensa estar comprometido apenas com a busca dos seus interesses. Assim, a mão invisível é a versão deísta do papel da providência de Deus. Isso é claramente evidente a partir do que Smith escreve em Teoria dos Sentimentos Morais (1759). Ele declara que “ao agir de acordo com as ordens das nossas faculdades morais, necessariamente procuraremos os meios mais eficazes de promover a felicidade do gênero humano, e pode assim ser dito em alguma medida, de cooperar com a Deidade e promover, o quanto estiver em nosso poder, o Plano da Providência”.³⁷ Em outro lugar, ele escreve que os ricos “consomem pouco mais que os pobres”. Ainda que eles tenham somente seus próprios interesses em mente – aumentar sua riqueza empregando milhares que estão ao seu serviço – os pobres compartilham do “produto de todas suas melhorias”. Nesse sentido, o rico é conduzido “por uma mão invisível para fazer quase a mesma distribuição das coisas necessárias para a vida, que teria sido feita caso a terra tivesse sido dividida em porções iguais entre todos os seus habitantes; e assim, sem pretender isso, sem saber disso [eles] promovem o interesse da sociedade”³⁸. Não deveria surpreender ninguém que, no contexto dessa visão de mundo, Smith não percebesse nenhum problema em vincular a esperança por um futuro melhor para o gênero humano às suas atividades econômicas. Para ele, a barreira da igreja e do céu não mais existe, nem a barreira de um Deus que provê para o mundo e julga o mundo. Por essa razão, em sua visão, nada impedia o homem, na ordem dada da natureza, de buscar “aquele importante propósito da vida humana que nós chamamos de melhorar nossa condição”.³ De acordo com esse grande plano geral da natureza que visa à felicidade humana, o próprio homem pode realizar seu destino providencial. A maneira pela qual Smith elabora isso no seu próprio sistema de pensamento tem sido discutida de maneira tão extensa e competente em outros lugares que não precisamos tratar disso em profundidade neste ponto.⁴ Para resumir, ele atribui um grande significado à divisão do trabalho como o motor de todo desenvolvimento econômico. Essa divisão do trabalho é nutrida pela acumulação de capital, e seus benefícios para o gênero humano tornam-se particularmente aparentes quando novos mercados competitivos podem ser explorados. Em sua visão, apenas o tamanho do mercado pode limitar a possibilidade para divisão continuada do trabalho. Portanto, quanto mais amplo o mercado, mais a técnica de divisão do trabalho pode avançar e mais a “riqueza das nações” pode aumentar. O padrão do pensamento de Smith não é estático; antes, é completamente dinâmico. Ele percebe um progresso gradual na vida econômica do homem. Depois de um período de caça, coleta e cultivo, o comércio entre povos e nações tornou-se então o fator-chave no progresso econômico. Seria insensato, e acima de tudo estaria em conflito com a lei natural, sujeitar esse livre comércio que torna o mundo acessível a qualquer limitação imposta pelo governo. Isso seria uma total rebeldia ao plano da providência. ELEMENTOS BÁSICOS DA VISÃO DE MUNDO DA ECONOMIA CLÁSSICA A visão de mundo de Adam Smith e dos seus sucessores compreende certos elementos que num primeiro momento não parecem ser notáveis, mas que são de grande importância dado o impacto que exerceram na formação posterior do espírito capitalista. Neste ponto eu gostaria de dar uma atenção especial a quatro desses elementos. Homem versus natureza Quando Adam Smith e os economistas clássicos posteriores perguntam como homens e nações podem atingir a prosperidade, eles colocam o problema no contexto específico da luta do homem contra a natureza. Hla Myint e Gunnar Myrdal em particular têm apontado para isso.⁴¹ Para economistas clássicos como Smith, a vida econômica é caracterizada pela tentativa do homem de conseguir a maior prosperidade possível com base na sua interação com a natureza mediante o trabalho humano. Para conseguir isso, a capacidade mais importante à disposição do homem é o discernimento racional, que o capacita a analisar a natureza e suas leis e usar instrumentos – tais como o capital – no seu trabalho. Dessa maneira ele avança continuamente no poderoso processo de divisão do trabalho. Nesse cenário de problema econômico reconhecemos a persistente influência da visão de mundo da Renascença, na qual a natureza é o domínio da autorrealização do homem. Esse amplo escopo ontológico recebe uma redução economicista na escola clássica. Especificamente, para Adam Smith o valor econômico só pode ser atingido mediante a luta ativa do homem com a natureza – em outras palavras, por meio do trabalho. Assim, não há outro valor que não seja o valor trabalho, tirado da natureza pelo homem. Esse valor econômico é concreto nos bens produzidos. Assim, a produção é o resultado do trabalho; essa é a mais importante expressão da dignidade humana. É oportuno lembrar a nós mesmos que essa visão de mundo da Renascença não é absolutamente algo a ser esperado. Antes, ela claramente requer uma escolha espiritual bem como uma direção cultural, ou seja, a de que o destino do homem é realizado primariamente na sua relação com as coisas naturais deste mundo e não em relação ao restante da humanidade. A centralidade das relações inter- humanas é algo muito mais característico das civilizações orientais. Nestas, uma pessoa deriva sua identidade e dignidade particularmente dos relacionamentos sociais nos quais ela se move. Contudo, a centralidade desse relacionamento do homem com a natureza é um dos aspectos mais característicos da cultura ocidental desde a Renascença. Na era moderna, o valor da personalidade humana e da ordem social depende em larga medida da nossa habilidade individual ou coletiva nas áreas de trabalho produtivo, economia, ciência, tecnologia e arte. Nós nos distinguimos como seres humanos primariamente pela forma que damos a este mundo mediante o raciocínio e a atividade criativa mais propriamente do que mediante o significado da nossa vida para outras pessoas. Essa centralidade do relacionamento do homem com as coisas permeia o pensamento econômico clássico. Um economista ocidental típico não vê o mercado primariamente como um local de encontro para as pessoas, mas antes como um local de encontro para cada indivíduo em particular com um dado preço. Nessa visão de mundo o mercado é, em última análise, nada mais do que um mecanismo. De maneira semelhante, o trabalho humano não é visto em primeiro lugar como uma relação humana recíproca e como uma expressão da ação comunal, mas mais propriamente como um esforço individual a ser realizado mediante uma combinação particularde trabalho, terra e capital. O trabalho é um fator de produção isolado a ser colocado em uso ao acaso. Nessa visão, um empreendimento comercial não é considerado como uma organização primariamente caracterizada pelos seus vínculos de cooperação entre seres humanos, mas por ser um local de trabalho onde os fatores de produção podem ser combinados à vontade. Por essa razão o empreendimento é visto como um objeto de propriedade. O relacionamento do homem com os outros seres humanos é secundário para o economista ocidental; ele considera a relação entre o homem e as coisas como primária. Assim, o economista francês contemporâneo Perroux fala corretamente dos aspectos esquecidos do nosso progresso econômico: “ou seja, aqueles que vinculam os homens aos seus companheiros, em vez de aqueles concernentes ao contato do homem com as coisas”.⁴² A lei natural como um servo conveniente Já observamos na nossa discussão de Adam Smith que ele não espera que a as nações prosperem como algo dado. Certas condições devem ser satisfeitas. A condição primária requer que a ordem natural seja respeitada, que as exigências da lei natural sejam levadas em conta. Evidentemente, Adam Smith não foi o primeiro pensador a empregar a expressão ordem natural. Os estoicos popularizaram essa noção, resultando no fato de que teorias relativas à ordem natural da justiça ou à lei da natureza podem ser encontradas em cada um dos estágios da história do pensamento ocidental, de modo que podemos falar de uma concepção de lei natural dos juristas romanos, dos filósofos medievais, dos reformadores e dos pensadores da Renascença. Portanto, Schumpeter está correto na sua afirmação de que a “lei natural” é um conceito analítico, que tem servido como um artifício conceitual que é preenchido com um conteúdo que muda constantemente dependendo dos diversos movimentos espirituais na cultura ocidental.⁴³ Por exemplo, o conceito medieval de lei natural era rígido. Ele era caracterizado pela mesma orientação vertical típica da visão de mundo medieval como um todo. Assim, Tomás de Aquino derivou a proibição medieval dos juros diretamente da Bíblia e da lei natural: era contra naturam, isto é, contra a ordem natural, assumir que o dinheiro poderia se reproduzir da mesma maneira que os animais. Contudo, repetidas vezes após a Idade Média a lei natural foi ajustada, mitigada e novamente interpretada. Para a escolástica medieval, por exemplo, o “preço natural” consistia de uma remuneração precisa para o trabalho e o risco envolvido nos bens oferecidos pelo vendedor. Mas mesmo antes de 1600 o jurista italiano Luis Molina afirmava que o “preço natural” consistia do resultado normal do processo de livre competição do mercado.⁴⁴ Em outras palavras, enquanto os acadêmicos medievais consideravam as trocas de mercado legalmente justificadas somente depois que a norma do “preço justo” tivesse sido aplicada, o jurista da Renascença, Molina, muda a perspectiva, tornando a norma legal dependente do resultado do processo de mercado. Apenas o que respeitasse o funcionamento do livre mercado era considerado justo. Isso reflete uma mudança de grande importância. A forma da lei natural medieval é mantida, mas o novo conteúdo vai contra quase tudo o que os mestres angelicais, os doctores angeli da Idade Média, tinham originalmente pensado. De modo incisivo, Schumpeter descreve essa mudança: “A espada que foi forjada pelos anjos pode facilmente cair nas mãos de demônios”.⁴⁵ Adam Smith desenvolveu seu sistema econômico com base nesse conceito revisado de lei natural. Também na sua visão o preço natural, correto, resulta da operação da livre competição no mercado. A lei natural torna-se a lei da competição livre de obstáculos. É é precisamente essa ordem natural que o governo é conclamado a guardar e manter. Em primeiro lugar, a tarefa do governo diz respeito à proteção dos direitos civis da propriedade, contrato e livre empreendimento, pois esses direitos constituem a ordem natural, a condição indispensável para uma sociedade verdadeiramente florescente e próspera. Se o governo for além dessa ordem natural, interferindo diretamente na operação do livre mercado, ele se coloca entre o homem e seu potencial para a autorrealização conforme o plano providencial para este mundo. Em suma, para Adam Smith o conceito de lei natural havia se tornado um servo conveniente da economia. Na prática isso significa que a norma da justiça, que se aplica a todos os atos governamentais, por definição garante para a economia o resultado do processo de livre competição. Equilíbrio como harmonia Na nossa discussão sobre a remoção da barreira do destino e da providência mencionamos Agostinho, que acreditava que a cidade dos homens é sujeita às leis da providência de Deus. Agostinho sugeriu que nesse contexto as próprias mãos de Deus moldam e geram uma relativa harmonia em meio aos interesses conflitantes dos homens. Crédito deve ser dado em particular a Werner Stark⁴ por ter dado atenção à relação entre Adam Smith e Agostinho. Ambos falam de uma “mão invisível” que guia a história mundial, e ambos fazem menção a certo equilíbrio na sociedade por meio da operação da providência, apesar do fato de os motivos humanos envolvidos serem em primeiro lugar direcionados para a realização de interesses egoístas. No entanto, uma consideração mais atenta revela que em pelo menos dois aspectos há diferenças fundamentais entre esses pensadores. Em primeiro lugar, Agostinho fala de uma harmonia apenas temporária, relativa. Essa harmonia não exclui a possibilidade de o mundo estar sendo orientado para seu próprio juízo; em vez disso, ela até mesmo contribui para isso. Para Adam Smith essa harmonia não é relativa, mas absoluta. Trata-se da harmonia absoluta da felicidade social ótima, a ser obtida mediante o equilíbrio contínuo dos interesses econômicos no mercado, em que o interesse de um é equiparado ao interesse do outro numa livre luta competitiva. Há uma segunda diferença importante. Para Agostinho, “egoísmo” é um conceito negativo. Ele resume a direção pecadora da cidade dos homens e os leva para a ruína. Para Smith, por outro lado, o egoísmo não é um elemento negativo em princípio. Embora não seja um dos motivos mais sublimes do homem, não se pode negar que a busca dos próprios interesses é racionalmente totalmente defensável uma vez que no fim ela beneficia a todos. Adam Smith estava totalmente convencido do valor positivo da busca consciente dos próprios interesses. Isso fica evidente pela grande aversão a Bernard Mandeville, um estudante na Escola Erasmo, em Roterdã, que em 1714 publicou um poema intitulado A fábula das abelhas, com o subtítulo Vícios privados, benefícios públicos. De fato, nesse poema Mandevile fala de maneira franca e sincera! Ele compara a vida econômica da sua época com uma colmeia zumbindo e fervilhando de vida, prosperidade e diligência, graças à presença de uma grande quantidade de características más em cada uma das abelhas, tais como egoísmo, rapacidade, cobiça por poder, avareza e uma enorme medida de vaidade. O resultado dessas características é uma colmeia na qual Milhões empenhavam-se em satisfazer A cupidez e vaidade de cada uma, Enquanto outros milhões labutavam Para ver destruídas suas obras. De modo que logo [...] não havia abelha que não quisesse Ganhar mais, não direi, do que deveria Contudo, permanecia a regra: Assim, o vício imperava em cada parte, Embora o todo fosse um paraíso; O pior elemento de toda a multidão Fazia algo para o bem comum. Essa esplêndida paródia, que é, assim como era, a aplicação do Elogio da Loucura, de Erasmo, à vida econômica, em certo ponto apresenta as abelhas como tornando-se profundamente conscientes da própria maldade. Então elas decidem mudar suas vidas. Imediatamente os desastres começam a se amontoar na colmeia. Os serralheiros entraram em greve porque uma colmeia sem ladrões não necessita de fechaduras. Eles foram seguidos por milhares de outros que perderam seu meio de vida porque coisas comojoalheria e roupas da moda não são mais produtos desejados. No fim, a vida nessa fervilhante e rica colmeia transformou-se em pó. Para as poucas abelhas restantes não restou nada a não ser voar para uma árvore oca nas redondezas, para descansar contentes com a nova honestidade que tinham acabado de obter: Voaram para uma árvore oca, Abençoadas com satisfação e honestidade.⁴⁷ É fácil imaginar porque esse poema enfureceu Adam Smith e o levou a rotular seu autor de “libertino”.⁴⁸ Mandeville deixa claro que não se pode buscar a própria felicidade material da maneira tão fervorosamente quanto possível e, ao mesmo tempo, defender altos padrões de moralidade. Num momento particular, isso se torna uma questão de escolha. Caso se aceite a busca pela prosperidade como uma prioridade absoluta, será necessário aceitar as consequências moralmente perversas; se, por outro lado, forem totalmente aceitos os princípios da moralidade, não se deverá lamentar a prosperidade que será sacrificada como resultado. Esse dilema deve ter sido intolerável para um respeitável e bem- comportado solteiro como Adam Smith. Como seria possível ter sido o promotor de uma multidão de vícios humanos com seu apelo por uma economia dinâmica? Essa conclusão estava em conflito direto com seus princípios deístas, pois a providência certamente não deveria mostrar-nos a maneira para uma melhoria econômica contínua na vida e ao mesmo tempo exigir este preço impossível – aquiescência para com as mais desprezíveis qualidades humanas! Utilidade e moralidade Com isso somos confrontados quase automaticamente com uma última característica da teoria econômica clássica, a saber, a relação direta entre prosperidade e moralidade ou, mais especificamente, entre utilidade e moralidade. De acordo com Adam Smith e seus seguidores, a felicidade humana depende em larga medida da posse e do uso da prosperidade material. Assim, Myint observa corretamente que “os economistas clássicos [...] acreditavam que as quantidades de satisfação são proporcionais às quantidades de produto físico”.⁴ No entanto, como observamos acima, essa hipótese é totalmente vulnerável de um ponto de vista moral e ético. De fato, é sempre eticamente responsável esforçar-se para obter a maior prosperidade material possível? Nesse contexto a relação entre economia e ética exige uma elaboração e uma precisão adicionais. Essa questão foi tratada particularmente pelo utilitarismo, uma filosofia moral desenvolvida no final do século 18. Contudo, a maneira pela qual ela o faz é deveras peculiar. Em vez de testar o processo econômico de aumento da prosperidade à luz de certos princípios éticos, essa filosofia moral faz o inverso. Ela manipula a ética de tal modo que o processo econômico de ganho material poderia ser visto como eticamente respeitável sem justificativa prévia. O crédito por esse tour de force vai para Jeremy Bentham, o pai do utilitarismo e um contemporâneo de Adam Smith. A palavra utilitarismo já indica em que bases ele estabeleceu sua nova filosofia moral, ou seja, a do anseio pela utilidade. Assim, logo no início de sua Introdução aos Princípios da Moral e da Legislação (1789), ele afirma que A natureza colocou a humanidade sob a governança de dois mestres soberanos, dor e prazer. Cabe somente a eles apontar o que temos de fazer, bem como determinar o que devemos fazer. Por um lado, o padrão do certo e errado e, por outro, a cadeia de causas e efeitos são fixados aos seus tronos. Eles nos governam em tudo o que fazemos. [...] O princípio de utilidade reconhece essa sujeição. [...]⁵ A partir disso podemos claramente deduzir o que Bentham, em essência, objetivava. Por um lado, ele afirma que cada pessoa de fato chega a deter- minadas decisões pesando certo e errado, utilidades contra inutilidades. Todos se esforçam para obter o máximo de utilidade no modo como cada um a percebe, e ajusta cada atividade na qual se envolve a esse princípio. Bentham diz que isso é válido até mesmo para pessoas que se deixam queimar na estaca. A inutilidade de ir para o inferno é aparentemente tão intimidadora que nessa ponderação acerca da utilidade elas estão dispostas a serem queimadas. De acordo com Bentham, essa é uma observação correta a respeito do que as pessoas realmente fazem. Ao mesmo tempo, ele mantém que esse princípio de utilidade indica o que pessoas e governos devem fazer. Se certa atividade é mais utilitária que outra, então ela é eticamente justificada. “O prazer é [...] o único bem [...] e a dor é [...] o único mal”, afirma Bentham de modo grandiloquente no capítulo 10 do seu livro.⁵¹ Sua mensagem é: não devemos avaliar as atividades em termos dos seus motivos. Bons e maus motivos de fato nem mesmo existem. A única questão que conta na avaliação da qualidade ética de uma atividade é seu efeito – particularmente seu efeito em termos de utilidade. É importante observar que prontamente essas ideias foram apropriadas pelos principais economistas, especialmente sob a influência de John Stuart Mill, herdeiro espiritual de Adam Smith. Eles fizeram isso mediante a introdução de uma leve modificação: consideravam a posse dos bens de consumo como o mais importante tipo de “utilidade” e a execução do trabalho como um claro exemplo de “inutilidade”. Todos os economistas clássicos falam da “dor do trabalho”. Assim, fica evidente como a relação entre prosperidade e moralidade fechou o círculo. O único princípio moral válido na vida é equiparado à aquisição do maior número de utilidades! Além disso, bens são fatores positivos de utilidade e trabalho é um fator negativo de utilidade. Portanto, na sociedade a busca pela maior posse possível de bens à custa do menor esforço de trabalho é declarada como sendo a priori uma questão eticamente correta. A adaptação adicional do utilitarismo na teoria econômica resultou claramente numa série de problemas. Um deles diz respeito à tese de que mediante a maximização da própria utilidade maximizar-se-ia também – pelo menos não se diminuiria – a utilidade dos outros. Bentham tentou evitar esse problema estabelecendo “a maior felicidade para o maior número” como o propósito moral essencial da vida e também como a norma para as ações dos governos. Na verdade, por essa razão em algumas ocasiões ele propôs o que na sua época seriam soluções políticas radicais, tais como a nacionalização das companhias de seguro de vida. Na teoria econômica, essa máxima política de “a maior felicidade para o maior número” não ganhou seguidores até o desenvolvimento de uma teoria separada de “economia do bem-estar”.⁵² Na teoria econômica em geral, o utilitarismo tem sido aplicado de uma maneira individualista. Até hoje a maioria dos economistas assume, implicitamente ou explicitamente, que cada pessoa empenha-se por adquirir a maior soma possível de utilidades e tenta evitar todas as inutilidades. Evidentemente, a ética do utilitarismo está desde o princípio em total harmonia com o objetivo de rápido crescimento econômico. Cada exemplo de expansão econômica pode ser visto como um processo pelo qual mais utilidades (bens) são ganhos do que perdidos. Sem dúvida essa harmonia entre crescimento econômico e princípio ético é o aspecto mais importante do utilitarismo. Aí ele exerce sua maior influência, não apenas na teoria econômica, mas na sociedade ocidental como um todo. Assim, não é não um pouco de estranhar que Alvin Gouldner, um proeminente sociólogo, tenha descrito a cultura ocidental contemporânea como fundamentalmente uma “cultura utilitária”.⁵³ 4 INTERMEZZO AVALIATIVO NESTE PONTO, depois de tudo o que foi dito, seria apreciável esboçar uma espécie de balanço. Começamos com uma breve descrição da sociedade medieval. Essa sociedade era caracterizada fundamentalmente por uma direção vertical e uma ordem estritamente hierárquica na qual a tecnologia era mantida sob controle. Era uma sociedade baseada na profunda consciência de que a vida terrena é de fato regulada pela vontade e pela providência de Deus, e que, tão logo uma pessoa busque esta vida terrenacomo um fim em si, ela a trairá. Em contraste com essa visão vimos que a Renascença afirmava que a terra e a vida natural eram o verdadeiro domínio da existência humana. Mediante o domínio da natureza o homem da Renascença desejava provar sua própria dignidade e grandeza como um ser racional. Finalmente, investigamos como, sob a influência do deísmo, a barreira da providência de Deus foi derrubada e a noção de providência foi reinterpre-tada para se adaptar a propósitos quase opostos. A ordem da natureza foi posta em movimento pela providência divina para promover o interesse de todos aqueles que quisessem assegurar-se da sua felicidade terrena máxima – julgada em termos de utilidade – por meio da livre e natural operação do mecanismo de mercado. Desse modo, era argumentado, podemos estar certos não apenas de que cada homem tem uma oportunidade de determinar seu próprio destino, mas também que a harmonia e o equilíbrio sociais são atingidos. Em tudo isso fica claro que a tradição clássica da lei natural foi ajustada para servir à promoção da bem-aventurança terrena. Até este ponto, toda a discussão tem se concentrado na queda de duas barreiras. Mas isso é suficiente para explicar a ascensão do capitalismo? Ou seja, lidamos com todos os obstáculos culturais a esse desenvolvimento da cultura ocidental? Revisemos brevemente os elementos mais essenciais do capitalismo moderno segundo descrito acima. O capitalismo moderno é aquela estrutural social (1) na qual a ordem legal, a moralidade pública prevalecente, bem como a organização da vida socioeconômica dão livre acesso às forças do crescimento econômico e do desenvolvimento tecnológico; e (2) na qual, subsequentemente, essas forças se manifestam por meio um processo de “seleção natural” na medida em que elas se formam mediante uma competição contínua no mercado entre unidades independentes de produção organizadas com base nos retornos de capital. Com isso em mente, podemos responder de modo afirmativo às perguntas acima em vários aspectos, pois mesmo antes do início do século 19 foi estabelecido um contexto espiritual que apresentava as seguintes características: a. O desejo pela renovação econômica e tecnológica é considerado essencial para a autorrealização do homem, que é obtida por meio da interação com a natureza (Renascença). b. O desejo pela renovação econômica e tecnológica torna-se possível graças à ideia de que a livre competição pertence ao plano providencial, como algo incorporado à ordem natural na qual o equilíbrio de mercado leva à harmonia social (deísmo). c. O desejo pela renovação econômica e tecnológica é justificado desde o início pelas normas legais da concepção renovada de lei natural que concebe cada preço como justo somente se este for um resultado da livre competição, e que adicionalmente vê a tarefa do governo como limitada primariamente à proteção dos já existentes direitos de propriedade e contrato. d. E, finalmente, o desejo pela renovação econômica e tecnológica também é justificado desde o início com base nas normas morais de uma ética utilitarista – desenvolvida em particular depois de 1750 – que avalia as atividades humanas somente em termos dos efeitos de utilidade e que considera a crescente aquisição de bens pela humanidade como a mais importante fonte de utilidade. Essas quatro características constituem o esquema espiritual do capitalismo. Uma vez que elas tenham sido aceitas, o caminho está desobstruído para o processo de livre competição, incluindo a reorganização das relações socioeconômicas caso isso seja requerido para o sucesso da livre competição. Lei e moralidade funcionam como uma justificativa para a competição. Finalmente, a tarefa legal do governo na realização da competição consiste em manter-se fora desse processo. No entanto, com este resumo ainda não lidamos com todas as condições que devem ser satisfeitas caso uma sociedade capitalista venha a se estabelecer. Estamos olhando para uma espécie de esquema, mas ele deve receber forma; ele deve ganhar vida. Falta ainda a centelha espiritual. Poderia ser que, de fato, a fé ocidental no progresso seja esse elemento que dá vida? Poderia ser que nessa fé nós reconheçamos a centelha decisiva, que inicialmente toca uma pequena elite, mas que, gradualmente, alcança também as massas? Essa é uma pergunta altamente interessante e importante, que merece uma resposta cuidadosa. Na nossa busca por uma resposta poderemos muito bem descobrir a terceira e possivelmente mais crucial barreira à ascensão do capitalismo. Esta seria a barreira do paraíso perdido. Na Idade Média, o paraíso terreno era, de fato, considerado perdido. Essa consciência limitou suas aspirações temporais. Mas poderia a era moderna aceitar esses limites? Não seria a era moderna caracterizada pelo esforço de superar tais limites na sua busca para recuperar o paraíso na terra? Essas perguntas necessitam da nossa atenção cuidadosa. 5 A BARREIRA DO PARAÍSO PERDIDO ILUMINISMO, RAZÃO E PROGRESSO Os sessenta a setenta anos que precederam a Revolução Francesa são geralmente conhecidos como o período do Iluminismo. De acordo com seus contemporâneos, esse é o período no qual a luz da razão humana começou a penetrar os obscuros recônditos da Europa. Imannuel Kant, o grande filósofo iluminista, descreveu esse período como a era na qual o homem emergiu “da sua tutela autoimpostá. Ele sugeriu como mote do Iluminismo a expressão Sapere aude –”Ousar conhecer".⁵⁴ Esse foi o tempo em que o homem tornou-se consciente do seu avanço cultural, quando ele desejou, de modo drástico e racional, quebrar as correntes que o prendiam à ignorância, à superstição e à tradição. Numa palavra, foi a era ou época na qual a fé no progresso havia se tornado uma parte inerente da cultura ocidental. Imediatamente isso coloca diante de nós uma importante pergunta de interpretação. Na verdade, podemos falar da presença de uma consciência geral do progresso antes do Iluminismo. Mas então essa consciência tornou-se uma fé, isto é, uma confiança profunda no crescimento constante da habilidade e do discernimento do homem e da felicidade terrena. Como essa noção de progresso tornou-se uma fé no progresso? Sem dúvida, uma das razões foi o fato de que no século 18, especialmente durante a sua segunda metade, era possível olhar para trás e ver uma série de importantes realizações. Em especial, as realizações no âmbito das ciências naturais impressionaram muitas pessoas. Assim, em 1706 Lord Shaftesbury escreveu: “Há uma luz poderosa que se espalha pelo mundo, especialmente nas duas nações livres da Inglaterra e da Holanda. [...]”.⁵⁵ Os “portadores da luz” que ele mencionou nesse contexto eram os cientistas naturais Newton e Huygens, os filósofos Bacon e Locke e o médico Boerhaave. Além disso, deve ser observado o avanço do homem ocidental no que diz respeito à expansão geográfica e econômica. Continentes longínquos eram atraídos para sua esfera de influência. Novos mercados eram abertos. Houve uma surpreendente renovação com a criação de novos centros comerciais e bancários na Europa. Pode-se afirmar que durante o período do Iluminismo foi feito o balanço do período anterior. As realizações foram registradas e somadas, e o saldo assinalado de maneira clara e concisa numa única palavra: progresso. “Para o porta-voz do Iluminismo, o progresso foi uma experiência antes de se tornar um programa.”⁵ No entanto, obviamente o fato de que progresso foi feito não é razão suficiente para explicar o surgimento de uma fé no progresso. A fé no progresso não pode ser baseada apenas no conhecimento indubitável de que ocorreu progresso na civilização anterior. Esse tipo de fé requer também a convicção de que um progresso semelhante definitivamente ocorrerá no futuro. Lemos no Novo Testamento: “Ora, a fé é a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que se não veem”.⁵⁷ Isso também é verdadeiro quanto à fé no progresso. Nesse contexto, J. B. Bury observa corretamente que “O progresso da humanidade pertence à mesma ordem deideias que a Providência ou a imortalidade pessoal. Seja verdadeiro, seja falso, como elas ele não pode ser provado como verdadeiro ou falso. A crença no progresso é um ato de fé”.⁵⁸ Quando nos perguntamos como essa fé no progresso futuro poderia acomodar-se na nossa cultura, em primeiro lugar observamos que o homem ocidental naquele momento tinha obtido uma profunda confiança nas possibilidades do seu próprio discernimento racional e engenhosidade crítica. Testemunhamos nesse caso a marcha triunfal do racionalismo. Já em 1729 Bernard le Bovier de Fontenelle, um cientista francês e escritor iluminista, comparou a sociedade ocidental com uma criança que, à medida que se torna mais velha ganha mais e mais sabedoria porque, graças às suas capacidades racionais, ela pode aprender a partir dos seus erros. Assim, esses conhecimento e discernimento aumentam continuamente. Em outras palavras, a razão humana é um guia para o presente no qual se pode também confiar para o futuro. A garantia do progresso futuro implica em grande medida a operação de um guia completamente confiável no presente que pode ajudar a humanidade a evitar cada perigo e ameaça com uma certeza infalível. À essa luz, podemos também entender Voltaire, o “Moisés” da era do Iluminismo, quando ele escreveu, em 1751: “Podemos acreditar que a razão e a indústria sempre progredirão mais e mais; [...] que os males que têm afligido os homens, os preconceitos [...] irão desaparecer gradualmente. [...]”.⁵ Mais tarde, Whitehead expressou a mesma ideia da seguinte maneira: “Enquanto a Idade Média foi uma era da fé baseada na razão, o século 18 foi uma era da razão baseada na fé”. Essa função da razão crítica do homem como um guia infalível também explica o mistério da razão pela qual a ideia iluminista de progresso envolveu tão facilmente e de modo tácito avanços simultâneos em cada área da cultura. É um resultado da suposição iluminista implícita, porém não provada, de que dois períodos consecutivos – sejam do passado ou do presente, ou do presente e do futuro – podem ser comparados entre si em todos os seus aspectos, e que o período posterior emerge como um avanço em todos os aspectos para além do período anterior. Se esse não fosse o caso, poder-se-ia falar, na melhor das hipóteses, de um progresso parcial. Contudo, apenas em casos excepcionais os filósofos do Iluminismo pensam e escrevem sobre progresso parcial. Eles empregaram um conceito de progresso que é de fato integral e abrangente. Esse conceito envolve uma melhoria regular e constante dos costumes e das tradições humanas, progresso na educação e na civilização, florescimento das artes, aumento da prosperidade e da tecnologia e melhorias em todos os tipos de condições sociais. Essa fé integral e todo-abrangente no progresso por parte dos pensadores iluministas pode ser explicada apenas nos termos da aceitação deles da orientação infalível suprida pela razão crítica do homem na qual todos os fios da existência humana se unem. O progresso na sociedade é governado em todos os aspectos a partir do centro de controle da racionalidade. Quanto a isso, em 1752 David Hume escreveu: É razoável que não possamos esperar que uma peça de roupa de lã seja feita de um modo perfeito numa nação que é ignorante a respeito da astronomia, ou na qual a ética seja negligenciada. O espírito da época afeta todas as artes; e as mentes dos homens [...] transportam as melhorias para cada arte e ciência. Assim, a indústria, o conhecimento e a humanidade estão ligados por uma corrente indissolúvel. ¹ A mesma ideia foi afirmada pelo contemporâneo de Hume, Francis Place, que disse que "O progresso feito no refinamento dos modos e da moral parece ter ocorrido simultaneamente ao aperfeiçoamento nas artes, nas manufaturas e no comércio’. ² No entanto, será que tudo isso de fato garante o progresso completo, integral da sociedade? A resposta a essa pergunta é negativa. Essa garantia não é automaticamente obtida, nem mesmo na visão de mundo do Iluminismo na qual a razão crítica é considerada um guia infalível na direção de um futuro melhor. A incerteza encontra-se na pergunta sobre se o homem estaria preparado para continuar a seguir esse guia. Há a possibilidade de que o próprio homem obstrua o progresso ao permitir que outras considerações, além das racionais, influenciem sua vida. Portanto, para obter uma certeza absoluta, a fé no progresso requeria um toque final; ela precisava, por assim dizer, de um selo final. Ele foi encontrado na assombrosa ideia de "le perfectionnement de l’homme', a perfectibilidade do próprio homem. PERFECTIBILIDADE HUMANA E O PARAÍSO FUTURO Confinado na sua cela – da qual ele seria levado para a guilhotina – o Marquês de Condorcet (1743-1794), ex-presidente da Assembleia Legislativa da França, escreveu seu famoso Esboço de um Quadro Histórico dos Progressos do Espírito Humano ³ no qual ele lucidamente articulou a ideia da perfecti-bilidade humana como a marca da fé iluminista. Em 1795, um ano depois da sua morte, e à custa do governo francês, seu tratado foi publicado. Esse livro pode ser considerado como talvez a mais importante confissão da fé iluminista no progresso. Ele recebeu muita atenção, tanto nacionalmente quanto internacionalmente. Naquele tempo os contatos internacionais eram muito intensos. Isso é corroborado pelo fato de Madame de Condorcet ter traduzido Teoria dos Sentimentos Morais, de Adam Smith, para o francês, enquanto o próprio Smith desenvolveu as bases para sua obra A Riqueza das Nações durante sua estadia de três anos na França. É fascinante ver como Condorcet, no seu esboço do progresso humano, começa a partir de uma típica colocação renascentista que também encontramos nos economistas clássicos, ou seja, a da luta do homem com a natureza. Condorcet vê essa luta como a origem de todo progresso humano; isso porque, nessa batalha, com a ajuda da razão, o homem obtém vitória após vitória sobre a natureza que resiste à dominação com todas as suas forças – mas em vão. Condorcet também vê os frutos do progresso como um resultado dessa luta. O homem obtém controle técnico científico efetivo sobre todos os processos naturais. Além disso, dada a sua razão crítica, ele é capaz de cortar seus laços com o passado, rompendo com todas as tradições herdadas e com todos os rígidos costumes da civilização humana. Contudo, esse progresso não ocorre à parte ou para além da natureza mais essencial do próprio homem. Pelo contrário – e nesse ponto encontramos um elemento novo e decisivamente moderno –, a própria essência do homem muda e se desenvolve nessa batalha com a natureza. Ele se move para fases cada vez mais elevadas da humanidade. A história é o palco da humanização do homem, do seu tornar-se homem. Em última instância, esse processo de autorrealização e automelhoria pode levar apenas a um ponto: a perfectibilidade do homem, “le perfectionnement de l’homme”. Portanto, o progresso não é apenas feito pelo homem; ele também ocorre no homem. De acordo com Condorcet, a natureza “não colocou limites à perfeição das faculdades humanas”. ⁴ Assim, ele profetiza que um verdadeiro milênio aguarda a humanidade, uma sociedade perfeita na qual “a raça humana, livre de todos os seus grilhões, afastada do império do acaso assim como dos inimigos do Progresso, andaria a passos firmes no caminho da verdade, da virtude e da alegria”. ⁵ O paraíso não se encontra no passado; ele está no futuro. Então, o homem ocidental é competente para alcançar esse futuro. Não surpreende o fato de que o tema do paraíso seja tão frequentemente apresentado pelos pensadores do Iluminismo. É importante observar que eles não apresentam esse tema como um sonho utópico, mas como um futuro absolutamente atingível. Isso é verdadeiro não apenas no caso de alguns poucos e grandiloquentes escritores franceses; até mesmo os mais moderados pensadores ingleses descrevem a nova Jerusalém, que será estabelecida na terra pelo homem, usando uma terminologia quase apocalíptica. Assim, William Godwin profetiza que,naquele dia abençoado, Não haverá guerras, crimes, administração da justiça, nem governo. Além disso, não haverá doenças, angústias, melancolia nem ressentimento. Com inefável fervor, todo homem procurará o bem de todos. A mente será ativa e ávida, porém nunca desapontada. De maneira semelhante, Joseph Priestley (1733-1804), pregador inglês, economista e filósofo, declara que “qualquer que tenha sido o início deste mundo, o fim será glorioso e paradisíaco, além do que nossa imaginação possa conceber”. Ele explica isso afirmando que “a natureza [...] estará ainda mais sob nosso comando; os homens desempenharão suas atividades neste mundo de uma maneira muito mais fácil e mais confortável”. ⁷ Devemos observar cuidadosamente o que está realmente ocorrendo nesse ponto. Certamente há mais em jogo do que meditações idealistas e infrutíferas de alguns estudiosos nas suas torres de marfim. Nesse ponto, o caminho está sendo pavimentado para uma prática social radicalmente nova! Revisemos brevemente a história mais uma vez. A remoção da barreira da igreja e do céu liga o homem ocidental a esta terra como o palco para sua autorrealização. A derrubada da barreira da providência e do destino livrou o homem de um Deus que intervém, desse modo abrindo caminho para uma autodestinação completamente humana. E então a terceira barreira foi completamente destruída pelos filósofos iluministas, que colocaram a autodestinação racional no contexto de um futuro perfeito alcançável e da garantia de que o paraíso perdido poderia ser recuperado pelas próprias atividades humanas. O otimismo do ser (zijnsoptimisme) tornou- se o otimismo da vontade (wilsoptimisme). ⁸ O motivo do progresso tornou-se um programa para o progresso! Esse é o significado mais profundo dessas novas e impressionantes imagens do paraíso. A consciência do progresso tinha amadurecido numa fé que, pelo bem do futuro da humanidade, poderia intimar o homem às ações; e o arrebatador “esplendor” dessas ações se assemelha ao de mover montanhas, incluindo a poderosa montanha da ordem social ocidental. A fé no progresso tinha se tornado uma fé capaz de transformar seus adeptos em revolucionários de primeira ordem, pois quem não seguiria a direção de um guia infalível que apontava resolutamente o caminho do paraíso então reconquistado? ASPECTOS BÁSICOS DA FÉ DO ILUMINISMO NO PROGRESSO Essas afirmações não apresentam uma imagem parcial da situação. Isso ficará evidente a partir de uma investigação de três aspectos específicos da fé iluminista no progresso: a resistência dos pensadores iluministas à religião cristã, a interpretação deles do paraíso futuro e a atitude prática deles em direção à melhoria concreta da sociedade. É precisamente por causa desses aspectos que os adeptos do pensamento iluminista criaram um contexto espiritual para as grandes revoluções na sociedade ocidental. Atitude anticristã Do que ainda existe da correspondência entre Diderot (1713-1784) e Voltaire (1694-1778), sabemos que era um hábito de Diderot dirigir-se a Voltaire como “sublime, honorável e querido Anticristo”, enquanto Voltaire concluía suas cartas com a abreviação “Ecr. L’inf.” da expressão francesa Ecrasez l’infame, que significa “esmague os infames”. Para ele, os infames eram em primeiro lugar a Igreja Católica Romana e seu clero, mas num sentido mais amplo era a religião cristã em geral. “Todo homem sensível, todo homem honrável, deve ver a seita cristã com horror”, escreveu certa vez. Seria essa postura hostil para com a religião cristã, adotada particularmente pelos filósofos franceses, um mero acidente histórico ou uma característica essencial do pensamento iluminista francês? Peter Gay demonstra de maneira convincente que se trata da segunda opção. É significativo que ele coloque como subtítulo do primeiro volume da sua interpretação profunda do Iluminismo O surgimento do paganismo moderno. Em certa medida, os filósofos iluministas franceses viam o deísmo como um aliado temporário; ao mesmo tempo, era óbvio que eles não se consideravam adeptos desse movimento espiritual. O deísmo foi o último compromisso da filosofia ocidental com o cristianismo, mas era precisamente como um compromisso que ele não podia achar favor aos olhos dos filósofos. O deísmo ainda se originara de alguma forma da revelação divina, embora com importantes qualificações. Ele ainda aceitava a noção de bem e mal e seu efeito na sociedade humana. Ele não rejeitava o reconhecimento da pessoa de Jesus como a mais importante figura histórica e como um modelo para uma vida humana virtuosa. Mas exatamente nesse ponto surgiu a tensão com a filosofia iluminista autêntica – pois o que tinha a igreja cristã realizado com seu apelo à revelação divina, além de afirmar o status quo e manter a sociedade no barbarismo e no tradicionalismo? Certamente não era acidental que Rousseau tentasse apagar o trauma do seu passado calvinista em Genebra proclamando que por natureza o homem era bom em vez de mau e que, assim, nos encontramos no estado de natureza não de depravação, mas de pureza e inocência. Contra esse mesmo contexto, a cruz de Cristo, levantada por causa dos nossos pecados, tornou-se para Voltaire uma fonte direta de aborrecimento. Certa vez, depois de subir uma montanha e observar um magnífico nascer do sol, ele ajoelhou-se e orou de maneira emocionada: “Eu creio. Eu creio em ti! Poderoso Deus, eu creio!” Porém, quando ficou de pé novamente, continuou de uma maneira indiferente: “Quanto ao senhor seu Filho, e à senhora sua Mãe, essa é outra história”.⁷ Durante o Iluminismo encontramos pela primeira vez na história ocidental uma resistência aberta e amplamente fundamentada por parte de importantes pensadores a qualquer coisa que estivesse ligada à religião cristã. O deísmo não satisfazia mais; na melhor das hipóteses ele levava a um otimismo do ser – um otimismo dentro da ordem da natureza, atingido sem a interferência humana. Era necessário um otimismo da vontade, que tivesse fé no seu próprio poder e, desse modo, fosse capaz de mudar o mundo.⁷¹ Em última instância, essa intensa resistência emocional à fé cristã pode ser mais bem explicada provavelmente pelo fato de que os pensadores ilumi-nistas confessavam uma fé própria. Essa fé colidia com o centro da religião cristã. Carl Becker, de modo mais incisivo do que outros historiadores, chama nossa atenção para esse comprometimento de fé dos philosophes – “ateus de fato senão de profissão”. Becker diz que esses pensadores, “demoliram a Cidade Celeste de Santo Agostinho simplesmente para reconstruí-la com materiais mais modernos”.⁷² Seu resumo dos artigos de fé dos philosophes merece ser citado na íntegra: Os artigos essenciais da religião do Iluminismo podem ser assim expressos: (1) o homem não é depravado por natureza; (2) o fim da vida é a vida em si, a boa vida na terra em vez de vida santa depois da morte; (3) o homem é capaz, guiado apenas pela luz da razão e da experiência, de aperfeiçoar a boa vida na terra; e (4) a primeira e essencial condição para a boa vida na terra é a libertação da mente dos homens dos laços da ignorância e da superstição, e os seus corpos da opressão arbitrária das autoridades sociais constituídas.⁷³ Não é acidental que em cada um desses artigos de fé vejamos como que um reflexo da confissão cristã, mais especificamente do catolicismo romano. A religião do Iluminismo francês não é uma religião num sentido positivo da palavra. Em primeiro lugar ela é uma antirreligião na medida em que intenciona romper radicalmente com a religião cristã e com tudo o que dependa dela. Sua dimensão positiva máxima consistia num vago respeito por uma “deidade” de maneira geral. No entanto, essa deidade nada tinha a ver com a revelação ou com a redenção para o mal humano neste mundo. Na Inglaterra e na Alemanha não encontramos a mesma resistência amarga e obstinada à religião cristã que encontramos na França. Poder-se-ia afirmar que na Inglaterra a tradição deísta permaneceu tão forte que essa e outras características radicaisdo pensamento iluminista autêntico foram, em alguma medida, moderadas e restringidas. Essa restrição teria neutralizado a tendência anticristã do pensamento francês? Teria mantido a fé cristã na sua autenticidade? Em resposta podemos dizer, concordando com Peter Gay, que “os philosophes pagaram um preço por fraternizar com o inimigo cristão. Mas os cristãos pagaram um preço ainda maior – foi o defensor, não o agressor, que foi paralisado pelas suas concessões”.⁷⁴ O sal que perde seu sabor não tem mais utilidade, devendo ser lançado fora. No início da Revolução Industrial, uma religião insípida de virtude e imortalidade era dominante na igreja oficial inglesa. Imagem do paraíso A concepção iluminista de um paraíso futuro revela uma série de aspectos que se afastam consideravelmente do conteúdo do tema bíblico do paraíso. Evidentemente, traços paralelos também estão presentes, tais como o desa- parecimento da guerra e do sofrimento, a restauração da harmonia com a natureza e o retorno da paz eterna. Kant até mesmo dedicou uma publicação a este último tema. Porém, as diferenças são marcantes. Em primeiro lugar vemos que nas descrições iluministas do futuro a ênfase está na prosperidade material e na abundância do luxo e do lazer como um resultado da tecnologia avançada. Talvez ainda mais surpreendente seja a forte ênfase nos efeitos benéficos diretos da mudança nas estruturas e instituições sociais. Essa mudança tem uma espécie de efeito curativo infalível embutido. A que influências essas diferenças podem ser traçadas? Ou elas seriam uma invenção iluminista? Essas perguntas tornam- se ainda mais fascinantes quando lemos nas obras de vários dos pensadores iluministas que a transição para uma sociedade melhor é marcada especialmente pela instituição da propriedade comum e quando observamos que outros sugerem o desaparecimento permanente do Estado. Naquela era futura “não haverá governo”, profetizou Godwin, como observamos anteriormente.⁷⁵ Esses tipos de ideias dificilmente poderiam ter sido formulados arbitrariamente. Nesse sentido observamos paralelos surpreendentes entre as imagens iluministas do paraíso futuro, de um lado, e as imagens greco-romanas, particularmente as estoicas, do paraíso do passado, de outro. Elas estão separadas por vários séculos, mas nós nos perguntamos se essas semelhanças são meramente acidentais. Dos escritos dos estoicos de fato recebemos uma imagem fantástica de um paraíso habitado pelo homem.⁷ Eles especulavam que no início da era humana existia um mundo perfeito que durou pelo menos 36 mil anos.⁷⁷ Eles se referiam a essa era como sendo a era de ouro, uma expressão que regularmente aparece na literatura ocidental nos locais menos esperados. Essa era de ouro era caracterizada primeiramente pela presença da propriedade comunal e pelo gozo que cada um teria do fruto do seu próprio trabalho. O resultado era a igualdade; as diferenças de classe ou posição eram desconhecidas. Até mesmo o Estado inexistia, pois onde há igualdade não há razão para inveja e cobiça e, por conseguinte, não há necessidade da proteção legal do governo. No relato bíblico, o desejo pecaminoso de se tornar como Deus causou uma ruptura entre Deus e o homem e, consequentemente, entre o homem e o paraíso. A versão estoica é diferente. Eles afirmavam que esse período de felicidade perfeita teve seu fim devido ao fato de algumas pessoas violarem a instituição da propriedade e assim, pela primeira vez, a propriedade privada foi introduzida. Mas isso não era tudo, uma vez que a propriedade privada levou ao surgimento da diferença de classes e de posições na sociedade. Ademais, a pessoa individual perdeu seu direito de desfrutar do fruto do seu trabalho. Finalmente, o Estado surgiu. Nessa nova estruturação social – caracterizada por Ernest Troeltsch com a expressão lei natural relativa da era de ouro – o Estado tinha se tornado uma necessidade. Sua tarefa consistia na proteção dos direitos de propriedade privada e na prevenção da guerra neste mundo do homem contra o homem. Em outras palavras, o Estado tornou-se o protetor dessa nova ordem legal, caracterizada por divergência na propriedade, na posição social e no poder. Sem dúvida, os estoicos preferiam a era de ouro, com sua propriedade comunal e sua igualdade entre todos os homens, em vez da era subsequente. Contudo, eles estavam convencidos de que um retorno a esse paraíso perdido estava além dos poderes do homem. Uma tentativa de reconquistá-lo seria o mesmo que desafiar os deuses ou a providência. O único prospecto para um futuro melhor – marcado pela irmandade de todos os cidadãos do mundo – seria seguir de maneira virtuosa a direção providencial da lei natural relativa. Essa imagem estoica do paraíso deixou uma marca profunda no pensamento ocidental. Já observamos esse fato com relação a Agostinho, que considerava a cidade dos homens como sendo caracterizada pelas instituições da propriedade, da escravidão e do Estado, cada uma delas correspondendo à lei natural relativa da Stoa. Em Agostinho, estas se tornaram as marcas distintivas do mundo depois da queda e até o fim dos tempos. Mas essa imagem de uma era de ouro perdida reapareceu com frequência em momentos posteriores. No século 17, por exemplo, John Locke dedicou uma parte significativa do seu Ensaio Sobre o Entendimento Humano (1689) a esse tema. De modo semelhante, Hugo Grotius toma a ideia de propriedade comunal de todos os homens como seu ponto de partida. Talvez ainda mais explícitos sejam os ecos que ouvimos dessa era de ouro nas utopias ou imagens do futuro presentes em obras como Utopia, de Sir Thomas More (1516), Nova Atlântida, de Francis Bacon (1627) e O Novo Mundo Industrial e Societário, de Charles Fourier (1829). Essas obras diferem significativamente umas das outras, mas têm um importante elemento em comum. Cada uma dessas fantasias a respeito do futuro dá um lugar de destaque à regulamentação da propriedade, do trabalho e das classes e posições sociais. Em outras palavras, elas representam imagens ideais modificadas da era de ouro estoica. Encontramos isso em quase todas as utopias modernas, que manifestam uma nostalgia em relação a um paraíso há muito perdido projetado no futuro. Qual é o significado de tudo isso para nosso entendimento do Iluminismo? Em primeiro lugar, as velhas imagens do paraíso ganham vida nova. Contudo, de início elas são colocadas num novo plano: não mais de nostalgia ou de sonhos quanto a um passado há muito perdido – não tem de ser assim. Em vez disso, é um plano de uma realidade futura a ser dirigida pela própria atividade do homem. Duas mudanças são decisivas: a imagem da era de ouro é transformada de sonho em projeto, e muda do paraíso perdido para o paraíso recuperado. Uma expressão mais incisiva disso é encontrada no epitáfio do socialista utópico francês Saint-Simon (1760-1825), na qual seus alunos gravaram na lápide dele como um resumo de toda sua vida: “A era de ouro não está atrás de nós, mas à nossa frente”.⁷⁸ É claro que a descrição iluminista do paraíso revela divergências e modificações. Os socialistas permaneciam os mais próximos da imagem estoica original do paraíso. Karl Marx, por exemplo, acreditava numa sociedade futura alcançável baseada na propriedade comum, na qual todos desfrutariam do fruto do seu próprio trabalho, as diferenças de classe desapareceriam e – para tornar completa a imagem estoica – na qual o Estado seria abolido. Mas não deveria nos surpreender que nem todos os pensadores iluministas eram igualmente atraídos por essas ideias “radicais”. Alguns nutriam certas reservas com relação à ideia de propriedade comum total; outros mantinham uma atitude arrogante com relação às massas. Diderot escreveu certa vez que o povo (peuple) é “idiota demais – animal – miserável demais e ocupado demais” para ser capaz de esclarecer-se, e “a quantidade dos canalhas é quase sempre a mesma”.⁷ Mas o ponto comum entre todo pensamento iluminista e o tema do paraíso utópico- estoico diz respeito à convicção compartilhada de que,em última instância, a presença ou ausência de estruturas e instituições sociais, com suas respectivas relações legais (tais como a existência ou inexistência da propriedade comum), determina se uma sociedade será perfeitamente feliz ou infeliz. A queda do homem no pecado não o separa do paraíso. Apenas as estruturas e instituições sociais equivocadas o mantêm afastado da felicidade.⁸ Por essa razão uma mudança nessas instituições sociais, ou a destruição delas seria suficiente para assegurar o retorno da felicidade neste mundo.⁸¹ Melhoria social prática Tendo em mente o que vimos, podemos perfeitamente entender por que os filósofos do Iluminismo demonstraram um interesse quase incessante por cada proposta direcionada para a melhoria prática da ordem social existente. “O espírito dos filósofos franceses no século 18 era claramente pragmático. A vantagem do homem era seu princípio.”⁸² Nada – pequeno ou grande – escapava do interesse deles se pudesse promover “utilidade” na sociedade. Portanto, não é de admirar que eles fossem mais atraídos pelo utilitarismo do que pelo deísmo. Rousseau resumiu habilmente o ponto de partida comum deles em Emílio: “Não é uma questão de saber o que é, mas apenas do que é útil”.⁸³ Colocar o significado da teoria – isto é, de toda reflexão científica – na promoção da utilidade social prática foi uma noção vital muito antes da era do Iluminismo. Ela já era evidente em Nova Atlântida (1627), de Francis Bacon. Sua sociedade imaginária era povoada por cientistas, reunidos na Casa de Salomão, que estavam permanentemente envolvidos com invenções científicas úteis. Estas variavam de luz solar artificial a metais artificiais, fogos de artifício, submarinos, e até mesmo “Água do Paraíso” para o prolongamento da vida.⁸⁴ “O princípio que o objetivo característico do conhecimento é a melhoria da vida humana, o aumento da felicidade dos homens e a mitigação dos seus sofrimentos [...] era a estrela guia de Bacon em todo o seu trabalho intelectual.” “Para ele, o objetivo do conhecimento era a utilidade.”⁸⁵ Essa linha de pensamento é consistentemente adotada no século 18 pelos filósofos do progresso. O famoso Abade de Saint-Pierre (1658-1743), por exemplo, dedicou a vida à construção de esquemas e planos para aumentar a felicidade humana. Ele não apenas desenvolveu um plano para o estabe- lecimento da paz perpétua, mas também um grande sistema de reforma na educação, baseado no livre ensino, bem como um projeto para uma revisão completa de todo o aparato governamental. Ele também é conhecido por uma série de projetos técnicos práticos, tais como um plano para tornar as estradas trafegáveis durante os meses de inverno. De acordo com suas afirmações, ele tinha um apreço maior por um novo canal do que pela catedral de Notre Dame em Paris. Ele via a expansão do comércio ultramarino como uma das melhores saídas para uma sociedade mais feliz; isso porque, quanto maior o volume de comércio, maior a prosperidade, e quanto maior a prosperidade, maior o tempo disponível para a leitura e a escrita, o que invariavelmente aumenta o nível de conhecimento da população.⁸ O aumento da prosperidade e o progresso tecnológico cientificamente baseado são os dois aliados indispensáveis no caminho para um futuro melhor. Isso é parte do credo iluminista. “Aonde pode chegar a perfectibili-dade do homem, armado com a geometria, as artes mecânicas e a química?” Essa pergunta retórica foi feita por Mercier, um escritor utópico francês, no final do seu livro L’an 2440.⁸⁷ A resposta está implícita no título: Mercier profetizava uma sociedade perfeita para o ano de 2440 d.C. Essa sociedade seria caracterizada pela paz perpétua, pela educação pelo Estado e pela abundância de tempo para descanso. Essa confiança na prosperidade futura e na inovação técnica forma um vínculo estreito entre os pensadores iluministas ingleses e franceses. Eles constituem os sinais visíveis do progresso humano. “No século do Ilumi-nismo [...] a palavra inovação, tradicionalmente um termo efetivo de abuso, tornou-se uma palavra de louvor.”⁸⁸ Assim, Newton, que foi um cristão humilde durante toda sua vida, era admirado universalmente como um pioneiro, um inovador, um descobridor de um novo mundo. “Wer dir Will folgen, irret nie”, celebrava Albrecht von Haller, poeta alemão do Iluminismo. Ao mesmo tempo Diderot clamava que “os pensadores teóricos e práticos deveriam se unir contra a ‘resistência da natureza’. A especulação descontraída tinha seu lugar ao lado da experimentação paciente e sistemática; juntas elas tornam o filósofo da natureza num conquistador”.⁸ Em geral, há um acordo entre os pensadores iluministas com respeito à intrépida admiração deles pelo progresso científico, técnico e econômico como o meio para atingir o maior benefício e utilidade para a toda a sociedade. Eles estavam unidos em sua defesa de revisões concretas na ordem política e social existente. Contudo, com relação à pergunta sobre se essas mudanças desejadas poderiam ser atingidas apenas mediantes o uso da força violenta, direta, há uma importante diferença de opinião entre esses pensadores. Via de regra, a filosofia iluminista inglesa e alemã é caracterizada pela prudência. Nesse caso, o pensamento é que as mudanças sociais e políticas requeridas irão ocorrer, por assim dizer, automaticamente na esteira do progresso. A realização da utilidade social não requer uma intervenção violenta e o uso da força. Contudo, os pensadores franceses iam conscientemente além disso. Para eles, as novas estruturas e instituições sociais eram um imperativo. Eles não tinham apenas a reforma educacional em mente, mas um sistema político inteiramente novo, baseado na soberania do povo; uma nova ordem social que requeria no mínimo a abolição de qualquer coisa deixada pelas guildas e uma nova elite espiritual, o que acarretava a liquidação do poder do clero sobre a vida diária dos fiéis. Nesse ponto, novamente o argumento deles é completamente coerente. Se é verdadeiro que as instituições sociais são capazes de determinar o bem e o mal dos homens, e se é correta a suposição de que “a nova maquinaria social poderia alterar a natureza humana e criar um céu na terra”, então o estabelecimento de novas instituições sociais não é uma tarefa cansativa e incidental, mas uma terrível necessidade e um elevado imperativo ético. Nesse caso, o estreito caminho para o paraíso perdido só pode ser o caminho da revolução social. ¹ O ILUMINISMO COMO A MÃE DAS REVOLUÇÕES A filosofia do Iluminismo desempenhou um importante papel preparatório para todas as revoluções subsequentes na sociedade ocidental. Ela pôde fazer isso porque a fé no progresso, inerente a essa filosofia, não era uma questão de teorização abstrata, mas era solidamente baseada na prova prática de uma mentalidade de reforma e no desejo pela renovação social. Esse foi o caso em particular da Revolução Francesa de 1789. Sua eclosão está indissoluvelmente ligada ao caráter específico da filosofia francesa do progresso do século 18. Como observamos, essa filosofia liga diretamente a chegada de uma natureza humana melhorada e de um mundo melhor a uma ordem política e social renovada. ² Por essa razão o lema “liberdade, igualdade e fraternidade” não era uma esperança vaga ou um desejo piedoso para os revolucionários franceses. Era um programa a ser levado a cabo de maneira direta na prática real. Seria mediante a necessária revolução social e política que a liberdade e a fraternidade iriam, como que de maneira automática, tornar-se uma parte permanente da sociedade, em antecipação da perfectibilidade humana vindoura. Essa orgulhosa convicção é abertamente revelada na Declaração Francesa dos Direitos do Homem (1789). A ligação que os pensadores iluministas estabeleceram entre a intervenção social revolucionária e o progresso humano permanente tinha várias implicações. Ela deu à luz a ideologia da revolução que desde seu princípio tem nos acompanhado no Ocidente como um fogo que é constantemente reacendido. Como uma ideologiada revolução veio a existir? (1) Essa ideologia parte de uma suposição geral de que o homem não é mau por natureza, mas bom, e que consequentemente o mal que existe no mundo não deve ser atribuído ao homem em si, mas à ordem social e às estruturas que o forçam a fazer as coisas erradas. (2) Se esse é o caso, então o passo seguinte é prontamente dado, a saber, de que os inimigos mais perigosos do homem e de sua felicidade são aquelas pessoas que se identificaram com a ordem social vigente e que fazem todos os esforços para preservá-la. Essas pessoas são o inimigo porque na medida em que agem dessa maneira elas se constituem, consciente ou inconscientemente, no real obstáculo à felicidade futura de toda a humanidade. (3) A conclusão do argumento é simples: o inimigo do povo deve ser eliminado, não importa o quanto essa eliminação será dolorosa, uma vez que a salvação só pode abrir caminho na sociedade se essa barreira for removida. Seu sangue vertido pode até mesmo ser visto como uma espécie de garantia de que a redenção do mundo de fato virá. Eles são os bodes expiatórios cujas vidas devem ser sacrificadas para que, desse modo, toda a humanidade possa ter liberdade e vida em abundância. A Revolução Francesa de fato revelou abertamente esse tipo de ideologia da revolução. De maneira significativa, foi uma das mais sangrentas revoluções que o mundo já conheceu. A guilhotina funcionava diariamente, como algo simplesmente natural. Isso parece apontar para algo mais do que uma vingança irracional, temporária contra os antigos tiranos e exploradores. A liquidação da nobreza e do clero, os dois pilares da ordem social anterior, também representava o sacrifício exigido por uma nova religião a fim de garantir o advento da salvação neste mundo. Desde então essa ideologia não adulterada de revolução tem aparecido incontáveis vezes. Encontramos um padrão semelhante de pensamento, por exemplo, na Revolução Russa de 1917. Nesse caso a classe capitalista tornou-se o bode expiatório. Sua eliminação sistemática era vista como a condição necessária para o advento da salvação da sociedade. De uma maneira diferente, mais lúgubre, essa ideologia permeou o sonho nazista de um império pangermânico cuja realização na história mundial tinha sido detida pelas conspirações e intrigas desdenhosas da raça judaica. Daí o “Endlosung der Judenfrage” de Hitler. Não se tratava apenas de uma tentativa insana e sistemática de colocar em prática a “solução final da questão judaica”. Antes, para Hitler e seu grupo os campos de concentração e as câmaras de gás representavam um marco histórico no caminho rumo a uma sociedade mais feliz – das dritte Reich! A estrada da revolução através da Europa passa pelo cemitério da “alta civilização”, no qual milhões estão sepultados, as vítimas das forças demoníacas que a própria cultura ocidental libertou. De fato, a ideologia da revolução e o demoníaco parecem estar inseparavelmente ligados. Talvez esse seja especialmente o caso porque o mistério mais profundo da fé cristã – o sofrimento e a morte de Cristo – em nenhum outro lugar é tão imitado, parodiado e dissecado quanto na ideologia da revolução. Além do mais, é nessa ideologia que a seriedade religiosa máxima é apresentada, falando em termos de queda e redenção, pecado e resgate e o sacrifício do sangue de alguém como uma condição indispensável para a salvação do mundo. A REVOLUÇÃO NORTE-AMERICANA À luz dessa crítica da ideologia da revolução, não é totalmente fora de propósito fazer alguns comentários a respeito da Revolução Norte-Americana de 1776. Os Estados Unidos da América foram fundados antes da Revolução Francesa. Se olharmos para possíveis ligações entre essa fundação de um novo Estado e a filosofia iluminista ocidental, devemos ter me mente desde o início que a Revolução Norte-Americana de 1776 foi essencialmente diferente da Revolução Francesa de 1789 e da Revolução Russa de 1917 – revoluções que foram alimentadas por uma ideologia da revolução. A Revolução Francesa está diretamente relacionada à variante francesa do pensamento iluminista que, com relação à questão do método para se atingir uma nova ordem social, geralmente aprovava o uso da violência, enquanto os pensadores iluministas ingleses eram favoráveis a uma abordagem gradual, evolucionária. Nesse ponto há uma continuidade entre ingleses e norte-americanos. Além disso, a Revolução Norte- Americana deve em primeiro lugar ser vista como uma tentativa legítima de descolonização, um esforço para se libertar da autoridade colonial inglesa. No entanto, seria historicamente incorreto argumentar que não houve conexões entre o pensamento iluminista francês e a experiência revolucionária norte- americana. Os fundadores do Novo Mundo eram indubitavelmente motivados pelos seus próprios ideais, mas não é acidental que os pensadores iluministas franceses vissem a personificação desses ideais na Revolução Norte-Americana como seu exemplo mais claro. Além disso, os pioneiros da Revolução Norte- Americana certamente não rejeitaram a honra que lhes fora concedida pelos intelectuais franceses. Essa não era uma questão meramente formal, havia uma similaridade no quadro de referência. Peter Gay nos diz que Benjamin Franklin e Voltaire eram membros da mesma loja maçônica na França. E Franklin, como representante da Revolução Norte-Americana, despediu-se de Voltaire no seu leito de morte em Paris. Nessa ocasião, Voltaire o abraçou publicamente e abençoou o neto de Franklin em nome de “Deus e da liberdade”. ³ Por fim, devemos observar que a Declaração Norte-Americana de Inde- pendência, formulada por Thomas Jefferson, também ostenta claros traços da fé continental no progresso. É correto descrever essa Declaração como uma tentativa de síntese entre o puritanismo cristão, o deísmo e as ideias de progresso. O deísmo é apresentado na referência expressa aos direitos naturais que são concedidos a todos os homens por um Deus providencial. O motivo do progresso pode ser detectado na menção específica ao direito fundamental de cada pessoa à “busca da felicidade”. À essa luz fica claro por que Peter Gay intitula justificadamente a última seção do seu estudo de dois volumes do Iluminismo, que inclui uma discussão sobre a Revolução Norte-Americana, O programa na prática. ⁴ LÖWITH, Karl. Nature, history, and existentialism and other essays in the philosophy of history. Evanston: Northwestern University Press, 1966, capítulo 9: “Fate of progress”. p. 155.↩ WHITE, Jr. Lynn. “The expansion of technology 500-1500.” In CIPOLLA, Carlo M. (org.). The Fontana economic history of Europe. v. 1: The Middle Ages. Londres: Collins, 1972. p. 168.↩ Cf. WHITE, Jr. “The expansion of technology 500-1500”. v. 1, capítulo 4.↩ HEILBRONER, Robert L. The wordly philosophers. Nova York: Simon & Schuster, 1953. p. 28.↩ Ibid.↩ BOUMAN. P. J. Van tijd naar tijd [De tempos em tempos]. Assen: Van Gorcum, 1972. p. 12.↩ Cf. Efésios, 2.20.↩ Cf., dentre outros, JANTZEN, Hans. High gothic. Londres: Constable, 1962. Parte 2: Ecclesia spiritualis. p. 169-181.↩ 1 Coríntios 12.18-22, 27.↩ 1 Coríntios 7.24.↩ Cf. Introdução, nota 1.↩ TAWNEY, Richard H. Religion and the rise of capitalism. Harmondsworth: Penguin Books, 1938.↩ SAMUELSSON, Kurt. Religion and economic action. Stockholm: Svenska Bokförlaget; Londres: Heinemann, 1961.↩ BIÉLER, André. Pensamento econômico e social de Calvin. 2. ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2012.↩ TAWNEY. Religion and the rise of capitalism. p. 139.↩ HUIZINGA, Johan. The waning of Middle Ages. Nova York: Doubleday and Co., 1924; Anchor Books ed., 1954, capítulos 4 e 5.↩ Cf. entre outros, DAWSON, Christopher. Progress and religion: An historical inquiry. Londres: Sheed & Ward, 1929. p. 183.↩ BURCKHARDT, Jacob. The civilization of the Renaissance in Italy. 2 v. Nova York: Harper &Row, 1929; Harper Torchbook Edition, 1958. v. 2. p. 435.↩ Para uma interpretação mais contemporânea, ver FERGUSON, Wallace K. Facets of Renaissance. Nova York: Harper & Row, 1963, especialmente o capítulo2: "A reinter-pretação da Renascença'.↩ VON MARTIN, Alfred W. O. Sociology of the Renaissance. Nova York: Harper & Row, 1963 – publicado originalmente em 1932.↩ FREY, Dagobert. Gotik und Renaissance als Grundlagen der modernen Weltanschaunng. Augsburg: Filser, 1929.↩ BURCKHARDT. Civilization of the Renaissance. v. 2. p. 203.↩ GAY, Peter. The Enlightenment: An interpretation. 2 v. Nova York: Alfred A. Knopf, 1967 1969. V. 1: The rise of modern paganism (1967). p. 266.↩ DOOYEWEERD, Herman. Roots of the western culture: Pagan, secular and Christian options. Toronto: Wedge publishing foundation, 1979, especialmente o capítulo 6: "Classical humanism'.↩ BURCKHARDT. Civilization of the Reinassance. v. 2. p. 352.↩ Ibid. p. 483.↩ Cf. SOMBART, Werner. "Medieval and modern commercial enterprise', in LANE, Frederic C. e RIEMERSMA, Jelle C. (Orgs.). Enterprise and secular change: Readings in economic history. Homewood: Richard D. Irwin, 1953. p. 36.↩ Uma pesquisa fascinante sobre esse processo de moneti z ação é fornecida por HEILBRONER, Robert L. The making of economic society. Englewood Cliffs: Prentice-Hall, 1968.↩ SANTO AGOSTINHO. The city of God. Nova York: Random House, 1950. Livro 5. p. 158. [A cidade de Deus. 6. ed. Petrópolis: Vozes, 2001]↩ Cf. NEIBUHR, Reinhold. Christian realism and political problems. Londres: Faber & Faber, 1954; STARK, Werner. Social theory and Christian thought. Londres: Routledge & Kegan Paul, 1958; e MOMMSEN, Theodor E. "St. Augustine and the Christian idea of progress', in Journal of the history of ideas. v. 22, n. 1, p. 346-374, 1951.↩ Cf. NIEBUHR, Reinhold. Christian realism and political problems. p. 136- 137.↩ BURY, John B. The Idea of progress: An inquiry into its origin and growth. Londres: Mac-millan, 1920. p. 5.↩ HEIMANN, Duard. History of economic doctrines. Londres: Oxford University Press, 1945. p. 49.↩ GAY. Enlightnment. v. 1. p. 299.↩ Ibid. p. 149.↩ Ibid.↩ Citado por Andrew Skinner na sua introdução a SMITH, Adam. The wealth of nations. Harmondsworth: Penguin books, 1970. p. 27.↩ Citado por SPIEGEL, Henry W. The growth of economic thought. Englewood Cliffs: Prentice-Hall, 1971. p. 230f.↩ Citado por SPIEGEL. Ibid. p. 230.↩ Para uma discussão do pensamento de Smith e da escola clássica da economia em geral, veja HEIMANN, Eduard. History of economic doctrines; MYINT, Hla. Theories of welfare economics. Londres: Londres School of Economics and Political Science, 1948; Nova York: Augustus M. Kelley, 1965; MYRDAL, Gunnar. The political element in the development of economic theory. Nova York: Simon and Schuster, 1954; SCHUMPETER, Joseph A. History of economic analysis. Nova York: Oxford University Press, 1954; e SPIEGEL, Henry W. The growth of economic thought.↩ Cf. as referências da nota anterior.↩ PERROUX, F. “Les mesures des progres economiques et l’idee d’economie progressive', in Cahiers de l’ISEA (Paris, 1956). p. 10. No original francês:”disons ceux qui relient les hommes aux hommes plutôt que ceux qui se rélèvant par le contact des hommes avec les choses'.↩ SCHUMPETER. History of economic analysis. p. 110-115.↩ Ibid. p. 99.↩ Ibid. p. 115.↩ STARK, Werner. Social theory and Christian thought. Londres: Routledge & Kegan Paul, 1958.↩ MANDEVILLE, Bernard. The fable of the bees: or, Private vices, publick benefits (publicado pela primeira vez em Londres: 1714; Harmondsworth: Penguin Books, 1970). p. 63-75.↩ SPIEGEL. The growth of economic thought. p. 227.↩ MYINT. Theories of welfare economics. p. 9.↩ BENTHAM, Jeremy. The principles of morals and legislation. Nova York: Hafner, 1948. p. 1, 2.↩ Ibid. p. 102.↩ Essa teoria foi desenvolvida por volta de 1920 por Arthur Pigou, tendo Henry Sidgwick, Alfred Marshall e Vilfredo Pareto como seus precursores.↩ GOULDNER, Alvin Ward. The coming crisis of Western sociology. Nova York: Basic Books, 1970.↩ GAY. Enlightenment. v. 1. p. 3.↩ Ibid. p. 11.↩ GAY, Peter. The Enlightenment: An interpretation. v. 2: The science of freedom (1969). p. 56.↩ Hebreus 11.1 (João Ferreira de Almeida – Revista e Atualizada).↩ BURY. Idea of progress. p. 4.↩ Cf. BURY. Idea of progress. p. 149-150.↩ Cf. DAWSON. Progress and religion. p. 220.↩ Citado por GAY. Enlightenment. v. 2. p. 26.↩ Ibid. p. 42.↩ MARQUIS de CONDORCET. Esquise d´um tableau historique des progrès de l ´esprit humain (publicado pela primeira vez postumamente em 1795). Trad. para o inglês por June Barraclough; introd. Stuart Hampshire. Londres: Weidenfeld and Nicolson, 1055. [CARITAT. Marie Jean Antoine Nicolas. Esboço de um quadro histórico dos progressos do espírito humano. Editora Unicamp, Campinas. 1993.]↩ Cf. GAY. Enlightenment. v. 2. p. 119.↩ Cf. DAWSON. Progress and religion. p. 13.↩ GODWIN, William. Enquiry concerning political justice and its influence on morals and happiness, 3 v. Toronto: The University of Toronto Press, 1946. v. 2. p. 528.↩ Citado por BECKER, Carl Lotus. The heavenly city of the eighteenth-century philosophers. New Haven: Yale University Press, 1932. p. 145.↩ Esees termos são derivados de POLAK, Fred L. De toekomst is verleden tijd, 2 v. Zeist, Países Baixos: W. de Haan, 1958. Tradução para o inglês de Elise Boulding. The image of the future, 2 v. Leyden: Sijthoff; Nova York: Oceana Publications, 1961, v. 1. p. 47. A tradução de Boulding destes termos – essence- optimism e influence-optimism, respectivamente – é equivocada (nota do tradutor para a edição em inglês).↩ Citado por GAY. Enlightenment. v. 1. p. 391.↩ Ibid. p. 122.↩ Para a origem e uso desses termos, cf. POLAK. Image of the future. v. 1. p. 47; ver também a nota 68 acima.↩ BECKER. Heavenly city. p. 31.↩ Ibid. p. 102-103.↩ GAY. Enlightenment. v. 1. p. 358.↩ Ver acima nota 66.↩ Em particular, estou seguindo a explicação dada por TROELTSCH, Ernst. The social teaching of the Christian churches, 2 v. Londres: Allen and Unwin, 1931.↩ BURY. Idea of progress. p. 10.↩ Para uma discussão recente sobre a estranha carreira de Saint-Simon, ver MANUEL, Frank E. The new world of Henri Saint-Simon. Notre Dame: University of Notre Dame Press, 1963.↩ Citado por GAY. Enlightenment. v. 2. p. 519.↩ Russeau também compartilhava desse pensamento. Ele escreve, “As desigualdades moral e social foram introduzidas pelo homem que cercou um pedaço de terra e disse: Isto é meu. [...]”. Citado por BURY. Idea of progress. p. 181.↩ Bury descreve corretamente a concepção marxista ortodoxa segundo a qual as estruturas sociais equivocadas seriam a causa mais profunda da existência continuada da miséria e do mal no mundo como “autêntica doutrina do século 18”. Cf. BURY. Idea of progress. p. 234.↩ Ibid. p. 161.↩ GAY. Enlightenment. v. 1. p. 180.↩ BACON, Francis. Essays, civil and moral and the New Atlantis (com ensaios de MILTON, John e BROWNE, Thomas). The Harvard classics, org. Charles W. Eliot. Nova York: Collier & Son, 1909. p. 183.↩ BURY. Idea of progress. p. 52 e 51, respectivamente.↩ Ibid. p. 127s.↩ L’an 2440 significa “o ano de 2440”. Ele foi publicado em 1770. Cf. BURY. Idea of progress, p. 197.↩ GAY. Enlightenment. v. 2, p. 3.↩ Ibid. p. 10.↩ BURY. Idea of progress. p. 205.↩ Guillaume Groen van Prinsterer (1801-1876), historiador e estadista holandês, merece considerável crédito por ter precocemente demonstrado essa estreita conexão entre o pensamento iluminista francês e a Revolução Francesa de 1789. Ele o fez em vários dos seus volumosos escritos, mas especialmente nas quinze preleções publicadas em 1847 no seu mais famoso livro, Unbelief and revolution. “O que o século 18 mostrou”, argumenta Groen van Prinsterer, “é que a verdadeira ruína segue muito de perto o aparente progresso”. Cf. Unbelief and revolution: Lectures VIII and IX. Amsterdã: The Groen van Prinsterer Fund, 1975. p. 12. Essa ruína despedaça as esperanças paradisíacas: “uma era de ouro era aguardada, mas surgiu uma era de ferro”. Ibid. p. 8. Groen van Prinsterer situa a causa dessa ruína na fé autoconsciente cuja implementação necessariamente leva à violência revolucionária,como no caso de Diderot, que anelava “estrangular o último rei com as tripas do último padre”. Ibid. p. 72. É surpreendente como os philosophes franceses ligavam, de maneira tão fácil e casual, suas ideias do Iluminismo à necessidade da revolução e como, de modo indiferente e quase alegre, antecipavam a última. Por exemplo, exatamente 25 anos antes da Revolução Francesa, Voltaire escreveu, “O Iluminismo tem se espalhado gradualmente de um modo tão amplo que irá romper numa luz plena na primeira oportunidade, e então haverá um grande tumulto”. Cf. GAY. Enlightenment. v. 2. p. 103. A ligação entre as ideias iluministas e a revolução social é profundamente discutida em VOEGELIN, Eric. From Enlightenment to revolution. Durham: Duke Uni-versity Press, 1975.↩ Cf. também BURY, que afirma que para os filósofos iluministas franceses, “a perfecti-bilidade da humanidade” era baseada na “possibilidade de moldagem indefinida das características do homem pelas leis e instituições”. Idea of progress. p. 167.↩ GAY. Enlightenment. v. 2. p. 557.↩ Para um tratamento recente dessa questão, ver MAY, Henry F. The Enlightenment in America. Nova York: Oxford University Press, 1976.↩ PARTE 2 A EVOLUÇÃO DO CAPITALISMO MODERNO 6 A REVOLUÇÃO INDUSTRIAL E SUAS CONSEQUÊNCIAS A PARTIR de meados do século 18 uma onda de crescente industrialização passou pela Europa ocidental, começando pelas ilhas britânicas. Nestas, entre os anos de 1760 e 1770, foram garantidas as patentes de três invenções que iriam mudar a aparência do interior da Inglaterra a ponto de torná-lo quase irreconhecível: a Arkwright, pela water frame,* em 1769; a James Watt, pelo motor a vapor, também em 1769; e a Hargreaves pela spinning jenny,** em 1770.¹ Como resultado, a indústria têxtil foi a primeira a expandir-se. “Entre 1700 e 1780 as importações britânicas de algodão aumentaram de 1 milhão para 5 milhões de libras; por volta de 1789, para 32,5 milhões. Entre 1750 e 1769 a exportação de bens feitos de algodão cru aumentou dez vezes.”² Em pouco tempo outras indústrias, especialmente a de carvão e de ferro, seguiram o exemplo, aproveitando-se de cada novo e modificado modelo do motor a vapor de Watt. Evidentemente, todo esse processo era acompanhado por um rápido crescimento das novas cidades industriais. Até meados do século 18, Glasgow, Newcastle e o Rhonda Valley eram na sua maioria terras abandonadas ou fazendas, e em 1727 Manchester foi descrita por Daniel Defoe, como “uma mera vila”. Quarenta anos depois havia uma centena de fábricas integradas e todo um conjunto de fábricas, forjas e oficinas de couro e químicas na região. Uma cidade industrial moderna tinha sido criada.³ Essa rápida urbanização continuou no início do século 19 num ritmo crescente. “Nos primeiros vinte anos do século 19 a população de Manchester aumentou de 94 mil para 160 mil; [...] A população de Leeds mais do que dobrou entre 1801 e 1831; Bradford, que tinha 23 mil habitantes em 1831, teve um aumento populacional impressionante no final do século 18.”⁴ Historiadores têm perguntado o que teria causado essa enorme mudança. O historiador e sociólogo holandês Pieter Jan Bouman é da opinião de que podemos comparar essa mudança com a rápida cristalização de uma solução supersaturada. Não eram apenas as circunstâncias que estavam maduras para a mudança, mas também a mentalidade: “Nenhuma cultura anterior tinha a disposição espiritual materialista e racionalista que caracterizava particularmente a burguesia nas cidades da Europa ocidental por volta de meados do século 18; em nenhuma outra cultura as forças políticas e religiosas tradicionais ofereceram tão pouca resistência como na Europa depois de séculos de demolição”.⁵ Bouman define esse racionalismo burguês como uma “vulgarização da crítica filosófica”. Na visão dele, isso revela mais uma atitude do que uma reflexão profunda. É algo que está estreitamente ligado à ideia de utilidade e com a “fé no progresso que descobrimos em todas as correntes do Iluminismo”.⁷ “O cidadão burguês vivia sob a ilusão de ser o forjador da sua própria felicidade.”⁸ Evidentemente é impossível apresentar uma prova definitiva para a tese de que a Revolução Industrial não apenas seguiu de perto os passos da fé no progresso, mas também relaciona-se com esta como um filho se relaciona com o pai. Contudo, podemos fornecer razões suficientes para tornar essa suposição no mínimo plausível. A REVOLUÇÃO INDUSTRIAL E A FÉ NO PROGRESSO Ao abordar essa questão não devemos perder de vista o fato de que tanto o racionalismo individualista quanto o materialismo econômico, a despeito do quanto eles foram importantes para o surgimento do capitalismo, precedem em muito a Revolução Industrial. Em certo sentido podemos afirmar, assim como R. H. Tawney, que essas atitudes são tão antigas quanto a própria história. De todo modo, elas já haviam deixado sua marca durante a Renascença. Portanto, o fato de a Revolução Industrial não ter aparecido até meados do século 18 deve-se a outros fatores além do individualismo e do materialismo. Nesse contexto, dificilmente é uma coincidência o fato de que a fé do século 18 no progresso considerasse entusiasticamente cada invenção e iniciativa individuais como uma clara evidência do progresso autêntico. Os adeptos dessa fé coroaram o os novos pioneiros técnicos e econômicos com as auréolas santas de um mundo novo e melhor. Eles exigiam que a sociedade abrisse espaço para esses heróis em cada aspecto. A crença no progresso, muito mais do que o calvinismo, atribuiu um novo significado sagrado aos pioneiros esforços técnicos e econômicos dos revolucionários industriais. De qualquer modo, não é forçado assumir que essa fé no progresso foi a faísca decisiva que deu início à explosão tornada possível pelos “ingredientes” disponíveis – a mistura de individualismo, materialismo, racionalismo e puritanismo. Pelo menos dois aspectos dessa fé parecem confirmar esse diagnóstico. O primeiro é seu poder revolucionário voltado para a ação. Não era uma fé que ficava absorta numa fútil autoanálise, mas uma fé que, por assim dizer, buscava sua própria autorrealização, sua própria autoverificação mediante atos concretos de mudança social. Voltaire expressou isso de maneira concisa no fim de Cândido: “Muito bem dito, mas devemos cultivar nosso jardim”.¹ Em outras palavras, especulações são belas, mas a intervenção vigorosa exigida pela razão crítica é melhor. A fé no progresso, tanto na Inglaterra quanto na França, era uma fé na natureza prática, no desejo individual de agir. E de fato seria muito estranho se essa fé, que trouxe à existência a Revolução Francesa e olhava respeitosamente para a Revolução Norte-Americana, não tivesse exercido uma influência direta na Revolução Industrial que emergiu ao mesmo tempo. O segundo aspecto dessa fé, de particular importância aqui, é sua ênfase na inovação tecnológica como uma fonte de progresso. Havia uma grande admiração pelos inventores técnicos daquela época. Assim “em 1753, quando Watt era um jovem, Diderot, por assim dizer, fez o retrato dele no seu De l’interprétation delLa nature” [A interpretação da natureza].¹¹ A fé no progresso assumia o papel de um guia essencialmente infalível para um futuro melhor. Nesse contexto, a felicidade é frequentemente descrita em primeiro lugar como uma abundância de riqueza material. “Humanamente falando”, escreve o filósofo francês iluminista Mercier de La Riviere, “a maior felicidade possível para nós consiste na maior abundância possível de objetos apropriados para nossa alegria e na maior liberdade possível para nos beneficiarmos deles.”¹² Priestley até mesmo argumenta que a verdadeira base do nosso futuro paradisíaco é o fato de que “os homens tornarão sua situação neste mundo abundantemente mais fácil e confortável”.¹³ Para assegurar essa abundância, a inovação tecnológica na indústria era indispensável. “O vapor governará o próximo mundo”, profetizou o poeta inglês Robert Southey em 1829.¹⁴ E em 1830, enquanto se encontrava sentado no primeirotrem que ligava Liverpool a Manchester, o grande poeta Alfred Tennyson compôs seus famosos versos: “Que o grande mundo gire para sempre as ressoantes engrenagens da mudança”.¹⁵ Condorcet apontou para o progresso na ciência, na tecnologia e no bem-estar material como os meios para a melhoria da natureza humana em si: “As espécies humanas podem ser melhoradas, primeiramente, mediante novas descobertas nas artes e nas ciências e, consequentemente, nos meios para o bem-estar e a prosperidade comum. [...]”.¹ Um sentimento semelhante é expresso na frase que se encontrava no primeiro balão de Montgolfier que subiu perante uma entusiástica multidão parisiense em 1783: “E então o fraco mortal pode se aproximar de Deus”.¹⁷ Desse modo a tecnologia havia de fato se tornado um guia seguro, um mediador entre o homem e Deus. Era a alvorada de um novo mundo. Uma pergunta interessante e importante permanece. Por que a Revolução Industrial começou na Inglaterra com sua disposição moderada e sóbria e não na França, berço de uma cultura de longe a mais passional? Essa pergunta tem ocupado muitos historiadores e sociólogos.¹⁸ Entre as causas para esse início primeiro na Inglaterra está a maior quantidade de recursos naturais disponíveis lá, bem como suas possessões coloniais e aquilo que Jacques Ellul chama de a grande “plasticidade” do ambiente social da Inglaterra.¹ Essa plasticidade diz respeito não apenas ao surgimento precoce de um Estado-nação unificado na Grã-Bretanha, mas também ao processo de cercamento da região rural inglesa.² O início da Revolução Industrial na Inglaterra e não na França está também relacionado, é claro, a uma diferença no ponto de vista cultural e espiritual, notadamente com relação às implicações da fé no progresso. Na França, como observamos antes, essa fé se manifestava antes de tudo numa resistência cada vez mais radical às instituições políticas e sociais existentes. Para os pensadores iluministas franceses, a existência dessas instituições constituía uma barreira decisiva ao progresso social total, e nesse sentido elas tinham de ser eliminadas, se necessário, por métodos revolucionários. Por outro lado, a Inglaterra do século 18 foi influenciada de maneira mais significativa pelo deísmo que – como vemos em Adam Smith – favorece a preservação das instituições sociais e políticas existentes. Essa diferença entre concepções radicais e moderadas de progresso não é indicativa de uma divergência “espiritual” fundamental, mas afeta – paradoxalmente – os resultados práticos. Por causa dessa postura moderada, a Inglaterra tinha uma oportunidade muito maior do que a França para se ocupar com questões imediatas do progresso técnico e econômico. Na França, muitos philosophes escreveram livros com descrições elaboradas dos defeitos da ordem social presente e as bênçãos de um paraíso do porvir, enquanto na Inglaterra a atenção estava direcionada para a promoção prática do bem-estar concreto da sociedade, a “riqueza das nações”, no contexto das instituições sociais existentes. Christopher Dawson resume de modo mais profundo as diferenças: “Portanto, ao mesmo tempo em que os franceses estavam tentando reconstruir a sociedade com base em princípios abstratos, os ingleses estavam se dedicando à atividade utilitária prática [...] e colocavam as forças da natureza sob o controle humano pelos meios científicos”.²¹ Sem dúvida com frequência um senso pessoal de chamado desempenhou um papel no desenvolvimento dessas inovações técnicas e econômicas, o que pode ser visto como uma influência distante, indireta do calvinismo. Dawson fala de uma combinação entre individualismo e disciplina moral estrita que é característica do puritanismo britânico e americano. Contudo, esse senso calvinista posterior de chamado foi assimilado a uma fé geral no progresso equivalente ao moto de Thomas Jefferson, “Faber suae quisque fortunae” (“Todo homem é o arquiteto da sua própria fortuna”), e consagrado pela avaliação de Voltaire: “Chamo de grandes homens todos aqueles que têm se sobressaído no útil ou no aprazível”.²² Talvez possamos descrever a perspectiva desses primeiros inovadores e homens de negócio de um modo melhor como uma combinação entre uma ética puritana individualista de trabalho, uma visão deísta-utilitarista de sociedade e, acima de tudo, uma fé humanista sem complicações no progresso. Em suma, pode-se dizer – neste ponto voltamos à discussão da Parte Um – que o contexto espiritual inglês entre 1750 e 1850 forneceu não apenas o contexto mais apropriado, mas também a intenção mais favorável para a emergência de uma sociedade capitalista moderna. Em primeiro lugar, o contexto era mais favorável por causa da “lei natural relativa” sancionada pela religião deísta pela qual o Estado procede de maneira correta quando se limita à proteção dos direitos individuais no contexto de um respeito empático pelo livre mercado; e, em segundo lugar, porque sua ética utilitarista impunha apenas uma exigência moral sobre os novos industrialistas, ou seja, esforçar-se ao máximo pela maior quantidade possível de utilidades, primariamente para si mesmos. Esse esforço, e essa era a ideia, iria automaticamente resultar num máximo de utilidades para seus semelhantes. A intenção nesse contexto espiritual era decisivamente favorável ao capitalismo porque via na expansão técnica e econômica a base para prover felicidade não apenas para o indivíduo, mas para a sociedade em cada um dos seus domínios. Essa nova fé, unida a uma nova concepção de justiça e ética, não poderia senão levar a um novo tipo de sociedade com suas próprias formas e estruturas sociais. A expressão social mais pura da fé, da lei e da ética medievais é encontrada na igreja, nas casas senhoriais e nas guildas. A expressão mais clara da fé do século 18, da justiça natural deísta e da ética utilitarista, por outro lado, é encontrada numa estrutura social inteiramente nova e radicalmente diferente: no empreendimento industrial ou na fábrica. De acordo com Thomas Ashton,²³ essa é a forma dominante de organização sob o capitalismo industrial. FÁBRICA VERSUS TERRAS ARRENDADAS De fato, existem enormes diferenças entre a típica produção familiar da Idade Média – terras arrendadas e guildas – e aquela associada à nova estrutura econômica na Era Moderna – o empreendimento ou fábrica industrial. Quando os consideramos como expressões de uma cultura, essas diferenças são especialmente mais fascinantes, informativas e ricas em contraste. Evidentemente, encontramos em ambos uma combinação de fatores de produção: terra, ferramentas e trabalho. No entanto, enquanto essa combinação nas terras arrendadas e nas guildas era orgânica e altamente tradicional, na fábrica comum durante a Revolução Industrial ela era mecânica e baseada nas dinâmicas da inovação técnica. A diretriz para a produção nas terras arrendadas é a provisão interna para o sustento dos seus habitantes; o motivo econômico do lucro tem um significado subordinado. Por outro lado, no empreendimento industrial a diretriz decisiva para a produção é o rendimento financeiro máximo mediante a expansão mais lucrativa possível de um mercado externo para seus produtos. Nas terras arrendadas e nas guildas, as vidas social, econômica e legal estão entrelaçadas de modo permanente e intensivo. O trabalho é feito numa totalidade de direitos e deveres sociais. No entanto, numa fábrica típica da Revolução Industrial, o trabalho era, em larga medida, separado das obrigações sociais e morais. Ele era realizado de acordo com um contrato incidental que podia ser rescindido de acordo com a vontade das partes, e que estipulava apenas o número requerido de horas de trabalho e o salário a ser pago por essas horas de trabalho. Nas terras arrendadas e nas guildas o trabalho é feito com o uso de ferramentas simples. Nas fábricas, as ferramentas começam a determinar o caráter e o tempo do trabalho e às vezes a reduzir o trabalho a poucas operações técnicas. Finalmente, talvez a mais notável diferença seja a divergência na orientação.Nas terras arrendadas e nas guildas o sentido da atividade humana – e também da produção – é, em última instância, incorporado na orientação vertical da sociedade. Essas unidades medievais de produção têm um lugar conhecido e fixo na ordem social, que, como uma totalidade hierárquica é direcionada à santificação sacramental última. No entanto, a orientação dominante do empreendimento industrial é horizontal. Ele não é enraizado na estabilidade social de um lugar tradicionalmente reconhecido na sociedade, mas é baseado na flexibilidade da vontade do empreendedor individual e da sua iniciativa pessoal com relação ao capital. Como tal, a preocupação principal da fábrica é estar à frente dos seus competidores e, assim, servir ao propósito supremo²⁴ da sociedade como um todo, a saber, a criação da quantidade máxima de bens para o aumento do bem-estar comum. Nesse ponto encontramos de fato duas expressões diferentes da cultura. O contraste entre elas é tão manifesto que as visões de mundo e da vida que se encontram por trás delas também devem diferir com relação aos seus fundamentos. De fato, esse contraste só pode ser satisfatoriamente explicado nos termos de uma eliminação sucessiva e sistemática das barreiras espirituais ao materialismo horizontal incrustado na sociedade medieval. A nova ordem social encontra suas amarras espirituais e culturais num vigoroso dinamismo horizontal que toma como dado a aceitação do lucro e da inovação tecnológica como guias quase absolutos na direção de um futuro melhor para a humanidade. AVALIAÇÃO DA REVOLUÇÃO INDUSTRIAL Essas observações colocam diretamente diante de nós a complexa pergunta sobre como devemos avaliar a Revolução Industrial como o início da ordem social capitalista moderna. Como estabelecemos anteriormente, a sociedade medieval não deve ser idealizada. Ela era por demais estática e hierárquica, e de modo geral não conseguiu apreciar a legitimidade do desenvolvimento tecnológico e econômico da cultura. Contudo, isso dá origem à pergunta sobre se a estrutura social que a Revolução Industrial gerou era a resposta correta à estrutura social medieval. Caso não seja, devemos tentar descobrir o que deu errado. Essas perguntas foram feitas até mesmo durante a própria Revolução Industrial. No entanto, as respectivas respostas diferem amplamente por causa das atitudes divergentes com relação à fé no progresso. Em 1792 Sir John Byng, enquanto viajava para o norte da Inglaterra e olhava pela janela, reagiu à paisagem que o rodeava com estas palavras: “Como? Aqui agora há uma grande e fulgurante fábrica [...] todo o Vale está perturbado”. E quando chegou a Manchester, exclamou: “Oh! Que lugar lúgubre é Manchester”.²⁵ Em contraste a isso, Robert Southey teve mais apreço pela Revolução Industrial. Em Sir Thomas More: or, Colloquies on the Progress and Prospects of Society (1829) [Sr. Thomas More: ou colóquios sobre o progresso e perspectivas da sociedade], encontramos o seguinte diálogo entre o fantasma de Sir Thomas More e um contemporâneo imaginário de Southey’s, Montesinos: Sir Thomas More: O espírito que construía e supria os monastérios se foi. Você é uma dessas pessoas que pensam que ele foi substituído por algo melhor, pelo qual se constroem máquinas a vapor e tecelagens? Montesinos: [...] não obstante o sistema de manufatura seja um estágio necessário no progresso da sociedade. [...] E das consequências dessas ha- bilidades com maquinário que apenas o sistema de manufaturas poderia ter produzido, podemos esperar, no final das contas, obter as maiores vantagens da ciência e da civilização com o menor dispêndio de trabalho humano.² Naquele tempo, a avaliação que fosse feita da Revolução Industrial dependia da visão pessoal de cada um a respeito dos potenciais naturais e culturais do progresso humano. Em outras palavras, respostas objetivas, neutras ou que não fizessem um juízo de valor com relação a essa questão eram impossíveis na época, assim como o são hoje. Portanto, na minha própria tentativa de encontrar uma resposta, devo ser honesto e explicitar claramente minhas pressuposições. Como cristão reformado, gostaria de relacionar minhas visões – certamente no que diz respeito ao problema em questão – em primeiro lugar à posição de João Calvino, cuja perspectiva é ainda relevante hoje. Diferentemente dos escolásticos medievais, Calvino sustentava que no desenvolvimento e abertura da sociedade, o desenvolvimento da vida econômica estava destinado a ocupar um lugar próprio. Consequentemente, ele considerava impróprio que cada forma de expansão econômica e de inovação tecnológica fosse restringida antecipadamente por regulações impostas pelas autoridades eclesiásticas ou políticas. Isso porque, disse Calvino, mesmo na vida econômica, o homem trabalha e vive perante a face do Deus vivo – coram Deo –, que embutiu na sua criação as possibilidades de desenvolvimento tecnológico e econômico. Contudo, essas possibilidades para o desenvolvimento são sujeitas às normas dadas por Deus que guiam e definem o significado delas. Como Calvino coloca isso no seu comentário sobre Gênesis 2.15: “Todos devem entender que são despenseiros de Deus com relação a tudo o que pos-suem”.²⁷ As potencialidades inerentes à criação para o aumento do bem-estar material da humanidade não estão aí para satisfazer nosso egoísmo ou nosso orgulho,²⁸ mas foram planejadas para nossa resposta a Deus e para nosso serviço ao nosso próximo. Por essa razão de fato há um local correto para a vida econômica na existência humana vista como um todo. No entanto, ela ocupa esse lugar apenas quando é uma “expressão da solidariedade humana e um sinal da comunidade espiritual entre os homens”, como Andre Bieler resumiu o padrão básico do pensamento social e econômico de Calvino.² Uma vida econômica que não considera a natureza de Deus, que não se preocupa com as demais criaturas, sem solidariedade e sem ‘equidade’ (um termo regularmente usado por Calvino quando ele lidava com a ‘ética’ do comércio), não é mais, de acordo tanto com Lutero quanto como Calvino, uma vida econômica autêntica. Ela se desvia da resposta amorosa a Deus e ao próximo que também é esperada na vida financeira. A mesma ideia pode ser transmitida em termos diferentes. Para usar uma expressão de T. P. van der Kooy, professor emérito de economia da Universidade Livre de Amsterdã, a vida econômica pode revelar seu próprio significado e sentido apenas quando uma realização simultânea de normas ocorre.³ As normas do desenvolvimento econômico e as da ética, as normas da justiça e do desenvolvimento da técnica, não devem nunca ser colocadas uma contra as outras. Uma vez que o comando de Deus não é dividido, as normas estabelecidas por ele devem ser vistas e observadas na sua coerência mútua. Foi precisamente nesse ponto da realização necessariamente simultânea das normas na sociedade que a Revolução Industrial malogrou. É imperativo apreender o que está sendo dito aqui. Minha crítica não é direcionada ao fato de que num certo momento do desenvolvimento cultural ocidental crescente atenção foi dada à expansão e à inovação das técnicas de produção; nem é minha intenção criticar a convicção de que um aumento na produção industrial contém o potencial para melhorar um padrão de vida extremamente baixo. Num relatório intitulado Os resultados da maquinaria, publicado em 1831 pela “Sociedade para a difusão do conhecimento útil”, foi corretamente estabelecido que “dois séculos atrás nenhuma pessoa em mil usava meias; um século atrás nem uma pessoa em quinhentas as usava; agora nem uma pessoa em mil está sem elas”.³¹ O malogro da Revolução Industrial não está nesse ponto; antes, reside na prioridade quase absoluta gradualmente concedida ao avanço da tecnologia e da produção industrial no desenvolvimento da cultura ocidental. A falha não se encontra nas novas instituições, mas na institucionalização de novas formas de produção dedicadas quase exclusivamente ao progresso técnico e econômico. A consideração simultânea de normas sócio-éticase jurídicas estava fora de questão porque a interpretação da ética assim como da lei – via utilitarismo e deísmo – tinha colocado essas normas a serviço da economia de mercado e da tecnologia industrial. Na minha avaliação, essa é a crítica mais essencial que pode ser feita à Revolução Industrial e ao capitalismo que resultou dela. O capitalismo é sujeito à crítica na medida em que, em nome do progresso, ele é baseado em forças independentes e autônomas de crescimento econômico e tecnológico, isto é, forças que são consideradas isoladas, suficientes e boas em si mesmas. Essas forças econômicas e tecnológicas estão de fato relacionadas às normas da ética e da justiça social, mas de tal maneira que essas normas não podem impedir a realização dessas forças e a promoção do “progresso”. Essas normas são conscientemente vistas como dependentes das forças do progresso e secundárias a elas: elas são colocadas a serviço da expansão da tecnologia e do crescimento da economia. A combinação dos fatores independentes e primários do progresso com as normas sócio-éticas dependentes e secundárias evita a realização simultânea e harmoniosa das normas – tanto econômicas quanto éticas e legais. Essa combinação tornou impossível para o capitalismo fazer justiça às normas não econômicas para a vida humana. É permitido às normas de ética e justiça desempenhar um papel apenas depois que a produção econômica já ocorreu. A elas é permitido que sejam feitas correções limitadas e alterações modestas no processo de industrialização, mas apenas depois que esse processo tenha, de maneira autônoma e soberana, escolhido seu caminho através da sociedade. Isso pode ser claramente ilustrado da prática real. Quando, do ponto de vista da justiça, o processo de industrialização leva a consequências inaceitáveis, parece que no contexto do capitalismo correções necessárias podem, na melhor das hipóteses, ser de uma natureza limitada, aplicadas como uma reflexão posterior. Limitada, porque o progresso em si não pode sofrer nenhum dano; e como uma reflexão posterior porque a prioridade deveria ser garantida à expansão da economia e da tecnologia. Podemos detectar essa desarmonia na história da Revolução Industrial. A “industrialização” da sociedade inglesa implicou a aquisição e o emprego das forças de trabalho, critério este que favoreceu a economia de mercado e a eficiência tecnológica, que desempenharam um papel dominante. O trabalho não era mais – como na guilda e nas terras arrendadas – um relacionamento pessoal entre o senhor e o servo, ou o mestre e o aprendiz, que envolve direitos e deveres sociais de ambos os lados. As relações de trabalho tornaram-se relações impessoais de mercado nas quais os salários são determinados com base na quantidade de tempo gasto e de unidades produzidas. É claro, nessa nova relação há também normas legais. Mas tais regulações legais são ajustadas às exigências do progresso técnico-econômico. Inicialmente elas continham nada mais do que direitos contratuais e obrigações que ambas as partes deveriam cumprir. Se isso significava – assim como ocorria na Inglaterra por volta dos anos 1800 – que devido aos baixos salários os trabalhadores frequentemente tinham de trabalhar quatorze ou mais horas por dia, e mulheres e crianças – até mesmo aquelas com menos de 7 anos de idade – foram obrigados a trabalhar nas fábricas, então apenas uma correção limitada era permitida como uma reflexão posterior para aliviar essa exploração excessiva dos seres humanos e de suas famílias. Qual era a substância dessa correção? Na Inglaterra, em 1802 o dia de trabalho de um pobre aprendiz era limitado por lei a doze horas! Em 1819, crianças abaixo de 10 anos eram proibidas de trabalhar nas minas de carvão, e depois de 1847 foi decretado um limite geral de dez horas por dia para mulheres e crianças.³² New Lanark, o empreendimento escocês de Robert Owen, mostra que a produção poderia ser organizada de modo diferente. Desde seu início em 1815 nenhum trabalho infantil foi utilizado. Foram instituídas escolas para os filhos dos trabalhadores e casas de dois quartos para cada família da classe trabalhadora. O mais surpreendente de tudo é que durante os dez anos da sua existência esse empreendimento gerou lucros substanciais. O experimento inicial de Owen é particularmente fascinante porque pode ser visto como um esforço numa estrutura industrial de satisfazer simultaneamente as normas da economia, da ética e da justiça social. Owen não era um daqueles cuja fé ingênua no progresso os levou a crer que condições satisfatórias de trabalho e felicidade familiar iriam gradualmente, livremente e automaticamente acompanhar o progresso na tecnologia e economia de mercado. New Lanark revela traços – tais como o esforço para tornar o empreendimento numa autêntica comunidade de vida e trabalho – que por um lado mantinha uma continuidade histórica com as guildas e as terras arrendadas medievais, ao passo que por outro lado continha igualmente uma mensagem essencial para a sociedade dos dias de hoje. PROGRESSO E CRESCIMENTO ECONÔMICO Podemos também articular de um modo mais teórico o que acontece numa sociedade que em seu desenvolvimento cultural geral dá prioridade à expansão industrial tecnologicamente baseada. Isso pode ser feito ao apontarmos os fatores básicos para todo processo de crescimento ou expansão econômica. Para esse propósito iremos provisoriamente definir crescimento econômico como um processo no qual as possibilidades humanas de escolha com relação aos bens escassos e outros elementos limitados aumentam de maneira constante. Nesse contexto, pensamos na escolha entre bens de consumo, entre trabalho e lazer, assim como entre uma exploração mais ou menos intensiva da natureza. Assim, devemos perguntar que fatores condicionam e contribuem para esse processo de crescimento. De acordo com praticamente todos os manuais de economia, pelo menos três fatores devem ser considerados nesse caso. Em primeiro lugar, há a possibilidade de utilizar o trabalho humano de uma maneira mais eficiente: a aplicação de uma divisão do trabalho entre pessoas e grupos pode resultar num lucro significativo. Em segundo lugar, há a possibilidade de introduzir o uso de ferramentas: a produção de ferramentas de fato custa trabalho, mas garante maiores possibilidades no futuro. Em terceiro lugar, é possível utilizar o trabalho para melhorias sistemáticas nas ferramentas e nos métodos de trabalho. Aqui novamente o ganho final, medido em termos de aumento de possibilidades, pode pesar mais que o sacrifício. Para resumir, a divisão do trabalho, o uso de ferramentas ou máquinas e inovações técnicas são as três mais importantes “produtoras originais de crescimento”. Elas são mais efetivas quando se reforçam e são aplicadas em coerência mútua. Nenhum desses fatores de crescimento pode ser considerado inerentemente destrutivo ou mau. Pessoalmente, prefiro vê-los como potencialidades positivas para o desenvolvimento econômico incrustado na criação. Não obstante, devemos investigar o que ocorre com esses fatores quando, com a concepção da fé no progresso, prioridade irrestrita é dada ao rápido crescimento econômico em toda a estrutura social. É óbvio que cada um desses fatores de crescimento será então explorado ao máximo, pois atingir a felicidade humana universal na sociedade é considerado algo dependente do uso intensivo desses fatores. Na realidade, foi exatamente isso o que ocorreu durante a Revolução Industrial. A divisão do trabalho foi levada a tal extremo que, às vezes, apenas fragmentos atomizados de trabalho impessoal restavam. Cada interrupção era vista como uma ameaça para se atingir um objetivo útil, estabelecido. O emprego de capital também era condicionado pela mesma estrutura, mesmo se o resultado fosse um trabalho sem sentido que cada vez mais assumia o caráter de uma repetição mecânica de operações monótonas. Finalmente, assim que surgia uma oportunidade para introduzir outras inovações tecnológicas, de acordo com a lei do progresso, essaseram imediatamente aplicadas e do modo mais extensivo possível. Assim, durante a Revolução Industrial as inovações técnicas foram imediatamente adotadas mesmo se isso resultasse na eliminação radical das indústrias que ainda utilizavam ferramentas e instrumentos antiquados. Em resumo, a maneira na qual esses fatores de crescimento econômico foram utilizados de fato revela uma conexão entre um elemento cultural como a crença no progresso e uma forma concreta na qual nossa sociedade foi realmente moldada. Deve também ficar claro a partir da nossa discussão que certos perigos inevitáveis são inerentes a qualquer cultura que isole e torne absolutos os potenciais para o desenvolvimento econômico e técnico. A princípio, essa cultura parece elevar o homem à posição de dono soberano do seu próprio destino – aquele que traz à tona tais processos econômicos e técnicas e de- termina sua direção. Porém, em última análise, essa cultura rapidamente relega esse “dono” à posição de dependência absoluta das forças do desenvolvimento que ele mesmo tinha entronizado. Ele acaba se tornando um objeto, uma extensão das suas próprias criações. POR VOLTA DE 1850 Por volta de meados do século 19 não havia ainda uma total consciência dos aspectos negativos implícitos da escolha cultural feita com o advento da Revolução Industrial. Pelo contrário, somos confrontados com uma aceitação universal do progresso e seus resultados em quase todas as esferas da cultura. A fé no progresso tinha permeado a sociedade de tal modo que não apenas os líderes políticos e industriais eram guiados por ela, mas ela também tinha alcançado as massas. Isso é confirmado pelo escritor francês M. A. Javary que, em 1850 afirmou no seu livro De l’idee de progress [A ideia de progresso]: “Se há alguma ideia que pertença propriamente a este século [...] e que, seja aceita ou não, é familiar a todas as mentes, é a ideia de Progresso concebido como uma lei geral da história e do futuro da humanidade”.³³ Oitenta anos depois Christopher Dawson confirmou isso: “Na primeira metade do século 19 a Ideia de Progresso tinha atingido seu total desenvolvimento. Ela dominava as três principais correntes europeias de pensamento, liberalismo racionalista, socialismo revolucionário e idealismo transcendental”.³⁴ Sem dúvida, a popularização e a penetração da fé no progresso ocorreram, pelo menos em parte, sob a influência dos resultados econômicos mais favoráveis da Revolução Industrial que gradualmente se tornavam observáveis. Os salários dos trabalhadores industriais aumentaram um pouco, especialmente depois de 1830. Com o passar do tempo alimentos de melhor qualidade tornaram-se disponíveis para as famílias dos trabalhadores. Além disso, a legislação social, a despeito do quanto ela pudesse ser primitiva, começava a vigorar. Um caso que chama a atenção nesse contexto é a abertura da Grande Exposição mundial em Londres em 1851, na qual os mais modernos produtos de tecnologia da época foram exibidos publicamente. Dentre eles estavam produtos ferroviários, navios a vapor (em 1832 Sauvage tinha inventado a hélice propulsora), máquinas modernas para as fábricas (tais como o motor elétrico de Henry de 1829 e o Martelo-Pilão de Nasmyth de 1842), assim como os últimos produtos de consumo que poderiam ser manufaturados com essas máquinas. Na verdade, os sacrifícios requeridos pela Revolução Industrial tinham sido muito mais pesados do que se poderia ter imaginado originalmente. E grande parte da ingenuidade da fé inicial no progresso tinha sido perdida.³⁵ Contudo, a Grande Exposição de Londres mostrou que o tempo da colheita havia chegado, e tudo o que importava era ter certeza, mediante o empenho mútuo e consistente, que essa colheita seria a mais rica possível. Foi precisamente nessa época que surgiu um movimento que iria perturbar violentamente esse sonho de avanço sem obstáculos, do progresso do capitalismo. Marx e Engels, os líderes desse movimento, revelaram abertamente sua simpatia pela classe trabalhadora e começaram a definir seus objetivos no Manifesto Comunista de 1848. Nesse livro lemos: “Os comunistas rejeitam dissimular suas visões e seus objetivos. Declaram abertamente que os seus fins só podem ser alcançados pelo derrubada violenta de todas as condições sociais existentes. Que as classes dominantes tremam ante uma revolução comunista”.³ Havia chegado o tempo para o contramovimento socialista revolucionário. * Máquina utilizada na tecelagem que utiliza a força da água nas pás de uma roda. (N.T.)↩ ** Máquina de fiar que possibilitava fiar oito fios ao mesmo tempo. (N.T.)↩ 7 O CONTRAMOVIMENTO SOCIALISTA EM 1845 FRIEDRICH ENGELS, amigo e fiel colaborador de Karl Marx, publicou seu famoso livro sobre as condições dos trabalhadores nas fábricas na Inglaterra intitulado Die Lage der Arbeitenden Klasse in England [A localização da classe trabalhadora na Inglaterra]. Com a ajuda de extensivos – embora nem sempre totalmente confiáveis – dados estatísticos, ele apresentou uma forte imagem da amarga pobreza sofrida nas favelas das cidades industriais inglesas a despeito da difusão do trabalho feminino e infantil e também das jornadas diárias de trabalho de quinze a dezesseis horas. O livro é uma violenta acusação contra o sistema capitalista que tornou tais condições possíveis. Ele claramente revela como Engels foi tocado por um profundo sentimento de simpatia e um senso de justiça ferido. O mesmo é verdadeiro quanto a Marx. Em Das Kapital [Capital] ele descreve como um menino de 7 anos de idade, William Wood, tinha de levar os artigos já moldados para a sala de secagem, dia após dia, das seis da manhã às nove da noite. Quando então Marx exclama impetuosamente, “Quinze horas de trabalho para uma criança de 7 anos de idade!”,³⁷ não resta dúvidas de que também se encontrava profundamente tocado por essa situação desumana. A essa autêntica preocupação podemos acrescentar a análise profunda que Marx fez da alienação humana no processo capitalista moderno de produção no qual o trabalhador é separado não apenas do seu trabalho, mas também do seu semelhante. Em vista de tudo isso, alguém poderia aparentemente chegar apenas a uma conclusão: no socialismo marxista somos confrontados com o protesto mais violento não apenas contra as pretensões da revolução industrial, mas também contra a firme crença no progresso que é a base delas. Afinal de contas, Marx não havia predito a inexorável ruína de todo o sistema capitalista em contradição ao progressivo otimismo prevalecente na sua época? No entanto, essa conclusão chegou rápida demais. Interpretar Karl Marx de modo correto é extremamente complexo. A fé iluminista no progresso e o “socialismo científico” de Marx são muito menos opostos um ao outro do que pode parecer a partir de uma observação superficial. Até mesmo no seu profundo protesto contra a estruturação social da sua época, Marx permanecia apegado a uma fé iluminista inexorável e revolucionária no progresso humano. O marxismo é um descendente da filosofia iluminista. O MATERIALISMO DIALÉTICO E A IDEIA DE PROGRESSO O que Marx disse sobre a possibilidade do progresso humano? O que quer que ele tenha dito sobre esse tema crucial está obviamente ligado de maneira estreita à sua concepção de história. Marx via a história da humanidade como um processo dialético que emergia particularmente das tensões entre a infraestrutura técnico-econômica da sociedade (que consistia das forças produtivas: Produktivkràfte) e da superestrutura da sociedade (que consistia das relações de produção: Produktionsverhatnisse) à qual pertencem particularmente as relações de propriedade e posse. Marx argumentava que em cada sociedade não comunista essas relações de produção na superestrutura têm, dialeticamente, a tendência de arrastar atrás delas as mudanças que ocorrem nas forças de produção na infraestrutura. Por exemplo, no capitalismo encontramos a situação de que as forças de produção já avançaram para o estágio de indústrias de larga escala operadas a vapor. Marx argumentouque esse estágio da produção industrial requer o domínio comunal de todos os meios de produção na superestrutura social. Mas o que vemos? Observamos que nesse estágio avançado do capitalismo as relações dominantes de produção – propriedade privada – ainda pertencem a uma fase anterior do desenvolvimento das forças de produção. A classe capitalista dos donos da propriedade privada dos meios de produção tenta ao máximo – embora em vão – evitar o salto das relações privadas de produção para a propriedade comunal. Essa tentativa é infrutífera uma vez que os capitalistas, ao explorar e acumular, apenas cavam suas próprias sepulturas e preparam a destruição do seu próprio sistema social. À primeira vista, essa bem conhecida imagem do desenvolvimento do capitalismo parece de fato algo muito distante das ideias estereotipadas do progresso da era iluminista. No entanto, temos de olhar mais de perto para o papel que as chamadas forças de produção desempenham nesse processo como um todo. Marx descreve essas forças como os métodos e meios empregados no processo de produção econômica juntamente com a habilidade humana para utilizá-los da maneira correta. Essas forças de produção, tomadas conjuntamente, consistem primeiramente de todo o complexo de possibilidades de produção técnica. Na visão de Marx, toda a história da humanidade é condicionada e influenciada, embora dialeticamente, por mudanças nas técnicas de produção. Mas a pergunta que surge neste ponto é a seguinte: o que determina essas forças de produção? Mais ainda, como Marx explica que esse desenvolvimento da tecnologia revela um avanço definitivo? Dificilmente Marx trata dessas questões, embora ele claramente considere o desenvolvimento da técnica de produção como o único caminho para a felicidade futura. Isso só pode ser explicado como uma típica expressão da fé iluminista. A tecnologia do trabalho abre o caminho, a despeito de toda a oposição, para uma ordem social melhor.³⁸ No volume um de Capital, quando Marx fala a respeito dos enormes potenciais da tecnologia, ele argumenta que a palavra impossível nunca deveria ser usada, citando a afirmação de Mirabeau: “Impossible? Ne me dites jamais cet imbecile mot!'.³ Marx elucida sua concepção de tecnologia nos seguintes termos:”A tecnologia desvela o modo do homem lidar com a Natureza, o processo de produção pelo qual ele sustenta sua vida, e assim expressa o modo de formação de suas relações sociais, e das concepções mentais que fluem delas'.⁴ Em outras palavras, cada desenvolvimento essencial da cultura está enraizado na função- guia de uma tecnologia inexoravelmente em avanço. Outros elementos do pensamento de Marx também podem ser relacionados diretamente às ideias iluministas sobre o progresso. Isso é particularmente verdadeiro no que diz respeito à sua visão da relação dialética entre homem e natureza. O tema homem versus natureza é um dos temas característicos da era do Iluminismo, como nos lembramos da nossa discussão na Parte Um. No pensamento de Marx, a relação dialética entre homem e natureza não é um elemento que pode ser desconsiderado. Ele a considera de importância vital para todo o seu pensamento. Tudo na história mundial é determinado precisamente por essa relação, ele argumenta em Economic and Philosophic Manuscripts of 1844 [Manuscritos econômico-filosóficos de 1844]. Segundo sua visão, o homem e a natureza estão tão essencialmente envolvidos um com o outro que a natureza não pode atingir o seu propósito sem o homem, assim como o homem também não consegue atingir o seu sem a natureza. Portanto, para Marx toda a história da humanidade é um processo no qual a natureza é guiada ao seu fim humano pelo homem, e no qual o homem alcança seu fim natural, mais essencial, apenas mediante a natureza. “A própria história é uma parte real da história natural – da natureza desenvolvendo-se até chegar ao homem”, ele escreve.⁴¹ E o “comunismo”, o objetivo último da história mundial, “como um naturalismo plenamente desenvolvido é humanismo, assim como o humanismo plenamente desenvolvido é naturalismo; essa é a verdadeira resolução do antagonismo entre o homem e a natureza, e entre o homem e seu semelhante. [...]”.⁴² Mas como pode a natureza alcançar seu propósito humano e o homem seu fim natural? Isso só é possível mediante o trabalho humano. O progresso no mundo está contido na possibilidade da interação do homem com a natureza por meio do trabalho. Para citar Marx novamente: Antes de tudo, o trabalho é um processo de que participam o homem e a natureza, processo em que o ser humano com sua própria ação impulsiona, regula e controla seu intercâmbio material com a natureza. Defronta-se com a natureza como uma de suas forças. Põe em movimento as forças naturais de seu corpo, braços e pernas, cabeça e mãos, a fim de apropriar-se dos recursos da natureza, imprimindo-lhes forma útil à vida humana. Atuando assim sobre a natureza externa e modificando-a, ao mesmo tempo modifica sua própria natureza. Desenvolve as potencialidades nela adormecidas e submete ao seu domínio o jogo das forças naturais.⁴³ Desse modo, faz de uma coisa da natureza órgão de sua própria atividade, um órgão que acrescenta a seus próprios órgãos corporais, aumentando seu próprio corpo natural, apesar da Bíblia. A terra, seu celeiro primitivo, é também seu arsenal primitivo de meios de trabalho. [...] A própria terra é um meio de trabalho. [...]⁴⁴ Não pode ser negado que nessa declaração encontramos quase todos os elementos da fé iluminista no progresso numa nova roupagem. Em primeiro lugar, a luta do homem com a natureza torna-se o tema central da história humana. Além disso, há a firme convicção de que nessa luta o homem se desenvolve rumo à autorrealização e perfeição: “Aumentando seu próprio corpo natural” (“seine natürliche Gestalt verlängernd”). Finalmente, encontramos aqui a fé de Marx na função salvífica, redentora do trabalho humano, incluindo suas qualidades técnicas. “A indústria", afirma Marx, "é a relação histórica concreta da natureza [...] com o homem.”⁴⁵ Para Marx, o início da história humana é aquele momento no qual o homem e a mulher começaram a se distinguir dos animais porque “começam a produzir os seus meios de vida”.⁴ “Como exprimem a sua vida, assim os indivíduos são. Aquilo que eles são coincide, portanto, com a sua produção, com o que produzem e também com o como produzem.”⁴⁷ Todos esses elementos estão presentes numa incisiva passagem dos Economic and Philosophic Manuscripts of 1844 [Manuscritos econômico- filosóficos de 1844]: Como, no entanto, para o socialista, o conjunto do que se chama história mundial nada mais é que a criação do homem pelo trabalho humano, e a emergência da natureza para o homem, ele, portanto, tem a prova evidente e irrefutável de sua autocriação, de suas próprias origens. Uma vez que a essência do homem e da natureza, o homem como um ser natural e a natureza como uma realidade humana, se tenha tornado evidente na vida prática, na experiência sensorial, a busca de um ser estranho, um ser acima do homem e da natureza (busca essa que é uma confissão da irrealidade do homem e da natureza) torna-se praticamente impossível.⁴⁸ MARX E A ALIENAÇÃO Se Marx tem em tão alta estima o trabalho industrial humano como o caminho para o progresso geral do homem e seu destino, como ele pode ao mesmo tempo apresentar uma análise tão profunda da possibilidade de alienação exatamente na sociedade industrial capitalista? À primeira vista, a alienação do homem com relação ao seu companheiro parece proceder de um quadro de referência diferente daquele do homem trabalhando com a natureza. De modo semelhante, o chamado de Marx à solidariedade e sua esperança pela restauração da autêntica comunidade humana parece ter implicações consideravelmente mais amplas do que pode ser deduzido a partir do relacionamento homem-natureza. Estamos então, por acaso, lidando com um Marx diferente? A resposta a isso é não! É o mesmo Marx que fala aqui. Para Marx, alienação não é um fenômeno encontradoem toda sociedade industrializada moderna. Em vez disso, é encontrada apenas numa sociedade especificamente capitalista, uma vez que as diferentes expressões da alienação – a alienação do homem do seu trabalho, dos produtos do seu trabalho, do seu ambiente natural, dos seus companheiros e finalmente da sua própria autoconsciência (esta última expressão de alienação Marx chama de “religião”) – têm uma base comum naquilo que Marx denomina Grundübel der Entfremdung: o mal básico da alienação. Esse mal básico consiste na circunstância em que o trabalhador é separado – alienado – da propriedade dos meios de produção. Todo o processo de alienação é colocado em movimento porque os meios de produção não pertencem a ele, mas ao capitalista. Não é um resultado da industrialização em si. Antes, procede exclusivamente da existência da propriedade privada nos meios de produção e suas consequências. É totalmente óbvio por que possuir os meios de produção é para Marx a causa básica de todas as formas de alienação na sociedade. Essa interpretação flui diretamente da sua suposição fundamental de que o homem só pode alcançar seu fim mediante sua ativa operação sobre a natureza. Assim, tirar de uma pessoa o seu direito de dispor livremente do fruto das suas próprias mãos equivale a nada menos do que privá-lo da sua própria possibilidade de autorrealização. A manutenção da propriedade privada, com relação tanto às ferramentas do trabalhador quanto ao seu produto, implica simplesmente uma separação entre homem e natureza. Essa intervenção entre o trabalhador e os meios de produção impede o trabalhador de atingir seu fim humano, ou seja, natural. Por essa razão Marx acredita que “A substituição positiva da propriedade privada como apropriação da vida humana, portanto, é a substituição de toda alienação”.⁴ Assim que a propriedade privada for abolida, todas as expressões de alienação desaparecerão. Nesse momento serão removidos os véus sob os quais o capitalismo conseguia ocultar o progresso real da humanidade em toda sua atividade industrial. Então, os frutos do progresso, cuidadosamente cultivados pelo próprio capitalismo, serão, com um único ato revolucionário, colhidos como uvas maduras da videira do capitalismo. Nesse momento o capitalismo terá desempenhado sua “missão histórica” – o desenvolvimento de todas as forças produtivas humanas. De modo totalmente paradoxal, quando esse ponto de virada tiver sido atingido, os próprios capitalistas não terão, em absoluto, consciência do fato de que o capitalismo tenha produzido esses frutos apenas para tornar possível um futuro abundante para a classe trabalhadora. Essa é a doutrina socialista da eleição e da predestinação, a ironia judaica de Marx sobre a história humana. O capitalismo é como o Faraó do Egito que oprimia o povo de Israel, mas que, por causa dessa opressão e a despeito de si mesmo, criou as condições para a libertação de Israel e sua jornada para a terra prometida, carregando os tesouros do Egito.⁵ O que isso significa para nosso entendimento da relação mútua entre o marxismo ortodoxo e o capitalismo? A fé que Marx tinha no avanço da tecnologia, sua perspectiva limitada a respeito das fontes da alienação humana, e sua confiança profunda na perfectibilidade humana mediante seu embate, via trabalho, com a natureza são elementos do pensamento de Marx que podem levar apenas à conclusão de que o marxismo e o capitalismo são como irmãos que se odeiam e se invejam. Ambos são descendentes diretos da fé iluminista no progresso. Para ambos, a expansão industrial é o guia para um futuro mais feliz, o sinal da chegada de tempos melhores. É claro que isso não significa que não há diferenças radicais entre o capitalismo e o marxismo. A diferença mais importante diz respeito à questão acerca de qual base social pode melhor assegurar o progresso e assim beneficiar a todos. O capitalismo escolhe como sua base a vontade individual, conforme esta se expressa na livre troca do mercado, com a proteção pública de todos os direitos civis. O marxismo escolhe como seu fundamento último a vontade coletiva da sociedade, conforme esta se expressa num plano central, e é afirmado na suposição de que todos irão cumprir suas tarefas sociais e deveres cívicos. Mas mesmo nessa indubitavelmente nítida oposição, o marxismo e o capitalismo revelam seu profundo parentesco original. As diferenças que permanecem são, por assim dizer, imagens espelhadas um do outro; há semelhanças precisamente nos pontos de diferença. Além do mais, as diferenças remanescentes compartilham do denominador comum da necessidade do progresso. À luz desse pano fundo, não é muito surpreendente que pouco tempo depois da morte de Marx, o principal ramo do socialismo começasse, de algum modo, a se sentir mais ou menos confortável com o desenvolvimento pelo qual o capitalismo passava. A luta a partir desse ponto era quase exclusivamente direcionada para uma divisão diferente dos frutos do capitalismo. Em Salário, Preço e Lucro Marx havia advertido: “Em vez do lema conservador de: ‘Um salário justo por uma jornada de trabalho justa!’, deverá inscrever na sua bandeira esta divisa revolucionária: ‘Abolição do sistema de trabalho assalariado!’”.⁵¹ Contudo, seus seguidores cada vez mais lançaram essa advertência ao vento. Se a videira capitalista dava frutos tão vistosos, até mesmo para a classe trabalhadora, porque esta deveria se privar dos benefícios imediatos do progresso? Ainda mais quando, mediante as correções feitas como uma reflexão posterior, em particular na área da legislação social, o cultivo continuado da videira poderia frequentemente ser estimulado numa direção mais aceitável. Assim, observarmos o curioso fato de que dentro de poucas décadas depois do seu início, o socialismo, que começou como um contramovimento ao capitalismo, foi torcido para desempenhar o papel de defensor que impulsiona o progresso econômico do capitalismo com uma velocidade ainda maior. 8 O DESENVOLVIMENTO DA FÉ NO PROGRESSO DEPOIS DE 1850 GUSTAVE COUBERT, o famoso pintor francês do século 19, viveu de 1819 a 1877. Certa vez, quando ele trabalhava arduamente num quadro, alguém lhe perguntou o que ele estava realmente pintando. Somente depois de dar alguns passos para trás, colocando-se a certa distância do quadro, foi que ele elaborou uma resposta adequada, ou seja, um feixe – um monte de galhos. Enquanto ele estava realmente pintando, havia meramente se preocupado sobre como poderia reconstruir na tela, com seu pincel, o que ele observava com seus olhos. O que via com seus próprios olhos era suficiente para ele. Até este ponto quase não tocamos na história da arte, embora seja precisamente desse campo que com frequência podemos aprender muito sobre uma dada época. Isso também é verdadeiro quanto ao período ao redor de 1850. Não apenas o capitalismo, que ainda era recente, mostrava uma série de novos sintomas, mas a fé no progresso em si entrou numa nova fase: a fase da objetividade. O CULTO À OBJETIVIDADE Coubert era um realista, e era particularmente contrário às concepções de arte características do romantismo. O romantismo é um fenômeno muito complexo. Por um lado, ele claramente apresentava elementos de resistência à sociedade industrializada e glorificava a unificação emocional do homem com a natureza. Essas características nos fazem lembrar mais de Rousseau do que de Voltaire ou de uma ode à expansão industrial. No entanto, o romantismo também continha um elemento essencial para o início da fé iluminista, a saber, a glorificação dos atos individuais heroicos e apaixonados. Ele era caracterizado pelo que René Huyghe cunhou de “culto da energia”. Em muitas pinturas românticas francesas, tais como as de Géricault e Delacroix, as linhas diagonais que dominam expressam energia e élan. Esses artifícios composicionais foram usados, por exemplo, para enfatizar o páthos revolucionário de Napoleão montado no seu cavalo. No centro do romantismo permanece o poder pessoal da imaginação e, consequentemente, da vontade para criarnovos mundos, imaginários e inexistentes. As imagens de paraíso da fé iluminista foram assim recuperadas e expressas no romantismo. Em oposição a isso, a escola de Barbizon e um artista como Coubert representavam uma nova tendência na arte, oposta ao mundo da imaginação. “Quando falava aos seus alunos, Coubert desejava destruir até mesmo a palavra ‘imaginação’.”⁵² Em outro contexto Coubert afirmou: Eu sustento que a pintura é uma arte essencialmente concreta e pode consistir apenas na representação das coisas reais e existentes. A pintura é uma linguagem física e lida com o mundo visível. As coisas que são abstratas, invisíveis ou não existentes não pertencem ao domínio da pintura.⁵³ É fascinante observar que essa nova direção na arte é paralela ao desen- volvimento da fé no progresso. Isso não significa que nesse momento a fé no progresso decresceu em significado ou poder; pelo contrário, era aceita em círculos cada vez mais amplos e com implicações sempre mais profundas. “O ponto culminante na história da crença no progresso”, escreve Morris Ginsberg, “foi alcançado por volta do final do século 19. [...] Ele deve sua ampla prevalência ao otimismo inspirado pelos triunfos da ciência aplicada, que se tornaram visíveis nos surpreendentes avanços feitos nas conveniências técnicas da vida. [...].”⁵⁴ Bury confirma isso: “Assim, nas décadas de 1870 e 1880 do século 19, a ideia de Progresso estava se tornando um artigo geral de fé”.⁵⁵ Contudo, a fé no progresso não muda seu caráter. Confrontada com o que enquanto isso estava sendo alcançado nas áreas da tecnologia e da economia, ela começou a se direcionar cada vez mais para essa realidade concreta. As belas imagens do paraíso eram vistas como imaginárias demais. Não é suficiente simplesmente olhar ao redor e observar que o progresso está lá, de modo concreto e visível, e que continuará lá? Por que não, assim como Coubert, estar satisfeito com o que está diretamente perante seus olhos? À luz desses fatos concretos, o páthos glorificando os atos enérgicos, heroicos dos reformadores e inovadores dos estágios pioneiros pareciam empalidecer. Élan, genialidade e imaginação pertenciam ao vocabulário do romantismo. Sobriedade, pesquisa sistemática, respeito aos fatos e objetividade pertenciam ao realismo. Eles levaram a melhor na segunda metade do século 19. O PROGRESSO COMO UM FATO OBSERVÁVEL E MENSURÁVEL A primeira preocupação de Coubert era representar o real, as coisas existentes, de uma maneira simples e exata. A observação acurada e o registro da realidade fatual formam o pano de fundo da sua arte. A objetividade da arte de Coubert e o realismo fatual comumente aceito foram expressos no reino da ciência por Auguste Comte (1798-1857), o fundador da sociologia moderna e um dos pais do positivismo. Ele expressou sucintamente sua convicção com estas palavras: "Desde a época de Bacon os cérebros mais brilhantes têm repetido e repetido que o conhecimento real só pode ser baseado no fato observado'.⁵ Comte era um aluno de Henri de Saint-Simon e se encontra na tradição dos pensadores iluministas Turgot e Condorcet. Contudo, na sua própria filosofia ele foi muito além desses precursores do positivismo. De uma maneira tipicamente modernista, ele dividiu a história da cultura em três estágios dos quais o último e o mais sublime seria, é claro, a fase positivista. O positivismo se esforça pelo progresso positivo na sociedade mediante a atribuição de um papel indispensável à ciência moderna, que é caracterizada pela observação natural-científica estrita dos fatos e pela predição sistemática (prevision scientifique) baseada nessa observação. Comte fundou a sociologia, que ele considerava como sendo a teoria do progresso baseada apenas nos fatos observados e abarcando toda a sociedade humana. Ele afirmou: "A mente humana concebeu a física astronômica e terrestre, a química e a física orgânica relacionada às plantas ou à vida animal. Resta apenas, para completar esse sistema da ciência pela observação, que o homem estabeleça a física social. Esse é, em muitos aspectos, o problema mais urgente a ser resolvido'.⁵⁷ Em suma, podemos dizer que depois de 1850 a fé no progresso se afastou gradualmente das imagens paradisíacas e especulativas a respeito de um futuro típico da era iluminista⁵⁸ para voltar-se para evidências concretas, fatuais do progresso diariamente observável nas áreas da economia, da tecnologia e da ciência. De acordo com Fred Polak, “O futuro não é mais uma entidade separada, mas é comprimido no movimento diário do presente”.⁵ Esse “movimento diário do presente” é sujeito ao controle e orientação contínuos da nova abordagem positivista “científica” que desejava observar, registrar e mensurar apenas os fatos brutos da realidade. Estamos agora no apogeu do materialismo científico. Tudo o que pode ser experimentalmente confirmado, que pode ser visto, tocado, medido, registrado e controlado é dotado de um alto valor. Isso tem levado ao hábito especificamente moderno da objetividade e ao estreitamento da consciência que Whitehead chamou de “a falácia da concretude mal colocada”. Isso significa que a inovação tecnológica e a expansão econômica devem se render e abdicar do seu papel dominante na sociedade nessa época? Não, mas uma apreciação distinta deve ser feita. Elas não são mais vistas em primeiro lugar como um meio a ser utilizado ou guias a serem seguidos porque no futuro elas poderiam levar a humanidade ao paraíso. Em vez disso, elas tornaram-se objetos de apreciação em si mesmas por causa das suas manifestações concretamente observáveis e diariamente mensuráveis. O prazer real do progresso presente tem precedência sobre o possível progresso futuro. A realidade presente de crescimento tecnológico e econômico tornou-se central precisamente pelo fato de ser tão real, concreta e mensurável. Essa nova orientação do progresso em direção à expressão mensurável no presente permaneceu como característica da fé ocidental no progresso desde então. É possível fornecer rapidamente exemplos disso na nossa própria época. Por exemplo, quando somos perguntados sobre o quão prósperos somos enquanto nação, geralmente nossa primeira reação é uma referência ao PIB – Produto Interno Bruto. Quando pensamos no progresso, não mais pensamos no futuro, mas sim no que está acontecendo hoje. Além disso, o progresso econômico é frequentemente quase que totalmente definido à parte de critérios qualitativos; ele é reduzido ao que é quantitativamente e diretamente mensurável. Hoje, no Ocidente o bem-estar não é apenas expresso em números; ele é quase equiparado aos números – os do PIB anual. Esse tipo de resposta à questão do bem-estar e do progresso revela menos sobre a questão em si do que sobre nós mesmos. É uma expressão de pessoas para as quais o futuro encolheu a um dia depois do dia de hoje, ¹ e para as quais a verdade é equiparada ao observável e, em essência, com o mensurável. Quem quer que esteja interessado em descobrir para qual nível de pobreza cultural e espiritual o Ocidente afundou só precisa perguntar sobre seu bem-estar! PROGRESSO E EVOLUÇÃO Como acabamos de ver, depois de 1850 o realismo e o positivismo levaram a fé no progresso na direção dos fatos diários observáveis, comprovados, nos quais essa fé pode ver-se confirmada e refletida a qualquer momento. Contudo, para entender o desenvolvimento dessa fé na cultura ocidental até o presente, e com ela o desenvolvimento do capitalismo, outras influências também devem ser mencionadas. A mais importante delas é a teoria da evolução, particularmente desde o aparecimento de A Origem das Espécies de Charles Darwin em 1859. À primeira vista, o conceito de evolução dificilmente acrescenta algo ao conceito de progresso. O que mais o progresso é do que uma evolução numa direção ascendente, desejada? Porém, essa interpretação é simplista demais e, portanto, insustentável. Uma mudança fundamental ocorre no motif do progresso assim que ele é associado, de um modo ou de outro, à teoria da evolução. Em primeirolugar, é importante observar que Darwin descreve a evolução como um processo no qual o homem se desenvolve a partir do mundo animal; de fato, o homem é visto como um espécime avançado do reino animal. A importância disso é imediatamente evidente quando nos lembramos de que os filósofos iluministas percebiam o progresso invariavelmente como um processo iniciado, controlado e direcionado pelo próprio homem. Mediante seu entendimento racional, sua engenhosidade crítica e suas habilidades técnicas e econômicas, o homem colocou o progresso em movimento; apenas por meio desse movimento é que ele também se desenvolve rumo à perfeição. Contudo, no conceito de evolução encontramos um processo que já se iniciou à parte da intervenção humana. Que ele goste disso ou não, o próprio homem foi absorvido nesse processo como um elemento dependente. Na teoria da evolução, o homem não impulsiona o progresso adiante; ele está sendo impulsionado em direção ao progresso pelo tempo. Em vez de ser o sujeito do progresso, no pensamento evolucionário o homem tornou-se antes de tudo um objeto do progresso. Que nessa abordagem a glória da humanidade foi grandemente diminuída está além de controvérsia. A razão humana, então aclamada como a fonte absoluta do sentido no mundo e a essência da dignidade humana, na teoria de Darwin torna- se “meramente um órgão que foi desenvolvido pelo esforço do homem para adaptar-se ao seu ambiente. [...]”. ² O homem torna-se “o produto e o joguete de uma ’Natureza violenta e selvagem”. ³ Em última análise, a civilização não é mais do que “uma parte da natureza, sendo um desenvolvimento das capacidades latentes do homem sob a ação de circunstâncias favoráveis. [...]”. ⁴ Um segundo elemento que a teoria da evolução acrescenta à ideia de progresso diz respeito à noção de um processo inevitável de seleção natural. O termo “evolução” não é um conceito incolor. Ele requer uma visão da história humana como um processo no qual cada forma de vida é vencedora somente depois de uma luta na qual a vitória final é mais bem assegurada por uma adaptação ao respectivo ambiente. O filósofo inglês Herbert Spencer (1820-1903) tentou aplicar o dogma da evolução à vida socioeconômica. Em Social Statics [Estática social] (1851), ele chegou à conclusão que a lei da “luta pela vida” se aplica igualmente à competição entre empreendimentos industriais, e que o princípio da caridade não deveria ser, em nenhuma circunstância, o ponto de partida para o desenvolvimento da vida socio-econômica. Isso porque, nas palavras de Bury, de acordo com Spencer “o propósito último da criação é produzir a maior quantidade de felicidade. [...]”. Isso requer a eliminação das “criaturas inferiores” que não possuem faculdades que as capacitem “a sentir o gozo supremo da vida”. ⁵ Nas palavras de Spencer: “O movimento mais poderoso é sempre em direção à perfeição”. Esse desenvolvimento ascendente requer o sacrifício do fraco para aumentar as chances de vida – e, desse modo, as utilidades a serem desfrutadas – pelo forte. A teoria da evolução com seu princípio de “conquista pela luta” aparentemente também agradava a Marx, pois ele pediu permissão a Darwin para dedicar-lhe o primeiro volume do Capital. Porém, Darwin recusou essa honra. Ainda mais importante do que o pensamento de Spencer e Marx sobre Darwin é o fato de que o motif da evolução se alojava de uma forma cada vez mais profunda na fé ocidental no progresso. Na verdade, por volta da virada do século ela tinha se tornado quase universalmente aceita. Então, era crido que o progresso era baseado no inevitável processo de seleção natural. Esse, de acordo com Bury, foi o fator decisivo que estabeleceu o reinado da ideia de progresso no final do século 19 e início do século 20. RESUMO Recapitulando as principais características da fé no progresso depois de 1850, encontramos os seguintes elementos: uma mudança do interesse em direção ao progresso técnico e econômico observável, fatual, do momento; a aplicação da ciência “positiva” para medir e ajudar nesse processo; uma avaliação desse processo como sendo um processo necessário, constantemente presente e inexorável no qual o homem tem sido absorvido; e, finalmente, o reconhecimento de que nesse processo o homem deve aceitar a luta pela sobrevivência para a qual ele pode se preparar da melhor maneira mediante uma adaptação constante ao seu ambiente. Talvez todos esses elementos sejam mais bem resumidos no mote de Comte: progrès et ordre – progresso e ordem. Ordem ou sistema é um requisito primordial numa sociedade na qual o progresso em si, ou mais propriamente, na qual fazer progresso tenha se tornado um fator constante, considerado por todos um fato estabelecido e uma firme necessidade. Essa ordem não é apenas requerida para proteger o progresso como tal; é também necessária, na visão dessa nova constante social, para prevenir a perda da coerência mútua do todo. Podemos comparar isso com o voo de uma nave espacial que pode, como um “sistema”, mover-se para frente apenas quando um propósito definido tenha sido estabelecido para cada uma das suas partes, e quando todas as partes estão mutuamente relacionadas de um modo equilibrado. Do mesmo modo, a presença diária do progresso econômico e técnico constante requer um sistema social que esteja permanentemente atrelado a essa evolução; no qual o próprio homem esteja ajustado a essa nova vida e situação de trabalho; e no qual a ciência funcione para tornar o equilíbrio interno do sistema do progresso o mais estável possível. Em outras palavras, durante a segunda metade do século 19 e início do século 20 testemunhamos uma transição do dever de efetuar o progresso desejado para o dever de adaptar-se ao progresso existente presente em todas as suas manifestações concretas. Essa adaptação requer a transformação de toda a sociedade num sistema de sobrevivência com um foco único. As forças do progresso econômico e tecnológico estão relacionadas ao sistema social de uma maneira comparável à relação entre a abelha rainha e a colmeia. A abelha rainha só pode fazer progresso no seu trabalho – produção de ovos – se ela for cercada por uma colmeia na qual tudo é funcionalizado e instrumentalizado em função da tarefa da abelha rainha. ⁷ 9 MUDANÇAS NO CAPITALISMO DESDE 1850 SE EM LARGA MEDIDA o capitalismo deve sua origem e sua existência real à fé no progresso, então devemos ser capazes de traçar as evidências disso ao longo de toda a história do seu desenvolvimento. Na verdade, podemos esperar traçar até mais do que isso. Se a fé no progresso foi verdadeiramente a maior fonte de inspiração e o principal propulsor da sociedade ocidental durante os últimos dois séculos, então isso deve ser claramente visível nos seus diversos setores. Podemos testar essa hipótese investigando se ocorreram nesses diversos setores desenvolvimentos paralelos que de fato possam ser explicados apenas em termos de uma fonte comum. Tendo isso em vista, podemos traçar o desenvolvimento do capitalismo de 1850 até o presente mediante a investigação – numa visão panorâmica – das mudanças que ocorreram em pelo menos três setores da sociedade: 1. O setor da vida interna de uma empresa, incluindo as relações entre uma empresa e sua gestão, seus trabalhadores e seus investidores; 2. O setor das relações entre as empresas e entre as empresas e seus consumidores; e 3. O setor da relação entre a indústria como um todo e o governo, assim como as relações entre os Estados nacionais. Se minha suposição estiver correta, então as mudanças em cada um desses setores deveriam revelar estreitos paralelos com relação aos demais setores, assim como com o caráter variável da fé no progresso em si depois de 1850. MUDANÇAS NAS EMPRESAS Tamanho, estrutura legal e produção em massa Devemos ser cuidadosos em não ter em mente uma imagem exagerada do tamanho das empresas no início da revolução industrial. Poucas empregavam mil ou mais trabalhadores, mas a maior parte era de proporções mais modestas. Isso não surpreende se considerarmosque as empresas naquela época eram antes de tudo empresas individuais típicas. Além disso, com frequência o capital requerido tinha de ser recolhido junto a amigos e conhecidos do empreendedor. Isso foi o caso até mesmo do desenvolvimento da máquina a vapor de Watt. Segundo o historiador Earl J. Hamilton, “Sem anos de assistência financeira substancial dos doutores Black, Roebuck e Boulton, a máquina vapor de Watt poderia nunca ter bombeado um galão de água ou girado uma roda numa fábrica”. ⁸ Em outras palavras, o capital investido ainda estava nas mãos de apenas algumas poucas pessoas que, dado o risco que corriam, eram geralmente tanto os proprietários quanto os diretores da empresa. O estabelecimento de uma nova empresa, orientada para um objetivo específico, era com frequência algo arriscado e perigoso comumente ocasionado por uma nova invenção técnica, a aplicação industrial da qual poderia prover um retorno conveniente sobre o investimento de capital. Essa imagem primitiva das primeiras empresas mudou rapidamente porque alguns dos primeiros projetos provaram ser tão lucrativos que o dinheiro começou a aparecer em abundância. Um exemplo interessante desse sucesso é a história de Richard Arkwright, que começou sua carreira como um fabricante de perucas, mas cujas posses na época da sua morte foram avaliadas em £500 mil. Sua riqueza aumentou tão rapidamente que ele se gabava de poder quitar toda a dívida nacional da Inglaterra caso vivesse o suficiente para isso. É claro que o sucesso fala por si mesmo, e muitos dos bem-nascidos caíram na tentação – com uma grande dose de hesitação no início – de arriscar parte da sua própria riqueza em empreendimentos semelhantes. Isso não significa que eles sempre exigiram uma autoridade proporcional nas empresas. Assim, gradualmente desenvolveu- se uma distinção entre o empreendedor e o investidor. Obviamente essa mudança passou a ocorrer mais rapidamente na medida em que o tamanho médio das empresas se expandia. Tentados pela possibilidade de produzir com um custo mais baixo por unidade mediante o aumento do tamanho da empresa, muitos empreendedores tentaram aumentar o investimento de capital em suas firmas. No entanto, as quantias necessárias tornaram-se rapidamente tão grandes que só poderiam ser fornecidas por vários investidores conjuntamente. Por muito tempo essas tentativas foram feitas numa estrutura legal de sociedades anônimas. Nessa organização o investimento de capital da corporação era obtido de vários acionistas. A participação na vida diária da companhia era de fato limitada, mas eles poderiam perder o valor do próprio capital investido apenas caso a empresa não conseguisse obter sucesso. Em 1800, 350 corporações nos Estados Unidos operavam com base no princípio de sociedade anônima. Na Inglaterra esse tipo de distribuição das obrigações e da participação tornou-se popular particularmente depois que o Companies act de 1844 foi adotado.⁷ Um resultado dessa ainda um tanto limitada separação entre a autoridade e a propriedade foi o aumento da independência da empresa de negócios. Esta se tornou menos sujeita aos caprichos do proprietário individual, que no estágio anterior era o único fornecedor de capital. Essa tendência intensificou-se notoriamente durante a segunda metade do século 19 devido ao surgimento da produção em massa. A tecnologia de produção avançou tão rapidamente que tinha chegado o momento em que produzir manufaturas de apenas algumas poucas variedades em grande escala eram lucrativas e, consequentemente, a um custo tão baixo que as classes mais baixas da sociedade poderiam adquiri-las. Nos Estados Unidos, “o número de estabelecimentos que produziam manufaturas deu um salto de 140 mil em 1859 para mais de 200 mil em 1900 e foram responsáveis pelo aumento no índice de produção de manufaturas de 7,5 em 1863 para 67,6 em 1900”.⁷¹ Assim, embora o número de fábricas tenha aumentado menos de 50 por cento, devido ao crescimento na produção em massa a produção industrial total multiplicou nove vezes em menos de quarenta anos! Internalização da ciência, da gestão e da tecnologia O turbulento processo da industrialização, da produção em massa e do crescimento em larga escala das empresas individuais foi acompanhado por uma série de mudanças incisivas nas próprias empresas. Em primeiro lugar, junto com a expansão em termos de alcance, a divisão interna do trabalho começou a ser submetida à análise científica. O trabalho nas fábricas foi hábil e teoricamente dividido num número crescente de operações básicas. Além disso, a organização do processo de produção como um todo também tornou-se objeto de escrutínio científico. Logo depois de 1900, Frederick W. Taylor introduziu sua análise científica do tempo e dos movimentos necessários para o desempenho de todas as funções parciais num sistema de produção em massa visto como um todo. A ciência tornou-se cada vez mais um instrumento auxiliar indispensável na construção e manutenção de empresas cada vez mais complexas, nas quais a exploração sistemática de todos os fatores de crescimento era defendida, incluindo a divisão do trabalho e as linhas de produção. Em segundo lugar, outro processo de internalização estava ocorrendo nas empresas. Enquanto por um lado a separação entre propriedade e gestão continuava, por outro lado a função do empreendedor tornava-se cada vez mais ligada à empresa. Pouco a pouco as empresas começaram, por assim dizer, a ter vida própria. Elas desenvolveram seu próprio sistema de vida e trabalho e, como um sistema, elas necessitavam de uma gestão contínua. Nos primeiros anos da Revolução Industrial a empresa poderia ser vista como uma extensão dependente da vontade soberana dos empreendedores e investidores individuais. Contudo, depois de 1850 esse era cada vez menos o caso. As corporações de negócios se desenvolveram em sistemas de vida independente – “colmeias” independentes –, que por sua vez requeriam gestão e capital para sua existência independente continuada. O que acontecia às empresas não era mais determinado pela vontade de empreendedores individuais, mas pela lei da evolução social. Conquanto as empresas tivessem sido estabelecidas primeiramente pelo papel soberano do empreendedor, depois de 1850 elas começaram a internalizar esse papel. Elas assimilaram essa função em seu próprio sistema como uma parte vital, porém substituível. O termo moderno para esse papel internalizado é gestão. Esse termo oculta o fato de que o empreendedor individual também era forçado a obedecer às leis da evolução e, assim sendo, tinha de aceitar o papel de uma função derivada num sistema de vida e trabalho orientados para o progresso. Podemos apontar como uma terceira faceta da internalização um desenvolvimento semelhante na relação das empresas com a tecnologia. As primeiras empresas industriais eram geralmente organizadas para utilizar novas invenções. Como uma regra, a tecnologia era introduzida na indústria a partir de fora, via patentes, por exemplo. No entanto, a partir de 1850 isso também mudou. Em prol de seu próprio crescimento e continuidade, uma corporação tinha de assegurar a presença de inovação tecnológica contínua. A corporação obtinha essa certeza tornando a inovação uma parte essencial da sua própria operação industrial. Em outras palavras, a tecnologia foi também internalizada. Nesse contexto, Whitehead corretamente observou que “a maior invenção do século 19 foi a invenção do método de invenção”.⁷² “Pesquisa e desenvolvimento” tornaram-se departamentos comuns nas corporações industriais modernas. O primeiro laboratório de pesquisa industrial privado nos Estados Unidos data de 1900, e pertencia à General Electric. Ele foi seguido por uma série de outros. “Gerentes e especialistas em tecnologia tornaram-se empregados, não proprietários. Empregados para resolver problemas técnicos, gerentes e especialistas em tecnologia automaticamente tornaram-se, em certo sentido, inventores contratados.”⁷³ Em suma, durante a segunda metade do século 19 e o iníciodo século 20 ocorreu um processo no qual a ciência, a gestão e a tecnologia, em vez de contribuírem de modo independente para o progresso econômico na sociedade, tornaram-se cada vez mais aspectos internalizados das operações diárias das empresas industriais. Eles tornaram-se partes vitais – seguramente vitais, mas ainda partes – do sistema de vida e trabalho chamado de corporação moderna, na qual a evolução do progresso se manifesta diariamente no grau mais pleno. Da maximização do lucro à manutenção do sistema Quando seguimos para o século 20, testemunhamos antes de qualquer coisa uma intensificação das tendências supracitadas. O proprietário tornou-se um investidor ainda mais anônimo. Ele é frequentemente tratado pela corporação gigante como uma espécie de credor de segunda classe que deve resignar-se a aguardar e observar que dividendos lhe serão pagos pelo conselho de diretores. Contudo, os próprios conselhos tornaram-se uma parte cada vez mais forte do sistema das empresas como um todo. Em vez de serem os proprietários da corporação, como era o caso anteriormente, parece que agora é a corporação que é proprietária do seu conselho de membros e que controla a vida pessoal e a ética, bem como o círculo de amizades deles. Além disso, juntamente com essas mudanças, os objetivos das empresas também passaram gradualmente por uma transformação. Na medida em que a empresa era uma extensão direta da vontade individual dos seus investidores, a maximização do lucro num período relativamente curto de tempo era considerada o objetivo central da corporação. No entanto, quando a empresa se emancipou da influência dos investidores individuais e tornou-se uma “empresa em atividade”, o objetivo de lucro máximo também teve de submeter-se. Em seu lugar encontramos um novo objetivo predominante, a saber, assegurar a existência continuada da corporação ou – para empregar o jargão corrente – a manutenção do sistema. A maximização do lucro como uma regra assume uma importância secundária, exceto em situações nas quais certo nível mínimo de lucro é ameaçado.⁷⁴ O que essa tendência rumo à continuidade e autopreservação significa numa sociedade na qual o progresso econômico e tecnológico tornou-se uma pressuposição rotineira da existência diária e foi promovida a uma espécie de “constante social”? Nesse tipo de sociedade, a continuidade por parte das empresas só pode implicar a adaptação ao progresso econômico. Um negócio que não cresça economicamente e não se renove tecnologicamente o tempo todo não tem a menor chance de sobreviver à “luta pela vida” numa sociedade orientada para o progresso. Nesse tipo de ambiente até mesmo um enfraquecimento no crescimento da produção e das vendas e um relaxamento na inovação tecnológica pode ser fatal. Nesse ambiente uma paralisação real significa um declínio, pois o progresso é visto como normal. MUDANÇAS SUCESSIVAS NA COMPETIÇÃO O capitalismo não é um sistema social estático que permanece para sempre. Com o passar dos anos ele claramente passou por mudanças e seu caráter foi transformado. Isso também ocorre com o desenvolvimento das relações recíprocas entre empresas competitivas. Seguindo Heilbroner, podemos distinguir quatro fases nesse desenvolvimento.⁷⁵ Competição pura e perfeita Nos primeiros estágios da Revolução Industrial ocorreu muita competição, especialmente entre novas firmas e unidades tradicionais de produção, que ainda usavam tecnologia antiquada. Segundo Gras, “De qualquer modo, os capitalistas industriais prosperaram enormemente em sua competição com os sobreviventes dos velhos regimes que ainda utilizavam técnicas mais antigas”.⁷ Não obstante, gradualmente a competição se tornou mais dura, pois vários recém-chegados instalaram-se nos mesmos ramos da indústria. Em pouco tempo havia tantos empreendedores presentes em cada ramo que uma aguerrida competição de preços era algo inevitável. Desse modo foi estabelecida a primeira fase da competição – a fase da competição quase pura e perfeita. Durante esse período alguns dos ideais de economistas clássicos como Adam Smith e John Stuart Mill pareciam ter se tornado parte da realidade. Os empreendedores eram forçados a competirem entre si num embate competitivo contínuo enquanto os consumidores eram beneficiados na forma de redução de preços. Ocorreu uma espécie de “equilíbrio” entre “interesses antagônicos”; a mão invisível estava em operação de tal modo que a competição sem entraves gerava benefícios para toda a população. O cliente tinha se tornado rei. Enquanto consumidor ele poderia ser visto como soberano em sua escolha de produtos e produtores, e em larga medida suas necessidades eram decisivas para a orientação da produção. Somado a isso, nesse estágio parece ter sido encontrada uma solução para o problema da distribuição de renda e das relações de poder na vida socioeconômica. A livre competição equilibrava o poder entre as empresas. Em sua luta competitiva esses poderes se neutralizavam em tal medida que, no fim, a grande massa de consumidores colhia os frutos. Além disso, as altas rendas corporativas eram sistematicamente puxadas para baixo pela competição, e como consequência os consumidores, via redução de preços, experimentavam uma melhoria constante da sua renda real. Contudo, esse mundo supostamente harmonioso do deísmo rapidamente deu errado na prática. O assim chamado paradoxo da livre competição apareceu: a competição frequentemente tende à sua própria eliminação. Quanto mais acirrada a competição, mais desejada é a eliminação dos competidores naturais. Assim, o processo de livre competição frequentemente resultava quase naturalmente em situações monopolísticas. Esse era o caso especialmente quando, em função de um aumento constante no tamanho médio das empresas, tornava-se cada vez mais difícil que novas empresas surgissem num ramo particular da indústria. Fase do barão usurpador A livre competição implica “instabilidade” com relação ao modo e à estrutura das relações entre as empresas. Isso rapidamente tornou-se evidente na prática durante a chamada fase do barão usurpador da competição capitalista. Durante essa fase, que durou até 1880, os empreendedores tornaram-se estrategistas astutos. Assim como os barões usurpadores medievais, eles buscavam surpreender seus competidores mediante ataques inesperados, após os quais eles se retiravam para suas fortalezas com os espólios. Um dos exemplos mais intrigantes desse método de competição é a batalha entre Jim Fisk e J. P. Morgan pelo controle da Ferrovia Albany-Susquehanna. “Morgan manteve um ponto final da linha sob seu controle, e o outro ponto final era um baluarte de Fisk.” Do mesmo modo que seus predecessores feudais, eles decidiram resolver a disputa com uma luta “na qual cada lado estaria em uma locomotiva no seu terminal e, colocando-as e movimento elas colidiram, como brinquedos gigantes”.⁷⁷ Esse período de concorrência selvagem é ainda coberto por um véu de resistente romantismo. A competição era uma questão de ousadia e imprudência, assim como de trapaças inacreditáveis e combates mortais. Esse estilo de competição, encontrado especialmente nos Estados Unidos, ainda revela características distintas do romântico “culto da energia” que pertencia à era que precedeu a vitória da “nova objetividade”. Contudo, a “nova objetividade” rapidamente assumiu o comando, até mesmo na área da vida econômica. Cooperação voluntária Como um resultado do fato de que em certos ramos de negócio um número cada vez menor de competidores sobrevivia, os homens de negócios começaram a perceber que um maior nível de certeza e lucro poderia ser atingido mediante a cooperação mútua e o acordo do que mediante táticas surpreendentes e concorrência selvagem. Assim surgiu a terceira fase da competição – a fase da cooperação voluntária. A concentração nos negócios aumentava; numerosos trustes e cartéis eram formados. Por volta de 1900 a situação tinha mudado de tal modo que, de acordo com dados fornecidos por J. S. Bain, as trezentas maiores corporaçõesnos Estados Unidos impactavam diretamente quatro quintos de todos os ramos relevantes da indústria.⁷⁸ Naquela época era dito que os cidadãos americanos nasciam para o bem do truste do leite e morriam para o bem do truste dos agentes funerários. Os governos também começaram a perceber que a livre competição sem nenhum tipo de controle nem sempre levava aos resultados mais desejáveis. Assim, a partir de 1880 uma extensiva legislação antitruste, como a que era encontrada especialmente nos Estados Unidos, acompanhou sistematicamente as crescentes cooperação e colaboração na vida industrial tão sistematicamente quanto possível. Não obstante, os efeitos dessa legislação foram limitados. Ela não logrou êxito em eliminar ou reduzir drasticamente a concentração de poder que tinha ocorrido em todos os âmbitos da vida industrial. Contudo, a introdução gradual de certo grau de estabilidade na tendência à concentração foi uma notável façanha na primeira metade do século 20. Isso marcou a quarta fase, que durou aproximadamente até a Segunda Guerra Mundial.⁷ Oligopólio, inovação e propaganda A competição nos ramos da indústria nos quais poucas corporações controlavam pelo menos metade da produção total é essencialmente diferente da competição em ramos nos quais a produção é distribuída de modo mais ou menos igualitário entre um número maior de corporações. Nesta última situação a competição intensa nos preços pode ocorrer com facilidade. Contudo, na primeira situação – também chamada de situação de oligopólio, na qual o número de produtores é pequeno – esse tipo de competição é uma exceção. As indústrias que se encontram num ramo característico por uma situação de oligopólio acompanham de perto os preços de cada um dos seus concorrentes. Se um deles tenta aumentar sua participação no mercado mediante uma redução repentina dos preços, com frequência seus competidores o seguem imediatamente. Como resultado, o aumento dos lucros que se buscava inicialmente com a redução dos preços é, em larga medida, anulado. O concorrente que iniciou a redução dos preços é forçado a se satisfazer com sua participação original no mercado. Tendo aprendido com esses erros, no futuro ele irá pensar duas vezes antes de iniciar outra guerra de preços. Em longo, é mais sábio e lucrativo aceitar a estabilidade dos preços e, a partir do sinal dado por aquele que liderar tal ramo particular da indústria, aumentar conjuntamente o preço desse ramo como um todo. Na medida em que o capitalismo continua a persistir e a forma oligopólio se torna consolidada, a competição por preço se torna menos significativa. Essa é uma imagem completamente diferente daquela que Adam Smith poderia ter imaginado! No entanto, isso não significa que a luta competitiva em si estava sendo abandonada. Ela continuava com igual intensidade em duas áreas distintas, a saber, tecnologia e gosto do consumidor. A competição tecnológica é a tentativa de antecipar-se mediante novas técnicas de produção e organização, como também mediante novos produtos ou novas versões de produtos existentes. Se uma indústria avança em uma dessas áreas, ela pode aumentar sua participação no mercado. Esse tipo de competição encaixa-se perfeitamente no padrão total de uma economia progressiva na qual a expansão econômica e a inovação tecnológica estão firmemente vinculadas. Além disso, a inovação tecnológica é um sinal excelente de adaptação na luta pela sobrevivência do mais apto no processo de evolução social. Influenciar os gostos dos consumidores é o segundo novo tipo de competição. De certo modo, esse é ainda mais interessante porque representa um esforço enorme para mudar os gostos ou as preferências dos consumidores com relação a um produto particular por meio das técnicas de vendas e de propaganda. Uma indústria que é capaz de persuadir um conjunto de consumidores a comprar fielmente seu produto obtém uma base segura para sua sobrevivência e continuidade. O surgimento desse tipo de competição claramente não é um fenômeno isolado. Ele está relacionado à expansão de escala que requer investimentos ainda maiores. Os riscos de investimento são consideravelmente reduzidos pela confiança e fiabilidade do consumidor. Além disso, esse “planejamento da demanda do consumidor” torna-se ainda mais urgente na medida em que o consumidor obtém uma alta renda e ganha no chamado poder de compra discricionário. Quanto maior a renda, menos estável é a escolha dos produtos. No processo de construção de uma indústria, é perigoso confiar inteiramente na natureza volúvel do consumidor. Deve haver uma certeza adicional de que ele de fato irá continuar a comprar os produtos fabricados por essa indústria particular. Por essa razão, seus gostos devem ser modificados consistentemente. Essa tentativa de manipulação dos gostos do consumidor por meio da propaganda deve ser vista num contexto ainda mais amplo. Anteriormente falamos da internalização da tecnologia e da gestão. Podemos agora acrescentar os gostos dos consumidores, que também são internalizados, na medida do possível, no planejamento da indústria. Portanto, eles tornam-se uma parte do sistema de sobrevivência da corporação. Definitivamente, há um paralelo com relação ao papel inconstante da tecnologia e da gestão. No início da Revolução Industrial o consumidor era soberano, assim como o empreendedor. Mas na medida em que o processo de progresso direcionado pela humanidade foi transformado num processo de evolução econômica predeterminada, o consumidor perdeu uma parcela significativa da sua soberania anterior. Agora, em grande medida, a indústria – em vez dos consumidores – decide que produtos deverão estar disponíveis na sociedade e que “necessidades” deverão ser atendidas. “Ordem e Progresso” – o moto de Comte – também descreve de maneira adequada o novo relacionamento entre indústria e consumidor. O progresso na produção requer uma ordenação planejada da maneira de consumo. O conteúdo do consumo não pode mais ser apenas uma questão de livre escolha. Em vez disso, de acordo como as leis da evolução social, o consumo – enquanto uma entidade maleável e dependente – deve ser ajustado ao sistema existente de progresso econômico. MUDANÇAS NAS RELAÇÕES ENTRE GOVERNO E INDÚSTRIA Um esboço histórico da relação entre o governo e a vida industrial desde o início da Revolução Industrial frequentemente começa com uma descrição das mudanças nos poderes e nas convicções sociopolíticas nos séculos 19 e 20. Isso muitas vezes serve como o pano de fundo para uma explicação da crescente intervenção do governo no processo econômico. Esse tipo de abordagem certamente tem seus méritos. Em particular na área da legislação social e do bem-estar social, a influência de distintas concepções políticas e relações de poder tem sido decisiva. Como exemplos disso podemos citar a ascensão do socialismo revisionista, a emergência dos movimentos de reforma nos partidos conservadores e a formação da consciência social na Igreja Católica Romana e nas igrejas protestantes durante o século 19.⁸ Uma ilustração desta última é o movimento Réveil que se iniciou na Suíça por volta dos anos 1820 e se espalhou para várias igrejas protestantes no continente europeu, e na segunda metade do século 19 ajudou a promover a ascensão dos movimentos sociais e políticos cristãos.⁸¹ Juntamente com o início dos movimentos trabalhistas – na Inglaterra, por exemplo, a chamada coalizão de proibição contra os trabalhadores foi abolida em 1824 –, o contexto estava pronto para a realização de uma política social concreta, especialmente no continente europeu. Uma mudança estrutural: de inimigo a amigo Esse tipo de esboço histórico revela, na melhor das hipóteses, apenas uma meia- verdade. A mudança na relação entre governo e indústria durante os séculos 19 e 20 foi de um caráter tão radical que provavelmente não pode ser explicada meramente com base no crescente desejo pela intervenção governamental. Durante esse período, a própria estrutura dessa relação mudou. Assim, as causas para o aumentointensivo na intervenção governamental dificilmente podem ser explicadas nos termos das circunstâncias políticas típicas. Essa intervenção foi frequentemente um resultado da pura necessidade; estava relacionada aos desenvolvimentos estruturais que ocorriam na vida econômica em si. Esta interpretação pode ser prontamente ilustrada pela mudança estrutural no papel que o governo assume assim que a escala de produção na indústria é substancialmente ampliada. Como vimos anteriormente, devido a essa expansão na escala, a competição entre as indústrias numa série de ramos resultou numa concentração oligopolista de poder e em conspirações contra o público. Nesse ponto com frequência o governo interferiu e, especialmente nos Estados Unidos, introduziu uma extensiva legislação antitruste. O motivo mais importante para essa interferência mais intensiva do governo não será encontrado na ascensão de uma perspectiva política totalmente diferente que renunciava ao ideal da livre e plena competição. Pelo contrário, a maioria dos políticos daquela época ainda aderia estritamente ao princípio enunciado por John Stuart Mill: “Laisser-faire [...] deve ser a prática geral; cada desvio disso, a não ser que seja requerido para algum bem comum, é certamente um mal”.⁸² Contudo, era precisamente pelo fato de serem adeptos desse princípio que a interferência era uma necessidade. A economia de mercado em si e a continuidade da livre competição estavam ameaçadas pela expansão em escala e pela concentração de poder. Deixado a si mesmo, o processo de competição poderia ter resultado na sua autodestruição. Assim, o governo, pelo futuro da continuação da economia de “livre” mercado, tinha de interferir. Esse breve relato ilustra a mudança na natureza da relação entre governo e indústria por volta da virada do século 19 para o século 20. Esse novo tipo de intervenção governamental não era meramente corretivo: ela era fundamental e um sistema de apoio. Para esclarecer esse ponto, utilizemos a imagem de dois círculos – um para o governo, outro para a vida industrial – cada um dos quais representa sua respectiva esfera de influência. No início da revolução industrial, os dois círculos raramente se tocavam. Essa era a época do laissez-faire, quando a tarefa do governo era limitada à proteção dos direitos civis formais daqueles que participavam da vida econômica, em especial de sua propriedade privada e liberdade de contrato. Isso foi seguido por uma fase na qual os dois círculos parcialmente se sobrepuseram. A legislação social foi introduzida para corrigir algumas das desagradáveis consequências da industrialização no trabalho e na vida dos trabalhadores e das suas famílias. Não obstante, começando no período da legislação antitruste, o círculo do governo ficou parcialmente subjacente à esfera industrial. Se essa esfera fosse deixada à própria sorte, a livre competição na vida industrial teria levado à desintegração e à autodestruição. Sua sobrevivência tornou o apoio e a proteção governamental um novo imperativo. Assim, de uma ameaça ao livre mercado durante o início da Revolução Industrial, o papel do governo gradualmente evoluiu para o de condição vital para a existência do livre mercado. A vida industrial necessitava tanto do cuidado e da intervenção governamental para sua evolução e avanço quanto da gestão científica e da tecnologia de inovação. Em outras palavras, na medida em que a lei evolucionária do progresso requer seu próprio sistema de progresso na sociedade, nem mesmo o governo pode escapar das restrições desse sistema. Assim, a política do governo tornou-se um elemento na atração magnética do sistema tecnológico e econômico colocado em movimento na sociedade. Talvez uma ilustração ainda mais surpreendente desse processo seja a emergência de novos objetivos de política econômica dos governos no século 20. Esses objetivos – tais como pleno emprego, a batalha contra a inflação e o equilíbrio de pagamentos – tornaram-se, todos eles, totalmente familiares a todos nós. Eles pertencem a um grupo padronizado de serviços governamentais em cada país ocidental moderno. Novamente devemos observar que esses novos serviços e objetivos governamentais equivalem a muito mais do que meras correções da prática econômica. Além disso, elas são baseadas apenas em uma forma muito limitada de mudança de consciência nas convicções políticas e sociais por parte dos cidadãos e dos seus partidos políticos. O fim do laissez-faire Para esclarecer um pouco mais essa questão, iremos nos voltar brevemente para o conteúdo de um livreto publicado na Inglaterra em 1926. Seu título é significativo – O Fim do Laissez-faire.⁸³ Seu autor, John Maynard Keynes, era um economista inglês relativamente jovem. Hoje ele é merecidamente famoso por ser o “pai” das políticas de pleno emprego buscadas atualmente por quase todos os governos ocidentais. Essa publicação é especialmente fascinante porque nela Keynes considera a história de mais de um século do capitalismo moderno e tenta fazer um balanço dela. Keynes estava firmemente convencido de que, a despeito de operar de um modo defeituoso, o capitalismo ainda oferecia as melhores oportunidades para o futuro. Ele escreveu, “De minha parte, penso que o capitalismo, gerenciado de uma maneira sábia, pode provavelmente tornar-se mais eficiente para atingir os objetivos econômicos do que qualquer sistema alternativo em vista”.⁸⁴ Contudo, uma vez que o capitalismo não funcionava perfeitamente, ele teria de ser revisado. Primeiro, temos de descobrir o que Keynes quis dizer quando se referiu ao funcionamento defeituoso do capitalismo. Ele não estava realmente preocupado com objeções de natureza ética ou política. Quando olhava para o capitalismo, ele o via, por assim dizer, como um mecânico. Ele descobriu que algo estava errado com o “mecanismo” em si, mas estava certo de que com alguns ajustes técnicos ele poderia funcionar nos anos vindouros. Para utilizar uma expressão contemporânea, Keynes discutia a questão do ponto de vista de um analista de sistemas. Ele sabia onde o “sistema” do capitalismo revelava suas falhas e desse modo onde precisava ser consertado, da mesma maneira que um mecânico sabe como consertar uma máquina. Assim, para ele a declaração “o fim do laissez- faire” não era uma exigência política com forte carga emotiva. Era uma declaração de fato feita por um “especialista” a respeito do dilema no qual o capitalismo gradualmente encontrou-se como um sistema ajustável de progresso. No início dos anos 1920 esse dilema era marcado por uma ampla expansão na escala de produção – “as unidades eficientes de produção são grandes em relação às unidades de consumo”⁸⁵ –, pela formação de monopólios e pelos altos custos de funcionamento. Era também marcado por depressões recorrentes, desemprego e uma fraca distribuição de riqueza. Além disso, uma vez que as decisões com relação à poupança por um lado e com relação aos investimentos por outro eram tomadas por partes distintas, argumentava Keynes, os desequilíbrios entre os níveis de poupança e os níveis de investimento poderiam facilmente surgir. Nessas circunstâncias era absurdo assumir que “indivíduos buscando seus próprios interesses, esclarecidos pelas condições de liberdade, sempre tendem a promover o interesse geral ao mesmo tempo”.⁸ Em outras palavras, na época de Keynes a deidade da mão invisível de Adam Smith não havia conseguido cumprir muitas das suas elevadas promessas. Na condição de representante da sua própria era, e confrontado com duros fatos econômicos, Keynes estava aberto à ideia de que o comportamento individual e o interesse público podem às vezes ser harmonizados apenas mediante revisões drásticas no sistema econômico em si. Em 1936 Keynes publicou sua principal obra, A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda.⁸⁷ Naquela época os países industriais sofriam mais do que nunca com desemprego em massa, estagnação da produção e agudas discrepâncias no que dizia respeito à distribuição de renda. Para Keynes isso não era apenasuma confirmação dos seus discernimentos apresentados em O Fim do Laissez-faire, mas também oferecia uma ocasião imediata para refinar suas conclusões e fornecer recomendações concretas. Ele fez isso tendo como base uma análise teórica fundamental das situações de desemprego potencial numa economia de mercado. Keynes concluiu sua análise afirmando que, como um resultado de uma divergência entre as decisões de poupança e de investimento numa economia capitalista moderna, situações de desemprego não apenas emergem muito rapidamente, mas também apresentam uma tendência de duração prolongada e quase ilimitada. Em sua visão, situações de desemprego surgem quase naturalmente como uma espécie de subproduto do equilíbrio de mercado entre poupança e investimentos. Assim, sua conclusão é autoevidente. Se quisermos manter o capitalismo como o sistema ordenador da nossa sociedade – e Keynes queria isso –, então é inevitável que o governo interfira nas relações entre poupança e investimento. No contexto de uma política de geração de emprego, o próprio governo deve fazer esses investimentos de modo que as oportunidades de emprego sejam restauradas e o crescimento do bem-estar revitalizado. Keynes tentou mostrar o caráter indispensável de apoios protetores adicionais para a economia de mercado. Deixada aos seus próprios expedientes, a economia de livre mercado mediante uma expansão de escala não apenas levaria ao fim da competição (a menos que o governo prevenisse isso mediante políticas antitruste), mas também resultaria em desemprego crônico (a menos que o governo também prevenisse isso). Por essa razão, de acordo com Keynes, o governo não deveria hesitar em acrescentar uma nova e distinta política ao seu programa, isto é, um esforço total e completo em direção ao pleno emprego, que aparentemente não pode ser esperado como um subproduto normal da economia de mercado existente.⁸⁸ De fato, isso também ocorre na prática atual. Confrontado diretamente com o dilema de que a economia de mercado é incapaz de escapar da rotina do desemprego crônico, os governos dos países industriais ocidentais são forçados a adotar uma política contínua e específica que objetiva o pleno emprego. Desse modo, eles dão apoio à economia de mercado. Ao mesmo tempo eles se tornaram mais profundamente envolvidos na vida econômica como um todo. Para retornar à nossa imagem anterior, o círculo representando o governo agora muda ainda mais sob aquele que representa a vida industrial. Assim, num certo sentido, a política de pleno emprego surgiu de um modo forçado. O curso do processo de mercado impôs isso ao governo; não foi uma decisão tomada por razões políticas. Em larga medida, o mesmo é verdadeiro para os outros objetivos de política econômica governamental contemporânea, tais como a luta contra a inflação e a busca por um equilíbrio externo satisfatório da economia (equilíbrio de pagamentos). Estes não são os tipos de objetivos que um governo gostaria de colocar nos seus programas. Na verdade, eles são um resultado de disparidades inadmissíveis, defeitos e distúrbios no funcionamento prático de cada economia de mercado “progressiva”. Concluindo, até o momento está claro que uma economia de mercado de larga escala não é, por assim dizer, uma planta que possa crescer ao ar livre. Antes, aparenta ser uma planta de estufa que dá frutos suficientes apenas quando é envolta por uma atmosfera artificial de cuidado governamental permanente. Esse diagnóstico soa paradoxal, embora seja verdadeiro: a interferência protetora do governo no funcionamento da economia de mercado aumenta a fim de garantir a existência continuada deste; ao mesmo tempo, essa economia de mercado encolhe em tamanho precisamente como um resultado da intervenção governamental. Devido ao fato de esse sistema de crescimento ser baseado na economia de mercado, o governo não tem escolha a não ser cooperar para a promoção do contexto apropriado para o crescimento. Fazendo uso de outra analogia, o governo torna-se o escudo protetor da espaçonave Progresso. Esse escudo envolve toda a sociedade e a protege contra qualquer influência prejudicial que venha de fora.⁸ Cooperação e identificação Um desenvolvimento posterior na relação entre o governo e a vida industrial ocorreu particularmente durante e após a Segunda Guerra Mundial. Essa fase, por assim dizer, moveu-se como uma nova camada sobre as camadas previamente existentes “corretivas” e de “apoio” da interferência governamental. Daquele momento em diante a relação entre governo e vida industrial tornou-se cada vez mais caracterizada pela cooperação mútua assim como por uma identificação parcial de seus respectivos propósitos. Durante esse período, que se estende até os dias de hoje, a escala da vida industrial ainda está se expandindo consideravelmente – mas menos do que antes, tendo em vista a produção de massa e a tecnologia desse modo requerida. A situação ótima na produção de massa tinha sido atingida por muitas indústrias; assim a expansão em escala tinha de ocorrer por outras saídas. Estas eram encontradas especialmente na extensão e difusão da atividade corporativa em diversas áreas da produção e distribuição por parte de uma única empresa. Em outras palavras, os conglomerados vieram à existência. Além disso, somos confrontados com uma crescente difusão das atividades de produção por parte da mesma empresa em diversos países. As corporações multinacionais começaram a se desenvolver. Richard J. Barber, no seu estudo The American Corporation [A corporação americana], que fornece uma vívida descrição do desenvolvimento industrial em direção aos conglomerados e multinacionais, ilustra essa dupla mudança apontando para a U.S. Rubber. Essa corporação americana é menos que meia “borracha”,* uma vez que a maior parte das suas atividades é focada em outros produtos e serviços. Ao mesmo tempo ela também é menos da metade “estadunidense”,** pois mais da metade de suas instalações industriais são localizadas fora dos Estados Unidos. Esse não é um caso excepcional; é apenas um dentre vários. Evidentemente, é óbvio que, numa época na qual a vida industrial – parcialmente por razões de autoengrandecimento, parcialmente para distribuir o risco – cada vez mais se orienta para uma variedade de países bem como para uma combinação de atividades conglomeradas, ¹ seu interesse pelo que acontece na esfera do governo também se intensifica de maneira significativa. Nessa esfera são tomadas as decisões sobre o destino de todas as combinações de poder que afetam o interesse público. Por outro lado, também é obvio que o governo, face às suas enormes responsabilidades nas áreas de defesa, meio ambiente e renovação urbana, dentre outras, mais do que nunca sente a necessidade de cooperar com a indústria. Ele precisa da experiência da indústria, sua capacidade de pesquisa e sua habilidade organizacional para resolver seus próprios problemas. Nesse sentido, a ideia e a realidade de coparceria entre governo e vida industrial tem se tornado comumente aceita na nossa época, tanto nos Estados Unidos quanto em outros países. Governo e indústria são reciprocamente interdependentes; eles precisam continuamente um do outro. Para retornar à analogia que fizemos anteriormente, os respectivos círculos do governo e da indústria não apenas se tocam e se apoiam; eles se interpenetram de maneira gradual e profunda em cada área da vida econômica. A identificação entre os objetivos do mundo dos negócios e do governo cada vez mais se encaixa nessa imagem mais ampla. Em larga medida essa identificação já ocorreu, como se torna aparente a partir de uma comparação dos objetivos de cerca de quarenta anos atrás com os de hoje. Na esfera da política governamental, por exemplo, a promoção consciente do crescimento econômico tem se tornado um objetivo normalmente aceito; não se trata mais de uma questão a ser debatida. Uma política governamental orientada para a expansão econômica tem ocupado seu lugar ao lado de uma política industrial direcionada para o mesmoobjetivo. Essa mentalidade de crescimento é parcialmente dependente da consciência de que uma tentativa governamental de atingir o pleno emprego tem poucas chances de lograr êxito sem um vigoroso crescimento econômico. Se a produtividade aumenta, o crescimento econômico vigoroso é imperativo para que cada um permaneça empregado. Essa mentalidade de crescimento é também dependente dos esforços políticos para estabelecer o estado de bem-estar, isto é, cercar cada cidadão com uma abundância de provisões econômicas e sociais do berço ao túmulo. É claro que esse estado de bem-estar – ou “grande sociedade” – precisa de uma base econômica igualitária. E essa base pode ser provida apenas por uma expansão contínua da produção. No entanto, o crescimento econômico substancial não é o único objetivo que aponta para uma crescente identificação entre os objetivos do governo e da vida industrial. O Estado moderno em si também tem se tornado essencialmente preocupado com a promoção da tecnologia. Há apenas algumas décadas, seria impensável que o governo deveria se preocupar com o avanço contínuo na área de tecnologia aplicada como uma de suas tarefas mais relevantes. Um exemplo ímpar dessa mudança de atitude é a área de viagem espacial. Em 1870, o governo protegia o homem nas ruas; em 1970 ele enviou o homem à lua. As relações Norte-Sul e Oriente-Ocidente As considerações internacionais também têm um papel fundamental nessa ênfase no rápido crescimento econômico e no progresso tecnológico intensivo. Isso ocorre especialmente no que diz respeito à relação entre o mundo ocidental rico e o “terceiro” mundo pobre e entre o mundo livre e os países comunistas. A história da relação entre os países ocidentais e aqueles agora chamados de terceiro mundo tem sido dominada desde os seus primórdios pelo autointeresse do Ocidente. Na época da Renascença, as nações da Europa ocidental estavam interessadas principalmente na extensão do seu próprio poder político e na aquisição de bens produzidos na Ásia, na África e nas Américas. O ouro era um dos seus principais objetivos. Mas quando, no decorrer do tempo, toda a estrutura da sociedade ocidental se tornou cada vez mais direcionada para a busca da expansão e produção material, a relação entre os países ocidentais ricos e “suas” colônias começou a refletir essa busca e assumiu um caráter mais permanente ou estrutural. Essa estrutura de imperialismo econômico emergiu como expressão do desejo intenso por parte dos países ocidentais de ter uma importação garantida de matérias-primas suficiente de suas colônias “seguras” e “fidedignas” a fim de manter com isso uma continuidade ininterrupta em sua própria expansão econômica. E deve ser cuidadosamente observado que esse imperialismo econômico ainda é o fator dominante no relacionamento estrutural entre os países ocidentais e o terceiro mundo. Esse é o caso mesmo após a fase de descolonização que se seguiu à Segunda Guerra Mundial quando quase toda área colonizada, na sua luta pela independência política, conseguiu livrar-se do domínio colonial por parte dos países ocidentais “livres”. Esse imperialismo está presente na continuada dependência econômica do terceiro mundo em relação aos países ocidentais. A dependência é evidente numa série de relações, tais como a viabilidade de comercialização dos produtos oriundos do terceiro mundo nos mercados ocidentais protegidos, a função do terceiro mundo como um mercado para os produtos ocidentais, a disponibilidade de capital suficiente para o desenvolvimento no terceiro mundo e o acesso do terceiro mundo à tecnologia e à experiência de gestão que é amplamente controlada pelas corporações multinacionais ocidentais. Todo o programa de ajuda para o desenvolvimento, como este é promovido pelos próprios países ocidentais, é, nesse sentido, significativamente ambivalente. Por um lado, é, sem dúvida, uma expressão da preocupação verdadeira e da sincera disposição em ajudar face à miséria existente. Porém, por outro lado, a ajuda para o desenvolvimento encaixa-se perfeitamente no modelo ocidental que requer o uso de tantos fatores quanto for possível – nesse caso o próprio terceiro mundo – como variáveis dependentes servindo ao próprio sistema de expansão econômica. A emergência de um vigoroso desejo de autossuficiência econômica por parte do terceiro mundo pode, assim, ser vista como um protesto e uma defesa por parte do terceiro mundo contra os esforços adicionais de “internalização” por parte do capitalismo ocidental. O terceiro mundo cada vez mais reconhece que a imitação do crescimento econômico ocidental, sustentado pela ajuda para o desenvolvimento, está radicalmente em conflito com sua própria cultura. Esse crescimento requer uma industrialização em larga escala, expressa-se num estilo exibicionista de consumo, reduz as relações humanas a um denominador comum monetizado, urbaniza uma população desarraigada e enfraquece a estabilidade e a qualidade dos vínculos familiares na nação. Além disso, o terceiro mundo está se tornando cada vez mais consciente do fato de que essa imitação do padrão ocidental de crescimento acarreta a continuação de uma inescapável dependência econômica em relação ao Ocidente e de um mercado internacional dominado pelas nações industrializadas. Essa relação Norte-Sul é paralela à relação Ocidente-Oriente e também complicada por ela. É surpreendente que nesse ponto novamente a ênfase seja cada vez mais colocada na necessidade do crescimento econômico e do avanço tecnológico. Há uma rivalidade direta em vários aspectos entre o bloco ocidental dos países democráticos e o bloco oriental dos países comunistas, em especial desde a Segunda Guerra Mundial. Mas é notável o quanto nesse debate as questões têm se tornado desiguais. Elas concentram-se em larga medida na questão (1) de qual sistema apresenta o maior aumento no PIB per capita e (2) de qual sistema apresenta o mais rápido avanço tecnológico – isto é, na indústria, nos armamentos e nas viagens espaciais. Parece que tanto o Ocidente quanto o Oriente consideram que uma resposta a essas questões é decisiva para o futuro. O melhor sistema é aquele que possa provar ao mundo como um todo que, com relação tanto ao progresso tecnológico quanto ao econômico, está à frente dos seus oponentes. Quanto aos países comunistas, esse foco não deveria realmente nos surpreender. Seguindo a linha de raciocínio de Marx e Lênin, esses países ainda estão sinceramente convencidos de que apenas tendo como base uma infraestrutura econômica corretamente organizada, o que implica a inclusão de todas as forças produtivas, é possível construir a melhor superestrutura da sociedade. Apenas desse modo o bem-estar humano completo poderá fazer parte da ordem social. Deixando a China de fora desta descrição por ora, dado que esse país é muito mais seletivo com respeito ao crescimento econômico do que a Rússia e seus Estados satélites, é muito claro que a ênfase no significado de um rápido crescimento econômico e tecnológico é mais difundida nos países do lado de lá da cortina de ferro do que em outro lugar. Nesse caso essa ênfase, como afirmou certa vez numa conferência na Alemanha o professor H. J. Lieber da Universidade Livre de Berlim, toma até mesmo a forma de Vergottlichung der Wachstumrate, uma deificação das soluções do crescimento. Então, não deveria nos surpreender o fato de que na Rússia a transição do “socialismo” para o comunismo seja formulada em termos econômicos. O “comunismo” terá sido atingido quando cada forma e expressão de pobreza nos países comunistas tiverem sido erradicadas, quando o transporte público estiver gratuitamente disponível para todos, e assim por diante. Mas o Ocidente não deveria ser mais bem informado? Em nosso confronto com o comunismo, o que acreditamos ser o centro da cultura ocidental? Será nossa habilidade em atingir uma expansão econômica e tecnológica mais rápida do que os países comunistas? Ou será nosso respeito pelos direitos, pela dignidade e pela liberdade da personalidade humana? Mediantea concentração de todos nossos esforços para atingir o primeiro dos objetivos citados, o mundo capitalista ocidental pode talvez vencer essa corrida. No entanto, ao fazer isso ele perde o que o distingue, em termos de valores e dignidade, enquanto cultura. Contra a força da expansão econômica e tecnológica, a liberdade e a justiça não têm a menor chance de sobrevivência. Elas tornaram-se semelhantes a flores colhidas que uma vez separadas de suas raízes logo murcharão. ² O Ocidente pode até vencer essa corrida, mas nesse processo perderá sua alma. CONCLUSÃO: TRAÇANDO TENDÊNCIAS PARALELAS Traçamos o desenvolvimento do capitalismo a partir de 1850 em três áreas: a estrutura interna das empresas, a competição entre as empresas e o relacionamento entre a vida industrial e o governo. Nesse último contexto discutimos muito brevemente o desenvolvimento nas relações entre o Oriente e o Ocidente. Esse panorama do desenvolvimento do capitalismo confirma nossa hipótese básica, isto é, a de que a fé no progresso é o fator-chave que moldou a ordem social ocidental em todas as suas esferas? Ajuste à evolução social Em nossa busca por uma resposta a essa pergunta nos encontramos face a dois desenvolvimentos que correm de maneira paralela em cada uma das áreas acima descritas. O primeiro desenvolvimento paralelo em cada um dos setores diz respeito a uma diminuição da soberania individual e a uma crescente adaptação às exigências da evolução do progresso. No início, a empresa industrial era pouco mais do que uma extensão da vontade do empreendedor e do investidor individuais. Contudo, dentro de poucas décadas ela se desenvolveu num sistema independente de progresso que requereu – a fim de manter sua autossuficiência – a continuidade na autogestão, uma oferta confiável de capital (a participação e a autoridade do investidor foram minimizadas) e a melhoria constante da tecnologia (a pesquisa se tornou um departamento-padrão na indústria). Assim, falamos de um processo de internalização. Ao mesmo tempo, a empresa em si só seria capaz de manter sua continuidade mediante uma adaptação constante ao progresso social, econômico e tecnológico na sociedade como um todo. Uma indústria que não é inovadora e é incapaz de aumentar suas vendas será logo impiedosamente eliminada. Em suma, a empresa em si, na qualidade de entidade distinta, requer sua própria gestão, tecnologia e capital; mas por outro lado ela tornou-se um fator dependente, um instrumento do sistema subjacente de progresso que opera na sociedade como um todo. Na área da competição encontramos um desenvolvimento semelhante. No início, o empreendedor era soberano. Como um “barão usurpador” ele tentava impor sua vontade aos seus competidores. Mas gradualmente as relações competitivas se transformaram numa situação de oligopólio, o que forçou as indústrias a obter poder mediante inovação tecnológica e publicidade. Esse segundo tipo de competição, como vimos, é particularmente interessante na medida em que atrai e coloca as preferências dos consumidores ao alcance do planejamento industrial. Além disso, o consumidor tem de sacrificar pelo menos parte da sua quase ilimitada soberania anterior de modo que a sociedade como um todo possa ter a garantia da expansão e da segurança dos mercados. No entanto, o mais marcante em tudo isso é a cessão, pelo governo, de parte da sua soberania e da sua adaptação ao sistema de progresso. Constantemente ele tem de apoiar a economia de mercado a fim de salvá-lo da desintegração e da destruição. Ele faz isso por meio da sua política relacionada à competição e ao combate ao desemprego e à inflação. Como um resultado dessa acomodação forçada às exigências da evolução social, cresce a dependência do governo, e o caminho é pavimentado em direção a uma crescente identificação dos propósitos do governo com aqueles da vida industrial. Primeiramente apenas a economia de mercado existe numa situação de dependência; isto é, ela requer de maneira constante o apoio e proteção do governo. Mas então o próprio governo se torna cada vez mais dependente da economia de mercado: o governo não pode cumprir os objetivos das suas próprias políticas sem o crescimento econômico que, por sua vez, só ocorre mediante a economia de mercado. Nesse sentido, os objetivos do governo e da indústria tornam-se ainda mais idênticos numa delicada situação de dependência mútua num sistema social que é totalmente orientado para garantir o progresso. O estreitamento da perspectiva cultural Somado ao aumento na dependência e na adaptação por parte das pessoas e instituições na sociedade, podemos detectar um segundo desenvolvimento paralelo no curso acima descrito, ou seja, um persistente estreitamento das relações e propósitos humanos a resultados técnicos e econômicos como um fim em si mesmos. Em primeiro lugar, encontramos essa questão nas mudanças internas na vida industrial. Os objetivos dos empreendimentos mudam do lucro em curto prazo para o crescimento contínuo como tal e para a primazia das inovações técnicas. Em segundo lugar, uma mudança análoga ocorre na competição com relação tanto à produção de cada novo produto quanto ao controle das preferências dos consumidores, ambos os quais servem para aumentar o crescimento material. E, finalmente, observamos uma mudança no propósito da política governamental do Estado de direito para Estado de bem- estar social, e uma mudança conjunta da independência para um alto grau de envolvimento governamental na rotina diária da inovação e da invenção técnicas. Questões como o objetivo final e o destino último desse progresso econômico e tecnológico são raramente tratadas – quando o são. Se a felicidade humana é atendida ou não com esse progresso, é uma questão menor, discutida apenas como uma reflexão posterior. Um século atrás, Groen van Prinsterer comentou sobre essa mudança de perspectiva quando, falando sobre a questão da responsabilidade pessoal numa sociedade em transformação, lembrou que na sua época Lutero havia dito “Eu não posso fazer de outro modo”, enquanto hoje é dito que “As coisas não podem ser de outro modo”. ³ Esses desenvolvimentos simultâneos e paralelos em diferentes setores da sociedade apontam de fato para o profundo impacto de uma força cultural singular. Em toda essa evolução da sociedade ocidental a presença da fé no progresso é tangível e observável até mesmo a distância. Trata-se de uma fé nos efeitos sociais benéficos dos avanços econômicos e tecnológicos concretos e diários, ainda que isso exija uma contínua adaptação e um inescapável ajuste por parte de todos os membros da sociedade. Neste ponto lembro-me de um livro de Andrew Carnegie, publicado ori- ginalmente em 1900, com o desafiador título de “O Evangelho da Riqueza". Esse livro traz um apelo a essa acomodação e obediência. O autor exalta”nosso magnífico desenvolvimento material, que traz consigo melhores condições“, e fala da lei da competição”como sendo não apenas benéfica, mas essencial para o progresso futuro da raça“. Por fim, ele conclui seu panegírico com as seguintes palavras, como num sermão:”Esse é, em minha opinião, o verdadeiro evangelho com relação à riqueza, e a obediência a ele levará, algum dia, à solução dos problemas do rico e do pobre, e trará ‘paz à terra e aos homens a quem ele quer bem’". ⁴ O homem ocidental aprendeu a aceitar essa obediência à lei do progresso moderno como algo natural. Isso requer esforços persistentes de ganho material e de desenvolvimento de uma tecnologia mais avançada em todas as decisões, relações e funções sociais do homem – como consumidor, produtor, trabalhador, eleitor e sindicalista. Mediante essa obediência ele obviamente promoveu e consolidou uma sociedade que, em todas as suas partes e instituições, tem se orientado para esses objetivos limitados. * Referência ao termo rubber, no nome da empresa, cuja tradução literal é “borracha” (N.T.)↩ ** Referência ao termo U.S. (sigla para United States [Estados Unidos]), no nome da empresa (N.T.)↩ 10 PROGRESSO, PARTIDOS POLÍTICOSE O MOVIMENTO TRABALHISTA NO CONTEXTO DESTA DISCUSSÃO permanece ainda pelo menos uma pergunta a que devemos responder: qual foi o papel dos partidos políticos e do movimento trabalhista no desenvolvimento do capitalismo desde 1850? Vimos como os governos nas democracias ocidentais tornaram-se, quase inevitavelmente, cada vez mais envolvidos na vida econômica. Ao mesmo tempo, temos plena consciência do fato de que nessas mesmas democracias várias correntes e partidos políticos têm sido continuamente ativos, cada um tentando influenciar os rumos do Estado de acordo com seus objetivos. Além disso, o movimento trabalhista, tendo em vista suas amplas preocupações sociais, tentou influenciar não apenas a vida industrial, mas também a formação das políticas públicas. Então, como é possível que num cálculo do resultado final encontremos tão pouco do seu impacto direto na formação da sociedade? Seguramente, certas influências deste lado podem ser notadas; mas estas são consideravelmente menores do que se poderia esperar tendo em vista as intensas diferenças relativas às suas convicções políticas e posição social. Quanto a isso, é digno de nota que as diferenças com relação aos sistemas sociais nos diversos países ocidentais são relativamente menores, embora esses países tenham sido guiados por regimes e coalizões governamentais bem distintos ao longo do tempo. LIBERALISMO E SOCIALISMO Com referência às intensas diferenças nas perspectivas políticas, somos imediatamente confrontados com a importante distinção entre liberalismo e socialismo. Essa distinção aplica-se principalmente à política, mas também – especialmente na Europa Ocidental – influenciou profundamente o caráter e a composição das organizações sociais dos empregadores e dos empregados. Qual é a natureza desse contraste entre liberalismo e socialismo? Para as origens do liberalismo, devemos recordar o vínculo entre o deísmo e a concepção de Estado resultante. Nessa visão, é precisamente abstendo-se da interferência direta na vida econômica que o Estado serve ao desenvolvimento natural e providencial da sociedade. O princípio liberal da justiça é a concepção da lei natural relativa, que exige que o Estado proteja os direitos e as liberdades civis com base na propriedade privada. Em contraste, o socialismo ortodoxo tem a tendência de ver o Estado como um instrumento de exploração, uma extensão da classe dominante. Por essa razão, visa à eliminação do Estado. O princípio de justiça do socialismo original é a concepção da lei natural absoluta, que só pode ser realizada com base no retorno à propriedade comunal. Assim, a lei natural absoluta é caracterizada pela ausência de distinções de classe e por uma comunidade de pessoas que dá a cada um de acordo com sua necessidade econômica. As diferenças são realmente impressionantes. O liberalismo dá primazia ao indivíduo; o socialismo, à comunidade. O liberalismo defende o direito natural do status quo; o socialismo olha adiante para a realização da lei natural absoluta. O liberalismo enfatiza a proteção dos direitos civis, especialmente os direitos de propriedade; o socialismo proclama a visão da libertação e do êxodo da humanidade de todas as situações de coerção econômica. No entanto, apesar dessas diferenças ficamos impressionados pelas amarras comuns a ambos os movimentos sociopolíticos. Seja a primazia dada ao indivíduo ou à comunidade, em ambos os casos ela é dada a um homem autônomo que – sozinho ou em comunidade – determina de maneira soberana seu próprio destino. Além disso, em ambos os casos, a concepção moderna da lei natural é básica. Essa concepção considera a felicidade humana como resultado da interação do homem com a natureza e considera certas formas institucionais de propriedade – propriedade privada ou propriedade comunal – de significado decisivo para o bem ou o mal da sociedade como um todo. Além do mais, a distinção entre a ênfase liberal nos direitos civis e a ênfase socialista no bem-estar econômico não é tão acentuada quanto parece. Tanto a manutenção dos direitos civis pelo liberalismo quanto a aquisição do bem-estar econômico pelo socialismo apontam para o potencial e a necessidade do mesmo progresso tecnológico e econômico sem entraves. Assim, não é muito surpreendente que o liberalismo e o socialismo aproximem- se cada vez mais no que diz respeito à política prática. O socialismo tornou-se o socialismo revisionista. Aceitou um “pagamento” antecipado, por assim dizer, do advento de uma sociedade futura e melhor, e por isso hoje tenta alcançar uma medida de igualdade econômica para todos. O movimento trabalhista moderno orientado para o socialismo, em primeiro lugar luta por salários mais altos; e, mesmo que no papel a reforma radical da sociedade seja altamente elogiada, ele raramente recorre à sua arma mais importante – as greves – na busca desse propósito. Durante o mesmo período, o liberalismo evoluiu gradualmente rumo a um neoliberalismo, que aceita o fato de que uma economia de mercado bem- sucedida precisa do cuidado contínuo e do apoio de uma política governamental decisiva em matéria de legislação social, legislação antitruste e desemprego.* O economista Abba P. Lerner formulou o que aconteceu durante esse – e como resultado desse – desenvolvimento do liberalismo e do socialismo do seguinte modo: De fato, tão próxima é a aproximação entre os dois que as diferenças devem ser buscadas fora da ordem institucional que é defendida tanto pelo coletivista pragmático quanto pelo capitalista liberal. O primeiro sugere que a organização coletiva seja aplicada, exceto quando as empresas competitivas funcionam de um modo melhor para o interesse social. O último favorece o restabelecimento da livre concorrência sempre que possível e permitiria uma organização coletiva quando, por razões técnicas, isso se revelasse impossível. Ambos chegam ao mesmo ponto. ⁵ Dizer que ambos chegam ao mesmo ponto é um exagero. Contudo, à parte disso, os comentários de Lerner são inegavelmente corretos e significativos. Em vista disso, é totalmente fácil explicar por que encontramos tão pouca influência formadora direta do liberalismo moderno e do socialismo moderno na estrutura social final do capitalismo. O embate entre liberalismo e socialismo foi reduzido à questão de quem tem direito aos frutos do progresso tecnológico- econômico e de quem eles devem proceder. O significado, o modo e o ritmo desse progresso quase nunca são discutidos. Apenas as questões relativas à distribuição de renda, bem-estar, conhecimento e poder econômico ainda marcam as diferenças entre esses dois movimentos sociopolíticos, mais propriamente do que questões quanto à natureza, orientação e destino do bem- estar, do conhecimento e do poder. A AUSÊNCIA DE DIREÇÃO CRISTÃ Infelizmente, deve-se acrescentar que, no que diz respeito a essas questões, os partidos políticos cristãos e o movimento trabalhista cristão – que eram fenômenos comuns na Europa durante o último século – muitas vezes dificilmente diferiam dos partidos liberais e socialistas e das organizações trabalhistas. É claro que havia certas diferenças de abordagem e de objetivos. Por exemplo, o movimento social cristão na Holanda sempre foi da opinião de que uma empresa não deveria ser considerada nem um objeto de propriedade privada nem um objeto de pura luta de classes; em vez disso, considerava uma unidade industrial como uma comunidade cooperativa de trabalho de pessoas corresponsáveis. Podemos também apontar a visão desafiadora de Abraham Kuyper com respeito à relação entre governo e vida industrial. Influenciado pela Reforma, ele ligou essa relação com o chamado específico do homem nas respectivas esferas sociais, que deveria assim impedir a sujeição do estado à vida industrial, tanto quanto a sujeição da vida industrial ao Estado. Esse é o princípio da esfera de soberania ou da esfera de responsabilidade. ⁷ No entanto, seria incorreto afirmar que, ao lidar com o progresso, as organizações políticas e sociais cristãs, no que diz respeito àsua política prática, mostraram um estilo próprio, ou que, em distinção de outras organizações, eles se ocuparam intensivamente com a questão da direção do progresso. A síntese com o desenvolvimento da sociedade como um todo é a marca da cristandade moderna. Por essa razão, tanto os cristãos quanto os humanistas são responsáveis pela presença do bem e do mal no desenrolar da ordem social ocidental. * Para Goudzwaard, neoliberalismo seria o liberalismo que aceita certa intervenção do Estado na economia, ou seja, seria o liberalismo prevalecente durante a vigência do Estado de bem-estar social – conceito bem distinto do que se entende por neoliberalismo a partir dos anos 1990, a saber, nesse caso uma tentativa de resgate do que teria sido o liberalismo clássico. (N.T.)↩ TOYNBEE, Arnold J. The Industrial Revolution (1884; Boston: Beacon Press, 1956). p. 63.↩ HILL, Christopher. Reformation to Industrial Revolution. Londres: Weidenfeld & Nicol-son, 1967. p. 207.↩ HEILBRONER, Robert L. The making of economic society. Englewood Cliffs, NJ.: Prentice-Hall, 1962. p. 82, 83.↩ HAMMOND, John L. e HAMMOND, Barbara. The rise of modern industry. Londres: Methuen & Co., 1925. p. 222, 223.↩ BOUMAN, Pieter Jan. Van Renaissance tot Wereldoorlog [From Renaissance to World War]. Groningen: P. Noordhoff, s.d.. p. 120s.↩ Ibid. p. 97.↩ Ibid. p. 104.↩ Ibid. p. 101.↩ “O espírito do capitalismo é tão antigo quanto a história, e não foi, como às vezes tem sido dito, o produto do puritanismo.” TAWNEY, Richard H. Religion and the rise of capitalism. Harmondsworth: Penguin Books, 1938. p. 226.↩ “Cela est bien dit, mais it faut cultivar notre jardin.” Voltaire. Candide, uma edição bilíngue, trad. e org. por Peter Gay. Nova York: St. Martin’s Press, 1963, última página.↩ GAY, Peter. The Enlightenment: An interpretation, 2 v. Nova York: Alfred A. Knopf, 1967 69. v. 2: The science of freedom (1969). p. 10.↩ Citado por BURY, John B. The idea of progress: An inquiry into its origin and growth. Londres: Macmillan, 1920. p. 173.↩ Cf. BECKER, Carl L. The heavenly city of the eighteenth-century philosophers. New Haven: Yale University Press, 1932. p. 145.↩ Citado por BURY. Idea of progress. p. 325.↩ Ibid. p. 326.↩ Citado por GINSBERG, Morris. Essays in sociology and social philosophy, 3 v. Melbourne/ Londres/Toronto: William Heinemann Ltd., 1956-1961. v. 3: Evolution and progress (1961). p. 12.↩ “Et le faible mortel peut s’approcher de Dieu.” Citado por BOUMAN, P. J. Van tijd naar tijd. Assen, Países Baixos: Van Gorcum, 1972. p. 12.↩ Cf. ASHTON, Thomas S. The Industrial Revolution 1760-1830. Londres/Nova York/ Toronto: Oxford University Press, 1948; DEANE, Phyllis. The first Industrial Revolution. Cambridge: University Press, 1965; ELLUL, Jacques. The technological society. Nova York: Alfred A. Knopf, 1964. p. 42s; LANDES, D. S. The unbound Prometheus: Technological change and industrial development in Western Europe from 1750 to the present. Cambridge: Cambridge University Press, 1969; HEILBRONER. Making of economic society, capítulo 4: “The Industrial Revolution”; e TOYNBEE. Industrial Revolution.↩ ELLUL. Technological society. p. 49s.↩ No século 18 e início do século 19 a aristocracia inglesa proprietária de terras expandiu de modo crescente o hábito já comum de cercar os pastos comunitários pertencentes às casas senhoriais. Era um costume que os camponeses tivessem acesso a esses pastos apenas para seus parcos meios de subsistência. (Por exemplo, eles usavam esses pastos para que seus rebanhos se alimentassem da grama.) Como resultado desses cercamentos os camponeses perderam seu privilégio e a terra comum começou a ser usada exclusivamente pelos lordes como área de pasto para ovelhas com vistas à produção de lã. Assim, uma série de trabalhadores do campo e suas respectivas famílias literalmente perderam o chão que estava sob seus pés e foram forçados a deixar a terra em busca de trabalho. Como um resultado, eles acabaram nas cidades, onde tornaram-se um arsenal disponível do qual os novos empreendimentos industriais poderiam tirar os trabalhadores em troca de salários muitas vezes baixíssimos. Em outras palavras, a rápida urbanização da Inglaterra na época da Revolução Industrial é a contrapartida da sua igualmente rápida drenagem e expulsão dos trabalhadores do campo. Cf. HEILBRONER. Making of economic society. p. 60s; e POLANYI, Karl. The great transformation. Boston: Beacon Press, 1957, parte 2. Arnold Toynbee confirma a severidade dessa drenagem no campo numa das suas palestras na qual lemos que “entre 1710 e 1760 cerca de 300 mil acres foram cercados, entre 1760 e 1843 cerca de 7 milhões sob o mesmo processo”. Industrial Revolution. p. 61. Para uma discussão detalhada desse processo, ver os capítulos 8 e 9.↩ DAWSON, Christopher. Progress and religion: An historical inquiry. Londres: Sheed and Ward, 1929. p. 203.↩ Cf. GAY. Enlightenment. v. 2. p. 50.↩ ASHTON. Industrial revolution 1760-1830.↩ Suponho que nesse caso não devemos falar de propósito supremo, uma vez que isso requereria uma orientação vertical, mas sim de propósito último, uma vez que isso coloca a direção horizontal da sociedade na era moderna.↩ HEILBRONER, Robert L. The worldly philosophers. Nova York: Simon & Schuster, 1953. p. 54.↩ Cf. TIERNEY, Brian; KAGAN, Donald; e WILLIAMS, L. Pearce (orgs.). Great issues in Western civilization. Nova York: Random House, 1967. v. 2. p. 286- 287.↩ “Que chacun pense qu’il est depensier de Dieuen tout ce qu’il possede.” Citado por BIELER, Andre. La pensee economique et sociale de Calvin. Genebra: Librairie de l’Universite, 1959. p. 352.↩ Veja o sermão de Calvino sobre Mateus 4.8-11, no qual ele diz: “[...] todos os dias vemos isso ao nosso redor: pessoas que procuram enriquecer-se apenas dão evidência de honrar o mal. [...] Deus não significa nada para elas, Satanás significa tudo. [...]”. Texto original: “[...] nous voyons comme tous les jours ceux que se veulent enrichir font hommage au diable. [...] Dieu ne leur est rien, et Satan leur est tout. [...]” Cf. NETER. La pensee. p. 318.↩ “[...] expression de la solidarité humaine et signe de la communion spirituelle des hommes entre eux.” Ibid. p. 414.↩ T. P. van der desenvolveu este importante tema da simultaneidade da realização da norma em vários trabalhos. Ver, por exemplo, sua aula inaugural sobre o significado da dimensão econômica no seu livro Over economie em humaniteit [Sobre economia e humanidade]. Wageningen; Zomer en Keuning, 1954. p. 171- 190; e seu recente ensaio “Methodologie der economie em christelijke wijsbegeerte” [A metodologia da economia e a filosofia cristã] in Philosophia reformata. v. 40 (1975). p. 1-32 (com um resumo em inglês).↩ Citado por HAMMOND e HAMMOND. Rise of modern industry. p. 210.↩ HEILBRONER. Making of economic society. p. 86, 87.↩ Citado por BURY. Idea of progress. p. 313.↩ DAWSON. Progress and religion. p. 201.↩ Isso é confirmado, dentre outros escritores, pelo historiador holandês Johan Huizinga. Depois de observar que “teremos que aguardar até o século 18 – pois mesmo a Renascença não traz propriamente a ideia de progresso – antes que os homens adentrassem resolutamente no caminho do otimismo social; – apenas então a perfectibilidade do homem e da sociedade será alçada ao posto de dogma central”, ele continua: “e o século seguinte apenas perderá sua ingenuidade nessa crença, mas não a coragem e o otimismo que ela inspirou”. The waning of the Middle Ages. Nova York: Doubleday and Co., 1924; Anchor Books ed., 1954. p. 38.↩ MARX, Karl e ENGELS, Frederick. Communist manifesto (1848), in Collected works (Nova York: International Publishers, 1975s). v. 6 (1976). p. 519.↩ MARX, Karl. Capital, 3 v., org. Frederick Engels. Nova York: International Publishers, 1967. v. 1. p. 244.↩ Marx identifica “todo o progresso da civilização” com “cada aumento nas forças de produção social [...] tais como as resultantes da ciência, das invenções, da divisão e da combinação do trabalho, melhorias nos meios decomunicação, criação do mundo do mercado, maquinário, etc.”. MARX, Karl. Grundrisse, traduzido para o inglês por Martin Nicolaus, que também escreveu o prefácio. Harmondsworth: Penguin Books, 1973. p. 308.↩ “Impossível? Jamais mencione essa palavra imbecil para mim!” Tirada da segunda edição de Das Kapital. Para uma versão ligeiramente diferente, ver a última edição, MARX. Capital. v. 1. p. 477: “Impossible! ne me dices jamais cebête de mot!”↩ MARX. Capital. v. 1. p. 372, nota 3.↩ MARX, Karl. Economic and philosophic manuscripts of 1844. In: MARX/ENGELS. Collected works. v. 3 (1975). p. 303-304.↩ MARX/ENGELS. Collected works. v. 3 (1975). p. 296.↩ MARX. Capital. v. 1. Moscou: Edições Progresso, 1990.↩ Ibid.↩ MARX. Economic and philosophic manuscripts of 1844. In: MARX/ENGELS. Collected Works. v. 3 (1975). p. 303.↩ MARX, Karl e ENGELS, Frederick. The German ideology (1845), in Collected works. v. 5 (1976). p. 31.↩ Ibid. p. 31s.↩ MARX. Economic and philosophic manuscripts of 1844, in MARX/ENGELS. Collected works. v. 3 (1975). p. 305-306.↩ Ibid. p. 297.↩ Cf. Êxodo 12.35s.↩ MARX, Karl. Wages, price and profit, in MARX/ENGELS. Selected works in two volumes Moscou: Foreign Languages Publishing House (1958). v. 1. p. 446.↩ HUYGHE, Rene. “Art forms and society”, in Larousse encyclopedia of modern art from 1800 to the present day, org. HUYGHE, Rene. Nova York: Prometheus Press, 1961. p. 148. Charles Dickens compartilhava desse pensamento. “O que ele queria eram os fatos e que a palavra ‘imaginação’ pudesse ser banida para sempre”. Ver DORIVAL, Bernard. “The realist movement”, in Larousse encyclopedia of modern art. p. 160.↩ Citado por HUYGHE. “Art forms and society”, in Larousse encyclopedia of modern art. p. 148.↩ GINSBERG, Morris. Essays in sociology and social philosophy. v. 3: Evolution and progress. p. 8↩ BURY. Idea of progress. p. 346.↩ Citado por HUYGHE. “Art forms and society” in Larousse encyclopedia of modern art. p. 148.↩ Ibid. Na história da arte o mesmo desejo pela observação natural-científica estrita leva, em última instância, ao impressionismo, que encontra seu ponto de partida durante um momento passageiro, mas passível de ser reconstruído. O impressionismo foi um passo além do realismo, ou seja, a idolatrização do “momento presente e adjacências imediatas”. Cf. DORIVAL.“The realist movement” in Larousse encyclopedia of modern art. p. 159.↩ Cf. o título do estudo de BECKER, Carl. The heavenly city of the eighteenth- century philosophers.↩ POLAK, Fred L. De toekomst is verleden tijd, 2 v. Zeist, Paises Baixos: W. de Haan, 1958. Tradução para o inglês de Elise Boulding. The image of the future, 2 v. Leyden: Sijthoff; Nova York: Oceana Publications (1961). v. 2. p. 31.↩ Ibid. p. 33.↩ Cf. nesse contexto a afirmação de Adolph Strasser, um dos líderes da poderosa Federação Americana do Trabalho [American Federation of Labor]: “Não temos fins últimos. Estamos indo dia a dia. Estamos lutando apenas pelos objetivos imediatos – objetivos que podem ser realizados em poucos anos”. Citado por SEGAL, Ronald. The Americans: A conflict of creed and reality. Toronto/Nova York/Londres: Bantam Books (1970). p. 94.↩ DAWSON. Progress and religion. p. 19.↩ Ibid. p. 20, 21.↩ BURY. Idea of progress. p. 338.↩ Ibid. p. 338, 339.↩ Cf. Ibid. p. 340.↩ No contexto da presente discussão, podemos apenas fazer uma breve referência à mudança ocorrida no desenvolvimento da teoria econômica por volta de 1870 – uma mudança preparada por John Stuart Mill com a publicação da sua obra principal, Princípios de economia política (1848). Quase todas as características dessa nova concepção de progresso também aparecem na reflexão econômica desde 1870. A economia torna-se uma questão de se chegar a conclusões com base nos métodos natural-científicos e, portanto, com a ajuda das quantidades observáveis e mensuráveis. Nesse processo é pressuposto que todo o sistema das quantidades econômicas tende na direção de um equilíbrio (do mercado), sob a pressão da luta de todos pelo máximo de utilidades individuais. O sistema em si é completamente fechado por causa da escolha de dados relevantes que têm de ser quantificáveis. Uma das poucas preocupações que permaneciam para os economistas nesse sistema como um todo diz respeito à questão de se “utilidade” é objetivamente observável e, acima de tudo, mensurável. A teoria econômica tem se preocupado ininterruptamente e diligentemente com essa questão até os dias de hoje!↩ HAMILTON, Earl J. “Profit, inflation and the Industrial Revolution, 1750- 1800”, Quarterly journal of economics 61, 1942, 264.↩ Cf. GILL, Richard T. Economic development, past and present. Englewood Cliffs, N.J.: Prentice-Hall, 1973. p. 55.↩ Cf. HANDLIN, Oscar e HANDLIN, Mary F. “Origins of the American business corporation”, in LANE, Frederic C. e RIEMERSMA, Jelle C. (Orgs.). Enterprise and secular change: Readings in economic history. Homewood, Ill.: Richard D. Irwin, Inc., 1953. p. 104, 105.↩ STEINER, George A. Government’s role in economic life. Nova York: McGraw- Hill, 1953. p. 82.↩ WHITEHEAD, Alfred N. Science and the modern world. Cambridge: Cambridge University Press, 1926. p. 120.↩ SCHMOOKLER, Jacob. “Technological progress and the modern American corpora-tion”, in MASON, Edward S. (org.).The corporation in modern society. Cambridge, Mass.: Harvard University Press, 1959. p. 143.↩ Cf. GALBRAITH, John Kenneth. The new industrial state. Nova York: New American Library, 1968, chapter 10.↩ HEILBRONER. Making of economic society.↩ GRAS, N. S. B. "Capitalism – concepts and history", de Bulletin of the business historical society 16 (1942), reimpresso em LANE e RIEMERSMA (orgs.). Enterprise and secular change. p. 76↩ HEILBRONER, Worldly philosophers. p. 194.↩ Citado por HEILBRONER. Making of economic society. p. 110.↩ Hoje vivemos numa fase que é caracterizada novamente pelo aumento da concentração. Veja nossa discussão na seção “Cooperação e identificação”, p. 124s.↩ Cf. FOGARTY, Michael F. Christian democracy in Western Europe: 1820-1953. Londres: Routledge & Kegan Paul, 1957.↩ Cf. KLUIT, M. Elisabeth, Her Protestantse Revell in Nederland en daarbuiten: 1815-1865 [The Protestant revival in the Netherlands and Western Europe: 1815- 1865]. Amsterdã: Paris, 1970. Guillaume Groen van Prinsterer foi uma das principais conexões entre esse avivamento espiritual e os desenvolvimentos políticos na Holanda. Ver Parte Um, nota 91.↩ MILL, John Stuart. Principles of political economy (1848), 2 v. Harmondsworth: Penguin Books, 1970. v. 1. p. 314.↩ KEYNES, John Maynard. The end of laissez-faire. Londres: The Hogarth Press, 1926.↩ Ibid. p. 52, 53.↩ Ibid. p. 32.↩ Ibid. p. 10, 11.↩ KEYNES, John Maynard. The general theory of employment, interest and money. Londres: Macmillan & Co., 1936.↩ É muito revelador o fato de que, na análise de Keynes, uma situação irregular de desemprego é caracterizada como um equilíbrio econômico. Isso prova que Keynes tinha rompido radicalmente com a concepção deísta de equilíbrio econômico como harmonia. No caso de Keynes, o equilíbrio econômico pode facilmente implicar desarmonia social. Ele substitui a ideia deísta de ordem econômica – “a ordem natural” – por uma concepção de engenharia econômica. Para ele, a ordem econômica é um sistema que pode e deve ser melhorado mediante certas intervenções técnicas. Ele afirmava isso já em 1926, como vimos anteriormente, quando disse: “De minha parte, penso que o capitalismo, uma vez sabiamente gerenciado, provavelmente pode ser feito mais eficiente para que determinados objetivos econômicos sejam atingidos do que qualquer outro sistema alternativo em vista. [...]” (The end of laissez-faire. p. 52, 53; itálicos acrescentados). Na visão de Keynes, o capitalismo é um mecanismo que pode ser revisado e que necessita do cuidado profissional contínuo de especialistas da área de economia.↩ Para uma discussão mais aprofundada sobre o tema, ver GALBRAITH, John Kenneth. Economics and the public purpose. Boston:Houghton Mifflin Co., 1973.↩ BARBER, Richard J. The American Corporation. Nova York: Dutton & Co., 1970.↩ Por exemplo, o conhecido Ogden group nos Estados Unidos está envolvido ao mesmo tempo em negócios bancários, na área de seguros, agronegócios, cultivo de frutas, venda de cachorros-quentes e vendas de uma série de outros artigos de consumo, sendo ao mesmo tempo uma das empresas mais importantes nos Estados Unidos. Cf. BARBER. American corporation, especialmente a Parte 1:3: The industrial octopi.↩ HOOFT, W. A. Visser ’t. “Moet het Westen worden verdedigd?” [Must the West be defended?], Wending, 1956.↩ Van PRINSTERER, Guillaume Groen. Unbelief and revolution: Lectures VIII and IX (Amsterdã: The Groen van Prinsterer Fund, 1975). p. 2, n. 2.↩ CARNEGIE, Andrew. The Gospel of wealth and other timely essays. Cambridge, Mass.: Harvard University Press, 1962. p. 16, 16-17, e 29, respectivamente. Nesse contexto, compare com as mordazes observações de Burckhardt na sua carta a Von Preen de 2 de julho de 1871: “Enquanto isso, a ideia de bondade natural do homem tornou-se, entre o estrato inteligente da Europa, a ideia do progresso, i.e., a impassível produção de dinheiro e de conforto moderno, com a filantropia sendo uma forma de desencargo de consciência”. BURCKHRDT, Jakob Christoph. The letters of Jacob Burckhardt, trad. DRU, Alexander. Londres: Routledge & Regan Paul, 1955. p. 147, 148.↩ LERNER, Abba P. The economics of control. Nova York: Macmillan, 1944. p. 4.↩ Cf. FOGARTY. Christian democracy in Western Europe.↩ KUYPER, Abraham. Christianity and the class struggle. Grand Rapids, Mich: Piet Hein, 1950; e VANDENBERG, F. Abraham Kuyper. St. Catharines, Ontario: Paideia Press, 1978. Cf. KALSBEEK, L. Contours of a Christian philosophy. Toronto: Wedge Publishing Foundation, 1975. p. 91s.↩ PARTE 3 OS DESAPONTAMENTOS DO PROGRESSO 11 A VULNERABILIDADE DO PROGRESSO: INTRODUÇÃO “O PROGRESSO EM SI continua a progredir, não podemos mais detê-lo ou transformá-lo.”¹ Essa afirmação do filósofo contemporâneo Karl Löwith revela uma visão totalmente diferente do progresso humano daquela defendida durante o Iluminismo. Naquele momento, o progresso era considerado uma confirmação da soberania do homem que, num processo autônomo de reflexão e ação criativas, submeteu a natureza a si. No entanto, Löwith expressa a noção de que o homem foi forçado a abdicar da sua soberania de uma vez por todas. Aparentemente, o próprio progresso assumiu a soberania e subordinou o homem a si. Martin Buber expressou sentimentos semelhantes em Eu e Tu, onde lemos: Os carregadores automáticos ainda empilham carvão, mas os líderes simples- mente parecem governar os motores de corrida. E nesse instante, enquanto você fala, pode ouvir tanto quanto eu como a maquinaria da economia está começando a zunir de modo inusitado; os supervisores lhe dão um sorriso superior, mas a morte oculta-se no coração deles. Eles lhe dizem que ajustaram o aparelho às condições modernas, mas você percebe que, doravante, eles só podem ajustar-se ao aparelho, desde que ele permita isso.² Em vez de ser o criador do progresso, o homem está cada vez mais tornando-se servo dele. Isso já ficou evidente na nossa discussão na Parte Dois do livro. De fato, o progresso econômico e tecnológico começou como um processo de determinação soberana pela vontade humana. Mas logo pareceu que o próprio progresso, para continuar, necessitava constantemente de serviços de gestão, de inovação tecnológica, de um mercado planejado e de apoio governamental. A lei da evolução industrial manteve gradualmente toda a sociedade sob seu domínio. Desse modo, um sistema social desdobrou-se permanentemente a serviço do progresso, comparável ao organismo de uma colmeia que se desdobra em torno da abelha rainha que está constantemente e totalmente ocupada com a produção de ovos. Um sistema social no qual tudo está direcionado para um progresso ininterrupto pode continuar a existir? Essa pergunta deve ser feita porque, com respeito a pelo menos três pontos, esse “sistema do progresso” parece ser claramente vulnerável. Em primeiro lugar, isso é verdadeiro quanto ao ambiente em que se desenvolve a expansão econômica e tecnológica e, em última análise, fornece as possibilidades materiais para essa expansão. Podemos empregar uma analogia aqui: uma nave espacial pode ser equipada com os motores de foguete mais confiáveis e seu sistema interno pode funcionar perfeitamente, mas para fazer sua jornada, ela precisa do combustível adequado cuja fonte se encontra fora da nave espacial. Não é um sistema autossuficiente. De um modo ou de outro, ele coloca uma pressão sobre o seu ambiente. Com respeito ao nosso problema mais amplo, devemos perguntar: a terra finita em que vivemos irá tolerar, em longo prazo, a tensão gerada pelo nosso progresso desenfreado? Em segundo lugar, o funcionamento do sistema em si é vulnerável. Observamos anteriormente que a economia de mercado exigia o suporte do governo; às vezes era até mesmo necessária uma revisão fundamental. Ainda assim, a economia na maioria dos países não funciona sem problemas. Pelo contrário, certos problemas da política econômica, como o desemprego e a inflação, agora parecem bastante difíceis de solucionar. Por último, mas não menos importante, a vulnerabilidade aplica-se a homens e mulheres, que são na verdade os passageiros que viajam pela estrada do progresso. Estarão eles sempre preparados para desempenhar o papel que lhes é atribuído? A adaptação que isso exige não será insuportável? Nesses três tipos de vulnerabilidade, encontramos quase todos os problemas colocados na Introdução como desafios para a nossa cultura ocidental atual. Vamos discuti-los sucessivamente nas próximas três seções, e descobriremos que esses problemas não estão isolados, mas de fato em grande parte estão enraizados num terreno comum. 12 A VULNERABILIDADE DO AMBIENTE A PREOCUPAÇÃO com a “tolerância” da terra cresceu acentuadamente nos últimos anos. Isso é evidente a partir da extensa literatura sobre poluição do solo, da água e do ar, bem como sobre a extinção de muitos tipos de plantas e animais. Uma preocupação semelhante é expressa quanto à adequação de matérias-primas e energia e a disponibilidade de solo cultivado suficiente para alimentar uma população mundial crescente. A ocasião para essa preocupação, pelo menos em parte, foi o rápido aumento da produção e do bem-estar nos países ricos. Por exemplo, o consumo médio anual de energia per capita nos Estados Unidos é cerca de cinquenta vezes maior do que na Índia e três vezes o consumo per capita na Europa Ocidental. O consumo de matérias-primas e o nível de poluição do meio ambiente no Ocidente são trinta a cinquenta vezes maiores do que no mundo em desenvolvimento. Enquanto no ano de 1950 o consumo total de matérias-primas nos Estados Unidos era de 2 bilhões de toneladas, em 1972 havia aumentado para 4 bilhões de toneladas, totalizando 20 toneladas per capita a cada ano. De acordo com W. Uytenbogaardt, professor de geografia na Universidade Livre de Amsterdã, Foi calculado que, nos primeiros quarenta anos deste século, foram utilizados mais recursos minerais do que em todos os séculos anteriores combinados. Além disso, que o uso total de recursos minerais depois da Segunda Guerra Mundial excedeu, nesse ínterim, o total de todo o uso anterior. Finalmente, que os Estados Unidos consumiram mais matérias-primas, incluindo combustível, nos últimos trinta anos do que o mundo inteiro antes disso.³ De 1946 a 1971, o produto nacional bruto (PNB) dos Estados Unidos aumentou 126 por cento. Ao mesmo tempo, a poluição ambiental aumentou em espantosos 1.000 por cento. De acordo com Barry Commoner, os alimentos de um americano médio atualmente são cultivados num espaço menor e com uma quantidade muito maior de fertilizantes e pesticidas do que antes; é mais provável que suas roupas sejam feitas de fibras sintéticas do que de algodão ou lã; ele usa detergentes sintéticos em vez de sabão; vive e trabalhaem edifícios que dependem mais de alumínio, concreto e plástico do que de aço e madeira; os bens que ele usa são cada vez mais transportados por caminhões do que por trens; ele bebe cerveja em garrafas ou latas não retornáveis, e não mais em garrafas retornáveis ou em bares. [...] Ele também dirige cerca de duas vezes o que ele costumava dirigir em 1946, num carro mais pesado, com pneus de borracha sintética e não natural, usando mais gasolina por quilômetro, contendo mais chumbo tetraetila. [...]⁴ Apenas 20 por cento da população mundial reside nos países ricos e não comunistas, mas sua participação no consumo total mundial é de pelo menos 65 por cento. Uma porcentagem de crescimento de apenas 3,5 por cento do PNB nos países ricos dobraria seu PNB em vinte anos e esgotaria as matérias-primas, a energia, o espaço e o meio ambiente ainda disponíveis pelo menos na mesma proporção. Em vista desses números, é totalmente correto, e de fato imperativo, perguntar se a espaçonave da progressiva expansão tecnológica e econômica poderia explodir devido a certos limites externos. Durante o período romântico, era costume pintar ruínas de castelos majestosos de uma antiga era cobertas de natureza selvagem como sinal de que a civilização humana era impotente diante da força eterna e da dignidade da natureza. No entanto, na nossa época as pinturas retratam as ruínas de fábricas e rodovias perdidas numa paisagem que também foi entregue à total destruição. Essa imagem de uma expansão que colapsa por causa de limites físicos externos não está relacionada apenas com uma exaustão energética ou de matérias-primas que cada vez mais se aproxima, e com a ameaça ao ecos-sistema planetário devido à poluição dos seus elos mais fracos, como os oceanos e a atmosfera; está relacionado igualmente aos limites políticos. Na verdade, esses limites provavelmente terão um papel mais incisivo do que os limites físicos externos. Uytenbogaardt ressaltou que os países que iniciaram a Segunda Guerra Mundial – Alemanha, Itália e Japão – foram motivados em parte pelo pressuposto de que eles eram os “despossuídos” com relação a matérias-primas e recursos energéticos. Eles visavam a obter um maior Lebensraum (espaço vital) para si e, portanto, atacaram outros países. Contudo, de acordo com Uytenbogaardt, os “despossuídos” da nossa época são predominantemente os países ricos ocidentais. Esse é o caso não porque sua própria produção de matérias-primas e energia seja tão baixa, mas porque sua demanda por esses recursos tornou-se tão grande que eles não podem mais satisfazê-la apenas com suas fontes domésticas. Hoje, os Estados Unidos são obrigados a importar pelo menos um terço das matérias-primas de que necessita. Em outras palavras, os países ricos do Ocidente precisam do mundo inteiro para continuar sua própria expansão econômica. Assim como os “despos-suídos” da Segunda Guerra Mundial, eles provavelmente estarão preparados para tomar medidas vigorosas se as matérias- primas e os recursos energéticos não estiverem prontamente disponíveis para eles. No entanto, isso será tolerado com impunidade por esses outros países, alguns dos quais possuem armas nucleares – esse monstruoso produto da tecnologia moderna?⁵ O paradoxo é ainda mais evidente quando consideramos o elemento de poder a ele associado. Os países ricos têm um enorme poder tecnológico e econômico. Eles são os primeiros em capacidade científica e quanto à força do seu poder de defesa. No entanto, é precisamente como resultado desse progresso que eles se tornaram cada vez mais vulneráveis. Sua capacidade é fenomenal, mas eles não conseguem realizar nada sem que haja uma oferta garantida de matérias-primas e energia. Essa impotência das nações industrialmente avançadas pode muito bem determinar o futuro político do mundo de modo mais decisivo do que o poder deles tem feito até agora. LIMITES COMO DESAFIO Temos visto até aqui que o capitalismo é um sistema de progresso extremamente flexível. O progresso em si não é tão flexível, pois é um pressuposto indispensável e significativamente aceito. Mas em relação a esse pressuposto dado, o capitalismo mostrou até agora ter uma incrível capacidade de adaptação. Ele foi capaz de internalizar a tecnologia para sua própria continuidade, de obter apoio governamental para sua própria proteção e de incorporar as preferências dos consumidores – pelo menos parcialmente – dentro do sistema de progresso. Por essa razão, não é surpreendente que, considerado do ponto de vista do sistema, esse novo confronto com limites seja considerado um desafio a ser resolvido diretamente nos contornos do próprio sistema. Essa solução não é necessariamente impossível. Pelo menos dois trunfos podem ser mobilizados, o que daria ao sistema uma boa chance de êxito. O primeiro trunfo é a mobilização da capacidade tecnológica para evitar ou adiar os limites nas áreas de energia, matérias-primas e meio ambiente. No que diz respeito à poluição, podem ser desenvolvidas melhores técnicas de purificação. Quanto à escassez de matérias-primas, os métodos de exploração podem ser melhorados ou novos métodos podem ser concebidos. Finalmente, fontes de energia alternativas podem ser aproveitadas, variando de energia atômica para energia solar ou mesmo energia das marés. Em tese, parece não haver limites que não possam ser removidos ou, pelo menos, evitados por meio de nossos avanços na tecnologia. O segundo trunfo é o mecanismo de preços da economia de mercado que pode ser diretamente usado como uma política de conservação em relação ao meio ambiente, matérias-primas e energia. Em parte, isso acontece de modo espontâneo, pois quando a demanda por matérias-primas, energia e assim por diante é maior do que a oferta, o preço aumenta. Por sua vez, o aumento dos preços causa um declínio na demanda. Com relação ao meio ambiente, um efeito semelhante pode ser obtido pela introdução de impostos e multas para aqueles que não cumprem as regulamentações contra a poluição. Assim, no que diz respeito tanto à oferta (mediante técnicas aperfeiçoadas e pesquisa aplicada) quanto à demanda (devido ao efeito de frenagem do mecanismo de preços), as “soluções” para esse novo desafio parecem estar prontamente disponíveis. E ambas as “soluções” se encaixam perfeitamente no sistema de progresso existente. No entanto, ambos os trunfos podem ser refutados com argumentos de peso. Quanto ao primeiro trunfo, usado para evitar ou adiar os limites que se aproximam, enfrentamos o problema da interdependência desses limites. Por exemplo, quando as matérias-primas naturais são substituídas por matérias- primas sintéticas, passamos para um processo de fabricação que envolve uma poluição ambiental considerável e geralmente um grande consumo de energia. Além do mais, quando os níveis de profundidade da mineração aumentam, somos mais uma vez confrontados com novos problemas ambientais e de gasto de energia. E ainda, no que diz respeito às fontes alternativas de energia, é notório que a exploração da energia nuclear é acompanhada de efeitos nocivos sobre o meio ambiente devido à radiação e à poluição térmica. Novamente, a produção de energia solar ocupa muito espaço, que é escasso nas áreas densamente povoadas. Finalmente, a purificação de um ambiente poluído geralmente consome energia e matérias-primas. Pode-se comparar tudo isso com a vida numa sala com divisões conectadas entre si. Quando você move uma divisão para longe, as outras divisões se aproximam automaticamente. Claro, isso não significa que cada movimento de uma das divisões cause uma perda de espaço igual ou maior para as demais. A reciclagem de materiais, por exemplo, pode contribuir de modo tão significativo para as matérias-primas existentes e para o meio ambiente que a perda de energia pode ser quase desconsiderada. Em outras palavras, para usar a terminologia da moderna “teoria dos jogos”, não é necessariamente um jogo de soma zero. Os ganhos podem ser superiores às perdas. No entanto, essa interdependência dos limites nos mostra quea imagem de um espaço quase infinito para a expansão material só faz sentido para pessoas com uma fé cega na tecnologia. Em última instância, o homem não será capaz de escapar dos limites naturais, incluindo os limites espaciais. Ele pode apenas tentar adiar, o máximo possível, uma colisão fatal com um desses limites. Porém, essa não é uma solução definitiva. Então, podemos concluir que o homem moderno está realmente mudando de um ser que teme a Deus para um ser que teme o tempo. É assim que E L. Polak descreve o que está acontecendo agora. O futuro parece guardar para nós uma tragédia, e não o paraíso. O segundo trunfo – o mecanismo de preços da economia de mercado – também oferece pouco conforto. Em primeiro lugar, isso se deve ao fato de que os preços das matérias-primas e da energia parecem ser apenas parcialmente sensíveis ao esgotamento futuro. O intervalo de tempo dos preços especulativos dificilmente ultrapassa cinco anos, de acordo com Jan Tinbergen, vencedor do Prêmio Nobel em economia. Os preços atuais das matérias-primas que podem estar esgotadas entre dez e vinte anos muitas vezes refletem pouca ou nenhuma dessas reduções possíveis. Além disso, cada elevação de preço tem dois lados: aumento de custos para o consumidor e o aumento de renda para o produtor. Portanto, preços mais altos para matérias-primas e energia envolvem não só custos mais elevados, mas também maiores receitas. Assim, eles resultam em maiores rendimentos para pessoas e países que os produzem. Quando, por sua vez, esses rendimentos mais altos levam ao aumento das despesas, o efeito de frenagem original dos aumentos de preços no consumo é contrabalançado por esses novos estímulos no consumo mundial total. Ainda mais importante do que os dois contra-argumentos anteriores é a reação da população dos países ocidentais a todos esses aumentos de preços. Seria realista assumir que eles aceitarão, sem queixas, a consequente diminuição ou até mesmo interrupção no crescimento do seu próprio consumo real? Galbraith observa corretamente: “Que o progresso social é idêntico ao aumento do padrão de vida tem o aspecto de uma fé”.⁷ Enquanto essa disposição for dominante, cada aumento de preços será seguido por uma exigência por compensação de renda e aumentos salariais. Enquanto a batalha contra o crescimento material ocasionar esse tipo de reação, é uma ilusão esperar uma redução real no consumo de matérias-primas e energia por meio do mecanismo de preços. A batalha parece perdida mesmo antes de começar. Não obstante, isso não deve nos surpreender, pois é um tanto tolo esperar que haja um mecanismo que verifique e direcione permanentemente os impulsos do desejo humano, da vontade e da fé. Essa expectativa torna-se ainda mais paradoxal quando consideramos que o mecanismo de preços – a palavra mecanismo nesse contexto é muito significativa – tem sido até agora um instrumento para o progresso, com uma importância semelhante à da tecnologia e o papel do governo. Na verdade, ele se tornou um dos elementos do sistema social que o progresso exige como parte do seu ambiente. Nessa capacidade, ele assumiu a tarefa de traduzir imediatamente todas as reivindicações por um padrão de vida mais elevado em aumentos de preços e custos concomitantes. Desse modo, o mecanismo de preços afeta profundamente a sociedade. Essa função particular dificilmente pode ser eliminada sem afetar o núcleo essencial do próprio mecanismo de preços. Em outras palavras, enquanto o sistema de preços continuar a funcionar como um mecanismo, parte da sua própria natureza será servir ao progresso material, não importa o quanto a sociedade como um todo possa estar em perigo por esse serviço. Portanto, se mesmo assim houver alguma tentativa no sentido de usá-lo como um instrumento de controle contra os excessos do crescimento material, ele pode comportar-se de maneira confusa, exatamente por ter recebido ordens completamente conflitantes. O APORTE DO CLUBE DE ROMA Nos relatórios produzidos pelo Clube de Roma,⁸ um esforço significativo foi feito para examinar a tensão entre o crescimento da produção e da população em diversas partes do mundo, por um lado, e as reservas existentes de matérias- primas e energia bem como dos limites ambientais e espaciais, por outro. É corretamente assumido que a solução para esses problemas não pode ser alcançada mediante o mecanismo de livre mercado, mas que devemos procurá-la numa direção completamente diferente. O primeiro relatório sugere um congelamento no crescimento da produção nos países ricos e um limite no tamanho da família – um máximo de dois filhos. Ambas as sugestões resultam de um modelo computacional que supostamente indica que os problemas ambientais e de oferta de matérias-primas e recursos energéticos da sociedade global como um todo podem se tornar controláveis no futuro e que uma taxa de mortalidade maciça devido à fome pode ser evitada. O segundo relatório acrescenta que a ajuda financeira maciça dos países ricos aos países pobres é uma condição indispensável para que se atinja esse objetivo, talvez até mais do que uma interrupção na taxa de crescimento da produção ocidental. Análises científicas como essas podem ser muito úteis para o entendimento da extensão da problemática. No entanto, esses relatórios não abordam o núcleo essencial da questão. De fato, a maneira pela qual os novos problemas globais são abordados enquadra-se no próprio contexto de pensamento que produziu esses problemas e que lhes permitiu chegar a proporções tão enormes. Esse é particularmente o caso do primeiro relatório. Por exemplo, as questões econômicas e de população são abordadas em termos de um chamado modelo mundial dinâmico, até mesmo consistindo, no segundo relatório, de vários subsistemas geograficamente limitados. Nesse contexto matemático, o problema levantado é se – e em que medida – todo o sistema mundial está ameaçado por possível destruição. Nesse modelo mundial, as tendências atuais do crescimento econômico e da população são projetadas para o futuro e avaliadas em relação à capacidade econômica e ecológica da terra. Evidentemente, não se deve argumentar contra isso como um método científico. No entanto, torna-se uma questão distinta quando os compiladores dos relatórios também tentam sugerir soluções concretas por meio do mesmo método. Essas soluções visam a evitar um choque entre a expansão econômica e populacional, por um lado, e a capacidade econômica e ecológica da terra, por outro lado. Claramente as soluções são propostas de modo cientificamente modesto. A partir dos cálculos feitos pelo computador, parece que o choque fatal pode ser evitado – ou, pelo menos, adiado – caso haja uma tentativa de crescimento zero na produção e na população. No entanto, somos confrontados nesse ponto com uma sugestão de natureza ética, pois expressa implicitamente uma opinião sobre qual seria a conduta humana desejável. Mas a ética implicada nessa sugestão é claramente uma ética da manutenção e da sobrevivência do sistema. Os seres humanos podem permanecer como estão desde que estejam preparados para, de agora em diante, seguir essas direções concretas tendo em vista sua própria sobrevivência. Essa é uma ética derivada de um modelo científico – uma ética baseada em metas e não em princípios ou pontos de partida. Essas diretrizes para o comportamento humano não são derivadas de normas universalmente válidas; em vez disso, elas resultam do desejo de evitar uma condição final indesejada. A partir dessa condição indesejável, essas diretrizes são “calculadas” de volta ao presente para que possamos incorporá-las na nossa conduta pessoal imediata. Nesse contexto, o título da segunda parte do filme de divulgação produzido pelo Clube de Roma sobre seu primeiro relatório é emblemático: Que nosso objetivo seja nosso novo começo! Mas há alguma mudança substantiva de fato se uma ética do progresso apenas se transformou numa ética da sobrevivência? Essa pergunta é decisiva porque, em ambos os tipos de ética, é um sistema – de progresso oude sobrevivência – que fornece as normas para o bem e para o mal. Além disso, as diretrizes para o comportamento humano que essa ética do sistema produz são oferecidas com base no mesmo padrão que, uma vez, serviu de critério decisivo para a totalidade do “progresso” humano, a saber, o conhecimento humano racional-científico. Num contexto anterior, falamos da “nova objetividade” como um passo significativo na evolução da crença no progresso. A “ética da sobrevivência do sistema” subjacente aos relatórios do Clube de Roma também irradia a frieza dessa “nova objetividade”. É, por assim dizer, uma ética do computador que dificilmente transcende o nível de algumas quantidades matemáticas: zero (para o crescimento) e dois (para o número de crianças). Finalmente, esse tipo de ética ignora o que fundamentalmente direciona uma cultura. Deve ficar claro – e os compiladores dos relatórios admitem isso até certo ponto – que no campo magnético da fé no progresso, como esta ainda se apresenta, a expansão econômica contínua não pode ser reduzida a zero pela fórmula mágica de um computador. Isso é ainda mais verdadeiro na medida em que a ordem econômica ocidental se baseia nessa fé no progresso e se organizou em todos os seus aspectos institucionais em termos da realização da esperança na expansão econômica. Portanto, minha principal e mais essencial objeção a esses relatórios diz respeito à sua base; ou seja, sua base ética. Essa base pode ser resumida numa frase: a “medida”, ou seja, tamanho da terra, realmente parece ser pequena demais para o homem; então, tendo em vista nossos próprios interesses, teremos de aprender a conter-nos. No entanto, confrontado com a crise da fé ocidental no progresso, parece que a questão decisiva está em outro lugar. A questão decisiva que enfrentamos é se nós mesmos, como portadores da cultura ocidental, conhecemos nossa “medida” humana, a medida da responsabilidade, da administração de uma terra que nos foi confiada. Essa questão, baseada numa ética de um princípio dado e não de um objetivo humanamente determinado, não é levada em consideração nas conclusões dos relatórios do Clube de Roma. Essencialmente, essas conclusões não exigem nada mais da humanidade do que um renovado ajuste aos novos dados do nosso sistema social existente. 13 A VULNERABILIDADE DO SISTEMA NOS ÚLTIMOS ANOS, a maioria dos países ocidentais tem sido surpreendida pela combinação de dois problemas, cada um por si só de difícil solução: a inflação e o desemprego crônico e estrutural. A inflação de dois dígitos tornou-se ultimamente um fenômeno comum, enquanto o desemprego piorou acentuadamente na maioria dos países, muitas vezes totalizando mais de 5 por cento da população trabalhadora total. As prescrições clássicas para curar ambos os males parecem ser pouco eficazes. De fato, elas parecem ser mutuamente contraditórias: uma redução na oferta monetária (por exemplo, por meio de uma diminuição da criação de dinheiro por parte do governo) pode combater a inflação, mas ao mesmo tempo também agrava o desemprego. Por outro lado, um esforço vigoroso contra o desemprego (por exemplo, por meio do aumento dos gastos públicos) pode facilmente estimular a inflação. A recuperação da economia mundial da recessão de 1975 é recebida com alegria por muitos economistas e políticos, mas também é vista com grande preocupação, pois essa recuperação econômica certamente implicará o agravamento das tensões inflacionárias. Este não é o lugar para discutir as sugestões técnicas propostas por diversos economistas profissionais para a solução desse delicado problema de “estagflação”. Tendo em vista a tendência estrutural do desemprego e da inflação, continua ainda em aberto se tais “soluções” realmente ajudarão. A palavra “estrutural” aqui – distintamente da palavra cíclico – implica que os problemas que enfrentamos estão integralmente conectados com a estrutura da economia ocidental. As contramedidas temporárias e provisórias na área das políticas monetária e orçamentária não eliminam esses problemas estruturais, apesar do que afirmam os keynesianos ou os friedmanianos. A profundidade desses problemas torna-se evidente numa investigação mais aprofundada sobre a questão da oferta de dinheiro numa sociedade orientada para a expansão econômica contínua. O PADRÃO OURO E O LAISSEZ-FAIRE Para manter a expansão econômica numa economia de mercado, é necessária uma oferta monetária confiável. O dinheiro é necessário para a produção e comercialização de bens, para a formação de capital e para a manutenção de reservas na esfera da produção e do consumo. Durante séculos, a oferta de dinheiro na sociedade ocidental estava ligada à produção de metais preciosos: prata e ouro ou uma liga. O padrão ouro foi introduzido na Inglaterra em 1816 e foi mantido – com algumas interrupções – até a crise econômica dos anos 1930. Isso implica que cada nação vinculou a extensão da sua oferta monetária interna à quantidade de ouro depositada no seu banco central. De fato, era obrigada a fazer isso, já que qualquer pessoa tinha o direito de trocar sua moeda por ouro no banco central por um preço definido. Assim, a oferta de dinheiro na sociedade não era uma questão arbitrária, mas baseada num padrão externo estabelecido – a quantidade de ouro que cada país tinha à sua disposição. Os níveis de preço e dos salários também tinham de ser ajustados nos termos desse padrão. Por exemplo, se um determinado país obtivesse um ganho significativo na relação comercial com outro país e, portanto, importasse ouro extra que aumentasse sua oferta interna de dinheiro, isso resultaria diretamente num aumento nos níveis dos salários e dos preços. É claro que isso criaria um novo equilíbrio, pois o aumento dos salários e dos preços internos implicariam maiores dificuldades para suas exportações. Isso significava, por sua vez, que o influxo de ouro do exterior passaria gradualmente a cessar. O equilíbrio era restaurado automaticamente mediante a operação do livre mercado e das transferências de ouro que o acompanham. Portanto, o padrão ouro era um elemento comum da doutrina do laissez-faire que, como um todo, concentrava-se no efeito de equilíbrio do mercado. “O padrão ouro era uma instituição do laissez-faire porque era suposto que funcionaria automaticamente, de modo autorregulador de acordo com as transações do mercado privado no país e no exterior.”¹ Como é bem conhecido, o padrão ouro entrou em colapso durante a crise dos anos 1930. Como uma “instituição do laissez-faire”, ele compartilhou, por assim dizer, “do fim do laissez-faire”. Vale a pena ressaltar que uma das causas mais importantes dessa quebra deveu-se à falta de uma “flexibilidade no sentido descendente” dos salários e dos preços. Por isso, os países que perdiam ouro e que assim se viam com uma oferta cada vez menor de moeda pareciam ser particularmente vulneráveis; em vez de provocar uma queda nos preços e nos salários, a redução da oferta de dinheiro resultou principalmente na redução da produção e no aumento do desemprego. Consequentemente, um país após outro foi abandonando o “automatismo” do padrão ouro e decidindo, dali em diante, regular sua própria oferta de dinheiro. Há certos aspectos desse processo que raramente são mencionados nos livros didáticos de economia, mas que, para nossos propósitos, são extremamente significativos. Em primeiro lugar, há uma estreita relação entre o fim do padrão ouro e as mudanças que o capitalismo como sistema social havia sofrido. Na Parte Dois buscamos descrever e analisar essas mudanças de modo geral. Observamos que, no início do século 20, o capitalismo havia se afastado significativamente do sistema de “livre concorrência”. Como resultado da expansão industrial em larga escala, monopólios e oligopólios começaram a dominar a economia de mercado. Enquanto isso, o poder dos sindicatos exercia um impacto significativo no mercado de trabalho. Os preços e os salários nesse momento eram amplamente determinados fora da esfera da “competição perfeita”. Elesnão eram mais estabelecidos de um modo hoje e de outro amanhã; em vez disso, em grande medida, eles estavam sendo determinados seja pelo líder dos preços num ramo particular da indústria ou – no que diz respeito aos salários – por meio de negociações com os sindicatos. Por essa razão, não é de admirar que, durante a crise dos anos 1930, os preços e os salários geralmente pareciam não ter a flexibilidade no sentido descendente exigida pelo padrão ouro e que, consequentemente, uma diminuição do suprimento de ouro de uma nação só aumentava o desemprego. Em outras palavras, antes que o padrão ouro como uma “instituição do laissez-faire” entrasse em colapso, a própria situação de laissez-faire na vida econômica em si – isto é, a competição livre e perfeita – havia, em larga medida, desaparecido. Em vista disso, o fim do padrão ouro pode ser considerado em primeiro lugar como resultado de um processo histórico. Era a consequência final e inevitável de uma situação delicada. Portanto, a ocasional expressão do desejo de restabelecer o padrão ouro revela claramente um entendimento histórico insuficiente. Uma oferta monetária nos termos estabelecidos por uma concepção da economia pautada pela ideia de laissez-faire pressupõe uma sociedade baseada no mesmo princípio. No entanto, como Eugen Schmalenbach observou na década de 1940,¹¹ esse princípio tornou- se evidentemente uma impossibilidade prática na sociedade de hoje por causa da expansão tecnológica em larga escala e ao aumento dos custos indiretos. DO PADRÃO OURO AO PADRÃO TRABALHO Um segundo aspecto importante de todo esse desenvolvimento deve ser observado neste ponto. Depois do fim do padrão-ouro, a oferta de dinheiro tornou-se internalizada permanentemente no sistema de progresso da sociedade. O que aconteceu nesse caso é semelhante ao que ocorreu em relação à tecnologia, à função empresarial e ao papel do governo. Como observamos na Parte Dois,¹² todos esses fatores desempenharam um papel externo no início: eles forneceram uma plataforma a partir da qual o progresso poderia ser lançado. Mas depois de certo período, os papéis foram revertidos, de modo que a tecnologia, a gestão e o governo foram chamados para cumprir um papel indispensável a serviço do progresso. Analogamente a isso, a oferta de dinheiro também apareceu pela primeira vez como um dado externo no desenvolvimento da expansão econômica. No entanto, durante a crise dos anos 1930, essa expansão cessou e até mesmo se inverteu, causando um enorme desemprego. Quando isso ocorreu, as autoridades monetárias recorreram ao que parecia ser a única solução, isto é, colocar a maneira e a extensão da oferta de dinheiro a serviço da recuperação da expansão econômica e do emprego. Assim, a oferta de dinheiro tornou-se um instrumento dependente no sistema social que exigia o progresso econômico continuado. No início, esse passo numa direção fundamentalmente nova foi um grande motivo para alívio. Uma nova “fórmula mágica” parecia ter sido encontrada para livrar as economias ocidentais do desemprego. Em vez de sobrecarregar a economia com a necessidade de ajustes contínuos a uma quantidade limitada de ouro, tornou-se possível expandir a oferta de dinheiro por opção, de modo que uma demanda suficiente e efetiva sempre poderia ser criada para garantir um mercado para uma quantidade crescente de produtos de um aparato produtivo em plena operação. De modo não surpreendente, essas políticas orçamentais “keynesianas” foram comumente aceitas nos países ocidentais, particularmente depois da Segunda Guerra Mundial. Essas políticas exigiam que os governos escolhessem uma relação entre suas receitas e despesas a partir da qual fosse mantido o poder de compra suficiente na sociedade para garantir, assim, o pleno emprego em quaisquer circunstâncias. No entanto, é preciso ter cuidado com “fórmulas mágicas”. Quanto a isso nos lembramos do poema de Goethe, Der Zauberlehrling [O aprendiz de feiticeiro], no qual um aprendiz de mágico havia aprendido a palavra mágica do feiticeiro para produzir água do nada. Porém, ele não sabia como fazê-la desaparecer, de modo que quase se afogou no dilúvio ao qual deu início. O “ritmo” contemporâneo da inflação na maioria dos países ocidentais faz com que nos lembremos dessa inundação. O que aconteceu quando a oferta de moeda foi estimulada pela “fórmula mágica”? O economista inglês J. R. Hicks dá, talvez, a resposta mais incisiva a essa pergunta. Ele afirma que “não é um exagero dizer que, em vez de estarmos num Padrão Ouro, estamos em um Padrão Trabalho”.¹³ Cada grupo social exige sua própria parcela de progresso, reivindicando certa porcentagem de aumentos de salários ou lucros (com resultantes preços mais elevados),¹⁴ enquanto também ocorrem aumentos comparáveis nas despesas governamentais e nos subsídios. Se a oferta de dinheiro não é mais dependente de vínculos externos, apenas uma coisa pode ser esperada: essa oferta será ajustada levando a aumentos nos custos, nos preços e nos salários (negociados mediante o processo de acordos coletivos, ou “resolvidos” de alguma outra maneira). Hicks vai até mesmo além disso. Ele afirma que o valor do dinheiro tornou-se um subproduto das negociações salariais. Ele considera isso uma reversão total das regras do padrão ouro pelo qual os níveis de salários e preços eram ajustados tendo em vista uma determinada oferta de dinheiro com base na presença de ouro. Em vez disso, atualmente a oferta de dinheiro é ajustada aos salários e preços, que são estabelecidos por meio de processos de “barganha”. Em suma, o sistema monetário tornou-se o servo dependente do progresso econômico e sua maneira de distribuir benefícios para uma variedade de grupos na sociedade. Essa reversão é claramente uma das causas mais importantes da atual espiral de inflação. O efeito de frenagem de uma oferta de dinheiro restritiva é perdido e, por essa razão, as reivindicações rígidas têm a última palavra. Obviamente todo esse desenvolvimento não pode ser desfeito por uma simples intervenção. Os defensores de um retorno a uma oferta de dinheiro restritiva vinculada a regras estabelecidas – como Milton Friedman, que propõe um aumento percentual anual fixo¹⁵ – serão confrontados com o mesmo problema que prejudicou o funcionamento do padrão ouro: os salários e os preços aumentam – e não diminuem – como resultado das reivindicações rígidas. Nesse tipo de situação, uma política monetária “restritiva” irá novamente, em primeiro lugar, afetar os níveis de produção e emprego existentes. Uma vez considerados todos os elementos, parece que alcançamos um ponto sem volta no caminho do progresso econômico; é como se cada ponte atrás de nós tivesse desmoronado. O PROBLEMA DO DESEMPREGO A fórmula mágica da oferta de dinheiro eliminou os freios, desencadeando um dilúvio inflacionário na sociedade ocidental. Mas assim como a mágica, a oferta de dinheiro também mostrou suas limitações. No começo, pareceu ser uma potente solução contra todo tipo de desemprego. No entanto, posteriormente tornou-se cada vez mais claro que há certos tipos de desemprego – especialmente os chamados “estruturais” ou “tecnológicos” – que dificilmente são afetados por essa solução. Eles persistem mesmo durante períodos de acentuada inflação. Na verdade, é bem possível que o desemprego tão perseverante de hoje exista, pelo menos em parte, precisamente por causa de um excesso de dinheiro. Para onde a transição consciente do padrão ouro para um padrão trabalho leva? Como já foi observado, nessa situação, as reivindicações feitas – incluindo aquelas na área de salários – têm a oportunidade de endurecer-se e tornar-se cada vez mais graves. O fluxo de dinheiro ajusta-se a essas reivindicações de uma maneira significativamente flexível. Numa sociedade em que tudo se concentra em torno do dinheiro e de uma melhoria nos padrões de vida, e na qual continua a haver diferenças consideráveis na renda, é evidente que se espera um fortalecimento das exigências salariais. Porém, essas reivindicações podem facilmenteser tão grandes que excedam a taxa de crescimento na produção e na produtividade. Evidentemente, essa situação pode ser um estímulo para aumentar a taxa de produtividade por trabalhador, por exemplo, por meio de mais maquinário de capital intensivo . Em outras palavras, reivindicações salariais firmes podem levar ao aumento da produtividade. No entanto, se isso ocorre essas reivindicações levam a uma substituição mais rápida do trabalho por capital. Aqui, somos confrontados com um caso típico de desemprego tecnológico que Keynes, já em 1930, descreveu nos seguintes termos: “Isso significa desemprego devido à nossa descoberta de meios de economizar o uso do trabalho ultrapassando o ritmo em que podemos encontrar novos usos para o trabalho”.¹ Naturalmente, o ritmo e a direção da inovação tecnológica desempenham um papel essencial em toda essa transição. Essa inovação, internalizada na própria vida industrial, possibilita um aumento constante da produtividade. Atualmente, um trabalhador industrial pode produzir mais em um dia de trabalho com seu maquinário melhorado, refinado e mecanizado do que seu colega em 1900 poderia produzir em uma semana inteira. Isso explica a enorme elevação do padrão de vida, mas também explica a incapacidade da economia de assegurar trabalho para todos. A economia tornou-se menos gerenciável; ela está desequilibrada e sobrecarregada. De fato, a inovação tecnológica constante traz problemas reais. Estes se tornam aparentes em primeiro lugar quando ocorre uma pequena estagnação na demanda nacional ou internacional. Mesmo quando o aumento da demanda diminui apenas ligeiramente, o resultado pode ser o aumento do desemprego. Se por meio da inovação tecnológica contínua a produtividade de cada trabalhador aumentasse em média 4 por cento, enquanto o número de trabalhadores permanece o mesmo, é claro que – para manter todos empregados – a produção total e as vendas totais também devem continuar para aumentar pelo menos 4 por cento ao ano. No entanto, se as oportunidades de vendas diminuírem para apenas 2 por cento, então em pouco tempo somos inevitavelmente confrontados com a exclusão dos trabalhadores do processo de produção. A demissão deles deve ligar a diferença entre o aumento de 4 por cento da produção possível com a força de trabalho existente e o aumento de 2 por cento na produção necessária para atender à demanda do mercado. Caso essa queda no crescimento das vendas continue por vários anos, pode ocorrer um declínio considerável no emprego nacional. Esse é o caso em particular para os setores da economia nos quais o aumento da produtividade do trabalho é maior, como no setor industrial. Assim, nos EUA, a produção industrial entre 1953 e 1960 aumentou 17 por cento. No entanto, durante o mesmo período o número de trabalhadores das fábricas diminuiu aproximadamente 5 por cento.¹⁷ Aqui pode ser feita uma analogia com um ciclista. Enquanto o ciclista mantém sua velocidade, ele permanece equilibrado. Porém, se tenta parar, ele perde o equilíbrio. Do mesmo modo, a economia ocidental está em equilíbrio apenas enquanto o progresso econômico persistir, desde que exista um mercado crescente para seus produtos. No entanto, se o ritmo do crescimento econômico diminui apenas ligeiramente, uma ameaça para a estabilidade interna da sociedade emerge. Não há estabilidade diferente daquela baseada no progresso. Cada parte do sistema social é direcionada e equipada para essa estabilidade. Com respeito aos problemas decorrentes do progresso contínuo na sociedade, é interessante observar, em segundo lugar, o quanto de dinheiro e esforços governamentais estão envolvidos hoje para manter um único trabalhador empregado em comparação com quarenta anos atrás. Na década de 1930, um trabalhador operava máquinas cujo valor muitas vezes não se equiparava e raramente excedia seu salário anual. Devido à mecanização contínua, o trabalhador de hoje opera um maquinário que representa um valor igual a vários rendimentos anuais do operador. Consequentemente, quando se cria um emprego para o trabalhador contemporâneo, são necessárias despesas consideravelmente maiores do que no passado. De fato, devido à tendência ao aumento da mecanização e da automação, esse montante continua subindo. Podemos comparar esse processo com os efeitos do uso da penicilina. Quando usada pela primeira vez, ela é muito eficaz. No entanto, com o uso continuado são necessárias doses cada vez maiores para garantir os mesmos resultados. Tendo em vista as muitas doses de “poder de compra” exigidas hoje para que um trabalhador desempregado possa voltar à esfera produtiva, a popularidade de uma política de aumento da oportunidade de emprego tem diminuído visivelmente nas economias ocidentais. Não seria muito mais barato manter os trabalhadores desempregados e fornecer-lhes uma renda anual decente? Esse é um sintoma típico de uma economia altamente pesada que não consegue lidar com o problema do aumento da produtividade. Em 1930 Keynes afirmou que sabia o que fazer com essa crescente pro- dutividade do trabalho. Apesar das suas próprias previsões em relação ao desemprego tecnológico, ele considerava essa crescente produtividade como precursora de uma sociedade mais feliz em que o problema econômico seria resolvido de modo definitivo. Como resultado do enorme aumento do padrão de vida, de acordo com Keynes, a humanidade teria a oportunidade de gastar sua energia em fins não econômicos pela primeira vez na história. Por essa razão, ele pediu a seus leitores que considerassem o aumento do desemprego tecnológico como “apenas uma fase temporária de inadaptação”. E insistiu: “Em longo prazo, tudo isso significa que a humanidade está resolvendo seu problema econômico”.¹⁸ Para alcançar esse objetivo, não devemos ser muito escrupulosos com relação aos meios de obtê-lo. Diz Keynes: “A avareza, a usura e a precaução ainda devem ser nossos deuses por um pouco mais de tempo. Isso porque só eles podem nos levar do túnel da necessidade econômica para a luz do dia”.¹ O título do ensaio de 1930 de Keynes é “Possibilidades econômicas para nossos netos”. Poderíamos perguntar se esses netos, que são as crianças de hoje, gostariam de repetir as afirmações de Keynes. Ou seria evidente para eles que, “resolvendo” seus “problemas econômicos”, eles foram recompensados com problemas ainda mais complexos? Pode uma sociedade na qual muitas pessoas já não realizam tarefas significativas manter sua estabilidade? Keynes pareceu vacilar quanto a essa questão: “Isso porque fomos treinados por tempo demais para nos esforçar, e não para desfrutar”.² No entanto, isso não o impediu de seguir sem hesitação o caminho para a solução definitiva do problema econômico, apesar dos perigos relacionados com ele. Assim, ele afirmou: Portanto, vejo-nos livres para retornar a alguns dos mais seguros e certos princípios da religião e da virtude tradicionais – que a avareza é um vício [...] e o amor ao dinheiro é detestável, que aqueles que andam mais verdadeiramente nos caminhos da virtude e da sabedoria equilibrada são os que não se preocupam com o dia seguinte. Devemos uma vez mais valorizar os fins em detrimento dos meios, e preferir o bem ao útil.²¹ Não é o ressurgimento da religião e da ética, que é seguir nas sendas do progresso, o mais notável? Para alcançar esse ressurgimento, tudo o que aparentemente temos de fazer é agradar aos deuses da avareza e do dinheiro um pouco mais. “Isso porque só eles podem nos levar do túnel da necessidade econômica para a luz do dia.” Com essas afirmações, Keynes claramente não transcende o nível de uma imitação ingênua, no século 20, da filosofia do Iluminismo do século 18. A VITÓRIA DO UTILITARISMO Esse complexo de inflação quase incontrolável e desemprego crônico remonta ao lugar dominante dado, na nossa sociedade, ao progresso econômico tec- nicamente fundamentado, medido em termos de produção máxima de bens de consumo. A inflação é um subproduto natural de um sistema social que é tão fortemente orientado para o progressoeconômico que está em permanente necessidade de injeções adicionais de dinheiro. Ao mesmo tempo, o desemprego estrutural é um subproduto espontâneo da penetração soberana do progresso tecnológico, que aumenta continuamente a produtividade do trabalho. A conexão entre esses dois males sociais e nosso progresso cultural também pode ser ilustrada pela relação entre esses males e a profunda influência do utilitarismo em todo o estilo de vida ocidental.²² Já discutimos o utilitarismo na Parte Um deste livro.²³ O utilitarismo é um tipo de ética que negligencia os motivos subjacentes à ação humana e presta atenção exclusivamente aos efeitos dessa ação em termos de aumento ou diminuição da utilidade. As ações que resultam em maior utilidade para o indivíduo, bem como para a sociedade, são consideradas moralmente boas. Observamos que o utilitarismo forneceu um forte apoio moral para o arranque inicial da Revolução Industrial. Era uma ética colocada a serviço da expansão econômica. Se o modo mais importante de utilidade ou felicidade é a disponibilidade de bens de consumo, e a inutilidade (ou desprazer) mais importante é a “dor do trabalho” realizada para obter esses bens, então fica evidente que cada esforço para proporcionar à sociedade as perspectivas de mais produtos e mais tempo de lazer torna-se útil e é declarado eticamente bom. Pessoas e grupos envolvidos em atividades econômicas sempre têm certo horizonte de felicidade em vista. Por isso quero dizer o nível de aspiração ou a amplitude e intensidade do bem-estar que as pessoas e os grupos buscam por meio das suas ações. O horizonte da felicidade constitui o marco de referência para a busca de significado e alegria na vida. Não pode ser negado que o nosso horizonte de felicidade, particularmente desde a Revolução Industrial, foi claramente reduzido a um horizonte de felicidade tipicamente utilitarista. O homem ocidental foi levado a acreditar que era capaz de obter o bem-estar por si mesmo por meio do maior superávit possível de “utilidades” sobre “inutilidades”. Isso constitui o quadro de ação das organizações trabalhistas na sua batalha por salários mais elevados e melhores condições de trabalho. Ele também forma o padrão de operações industriais e molda as atividades dos governos modernos que podem estabelecer um estado de bem-estar somente com base em “utilidades” ou possibilidades de consumo que eles fornecem para seus cidadãos, do berço ao túmulo. Um utilitarismo consistentemente mantido, que constitui o horizonte da felicidade para todas as pessoas e grupos, produz um tipo particular de sociedade. Trata-se de uma sociedade orientada para progredir em termos utilitários, ou seja, o maior superávit possível em “utilidades” em comparação com “inutilidades” sacrificadas. Esse, de acordo com as regras do utilitarismo, é o único progresso eticamente justificável. Concretamente, isso significa que a sociedade deve ser estruturada de tal modo que seus membros possam adquirir o máximo de bens (utilidades) pelo mínimo de trabalho (inutilidades). Contra esse pano de fundo podemos ter um melhor entendimento das tendências básicas na nossa sociedade. Em primeiro lugar, o crescimento contínuo da produtividade do trabalho nas economias ocidentais torna-se mais compreensível. O aumento da produtividade garante que com um determinado esforço de trabalho (inutilidade) mais bens (utilidades) podem ser produzidos. Desse modo, a felicidade verdadeira para todos, no sentido utilitário da palavra, é promovida e assegurada. Em segundo lugar, desse ponto de vista é eficiente, útil e, portanto, bom tomar decisões industriais em termos de um único critério: a produtividade do trabalho. A aplicação desse critério não impedirá a repetição fastidiosa do trabalho nem a monotonia absoluta da linha de montagem, uma vez que o resultado líquido dessas práticas ainda pode ser mais útil em termos de renda obtida (utilidade) e trabalho economizado (inutilidade). Em terceiro lugar, a essa luz o problema da crescente inflação e do aumento do desemprego pode ser reinterpretado. Evidentemente, a inflação está diretamente relacionada à busca geral por um maior poder de compra, necessário para adquirir “utilidades” para a pessoa ou para o grupo ao qual ela pertence. No entanto, o aumento do desemprego tecnológico também é claramente um resultado natural do horizonte utilitarista da felicidade. Esse horizonte limitado ensina as pessoas – e, portanto, a sociedade – a considerar o trabalho em todas as circunstâncias como uma inutilidade a ser evitada tanto quanto possível. A essa luz, o crescente desemprego estrutural de hoje é exatamente o que devemos esperar. É evidência direta do enorme “progresso”, em termos utilitários, o que nos permitiu produzir grandes quantidades de bens com um “sacrifício” mínimo de trabalho como um todo. Portanto, nesse desemprego tecnológico somos dolorosa e diretamente confrontados com as consequências do nosso próprio horizonte de felicidade. É uma marca da vitória de uma cultura que é utilitária tanto no pensamento quanto na vida, uma cultura que obviamente continuamos a promover diariamente com nossas atividades econômicas. 14 A VULNERABILIDADE DO HOMEM OCIDENTAL CILA OU CARÍBDIS Nas seções anteriores discutimos uma variedade de problemas, cada um dos quais por si só é de difícil solução, mas em combinação mútua eles se tornam um fardo quase insuportável. Por um lado, observamos que a sociedade ocidental está ameaçada pelo perigo de que sua expansão possa entrar em colapso por causa dos limites externos. Os limites ambientais, energéticos, espaciais e de matérias-primas revelam seus contornos de maneira cada vez mais clara no nosso horizonte. Além disso, agora também somos confrontados com os limites da disposição política do chamado Terceiro Mundo em disponibilizar plenamente seus próprios recursos aos países industrializados ocidentais. A partir disso pode-se concluir que o mundo ocidental, se quiser sobreviver, terá de aprender a controlar a expansão econômica. Caso contrário, será forçado a fazê- lo exatamente por esses limites. Por outro lado, o sistema social dos países ocidentais está tão profundamente enraizado no crescimento ilimitado que qualquer redução no seu ritmo de expansão resultaria rapidamente em perigos fatais para a estabilidade interna dessa sociedade. Por enquanto parece que os problemas de inflação e desemprego podem ser atenuados pelo aumento da produção, para que as pessoas pelo menos mantenham seus empregos, e as rígidas exigências econômicas dos empregadores, dos empregados e do governo possam ser temporariamente conciliadas. No entanto, assim que o ritmo de expansão é desacelerado, a ameaça de inflação e desemprego torna-se aguda. Além disso – e isso é ainda mais grave –, essa estagnação no ritmo do crescimento irá, no tempo devido, descarrilar todo o sistema social, pois cada aspecto desse sistema está orientado para a continuidade do progresso. Isso é verdadeiro para os propósitos do governo e do mundo dos negócios, para as relações mútuas entre as empresas, para as instituições na área da oferta de dinheiro, para a maneira como os salários e os preços são determinados, para a inovação institucionalizada das técnicas, para as relações entre a vida industrial e o Estado, e, por fim, é válido também para a interdependência entre empresas e consumidores. A continuidade do progresso é a grande constante em relação à qual todos os principais aspectos do sistema social ao longo do tempo tornaram-se variáveis dependentes. O progresso, por assim dizer, é o norte magnético para o qual todas as agulhas da bússola são sempre atraídas. Assim que essa atração magnética for eliminada, as agulhas da bússola girarão de modo confuso. Assim, qualquer indício de seguir uma direção sem essa atração magnética do progresso aparece como um convite para navegar em direção ao caos, rumo a uma desintegração fundamental de todo o sistema social. O progresso colocou a sociedade em sujeição a ele. Portanto, devemos perguntar se asociedade ainda está no comando desse progresso. Parece que estamos diante de um dilema alarmante. A nave espacial de progresso na qual estamos presos parece estar caminhando ao encontro dos limites externos inamovíveis ou caminhando para a ruína por causa da desintegração interna. Parece que o mundo se despedaçará por causa da fé persistente no sonho do progresso, ou então o sonho pode ficar em pedaços por causa do mundo que o rodeia. Uma terceira alternativa parece excluída; portanto, devemos escolher entre Cila ou Caríbdis. Por tudo isso, apenas uma parte do peso do desafio atual para o Ocidente foi abordada. Até agora, a posição do próprio homem ocidental, que enfrenta esse desafio e a quem este de fato se dirige, não foi discutida. O homem ocidental – num sentido que se aplica a todos nós – certamente não é aquele “motor imóvel”, como às vezes é retratado. Ele não é mais esse sujeito autônomo que pode soberanamente colocar processos em movimento e que também pode, soberanamente, num momento da sua escolha, fazer cessar esses processos novamente. Pelo contrário, o homem ocidental, como resultado do processo de progresso que ele iniciou, está agora preso na difícil situação de ser administrado, mais propriamente do que a de ser o administrador. O progresso, o trabalho da nossa própria mente e mãos, não é uma entidade neutra que fica fora de nossa vida e pensamento; é uma força que penetrou profundamente em todos os aspectos da nossa existência. Na seção a seguir, analisaremos algumas fases da nossa vida que mostram que o homem ocidental, pelo menos em parte, tornou-se o homem adaptado, a pessoa enquadrada no molde prescrito pelo progresso. A PESSOA ADAPTADA Numa sociedade em que o progresso define o tom no qual todas as instituições e relacionamentos humanos serão afinados, é de se esperar que todos os seus membros sejam fundamentalmente influenciados por esse progresso nos seus pensamentos, palavras e atos. Como o homem pode permanecer intacto enquanto a tecnologia, o governo, o sistema de salários e preços e a função gerencial são intensamente afetados por essa força? Sem dúvida, a própria personalidade humana também foi atraída de modo inescapável para o campo magnético do progresso. Ajuste no trabalho Esse é o caso, em primeiro lugar, para o empreendedor ou gerente de hoje que diariamente deve “reaprender”; isto é, pensar e agir em termos de manter-se em dia com a tecnologia e o crescimento econômico. Isso promove uma mentalidade que, em seu efeito total, não permanece limitada à esfera de negócios. O fato de a própria corporação moderna exigir cada vez mais dos seus gestores, não apenas em relação ao seu tempo, mas também em relação à sua disposição para a vida, acentua isso. Pode até implicar uma espécie de totalitarismo, uma reivindicação sobre o corpo e a alma. Do ponto de vista da empresa, a “ética” correta para o gerente é a fidelidade ilimitada à corporação; sua fé deve consistir numa total dedicação ao seu trabalho, e sua esperança com relação ao futuro reside na certeza de que tudo está bem com seu empreendimento! Quem é incapaz de apoiar essa ética e fé pode ser uma pessoa excelente, mas é um fracasso como gerente. Nesse contexto, Galbraith analisou corretamente a situação do gerente moderno, cuja “família, política, às vezes até álcool e sexo, são secundários”.²⁴ Sua vida inteira é reivindicada para o progresso e para o bem do progresso. Mas também o trabalhador industrial comum numa fábrica moderna dificilmente pode escapar dessa “lei do ajuste social”. Na Parte Dois, aludimos à perda de uma dimensão humana em grande parte do trabalho de hoje devido à ênfase excessiva na utilização de todos os fatores do crescimento econômico.²⁵ Como resultado, a divisão do trabalho levou à fragmentação extrema das operações, e o processo de mecanização reduziu o tempo de trabalho à repetição monótona e não criativa de movimentos estereotipados. Quando as pessoas se envolvem com esse trabalho diariamente, em que até mesmo a comunicação mútua – o movimento físico das pessoas de um lado para o outro – é assumida pelo substituto técnico da linha de montagem, não pode haver outra coisa senão uma influência disso na sua existência pessoal – seu espírito, seus pensamentos e suas relações sociais. Pesquisas estatísticas mostraram que com frequência apenas uma minoria de trabalhadores industriais não gosta desse tipo de trabalho. A maioria dos trabalhadores afirma não querer outro emprego. Quando perguntados por que, eles apontam para o fato de que não são obrigados a pensar para realizar sua tarefa; que não estão sobrecarregados com preocupações quando vão para casa; e que seus salários são muitas vezes mais elevados do que em muitos outros empregos. Essas reações são tranquilizadoras? De modo algum. Claro, é bom que existam diferenças entre as pessoas, que também são expressas numa variedade de opiniões saudáveis sobre o trabalho que realizam. Mas essa aceitação da monotonia não é uma resposta saudável. Além disso, não chegamos muito mais longe com o argumento de alguns de que, afinal de contas, o trabalho simples não é necessariamente sem sentido. Isso certamente é verdadeiro, mas muito mais está em jogo na repetição não criativa de movimentos estereotipados numa grande produção em massa. Devemos chegar à raiz da questão. Se o trabalho não tiver todos os elementos de escolha, todas as oportunidades para a criatividade, todas as possibilidades de cooperação pessoal e contato mútuo durante a sua realização, então outros elementos que não apenas a simplicidade do trabalho e as diferenças saudáveis entre as pessoas estão em jogo. A apreciação positiva da monotonia repetitiva por parte do trabalhador aponta para uma inversão das relações entre o homem e a tecnologia. Em vez de a tecnologia ser ajustada à humanidade dos trabalhadores, obviamente enfrentamos uma situação em que os trabalhadores estão sendo ajustados, de corpo e alma, à tecnologia. Por causa disso, eles não se importam com seu tipo de trabalho desumano. Os gerentes, bem como os trabalhadores, vivenciam a pressão do ajuste necessário, tanto dentro como fora da esfera de trabalho. Mas seus efeitos são mais amplos; isso porque esse ajuste penetra na vida pessoal de todos nós, até mesmo na maneira como apreciamos os esportes, na vida sexual e na nossa maneira de desfrutar de um momento de lazer. Devido ao fato da influência da fé no progresso na nossa vida pessoal ser muitas vezes subestimada, uma breve ilustração disso em cada uma dessas áreas pode ser útil para entendermos como nós, pelo menos em parte, fomos moldados por essa fé. Esportes Quando comparamos nosso envolvimento no esporte hoje com o envolvimento de cem anos atrás, observamos uma série de diferenças marcantes. Em primeiro lugar, notamos que o esporte tornou-se uma atividade independente, um “empreendimento” ou um “negócio”. Há o lado da produção – com funcionários remunerados –, bem como o lado do consumo – a recreação “passiva” por parte do público. A prática do esporte tornou-se, de muitos modos, um setor econômico independente, sujeito à mesma força motriz do progresso tecnológico e econômico que afeta os demais setores econômicos da sociedade. Em primeiro lugar, um bom atleta tem seu próprio “gerente”. Este é a pessoa cuja tarefa é vender seu “produto”, tão bem quanto possível. Ele pode ser considerado o representante do progresso econômico no mundo dos esportes. Além de um bom “gerente”, o atleta também precisa de um treinador que o ensine e treine em todos os conhecimentos técnicos referentes ao negócio. Essa pessoa pode ser vista como representativa do progresso tecnológico no domínio dos esportes. Ele “mede” o progresso de seu cliente diariamente, pois mesmo nos esportes esse é um fenômeno mensurável. Originalmente, o esporte diz respeito a uma relação competitiva saudável entre as pessoas, na qual o elemento de jogo acentuaria a amizade mútua. No entanto, como uma extensão da escolha cultural da sociedade ocidental, na qual o valor de uma pessoaé expresso da maneira como ela se relaciona com as coisas, o vínculo entre as pessoas em muitos esportes é gradualmente relegado ao segundo plano. A relação mais fundamental em vários ramos do esporte não consiste mais na competição entre duas pessoas, mas entre uma pessoa e o relógio. Em termos de registros estabelecidos, apenas duas coisas são importantes: a pessoa e o tempo por ela alcançado. A realização mais básica nesses esportes é aquela que implica uma melhora com relação aos registros anteriores. Desse modo, o progresso nos esportes também se torna perceptível e mensurável. Uma parte muito importante de cada esporte é o condicionamento constante mediante um treinamento paciente e focado. O sucesso exige uma boa condição física logo no início, mas certamente nem sempre é o resultado final. Muito do condicionamento se resume a uma excessiva ênfase em certas qualidades físicas. Os melhores resultados são obtidos pelo atleta que está preparado para treinar com a intensidade e regularidade de uma máquina. Isso foi confirmado, por exemplo, pelos resultados espetaculares por parte dos atletas da Alemanha Oriental nos Jogos Olímpicos de Munique, 1972. Eles tinham as melhores condições para quebrar os recordes. Moldados feito máquinas, poderiam correr e nadar como máquinas e completar suas tarefas programadas diante dos olhos de um público animado. Porém, não teriam eles se tornado na verdade fantoches mecânicos, brinquedos pré-ajustados na prisão do progresso tecnológico e, desse modo, artificialmente aperfeiçoados?² Sexualidade Hoje, nenhum assunto parece ser discutido com mais frequência do que a sexualidade. Talvez isso explique por que foi abreviado para a palavra de quatro letras (sexo).* Felizmente, a sexualidade não é mais considerada como algo de que se envergonhar, algo pecaminoso, que pertence ao domínio do segredo. Nesse sentido, fizemos um verdadeiro progresso. No entanto, o outro lado dessa moeda revela facetas menos positivas. No contexto da nossa discussão, apontaremos três mudanças que ocorreram em relação à nossa apreciação da sexualidade. Em primeiro lugar, a sexualidade como “sexo” gradualmente tornou-se uma “necessidade” humana independente, separada e urgente, exigindo satisfação. A relação pessoal entre marido e mulher que constitui o contexto da sexualidade autêntica – ou seja, a expressão mais profunda do amor permanente e mútuo – tornou-se secundária.²⁷ O sexo é um fim em si mesmo. O amor é um mero subproduto: nós “fazemos” amor. Uma mudança paralela pode ser observada na maneira como o contato é buscado entre os indivíduos do sexo oposto. Hoje, esse contato deve ser aberto e direto para que nenhum tempo seja perdido. A sexualidade torna-se um jogo rápido, muitas vezes impessoal, de impulsos repentinos. Além disso, a sexualidade é cada vez mais transferida da esfera privada para a esfera pública, e é até mesmo acompanhada de símbolos públicos de demonstração – sex bombs. Estes podem ser comparados com os símbolos públicos no mundo dos esportes – os heróis do esporte. Evidentemente, esse desenvolvimento está estreitamente relacionado com a objetificação da sexualidade, pois se a sexualidade é independente e sem vínculos, então ela pode ser facilmente expressada por “símbolos” humanos independentes. Foi precisamente essa noção de sexualidade que causou a angústia de Marilyn Monroe, como é evidente numa de suas últimas entrevistas, na qual comentou: “Esse é o problema, um símbolo sexual se torna uma coisa. Eu simplesmente odeio ser uma coisa”.²⁸ Em terceiro lugar, essa objetificação pública do sexo é amplamente promovida pelo aumento da indústria pornográfica, um dos novos setores econômicos da sociedade moderna. Essa indústria fabrica uma sexualidade ainda mais impessoal que, consequentemente, está à venda. Nesse sentido, a sexualidade tornou-se, mais do que nunca, um objeto econômico independente, apanhado no avanço do progresso técnico. Veja, por exemplo, os manuais de sexo que nos ensinam como avançar na técnica de realização sexual e como obter a máxima satisfação seguindo as “variações” prescritas. Escassez de tempo Quase todos na sociedade ocidental sofrem de uma espantosa escassez de tempo. Um novo ditado diz que, no passado, as pessoas morriam por falta de comida, mas hoje eles perecem por falta de tempo. Essa falta de tempo é notória não apenas a partir do rápido “tempo” da nossa vida e da nossa agenda abarrotada, mas também da maneira como a família moderna passa seu tempo. O economista sueco S.B. Linder aborda esse problema num livro fascinante, que tem o título incisivo de The Harried Leisure Class [A classe de lazer saqueada].² Segundo o autor, a ciência econômica sempre afirmou que o aumento do bem- estar ofereceria mais tempo de lazer. Mas hoje nada parece ser tão escasso quanto o tempo. Uma das causas desse cálculo equivocado por parte dos economistas, diz Linder, é que eles negligenciam o aspecto temporal do consumo. Tudo o que é produzido para consumo toma, automaticamente, nosso tempo. Precisamos de tempo para comprar, manter e substituir os bens. Por essa razão, ele argumenta, uma cultura que se torna cada vez mais rica torna-se mais pobre em termos de tempo disponível. Linder também explica como essa escassez de tempo afeta nosso estilo de vida. O aparecimento de aparelhos domésticos que economizam tempo pode, em parte, ser explicado como resultado dessa situação. Isso também é verdadeiro em relação aos produtos descartáveis. Não temos mais tempo para manter nossos bens ou devolver itens como garrafas vazias. Além disso, há uma conexão direta entre a crescente escassez de tempo e as mudanças nos métodos de publicidade e vendas. Apenas algumas décadas atrás, as propagandas eram de natureza decisivamente informativa. Elas informaram o consumidor sobre um produto para que ele pudesse compará-lo com os outros a fim de fazer uma escolha. No entanto, uma vez que não temos mais tempo para comparar a qualidade de vários itens – uma situação agravada pela quantidade e variedade no mercado –, a publicidade moderna tornou-se sugestiva quanto à natureza. As propagandas muitas vezes visam apenas a criar a ilusão de que o consumidor se sentirá melhor e mais feliz depois que tiver adquirido um determinado artigo. O ato de comprar tornou-se cada vez mais impulsivo – uma situação que a propaganda moderna explora, orientando-se cada vez mais para o subconsciente do consumidor. Claramente, o “desamparo” do consumidor de hoje intensificou-se vividamente. A possibilidade de moldar e manipular seus gostos corre paralelamente à sua falta de tempo. Uma consequência ainda mais incisiva diz respeito ao nosso relacionamento com as outras pessoas. Devido às exigências do nosso tempo pelo bem-estar material que vivenciamos, nosso tempo e nossas reflexões são cada vez mais determinados pela nossa preocupação com os bens materiais e, cada vez menos, pela nossa associação pessoal com outros seres humanos. Assim, nesse caso também o vínculo entre o homem e seus semelhantes é secundário face ao vínculo entre o homem e as coisas. Por essa razão, há, sem dúvida, uma conexão direta entre o crescente bem-estar material e a crescente solidão na sociedade moderna. Obviamente, isso afeta particularmente as pessoas que vivem fora dos laços da família imediata. Mas também afeta a vida da família em si. Uma família ocidental moderna assume a imagem de uma sociedade em miniatura em que cada criança tem seu próprio quarto e dinheiro suficiente para atender às suas necessidades. Nessa “sociedade”, assistir TV e ouvir músicas, que são objetos técnicos, preenchem o vazio em relação a contatos pessoais verdadeiros. CONCLUSÃO: O DILEMA DO HOMEM OCIDENTAL Essa lista de mudanças nos padrões de vida e pensamento do homem ocidental está longe de ser completa. Poderíamos apontar para a indiferença e a imprudência na maneira como lidamos com os bens materiais, bem como para o desejo de excitação, sensação e emoção. Mas temos uma imagem suficientemente clara da medida em que somos afetados