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AULA 6 TECNOLOGIAS ASSISTIVAS Profª Paula Mitsuyo Yamasaki Sakaguti 2 INTRODUÇÃO Sabemos que a Tecnologia Assistiva (TA) favorece a funcionalidade da pessoa com deficiência e torna possível a realização de atividades rotineiras na escola ou no trabalho. É necessário que as escolas disponibilizem os recursos de TA e que sejam do conhecimento dos professores a finalidade e o manuseio destes. Nesta etapa de estudos, abordaremos os tipos de recursos e equipamentos da TA conforme o seu grau de sofisticação (baixa e alta tecnologia), as órteses e próteses, adaptações no computador para a acessibilidade, software de acessibilidade e projetos arquitetônicos para acessibilidade de pessoas com deficiência física. TEMA 1 – TECNOLOGIAS DE ALTA E BAIXA COMPLEXIDADE: DEFICIÊNCIA FÍSICA Apesar de a Tecnologia Assistiva (TA) nos remeter ao uso de equipamentos, softwares, órteses e próteses, especialidades da engenharia e da informática para ajudar na vida das pessoas, certamente, além destes, temos os recursos de baixa tecnologia, que se referem a todo e qualquer material didático e pedagógico elaborado para servir de suporte ao aprendizado de estudantes com deficiência. São recursos de baixo custo, confeccionados com materiais simples e de forma artesanal, por isso são acessíveis e muito utilizados por professores (Marin; Pinho, 2017). Em outras palavras, na baixa tecnologia, o custo é menor e os produtos são simples e criativos, como uma colher adaptada ou um lápis com uma empunhadura para facilitar a preensão; já na alta tecnologia, há maior sofisticação dos componentes com os quais os produtos são construídos e o custo é mais alto, como softwares, computadores, dentre outros, para proporcionar qualidade de vida e inclusão das pessoas com deficiência ou idosa (Galvão Filho, 2009). Para alguns estudantes apresentam déficits motores, têm tônus muscular diminuído/hipotonia (torna os membros fracos e “moles”) ou tônus muscular aumentado/rigidez muscular (membros de tronco mais contraídos e rígidos), o que acaba influenciando no seu desempenho funcional tornando o movimento e o processo de digitação e de escrita mais difícil, lento e árduo. Nisso, professores da Sala de Recursos Multifuncionais (SRM) avaliam cada caso quanto aos recursos de TA mais adequados e acessíveis para cada 3 situação. Certamente, a predileção pelo uso de recursos confeccionados artesanalmente e com baixo custo, geralmente com verbas do próprio bolso do professor, tem facilitado o processo pedagógico pela situação em que se encontra a maioria de nossas escolas, que não dispõem de recursos financeiros suficientes e de políticas institucionais para a acessibilidade e inclusão. Temos, por exemplo, como recursos de baixa tecnologia para estudantes com deficiência física e para aqueles que apresentam dificuldade motora: engrossador de lápis com placas de E.V.A., livro imantado, plano magnético e peças/cartelas/figuras imantadas, livro adaptado com separador de páginas (uso do velcro ou feltro adesivo entre as páginas) e luva de feltro ou de velcro, demais recursos com velcro, tesoura adaptada, jogos confeccionados com recicláveis, dentre outros. Assim, por meio desses recursos, estudantes com deficiência poderão manusear livros, usar uma luva de dedo com velcro oposto na ponta para facilitar o manuseio bem como trabalhar em equipes usando o plano magnético para em grupo resolverem situações-problema usando coletivamente as figuras imantadas. Esses recursos promovem a interação do alunado com deficiência com seus pares da sala de aula. Algumas crianças precisam, além do lápis adaptado com engrossador, de uma alça que estabilize o recurso na mão para que o lápis não caia. Figura 1– Engrossadores de espuma para diferentes objetos Créditos: Smile ilustras. 4 Figura 2 – Escova de dentes com adaptação para preensão Créditos: Wasteresley Lima. Figura 3 – Separador de páginas de feltro ou espuma Créditos: Wasteresley Lima. 5 Figura 4 – Tesoura adaptada Créditos: Jefferson Schnaider. Os recursos da TA caracterizados como de alta tecnologia “empregam sistemas computacionais, desde simples softwares de controle ambiental a sofisticadas redes que utilizam o piscar do olho humano para comandar ações no computador” (Reis, 2014, p. 48). Pessoas tetraplégicas ou com paralisia cerebral e/ou perda de movimentos nos braços e mãos em decorrência de um acidente vascular cerebral (AVC) enfrentam restrições para executar atividades cotidianas da vida diária e escolar. Para contornar essa dificuldade, temos equipamentos de alta tecnologia que permitem acesso à informação com autonomia suficiente para que o estudante possa usar o celular, computador ou tablet e navegar pela internet. Para usar o software, é só instalá-lo no computador e usar uma webcam. A câmera capta o movimento da cabeça e envia para o comando para o computador. Observemos, na figura abaixo, que o mouse de cabeça capta os movimentos da cabeça para controlar o ponteiro do mouse, e o clique é feito com o piscar de olhos 6 ou com a bochecha. No mercado, há vários mouses virtuais desenvolvidos para pessoas com problemas de mobilidade (CTA, 2022). Figura 5 – Mouse ocular Créditos: Jefferson Schnaider. Esses produtos de alta tecnologia, geralmente envolvendo sistemas computadorizados, mais complexos e onerosos, nem sempre estão disponíveis nas escolas públicas para facilitar a comunicação, o acesso, a digitação e a inclusão de estudantes com deficiência. Para Galvão (2009, p. 156), esses recursos considerados como alta tecnologia não são diferenciados das de baixa tecnologia pela maior ou menor funcionalidade, mas, sim, “para caracterizar apenas a maior ou menor sofisticação dos componentes com os quais esses produtos são construídos e disponibilizados”. 7 TEMA 2 – ÓRTESES De acordo com o guia para prescrição, concessão, adaptação e manutenção de órteses, próteses e meios auxiliares de locomoção (Brasil, 2019), a órtese pode ser definida como uma peça de correção ou complementação de membros ou órgãos do corpo fixada como um material permanente ou transitório que auxilia as funções do membro, órgãos ou tecido, desde que a sua colocação ou remoção não necessite de uma cirurgia. Além disso, a órtese proporciona melhor alinhamento do corpo e busca sempre a posição funcional, isto é, a mais adequada. Nessa direção, temos a seguinte definição: Órteses são dispositivos aplicados externamente ao corpo para modificar as características estruturais ou funcionais do sistema neuromusculoesquelético, podendo ser utilizadas para estabilizar ou imobilizar, impedir ou corrigir deformidades, proteger contra lesões, facilitar a higienização, o posicionamento e assistir a função dos membros superiores, inferiores e tronco, decorrentes de lesões, doenças, alterações congênitas ou condições ligadas ao processo do envelhecimento. (Lustosa et al., 2015, p. 45) A órtese é uma TA geralmente utilizada nos serviços de reabilitação física, contribuindo para a recuperação de funções de partes do corpo (Gradim; Paiva, 2018). Bersch (2017) ressalta que elas são comumente construídas sob medida, pois são colocadas junto a um segmento do corpo do usuário, garantindo-lhe melhor posicionamento, estabilização e/ou função, exemplificado na Figura 6 a seguir. 8 Figura 6 – Órtese de membro inferior Créditos: ilona.shorokhova/Shutterstock. Lembrando que uma órtese bem modelada e moldada deve ser concebida com base nas necessidades individuais do usuário, devendo ser sistematicamente readequada (Brasil, 2019). Para Gradim de Paiva (2018), a revisão de literatura 9 indica que o uso de órteses, especificamente para membrossuperiores, possui diferentes objetivos e métodos de utilização, assim como são diversos os modelos e materiais para a confecção e fabricação dos dispositivos, sendo que o seu uso dependerá das necessidades do usuário, do tipo de lesão ou condição clínica e da adaptação da pessoa com relação àquele dispositivo/recurso de TA. Já para o acesso ao computador, temos as adaptações físicas ou órteses, ou seja, são todos os dispositivos fixados ao corpo da pessoa com deficiência para facilitar sua interação com o computador (Galvão Filho, 2009). Galvão Filho (2009) nos apresenta três exemplos de utilização de órteses para as atividades de digitação. Uma das órteses que geralmente são usadas por estudantes com paralisia cerebral e ajuda a reduzir a amplitude do movimento causada pela flutuação do tônus muscular, tornando mais rápido e eficiente o uso do computador e o processo de digitação é a pulseira de pesos (Figura 7). Conforme a idade e a força do estudante, os pesos das pulseiras podem ser acrescentados ou diminuídos. Figura 7 – Pulseira de pesos Créditos: Teofilo Alves Galvão Filho. Outra órtese é o estabilizador de punho e abdutor de polegar com ponteira para digitação (Figura 8) utilizado principalmente por pessoas com paralisia cerebral para facilitar o teclar. 10 Figura 8 – Estabilizador de punho e abdutor de polegar com ponteira para digitação Créditos: Teofilo Alves Galvão Filho. Além dessas órteses de acesso ao computador, para as pessoas sem possibilidade de movimentar as mãos temos as ponteiras de cabeça, ou hastes fixadas na boca ou no queixo para digitação, quando existe o controle da cabeça (Galvão, 2009), dando condições para que possam, além da digitação, desenhar, pintar, dentre outras atividades no computador. TEMA 3 – PRÓTESES E MEIOS AUXILIARES DE LOCOMOÇÃO As próteses, por sua vez, compreendem quaisquer dispositivos permanentes ou transitórios que substituem total ou parcialmente um membro, órgão ou tecido (Brasil, 2019). São peças que substituem membros ausentes desde o nascimento ou por uma lesão adquirida. Como exemplo de prótese, temos a tecnologia empregada nas próteses de fibra de carbono que permitiram que o velocista sul-africano Oscar Pistorius, com amputação de ambas as pernas, participasse em uma Olimpíada. Ele se tornou o primeiro atleta amputado da história a competir nos Jogos Olímpicos, em Londres, 2012 (Terra, 2012). Nas palavras de Bersch (2017, p. 8), “próteses são peças artificiais que substituem partes ausentes do corpo”, como exemplifica a Figura 9. 11 Figura 9 – Próteses de membros superiores Créditos: belushi/Shutterstock. Figura 10 – Próteses de membros superiores Créditos: serhii.suravikin/Shutterstock. 12 Tanto as órteses quanto as próteses são potencialmente capazes de modificar o modo como o usuário realiza as suas Atividades de Vida Diária (AVD) e Atividades de Vida Prática (AVP) e, sobretudo, permitem à pessoa com deficiência física o resgate de sua condição produtiva e sua dignidade como cidadão capaz de interagir e/ou transformar sua realidade (Brasil, 2019). Interessante destacar a pesquisa de Rodrigues Júnior et al. (2021) sobre a criação e o desenvolvimento de uma ortoprótese de baixo custo para auxiliar as funções manuais de pessoas com hanseníase com sequelas e mão em garra ou sem reabsorção óssea. Os mesmos autores justificam que os dispositivos mais usados pela população com hanseníase são as órteses (recursos acoplados externamente ao membro com a função de favorecer o desempenho funcional) e próteses (produtos que substituem completamente o segmento e sua funcionalidade), mas, na maioria dos casos, os equipamentos são caros. Foi denominado ortoprótese por incorporar características de acoplamento das órteses e o funcionamento de agarre das próteses em um só dispositivo “híbrido”. TEMA 4 – ADAPTAÇÕES NO COMPUTADOR Quando falamos em adaptações no computador para a promoção da acessibilidade, estamos nos referindo às adaptações do hardware para aqueles usuários que necessitam de adaptações nos equipamentos convencionais. O termo hardware é usado para designar a parte física do computador. Segundo Galvão Filho (2009, p. 174), as adaptações de hardware referem- se a “todos os aparelhos ou adaptações presentes nos componentes físicos do computador, nos periféricos, ou mesmo, quando os próprios periféricos, em suas concepções e construção, são especiais e adaptados”. O mesmo autor apresenta a máscara de teclado ou colmeia como a mais simples e eficiente adaptação de hardware, a qual consiste em uma placa de plástico ou acrílico com um furo correspondente a cada tecla do teclado, sendo fixada sobre o teclado, afastada a uma pequena distância das teclas. A colmeia tem a finalidade de evitar que o estudante com dificuldades de coordenação motora pressione, involuntariamente, mais de uma tecla de cada vez, pois deverá procurar o furo que corresponde à tecla que deseja pressionar, evitando, assim, que esbarre em outras teclas indevidamente. 13 Figura 11 – Teclado com colmeia acrílica Créditos: Teofilo Alves Galvão Filho. Temos também outras adaptações simples e criativas que podem ser utilizadas quanto ao posicionamento do teclado ou do mouse, colocando-os sobre o colo na cadeira de rodas, ou nas pernas, sobre um livro ou uma pequena tábua são algumas das opções encontradas para o posicionamento dos periféricos para facilitar a digitação e o trabalho do estudante. Uma alternativa para quem não consegue digitar com as mãos é colocar o teclado perto no chão para a digitação com os pés. Quem não se lembra do clássico filme Gaby, uma história verdadeira, que conta a história de Gabriela Brimmer, com paralisia cerebral? Inicialmente, Gaby conseguiu se comunicar usando o movimento de seu pé esquerdo, depois foi alfabetizada por meio de uma prancha com alfabeto que apontava com o pé esquerdo as letras e as soletrava mentalmente. Ela contava também com uma máquina de escrever que levava para a escola, posicionava-a no chão diante de seu pé esquerdo e datilografava tudo, o que tornou sua comunicação com o entorno mais eficiente. A importância dada aos hardwares adaptados para que a pessoa com deficiência possa exercer o seu direito de se comunicar é observada no estudo de um mouse de baixo custo desenvolvido por discentes e docentes do curso de Engenharia da Tecnologia Assistiva e Acessibilidade apresentado por Assis et al. 14 (2019). No intuito de buscar soluções que amenizem os obstáculos na interação entre a pessoa com deficiência física e o computador, os mesmos autores relatam que o “mousetrackball é relativamente mais fácil de manipular por pessoas com pouca força e pouco tônus muscular que é uma das sequelas da paralisia cerebral” (p. 123). Um dos recursos de alternativas de hardware que tem por objetivo acionar/ativar algo é o acionador. Sua função varia de acordo com o dispositivo em que ele está plugado (mouse, brinquedo adaptado, luminária dentre outras possibilidades). Há uma diversidade de formatos, cores e tamanhos de acionadores, também apresentam diferentes modos de acionamento (toque, pressão, sopro, piscar de olhos etc.) se adaptando ao movimento residual de cada pessoa. Assim, por meio de acionadores, é possível ligar e desligar a luz, utilizar o computador, jogar um game, dentre outras (CTA, 2021). A escolha do melhor tipo de acionador dependerá da observação pelo professor da capacidade e habilidade que o aluno consegue realizar com um controle razoável. Para o aluno capaz de soprar, os acionadores que reconhecem como comandos o sopro e a sucção feitos em um canudo em contato com a boca é uma das opções que pode ser utilizada. Figura 12 – Acionador de sopro ou sucção Créditos: Wasteresley Lima. 15 Conforme Soares, Menezese Queiroz (2021), trazer a temática das tecnologias para a educação especial é uma forma de torná-la acessível à pessoa com deficiência, que por séculos foi excluída de diversos espaços sociais. Para essas autoras, “é válido afirmar que a tecnologia é um bem de todos, e por todos deve ser acessada” (p. 143). Com base no levantamento realizado por Soares, Menezes e Queiroz (2021), no Quadro 1, apresentaremos alguns softwares para auxiliar e viabilizar tarefas para pessoas com deficiência física motora e comunicacional: Quadro 1 – Softwares de tecnologia assistiva digital gratuitos Software Site Finalidade Amplisoft <https://amplisoft.azurewe bsites.net/> Software livre. Sistema de comunicação alternativa para pessoas com limitação motora e comunicacional. Possibilita melhora na comunicação de pessoas que possuem limitação motora ou apresentam dificuldades para se comunicar ou escrever e que tenham a possibilidade de utilizar um acionador. eViaCam <https://eviacam.crea- si.com/> Software livre. Controle de mouse para pessoas com limitação motora e comunicacional. Proporciona o controle do mouse através de movimentos com a cabeça. Head Mouse <https://www.tecnologiasa ccesibles.com/ pt- br/content/headmouse> Software livre. Controle de mouse por tecnologia assistiva digital para pessoas com limitação motora e comunicacional. Proporciona o controle do mouse por meio de movimentos com a cabeça. Além disso, possibilita a configuração de diferentes movimentos para a movimentação do mouse. Plaphoons <http://projectefressa.blog spot.com/ 2016/01/plaphoons- download.html> Software livre. Sistema de comunicação aumentativa e alternativa para pessoas com limitação motora e comunicacional. Permite a comunicação do usuário complementando ou substituindo a fala. TICO (Interactive Communicatio n Boards) <http://arasuite.proyectoti co.es/ index.php?title=P%C3%A 1gina_principal> Software livre. Sistema de comunicação alternativa para pessoas com limitação motora e comunicacional. Possibilita uma melhora na comunicação de pessoas que possuem limitação motora ou apresentam dificuldades para se comunicar ou escrever e que tenham a possibilidade de utilizar um acionador. Fonte: Elaborado por Sakaguti com base em Soares; Menezes; Queiroz, 2021, p. 154-155. 16 TEMA 5 – PROJETOS ARQUITETÔNICOS PARA ACESSIBILIDADE Para facilitar a locomoção de pessoas com deficiência física e mobilidade reduzida, são fundamentais as “adaptações estruturais e reformas na casa e/ou ambiente de trabalho, através de rampas, elevadores, adequações em banheiros, mobiliário, entre outras, que retiram ou reduzem as barreiras físicas” para a garantia de acesso, funcionalidade e inclusão de todas as pessoas independentemente de sua condição física ou sensorial (Bersch, 2017, p. 5). Para Lopes, Almeida e Souza (2018), essas construções tornam a vida da pessoa com deficiência ou mobilidade reduzida mais acessível, isto é, permite uma vida mais autônoma e independente. Assim, essa modalidade de TA – Projetos Arquitetônicos para Acessibilidade – objetiva garantir que os ambientes sejam acessíveis a todas as pessoas e, portanto, analisa suas condições e propõe um projeto de edificação ou de reforma que atenda às necessidades específicas por meio da eliminação de barreiras ambientais que dificultam a locomoção, ou seja, nas palavras de Lopes, Almeida e Souza (2018, p. 2), é “todo tipo de construção ou adaptação de construção feita para dar acessibilidade, seja em locais fechados como escolas, bancos ou em locais abertos como as ruas da cidade para PCDs [Pessoas com Deficiência], garantindo assim o seu direito de ir e vir”. No entanto, nem sempre a construção de rampas, por exemplo, é adequada. Às vezes, o ângulo de sua inclinação coloca em risco a segurança e locomoção do andante e do cadeirante. Isso porque não seguem os padrões de usabilidade conforme as normas da ABNT-NBR-9050 (Associação Brasileira de Normas Técnicas – Norma Brasileira). Em seu escopo, essa norma afirma que “[...] estabelece critérios e parâmetros técnicos a serem observados quanto ao projeto, construção, instalação e adaptação do meio urbano e rural, e de edificações às condições de acessibilidade” (ABNT, 2020, p. 1). Cardozo e Schneider (2021) nos apontam alguns indicadores de acessibilidade arquitetônica disponibilizados pelos dados do Censo Escolar até o ano de 2019 que correspondem à existência (ou não) de banheiro acessível e se as vias e dependências escolares eram acessíveis. Esses autores criaram um roteiro de observação de acessibilidade arquitetônica em cinco grupos de espaços físicos a ser aplicado nas escolas, contexto de sua pesquisa, apresentados no quadro a seguir. 17 Quadro 2 – Roteiro de observação Entorno da escola A largura da rampa permite a passagem de uma cadeira de rodas e uma pessoa ao seu lado? A calçada/piso do entorno e das entradas é antiderrapante? Cadeirantes e pessoas com mobilidade reduzida conseguem abrir totalmente a porta do veículo para embarque ou desembarque no estacionamento da escola? (considerar pessoas com muletas, andadores e cadeira de rodas). Sala de aula, biblioteca É possível um cadeirante chegar até a biblioteca escolar com autonomia e segurança? Cadeirantes, muletantes, pessoas com mobilidade reduzida, obesos conseguem circular na sala? Cadeirantes, muletantes, pessoas com mobilidade reduzida, obesos conseguem acessar e utilizar as carteiras da sala de aula? Refeitório, sanitários Nas superfícies de apoio para bandejas ou similares, os talheres, pratos, alimentos e bebidas podem ser alcançados por estudantes cadeirantes, andantes, muletantes? É garantida uma faixa de circulação entre as mesas e área de manobra para acesso (passagem que permita uma cadeira de rodas acessar e girar)? A porta do sanitário permite a entrada de uma pessoa que utiliza a cadeira de rodas? Os sanitários acessíveis estão próximos ou integrados às demais instalações sanitárias? Existem barras de apoio próximas ao vaso sanitário? Espaço para prática esportiva, parque Cadeirantes, muletantes, pessoas com mobilidade reduzida, obesos conseguem acessar o espaço para a prática esportiva? O piso é antiderrapante, regular, estável e não trepidante? Existe brinquedo adaptado para a utilização de crianças com deficiência e/ou mobilidade reduzida? Mobilidade entre corredores, entre pavimentos e sinalização Existem placas de sinalização informando sobre os sanitários, acessos verticais e horizontais e números de pavimento? Existe elevador ou plataforma elevatória? A rampa tem inclinação adequada? O corrimão prolonga-se antes do início e após o término da rampa? Fonte: Cardozo; Schneider, 2021, p. 9-12. Ressaltamos a importância da qualidade das calçadas como fator de acessibilidade urbana. Observamos que, em muitos centros urbanos, há calçadas em desníveis, com obstáculos como postes, inclinações íngremes, sem rampas, com obras inacabadas e/ou sem sinalização. Enfim, em desacordo com a NBR 9050, elaborada pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), a falta de acessibilidade torna intransitável o trajeto para usuários de cadeira de rodas, ou melhor, para os pedestres em geral, chegarem ao seu destino com segurança e autonomia. Calçadas que não apresentam acessibilidade geram barreiras significativas para pessoas com deficiência. Vale lembrar que a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Lei n. 13.146/2015) trata sobre a acessibilidade e, em especial, chamamos a atenção para os arts. 56 e 57: 18 Art. 56. A construção, a reforma, a ampliação ou a mudança de uso de edificações abertas ao público, de uso público ou privadas de uso coletivo deverão ser executadas de modo a serem acessíveis. § 1º As entidades de fiscalização profissional das atividades de Engenharia, de Arquitetura e correlatas,ao anotarem a responsabilidade técnica de projetos, devem exigir a responsabilidade profissional declarada de atendimento às regras de acessibilidade previstas em legislação e em normas técnicas pertinentes. § 2º Para a aprovação, o licenciamento ou a emissão de certificado de projeto executivo arquitetônico, urbanístico e de instalações e equipamentos temporários ou permanentes e para o licenciamento ou a emissão de certificado de conclusão de obra ou de serviço, deve ser atestado o atendimento às regras de acessibilidade. § 3º O poder público, após certificar a acessibilidade de edificação ou de serviço, determinará a colocação, em espaços ou em locais de ampla visibilidade, do símbolo internacional de acesso, na forma prevista em legislação e em normas técnicas correlatas. Art. 57. As edificações públicas e privadas de uso coletivo já existentes devem garantir acessibilidade à pessoa com deficiência em todas as suas dependências e serviços, tendo como referência as normas de acessibilidade vigentes. De acordo com Araújo e outros (2022, p. 9), a “mobilidade urbana é uma condição inerente ao deslocamento do ser humano pela cidade, seja por meio de transportes ou não, o que remete a questões de acessibilidade em sua singularidade, tornando-se, assim, um direito”. 19 REFERÊNCIAS ABNT – ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 9050: Acessibilidade a edificações, mobiliário, espaços e equipamentos urbanos. Rio de Janeiro: ABNT, 2020. ATLETA amputado é selecionado para o Jogos Olímpicos de Londres. Terra, 5 jul. 2012. Disponível em: <https://www.terra.com.br/esportes/atletismo/atleta- amputado-e-selecionado-para-os-jogos-olimpicos-de- londres,7c18300aee4ba310VgnCLD200000bbcceb0aRCRD.html>. Acesso em: 24 mar. 2023. ARAÚJO, Y. F. L. et al. 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