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Psicol ogia
Ap l icada:
A Herança do
Funciona l ismo
Rumo à Psicologia Prática
A psicologia funcional derivada da doutrina evolucioná
ria rapidamente dominou os Estados Unidos no final do
século XIX. Sabe-se que a psicologia americana foi muito
mais influenciada pelas idéias de Darwin e Galton do que
pelos trabalhos de Wundt. Esse fenômeno histórico foi
singular e até mesmo paradoxal. Wundt orientou vários
psicólogos americanos da primeira geração conforme a
sua forma de psicologia. No entanto eles levaram consi
go pouco de suas idéias. Quando esses discípulos de
Wundt, esses novos psicólogos, retornaram aos Estados
Unidos, passaram a estabelecer uma psicologia que pou
co se assemelhava àquela ensinada por Wundt. Desse
modo, a nova ciência, assim como todo ser vivo, estava
mudando para adaptar-se ao novo ambiente.
A psicologia de Wundt e o estruturalismo de
Titchener não sobreviveriam por muito tempo em sua
forma original no ambiente intelectual americano - o
Zeitgeist americano -, e assim evoluíram para o funcio
nalismo. Não eram tipos práticos de psicologia, não lida
vam com a mente em funcionamento, nem podiam ser
I Rumo à Psicologia Prática
A Evolução da Psicologia
Americana
As Influências Econômicas
na Psicologia Aplicada
Granville Stanley Hall
(1 844-1 924)
A Biografia de Hall
A Evolução e a Teoria da
Recapitulação do
Desenvolvimento
Comentários
James McKeen Cattell
(1 860-1 944)
A Biografia de Cattell
Testes Mentais
Comentários
O Movimento dos Testes
Psicológicos
Binet, Terman e o Teste de
QI
A Primeira Guerra Mundial e
os Testes em Grupo
As Idéias Extraídas da
Medicina e da Engenharia
A Inteligência nas Diferentes
Raças
As Contribuições da Mulher
ao Movimento dos Testes
lightner Witmer (1 867-
1 956)
A Biografia de Witmer
As Clínicas de Avaliação
Infantil
Comentários
1 83
1 84 HISTÓRIA DA PSICOLOGIA MODERNA
I
O Movimento da Psicologia
Clínica
Walter Dill Scott (1 869-
1 955)
A Biografia de Scott
A Publicidade e a
Sugestionabilidade
Humana
Seleção de Pessoal
Comentários
O Movimento da Psicologia
Industrial-Organizacional
O Impacto das Grandes
Guerras Mundiais
Os Estudos de Hawthorne e
as Questões
Organizacionais
As Contribuições da Mulher
à Psicologia Industrial
Organizacional
Hugo Münsterberg (1 863-
1 9 1 6)
A Biografia de Münsterberg
A Psicologia Forense e a
Testemunha Ocular
A Psicoterapia
A Psicologia Industrial
Comentários
A Psicologia Aplicada nos
Estados Unidos: Mania
Nacional
Comentários
aplicados às questões e aos problemas do dia-a-dia. A cul
tura americana era voltada ao prático: as pessoas valori
zavam o que funcionasse. "Precisamos de uma psicologia
que seja utilizável", escreveu G. Stanley Hall, pioneiro da
psicologia aplicada nos Estados Unidos. "Os pensamen
tos de Wundt jamais se adaptariam aqui, já que são anta
gônicos ao espírito e temperamento americanos" (Hall,
1912, p. 4 14).
Os novos psicólogos americanos transformaram a
forma de psicologia alemã em um padrão americano dinâ
mico. Em vez de estudarem a função da mente, começa
ram a analisar o seu funcionamento. Enquanto alguns
psicólogos americanos, em especial ]ames, Angell e Carr,
desenvolviam a abordagem funcionalista nos laborató
rios acadêmicos, outros a aplicavam em ambientes fora
das universidades. O movimento rumo à psicologia práti
ca ocorria simultaneamente à fundação do funcionalismo
como escola de pensamento independente.
Os adeptos da psicologia aplicada inseriram sua psi
cologia no mundo real, nas escolas, nas fábricas, nas
agências de publicidade, nos tribunais, nas clínicas de
orientação infantil e nos centros de saúde mental. Desse
modo, mudaram radicalmente a natureza da psicologia
americana, assim como fizeram os fundadores acadêmi
cos do funcionalismo. A literatura especializada da época
reflete os seus impactos. Por volta de 1900, 25% dos arti
gos de pesquisa publicados nas revistas americanas espe
cializadas em psicologia abordavam a psicologia aplicada
e menos de 3o/o tratavam sobre o método de introspecção
(O'Donnell, 1985). As abordagens de Wundt e Titchener,
que acabavam de criar a "nova" psicologia, estavam rapi
damente sendo superadas por uma psicologia ainda mais
atual. Mesmo Titchener, o grande psicólogo estruturalis
ta, reconheceu essa transformação avassaladora na psico
logia americana. Em 1 9 10, escreveu: "Se naquela época
pedíssemos a alguém que resumisse em uma frase a ten
dência da psicologia nos últimos 10 anos, ele responderia:
a psicologia definitivamente voltou-se para a aplicação"
(apud Evans, 1992, p. 74) .
A Evolução da Psicologia Americana
A psicologia evoluiu e prosperou nos Estados Unidos. Seu
entusiasmado desenvolvimento entre 1880 e 1900 é um
marco na história da ciência.
CAPÍTULO 8 PSICOLOGIA APLICADA: A H ERANÇA DO FUNCIONALISMO .
·
1 85
Em 1880, não existiam laboratórios nos Estados Unidos; em 1900, existiam 41 e
eram mais bem equipados do que os alemães.
-
Em 1880, não existiam publicações americanas especializadas em psicnlogia; em
1895, existiam três.
·
Em 1880, para estudar psicologia, os americanos tinham de ir para a Alemanha;
em 1900, a maioria optava pelos programas de pós-graduação domésticos.
De 1892 a 1904, foram concedidos mais de 1 00 títulos de Ph.D. em psicologia,
número superior ao de outras ciências, perdendo apenas para a química, a zoo
logia e a física.
Em 1910, mais de 50% de todos os artigos de psicologia publicados foram escri
tos em alemão e somente 30% em inglês. Em 1933, 52% dos artigos publicados
eram em inglês e apenas 14% em alemão (Wertheimer e King, 1994).1
A publicação britânica Who's Who in Science, de 1913, afirmava que os Estados
Unidos dominavam o campo da psicologia e contavam com os principais psicó
logos do mundo (84), número maior que o de alemães, ingleses e franceses soma
dos Gonçich, 1968).
Passados pouco mais de 20 anos do início da psicologia na Europa, os psicólogos
americanos assumiram indiscutível liderança na área. Em seu discurso como presidente
da APA, em 1895, ]ames McKeen Cattell declarou:
Não há precedentes na história comparáveis ao desenvolvimento acadêmico da psicolo
gia nos Estados Unidos, ao longo dos últimos cinco anos. ( ... ) A psicologia é matéria obri
gatória nos currículos de graduação ( . . . ) e, hoje, entre os diversos cursos universitários,
concorre com as outras grandes ciências, em número de estudantes interessados e na
quantidade de trabalhos originais realizadoS'. (Cattell, 1896, p. 134.)
Entretanto, na época, um professor de psicologia de Harvard lamentava: "Meu curso
básico de psicologia ( . . . ) conta com 360 alunos. O que este país fará com todos esses psi
cólogos?" (apud Brown, 1992, p. 65).
Deve-se observar que, embora os cursos de psicologia fossem extremamente popula
res na década de 1900, muitos ainda eram ministrados pelos departamentos de filosofia,
já que existiam poucos departamentos independentes de psicologia naquela época. Por
volta de 1900, somente a Clark University, Columbia University, a University of Chicago
e a University of Illinois haviam criado departamentos acadêmicos para o curso de psi
cologia. Apesar de muitas universidades oferecerem trabalhos acadêmicos e cursos de
graduação e pós-graduação nessa área, eram apenas exceções que somente se tornaram
regra várias décadas depois. Até mesmo em Harvard, onde se formaram vários psicólo
gos de destaque, o departamento de psicologia foi criado somente na década de 1930
(Rice, 2000).
O número crescente de estudantes interessados em psicologia e a quantidade de
laboratórios aumentaram rapidamente. Os 41 laboratórios de pesquisa existentes nos
Estados Unidos em 1900 representavam a maioria dos existentes no mundo. Nos países
europeus não existiam mais do que 10 laboratórios (Benjamin, 2000a). Assim, a psicolo
gia avançava nas salas de aula, nos laboratórios experimentais e no mundo real.No final do século XX, o inglês tornou-se o idioma dominante nos encontros internacionais e nas publicações espe
cializadas. O periódico da APA, Psychologica/ Abstracts, hoje é publicado apenas em inglês (Draguns, 2001 ).
1 86 HISTÓRIA DA PSICOLOGIA MODERNA
A psicologia fez sua estréia diante de um ávido público americano na Feira Mundial
de Chicago, em 1893. Em um programa semelhante ao do laboratório antropométrico de
Galton, na Inglaterra, os psicólogos organizaram exibições de equipamentos de pesquisa
e um laboratório de testes onde o visitante podia ter medida a sua capacidade sensorial
mediante o pagamento de uma pequena taxa. Uma exibição mais ampla foi montada em
1904, na Feira Comercial de Louisiana, em St. Louis, no Missouri. Esse evento contou
com a participação de várias "estrelas" e com os principais conferencistas da época,
como E. B. Titchener, C. Lloyd Morgan, Pierre Janet, G. Stanley Hall e John B. Watson.
Uma exibição de psicologia popular como essa não contaria com o apoio de Wundt e,
obviamente, evento semelhante jamais ocorreria na Alemanha. A popularização da psi
cologia era o reflexo do temperamento americano. Essa tendência transformou a forma
de psicologia de Wundt em psicologia funcional e transportou-a muito além das frontei
ras do laboratório experimental.
Assim, os Estados Unidos acolheram a psicologia com grande entusiasmo e rapida
mente a introduziram nas salas de aulas das universidades e no cotidiano das pessoas.
Hoje, o seu campo de atuação é muito mais abrangente do que seus fundadores podiam
imaginar ou desejar.
As Influências Econômicas na Psicologia Aplicada
Embora o Zeitgeist americano - o espírito intelectual e o temperamento da epóca - aju
dasse a impulsionar o surgimento da psicologia aplicada, outras forças contextuais mais
práticas também foram responsáveis pelo seu desenvolvimento. No Capítulo 1, discuti
mos sobre o papel dos fatores econômicos na mudança do enfoque da psicologia ameri
cana, da pura pesquisa para a aplicação. Próximo do final do século XIX, enquanto o
número de laboratórios de psicologia aumentava, a quantidade de doutorados em psico
logia crescia ainda mais rapidamente. Muitos desses novos doutores, principalmente os
desprovidos de fonte de receita independente, eram forçados a buscar o sustento finan
ceiro fora das universidades.
O psicólogo Harry Hollingworth (1880-1956), por exemplo, não conseguia manter
se com o salário anual de 1 .000 dólares para lecionar na Barnard Co!lege, em Nova York.
Hollingworth complementava os ganhos lecionando em outras universidades, supervi
sionando exames por meio dólar por hora e realizando palestras de psicologia para publi
citários a fim de sustentar as atividades de pesquisa e acadêmicas. Logo percebeu que não
sobreviveria se não aderisse à psicologia aplicada (Benjamin, Rogers e Rosenbaum, 1991).
Ele não foi o único, já que outros pioneiros da psicologia aplicada fizeram o mesmo
por questões financeiras. Mas isso não quer dizer que eles não encontrassem motivação
nesse trabalho prático ou não o considerassem desafiador:· A maioria encontrava estímu
lo e também reconhecia que o comportamento humano e as atividades cognitivas
podiam ser estudados com a mesma efetividade, tanto no ambiente do mundo real como
nos laboratórios acadêmicos. E ainda alguns psicólogos optaram por trabalhar nas áreas
a plicadas apenas porque assim o desejavam. O fato é que muitos psicólogos da primeira
geração da psicologia aplicada nos Estados Unidos foram levados a abandonar os sonhos
da pesquisa experimental puramente acadêmica por não haver outra forma de esca
parem das dificuldades financeiras.
A situação era ainda mais crítica para os psicólogos que lecionavam nas universida
des menos privilegiadas da região do meio-oeste e do oeste. Por volta de 19 10, um terço
CAPITULO 8 PSICOLOGIA APLICADA: A H ERANÇA DO FUNCIONALISMO .'. 1 87
dos psicólogos americanos ocupava essas posições e, à medida que esses nÇzmeros cres
ciam, aumentavam as pressões para que lidassem com os problemas práticos e, assim,
provassem à direção das universidades e ao poder legislativo estadual que <?','hóvo campo
da psicologia era dotado de valor financeiro.
Em 1912, C. A. Ruckmick realizou uma pesquisa entre os psicólogos dos Estados
Unidos e concluiu que a psicologia nas faculdades e universidades estava desvalorizada,
apesar da sua popularidade entre os estudantes. Os cursos contavam com poucos recur
sos e os laboratórios estavam mal equipados, com poucas perspectivas de melhoria.
Havia a sensação de que a única forma de aumentar a previsão orçamentária dos depar
tamentos e os salários do corpo docente era demonstrando aos administradores e políti
cos que a ciência da psicologia era capaz de ajudar a curar os males da sociedade. G.
Stanley Hall aconselhou um colega do meio-oeste a fazer com que a influência da psico
logia fosse sentida "fora da universidade, evitando, assim, que alguém ou algum partido
irresponsável ou sensacionalista a criticasse no legislativo". Cattell pressionou os colegas
para que "fizessem aplicações práticas e desenvolvessem a profissão da psicologia aplica
da" (apud O'Donnell, 1985, p. 215, 221).
A solução era clara: valorizar a psicologia, aplicando-a. Mas aplicá-la em quê?
Felizmente a resposta logo ficou evidente. As matrículas nas escolas públicas aumenta
vam significativamente e, entre 1870 e 1915, passaram de 7 para 20 milhões. Os gastos
do governo com as escolas públicas durante esse período aumentaram de 63 para 605
milhões de dólares (Siegel e White, 1982) . A educação tornou-se um grande negócio,
chamando a atenção dos psicólogos.
Hall declarou que "um dos campos principais e de imediata aplicação da psicologia
era a educação" (Hall, 1894, apud Leary, 1987, p. 323). Até mesmo William ]ames, que
não podia ser considerado um adepto da psicologia aplicada, escreveu um livro intitula
do Talks to teachers, tratando sobre o uso da psicologia nas salas de aula (]ames, 1899) .
Em torno de 1910, mais de um terço dos psicólogos americanos expressavam o interes
se na aplicação da psicologia aos problemas da educação. Três quartos dos que se deno
minavam psicólogos aplicados já estavam trabalhando na área. A psicologia encontrou
o seu espaço no mundo real.
Discutiremos neste capítulo as carreiras e contribuições de cinco psicólogos da psico
logia aplicada que introduziram a nova ciência na educação, no comércio e na indústria,
nos centros de testes psicológicos, no sistema judiciário e nas clínicas de saúde mental.
Esses psicólogos foram orientados por Wundt, em Leipzig, para se tornarem acadêmicos,
mas todos se distanciaram de seus ensinamentos quando iniciaram as carreiras nas uni
versidades americanas. São exemplos notáveis de como a psicologia americana foi mais
influenciada por Darwin e Galton do que por Wundt, e de como a abordagem deste foi
remodelada ao ser transplantada para o solo americano. Descreveremos também os pas
sos iniciais das três áreas principais da psicologia aplicada: os testes psicológicos, a psi
cologia clínica e a psicologia industrial-organizacional.
Granville Stanley H ali (7 844- 7 924)
G. Stanley Hall colecionou um registro fantástico das primeiras posições na psicologia
americana. Recebeu o primeiro título de doutorado em psicologia nos Estados Unidos
e alegava ter sido o primeiro aluno americano no primeiro ano do primeiro laboratório
1 88 HiSTÓRIA DA PSICOLOGIA MODERNA
de psicologia.z Hall deu início ao que muitas vezes é considerado o primeiro laborató
rio de psicologia nos Estados Unidos e criou a primeira revista especializada americana.
Foi o primeiro reitor da Clark University, organizador e primeiro presidente da APA e
u m dos primeiros psicólogos da aplicação.
A Biografia de H ali
Hall nasceu em uma fazenda, em Massachusetts, e desde cedo exibia alto grau de ambi
ção. Com 14 anos, prometeu que "realizaria algo muito importante e seria reconhecido
mundialmente"(apud Ross, 1972, p. 12). Aos 1 7 anos, ficou profundamente envergo
nhado quando, em plena Guerra Civil Americana, seu pai comprou sua dispensa do
exército. Ele declarou que devia ser punido como compensação pelo descumprimento do
serviço militar obrigatório (Vande Kemp, 1992).
Em 1 863, Hall ingressou na Williams College. Na época em que se formou já havia
recebido vários votos de louvor e eleito o homem mais inteligente da sua classe.
Desenvolveu um entusiasmo pela filosofia e em especial pela teoria da evolução, que
viria a influenciar sua carreira na psicologia. Ele disse: "Logo que a ouvi pela primeira vez
na minha j uventude, devo ter sido hipnotizado pela palavra 'evolução', que soava como
música para meus ouvidos" (Hall, 1923, p. 357) . Depois da graduação, ainda em dúvida
e m relação à sua vocação, matriculou-se na Union Theological Seminary da cidade de
Nova York. Não demonstrava grande dedicação para seguir a carreira religiosa e seu inte
resse pelo evolucionismo certamente não lhe proporcionava nenhuma vantagem.
Rapidamente ficou claro que ele não se destacaria pela sua ortodoxia religiosa. Diz a
lenda que, quando Hall pronunciou um sermão de ensaio para os professores e discípu
los, o diretor do seminário ajoelhou-se e rezou pela sua alma.
Seguindo o conselho do famoso pastor Henry Ward Beecher, Hall partiu para a
University of Bonn, na Alemanha, para estudar filosofia e teologia. Em Berlim, estudou
também fisiologia e física e complementou essa fase dedicada aos estudos freqüentando
teatros e cervejarias, experiências ousadas para um jovem tão preocupado com a forma
ção. Comentou que ficara surpreso ao ver um professor de teologia bebendo cervej a em
u m domingo. Também se recordara dos romances, observando que duas relações muito
marcantes revelaram capacidades suas "até então adormecidas e reprimidas e [que]
deram, assim, mais riqueza e significado à sua vida" (apud Lewis, 1991, p. 317) . Aparen
temente, a temporada européia de Hall foi um período de certa liberação.
Relutante, voltou para casa em 1871, porque, relata um biógrafo, seus pais ameaça
vam não mais sustentá-lo (White, 1994). Hall já estava com 27 anos, mas não se havia
formado e estava atolado em dívidas. Terminou os estudos no seminário (mas não se
ordenou) e começou a pregar em uma igreja rural em Cowdersport, Pensilvânia, ativida
de que não durou mais do que 10 semanas. Depois de passar mais de um ano dando
aulas particulares, conseguiu um emprego para lecionar na Antioch College, em Ohio.
Lecionava literatura inglesa, línguas e literaturas francesa e alemã e filosofia, além de tra
balhar como bibliotecário, regente do coral e como pregador na capela.
2 Dados h istóricos posteriores revelaram que ele, na verdade, fora o segundo; veja Benjamin, Durkin, Link, Vestal e
Acord, 1 992.
CAPÍTULO 8 PSICOLOGIA APLICADA: A HERANÇA DO FUNCIONALISMO 1 89
Em 1874, o livro Physiological psychology, de Wundt, despertou seu interesse na nova
ciência, deixando-o mais indeciso a respeito da sua carreira. Pediu licença ·na Antioch,
foi para Cambridge, em Massachusetts, e tornou-se professor particular de-inglês em
Harvard. Iniciou a pós-graduação e começou a realizar pesquisas na escola· de medicina.
Em 1878, apresentou sua dissertação sobre a percepção espacial, recebendo o primeiro
título de doutorado em psicologia dos Estados Unidos.
Logo em seguida, partiu novamente para a Europa, primeiro para estudar fisiologia
em Berlim e depois para ser aluno de Wundt, em Leipzig, onde acabou sendo vizinho de
Fechner. A expectativa de trabalhar com Wundt estava acima da realidade. Embora Hall
não faltasse às suas aulas e servisse até como observador em seu laboratório, ele realiza
va a própria pesquisa dando ênfase ao aspecto fisiológico. Mais tarde, a carreira de Hall
revelou que Wundt não exercera grande influência sobre seu trabalho.
Dois anos depois, quando Hall voltou aos Estados Unidos, não tinha perspectivas de
trabalho. Contudo, 10 anos mais tarde, acabou se tornando uma personalidade de impor
tância nacional. Percebeu que a chance de satisfazer à sua ambição encontrava-se na apli
cação da psicologia à educação. Em 1882, proferiu uma palestra no encontro da National
Education Association - NEA (Associação Nacional de Educação), ressaltando o estudo
psicológico infantil como o principal componente da profissão do educador. Sempre que
tinha oportunidade, repetia essa mensagem. O reitor da Harvard convidou-o para minis
trar uma série de palestras sobre educação, aos sábados pela manhã, que lhe renderam
mais publicidade favorável e um convite para lecionar meio período na Johns Hopkins
University, fundada cinco anos antes em Baltimore e a primeira a oferecer cursos de pós
graduação nos Estados Unidos.
Suas aulas eram um enorme sucesso e assim foi-lhe oferecida uma cadeira na Johns
Hopkins. Em 1883, ele criou formalmente o que é geralmente considerado o primeiro
laboratório de psicologia dos Estados Unidos, ao qual chamou de "seu laboratório de psi
cofisiologia" (Pauly, 1986, p. 30). Foi professor de vários alunos que acabaram se tornan
do importantes psicólogos, entre os quais John Dewey e ]ames McKeen Cattell.
:0 História On-line
http://www.chss.montclair.edu/psychology/museum/museum.html
O On-Line Cyber-Museum (Cibe'rmuseu on-line) mostra os tipos de equipa
mentos usados nos primeiros laboratórios de psicologia, inclusive no de Hall.
Em 1887, Hall fundou a primeira revista de psicologia dos Estados Unidos, American
foumal o f Psychology, uma publicação importante até hoje. A revista oferecia uma base
para as idéias teóricas e experimentais e um sentido de solidariedade e independência
para a psicologia americana. Em uma explosão de entusiasmo, Hall mandou imprimir
uma quantidade excessiva de cópias da primeira edição e levou cinco anos para recupe
rar o investimento inicial.
No ano seguinte, Hall tornou-se o primeiro reitor da Clark University de Worcester,
em Massachusetts. Antes de iniciar o trabalho, embarcou em longa viagem ao exterior
a fim de conhecer as universidades européias e contratar professores para a sua nova
escola. Um escritor que registrou os primeiros cem anos de história da Clark University
observou que a viagem de Hall serviu de "férias antecipadas por um trabalho que ainda
1 90 HISTÓRIA DA PSICOLOGIA MODERNA
não havia começado, ( ... ) incluindo várias paradas totalmente irrelevantes para a tare
fa que viria a realizar, como academias militares russas, sítios históricos da Grécia anti
ga e as costumeiras passagens por bordéis, centros de diversões e curiosidades" (Koelsch,
1987, p. 21) .
Hall sonhava em fazer da Clark uma universidade para pós-graduandos, seguindo a
linha da Johns Hopkins e das universidades alemãs, dando maior ênfase à pesquisa do
que à profissão acadêmica. Além de ser reitor da universidade, lecionava psicologia no
curso de pós-graduação. Com recursos próprios, criou a revista Pedagogica/ Seminary (hoje
Joumal o f Genetic Psychology) para servir como centro de divulgação da pesquisa relacio
nada com a psicologia educacional e infantil. Em 1915, fundou a Jouma/ of Applied
Psychology, perfazendo um total de 1 6 revistas americanas especializadas em psicologia.
A APA foi organizada em 1892, principalmente devido aos grandes esforços de Hall. Ele
convidou dezenas de psicólogos à sua casa para planejar a organização, sendo eleito como
o seu primeiro presidente. Por volta de 1900, o grupo já compreendia 127 membros.
Hall manteve o interesse pela religião e inaugurou a Clark School of Religious
Psychology, além de criar a revista foumal ofReligious psychology (1904), que publicou por
uma década. Escreveu um livro intitulado Jesus, the Christ, in the light of psychology, mas
sua descrição de Jesus como um "super-homem adolescente" não foi muito bem recebi
da pelas entidades religiosas (Ross, 1972).
Hall foi um dos primeiros psicólogos americanos a se interessar pela psicanálisefreudiana e um dos principais responsáveis pela atenção que o sistema de Freud recebeu
nos Estados Unidos. Em 1909, na comemoração do 20º aniversário da Clark University,
convidou Freud e Carl Jung para participarem das conferências, convite ousado, já que
muitos cientistas não viam com bons olhos a psicanálise. Primeiro, convidou seu ex
professor, Wilhelm Wundt, que recusou por causa da idade e porque seria o principal
conferencista no 500º aniversário da sua universidade de Leipzig.
A psicologia na Clark prosperou muito no período de Hall. Nos 36 anos que ali per
maneceu, foram concedidos 86 títulos de doutorado em psicologia. Os alunos lembram
se dos cansativos mas animados seminários das tardes de segunda-feira na casa de Hall,
quando ele, juntamente com outros professores e alunos de pós-graduação, sabatinavam
os candidatos ao doutorado. Depois dessas reuniões, que duravam até quatro horas, um
empregado da casa servia um eriorme barril de sorvete.
Os comentários de Hall a respeito dos trabalhos de seus alunos podiam ser devasta
dores. Lewis Terman lembra-se:
Hall resumia tudo com uma erudição e uma imaginação tão fértil que sempre nos sur
preendia e fazia-nos sentir que a sua imediata percepção do problema ia infinitamente
além da do estudante que dedicara meses de trabalho enfadonho, vil e tirânico. [Eu]
sempre voltava para casa atordoado e excitado, mergulhava em uma banheira quente
para acalmar os nervos e depois ficava horas acordado, lembrando por várias vezes a
cena, formulando e repetindo as respostas inteligentes que devia ter dado. (Terman,
1 930/1961, p. 3 16.)
Adepto da formação de alunos inteligentes, desde que merecedores, Hall, muitas
vezes, era generoso e atencioso. É possível afirmar que a vários dos psicólogos ame
ricanos podem ser associados de alguma forma e em algum momento a Hall, na Clark
ou na ]ohns Hopkins, embora ele não fosse a principal fonte de inspiração de todos eles.
Sua influência pessoal reflete-se bem no fato de um terço dos seus alunos de doutorado
haverem seguido seus passos na administração de faculdades.
(APÍWLO 8 PSICOLOGIA APliCADA: /\ HERANÇA DO FUNCIONALISMO 1 91
Hall fez da Clark uma universidade mais receptiva às mulheres e às minorias do que a
maioria das universidades dos Estados Unidos daquela época. Embora compartilhasse da
posição nacional contrária à co-educação para os alunos de graduação, admitia mulheres
como alunas de pós-graduação e professoras iniciantes. Tomou a iniciativa inédita de
incentivar alunos japoneses a matricularem-se na Clark e recusava-se a restringir a contra
tação de professores judeus quando a maioria das universidades não os contratava. Hall
incentivou também os negros a cursarem a pós-graduação.
O primeiro afro-americano a receber o Ph.D. em psicologia, Francis Ceci! Sumner,
estudou com Hall. Summer acabou tornando-se chefe do departamento de psicologia da
Howard University, em Washington, DC, onde implementou um forte programa acadê
mico para introduzir o negro na psicologia (Dewsbury e Pickren, 1992). Além disso, tra
duziu milhares de artigos de revistas alemãs, francesas e espanholas, resumindo-os para
publicação nas revistas americanas de psicologia.
Mesmo depois de se aposentar e deixar a Clark em 1920, Hall continuou a escrever.
Faleceu quatro anos mais tarde, alguns meses depois de ser eleito para o segundo manda
to como presidente da APA. Uma pesquisa realizada entre os membros da APA a respeito
das contribuições de Hall revelou que, das 120 pessoas pesquisadas, 99 classificaram Hall
entre os 10 principais psicólogos do mundo. Muitos elogiaram sua capacidade pedagógi
ca, seus esforços na promoção da psicologia e seu desprezo pela ortodoxia. No entanto
esses entrevistados e outros que o conheceram criticaram suas qualidades pessoais. Hall
foi descrito como uma pessoa difícil, não confiável, inescrupulosa, divergente e extrema
mente preocupada com a autopromoção. William ]ames o definiu como a "mistura mais
extravagante de grandeza e pequeneza que já vi" (apud Myers, 1986, p. 18) . Mas mesmo
os críticos têm de concordar com o resultado da pesquisa: " [Hall] foi responsável pela pro
dução de mais trabalhos e pesquisas do que quaisquer outros três profissionais da área
juntos" (apud Koelsch, 1987, p. 52).
A Evolução e a Teoria da Recapitulação do Desenvolvimento
Apesar do interesse de Hall por diversas áreas, suas divagações intelectuais abrangiam utn
único tema - o evolucionismo. Seu trabalho era dirigido pela convicção de que o desen
volvimento normal da mente envolvia uma série de estágios evolucionários. Baseando
se no evolucionismo para desenvolver amplas teorias e hipóteses, Hall contribuiu mais
com a psicologia educacional do que com a experimental. Admitia que o método expe
rimental era importante para a psicologia, mas perdeu a paciência com as suas limita
ções. O trabalho laboratorial da nova psicologia mostrou-se limitado demais para os
objetivos mais gerais de Hall.
Muitas vezes, ele é chamado de psicólogo da genética devido à sua preocupação com
o desenvolvimento humano e animal e as questões relacionadas com a adaptação. Na
Clark, o interesse de Hall pela genética o conduziu ao estudo psicológico da infância que
acabou se tornando o ponto central da sua psicologia. Em um discurso na Feira Mundial
de Chicago de 1893, ele disse: "Até hoje seguimos para a Europa para desenvolver a
nossa psicologia. A partir de hoje varrias pegar a criança, colocá-la entre nós e deixar os
Estados Unidos criarem a própria psicologia" (apud Siegel e White, 1982, p. 253). A
intenção de Hall era aplicar sua psicologia ao funcionamento da criança no mundo real.
Um ex-aluno lembrou com exatidão: "A criança se tornara, por assim dizer, o laborató
rio [de Hall]" (Averill, 1990, p. 127).
1 92 HISTÓRIA DA PSICOLOGIA MODERNA
Na realização das suas pesquisas, Hall utilizava muito os questionários, procedimen
to que aprendera na Alemanha. Um relato sobre os estudos infantis da Clark revelou que
Hall e seus alunos desenvolveram e administraram 194 questionários abrangendo diver
sos tópicos (While, 1990). Durante certo tempo, nos Estados Unidos, o método era ime
diatamente associado ao nome de Hall, embora a técnica houvesse sido desenvolvida
antes, por Francis Galton, na Europa.
Os primeiros estudos sobre crianças provocaram grande entusiasmo no público e
acabaram formalizando o movimento do estudo infantil. No entanto essa abordagem
acabou desaparecendo alguns anos depois, por causa da baixa qualidade das pesquisas
realizadas. Suas amostragens eram inadequadas, os questionários insensatos, os pesqui
sadores mal treinados e os dados mal analisados - um esforço considerado "psicologia
de baixo nível, imprecisa, inconsistente e equivocada" (Thorndike, apud Berliner, 1993,
p. 54). Apesar dessa crítica merecida, o movimento do estudo infantil promoveu tanto o
estudo empirista da criança como o conceito de desenvolvimento psicológico.
Seu trabalho de maior repercussão foi a obra de 1 .300 páginas, publicada em dois
volumes, Adolescence: its psychology, and its relations to physiology, anthropology, sociology,
sex, crime, religion, and education (1904). Essa enciclopédia contém a mais completa
descrição da teoria da recapitulação do desenvolvimento psiCológico elaborada por
Hall. Basicamente, ele assegurava que a criança repetia no seu desenvolvimento pes
soal a história da vida da raça humana, evoluindo do estado praticamente selvagem
dos primeiros anos e da infância até se tornar um ser humano racional e civilizado na
vida adulta.
Teoria da recapitulação: conceito de Hall que afirma ser o desenvolvimento psicológico da crian
ça uma repetição da história da raça humana.
O livro Adolescence criou polêmica porque alguns psicólogos consideraram excessiva
a ênfase ao sexo e Hall foi acusado de interesses lascivos. Em crítica a respeito do livro,
o psicólogo E. L. Thorndike escreveu: "Os atos e sentimentos, normais e mórbidos,resul
tantes do sexo são discutidos de modo nunca antes abordado na ciência inglesa". Foi
ainda mais incisivo em uma carta que escreveu a um colega, dizendo que o livro de Hall
estava "abarrotado de erros, masturbação e Jesus. Ele deve ser louco" (apud Ross, 1972,
p. 385). Hall também programou uma série de aulas na Clark sobre sexo, atitude consi
derada escandalosa, mesmo não se permitindo a participação de mulheres. Ele acabou
suspendendo essas palestras porque "muitas pessoas de fora entravam e até ficavam clan
destinamente à porta, tentando ouvir" (Koelsch, 1 970, p. 1 19). "Será que não dá para ele
falar de outro assunto que não seja esse maldito sexo?", escreveu Angell para Titchener.
"Eu, particularmente, acho imoral e intelectualmente ruim concentrar-se demais nesse
assunto de sexo" (apud Boakes, 1984, p. 1 63). Os colegas psicólogos de Hall não precisa
vam ter-se preocupado com isso, pois logo o ativo e produtivo Hall desviou o interesse
para outro assunto.
À medida que foi envelhecendo, Hall passou a se interessar pelo desenvolvimento
humano nos estágios finais da vida. Com 78 anos, publicou Senescence (Senilidade)
( 1922), a primeira pesquisa de larga escala sobre os problemas psicológicos na velhice.
Quase no final da vida, escreveu duas autobiografias, Recreations of a psychologist (1920)
e The life and confessions of a psychologist (1923).
CAPÍTULO 8 PSICOLOGIA APLICADA: A H ERANÇA DO fUNCIONALISMO 1 93
Comentários
Uma vez, Hall foi apresentado ao público como o Darwin da mente. Essa -caracterização
evidentemente o agradou e expressava as ambições e atitudes que permeiü:am o seu tra
balho. Em outra ocasião, foi apresentado como "a maior autoridade mundial no estudo
infantil" e ele afirmou categoricamente que a colocação estava correta (Koelsch, 1987, p.
58). Na sua segunda autobiografia, escreveu: "Toda a minha vida ativa e consciente foi
composta de uma série de modismos e loucuras, alguns mais marcantes, outros insignifi
cantes, alguns mais duradouros ( . . . ) e outros efêmeros" (1923, p. 367-368). Sua observa
ção foi sensata. Era corajoso, versátil e agressivo e muitas vezes divergia dos seus colegas,
mas jamais fora estúpido.
o História On-line
http://www.jhu.edu/demo/review_of_higher_education/20./goodchild.html
Esse site contém informações biográficas de Hall e sobre as suas contribui-
ções para o campo da educação superior.
James McKeen Catte/1 (1860- 7 944)
O espírito funcionalista da psicologia americana também está bem representado na vida
e no trabalho de ]ames McKeen Cattell, que promoveu uma abordagem prática com a
aplicação de testes no estudo dos processos mentais. Sua psicologia concentrava-se no
estudo das capacidades humanas e não do conteúdo da consciência e nesse aspecto ele
está bem próximo dos funcionalistas.
A Biografia de Catte/1
Cattell nasceu em Easton, na Pennsylvania. Obteve o grau de bacharel em 1880, na
Lafayette College, onde seu pai era diretor. Seguindo o costume da época de cursar a pós
graduação na Europa, partiu primeiro para a University of Gõttingen e em seguida para
Leipzig, a fim de estudar com Wilhelm Wundt.
Um trabalho sobre filosofia rendeu-lhe uma bolsa de estudos para cursar a Johns
Hopkins University, em 1882. Naquela época, interessava-se mais pela filosofia e, quan
do cursava o primeiro semestre, a universidade não oferecia cursos de psicologia.
Aparentemente, Cattell interessou-se pela psicologia em virtude das próprias experiên
cias com as drogas. Ele experimentou várias substâncias, como o haxixe, a morfina, o
ópio, a cafeína, o cigarro e o chocolate e descobriu interesses tanto pessoais como pro
fissionais. Algumas drogas, mais especificamente o haxixe, deixavam-no muito eufórico
e diminuíam-lhe a depressão. Ele documentou em uma revista os efeitos das drogas no
seu funcionamento cognitivo.
"Percebia-me fazendo brilhantes descobertas científicas e filosóficas e meu único
receio era de não me lembrar dos fatos pela manhã." Mais tarde, escreveu: "Perdi o inte
resse pela leitura e leio sem prestar muita atenção. Levo muito tempo para escrever uma
1 94 HISTÓRIA DA PSICOLOGIA MODERNA
palavra. Estou muito confuso!" (apud Sokal, 1981, p. 51 , 52). Todavia Cattell não estava
assim tão perturbado, já que fora capaz de reconhecer a importância psicológica de
diversas drogas e de observar o próprio comportamento e estado mental com grande
interesse. "Sentia-me como se fosse duas pessoas: uma, o observador e a outra a que esta
va sendo observada" (apud Sokal, 1987, p. 25).
No segundo semestre de Cattell na ]ohns Hopkins, G. Stanley Hall começou a lecio
nar psicologia e então decidiu matricular-se nas aulas de laboratório de Hall. Escolheu
como tema de pesquisa o tempo de reação - o tempo necessário para a realização de
diferentes atividades mentais e os resultados desse trabalho reforçaram seu desejo de se
tornar psicólogo.
O retorno de Cattell à Alemanha, em 1883, para voltar a estudar com Wundt é obje
to de muita especulação na história da psicologia e essas lendas são outro exemplo de
como os dados históricos podem ser distorcidos. Cattell afirma ter aparecido na
University of Leipzig e anunciado corajosamente para Wundt: "Herr professor, o senhor
precisa de um assistente e essa posição deve ser minha" (Cattell, 1928, p. 545). E ainda
Cattell deixara bem claro a Wundt que ele mesmo escolheria seu projeto de pesquisa e
que seria sobre a psicologia das diferenças individuais, tópico de menor importância na
psicologia wundtiana. Diz a lenda que Wundt teria descrito Cattell e o seu projeto como
ganz Americanisch (tipicamente americanos), observação profética, se for verdadeira. O
interesse pelas diferenças individuais, conseqüência natural do ponto de vista evolucio
nista, passara desde então a ser uma característica da psicologia americana, mas não da
psicologia alemã.
Além disso, dizem que Cattell teria dado a Wundt sua primeira máquina de escrever,
na qual teria escrito a maioria de seus livros. Por causa desse presente, Cattell teria sido
caçoado pelos colegas por ter "prestado um sério desserviço ( . . . ) e ter permitido a Wundt
produzir o dobro do que teria escrito sem a máquina" (Cattell, 1928, p. 545) .
Uma pesquisa cuidadosa realizada com as c«rtas e as revistas de Cattell colocou em
dúvida essas histórias (veja Sokal, 1981). Os relatos de Cattell escritos muitos anos depois
não coincidem com os registros da sua correspondência e das revistas da época dos acon
tecimentos. Wundt tinha grande respeito por Cattell e o indicara como assistente do
laboratório, em 1886. Não há evidências de que Cattell desejasse estudar as diferenças
individuais naquela época. Ele teria ensinado Wundt a utilizar uma máquina de escrever
e não lhe dado uma.
Após obter o doutorado, em 1886, Cattell retornou aos Estados Unidos para lecionar
psicologia na Bryn Mawr College e na University of Pensylvania. Depois, seguiu para a
Inglaterra a fim de ser professor da Cambridge University, onde conheceu Francis
Galton. Os dois compartilhavam o interesse pelas diferenças individuais e Galton, então
no auge da fama, "apresentou a [Cattell] uma proposta científica - a medição das dife
renças psicológicas entre as pessoas" (Sokal, 1987, p. 27). Cattell admirava a diversidade
de interesses de Galton e sua ênfase na medição e na estatística. Por influência de
Galton, Cattell tornou-se um dos primeiros psicólogos americanos a destacar a quantifi
cação, a classificação e a gradação, embora pessoalmente fosse um "analfabeto em mate
mática" e muitas vezes cometesse erros primários de adição e subtração (Sokal, 1987, p.
37). Cattell desenvolveu o método amplamente utilizado de classificação por ordem de
mérito (apresentado mais adiante neste capítulo) e foi o primeiro psicólogo a ensinar a
análise estatística dos resultados experimentais.
Wundt não adotava as técnicas estatísticas, portanto, foi por influência de Galton
que Cattell enfatizou a estatísticaque vivia a caracterizar a nova psicologia americana.
CAPÍTULO 8 PSICOLOGIA APLICADA: A HERANÇA DO FUNCIONALISMO 1 95
Essa ênfase também explica por que os psicólogos americanos começaram a estudar gru
pos maiores de pessoas em vez de apenas um indivíduo, como fazia Wundt. Um histo
riador comenta:
O rápido crescimento da estatística, por volta de 1900, ofereceu aos psicólogos exata
mente o tipo de instrumento quantitativo com que sonhavam para sustentar a credi
bilidade científica. Surge, então, uma relação sinergética: as novas técnicas estatísticas
proporcionaram possibilidades de pesquisa inéditas, enquanto as elevadas aspirações
dos psicólogos impulsionavam o desenvolvimento de novas técnicas estatísticas ade
quadas para as tarefas que buscavam realizar. (Richards, 1996, p. 26.)
A exibição dos dados em forma de gráficos era usada com freqüência por Galton,
Ebbinghaus, Hall e o psicólogo americano Thorndike, nas últimas décadas do século
XIX. O estatístico britânico Karl Pearson, que apresentou a fórmula para calcular o coe
ficiente de correlação, elaborou, em 1900, o teste do qui-quadrado. Ambas as técnicas
acabaram sendo mais aplicadas na psicologia americana do que na Inglaterra. Em 1907,
John Edgar Cover, psicólogo da Stanford University, foi aparentemente o primeiro a
defender o uso de grupos experimentais e de controle (Dehue, 2000; Smith, Best, Cylke
e Stubbs, 2000).
Além da estatística, Cattell interessou-se também pelo trabalho de Galton sobre a
eugenia (veja no Capítulo 6). Defendia a esterilização dos delinqüentes e dos chamados
defeituosos, além de ser a favor da oferta de incentivos para as pessoas inteligentes e sau
dáveis que se casassem entre si. Prometeu dar a cada um de seus sete filhos mil dólares,
caso se casassem com filhos e filhas de professores universitários (Sokal, 1971) .
Em 1888, Cattell tornou-se professor de psicologia da University of Pennsylvania,
indicação arranjada por seu pai. Sabendo que uma cadeira bem-remunerada em filosofia
estava para ser criada na universidade, o velho Cattell convenceu o reitor da faculdade,
um velho amigo seu, a dar o posto a seu filho. O velho Cattell pressionava o filho para
publicar mais artigos, a fim de melhorar sua reputação profissional e até mesmo para via
jar a Leipzig para obter uma carta de recomendação de Wundt. Disse ao reitor que a famí
lia era abastada e por isso a remuneração não era importante. E assim, Cattell acabou
sendo contratado por um salário extremamente baixo (O'Donnell, 1985). Mais tarde,
Cattell chegou a afirmar ter sido essa a primeira cadeira em psicologia no mundo, mas a
sua indicação, na realidade, fora para filosofia. Ficou na University of Pennsylvania ape
nas três anos e, em seguida, tornou-se professor de psicologia e chefe de departamento
da Columbia University, onde permaneceu por 26 anos.
Por causa da sua insatisfação com a publicação de Hall, American fournal of
Psychology, Cattell criou a Psychological Review, em 1894, juntamente com }. Mark
Baldwin. Adquiriu de Alexander Graham Bel! a revista semanal Science, que estava
quase indo à falência. Cinco anos depois, tornou-se a revista oficial da American
Association for the Advancement of Science - AAAS (Associação Americana para o
Progresso da Ciência). Em 1906, Cattell instituiu uma série de livros de referência,
incluindo o American men o f science e Leaders in education. Em 1900, adquiriu a Popular
Science Monthly e, em 1915, vendeu o nome, mas continuou a publicá-la com o título
de Scientific Monthly. Lançou outro semanário, School and Society, em 1915 . O enorme
trabalho de organização e edição dessas publicações tomava grande parte do seu
tempo e, como era de se esperar, houve um declínio da sua produtividade na pesqui
sa psicológica.
1 96 HISTÓRIA DA PSICOLOGIA MODERNA
Durante a permanência de Cattell na Columbia, mai� doutorados foram concedidos
em psicologia do que em qualquer outra instituição de pós-graduação dos Estados
Unidos. Ele incentivava o trabalho independente e dava bastante liberdade para os alu
nos conduzirem as próprias pesquisas. Acreditava que o professor devia manter certa dis
tância dos problemas da universidade e foi morar a uma distância de 65 quilômetros do
campus. Instalou um laboratório e um escritório editorial na sua casa e visitava o campus
apenas alguns dias por semana.
Esse afastamento foi um dos fatores que ocasionaram tensão na relação entre Cattell
e a administração da universidade. Ele exigia maior participação do corpo docente, argu
mentando que os professores e não os administradores é que deviam tomar muitas das
decisões e m relação à administração da universidade. Para esse fim, ajudou a fundar a
American Association of University Professors - AAUP (Associação Americana de
Professores Universitários). Era considerado pela administração da Columbia uma pessoa
de pouco tato e descrito como difícil, "grosseiro, irremediavelmente desagradável e sem
generosidade" (Gruber, 1972, p. 300).
Em três ocasiões entre 1910 e 1917, os curadores da universidade chegaram a pen
sar em forçar Cattell a se aposentar. O golpe decisivo foi desferido na época da Primeira
Guerra Mundial, quando Cattell escreveu duas cartas para os parlamentares dos Estados
Unidos, protestando contra o envio de soldados para a guerra. Essa posição era muito
impopular, mas Cattell permaneceu inflexível. Foi demitido em 1917, acusado de des
lealdade aos Estados Unidos. Ele processou a universidade por calúnia e, embora houves
se recebido 40 mil dólares (soma bastante substancial para a época), não foi reintegrado.
Isolou-se dos amigos e escreveu folhetos, satirizando a administração da universidade.
Homem amargo no final da vida, Cattell fez muitos inimigos e jamais voltou para a vida
acadêmica. Dedicou-se às suas publicações e à AAAS e outras sociedades intelectuais. Em
relação à psicologia, seus esforços promocionais elevaram a nova ciência a um patamar
mais alto na comunidade científica.
Em 1921 , Cattell realizou uma das suas ambições: promover a psicologia aplica
da como um negócio. Organizou a Psychological Organization (Organização Psicológica),
com as ações adquiridas pelos membros da APA, objetivando oferecer serviços psicológicos
para a indústria, à comunidade psicológica e ao público em geral. No início, o negócio foi
u m fracasso, pois, nos primeiros dois anos de existência, a empresa lucrou 5 1 dólares.
Enquanto Cattell foi o presidente, a situação não melhorou. Entretanto, por volta de 1969,
a Psychological Corporation lucrou 5 milhões de dólares em vendas e foi comprada pela
editora Harcourt Brace que, 10 anos mais tarde, registrou um faturamento de 30 milhões
de dólares da empreitada iniciada por Cattell.
Testes Mentais
Em um artigo publicado em 1890, Cattell empregou a expressão testes mentais e, duran
te o período em que trabalhou na University of Pennsylvania, administrou vários desses
testes a seus alunos. Declarou:
A psicologia não será capaz de atingir a certeza e a exatidão das ciências físicas, a menos
que se baseie nos fundamentos da experiência e da medição. Um passo nessa direção
pode ser dado, aplicando-se urna série de testes e rnensurações mentais a um grande
número de pessoas. (Cattell, 1890, p. 3 73.)
CAPiTULO 8 PSICOLOGIA APLICADA: A HERANÇA DO FUNCIONALISMO 1 97
Era exatamente isso que Cattell estava tentando fazer. Ele continuou o seu progra
ma de testes na Columbia, coletando dados de diversos calouros.
Os tipos de testes usados por Cattell para medir a amplitude e a variabilidade da
capacidade humana eram diferentes dos testes de inteligência e de capacidade cognitiva
desenvolvidos mais tarde pelos psicólogos, já que eles aplicam tarefas mais complexas
para testar a capacidade mental. Os testes de Cattell, assim como os de Galton, lidavam
principalmente com as medidas sensório-motoras elementares, incluindo a pressão obti
da no dinamõmetro, a velocidade do movimento (por exemplo,com que rapidez a mão
se move 50 em), o limiar de dois pontos para medir a sensibilidade tátil, a pressão neces
sária para provocar dor na testa, as diferenças mínimas perceptíveis entre dois pesos, o
tempo de reação ao som e o tempo necessário para nomear as cores.
Em torno de 1901, Cattell havia coletado dados suficientes para correlacionar os
resultados dos testes com as medições do desempenho acadêmico dos estudantes. As cor
relações mostraram-se muito baixas, assim como as intercorrelações entre os testes indi
viduais. Como Titchener obtivera resultados semelhantes no seu laboratório, Cattell
concluiu que testes desse tipo não apresentavam prognósticos válidos do desempenho
universitário ou, por suposição, da habilidade intelectual.
Comentários
A influência mais forte exercida por Cattell sobre a p_�icologia americana foi mediante o
trabalho como organizador, executivo e administrador da ciência e da prática psicológicas
e como articulador da ligação entre a psicologia e as principais comunidades científicas.
Tornou-se o embaixador da psicologia, lecionando, editando revistas e promovendo a apli-
cação prática na área.
·
Baseado no trabalho de Galton, Cattell investigou sobre a natureza e a origem da
habilidade científica, usando seu método de graduação por ordem de mérito. Os estí
mulos classificados por vários julgadores foram organizados em uma seqüência classifi
catória final, calculando-se a graduação média atribuída a cada estímulo. O método foi
aplicado em eminentes cientistas americanos e avaliados por colegas igualmente desta
cados de cada área. O livro de referência American men o f science foi escrito com base
nesse trabalho. Apesar do título do livro, ele também incluía as cientistas americanas.
A edição de 1910 relaciona 19 psicólogas, representando cerca de 10% dos psicólogos
mencionados (O'Donnell, 1985) .
Cattell também contribuiu para o desenvolvimento da psicologia por intermédio
dos seus alunos. Durante o período em que esteve na Columbia, orientou mais estudan
tes de pós-graduação do que qualquer outro nos Estados Unidos. Muitos desses alunos,
inclusive Robert Woodworth (Capítulo 7) e E. L. Thorndike (Capítulo 9), destacaram-se
no campo. Com seu trabalho a respeito dos testes mentais, da mensuração das diferen
ças individuais e com a promoção da psicologia aplicada, Cattell reforçou ativamente o
movimento funcionalista na psicologia americana. Quando faleceu, o historiador E. G.
Boring escreveu aos filhos de Cattell, dizendo: "Na minha opinião, seu pai realizou mais
até mesmo que William ]ames, para dar à psicologia americana esse ponto de vista
peculiar e torná-la diferenciada da psicologia alemã, da qual se originou" (apud Bjork,
1983, p. 105).
1 98 HISTÓRIA DA PSICOLOGIA MODERNA
0 História On-line
http:/ /www. indiana.edu/-i n te 11/jcattell.html
Esse endereço apresenta uma avaliação sobre as principais contribuições de
Cattell, além do acesso para o artigo, escrito em 1 890, sobre os testes men
tais e o de 1 898 (que escreveu com Baldwin e Jastrow), sobre os testes físi
cos e mentais.
http://elvers.stjoe.udayton.edu/history/people/cattell.html
Esse site contém a biografia de Cattell, além da cronologia, bibliografia e crí
tica às suas contribuições.
O Movimento dos Testes Psicológicos
Binet, Terman e o Teste de Ql
Embora Cattell tenha cunhado a expressão testes m entais, o primeiro teste verdadeira
mente psicológico de habilidade mental foi desenvolvido por Alfred Binet (1857-1911) .
Psicólogo francês autodidata e muito rico, Binet publicou mais de 200 artigos e livros,
além de escrever quatro peças que foram encenadas em teatros de Paris. Com medições
mais complexas do que as selecionadas por Cattell, Binet produziu uma medição �_fetiva
das habilidades cognitivas humanas, marcando, assim, o início do teste de inteligência
moderno.3 - ·
Testes mentais: testes de habilidade motora e capacidade sensorial; os testes de inteligência usam
medições mais complexas de habilidade mental.
Binet discordava da abordagem de Galton e de Cattell, que consistia na aplicação
de testes de processo sensório-motor para medir a inteligência. Para ele, a avaliação d�s
funções cognitivas como a memória, a atenção, a imaginação e a compreensão, propor
cionava medidas de inteligência mais adequadas. Chegou a essa conclusão baseado na
pesquisa que realizou em casa, com suas duas filhas mais novas. Primeiro, administrou
os mesmos tipos de testes sensório-motores utilizados por Galton e Cattell e descobriu
que o desempenho das suas filhas era semelhante ao dos adultos, tanto nos resultados
como na rapidez das respostas. Foi então que passou a utilizar os testes de habilidade
cognitiva para esses tipos de tarefa, pois descobriu diferenças significativas entre os resul
tados das meninas comparados com os dos adultos (Fancher, 1998).
Em 1904, por causa de uma necessidade prática, surge a oportunidade de Binet pro
var o seu ponto de vista. O ministro da educação francês criou uma comissão para estu
dar a capacidade de aprendizagem das crianças que apresentavam dificuldades na escola.
Binet e Théodore Simon (um psiquiatra) foram nomeados para fazer parte da comissão e,
juntos, pesquisaram quais eram as tarefas intelectuais que a maioria das crianças estaria
Embora Alfred Binet seja mais conhecido pelo trabalho a respeito dos testes de intel igência, também realizou muitas
pesquisas nas áreas da psicologia do desenvolvimento, experimental, educacional e social (Nicolas e Ferrand, 2002).
CAPiTUlO 8 PSICOLOGIA APliCADA: A HERANÇA DO FUNCIONAliSMO
, 1 99
apta a dominar nas diversas faixas etárias. A partir da identificação dessas tarefas, desen
volveram um teste de inteligência composto de 30 problemas apresentadôs na ordem
crescente por nível de dificuldade. O teste concentrava-se em três funções ·cognitivas: o
julgamento, a compreensão e o raciocínio.
· ·
Três anos mais tarde, revisaram e ampliaram o teste e introduziram o conceito de
idade mental, definida como a idade em que a criança com habilidade mediana é
capaz de realizar tarefas específicas. Por exemplo: se uma criança com a idade cronológí
ca de quatro anos desempenhasse bem todos os testes dominados pelas crianças da
média de amostragem de cinco anos, seria atribuída a ela a idade mental de cinco anos.
Idade mental: a idade em que crianças de habilidade normal podem realizar certas tarefas.
Em 1 9 1 1, o teste foi revisado pela terceira vez, mas, depois da morte de Binet, os ·
Estados Unidos passaram a dominar o avanço nos testes de inteligência. Os testes de
Binet foram mais bem aceitos nesse país do que na França, onde os esforços no desen
volvimento dos testes de inteligência em larga escala foram reconhecidos somente
depois da década de 1940.
O teste de Binet foi traduzido do francês para o inglês e apresentado para os psicó
logos americanos em 1908 por Henry Goddard, um aluno de Hall que trabalhava com
crianças portadoras de deficiência mental de uma escola particular em Vineland, New
Jersey. Goddard chamou sua tradução do teste de Escala de medida de inteligência Binet
Simon. Nos trabalhos relacionados com o teste de inteligência, ele também introduziu a
palavra grega moron, que significa "lento".
o História On-line
http://www.psy.pdx.edu/PsiCafe/KeyTheorists/Binet.htm
Esse endereço oferece informações sobre a vida e Ó trabalho de Binet, além
do acesso a vários artigos e livros de sua autoria.
http://www.vineland.org/history/trainingschool/history/eugenics.htm
Esse site contém a biografia de Goddard e um debate sobre o seu trabalho
referente à eugenia.
Em 1916, Lewis M. Terman, que também estudou com Hall, desenvolveu a versão
que desde então passou a ser o padrão de testes. Terman deu-lhe o nome de Stanford
Binet, em homenagem à universidade à qual era afiliado, e adotou o conceito do quo
ciente de inteligência (QI). (A medição do QI, o qual é definido como a proporção entre
a idade mental ea cronológica, foi desenvolvida inicialmente pelo psicólogo alemão
William Stern.) A escala Stanford-Binet passou por diversas revisões e continua a ser
amplamente utilizada.
Quociente de inteligência (QI): número que representa a inteligência de uma pessoa, obti
do com a mu ltiplicação da idade mental por 1 00 e, em seguida, dividindo-se o resultado pela
idade cronológica.
200 HISTÓRIA DA PSICOLOGIA MODERNA
A Primeira Guerra Mundial e os Testes em Grupo
Em 1 9 1 7, no dia em que os Estados Unidos entraram na Primeira Guerra Mundial, a
Society of Experimental Psychologists (Sociedade dos Psicólogos Experimentais) de
Titchener realizava um encontro na Harvard University. O presidente da APA, Robert
Yerkes, pediu ao grupo que buscasse uma forma de a psicologia contribuir com o esfor
ço de guerra. Titchener recusou-se a participar, alegando ser cidadão britânico. Ele lite
ralmente levantou-se e saiu da sala, levando consigo a cadeira, p ara não se envolver
em nenhum debate sobre a guerra. A razão mais provável para a sua falta de entusias
mo e m discutir o assunto é que ele não gostava da idéia de aplicar a psicologia aos pro
blemas práticos, temendo que a área trocasse "a ciência pela tecnologia" (O'Donnell,
1 979, p. 289).
Com a mobilização do exército americano, os líderes militares enfrentavam a difi
culdade de avaliar o nível de inteligência de um grande número de recrutas, para classi
ficá-los e atribuir as tarefas mais adequadas a cada um. O Stanford-Binet era um teste de
inteligência individual e exigia uma pessoa altamente treinada para aplicá-lo correta
mente. Obviamente, era impossível aplicar o teste para avaliar tantas pessoas em tão
pouco tempo. O exército necessitava de um teste mais simples e que fosse aplicado cole
tivamente.
Com a patente de major do exército, Yerkes reuniu um grupo de 40 psicólogos para
desenvolver um teste de inteligência de aplicação em grupo. Examinaram várias propos
tas: nenhuma delas comportava uso geral e selecionaram para utilizar como base o teste
preparado por Arthur S. Otis, um ex-aluno de Terman. A contribuição mais importante
de Otis para os testes de inteligência foi a criação da questão de múltipla escolha. Então,
o grupo de Yerkes preparou o Exército Alfa e o Exército Beta. (Beta era a versão para os anal
fabetos e para os que não falavam inglês, cujas instruções não eram passadas oralmente
nem por escrito, mas por demonstração ou mímica.)
O desenvolvimento do programa seguia lentamente e as ordens formais para efeti
vamente iniciar a aplicação dos testes nos soldados foram dadas somente três meses
antes do término da guerra. Finalmente, mais de 1 milhão de soldados foram testados,
mas o exército não precisava mais dos resultados. Embora o programa não tenha surtido
muito efeito direto sobre o esforço de guerra, foi muito importante no campo da psico
logia. A publicidade valorizou a importância da psicologia e os testes do exército servi
ram como protótipos para o desenvolvimento de outros.
O trabalho dos psicólogos durante a guerra também incentivou o desenvolvimento
e a aplicação dos testes em grupo para a avaliação das características da personalidade.
Antes disso, houve apenas algumas tentativas tímidas de avaliar a personalidade huma
na. No final do século XIX, o psiquiatra alemão Emil Kraepelin, que fora aluno de
Wundt, usou o que chamou de "teste de livre associação", em que a pessoa respondia a
uma palavra de estímulo com o primeiro termo que lhe viesse à mente (técnica criada
originalmente por Galton). Em 1910, Carl Jung desenvolveu um método semelhante,
seu teste de associação de palavras, para identificar complexos de personalidade nos seus
pacientes (Capítulo 1 4). Essas duas visões referiam-se a testes de personalidade indivi
duais. Quando o exército expressou o interesse em isolar os soldados neuróticos, Robert
Woodworth elaborou a Ficha de dados pessoais, uma auto-avaliação em que os entrevis
tados recebiam instruções para indicar os sintomas nervosos que apresentavam. Assim
como o Exército Alfa e o Exército Beta, a Ficha de dados pessoais serviu como protótipo de
futuros testes em grupo.
CAPÍTULO 8 PSICOLOGIA APLICADA: A HERANÇA DO FUNCIONALISMO 201
Os testes psicológicos venceram a própria batalha na guerra - o sucesso de aceita
ção do público. Logo, milhares de trabalhadores, crianças em idade escolar e vestibulan
dos eram submetidos às baterias de testes, cujos resultados determinariam
,
o curso de
suas vidas. Na década de 1920, até 4 milhões de testes de inteligência erarh �vendidos
anualmente, a maioria para escolas públicas. Em 1923, foram vendidas mais de meio
milhão de cópias do Stanford-Binet de Terman. Nos Estados Unidos, o sistema educacio
nal público foi reorganizado com base no conceito do quociente de inteligência e os
resultados de QI passaram a ser o critério mais importante para definir a colocação do
aluno, bem como para determinar o seu desenvolvimento.
Por volta da década de 1920, Luella Cole e Sidney Pressey, marido e mulher psicólo
gos, criaram 47 testes diferentes. No total, mais de 12 milhões dos seus testes foram apli
cados em alunos para determinar o nível de funcionamento cognitivo (Petrina, 2001).
Por fim, muitos psicólogos acabaram encontrando empregos lucrativos para desenvolver
e aplicar testes psicológicos.
Alguns psicólogos mais arrojados pensaram até em usar os testes para descobrir
potenciais jogadores de beisebol. O famoso jogador Babe Ruth concordou em ser testa
do no laboratório de psicologia da Columbia University e, em um esforço para estabele
cer as características que faziam dele um fenômeno, avaliou-se o seu desempenho nas
tarefas que envolviam habilidade motora e sensorial. A tentativa não obteve êxito, mas
um historiador comenta:
A fé que a psicologia era uma ciência capaz de descobrir a base do grande número de
acertos de hittings* comprova o sucesso dos psicólogos em estabelecer a identidade públi
ca da disciplina e a fé do público esclarecido na capacidade de a ciência oferecer respos
tas para todas as suas dúvidas. (Fuchs, 1998, p. 153.)
Uma epidemia de testes varreu os Estados Unidos, mas, na ânsia de atender à urgen
te demanda comercial e educacional, era inevitável que surgissem testes inadequados e
mal elaborados que ofereciam resultados insatisfatórios. Um exemplo claro foi o teste de
inteligência publicado em 1921 pelo respeitado inventor Thomas Edison. Ele simples
mente juntou uma série de perguntas que acreditava serem fáceis de responder. Por
exemplo:
Qual o maior telescópio do mundo?
• Qual o peso do ar em uma sala de 6 x 9 x 3 m?
Qual a cidade americana líder na produção de máquinas de lavar roupa?
As perguntas poderiam parecer simples para o gênio Thomas Edison, mas não para
os 36 colegas da pós-graduação em quem ele aplicou o teste. Eles responderam correta
mente apenas algumas perguntas, levando Edison a emitir o seguinte comentário: "Em
se tratando de pessoas que freqüentaram a faculdade, acho-as surpreendentemente igno
rantes. Parece que não sabem nada" (apud Dennis, 1984, p. 25). O teste de Edison fora
alvo de grande publicidade, sendo que em um único mês o The New York Times publicou
23 artigos sobre ele, o que contribuiu significativamente para a desmoralização dos tes-
' O beisebol é um dos esportes mais populares dos Estados Unidos e essa jogada consiste em rebater a bola com o
bastão, resultando em um bom lance de ataque. (NT)
202 HISTÓRIA DA PSICOLOGIA MODERNA
tes perante o público e para o declínio do prestígio científico da psicologia. O descuido
e a imprecisão do trabalho de Edison e de outros levaram as grandes organizações a aban
donarem os testes psicológicos.
As Idéias Extraídas da Medicina e da Engenharia
A fim de dotar de credibilidade científica e autoridade a recém-iniciada empreitada, os
psicólogos criadores dos testes de inteligência adotavam a terminologia de outras disci
plinas mais antigas, como a medicina e a engenharia.O objetivo era convencer as pes
soas de que a psicologia era tão legítima, científica e fundamental quanto as demais
ciências há tempos estabelecidas. O s psicólogos descreviam as pessoas testadas não
como sujeitos, mas como pacientes. Afirmavam serem os testes análogos aos termôme
tros, que naquela época estavam disponíveis sornente para os médicos. Apenas os trei
nados adequadamente podiam usá-lo, assim como somente as pessoas treinadas
podiam aplicar os testes psicológicos. Os testes eram promovidos como se fossem
máquinas de raio X, que permitiam ao psicólogo enxergar dentro da mente, para disse
car os mecanismos mentais dos seus pacientes. "Quanto mais [os psicólogos] falassem
como os médicos, mais o público se dispunha a atribuir-lhes status semelhante" (Keiger,
1 993, p. 49).
Comparações com a engenharia também eram <:i!ªs!.ªs,_Mel}ç_i_onaram-se as escolas
como fábricas de educação e os testes como forma de medir o produto fabricado (o
nível de inteligência dos alunos). A sociedade era comparada a uma ponte e os testes de
inteligência eram ferramentas científicas para preservar-lhe a firmeza, detectando os
elementos mais fracos - os cidadãos medíocres que seriam removidos da sociedade e
institucionalizados.
Henry Goddard, que tinha como pacientes •.:rianças portadoras de deficiência men
tal, disse que os testes mentais
permitem-nos conhecer um fato extremamente fundamental a respeito do material
humano: a força mental. O engenheiro jamais seria capaz de construir pontes ou casas
sem conhecer a resistência do seu material, quanta carga suportaria. Quão infinitamen
te importante seria então conhecer a força do nosso material quando buscamos construir
uma estrutura social. (apud Brown, 1992, p. 1 16-11 7.)
Ao empregar essas metáforas, essas analogias com as demais ciências, os psicólogos
desejavam aumentar a credibilidade e continuar aplicando os testes psicológicos em
todos os níveis e aspectos da sociedade.
A Inteligência nas Diferentes Raças
O fortalecimento do movimento dos testes psicológicos fez parte de uma grande polêmi
ca social que permanece até hoje. Em 19 12, Goddard, que traduziu o teste de Binet, visi
tou a Ellis Island em Nova York, ponto de entrada de milhões de imigrantes europeus.
Ele acreditava ser o teste um instrumento de seleção útil para evitar a entrada de pessoas
" mentalmente fracas" nos Estados Unidos. Na primeira visita à central de triagem na
Ellis Island, selecionou um jovem que lhe pareceu mentalmente deficiente e confirmou
o diagnóstico, aplicando o teste de Binet com a ajuda de um intérprete. Embora o intér-
(APÍTULO 8 PSICOLOGIA APLICADA: A HERANÇA DO FUNCIONALISMO 203
prete salientasse que o rapaz não era capaz de responder às perguntas por ser recém-che
gado ao país - e o teste não era adequado para pessoas não familiarizadas com a língua
inglesa e com a cultura americana - Goddard discordou (Zenderland, 19981. , :
Os testes subseqüentes aplicados nas populações de imigrantes (cujo nível de inglês
era inferior em relação ao utilizado nos testes) revelaram que a maioria - 87% dos rus
sos, 83% dos judeus, 80% dos húngaros e 79% dos italianos - era débil mental, com
idade mental inferior a 12 anos (Gould, 1981). Esses resultados foram usados mais tarde
como argumento para a criação de uma lei federal que restringia a entrada de imigran
tes de grupos raciais e étnicos considerados de pouca inteligência.
A idéia das diferenças na inteligência entre as raças recebeu apoio adicional em
1921 quando os resultados daqueles testes aplicados nos soldados durante a Primeira
Guerra Mundial foram divulgados. Os dados mostraram que a idade mental dos recru
tas e, por generalização, de toda a população branca, era de apenas 13 anos. Poste
riormente, os dados mostraram que o QI dos negros e dos imigrantes originários de países
da região do Mediterrâneo e da América Latina era inferior ao dos brancos. Somente os
imigrantes do norte da Europa tinham o QI igual ao dos brancos. Essas constatações
provocaram debates entre os cientistas, políticos e jornalistas. Como qualquer governo
democrático conseguiria sobreviver se os cidadãos fossem tão estúpidos? Os grupos
dotados de QI baixo devem ter direito ao voto? O governo deve recusar a entrada de
imigrantes de países cuja população seja dotada de QI baixo? A noção da igualdade
entre as pessoas tem sentido?
O conceito das diferenças raciais na inteligência já existia nos Estados Unidos
desde a década de 1880, e muitas exigências foram feitas para o estabelecimento de
quotas de imigração para países do Mediterrâneo e da América Latina. A noção de infe
rioridade da inteligência do negro americano também era amplamente aceita, mesmo
antes do surgimento dos testes de inteligência.
Um sonoro e articulado crítico dessa idéia era Horace Mann Bond, um intelectual
afro-americano e reitor da Lincoln University, da Pensilvânia. Bond, que obteve o títu
lo de doutorado em educação da University of Chicago, publicou vários livros e arti
gos nos quais argumentava que qualquer diferença observada nos níveis de QI entre
brancos e negros devia ser atribuída ao fator ambiental e não ao hereditário. Sua pes
quisa comprovou que os resultados obtidos nos testes de inteligência pelos negros dos
estados do norte eram melhores do que os dos brancos dos estados do sul, constatação
que enfraqueceu bastante a teoria de que os negros eram geneticamente inferiores
(Urban, 1 989).
Muitos psicólogos responderam a essa polêmica alegando a distorção dos testes,
mas felizmente, com o tempo, a controvérsia desapareceu. Ela foi reavivada em 1994
com a publicação de The bel/ curve (A curva do sino) (Hernstein e Murray, 1994), um
livro que afirma, com base nos resultados dos testes de inteligência, que os brancos
eram mais inteligentes que os negros. A predominância da evidência mostrava dessa
vez que os testes de inteligência pesquisados com mais seriedade não são distorcidos
significativamente devido à cultura (Rowe, Vazsonyi e Flannery, 1994; Suzuki e
Valencia, 1 997). Mais tarde, 52 peritos em testes gerais endossaram essa conclusão,
afirmando: "Os testes de inteligência não são distorcidos devido a aspectos culturais
contra afro-americanos ou pessoas de outra nacionalidade falantes de inglês nos
Estados Unidos. Ao contrário, os resultados do teste de QI prognosticam igual e precisa
mente todos os americanos, independentemente da raça e da classe social"
(Gottfredson, 1997, p. 14).
204 HISTÓRIA DA PSICOLOGIA MODERNA
Um relatório preparado pelo Board of Scientific Affairs (Comitê de Assuntos
Científicos) da APA concorda que os testes de habilidade cognitiva utilizados atualmen
te não discriminam grupos de minoria, mas refletem, em termos quantitativos, a discri
minação criada pela sociedade ao longo do tempo (Neisser et al, 1 996).
.o História On-line
http://www.indiana.edu/-intell/hottopics.html
Esse site apresenta uma análise da história do desenvolvimento da teoria e
dos testes de inteligência desde Platão até os dias de hoje, além de abran
ger tópicos atuais da área.
http:/ /psy. pdx.edu/PsiCafe/ Areas/Developmental/1 ntelligence-testing
Esse endereço contém informações sobre a medição da inteligência, as
principais personagens do movimento dos testes, as questões polêmicas
relacionadas à diferença racial e sexual na inteligência, além de testes de
inteligência on-line.
As Contribuições da Mulher ao Movimento dos Testes
Constatamos até agora que, na maior parte da história da psicologia, a mulher foi proi
bida de seguir a carreira acadêmica. Por isso, muitas psicólogas buscaram emprego no
campo da aplicação, especialmente em profissões assistenciais, como a psicologia clíni
ca e de consultoria, a orientação infantil e a psicologia escolar. As mulheres ofereceram
significativas contribuições nessas áreas, principalmente no desenvolvimento e na apli
cação dos testes psicológicos. Florence L. Goodenough recebeu o Ph.D., em 1924, da
StanfordUniversity. Ela desenvolveu o Teste do desenho da figura humana (hoje denomi
nado Teste de Goodenóugh-Harris), um teste não-verbal muito utilizado para crianças. Foi
pioneira na elaboração de testes e trabalhou por 20 anos no Institute for Child
Development (Instituto de Desenvolvimento Infantil), da University of Minnesota.
Publicou uma análise detalhada do movimento dos testes psicológicos (Goodenough,
1949) e escreveu diversos trabalhos relacionados com a psicologia infantil.
Maude A. Merrill ]ames, diretora de uma clínica psicológica infantil na Califórnia,
escreveu, juntamente com Lewis Terman, a revisão de 1938 do Teste de inteligência
Stanford-Binet, conhecido como o teste Terman-Merrill. Thelma Gwinn Thurstone (Ph.D.
em 1927 da University of Chicago) casou-se com o psicólogo L. L. Thurstone e, assim
como diversas mulheres que trabalham com os maridos, teve suas contribuições menos
prezadas e desacreditadas. Ela ajudou a desenvolver a bateria de Testes das habilidades
mentais primárias, um teste de inteligência em grupo, e foi professora de educação da
University of North Carolina, além de ter sido diretora do laboratório psicométrico. Seu
marido a descreveu como um "gênio na elaboração de testes" (Thurstone, 1952, p. 3 1 7).
Psyche Cattel, filha de ]ames McKeen Cattell, obteve o doutorado em educação da
Harvard University, em 1927. Suas contribuições para o movimento dos testes incluem
a ampliação da faixa etária inferior do Stanford-Binet, criando a Escala de inteligência
infantil de Cattell, que permitia testar crianças a partir de até três meses de idade.
C\PiTULO 8 PSICOLOGIA APLICADA: A HERANÇA DO FUNCIONALISMO 205
A longa carreira de Anne Anastasi (1908-2001) na Fordham University acabou trans
formando-a em autoridade nos testes psicológicos. Foi precoce, ingressando 'na faculda,
de com 15 anos e recebendo o doutorado com 21 . Decidiu tornar-se psicóloga por
influência de um professor, Harry Hollingworth. Anastasi escreveu mais de 150 livros e
artigos, incluindo um livro didático famoso sobre testes psicológicos (Anastasi, 1988,
1993). Em 1971, foi presidente da APA e recebeu diversas homenagens profissionais,
inclusive a Medalha Nacional da Ciência. Uma pesquisa apontou Anastasi como a mais
destacada psicóloga dos países de língua inglesa (Gavin, 1987). Sua primeira posição aca
dêmica após receber o Ph.D. na Columbia University em 1930, foi a de orientadora em
psicologia, na Barnard College, pelo salário anual de US$ 2.400! Em 1947, passou a fazer
parte do corpo docente da Fordham University e aposentou-se como professora emérita
em 1979 (Reznikoff e Procidano, 2001).
Apesar do êxito da mulher em áreas como a aplicação de testes, o trabalho com a
psicologia aplicada as coloca em desvantagem profissional. Os empregos em institui
ções não-acadêmicas raramente proporcionam tempo, suporte financeiro ou assistência
de estudantes graduados para a realização de pesquisas e a elaboração de artigos aca
dêmicos, que são os principais meios para se atingir a visibilidade profissional. Nos
ambientes da psicologia aplicada, como em uma empresa comercial ou em uma clíni
ca, as contribuições de um profissional raramente são reconhecidas fora dos limites da
organização.
Desse modo, o enorme desenvolvimento da psicologia aplicada nos Estados Unidos
- a herança da escola funcionalista - criou oportunidades de emprego para as mulhe
res mas, ao mesmo tempo, excluiu-as do ambiente da psicologia acadêmica geral, na
qual vinham sendo desenvolvidas as teorias, as pesquisas e as escolas de pensamento.
Diversos psicólogos acadêmicos tinham uma imagem negativa do trabalho aplicado,
considerando-o inferior e desprezível. As áreas da aplicação como o aconselhamento, por
exemplo, eram menosprezadas como sendo "trabalho de mulher". Histórias publicadas
a respeito da psicologia tendem a desvalorizar a psicologia aplicada e as contribuições de
diversas mulheres pioneiras que trabalharam em hospitais, clínicas, empresas, institutos
de pesquisa e agências militares e governamentais. É interessante observar que nenhu
ma mulher foi eleita presidente da American Association of Applied Psychology
(Associação Americana de Psicologia Aplicada), apesar de, por volta de 1941, um terço
dos seus membros serem mulheres (Rossiter, 1982). Também naquela época, cerca de
metade dos cargos de psicólogo em organizações clínicas e educacionais era ocupada por
mulheres (Gilgen, Gilgen, Koltsova e Oleinik, 1997).
Lightner Witmer (7867- 7956)
Enquanto G. Stanley Hall promovia a mudança definitiva da natureza da psicologia
americana, aplicando-a em crianças e nas salas de aula, e Cattell, na mensuração das
habilidades mentais, um aluno de Cattell e Wundt aplicava a psicologia na avaliação e
no tratamento do comportamento anormal. Passados apenas 1 7 anos após Wundt defi
nir e fundar a nova ciência da psicologia, outro dos seus ex-alunos estava utilizando a
psicologia de forma prática, divergindo das intenções do mestre.
Descrito como briguento, anti-social e convencido (Landy, 1992), Witmer inaugu
rou um campo que chamou de psicologia clínica. Em 1896, abriu a primeira clínica de
psicologia do mundo.
206 HISTÓRIA DA PSICOLOGIA MODERNA
O tipo de psicologia praticado por Witrner em sua Clínica não era a psicologia clínica
como a conhecemos atualmente. Ele não adotava a psicoterapia, técnica que "detestava" e
que não conhecia muito bem (Taylor, 2000, p. 1029). Em vez disso, estava interessado em
avaliar e tratar os problemas de aprendizagem e comportamento das crianças em idade
e�colar, uma área especializada da aplicação e hoje denominada psicologia escolar. A psi
cologia clínica contemporânea como especialização lida com uma ampla gama de dis
túrbios psicológicos, desde os mais leves até os mais profundos, e de pessoas de todas as
idades. Apesar de Witmer ter sido fundamental no desenvolvimento da psicologia clíni
ca e de usar esse termo livremente, o campo tornou-se muito mais abrangente do que ele
imaginava.
Witmer ofereceu o primeiro curso universitário de psicologia clínica e criou a pri
meira revista especializada na área, Psychologica/ C/ínic, que editou durante 29 anos. Ele
foi mais um daqueles pioneiros da abordagem funcionalista da psicologia que acredita
vam no uso da nova ciência para ajudar as pessoas a resolverem os problemas e não para
estudar o conteúdo das suas mentes.
A Biografia de Witmer
Nascido em 1 867 na Filadélfia, Witmer era filho de um próspero farmacêutico que acre
ditava na importância da educação. Formou-se na University of Pennsylvania em 1884
e lecionou história e inglês em uma escola particular na Filadélfia, antes de retornar para
a universic!ac_!_e a fim de cursar direito. Naquela época, aparentemente não demonstrava
interesse em seguir a carreira na psicologia, mas mudou de idéia por razões práticas.
Procurava um cargo remunerado como assistente e um dos disponíveis era no departa
mento de psicologia de Cattell. Esse é mais um exemplo da influência do Zeitgeist eco
nômico. Um biógrafo de Witmer declarou:
O verdadeiro ingresso de Witmer na psicologia foi decorrente, em parte, da necessidade
extremamente realista de receita adicional que seria obtida por meio de um cargo de
assistente. (McReynolds, 1997, p. 34.)
Witmer começou a trabalhar nas pesquisas sobre as diferenças individuais no tempo
de reação e esperava obter o Ph.D. na Pennsilvânia, mas Cattell tinha outros planos. Ele
admirava tanto Witmer que o escolheu como seu sucessor. Era uma oportunidade mar
cante para o jovem, mas havia uma condição: Witmer devia seguir para Leipzig, a fim de
fazer o doutorado sob a orientação de Wundt. Devido ao grande prestígio que lhe ren
deria um Ph.D. na Alemanha, ele concordou.
Witmer estudou com Wundt e Külpe e foi colega de classe de Titchener. Não ficou
impressionado com os métodos de pesquisa de Wundt, aos quais chamava de desleixa
dos. Contou que Wundt fazia Titchener repetir uma observação"porque os resultados
obtidos por Titchener não eram como os que ele, Wundt, previra" (apud O'Donnell,
1985, p. 35). Mais tarde, Witmer afirmou não ter extraído nada, a não ser o título, da sua
experiência em Leipzig. Wundt não permitiu que Witmer continuasse o trabalho sobre
o tempo de reação iniciado por Cattell e restringiu seus estudos à pesquisa introspectiva
dos elementos da consciência.
Mesmo assim, Witmer obteve sua titulação e retornou para ocupar a sua nova posi
ção na University o f Pennsylvania, no verão de 1892, e, ao mesmo tempo, Titchener, que
também recebera a graduação, foi para Cornell University. Esse também foi o ano em
C\PÍTULO 8 PSICOLOGIA APLICADA: A HERANÇA DO FUNCIONALISMO 207
que outro aluno de Wundt, Hugo Münsterberg, foi levado por William ]ames para a
Harvard University, e em que Hall fundou a APA, tendo Witmer como um dos sócios
fundadores. Assim, observa-se o espírito funcionalista aplicado começando a tomar
conta da psicologia americana.
Durante dois anos, Witmer trabalhou como psicólogo experimental, conduzindo
pesquisas e apresentando trabalhos sobre as diferenças individuais e a psicologia da dor.
Ao mesmo tempo, buscava uma oportunidade para aplicar a psicologia no comporta
mento anormal. A chance surgiu em março de 1896, em conseqüência de uma situação
criada pelas circunstâncias econômicas da época: o aumento das verbas para a educa
ção pública.
Diversos conselhos estaduais de educação estavam estabelecendo departamentos
universitários de pedagogia para oferecer orientações a respeito dos métodos e princípios
do ensino. Os psicólogos eram procurados para oferecer cursos de especialização em edu
cação e cursos para professores de escolas públicas que almejassem graduação mais avan
çada. Os psicólogos foram pressionados a transferir o enfoque experimental da pesquisa
de laboratório a fim de buscar formas de ensinar os alunos a se tornarem psicólogos edu
cacionais. Os departamentos de psicologia beneficiaram-se consideravelmente desse
aumento repentino de alunos porque na época, assim como hoje, o orçamento do depar
tamento era totalmente dependente do número de matrículas.
Witmer lecionou alguns dos cursos estabelecidos para professores de escolas públi
cas na University of Pennsylvânia. Em 1896, uma dessas professoras, Margaret Maguire,
pediu uma orientação a Witmer a respeito de um aluno de 14 anos que tinha dificulda
des para aprender a soletrar, embora se conduzisse bem em algumas outras matérias.
Será que a psicologia era capaz de ajudar? Witmer disse: "Parece-me que, se a psicolo
gia tiver algum valor para mim ou para qualquer outra pessoa, tem de ser capaz de aju
dar um professor em um caso de deficiência desse tipo" (apud McReynolds, 1997, p. 76).
Witmer montou uma clínica provisória, iniciando, assim, o trabalho que realizaria pelo
resto da vida.
Alguns meses depois, Witmer preparava cursos sobre métodos de tratamento de
crianças com deficiência mental, cegas e com distúrbios. Publicou um artigo na revista
Pediatrics, intitulado "Practical work in psychology" (O trabalho prático na psicologia),
em que recomendava a aplicação da psicologia nas questões práticas.
O lado prático da psicologia merece séria atenção dos psicólogos profissionais. A práti
ca da psicologia pode tornar-se uma atividade tão bem definida, constituída de uma
classe de profissionais instruídos, quanto é a prática da medicina. (apud McReynolds,
1997. p. 78.)
Witmer apresentou um trabalho sobre esse tema na reunião anual da APA, usando
pela primeira vez a expressão "psicologia clínica". Em 1907, criou a r-;;ista Psychological
Clinic, a primeira, e durante muitos anos a única, publicação na área. Ná primeira edi
ção, Witmer propôs a criação da nova profissão da psicologia clínica. No ano seguinte,
criou um internato para crianças com retardo e distúrbios e, em 1909, expandiu sua clí
nica universitária, transformando-a em unidade administrativa separada.
Witmer permaneceu na University o f Pennsylvania, lecionando, promovendo e pra
ticando sua psicologia clínica. Aposentou-se da universidade em 1937 e faleceu em 1956,
com 89 anos, o último dos membros do pequeno grupo de psicólogos que se reuniu com
G. Stanley Hall em 1892 para fundar a APA.
208 H iSTÓRIA DA PSICOLOGIA MODERNA
As Clínicas de Avaliação Infantil
Sendo o primeiro psicólogo clínico do mundo, Witmer não tinha exemplos nem prece
dentes para os seus casos, então, foi elaborando o diagnóstico e o tratamento, conforme
as necessidades. "Devido à falta de qualquer princípio de orientação, foi necessário
envolver-me diretamente no estudo dessas crianças, criando métodos próprios, à medi
da que prosseguia com o tratamento" (Witmer, 1907/1996, p. 249).
No seu primeiro caso - o garoto com dificuldades para soletrar -, Witmer avaliou
a criança quanto à inteligência, ao raciocínio e à capacidade de leitura, campo em que
constatou sua deficiência. Realizou a análise exaustiva dos dados e concluiu que o meni
no sofria de amnésia visual-verbal. Embora a criança fosse capaz de se lembrar das figu
ras geométricas, apresentava dificuldades com as palavras. Witmer desenvolveu um
intenso programa de ajuda que proporcionou alguma melhoria, mas o paciente nunca
se tornou fluente em leitura e em soletração de palavras.
As crianças encaminhadas à clínica de Witmer apresentavam diversos problemas,
alguns dos quais identificados por ele como hiperatividade, dificuldade de aprendizagem
e baLxo desempenho motor e oral. Quando adquiriu mais experiência e se sentiu mais
confiante, desenvolveu programas-padrão de avaliação e tratamento e aumentou o qua
dro de pessoal da clínica, contratando mais médicos, assistentes sociais e psicólogos.
Witmer reconhecia que os problemas físicos afetavam o funcionamento cognitivo e
emocional; assim, pedia aos médicos que examinassem as crianças para determinarem se
a desnutrição ou as deficiências visual e auditiva consistiam em fatores contribuintes
para as dificuldades dos pacientes. Depois desse exame, os psicólogos testavam-nos e os
entrevistavam e os assistentes sociais preparavam o histórico a respeito da formação
familiar de cada um.
No início, Witmer acreditava que os fatores genéticos fossem os principais respon
sáveis pelos distúrbios cognitivos e comportamentais. Mais tarde, porém, percebeu que
os fatores ambientais eram mais importantes. Ele prognosticou a necessidade de propor
cionar diversas experiências sensoriais, logo nos anos iniciais da vida da criança, anteci
pando a criação de programas de tratamento e aperfeiçoamento, como o programa Head
Start.* Acreditava no envolvimento da família e da escola no tratamento dos pacientes,
alegando que, se as condições da casa e da escola fossem melhoradas, o comportamento
da criança também mudaria para melhor.
Comentários
Vários psicólogos logo seguiram o exemplo de Witmer. Por volta de 1914, quase 20 clí
nicas de psicologia já operavam nos Estados Unidos, a maioria seguindo os padrões da
sua clínica. Além disso, seus ex-alunos disseminaram a sua abordagem e passaram para
as novas gerações tudo que aprenderam a respeito do trabalho clínico. A influência de
Witmer atingiu a área da educação especial. Seu aluno Morris Viteles ampliou o traba
lho, estabelecendo uma clínica de orientação vocacional, a primeira desse tipo nos
Estados Unidos. Outros seguidores de Witmer aplicaram a sua abordagem clínica em
pacientes adultos.
"' Uma espécie de programa de assistência à criança, que atualmente abrange não apenas as dificuldades de apren
dizagem, como também as de cunho social. (NT)
CAPÍTULO 8 PSICOLOGI'\ APLICADA: A HERANÇA DO FUNCIONALISMO 209
História On-Jine
http:/ I psychclassics. yorku.ca/Witmer/ clinical.htm
Esse site apresenta o artigo escrito por Witmer em 1907 sobre a psicoíogia
clínica.
O Movimento da Psicologia Clínica
Além dos esforços de Witmer na aplicação da psicologia para avaliar e tratar o compor
tamento anormal, doislivros deram impulso ao campo. Clifford Beers, um ex-paciente
com problemas mentais, escreveu A mind that found itse/{ (1908), que fez muito sucesso
e chamou a atenção para a necessidade de tratar com mais humanidade as pessoas men
talmente doentes. A obra Psychotherapy (Psicoterapia) (1909), de Hugo Münsterberg,
também teve grande repercussão e descrevia as técnicas de tratamento de vários distúr
biós mentais. Münsterberg promoveu a psicologia clínica, descrevendo métodos especí
ficos para o auxílio a pessoas perturbadas.
A primeira clínica de orientação infantil foi fundada em 1909 por um psiquiatra de
Chicago, William Healey. Em seguida, várias clínicas desse tipo surgiram, oferecendo o
tratamento precoce dos distúrbios infantis, a fim de evitar a evolução para estados mais
graves na vida adulta. Essas clínicas empregavam a mesma abordagem adotada nas
outras criadas pelos seguidores de Witmer: a combinação do trabalho de médicos, psi
cólogos, psiquiatras e assistentes sociais para avaliar todos os aspectos do problema de
um paciente.
As idéias de Sigmund Freud foram fundamentais para o avanço da psicologia clíni
ca e acabaram conduzindo o campo muito além dos limites da clínica de Witmer. A psi
canálise freudiana tanto fascinou como enfureceu segmentos dominantes da psicologia,
bem como o público americano. Os conceitos de Freud proporcionaram aos psicólogos
clínicos as suas primeiras técnicas psicológicas de terapia.
Apesar de tudo, a psicologia clínica avançou lentamente como profissão. Mesmo
em 1 918, nove anos depois da visita de Freud aos Estados Unidos, ainda não havia pro
gramas de pós-graduação em psicologia clínica. Em uma reunião de psicólogos interes
sados na área, realizada em 1918, Henry Goddard levantou a questão à qual ele mesmo
respondeu: "O que faz o psicólogo clínico? Aí é que está - ninguém sabe" (apud Routh,
2000, p. 237). . ,
Mesmo por volta de 1940, a psicologia clínica ainda era uma parte menor da psico
logia. Havia poucas instituições para o tratamento de adultos com distúrbios e, conse
qüentemente, poucos empregos para psicólogos clínicos. Os programas de treinamento
para novos psicólogos clínicos eram limitados. O trabalho do profissional raramente ia
além da administração de testes. Quando os Estados Unidos entraram na Segunda
Guerra Mundial, em 1941, a situação mudou. Esse foi o impulso que faltava para trans
formar a psicologia clínica em uma área especializada aplicada e dinâmica. O exército
estabeleceu programas de treinamento para centenas de psicólogos clínicos comandados
para tratarem os distúrbios emocionais dos soldados.
Depois da guerra, a necessidade de psicólogos clínicos aumentou ainda mais. A
Veterans Administration - VA (Administração dos Veteranos) (hoje, Department of
Veterans Affairs [Departamento de Assuntos dos Veteranos)) viu-se responsável por mais
2 1 0 HISTÓRIA DA PSICOLOGIA MODERNA
de 40 mil veteranos de guerra diagnosticados com problemas psiquiátricos. Mais outros
três milhões necessitavam de orientação vocacional e pessoal para ajudá-los na retoma
da da vida civil. Cerca de 3 15 mil veteranos aguardavam o auxílio para se ajustarem às
deficiências físicas resultantes dos ferimentos de guerra. Havia uma demanda excessiva
de profissionais da saúde mental que ultrapassava de longe a oferta.
Para ajudar a atender a essas necessidades, a VA criou programas de graduação de
nível universitário e pagou as mensalidades aos estudantes de pós-graduação que dese
jassem trabalhar nos hospitais e nas clínicas da VA. Em virtude da especificidade desses
programas, os psicólogos clínicos passaram a tratar de um tipo diferente de paciente.
Antes da guerra, a maior parte do trabalho era dedicada às crianças com problemas de
delinqüência e de ajuste, mas as necessidades dos veteranos de guerra trouxeram pacien
tes adultos com problemas emocionais ainda mais profundos. O Department o f Veteran
Affairs continua a ser o maior empregador de psicólogos dos Estados Unidos.
Atualmente, os psicólogos clínicos estão empregados em centros de saúde mental,
escolas, empresas e clínicas particulares. A psicologia clínica é a maior área de especia
lização aplicada, com mais de um terço de todos os estudantes de pós-graduação matri
culados nos programas clínicos. Várias grandes divisões da APA dedicam-se às questões
da saúde mental nos ambientes acadêmicos e aplicados e 70o/o dos membros da APA tra
balham nas áreas direcionadas aos serviços de saúde. Mais de um terço de todos os
membros da APA atuam em consultórios particulares e 44o/o dos novos Ph.D. estão
empregados em hospitais, centros assistenciais e organizações de clínicas particulares
(Fowler, 2002; Smith, 2002b).
Walter Dii/ Scott (7 869- 7 955)
Outro aluno de Wundt em Leipzig, Walter Di!! Scott, deixou o universo da pura psicolo
gia introspectiva para aplicar a nova ciência à publicidade e aos negócios. Scott dedicou
a maior parte da sua vida adulta à melhoria do mercado e do ambiente de trabalho, pro
curando identificar métodos para os grandes empresários motivarem os funcionários e
os consumidores.
O trabalho de Scott reflete a preocupação da escola da psicologia funcionalista com
as questões práticas. Um historiador da psicologia declarou:
Ao deLxar Wundt e Leipzig e retornar à Chicago da virada do século, as publicações de
Scott passaram da teorização germânica para a praticidade americana. Em vez de expli
car a motivação e os impulsos em geral, Scott dava orientações de como influenciar pes
soas, inclusive os consumidores, o público em palestras . e os trabalhadores. (Von
Mayrhauser, 1989, p. 61.)
Scott também colecionou uma lista impressionante de primeiras posições. Ele foi
a primeira pessoa a aplicar a psicologia à seleção de pessoal, à administração e à
publicidade, e o autor do primeiro livro nessa área,
o primeiro com o título de professor de psicologia aplicada,
o fundador da primeira empresa de consultoria em psicologia e
o primeiro psicólogo a receber do exército americano a medalha de Honra por
Serviços Prestados.
A Biografia de Scott
Cll'íTUlO 8 PSICOlOGIA APliCADA: A HER.\NÇA DO FUNCIQN,\USMO 21 1
Nasceu em uma fazenda próxima à cidade de Normal, em Illinois, e em céíta' ocasião,
enquanto o jovem Scott arava a terra, ocorreu-lhe a idéia da melhoria do ambiente de
trabalho. Seu pai freqüentemente estava doente e assim o garoto de 12 anos era respon
sável por grande parte da administração da pequena fazenda da família. Um dia, depois
de arar um trecho do solo para o plantio, parou no final dos sulcos para os cavalos des
cansarem um pouco e avistou a distância os prédios do campus da Illinois State Normal
University. De repente percebeu que, se almejava obter uma vida melhor, não podia mais
perder tempo. Ele perdia 10 minutos a cada hora de aragem para os cavalos descansa
rem! Esses minutos somados totalizavam cerca de uma hora e meia por dia, tempo que
poderia usar para estudar. Então, Scott decidiu carregar consigo livros para ler durante
qualquer intervalo.
Para pagar a mensalidade da faculdade, colhia e enlatava amoras, recuperava ferros
distorcidos para vender, além de fazer biscates. Guardava parte do dinheiro e o resto
gastava em livros. Com 19 anos, matriculou-se na Illinois State Normal University e
começou sua longa jornada para longe da fazenda. Dois anos depois, conseguiu uma
bolsa de estudos para freqüentar a Northwestern University, em Evanston, Illinois, e
dava aulas particulares para ganhar um dinheiro extra. Fez parte do time de futebol
americano da universidade e, nessa época, conheceu Anna Marcy Miller, com quem
viria a se casar.
Ek também escolheu sua carreira e resolveu tornar-se missionário para servir na
China, embora isso significasse mais três anos de estudo. Quando se formou no seminá
rio teológico de Chicago e estava pronto para partir, soube que a China não mais aceitava
missionários, pois estava lotada. Foi então que seus interesses se voltarampara a psicolo
gia. Fizera um curso de psicologia de que gostara muito e lera um artigo em uma revista
a respeito do laboratório Wundt, em Leipzig. Com as bolsas de estudo, as aulas particula
res e a vida simples que levava, economizara alguns milhares de dólares, o suficiente para
adquirir a passagem para a Alemanha e para se casar.
Em 21 de julho de 1898, Scott e sua noiva partiram. Enquanto ele estudava com
Wundt, Anna Miller Scott trabalhava no seu Ph.D. em literatura na University of Halle,
cerca de 30 quilômetros distante. Muitas vezes eles se encontravam apenas nos fins de
semana. Ambos receberam o doutorado dois anos depois. Scott passou a fazer parte do
corpo docente da Northwestern University como orientador de psicologia e pedagogia,
já mostrando sua tendência de aplicar a psicologia aos problemas educacionais.
Alguns ariàs depois, seus interesses mudaram, ao ser procurado por um executivo
publicitário, pedindo para que tentasse aplicar a psicologia nos anúncios, com o intuito
de lhes aumentar a eficácia. Essa idéia despertou o seu interesse. Acompanhando o espí
rito do funcionalismo americano, o caminho de Scott distanciava-se da psicologia wund
tiana à medida que encontrava formas para empregar a psicologia nas questões da
vida real.
Scott escreveu The theory and practice of advertising (1903), o primeiro livro a respei
to do assunto e, em seguida, outros livros e artigos para revistas. Sua perícia, reputação
e os contatos na comunidade empresarial ampliaram-se rapidamente. Ele também vol
tou sua atenção para os problemas administrativos e de seleção de pessoal. Em 1905, foi
promovido a professor e, em 1909, começou a lecionar publicidade na escola de comér
cio da Northwestern University. Em 1916, foi indicado professor de psicologia aplicada
21 2 HISTÓRIA DA PSICOLOGIA MODERNA
e diretor do departamento de pesquisas das habilidades em vendas da Pittsburgh's
Carnegie Technical University.
Quando os Estados Unidos entraram na Primeira Guerra Mundial, em 1917, Scott
ofereceu ao exército suas habilidades para ajudar na seleção dos soldados. No início,
Scott e suas propostas não foram bem aceitos, porque nem todos estavam convencidos
do valor prático da psicologia. O general do exército com quem Scott tinha de lidar ficou
furioso e expressou sua desconfiança de professores. "Ele disse que era sua função enxer
gar que os professores universitários não conseguiam progredir e que nós estávamos na
guerra com os alemães e não tínhamos tempo a perder com experiências" (Scott, apud
Von Mayrhauser, 1989, p. 65). Scott acalmou o homem irado, levou-o para almoçar e o
convenceu do valor das suas técnicas de seleção. Aparentemente, Scott conseguiu provar
seu ponto de vista e, posteriormente, o exército acabou concedendo-lhe uma medalha
pelos serviços prestados.
Depois da guerra, Scott fundou a própria empresa (com o nome bem "criativo" de
The Scott Company) para prestar serviços de consultoria às empresas que desejassem
auxílio na seleção de pessoal e na melhoria da eficácia do trabalhador. Também foi rei
tor da Northwestern University, entre 1920 e 1939. O saguão da universidade foi batiza
do de Salão Scott, em homenagem a Walter Di!! Scott e Anna Míller Scott.
A Publicidade e a Sugestionabilidade Humana
A marca da formação de Scott na psicologia experimental de Wundt, baseada na fisiolo
gia, e sua tentativa de estendê-la para o domínio da prática são patentes em seus traba
lhos a respeito da publicidade. Por exemplo: ele observou que os órgãos humanos dos
sentidos são a
janela da alma. Quanto mais sensações recebemos de um objeto, mais o conhecemos. A
função do sistema nervoso é fazer-nos perceber a visão, a sonoridade, o sentimento, o
sabor e outras características dos objetos presentes no nosso ambiente. O sistema que não
reage ao som ou a qualquer outra qualidade sensitiva é deficiente.
A publicidade às vezes é comparada ao sistema nervoso do mundo dos negócios. Um
anúncio de instrumentos musicais incapaz de despertar a sensação sonora é deficiente.
( . . . ) Assim como o sistema nervoso é organizado de forma a nos proporcionar todas as
sensações possíveis de cada objeto, o anúncio deve despertar na mente do consumidor
diferentes tipos de imagens. (apud Jacobson, 1951, p. 75.)
Scott alegava que o consumidor pode ser facilmente influenciável porque, muitas
vezes, não age racionalmente. Considerava a emoção, a simpatia e o sentimentalismo
fatores que aumentam a sugestionabilidade do consumidor. Também acreditava, como
era comum naquela época, que a mulher era mais sugestionável do que o homem.
Aplicando sua lei da sugestionabilidade, recomendava às empresas que usassem
comandos diretos para vender o produto, como, por exemplo, Use o sabão X. Ele tam
bém promoveu o uso dos cupons porque faziam com que os consumidores tomassem
uma atitude direta - como recortar o cupom do jornal, preenchê-lo com nome e
e ndereço e remetê-lo para a empresa, a fim de receber uma amostra grátis. Essas técni
cas foram adotadas com entusiasmo pelos publicitários e, em torno de 1910, seu uso
já era generalizado.
Seleção de Pessoal
CAPÍTULO 8 PSICOLOCIA APUC,.\0,\: A HERANÇA DO FUNCIONALISMO 2 1 3
Para a seleção dos melhores funcionários, principalmente entre o pessoal de \;'egdas, exe
cutivos e militares, Scott criou escalas de classificação e testes em grupo para medir as
características das pessoas já bem-sucedidas nessas ocupações.
Assim como Witmer na psicologia clínica, Scott não tinha como se basear em
algum trabalho anterior. Procurou os oficiais do exército e os gerentes das empresas,
pedindo-lhes que classificassem seus subordinados pela aparência, pelo porte, pela since
ridade, pela produtividade, pelo caráter e pelo valor profissional para a organização. Em
seguida, classificou os candidatos às vagas de acordo com as qualidades consideradas
necessárias para o bom desempenho da função, procedimento semelhante ao adotado
atualmente.
Scott desenvolveu testes psicológicos para medir a inteligência e outras habilidades,
mas, em vez de avaliar os candidatos individualmente, criou testes para aplicação em
grupo. Quando há grande número de candidatos para ser avaliado em pouco tempo, os
testes em grupo são mais eficientes e mais econômicos.
Esses testes eram diferentes dos que estavam sendo desenvolvidos por Cattell e outros
psicólogos da aplicação. Scott não apenas media a inteligência geral, como também se
interessava em saber como a pessoa empregava sua inteligência. Em outras palavras, dese
java saber como o indivíduo processava as informações e como a inteligência funcionava
no mundo cotidiano. Ele definiu a inteligência não em termos de habilidades cognitivas
específicas, mas em termos práticos como julgamento, rapidez e precisão. Essas são carac
terísticas necessárias para a realização de um bom trabalho. Ele comparava os resultados
dos testes dos candidatos com os de funcionários bem-sucedidos e não se preocupava com
a indicação que esses resultados pudessem dar a respeito dos elementos mentais.
Comentários
Scott, assim como Witmer, não é alvo de muita atenção da história da psicologia e há
diversas razões para esse relativo descaso. Assim como muitos psicólogos da aplicação,
Scott não formulou teorias, não fundou uma escola de pensamento nem teve discípulos
leais para dar continuidade ao seu trabalho. Conduziu pouca pesquisa experimental e
não publicou muito nas principais revistas. Seus trabalhos para as empresas do setor pri
vado -e para o exército eram direcionados a problemas muito específicos. Muitos psicó
logos acadêmicos, principalmente os que ocupavam posições de titular nas principais
universidades e contavam com laboratórios bem financiados, menosprezavam o traba
lho dos psicólogos da aplicação, pois acreditavam que eles pouco contribuíam para o
progresso da psicologia como ciência.
Scott e outros psicólogos que trabalhavam com psicologia aplicada contestavam essa
noção.Não viam conflito entre a aplicação da psicologia e o seu avanço como ciência.
Os psicólogos da aplicação alegavam que, ao trazer a psicologia aos olhos do público,
conseguiam demonstrar o seu valor, e assim as pesquisas psicológicas nos laboratórios
acadêmicos passavam a ser mais reconhecidas. Dessa maneira, os pioneiros da psicolo
gia aplicada refletiam o espírito funcionalista americano, com a tarefa de transformá-la
em um instrumento utilitário.
2 1 4 HISTÓRIA DA PSICOLOGIA MODERNA
_O História On-line
http://www.lib.umd.edu/ETC/ReadingRoom/Speeches/ScottWD/
Esse site contém a obra lncreasing human efficiency in business (A melhoria
da eficácia humana nos negócios). de Walter Dill Scott.
O Movimento da Psicologia Industrial-Organizacional
O Impacto das Grandes Guerras Mundiais
A Primeira Guerra Mundial provocou um aumento monumental no escopo, na popu
laridade e no crescimento da psicologia industrial-organizacional. Vimos que Scott
voluntariou-se para prestar serviços ao exército americano e desenvolveu uma escala de
classificação para a seleção de capitães do exército, com base nos testes que criara para
a categorização de líderes nas empresas (veja a Tabela 8.1) . No final da guerra, já havia
avaliado a qualificação profissional de três milhões de soldados, e esse trabalho foi
amplamente divulgado como um exemplo do valor prático da psicologia. Depois da
guerra, houve grande demanda por parte do comércio, da indústria e do governo pelos
serviços dos psicólogos industriais para a reorganização dos seus procedimentos de pes
soal e a preparação de testes psicológicos para a seleção de funcionários.
A Primeira Guerra Mundial também exerceu grande impacto na psicologia industrial
européia (Viteles, 1967). Psicólogos ingleses e alemães também colaboraram com o esfor
ço de guerra nas suas nações, desenvolvendo técnicas para a seleção de pessoal do exér
cito e ajudando no projeto de equipamentos militares, como o aparelho de telemetria.
Depois da guerra o interesse pela psicologia industrial continuou a crescer. Em 1921, foi
fundado na Inglaterra o National Institute of Industrial Psychology (Instituto Nacional
de Psicologia Industrial). Institutos semelhantes de psicologia aplicada foram criados nas
principais cidades da Alemanha e diversas corporações organizaram os próprios labora
tórios de psicologia (van Strien, 1998).
A Segunda Guerra Mundial empregou psicólogos no trabalho de guerra, para a rea
lização de testes, seleção e classificação de soldados. Além disso, nesse período, as armas
de guerra (como as aeronaves de alta velocidade) haviam se tornado tão complexas que
a sua operação exigia pessoal altamente qualificado. A necessidade de identificar soldados
com capacidade para aprender às qualificações exigidas levou os psicólogos a aperfeiçoa
rem os procedimentos de seleção e treinamento. Essas necessidades da guerra geraram
uma nova especialidade dentro da psicologia industrial, muitas vezes chamada de psico
logia da engenharia, engenharia humana, engenharia dos fatores humanos ou sim
plesmente ergonomia. Os psicólogos da engenharia trabalham em conjunto com os
engenheiros de sistemas de armamento, fornecendo informações acerca da capacida
de e da limitação humanas. Seu trabalho exerce influência direta no projeto de equi
pamentos militares, para adequá-los às habilidades de quem os for manusear. Hoje, os
psicólogos da engenharia não trabalham apenas com equipamentos militares, como
também com produtos de consumo, como teclados de computador, mobiliário de
e scritórios, eletrodomésticos e visor de painéis de automóveis.
CIPiTULO 8 PSICOLOGIA API.ICADA: A HERANÇA DO FUNCIONALISMO 2 1 5
Os Estudos de Hawthorne e as Questões Organizacionais
O enfoque inicial dos psicólogos industriais durante a década de 1920 consistia na sele
ção e na colocação dos candidatos - a escolha da pessoa certa para a posiÇão mais ade
quada. Em 1927, o programa da área ampliou-se consideravelmente com o programa de
pesquisa inovador conduzido pela Western Electric Company, na fábrica de Hawthorne,
em Illinois (Roethlisberger e Dickson, 1939). Esses estudos ultrapassaram o limite da sele
ção e da colocação de pessoal, abordando problemas mais complexos das relações huma
nas, como a motivação e o moral.
Tabela 8.1 Escala de classificação de Scott
Essa escala de classificação foi elaborada por Walter Di l l Scott para aval iar
subordinados. Cada avaliador registra o nome do subordinado mais represen
tativo de cada atributo em cada nível de competência.
I. Qualidades Físicas
Compleição, postura, elegância,
expressão, vigor, resistência. Avalie as
impressões causadas pelo funcionário
nesses aspectos.
II. Inteligência
Precisão, facilidade de aprendizagem;
capacidade de compreender rapidamente
o ponto de vista do superior, de emitir ordens
claras e inteligentes, de avaliar uma nova
situação e de tomar uma decisão sensata
em uma crise.
III. Liderança
Iniciativa, poder, autoconfiança,
determinação, tato, capacidade de
influenciar as pessoas e de obter e
controlar a sua obediência,
lealdade e cooperação.
IV. Qualidades Pessoais
Esforço, segurança, lealdade; disposição
para arcar com as conseqüências dos
próprios atos; livre de vaidade e egoísmo;
prontidão e capacidade de colaboração.
V. Valor Geral para o Trabalho
Conhecimento, capacidade e
experiência profissional; êxito
como administrador e orientador;
capacidade de obter resultados.
Mais alto
Médio
Alto
Baixo
Mais baixo
Mais alto
Alto
Médio
Baixo
Mais baixo
Mais alto
Alto
Médio
Baixo
Mais baixo
Mais alto
Alto
Médio
Baixo
Mais baixo
Mais alto
Alto
Médio
Baixo
Mais baixo
15
15
9
6
3
15
12
9
6
3
15
12
9
6
3
15
12
9
6
3
40
32
24
16
8
2 1 6 HIST(JRIA DA PSICOLOGIA MODERNA
;1-_pes�quisi} corneçou investigando diretamente os efeitos do ambiente_lís� tra
Qé!_lho - como as _ _condições ge ilurninação e temperatura -:-::- s<;iqre a eficiência dos fun
ciQgáiios. Ós ré�ult;Ídps surpreenderam os psicólogos e_ dirigellt��� d�s fâbri��s: pois
constataplm que os aspectos sociais e psicológicos do local de trabalho eram muito maiS
_j_!!igc;)_lt_aptes do que as condições físic<l��-
-- - - - - - - - - - - ·
Os estudos de Hawthorne levaram os psicólogos a explorarem o aspecto social e o
aspecto psicológico do ambiente de trabalho, incluindo o comportamento da liderança,
a formação de gmpos informais de trabalho, as atitudes dos funcionários, os padrões de
comunicação entre os subordinados e seus superiores, além de outros fatores capazes de
influenciar a motivação, a produtividade e a satisfação. Os líderes empresariais logo acaba
ram reconhecendo e aceitando a influência dessas forças no desempenho profissional.
Hoje, os psicólogos estudam os diferentes tipos de organização, seus estilos organizacionais
e de comunicação, bem como suas estruturas sociais formais e informais. Reconhecendo a
importância da variável organizacional, a Division of Industrial Psychology (Divisão de
Psicologia Industrial) da APA passou a ser chamada de Society for Industrial and Organi
zational Psychology (Sociedade de Psicologia Industrial e Organizacional).
História On-line
http:/ /www.siop.org
Esse é o site da Society for Industrial and Organizational Psychology.
As Contribuições da Mulher à Psicologia Industrial-Organizacional
A psicologia industrial-organizacional, em termos profissionais, historicamente tem ofe
recido oportunidades de carreira para as mulheres. A primeira pessoa a obter o Ph.D. na
área foi Lillian Moller Gilbreth (1878-1972), que recebeu o título em 1915 na Brown
University. Ela promoveu, em conjunto com o seu marido, Frank Gilbreth, a análise do
tempo-movimento como uma técnica para melhorar o desempenho no trabalho. No
entanto muitos empresários daquela época não aceitavam a presença de psicólogas nos
escritórios e nas fábricas. E, quando Lillian e Frank escreveram um livro sobrea eficiên
cia industrial, o editor recusou-se a mencionar o nome dela na capa, justificando que afe
taria a credibilidade do livro. Seu próprio livro sobre a psicologia gerencial foi publicado
somente quando ela concordou que seu nome aparecesse como L. M. Gilbreth, em vez
de Lillian Gilbreth; alegou-se que o empresário não compraria o livro se visse o nome de
uma autora na capa. Ela superou essa e outras barreiras e conseguiu obter uma longa car
reira de sucesso (Kelly e Kelly, 1990). Sua imagem chegou até a ser estampada em um selo
postal americano.
Anna Berliner, a única aluna de Wundt, foi outra pioneira na psicologia industrial.
Ela foi para Leipzig, apresentou-se a Wundt e disse que desejava estudar com ele, mesmo
sabendo que ele nunca aceitara uma mulher como aluna.
Aparentemente surpreendido pela sua postura impositiva, Wundt concordou
(Guthrie e Wesley, 1991). Berliner, depois, trabalhou como psicóloga industrial no Japão
e escreveu um livro sobre a publicidade nos jornais japoneses. Realizou uma pesquisa de
mercado na Alemanha e, em seguida, emigrou para os Estados Unidos para lecionar na
CAPiTULO 8 PSICOLOGIA APLICADA: A HERANÇA DO FUNCIONALISMO 2 1 7
Pacific University, em Oregon, onde conduziu uma pesquisa sobre optometria e deficiên
cias visuais que afetam a aprendizagem.
Atualmente, mais da metade dos candidatos a Ph.D. em psicologia industrial-orga
nizacional é de mulheres.
Hugo Münsterberg (7863- 7976)
Hugo Münsterberg, um estereótipo de professor alemão, durante certo tempo foi um
fenômeno de sucesso na psicologia americana e mais ainda perante os olhos do público.
Escreveu centenas de artigos para revistas populares e cerca de 20 livros. Visitava fre
qüentemente a Casa Branca como convidado dos presidentes Theodore Roosevelt e
William Howard Taft. Münsterberg foi um influente conselheiro de líderes governamen
tais e empresariais, mantendo relações com ricos e famosos como o Kaiser Wilhelm, da
Alemanha, o magnata do aço Andrew Carnegie, o filósofo Bertrand Russell, além de
vários intelectuais e estrelas do cinema.
Durante algum tempo, Münsterberg foi professor honorário da Harvard University,
além de ter sido eleito tanto para a presidência da APA como da American Philosophical
Association (Associação Americana de Filosofia). Foi fundador da psicologia aplicada nos
Estados Unidos e na Europa e também um dos dois únicos psicólogos até hoje acusados
de espionagem (Spillmann e Spillmann, 1993).
Münsterberg era descrito como um "propagandista criativo da psicologia aplicada"
(O'Donnell, 1 985, p. 225). Segundo o seu biógrafo, Münsterberg também foi um agente
de publicidade bem-sucedido, "dotado de um instinto extraordinário para o sensaciona
lismo. [Sua] vida pode ser interpretada como uma série de promoções de si mesmo, da
sua ciência e da sua pátria-mãe [a Alemanha]" (Hale, 1980, p. 3).
No final da vida, Münsterberg havia se tornado alvo de desprezo e do ridículo,
retratado em charges e caricaturas de jornais, uma vergonha para a universidade em
que havia trabalhado vários anos, e "uma das pessoas mais odiadas dos Estados
Unidos" (Benjamin, 2000b, p. 1 13). Ao morrer, em 1916, poucas palavras elogiosas
foram proferidas para o homem que um dia fora um gigante da psicologia americana.
A Biografia de Münsterberg
Em 1882, com 19 anos, Münsterberg deixou Danzig, sua terra natal, na Alemanha (hoje
Gdansk, na Polônia), e seguiu para Leipzig, com a intenção de cursar a universidade de
medicina. Mas, quando fez um curso de psicologia com Wilhelm Wundt, mudou seus
planos de carreira. Ficou entusiasmado com a nova ciência, mais especificamente com
as oportunidades promissoras que a pesquisa e a prática da medicina não ofereceriam.
Fez o doutorado com Wundt, recebendo o título em 1885, e formou-se médico dois anos
depois, na University of Heidelberg, na expectativa de que ambas as graduações aumen
tariam sua capacitação para a carreira na pesquisa acadêmica. Aceitou lecionar na
· University of Freiburg e instalou um laboratório na sua casa, com financiamento pró
prio, porque a universidade carecia de instalações adequadas.
Münsterberg escreveu artigos a respeito do seu trabalho experimental na psicofísica,
que Wundt criticou porque a pesquisa abordava o conteúdo cognitivo da mente em vez
de os estados do sentimento. Mesmo assim, seu trabalho atraiu muitos seguidores e,
21 8 HISTÓRIA DA PSICOLOGIA MODERNA
logo, alunos de todas as partes da Europa procuravam aos bandos o seu laboratório. Ele
parecia trilhar o caminho correto para assegurar a cadeira de professor universitário e a
reputação de respeitável pesquisador.
William ]ames seduziu Münsterberg, desviando-o desse caminho mediante a oferta de
tornar-se um diretor muito bem pago do laboratório de psicologia da Harvard. ]ames lan
çou mão de elogios, dizendo para Münsterberg que a Harvard era a maior universidade
americana e que necessitava de um gênio para dirigir o laboratório. Münsterberg preferia
permanecer na Alemanha, porém a sua ambição o fez sucumbir à tentação, levando-o a
aceitar a oferta de ]ames.
A transição da Alemanha para os Estados Unidos, bem como da psicologia experimen
tal pura para a aplicada, foi difícil. Primeiro, Münsterberg não aprovava a disseminação das
especializações na psicologia aplicada e criticou os administradores da universidade por
pagarem tão mal os pesquisadores que eles eram forçados a assumir atividades práticas.
Criticou os psicólogos americanos que escreviam para o público em geral, ministravam
cursos pagos para líderes empresariais e ofereciam seus serviços mediante remuneração. No
entanto não passou muito tempo até que ele mesmo agisse de modo idêntico.
Depois de passar 10 anos em Harvard, talvez percebendo que nenhuma universida
de alemã jamais lhe ofereceria uma cadeira de titular, escreveu seu primeiro livro em
inglês. American traits (1902) consistia em uma análise psicológica, social e cultural da
sociedade americana. Escritor rápido e talentoso, Münsterberg era capaz de ditar para a
sua secretária um livro de 400 páginas em um mês.
A calorosa aceitação de seu livro encorajou-o a direcionar os trabalhos seguintes para
o público em geral e não para os colegas da área. Esses artigos logo se tornaram matéria
principal das publicações populares e não das revistas especializadas em psicologia.
Abandonou a pesquisa psicofísica sobre o conteúdo da mente para dedicar-se à busca de
soluções para os problemas cotidianos. Seus artigos abordavam os julgamentos nos tri
bunais, o sistema judiciário criminal, a publicidade dos produtos de consumo geral, a
orientação vocacional, a psicoterapia e a saúde mental, a educação, as questões relacio
nadas à indústria e ao comércio e até mesmo à psicologia na indústria cinematográfica.
Preparou cursos de administração e aprendizagem por correspondência e gravou filmes
sobre testes mentais, exibidos em todos os cinemas dos Estados Unidos.
Münsterberg jamais fugiu de uma polêmica. Durante o julgamento sensacionalista
de um criminoso, administrou 100 testes mentais ao assassino confesso de 18 pessoas,
que acusava um líder sindical de tê-lo contratado para assassiná-las. Com base nos resul
tados do teste, Münsterberg anunciou, mesmo antes de o júri chegar ao veredicto, que a
confissão do assassino acusando o líder sindical era verdadeira. Quando o júri absolveu
o líder sindical, o prejuízo na reputação de Münsterberg foi enorme e um jornal apeli
dou-o de "Professor Monsterwork".
Em 1908, Münsterberg envolveu-se no episódio do movimento de proibição da
venda de bebidas alcoólicas. Posicionava-se contrário à proibição, citando seus conheci
mentos como psicólogo e expressando a visão de que o consumo moderado de bebida
alcoólica seria até benéfico. Os fabricantes alemães e americanos de cerveja, incluindo
Adolphus Busch e Gustave Pabst, ficaram satisfeitos por contarem com o apoio de
Münsterberg e deram contribuições generosas para financiar seus esforçosde melhorar a
imagem da Alemanha perante os Estados Unidos. Em um infeliz e suspeito espaço curto
de tempo, Busch teria doado 50 mil dólares para a proposta de Münsterberg de criação
do Museu Alemão, apenas algumas semanas depois da publicação do seu artigo denun
ciando a proibição. Essa coincidência foi alvo de muita atenção da mídia jornalística.
CAPiTULO 8 PSICOLOGitl APLICADA: A HERANÇA DO FUNCIONtiLISMO 2 1 9
As idéias de Münsterberg sobre a mulher também eram polêmicas. Ele até aceitava a
idéia da presença da mulher nos cursos de pós-graduação, como os exemplos de Mary
Whiton Calkins (Capítulo 7) e Ethel Puffer, sua assistente de laboratório, ma:s aêreditava
que esse trabalho exigia demais da mulher. Dizia que ela não devia ser educada para a
carreira profissional, pois isso a afastava do lar, nem devia lecionar em escolas públicas,
já que era um fraco exemplo para os meninos. Além disso, não devia ser convocada para
fazer parte de um júri, pois não tinha capacidade para tomar decisões racionais, obser
vação que virou manchete de diversos jornais estrangeiros.
O reitor da universidade Harvard e a maioria dos seus colegas condenavam sua ten
dência de emitir comentários sensacionalistas para a imprensa a respeito de questões
polêmicas e além disso reprovavam seu interesse pela psicologia aplicada. O reitor de
Harvard advertiu-o que evitasse responder às perguntas dos repórteres e o aconselhou a
"dedicar-se a algum curso sistemático com atividades externas interessantes, ausentan
do-se de Cambridge entre sexta à noite e segunda de manhã para uma mudança de ares
e de idéias" (apud Benjamin, 2000b, p. 1 1 9).
A tensão nas relações atingiu o auge quando Münsterberg defendeu publicamente a
sua pátria, a Alemanha, durante a Primeira Guerra Mundial. A opinião pública america
na posicionava-se totalmente contrária àquele país. A Alemanha era a agressora na guer
ra que já havia ceifado milhões de vidas, mas Münsterberg, ainda um cidadão alemão,
defendia abertamente o seu país. Os jornais acusavam-no de ser agente secreto, espião
ou oficial de alta patente do exército alemão e exigiam a sua demissão de Harvard. Um
jornal londrino chamou-o de um dos agentes americanos do Kaiser. Seus vizinhos sus
peitavam que os pombos que a sua filha alimentava no quintal no fundo de casa carre
gavam mensagens para outros espiões. Um ex-aluno da Harvard ofereceu a doação de 10
milhões de dólares à universidade se Münsterberg fosse demitido. Ele ofereceu demitir
se pelo pagamento imediato de 5 milhões de dólares, criando uma situação constrange
dora para a universidade (Spillmann e Spillmann, 1993).
Os colegas o humilhavam e ele recebia ameaças de morte pelo correio. O ostracismo
e o violento ataque público acabaram com o seu ânimo. Todavia, em 16 de dezembro de
1916, os jornais noticiavam as possíveis conversações de paz na Europa. "Até a primave
ra teremos paz", ele disse à esposa (Münsterberg, 1922, p. 302). Seguiu a pé pela imensa
camada de neve para dar a aula da manhã e chegou ao saguão da universidade exausto.
Münsterberg deu a aula "por cerca de meia hora e pareceu hesitar; no momento seguin
te esticou o braço direito na direção da mesa como se quisesse se endireitar" (New York
City Evening Mai/, 16 dez. 19 16).4 Caiu morto sem pronunciar uma única palavra, atin
gido por um infarto fulminante.
A Psicologia Forense e a Testemunha Ocular
A psicologia forense trata da relação entre a psicologia e a lei. Münsterberg escreveu arti
gos de revista abordando temas como a prevenção do crime, o uso de hipnose no inter
rogatório dos suspeitos, a aplicação de testes mentais para detectar os culpados e a
4 Agradecemos à Dr. Ludy T. Benjamin jr. por fornecer-nos essa informação baseada na sua pesquisa a respeito dos
trabalhos de Münsterberg no Biblioteca Pública de Boston.
220 HISTÓRIA DA PSICOLOGIA MODERNA
honesti..c!�_9�_qu�gi.9.náy_el da testemunh3 .. 9.C!l!�r. Nutri<� um interesse especial por esse
último tema, mais especificamente pela falibilidade da percepção humana no testemu
nho de um crime e na subseqüente reconstituição da cena.
Conduziu pesquisas com simulações de crimes nas quais, imediatamente após pre
senciarem a cena, as testemunhas deviam descrever o que havia ocorrido. Elas divergiam
nos detalhes, embora a cena ainda estivesse fresca em suas mentes. Münsterberg ques
tionava a exatidão desse testemunho no tribunal se o evento em questão houvesse ocor
rido meses antes.
Em 1 908, publicou On the witness stand, descrevendo os fatores psicológicos que
podem influenciar o resultado do julgamento, dentre eles: as falsas confissões, o poder
da sugestão no interrogatório da testemunha pela outra parte e o uso de medições
fisiológicas (batimento cardíaco, pressão sangüínea e reação dermatológica) para
detectar os estados emocionais alterados dos suspeitos e acusados. O livro foi reimpres
so em 1 976, quase 70 anos após a publicação, por causa do ressurgimento do interes
se nas questões que levantara (in Loftus, 1979; Loftus e Monahan, 1980). A American
Psychology-Law Society (Sociedade Americana de Psicologia Forense) foi fundada naque
la época, como uma divisão da APA para promover a pesquisa básica e aplicada na psi
cologia forense.
A Psicoterapia
O livro de Münsterberg, Psychotherapy (Psicoterapia), publicado em 1909, enfocava uma
área diferente da psicologia aplicada. Münsterberg tratava os pacientes em seu laborató
rio, e não em uma clínica, e jamais cobrava pelos serviços. Alegava que essa posição pro
porcionava-lhe certa autoridade e ele se sentia com liberdade para dar orientações diretas
aos pacientes de como agir para melhorar. Acreditava que a doença mental era realmen
te um problema de desajuste comportamental e não atribuível a conflitos inconscientes
subjacentes, como afirmava Sigmund Freud. "Não existe o subconsciente", afirmava
Münsterberg (apud Landy, 1992, p. 792). Quando Freud visitou a Clark University em
1909, a convite de G. Stanley Hall, Münsterberg saiu do país para evitar um confronto.
Retornou somente depois de Freud voltar para a Europa.
O tratamento terapêutico d.e Münsterberg consistia em incitar as idéias perturbado
ras do paciente para fora da consciência, suprimindo-lhe os comportamentos indesejáveis
ou problemáticos e encorajando-o a esquecer as dificuldades emocionais. Ele tratava do
alcoolismo, da dependência de drogas, das alucinações, da obsessão, das fobias e dos dis
túrbios sexuais. Usou a hipnose durante um tempo mas desistiu quando uma paciente
chegou a ameaçá-lo com uma arma. A história novamente chamou a atenção da mídia
e o reitor de Harvard exigiu que Münsterberg evitasse hipnotizar mulheres.
Seu livro a respeito da psicoterapia contribuiu muito para divulgar o campo da psi
cologia clínica, mas não foi bem recebido por Witmer, que instalara sua clínica na
U niversity of Pennsylvania vários anos antes. Witmer jamais chegou a alcançar nem
nunca almejou o tipo de aclamação pública alcançada por Münsterberg. Em um artigo
que escreveu e publicou na sua revista, Psychological Clinic, Witmer queixava-se de que
Münsterberg havia "depreciado" a profissão, apregoando a cura como se estivesse em
uma feira livre. Referia-se a Münsterberg como um pouco melhor do que os curandeiros
da fé devido à "maneira elegante como o professor de psicologia da [Harvard] viajava
CwiTULO 8 PSICOLOGIA APLICADA: A HERANÇ•\ DO FUNCIONALISMO , 221
pelo país, afirmando ter tratado em seu laboratório de psicologia centenas de casos desse
ou daquele tipo de distúrbio nervoso" (apud Hale, 1980. p. 1 10) .
' .. ,. ,. �
A Psicologia Industrial
Münsterberg também foi promotor da psicologia industrial. Começou a trabalhar nessa
área em 1909 com o artigo intitulado "Psychology and the market" (A psicologia e o
mercado), que abrangia diversas áreas em que a psicologia podia contribuir: a orientação
vocacional, a publicidade, a administração de pessoal, os testes mentais, a motivação
funcionale os efeitos da fadiga e da monotonia no desempenho da função.
Trabalhou como consultor de diversas empresas, além de realizar muita pesquisa
prática para essas organizações. Publicou suas descobertas em Psychology and industrial
efficiency (Psicologia e a eficiência industrial) (1913), obra escrita para o público em
geral, que acabou se tornando campeã de vendagem. Münsterberg afirmava que a
melhor maneira de aumentar a eficácia no trabalho, a produtividade e a satisfação era
selecionando trabalhadores para as funções de acordo com suas habilidades mentais e
emocionais. De que forma? Desenvolvendo técnicas psicológicas de seleção adequadas,
tais como testes mentais e simulações de trabalho, para avaliar o conhecimento, a qua
lificação e a habilidade do candidato.
Münsterberg conduziu pesquisas sobre as mais diversas ocupações, como a de capi
tão de navio, motorneiro, telefonista e vendedor, para mostrar que suas técnicas de sele
ção melhorariam o desempenho profissional. Suas pesquisas também demonstraram que
a conversa durante o trabalho é prejudicial. A solução proposta não era a proibição da
conversa entre os trabalhadores, o que podia provocar a hostilidade, mas reorganizar o
ambiente de trabalho de forma que dificultasse as conversas. Sugeriu aumentar a distân
cia entre as máquinas na fábrica ou separar as mesas dos funcionários do escritório com
divisórias (um precursor dos "cubículos" usados nos escritórios atuais).
Comentários
Münsterberg não formulou qualquer teoria, não fundou uma escola de pensamento nem
conduziu pesquisas acadêmicas depois de tornar-se um psicólogo aplicado. Sua pesquisa
serviu aos propósitos empresariais, sendo funcional e visando a ajudar de alguma forma
as pessoas. Embora houvesse estudado o método introspectivo com Wundt, criticou os
colegas que não se dispunham a usar outros métodos psicológicos e descobertas para
melhoria da humanidade. A principal idéia que caracterizou a carreira pitoresca e polê
mica de Münsterberg foi a ênfase no aspecto utilitário da psicologia. Apesar do seu tem
peramento germânico, foi a quintessência do psicólogo funcional americano, refletindo
e exibindo o espírito do seu tempo.
:0 História On-line
http:/ /www.muskingum.edu/-psychology/psycweb/history/munsterb.htm
Esse site oferece informações da vida e do trabalho de Münsterberg, além
de uma cronologia e uma bibliografia.
222 H ISTÓRIA DA PSICOlOGIA MODERNA
A Psicologia Aplicada nos Estados Unidos:
Mania Nacional
A contribuição da psicologia durante a Primeira Guerra Mundial colocou a psicologia
"em evidência e nas manchetes"(Cattel, apud O'Donnell, 1985, p. 239). Hall declarou
que a guerra "deu um tremendo impulso à psicologia aplicada. Essa herança, como um
todo, faz bem para a psicologia ( . . . ) [nós] devemos tentar não ser excessivamente puris
tas" (Hall, 1 9 19, p. 48). Algumas revistas especializadas, como a fournal of Experimental
Psychology, interromperam a publicação durante o período da guerra, mas a fournal of
Applied Psychology persistiu. Em 19 18, quando a guerra terminou, a psicologia aplicada
adquirira muito mais respeito dentro da profissão. Thorndike disse: "A psicologia aplica
da constitui um trabalho científico. Exercer a psicologia atendendo às empresas, à indús
tria ou ao exército é mais difícil do que servindo a outros psicólogos e, intrinsecamente,
exige maior talento" (apud Camfield, 1992, p. 1 13).
A psicologia acadêmica também se beneficiou do sucesso da psicologia aplicada
durante o período da guerra. Pela primeira vez, houve emprego suficiente e apoio finan
ceiro para os psicólogos universitários. Novos departamentos de psicologia foram cria
dos, novos edifícios e laboratórios construídos, houve mais verba para os salários dos
professores. O número de associados da APA triplicou, passando de 336 em 1 9 1 7 para
mais de 1 . 100 em 1930 (Camfield, 1992). Mesmo assim, muitos psicólogos acadêmicos
desprezavam a psicologia aplicada. Lewis Terman, que desenvolveu o teste de inteligên
cia Stanford-Binet, lembra-se de que "muitos psicólogos da linha antiga menospreza
vam todo o movimento dos testes. ( . . . ) Raramente me sentia um psicólogo" (Terman,
1961, p. 324).
Em 1 9 1 9, a APA, controlada pela divisão acadêmica da psicologia, mudou as exi
gências para a admissão de novos membros. Os candidatos a ingressarem na APA neces
sitam ter publicado alguma pesquisa experimental. Realmente, essa medida eliminava
a possibilidade de associação de vários psicólogos da aplicação e, certamente, da maioria
de psicólogas, para quem as oportunidades de emprego limitavam-se, na maior parte, ao
trabalho aplicado.
Apesar dessa atitude negativa em relação à psicologia aplicada por parte de muitos
psicólogos universitários, sua popularidade disparou e ela se tornou uma espécie de
"mania nacional" (Dennis, 1984, p. 23) . As pessoas passaram a crer que o psicólogo era
capaz de resolver tudo, desde a crise no casamento até a insatisfação profissional, além de
vender qualquer item, desde o automóvel até o creme dental. Novas revistas promoviam
a área e a mais popular era The Modem Psychologist (O Psicólogo Moderno) e a outra, com
o título ainda mais sugestivo, Psychology: Health, Happiness, Success (Psicologia: saúde,
felicidade e sucesso) (Benjamin e Bryant, 1997). Em 1923, um editorial do The New York
Times observou que a "nova psicologia abria caminho em uma área atrás da outra da ati
vidade humana, sempre mostrando o seu valor" (apud Dennis, 2002, p. 377).
O crescente clamor por soluções para os problemas reais conduziu cada vez mais psi
cólogos da pesquisa acadêmica para as áreas da psicologia aplicada. Na edição de 1921
da American Men ofScience de Cattel, mais de 75% dos psicólogos mencionados declara
ram estar realizando trabalho aplicado; em 1910 o número era de 50% (O'Donnell,
1985). As reuniões da filial de Nova York da APA no início da década de 1 920 mostraram
CAPÍTULO 8 PSICOLOGIA APLIC.·\DA: A HERANÇA DO FUNCIONALISMO 223
substancial aumento do número de trabalhos relacionados com as questões aplicadas
desde os dias que antecederam a guerra (Benjamin, 1991).
Todavia, em torno da década de 1930, período da depressão econômica . . mundial, a
psicologia aplicada tornou-se alvo de ataque por não cumprir suas promessas:· Os maiores
empresários reclamavam que os psicólogos industriais não solucionavam todos os males
corporativos. Por exemplo: experiências malsucedidas com a aplicação de testes de sele
ção mal elaborados provocaram a contratação de trabalhadores improdutivos.
Talvez as expectativas tanto dos psicólogos como dos seus clientes fossem altas em
demasia todavia, independentemente da razão, o desencanto com a psicologia aplicada
se instalara. Grace Adams, aluna de Titchener, emitiu uma crítica pública e notória. Em
"The decline of psychology in America" (O declínio da psicologia nos Estados Unidos),
artigo publicado em uma revista popular, Adams afirmava que a psicologia "sacrificara
suas raízes científicas em nome da popularidade e prosperidade do próprio psicólogo"
(apud Benjamin, 1986, p. 944). O The New York Times e outros jornais influentes critica
vam os psicólogos por supervalorizarem suas habilidades e serem incapazes de amenizar
o mal-estar decorrente da depressão econômica. A fama da psicologia declinava e sua
imagem somente foi recuperada depois de 1941, quando os Estados Unidos entraram na
Segunda Guerra Mundial. Desse modo, testemunhamos novamente a guerra como uma
influência contextual na evolução da psicologia.
A Segunda Guerra Mundial (1941-1945) proporcionou um diferente conjunto de
problemas para a psicologia, reviveu e expandiu a influência no campo. No total, 25%
dos psicólogos americanos estavam diretamente envolvidos no esforço de guerra e
outros contribuíram de forma indireta por meio de pesquisas e trabalhos. As psicólogas
não tiveram muitas oportunidades de trabalhar na guerra; algumas foram aconselhadas
a realizaremtrabalho voluntário comunitário. Dos 1 .006 psicólogos que serviram as for
ças armadas americanas, somente 33 eram mulheres (Gilgen et ai., 1997). Ironicamente,
a guerra ressuscitou a psicologia alemã, que sofreu drástico declínio depois que o regime
nazista expulsou todos os psicólogos judeus de seus empregos. As necessidades do exér
cito alemão criaram nova demanda de psicólogos para auxiliar na seleção de oficiais,
pilotos e comandantes de submarinos.
Desde o fim da guerra, a psicologia americana experimentou um drástico surto de
crescimento e os progressos mais significativos ocorreram nas áreas da aplicação. A psi
cologia aplicada superou a psicologia acadêmica voltada para a pesquisa que prevalece
ra durante tantos anos. Não era mais verdade que a maioria dos psicólogos trabalhava
nas universidades, conduzindo pesquisas experimentais. Antes da Segunda Guerra
Mundial, quase 70% dos doutorados foram em psicologia experimental. Por volta de
1984, esse número caiu para 8% (Goodstein, 1988). Antes da guerra, 75% de todos os psi
cólogos com doutorado trabalhavam no meio acadêmico. Em torno de 1996, esse núme
ro caiu para 34% (Borman e Cox, 1996). Como conseqüência, houve uma transferência
de poder dentro da APA e os psicólogos aplicados (especialmente os clínicos) assumiram
a posição de comando. Em 1988, um grupo de membros acadêmicos e voltados à pes
quisa se revoltou e fundou a própria organização, a American Psychological Society -
APS (Sociedade Americana de Psicologia).
224 HISTÓRIA DA PSICOLOGIA MODERNA
Comentários
A natureza da psicologia americana mudou muito desde os anos em que Hall, Cattel,
Witmer, Scott e Münsterberg estudaram com Wilhelm Wundt na Alemanha e trouxeram
a psicologia alemã para os Estados Unidos. A psicologia não mais se restringe a salas de
aula, biblioteca e laboratório, mas se estende para diversas áreas da vida cotidiana. Hoje
os psicólogos da aplicação trabalham com testes, psicologia educacional e escolar, psico
logia clínica e aconselhamento, psicologia industrial-organizacional, psicologia forense,
psicologia comunitária, psicologia do consumidor, psicologia ambiental e populacional,
psicologia da saúde e reabilitação, serviços à família, psicologia do esporte e do exercí
cio, psicologia militar, psicologia da mídia, além de lidarem com o comportamento do
viciado, a religião, a cultura e questões de grupos minoritários.
Se a psicologia permanecesse concentrada nos elementos mentais ou no conteúdo
da experiência consciente, não existiria nenhuma dessas áreas de aplicação. As pessoas,
as idéias e os acontecimentos descritos nos Capítulos de 6 a 8 referentes à escola de pen
samento funcionalista forçaram a psicologia americana a ultrapassar o limite do confi
namento no laboratório de Wundt em Leipzig.
Consideremos esses fatores:
a teoria de Darwin acerca da adaptação e da função
a mensuração de Galton das diferenças individuais
o enfoque intelectual americano na praticidade e na utilidade
a mudança dentro dos laboratórios de pesquisa acadêmica, do conteúdo para a
função, provocada por ]ames, Angell, Carr e Woodworth
os fatores socioeconômicos e o poder da guerra
Todas essas forças se entrelaçaram para dar surgimento a uma ciência da psicologia
ativa, assertiva, cativante e influente que mudou as nossas vidas. Esse movimento geral
da psicologia americana em busca da prática foi reforçado pela escola de pensamento
que veio a seguir na evolução da psicologia - a escola conhecida como behaviorismo.
Temas para Discussão
1 . De que modo a s forças econômicas influenciaram a evolução da psicologia
aplicada? Você acha que, sem elas, a psicologia aplicada teria se desenvolvi
do nessa época?
2. Por que as psicologias de Wundt e de Titchener não deram certo nos Estados
Unidos? Por que você acha que a psicologia cresceu tão rapidamente e teve
tanta aceitação pública nos Estados Unidos?
3. Quais são os "primeiros" atribuídos a G. Stanley Hall na psicologia america
na? Qual a influência da teoria de Darwin no trabalho de Hall?
4. Quais questões práticas promoveram o sucesso de Hall como psicólogo?
Descreva sua teoria da recapitulação do desenvolvimento psicológico.
S . D e que forma o trabalho d e Cattell alterou a natureza d a psicologia ameri
cana? Como ele promoveu a psicologia para o público em geral?
CIPiTLILO 8 PSICOLOGIA APLICADA: A HERANÇA DO FUNCIONALISMO 225
6. Compare as abordagens de Cattell e Binet no desenvolvimento dos testes
mentais. Descreva o impacto da Primeira Guerra Mundial no movimento
dos testes. . .. -- :
7. Como as comparações com a medicina e a engenharia foram usadas para
promover a autoridade científica dos testes de inteligência?
8. De que maneira os testes foram usados nos Estados Unidos para sustentar a
noção das diferenças raciais na inteligência e a alegada inferioridade dos
imigrantes?
9. Discuta o papel da mulher no movimento dos testes. Por que o trabalho da
mulher estava em desvantagem profissional?
10. De que forma os trabalhos de Witmer e de Münsterberg influenciaram o
crescimento da psicologia clínica? Qual a diferença entre a visão de Witmer
e a de Münsterberg da psicologia clínica?
1 1 . Discuta a importância de Scott e Münsterberg na origem da psicologia
industrial-organizacional.
12. De que modo os estudos de Hawthorne e as guerras afetaram a psicologia
industrial-organizacional? Qual foi o papel da mulher no desenvolvimento
da psicologia industrial-organizacional?
13. Descreva as contribuições de Münsterberg para a psicologia forense.
14. Compare o crescimento e a popularidade da psicologia aplicada nas décadas
de 1920 e de 1930 e no período desde o final da Segunda Guerra Mundial.
Sugestões de Leitura
Benjamin Jr., L. T. Harry Kirke Wolfe: pioneer in psychology. Lincoln: University of
Nebraska Press, 199 1 . Aluno de Wundt e Ebbinghaus, Wolfe fundou o laboratório
psicológico da University of Nebraska, orientou gerações de estudantes e desempe
nhou importante papel no movimento do estudo infantil.
Fuchs, A. H. Psychology and "The Babe". foumal ofthe History ofthe Behavioral Sciences,
nº 34, p. 153-165, 1998. Descreve um exemplo de aplicação da psicologia no espor
te; o maior jogador de beisebol, Babe Ruth, foi testado no laboratório de psicologia
da Columbia University para avaliar a sua habilidade de rebatida da bola, na espe
rança de que essas medidas quantitativas pudessem resultar em testes para a identi
ficação de prováveis jogadores de destaque.
- Kunda, D. P. The concept of suggestion in the early history of advertising psychology.
foumal ofthe History ofthe Behaviora/ Sciences, nº 12, p. 347-353, 1976. Discute as pri
meiras teorias psicológicas sobre a publicidade e a sugestionabilidade propostas por
Walter Dill Scott e outros.
Landy, F. ]. Hugo Münsterberg: victim or visionary? American Psychologist, nº 47, p. 787-
802, 1992. Analisa as contribuições de Münsterberg para a psicologia aplicada.
McReynolds, P. Lightner Witmer: His life mui times. Washington, D.C.: American Psycho
logical Association. Descreve a vida e a carreira de Witmer e o desenvolvimento da
sua clínica na University of Pennsylvania.
226 HISTÓRIA DA PSICOLOGIA MODERNA
Sokal, M. M. (Ed.). The origins of the Psychological Corporation. foumal ofthe History of
the Behaviora/ Sciences, nº 1 7, p. 54-67, 1991. Traça o desenvolvimento da The
Psychological Corporation como o maior empreendimento da psicologia aplicada
americana.
Spillmann, ]. e Spillmann, L. The rise anf fali of Hugo Münsterberg. foumal ofthe History
o f the Behavioral Sciences, nº 29, p. 322-338, 1991. Descreve a vida de Münsterberg,
seu laboratório de psicologia em Harvard e suas contribuições para as psicologias
forense e industrial.
Von Mayrhauser, R. T. Making intelligence functional: Walter Dill Scott and applied
psychological testing in World War I. foumal ofthe History ofthe Behavioral Sciences,
nº 25, p. 60-72, 1989. Descreve os esforçosde Scott, Thorndike e outros na constru
ção dos testes de inteligência em grupo.
White, S. H. Child study at Clark University: 1894-1904. foumal of the History of the
Behavioral Sciences, nº 26, p. 1 3 1-150, 1990. Descreve os estudos de questionários de
desenvolvimento infantil iniciados por Hall.
Zenderland, L. Measuring minds: Henry Herbert Goddard and the origins of American intelli
gence testing. Nova York: Cambridge University Press, 1998. Analisa as contribuições
de Goddard ao movimento dos testes de inteligência e sua ampla aplicação nos
Estados Unidos.