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O pensamento matemático Prof.° Rafael Montoito Descrição Aspectos e conteúdos da matemática por meio de obras de arte e elementos da natureza. Propósito A matemática e seus elementos tanto auxiliam no desenvolvimento de novas ideias, técnicas e linguagens quanto podem ser percebidos em diferentes áreas do conhecimento humano; por isso, é fundamental compreender aspectos e conteúdos da matemática em meio a obras de arte e elementos da natureza. Objetivos Módulo 1 Matemática e arte Reconhecer a matemática como uma criação humana e sua relação com a natureza, para além da lógica disciplinar. Módulo 2 Matemática e natureza Formular práticas pedagógicas no ensino de matemática de forma interdisciplinar. Introdução Duas frases são bastante comuns nas aulas de matemática: a pergunta “professor, onde vou usar isso?” e a resposta “a matemática está em todos os lugares!”. Embora legítima, a pergunta também é um pouco reducionista, pois atribui à matemática um caráter essencialmente prático, utilitarista, ou seja, que deve ser usada para solucionar um problema ou gerar um resultado. Já a resposta não é totalmente verdadeira, pois podemos pensar em vários elementos que existem independentemente da matemática ou sem se apropriarem dela diretamente. Por exemplo, uma peça de Shakespeare, um raio de sol, um gato. Como, então, seria possível reduzir a amplitude da pergunta a fim de encontrar uma resposta mais assertiva? Uma das possibilidades é pensar a matemática enquanto linguagem, com códigos e regras que, quando empregados da maneira correta, produzem sentido. A matemática também pode perpassar outras linguagens ou servir de referência para que essas se desenvolvam; esse processo é simbiótico e traz ganhos para a própria matemática, possibilitando que seja “lida” ou “encontrada” em meio a outras linguagens. Pensar assim nos coloca, enquanto professores, na posição mais confortável e sincera de alguém que “enxerga” a matemática em diferentes lugares porque está acostumado a ler sua linguagem. Por exemplo, podemos dizer que um soneto de Shakespeare usa a matemática em sua métrica, mas não somos capazes de afirmar se o bardo fez isso intencionalmente ou se aprendeu a escrever sonetos imitando o estilo de outros poetas. Obviamente, esse é um assunto complexo e que precisa de muita leitura e pesquisa sobre matemática e linguagem para compreendermos a profundidade dessa discussão. O que nos interessa, neste conteúdo, é entender essa linguagem foi construída pelo homem para comunicar ideias matemáticas, bem como para ler o mundo por um viés matemático. A matemática nunca esteve fechada em si mesma, e sim imbricada com outras produções humanas. Tendo isso mente, vamos agora estudar um pouco da matemática junto às artes e à natureza. 1 - Matemática e arte Ao �nal deste módulo, você será capaz de reconhecer a matemática como uma criação humana e sua relação com a natureza, para além da lógica disciplinar. Pintura: Renascimento e Cubismo A história da pintura é vastíssima e repleta de nomes que produziram obras incríveis e algumas delas receberão nossa atenção neste estudo. Vamos começar pelos pintores renascentistas, já que eles “inventaram” a perspectiva enquanto técnica de representação da realidade para mostrar diferentes planos de ação e profundidade em suas pinturas. O ponto primordial de uma pintura em perspectiva é a existência de um (ou até mais) ponto de fuga, que é um ponto para o qual as linhas paralelas do quadro convergem, algo semelhante a quando vemos os trilhos do trem e temos a impressão de que eles se encontram no horizonte, mesmo sabendo que são paralelos. O ponto de fuga não precisa estar no centro da pintura e, independentemente de onde se encontrar, ele exerce um fascínio sobre o observador, de modo a captar sua atenção. Para compreender melhor esse conceito, observe a seguir duas obras: a pintura A última ceia, um afresco do italiano Leonardo da Vinci para a igreja Santa Maria delle Grazie, em Milão; e Adoração ao Cordeiro místico, que foi pintada por Jan Van Eyck e faz parte do retábulo (sequência de painéis que formam uma obra maior) da Catedral de São Bavão, na cidade flamenga de Gante, Bélgica. Ambas as pinturas podem ser visitadas por turistas. A última ceia (1498), de Leonardo da Vinci. Adoração ao Cordeiro místico (1432), de Jan Van Eyck. Em cada uma dessas pinturas, foram traçadas linhas que convergem em um ponto de fuga. Em A última ceia, o ponto de fuga está sobre o Cristo, sobre o qual está a atenção do observador. Na arquitetura da sala representada (linhas do teto e batente das portas), há diversas linhas de fuga, que são as retas que convergem para o ponto de fuga. Em Adoração ao Cordeiro místico, Van Eyck desloca o ponto de fuga para a margem superior, bem ao centro. Nesse ponto está a pomba do Espírito Santo, da qual saem fachos de luz que são as próprias linhas de fuga, deixamos algumas à mostra e, sobre outras, inserimos as linhas brancas para mostrar nossa análise. Além da perspectiva, também podemos vislumbrar outros elementos da matemática na pintura de Van Eyck, tais como: Na imagem a divisão foi feita em quatro partes praticamente iguais, guardando um espaço um pouco maior para representar figuras maiores, ou seja, mais próximas, em primeiro plano. Na imagem a simetria é marcada pela cruz como sendo um eixo vertical (sobre a qual traçamos uma linha branca). Embora não haja a exata quantidade de pessoas fazendo as mesmas ações em ambos os lados, uma vez que simetria não é, necessariamente, um espelhamento, percebemos que os Divisão Simetria diferentes grupos de pessoas mantêm a cena em “equilíbrio”, ou seja, sem “pesar” mais para a direita ou para a esquerda. Os pintores renascentistas inventaram um modo de “contrariar” a geometria euclidiana, a qual afirma que retas paralelas nunca se encontram. Hoje, sabemos da existência de diversas geometrias não euclidianas em que esse conceito não é válido, isto é, em que retas paralelas se encontram. Podemos citar como exemplo a geometria projetiva, que se desenvolveu enquanto área da matemática a partir das pinturas renascentistas. Os primeiros escritos matemáticos relevantes sobre a geometria projetiva foram os de Brook Taylor, por volta de 1715, praticamente 300 anos depois das pinturas aqui comentadas. Experimentando a matemática: arte Para aprofundar seus estudos sobre as inter-relações possíveis entre a matemática e outras artes, assista ao vídeo a seguir. No início do século XX, o pintor espanhol Pablo Picasso rompeu com os modelos estéticos que só valorizavam a perfeição das formas. Seu quadro As damas de Avignon (1907), hoje em exposição no Museu de Arte Moderna de Nova York, marcou o início do Cubismo, um movimento de vanguarda que surgiu na França. O Cubismo teve mais de uma fase artística, mas podemos pontuar as características que o definem: um tratamento geométrico das formas da natureza; a predominância de linhas retas, modeladas a partir de cilindros e cubos, dada a geometrização das formas e dos volumes; a abstração do representado. Veja agora as reproduções de dois famosos quadros cubistas: Violino e uvas (1912), de Pablo Picasso. Violino e castiçal (1910), de George Braque. Fica fácil percebermos que os quadros de Picasso e Braque “desconstroem” os objetos representados. Isso porque o Cubismo opta por abolir a representação “perfeita” do objeto e ressaltar seus contornos, retos ou curvos. Outra particularidade dessas obras é a impressão de que foram pintadas por cima de si mesmas, ou seja, parece que algumas partes se sobrepõem às outras. Esse efeito é explicado pela representação do objeto visto por variados ângulos de observação ao mesmo tempo. É como se andássemos em volta de determinado objeto que queremos desenhar e, a cada olhar, desenhássemos o que vemos sobre a tela. Desse modo, os cubistas representavam o tridimensional em uma superfíciebidimensional, sem se apegarem a representações realistas, como faziam os renascentistas. Saiba mais Além das formas, como trapézios, retângulos, setores circulares e outros polígonos, uma pintura cubista mexe com a capacidade de abstração do observador. Ele precisa construir mentalmente o que foi ali representado, e a construção mental de um objeto é uma habilidade muito importante a ser desenvolvida para a compreensão da matemática. Pintura: Abstracionismo e Neocubismo As tendências de um movimento de pintura não são apropriadas por todos os pintores da mesma época em diferentes locais. Enquanto Picasso dava o pontapé inicial ao Cubismo com As damas de Avignon (1907), na Alemanha, o artista russo radicado Wassily Kandinsky pintava a Primeira aquarela abstrata (1910), que seria reconhecida como a precursora do movimento do Abstracionismo. A arte abstrata não imita objetos, natureza ou pessoas, mas representa as emoções do artista de maneira abstrata e desconstruída, em total desconexão com a realidade. O resultado é uma arte subjetiva que, com cores e linhas bem demarcadas, suscita diferentes interpretações no observador. Além de Kandinsky, outro expoente do período é o pintor neerlandês Piet Mondrian, cujos quadros mais famosos são variações de retângulos pintados com cores primárias. A seguir, vamos pensar um pouco sobre os elementos matemáticos de quadros desses dois pintores. Composição VIII (1923), de Wassily Kandinsky. Quadro Kandinsky Em relação à geometria plana, facilmente identificamos as seguintes figuras: triângulos (seriam isósceles ou não?), retas (quais são paralelas e quais são concorrentes?) e círculos (alguns concêntricos, outros que se intersectam). Na parte de baixo do quadro, na metade esquerda, há três círculos e retas que podem ser usados como exemplos de posições relativas entre circunferências e retas (reta secante, tangente ou externa à circunferência), além de diversas retas em pontos distintos da pintura que serviriam para pensarmos suas posições relativas (paralelas, perpendiculares ou concorrentes) e seus respectivos coeficientes angulares. Composição em vermelho, amarelo, azul e preto (1921), de Piet Mondrian. Quadro Mondrian O quadro apresenta retângulos e quadrados dos quais poderiam ser calculados áreas e perímetros, além de um estudo de combinatória sobre as múltiplas possibilidades de se pintar essa mesma tela, apenas variando onde aparece cada cor, ou sobre as posições entre retas na geometria analítica. Além disso, valendo-nos da prerrogativa que a arte abstrata suscita no observador uma interpretação pessoal, vemos o quadro de Mondrian como sendo a planta de uma cidade, na qual as ruas são perpendiculares (as linhas negras) e os quadriláteros são as quadras desse mapa. Esse seria um bom modo de introduzir a geometria do taxista, outra geometria não euclidiana quase nunca é ensinada nas escolas. Essas duas pinturas podem enriquecer as aulas de geometria, tanto no estudo de conceitos e propriedades das figuras planas quanto para dar vazão à imaginação do aluno. Vamos agora observar as obras de Georgy Kurasov, pintor russo que nasceu em 1958, cujas pinturas são classificadas como neocubistas. Do Cubismo tradicional, o Neocubismo herdou as formas geométricas, mas Kurasov não as usa para representar os diversos ângulos da mesma figura, e sim para ressaltar partes da sua pintura, dividindo-a em partes geométricas. Kurasov também usa cores vivas, conforme podemos perceber nas pinturas a seguir: Dança clássica (2006), de Georgy Kurasov. Quadro Dança Clássica (2006) Mostra uma bailarina, cujas partes do corpo estão inscritas em triângulos. Podemos observar que a linha do seu pescoço é o lado do mesmo triângulo que sustenta sua perna erguida; o braço dobrado sobre a cabeça é o lado de outro triângulo que tem a ponta de ambos os pés nos vértices. Há, ainda, outras combinações possíveis de triângulos e quadriláteros que passam a ideia de focos de luzes que iluminam a bailarina. Quadro O nascimento do mito (2020) Quadro O nascimento do mito (2020) Os limites das figuras principais formam uma circunferência: a cabeça da mulher, seu corpo, as asas e o bico da íbis e os papiros completam os 360º. Ainda, duas retas horizontais intersectam a circunferência: a mais baixa serve como horizonte da água, e a que está acima se alinha com o braço da mulher, destacando-o do celeste. Essa pintura também pode ser utilizada como introdução ao estudo da matemática egípcia, sendo mostrada junto a imagens do papiro de Rhind e, assim, promovendo um encontro entre das disciplinas de Arte, Matemática e História. Muitos são os pintores cujas obras partem de elementos matemáticos, dando-lhes destaque ou utilizando-os para “aproveitar” o espaço da tela conforme aquilo que desejam distribuir ou ressaltar. Importante lembrar de que a pintura não é a única forma de arte que estabelece diálogos com a matemática. A arquitetura, escultura, música e literatura também podem se fazer presentes nas aulas de matemática, tematizando encontros entre o pensamento racional, que todos podem desenvolver, e as inspirações pessoais, que são únicas para cada indivíduo. Falta pouco para atingir seus objetivos. Vamos praticar alguns conceitos? Questão 1 O que é arte? Se você acreditar que é fruto de uma força maior de conhecimento e que todos a reconhecem a partir dessa visão, terá dificuldade em entender o proposto. A arte é uma leitura que dialoga entre: A a matemática e a expressão humana. B a experiência artística e o valor cultural. C a violência e a busca de solução. D a disputa entre a humanidade e a exatidão. E a correspondência entre proporção e a verdade. Parabéns! A alternativa A está correta. A arte é uma produção humana que busca expressar diferentes aspectos da vida ou do pensamento. Ela está, muitas vezes, na relação entre a matemática e a expressão humana. Além disso, é uma forma de leitura dessa relação. Questão 2 O valor renascentista parte da aplicação de novas técnicas. O termo “renascer” buscava afirmar a retomada de um valor humano que passasse a ser fundamental na construção de um novo belo. São valores que passam a ser valorizados: A Ordenamento e estatística. B Algebrização e geometrização. C Geometrização e proporção. Parabéns! A alternativa D está correta. A percepção de proporção e perspectiva torna-se um exercício de diferenciação. Quando olhamos A última ceia, de Leonardo da Vinci, temos uma aula desse ordenamento, que é a base da adoção da matemática como valor diferencial humano. D Proporção e perspectiva. E Estatística e algebrização. 2 - Matemática e natureza Ao �nal deste módulo, você será capaz de formular práticas pedagógicas no ensino de matemática de forma interdisciplinar. Cães e gatos sabem cálculo? Usualmente, pensamos que somente os humanos entendem de matemática. Essa é uma verdade relativa. Obviamente, somente os humanos são capazes de elaborar um pensamento lógico-dedutivo, demonstrar um teorema, propor conjecturas e fazer a matemática “avançar” no seu corpus teórico. Contudo, o uso da matemática não fica restrito apenas aos humanos. No interessante livro O instinto matemático (2009), Keith Devlin comenta habilidades naturais do melhor amigo do homem: o cão. O relato sobre o conhecimento matemático dos cachorros vem de um artigo científico publicado por Tim Pennings, no The College Mathematics Journal, em 2003. Professor da Hope College, no Michigan, Estados Unidos, Tim observou que, quando atirava uma bolinha em linha reta na praia, seu cachorro Elvis entrava na água e nadava até alcançá-la. Porém, quando a jogava em diagonal, o cão corria um trecho em terra e, depois, entrava na água e nadava, em diagonal, até a bolinha. Tim se perguntou por que o cachorro não corria pela margem até o local onde estava a bolinha para depois entrar na água, o que formaria um ângulo reto entre a trajetória da corridae o ponto em que a bolinha estava. Ele ainda se questionou como Elvis “calculava” quanto correr pela margem antes de entrar na água, para chegar à bolinha o mais rápido possível. O modelo matemático que descreve esse “mistério” pode ser representado conforme a imagem a seguir: Esboço matemático para o problema de buscar a bolinha. Considere que o cachorro está em A e a bolinha em B. O cão deve correr pela praia até um ponto D e, em seguida, mergulhar na água e nadar diretamente até B. O problema consiste em determinar o comprimento da linha AD (x) em que o tempo total necessário para alcançar B é o menor possível. Para encontrar a resposta, é preciso conhecer os comprimentos AC e CB e as velocidades de corrida na areia e de natação do animal. De A a B. De B a C. De A a C. De A a D. Tim sabia que, para resolver o problema, era preciso usar conhecimentos de cálculo. Contudo, ele também sabia que seu cão não havia frequentado a faculdade. Portanto, munido de cronômetro e trena, Tim fez a experiência de, por várias vezes, jogar a bolinha e acompanhar seu cão, tanto correndo pela praia quanto nadando junto dele. Tim também colocou marcadores na areia no exato ponto em que o cão entrava na água (D) e, depois, onde ele saía (C). Posteriormente, em sua casa, quando fez os cálculos, confirmou sua hipótese: Elvis, em média, entrava na água no ponto (D). Elvis, na capa The College Mathematics Journal. Ainda sobre cães, outro relato interessante apresentado por Devlin diz respeito a como os cães são capazes de pegar um frisbee no ar. Os cachorros correm em um arco que termina justamente onde o disco estará quando chegar suficientemente próximo ao chão para ser abocanhado. Mas não seria mais fácil correr em linha reta? Para descobrir isso, cientistas prenderam uma máquina fotográfica pequena e um transmissor à cabeça de um cachorro. Desse modo, tentavam entender o que o animal via enquanto corria para pegar o disco arremessado. Os cientistas perceberam, pela análise das imagens, que, enquanto se locomovia em arco, a trajetória da bola parecia, para o cão, estar em linha reta! Animais sabem matemática? Para aprofundar seus estudos, confira agora a relação que a matemática estabelece com a natureza. Se os cães têm um bom instinto matemático, os gatos não ficam atrás. Todos nós ouvimos dizer que um gato cai sobre as quatro patas. Mas isso é um mito ou é verdade? Sim, é verdade! Isso só acontece porque os gatos manipulam a geometria do próprio corpo e conseguem girá-lo rapidamente, de modo que a gravidade (a única força que age significativamente sobre eles) não os atrapalhe. Nesse processo intuitivo e natural, os gatos combinam aspectos da geometria (rotação) com elementos do cálculo vetorial e da física. Segundo a lei física de conservação do momento angular, a conservação do momento angular acontece quando a grandeza física não varia, ou seja, permanece constante durante o movimento de rotação de um corpo em torno de um eixo. Isso explica que, quando um gato está caindo e virando uma parte do seu corpo, outra parte tem de virar na direção oposta. A imagem a seguir apresenta o modo como um gato consegue cair sobre as quatro patas. Primeiro, o felino se orienta virando a cabeça e, depois, arqueia as costas. Em seguida, ele torce as patas dianteiras enquanto gira as traseiras na direção oposta e, para completar a volta, torce as patas traseiras enquanto as da frente giram na direção oposta. Antes de tocar o solo, o gato arqueia mais uma vez as costas para reduzir a força do impacto, enquanto as suas patas se estendem sob o seu corpo, agindo como amortecedores naturais. Movimentos do gato durante a queda. Ao estudar o comportamento de cães e gatos, cientistas e matemáticos concluíram que a mãe natureza, via seleção natural, ao longo de milhares de anos, “equipou” os animais com um algoritmo interno capaz de resolver problemas de matemática de forma rápida e instintiva. Mas nem todos os animais são bons em cálculo. Alguns se destacam por fazerem, em suas práticas, um bom uso da geometria ou da aritmética. A geometria das abelhas e a aritmética dos coelhos Todos nós já ouvimos falar da importância das abelhas para a sobrevivência da humanidade, pois a polinização é um processo capital. Mas, o que muita gente não sabe, é que as abelhas conhecem muito bem alguns aspectos da geometria. Há muito tempo as abelhas intrigam os homens. Relatos tão antigos como os de Aristóteles (384 a.C-322 a.C) e os do matemático Papo de Alexandria (290-350) nos mostram que compreender o comportamento desse inseto instigava o homem. Por que as abelhas constroem suas células como hexágonos? Essa é a pergunta a que vamos tentar responder. Favos de mel são construções tridimensionais. Porém, para começarmos a entender melhor a questão, vamos pensar, momentaneamente, que é possível termos uma fatia finíssima de favo, o que nos permite pensá-lo como se fosse um plano bidimensional. Conforme aprendido nas aulas de geometria, sabemos que três polígonos regulares são capazes de preencher um plano quando seus lados estão “colados” um no outro, de modo que não haja “buracos”: o triângulo, o quadrado e o hexágono. O hexágono é o polígono mais difícil de ser desenhado por ter mais quantidades de lados e por ter ângulos internos medindo 120º. Lembrando que os ângulos internos do triângulo e do quadrado são, respectivamente, 60º e 90º. Detalhe de favo de mel, mostrando formas hexagonais. A justificativa para a escolha natural das abelhas em construir na forma hexagonal está na praticidade. Embora nossa intuição nos faça pensar que preencher um plano com quadrados seria mais rápido e prático, as abelhas sabem que assim teriam mais trabalho. Se pegarmos um triângulo, um quadrado e um hexágono de mesma área, ou seja, delimitando o mesmo espaço para guardar o mel produzido, a forma hexagonal é a que tem o menor perímetro. Em outras palavras, as abelhas acumulam a mesma quantidade de mel trabalhando menos e economizando cera. E isso pode ser provado matematicamente. Considere três polígonos - um triângulo, um quadrado e um hexágono -, todos com a mesma área A. As fórmulas para o cálculo da área de cada uma dessas figuras, considerando a medida de seus lados, são: Isolando l em cada uma das fórmulas, teremos: AT = l2√3 4 AQ = l2 AH = 3l2√3 2 AT = l2√3 4 → l2 = 4AT √3 → l =√ 4AT √3 → l = 2√AT 4√3 AQ = l2 → l =√AQ Agora, para determinarmos o perímetro (2p) de cada polígono, basta multiplicarmos o valor de l pelo seu número de lados: Como tomamos as áreas como sendo de mesmo valor, podem ser desprezadas para a comparação dos valores dos perímetros. Com uma calculadora em mãos, fica fácil verificarmos que: AH = 3l2√3 2 → l2 = 2AH 3√3 → l2 = 2AH 3√3 ⋅ √3 √3 → l =√ 2AH√ 9 = √2 ⋅√AH ⋅ 4√3 3 2pT = 6√AT 4√3 2pQ = 4√AQ 2pH = 2√2 ⋅√AH ⋅ 4√3 √AT ,√AQ e √AH 6 4√3 > 4 > 2√2 ⋅ 4√3 Logo, cada célula é pensada para satisfazer três necessidades: ladrilhar toda região do favo, armazenar a mesma quantidade de mel que seria armazenada se o ladrilhamento fosse feito por meio de outra figura plana, e gastar menos material e tempo nesse processo de confecção. Só que cada célula do favo de mel não é um polígono - apenas fizemos essa suposição para estudar o seu perímetro - pois, se assim não o fosse, isto é, se não tivesse fundo, o mel escorreria e não seria armazenado. Cada célula é um alvéolo que, na verdade, é um minúsculo objeto tridimensional que se assemelha a um prisma hexagonal - e aqui temos mais um exemplo da genialidade das abelhas. Um prisma hexagonal tem o fundo plano, porém o fundo de cada alvéolo é a união de 3 losangos iguais que determinam um triedro com ângulos diédricos (ângulos medidos entre planos). Como indicam as imagens a seguir, o formato do fundo permite que os alvéolos fiquem ligeiramente inclinados em relação ao plano horizontal, impedindo que o mel escorra. Representação matemáticade um alvéolo. Atualmente, depois de cálculos detalhados que utilizaram conhecimentos de cálculo diferencial, sabe-se que os ângulos diédricos são iguais a 120º. Incrivelmente, mesmo sem conhecerem números irracionais, elementos de cálculo e sem terem calculadoras, as abelhas nos mostram que são dotadas de um instinto matemático que muitos estudantes de arquitetura invejariam! Deixando as abelhas de lado, falemos agora de coelhos. Um dos grandes matemáticos medievais foi Leonardo de Pisa, também conhecido como Leonardo Fibonacci, ou apenas Fibonacci. Inspirado por seu pai, que era alfandegário, Fibonacci fez diversas viagens ao Egito, à Sicília, à Grécia e à Síria, onde conheceu a matemática oriental e árabe. Sua primeira obra marcante foi publicada em 1202, com o nome de Liber Abaci (Livro do Ábaco), no qual propunha, dentre outros, o seguinte problema: Quantos pares de coelhos serão produzidos em um ano, começando com um só par, se a cada mês cada par gerar um novo par que se torna produtivo a partir do segundo mês? A situação é ideal, pois entende que sempre nascerá um novo par. Em termos de modelo matemático, esse problema é bem interessante. Para solucioná-lo, devemos considerar que um jovem casal de coelhos atinge a idade adulta apenas no segundo mês e, portanto, só procria no terceiro mês de sua vida. Além disso, os casais que já procriaram seguirão procriando. Observe a seguir a solução gráfica esboçada. Gráfico: Representação gráfica do problema de Fibonacci. Rafael Montoito. Mês Casais 1 1 2 1 3 2 4 3 Mês Casais 5 5 6 8 Tabela: Relação entre os meses e a quantidade de casais de coelhos. Rafael Montoito. Com um olhar atento, notamos que, a cada mês, a quantidade de casais é a soma da quantidade de casais dos dois meses que o precedem. Ao compreendermos isso, fica fácil construirmos a sequência numérica infinita: , em que é um número natural que representa o número de meses e , isso porque nos 2 primeiros meses teremos apenas um casal de coelhos que ainda não procriou. Desse modo, temos a sequência de Fibonacci: 1, 1, 2, 3, 5, 8, 13, 21, 34, 55, 89, 144, 233, 377, 610, 987, 1597, 2584, assim por diante. Algo impressionante sobre essa sequência é que seus termos crescem muito rapidamente. Outro ponto é que a divisão de dois termos sucessivos, tomados na razão , tende ao número áureo. O número áureo, também chamado de proporção áurea ou divina proporção, é um número irracional representado pela letra grega , cujo valor é 1,618033989 .... O Fi é uma homenagem a Fídias, célebre escultor grego da Grécia Antiga, que considerava o em seus trabalhos, sendo talvez o mais importante e de maior imponência o an = an−1+ an−2 n n > 2 an an−1 φ(Fi) φ = 1+√5 2 ≈ φ templo grego Partenon, ou Templo das Virgens. Mas nós sabemos que Fídias não tinha calculadora, logo não se importava em expressar o valor exato em casas decimais de o que Ihe interessava era o seu aspecto estético. O número áureo surge de uma proporção que envolve dois números naturais e a soma deles, conforme representando a seguir: Representação do número áureo em segmentos de reta. A relação que origina é do tipo , com , que, ao operarmos, gera: φ− φ a b = a+b a a > b a2 = b(b+ a) Pensando e como comprimentos, ou seja, como lados de um retângulo, os gregos entendiam a igualdade acima da seguinte maneira: a área do quadrado construído sobre o segmento maior é equivalente à área do retângulo, cujos lados são o segmento menor e a linha toda. Para os gregos, um retângulo construído tendo, por lados, valores de e que satisfizessem a divina proporção era um retângulo mais agradável aos olhos, mais belo de ser admirado. Por essa razão, a fachada do Partenon é um retângulo em que o lado maior dividido pelo lado menor é igual à divisão do lado menor pela diferença do lado maior e do lado menor, como você pode conferir na imagem a seguir. Partenon com retângulo áureo ADKI. a b a b Pitágoras de Samos, fundador da Escola Pitagórica, também utilizava o número áureo em seus trabalhos de geometria, principalmente na construção do pentagrama ou do pentágono estrelado. Para Pitágoras, esse número tinha um quê de místico que o tornava especial. Na imagem a seguir, há o desenho do pentágono ABCDE com suas cinco diagonais traçadas. Pitágoras observou a forma de uma estrela cujos lados se intersectavam nos pontos , e , formando um pentágono regular. O desenho ainda revelava diversos pares de triângulos congruentes. O mais impressionante era que os segmentos marcados em cada diagonal geravam a proporção áurea. Por exemplo, se tomarmos . Pentagrama pitagórico. A′,B′,C ′ D′ E ′ DE′ Ē ′B = DE+E ′B DE ′ ––– – A proporção áurea foi amplamente aplicada em muitas áreas da arte com o passar dos anos, veja alguns casos a seguir: 1. Leonardo da Vinci teria feito uso dessa proporção para pintar a Monalisa e para desenhar o Homem vitruviano. 2. Assim como o Partenon, a fachada principal da Catedral de Notre- Dame, em Paris, tem seus elementos distribuídos de modo a contemplarem a proporção áurea. 3. Por meio do estudo que associa as notas musicais a comprimentos, pesquisadores perceberam que o número de ouro também está presente nas Sinfonias de número 5 e 9 de Ludwig van Beethoven. Mas voltemos aos coelhos. Para comprovar o que afirmamos antes, vamos relembrar a sequência numérica gerada pelo problema de Fibonacci: 1, 1, 2, 3, 5, 8, 13, 21, 34, 55, 89, 144, 233, 377, 610, 987, 1597, 2584, assim por diante. Agora, dividiremos dois números consecutivos, a partir do segundo, tomando como denominador o anterior ao numerador: 1 1 = 1 2 1 = 2 3 2 = 1, 5 5 3 = 1, 66666666… 8 5 = 1, 6 13 8 = 1, 625 21 13 = 1, 61538462… 34 21 = 1, 61904762… 55 34 = 1, 61764706… 89 55 = 1, 61818182… 144 89 = 1, 6179775… 233 144 = 1, 61805556… 377 233 = 1, 61802575… 610 377 = 1, 61803714… 987 610 = 1, 61803279… 1597 987 = 1, 61803445… 2584 1597 = 1, 61803381… (...) A divisão do décimo sétimo termo da sequência de Fibonacci pelo seu anterior resulta em 1,61803381... o que já dá uma excelente aproximação com , pois as seis primeiras casas decimais são iguais. Como a sequência de Fibonacci é infinita, quanto mais termos atribuirmos a ela, mais próximo de ficará o valor do quociente entre um termo qualquer e seu antecessor. Quem diria que os coelhos sabem guardar os segredos místicos e estéticos de um número irracional! Sugestões para a prática docente E agora professor? Vamos construir um pouco de sua prática? A ideia é que a compreensão desses objetos desperte formas de estimular e alcançar o aprendizado de seus alunos. Para tanto, é muito interessante a construção de modelos e práticas que oportunizem seus alunos a perceber o conhecimentos que aqui você foi provocado a pensar. Leia a seguir algumas sugestões de práticas que podem ajudar a deixar suas aulas de matemática mais desafiadoras e agradáveis. Peça aos seus estudantes que criem um quadro como as obras de Mondrian. Para uma abordagem mais pedagógica, coloque algumas exigências. Por exemplo, delimite a área ou a cor de alguns retângulos ou quadrados. φ = 1, 618033989… φ Proponha aos estudantes que façam algumas fotos de situações que evidenciem a existência de um ponto de fuga, como viram nos quadros renascentistas. A partir do estudo do número de ouro, solicite aos estudantes uma pesquisa sobre a Espiral de Fibonacci, tanto na natureza quanto em cartazes e propagandas. Falta pouco para atingir seus objetivos. Vamos praticar alguns conceitos? Questão 1 Sobre a matemática na natureza, podemos afirmar que a capacidade humana está em observar, perceber padrões, elaborar formulações e reproduzir situações análogas. Assinale a seguir a afirmativa que apresenta esse exercício humano de construção da linguagem matemática. A Favos de mel são construções tridimensionais; porém, percebemos primeiro sua forma em um plano bidimensional,depois como a mesma estrutura se expande em todas as direções, e graças à forma, não sobra, tem-se um padrão. Parabéns! A alternativa A está correta. O favo de mel não determina a matemática, mas o estudo da matemática torna compreensível a adoção dos elementos naturais B Favos de mel explicam e fundamentam a idade de que só há três polígonos regulares capazes de preencher um plano, quando seus lados são “colados” um no outro, de modo que não haja “buracos” entre eles: o triângulo, o quadrado e o hexágono. C Percebemos que o triângulo é o mais difícil de ser desenhado, tanto devido a uma maior quantidade de lados quanto em razão dos ângulos internos do triângulo (60º) ou do quadrado (90º). D Reproduções do favo de mel são mais fáceis de serem determinadas – os ângulos internos medem, cada um, 120º. E A matemática não deve ser associada à natureza, sendo algo do intelecto e da capacidade humana em desenvolver seu pensamento abstrato. à sua composição. Não é uma análise das abelhas, mas do homem observando a natureza e percebendo seu sentido a organizando. Questão 2 Os animais realizam operações matemáticas, e a construção de que eles executam cálculos complexos como se estivessem no ensino superior é uma inversão da compreensão matemática. Essa defesa se dá a partir da compreensão de que A a matemática é a única ciência que mamíferos se aproximam. B a matemática é possível de ser entendida por animais. C a matemática é a manifestação de uma força superior. D a matemática coincide acidentalmente com práticas parecidas da natureza. Parabéns! A alternativa E está correta. A matemática é uma linguagem humana e interpretativa, a partir da observação e expressão de fenômenos e problemas. É na observação da natureza e das investigações de como funciona o mundo que a linguagem pode atingir o processo de interpretação humana de fenômenos naturais. Considerações �nais Ao longo deste conteúdo, estudamos as relações da matemática com outras linguagens. Abordamos alguns tópicos de História da Arte e da natureza que nos rodeia, mas há muitos outros exemplos que merecem ser pesquisados e conhecidos. Não é possível afirmarmos que os pintores ou os animais usam a matemática de um modo racional naquilo que fazem - os pintores, E a matemática é uma linguagem. talvez, mas também não podemos descartar a possibilidade de vários deles fazerem uso apenas de suas intuições. De todo modo, a questão mais importante para o professor de matemática não é saber se sua ocorrência foi proposital, e sim “lê-la” onde ela se dá a conhecer. Em outras palavras, o professor enxerga a matemática em outras linguagens nas quais aparece com maior ou menor ênfase. Essa é a ideia de uma apropriação pedagógica fruto de muito estudo e pesquisa. Quando o professor consegue perceber presenças da matemática no mundo, torna-se capaz de levá-la para a sala de aula a partir daquilo que observou, contribuindo para aulas mais diversificadas, potencialmente ricas, e que ajudarão a desfazer o mito de que a matemática é uma disciplina difícil e chata. Podcast Confira agora a matemática como uma criação humana e as principais relações que estabelece com a natureza. Explore + Confira as indicações que separamos especialmente para você! Leia o livro Fazendo arte com a matemática, de Estela Kaufman Fainguelernt e Katia Regina Ashton Nunes (Artmed, 2006), e descubra novas possibilidades de utilizar algumas pinturas nas aulas de matemática. Leia o livro As Irmãs Rebeldes: encontro com as geometrias não euclidianas, de Rafael Montoito (Appris, 2021), no qual o autor apresenta, com linguagem simples, algumas das geometrias não euclidianas. Leia o livro O Gene da Matemática: o talento para lidar com números e a evolução do pensamento matemático, de Keith Devlin (Record, 2008), outra obra na qual o autor ajuda a desmistificar a ideia de que a matemática é uma ciência difícil que apenas poucos têm a capacidade de compreender. Assista à animação da Disney Donald no País da Matemática, que mostra várias curiosidades da matemática que podem ser úteis para introduzir conteúdos em sala de aula. Referências CONTADOR, P. R. M. A matemática na arte e na vida. São Paulo: Livraria da Física, 2007. DEVLIN, K. O instinto matemático: por que você é um gênio da matemática [assim como lagostas, pássaros, gatos e cachorros]. Rio de Janeiro: Record, 2009. JANOS, M. Matemática e natureza. São Paulo: Livraria da Física, 2000. PENNINGS, T. J. Do dogs know calculus? The College Mathematics Journal, v. 34, n. 3, 2003. PICKOVER, C. A. O livro da matemática: de Pitágoras à 57ª dimensão, 250 Marcos da História da Matemática. Madri: Librero, 2011. RAFAEL, D. M.; SALLUN, E. M. As abelhas conhecem geometria? [oficina]. Centro de Aperfeiçoamento do Ensino de Matemática, IME-USP, 2015. Consultado na internet em: 10 de mar. 2022. Material para download Clique no botão abaixo para fazer o download do conteúdo completo em formato PDF. Download material O que você achou do conteúdo? javascript:CriaPDF() Relatar problema