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Brasil, 34.401, Bangu, Rio de Janeiro – RJ CEP 21.852-002 1ª edição: 2024 http://www.cpad.com.br/ A AGRADECIMENTOS o Deus Eterno, aquEle “que é poderoso para fazer tudo muito mais abundante além daquilo que pedimos ou pensamos, segundo o poder que em nós opera, por sua graça” (Ef 3.20), bondade e infinita misericórdia. Aos pastores José Wellington Costa Júnior (presidente da CGADB) e José Welington Bezerra da Costa (presidente do Conselho Administrativo da CPAD); ao diretor executivo, Ronaldo Rodrigues de Souza; aos pastores Elienai Cabral (Consultor Teológico e Doutrinário) e Alexandre Coelho (Gerente de Publicações); ao chefe do Setor de Educação Cristã, Marcelo Oliveira, e à irmã Telma Bueno, bem como a toda a Casa Publicadora das Assembleias de Deus pela valiosíssima oportunidade. Ao pastor Nelson Luchtenberg, presidente da CEMADERON, e a toda a Assembleia de Deus de Rondônia pelo apoio. À minha mãe, Amélia, pela educação na fé cristã e pelo exemplo de perseverança. À minha esposa, Jocineide, e aos meus filhos Júnior, Ana Carolina e Gabriel. O suporte e a participação de vocês são sempre fundamentais e inestimáveis. ABREVIATURAS ARA: Almeida Revista e Atualizada NAA: Nova Almeida Atualizada NBV: Nova Bíblia Viva NTLH: Nova Tradução na Linguagem de Hoje NVI: Nova Versão Internacional NVT: Nova Versão Transformadora SUMÁRIO Agradecimentos Abreviaturas Capítulo 1 Duas Importantes Mulheres Na História De Um Povo Capítulo 2 O Livro De Rute Capítulo 3 Rute E Noemi: Entrelaçadas Pelo Amor Capítulo 4 O Encontro De Rute Com Boaz Capítulo 5 O Casamento De Rute E Boaz: A Remição Da Família Capítulo 6 O Livro De Ester Capítulo 7 A Deposição Da Rainha Vasti E A Ascenção De Ester Capítulo 8 A Resistência De Mardoqueu Capítulo 9 A Conspiração De Hamã Contra Os Judeus Capítulo 10 O Plano De Livramento E O Papel De Ester Capítulo 11 A Humilhação De Hamã E A Honra De Mardoqueu Capítulo 12 O Banquete De Ester: Denúncia E Livramento Capítulo 13 Ester, A Portadora Das Boas Novas Referências O Capítulo 1 DUAS IMPORTANTES MULHERES NA HISTÓRIA DE UM POVO INTRODUÇÃO s livros de Rute e Ester podem ser considerados como um tributo às mulheres piedosas — de ontem, de hoje e de sempre —, que assentam no coração o propósito de servir a Deus a despeito de toda e qualquer circunstância contrária, incluindo o espírito da época, hostil a todos os que decidem viver crendo e praticando o que as Sagradas Escrituras ensinam. Essas belíssimas porções da literatura canônica ensinam-nos que a mulher que teme ao Senhor não cede a ideologias ou pressões culturais; não gasta o tempo ou a energia dela com pensamentos e discussões sexistas, pois ela sabe que o Criador fez macho e fêmea para um viver cooperativo e não conflitante. Essa mulher sábia entende que homem e mulher são diferentes para que se completem — cada um, porém, exercendo o seu próprio papel no plano divino para a glória de Deus. Nesse espectro da história feminina na Bíblia, o livro de Rute brinda-nos com o exemplo de Noemi e da moça moabita que dá nome ao livro. Como as mulheres sábias de nossos dias e de todos os tempos, essas personagens tiveram a graça de viver livres dos traumas que os conflitos mentais, verbais e físicos produzem na nefasta arena da “guerra dos sexos”. Noemi e Rute inspiram as mulheres que não dão palco para a luta inglória do feminismo, que impõe comportamentos que só servem para desgastar e deformar a figura da mulher, roubando dela a verdadeira beleza (moral e física), as ternas e duradouras alegrias da vida — como o casamento e a maternidade — e o prazer de servir a Deus, produzindo, como consequência da sua rebeldia, incalculáveis prejuízos para as estruturas sociais como um todo, incluindo as comunidades cristãs, que são as igrejas locais de todos os continentes. Esse tom inspirativo está presente também no livro de Ester, que nos reserva um drama empolgante. Nele, vemos, pela fé, a mão do Deus Todo-poderoso agindo na História de maneira absolutamente precisa, usando principalmente uma mulher. A vida de Ester, uma moça judia nascida na Babilônia no tempo do cativeiro, órfã de pai e mãe, inspira-nos a todos — especialmente as mulheres —, com o seu exemplo de obediência, superação, pureza e coragem. O Senhor continua à procura de homens e mulheres que possa usar para cumprir os seus extraordinários e eternos propósitos. Parênteses Históricos Um ponto fundamental a ser considerado no estudo conjunto de Rute e Ester é a diferença de contextos geográficos e históricos entre as histórias. Além da característica comum de serem os únicos livros da Bíblia que levam nome de mulheres, Rute e Ester também têm em comum o fato de preencherem parênteses históricos. Cronologicamente, a história de Rute está inserida na grande narrativa do livro de Juízes. A história encaixa-se entre alguns dos seus capítulos. Já o texto de Ester trata de fatos ocorridos entre os capítulos 6 e 7 do livro de Esdras, compondo a literatura pós-exílica. Apesar dessa conexão cronológica, Rute e Ester são livros específicos e autônomos que, todavia, precisam ser estudados levando-se em conta o contexto da história sagrada em que estão inseridos. O Período dos Juízes Já no primeiro versículo de Rute, o leitor é situado com o tempo e o lugar dos fatos. A narrativa é linear e passa-se em Belém, na Judeia (atual Cisjordânia), e em Moabe (atual Jordânia) nos dias dos juízes (cf. Rt 1.1). Cronologicamente, o período dos juízes vai de aproximadamente 1375 a 1050 a.C., situando-se entre a morte de Josué e a coroação do rei Saul. Podemos considerar esse tempo como a terceira fase da história da nação de Israel após a saída do Egito, o “forno de ferro”, onde foi forjada (Dt 4.20). A primeira fase deu-se nos dias de Moisés (a jornada de 40 anos pelo deserto). A segunda, nos dias de Josué (a conquista de Canaã) e dos anciãos contemporâneos seus. Com a morte dessa geração, a nação de Israel entrou num profundo declínio moral e espiritual, iniciando-se o tempo que ficou conhecido como os dias dos juízes. A nova geração deixou de servir ao Senhor e passou a prestar culto aos deuses dos cananeus, Baal e Astarote (Jz 2.7- 13). Isso produziu um trágico resultado para a nação (2.14,15). A crise levava o povo de Israel a clamar ao Senhor por livramento (3.9,15), e Ele atendia Israel por causa do seu gemido (2.18). A resposta divina dava-se por meio de libertadores chamados de “juízes”, que eram usados de forma sobrenatural para livrar a nação “das mãos dos que os atacavam e roubavam” (2.16 – NAA). O ofício desses juízes, portanto, em nada se assemelhava à função dos magistrados civis, como conhecemos hoje. Conforme Donald Stamps, no seu comentário na Bíblia de Estudo Pentecostal, tais juízes eram “líderes militares e tribais […] dotados de superiores qualidades de liderança [que] realizavam grandes feitos, mediante a proteção e o poder de Deus” (2009, p. 388).1 A Cronologia de Rute Sendo o período dos juízes tão extenso, cobrindo cerca de225 anos (entre 1375 e 1050 a.C.), em que parte dessa época situam-se os fatos narrados no livro de Rute? Não há uma resposta precisa para essa pergunta. Existem opiniões diversas sobre a datação dos fatos descritos em Rute, as quais faremos referência no capítulo seguinte, que é dedicado ao estudo da organização do livro e a um aprofundamento maior no seu contexto histórico, propósito e mensagem. Teologicamente falando, não faz diferença o tempo preciso da viagem de Elimeleque e a sua família para Moabe. Por isso, o autor bíblico preocupou-se apenas em transmitir uma descrição teológica do caráter da época em que se deram os acontecimentos — os dias dos juízes —, já que todo esse período foi marcado por crises cíclicas, sempre resultando em tragédias (Duguid, 2016, p. 132). A época é sintetizada pela expressão “não havia rei em Israel, e cada um fazia o que bem queria” (Jz 17.6, NTLH). Ester e o Pós-Cativeiro Babilônico De Belém, na Judeia, a história bíblica transporta-nos para Susã, na Pérsia, cerca de cinco séculos depois. Novamente se verifica a nítida historicidade da literatura bíblica logo no começo da obra (Et 1.1). Era por volta do ano 483 a.C. O cativeiro babilônico, profetizado por Jeremias para durar setenta anos (Jr 25.11), havia terminado em 539 a.C., quando Ciro, o persa, derrotou o Império Babilônico e permitiu o retorno dos judeus exilados (cf. Ed 1.1-3). O primeiro grupo de judeus exilados seguiu para Jerusalém sob a liderança de Zorobabel em 538 a.C. (Ed 2.1,2; 3.8). Foram aproximadamente 50 mil os que deixaram a Babilônia (Ed 2.64,65),2 um número muito pequeno comparado ao de judeus espalhados pelas cidades babilônicas, dentre as quais Susã, agora transformada em capital do Império Persa.3 A baixa adesão ao chamamento de reconstrução de Jerusalém deu-se por duas razões principais, como observa Eugene H. Merrill (2021, p. 501): a primeira, o fato de a maioria daqueles judeus ter nascido no exílio; a segunda, as boas condições em que viviam na Babilônia: […] está claro que na época do decreto de Ciro, a maioria dos judeus exilados pertencia a uma geração que não conhecia a sua pátria. Tinham nascido no exílio e, embora sonhassem com Jerusalém, eram o povo da Babilônia. A geração mais antiga e os idealistas sonhavam por retornar ao lar, mas é fato notório que Sesbassar, Zorobabel e outros líderes do retorno aparentemente não conseguiram um grande número de judeus para acompanhá-los à pátria. Obviamente isto não é difícil de compreender, visto que em Babilônia eles eram relativamente prósperos, sendo doloroso reiniciar a vida em uma terra de morte e cinzas. Donald Stamps (2009, p. 709) também nos dá uma surpreendente informação quanto à disparidade entre o número de judeus exilados que viviam na Babilônia e o grupo que atendeu à convocação para reconstruir Jerusalém.4 Segundo esse reconhecido comentarista pentecostal, os exilados judeus eram “um milhão ou mais”, o que faz concluir que apenas 5% aceitou o grande desafio de deixar o conforto da vida nas grandes cidades babilônicas, agora sob domínio persa, e enfrentar a longa e penosa viagem de volta (cerca de 1.500 km) até à capital de Judá, com o grande desafio de reconstruir uma cidade destruída e totalmente desolada.5 É essa geração conformista que enfrentará mais de perto o terrível drama da ameaça de extermínio narrado no livro de Ester. Os persas eram conhecidos por assegurarem a liberdade religiosa e até incentivarem a prática dos diversos cultos dos povos dominados.6 Mas esse quadro sofrerá uma terrível e inesperada mudança por força de um decreto de Assuero, que ordenará a matança dos judeus de todas as províncias do vasto Império Persa (Et 3.8-13). A Cronologia de Ester Depois do primeiro retorno dos judeus da Babilônia para Jerusalém, ocorrido no ano 538 a.C., passaram-se cerca de vinte e dois anos até a conclusão da obra de reedificação do Templo (ano 516 a.C.). Foram tempos de muita oposição, mas também de comodismo e desânimo, narrados por Esdras e denunciados pelos profetas Ageu e Zacarias (Ed 4.5; Ag 1; Zc 3). Finda a construção do Templo, abre-se um hiato na história, que teve a duração de 60 anos. É nesse período, mais precisamente entre os anos 483 e 473 a.C., como já assinalado, que se dão os fatos descritos no livro de Ester. Somente em 457 a.C., aproximadamente dezesseis anos depois, sob a liderança do sacerdote Esdras, é que ocorrerá o segundo retorno de exilados judeus da Pérsia para Jerusalém. O registro desse retorno está a partir do capítulo 7 do livro de Esdras. O que vemos, portanto, é que nem o providencial livramento operado por Deus nos dias de Ester fez com que um número maior de judeus decidisse deixar as cidades babilônicas que ocupavam (agora sob domínio da Pérsia) e voltar à capital de Judá. O segundo grupo foi menor que o primeiro. O capítulo 8 de Esdras enumera apenas 1.754 homens. Menos de 6 mil pessoas ao todo, considerando em torno de 4 mil mulheres e crianças. Rute e Ester: Uma Síntese Biográfica Como já observado, os contextos geográficos e históricos da vida de Rute e Ester são muito diferentes, assim como as circunstâncias que ambas enfrentaram. De um lado, temos uma moabita que decidiu viver como camponesa em Belém; de outro, uma órfã judia que se tornou rainha. O que há de comum entre Rute e Ester são as suas virtudes espirituais e morais. Ambas expressam fé, convicção, humildade, coragem, obediência, simplicidade, pureza, abnegação, temor a Deus e disposição de servir. Por isso, foram fundamentais para a preservação do povo judeu, a descendência piedosa de Abraão. As duas continuam sendo exemplos de profunda inspiração para todos que desejam agradar ao Senhor e viver para a sua glória (Sl 147.11; 1 Co 10.31; Hb 11.6). I – RUTE: UMA MULHER IMPORTANTE PARA A LINHAGEM DE DAVI Em tempos de crise, Deus escolheu uma mulher moabita para incluí-la na linhagem de Davi e, por conseguinte, na ancestralidade do Messias, o Salvador do mundo. Alguns séculos antes, isso já havia acontecido com outra improvável, Raabe, a meretriz, a mulher que, temendo a Deus, escondeu em sua casa os dois espias enviados por Josué a Jericó (Js 2.6,17,23). Agora, o mesmo temor a Deus e a confiança na sua providência fazem de Rute, uma estrangeira assim como Raabe, uma integrante da árvore genealógica de Davi. O registro é feito com destaque pelo evangelista Mateus, quando disse que “Salmom gerou de Raabe a Boaz, e Boaz gerou de Rute a Obede, e Obede gerou a Jessé. Jessé gerou ao rei Davi […]” (Mt 1.5,6, grifo nosso) 1. Uma moabita A história de Rute, a moabita, é um dos muitos exemplos bíblicos de manifestação da graça de Deus a todos os povos ao longo da história. Os moabitas eram um povo pagão que descendiam de Moabe, filho da relação incestuosa de Ló, o sobrinho de Abraão, com a sua filha mais velha (Gn 19.30-37). Depois de escapar da destruição de Sodoma, onde vivia com a sua mulher e filhas, Ló foi morar numa caverna, num monte próximo da cidade de Zoar, no extremo sul do mar Morto, região que se tornaria parte do território de Moabe (Is 15.5; Jr 48.34). Ali as suas filhas tiveram a infeliz ideia de embebedá-lo e deitar-se com ele para suscitar-lhe descendência. Coube à primogênita a torpe iniciativa (Gn 19.31,32). Moabe nasceu da primogênita, e Amom, da mais nova (Gn 19.36-38). Os dois tornaram-se pais de duas nações vizinhas de Israel: os moabitas e os amonitas. Ambos eram povos perversos, idólatras e inimigos de Israel em muitas circunstâncias (Jz 3.13; 10.6-9; 1 Sm 11.1-11; 12.12; 1 Rs 11.1). Os moabitas foram hostis a Israel desde os dias de Balaque, o rei que contratou Balaão, o sacerdote-adivinho, no afã de que amaldiçoasse a nação hebreia (Nm 22.1-6). Mais tarde, as filhas dos moabitas foram instrumento de sedução para levar os homens de Israel ao pecado sexual e à idolatria, o que resultou na morte de 24 mil israelitas (Nm 25.1-9). Moisés ainda relata a hostilidade dos moabitas pela indiferença que tiveram com o povo de Israel na sua jornada pelo deserto (Dt 23.3,4). Elesimpediram Israel de passar pelas suas terras (Jz 11.17,18). No tempo dos juízes e da monarquia hebreia, vários foram os conflitos com os moabitas (Jz 3.12-30; 2 Sm 8.1,2; 2 Rs 3.4,5,24; 14.25; 1 Cr 18.2; Ez 25.8-11; Am 2.1-3). Tendo Moabe esse histórico de hostilidade, idolatria e imoralidade sexual (Nm 25.1,2; Ap 2.14), era mesmo de todo improvável que Rute, pertencendo a esse povo, entrasse para a linhagem de Davi, família da qual viria o Messias, o Salvador do mundo (Gn 49.8-10; Is 11.1,10; Mq 5.2; Ap 5.5). Contudo, os caminhos de Deus são mais altos que os nossos e muito acima de nossa compreensão (Is 55.8,9; Rm 11.33). Ele faz do improvável provável e do impossível possível quando cremos nEle e o tememos e obedecemos sem impor-lhe qualquer condição (Gn 18.14-16; Hb 11.8-11). Ele é soberano (Jó 42.2). Rute respondeu favoravelmente ao chamado de Jeová com devoção, fidelidade, obediência e pureza, alcançando o favor do Eterno, o Deus da providência. 2. A família belemita Sob a ótica humana, Rute descreve a saga de uma simples família belemita e a disposição e coragem de uma jovem moabita que se apegou à sua sogra e terminou encontrando um judeu piedoso que, como parente remidor, a tomou em casamento. Sob a ótica divina, contudo, era o desenvolvimento de mais uma importantíssima fase do plano eterno de redenção da humanidade. Prometido ainda no Éden (Gn 3.15), esse plano importava na preservação de uma geração piedosa, iniciada em Abraão (Gn 12.1-3) e que prosseguia através da tribo de Judá, de onde viria o Messias, o Salvador (Mq 5.2; Ap 5.5). Sob a ótica humana, Rute surgiu inesperadamente no cenário bíblico e passou a integrar a linhagem de Davi ao casar-se com Boaz, um belemita, descendente de Salmom e Raabe, a meretriz (Mt 1.5). Esse foi mais um capítulo da soberana providência, rumo ao pleno cumprimento do plano salvífico anunciado desde Adão (Lc 3.23-38). Deus estava trabalhando para cumprir a sua promessa. Ele é sempre fiel em tudo o que promete (Nm 23.19; Js 21.45; 2 Co 1.20). De Moabe para Belém A narrativa contida em Rute 1 parece indicar apenas a introdução de mais uma história familiar comum. Mesmo habitando em Belém, a “casa do pão”, a fome que assolava a terra fez Elimeleque decidir peregrinar nos campos de Moabe, o que expõe, em princípio, um inexplicável contraste. O povo que recebera as promessas de todas as bênçãos divinas (Dt 28.1-14) agora precisava buscar refúgio nas terras de um povo idólatra e impuro, que sequer seria admitido na congregação de Israel (Dt 23.3). Essa intrigante decisão, contudo, preparou o cenário para a mudança da história de vida de uma despretensiosa moça moabita, Rute. 3. Matrimônio e maternidade Em Moabe, morre Elimeleque, ficando a viúva Noemi e os seus filhos Malom e Quiliom (1.2). Algum tempo depois, Malom, o primogênito, casa-se com Rute (1.4; 4.10), e o mais novo, Quiliom, casa-se com Orfa. Ao fim de quase dez anos, também morreram Malom e Quiliom (1.4,5). Viúva e sem filhos, Noemi decide voltar a Belém, motivada pela notícia de que a fome havia acabado na sua terra (1.6). Embora pudesse permanecer em Moabe — como decidiu Orfa, viúva de Quiliom —, Rute escolhe vir com a sua sogra, declarando a sua fé no Deus de Israel (1.16). A história de Rute em Belém será desenvolvida ao longo dos capítulos e versículos do livro, como veremos nesta obra. Nesta síntese biográfica, convém apenas dizer que o ápice da história acontecerá com dois eventos que foram fundamentais para que o propósito de Deus fosse consumado na vida dessa moabita. Apegada à sua sogra e sempre disposta a obedecer- lhe e servi-la, Rute alcança o favor do Senhor, “sob cujas asas [foi-se] abrigar” (Rt 2.12). Casou-se com Boaz, parente de Elimeleque, e gerou Obede (hb., “servo”), tornando-se uma ancestral direta de Davi (de quem foi bisavó) e integrante da genealogia de Jesus (Rt 4.1-22; Mt 1.5-17; Lc 3.32). Honrar o casamento e a geração de filhos traz a bênção de Deus para muitas gerações (Hb 13.4; Sl 127.3-5). II – ESTER: A MULHER QUE AGIU PARA A SOBREVIVÊNCIA DOS JUDEUS 1. De Belém para Susã De Belém, na Judeia, as Escrituras transportam-nos para Susã, na Pérsia (atual Irã), para conhecermos a história de outra destemida jovem mulher, Ester, que também foi usada providencialmente por Deus para a preservação de Israel. Orfã de pai e mãe, ela poderia entregar-se à angústia e enveredar por caminhos de rebeldia. Contudo, o que temos é um extraordinário exemplo de obediência, serenidade, sabedoria, pureza e coragem. Ester foi criada pelo primo, Mardoqueu (Et 2.5-7,15), e tornou-se rainha num ato de providência divina. No palácio, aceitou o desafio de ser um instrumento divino para salvar o seu povo, os judeus, da grande matança decretada pelo rei Assuero. Ester era filha de Abiail, tio de Mardoqueu. Judia nascida no exílio, não se sabe quando e em que condições ficou órfã. O seu nome hebraico era Hadassa, que significa murta. Conforme o Dicionário Bíblico Wycliffe (2006, p. 1559), a murta era um lindo e conhecido arbusto perene, entre os favoritos da Antiguidade; tinha folhas perfumadas e flores brancas ou rosadas que eram usadas para perfumar os ambientes e fazer grinaldas para os nobres nos banquetes. Já o nome persa Ester (stara), significa “estrela”. Ester fazia parte da geração de judeus nascidos no cativeiro. No ano 597 a.C., Quis, o bisavô de Mardoqueu (e, ao que tudo indica, também de Ester), fora transportado de Jerusalém para a Babilônia junto com 11 mil exilados que acompanharam Jeconias (ou Joaquim), rei de Judá (Et 2.5,6; 2 Rs 24.6,12-16). Conforme Isaías e Jeremias profetizaram, o fim do cativeiro babilônico foi decretado por Ciro, rei da Pérsia, no ano 538 a.C., mas, como já salientando, a grande maioria dos judeus permaneceu na Babilônia sob domínio persa (Is 44.26,28; 45.1,4,5,13; Jr 29.10-14). 2. De órfã a rainha Com a tomada de Babilônia, os persas adotaram a cidade de Susã, no antigo Elão, como uma das capitais do novo império (Et 1.1,2). Outras cidades importantes existiam na época, destacando-se Ecbatana (na Média), Pasárgada e Persépolis (na Pérsia) — todas, agora, com palácios reais persas, além da própria Babilônia. Tais cidades eram, provavelmente, consideradas capitais. Susã era a capital de inverno, embora tanto no livro Neemias (Ne 1.1,2) quanto em Ester, observa-se, aparentemente, a permanência do imperador por anos seguidos habitando no mesmo palácio, excetuando os tempos de guerra, como a campanha de Assuero contra a Grécia, que durou cerca de quatro anos, terminando no ano 480 a.C., com a destruição quase total das forças navais persas na Batalha de Salamina, conforme narra Heródoto (485–425 a.C.) no seu livro História. Em Susã, viviam Ester e Mardoqueu, dentre milhares de outros judeus. Dotada de uma rara beleza, Ester integrou o grupo de moças virgens que se candidataram para suceder a rainha Vasti, deposta pelo rei Assuero por conta da sua desobediência e teimosia, como escreve Flávio Josefo.7 Depois de uma grande festa pública que durou 180 dias e reuniu representantes das 127 províncias da Pérsia (Et 1.3), Assuero ofereceu, nos jardins do seu palácio, um banquete de sete dias, regado a muita bebida para todos os que estavam na fortaleza de Susã, ricos e pobres (1.5-8). No sétimo dia, mandou que trouxessem Vasti “para mostrar aos povos e aos príncipes a sua formosura” (1.10-12). A rainha recusou o chamado do rei, “embora [ele] enviasse diversas vezes os eunucos para buscá-la”, conforme diz Josefo, acrescentando: Essa teimosia [aborreceu ao rei]. Ele saiu do banquete, reuniu os magos, que entre os persas interpretam as leis, e queixou-se a eles de ter várias vezes pedido à rainha que comparecesse ante a assembleia e que ela não queria obedecer.8 Vasti foi deposta do trono, e Ester foi escolhida como rainha num inequívoco ato da providência divina (2.16,17). Cinco anos depois, essa jovem judia, agindo com sabedoria e muita coragem, obteve do rei um decreto que livrou da morte o povo judeu de todo o império (8.9). Foi a providênciadivina agindo em favor da geração piedosa a fim de preservá-la para o seu grande e eterno propósito: a vinda do Messias. Intriga os estudiosos o fato de o nome de Deus não aparecer no livro, ao que Matthew Henry (2022, p. 845) responde: […] ainda que o nome de Deus não se encontre [no livro de Ester], o mesmo não se pode dizer de sua mão, guiando minuciosamente os fatos que culminaram na libertação de seu povo. Os detalhes não são apenas surpreendentes e muito cativantes, mas também edificantes e encorajadores para o povo de Deus, quando este se encontra em tempos de perigo e dificuldade. 3. No campo ou no palácio As lições espirituais que podemos extrair dos livros de Rute e de Ester apontam para o valor da confiança no cuidado e na precisa providência de Deus em favor dos que nEle confiam e esperam (Is 64.4). Isso fica bem evidenciado ao longo das duas narrativas. São exemplos inspirativos do valor da fidelidade e da confiança em Deus, seja qual for o contexto em que vivermos, visto que os princípios divinos são absolutos e imutáveis; suficientes para orientar nossa conduta em qualquer tempo e lugar (Sl 19.7-9; 119.89-91). III – MULHERES DE DEUS COMO PROTAGONISTAS DA HISTÓRIA 1. O protagonismo feminino Rute e Ester agiram como mulheres de Deus e foram protagonistas da história sem alterarem em nada os seus papéis. Ao longo das suas histórias, veremos o quanto elas souberam compreender o padrão de comportamento que lhes era adequado. Assim como elas, inúmeras outras mulheres têm sido poderosamente usadas por Deus para fins extraordinários em todos os tempos. O protagonismo ou destaque feminino no exercício dos seus papéis em nada conflita com o propósito de Deus com o homem. O Senhor usa cada um segundo a sua própria constituição pessoal. É por isso que a liderança masculina, instituída por Deus (Gn 1.26; 3.16), não anula o propósito divino com a mulher, nem lhe retira a possibilidade de, em muitas circunstâncias, ser protagonista da história. O que não se vê em qualquer dos exemplos da Bíblia é a inversão dos papéis, como as ideologias progressistas pretendem impor atualmente. Rute e Ester não se destacaram pela assunção de papéis masculinos. Não foi a rebeldia ou um espírito altivo que as destacaram. Pelo contrário! Agiram com humildade, submissão e obediência e tornaram-se relevantes para o povo de Israel e para toda a humanidade, fazendo-as ingressar na fileira dos filhos da promessa feita por Deus a Abraão (Gn 12.2,3; Gl 3.16; 4.28; Rm 4.13). 2. Cumprindo os papéis As mulheres que agradam a Deus são as que sabem cumprir o seu papel de forma prática, não se enveredando pelo ativismo, sonhos de empoderamento ou falsas facilidades de realização pessoal. Elas sabem ser mulheres da vida real, como Rute e Ester. Não foi o acaso que fez com que Rute alcançasse o favor divino, tornando-se integrante da linhagem de Davi. Ela soube viver diariamente cumprindo o seu papel, conforme a sua sogra Noemi dá testemunho de como havia sido boa esposa (Rt 1.8). Também soube construir um extraordinário relacionamento com a sogra, o que não tem sido muito comum em nossos dias. 3. Educação familiar Noemi e Rute, contudo, revelaram-se como mulheres sábias, que conheciam bem a distinção dos seus papéis na família: mãe é mãe, e esposa é esposa (Rt 1.11-13). Não confundir as estações e não invadir espaços alheios é fundamental para a boa convivência entre nora e sogra. O mesmo exemplo de vida prática é visto em Ester. Apesar de órfã, teve uma boa criação com Mardoqueu, a quem devotava obediência e profundo respeito (Et 2.10,2-23; 4.1-4). A narrativa do livro mostra-nos que não foi apenas a beleza de Ester que a fez ser escolhida rainha, mas também a sua humildade e comportamento no palácio, fruto da boa educação que recebera (Et 2.15-17). Ester comportou-se de forma simples e humilde diante de Hegai, o “guarda das mulheres” de Assuero, seguindo fielmente as suas orientações, o que foi decisivo para que fosse escolhida rainha da Pérsia (2.15-17). CONCLUSÃO Rute e Ester foram poderosamente usadas por Deus e tiveram os seus nomes registrados na história, como exemplo e inspiração para as mulheres de todas as gerações. Contudo, o protagonismo que viveram não foi resultado de vaidade ou qualquer aspiração pessoal. Elas jamais poderiam imaginar que o Deus da providência iria usá-las tão sobrenaturalmente. O Senhor continua usando mulheres para cumprir os seus propósitos. Algumas se tornam conhecidas e têm os nomes registrados na história; outras vivem a vida toda no anonimato, como a mulher de Noé (Gn 6.10,18; 7.7,13; 8.15), mas nem por isso deixam de ser importantes. O que seria do patriarca sem uma companheira fiel ao seu lado enquanto cumpria a missão que recebera de Deus? 1 Charles P. Pfeifer et al. (2006, p. 1113) afirma que “A palavra heb. Shopet traduzida como ‘juiz’ parece ter sido um termo emprestado dos cananeus. Ela aparece na literatura ugarítica como spt com o sentido de ‘governante’ ou ‘juiz’ e um sinônimo para ‘rei’”. Esses “juízes” libertadores manifestavam os atos poderosos de Deus, guiando os israelitas em façanhas militares (Ibid., p. 1114). 2 Esse número inclui 7.337 escravos e 200 cantores. 3 Originalmente, Susã pertencia a Elão, território dos elamitas, antiga civilização mesopotâmica. A cidade foi dominada pelos babilônicos e, com a conquista persa, tornou-se uma das capitais do Novo Império. Era a capital persa de inverno (Charles F. Pfeiffer, et. al., p. 620). Lá permaneceram centenas de milhares de judeus após o decreto de Ciro, principalmente nascidos durante o cativeiro. Judeus dessa antiga região estavam em Jerusalém no dia de Pentecostes (At 2.9). Atualmente, a região faz parte do Irã, próximo da divisa com o Iraque. 4 Considerando que apenas cerca de 25 mil judeus foram levados para o cativeiro babilônico (Merrill, 2021, p. 523/24), é mesmo surpreendente o número citado por Donald Stamps, fazendo entender que a multiplicação do povo judeu na Babilônia foi extraordinária durante os 70 anos de cativeiro. 5 Segundo o historiador judeu Flávio Josefo no seu livro História dos Hebreus, havia na Babilônia, nos dias de Zorobabel, das tribos de Judá e de Benjamim, da idade de 12 anos para cima, 4.628.000 pessoas (pp. 506, 507). Um número muito maior que o mencionado por Stamps, o que é compreensível pelo recorte etário (12 anos para cima) e, certamente, por incluir as mulheres. Sendo assim, os dados mencionados por Stamps guardam consonância com a informação de Josefo, que corrobora o fato de que o número que seguiu para Jerusalém foi realmente muito pequeno. 6 O historiador grego Heródoto (484–425 a.C.), no seu livro História, descreve os imperadores persas como soberanos complacentes com todas as formas de cultos dos povos do vasto império. 7 JOSEFO, Flávio. História dos Hebreus. 27ª Impressão. Rio de Janeiro: CPAD, 2015, p. 519. 8 Ibid. O Capítulo 2 O LIVRO DE RUTE INTRODUÇÃO livro de Rute está entre Juízes e 1 Samuel. Levando em consideração que o crítico quadro espiritual de Israel retratado em Juízes prolonga-se até os primeiros capítulos de 1 Samuel, o livro pode ser considerado um verdadeiro lírio no meio do deserto, ou, “semelhante a uma linda flor num jardim abandonado, ou a uma luz clara que aparece na escuridão da noite”, como diz S. E. MacNair (1983, 95). Rute destaca-se não apenas pela sua beleza literária, mas também pela profundidade espiritual da sua mensagem. Um bálsamo para judeus e cristãos ao longo dos séculos, o livro narra uma história de amor e redenção. Trata-se de uma extraordinária demonstração de como o Todo-Poderoso trabalha em meio às crises para cumprir os seus desígnios eternos. Nas suas páginas, vê-se continuamente o agir do Deus que transforma tristeza em alegria e derrotas em vitórias. Não há dúvida de que o agir providencial de Deus é o que mais marca a narrativa belemita. A providência divina é percebida ao longo de todo o livro. O Jeová Jireh, proclamado por Abraão em Gênesis 22.14, é o Deus que tudo provê para Noemi e Rute,inclusive um remidor, Boaz, e um herdeiro, Obede, prolongador da semente de Elimeleque, da linhagem de Davi (Rt 4.13-22). O livro faz parte da chamada “trilogia de Belém”, as três narrativas cujo cenário descreve o período dos juízes em relação à cidade que também é conhecida como Efrata (Merril, 2001, p. 184). São elas: Mica e o levita (Jz 17–18), o levita e a concubina (Jz 19–21) e, por fim, a história de Rute, num corpus literário distinto e específico. O livro apresenta uma história curta, porém de grande riqueza espiritual, pela conduta exemplar e pela fé perseverante dos seus principais personagens e, principalmente, pelo desfecho da obra, que revela o grande propósito de toda a história: a preservação da linhagem piedosa de Abraão, de onde viria (e veio) Jesus, Filho de Davi, o Salvador do mundo. I – A ORGANIZAÇÃO DO LIVRO Seja na Bíblia Hebraica, seja na Cristã, Rute aparece como um livro separado de Juízes. Há, porém, muita discussão se isso sempre foi assim. Conforme destaca Eugene H. Merril (ibid., p. 188), A antiga tradição canônica entre os judeus tradicionalmente tem incluído e considerado o livro de Rute como livro dos Juízes, e tal raciocínio tem base nas fortes considerações literárias e históricas. Seu autor coloca os acontecimentos no tempo “quando os juízes governavam” (Rt 1.1), e o cenário ainda está envolto nas duas últimas páginas narrativas do livro dos Juízes. (Enquanto as outras histórias são do princípio daquela era, Rute deve ser localizada no final do período, pois esta heroína está separada de Davi por apenas três gerações). Além disso, a acusação que comumente servia como um refrão por todo o livro dos Juízes — “Naqueles dias não havia rei em Israel: cada qual fazia o que achava mais reto” (Jz 17.6; 18.1; 19.1; 21.25) — e que lançava toda aquela era em uma espécie de caos moral e apostasia da Lei, está sem dúvida refletida nas palavras de abertura do livro de Rute — “Nos dias em que julgavam os juízes”, ou seja, quando não havia um rei. Ao longo dos tempos, houve muita variação na composição e ordem dos livros do Antigo Testamento até chegar à organização que temos hoje, com Rute sendo um livro distinto, vindo imediatamente após Juízes. Conforme explica Norman Geisler e Willian Nix (2006, p. 75): Os livros das Escrituras judaicas foram reagrupados várias vezes desde quando foram redigidos. Alguns deles, de modo especial os que fazem parte dos escritos, foram redigidos e aceitos pela comunidade judaica séculos antes das datas que os teóricos da crítica lhes atribuem. Acerca dessa variação de posição, R. Clyde Ridall (2020, p. 160) sintetiza: Na Bíblia hebraica moderna este livro está colocado no Megilloth e é lido publicamente na Festa das Semanas (no tempo da colheita). Contudo, até por volta do ano 450 de nossa era, o livro de Rute era considerado uma continuação de Juízes. Em sua lista de livros inspirados, Josefo aparentemente considera Juízes e Rute como um único livro. Ao que tudo indica, Jerônimo deixa implícito que os dois estavam juntos no cânon hebraico. Rute aparece na LXX e na Vulgata logo depois de Juízes (como em nossas versões atuais). Não se sabe por que nem como o livro saiu de sua posição original junto aos “Profetas Anteriores” e foi parar no Hagiógrafo (ou Escritos), a terceira divisão do cânon hebraico. Embora a formação do conjunto literário e a ordem dos livros tenha sofrido variação, é preciso ser dito, contudo, que os livros do Antigo Testamento, como conteúdo canônico, jamais estiveram em disputa na antiga comunidade de Israel. 1. Na Bíblia Hebraica A Bíblia Hebraica, a Tanakh, é composta apenas dos 39 livros do Antigo Testamento da Bíblia Cristã. Nela, o livro de Rute pertence à terceira divisão ou seção chamada Ketuvim ou Hagiógrafos (Escritos Sagrados). A primeira seção é a Torah (Pentateuco ou Lei), e a segunda é a Nevi’im (Profetas) (Lc 24.44). Dentre os Escritos, que são 11 livros, estão os Megillot (cinco rolos), livros curtos que eram lidos publicamente nas festas judaicas anuais. São eles: Cântico dos Cânticos, Rute, Lamentações, Eclesiastes e Ester. Em função de narrar fatos ocorridos durante a colheita, a leitura litúrgica de Rute era tradicionalmente feita durante o Shavu’ot (Pentecostes), a festa da colheita. 2. Na Bíblia Cristã Enquanto a Bíblia Hebraica está dividida em três seções (Pentateuco, Profetas e Escritos), o Antigo Testamento da Bíblia Cristã é composto de quatro seções: Pentateuco, Poéticos, Históricos e Proféticos. Rute está categorizado como um livro histórico, diante do seu evidente gênero narrativo, sem deixar, contudo, de apresentar uma extraordinária beleza poética. Aparece logo depois do livro de Juízes. Empregando estilo e linguagem pertencentes ao hebraico clássico, o seu autor expõe vários aspectos subjetivos da vida dos personagens (Rt 1.12-21; 2.13,20; 3.1; 4.16). A obra está organizada em quatro capítulos, somando 85 versículos ao todo. 3. Autoria e data É muito comum existirem infindáveis discussões sobre aspectos históricos, autoria e data dos livros da Bíblia. São extensas as teses que consomem longos tempos de navegação fora das Escrituras, que poderiam ser dedicados ao crescimento em edificação pelo estudo do Livro Sagrado. Os pentecostais não ignoram o mundo acadêmico e nem negam o valor das suas pesquisas quando produzem extraordinárias descobertas a respeito da história bíblica e do seu registro canônico. Dedicam, contudo, mais tempo para o estudo das próprias Escrituras, e não para tudo o que a Alta Crítica escreve acerca dela.1 Cremos na inspirada, inerrante, completa e infalível Palavra de Deus. De qualquer sorte, é importante pelo menos citar que há uma diversidade de opiniões entre os eruditos a respeito da autoria e data do livro de Rute. Samuel é o autor mais provável, embora Esdras e Ezequias também sejam citados como supostos autores (BEACON, p. 159). O Talmude, obra milenar de regulamentos e tradições judaicas, atribui a Samuel a autoria (BEP, p. 420).2 A forma como o autor refere-se a Jessé e Davi parece indicar contemporaneidade e familiaridade com os personagens, o que também aponta para Samuel (Rt 4.17). Além disso, as características gerais da obra indicam uma atmosfera própria do início do período da monarquia de Israel, reforçando ainda mais a autoria do profeta, sacerdote e último juiz de Israel. Quanto à data, também há muito debate e imprecisão. Contudo, considerando a provável autoria de Samuel, o livro teria sido escrito no século X a.C. Um dos principais argumentos para essa conclusão, como destaca Leon Morris (1986, p. 219, 220), diz respeito ao estilo e à linguagem presentes na obra, pertencentes ao hebraico clássico, o que indica uma época primitiva, ou seja, dos dias de Samuel, logo após os fatos narrados no livro, bem distante do estilo visto em livros escritos no período pós-exílico (segunda metade do século V a.C.), como os livros das Crônicas dos reis de Israel, escritos provavelmente por Esdras. De fato, verifica-se que a narrativa de Rute encerra-se com a referência a Davi (“e Obede gerou a Jessé, e Jessé gerou a Davi” – Rt 4.22). Seria de todo improvável que um livro escrito após a monarquia (e no período pós-exílico!) não citasse qualquer outro rei de Israel, principalmente Salomão. II – O CONTEXTO HISTÓRICO No capítulo anterior, apresentamos um panorama do contexto histórico do livro de Rute, os dias dos juízes (Rt 1.1). Esse período, que durou mais de três séculos, começou depois da morte de Josué (por volta de 1375 a.C.) e estendeu-se até o início da monarquia de Israel com a ascensão de Saul ao trono (1050 a.C.). Os fatos narrados em Rute devem ter ocorrido mais para o fim dos dias dos juízes em função da proximidade geracional com Davi: Boaz gerou a Obede; Obede gerou a Jessé, e Jessé gerou a Davi (Rt 4.21,22). Apenas três gerações, portanto, separam Rute de Davi. 1. No tempo dos juízes Os dias dos juízes foram marcados por uma grande anarquia e uma profunda apostasia e infidelidade do povo hebreu (Jz 1.7- 19). Como já assinalado,uma frase que identifica bem esse período é: “cada qual fazia o que parecia direito aos seus olhos” (Jz 17.6). A Nova Tradução da Linguagem de Hoje traduz como: “cada um fazia o que bem queria”. Isso demonstra o quadro anárquico que estava em Israel, bem diferente do propósito e da ordem de Deus estabelecida por intermédio de Moisés, que previa uma unidade nacional sob a obediência da Lei (Dt 31.12,13). A sensação de estabilidade pela conquista da terra e o seu estabelecimento nas cidades (Js 2.6), somado à convivência com os povos cananeus que não foram desalojados, produziram uma drástica mudança no coração da nação israelita ao longo das gerações. Josué advertira ao povo que não se misturasse às nações que haviam ficado na terra e que sequer fizessem menção aos nomes dos seus deuses (Js 23.7). O povo deveria manter um extremo zelo de Deus e da sua Palavra, obedecendo a Ele em tudo e buscando viver isento de todos os costumes dos cananeus que permaneceram na terra, mas Israel fez o contrário de tudo isso. 2. Secularismo, hedonismo e idolatria O principal marco da transição da fidelidade do culto hebreu para a frieza, o declínio e a apostasia foi a morte de Josué e dos demais líderes do seu tempo. A nova geração, que não tinha uma profunda comunhão com Deus e não conhecia o que Ele havia feito em favor do povo hebreu, desviou-se do caminho. O resultado disso foi uma rápida corrupção moral e espiritual da nação (Jz 2.7-13). Israel cedeu ao estilo de vida pecaminoso e aos deuses dos cananeus. O pervertido culto a Baal (o deus da tempestade e da chuva) e a Astarote (a deusa do amor e da fertilidade) passou a ser praticado pela nação num degradante nível de imoralidade e idolatria. A nação de Israel tornou-se secularista, hedonista e idólatra, entregando-se aos prazeres carnais e aos ídolos dos cananeus, como analisa Matthew Henry (2022, p. 97, 98): Toda essa geração em alguns anos se esfriou, suas boas instruções e exemplos morreram e foram enterrados com eles e surgiu outra geração de israelitas que tinha tão pouca compreensão da religião e se preocupava tão pouco com ela que, apesar de todos os benefícios da sua educação, podemos verdadeiramente dizer que não conheciam o Senhor da forma correta, ou seja, não o conheciam como havia se revelado; completamente devotados ao mundo ou tão indulgentes com a carne no que se referia ao ócio e a luxúria, que não davam a mínima importância para o verdadeiro Deus e à sua santa religião. Dessa forma, foram facilmente atraídos aos falsos deuses e às suas superstições abomináveis. […] Quando abandonaram o único e verdadeiro Deus não se tornaram ateístas, nem eram tão insensatos a ponto de dizer: Não há Deus. Mas eles seguiram outros deuses. Retinham tanto da natureza pura a ponto de dizerem que existia Deus, mas também permanecia tanto da natureza corrupta que multiplicavam os deuses. Eles estavam dispostos a aceitar qualquer deus, e seguir a moda, não a regra, na adoração religiosa. Geralmente, ocorre assim: as gerações piedosas vão sendo atraídas pelos costumes das sociedades mundanas, em busca de prazer e entretenimento, até serem roubadas no seu coração, abandonando a prática da verdadeira religião, o culto ao Deus Eterno. O passo seguinte é flertar com falsas práticas religiosas até assumir novos deuses. Lições para todos os Tempos Algumas lições espirituais fundamentais podem ser extraídas do trágico exemplo de Israel no período pós-conquista. A primeira é sobre o quanto é importante uma liderança madura, experiente e temente a Deus, que tenha força moral e espiritual para ser exemplo com a própria casa e conduzir o povo em serviço, obediência e adoração. Josué foi esse tipo de líder. Quando o povo fica sem condutores idôneos, os prejuízos são incalculáveis em toda e qualquer época. No Reino de Deus, não basta ter carisma para liderar; é preciso ter caráter aprovado (1 Tm 3.2-13; 2 Tm 2.15; Tt 2.7,8). Nesse sentido, é imperativo que, como igreja, valorizemos mais os líderes locais, que pastoreiam com zelo o rebanho do Senhor, fortalecendo os vínculos da comunidade de fé a que pertencemos (Hb 13.7,17; 1 Ts 5.12,13). A segunda é sobre como é imprescindível o ensino das Escrituras como base norteadora de todas as nossas condutas individuais e coletivas. Como Moisés havia ordenado, o povo deveria ser reunido — homens, mulheres, meninos e os estrangeiros — para ouvir, aprender e temer a Deus, guardando todas as suas palavras. Cumprir essa ordem hoje é ser, o tanto quanto possível, assíduo e ativo nos cultos ordinários da igreja, especialmente o de oração e ensino e a Escola Dominical. A valorização mútua e o zelo congregacional são recomendados a todos (Hb 10.24,25). A terceira lição que podemos extrair do infeliz exemplo de Israel nos anos posteriores aos dias de Josué é o cuidado de que precisamos ter para não sermos seduzidos pelo estilo de vida mundano da sociedade que nos cerca. É fato que o modo de vida fácil e os costumes aparentemente agradáveis dos grupos sociais com os quais convivemos têm um forte poder atrativo; afinal de contas, fazer a vontade de Deus com o zelo que nos recomendam as Escrituras pode ser visto como um fardo muito pesado, principalmente quando se refere a aspectos culturais não recomendados pelas igrejas conservadoras. O fato é que não é possível flertar com o mundo e os seus prazeres e, ainda assim, conservar o coração ardente pela presença de Deus. Os entretenimentos mundanos não são neutros como se imagina. Assim, embora não devamos ser radicais, não podemos também nos esquecer de que nosso modo de viver deve ser santo em tudo (1 Pe 1.13-16) e de que tudo o que fizermos deve ser para a glória de Deus, não dando escândalo nem aos judeus, nem aos gregos, nem à igreja de Deus (1 Co 10.31,32). É para isso que fomos chamados. No caso de Israel, é certo que a aproximação do estilo de vida cananeu foi ocorrendo aos poucos, como se não tivesse importância; como se prejuízo nenhum causasse, até ao ponto da apostasia total e do degradante declínio que marcou os dias dos juízes, ou seja, com muita opressão, angústias, mortes, tristezas e profundas desolações. É como diz a ilustração da rã na chaleira: se for posta numa chaleira cheia de água fervendo, ela logo saltará para fora; mas, se a água estiver à temperatura ambiente, ela permanecerá até que a água ferva e ela morra cozida. 3. Opressão, clamor e livramento O Deus de Israel cumpriu integralmente a sua Palavra enquanto a nação foi fiel a Ele. Como escreveu Josué: “Palavra alguma falhou de todas as boas palavras que o SENHOR falara à casa de Israel; tudo se cumpriu” (Js 21.45). Isso mostra o inestimável valor da confiança em Deus, a despeito de qualquer circunstância. Enquanto permaneceu fiel a Deus, o povo de Israel desfrutou de proteção sobrenatural: “[…] nenhum de todos os seus inimigos ficou em pé diante deles; todos os seus inimigos o SENHOR deu na sua mão” (Js 21.44). Tudo mudou quando o povo pecou. Com a apostasia, a nação tornou-se presa fácil dos seus inimigos, cujos exércitos atacavam e saqueavam as cidades e terras de Israel, mantendo o povo sob o seu domínio opressor por longos períodos (Jz 3.7- 9;12-14;4.1-3;6.1-6). Afligida, a nação clamava a Deus, e o Senhor levantava juízes para libertar o seu povo (Jz 2.18). Como já observado, esses juízes não eram magistrados civis que julgavam em fóruns ou tribunais, como conhecemos hoje, embora alguns estudiosos, como, por exemplo, D. A. Carson, considerem que eles também se dedicavam a dirimir conflitos entre o povo, sem indicar, contudo, um exemplo prático desse ofício entre os juízes mencionados em todo o período.3 O que temos registrado nas Escrituras é que esses juízes eram, em geral, líderes militares, como Otniel, Baraque e Gideão (Jz 3.9- 11; 4.10-15; 7.16-25), poderosamente usados para “julgar” a causa do povo de Israel, livrando-o dos seus opressores. Apesar dos repetidos ciclos de infidelidade de Israel, Deus ouvia o gemido do seu povo nos seus momentos de dor e aflição (Jz 2.18). O Senhoré longânimo (Sl 103.8; Jl 2.13; Rm 2.4), e as suas misericórdias são a causa de não sermos consumidos (Lm 3.22). Ele está pronto para ouvir os que clamam a Ele (Jr 29.12,13; Is 55.6). III – PROPÓSITO E MENSAGEM Para compreender o propósito de um livro, é preciso buscar conhecer a mente do autor a partir do conteúdo da sua obra. O hermeneuta bíblico não pode atribuir o seu próprio sentido ao texto, mas dedicar-se para extrair da Escritura a intenção do autor e a mensagem contida na obra. Assim, à luz do texto de Rute, vários propósitos podem ser vistos. Gleason L. Archer Jr. (2012, p. 344) apresenta uma síntese: O propósito do livro é narrar um episódio entre os ancestrais de Davi que explicava a introdução de sangue não israelita na linhagem da sua família. Ensina também o grande alcance da graça de Deus, pronto a dar as boas- vindas, na comunhão do seu povo redimido, aos convertidos gentios. Talvez o aspecto de maior importância dessa curta narrativa seja exibir a função do go’el ou “parente resgatador”. 1. O cetro de Judá Sem dúvida, o principal e mais evidente propósito do livro é o registro da linhagem de Davi (Rt 4.18-22). Rute apresenta-o como descendente de Judá, que é a tribo real da qual viria o Messias, “[…] o Leão da tribo de Judá, a Raiz de Davi” (Ap 5.5). Gênesis 49.10 diz: “O cetro não se arredará de Judá, nem o legislador dentre seus pés, até que venha Siló; e a ele se congregarão os povos”. Embora Rúben fosse o primogênito de Jacó, o seu ato de desonra ao leito do pai, deitando-se com a sua concubina, fez com que perdesse a primogenitura (a sua posição de liderança) (Gn 35.22; 49.4). A promessa feita a Abraão seguia, agora, pela linhagem de Judá. Se Samuel for o autor do livro de Rute, o propósito de apresentar a genealogia de Davi ganha ainda mais sentido, já que era Saul, um benjamita, quem ocupava o trono naquele tempo (1 Sm 9.1,2; 25.1; 26.1.2). O registro da ancestralidade de Davi funcionaria como uma legitimação para o futuro rei de Israel. 2. Amor e redenção Rute é uma peça indispensável na metanarrativa bíblica que revela o amor divino pela humanidade, manifestado através do plano de redenção, que culminou com o envio do Filho de Deus ao mundo para, uma vez encarnado, oferecesse a si mesmo como sacrifício perfeito no lugar de toda a humanidade (Jo 1.1-14; 3.16; Gl 4.4,5). Esta é a mensagem principal do livro: o amor de Deus e o seu plano de redenção da humanidade sem acepção de pessoas (At 10.34-44). Como representantes de judeus e gentios, respectivamente, Boaz e Rute prenunciam a derrubada da parede de separação (Ef 2.11-16). A redenção é vista no livro nos sentidos literal e tipológico. Boaz é tanto o parente remidor que perpetuou a descendência de Elimeleque, como também um tipo de Cristo, nosso eterno Redentor (Is 59.20; Lc 1.68; Ef 1.7; Tt 2.14). 3. Fidelidade e altruísmo O período dos juízes tinha como característica principal a busca egoística dos próprios interesses. Era cada um por si. Paradoxalmente, o livro de Rute é um oásis de altruísmo. Noemi, viúva e sem filhos, prefere o bem-estar das suas noras, liberando-as para voltar para as suas respectivas famílias. Não pensou em si mesma (Rt 1.8-15). Uma jovem moabita deixa a terra dos pais para acompanhar a sua sogra, já idosa, que não tinha nenhuma perspectiva material ou humana de trazer-lhe um futuro promissor (Rt 1.16,17). Pobre e sem filhos, Noemi não tinha realmente o que oferecer a Rute. Já em Belém, o comportamento de Rute foi voltado integralmente para a proteção e o cuidado da sogra — e de forma voluntária (Rt 2.2,17,18). Rute não esboçou uma atitude sequer que lhe pudesse favorecer em primeiro lugar, como a busca de um casamento com qualquer homem belemita (Rt 3.10). Na verdade, o interesse por casar-se não surgiu da decisão dela, mas da específica orientação da sogra (Rt 3.1-6). Esse comportamento de Noemi e Rute dá uma eloquente mensagem: o valor do altruísmo num mundo dominado pelo egoísmo. Enquanto nos dias dos juízes todos viviam segundo os seus próprios padrões e interesses (Jz 21.25), Noemi e Rute exalam abnegação, destoando dessa máxima individualista. Sogra e nora não pensavam em si mesmas. Elas praticaram o amor que não busca os seus próprios interesses (1 Co 13.5). Por todo esse cenário de benevolência, o livro de Rute permite-nos saber que nem tudo eram trevas nos dias dos juízes. Havia um remanescente fiel, que temia ao Senhor Deus e foi usado para cumprir os seus propósitos (Jó 42.2). Como destaca R. Clyde Ridall (2020, p. 160): Este livro revela que a nobreza e a graça não desapareceram de Israel, até mesmo naqueles dias mais rudes de agitação e anarquia. A verdadeira piedade e simplicidade do modus vivendi nunca deixaram de existir, nem mesmo no meio de um período tão rústico. Conforme descobriu Martinho Lutero (1483–1546), em um mundo de crescente iniquidade, o justo vive pela fé (Mt 24.12,13; Hc 2.4). CONCLUSÃO O livro de Rute mostra-nos que o Deus da providência é soberano e continua no controle da história. Os seus propósitos eternos e tudo o que planejou não podem ser frustrados. A despeito da incredulidade e dos pecados do homem, o Senhor trabalha para cumprir os seus desígnios. O que Ele precisa é encontrar quem esteja disposto a obedecer- lhe em tudo (Ez 22.30). Assim, sem quebrar o princípio do livre-arbítrio, Ele conduz a história e executa os seus elevados planos. O Senhor é fiel em todo o tempo. 1 N. do E.: A Alta Crítica objetiva fazer uma análise das obras literárias bíblicas e lida com questões sobre a autenticidade do texto, a autoria, a data e as circunstâncias da obra. Já a Baixa Crítica busca achar a escrita original do texto, já que não mais possuímos os textos originais. 2 Leon Morris cita essa fonte (Talmude, Baba Bathra, 14b), porém considera ser uma tradição recente, que não parece ter base sólida para indicar com precisão a autoria do livro (1986, p. 213). 3 A referência invocada por D. A. Carson e que poderia atribuir aos juízes o ofício de julgar causas civis é Rute 4.12, mas esta, além de não estar relacionada aos libertadores levantados por Deus para o livramento do seu povo nos moldes vistos no livro de Juízes, está relacionado a um costume negocial comum e absolutamente distinto. O Capítulo 3 RUTE E NOEMI: ENTRELAÇADAS PELO AMOR INTRODUÇÃO afetuoso e inspirador relacionamento entre Noemi e Rute resultou de uma atitude no mínimo paradoxal do belemita Elimeleque. No crítico período dos juízes, um efrateu deixa Belém por causa da fome que assolava Israel e vai com a sua família peregrinar nos campos de Moabe.1 A ação de Elimeleque — nome que, no hebraico, significa “Meu Deus é Rei” — não é objeto de aprovação ou reprovação expressa no texto sagrado. Contudo, é mesmo um paradoxo que um judeu piedoso precisasse deixar Belém (heb, Bethlehem, “casa do pão”) em busca de sobrevivência para ele e a família nos campos dos moabitas, um povo pagão e historicamente inimigo de Israel. Decerto, não havia um clima de beligerância entre os povos naquele período específico; tanto é verdade que os belemitas encontraram franco acesso a Moabe, e famílias de efrateus e moabitas entrelaçaram-se por meio de vínculos conjugais. De qualquer sorte, o ato revela a gravidade da crise em solo israelita, decorrente da apostasia de Israel. Quanto a Elimeleque, não há como deixar de considerar que lhe faltou fé perseverante para permanecer em Belém, a despeito da crise que vivenciava. Para os que cogitam ter como certa a atitude de Elimeleque por ele estar buscando garantir a sobrevivência da sua família, é preciso considerar que justificar nossas decisões vacilantes pelas circunstâncias adversas que enfrentamos é uma flagrante negação do valor da confiança em Deus e na sua providência. A verdadeira fé é fortalecida e provada nos momentos mais críticos da vida (1 Pe 1.7). I – A PROPOSTA DE NOEMI 1. Uma crise em família Não sabemos quanto tempo Elimeleque viveu em Moabe. A narrativa bíblica indica que a família permaneceu junta por algum período (Rt1.2). Algum tempo depois, morreu Elimeleque, deixando a sua esposa, Noemi, com os seus dois filhos, Malom e Quiliom, que, à época, já tinham idade para casarem-se. Apesar de não haver idade mínima para o casamento no mundo antigo (Yamauchi, 2023, p. 397), os homens, pelo menos, não se casavam muito cedo. Isaque, por exemplo, casou-se aos 40 anos (Gn 25.20). Malom, o filho mais velho, casou-se com Rute. Quiliom casou-se com Orfa. O texto sagrado informa que a família belemita ficou em Moabe “quase dez anos” (1.4), o que corresponde, provavelmente, a todo o tempo de permanência desde a chegada àquelas terras. Ao fim desse período, morreram Malom e Quiliom. Estudiosos do Antigo Testamento consideram que a morte prematura dos filhos de Noemi deveu-se às condições de saúde de ambos, que não seria boa desde a infância. Conforme Leon Morris, (1986, p. 233), “Malom possivelmente é derivado da raiz hlh ‘estar fraco’ ou ‘doente’”, assim, “neste caso, teria sido uma criança doentia”, completa Morris. O mesmo autor afirma que “Quiliom também é nome que tem conotações desagradáveis, visto que significa algo como ‘definhando’, ‘falhando’ ou mesmo ‘destruição’”. Malom e Quiliom deixaram viúvas as moabitas Rute e Orfa. O significado geralmente atribuído ao nome de Rute é “amizade”. Quanto ao nome de Orfa, Morris diz que “aparentemente é da mesma raiz da palavra hebraica para ‘pescoço’ (orep)”. “Se na língua moabita as palavras forem similares, o nome poderia significar ‘firmeza’ (cf. ‘pescoço duro’)”, completa Morris. Com a morte do marido e dos filhos, a vida de Noemi (heb., “agradável”, “amável”, “deleitável”) tornou-se amarga, como ela mesma diria tempos depois, preferindo ser chamada de Mara (“amarga”, “amargosa”) (Rt 1.20). 2. Tirando força da fraqueza Nenhuma família está livre de viver tragédias, nem mesmo as mais piedosas. O que dizer da família de Jó, que tinha como sacerdote um homem “sincero, reto e temente a Deus; e [que] desviava-se do mal” (Jó 1.1)? A família, como diz Every- Claiton (2020, p. 13), é a célula em que age o Deus da história. Noemi não tinha consciência disso enquanto enfrentava o furacão de problemas que lhe roubou a alegria, assim como cada um de nós não consegue, em tempos de crise, compreender claramente o que o Senhor está querendo de nós por meio dos processos nos quais faz passar. Como observa Cabral (2023, p. 86), Noemi não podia imaginar o plano presciente do Senhor em todas aquelas circunstâncias. A questão, contudo, não é tentar explicar as tragédias, como se tivéssemos domínio racional sobre elas, mas comportar-nos de um modo responsável, perseverando no cumprimento de nossos deveres, mesmo que não vejamos luz alguma no fim do túnel. Acima de tudo, precisamos continuar confiando em Deus. Mesmo que seja difícil, se tivermos desenvolvido um relacionamento com o Todo-Poderoso, conheceremos o seu caráter santo, justo e bom e confiaremos que “todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados por seu decreto” (Rm 8.28). Essa reverente confiança nada tem a ver com a negação da realidade. Não é sábio viver um cristianismo triunfalista, que não admite que o cristão possa enfrentar dificuldades, frustrações, perdas e sofrimentos. Todas as pessoas, inclusive as cristãs, estão sujeitas a grandes tragédias; a diferença é como cada um comporta-se em meio às tempestades da vida (Ef 6.13; Mt 7.24-27). Salomão escreveu: “Quando os dias forem bons, aproveite-os bem; mas, quando forem ruins, considere: Deus fez tanto um quanto o outro, para evitar que o homem descubra alguma coisa sobre o seu futuro” (Ec 7.14 – NVI). Noemi soube ser equilibrada em meio à profunda crise que estava vivendo: ela não escondeu os seus sentimentos, mas também não os explorou com autopiedade ou autocomiseração. Isso pode ser observado pelas atitudes que teve em dois momentos distintos. O primeiro foi quando “se levantou ela com as suas noras e voltou dos campos de Moabe, porquanto, na terra de Moabe, ouviu que o SENHOR tinha visitado o seu povo, dando-lhe pão” (Rt 1.6). Noemi estava desolada, mas não ficou prostrada. Não podemos deixar de agir e cumprir nossas obrigações diárias quando as tristezas querem nos consumir. Fazer o que precisa ser feito a cada dia e todo o dia é um segredo para não sucumbir em meio às crises. Nossos deveres diários contribuem, e muito, para o processo de superação de nossas angústias. Salomão escreveu: “Se você vacila no dia da dificuldade, como será limitada a sua força!” (Pv 24.10, NVI). Já na NAA, aparece o adjetivo “fraco” nesse mesmo versículo: “Se você se mostra fraco no dia da angústia, é porque a sua força é pequena”. Trata-se de “raphah”, no hebraico, com o sentido de “afundar”, “relaxar”, “deixar cair”; ou seja, tem a ver com a atitude pessoal tomada durante a crise, e não com o estado interior. No aspecto subjetivo, angústia; mas, na prática, ações concretas, iniciativas. Quando soube que o Senhor havia abençoado o seu povo, “se levantou ela”, ou seja, Noemi, com as suas noras para voltar a Belém (Rt 1.6,7). A atitude de Noemi é própria de quem tem espírito de liderança. Mesmo em meio à tristeza e à dor que sentia pela perda do marido e dos filhos, Noemi não ficou prostrada. A distância entre os campos de Moabe e Belém era superior a 120 quilômetros. Idosa, Noemi teria que subir e descer montanhas em tempos tão remotos, viajando não se sabe por quais meios de transporte e suportando as intempéries climáticas (Cabral, 2016, p. 95). Ela soube tirar força da fraqueza (Hb 11.34). Se tivesse se entregado aos seus sentimentos, jamais teria tomado uma decisão tão corajosa. A lição que tiramos desse exemplo de Noemi é: os problemas da vida não podem nos paralisar (Pv 24.10). Depois da crise, vem a bonança. Noemi experimentou essa verdade, como veremos mais à frente na história. As desistências fazem- nos perder bênçãos extraordinárias. Confiar em Deus e seguir em frente é sempre o caminho certo. Nas atitudes práticas, de nossa responsabilidade, está a parte da terapia que pode ajudar-nos a superar os dramas da vida. Desistir de objetivos comuns da vida tem sido altamente prejudicial para a saúde emocional e espiritual de muitas pessoas. Noemi levantou-se e voltou para Belém. 3. Sem manipulação emocional Outra extraordinária lição que nos transmite Noemi é a importância de não usar nossos quadros tristes da vida para manipular e explorar as pessoas que nos cercam. Além de conservar-se ativa, Noemi soube equilibrar as suas emoções com a assunção das suas responsabilidades, não se vitimizando diante das suas noras, tentando constrangê-las a permanecer junto dela. É razoável entender que uma mulher idosa precisa mesmo de alguém para fazer-lhe companhia e oferecer cuidados — como fez Rute a Noemi —, só que esse tipo de relacionamento não pode ser construído com base em manipulações. Rute e Orfa decidiram voluntariamente acompanhar Noemi de volta a Belém. O texto bíblico informa-nos que elas puseram-se de caminho junto com a sogra: “Pelo que saiu do lugar onde estivera, e as suas duas noras, com ela […]” (Rt 1.7). Não se sabe que distância percorreram, mas não deve ser sido longa. A narrativa permite-nos entender que, tão logo começaram a viagem, Noemi decidiu liberar Rute e Orfa para que voltassem à casa dos pais (Rt 1.7,8; 2.11). Mesmo de avançada idade, Noemi pensou primeiro nas suas noras e no futuro delas. As noras tinham cumprido bem o papel de esposas, assim como eram dedicadas à sogra. De volta às suas origens, poderiam casar novamente e constituir família (Rt 1.8-13). Noemi assumiu a sua condição pessoal sem apelar aos sentimentos das noras. Esse tipo de conduta é fundamental para a construção de relacionamentos saudáveis. Ter dependência patológica de outra pessoa é sintoma de profunda carência afetiva. Embora dependamos uns dos outros, não é possível sustentar uma boa convivência se não houver interdependência, manifestada em reciprocidade, mutualidade, compartilhamento, cooperação, equilíbrio e confiança.Pessoas que sofrem de carência afetiva terminam tornando-se um grande peso em qualquer relacionamento. Quando isso se agrava, costuma atingir níveis perigosos, que se exteriorizam das formas mais diversas. O ciúme desmedido é um desses terríveis quadros produtores de tragédias. O excessivamente carente usa a sua doentia condição para manipular os outros. Não raras vezes, esses quadros são sustentados por problemas espirituais não resolvidos (ou mal resolvidos); falta de maturidade espiritual; ausência de uma vida cristã autêntica, na correta compreensão do que é ser discípulo de Cristo (Lc 9.23). A manipulação é sutil e costuma manifestar-se desde a infância (Pv 20.11). O pecado não escolhe idade. Pais permissivos mostram-se emocionalmente fracos diante dos filhos e tornam-se presas fáceis das suas manipulações. Desse tipo de criação, vêm adultos emocionalmente débeis, com baixo nível de maturidade e independência emocional — e isso também se reflete no aspecto espiritual. Pessoas emocional e espiritualmente sadias não são manipuladoras; buscam — o quanto podem — resolver os seus próprios problemas, entendendo os limites de uma dependência mútua saudável, numa vida de cooperação e reciprocidade. II – A CONVICÇÃO AMOROSA DE RUTE 1. Uma amizade provada e aprovada Por que Rute persiste e Orfa desiste? O sentimento e a força moral de Orfa não eram tão intensos quanto os de Rute. Isso ficou demonstrado na sua decisão após a insistência de Noemi para que ficassem em Moabe. Num primeiro momento, Orfa não atendeu a palavra de Noemi. Assim como Rute, beijou a sogra e, chorando em alta voz, garantiu que a acompanharia na viagem de volta ao seu povo (Rt 1.9,10). Noemi insiste para que as noras voltem para a casa dos pais. Ela não poderia oferecer a elas outros filhos para que se casassem (Rt 1.11-13).2 As palavras de Noemi certamente levaram Orfa a refletir um pouco mais. Embora fosse apegada à sogra, realmente não havia indicação alguma de que pudesse ter um futuro melhor ao lado de uma idosa pobre e sem filhos. Isso deve ter pesado na decisão de Orfa, além do fato de não haver no seu coração uma convicção profunda de que devesse escolher o caminho da dificuldade, rejeitando o estilo de vida dos moabitas, com as suas licenciosidades e idolatrias. Não é demais tirar essa conclusão do texto pelas palavras de Noemi após a decisão de Orfa (Rt 1.14,15). A fé de Orfa era emotiva, porém fraca. Infelizmente, muito se vê disso no cristianismo evangélico atual. Pessoas que se emocionam e choram, mas que são desprovidas de convicção na hora de tomar atitudes ao lado da verdade do evangelho. Como diz Matthew Henry: “Fortes sentimentos, sem uma opinião bem definida, normalmente produzem decisões fracas” (2022, p. 196). O mesmo autor observa: “Aqueles que assumem uma profissão de fé somente por complacência dos parentes, ou para agradar seus amigos, ou por causa da companhia, serão convertidos por pouco tempo” (ibid., p. 197). Orfa voltou “ao seu povo e aos seus deuses”, o que demonstra não ter sido uma mera decisão de voltar para a casa dos pais, à espera de uma nova oportunidade de casamento. Foi um retorno ao modus vivendi moabita, que incluía o culto politeísta, de cujo panteão Quemos era o deus principal.3 Orfa convenceu-se de que ficar em Moabe era o melhor para ela. Chorando, abraçou a Noemi e voltou para o seu povo. Rute, porém, apegou-se a Noemi (Rt 1.14). A firmeza e o altruísmo de Noemi novamente se revelam, insistindo para que Rute fizesse o mesmo que a sua cunhada (1.15). A atitude de Noemi extraiu o que havia no mais íntimo de Rute: uma convicção amorosa por sua sogra, além de uma declaração de fé no Deus de Israel (1.16). As verdadeiras amizades resistem às mais intensas provas. Abraão, que recebeu o título de amigo de Deus (Tg 2.23), teve o seu amor ao Senhor provado de forma absolutamente intensa, com o pedido de entrega do próprio filho. Deus estava extraindo de Abraão algo mais intenso e puro, demonstrado através da extraordinária oferta de Isaque. É isso que podemos entender da expressão do Anjo do Senhor: “[…] agora sei que temes a Deus e não me negaste o teu filho, o teu único” (Gn 22.12). Assim como Noemi, Deus quer que tenhamos um relacionamento sincero e profundo com Ele, pautados numa entrega total. As provas servem para Ele extrair o que realmente há em nosso coração. Se respondemos afirmativamente, com obediência e fé, o Senhor agracia-nos com a sua terna, profunda e providencial amizade: “Vós sereis meus amigos, se fizerdes o que eu vos mando” (Jo 15.14). Isso resulta em muitas bênçãos. Dentre elas, um conhecimento maior de seus mistérios (“[…] tenho-vos chamado amigos, porque tudo quanto ouvi de meu Pai nos tenho feito conhecer”) e acesso para recebermos o que lhe pedimos (“[…] a fim de que tudo quanto em meu nome pedirdes ao Pai ele vos conceda”) (Jo 15.15,16). Veremos nos próximos capítulos como isso se tornou realidade na vida de Rute, que, aliás, recebeu muito além do que pedia ou pensava (Ef 3.20). 2. Amizade na adversidade As verdadeiras amizades não cedem às conveniências ou pressões do momento. Amigo que muda de lado facilmente ao sabor dos seus interesses não é amigo verdadeiro. A amizade de Rute e Noemi mostrou-se realmente profunda e surpreendente. Salomão escreveu: “O amigo ama em todos os momentos; é um irmão na adversidade” (Pv 17.17 – NVI). No período da monarquia judaica, temos o belo exemplo da amizade entre Davi e Jônatas (1 Sm 18.1) a despeito da fúria do rei Saul. A disposição de Jônatas em ser amigo de Davi mostrou-se mais forte que as injustas investidas do seu pai (1 Sm 20.1-4). Rute também estava disposta a enfrentar toda e qualquer dificuldade em nome do sentimento que devotava a Noemi. As expressões “onde quer que pousares à noite, ali pousarei eu” e “onde quer que morreres, morrerei eu” (Rt 1.16,17) demonstram o grau de companheirismo e comprometimento da jovem moabita, que não ficou somente em palavras, mas transformou-se em atitudes concretas por toda a vida. Em dias de tanto individualismo, uma reflexão que precisamos fazer é quanto ao nível de nossos relacionamentos. O sociólogo e filósofo polonês Zigmunt Bauman (1925–2017), que muito escreveu sobre modernidade líquida, costumava apontar para as fragilidades das amizades atuais, que são tão múltiplas e mostram-se tão “quentes” no ambiente virtual, mas que são tão poucas e incrivelmente frias na vida real. O tipo de companheirismo e comprometimento de Rute às vezes não se é visto nem mesmo no ministério da igreja.4 O cristão tem o imperativo de amar uns aos outros (Jo 13.34), combustível indispensável para amizades verdadeiras e duradouras. 3. Um amor prático O amor de Rute não era apenas verbal ou sentimental; era prático. Chegando a Belém, Rute não ficou parada, envolta em expectativas fantasiosas. Ela dedicou-se ao trabalho diário nos campos de Belém (Rt 2.2). Está crescendo em nossos dias a chamada Teologia do Coaching, que, embora reúna conselhos práticos — muitos deles extraídos das Escrituras Sagradas —, tem sido crida por muitos como um meio fácil de alcançar sucesso na vida. Isso produz uma espiritualidade superficial, que desconsidera a necessidade de percorrer caminhos difíceis, porém reais, e a prática fiel e perseverante dos princípios da Palavra de Deus sem elevadas pretensões, como fez Rute na sua dura vida em Belém. A justiça de Deus não combina com uma espiritualidade que imagina a possibilidade de cortar caminhos, valendo-se de uma espécie de “poções mágicas”. Conquanto não devamos ser radicais, também não devemos ser ingênuos, como meninos na fé (cf. Ef 4.14). O amor de Rute era prático, assim como a sua espiritualidade. Ela confiava no Deus de Noemi, o Deus de Israel, o que demonstrou através de atitudes firmes, sérias, responsáveis e puras. Repartição e Responsabilidade O princípio bíblico extraído de Rute e o seu trabalho nos campos de Boaz — que reflete o ensino dos dias de Moisés — é: os ricos não podem reter para si toda a riqueza (lei da repartição), mas tambémnão são obrigados a alimentar o ócio dos pobres, que deveriam ir ao campo e trabalhar duro para garantir o seu sustento (lei da responsabilidade). Exceto nos casos de incapacidade física ou mental, o mesmo princípio vige até hoje (Gn 3.19; 2 Ts 3.10-13). A Bíblia tem ensino para todas as áreas de nossa vida, inclusive para o cuidado dos órfãos e das viúvas, sendo, em relação a estas, específica quanto ao dever primário da família (cf. 1 Tm 5.4,8). Fica evidente, portanto, que as Escrituras não sancionam um assistencialismo sem critérios. Rute dedicou-se ao cuidado da sua sogra, a viúva Noemi. Por isso, trabalhou muito nos campos de Boaz. O seu esforço foi logo notado, impressionando o chefe dos trabalhadores. No fim do dia, Rute recolhia tudo e levava para a sogra (Rt 2.7,17,18), tendo, inclusive, o cuidado de reservar para Noemi o que sobrava do seu próprio alimento diário (Rt 2.17,18). Que exemplo extraordinário! Como escreveu o apóstolo João, devemos amar não “da boca para fora, mas de fato e de verdade” (1 Jo 3.18, NAA). Rute não apenas dizia amar; ela praticava o amor. III – A CONVICÇÃO DA MULHER: “O TEU DEUS É O MEU DEUS” 1. Uma fé fervorosa Um dos sinais do fim dos tempos é a apatia espiritual (Mt 24.12; Lc 18.8-17). Vivenciamos uma realidade preocupante para muitas igrejas locais e para o cristianismo evangélico em geral, com esfriamento do amor e o surgimento de muito misticismo em vez de fé genuína. Um tempo em que cresce um profetismo de pouca autenticidade — às vezes, nenhuma. Não se trata de uma visão pessimista, mas realista, à luz das claras previsões escriturísticas. Apesar disso, não devemos nos conformar. Rute nos dá o exemplo de uma fé fervorosa; uma fé viva e não morta, conforme os ensinos de Tiago (Tg 2.14- 18). A sua declaração convicta perante Noemi (Rt 1.16) demonstra a sua profunda devoção ao Deus de Israel, sob cujas asas decidiu abrigar-se (2.12). O seu fervor é demonstrado nas suas atitudes. Rute renunciou ao modelo de vida frívolo dos moabitas e não seguiu caminhos fáceis entre os belemitas (3.10); ela manteve uma vida austera e disciplinada e alcançou uma excelente reputação (3.11). 2. Uma fé que inspira A fé de Rute foi inspirada na vida e crença da sua sogra. Ao referir-se ao Deus de Noemi, dava testemunho da sua fé. Em todos os tempos, as mulheres mais velhas têm a missão de resistir aos ventos da superficialidade espiritual, sendo piedosas, dedicadas a Deus e à família, a despeito das pressões da sociedade mundana. Somente assim poderão inspirar e ensinar as mais novas (Tt 2.3-5). A participação da mulher, portanto, é vital em nossos esforços de manter viva a fé que uma vez foi dada aos santos (Jd 3). 3. Sensibilidade sob liderança Não há dúvida de que as mulheres também são dotadas de talentos e dons (naturais e espirituais), que podem ser (e são) muito úteis no Reino de Deus. Contudo, é inafastável que também se reconheça que Deus deu ao homem a missão de liderar, o que começa no seio da família, em decorrência do sistema patriarcal estabelecido pelo Criador. Como escreve o pastor Elienai Cabral (2023, p. 94, 96): Antes de tudo, o sistema patriarcal foi criado por Deus […]. O líder da família é sempre o pai, não a mãe. A mãe corrobora com o pai para que a disciplina tenha sempre um caráter de responsabilidade mútua da parte do casal. Os pais devem ensinar os seus filhos quanto à bondade, à gentileza, às prioridades de suas vidas, o falar correto e o controle das emoções. Tudo isso é primordialmente trabalho do chefe da família, o pai. Isso não é diferente no âmbito da Igreja. As mulheres têm muito a contribuir com a obra de Deus, e assim o fazem em diversas áreas do serviço cristão. O Senhor, contudo, também reservou ao homem a liderança no contexto eclesiástico, assim como ocorreu na Antiga Aliança, no Sacerdócio Levítico. (No livro Sejam Firmes – um comentário às Epístolas Pastorais, abordo esse tema à luz do que Paulo escreveu na sua primeira carta a Timóteo (1 Tm 2.11-14), além de outros textos, como 1 Coríntios 14.34,35, que não deixam dúvidas sobre a inexistência de fundamento bíblico para o pastorado feminino. Como lá escrevi, os textos paulinos muito incomodam os teólogos progressistas, que não se conformam com ensinos que contrariam as suas próprias visões de temas relativos a pautas como, por exemplo, o ministério feminino. Como também saliento no precitado livro, as mulheres aparecem em vários pontos do Novo Testamento como importantes cooperadoras (At 16.11-15; 18.24-26; Rm 16.1-5; Fp 4.3; Cl 4.15). O que não há nas Escrituras é fundamento para o ministério feminino de liderança ou pastoreio de igrejas. O mais sábio, portanto, é que as mulheres cristãs não percam o foco, entregando-se a discussões e disputas carnais, que não produzem edificação, mas concentrem a sua fé e devoção em servir a Deus no glorioso serviço cristão, como valorosas cooperadoras. Afinal, como enfatizam as Escrituras, as mulheres têm muito a contribuir, eis que são dotadas não apenas de talentos, mas de profunda sensibilidade espiritual. Um exemplo disso é o fato de terem sido as primeiras a testemunhar e crer na ressurreição de Jesus (Lc 24.1-10; Jo 20.11-18). É de grande valor quando esse extraordinário potencial feminino é reconhecido e floresce sob uma liderança séria, que orienta o trabalho da mulher, evitando que seja explorada na sua fé (Fp 4.3; Rm 16.12; Mc 12.38-40; 2 Tm 3.6,7). CONCLUSÃO O relacionamento de Noemi e Rute ensina-nos quão precioso é o amor altruísta para Deus. Ao pensarem uma na outra e dedicarem-se ao cuidado mútuo, ambas foram alcançadas pelo favor divino (Rt 4.13-17). Em um mundo tão narcisista, o Senhor espera que nos doemos mais uns aos outros. A família é o primeiro ambiente em que o amor deve ser praticado (1 Tm 5.8). O segundo é nossa igreja local. 1 Em tempos mais remotos do Antigo Testamento, Belém era chamada de “Efrata”, conforme Gênesis 35.16,19 e 48.7. Assim, Efrata é o nome antigo de Belém. Em Miqueias 5.2, os dois nomes aparecem juntos: “E tu, Belém Efrata, posto que pequena entre milhares de Judá […].” Nesse sentido, “efrateu” é sinônimo de belemita. Pode ser, também, que Belém tenha sido um distrito de Efrata, que corresponderia a uma área maior nas terras de Judá, nas cercanias de Jerusalém (Wycliffe, p. 276, 608). É isso que parece sugerir o texto de 1 Samuel 17.12: “E Davi era filho de um homem, efrateu, de Belém de Judá, cujo nome era Jessé […]”. 2 Noemi já se refere nessa passagem à lei do levirato, sobre a qual provavelmente já havia conversado com as noras. Isso indica que Noemi transmitia às moabitas quais eram os costumes e leis de Israel. 3 Conforme o Dicionário Bíblico Wycliffe (p. 770), Quemos era adorado por meio do sacrifício de crianças. Moloque pode ser um título dado ao próprio Quemos, que também era adorado pelos amonitas (Jz 11.24). É mencionado em textos como Números 21.29, 1 Reis 11.7 e Jeremias 48.46. 4 Abordo o tema “Valorizando o Companheirismo” no livro Maturidade Espiritual do Líder, editado pela CPAD (2017, p. 87/101). A Capítulo 4 O ENCONTRO DE RUTE COM BOAZ INTRODUÇÃO história de Rute torna-se cada vez mais empolgante a cada capítulo, principalmente pelo caráter dialógico da obra. Em meio ao desenrolar dos fatos que marcam a profunda amizade entre Noemi e Rute, um terceiro personagem entra em cena: Boaz, o parente remidor. O autor apresenta-nos esse belemita como um “homem valente e poderoso, da geração de Elimeleque” (Rt 2.1). Era, portanto, um parente de Elimeleque, embora não saibamos de que grau. “Os rabinos entendiam que Boaz era sobrinho de Elimeleque” (Every- Clayton, p. 46). Matthew Henry (p. 200), acrescenta: “[Boaz] era neto de Naassom, príncipe da tribo de Judá no deserto, filho de Salomão [Salmom], que provavelmente era um dos filhos mais moços de Raabe, prostituta de Jericó”. I – BOAZ, O REMIDOR 1. Um homem próspero Os termos “valente” e “poderoso” referem-se ao caráter íntegro e à influência de Boaz, além do seu poder econômico.1 Boaz era um grande produtorrural — “um poderoso fazendeiro”, como sugerem alguns eruditos (Morris, p. 253). Ele tinha plantações de cevada e trigo e muitos trabalhadores ao seu serviço (2.5,6,23) — na linguagem de hoje, era um homem do agronegócio. Boaz, decerto, reunia qualificações morais e condições econômicas para cumprir o papel de remidor. O significado do nome “Boaz” é incerto. Morris (1986, p. 253) diz que o nome pode estar ligado à ideia de rapidez, ou força. Significaria, talvez, “filho da força”. Warren W. Wiersbe (2006, p. 181) apresenta um significado semelhante: “nele há força”. 2. “Goel” e “Levir” Como já afirmamos, a expressão “da geração de Elimeleque” não nos permite saber o grau de parentesco entre Boaz e o marido de Noemi. De qualquer sorte, como parente próximo, poderia ser o goel, o resgatador da terra que o falecido havia vendido (Rt 4.3), como também poderia cumprir o costume antigo do casamento levirato (Gn 38.6-11). Eram duas prescrições distintas contidas na Lei de Moisés. A primeira, relativa ao goel, dizia respeito à “solidariedade familiar”, como ensina Roland De Vaux (1903–1971) (2004, 43): Os membros da família em sentido amplo devem uns aos outros ajuda e proteção. A prática particular desse dever é regulada por uma instituição da qual se encontram em formas análogas em outros povos, por exemplo, entre os árabes, mas que, em Israel, toma uma forma particular, com um vocabulário especial. É a instituição do go’el, palavra procedente de uma raiz que significa “resgatar, reivindicar”, e, mais fundamentalmente, “proteger”. O go’el é um redentor, um defensor, um protetor dos interesses do indivíduo e do grupo. Ele intervém em certo número de casos. Se um israelita precisou se vender como escravo para pagar uma dívida, deverá ser resgatado por um de seus parentes próximos, Lv 25.47-59. Quanto um israelita precisa vender seu patrimônio, o go’el tem direito preferencial na compra, pois é muito importante evitar a alienação dos bens da família. A lei está codificada em Lv 25.25. É como o go’el que Jeremias adquire o campo de seu primo Hanameel, Jr 32.6s. De Vaux vê que essa última hipótese encaixa-se à situação de Noemi, conjugando-se a hipótese, contudo, com a figura do casamento pelo levirato (p. 43, 44): “O costume é ilustrado também na história de Rute, mesmo que aí a compra da terra se complique por um caso de levirato. Noemi tem uma posse que a pobreza a obriga a vender; sua nora Rute é viúva e sem filhos. Boaz é um go’el de Noemi e de Rute”. O papel do resgatador seria adquirir a terra de maneira que permanecesse na mesma herdade — no caso, de Elimeleque. Já a lei do levirato previa que o irmão do cunhado (levir) casasse-se com a viúva e suscitasse descendência ao falecido (Dt 25.5-10; Mt 22.24-48). Tudo indica que essa prática foi ampliada, seguindo uma ordem de parentesco mais abrangente, semelhante à do resgatador (Lv 25.48,49). No caso de Boaz, havia um remidor “mais chegado” do que ele (Rt 3.12). Ainda citando De Vaux (p. 61), é importante que consideremos a peculiaridade do caso de Rute, em que as duas leis — go’el e levir — fundem-se: A história de Rute combina o costume do levirato com o dever do resgate que incumbia ao go’el. A lei de Dt 25 não se aplica porque Rute não tem mais cunhado, Rt 1.11-12. O fato de que um parente próximo deva tomá-la por esposa, e isso seguindo certa ordem, Rt 2.20; 3.12, indica seguramente uma época ou um ambiente em que a lei do levirato era um assunto de clã mais do que de família no sentido estrito. De qualquer forma, as intenções e os efeitos desse casamento são os de um casamento levirático: trata-se de “perpetuar o nome do falecido”, Rt 4.5,10; cf. 2.20, do qual a criança que há de nascer será considerada filha, Rt 4.6; cf. 4.17. De Vaux contribui ainda para um maior entendimento do assunto ao afirmar que esse costume tinha paralelos em outros povos, especialmente vizinhos de Israel. “O Código de Hamurabi não fala dele, mas as leis assírias consagram-lhe vários artigos. Nelas não se expressa a condição de que a viúva não tenha filho, mas isso pode ser devido a uma lacuna do texto”, explica. De Vaux cita alusões ao levirato em leis hititas,2 entre os hurritas de Nuzu e talvez em Elam.3 Rute, a Respigadeira Rute decide voluntariamente ir ao campo respigar (apanhar, juntar, recolher espigas – heb. laqat). O seu voluntarismo fica evidente (Rt 2.2). A atitude de Rute mostra-nos a sua prontidão, própria de uma mulher virtuosa, que “não come o pão da preguiça” (Pv 31.27) ou “não dá lugar à preguiça”, como traduz a NVI.4 Uma mulher assim não precisa ser mandada para cumprir o seu dever; antes, prontifica-se a fazer além dele, pois foi o que Rute fez. Não necessariamente estava no script que ela tivesse que ir ao campo respigar. É importante também considerar que, por trás dessa prontidão de Rute, estava o conhecimento que ela obtivera, certamente através de Noemi, acerca da Lei Mosaica em relação aos pobres, para que os ricos, donos de plantações, deixassem que recolhessem as espigas que caíssem ao chão durante as colheitas (Lv 19.9; 23.22; Dt 24.19). Fazem muito bem os pais que ensinam os seus filhos quanto ao valor e a importância do trabalho, não lhes permitindo o ócio. Um baixo nível de comprometimento com o trabalho tem sido uma das causas de graves problemas nos casamentos, levando muitos casais e famílias cristãs a amargarem profundas tristezas, com reflexos negativos na igreja e em toda a sociedade. Salomão fala sobre o quadro caótico do campo do preguiçoso — que pode ser lido como o quarto, o escritório, o carro do preguiçoso (cf. Pv 24.30-34). Em nossos dias, há o agravante das redes sociais, que têm roubado o tempo de muita gente, de todas as idades — talvez mais dos adolescentes e jovens, que costumam passar horas no quarto, navegando com pouco ou nenhum proveito. Além do empobrecimento intelectual e econômico, isso pode afetar a saúde mental e emocional, além de trazer prejuízos espirituais. Rute demonstrou muita disposição e coragem ao prontificar-se imediatamente para o trabalho. Apesar das circunstâncias desfavoráveis que enfrentava junto com a sogra, não se rendeu às dificuldades — e não por falta de opção para entreter-se, pois ela poderia muito bem ter optado sair pela cidade, acompanhado o fluxo da época, seguindo jovens pobres ou ricos (Rt 3.10). 3. Temor e respeito Quando lemos Rute 2.1-4, entendemos que Boaz veio ao campo já no período da tarde, quando o trabalho estava bem avançado. Logo que chegou, saudou os seus empregados, demonstrando ser um homem temente a Deus. A invocação a Jeová (“O Senhor seja convosco”), dirigida a todos os segadores, também indica o seu respeito aos que trabalhavam com ele. Os empregados retribuem-lhe com uma saudação também amistosa e piedosa: “O Senhor te abençoe” (Rt 2.4). Boaz não chegou perguntando como estava o serviço ou cobrando resultados. Ele também não foi seletivo ou altivo, dirigindo-se somente ao chefe dos trabalhadores. Falou com todos eles: “E eis que Boaz veio de Belém e disse aos segadores […]” (2.4). Somente depois Boaz dirige uma pergunta específica ao chefe dos trabalhadores, relacionada a Rute: “De quem é esta moça?” (2.5). Essa sequência de fatos revela que Boaz considerava as pessoas mais importantes que o trabalho que prestavam. Embora seja razoável que todo o patrão espere um trabalho produtivo dos seus empregados, o correto é considerar que as pessoas têm mais valor que o trabalho que fazem. Assim, buscar falar ao coração de cada uma delas é mais importante que lhes impor obrigações em nome de uma mera troca de dinheiro versus tempo e produção. Analfabetismo Funcional e Distração É fato também que tem ficado cada vez mais difícil a relação patrão-empregado diante do crescente analfabetismo funcional e a sua relação com o ambiente de trabalho. Ao lado disso — e consequentemente —, crescem as dificuldades com uma produção mais eficiente, quadro agravado também pelo alto índice de distração pela forte atração das mídias e redes sociais. Embora sejaevidente que não poucos empregados envolvem-se em trivialidades e questões pessoais que prejudicam o rendimento funcional, confrontar-lhes com a ideia de “compra do tempo” não é o caminho para resolver o problema. Em tempos de tanta desumanização do trabalho, pode parecer utopia, mas falar ao coração das pessoas (ou, pelo menos, tentar), elas sendo empregadas ou não, é sempre o melhor caminho. A constatação dessa realidade não justifica e muito menos retira o dever dos empregados. Paulo escreveu aos colossenses que os tais devem trabalhar servindo “em simplicidade de coração” (Cl 3.22). Na NAA é: “com sinceridade de coração”. O versículo 23 é mais enfático ainda: “E, tudo quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como ao Senhor e não aos homens”. Assim, não resta dúvida de que a solução é alcançar essa disposição de coração. Quanto aos patrões, a Palavra de Deus ensina que devem fazer “o que for de justiça e equidade” (Cl 4.1). Pelo padrão bíblico, patrões e empregados devem tratar-se com mútua consideração, reconhecendo a posição e o papel próprios de cada um na relação de trabalho (Ef 6.5-9; Cl 3.22- 4.1). Quando o cristão não age assim, seja patrão, seja empregado, compromete a eficácia do evangelho com o seu mau testemunho (Mt 5.13-16), além de sujeitar-se ao juízo divino sobre a sua conduta aqui e na eternidade (Cl 3.24,25; 4.1). II – O CARINHO DE BOAZ PARA COM RUTE 1. A pureza não exclui a ternura Logo que chegou ao campo, Boaz notou a presença de uma moça diferente entre os segadores e foi informado de que se tratava de Rute, a moabita, que voltara com Noemi dos campos de Moabe (Rt 2.5,6). Não somente a identificação da moça e a sua história, que já era conhecida, mas também o seu comportamento e dedicação ao trabalho sensibilizaram Boaz, que se dirigiu a ela terna e respeitosamente, chamando-a de filha — certamente também em função da diferença de idade que havia entre eles (cf. 2.8). O gesto de Boaz ensina-nos que o dever de pureza de um homem para uma mulher não exclui o seu dever de educação, fineza e, com o devido respeito, expressão de ternura. No caso de Boaz, a última hipótese era ainda mais cabível, pois Rute era bem mais nova que ele; assim, poderia tratá-la como filha (1 Tm 5.1,2). Não é preciso ser rude para ser santo. Boaz deu a Rute a liberdade de continuar catando espigas na sua plantação e assegurou-a de que ela seria tratada com o devido acatamento e respeito (Rt 2.9). Boaz preocupou-se com a segurança de Rute e, por isso, conferiu a ela “proteção especial”, conforme observa Carson (ibidem, p. 444). Ser generoso, gentil e bondoso não retira a masculinidade de homem algum; pelo contrário, reforça-a. Como destaca o pastor Douglas Baptista, a generosidade de Boaz é uma das características da verdadeira masculinidade (2023, p. 72). Ressaltando a relação que generosidade tem com benignidade e bondade (Gl 5.22), Baptista mostra o conceito mais amplo do termo, abrangendo expressões como “carinho”, “meiguice”, “delicadeza” e benevolência”, como encontramos em Bergstén (1999, p. 94) e Ribas (2009, p. 297). Um viver santo não exige que sejamos rudes e descorteses (2 Rs 4.8,9). Jesus, o mais puro dos homens, convivia com todos (Mc 2.15-17; Jo 4.3-27). Humildade e mansidão são virtudes essenciais a todo cristão (Mt 11.19). 2. Deus estava agindo Rute ficou extremamente surpresa com a atenção que recebeu de um homem tão importante e poderoso. Como estrangeira e pobre, certamente tinha receio de como seria tratada; por isso ela agia com educação e muita discrição (Rt 2.7). Impressionada com o gesto de Boaz, inclinou-se ao chão e, de forma humilde, reconheceu ser indigna do tratamento que recebeu (2.10). Os personagens da história não compreendiam a dimensão do que acontecia. O Deus da providência estava agindo, construindo todo o cenário necessário para mais uma importante etapa do seu plano redentor. A linhagem messiânica precisava continuar. Aquela primeira aproximação entre Boaz e Rute seria fundamental para o desenrolar dos próximos eventos. A providência divina agia, sem desprezar, contudo, a participação humana na história. Deus não trabalha de forma arbitrária, violando o livre-arbítrio humano. No exemplo em estudo, havia uma motivação especial na conduta de Boaz para o tratamento que dispensou a Rute. Ele já conhecia a bela história da jovem moabita (2.11). Deus estava, sim, agindo em favor de Rute, mas não de forma arbitrária, ou seja, independente da sua conduta. 3. Sensível e espiritual Os atos de Boaz não eram como uma ficção ou fruto de uma manipulação psicológica, como não são quaisquer dos atos humanos, dado o livre-arbítrio assegurado por Deus. Como enfatiza Silas Daniel (2017, p. 402), as escolhas humanas são reais, genuínas. Boaz estava agindo dentro de um cenário real. O Deus da providência estava abençoando Rute em recompensa pelo seu devotado amor a Noemi e por toda a reputação que ela havia construído com o seu cuidadoso comportamento. O próprio Boaz sabia dessa verdade, ao proferir a declaração que se tornou um dos versículos-chave do livro (cf. Rt 2.11). Boaz tinha uma profunda compreensão espiritual. Ele reconhecia que o Deus dos hebreus não estava limitado a fronteiras territoriais ou barreiras étnicas. Como servo de Yahweh, estava sendo usado para abençoar uma piedosa moabita, uma “mulher convertida” (Gilberto, 2021, p. 397). As suas palavras tocaram profundamente o coração de Rute e deram grande conforto a ela (Rt 2.13). III – A COLHEITA DE RUTE E A SUA SOBREVIVÊNCIA 1. A lei da semeadura Apesar de aparentemente vivermos num mundo de impunidades, há um Deus nos céus que julga todos os atos. Não é sábio ao cristão agir como se não acreditasse na providência divina, influenciado por uma cosmovisão secular, que produz a ilusão de que vivemos num mundo “dos homens”, apartados de Deus e não afetados por Ele, cada um fazendo o que bem decide sem submeter-se ao juízo divino (Sl 73.1-17). Isso é fruto de uma incredulidade crescente e da perda de sensibilidade quanto ao domínio universal de Deus (Sl 24; Lc 18.1-8; 1 Tm 4.1). Essa visão dualista em nada condiz com as Escrituras e com a realidade dos que confiam no Senhor da providência. Rute decidiu servir ao Deus de Israel em vez de Quemos, o deus dos moabitas, cuja adoração incluía o sacrifício de crianças (Nm 21.29; 1 Rs 11.7; 2 Rs 3.26,27). Agora, ela começava a experimentar a mão invisível de Jeová Jireh, agindo graciosamente em seu favor. A lei da semeadura funciona inexoravelmente (2 Co 9.6; Gl 6.7). 2. Os acasos de Deus Rute retorna a casa exultante não apenas com o resultado da sua colheita — quase um efa de cevada, ou seja, 37 litros — mas, principalmente, pela forma como foi tratada por Boaz e os seus segadores. Noemi quis saber onde Rute tinha trabalhado naquele dia. Quando Rute mencionou o nome de Boaz, Noemi não escondeu a sua exultação (Rt 2.20). Uma esperança brotou no coração da pobre viúva (cf. Jó 14.7-9). O fato de Rute trabalhar justamente nos campos de Boaz não foi por acaso, e Noemi reconheceu isso na sua expressão. O Senhor estava manifestando a sua beneficência em favor dela e a sua nora e, mais que isso, do falecido Elimeleque, já que Boaz era um dentre “nossos remidores”, isto é, tanto de Noemi quanto de Rute, como observa De Vaux na sua obra (2004, p. 44). Naturalmente, a idade favorecia muito mais a Rute, e era essa a preocupação e intenção de Noemi. A fé de Rute no Deus de Israel — sob cujas asas ela foi abrigar-se — estava sendo recompensada. A sua prontidão em cuidar da sogra levou-a a encontrar conforto e proteção naquele que seria o resgatador da família e que a incluiria na genealogia do Redentor da humanidade. Vale a pena confiar em Deus e esperar nEle. Ainda hoje, podemos experimentar a ação do Todo-Poderoso no curso de nossa vida, alcançando- nos com a sua misericórdia e favor. 3. O resultado da colheita Alguns frutos de nossas ações são colhidos de imediato; já outros levam tempo para aparecer. Pela forma graciosa como era tratada, Rute colhiacereais em abundância diariamente nos campos de Boaz (Rt 2.17,21). A colheita garantia a sua sobrevivência e da sua sogra. O trabalho árduo durou toda a estação: entre março e abril, colheu-se cevada; e de abril a junho, trigo. Concluído o trabalho, ficou com a sogra (Rt 2.23). Uma “colheita” ainda maior seria feita por ela em tempo oportuno (Ec 3.1). Nosso Deus trabalha por aqueles que nEle esperam (Is 64.4). Em um mundo cada vez mais opressor, é reconfortante estar abrigado sob as asas do Deus Eterno, guardado no esconderijo do Altíssimo (Sl 91). CONCLUSÃO O tema “relacionamento” sobressai-se no livro de Rute não apenas por uma visão humana ou natural, mas, acima de tudo, espiritual. O versículo-chave do capítulo 2 de Rute indica-nos com clareza como nossos atos tornam-se valiosos quando praticados levando Deus em conta —conscientes de Ele estar acima de tudo e de todos e de que é Ele quem nos garante a recompensa pelo que fazemos. Pautar nossa conduta pelo nível de hostilidade do mundo em que vivemos torna-nos cada vez mais rudes, assemelhando-nos à perversidade da sociedade atual, cheia de pessoas amantes de si mesmas, avarentas, presunçosas, soberbas, blasfemas, desobedientes a pais e mães, ingratas, profanas, sem afeto natural (2 Tm 3.2,3). Não podemos ficar enrijecidos por nenhum tipo de ressentimento. Conquanto o mundo seja mesmo hostil, a graça de Deus pode capacitar-nos a viver acima desse sentimento. 1 Matthew Henry ainda cita uma versão dos Caldeus, que traduz como “poderoso na lei” (2022, p. 200), o que nos remete à apurada e justa conduta de Boaz em relação ao parente mais próximo e a forma pública como tratou do negócio, cumprindo todo o rito legal (Rt 4.1-11). 2 Os hititas eram um grupo étnico que morava na Palestina desde os dias dos patriarcas (Gn 15.19-21). Eram os “filhos de Hete”, descendentes de Cam, filho de Noé, diretamente por Canaã (Gn 10.15; 1 Cr 1.13) (Wycliffe, p. 926). 3 Nuzu era um centro administrativo e um posto avançado dos hurrianos (hurritas) localizado próximo de onde está a moderna Kirkuk, no Iraque, cerca de 240 quilômetros ao norte de Bagdá. Elam ou Elão, correspondente, atualmente, à região do Cuzistão, no moderno Irã (Wycliffe, p. 619, 1380). 4 Essa mesma observação e correlação com a mulher de Provérbios 21 foi feita pelo pastor Elinaldo Renovato de Lima no seu livro O Caráter do Cristão (CPAD, 2017, p. 77). M Capítulo 5 O CASAMENTO DE RUTE E BOAZ: A REMIÇÃO DA FAMÍLIA INTRODUÇÃO uito antes de o rei Lemuel escrever acerca da mulher virtuosa em Provérbios 31.10-31, Rute recebeu de Boaz esse honroso reconhecimento — que, aliás, não era individual, mas coletivo: toda a cidade de Belém testificava o caráter elevado e a fibra moral de Rute, certamente corroborados pelo testemunho da sua sogra, Noemi, a quem coube relatar os fatos ocorridos em Moabe, descrevendo a conduta da jovem moabita. É essa mulher que Boaz logo tomará em casamento, fazendo com que uma história que começou com fome e mortes termine com duas grandes celebrações: o casamento dele e Rute e o nascimento do filho do casal, Obede, o avô de Davi. Uma verdade bíblica fundamental aprendemos com o exemplo de Noemi, Rute e Boaz: Deus tem bênçãos para todos, mas só alcançarão essas bênçãos os que confiam nEle e seguem a sua direção, e não a lógica humana, mesmo não sabendo o que lhes reserva o amanhã. Essa é a verdadeira fé (Hb 11.1). I – O COMPROMISSO DE BOAZ COM RUTE 1. No lugar da bênção O período da colheita da cevada e do trigo havia terminado.1 Não havia mais o que Rute fazer nos campos de Boaz. O processo, agora, consistia no empilhamento dos feixes (dos grãos colhidos) em posição vertical para secar e, depois, o joeiramento,2 o processo de remoção da palha, que era feito na eira, conforme Yamauchi & Wilson (2020, p. 565): Quando a possibilidade de recolher diminui com a conclusão da temporada da colheita de grãos, Noemi instrui Rute a fazer com que ela aproxime-se de Boaz, que está joeirando cevada na eira de tardezinha e à noite (Rt 3.1-5). Na região montanhosa de Judá, a brisa da terra e do mar soprava previsivelmente no final da primavera e início do verão, na época da colheita de grãos. O método de debulha do material colhido não é mencionado. O povo da tribo de Judá empregaria os cascos de animais de tração e os manguais para quebrar as espigas ou espiguetas das cabeças e para bater e separar as cascas das sementes. No joeiramento feito por Boaz (zārâ; Rt 3.2), o material debulhado era lançado ao ar previsivelmente em movimento, que soprava contra o vento as cascas quebradas e outros pedaços de palha, enquanto os grãos mais pesados caíam nas proximidades (cf. Sl 1.4). Ralph Gower (2021, p. 96) diz que o joeiramento costumava ser feito com o uso de um garfo de cinco pontas, chamado de peneiro, e uma pá, chamada de pá de joeirar. O garfo era usado primeiro, colocando-o no monte e atirando a mistura de grãos e palha para o ar. O grão mais pesado caía, enquanto a palha era soprada pelo vento. Gower acrescenta que, quando o que restava era pequeno demais para ser apanhado pelo garfo, a pá era usada com o mesmo propósito. Quanto às características da eira, escreve Gower (ibid., p. 94): A eira podia ser qualquer superfície dura, compactada. Podia ser de pedra amaciada (como era provavelmente a eira de Ornã, o jebuseu, 1 Cr 21.18-26), ou de terra compactada. As eiras de terra eram muitas vezes cobertas de grama e acabavam sendo um lugar ideal para armar uma barraca. Estas eram chamadas de “eiras de verão”. No caso, a eira de Boaz parece ser mais rústica, pois ele deitou-se aos pés de um monte de cereais, e não numa barraca (Rt 3.7), o que parece estar mais consentâneo com a descrição feita por Yamauchi e Wilson (ibid., p. 566), que se referem simplesmente a um local elevado, aberto ao vento, próximo dos portões da cidade, já que, naturalmente: “As fazendas israelitas ficavam do lado de fora das muralhas da cidade ou aldeia, onde, infelizmente, eram vulneráveis a saqueadores durante a época da colheita” (ibid., p. 102). Isso pode explicar, inclusive, o fato de Boaz ter-se deitado junto a um monte de cereais. 2. A iniciativa de Noemi Enquanto todo esse processo agrícola ocorria na eira, Rute permanecia em casa, servindo a Noemi e obedecendo-lhe em tudo (Rt 2.23). O seu lema era: “Tudo quando me disseres farei” (Rt 3.5). Rute teve oportunidades fora de casa, mas não se aventurou por parte alguma, como se fosse autônoma e independente (Rt 3.10). Não buscou falsas liberdades; permaneceu em casa, obedecendo à sogra, inclusive no processo de aproximação de Boaz, a quem logo se submeteria como esposa. O exemplo de Rute, portanto, é altamente inspirador para as mulheres cristãs de todos os tempos por indicar um caminho de bênção para a mulher. 3. Respeitando o processo A lealdade e a sujeição de Rute fortaleceram o desejo de Noemi de vê-la casada novamente. Ter um novo lar era fundamental para a felicidade e segurança da jovem moabita. Finda a colheita, os cereais eram levados à eira. Noemi soube que Boaz faria aquele trabalho naquela noite. Era uma grande oportunidade para Rute aproximar-se dele e expressar o seu interesse em ser remida. Noemi orientou Rute para que esta se preparasse honrosa e adequadamente para o encontro, perfumando-se e vestindo a sua melhor roupa (Rt 3.3). É certo que a confiança de Noemi não estava no poder de atração de Rute. O mais nobre na mulher são as suas virtudes interiores, e não arranjos e enfeites (cf. Pv 31.10; 1 Pe 3.3,4). Como assinala Hernandes Dias Lopes (2007, p. 107), As virtudes de Rute são mais destacadas que os seus dotes físicos. A base de um casamento feliz não é a beleza física, que acaba com o passar dos anos. As rugas chegam. Os cabelos ficam brancos. O nosso vigor murcha como uma flor à exposição do calor do sol. Mas a beleza interior resplandece ainda mais. No caso de Rute, o seu cuidado estético era bem simples, porém necessário. O fato de as virtudes interiores serem mais importantes não implica negar o valor daestética e do belo; não se pode radicalizar. Assim como a santidade não exclui a ternura, também não despreza a beleza nem o uso de cuidados cosméticos, desde que em pureza e moderação (Gn 24.16; Is 39.2; 1 Tm 2.9,10). É sempre recomendável ter equilíbrio em tudo, primando sempre por uma renúncia amorosa para evitar prejuízos espirituais para a comunidade de fé. Agradar a si mesmo e causar escândalo é pecar contra o corpo de Cristo (1 Co 10.23,24,32). Coragem e Discrição Uma das características de Noemi que não pode ser esquecida é o de educadora. Ela soube transmitir profundos ensinamentos espirituais, morais, sociais e culturais para Rute. O seu conselho em relação ao encontro com Boaz exigia de Rute coragem e muita discrição. Ela deveria chegar à eira sem ser notada, esperar Boaz deitar-se, descobrir-lhe os pés e deitar-se discretamente. Boaz saberia o que fazer quando notasse a sua presença (Rt 3.4-7). Isso demonstra que esse era um costume conhecido na época. Boaz estender-lhe a capa significaria compromisso de casamento (3.9). Em Ezequiel 16.8, a prática é mencionada como metáfora, representando o compromisso de Deus com Israel. Segundo Leon Morris (p. 273): “A colocação do manto sobre uma viúva era maneira de pedi-la em casamento, entre os primitivos árabes”. Ian M. Duguid (2016, p. 173) entende que a prática era “mais ou menos equivalente a dar um anel de noivado na nossa cultura”. Warren W. Wiersbe (2006, p. 189) afirma: Estender a capa significava reivindicar essa pessoa para si (Ez 16:8); 1 Rs 19:19),3 especialmente pelo casamento. A palavra traduzida por “capa” também significa “asa”. Rute havia se abrigado sob as asas do Deus Jeová (2:12) e logo estaria sob as asas de Boaz, seu esposo amado. Sobressai no texto a pureza tanto de Rute quanto de Boaz. Por volta da meia-noite, Boaz acorda assustado com uma mulher deitada aos seus pés e pergunta: “Quem és tu?” (Rt 3.9). Orientada por Noemi, Rute identifica-se, lembra-lhe a condição de remidor e pede que estenda sobre ela a sua capa. Como Noemi dissera, Boaz realmente entendeu a mensagem! Quanto ao gesto de Rute, que poderia parecer inadequado para uma moça — especialmente pela hora e local —, Boaz soube reconhecer a pureza da sua intenção, ressaltando a sua excelente reputação, de “mulher virtuosa” (3.11). O histórico de Rute fazia-lhe confiável. Assim, a afirmação de Boaz pode ter tido o sentido de dizer: “Eu compreendo teu gesto e tuas intenções. Fique tranquila. Tudo farei para que esta tua bendita iniciativa dê certo”. Boaz ficou exultante, demonstrando interesse por Rute. Ele era, de fato, um parente remidor, mas havia outro mais chegado, que tinha a prioridade na remição. Era preciso aguardar, respeitando o processo (3.13). O caráter santo de Boaz e Rute novamente se manifesta. Sem qualquer contato íntimo, ela passou a noite deitada aos seus pés e saiu logo cedo, para que não fosse percebida (3.9-14). Mesmo perto, uma bênção pode ser perdida se não soubermos esperar o tempo certo, respeitando o processo correto (Sl 27.14; Pv 20.21). Boaz reconheceu que havia um parente mais chegado, a quem precisava dar a preferência da remição. Um homem ético sabe respeitar o direito alheio. II – O CASAMENTO ENTRE BOAZ E RUTE 1. Concluindo o negócio O casamento é uma instituição divina fundamental para a solidez da família, da igreja e de toda a sociedade (Gn 2.18; Ec 4.9-12; Hb 13.4). No Antigo Testamento, não havia idade mínima para casar-se. Contudo, era muito comum que o marido fosse mais velho do que a esposa quando se casava, como no caso de José, que tinha 30 anos (Gn 41.45,46), e Isaque, que tinha 40 anos (Gn 25.50). O casamento era arranjado pelos pais (Gn 21.21; 24.1-4; 27.46; 38.7). Se a moça não tivesse pai, o seu irmão poderia agir em seu favor (Gn 24.29). Embora não fosse essencial, o consentimento da noiva era por vezes solicitado, como no caso de Rebeca (Gn 24.5,58) (Yamauchi & Wilson, p. 398). Quanto a Rute, cabia mesmo à sua sogra tomar a iniciativa, como já visto. Depois do encontro com Boaz, Rute retornou para Noemi e narrou tudo o que acontecera. A sogra logo percebeu que o negócio estava dando certo. Certamente, a essa altura, Rute demonstrava alguma emoção, talvez certa ansiedade; por isso, Noemi lhe disse: “[…] Sossega, minha filha, até que saibas como irá o caso, porque aquele homem não descansará até que conclua hoje este negócio” (Rt 3.18). De fato, o interesse de Boaz por Rute e o compromisso que fez com ela levou-o a tomar a atitude que faltava no mesmo dia (Rt 4.1-10). Boaz demonstrou ser um homem de atitude, como se espera de todo homem, principalmente daquele que aspira ao casamento e à constituição de família. O natural é que toda mulher espere casar-se com um homem que seja líder, que expresse virilidade, uma das características da masculinidade, que, como afirma o pastor Douglas Baptista (2023, p. 73), não se restringe apenas à capacidade de realizar o ato sexual, mas também é sinônimo de vigor físico e força moral. Tudo isso, como aponta Baptista, é visto na expressão bíblica “Esforça-te, pois, e sê homem” (1 Rs 2.2). A força moral de Boaz foi demonstrada no seu autocontrole, não tocando em Rute na noite anterior, e agora se mostraria presente também na forma como conduziu todo o processo de definição do resgate da moabita. Todo homem deve ser preparado para tomar iniciativas na vida, principalmente quando o assunto é casamento e vida conjugal. A liderança masculina pressupõe atitude, amor responsável e honra à mulher, como vaso mais fraco (Gn 2.24; Ef 5.25-28; 1 Pe 3.7). A Bíblia não aprova nem o feminismo, nem o machismo. 2. Resgate e lei do levirato No capítulo 4, já vimos, com um pouco mais de detalhes, a instituição da figura do go’el, o resgatador. Ocorre que, no caso de Rute e Boaz, operava-se também a lei do levirato. Acerca dela, Vaux (p. 61) afirma que são muitas as discussões quanto ao seu significado em diferentes civilizações antigas, sendo que, em algumas, estaria ligado a uma preocupação de continuidade de culto dos antepassados. Contudo, como observa Vaux, o Antigo Testamento dá uma explicação que lhe é própria e que parece suficiente. A razão essencial é a de perpetuar a descendência masculina, o “nome”, a “casa”, e é por isso que a criança (provavelmente só a primeira) de um casamento levirático é considerada filha do falecido. Não é somente um motivo sentimental, é a expressão da importância dada aos laços de sangue. Uma razão concomitante é a de evitar a transferência dos bens da família. Essa consideração aparece em Dt 25.5, que põe como condição do levirato que os irmãos vivam juntos, e, na história de Rute, ela explica que o direito de resgate da terra esteja ligado com a obrigação de casar-se com a viúva. Ambas as instituições exigiam publicidade, o que se revestia de maior importância ainda no caso de Boaz, que pretendia assumir a condição de go’el e levir mesmo não sendo o parente mais chegado. Assim, foi logo à porta da cidade e ali se assentou, na expectativa de encontrar o remidor. As cidades antigas tinham espaços públicos para assuntos de interesses comuns ou particulares que precisavam de publicidade, como a formalização de contratos, que podiam ser escritos ou orais, estabelecidos diante de testemunhas em um espaço aberto, à porta da cidade, como no caso Belém (Vaux, 2004, p. 203). Boaz assentou-se ali e logo viu o remidor, que ia passando (Rt 4.1) — certamente por mais um ato da providência divina. Boaz convida-o e trata do assunto que o inquietava: o resgaste dos bens de Elimeleque e o casamento com Rute. Para a devida publicidade, chamou dez homens importantes da cidade, os quais o texto identifica como “anciãos” (Rt 4.2), significando, provavelmente, que pertenciam a uma espécie de “conselho municipal”, que Vaux afirma que existiam nas cidades hebreias e são citados em Deuteronômio 19; 21.1-9, 18-21; 22.13-21 e 25.5-10 (ibid., p. 169). John H. Walton et. al. (2018, p. 363) afirma que Os líderes geralmente eram os chefes dos clãs ou das famílias, queserviam como governantes da cidade e cuidavam das questões jurídicas e legais. Aqui, não se trata de um julgamento, mas esses líderes iriam supervisionar a negociação para assegurar que tudo seria feito de acordo com a Lei e os costumes, e também serviriam como testemunhas. Em princípio, o remidor aceitou adquirir as terras. Boaz informou-o, então, que o resgate incluía o dever de casar-se com Rute, nos termos da lei do levirato, para “suscitar o nome do falecido sobre a sua herdade” (4.5). A aplicação das duas leis a esse caso certamente se deu porque a aquisição das terras, sem o casamento com a viúva, não faria com que os bens ficassem na família de Elimeleque. Assim, o resgate deveria ser acompanhado do casamento sob a lei do levirato. O remidor desistiu, alegando motivos econômicos. Ele aplicaria recursos em terras que não seriam da sua própria família, e sim dos sucessores de Elimeleque (Rt 4.6,10). Como observa Walton (ibid., p. 363), Se o parente precisasse casar com Rute, se ela tivesse um filho, este seria o herdeiro da propriedade da família de Elimeleque. Nesse caso, o dinheiro usado para a resgatar a terra não seria um investimento, mas uma redução dos bens de sua família. Em vez de permitir que ele aumentasse a propriedade, seu dinheiro seria gasto em uma causa caridosa. Além disso, ele também teria outros gastos tendo de sustentar Noemi, Rute e os possíveis filhos desse casamento. E ainda haveria a possibilidade de que os filhos de Rute reivindicassem uma parte da herança que pertencia aos filhos que ele já tinha. É bastante provável que ele fosse casado e, dessa forma, o impacto econômico que o resgate de Rute traria à sua família deve ter pesado em sua decisão. Quanto a Boaz, pode ser que fosse um solteirão, pois o texto não fala, em ponto algum, de que tivesse família. De toda a sorte, o parente remidor mais chegado deixou de entrar para a linhagem do Messias por causa do apego que tinha ao seu patrimônio (Mt 6.21). Pertencer à genealogia do Salvador do mundo era, sem dúvida, a maior oportunidade da sua vida. 3. O registro público Seguindo mais um dos costumes da época, a transferência do direito de resgate foi selada com o remidor descalçando o sapato e entregando-o a Boaz (Rt 4.7). Isso funcionava como uma espécie de registro público, como explica Vaux (p. 204): Antigamente, a transferência da propriedade era ratificada por uma ação simbólica. Segundo Rt 4.7, o costume antigo de confirmar uma transação era este: uma das partes tirava sua sandália e a dava à outra. Esse gesto realizado diante de testemunhas significava a desistência de um direito. Assim, o primeiro go’el de Noemi renuncia a seu direito de preferência de compra em favor de Boaz, Rt 4.8; o cunhado que recusa a obrigação moral do levirato é descalçado, Dt 25.9-10, e com isso fica desapropriado do direito que tinha à viúva de seu irmão. O calçado parece ter servido de instrumento probatório nas transações imobiliárias: em Sl 60.10 = 108.10, ‘sobre Edom atirarei a minha sandália’, significa uma tomada de posse. Não somente o ato negocial — envolvendo a renúncia do parente mais chegado da sua condição de resgatador —, como também o casamento entre Boaz e Rute ocorreram sob testemunho e confirmação pública (cf. 4.9,10), e a confirmação foi uníssona (4.11,12). Rute foi acolhida na comunidade de Israel com as mais elevadas honras. III – A REMIÇÃO DA LINHAGEM DE DAVI ATRAVÉS DE RUTE E BOAZ 1. O nascimento de Obede Consumado o casamento, Boaz estava plenamente legitimado para unir-se a Rute e tê-la por mulher. É de grande valia saber esperar o tempo para a assunção das bênçãos que Deus tem para nós. Por um ato da providência divina, “o Senhor lhe deu conceição, e [Rute] teve um filho” (Rt 4.13). Não se sabe por qual razão Rute não ficou grávida quando do seu primeiro casamento. Se era estéril — o que não sabemos —, um grande milagre foi operado para o nascimento de Obede. De qualquer sorte, a geração de uma vida é dádiva de Deus, ato exclusivo do seu poder (Sl 139.13-16). Deus tem um propósito para todas as pessoas. Não cabe ao homem, sob nenhuma hipótese, interromper uma vida humana em qualquer que seja a fase (Jr 1.5; Is 49.1). O valor da maternidade naqueles dias ficou bem evidenciado pela efusiva manifestação de alegria das mulheres (Rt 4.14). A maternidade é mesmo motivo de muita celebração (ver Sl 127.3). É simplesmente trágico assistir em nossos dias a tanta rejeição a filhos e a uma profunda depreciação da maternidade, frutos, também, da ideologia feminista, que vê no lar um ambiente de opressão e limitação dos “direitos” da mulher. Embora se invoquem tantas razões sociais e econômicas para essa mudança paradigmática e de valores, não nos esqueçamos de que nos pautar por quaisquer fundamentos extrabíblicos equivale a negar o valor atemporal das Escrituras, caindo no liberalismo teológico, de que já tratamos neste capítulo. A euforia das mulheres de Belém com o nascimento do filho de Rute e Boaz deveu-se também ao fato de que elas entenderam como Deus estava agindo em favor de Noemi. Antes amargurada e acreditando estar sob castigo divino (1.13,20,21), a viúva de Elimeleque recebeu uma “renovação da vida” (4.14 – NAA), e teria, agora, alguém que cuidaria dela na sua velhice. Era o começo de uma nova fase na vida de Noemi. Como analisa Walton (p. 364): “O texto sugere que o filho levantaria o ânimo de Noemi e a consolaria após a perda do marido e dos filhos”. De fato, os netos enchem os avós de alegria e orgulho (Pv 17.6). Neles, os idosos projetam o prolongamento da vida, recebem novo ânimo e encorajamento. É uma nova fase de recompensa por terem tido filhos e dedicado-se a eles. 2. Boaz, um tipo de Cristo Se Noemi, Rute ou Orfa não se casassem com alguém da família de Elimeleque, a linhagem ancestral de Davi teria sido interrompida. Noemi já não tinha idade para gerar filhos (Rt 1.12), e Orfa voltou para os moabitas (1.14). O Deus Eterno dirigiu a vida de Rute por um caminho de renúncia, amor, pureza e muita submissão. Ela encontrou-se com Boaz, um tipo de Cristo, nosso Redentor eterno (Jo 3.16; 1 Pe 1.18,19). Nas palavras de Suzane S. J. Moreira (2022, p. 133), “o amor de Boaz simboliza o amor de Jesus [por todos nós], um amor sem acepção, um amor que não julga o [nosso] passado, mas que já perdoou e pagou todas as [nossas] dívidas, um amor redentor que muda a história […]”. CONCLUSÃO Ao concluir o estudo do livro de Rute, podemos afirmar que duas palavras servem para resumir a sua mensagem: Providência e Redenção. O Deus da providência guiou a vida de Noemi e Rute, providenciando o remidor de que tanto precisavam. E Rute não apenas foi remida, como também entrou para a genealogia do Redentor da humanidade. Ao lado de Tamar e Raabe, a história de redenção dessa moabita é mais uma eloquente prova de como o plano de Deus sempre foi alcançar a todos, judeus e gentios. Esta é a essência do evangelho: “[…] poder de Deus para salvação de todo aquele que crê, primeiro do judeu e também do grego” (Rm 1.16). Oremos para que o Senhor nos encha de graça para a proclamação dessa Boa Nova, anunciando o amor divino, que redime a todos que creem no Redentor divino-humano, Jesus Cristo, o Salvador dos homens (1 Tm 4.10; At 4.12). 1 A estação da colheita ia de março a junho: entre março e abril, colhia-se cevada; de abril a junho, trigo. Conforme Yamauchi e Wilson (2020, p. 103), o grão era cortado com foice (Dt 16.9), embora, às vezes, fosse arrancado do solo para obter a máxima quantidade de pedúnculo para uso em forragens de animais (Gn 24.25,32). 2 Joeirar é o mesmo que peneirar. 3 1 Reis 19.19 menciona o episódio em que Elias passou a sua capa sobre Eliseu, que logo deixou família e negócios e passou a seguir o profeta. P Capítulo 6 O LIVRO DE ESTER INTRODUÇÃO assar do estudo de Rute para Ester importa numa radical mudança de cenário. É sair de Belém, na Judeia (atual Cisjordânia, em Israel) e transportar-se para Susã, na Pérsia (atual Irã); é saltar dos dias dos juízes para o período pós-exílico, registrado em cinco dos 12 livros históricos do Antigo Testamento: 1 e 2 Crônicas, Esdras, Neemias e Ester. O primeiro livro das Crônicas volta a Adão para resgatar a formação da nação de Israel e iniciar a história da sua monarquia até os dias de Davi. O segundo livro das Crônicas vai de Salomão ao anúncio do fim do cativeiro babilônico, apontando, como clímax, o decreto de Ciro, rei da Pérsia, para a volta dos exilados para Jerusalém (2 Cr 36.20-23). Os três últimos livros — Esdras, Neemias e Ester — ocupam-se dos fatos decorrentes dessa ordem imperial. Cobrem, exclusivamente, ocorrências posteriores ao fim do exílio. Esdras e Neemias registram os retornos dos judeus para Jerusalém, destacando a reconstrução da cidade e do Templo, bem como as reformas morais e espirituais entre o povo. I – A ORGANIZAÇÃO DO LIVRO 1. A categorização de Ester Da mesma forma como Rute, Ester pertence aos Escritos, os 11 livros que compõem a terceira seção da Bíblia Hebraica. E, nessa seção — também ao lado de Rute —, integra os Megillot, os cinco livros curtos lidos anualmente nas festas judaicas. As categorizações de Rute e Ester também são semelhantes na Bíblia Cristã, em que figuram entre os livros históricos, como já mencionado. Pela sua reconhecida canonicidade, Ester compõe o conjunto da revelação divina escrita, completa e perfeita (2 Tm 3.16,17). 2. Características literárias O livro tem dez capítulos. Dentre as suas características literárias, destaca-se a sua objetiva historicidade, vista na expressa referência ao rei persa Assuero (Et 1.1) e em vários outros detalhes factuais, além do seu caráter de fonte primária para a Festa de Purim, anualmente celebrada pelos judeus (Et 9.20-32). O estilo narrativo é menos dialógico que o de Rute. O texto é mais do narrador do que dos personagens. A respeito da historicidade, Joyce G. Baldwin (1986, p. 20) faz uma considerável análise das evidências, e conclui: Um exame das principais alusões históricas no livro de Ester tem confirmado a exatidão de muitos detalhes. Os acontecimentos desse livro podem ser harmonizados com o que se conhece de outras fontes a respeito do reinado de Assuero e, sobretudo, o seu caráter é reconhecidamente o mesmo. A extensão do seu império, a sua capital, e as minúcias dos costumes observados na corte — tais como o uso de correios em cavalos de posta (3:13; 8:10), a proibição de lamentações (4:2) e do enforcamento como pena de morte (5:14) — são exemplos do mundo genuinamente persa em que a ação tem lugar. A descoberta da palavra puru em um dado confirmou a dependência do mundo antigo da ideia de destino, e transformou o que anteriormente parecia “historicamente improvável” como explicação da origem de Purim, em um incidente que precisa ser levado a sério. Apesar do conjunto de evidências que confirmem a sua historicidade, críticos bíblicos levantam alguns questionamentos acerca da autenticidade histórica do livro. Contudo, o que se pode dizer acerca de Ester ou qualquer outro livro da Bíblia é que não convém dar ouvidos às extensas e cansativas divagações da crítica, porque o que se verifica ao longo do tempo é que todas as dúvidas que suscitam são dissipadas com o avanço das descobertas, principalmente arqueológicas, atestando o que já é inequívoco para os que creem na Bíblia como inspirada, inerrante, infalível e completa Palavra de Deus.1 Como adverte Eta Linnemann (2011, p. 11), divergir da fé singela na Palavra de Deus e impressionar-se com a alegação da crítica bíblica quanto à validade exclusiva e completa da “teologia científica” é como trocar o direito de primogenitura por um prato de lentilhas. O livro de Ester apresenta uma narrativa concentrada nos judeus que ficaram na Babilônia — mais propriamente na capital Susã — sob domínio persa. Na verdade, a cidade de Susã é o palco de todo o relato. Referências a outros contextos são indiretas e sempre se dão a partir de fatos passados na capital persa, como o envio de cartas de Assuero (com os seus decretos), de Mardoqueu e da rainha Ester, bem como os seus respectivos efeitos em todas as províncias (Et 1.21,22; 2.8,18; 3.12-15; 4.3; 8.9-17; 9.1-5,19-23,30; 10). A história não acompanha nenhum personagem para fora do palácio e dos seus arredores — nem mesmo Assuero, que, dentro do período histórico descrito em Ester, passou quatro anos na sua malsucedida campanha contra os gregos, como narra, em minúcias, o historiador Heródoto. Ester é, portanto, o único livro da Bíblia do período pós-exílico cujo cenário da narrativa dá-se inteiramente em terras do cativeiro babilônico. Ester registra fatos ocorridos ao longo de 10 anos (483–473 a.C.), durante o reinado de Assuero (Xerxes), filho de Dario, que governou a Pérsia por 21 anos (de 486 a 465 a.C.). A história de Ester está situada cronologicamente entre os capítulos 6 e 7 de Esdras. O livro foi escrito primariamente para encorajar os remanescentes judeus no exílio, mostrando- lhes a fidelidade e o cuidado de Deus com o seu povo, mesmo com os que não obedeceram à ordem de voltar para Jerusalém. O local da sua escrita é indeterminado. Para determiná-lo, seria preciso seguir uma das linhas que estabelecem a data da sua produção, podendo ser a própria Pérsia, onde Ester viveu, ou Jerusalém, no caso de uma data posterior aos tempos veterotestamentários. 3. Autoria e data O autor de Ester é desconhecido. Muitos estudiosos consideram que o livro foi escrito por um judeu que viveu na Pérsia, pelo fato de o autor demonstrar amplo conhecimento da cidade de Susã e da sua estrutura, além de importantes documentos do Império Persa. Considerando essa possível autoria e algumas evidências internas, acredita-se que Ester seja datado ainda do século V a.C. (por volta do ano 460 a.C., logo após a morte de Assuero, ocorrida em 465 a.C.). Outro fator levado em conta para essa datação é de ordem linguística: o autor empregou algumas palavras persas em meio ao hebraico, mas não fez qualquer uso de expressões originárias do grego, o que revela um estilo anterior à ascensão da Grécia sobre a Pérsia, que se deu com Alexandre, o Grande, em 330 a.C. Em função desse estilo linguístico, R. K. Harrison (2010, p. 295) considera o livro de Ester como uma valiosa fonte de informações acerca do regime aquemeniano,2 porque o seu vocabulário tem um toque inequivocamente persa — e a própria narrativa provém de um cenário da administração imperial. Como observa Harrison, o autor estava familiarizado com o funcionamento do palácio, incluindo o sistema de aconselhamento de que dispunha o rei para assuntos políticos (Ed 7.14; Et 8.8). Em uma síntese sobre o livro, J. Sidlow Baxter (1993, p. 265) diz: Ester é um livro de crise. Trata-se de um drama — não uma ficção, mas um fato genuíno. É encenado no palco da história real e reúne personagens verdadeiros. Cinco figuras movimentam-se diante de nós: Assuero, o rei persa; Vasti, a rainha deposta; Hamã, aquele que odiava os judeus; Mordecai, o líder judeu; e Ester, a moça judia que se tornou rainha. Como pano de fundo temos o palácio real, a capital persa e os vários milhares de judeus espalhados por todos os domínios do imperador. Ester é a figura crucial nesse drama, pois tudo gira ao redor de sua ascensão ao trono e sua influência como rainha. O livro, portanto, leva adequadamente o seu nome, Ester. A Ausência do Nome de Deus Da mesma forma como Rute, Ester apresenta-nos o Deus da providência agindo em favor do seu povo, com uma diferença: em Rute, o nome de Deus é mencionado diversas vezes;3 em Ester, o nome de Deus não aparece no texto, mas o seu agir é visto em toda a história. Conforme a já citada declaração de Matthew Henry (2022, p. 845): “[…] ainda que o nome de Deus não se encontre [no livro de Ester], o mesmo não se pode dizer de sua mão, guiando minuciosamente os fatos que culminaram na libertação de seu povo”. Sendo a ausência do nome de Deus uma constatação, qual seria a razão dessa característica tão peculiar e exclusiva do livro de Ester? Archer Jr. (ibid., p. 528) admite nãoser fácil responder a essa pergunta. Opina, contudo, que […] a melhor explicação que se oferece é que a narrativa trata principalmente daqueles judeus que tinham deixado passar sua oportunidade de voltar à terra da promessa e escolheram ficar com os gentios depois da volta do remanescente fiel em 536 a.C. É certo que todos os atos desse dramático episódio desdobraram-se em território gentio; é igualmente certo que a soberania da providência de Deus é claramente subentendida em 4.14: “[…] pois, se te calares, agora, socorro e livramento surgirão de outra parte para os judeus, mas tu e a tua família sereis eliminados. Quem sabe se não foi para este momento que foste conduzida à realeza?” Sidlow Baxter (ibid., p. 256) entende que podem existir outras razões para o autor de Ester ter omitido qualquer referência direta a Deus, citando, como exemplo, o fato de o livro ter sido dirigido tanto aos persas como aos judeus. Por fim, Baxter ainda considera que a ausência do nome de Deus pode ter sido decorrente do fato de os judeus estarem longe da sua terra após a ruptura do seu relacionamento especial com o Senhor. Assim, conforme acentua Baxter, o autor teria evitado referir-se diretamente a Deus para ser coerente com essa ruptura de comunhão. Ester e o Secularismo À luz da opinião de Archer Jr. e da possibilidade última mencionada por Baxter, é possível considerar que a ausência do nome de Deus no livro serve como uma eloquente advertência do perigo do secularismo, que se apresenta como uma acomodação ao ambiente em que se está inserido, produzindo distanciamento, esfriamento e, consequentemente, vergonha em relação a Deus e à sua presença. Estavam indiferentes, portanto, à convocação de retorno a Jerusalém e à renovação do culto a Jeová. A absoluta maioria dos judeus escolheu permanecer no conforto das suas casas, desfrutando de um estilo de vida secular, em vez de aceitar o desafio de seguir para Jerusalém, em busca da reconstrução da cidade e do Templo, bem como do restabelecimento do culto ao Deus de Israel no lugar que Ele elegeu para a oferta de sacrifícios. Em vez da vida religiosa, esses judeus preferiram a vida secular. Em vez de agradar a Deus e ao seu propósito para Israel como nação, preferiram ficar na Pérsia, desfrutando das vantagens econômicas que lhes eram oferecidas pelo reino. Não podemos ignorar, portanto, que os judeus pudessem estar sob algum constrangimento em relação ao Deus de Israel. Jesus afirmou que, se o sal tornar-se insípido, perde o seu valor, é lançado fora e pisado pelos homens (Mt 5.13). Ester mostra-nos como um cenário secular aparentemente estável pode mudar de uma hora para outra, revelando quão enganoso é o secularismo, a doutrina que ignora os princípios espirituais na condução dos negócios humanos.4 A partir do livro de Ester, Emilio Garofalo Neto trata exatamente desse aspecto da vida cristã no exílio secular e observa: A vida na casa da Pérsia tem elementos similares à vida na casa secular do ocidente em que vivemos: uma espécie de era pós-moderna e pós-cristã. Uma era supostamente livre das amarras da superstição religiosa, guiada pela razão e que parou com a tolice espiritual de procurar significado para a vida no sobrenatural. Uma era secular. Até certo ponto, poderia parecer aos judeus da Pérsia que eles não precisariam mesmo recorrer ao Senhor, dado o conforto, segurança e oportunidades que desfrutavam. O Império Persa ficou conhecido pela sua tolerância religiosa em relação aos seus súditos. Talvez isso tenha contribuído para que os judeus da Pérsia e das suas muitas províncias imaginassem que as ordenanças divinas para o culto em Jerusalém já não fossem tão importantes e que, por isso, poderiam permanecer nas suas próprias habitações e rotinas, alheios à vida nacional de adoração de Israel.5 O livro de Ester mostra-nos como a segurança deste mundo é falsa, ilusória e passageira. Alheios ao culto estabelecido por Deus, os judeus enfrentariam tempos de crise e profunda angústia, passando, assim, a depender inteiramente da mão poderosa do Eterno, que, em meio ao secularismo persa, iria livrá-los do extermínio. A Convicção de Mardoqueu Apesar de todo o espírito de passividade e conformação da geração que permaneceu na Pérsia, muitos judeus preservaram raízes piedosas. Como veremos melhor no capítulo 10, Rute 4.14 é a revelação da convicção de um desses judeus, Mardoqueu, que esperava em uma providência milagrosa que estava por vir. As expressões “socorro e livramento doutra parte virá” e “quem sabe se para tal tempo como este chegaste a este reino” são frutos da sua piedade e fé em Deus; da confiança de que a agência divina não apenas seria demonstrada no livramento dos judeus, como já estaria em curso desde a elevação de Ester à condição de rainha. Àquela altura, Mardoqueu não tinha certeza se o reinado de Ester era ou não um propósito divino para preservar os judeus, mas a sua declaração indica um entendimento espiritual em formação. O “quem sabe” de Mardoqueu certamente decorre da sua vivência espiritual, na qual já tinha experimentado a providência divina. Nossas experiências com Deus são muito importantes para gerar esperança em nosso coração em tempos de crises e adversidades. A experiência produz esperança, e a esperança não traz confusão (Rm 5.4). Quando Davi esteve com o rei Saul e anunciou a sua disposição de lutar contra o gigante Golias, recorreu às suas experiências sobrenaturais como fundamento da sua confiança de que venceria o inimigo de Israel (1 Sm 17.37). Assim como Davi, Mardoqueu expressou confiança em Deus para prover-lhes livramento. Ninguém Tira Deus de Cena Qualquer que seja o motivo de o nome de Deus não constar no livro de Ester, isso nos transmite uma mensagem irrefutável: ninguém tira Deus de cena; nem mesmo aqueles que negam a sua existência ou, tristemente, imaginam negar a sua agência, como fez o filósofo Friedrich Nietzsche (1844– 1900), proclamando a “morte” de Deus. O Todo-Poderoso é soberano e age segundo os seus propósitos, mesmo onde e quando o seu nome não é mencionado (Sl 24.1; Sl 139.7,8; Rm 11.36). Fechando esse paralelo com o livro de Rute, podemos afirmar: Ester não contém alusões diretas ao Deus da providência, mas apresenta-nos uma história cujo roteiro é, por inteiro, uma manifestação da providência de Deus. Sidlow Baxter (ibid., p. 265, 266) conceitua “providência” e faz um interessante comparativo com as intervenções milagrosas: A palavra “providência” tem origem no latim provideo, significando “eu vejo uma coisa antecipadamente” (pro = antes; video = vejo); assim, o significado original de providência é previsão. Como, porém, uma previsão sempre ocasiona atividade em relação ao que é previsto, providência adquire do sentido de atividade que procede da previsão. […] É isto que vemos demonstrado no Livro de Ester. A crise à qual o livro se refere é providencialmente prevista e depois providencialmente vencida no momento crucial. Não é empregada qualquer intervenção milagrosa. Todos os acontecimentos registrados são resultados das circunstâncias em sua sequência natural. Todavia, embora não seja registrado qualquer milagre […]. Digno de nota, ainda, conforme acentua Baxter (ibid., p. 267), é que toda a ação divina, “provocando todos os eventos registados”, acontece “sem violar o livre-arbítrio humano e sem interromper o desenvolvimento normal dos assuntos humanos, como um poder oculto controla todas as coisas de maneira insuspeita, mas infalível”. II – O CONTEXTO HISTÓRICO 1. O povo hebreu no exílio Para uma melhor compreensão do contexto histórico do livro de Ester, é importante mencionar o fim do período da monarquia do povo hebreu. Em 722 a.C., ocorreu a queda final do Reino do Norte perante os assírios (2 Rs 17.6). Pouco mais de cem anos depois, Judá, o Reino do Sul, foi levado para o cativeiro babilônico em três levas: a primeira, no ano 605; a segunda, em 597, e a terceira, em 586 a.C. Conforme Jeremias havia profetizado, o exílio na Babilônia durou 70 anos (Jr 25.11; 29.10-14).Foi um período em que o Senhor tratou com o seu povo, principalmente para extirpar a idolatria que contaminara a todo o Israel (Ez 36.16-25). Eugene H. Merrill (2001, p. 497, 498) enfatiza o terrível significado espiritual do exílio: Os longos anos em que a elite política, militar e religiosa de Judá esteve longe de sua terra são popularmente conhecidos como o exílio na literatura moderna, um termo singularmente apropriado, uma vez que não apenas sugere a remoção forçada da população de judeus da Babilônia, como também comunica a ausência de Yahweh durante o processo. A tragédia do exílio não pode ser interpretada como apenas a deportação de um povo para outra terra, ou a destruição de uma cidade e seu santuário central. Na verdade, Deus havia se retirado do meio de seu povo, uma ausência simbolizada por uma das visões de Ezequiel, na qual a Shekinah movia-se do templo para o monte das Oliveiras (Ez 11.23). 2. O �m do exílio Esse período termina com a vitória de Ciro sobre os babilônios no ano 539 a.C.6 O Senhor Deus estava exercendo o seu juízo sobre a Babilônia por causa da sua iniquidade (Jr 25.12). Antes, já havia julgado a Assíria, como profetizado por Naum: Deus não tem o culpado por inocente (Na 1.2,3). Em 539 a.C., Ciro venceu os babilônios e anexou o seu território ao Império Persa. Logo no primeiro ano de reinado, “despertou o SENHOR o espírito de Ciro, rei da Pérsia”, fazendo-o decretar o retorno do povo judeu para Jerusalém (Ed 1.1-3). 3. O pós-exílio O retorno deu-se em três grupos, sendo que o primeiro e maior deles — 50 mil exilados — seguiu para Jerusalém junto com Zorobabel já em 538 a.C. (Ed 1.5; 2.64,65). Donald Stamps (2009, p. 709) cita uma estimativa segundo a qual viviam na Babilônia “um milhão ou mais” de judeus, o que demonstra a baixa adesão à convocação de retorno, a despeito da inequívoca providência divina que, por intermédio de Ciro, permitia a volta para Jerusalém. A esmagadora maioria dos judeus decidiu pelo que lhes parecia mais cômodo: permanecer nas cidades que ocupavam na Babilônia. O primeiro retorno é narrado do capítulo 1 ao capítulo 6 do livro de Esdras. Entre o capítulo 6 e o capítulo 7, há um intervalo de aproximadamente 60 anos. É na segunda metade desse período — um verdadeiro hiato histórico — que se passam os fatos do livro de Ester, que preenchem uma década da história (483 a 473 a.C.) e dão-se durante o reinado de Assuero (Xerxes, em grego), imperador persa de 486 a 465 a.C. Fechada a história contada em Ester, o registro sagrado seguinte é aquele contido no capítulo 7 de Esdras: a narrativa do retorno do segundo grupo de judeus para Jerusalém sob a liderança do sacerdote e escriba Esdras em 458 a.C., já nos dias do rei Artaxerxes, filho de Assuero (Ed 7.1-10). O terceiro grupo retornaria somente em 444 a.C., liderado por Neemias (Ne 2.17). III – PROPÓSITO E MENSAGEM 1. A providência divina A forma como os judeus adotaram o livro de Ester e nele inspiram-se ao longo da história demonstra o cumprimento do seu principal propósito: o registro do misericordioso e providencial cuidado de Deus com o seu povo, a despeito das suas escolhas fora do seu propósito. Há uma promessa feita a Abraão (Gn 12.2,3). Nas suas perseguições e perigo de extermínio, os judeus têm, nesse livro, uma mensagem de consolo e esperança. 2. Uma falsa estabilidade Quanto à mensagem principal, o livro de Ester adverte-nos do grande perigo de confiar nas falsas estabilidades que as estruturas do mundo oferecem e que costumam parecer mais vantajosas. Estava tudo indo muito bem em Susã até surgir a ordem de destruição total dos judeus (Et 3.7-13). A falsa segurança foi embora. O povo de Judá dependia totalmente da intervenção divina para que não fosse exterminado. Ester mostra Deus agindo mais uma vez, movendo as estruturas humanas, agora no grande e poderoso Império Persa. Seja qual for a circunstância, é melhor confiar no Senhor do que no homem (Sl 118.8,9). 3. A Festa de Purim O livro de Ester marca esse propósito principalmente pela instituição da Festa de Purim, ordenada por Mardoqueu depois do grande livramento que os judeus receberam (Et 9.20-28). Purim é o plural da palavra acadiana pur, podendo ser entendida como lançar sortes. Conforme Ester 3.7, Hamã lançou sorte para estabelecer o dia da morte dos judeus, mas a situação acabou se invertendo, tornando motivo para comemoração dos judeus.7 A festa, portanto, comemora a frustração do nefasto plano de extermínio diante da providencial ação divina para a libertação do seu povo. 1 Quanto ao risco de enveredar-se por infindáveis estudos produzidos pela Alta Crítica e perder-se o principal, que é a edificação espiritual, J. Sidlow Baxter (ibid., p. 273) cita G. Campbell Morgan, que afirmou: “[…] pode-se passar a vida inteira tentando descobrir quantos homens escreveram Isaías, quem foi o autor do Pentateuco ou quem escreveu a Carta aos Hebreus, sem jamais estudar a Bíblia”. Como nosso propósito é estudar as Escrituras, este livro não se dedica a reproduzir as infindáveis discussões da crítica bíblica. 2 Império Aquemênida é outro nome dado ao Primeiro Império Persa, vigente nos dias de Ester. 3 São dezoito referências espalhadas pelos quatro capítulos do livro: Rt 1.6,8,9,13,16,17,20,21; 2.4,12,20; 3.10,1; 4.11,12,13,14,15. 4 ANDRADE, Claudionor Corrêa de. Dicionário Teológico. 1.ed. Rio de Janeiro: CPAD, 1998, p. 261. 5 É necessário dizer que muitos judeus, embora não tenham seguido Zorobabel, Esdras ou Neemias para reconstruir Jerusalém, contribuíram financeiramente com as obras e a restauração das cerimônias (Ed 8.25-28). 6 Eugene H. Merril (2001, p. 498) argumenta que o fim do cativeiro não representa, de certa forma, o fim do exílio, porque Jeová não retornou na ocasião para habitar no templo, o que, conforme os profetas predisseram, somente se dará na era escatológica, quando o próprio Messias será a glória de Deus (Ag 2.7-9). 7 Bíblia Brasileira de Estudo, p. 686. T Capítulo 7 A DEPOSIÇÃO DA RAINHA VASTI E A ASCENÇÃO DE ESTER INTRODUÇÃO oda história tem um contexto. Não é diferente com a história de Ester. Cinquenta e seis anos depois da queda da Babilônia, ocorrida em 539 a.C., o Império Persa estava no auge da sua expansão. A sua grandeza é ressaltada logo no primeiro versículo do livro de Ester, macro cenário da extraordinária história que a obra registra: “E sucedeu, nos dias de Assuero (este é aquele Assuero que reinou, desde a Índia até à Etiópia, sobre cento e vinte e sete províncias)” (Et 1.1). O versículo seguinte (1.2) situa-nos no microcenário da narrativa, a fortaleza de Susã, a capital do novo império. Isaías e Jeremias haviam profetizado o fim do Império Babilônico e o surgimento desse novo reino (Is 45.1; 47.1; Jr 51.24).1 Quanto às origens de Ciro e do Império Persa ou Aquemênida, Eugene H. Merrill (2001, p. 507, 508) escreve: As raízes de Ciro originam-se com os medos e os persas. Ambos eram descendentes de tribos arianas que se moveram da Rússia em direção sul para o platô urartiano, e por volta de 1000 a.C. estabeleceram-se nas vizinhanças do lago Urmia (hoje geograficamente reconhecido como o extremo noroeste do Irã). Gradualmente, os medos se moveram para o leste e ocuparam o oeste do Irã, no sul do mar Cáspio, enquanto os persas migravam para o sul, estabelecendo-se no sudoeste do Irã, voltados para o Golfo Pérsico. A linhagem real de que Ciro fazia parte foi fundada por Acamenes, que reinou de 700 a 675. Foi ele quem emprestou seu nome para a dinastia acamenida. Seu filho Teispes (675-640) estendeu os territórios da Parsa (Pérsia) em direção sul, até atingir a Passárgada. Em razão da grande extensão do reino, Teispes dividiu-o entre seus dois filhos, Ariaramnes, no sul, e Ciro I, no norte. Ele também reconquistou sua independência não mais submetendo-se aos medos, os quais controlaram a Pérsia em cerca de 670. A linhagem de Ariaramnes (640-615) incluiu Arsames, Hispastes e Dario Hispastes; a de Ciro I (640-600) produziu Cambises I (600-559) e Ciro II (559-530), o que criou o império. Cambises, estabelecido como governante da Pérsia após esta ser novamente tomada pelos medos e constituída uma província, casou-se com a filha do rei da Média, conhecida como Astiages. Deste casamento nasceu Ciro II, que unia em si mesmo as famílias da Média e da Pérsia. Ciro reinou de 539 a.C. até a sua morte, em plena batalha, no ano 530 a.C. O seu filho Cambises II reinou no seu lugar até 522 a.C., sendo sucedido por Gautama (522 a.C.), que usurpou o poder e foi assassinado no mesmo ano que subiu ao trono,2 sendo sucedido pelo líder da conspiração, Dario Histapes, pai de Xerxes (Assuero), que ficou conhecido por grandes realizações, como destaca Eugene H. Merrill (2001, p. 519): Com a paz e a estabilidade no governo, Dario deu início à implementação de grandes reformas administrativas. De grande importância era o desenvolvimento contínuo de um sistema legal que já havia se tornado famoso pela inalterabilidade dos editos do rei. Tanto Daniel (6.8,12,15) quanto Ester (1.19) demonstraram estar cientes desse aspecto da jurisprudência persa. Baseando-se, sem dúvida, nas antigas leis precedentes, como o código de Hamurabi, o sistema de leis de Dario era administrado com, no mínimo, uma preocupação teórica pela justiça. Outra realização foi a introdução de uma política fiscal completamente revisada. Dario padronizou a cunhagem de moedas e definiu as medidas para pesos e medidas, facilitando sensivelmente todo o comércio. […] Uma terceira área de bastante atividade foram os projetos de construção civil. Por volta de 521, Dario removeu sua capital para Susã, situada cerca de 482 quilômetros a noroeste da antiga capital, e lá construiu um belíssimo e suntuoso palácio. É a essa estrutura que Ester e Neemias se referem como a “cidadela de Susã” (“palácio de Susã” KJV). Mais tarde em seu reinado, Dario empreendeu a construção de uma nova cidade chamada Persépolis, onde ele intentava estabelecer permanentemente a capital do império. Ele chegou mesmo a dar início ao projeto, mas foi seu filho e sucessor Xerxes quem deu continuidade à obra e completou-a totalmente. Susã provavelmente continuou sendo a capital política e administrativa, ao passo que Persépolis tornou-se mais ou menos uma “casa de espetáculos”, para onde os reis da Pérsia levavam seus convidados a fim de impressioná-los com toda sua beleza. I – O BANQUETE DE ASSUERO E A RECUSA DE VASTI 1. O rei Assuero Dario foi um rei de muitas pretensões expansionistas, marchando sobre os territórios do Egito e outras regiões da África, além da Índia, Ásia e Europa.3 Morreu no ano 486, depois do insucesso diante dos atenienses na batalha de Maratona. O seu filho Assuero assumiu o Império Persa naquele mesmo ano e governou-o por 20 anos (até 465). O seu nome grego é Xerxes (Khshayarshan, em persa), filho de Atossa, filha de Ciro. D. A. Carson (2009, p. 678) explica que a cidadela de Susã era a acrópole central (como se vê hoje nos sítios arqueológicos das antigas cidades gregas, como Atenas e Corinto), elevada acima do restante da cidade e fortificada para proteger o rei. Uma espécie de cidade alta. 2. Um banquete público, outro exclusivo O primeiro fato registrado no livro de Ester foi o grande banquete que Assuero ofereceu aos seus príncipes e servos de todo o Império, o que incluía, além da nobreza da Pérsia e da Média, os governadores das 127 províncias. Com o banquete, o imperador queria “mostrar as riquezas da glória do seu reino e o esplendor da sua excelente grandeza […]”, o que fez por 180 dias (Et 1.4). Essa longa duração dos festejos é muito discutida pelos eruditos. Não se sabe se as festas e cerimônias foram ininterruptas ou se aconteceram conforme chegavam as delegações, vindas de todas as partes do vastíssimo Império Persa. Essa última hipótese é a mais provável, como opinam alguns estudiosos. É nesse sentido o pensamento de Joyce E. Every-Clayton (2020, p. 129): A recepção durou cento e oitenta dias, uma grande sequência de festas. Os convidados por certo compareceram em momentos diferentes, cada um passando talvez uns poucos dias na capital. De outra maneira, teríamos de entender que a administração do império esteve paralisada por seis meses. Outro fator a ser considerado eram as enormes distâncias da maioria das províncias, que demandavam longos dias de viagens. Acredita-se que, além de contemplarem a grandeza do reino, as delegações vindas das províncias eram consultadas por Assuero sobre os seus planos de reeditar a tentativa do seu pai Dario de tomar as cidades gregas. Every-Clayton entende que os seis meses serviram para Assuero tratar dessa campanha com os generais e conselheiros do seu reino. Isso se mostra muito plausível pela leitura da obra do historiador grego Heródoto (484–425 a.C.), conhecido como “o pai da História”, na qual se tem, em detalhes, como cada província participou da empreitada militar, fornecendo grandes exércitos, que, somados, alcançavam 2.641.610 soldados para combates por terra e mar. É bem provável que a ocasião tenha servido para Assuero certificar-se de como poderia contar com os povos vassalos e os seus exércitos, combinando com eles a adesão ao seu mega projeto expansionista. Cumpridos os seis meses, Assuero ofereceu um banquete para os moradores da cidadela ou fortaleza de Susã no pátio do jardim do seu palácio, que era “um prédio quadrado com mais de 100 metros de cada lado, com setenta e duas colunas de pedra de 20 a 25 metros de altura” (Walton et al., ibid., 628). Embora fosse uma festa menor, para as classes inferiores, como observa Every-Claiton (ibid., p. 129), havia muito luxo e ostentação, além de bebida à vontade. A festa foi programada para sete dias (Et 1.5-8). Decerto, ficaria desconfortável para o imperador receber visitantes ilustres durante longos seis meses e não tirar um tempo para festejar com os seus súditos, que viviam nos arredores do seu palácio, na acrópole de Susã. Ester 1.5 registra que o público-alvo era o “povo [da] fortaleza de Susã”, mesmo porque seria difícil imaginar que fosse possível comportar todos os habitantes da grande cidade de Susã nos jardins do palácio. Foi durante essa festa local, mais propriamente no sétimo dia, que Assuero decidiu ordenar que lhe trouxessem a sua mulher, a rainha Vasti — que alguns estudiosos acreditam ser a mesma Améstris, citada por Heródoto no seu livro História. Alguns linguistas consideram que Vasti e Améstris são as traduções hebraica e grega, respectivamente, do mesmo nome persa (Walton et al. p. 629). Ao mesmo tempo que Assuero, Vasti também ofereceu um banquete, porém restrito às mulheres da casa real (Et 1.9). Havia, portanto, diferenças fundamentais entre os banquetes de Assuero e de Vasti. O banquete do rei era para todo o povo: homens e mulheres, ricos e pobres (Et 1.5); já o da rainha era exclusivista: apenas para as mulheres do palácio. Não se sabe a razão dessa diferenciação, pelo fato de não haver nenhum registro do mundo antigo de mulheres comendo separadamente dos homens ou de banquetes exclusivos para cada um desses grupos (Walton et al., p. 629). Isso poderia representar, portanto, uma atitude excludente de Vasti, bem alinhada com a reação que teve diante do convite ou ordem do rei. 3. O convite à rainha No sétimo dia do seu banquete, depois de ter bebido bastante, Assuero já estava no estágio de euforia. O texto bíblico diz que “o coração do rei [estava] alegre do vinho” (Et 1.10). Foi quando decidiu ordenar que lhe trouxessem a rainha Vasti, “com a coroa real, para mostrar aos povos e aos príncipes a sua formosura, porque era formosa à vista” (Et 1.11). Como já observado, tratava-se de um ambiente festivo, com ampla participação popular. A rainha negou-se a acompanhar os sete eunucos que o rei enviou para conduzi-la à sua presença (Rt 1.12). II – VASTI RESISTE À ORDEM DO REI E É DEPOSTA 1. A recusa da rainha São muitas as opiniões acerca das condutas do rei e da rainha nesse episódio. Fato é que não se verifica no texto bíblico qualquer justificativa para a atitudede Vasti. Outrossim, ao considerar-se correta a sua postura, há que se qualificar como despótica a conduta de Assuero. No que isso resulta? Em considerar que Vasti perdeu a sua posição injustamente e que Ester foi guindada ao seu lugar através de um processo impróprio, numa espécie de usurpação do trono. Isso pode representar a perda da legitimidade de Ester, o que não é compatível com a narrativa bíblica. O mais coerente, portanto, é ficar com o que as Escrituras apresentam: um ato inusitado da rainha, que expôs o rei a uma situação vexatória diante dos seus súditos e convidados. Para justificar a recusa de Vasti, alguns estudiosos citam comentários rabínicos, segundo os quais a ordem do rei seria para que a rainha fosse apresentada nua, portando apenas a coroa real. Essa ideia, contudo, não faz sentido diante do contexto geral da narrativa. Era uma festa pública, nos jardins do palácio. E ainda que fosse uma festa reservada a um seleto grupo de nobres, não há nos registros históricos da época evidência alguma desse tipo de prática. Também não se pode alegar que a recusa da rainha seja decorrente do seu recato, principalmente se ela for, como se cogita, a mesma Améstris citada por Heródoto, uma mulher astuta e sanguinária.4 Uma das atitudes sanguinárias de Améstris contada por Heródoto é a mutilação da esposa do irmão de Assuero, Masistes, que a rainha ordenou depois de descobrir o envolvimento do rei com a filha da cunhada. Se a ordem de Assuero tivesse sido dada durante o banquete oferecido aos nobres e poderosos das províncias do reino, poderíamos até cogitar que o motivo seria expor a beleza de Vasti aos estrangeiros, no interior do palácio. A rainha, contudo, foi chamada à presença do rei no sétimo dia do banquete público, oferecido ao povo da cidadela de Susã, nos jardins do palácio, como já afirmado. Isso enfraquece a interpretação de que Vasti teria que fazer uma espécie de desfile em traje sensual diante dos príncipes. O versículo 11 do capítulo 1 informa que o rei queria mostrar Vasti “aos povos e aos príncipes”. Assim, a característica popular do banquete fica evidente. Além disso, o local, o “pátio do jardim do palácio real” (1.5), é uma eloquente razão para ponderarmos se não é preciso muita simpatia por Vasti para acolher as interpretações comumente feitas de que o rei queria expor sensualmente os dotes físicos dela diante da nobreza. Sendo público o banquete, porventura pretendia Assuero expor a nudez da rainha para o povo da cidadela de Susã? Não seria mais prudente evitar qualquer juízo valorativo sobre a atitude de Vasti, como fez o autor sagrado, e deixar que os personagens da história avaliem a sua conduta? 2. A aplicação da lei Diversos intérpretes bíblicos consideram que a atitude de Assuero foi motivada pelo seu estado de embriaguez. De fato, o rei estava sob influência do vinho quando ordenou a vinda de Vasti, mas a sua decisão de depô-la do cargo não aconteceu de repente, de forma intempestiva ou autoritária. Um rei bêbado teria dado uma ordem imediata para trazerem Vasti à força ou, então, logo a consideraria deposta do trono, sem qualquer ponderação. Os fatos não se deram assim. Apesar da sua fúria, Assuero suportou o constrangimento público de receber de volta os eunucos sem a rainha. Passado o episódio, levou o caso ao exame dos sábios do seu reino, entendidos nas leis e no direito persa (Et 1.13). Liderados por um colegiado composto de sete conselheiros, os sábios entraram à presença do rei para analisar a conduta de Vasti e orientá-lo como decidir. Não há como desconsiderar que havia na pergunta do rei alguma expressão de prudência. Ele quis saber “o que, segundo a lei, se devia fazer da rainha Vasti, por não haver cumprido [o seu mandado]” (1.15). Assuero estava numa situação difícil. Como poderia ele exercer o governo do império se não tinha autoridade sobre a sua mulher? O que lhe permitia a lei fazer nesse caso? Um rei que quisesse agir a qualquer custo jamais faria uma consulta jurídica, buscando saber o que poderia fazer na forma da lei — ou da jurisprudência dos medos e persas. 3. A sentença de Vasti Examinado o caso, Memucã, um dos sábios, aconselhou ao rei que depusesse Vasti. Apontou como argumento a grande repercussão do caso. A conduta da rainha seria um péssimo exemplo para todas as mulheres do reino, e isso provocaria desrespeito e discórdia nos lares (1.17,18). Memucã apelou para uma espécie de garantia da ordem pública. O seu conselho agradou a Assuero e aos seus nobres. O rei decretou a deposição de Vasti e enviou cartas a todas as províncias, estabelecendo “que cada homem fosse senhor em sua casa” (Et 1.22). O que se observa, portanto, é que os personagens da história reprovaram a conduta de Vasti. Quanto a Assuero, apesar de ser um rei ímpio, a sua resolução está em conformidade com o que a Palavra de Deus estabelece (Ef 5.23). Uma das qualificações exigidas do líder cristão é exatamente esta: exercer o governo da própria casa. O princípio bíblico apresentado por Paulo é: o homem que não lidera em casa não é apto para cuidar da Igreja de Deus (1 Tm 3.4,5). A falta de clareza na definição dos papéis do pai e da mãe tem sido altamente prejudicial para o desenvolvimento dos filhos em todas as áreas da vida. Como consequência, toda a sociedade é prejudicada. Um assunto aparentemente privado tem uma inequívoca dimensão de caráter público. III – ESTER: A JUDIA TORNA-SE RAINHA EM TERRA ESTRANHA 1. Quatro anos depois Algum tempo depois dos dois grandes banquetes que ofereceu em Susã, Assuero lançou-se numa campanha militar contra a Grécia. Para tanto, reuniu exércitos das suas principais províncias ao longo de todo o Oriente Próximo, África, Ásia e Europa, diante da adesão de muitas cidades gregas, já aliadas da Pérsia desde os dias do seu pai, Dario. O historiador Lloyd Lllewelly-Jones (2023) vale-se de várias fontes, incluindo Heródoto, para também narrar em detalhes a investida persa sobre a Grécia, uma verdadeira epopeia que se transformaria num rotundo fracasso. Assuero cometeu algumas insanidades durante a sua expedição, errou em muitos cálculos e estratégias e terminou frustrado na sua empreitada, principalmente por haver decidido lançar-se a uma arriscada batalha naval, a batalha de Salamina. Lllewelly-Jones (p. 288) narra o fatídico desfecho da guerra, ocorrido no ano 480 a.C.: A espinha dorsal da marinha de Xerxes [Assuero] foi destroçada em Salamina. Teria sido difícil para ele construir rapidamente uma nova frota. Além disso, a infantaria e a cavalaria não podiam mais depender de suprimentos trazidos por navios. E assim, exaustos e desmoralizados, os persas foram forçados a recuar da Ática. Xerxes passou o inverno em Tebas, ruminando seus erros e punindo os erros dos outros […]. Deve ter sido uma viagem de regresso extremamente difícil para todos os envolvidos, mas sobretudo para Xerxes. Ele havia rompido com os exemplos militares de seus antepassados — Ciro, Cambises e Dario —, cujas vitórias na guerra fizeram o império crescer em tamanho e poderio. Agora que deixava a Grécia, Xerxes sabia que havia despertado um ninho de vespas e estava deixando para trás um povo rebelde e espinhoso, cuja resistência ao Império Persa continuaria a crescer. A campanha militar empreendida por Assuero contra as cidades gregas durou cerca de quatro anos, período que está encravado entre o primeiro e o segundo capítulo do livro de Ester. Enquanto o primeiro capítulo fala dos banquetes e da deposição de Vasti, o segundo já apresenta o processo de escolha da nova rainha, ocorrido após o retorno de Assuero das terras gregas, provavelmente no ano 479 a.C. O texto diz: “Passadas essas coisas, e apaziguado já o furor do rei Assuero, lembrou-se de Vasti, e do que fizera, e do que se tinha decretado a seu respeito” (Et 2.1). Observa-se que Assuero lembrou-se de Vasti, porém não sem considerar a sua conduta — “lembrou-se de Vasti, e do que fizera” —, o que também indica que, mesmo passados quatro anos, o rei não ponderou estar errado e ser necessárioretroceder. Embora não seja razoável esperar de um monarca como Assuero a admissão do seu erro, novamente se observa um silêncio no texto quanto a qualquer juízo de valor relacionado à conduta de Vasti. O que se percebe, mais uma vez, é que a reação de Assuero à negativa de Vasti em atendê-lo não pode ser tida como resultado do seu estado de embriaguez — ou, pelo menos, não exclusivamente, pois o texto bíblico permite entender que a fúria do rei só foi apaziguada muito depois dos fatos (2.1). O efeito do álcool já havia passado há muito tempo. Fica claro, portanto, que a indignação do rei não foi de momento; apenas fruto da sua embriaguez. Agora, com a mudança de humor do monarca, os seus servos viram uma ocasião propícia para sugerir-lhe a escolha de uma substituta para Vasti, o que se deu no ano 479 a.C. 2. O universo da escolha Na Antiguidade, a elevação de uma mulher ao trono decorria mais comumente de um casamento entre famílias nobres, geralmente por arranjos diplomáticos, mas também poderia acontecer pelo critério da beleza, numa escolha feita entre moças virgens do reino. Esse modelo ocorria na Pérsia, conforme Lloyd Lllewelyn-Jones descreve na sua obra (ibid., p. 202-217). O livro de Ester apresenta, com nítida naturalidade, a adoção desse método: os auxiliares de Assuero aconselharam-no a escolher moças virgens de todas as províncias para que fossem trazidas ao palácio e, dentre elas, fosse escolhida a nova rainha. Apesar de governar um império de cultura tradicional, com longas sucessões entre famílias originárias da Média e da Pérsia, Assuero decidiu acolher a sugestão dos seus servos do palácio, autorizando, assim, o processo seletivo. Moças de todas as províncias do reino foram selecionadas. Não havia restrição quanto à origem étnica ou racial. A única exigência é que fossem virgens e formosas (Et 2.2-4). O concurso foi divulgado, e muitas moças foram levadas a Susã — e Ester estava entre elas. Podemos ver a mão de Deus nisso tudo, porque foi a adoção desse método que permitiu que uma judia chegasse ao trono. Deus estava providencialmente dirigindo todo o processo. O judeu Mardoqueu morava próximo ao palácio, e com ele, Ester, que era órfã de pai e mãe, que ele criara como filha. Levada à casa do rei, Ester ficou sob os cuidados de Hegai, guarda das mulheres, de quem logo conquistou a simpatia (2.7-9). O texto faz-nos entender que havia uma graça especial na vida de Ester (2.9). Embora o texto não diga, não há outra conclusão: o Deus que esteve com José estava também com Ester (Gn 39.2,21,23). 3. A obediência de Ester Mardoqueu ordenou a Ester que não declarasse o seu povo e a sua parentela. Não sabemos a razão dessa ordem, já que não havia restrição étnica no processo de escolha da nova rainha. Talvez Mardoqueu tivesse conhecimento da existência de inimigos do povo judeu que poderiam interferir no processo de escolha da nova rainha. Mesmo sem qualquer explicação sobre a proibição, Ester obedeceu à risca a ordem de Mardoqueu (Et 2.10). Em tempos de tanta exigência de explicações, inclusive no âmbito familiar, Ester também nos dá o exemplo da importância de obedecer sem contestar. A obediente Ester desfrutava do especial cuidado de Mardoqueu, que passava diariamente diante do pátio da casa das mulheres para saber como ela estava (2.11). Havia respeito e atenção mútuos entre Mardoqueu e Ester. Findos os 12 meses de preparação — portanto, já no ano 478 a.C. —, chegou a vez de Ester ser levada à presença de Assuero: E o rei amou a Ester mais do que a todas as mulheres, e ela alcançou perante ele graça e benevolência mais do que todas as virgens; e pôs a coroa real na sua cabeça e a fez rainha em lugar de Vasti. (2.15-17) A celebração foi grande. O rei convidou a todos os seus príncipes e servos para a festa de Ester, decretou feriado em todo o reino e agiu com grande generosidade, distribuindo presentes (2.18). CONCLUSÃO Ester chegar ao trono foi o sinal de que Deus, na sua presciência, agiu para a preservação do povo judeu, que, não muito tempo depois, seria vítima do ódio de Hamã e correria o risco de total extermínio por força de um decreto real. A presciência é um dos atributos incomunicáveis de Deus. Somente Ele sabe de antemão todos os acontecimentos futuros (Is 46.9,10). Podemos confiar nossa vida inteiramente à sua direção, pois Ele sabe o que é melhor para nós. Com obediência e humildade, Ester estava no lugar certo para, no tempo certo, cumprir os propósitos divinos. 1 O capítulo 47 de Isaías descreve a soberba da Babilônia, motivo da sua queda. 2 O professor Lloyd Llewellyn-Jones (2023, p. 13,49) apresenta uma detalhada árvore genealógica da dinastia Aquemênida, identificando a sua origem em povos tribais nômades da Eurásia Central que se fixaram no planalto iraniano. Eram migrantes pastoris, cuja principal ocupação era a criação de gado. 3 A parte europeia do Império Persa era a região grega então conhecida como Trácia, que correspondente atualmente a parte dos territórios da Grécia, Turquia e Bulgária. 4 Não existem evidências históricas que comprovem que Vasti seja a mesma Améstris citada pelos historiadores. Apenas opiniões de estudiosos neste sentido. D Capítulo 8 A RESISTÊNCIA DE MARDOQUEU INTRODUÇÃO epois da elevação de Ester à condição de rainha, a história volta-se para outro personagem: Mardoqueu, um dos judeus que tinham posição de destaque no reino da Pérsia. Embora não assistisse diretamente ao rei no palácio, morava na cidade alta, a fortaleza de Susã, com a prima e filha adotiva Ester, que agora tinha assento no trono no lugar de Vasti (Et 2.5-7,17). Mardoqueu era filho de Jair, filho de Simei, filho de Quis, da tribo de Benjamim (2.5,6).1 Por esse relato bíblico, a pergunta que surge é: Mardoqueu esteve entre os judeus trazidos de Judá para o exílio ou nasceu em terras babilônicas? A resposta depende da referência que se faz à expressão “que fora transportado de Jerusalém”. Alguns intérpretes entendem que o autor referiu-se a Mardoqueu. Outros, porém, compreendem que o transportado para Jerusalém fora Quis, pai de Simei, pai de Jair, pai de Mardoqueu. Sendo assim, é bastante provável que Jair também tenha vindo para o exílio, onde nascera Mardoqueu. Da deportação de Jeconias (ano 597) até a ascensão de Ciro (539) são 58 anos; mais 61 anos até 478 a.C.; quando Ester tornou-se rainha, já seriam 119 anos. É pouco provável, portanto, que Mardoqueu tenha estado entre os transportados de Jerusalém para a Babilônia; caso contrário, já estaria com, pelo menos, cento e vinte anos de idade. Joyce G. Baldwin (1986, p. 58) concorda que seria improvável que a expressão “que fora transportado” tenha sido atribuída a Mardoqueu exatamente pelo fator idade: “[…] isto faria com que tanto ele como Ester fossem velhos demais em 480 a.C.”. Iain M. Duguid (2016, p. 27) tem como certo o nascimento de Mardoqueu nas terras do exílio. Um dos seus ancestrais havia sido levado para o exílio no tempo de Joaquim (Jeconias) em 597 a.C. (2 Rs 24.14,15), e ele, Mardoqueu, faria parte de um grupo de segunda ou terceira geração de exilados. Portanto, não teria conhecido nada além da vida na Pérsia sob o império. “O exílio definia a sua existência”, analisa Duguid. Donald Stamps (2009, p. 757) é categórico: “Foi Quis […], o bisavô de Mardoqueu, e não o próprio Mardoqueu, que foi transportado de Jerusalém, como cativo, juntamente com o rei Jeconias em 597 a.C. […]”. Gleason L. Archer Jr. (2012, p. 530) explica que a dedução de que Mardoqueu teria sido transportado de Jerusalém fundamenta-se numa interpretação errônea do texto hebraico: […] o verdadeiro antecedente do pronome relativo “que” no versículo 6 não é Mardoqueu, mas, sim, Quis, seu bisavô. Se Quis foi o contemporâneo de Jeoaquim, conforme dá a entender o autor, três gerações teriam passado até o tempo de Mardoqueu — um intervalo apropriado entre 597 e 483. Quanto ao nome Mardoqueu, Archer faz referência a uma importante descoberta arqueológica datada de 1941 que indica a existência de uma inscriçãodo período persa, mencionando certo Marduk-ai-a, oficial em Susã durante o reinado de Xerxes, e acrescenta: “De fato, o nome Mardukai foi, com frequência, achado em inscrições babilônicas posteriores (como seria de esperar de um nome que significava ‘Homem de Marduque’ — o deus-patrono da própria Babilônia)” (ibid., p. 531). (Essa é uma das muitas razões pelas quais não convém que dediquemos nosso tempo às divagações da crítica bíblica, posto que todas as suas refutações são, uma a uma, espancadas com o avanço das descobertas da própria ciência). Ainda sobre Mardoqueu, um ponto a ser esclarecido diz respeito à pessoa de Quis, o seu bisavô, que leva o mesmo nome do pai de Saul. Jeremy Royal Howard (2018, p. 783) trata da questão de forma direta: A genealogia de Mardoqueu é problemática se ela procurar ligá-lo a Quis, pai do rei Saul (1 Sm 9.1). Dificilmente este Quis poderia ter sido o bisavô de Mardoqueu, pois o intervalo entre os dois é de mais de 500 anos. Das duas uma: ou esse Quis era outra pessoa ou pode ser que o termo ‘filho de’ signifique aqui ‘descendente de’, um uso comum no AT que, neste caso, indicaria que o autor preferiu identificar apenas alguns membros da linhagem de Mardoqueu. D. A. Carson (ibid., p. 679) certamente considera essa última hipótese, pois afirma textualmente: Mordecai tinha nomes distintos entre os seus ancestrais: Quis era o pai do rei Saul (1 Sm 9.1), e Simei, seu parente, o tinha apoiado ferrenhamente (2 Sm 16.5). O fato de a família ter sido deportada para a Babilônia com o rei Joaquim em 597 a.C. é mais um indício de sua importância (2 Rs 24.14-16). Mostra-se mais razoável, portanto, seguir a observação de Howard, pois a distância temporal dos fatos — do início da monarquia ao exílio — não permite que se afirme que o Quis que fora transportado para a Babilônia era o pai de Saul. Como assinalou Howard, o intervalo entre os dois é de mais de 500 anos, sem paralelo algum no contexto histórico quanto às altas longevidades do período patriarcal. A respeito do significado do nome, Carson reforça a posição comum de que é uma associação a Marduk, o deus nacional da Babilônia, e acrescenta a informação de que há em um texto do período persa a menção a um homem chamado Marduka, que serviu como um contador em uma visita de inspeção a partir de Susã. Ester, uma Rainha Obediente Ester foi coroada rainha e permaneceu em silêncio quanto à sua origem judaica (Et 2.20). Não há como deixar de relacionar essa conduta de Ester à de Rute, que se conservou obediente a Noemi em tudo (Rt 3.5,6). Agora, Ester dá o mesmo exemplo. O fato de ter chegado ao trono, viver no palácio e ter acesso ao rei não a fez sentir-se empoderada. Ester lembrava-se da sua educação e preservava o seu respeito ao primo, que a criara como filha. Ester demonstrava profundo respeito ao rei, de quem agora era mulher (Et 4.10,11), assim como preservava a sua obediência a Mardoqueu. O bom exemplo de Ester, aliás, contrasta com o mau exemplo de Vasti. Enquanto Vasti optou pela desobediência, desafiando a autoridade do rei, Ester era obediente a todos, por onde passava. (Obedeceu, inclusive, a Hegai, o eunuco do rei, no tempo em que passou em preparação no palácio — Et 2.15). O que aprendeu de Mardoqueu ela conservou ao longo da vida. Isso foi fundamental para que chegasse à posição de rainha, e, como veremos no capítulo 10, tornou-se crucial para que alcançasse o favor do rei e fosse um instrumento de Deus para livrar o seu povo. Um espírito altivo pode levar-nos a experimentar muitos prejuízos (cf. Pv 16.18). A humildade é o caminho para a honra (Pv 15.33). I – MARDOQUEU DESCOBRE UMA CONSPIRAÇÃO CONTRA O REI 1. Os bastidores do poder Depois de muitas festas, a vida ganhou ares de aparente normalidade no reino da Pérsia. Assuero estabilizou-se no palácio, mas, como era comum nos impérios da Antiguidade, vivia sujeito a tramas e conspirações. Heródoto fala de atos conspiratórios e suspeitas de insurreições não apenas próximas do trono do imperador — nos dias de Ciro e de Cambises —, mas também nas províncias do reino. Llewelly-Jones (ibid., p. 293) afirma que um clima de instabilidade reinava nos dias de Assuero, exatamente no período em que a Bíblia menciona a conspiração descoberta por Mardoqueu: Após a guerra na Grécia, algo mudou em Xerxes [Assuero]. A partir de 479 A.E.C, suas inscrições começaram a enfatizar a importância primordial da lealdade e as consequências da insurreição contra o trono, alertando os súditos para que conhecessem seu devido lugar e permanecessem fiéis ao rei. Era como se um sentimento de inquietação generalizada no império ameaçasse perturbar a tranquilidade imperial. Conforme acentua Lllewely-Jones (ibid., p. 303, 304), Intrigas, conluios e assassinatos eram realidades da vida na corte persa. As conspirações rapidamente se transformavam em rebelião e até em regicídio. A corte Aquemênida era um lugar brutal, e muitas vezes a violência que eclodia ditava a política dinástica. A Pérsia era controlada por um governante absoluto — isso não é um clichê orientalista, é um fato —, e as monarquias absolutas estavam abertas a uma forma específica de tensão política que geralmente se concentrava na própria família real e poderia resultar no uso do direito de violência. Pelo menos sete dos doze Grandes Reis Aquemênidas encontraram a morte nas mãos de algum tipo de assassino (apenas três monarcas tiveram o luxo de uma morte pacífica), e a esse rol podemos acrescentar o assassinato (ou execução) de pelo menos dois príncipes herdeiros. Não era à toa, portanto, que Assuero vivia sob inquietação, e o que ele temia quase lhe aconteceu nos dias de Ester e Mardoqueu.2 Dois dos seus oficiais, que atuavam na segurança palaciana, indignaram-se contra ele e buscavam uma oportunidade para matá-lo. De alguma forma, a trama chegou ao conhecimento de Mardoqueu, que integrava o serviço do palácio, “à porta do rei” (2.21). Conforme John H. Walton et al. (2018, p. 632), escavações feitas em Susã confirmaram a existência de uma enorme porta a aproximadamente 100 metros a leste do palácio principal, com uma passagem de 15 metros de comprimento. Walton ainda diz que foi encontrada uma inscrição no local, colocada por Xerxes, identificando o seu pai, Dario, como o construtor da obra. Provavelmente, era esse o local onde Mardoqueu ficava e tomou conhecimento do plano arquitetado contra Assuero. Como não tinha acesso ao rei, Mardoqueu fez com que o caso chegasse ao conhecimento da rainha Ester, que, por sua vez, contou a Assuero o que estava acontecendo (2.21). A narrativa bíblica retrata o que geralmente ocorre em todos os bastidores do poder, onde não é incomum que haja intrigas e insatisfações entre os auxiliares mais próprios da autoridade superior ou até em relação ao mandatário maior, como ocorreu no caso de Assuero. Os seus oficiais desejavam assassiná-lo, pois nutriam uma grande indignação, cuja causa o texto sagrado não revela. Seja qual for a razão, é da natureza humana caída alimentar ressentimentos e discórdias, que, quando não dissipados, levam a terríveis tragédias. Expectativas frustradas, invejas e pretensões de domínio e supremacia são os principais motivos de disputas e traições nas esferas de poder. O ambiente eclesiástico não fica isento disso, porque também lida com posições de autoridade e outras formas de controle humano, inclusive econômico. Não nos esqueçamos, contudo, de que a primeira tentativa de usurpação de poder aconteceu no reino angelical, com Lúcifer (Is 14.12-15; Ez 28.17,18). Desde então, toda busca doentia por domínio é expressão desse mesmo sentimento maligno e deve ser rejeitada pelo verdadeiro cristão (Tg 3.14-18). Jesus ensinou que, no Reino de Deus, a posição de liderança deve ter como finalidade servir, e não dominar ou ser servido (cf. Mc 10.42,43). 2. A investigação Bigtã e Teres estavam enfurecidos contra Assuero e tramaram assassiná-lo. Ao saber do plano, Mardoqueu demonstrou a sua fidelidade ao rei, fazendo com que este fosse avisado. Ester foi aportadora da comunicação, mas não a fez no seu próprio nome (Et 2.21-23). Esse detalhe da narrativa não é irrelevante. Ester bem poderia simplesmente contar ao rei que tomara conhecimento de uma conspiração em andamento sem revelar a fonte, mas não foi o que ela fez; muito pelo contrário! Embora fosse rainha, e o primo, apenas um servidor do palácio, Ester fez questão de informar ao rei em nome de Mardoqueu. O fato de ter sido promovida a uma posição elevada não a envaideceu: a rainha não se envergonhou do primo e nem aproveitou a informação para projetar ainda mais o próprio nome. Além de permanecer obedecendo a Mardoqueu, transmitiu ao rei a informação dando-lhe o devido crédito (Et 2.20,22b). Assuero, por vez, mostrou-se um rei sensato e prudente. Embora a história geral retrate-o como um rei intempestivo e autor de muitas excentricidades, o monarca persa dá uma grande lição de liderança nesse episódio. Ao ouvir da rainha a informação clara e direta de que Bigtã e Teres tramavam matá-lo, talvez se esperasse que o rei simplesmente mandasse prendê-los ou mesmo executá-los, mas não foi assim que Assuero agiu. O versículo 23 diz: “E inquiriu-se o negócio, e se descobriu […]”. Na linguagem de hoje, podemos afirmar que Assuero determinou a abertura de inquérito, talvez sob sigilo, e buscou apurar se, de fato, havia o intento conspiratório. A NVI traz a seguinte tradução: “Depois de investigada a informação e descobrindo-se que era verdadeira, os dois oficiais foram enforcados”. O líder deve ser prudente quanto ao tratamento a ser dado às informações que recebe. Os liderados, por sua vez, precisam ser cuidadosos quanto ao que comunicam ao líder, evitando precipitarem-se com informações incompletas, desconexas, incertas, duvidosas ou, pior ainda, falsas. No caso de Ester, o fato de mencionar a fonte (Mardoqueu) não foi apenas eticamente correto; foi uma atitude igualmente prudente. Embora possivelmente ela não imaginasse, houve uma investigação prévia para apurar a informação, descobrindo-se que, de fato, havia um plano de homicídio em andamento. Mardoqueu certamente buscou certificar-se da conversa que ouviu antes de transmiti-la a Ester. O rei, mesmo ouvindo da rainha, teve o cuidado de apurar a informação. É uma questão de justiça. Na verdade, há um princípio constitucional — muitas vezes violado — que assegura a todos a presunção de inocência. Assuero agiu como um líder sensato, que não exerce o poder de forma precipitada. Mesmo sendo confiáveis as fontes, como no caso de Mardoqueu e Ester, é conveniente que se busque comprovar toda a acusação para não se cometer injustiça (Êx 23.7; Pv 17.15). O líder que tem a fraqueza de agir com base apenas no “ouvi dizer” estimula fofocas e fica suscetível a manipulações. Líderes que agem por impulso, dando ouvidos ao que lhes agrada, geralmente o fazem por insegurança; veem fantasmas por todo lado e são tomados por reações persecutórias e tirânicas, construindo em torno de si um clima de constante instabilidade, como fez Saul. No seu livro Perfil de Três Reis, Gene Edwards (2007, p. 25) descrevo-o como um monarca insano que não percebia que era ao Senhor Deus que se devia deixar a decisão acerca de quais eram os reinos que haveriam de sobreviver diante das ameaças. Saul ignorou isso e, como diz Edwards, fez o que todos os reis loucos fazem, chegando ao ponto de atirar lanças contra Davi. Um líder sensato, seguro de que está onde Deus o colocou, não age precipitadamente. O seu temor a Deus impede-o de cometer injustiças. Até mesmo Assuero, um ímpio, agiu com cautela, investigando primeiro para depois agir. 3. O registro dos fatos A narrativa bíblica encerra esse episódio informando que os fatos relativos à conspiração e a sua descoberta foram escritos no livro das crônicas perante o rei; nada mais. Tratava-se de um costume antigo. O cotidiano das cortes compunha as chamadas crônicas do rei, que ficavam arquivadas para serem consultadas (Et 6.1). O ato de fidelidade de Mardoqueu e a importância que teve para o rei e o seu reino ficaram registrados, mas, no momento, nada foi alterado na sua condição de auxiliar o palaciano. Mardoqueu permaneceu na mesma posição de antes. Ele certamente não tinha expectativa de que a sua atitude renderia a ele alguma promoção. O texto bíblico permite concluir que não havia esse tipo de espírito em Mardoqueu. Caso tivesse, teria experimentado uma grande frustração. Quanto ao fato de Assuero não ter promovido a Mardoqueu ou o recompensado de imediato, podemos extrair mais uma lição: certas recompensas precipitadas podem alimentar sentimentos nocivos e incentivar práticas de motivação duvidosa. Mardoqueu agiu de forma coerente, com uma intenção sincera de proteger o rei. Outros, contudo, se vissem que a sua conduta rendera-lhe altas recompensas, poderiam agir levianamente, como fofoqueiros do palácio, no afã de obterem favores do rei. Quando o líder demonstra a disposição de prestigiar os que lhe agradam os ouvidos, termina criando um grupo de auxiliares amantes da fofoca, que constroem as suas próprias carreiras — frágeis, diga-se de passagem — com base em “conversas de lavadeiras” (sem pretender, aqui, generalizar o emprego da expressão). Se isso é feio entre mulheres, mais ainda entre os homens. Pior ainda se esses homens são contados entre líderes espirituais. II – HAMÃ É EXALTADO PELO REI 1. Um novo personagem Além de não ter recebido recompensa alguma, Mardoqueu viu outro servo do rei, Hamã, ser exaltado ao cargo mais elevado do reino, uma espécie de primeiro-ministro (Et 3.1, NTLH). O texto sugere uma ascensão meteórica. Hamã é identificado como agagita, o que significa que, provavelmente, era descendente de Agague (1 Sm 15.8-33), rei dos amalequitas nos dias de Saul (Howard, 2018, p. 785). Essa posição é defendida por diversos outros autores, como Flávio Josefo (p. 521), John H. Walton et at. (p. 632) e Matthew Henry (p. 850). Outros, contudo, afirmam que Agague era o nome de um distrito no Império Persa, sendo Hamã natural dessa província, e não um descendente do rei amalequita (v.g., Archer Jr., p. 530). Versões bíblicas como a NVI e a NTLH apresentam Hamã diretamente como “descendente de Agague”. 2. Um herói (aparentemente) esquecido Enquanto Hamã foi exaltado, Mardoqueu permaneceu por muito tempo como um herói (aparentemente) esquecido. Isso nos ensina como é necessário ter sabedoria e prudência para viver momentos paradoxais, de aparente injustiça. Se Mardoqueu se movesse pelos fatos do momento, guiando-se pela própria vista, teria sido profundamente afetado com a ascensão de Hamã. Quando temos uma visão equivocada das circunstâncias que vivemos, tornamo-nos vulneráveis e propensos a crises emocionais e espirituais, principalmente quando o cenário é-nos desfavorável. Um clássico exemplo bíblico é o de Asafe, que começou a olhar para a aparente prosperidade dos ímpios, comparando-a às suas aflições e dificuldades pessoais, e quase desistiu da fé (cf. Sl 73.13,14). Essa desesperança pode vir sobre qualquer pessoa, não apenas por questões de ordem espiritual. 3. Evitando frustrações Quem conhece a Deus e à sua Palavra sabe que não há esperança neste mundo, na presente Dispensação, quanto ao estabelecimento da plena justiça. Somente no Reino do Messias! Paulo escreveu a Timóteo que “os homens maus e enganadores irão de mal para pior, enganando e sendo enganados” (2 Tm 3.13). Para o cristão, portanto, o caminho não é engajar-se em projetos humanos, que visam resgatar os sistemas de vida terrenos, como ensinam os difusores da Cosmovisão Cristã Reformada, fundamentados numa escatologia amilenista. Asafe viu-se livre do seu desespero quando teve uma visão da eternidade (Sl 73.16,17). III – A RESISTÊNCIA DE MARDOQUEU E O ÓDIO DE HAMÃ 1. Reverenciado por todos Hamã não apenas surgiu repentinamente no cenário e foi honrado por Assuero com um cargo de primeiríssimo escalão; o rei ordenou que todos os seus servos inclinassem-se e prostrassem-se diante do novo principal ministro (Et 3.1,2). Assim, Hamã passoua ser reverenciado por todos os servos do rei, menos por Mardoqueu, que não se curvava e nem se prostrava diante dele (Et 3.2). Muito se discute sobre qual seria o motivo dessa postura de Mardoqueu. Donald Stamps, no seu Comentário da Bíblia de Estudo Pentecostal (p. 758), afirma: Mardoqueu, por sua lealdade a Deus, recusou-se a inclinar-se diante de Hamã (v. 4). Tudo indica que a homenagem prestada a Hamã pelos servos do rei por outros, ou era imerecida, ou conflitava com atos religiosos que os judeus reservavam exclusivamente à adoração a Deus. Mardoqueu não concordava em curvar-se ou prostrar-se diante de Hamã. Os três companheiros de Daniel evidenciaram a mesma convicção (Dn 3.1-12). Não sabemos ao certo o que motivou Mardoqueu a decidir seguir na contramão do palácio. Certamente tinha fortes motivos de foro íntimo. A probabilidade de que fosse de ordem religiosa é reforçada quando consideramos a resposta de Mardoqueu aos servos do rei: quando inquirido, ele declarou que era judeu (3.4). É pouco provável, portanto, que não houvesse relação alguma com a sua convicção de fé, embora também seja fato que não há registro desse tipo de restrição para os judeus, isto é, de que não podiam reverenciar autoridades. Podemos ousar considerar que, apesar de ser um homem submisso e leal ao rei e às demais autoridades, Mardoqueu tenha visto algum abuso na conduta de Hamã, o que poderia consistir em alguma desonra aos servos do rei, inclusive ele, Mardoqueu. Não é incomum que algumas pessoas exijam certas reverências de modo imodesto ou exagerado, importando em violação à dignidade e à consciência. Se assim foi, Mardoqueu teve a sensibilidade de entender que a exigência estava além do tolerado, motivo da sua recusa. Joyce G. Baldwin (1986, p. 65) tem uma opinião que se assemelha: Mordecai obstinadamente recusou-se a submeter-se a Hamã, quaisquer que fossem as razões; de fato, parece haver uma falta de respeito generalizada por esse homem; se assim não fosse, não haveria necessidade de uma ordem real para que o povo se curvasse diante dele. Outros podiam se conformar, mas Mordecai não era um homem do tipo que concorda com tudo. Embora o fato de ele ser judeu não impedisse o ato de ele se encurvar, a fé dos exilados tendia a encorajar uma independência de juízo e de ação que embaraçava aos seus captores (Dn 3:6). 2. A condição de judeu A conduta de Mardoqueu vinha passando despercebida para o próprio Hamã, até que os servos do rei, incomodados com a sua atitude independente e voluntariosa, denunciaram-no para o agagita (3.4). É o típico jogar lenha na fogueira. Esses servos palacianos fizeram isso para ver o que iria acontecer (3.4). Os “colegas” de Mardoqueu tiveram um sentimento parecido, pelo que se entende do texto). Hamã passou a notar, então, que Mardoqueu realmente não se curvava; assim, encheu-se de ódio e logo planejou eliminar o judeu, mas não somente ele, e sim toda a sua raça (3.6). Flávio Josefo (p. 521) considera que essa reação de Hamã, nessa extensão, foi motivada pelo fato de que ele realmente seria um descendente do rei Agague: Como ele era por natureza inimigo mortal dos judeus, porque os amalequitas haviam sido outrora vencidos por eles, o seu furor cresceu tanto que seria muito pouco, para a sua vingança, mandar matar Mardoque: seria necessário exterminar toda a nação judaica. Hamã não seria o primeiro e nem o último a almejar o extermínio de todo o povo judeu. Outros “Hamãs” levantaram-se — e continuam se levantando — ao longo da história, aspirando a eliminação dos judeus. No capítulo 9, abordaremos com mais detalhes o odioso plano de Hamã e trataremos do nefasto antissemitismo, que vem crescendo em todo o mundo. 3. Inimizades intergeracionais A probabilidade de Hamã realmente ter sido um descendente de Agague leva-nos a refletir sobre as chamadas inimizades intergeracionais. Como já visto, Flávio Josefo diz que a fúria de Hamã contra todo o povo judeu — e não apenas em relação a Mardoqueu — devia-se à sua ascendência amalequita. Os amalequitas, que foram terrivelmente hostis a Israel durante a sua passagem pelo deserto (Êx 17.8-13), foram feridos por Saul e o seu exército por ordem de Deus (1 Sm 15). Agague, o rei amalequita, foi despedaçado por Samuel ao fio da espada (1 Sm 5.33). Estaria Hamã agindo movido por um ódio guardado por gerações? A Bíblia relata alguns episódios de vingança entre famílias, como foi no caso dos filhos de Jacó, que mataram os siquemitas por causa do ultraje feito a Diná, filha de Leia, que foi estuprada. Simeão e Levi aproveitaram o momento em que os siquemitas estavam em profunda dor, por terem sido circuncidados, e mataram todos à espada (Gn 34.1-31). Além da Bíblia, a história secular apresenta inúmeros exemplos desses conflitos, alimentados e repetidos ao longo de muitas gerações. O Brasil tem muitas histórias de perpetuação de violência por disputas econômicas (geralmente por terras, nas regiões de mais conflitos agrários) ou decorrentes de questões morais graves, envolvendo as famílias. Que Deus guarde nosso coração de toda inimizade e porfia. A vingança não nos pertence. Como filhos de Deus, devemos perdoar e buscar a paz (Rm 12.18-21; Mt 5.9; Hb 12.14; Gl 5.20). CONCLUSÃO O exemplo de Hamã adverte-nos de como precisamos estar espiritualmente alertas para não sermos iludidos por confiarmos na natureza humana. Uma das aplicações práticas da inteligência espiritual é livrar-nos de todo engano (Cl 1.9; Jr 17.5). Embora não devamos viver desconfiando de tudo e de todos, também não podemos deixar de ser prudentes e ignorar a malignidade do coração humano (Mt 10.16; 15.19). O Maligno pode suscitar ódio contra nós de onde menos esperamos. Precisamos estar atentos e revestidos de toda a armadura de Deus para que possamos resistir e vencer o mal. Nossa luta não é contra carne e sangue (Ef 6.11-16; Rm 13.12). Por isso, em vez de enfrentar as pessoas, devemos orar por elas, como nos ensinou o Senhor Jesus (Mt 5.44,45). 1 D. A. Carson chama a atenção para o fato de Mardoqueu ser chamado de judeu e ser benjamita (i.e., da tribo de Benjamin, e não de Judá) e explica que a palavra judeu tornara-se um termo generalizado para qualquer israelita durante o período pós-exílico (2009, p. 679). 2 De acordo com vários relatos históricos, Assuero terminou a vida como vítima de uma conspiração, urdida por dois dos seus auxiliares próximos: o comandante da guarda real, Artábano, e um eunuco de nome Aspamitres. Lloyd Llewellyn-Jones (ibid., p. 302-304) registra que um período de crise abateu-se sobre o reino da Pérsia nos anos finais do governo de Assuero, levando-o a deixar o governo nas mãos de Artábano e Aspamitres. Recorrendo a autores clássicos como Ctésias e Diodoro Sículo e o historiador romano Justino, Llewellyn-Jones narra que uma trama para assassinar Assuero foi iniciada por Artábano, que convenceu o filho do rei, Artaxerxes, a participar do plano de assassinar o próprio pai. Daí seguem versões diversas sobre como teria ocorrido a morte. Uma delas foi que Assuero foi morto dormindo, talvez por mãos do próprio filho Artaxerxes. Capítulo 9 A CONSPIRAÇÃO DE HAMÃ CONTRA OS JUDEUS INTRODUÇÃO O mundo é como um ninho cheio de espinhos que nos espetam constantemente e que nos fazem desejar voar para as alturas em busca de um lugar de descanso (Mq 2.10; Jo 16.33). Os judeus jamais se sentiriam confortáveis onde quer que estivessem se não voltassem para a sua terra natal, restaurassem o culto a Deus e vivessem segundo o seu propósito. Foi assim na Antiguidade, na Idade Média e nos tempos modernos. É assim em pleno século XXI. A criação do Estado de Israel em 1948 representou a sua restauração nacional, mas somente haverá paz para os judeus quando ocorrer a restauração espiritual de Israel, com o retorno do Messias e o derramamento do Espírito Santo. Será o cumprimento pleno da visão profética dada a Ezequiel (Ez 37.1-14). A conspiração de Hamã contra os judeus foi a primeira das muitas tentativas de extermínio dos judeus, revelando o que é comumem todas elas: ausência de razões plausíveis e um absurdo requinte de crueldade nos intentos e práticas agressoras. A mais recente agressão brutal aos judeus foi o ataque de 7 de outubro de 2023, coordenado pelo grupo terrorista Hamas, a partir da Faixa de Gaza, na Palestina. I – O PLANO ODIOSO DE HAMÃ 1. Intrigas e patologias do poder Como visto no capítulo anterior, a conduta de Mardoqueu gerou um grande incômodo entre os serviçais palacianos. Intrigados porque Mardoqueu não se prostrava diante de Hamã, começaram a questioná-lo diariamente. O texto bíblico informa-nos que eles inquiriam a Mardoqueu insistentemente todos os dias (Et 3.3). Mardoqueu terminou dizendo que era judeu, talvez depois da grande insistência dos seus “colegas” de trabalho. Não é incomum que, no ambiente laboral, quem serve a Deus gere inquietação pela distinção do seu comportamento. E, quando se revela que a postura decorre de um compromisso espiritual, geralmente a questão é superestimada e, às vezes, é levada ao escalão superior para ver se a convicção é sustentada. Foi o que aconteceu com Mardoqueu. Inconformados, os seus conservos foram denunciá-lo a Hamã. O texto permite-nos entender que a atitude dos servidores do palácio não decorria de um zelo sincero pela palavra do rei. Parecia mesmo mais um desejo de ver a intriga feita. Queriam saber se Hamã iria tolerar a conduta de Mardoqueu (3.4). Foi, portanto, mais uma tentativa de jogar lenha na fogueira. Invejas e dissensões costumam reinar em todo tipo de grupo social. Hamã ficou furioso e reagiu de maneira absolutamente desproporcional. Relevando uma personalidade patológica, planejou o extermínio de todos os judeus (Et 3.4-6). Seria compreensível se Hamã tivesse inquirido a Mardoqueu sobre a sua conduta e exigido dele um tratamento isonômico em relação aos demais servos do rei. Também não seria irrazoável se tivesse relatado a ocorrência a Assuero, pelo desconforto que estava reinando entre os oficiais do palácio. Hamã teve uma péssima reação, abusando da sua autoridade. O poder deve ser exercido com serenidade, pois todos temos um Senhor nos céus (Ef 6.9; 1 Pe 5.2,3). Abuso de poder leva à queda (Pv 16.18). 2. A extensão do plano Quando soube que Mardoqueu era judeu, Hamã logo viu uma oportunidade de exterminar todos os judeus espalhados pelas províncias do reino persa (3.6). A dispersão do povo de Israel — aqui no livro de Ester chamados simplesmente de judeus — havia começado com a queda do Reino do Norte sob a Assíria, que levou as dez tribos ao cativeiro, num processo de espalhamento do povo hebreu para as terras das demais nações do Império Assírio (Merrill, 2001, p. 422).1 Parte desses deportados, incluindo alguns dos que foram levados para a Babilônia, possivelmente se movimentaram ao longo do extenso Império Persa, principalmente em função da liberdade concedida por Ciro. Com o avanço da história bíblica — incluindo o Novo Testamento — e extrabíblica, judeus são encontrados em muitas partes do mundo, embora os núcleos principais nos tempos veterotestamentários fossem a Babilônia e o Egito (Tognini, 2009, p. 69). Nos dias de Ester, o Império Persa estava no seu apogeu, pois ocupava a maior extensão territorial desde o seu surgimento, nos dias de Ciro. Os persas dominavam todo o Antigo Oriente Próximo, desde o rio Indo, na Índia (hoje no Paquistão) até o Mediterrâneo Oriental.2 O domínio incluía parte do Norte da África, indo até a Etiópia, e estendia-se para além do mar Egeu (até a Europa, na Trácia; hoje parte da atual Turquia, Grécia e Bulgária). Em linha reta, de um extremo a outro, eram mais de 4 mil quilômetros. O Império não apenas avançou em território, dada a sua força militar, mas também no sistema de governo, na engenharia naval, no uso de moeda corrente, na astronomia, nas artes, na economia e nos transportes. Havia um sistema avançado de estradas por todo o império, rota que era conhecida como “Estrada Real da Pérsia”, indo de Susã (no Elão) até Sardes (na Lídia), compreendendo um total de 111 pontos intermediários para descanso, atravessando cerca de seis províncias persas e exigindo um total de 90 para dias para percorrer toda a sua extensão, de cerca de 2.700 quilômetros (Beitzel, 2017, p. 203, 206). (Essas informações são importantes para a compreensão quanto à movimentação dos correios do rei, levando cartas e decretos, como mencionados no livro de Ester). Ao incluir judeus de todo o Império, o plano de Hamã atingia inúmeras comunidades judaicas, os judeus que haviam retornado para Jerusalém, região que, no Império Persa, era considerada parte da Síria, conforme Heródoto. 3. Astúcia e oportunismo Para alcançar o seu intento, Hamã escondeu a sua verdadeira motivação e apelou para o orgulho de Assuero (3.8). Hamã foi astuto e oportunista, forjando uma falsa narrativa para convencer Assuero. Isso é típico de subordinados que usam indiretamente o poder dos seus líderes para alcançar os seus próprios fins. O interesse de Hamã era tanto que prometeu a Assuero que, se ele decretasse a morte desse povo, entregaria 10 mil talentos de prata (350 toneladas) para o tesouro real. Estima-se que isso representava dois terços da renda anual do Império Persa, o que significa que Hamã era um homem muito rico. Se Assuero mostrou-se cauteloso no episódio dos guardas Bigtã e Teres, não esboçou qualquer prevenção diante da proposta de Hamã. É possível inferir do texto sagrado que Assuero concordou com Hamã sem importar-se de que povo tratava. O rei simplesmente tirou o seu anel e deu-o a Hamã, a quem coube definir os termos da carta a ser enviada a todas as províncias, assinada em nome do rei (Et 3.10-12). Assuero mostrou-se facilmente manipulável, muito provavelmente por Hamã haver conseguido acessar o seu ponto fraco, o seu ego. Esse exemplo negativo ensina-nos que liderar requer prudência e sabedoria para identificar desavenças pessoais disfarçadas de motivações aparentemente nobres. II – A TRISTEZA DE MARDOQUEU, DOS JUDEUS E DE ESTER 1. O pavor da violência Assuero deu liberdade para Hamã pôr em execução o plano proposto. Os escrivães do rei foram convocados para escrever cartas aos príncipes e aos governadores de todas as províncias. Coube ao próprio Hamã ditar os termos da comunicação (3.12). As cartas foram escritas em nome do rei e seladas com o seu anel.3 Em seguida, foram enviadas pelas mãos dos correios a todas as províncias, pelo sistema de transportes que cortava praticamente todo o império.4 A ordem era enfática: deveriam ser espoliados, saqueados e mortos todos os judeus, homens de todas as idades, mulheres e crianças — um extermínio total (3.13). O dia designado foi o dia 13 do décimo segundo mês. Para definir essa data, Hamã lançou sorte (pur), isto é, jogou dados. Segundo Harrison (p. 295), nas escavações realizadas em Susã, foi descoberta uma peça denominada de prisma quadrangular com números inscritos, que seria semelhante ao dado usado para lançar sortes que Hamã empregava ao determinar a data da pretendida aniquilação dos judeus, e que era conhecido naquela época como Pur. Mesmo sem registro algum de insurreição dos judeus durante os Impérios Babilônico e Persa, Hamã logrou êxito no seu plano diabólico. Ele pretendia uma violência gratuita; uma barbárie que visava apenas satisfazer o seu ódio. O primeiro episódio violento na história foi a morte de Abel pelo seu irmão Caim, também sem razão alguma (Gn 4.8). Desde então, a violência apavora a humanidade em todos os tempos. Já nos dias de Noé, a terra estava cheia de violência (Gn 6.11- 13). A triste realidade é que esse quadro não melhora. As Escrituras anunciam tempos ainda mais difíceis à medida que se aproxima o fim (2 Tm 3.1-4). 2. Bebida, confusão e tristeza Enquanto as cartas galopavam pela estrada imperial, ganhando as províncias, Assuero e Hamã entregavam-se à bebida. O clima em Susã, porém, não era bom. A cidade estava confusa (3.15). Como entender uma ordem arbitrária e tão repentina? As reações no palácio e nas ruas, portanto, eram bem distintas, comoanalisa Every-Clayton (p. 174): Há duas reações ao decreto. A primeira é a perplexidade e a confusão dos moradores da cidade de Susã, cidadãos comuns de bom senso que ficaram abismados com a monstruosidade pretendida contra os judeus. Provérbios 29.2 observa que “quando os ímpios governam, o povo geme”. Os moradores estão chocados e indagam do próprio destino. […] O texto sugere que o povo persa não era antissemita e ficou atordoado com a decisão de seus líderes. A segunda reação é dos autores do decreto, que fazem uma leitura equivocada da opinião pública. Xerxes [Assuero] e seu ministro fria e cinicamente assentaram-se para beber. Eles brindam ao decreto. Seguros de si e de suas prerrogativas, antecipam a vitória. Entregues à bebida, esquecem-se do que a lei determina e deixam de fazer justiça aos oprimidos (Pv 31.4-5). Mardoqueu entrou em profunda tristeza; ele rasgou as suas vestes, vestiu-se de pano de saco com cinza e saiu pela cidade (Et 4.1). À medida que as cartas chegavam às províncias, a reação era a mesma. Havia um clima de luto, com jejum, choro e lamentação (Et 4.3). Só Deus pode frear a impetuosa maldade humana (Sl 22.28; Rm 1.18-20; Ap 19.11-16). 3. Crise e clamor Tudo mudou muito rapidamente. Depois da ascensão de Ester e do clima de plena harmonia com Assuero — principalmente diante da revelação do plano de conspiração —, Mardoqueu e todo o povo judeu estavam, agora, com os dias contados para o seu extermínio. O decreto do imperador inaugurou um tempo de crise e suscitou um profundo clamor entre os judeus de todas as províncias. O clima era de “grande luto, com jejum, e choro, e lamentação; e muitos estavam deitados em pano de saco” (Et 4.3). A humilhação dos judeus, inclusive através do jejum, demonstra que não era apenas o medo relacionado à ameaça humana, mas a busca de um socorro divino. O quadro lembra bem diversos episódios da história de Israel, quando esses mesmos elementos foram usados como meios de busca da providência de Deus e livramento antes, durante e depois do exílio (2 Sm 12.16; 2 Cr 20.3; Jl 1.14; 2.12,15; Dn 9.3; Ne 1.4; Ed 8.21). Até esse momento, tanto no exílio como nas províncias, eram muitos os judeus que se sentiam tranquilos, desfrutando das suas comodidades. Se, de um lado, havia a fé e a bravura dos 50 mil judeus que foram a Jerusalém para reedificá-la, liderados por Zorobabel (Ed 2.1,2,64-70), de outro lado havia a aparente tranquilidade dos que decidiram ficar nas suas próprias habitações por todo o Império Persa. Mesmo dentre os que acompanharam Zorobabel até Jerusalém, muitos se dedicaram a construir casas luxuosas, dando pouco valor à reconstrução do Templo, como denunciam os profetas pós- exílicos Ageu e Zacarias (Ag 1.4; Zc 8.9-13). O decreto de Assuero tirou a tranquilidade de todos, levando-os a buscar o socorro divino (Et 4.3). Por que, muitas vezes, precisamos experimentar crises para buscar a Deus de todo o coração? A dureza de nosso coração faz isto: “Porque eu sabia que eras duro, e a tua cerviz, um nervo de ferro, e a tua testa, de bronze” (Is 48.4). Para que nosso coração não se ensoberbeça, precisamos fazer como Daniel, que orava em todo tempo, expressando a sua contínua dependência de Deus (Dn 6.10). Somente com uma vida de oração constante em casa e na igreja podemos vencer o mal (Ef 6.18; 1 Ts 5.17). III – O PERIGO E A CRUELDADE DO ANTISSEMITISMO MODERNO Hamã protagonizou a primeira prática antissemita largamente conhecida na história. Há, porém, um fato anterior, que R. K. Harrison registra no seu livro (ibid., p. 294, 295), ocorrido no Egito. O motivo dessa rejeição e ódio aos judeus seria a diferenciação da sua cultura, a sua organização e o seu progresso, por onde se estabeleciam; ou seja, a prosperidade do povo judeu e o seu estilo de vida próprio — principalmente a sua tradição religiosa — é o que termina sempre incomodando e gerando inimizades gratuitas. Sabemos que, por trás de tudo isso, está o fato de os judeus serem o povo que o Senhor escolheu para através dele cumprir a sua promessa feita ainda no Éden e anunciada a Abraão, de cuja descendência veio Jesus, o Messias (Gn 3.15; 12.1-3). Harrison observa que, embora tenham sido espalhados entre estrangeiros por toda a parte, em função de dispersões e exílios, os judeus nunca foram totalmente absorvidos pelas comunidades nas quais se estabeleceram. Isso, conforme Harrison, se devia ao fato de os judeus utilizarem as suas habilidades na vida política, administrativa e comercial, como no caso do Império Persa, e destacarem-se perante os seus vizinhos menos prósperos, o que suscitava desconfiança. Hamã, portanto, estaria nutrindo em altíssimas proporções um sentimento que já existia no mundo desde que os judeus foram expatriados, o que aponta para o fato de que há mesmo um propósito de Deus com Israel, intrinsecamente relacionado com a sua terra, a possessão prometida aos patriarcas. 1. Faces do antissemitismo De forma prática, antissemitismo é a manifestação de hostilidade sistemática contra os judeus. É possível verificar ao longo da história três faces de expressão desse ódio obstinado: antissemitismo religioso, antissemitismo nacionalista e antissemitismo racial. No aspecto religioso, registram-se principalmente as perseguições católicas. No século XIV, por exemplo, os judeus chegaram a ser acusados por católicos europeus como responsáveis pela peste negra, que assolou a Europa em 1348 (Novinsky, 2015, p. 38). Também durante a Idade Média, sofreram intensa perseguição pela Inquisição, principalmente a partir de 1478, na Espanha, por ordem do Papa Sisto IV (1414–1484), e a partir de 1536, em Portugal, pela instituição oficial do Tribunal do Santo Ofício pelo Papa Paulo III (1468–1549). O principal objetivo era combater o que chamavam de “heresia judaica”. Milhões de judeus foram espoliados, torturados, execrados e mortos por não aderirem ao catolicismo e por questões econômicas e políticas. A primeira ordem de confinação de judeus em guetos não foi de Adolf Hitler (1889–1945), no século XX; foi do Papa Paulo IV, em 1555, e atingiu todos os Estados Papais por mais de 300 anos. Antes, contudo, no século XIV, já existiram as judiarias, os bairros judeus, na Península Ibérica. 2. Antissemitismo nacionalista e racial O aspecto nacionalista pode ser visto no século XIX e no início do século XX na Ucrânia e na Rússia através dos chamados pogroms, violentos ataques físicos indiscriminados aos judeus. A prosperidade dos judeus incitava o ódio das populações originárias, alimentado por teorias de conspiração. O povo judeu era apontado como o culpado pelas crises econômicas de países do Leste Europeu, por exemplo, levando-os a reagir violentamente contra as comunidades judaicas. Durante a Segunda Guerra Mundial (1939–1945), Adolf Hitler protagonizou o antissemitismo racial, ao proclamar a superioridade da raça ariana. O Holocausto exterminou 6 milhões de judeus de toda a Europa. 3. Inquisição e antissemitismo no Brasil Pouco se fala sobre antissemitismo em terras brasileiras, mas Anita Novinsky et al. (2015) fazem um relevante resgate histórico sobre perseguições a judeus no Brasil, como reflexo das práticas persecutórias implementadas na Península Ibérica, principalmente em Portugal. Novinsky et al. afirmam que a dispersão dos chamados cristãos-novos — os judeus sefarditas que eram obrigados a converterem-se ao cristianismo, também chamados de marranos5 — alcançou diversos países, incluindo o Brasil (p. 98): A vida judaica no Brasil, como em Portugal, tinha de ser clandestina. Foram construídas verdadeiras sociedades secretas, e os cristãos-novos se reconheciam por códigos indecifráveis para os estranhos ao grupo. Construíram um discurso crítico que circulava oralmente ou manuscrito, alguns dos quais chegaram até nós. Os conversos tornaram-se párias. Entretanto, na sociedade brasileira colonial precisamos considerar um paradoxo: ao mesmo tempo em que se encontravam fora da sociedade ampla devido às leis que os eliminavam dos cargos públicos, administrativos,militares, acadêmicos e religiosos, seu status de “homens de negócios” os situava “dentro” da sociedade. Viviam, assim, em dois mundos: um verdadeiro e um fictício. Essa contradição produziu nos conversos um sentimento dúbio, de amor e ódio. Queriam fazer parte do todo, mas abominavam a religião cristã, pois a identificavam como a Inquisição, uma vez que o próprio bispo era o inquisidor-geral. Carregavam um sentimento de culpa, em relação tanto ao judaísmo quanto ao catolicismo. 4. Antissemitismo hoje Israel vive um quadro delicado junto à parte da comunidade internacional. Em 7 outubro de 2023, o país foi brutal e covardemente atacado pelo grupo extremista Hamas, auxiliado por outros cinco grupos terroristas, abrigados em países vizinhos a Israel, como a Síria, e que também aspiram ao extermínio judeu. Israel precisou defender-se invadindo a Faixa de Gaza para neutralizar as forças do Hamas e libertar os 240 reféns. Como já afirmado, a criação do Estado de Israel em 1948 não garantiu paz aos judeus. O país vive em estado de alerta em função de ataques terroristas internos e externos, feitos em nome de uma falsa causa palestina. O que os inimigos de Israel querem não é um acordo que lhes garanta um lugar para viver. A sua verdadeira causa é o extermínio dos judeus. Só Jesus, o Messias, salvará Israel, quando da sua conversão nacional (Is 11.10-16; Ez 37.12-14; Zc 12,13; 14.4-9; Rm 11.26; Ap 1.7). CONCLUSÃO O antissemitismo não se revela apenas através de atos hostis, mas também de apoio aberto ou posturas complacentes aos inimigos de Israel, como os grupos terroristas, ou, ainda, por meio de críticas sistemáticas aos atos de defesa israelenses, pintando o país como o vilão da história. A despeito dos pecados dos judeus, Deus tem um plano com Israel e vai restaurá-lo quando, arrependido, aceitar o Messias (Rm 11.25- 32). “[Oremos] pela paz de Jerusalém!” (Sl 122.6). 1 Barry J. Beitzel (2015, p. 194) menciona o número de 4,5 milhões de pessoas que teriam sido deportadas durante o período assírio, de todo o Oriente Médio, incluindo Israel. 2 O Antigo Oriente Próximo ou Antigo Oriente compreende a região onde apareceram as civilizações anteriores às clássicas, atualmente denominada Médio Oriente, onde estão o Iraque, parte do Irã e da Turquia, Síria, Líbano, Israel e Egito. Nessa extensa região, estão a Mesopotâmia (os modernos Estados do Iraque e Irã), o Levante (Israel, Jordânia, Líbano, Síria e os territórios ocupados pelos palestinos), a Anatólia (parte asiática da Turquia, que no Novo Testamento incluía a chamada Ásia Menor) e Egito (Fonte: wikipedia – consulta em 02/03/2024). 3 Conforme o comentário da Bíblia de Estudo Cronológica Aplicação Pessoal (p. 1187, 1188): “Os oficiais do mundo antigo usavam anéis de sinete como assinaturas pessoais. A superfície do anel tinha uma impressão em relevo feita de metal, madeira ou osso; provavelmente, o anel de Assuero era feito de prata ou ouro. Cada anel de sinete tinha seu próprio cunho. As cartas eram seladas pressionando- se o anel contra uma cera macia, e os documentos oficiais eram certificados através da utilização do sinete real”. Em nossos dias, existe a certificação digital através de um dispositivo eletrônico que gera senhas, o token. 4 Yamauchi e Wilson (2020, p. 493) afirmam que o sistema de correios persa era o mais famoso da Antiguidade. Conforme citação de Heródoto, o número de cavaleiros correspondia ao número de dias que a viagem demandava. Cada cavaleiro cumpria uma jornada diária. O primeiro entregava o seu despacho para o segundo, o segundo para o terceiro e assim sucessivamente, passando de mão em mão, até a chegada da correspondência ao destino. Considerando os registros de Heródoto, Yamauchi e Wilson concluem que a rota de 2.730 quilômetros, que era feita por viajantes comuns em 90 dias, com média de 30,3 quilômetros por dia, era coberta pelos correios do rei em apenas uma semana, exigindo o percurso de 390 quilômetros por dia. Para isso, seria necessária uma troca sucessiva de cavaleiros e cavalos a cada 40 quilômetros ou mais. Segundo os citados autores, o historiador Xenofonte teria afirmado que esse sistema não parava nem mesmo durante a noite. 5 Sefarditas são os judeus originários na Península Ibérica (Portugal e Espanha). Capítulo 10 O PLANO DE LIVRAMENTO E O PAPEL DE ESTER I – O PERIGOSO PLANO E O TEMOR DE ESTER 1. Lamento, choro e compadecimento O terrível plano de Hamã ganhou dimensão pública não apenas em Susã, como também em todas as províncias do Império Persa. Mesmo assim, Ester não sabia do decreto real que ordenava a morte dos judeus. As suas criadas e os oficiais responsáveis pelo harém contaram a ela sobre o estado de Mardoqueu, que rasgara as suas roupas, vestira-se de pano de saco, jogara cinzas sobre a cabeça e andara pelo meio da cidade chorando amargamente e em alta voz. Compadecida, a rainha enviou roupas para ele, que não as aceitou (Et 4.3,4). Intrigada, Ester precisou enviar um dos eunucos do rei, Hataque, para perguntar a Mardoqueu o motivo do seu comportamento tão dramático. Essa circunstância inusitada — o desconhecimento no harém quanto a um fato tão notório em Susã — leva-nos a abrir um parêntese para considerar como seria a vida no recinto das mulheres palacianas na época, já que não é razoável que um acontecimento tão relevante e grave, conhecido de toda a cidade de Susã e até das províncias (3.15; 4.3), ainda estivesse encoberto no harém do palácio. Pela descrição presente no livro de Ester, a estrutura palaciana em Susã nos dias de Assuero contava com o palácio do rei, composto do átrio interior (4.11), pátio exterior (6.4) e porta do rei (2.19). Entende-se — inclusive por descobertas arqueológicas já mencionadas neste livro — que havia uma porta principal, que dava acesso ao pátio exterior — certamente um local usado para grandes audiências —, e, depois dele, o pátio interior, próximo ao trono do rei, num espaço reservado, de acesso restrito, em frente ao seu aposento (5.1). Certamente anexo ao palácio, as casas das mulheres também ficavam na fortaleza.1 Uma casa principal (2.9) e uma segunda casa das mulheres (2.14), de ocupação mais ampla, onde ficavam as concubinas (Yamauchi e Wilson, 2020, p. 1202). Dentro do conceito defendido por Llevellyn-Jones, o harém diz respeito aos aposentos familiares privados de uma casa e às pessoas que o habitam, em oposição ao espaço público e à parte reservada para receber e entreter convidados (ibid., p. 198). Esse caráter familiar, contudo, não retira o papel sexual que as esposas e muitas concubinas desempenhavam, embora muitas delas jamais privassem da intimidade do monarca, servindo apenas como habilidosas musicistas, dançarinas cultas e brilhantes contadoras de histórias (p. 214). No caso de Assuero (Xerxes), o Comentário Histórico-Cultural da Bíblia (Walton, Matthews e Chalavas, 2018, p. 629) diz que ele tinha uma esposa de cada vez, mas no seu harém havia mais de 360 concubinas, e os seus inúmeros casos amorosos foram igualmente bem documentados, sendo motivo de muita intriga na corte. Heródoto faz referência a alguns deles, como já referenciado.2 2. Um obstáculo real A trágica notícia chegou no harém. Hataque foi a Mardoqueu e ouviu dele, em detalhes, o perigoso plano de Hamã. O eunuco enviado por Ester voltou trazendo não apenas a informação de Mardoqueu, mas também uma cópia do decreto assinado por Assuero, marcando a data para o extermínio dos judeus e um veemente pedido à rainha:3 Ester deveria ir ao rei e suplicar pelos judeus. O propósito de Mardoqueu foi alcançado. A informação chegou ao harém e, mais especificamente, a quem poderia interceder junto ao rei para evitar a tragédia anunciada. Informada do apelo de Mardoqueu, Ester enviou Hataque de volta com uma resposta negativa. Havia uma lei conhecida de todos que proibia que qualquer pessoa fosse à presença do rei, no pátio interior, sem ser por ele chamado, sob pena de ser ordenada à morte, salvo se o rei estendesse-lhe o cetro de ouro. A rainha estava sujeitaa essa mesma regra. Acredita-se que essa rigorosa norma proibitiva de acesso ao rei existia porque os monarcas temiam ser vítimas de conspirações, como ocorreu com tantos deles, ao longo da história, que foram mortos no trono. Matthew Henry (2022, p. 852) considera, contudo, que a lei não foi criada por prudência, para maior segurança do rei, e sim mais por orgulho, para que, sendo pouco visto — e isso apenas com grande dificuldade —, o rei viesse a ser adorado como a um pequeno deus: Tratava-se de uma lei tola; pois (1) Isso deixava os reis infelizes, confinando-os a seus isolamentos por receio de que fossem vistos. Isso fazia do palácio real pouco mais que uma prisão real, e os reis só podiam acabar ficando rabugentos, e talvez melancólicos, e, portanto, um terror para os outros e um fardo para si mesmos […]. (2) Isso era ruim para os súditos; pois que bem lhes fazia um rei a quem não tinham a liberdade de recorrer para eventuais retificações, e a quem não pudessem apelar por meio de juízes? O fato de Ester, como rainha, não ter sido chamada pelo rei nos últimos 30 dias (4.11b) revela, inclusive, o distanciamento que havia entre rei e rainha, dado o costume dos tempos antigos. Mesmo uma mulher de posição elevada como Ester enfrentava grandes restrições para chegar à presença de um monarca. O fato é que não há cultura alguma em toda a história que tenha dado à mulher a mesma honra que lhe outorgou Jesus, fazendo-a digna de honra e participante de dons espirituais e de serviço (Ef 5.22-28; 1 Pe 3.7; 1 Co 11.5; Fp 4.3). A Palavra de Deus é, portanto, altamente libertária para com a mulher, e não o contrário, como acusa falsamente o movimento feminista. II – MARDOQUEU CONVENCE ESTER 1. Con�ando na providência divina O obstáculo suscitado por Ester era real, e Mardoqueu sabia disso. A lei era de conhecimento geral (4.11a). Todavia, as circunstâncias exigiam uma atitude corajosa. Há ocasiões em que precisamos recuar, mas também há situações que devemos avançar. Ester não poderia intimidar-se diante da lei que vigorava na Pérsia, temendo pela sua vida; mesmo porque o que estava em jogo não era apenas a vida dela, mas de todos os judeus. Esse tipo de avaliação é preciso ser feito. Certas normas — ainda que regras devam ser obedecidas — às vezes precisam ser violadas se um bem ou valor maior estiver em jogo. O que é preciso ter sempre em conta é a específica direção de Deus para saber quando uma atitude incomum é a ação certa a ser praticada. Mardoqueu lembrou a Ester que o seu silêncio não lhe garantia proteção (4.13,14). Como já observamos no capítulo 6, Mardoqueu revela a sua profunda convicção de que a providência divina viria de alguma maneira para livrar os judeus. Como diz Sidlow Baxter (1993, p. 278), é um reconhecimento implícito de Deus; a revelação da percepção repentina de Mardoqueu da previsão providencial de Deus por trás da estranha ascensão de Ester ao trono. As palavras ainda demonstram a sua fé inabalável no Senhor e na indestrutibilidade do seu povo. A contundência das afirmações de Mardoqueu não pôde ser desprezada, inclusive no ponto em que diz a Ester que se viesse livramento para os judeus de outra parte, ela, mesmo sendo rainha, morreria, assim como os seus parentes — que não se sabe onde residiam, talvez em alguma província persa, ou na própria Jerusalém, ou se haviam retornado para a capital de Judá. O que não há nas palavras de Mardoqueu é dúvida de que haveria livramento (v. 14). A lição que tiramos desse exemplo de Mardoqueu é que pessoas em posição de influência são importantes se agirem como instrumentos de Deus. Contudo, não podemos esquecer que é Deus quem age por trás de tudo; é dEle que vem o verdadeiro socorro (Sl 121.1,2). Quando supervalorizamos pessoas — por mais importantes que sejam — e esquecemo-nos de Deus, fazemos delas nossos ídolos (Sl 121.1,2). Isso é repelido por Deus, pois Ele abomina todo tipo de idolatria (Jr 17.5). 2. Primeiro Deus, depois o homem As palavras de Mardoqueu convenceram Ester. Assim como o seu primo, ela teve a sua consciência ativada, entendendo que somente Deus poderia livrar o seu povo. Ester não foi autoconfiante, não acreditando que o seu poder de persuasão poderia convencer Assuero. Com temor e humildade, mesmo sabendo que deveria agir, ela compreendeu que era preciso clamar a Deus antes de tudo, para que Ele desse-lhe graça diante do rei. O seu pedido a Mardoqueu para que os judeus jejuassem durante três dias em favor dela é, na verdade, um pedido de oração, pois o jejum é uma forma simbólica de oração no Antigo Testamento. Ela e as suas moças também jejuariam (Et 4.16). Agindo assim, Ester estava entregando-se à misericórdia de Deus (Baxter, p. 278), numa demonstração de prudência, equilíbrio e entendimento espiritual. Ela discerniu o tempo e o lugar de Deus e da sua ação pessoal no plano de livramento dos judeus. Antes de Ester procurar o rei, os judeus deveriam buscar a Deus. Jesus contou uma vez a parábola do juiz iníquo, uma grande advertência do perigo do secularismo e do materialismo, que, inspirados no ateísmo, rejeitam e negam as realidades espirituais e veem o homem como o senhor da sua existência e do seu destino; como a medida de todas as coisas. Uma viúva clama ao juiz para que lhe fizesse justiça contra o seu adversário. O magistrado mostrou-se insensível, não lhe dando ouvidos. A pobre mulher insistiu, até ao ponto de o juiz atendê-la por causa da sua importunação (Lc 18.1-8). A mensagem da parábola é: vivemos dias nos quais o esfriamento espiritual pode roubar nossa fé, levando-nos a descrer na providência divina e recorrer aos nossos próprios recursos em busca de solução para nossos problemas. Ester não agiu assim. Primeiro, era preciso jejuar, humilhando-se diante de Deus, rogando a sua providência. Um termômetro da diminuição dessa fé hoje é exatamente a redução da prática do jejum e da oração como medidas antecedentes às nossas próprias ações; aliás, ao anunciar a parábola do juiz iníquo, Lucas diz que o tema é: o dever de orar sempre e nunca desfalecer (Lc 18.1). Devemos sempre confiar em Deus e depender dEle, pois a autoconfiança e a presunção são de origem maligna (Tg 4.13-16). Tanto agora quanto antes, no processo da sua escolha como rainha, seria a mão de Deus agindo em favor do seu povo. Sem os atos providenciais do Eterno, a beleza de Ester não resultaria em nada (cf. Pv 31.30). 3. A responsabilidade pessoal Ester não apenas decidiu jejuar, como também rogou a Mardoqueu que ajuntasse todos os judeus de Susã para jejuar por ela. Seriam três dias sem comer e sem beber (4.16). A atitude de Ester ensina-nos a necessidade que têm os líderes espirituais de convocar os seus liderados para a prática de disciplinas espirituais de piedade e devoção para que não apenas esperem que terceiros façam por eles. O parasitismo espiritual é altamente prejudicial para a Igreja, como Corpo de Cristo. Todos os membros devem funcionar (Ef 4.16). Em muitos outros versículos sobre a necessidade de todo o corpo estar ativo, temos 1 Coríntios 14.26, Romanos 12.4,5 e Gálatas 6.2-5. Quando um líder espiritual promete soluções fáceis, que não exigem compromisso algum do crente, ele promove uma espiritualidade superficial. A direção da crença ao carisma — ou suposto carisma — sem qualquer atitude espiritual própria não confere com o ensino bíblico tanto do Antigo como do Novo Testamento. Deus sempre exigiu a parte do homem, dando-lhe tarefas e responsabilidades, em obediência à sua Palavra, a fim de que, como justo que é, pudesse agir em favor do fiel (Êx 23.14-17; Js 1.2-9; Dt 28.1,2) 4. Con�ar em Deus não é tentá-lo Outra lição que aprendemos com Ester é que confiar em Deus não significa tentá-lo. Ester confiava em Deus, mas não agiu tentando-o (Êx 17.7; Mt 4.5-7). Mediante o jejum, os judeus pediriam a intervenção divina para que o rei aceitasse a presença de Ester e ela, assim, alcançasse o favor pretendido. Ela, no entanto, sabia que isso poderia não acontecer. Todos iriam jejuar, e ela, então, iriaà presença do rei, disposta até mesmo a morrer se fosse o caso (Et 4.16). Ester não era como os triunfalistas, que só admitem a vitória. Décadas antes, na Babilônia, três outros judeus — Sadraque, Mesaque e Abede-Nego — haviam demonstrado a mesma fé e disposição (Dn 3.17,18). Em nossos dias, são difundidas crenças neopentecostais que acreditam ser possível “colocar Deus na parede”. A soberania de Deus não pode ser desafiada por ninguém (Jó 2.9,10). Apesar de aparentemente espirituais, certas “declarações de fé”, “palavras proféticas” ou “atos proféticos” não encontram fundamento nas Escrituras, tendo o potencial de gerar mais descrença do que convicção e verdadeira confiança em Deus. III – O PLANO: ESTER ENTRA À PRESENÇA DO REI E PROPÕE UM BANQUETE 1. Prudência, preparação e ação Como vimos, Ester não foi à presença de Assuero de repente, sem qualquer preparação; antes, agiu com prudência, esperando o tempo certo, sob a direção de Deus. Para aquele grande desafio, Ester precisaria rogar a Deus que lhe desse a coragem necessária, além de muito equilíbrio e firmeza para dirigir-se ao rei, tanto pelo risco que corria — de não ser recebida — quanto pela missão que tinha: revelar o macabro plano de um homem tão poderoso no reino, o malvado Hamã, que privava da confiança do rei a tal ponto que ambos eram cúmplices e companheiros de bebida (3.15). Há certas pessoas cuja presença pode até mesmo nos intimidar. Em casos assim, precisamos rogar a Deus que nos encoraje e capacite. Ester preparou-se espiritual, emocional e fisicamente: depois de três dias de jejum, pôs a sua veste real e foi ao pátio interior da casa do rei, diante do salão onde ficava o trono (Et 5.1). A sua conduta ensina-nos como devemos ser precavidos para tomar atitudes importantes, que podem impactar nosso futuro (Pv 19.2). Mulheres sábias, como Ester e Abigail, conseguem resolver grandes problemas e evitar muitas tragédias (1 Sm 25.18-35). Abigail, por exemplo, vendo o risco que toda a sua casa corria, preparou-se e, discreta, corajosa e humildemente, foi à presença de Davi, esperando aplacar a sua fúria; e ela foi vitoriosa no seu intento. Se, por um lado, a mulher tem um altíssimo potencial positivo para edificar, tem também para derrubar a própria casa (Pv 14.1). Imprudências e precipitações podem levar a grandes prejuízos. Ester foi ao pátio interior do palácio, mas não se dirigiu diretamente à presença do rei. Infere-se da narrativa bíblica que ela ficou a certa distância, no átrio que antecede o espaço restrito do trono, de onde podia ser vista pelo rei. Fica bastante evidente o quanto Ester foi cuidadosa, humilde e discreta. “Forçar a porta” nunca é a melhor atitude. É mais fácil que se feche e não que venha a abrir-se para nós. 2. Estendendo o cetro A reação de Assuero deve ter produzido um grande alívio em Ester. Ela, então, aproxima-se e toca a ponta do cetro de ouro, como previa o protocolo. Por ser incomum que alguém se apresentasse diante do rei sem ter sido chamado, Assuero logo perguntou o que estava ocorrendo com Ester: “Que é o que tens, rainha Ester, ou qual é a tua petição? Até metade do reino se te dará” (Et 5.3). A disposição de vontade do rei foi manifestada com o uso de uma frase que era comum em tais ocasiões, mas que não deve ser interpretada literalmente; tratava-se de um exagero com o fim de enfatizar a generosidade do rei (Holman, p. 787). Demonstrava generosidade, mas era uma frase convencional (Baldwin, 1986, p. 77), uma expressão proverbial pela qual Assuero assegurou a Ester que não lhe negaria nada que fosse razoável (Henry, p. 856). Herodes usou a mesma expressão com a filha de Herodias, a sua mulher (Mc 6.21-23). Com tamanha disposição, Assuero certamente esperava que viria um grande pedido da parte de Ester, mas ela apenas expressou o desejo de recebê-lo, junto com Hamã, naquele mesmo dia, num banquete que já havia preparado (5.4). 3. Em sintonia com Deus Não há como deixar de perceber como o Senhor estava trabalhando em detalhes na vida de Ester. Ela certamente recebera dEle, no seu coração, durante o período do jejum (ou ao fim dele) toda a orientação de que precisava. Ester estava em sintonia com Deus. O jejum e a oração são maneiras eficazes de aproximarmo-nos de Deus e tornarmo-nos espiritualmente mais sensíveis, prontos para ouvir a sua voz e cumprir os seus propósitos. Não apenas a sua entrada à presença do rei, mas também um banquete específico já estavam preparados para aquele dia (5.4b), como mais uma etapa do detalhado processo para alcançar a vitória pretendida. Mesmo o rei prontificando-se a atender Ester de forma imediata, ela agiu com cautela, esperando o momento certo. Na primeira ocasião, apenas convidou o rei para um banquete, junto com Hamã. Na hora do banquete, o rei renovou a sua disposição em atender a qualquer pedido de Ester. Era a segunda oportunidade, mas ainda não era o momento adequado. Ester convidou Assuero e Hamã para outro banquete no dia seguinte, quando, então, faria o seu pedido (5.8). Uma noite importante separava os fatos. Os desígnios de Deus são perfeitos, e Ester estava mesmo em sintonia com a providência divina. Confiar em Deus e depender dEle faz com que vivamos experiências extraordinárias. Assuero e Hamã foram para casa. As próximas 24 horas seriam decisivas. CONCLUSÃO Confiar em Deus e depender dEle faz com que vivamos experiências extraordinárias. O agir divino manifesta-se em todas as áreas de nossa vida. O Deus Todo-poderoso estava agindo, e Ele jamais perde o controle. Descansemos, pois, nEle. 1 Archer Jr. (2012, p. 529) apresenta o desenho de um palácio, em que a casa das mulheres aparece ao lado da casa do rei, com o seu próprio pátio interior. Provavelmente uma área privada de recreação. 2 O historiador grego narra, inclusive, que Assuero levou muitas concubinas entre as milhões de pessoas que o acompanharam na sua campanha militar contra a Grécia. 3 A ARC traz o verbo ordenar, enquanto a NAA diz apenas que era para Hataque pôr Ester a par de tudo, a fim de que ela fosse falar com o rei. A NVI traduz como “e insistisse com ela”. É bastante razoável entender que Mardoqueu tenha feito um veemente apelo com Ester, ou simplesmente dito a ela que fosse falar com o rei, na condição de primo e pai adotivo. Ele não podia conceber atitude diferente de Ester. N Capítulo 11 A HUMILHAÇÃO DE HAMÃ E A HONRA DE MARDOQUEU INTRODUÇÃO o dia anterior, Ester havia recebido Assuero e Hamã para um banquete. O rei concedeu-lhe pedir o que quisesse, com uma expressão de generosidade comum quando o monarca agradava-se profundamente de alguém: “[…] Peça, e lhe será dado. O que você quer? Será dado, mesmo que seja metade do reino” (Et 5.6, NAA). Em vez de fazer o pedido, Ester agendou um novo banquete para o dia seguinte, também com Assuero e Hamã. Muita coisa mudaria em menos de 24 horas. Não há dúvida de que o Deus da providência — que tudo vê mesmo antes que aconteça — estava guiando o coração de Ester. Conceituando providência, J. Rodman Williams (2011, p. 101) escreve: A providência pode ser definida como o cuidado de Deus como supervisor e guardião de toda a criação. Essa atividade é tão vital que Deus é às vezes denominado Providência. Nas Escrituras, a designação antiga de um lugar é “o Senhor proverá”, pois foi ali que Deus proveu um carneiro para Abraão, em lugar do sacrifício de seu filho, Isaque. […] A providência divina é muito mais que só um cuidado geral que Deus tem por sua criação. Com certeza, é adequado dizer que Deus tem um interesse benevolente por todas as suas criaturas. Entretanto, da mais profunda importância é seu cuidado particular por todas elas, uma por uma; pois de fato, conforme declara Jesus, até com respeito aos pardais: “Nenhum deles cai no chão sem o consentimento do Pai de vocês” (Mt 10.29), e com respeito aos seres humanos: “Até os cabelos da cabeça de vocês estão todos contados” (Mt 10.30). Deus em sua providência está interessado nas minúcias de sua criação. Williams observa, contudo, que A doutrinada providência não é uma doutrina de otimismo superficial. Não é olhar para o mundo através de óculos cor-de-rosa, como se não houvesse nem problemas, nem sofrimento, nem mal. Além do que, esse agir providencial de Deus não retira a liberdade humana. Nada pega Deus de surpresa. Na sua presciência, Ele sabe o que estará nos jornais de amanhã. 1. O instável Hamã: exultação e fúria Uma noite decisiva separava o primeiro e o segundo banquete oferecido por Ester. Entre eles, dois cenários distintos foram formados ao mesmo tempo: um envolvendo Hamã, e o outro, Assuero. Hamã deixou o banquete exultante; afinal de contas, não apenas o rei, mas também a rainha estariam agora lhe prestando honras. Ao sair dos recintos palacianos, Hamã viu Mardoqueu à porta do rei, e o seu humor logo se alterou; antes ele estava “alegre e de bom ânimo”, e agora estava cheio de furor (Et 5.9). O agagita era instável nas suas emoções. Era capaz de ir de uma alegria juvenil a uma fúria canina de um instante a outro. Esse tipo de patologia costuma manifestar-se em muitas pessoas. Conquanto ninguém esteja livre de ser tomado pela ira, ao cristão não é dado aceitar essa condição, buscando ser livre de toda instabilidade emocional, vivendo sob o controle do Espírito (Gl 5.22b). O ensino paulino é para que façamos morrer tudo o que pertence à natureza terrena, abandonando a ira (Cl 3.5,8). Aos efésios, após admitir que o crente pode ficar irado, mas não pecar (Ef 4.26), Paulo diz: “Livrem-se de toda amargura, indignação e ira […]” (4.31, NVI). Um estágio, portanto, é irar-se e não pecar; outro, mais elevado — e possível —, é sequer ser tomado pela ira. Hamã conteve a ira em público (“se refreou”, 5.10) e foi para casa enfurecido. Ele precisava desabafar com alguém. Chamou os seus amigos e a sua mulher, Zeres, para falar de sua frustração: a riqueza e a elevada posição no reino não o satisfazia enquanto visse Mardoqueu assentado à porta do rei. Hamã não podia nem mesmo esperar pelo dia da pretendida matança geral dos judeus, que já estava marcado. O ódio consumia-lhe por inteiro. Aconselhado pela mulher e pelos amigos, decidiu que pediria ao rei que enforcasse Mardoqueu no dia seguinte. Hamã foi dormir com tudo planejado — se é que conseguiu dormir naquela noite, já que certamente não via a hora de pôr as mãos em Mardoqueu. Até a forca mandou que fosse preparada (5.14). A altura dessa forca intriga muitos eruditos: cinquenta côvados (mais de vinte metros).1 Joyce G. Baldwin (1986, p. 79) pondera que, apesar de surpreender os comentaristas ocidentais, como um exagero, tudo o que era construído pelos governantes persas naquela época era em grande escala. Pode significar que Hamã, a sua mulher e amigos pretendessem protagonizar um espetáculo com a morte do seu desafeto. É nesse sentido que o comentário da Bíblia de Estudo Cronológica Aplicação Pessoal diz: É provável que a forca tenha sido construída sobre a muralha da cidade ou sobre alguma edificação proeminente. Eles queriam garantir que todas as pessoas da cidade assistissem à morte de Mardoqueu e fossem lembradas das consequências de desobedecer Hamã.2 A mulher de Hamã (Zeres) e os seus amigos revelaram-se tão sanguinários quanto o próprio Hamã, além de sórdidos: disseram a Hamã que, depois do enforcamento de Mardoqueu, ele poderia ir “alegremente ao banquete com o rei” (5.14b, NVT). 2. Os privilégios de Hamã no palácio Outro ponto a ser destacado da narrativa em estudo diz respeito aos privilégios que Hamã desfrutava junto ao rei. Embora a ele também se aplicasse a lei proibitiva de ir à presença do monarca se não fosse por ele chamado, o texto sugere que Hamã tinha o costume de furar a fila, insinuando- se. Ele apresentava-se no pátio exterior do palácio para conseguir audiência sem convite ou agendamento; tanto é que a sua mulher e amigos aconselham-no a fazer a forca e, já no dia seguinte, dizer ao rei que enforcasse Mardoqueu (5.14). De fato, Hamã foi ao palácio, pondo-se no pátio exterior, onde, sendo anunciado ao rei, aguardava ser chamado por ele, como realmente aconteceu naquela ocasião (6.4,5). Assuero: Insônia e Nostalgia Enquanto Hamã, na sua casa, tramava contra Mardoqueu, Assuero, nos seus aposentos, tentava dormir, porém sem sucesso. Fugiu-lhe o sono. O que teria produzido insônia no rei? Wiersbe (2006, p. 716) apresenta algumas sugestões em forma de indagações: Foram as preocupações com assuntos de Estado que não deixaram o rei dormir? Estava preocupado com suas finanças? Será que comeu e bebeu demais no banquete da rainha? Ou será que estava intrigado com o pedido de Ester. Algumas dessas preocupações, ou uma combinação de todas elas, pode ter contribuído para a insônia do rei, mas por trás delas estava a mão soberana de Deus, que cuida do seu povo e nunca dormita nem dorme (Sl 121:3,4). Deus queria que o rei ficasse acordado, pois tinha algo a lhe dizer. Tomado de certa nostalgia, o rei pediu que lhe trouxessem o livro das memórias das crônicas e lessem para ele (6.1). Conforme o Dicionário Bíblico Wycliffe (p. 1173): “os reis da Antiguidade conservam os registros da corte em livros”. Deus, na sua providência divina, continuava agindo. Wiersbe comenta (p. 718): Deus orientou Assuero a pedir que lessem para ele as crônicas do reino (um remédio garantido para qualquer insônia!). Mas Deus também orientou o servo de modo que este tirasse da estante exatamente o livro em que se encontrava registrado o serviço prestado por Mordecai ao reino cinco anos antes. Sem dúvida, havia outros volumes disponíveis, mas foi esse que o servo escolheu. No caso de Assuero, o trecho escolhido tinha o registro do ato de fidelidade de Mardoqueu, que livrara o rei de ser vítima de uma terrível conspiração. Dois dos seus guardas do palácio planejaram matá-lo, como registra Ester 2.21-23. “Que honra e galardão se deu por isso a Mardoqueu?” (6.3). A pergunta de Assuero deixa implícito que era comum recompensar os que praticassem atos heroicos na corte, só que Mardoqueu havia ficado (aparentemente) esquecido. Não é demais considerar que a mão de Deus estava fora do habitual até nesse ponto. Se Mardoqueu tivesse sido recompensado logo após revelar a conspiração, a história não teria o mesmo desfecho. Sempre é melhor deixar o Todo-Poderoso dirigir o enredo de nossa vida, pois Ele — e somente Ele — pode garantir-nos um desfecho realmente feliz — e não somente nesta vida, mas na vida eterna. 3. Forca ou honra? Enquanto Mardoqueu dormia, duas pessoas planejavam o seu futuro. Não é incomum que outras pessoas sejam movidas a agir de maneira a afetar nossa existência. Algumas, como Hamã, planejam nosso mal; já outras, como Assuero, são usadas para preparar momentos de honra para nós. No fim das contas, tudo vem de Deus, porque Ele tem poder sobre tudo e todos. Davi tinha consciência de que o Senhor podia defendê-lo e escondê-lo dos seus inimigos (Sl 35.1-4 – NAA). Hamã preparou uma forca para Mardoqueu, mas Assuero, um dia de honra. Queiramos ou não, o que outras pessoas pensam e fazem pode produzir consequências em nossa vida. Por isso, nossos relacionamentos interpessoais devem estar pautados no temor a Deus. Dar a cada um o que é devido é um dos meios de não nos deixar enganar pelo individualismo, uma ideologia antibíblica que tem, entre as suas expressões, a ideia de que o indivíduo é capaz de realizar-se sozinho, independentemente das pessoas que o cercam. “Eu não preciso de ninguém”, pensam. É a conhecida autossuficiência. A ética cristã, contudo, ensina-nos o quão essenciais são os relacionamentos humanos e como o Senhor trabalha através deles (Ef 4-6). O Novo Testamento possui inúmeros versículos com a expressão “uns aos outros” (Jo 13.34; 1 Ts 5.11; Ef 5.21; Tg 5.16; Gl 6.2). Coisas boas e ruins podem simplesmente nos alcançar, vindas de pessoas que nos cercam. Quando tememos a Deus, Ele intercepta o mal e faz com que sejamos alcançados pelas bênçãos (Sl 91.5-10; Dt 28.2). A maldição não atinge a quem o Senhor abençoa (Nm 23.8; Dt 23.5; Pv 26.2). No caso de Mardoqueu,o intento maligno seria totalmente frustrado diante da inesperada disposição de Assuero em dar honra a alguém que havia ficado (aparentemente) esquecido durante aproximadamente cinco anos. Naquela noite, contudo, o Deus que tem poder sobre todas as coisas, incluindo a fisiologia humana, tirou o sono do rei (Sl 127.2). Assuero já estava há cerca de treze anos no trono; logo, eram muitos os relatos contidos no livro. A providência divina fez com que fosse lido exatamente o trecho que falava do feito de Mardoqueu, que pôs fim à conspiração contra o rei: “Deus age em todas as coisas para o bem daqueles que o amam” (Rm 8.28, NVI). Em vez da forca, uma grande honra estava à espera de Mardoqueu. II – HAMÃ É CHAMADO PARA HONRAR MARDOQUEU 1. Um ato de justiça Assuero decidiu honrar Mardoqueu, mas não sabia como. Certamente, era comum haver alguém no pátio do palácio; por isso, o rei perguntou quem lá estava naquele momento a fim de consultar tal pessoa quanto à dúvida que lhe surgira. Tudo indica que era ainda bem cedo, pois Assuero não tinha dormido à noite, e Hamã, ainda que tenha dormido um pouco, estava ansioso para avistar-se com o rei e obter a sentença de morte de Mardoqueu. O chamado do rei certamente o surpreendeu, sendo tão rápido. Levado à presença do rei, não teve oportunidade de falar- lhe o que pretendia, pois Assuero logo o interpelou com um questionamento: “Que se fará ao homem de cuja honra o rei se agrada?” (6.6). Quem mais poderia o rei querer honrar senão o próprio Hamã? Afinal de contas, o seu prestígio só crescia na corte. Não apenas o rei, mas agora também a rainha fazia questão de tê-lo por perto, presente em banquetes exclusivos. Ele, Hamã, sozinho com o casal real em banquetes especiais! Cheio de presunção, “Hamã disse no seu coração: De quem se agradará o rei para lhe fazer honra mais do que a mim?” (6.6b). Presumir-se digno de honra é um sinal de soberba e orgulho. Esse terrível sentimento, nutrido inicialmente por Lúcifer (Is 14.13,14), foi instilado na mente de Eva e é lançado constantemente nos corações humanos (Gn 3.1-5; Pv 16.18- 19). A Palavra de Deus, contudo, exorta-nos a preferir a humildade, seguindo o exemplo de Cristo (Fp 2.3-6). Escrevendo aos Romanos, Paulo exorta que não devemos ambicionar coisas altas, mas acomodarmo-nos às humildes (Rm 12.16). Esse conselho bíblico — de não ambicionar coisas altas ou não ter pretensões de grandeza — não encontra eco em algumas teologias contemporâneas, como a teologia do coaching, que, em grande parte, instiga o pensar grande, numa falsa espiritualidade. Hamã estava cheio de si, imaginando que seria honrado. Mardoqueu estava aflito, diante da ameaça de extermínio dos judeus. Naquele dia, contudo, muita coisa mudaria na sua vida, a despeito de ele não ter qualquer pretensão de grandeza. Como já observamos, mesmo depois de Ester ser rainha e Mardoqueu revelar a conspiração contra Assuero, a sua posição e comportamento não sofreram alteração. Ele voltou para a porta do rei e não se insinuava para nada. Quanto a Hamã, apesar de ser riquíssimo e ocupar um cargo tão alto no Império Persa, vivia atordoado pelas suas próprias paranoias e desejo de grandeza. Com isso, além de Mardoqueu, Hamã constituiu todos os judeus do reino como os seus inimigos. Para sentir-se bem em algum momento, precisava viver de afagos no ego; era um quadro realmente doentio. Devemos ser alimentados diariamente pela alegria que vem de Deus e não condicionar nossas emoções às circunstâncias do momento (Ne 8.10; Jo 15.11; Fp 4.4-7; 1 Pe 5.17). Equilíbrio emocional e espiritual é sinal de maturidade espiritual; fruto do Espírito (Gl 5.22). 2. O devido lugar da honra Hamã não pensou duas vezes quando Assuero lhe perguntou o que fazer ao homem que o rei desejava honrar. Acreditando ser ele o destinatário da honraria, respondeu de pronto: “[…] Quanto ao homem de cuja honra o rei se agrada, traga a veste real de que o rei se costuma vestir, monte também o cavalo em que o rei costuma andar montado, e ponha-se-lhe a coroa real na sua cabeça” (6.7,8). A sugestão também incluía que tal homem fosse conduzido por um dos príncipes do rei, “dos maiores senhores”, com uma proclamação pública: “Assim se fará ao homem de cuja honra o rei se agrada!” (Et 6.6,7-9). Assuero não apenas acatou a sugestão de Hamã, mas imediatamente ordenou que ele tomasse as providências necessárias para honrar o judeu Mardoqueu. A presença do termo “judeu” na fala de Assuero não deve ser um mero detalhe. Esse dado, ainda que sutil, certamente vai permanecer na mente do rei e será ativado quando, no próximo banquete, Ester revelar o ardiloso plano de Hamã, de exterminar o seu povo, os judeus. Nesse sentido, a honra a Mardoqueu tinha um simbolismo relevante por conta da sua condição de judeu. Ouvir que deveria honrar “o judeu Mardoqueu” produziu uma frustração descomunal em Hamã. Além de não ser ele o honrado, e sim o seu desafeto, Hamã teria que fazer o papel de puxador do cavalo (Et 6.10,11). Sem dúvida, isso o deixou ainda mais enfurecido e muito envergonhado (Et 6.12). Não se alegrar quando alguém é honrado geralmente é sintoma de algum sentimento faccioso, ciúme ou inveja; expressões do terrível orgulho. Devemos rogar a Deus que nos dê a graça de sempre nos alegrar quando alguém é honrado e ter um coração disposto a honrar os outros. Honrar os que são dignos de honra agrada a Deus e não deve ser confundido com bajulação (1 Pe 2.17; 1 Ts 5.12,13). Mas a concessão da honra há que ser justa, para não ser banalizada. Não deve ser motivada por interesses rasteiros ou sub-reptícios. O processo de honra também é distorcido quando não há espontaneidade. Honra não se exige; recebe-se com humildade, cuidando para não se ensoberbecer. Como já observamos, mesmo com toda a honra recebida, Mardoqueu “voltou para a porta do rei” (Et 6.12); ele não se empolgou, adotando um comportamento diferente, na vã crença de que a honra conferida faria dele alguém digno de uma posição melhor. Um momento de fama pode entorpecer. Uma honra efêmera pode levar-nos a esquecer nosso verdadeiro lugar e deixar-nos ao vento. É preciso manter os pés no chão. Mesmo quando certas honras abrem-nos novos espaços, devemos sempre nos lembrar quem realmente somos e de onde viemos. Não somos nada e nada podemos fazer sem a graça de Deus (1 Co 15.10). III – A SÍNDROME DO IMPERADOR 1. A soberba de Hamã Você ouviu falar na “síndrome do imperador”. O comportamento de Hamã lembra-nos dessa patologia. Quando fez a sua sugestão ao rei, imaginando que a honra seria para ele, Hamã expressou os desejos que lhe eram próprios: queria roupa de rei, cavalo de rei e coroa de rei (Et 6.8). Atualmente, tem sido identificada em crianças e adolescentes a “síndrome do imperador”, que os faz pensar que são o centro de tudo. São egocêntricos. Querem reinar dentro e fora de casa. Ditam as regras e exigem o que querem. Os pais não passam de agentes responsáveis por atender os seus desejos, por mais excêntricos que sejam. A falta de limites faz com que a criança cresça acreditando que todas as suas vontades devem ser atendidas. Quando adultas, não admitem frustrações e passam a usar todos os expedientes possíveis para alcançar as suas pretensões. Talvez Hamã tenha crescido num ambiente permissivo, o que fez dele um adulto compulsivo por poder, posições e honras. Sem correção, os filhos podem crescer como um Hamã, cheios de soberba e presunção (Pv 23.13,14; 29.15,17,23; 30.17). Deus quer dar a nós famílias saudáveis (Sl 127.1-5; Sl 128.1-6). Nosso papel é exercer um amor responsável, que corrija quando necessário. Desenvolver relacionamentos de amizade com os filhos também é fundamental, dedicando tempo de qualidade para aprofundar a convivência. Acima de tudo, precisamos viver em constante vigilância e oração por eles e por toda a nossa casa (Hb 12.7-9; Jó 1.5; Sl 144.12). 2. Um mau prenúncio Enquanto Mardoqueu voltou para a porta do rei, depois da honra recebida, Hamã “se retirou correndo a sua casa, angustiado e coberta a cabeça” (6.12).(A NTLH traz a expressão “escondendo o rosto”). Pode-se imaginar o nível de indignação e vergonha de Hamã enquanto percorria as ruas da cidade. Terminada a missão que tanto o humilhou, não viu a hora de ir para casa, fugindo do olhar de todos. Frustrado, compartilhou com a sua mulher, Zeres, e os seus amigos as frustrantes experiências daquele dia, muito diferentes do que esperava. Em vez de enforcado, Mardoqueu havia sido publicamente honrado. Para piorar a situação, a sua mulher e os seus amigos fizeram-lhe um péssimo prenúncio. Em vez de consolo, Hamã recebeu uma sentença aterradora: “Você já começou a perder a luta com Mordecai. Ele é judeu, e você não vai ganhar de jeito nenhum. Você vai perder na certa” (Et 6.13, NTLH). A declaração da mulher e dos amigos de Hamã indica que eles provavelmente conheciam a história de resiliência dos judeus. Era mesmo um mau prenúncio para Hamã. CONCLUSÃO A conversa ainda estava em andamento, quando os servos do rei chegaram “para levar Hamã, com toda a pressa, ao banquete que Ester havia preparado” (6.14b, NBV). Hamã sequer teve tempo de tentar recuperar-se da grande frustração do dia. Pior! Depois de um dia de tanta humilhação, teria que comparecer a um banquete com o rei e a rainha, arruinado por dentro. Com Deus está o poder de humilhar e de exaltar. “É Deus quem julga: Humilha a um, a outro exalta” (Sl 75.7, NVI). Em menos de 24 horas, o cenário mudou bastante em Susã — e muita coisa ainda aconteceria nas próximas horas. 1 Há referências entre vinte e vinte e cinco metros de altura. Esse tamanho costuma variar, conforme se considera a medida de um côvado. O Dicionário Bíblico Wycliffe (p. 1521) esclarece que nos tempos bíblicos as declarações de peso ou medida eram necessariamente aproximadas. O côvado, por exemplo, que era usado no Egito, Canaã e Mesopotâmia, tinha variação de comprimento em cada região. Na Mesopotâmia, variava de 49,5 a 50 centímetros. 2 Em relação ao local da forca, o texto bíblico diz que era “junto à casa de Hamã” (7.9). Podendo ser, então, que tivesse sido preparada em alguma árvore. Capítulo 12 O BANQUETE DE ESTER: DENÚNCIA E LIVRAMENTO INTRODUÇÃO Na lição anterior, vimos como Deus agiu para alterar todo o cenário em Susã. Mardoqueu foi honrado e Hamã humilhado. As condições agora eram outras. Até a mulher e os amigos de Hamã já prenunciavam a sua derrota. Tudo será resolvido no segundo banquete oferecido por Ester. I – O BANQUETE E A DENÚNCIA 1. A instabilidade de Hamã Os fatos estudados no capítulo anterior devem ter ocorrido ao longo de todo o dia. Um dia de honra para Mardoqueu, mas de terrível frustração e vergonha para Hamã, que havia saído cedo de casa, determinado a conseguir do rei a ordem de enforcamento de Mardoqueu. Em vez disso, serviu de guia para o cavalo que transportou o seu desafeto judeu pelas ruas de Susã. Provavelmente, já no fim da tarde, de volta em casa, enquanto ouvia da própria mulher e amigos um prenúncio totalmente desfavorável, chegaram os servos do rei para levá- lo apressadamente ao banquete preparado por Ester (Et 6.14). Hamã estava, de fato, muito perturbado. Ir a um banquete naquelas circunstâncias deve ter sido muito desconfortável. 2. O banquete do vinho O capítulo 7 é aberto com a informação de que Hamã acompanhou o rei na ida ao banquete; logo, é certo que os servos do rei buscaram-no em casa e levaram-no ao palácio, onde Assuero aguardava. De lá seguiram para a casa principal das mulheres, que muito provavelmente ficava anexa ao palácio real. Ester já os aguardava. Outra informação do texto bíblico é que Assuero e Hamã estariam indo “beber com a rainha Ester” (7.1). O versículo seguinte denomina o banquete como “banquete do vinho” (7.2). O tema do vinho costuma causar muita discussão e polêmica, fomentadas especialmente pelos que querem justificar o uso da bebida. O exame das Escrituras garante uma posição de equilíbrio. Não se pode negar que o Antigo Testamento tenha muitos casos de uso do vinho embriagante, inclusive no contexto judaico. No texto em apreço, o contexto é o reino da Pérsia, em que, assim como nos demais reinos pagãos de toda a história, o uso do vinho era comum, principalmente nas festas e banquetes. Não somente as uvas, mas também romãs, maçãs, tâmaras, cevada e trigo eram usados para fazer bebidas alcoólicas em todo o mundo bíblico (Yamauchi e Wilson, 2020, p. 313). A respeito do vinho nos tempos do Antigo Testamento, diz o Comentário da Bíblia de Estudo Pentecostal (p. 241): De um modo geral, há duas palavras hebraicas traduzidas por “vinho” na Bíblia. (1) A primeira palavra, a mais comum, é yayin, um termo genérico usado 141 vezes no AT para indicar vários tipos de vinho fermentado ou não fermentado […]. (a) Por um lado, yayin aplica-se a todos os tipos de suco de uva fermentado (Gn 9.20,21; 19.32,33; 1 Sm 25.36,37; Pv 23.30,31) […]. (b) Por outro lado, yayin também se usa com referência ao suco doce, não-fermentado, da uva. Pode referir-se ao suco fresco da uva espremida […]. (2) A outra palavra hebraica traduzida por “vinho” é tirosh, que significa “vinho novo” ou “vinho da vindima”. Tirosh ocorre 38 vezes no AT; nunca se refere à bebida fermentada, mas sempre ao produto não-fermentado da videira, tal como o suco ainda no cacho de uvas (Is 65.8), ou o suco doce de uvas recém- colhidas (Dt 11.14; Pv 3.10; Jl 2.24) […]. (3) Além dessas duas palavras para “vinho”, há outra palavra hebraica que ocorre 23 vezes no AT, e frequentemente no mesmo contexto — shekar, geralmente traduzida por “bebida forte” (e.g., 1 Sm 1.15; Nm 6.3). Certos estudiosos dizem que shekar, mais comumente, refere-se a bebida fermentada, talvez feita de suco de fruto de palmeira, de romã, de maçã, ou de tâmara. Em Ester 7.2, o termo hebraico original é yayin; portanto, vinho fermentado. De mais a mais, é natural que o contexto expressasse esse sentido, porque, como já afirmado, o vinho fermentado era consumido largamente nas sociedades pagãs da Antiguidade, como no caso dos persas, que gostavam de vinho e bebiam em grandes quantidades (Heródoto apud Yamauchi e Wilson, ibid., p. 317). A bebida era servida em requintados recipientes feitos de ouro e de prata, conhecidos como rítons, os quais impressionavam os gregos (idem). O Vinho entre os Judeus Embora não houvesse proibição rigorosa para o uso do vinho pelos judeus (Ne 5.18), o Antigo Testamento é enfático quanto aos terríveis males da bebida, como acentua o Comentário da Bíblia de Estudo Pentecostal (p. 242): Em vários lugares o AT condena o uso de yayin e shekar como bebidas fermentadas. (1) A Bíblia descreve os maus efeitos do vinho embriagante na história de Noé (Gn 9.20-27). Ele plantou uma vinha, fez a vindima, fez vinho embriagante de uva e bebeu. Isso o levou à embriaguez, à imodéstia, à indiscrição e à tragédia familiar em forma de uma maldição imposta sobre Canaã. Nos tempos de Abraão, o vinho embriagante contribuiu para o incesto que resultou em gravidez nas filhas de Ló (Gn 19.31-38). (2) Devido ao potencial das bebidas alcoólicas para corromper, Deus ordenou que todos os sacerdotes de Israel se abstivessem de vinho e doutras bebidas fermentadas, durante sua vida ministerial. Deus considerava a violação desse mandamento suficientemente grave para motivar a pena de morte para o sacerdote que a cometesse (Lv 10.9-11). (3) Deus também revelou a sua vontade a respeito do vinho e das bebidas fermentadas ao fazer da abstinência uma exigência para todos que fizessem voto de nazireado […]. (4) Salomão, na sabedoria que Deus lhe deu, escreveu: “O vinho é escarnecedor e a bebida forte, alvoroçadora; e todo aquele que neles errar nunca será sábio”. No caso dos sacerdotes, as Escrituras demonstram que a total abstinência do vinho visava estabelecer uma clara distinção entre o santo e o profano e servir de ensino aos israelitas (Lv 10.8,9). A alusão ao vinho como algo impuro ou profano é uma mensagem absolutamente contundente sobre a incompatibilidade da bebida alcoólica para quem deseja agradar a Deus e servi-lo comfidelidade. Além disso, o texto veterotestamentário ressalta o exemplo dos recabitas, que se abstiveram totalmente do vinho e foram honrados pelo Senhor (Jr 35.6-19). Por tudo isso, é absolutamente temerário relativizar o ensino de abstinência total do uso do vinho e de todas as demais bebidas alcoólicas, lançando mão de textos bíblicos que apresentam a prática por personagens da história sagrada. Além da advertência geral sobre o perigo dos embriagantes, muitos exemplos de nosso tempo mostram os grandes prejuízos morais e espirituais que sofrem os que preferem o caminho da licenciosidade, agindo como antinomistas (ou antinomianos).1 No Novo Testamento, o ensino é não se embriagar com o vinho, mas encher-se do Espírito (Ef 5.18). Devemos fugir de toda a aparência do mal e abstermo-nos totalmente de tudo o que não convém aos santos (1 Ts 5.22; 1 Co 6.9,10; 1 Co 6.12). O apóstolo Paulo escreveu aos Romanos que não devemos agradar a nós mesmos, mas agradar ao próximo, fazendo tudo o que for bom para a edificação, seguindo o exemplo de Cristo (Rm 15.1-3). Se cada um na igreja sentir-se livre para fazer o que agrada a si mesmo, logo nenhuma prática ficará restrita, porque os desejos carnais são múltiplos, de toda ordem. Quando todos renunciam em favor da edificação do corpo, todos são edificados e crescem na fé. 3. “Qual é a tua petição?” O suspense do dia anterior parece ter deixado Assuero extremamente curioso e determinado a saber o que inquietava a rainha, a fim de atendê-la. À luz da narrativa bíblica, mal o banquete começou, o rei já perguntou a Ester qual era a sua petição. O fato de a rainha haver comparecido à sua presença correndo risco de morte e, no primeiro banquete, ter ficado em silêncio quanto ao que a afligia deve ter levado Assuero a suspeitar que algo muito grave estaria acontecendo; daí sua prontidão a novamente inquirir: “Qual é a tua petição, rainha Ester? […] qual é o teu requerimento? Até metade do reino se fará” (Et 7.2). Da mesma forma como a pergunta, a resposta de Ester foi imediata. A essa altura, talvez o coração da rainha estivesse acelerado. Uma jovem judia, sem nenhuma tradição real, estava diante do grande imperador persa e do algoz do seu povo, os judeus, e teria que ser firme na sua declaração. Ester revelou-se uma mulher forte e decidida, denunciando o mau Hamã (Et 7.3-6). A força moral de Ester certamente vinha do fato de ela ter sido criada em obediência e temor. Em tempos nos quais tanto se critica o obedecer a regras, é preciso considerar que não há crescimento moral sem disciplina; não se forja o caráter sem ela, muito menos se constrói uma estrutura emocional forte, e isso se aplica a todos. A mulher virtuosa de Provérbios 31 tinha todo um rol de qualificativos, sendo a maioria deles voltado para o cumprimento dos seus deveres (Pv 31.12-24), o que fez dela uma mulher forte, que sabia “[abrir] a boca com sabedoria” sem perder a compostura (Pv 31.26). Ester foi essa mulher, que não titubeou no momento de denunciar ao mau Hamã. II – A FÚRIA DO REI CONTRA A INJUSTIÇA 2. A revelação do plano O plano de Hamã foi denunciado (Et 7.4), e o pedido da rainha era a vida do seu povo. Ouvido o relato de Ester, Assuero faz uma pergunta intrigante: “Quem é esse? E onde está esse cujo coração o instigou a fazer assim?” (7.5). 3. Quem fez isso? A indagação de Assuero parecia mesmo estranha. Não era razoável que não tivesse conhecimento da extensão do decreto com a sua assinatura (Et 3.12,13). Contudo, não se pode presumir que um rei ou qualquer governante saiba em detalhes tudo o que se passa no seu palácio ou jurisdição. Às vezes, até mesmo dos pais escapam fatos ocorridos dentro de casa, próximo dos seus olhos. Não era de todo irrazoável, portanto, que Assuero estivesse surpreso com a notícia trazida pela rainha — aliás, talvez o excesso de poder concedido a Hamã tenha resultado nisso. Inteirado dos detalhes do plano, Assuero mudou completamente de posição. Conquanto tivesse concedido amplos poderes ao agagita, Assuero amava Ester (Et 2.17). Hamã havia ido longe demais! Abusou da confiança do rei. A lição que podemos tirar desse ponto é: nas famílias ou em qualquer grupo social, a convivência legítima deve ser respeitada. Cada um deve entender o seu próprio limite e não abusar de direitos ou medir forças, no estilo “ou ele(a) ou eu!”, como acontece, às vezes, em pueris disputas entre nora e sogra. Nem a esposa e nem a mãe devem acreditar que podem ter exclusividade do marido/filho. Cada uma tem o seu valor e o seu papel. A mesma Bíblia que diz que o varão deve deixar o seu pai e a sua mãe e unir-se à sua mulher (Gn 2.24) diz que o filho deve honrar pai e mãe, o primeiro mandamento com promessa (Ef 6.2). Essa honra, aliás, é para toda a vida, especialmente na velhice (1 Tm 5.4,8). Por tudo isso, disputar para si toda a atenção — seja filho, seja irmão, marido, esposa, pai, mãe, etc. — é atrair o mal para si mesmo, num efeito bumerangue, como aconteceu com Hamã. Não se contentando com a alta posição que tinha, ele queria exclusividade no reino. Estava a poucos instantes de perder tudo — inclusive a vida. 3. A terrível reação do rei O livro de Ester nos mostra como um grande monarca mudou totalmente de atitude sob a ação do Deus que controla o Universo. O que aconteceu com Assuero para que mudasse completamente, reprovando a atitude que ele próprio havia tomado? “Deus pode mover o coração de um rei e de toda uma nação. Tem poder para derrubar a antes impenetrável Cortina de Ferro” (Swindoll, p. 157). Como escreveu Salomão: “O coração do rei é como canais de águas controladas pelo SENHOR; ele os conduz para onde quer” (Pv 21.1, NVT). A consciência de Assuero deve ter sido ativada para que entendesse o tamanho da injustiça feita aos judeus, o povo da sua rainha. Diante da sua manifesta indignação, Ester disse, com toda a firmeza, cara a cara com Hamã: “O homem, o opressor e o inimigo é este mau Hamã” (Et 7.6). Às vezes, nós mesmos nos desconhecemos em certos momentos. (Já vivi algumas experiências assim, nas quais recebi autoridade para confrontar pessoas hostis, que pretendiam grotescamente intimidar-me. Depois, eu mesmo não entendi como pude ter reagido com tanta autoridade, a ponto de calar o agressor. O que não podemos fazer é agir por nós mesmos. Seguir a direção de Deus sempre: é isso que precisamos fazer. Em certas horas, é o Espírito que nos capacita para falar. Em muitas outras, simplesmente nos faz calar. Nessas ocasiões, a vitória está no silêncio, e não no timbre da voz). Segundo os seus propósitos, somos capacitados por Deus, no momento certo, a “[erguer] a voz em favor dos que não podem se defender” (Pv 31.8). Ester não agiu de forma temerária ou precipitada. Ele não instigou motim ou qualquer expediente violento, confiando na sua própria força (2 Co 10.4), mas manteve a sua confiança em Deus e soube agir na hora certa, no lugar certo e da maneira certa. A reação física de Assuero não deixou dúvida quanto ao tamanho da sua fúria: ele levantou-se do banquete e foi para o jardim do palácio, o que demonstra uma repulsa à presença de Hamã. É como se dissesse: Como pôde fazer isso? (Et 7.7). A essa altura, Hamã já estava apavorado. A reação que teve foi lançar-se sobre o assento da rainha, rogando-lhe misericórdia. A situação ficou ainda pior. O rei voltou do jardim e viu Hamã prostrado sobre o divã2 de Ester e fez uma péssima interpretação da cena: Hamã estaria querendo desonrar a rainha diante do próprio rei? (Et 7.8, NAA). É claro da circunstância que essa não era a intenção de Hamã, mas Assuero permitiu-se fazer essa inferência diante da cena. Houve uma grave quebra de protocolo. Walton, Matthews e Chavalas (2018, p. 636) explicam: Os persas costumavam reclinar-se em divãs enquanto tomavam as refeições. Hamã, desesperado, violou um rígido protocolo que estabelecia regras para qualquer pessoa que se aproximasse da rainha. Se alguém fosse encontrado no mesmo divã em que um membro do harém estivesse reclinado, as consequências seriam terríveis.Na Assíria do século 11, o protocolo estabelecia que as pessoas deveriam manter a distância mínima de sete passos de um membro do harém. III – O GRANDE LIVRAMENTO 1. A história da forca chegou ao palácio A leitura da reação física e verbal de Assuero foi rapidamente feita pelos seus servos, que cuidaram de cobrir o rosto de Hamã, significando que sabiam que a morte do agagita era certa. Salomão escreveu que “A fúria do rei é como o rugido do leão; quem o provoca peca contra a própria vida” (Pv 20.2, NAA). Conforme o Comentário da Bíblia de Estudo Cronológica Aplicação Pessoal (p. 1192), colocava-se um véu sobre o rosto de uma pessoa condenada à morte, porque os reis persas recusavam-se a olhar para o rosto de quem tinha recebido essa sentença. Esse mesmo costume houve entre os gregos e os romanos (Baldwin, p. 84). Com Hamã já com o rosto coberto, Harbona, um dos servos do rei, jogou ainda mais lenha na fogueira: contou a Assuero que Hamã preparara uma forca de mais de 20 metros de altura para Mardoqueu — aquele que “falara para bem do rei”, e que a forca estava próxima da casa do agagita (7.9). Não precisou dizer mais nada: o rei reagiu mandando que enforcassem a Hamã na própria forca que preparou. Nota-se como a ação de Hamã, de ordenar a preparação da forca na manhã daquele mesmo dia, já era conhecida do palácio. “Nada há encoberto que não haja de ser revelado” (Lc 12.2). Precisamos sempre agir com um coração cheio de temor diante do Juiz de toda a terra (Gn 18.25). Harbona sabia até o tamanho da forca. Esse fato e muitos outros contidos no livro também indicam como as conversas corriam soltas — e rapidamente — no reino da Pérsia. 2. Os ventos mudaram Outro ponto a ser destacado diz respeito à prontidão dos servos do rei em ter Hamã como um sentenciado à morte. Ora, até aquele dia, à exceção de Mardoqueu, todos os servos de Assuero inclinavam-se e prostravam-se diante de Hamã. Mais do que isso: na hora de denunciarem a Mardoqueu ao agagita, mostraram-se contra o judeu, já que esperavam ver a reação de Hamã em seu desfavor. A radical mudança, com os servos do rei agora engajados na rápida execução do então primeiro-ministro, revela mais uma das muitas patologias do poder: a falsa estabilidade dos grandes. Não é incomum homens de altas posições perderem tudo de um dia para o outro e passarem a ser ignorados ou até hostilizados por quem antes os bajulava. Essa é uma doença de caráter. Os subordinados devem respeitar os seus líderes, agindo com obediência, sem, contudo, tornarem-se subservientes. O líder precisa ter serenidade e equilíbrio para construir uma liderança saudável, com pessoas leais, servas, porém não servis ou condescendentes em demasia. Há um exemplo bíblico, de Davi, que uma vez desejou beber água do poço de Belém (1 Cr 11.17-19). O problema era que, para chegar àquela fonte, era preciso arriscar a vida, passando pelo arraial dos filisteus. Três dos seus valentes, ao ouvir o rei expressar o seu desejo, decidiram arriscar-se. Quando Davi viu-os chegar, não quis beber a água. Derramou-a “como oferta a Deus”, e disse: “Ó Deus, eu não poderia beber desta água! Isso seria o mesmo que beber o sangue destes homens que arriscaram a sua vida para trazê- la!” (1 Cr. 11.19, NTLH). Há certas atitudes que são justas e válidas para agradar ao líder. Outras, contudo, são extravagantes e desnecessárias, devendo ser repelidas, para não criar uma horda de subservientes. O subserviente muda de posição de uma hora para outra, de forma desonesta, porque para ele o negócio é estar de bem com quem está no poder. Como Hamã estava em baixa, os servos do rei já o tiveram logo como descartado — talvez porque Hamã não fosse tão querido assim na corte. Provavelmente, ele havia construído relacionamentos com base no medo, com ameaças e abuso de poder. Atitudes tirânicas subsistem enquanto a autoridade está na posição de comando, com uma base de sustentação que lhe permite equilibrar-se. Se essa base ruir, ninguém estende a mão para segurá-lo; pelo contrário! Bastou uma oportunidade para um dos oficiais do rei ter a iniciativa de sugerir a execução de Hamã, informando Assuero da forca preparada para Mardoqueu. Em ambientes de poder, às vezes impera certo sistema de conveniência. Talvez Harbona até tivesse feito parte do grupo de servos do rei que denunciaram Mardoqueu para Hamã (Et 3.3,4). Agora, ele soube ser bem perspicaz para sugerir a forca para o seu ex-superior. Ele não apenas informou ao rei que havia uma forca preparada por Hamã para Mardoqueu, como também foi sutil ao dizer: para aquele que “falara para bem do rei” (Et 7.9). A insinuação foi explícita, e o rei logo acatou. CONCLUSÃO Existe uma lei divina inexorável: a lei da semeadura: “Não se enganem: de Deus não se zomba. Pois aquilo que a pessoa semear, isso também colherá” (Gl 6.7, NAA). Deus não tem prazer na morte do ímpio, mas, sim, que se converta e viva (Ez 33.11; 2 Pe 3.9). Contudo, Ele pune ao culpado na sua justiça, pois não o tem por inocente (Nm 2.3). É o espírito rebelde e contumaz do homem que o leva à perdição (Lm 3.39; Ez 18.20,21). Hamã deu lugar ao ódio e planejou implacável e cruelmente a morte de Mardoqueu e de todos os judeus do reino da Pérsia, mas foi enforcado na própria forca que preparou (Et 8.10). Que o Senhor guarde nosso coração de toda a maldade. 1 O antinomismo é a doutrina que assevera não haver mais necessidade de serem pregadas nem observadas as leis morais do Antigo Testamento (Andrade, 1999, p. 44). Em um sentido geral, é a negação de quaisquer regras ou normas de conduta aplicáveis à vida cristã. Os antinomistas são aqueles que defendem que tudo é permitido em nome da graça e que basta ter fé para ser cristão. “Mais recentemente, aquelas teorias éticas que sublinhavam a importância do contexto de uma decisão ou a supremacia do princípio do amor sobre todo outro princípio também são acusadas de antinomianismo” (González, 2009, p. 30). 2 O divã é uma espécie de sofá, porém sem braços laterais e com um lado mais elevado, onde se recostar. O Capítulo 13 ESTER, A PORTADORA DAS BOAS NOVAS INTRODUÇÃO livro de Ester tem dez capítulos. Restam três deles em nosso estudo. Tratam do efetivo livramento dos judeus diante do novo decreto de Assuero, da instituição da Festa de Purim e da exaltação de Mardoqueu. No capítulo 1, vimos a descrição dos banquetes de Assuero e a destituição da rainha Vasti por causa da sua desobediência. No capítulo 2, quatro anos depois da destituição de Vasti, Assuero casa-se com a judia Ester, prima de Mardoqueu. No fim desse mesmo capítulo, é descoberta uma conspiração contra o rei graças à informação dada por Mardoqueu, que trabalhava à porta do pátio externo do palácio. No capítulo 3, surge um novo personagem na história, Hamã, que, de súbito, recebe a elevada honra de principal de todos os príncipes da Pérsia, uma espécie de primeiro-ministro. Ainda no capítulo 3, começa o entrevero entre Hamã e Mardoqueu, por este não se encurvar nem se prostrar perante aquele. Enfurecido, Hamã planejou a morte não apenas de Mardoqueu, como também dos judeus de todas as províncias do extenso Império Persa, que ia das fronteiras da Índia até a Etiópia, na África, além de abranger todo o território da Anatólia (Ásia Menor nos tempos do Novo Testamento e atual Turquia) e atingir o Mediterrâneo Ocidental, na Trácia (antiga região da Macedônia onde ficavam várias cidades gregas). Assuero assinou um decreto que marcava o dia da espoliação e morte de todos os judeus: o dia 13 do mês de adar,1 o duodécimo mês do ano — onze meses depois, portanto, já que se lançou sorte no primeiro mês do ano, o mês de nisã.2 O capítulo 4 descreve o estado de profunda tristeza e lamento que se abateu sobre os judeus de todas as províncias e fala também do apelo que Mardoqueu fez a Ester e da sua decisão de comparecer perante os judeus após um período de jejum de três dias. No capítulo 5, Ester vai à presença do rei. Em vez de morte, a rainha é recebida por Assuero com a extensão do seu cetro de ouro e a benevolentefrase de que qualquer petição sua seria atendida. Ester apenas convidou o rei para um banquete já preparado para aquele dia, junto com Hamã. No banquete, Ester manteve em oculto a sua petição e deixou agendado um novo banquete para o dia seguinte. Hamã voltou para casa jubiloso. A sua exultação só não foi completa porque ele viu Mardoqueu na saída do palácio. Já em casa com a mulher e os amigos, ouviu a sugestão de preparar uma forca para Mardoqueu e, já no dia seguinte, pedir ao rei que ordenasse a morte do judeu. O drama dos judeus começa a mudar no capítulo 6. Assuero perde o sono e pede para que o livro dos registros do cotidiano do palácio seja lido. O servo que o atende lê exatamente onde estava escrito o ato heroico de Mardoqueu, no episódio da conspiração contra o rei. Assuero decide que recompensará Mardoqueu, mas ainda não sabia como. Era de manhã, e Hamã estava do lado de fora do palácio (no pátio exterior), quando foi chamado à presença de Assuero e perguntado sobre o que deveria ser feito ao homem que o rei queria honrar. Convencido de que seria ele, sugere ao rei que vestisse esse homem com a veste real, pusesse na sua cabeça a coroa real, montasse-o sobre o cavalo que o rei costumava montar e ordenasse que um dos príncipes conduzisse-o pela cidade, proclamando que era assim que o rei honrava a quem ele verdadeiramente desejava honrar. O capítulo 6 termina com Hamã conduzindo Mardoqueu pela cidade, com todas as honras, e voltando para a sua casa envergonhado. Ao contar para a mulher e os amigos o vexame que havia passado naquele dia, ouviu um mau prenúncio: de que certamente não prevaleceria diante de Mardoqueu por ele ser judeu. No mesmo instante, Hamã recebe os servos do rei, que o levam para o banquete de Ester, junto com Assuero. O capítulo 7 termina com o corajoso ato de Ester, denunciando Hamã, o desespero do agagita, a sentença de morte dada por Assuero e o enforcamento de Hamã na própria forca que mandou preparar para Mardoqueu. A última frase do capítulo é: “Então, o furor do rei se aplacou” (Et 7.10). I – O PEDIDO DE DEFESA AOS JUDEUS E A CONCESSÃO DO REI 1. A humildade de Ester e sua súplica Hamã, o inimigo dos judeus, estava morto, e Mardoqueu, altamente honrado (Et 8.1,2). Apesar de tudo isso, o drama dos judeus ainda não havia terminado. O decreto de Assuero continuava produzindo plenos efeitos. A questão não era individual. Não bastava a Ester ou a Mardoqueu estarem bem. Era preciso resolver o problema de todos os judeus. A missão que Ester havia recebido de Mardoqueu — e certamente assumido diante de Deus desde que propôs o clamor através do jejum — não estava concluída. Por isso, em profunda humildade e respeito, Ester aproveita a oportunidade de estar diante do rei e apresenta a sua petição em favor de todos os judeus (Et 8.3). Novamente demonstrando disposição em atender a sua rainha, Assuero estende-lhe o cetro de ouro. Ester levanta-se e roga ao rei que revogue as cartas que havia enviado para que o plano de Hamã não fosse executado. Mardoqueu ainda estava presente no palácio, pois o texto bíblico informa que o rei respondeu a Ester e a ele que já havia feito tudo o que estava ao seu alcance. Ele não poderia revogar o primeiro decreto, mas poderia emitir outro, permitindo aos judeus defender-se. O livramento contava com a poderosa ação divina, mas também incluía uma ativa participação dos judeus. Confiar em Deus não nos isenta de fazer nossa parte (Js 1.3-9). 2. A lei dos medos e persas A irrevogabilidade dos decretos dos reis medos e persas pode até parecer um excesso, mas tem o seu sentido positivo. Apesar de todos os aspectos tirânicos, autoritários e excêntricos dos reis da Pérsia, como o próprio Assuero, havia um limite para as suas ações: o império da lei dos medos e persas. Dario, pai de Assuero, fora confrontado com essa mesma situação e não violou a norma. Mesmo estimando muito a Daniel, não pôde livrá-lo da cova dos leões (Dn 6.8,15). Lennox (ibid., p. 227) diz: Uma das mais antigas funções da lei é estabelecer limites para os poderes do governo. E pelo visto, a monarquia constitucional medo-persa é um avanço em relação à monarquia absoluta, embora ainda estivesse longe da democracia desenvolvida mais tarde na Grécia. Não havia separação de poderes. Em essência, eram as mesmas pessoas que legislavam, governavam e julgavam. Mas foi um passo na direção certa. Em teoria, pelo menos, oferecia proteção contra os excessos de um déspota.3 Se na Antiguidade já se instituiu o respeito às leis pelos mais poderosos monarcas pagãos, não é razoável que, em tempos tidos como tão modernos, se admita que autoridade alguma se considere acima da lei. Em qualquer nação, todos devem estar sujeitos às leis (Rm 13.1). Jesus deu-nos o exemplo, como no episódio do pagamento do tributo a César (Mt 22.21). As leis humanas só podem ou devem ser desobedecidas quando contrariam as leis divinas, pois: “Mais importa obedecer a Deus do que aos homens” (At 5.29). Nossa obediência a Cristo está acima de toda e qualquer lei dessa terra. 3. Segurança jurídica Em países de regimes democráticos como o Brasil, todos os aspectos relevantes da vida pública e privada são regrados por um ordenamento jurídico construído sob uma Constituição Federal, que a todos vincula. Isso é necessário para que haja previsibilidade e segurança jurídica. Nenhuma pessoa ou Poder está acima da Constituição. Ninguém pode agir de modo a violá-la. As alterações constitucionais que são possíveis só podem ser feitas pelo Parlamento, onde atuam os representantes eleitos pelo povo. Para isso, exige-se um quórum qualificado. Alguns preceitos da Constituição nem mesmo o Poder Legislativo pode alterar, a menos que em uma Assembleia Nacional Constituinte. Llewellyn-Jones (148,149) afirma: Dario e os reis Aquemênidas não estavam acima da lei. Pelo contrário, eram parte integrante dela. Decidiam casos legais sobretudo de acordo com as circunstâncias locais, caso a caso. A natureza astuta e diplomática de suas decisões, que muitas vezes apresentavam mais recompensas que punições, resultou em uma reputação de virtuosidade. Numa inscrição encontrada em seu túmulo, Dario enfatizou seu papel como juiz justo. Ter a reputação de imparcialidade era obviamente importante para ele […]. Para os povos do mundo antigo (com exceção da emperdernida Grécia), os reis persas eram considerados justos e sábios. Seja qual for o tempo, é somente Deus que nos guarda da perversidade deste mundo. O Estado é uma importante instituição nas mãos de Deus para frear a escalada do mal e permitir-nos ter uma vida quieta e sossegada, desfrutando de liberdade para servi-lo e viver honestamente. Devemos sempre orar pelas autoridades de nosso país (1 Tm 2.1,2). 4. O direito de defesa Se Assuero não podia revogar o seu decreto, permitiu a Ester e Mardoqueu que redigissem outro, concedendo aos judeus o direito de defenderem-se dos seus inimigos. Os escrivães do rei foram chamados imediatamente e, no terceiro mês (o mês de sivã), aos vinte e três dias, foi escrito o novo decreto, “conforme Mardoqueu ia falando” (Et 8.9, NBV). O documento, escrito oito meses antes do dia designado para o extermínio dos judeus, seria enviado para todas as províncias, assim como o primeiro decreto do rei, redigido por Hamã (cf. 8.11). O texto permite entender que havia em todo o reino grupos sistematicamente hostis aos judeus, organizados em núcleos específicos (Et 8.11,13; 9.1,2,5). O decreto do rei, provavelmente encaminhado por meios de cartas específicas a cada província — e na língua de cada povo (8.9b) — não permitia, portanto, que os judeus exercessem uma matança gratuita e indiscriminada, mas que apenas se defendessem dos que se armassem contra eles. A ordem foi expedida para todo o reino, produzindo muita alegria em todos os judeus e temor em todos os povos. O tempo decorrido entre esse novo decreto e a data que havia sido fixada para a matança dos judeus — cerca de oito meses — permitia que os seus inimigos refletissem e, se quisessem, decidissemdesistir da investida programada, principalmente diante da ampla publicidade das profundas alterações havidas em Susã. Hamã havia sido enforcado por ordem do rei; agora, um judeu era o primeiro- ministro. Além disso, todos ficaram sabendo que a rainha era judia. Tudo isso deveria ter sido suficiente para que retrocedessem no seu intento, mas é fato que alguns inimigos dos judeus mantiveram o propósito de extermínio; outros, contudo, mudaram de posição. O texto bíblico informa, aliás, que muitos chegaram a tornar-se judeus (Et 8.15-17). Não se pode afirmar, ao certo, o grau de sinceridade desses estrangeiros que “se fizeram judeus”, principalmente porque o motivo foi “o temor dos judeus [que] tinha caído sobre eles”. Por ser uma questão subjetiva, pode ser que muitos tivessem, de forma sincera, reconhecido a intervenção divina em favor dos judeus e convertido-se à fé judaica. Outros, contudo, teriam sido apenas movidos por medo e, diante disso, associado-se aos judeus. O fato de a rainha e o primeiro- ministro serem judeus pode ter servido de grande incentivo, como já se deu com muitos ao longo da História, que aderiram à fé do soberano apenas por uma questão de conveniência. No dia da pretendida matança, aconteceu o contrário do que esperavam os inimigos dos judeus, “pois os judeus é que se apoderaram dos que os odiavam” (9.1, NAA). Pela narrativa bíblica, foram identificados focos onde o ódio contra os judeus persistia. O versículo 2 diz que “os judeus se reuniram para atacar aqueles que queriam destruí-los”. Nos meses decorridos, certamente foi possível aos judeus identificar os que persistiram no intento maligno arquitetado por Hamã. Assim, no dia 13 do mês de adar (décimo segundo mês), os judeus agiram rápido para defenderem-se, ajudados pelos nobres, todos os maiorais das províncias e muitos servos do rei, o que reforça o entendimento de que, de fato, eram grupos específicos aqueles que persistiram com a intenção de destruir os judeus. Quanto à adesão dos oficiais das províncias, dos chefes dos vários povos, dos representantes do rei e governadores, deu-se pelo fato de que a fama de Mardoqueu havia corrido por todo o reino, e todos o temiam (9.1-4). Naquele dia, foram mortas 75 mil pessoas em todo o reino persa (9.11-16). Somente na cidadela de Susã foram mortos 500 homens, incluindo os dez filhos de Hamã. No dia seguinte, foram mais 300 mortos na cidade de Susã (9.15). O que se entende é que os primeiros 500 moravam na cidade alta e foram mortos já no dia 13, enquanto os demais, que moravam em Susã — porém, fora da acrópole — foram mortos no dia seguinte. O número de baixas impressiona, pois eram vidas humanas, valorosas para Deus; contudo, é preciso considerar que, se não fosse a ordem de Assuero para que os judeus pudessem defender-se, a matança teria sido muitas vezes maior, já que a estimativa era de que havia em todo o reino mais de 1 milhão de judeus. Outro fator que pode ser levado em conta é que, em um reino tão vasto, certamente não era incomum revoltas internas, com disputas entre os povos, resultando em consideráveis baixas, sem que isso afetasse o império. II – A RAINHA ESTER ESCREVE BOAS NOTÍCIAS PARA O SEU POVO 1. A comemoração dos judeus Apesar de toda a matança, os judeus não poderiam deixar de comemorar; afinal de contas, tratava-se do livramento de toda a raça. Conforme já observado, no contexto pós-exílico, o termo “judeu” era empregado para todo o povo de Israel, das 12 tribos; por isso, o dia 14 do décimo segundo mês foi de grande festa para os judeus de todo o Império Persa. O sentimento de alívio pelo grande livramento tomou conta do povo judeu e precisava ficar marcado. Mardoqueu registrou os fatos e escreveu cartas para os judeus de todas as províncias, instituindo uma data comemorativa, a Festa de Purim. Hamã havia lançado sorte (pur) para matar os judeus no dia 13; agora, o dia 14 seria estabelecido como um dia de festa, um feriado nacional a ser inscrito na história judaica para comemorar o livramento que o Senhor dera ao povo judeu (9.20-28). 2. A carta e o decreto de Ester Ester e Mardoqueu escreveram uma segunda carta, confirmando a instituição da Festa de Purim, com dois dias de duração. Pelo que se tem do registro bíblico, era a primeira vez que a rainha Ester dirigia-se diretamente a todo o povo judeu. Ao sair da sua pena, a instituição da festa estava agora fundamentada num decreto real (9.32). A festa entrou definitivamente no calendário judaico e é comemorada até os dias de hoje. 3. A exaltação de Mardoqueu Quanto a Mardoqueu, o rei deu-lhe ainda mais honras. Depois da morte dos inimigos dos judeus, Assuero colocou-o como o segundo maior do reino — posição que era ocupada por Hamã (10.3). O relato bíblico encerra com um testemunho notável de Mardoqueu: ele foi um homem público exemplar e próspero, trabalhando para o bem de toda a nação. Deus pode usar os seus servos em todas as áreas da vida. A questão é entender quando esse é o propósito dele e quando não passa de nossas próprias ambições de poder. Nesse último caso, o resultado nunca é bom. Num sentido geral, há uma nítida falta de estadistas em nossos dias; líderes que visam ao bem comum acima de tudo. Quanto aos cristãos, em altas posições ou em espaços simples e de nenhuma visibilidade, o propósito deve ser sempre o mesmo: fazer tudo para a glória de Deus (1 Co 10.31). III – A MULHER É CHAMADA POR DEUS PARA SER RELEVANTE NO MUNDO 1. Uma mulher notável Ester é a história de uma simples moça judia que se transformou numa mulher notável no poderoso Império Persa. Deus usa quem Ele quer para cumprir os seus propósitos. Para isso, contudo, jamais viola as suas leis. Ester não precisou entrar em disputas ou trilhar por um caminho de inversão ou confusão de papéis. Ela chegou ao cargo de rainha sob profundo respeito, obediência e honra ao primo Mardoqueu, que a criara como filha. Na condição de rainha, soube ser humilde, submissa, prudente e muito equilibrada. A forma como se dirigia a Assuero e o honrava contrastava com a atitude irreverente de Vasti. A firmeza moral de Ester fez dela uma mulher notável. Ela entendeu o propósito de Deus para a sua vida e não se esquivou dele. 2. A banal guerra dos sexos Dar-se a disputas sob a alegação de estar buscando espaço para servir a Deus é um tremendo engano; seja homem, seja mulher. Deus não entra em disputas banais, como a tal “guerra dos sexos”, que visa instilar ódio e aversão entre homens e mulheres.4 O Criador fez macho e fêmea com constituição e papéis distintos que estão claramente revelados nas Escrituras (Gn 2.15-24; 3.16-20). No fim, Ele julgará a todos conforme as leis perfeitas e justas que estabeleceu. Deus não é afetado por partidarismos e ideologias sexistas. Por isso, chamou a homens e mulheres para serem relevantes no mundo. A mulher tem muito a contribuir no Reino de Deus e no bem-estar de toda a sociedade. 3. O contexto cristão Prestar um tributo às mulheres que fazem profissão de servir a Deus talvez seja uma forma adequada de concluir esta obra, já que esta foi a decisão de Ester: ela aceitou correr risco de morte para levantar a sua voz em defesa do povo judeu — tudo fazendo sob uma inteira entrega à direção e vontade de Deus, o que demonstrou através do propósito do jejum. Ester foi uma mulher piedosa, cheia de coragem, que soube ser humilde, obediente, respeitosa, submissa e de muita prudência. Além das mulheres da Bíblia, em toda a História da Igreja, muitas mulheres exerceram papéis importantes, como Catarina von Bora (1499–1552), esposa de Lutero; uma mulher cheia de ousadia e coragem que muito contribuiu para o movimento da Reforma sem deixar de cumprir o seu papel de esposa e mãe — teve seis filhos (Ulrich e Dalferth, 2017, p. 11, 31). Temos também Susanna Wesley (1669–1742), que foi mãe de John e Charles Wesley e outros 17 filhos. Susanna foi uma mulher disciplinada e metódica, uma dedicada educadora dos próprios filhos, ministrando-lhes principalmente a fé cristã. John Wesley foi o fundador do MovimentoMetodista. Charles Wesley, além de pregador, é considerado o maior compositor de hinos sacros de toda a História: escreveu cerca de 9 mil hinos.5 A vida de Susanna Wesley tem inspirado ministérios de mulheres até nossos dias. Há, ainda, Sarah Kalley (1825–1907), missionária e musicista escocesa. Ela foi esposa de Robert Kalley e contribuiu intensamente para o ministério do marido, sendo considerada co-fundadora da Escola Dominical no Brasil em 19 de agosto de 1855 (Gilberto, 2002, p. 135). Corrie ten Boom (1892–1983) é outra mulher de Deus, cuja história é contada no livro O Refúgio Secreto. Corrie foi uma mulher cristã que, juntamente com a sua família, enfrentou os horrores da perseguição nazista, dedicando-se à proteção de judeus na Holanda. É igualmente importante citar o nome de Ruth Graham (1920–2007), poeta e escritora, esposa do evangelista Billy Graham (1918–2018). Ruth foi mãe de cinco filhos. O próprio marido costumava dar testemunho da sua profunda dedicação a Deus, da sua vida piedosa e do cuidado que Ruth tinha com o lar. Ela renunciou a sua própria carreira profissional por entender o propósito de Deus na sua vida. No contexto assembleiano, temos Celina Martins Albuquerque (1876–1966), que foi a primeira pessoa a receber o batismo no Espírito Santo entre os membros da Igreja Batista de Belém (Pará) ao crer na doutrina pentecostal pregada por Gunnar Vingren (1879–1933) e Daniel Berg (1884–1963). Integrou, portanto, o grupo de fundadores da Missão da Fé Apostólica (depois Assembleia de Deus) em 18 de junho de 1911 (Araujo, 2007, p. 7). O que mais impressiona na síntese biográfica da irmã Celina, disponível no excelente Dicionário do Movimento Pentecostal, é a sua perseverança espiritual. Em primeiro lugar, por dedicar-se aos cultos de oração na sua casa, devido a uma enfermidade nos lábios que a impedia de ir ao templo. Em segundo lugar, pela sua fé, que a levou a receber a cura de que precisava. Em terceiro lugar, pelo seu fervor espiritual e o desejo ardente de receber o batismo com o Espírito Santo. Certo dia, após o culto de oração no templo, foi para casa e continuou orando juntamente com outra irmã, quando começou a falar em novas línguas na primeira hora da madrugada. Em quarto lugar, porque por toda a vida a irmã Celina conservou a sua fé e devoção, sendo também intensamente dedicada à evangelização pessoal. Irmã Celina foi uma mulher simples, das muitas que, mesmo anônimas, fizeram e fazem história nas Assembleias de Deus no Brasil — assim como em muitas outras igrejas. Temos também Lina Nyström, esposa do missionário Samuel Nystron (1891–1960), pioneiro do ensino pentecostal no Brasil. Na biografia do marido (Nelson, 2008), é retratada como esposa exemplar, muito hospitaleira e dedicada ao serviço cristão. Foi a fiel companheira de Samuel Nystron nos 30 anos das suas intensas atividades no Brasil (Araujo, p. 510). O Dicionário do Movimento Pentecostal apresenta ainda: • Frida Vingren, esposa do pioneiro Gunnar Vingren, que contribuiu de maneira destacada para a implantação e progresso da obra pentecostal no Brasil, principalmente na produção de literaturas, além de ter sido autora e tradutora de diversos hinos da Harpa Cristã.6 Conforme Araujo (2011, p. 109), são 24 hinos com o seu nome (16 versões e 8 autorias), todos de grande valor espiritual. Quanto à vida no contexto familiar, o testemunho do filho Ivar dá conta de que Frida “foi muito amorosa, muito dedicada à família; esforçava-se muito por seus filhos, fazia tudo por eles, deixando na memória de todos uma recordação muito boa”. • Zélia Brito, ativa participante da obra de evangelização nos subúrbios do Rio de Janeiro, ao lado de vários crentes, como Paulo Leivas Macalão, que, mais tarde, viria a ser o seu esposo. • Signe Carlson, missionária com atuação na área social. • Elisabeth Nordlund, missionária dedicada à área da música. • Florência Silva Pereira, obreira ativa nos primórdios da obra pentecostal no Nordeste. • Albertina Bezerra Barreto, fundadora do Círculo de Oração na AD em Recife-PE, em 1942. • Ruth Doris Lemos, missionária com atuação na área da música e do ensino teológico, tendo fundado, junto com o marido João Kolenda, o Instituto Bíblico das Assembleias de Deus, o IBAD, em Pindamonhangaba- SP. E mais recentemente, Wanda Freire Costa (1934–2019), professora, assistente social, fundadora da União de Esposas e Ministros das Assembleias de Deus no Brasil, esposa do pastor José Wellington Bezerra da Costa; fiel e constante companheira do marido nas suas atividades seculares e ministeriais. Mãe de seis filhos (José Wellington Costa Júnior, Paulo Roberto Freire, Marta, Samuel Freire, Joel Freire e Rute), dedicou-se intensamente à família e ao serviço da casa de Deus. (Certa ocasião, na Assembleia de Deus do Belenzinho, em São Paulo, fui tomado de surpresa quando a irmã Wanda convidou-me para acompanhá-la até uma pequena sala, nos fundos da livraria do templo, lugar que ela também reservava para momentos de oração. De forma carinhosa, com toda humildade e um gesto de reverência e temor, pediu que eu orasse por ela. Oramos juntos. Depois, a irmã Wanda presenteou-me com alguns DVDs, que guardo como recordação.) CONCLUSÃO Que o Deus Eterno continue levantando mulheres corajosas, que estejam dispostas a fazer a sua vontade, ainda que isso lhes exija renúncias. Os exemplos de Rute e Ester continuam — e continuarão — produzindo grande inspiração, pois são registros inspirados pelo Deus da providência. O Deus que tudo provê continua agindo em favor do seu povo. A Ele seja a glória para sempre! 1 Entre os meses de fevereiro e março de nosso calendário. 2 Os nomes dos meses nos livros pós-exílicos seguem a denominação dada pelo calendário babilônico, que foi adotado pelos persas. 3 Muito antes dos gregos e dos persas, a Lei Divina estabelecia limites objetivos para a monarquia, como se observa em Deuteronômio 17.18-20 — texto que Lennox cita no seu livro —, que apresenta os limites a serem observados pelo rei. O monarca deveria ter uma cópia da Lei Divina e observá-la em todos os seus termos: “Isso o impedirá de tornar-se orgulhoso e agir como se estivesse acima de seus irmãos israelitas” (NVT). 4 A mesma tática maligna é usada para fomentar disputas entre negros e brancos, ricos e pobres, etc. São ideologias que criam uma “divisão do mundo entre opressores e vítimas”, traçando uma “linha do bem em oposição ao mal entre diferentes grupos” (Allen, 2022, p. 93). Tais ideologias não estão apenas erradas, mas constituem um grande perigo: “Se este grupo for bom, e aquele outro, mau, fica muito mais fácil desumanizar o grupo ‘mau’. Foi o que aconteceu na Alemanha nazistas com os judeus e nos países comunistas com os ‘capitalistas’” (idem). 5 Embora seja comumente citada essa quantia de 9 mil hinos, há imprecisão quanto ao número exato. Silas Daniel afirma que foram mais de 6,5 mil hinos, o que já é um número extraordinário. Dentre tantos hinos, está “Vem Tu, Ó Rei dos Reis”, um dos mais clássicos hinos cristãos de louvor e adoração à Trindade (Daniel, 2012, p. 166) 6 A longa e importantíssima contribuição de Frida Vingren para a Assembleia de Deus no Brasil pode ser conferida na sua biografia (Frida Vingren) escrita por Isael de Araujo (2014). REFERÊNCIAS ALLEN, Scott David. Por que a justiça social não é a justiça bíblica. 1. ed. São Paulo: Vida Nova, 2022. ALMEIDA, Abraão de. História da igreja cristã. Rio de Janeiro: Graça Editorial, 2009. _________________. Russia’s final destinacion. Blloomington, EUA: WestBow Press, 2023. ANDRADE, Claudionor Corrêa de. Dicionário teológico. 1. ed. Rio de Janeiro: CPAD, 1998. ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007. ________________. Frida Vingren. 1. ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2014. ________________. 100 acontecimentos que marcaram a história das Assembleias de Deus no Brasil. 1. ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2011. 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