Prévia do material em texto
CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 1 Fundamentos Históricos do Serviço Social - Dimensão Histórica Aula 05 Prof.ª: Jussara Marques de Medeiros CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 2 Conversa inicial Caras alunas e caros alunos! Nesta aula, vamos conhecer um momento histórico muito importante do Serviço Social: O Movimento de Reconceituação da Profissão. Na nossa trajetória histórica, vamos conhecer as perspectivas teóricas que influenciaram o Serviço Social Brasileiro, iniciando pela análise das perspectivas do Movimento de Reconceituação, de acordo com Netto. Vamos conhecer a fenomenologia, utilizada como base teórica para a profissão, relacionando com o contexto da Ditadura. Bons estudos! Veja o vídeo da professora Jussara em que ela comenta o que mais vamos estudar nesta aula. Contextualizando Nas aulas anteriores, vimos que a característica do Serviço Social no período da Ditadura Militar é de caráter conservador e de manutenção de status quo. Mas será todos os assistentes sociais nesta época apresentam a mesma postura? O Conselho Federal de Serviço Social (CFESS) criou o Projeto Serviço Social, Memória e Resistência contra a Ditadura para conhecer os profissionais que tiveram seus direitos violados na Ditadura Militar. Em 2014, foi realizada uma mesa histórica com profissionais de cinco regiões do Brasil, que fizeram depoimentos sobre aquele período. Acesse o link a seguir com os depoimentos dos profissionais, leia e relacione com uma visão conservadora do Serviço Social. Ao final, discutiremos essa questão. http://www.cfess.org.br/visualizar/noticia/cod/1121 http://www.cfess.org.br/visualizar/noticia/cod/1121 CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 3 Pesquise Tema 01: Perspectivas do Movimento de Reconceituação, de acordo com Netto Netto, no seu livro Ditadura e Serviço Social, a partir de uma literatura da área difundida entre 1965 e 1985, registra três momentos de reflexão: o primeiro, na segunda metade dos anos 60, o segundo, um decênio depois e o terceiro nos anos 80. A reflexão de Netto se desenvolve em três direções principais e são elas: Perspectiva Modernizadora Linha de desenvolvimento profissional que encontra o auge de sua formulação na segunda metade dos anos 60, sendo que seus grandes monumentos são os documentos de Araxá e Teresópolis. Núcleo central desta perspectiva: tematização do Serviço Social como interveniente, dinamizador e integrador. Mantém uma relação de continuidade com o acúmulo profissional na transição dos anos 50 para os 60. Cariz tecnocrático de perfil que se pretende atribuir ao Serviço Social no Brasil. Estrutural funcionalismo norte americano. Hegemonia posta em questão em meados dos anos 70. Conteúdo reformista não atende as expectativas do segmento profissional. Resiste ao Movimento de laicização e se recusa a romper com o estatuto e a funcionalidade subalternos da profissão. Vinculação católica, privilegia os componentes mais conservadores da tradição profissional (NETTO, 1996). Reatualização do Conservadorismo O recurso à fenomenologia aparece como o insumo para a reelaboração teórica e prática da profissão. Ausência da relação entre autores da fenomenologia no Serviço Social e CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 4 as fontes da fenomenologia: empobrecimento teórico e crítico. Requisitos fortemente psicologistas. Retórica da humanização (cristã tradicional ou de fundo humanista) e respalda-se no desempenho tradicional da ajuda psicossocial. Extremo conservantismo no embasamento “científico” com seus “objetos”, onde não há uma análise rigorosa e crítica de realidades macros societárias. Relativa ausência de debates no interior do Serviço Social (NETTO, 1996). Intenção de Ruptura A emergência desta perspectiva está contida no trabalho entre 1972 a 1975 pelo grupo de jovens profissionais da escola Católica de Belo Horizonte, onde se formulou o “Método Belo Horizonte”. Elaboram uma crítica teórica ao tradicionalismo e propõem uma alternativa que busca romper com o tradicionalismo no plano teórico, no plano de concepção e da intervenção profissional e no plano de formação. Netto aponta três momentos diferentes dessa perspectiva: o de sua emersão, o de sua consolidação acadêmica e o de seu espraiamento sobre a categoria profissional. Para ele, no momento de emersão, o projeto aproxima-se do marxismo pelo viés da militância política. Assim, a interação entre os profissionais envolvidos no projeto de ruptura e a tradição marxista opera-se pela instância político partidária. O autor afirma: Dadas as circunstâncias da época, esta aproximação padece de vícios óbvios: instrumentalização para legitimar vícios e táticas, pouca possibilidade de reflexão teórica, sistemática etc. Quando se repõe no marco profissional, ela é filtrada pela recorrência a autores que de alguma forma chancelam as deformações próprias desta instrumentalização. (NETTO, 1996, p. 268) Assim, o autor afirma que o projeto da profissão alia-se a um militantismo e, o segundo momento, a dominância pertence ao “marxismo acadêmico”, mais voltado para um padrão de análise textual obedecendo a CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 5 exigências intelectuais rigorosas. O autor afirma: No segundo patamar deste momento, prolongaram-se as incidências do ‘marxismo acadêmico’, mas o quadro de transição democrática repõe política e história como objetos práticos inelimináveis e possíveis de reflexão – e a elaboração passa a socorrer-se da análise das fontes originais com o recurso a ‘clássicos’ (...). (NETTO, 1996, p. 269) O terceiro momento vai analisar a atualidade profissional, da problemática da formação e espaços e políticas de prática. Netto (1996) e Silva (2011) destacam, dentre as produções profissionais de 1980, o livro de Iamamoto e Carvalho, em 1982, para o projeto profissional de ruptura dos anos 80. Silva (2011) afirma: É através dela que se identifica uma aproximação mais amadurecida do das produções do Serviço Social com o marxismo. Parece ficar desvendada, mais claramente, a compreensão do Serviço Social, enquanto profissão no contexto das relações sociais, bem como o caráter contraditório da prática profissional, compreensão esta geradora da perspectiva de ruptura do Serviço Social. (SILVA, 2011, p. 137) A autora, a exemplo de Netto, ao referir-se ao esforço de ruptura no Serviço Social, destaca três momentos: Um momento de efervescência e de mobilização política na qual se dá a instituição da ruptura no contexto de uma luta intensa pela hegemonia, no interior das entidades nacionais de Serviço Social; Um momento de aprofundamento e consolidação do Projeto de Ruptura com instituição da hegemonia em face da luta com outras perspectivas de projeto profissional, especialmente na segunda metade da década de 80; Um momento de refluxo e de repensar da profissão no final da década de 80 e nos anos de 1990, que se situa no contexto da ofensiva neoliberal, da crise do Welfare State e da crise do socialismo real e dos paradigmas teórico conceituais. (SILVA, 2011, p. 137) Saiba Mais: Antes de passarmos ao próximo tópico, veja as tendências e a conjuntura do processo de reconceituação do Serviço Social clicando no link a seguir: https://www.youtube.com/watch?v=XUL2uYdbbGI Assista ao vídeo da professora Jussara em que ela fala mais sobre as perspectivas do Movimento de Reconceituação de acordo com Netto. https://www.youtube.com/watch?v=XUL2uYdbbGI CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 6 Tema 02: O contexto da Ditadura Militar O Documento de Araxá surgiu no momento que se efetivava o golpe militar de 64, mais especificamente no Governo Castelo Branco. Neste item,serão pontuados alguns elementos ideológicos deste período, de acordo com Aguiar (2011): A partir do referido golpe, aponta-se a presença de um governo de militares e tecnocratas, sendo a maioria provenientes de classe média. Poucos governos foram tão prolíferos em leis, pensando-se, por exemplo, que pela lei da habitação se resolveriam os problemas habitacionais, o que se justifica pelos militares, profissionais liberais e funcionários públicos, não estarem diretamente no processo produtivo. Era um governo economicamente imobilista, ou seja, colocava em primeiro lugar a estabilização monetária. Era anti-industrializante porque queria moralizar o ganho de lucros. Era conservador, moralista e anticomunista. Conservador porque não queria mudança no status quo e moralista porque acreditava que a honestidade dos políticos podia salvar o Brasil. Na perspectiva externa, era colonialista porque colocou o país na dependência dos Estados Unidos e acreditava que o Brasil só podia desenvolver-se com recurso externo. O governo de Castelo Branco assumiu uma perspectiva liberalista- intervencionista-tecnocrático militar, que é ao mesmo tempo intervencionista e liberal e tem como características o idealismo, moralismo e conservadorismo. Netto (2014) afirma que esse governo foi de continuidade e ruptura: CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 7 Deu prosseguimento e aprofundou as históricas heteronomia da economia brasileira e exclusão de massa do povo nas decisões políticas; mas rompeu com os parcos componentes democráticos da vida política, promovendo reformas no estado (e nas suas políticas sociais) para torná-lo mais eficiente na condução do projeto do grande capital. (NETTO, 2014, p. 89) Saiba Mais: Veja agora o vídeo sobre o governo Castelo Branco, pensando no contexto da Ditadura Militar: https://www.youtube.com/watch?v=SslWijVKbR0 Nesse governo, algumas são as perspectivas adotadas para subordinar o movimento operário e sindical de acordo com Netto. São elas: A lei de Greve, promulgada por Castelo Brando em 1º de junho de 1964, que proíbe as greves no serviço público, nas empresas estatais e nos serviços essenciais; a greve só seria considerada legal para o governo quando os empregadores atrasassem o pagamento ou quando não pagassem salários conforme decisão judicial. Criação do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço, em setembro de 1966, visto que a legislação trabalhista vigente garantia aos trabalhadores com mais de 10 anos de serviço estabilidade, só podendo ser demitido se provasse falta grave; os trabalhadores com menos de 10 anos só poderiam ser demitidos sem justa causa mediante aviso prévio de 30 dias e indenização. O fundo de garantia extinguiu a estabilidade no emprego e o empregador deposita mensalmente 8% do salário em conta nominal do trabalhador, que recebe, ao ser despedido, indenização da própria conta. O autor destaca que é indiscutível o ganho do patronato. Houve alteração no sistema previdenciário, ou seja, os tradicionais IAPS (Institutos de Aposentadorias e Pensões foram unificados no Instituto Nacional de Previdência Social (INPS). O autor afirma que a participação dos trabalhadores era assegurada anteriormente e eles foram excluídos de qualquer esfera decisória. O Instituto também https://www.youtube.com/watch?v=SslWijVKbR0 CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 8 favorecia a ampliação da medicina privada. Assim, as políticas sociais e assistenciais são implantadas de forma centralizada, burocrática e autoritária imperando uma lógica mercantil em benefício do grande capital, o que não deixa de atingir as instituições responsáveis por sua organização e implementação. A questão social é, nesse momento, tratada através do binômio repressão/assistência. Para Netto, em relação ao governo Castelo Branco: (...) foi nos seus aspectos essenciais, expressivo do caráter geral do período da ditadura. De uma parte, através da violência desatada pelos golpistas na sequência imediata de 1º de abril, liquidou os avanços políticos do movimento dos trabalhadores e dos estudantes (com a repressão de que foram alvo o CGT, as Ligas Camponesas e a UNE); em seguida, com o movimento sindical amordaçado (e para isto, a velha legislação trabalhista, que vinha dos anos 1930/1940, enquadrando a vida sindical nos marcos estabelecidos pelo Ministério do Trabalho, foi bastante útil) medidas “legais” foram direcionadas para a destruição das entidades democráticas muito representativas (...). (NETTO, 2014, p. 88) Durante o regime militar, há o fortalecimento da máquina estatal que se voltava para a consolidação da chamada modernização conservadora em que há ampliação das funções políticas, sociais, culturais e econômicas do Estado, esta última integrada à adensamento de padrões internacionais definidas pelo centro capitalista, dando continuidade ao projeto posto aos países da periferia capitalista. A professora Jussara vai comentar mais o contexto da Ditadura Militar. Acompanhe no vídeo. Tema 03: Movimento de Reconceituação do Serviço Social Para Silva (2011), o Movimento de Reconceituação do Serviço Social é no interior da profissão um esforço para desenvolvimento de propostas de ação profissional, com as especificidades do contexto da América Latina, assim como um processo amplo de questionamento da profissão. A autora especifica que na análise da literatura de Serviço Social, pode- se identificar dois níveis de reflexão sobre o Movimento de Reconceituação do CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 9 Serviço Social no Brasil: Um trata esse fenômeno em sentido estrito, caracterizando-o como um movimento específico, contextualizado num momento histórico. Outro enfatiza a temática de Reconceituação num sentido do amplo, como um processo permanente de construção de propostas profissionais em resposta às exigências do processo social. (SILVA, 2011, p. 101) Nesta aula, o Movimento de Reconceituação é analisado considerando seu processo histórico, utilizando as perspectivas de Netto, de forma a compreender as dimensões que vai se inserindo no contexto da conjuntura da profissão. De acordo com Aguiar (2011), grupos de assistentes sociais passam a questionar o Serviço Social quanto a sua natureza e operacionalidade, frente à realidade da América Latina. O autor afirma: Reconceituar significa conceituar de novo e isso supõe a existência de conceitos velhos ou que precisam ser revistos ou substituídos. De início, a reconceituação nasceu do desejo de superar o Serviço Social tradicional, que foi transplantado da Europa e dos Estados Unidos, e adequá-lo à realidade latino-americana. Realidade de um continente subdesenvolvido e dependente. Nesse começo, o trabalho era de descobrir instrumentos de acordo com a nossa realidade sem chegar a um questionamento das estruturas e continuando a ter como referencial teórico o funcionalismo. Mais tarde é que surgirão posturas de reconceituação na postura dialética. (AGUIAR, 2011, p. 160) Saiba Mais: Netto discute o contexto da reconceituação no contexto profissional. Assista ao vídeo com atenção e pense na conjuntura e análise política realizada pelo autor. https://www.youtube.com/watch?v=JNpmYmBKTFQ- Com o golpe militar, os assistentes sociais foram perseguidos politicamente, assim como suas instâncias de formação. Assim, a atuação profissional neste período se deu em três frentes: 1) no Estado, que respondia à questão social de forma coercitiva, tecnocrática, meritocrática e conforme demanda econômica do capital; 2) nas multinacionais, que precisavam de profissionais apropriados do aparato burocrático e que pudessem intervir diretamente na relação capital/trabalho, em meio às manifestações dos trabalhadores; e 3) na filantropia privada, que se expandiu diante do aprofundamentoda questão social, decorrente do processo de crescimento da população urbana. (CARDOSO apud ASSUMPÇÃO E https://www.youtube.com/watch?v=JNpmYmBKTFQ- CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 10 CARRAPEIRO, 2014, p. 107) Para Silva (2011), em relação ao esforço de superação do Serviço Social Tradicional, afirmam-se os seguintes itens: A tese configurativa central que orienta o Movimento de Reconceituação é a perspectiva de superação do denominado Serviço Social Tradicional. Busca um desatrelamento do caráter doutrinário e a construção de novos métodos e técnicas a partir das necessidades dos setores populares. Ruptura não só com a fundamentação teórica da profissão, marcada pelo conservadorismo, mas também para a necessidade de superação do pragmatismo ou para a erosão do tradicionalismo. Centraliza-se no questionamento do referencial teórico-metodológico da profissão, cuja eficácia mostra-se diminuída em face do acirramento das questões sociais em decorrência do desenvolvimento urbano-industrial. (SILVA, 2011, p. 116) O quadro a seguir ilustra uma forma de análise do Serviço Social e seu processo de Reconceituação: Fonte: https://acessoacpss.wordpress.com/category/aulas-e-slides-graduacao/ O quadro ilustra Os Movimentos de Araxá e Teresópolis, que se relacionam à vertente modernizadora, com influência do positivismo na profissão. O método Belo Horizonte mostra a vertente Intenção de Ruptura, porém, apontando para o marxismo inicial, com o caráter de militantismo, que no quadro é definido como “marxismo vulgar”. Para facilitar seus estudos, crie um quadro com as tendências do período de reconceituação e suas principais características! No primeiro momento, porém, o esforço de superação ainda apresentou CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 11 um caráter conservador que Netto define como “perspectiva modernizadora”, conforme discutido anteriormente. Em 1965, com a realização do seminário em Porto Alegre sobre o “Serviço Social face às mudanças sociais na América Latina”. Entre as conclusões, Aguiar (2011) destaca: O Serviço Social, pela sua natureza, deve atuar sobre as causas dos problemas sociais. É necessária a participação do Serviço Social nas equipes governamentais de planejamento econômico e de bem-estar social. O Serviço Social deve preocupar-se com a mudança de mentalidade do povo e das cúpulas, procurando melhor formação do cidadão e maior aproximação entre povo e governo. Os princípios do Serviço Social e suas técnicas são universais, mas sua aplicação prática exige habilidade e adequação às situações, o que precisa ser mais desenvolvido no Serviço Social latino-americano. Concluindo, esses aspectos traziam à profissão um caráter modernizador, de acordo com as autoras: Analogamente, a modernização do conservadorismo marcou a atuação dos assistentes sociais durante o período ditatorial, fazendo surgir no Brasil o projeto modernizador da profissão. Suas ações visavam à adequação dos indivíduos à realidade social na lógica do desenvolvimentismo, vinculada à harmonia social, em um compromisso com a ordem vigente. Neste sentido, remetia a atuação profissional a responder as expressões da questão social com ações pontuais e individualizantes, buscando o enquadramento e ajustamento dos sujeitos, com ações corretivas e preventivas. (CARDOSO apud ASSUMPÇÃO E CARRAPEIRO, 2014, p. 109) Pode-se dizer que o projeto profissional de ruptura é identificado historicamente a partir dos anos 70, com avanço significativo na década de 80: Há que se registrar que, na primeira metade dos anos 1970, a Escola de Serviço Social da Universidade Católica de Minas Gerais desenvolve uma proposta profissional alternativa ao denominado tradicionalismo no Serviço Social, com toda uma preocupação com critérios teóricos, metodológicos e interventivos, explicitamente direcionada ao que entendia como interesses históricos das classes e camadas exploradas e subalternas. Assim, com equívocos ou não, o “Método Belo Horizonte” como ficou conhecido, não pode deixar de ser considerado um marco no Projeto de Ruptura do Serviço Social CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 12 no Brasil. (SILVA, 2011, p. 135) Para a autora, na década de 80, o Projeto Profissional de Ruptura se consolida e se torna hegemônico na profissão. Iamamoto (2013), retomando a história da profissão e do Serviço Social, enquanto uma estratégia do bloco dominante, fortalecendo as bases de legitimidade para o poder de classe, pontua o que ela nomina de “um arsenal de mitos” presentes na prática profissional. São estes: A prática social reduzida a qualquer atividade. A concepção utilitária da prática social, traduzida profissionalmente na preocupação com o resultado imediato e visível. A prática social apreendida na sua imediaticidade, como um dado que teria o poder de revelar-se a si mesmo como uma coisa natural. Seria a naturalização da vida social e a coisificação da prática. Veja no vídeo da professora Jussara algumas reflexões sobre o processo de Reconceituação do Serviço Social. Tema 04: A influência da fenomenologia no Serviço Social Brasileiro Na década de 60, os assistentes sociais discutem a possibilidade de romper com a visão conservadora da profissão, por meio da matriz teórica da fenomenologia. Netto nomina essa vertente como Reatualização do Conservadorismo. A representante desta visão é Anna Augusta de Almeida e sua principal obra é o livro Possibilidades e Limites da Teoria do Serviço Social, publicado em 1978. A autora desenvolve os seguintes aspectos referentes à fenomenologia, de acordo com Silva (2011): Almeida diz interessar-se originalmente pelo homem vivendo sua própria experiência, que não se pode dar isolada do mundo em que vive (unicidade homem-mundo) e que os pressupostos teóricos se CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 13 constituem em três grandes conceitos: diálogo, pessoa e transformação social. O diálogo é percebido como ajuda psicossocial e visto como um processo gerador de transformação social. Essas reflexões sobre diálogo e a intersubjetividade, na formulação destes autores, convergem para o entendimento de que a prática profissional é elemento desencadeador da transformação, outro eixo temático que figura, também, como central nas reflexões que apresentam. Cumpre explicitar, entretanto, que a transformação, nessas reflexões, está associada não a considerações sobre a superação da sociedade de classes, mas a uma espécie de “mudança interna”, uma mudança que começa na ação do sujeito. (GUEDES et al, 2005, s. p.) O cliente é percebido como pessoa, sendo reconhecido pela sua condição humana e não enquanto oprimido, alienado, desajustado. A transformação social, à luz dessa nova proposta, é percebida como capacitação. Para Netto, nesta concepção, há uma grande valorização da elaboração teórica e “a ênfase recai na interdição do empirismo e do praticalismo, ressaltando-se como primordial o investimento na cognição” (NETTO, 1996, p. 203). Porém, o autor explicita uma contradição no discurso profissional: No mesmo movimento, os representantes desta perspectiva recusam- se a passar a ideia de que seu labor teórico é asséptico: afirmam clara e nitidamente os seus valores e objetivos profissionais. Os primeiros são, sintomaticamente cristãos (...). (NETTO, 1996, p. 205) O autor, ao destacar os clássicos da fenomenologia, ou seus autores originais (como Husserl), mostra a falta de relação entre os autores representativos da vertente de reatualização do conservadorismo a essas fontes originais: (...) no apelo à inspiração fenomenológica desta perspectiva renovadora brasileira, é assombrosa a absoluta falta de mínimas referências às problematizações de que as posturas, propostas, categorias eprocedimentos fenomenológicos foram e são objetos. (NETTO, 1996, p. 213) Guedes et al, 2005, faz várias críticas a essa vertente, sendo elas: As reflexões apresentadas por esses autores, por não ter referências CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 14 a um suposto projeto societário, tendem a se tornar desconectadas de uma tendência histórica presente nas reflexões teóricas sobre a prática do Serviço Social no Brasil. Os profissionais que se empenhavam na renovação dessas bases tradicionais, no período em que o Serviço Social Brasileiro adere ao projeto desenvolvimentista (1955 a 1970) também partilhavam da preocupação com um projeto societário, uma sociedade desenvolvida, via pela qual refletiam sobre o necessário desenvolvimento social do país. As referências à transformação social, nessas reflexões, aparecem vinculadas a um suposto crescimento pessoal que tem início com atitudes reflexivas necessárias ao engajamento livre e consciente que, supostamente, permitiria uma consciência crítica. Ao final, temos a conclusão dos autores em relação a esta vertente: Os autores que recorrem à fenomenologia e à filosofia existencial como subsídios para a prática profissional, associam, de forma idealizada, a transformação social às atitudes pessoais que se configuram na relação entre assistente social e usuário. Recorrem a reflexões críticas como, por exemplo, as de Paulo Freire, mas as esvaziam da criticidade que apresentam em relação à necessária transformação da realidade social. Tendem, nesse compasso, a valorizar princípios abstratos, como o da autodeterminação, elegendo-os como centrais na orientação profissional e selam tendências a circunscrever-se em análises sobre os componentes internos do Serviço Social, como se esta profissão tivesse um estatuto próprio, independente das determinantes sócio históricas que recaem sobre as requisições de sua prática profissional. Reafirmam a inscrição do Serviço Social em projeto social de cunho conservador. (GUEDES et al, 2005, s. p.) Enfim, esta vertente teórica na busca de romper com o conservadorismo, apresenta uma visão que também propõe uma visão conservadora, ainda voltada para um pensamento humanista cristão. No vídeo da professora Jussara, vamos explicitar as características dessa vertente e seus limites. Acompanhe! CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 15 Trocando ideias Faça um wiki sobre as práticas conservadoras do Serviço Social na atualidade. Pontue como essas podem estar presentes no cotidiano dos profissionais e destaque quais os caminhos para superá-las. Na prática Escute a canção “Cálice” de Chico Buarque, criada na Ditadura Militar no Brasil: https://www.youtube.com/watch?v=wV4vAtPn5-Q Pesquise o contexto do governo militar em que foi criada esta canção e seu significado, destacando o contexto social, político e econômico baseado nos conteúdos discutidos em nossas aulas. Síntese Nesta aula, foram pontuadas as três vertentes de análise de Netto em relação ao Movimento de Reconceituação. Em seguida, foi apresentado o contexto da Ditadura Militar, destacando as políticas nessa época e os assistentes sociais nesse contexto conhecido como Reconceituação da profissão. Ao final, destacou-se a perspectiva fenomenológica no Serviço Social e como se organizou seu processo no período da ditadura militar. Para finalizar, assista ao vídeo da professora Jussara em que ela faz uma síntese do que estudamos aqui. https://www.youtube.com/watch?v=wV4vAtPn5-Q CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 16 Referências ASSUMPÇÃO, Raiane Patrícia Severino; DE MAGALHÃES CARRAPEIRO, Juliana. Ditadura e serviço social no Brasil: contribuições para prosseguir rompendo com o conservadorismo na profissão. Lutas Sociais. ISSN 1415- 854X, v. 18, n. 32, p. 105-118, 2014. DE AGUIAR, Antônio Geraldo. Serviço Social e Filosofia das origens a Araxá. 6ª Edição. São Paulo: Cortez: 2011. GUEDES, O. S. et al. Reflexões sobre uma das tendências à reatualização do conservadorismo no Serviço Social brasileiro. 2º Seminário Nacional Estado e Políticas Sociais no Brasil. Paraná: UNIOESTE, 2005. IAMAMOTO, Marilda Villela. Renovação e conservadorismo no Serviço Social: ensaios críticos. São Paulo: Cortez Editora, 2013. NETTO, José Paulo. Pequena História da Ditadura Brasileira (1964-1985). São Paulo: Cortez, 2014. ORTIZ, Fátima Grave. O Serviço Social no Brasil: os fundamentos de sua imagem social e da autoimagem de seus agentes. Editora E-papers, 2010. SILVA, Maria Ozanira da Silva e. O Serviço Social e o Popular: resgate teórico metodológico do Projeto Profissional de Ruptura. 7 ed. São Paulo: Cortez, 2011.