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Psicol ogia 
Ap l icada: 
A Herança do 
Funciona l ismo 
Rumo à Psicologia Prática 
A psicologia funcional derivada da doutrina evolucioná­
ria rapidamente dominou os Estados Unidos no final do 
século XIX. Sabe-se que a psicologia americana foi muito 
mais influenciada pelas idéias de Darwin e Galton do que 
pelos trabalhos de Wundt. Esse fenômeno histórico foi 
singular e até mesmo paradoxal. Wundt orientou vários 
psicólogos americanos da primeira geração conforme a 
sua forma de psicologia. No entanto eles levaram consi­
go pouco de suas idéias. Quando esses discípulos de 
Wundt, esses novos psicólogos, retornaram aos Estados 
Unidos, passaram a estabelecer uma psicologia que pou­
co se assemelhava àquela ensinada por Wundt. Desse 
modo, a nova ciência, assim como todo ser vivo, estava 
mudando para adaptar-se ao novo ambiente. 
A psicologia de Wundt e o estruturalismo de 
Titchener não sobreviveriam por muito tempo em sua 
forma original no ambiente intelectual americano - o 
Zeitgeist americano -, e assim evoluíram para o funcio­
nalismo. Não eram tipos práticos de psicologia, não lida­
vam com a mente em funcionamento, nem podiam ser 
I Rumo à Psicologia Prática 
A Evolução da Psicologia 
Americana 
As Influências Econômicas 
na Psicologia Aplicada 
Granville Stanley Hall 
(1 844-1 924) 
A Biografia de Hall 
A Evolução e a Teoria da 
Recapitulação do 
Desenvolvimento 
Comentários 
James McKeen Cattell 
(1 860-1 944) 
A Biografia de Cattell 
Testes Mentais 
Comentários 
O Movimento dos Testes 
Psicológicos 
Binet, Terman e o Teste de 
QI 
A Primeira Guerra Mundial e 
os Testes em Grupo 
As Idéias Extraídas da 
Medicina e da Engenharia 
A Inteligência nas Diferentes 
Raças 
As Contribuições da Mulher 
ao Movimento dos Testes 
lightner Witmer (1 867-
1 956) 
A Biografia de Witmer 
As Clínicas de Avaliação 
Infantil 
Comentários 
1 83 
1 84 HISTÓRIA DA PSICOLOGIA MODERNA 
I 
O Movimento da Psicologia 
Clínica 
Walter Dill Scott (1 869-
1 955) 
A Biografia de Scott 
A Publicidade e a 
Sugestionabilidade 
Humana 
Seleção de Pessoal 
Comentários 
O Movimento da Psicologia 
Industrial-Organizacional 
O Impacto das Grandes 
Guerras Mundiais 
Os Estudos de Hawthorne e 
as Questões 
Organizacionais 
As Contribuições da Mulher 
à Psicologia Industrial­
Organizacional 
Hugo Münsterberg (1 863-
1 9 1 6) 
A Biografia de Münsterberg 
A Psicologia Forense e a 
Testemunha Ocular 
A Psicoterapia 
A Psicologia Industrial 
Comentários 
A Psicologia Aplicada nos 
Estados Unidos: Mania 
Nacional 
Comentários 
aplicados às questões e aos problemas do dia-a-dia. A cul­
tura americana era voltada ao prático: as pessoas valori­
zavam o que funcionasse. "Precisamos de uma psicologia 
que seja utilizável", escreveu G. Stanley Hall, pioneiro da 
psicologia aplicada nos Estados Unidos. "Os pensamen­
tos de Wundt jamais se adaptariam aqui, já que são anta­
gônicos ao espírito e temperamento americanos" (Hall, 
1912, p. 4 14). 
Os novos psicólogos americanos transformaram a 
forma de psicologia alemã em um padrão americano dinâ­
mico. Em vez de estudarem a função da mente, começa­
ram a analisar o seu funcionamento. Enquanto alguns 
psicólogos americanos, em especial ]ames, Angell e Carr, 
desenvolviam a abordagem funcionalista nos laborató­
rios acadêmicos, outros a aplicavam em ambientes fora 
das universidades. O movimento rumo à psicologia práti­
ca ocorria simultaneamente à fundação do funcionalismo 
como escola de pensamento independente. 
Os adeptos da psicologia aplicada inseriram sua psi­
cologia no mundo real, nas escolas, nas fábricas, nas 
agências de publicidade, nos tribunais, nas clínicas de 
orientação infantil e nos centros de saúde mental. Desse 
modo, mudaram radicalmente a natureza da psicologia 
americana, assim como fizeram os fundadores acadêmi­
cos do funcionalismo. A literatura especializada da época 
reflete os seus impactos. Por volta de 1900, 25% dos arti­
gos de pesquisa publicados nas revistas americanas espe­
cializadas em psicologia abordavam a psicologia aplicada 
e menos de 3o/o tratavam sobre o método de introspecção 
(O'Donnell, 1985). As abordagens de Wundt e Titchener, 
que acabavam de criar a "nova" psicologia, estavam rapi­
damente sendo superadas por uma psicologia ainda mais 
atual. Mesmo Titchener, o grande psicólogo estruturalis­
ta, reconheceu essa transformação avassaladora na psico­
logia americana. Em 1 9 10, escreveu: "Se naquela época 
pedíssemos a alguém que resumisse em uma frase a ten­
dência da psicologia nos últimos 10 anos, ele responderia: 
a psicologia definitivamente voltou-se para a aplicação" 
(apud Evans, 1992, p. 74) . 
A Evolução da Psicologia Americana 
A psicologia evoluiu e prosperou nos Estados Unidos. Seu 
entusiasmado desenvolvimento entre 1880 e 1900 é um 
marco na história da ciência. 
CAPÍTULO 8 PSICOLOGIA APLICADA: A H ERANÇA DO FUNCIONALISMO .
· 
1 85 
Em 1880, não existiam laboratórios nos Estados Unidos; em 1900, existiam 41 e 
eram mais bem equipados do que os alemães. 
-
Em 1880, não existiam publicações americanas especializadas em psicnlogia; em 
1895, existiam três. 
· 
Em 1880, para estudar psicologia, os americanos tinham de ir para a Alemanha; 
em 1900, a maioria optava pelos programas de pós-graduação domésticos. 
De 1892 a 1904, foram concedidos mais de 1 00 títulos de Ph.D. em psicologia, 
número superior ao de outras ciências, perdendo apenas para a química, a zoo­
logia e a física. 
Em 1910, mais de 50% de todos os artigos de psicologia publicados foram escri­
tos em alemão e somente 30% em inglês. Em 1933, 52% dos artigos publicados 
eram em inglês e apenas 14% em alemão (Wertheimer e King, 1994).1 
A publicação britânica Who's Who in Science, de 1913, afirmava que os Estados 
Unidos dominavam o campo da psicologia e contavam com os principais psicó­
logos do mundo (84), número maior que o de alemães, ingleses e franceses soma­
dos Gonçich, 1968). 
Passados pouco mais de 20 anos do início da psicologia na Europa, os psicólogos 
americanos assumiram indiscutível liderança na área. Em seu discurso como presidente 
da APA, em 1895, ]ames McKeen Cattell declarou: 
Não há precedentes na história comparáveis ao desenvolvimento acadêmico da psicolo­
gia nos Estados Unidos, ao longo dos últimos cinco anos. ( ... ) A psicologia é matéria obri­
gatória nos currículos de graduação ( . . . ) e, hoje, entre os diversos cursos universitários, 
concorre com as outras grandes ciências, em número de estudantes interessados e na 
quantidade de trabalhos originais realizadoS'. (Cattell, 1896, p. 134.) 
Entretanto, na época, um professor de psicologia de Harvard lamentava: "Meu curso 
básico de psicologia ( . . . ) conta com 360 alunos. O que este país fará com todos esses psi­
cólogos?" (apud Brown, 1992, p. 65). 
Deve-se observar que, embora os cursos de psicologia fossem extremamente popula­
res na década de 1900, muitos ainda eram ministrados pelos departamentos de filosofia, 
já que existiam poucos departamentos independentes de psicologia naquela época. Por 
volta de 1900, somente a Clark University, Columbia University, a University of Chicago 
e a University of Illinois haviam criado departamentos acadêmicos para o curso de psi­
cologia. Apesar de muitas universidades oferecerem trabalhos acadêmicos e cursos de 
graduação e pós-graduação nessa área, eram apenas exceções que somente se tornaram 
regra várias décadas depois. Até mesmo em Harvard, onde se formaram vários psicólo­
gos de destaque, o departamento de psicologia foi criado somente na década de 1930 
(Rice, 2000). 
O número crescente de estudantes interessados em psicologia e a quantidade de 
laboratórios aumentaram rapidamente. Os 41 laboratórios de pesquisa existentes nos 
Estados Unidos em 1900 representavam a maioria dos existentes no mundo. Nos países 
europeus não existiam mais do que 10 laboratórios (Benjamin, 2000a). Assim, a psicolo­
gia avançava nas salas de aula, nos laboratórios experimentais e no mundo real.No final do século XX, o inglês tornou-se o idioma dominante nos encontros internacionais e nas publicações espe­
cializadas. O periódico da APA, Psychologica/ Abstracts, hoje é publicado apenas em inglês (Draguns, 2001 ). 
1 86 HISTÓRIA DA PSICOLOGIA MODERNA 
A psicologia fez sua estréia diante de um ávido público americano na Feira Mundial 
de Chicago, em 1893. Em um programa semelhante ao do laboratório antropométrico de 
Galton, na Inglaterra, os psicólogos organizaram exibições de equipamentos de pesquisa 
e um laboratório de testes onde o visitante podia ter medida a sua capacidade sensorial 
mediante o pagamento de uma pequena taxa. Uma exibição mais ampla foi montada em 
1904, na Feira Comercial de Louisiana, em St. Louis, no Missouri. Esse evento contou 
com a participação de várias "estrelas" e com os principais conferencistas da época, 
como E. B. Titchener, C. Lloyd Morgan, Pierre Janet, G. Stanley Hall e John B. Watson. 
Uma exibição de psicologia popular como essa não contaria com o apoio de Wundt e, 
obviamente, evento semelhante jamais ocorreria na Alemanha. A popularização da psi­
cologia era o reflexo do temperamento americano. Essa tendência transformou a forma 
de psicologia de Wundt em psicologia funcional e transportou-a muito além das frontei­
ras do laboratório experimental. 
Assim, os Estados Unidos acolheram a psicologia com grande entusiasmo e rapida­
mente a introduziram nas salas de aulas das universidades e no cotidiano das pessoas. 
Hoje, o seu campo de atuação é muito mais abrangente do que seus fundadores podiam 
imaginar ou desejar. 
As Influências Econômicas na Psicologia Aplicada 
Embora o Zeitgeist americano - o espírito intelectual e o temperamento da epóca - aju­
dasse a impulsionar o surgimento da psicologia aplicada, outras forças contextuais mais 
práticas também foram responsáveis pelo seu desenvolvimento. No Capítulo 1, discuti­
mos sobre o papel dos fatores econômicos na mudança do enfoque da psicologia ameri­
cana, da pura pesquisa para a aplicação. Próximo do final do século XIX, enquanto o 
número de laboratórios de psicologia aumentava, a quantidade de doutorados em psico­
logia crescia ainda mais rapidamente. Muitos desses novos doutores, principalmente os 
desprovidos de fonte de receita independente, eram forçados a buscar o sustento finan­
ceiro fora das universidades. 
O psicólogo Harry Hollingworth (1880-1956), por exemplo, não conseguia manter­
se com o salário anual de 1 .000 dólares para lecionar na Barnard Co!lege, em Nova York. 
Hollingworth complementava os ganhos lecionando em outras universidades, supervi­
sionando exames por meio dólar por hora e realizando palestras de psicologia para publi­
citários a fim de sustentar as atividades de pesquisa e acadêmicas. Logo percebeu que não 
sobreviveria se não aderisse à psicologia aplicada (Benjamin, Rogers e Rosenbaum, 1991). 
Ele não foi o único, já que outros pioneiros da psicologia aplicada fizeram o mesmo 
por questões financeiras. Mas isso não quer dizer que eles não encontrassem motivação 
nesse trabalho prático ou não o considerassem desafiador:· A maioria encontrava estímu­
lo e também reconhecia que o comportamento humano e as atividades cognitivas 
podiam ser estudados com a mesma efetividade, tanto no ambiente do mundo real como 
nos laboratórios acadêmicos. E ainda alguns psicólogos optaram por trabalhar nas áreas 
a plicadas apenas porque assim o desejavam. O fato é que muitos psicólogos da primeira 
geração da psicologia aplicada nos Estados Unidos foram levados a abandonar os sonhos 
da pesquisa experimental puramente acadêmica por não haver outra forma de esca­
parem das dificuldades financeiras. 
A situação era ainda mais crítica para os psicólogos que lecionavam nas universida­
des menos privilegiadas da região do meio-oeste e do oeste. Por volta de 19 10, um terço 
CAPITULO 8 PSICOLOGIA APLICADA: A H ERANÇA DO FUNCIONALISMO .'. 1 87 
dos psicólogos americanos ocupava essas posições e, à medida que esses nÇzmeros cres­
ciam, aumentavam as pressões para que lidassem com os problemas práticos e, assim, 
provassem à direção das universidades e ao poder legislativo estadual que <?','hóvo campo 
da psicologia era dotado de valor financeiro. 
Em 1912, C. A. Ruckmick realizou uma pesquisa entre os psicólogos dos Estados 
Unidos e concluiu que a psicologia nas faculdades e universidades estava desvalorizada, 
apesar da sua popularidade entre os estudantes. Os cursos contavam com poucos recur­
sos e os laboratórios estavam mal equipados, com poucas perspectivas de melhoria. 
Havia a sensação de que a única forma de aumentar a previsão orçamentária dos depar­
tamentos e os salários do corpo docente era demonstrando aos administradores e políti­
cos que a ciência da psicologia era capaz de ajudar a curar os males da sociedade. G. 
Stanley Hall aconselhou um colega do meio-oeste a fazer com que a influência da psico­
logia fosse sentida "fora da universidade, evitando, assim, que alguém ou algum partido 
irresponsável ou sensacionalista a criticasse no legislativo". Cattell pressionou os colegas 
para que "fizessem aplicações práticas e desenvolvessem a profissão da psicologia aplica­
da" (apud O'Donnell, 1985, p. 215, 221). 
A solução era clara: valorizar a psicologia, aplicando-a. Mas aplicá-la em quê? 
Felizmente a resposta logo ficou evidente. As matrículas nas escolas públicas aumenta­
vam significativamente e, entre 1870 e 1915, passaram de 7 para 20 milhões. Os gastos 
do governo com as escolas públicas durante esse período aumentaram de 63 para 605 
milhões de dólares (Siegel e White, 1982) . A educação tornou-se um grande negócio, 
chamando a atenção dos psicólogos. 
Hall declarou que "um dos campos principais e de imediata aplicação da psicologia 
era a educação" (Hall, 1894, apud Leary, 1987, p. 323). Até mesmo William ]ames, que 
não podia ser considerado um adepto da psicologia aplicada, escreveu um livro intitula­
do Talks to teachers, tratando sobre o uso da psicologia nas salas de aula (]ames, 1899) . 
Em torno de 1910, mais de um terço dos psicólogos americanos expressavam o interes­
se na aplicação da psicologia aos problemas da educação. Três quartos dos que se deno­
minavam psicólogos aplicados já estavam trabalhando na área. A psicologia encontrou 
o seu espaço no mundo real. 
Discutiremos neste capítulo as carreiras e contribuições de cinco psicólogos da psico­
logia aplicada que introduziram a nova ciência na educação, no comércio e na indústria, 
nos centros de testes psicológicos, no sistema judiciário e nas clínicas de saúde mental. 
Esses psicólogos foram orientados por Wundt, em Leipzig, para se tornarem acadêmicos, 
mas todos se distanciaram de seus ensinamentos quando iniciaram as carreiras nas uni­
versidades americanas. São exemplos notáveis de como a psicologia americana foi mais 
influenciada por Darwin e Galton do que por Wundt, e de como a abordagem deste foi 
remodelada ao ser transplantada para o solo americano. Descreveremos também os pas­
sos iniciais das três áreas principais da psicologia aplicada: os testes psicológicos, a psi­
cologia clínica e a psicologia industrial-organizacional. 
Granville Stanley H ali (7 844- 7 924) 
G. Stanley Hall colecionou um registro fantástico das primeiras posições na psicologia 
americana. Recebeu o primeiro título de doutorado em psicologia nos Estados Unidos 
e alegava ter sido o primeiro aluno americano no primeiro ano do primeiro laboratório 
1 88 HiSTÓRIA DA PSICOLOGIA MODERNA 
de psicologia.z Hall deu início ao que muitas vezes é considerado o primeiro laborató­
rio de psicologia nos Estados Unidos e criou a primeira revista especializada americana. 
Foi o primeiro reitor da Clark University, organizador e primeiro presidente da APA e 
u m dos primeiros psicólogos da aplicação. 
A Biografia de H ali 
Hall nasceu em uma fazenda, em Massachusetts, e desde cedo exibia alto grau de ambi­
ção. Com 14 anos, prometeu que "realizaria algo muito importante e seria reconhecido 
mundialmente"(apud Ross, 1972, p. 12). Aos 1 7 anos, ficou profundamente envergo­
nhado quando, em plena Guerra Civil Americana, seu pai comprou sua dispensa do 
exército. Ele declarou que devia ser punido como compensação pelo descumprimento do 
serviço militar obrigatório (Vande Kemp, 1992). 
Em 1 863, Hall ingressou na Williams College. Na época em que se formou já havia 
recebido vários votos de louvor e eleito o homem mais inteligente da sua classe. 
Desenvolveu um entusiasmo pela filosofia e em especial pela teoria da evolução, que 
viria a influenciar sua carreira na psicologia. Ele disse: "Logo que a ouvi pela primeira vez 
na minha j uventude, devo ter sido hipnotizado pela palavra 'evolução', que soava como 
música para meus ouvidos" (Hall, 1923, p. 357) . Depois da graduação, ainda em dúvida 
e m relação à sua vocação, matriculou-se na Union Theological Seminary da cidade de 
Nova York. Não demonstrava grande dedicação para seguir a carreira religiosa e seu inte­
resse pelo evolucionismo certamente não lhe proporcionava nenhuma vantagem. 
Rapidamente ficou claro que ele não se destacaria pela sua ortodoxia religiosa. Diz a 
lenda que, quando Hall pronunciou um sermão de ensaio para os professores e discípu­
los, o diretor do seminário ajoelhou-se e rezou pela sua alma. 
Seguindo o conselho do famoso pastor Henry Ward Beecher, Hall partiu para a 
University of Bonn, na Alemanha, para estudar filosofia e teologia. Em Berlim, estudou 
também fisiologia e física e complementou essa fase dedicada aos estudos freqüentando 
teatros e cervejarias, experiências ousadas para um jovem tão preocupado com a forma­
ção. Comentou que ficara surpreso ao ver um professor de teologia bebendo cervej a em 
u m domingo. Também se recordara dos romances, observando que duas relações muito 
marcantes revelaram capacidades suas "até então adormecidas e reprimidas e [que] 
deram, assim, mais riqueza e significado à sua vida" (apud Lewis, 1991, p. 317) . Aparen­
temente, a temporada européia de Hall foi um período de certa liberação. 
Relutante, voltou para casa em 1871, porque, relata um biógrafo, seus pais ameaça­
vam não mais sustentá-lo (White, 1994). Hall já estava com 27 anos, mas não se havia 
formado e estava atolado em dívidas. Terminou os estudos no seminário (mas não se 
ordenou) e começou a pregar em uma igreja rural em Cowdersport, Pensilvânia, ativida­
de que não durou mais do que 10 semanas. Depois de passar mais de um ano dando 
aulas particulares, conseguiu um emprego para lecionar na Antioch College, em Ohio. 
Lecionava literatura inglesa, línguas e literaturas francesa e alemã e filosofia, além de tra­
balhar como bibliotecário, regente do coral e como pregador na capela. 
2 Dados h istóricos posteriores revelaram que ele, na verdade, fora o segundo; veja Benjamin, Durkin, Link, Vestal e 
Acord, 1 992. 
CAPÍTULO 8 PSICOLOGIA APLICADA: A HERANÇA DO FUNCIONALISMO 1 89 
Em 1874, o livro Physiological psychology, de Wundt, despertou seu interesse na nova 
ciência, deixando-o mais indeciso a respeito da sua carreira. Pediu licença ·na Antioch, 
foi para Cambridge, em Massachusetts, e tornou-se professor particular de-inglês em 
Harvard. Iniciou a pós-graduação e começou a realizar pesquisas na escola· de medicina. 
Em 1878, apresentou sua dissertação sobre a percepção espacial, recebendo o primeiro 
título de doutorado em psicologia dos Estados Unidos. 
Logo em seguida, partiu novamente para a Europa, primeiro para estudar fisiologia 
em Berlim e depois para ser aluno de Wundt, em Leipzig, onde acabou sendo vizinho de 
Fechner. A expectativa de trabalhar com Wundt estava acima da realidade. Embora Hall 
não faltasse às suas aulas e servisse até como observador em seu laboratório, ele realiza­
va a própria pesquisa dando ênfase ao aspecto fisiológico. Mais tarde, a carreira de Hall 
revelou que Wundt não exercera grande influência sobre seu trabalho. 
Dois anos depois, quando Hall voltou aos Estados Unidos, não tinha perspectivas de 
trabalho. Contudo, 10 anos mais tarde, acabou se tornando uma personalidade de impor­
tância nacional. Percebeu que a chance de satisfazer à sua ambição encontrava-se na apli­
cação da psicologia à educação. Em 1882, proferiu uma palestra no encontro da National 
Education Association - NEA (Associação Nacional de Educação), ressaltando o estudo 
psicológico infantil como o principal componente da profissão do educador. Sempre que 
tinha oportunidade, repetia essa mensagem. O reitor da Harvard convidou-o para minis­
trar uma série de palestras sobre educação, aos sábados pela manhã, que lhe renderam 
mais publicidade favorável e um convite para lecionar meio período na Johns Hopkins 
University, fundada cinco anos antes em Baltimore e a primeira a oferecer cursos de pós­
graduação nos Estados Unidos. 
Suas aulas eram um enorme sucesso e assim foi-lhe oferecida uma cadeira na Johns 
Hopkins. Em 1883, ele criou formalmente o que é geralmente considerado o primeiro 
laboratório de psicologia dos Estados Unidos, ao qual chamou de "seu laboratório de psi­
cofisiologia" (Pauly, 1986, p. 30). Foi professor de vários alunos que acabaram se tornan­
do importantes psicólogos, entre os quais John Dewey e ]ames McKeen Cattell. 
:0 História On-line 
http://www.chss.montclair.edu/psychology/museum/museum.html 
O On-Line Cyber-Museum (Cibe'rmuseu on-line) mostra os tipos de equipa­
mentos usados nos primeiros laboratórios de psicologia, inclusive no de Hall. 
Em 1887, Hall fundou a primeira revista de psicologia dos Estados Unidos, American 
foumal o f Psychology, uma publicação importante até hoje. A revista oferecia uma base 
para as idéias teóricas e experimentais e um sentido de solidariedade e independência 
para a psicologia americana. Em uma explosão de entusiasmo, Hall mandou imprimir 
uma quantidade excessiva de cópias da primeira edição e levou cinco anos para recupe­
rar o investimento inicial. 
No ano seguinte, Hall tornou-se o primeiro reitor da Clark University de Worcester, 
em Massachusetts. Antes de iniciar o trabalho, embarcou em longa viagem ao exterior 
a fim de conhecer as universidades européias e contratar professores para a sua nova 
escola. Um escritor que registrou os primeiros cem anos de história da Clark University 
observou que a viagem de Hall serviu de "férias antecipadas por um trabalho que ainda 
1 90 HISTÓRIA DA PSICOLOGIA MODERNA 
não havia começado, ( ... ) incluindo várias paradas totalmente irrelevantes para a tare­
fa que viria a realizar, como academias militares russas, sítios históricos da Grécia anti­
ga e as costumeiras passagens por bordéis, centros de diversões e curiosidades" (Koelsch, 
1987, p. 21) . 
Hall sonhava em fazer da Clark uma universidade para pós-graduandos, seguindo a 
linha da Johns Hopkins e das universidades alemãs, dando maior ênfase à pesquisa do 
que à profissão acadêmica. Além de ser reitor da universidade, lecionava psicologia no 
curso de pós-graduação. Com recursos próprios, criou a revista Pedagogica/ Seminary (hoje 
Joumal o f Genetic Psychology) para servir como centro de divulgação da pesquisa relacio­
nada com a psicologia educacional e infantil. Em 1915, fundou a Jouma/ of Applied 
Psychology, perfazendo um total de 1 6 revistas americanas especializadas em psicologia. 
A APA foi organizada em 1892, principalmente devido aos grandes esforços de Hall. Ele 
convidou dezenas de psicólogos à sua casa para planejar a organização, sendo eleito como 
o seu primeiro presidente. Por volta de 1900, o grupo já compreendia 127 membros. 
Hall manteve o interesse pela religião e inaugurou a Clark School of Religious 
Psychology, além de criar a revista foumal ofReligious psychology (1904), que publicou por 
uma década. Escreveu um livro intitulado Jesus, the Christ, in the light of psychology, mas 
sua descrição de Jesus como um "super-homem adolescente" não foi muito bem recebi­
da pelas entidades religiosas (Ross, 1972). 
Hall foi um dos primeiros psicólogos americanos a se interessar pela psicanálisefreudiana e um dos principais responsáveis pela atenção que o sistema de Freud recebeu 
nos Estados Unidos. Em 1909, na comemoração do 20º aniversário da Clark University, 
convidou Freud e Carl Jung para participarem das conferências, convite ousado, já que 
muitos cientistas não viam com bons olhos a psicanálise. Primeiro, convidou seu ex­
professor, Wilhelm Wundt, que recusou por causa da idade e porque seria o principal 
conferencista no 500º aniversário da sua universidade de Leipzig. 
A psicologia na Clark prosperou muito no período de Hall. Nos 36 anos que ali per­
maneceu, foram concedidos 86 títulos de doutorado em psicologia. Os alunos lembram­
se dos cansativos mas animados seminários das tardes de segunda-feira na casa de Hall, 
quando ele, juntamente com outros professores e alunos de pós-graduação, sabatinavam 
os candidatos ao doutorado. Depois dessas reuniões, que duravam até quatro horas, um 
empregado da casa servia um eriorme barril de sorvete. 
Os comentários de Hall a respeito dos trabalhos de seus alunos podiam ser devasta­
dores. Lewis Terman lembra-se: 
Hall resumia tudo com uma erudição e uma imaginação tão fértil que sempre nos sur­
preendia e fazia-nos sentir que a sua imediata percepção do problema ia infinitamente 
além da do estudante que dedicara meses de trabalho enfadonho, vil e tirânico. [Eu] 
sempre voltava para casa atordoado e excitado, mergulhava em uma banheira quente 
para acalmar os nervos e depois ficava horas acordado, lembrando por várias vezes a 
cena, formulando e repetindo as respostas inteligentes que devia ter dado. (Terman, 
1 930/1961, p. 3 16.) 
Adepto da formação de alunos inteligentes, desde que merecedores, Hall, muitas 
vezes, era generoso e atencioso. É possível afirmar que a vários dos psicólogos ame­
ricanos podem ser associados de alguma forma e em algum momento a Hall, na Clark 
ou na ]ohns Hopkins, embora ele não fosse a principal fonte de inspiração de todos eles. 
Sua influência pessoal reflete-se bem no fato de um terço dos seus alunos de doutorado 
haverem seguido seus passos na administração de faculdades. 
(APÍWLO 8 PSICOLOGIA APliCADA: /\ HERANÇA DO FUNCIONALISMO 1 91 
Hall fez da Clark uma universidade mais receptiva às mulheres e às minorias do que a 
maioria das universidades dos Estados Unidos daquela época. Embora compartilhasse da 
posição nacional contrária à co-educação para os alunos de graduação, admitia mulheres 
como alunas de pós-graduação e professoras iniciantes. Tomou a iniciativa inédita de 
incentivar alunos japoneses a matricularem-se na Clark e recusava-se a restringir a contra­
tação de professores judeus quando a maioria das universidades não os contratava. Hall 
incentivou também os negros a cursarem a pós-graduação. 
O primeiro afro-americano a receber o Ph.D. em psicologia, Francis Ceci! Sumner, 
estudou com Hall. Summer acabou tornando-se chefe do departamento de psicologia da 
Howard University, em Washington, DC, onde implementou um forte programa acadê­
mico para introduzir o negro na psicologia (Dewsbury e Pickren, 1992). Além disso, tra­
duziu milhares de artigos de revistas alemãs, francesas e espanholas, resumindo-os para 
publicação nas revistas americanas de psicologia. 
Mesmo depois de se aposentar e deixar a Clark em 1920, Hall continuou a escrever. 
Faleceu quatro anos mais tarde, alguns meses depois de ser eleito para o segundo manda­
to como presidente da APA. Uma pesquisa realizada entre os membros da APA a respeito 
das contribuições de Hall revelou que, das 120 pessoas pesquisadas, 99 classificaram Hall 
entre os 10 principais psicólogos do mundo. Muitos elogiaram sua capacidade pedagógi­
ca, seus esforços na promoção da psicologia e seu desprezo pela ortodoxia. No entanto 
esses entrevistados e outros que o conheceram criticaram suas qualidades pessoais. Hall 
foi descrito como uma pessoa difícil, não confiável, inescrupulosa, divergente e extrema­
mente preocupada com a autopromoção. William ]ames o definiu como a "mistura mais 
extravagante de grandeza e pequeneza que já vi" (apud Myers, 1986, p. 18) . Mas mesmo 
os críticos têm de concordar com o resultado da pesquisa: " [Hall] foi responsável pela pro­
dução de mais trabalhos e pesquisas do que quaisquer outros três profissionais da área 
juntos" (apud Koelsch, 1987, p. 52). 
A Evolução e a Teoria da Recapitulação do Desenvolvimento 
Apesar do interesse de Hall por diversas áreas, suas divagações intelectuais abrangiam utn 
único tema - o evolucionismo. Seu trabalho era dirigido pela convicção de que o desen­
volvimento normal da mente envolvia uma série de estágios evolucionários. Baseando­
se no evolucionismo para desenvolver amplas teorias e hipóteses, Hall contribuiu mais 
com a psicologia educacional do que com a experimental. Admitia que o método expe­
rimental era importante para a psicologia, mas perdeu a paciência com as suas limita­
ções. O trabalho laboratorial da nova psicologia mostrou-se limitado demais para os 
objetivos mais gerais de Hall. 
Muitas vezes, ele é chamado de psicólogo da genética devido à sua preocupação com 
o desenvolvimento humano e animal e as questões relacionadas com a adaptação. Na 
Clark, o interesse de Hall pela genética o conduziu ao estudo psicológico da infância que 
acabou se tornando o ponto central da sua psicologia. Em um discurso na Feira Mundial 
de Chicago de 1893, ele disse: "Até hoje seguimos para a Europa para desenvolver a 
nossa psicologia. A partir de hoje varrias pegar a criança, colocá-la entre nós e deixar os 
Estados Unidos criarem a própria psicologia" (apud Siegel e White, 1982, p. 253). A 
intenção de Hall era aplicar sua psicologia ao funcionamento da criança no mundo real. 
Um ex-aluno lembrou com exatidão: "A criança se tornara, por assim dizer, o laborató­
rio [de Hall]" (Averill, 1990, p. 127). 
1 92 HISTÓRIA DA PSICOLOGIA MODERNA 
Na realização das suas pesquisas, Hall utilizava muito os questionários, procedimen­
to que aprendera na Alemanha. Um relato sobre os estudos infantis da Clark revelou que 
Hall e seus alunos desenvolveram e administraram 194 questionários abrangendo diver­
sos tópicos (While, 1990). Durante certo tempo, nos Estados Unidos, o método era ime­
diatamente associado ao nome de Hall, embora a técnica houvesse sido desenvolvida 
antes, por Francis Galton, na Europa. 
Os primeiros estudos sobre crianças provocaram grande entusiasmo no público e 
acabaram formalizando o movimento do estudo infantil. No entanto essa abordagem 
acabou desaparecendo alguns anos depois, por causa da baixa qualidade das pesquisas 
realizadas. Suas amostragens eram inadequadas, os questionários insensatos, os pesqui­
sadores mal treinados e os dados mal analisados - um esforço considerado "psicologia 
de baixo nível, imprecisa, inconsistente e equivocada" (Thorndike, apud Berliner, 1993, 
p. 54). Apesar dessa crítica merecida, o movimento do estudo infantil promoveu tanto o 
estudo empirista da criança como o conceito de desenvolvimento psicológico. 
Seu trabalho de maior repercussão foi a obra de 1 .300 páginas, publicada em dois 
volumes, Adolescence: its psychology, and its relations to physiology, anthropology, sociology, 
sex, crime, religion, and education (1904). Essa enciclopédia contém a mais completa 
descrição da teoria da recapitulação do desenvolvimento psiCológico elaborada por 
Hall. Basicamente, ele assegurava que a criança repetia no seu desenvolvimento pes­
soal a história da vida da raça humana, evoluindo do estado praticamente selvagem 
dos primeiros anos e da infância até se tornar um ser humano racional e civilizado na 
vida adulta. 
Teoria da recapitulação: conceito de Hall que afirma ser o desenvolvimento psicológico da crian­
ça uma repetição da história da raça humana. 
O livro Adolescence criou polêmica porque alguns psicólogos consideraram excessiva 
a ênfase ao sexo e Hall foi acusado de interesses lascivos. Em crítica a respeito do livro, 
o psicólogo E. L. Thorndike escreveu: "Os atos e sentimentos, normais e mórbidos,resul­
tantes do sexo são discutidos de modo nunca antes abordado na ciência inglesa". Foi 
ainda mais incisivo em uma carta que escreveu a um colega, dizendo que o livro de Hall 
estava "abarrotado de erros, masturbação e Jesus. Ele deve ser louco" (apud Ross, 1972, 
p. 385). Hall também programou uma série de aulas na Clark sobre sexo, atitude consi­
derada escandalosa, mesmo não se permitindo a participação de mulheres. Ele acabou 
suspendendo essas palestras porque "muitas pessoas de fora entravam e até ficavam clan­
destinamente à porta, tentando ouvir" (Koelsch, 1 970, p. 1 19). "Será que não dá para ele 
falar de outro assunto que não seja esse maldito sexo?", escreveu Angell para Titchener. 
"Eu, particularmente, acho imoral e intelectualmente ruim concentrar-se demais nesse 
assunto de sexo" (apud Boakes, 1984, p. 1 63). Os colegas psicólogos de Hall não precisa­
vam ter-se preocupado com isso, pois logo o ativo e produtivo Hall desviou o interesse 
para outro assunto. 
À medida que foi envelhecendo, Hall passou a se interessar pelo desenvolvimento 
humano nos estágios finais da vida. Com 78 anos, publicou Senescence (Senilidade) 
( 1922), a primeira pesquisa de larga escala sobre os problemas psicológicos na velhice. 
Quase no final da vida, escreveu duas autobiografias, Recreations of a psychologist (1920) 
e The life and confessions of a psychologist (1923). 
CAPÍTULO 8 PSICOLOGIA APLICADA: A H ERANÇA DO fUNCIONALISMO 1 93 
Comentários 
Uma vez, Hall foi apresentado ao público como o Darwin da mente. Essa -caracterização 
evidentemente o agradou e expressava as ambições e atitudes que permeiü:am o seu tra­
balho. Em outra ocasião, foi apresentado como "a maior autoridade mundial no estudo 
infantil" e ele afirmou categoricamente que a colocação estava correta (Koelsch, 1987, p. 
58). Na sua segunda autobiografia, escreveu: "Toda a minha vida ativa e consciente foi 
composta de uma série de modismos e loucuras, alguns mais marcantes, outros insignifi­
cantes, alguns mais duradouros ( . . . ) e outros efêmeros" (1923, p. 367-368). Sua observa­
ção foi sensata. Era corajoso, versátil e agressivo e muitas vezes divergia dos seus colegas, 
mas jamais fora estúpido. 
o História On-line 
http://www.jhu.edu/demo/review_of_higher_education/20./goodchild.html 
Esse site contém informações biográficas de Hall e sobre as suas contribui-
ções para o campo da educação superior. 
James McKeen Catte/1 (1860- 7 944) 
O espírito funcionalista da psicologia americana também está bem representado na vida 
e no trabalho de ]ames McKeen Cattell, que promoveu uma abordagem prática com a 
aplicação de testes no estudo dos processos mentais. Sua psicologia concentrava-se no 
estudo das capacidades humanas e não do conteúdo da consciência e nesse aspecto ele 
está bem próximo dos funcionalistas. 
A Biografia de Catte/1 
Cattell nasceu em Easton, na Pennsylvania. Obteve o grau de bacharel em 1880, na 
Lafayette College, onde seu pai era diretor. Seguindo o costume da época de cursar a pós­
graduação na Europa, partiu primeiro para a University of Gõttingen e em seguida para 
Leipzig, a fim de estudar com Wilhelm Wundt. 
Um trabalho sobre filosofia rendeu-lhe uma bolsa de estudos para cursar a Johns 
Hopkins University, em 1882. Naquela época, interessava-se mais pela filosofia e, quan­
do cursava o primeiro semestre, a universidade não oferecia cursos de psicologia. 
Aparentemente, Cattell interessou-se pela psicologia em virtude das próprias experiên­
cias com as drogas. Ele experimentou várias substâncias, como o haxixe, a morfina, o 
ópio, a cafeína, o cigarro e o chocolate e descobriu interesses tanto pessoais como pro­
fissionais. Algumas drogas, mais especificamente o haxixe, deixavam-no muito eufórico 
e diminuíam-lhe a depressão. Ele documentou em uma revista os efeitos das drogas no 
seu funcionamento cognitivo. 
"Percebia-me fazendo brilhantes descobertas científicas e filosóficas e meu único 
receio era de não me lembrar dos fatos pela manhã." Mais tarde, escreveu: "Perdi o inte­
resse pela leitura e leio sem prestar muita atenção. Levo muito tempo para escrever uma 
1 94 HISTÓRIA DA PSICOLOGIA MODERNA 
palavra. Estou muito confuso!" (apud Sokal, 1981, p. 51 , 52). Todavia Cattell não estava 
assim tão perturbado, já que fora capaz de reconhecer a importância psicológica de 
diversas drogas e de observar o próprio comportamento e estado mental com grande 
interesse. "Sentia-me como se fosse duas pessoas: uma, o observador e a outra a que esta­
va sendo observada" (apud Sokal, 1987, p. 25). 
No segundo semestre de Cattell na ]ohns Hopkins, G. Stanley Hall começou a lecio­
nar psicologia e então decidiu matricular-se nas aulas de laboratório de Hall. Escolheu 
como tema de pesquisa o tempo de reação - o tempo necessário para a realização de 
diferentes atividades mentais e os resultados desse trabalho reforçaram seu desejo de se 
tornar psicólogo. 
O retorno de Cattell à Alemanha, em 1883, para voltar a estudar com Wundt é obje­
to de muita especulação na história da psicologia e essas lendas são outro exemplo de 
como os dados históricos podem ser distorcidos. Cattell afirma ter aparecido na 
University of Leipzig e anunciado corajosamente para Wundt: "Herr professor, o senhor 
precisa de um assistente e essa posição deve ser minha" (Cattell, 1928, p. 545). E ainda 
Cattell deixara bem claro a Wundt que ele mesmo escolheria seu projeto de pesquisa e 
que seria sobre a psicologia das diferenças individuais, tópico de menor importância na 
psicologia wundtiana. Diz a lenda que Wundt teria descrito Cattell e o seu projeto como 
ganz Americanisch (tipicamente americanos), observação profética, se for verdadeira. O 
interesse pelas diferenças individuais, conseqüência natural do ponto de vista evolucio­
nista, passara desde então a ser uma característica da psicologia americana, mas não da 
psicologia alemã. 
Além disso, dizem que Cattell teria dado a Wundt sua primeira máquina de escrever, 
na qual teria escrito a maioria de seus livros. Por causa desse presente, Cattell teria sido 
caçoado pelos colegas por ter "prestado um sério desserviço ( . . . ) e ter permitido a Wundt 
produzir o dobro do que teria escrito sem a máquina" (Cattell, 1928, p. 545) . 
Uma pesquisa cuidadosa realizada com as c«rtas e as revistas de Cattell colocou em 
dúvida essas histórias (veja Sokal, 1981). Os relatos de Cattell escritos muitos anos depois 
não coincidem com os registros da sua correspondência e das revistas da época dos acon­
tecimentos. Wundt tinha grande respeito por Cattell e o indicara como assistente do 
laboratório, em 1886. Não há evidências de que Cattell desejasse estudar as diferenças 
individuais naquela época. Ele teria ensinado Wundt a utilizar uma máquina de escrever 
e não lhe dado uma. 
Após obter o doutorado, em 1886, Cattell retornou aos Estados Unidos para lecionar 
psicologia na Bryn Mawr College e na University of Pensylvania. Depois, seguiu para a 
Inglaterra a fim de ser professor da Cambridge University, onde conheceu Francis 
Galton. Os dois compartilhavam o interesse pelas diferenças individuais e Galton, então 
no auge da fama, "apresentou a [Cattell] uma proposta científica - a medição das dife­
renças psicológicas entre as pessoas" (Sokal, 1987, p. 27). Cattell admirava a diversidade 
de interesses de Galton e sua ênfase na medição e na estatística. Por influência de 
Galton, Cattell tornou-se um dos primeiros psicólogos americanos a destacar a quantifi­
cação, a classificação e a gradação, embora pessoalmente fosse um "analfabeto em mate­
mática" e muitas vezes cometesse erros primários de adição e subtração (Sokal, 1987, p. 
37). Cattell desenvolveu o método amplamente utilizado de classificação por ordem de 
mérito (apresentado mais adiante neste capítulo) e foi o primeiro psicólogo a ensinar a 
análise estatística dos resultados experimentais. 
Wundt não adotava as técnicas estatísticas, portanto, foi por influência de Galton 
que Cattell enfatizou a estatísticaque vivia a caracterizar a nova psicologia americana. 
CAPÍTULO 8 PSICOLOGIA APLICADA: A HERANÇA DO FUNCIONALISMO 1 95 
Essa ênfase também explica por que os psicólogos americanos começaram a estudar gru­
pos maiores de pessoas em vez de apenas um indivíduo, como fazia Wundt. Um histo­
riador comenta: 
O rápido crescimento da estatística, por volta de 1900, ofereceu aos psicólogos exata­
mente o tipo de instrumento quantitativo com que sonhavam para sustentar a credi­
bilidade científica. Surge, então, uma relação sinergética: as novas técnicas estatísticas 
proporcionaram possibilidades de pesquisa inéditas, enquanto as elevadas aspirações 
dos psicólogos impulsionavam o desenvolvimento de novas técnicas estatísticas ade­
quadas para as tarefas que buscavam realizar. (Richards, 1996, p. 26.) 
A exibição dos dados em forma de gráficos era usada com freqüência por Galton, 
Ebbinghaus, Hall e o psicólogo americano Thorndike, nas últimas décadas do século 
XIX. O estatístico britânico Karl Pearson, que apresentou a fórmula para calcular o coe­
ficiente de correlação, elaborou, em 1900, o teste do qui-quadrado. Ambas as técnicas 
acabaram sendo mais aplicadas na psicologia americana do que na Inglaterra. Em 1907, 
John Edgar Cover, psicólogo da Stanford University, foi aparentemente o primeiro a 
defender o uso de grupos experimentais e de controle (Dehue, 2000; Smith, Best, Cylke 
e Stubbs, 2000). 
Além da estatística, Cattell interessou-se também pelo trabalho de Galton sobre a 
eugenia (veja no Capítulo 6). Defendia a esterilização dos delinqüentes e dos chamados 
defeituosos, além de ser a favor da oferta de incentivos para as pessoas inteligentes e sau­
dáveis que se casassem entre si. Prometeu dar a cada um de seus sete filhos mil dólares, 
caso se casassem com filhos e filhas de professores universitários (Sokal, 1971) . 
Em 1888, Cattell tornou-se professor de psicologia da University of Pennsylvania, 
indicação arranjada por seu pai. Sabendo que uma cadeira bem-remunerada em filosofia 
estava para ser criada na universidade, o velho Cattell convenceu o reitor da faculdade, 
um velho amigo seu, a dar o posto a seu filho. O velho Cattell pressionava o filho para 
publicar mais artigos, a fim de melhorar sua reputação profissional e até mesmo para via­
jar a Leipzig para obter uma carta de recomendação de Wundt. Disse ao reitor que a famí­
lia era abastada e por isso a remuneração não era importante. E assim, Cattell acabou 
sendo contratado por um salário extremamente baixo (O'Donnell, 1985). Mais tarde, 
Cattell chegou a afirmar ter sido essa a primeira cadeira em psicologia no mundo, mas a 
sua indicação, na realidade, fora para filosofia. Ficou na University of Pennsylvania ape­
nas três anos e, em seguida, tornou-se professor de psicologia e chefe de departamento 
da Columbia University, onde permaneceu por 26 anos. 
Por causa da sua insatisfação com a publicação de Hall, American fournal of 
Psychology, Cattell criou a Psychological Review, em 1894, juntamente com }. Mark 
Baldwin. Adquiriu de Alexander Graham Bel! a revista semanal Science, que estava 
quase indo à falência. Cinco anos depois, tornou-se a revista oficial da American 
Association for the Advancement of Science - AAAS (Associação Americana para o 
Progresso da Ciência). Em 1906, Cattell instituiu uma série de livros de referência, 
incluindo o American men o f science e Leaders in education. Em 1900, adquiriu a Popular 
Science Monthly e, em 1915, vendeu o nome, mas continuou a publicá-la com o título 
de Scientific Monthly. Lançou outro semanário, School and Society, em 1915 . O enorme 
trabalho de organização e edição dessas publicações tomava grande parte do seu 
tempo e, como era de se esperar, houve um declínio da sua produtividade na pesqui­
sa psicológica. 
1 96 HISTÓRIA DA PSICOLOGIA MODERNA 
Durante a permanência de Cattell na Columbia, mai� doutorados foram concedidos 
em psicologia do que em qualquer outra instituição de pós-graduação dos Estados 
Unidos. Ele incentivava o trabalho independente e dava bastante liberdade para os alu­
nos conduzirem as próprias pesquisas. Acreditava que o professor devia manter certa dis­
tância dos problemas da universidade e foi morar a uma distância de 65 quilômetros do 
campus. Instalou um laboratório e um escritório editorial na sua casa e visitava o campus 
apenas alguns dias por semana. 
Esse afastamento foi um dos fatores que ocasionaram tensão na relação entre Cattell 
e a administração da universidade. Ele exigia maior participação do corpo docente, argu­
mentando que os professores e não os administradores é que deviam tomar muitas das 
decisões e m relação à administração da universidade. Para esse fim, ajudou a fundar a 
American Association of University Professors - AAUP (Associação Americana de 
Professores Universitários). Era considerado pela administração da Columbia uma pessoa 
de pouco tato e descrito como difícil, "grosseiro, irremediavelmente desagradável e sem 
generosidade" (Gruber, 1972, p. 300). 
Em três ocasiões entre 1910 e 1917, os curadores da universidade chegaram a pen­
sar em forçar Cattell a se aposentar. O golpe decisivo foi desferido na época da Primeira 
Guerra Mundial, quando Cattell escreveu duas cartas para os parlamentares dos Estados 
Unidos, protestando contra o envio de soldados para a guerra. Essa posição era muito 
impopular, mas Cattell permaneceu inflexível. Foi demitido em 1917, acusado de des­
lealdade aos Estados Unidos. Ele processou a universidade por calúnia e, embora houves­
se recebido 40 mil dólares (soma bastante substancial para a época), não foi reintegrado. 
Isolou-se dos amigos e escreveu folhetos, satirizando a administração da universidade. 
Homem amargo no final da vida, Cattell fez muitos inimigos e jamais voltou para a vida 
acadêmica. Dedicou-se às suas publicações e à AAAS e outras sociedades intelectuais. Em 
relação à psicologia, seus esforços promocionais elevaram a nova ciência a um patamar 
mais alto na comunidade científica. 
Em 1921 , Cattell realizou uma das suas ambições: promover a psicologia aplica­
da como um negócio. Organizou a Psychological Organization (Organização Psicológica), 
com as ações adquiridas pelos membros da APA, objetivando oferecer serviços psicológicos 
para a indústria, à comunidade psicológica e ao público em geral. No início, o negócio foi 
u m fracasso, pois, nos primeiros dois anos de existência, a empresa lucrou 5 1 dólares. 
Enquanto Cattell foi o presidente, a situação não melhorou. Entretanto, por volta de 1969, 
a Psychological Corporation lucrou 5 milhões de dólares em vendas e foi comprada pela 
editora Harcourt Brace que, 10 anos mais tarde, registrou um faturamento de 30 milhões 
de dólares da empreitada iniciada por Cattell. 
Testes Mentais 
Em um artigo publicado em 1890, Cattell empregou a expressão testes mentais e, duran­
te o período em que trabalhou na University of Pennsylvania, administrou vários desses 
testes a seus alunos. Declarou: 
A psicologia não será capaz de atingir a certeza e a exatidão das ciências físicas, a menos 
que se baseie nos fundamentos da experiência e da medição. Um passo nessa direção 
pode ser dado, aplicando-se urna série de testes e rnensurações mentais a um grande 
número de pessoas. (Cattell, 1890, p. 3 73.) 
CAPiTULO 8 PSICOLOGIA APLICADA: A HERANÇA DO FUNCIONALISMO 1 97 
Era exatamente isso que Cattell estava tentando fazer. Ele continuou o seu progra­
ma de testes na Columbia, coletando dados de diversos calouros. 
Os tipos de testes usados por Cattell para medir a amplitude e a variabilidade da 
capacidade humana eram diferentes dos testes de inteligência e de capacidade cognitiva 
desenvolvidos mais tarde pelos psicólogos, já que eles aplicam tarefas mais complexas 
para testar a capacidade mental. Os testes de Cattell, assim como os de Galton, lidavam 
principalmente com as medidas sensório-motoras elementares, incluindo a pressão obti­
da no dinamõmetro, a velocidade do movimento (por exemplo,com que rapidez a mão 
se move 50 em), o limiar de dois pontos para medir a sensibilidade tátil, a pressão neces­
sária para provocar dor na testa, as diferenças mínimas perceptíveis entre dois pesos, o 
tempo de reação ao som e o tempo necessário para nomear as cores. 
Em torno de 1901, Cattell havia coletado dados suficientes para correlacionar os 
resultados dos testes com as medições do desempenho acadêmico dos estudantes. As cor­
relações mostraram-se muito baixas, assim como as intercorrelações entre os testes indi­
viduais. Como Titchener obtivera resultados semelhantes no seu laboratório, Cattell 
concluiu que testes desse tipo não apresentavam prognósticos válidos do desempenho 
universitário ou, por suposição, da habilidade intelectual. 
Comentários 
A influência mais forte exercida por Cattell sobre a p_�icologia americana foi mediante o 
trabalho como organizador, executivo e administrador da ciência e da prática psicológicas 
e como articulador da ligação entre a psicologia e as principais comunidades científicas. 
Tornou-se o embaixador da psicologia, lecionando, editando revistas e promovendo a apli-
cação prática na área. 
· 
Baseado no trabalho de Galton, Cattell investigou sobre a natureza e a origem da 
habilidade científica, usando seu método de graduação por ordem de mérito. Os estí­
mulos classificados por vários julgadores foram organizados em uma seqüência classifi­
catória final, calculando-se a graduação média atribuída a cada estímulo. O método foi 
aplicado em eminentes cientistas americanos e avaliados por colegas igualmente desta­
cados de cada área. O livro de referência American men o f science foi escrito com base 
nesse trabalho. Apesar do título do livro, ele também incluía as cientistas americanas. 
A edição de 1910 relaciona 19 psicólogas, representando cerca de 10% dos psicólogos 
mencionados (O'Donnell, 1985) . 
Cattell também contribuiu para o desenvolvimento da psicologia por intermédio 
dos seus alunos. Durante o período em que esteve na Columbia, orientou mais estudan­
tes de pós-graduação do que qualquer outro nos Estados Unidos. Muitos desses alunos, 
inclusive Robert Woodworth (Capítulo 7) e E. L. Thorndike (Capítulo 9), destacaram-se 
no campo. Com seu trabalho a respeito dos testes mentais, da mensuração das diferen­
ças individuais e com a promoção da psicologia aplicada, Cattell reforçou ativamente o 
movimento funcionalista na psicologia americana. Quando faleceu, o historiador E. G. 
Boring escreveu aos filhos de Cattell, dizendo: "Na minha opinião, seu pai realizou mais 
até mesmo que William ]ames, para dar à psicologia americana esse ponto de vista 
peculiar e torná-la diferenciada da psicologia alemã, da qual se originou" (apud Bjork, 
1983, p. 105). 
1 98 HISTÓRIA DA PSICOLOGIA MODERNA 
0 História On-line 
http:/ /www. indiana.edu/-i n te 11/jcattell.html 
Esse endereço apresenta uma avaliação sobre as principais contribuições de 
Cattell, além do acesso para o artigo, escrito em 1 890, sobre os testes men­
tais e o de 1 898 (que escreveu com Baldwin e Jastrow), sobre os testes físi­
cos e mentais. 
http://elvers.stjoe.udayton.edu/history/people/cattell.html 
Esse site contém a biografia de Cattell, além da cronologia, bibliografia e crí­
tica às suas contribuições. 
O Movimento dos Testes Psicológicos 
Binet, Terman e o Teste de Ql 
Embora Cattell tenha cunhado a expressão testes m entais, o primeiro teste verdadeira­
mente psicológico de habilidade mental foi desenvolvido por Alfred Binet (1857-1911) . 
Psicólogo francês autodidata e muito rico, Binet publicou mais de 200 artigos e livros, 
além de escrever quatro peças que foram encenadas em teatros de Paris. Com medições 
mais complexas do que as selecionadas por Cattell, Binet produziu uma medição �_fetiva 
das habilidades cognitivas humanas, marcando, assim, o início do teste de inteligência 
moderno.3 - · 
Testes mentais: testes de habilidade motora e capacidade sensorial; os testes de inteligência usam 
medições mais complexas de habilidade mental. 
Binet discordava da abordagem de Galton e de Cattell, que consistia na aplicação 
de testes de processo sensório-motor para medir a inteligência. Para ele, a avaliação d�s 
funções cognitivas como a memória, a atenção, a imaginação e a compreensão, propor­
cionava medidas de inteligência mais adequadas. Chegou a essa conclusão baseado na 
pesquisa que realizou em casa, com suas duas filhas mais novas. Primeiro, administrou 
os mesmos tipos de testes sensório-motores utilizados por Galton e Cattell e descobriu 
que o desempenho das suas filhas era semelhante ao dos adultos, tanto nos resultados 
como na rapidez das respostas. Foi então que passou a utilizar os testes de habilidade 
cognitiva para esses tipos de tarefa, pois descobriu diferenças significativas entre os resul­
tados das meninas comparados com os dos adultos (Fancher, 1998). 
Em 1904, por causa de uma necessidade prática, surge a oportunidade de Binet pro­
var o seu ponto de vista. O ministro da educação francês criou uma comissão para estu­
dar a capacidade de aprendizagem das crianças que apresentavam dificuldades na escola. 
Binet e Théodore Simon (um psiquiatra) foram nomeados para fazer parte da comissão e, 
juntos, pesquisaram quais eram as tarefas intelectuais que a maioria das crianças estaria 
Embora Alfred Binet seja mais conhecido pelo trabalho a respeito dos testes de intel igência, também realizou muitas 
pesquisas nas áreas da psicologia do desenvolvimento, experimental, educacional e social (Nicolas e Ferrand, 2002). 
CAPiTUlO 8 PSICOLOGIA APliCADA: A HERANÇA DO FUNCIONAliSMO
, 1 99 
apta a dominar nas diversas faixas etárias. A partir da identificação dessas tarefas, desen­
volveram um teste de inteligência composto de 30 problemas apresentadôs na ordem 
crescente por nível de dificuldade. O teste concentrava-se em três funções ·cognitivas: o 
julgamento, a compreensão e o raciocínio. 
· · 
Três anos mais tarde, revisaram e ampliaram o teste e introduziram o conceito de 
idade mental, definida como a idade em que a criança com habilidade mediana é 
capaz de realizar tarefas específicas. Por exemplo: se uma criança com a idade cronológí­
ca de quatro anos desempenhasse bem todos os testes dominados pelas crianças da 
média de amostragem de cinco anos, seria atribuída a ela a idade mental de cinco anos. 
Idade mental: a idade em que crianças de habilidade normal podem realizar certas tarefas. 
Em 1 9 1 1, o teste foi revisado pela terceira vez, mas, depois da morte de Binet, os · 
Estados Unidos passaram a dominar o avanço nos testes de inteligência. Os testes de 
Binet foram mais bem aceitos nesse país do que na França, onde os esforços no desen­
volvimento dos testes de inteligência em larga escala foram reconhecidos somente 
depois da década de 1940. 
O teste de Binet foi traduzido do francês para o inglês e apresentado para os psicó­
logos americanos em 1908 por Henry Goddard, um aluno de Hall que trabalhava com 
crianças portadoras de deficiência mental de uma escola particular em Vineland, New 
Jersey. Goddard chamou sua tradução do teste de Escala de medida de inteligência Binet­
Simon. Nos trabalhos relacionados com o teste de inteligência, ele também introduziu a 
palavra grega moron, que significa "lento". 
o História On-line 
http://www.psy.pdx.edu/PsiCafe/KeyTheorists/Binet.htm 
Esse endereço oferece informações sobre a vida e Ó trabalho de Binet, além 
do acesso a vários artigos e livros de sua autoria. 
http://www.vineland.org/history/trainingschool/history/eugenics.htm 
Esse site contém a biografia de Goddard e um debate sobre o seu trabalho 
referente à eugenia. 
Em 1916, Lewis M. Terman, que também estudou com Hall, desenvolveu a versão 
que desde então passou a ser o padrão de testes. Terman deu-lhe o nome de Stanford­
Binet, em homenagem à universidade à qual era afiliado, e adotou o conceito do quo­
ciente de inteligência (QI). (A medição do QI, o qual é definido como a proporção entre 
a idade mental ea cronológica, foi desenvolvida inicialmente pelo psicólogo alemão 
William Stern.) A escala Stanford-Binet passou por diversas revisões e continua a ser 
amplamente utilizada. 
Quociente de inteligência (QI): número que representa a inteligência de uma pessoa, obti­
do com a mu ltiplicação da idade mental por 1 00 e, em seguida, dividindo-se o resultado pela 
idade cronológica. 
200 HISTÓRIA DA PSICOLOGIA MODERNA 
A Primeira Guerra Mundial e os Testes em Grupo 
Em 1 9 1 7, no dia em que os Estados Unidos entraram na Primeira Guerra Mundial, a 
Society of Experimental Psychologists (Sociedade dos Psicólogos Experimentais) de 
Titchener realizava um encontro na Harvard University. O presidente da APA, Robert 
Yerkes, pediu ao grupo que buscasse uma forma de a psicologia contribuir com o esfor­
ço de guerra. Titchener recusou-se a participar, alegando ser cidadão britânico. Ele lite­
ralmente levantou-se e saiu da sala, levando consigo a cadeira, p ara não se envolver 
em nenhum debate sobre a guerra. A razão mais provável para a sua falta de entusias­
mo e m discutir o assunto é que ele não gostava da idéia de aplicar a psicologia aos pro­
blemas práticos, temendo que a área trocasse "a ciência pela tecnologia" (O'Donnell, 
1 979, p. 289). 
Com a mobilização do exército americano, os líderes militares enfrentavam a difi­
culdade de avaliar o nível de inteligência de um grande número de recrutas, para classi­
ficá-los e atribuir as tarefas mais adequadas a cada um. O Stanford-Binet era um teste de 
inteligência individual e exigia uma pessoa altamente treinada para aplicá-lo correta­
mente. Obviamente, era impossível aplicar o teste para avaliar tantas pessoas em tão 
pouco tempo. O exército necessitava de um teste mais simples e que fosse aplicado cole­
tivamente. 
Com a patente de major do exército, Yerkes reuniu um grupo de 40 psicólogos para 
desenvolver um teste de inteligência de aplicação em grupo. Examinaram várias propos­
tas: nenhuma delas comportava uso geral e selecionaram para utilizar como base o teste 
preparado por Arthur S. Otis, um ex-aluno de Terman. A contribuição mais importante 
de Otis para os testes de inteligência foi a criação da questão de múltipla escolha. Então, 
o grupo de Yerkes preparou o Exército Alfa e o Exército Beta. (Beta era a versão para os anal­
fabetos e para os que não falavam inglês, cujas instruções não eram passadas oralmente 
nem por escrito, mas por demonstração ou mímica.) 
O desenvolvimento do programa seguia lentamente e as ordens formais para efeti­
vamente iniciar a aplicação dos testes nos soldados foram dadas somente três meses 
antes do término da guerra. Finalmente, mais de 1 milhão de soldados foram testados, 
mas o exército não precisava mais dos resultados. Embora o programa não tenha surtido 
muito efeito direto sobre o esforço de guerra, foi muito importante no campo da psico­
logia. A publicidade valorizou a importância da psicologia e os testes do exército servi­
ram como protótipos para o desenvolvimento de outros. 
O trabalho dos psicólogos durante a guerra também incentivou o desenvolvimento 
e a aplicação dos testes em grupo para a avaliação das características da personalidade. 
Antes disso, houve apenas algumas tentativas tímidas de avaliar a personalidade huma­
na. No final do século XIX, o psiquiatra alemão Emil Kraepelin, que fora aluno de 
Wundt, usou o que chamou de "teste de livre associação", em que a pessoa respondia a 
uma palavra de estímulo com o primeiro termo que lhe viesse à mente (técnica criada 
originalmente por Galton). Em 1910, Carl Jung desenvolveu um método semelhante, 
seu teste de associação de palavras, para identificar complexos de personalidade nos seus 
pacientes (Capítulo 1 4). Essas duas visões referiam-se a testes de personalidade indivi­
duais. Quando o exército expressou o interesse em isolar os soldados neuróticos, Robert 
Woodworth elaborou a Ficha de dados pessoais, uma auto-avaliação em que os entrevis­
tados recebiam instruções para indicar os sintomas nervosos que apresentavam. Assim 
como o Exército Alfa e o Exército Beta, a Ficha de dados pessoais serviu como protótipo de 
futuros testes em grupo. 
CAPÍTULO 8 PSICOLOGIA APLICADA: A HERANÇA DO FUNCIONALISMO 201 
Os testes psicológicos venceram a própria batalha na guerra - o sucesso de aceita­
ção do público. Logo, milhares de trabalhadores, crianças em idade escolar e vestibulan­
dos eram submetidos às baterias de testes, cujos resultados determinariam
, 
o curso de 
suas vidas. Na década de 1920, até 4 milhões de testes de inteligência erarh �vendidos 
anualmente, a maioria para escolas públicas. Em 1923, foram vendidas mais de meio 
milhão de cópias do Stanford-Binet de Terman. Nos Estados Unidos, o sistema educacio­
nal público foi reorganizado com base no conceito do quociente de inteligência e os 
resultados de QI passaram a ser o critério mais importante para definir a colocação do 
aluno, bem como para determinar o seu desenvolvimento. 
Por volta da década de 1920, Luella Cole e Sidney Pressey, marido e mulher psicólo­
gos, criaram 47 testes diferentes. No total, mais de 12 milhões dos seus testes foram apli­
cados em alunos para determinar o nível de funcionamento cognitivo (Petrina, 2001). 
Por fim, muitos psicólogos acabaram encontrando empregos lucrativos para desenvolver 
e aplicar testes psicológicos. 
Alguns psicólogos mais arrojados pensaram até em usar os testes para descobrir 
potenciais jogadores de beisebol. O famoso jogador Babe Ruth concordou em ser testa­
do no laboratório de psicologia da Columbia University e, em um esforço para estabele­
cer as características que faziam dele um fenômeno, avaliou-se o seu desempenho nas 
tarefas que envolviam habilidade motora e sensorial. A tentativa não obteve êxito, mas 
um historiador comenta: 
A fé que a psicologia era uma ciência capaz de descobrir a base do grande número de 
acertos de hittings* comprova o sucesso dos psicólogos em estabelecer a identidade públi­
ca da disciplina e a fé do público esclarecido na capacidade de a ciência oferecer respos­
tas para todas as suas dúvidas. (Fuchs, 1998, p. 153.) 
Uma epidemia de testes varreu os Estados Unidos, mas, na ânsia de atender à urgen­
te demanda comercial e educacional, era inevitável que surgissem testes inadequados e 
mal elaborados que ofereciam resultados insatisfatórios. Um exemplo claro foi o teste de 
inteligência publicado em 1921 pelo respeitado inventor Thomas Edison. Ele simples­
mente juntou uma série de perguntas que acreditava serem fáceis de responder. Por 
exemplo: 
Qual o maior telescópio do mundo? 
• Qual o peso do ar em uma sala de 6 x 9 x 3 m? 
Qual a cidade americana líder na produção de máquinas de lavar roupa? 
As perguntas poderiam parecer simples para o gênio Thomas Edison, mas não para 
os 36 colegas da pós-graduação em quem ele aplicou o teste. Eles responderam correta­
mente apenas algumas perguntas, levando Edison a emitir o seguinte comentário: "Em 
se tratando de pessoas que freqüentaram a faculdade, acho-as surpreendentemente igno­
rantes. Parece que não sabem nada" (apud Dennis, 1984, p. 25). O teste de Edison fora 
alvo de grande publicidade, sendo que em um único mês o The New York Times publicou 
23 artigos sobre ele, o que contribuiu significativamente para a desmoralização dos tes-
' O beisebol é um dos esportes mais populares dos Estados Unidos e essa jogada consiste em rebater a bola com o 
bastão, resultando em um bom lance de ataque. (NT) 
202 HISTÓRIA DA PSICOLOGIA MODERNA 
tes perante o público e para o declínio do prestígio científico da psicologia. O descuido 
e a imprecisão do trabalho de Edison e de outros levaram as grandes organizações a aban­
donarem os testes psicológicos. 
As Idéias Extraídas da Medicina e da Engenharia 
A fim de dotar de credibilidade científica e autoridade a recém-iniciada empreitada, os 
psicólogos criadores dos testes de inteligência adotavam a terminologia de outras disci­
plinas mais antigas, como a medicina e a engenharia.O objetivo era convencer as pes­
soas de que a psicologia era tão legítima, científica e fundamental quanto as demais 
ciências há tempos estabelecidas. O s psicólogos descreviam as pessoas testadas não 
como sujeitos, mas como pacientes. Afirmavam serem os testes análogos aos termôme­
tros, que naquela época estavam disponíveis sornente para os médicos. Apenas os trei­
nados adequadamente podiam usá-lo, assim como somente as pessoas treinadas 
podiam aplicar os testes psicológicos. Os testes eram promovidos como se fossem 
máquinas de raio X, que permitiam ao psicólogo enxergar dentro da mente, para disse­
car os mecanismos mentais dos seus pacientes. "Quanto mais [os psicólogos] falassem 
como os médicos, mais o público se dispunha a atribuir-lhes status semelhante" (Keiger, 
1 993, p. 49). 
Comparações com a engenharia também eram <:i!ªs!.ªs,_Mel}ç_i_onaram-se as escolas 
como fábricas de educação e os testes como forma de medir o produto fabricado (o 
nível de inteligência dos alunos). A sociedade era comparada a uma ponte e os testes de 
inteligência eram ferramentas científicas para preservar-lhe a firmeza, detectando os 
elementos mais fracos - os cidadãos medíocres que seriam removidos da sociedade e 
institucionalizados. 
Henry Goddard, que tinha como pacientes •.:rianças portadoras de deficiência men­
tal, disse que os testes mentais 
permitem-nos conhecer um fato extremamente fundamental a respeito do material 
humano: a força mental. O engenheiro jamais seria capaz de construir pontes ou casas 
sem conhecer a resistência do seu material, quanta carga suportaria. Quão infinitamen­
te importante seria então conhecer a força do nosso material quando buscamos construir 
uma estrutura social. (apud Brown, 1992, p. 1 16-11 7.) 
Ao empregar essas metáforas, essas analogias com as demais ciências, os psicólogos 
desejavam aumentar a credibilidade e continuar aplicando os testes psicológicos em 
todos os níveis e aspectos da sociedade. 
A Inteligência nas Diferentes Raças 
O fortalecimento do movimento dos testes psicológicos fez parte de uma grande polêmi­
ca social que permanece até hoje. Em 19 12, Goddard, que traduziu o teste de Binet, visi­
tou a Ellis Island em Nova York, ponto de entrada de milhões de imigrantes europeus. 
Ele acreditava ser o teste um instrumento de seleção útil para evitar a entrada de pessoas 
" mentalmente fracas" nos Estados Unidos. Na primeira visita à central de triagem na 
Ellis Island, selecionou um jovem que lhe pareceu mentalmente deficiente e confirmou 
o diagnóstico, aplicando o teste de Binet com a ajuda de um intérprete. Embora o intér-
(APÍTULO 8 PSICOLOGIA APLICADA: A HERANÇA DO FUNCIONALISMO 203 
prete salientasse que o rapaz não era capaz de responder às perguntas por ser recém-che­
gado ao país - e o teste não era adequado para pessoas não familiarizadas com a língua 
inglesa e com a cultura americana - Goddard discordou (Zenderland, 19981. , : 
Os testes subseqüentes aplicados nas populações de imigrantes (cujo nível de inglês 
era inferior em relação ao utilizado nos testes) revelaram que a maioria - 87% dos rus­
sos, 83% dos judeus, 80% dos húngaros e 79% dos italianos - era débil mental, com 
idade mental inferior a 12 anos (Gould, 1981). Esses resultados foram usados mais tarde 
como argumento para a criação de uma lei federal que restringia a entrada de imigran­
tes de grupos raciais e étnicos considerados de pouca inteligência. 
A idéia das diferenças na inteligência entre as raças recebeu apoio adicional em 
1921 quando os resultados daqueles testes aplicados nos soldados durante a Primeira 
Guerra Mundial foram divulgados. Os dados mostraram que a idade mental dos recru­
tas e, por generalização, de toda a população branca, era de apenas 13 anos. Poste­
riormente, os dados mostraram que o QI dos negros e dos imigrantes originários de países 
da região do Mediterrâneo e da América Latina era inferior ao dos brancos. Somente os 
imigrantes do norte da Europa tinham o QI igual ao dos brancos. Essas constatações 
provocaram debates entre os cientistas, políticos e jornalistas. Como qualquer governo 
democrático conseguiria sobreviver se os cidadãos fossem tão estúpidos? Os grupos 
dotados de QI baixo devem ter direito ao voto? O governo deve recusar a entrada de 
imigrantes de países cuja população seja dotada de QI baixo? A noção da igualdade 
entre as pessoas tem sentido? 
O conceito das diferenças raciais na inteligência já existia nos Estados Unidos 
desde a década de 1880, e muitas exigências foram feitas para o estabelecimento de 
quotas de imigração para países do Mediterrâneo e da América Latina. A noção de infe­
rioridade da inteligência do negro americano também era amplamente aceita, mesmo 
antes do surgimento dos testes de inteligência. 
Um sonoro e articulado crítico dessa idéia era Horace Mann Bond, um intelectual 
afro-americano e reitor da Lincoln University, da Pensilvânia. Bond, que obteve o títu­
lo de doutorado em educação da University of Chicago, publicou vários livros e arti­
gos nos quais argumentava que qualquer diferença observada nos níveis de QI entre 
brancos e negros devia ser atribuída ao fator ambiental e não ao hereditário. Sua pes­
quisa comprovou que os resultados obtidos nos testes de inteligência pelos negros dos 
estados do norte eram melhores do que os dos brancos dos estados do sul, constatação 
que enfraqueceu bastante a teoria de que os negros eram geneticamente inferiores 
(Urban, 1 989). 
Muitos psicólogos responderam a essa polêmica alegando a distorção dos testes, 
mas felizmente, com o tempo, a controvérsia desapareceu. Ela foi reavivada em 1994 
com a publicação de The bel/ curve (A curva do sino) (Hernstein e Murray, 1994), um 
livro que afirma, com base nos resultados dos testes de inteligência, que os brancos 
eram mais inteligentes que os negros. A predominância da evidência mostrava dessa 
vez que os testes de inteligência pesquisados com mais seriedade não são distorcidos 
significativamente devido à cultura (Rowe, Vazsonyi e Flannery, 1994; Suzuki e 
Valencia, 1 997). Mais tarde, 52 peritos em testes gerais endossaram essa conclusão, 
afirmando: "Os testes de inteligência não são distorcidos devido a aspectos culturais 
contra afro-americanos ou pessoas de outra nacionalidade falantes de inglês nos 
Estados Unidos. Ao contrário, os resultados do teste de QI prognosticam igual e precisa­
mente todos os americanos, independentemente da raça e da classe social" 
(Gottfredson, 1997, p. 14). 
204 HISTÓRIA DA PSICOLOGIA MODERNA 
Um relatório preparado pelo Board of Scientific Affairs (Comitê de Assuntos 
Científicos) da APA concorda que os testes de habilidade cognitiva utilizados atualmen­
te não discriminam grupos de minoria, mas refletem, em termos quantitativos, a discri­
minação criada pela sociedade ao longo do tempo (Neisser et al, 1 996). 
.o História On-line 
http://www.indiana.edu/-intell/hottopics.html 
Esse site apresenta uma análise da história do desenvolvimento da teoria e 
dos testes de inteligência desde Platão até os dias de hoje, além de abran­
ger tópicos atuais da área. 
http:/ /psy. pdx.edu/PsiCafe/ Areas/Developmental/1 ntelligence-testing 
Esse endereço contém informações sobre a medição da inteligência, as 
principais personagens do movimento dos testes, as questões polêmicas 
relacionadas à diferença racial e sexual na inteligência, além de testes de 
inteligência on-line. 
As Contribuições da Mulher ao Movimento dos Testes 
Constatamos até agora que, na maior parte da história da psicologia, a mulher foi proi­
bida de seguir a carreira acadêmica. Por isso, muitas psicólogas buscaram emprego no 
campo da aplicação, especialmente em profissões assistenciais, como a psicologia clíni­
ca e de consultoria, a orientação infantil e a psicologia escolar. As mulheres ofereceram 
significativas contribuições nessas áreas, principalmente no desenvolvimento e na apli­
cação dos testes psicológicos. Florence L. Goodenough recebeu o Ph.D., em 1924, da 
StanfordUniversity. Ela desenvolveu o Teste do desenho da figura humana (hoje denomi­
nado Teste de Goodenóugh-Harris), um teste não-verbal muito utilizado para crianças. Foi 
pioneira na elaboração de testes e trabalhou por 20 anos no Institute for Child 
Development (Instituto de Desenvolvimento Infantil), da University of Minnesota. 
Publicou uma análise detalhada do movimento dos testes psicológicos (Goodenough, 
1949) e escreveu diversos trabalhos relacionados com a psicologia infantil. 
Maude A. Merrill ]ames, diretora de uma clínica psicológica infantil na Califórnia, 
escreveu, juntamente com Lewis Terman, a revisão de 1938 do Teste de inteligência 
Stanford-Binet, conhecido como o teste Terman-Merrill. Thelma Gwinn Thurstone (Ph.D. 
em 1927 da University of Chicago) casou-se com o psicólogo L. L. Thurstone e, assim 
como diversas mulheres que trabalham com os maridos, teve suas contribuições menos­
prezadas e desacreditadas. Ela ajudou a desenvolver a bateria de Testes das habilidades 
mentais primárias, um teste de inteligência em grupo, e foi professora de educação da 
University of North Carolina, além de ter sido diretora do laboratório psicométrico. Seu 
marido a descreveu como um "gênio na elaboração de testes" (Thurstone, 1952, p. 3 1 7). 
Psyche Cattel, filha de ]ames McKeen Cattell, obteve o doutorado em educação da 
Harvard University, em 1927. Suas contribuições para o movimento dos testes incluem 
a ampliação da faixa etária inferior do Stanford-Binet, criando a Escala de inteligência 
infantil de Cattell, que permitia testar crianças a partir de até três meses de idade. 
C\PiTULO 8 PSICOLOGIA APLICADA: A HERANÇA DO FUNCIONALISMO 205 
A longa carreira de Anne Anastasi (1908-2001) na Fordham University acabou trans­
formando-a em autoridade nos testes psicológicos. Foi precoce, ingressando 'na faculda, 
de com 15 anos e recebendo o doutorado com 21 . Decidiu tornar-se psicóloga por 
influência de um professor, Harry Hollingworth. Anastasi escreveu mais de 150 livros e 
artigos, incluindo um livro didático famoso sobre testes psicológicos (Anastasi, 1988, 
1993). Em 1971, foi presidente da APA e recebeu diversas homenagens profissionais, 
inclusive a Medalha Nacional da Ciência. Uma pesquisa apontou Anastasi como a mais 
destacada psicóloga dos países de língua inglesa (Gavin, 1987). Sua primeira posição aca­
dêmica após receber o Ph.D. na Columbia University em 1930, foi a de orientadora em 
psicologia, na Barnard College, pelo salário anual de US$ 2.400! Em 1947, passou a fazer 
parte do corpo docente da Fordham University e aposentou-se como professora emérita 
em 1979 (Reznikoff e Procidano, 2001). 
Apesar do êxito da mulher em áreas como a aplicação de testes, o trabalho com a 
psicologia aplicada as coloca em desvantagem profissional. Os empregos em institui­
ções não-acadêmicas raramente proporcionam tempo, suporte financeiro ou assistência 
de estudantes graduados para a realização de pesquisas e a elaboração de artigos aca­
dêmicos, que são os principais meios para se atingir a visibilidade profissional. Nos 
ambientes da psicologia aplicada, como em uma empresa comercial ou em uma clíni­
ca, as contribuições de um profissional raramente são reconhecidas fora dos limites da 
organização. 
Desse modo, o enorme desenvolvimento da psicologia aplicada nos Estados Unidos 
- a herança da escola funcionalista - criou oportunidades de emprego para as mulhe­
res mas, ao mesmo tempo, excluiu-as do ambiente da psicologia acadêmica geral, na 
qual vinham sendo desenvolvidas as teorias, as pesquisas e as escolas de pensamento. 
Diversos psicólogos acadêmicos tinham uma imagem negativa do trabalho aplicado, 
considerando-o inferior e desprezível. As áreas da aplicação como o aconselhamento, por 
exemplo, eram menosprezadas como sendo "trabalho de mulher". Histórias publicadas 
a respeito da psicologia tendem a desvalorizar a psicologia aplicada e as contribuições de 
diversas mulheres pioneiras que trabalharam em hospitais, clínicas, empresas, institutos 
de pesquisa e agências militares e governamentais. É interessante observar que nenhu­
ma mulher foi eleita presidente da American Association of Applied Psychology 
(Associação Americana de Psicologia Aplicada), apesar de, por volta de 1941, um terço 
dos seus membros serem mulheres (Rossiter, 1982). Também naquela época, cerca de 
metade dos cargos de psicólogo em organizações clínicas e educacionais era ocupada por 
mulheres (Gilgen, Gilgen, Koltsova e Oleinik, 1997). 
Lightner Witmer (7867- 7956) 
Enquanto G. Stanley Hall promovia a mudança definitiva da natureza da psicologia 
americana, aplicando-a em crianças e nas salas de aula, e Cattell, na mensuração das 
habilidades mentais, um aluno de Cattell e Wundt aplicava a psicologia na avaliação e 
no tratamento do comportamento anormal. Passados apenas 1 7 anos após Wundt defi­
nir e fundar a nova ciência da psicologia, outro dos seus ex-alunos estava utilizando a 
psicologia de forma prática, divergindo das intenções do mestre. 
Descrito como briguento, anti-social e convencido (Landy, 1992), Witmer inaugu­
rou um campo que chamou de psicologia clínica. Em 1896, abriu a primeira clínica de 
psicologia do mundo. 
206 HISTÓRIA DA PSICOLOGIA MODERNA 
O tipo de psicologia praticado por Witrner em sua Clínica não era a psicologia clínica 
como a conhecemos atualmente. Ele não adotava a psicoterapia, técnica que "detestava" e 
que não conhecia muito bem (Taylor, 2000, p. 1029). Em vez disso, estava interessado em 
avaliar e tratar os problemas de aprendizagem e comportamento das crianças em idade 
e�colar, uma área especializada da aplicação e hoje denominada psicologia escolar. A psi­
cologia clínica contemporânea como especialização lida com uma ampla gama de dis­
túrbios psicológicos, desde os mais leves até os mais profundos, e de pessoas de todas as 
idades. Apesar de Witmer ter sido fundamental no desenvolvimento da psicologia clíni­
ca e de usar esse termo livremente, o campo tornou-se muito mais abrangente do que ele 
imaginava. 
Witmer ofereceu o primeiro curso universitário de psicologia clínica e criou a pri­
meira revista especializada na área, Psychologica/ C/ínic, que editou durante 29 anos. Ele 
foi mais um daqueles pioneiros da abordagem funcionalista da psicologia que acredita­
vam no uso da nova ciência para ajudar as pessoas a resolverem os problemas e não para 
estudar o conteúdo das suas mentes. 
A Biografia de Witmer 
Nascido em 1 867 na Filadélfia, Witmer era filho de um próspero farmacêutico que acre­
ditava na importância da educação. Formou-se na University of Pennsylvania em 1884 
e lecionou história e inglês em uma escola particular na Filadélfia, antes de retornar para 
a universic!ac_!_e a fim de cursar direito. Naquela época, aparentemente não demonstrava 
interesse em seguir a carreira na psicologia, mas mudou de idéia por razões práticas. 
Procurava um cargo remunerado como assistente e um dos disponíveis era no departa­
mento de psicologia de Cattell. Esse é mais um exemplo da influência do Zeitgeist eco­
nômico. Um biógrafo de Witmer declarou: 
O verdadeiro ingresso de Witmer na psicologia foi decorrente, em parte, da necessidade 
extremamente realista de receita adicional que seria obtida por meio de um cargo de 
assistente. (McReynolds, 1997, p. 34.) 
Witmer começou a trabalhar nas pesquisas sobre as diferenças individuais no tempo 
de reação e esperava obter o Ph.D. na Pennsilvânia, mas Cattell tinha outros planos. Ele 
admirava tanto Witmer que o escolheu como seu sucessor. Era uma oportunidade mar­
cante para o jovem, mas havia uma condição: Witmer devia seguir para Leipzig, a fim de 
fazer o doutorado sob a orientação de Wundt. Devido ao grande prestígio que lhe ren­
deria um Ph.D. na Alemanha, ele concordou. 
Witmer estudou com Wundt e Külpe e foi colega de classe de Titchener. Não ficou 
impressionado com os métodos de pesquisa de Wundt, aos quais chamava de desleixa­
dos. Contou que Wundt fazia Titchener repetir uma observação"porque os resultados 
obtidos por Titchener não eram como os que ele, Wundt, previra" (apud O'Donnell, 
1985, p. 35). Mais tarde, Witmer afirmou não ter extraído nada, a não ser o título, da sua 
experiência em Leipzig. Wundt não permitiu que Witmer continuasse o trabalho sobre 
o tempo de reação iniciado por Cattell e restringiu seus estudos à pesquisa introspectiva 
dos elementos da consciência. 
Mesmo assim, Witmer obteve sua titulação e retornou para ocupar a sua nova posi­
ção na University o f Pennsylvania, no verão de 1892, e, ao mesmo tempo, Titchener, que 
também recebera a graduação, foi para Cornell University. Esse também foi o ano em 
C\PÍTULO 8 PSICOLOGIA APLICADA: A HERANÇA DO FUNCIONALISMO 207 
que outro aluno de Wundt, Hugo Münsterberg, foi levado por William ]ames para a 
Harvard University, e em que Hall fundou a APA, tendo Witmer como um dos sócios­
fundadores. Assim, observa-se o espírito funcionalista aplicado começando a tomar 
conta da psicologia americana. 
Durante dois anos, Witmer trabalhou como psicólogo experimental, conduzindo 
pesquisas e apresentando trabalhos sobre as diferenças individuais e a psicologia da dor. 
Ao mesmo tempo, buscava uma oportunidade para aplicar a psicologia no comporta­
mento anormal. A chance surgiu em março de 1896, em conseqüência de uma situação 
criada pelas circunstâncias econômicas da época: o aumento das verbas para a educa­
ção pública. 
Diversos conselhos estaduais de educação estavam estabelecendo departamentos 
universitários de pedagogia para oferecer orientações a respeito dos métodos e princípios 
do ensino. Os psicólogos eram procurados para oferecer cursos de especialização em edu­
cação e cursos para professores de escolas públicas que almejassem graduação mais avan­
çada. Os psicólogos foram pressionados a transferir o enfoque experimental da pesquisa 
de laboratório a fim de buscar formas de ensinar os alunos a se tornarem psicólogos edu­
cacionais. Os departamentos de psicologia beneficiaram-se consideravelmente desse 
aumento repentino de alunos porque na época, assim como hoje, o orçamento do depar­
tamento era totalmente dependente do número de matrículas. 
Witmer lecionou alguns dos cursos estabelecidos para professores de escolas públi­
cas na University of Pennsylvânia. Em 1896, uma dessas professoras, Margaret Maguire, 
pediu uma orientação a Witmer a respeito de um aluno de 14 anos que tinha dificulda­
des para aprender a soletrar, embora se conduzisse bem em algumas outras matérias. 
Será que a psicologia era capaz de ajudar? Witmer disse: "Parece-me que, se a psicolo­
gia tiver algum valor para mim ou para qualquer outra pessoa, tem de ser capaz de aju­
dar um professor em um caso de deficiência desse tipo" (apud McReynolds, 1997, p. 76). 
Witmer montou uma clínica provisória, iniciando, assim, o trabalho que realizaria pelo 
resto da vida. 
Alguns meses depois, Witmer preparava cursos sobre métodos de tratamento de 
crianças com deficiência mental, cegas e com distúrbios. Publicou um artigo na revista 
Pediatrics, intitulado "Practical work in psychology" (O trabalho prático na psicologia), 
em que recomendava a aplicação da psicologia nas questões práticas. 
O lado prático da psicologia merece séria atenção dos psicólogos profissionais. A práti­
ca da psicologia pode tornar-se uma atividade tão bem definida, constituída de uma 
classe de profissionais instruídos, quanto é a prática da medicina. (apud McReynolds, 
1997. p. 78.) 
Witmer apresentou um trabalho sobre esse tema na reunião anual da APA, usando 
pela primeira vez a expressão "psicologia clínica". Em 1907, criou a r-;;ista Psychological 
Clinic, a primeira, e durante muitos anos a única, publicação na área. Ná primeira edi­
ção, Witmer propôs a criação da nova profissão da psicologia clínica. No ano seguinte, 
criou um internato para crianças com retardo e distúrbios e, em 1909, expandiu sua clí­
nica universitária, transformando-a em unidade administrativa separada. 
Witmer permaneceu na University o f Pennsylvania, lecionando, promovendo e pra­
ticando sua psicologia clínica. Aposentou-se da universidade em 1937 e faleceu em 1956, 
com 89 anos, o último dos membros do pequeno grupo de psicólogos que se reuniu com 
G. Stanley Hall em 1892 para fundar a APA. 
208 H iSTÓRIA DA PSICOLOGIA MODERNA 
As Clínicas de Avaliação Infantil 
Sendo o primeiro psicólogo clínico do mundo, Witmer não tinha exemplos nem prece­
dentes para os seus casos, então, foi elaborando o diagnóstico e o tratamento, conforme 
as necessidades. "Devido à falta de qualquer princípio de orientação, foi necessário 
envolver-me diretamente no estudo dessas crianças, criando métodos próprios, à medi­
da que prosseguia com o tratamento" (Witmer, 1907/1996, p. 249). 
No seu primeiro caso - o garoto com dificuldades para soletrar -, Witmer avaliou 
a criança quanto à inteligência, ao raciocínio e à capacidade de leitura, campo em que 
constatou sua deficiência. Realizou a análise exaustiva dos dados e concluiu que o meni­
no sofria de amnésia visual-verbal. Embora a criança fosse capaz de se lembrar das figu­
ras geométricas, apresentava dificuldades com as palavras. Witmer desenvolveu um 
intenso programa de ajuda que proporcionou alguma melhoria, mas o paciente nunca 
se tornou fluente em leitura e em soletração de palavras. 
As crianças encaminhadas à clínica de Witmer apresentavam diversos problemas, 
alguns dos quais identificados por ele como hiperatividade, dificuldade de aprendizagem 
e baLxo desempenho motor e oral. Quando adquiriu mais experiência e se sentiu mais 
confiante, desenvolveu programas-padrão de avaliação e tratamento e aumentou o qua­
dro de pessoal da clínica, contratando mais médicos, assistentes sociais e psicólogos. 
Witmer reconhecia que os problemas físicos afetavam o funcionamento cognitivo e 
emocional; assim, pedia aos médicos que examinassem as crianças para determinarem se 
a desnutrição ou as deficiências visual e auditiva consistiam em fatores contribuintes 
para as dificuldades dos pacientes. Depois desse exame, os psicólogos testavam-nos e os 
entrevistavam e os assistentes sociais preparavam o histórico a respeito da formação 
familiar de cada um. 
No início, Witmer acreditava que os fatores genéticos fossem os principais respon­
sáveis pelos distúrbios cognitivos e comportamentais. Mais tarde, porém, percebeu que 
os fatores ambientais eram mais importantes. Ele prognosticou a necessidade de propor­
cionar diversas experiências sensoriais, logo nos anos iniciais da vida da criança, anteci­
pando a criação de programas de tratamento e aperfeiçoamento, como o programa Head 
Start.* Acreditava no envolvimento da família e da escola no tratamento dos pacientes, 
alegando que, se as condições da casa e da escola fossem melhoradas, o comportamento 
da criança também mudaria para melhor. 
Comentários 
Vários psicólogos logo seguiram o exemplo de Witmer. Por volta de 1914, quase 20 clí­
nicas de psicologia já operavam nos Estados Unidos, a maioria seguindo os padrões da 
sua clínica. Além disso, seus ex-alunos disseminaram a sua abordagem e passaram para 
as novas gerações tudo que aprenderam a respeito do trabalho clínico. A influência de 
Witmer atingiu a área da educação especial. Seu aluno Morris Viteles ampliou o traba­
lho, estabelecendo uma clínica de orientação vocacional, a primeira desse tipo nos 
Estados Unidos. Outros seguidores de Witmer aplicaram a sua abordagem clínica em 
pacientes adultos. 
"' Uma espécie de programa de assistência à criança, que atualmente abrange não apenas as dificuldades de apren­
dizagem, como também as de cunho social. (NT) 
CAPÍTULO 8 PSICOLOGI'\ APLICADA: A HERANÇA DO FUNCIONALISMO 209 
História On-Jine 
http:/ I psychclassics. yorku.ca/Witmer/ clinical.htm 
Esse site apresenta o artigo escrito por Witmer em 1907 sobre a psicoíogia 
clínica. 
O Movimento da Psicologia Clínica 
Além dos esforços de Witmer na aplicação da psicologia para avaliar e tratar o compor­
tamento anormal, doislivros deram impulso ao campo. Clifford Beers, um ex-paciente 
com problemas mentais, escreveu A mind that found itse/{ (1908), que fez muito sucesso 
e chamou a atenção para a necessidade de tratar com mais humanidade as pessoas men­
talmente doentes. A obra Psychotherapy (Psicoterapia) (1909), de Hugo Münsterberg, 
também teve grande repercussão e descrevia as técnicas de tratamento de vários distúr­
biós mentais. Münsterberg promoveu a psicologia clínica, descrevendo métodos especí­
ficos para o auxílio a pessoas perturbadas. 
A primeira clínica de orientação infantil foi fundada em 1909 por um psiquiatra de 
Chicago, William Healey. Em seguida, várias clínicas desse tipo surgiram, oferecendo o 
tratamento precoce dos distúrbios infantis, a fim de evitar a evolução para estados mais 
graves na vida adulta. Essas clínicas empregavam a mesma abordagem adotada nas 
outras criadas pelos seguidores de Witmer: a combinação do trabalho de médicos, psi­
cólogos, psiquiatras e assistentes sociais para avaliar todos os aspectos do problema de 
um paciente. 
As idéias de Sigmund Freud foram fundamentais para o avanço da psicologia clíni­
ca e acabaram conduzindo o campo muito além dos limites da clínica de Witmer. A psi­
canálise freudiana tanto fascinou como enfureceu segmentos dominantes da psicologia, 
bem como o público americano. Os conceitos de Freud proporcionaram aos psicólogos 
clínicos as suas primeiras técnicas psicológicas de terapia. 
Apesar de tudo, a psicologia clínica avançou lentamente como profissão. Mesmo 
em 1 918, nove anos depois da visita de Freud aos Estados Unidos, ainda não havia pro­
gramas de pós-graduação em psicologia clínica. Em uma reunião de psicólogos interes­
sados na área, realizada em 1918, Henry Goddard levantou a questão à qual ele mesmo 
respondeu: "O que faz o psicólogo clínico? Aí é que está - ninguém sabe" (apud Routh, 
2000, p. 237). . , 
Mesmo por volta de 1940, a psicologia clínica ainda era uma parte menor da psico­
logia. Havia poucas instituições para o tratamento de adultos com distúrbios e, conse­
qüentemente, poucos empregos para psicólogos clínicos. Os programas de treinamento 
para novos psicólogos clínicos eram limitados. O trabalho do profissional raramente ia 
além da administração de testes. Quando os Estados Unidos entraram na Segunda 
Guerra Mundial, em 1941, a situação mudou. Esse foi o impulso que faltava para trans­
formar a psicologia clínica em uma área especializada aplicada e dinâmica. O exército 
estabeleceu programas de treinamento para centenas de psicólogos clínicos comandados 
para tratarem os distúrbios emocionais dos soldados. 
Depois da guerra, a necessidade de psicólogos clínicos aumentou ainda mais. A 
Veterans Administration - VA (Administração dos Veteranos) (hoje, Department of 
Veterans Affairs [Departamento de Assuntos dos Veteranos)) viu-se responsável por mais 
2 1 0 HISTÓRIA DA PSICOLOGIA MODERNA 
de 40 mil veteranos de guerra diagnosticados com problemas psiquiátricos. Mais outros 
três milhões necessitavam de orientação vocacional e pessoal para ajudá-los na retoma­
da da vida civil. Cerca de 3 15 mil veteranos aguardavam o auxílio para se ajustarem às 
deficiências físicas resultantes dos ferimentos de guerra. Havia uma demanda excessiva 
de profissionais da saúde mental que ultrapassava de longe a oferta. 
Para ajudar a atender a essas necessidades, a VA criou programas de graduação de 
nível universitário e pagou as mensalidades aos estudantes de pós-graduação que dese­
jassem trabalhar nos hospitais e nas clínicas da VA. Em virtude da especificidade desses 
programas, os psicólogos clínicos passaram a tratar de um tipo diferente de paciente. 
Antes da guerra, a maior parte do trabalho era dedicada às crianças com problemas de 
delinqüência e de ajuste, mas as necessidades dos veteranos de guerra trouxeram pacien­
tes adultos com problemas emocionais ainda mais profundos. O Department o f Veteran 
Affairs continua a ser o maior empregador de psicólogos dos Estados Unidos. 
Atualmente, os psicólogos clínicos estão empregados em centros de saúde mental, 
escolas, empresas e clínicas particulares. A psicologia clínica é a maior área de especia­
lização aplicada, com mais de um terço de todos os estudantes de pós-graduação matri­
culados nos programas clínicos. Várias grandes divisões da APA dedicam-se às questões 
da saúde mental nos ambientes acadêmicos e aplicados e 70o/o dos membros da APA tra­
balham nas áreas direcionadas aos serviços de saúde. Mais de um terço de todos os 
membros da APA atuam em consultórios particulares e 44o/o dos novos Ph.D. estão 
empregados em hospitais, centros assistenciais e organizações de clínicas particulares 
(Fowler, 2002; Smith, 2002b). 
Walter Dii/ Scott (7 869- 7 955) 
Outro aluno de Wundt em Leipzig, Walter Di!! Scott, deixou o universo da pura psicolo­
gia introspectiva para aplicar a nova ciência à publicidade e aos negócios. Scott dedicou 
a maior parte da sua vida adulta à melhoria do mercado e do ambiente de trabalho, pro­
curando identificar métodos para os grandes empresários motivarem os funcionários e 
os consumidores. 
O trabalho de Scott reflete a preocupação da escola da psicologia funcionalista com 
as questões práticas. Um historiador da psicologia declarou: 
Ao deLxar Wundt e Leipzig e retornar à Chicago da virada do século, as publicações de 
Scott passaram da teorização germânica para a praticidade americana. Em vez de expli­
car a motivação e os impulsos em geral, Scott dava orientações de como influenciar pes­
soas, inclusive os consumidores, o público em palestras . e os trabalhadores. (Von 
Mayrhauser, 1989, p. 61.) 
Scott também colecionou uma lista impressionante de primeiras posições. Ele foi 
a primeira pessoa a aplicar a psicologia à seleção de pessoal, à administração e à 
publicidade, e o autor do primeiro livro nessa área, 
o primeiro com o título de professor de psicologia aplicada, 
o fundador da primeira empresa de consultoria em psicologia e 
o primeiro psicólogo a receber do exército americano a medalha de Honra por 
Serviços Prestados. 
A Biografia de Scott 
Cll'íTUlO 8 PSICOlOGIA APliCADA: A HER.\NÇA DO FUNCIQN,\USMO 21 1 
Nasceu em uma fazenda próxima à cidade de Normal, em Illinois, e em céíta' ocasião, 
enquanto o jovem Scott arava a terra, ocorreu-lhe a idéia da melhoria do ambiente de 
trabalho. Seu pai freqüentemente estava doente e assim o garoto de 12 anos era respon­
sável por grande parte da administração da pequena fazenda da família. Um dia, depois 
de arar um trecho do solo para o plantio, parou no final dos sulcos para os cavalos des­
cansarem um pouco e avistou a distância os prédios do campus da Illinois State Normal 
University. De repente percebeu que, se almejava obter uma vida melhor, não podia mais 
perder tempo. Ele perdia 10 minutos a cada hora de aragem para os cavalos descansa­
rem! Esses minutos somados totalizavam cerca de uma hora e meia por dia, tempo que 
poderia usar para estudar. Então, Scott decidiu carregar consigo livros para ler durante 
qualquer intervalo. 
Para pagar a mensalidade da faculdade, colhia e enlatava amoras, recuperava ferros 
distorcidos para vender, além de fazer biscates. Guardava parte do dinheiro e o resto 
gastava em livros. Com 19 anos, matriculou-se na Illinois State Normal University e 
começou sua longa jornada para longe da fazenda. Dois anos depois, conseguiu uma 
bolsa de estudos para freqüentar a Northwestern University, em Evanston, Illinois, e 
dava aulas particulares para ganhar um dinheiro extra. Fez parte do time de futebol 
americano da universidade e, nessa época, conheceu Anna Marcy Miller, com quem 
viria a se casar. 
Ek também escolheu sua carreira e resolveu tornar-se missionário para servir na 
China, embora isso significasse mais três anos de estudo. Quando se formou no seminá­
rio teológico de Chicago e estava pronto para partir, soube que a China não mais aceitava 
missionários, pois estava lotada. Foi então que seus interesses se voltarampara a psicolo­
gia. Fizera um curso de psicologia de que gostara muito e lera um artigo em uma revista 
a respeito do laboratório Wundt, em Leipzig. Com as bolsas de estudo, as aulas particula­
res e a vida simples que levava, economizara alguns milhares de dólares, o suficiente para 
adquirir a passagem para a Alemanha e para se casar. 
Em 21 de julho de 1898, Scott e sua noiva partiram. Enquanto ele estudava com 
Wundt, Anna Miller Scott trabalhava no seu Ph.D. em literatura na University of Halle, 
cerca de 30 quilômetros distante. Muitas vezes eles se encontravam apenas nos fins de 
semana. Ambos receberam o doutorado dois anos depois. Scott passou a fazer parte do 
corpo docente da Northwestern University como orientador de psicologia e pedagogia, 
já mostrando sua tendência de aplicar a psicologia aos problemas educacionais. 
Alguns ariàs depois, seus interesses mudaram, ao ser procurado por um executivo 
publicitário, pedindo para que tentasse aplicar a psicologia nos anúncios, com o intuito 
de lhes aumentar a eficácia. Essa idéia despertou o seu interesse. Acompanhando o espí­
rito do funcionalismo americano, o caminho de Scott distanciava-se da psicologia wund­
tiana à medida que encontrava formas para empregar a psicologia nas questões da 
vida real. 
Scott escreveu The theory and practice of advertising (1903), o primeiro livro a respei­
to do assunto e, em seguida, outros livros e artigos para revistas. Sua perícia, reputação 
e os contatos na comunidade empresarial ampliaram-se rapidamente. Ele também vol­
tou sua atenção para os problemas administrativos e de seleção de pessoal. Em 1905, foi 
promovido a professor e, em 1909, começou a lecionar publicidade na escola de comér­
cio da Northwestern University. Em 1916, foi indicado professor de psicologia aplicada 
21 2 HISTÓRIA DA PSICOLOGIA MODERNA 
e diretor do departamento de pesquisas das habilidades em vendas da Pittsburgh's 
Carnegie Technical University. 
Quando os Estados Unidos entraram na Primeira Guerra Mundial, em 1917, Scott 
ofereceu ao exército suas habilidades para ajudar na seleção dos soldados. No início, 
Scott e suas propostas não foram bem aceitos, porque nem todos estavam convencidos 
do valor prático da psicologia. O general do exército com quem Scott tinha de lidar ficou 
furioso e expressou sua desconfiança de professores. "Ele disse que era sua função enxer­
gar que os professores universitários não conseguiam progredir e que nós estávamos na 
guerra com os alemães e não tínhamos tempo a perder com experiências" (Scott, apud 
Von Mayrhauser, 1989, p. 65). Scott acalmou o homem irado, levou-o para almoçar e o 
convenceu do valor das suas técnicas de seleção. Aparentemente, Scott conseguiu provar 
seu ponto de vista e, posteriormente, o exército acabou concedendo-lhe uma medalha 
pelos serviços prestados. 
Depois da guerra, Scott fundou a própria empresa (com o nome bem "criativo" de 
The Scott Company) para prestar serviços de consultoria às empresas que desejassem 
auxílio na seleção de pessoal e na melhoria da eficácia do trabalhador. Também foi rei­
tor da Northwestern University, entre 1920 e 1939. O saguão da universidade foi batiza­
do de Salão Scott, em homenagem a Walter Di!! Scott e Anna Míller Scott. 
A Publicidade e a Sugestionabilidade Humana 
A marca da formação de Scott na psicologia experimental de Wundt, baseada na fisiolo­
gia, e sua tentativa de estendê-la para o domínio da prática são patentes em seus traba­
lhos a respeito da publicidade. Por exemplo: ele observou que os órgãos humanos dos 
sentidos são a 
janela da alma. Quanto mais sensações recebemos de um objeto, mais o conhecemos. A 
função do sistema nervoso é fazer-nos perceber a visão, a sonoridade, o sentimento, o 
sabor e outras características dos objetos presentes no nosso ambiente. O sistema que não 
reage ao som ou a qualquer outra qualidade sensitiva é deficiente. 
A publicidade às vezes é comparada ao sistema nervoso do mundo dos negócios. Um 
anúncio de instrumentos musicais incapaz de despertar a sensação sonora é deficiente. 
( . . . ) Assim como o sistema nervoso é organizado de forma a nos proporcionar todas as 
sensações possíveis de cada objeto, o anúncio deve despertar na mente do consumidor 
diferentes tipos de imagens. (apud Jacobson, 1951, p. 75.) 
Scott alegava que o consumidor pode ser facilmente influenciável porque, muitas 
vezes, não age racionalmente. Considerava a emoção, a simpatia e o sentimentalismo 
fatores que aumentam a sugestionabilidade do consumidor. Também acreditava, como 
era comum naquela época, que a mulher era mais sugestionável do que o homem. 
Aplicando sua lei da sugestionabilidade, recomendava às empresas que usassem 
comandos diretos para vender o produto, como, por exemplo, Use o sabão X. Ele tam­
bém promoveu o uso dos cupons porque faziam com que os consumidores tomassem 
uma atitude direta - como recortar o cupom do jornal, preenchê-lo com nome e 
e ndereço e remetê-lo para a empresa, a fim de receber uma amostra grátis. Essas técni­
cas foram adotadas com entusiasmo pelos publicitários e, em torno de 1910, seu uso 
já era generalizado. 
Seleção de Pessoal 
CAPÍTULO 8 PSICOLOCIA APUC,.\0,\: A HERANÇA DO FUNCIONALISMO 2 1 3 
Para a seleção dos melhores funcionários, principalmente entre o pessoal de \;'egdas, exe­
cutivos e militares, Scott criou escalas de classificação e testes em grupo para medir as 
características das pessoas já bem-sucedidas nessas ocupações. 
Assim como Witmer na psicologia clínica, Scott não tinha como se basear em 
algum trabalho anterior. Procurou os oficiais do exército e os gerentes das empresas, 
pedindo-lhes que classificassem seus subordinados pela aparência, pelo porte, pela since­
ridade, pela produtividade, pelo caráter e pelo valor profissional para a organização. Em 
seguida, classificou os candidatos às vagas de acordo com as qualidades consideradas 
necessárias para o bom desempenho da função, procedimento semelhante ao adotado 
atualmente. 
Scott desenvolveu testes psicológicos para medir a inteligência e outras habilidades, 
mas, em vez de avaliar os candidatos individualmente, criou testes para aplicação em 
grupo. Quando há grande número de candidatos para ser avaliado em pouco tempo, os 
testes em grupo são mais eficientes e mais econômicos. 
Esses testes eram diferentes dos que estavam sendo desenvolvidos por Cattell e outros 
psicólogos da aplicação. Scott não apenas media a inteligência geral, como também se 
interessava em saber como a pessoa empregava sua inteligência. Em outras palavras, dese­
java saber como o indivíduo processava as informações e como a inteligência funcionava 
no mundo cotidiano. Ele definiu a inteligência não em termos de habilidades cognitivas 
específicas, mas em termos práticos como julgamento, rapidez e precisão. Essas são carac­
terísticas necessárias para a realização de um bom trabalho. Ele comparava os resultados 
dos testes dos candidatos com os de funcionários bem-sucedidos e não se preocupava com 
a indicação que esses resultados pudessem dar a respeito dos elementos mentais. 
Comentários 
Scott, assim como Witmer, não é alvo de muita atenção da história da psicologia e há 
diversas razões para esse relativo descaso. Assim como muitos psicólogos da aplicação, 
Scott não formulou teorias, não fundou uma escola de pensamento nem teve discípulos 
leais para dar continuidade ao seu trabalho. Conduziu pouca pesquisa experimental e 
não publicou muito nas principais revistas. Seus trabalhos para as empresas do setor pri­
vado -e para o exército eram direcionados a problemas muito específicos. Muitos psicó­
logos acadêmicos, principalmente os que ocupavam posições de titular nas principais 
universidades e contavam com laboratórios bem financiados, menosprezavam o traba­
lho dos psicólogos da aplicação, pois acreditavam que eles pouco contribuíam para o 
progresso da psicologia como ciência. 
Scott e outros psicólogos que trabalhavam com psicologia aplicada contestavam essa 
noção.Não viam conflito entre a aplicação da psicologia e o seu avanço como ciência. 
Os psicólogos da aplicação alegavam que, ao trazer a psicologia aos olhos do público, 
conseguiam demonstrar o seu valor, e assim as pesquisas psicológicas nos laboratórios 
acadêmicos passavam a ser mais reconhecidas. Dessa maneira, os pioneiros da psicolo­
gia aplicada refletiam o espírito funcionalista americano, com a tarefa de transformá-la 
em um instrumento utilitário. 
2 1 4 HISTÓRIA DA PSICOLOGIA MODERNA 
_O História On-line 
http://www.lib.umd.edu/ETC/ReadingRoom/Speeches/ScottWD/ 
Esse site contém a obra lncreasing human efficiency in business (A melhoria 
da eficácia humana nos negócios). de Walter Dill Scott. 
O Movimento da Psicologia Industrial-Organizacional 
O Impacto das Grandes Guerras Mundiais 
A Primeira Guerra Mundial provocou um aumento monumental no escopo, na popu­
laridade e no crescimento da psicologia industrial-organizacional. Vimos que Scott 
voluntariou-se para prestar serviços ao exército americano e desenvolveu uma escala de 
classificação para a seleção de capitães do exército, com base nos testes que criara para 
a categorização de líderes nas empresas (veja a Tabela 8.1) . No final da guerra, já havia 
avaliado a qualificação profissional de três milhões de soldados, e esse trabalho foi 
amplamente divulgado como um exemplo do valor prático da psicologia. Depois da 
guerra, houve grande demanda por parte do comércio, da indústria e do governo pelos 
serviços dos psicólogos industriais para a reorganização dos seus procedimentos de pes­
soal e a preparação de testes psicológicos para a seleção de funcionários. 
A Primeira Guerra Mundial também exerceu grande impacto na psicologia industrial 
européia (Viteles, 1967). Psicólogos ingleses e alemães também colaboraram com o esfor­
ço de guerra nas suas nações, desenvolvendo técnicas para a seleção de pessoal do exér­
cito e ajudando no projeto de equipamentos militares, como o aparelho de telemetria. 
Depois da guerra o interesse pela psicologia industrial continuou a crescer. Em 1921, foi 
fundado na Inglaterra o National Institute of Industrial Psychology (Instituto Nacional 
de Psicologia Industrial). Institutos semelhantes de psicologia aplicada foram criados nas 
principais cidades da Alemanha e diversas corporações organizaram os próprios labora­
tórios de psicologia (van Strien, 1998). 
A Segunda Guerra Mundial empregou psicólogos no trabalho de guerra, para a rea­
lização de testes, seleção e classificação de soldados. Além disso, nesse período, as armas 
de guerra (como as aeronaves de alta velocidade) haviam se tornado tão complexas que 
a sua operação exigia pessoal altamente qualificado. A necessidade de identificar soldados 
com capacidade para aprender às qualificações exigidas levou os psicólogos a aperfeiçoa­
rem os procedimentos de seleção e treinamento. Essas necessidades da guerra geraram 
uma nova especialidade dentro da psicologia industrial, muitas vezes chamada de psico­
logia da engenharia, engenharia humana, engenharia dos fatores humanos ou sim­
plesmente ergonomia. Os psicólogos da engenharia trabalham em conjunto com os 
engenheiros de sistemas de armamento, fornecendo informações acerca da capacida­
de e da limitação humanas. Seu trabalho exerce influência direta no projeto de equi­
pamentos militares, para adequá-los às habilidades de quem os for manusear. Hoje, os 
psicólogos da engenharia não trabalham apenas com equipamentos militares, como 
também com produtos de consumo, como teclados de computador, mobiliário de 
e scritórios, eletrodomésticos e visor de painéis de automóveis. 
CIPiTULO 8 PSICOLOGIA API.ICADA: A HERANÇA DO FUNCIONALISMO 2 1 5 
Os Estudos de Hawthorne e as Questões Organizacionais 
O enfoque inicial dos psicólogos industriais durante a década de 1920 consistia na sele­
ção e na colocação dos candidatos - a escolha da pessoa certa para a posiÇão mais ade­
quada. Em 1927, o programa da área ampliou-se consideravelmente com o programa de 
pesquisa inovador conduzido pela Western Electric Company, na fábrica de Hawthorne, 
em Illinois (Roethlisberger e Dickson, 1939). Esses estudos ultrapassaram o limite da sele­
ção e da colocação de pessoal, abordando problemas mais complexos das relações huma­
nas, como a motivação e o moral. 
Tabela 8.1 Escala de classificação de Scott 
Essa escala de classificação foi elaborada por Walter Di l l Scott para aval iar 
subordinados. Cada avaliador registra o nome do subordinado mais represen­
tativo de cada atributo em cada nível de competência. 
I. Qualidades Físicas 
Compleição, postura, elegância, 
expressão, vigor, resistência. Avalie as 
impressões causadas pelo funcionário 
nesses aspectos. 
II. Inteligência 
Precisão, facilidade de aprendizagem; 
capacidade de compreender rapidamente 
o ponto de vista do superior, de emitir ordens 
claras e inteligentes, de avaliar uma nova 
situação e de tomar uma decisão sensata 
em uma crise. 
III. Liderança 
Iniciativa, poder, autoconfiança, 
determinação, tato, capacidade de 
influenciar as pessoas e de obter e 
controlar a sua obediência, 
lealdade e cooperação. 
IV. Qualidades Pessoais 
Esforço, segurança, lealdade; disposição 
para arcar com as conseqüências dos 
próprios atos; livre de vaidade e egoísmo; 
prontidão e capacidade de colaboração. 
V. Valor Geral para o Trabalho 
Conhecimento, capacidade e 
experiência profissional; êxito 
como administrador e orientador; 
capacidade de obter resultados. 
Mais alto 
Médio 
Alto 
Baixo 
Mais baixo 
Mais alto 
Alto 
Médio 
Baixo 
Mais baixo 
Mais alto 
Alto 
Médio 
Baixo 
Mais baixo 
Mais alto 
Alto 
Médio 
Baixo 
Mais baixo 
Mais alto 
Alto 
Médio 
Baixo 
Mais baixo 
15 
15 
9 
6 
3 
15 
12 
9 
6 
3 
15 
12 
9 
6 
3 
15 
12 
9 
6 
3 
40 
32 
24 
16 
8 
2 1 6 HIST(JRIA DA PSICOLOGIA MODERNA 
;1-_pes�quisi} corneçou investigando diretamente os efeitos do ambiente_lís� tra­
Qé!_lho - como as _ _condições ge ilurninação e temperatura -:-::- s<;iqre a eficiência dos fun­
ciQgáiios. Ós ré�ult;Ídps surpreenderam os psicólogos e_ dirigellt��� d�s fâbri��s: pois 
constataplm que os aspectos sociais e psicológicos do local de trabalho eram muito maiS 
_j_!!igc;)_lt_aptes do que as condições físic<l��-
-- - - - - - - - - - - · 
Os estudos de Hawthorne levaram os psicólogos a explorarem o aspecto social e o 
aspecto psicológico do ambiente de trabalho, incluindo o comportamento da liderança, 
a formação de gmpos informais de trabalho, as atitudes dos funcionários, os padrões de 
comunicação entre os subordinados e seus superiores, além de outros fatores capazes de 
influenciar a motivação, a produtividade e a satisfação. Os líderes empresariais logo acaba­
ram reconhecendo e aceitando a influência dessas forças no desempenho profissional. 
Hoje, os psicólogos estudam os diferentes tipos de organização, seus estilos organizacionais 
e de comunicação, bem como suas estruturas sociais formais e informais. Reconhecendo a 
importância da variável organizacional, a Division of Industrial Psychology (Divisão de 
Psicologia Industrial) da APA passou a ser chamada de Society for Industrial and Organi­
zational Psychology (Sociedade de Psicologia Industrial e Organizacional). 
História On-line 
http:/ /www.siop.org 
Esse é o site da Society for Industrial and Organizational Psychology. 
As Contribuições da Mulher à Psicologia Industrial-Organizacional 
A psicologia industrial-organizacional, em termos profissionais, historicamente tem ofe­
recido oportunidades de carreira para as mulheres. A primeira pessoa a obter o Ph.D. na 
área foi Lillian Moller Gilbreth (1878-1972), que recebeu o título em 1915 na Brown 
University. Ela promoveu, em conjunto com o seu marido, Frank Gilbreth, a análise do 
tempo-movimento como uma técnica para melhorar o desempenho no trabalho. No 
entanto muitos empresários daquela época não aceitavam a presença de psicólogas nos 
escritórios e nas fábricas. E, quando Lillian e Frank escreveram um livro sobrea eficiên­
cia industrial, o editor recusou-se a mencionar o nome dela na capa, justificando que afe­
taria a credibilidade do livro. Seu próprio livro sobre a psicologia gerencial foi publicado 
somente quando ela concordou que seu nome aparecesse como L. M. Gilbreth, em vez 
de Lillian Gilbreth; alegou-se que o empresário não compraria o livro se visse o nome de 
uma autora na capa. Ela superou essa e outras barreiras e conseguiu obter uma longa car­
reira de sucesso (Kelly e Kelly, 1990). Sua imagem chegou até a ser estampada em um selo 
postal americano. 
Anna Berliner, a única aluna de Wundt, foi outra pioneira na psicologia industrial. 
Ela foi para Leipzig, apresentou-se a Wundt e disse que desejava estudar com ele, mesmo 
sabendo que ele nunca aceitara uma mulher como aluna. 
Aparentemente surpreendido pela sua postura impositiva, Wundt concordou 
(Guthrie e Wesley, 1991). Berliner, depois, trabalhou como psicóloga industrial no Japão 
e escreveu um livro sobre a publicidade nos jornais japoneses. Realizou uma pesquisa de 
mercado na Alemanha e, em seguida, emigrou para os Estados Unidos para lecionar na 
CAPiTULO 8 PSICOLOGIA APLICADA: A HERANÇA DO FUNCIONALISMO 2 1 7 
Pacific University, em Oregon, onde conduziu uma pesquisa sobre optometria e deficiên­
cias visuais que afetam a aprendizagem. 
Atualmente, mais da metade dos candidatos a Ph.D. em psicologia industrial-orga­
nizacional é de mulheres. 
Hugo Münsterberg (7863- 7976) 
Hugo Münsterberg, um estereótipo de professor alemão, durante certo tempo foi um 
fenômeno de sucesso na psicologia americana e mais ainda perante os olhos do público. 
Escreveu centenas de artigos para revistas populares e cerca de 20 livros. Visitava fre­
qüentemente a Casa Branca como convidado dos presidentes Theodore Roosevelt e 
William Howard Taft. Münsterberg foi um influente conselheiro de líderes governamen­
tais e empresariais, mantendo relações com ricos e famosos como o Kaiser Wilhelm, da 
Alemanha, o magnata do aço Andrew Carnegie, o filósofo Bertrand Russell, além de 
vários intelectuais e estrelas do cinema. 
Durante algum tempo, Münsterberg foi professor honorário da Harvard University, 
além de ter sido eleito tanto para a presidência da APA como da American Philosophical 
Association (Associação Americana de Filosofia). Foi fundador da psicologia aplicada nos 
Estados Unidos e na Europa e também um dos dois únicos psicólogos até hoje acusados 
de espionagem (Spillmann e Spillmann, 1993). 
Münsterberg era descrito como um "propagandista criativo da psicologia aplicada" 
(O'Donnell, 1 985, p. 225). Segundo o seu biógrafo, Münsterberg também foi um agente 
de publicidade bem-sucedido, "dotado de um instinto extraordinário para o sensaciona­
lismo. [Sua] vida pode ser interpretada como uma série de promoções de si mesmo, da 
sua ciência e da sua pátria-mãe [a Alemanha]" (Hale, 1980, p. 3). 
No final da vida, Münsterberg havia se tornado alvo de desprezo e do ridículo, 
retratado em charges e caricaturas de jornais, uma vergonha para a universidade em 
que havia trabalhado vários anos, e "uma das pessoas mais odiadas dos Estados 
Unidos" (Benjamin, 2000b, p. 1 13). Ao morrer, em 1916, poucas palavras elogiosas 
foram proferidas para o homem que um dia fora um gigante da psicologia americana. 
A Biografia de Münsterberg 
Em 1882, com 19 anos, Münsterberg deixou Danzig, sua terra natal, na Alemanha (hoje 
Gdansk, na Polônia), e seguiu para Leipzig, com a intenção de cursar a universidade de 
medicina. Mas, quando fez um curso de psicologia com Wilhelm Wundt, mudou seus 
planos de carreira. Ficou entusiasmado com a nova ciência, mais especificamente com 
as oportunidades promissoras que a pesquisa e a prática da medicina não ofereceriam. 
Fez o doutorado com Wundt, recebendo o título em 1885, e formou-se médico dois anos 
depois, na University of Heidelberg, na expectativa de que ambas as graduações aumen­
tariam sua capacitação para a carreira na pesquisa acadêmica. Aceitou lecionar na 
· University of Freiburg e instalou um laboratório na sua casa, com financiamento pró­
prio, porque a universidade carecia de instalações adequadas. 
Münsterberg escreveu artigos a respeito do seu trabalho experimental na psicofísica, 
que Wundt criticou porque a pesquisa abordava o conteúdo cognitivo da mente em vez 
de os estados do sentimento. Mesmo assim, seu trabalho atraiu muitos seguidores e, 
21 8 HISTÓRIA DA PSICOLOGIA MODERNA 
logo, alunos de todas as partes da Europa procuravam aos bandos o seu laboratório. Ele 
parecia trilhar o caminho correto para assegurar a cadeira de professor universitário e a 
reputação de respeitável pesquisador. 
William ]ames seduziu Münsterberg, desviando-o desse caminho mediante a oferta de 
tornar-se um diretor muito bem pago do laboratório de psicologia da Harvard. ]ames lan­
çou mão de elogios, dizendo para Münsterberg que a Harvard era a maior universidade 
americana e que necessitava de um gênio para dirigir o laboratório. Münsterberg preferia 
permanecer na Alemanha, porém a sua ambição o fez sucumbir à tentação, levando-o a 
aceitar a oferta de ]ames. 
A transição da Alemanha para os Estados Unidos, bem como da psicologia experimen­
tal pura para a aplicada, foi difícil. Primeiro, Münsterberg não aprovava a disseminação das 
especializações na psicologia aplicada e criticou os administradores da universidade por 
pagarem tão mal os pesquisadores que eles eram forçados a assumir atividades práticas. 
Criticou os psicólogos americanos que escreviam para o público em geral, ministravam 
cursos pagos para líderes empresariais e ofereciam seus serviços mediante remuneração. No 
entanto não passou muito tempo até que ele mesmo agisse de modo idêntico. 
Depois de passar 10 anos em Harvard, talvez percebendo que nenhuma universida­
de alemã jamais lhe ofereceria uma cadeira de titular, escreveu seu primeiro livro em 
inglês. American traits (1902) consistia em uma análise psicológica, social e cultural da 
sociedade americana. Escritor rápido e talentoso, Münsterberg era capaz de ditar para a 
sua secretária um livro de 400 páginas em um mês. 
A calorosa aceitação de seu livro encorajou-o a direcionar os trabalhos seguintes para 
o público em geral e não para os colegas da área. Esses artigos logo se tornaram matéria 
principal das publicações populares e não das revistas especializadas em psicologia. 
Abandonou a pesquisa psicofísica sobre o conteúdo da mente para dedicar-se à busca de 
soluções para os problemas cotidianos. Seus artigos abordavam os julgamentos nos tri­
bunais, o sistema judiciário criminal, a publicidade dos produtos de consumo geral, a 
orientação vocacional, a psicoterapia e a saúde mental, a educação, as questões relacio­
nadas à indústria e ao comércio e até mesmo à psicologia na indústria cinematográfica. 
Preparou cursos de administração e aprendizagem por correspondência e gravou filmes 
sobre testes mentais, exibidos em todos os cinemas dos Estados Unidos. 
Münsterberg jamais fugiu de uma polêmica. Durante o julgamento sensacionalista 
de um criminoso, administrou 100 testes mentais ao assassino confesso de 18 pessoas, 
que acusava um líder sindical de tê-lo contratado para assassiná-las. Com base nos resul­
tados do teste, Münsterberg anunciou, mesmo antes de o júri chegar ao veredicto, que a 
confissão do assassino acusando o líder sindical era verdadeira. Quando o júri absolveu 
o líder sindical, o prejuízo na reputação de Münsterberg foi enorme e um jornal apeli­
dou-o de "Professor Monsterwork". 
Em 1908, Münsterberg envolveu-se no episódio do movimento de proibição da 
venda de bebidas alcoólicas. Posicionava-se contrário à proibição, citando seus conheci­
mentos como psicólogo e expressando a visão de que o consumo moderado de bebida 
alcoólica seria até benéfico. Os fabricantes alemães e americanos de cerveja, incluindo 
Adolphus Busch e Gustave Pabst, ficaram satisfeitos por contarem com o apoio de 
Münsterberg e deram contribuições generosas para financiar seus esforçosde melhorar a 
imagem da Alemanha perante os Estados Unidos. Em um infeliz e suspeito espaço curto 
de tempo, Busch teria doado 50 mil dólares para a proposta de Münsterberg de criação 
do Museu Alemão, apenas algumas semanas depois da publicação do seu artigo denun­
ciando a proibição. Essa coincidência foi alvo de muita atenção da mídia jornalística. 
CAPiTULO 8 PSICOLOGitl APLICADA: A HERANÇA DO FUNCIONtiLISMO 2 1 9 
As idéias de Münsterberg sobre a mulher também eram polêmicas. Ele até aceitava a 
idéia da presença da mulher nos cursos de pós-graduação, como os exemplos de Mary 
Whiton Calkins (Capítulo 7) e Ethel Puffer, sua assistente de laboratório, ma:s aêreditava 
que esse trabalho exigia demais da mulher. Dizia que ela não devia ser educada para a 
carreira profissional, pois isso a afastava do lar, nem devia lecionar em escolas públicas, 
já que era um fraco exemplo para os meninos. Além disso, não devia ser convocada para 
fazer parte de um júri, pois não tinha capacidade para tomar decisões racionais, obser­
vação que virou manchete de diversos jornais estrangeiros. 
O reitor da universidade Harvard e a maioria dos seus colegas condenavam sua ten­
dência de emitir comentários sensacionalistas para a imprensa a respeito de questões 
polêmicas e além disso reprovavam seu interesse pela psicologia aplicada. O reitor de 
Harvard advertiu-o que evitasse responder às perguntas dos repórteres e o aconselhou a 
"dedicar-se a algum curso sistemático com atividades externas interessantes, ausentan­
do-se de Cambridge entre sexta à noite e segunda de manhã para uma mudança de ares 
e de idéias" (apud Benjamin, 2000b, p. 1 1 9). 
A tensão nas relações atingiu o auge quando Münsterberg defendeu publicamente a 
sua pátria, a Alemanha, durante a Primeira Guerra Mundial. A opinião pública america­
na posicionava-se totalmente contrária àquele país. A Alemanha era a agressora na guer­
ra que já havia ceifado milhões de vidas, mas Münsterberg, ainda um cidadão alemão, 
defendia abertamente o seu país. Os jornais acusavam-no de ser agente secreto, espião 
ou oficial de alta patente do exército alemão e exigiam a sua demissão de Harvard. Um 
jornal londrino chamou-o de um dos agentes americanos do Kaiser. Seus vizinhos sus­
peitavam que os pombos que a sua filha alimentava no quintal no fundo de casa carre­
gavam mensagens para outros espiões. Um ex-aluno da Harvard ofereceu a doação de 10 
milhões de dólares à universidade se Münsterberg fosse demitido. Ele ofereceu demitir­
se pelo pagamento imediato de 5 milhões de dólares, criando uma situação constrange­
dora para a universidade (Spillmann e Spillmann, 1993). 
Os colegas o humilhavam e ele recebia ameaças de morte pelo correio. O ostracismo 
e o violento ataque público acabaram com o seu ânimo. Todavia, em 16 de dezembro de 
1916, os jornais noticiavam as possíveis conversações de paz na Europa. "Até a primave­
ra teremos paz", ele disse à esposa (Münsterberg, 1922, p. 302). Seguiu a pé pela imensa 
camada de neve para dar a aula da manhã e chegou ao saguão da universidade exausto. 
Münsterberg deu a aula "por cerca de meia hora e pareceu hesitar; no momento seguin­
te esticou o braço direito na direção da mesa como se quisesse se endireitar" (New York 
City Evening Mai/, 16 dez. 19 16).4 Caiu morto sem pronunciar uma única palavra, atin­
gido por um infarto fulminante. 
A Psicologia Forense e a Testemunha Ocular 
A psicologia forense trata da relação entre a psicologia e a lei. Münsterberg escreveu arti­
gos de revista abordando temas como a prevenção do crime, o uso de hipnose no inter­
rogatório dos suspeitos, a aplicação de testes mentais para detectar os culpados e a 
4 Agradecemos à Dr. Ludy T. Benjamin jr. por fornecer-nos essa informação baseada na sua pesquisa a respeito dos 
trabalhos de Münsterberg no Biblioteca Pública de Boston. 
220 HISTÓRIA DA PSICOLOGIA MODERNA 
honesti..c!�_9�_qu�gi.9.náy_el da testemunh3 .. 9.C!l!�r. Nutri<� um interesse especial por esse 
último tema, mais especificamente pela falibilidade da percepção humana no testemu­
nho de um crime e na subseqüente reconstituição da cena. 
Conduziu pesquisas com simulações de crimes nas quais, imediatamente após pre­
senciarem a cena, as testemunhas deviam descrever o que havia ocorrido. Elas divergiam 
nos detalhes, embora a cena ainda estivesse fresca em suas mentes. Münsterberg ques­
tionava a exatidão desse testemunho no tribunal se o evento em questão houvesse ocor­
rido meses antes. 
Em 1 908, publicou On the witness stand, descrevendo os fatores psicológicos que 
podem influenciar o resultado do julgamento, dentre eles: as falsas confissões, o poder 
da sugestão no interrogatório da testemunha pela outra parte e o uso de medições 
fisiológicas (batimento cardíaco, pressão sangüínea e reação dermatológica) para 
detectar os estados emocionais alterados dos suspeitos e acusados. O livro foi reimpres­
so em 1 976, quase 70 anos após a publicação, por causa do ressurgimento do interes­
se nas questões que levantara (in Loftus, 1979; Loftus e Monahan, 1980). A American 
Psychology-Law Society (Sociedade Americana de Psicologia Forense) foi fundada naque­
la época, como uma divisão da APA para promover a pesquisa básica e aplicada na psi­
cologia forense. 
A Psicoterapia 
O livro de Münsterberg, Psychotherapy (Psicoterapia), publicado em 1909, enfocava uma 
área diferente da psicologia aplicada. Münsterberg tratava os pacientes em seu laborató­
rio, e não em uma clínica, e jamais cobrava pelos serviços. Alegava que essa posição pro­
porcionava-lhe certa autoridade e ele se sentia com liberdade para dar orientações diretas 
aos pacientes de como agir para melhorar. Acreditava que a doença mental era realmen­
te um problema de desajuste comportamental e não atribuível a conflitos inconscientes 
subjacentes, como afirmava Sigmund Freud. "Não existe o subconsciente", afirmava 
Münsterberg (apud Landy, 1992, p. 792). Quando Freud visitou a Clark University em 
1909, a convite de G. Stanley Hall, Münsterberg saiu do país para evitar um confronto. 
Retornou somente depois de Freud voltar para a Europa. 
O tratamento terapêutico d.e Münsterberg consistia em incitar as idéias perturbado­
ras do paciente para fora da consciência, suprimindo-lhe os comportamentos indesejáveis 
ou problemáticos e encorajando-o a esquecer as dificuldades emocionais. Ele tratava do 
alcoolismo, da dependência de drogas, das alucinações, da obsessão, das fobias e dos dis­
túrbios sexuais. Usou a hipnose durante um tempo mas desistiu quando uma paciente 
chegou a ameaçá-lo com uma arma. A história novamente chamou a atenção da mídia 
e o reitor de Harvard exigiu que Münsterberg evitasse hipnotizar mulheres. 
Seu livro a respeito da psicoterapia contribuiu muito para divulgar o campo da psi­
cologia clínica, mas não foi bem recebido por Witmer, que instalara sua clínica na 
U niversity of Pennsylvania vários anos antes. Witmer jamais chegou a alcançar nem 
nunca almejou o tipo de aclamação pública alcançada por Münsterberg. Em um artigo 
que escreveu e publicou na sua revista, Psychological Clinic, Witmer queixava-se de que 
Münsterberg havia "depreciado" a profissão, apregoando a cura como se estivesse em 
uma feira livre. Referia-se a Münsterberg como um pouco melhor do que os curandeiros 
da fé devido à "maneira elegante como o professor de psicologia da [Harvard] viajava 
CwiTULO 8 PSICOLOGIA APLICADA: A HERANÇ•\ DO FUNCIONALISMO , 221 
pelo país, afirmando ter tratado em seu laboratório de psicologia centenas de casos desse 
ou daquele tipo de distúrbio nervoso" (apud Hale, 1980. p. 1 10) . 
' .. ,. ,. � 
A Psicologia Industrial 
Münsterberg também foi promotor da psicologia industrial. Começou a trabalhar nessa 
área em 1909 com o artigo intitulado "Psychology and the market" (A psicologia e o 
mercado), que abrangia diversas áreas em que a psicologia podia contribuir: a orientação 
vocacional, a publicidade, a administração de pessoal, os testes mentais, a motivação 
funcionale os efeitos da fadiga e da monotonia no desempenho da função. 
Trabalhou como consultor de diversas empresas, além de realizar muita pesquisa 
prática para essas organizações. Publicou suas descobertas em Psychology and industrial 
efficiency (Psicologia e a eficiência industrial) (1913), obra escrita para o público em 
geral, que acabou se tornando campeã de vendagem. Münsterberg afirmava que a 
melhor maneira de aumentar a eficácia no trabalho, a produtividade e a satisfação era 
selecionando trabalhadores para as funções de acordo com suas habilidades mentais e 
emocionais. De que forma? Desenvolvendo técnicas psicológicas de seleção adequadas, 
tais como testes mentais e simulações de trabalho, para avaliar o conhecimento, a qua­
lificação e a habilidade do candidato. 
Münsterberg conduziu pesquisas sobre as mais diversas ocupações, como a de capi­
tão de navio, motorneiro, telefonista e vendedor, para mostrar que suas técnicas de sele­
ção melhorariam o desempenho profissional. Suas pesquisas também demonstraram que 
a conversa durante o trabalho é prejudicial. A solução proposta não era a proibição da 
conversa entre os trabalhadores, o que podia provocar a hostilidade, mas reorganizar o 
ambiente de trabalho de forma que dificultasse as conversas. Sugeriu aumentar a distân­
cia entre as máquinas na fábrica ou separar as mesas dos funcionários do escritório com 
divisórias (um precursor dos "cubículos" usados nos escritórios atuais). 
Comentários 
Münsterberg não formulou qualquer teoria, não fundou uma escola de pensamento nem 
conduziu pesquisas acadêmicas depois de tornar-se um psicólogo aplicado. Sua pesquisa 
serviu aos propósitos empresariais, sendo funcional e visando a ajudar de alguma forma 
as pessoas. Embora houvesse estudado o método introspectivo com Wundt, criticou os 
colegas que não se dispunham a usar outros métodos psicológicos e descobertas para 
melhoria da humanidade. A principal idéia que caracterizou a carreira pitoresca e polê­
mica de Münsterberg foi a ênfase no aspecto utilitário da psicologia. Apesar do seu tem­
peramento germânico, foi a quintessência do psicólogo funcional americano, refletindo 
e exibindo o espírito do seu tempo. 
:0 História On-line 
http:/ /www.muskingum.edu/-psychology/psycweb/history/munsterb.htm 
Esse site oferece informações da vida e do trabalho de Münsterberg, além 
de uma cronologia e uma bibliografia. 
222 H ISTÓRIA DA PSICOlOGIA MODERNA 
A Psicologia Aplicada nos Estados Unidos: 
Mania Nacional 
A contribuição da psicologia durante a Primeira Guerra Mundial colocou a psicologia 
"em evidência e nas manchetes"(Cattel, apud O'Donnell, 1985, p. 239). Hall declarou 
que a guerra "deu um tremendo impulso à psicologia aplicada. Essa herança, como um 
todo, faz bem para a psicologia ( . . . ) [nós] devemos tentar não ser excessivamente puris­
tas" (Hall, 1 9 19, p. 48). Algumas revistas especializadas, como a fournal of Experimental 
Psychology, interromperam a publicação durante o período da guerra, mas a fournal of 
Applied Psychology persistiu. Em 19 18, quando a guerra terminou, a psicologia aplicada 
adquirira muito mais respeito dentro da profissão. Thorndike disse: "A psicologia aplica­
da constitui um trabalho científico. Exercer a psicologia atendendo às empresas, à indús­
tria ou ao exército é mais difícil do que servindo a outros psicólogos e, intrinsecamente, 
exige maior talento" (apud Camfield, 1992, p. 1 13). 
A psicologia acadêmica também se beneficiou do sucesso da psicologia aplicada 
durante o período da guerra. Pela primeira vez, houve emprego suficiente e apoio finan­
ceiro para os psicólogos universitários. Novos departamentos de psicologia foram cria­
dos, novos edifícios e laboratórios construídos, houve mais verba para os salários dos 
professores. O número de associados da APA triplicou, passando de 336 em 1 9 1 7 para 
mais de 1 . 100 em 1930 (Camfield, 1992). Mesmo assim, muitos psicólogos acadêmicos 
desprezavam a psicologia aplicada. Lewis Terman, que desenvolveu o teste de inteligên­
cia Stanford-Binet, lembra-se de que "muitos psicólogos da linha antiga menospreza­
vam todo o movimento dos testes. ( . . . ) Raramente me sentia um psicólogo" (Terman, 
1961, p. 324). 
Em 1 9 1 9, a APA, controlada pela divisão acadêmica da psicologia, mudou as exi­
gências para a admissão de novos membros. Os candidatos a ingressarem na APA neces­
sitam ter publicado alguma pesquisa experimental. Realmente, essa medida eliminava 
a possibilidade de associação de vários psicólogos da aplicação e, certamente, da maioria 
de psicólogas, para quem as oportunidades de emprego limitavam-se, na maior parte, ao 
trabalho aplicado. 
Apesar dessa atitude negativa em relação à psicologia aplicada por parte de muitos 
psicólogos universitários, sua popularidade disparou e ela se tornou uma espécie de 
"mania nacional" (Dennis, 1984, p. 23) . As pessoas passaram a crer que o psicólogo era 
capaz de resolver tudo, desde a crise no casamento até a insatisfação profissional, além de 
vender qualquer item, desde o automóvel até o creme dental. Novas revistas promoviam 
a área e a mais popular era The Modem Psychologist (O Psicólogo Moderno) e a outra, com 
o título ainda mais sugestivo, Psychology: Health, Happiness, Success (Psicologia: saúde, 
felicidade e sucesso) (Benjamin e Bryant, 1997). Em 1923, um editorial do The New York 
Times observou que a "nova psicologia abria caminho em uma área atrás da outra da ati­
vidade humana, sempre mostrando o seu valor" (apud Dennis, 2002, p. 377). 
O crescente clamor por soluções para os problemas reais conduziu cada vez mais psi­
cólogos da pesquisa acadêmica para as áreas da psicologia aplicada. Na edição de 1921 
da American Men ofScience de Cattel, mais de 75% dos psicólogos mencionados declara­
ram estar realizando trabalho aplicado; em 1910 o número era de 50% (O'Donnell, 
1985). As reuniões da filial de Nova York da APA no início da década de 1 920 mostraram 
CAPÍTULO 8 PSICOLOGIA APLIC.·\DA: A HERANÇA DO FUNCIONALISMO 223 
substancial aumento do número de trabalhos relacionados com as questões aplicadas 
desde os dias que antecederam a guerra (Benjamin, 1991). 
Todavia, em torno da década de 1930, período da depressão econômica . . mundial, a 
psicologia aplicada tornou-se alvo de ataque por não cumprir suas promessas:· Os maiores 
empresários reclamavam que os psicólogos industriais não solucionavam todos os males 
corporativos. Por exemplo: experiências malsucedidas com a aplicação de testes de sele­
ção mal elaborados provocaram a contratação de trabalhadores improdutivos. 
Talvez as expectativas tanto dos psicólogos como dos seus clientes fossem altas em 
demasia todavia, independentemente da razão, o desencanto com a psicologia aplicada 
se instalara. Grace Adams, aluna de Titchener, emitiu uma crítica pública e notória. Em 
"The decline of psychology in America" (O declínio da psicologia nos Estados Unidos), 
artigo publicado em uma revista popular, Adams afirmava que a psicologia "sacrificara 
suas raízes científicas em nome da popularidade e prosperidade do próprio psicólogo" 
(apud Benjamin, 1986, p. 944). O The New York Times e outros jornais influentes critica­
vam os psicólogos por supervalorizarem suas habilidades e serem incapazes de amenizar 
o mal-estar decorrente da depressão econômica. A fama da psicologia declinava e sua 
imagem somente foi recuperada depois de 1941, quando os Estados Unidos entraram na 
Segunda Guerra Mundial. Desse modo, testemunhamos novamente a guerra como uma 
influência contextual na evolução da psicologia. 
A Segunda Guerra Mundial (1941-1945) proporcionou um diferente conjunto de 
problemas para a psicologia, reviveu e expandiu a influência no campo. No total, 25% 
dos psicólogos americanos estavam diretamente envolvidos no esforço de guerra e 
outros contribuíram de forma indireta por meio de pesquisas e trabalhos. As psicólogas 
não tiveram muitas oportunidades de trabalhar na guerra; algumas foram aconselhadas 
a realizaremtrabalho voluntário comunitário. Dos 1 .006 psicólogos que serviram as for­
ças armadas americanas, somente 33 eram mulheres (Gilgen et ai., 1997). Ironicamente, 
a guerra ressuscitou a psicologia alemã, que sofreu drástico declínio depois que o regime 
nazista expulsou todos os psicólogos judeus de seus empregos. As necessidades do exér­
cito alemão criaram nova demanda de psicólogos para auxiliar na seleção de oficiais, 
pilotos e comandantes de submarinos. 
Desde o fim da guerra, a psicologia americana experimentou um drástico surto de 
crescimento e os progressos mais significativos ocorreram nas áreas da aplicação. A psi­
cologia aplicada superou a psicologia acadêmica voltada para a pesquisa que prevalece­
ra durante tantos anos. Não era mais verdade que a maioria dos psicólogos trabalhava 
nas universidades, conduzindo pesquisas experimentais. Antes da Segunda Guerra 
Mundial, quase 70% dos doutorados foram em psicologia experimental. Por volta de 
1984, esse número caiu para 8% (Goodstein, 1988). Antes da guerra, 75% de todos os psi­
cólogos com doutorado trabalhavam no meio acadêmico. Em torno de 1996, esse núme­
ro caiu para 34% (Borman e Cox, 1996). Como conseqüência, houve uma transferência 
de poder dentro da APA e os psicólogos aplicados (especialmente os clínicos) assumiram 
a posição de comando. Em 1988, um grupo de membros acadêmicos e voltados à pes­
quisa se revoltou e fundou a própria organização, a American Psychological Society -
APS (Sociedade Americana de Psicologia). 
224 HISTÓRIA DA PSICOLOGIA MODERNA 
Comentários 
A natureza da psicologia americana mudou muito desde os anos em que Hall, Cattel, 
Witmer, Scott e Münsterberg estudaram com Wilhelm Wundt na Alemanha e trouxeram 
a psicologia alemã para os Estados Unidos. A psicologia não mais se restringe a salas de 
aula, biblioteca e laboratório, mas se estende para diversas áreas da vida cotidiana. Hoje 
os psicólogos da aplicação trabalham com testes, psicologia educacional e escolar, psico­
logia clínica e aconselhamento, psicologia industrial-organizacional, psicologia forense, 
psicologia comunitária, psicologia do consumidor, psicologia ambiental e populacional, 
psicologia da saúde e reabilitação, serviços à família, psicologia do esporte e do exercí­
cio, psicologia militar, psicologia da mídia, além de lidarem com o comportamento do 
viciado, a religião, a cultura e questões de grupos minoritários. 
Se a psicologia permanecesse concentrada nos elementos mentais ou no conteúdo 
da experiência consciente, não existiria nenhuma dessas áreas de aplicação. As pessoas, 
as idéias e os acontecimentos descritos nos Capítulos de 6 a 8 referentes à escola de pen­
samento funcionalista forçaram a psicologia americana a ultrapassar o limite do confi­
namento no laboratório de Wundt em Leipzig. 
Consideremos esses fatores: 
a teoria de Darwin acerca da adaptação e da função 
a mensuração de Galton das diferenças individuais 
o enfoque intelectual americano na praticidade e na utilidade 
a mudança dentro dos laboratórios de pesquisa acadêmica, do conteúdo para a 
função, provocada por ]ames, Angell, Carr e Woodworth 
os fatores socioeconômicos e o poder da guerra 
Todas essas forças se entrelaçaram para dar surgimento a uma ciência da psicologia 
ativa, assertiva, cativante e influente que mudou as nossas vidas. Esse movimento geral 
da psicologia americana em busca da prática foi reforçado pela escola de pensamento 
que veio a seguir na evolução da psicologia - a escola conhecida como behaviorismo. 
Temas para Discussão 
1 . De que modo a s forças econômicas influenciaram a evolução da psicologia 
aplicada? Você acha que, sem elas, a psicologia aplicada teria se desenvolvi­
do nessa época? 
2. Por que as psicologias de Wundt e de Titchener não deram certo nos Estados 
Unidos? Por que você acha que a psicologia cresceu tão rapidamente e teve 
tanta aceitação pública nos Estados Unidos? 
3. Quais são os "primeiros" atribuídos a G. Stanley Hall na psicologia america­
na? Qual a influência da teoria de Darwin no trabalho de Hall? 
4. Quais questões práticas promoveram o sucesso de Hall como psicólogo? 
Descreva sua teoria da recapitulação do desenvolvimento psicológico. 
S . D e que forma o trabalho d e Cattell alterou a natureza d a psicologia ameri­
cana? Como ele promoveu a psicologia para o público em geral? 
CIPiTLILO 8 PSICOLOGIA APLICADA: A HERANÇA DO FUNCIONALISMO 225 
6. Compare as abordagens de Cattell e Binet no desenvolvimento dos testes 
mentais. Descreva o impacto da Primeira Guerra Mundial no movimento 
dos testes. . .. -- : 
7. Como as comparações com a medicina e a engenharia foram usadas para 
promover a autoridade científica dos testes de inteligência? 
8. De que maneira os testes foram usados nos Estados Unidos para sustentar a 
noção das diferenças raciais na inteligência e a alegada inferioridade dos 
imigrantes? 
9. Discuta o papel da mulher no movimento dos testes. Por que o trabalho da 
mulher estava em desvantagem profissional? 
10. De que forma os trabalhos de Witmer e de Münsterberg influenciaram o 
crescimento da psicologia clínica? Qual a diferença entre a visão de Witmer 
e a de Münsterberg da psicologia clínica? 
1 1 . Discuta a importância de Scott e Münsterberg na origem da psicologia 
industrial-organizacional. 
12. De que modo os estudos de Hawthorne e as guerras afetaram a psicologia 
industrial-organizacional? Qual foi o papel da mulher no desenvolvimento 
da psicologia industrial-organizacional? 
13. Descreva as contribuições de Münsterberg para a psicologia forense. 
14. Compare o crescimento e a popularidade da psicologia aplicada nas décadas 
de 1920 e de 1930 e no período desde o final da Segunda Guerra Mundial. 
Sugestões de Leitura 
Benjamin Jr., L. T. Harry Kirke Wolfe: pioneer in psychology. Lincoln: University of 
Nebraska Press, 199 1 . Aluno de Wundt e Ebbinghaus, Wolfe fundou o laboratório 
psicológico da University of Nebraska, orientou gerações de estudantes e desempe­
nhou importante papel no movimento do estudo infantil. 
Fuchs, A. H. Psychology and "The Babe". foumal ofthe History ofthe Behavioral Sciences, 
nº 34, p. 153-165, 1998. Descreve um exemplo de aplicação da psicologia no espor­
te; o maior jogador de beisebol, Babe Ruth, foi testado no laboratório de psicologia 
da Columbia University para avaliar a sua habilidade de rebatida da bola, na espe­
rança de que essas medidas quantitativas pudessem resultar em testes para a identi­
ficação de prováveis jogadores de destaque. 
- Kunda, D. P. The concept of suggestion in the early history of advertising psychology. 
foumal ofthe History ofthe Behaviora/ Sciences, nº 12, p. 347-353, 1976. Discute as pri­
meiras teorias psicológicas sobre a publicidade e a sugestionabilidade propostas por 
Walter Dill Scott e outros. 
Landy, F. ]. Hugo Münsterberg: victim or visionary? American Psychologist, nº 47, p. 787-
802, 1992. Analisa as contribuições de Münsterberg para a psicologia aplicada. 
McReynolds, P. Lightner Witmer: His life mui times. Washington, D.C.: American Psycho­
logical Association. Descreve a vida e a carreira de Witmer e o desenvolvimento da 
sua clínica na University of Pennsylvania. 
226 HISTÓRIA DA PSICOLOGIA MODERNA 
Sokal, M. M. (Ed.). The origins of the Psychological Corporation. foumal ofthe History of 
the Behaviora/ Sciences, nº 1 7, p. 54-67, 1991. Traça o desenvolvimento da The 
Psychological Corporation como o maior empreendimento da psicologia aplicada 
americana. 
Spillmann, ]. e Spillmann, L. The rise anf fali of Hugo Münsterberg. foumal ofthe History 
o f the Behavioral Sciences, nº 29, p. 322-338, 1991. Descreve a vida de Münsterberg, 
seu laboratório de psicologia em Harvard e suas contribuições para as psicologias 
forense e industrial. 
Von Mayrhauser, R. T. Making intelligence functional: Walter Dill Scott and applied 
psychological testing in World War I. foumal ofthe History ofthe Behavioral Sciences, 
nº 25, p. 60-72, 1989. Descreve os esforçosde Scott, Thorndike e outros na constru­
ção dos testes de inteligência em grupo. 
White, S. H. Child study at Clark University: 1894-1904. foumal of the History of the 
Behavioral Sciences, nº 26, p. 1 3 1-150, 1990. Descreve os estudos de questionários de 
desenvolvimento infantil iniciados por Hall. 
Zenderland, L. Measuring minds: Henry Herbert Goddard and the origins of American intelli­
gence testing. Nova York: Cambridge University Press, 1998. Analisa as contribuições 
de Goddard ao movimento dos testes de inteligência e sua ampla aplicação nos 
Estados Unidos.

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