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Todos os direitos reservados. Copyright © 2024 para a língua
portuguesa da Casa Publicadora das Assembleias de Deus.
Aprovado pelo Conselho de Doutrina.
É proibida a duplicação ou reprodução deste volume, no todo
ou em parte, sob quaisquer formas ou meios (eletrônico,
mecânico, gravação, fotocópia, distribuição na web e outros),
sem permissão expressa da Editora.
Preparação dos originais: Miquéias Nascimento
Revisão: Daniele Pereira
Adaptação da capa: Elisangela Santos
Projeto gráfico e editoração: Elisangela Santos
Conversão para Ebook: Cumbuca Studio
CDD: 220 – Bíblia
e-ISBN: 978-65-5968-299-7
As citações bíblicas foram extraídas da versão Almeida Revista
e Corrigida, edição de 2009, da Sociedade Bíblica do Brasil,
salvo indicação em contrário.
Para maiores informações sobre livros, revistas, periódicos e os
últimos lançamentos da CPAD, visite nosso site:
http://www.cpad.com.br.
SAC — Serviço de Atendimento ao Cliente: 0800-021-7373
Casa Publicadora das Assembleias de Deus
Av. Brasil, 34.401, Bangu, Rio de Janeiro – RJ
CEP 21.852-002
1ª edição: 2024
http://www.cpad.com.br/
A
AGRADECIMENTOS
o Deus Eterno, aquEle “que é poderoso para fazer tudo
muito mais abundante além daquilo que pedimos ou
pensamos, segundo o poder que em nós opera, por sua graça”
(Ef 3.20), bondade e infinita misericórdia.
Aos pastores José Wellington Costa Júnior (presidente da
CGADB) e José Welington Bezerra da Costa (presidente do
Conselho Administrativo da CPAD); ao diretor executivo,
Ronaldo Rodrigues de Souza; aos pastores Elienai Cabral
(Consultor Teológico e Doutrinário) e Alexandre Coelho
(Gerente de Publicações); ao chefe do Setor de Educação
Cristã, Marcelo Oliveira, e à irmã Telma Bueno, bem como a
toda a Casa Publicadora das Assembleias de Deus pela
valiosíssima oportunidade.
Ao pastor Nelson Luchtenberg, presidente da
CEMADERON, e a toda a Assembleia de Deus de Rondônia
pelo apoio.
À minha mãe, Amélia, pela educação na fé cristã e pelo
exemplo de perseverança.
À minha esposa, Jocineide, e aos meus filhos Júnior, Ana
Carolina e Gabriel. O suporte e a participação de vocês são
sempre fundamentais e inestimáveis.
ABREVIATURAS
ARA: Almeida Revista e Atualizada
NAA: Nova Almeida Atualizada
NBV: Nova Bíblia Viva
NTLH: Nova Tradução na Linguagem de Hoje
NVI: Nova Versão Internacional
NVT: Nova Versão Transformadora
SUMÁRIO
Agradecimentos
Abreviaturas
Capítulo 1
Duas Importantes Mulheres Na História De Um Povo
Capítulo 2
O Livro De Rute
Capítulo 3
Rute E Noemi: Entrelaçadas Pelo Amor
Capítulo 4
O Encontro De Rute Com Boaz
Capítulo 5
O Casamento De Rute E Boaz: A Remição Da Família
Capítulo 6
O Livro De Ester
Capítulo 7
A Deposição Da Rainha Vasti E A Ascenção De Ester
Capítulo 8
A Resistência De Mardoqueu
Capítulo 9
A Conspiração De Hamã Contra Os Judeus
Capítulo 10
O Plano De Livramento E O Papel De Ester
Capítulo 11
A Humilhação De Hamã E A Honra De Mardoqueu
Capítulo 12
O Banquete De Ester: Denúncia E Livramento
Capítulo 13
Ester, A Portadora Das Boas Novas
Referências
O
Capítulo 1
DUAS IMPORTANTES
MULHERES NA HISTÓRIA DE
UM POVO
INTRODUÇÃO
s livros de Rute e Ester podem ser considerados como
um tributo às mulheres piedosas — de ontem, de hoje e
de sempre —, que assentam no coração o propósito de servir a
Deus a despeito de toda e qualquer circunstância contrária,
incluindo o espírito da época, hostil a todos os que decidem
viver crendo e praticando o que as Sagradas Escrituras
ensinam. Essas belíssimas porções da literatura canônica
ensinam-nos que a mulher que teme ao Senhor não cede a
ideologias ou pressões culturais; não gasta o tempo ou a
energia dela com pensamentos e discussões sexistas, pois ela
sabe que o Criador fez macho e fêmea para um viver
cooperativo e não conflitante. Essa mulher sábia entende que
homem e mulher são diferentes para que se completem —
cada um, porém, exercendo o seu próprio papel no plano
divino para a glória de Deus.
Nesse espectro da história feminina na Bíblia, o livro de
Rute brinda-nos com o exemplo de Noemi e da moça moabita
que dá nome ao livro. Como as mulheres sábias de nossos dias
e de todos os tempos, essas personagens tiveram a graça de
viver livres dos traumas que os conflitos mentais, verbais e
físicos produzem na nefasta arena da “guerra dos sexos”.
Noemi e Rute inspiram as mulheres que não dão palco para a
luta inglória do feminismo, que impõe comportamentos que só
servem para desgastar e deformar a figura da mulher,
roubando dela a verdadeira beleza (moral e física), as ternas e
duradouras alegrias da vida — como o casamento e a
maternidade — e o prazer de servir a Deus, produzindo, como
consequência da sua rebeldia, incalculáveis prejuízos para as
estruturas sociais como um todo, incluindo as comunidades
cristãs, que são as igrejas locais de todos os continentes.
Esse tom inspirativo está presente também no livro de Ester,
que nos reserva um drama empolgante. Nele, vemos, pela fé, a
mão do Deus Todo-poderoso agindo na História de maneira
absolutamente precisa, usando principalmente uma mulher. A
vida de Ester, uma moça judia nascida na Babilônia no tempo
do cativeiro, órfã de pai e mãe, inspira-nos a todos —
especialmente as mulheres —, com o seu exemplo de
obediência, superação, pureza e coragem. O Senhor continua
à procura de homens e mulheres que possa usar para cumprir
os seus extraordinários e eternos propósitos.
Parênteses Históricos
Um ponto fundamental a ser considerado no estudo conjunto
de Rute e Ester é a diferença de contextos geográficos e
históricos entre as histórias. Além da característica comum de
serem os únicos livros da Bíblia que levam nome de mulheres,
Rute e Ester também têm em comum o fato de preencherem
parênteses históricos. Cronologicamente, a história de Rute
está inserida na grande narrativa do livro de Juízes. A história
encaixa-se entre alguns dos seus capítulos. Já o texto de Ester
trata de fatos ocorridos entre os capítulos 6 e 7 do livro de
Esdras, compondo a literatura pós-exílica. Apesar dessa
conexão cronológica, Rute e Ester são livros específicos e
autônomos que, todavia, precisam ser estudados levando-se
em conta o contexto da história sagrada em que estão
inseridos.
O Período dos Juízes
Já no primeiro versículo de Rute, o leitor é situado com o
tempo e o lugar dos fatos. A narrativa é linear e passa-se em
Belém, na Judeia (atual Cisjordânia), e em Moabe (atual
Jordânia) nos dias dos juízes (cf. Rt 1.1).
Cronologicamente, o período dos juízes vai de
aproximadamente 1375 a 1050 a.C., situando-se entre a morte
de Josué e a coroação do rei Saul. Podemos considerar esse
tempo como a terceira fase da história da nação de Israel após
a saída do Egito, o “forno de ferro”, onde foi forjada (Dt 4.20).
A primeira fase deu-se nos dias de Moisés (a jornada de 40
anos pelo deserto). A segunda, nos dias de Josué (a conquista
de Canaã) e dos anciãos contemporâneos seus. Com a morte
dessa geração, a nação de Israel entrou num profundo declínio
moral e espiritual, iniciando-se o tempo que ficou conhecido
como os dias dos juízes.
A nova geração deixou de servir ao Senhor e passou a
prestar culto aos deuses dos cananeus, Baal e Astarote (Jz 2.7-
13). Isso produziu um trágico resultado para a nação (2.14,15).
A crise levava o povo de Israel a clamar ao Senhor por
livramento (3.9,15), e Ele atendia Israel por causa do seu
gemido (2.18). A resposta divina dava-se por meio de
libertadores chamados de “juízes”, que eram usados de forma
sobrenatural para livrar a nação “das mãos dos que os
atacavam e roubavam” (2.16 – NAA). O ofício desses juízes,
portanto, em nada se assemelhava à função dos magistrados
civis, como conhecemos hoje. Conforme Donald Stamps, no
seu comentário na Bíblia de Estudo Pentecostal, tais juízes eram
“líderes militares e tribais […] dotados de superiores
qualidades de liderança [que] realizavam grandes feitos,
mediante a proteção e o poder de Deus” (2009, p. 388).1
A Cronologia de Rute
Sendo o período dos juízes tão extenso, cobrindo cerca de225
anos (entre 1375 e 1050 a.C.), em que parte dessa época
situam-se os fatos narrados no livro de Rute? Não há uma
resposta precisa para essa pergunta. Existem opiniões diversas
sobre a datação dos fatos descritos em Rute, as quais faremos
referência no capítulo seguinte, que é dedicado ao estudo da
organização do livro e a um aprofundamento maior no seu
contexto histórico, propósito e mensagem.
Teologicamente falando, não faz diferença o tempo preciso
da viagem de Elimeleque e a sua família para Moabe. Por isso,
o autor bíblico preocupou-se apenas em transmitir uma
descrição teológica do caráter da época em que se deram os
acontecimentos — os dias dos juízes —, já que todo esse
período foi marcado por crises cíclicas, sempre resultando em
tragédias (Duguid, 2016, p. 132). A época é sintetizada pela
expressão “não havia rei em Israel, e cada um fazia o que bem
queria” (Jz 17.6, NTLH).
Ester e o Pós-Cativeiro Babilônico
De Belém, na Judeia, a história bíblica transporta-nos para
Susã, na Pérsia, cerca de cinco séculos depois. Novamente se
verifica a nítida historicidade da literatura bíblica logo no
começo da obra (Et 1.1). Era por volta do ano 483 a.C. O
cativeiro babilônico, profetizado por Jeremias para durar
setenta anos (Jr 25.11), havia terminado em 539 a.C., quando
Ciro, o persa, derrotou o Império Babilônico e permitiu o
retorno dos judeus exilados (cf. Ed 1.1-3).
O primeiro grupo de judeus exilados seguiu para Jerusalém
sob a liderança de Zorobabel em 538 a.C. (Ed 2.1,2; 3.8).
Foram aproximadamente 50 mil os que deixaram a Babilônia
(Ed 2.64,65),2 um número muito pequeno comparado ao de
judeus espalhados pelas cidades babilônicas, dentre as quais
Susã, agora transformada em capital do Império Persa.3
A baixa adesão ao chamamento de reconstrução de
Jerusalém deu-se por duas razões principais, como observa
Eugene H. Merrill (2021, p. 501): a primeira, o fato de a
maioria daqueles judeus ter nascido no exílio; a segunda, as
boas condições em que viviam na Babilônia:
[…] está claro que na época do decreto de Ciro, a maioria dos judeus exilados
pertencia a uma geração que não conhecia a sua pátria. Tinham nascido no
exílio e, embora sonhassem com Jerusalém, eram o povo da Babilônia. A
geração mais antiga e os idealistas sonhavam por retornar ao lar, mas é fato
notório que Sesbassar, Zorobabel e outros líderes do retorno aparentemente
não conseguiram um grande número de judeus para acompanhá-los à pátria.
Obviamente isto não é difícil de compreender, visto que em Babilônia eles eram
relativamente prósperos, sendo doloroso reiniciar a vida em uma terra de morte
e cinzas.
Donald Stamps (2009, p. 709) também nos dá uma
surpreendente informação quanto à disparidade entre o
número de judeus exilados que viviam na Babilônia e o grupo
que atendeu à convocação para reconstruir Jerusalém.4
Segundo esse reconhecido comentarista pentecostal, os
exilados judeus eram “um milhão ou mais”, o que faz concluir
que apenas 5% aceitou o grande desafio de deixar o conforto
da vida nas grandes cidades babilônicas, agora sob domínio
persa, e enfrentar a longa e penosa viagem de volta (cerca de
1.500 km) até à capital de Judá, com o grande desafio de
reconstruir uma cidade destruída e totalmente desolada.5
É essa geração conformista que enfrentará mais de perto o
terrível drama da ameaça de extermínio narrado no livro de
Ester. Os persas eram conhecidos por assegurarem a liberdade
religiosa e até incentivarem a prática dos diversos cultos dos
povos dominados.6 Mas esse quadro sofrerá uma terrível e
inesperada mudança por força de um decreto de Assuero, que
ordenará a matança dos judeus de todas as províncias do vasto
Império Persa (Et 3.8-13).
A Cronologia de Ester
Depois do primeiro retorno dos judeus da Babilônia para
Jerusalém, ocorrido no ano 538 a.C., passaram-se cerca de
vinte e dois anos até a conclusão da obra de reedificação do
Templo (ano 516 a.C.). Foram tempos de muita oposição, mas
também de comodismo e desânimo, narrados por Esdras e
denunciados pelos profetas Ageu e Zacarias (Ed 4.5; Ag 1; Zc
3). Finda a construção do Templo, abre-se um hiato na
história, que teve a duração de 60 anos. É nesse período, mais
precisamente entre os anos 483 e 473 a.C., como já assinalado,
que se dão os fatos descritos no livro de Ester.
Somente em 457 a.C., aproximadamente dezesseis anos
depois, sob a liderança do sacerdote Esdras, é que ocorrerá o
segundo retorno de exilados judeus da Pérsia para Jerusalém.
O registro desse retorno está a partir do capítulo 7 do livro de
Esdras. O que vemos, portanto, é que nem o providencial
livramento operado por Deus nos dias de Ester fez com que
um número maior de judeus decidisse deixar as cidades
babilônicas que ocupavam (agora sob domínio da Pérsia) e
voltar à capital de Judá. O segundo grupo foi menor que o
primeiro. O capítulo 8 de Esdras enumera apenas 1.754
homens. Menos de 6 mil pessoas ao todo, considerando em
torno de 4 mil mulheres e crianças.
Rute e Ester: Uma Síntese Biográfica
Como já observado, os contextos geográficos e históricos da
vida de Rute e Ester são muito diferentes, assim como as
circunstâncias que ambas enfrentaram. De um lado, temos
uma moabita que decidiu viver como camponesa em Belém;
de outro, uma órfã judia que se tornou rainha. O que há de
comum entre Rute e Ester são as suas virtudes espirituais e
morais. Ambas expressam fé, convicção, humildade, coragem,
obediência, simplicidade, pureza, abnegação, temor a Deus e
disposição de servir. Por isso, foram fundamentais para a
preservação do povo judeu, a descendência piedosa de
Abraão. As duas continuam sendo exemplos de profunda
inspiração para todos que desejam agradar ao Senhor e viver
para a sua glória (Sl 147.11; 1 Co 10.31; Hb 11.6).
I – RUTE: UMA MULHER IMPORTANTE
PARA A LINHAGEM DE DAVI
Em tempos de crise, Deus escolheu uma mulher moabita para
incluí-la na linhagem de Davi e, por conseguinte, na
ancestralidade do Messias, o Salvador do mundo. Alguns
séculos antes, isso já havia acontecido com outra improvável,
Raabe, a meretriz, a mulher que, temendo a Deus, escondeu
em sua casa os dois espias enviados por Josué a Jericó (Js
2.6,17,23). Agora, o mesmo temor a Deus e a confiança na sua
providência fazem de Rute, uma estrangeira assim como
Raabe, uma integrante da árvore genealógica de Davi. O
registro é feito com destaque pelo evangelista Mateus, quando
disse que “Salmom gerou de Raabe a Boaz, e Boaz gerou de Rute
a Obede, e Obede gerou a Jessé. Jessé gerou ao rei Davi […]”
(Mt 1.5,6, grifo nosso)
1. Uma moabita
A história de Rute, a moabita, é um dos muitos exemplos
bíblicos de manifestação da graça de Deus a todos os povos ao
longo da história. Os moabitas eram um povo pagão que
descendiam de Moabe, filho da relação incestuosa de Ló, o
sobrinho de Abraão, com a sua filha mais velha (Gn 19.30-37).
Depois de escapar da destruição de Sodoma, onde vivia com a
sua mulher e filhas, Ló foi morar numa caverna, num monte
próximo da cidade de Zoar, no extremo sul do mar Morto,
região que se tornaria parte do território de Moabe (Is 15.5; Jr
48.34).
Ali as suas filhas tiveram a infeliz ideia de embebedá-lo e
deitar-se com ele para suscitar-lhe descendência. Coube à
primogênita a torpe iniciativa (Gn 19.31,32).
Moabe nasceu da primogênita, e Amom, da mais nova (Gn
19.36-38). Os dois tornaram-se pais de duas nações vizinhas de
Israel: os moabitas e os amonitas. Ambos eram povos
perversos, idólatras e inimigos de Israel em muitas
circunstâncias (Jz 3.13; 10.6-9; 1 Sm 11.1-11; 12.12; 1 Rs
11.1).
Os moabitas foram hostis a Israel desde os dias de Balaque,
o rei que contratou Balaão, o sacerdote-adivinho, no afã de
que amaldiçoasse a nação hebreia (Nm 22.1-6). Mais tarde, as
filhas dos moabitas foram instrumento de sedução para levar
os homens de Israel ao pecado sexual e à idolatria, o que
resultou na morte de 24 mil israelitas (Nm 25.1-9). Moisés
ainda relata a hostilidade dos moabitas pela indiferença que
tiveram com o povo de Israel na sua jornada pelo deserto (Dt
23.3,4). Elesimpediram Israel de passar pelas suas terras (Jz
11.17,18). No tempo dos juízes e da monarquia hebreia, vários
foram os conflitos com os moabitas (Jz 3.12-30; 2 Sm 8.1,2; 2
Rs 3.4,5,24; 14.25; 1 Cr 18.2; Ez 25.8-11; Am 2.1-3).
Tendo Moabe esse histórico de hostilidade, idolatria e
imoralidade sexual (Nm 25.1,2; Ap 2.14), era mesmo de todo
improvável que Rute, pertencendo a esse povo, entrasse para a
linhagem de Davi, família da qual viria o Messias, o Salvador
do mundo (Gn 49.8-10; Is 11.1,10; Mq 5.2; Ap 5.5). Contudo,
os caminhos de Deus são mais altos que os nossos e muito
acima de nossa compreensão (Is 55.8,9; Rm 11.33). Ele faz do
improvável provável e do impossível possível quando cremos
nEle e o tememos e obedecemos sem impor-lhe qualquer
condição (Gn 18.14-16; Hb 11.8-11). Ele é soberano (Jó 42.2).
Rute respondeu favoravelmente ao chamado de Jeová com
devoção, fidelidade, obediência e pureza, alcançando o favor
do Eterno, o Deus da providência.
2. A família belemita
Sob a ótica humana, Rute descreve a saga de uma simples
família belemita e a disposição e coragem de uma jovem
moabita que se apegou à sua sogra e terminou encontrando
um judeu piedoso que, como parente remidor, a tomou em
casamento. Sob a ótica divina, contudo, era o
desenvolvimento de mais uma importantíssima fase do plano
eterno de redenção da humanidade. Prometido ainda no Éden
(Gn 3.15), esse plano importava na preservação de uma
geração piedosa, iniciada em Abraão (Gn 12.1-3) e que
prosseguia através da tribo de Judá, de onde viria o Messias, o
Salvador (Mq 5.2; Ap 5.5). Sob a ótica humana, Rute surgiu
inesperadamente no cenário bíblico e passou a integrar a
linhagem de Davi ao casar-se com Boaz, um belemita,
descendente de Salmom e Raabe, a meretriz (Mt 1.5). Esse foi
mais um capítulo da soberana providência, rumo ao pleno
cumprimento do plano salvífico anunciado desde Adão (Lc
3.23-38). Deus estava trabalhando para cumprir a sua
promessa. Ele é sempre fiel em tudo o que promete (Nm
23.19; Js 21.45; 2 Co 1.20).
De Moabe para Belém
A narrativa contida em Rute 1 parece indicar apenas a
introdução de mais uma história familiar comum. Mesmo
habitando em Belém, a “casa do pão”, a fome que assolava a
terra fez Elimeleque decidir peregrinar nos campos de Moabe,
o que expõe, em princípio, um inexplicável contraste. O povo
que recebera as promessas de todas as bênçãos divinas (Dt
28.1-14) agora precisava buscar refúgio nas terras de um povo
idólatra e impuro, que sequer seria admitido na congregação
de Israel (Dt 23.3). Essa intrigante decisão, contudo, preparou
o cenário para a mudança da história de vida de uma
despretensiosa moça moabita, Rute.
3. Matrimônio e maternidade
Em Moabe, morre Elimeleque, ficando a viúva Noemi e os
seus filhos Malom e Quiliom (1.2). Algum tempo depois,
Malom, o primogênito, casa-se com Rute (1.4; 4.10), e o mais
novo, Quiliom, casa-se com Orfa. Ao fim de quase dez anos,
também morreram Malom e Quiliom (1.4,5). Viúva e sem
filhos, Noemi decide voltar a Belém, motivada pela notícia de
que a fome havia acabado na sua terra (1.6). Embora pudesse
permanecer em Moabe — como decidiu Orfa, viúva de
Quiliom —, Rute escolhe vir com a sua sogra, declarando a
sua fé no Deus de Israel (1.16).
A história de Rute em Belém será desenvolvida ao longo dos
capítulos e versículos do livro, como veremos nesta obra. Nesta
síntese biográfica, convém apenas dizer que o ápice da história
acontecerá com dois eventos que foram fundamentais para
que o propósito de Deus fosse consumado na vida dessa
moabita. Apegada à sua sogra e sempre disposta a obedecer-
lhe e servi-la, Rute alcança o favor do Senhor, “sob cujas asas
[foi-se] abrigar” (Rt 2.12). Casou-se com Boaz, parente de
Elimeleque, e gerou Obede (hb., “servo”), tornando-se uma
ancestral direta de Davi (de quem foi bisavó) e integrante da
genealogia de Jesus (Rt 4.1-22; Mt 1.5-17; Lc 3.32). Honrar o
casamento e a geração de filhos traz a bênção de Deus para
muitas gerações (Hb 13.4; Sl 127.3-5).
II – ESTER: A MULHER QUE AGIU PARA A
SOBREVIVÊNCIA DOS JUDEUS
1. De Belém para Susã
De Belém, na Judeia, as Escrituras transportam-nos para Susã,
na Pérsia (atual Irã), para conhecermos a história de outra
destemida jovem mulher, Ester, que também foi usada
providencialmente por Deus para a preservação de Israel.
Orfã de pai e mãe, ela poderia entregar-se à angústia e
enveredar por caminhos de rebeldia. Contudo, o que temos é
um extraordinário exemplo de obediência, serenidade,
sabedoria, pureza e coragem. Ester foi criada pelo primo,
Mardoqueu (Et 2.5-7,15), e tornou-se rainha num ato de
providência divina. No palácio, aceitou o desafio de ser um
instrumento divino para salvar o seu povo, os judeus, da
grande matança decretada pelo rei Assuero.
Ester era filha de Abiail, tio de Mardoqueu. Judia nascida
no exílio, não se sabe quando e em que condições ficou órfã.
O seu nome hebraico era Hadassa, que significa murta.
Conforme o Dicionário Bíblico Wycliffe (2006, p. 1559), a murta
era um lindo e conhecido arbusto perene, entre os favoritos da
Antiguidade; tinha folhas perfumadas e flores brancas ou
rosadas que eram usadas para perfumar os ambientes e fazer
grinaldas para os nobres nos banquetes. Já o nome persa Ester
(stara), significa “estrela”.
Ester fazia parte da geração de judeus nascidos no cativeiro.
No ano 597 a.C., Quis, o bisavô de Mardoqueu (e, ao que
tudo indica, também de Ester), fora transportado de Jerusalém
para a Babilônia junto com 11 mil exilados que
acompanharam Jeconias (ou Joaquim), rei de Judá (Et 2.5,6; 2
Rs 24.6,12-16). Conforme Isaías e Jeremias profetizaram, o
fim do cativeiro babilônico foi decretado por Ciro, rei da
Pérsia, no ano 538 a.C., mas, como já salientando, a grande
maioria dos judeus permaneceu na Babilônia sob domínio
persa (Is 44.26,28; 45.1,4,5,13; Jr 29.10-14).
2. De órfã a rainha
Com a tomada de Babilônia, os persas adotaram a cidade de
Susã, no antigo Elão, como uma das capitais do novo império
(Et 1.1,2). Outras cidades importantes existiam na época,
destacando-se Ecbatana (na Média), Pasárgada e Persépolis
(na Pérsia) — todas, agora, com palácios reais persas, além da
própria Babilônia. Tais cidades eram, provavelmente,
consideradas capitais. Susã era a capital de inverno, embora
tanto no livro Neemias (Ne 1.1,2) quanto em Ester, observa-se,
aparentemente, a permanência do imperador por anos
seguidos habitando no mesmo palácio, excetuando os tempos
de guerra, como a campanha de Assuero contra a Grécia, que
durou cerca de quatro anos, terminando no ano 480 a.C., com
a destruição quase total das forças navais persas na Batalha de
Salamina, conforme narra Heródoto (485–425 a.C.) no seu
livro História.
Em Susã, viviam Ester e Mardoqueu, dentre milhares de
outros judeus. Dotada de uma rara beleza, Ester integrou o
grupo de moças virgens que se candidataram para suceder a
rainha Vasti, deposta pelo rei Assuero por conta da sua
desobediência e teimosia, como escreve Flávio Josefo.7 Depois
de uma grande festa pública que durou 180 dias e reuniu
representantes das 127 províncias da Pérsia (Et 1.3), Assuero
ofereceu, nos jardins do seu palácio, um banquete de sete dias,
regado a muita bebida para todos os que estavam na fortaleza
de Susã, ricos e pobres (1.5-8). No sétimo dia, mandou que
trouxessem Vasti “para mostrar aos povos e aos príncipes a
sua formosura” (1.10-12).
A rainha recusou o chamado do rei, “embora [ele] enviasse
diversas vezes os eunucos para buscá-la”, conforme diz Josefo,
acrescentando:
Essa teimosia [aborreceu ao rei]. Ele saiu do banquete, reuniu os magos, que
entre os persas interpretam as leis, e queixou-se a eles de ter várias vezes pedido
à rainha que comparecesse ante a assembleia e que ela não queria obedecer.8
Vasti foi deposta do trono, e Ester foi escolhida como rainha
num inequívoco ato da providência divina (2.16,17). Cinco
anos depois, essa jovem judia, agindo com sabedoria e muita
coragem, obteve do rei um decreto que livrou da morte o povo
judeu de todo o império (8.9). Foi a providênciadivina agindo
em favor da geração piedosa a fim de preservá-la para o seu
grande e eterno propósito: a vinda do Messias.
Intriga os estudiosos o fato de o nome de Deus não aparecer
no livro, ao que Matthew Henry (2022, p. 845) responde:
[…] ainda que o nome de Deus não se encontre [no livro de Ester], o mesmo
não se pode dizer de sua mão, guiando minuciosamente os fatos que
culminaram na libertação de seu povo. Os detalhes não são apenas
surpreendentes e muito cativantes, mas também edificantes e encorajadores
para o povo de Deus, quando este se encontra em tempos de perigo e
dificuldade.
3. No campo ou no palácio
As lições espirituais que podemos extrair dos livros de Rute e
de Ester apontam para o valor da confiança no cuidado e na
precisa providência de Deus em favor dos que nEle confiam e
esperam (Is 64.4). Isso fica bem evidenciado ao longo das duas
narrativas. São exemplos inspirativos do valor da fidelidade e
da confiança em Deus, seja qual for o contexto em que
vivermos, visto que os princípios divinos são absolutos e
imutáveis; suficientes para orientar nossa conduta em qualquer
tempo e lugar (Sl 19.7-9; 119.89-91).
III – MULHERES DE DEUS COMO
PROTAGONISTAS DA HISTÓRIA
1. O protagonismo feminino
Rute e Ester agiram como mulheres de Deus e foram
protagonistas da história sem alterarem em nada os seus
papéis. Ao longo das suas histórias, veremos o quanto elas
souberam compreender o padrão de comportamento que lhes
era adequado. Assim como elas, inúmeras outras mulheres têm
sido poderosamente usadas por Deus para fins extraordinários
em todos os tempos.
O protagonismo ou destaque feminino no exercício dos seus
papéis em nada conflita com o propósito de Deus com o
homem. O Senhor usa cada um segundo a sua própria
constituição pessoal. É por isso que a liderança masculina,
instituída por Deus (Gn 1.26; 3.16), não anula o propósito
divino com a mulher, nem lhe retira a possibilidade de, em
muitas circunstâncias, ser protagonista da história. O que não
se vê em qualquer dos exemplos da Bíblia é a inversão dos
papéis, como as ideologias progressistas pretendem impor
atualmente.
Rute e Ester não se destacaram pela assunção de papéis
masculinos. Não foi a rebeldia ou um espírito altivo que as
destacaram. Pelo contrário! Agiram com humildade,
submissão e obediência e tornaram-se relevantes para o povo
de Israel e para toda a humanidade, fazendo-as ingressar na
fileira dos filhos da promessa feita por Deus a Abraão (Gn
12.2,3; Gl 3.16; 4.28; Rm 4.13).
2. Cumprindo os papéis
As mulheres que agradam a Deus são as que sabem cumprir o
seu papel de forma prática, não se enveredando pelo ativismo,
sonhos de empoderamento ou falsas facilidades de realização
pessoal. Elas sabem ser mulheres da vida real, como Rute e
Ester. Não foi o acaso que fez com que Rute alcançasse o favor
divino, tornando-se integrante da linhagem de Davi. Ela soube
viver diariamente cumprindo o seu papel, conforme a sua
sogra Noemi dá testemunho de como havia sido boa esposa
(Rt 1.8). Também soube construir um extraordinário
relacionamento com a sogra, o que não tem sido muito
comum em nossos dias.
3. Educação familiar
Noemi e Rute, contudo, revelaram-se como mulheres sábias,
que conheciam bem a distinção dos seus papéis na família:
mãe é mãe, e esposa é esposa (Rt 1.11-13). Não confundir as
estações e não invadir espaços alheios é fundamental para a
boa convivência entre nora e sogra.
O mesmo exemplo de vida prática é visto em Ester. Apesar
de órfã, teve uma boa criação com Mardoqueu, a quem
devotava obediência e profundo respeito (Et 2.10,2-23; 4.1-4).
A narrativa do livro mostra-nos que não foi apenas a beleza de
Ester que a fez ser escolhida rainha, mas também a sua
humildade e comportamento no palácio, fruto da boa
educação que recebera (Et 2.15-17). Ester comportou-se de
forma simples e humilde diante de Hegai, o “guarda das
mulheres” de Assuero, seguindo fielmente as suas orientações,
o que foi decisivo para que fosse escolhida rainha da Pérsia
(2.15-17).
CONCLUSÃO
Rute e Ester foram poderosamente usadas por Deus e tiveram
os seus nomes registrados na história, como exemplo e
inspiração para as mulheres de todas as gerações. Contudo, o
protagonismo que viveram não foi resultado de vaidade ou
qualquer aspiração pessoal. Elas jamais poderiam imaginar
que o Deus da providência iria usá-las tão sobrenaturalmente.
O Senhor continua usando mulheres para cumprir os seus
propósitos. Algumas se tornam conhecidas e têm os nomes
registrados na história; outras vivem a vida toda no
anonimato, como a mulher de Noé (Gn 6.10,18; 7.7,13; 8.15),
mas nem por isso deixam de ser importantes. O que seria do
patriarca sem uma companheira fiel ao seu lado enquanto
cumpria a missão que recebera de Deus?
1 Charles P. Pfeifer et al. (2006, p. 1113) afirma que “A palavra heb. Shopet
traduzida como ‘juiz’ parece ter sido um termo emprestado dos cananeus. Ela
aparece na literatura ugarítica como spt com o sentido de ‘governante’ ou ‘juiz’ e
um sinônimo para ‘rei’”. Esses “juízes” libertadores manifestavam os atos poderosos
de Deus, guiando os israelitas em façanhas militares (Ibid., p. 1114).
2 Esse número inclui 7.337 escravos e 200 cantores.
3 Originalmente, Susã pertencia a Elão, território dos elamitas, antiga civilização
mesopotâmica. A cidade foi dominada pelos babilônicos e, com a conquista persa,
tornou-se uma das capitais do Novo Império. Era a capital persa de inverno
(Charles F. Pfeiffer, et. al., p. 620). Lá permaneceram centenas de milhares de
judeus após o decreto de Ciro, principalmente nascidos durante o cativeiro. Judeus
dessa antiga região estavam em Jerusalém no dia de Pentecostes (At 2.9).
Atualmente, a região faz parte do Irã, próximo da divisa com o Iraque.
4 Considerando que apenas cerca de 25 mil judeus foram levados para o cativeiro
babilônico (Merrill, 2021, p. 523/24), é mesmo surpreendente o número citado por
Donald Stamps, fazendo entender que a multiplicação do povo judeu na Babilônia
foi extraordinária durante os 70 anos de cativeiro.
5 Segundo o historiador judeu Flávio Josefo no seu livro História dos Hebreus, havia na
Babilônia, nos dias de Zorobabel, das tribos de Judá e de Benjamim, da idade de 12
anos para cima, 4.628.000 pessoas (pp. 506, 507). Um número muito maior que o
mencionado por Stamps, o que é compreensível pelo recorte etário (12 anos para
cima) e, certamente, por incluir as mulheres. Sendo assim, os dados mencionados
por Stamps guardam consonância com a informação de Josefo, que corrobora o
fato de que o número que seguiu para Jerusalém foi realmente muito pequeno.
6 O historiador grego Heródoto (484–425 a.C.), no seu livro História, descreve os
imperadores persas como soberanos complacentes com todas as formas de cultos
dos povos do vasto império.
7 JOSEFO, Flávio. História dos Hebreus. 27ª Impressão. Rio de Janeiro:
CPAD, 2015, p. 519.
8 Ibid.
O
Capítulo 2
O LIVRO DE RUTE
INTRODUÇÃO
livro de Rute está entre Juízes e 1 Samuel. Levando em
consideração que o crítico quadro espiritual de Israel
retratado em Juízes prolonga-se até os primeiros capítulos de 1
Samuel, o livro pode ser considerado um verdadeiro lírio no
meio do deserto, ou, “semelhante a uma linda flor num jardim
abandonado, ou a uma luz clara que aparece na escuridão da
noite”, como diz S. E. MacNair (1983, 95). Rute destaca-se
não apenas pela sua beleza literária, mas também pela
profundidade espiritual da sua mensagem. Um bálsamo para
judeus e cristãos ao longo dos séculos, o livro narra uma
história de amor e redenção. Trata-se de uma extraordinária
demonstração de como o Todo-Poderoso trabalha em meio às
crises para cumprir os seus desígnios eternos. Nas suas páginas,
vê-se continuamente o agir do Deus que transforma tristeza
em alegria e derrotas em vitórias.
Não há dúvida de que o agir providencial de Deus é o que
mais marca a narrativa belemita. A providência divina é
percebida ao longo de todo o livro. O Jeová Jireh, proclamado
por Abraão em Gênesis 22.14, é o Deus que tudo provê para
Noemi e Rute,inclusive um remidor, Boaz, e um herdeiro,
Obede, prolongador da semente de Elimeleque, da linhagem
de Davi (Rt 4.13-22).
O livro faz parte da chamada “trilogia de Belém”, as três
narrativas cujo cenário descreve o período dos juízes em
relação à cidade que também é conhecida como Efrata
(Merril, 2001, p. 184). São elas: Mica e o levita (Jz 17–18), o
levita e a concubina (Jz 19–21) e, por fim, a história de Rute,
num corpus literário distinto e específico. O livro apresenta uma
história curta, porém de grande riqueza espiritual, pela
conduta exemplar e pela fé perseverante dos seus principais
personagens e, principalmente, pelo desfecho da obra, que
revela o grande propósito de toda a história: a preservação da
linhagem piedosa de Abraão, de onde viria (e veio) Jesus, Filho
de Davi, o Salvador do mundo.
I – A ORGANIZAÇÃO DO LIVRO
Seja na Bíblia Hebraica, seja na Cristã, Rute aparece como
um livro separado de Juízes. Há, porém, muita discussão se
isso sempre foi assim. Conforme destaca Eugene H. Merril
(ibid., p. 188),
A antiga tradição canônica entre os judeus tradicionalmente tem incluído e
considerado o livro de Rute como livro dos Juízes, e tal raciocínio tem base nas
fortes considerações literárias e históricas. Seu autor coloca os acontecimentos
no tempo “quando os juízes governavam” (Rt 1.1), e o cenário ainda está
envolto nas duas últimas páginas narrativas do livro dos Juízes. (Enquanto as
outras histórias são do princípio daquela era, Rute deve ser localizada no final
do período, pois esta heroína está separada de Davi por apenas três gerações).
Além disso, a acusação que comumente servia como um refrão por todo o livro
dos Juízes — “Naqueles dias não havia rei em Israel: cada qual fazia o que
achava mais reto” (Jz 17.6; 18.1; 19.1; 21.25) — e que lançava toda aquela era
em uma espécie de caos moral e apostasia da Lei, está sem dúvida refletida nas
palavras de abertura do livro de Rute — “Nos dias em que julgavam os juízes”,
ou seja, quando não havia um rei.
Ao longo dos tempos, houve muita variação na composição
e ordem dos livros do Antigo Testamento até chegar à
organização que temos hoje, com Rute sendo um livro
distinto, vindo imediatamente após Juízes. Conforme explica
Norman Geisler e Willian Nix (2006, p. 75):
Os livros das Escrituras judaicas foram reagrupados várias vezes desde quando
foram redigidos. Alguns deles, de modo especial os que fazem parte dos escritos,
foram redigidos e aceitos pela comunidade judaica séculos antes das datas que
os teóricos da crítica lhes atribuem.
Acerca dessa variação de posição, R. Clyde Ridall (2020, p.
160) sintetiza:
Na Bíblia hebraica moderna este livro está colocado no Megilloth e é lido
publicamente na Festa das Semanas (no tempo da colheita). Contudo, até por
volta do ano 450 de nossa era, o livro de Rute era considerado uma
continuação de Juízes. Em sua lista de livros inspirados, Josefo aparentemente
considera Juízes e Rute como um único livro. Ao que tudo indica, Jerônimo
deixa implícito que os dois estavam juntos no cânon hebraico. Rute aparece na
LXX e na Vulgata logo depois de Juízes (como em nossas versões atuais). Não
se sabe por que nem como o livro saiu de sua posição original junto aos “Profetas
Anteriores” e foi parar no Hagiógrafo (ou Escritos), a terceira divisão do cânon
hebraico.
Embora a formação do conjunto literário e a ordem dos
livros tenha sofrido variação, é preciso ser dito, contudo, que
os livros do Antigo Testamento, como conteúdo canônico,
jamais estiveram em disputa na antiga comunidade de Israel.
1. Na Bíblia Hebraica
A Bíblia Hebraica, a Tanakh, é composta apenas dos 39 livros
do Antigo Testamento da Bíblia Cristã. Nela, o livro de Rute
pertence à terceira divisão ou seção chamada Ketuvim ou
Hagiógrafos (Escritos Sagrados). A primeira seção é a Torah
(Pentateuco ou Lei), e a segunda é a Nevi’im (Profetas) (Lc
24.44). Dentre os Escritos, que são 11 livros, estão os Megillot
(cinco rolos), livros curtos que eram lidos publicamente nas
festas judaicas anuais. São eles: Cântico dos Cânticos, Rute,
Lamentações, Eclesiastes e Ester. Em função de narrar fatos
ocorridos durante a colheita, a leitura litúrgica de Rute era
tradicionalmente feita durante o Shavu’ot (Pentecostes), a festa
da colheita.
2. Na Bíblia Cristã
Enquanto a Bíblia Hebraica está dividida em três seções
(Pentateuco, Profetas e Escritos), o Antigo Testamento da
Bíblia Cristã é composto de quatro seções: Pentateuco,
Poéticos, Históricos e Proféticos. Rute está categorizado como
um livro histórico, diante do seu evidente gênero narrativo,
sem deixar, contudo, de apresentar uma extraordinária beleza
poética. Aparece logo depois do livro de Juízes. Empregando
estilo e linguagem pertencentes ao hebraico clássico, o seu
autor expõe vários aspectos subjetivos da vida dos personagens
(Rt 1.12-21; 2.13,20; 3.1; 4.16). A obra está organizada em
quatro capítulos, somando 85 versículos ao todo.
3. Autoria e data
É muito comum existirem infindáveis discussões sobre aspectos
históricos, autoria e data dos livros da Bíblia. São extensas as
teses que consomem longos tempos de navegação fora das
Escrituras, que poderiam ser dedicados ao crescimento em
edificação pelo estudo do Livro Sagrado. Os pentecostais não
ignoram o mundo acadêmico e nem negam o valor das suas
pesquisas quando produzem extraordinárias descobertas a
respeito da história bíblica e do seu registro canônico.
Dedicam, contudo, mais tempo para o estudo das próprias
Escrituras, e não para tudo o que a Alta Crítica escreve acerca
dela.1 Cremos na inspirada, inerrante, completa e infalível
Palavra de Deus.
De qualquer sorte, é importante pelo menos citar que há
uma diversidade de opiniões entre os eruditos a respeito da
autoria e data do livro de Rute. Samuel é o autor mais
provável, embora Esdras e Ezequias também sejam citados
como supostos autores (BEACON, p. 159). O Talmude, obra
milenar de regulamentos e tradições judaicas, atribui a Samuel
a autoria (BEP, p. 420).2 A forma como o autor refere-se a
Jessé e Davi parece indicar contemporaneidade e
familiaridade com os personagens, o que também aponta para
Samuel (Rt 4.17). Além disso, as características gerais da obra
indicam uma atmosfera própria do início do período da
monarquia de Israel, reforçando ainda mais a autoria do
profeta, sacerdote e último juiz de Israel.
Quanto à data, também há muito debate e imprecisão.
Contudo, considerando a provável autoria de Samuel, o livro
teria sido escrito no século X a.C. Um dos principais
argumentos para essa conclusão, como destaca Leon Morris
(1986, p. 219, 220), diz respeito ao estilo e à linguagem
presentes na obra, pertencentes ao hebraico clássico, o que
indica uma época primitiva, ou seja, dos dias de Samuel, logo
após os fatos narrados no livro, bem distante do estilo visto em
livros escritos no período pós-exílico (segunda metade do
século V a.C.), como os livros das Crônicas dos reis de Israel,
escritos provavelmente por Esdras.
De fato, verifica-se que a narrativa de Rute encerra-se com
a referência a Davi (“e Obede gerou a Jessé, e Jessé gerou a
Davi” – Rt 4.22). Seria de todo improvável que um livro
escrito após a monarquia (e no período pós-exílico!) não citasse
qualquer outro rei de Israel, principalmente Salomão.
II – O CONTEXTO HISTÓRICO
No capítulo anterior, apresentamos um panorama do contexto
histórico do livro de Rute, os dias dos juízes (Rt 1.1). Esse
período, que durou mais de três séculos, começou depois da
morte de Josué (por volta de 1375 a.C.) e estendeu-se até o
início da monarquia de Israel com a ascensão de Saul ao trono
(1050 a.C.). Os fatos narrados em Rute devem ter ocorrido
mais para o fim dos dias dos juízes em função da proximidade
geracional com Davi: Boaz gerou a Obede; Obede gerou a
Jessé, e Jessé gerou a Davi (Rt 4.21,22). Apenas três gerações,
portanto, separam Rute de Davi.
1. No tempo dos juízes
Os dias dos juízes foram marcados por uma grande anarquia e
uma profunda apostasia e infidelidade do povo hebreu (Jz 1.7-
19). Como já assinalado,uma frase que identifica bem esse
período é: “cada qual fazia o que parecia direito aos seus
olhos” (Jz 17.6). A Nova Tradução da Linguagem de Hoje
traduz como: “cada um fazia o que bem queria”. Isso
demonstra o quadro anárquico que estava em Israel, bem
diferente do propósito e da ordem de Deus estabelecida por
intermédio de Moisés, que previa uma unidade nacional sob a
obediência da Lei (Dt 31.12,13).
A sensação de estabilidade pela conquista da terra e o seu
estabelecimento nas cidades (Js 2.6), somado à convivência
com os povos cananeus que não foram desalojados,
produziram uma drástica mudança no coração da nação
israelita ao longo das gerações. Josué advertira ao povo que
não se misturasse às nações que haviam ficado na terra e que
sequer fizessem menção aos nomes dos seus deuses (Js 23.7).
O povo deveria manter um extremo zelo de Deus e da sua
Palavra, obedecendo a Ele em tudo e buscando viver isento de
todos os costumes dos cananeus que permaneceram na terra,
mas Israel fez o contrário de tudo isso.
2. Secularismo, hedonismo e idolatria
O principal marco da transição da fidelidade do culto hebreu
para a frieza, o declínio e a apostasia foi a morte de Josué e dos
demais líderes do seu tempo. A nova geração, que não tinha
uma profunda comunhão com Deus e não conhecia o que Ele
havia feito em favor do povo hebreu, desviou-se do caminho.
O resultado disso foi uma rápida corrupção moral e espiritual
da nação (Jz 2.7-13). Israel cedeu ao estilo de vida pecaminoso
e aos deuses dos cananeus. O pervertido culto a Baal (o deus
da tempestade e da chuva) e a Astarote (a deusa do amor e da
fertilidade) passou a ser praticado pela nação num degradante
nível de imoralidade e idolatria.
A nação de Israel tornou-se secularista, hedonista e idólatra,
entregando-se aos prazeres carnais e aos ídolos dos cananeus,
como analisa Matthew Henry (2022, p. 97, 98):
Toda essa geração em alguns anos se esfriou, suas boas instruções e exemplos
morreram e foram enterrados com eles e surgiu outra geração de israelitas que
tinha tão pouca compreensão da religião e se preocupava tão pouco com ela
que, apesar de todos os benefícios da sua educação, podemos verdadeiramente
dizer que não conheciam o Senhor da forma correta, ou seja, não o conheciam
como havia se revelado; completamente devotados ao mundo ou tão
indulgentes com a carne no que se referia ao ócio e a luxúria, que não davam a
mínima importância para o verdadeiro Deus e à sua santa religião. Dessa
forma, foram facilmente atraídos aos falsos deuses e às suas superstições
abomináveis.
[…]
Quando abandonaram o único e verdadeiro Deus não se tornaram ateístas,
nem eram tão insensatos a ponto de dizer: Não há Deus. Mas eles seguiram
outros deuses. Retinham tanto da natureza pura a ponto de dizerem que existia
Deus, mas também permanecia tanto da natureza corrupta que multiplicavam
os deuses. Eles estavam dispostos a aceitar qualquer deus, e seguir a moda, não
a regra, na adoração religiosa.
Geralmente, ocorre assim: as gerações piedosas vão sendo
atraídas pelos costumes das sociedades mundanas, em busca
de prazer e entretenimento, até serem roubadas no seu
coração, abandonando a prática da verdadeira religião, o culto
ao Deus Eterno. O passo seguinte é flertar com falsas práticas
religiosas até assumir novos deuses.
Lições para todos os Tempos
Algumas lições espirituais fundamentais podem ser extraídas
do trágico exemplo de Israel no período pós-conquista.
A primeira é sobre o quanto é importante uma liderança
madura, experiente e temente a Deus, que tenha força moral e
espiritual para ser exemplo com a própria casa e conduzir o
povo em serviço, obediência e adoração. Josué foi esse tipo de
líder. Quando o povo fica sem condutores idôneos, os
prejuízos são incalculáveis em toda e qualquer época. No
Reino de Deus, não basta ter carisma para liderar; é preciso
ter caráter aprovado (1 Tm 3.2-13; 2 Tm 2.15; Tt 2.7,8).
Nesse sentido, é imperativo que, como igreja, valorizemos
mais os líderes locais, que pastoreiam com zelo o rebanho do
Senhor, fortalecendo os vínculos da comunidade de fé a que
pertencemos (Hb 13.7,17; 1 Ts 5.12,13).
A segunda é sobre como é imprescindível o ensino das
Escrituras como base norteadora de todas as nossas condutas
individuais e coletivas. Como Moisés havia ordenado, o povo
deveria ser reunido — homens, mulheres, meninos e os
estrangeiros — para ouvir, aprender e temer a Deus,
guardando todas as suas palavras. Cumprir essa ordem hoje é
ser, o tanto quanto possível, assíduo e ativo nos cultos
ordinários da igreja, especialmente o de oração e ensino e a
Escola Dominical. A valorização mútua e o zelo
congregacional são recomendados a todos (Hb 10.24,25).
A terceira lição que podemos extrair do infeliz exemplo de
Israel nos anos posteriores aos dias de Josué é o cuidado de
que precisamos ter para não sermos seduzidos pelo estilo de
vida mundano da sociedade que nos cerca. É fato que o modo
de vida fácil e os costumes aparentemente agradáveis dos
grupos sociais com os quais convivemos têm um forte poder
atrativo; afinal de contas, fazer a vontade de Deus com o zelo
que nos recomendam as Escrituras pode ser visto como um
fardo muito pesado, principalmente quando se refere a
aspectos culturais não recomendados pelas igrejas
conservadoras.
O fato é que não é possível flertar com o mundo e os seus
prazeres e, ainda assim, conservar o coração ardente pela
presença de Deus. Os entretenimentos mundanos não são
neutros como se imagina. Assim, embora não devamos ser
radicais, não podemos também nos esquecer de que nosso
modo de viver deve ser santo em tudo (1 Pe 1.13-16) e de que
tudo o que fizermos deve ser para a glória de Deus, não dando
escândalo nem aos judeus, nem aos gregos, nem à igreja de
Deus (1 Co 10.31,32). É para isso que fomos chamados.
No caso de Israel, é certo que a aproximação do estilo de
vida cananeu foi ocorrendo aos poucos, como se não tivesse
importância; como se prejuízo nenhum causasse, até ao ponto
da apostasia total e do degradante declínio que marcou os dias
dos juízes, ou seja, com muita opressão, angústias, mortes,
tristezas e profundas desolações.
É como diz a ilustração da rã na chaleira: se for posta numa
chaleira cheia de água fervendo, ela logo saltará para fora;
mas, se a água estiver à temperatura ambiente, ela
permanecerá até que a água ferva e ela morra cozida.
3. Opressão, clamor e livramento
O Deus de Israel cumpriu integralmente a sua Palavra
enquanto a nação foi fiel a Ele. Como escreveu Josué: “Palavra
alguma falhou de todas as boas palavras que o SENHOR falara
à casa de Israel; tudo se cumpriu” (Js 21.45). Isso mostra o
inestimável valor da confiança em Deus, a despeito de
qualquer circunstância. Enquanto permaneceu fiel a Deus, o
povo de Israel desfrutou de proteção sobrenatural: “[…]
nenhum de todos os seus inimigos ficou em pé diante deles;
todos os seus inimigos o SENHOR deu na sua mão” (Js 21.44).
Tudo mudou quando o povo pecou. Com a apostasia, a
nação tornou-se presa fácil dos seus inimigos, cujos exércitos
atacavam e saqueavam as cidades e terras de Israel, mantendo
o povo sob o seu domínio opressor por longos períodos (Jz 3.7-
9;12-14;4.1-3;6.1-6). Afligida, a nação clamava a Deus, e o
Senhor levantava juízes para libertar o seu povo (Jz 2.18).
Como já observado, esses juízes não eram magistrados civis
que julgavam em fóruns ou tribunais, como conhecemos hoje,
embora alguns estudiosos, como, por exemplo, D. A. Carson,
considerem que eles também se dedicavam a dirimir conflitos
entre o povo, sem indicar, contudo, um exemplo prático desse
ofício entre os juízes mencionados em todo o período.3 O que
temos registrado nas Escrituras é que esses juízes eram, em
geral, líderes militares, como Otniel, Baraque e Gideão (Jz 3.9-
11; 4.10-15; 7.16-25), poderosamente usados para “julgar” a
causa do povo de Israel, livrando-o dos seus opressores. Apesar
dos repetidos ciclos de infidelidade de Israel, Deus ouvia o
gemido do seu povo nos seus momentos de dor e aflição (Jz
2.18). O Senhoré longânimo (Sl 103.8; Jl 2.13; Rm 2.4), e as
suas misericórdias são a causa de não sermos consumidos (Lm
3.22). Ele está pronto para ouvir os que clamam a Ele (Jr
29.12,13; Is 55.6).
III – PROPÓSITO E MENSAGEM
Para compreender o propósito de um livro, é preciso buscar
conhecer a mente do autor a partir do conteúdo da sua obra.
O hermeneuta bíblico não pode atribuir o seu próprio sentido
ao texto, mas dedicar-se para extrair da Escritura a intenção
do autor e a mensagem contida na obra. Assim, à luz do texto
de Rute, vários propósitos podem ser vistos. Gleason L. Archer
Jr. (2012, p. 344) apresenta uma síntese:
O propósito do livro é narrar um episódio entre os ancestrais de Davi que
explicava a introdução de sangue não israelita na linhagem da sua família.
Ensina também o grande alcance da graça de Deus, pronto a dar as boas-
vindas, na comunhão do seu povo redimido, aos convertidos gentios. Talvez o
aspecto de maior importância dessa curta narrativa seja exibir a função do go’el
ou “parente resgatador”.
1. O cetro de Judá
Sem dúvida, o principal e mais evidente propósito do livro é o
registro da linhagem de Davi (Rt 4.18-22). Rute apresenta-o
como descendente de Judá, que é a tribo real da qual viria o
Messias, “[…] o Leão da tribo de Judá, a Raiz de Davi” (Ap
5.5). Gênesis 49.10 diz: “O cetro não se arredará de Judá, nem
o legislador dentre seus pés, até que venha Siló; e a ele se
congregarão os povos”. Embora Rúben fosse o primogênito de
Jacó, o seu ato de desonra ao leito do pai, deitando-se com a
sua concubina, fez com que perdesse a primogenitura (a sua
posição de liderança) (Gn 35.22; 49.4). A promessa feita a
Abraão seguia, agora, pela linhagem de Judá. Se Samuel for o
autor do livro de Rute, o propósito de apresentar a genealogia
de Davi ganha ainda mais sentido, já que era Saul, um
benjamita, quem ocupava o trono naquele tempo (1 Sm 9.1,2;
25.1; 26.1.2). O registro da ancestralidade de Davi funcionaria
como uma legitimação para o futuro rei de Israel.
2. Amor e redenção
Rute é uma peça indispensável na metanarrativa bíblica que
revela o amor divino pela humanidade, manifestado através do
plano de redenção, que culminou com o envio do Filho de
Deus ao mundo para, uma vez encarnado, oferecesse a si
mesmo como sacrifício perfeito no lugar de toda a
humanidade (Jo 1.1-14; 3.16; Gl 4.4,5). Esta é a mensagem
principal do livro: o amor de Deus e o seu plano de redenção
da humanidade sem acepção de pessoas (At 10.34-44). Como
representantes de judeus e gentios, respectivamente, Boaz e
Rute prenunciam a derrubada da parede de separação (Ef
2.11-16). A redenção é vista no livro nos sentidos literal e
tipológico. Boaz é tanto o parente remidor que perpetuou a
descendência de Elimeleque, como também um tipo de Cristo,
nosso eterno Redentor (Is 59.20; Lc 1.68; Ef 1.7; Tt 2.14).
3. Fidelidade e altruísmo
O período dos juízes tinha como característica principal a
busca egoística dos próprios interesses. Era cada um por si.
Paradoxalmente, o livro de Rute é um oásis de altruísmo.
Noemi, viúva e sem filhos, prefere o bem-estar das suas noras,
liberando-as para voltar para as suas respectivas famílias. Não
pensou em si mesma (Rt 1.8-15). Uma jovem moabita deixa a
terra dos pais para acompanhar a sua sogra, já idosa, que não
tinha nenhuma perspectiva material ou humana de trazer-lhe
um futuro promissor (Rt 1.16,17). Pobre e sem filhos, Noemi
não tinha realmente o que oferecer a Rute. Já em Belém, o
comportamento de Rute foi voltado integralmente para a
proteção e o cuidado da sogra — e de forma voluntária (Rt
2.2,17,18). Rute não esboçou uma atitude sequer que lhe
pudesse favorecer em primeiro lugar, como a busca de um
casamento com qualquer homem belemita (Rt 3.10). Na
verdade, o interesse por casar-se não surgiu da decisão dela,
mas da específica orientação da sogra (Rt 3.1-6).
Esse comportamento de Noemi e Rute dá uma eloquente
mensagem: o valor do altruísmo num mundo dominado pelo
egoísmo. Enquanto nos dias dos juízes todos viviam segundo
os seus próprios padrões e interesses (Jz 21.25), Noemi e Rute
exalam abnegação, destoando dessa máxima individualista.
Sogra e nora não pensavam em si mesmas. Elas praticaram o
amor que não busca os seus próprios interesses (1 Co 13.5).
Por todo esse cenário de benevolência, o livro de Rute
permite-nos saber que nem tudo eram trevas nos dias dos
juízes. Havia um remanescente fiel, que temia ao Senhor Deus
e foi usado para cumprir os seus propósitos (Jó 42.2). Como
destaca R. Clyde Ridall (2020, p. 160):
Este livro revela que a nobreza e a graça não desapareceram de Israel, até
mesmo naqueles dias mais rudes de agitação e anarquia. A verdadeira piedade
e simplicidade do modus vivendi nunca deixaram de existir, nem mesmo no
meio de um período tão rústico.
Conforme descobriu Martinho Lutero (1483–1546), em um
mundo de crescente iniquidade, o justo vive pela fé (Mt
24.12,13; Hc 2.4).
CONCLUSÃO
O livro de Rute mostra-nos que o Deus da providência é
soberano e continua no controle da história. Os seus
propósitos eternos e tudo o que planejou não podem ser
frustrados. A despeito da incredulidade e dos pecados do
homem, o Senhor trabalha para cumprir os seus desígnios. O
que Ele precisa é encontrar quem esteja disposto a obedecer-
lhe em tudo (Ez 22.30). Assim, sem quebrar o princípio do
livre-arbítrio, Ele conduz a história e executa os seus elevados
planos. O Senhor é fiel em todo o tempo.
1 N. do E.: A Alta Crítica objetiva fazer uma análise das obras literárias bíblicas e
lida com questões sobre a autenticidade do texto, a autoria, a data e as
circunstâncias da obra. Já a Baixa Crítica busca achar a escrita original do texto, já
que não mais possuímos os textos originais.
2 Leon Morris cita essa fonte (Talmude, Baba Bathra, 14b), porém considera ser
uma tradição recente, que não parece ter base sólida para indicar com precisão a
autoria do livro (1986, p. 213).
3 A referência invocada por D. A. Carson e que poderia atribuir aos juízes o ofício
de julgar causas civis é Rute 4.12, mas esta, além de não estar relacionada aos
libertadores levantados por Deus para o livramento do seu povo nos moldes vistos
no livro de Juízes, está relacionado a um costume negocial comum e absolutamente
distinto.
O
Capítulo 3
RUTE E NOEMI:
ENTRELAÇADAS PELO AMOR
INTRODUÇÃO
afetuoso e inspirador relacionamento entre Noemi e Rute
resultou de uma atitude no mínimo paradoxal do belemita
Elimeleque. No crítico período dos juízes, um efrateu deixa
Belém por causa da fome que assolava Israel e vai com a sua
família peregrinar nos campos de Moabe.1 A ação de
Elimeleque — nome que, no hebraico, significa “Meu Deus é
Rei” — não é objeto de aprovação ou reprovação expressa no
texto sagrado. Contudo, é mesmo um paradoxo que um judeu
piedoso precisasse deixar Belém (heb, Bethlehem, “casa do pão”)
em busca de sobrevivência para ele e a família nos campos dos
moabitas, um povo pagão e historicamente inimigo de Israel.
Decerto, não havia um clima de beligerância entre os povos
naquele período específico; tanto é verdade que os belemitas
encontraram franco acesso a Moabe, e famílias de efrateus e
moabitas entrelaçaram-se por meio de vínculos conjugais. De
qualquer sorte, o ato revela a gravidade da crise em solo
israelita, decorrente da apostasia de Israel.
Quanto a Elimeleque, não há como deixar de considerar
que lhe faltou fé perseverante para permanecer em Belém, a
despeito da crise que vivenciava. Para os que cogitam ter como
certa a atitude de Elimeleque por ele estar buscando garantir a
sobrevivência da sua família, é preciso considerar que justificar
nossas decisões vacilantes pelas circunstâncias adversas que
enfrentamos é uma flagrante negação do valor da confiança
em Deus e na sua providência. A verdadeira fé é fortalecida e
provada nos momentos mais críticos da vida (1 Pe 1.7).
I – A PROPOSTA DE NOEMI
1. Uma crise em família
Não sabemos quanto tempo Elimeleque viveu em Moabe. A
narrativa bíblica indica que a família permaneceu junta por
algum período (Rt1.2). Algum tempo depois, morreu
Elimeleque, deixando a sua esposa, Noemi, com os seus dois
filhos, Malom e Quiliom, que, à época, já tinham idade para
casarem-se. Apesar de não haver idade mínima para o
casamento no mundo antigo (Yamauchi, 2023, p. 397), os
homens, pelo menos, não se casavam muito cedo. Isaque, por
exemplo, casou-se aos 40 anos (Gn 25.20).
Malom, o filho mais velho, casou-se com Rute. Quiliom
casou-se com Orfa. O texto sagrado informa que a família
belemita ficou em Moabe “quase dez anos” (1.4), o que
corresponde, provavelmente, a todo o tempo de permanência
desde a chegada àquelas terras. Ao fim desse período,
morreram Malom e Quiliom. Estudiosos do Antigo
Testamento consideram que a morte prematura dos filhos de
Noemi deveu-se às condições de saúde de ambos, que não
seria boa desde a infância. Conforme Leon Morris, (1986, p.
233), “Malom possivelmente é derivado da raiz hlh ‘estar fraco’
ou ‘doente’”, assim, “neste caso, teria sido uma criança
doentia”, completa Morris. O mesmo autor afirma que
“Quiliom também é nome que tem conotações desagradáveis,
visto que significa algo como ‘definhando’, ‘falhando’ ou
mesmo ‘destruição’”.
Malom e Quiliom deixaram viúvas as moabitas Rute e Orfa.
O significado geralmente atribuído ao nome de Rute é
“amizade”. Quanto ao nome de Orfa, Morris diz que
“aparentemente é da mesma raiz da palavra hebraica para
‘pescoço’ (orep)”. “Se na língua moabita as palavras forem
similares, o nome poderia significar ‘firmeza’ (cf. ‘pescoço
duro’)”, completa Morris. Com a morte do marido e dos
filhos, a vida de Noemi (heb., “agradável”, “amável”,
“deleitável”) tornou-se amarga, como ela mesma diria tempos
depois, preferindo ser chamada de Mara (“amarga”,
“amargosa”) (Rt 1.20).
2. Tirando força da fraqueza
Nenhuma família está livre de viver tragédias, nem mesmo as
mais piedosas. O que dizer da família de Jó, que tinha como
sacerdote um homem “sincero, reto e temente a Deus; e [que]
desviava-se do mal” (Jó 1.1)? A família, como diz Every-
Claiton (2020, p. 13), é a célula em que age o Deus da história.
Noemi não tinha consciência disso enquanto enfrentava o
furacão de problemas que lhe roubou a alegria, assim como
cada um de nós não consegue, em tempos de crise,
compreender claramente o que o Senhor está querendo de nós
por meio dos processos nos quais faz passar. Como observa
Cabral (2023, p. 86), Noemi não podia imaginar o plano
presciente do Senhor em todas aquelas circunstâncias. A
questão, contudo, não é tentar explicar as tragédias, como se
tivéssemos domínio racional sobre elas, mas comportar-nos de
um modo responsável, perseverando no cumprimento de
nossos deveres, mesmo que não vejamos luz alguma no fim do
túnel. Acima de tudo, precisamos continuar confiando em
Deus. Mesmo que seja difícil, se tivermos desenvolvido um
relacionamento com o Todo-Poderoso, conheceremos o seu
caráter santo, justo e bom e confiaremos que “todas as coisas
contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a
Deus, daqueles que são chamados por seu decreto” (Rm 8.28).
Essa reverente confiança nada tem a ver com a negação da
realidade. Não é sábio viver um cristianismo triunfalista, que
não admite que o cristão possa enfrentar dificuldades,
frustrações, perdas e sofrimentos. Todas as pessoas, inclusive
as cristãs, estão sujeitas a grandes tragédias; a diferença é como
cada um comporta-se em meio às tempestades da vida (Ef
6.13; Mt 7.24-27). Salomão escreveu: “Quando os dias forem
bons, aproveite-os bem; mas, quando forem ruins, considere:
Deus fez tanto um quanto o outro, para evitar que o homem
descubra alguma coisa sobre o seu futuro” (Ec 7.14 – NVI).
Noemi soube ser equilibrada em meio à profunda crise que
estava vivendo: ela não escondeu os seus sentimentos, mas
também não os explorou com autopiedade ou
autocomiseração. Isso pode ser observado pelas atitudes que
teve em dois momentos distintos. O primeiro foi quando “se
levantou ela com as suas noras e voltou dos campos de Moabe,
porquanto, na terra de Moabe, ouviu que o SENHOR tinha
visitado o seu povo, dando-lhe pão” (Rt 1.6). Noemi estava
desolada, mas não ficou prostrada. Não podemos deixar de
agir e cumprir nossas obrigações diárias quando as tristezas
querem nos consumir. Fazer o que precisa ser feito a cada dia
e todo o dia é um segredo para não sucumbir em meio às
crises. Nossos deveres diários contribuem, e muito, para o
processo de superação de nossas angústias. Salomão escreveu:
“Se você vacila no dia da dificuldade, como será limitada a sua
força!” (Pv 24.10, NVI).
Já na NAA, aparece o adjetivo “fraco” nesse mesmo
versículo: “Se você se mostra fraco no dia da angústia, é
porque a sua força é pequena”. Trata-se de “raphah”, no
hebraico, com o sentido de “afundar”, “relaxar”, “deixar
cair”; ou seja, tem a ver com a atitude pessoal tomada durante
a crise, e não com o estado interior. No aspecto subjetivo,
angústia; mas, na prática, ações concretas, iniciativas. Quando
soube que o Senhor havia abençoado o seu povo, “se levantou
ela”, ou seja, Noemi, com as suas noras para voltar a Belém
(Rt 1.6,7). A atitude de Noemi é própria de quem tem espírito
de liderança. Mesmo em meio à tristeza e à dor que sentia pela
perda do marido e dos filhos, Noemi não ficou prostrada. A
distância entre os campos de Moabe e Belém era superior a
120 quilômetros. Idosa, Noemi teria que subir e descer
montanhas em tempos tão remotos, viajando não se sabe por
quais meios de transporte e suportando as intempéries
climáticas (Cabral, 2016, p. 95). Ela soube tirar força da
fraqueza (Hb 11.34). Se tivesse se entregado aos seus
sentimentos, jamais teria tomado uma decisão tão corajosa.
A lição que tiramos desse exemplo de Noemi é: os
problemas da vida não podem nos paralisar (Pv 24.10). Depois
da crise, vem a bonança. Noemi experimentou essa verdade,
como veremos mais à frente na história. As desistências fazem-
nos perder bênçãos extraordinárias. Confiar em Deus e seguir
em frente é sempre o caminho certo. Nas atitudes práticas, de
nossa responsabilidade, está a parte da terapia que pode
ajudar-nos a superar os dramas da vida.
Desistir de objetivos comuns da vida tem sido altamente
prejudicial para a saúde emocional e espiritual de muitas
pessoas. Noemi levantou-se e voltou para Belém.
3. Sem manipulação emocional
Outra extraordinária lição que nos transmite Noemi é a
importância de não usar nossos quadros tristes da vida para
manipular e explorar as pessoas que nos cercam. Além de
conservar-se ativa, Noemi soube equilibrar as suas emoções
com a assunção das suas responsabilidades, não se vitimizando
diante das suas noras, tentando constrangê-las a permanecer
junto dela. É razoável entender que uma mulher idosa precisa
mesmo de alguém para fazer-lhe companhia e oferecer
cuidados — como fez Rute a Noemi —, só que esse tipo de
relacionamento não pode ser construído com base em
manipulações. Rute e Orfa decidiram voluntariamente
acompanhar Noemi de volta a Belém.
O texto bíblico informa-nos que elas puseram-se de
caminho junto com a sogra: “Pelo que saiu do lugar onde
estivera, e as suas duas noras, com ela […]” (Rt 1.7). Não se
sabe que distância percorreram, mas não deve ser sido longa.
A narrativa permite-nos entender que, tão logo começaram a
viagem, Noemi decidiu liberar Rute e Orfa para que voltassem
à casa dos pais (Rt 1.7,8; 2.11). Mesmo de avançada idade,
Noemi pensou primeiro nas suas noras e no futuro delas. As
noras tinham cumprido bem o papel de esposas, assim como
eram dedicadas à sogra. De volta às suas origens, poderiam
casar novamente e constituir família (Rt 1.8-13).
Noemi assumiu a sua condição pessoal sem apelar aos
sentimentos das noras. Esse tipo de conduta é fundamental
para a construção de relacionamentos saudáveis. Ter
dependência patológica de outra pessoa é sintoma de profunda
carência afetiva. Embora dependamos uns dos outros, não é
possível sustentar uma boa convivência se não houver
interdependência, manifestada em reciprocidade,
mutualidade, compartilhamento, cooperação, equilíbrio e
confiança.Pessoas que sofrem de carência afetiva terminam
tornando-se um grande peso em qualquer relacionamento.
Quando isso se agrava, costuma atingir níveis perigosos, que se
exteriorizam das formas mais diversas. O ciúme desmedido é
um desses terríveis quadros produtores de tragédias.
O excessivamente carente usa a sua doentia condição para
manipular os outros. Não raras vezes, esses quadros são
sustentados por problemas espirituais não resolvidos (ou mal
resolvidos); falta de maturidade espiritual; ausência de uma
vida cristã autêntica, na correta compreensão do que é ser
discípulo de Cristo (Lc 9.23). A manipulação é sutil e costuma
manifestar-se desde a infância (Pv 20.11). O pecado não
escolhe idade. Pais permissivos mostram-se emocionalmente
fracos diante dos filhos e tornam-se presas fáceis das suas
manipulações. Desse tipo de criação, vêm adultos
emocionalmente débeis, com baixo nível de maturidade e
independência emocional — e isso também se reflete no
aspecto espiritual. Pessoas emocional e espiritualmente sadias
não são manipuladoras; buscam — o quanto podem —
resolver os seus próprios problemas, entendendo os limites de
uma dependência mútua saudável, numa vida de cooperação e
reciprocidade.
II – A CONVICÇÃO AMOROSA DE RUTE
1. Uma amizade provada e aprovada
Por que Rute persiste e Orfa desiste? O sentimento e a força
moral de Orfa não eram tão intensos quanto os de Rute. Isso
ficou demonstrado na sua decisão após a insistência de Noemi
para que ficassem em Moabe. Num primeiro momento, Orfa
não atendeu a palavra de Noemi. Assim como Rute, beijou a
sogra e, chorando em alta voz, garantiu que a acompanharia
na viagem de volta ao seu povo (Rt 1.9,10). Noemi insiste para
que as noras voltem para a casa dos pais. Ela não poderia
oferecer a elas outros filhos para que se casassem (Rt 1.11-13).2
As palavras de Noemi certamente levaram Orfa a refletir
um pouco mais. Embora fosse apegada à sogra, realmente não
havia indicação alguma de que pudesse ter um futuro melhor
ao lado de uma idosa pobre e sem filhos. Isso deve ter pesado
na decisão de Orfa, além do fato de não haver no seu coração
uma convicção profunda de que devesse escolher o caminho
da dificuldade, rejeitando o estilo de vida dos moabitas, com as
suas licenciosidades e idolatrias. Não é demais tirar essa
conclusão do texto pelas palavras de Noemi após a decisão de
Orfa (Rt 1.14,15).
A fé de Orfa era emotiva, porém fraca. Infelizmente, muito
se vê disso no cristianismo evangélico atual. Pessoas que se
emocionam e choram, mas que são desprovidas de convicção
na hora de tomar atitudes ao lado da verdade do evangelho.
Como diz Matthew Henry: “Fortes sentimentos, sem uma
opinião bem definida, normalmente produzem decisões
fracas” (2022, p. 196). O mesmo autor observa: “Aqueles que
assumem uma profissão de fé somente por complacência dos
parentes, ou para agradar seus amigos, ou por causa da
companhia, serão convertidos por pouco tempo” (ibid., p.
197).
Orfa voltou “ao seu povo e aos seus deuses”, o que
demonstra não ter sido uma mera decisão de voltar para a
casa dos pais, à espera de uma nova oportunidade de
casamento. Foi um retorno ao modus vivendi moabita, que
incluía o culto politeísta, de cujo panteão Quemos era o deus
principal.3 Orfa convenceu-se de que ficar em Moabe era o
melhor para ela. Chorando, abraçou a Noemi e voltou para o
seu povo. Rute, porém, apegou-se a Noemi (Rt 1.14). A
firmeza e o altruísmo de Noemi novamente se revelam,
insistindo para que Rute fizesse o mesmo que a sua cunhada
(1.15). A atitude de Noemi extraiu o que havia no mais íntimo
de Rute: uma convicção amorosa por sua sogra, além de uma
declaração de fé no Deus de Israel (1.16). As verdadeiras
amizades resistem às mais intensas provas.
Abraão, que recebeu o título de amigo de Deus (Tg 2.23),
teve o seu amor ao Senhor provado de forma absolutamente
intensa, com o pedido de entrega do próprio filho. Deus estava
extraindo de Abraão algo mais intenso e puro, demonstrado
através da extraordinária oferta de Isaque. É isso que podemos
entender da expressão do Anjo do Senhor: “[…] agora sei que
temes a Deus e não me negaste o teu filho, o teu único” (Gn
22.12). Assim como Noemi, Deus quer que tenhamos um
relacionamento sincero e profundo com Ele, pautados numa
entrega total. As provas servem para Ele extrair o que
realmente há em nosso coração. Se respondemos
afirmativamente, com obediência e fé, o Senhor agracia-nos
com a sua terna, profunda e providencial amizade: “Vós sereis
meus amigos, se fizerdes o que eu vos mando” (Jo 15.14). Isso
resulta em muitas bênçãos. Dentre elas, um conhecimento maior de
seus mistérios (“[…] tenho-vos chamado amigos, porque tudo
quanto ouvi de meu Pai nos tenho feito conhecer”) e acesso para
recebermos o que lhe pedimos (“[…] a fim de que tudo quanto em
meu nome pedirdes ao Pai ele vos conceda”) (Jo 15.15,16).
Veremos nos próximos capítulos como isso se tornou realidade
na vida de Rute, que, aliás, recebeu muito além do que pedia
ou pensava (Ef 3.20).
2. Amizade na adversidade
As verdadeiras amizades não cedem às conveniências ou
pressões do momento. Amigo que muda de lado facilmente ao
sabor dos seus interesses não é amigo verdadeiro. A amizade
de Rute e Noemi mostrou-se realmente profunda e
surpreendente. Salomão escreveu: “O amigo ama em todos os
momentos; é um irmão na adversidade” (Pv 17.17 – NVI). No
período da monarquia judaica, temos o belo exemplo da
amizade entre Davi e Jônatas (1 Sm 18.1) a despeito da fúria
do rei Saul. A disposição de Jônatas em ser amigo de Davi
mostrou-se mais forte que as injustas investidas do seu pai (1
Sm 20.1-4).
Rute também estava disposta a enfrentar toda e qualquer
dificuldade em nome do sentimento que devotava a Noemi. As
expressões “onde quer que pousares à noite, ali pousarei eu” e
“onde quer que morreres, morrerei eu” (Rt 1.16,17)
demonstram o grau de companheirismo e comprometimento
da jovem moabita, que não ficou somente em palavras, mas
transformou-se em atitudes concretas por toda a vida. Em dias
de tanto individualismo, uma reflexão que precisamos fazer é
quanto ao nível de nossos relacionamentos. O sociólogo e
filósofo polonês Zigmunt Bauman (1925–2017), que muito
escreveu sobre modernidade líquida, costumava apontar para
as fragilidades das amizades atuais, que são tão múltiplas e
mostram-se tão “quentes” no ambiente virtual, mas que são
tão poucas e incrivelmente frias na vida real. O tipo de
companheirismo e comprometimento de Rute às vezes não se
é visto nem mesmo no ministério da igreja.4 O cristão tem o
imperativo de amar uns aos outros (Jo 13.34), combustível
indispensável para amizades verdadeiras e duradouras.
3. Um amor prático
O amor de Rute não era apenas verbal ou sentimental; era
prático. Chegando a Belém, Rute não ficou parada, envolta
em expectativas fantasiosas. Ela dedicou-se ao trabalho diário
nos campos de Belém (Rt 2.2).
Está crescendo em nossos dias a chamada Teologia do
Coaching, que, embora reúna conselhos práticos — muitos
deles extraídos das Escrituras Sagradas —, tem sido crida por
muitos como um meio fácil de alcançar sucesso na vida. Isso
produz uma espiritualidade superficial, que desconsidera a
necessidade de percorrer caminhos difíceis, porém reais, e a
prática fiel e perseverante dos princípios da Palavra de Deus
sem elevadas pretensões, como fez Rute na sua dura vida em
Belém.
A justiça de Deus não combina com uma espiritualidade
que imagina a possibilidade de cortar caminhos, valendo-se de
uma espécie de “poções mágicas”. Conquanto não devamos
ser radicais, também não devemos ser ingênuos, como
meninos na fé (cf. Ef 4.14). O amor de Rute era prático, assim
como a sua espiritualidade. Ela confiava no Deus de Noemi, o
Deus de Israel, o que demonstrou através de atitudes firmes,
sérias, responsáveis e puras.
Repartição e Responsabilidade
O princípio bíblico extraído de Rute e o seu trabalho nos
campos de Boaz — que reflete o ensino dos dias de Moisés —
é: os ricos não podem reter para si toda a riqueza (lei da
repartição), mas tambémnão são obrigados a alimentar o ócio
dos pobres, que deveriam ir ao campo e trabalhar duro para
garantir o seu sustento (lei da responsabilidade). Exceto nos
casos de incapacidade física ou mental, o mesmo princípio vige
até hoje (Gn 3.19; 2 Ts 3.10-13). A Bíblia tem ensino para
todas as áreas de nossa vida, inclusive para o cuidado dos
órfãos e das viúvas, sendo, em relação a estas, específica
quanto ao dever primário da família (cf. 1 Tm 5.4,8).
Fica evidente, portanto, que as Escrituras não sancionam
um assistencialismo sem critérios. Rute dedicou-se ao cuidado
da sua sogra, a viúva Noemi. Por isso, trabalhou muito nos
campos de Boaz. O seu esforço foi logo notado,
impressionando o chefe dos trabalhadores. No fim do dia,
Rute recolhia tudo e levava para a sogra (Rt 2.7,17,18), tendo,
inclusive, o cuidado de reservar para Noemi o que sobrava do
seu próprio alimento diário (Rt 2.17,18). Que exemplo
extraordinário! Como escreveu o apóstolo João, devemos
amar não “da boca para fora, mas de fato e de verdade” (1 Jo
3.18, NAA). Rute não apenas dizia amar; ela praticava o
amor.
III – A CONVICÇÃO DA MULHER: “O TEU
DEUS É O MEU DEUS”
1. Uma fé fervorosa
Um dos sinais do fim dos tempos é a apatia espiritual (Mt
24.12; Lc 18.8-17). Vivenciamos uma realidade preocupante
para muitas igrejas locais e para o cristianismo evangélico em
geral, com esfriamento do amor e o surgimento de muito
misticismo em vez de fé genuína. Um tempo em que cresce
um profetismo de pouca autenticidade — às vezes, nenhuma.
Não se trata de uma visão pessimista, mas realista, à luz das
claras previsões escriturísticas. Apesar disso, não devemos nos
conformar. Rute nos dá o exemplo de uma fé fervorosa; uma
fé viva e não morta, conforme os ensinos de Tiago (Tg 2.14-
18). A sua declaração convicta perante Noemi (Rt 1.16)
demonstra a sua profunda devoção ao Deus de Israel, sob
cujas asas decidiu abrigar-se (2.12). O seu fervor é
demonstrado nas suas atitudes. Rute renunciou ao modelo de
vida frívolo dos moabitas e não seguiu caminhos fáceis entre os
belemitas (3.10); ela manteve uma vida austera e disciplinada e
alcançou uma excelente reputação (3.11).
2. Uma fé que inspira
A fé de Rute foi inspirada na vida e crença da sua sogra. Ao
referir-se ao Deus de Noemi, dava testemunho da sua fé. Em
todos os tempos, as mulheres mais velhas têm a missão de
resistir aos ventos da superficialidade espiritual, sendo
piedosas, dedicadas a Deus e à família, a despeito das pressões
da sociedade mundana. Somente assim poderão inspirar e
ensinar as mais novas (Tt 2.3-5). A participação da mulher,
portanto, é vital em nossos esforços de manter viva a fé que
uma vez foi dada aos santos (Jd 3).
3. Sensibilidade sob liderança
Não há dúvida de que as mulheres também são dotadas de
talentos e dons (naturais e espirituais), que podem ser (e são)
muito úteis no Reino de Deus. Contudo, é inafastável que
também se reconheça que Deus deu ao homem a missão de
liderar, o que começa no seio da família, em decorrência do
sistema patriarcal estabelecido pelo Criador. Como escreve o
pastor Elienai Cabral (2023, p. 94, 96):
Antes de tudo, o sistema patriarcal foi criado por Deus […]. O líder da família
é sempre o pai, não a mãe. A mãe corrobora com o pai para que a disciplina
tenha sempre um caráter de responsabilidade mútua da parte do casal. Os pais
devem ensinar os seus filhos quanto à bondade, à gentileza, às prioridades de
suas vidas, o falar correto e o controle das emoções. Tudo isso é
primordialmente trabalho do chefe da família, o pai.
Isso não é diferente no âmbito da Igreja. As mulheres têm
muito a contribuir com a obra de Deus, e assim o fazem em
diversas áreas do serviço cristão. O Senhor, contudo, também
reservou ao homem a liderança no contexto eclesiástico, assim
como ocorreu na Antiga Aliança, no Sacerdócio Levítico. (No
livro Sejam Firmes – um comentário às Epístolas Pastorais, abordo
esse tema à luz do que Paulo escreveu na sua primeira carta a
Timóteo (1 Tm 2.11-14), além de outros textos, como 1
Coríntios 14.34,35, que não deixam dúvidas sobre a
inexistência de fundamento bíblico para o pastorado feminino.
Como lá escrevi, os textos paulinos muito incomodam os
teólogos progressistas, que não se conformam com ensinos que
contrariam as suas próprias visões de temas relativos a pautas
como, por exemplo, o ministério feminino. Como também
saliento no precitado livro, as mulheres aparecem em vários
pontos do Novo Testamento como importantes cooperadoras
(At 16.11-15; 18.24-26; Rm 16.1-5; Fp 4.3; Cl 4.15). O que
não há nas Escrituras é fundamento para o ministério
feminino de liderança ou pastoreio de igrejas.
O mais sábio, portanto, é que as mulheres cristãs não
percam o foco, entregando-se a discussões e disputas carnais,
que não produzem edificação, mas concentrem a sua fé e
devoção em servir a Deus no glorioso serviço cristão, como
valorosas cooperadoras. Afinal, como enfatizam as Escrituras,
as mulheres têm muito a contribuir, eis que são dotadas não
apenas de talentos, mas de profunda sensibilidade espiritual.
Um exemplo disso é o fato de terem sido as primeiras a
testemunhar e crer na ressurreição de Jesus (Lc 24.1-10; Jo
20.11-18). É de grande valor quando esse extraordinário
potencial feminino é reconhecido e floresce sob uma liderança
séria, que orienta o trabalho da mulher, evitando que seja
explorada na sua fé (Fp 4.3; Rm 16.12; Mc 12.38-40; 2 Tm
3.6,7).
CONCLUSÃO
O relacionamento de Noemi e Rute ensina-nos quão precioso
é o amor altruísta para Deus. Ao pensarem uma na outra e
dedicarem-se ao cuidado mútuo, ambas foram alcançadas pelo
favor divino (Rt 4.13-17). Em um mundo tão narcisista, o
Senhor espera que nos doemos mais uns aos outros. A família
é o primeiro ambiente em que o amor deve ser praticado (1
Tm 5.8). O segundo é nossa igreja local.
1 Em tempos mais remotos do Antigo Testamento, Belém era chamada de “Efrata”,
conforme Gênesis 35.16,19 e 48.7. Assim, Efrata é o nome antigo de Belém. Em
Miqueias 5.2, os dois nomes aparecem juntos: “E tu, Belém Efrata, posto que
pequena entre milhares de Judá […].” Nesse sentido, “efrateu” é sinônimo de
belemita. Pode ser, também, que Belém tenha sido um distrito de Efrata, que
corresponderia a uma área maior nas terras de Judá, nas cercanias de Jerusalém
(Wycliffe, p. 276, 608). É isso que parece sugerir o texto de 1 Samuel 17.12: “E Davi
era filho de um homem, efrateu, de Belém de Judá, cujo nome era Jessé […]”.
2 Noemi já se refere nessa passagem à lei do levirato, sobre a qual provavelmente já
havia conversado com as noras. Isso indica que Noemi transmitia às moabitas quais
eram os costumes e leis de Israel.
3 Conforme o Dicionário Bíblico Wycliffe (p. 770), Quemos era adorado por meio do
sacrifício de crianças. Moloque pode ser um título dado ao próprio Quemos, que
também era adorado pelos amonitas (Jz 11.24). É mencionado em textos como
Números 21.29, 1 Reis 11.7 e Jeremias 48.46.
4 Abordo o tema “Valorizando o Companheirismo” no livro Maturidade Espiritual do
Líder, editado pela CPAD (2017, p. 87/101).
A
Capítulo 4
O ENCONTRO DE RUTE COM
BOAZ
INTRODUÇÃO
história de Rute torna-se cada vez mais empolgante a cada
capítulo, principalmente pelo caráter dialógico da obra.
Em meio ao desenrolar dos fatos que marcam a profunda
amizade entre Noemi e Rute, um terceiro personagem entra
em cena: Boaz, o parente remidor. O autor apresenta-nos esse
belemita como um “homem valente e poderoso, da geração de
Elimeleque” (Rt 2.1). Era, portanto, um parente de
Elimeleque, embora não saibamos de que grau. “Os rabinos
entendiam que Boaz era sobrinho de Elimeleque” (Every-
Clayton, p. 46). Matthew Henry (p. 200), acrescenta: “[Boaz]
era neto de Naassom, príncipe da tribo de Judá no deserto,
filho de Salomão [Salmom], que provavelmente era um dos
filhos mais moços de Raabe, prostituta de Jericó”.
I – BOAZ, O REMIDOR
1. Um homem próspero
Os termos “valente” e “poderoso” referem-se ao caráter
íntegro e à influência de Boaz, além do seu poder econômico.1
Boaz era um grande produtorrural — “um poderoso
fazendeiro”, como sugerem alguns eruditos (Morris, p. 253).
Ele tinha plantações de cevada e trigo e muitos trabalhadores
ao seu serviço (2.5,6,23) — na linguagem de hoje, era um
homem do agronegócio. Boaz, decerto, reunia qualificações
morais e condições econômicas para cumprir o papel de
remidor.
O significado do nome “Boaz” é incerto. Morris (1986, p.
253) diz que o nome pode estar ligado à ideia de rapidez, ou
força. Significaria, talvez, “filho da força”. Warren W. Wiersbe
(2006, p. 181) apresenta um significado semelhante: “nele há
força”.
2. “Goel” e “Levir”
Como já afirmamos, a expressão “da geração de Elimeleque”
não nos permite saber o grau de parentesco entre Boaz e o
marido de Noemi. De qualquer sorte, como parente próximo,
poderia ser o goel, o resgatador da terra que o falecido havia
vendido (Rt 4.3), como também poderia cumprir o costume
antigo do casamento levirato (Gn 38.6-11). Eram duas
prescrições distintas contidas na Lei de Moisés.
A primeira, relativa ao goel, dizia respeito à “solidariedade
familiar”, como ensina Roland De Vaux (1903–1971) (2004,
43):
Os membros da família em sentido amplo devem uns aos outros ajuda e
proteção. A prática particular desse dever é regulada por uma instituição da
qual se encontram em formas análogas em outros povos, por exemplo, entre os
árabes, mas que, em Israel, toma uma forma particular, com um vocabulário
especial. É a instituição do go’el, palavra procedente de uma raiz que significa
“resgatar, reivindicar”, e, mais fundamentalmente, “proteger”.
O go’el é um redentor, um defensor, um protetor dos interesses do indivíduo e
do grupo. Ele intervém em certo número de casos.
Se um israelita precisou se vender como escravo para pagar uma dívida, deverá
ser resgatado por um de seus parentes próximos, Lv 25.47-59.
Quanto um israelita precisa vender seu patrimônio, o go’el tem direito
preferencial na compra, pois é muito importante evitar a alienação dos bens da
família. A lei está codificada em Lv 25.25. É como o go’el que Jeremias adquire
o campo de seu primo Hanameel, Jr 32.6s.
De Vaux vê que essa última hipótese encaixa-se à situação
de Noemi, conjugando-se a hipótese, contudo, com a figura do
casamento pelo levirato (p. 43, 44): “O costume é ilustrado
também na história de Rute, mesmo que aí a compra da terra
se complique por um caso de levirato. Noemi tem uma posse
que a pobreza a obriga a vender; sua nora Rute é viúva e sem
filhos. Boaz é um go’el de Noemi e de Rute”. O papel do
resgatador seria adquirir a terra de maneira que permanecesse
na mesma herdade — no caso, de Elimeleque.
Já a lei do levirato previa que o irmão do cunhado (levir)
casasse-se com a viúva e suscitasse descendência ao falecido
(Dt 25.5-10; Mt 22.24-48). Tudo indica que essa prática foi
ampliada, seguindo uma ordem de parentesco mais
abrangente, semelhante à do resgatador (Lv 25.48,49). No
caso de Boaz, havia um remidor “mais chegado” do que ele
(Rt 3.12).
Ainda citando De Vaux (p. 61), é importante que
consideremos a peculiaridade do caso de Rute, em que as duas
leis — go’el e levir — fundem-se:
A história de Rute combina o costume do levirato com o dever do resgate que
incumbia ao go’el. A lei de Dt 25 não se aplica porque Rute não tem mais
cunhado, Rt 1.11-12. O fato de que um parente próximo deva tomá-la por
esposa, e isso seguindo certa ordem, Rt 2.20; 3.12, indica seguramente uma
época ou um ambiente em que a lei do levirato era um assunto de clã mais do
que de família no sentido estrito. De qualquer forma, as intenções e os efeitos
desse casamento são os de um casamento levirático: trata-se de “perpetuar o
nome do falecido”, Rt 4.5,10; cf. 2.20, do qual a criança que há de nascer será
considerada filha, Rt 4.6; cf. 4.17.
De Vaux contribui ainda para um maior entendimento do
assunto ao afirmar que esse costume tinha paralelos em outros
povos, especialmente vizinhos de Israel. “O Código de
Hamurabi não fala dele, mas as leis assírias consagram-lhe
vários artigos. Nelas não se expressa a condição de que a viúva
não tenha filho, mas isso pode ser devido a uma lacuna do
texto”, explica. De Vaux cita alusões ao levirato em leis
hititas,2 entre os hurritas de Nuzu e talvez em Elam.3
Rute, a Respigadeira
Rute decide voluntariamente ir ao campo respigar (apanhar,
juntar, recolher espigas – heb. laqat). O seu voluntarismo fica
evidente (Rt 2.2). A atitude de Rute mostra-nos a sua
prontidão, própria de uma mulher virtuosa, que “não come o
pão da preguiça” (Pv 31.27) ou “não dá lugar à preguiça”,
como traduz a NVI.4 Uma mulher assim não precisa ser
mandada para cumprir o seu dever; antes, prontifica-se a fazer
além dele, pois foi o que Rute fez. Não necessariamente estava
no script que ela tivesse que ir ao campo respigar.
É importante também considerar que, por trás dessa
prontidão de Rute, estava o conhecimento que ela obtivera,
certamente através de Noemi, acerca da Lei Mosaica em
relação aos pobres, para que os ricos, donos de plantações,
deixassem que recolhessem as espigas que caíssem ao chão
durante as colheitas (Lv 19.9; 23.22; Dt 24.19). Fazem muito
bem os pais que ensinam os seus filhos quanto ao valor e a
importância do trabalho, não lhes permitindo o ócio. Um
baixo nível de comprometimento com o trabalho tem sido
uma das causas de graves problemas nos casamentos, levando
muitos casais e famílias cristãs a amargarem profundas
tristezas, com reflexos negativos na igreja e em toda a
sociedade. Salomão fala sobre o quadro caótico do campo do
preguiçoso — que pode ser lido como o quarto, o escritório, o
carro do preguiçoso (cf. Pv 24.30-34).
Em nossos dias, há o agravante das redes sociais, que têm
roubado o tempo de muita gente, de todas as idades — talvez
mais dos adolescentes e jovens, que costumam passar horas no
quarto, navegando com pouco ou nenhum proveito. Além do
empobrecimento intelectual e econômico, isso pode afetar a
saúde mental e emocional, além de trazer prejuízos espirituais.
Rute demonstrou muita disposição e coragem ao prontificar-se
imediatamente para o trabalho. Apesar das circunstâncias
desfavoráveis que enfrentava junto com a sogra, não se rendeu
às dificuldades — e não por falta de opção para entreter-se,
pois ela poderia muito bem ter optado sair pela cidade,
acompanhado o fluxo da época, seguindo jovens pobres ou
ricos (Rt 3.10).
3. Temor e respeito
Quando lemos Rute 2.1-4, entendemos que Boaz veio ao
campo já no período da tarde, quando o trabalho estava bem
avançado. Logo que chegou, saudou os seus empregados,
demonstrando ser um homem temente a Deus. A invocação a
Jeová (“O Senhor seja convosco”), dirigida a todos os
segadores, também indica o seu respeito aos que trabalhavam
com ele. Os empregados retribuem-lhe com uma saudação
também amistosa e piedosa: “O Senhor te abençoe” (Rt 2.4).
Boaz não chegou perguntando como estava o serviço ou
cobrando resultados. Ele também não foi seletivo ou altivo,
dirigindo-se somente ao chefe dos trabalhadores. Falou com
todos eles: “E eis que Boaz veio de Belém e disse aos segadores
[…]” (2.4). Somente depois Boaz dirige uma pergunta
específica ao chefe dos trabalhadores, relacionada a Rute: “De
quem é esta moça?” (2.5). Essa sequência de fatos revela que
Boaz considerava as pessoas mais importantes que o trabalho
que prestavam. Embora seja razoável que todo o patrão espere
um trabalho produtivo dos seus empregados, o correto é
considerar que as pessoas têm mais valor que o trabalho que
fazem. Assim, buscar falar ao coração de cada uma delas é
mais importante que lhes impor obrigações em nome de uma
mera troca de dinheiro versus tempo e produção.
Analfabetismo Funcional e Distração
É fato também que tem ficado cada vez mais difícil a relação
patrão-empregado diante do crescente analfabetismo funcional
e a sua relação com o ambiente de trabalho. Ao lado disso — e
consequentemente —, crescem as dificuldades com uma
produção mais eficiente, quadro agravado também pelo alto
índice de distração pela forte atração das mídias e redes
sociais. Embora sejaevidente que não poucos empregados
envolvem-se em trivialidades e questões pessoais que
prejudicam o rendimento funcional, confrontar-lhes com a
ideia de “compra do tempo” não é o caminho para resolver o
problema. Em tempos de tanta desumanização do trabalho,
pode parecer utopia, mas falar ao coração das pessoas (ou,
pelo menos, tentar), elas sendo empregadas ou não, é sempre o
melhor caminho.
A constatação dessa realidade não justifica e muito menos
retira o dever dos empregados. Paulo escreveu aos colossenses
que os tais devem trabalhar servindo “em simplicidade de
coração” (Cl 3.22). Na NAA é: “com sinceridade de coração”.
O versículo 23 é mais enfático ainda: “E, tudo quanto fizerdes,
fazei-o de todo o coração, como ao Senhor e não aos
homens”. Assim, não resta dúvida de que a solução é alcançar
essa disposição de coração. Quanto aos patrões, a Palavra de
Deus ensina que devem fazer “o que for de justiça e equidade”
(Cl 4.1).
Pelo padrão bíblico, patrões e empregados devem tratar-se
com mútua consideração, reconhecendo a posição e o papel
próprios de cada um na relação de trabalho (Ef 6.5-9; Cl 3.22-
4.1). Quando o cristão não age assim, seja patrão, seja
empregado, compromete a eficácia do evangelho com o seu
mau testemunho (Mt 5.13-16), além de sujeitar-se ao juízo
divino sobre a sua conduta aqui e na eternidade (Cl 3.24,25;
4.1).
II – O CARINHO DE BOAZ PARA COM RUTE
1. A pureza não exclui a ternura
Logo que chegou ao campo, Boaz notou a presença de uma
moça diferente entre os segadores e foi informado de que se
tratava de Rute, a moabita, que voltara com Noemi dos
campos de Moabe (Rt 2.5,6). Não somente a identificação da
moça e a sua história, que já era conhecida, mas também o seu
comportamento e dedicação ao trabalho sensibilizaram Boaz,
que se dirigiu a ela terna e respeitosamente, chamando-a de
filha — certamente também em função da diferença de idade
que havia entre eles (cf. 2.8).
O gesto de Boaz ensina-nos que o dever de pureza de um
homem para uma mulher não exclui o seu dever de educação,
fineza e, com o devido respeito, expressão de ternura. No caso
de Boaz, a última hipótese era ainda mais cabível, pois Rute
era bem mais nova que ele; assim, poderia tratá-la como filha
(1 Tm 5.1,2). Não é preciso ser rude para ser santo.
Boaz deu a Rute a liberdade de continuar catando espigas
na sua plantação e assegurou-a de que ela seria tratada com o
devido acatamento e respeito (Rt 2.9). Boaz preocupou-se com
a segurança de Rute e, por isso, conferiu a ela “proteção
especial”, conforme observa Carson (ibidem, p. 444). Ser
generoso, gentil e bondoso não retira a masculinidade de
homem algum; pelo contrário, reforça-a. Como destaca o
pastor Douglas Baptista, a generosidade de Boaz é uma das
características da verdadeira masculinidade (2023, p. 72).
Ressaltando a relação que generosidade tem com benignidade
e bondade (Gl 5.22), Baptista mostra o conceito mais amplo do
termo, abrangendo expressões como “carinho”, “meiguice”,
“delicadeza” e benevolência”, como encontramos em Bergstén
(1999, p. 94) e Ribas (2009, p. 297).
Um viver santo não exige que sejamos rudes e descorteses (2
Rs 4.8,9). Jesus, o mais puro dos homens, convivia com todos
(Mc 2.15-17; Jo 4.3-27). Humildade e mansidão são virtudes
essenciais a todo cristão (Mt 11.19).
2. Deus estava agindo
Rute ficou extremamente surpresa com a atenção que recebeu
de um homem tão importante e poderoso. Como estrangeira e
pobre, certamente tinha receio de como seria tratada; por isso
ela agia com educação e muita discrição (Rt 2.7).
Impressionada com o gesto de Boaz, inclinou-se ao chão e, de
forma humilde, reconheceu ser indigna do tratamento que
recebeu (2.10). Os personagens da história não compreendiam
a dimensão do que acontecia. O Deus da providência estava
agindo, construindo todo o cenário necessário para mais uma
importante etapa do seu plano redentor. A linhagem
messiânica precisava continuar. Aquela primeira aproximação
entre Boaz e Rute seria fundamental para o desenrolar dos
próximos eventos.
A providência divina agia, sem desprezar, contudo, a
participação humana na história. Deus não trabalha de forma
arbitrária, violando o livre-arbítrio humano. No exemplo em
estudo, havia uma motivação especial na conduta de Boaz
para o tratamento que dispensou a Rute. Ele já conhecia a
bela história da jovem moabita (2.11). Deus estava, sim,
agindo em favor de Rute, mas não de forma arbitrária, ou
seja, independente da sua conduta.
3. Sensível e espiritual
Os atos de Boaz não eram como uma ficção ou fruto de uma
manipulação psicológica, como não são quaisquer dos atos
humanos, dado o livre-arbítrio assegurado por Deus. Como
enfatiza Silas Daniel (2017, p. 402), as escolhas humanas são
reais, genuínas. Boaz estava agindo dentro de um cenário real.
O Deus da providência estava abençoando Rute em
recompensa pelo seu devotado amor a Noemi e por toda a
reputação que ela havia construído com o seu cuidadoso
comportamento.
O próprio Boaz sabia dessa verdade, ao proferir a
declaração que se tornou um dos versículos-chave do livro (cf.
Rt 2.11). Boaz tinha uma profunda compreensão espiritual.
Ele reconhecia que o Deus dos hebreus não estava limitado a
fronteiras territoriais ou barreiras étnicas. Como servo de
Yahweh, estava sendo usado para abençoar uma piedosa
moabita, uma “mulher convertida” (Gilberto, 2021, p. 397).
As suas palavras tocaram profundamente o coração de Rute e
deram grande conforto a ela (Rt 2.13).
III – A COLHEITA DE RUTE E A SUA
SOBREVIVÊNCIA
1. A lei da semeadura
Apesar de aparentemente vivermos num mundo de
impunidades, há um Deus nos céus que julga todos os atos.
Não é sábio ao cristão agir como se não acreditasse na
providência divina, influenciado por uma cosmovisão secular,
que produz a ilusão de que vivemos num mundo “dos
homens”, apartados de Deus e não afetados por Ele, cada um
fazendo o que bem decide sem submeter-se ao juízo divino (Sl
73.1-17). Isso é fruto de uma incredulidade crescente e da
perda de sensibilidade quanto ao domínio universal de Deus
(Sl 24; Lc 18.1-8; 1 Tm 4.1). Essa visão dualista em nada
condiz com as Escrituras e com a realidade dos que confiam
no Senhor da providência.
Rute decidiu servir ao Deus de Israel em vez de Quemos, o
deus dos moabitas, cuja adoração incluía o sacrifício de
crianças (Nm 21.29; 1 Rs 11.7; 2 Rs 3.26,27). Agora, ela
começava a experimentar a mão invisível de Jeová Jireh,
agindo graciosamente em seu favor. A lei da semeadura
funciona inexoravelmente (2 Co 9.6; Gl 6.7).
2. Os acasos de Deus
Rute retorna a casa exultante não apenas com o resultado da
sua colheita — quase um efa de cevada, ou seja, 37 litros —
mas, principalmente, pela forma como foi tratada por Boaz e
os seus segadores. Noemi quis saber onde Rute tinha
trabalhado naquele dia. Quando Rute mencionou o nome de
Boaz, Noemi não escondeu a sua exultação (Rt 2.20). Uma
esperança brotou no coração da pobre viúva (cf. Jó 14.7-9).
O fato de Rute trabalhar justamente nos campos de Boaz
não foi por acaso, e Noemi reconheceu isso na sua expressão.
O Senhor estava manifestando a sua beneficência em favor
dela e a sua nora e, mais que isso, do falecido Elimeleque, já
que Boaz era um dentre “nossos remidores”, isto é, tanto de
Noemi quanto de Rute, como observa De Vaux na sua obra
(2004, p. 44). Naturalmente, a idade favorecia muito mais a
Rute, e era essa a preocupação e intenção de Noemi.
A fé de Rute no Deus de Israel — sob cujas asas ela foi
abrigar-se — estava sendo recompensada. A sua prontidão em
cuidar da sogra levou-a a encontrar conforto e proteção
naquele que seria o resgatador da família e que a incluiria na
genealogia do Redentor da humanidade. Vale a pena confiar
em Deus e esperar nEle. Ainda hoje, podemos experimentar a
ação do Todo-Poderoso no curso de nossa vida, alcançando-
nos com a sua misericórdia e favor.
3. O resultado da colheita
Alguns frutos de nossas ações são colhidos de imediato; já
outros levam tempo para aparecer. Pela forma graciosa como
era tratada, Rute colhiacereais em abundância diariamente
nos campos de Boaz (Rt 2.17,21). A colheita garantia a sua
sobrevivência e da sua sogra. O trabalho árduo durou toda a
estação: entre março e abril, colheu-se cevada; e de abril a
junho, trigo. Concluído o trabalho, ficou com a sogra (Rt
2.23). Uma “colheita” ainda maior seria feita por ela em
tempo oportuno (Ec 3.1). Nosso Deus trabalha por aqueles que
nEle esperam (Is 64.4).
Em um mundo cada vez mais opressor, é reconfortante estar
abrigado sob as asas do Deus Eterno, guardado no esconderijo
do Altíssimo (Sl 91).
CONCLUSÃO
O tema “relacionamento” sobressai-se no livro de Rute não
apenas por uma visão humana ou natural, mas, acima de tudo,
espiritual. O versículo-chave do capítulo 2 de Rute indica-nos
com clareza como nossos atos tornam-se valiosos quando
praticados levando Deus em conta —conscientes de Ele estar
acima de tudo e de todos e de que é Ele quem nos garante a
recompensa pelo que fazemos. Pautar nossa conduta pelo nível
de hostilidade do mundo em que vivemos torna-nos cada vez
mais rudes, assemelhando-nos à perversidade da sociedade
atual, cheia de pessoas amantes de si mesmas, avarentas,
presunçosas, soberbas, blasfemas, desobedientes a pais e mães,
ingratas, profanas, sem afeto natural (2 Tm 3.2,3).
Não podemos ficar enrijecidos por nenhum tipo de
ressentimento. Conquanto o mundo seja mesmo hostil, a graça
de Deus pode capacitar-nos a viver acima desse sentimento.
1 Matthew Henry ainda cita uma versão dos Caldeus, que traduz como “poderoso
na lei” (2022, p. 200), o que nos remete à apurada e justa conduta de Boaz em
relação ao parente mais próximo e a forma pública como tratou do negócio,
cumprindo todo o rito legal (Rt 4.1-11).
2 Os hititas eram um grupo étnico que morava na Palestina desde os dias dos
patriarcas (Gn 15.19-21). Eram os “filhos de Hete”, descendentes de Cam, filho de
Noé, diretamente por Canaã (Gn 10.15; 1 Cr 1.13) (Wycliffe, p. 926).
3 Nuzu era um centro administrativo e um posto avançado dos hurrianos (hurritas)
localizado próximo de onde está a moderna Kirkuk, no Iraque, cerca de 240
quilômetros ao norte de Bagdá. Elam ou Elão, correspondente, atualmente, à
região do Cuzistão, no moderno Irã (Wycliffe, p. 619, 1380).
4 Essa mesma observação e correlação com a mulher de Provérbios 21 foi feita pelo
pastor Elinaldo Renovato de Lima no seu livro O Caráter do Cristão (CPAD, 2017, p.
77).
M
Capítulo 5
O CASAMENTO DE RUTE E
BOAZ: A REMIÇÃO DA
FAMÍLIA
INTRODUÇÃO
uito antes de o rei Lemuel escrever acerca da mulher
virtuosa em Provérbios 31.10-31, Rute recebeu de
Boaz esse honroso reconhecimento — que, aliás, não era
individual, mas coletivo: toda a cidade de Belém testificava o
caráter elevado e a fibra moral de Rute, certamente
corroborados pelo testemunho da sua sogra, Noemi, a quem
coube relatar os fatos ocorridos em Moabe, descrevendo a
conduta da jovem moabita. É essa mulher que Boaz logo
tomará em casamento, fazendo com que uma história que
começou com fome e mortes termine com duas grandes
celebrações: o casamento dele e Rute e o nascimento do filho
do casal, Obede, o avô de Davi. Uma verdade bíblica
fundamental aprendemos com o exemplo de Noemi, Rute e
Boaz: Deus tem bênçãos para todos, mas só alcançarão essas
bênçãos os que confiam nEle e seguem a sua direção, e não a
lógica humana, mesmo não sabendo o que lhes reserva o
amanhã. Essa é a verdadeira fé (Hb 11.1).
I – O COMPROMISSO DE BOAZ COM RUTE
1. No lugar da bênção
O período da colheita da cevada e do trigo havia terminado.1
Não havia mais o que Rute fazer nos campos de Boaz. O
processo, agora, consistia no empilhamento dos feixes (dos
grãos colhidos) em posição vertical para secar e, depois, o
joeiramento,2 o processo de remoção da palha, que era feito
na eira, conforme Yamauchi & Wilson (2020, p. 565):
Quando a possibilidade de recolher diminui com a conclusão da temporada da
colheita de grãos, Noemi instrui Rute a fazer com que ela aproxime-se de Boaz,
que está joeirando cevada na eira de tardezinha e à noite (Rt 3.1-5). Na região
montanhosa de Judá, a brisa da terra e do mar soprava previsivelmente no final
da primavera e início do verão, na época da colheita de grãos. O método de
debulha do material colhido não é mencionado. O povo da tribo de Judá
empregaria os cascos de animais de tração e os manguais para quebrar as
espigas ou espiguetas das cabeças e para bater e separar as cascas das sementes.
No joeiramento feito por Boaz (zārâ; Rt 3.2), o material debulhado era lançado
ao ar previsivelmente em movimento, que soprava contra o vento as cascas
quebradas e outros pedaços de palha, enquanto os grãos mais pesados caíam
nas proximidades (cf. Sl 1.4).
Ralph Gower (2021, p. 96) diz que o joeiramento costumava
ser feito com o uso de um garfo de cinco pontas, chamado de
peneiro, e uma pá, chamada de pá de joeirar. O garfo era
usado primeiro, colocando-o no monte e atirando a mistura de
grãos e palha para o ar. O grão mais pesado caía, enquanto a
palha era soprada pelo vento. Gower acrescenta que, quando
o que restava era pequeno demais para ser apanhado pelo
garfo, a pá era usada com o mesmo propósito. Quanto às
características da eira, escreve Gower (ibid., p. 94):
A eira podia ser qualquer superfície dura, compactada. Podia ser de pedra
amaciada (como era provavelmente a eira de Ornã, o jebuseu, 1 Cr 21.18-26),
ou de terra compactada. As eiras de terra eram muitas vezes cobertas de grama
e acabavam sendo um lugar ideal para armar uma barraca. Estas eram
chamadas de “eiras de verão”.
No caso, a eira de Boaz parece ser mais rústica, pois ele
deitou-se aos pés de um monte de cereais, e não numa barraca
(Rt 3.7), o que parece estar mais consentâneo com a descrição
feita por Yamauchi e Wilson (ibid., p. 566), que se referem
simplesmente a um local elevado, aberto ao vento, próximo
dos portões da cidade, já que, naturalmente: “As fazendas
israelitas ficavam do lado de fora das muralhas da cidade ou
aldeia, onde, infelizmente, eram vulneráveis a saqueadores
durante a época da colheita” (ibid., p. 102). Isso pode explicar,
inclusive, o fato de Boaz ter-se deitado junto a um monte de
cereais.
2. A iniciativa de Noemi
Enquanto todo esse processo agrícola ocorria na eira, Rute
permanecia em casa, servindo a Noemi e obedecendo-lhe em
tudo (Rt 2.23). O seu lema era: “Tudo quando me disseres
farei” (Rt 3.5). Rute teve oportunidades fora de casa, mas não
se aventurou por parte alguma, como se fosse autônoma e
independente (Rt 3.10). Não buscou falsas liberdades;
permaneceu em casa, obedecendo à sogra, inclusive no
processo de aproximação de Boaz, a quem logo se submeteria
como esposa.
O exemplo de Rute, portanto, é altamente inspirador para
as mulheres cristãs de todos os tempos por indicar um
caminho de bênção para a mulher.
3. Respeitando o processo
A lealdade e a sujeição de Rute fortaleceram o desejo de
Noemi de vê-la casada novamente. Ter um novo lar era
fundamental para a felicidade e segurança da jovem moabita.
Finda a colheita, os cereais eram levados à eira. Noemi soube
que Boaz faria aquele trabalho naquela noite. Era uma grande
oportunidade para Rute aproximar-se dele e expressar o seu
interesse em ser remida. Noemi orientou Rute para que esta se
preparasse honrosa e adequadamente para o encontro,
perfumando-se e vestindo a sua melhor roupa (Rt 3.3). É certo
que a confiança de Noemi não estava no poder de atração de
Rute. O mais nobre na mulher são as suas virtudes interiores,
e não arranjos e enfeites (cf. Pv 31.10; 1 Pe 3.3,4).
Como assinala Hernandes Dias Lopes (2007, p. 107),
As virtudes de Rute são mais destacadas que os seus dotes físicos. A base de um
casamento feliz não é a beleza física, que acaba com o passar dos anos. As rugas
chegam. Os cabelos ficam brancos. O nosso vigor murcha como uma flor à
exposição do calor do sol. Mas a beleza interior resplandece ainda mais.
No caso de Rute, o seu cuidado estético era bem simples,
porém necessário. O fato de as virtudes interiores serem mais
importantes não implica negar o valor daestética e do belo;
não se pode radicalizar. Assim como a santidade não exclui a
ternura, também não despreza a beleza nem o uso de cuidados
cosméticos, desde que em pureza e moderação (Gn 24.16; Is
39.2; 1 Tm 2.9,10). É sempre recomendável ter equilíbrio em
tudo, primando sempre por uma renúncia amorosa para evitar
prejuízos espirituais para a comunidade de fé. Agradar a si
mesmo e causar escândalo é pecar contra o corpo de Cristo (1
Co 10.23,24,32).
Coragem e Discrição
Uma das características de Noemi que não pode ser esquecida
é o de educadora. Ela soube transmitir profundos
ensinamentos espirituais, morais, sociais e culturais para Rute.
O seu conselho em relação ao encontro com Boaz exigia de
Rute coragem e muita discrição. Ela deveria chegar à eira sem
ser notada, esperar Boaz deitar-se, descobrir-lhe os pés e
deitar-se discretamente. Boaz saberia o que fazer quando
notasse a sua presença (Rt 3.4-7). Isso demonstra que esse era
um costume conhecido na época. Boaz estender-lhe a capa
significaria compromisso de casamento (3.9). Em Ezequiel
16.8, a prática é mencionada como metáfora, representando o
compromisso de Deus com Israel. Segundo Leon Morris (p.
273): “A colocação do manto sobre uma viúva era maneira de
pedi-la em casamento, entre os primitivos árabes”. Ian M.
Duguid (2016, p. 173) entende que a prática era “mais ou
menos equivalente a dar um anel de noivado na nossa
cultura”. Warren W. Wiersbe (2006, p. 189) afirma:
Estender a capa significava reivindicar essa pessoa para si (Ez 16:8); 1 Rs
19:19),3 especialmente pelo casamento. A palavra traduzida por “capa”
também significa “asa”. Rute havia se abrigado sob as asas do Deus Jeová (2:12)
e logo estaria sob as asas de Boaz, seu esposo amado.
Sobressai no texto a pureza tanto de Rute quanto de Boaz.
Por volta da meia-noite, Boaz acorda assustado com uma
mulher deitada aos seus pés e pergunta: “Quem és tu?” (Rt
3.9). Orientada por Noemi, Rute identifica-se, lembra-lhe a
condição de remidor e pede que estenda sobre ela a sua capa.
Como Noemi dissera, Boaz realmente entendeu a mensagem!
Quanto ao gesto de Rute, que poderia parecer inadequado
para uma moça — especialmente pela hora e local —, Boaz
soube reconhecer a pureza da sua intenção, ressaltando a sua
excelente reputação, de “mulher virtuosa” (3.11). O histórico
de Rute fazia-lhe confiável. Assim, a afirmação de Boaz pode
ter tido o sentido de dizer: “Eu compreendo teu gesto e tuas
intenções. Fique tranquila. Tudo farei para que esta tua
bendita iniciativa dê certo”.
Boaz ficou exultante, demonstrando interesse por Rute. Ele
era, de fato, um parente remidor, mas havia outro mais
chegado, que tinha a prioridade na remição. Era preciso
aguardar, respeitando o processo (3.13). O caráter santo de
Boaz e Rute novamente se manifesta. Sem qualquer contato
íntimo, ela passou a noite deitada aos seus pés e saiu logo cedo,
para que não fosse percebida (3.9-14). Mesmo perto, uma
bênção pode ser perdida se não soubermos esperar o tempo
certo, respeitando o processo correto (Sl 27.14; Pv 20.21).
Boaz reconheceu que havia um parente mais chegado, a quem
precisava dar a preferência da remição. Um homem ético sabe
respeitar o direito alheio.
II – O CASAMENTO ENTRE BOAZ E RUTE
1. Concluindo o negócio
O casamento é uma instituição divina fundamental para a
solidez da família, da igreja e de toda a sociedade (Gn 2.18; Ec
4.9-12; Hb 13.4). No Antigo Testamento, não havia idade
mínima para casar-se. Contudo, era muito comum que o
marido fosse mais velho do que a esposa quando se casava,
como no caso de José, que tinha 30 anos (Gn 41.45,46), e
Isaque, que tinha 40 anos (Gn 25.50). O casamento era
arranjado pelos pais (Gn 21.21; 24.1-4; 27.46; 38.7). Se a
moça não tivesse pai, o seu irmão poderia agir em seu favor
(Gn 24.29). Embora não fosse essencial, o consentimento da
noiva era por vezes solicitado, como no caso de Rebeca (Gn
24.5,58) (Yamauchi & Wilson, p. 398). Quanto a Rute, cabia
mesmo à sua sogra tomar a iniciativa, como já visto.
Depois do encontro com Boaz, Rute retornou para Noemi e
narrou tudo o que acontecera. A sogra logo percebeu que o
negócio estava dando certo. Certamente, a essa altura, Rute
demonstrava alguma emoção, talvez certa ansiedade; por isso,
Noemi lhe disse: “[…] Sossega, minha filha, até que saibas
como irá o caso, porque aquele homem não descansará até
que conclua hoje este negócio” (Rt 3.18). De fato, o interesse
de Boaz por Rute e o compromisso que fez com ela levou-o a
tomar a atitude que faltava no mesmo dia (Rt 4.1-10). Boaz
demonstrou ser um homem de atitude, como se espera de todo
homem, principalmente daquele que aspira ao casamento e à
constituição de família. O natural é que toda mulher espere
casar-se com um homem que seja líder, que expresse
virilidade, uma das características da masculinidade, que,
como afirma o pastor Douglas Baptista (2023, p. 73), não se
restringe apenas à capacidade de realizar o ato sexual, mas
também é sinônimo de vigor físico e força moral. Tudo isso,
como aponta Baptista, é visto na expressão bíblica “Esforça-te,
pois, e sê homem” (1 Rs 2.2).
A força moral de Boaz foi demonstrada no seu autocontrole,
não tocando em Rute na noite anterior, e agora se mostraria
presente também na forma como conduziu todo o processo de
definição do resgate da moabita. Todo homem deve ser
preparado para tomar iniciativas na vida, principalmente
quando o assunto é casamento e vida conjugal. A liderança
masculina pressupõe atitude, amor responsável e honra à
mulher, como vaso mais fraco (Gn 2.24; Ef 5.25-28; 1 Pe 3.7).
A Bíblia não aprova nem o feminismo, nem o machismo.
2. Resgate e lei do levirato
No capítulo 4, já vimos, com um pouco mais de detalhes, a
instituição da figura do go’el, o resgatador. Ocorre que, no caso
de Rute e Boaz, operava-se também a lei do levirato. Acerca
dela, Vaux (p. 61) afirma que são muitas as discussões quanto
ao seu significado em diferentes civilizações antigas, sendo que,
em algumas, estaria ligado a uma preocupação de
continuidade de culto dos antepassados. Contudo, como
observa Vaux,
o Antigo Testamento dá uma explicação que lhe é própria e que parece
suficiente. A razão essencial é a de perpetuar a descendência masculina, o
“nome”, a “casa”, e é por isso que a criança (provavelmente só a primeira) de
um casamento levirático é considerada filha do falecido. Não é somente um
motivo sentimental, é a expressão da importância dada aos laços de sangue.
Uma razão concomitante é a de evitar a transferência dos bens da família. Essa
consideração aparece em Dt 25.5, que põe como condição do levirato que os
irmãos vivam juntos, e, na história de Rute, ela explica que o direito de resgate
da terra esteja ligado com a obrigação de casar-se com a viúva.
Ambas as instituições exigiam publicidade, o que se revestia
de maior importância ainda no caso de Boaz, que pretendia
assumir a condição de go’el e levir mesmo não sendo o parente
mais chegado. Assim, foi logo à porta da cidade e ali se
assentou, na expectativa de encontrar o remidor. As cidades
antigas tinham espaços públicos para assuntos de interesses
comuns ou particulares que precisavam de publicidade, como
a formalização de contratos, que podiam ser escritos ou orais,
estabelecidos diante de testemunhas em um espaço aberto, à
porta da cidade, como no caso Belém (Vaux, 2004, p. 203).
Boaz assentou-se ali e logo viu o remidor, que ia passando (Rt
4.1) — certamente por mais um ato da providência divina.
Boaz convida-o e trata do assunto que o inquietava: o resgaste
dos bens de Elimeleque e o casamento com Rute. Para a
devida publicidade, chamou dez homens importantes da
cidade, os quais o texto identifica como “anciãos” (Rt 4.2),
significando, provavelmente, que pertenciam a uma espécie de
“conselho municipal”, que Vaux afirma que existiam nas
cidades hebreias e são citados em Deuteronômio 19; 21.1-9,
18-21; 22.13-21 e 25.5-10 (ibid., p. 169).
John H. Walton et. al. (2018, p. 363) afirma que
Os líderes geralmente eram os chefes dos clãs ou das famílias, queserviam
como governantes da cidade e cuidavam das questões jurídicas e legais. Aqui,
não se trata de um julgamento, mas esses líderes iriam supervisionar a
negociação para assegurar que tudo seria feito de acordo com a Lei e os
costumes, e também serviriam como testemunhas.
Em princípio, o remidor aceitou adquirir as terras. Boaz
informou-o, então, que o resgate incluía o dever de casar-se
com Rute, nos termos da lei do levirato, para “suscitar o nome
do falecido sobre a sua herdade” (4.5). A aplicação das duas
leis a esse caso certamente se deu porque a aquisição das
terras, sem o casamento com a viúva, não faria com que os
bens ficassem na família de Elimeleque. Assim, o resgate
deveria ser acompanhado do casamento sob a lei do levirato.
O remidor desistiu, alegando motivos econômicos. Ele
aplicaria recursos em terras que não seriam da sua própria
família, e sim dos sucessores de Elimeleque (Rt 4.6,10). Como
observa Walton (ibid., p. 363),
Se o parente precisasse casar com Rute, se ela tivesse um filho, este seria o
herdeiro da propriedade da família de Elimeleque. Nesse caso, o dinheiro usado
para a resgatar a terra não seria um investimento, mas uma redução dos bens
de sua família. Em vez de permitir que ele aumentasse a propriedade, seu
dinheiro seria gasto em uma causa caridosa. Além disso, ele também teria
outros gastos tendo de sustentar Noemi, Rute e os possíveis filhos desse
casamento. E ainda haveria a possibilidade de que os filhos de Rute
reivindicassem uma parte da herança que pertencia aos filhos que ele já tinha.
É bastante provável que ele fosse casado e, dessa forma, o impacto econômico
que o resgate de Rute traria à sua família deve ter pesado em sua decisão.
Quanto a Boaz, pode ser que fosse um solteirão, pois o texto
não fala, em ponto algum, de que tivesse família. De toda a
sorte, o parente remidor mais chegado deixou de entrar para a
linhagem do Messias por causa do apego que tinha ao seu
patrimônio (Mt 6.21). Pertencer à genealogia do Salvador do
mundo era, sem dúvida, a maior oportunidade da sua vida.
3. O registro público
Seguindo mais um dos costumes da época, a transferência do
direito de resgate foi selada com o remidor descalçando o
sapato e entregando-o a Boaz (Rt 4.7). Isso funcionava como
uma espécie de registro público, como explica Vaux (p. 204):
Antigamente, a transferência da propriedade era ratificada por uma ação
simbólica. Segundo Rt 4.7, o costume antigo de confirmar uma transação era
este: uma das partes tirava sua sandália e a dava à outra. Esse gesto realizado
diante de testemunhas significava a desistência de um direito. Assim, o primeiro
go’el de Noemi renuncia a seu direito de preferência de compra em favor de
Boaz, Rt 4.8; o cunhado que recusa a obrigação moral do levirato é descalçado,
Dt 25.9-10, e com isso fica desapropriado do direito que tinha à viúva de seu
irmão. O calçado parece ter servido de instrumento probatório nas transações
imobiliárias: em Sl 60.10 = 108.10, ‘sobre Edom atirarei a minha sandália’,
significa uma tomada de posse.
Não somente o ato negocial — envolvendo a renúncia do
parente mais chegado da sua condição de resgatador —, como
também o casamento entre Boaz e Rute ocorreram sob
testemunho e confirmação pública (cf. 4.9,10), e a confirmação
foi uníssona (4.11,12). Rute foi acolhida na comunidade de
Israel com as mais elevadas honras.
III – A REMIÇÃO DA LINHAGEM DE DAVI
ATRAVÉS DE RUTE E BOAZ
1. O nascimento de Obede
Consumado o casamento, Boaz estava plenamente legitimado
para unir-se a Rute e tê-la por mulher. É de grande valia saber
esperar o tempo para a assunção das bênçãos que Deus tem
para nós. Por um ato da providência divina, “o Senhor lhe deu
conceição, e [Rute] teve um filho” (Rt 4.13). Não se sabe por
qual razão Rute não ficou grávida quando do seu primeiro
casamento. Se era estéril — o que não sabemos —, um grande
milagre foi operado para o nascimento de Obede. De
qualquer sorte, a geração de uma vida é dádiva de Deus, ato
exclusivo do seu poder (Sl 139.13-16). Deus tem um propósito
para todas as pessoas. Não cabe ao homem, sob nenhuma
hipótese, interromper uma vida humana em qualquer que seja
a fase (Jr 1.5; Is 49.1).
O valor da maternidade naqueles dias ficou bem
evidenciado pela efusiva manifestação de alegria das mulheres
(Rt 4.14). A maternidade é mesmo motivo de muita celebração
(ver Sl 127.3). É simplesmente trágico assistir em nossos dias a
tanta rejeição a filhos e a uma profunda depreciação da
maternidade, frutos, também, da ideologia feminista, que vê
no lar um ambiente de opressão e limitação dos “direitos” da
mulher. Embora se invoquem tantas razões sociais e
econômicas para essa mudança paradigmática e de valores,
não nos esqueçamos de que nos pautar por quaisquer
fundamentos extrabíblicos equivale a negar o valor atemporal
das Escrituras, caindo no liberalismo teológico, de que já
tratamos neste capítulo.
A euforia das mulheres de Belém com o nascimento do filho
de Rute e Boaz deveu-se também ao fato de que elas
entenderam como Deus estava agindo em favor de Noemi.
Antes amargurada e acreditando estar sob castigo divino
(1.13,20,21), a viúva de Elimeleque recebeu uma “renovação
da vida” (4.14 – NAA), e teria, agora, alguém que cuidaria
dela na sua velhice. Era o começo de uma nova fase na vida de
Noemi. Como analisa Walton (p. 364): “O texto sugere que o
filho levantaria o ânimo de Noemi e a consolaria após a perda
do marido e dos filhos”. De fato, os netos enchem os avós de
alegria e orgulho (Pv 17.6). Neles, os idosos projetam o
prolongamento da vida, recebem novo ânimo e
encorajamento. É uma nova fase de recompensa por terem
tido filhos e dedicado-se a eles.
2. Boaz, um tipo de Cristo
Se Noemi, Rute ou Orfa não se casassem com alguém da
família de Elimeleque, a linhagem ancestral de Davi teria sido
interrompida. Noemi já não tinha idade para gerar filhos (Rt
1.12), e Orfa voltou para os moabitas (1.14). O Deus Eterno
dirigiu a vida de Rute por um caminho de renúncia, amor,
pureza e muita submissão. Ela encontrou-se com Boaz, um
tipo de Cristo, nosso Redentor eterno (Jo 3.16; 1 Pe 1.18,19).
Nas palavras de Suzane S. J. Moreira (2022, p. 133), “o amor
de Boaz simboliza o amor de Jesus [por todos nós], um amor
sem acepção, um amor que não julga o [nosso] passado, mas
que já perdoou e pagou todas as [nossas] dívidas, um amor
redentor que muda a história […]”.
CONCLUSÃO
Ao concluir o estudo do livro de Rute, podemos afirmar que
duas palavras servem para resumir a sua mensagem:
Providência e Redenção. O Deus da providência guiou a vida
de Noemi e Rute, providenciando o remidor de que tanto
precisavam. E Rute não apenas foi remida, como também
entrou para a genealogia do Redentor da humanidade. Ao
lado de Tamar e Raabe, a história de redenção dessa moabita
é mais uma eloquente prova de como o plano de Deus sempre
foi alcançar a todos, judeus e gentios. Esta é a essência do
evangelho: “[…] poder de Deus para salvação de todo aquele
que crê, primeiro do judeu e também do grego” (Rm 1.16).
Oremos para que o Senhor nos encha de graça para a
proclamação dessa Boa Nova, anunciando o amor divino, que
redime a todos que creem no Redentor divino-humano, Jesus
Cristo, o Salvador dos homens (1 Tm 4.10; At 4.12).
1 A estação da colheita ia de março a junho: entre março e abril, colhia-se cevada;
de abril a junho, trigo. Conforme Yamauchi e Wilson (2020, p. 103), o grão era
cortado com foice (Dt 16.9), embora, às vezes, fosse arrancado do solo para obter a
máxima quantidade de pedúnculo para uso em forragens de animais (Gn 24.25,32).
2 Joeirar é o mesmo que peneirar.
3 1 Reis 19.19 menciona o episódio em que Elias passou a sua capa sobre Eliseu,
que logo deixou família e negócios e passou a seguir o profeta.
P
Capítulo 6
O LIVRO DE ESTER
INTRODUÇÃO
assar do estudo de Rute para Ester importa numa radical
mudança de cenário. É sair de Belém, na Judeia (atual
Cisjordânia, em Israel) e transportar-se para Susã, na Pérsia
(atual Irã); é saltar dos dias dos juízes para o período pós-exílico, registrado em cinco dos 12 livros históricos do Antigo
Testamento: 1 e 2 Crônicas, Esdras, Neemias e Ester. O
primeiro livro das Crônicas volta a Adão para resgatar a
formação da nação de Israel e iniciar a história da sua
monarquia até os dias de Davi. O segundo livro das Crônicas
vai de Salomão ao anúncio do fim do cativeiro babilônico,
apontando, como clímax, o decreto de Ciro, rei da Pérsia,
para a volta dos exilados para Jerusalém (2 Cr 36.20-23). Os
três últimos livros — Esdras, Neemias e Ester — ocupam-se
dos fatos decorrentes dessa ordem imperial. Cobrem,
exclusivamente, ocorrências posteriores ao fim do exílio.
Esdras e Neemias registram os retornos dos judeus para
Jerusalém, destacando a reconstrução da cidade e do Templo,
bem como as reformas morais e espirituais entre o povo.
I – A ORGANIZAÇÃO DO LIVRO
1. A categorização de Ester
Da mesma forma como Rute, Ester pertence aos Escritos, os
11 livros que compõem a terceira seção da Bíblia Hebraica. E,
nessa seção — também ao lado de Rute —, integra os Megillot,
os cinco livros curtos lidos anualmente nas festas judaicas. As
categorizações de Rute e Ester também são semelhantes na
Bíblia Cristã, em que figuram entre os livros históricos, como
já mencionado. Pela sua reconhecida canonicidade, Ester
compõe o conjunto da revelação divina escrita, completa e
perfeita (2 Tm 3.16,17).
2. Características literárias
O livro tem dez capítulos. Dentre as suas características
literárias, destaca-se a sua objetiva historicidade, vista na
expressa referência ao rei persa Assuero (Et 1.1) e em vários
outros detalhes factuais, além do seu caráter de fonte primária
para a Festa de Purim, anualmente celebrada pelos judeus (Et
9.20-32). O estilo narrativo é menos dialógico que o de Rute.
O texto é mais do narrador do que dos personagens.
A respeito da historicidade, Joyce G. Baldwin (1986, p. 20)
faz uma considerável análise das evidências, e conclui:
Um exame das principais alusões históricas no livro de Ester tem confirmado a
exatidão de muitos detalhes. Os acontecimentos desse livro podem ser
harmonizados com o que se conhece de outras fontes a respeito do reinado de
Assuero e, sobretudo, o seu caráter é reconhecidamente o mesmo. A extensão
do seu império, a sua capital, e as minúcias dos costumes observados na corte
— tais como o uso de correios em cavalos de posta (3:13; 8:10), a proibição de
lamentações (4:2) e do enforcamento como pena de morte (5:14) — são
exemplos do mundo genuinamente persa em que a ação tem lugar. A
descoberta da palavra puru em um dado confirmou a dependência do mundo
antigo da ideia de destino, e transformou o que anteriormente parecia
“historicamente improvável” como explicação da origem de Purim, em um
incidente que precisa ser levado a sério.
Apesar do conjunto de evidências que confirmem a sua
historicidade, críticos bíblicos levantam alguns
questionamentos acerca da autenticidade histórica do livro.
Contudo, o que se pode dizer acerca de Ester ou qualquer
outro livro da Bíblia é que não convém dar ouvidos às extensas
e cansativas divagações da crítica, porque o que se verifica ao
longo do tempo é que todas as dúvidas que suscitam são
dissipadas com o avanço das descobertas, principalmente
arqueológicas, atestando o que já é inequívoco para os que
creem na Bíblia como inspirada, inerrante, infalível e completa
Palavra de Deus.1 Como adverte Eta Linnemann (2011, p. 11),
divergir da fé singela na Palavra de Deus e impressionar-se
com a alegação da crítica bíblica quanto à validade exclusiva e
completa da “teologia científica” é como trocar o direito de
primogenitura por um prato de lentilhas.
O livro de Ester apresenta uma narrativa concentrada nos
judeus que ficaram na Babilônia — mais propriamente na
capital Susã — sob domínio persa. Na verdade, a cidade de
Susã é o palco de todo o relato. Referências a outros contextos
são indiretas e sempre se dão a partir de fatos passados na
capital persa, como o envio de cartas de Assuero (com os seus
decretos), de Mardoqueu e da rainha Ester, bem como os seus
respectivos efeitos em todas as províncias (Et 1.21,22; 2.8,18;
3.12-15; 4.3; 8.9-17; 9.1-5,19-23,30; 10). A história não
acompanha nenhum personagem para fora do palácio e dos
seus arredores — nem mesmo Assuero, que, dentro do período
histórico descrito em Ester, passou quatro anos na sua
malsucedida campanha contra os gregos, como narra, em
minúcias, o historiador Heródoto. Ester é, portanto, o único
livro da Bíblia do período pós-exílico cujo cenário da narrativa
dá-se inteiramente em terras do cativeiro babilônico.
Ester registra fatos ocorridos ao longo de 10 anos (483–473
a.C.), durante o reinado de Assuero (Xerxes), filho de Dario,
que governou a Pérsia por 21 anos (de 486 a 465 a.C.). A
história de Ester está situada cronologicamente entre os
capítulos 6 e 7 de Esdras. O livro foi escrito primariamente
para encorajar os remanescentes judeus no exílio, mostrando-
lhes a fidelidade e o cuidado de Deus com o seu povo, mesmo
com os que não obedeceram à ordem de voltar para
Jerusalém. O local da sua escrita é indeterminado. Para
determiná-lo, seria preciso seguir uma das linhas que
estabelecem a data da sua produção, podendo ser a própria
Pérsia, onde Ester viveu, ou Jerusalém, no caso de uma data
posterior aos tempos veterotestamentários.
3. Autoria e data
O autor de Ester é desconhecido. Muitos estudiosos
consideram que o livro foi escrito por um judeu que viveu na
Pérsia, pelo fato de o autor demonstrar amplo conhecimento
da cidade de Susã e da sua estrutura, além de importantes
documentos do Império Persa.
Considerando essa possível autoria e algumas evidências
internas, acredita-se que Ester seja datado ainda do século V
a.C. (por volta do ano 460 a.C., logo após a morte de Assuero,
ocorrida em 465 a.C.). Outro fator levado em conta para essa
datação é de ordem linguística: o autor empregou algumas
palavras persas em meio ao hebraico, mas não fez qualquer
uso de expressões originárias do grego, o que revela um estilo
anterior à ascensão da Grécia sobre a Pérsia, que se deu com
Alexandre, o Grande, em 330 a.C. Em função desse estilo
linguístico, R. K. Harrison (2010, p. 295) considera o livro de
Ester como uma valiosa fonte de informações acerca do
regime aquemeniano,2 porque o seu vocabulário tem um
toque inequivocamente persa — e a própria narrativa provém
de um cenário da administração imperial. Como observa
Harrison, o autor estava familiarizado com o funcionamento
do palácio, incluindo o sistema de aconselhamento de que
dispunha o rei para assuntos políticos (Ed 7.14; Et 8.8).
Em uma síntese sobre o livro, J. Sidlow Baxter (1993, p. 265)
diz:
Ester é um livro de crise. Trata-se de um drama — não uma ficção, mas um fato
genuíno. É encenado no palco da história real e reúne personagens verdadeiros.
Cinco figuras movimentam-se diante de nós: Assuero, o rei persa; Vasti, a
rainha deposta; Hamã, aquele que odiava os judeus; Mordecai, o líder judeu; e
Ester, a moça judia que se tornou rainha. Como pano de fundo temos o palácio
real, a capital persa e os vários milhares de judeus espalhados por todos os
domínios do imperador.
Ester é a figura crucial nesse drama, pois tudo gira ao redor
de sua ascensão ao trono e sua influência como rainha. O
livro, portanto, leva adequadamente o seu nome, Ester.
A Ausência do Nome de Deus
Da mesma forma como Rute, Ester apresenta-nos o Deus da
providência agindo em favor do seu povo, com uma diferença:
em Rute, o nome de Deus é mencionado diversas vezes;3 em
Ester, o nome de Deus não aparece no texto, mas o seu agir é
visto em toda a história. Conforme a já citada declaração de
Matthew Henry (2022, p. 845): “[…] ainda que o nome de
Deus não se encontre [no livro de Ester], o mesmo não se
pode dizer de sua mão, guiando minuciosamente os fatos que
culminaram na libertação de seu povo”.
Sendo a ausência do nome de Deus uma constatação, qual
seria a razão dessa característica tão peculiar e exclusiva do
livro de Ester? Archer Jr. (ibid., p. 528) admite nãoser fácil
responder a essa pergunta. Opina, contudo, que
[…] a melhor explicação que se oferece é que a narrativa trata principalmente
daqueles judeus que tinham deixado passar sua oportunidade de voltar à terra
da promessa e escolheram ficar com os gentios depois da volta do remanescente
fiel em 536 a.C. É certo que todos os atos desse dramático episódio
desdobraram-se em território gentio; é igualmente certo que a soberania da
providência de Deus é claramente subentendida em 4.14: “[…] pois, se te
calares, agora, socorro e livramento surgirão de outra parte para os judeus, mas
tu e a tua família sereis eliminados. Quem sabe se não foi para este momento
que foste conduzida à realeza?”
Sidlow Baxter (ibid., p. 256) entende que podem existir
outras razões para o autor de Ester ter omitido qualquer
referência direta a Deus, citando, como exemplo, o fato de o
livro ter sido dirigido tanto aos persas como aos judeus. Por
fim, Baxter ainda considera que a ausência do nome de Deus
pode ter sido decorrente do fato de os judeus estarem longe da
sua terra após a ruptura do seu relacionamento especial com o
Senhor. Assim, conforme acentua Baxter, o autor teria evitado
referir-se diretamente a Deus para ser coerente com essa
ruptura de comunhão.
Ester e o Secularismo
À luz da opinião de Archer Jr. e da possibilidade última
mencionada por Baxter, é possível considerar que a ausência
do nome de Deus no livro serve como uma eloquente
advertência do perigo do secularismo, que se apresenta como
uma acomodação ao ambiente em que se está inserido,
produzindo distanciamento, esfriamento e, consequentemente,
vergonha em relação a Deus e à sua presença.
Estavam indiferentes, portanto, à convocação de retorno a
Jerusalém e à renovação do culto a Jeová. A absoluta maioria
dos judeus escolheu permanecer no conforto das suas casas,
desfrutando de um estilo de vida secular, em vez de aceitar o
desafio de seguir para Jerusalém, em busca da reconstrução da
cidade e do Templo, bem como do restabelecimento do culto
ao Deus de Israel no lugar que Ele elegeu para a oferta de
sacrifícios. Em vez da vida religiosa, esses judeus preferiram a
vida secular. Em vez de agradar a Deus e ao seu propósito
para Israel como nação, preferiram ficar na Pérsia,
desfrutando das vantagens econômicas que lhes eram
oferecidas pelo reino. Não podemos ignorar, portanto, que os
judeus pudessem estar sob algum constrangimento em relação
ao Deus de Israel.
Jesus afirmou que, se o sal tornar-se insípido, perde o seu
valor, é lançado fora e pisado pelos homens (Mt 5.13). Ester
mostra-nos como um cenário secular aparentemente estável
pode mudar de uma hora para outra, revelando quão
enganoso é o secularismo, a doutrina que ignora os princípios
espirituais na condução dos negócios humanos.4 A partir do
livro de Ester, Emilio Garofalo Neto trata exatamente desse
aspecto da vida cristã no exílio secular e observa:
A vida na casa da Pérsia tem elementos similares à vida na casa secular do
ocidente em que vivemos: uma espécie de era pós-moderna e pós-cristã. Uma
era supostamente livre das amarras da superstição religiosa, guiada pela razão e
que parou com a tolice espiritual de procurar significado para a vida no
sobrenatural. Uma era secular.
Até certo ponto, poderia parecer aos judeus da Pérsia que
eles não precisariam mesmo recorrer ao Senhor, dado o
conforto, segurança e oportunidades que desfrutavam. O
Império Persa ficou conhecido pela sua tolerância religiosa em
relação aos seus súditos. Talvez isso tenha contribuído para
que os judeus da Pérsia e das suas muitas províncias
imaginassem que as ordenanças divinas para o culto em
Jerusalém já não fossem tão importantes e que, por isso,
poderiam permanecer nas suas próprias habitações e rotinas,
alheios à vida nacional de adoração de Israel.5 O livro de Ester
mostra-nos como a segurança deste mundo é falsa, ilusória e
passageira. Alheios ao culto estabelecido por Deus, os judeus
enfrentariam tempos de crise e profunda angústia, passando,
assim, a depender inteiramente da mão poderosa do Eterno,
que, em meio ao secularismo persa, iria livrá-los do
extermínio.
A Convicção de Mardoqueu
Apesar de todo o espírito de passividade e conformação da
geração que permaneceu na Pérsia, muitos judeus
preservaram raízes piedosas. Como veremos melhor no
capítulo 10, Rute 4.14 é a revelação da convicção de um
desses judeus, Mardoqueu, que esperava em uma providência
milagrosa que estava por vir. As expressões “socorro e
livramento doutra parte virá” e “quem sabe se para tal tempo
como este chegaste a este reino” são frutos da sua piedade e fé
em Deus; da confiança de que a agência divina não apenas
seria demonstrada no livramento dos judeus, como já estaria
em curso desde a elevação de Ester à condição de rainha.
Àquela altura, Mardoqueu não tinha certeza se o reinado de
Ester era ou não um propósito divino para preservar os judeus,
mas a sua declaração indica um entendimento espiritual em
formação. O “quem sabe” de Mardoqueu certamente decorre
da sua vivência espiritual, na qual já tinha experimentado a
providência divina. Nossas experiências com Deus são muito
importantes para gerar esperança em nosso coração em
tempos de crises e adversidades. A experiência produz
esperança, e a esperança não traz confusão (Rm 5.4). Quando
Davi esteve com o rei Saul e anunciou a sua disposição de
lutar contra o gigante Golias, recorreu às suas experiências
sobrenaturais como fundamento da sua confiança de que
venceria o inimigo de Israel (1 Sm 17.37). Assim como Davi,
Mardoqueu expressou confiança em Deus para prover-lhes
livramento.
Ninguém Tira Deus de Cena
Qualquer que seja o motivo de o nome de Deus não constar
no livro de Ester, isso nos transmite uma mensagem
irrefutável: ninguém tira Deus de cena; nem mesmo aqueles
que negam a sua existência ou, tristemente, imaginam negar a
sua agência, como fez o filósofo Friedrich Nietzsche (1844–
1900), proclamando a “morte” de Deus. O Todo-Poderoso é
soberano e age segundo os seus propósitos, mesmo onde e
quando o seu nome não é mencionado (Sl 24.1; Sl 139.7,8;
Rm 11.36).
Fechando esse paralelo com o livro de Rute, podemos
afirmar: Ester não contém alusões diretas ao Deus da
providência, mas apresenta-nos uma história cujo roteiro é,
por inteiro, uma manifestação da providência de Deus. Sidlow
Baxter (ibid., p. 265, 266) conceitua “providência” e faz um
interessante comparativo com as intervenções milagrosas:
A palavra “providência” tem origem no latim provideo, significando “eu vejo
uma coisa antecipadamente” (pro = antes; video = vejo); assim, o significado
original de providência é previsão. Como, porém, uma previsão sempre
ocasiona atividade em relação ao que é previsto, providência adquire do sentido
de atividade que procede da previsão.
[…]
É isto que vemos demonstrado no Livro de Ester. A crise à qual o livro se refere
é providencialmente prevista e depois providencialmente vencida no momento
crucial. Não é empregada qualquer intervenção milagrosa. Todos os
acontecimentos registrados são resultados das circunstâncias em sua sequência
natural. Todavia, embora não seja registrado qualquer milagre […].
Digno de nota, ainda, conforme acentua Baxter (ibid., p.
267), é que toda a ação divina, “provocando todos os eventos
registados”, acontece “sem violar o livre-arbítrio humano e
sem interromper o desenvolvimento normal dos assuntos
humanos, como um poder oculto controla todas as coisas de
maneira insuspeita, mas infalível”.
II – O CONTEXTO HISTÓRICO
1. O povo hebreu no exílio
Para uma melhor compreensão do contexto histórico do livro
de Ester, é importante mencionar o fim do período da
monarquia do povo hebreu. Em 722 a.C., ocorreu a queda
final do Reino do Norte perante os assírios (2 Rs 17.6). Pouco
mais de cem anos depois, Judá, o Reino do Sul, foi levado para
o cativeiro babilônico em três levas: a primeira, no ano 605; a
segunda, em 597, e a terceira, em 586 a.C. Conforme Jeremias
havia profetizado, o exílio na Babilônia durou 70 anos (Jr
25.11; 29.10-14).Foi um período em que o Senhor tratou com
o seu povo, principalmente para extirpar a idolatria que
contaminara a todo o Israel (Ez 36.16-25).
Eugene H. Merrill (2001, p. 497, 498) enfatiza o terrível
significado espiritual do exílio:
Os longos anos em que a elite política, militar e religiosa de Judá esteve longe
de sua terra são popularmente conhecidos como o exílio na literatura moderna,
um termo singularmente apropriado, uma vez que não apenas sugere a
remoção forçada da população de judeus da Babilônia, como também
comunica a ausência de Yahweh durante o processo. A tragédia do exílio não
pode ser interpretada como apenas a deportação de um povo para outra terra,
ou a destruição de uma cidade e seu santuário central. Na verdade, Deus havia
se retirado do meio de seu povo, uma ausência simbolizada por uma das visões
de Ezequiel, na qual a Shekinah movia-se do templo para o monte das
Oliveiras (Ez 11.23).
2. O �m do exílio
Esse período termina com a vitória de Ciro sobre os babilônios
no ano 539 a.C.6 O Senhor Deus estava exercendo o seu juízo
sobre a Babilônia por causa da sua iniquidade (Jr 25.12).
Antes, já havia julgado a Assíria, como profetizado por Naum:
Deus não tem o culpado por inocente (Na 1.2,3). Em 539 a.C.,
Ciro venceu os babilônios e anexou o seu território ao Império
Persa. Logo no primeiro ano de reinado, “despertou o
SENHOR o espírito de Ciro, rei da Pérsia”, fazendo-o decretar
o retorno do povo judeu para Jerusalém (Ed 1.1-3).
3. O pós-exílio
O retorno deu-se em três grupos, sendo que o primeiro e
maior deles — 50 mil exilados — seguiu para Jerusalém junto
com Zorobabel já em 538 a.C. (Ed 1.5; 2.64,65). Donald
Stamps (2009, p. 709) cita uma estimativa segundo a qual
viviam na Babilônia “um milhão ou mais” de judeus, o que
demonstra a baixa adesão à convocação de retorno, a despeito
da inequívoca providência divina que, por intermédio de Ciro,
permitia a volta para Jerusalém. A esmagadora maioria dos
judeus decidiu pelo que lhes parecia mais cômodo:
permanecer nas cidades que ocupavam na Babilônia.
O primeiro retorno é narrado do capítulo 1 ao capítulo 6 do
livro de Esdras. Entre o capítulo 6 e o capítulo 7, há um
intervalo de aproximadamente 60 anos. É na segunda metade
desse período — um verdadeiro hiato histórico — que se
passam os fatos do livro de Ester, que preenchem uma década
da história (483 a 473 a.C.) e dão-se durante o reinado de
Assuero (Xerxes, em grego), imperador persa de 486 a 465
a.C.
Fechada a história contada em Ester, o registro sagrado
seguinte é aquele contido no capítulo 7 de Esdras: a narrativa
do retorno do segundo grupo de judeus para Jerusalém sob a
liderança do sacerdote e escriba Esdras em 458 a.C., já nos
dias do rei Artaxerxes, filho de Assuero (Ed 7.1-10). O terceiro
grupo retornaria somente em 444 a.C., liderado por Neemias
(Ne 2.17).
III – PROPÓSITO E MENSAGEM
1. A providência divina
A forma como os judeus adotaram o livro de Ester e nele
inspiram-se ao longo da história demonstra o cumprimento do
seu principal propósito: o registro do misericordioso e
providencial cuidado de Deus com o seu povo, a despeito das
suas escolhas fora do seu propósito. Há uma promessa feita a
Abraão (Gn 12.2,3). Nas suas perseguições e perigo de
extermínio, os judeus têm, nesse livro, uma mensagem de
consolo e esperança.
2. Uma falsa estabilidade
Quanto à mensagem principal, o livro de Ester adverte-nos do
grande perigo de confiar nas falsas estabilidades que as
estruturas do mundo oferecem e que costumam parecer mais
vantajosas. Estava tudo indo muito bem em Susã até surgir a
ordem de destruição total dos judeus (Et 3.7-13). A falsa
segurança foi embora. O povo de Judá dependia totalmente da
intervenção divina para que não fosse exterminado. Ester
mostra Deus agindo mais uma vez, movendo as estruturas
humanas, agora no grande e poderoso Império Persa. Seja
qual for a circunstância, é melhor confiar no Senhor do que no
homem (Sl 118.8,9).
3. A Festa de Purim
O livro de Ester marca esse propósito principalmente pela
instituição da Festa de Purim, ordenada por Mardoqueu
depois do grande livramento que os judeus receberam (Et
9.20-28). Purim é o plural da palavra acadiana pur, podendo
ser entendida como lançar sortes. Conforme Ester 3.7, Hamã
lançou sorte para estabelecer o dia da morte dos judeus, mas a
situação acabou se invertendo, tornando motivo para
comemoração dos judeus.7 A festa, portanto, comemora a
frustração do nefasto plano de extermínio diante da
providencial ação divina para a libertação do seu povo.
1 Quanto ao risco de enveredar-se por infindáveis estudos produzidos pela Alta
Crítica e perder-se o principal, que é a edificação espiritual, J. Sidlow Baxter (ibid.,
p. 273) cita G. Campbell Morgan, que afirmou: “[…] pode-se passar a vida inteira
tentando descobrir quantos homens escreveram Isaías, quem foi o autor do
Pentateuco ou quem escreveu a Carta aos Hebreus, sem jamais estudar a Bíblia”.
Como nosso propósito é estudar as Escrituras, este livro não se dedica a reproduzir
as infindáveis discussões da crítica bíblica.
2 Império Aquemênida é outro nome dado ao Primeiro Império Persa, vigente nos
dias de Ester.
3 São dezoito referências espalhadas pelos quatro capítulos do livro: Rt
1.6,8,9,13,16,17,20,21; 2.4,12,20; 3.10,1; 4.11,12,13,14,15.
4 ANDRADE, Claudionor Corrêa de. Dicionário Teológico. 1.ed. Rio de
Janeiro: CPAD, 1998, p. 261.
5 É necessário dizer que muitos judeus, embora não tenham seguido Zorobabel,
Esdras ou Neemias para reconstruir Jerusalém, contribuíram financeiramente com
as obras e a restauração das cerimônias (Ed 8.25-28).
6 Eugene H. Merril (2001, p. 498) argumenta que o fim do cativeiro não representa,
de certa forma, o fim do exílio, porque Jeová não retornou na ocasião para habitar
no templo, o que, conforme os profetas predisseram, somente se dará na era
escatológica, quando o próprio Messias será a glória de Deus (Ag 2.7-9).
7 Bíblia Brasileira de Estudo, p. 686.
T
Capítulo 7
A DEPOSIÇÃO DA RAINHA
VASTI E A ASCENÇÃO DE
ESTER
INTRODUÇÃO
oda história tem um contexto. Não é diferente com a
história de Ester. Cinquenta e seis anos depois da queda
da Babilônia, ocorrida em 539 a.C., o Império Persa estava no
auge da sua expansão. A sua grandeza é ressaltada logo no
primeiro versículo do livro de Ester, macro cenário da
extraordinária história que a obra registra: “E sucedeu, nos
dias de Assuero (este é aquele Assuero que reinou, desde a
Índia até à Etiópia, sobre cento e vinte e sete províncias)” (Et
1.1). O versículo seguinte (1.2) situa-nos no microcenário da
narrativa, a fortaleza de Susã, a capital do novo império.
Isaías e Jeremias haviam profetizado o fim do Império
Babilônico e o surgimento desse novo reino (Is 45.1; 47.1; Jr
51.24).1 Quanto às origens de Ciro e do Império Persa ou
Aquemênida, Eugene H. Merrill (2001, p. 507, 508) escreve:
As raízes de Ciro originam-se com os medos e os persas. Ambos eram
descendentes de tribos arianas que se moveram da Rússia em direção sul para o
platô urartiano, e por volta de 1000 a.C. estabeleceram-se nas vizinhanças do
lago Urmia (hoje geograficamente reconhecido como o extremo noroeste do
Irã). Gradualmente, os medos se moveram para o leste e ocuparam o oeste do
Irã, no sul do mar Cáspio, enquanto os persas migravam para o sul,
estabelecendo-se no sudoeste do Irã, voltados para o Golfo Pérsico.
A linhagem real de que Ciro fazia parte foi fundada por Acamenes, que reinou
de 700 a 675. Foi ele quem emprestou seu nome para a dinastia acamenida.
Seu filho Teispes (675-640) estendeu os territórios da Parsa (Pérsia) em direção
sul, até atingir a Passárgada. Em razão da grande extensão do reino, Teispes
dividiu-o entre seus dois filhos, Ariaramnes, no sul, e Ciro I, no norte. Ele
também reconquistou sua independência não mais submetendo-se aos medos,
os quais controlaram a Pérsia em cerca de 670.
A linhagem de Ariaramnes (640-615) incluiu Arsames, Hispastes e Dario
Hispastes; a de Ciro I (640-600) produziu Cambises I (600-559) e Ciro II (559-530), o que criou o império. Cambises, estabelecido como governante da Pérsia
após esta ser novamente tomada pelos medos e constituída uma província,
casou-se com a filha do rei da Média, conhecida como Astiages. Deste
casamento nasceu Ciro II, que unia em si mesmo as famílias da Média e da
Pérsia.
Ciro reinou de 539 a.C. até a sua morte, em plena batalha,
no ano 530 a.C. O seu filho Cambises II reinou no seu lugar
até 522 a.C., sendo sucedido por Gautama (522 a.C.), que
usurpou o poder e foi assassinado no mesmo ano que subiu ao
trono,2 sendo sucedido pelo líder da conspiração, Dario
Histapes, pai de Xerxes (Assuero), que ficou conhecido por
grandes realizações, como destaca Eugene H. Merrill (2001, p.
519):
Com a paz e a estabilidade no governo, Dario deu início à implementação de
grandes reformas administrativas. De grande importância era o
desenvolvimento contínuo de um sistema legal que já havia se tornado famoso
pela inalterabilidade dos editos do rei. Tanto Daniel (6.8,12,15) quanto Ester
(1.19) demonstraram estar cientes desse aspecto da jurisprudência persa.
Baseando-se, sem dúvida, nas antigas leis precedentes, como o código de
Hamurabi, o sistema de leis de Dario era administrado com, no mínimo, uma
preocupação teórica pela justiça.
Outra realização foi a introdução de uma política fiscal completamente
revisada. Dario padronizou a cunhagem de moedas e definiu as medidas para
pesos e medidas, facilitando sensivelmente todo o comércio.
[…]
Uma terceira área de bastante atividade foram os projetos de construção civil.
Por volta de 521, Dario removeu sua capital para Susã, situada cerca de 482
quilômetros a noroeste da antiga capital, e lá construiu um belíssimo e suntuoso
palácio. É a essa estrutura que Ester e Neemias se referem como a “cidadela de
Susã” (“palácio de Susã” KJV). Mais tarde em seu reinado, Dario empreendeu
a construção de uma nova cidade chamada Persépolis, onde ele intentava
estabelecer permanentemente a capital do império. Ele chegou mesmo a dar
início ao projeto, mas foi seu filho e sucessor Xerxes quem deu continuidade à
obra e completou-a totalmente. Susã provavelmente continuou sendo a capital
política e administrativa, ao passo que Persépolis tornou-se mais ou menos uma
“casa de espetáculos”, para onde os reis da Pérsia levavam seus convidados a
fim de impressioná-los com toda sua beleza.
I – O BANQUETE DE ASSUERO E A RECUSA
DE VASTI
1. O rei Assuero
Dario foi um rei de muitas pretensões expansionistas,
marchando sobre os territórios do Egito e outras regiões da
África, além da Índia, Ásia e Europa.3 Morreu no ano 486,
depois do insucesso diante dos atenienses na batalha de
Maratona. O seu filho Assuero assumiu o Império Persa
naquele mesmo ano e governou-o por 20 anos (até 465). O seu
nome grego é Xerxes (Khshayarshan, em persa), filho de
Atossa, filha de Ciro.
D. A. Carson (2009, p. 678) explica que a cidadela de Susã
era a acrópole central (como se vê hoje nos sítios arqueológicos
das antigas cidades gregas, como Atenas e Corinto), elevada
acima do restante da cidade e fortificada para proteger o rei.
Uma espécie de cidade alta.
2. Um banquete público, outro exclusivo
O primeiro fato registrado no livro de Ester foi o grande
banquete que Assuero ofereceu aos seus príncipes e servos de
todo o Império, o que incluía, além da nobreza da Pérsia e da
Média, os governadores das 127 províncias. Com o banquete,
o imperador queria “mostrar as riquezas da glória do seu reino
e o esplendor da sua excelente grandeza […]”, o que fez por
180 dias (Et 1.4). Essa longa duração dos festejos é muito
discutida pelos eruditos. Não se sabe se as festas e cerimônias
foram ininterruptas ou se aconteceram conforme chegavam as
delegações, vindas de todas as partes do vastíssimo Império
Persa. Essa última hipótese é a mais provável, como opinam
alguns estudiosos. É nesse sentido o pensamento de Joyce E.
Every-Clayton (2020, p. 129):
A recepção durou cento e oitenta dias, uma grande sequência de festas. Os
convidados por certo compareceram em momentos diferentes, cada um
passando talvez uns poucos dias na capital. De outra maneira, teríamos de
entender que a administração do império esteve paralisada por seis meses.
Outro fator a ser considerado eram as enormes distâncias da
maioria das províncias, que demandavam longos dias de
viagens. Acredita-se que, além de contemplarem a grandeza
do reino, as delegações vindas das províncias eram consultadas
por Assuero sobre os seus planos de reeditar a tentativa do seu
pai Dario de tomar as cidades gregas. Every-Clayton entende
que os seis meses serviram para Assuero tratar dessa
campanha com os generais e conselheiros do seu reino. Isso se
mostra muito plausível pela leitura da obra do historiador
grego Heródoto (484–425 a.C.), conhecido como “o pai da
História”, na qual se tem, em detalhes, como cada província
participou da empreitada militar, fornecendo grandes
exércitos, que, somados, alcançavam 2.641.610 soldados para
combates por terra e mar. É bem provável que a ocasião tenha
servido para Assuero certificar-se de como poderia contar com
os povos vassalos e os seus exércitos, combinando com eles a
adesão ao seu mega projeto expansionista.
Cumpridos os seis meses, Assuero ofereceu um banquete
para os moradores da cidadela ou fortaleza de Susã no pátio
do jardim do seu palácio, que era “um prédio quadrado com
mais de 100 metros de cada lado, com setenta e duas colunas
de pedra de 20 a 25 metros de altura” (Walton et al., ibid.,
628). Embora fosse uma festa menor, para as classes inferiores,
como observa Every-Claiton (ibid., p. 129), havia muito luxo e
ostentação, além de bebida à vontade. A festa foi programada
para sete dias (Et 1.5-8). Decerto, ficaria desconfortável para o
imperador receber visitantes ilustres durante longos seis meses
e não tirar um tempo para festejar com os seus súditos, que
viviam nos arredores do seu palácio, na acrópole de Susã.
Ester 1.5 registra que o público-alvo era o “povo [da] fortaleza
de Susã”, mesmo porque seria difícil imaginar que fosse
possível comportar todos os habitantes da grande cidade de
Susã nos jardins do palácio.
Foi durante essa festa local, mais propriamente no sétimo
dia, que Assuero decidiu ordenar que lhe trouxessem a sua
mulher, a rainha Vasti — que alguns estudiosos acreditam ser
a mesma Améstris, citada por Heródoto no seu livro História.
Alguns linguistas consideram que Vasti e Améstris são as
traduções hebraica e grega, respectivamente, do mesmo nome
persa (Walton et al. p. 629). Ao mesmo tempo que Assuero,
Vasti também ofereceu um banquete, porém restrito às
mulheres da casa real (Et 1.9). Havia, portanto, diferenças
fundamentais entre os banquetes de Assuero e de Vasti. O
banquete do rei era para todo o povo: homens e mulheres,
ricos e pobres (Et 1.5); já o da rainha era exclusivista: apenas
para as mulheres do palácio. Não se sabe a razão dessa
diferenciação, pelo fato de não haver nenhum registro do
mundo antigo de mulheres comendo separadamente dos
homens ou de banquetes exclusivos para cada um desses
grupos (Walton et al., p. 629). Isso poderia representar,
portanto, uma atitude excludente de Vasti, bem alinhada com
a reação que teve diante do convite ou ordem do rei.
3. O convite à rainha
No sétimo dia do seu banquete, depois de ter bebido bastante,
Assuero já estava no estágio de euforia. O texto bíblico diz que
“o coração do rei [estava] alegre do vinho” (Et 1.10). Foi
quando decidiu ordenar que lhe trouxessem a rainha Vasti,
“com a coroa real, para mostrar aos povos e aos príncipes a
sua formosura, porque era formosa à vista” (Et 1.11). Como já
observado, tratava-se de um ambiente festivo, com ampla
participação popular. A rainha negou-se a acompanhar os sete
eunucos que o rei enviou para conduzi-la à sua presença (Rt
1.12).
II – VASTI RESISTE À ORDEM DO REI E É
DEPOSTA
1. A recusa da rainha
São muitas as opiniões acerca das condutas do rei e da rainha
nesse episódio. Fato é que não se verifica no texto bíblico
qualquer justificativa para a atitudede Vasti. Outrossim, ao
considerar-se correta a sua postura, há que se qualificar como
despótica a conduta de Assuero. No que isso resulta? Em
considerar que Vasti perdeu a sua posição injustamente e que
Ester foi guindada ao seu lugar através de um processo
impróprio, numa espécie de usurpação do trono. Isso pode
representar a perda da legitimidade de Ester, o que não é
compatível com a narrativa bíblica. O mais coerente,
portanto, é ficar com o que as Escrituras apresentam: um ato
inusitado da rainha, que expôs o rei a uma situação vexatória
diante dos seus súditos e convidados.
Para justificar a recusa de Vasti, alguns estudiosos citam
comentários rabínicos, segundo os quais a ordem do rei seria
para que a rainha fosse apresentada nua, portando apenas a
coroa real. Essa ideia, contudo, não faz sentido diante do
contexto geral da narrativa. Era uma festa pública, nos jardins
do palácio. E ainda que fosse uma festa reservada a um seleto
grupo de nobres, não há nos registros históricos da época
evidência alguma desse tipo de prática. Também não se pode
alegar que a recusa da rainha seja decorrente do seu recato,
principalmente se ela for, como se cogita, a mesma Améstris
citada por Heródoto, uma mulher astuta e sanguinária.4 Uma
das atitudes sanguinárias de Améstris contada por Heródoto é
a mutilação da esposa do irmão de Assuero, Masistes, que a
rainha ordenou depois de descobrir o envolvimento do rei com
a filha da cunhada.
Se a ordem de Assuero tivesse sido dada durante o banquete
oferecido aos nobres e poderosos das províncias do reino,
poderíamos até cogitar que o motivo seria expor a beleza de
Vasti aos estrangeiros, no interior do palácio. A rainha,
contudo, foi chamada à presença do rei no sétimo dia do
banquete público, oferecido ao povo da cidadela de Susã, nos
jardins do palácio, como já afirmado. Isso enfraquece a
interpretação de que Vasti teria que fazer uma espécie de
desfile em traje sensual diante dos príncipes. O versículo 11 do
capítulo 1 informa que o rei queria mostrar Vasti “aos povos e
aos príncipes”. Assim, a característica popular do banquete
fica evidente. Além disso, o local, o “pátio do jardim do
palácio real” (1.5), é uma eloquente razão para ponderarmos
se não é preciso muita simpatia por Vasti para acolher as
interpretações comumente feitas de que o rei queria expor
sensualmente os dotes físicos dela diante da nobreza.
Sendo público o banquete, porventura pretendia Assuero
expor a nudez da rainha para o povo da cidadela de Susã?
Não seria mais prudente evitar qualquer juízo valorativo sobre
a atitude de Vasti, como fez o autor sagrado, e deixar que os
personagens da história avaliem a sua conduta?
2. A aplicação da lei
Diversos intérpretes bíblicos consideram que a atitude de
Assuero foi motivada pelo seu estado de embriaguez. De fato,
o rei estava sob influência do vinho quando ordenou a vinda
de Vasti, mas a sua decisão de depô-la do cargo não aconteceu
de repente, de forma intempestiva ou autoritária. Um rei
bêbado teria dado uma ordem imediata para trazerem Vasti à
força ou, então, logo a consideraria deposta do trono, sem
qualquer ponderação. Os fatos não se deram assim. Apesar da
sua fúria, Assuero suportou o constrangimento público de
receber de volta os eunucos sem a rainha. Passado o episódio,
levou o caso ao exame dos sábios do seu reino, entendidos nas
leis e no direito persa (Et 1.13). Liderados por um colegiado
composto de sete conselheiros, os sábios entraram à presença
do rei para analisar a conduta de Vasti e orientá-lo como
decidir. Não há como desconsiderar que havia na pergunta do
rei alguma expressão de prudência. Ele quis saber “o que,
segundo a lei, se devia fazer da rainha Vasti, por não haver
cumprido [o seu mandado]” (1.15). Assuero estava numa
situação difícil. Como poderia ele exercer o governo do
império se não tinha autoridade sobre a sua mulher? O que
lhe permitia a lei fazer nesse caso?
Um rei que quisesse agir a qualquer custo jamais faria uma
consulta jurídica, buscando saber o que poderia fazer na forma
da lei — ou da jurisprudência dos medos e persas.
3. A sentença de Vasti
Examinado o caso, Memucã, um dos sábios, aconselhou ao rei
que depusesse Vasti. Apontou como argumento a grande
repercussão do caso. A conduta da rainha seria um péssimo
exemplo para todas as mulheres do reino, e isso provocaria
desrespeito e discórdia nos lares (1.17,18). Memucã apelou
para uma espécie de garantia da ordem pública. O seu
conselho agradou a Assuero e aos seus nobres. O rei decretou
a deposição de Vasti e enviou cartas a todas as províncias,
estabelecendo “que cada homem fosse senhor em sua casa” (Et
1.22).
O que se observa, portanto, é que os personagens da história
reprovaram a conduta de Vasti. Quanto a Assuero, apesar de
ser um rei ímpio, a sua resolução está em conformidade com o
que a Palavra de Deus estabelece (Ef 5.23). Uma das
qualificações exigidas do líder cristão é exatamente esta:
exercer o governo da própria casa. O princípio bíblico
apresentado por Paulo é: o homem que não lidera em casa
não é apto para cuidar da Igreja de Deus (1 Tm 3.4,5). A falta
de clareza na definição dos papéis do pai e da mãe tem sido
altamente prejudicial para o desenvolvimento dos filhos em
todas as áreas da vida. Como consequência, toda a sociedade é
prejudicada. Um assunto aparentemente privado tem uma
inequívoca dimensão de caráter público.
III – ESTER: A JUDIA TORNA-SE RAINHA
EM TERRA ESTRANHA
1. Quatro anos depois
Algum tempo depois dos dois grandes banquetes que ofereceu
em Susã, Assuero lançou-se numa campanha militar contra a
Grécia. Para tanto, reuniu exércitos das suas principais
províncias ao longo de todo o Oriente Próximo, África, Ásia e
Europa, diante da adesão de muitas cidades gregas, já aliadas
da Pérsia desde os dias do seu pai, Dario. O historiador Lloyd
Lllewelly-Jones (2023) vale-se de várias fontes, incluindo
Heródoto, para também narrar em detalhes a investida persa
sobre a Grécia, uma verdadeira epopeia que se transformaria
num rotundo fracasso. Assuero cometeu algumas insanidades
durante a sua expedição, errou em muitos cálculos e
estratégias e terminou frustrado na sua empreitada,
principalmente por haver decidido lançar-se a uma arriscada
batalha naval, a batalha de Salamina. Lllewelly-Jones (p. 288)
narra o fatídico desfecho da guerra, ocorrido no ano 480 a.C.:
A espinha dorsal da marinha de Xerxes [Assuero] foi destroçada em Salamina.
Teria sido difícil para ele construir rapidamente uma nova frota. Além disso, a
infantaria e a cavalaria não podiam mais depender de suprimentos trazidos por
navios. E assim, exaustos e desmoralizados, os persas foram forçados a recuar
da Ática. Xerxes passou o inverno em Tebas, ruminando seus erros e punindo
os erros dos outros […]. Deve ter sido uma viagem de regresso extremamente
difícil para todos os envolvidos, mas sobretudo para Xerxes. Ele havia rompido
com os exemplos militares de seus antepassados — Ciro, Cambises e Dario —,
cujas vitórias na guerra fizeram o império crescer em tamanho e poderio.
Agora que deixava a Grécia, Xerxes sabia que havia despertado um ninho de
vespas e estava deixando para trás um povo rebelde e espinhoso, cuja
resistência ao Império Persa continuaria a crescer.
A campanha militar empreendida por Assuero contra as
cidades gregas durou cerca de quatro anos, período que está
encravado entre o primeiro e o segundo capítulo do livro de
Ester. Enquanto o primeiro capítulo fala dos banquetes e da
deposição de Vasti, o segundo já apresenta o processo de
escolha da nova rainha, ocorrido após o retorno de Assuero
das terras gregas, provavelmente no ano 479 a.C. O texto diz:
“Passadas essas coisas, e apaziguado já o furor do rei Assuero,
lembrou-se de Vasti, e do que fizera, e do que se tinha
decretado a seu respeito” (Et 2.1). Observa-se que Assuero
lembrou-se de Vasti, porém não sem considerar a sua conduta
— “lembrou-se de Vasti, e do que fizera” —, o que também
indica que, mesmo passados quatro anos, o rei não ponderou
estar errado e ser necessárioretroceder. Embora não seja
razoável esperar de um monarca como Assuero a admissão do
seu erro, novamente se observa um silêncio no texto quanto a
qualquer juízo de valor relacionado à conduta de Vasti.
O que se percebe, mais uma vez, é que a reação de Assuero
à negativa de Vasti em atendê-lo não pode ser tida como
resultado do seu estado de embriaguez — ou, pelo menos, não
exclusivamente, pois o texto bíblico permite entender que a
fúria do rei só foi apaziguada muito depois dos fatos (2.1). O
efeito do álcool já havia passado há muito tempo. Fica claro,
portanto, que a indignação do rei não foi de momento; apenas
fruto da sua embriaguez. Agora, com a mudança de humor do
monarca, os seus servos viram uma ocasião propícia para
sugerir-lhe a escolha de uma substituta para Vasti, o que se
deu no ano 479 a.C.
2. O universo da escolha
Na Antiguidade, a elevação de uma mulher ao trono decorria
mais comumente de um casamento entre famílias nobres,
geralmente por arranjos diplomáticos, mas também poderia
acontecer pelo critério da beleza, numa escolha feita entre
moças virgens do reino. Esse modelo ocorria na Pérsia,
conforme Lloyd Lllewelyn-Jones descreve na sua obra (ibid., p.
202-217). O livro de Ester apresenta, com nítida naturalidade,
a adoção desse método: os auxiliares de Assuero
aconselharam-no a escolher moças virgens de todas as
províncias para que fossem trazidas ao palácio e, dentre elas,
fosse escolhida a nova rainha.
Apesar de governar um império de cultura tradicional, com
longas sucessões entre famílias originárias da Média e da
Pérsia, Assuero decidiu acolher a sugestão dos seus servos do
palácio, autorizando, assim, o processo seletivo. Moças de
todas as províncias do reino foram selecionadas. Não havia
restrição quanto à origem étnica ou racial. A única exigência é
que fossem virgens e formosas (Et 2.2-4). O concurso foi
divulgado, e muitas moças foram levadas a Susã — e Ester
estava entre elas. Podemos ver a mão de Deus nisso tudo,
porque foi a adoção desse método que permitiu que uma judia
chegasse ao trono. Deus estava providencialmente dirigindo
todo o processo.
O judeu Mardoqueu morava próximo ao palácio, e com ele,
Ester, que era órfã de pai e mãe, que ele criara como filha.
Levada à casa do rei, Ester ficou sob os cuidados de Hegai,
guarda das mulheres, de quem logo conquistou a simpatia
(2.7-9). O texto faz-nos entender que havia uma graça especial
na vida de Ester (2.9). Embora o texto não diga, não há outra
conclusão: o Deus que esteve com José estava também com
Ester (Gn 39.2,21,23).
3. A obediência de Ester
Mardoqueu ordenou a Ester que não declarasse o seu povo e a
sua parentela. Não sabemos a razão dessa ordem, já que não
havia restrição étnica no processo de escolha da nova rainha.
Talvez Mardoqueu tivesse conhecimento da existência de
inimigos do povo judeu que poderiam interferir no processo de
escolha da nova rainha. Mesmo sem qualquer explicação
sobre a proibição, Ester obedeceu à risca a ordem de
Mardoqueu (Et 2.10). Em tempos de tanta exigência de
explicações, inclusive no âmbito familiar, Ester também nos dá
o exemplo da importância de obedecer sem contestar.
A obediente Ester desfrutava do especial cuidado de
Mardoqueu, que passava diariamente diante do pátio da casa
das mulheres para saber como ela estava (2.11). Havia respeito
e atenção mútuos entre Mardoqueu e Ester. Findos os 12
meses de preparação — portanto, já no ano 478 a.C. —,
chegou a vez de Ester ser levada à presença de Assuero:
E o rei amou a Ester mais do que a todas as mulheres, e ela alcançou perante
ele graça e benevolência mais do que todas as virgens; e pôs a coroa real na sua
cabeça e a fez rainha em lugar de Vasti. (2.15-17)
A celebração foi grande. O rei convidou a todos os seus
príncipes e servos para a festa de Ester, decretou feriado em
todo o reino e agiu com grande generosidade, distribuindo
presentes (2.18).
CONCLUSÃO
Ester chegar ao trono foi o sinal de que Deus, na sua
presciência, agiu para a preservação do povo judeu, que, não
muito tempo depois, seria vítima do ódio de Hamã e correria
o risco de total extermínio por força de um decreto real. A
presciência é um dos atributos incomunicáveis de Deus.
Somente Ele sabe de antemão todos os acontecimentos futuros
(Is 46.9,10). Podemos confiar nossa vida inteiramente à sua
direção, pois Ele sabe o que é melhor para nós. Com
obediência e humildade, Ester estava no lugar certo para, no
tempo certo, cumprir os propósitos divinos.
1 O capítulo 47 de Isaías descreve a soberba da Babilônia, motivo da sua queda.
2 O professor Lloyd Llewellyn-Jones (2023, p. 13,49) apresenta uma detalhada
árvore genealógica da dinastia Aquemênida, identificando a sua origem em povos
tribais nômades da Eurásia Central que se fixaram no planalto iraniano. Eram
migrantes pastoris, cuja principal ocupação era a criação de gado.
3 A parte europeia do Império Persa era a região grega então conhecida como
Trácia, que correspondente atualmente a parte dos territórios da Grécia, Turquia e
Bulgária.
4 Não existem evidências históricas que comprovem que Vasti seja a mesma
Améstris citada pelos historiadores. Apenas opiniões de estudiosos neste sentido.
D
Capítulo 8
A RESISTÊNCIA DE
MARDOQUEU
INTRODUÇÃO
epois da elevação de Ester à condição de rainha, a
história volta-se para outro personagem: Mardoqueu,
um dos judeus que tinham posição de destaque no reino da
Pérsia. Embora não assistisse diretamente ao rei no palácio,
morava na cidade alta, a fortaleza de Susã, com a prima e filha
adotiva Ester, que agora tinha assento no trono no lugar de
Vasti (Et 2.5-7,17). Mardoqueu era filho de Jair, filho de
Simei, filho de Quis, da tribo de Benjamim (2.5,6).1 Por esse
relato bíblico, a pergunta que surge é: Mardoqueu esteve entre
os judeus trazidos de Judá para o exílio ou nasceu em terras
babilônicas? A resposta depende da referência que se faz à
expressão “que fora transportado de Jerusalém”.
Alguns intérpretes entendem que o autor referiu-se a
Mardoqueu. Outros, porém, compreendem que o
transportado para Jerusalém fora Quis, pai de Simei, pai de
Jair, pai de Mardoqueu. Sendo assim, é bastante provável que
Jair também tenha vindo para o exílio, onde nascera
Mardoqueu. Da deportação de Jeconias (ano 597) até a
ascensão de Ciro (539) são 58 anos; mais 61 anos até 478 a.C.;
quando Ester tornou-se rainha, já seriam 119 anos. É pouco
provável, portanto, que Mardoqueu tenha estado entre os
transportados de Jerusalém para a Babilônia; caso contrário, já
estaria com, pelo menos, cento e vinte anos de idade.
Joyce G. Baldwin (1986, p. 58) concorda que seria
improvável que a expressão “que fora transportado” tenha
sido atribuída a Mardoqueu exatamente pelo fator idade:
“[…] isto faria com que tanto ele como Ester fossem velhos
demais em 480 a.C.”. Iain M. Duguid (2016, p. 27) tem como
certo o nascimento de Mardoqueu nas terras do exílio. Um
dos seus ancestrais havia sido levado para o exílio no tempo de
Joaquim (Jeconias) em 597 a.C. (2 Rs 24.14,15), e ele,
Mardoqueu, faria parte de um grupo de segunda ou terceira
geração de exilados. Portanto, não teria conhecido nada além
da vida na Pérsia sob o império. “O exílio definia a sua
existência”, analisa Duguid. Donald Stamps (2009, p. 757) é
categórico: “Foi Quis […], o bisavô de Mardoqueu, e não o
próprio Mardoqueu, que foi transportado de Jerusalém, como
cativo, juntamente com o rei Jeconias em 597 a.C. […]”.
Gleason L. Archer Jr. (2012, p. 530) explica que a dedução
de que Mardoqueu teria sido transportado de Jerusalém
fundamenta-se numa interpretação errônea do texto hebraico:
[…] o verdadeiro antecedente do pronome relativo “que” no versículo 6 não é
Mardoqueu, mas, sim, Quis, seu bisavô. Se Quis foi o contemporâneo de
Jeoaquim, conforme dá a entender o autor, três gerações teriam passado até o
tempo de Mardoqueu — um intervalo apropriado entre 597 e 483.
Quanto ao nome Mardoqueu, Archer faz referência a uma
importante descoberta arqueológica datada de 1941 que
indica a existência de uma inscriçãodo período persa,
mencionando certo Marduk-ai-a, oficial em Susã durante o
reinado de Xerxes, e acrescenta: “De fato, o nome Mardukai
foi, com frequência, achado em inscrições babilônicas
posteriores (como seria de esperar de um nome que significava
‘Homem de Marduque’ — o deus-patrono da própria
Babilônia)” (ibid., p. 531). (Essa é uma das muitas razões pelas
quais não convém que dediquemos nosso tempo às divagações
da crítica bíblica, posto que todas as suas refutações são, uma a
uma, espancadas com o avanço das descobertas da própria
ciência).
Ainda sobre Mardoqueu, um ponto a ser esclarecido diz
respeito à pessoa de Quis, o seu bisavô, que leva o mesmo
nome do pai de Saul. Jeremy Royal Howard (2018, p. 783)
trata da questão de forma direta:
A genealogia de Mardoqueu é problemática se ela procurar ligá-lo a Quis, pai
do rei Saul (1 Sm 9.1). Dificilmente este Quis poderia ter sido o bisavô de
Mardoqueu, pois o intervalo entre os dois é de mais de 500 anos. Das duas
uma: ou esse Quis era outra pessoa ou pode ser que o termo ‘filho de’ signifique
aqui ‘descendente de’, um uso comum no AT que, neste caso, indicaria que o
autor preferiu identificar apenas alguns membros da linhagem de Mardoqueu.
D. A. Carson (ibid., p. 679) certamente considera essa
última hipótese, pois afirma textualmente:
Mordecai tinha nomes distintos entre os seus ancestrais: Quis era o pai do rei
Saul (1 Sm 9.1), e Simei, seu parente, o tinha apoiado ferrenhamente (2 Sm
16.5). O fato de a família ter sido deportada para a Babilônia com o rei
Joaquim em 597 a.C. é mais um indício de sua importância (2 Rs 24.14-16).
Mostra-se mais razoável, portanto, seguir a observação de
Howard, pois a distância temporal dos fatos — do início da
monarquia ao exílio — não permite que se afirme que o Quis
que fora transportado para a Babilônia era o pai de Saul.
Como assinalou Howard, o intervalo entre os dois é de mais
de 500 anos, sem paralelo algum no contexto histórico quanto
às altas longevidades do período patriarcal. A respeito do
significado do nome, Carson reforça a posição comum de que
é uma associação a Marduk, o deus nacional da Babilônia, e
acrescenta a informação de que há em um texto do período
persa a menção a um homem chamado Marduka, que serviu
como um contador em uma visita de inspeção a partir de Susã.
Ester, uma Rainha Obediente
Ester foi coroada rainha e permaneceu em silêncio quanto à
sua origem judaica (Et 2.20). Não há como deixar de
relacionar essa conduta de Ester à de Rute, que se conservou
obediente a Noemi em tudo (Rt 3.5,6). Agora, Ester dá o
mesmo exemplo. O fato de ter chegado ao trono, viver no
palácio e ter acesso ao rei não a fez sentir-se empoderada.
Ester lembrava-se da sua educação e preservava o seu respeito
ao primo, que a criara como filha. Ester demonstrava
profundo respeito ao rei, de quem agora era mulher (Et
4.10,11), assim como preservava a sua obediência a
Mardoqueu.
O bom exemplo de Ester, aliás, contrasta com o mau
exemplo de Vasti. Enquanto Vasti optou pela desobediência,
desafiando a autoridade do rei, Ester era obediente a todos,
por onde passava. (Obedeceu, inclusive, a Hegai, o eunuco do
rei, no tempo em que passou em preparação no palácio — Et
2.15). O que aprendeu de Mardoqueu ela conservou ao longo
da vida. Isso foi fundamental para que chegasse à posição de
rainha, e, como veremos no capítulo 10, tornou-se crucial para
que alcançasse o favor do rei e fosse um instrumento de Deus
para livrar o seu povo. Um espírito altivo pode levar-nos a
experimentar muitos prejuízos (cf. Pv 16.18). A humildade é o
caminho para a honra (Pv 15.33).
I – MARDOQUEU DESCOBRE UMA
CONSPIRAÇÃO CONTRA O REI
1. Os bastidores do poder
Depois de muitas festas, a vida ganhou ares de aparente
normalidade no reino da Pérsia. Assuero estabilizou-se no
palácio, mas, como era comum nos impérios da Antiguidade,
vivia sujeito a tramas e conspirações. Heródoto fala de atos
conspiratórios e suspeitas de insurreições não apenas próximas
do trono do imperador — nos dias de Ciro e de Cambises —,
mas também nas províncias do reino. Llewelly-Jones (ibid., p.
293) afirma que um clima de instabilidade reinava nos dias de
Assuero, exatamente no período em que a Bíblia menciona a
conspiração descoberta por Mardoqueu:
Após a guerra na Grécia, algo mudou em Xerxes [Assuero]. A partir de 479
A.E.C, suas inscrições começaram a enfatizar a importância primordial da
lealdade e as consequências da insurreição contra o trono, alertando os súditos
para que conhecessem seu devido lugar e permanecessem fiéis ao rei. Era como
se um sentimento de inquietação generalizada no império ameaçasse perturbar
a tranquilidade imperial.
Conforme acentua Lllewely-Jones (ibid., p. 303, 304),
Intrigas, conluios e assassinatos eram realidades da vida na corte persa. As
conspirações rapidamente se transformavam em rebelião e até em regicídio. A
corte Aquemênida era um lugar brutal, e muitas vezes a violência que eclodia
ditava a política dinástica. A Pérsia era controlada por um governante absoluto
— isso não é um clichê orientalista, é um fato —, e as monarquias absolutas
estavam abertas a uma forma específica de tensão política que geralmente se
concentrava na própria família real e poderia resultar no uso do direito de
violência. Pelo menos sete dos doze Grandes Reis Aquemênidas encontraram a
morte nas mãos de algum tipo de assassino (apenas três monarcas tiveram o
luxo de uma morte pacífica), e a esse rol podemos acrescentar o assassinato (ou
execução) de pelo menos dois príncipes herdeiros.
Não era à toa, portanto, que Assuero vivia sob inquietação,
e o que ele temia quase lhe aconteceu nos dias de Ester e
Mardoqueu.2 Dois dos seus oficiais, que atuavam na segurança
palaciana, indignaram-se contra ele e buscavam uma
oportunidade para matá-lo. De alguma forma, a trama chegou
ao conhecimento de Mardoqueu, que integrava o serviço do
palácio, “à porta do rei” (2.21). Conforme John H. Walton et
al. (2018, p. 632), escavações feitas em Susã confirmaram a
existência de uma enorme porta a aproximadamente 100
metros a leste do palácio principal, com uma passagem de 15
metros de comprimento. Walton ainda diz que foi encontrada
uma inscrição no local, colocada por Xerxes, identificando o
seu pai, Dario, como o construtor da obra. Provavelmente, era
esse o local onde Mardoqueu ficava e tomou conhecimento do
plano arquitetado contra Assuero. Como não tinha acesso ao
rei, Mardoqueu fez com que o caso chegasse ao conhecimento
da rainha Ester, que, por sua vez, contou a Assuero o que
estava acontecendo (2.21).
A narrativa bíblica retrata o que geralmente ocorre em
todos os bastidores do poder, onde não é incomum que haja
intrigas e insatisfações entre os auxiliares mais próprios da
autoridade superior ou até em relação ao mandatário maior,
como ocorreu no caso de Assuero. Os seus oficiais desejavam
assassiná-lo, pois nutriam uma grande indignação, cuja causa
o texto sagrado não revela. Seja qual for a razão, é da
natureza humana caída alimentar ressentimentos e discórdias,
que, quando não dissipados, levam a terríveis tragédias.
Expectativas frustradas, invejas e pretensões de domínio e
supremacia são os principais motivos de disputas e traições nas
esferas de poder. O ambiente eclesiástico não fica isento disso,
porque também lida com posições de autoridade e outras
formas de controle humano, inclusive econômico. Não nos
esqueçamos, contudo, de que a primeira tentativa de
usurpação de poder aconteceu no reino angelical, com Lúcifer
(Is 14.12-15; Ez 28.17,18). Desde então, toda busca doentia
por domínio é expressão desse mesmo sentimento maligno e
deve ser rejeitada pelo verdadeiro cristão (Tg 3.14-18). Jesus
ensinou que, no Reino de Deus, a posição de liderança deve
ter como finalidade servir, e não dominar ou ser servido (cf.
Mc 10.42,43).
2. A investigação
Bigtã e Teres estavam enfurecidos contra Assuero e tramaram
assassiná-lo. Ao saber do plano, Mardoqueu demonstrou a sua
fidelidade ao rei, fazendo com que este fosse avisado. Ester foi
aportadora da comunicação, mas não a fez no seu próprio
nome (Et 2.21-23). Esse detalhe da narrativa não é irrelevante.
Ester bem poderia simplesmente contar ao rei que tomara
conhecimento de uma conspiração em andamento sem revelar
a fonte, mas não foi o que ela fez; muito pelo contrário!
Embora fosse rainha, e o primo, apenas um servidor do
palácio, Ester fez questão de informar ao rei em nome de
Mardoqueu. O fato de ter sido promovida a uma posição
elevada não a envaideceu: a rainha não se envergonhou do
primo e nem aproveitou a informação para projetar ainda
mais o próprio nome. Além de permanecer obedecendo a
Mardoqueu, transmitiu ao rei a informação dando-lhe o
devido crédito (Et 2.20,22b).
Assuero, por vez, mostrou-se um rei sensato e prudente.
Embora a história geral retrate-o como um rei intempestivo e
autor de muitas excentricidades, o monarca persa dá uma
grande lição de liderança nesse episódio. Ao ouvir da rainha a
informação clara e direta de que Bigtã e Teres tramavam
matá-lo, talvez se esperasse que o rei simplesmente mandasse
prendê-los ou mesmo executá-los, mas não foi assim que
Assuero agiu. O versículo 23 diz: “E inquiriu-se o negócio, e se
descobriu […]”. Na linguagem de hoje, podemos afirmar que
Assuero determinou a abertura de inquérito, talvez sob sigilo,
e buscou apurar se, de fato, havia o intento conspiratório. A
NVI traz a seguinte tradução: “Depois de investigada a
informação e descobrindo-se que era verdadeira, os dois
oficiais foram enforcados”.
O líder deve ser prudente quanto ao tratamento a ser dado
às informações que recebe. Os liderados, por sua vez, precisam
ser cuidadosos quanto ao que comunicam ao líder, evitando
precipitarem-se com informações incompletas, desconexas,
incertas, duvidosas ou, pior ainda, falsas. No caso de Ester, o
fato de mencionar a fonte (Mardoqueu) não foi apenas
eticamente correto; foi uma atitude igualmente prudente.
Embora possivelmente ela não imaginasse, houve uma
investigação prévia para apurar a informação, descobrindo-se
que, de fato, havia um plano de homicídio em andamento.
Mardoqueu certamente buscou certificar-se da conversa que
ouviu antes de transmiti-la a Ester. O rei, mesmo ouvindo da
rainha, teve o cuidado de apurar a informação. É uma questão
de justiça. Na verdade, há um princípio constitucional —
muitas vezes violado — que assegura a todos a presunção de
inocência. Assuero agiu como um líder sensato, que não
exerce o poder de forma precipitada. Mesmo sendo confiáveis
as fontes, como no caso de Mardoqueu e Ester, é conveniente
que se busque comprovar toda a acusação para não se cometer
injustiça (Êx 23.7; Pv 17.15).
O líder que tem a fraqueza de agir com base apenas no
“ouvi dizer” estimula fofocas e fica suscetível a manipulações.
Líderes que agem por impulso, dando ouvidos ao que lhes
agrada, geralmente o fazem por insegurança; veem fantasmas
por todo lado e são tomados por reações persecutórias e
tirânicas, construindo em torno de si um clima de constante
instabilidade, como fez Saul. No seu livro Perfil de Três Reis,
Gene Edwards (2007, p. 25) descrevo-o como um monarca
insano que não percebia que era ao Senhor Deus que se devia
deixar a decisão acerca de quais eram os reinos que haveriam
de sobreviver diante das ameaças. Saul ignorou isso e, como
diz Edwards, fez o que todos os reis loucos fazem, chegando ao
ponto de atirar lanças contra Davi. Um líder sensato, seguro
de que está onde Deus o colocou, não age precipitadamente.
O seu temor a Deus impede-o de cometer injustiças. Até
mesmo Assuero, um ímpio, agiu com cautela, investigando
primeiro para depois agir.
3. O registro dos fatos
A narrativa bíblica encerra esse episódio informando que os
fatos relativos à conspiração e a sua descoberta foram escritos
no livro das crônicas perante o rei; nada mais. Tratava-se de
um costume antigo. O cotidiano das cortes compunha as
chamadas crônicas do rei, que ficavam arquivadas para serem
consultadas (Et 6.1). O ato de fidelidade de Mardoqueu e a
importância que teve para o rei e o seu reino ficaram
registrados, mas, no momento, nada foi alterado na sua
condição de auxiliar o palaciano. Mardoqueu permaneceu na
mesma posição de antes. Ele certamente não tinha expectativa
de que a sua atitude renderia a ele alguma promoção. O texto
bíblico permite concluir que não havia esse tipo de espírito em
Mardoqueu. Caso tivesse, teria experimentado uma grande
frustração.
Quanto ao fato de Assuero não ter promovido a Mardoqueu
ou o recompensado de imediato, podemos extrair mais uma
lição: certas recompensas precipitadas podem alimentar
sentimentos nocivos e incentivar práticas de motivação
duvidosa. Mardoqueu agiu de forma coerente, com uma
intenção sincera de proteger o rei. Outros, contudo, se vissem
que a sua conduta rendera-lhe altas recompensas, poderiam
agir levianamente, como fofoqueiros do palácio, no afã de
obterem favores do rei.
Quando o líder demonstra a disposição de prestigiar os que
lhe agradam os ouvidos, termina criando um grupo de
auxiliares amantes da fofoca, que constroem as suas próprias
carreiras — frágeis, diga-se de passagem — com base em
“conversas de lavadeiras” (sem pretender, aqui, generalizar o
emprego da expressão). Se isso é feio entre mulheres, mais
ainda entre os homens. Pior ainda se esses homens são
contados entre líderes espirituais.
II – HAMÃ É EXALTADO PELO REI
1. Um novo personagem
Além de não ter recebido recompensa alguma, Mardoqueu viu
outro servo do rei, Hamã, ser exaltado ao cargo mais elevado
do reino, uma espécie de primeiro-ministro (Et 3.1, NTLH). O
texto sugere uma ascensão meteórica. Hamã é identificado
como agagita, o que significa que, provavelmente, era
descendente de Agague (1 Sm 15.8-33), rei dos amalequitas
nos dias de Saul (Howard, 2018, p. 785). Essa posição é
defendida por diversos outros autores, como Flávio Josefo (p.
521), John H. Walton et at. (p. 632) e Matthew Henry (p. 850).
Outros, contudo, afirmam que Agague era o nome de um
distrito no Império Persa, sendo Hamã natural dessa
província, e não um descendente do rei amalequita (v.g.,
Archer Jr., p. 530). Versões bíblicas como a NVI e a NTLH
apresentam Hamã diretamente como “descendente de
Agague”.
2. Um herói (aparentemente) esquecido
Enquanto Hamã foi exaltado, Mardoqueu permaneceu por
muito tempo como um herói (aparentemente) esquecido. Isso
nos ensina como é necessário ter sabedoria e prudência para
viver momentos paradoxais, de aparente injustiça. Se
Mardoqueu se movesse pelos fatos do momento, guiando-se
pela própria vista, teria sido profundamente afetado com a
ascensão de Hamã. Quando temos uma visão equivocada das
circunstâncias que vivemos, tornamo-nos vulneráveis e
propensos a crises emocionais e espirituais, principalmente
quando o cenário é-nos desfavorável. Um clássico exemplo
bíblico é o de Asafe, que começou a olhar para a aparente
prosperidade dos ímpios, comparando-a às suas aflições e
dificuldades pessoais, e quase desistiu da fé (cf. Sl 73.13,14).
Essa desesperança pode vir sobre qualquer pessoa, não apenas
por questões de ordem espiritual.
3. Evitando frustrações
Quem conhece a Deus e à sua Palavra sabe que não há
esperança neste mundo, na presente Dispensação, quanto ao
estabelecimento da plena justiça. Somente no Reino do
Messias! Paulo escreveu a Timóteo que “os homens maus e
enganadores irão de mal para pior, enganando e sendo
enganados” (2 Tm 3.13). Para o cristão, portanto, o caminho
não é engajar-se em projetos humanos, que visam resgatar os
sistemas de vida terrenos, como ensinam os difusores da
Cosmovisão Cristã Reformada, fundamentados numa
escatologia amilenista. Asafe viu-se livre do seu desespero
quando teve uma visão da eternidade (Sl 73.16,17).
III – A RESISTÊNCIA DE MARDOQUEU E O
ÓDIO DE HAMÃ
1. Reverenciado por todos
Hamã não apenas surgiu repentinamente no cenário e foi
honrado por Assuero com um cargo de primeiríssimo escalão;
o rei ordenou que todos os seus servos inclinassem-se e
prostrassem-se diante do novo principal ministro (Et 3.1,2).
Assim, Hamã passoua ser reverenciado por todos os servos do
rei, menos por Mardoqueu, que não se curvava e nem se
prostrava diante dele (Et 3.2). Muito se discute sobre qual seria
o motivo dessa postura de Mardoqueu. Donald Stamps, no seu
Comentário da Bíblia de Estudo Pentecostal (p. 758), afirma:
Mardoqueu, por sua lealdade a Deus, recusou-se a inclinar-se diante de Hamã
(v. 4). Tudo indica que a homenagem prestada a Hamã pelos servos do rei por
outros, ou era imerecida, ou conflitava com atos religiosos que os judeus
reservavam exclusivamente à adoração a Deus. Mardoqueu não concordava
em curvar-se ou prostrar-se diante de Hamã. Os três companheiros de Daniel
evidenciaram a mesma convicção (Dn 3.1-12).
Não sabemos ao certo o que motivou Mardoqueu a decidir
seguir na contramão do palácio. Certamente tinha fortes
motivos de foro íntimo. A probabilidade de que fosse de
ordem religiosa é reforçada quando consideramos a resposta
de Mardoqueu aos servos do rei: quando inquirido, ele
declarou que era judeu (3.4). É pouco provável, portanto, que
não houvesse relação alguma com a sua convicção de fé,
embora também seja fato que não há registro desse tipo de
restrição para os judeus, isto é, de que não podiam reverenciar
autoridades.
Podemos ousar considerar que, apesar de ser um homem
submisso e leal ao rei e às demais autoridades, Mardoqueu
tenha visto algum abuso na conduta de Hamã, o que poderia
consistir em alguma desonra aos servos do rei, inclusive ele,
Mardoqueu. Não é incomum que algumas pessoas exijam
certas reverências de modo imodesto ou exagerado,
importando em violação à dignidade e à consciência. Se assim
foi, Mardoqueu teve a sensibilidade de entender que a
exigência estava além do tolerado, motivo da sua recusa. Joyce
G. Baldwin (1986, p. 65) tem uma opinião que se assemelha:
Mordecai obstinadamente recusou-se a submeter-se a Hamã, quaisquer que
fossem as razões; de fato, parece haver uma falta de respeito generalizada por
esse homem; se assim não fosse, não haveria necessidade de uma ordem real
para que o povo se curvasse diante dele. Outros podiam se conformar, mas
Mordecai não era um homem do tipo que concorda com tudo. Embora o fato
de ele ser judeu não impedisse o ato de ele se encurvar, a fé dos exilados tendia
a encorajar uma independência de juízo e de ação que embaraçava aos seus
captores (Dn 3:6).
2. A condição de judeu
A conduta de Mardoqueu vinha passando despercebida para o
próprio Hamã, até que os servos do rei, incomodados com a
sua atitude independente e voluntariosa, denunciaram-no para
o agagita (3.4). É o típico jogar lenha na fogueira. Esses servos
palacianos fizeram isso para ver o que iria acontecer (3.4). Os
“colegas” de Mardoqueu tiveram um sentimento parecido,
pelo que se entende do texto).
Hamã passou a notar, então, que Mardoqueu realmente não
se curvava; assim, encheu-se de ódio e logo planejou eliminar
o judeu, mas não somente ele, e sim toda a sua raça (3.6).
Flávio Josefo (p. 521) considera que essa reação de Hamã,
nessa extensão, foi motivada pelo fato de que ele realmente
seria um descendente do rei Agague:
Como ele era por natureza inimigo mortal dos judeus, porque os amalequitas
haviam sido outrora vencidos por eles, o seu furor cresceu tanto que seria muito
pouco, para a sua vingança, mandar matar Mardoque: seria necessário
exterminar toda a nação judaica.
Hamã não seria o primeiro e nem o último a almejar o
extermínio de todo o povo judeu. Outros “Hamãs”
levantaram-se — e continuam se levantando — ao longo da
história, aspirando a eliminação dos judeus. No capítulo 9,
abordaremos com mais detalhes o odioso plano de Hamã e
trataremos do nefasto antissemitismo, que vem crescendo em
todo o mundo.
3. Inimizades intergeracionais
A probabilidade de Hamã realmente ter sido um descendente
de Agague leva-nos a refletir sobre as chamadas inimizades
intergeracionais. Como já visto, Flávio Josefo diz que a fúria
de Hamã contra todo o povo judeu — e não apenas em
relação a Mardoqueu — devia-se à sua ascendência
amalequita. Os amalequitas, que foram terrivelmente hostis a
Israel durante a sua passagem pelo deserto (Êx 17.8-13), foram
feridos por Saul e o seu exército por ordem de Deus (1 Sm 15).
Agague, o rei amalequita, foi despedaçado por Samuel ao fio
da espada (1 Sm 5.33). Estaria Hamã agindo movido por um
ódio guardado por gerações?
A Bíblia relata alguns episódios de vingança entre famílias,
como foi no caso dos filhos de Jacó, que mataram os
siquemitas por causa do ultraje feito a Diná, filha de Leia, que
foi estuprada. Simeão e Levi aproveitaram o momento em que
os siquemitas estavam em profunda dor, por terem sido
circuncidados, e mataram todos à espada (Gn 34.1-31). Além
da Bíblia, a história secular apresenta inúmeros exemplos
desses conflitos, alimentados e repetidos ao longo de muitas
gerações. O Brasil tem muitas histórias de perpetuação de
violência por disputas econômicas (geralmente por terras, nas
regiões de mais conflitos agrários) ou decorrentes de questões
morais graves, envolvendo as famílias. Que Deus guarde nosso
coração de toda inimizade e porfia. A vingança não nos
pertence. Como filhos de Deus, devemos perdoar e buscar a
paz (Rm 12.18-21; Mt 5.9; Hb 12.14; Gl 5.20).
CONCLUSÃO
O exemplo de Hamã adverte-nos de como precisamos estar
espiritualmente alertas para não sermos iludidos por
confiarmos na natureza humana. Uma das aplicações práticas
da inteligência espiritual é livrar-nos de todo engano (Cl 1.9; Jr
17.5). Embora não devamos viver desconfiando de tudo e de
todos, também não podemos deixar de ser prudentes e ignorar
a malignidade do coração humano (Mt 10.16; 15.19). O
Maligno pode suscitar ódio contra nós de onde menos
esperamos.
Precisamos estar atentos e revestidos de toda a armadura de
Deus para que possamos resistir e vencer o mal. Nossa luta
não é contra carne e sangue (Ef 6.11-16; Rm 13.12). Por isso,
em vez de enfrentar as pessoas, devemos orar por elas, como
nos ensinou o Senhor Jesus (Mt 5.44,45).
1 D. A. Carson chama a atenção para o fato de Mardoqueu ser chamado de judeu e
ser benjamita (i.e., da tribo de Benjamin, e não de Judá) e explica que a palavra
judeu tornara-se um termo generalizado para qualquer israelita durante o período
pós-exílico (2009, p. 679).
2 De acordo com vários relatos históricos, Assuero terminou a vida como vítima de
uma conspiração, urdida por dois dos seus auxiliares próximos: o comandante da
guarda real, Artábano, e um eunuco de nome Aspamitres. Lloyd Llewellyn-Jones
(ibid., p. 302-304) registra que um período de crise abateu-se sobre o reino da
Pérsia nos anos finais do governo de Assuero, levando-o a deixar o governo nas
mãos de Artábano e Aspamitres. Recorrendo a autores clássicos como Ctésias e
Diodoro Sículo e o historiador romano Justino, Llewellyn-Jones narra que uma
trama para assassinar Assuero foi iniciada por Artábano, que convenceu o filho do
rei, Artaxerxes, a participar do plano de assassinar o próprio pai. Daí seguem
versões diversas sobre como teria ocorrido a morte. Uma delas foi que Assuero foi
morto dormindo, talvez por mãos do próprio filho Artaxerxes.
Capítulo 9
A CONSPIRAÇÃO DE HAMÃ
CONTRA OS JUDEUS
INTRODUÇÃO
O mundo é como um ninho cheio de espinhos que nos
espetam constantemente e que nos fazem desejar voar para as
alturas em busca de um lugar de descanso (Mq 2.10; Jo 16.33).
Os judeus jamais se sentiriam confortáveis onde quer que
estivessem se não voltassem para a sua terra natal,
restaurassem o culto a Deus e vivessem segundo o seu
propósito. Foi assim na Antiguidade, na Idade Média e nos
tempos modernos. É assim em pleno século XXI. A criação do
Estado de Israel em 1948 representou a sua restauração
nacional, mas somente haverá paz para os judeus quando
ocorrer a restauração espiritual de Israel, com o retorno do
Messias e o derramamento do Espírito Santo. Será o
cumprimento pleno da visão profética dada a Ezequiel (Ez
37.1-14).
A conspiração de Hamã contra os judeus foi a primeira das
muitas tentativas de extermínio dos judeus, revelando o que é
comumem todas elas: ausência de razões plausíveis e um
absurdo requinte de crueldade nos intentos e práticas
agressoras. A mais recente agressão brutal aos judeus foi o
ataque de 7 de outubro de 2023, coordenado pelo grupo
terrorista Hamas, a partir da Faixa de Gaza, na Palestina.
I – O PLANO ODIOSO DE HAMÃ
1. Intrigas e patologias do poder
Como visto no capítulo anterior, a conduta de Mardoqueu
gerou um grande incômodo entre os serviçais palacianos.
Intrigados porque Mardoqueu não se prostrava diante de
Hamã, começaram a questioná-lo diariamente. O texto bíblico
informa-nos que eles inquiriam a Mardoqueu insistentemente
todos os dias (Et 3.3). Mardoqueu terminou dizendo que era
judeu, talvez depois da grande insistência dos seus “colegas”
de trabalho. Não é incomum que, no ambiente laboral, quem
serve a Deus gere inquietação pela distinção do seu
comportamento. E, quando se revela que a postura decorre de
um compromisso espiritual, geralmente a questão é
superestimada e, às vezes, é levada ao escalão superior para
ver se a convicção é sustentada. Foi o que aconteceu com
Mardoqueu. Inconformados, os seus conservos foram
denunciá-lo a Hamã.
O texto permite-nos entender que a atitude dos servidores
do palácio não decorria de um zelo sincero pela palavra do rei.
Parecia mesmo mais um desejo de ver a intriga feita. Queriam
saber se Hamã iria tolerar a conduta de Mardoqueu (3.4). Foi,
portanto, mais uma tentativa de jogar lenha na fogueira.
Invejas e dissensões costumam reinar em todo tipo de grupo
social. Hamã ficou furioso e reagiu de maneira absolutamente
desproporcional. Relevando uma personalidade patológica,
planejou o extermínio de todos os judeus (Et 3.4-6). Seria
compreensível se Hamã tivesse inquirido a Mardoqueu sobre a
sua conduta e exigido dele um tratamento isonômico em
relação aos demais servos do rei. Também não seria irrazoável
se tivesse relatado a ocorrência a Assuero, pelo desconforto
que estava reinando entre os oficiais do palácio. Hamã teve
uma péssima reação, abusando da sua autoridade. O poder
deve ser exercido com serenidade, pois todos temos um
Senhor nos céus (Ef 6.9; 1 Pe 5.2,3). Abuso de poder leva à
queda (Pv 16.18).
2. A extensão do plano
Quando soube que Mardoqueu era judeu, Hamã logo viu uma
oportunidade de exterminar todos os judeus espalhados pelas
províncias do reino persa (3.6). A dispersão do povo de Israel
— aqui no livro de Ester chamados simplesmente de judeus —
havia começado com a queda do Reino do Norte sob a
Assíria, que levou as dez tribos ao cativeiro, num processo de
espalhamento do povo hebreu para as terras das demais
nações do Império Assírio (Merrill, 2001, p. 422).1 Parte desses
deportados, incluindo alguns dos que foram levados para a
Babilônia, possivelmente se movimentaram ao longo do
extenso Império Persa, principalmente em função da liberdade
concedida por Ciro. Com o avanço da história bíblica —
incluindo o Novo Testamento — e extrabíblica, judeus são
encontrados em muitas partes do mundo, embora os núcleos
principais nos tempos veterotestamentários fossem a Babilônia
e o Egito (Tognini, 2009, p. 69).
Nos dias de Ester, o Império Persa estava no seu apogeu,
pois ocupava a maior extensão territorial desde o seu
surgimento, nos dias de Ciro. Os persas dominavam todo o
Antigo Oriente Próximo, desde o rio Indo, na Índia (hoje no
Paquistão) até o Mediterrâneo Oriental.2 O domínio incluía
parte do Norte da África, indo até a Etiópia, e estendia-se para
além do mar Egeu (até a Europa, na Trácia; hoje parte da
atual Turquia, Grécia e Bulgária). Em linha reta, de um
extremo a outro, eram mais de 4 mil quilômetros. O Império
não apenas avançou em território, dada a sua força militar,
mas também no sistema de governo, na engenharia naval, no
uso de moeda corrente, na astronomia, nas artes, na economia
e nos transportes. Havia um sistema avançado de estradas por
todo o império, rota que era conhecida como “Estrada Real
da Pérsia”, indo de Susã (no Elão) até Sardes (na Lídia),
compreendendo um total de 111 pontos intermediários para
descanso, atravessando cerca de seis províncias persas e
exigindo um total de 90 para dias para percorrer toda a sua
extensão, de cerca de 2.700 quilômetros (Beitzel, 2017, p. 203,
206). (Essas informações são importantes para a compreensão
quanto à movimentação dos correios do rei, levando cartas e
decretos, como mencionados no livro de Ester).
Ao incluir judeus de todo o Império, o plano de Hamã
atingia inúmeras comunidades judaicas, os judeus que haviam
retornado para Jerusalém, região que, no Império Persa, era
considerada parte da Síria, conforme Heródoto.
3. Astúcia e oportunismo
Para alcançar o seu intento, Hamã escondeu a sua verdadeira
motivação e apelou para o orgulho de Assuero (3.8). Hamã foi
astuto e oportunista, forjando uma falsa narrativa para
convencer Assuero. Isso é típico de subordinados que usam
indiretamente o poder dos seus líderes para alcançar os seus
próprios fins.
O interesse de Hamã era tanto que prometeu a Assuero que,
se ele decretasse a morte desse povo, entregaria 10 mil talentos
de prata (350 toneladas) para o tesouro real. Estima-se que isso
representava dois terços da renda anual do Império Persa, o
que significa que Hamã era um homem muito rico.
Se Assuero mostrou-se cauteloso no episódio dos guardas
Bigtã e Teres, não esboçou qualquer prevenção diante da
proposta de Hamã. É possível inferir do texto sagrado que
Assuero concordou com Hamã sem importar-se de que povo
tratava. O rei simplesmente tirou o seu anel e deu-o a Hamã, a
quem coube definir os termos da carta a ser enviada a todas as
províncias, assinada em nome do rei (Et 3.10-12). Assuero
mostrou-se facilmente manipulável, muito provavelmente por
Hamã haver conseguido acessar o seu ponto fraco, o seu ego.
Esse exemplo negativo ensina-nos que liderar requer
prudência e sabedoria para identificar desavenças pessoais
disfarçadas de motivações aparentemente nobres.
II – A TRISTEZA DE MARDOQUEU, DOS
JUDEUS E DE ESTER
1. O pavor da violência
Assuero deu liberdade para Hamã pôr em execução o plano
proposto. Os escrivães do rei foram convocados para escrever
cartas aos príncipes e aos governadores de todas as províncias.
Coube ao próprio Hamã ditar os termos da comunicação
(3.12). As cartas foram escritas em nome do rei e seladas com o
seu anel.3 Em seguida, foram enviadas pelas mãos dos correios
a todas as províncias, pelo sistema de transportes que cortava
praticamente todo o império.4
A ordem era enfática: deveriam ser espoliados, saqueados e
mortos todos os judeus, homens de todas as idades, mulheres e
crianças — um extermínio total (3.13). O dia designado foi o
dia 13 do décimo segundo mês. Para definir essa data, Hamã
lançou sorte (pur), isto é, jogou dados. Segundo Harrison (p.
295), nas escavações realizadas em Susã, foi descoberta uma
peça denominada de prisma quadrangular com números
inscritos, que seria semelhante ao dado usado para lançar
sortes que Hamã empregava ao determinar a data da
pretendida aniquilação dos judeus, e que era conhecido
naquela época como Pur.
Mesmo sem registro algum de insurreição dos judeus
durante os Impérios Babilônico e Persa, Hamã logrou êxito no
seu plano diabólico. Ele pretendia uma violência gratuita; uma
barbárie que visava apenas satisfazer o seu ódio. O primeiro
episódio violento na história foi a morte de Abel pelo seu
irmão Caim, também sem razão alguma (Gn 4.8). Desde
então, a violência apavora a humanidade em todos os tempos.
Já nos dias de Noé, a terra estava cheia de violência (Gn 6.11-
13). A triste realidade é que esse quadro não melhora. As
Escrituras anunciam tempos ainda mais difíceis à medida que
se aproxima o fim (2 Tm 3.1-4).
2. Bebida, confusão e tristeza
Enquanto as cartas galopavam pela estrada imperial,
ganhando as províncias, Assuero e Hamã entregavam-se à
bebida. O clima em Susã, porém, não era bom. A cidade
estava confusa (3.15). Como entender uma ordem arbitrária e
tão repentina? As reações no palácio e nas ruas, portanto,
eram bem distintas, comoanalisa Every-Clayton (p. 174):
Há duas reações ao decreto. A primeira é a perplexidade e a confusão dos
moradores da cidade de Susã, cidadãos comuns de bom senso que ficaram
abismados com a monstruosidade pretendida contra os judeus. Provérbios 29.2
observa que “quando os ímpios governam, o povo geme”. Os moradores estão
chocados e indagam do próprio destino. […] O texto sugere que o povo persa
não era antissemita e ficou atordoado com a decisão de seus líderes.
A segunda reação é dos autores do decreto, que fazem uma leitura equivocada
da opinião pública. Xerxes [Assuero] e seu ministro fria e cinicamente
assentaram-se para beber. Eles brindam ao decreto. Seguros de si e de suas
prerrogativas, antecipam a vitória. Entregues à bebida, esquecem-se do que a
lei determina e deixam de fazer justiça aos oprimidos (Pv 31.4-5).
Mardoqueu entrou em profunda tristeza; ele rasgou as suas
vestes, vestiu-se de pano de saco com cinza e saiu pela cidade
(Et 4.1). À medida que as cartas chegavam às províncias, a
reação era a mesma. Havia um clima de luto, com jejum,
choro e lamentação (Et 4.3). Só Deus pode frear a impetuosa
maldade humana (Sl 22.28; Rm 1.18-20; Ap 19.11-16).
3. Crise e clamor
Tudo mudou muito rapidamente. Depois da ascensão de Ester
e do clima de plena harmonia com Assuero — principalmente
diante da revelação do plano de conspiração —, Mardoqueu e
todo o povo judeu estavam, agora, com os dias contados para
o seu extermínio. O decreto do imperador inaugurou um
tempo de crise e suscitou um profundo clamor entre os judeus
de todas as províncias. O clima era de “grande luto, com
jejum, e choro, e lamentação; e muitos estavam deitados em
pano de saco” (Et 4.3). A humilhação dos judeus, inclusive
através do jejum, demonstra que não era apenas o medo
relacionado à ameaça humana, mas a busca de um socorro
divino. O quadro lembra bem diversos episódios da história de
Israel, quando esses mesmos elementos foram usados como
meios de busca da providência de Deus e livramento antes,
durante e depois do exílio (2 Sm 12.16; 2 Cr 20.3; Jl 1.14;
2.12,15; Dn 9.3; Ne 1.4; Ed 8.21).
Até esse momento, tanto no exílio como nas províncias,
eram muitos os judeus que se sentiam tranquilos, desfrutando
das suas comodidades. Se, de um lado, havia a fé e a bravura
dos 50 mil judeus que foram a Jerusalém para reedificá-la,
liderados por Zorobabel (Ed 2.1,2,64-70), de outro lado havia
a aparente tranquilidade dos que decidiram ficar nas suas
próprias habitações por todo o Império Persa. Mesmo dentre
os que acompanharam Zorobabel até Jerusalém, muitos se
dedicaram a construir casas luxuosas, dando pouco valor à
reconstrução do Templo, como denunciam os profetas pós-
exílicos Ageu e Zacarias (Ag 1.4; Zc 8.9-13). O decreto de
Assuero tirou a tranquilidade de todos, levando-os a buscar o
socorro divino (Et 4.3).
Por que, muitas vezes, precisamos experimentar crises para
buscar a Deus de todo o coração? A dureza de nosso coração
faz isto: “Porque eu sabia que eras duro, e a tua cerviz, um
nervo de ferro, e a tua testa, de bronze” (Is 48.4). Para que
nosso coração não se ensoberbeça, precisamos fazer como
Daniel, que orava em todo tempo, expressando a sua contínua
dependência de Deus (Dn 6.10). Somente com uma vida de
oração constante em casa e na igreja podemos vencer o mal
(Ef 6.18; 1 Ts 5.17).
III – O PERIGO E A CRUELDADE DO
ANTISSEMITISMO MODERNO
Hamã protagonizou a primeira prática antissemita largamente
conhecida na história. Há, porém, um fato anterior, que R. K.
Harrison registra no seu livro (ibid., p. 294, 295), ocorrido no
Egito. O motivo dessa rejeição e ódio aos judeus seria a
diferenciação da sua cultura, a sua organização e o seu
progresso, por onde se estabeleciam; ou seja, a prosperidade
do povo judeu e o seu estilo de vida próprio — principalmente
a sua tradição religiosa — é o que termina sempre
incomodando e gerando inimizades gratuitas. Sabemos que,
por trás de tudo isso, está o fato de os judeus serem o povo que
o Senhor escolheu para através dele cumprir a sua promessa
feita ainda no Éden e anunciada a Abraão, de cuja
descendência veio Jesus, o Messias (Gn 3.15; 12.1-3).
Harrison observa que, embora tenham sido espalhados
entre estrangeiros por toda a parte, em função de dispersões e
exílios, os judeus nunca foram totalmente absorvidos pelas
comunidades nas quais se estabeleceram. Isso, conforme
Harrison, se devia ao fato de os judeus utilizarem as suas
habilidades na vida política, administrativa e comercial, como
no caso do Império Persa, e destacarem-se perante os seus
vizinhos menos prósperos, o que suscitava desconfiança.
Hamã, portanto, estaria nutrindo em altíssimas proporções
um sentimento que já existia no mundo desde que os judeus
foram expatriados, o que aponta para o fato de que há mesmo
um propósito de Deus com Israel, intrinsecamente relacionado
com a sua terra, a possessão prometida aos patriarcas.
1. Faces do antissemitismo
De forma prática, antissemitismo é a manifestação de
hostilidade sistemática contra os judeus. É possível verificar ao
longo da história três faces de expressão desse ódio obstinado:
antissemitismo religioso, antissemitismo nacionalista e
antissemitismo racial. No aspecto religioso, registram-se
principalmente as perseguições católicas. No século XIV, por
exemplo, os judeus chegaram a ser acusados por católicos
europeus como responsáveis pela peste negra, que assolou a
Europa em 1348 (Novinsky, 2015, p. 38). Também durante a
Idade Média, sofreram intensa perseguição pela Inquisição,
principalmente a partir de 1478, na Espanha, por ordem do
Papa Sisto IV (1414–1484), e a partir de 1536, em Portugal,
pela instituição oficial do Tribunal do Santo Ofício pelo Papa
Paulo III (1468–1549). O principal objetivo era combater o
que chamavam de “heresia judaica”. Milhões de judeus foram
espoliados, torturados, execrados e mortos por não aderirem
ao catolicismo e por questões econômicas e políticas. A
primeira ordem de confinação de judeus em guetos não foi de
Adolf Hitler (1889–1945), no século XX; foi do Papa Paulo
IV, em 1555, e atingiu todos os Estados Papais por mais de
300 anos. Antes, contudo, no século XIV, já existiram as
judiarias, os bairros judeus, na Península Ibérica.
2. Antissemitismo nacionalista e racial
O aspecto nacionalista pode ser visto no século XIX e no
início do século XX na Ucrânia e na Rússia através dos
chamados pogroms, violentos ataques físicos indiscriminados aos
judeus. A prosperidade dos judeus incitava o ódio das
populações originárias, alimentado por teorias de conspiração.
O povo judeu era apontado como o culpado pelas crises
econômicas de países do Leste Europeu, por exemplo,
levando-os a reagir violentamente contra as comunidades
judaicas. Durante a Segunda Guerra Mundial (1939–1945),
Adolf Hitler protagonizou o antissemitismo racial, ao
proclamar a superioridade da raça ariana. O Holocausto
exterminou 6 milhões de judeus de toda a Europa.
3. Inquisição e antissemitismo no Brasil
Pouco se fala sobre antissemitismo em terras brasileiras, mas
Anita Novinsky et al. (2015) fazem um relevante resgate
histórico sobre perseguições a judeus no Brasil, como reflexo
das práticas persecutórias implementadas na Península
Ibérica, principalmente em Portugal. Novinsky et al. afirmam
que a dispersão dos chamados cristãos-novos — os judeus
sefarditas que eram obrigados a converterem-se ao
cristianismo, também chamados de marranos5 — alcançou
diversos países, incluindo o Brasil (p. 98):
A vida judaica no Brasil, como em Portugal, tinha de ser clandestina. Foram
construídas verdadeiras sociedades secretas, e os cristãos-novos se reconheciam
por códigos indecifráveis para os estranhos ao grupo. Construíram um discurso
crítico que circulava oralmente ou manuscrito, alguns dos quais chegaram até
nós.
Os conversos tornaram-se párias. Entretanto, na sociedade brasileira colonial
precisamos considerar um paradoxo: ao mesmo tempo em que se encontravam
fora da sociedade ampla devido às leis que os eliminavam dos cargos públicos,
administrativos,militares, acadêmicos e religiosos, seu status de “homens de
negócios” os situava “dentro” da sociedade. Viviam, assim, em dois mundos:
um verdadeiro e um fictício. Essa contradição produziu nos conversos um
sentimento dúbio, de amor e ódio. Queriam fazer parte do todo, mas
abominavam a religião cristã, pois a identificavam como a Inquisição, uma vez
que o próprio bispo era o inquisidor-geral. Carregavam um sentimento de
culpa, em relação tanto ao judaísmo quanto ao catolicismo.
4. Antissemitismo hoje
Israel vive um quadro delicado junto à parte da comunidade
internacional. Em 7 outubro de 2023, o país foi brutal e
covardemente atacado pelo grupo extremista Hamas,
auxiliado por outros cinco grupos terroristas, abrigados em
países vizinhos a Israel, como a Síria, e que também aspiram
ao extermínio judeu. Israel precisou defender-se invadindo a
Faixa de Gaza para neutralizar as forças do Hamas e libertar
os 240 reféns.
Como já afirmado, a criação do Estado de Israel em 1948
não garantiu paz aos judeus. O país vive em estado de alerta
em função de ataques terroristas internos e externos, feitos em
nome de uma falsa causa palestina. O que os inimigos de Israel
querem não é um acordo que lhes garanta um lugar para
viver. A sua verdadeira causa é o extermínio dos judeus. Só
Jesus, o Messias, salvará Israel, quando da sua conversão
nacional (Is 11.10-16; Ez 37.12-14; Zc 12,13; 14.4-9; Rm
11.26; Ap 1.7).
CONCLUSÃO
O antissemitismo não se revela apenas através de atos hostis,
mas também de apoio aberto ou posturas complacentes aos
inimigos de Israel, como os grupos terroristas, ou, ainda, por
meio de críticas sistemáticas aos atos de defesa israelenses,
pintando o país como o vilão da história. A despeito dos
pecados dos judeus, Deus tem um plano com Israel e vai
restaurá-lo quando, arrependido, aceitar o Messias (Rm 11.25-
32). “[Oremos] pela paz de Jerusalém!” (Sl 122.6).
1 Barry J. Beitzel (2015, p. 194) menciona o número de 4,5 milhões de pessoas que
teriam sido deportadas durante o período assírio, de todo o Oriente Médio,
incluindo Israel.
2 O Antigo Oriente Próximo ou Antigo Oriente compreende a região onde
apareceram as civilizações anteriores às clássicas, atualmente denominada Médio
Oriente, onde estão o Iraque, parte do Irã e da Turquia, Síria, Líbano, Israel e
Egito. Nessa extensa região, estão a Mesopotâmia (os modernos Estados do Iraque
e Irã), o Levante (Israel, Jordânia, Líbano, Síria e os territórios ocupados pelos
palestinos), a Anatólia (parte asiática da Turquia, que no Novo Testamento incluía
a chamada Ásia Menor) e Egito (Fonte: wikipedia – consulta em 02/03/2024).
3 Conforme o comentário da Bíblia de Estudo Cronológica Aplicação Pessoal (p. 1187,
1188): “Os oficiais do mundo antigo usavam anéis de sinete como assinaturas
pessoais. A superfície do anel tinha uma impressão em relevo feita de metal,
madeira ou osso; provavelmente, o anel de Assuero era feito de prata ou ouro.
Cada anel de sinete tinha seu próprio cunho. As cartas eram seladas pressionando-
se o anel contra uma cera macia, e os documentos oficiais eram certificados através
da utilização do sinete real”. Em nossos dias, existe a certificação digital através de
um dispositivo eletrônico que gera senhas, o token.
4 Yamauchi e Wilson (2020, p. 493) afirmam que o sistema de correios persa era o
mais famoso da Antiguidade. Conforme citação de Heródoto, o número de
cavaleiros correspondia ao número de dias que a viagem demandava. Cada
cavaleiro cumpria uma jornada diária. O primeiro entregava o seu despacho para o
segundo, o segundo para o terceiro e assim sucessivamente, passando de mão em
mão, até a chegada da correspondência ao destino. Considerando os registros de
Heródoto, Yamauchi e Wilson concluem que a rota de 2.730 quilômetros, que era
feita por viajantes comuns em 90 dias, com média de 30,3 quilômetros por dia, era
coberta pelos correios do rei em apenas uma semana, exigindo o percurso de 390
quilômetros por dia. Para isso, seria necessária uma troca sucessiva de cavaleiros e
cavalos a cada 40 quilômetros ou mais. Segundo os citados autores, o historiador
Xenofonte teria afirmado que esse sistema não parava nem mesmo durante a noite.
5 Sefarditas são os judeus originários na Península Ibérica (Portugal e Espanha).
Capítulo 10
O PLANO DE LIVRAMENTO E
O PAPEL DE ESTER
I – O PERIGOSO PLANO E O TEMOR DE
ESTER
1. Lamento, choro e compadecimento
O terrível plano de Hamã ganhou dimensão pública não
apenas em Susã, como também em todas as províncias do
Império Persa. Mesmo assim, Ester não sabia do decreto real
que ordenava a morte dos judeus. As suas criadas e os oficiais
responsáveis pelo harém contaram a ela sobre o estado de
Mardoqueu, que rasgara as suas roupas, vestira-se de pano de
saco, jogara cinzas sobre a cabeça e andara pelo meio da
cidade chorando amargamente e em alta voz. Compadecida, a
rainha enviou roupas para ele, que não as aceitou (Et 4.3,4).
Intrigada, Ester precisou enviar um dos eunucos do rei,
Hataque, para perguntar a Mardoqueu o motivo do seu
comportamento tão dramático.
Essa circunstância inusitada — o desconhecimento no
harém quanto a um fato tão notório em Susã — leva-nos a
abrir um parêntese para considerar como seria a vida no
recinto das mulheres palacianas na época, já que não é
razoável que um acontecimento tão relevante e grave,
conhecido de toda a cidade de Susã e até das províncias (3.15;
4.3), ainda estivesse encoberto no harém do palácio.
Pela descrição presente no livro de Ester, a estrutura
palaciana em Susã nos dias de Assuero contava com o palácio
do rei, composto do átrio interior (4.11), pátio exterior (6.4) e
porta do rei (2.19). Entende-se — inclusive por descobertas
arqueológicas já mencionadas neste livro — que havia uma
porta principal, que dava acesso ao pátio exterior —
certamente um local usado para grandes audiências —, e,
depois dele, o pátio interior, próximo ao trono do rei, num
espaço reservado, de acesso restrito, em frente ao seu aposento
(5.1). Certamente anexo ao palácio, as casas das mulheres
também ficavam na fortaleza.1 Uma casa principal (2.9) e uma
segunda casa das mulheres (2.14), de ocupação mais ampla,
onde ficavam as concubinas (Yamauchi e Wilson, 2020, p.
1202).
Dentro do conceito defendido por Llevellyn-Jones, o harém
diz respeito aos aposentos familiares privados de uma casa e às
pessoas que o habitam, em oposição ao espaço público e à
parte reservada para receber e entreter convidados (ibid., p.
198). Esse caráter familiar, contudo, não retira o papel sexual
que as esposas e muitas concubinas desempenhavam, embora
muitas delas jamais privassem da intimidade do monarca,
servindo apenas como habilidosas musicistas, dançarinas cultas
e brilhantes contadoras de histórias (p. 214). No caso de
Assuero (Xerxes), o Comentário Histórico-Cultural da Bíblia
(Walton, Matthews e Chalavas, 2018, p. 629) diz que ele tinha
uma esposa de cada vez, mas no seu harém havia mais de 360
concubinas, e os seus inúmeros casos amorosos foram
igualmente bem documentados, sendo motivo de muita intriga
na corte. Heródoto faz referência a alguns deles, como já
referenciado.2
2. Um obstáculo real
A trágica notícia chegou no harém. Hataque foi a Mardoqueu
e ouviu dele, em detalhes, o perigoso plano de Hamã. O
eunuco enviado por Ester voltou trazendo não apenas a
informação de Mardoqueu, mas também uma cópia do
decreto assinado por Assuero, marcando a data para o
extermínio dos judeus e um veemente pedido à rainha:3 Ester
deveria ir ao rei e suplicar pelos judeus. O propósito de
Mardoqueu foi alcançado. A informação chegou ao harém e,
mais especificamente, a quem poderia interceder junto ao rei
para evitar a tragédia anunciada.
Informada do apelo de Mardoqueu, Ester enviou Hataque
de volta com uma resposta negativa. Havia uma lei conhecida
de todos que proibia que qualquer pessoa fosse à presença do
rei, no pátio interior, sem ser por ele chamado, sob pena de ser
ordenada à morte, salvo se o rei estendesse-lhe o cetro de ouro.
A rainha estava sujeitaa essa mesma regra.
Acredita-se que essa rigorosa norma proibitiva de acesso ao
rei existia porque os monarcas temiam ser vítimas de
conspirações, como ocorreu com tantos deles, ao longo da
história, que foram mortos no trono. Matthew Henry (2022, p.
852) considera, contudo, que a lei não foi criada por
prudência, para maior segurança do rei, e sim mais por
orgulho, para que, sendo pouco visto — e isso apenas com
grande dificuldade —, o rei viesse a ser adorado como a um
pequeno deus:
Tratava-se de uma lei tola; pois (1) Isso deixava os reis infelizes, confinando-os a
seus isolamentos por receio de que fossem vistos. Isso fazia do palácio real
pouco mais que uma prisão real, e os reis só podiam acabar ficando rabugentos,
e talvez melancólicos, e, portanto, um terror para os outros e um fardo para si
mesmos […]. (2) Isso era ruim para os súditos; pois que bem lhes fazia um rei a
quem não tinham a liberdade de recorrer para eventuais retificações, e a quem
não pudessem apelar por meio de juízes?
O fato de Ester, como rainha, não ter sido chamada pelo rei
nos últimos 30 dias (4.11b) revela, inclusive, o distanciamento
que havia entre rei e rainha, dado o costume dos tempos
antigos. Mesmo uma mulher de posição elevada como Ester
enfrentava grandes restrições para chegar à presença de um
monarca. O fato é que não há cultura alguma em toda a
história que tenha dado à mulher a mesma honra que lhe
outorgou Jesus, fazendo-a digna de honra e participante de
dons espirituais e de serviço (Ef 5.22-28; 1 Pe 3.7; 1 Co 11.5;
Fp 4.3). A Palavra de Deus é, portanto, altamente libertária
para com a mulher, e não o contrário, como acusa falsamente
o movimento feminista.
II – MARDOQUEU CONVENCE ESTER
1. Con�ando na providência divina
O obstáculo suscitado por Ester era real, e Mardoqueu sabia
disso. A lei era de conhecimento geral (4.11a). Todavia, as
circunstâncias exigiam uma atitude corajosa. Há ocasiões em
que precisamos recuar, mas também há situações que devemos
avançar. Ester não poderia intimidar-se diante da lei que
vigorava na Pérsia, temendo pela sua vida; mesmo porque o
que estava em jogo não era apenas a vida dela, mas de todos
os judeus. Esse tipo de avaliação é preciso ser feito. Certas
normas — ainda que regras devam ser obedecidas — às vezes
precisam ser violadas se um bem ou valor maior estiver em
jogo. O que é preciso ter sempre em conta é a específica
direção de Deus para saber quando uma atitude incomum é a
ação certa a ser praticada.
Mardoqueu lembrou a Ester que o seu silêncio não lhe
garantia proteção (4.13,14). Como já observamos no capítulo
6, Mardoqueu revela a sua profunda convicção de que a
providência divina viria de alguma maneira para livrar os
judeus. Como diz Sidlow Baxter (1993, p. 278), é um
reconhecimento implícito de Deus; a revelação da percepção
repentina de Mardoqueu da previsão providencial de Deus
por trás da estranha ascensão de Ester ao trono. As palavras
ainda demonstram a sua fé inabalável no Senhor e na
indestrutibilidade do seu povo.
A contundência das afirmações de Mardoqueu não pôde ser
desprezada, inclusive no ponto em que diz a Ester que se
viesse livramento para os judeus de outra parte, ela, mesmo
sendo rainha, morreria, assim como os seus parentes — que
não se sabe onde residiam, talvez em alguma província persa,
ou na própria Jerusalém, ou se haviam retornado para a
capital de Judá. O que não há nas palavras de Mardoqueu é
dúvida de que haveria livramento (v. 14). A lição que tiramos
desse exemplo de Mardoqueu é que pessoas em posição de
influência são importantes se agirem como instrumentos de
Deus. Contudo, não podemos esquecer que é Deus quem age
por trás de tudo; é dEle que vem o verdadeiro socorro (Sl
121.1,2). Quando supervalorizamos pessoas — por mais
importantes que sejam — e esquecemo-nos de Deus, fazemos
delas nossos ídolos (Sl 121.1,2). Isso é repelido por Deus, pois
Ele abomina todo tipo de idolatria (Jr 17.5).
2. Primeiro Deus, depois o homem
As palavras de Mardoqueu convenceram Ester. Assim como o
seu primo, ela teve a sua consciência ativada, entendendo que
somente Deus poderia livrar o seu povo. Ester não foi
autoconfiante, não acreditando que o seu poder de persuasão
poderia convencer Assuero. Com temor e humildade, mesmo
sabendo que deveria agir, ela compreendeu que era preciso
clamar a Deus antes de tudo, para que Ele desse-lhe graça
diante do rei. O seu pedido a Mardoqueu para que os judeus
jejuassem durante três dias em favor dela é, na verdade, um
pedido de oração, pois o jejum é uma forma simbólica de
oração no Antigo Testamento. Ela e as suas moças também
jejuariam (Et 4.16). Agindo assim, Ester estava entregando-se à
misericórdia de Deus (Baxter, p. 278), numa demonstração de
prudência, equilíbrio e entendimento espiritual. Ela discerniu
o tempo e o lugar de Deus e da sua ação pessoal no plano de
livramento dos judeus. Antes de Ester procurar o rei, os judeus
deveriam buscar a Deus.
Jesus contou uma vez a parábola do juiz iníquo, uma grande
advertência do perigo do secularismo e do materialismo, que,
inspirados no ateísmo, rejeitam e negam as realidades
espirituais e veem o homem como o senhor da sua existência e
do seu destino; como a medida de todas as coisas. Uma viúva
clama ao juiz para que lhe fizesse justiça contra o seu
adversário. O magistrado mostrou-se insensível, não lhe dando
ouvidos. A pobre mulher insistiu, até ao ponto de o juiz
atendê-la por causa da sua importunação (Lc 18.1-8).
A mensagem da parábola é: vivemos dias nos quais o
esfriamento espiritual pode roubar nossa fé, levando-nos a
descrer na providência divina e recorrer aos nossos próprios
recursos em busca de solução para nossos problemas. Ester
não agiu assim. Primeiro, era preciso jejuar, humilhando-se
diante de Deus, rogando a sua providência. Um termômetro
da diminuição dessa fé hoje é exatamente a redução da prática
do jejum e da oração como medidas antecedentes às nossas
próprias ações; aliás, ao anunciar a parábola do juiz iníquo,
Lucas diz que o tema é: o dever de orar sempre e nunca
desfalecer (Lc 18.1). Devemos sempre confiar em Deus e
depender dEle, pois a autoconfiança e a presunção são de
origem maligna (Tg 4.13-16).
Tanto agora quanto antes, no processo da sua escolha como
rainha, seria a mão de Deus agindo em favor do seu povo.
Sem os atos providenciais do Eterno, a beleza de Ester não
resultaria em nada (cf. Pv 31.30).
3. A responsabilidade pessoal
Ester não apenas decidiu jejuar, como também rogou a
Mardoqueu que ajuntasse todos os judeus de Susã para jejuar
por ela. Seriam três dias sem comer e sem beber (4.16). A
atitude de Ester ensina-nos a necessidade que têm os líderes
espirituais de convocar os seus liderados para a prática de
disciplinas espirituais de piedade e devoção para que não
apenas esperem que terceiros façam por eles. O parasitismo
espiritual é altamente prejudicial para a Igreja, como Corpo
de Cristo. Todos os membros devem funcionar (Ef 4.16). Em
muitos outros versículos sobre a necessidade de todo o corpo
estar ativo, temos 1 Coríntios 14.26, Romanos 12.4,5 e
Gálatas 6.2-5.
Quando um líder espiritual promete soluções fáceis, que não
exigem compromisso algum do crente, ele promove uma
espiritualidade superficial. A direção da crença ao carisma —
ou suposto carisma — sem qualquer atitude espiritual própria
não confere com o ensino bíblico tanto do Antigo como do
Novo Testamento. Deus sempre exigiu a parte do homem,
dando-lhe tarefas e responsabilidades, em obediência à sua
Palavra, a fim de que, como justo que é, pudesse agir em favor
do fiel (Êx 23.14-17; Js 1.2-9; Dt 28.1,2)
4. Con�ar em Deus não é tentá-lo
Outra lição que aprendemos com Ester é que confiar em Deus
não significa tentá-lo. Ester confiava em Deus, mas não agiu
tentando-o (Êx 17.7; Mt 4.5-7). Mediante o jejum, os judeus
pediriam a intervenção divina para que o rei aceitasse a
presença de Ester e ela, assim, alcançasse o favor pretendido.
Ela, no entanto, sabia que isso poderia não acontecer. Todos
iriam jejuar, e ela, então, iriaà presença do rei, disposta até
mesmo a morrer se fosse o caso (Et 4.16). Ester não era como
os triunfalistas, que só admitem a vitória.
Décadas antes, na Babilônia, três outros judeus —
Sadraque, Mesaque e Abede-Nego — haviam demonstrado a
mesma fé e disposição (Dn 3.17,18). Em nossos dias, são
difundidas crenças neopentecostais que acreditam ser possível
“colocar Deus na parede”. A soberania de Deus não pode ser
desafiada por ninguém (Jó 2.9,10). Apesar de aparentemente
espirituais, certas “declarações de fé”, “palavras proféticas” ou
“atos proféticos” não encontram fundamento nas Escrituras,
tendo o potencial de gerar mais descrença do que convicção e
verdadeira confiança em Deus.
III – O PLANO: ESTER ENTRA À PRESENÇA
DO REI E PROPÕE UM BANQUETE
1. Prudência, preparação e ação
Como vimos, Ester não foi à presença de Assuero de repente,
sem qualquer preparação; antes, agiu com prudência,
esperando o tempo certo, sob a direção de Deus. Para aquele
grande desafio, Ester precisaria rogar a Deus que lhe desse a
coragem necessária, além de muito equilíbrio e firmeza para
dirigir-se ao rei, tanto pelo risco que corria — de não ser
recebida — quanto pela missão que tinha: revelar o macabro
plano de um homem tão poderoso no reino, o malvado Hamã,
que privava da confiança do rei a tal ponto que ambos eram
cúmplices e companheiros de bebida (3.15).
Há certas pessoas cuja presença pode até mesmo nos
intimidar. Em casos assim, precisamos rogar a Deus que nos
encoraje e capacite. Ester preparou-se espiritual, emocional e
fisicamente: depois de três dias de jejum, pôs a sua veste real e
foi ao pátio interior da casa do rei, diante do salão onde ficava
o trono (Et 5.1). A sua conduta ensina-nos como devemos ser
precavidos para tomar atitudes importantes, que podem
impactar nosso futuro (Pv 19.2). Mulheres sábias, como Ester e
Abigail, conseguem resolver grandes problemas e evitar muitas
tragédias (1 Sm 25.18-35). Abigail, por exemplo, vendo o risco
que toda a sua casa corria, preparou-se e, discreta, corajosa e
humildemente, foi à presença de Davi, esperando aplacar a
sua fúria; e ela foi vitoriosa no seu intento. Se, por um lado, a
mulher tem um altíssimo potencial positivo para edificar, tem
também para derrubar a própria casa (Pv 14.1). Imprudências
e precipitações podem levar a grandes prejuízos.
Ester foi ao pátio interior do palácio, mas não se dirigiu
diretamente à presença do rei. Infere-se da narrativa bíblica
que ela ficou a certa distância, no átrio que antecede o espaço
restrito do trono, de onde podia ser vista pelo rei. Fica bastante
evidente o quanto Ester foi cuidadosa, humilde e discreta.
“Forçar a porta” nunca é a melhor atitude. É mais fácil que se
feche e não que venha a abrir-se para nós.
2. Estendendo o cetro
A reação de Assuero deve ter produzido um grande alívio em
Ester. Ela, então, aproxima-se e toca a ponta do cetro de ouro,
como previa o protocolo. Por ser incomum que alguém se
apresentasse diante do rei sem ter sido chamado, Assuero logo
perguntou o que estava ocorrendo com Ester: “Que é o que
tens, rainha Ester, ou qual é a tua petição? Até metade do
reino se te dará” (Et 5.3). A disposição de vontade do rei foi
manifestada com o uso de uma frase que era comum em tais
ocasiões, mas que não deve ser interpretada literalmente;
tratava-se de um exagero com o fim de enfatizar a
generosidade do rei (Holman, p. 787). Demonstrava
generosidade, mas era uma frase convencional (Baldwin, 1986,
p. 77), uma expressão proverbial pela qual Assuero assegurou
a Ester que não lhe negaria nada que fosse razoável (Henry, p.
856). Herodes usou a mesma expressão com a filha de
Herodias, a sua mulher (Mc 6.21-23).
Com tamanha disposição, Assuero certamente esperava que
viria um grande pedido da parte de Ester, mas ela apenas
expressou o desejo de recebê-lo, junto com Hamã, naquele
mesmo dia, num banquete que já havia preparado (5.4).
3. Em sintonia com Deus
Não há como deixar de perceber como o Senhor estava
trabalhando em detalhes na vida de Ester. Ela certamente
recebera dEle, no seu coração, durante o período do jejum (ou
ao fim dele) toda a orientação de que precisava. Ester estava
em sintonia com Deus. O jejum e a oração são maneiras
eficazes de aproximarmo-nos de Deus e tornarmo-nos
espiritualmente mais sensíveis, prontos para ouvir a sua voz e
cumprir os seus propósitos.
Não apenas a sua entrada à presença do rei, mas também
um banquete específico já estavam preparados para aquele dia
(5.4b), como mais uma etapa do detalhado processo para
alcançar a vitória pretendida. Mesmo o rei prontificando-se a
atender Ester de forma imediata, ela agiu com cautela,
esperando o momento certo. Na primeira ocasião, apenas
convidou o rei para um banquete, junto com Hamã. Na hora
do banquete, o rei renovou a sua disposição em atender a
qualquer pedido de Ester. Era a segunda oportunidade, mas
ainda não era o momento adequado. Ester convidou Assuero e
Hamã para outro banquete no dia seguinte, quando, então,
faria o seu pedido (5.8). Uma noite importante separava os
fatos.
Os desígnios de Deus são perfeitos, e Ester estava mesmo em
sintonia com a providência divina. Confiar em Deus e
depender dEle faz com que vivamos experiências
extraordinárias. Assuero e Hamã foram para casa. As
próximas 24 horas seriam decisivas.
CONCLUSÃO
Confiar em Deus e depender dEle faz com que vivamos
experiências extraordinárias. O agir divino manifesta-se em
todas as áreas de nossa vida. O Deus Todo-poderoso estava
agindo, e Ele jamais perde o controle. Descansemos, pois,
nEle.
1 Archer Jr. (2012, p. 529) apresenta o desenho de um palácio, em que a casa das
mulheres aparece ao lado da casa do rei, com o seu próprio pátio interior.
Provavelmente uma área privada de recreação.
2 O historiador grego narra, inclusive, que Assuero levou muitas concubinas entre
as milhões de pessoas que o acompanharam na sua campanha militar contra a
Grécia.
3 A ARC traz o verbo ordenar, enquanto a NAA diz apenas que era para Hataque
pôr Ester a par de tudo, a fim de que ela fosse falar com o rei. A NVI traduz como
“e insistisse com ela”. É bastante razoável entender que Mardoqueu tenha feito um
veemente apelo com Ester, ou simplesmente dito a ela que fosse falar com o rei, na
condição de primo e pai adotivo. Ele não podia conceber atitude diferente de Ester.
N
Capítulo 11
A HUMILHAÇÃO DE HAMÃ E
A HONRA DE MARDOQUEU
INTRODUÇÃO
o dia anterior, Ester havia recebido Assuero e Hamã
para um banquete. O rei concedeu-lhe pedir o que
quisesse, com uma expressão de generosidade comum quando
o monarca agradava-se profundamente de alguém: “[…] Peça,
e lhe será dado. O que você quer? Será dado, mesmo que seja
metade do reino” (Et 5.6, NAA). Em vez de fazer o pedido,
Ester agendou um novo banquete para o dia seguinte, também
com Assuero e Hamã. Muita coisa mudaria em menos de 24
horas. Não há dúvida de que o Deus da providência — que
tudo vê mesmo antes que aconteça — estava guiando o
coração de Ester. Conceituando providência, J. Rodman
Williams (2011, p. 101) escreve:
A providência pode ser definida como o cuidado de Deus como supervisor e
guardião de toda a criação. Essa atividade é tão vital que Deus é às vezes
denominado Providência. Nas Escrituras, a designação antiga de um lugar é “o
Senhor proverá”, pois foi ali que Deus proveu um carneiro para Abraão, em
lugar do sacrifício de seu filho, Isaque.
[…]
A providência divina é muito mais que só um cuidado geral que Deus tem por
sua criação. Com certeza, é adequado dizer que Deus tem um interesse
benevolente por todas as suas criaturas. Entretanto, da mais profunda
importância é seu cuidado particular por todas elas, uma por uma; pois de fato,
conforme declara Jesus, até com respeito aos pardais: “Nenhum deles cai no
chão sem o consentimento do Pai de vocês” (Mt 10.29), e com respeito aos seres
humanos: “Até os cabelos da cabeça de vocês estão todos contados” (Mt 10.30).
Deus em sua providência está interessado nas minúcias de sua criação.
Williams observa, contudo, que
A doutrinada providência não é uma doutrina de otimismo superficial. Não é
olhar para o mundo através de óculos cor-de-rosa, como se não houvesse nem
problemas, nem sofrimento, nem mal.
Além do que, esse agir providencial de Deus não retira a
liberdade humana. Nada pega Deus de surpresa. Na sua
presciência, Ele sabe o que estará nos jornais de amanhã.
1. O instável Hamã: exultação e fúria
Uma noite decisiva separava o primeiro e o segundo banquete
oferecido por Ester. Entre eles, dois cenários distintos foram
formados ao mesmo tempo: um envolvendo Hamã, e o outro,
Assuero. Hamã deixou o banquete exultante; afinal de contas,
não apenas o rei, mas também a rainha estariam agora lhe
prestando honras. Ao sair dos recintos palacianos, Hamã viu
Mardoqueu à porta do rei, e o seu humor logo se alterou;
antes ele estava “alegre e de bom ânimo”, e agora estava cheio
de furor (Et 5.9). O agagita era instável nas suas emoções. Era
capaz de ir de uma alegria juvenil a uma fúria canina de um
instante a outro. Esse tipo de patologia costuma manifestar-se
em muitas pessoas. Conquanto ninguém esteja livre de ser
tomado pela ira, ao cristão não é dado aceitar essa condição,
buscando ser livre de toda instabilidade emocional, vivendo
sob o controle do Espírito (Gl 5.22b). O ensino paulino é para
que façamos morrer tudo o que pertence à natureza terrena,
abandonando a ira (Cl 3.5,8). Aos efésios, após admitir que o
crente pode ficar irado, mas não pecar (Ef 4.26), Paulo diz:
“Livrem-se de toda amargura, indignação e ira […]” (4.31,
NVI). Um estágio, portanto, é irar-se e não pecar; outro, mais
elevado — e possível —, é sequer ser tomado pela ira.
Hamã conteve a ira em público (“se refreou”, 5.10) e foi
para casa enfurecido. Ele precisava desabafar com alguém.
Chamou os seus amigos e a sua mulher, Zeres, para falar de
sua frustração: a riqueza e a elevada posição no reino não o
satisfazia enquanto visse Mardoqueu assentado à porta do rei.
Hamã não podia nem mesmo esperar pelo dia da pretendida
matança geral dos judeus, que já estava marcado. O ódio
consumia-lhe por inteiro. Aconselhado pela mulher e pelos
amigos, decidiu que pediria ao rei que enforcasse Mardoqueu
no dia seguinte. Hamã foi dormir com tudo planejado — se é
que conseguiu dormir naquela noite, já que certamente não
via a hora de pôr as mãos em Mardoqueu. Até a forca
mandou que fosse preparada (5.14).
A altura dessa forca intriga muitos eruditos: cinquenta
côvados (mais de vinte metros).1 Joyce G. Baldwin (1986, p.
79) pondera que, apesar de surpreender os comentaristas
ocidentais, como um exagero, tudo o que era construído pelos
governantes persas naquela época era em grande escala. Pode
significar que Hamã, a sua mulher e amigos pretendessem
protagonizar um espetáculo com a morte do seu desafeto. É
nesse sentido que o comentário da Bíblia de Estudo Cronológica
Aplicação Pessoal diz:
É provável que a forca tenha sido construída sobre a muralha da cidade ou
sobre alguma edificação proeminente. Eles queriam garantir que todas as
pessoas da cidade assistissem à morte de Mardoqueu e fossem lembradas das
consequências de desobedecer Hamã.2
A mulher de Hamã (Zeres) e os seus amigos revelaram-se
tão sanguinários quanto o próprio Hamã, além de sórdidos:
disseram a Hamã que, depois do enforcamento de
Mardoqueu, ele poderia ir “alegremente ao banquete com o
rei” (5.14b, NVT).
2. Os privilégios de Hamã no palácio
Outro ponto a ser destacado da narrativa em estudo diz
respeito aos privilégios que Hamã desfrutava junto ao rei.
Embora a ele também se aplicasse a lei proibitiva de ir à
presença do monarca se não fosse por ele chamado, o texto
sugere que Hamã tinha o costume de furar a fila, insinuando-
se. Ele apresentava-se no pátio exterior do palácio para
conseguir audiência sem convite ou agendamento; tanto é que
a sua mulher e amigos aconselham-no a fazer a forca e, já no
dia seguinte, dizer ao rei que enforcasse Mardoqueu (5.14).
De fato, Hamã foi ao palácio, pondo-se no pátio exterior,
onde, sendo anunciado ao rei, aguardava ser chamado por ele,
como realmente aconteceu naquela ocasião (6.4,5).
Assuero: Insônia e Nostalgia
Enquanto Hamã, na sua casa, tramava contra Mardoqueu,
Assuero, nos seus aposentos, tentava dormir, porém sem
sucesso. Fugiu-lhe o sono. O que teria produzido insônia no
rei? Wiersbe (2006, p. 716) apresenta algumas sugestões em
forma de indagações:
Foram as preocupações com assuntos de Estado que não deixaram o rei
dormir? Estava preocupado com suas finanças? Será que comeu e bebeu
demais no banquete da rainha? Ou será que estava intrigado com o pedido de
Ester.
Algumas dessas preocupações, ou uma combinação de todas elas, pode ter
contribuído para a insônia do rei, mas por trás delas estava a mão soberana de
Deus, que cuida do seu povo e nunca dormita nem dorme (Sl 121:3,4). Deus
queria que o rei ficasse acordado, pois tinha algo a lhe dizer.
Tomado de certa nostalgia, o rei pediu que lhe trouxessem o
livro das memórias das crônicas e lessem para ele (6.1).
Conforme o Dicionário Bíblico Wycliffe (p. 1173): “os reis da
Antiguidade conservam os registros da corte em livros”. Deus,
na sua providência divina, continuava agindo. Wiersbe
comenta (p. 718):
Deus orientou Assuero a pedir que lessem para ele as crônicas do reino (um
remédio garantido para qualquer insônia!). Mas Deus também orientou o servo
de modo que este tirasse da estante exatamente o livro em que se encontrava
registrado o serviço prestado por Mordecai ao reino cinco anos antes. Sem
dúvida, havia outros volumes disponíveis, mas foi esse que o servo escolheu.
No caso de Assuero, o trecho escolhido tinha o registro do
ato de fidelidade de Mardoqueu, que livrara o rei de ser vítima
de uma terrível conspiração. Dois dos seus guardas do palácio
planejaram matá-lo, como registra Ester 2.21-23. “Que honra
e galardão se deu por isso a Mardoqueu?” (6.3). A pergunta de
Assuero deixa implícito que era comum recompensar os que
praticassem atos heroicos na corte, só que Mardoqueu havia
ficado (aparentemente) esquecido. Não é demais considerar
que a mão de Deus estava fora do habitual até nesse ponto. Se
Mardoqueu tivesse sido recompensado logo após revelar a
conspiração, a história não teria o mesmo desfecho. Sempre é
melhor deixar o Todo-Poderoso dirigir o enredo de nossa vida,
pois Ele — e somente Ele — pode garantir-nos um desfecho
realmente feliz — e não somente nesta vida, mas na vida
eterna.
3. Forca ou honra?
Enquanto Mardoqueu dormia, duas pessoas planejavam o seu
futuro. Não é incomum que outras pessoas sejam movidas a
agir de maneira a afetar nossa existência. Algumas, como
Hamã, planejam nosso mal; já outras, como Assuero, são
usadas para preparar momentos de honra para nós. No fim
das contas, tudo vem de Deus, porque Ele tem poder sobre
tudo e todos. Davi tinha consciência de que o Senhor podia
defendê-lo e escondê-lo dos seus inimigos (Sl 35.1-4 – NAA).
Hamã preparou uma forca para Mardoqueu, mas Assuero,
um dia de honra. Queiramos ou não, o que outras pessoas
pensam e fazem pode produzir consequências em nossa vida.
Por isso, nossos relacionamentos interpessoais devem estar
pautados no temor a Deus. Dar a cada um o que é devido é
um dos meios de não nos deixar enganar pelo individualismo,
uma ideologia antibíblica que tem, entre as suas expressões, a
ideia de que o indivíduo é capaz de realizar-se sozinho,
independentemente das pessoas que o cercam. “Eu não
preciso de ninguém”, pensam. É a conhecida autossuficiência.
A ética cristã, contudo, ensina-nos o quão essenciais são os
relacionamentos humanos e como o Senhor trabalha através
deles (Ef 4-6). O Novo Testamento possui inúmeros versículos
com a expressão “uns aos outros” (Jo 13.34; 1 Ts 5.11; Ef 5.21;
Tg 5.16; Gl 6.2). Coisas boas e ruins podem simplesmente nos
alcançar, vindas de pessoas que nos cercam. Quando tememos
a Deus, Ele intercepta o mal e faz com que sejamos alcançados
pelas bênçãos (Sl 91.5-10; Dt 28.2). A maldição não atinge a
quem o Senhor abençoa (Nm 23.8; Dt 23.5; Pv 26.2).
No caso de Mardoqueu,o intento maligno seria totalmente
frustrado diante da inesperada disposição de Assuero em dar
honra a alguém que havia ficado (aparentemente) esquecido
durante aproximadamente cinco anos. Naquela noite,
contudo, o Deus que tem poder sobre todas as coisas,
incluindo a fisiologia humana, tirou o sono do rei (Sl 127.2).
Assuero já estava há cerca de treze anos no trono; logo, eram
muitos os relatos contidos no livro. A providência divina fez
com que fosse lido exatamente o trecho que falava do feito de
Mardoqueu, que pôs fim à conspiração contra o rei: “Deus age
em todas as coisas para o bem daqueles que o amam” (Rm
8.28, NVI). Em vez da forca, uma grande honra estava à
espera de Mardoqueu.
II – HAMÃ É CHAMADO PARA HONRAR
MARDOQUEU
1. Um ato de justiça
Assuero decidiu honrar Mardoqueu, mas não sabia como.
Certamente, era comum haver alguém no pátio do palácio;
por isso, o rei perguntou quem lá estava naquele momento a
fim de consultar tal pessoa quanto à dúvida que lhe surgira.
Tudo indica que era ainda bem cedo, pois Assuero não tinha
dormido à noite, e Hamã, ainda que tenha dormido um
pouco, estava ansioso para avistar-se com o rei e obter a
sentença de morte de Mardoqueu. O chamado do rei
certamente o surpreendeu, sendo tão rápido.
Levado à presença do rei, não teve oportunidade de falar-
lhe o que pretendia, pois Assuero logo o interpelou com um
questionamento: “Que se fará ao homem de cuja honra o rei
se agrada?” (6.6). Quem mais poderia o rei querer honrar
senão o próprio Hamã? Afinal de contas, o seu prestígio só
crescia na corte. Não apenas o rei, mas agora também a
rainha fazia questão de tê-lo por perto, presente em banquetes
exclusivos. Ele, Hamã, sozinho com o casal real em banquetes
especiais! Cheio de presunção, “Hamã disse no seu coração:
De quem se agradará o rei para lhe fazer honra mais do que a
mim?” (6.6b).
Presumir-se digno de honra é um sinal de soberba e orgulho.
Esse terrível sentimento, nutrido inicialmente por Lúcifer (Is
14.13,14), foi instilado na mente de Eva e é lançado
constantemente nos corações humanos (Gn 3.1-5; Pv 16.18-
19). A Palavra de Deus, contudo, exorta-nos a preferir a
humildade, seguindo o exemplo de Cristo (Fp 2.3-6).
Escrevendo aos Romanos, Paulo exorta que não devemos
ambicionar coisas altas, mas acomodarmo-nos às humildes
(Rm 12.16). Esse conselho bíblico — de não ambicionar coisas
altas ou não ter pretensões de grandeza — não encontra eco
em algumas teologias contemporâneas, como a teologia do
coaching, que, em grande parte, instiga o pensar grande, numa
falsa espiritualidade.
Hamã estava cheio de si, imaginando que seria honrado.
Mardoqueu estava aflito, diante da ameaça de extermínio dos
judeus. Naquele dia, contudo, muita coisa mudaria na sua
vida, a despeito de ele não ter qualquer pretensão de
grandeza. Como já observamos, mesmo depois de Ester ser
rainha e Mardoqueu revelar a conspiração contra Assuero, a
sua posição e comportamento não sofreram alteração. Ele
voltou para a porta do rei e não se insinuava para nada.
Quanto a Hamã, apesar de ser riquíssimo e ocupar um cargo
tão alto no Império Persa, vivia atordoado pelas suas próprias
paranoias e desejo de grandeza. Com isso, além de
Mardoqueu, Hamã constituiu todos os judeus do reino como
os seus inimigos. Para sentir-se bem em algum momento,
precisava viver de afagos no ego; era um quadro realmente
doentio.
Devemos ser alimentados diariamente pela alegria que vem
de Deus e não condicionar nossas emoções às circunstâncias
do momento (Ne 8.10; Jo 15.11; Fp 4.4-7; 1 Pe 5.17).
Equilíbrio emocional e espiritual é sinal de maturidade
espiritual; fruto do Espírito (Gl 5.22).
2. O devido lugar da honra
Hamã não pensou duas vezes quando Assuero lhe perguntou o
que fazer ao homem que o rei desejava honrar. Acreditando
ser ele o destinatário da honraria, respondeu de pronto: “[…]
Quanto ao homem de cuja honra o rei se agrada, traga a veste
real de que o rei se costuma vestir, monte também o cavalo em
que o rei costuma andar montado, e ponha-se-lhe a coroa real
na sua cabeça” (6.7,8). A sugestão também incluía que tal
homem fosse conduzido por um dos príncipes do rei, “dos
maiores senhores”, com uma proclamação pública: “Assim se
fará ao homem de cuja honra o rei se agrada!” (Et 6.6,7-9).
Assuero não apenas acatou a sugestão de Hamã, mas
imediatamente ordenou que ele tomasse as providências
necessárias para honrar o judeu Mardoqueu.
A presença do termo “judeu” na fala de Assuero não deve
ser um mero detalhe. Esse dado, ainda que sutil, certamente
vai permanecer na mente do rei e será ativado quando, no
próximo banquete, Ester revelar o ardiloso plano de Hamã, de
exterminar o seu povo, os judeus. Nesse sentido, a honra a
Mardoqueu tinha um simbolismo relevante por conta da sua
condição de judeu. Ouvir que deveria honrar “o judeu
Mardoqueu” produziu uma frustração descomunal em Hamã.
Além de não ser ele o honrado, e sim o seu desafeto, Hamã
teria que fazer o papel de puxador do cavalo (Et 6.10,11). Sem
dúvida, isso o deixou ainda mais enfurecido e muito
envergonhado (Et 6.12).
Não se alegrar quando alguém é honrado geralmente é
sintoma de algum sentimento faccioso, ciúme ou inveja;
expressões do terrível orgulho. Devemos rogar a Deus que nos
dê a graça de sempre nos alegrar quando alguém é honrado e
ter um coração disposto a honrar os outros. Honrar os que são
dignos de honra agrada a Deus e não deve ser confundido com
bajulação (1 Pe 2.17; 1 Ts 5.12,13). Mas a concessão da honra
há que ser justa, para não ser banalizada. Não deve ser
motivada por interesses rasteiros ou sub-reptícios.
O processo de honra também é distorcido quando não há
espontaneidade. Honra não se exige; recebe-se com
humildade, cuidando para não se ensoberbecer. Como já
observamos, mesmo com toda a honra recebida, Mardoqueu
“voltou para a porta do rei” (Et 6.12); ele não se empolgou,
adotando um comportamento diferente, na vã crença de que a
honra conferida faria dele alguém digno de uma posição
melhor. Um momento de fama pode entorpecer. Uma honra
efêmera pode levar-nos a esquecer nosso verdadeiro lugar e
deixar-nos ao vento. É preciso manter os pés no chão. Mesmo
quando certas honras abrem-nos novos espaços, devemos
sempre nos lembrar quem realmente somos e de onde viemos.
Não somos nada e nada podemos fazer sem a graça de Deus (1
Co 15.10).
III – A SÍNDROME DO IMPERADOR
1. A soberba de Hamã
Você ouviu falar na “síndrome do imperador”. O
comportamento de Hamã lembra-nos dessa patologia.
Quando fez a sua sugestão ao rei, imaginando que a honra
seria para ele, Hamã expressou os desejos que lhe eram
próprios: queria roupa de rei, cavalo de rei e coroa de rei (Et
6.8). Atualmente, tem sido identificada em crianças e
adolescentes a “síndrome do imperador”, que os faz pensar
que são o centro de tudo. São egocêntricos. Querem reinar
dentro e fora de casa. Ditam as regras e exigem o que querem.
Os pais não passam de agentes responsáveis por atender os
seus desejos, por mais excêntricos que sejam.
A falta de limites faz com que a criança cresça acreditando
que todas as suas vontades devem ser atendidas. Quando
adultas, não admitem frustrações e passam a usar todos os
expedientes possíveis para alcançar as suas pretensões. Talvez
Hamã tenha crescido num ambiente permissivo, o que fez dele
um adulto compulsivo por poder, posições e honras. Sem
correção, os filhos podem crescer como um Hamã, cheios de
soberba e presunção (Pv 23.13,14; 29.15,17,23; 30.17). Deus
quer dar a nós famílias saudáveis (Sl 127.1-5; Sl 128.1-6).
Nosso papel é exercer um amor responsável, que corrija
quando necessário. Desenvolver relacionamentos de amizade
com os filhos também é fundamental, dedicando tempo de
qualidade para aprofundar a convivência. Acima de tudo,
precisamos viver em constante vigilância e oração por eles e
por toda a nossa casa (Hb 12.7-9; Jó 1.5; Sl 144.12).
2. Um mau prenúncio
Enquanto Mardoqueu voltou para a porta do rei, depois da
honra recebida, Hamã “se retirou correndo a sua casa,
angustiado e coberta a cabeça” (6.12).(A NTLH traz a
expressão “escondendo o rosto”). Pode-se imaginar o nível de
indignação e vergonha de Hamã enquanto percorria as ruas
da cidade. Terminada a missão que tanto o humilhou, não viu
a hora de ir para casa, fugindo do olhar de todos. Frustrado,
compartilhou com a sua mulher, Zeres, e os seus amigos as
frustrantes experiências daquele dia, muito diferentes do que
esperava. Em vez de enforcado, Mardoqueu havia sido
publicamente honrado.
Para piorar a situação, a sua mulher e os seus amigos
fizeram-lhe um péssimo prenúncio. Em vez de consolo, Hamã
recebeu uma sentença aterradora: “Você já começou a perder
a luta com Mordecai. Ele é judeu, e você não vai ganhar de
jeito nenhum. Você vai perder na certa” (Et 6.13, NTLH). A
declaração da mulher e dos amigos de Hamã indica que eles
provavelmente conheciam a história de resiliência dos judeus.
Era mesmo um mau prenúncio para Hamã.
CONCLUSÃO
A conversa ainda estava em andamento, quando os servos do
rei chegaram “para levar Hamã, com toda a pressa, ao
banquete que Ester havia preparado” (6.14b, NBV). Hamã
sequer teve tempo de tentar recuperar-se da grande frustração
do dia. Pior! Depois de um dia de tanta humilhação, teria que
comparecer a um banquete com o rei e a rainha, arruinado
por dentro. Com Deus está o poder de humilhar e de exaltar.
“É Deus quem julga: Humilha a um, a outro exalta” (Sl 75.7,
NVI). Em menos de 24 horas, o cenário mudou bastante em
Susã — e muita coisa ainda aconteceria nas próximas horas.
1 Há referências entre vinte e vinte e cinco metros de altura. Esse tamanho costuma
variar, conforme se considera a medida de um côvado. O Dicionário Bíblico Wycliffe
(p. 1521) esclarece que nos tempos bíblicos as declarações de peso ou medida eram
necessariamente aproximadas. O côvado, por exemplo, que era usado no Egito,
Canaã e Mesopotâmia, tinha variação de comprimento em cada região. Na
Mesopotâmia, variava de 49,5 a 50 centímetros.
2 Em relação ao local da forca, o texto bíblico diz que era “junto à casa de Hamã”
(7.9). Podendo ser, então, que tivesse sido preparada em alguma árvore.
Capítulo 12
O BANQUETE DE ESTER:
DENÚNCIA E LIVRAMENTO
INTRODUÇÃO
Na lição anterior, vimos como Deus agiu para alterar todo o
cenário em Susã. Mardoqueu foi honrado e Hamã humilhado.
As condições agora eram outras. Até a mulher e os amigos de
Hamã já prenunciavam a sua derrota. Tudo será resolvido no
segundo banquete oferecido por Ester.
I – O BANQUETE E A DENÚNCIA
1. A instabilidade de Hamã
Os fatos estudados no capítulo anterior devem ter ocorrido ao
longo de todo o dia. Um dia de honra para Mardoqueu, mas
de terrível frustração e vergonha para Hamã, que havia saído
cedo de casa, determinado a conseguir do rei a ordem de
enforcamento de Mardoqueu. Em vez disso, serviu de guia
para o cavalo que transportou o seu desafeto judeu pelas ruas
de Susã. Provavelmente, já no fim da tarde, de volta em casa,
enquanto ouvia da própria mulher e amigos um prenúncio
totalmente desfavorável, chegaram os servos do rei para levá-
lo apressadamente ao banquete preparado por Ester (Et 6.14).
Hamã estava, de fato, muito perturbado. Ir a um banquete
naquelas circunstâncias deve ter sido muito desconfortável.
2. O banquete do vinho
O capítulo 7 é aberto com a informação de que Hamã
acompanhou o rei na ida ao banquete; logo, é certo que os
servos do rei buscaram-no em casa e levaram-no ao palácio,
onde Assuero aguardava. De lá seguiram para a casa principal
das mulheres, que muito provavelmente ficava anexa ao
palácio real. Ester já os aguardava. Outra informação do texto
bíblico é que Assuero e Hamã estariam indo “beber com a
rainha Ester” (7.1). O versículo seguinte denomina o banquete
como “banquete do vinho” (7.2).
O tema do vinho costuma causar muita discussão e
polêmica, fomentadas especialmente pelos que querem
justificar o uso da bebida. O exame das Escrituras garante
uma posição de equilíbrio. Não se pode negar que o Antigo
Testamento tenha muitos casos de uso do vinho embriagante,
inclusive no contexto judaico. No texto em apreço, o contexto
é o reino da Pérsia, em que, assim como nos demais reinos
pagãos de toda a história, o uso do vinho era comum,
principalmente nas festas e banquetes. Não somente as uvas,
mas também romãs, maçãs, tâmaras, cevada e trigo eram
usados para fazer bebidas alcoólicas em todo o mundo bíblico
(Yamauchi e Wilson, 2020, p. 313).
A respeito do vinho nos tempos do Antigo Testamento, diz o
Comentário da Bíblia de Estudo Pentecostal (p. 241):
De um modo geral, há duas palavras hebraicas traduzidas por “vinho” na
Bíblia.
(1) A primeira palavra, a mais comum, é yayin, um termo genérico usado 141
vezes no AT para indicar vários tipos de vinho fermentado ou não fermentado
[…]. (a) Por um lado, yayin aplica-se a todos os tipos de suco de uva fermentado
(Gn 9.20,21; 19.32,33; 1 Sm 25.36,37; Pv 23.30,31) […]. (b) Por outro lado,
yayin também se usa com referência ao suco doce, não-fermentado, da uva.
Pode referir-se ao suco fresco da uva espremida […].
(2) A outra palavra hebraica traduzida por “vinho” é tirosh, que significa “vinho
novo” ou “vinho da vindima”. Tirosh ocorre 38 vezes no AT; nunca se refere à
bebida fermentada, mas sempre ao produto não-fermentado da videira, tal
como o suco ainda no cacho de uvas (Is 65.8), ou o suco doce de uvas recém-
colhidas (Dt 11.14; Pv 3.10; Jl 2.24) […].
(3) Além dessas duas palavras para “vinho”, há outra palavra hebraica que
ocorre 23 vezes no AT, e frequentemente no mesmo contexto — shekar,
geralmente traduzida por “bebida forte” (e.g., 1 Sm 1.15; Nm 6.3). Certos
estudiosos dizem que shekar, mais comumente, refere-se a bebida fermentada,
talvez feita de suco de fruto de palmeira, de romã, de maçã, ou de tâmara.
Em Ester 7.2, o termo hebraico original é yayin; portanto,
vinho fermentado. De mais a mais, é natural que o contexto
expressasse esse sentido, porque, como já afirmado, o vinho
fermentado era consumido largamente nas sociedades pagãs
da Antiguidade, como no caso dos persas, que gostavam de
vinho e bebiam em grandes quantidades (Heródoto apud
Yamauchi e Wilson, ibid., p. 317). A bebida era servida em
requintados recipientes feitos de ouro e de prata, conhecidos
como rítons, os quais impressionavam os gregos (idem).
O Vinho entre os Judeus
Embora não houvesse proibição rigorosa para o uso do vinho
pelos judeus (Ne 5.18), o Antigo Testamento é enfático quanto
aos terríveis males da bebida, como acentua o Comentário da
Bíblia de Estudo Pentecostal (p. 242):
Em vários lugares o AT condena o uso de yayin e shekar como bebidas
fermentadas. (1) A Bíblia descreve os maus efeitos do vinho embriagante na
história de Noé (Gn 9.20-27). Ele plantou uma vinha, fez a vindima, fez vinho
embriagante de uva e bebeu. Isso o levou à embriaguez, à imodéstia, à
indiscrição e à tragédia familiar em forma de uma maldição imposta sobre
Canaã. Nos tempos de Abraão, o vinho embriagante contribuiu para o incesto
que resultou em gravidez nas filhas de Ló (Gn 19.31-38). (2) Devido ao
potencial das bebidas alcoólicas para corromper, Deus ordenou que todos os
sacerdotes de Israel se abstivessem de vinho e doutras bebidas fermentadas,
durante sua vida ministerial. Deus considerava a violação desse mandamento
suficientemente grave para motivar a pena de morte para o sacerdote que a
cometesse (Lv 10.9-11). (3) Deus também revelou a sua vontade a respeito do
vinho e das bebidas fermentadas ao fazer da abstinência uma exigência para
todos que fizessem voto de nazireado […]. (4) Salomão, na sabedoria que Deus
lhe deu, escreveu: “O vinho é escarnecedor e a bebida forte, alvoroçadora; e
todo aquele que neles errar nunca será sábio”.
No caso dos sacerdotes, as Escrituras demonstram que a
total abstinência do vinho visava estabelecer uma clara
distinção entre o santo e o profano e servir de ensino aos
israelitas (Lv 10.8,9). A alusão ao vinho como algo impuro ou
profano é uma mensagem absolutamente contundente sobre a
incompatibilidade da bebida alcoólica para quem deseja
agradar a Deus e servi-lo comfidelidade. Além disso, o texto
veterotestamentário ressalta o exemplo dos recabitas, que se
abstiveram totalmente do vinho e foram honrados pelo Senhor
(Jr 35.6-19).
Por tudo isso, é absolutamente temerário relativizar o ensino
de abstinência total do uso do vinho e de todas as demais
bebidas alcoólicas, lançando mão de textos bíblicos que
apresentam a prática por personagens da história sagrada.
Além da advertência geral sobre o perigo dos embriagantes,
muitos exemplos de nosso tempo mostram os grandes
prejuízos morais e espirituais que sofrem os que preferem o
caminho da licenciosidade, agindo como antinomistas (ou
antinomianos).1 No Novo Testamento, o ensino é não se
embriagar com o vinho, mas encher-se do Espírito (Ef 5.18).
Devemos fugir de toda a aparência do mal e abstermo-nos
totalmente de tudo o que não convém aos santos (1 Ts 5.22; 1
Co 6.9,10; 1 Co 6.12).
O apóstolo Paulo escreveu aos Romanos que não devemos
agradar a nós mesmos, mas agradar ao próximo, fazendo tudo
o que for bom para a edificação, seguindo o exemplo de Cristo
(Rm 15.1-3). Se cada um na igreja sentir-se livre para fazer o
que agrada a si mesmo, logo nenhuma prática ficará restrita,
porque os desejos carnais são múltiplos, de toda ordem.
Quando todos renunciam em favor da edificação do corpo,
todos são edificados e crescem na fé.
3. “Qual é a tua petição?”
O suspense do dia anterior parece ter deixado Assuero
extremamente curioso e determinado a saber o que inquietava
a rainha, a fim de atendê-la. À luz da narrativa bíblica, mal o
banquete começou, o rei já perguntou a Ester qual era a sua
petição. O fato de a rainha haver comparecido à sua presença
correndo risco de morte e, no primeiro banquete, ter ficado
em silêncio quanto ao que a afligia deve ter levado Assuero a
suspeitar que algo muito grave estaria acontecendo; daí sua
prontidão a novamente inquirir: “Qual é a tua petição, rainha
Ester? […] qual é o teu requerimento? Até metade do reino se
fará” (Et 7.2).
Da mesma forma como a pergunta, a resposta de Ester foi
imediata. A essa altura, talvez o coração da rainha estivesse
acelerado. Uma jovem judia, sem nenhuma tradição real,
estava diante do grande imperador persa e do algoz do seu
povo, os judeus, e teria que ser firme na sua declaração. Ester
revelou-se uma mulher forte e decidida, denunciando o mau
Hamã (Et 7.3-6). A força moral de Ester certamente vinha do
fato de ela ter sido criada em obediência e temor. Em tempos
nos quais tanto se critica o obedecer a regras, é preciso
considerar que não há crescimento moral sem disciplina; não
se forja o caráter sem ela, muito menos se constrói uma
estrutura emocional forte, e isso se aplica a todos. A mulher
virtuosa de Provérbios 31 tinha todo um rol de qualificativos,
sendo a maioria deles voltado para o cumprimento dos seus
deveres (Pv 31.12-24), o que fez dela uma mulher forte, que
sabia “[abrir] a boca com sabedoria” sem perder a
compostura (Pv 31.26). Ester foi essa mulher, que não titubeou
no momento de denunciar ao mau Hamã.
II – A FÚRIA DO REI CONTRA A INJUSTIÇA
2. A revelação do plano
O plano de Hamã foi denunciado (Et 7.4), e o pedido da
rainha era a vida do seu povo. Ouvido o relato de Ester,
Assuero faz uma pergunta intrigante: “Quem é esse? E onde
está esse cujo coração o instigou a fazer assim?” (7.5).
3. Quem fez isso?
A indagação de Assuero parecia mesmo estranha. Não era
razoável que não tivesse conhecimento da extensão do decreto
com a sua assinatura (Et 3.12,13). Contudo, não se pode
presumir que um rei ou qualquer governante saiba em
detalhes tudo o que se passa no seu palácio ou jurisdição. Às
vezes, até mesmo dos pais escapam fatos ocorridos dentro de
casa, próximo dos seus olhos. Não era de todo irrazoável,
portanto, que Assuero estivesse surpreso com a notícia trazida
pela rainha — aliás, talvez o excesso de poder concedido a
Hamã tenha resultado nisso.
Inteirado dos detalhes do plano, Assuero mudou
completamente de posição. Conquanto tivesse concedido
amplos poderes ao agagita, Assuero amava Ester (Et 2.17).
Hamã havia ido longe demais! Abusou da confiança do rei. A
lição que podemos tirar desse ponto é: nas famílias ou em
qualquer grupo social, a convivência legítima deve ser
respeitada. Cada um deve entender o seu próprio limite e não
abusar de direitos ou medir forças, no estilo “ou ele(a) ou eu!”,
como acontece, às vezes, em pueris disputas entre nora e
sogra. Nem a esposa e nem a mãe devem acreditar que podem
ter exclusividade do marido/filho. Cada uma tem o seu valor e
o seu papel. A mesma Bíblia que diz que o varão deve deixar o
seu pai e a sua mãe e unir-se à sua mulher (Gn 2.24) diz que o
filho deve honrar pai e mãe, o primeiro mandamento com
promessa (Ef 6.2). Essa honra, aliás, é para toda a vida,
especialmente na velhice (1 Tm 5.4,8). Por tudo isso, disputar
para si toda a atenção — seja filho, seja irmão, marido, esposa,
pai, mãe, etc. — é atrair o mal para si mesmo, num efeito
bumerangue, como aconteceu com Hamã. Não se
contentando com a alta posição que tinha, ele queria
exclusividade no reino. Estava a poucos instantes de perder
tudo — inclusive a vida.
3. A terrível reação do rei
O livro de Ester nos mostra como um grande monarca mudou
totalmente de atitude sob a ação do Deus que controla o
Universo. O que aconteceu com Assuero para que mudasse
completamente, reprovando a atitude que ele próprio havia
tomado? “Deus pode mover o coração de um rei e de toda
uma nação. Tem poder para derrubar a antes impenetrável
Cortina de Ferro” (Swindoll, p. 157). Como escreveu Salomão:
“O coração do rei é como canais de águas controladas pelo
SENHOR; ele os conduz para onde quer” (Pv 21.1, NVT).
A consciência de Assuero deve ter sido ativada para que
entendesse o tamanho da injustiça feita aos judeus, o povo da
sua rainha. Diante da sua manifesta indignação, Ester disse,
com toda a firmeza, cara a cara com Hamã: “O homem, o
opressor e o inimigo é este mau Hamã” (Et 7.6). Às vezes, nós
mesmos nos desconhecemos em certos momentos. (Já vivi
algumas experiências assim, nas quais recebi autoridade para
confrontar pessoas hostis, que pretendiam grotescamente
intimidar-me. Depois, eu mesmo não entendi como pude ter
reagido com tanta autoridade, a ponto de calar o agressor. O
que não podemos fazer é agir por nós mesmos. Seguir a
direção de Deus sempre: é isso que precisamos fazer. Em
certas horas, é o Espírito que nos capacita para falar. Em
muitas outras, simplesmente nos faz calar. Nessas ocasiões, a
vitória está no silêncio, e não no timbre da voz).
Segundo os seus propósitos, somos capacitados por Deus, no
momento certo, a “[erguer] a voz em favor dos que não
podem se defender” (Pv 31.8). Ester não agiu de forma
temerária ou precipitada. Ele não instigou motim ou qualquer
expediente violento, confiando na sua própria força (2 Co
10.4), mas manteve a sua confiança em Deus e soube agir na
hora certa, no lugar certo e da maneira certa.
A reação física de Assuero não deixou dúvida quanto ao
tamanho da sua fúria: ele levantou-se do banquete e foi para o
jardim do palácio, o que demonstra uma repulsa à presença de
Hamã. É como se dissesse: Como pôde fazer isso? (Et 7.7). A essa
altura, Hamã já estava apavorado. A reação que teve foi
lançar-se sobre o assento da rainha, rogando-lhe misericórdia.
A situação ficou ainda pior. O rei voltou do jardim e viu
Hamã prostrado sobre o divã2 de Ester e fez uma péssima
interpretação da cena: Hamã estaria querendo desonrar a
rainha diante do próprio rei? (Et 7.8, NAA). É claro da
circunstância que essa não era a intenção de Hamã, mas
Assuero permitiu-se fazer essa inferência diante da cena.
Houve uma grave quebra de protocolo.
Walton, Matthews e Chavalas (2018, p. 636) explicam:
Os persas costumavam reclinar-se em divãs enquanto tomavam as refeições.
Hamã, desesperado, violou um rígido protocolo que estabelecia regras para
qualquer pessoa que se aproximasse da rainha. Se alguém fosse encontrado no
mesmo divã em que um membro do harém estivesse reclinado, as
consequências seriam terríveis.Na Assíria do século 11, o protocolo estabelecia
que as pessoas deveriam manter a distância mínima de sete passos de um
membro do harém.
III – O GRANDE LIVRAMENTO
1. A história da forca chegou ao palácio
A leitura da reação física e verbal de Assuero foi rapidamente
feita pelos seus servos, que cuidaram de cobrir o rosto de
Hamã, significando que sabiam que a morte do agagita era
certa. Salomão escreveu que “A fúria do rei é como o rugido
do leão; quem o provoca peca contra a própria vida” (Pv 20.2,
NAA). Conforme o Comentário da Bíblia de Estudo Cronológica
Aplicação Pessoal (p. 1192), colocava-se um véu sobre o rosto de
uma pessoa condenada à morte, porque os reis persas
recusavam-se a olhar para o rosto de quem tinha recebido essa
sentença. Esse mesmo costume houve entre os gregos e os
romanos (Baldwin, p. 84).
Com Hamã já com o rosto coberto, Harbona, um dos servos
do rei, jogou ainda mais lenha na fogueira: contou a Assuero
que Hamã preparara uma forca de mais de 20 metros de
altura para Mardoqueu — aquele que “falara para bem do
rei”, e que a forca estava próxima da casa do agagita (7.9).
Não precisou dizer mais nada: o rei reagiu mandando que
enforcassem a Hamã na própria forca que preparou. Nota-se
como a ação de Hamã, de ordenar a preparação da forca na
manhã daquele mesmo dia, já era conhecida do palácio.
“Nada há encoberto que não haja de ser revelado” (Lc 12.2).
Precisamos sempre agir com um coração cheio de temor
diante do Juiz de toda a terra (Gn 18.25). Harbona sabia até o
tamanho da forca. Esse fato e muitos outros contidos no livro
também indicam como as conversas corriam soltas — e
rapidamente — no reino da Pérsia.
2. Os ventos mudaram
Outro ponto a ser destacado diz respeito à prontidão dos
servos do rei em ter Hamã como um sentenciado à morte.
Ora, até aquele dia, à exceção de Mardoqueu, todos os servos
de Assuero inclinavam-se e prostravam-se diante de Hamã.
Mais do que isso: na hora de denunciarem a Mardoqueu ao
agagita, mostraram-se contra o judeu, já que esperavam ver a
reação de Hamã em seu desfavor. A radical mudança, com os
servos do rei agora engajados na rápida execução do então
primeiro-ministro, revela mais uma das muitas patologias do
poder: a falsa estabilidade dos grandes. Não é incomum
homens de altas posições perderem tudo de um dia para o
outro e passarem a ser ignorados ou até hostilizados por quem
antes os bajulava.
Essa é uma doença de caráter. Os subordinados devem
respeitar os seus líderes, agindo com obediência, sem, contudo,
tornarem-se subservientes. O líder precisa ter serenidade e
equilíbrio para construir uma liderança saudável, com pessoas
leais, servas, porém não servis ou condescendentes em
demasia. Há um exemplo bíblico, de Davi, que uma vez
desejou beber água do poço de Belém (1 Cr 11.17-19). O
problema era que, para chegar àquela fonte, era preciso
arriscar a vida, passando pelo arraial dos filisteus. Três dos
seus valentes, ao ouvir o rei expressar o seu desejo, decidiram
arriscar-se. Quando Davi viu-os chegar, não quis beber a
água. Derramou-a “como oferta a Deus”, e disse: “Ó Deus, eu
não poderia beber desta água! Isso seria o mesmo que beber o
sangue destes homens que arriscaram a sua vida para trazê-
la!” (1 Cr. 11.19, NTLH). Há certas atitudes que são justas e
válidas para agradar ao líder. Outras, contudo, são
extravagantes e desnecessárias, devendo ser repelidas, para
não criar uma horda de subservientes.
O subserviente muda de posição de uma hora para outra, de
forma desonesta, porque para ele o negócio é estar de bem
com quem está no poder. Como Hamã estava em baixa, os
servos do rei já o tiveram logo como descartado — talvez
porque Hamã não fosse tão querido assim na corte.
Provavelmente, ele havia construído relacionamentos com
base no medo, com ameaças e abuso de poder. Atitudes
tirânicas subsistem enquanto a autoridade está na posição de
comando, com uma base de sustentação que lhe permite
equilibrar-se. Se essa base ruir, ninguém estende a mão para
segurá-lo; pelo contrário! Bastou uma oportunidade para um
dos oficiais do rei ter a iniciativa de sugerir a execução de
Hamã, informando Assuero da forca preparada para
Mardoqueu. Em ambientes de poder, às vezes impera certo
sistema de conveniência. Talvez Harbona até tivesse feito
parte do grupo de servos do rei que denunciaram Mardoqueu
para Hamã (Et 3.3,4). Agora, ele soube ser bem perspicaz para
sugerir a forca para o seu ex-superior. Ele não apenas
informou ao rei que havia uma forca preparada por Hamã
para Mardoqueu, como também foi sutil ao dizer: para aquele
que “falara para bem do rei” (Et 7.9). A insinuação foi
explícita, e o rei logo acatou.
CONCLUSÃO
Existe uma lei divina inexorável: a lei da semeadura: “Não se
enganem: de Deus não se zomba. Pois aquilo que a pessoa
semear, isso também colherá” (Gl 6.7, NAA). Deus não tem
prazer na morte do ímpio, mas, sim, que se converta e viva (Ez
33.11; 2 Pe 3.9). Contudo, Ele pune ao culpado na sua justiça,
pois não o tem por inocente (Nm 2.3). É o espírito rebelde e
contumaz do homem que o leva à perdição (Lm 3.39; Ez
18.20,21). Hamã deu lugar ao ódio e planejou implacável e
cruelmente a morte de Mardoqueu e de todos os judeus do
reino da Pérsia, mas foi enforcado na própria forca que
preparou (Et 8.10). Que o Senhor guarde nosso coração de
toda a maldade.
1 O antinomismo é a doutrina que assevera não haver mais necessidade de serem
pregadas nem observadas as leis morais do Antigo Testamento (Andrade, 1999, p.
44). Em um sentido geral, é a negação de quaisquer regras ou normas de conduta
aplicáveis à vida cristã. Os antinomistas são aqueles que defendem que tudo é
permitido em nome da graça e que basta ter fé para ser cristão. “Mais
recentemente, aquelas teorias éticas que sublinhavam a importância do contexto de
uma decisão ou a supremacia do princípio do amor sobre todo outro princípio
também são acusadas de antinomianismo” (González, 2009, p. 30).
2 O divã é uma espécie de sofá, porém sem braços laterais e com um lado mais
elevado, onde se recostar.
O
Capítulo 13
ESTER, A PORTADORA DAS
BOAS NOVAS
INTRODUÇÃO
livro de Ester tem dez capítulos. Restam três deles em
nosso estudo. Tratam do efetivo livramento dos judeus
diante do novo decreto de Assuero, da instituição da Festa de
Purim e da exaltação de Mardoqueu. No capítulo 1, vimos a
descrição dos banquetes de Assuero e a destituição da rainha
Vasti por causa da sua desobediência. No capítulo 2, quatro
anos depois da destituição de Vasti, Assuero casa-se com a
judia Ester, prima de Mardoqueu. No fim desse mesmo
capítulo, é descoberta uma conspiração contra o rei graças à
informação dada por Mardoqueu, que trabalhava à porta do
pátio externo do palácio. No capítulo 3, surge um novo
personagem na história, Hamã, que, de súbito, recebe a
elevada honra de principal de todos os príncipes da Pérsia,
uma espécie de primeiro-ministro.
Ainda no capítulo 3, começa o entrevero entre Hamã e
Mardoqueu, por este não se encurvar nem se prostrar perante
aquele. Enfurecido, Hamã planejou a morte não apenas de
Mardoqueu, como também dos judeus de todas as províncias
do extenso Império Persa, que ia das fronteiras da Índia até a
Etiópia, na África, além de abranger todo o território da
Anatólia (Ásia Menor nos tempos do Novo Testamento e atual
Turquia) e atingir o Mediterrâneo Ocidental, na Trácia
(antiga região da Macedônia onde ficavam várias cidades
gregas). Assuero assinou um decreto que marcava o dia da
espoliação e morte de todos os judeus: o dia 13 do mês de
adar,1 o duodécimo mês do ano — onze meses depois,
portanto, já que se lançou sorte no primeiro mês do ano, o mês
de nisã.2
O capítulo 4 descreve o estado de profunda tristeza e
lamento que se abateu sobre os judeus de todas as províncias e
fala também do apelo que Mardoqueu fez a Ester e da sua
decisão de comparecer perante os judeus após um período de
jejum de três dias. No capítulo 5, Ester vai à presença do rei.
Em vez de morte, a rainha é recebida por Assuero com a
extensão do seu cetro de ouro e a benevolentefrase de que
qualquer petição sua seria atendida. Ester apenas convidou o
rei para um banquete já preparado para aquele dia, junto com
Hamã. No banquete, Ester manteve em oculto a sua petição e
deixou agendado um novo banquete para o dia seguinte.
Hamã voltou para casa jubiloso. A sua exultação só não foi
completa porque ele viu Mardoqueu na saída do palácio. Já
em casa com a mulher e os amigos, ouviu a sugestão de
preparar uma forca para Mardoqueu e, já no dia seguinte,
pedir ao rei que ordenasse a morte do judeu.
O drama dos judeus começa a mudar no capítulo 6. Assuero
perde o sono e pede para que o livro dos registros do cotidiano
do palácio seja lido. O servo que o atende lê exatamente onde
estava escrito o ato heroico de Mardoqueu, no episódio da
conspiração contra o rei. Assuero decide que recompensará
Mardoqueu, mas ainda não sabia como. Era de manhã, e
Hamã estava do lado de fora do palácio (no pátio exterior),
quando foi chamado à presença de Assuero e perguntado
sobre o que deveria ser feito ao homem que o rei queria
honrar. Convencido de que seria ele, sugere ao rei que vestisse
esse homem com a veste real, pusesse na sua cabeça a coroa
real, montasse-o sobre o cavalo que o rei costumava montar e
ordenasse que um dos príncipes conduzisse-o pela cidade,
proclamando que era assim que o rei honrava a quem ele
verdadeiramente desejava honrar.
O capítulo 6 termina com Hamã conduzindo Mardoqueu
pela cidade, com todas as honras, e voltando para a sua casa
envergonhado. Ao contar para a mulher e os amigos o vexame
que havia passado naquele dia, ouviu um mau prenúncio: de
que certamente não prevaleceria diante de Mardoqueu por ele
ser judeu. No mesmo instante, Hamã recebe os servos do rei,
que o levam para o banquete de Ester, junto com Assuero.
O capítulo 7 termina com o corajoso ato de Ester,
denunciando Hamã, o desespero do agagita, a sentença de
morte dada por Assuero e o enforcamento de Hamã na
própria forca que mandou preparar para Mardoqueu. A
última frase do capítulo é: “Então, o furor do rei se aplacou”
(Et 7.10).
I – O PEDIDO DE DEFESA AOS JUDEUS E A
CONCESSÃO DO REI
1. A humildade de Ester e sua súplica
Hamã, o inimigo dos judeus, estava morto, e Mardoqueu,
altamente honrado (Et 8.1,2). Apesar de tudo isso, o drama
dos judeus ainda não havia terminado. O decreto de Assuero
continuava produzindo plenos efeitos. A questão não era
individual. Não bastava a Ester ou a Mardoqueu estarem bem.
Era preciso resolver o problema de todos os judeus. A missão
que Ester havia recebido de Mardoqueu — e certamente
assumido diante de Deus desde que propôs o clamor através
do jejum — não estava concluída. Por isso, em profunda
humildade e respeito, Ester aproveita a oportunidade de estar
diante do rei e apresenta a sua petição em favor de todos os
judeus (Et 8.3). Novamente demonstrando disposição em
atender a sua rainha, Assuero estende-lhe o cetro de ouro.
Ester levanta-se e roga ao rei que revogue as cartas que havia
enviado para que o plano de Hamã não fosse executado.
Mardoqueu ainda estava presente no palácio, pois o texto
bíblico informa que o rei respondeu a Ester e a ele que já
havia feito tudo o que estava ao seu alcance. Ele não poderia
revogar o primeiro decreto, mas poderia emitir outro,
permitindo aos judeus defender-se. O livramento contava com
a poderosa ação divina, mas também incluía uma ativa
participação dos judeus. Confiar em Deus não nos isenta de
fazer nossa parte (Js 1.3-9).
2. A lei dos medos e persas
A irrevogabilidade dos decretos dos reis medos e persas pode
até parecer um excesso, mas tem o seu sentido positivo. Apesar
de todos os aspectos tirânicos, autoritários e excêntricos dos
reis da Pérsia, como o próprio Assuero, havia um limite para
as suas ações: o império da lei dos medos e persas. Dario, pai
de Assuero, fora confrontado com essa mesma situação e não
violou a norma. Mesmo estimando muito a Daniel, não pôde
livrá-lo da cova dos leões (Dn 6.8,15).
Lennox (ibid., p. 227) diz:
Uma das mais antigas funções da lei é estabelecer limites para os poderes do
governo. E pelo visto, a monarquia constitucional medo-persa é um avanço em
relação à monarquia absoluta, embora ainda estivesse longe da democracia
desenvolvida mais tarde na Grécia. Não havia separação de poderes. Em
essência, eram as mesmas pessoas que legislavam, governavam e julgavam. Mas
foi um passo na direção certa. Em teoria, pelo menos, oferecia proteção contra
os excessos de um déspota.3
Se na Antiguidade já se instituiu o respeito às leis pelos mais
poderosos monarcas pagãos, não é razoável que, em tempos
tidos como tão modernos, se admita que autoridade alguma se
considere acima da lei. Em qualquer nação, todos devem estar
sujeitos às leis (Rm 13.1). Jesus deu-nos o exemplo, como no
episódio do pagamento do tributo a César (Mt 22.21). As leis
humanas só podem ou devem ser desobedecidas quando
contrariam as leis divinas, pois: “Mais importa obedecer a
Deus do que aos homens” (At 5.29). Nossa obediência a Cristo
está acima de toda e qualquer lei dessa terra.
3. Segurança jurídica
Em países de regimes democráticos como o Brasil, todos os
aspectos relevantes da vida pública e privada são regrados por
um ordenamento jurídico construído sob uma Constituição
Federal, que a todos vincula. Isso é necessário para que haja
previsibilidade e segurança jurídica. Nenhuma pessoa ou
Poder está acima da Constituição. Ninguém pode agir de
modo a violá-la. As alterações constitucionais que são possíveis
só podem ser feitas pelo Parlamento, onde atuam os
representantes eleitos pelo povo. Para isso, exige-se um
quórum qualificado. Alguns preceitos da Constituição nem
mesmo o Poder Legislativo pode alterar, a menos que em uma
Assembleia Nacional Constituinte.
Llewellyn-Jones (148,149) afirma:
Dario e os reis Aquemênidas não estavam acima da lei. Pelo contrário, eram
parte integrante dela. Decidiam casos legais sobretudo de acordo com as
circunstâncias locais, caso a caso. A natureza astuta e diplomática de suas
decisões, que muitas vezes apresentavam mais recompensas que punições,
resultou em uma reputação de virtuosidade. Numa inscrição encontrada em seu
túmulo, Dario enfatizou seu papel como juiz justo. Ter a reputação de
imparcialidade era obviamente importante para ele […].
Para os povos do mundo antigo (com exceção da emperdernida Grécia), os reis
persas eram considerados justos e sábios.
Seja qual for o tempo, é somente Deus que nos guarda da
perversidade deste mundo. O Estado é uma importante
instituição nas mãos de Deus para frear a escalada do mal e
permitir-nos ter uma vida quieta e sossegada, desfrutando de
liberdade para servi-lo e viver honestamente. Devemos sempre
orar pelas autoridades de nosso país (1 Tm 2.1,2).
4. O direito de defesa
Se Assuero não podia revogar o seu decreto, permitiu a Ester e
Mardoqueu que redigissem outro, concedendo aos judeus o
direito de defenderem-se dos seus inimigos. Os escrivães do rei
foram chamados imediatamente e, no terceiro mês (o mês de
sivã), aos vinte e três dias, foi escrito o novo decreto,
“conforme Mardoqueu ia falando” (Et 8.9, NBV). O
documento, escrito oito meses antes do dia designado para o
extermínio dos judeus, seria enviado para todas as províncias,
assim como o primeiro decreto do rei, redigido por Hamã (cf.
8.11).
O texto permite entender que havia em todo o reino grupos
sistematicamente hostis aos judeus, organizados em núcleos
específicos (Et 8.11,13; 9.1,2,5). O decreto do rei,
provavelmente encaminhado por meios de cartas específicas a
cada província — e na língua de cada povo (8.9b) — não
permitia, portanto, que os judeus exercessem uma matança
gratuita e indiscriminada, mas que apenas se defendessem dos
que se armassem contra eles. A ordem foi expedida para todo
o reino, produzindo muita alegria em todos os judeus e temor
em todos os povos. O tempo decorrido entre esse novo decreto
e a data que havia sido fixada para a matança dos judeus —
cerca de oito meses — permitia que os seus inimigos
refletissem e, se quisessem, decidissemdesistir da investida
programada, principalmente diante da ampla publicidade das
profundas alterações havidas em Susã. Hamã havia sido
enforcado por ordem do rei; agora, um judeu era o primeiro-
ministro. Além disso, todos ficaram sabendo que a rainha era
judia. Tudo isso deveria ter sido suficiente para que
retrocedessem no seu intento, mas é fato que alguns inimigos
dos judeus mantiveram o propósito de extermínio; outros,
contudo, mudaram de posição. O texto bíblico informa, aliás,
que muitos chegaram a tornar-se judeus (Et 8.15-17).
Não se pode afirmar, ao certo, o grau de sinceridade desses
estrangeiros que “se fizeram judeus”, principalmente porque o
motivo foi “o temor dos judeus [que] tinha caído sobre eles”.
Por ser uma questão subjetiva, pode ser que muitos tivessem,
de forma sincera, reconhecido a intervenção divina em favor
dos judeus e convertido-se à fé judaica. Outros, contudo,
teriam sido apenas movidos por medo e, diante disso,
associado-se aos judeus. O fato de a rainha e o primeiro-
ministro serem judeus pode ter servido de grande incentivo,
como já se deu com muitos ao longo da História, que aderiram
à fé do soberano apenas por uma questão de conveniência.
No dia da pretendida matança, aconteceu o contrário do
que esperavam os inimigos dos judeus, “pois os judeus é que se
apoderaram dos que os odiavam” (9.1, NAA). Pela narrativa
bíblica, foram identificados focos onde o ódio contra os judeus
persistia. O versículo 2 diz que “os judeus se reuniram para
atacar aqueles que queriam destruí-los”. Nos meses
decorridos, certamente foi possível aos judeus identificar os
que persistiram no intento maligno arquitetado por Hamã.
Assim, no dia 13 do mês de adar (décimo segundo mês), os
judeus agiram rápido para defenderem-se, ajudados pelos
nobres, todos os maiorais das províncias e muitos servos do rei,
o que reforça o entendimento de que, de fato, eram grupos
específicos aqueles que persistiram com a intenção de destruir
os judeus. Quanto à adesão dos oficiais das províncias, dos
chefes dos vários povos, dos representantes do rei e
governadores, deu-se pelo fato de que a fama de Mardoqueu
havia corrido por todo o reino, e todos o temiam (9.1-4).
Naquele dia, foram mortas 75 mil pessoas em todo o reino
persa (9.11-16). Somente na cidadela de Susã foram mortos
500 homens, incluindo os dez filhos de Hamã. No dia
seguinte, foram mais 300 mortos na cidade de Susã (9.15). O
que se entende é que os primeiros 500 moravam na cidade alta
e foram mortos já no dia 13, enquanto os demais, que
moravam em Susã — porém, fora da acrópole — foram
mortos no dia seguinte.
O número de baixas impressiona, pois eram vidas humanas,
valorosas para Deus; contudo, é preciso considerar que, se não
fosse a ordem de Assuero para que os judeus pudessem
defender-se, a matança teria sido muitas vezes maior, já que a
estimativa era de que havia em todo o reino mais de 1 milhão
de judeus. Outro fator que pode ser levado em conta é que,
em um reino tão vasto, certamente não era incomum revoltas
internas, com disputas entre os povos, resultando em
consideráveis baixas, sem que isso afetasse o império.
II – A RAINHA ESTER ESCREVE BOAS
NOTÍCIAS PARA O SEU POVO
1. A comemoração dos judeus
Apesar de toda a matança, os judeus não poderiam deixar de
comemorar; afinal de contas, tratava-se do livramento de toda
a raça. Conforme já observado, no contexto pós-exílico, o
termo “judeu” era empregado para todo o povo de Israel, das
12 tribos; por isso, o dia 14 do décimo segundo mês foi de
grande festa para os judeus de todo o Império Persa. O
sentimento de alívio pelo grande livramento tomou conta do
povo judeu e precisava ficar marcado. Mardoqueu registrou os
fatos e escreveu cartas para os judeus de todas as províncias,
instituindo uma data comemorativa, a Festa de Purim. Hamã
havia lançado sorte (pur) para matar os judeus no dia 13;
agora, o dia 14 seria estabelecido como um dia de festa, um
feriado nacional a ser inscrito na história judaica para
comemorar o livramento que o Senhor dera ao povo judeu
(9.20-28).
2. A carta e o decreto de Ester
Ester e Mardoqueu escreveram uma segunda carta,
confirmando a instituição da Festa de Purim, com dois dias de
duração. Pelo que se tem do registro bíblico, era a primeira
vez que a rainha Ester dirigia-se diretamente a todo o povo
judeu. Ao sair da sua pena, a instituição da festa estava agora
fundamentada num decreto real (9.32). A festa entrou
definitivamente no calendário judaico e é comemorada até os
dias de hoje.
3. A exaltação de Mardoqueu
Quanto a Mardoqueu, o rei deu-lhe ainda mais honras.
Depois da morte dos inimigos dos judeus, Assuero colocou-o
como o segundo maior do reino — posição que era ocupada
por Hamã (10.3). O relato bíblico encerra com um
testemunho notável de Mardoqueu: ele foi um homem público
exemplar e próspero, trabalhando para o bem de toda a
nação. Deus pode usar os seus servos em todas as áreas da
vida. A questão é entender quando esse é o propósito dele e
quando não passa de nossas próprias ambições de poder.
Nesse último caso, o resultado nunca é bom. Num sentido
geral, há uma nítida falta de estadistas em nossos dias; líderes
que visam ao bem comum acima de tudo. Quanto aos cristãos,
em altas posições ou em espaços simples e de nenhuma
visibilidade, o propósito deve ser sempre o mesmo: fazer tudo
para a glória de Deus (1 Co 10.31).
III – A MULHER É CHAMADA POR DEUS
PARA SER RELEVANTE NO MUNDO
1. Uma mulher notável
Ester é a história de uma simples moça judia que se
transformou numa mulher notável no poderoso Império Persa.
Deus usa quem Ele quer para cumprir os seus propósitos. Para
isso, contudo, jamais viola as suas leis. Ester não precisou
entrar em disputas ou trilhar por um caminho de inversão ou
confusão de papéis. Ela chegou ao cargo de rainha sob
profundo respeito, obediência e honra ao primo Mardoqueu,
que a criara como filha. Na condição de rainha, soube ser
humilde, submissa, prudente e muito equilibrada. A forma
como se dirigia a Assuero e o honrava contrastava com a
atitude irreverente de Vasti. A firmeza moral de Ester fez dela
uma mulher notável. Ela entendeu o propósito de Deus para a
sua vida e não se esquivou dele.
2. A banal guerra dos sexos
Dar-se a disputas sob a alegação de estar buscando espaço
para servir a Deus é um tremendo engano; seja homem, seja
mulher. Deus não entra em disputas banais, como a tal
“guerra dos sexos”, que visa instilar ódio e aversão entre
homens e mulheres.4 O Criador fez macho e fêmea com
constituição e papéis distintos que estão claramente revelados
nas Escrituras (Gn 2.15-24; 3.16-20). No fim, Ele julgará a
todos conforme as leis perfeitas e justas que estabeleceu. Deus
não é afetado por partidarismos e ideologias sexistas. Por isso,
chamou a homens e mulheres para serem relevantes no
mundo. A mulher tem muito a contribuir no Reino de Deus e
no bem-estar de toda a sociedade.
3. O contexto cristão
Prestar um tributo às mulheres que fazem profissão de servir a
Deus talvez seja uma forma adequada de concluir esta obra, já
que esta foi a decisão de Ester: ela aceitou correr risco de
morte para levantar a sua voz em defesa do povo judeu —
tudo fazendo sob uma inteira entrega à direção e vontade de
Deus, o que demonstrou através do propósito do jejum. Ester
foi uma mulher piedosa, cheia de coragem, que soube ser
humilde, obediente, respeitosa, submissa e de muita
prudência.
Além das mulheres da Bíblia, em toda a História da Igreja,
muitas mulheres exerceram papéis importantes, como
Catarina von Bora (1499–1552), esposa de Lutero; uma
mulher cheia de ousadia e coragem que muito contribuiu para
o movimento da Reforma sem deixar de cumprir o seu papel
de esposa e mãe — teve seis filhos (Ulrich e Dalferth, 2017, p.
11, 31).
Temos também Susanna Wesley (1669–1742), que foi mãe
de John e Charles Wesley e outros 17 filhos. Susanna foi uma
mulher disciplinada e metódica, uma dedicada educadora dos
próprios filhos, ministrando-lhes principalmente a fé cristã.
John Wesley foi o fundador do MovimentoMetodista. Charles
Wesley, além de pregador, é considerado o maior compositor
de hinos sacros de toda a História: escreveu cerca de 9 mil
hinos.5 A vida de Susanna Wesley tem inspirado ministérios de
mulheres até nossos dias.
Há, ainda, Sarah Kalley (1825–1907), missionária e
musicista escocesa. Ela foi esposa de Robert Kalley e
contribuiu intensamente para o ministério do marido, sendo
considerada co-fundadora da Escola Dominical no Brasil em
19 de agosto de 1855 (Gilberto, 2002, p. 135).
Corrie ten Boom (1892–1983) é outra mulher de Deus, cuja
história é contada no livro O Refúgio Secreto. Corrie foi uma
mulher cristã que, juntamente com a sua família, enfrentou os
horrores da perseguição nazista, dedicando-se à proteção de
judeus na Holanda.
É igualmente importante citar o nome de Ruth Graham
(1920–2007), poeta e escritora, esposa do evangelista Billy
Graham (1918–2018). Ruth foi mãe de cinco filhos. O próprio
marido costumava dar testemunho da sua profunda dedicação
a Deus, da sua vida piedosa e do cuidado que Ruth tinha com
o lar. Ela renunciou a sua própria carreira profissional por
entender o propósito de Deus na sua vida.
No contexto assembleiano, temos Celina Martins
Albuquerque (1876–1966), que foi a primeira pessoa a receber
o batismo no Espírito Santo entre os membros da Igreja
Batista de Belém (Pará) ao crer na doutrina pentecostal
pregada por Gunnar Vingren (1879–1933) e Daniel Berg
(1884–1963). Integrou, portanto, o grupo de fundadores da
Missão da Fé Apostólica (depois Assembleia de Deus) em 18
de junho de 1911 (Araujo, 2007, p. 7). O que mais impressiona
na síntese biográfica da irmã Celina, disponível no excelente
Dicionário do Movimento Pentecostal, é a sua perseverança
espiritual. Em primeiro lugar, por dedicar-se aos cultos de
oração na sua casa, devido a uma enfermidade nos lábios que
a impedia de ir ao templo. Em segundo lugar, pela sua fé, que
a levou a receber a cura de que precisava. Em terceiro lugar,
pelo seu fervor espiritual e o desejo ardente de receber o
batismo com o Espírito Santo. Certo dia, após o culto de
oração no templo, foi para casa e continuou orando
juntamente com outra irmã, quando começou a falar em
novas línguas na primeira hora da madrugada. Em quarto
lugar, porque por toda a vida a irmã Celina conservou a sua fé
e devoção, sendo também intensamente dedicada à
evangelização pessoal. Irmã Celina foi uma mulher simples,
das muitas que, mesmo anônimas, fizeram e fazem história nas
Assembleias de Deus no Brasil — assim como em muitas
outras igrejas.
Temos também Lina Nyström, esposa do missionário
Samuel Nystron (1891–1960), pioneiro do ensino pentecostal
no Brasil. Na biografia do marido (Nelson, 2008), é retratada
como esposa exemplar, muito hospitaleira e dedicada ao
serviço cristão. Foi a fiel companheira de Samuel Nystron nos
30 anos das suas intensas atividades no Brasil (Araujo, p. 510).
O Dicionário do Movimento Pentecostal apresenta ainda:
• Frida Vingren, esposa do pioneiro Gunnar Vingren, que
contribuiu de maneira destacada para a implantação e
progresso da obra pentecostal no Brasil, principalmente
na produção de literaturas, além de ter sido autora e
tradutora de diversos hinos da Harpa Cristã.6 Conforme
Araujo (2011, p. 109), são 24 hinos com o seu nome (16
versões e 8 autorias), todos de grande valor espiritual.
Quanto à vida no contexto familiar, o testemunho do
filho Ivar dá conta de que Frida “foi muito amorosa,
muito dedicada à família; esforçava-se muito por seus
filhos, fazia tudo por eles, deixando na memória de todos
uma recordação muito boa”.
• Zélia Brito, ativa participante da obra de evangelização
nos subúrbios do Rio de Janeiro, ao lado de vários
crentes, como Paulo Leivas Macalão, que, mais tarde,
viria a ser o seu esposo.
• Signe Carlson, missionária com atuação na área social.
• Elisabeth Nordlund, missionária dedicada à área da
música.
• Florência Silva Pereira, obreira ativa nos primórdios da
obra pentecostal no Nordeste.
• Albertina Bezerra Barreto, fundadora do Círculo de
Oração na AD em Recife-PE, em 1942.
• Ruth Doris Lemos, missionária com atuação na área da
música e do ensino teológico, tendo fundado, junto com
o marido João Kolenda, o Instituto Bíblico das
Assembleias de Deus, o IBAD, em Pindamonhangaba-
SP.
E mais recentemente, Wanda Freire Costa (1934–2019),
professora, assistente social, fundadora da União de Esposas e
Ministros das Assembleias de Deus no Brasil, esposa do pastor
José Wellington Bezerra da Costa; fiel e constante
companheira do marido nas suas atividades seculares e
ministeriais. Mãe de seis filhos (José Wellington Costa Júnior,
Paulo Roberto Freire, Marta, Samuel Freire, Joel Freire e
Rute), dedicou-se intensamente à família e ao serviço da casa
de Deus. (Certa ocasião, na Assembleia de Deus do
Belenzinho, em São Paulo, fui tomado de surpresa quando a
irmã Wanda convidou-me para acompanhá-la até uma
pequena sala, nos fundos da livraria do templo, lugar que ela
também reservava para momentos de oração. De forma
carinhosa, com toda humildade e um gesto de reverência e
temor, pediu que eu orasse por ela. Oramos juntos. Depois, a
irmã Wanda presenteou-me com alguns DVDs, que guardo
como recordação.)
CONCLUSÃO
Que o Deus Eterno continue levantando mulheres corajosas,
que estejam dispostas a fazer a sua vontade, ainda que isso lhes
exija renúncias. Os exemplos de Rute e Ester continuam — e
continuarão — produzindo grande inspiração, pois são
registros inspirados pelo Deus da providência. O Deus que
tudo provê continua agindo em favor do seu povo. A Ele seja a
glória para sempre!
1 Entre os meses de fevereiro e março de nosso calendário.
2 Os nomes dos meses nos livros pós-exílicos seguem a denominação dada pelo
calendário babilônico, que foi adotado pelos persas.
3 Muito antes dos gregos e dos persas, a Lei Divina estabelecia limites objetivos para
a monarquia, como se observa em Deuteronômio 17.18-20 — texto que Lennox
cita no seu livro —, que apresenta os limites a serem observados pelo rei. O
monarca deveria ter uma cópia da Lei Divina e observá-la em todos os seus termos:
“Isso o impedirá de tornar-se orgulhoso e agir como se estivesse acima de seus
irmãos israelitas” (NVT).
4 A mesma tática maligna é usada para fomentar disputas entre negros e brancos,
ricos e pobres, etc. São ideologias que criam uma “divisão do mundo entre
opressores e vítimas”, traçando uma “linha do bem em oposição ao mal entre
diferentes grupos” (Allen, 2022, p. 93). Tais ideologias não estão apenas erradas,
mas constituem um grande perigo: “Se este grupo for bom, e aquele outro, mau,
fica muito mais fácil desumanizar o grupo ‘mau’. Foi o que aconteceu na Alemanha
nazistas com os judeus e nos países comunistas com os ‘capitalistas’” (idem).
5 Embora seja comumente citada essa quantia de 9 mil hinos, há imprecisão quanto
ao número exato. Silas Daniel afirma que foram mais de 6,5 mil hinos, o que já é
um número extraordinário. Dentre tantos hinos, está “Vem Tu, Ó Rei dos Reis”,
um dos mais clássicos hinos cristãos de louvor e adoração à Trindade (Daniel, 2012,
p. 166)
6 A longa e importantíssima contribuição de Frida Vingren para a Assembleia de
Deus no Brasil pode ser conferida na sua biografia (Frida Vingren) escrita por Isael de
Araujo (2014).
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	Folha de Rosto
	Página de Créditos
	Agradecimentos
	Abreviaturas
	Sumário
	Capítulo 1
	Duas Importantes Mulheres Na História De Um Povo
	Capítulo 2
	O Livro De Rute
	Capítulo 3
	Rute E Noemi: Entrelaçadas Pelo Amor
	Capítulo 4
	O Encontro De Rute Com Boaz
	Capítulo 5
	O Casamento De Rute E Boaz: A Remição Da Família
	Capítulo 6
	O Livro De Ester
	Capítulo 7
	A Deposição Da Rainha Vasti E A Ascenção De Ester
	Capítulo 8
	A Resistência De Mardoqueu
	Capítulo 9
	A Conspiração De Hamã Contra Os Judeus
	Capítulo 10
	O Plano De Livramento E O Papel De Ester
	Capítulo 11
	A Humilhação De Hamã E A Honra De Mardoqueu
	Capítulo 12
	O Banquete De Ester: Denúncia E Livramento
	Capítulo 13
	Ester, A Portadora Das Boas Novas
	Referências

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