Prévia do material em texto
Esta página foi deixada em branco intencionalmente.
Etiopatogenia das alterações
pulpares e periapicais
ALEXANDRE A. ZAIA
CONSIDERAÇÕES GERAIS
Um dos problemas que o profissional da área odontológica encontra na Endodontia
é a dificuldade em fechar um correto diagnóstico das alterações pulpares e peria
picais. Diferentemente de outras especialidades da Odontologia, na Endodontia, o
profissional não tem uma visão direta das áreas comprometidas. O fato de não poder
visualizar diretamente as alterações que ocorrem nesses tecidos dificulta o entendi
mento dos eventos que acontecem, desde a iniciação de um processo inflamatório,
sua evolução e sua correlação com os sintomas clínicos.
Apesar dessa dificuldade, é importante entender que o problema mais comum
que ocorre na polpa e no periápice é a inflamação, que não deve ser considerada uma
doença, mas um mecanismo de defesa do tecido conjuntivo contra microrganismos
e seus subprodutos que alcançam o tecido pulpar, em geral, por um processo de cá
rie. Essa relação entre a inflamação pulpar e bactérias está bem definida desde que
Kakehashi e colaboradores' mostraram, em ratos germ-free (livres de bactérias), que,
mesmo depois de a polpa dental ficar exposta na cavidade bucal, não ocorre necrose
pulpar.
A polpa dental é um tecido conjuntivo vascularizado; portanto, quando bactérias e/ou sub
produtos atingem esse tecido, inicia-se um processo inflamatório de defesa na área afetada.
A inflamação é um processo sistêmico que pode acontecer em qualquer tecido vasculariza
do do organismo como mecanismo de defesa, independentemente da localização.
O primeiro evento do processo inflamatório é uma resposta vascular, em que
capilares da região sofrem vasodilatação e aumento da permeabilidade, permitindo
uma saída maior de liquido e células inflamatórias (glóbulos brancos) que circulam
22 Francisco José de Souza Filho (Organizador)
nos vasos sanguíneos. O volume de líquido e células que saem dos vasos está dire
tamente associado à quantidade e aos tipos de microrganismos envolvidos. Quanto
maior a quantidade e a virulência dos agentes irritantes, maior a resposta vascular e
a saída de líquidos e células. Isso acarreta um aumento de volume da região (edema).
Na polpa dental, a resposta inflamatória tem início quando bactérias ou seus
subprodutos a atingem a partir da permeabilidade dos túbulos dentinários. O com
portamento da polpa frente às agressões difere do comportamento de outros tecidos
conjuntivos pelo fato de estar localizada no interior de um espaço com paredes duras
que impede a distensão do tecido quando ocorre o edema, gerando um aumento da
pressão na região. Essa pressão estimula as terminações nervosas e inicia um estímu
lo doloroso. Quando o aumento de volume ocorre de forma rápida, a sensação dolo
rosa pode se tomar intensa e espontânea. Portanto, a dor decorrente da inflamação é
a principal queixa que acomete o tecido pulpar e periapical e que leva o paciente ao
consultório em busca de tratamento.
EVOLUÇÃO DO PROCESSO INFLAMATÓRIO PULPAR
A sequência de cortes histológicos a seguir mostra a evolução da necrose a partir da
exposição pulpar feita em dentes de ratos.2
Na Figura 1.1, pode-se observar que, na porção mais coronária, o tecido pulpar
encontra-se necrosado. Na porção inferior da área de necrose, existe uma intensa
concentração de células inflamatórias (neutrófilos) na tentativa de barrar a dissemi
nação das bactérias e toxinas e isolar os agentes agressores. Logo abaixo, pode-se ob
servar o tecido pulpar vital com presença de vasos sanguíneos dilatados, o que pos
sibilita a saída das células de defesa (glóbulos brancos do sangue), que se acumulam
na área onde existe a invasão bacteriana. Na região mais apical, é possível observar
um tecido pulpar com características praticamente normais, com poucos vasos san
guíneos. Tais achados histológicos podem ser correlacionados com as características
clínicas da pulpite irreversível, ainda sem nenhum sintoma na percussão, uma vez
que resta uma porção de polpa vital no terço apical do canal. Portanto, o tratamento
endodôntico deve ser realizado sob anestesia local.
A Figura 1.2 mostra uma intensa resposta inflamatória no ligamento periodontal
apical com a presença de vasos dilatados e reabsorção óssea. Esse quadro histológico
•
' •
Área com intenso infiltrado
de neutrófilos
•FIGURA 1.1
O corte histológico mostra intenso infiltrado inflama
tório com predomínio de neutrófilos (seta). Pode-se
observar que a inflamação evoluiu no sentido a picai;
no entanto, um tecido pulpar ainda vital pode ser vis
to no terço apical.
Endodontia passo a passo 23
é compatível com pericementite. Nesse estágio, clinicamente, o dente já apresenta
dor à percussão. O tempo para que a inflamação periapical inicial (pericementite) se
transforme em abscesso não é possível de ser determinado devido a inúmeras variá
veis que envolvem o processo.
FIGURA 1.2 ....
Área periapical com intensa
proliferação vascular
Corte histológico mostrando a inflamação no liga
mento periodontal apical com intensa proliferação
vascular e aumento do espaço periodontal.
A Figura 1.3 mostra um grande número de células inflamatórias (neutrófilos)
concentradas na embocadura do forame para evitar a disseminação de microrganis
mos. O aumento de pressão na área periapical deve ser o principal fator de estímulo
para essas células iniciarem a reabsorção óssea, criando um espaço para a formação
de um tecido de defesa compatível com uma lesão periapical crônica (granuloma),
cuja função é impedir a disseminação de bactérias oriundas do canal radicular. O
granuloma é a área onde bactérias são destruídas pelo sistema de defesa. Se o canal
radicular não for tratado de forma eficiente, esse tecido de granulação persistirá na
área periapical.
Área com intensa
concentração de células
inflamatórias
Aumento do espaço e
inflamação periapical
•FIGURA 1.3
Corte histológico mostrando necrose total da polpa
dental e região periapical com reação inflamatória
característica de granuloma.
O estado inflamatório periapical pode variar, a qualquer momento, de crônico
para agudo ou vice-versa, dependendo do tipo e da quantidade de bactérias que al
cançam esse tecido. Na Figura 1.4, pode-se observar, na região periapical, um intenso
infiltrado de neutrófilos e a presença de área de destruição tecidual sugestiva de for
mação de abscesso.
24 Francisco José de Souza Filho (Organizador)
Área com intensa
proliferação de
neutrófilos e espaços
característicos de -'--~~ªb_s_ce_~_º.......-~__, \
•'
FIGURA 1.4 ....
Corte histológico mostrando área periapical de dente
com polpa necrosada com a presença de inflamação
periapical e áreas de microabscesso.
•
A Figura 1.5 mostra, radiograficamente, a área radiolúcida periapical sugestiva
de granuloma. É interessante notar a inflamação do ligamento periodontal associada
ao forame apical, canal de comunicação entre o sistema de canais radiculares e o
ligamento periodontal.
Nas outras áreas do ligamento periodontal não há inflamação, como se observa
na radiografia (existe a lâmina dura). Diante desse fato, é possível concluir que, para
o sucesso do tratamento endodôntico, são fundamentais a limpeza e o selamento
do forame apical, impedindo que bactérias e seus subprodutos possam alcançar o
ligamento periodontal. A completa remissão da inflamação e a formação de novo
trabeculado ósseo caracterizam o sucesso do tratamento endodôntico.
~FIGURA 1.5
Radiografia do dente 12 com área rad iolúcida peria
pical.
REFER~NCIAS
1. Kakehashi S, Stanley HR, Fitzgerald RJ. The effects of sur·
gical exposure of dental pulps in germ-&ee and conven·
tional laboratory rats. Oral Surg Oral Med Oral Pathol.
1965;30:340·9.
LEITURAS RECOMENDADAS
Kumar V. Abbas AK, Fausto N. Robbins & Cotran: patologia: bases
patológicas das doenças. 7. ed. Rio de Janeiro: Elsevier; 1999.
JOE Editorial Board.Períradicular lesions not of endodontíc ori·
gin: an online study guide. J Endod. 2008;34(5 Suppl):e205·8.
JOE Editorial Board. Immunologic reactíons and endodontics: an
online study guide. J Endod. 2008;34(5 Suppl):el81·6.
Morse DR. Immunologic aspects of pulpal-periapical diseases: a
rewiew. Oral Surg Oral Med Oral Pathol. 1977;43(3):436-5.
Endodontia passo a passo 25
2. Teixeira, FB. Análise comparativa do desenvolvimento de
lesões periapicais em ratos normais, xerostômicos e xerostô·
micos-ímunossuprimidos [dissertação]. Faculdade de Odon·
tologia, Universidade Estadual de Campinas; 1997.
Nair PN. Pathogenesis of apical períodontítís and the cause of en·
dodontic failures. Crit Rev Oral Biol Med. 2004;15(6):348·81.
Ricucci D, Siqueira JF. Biofims and apical periodontitis: study of
prevalence and assodation with clinicai and histopathologic
findings. J Endod. 2010;36:1277-88.
Trowbridge HO, Stevens BH. Microbiologic and pathologic aspects
of pulpal and periapical disease. Curr Opín Dent. 1992;2:85·
92.
Microbiologia aplicada
BRENDA P. F. A. GOMES
CONSIDERAÇÕES GERAIS
Em condições normais, o esmalte dental é a principal barreira natural que impede
que os microrganismos presentes na cavidade oral afetem a dentina e ingressem na
cavidade pulpar. A cárie dental é o principal fator de contaminação do canal radi
cular, e os túbulos dentinários são as vias de acesso de toxinas e bactérias para a
cavidade pulpar.
Em princípio, após a necrose pulpar, nas infecções primárias, todas as espécies
de microrganismos existentes na cavidade oral podem colonizar o espaço pulpar,
mas alguns fatores interferem na seleção das espécies no interior dos canais ra
diculares. A grande maioria dessa microbiota é composta por bactérias, embora
vírus, fungos, leveduras e archaea também possam ser encontrados nos canais ra
diculares.
Os microrganismos no canal radicular com polpa necrosada encontram um ambiente apro
priado para sua proliferação. Alguns fatores favorecem essa proliferação: ausência de célu
las de defesa, temperatura ideal, nutrição, teor de oxigênio e C02•
Com o decorrer do tempo e com a mudança ambiental, ocorre um equihbrio,
uma seleção natural e simbiose das espécies bacterianas que se adaptam ao meio com
baixo potencial de oxidorredução, pH ácido e interações positivas e negativas entre
bactérias, entre outros fatores. Nesse microssistema, comunidades bacterianas vão
sendo formadas, favorecendo o estabelecimento de microrganismos facultativos no
terço coronário e médio do canal e de microrganismos anaeróbios estritos no terço
apical.
Endodontia passo a passo 27
LOCAL DA 1 N FECÇÃO
Com a necrose pulpar, a população microbiana, no início, fica suspensa no lúmen
do canal radicular (forma planctônica), com uma grande variedade de cocos, bacilos
e formas filamentosas. Nessa fase inicial, o forame apical é a via de acesso para que
bactérias e suas toxinas atinjam o periápice e estimulem uma resposta inflamatória
aguda no tecido conjuntivo periapical (pericementite).
Com o decorrer do tempo, as bactérias com capacidade de aderir nas paredes
do canal formam colônias (forma séssil), em biofilmes organizados, favorecendo o
estabelecimento de microrganismos facultativos no terço coronário e médio do canal
e de anaeróbios estritos no terço apical.
O fator tempo de contaminação é fundamental para que ocorram tais mudanças.
A multiplicação bacteriana na superfície da dentina (biofilme), por meio da divisão
celular, provoca o deslocamento dos microrganismos para o interior dos túbulos den
tinários (Figuras 2.1e2.2), que ocupam esse espaço, numa profundidade que varia de
acordo com sua amplitude. Nos terços cervical e médio do canal radicular, podem ser
encontradas em até 300 µm da luz do canal 1 e, no terço apical, cerca de 40 µ. '
.Ã FIGURA2.1
Corte histológico mostrando a presença de bactérias
no interior dos túbulos dentinários (coloração Brown
& Brenn).
.Ã FIGURA 2.2
Fotomicrografia de varredura mostrando bactérias
no interior dos túbulos dentinários.
As colônias bacterianas organizadas em biofilme ocupam todas as paredes doca
nal até o forame apicaL Nos dentes com lesão periapical, é evidente a ocupação dessa
região pelo bioftlme bacteriano, responsável pela manutenção da inflamação crônica
na região (granulomas ou cistos).
Clinicamente, não importa se a necrose é recente ou se já houve tempo para
a formação de lesão periapical. O tratamento consiste na limpeza do substrato
orgânico e do biofilme das paredes do canal, istmos e reentrâncias, na modelagem
cônica do canal, sobretudo no terço apical, e no selamento tridimensional desse
espaço.
28 Francisco José de Souza Filho (Organizador)
INFECÇÃO PRIMÁRIA E SECUNDÁRIA
Embora didaticamente as infecções endodônticas sejam divididas em primárias ou se
cundárias, a composição da microbiota do canal radicular nessas condições depende,
basicamente, das alterações ambientais e do tempo decorrido desde o início da infecção.
A infecção primária ocorre concomitantemente à necrose do tecido pulpar e
consiste em infecções polimicrobianas dominadas por bactérias anaeróbias gram
-negativas e gram-positivas. A maioria dos autores concorda que a carga bacteriana
e sua diversidade são maiores no grupo da infecção primária, porém são facilmente
eliminadas pela adequada instrumentação dos canais radiculares, sobremaneira nos
períodos mais curtos desde a ocorrência da necrose pulpar. A presença de lesão pe
riapical (Figura 2.3) indica que maior período de tempo decorreu desde a necrose
pulpar e, seguramente, nessa fase, o biofilme bacteriano apresenta-se mais organiza
do e maduro e envolve as paredes do canal incluindo o forame apical.
A infecção secundária apresenta uma microbiota característica, que difere da
quela encontrada normalmente nas infecções primárias, tanto quantitativa como
qualitativamente. As espécies predominantes de microrganismos são gram-positivos
(estritos ou facultativos), espécies que conseguem sobreviver à insuficiência de nu
trientes e se adaptam a condições ambientais inóspitas, características de dentes que
já passaram por um tratamento endodôntico prévio malsucedido.
~FIGURA 2.3
Radiografia peria picai do dente 15 com tratamento
endodôntico incompleto e lesão periapical.
INFECÇÕES EXTRARRADICULARES AGUDAS
As infecções extrarradiculares podem ser agudas ou crônicas e são originadas a partir
de uma infecção primária ou secundária do canal radicular. A forma mais comum das
infecções extrarradiculares agudas são os abscessos apicais. As comunidades micro
bianas presentes nesses abscessos são complexas, com predomínio de microrganismos
anaeróbios (cerca de 90% dos isolados), principalmente de bacilos gram-negativos e
cocos gram-positivos. A presença concomitante de anaeróbios facultativos favorece o
desenvolvimento de quadros clínicos mais graves, pois esses microrganismos utilizam
o oxigênio, preparando o ecossistema para a instalação dos anaeróbios estritos.
Admite-se que microrganismos com elevada capacidade de invasão e agressão
tecidual, tais como as espiroquetas do grupo Treponema, estejam frequentemente as
sociados a abscessos apicais agudos.
Desde que o tratamento endodôntico tenha sido executado de maneira adequa
da, a infecção extrarradicular aguda passa a ser mediada pelos mecanismos naturais
de defesa do hospedeiro, normalmente facilitada pela drenagem do abscesso.
Endodontia passo a passo 29
INFECÇÕES EXTRARRADICULARES (BIOFILME)
A formação de biofilme na superfície radicular externa ocorre em condições muito
especiais, em que existe sempre uma comunicação do ápice radicular com o meio da
cavidade oral através de fístula, lesão endopério ou comunicação por dentes abertos
para drenagem por longo período de tempo, trinca ou fratura ao longo da raiz.
O biofilme periapical é composto por diferentes tipos morfológicos de micror
ganismos, que estão aderidos ao cemento/dentina que circundao ápice. Os micror
ganismos estão envoltos por uma camada de polissacarídeo que funciona como um
escudo e podem atingir 50 a 100 µm em espessura (Figura 2.4). São resistentes à ação
de antibióticos (cerca de 1.500 a 8.000 vezes) e grandes o suficiente para frustrar o
sistema imunológico. Dentre as espécies associadas à formação de bioftlme extrarra
dicular estão incluídas Actinomyces spp. e Propionibaderium spp .
.... FIGURA2.4
Corte histológico mostrando bactérias (biofil
me bacteriano) na superfície da parede doca
nal radicular (coloração Brown & Brenn).
Os sinais e sintomas que indicam a presença de bioftlme extrarradicular são fa
cilmente detectados, uma vez que sempre existe a associação de uma lesão periapical
(radiográfica) com uma fístula que persiste, mesmo após um tratamento endodônti
co bem-realizado. É interessante lembrar que, imediatamente após a instrumentação
e obturação do canal radicular, a fístula costuma desaparecer, porém surge novamen
te decorrido algum período de tempo.
Apenas um pequeno número de casos de insucesso do tratamento ou retrata
mento endodôntico se deve à presença do bioftlme instalado na superfície externa,
com necessidade de intervenção cirúrgica.
ENDOTOXINAS
Algumas bactérias, principalmente as anaeróbias gram-negativas (i.e., Prevotella spp.,
Porphyromomas spp., Fusobacterium spp.), predominantes em infecções primárias, es
tão envolvidas na manifestação clínica dos sinais e sintomas de origem endodôntica.
As bactérias gram-negativas possuem, em sua membrana externa, os lipopolissacarí
deos (LPSs), ou endotoxinas, que são liberados durante a divisão celular ou lise celular.
As endotoxinas estão envolvidas na destruição tecidual de forma indireta, estimulando
a liberação de mediadores químicos por parte das células de defesa do hospedeiro,
podendo causar dor pela liberação de bradicinina. Na presença de sintomas clínicos
como dor, há maior concentração de bactérias anaeróbias gram-negativas.
30 Francisco José de Souza Filho (Organizador)
As bactérias gram-positivas (i.e., Enterococcus spp., Streptococcus spp., Acti
nomyces spp.) possuem uma exotoxina, composta pelo ácido lipoteicoico, que tem
como característica principal a aderência. Apresentam uma camada mais espessa de
peptideoglicanos, o que confere maior resistência a esses microrganismos.
Nos canais assintomáticos, predominam bactérias gram-positivas. Quando as
gram-negativas estão em sinergismo com as gram-positivas, sua virulência é aumen
tada e, consequentemente, a manifestação dolorosa é mais intensa.
É correto concluir que não há tratamento específico para combater as diferentes
espécies de microrganismos no interior do canal radicular. O tratamento, unicamen
te, consiste em desorganizar a estrutura do biofilme por meio da instrumentação das
paredes do canal radicular, combater os microrganismos com substâncias químicas
auxiliares, remover do interior dos canais o substrato orgânico desorganizado p ela
instrumentação mediante uma irrigação ativa e, por frm, obturar tridimensional
mente o espaço do canal radicular com cimento endodôntico.
REFERÊNCIA
L Love RM, Jenkinson HF. Invasion of dentinal tubules by oral
bacterias. Crit Rev Oral Biol Med. 2002;13(2):171-83.
LEITURAS RECOMENDADAS
Gomes BPFA. Microrganismos, quais são, onde estão, que danos
causam? In: Cardoso RJA, Gonçalves EAN, organizadores.
[Anais] do 20° Congresso Internacional de Odontologia de
São Paulo, Arte, Ciência e Técnica - Endodontia e Trauma.
São Paulo: Artes Médicas; 2002a. p. 77-98. v. 2.
Gomes BPFA, Montagner F, Martinho F. Aspectos microbiológicos
das infecções endodônticas: conceitos e aplicações. ln: Kriger
L, Moysés SJ, Moysés ST, organizadores. Microbiologia e imu
nologia geral e odontológica. São Paulo: Artes Médicas; 2013.
(Série ABENO: Odontologia Essencial).
Gomes BPFA, Pinheiro ET, Gadê-Neto CR, Sousa EL, Ferraz CC,
Zaia AA, et ai. Microbiological examination of infected dental
root canais. Oral Microbiol Immunol 2004;19:71-6.
Marinho ACS, Martinho FC, Zaia AA, Ferraz CC, Gomes BP.
Influence of the apical enlargement size on lhe endoto
xin levei reduction of dental root canais. J Appl Oral Sei.
2012;20(6):661-6.
Pinheiro ET, Gomes BP, Ferraz CC, Sousa EL, Teixeira FB, Souza
Filho FJ. Microrganisms from canais of root-filled teeth with
periapical lesions. Int Endod J. 2003;36(4):267-75.
Ricucci D, Siqueira JF. Biofilms and apical periodonlitis: study of
prevalence and association with clinicai and histopathologic
findings. J Endod. 2010;36:1277-88.
Siqueira JF Jr, Rôças IN. Exploiting molecular methods to explore
endodontic infections: part 1: current molecular technologies
for microbiological diagnosis. J Endod. 2005a;31:41 l-23.
Siqueira JF Jr, Rôças IN. Exploiting molecular methods to explore
endodontic infections: part 2: redefining the endodontic mi
crobiota. J Endod. 2005b;31:488-98.
Sousa ELR. Análise microbiológica de canais radiculares asso
ciados a abscessos periapicais e a suscetibilidade de bacté
rias anaeróbias prevalentes frente a diversos antibióticos
[tese]. Piracicaba: Faculdade de Odontologia de Piracicaba;
2003.
Vianna ME. Microbiologia e tratamento das infecções endodôn
ticas [tese). Piracicaba: Faculdade de Odontologia de Piraci
caba; 2006.
Reparação apical e periapical
OSLEI PAES DE ALMEIDA
CONSIDERAÇÕES GERAIS
A reparação é o restabelecimento da normalidade de uma área tecidual destruída,
podendo ser semelhante à arquitetura original (regeneração) ou o simples preenchi
mento por tecido fibroso (cicatrização). No seu sentido mais estrito, a regeneração
ocorre no ser humano apenas nas primeiras seis semanas de vida fetal, mas é aceito
que a regeneração também ocorra no período pós-natal e que dependa de fatores
locais como extensão da lesão e tecido envolvido. Talvez seja mais simples conside
rar que, na maioria das vezes, a reparação envolva, simultaneamente, fenômenos de
regeneração e de cicatrização em proporções variáveis, e um dos dois termos é usado
quando há evidente predomínio de um desses processos.
O termo reparação parece ser mais adequado para tecido ósseo, polpa, periodon
to e periápice. Para compreender melhor tal nomenclatura, deve-se recordar que os
principais conceitos de inflamação e reparação foram estabelecidos a partir de feridas
da pele e, posteriormente, extrapolados para outros órgãos - portanto, nem sempre
se aplicam perfeitamente.
Em tecidos formados por células com alta capacidade proliferativa (células lá
beis), como epitélio de pele e mucosas, ou com boa capacidade de renovação celular
(células estáveis), como o fígado, a substituição das células lesadas ocorre sobretudo
por regeneração. Entretanto, mesmo nesses tecidos, se a destruição é contínua e ex
tensa, a reorganização tecidual torna-se mais difícil, havendo preenchimento da área
por material fibroso, essencialmente colágeno, caracterizando a cicatrização. No fíga
do, essa substituição por tecido fibroso é chamada de cirrose, comum em alcoólatras
ou portadores de hepatites B ou C crônicas. Por outro lado, nos tecidos sem capaci
dade de substituição das células originais por novas (células permanentes), como as
fibras cardíacas ou os neurônios, a reparação é sempre feita por cicatrização.
32 Francisco José de Souza Filho (Organizador)
A cicatrização implica perda de função da área, como ocorre no coração, no cé
rebro ou mesmo na pele, com a destruição de folículos pilosos, terminações nervosas
e glândulas sebáceas e sudoríparas. A cicatrização pode ser considerada um processo
mais simples que a regeneração, levando, às vezes, a sequelas indesejáveis. Há evidên
cias de que essa formação rápida de tecido fibroso pode dificultar ou impedir a rege
neração, que, biologicamente, é a maneira mais adequada de restaurar a arquitetura e
a função de uma área destruída. De modo geral, quanto menos intensa a inflamação e
a destruição tecidual, maiores as possibilidadesde ocorrer regeneração, e vice-versa.
Como a inflamação, a reparação é um processo complexo, envolvendo células
que sofrem modificações genéticas e fenotípicas, com ativação de mecanismos in
tra e intercelulares, que precisam funcionar de forma organizada para restabelecer a
função da área alterada. Quanto maior o conhecimento das interações célula-célula,
célula-matriz extracelular, da apoptose e da participação de moléculas como citoci
nas e fatores de crescimento, maiores as possibilidades de regeneração/cicatrização.
INFLAMAÇÃO E REPARAÇÃO
Para exemplificar, resumidamente, a sequência de eventos da inflamação e reparação,
considere-se uma lesão causada por bactérias que penetraram no tecido conjunti
vo da pele. Por meio da inflamação, o organismo procura primeiramente eliminar
o agente agressor. No começo, há aumento de permeabilidade vascular de peque
nos vasos, mediada por substâncias vasoativas, sobretudo histamina, liberada por
mastócitos. O edema da área é resultado da saída de plasma e, posteriormente, de
leucócitos, predominando no início os neutrófilos, que vão fagocitar as bactérias. A
interação entre os elementos agressores e de defesa do organismo causa destruição
tecidual. Com a eliminação das bactérias, o tecido necrosado que restou precisa ser
também removido, e isso é feito principalmente pelos macrófagos. Dependendo da
extensão da lesão, pode ocorrer regeneração da área ou, mais provavelmente, predo
mínio da cicatrização.
Na cicatrização, dependendo da extensão da área lesada, há maior ou menor pro
liferação de novos vasos e também de fibroblastos, que, paulatinamente, vão substi
tuindo as células inflamatórias e o tecido necrótico. Os fibroblastos começam a for
mar matriz amorfa e fibrilas de colágeno que, de maneira gradativa, substituem os
vasos e fibroblastos, eliminados por apoptose. O tecido de transição entre a resposta
inflamatória e a cicatrização é chamado de tecido de granulação. Esse termo vem
de "grânulo': visto que os vasos neoformados na pele ficam dispostos perpendicu
larmente à superfície e, macroscopicamente, as alças formadas dos pequenos vasos
na região mais superficial assemelham-se a pequenos grãos avermelhados devido à
presença das hemácias do sangue. O termo "tecido de granulação" não deve ser con
fundido com tecido ou reação granulomatosa, que se caracteriza pela presença de
granuloma nas inflamações crônicas.
A reparação na forma de cicatrização ou regeneração vai ocorrer quando o agente agres
sor - bactérias ou tecido necrosado - é eliminado e a inflamação não é mais necessária. Se
o agente agressor não for eliminado, a inflamação, como mecanismo de defesa, persiste e
passa a ser chamada de crônica.
Endodontia passo a passo 33
Como sabido, a inflamação aguda caracteriza-se, clinicamente, por edema e dor
e, histologicamente, por permeabilidade vascular e presença de neutrófilos. A crô
nica, como o próprio nome diz, é de duração mais longa, menor sintoma clínico
e acúmulo de células mononucleares, como linfócitos, plasmócitos e macrófagos,
além de apresentar fenômenos proliferativos por meio dos fibroblastos. A maioria
das inflamações crônicas tem a participação dos fenômenos imunológicos, visto que
os agentes agressores, em geral, têm propriedades antigênicas. Na dependência do
agente agressor e de corpos estranhos, como partículas de sílica e fio de algodão, a
inflamação crônica se caracterizará pela formação de granulomas, cuja célula central
predominante é o macrófago e seus derivados, como as células gigantes multinuclea
das. Portanto, a reação granulomatosa é bem distinta do tecido de granulação.
Por outro lado, o termo granuloma - usado para as lesões periapicais - não tem
o mesmo significado descrito antes para as inflamações granulomatosas. É uma in
flamação crônica causada por bactérias presentes no canal radicular, com partici
pação de fenômenos imunológicos, mas que, histologicamente, não tem formação
de granulomas. É mais uma vez uma extrapolação do significado original, visto que
também é uma inflamação crônica e, macroscopicamente ou mesmo radiografica
mente, a lesão assemelha-se a um grânulo em torno do periápice, mas do ponto de
vista histopatológico corresponde a uma inflamação crônica inespecífica e não gra
nulomatosa que, às vezes, é também chamada de específica, quando há possibilidade
de determinar o agente causal. Como ocorre no processo inflamatório de modo geral,
numa inflamação crônica a normalidade também será restabelecida apenas após a
eliminação do agente agressor e a reparação da área.
REPARAÇÃO DO PERIÃPICE
Considere-se agora alguns pontos da reparação do periápice, que basicamente se
guem os princípios antes descritos. Os termos "regeneração" ou "cicatrização" não
são usados para o periápice por não representarem claramente um ou outro processo,
embora a função da área costume ser restabelecida. Além disso, há participação de
neoformação do tecido ósseo adjacente e, para osso, o termo mais aceito é simples
mente reparação. O tecido ósseo tem boa capacidade de reparação, visto que também
é um tipo de tecido conjuntivo, porém calcificado.
Na doença periodontal, por exemplo, a perda óssea pode ser irreversível, mas
isso ocorre quando a destruição do osso alveolar é mais extensa, e talvez mais im
portante quando envolve extremidade, semelhante à perda da ponta de um dedo. No
periápice, com a eliminação do agente agressor, no caso bactérias do canal radicular,
a inflamação diminui de modo gradativo, sendo substituída por fenômenos de reor
ganização com formação de tecido de granulação, neoformação óssea e do ligamento
periodontal do periápice. A persistência da inflamação indica, muito provavelmente,
que bactérias ativas ainda estão presentes, mesmo quando o canal aparentemente está
bem obturado.
O ponto fundamental é a eliminação das bactérias e o preenchimento do espaço
do canal radicular por material que não seja lesivo aos tecidos vivos do periápice. É
razoável considerar que, mesmo após o tratamento adequado do canal, não se con
siga a completa eliminação de bactérias, mas isso não costuma impedir a reparação
apical porque provavelmente a quantidade e a virulência das bactérias remanescentes
34 Francisco José de Souza Filho (Organizador)
são insuficientes para manter evidente resposta inflamatória e destruição tecidual.
De fato, se a inflamação for mínima, os aspectos radiográficos são compatíveis com
normalidade.
Antigamente, considerava-se que apenas os granulomas apicais regrediam após a
eliminação das bactérias, mas sabe-se que isso ocorre também com os cistos. Nos ca
sos em que a lesão periapical persiste, a principal causa, como já citado, é a presença
de bactérias. Eventualmente, há a possibilidade de cistos grandes, bem-organizados,
com extensa área de destruição óssea não regredirem mesmo eliminando-se as bac
térias e após cessada a inflamação.
É interessante que cistos de modo geral, no organismo humano, incluindo os da
boca, como os queratocistos e os cistos odontogênicos glandulares, cuja formação
não foi estimulada por fenômenos inflamatórios, não regridem espontaneamente;
pelo contrário, tendem a continuar crescendo, e o tratamento é cirúrgico. Também
há os cistos residuais, que podem persistir mesmo após a extração do dente e a con
sequente eliminação das bactérias, com tendência a crescerem, precisando ser remo
vidos cirurgicamente. Também, em raros casos, uma imagem radiolúcida persistente
na região periapical após o tratamento de canal pode ser compatível com uma ver
dadeira área de cicatrização. Nesses casos, a neoformação óssea pode não ter sido
completa e parte da área é preenchida por tecido fibroso cicatricial, mantendo-se
uma área radiolúcida próxima ao periápice. Tal processo pode ser comparado ao de
feito osteoporótico da manch'bula, quando, em vez de um trabeculado ósseo normal
compacto, há presença de grande quantidade de medula óssea pela não formação
adequada das trabéculasdurante a reparação do alvéolo após extração dentária ou
outras intervenções cirúrgicas.
Ainda com relação às áreas radiolúcidas periapicais, devem ser consideradas ou
tras patologias de origem não endodôntica, como displasia óssea focal e periapical,
lesão central de célula gigante e, mais raramente, metástases.
Em resumo, os princípios da reparação periapical e dos fenômenos inflamató
rios envolvidos não diferem de outros tecidos do organismo, tendo obviamente suas
particularidades anatômicas. Fatores locais são importantes para determinar a ar
quitetura fmal da reparação apical, como nos casos de apicectomia ou apicificação
em raízes incompletamente formadas. Na Odontologia, uma comparação didática
interessante pode ser feita entre os processos inflamatórios e de reparo do periápice e
do periodonto. As duas doenças são crônicas, causadas sobretudo por bactérias não
granulomatosas e com envolvimento ósseo, com uma diferença básica: a anatomia
das duas regiões.
REAÇÃO A CORPO ESTRANHO
O termo "reação a corpo estranho': no sentido mais amplo, inclui o fundamento da
inflamação, aceitar o que é próprio (selj) do organismo e reconhecer e rejeitar/elimi
nar o que não faz parte dele, sejam elementos macroscópicos, microscópicos ou mo
leculares. Quase todas as inflamações, exceto na sua fase de reconstrução/reparação,
são exemplos de reações contra substâncias/corpos estranhos. As características da
resposta inflamatória, como células envolvidas e intensidade, vão depender da quan
tidade e da qualidade do agente agressor, do seu reconhecimento como non-self e da
necessidade de sua eliminação.
Endodontia passo a passo 35
O elemento estranho pode ser de baixa agressividade, praticamente inerte, a
ponto de não ocasionar lesões teciduais e como consequência, não estimular uma
reação inflamatória de importância clínica. Não é raro optar por não retirar um pro
jétil de arma de fogo alojado no crânio por estar em lugar de difícil acesso cirúrgico e
não ocasionar problemas clínicos. Como o material é praticamente inerte em termos
de agressividade tecidual e da capacidade de estimular uma reação inflamatória, o or
ganismo simplesmente o isola por meio de uma cápsula fibrosa de espessura variável
e, assim, pode lá permanecer por toda a vida do indivíduo.
Bons exemplos dessa interação com o organismo são os materiais usados na me
dicina estética, principalmente em mama, face e glúteos. A eventual reação inflama
tória a esses corpos estranhos vai depender da sua qualidade e da boa aceitação pelo
organismo, ou seja, que eles não sejam agressivos e/ou não sejam reconhecidos como
estranhos. Os implantes dentários utilizados na Odontologia também são um bom
exemplo de corpo estranho em contato com o organismo. A osteointegração, basica
mente, significa que o material do implante (titânio) não é agressivo ao organismo,
não é reconhecido como estranho, não estimula uma reação inflamatória e tem boa
capacidade de interação com os tecidos da região onde foi colocado.
O tratamento endodôntico tem como objetivo limpar e modelar o canal radicu
lar, procedimentos esses que eliminam as bactérias e facilitam a sua obturação, em
geral realizada com guta-percha e cimentos. Como o objetivo maior é a eliminação
das bactérias e a manutenção do canal livre de contaminação, deve-se também con
siderar que os materiais obturadores sejam biocompatíveis e não irritem o periápice,
evitando-se, assim, uma resposta inflamatória a substâncias liberadas ou em contato
direto com o conjuntivo periapical.
Está bem estabelecido que os materiais obturadores têm propriedades variáveis
quanto à sua agressividade ao tecido conjuntivo, e muitos são os estudos de biocom
patibilidade.2 Estudos comparativos entre cimentos endodônticos mostraram que a
reação inflamatória foi mais evidente quando houve extravasamento do material para
o periápice.2 Entretanto, como os materiais usados atualmente têm boa compatibili
dade tecidual e em grande parte são reabsorvíveis, o ponto fundamental para o su
cesso do tratamento continua sendo a eliminação das bactérias. Com o uso de técnica
adequada e uma obturação bem-feita, os materiais obturadores não interferirão de
forma significativa no restabelecimento da normalidade morfológica e funcional do
. ' . per1ap1ce.
Sempre é desejável a ausência de substâncias estranhas no organismo e aqui se
inclui o periápice, mas isso não significa que partículas de material obturador no
periápice devam necessariamente ser removidas. Pode-se optar por uma obturação
que mantenha o material obturador intracanal ou que envolva extravasamento para o
periápice. Outra vez, o mais importante é que o canal radicular esteja bem obturado
e que as bactérias tenham sido eliminadas.
O amálgama é utilizado para ilustrar alguns pontos, embora ele seja usado ape
nas em algumas intervenções endodônticas. É relativamente comum a mucosa bu
cal estar impregnada por partículas de amálgama - o que se chama de "tatuagem
por amálgama': Se o diagnóstico clínico for correto e o paciente preferir, não há ne
cessidade de remoção cirúrgica, pois não lhe causará nenhuma situação clínica im
portante. O paciente apenas continuará a ter uma pequena mancha escura na boca,
36 Francisco José de Souza Filho (Organizador)
que mesmo esteticamente, na maioria das vezes, não é relevante. Se a tatuagem por
amálgama for removida e examinada microscopicamente, os aspectos serão variados,
dependendo da quantidade, do tamanho e da qualidade das partículas de amálgama.
Na maioria das vezes, são vistas apenas pequenas partículas impregnando fibrilas de
colágeno, associadas a mínimas quantidades de células inflamatórias.
No outro extremo, em poucos casos, quando as partículas de amálgama são
grandes e irregulares, pode-se observar uma reação inflamatória a corpo estranho,
com presença de alguns macrófagos multinucleados. Mesmo nesses casos, se o mate
rial não for removido cirurgicamente, não haverá consequências clínicas importan
tes. Situação similar ocorre com a eventual presença de partículas de amálgama no
periápice, ou seja, materiais obturadores com melhor compatibilidade que o amálga
ma e que são reabsorvíveis pelo organismo não causam interferências importantes no
restabelecimento da morfologia e fisiologia periapical.
REFER~NCIAS
1. Gomes Filho JE. Gomes BP, Zaia AA, Ferraz CC, Souza Filho
FJ. Evaluation of the bíocompatibility of root canal sealers usíng
subcutaneous implants. J Appl Oral Sei 2007;15(3):186-94.
LEITURAS RECOMENDADAS
Consolaro A. Inflamação e reparação. Maríngá: Maringá Dental
Press; 2009.
Gr:iesilk WJ, Narayanan AS. Cementum and periodontal
wound healing and regeneration. Crit Rev Oral Biol Med.
2002; 13:4 7 4-84.
Lin LM, Ricucci D, Lin ), Rosenberg PA. Nonsurgical root canal
therapy oflarge cyst-like inflammatory periapical lesions and
inflammatory apical cysts. J Endond. 2009;35:607-15.
Majno G, )oris 1. Cells, tissues and disease: principies of general
pathology. Hoboken: Blackwell Science; 1996.
2. Bernath M, Szabó ). Tissue reaction initiated by dífferent sea
lers. Int Endod ). 2003;36:256-61.
Nair PNR. Apical periodontitis: a dynamic encounter between
root canal ínfection and host response. Periodontol 2000.
1997; 13: 121-48.
Nair PNR. Pathogenesis of apical periodontitis and the causes of
endodontic failures. Crit Rev Oral Biol Med. 2004;15:348-81.
Ricucci D, Lin LM, Spanberg L. Wound healing of apical tissues af
ter root canal therapy: a long-term clinicai, radiographic, and
histopathologic observation study. Oral Surg Oral Med Oral
Pathol Oral Radio! Endod. 2009;108:609-21.
Esta página foi deixada em branco intencionalmente.
Anamnese
EDUARDO DIAS DE ANDRADE
CONSIDERAÇÕES GERAIS
A anamnese (do grego ana = trazer de novo e mnesis = memória) é um pré-requisito
básico da consulta inicial por parte do endodontista. É quando são obtidas informa
ções úteis que servirão não somente para o diagnóstico,mas também para se estabe
lecer o perfil geral de saúde do paciente.
Quando houver relato de alguma intercorrência desagradável, ocorrida em trata
mentos odontológicos anteriores, o problema deve ser cuidadosamente investigado.
Da mesma forma, indivíduos portadores de doenças sistêmicas devem ser questiona
dos sobre o controle atual da doença e complicações recentes, como abordado mais
adiante neste mesmo capítulo. Na maioria das vezes, tais sujeitos utilizam medica
mentos de uso contínuo, alguns deles com potencial de interagir com outros fárma
cos comu.mente empregados na clínica odontológica, o que pode provocar reações
indesejáveis. 1
Na anamnese também se identificam pacientes com história de alergia a mate
riais ou substâncias com potencial alergênico, empregadas rotineiramente em Endo
dontia (p. ex., látex, amido de milho modificado, hipoclorito de sódio, etc.), evitan-
d ·~ 2,3 o-se a expos1çao a esses agentes.
O processo de anamnese, aliado ao exame físico extrabucal e à avaliação dos sinais vitais
4
(pulso, pressão arterial sanguínea, frequência respiratória e temperatura), pode ser con
cluído com a classificação do paciente de acordo com seu estado físico ou categorias de
risco médico.
Para isso, a American Society of Anesthesiologists emprega, já há algum tempo,
um sistema de classificação de pacientes com base no estado físico, no qual são distri
buídos em seis categorias, denominadas de ASA 1 a ASA Vl.5
40 Francisco José de Souza Filho (Organizador)
Em 2008 foi proposta uma adaptação desse sistema ASA para a prática perio
dontal, não com o objetivo de refletir a natureza de um procedimento cirúrgico ou
mesmo de avaliar o risco operatório. No entanto, os proponentes acreditam que esse
sistema pode mostrar se existe maior ou menor risco médico de um paciente em
função da anestesia local e da extensão do trauma cirúrgico.4 Tal classificação tal
vez possa ser extrapolada para a Endodontia e outras especialidades da Odontologia,
principalmente nos casos em que o paciente apresenta um problema ou doença de
forma isolada (Quadro 4.1).
Na presença de múltiplas alterações sistêmicas, o cirurgião-dentista deve avaliar
o significado e o peso de cada uma para então enquadrar o paciente na categoria
ASA apropriada. 5 Quando for incapaz de determinar o risco clínico de uma ou mais
doenças ou complicações, é recomendável entrar em contato com o médico que tra
ta do paciente para uma simples troca de informações e discussão sobre possíveis
recomendações adicionais para o atendimento odontológico. Entretanto, a decisão
final de iniciar o tratamento odontológico ou postergá-lo é de responsabilidade do
cirurgião-dentista, pois é quem irá realizar o procedimento.6
Quadro 4.1 Classificação dos pacientes em função do estado físico, com as devidas adaptações para a clínica
odontológica
Categoria Descrição do perfil
ASA 1 Pacientes saudáveis que, de acordo com a história médica, não apresentam nenhuma anormalidade.
Mostram pouca ou nenhuma ansiedade, sendo capazes de tolerar muito bem o estresse ao tratamento
dental, com risco mínimo de complicações (desta categoria são excluídos pacientes muitos jovens ou muito
idosos).
ASA li Pacientes portadores de doença slstêmlca moderada ou que apresentam menor tolerãncla que os pa
cientes ASA 1. São enquadrados nesta categoria:
ASA Ili
• Pacientes extremamente ansiosos, com história de episódios de mal-estar ou desmaio (síncope) na clíni-
ca odontológica.
• Gestantes.
• Portadores de hipertensão arterial controlada com medicação.
• Diabéticos tipo li, controlados com dieta ou medicamentos.
• Portadores de distúrbios convulsivos, bem-controlados.
• Asmáticos, que ocasionalmente usam broncodilatador em aerossol.
• Pacientes com angina estável, assintomática, exceto em extremas condições de estresse.
• Pacientes com história de infarto do miocárdio, ocorrido há mais de seis meses, sem apresentar sinto-
mas.
Tais pacientes podem exigir certas modificações no plano de tratamento, de acordo com cada caso particu
lar (p. ex., troca de informações com o médico, menor duração das sessões de atendimento, posicionamen
to na cadeira odontológica, protocolo de sedação, etc.). Apesar da necessidade de certas precauções, os
pacientes ASA li apresentam r isco mínimo para complicações durante o atendimento.
Pacientes portadores de doença slstêmlca grave, com limitação de suas atividades. Antes de iniciar o
tratamento, é imprescindível a troca de informações com o médico que trata desses pacientes. Os procedi
mentos eletivos não estão contraindicados, embora tais pacientes representem um maior risco durante o
atendimento. São exemplos de ASA Ili:
• Diabéticos tipo 1 (insulino-dependentes), com a doença controlada.
• Portadores de hipertensão arterial na faixa de 160 a 194 e 95 a 99 mmHg.
• Pacientes com história de episódios frequentes de angina de peito, com sintomas após exercícios leves.
• Portadores de insuficiência cardíaca congestiva, com edema de tornozelos.
• Pacientes com doença pulmonar obstrutiva crônica (p. ex., enfisema).
• Pacientes com episódios frequentes de convulsão ou crise asmática.
• Pacientes sob quimioterapia.
continua ...
Endodontia passo a passo 41
Quadro 4.1 Classificação dos pacientes em função do estado físico, com as devidas adaptações para a clínica
odontológica (Cont inuação)
Categoria Descrição do perfil
ASAIV*
• Hemofílicos.
• Pacientes com história de infarto do miocárdio, ocorrido há mais de seis meses, mas ainda com sintomas
(p. ex., angina ou falta de ar).
Pacientes acometidos de doença sistêmica grave, que estão sob constante risco de morte, ou seja, apre
sentam problemas médicos de grande importância para o planejamento do tratamento odontológico.
Quando possível, os procedimentos dentais eletivos devem ser postergados até que a condição médica
dos pacientes permita enquadrá-los na categoria ASA Ili. As urgências odontológicas, como dor e infecção,
devem ser tratadas da maneira mais conservadora que a situação permita. Quando houver indicação ine
quívoca de uma exodontia ou pulpectomia, a intervenção deve ser efetuada em ambiente hospitalar, que
dispõe de unidade de emergi!ncia e supervisão médica adequada.
ºSão enquadrados na categoria ASA IV: pacientes com dor no peito ou falta de ar, quando estão sentados, sem atividade; incapa
zes de andar ou subir escadas ou que acordam durante a noite com dor no peito ou falta de ar; história de infarto do miocárdio ou
acidente vascular encefálico, no período dos últimos seis meses, com pressão arterial maior que 200/100 mmHg; pacientes que
necessitam da administração suplementar de oxigênio de forma contínua.
Apenas a título de curiosidade, na categoria ASA V são classificados os pacientes em fase terminal, cuja expectativa de vida não
é maior do que 24 horas. Procedimentos odontológicos eletivos estão contraindicados e as urgências podem receber tratamento
paliativo, como no caso de dor.
Por fim, segundo a American Society of Anesthesiologists, na categoria ASA VI são enquadrados os pacientes com morte cerebral
declarada, cujos órgãos serão removidos com propósito de doação.
Modificado de Maloney & Weinberg.s
ANAMNESE DIRIGIDA
Na consulta inicial, quando o paciente relata alguma doença de ordem sistêmica, a
anamnese deve ser dirigida ao problema, por meio de ao menos quatro perguntas
b
, . 7
as1cas.
1. Como está o controle atual da sua doença?
Por meio dessa pergunta se obtêm informações sobre a adesão do paciente ao trata
mento, mostrando se tem obedecido às recomendações médicas e comparecido regu
larmente às consultas de retorno.
2. Você faz uso diário de algum medicamento?
O objetivo dessa questão é saber se o paciente faz uso de medicação de forma con
tínua e especificar quais são esses medicamentos, para se evitar interações adversas
com fármacos empregados na clínica odontológica.
Como exemplo, o propranolol (empregado no controleda pressão arterial san
guínea) pode interagir com a epinefrina (contida nas soluções anestésicas), podendo
causar um aumento brusco da pressão arterial em caso de superdosagem da solução
anestésica. Da mesma forma, deve-se evitar a prescrição de paracetamol e de alguns
anti-inflamatórios não esteroides (AINEs) para pacientes fazendo uso contínuo de
varfarina, anticoagulante empregado na prevenção de fenômenos tromboembólicos,
pelo risco de aumentar a atividade da varfarina e predispor à hemorragia.
42 Francisco José de Souza Filho (Organizador)
3. Você passou por alguma complicação recente?
Talvez essa seja a mais importante das quatro perguntas. Na anamnese de um pa
ciente que relata história de distúrbios convulsivos, é preciso saber quando ocorreu a
última crise, pois um episódio recente de convulsão pode indicar falta de controle da
doença. Num outro exemplo, pacientes acometidos de infarto do miocárdio devem
ser investigados quanto à ocorrência recente ou repetitiva de dores no peito, que po
dem caracterizar uma nova obstrução das artérias coronárias.
4. Você tomou sua medicação hoje?
Não é raro um paciente hipertenso ou diabético deixar de tomar sua medicação res
pectiva para o controle da pressão arterial ou da glicemia por ocasião das consultas
odontológicas. Portanto, tal pergunta deve ser considerada em toda sessão de atendi
mento e não somente por ocasião da consulta inicial.
REFER~NCIAS
L Jolly DE. Evaluation of the medical h istory. Anesth Prog.
l 995;42:84-9.
2. Andrade ED, Ranali J, Volpato MC, Oliveira M.M. Allergic reac
tion after rubber dam placement. J Endod. 2000; 26(3):182-3.
3. Hamann CP, Rodgers PA, Sullivan K. Management of den
tal patients with allergies to natural rubber latex. Gen Dent.
2002;50(6):526-36.
4. Me Carthyy FM. Vital signs: the sÍJC-minute warnings. J Am
Dent Assoe. 1980;100(5):682-91.
5. Maloney WJ, Weinberg MA. Implementation of the Ame
rican Society of Anesthesiologists Physical status clas
siflcation system in periodontal practice. J Periodontol.
2008;79(7):1124-6.
6. Andrade ED, Ranali J. Emergências médicas em odontologia.
3. ed. São Paulo: Artes Médicas; 201 1. p. 29-30.
7. Andrade ED. Terapêutica medicamentosa em odontologia. 3.
ed. São Paulo: Artes Médicas; 2014. p. 3-9.
Diagnóstico em endodontia
LUIZ VALDRIGHI E FRANCISCO JOSÉ DE SOUZA FILHO
CONSIDERAÇÕES GERAIS
O assunto diagnóstico é vasto, por vezes um verdadeiro desafio, pois o domínio de
suas variáveis requer do profissional enorme dedicação. Qualquer procedimento cli
nico, por mais simples que seja, deve ser fundamentado por critérios amplamente
amparados pelo conhecimento científico. Este capítulo descreve, de forma breve, um
protocolo de diagnóstico, direcionado especificamente à Endodontia e suas reper
cussões clinicas. Os procedimentos semiológicos e o exame clinico são concentrados
objetivamente no dente, basicamente pela avaliação do histórico e pela aplicação dos
testes de estimulação e respostas. Embora excluídas deste capítulo, vale destacar a im
portância da avaliação integral do sistema mastigatório, bem como a investigação de
condições sistêmicas primárias. A identificação de alguma dessas condições implica
a tomada dos cuidados pertinentes. Se necessário, o paciente deve obter a devida
autorização médica previamente aos procedimentos odontológicos.
DIAGNÓSTICO DENTAL
Para o diagnóstico dental de interesse aos tratamentos endodônticos, é imprescindí
vel adotar uma abordagem sistemática e empregar métodos semiológicos direciona
dos à avaliação das condições periodontais, pulpares, periapicais e do próprio dente.
O clínico, idealmente sustentado por uma visão integrada da restauração dentária
posterior ao tratamento do canal radicular, deve projetar o valor estratégico do den
te, considerar riscos e benefícios em sua manutenção e decidir pela alternativa mais
apropriada para cada caso. Esse processo é realizado pelos seguintes meios:
• História da dor (anamnese)
• Exame clínico
• Exames radiográficos
44 Francisco José de Souza Filho (Organizador)
HISTÓRIA DA DOR
A história da dor caracteriza um dos aspectos mais importantes da formatação do
diagnóstico. A empatia do profissional, a condução de uma entrevista bem-elaborada
e a atenção em ouvir as respostas do paciente são passos fundamentais do processo
inicial da anamnese.
O direcionamento da entrevista parte sempre da mais objetiva das perguntas: o relato da
queixa principal ou a principal motivação da procura da atenção profissional.
Na Endodontia, os pacientes, em geral, apresentam a dor como a principal razão
para a consulta.
Dessa forma, uma abordagem clínica utiliza perguntas básicas e tem por obje
tivo incluir ou excluir as dores de origem dental. Pode-se confundir principalmente
as pulpites com outras dores faciais, como neuralgias e algumas cefaleias primárias.
As odontalgias seguem um curso inflamatório, podendo ser latejantes, em pon
tadas ou em choque, provocadas ou espontâneas, têm um quadro progressivo e em
sua maioria absoluta são de natureza aguda. A dor da neuralgia idiopática do trigê
meo é em choque, paroxística, de curtíssima duração e normalmente provocada por
toque em uma zona-gatilho que pode ser na pele, na mucosa e até no próprio dente.
Como a dor é, principalmente, subjetiva, o diagnóstico depende da capacidade
do cirurgião-dentista de interpretar a descrição feita pelo paciente e suas reações me
diante a aplicação de testes.
As questões básicas mais importantes são:
• Está com dor no momento?
• A resposta positiva caracteriza a necessidade de atendimento de urgência.
• Consegue descrever o tipo de dor?
• Dor provocada
- Quando provocada por estímulo térmico (gelo, jato de ar, doce), indica que
a origem é pulpar.
- Quando provocada por percussão com a ponta dos dedos ou cabo do espe
lho, indica que a origem é periapical ou periodontal.
- Quando provocada pela palpação no fundo de sulco, indica a presença de
abscesso.
• Dor espontânea
- A dor espontânea, contínua ou ocasional, não associada à dor pela percussão,
indica alteração pulpar irreversível (pulpite irreversível).
- A dor espontânea contínua moderada associada à dor intensa pela percussão
indica pericementite (em geral associada à necrose pulpar).
- A dor espontânea contínua e severa associada à dor intensa pela percussão
indica presença de abscesso (necrose pulpar).
• Consegue identificar o local da dor?
Endodontia passo a passo 45
• Dor localizada: o paciente consegue indicar o local da dor - no dente ou na
mucosa (fundo de sulco).
• Dor difusa ou irradiada: se a dor é difusa ou irradiada, é necessário investigar .
sua origem:
- A dor espontânea difusa com sensação de peso nos seios da face e dores de
cabeça na região frontal sugerem sinusite.
- A dor espontânea irradiada com sensação de choques ou queimação na face
sugere problemas associados com neuralgia ou herpes-zóster.
- A dor pode ser de origem dental (pulpite irreversível), ainda não localizada,
exigindo sua confirmação por meio de testes e exames radiográficos.
- A anestesia local é extremamente útil para o alívio da dor e serve como teste
terapêutico para identificar a fonte.
• Está tomando algum medicamento para o problema atual?
• Analgésico
- Quem prescreveu?
- Há quanto tempo está tomando?
- O analgésico consegue controlar a dor?
- Avaliar a necessidade de suspender, alterar ou continuar a medicação.
• Antibiótico
- Quem prescreveu?
- Há quanto tempo está tomando?
- Avaliar a necessidade de suspender, alterar ou continuar a medicação.
• Outros medicamentos
• Já passou por algum tipo de atendimento?
• Verificar qual foi o procedimento realizado e se o problema foi resolvido par
cialmente.
• Verificar se houve, no procedimento realizado, algum tipo de iatrogenia (p. ex.,
perfurações, fratura de instrumento, entre outros).
• Tem algum problema de saúde?
• Fazer a anamnese para saberdo estado geral de saúde do paciente e a necessida
de ou não de interagir com seu médico.
• Está tomando algum medicamento para problemas sistêmicos?
• Verificar se os medicamentos utilizados pelo paciente podem interagir com ou
tros a serem usados para o problema atual.
Os antibióticos não devem ser utilizados indiscriminadamente. Os antibióticos no trata
mento de abscessos de origem dental só devem ser usados para dar suporte e proteção sistê
mica em conjunto com o tratamento cirúrgico, que é a drenagem do abscesso. O antibiótico
não substitui a drenagem cirúrgica.
46 Francisco José de Souza Filho (Organizador)
EXAME CLÍNICO
O exame clinico, considerado um dos momentos mais determinantes de todo o pro
cesso diagnóstico, exige dos profissionais uma significativa atenção no sentido de
realizar um cuidadoso sequenciamento dos procedimentos e uma interpretação se
gura dos sinais e sintomas. A experiência se adquire com o número de casos atendi
dos no decorrer do tempo.
Diagnóstico puf par
Historicamente, uma série de testes foi preconizada para identificar a vitalidade ou
não dos dentes, entre os quais podem ser citados os testes elétricos, de cavidade e até
da anestesia. Contudo, com o passar do tempo, os testes que sobreviveram foram os
térmicos (calor e frio) aplicados na superfície vestibular dos dentes, sem o contato
com a gengiva, ressaltando que, entre eles, o teste pelo frio (Figuras 5.1 e 5.2) tem
merecido a preferência, por conta de sua praticidade (gelo ou spray congelante).
à FIGURA 5.1
Aplicação do teste de vitalidade pulpar com a bolinha
de algodão embebida com spray de C02 (gelo) na su
perfície vestibular do dente.
Dor ou sensibilidade?
à FIGURA 5.2
Aplicação do teste térmico na face vestibular do den
te 11.
Para evitar dúvidas na interpretação, é necessário observar a reação do paciente à
aplicação dos testes de vitalidade pulpar e de percussão, e não suas respostas verbais.
Teste de vitalidade com spray congelante (gelo seco)
A aplicação do spray congelante em uma bolinha de algodão na superfície vestibular
do dente estimula respostas:
• Polpa normal - provoca dor (resposta positiva) que desaparece imediatamente
com a remoção do estímulo.
• Pulpite reversível - provoca dor exacerbada (resposta positiva) que desaparece
imediatamente com a remoção do estímulo.
• Pulpite irreversível - provoca dor (exacerbada ou não) que persiste por alguns se
gundos após a remoção do estímulo.
Endodontia passo a passo 47
• Necrose pulpar - não provoca dor (resposta negativa), mas pode haver uma míni
ma sensibilidade à percussão.
Com vistas a uma melhor interpretação, os testes devem ser feitos nos dentes análogos para
efeito comparativo. A intensidade da resposta é que define o grau de inflamação. A ausência
de resposta ao teste térmico indica necrose pulpar; no entanto, os procedimentos clínicos
devem ser feitos com anestesia local, pois no terço apical ainda podem existir terminações
nervosas viáveis, uma vez que são as últimas estruturas a serem degeneradas no processo
de necrose.
Diagnóstico periapical
A avaliação da dor e de sua intensidade tem um caráter subjetivo. Esperar uma res
posta verbal do paciente para definir a intensidade da dor pode gerar erros de inter
pretação, pois envolve diversos fatores, entre eles o diferente limiar de dor de cada
indivíduo.
Teste de percussão
O teste de percussão pode ser feito, inicialmente, com a ponta do dedo indicador ou
com o cabo do espelho clínico e serve para definir as alterações inflamatórias, agudas
ou crônicas, presentes no ligamento periodontal.
• Nos processos inflamatórios agudos (abscesso apical ou pericementite), o paciente
reage ao teste de percussão vertical ou horizontal afastando a cabeça devido à in
tensidade da dor.
• Nos processos inflamatórios crônicos (granulomas, cistos ou inflamação periodon
tal), o paciente não reage ao teste de percussão horizontal ou vertical; apenas res
ponde que apresenta maior sensibilidade no dente.
Teste de palpação no fundo de sulco
A Figura 5.3 ilustra o teste de palpação no fundo de sulco, em que se pode diagnosti
car abscesso subperiosteal.
•FIGURA 5.3
Teste de palpação no fundo de sulco para diagnóstico
de abscesso subperiosteal.
48 Francisco José de Souza Filho (Organizador)
Diagnóstico diferencial entre abscesso periapical e pericementite
O diagnóstico diferencial dos processos agudos periapicais (pericementite e absces
so) em sua fase inicial muitas vezes confunde o clínico, uma vez que os sintomas são
quase os mesmos -dor pelo teste de percussão, aumento da mobilidade do dente,
dor ao mastigar - e principalmente porque, na fase inicial do abscesso, em geral não
existem sinais clássicos de tumefações, edema ou celulite.
Portanto, para definir o diagnóstico entre pericementite e abscesso, é preciso ava
liar, sobretudo, a intensidade da dor, como descrito a seguir:
• Na pericementite:
• a dor é suportável e diminui com o ajuste oclusal e com o uso de analgésicos;
• a dor só é severa com a oclusão ou mastigação;
• não há dor à palpação nas proximidades do ápice dental.
• No abscesso:
• a dor é espontânea, severa, contínua, pulsátil e ainda aumenta com a oclusão ou
mastigação;
• a dor não cessa com analgésicos;
• existe dor à palpação no fundo de sulco quando a localização da coleção puru
lenta estiver na região subperiosteal ou submucosa;
• no abscesso intraósseo não há dor à palpação no fundo de sulco, uma vez que a
coleção purulenta está localizada no interior do osso alveolar. Prevalece nesses
casos a dor espontânea e severa.
EXAME CLÍNICO INTRAORAL
Abscesso submucoso (Figura 5.4)
<Ili FIGURA 5.4
O aumento de volume no fundo de sulco vesti
bular caracteriza a presença de pus sob a mu
cosa dessa área.
Abscesso periodontal (Figura 5.5)
FIGURA5.5 ...
A sondagem confirma a presença de bolsa pe
riodontal e abscesso periodontal na região.
Fístula (Figuras 5.6 e 5.7)
 FIGURA 5.6
Fístula associada a infecção do segundo pré
-molar superior.
EXAME CLÍNICO EXTRAORAL
Endodontia passo a passo 49
 FIGURA 5.7
Rastreamento da fístu la com cone de guta
·percha.
Abscesso extraoral submandibular (Figura 5.8)
FIGURA5.8 ...
O aumento de volume na região submandibu
lar indica a localização extraoral do abscesso
de origem dental. Note a área avermelhada
indicando que a coleção purulenta encontra-se
localizada na região subcutânea.
50 Francisco José de Souza Filho (Organizador)
Abscesso subperiosteal e celulite {Figura 5.9)
EXAME RADIOGRÁFICO
... FIGURA 5.9
A celulite no lábio superior decorrente de ne
crose pulpar e abscesso no dente 21 indica a
necessidade de intervenção imediata para
drenagem da coleção purulenta. O edema (ce
lulite) é o sinal indicativo da patogenicidade
dos microrganismos envolvidos e da reação do
organismo na tentativa de impedir a dissemi
nação do processo infeccioso.
Em Endodontia, as imagens radiográficas dos dentes e tecidos de suporte são funda
mentais para as decisões e avaliações nas fases pré, trans e pós-tratamento, incluindo
o acompanhamento, as avaliações de resultados e a proservação a longo prazo.
As radiografias periapicais iniciais são utilizadas para complementar informações associa
das à anatomia dentoalveolar do dente a ser tratado. As imagens radiográficas informam o
comprimento aparente do dente (CAD), a localização e posição do dente no arco, a adapta
ção e o contorno de restaurações, a presença e localização de cáries e sua relativa profundi
dade com a câmara pulpar, o grau de curvatura da raiz, a presença e localização de corpos
estranhos no canal radicular, as reabsorções radiculares, o grau de calcificação dos canais,
as variações anatômicas, a presença e o tamanho das lesões periapicais e as condições pe
riodontais.
Roteiro para interpretação das imagens radiográficas
1. Observar se a coroa dental está íntegra, destruída ou restaurada.
2. Verificar se acâmara pulpar é ampla ou atrésica ou se contém ou não nódulos
pulpares.
3. Examinar as entradas dos canais radiculares para verificar se estão acessíveis ou
obstruídas por calcificações.
4. Observar o local da curvatura radicular (terço cervical, médio ou apical).
5. Observar a primeira curvatura do canal, no terço cervical, para verificar se é
acentuada ou suave.
6. Considerar o grau de curvatura radicular (moderado ou severo).
7. Analisar o grau de amplitude dos canais radiculares (amplos, atrésicos ou calci
ficados).
Endodontia passo a passo 51
8. Verificar o número de raízes ou canais extras.
9. Observar a presença de materiais ou instrumentos no interior dos canais.
10. Avaliar o periodonto lateral (íntegro ou com perda óssea horizontal ou vertical).
11. Observar a continuidade da lâmina dura periapical (normal, espessada ou com a
presença de imagem radiopaca ou radiolúcida).
12. Verificar se existem reabsorções radiculares (externa ou interna).
13. Observar a normalidade da anatomia dental.
IMAGENS RADIOGRÁFICAS
As Figuras 5.10 a 5.22, a seguir, trazem várias radiografias ilustrativas.
A FIGURA 5.10
Radiografia periapical mostrando cárie mesial no
dente 47, com comprometimento da câmara pulpar.
A FIGURA 5.12
Nódulos de calcificação na câmara pulpar do dente 48.
A FIGURA 5.11
Área radiolúcida na altura da câmara pulpar e pre
sença de lesão na turca.
A FIGURA 5.13
Condição do suporte periodontal na região de pré
-molares e molares superiores.
52 Francisco José de Souza Filho (Organizador)
.A FIGURA 5.14 .A FIGURA 5.15
Grau da curvatura radicu lar no terço a picai do dente 45. Lesão periapical no incisivo lateral superior .
.A FIGURA 5.16 .A FIGURA 5.17
Reabsorção radicular no dente 45. Área radiolúcida na região periapical do dente 12.
A FIGURA 5.18
Fratura radicular no dente 46.
A FIGURA 5.20
Área de reabsorção radicular interna no dente 11.
Endodontia passo a passo 53
A FIGURA 5.19
Reabsorção radicular externa no dente 11.
A FIGURA 5.21
Fratura radicular no dente 22 com deslocamento da
prótese.
54 Francisco José de Souza Filho (Organizador)
• FIGURA 5.22
Área radiopaca na região periapical do dente 36 (ce
mentoma).
Atualmente, é fundamental a implementação da imagem digital na prática clínica. As van -
tagens incluem o tempo, a manipulação, a qualidade e o armazenamento da imagem; a re
dução da dose de radiação; a diminuição da poluição ambiental e a facilidade para a proser
vação dos casos clínicos. Os relatórios dos tratamentos realizados, incluindo as radiografias
digitais, são práticos e facilmente encaminhados aos indicadores via e-mail.
O CAMINHO DA INFECÇÃO
Em termos histológicos, a correlação da inflamação pulpar e periapical com os sinais
e sintomas clínicos é de suma importância para a interpretação diagnóstica.
O caminho da infecção, desde a instalação do processo inflamatório pulpar até a dis
seminação de bactérias através do forame apical, é exemplificado nas Figuras 5.23 a 5.30.
• FIGURA 5.23
Dente normal inserido no alvéolo. As respostas à
aplicação dos testes são:
• O spray congelante provoca dor, a qual desaparece
imediatamente com a remoção do estímulo.
• O teste de percussão é negativo.
• O diagnóstico é de polpa e tecidos periapicais nor
mais.
Endodontia passo a passo 55
FIGURA 5.24 ...
Dente com cárie. A polpa dental apresenta inflama
ção, em geral assintomática, provocada por bacté
rias e toxinas presentes na cárie dental, que se pro
pagam através dos túbulos dentinários.
• A dor provocada com aplicação do spray conge
lante é maior, porém desaparece, imediatamen
te, após a remoção do estímulo (resposta posi
tiva).
• O diagnóstico é de pulpite reversível.
Cárie
Microabscessos
~ FIGURA 5.25
Cárie
Pulpite
Progressão da cárie. A inflamação pulpar aumenta
com o passar do tempo, e ocorre a formação de mi
croabscessos na polpa.
• A dor é espontânea.
• A aplicação do spray congelante provoca dor, que
não desaparece, imediatamente, após a remoção
do estímulo (resposta positiva).
• O teste de percussão é negativo.
• O diagnóstico é de pulpite irreversível.
FIGURA 5.26 ...
Evolução da necrose pulpar que progride no senti
do coroa-ápice.
• A aplicação do teste com spray congelante não
provoca dor (resposta negativa).
• O dente pode apresentar alguma sensibilidade à
percussão.
• O diagnóstico é de necrose pulpar.
Cárie
Necrose
56 Francisco José de Souza Filho (Organizador)
Cárie
FIGURA 5.28 ....
Formação de abscesso periapical (intraósseo pri
mário).
• A aplicação do teste com spray congelante
não provoca dor (resposta negativa).
• A dor é espontânea, cont ínua, severa e não
cede com analgésicos.
• Há aumento da mobilidade dental.
• Não há dor à palpação no fundo de sulco por
que a localização do pus é intraóssea.
• Não há edema ou celulite.
• O diagnóstico é de abscesso intraósseo.
Abscesso
subperiosteal
Cárie
Necrose total
~ FIGURA 5.27
Necrose pulpar total e início da inflamação no perio
donto a pica 1.
• A aplicação do teste com spray congelante não
provoca dor (resposta negativa).
• O teste de percussão provoca dor severa.
• O paciente relata sensação de "dente crescido"
(extrusão) e dor severa à mastigação.
• Há dor espontânea e moderada, que diminui com
o uso de analgésicos.
• O diagnóstico é de necrose pulpar com pericemen
tite.
Cárie
Necrose total
~ FIGURA 5.29
Evolução do abscesso para a região subperiosteal.
O aumento de volume da coleção purulenta ocorre
rapidamente. As enzimas proteolíticas facilitam a
difusão do pus através das trabéculas ósseas com a
finalidade de expelir a coleção purulenta, que rompe
a cortical óssea e fica retida no periósteo.
• A aplicação do teste com spray congelante não
provoca dor (resposta negativa).
• A dor é espontânea, continua, severa e não cede
com analgésicos.
• Há aumento da mobilidade dental.
• O paciente apresenta dor severa ao teste da palpa
ção no fundo de sulco.
• Pode haver edema e celulite.
• O diagnóstico é de abscesso subperiosteal.
FIGURA 5.30 ~
Evolução do abscesso para a região submu
cosa. Logo que o pus rompe o periósteo e
invade o tecido mucoso, ocorre uma intensa
manifestação de dor e inchaço no fundo de
sulco (flutuação).
• A aplicação do teste com spray congelante
não provoca dor (resposta negativa).
• A dor é espontânea, contínua, severa e não
cede com analgésicos.
• Há aumento da mobilidade dental.
• O paciente apresenta dor severa ao teste
da palpação no fundo de sulco.
• Há aumento de volume no fundo de sulco,
edema e celulite.
• O diagnóstico é de abscesso submucoso.
Abscesso fênix
Endodontia passo a passo 57
Abscesso
subperiosteal
Cárie
Necrose total
Esse abscesso surge da agudização de um processo periapical crônico (área radiolú
cida periapical) quando ocorre queda da resistência imunológica. Quando esse tipo
de abscesso ocorre na mandíbula, pode não haver tempo para que as enzimas proteo
líticas destruam a cortical óssea e o pus fica contido no espaço intraósseo (abscesso
intraósseo). O atendimento de urgência envolve a medicação antibiótica associada à
drenagem cirúrgica com a perfuração da cortical óssea para a saída do pus. A tenta
tiva de tratamento via canal radicular não resulta no alívio da dor pela dificuldade
da drenagem nos dentes inferiores. É comum que o paciente opte pela extração do
dente, tal a intensidade da dor.
PROGNÓSTICO DENTAL E PLANEJAMENTO
Extrair ou aproveitar?
Após ouvir a queixa do paciente, avaliar a situação socioeconômica e analisar clínica
e radiograficamente o caso, é necessário considerar as seguintes possibilidades:
1. Indicação de tratamento endodôntico em dentes com rizogênese completa:
• Dentes com polpa normal com finalidade protética ou restauradora.
• Dentes com muita sensibilidade a estímulos térmicos (condição limítrofe en-
tre a pulpite reversível e irreversível).• Dentes com pulpite irreversível.
• Dentes com necrose pulpar.
• Dentes com lesões periapicais crônicas (com ou sem fístula).
• Dentes com insucesso de tratamento endodôntico anterior que apresentam
lesão periapical.
58 Francisco José de Souza Filho (Organizador)
• Dentes com tratamentos endodônticos insatisfatórios sem lesão periapical
mas que necessitam de tratamentos protéticos.
2. Indicação de tratamento endodôntico de dentes com rizogênese incompleta:
• Dentes com ápice aberto e presença de necrose pulpar:
• Considerar a possibilidade de revitalização do canal radicular.
3. Consideração da possibilidade de extração e colocação de implantes nas seguin
tes condições:
• Na presença de doença periodontal avançada com prognóstico duvidoso (le
são de furca, perda óssea acentuada, pouca inserção do dente no osso alveo
lar).
• Dentes com impossibilidade de restauração ou prótese (cárie subgengival in
vadindo o espaço ósseo, dentes debilitados pela perda de estrutura, retrata
mento endodôntico com pouca previsibilidade de sucesso).
• Valor estratégico do dente na arcada dental.
• Dentes com fratura radicular longitudinal.
LEITURAS RECOMENDADAS
Bender lB. Factors influencing radiographic appearance of bony
lesions. J Endod. 1982; 8(4):161-70.
Kaffe 1, Gratt BM. Variations in the radiographic interpretation of
the periapical dental region. J Endod. 1988;14(7):330-5.
Kim S. Neurovascular interactions in the dental pulp in health and
inflammation. J Endod. 1990;16:48-53.
Lado EA, Richmond AF, Marks RG. Reliability and validity of a
digital pulp tester as a test standard for measuring sensory
perception. 1Endod.1988;14:352-6.
Loeser ]D, Treede RD. The Kyoto pro toco! of IASP basic pain ter
minology. Pain. 2008; 3:473-7.
Lopes MA, de Souza Filho FJ, Jorge Junior J, de Almeida OP. Her
pes zoster infection as a differential diagnosís of acute pulpi
tes. J Endod. 1998;24(2):143-4.
Mattscheck D, Law AS, Nixdorf DR. Diagnosis of nonodontogenic
toothache. ln: Hargreaves KM, Cohen S, Berman LH, editors.
Cohen's pathways of the pulp. lOth ed. St. Louis: Mosby El
sevier; 2011.
Rickoff B, Trowbridge H, Baker J, Fuss Z, Bender IB. Effects
of thermal vitality tests on human dental pulp. 1 Endod.
1988;14:482-5.
Rickoff B, Trowbridge H. Effects of thermal vitality tests on human
dental pulp. J Endod. 1988;14:482-5.
Sandler NA, Ziccardi V, Ochs M. Dífferential diagnosis of jaw pain
in the elderly. J Am Dent Assoe. 1995;126:1263-72.
Siqueira JTT, Ching LH. Neuralgia idiopática do trigêmeo:
diagnóstico diferencial com dor de origem dentária. JBA.
2003;3(10):131-9.
Morfologia dental aplicada ao
preparo endodôntico
FRANCISCO JOSÉ DE SOUZA FILHO
A Endodontia cUnica vive hoje uma fase de previsibilidade de resultados. Na Endodontia clínica
ou se ganha ou se perde. Nos dias de hoje é possível, com os conceitos atuais, determinarmos para
que direção aponta o tratamento executado. Existem manobras necessárias e fundamentais que
levam o tratamento ao caminho do sucesso, a isso chamamos domínio da anatomia. Três pontos
são fundamentais para a previsibilidade do tratamento: 1) localização do canal, 2) negociação
do canal e 3) localização do forame. Essas manobras, aparentemente fáceis, não são executadas
em 100% dos casos. A omissão de uma dessas fases pode até, em alguns casos, não determinar o
insucesso do tratamento, mas a previsibilidade estará comprometida. O sucesso dessas manobras
está ligado diretamente ao grande duelo entre o endodontista e a anatomia. Mais uma vez vemos
a arte do clfnico diante dessa difícil tarefa de driblar a anatomia.
Tauby Coutinho
Professor de Endodontia da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ).
CONSIDERAÇÕES GERAIS
O conhecimento da morfologia do sistema de canais radiculares é requisito essencial
para a prática endodôntica. Alguns autores afirmam, inclusive, que essa é a principal
condição para conduzir ao sucesso do tratamento. Vale destacar que, apesar do avan
ço tecnológico aplicado às áreas médicas, no procedimento endodôntico, o alcance
dos resultados ideais ainda depende, essencialmente, da habilidade do profissional
em acessar a câmara pulpar, localizar os canais radiculares e eliminar as interferên
cias anatômicas, que, ao longo do canal radicular, dificultam o acesso dos instrumen
tos rumo ao forame apical.
Resumindo, o conhecimento da anatomia dos canais radiculares, associado ao
manejo clínico dos instrumentos, é fundamental para o seu acesso e para o seu tra
tamento.
60 Francisco José de Souza Filho (Organizador)
A indústria metalúrgica e a Odontologia mantêm uma estreita história de parce
ria e mútuo desenvolvimento, particularmente na Endodontia. Concorda-se que, em
parte, a fabricação dos instrumentos endodônticos tem acompanhado essa evolução.
Está disponível uma ampla variedade de instrumentos que se diferenciam em design,
secção transversal, características das hastes e lâminas, conicidade, ângulo de corte,
etc. Contudo, admite-se que, apesar de ser produzida com estratégias especiais, tal
gama de itens, em parte, evoluiu muito mais associada às demandas comerciais do
que propriamente a diversidades da morfologia dos canais radiculares. Estudos com
microscopia eletrônica de varredura têm demonstrado que ainda persistem defeitos
e distorções nos instrumentos, fatores que resultam muitas vezes em dificuldades e
restrições funcionais dos instrumentos no interior dos canais radiculares.
Dessa forma, a indústria, com base em pesquisas, trabalha permanentemente
com expectativas de criar novos instrumentos que possam acompanhar a anato
mia dos canais com mais facilidade, maior eficiência e segurança. Enquanto isso
não ocorre, vale ressaltar uma interessante assertiva:
"A Endodontia deve ser ensinada da anatomia para os instrumentos, e não dos instrumen
tos para a anatomiá' (Souza Filho).
ESTUDO DA ANATOMIA DOS CANAIS RADICULARES
O domínio clínico do binômio morfologia-instrumentação não deve ser feito por
meio de livros ou imagens, mas sim por meio da anatomia real de dentes extraidos. O
ensino do tratamento endodôntico em manequins tem seu aspecto positivo em rela
ção à simulação da ergonomia, ao posicionamento do profissional, ao isolamento ab
soluto e à abertura de acesso, mas, infelizmente, mascara o que há de mais importante
no aprendizado, que é o conhecimento ou a visão real da completa anatomia dental.
Para aprender anatomia dental e dos canais radiculares, os dentes não devem
ser incluídos em blocos de resina ou gesso. É necessário manusear os dentes para
conhecer sua forma, número de raízes, achatamentos radiculares, variações de com
primento, grau de curvaturas radiculares, forma e localização do forame apical. Em
seguida, é fundamental cortar dentes extraídos, tanto no sentido longitudinal como
no transversal, para conhecer as variações inerentes aos tipos radiculares, ovais ou
achatados. Os locais de istmos e reentrâncias nos canais achatados são detalhes que
não são revelados pelos métodos clássicos radiográficos e podem interferir, significa
tivamente, na qualidade da limpeza e modelagem dos canais radiculares.
O conhecimento dessa anatomia real, somado às informações apresentadas pelas
imagens radiográficas periapicais, permite a formação de uma memória anatômica que,
embora virtual, é suficiente para dar ao clínico, no momento do tratamento, as informa
ções morfológicas necessárias para o planejamento do tratamento endodôntico.
Os principais detalhes anatômicos de interesse para Endodontia são apresentados
a seguir:
Endodontia passo a passo 61
COMPRIMENTO MÉDIO DOS DENTES (Tabela6.1)
Tabela 6.1 Comprimento médio e número de canais
Dentes superiores Comprimento médio (mm) Número de canais
Incisivo central 22,5 1 (100%)
Incisivo lateral 22,0 1 (100%)
Canino 26,5 1 (100%)
1° pré-molar 20,6 1 (28%) e 2 (72%)
2° pré-molar 21,5 1 (53,7%) e 2 {46,3%)
1° molar 20,8 3 (30%) e 4 {70%)2° molar 20,0 3 (30%) e 4 {70%)
Dentes Inferiores Comprimento médio (mm) Número de canais
Incisivo central 20,7 1 (68%) e 2 (32%)
Incisivo lateral 20, l 1 (65,6%) e 2 (34,4%)
Canino 25,6 1 (94%) e 2 (6%)
1 º pré-molar 21,6 1 (82%) e 2 {16%) 3 (2%)
2° pré-molar 22,3 1 (92%) e 2 {8%)
1° molar 21,0 2 (6,5%), 3 (32,4%) e 4 (21,1%)
2° molar 19,8 2 (23%), 3 (66,5%) e 4 (10,5%)
Fonte: adaptada de Cohen e Burns.1
Os canais radiculares longos são mais difíceis de instrumentar do que os curtos. O preparo
e a modelagem do terço apical dependem de instrumentos longos, normalmente as limas
manuais de 31 mm de comprimento.
DETALHES DA MORFOLOGIA CORONÁRIA DE INTERESSE PARA ABERTURA
DE ACESSO
Os detalhes mais importantes da superfície coronária que servem como referência
para as aberturas coronárias são as cristas marginais, a borda incisa! e o cíngulo.
Dentes anteriores - incisivos e caninos (Figura 6.1)
~ FIGURA6.1
Face palatina do incisivo central mostrando com
detalhes as cristas marginais (setas azuis), o cín
gulo (seta vermelha) e a borda incisai.
62 Francisco José de Souza Filho (Organizador)
Pré-molar superior {Figura 6.2)
Pré-molar inferior (Figura 6.3)
FIGURA 6.3 ....
~FIGURA 6.2
Face oclusal do pré-molar superior mostrando
com detalhes as cristas marginais (setas azuis),
as vertentes de cúspides (setas vermelhas) e o
sulco central.
Face oclusal do pré-molar inferior mostrando
com detalhes as cristas marginais (setas azuis), a
vertente da cúspide vestibular (seta vermelha),
o sulco central e a cúspide lingual.
Molar superior {Figura 6.4)
~FIGURA 6.4
Face oclusal do molar superior mostrando com deta
lhes as cristas marginais (setas azuis), as vertentes das
cúspides vestibulares e palatinas (setas vermelhas) e
a ponte de esmalte (seta verde).
Molar inferior (Figura 6.5)
Endodontia passo a passo 63
~ FIGURA6.S
Face oclusal do molar inferior mostrando com
detalhes as cristas marginais (setas azuis), as ver
tentes das cúspides vestibulares e linguais (setas
vermelhas) e o sulco central (seta verde).
IMPORTÂNCIA DE ISTMOS E REENTRÂNCIAS NOS CANAIS ACHATADOS
Istmos e reentrâncias costumam ser encontrados nos terços cervical e médio dos
canais radiculares achatados. O conhecimento da localização dessas áreas é muito
importante devido à presença constante de restos pulpares, substratos orgânicos e
biofilme bacteriano (Figuras 6.6 e 6.7). A limpeza de tais áreas depende da ação me
cânica dos instrumentos, principalmente dos rotatórios, que devem ser direcionados
para essas regiões a fun de cortar a dentina e remover os substratos orgânicos.
À FIGURA 6.6 À FIGURA 6.7
Corte histológico mostrando restos pulpares na re- Corte transversal de ra iz mesial de molar inferior
gião de reentrância do canal radicular. mostrando área de reentrância.
MORFOLOGIA DOS TERÇOS MÉDIO E APICAL DOS CANAIS RADICULARES DOS
DENTES SUPERIORES EM MICROTOMOGRAFIA COMPUTADORIZADA
As rnicrotomografias computadorizadas (micro TC) das Figuras 6.8 a 6.19 mostram
a forma do canal radicular em corte transversal da raiz, de diversos grupos dentais, a
5 e a 2 mm de distância do ápice radicular.
64 Francisco José de Souza Filho (Organizador)
à FIGURA6.8 à FIGURA6.9
Incisivo central superior- 5 mm do ápice. Incisivo central superior- 2 mm do ápice.
à FIGURA 6.10 à FIGURA 6.11
Incisivo lateral superior - 5 mm do ápice. Incisivo lateral superior- 2 mm do ápice.
à FIGURA 6.12 à FIGURA 6.13
Canino superior- 5 mm do ápice. Canino superior- 2 mm do ápice.
à FIGURA 6.14
Primeiro pré-molar superior- 5 mm do ápice.
à FIGURA 6.16
Segundo pré-molar superior - 5 mm do ápice.
à FIGURA 6.18
Primeiro molar superior- 5 mm do ápice.
Endodontia passo a passo 65
à FIGURA 6.15
Primeiro pré-molar superior - 2 mm do ápice.
à FIGURA 6.17
Segundo pré-molar superior - 1 mm do ápice com
dois forames circulares.
à FIGURA 6.19
Primeiro molar superior - 2 mm do ápice (os canais
são circulares).
66 Francisco José de Souza Filho (Organizador)
MORFOLOGIA DOS TERÇOS MÉDIO E APICAL DOS CANAIS RADICULARES DOS
DENTES INFERIORES EM MICROTOMOGRAFIAS
As microtomografias das Figuras 6.20 a 6.29 mostram a forma do canal radicular
em corte transversal da raiz, de diversos grupos dentais, a 5 e a 2 mm de distância do
ápice radicular.
A FIGURA 6.20
Incisivo inferior - 5 mm do ápice.
A FIGURA 6.22
Canino inferior- 5 mm do ápice.
A FIGURA 6.24
Primeiro pré-molar inferior- 5 mm do ápice.
A FIGURA 6.21
Incisivo inferior- 2 mm do ápice.
A FIGURA 6.23
Canino inferior - 2 mm do ápice.
A FIGURA 6.25
Primeiro pré-molar inferior- 2 mm do ápice com três
forames apicais.
A FIGURA 6.26
Segundo pré-molar inferior- 5 mm do ápice.
A FIGURA 6.28
Primeiro molar inferior - 5 mm do ápice.
Endodontia passo a passo 67
A FIGURA 6.27
Segundo pré-molar inferior - 2 mm do ápice com
dois forames a picais.
A FIGURA 6.29
Primeiro molar inferior- 2 mm do ápice.
As microtomografias mostram que, em geral, os canais tornam-se mais circulares à medi
da que o corte se aproxima do forame apical. Esses dados são importantes, uma vez que a
limpeza e a modelagem do terço apical podem ser feitas com maior previsibilidade se os
instrumentos puderem tocar todas as paredes do canal nessa região.
68 Francisco José de Souza Filho (Organizador)
CORTES LONGITUDINAIS E TRANSVERSAIS DE DENTES E RAÍZES
ACHATADAS {Figuras 6.30 e 6 .31)
A FIGURA 6.30
A) O corte transversal do primeiro pré-molar inferior no início do terço apical (5 mm) mostra o
canal achatado nessa região. B) O corte transversal a 2 mm do vértice radicular mostra o canal
radicular com formato circular nessa área apical.
A FIGURA 6.31
A) O corte longitudinal mostra o canino inferior com a raiz e o canal rad icular achatados em quase
toda a sua extensão. B) O corte transversal a 2 mm do vértice radicu lar mostra o canal radicular
com formato circular nessa área apical.
IMPORTÂNCIA DA PRIMEIRA CURVATURA DO CANAL RADICULAR
A primeira curvatura do canal radicular encontra-se mais acentuada na entrada dos
canais vestibulares dos molares superiores (Figura 6.32) e nos canais mesiais dos
molares inferiores (Figura 6.33). O ângulo dessa curvatura está diretamente rela
cionado com a amplitude da câmara pulpar - quanto maior o grau de calcificação
da câmara pulpar, maior o ângulo da primeira curvatura do canal. Para reduzir o
ângulo dessa curvatura e facilitar o acesso dos instrumentos para o interior do canal
radicular, deve-se fazer um desgaste anticurvatura, em geral com auxílio de uma
broca de Largo, para remover a dentina circundante na entrada do canal radicular
(Figura 6.34).
Endodontia passo a passo 69
A função desse desgaste é proporcionar um acesso mais retilíneo dos instrumen
tos para o interior do canal radicular.
à FIGURA 6.32
Corte longitudinal da ra iz mesiovestibular do molar
superior mostrando a primeira curvatura do canal
(seta).
ZONA DE RISCO E ZONA DE SEGURANÇA
à FIGURA 6.33
Radiografia mostrando a primeira curvatura do canal
do molar inferior.
<1111 FIGURA 6.34
A) Posição da lima na primeira curvatura do canal,
cruzando a câmara pulpar. B) Posição da lima após
o desgaste anticurvatura, num plano longitudinal
em relação à primeira curvatura do canal.
Nas raízes achatadas (incisivos inferiores, raiz mesiovestibular dos molares superiores,
raiz mesial dos molares inferiores), devido ao maior estreitamento da raiz no sentido
mesiodistal e em função do menor perímetro do canal radicular em relação à superficie
externa da raiz, pode-se definir que a zona de risco é a superficie radicular relacionada à
região da furca .. Durante o preparo da entrada do canal ou durante a preparação de es
paço para pino intrarradicular, essa área apresenta maior risco de perfuração acidental.
O conhecimento desses detalhes anatômicos pode prevenir acidentes, uma vez que os
desgastes e as ampliações nessa região devem ser feitos no sentido anticurvatura,deno
minada zona de segurança (Figura 6.35).
70 Francisco José de Souza Filho (Organizador)
MORFOLOGIA DO FORAM E APICAL
~ FIGURA 6.35
Corte transversal da raiz mesial de molar inferior
mostrando as zonas de risco (setas vermelhas) e
as zonas de segurança (setas azuis).
No importante estudo de Kuttler,2 realizado em cadáveres com idade entre 18 e 25
anos no grupo 1 e com idade de 55 anos ou mais no grupo II, foram analisados vários
aspectos da morfologia do forame apical sob magnificação (Figuras 6.36 e 6.37). Os
resultados do estudo levaram a diversas conclusões. Entre elas:
1. O centro do forame apical foi localizado no vértice radicular em 32% dos dentes
do grupo 1 e em 20% do grupo II.
2. Os forames tinham a saída lateral em relação ao centro do ápice radicular em
68% dos dentes do grupo 1 e em 80% do grupo II.
3. O diâmetro do forame apical em relação à sua abertura na superfície do cemento
radicular foi, em média, de 502 µ(correspondente a uma lima# 50) no grupo 1 e
681 µ(correspondente a uma lima# 60 ou# 70) no grupo II.
4. O menor diâmetro do canal localizou-se no limite cemento-dentina-canal
(CDC) em 53% dos dentes e, em média, foi de 306 µno grupo 1ede274 µno
grupo II (correspondente ao diâmetro de uma lima# 30).
Conclusão
• No ponto de maior constrição do canal radicular (limite CDC), a medida do fora
me corresponde, em média, em pacientes adultos, ao diâmetro de um instrumento
tipo K # 30.
• É importante que o clínico conheça esses dados para entender que, para efetu
ar uma limpeza adequada dos debris e biofilme bacteriano localizados no forame
apical, especialmente na área de maior constrição, é necessário realizar uma am
pliação com instrumentos de diâmetro compatível com a média dos diâmetros
encontrados no trabalho de Kuttler.
• É possível concluir também que a lima de patência # 10, em função do diâmetro
fisiológico dos forames apicais, dificilmente promove uma limpeza adequada nes
sa regiao.
Endodontia passo a passo 71
.i FIGURA 6.36 .i FIGURA 6.37
Fotomicrografia de varredura mostrando forame Forame apical.
a picai.
PERMEABILIDADE DENTINÁRIA
A maior amplitude dos túbulos nos terços cervical e médio (Figuras 6.38 e 6.39) per
mite uma maior ocupação microbiana, na razão de 300 µ.3 No terço apical, a menor
amplitude dos túbulos dentinários permite uma ocupação microbiana na razão de
40 µ(Figura 6.40). Além disso, na região dos polos vestibular e lingual, existem reen
trâncias e maior possibilidade de permanência de restos orgânicos após a instrumen
tação dos canais radiculares. Em vista disso, a instrumentação de canais radiculares
em canais achatados deve ser, sempre, dirigida para os polos .
.i FIGURA 6.38
Microfotografia de varredura mostrando a permeabi
lidade da dentina no terço cervical do canal.
.i FIGURA 6.39
Fotomicrografia de varredura mostrando a permea
bilidade dentinária no terço médio do canal radicular.
72 Francisco José de Souza Filho (Organizador)
\
1 /
<Ili FIGURA 6.40
Bactérias no interior dos túbulos dentinários.
REFER~NCIAS
1. Cohen S, Burns RC. Caminhos da polpa. 2. ed. Rio de Janeiro:
Guanabara-Koogan; 1982.
2. Kuttler Y. Microscopic investigation of root apexes. ]ADA.
1955;50:544-52.
LEITURAS RECOMENDADAS
ai Shalabi RM, Omer OE, Glennon J, Jennings M, Claffey NM.
Root canal anatomy of maxillary first and second permanent
molars. lnt Endod J. 2000;33(5):405-14.
Caiado AC, de Goes MF, de Souza Filho FJ, Rueggeberg FA. The
effect of acid etchant type and dentin location on tubular
density and dimension. J Prosthet Dent. 2010; 103(6):352-61.
Cleghorn BM, Christie WH, Dong CCS. Root and root canal mor
phology of the human permanent maxillary first molar: a lite
rature review. J Endod. 2006;32:813-21.
Cleghorn BM, Christie WH, Dong CCS. The root and root canal
morphology of the human mandibular first premolar: a lite
rature review. J Endod. 2007;33:509-16.
Cleghorn BM, Christie WH, Dong CCS. The root and root canal
morphology of the human mandibular second premolar: a
literature review. J Endod. 2007;33:1031-7.
De Deus QD. Endodontia. 4. ed. Rio de Janeiro: Médica e Cien
tifica; 1986.
Kartal N, Yanikogllu CF. Root canal morphology of mandibular
incisors. J Endod.1992;18(11):562-56.
Kartal N, Ozgelik B. Cimilli H. Root canal morphology ofmaxilla
ry premolars. J Endod. 1998;24 (6):417-9.
Krasner P, Rankow HJ. Anatomy of the pulp-chamber floor. J En
dod. 2004;30:5-16.
Kulild JC, Peters DO. lncidence and configuration of canal systems
in the mesiobuccal root of maxillary first and second molars.
J Endod. 1990;16:311-7.
3. Love RM, Jen.kinson HF. lnvasion of dentinal tu bules by oral
bacterias. Crit Rev Oral Biol Med. 2002;13(2):171-83.
Mauger MJ, Scbindler WG, Walker WA. An evaluation of canal
morphology at different leveis of root resection in mandíbular
incisors. J Endod. 1998;24:607-9.
Pablo OV, Estevez R, Sanchez MP, Heilborn C, Cohenca N.
Root anatomy and canal configuration of the permanent
mandibular first molar: a systematic review. J Endod.
2010;36:1919-31.
Pécora JD, Woelfel JB. Sousa Neto MO, Issa EP. Morphologic study
of the maxillary molars. Part II: Internai anatomy. Braz Dent
J. 1992;3:53-7.
Sauaia TS, Gomes BP, Pinheiro ET, Zaia AA,i L. Thickness of den
tine in mesial roots of mandibular molars with different leng
ths. lnt EndodJ. 2010;43(7):555-9.
Souza Filho FJ. Avaliação em MEV da ação de substâncias quí
micas irrigadoras de canais radiculares na permeabilidade
da dentina (tese). Piracicaba: Faculdade de Odontologia de
Piracicaba; 2002.
Jafarzadeh H, Wu Y-N. The C-shaped root canal configuration: a
review. J Endod. 2007;33:517-23.
Teixeira FB, Sano CL, Gomes BP, Zaia AA, Ferraz CC, Souza Filho
FJ. A prelirninary study of the incidence and position of the
root canal isthmus in maxillary and mandibular first molars.
lnt Endod J. 2003;36( 4):276-80.
Vertucci FJ. Root canal anatomy of the human permanent teeth.
Oral Surg. ! 984;58:589-99.
Classificação e planeiamento
do tratamento endodôntico
LUIZ VALDRIGHI E FRANCISCO JOSÉ DE SOUZA FILHO
CONSIDERAÇÕES GERAIS
A Endodontia, assim como todas as áreas clinicas, depende não apenas do conheci
mento básico teórico da biologia e dos fundamentos técnicos, mas da execução de
um difícil procedimento clínico que exige um treinamento psicomotor que vai desde
a manipulação de dentes extraídos em laboratório até a execução de tratamentos em
pacientes.
A curva de aprendizado para a formação de um endodontista é longa e depende de um
treinamento intensivo, que pode ser obtido em cursos de aperfeiçoamento, especialização,
estágios ou residências clínicas, com professores com probidade clínica comprovada.
COMO EVITAR FALHAS E IATROGENIAS
As principais falhas iatrogênicas que acontecem na Endodontia ocorrem devido à
falta de um planejamento clínico adequado, negligência ou desatenção durante o tra
tamento e, principalmente, devido à falta de um critério para seleção dos casos clínicos
de acordo com o grau de experiência do dentista. Essa seleção depende de critérios que
devem ser observados na avaliação clínica e radiográfica.
Critérios radiográficos
Na radiografia periapical, podem ser observadas alterações relacionadas à anatomia,
à amplitude dos canais, ao grau de curvatura radicular e a outras condições patológi
cas, como reabsorções radiculares ou fraturas, que podem dificultar ou contraindicar
os tratamentos endodônticos.
74 Francisco José de Souza Filho (Organizador)
Critérios clínicos
Na avaliação clínica, devem ser consideradas as dificuldades técnicas relacionadas
aos tratamentos, que incluem retratamentos endodônticos, remoção de retentores
intrarradiculares, remoção de instrumentos fraturados no canal, tratamento de per
furações radiculares, dificuldades no isolamento absoluto, dificuldades essas, entre
outras, que exigem um maior grau de experiência do operador.
Portanto, essa diversidade de variáveisque envolvem os tratamentos endodôn
ticos determina uma progressiva complexidade para a execução do procedimento
clínico. Assim, é imprescindível que o profissional disponha de uma classificação de
referência que possa orientar seu planejamento em função de sua experiência clínica,
tendo como critérios a amplitude dos canais, o grau de curvatura radicular, as anor
malidades anatômicas, as condições locais de posicionamento do dente na arcada e
as dificuldades de isolamento. Outros fatores associados ao paciente também devem
ser considerados e incluem pouca abertura bucal, falta de cooperação e algumas con
dições de saúde que exijam cuidados especiais.
SELEÇÃO DE CASOS CLÍNICOS DE ACORDO COM A AMPLITUDE DOS CANAIS,
O GRAU DE CURVATURA RADICULAR, ANORMALIDADES ANATÔMICAS E AS
DIFICULDADES TÉCNICAS
(Classificação de Souza Filho e Valdrighi)
Classificação dos canais radiculares de acordo com o nível de dificuldade técnica
e previsibilidade:
• Classe! (iniciantes) (Figura 7.1)
• Canais, amplos ou médios, retos ou com leve curvatura
• Classe II (iniciantes com alguma experiência clínica) (Figura 7.2)
• Canais constritos retos e/ou com leve curvatura
• Classe III (especialistas) (Figuras 7.3 a 7.11)
• Canais calcificados com ou sem curvatura
• Canais com curvatura radicular acentuada
• Dilacerações radiculares
• Canais com dupla curvatura
• Presença de canais extras
• Reintervenções endodônticas
• Presença de próteses ou retentores intrar radiculares
• Perfurações radiculares ou na câmara pulpar
• Instrumentos fraturados
• Dificuldades no isolamento absoluto
• Dificuldades na abertura bucal
• Pacientes com alterações sistêmicas graves
Endodontia passo a passo 75
• Classe IV (especialistas - categoria especial) (Figura 7.12)
• Tratamento de dentes com traumatismo dentário (avulsões, luxações e fraturas
radiculares)
• Tratamento de dentes com rizogênese incompleta
• Classe V (especialistas - categoria especial) (Figura 7.13)
• Tratamento endodôntico de dentes com anomalias
- Dens in dens
- Fusão
- Geminação
- Taurodontismo
.à FIGURA 7.1
Radiografia periapical mostrando as caracterís
ticas de canais Classe 1.
.à FIGURA 7.3
Curvatura radicu lar acentuada.
.à FIGURA 7.2
Radiografia periapica l mostrando as caracterís
t icas de canais Classe li.
.à FIGURA 7.4
Canal calcificado.
76 Francisco José de Souza Filho (Organizador)
. FIGURA 7.5
Pré-molar superior com trifurcação de raiz (ca- . FIGURA 7.6
nal extra). Retratamento endodôntico.
 FIGURA 7.7 . FIGURA 7.8
Presença de próteses ou retentares intrarradi- Perfurações radiculares ou na câmara pulpar.
cu lares .
. FIGURA 7.9  FIGURA 7.10
Instrumentos fraturados no canal. Perfurações radiculares.
Endodontia passo a passo 77
à FIGURA 7.11 à FIGURA 7.12
Dificuldades para o isolamento absoluto. Dentes com rizogênese incompleta.
~ FIGURA 7.13
Dens in dens (dens invaginatus).
PROGNÓSTICO DENTAL E PLANEJAMENTO
Extrair ou aproveitar?
Conforme já mencionado no Capítulo 5, após ouvir a queixa do paciente, avaliar a
situação socioeconômica e analisar clínica e radiograficarnente o caso, é necessário
considerar as seguintes possibilidades:
1. Indicação de tratamento endodôntico em dentes com rizogênese completa:
• Dentes com polpa normal com finalidade protética ou restauradora.
• Dentes com muita sensibilidade a estímulos térmicos (condição limítrofe en
t re a pulpite reversível e irreversível).
• Dentes com pulpite irreversível.
• Dentes com necrose pulpar.
78 Francisco José de Souza Filho (Organizador)
• Dentes com lesões periapicais crônicas (com ou sem fístula).
• Dentes com insucesso do tratamento endodôntico anterior que apresentam
lesão periapical.
• Dentes com tratamentos endodônticos insatisfatórios sem lesão periapical,
mas que necessitam de tratamentos protéticos.
2. Indicação de tratamento endodôntico de dentes com rizogênese incompleta:
• Dentes com ápice aberto e presença de necrose pulpar:
• Considerar a possibilidade de revitalização do canal radicular.
3. Consideração da possibilidade de extração e colocação de implantes nas seguin
tes condições:
• Na presença de doença periodontal avançada com prognóstico duvidoso (lesão
de furca, perda óssea acentuada, pouca inserção do dente no osso alveolar).
• Dentes com impossibilidade de restauração ou prótese {cárie subgengival in
vadindo o espaço ósseo, dentes debilitados pela perda de estrutura, retrata
mento endodôntico com pouca previsibilidade de sucesso).
• Valor estratégico do dente na arcada dental.
• Dentes com fratura radicular longitudinal.
SEQUÊNCIA PARA O PLANEJAMENTO CLÍNICO
1. Avaliar a queixa principal do paciente.
2. Conhecer sua expectativa em relação ao tratamento:
a. Saber o que o paciente quer;
b. Saber o que espera do tratamento.
3. Avaliar a condição geral de saúde.
4. Avaliar sua motivação quanto à manutenção dos dentes:
a. Qualidade da higiene oral;
b. Preocupação e cuidado com o controle da doença periodontal;
c. Qualidade das restaurações e próteses;
d. Raízes residuais.
5. Avaliar a condição de saúde da mucosa bucal {presença de patologias).
6. Avaliar radiograficamente:
a. Fazer radiografias periapicais para complementar o diagnóstico;
b. Se necessário, fazer outras tomadas radiográficas em angulações horizontais
diferentes.
7. Avaliar oclusão, bruxismo e dor orofacial:
a. Incluir ou excluir origem dental;
b. Se a dor não é de origem dental, solicitar avaliação de especialista em dor
orofacial;
c. Se a dor é de origem dental:
i. Localizar o dente;
Endodontia passo a passo 79
ii. Realizar testes de vitalidade pulpar e sensibilidade à percussão;
iii. Solicitar exames complementares (radiografias, tomografias, etc.).
8. Concluir o diagnóstico dental:
a. Pulpar (polpa normal, pulpite reversível, pulpite irreversível, necrose);
b. Periapical (normal, espessamento do ligamento periodontal, imagem radio
lúcida periapical, imagem radiopaca periapical);
c. Periodontal (perda óssea horizontal, vertical, lesões de furca, lesões endopério ).
9. Classificar o caso clínico de acordo com as dificuldades impostas pela morfolo
gia ou pelas dificuldades técnicas para definir se ele se enquadra na experiência
do operador (clínico geral, iniciante ou especialista).
1 O. Considerar as possibilidades de recuperação do dente com:
a. Tratamento ou retratamento endodôntico;
b. Cirurgia parendodôntica;
c. Reabilitação coronária:
i. Direta;
ii. Com próteses.
11. Avaliar a relação custo/benefício:
a. Recuperação do dente ou necessidade de extração e substituição do dente
por implante.
LEITURAS RECOMENDADAS
Cleghorn BM, Chrístie WH, Dong CCS. Root and root canal mor·
phology of the human permanent maxillary first molar: a lite·
rature review. J Endod. 2006;32:813·21.
Marshall FJ. Planníng endodontic treatment. Dent Clin North Am.
l 979;23(4):495·518.
West JD. Endodontic predíctability: restore or remove: how do I
choose? ln: Cohen M, edítor. Interdlsciplinary treatment
planníng: principies, design, implementation. Chicago: Quin·
tessence Publishing; 2008. p. 123·64.
West JD. Endodontic update 2006. J Esthet Rest Dent. 2006;18:280·
300.
Abertura coronária
FRANCISCO JOSÉ DE SOUZA FILHO
CONSIDERAÇÕES GERAIS
A cavidade de acesso endodôntico é um componente essencial da tríade endodôn
tica (abertura coronária, preparo dos canais e obturação) em que se baseia toda a
preparação e subsequente obturação dos canais radiculares. É, provavelmente, a fase
mais esquecida da terapia endodôntica. O desconhecimento da anatomia coronária
dificulta e conduz a erros na abertura de acesso e resulta em uma grande frustração
para o clínico, uma vez que os resultados imediatos dificultam os procedimentos pos
teriores de preparo e obturação.
A forma de contorno da abertura de acesso deve ser feita nos locais de melhor
acesso à câmara pulpar (p. ex., sulcos e depressões anatômicasda coroa dental). Não
existem aberturas de acesso conservadoras ou minimamente invasivas. A localização
do desenho da abertura deve respeitar as estruturas anatômicas mais nobres da ana
tomia coronária. São as estruturas que dão resistência à coroa dental, como as cristas
marginais, as cúspides, a borda incisa! e o cíngulo.
De qualquer modo, a abertura de acesso ao canal radicular deve dar um acesso
direto aos canais radiculares, de modo a não interferir com os procedimentos, fre
quentemente difíceis, da instrumentação e da modelagem a serem executados.
O conhecimento mais amplo da anatomia oclusal, sua relação com os limites da
câmara pulpar e a posição dos canais radiculares podem ser visualizados em cortes
longitudinais dos dentes.
A seguir são dados alguns exemplos de como estudar a abertura de acesso em
cortes longitudinais de dentes.
Endodontia passo a passo 81
LOCAL DE ACESSO CORONÁRIO EM DENTES ANTERIORES ÍNTEGROS
(INCISIVOS E CANINOS) (Figura 8.1)
A FIGURAS.1
A) Demarcação dos pontos de referência preservando as cristas marginais, a borda incisai e o cín
gulo. B) Corte longitudinal mostrando os limites da abertura de acesso entre o cíngulo e a borda
incisai. C) Face palatina do incisivo central superior mostrando os limites da abertura de acesso,
preservando as áreas nobres da anatomia coronária - cristas marginais, cíngulo e borda incisai.
LOCAL DE ACESSO CORONÁRIO NOS PRÉ-MOLARES SUPERIORES (Figura 8.2)
A FIGURAS.2
A) Pontos de referência para a abertura de acesso nos pré-molares superiores preservando a ver
tente da cúspide vestibular, a metade da cúspide palatina e as cristas marginais. B) Forma de con
torno da cavidade de acesso.
LOCAL DE ACESSO CORONÁRIO NOS PRÉ-MOLARES INFERIORES (Figura 8.3)
A FIGURAS.3
A) Face oclusal do pré-molar inferior. B) Local do acesso coronário na metade da vertente da cús
pide vestibular estendendo-se até o sulco central, preservando integralmente a cúspide lingual e
as cristas marginais.
82 Francisco José de Souza Filho (Organizador)
LOCAL DE ACESSO NOS MOLARES SUPERIORES {Figura 8.4)
à FIGURA8.4
A) Perfurações na face oclusal para delimitar as áreas que serão preservadas na abertura de aces
so. B) Forma de contorno da abertura coronária dos molares superiores.
LOCAL DE ACESSO NOS MOLARES INFERIORES (Figura 8.5)
à FIGURA8.5
A) Perfurações na face oclusal para delimitar as áreas que serão preservadas na abertura de aces
so. B) Forma de contorno da abertura coronária dos molares inferiores.
• A abertura de acesso deve ser feita antes do isolamento absoluto, sobretudo em dentes
com giroversão ou inclinações, para não correr o risco de desvios ou perfurações iatro-
• • gerucas.
• Cáries, restaurações e próteses devem ser completamente removidas para iniciar a fase de
descontaminação coronária.
• As áreas nobres e de resistência do dente, como cíngulo, cristas marginais e área incisai,
devem ser preservadas.
• A abertura de acesso em dentes anteriores pode ser realizada na face vestibular para pre
servar o cíngulo quando:
• o dente estiver indicado para coroa total ou facetas;
• existir cárie na face vestibular;
• as cristas marginais estiverem comprometidas por cárie ou restaurações.
Endodontia passo a passo 83
INSTRUMENTAL
• Pontas diamantadas esféricas para alta rotação números ~ e 1 (haste longa) para
demarcação dos pontos anatômicos na superfície oclusal ou lingual/palatina.
• Pontas diamantadas esféricas com haste longa para alta rotação números 1016,
1014 e 1012 para remoção do tecido cariado e restaurações e para realização dos
desgastes necessários no aprofundamento da cavidade de acesso.
• Ponta diamantada 3082 com ponta inativa para remoção do teto da câmara pulpar
(Figura 8.6).
REMOÇÃO DO TETO DA CÂMARA PULPAR
~ FIGURAS.6
Uso da ponta diamantada 3082 (KG Sorensen) para a
remoção do teto da cavidade pulpar.
ACESSO CORONÁRIO EM DENTES COM CALCIFICAÇÕES NA CÂMARA PULPAR
A câmara pulpar sofre modificações anatômicas fisiológicas e patológicas que ocor
rem com a idade e são decorrentes de estímulos produzidos por cárie, atrição, abra
são, doença periodontal e procedimentos restauradores. Como resposta aos agentes
agressores, a polpa dental estimula a formação de dentina reacional, que oblitera a
câmara pulpar e dificulta os procedimentos de localização da entrada dos canais ra
diculares.
Nos dentes com calcificações na câmara pulpar, existem dificuldades para a lo
calização das entradas dos canais radiculares, mas os princípios para a abertura de
acesso são os mesmos utilizados nos dentes com câmara pulpar normal. É necessário
demarcar os pontos coronários e fazer o desgaste da cavidade, aprofundando o pre
paro regularmente, sempre na mesma proporção, até encontrar sinais indicativos da
proximidade do assoalho da câmara pulpar. Uma vez no assoalho da câmara pulpar,
é preciso identificar o "olho do canal" - uma área mais esbranquiçada que se destaca
no fundo da cavidade de acesso. Esses passos devem ser feitos com auxílio de micros
cópio operatório.
Passos
1. Demarcar os pontos para delimitação da área de preparo da cavidade de acesso
de acordo com a morfologia coronária.
84 Francisco José de Souza Filho (Organizador)
2. Unir os pontos demarcados, criando sulcos que formam o desenho da cavidade
(forma de contorno).
3. Desgastar a "ilha de dentina" remanescente no centro da cavidade, aprofundan
do-a regularmente, respeitando sempre os limites da forma de contorno.
4. Desgastar a dentina com broca esférica carbide HL (haste longa) # 4 ou# 5, acio
nada em motor elétrico redutor na velocidade de 500 a 900 rpm, para identificar
o "olho do canal':
5. Fazer um novo desgaste no centro dessa área com a broca esférica# 4 e observar
se a marca na dentina permanece no mesmo local (indício de que é o "olho do
canal").
6. Fazer o isolamento absoluto.
7. Localizar o canal com sonda endodôntica (tipo Rhein), em seguida inserir uma
lima K # 10 e finalmente confirmar o acesso ao canal radicular, utilizando o lo
calizador eletrônico.
ACESSO EM DENTES ANTERIORES COM CÁRIE E/OU RESTAURAÇÕES NA FACE
VESTIBULAR
Os dentes anteriores com cáries e/ou restaurações nas faces vestibulares ou indicados
para facetas estéticas podem ser acessados pela face vestibular, com o objetivo de pre
servar o cíngulo e as cristas marginais (Figura 8.7). Esse acesso vestibular, após o tra
tamento endodôntico, deve ser restaurado com material estético (resina composta) e
posteriormente encaminhado ao protesista para confecção da faceta ou coroa total.
à FIGURA8.7
A) Canino superior com cárie ocupando toda a face vestibu lar. B) Acesso endodôntico feito pela
face vestibular após a remoção do tecido cariado. C) Posição da lima na entrada do canal radicular.
LEITURA RECOMENDADA
Cohen S, Burns RC. Camínhos da polpa. 2. ed. Rio de Janeiro:
Guanabara-Koogan; 1982.
Anestesia em endodontia
MARIA CRISTINA VOLPATO, JOSÉ RANALI,
FRANCISCO CARLOS GROPPO E EDUARDO DIAS DE ANDRADE
CONSIDERAÇÕES GERAIS
A anestesia local não costuma ser um procedimento complicado em Odontologia.
Entretanto, dentes com sintomatologia dolorosa, especialmente na manchbula, po
dem demandar um esforço considerável para se obter anestesia eficaz.
A obtenção de anestesia compatível para a realização do tratamento odontoló
gico requer conhecimento do arsenal terapêutico disponível, bem como das técni
cas mais apropriadas para cada situação. Com essa finalidade, segue-se uma breve
descrição das soluções anestésicas disponíveis para uso odontológico no Brasil e
das técnicas anestésicas mais adequadas para uso em Endodontia. Como este livro é
direcionado à Endodontia como especialidade, presume-se que haja conhecimento
prévio das noções básicas sobre os componentes da solução anestésica, assim como
das técnicas anestésicas mais utilizadas em Odontologia.
SOLUÇÕES ANESTÉSICAS
Atualmente estão disponíveis para uso odontológico, no Brasil, soluçõesà base de lidocaína,
mepivacaína, prilocaína, articaína (todas de duração intermediária) e bupivacaína (longa du
ração), em variadas combinações com vasoconstritores adrenérgicos (epinefrina, norepinefri
na, corbadrina e fenilefrina) ou em associação à felipressina, que é derivada da vasopressina.
A lidocaína foi a primeira das amidas a ser sintetizada e ainda é muito emprega
da, tanto em procedimentos na área médica quanto odontológica. No Brasil, é a mais
usada em razão do seu tempo de ação satisfatório, quando associada a vasocons
tritores, e ainda em função da possibilidade de utilização em um número maior de
pacientes para os quais outras soluções não seriam a primeira escolha, como crianças
e gestantes, por exemplo. Na forma de tubetes odontológicos, pode ser encontrada
86 Francisco José de Souza Filho (Organizador)
na concentração de 2%, associada à epinefrina, norepinefrina e fenilefrina. Também
é comercializada nessa concentração sem vasoconstritor, mas a duração da anestesia
pulpar é muito curta com essa formulação, o que restringe o uso odontológico.
No Brasil, a lidocaína está também disponível na concentração de 3% associa
da à norepinefrina 1 :50.000, mas não há vantagem no uso dessa formulação, pois a
lidocaína já é eficaz na concentração de 2%. O uso de concentrações maiores pode
aumentar a possibilidade de sobredosagem, especialmente em pacientes de baixa es
tatura, com baixa massa corporal. Das formulações à base de lidocaína disponíveis
para uso odontológico no Brasil, a mais útil é a que combina lidocaína a 2% com
epinefrina, pois pode ser empregada em maior número de pacientes. A solução com
menor concentração de epinefrina (1:200.000) pode ser reservada para pacientes
com restrição de dose de vasoconstritor (como os que apresentam alteração cardio
vascular compensada).
A mepivacaína apresenta menor potência vasodilatadora que a lidocaína e, quan
do utilizada sem a adição de um vasoconstritor, apresenta duração de anestesia mais
prolongada. Entretanto, quando associada a vasoconstritor, não difere da lidocaína
em termos de eficácia anestésica para uso em Endodontia.1 No Brasil, foi comercia
lizada na forma de tubetes durante parte da década de 1970, sendo posteriormente
reintroduzida na década de 1990. Hoje, a mepivacaína é comercializada no país na
concentração de 3% sem vasoconstritor e 2% associada à epinefrina 1:100.000 ou
norepinefrina 1:100.000, ou corbadrina 1:20.000.
A prilocaína é o anestésico com menor atividade vasodilatadora (50% menor que
a lidocaína), podendo ser associada a vasoconstritor não adrenérgico e com menor
potência, como é o caso da felipressina. No Brasil, a prilocaína está disponível para
uso odontológico na concentração de 3% associada à felipressina 0,03 UI/mL. O tem
po de anestesia é equivalente ao das soluções à base de lidocaína.
Dos anestésicos de duração intermediária, a articaína é a que foi introduzida
mais recentemente para uso clínico. É utilizada em concentração maior que os de
mais ( 4%) e apresenta estrutura química diferente, com um anel tiofênico em vez do
anel benzênico. Estas duas características, presença do anel tiofênico e maior concen
tração, podem ser as responsáveis pela sua maior difusibilidade e, consequentemente,
maior eficácia em técnica inftltrativa na região posterior da mandíbula em compara
ção à lidocaína. 2'
3
Além dessas características que a distinguem dos demais anestésicos do tipo
amida atualmente em uso em Odontologia, a articaína apresenta um grupo éster, que
lhe confere metabolização mais rápida, pois essa se inicia já no plasma sanguíneo.
Dessa forma, apresenta meia-vida plasmática menor que os demais anestésicos, em
torno de 44 minutos.4
Todavia, o uso de articaína não é recomendado em técnica de bloqueio, pois,
além de não apresentar vantagens em relação às soluções contendo lidocaína, 5 foi
observado aumento da incidência de parestesia nesse tipo de técnica com soluções
anestésicas mais concentradas, como é o caso da prilocaína a 4% (essa última não é
comercializada no Brasil) e da articaína a 4%.6-
13
A maior vantagem da articaína é observada em técnica infiltrativa vestibular na
região posterior da manchbula, na qual apresenta eficácia anestésica similar ao blo
queio do nervo alveolar inferior com solução de lidocaína ou da própria articaína.14
'
15
Endodontia passo a passo 87
Entretanto, não existem diferenças significativas entre articaína e lidocaína na eficá
cia anestésica em dentes maxilares com ou sem pulpite irreversível. 16'17
Além dos anestésicos de duração intermediária, existe ainda, para uso odon
tológico, a bupivacaína, que é comercializada na forma de tubetes na concentração
de 0,5% associada à epinefrina 1:200.000. Esse anestésico é especialmente indicado
quando há necessidade de um tempo de espera para dar início à drenagem de abs
cessos dentários, com sinais locais de disseminação ou manifestações sistêmicas da
infecção, pela necessidade de se obter níveis plasmáticos adequados da dose inicial
de ataque do antibiótico. Como a bupivacaína proporciona tempo de anestesia pulpar
de 4,5 a 7 horas em molares e pré-molares, após bloqueio do nervo alveolar inferior,
o paciente pode aguardar o atendimento anestesiado, sem a necessidade de um novo
bloqueio.18'19
O outro uso preconizado para a bupivacaína, com a finalidade de promover
maior tempo de anestesia de tecidos moles, permitindo menor utilização de analgési
cos no período pós-operatório, tem sido questionado ultimamente. Foi demonstrado
que o emprego da bupivacaína (sem associação de anti-inflamatório previamente ao
procedimento cirúrgico), embora diminua a dor por cerca de 4 horas após a cirurgia,
pode aumentar a intensidade dela após 24 horas, se comparado ao observado em
pacientes que receberam bupivacaína como anestésico e rofecoxib antes da cirurgia,
ou que receberam lidocaína como anestésico, associada ou não ao uso prévio do anti
-inflamatório.20 Essa maior intensidade de dor foi atribuída à liberação de prosta
glandina E2 no local inflamado, um autacoide que causa hiperalgesia, provocada pela
própria bupivacaína. Dessa forma, quando esse anestésico for utilizado para controle
da dor pós-operatória, é necessária também a associação de um anti-inflamatório
para controle adequado da dor.21
Considerando os vasoconstritores de forma isolada, em pacientes saudáveis não
há restrição ou preferência por qualquer um dos disponíveis para uso odontológico,
respeitando suas doses máximas. No entanto, em pacientes portadores de altera
ção cardiovascular controlada, deve-se dar preferência à epinefrina e à felipressina,
para as quais há evidências de segurança no uso.22·24 As doses máximas recomen
dadas para esses pacientes são de 0,04 mg de epinefrina (equivalente a dois tubetes
[com 1,8 mL] contendo epinefrina na concentração de 1:100.000 ou quatro tubetes
contendo epinefrina 1:200.000) e 0,18 UI de felipressina (equivalente a três tubetes
contendo felipressina na concentração de 0,03 UI/mL).25-26 Pacientes com alteração
cardiovascular não controlada devem ser atendidos preferencialmente em ambiente
hospitalar.
TÉCNICAS ANESTÉSICAS NA MAXILA
Na maxila, quase 100% dos procedimentos que requerem anestesia podem ser rea
lizados com uso de técnica inftltrativa na região vestibular (para anestesia da polpa
dental, periósteo/osso e gengiva vestibular) e na palatina (para anestesia da gengiva
dessa região). Contudo, técnicas de bloqueio podem ser mais adequadas quando se
deseja maior tempo de anestesia pulpar, ou ainda quando diversos dentes devem ser
tratados em sessão única. Todas as soluções anestésicas disponíveis para uso odonto
lógico promovem anestesia adequada nessa região.
88 Francisco José de Souza Filho (Organizador)
TÉCNICAS ANESTÉSICAS NA MANDÍBULA
A anestesia dos incisivos mandibulares pode ser conseguida com alto grau de sucesso
(92%) administrando-se, por técnica in.filtrativa, o conteúdo de meio tubetede so
lução anestésica por vestibular e meio tubete na região lingual.27 Para o canino e os
pré-molares, pode ser utilizada a técnica mentoniana e, quando se deseja intervir na
região de molares, pode ser utilizada a técnica clássica de bloqueio do nervo alveolar
inferior, ou ainda a técnica de Gow-Gates, na qual o nervo mandibular é anestesiado
antes de se dividir nos seus ramos. Para pacientes com dificuldade em abrir a boca,
pode-se recorrer à técnica de Vazirani-Akinosi.
Quando o paciente apresenta abscesso na região onde deve ser introduzida a
agulha na técnica clássica de bloqueio dos nervos alveolar inferior e lingual, pode-se
recorrer à utilização da técnica extrabucal para bloqueio desses nervos.
ESCOLHA DA TÉCNICA E DA SOLUÇÃO ANESTÉSICA MAIS ADEQUADAS PARA
USO EM ENDODONTIA
Como já mencionado, a maior dificuldade para obtenção de anestesia eficaz ocorre
em dentes da região posterior da mandíbula, molares e pré-molares. Nesses casos,
sempre fica a dúvida se a técnica de bloqueio deve ou não ser repetida quando não
se obtém sucesso.
Embora a observação de anestesia do lábio inferior não forneça indicação pre
cisa quanto à eficácia ou não do bloqueio do nervo alveolar inferior, é certo que, na
ausência de anestesia nesse local, há falha na anestesia, ou seja, a solução anestésica
deve ter sido injetada longe do nervo alveolar inferior. Nesse caso, deve-se avaliar
adequadamente a anatomia do paciente e refazer a anestesia (o próprio bloqueio do
nervo alveolar inferior, ou uma técnica de bloqueio mais alta, como é o caso da téc
nica de Gow-Gates, na qual a agulha atinge o colo do côndilo da mandíbula). Para
bloqueios, pode-se utilizar solução de lidocaína, mepivacaína ou bupivacaína asso
ciada à epinefrina, ou ainda prilocaína associada à felipressina. Conforme comen
tado, deve-se evitar a articaína nesse tipo de técnica pelo maior risco de indução de
parestesia.
Muitas vezes o paciente acusa anestesia do lábio inferior e até mesmo dos den
tes inferiores, mas ainda apresenta sensibilidade no dente com comprometimento
endodôntico, não permitindo o tratamento. Nesses casos não há vantagem em se
fazer um novo bloqueio, pois a literatura mostra que o uso de volume maior (dois
tubetes) não aumenta de forma clinicamente aceitável a taxa de sucesso da anes
tesia. 16.
28
'
29 Como alternativa, pode-se utilizar a técnica in.filtrativa vestibular com
solução de articaína a 4% com epinefrina 1:100.000, o que aumenta a taxa de su-
d o 16 30 c o h al N d' ul d cesso a anestesia. · aso o paciente ten a teraçao car iovasc ar compensa a,
pode-se utilizar solução de articaína a 4% com menor concentração de epinefrina
{1:200.000).
Se, após essa complementação, o dente continuar apresentando sensibilidade, a
técnica intraligamentar é outra opção viável, caso ainda não tenha sido exposta a câ
mara pulpar. Nesse caso, é importante que a agulha seja colocada entre o cemento e o
osso para que a anestesia seja eficaz. O volume de injeção é de aproximadamente 0,2
Endodontia passo a passo 89
mL, sendo o anestésico injetado sob pressão. Em dentes multirradiculares, a injeção
deve ser realizada em cada uma das raízes. Nesse tipo de técnica não parece haver
diferença entre soluções quanto à eficácia, conforme observado na comparação entre
articaína e lidocaína.31
Na persistência da sensibilidade do dente que impossibilite o tratamento, há
ainda duas alternativas. Caso a câmara pulpar ou os canais radiculares já tenham
sido expostos, pode ser realizada a técnica intrapulpar, que consiste na introdução
da agulha na câmara ou em cada canal radicular (ou em um canal específico, no qual
ainda haja sensibilidade à introdução do instrumento endodôntico) na profundidade
máxima possível, seguindo-se a injeção do líquido anestésico sob pressão. A injeção
sob pressão é fundamental para o sucesso da técnica.32 Embora seja bastante eficaz,
essa técnica é muito dolorosa.
Ainda como alternativa, se houver persistência da sensibilidade dentária, espe
cialmente quando não se conseguiu o acesso à câmara pulpar, pode-se empregar a
técnica intraóssea. Embora essa técnica tenha nascido na década de 1930, a partir de
1990 teve um ressurgimento em função da criação de dispositivos específicos que fa
cilitam sua realização. Apesar de não ser uma técnica complexa, exige treinamento e
atenção quanto à anatomia das raízes a fim de evitar a trepanação delas. Quando uti
lizada em casos de falha de outras técnicas, pode promover taxas de sucesso que va
riam de 68 a 100%, com mepivacaína a 3%, lidocaína a 2% com epinefrina 1:100.000
ou 1:80.000 e articaína a 4% com epinefrina 1:100.000, em volumes variando de 0,45
a 1,8 mL (de um quarto a um tubete anestésico).33
'
39
A técnica intraóssea também pode ser usada como técnica principal, sendo re
latadas taxas de sucesso de 87% com uso de um tubete de lidocaína a 2% com epine
frina 1:100.00040 e de 93,l % e 96,8%, respectivamente, com o uso de meio tubete de
articaína a 4% com epinefrina 1:200.000 e 1:100.000.41 A técnica consiste em perfurar
a cortical óssea e injetar de meio a um tubete do anestésico na porção medular do
osso. A perfuração deve ser feita 2 a 4 mm em direção apical à intersecção de duas
linhas (horizontal, passando pela margem gengival dos dentes, e vertical, passando
pelo centro da papila interdental). Geralmente se faz a perfuração na região distal do
dente-alvo, a não ser que o espaço seja insuficiente entre as raízes ou em função da
presença do forame mentoniano. A injeção deve ser muito lenta (dois minutos para
injeção de meio tubete) para minimizar o efeito do vasoconstritor sobre o sistema
cardiovascular; deve-se advertir o paciente sobre a possibilidade de ocorrência de
taquicardia transitória (palpitação).
A Figura 9.1 mostra o fluxograma das possibilidades de escolha de técnicas para
a anestesia de dentes com pulpite irreversível com sintomatologia dolorosa.
Na tentativa de se obter anestesia eficaz e melhor controle da dor em dentes com
sintomatologia dolorosa, têm sido propostas associações de soluções anestésicas lo
cais e anti-inflamatórios e analgésicos de ação central, entre outras. Entretanto, os re
sultados até o momento são conflitantes42
•
50 e ainda não há suporte teórico adequado
para essa prática.
90 Francisco José de Souza Filho (Organizador)
Dente posterior na mandíbula com pulpite irreversível e sintomatologia dolorosa
Bloqueio do NAI
~ Sucesso Insucesso Insucesso
./ (sem anestesia de lábio) (dente sensível, lábio anestesiado
~---~~ ~----~!'-----~
)
Outro bloqueio : Infiltração vestibular
Insucesso ~ (com articafna 4% com eplnefrina) • NAI ou
• Gow-Gates
Sucesso ----- Insucesso
./
Sucesso lntraligamentar
./
Sucesso Insucesso
/ l
Intra óssea lntrapulpar
l l
Sucesso Insucesso
l
1
sucesso
Repetir lntraóssea
à FIGURA 9.1
Fluxograma de escolha de técnica anestésica para anestesia de dentes com pulpite irreversível.
REFER~NCIAS
1. Maniglia-Ferreira C, Almeida-Gomes F, Carvalho-Sousa B,
Barbosa A V. Líns CC, Souza FD, et ai. Clinicai evaluation of
the use of three anesthetics in endodontics. Acta Odontol La
tínoam. 2009;22(1):21-6.
2. Kanaa MO, Whitworth JM, Corbett IP, Meechan JG. Articai
ne and lidocaine mandíbular buccal inftltration anesthesia: a
prospective randomized double-blind cross-over study. J En
dod. 2006;32( 4):296-8.
3. Robertson D, NussteinJ, Reader A, BeckM, McCartney M. The
anesthetic efflcacy of articaine in buccal infiltration of mandi
bular posterior teeth. J Am Dent Assoe. 2007; 138(8):1104-12.
4. Hersh EV. Giannakopoulos H, Levin LM, Secreto S, Moore
PA, Peterson C, et ai. The pharmacokinetics and cardiovascu
lar effects ofhigh-dose articaine with 1: 100,000 and 1:200,000
epineph rine. J Am Dent Assoe. 2006;137(11):1562-71.
5. Mikesell P, Nusstein J, Reader A, Beck M, Weaver ). A com
parison of articaine and lidocaine for inferior alveolar nerve
blocks. J Endod. 2005;31(4):265-70.6. Haas DA, Lennon D. A 21 year retrospective study of reports
of paresthesia following local anesthetic administration. J Can
Dent Assoe. 1995;61(4):319-30.
7. van Eeden SP, Patel MF. Re: prolonged paraesthesia following
inferior alveolar nerve block using articaine. Br J Oral Ma
xillofac Surg. 2002;40(6):519-20.
8. Pedlar ). Prolonged paraesthesia. Br Dent ). 2003;195(3):119.
9. Hillerup S, jensen R. Nerve injury caused by mandibular
block analgesia. lnt J Oral Maxillofac Surg. 2006;35:437-43.
10. Gaffen AS, Haas DA. Retrospective review of voluntary re
ports of nonsurgical paresthesia in dentistry. J Can Dent As
soe. 2009;75(8):579.
11. Moore PA, Haas DA. Paresthesias in dentístry. Dent Clin
North Am. 2010;54(4):715-30.
12. Garisto GA, Gaffen AS, Lawrence HP, Tenenbaum HC, Haas
DA. Occurrence of paresthesia after dental local anesth e-
tic administration in the Uníted States. J Am Dent Assoe.
2010;141;836-44.
13. Hillerup S, Jensen RH, Ersb0ll BK. Trigeminai nerve ínjury
associated with injection oflocal anesthetics: needle lesion or
neurotoxicity? J Am Dent Assoe. 2011;142(5):531-9.
14. Corbett IP, Kanaa MO, Whitworth JM, Meechan JG. Arti
caine inflltration for anesthesia of mandibular first molars. J
Endod. 2008;34(5):514-8.
15. Jung IY, Kim JH, Kim ES, Lee CY, Lee SJ. An evaluation of
buccal infiltrations and inferior alveolar nerve blocks in
pulpal anesthesia for mandibular first molars. J Endod.
2008;34(1):11-3.
16. Kanaa MO, Whitworth JM, Meechan JG. A prospective ran
domized triai of different supplementary local anesthetic
techniques after failure ofinferior alveolar nerve block in pa
tients with irreversible pulpitis in mandibular teeth. J Endod.
2012;38(4):421-5.
17. Vllchez-Pérez MA, Sancho-Puchades M, Valmaseda-Cas
tellón E, Paredes-Garcia J, Berini-Aytés L, Gay-Escoda C. A
prospective, randomized, triple-blind comparison of articaíne
and bupivacaine for maxillary infiltratíons. Med Oral Patol
Oral Cir Bucal. 2012;17(2):e325-30.
18. Volpato MC, Ranali J, Ramacciato JC, de Oliveira PC, Am
brosano GM, Groppo FC. Anesthetic efficacy of bupivacai
ne solutions in inferior alveolar nerve biode. Anesth Prog.
2005;52(4):132-5.
19. Branco FP, Ranali J, Ambrosano GM, Volpato MC. A double
-blind comparison of 0.596 bupivacaine with 1:200,000 epine
phrine and 0.596 levobupivacaine with 1:200,000 epinephríne
for the inferior alveolar nerve block. Oral Surg Oral Med Oral
Pathol Oral Radíol Endod. 2006;101(4):442-7.
20. Go rdon SM, Chuang BP, Wang XM, Hamza MA, Rowan JS,
Brahim JS, Dionne RA. The dífferential effects ofbupivacaine
and lidocaine on prostaglandín E2 release, cyclooxygen ase
gene expression and paio in a clinicai paio model. Anesth
Analg. 2008;106(1):321-7.
21. Gordon SM, Mischenko AV, Dionne RA. Long-acting local
anesthetics and perioperative paio management. Dent Clin
North Am. 2010;54(4):611·20.
22. Neves RS, Neves IL. Giorgi DM, Grupi CJ, César LA, Hueb
W, et ai. Effects of epinephrine in local dental anesthesia in
patients wíth coronary artery disease. Arq Bras Cardiol.
2007;88(5):545-51.
23. Conrado VC, de Andrade J, de Angelis GA, de Andrade AC,
Timerman L, Andrade MM, et ai. Cardiovascular effects of
local anesthesia with vasoconstrictor during dental extraction
in coronary patients. Arq Bras Cardiol 2007;88(5):507-13.
24. Cáceres MT, Ludovice AC. Brito FS, Darrieux FC, Neves RS,
Scanavacca MI, et ai. Effect oflocal anesthetics with and wi
thout vasoconstrictor agent in patients with ventricular ar
rhythmias. Arq Bras Cardiol. 2008;91 (3):128-33, 142-7.
25. Sunada K, Nakamura K, Yamashiro M, Sumitomo M, Furuya
H. Clinically safe dosage of felypressin for patients with essen
tial hypertension. Anesth Prog. 1996;43(4):108-15.
26. Malamed SF. Manual de anestesia local. 5. ed. Rio de Janeiro:
Elsevier; 2005.
27. Meechan JG, Ledvinka JI. Pulpal anaesthesia for mandibular
central incisor teeth: a comparison of infiltration and intrali
gamentary injections. lnt Endod J. 2002;35(7):629-34.
28. Tortamano IP, Siviero M, Costa CG, Buscariolo IA, Armo
nia PL. A comparison of the anesthetic efficacy of articaine
and lidocaine in patients with irreversible pulpitis. J Endod.
2009;35(2):165-8.
29. Parirokh M, Satvati SA, Sharifi R, Rekabi AR, Gorjestani H,
Nakhaee N, et al Efficacy of combining a buccal inftltration
wíth an inferior alveolar nerve block for mandibular molars
with irreversible pulpitis. Oral Surg Oral Med Oral Pathol
Oral Radio! Endod. 2010a;l09(3):468-73
30. Monteiro MR, Volpato MC, Gomes BPFA, Ferraz CCR, Zaia
AA, Haiter-Neto F, et al Effectiveness of articaine buccal in
filtration in hot mandibular molars. [Abstract 1193). Int As
soe Dental Res. 2012. Disponível em: http://iadr.confex.com/
iadr/2012rio/webprogram/Paperl63794.html.
31. Berlin J, Nusstein J, Reader A, Beck M, Weaver J. Efficacy of
articaine and lidocaine in a primary intraligamentary injec
tion administered wíth a computer-controlled local anesthetic
delivery system. Oral Surg Oral Med Oral Pathol Oral Radio!
Endod. 2005;99(3):361-6.
32. VanGheluwe J, Walton R Intrapulpal injection: factors related
to effectiveness. Oral Surg Oral Med Oral Pathol Oral Radio!
Endod. 1997;83(1):38-40.
33. Reisman D, Reader A, Nist R, Beck M, Weaver J. Anesthe
tic efficacy of the supplemental intraosseous injection of 3%
mepivacaioe in irreversible pulpitis. Oral Surg Oral Med Oral
Pathol Oral Radio! Endod. 1997;84(6):676-82.
34. Nusstein J, Kennedy S, Reader A, Beck M, Weaver J. Anesthe
tic efficacy of the supplemental X-tip intraosseous injection in
patients wíth irreversible pulpitis. J Endod. 2003;29(11):724-8.
35. Nusstein J, Reader A, Nist R, Beck M, Meyers WJ. Anesthetic
efficacy of the supplemental intraosseous injection of 2% li
docaine with 1:100,000 epinephrine in irreversible pulpitis. J
Endod. 1998;24(7):487-91.
36. Parente SA, Anderson RW, Herman WW, Kimbrough WF,
Weller RN. Anesthetic efficacy of the supplemental intraos
seous injection for teeth with irreversible pulpitis. J Endod.
l 998;24(12):826-8.
Endodontia passo a passo 91
37. Bigby J, Reader A, Nusstein J, Beck M, Weaver J. Articaioe for
supplemental intraosseous anesthesia in patients with irrever
sible pulpitis. J Endod. 2006;32(11):1044-7.
38. Zarei M, Ghoddusi J, Sharifi E, Forghani M, Afkharni F. Ma
rouzi P. Comparison of the anaesthetic efficacy of and heart
rate changes after periodontal ligament or intraosseous X-Tip
injection in mandibular molars: a randomized controlled cli
nicai triai. Int Endod J. 2012;45(10):921-6.
39. Kanaa MO, Whitworth JM, Meechan JG. A comparison of the
efficacy of 4% articaine with 1:100,000 epinephrine and 2%
lidocaine with 1:80,000 epinephrine in achieving pulpal anes
thesia in ma.xiUary teeth with irreversible pulpitis. J Endod.
2012;38(3):279-82.
40. Remmers T, Glickman G, Spears R, He J. The efficacy of ln
traFlow intraosseous injection as a prirnary anesthesia techni
que. J Endod. 2008;34(3):280-3.
41. Pereira LA, Groppo FC, Bergamaschi CD, Meechan JG, Ra
macciato JC, Mona RH, Ranali J. Articaine (4%) wíth epine
phrine (1:100,000 or 1:200,000) in intraosseous injections in
symptomatic irreversible pulpitis of mandibular molars: anes
thetic efficacy and cardiovascular effects. Oral Surg Oral Med
Oral Pathol Oral Radio!. 2012;26. [ln press)
42. Modaresi J, Diana! O, Mozayeni MA The efficacy compari
son of ibuprofen, acetaminophen-codeine, and placebo pre
medication therapy on the depth of anesthesia during treat
ment of inflamed teeth. Oral Surg Oral Med Oral Pathol Oral
Radio! Endod. 2006;102(3):399-403.
43. Bigby J, Reader A, Nusstein J, Beck M. Anesthetic efficacy of
lidocaioe/meperidine for inferior alveolar nerve blocks in pa
tients wíth irreversible pulpitis. J Endod. 2007;33(1):7-10.
44. Elsharrawy EA, Elbaghdady YM. A double-blind comparison
of a supplemental interligamentary injection of fentanyl andmepivacaine with 1:200,000 epinephrine for irreversible pul
pitis. J Paio Symptom Manage. 2007;33(2):203-7.
45. Parirokh M, Ashouri R, Rekabi AR, Nakhaee N, Pardakhti
A, Askarifard S, Abbott PV. The effect of premedication with
ibuprofen and indomethacin on the success of inferior alveo
lar nerve block for teeth with irreversible pulpitis. J Endod.
2010b;36(9):1450-4.
46. Aggarwal V. Singla M, Kabi D. Comparative evaluation of effect
of preoperative oral medication of ibuprofen and ketorolac on
anesthetic efficacy of inferior alveolar nerve block wíth lidocai
ne in patients wíth irreversible pulpitis: a prospective, double
· blind, randomi.zed clinica] triai. J Endod. 2010;36(3):375-8.
47. Oleson M, Drum M, Reader A, Nusstein J, Beck M. Effect of
preoperative ibuprofen on the success of the inferior alveo
lar nerve block in patients with irreversible pulpitis. J Endod.
2010;36(3):379-82.
48. Simpson M, Drum M, Nusstein J, Reader A, Beck M. Effect
of combination of preoperative ibuprofen/acetaminophen on
the success of the inferior alveolar nerve block in patients with
symptomatic irreversible pulpitis. J Endod. 2011;37(5):593-7.
49. Aggarwal V, Singla M, Rízvi A, Miglani S. Comparative evalu
ation oflocal infiltration of articaine, articaine plus ketorolac,
and dexamethasone on anesthetic efficacy of inferior alveolar
nerve block with lidocaine in patients with irreversible pulpi
tis. J Endod. 2011;37(4):445-9.
50. Kanaa MO, Whitworth JM, Meechan JG. A comparison of the
efficacy of 4% articaine with 1: 100,000 epinephrine and 2%
lidocaine with 1:80,000 epinephrine in achieving pulpal anes
thesia in ma.xiUary teeth with irreversible pulpitis. J Endod.
2012;38(3):279-82.
1
Isolamento absoluto
em endodontia
PATRICK BALTIERI
CONSIDERAÇÕES GERAIS
A necessidade de trabalhar em campo livre de umidade e contaminação é impera
tiva para o sucesso da terapia endodôntica. Para isso, se faz necessária a adequada
instalação do isolamento absoluto. Esse dispositivo foi proposto pelo dentista nova
-iorquino Sanford Christie Barnum, em 1864, para a confecção de restaurações den
tárias por meio da condensação de ouro coesivo, que exigia um campo de trabalho
livre de umidade. Com o desenvolvimento da odontologia, a colocação de um lençol
de borracha ao redor dos dentes teve sua real importância demonstrada, tornando
-se indispensável em praticamente todos os procedimentos odontológicos, sobretudo
para as restaurações adesivas e a Endodontia.
O isolamento absoluto bem-instalado toma os procedimentos endodônticos mais convenien
tes para o endodontista e confortáveis para o paciente, apresentando os seguintes benefícios:
• Facilita e aumenta a eficiência do procedimento clínico.
• Protege o paciente contra a deglutição ou aspiração acidental de instrumentos, fragmen
tos dentais, restaurações e substâncias cáusticas usadas durante a Endodontia.
• Minimiza a exposição da equipe odontológica à contaminação cruzada decorrente dos ae
rossóis no consultório odontológico, que podem conter diversos agentes infectocontagiosos,
como os vírus da hepatite ou da imunodeficiência adquirida (HIV), entre outros patógenos.
• Melhora a visibilidade pelo afastamento e pela proteção dos tecidos moles (bochecha, lá-
bio e língua), que podem ser feridos pela ação de brocas ou instrumentos endodônticos.
• Impede a recontaminação do campo operatório pelos microrganismos orais.
• Evita a infiltração de saliva, propiciando campo operatório seco.
• Evita o embaçamento do espelho pelo vapor proveniente da respiração.
• Previne infiltração de sangue e/ou exsudato gengival.
• Toma o trabalho mais cômodo, limpo e rápido.
• Evita ações de ordem médico-legal.
Endodontia passo a passo 93
Frente a esses benefícios, o dique de borracha deve ser utilizado em praticamente
todos os procedimentos odontológicos, não existindo contraindicações para sua insta
lação. Entretanto, diversos levantamentos relatam a baixa prevalência de uso de tal dis
positivo entre os cirurgiões-dentistas. Segundo Palmer e colaboradores/ apenas 30,3%
dos dentistas realizavam o isolamento em todos os procedimentos endodônticos.
Diversos problemas podem decorrer da não utilização do isolamento absolu
to, sendo os mais graves aqueles que envolvem a deglutição ou a aspiração de ins
trumentos, como limas endodônticas, brocas, etc., ocasionando complicações que
colocam a vida do paciente em risco e exigem atendimento médico imediato para
sua resolução. Transtornos como queimaduras em pele e mucosa por substâncias
cáusticas, como o hipoclorito de sódio usado durante a terapia endodôntica, também
podem ser evitados com a correta instalação do dique de borracha. Dessa forma, a
não utilização do dique de borracha pode transformar, a qualquer momento, um pro
cedimento odontológico de rotina numa emergência médica de final imprevisível.
A utilização do isolamento absoluto pode ficar comprometida e exigir modifica
ções em algumas condições apresentadas por uma pequena parcela de pacientes. As
condições que demandam maior atenção por parte do profissional são os quadros de
reações alérgicas ao látex do lençol de borracha e os quadros de fobia, comuns em pa
cientes com alto nível de estresse e ansiedade. Dependendo da intensidade da reação
de hipersensibilidade, a consequência pode ser um leve rubor na pele, o desenvolvi
mento de dermatite de contato ou mesmo reações anaftláticas em casos mais graves,
que exigem pronto atendimento médico.
Normalmente, os pacientes alérgicos ao látex são cientes de sua condição e, no mo
mento da anarnnese, informam o fato ao cirurgião-dentista. No entanto, a hipersensibi
lidade ao látex não pode ser uma justificativa para a não utilização do isolamento abso
luto, pois existem alternativas que podem ser empregadas para superar esse problema.
Nessas condições, o cirurgião-dentista deve solicitar informações detalhadas ao médico
responsável sobre o quadro clínico do paciente, além de substituir todos os materiais
que possuem látex em sua composição, utilizando substitutos de vinil, silicone, etc.
MATERIAL E INSTRUMENTOS
..... ..
. -....
... FIGURA 10.1
Organização da mesa clínica com os ma
teriais e instrumentais para o isolamento
absoluto.
94 Francisco José de Souza Filho (Organizador)
PASSOS
Os materiais e instrumentais necessários (Figura 10.1) para a correta instalação
do isolamento absoluto incluem:
• Aspirador de saliva
• Espátula para inserção de resina número 1
• Curetas periodontais ou ponta de ultrassom para remoção de cálculo supragen-
gival
• Pinça porta-grampo tipo Ivory
• Alicate perfurador de lençol de borracha tipo Ainsworth
• Arco tipo Ostby
• Lençol de borracha
• Grampos para isolamento absoluto números 210, 211, 212, 206, 207, 208, 209, 200,
201, 202, 205, W8A, 14, 14A, entre outros
• Ponta diamantada FG 2200 e 3200
• Fio dental
• Cianoacrilato na forma líquida (p. ex., Super Bonder•)
• Monômero de resina acrílica
• Barreira gengival (p. ex., TopDam•)
• Gel de clorexidina a 2% (Endogel•)
• Haste flexível (Cotonetes•)
• Cureta periodontal (Cureta McCall 13/14)
A instalação do isolamento absoluto deve seguir um protocolo passo a passo, possi
bilitando que seja realizado com eficiência e durabilidade até o final da terapia endo
dôntica. Esse protocolo é descrito a seguir.
O preparo inicial envolve procedimentos que visam preparar o dente e a região
para a instalação do isolamento absoluto (destacam-se os procedimentos das Figuras
10.2 a 10.13).
à FIGURA 10.2
Remoção de cálculo supragengival.
à FIGURA 10.3
Remoção de tecido cariado, de esmalte sem
suporte, de arestas cortantes e de restaura
ções coronárias.
A FIGURA 10.4
Verificação do ponto de contato com fio dental
e restabelecimento do espaço interproximal.
A FIGURA 10.6
Passagem do lençol de borracha pelo grampo
posicionado.
A FIGURA 10.8
Aplicação do cianoacrilato com auxílio da espá
tu la# 1, seguida da aplicaçãode algumas gotas
de monômero de resina composta para acele
rar a polimerização do cianoacrilato (cuidado
com os olhos do paciente).
Endodontia passo a passo 95
A FIGURA 10.5
Escolha e instalação do grampo.
A FIGURA 10.7
Invaginação do lençol de borracha no sulco
gengival com auxílio da espátula de inserção
de resina e fio dental.
A FIGURA 10.9
Aplicação de uma camada de barreira gengival
para estabilizar o conjunto durante todo o tra
tamento endodôntico.
96 Francisco José de Souza Filho (Organizador)
à FIGURA 10.10
Descontaminação do campo operatório isola
do mediante aplicação do gel de clorexidina
a 2%.
à FIGURA 10.12
Verificação da completa remoção de quaisquer
restos de materiais do espaço subgengival.
SUPERANDO DIFICULDADES
à FIGURA 10.11
Ao final do tratamento endodôntico e sela
mente da cavidade de acesso com materiais
adesivos, realiza-se a remoção do isolamento
absoluto, da barreira gengival e do cianoacrila
to com auxílio de uma cureta periodontal.
à FIGURA 10.13
Acabamento e polimento do selamente coro
nário com materiais adesivos.
Algumas situações clínicas requerem adaptações para promover o adequado isola
mento absoluto do dente a ser tratado endodonticamente, destacando-se:
• Dentes com extensa destruição coronária.
• Confecção de núcleo de preenchimento com resina composta.
• Isolamento à distância em dentes traumatizados (Figura 10.14), com aparelho or
todôntico ou pilares de prótese fixa.
• Cirurgia de aumento de coroa clínica ou gengivectomia com bisturi elétrico (Figu
ras 10.15a10.17).
Endodontia passo a passo 97
• Dentes com morfologia coronária desfavoráveUexpulsiva:
• Utilização de grampos especiais com mordentes inclinados para o colo.
• Confecção de retenção com resina composta nas faces lingual ou vestibular.
• Sulco nas faces vestibular ou lingual.
• Colocação do grampo sobre a gengiva.
 FIGURA 10.14
Isolamento à distância para tratamentos de
dentes com traumatismo.
 FIGURA 10.17
 FIGURA 10.15
Remoção da gengiva com auxílio de eletrocau
tério ou gengivoplastia com bisturi.
<1111 FIGURA 10.16
Isolamento absoluto após remoção da gengiva.
A) Isolamento absoluto após remoção da gengiva com eletrocautério e proteção do tecido com
Coltosol. B) Reconstrução de uma muralha para manter um perfeito isolamento.
98 Francisco José de Souza Filho (Organizador)
REFER~NCIA
1. Palmer NO, Ahmed M, Grieveson B. An investigation of cur
rent endodontic practice and training needs in primary care
LEITURAS RECOMENDADAS
Andr.ide ED, Ranali J, Volpato MC, de Oliveira MM. Allergic reac·
tion after rubber darn placement. J Endod. 2000;26(3):182-3.
Buest GF, Cottone JA. Personal protection: the first line of defense.
Texas Dent J. 1987; 104(9):16-8.
Chin SM, Ferguson JW, Baíurnows T. Latex allergy in dentistry.
Review and report of case presenting as a serious reaction to
latex dental darn. Aust Dent J. 2004;49(3):146-8.
Cohen S, Schwartz S. Endodontic complications and the law. J En
dod. 1987;13:191-5.
Ferguson JW, Bajurnows T. Latex allergy in dentistry. Aust Dent J.
2004;49(3):146-8.
Greene RR, Sikara FA, House JE. Rubber dam application to crow
less and cone chaped teeth. J Endod. 1984;10(2):82-4.
Kuo SC, Chen Yl. Accidental swallowing of an endodontic file. lnt
EndodJ. 2008; 41(7):617-22.
in the north west of England. Br Dent J. 2009;206(1 l):E22;
discussion 584-5.
Marshall K. Page J. The use of rubber dam in the UI<: a survey. Br
Dent J. 1990; 169(9):286-91.
Ostrander FD. The practice of endodontics: past, present and futu
re. J Dent Education. 1967;31(3):386-8.
Patterson CJ. Polydarn--polythene sheet, a practical alternative to
rubber dam for patients allergic to rubber compounds. lnt
Endod J. 1989;22(5):252-3.
Scott G L. Isolation. ln: Walton RE. Torabinejad M. Principies and
practice of endodontics. Ph íladelphia: Saunders; 1989. cap. 8.
p.113-24.
Wahl P. Endodontic isolation and radiography. Dent Today.
1996; 15( 4):92,94-5.
Weathers AK, Wahl P. Taking the mystery out of endodontics, Part
2: tooth isolation and access. Dent Today. 1998;17(5):62-7.
Substâncias químicas
auxiliares e irrigação
MARCELLE LOUISE SPOSITO BOURREAU,
ANTÔNIO RUBENS GONÇALVES NUNES E FRANCISCO JOSÉ DE SOUZA FILHO
CONSIDERAÇÕES GERAIS
As substâncias químicas auxiliares e a irrigação dos canais radiculares têm sido uma
importante área de interesse na Endodontia, e as razões para isso são claras: o suces
so no tratamento endodôntico é baseado na erradicação de bactérias do sistema de
canais radiculares. Apesar da longa tradição em pesquisa na irrigação, ainda existem
muitos desafios a serem superados, e não há nenhuma substância química que, sozi
nha, seja capaz de garantir um sistema de canais radiculares completamente livre de
bactérias, sobremaneira nas proximidades do forame apical, área mais diretamente
envolvida na iniciação e na manutenção da inflamação apical.
O desafio da Endodontia está relacionado não apenas com a dificuldade de lim
par essa parte do canal por meio da instrumentação e da irrigação, mas sobretudo
com a segurança, uma vez que, com as novas diretrizes já consolidadas da Endodon
tia (que preconiza a patência e limpeza do forame apical), o risco de extravasamento
de substâncias químicas agressivas para o periápice é maior, podendo causar proces
sos inflamatórios indesejáveis naquela região.
Essa discussão conceituai apresenta significativa relevância, visto que o hipo
clorito de sódio, em variadas concentrações, tem sido usado, há muitos anos, como
substância irrigadora no tratamento de canais radiculares. Sua utilização, apesar da
alta toxicidade, ainda hoje prevalece devido à falsa ideia de apresentar ação solvente
de restos pulpares em istmos e reentrâncias no interior do canal radicular. Apesar da
excelente ação antimicrobiana, em altas concentrações seu uso representa um alto
risco de provocar acidentes de repercussões importantes em caso de extravasamento
para o periápice - a literatura apresenta inúmeros relatos desse tipo de acidente.
Dessa forma, o papel das substâncias químicas auxiliares deve ser rediscutido na
Endodontia.
100 Francisco José de Souza Filho (Organizador)
SUBSTÂNCIA QUÍMICA AUXILIAR E SUBSTÂNCIA IRRIGADORA
É importante definir os papéis da substância química auxiliar e da substância irri
gadora durante o preparo e a instrumentação dos canais radiculares. Não existem
razões para reunir em uma só substância química as funções de lubrificação, descon
taminação e lavagem do canal radicular.
Uma substância química auxiliar deve ter não somente uma efetiva ação bacte
ricida para eliminar microrganismos e controlar a infecção do canal radicular, mas,
principalmente, uma efetiva ação lubrificante. Essa ação é de suma importância por
que facilita a ação de corte dos instrumentos durante a instrumentação (torna mais
fácil o deslizamento das lâminas durante o corte da dentina), além de preservar os
instrumentos e evitar o aquecimento e o estresse causado pelo excesso de atrito.
Já a substância irrigadora tem o objetivo específico de auxiliar na remoção dos
detritos esparsos no canal radicular resultantes da ação dos instrumentos nas paredes
do canal. A irrigação dos canais radiculares pode ser feita com auxílio de seringa
e agulha com calibre compatível com o diâmetro do canal radicular ou mediante
vibração ultrassônica, ativa ou passiva. De qualquer modo, a substância irrigadora
deve ser biocompatível e inerte para evitar danos aos tecidos periapicais durante o
extravasamento através do forame apical.
ESCOLHA DA SUBSTÂNCIA QUÍMICA AUXILIAR: HIPOCLORITO DE SÓDIO OU
CLOREXIDINA?
Propriedades do hipoclorito de sódio
O hipoclorito de sódio (NaOCl) é a substância química mais usada na Endodontia,
principalmente pela sua ação antimicrobiana e capacidade de dissolução de tecido
orgânico. Costuma ser utilizada simultaneamente como substância química auxiliar
e agentede irrigação em diferentes concentrações: líquido de Dakin (0,5%), solução
de Milton (1 %), solução de Labarraque (2,5%) e soda clorada (5,25%). A literatura,
em geral, refere que a ação antimicrobiana mais efetiva ocorre nas concentrações
mais altas da substância, mas também há relatos de que essas concentrações apresen
tam os maiores níveis de toxicidade.
Assim, ainda permanecem controvérsias sobre a real capacidade de dissolução
tecidual nas áreas de istmos e reentrâncias. As dúvidas incluem o tempo de contato
da substância com os tecidos e a concentração e o volume utilizados nessa etapa do
tratamento. Essa deficiente capacidade solvente pode ser avaliada em publicações
científicas que demonstram restos teciduais em istmos e reentrâncias em canais irri
gados com hipoclorito de sódio em altas concentrações.1
Restos pulpares, necróticos ou não, devem ser removidos mecanicamente do in
terior dos canais radiculares por meio da instrumentação de istmos e reentrâncias e,
principalmente, pela irrigação ativa com soro fisiológico (solução biocompatível),
que pode ser feita com seringas e agulhas de calibre adequado, sob pressão, ou com
aparelhos ultrassônicos.
Não existe substância capaz de dissolver restos de tecido pulpar em istmos, re
entrâncias e canais laterais. Trabalhos publicados na literatura comprovam tal ine
ficiência. 2 Para que uma substância química tenha ação solvente, é necessário um
volume constante no interior dos canais, tempo para que a ação solvente se realize e
Endodontia passo a passo 101
concentração adequada da solução química. No tratamento de canal radicular, essas
condições não podem ser reproduzidas.
O hipoclorito tem uma ação de microdissolução tecidual dentro do conduto
agindo apenas em nível molecular sobre microscópicos restos necróticos e pulpa
res, exatamente como faz com o colágeno da parede dentinária. O fato de remover
restos pulpares ou necróticos de maneira tão microscópica deixa intacta a grande
maioria de restos pulpares ou necróticos que são vistos em polos e istmos de cortes
histológicos após o preparo com altas concentrações de hipoclorito, sendo, portanto,
uma ação de dissolução tecidual irrelevante para o sucesso da terapia endodôntica
(Figuras 11.1 e 11.2).
 FIGURA 11.1
Área de istmo contendo restos de tecido pul
par em canais instrumentados com hipoclorito
de sódio a 5,25%.
Fonte: Frei re.'
Vantagens
• Excelente ação antimicrobiana.
Desvantagens
 FIGURA 11.2
Maior aumento da Figura 11.1 mostrando que
a substância química foi incapaz de dissolver o
tecido pulpar.
Fonte: Frei re.'
• Alta toxicidade e risco de acidentes pela injeção da solução no periápice, resultan
do em severas reações inflamatórias (principal desvantagem).
• Instabilidade de armazenamento (prejudica a identificação da concentração da
substância durante o uso).
• Propriedade irritante para a pele e mucosa (o uso diário em pacientes pode ser
arriscado pela proximidade com que se trabalha durante o procedimento clínico).
• Possibilidade de descolorir ou manchar roupas.
• Cheiro muito forte e desagradável.
• Possibilidade de remover o carbono do dique de borracha (por vezes pode provo
car até a ruptura do dique durante o procedimento).
• Propriedade corrosiva aos instrumentos.
• Baixa atividade lubrificante.
102 Francisco José de Souza Filho (Organizador)
Propriedades do gel de clorexidina a 2%
Propriedade reo/6gica e tixotr6pica dos géis
A escolha da clorexidina a 2% na forma de gel como substância química auxiliar
apresenta inúmeras vantagens que vão muito além da excelente atividade antimicro
biana. O gel apresenta capacidade lubrificante e evita o estresse por atrito do instru
mento nas paredes do canal, facilita o corte da dentina e reduz o desgaste e a perda
de efetividade do corte de suas lâminas. Além disso, os géis apresentam escoamento
e comportamento pseudoplásticos e são amplamente estudados na área de reologia
de materiais.
A reologia pode ser definida como a ciência que estuda o escoamento da ma
téria. O termo reologia vem do grego rheo (fluxo) e logos (ciência) e foi sugerido
por Bingham e Crawford para descrever as deformações de sólidos e a fluidez de
líquidos.4.s
Além da pseudoplastia referida, todos os géis apresentam caráter tixotrópico, ou
seja, tomam-se mais fluidos quando submetidos a uma ação de carga (p. ex., ação dos
instrumentos rotatórios), e recuperam a viscosidade no momento em que se encerra
essa ação. Nas formulações de uso tópico, por exemplo, nos xampus, cremes e tintas,
a ação tixotrópica é bastante almejada, pois elas se deformam durante a aplicação, ou
seja, tomam-se mais fluidas, facilitando o espalhamento, e recuperam a viscosidade
inicial no momento que se encerra a aplicação.
No canal radicular, o gel de clorexidina toma-se mais fluido quando submetido
a uma carga de cisalhamento (instrumento rotatório). A ação tixotrópica do gel é a
propriedade que permite, durante a instrumentação, manter em suspensão as partí
culas de dentina e debris, que se encadeiam umas às outras, formando uma matriz
mais rígida.
Essa propriedade tixotrópica pode ser nitidamente observada durante a instru
mentação do canal radicular com o gel de clorexidina, sobretudo quando se utili
zam instrumentos rotatórios ou reciprocantes. Após a retirada da força cisalhante,
o sistema volta à sua conformação original, recuperando novamente a viscosidade
aparente inicial, aprisionando as partículas de dentina liberadas das paredes do canal,
que podem ser removidas mediante um efetivo fluxo de irrigação. Esse fenômeno foi
observado por Ferraz e colaboradores,6 que perceberam em microscopia eletrônica
de varredura (MEV) uma menor formação de smear layer nas paredes dentinárias
quando instrumentadas com gel de clorexidina.
Substantividade ou ação residual
Devido às suas propriedades catiônicas (carga positiva), a clorexidina pode se ligar a
superfícies e substratos aniônicos (carga negativa), como a hidroxiapatita da denti
na, e ser liberada em níveis terapêuticos após a sua remoção - fenômeno conhecido
como substantividade ou ação residual.7
º
8 Trabalhos mostram que a substantividade
pode permanecer 48 horas,9 72 horas, quatro semanas'º e até 12 semanas" depois da
instrumentação.
Essa propriedade é perfeitamente adequada para a Endodontia porque, mesmo
após a fmalização da instrumentação e obturação dos canais radiculares, as molé-
Endodontia passo a passo 103
culas de clorexidina aderidas na dentina mantêm as propriedades antimicrobianas
por um período maior. A interação da dentina com a clorexidina depende do nú
mero de moléculas disponíveis na solução. Em baixas concentrações (até 0,01 %), há
poucas moléculas de clorexidina - elas apenas modificam as propriedades físicas e
químicas das superfícies dentais e reduzem a colonização bacteriana. Em altas con
centrações, o excesso de clorexidina pode ser rapidamente liberado para o ambiente
. d t 12 c1rcun an e.
Ação nos túbu/os dentin6rios
A efetividade antibacteriana da clorexidina e sua substantividade foram observadas
numa profundidade de 500 µm nos túbulos dentinários.13
'
14 Essa constatação é rele
vante comparativamente, já que outros trabalhos microbiológicos demonstraram que
os microrganismos penetram, em geral, de 300 a 450 µm. 15
Efeito modulador da dentina
A clorexidina é significativamente inibida pela albumina presente nos exsudatos in
flamatórios e nas células microbianas mortas16 e, portanto, precisa ser renovada vá
rias vezes durante o preparo químico mecânico. Por outro lado, a hidroxiapatita não
tem nenhum efeito inibitório na atividade antimicrobiana da clorexidina e, desde que
ocorra a sua adsorção, a ação antimicrobiana continua, compensando uma possível
inibição inicial pelo exsudato inflamatório.
ADESÃO DENTINÁRIA
A utilização de substâncias químicas na Endodontia durante o preparo químico
-mecânico pode modificar a estrutura da dentina, sobretudoo colágeno, o que
contribui consideravelmente para alterar as propriedades mecânicas dessa estru
tura, conforme demonstraram Moreira e colaboradores. 17 Esse estudo avaliou o
efeito de diferentes substâncias químicas auxiliares (Figura 11.3) durante o tra
tamento endodôntico em paredes do canal radicular mediante implementação
de microscopia de luz polarizada (MLP) e microscopia eletrônica de varredura
(MEV).
A integridade da estrutura dentinária é importante durante a fase de hibridi
zação dos sistemas adesivos. Substâncias que provocam a dissolução do colágeno
comprometem a força de adesão entre o sistema adesivo e a estrutura dental e, con
sequentemente, colocam em risco a qualidade e durabilidade de restaurações diretas
e cimentações de pinos.18
Para a adesão dentinária, é importante que a substância química não interfira no
substrato dentinário (colágeno da matriz orgânica da dentina). É descrito na literatu
ra que o NaOCl provoca alteração do colágeno, o que prejudica a adesão. Por outro
lado, a clorexidina preserva a estrutura dentinária, o colágeno e a hidroxiapatita, já
que é um agente antioxidante. 17
104 Francisco José de Souza Filho (Organizador)
 FIGURA 11.3
Birrefringência dos grupos. A) Grupo-controle - cloreto de sódio a 0,9%. B) Hipoclorito de sódio a
5,25% +ácido etilenodiaminotetracético (EDTA) a 17%. C) Gel de clorexidina a 2%. D) Hipoclorito
de sódio a 5,25%. E) EDTA a 17%. E) Gel de clorexid ina a 2% + EDTA a 17%.
Fonte: Moreira e colaboradores."
DISSOLUÇÃO DE TECIDO PULPAR
A clorexidina não dissolve tecido pulpar. O tecido pulpar localizado em istmos e
reentrâncias deve ser removido mediante instrumentação, uma vez que estão loca
lizados, principalmente, nos terços cervical e médio das raízes e canais achatados
(Figuras 11.4a11.7).
 FIGURA 11.4  FIGURA 11.5
A) Área de reentrância em canal achatado Maior aumento da Figura 11.4.
mostrando o tecido pulpar preservado após Fonte: Freíre.'
instrumentação com gel de clorexidina a 2%.
Endodontia passo a passo 105
Persistência de sangramento no interior do canal
Depois da realização da patência e da ampliação do forame apical, pode ocorrer um pequeno
sangramento, que deve cessar imediatamente após a irrigação com soro fisiológico. O sangra
mento do ligamento periapical não é persistente, pois assim que o tecido conjuntivo é atingi
do pelo instrumento endodôntico ocorre a formação do coágulo. Em geral, um sangramento
consistente ocorre devido a restos pulpares no interior do canal radicular. Essa é mais uma
qualidade do gel de clorexidina, pois o sangramento no canal somente vai cessar após a remo
ção de todo o tecido pulpar. Por outro lado, o hipoclorito de sódio cessa o sangramento, mas
não remove o tecido pulpar que fica impregnado nas áreas de reentrâncias do canal radicular.
A FIGURA 11.6
Canal circular no terço a picai mostrando o teci
do pulpar antes da instrumentação.
Fonte: Freire.'
A FIGURA 11.7
Canal apical circular sem a presença de tecido
pulpar após a instrumentação.
Fonte: Freire.'
APLICAÇÕES DA CLOREXIDINA COMO MEDICAÇÃO INTRACANAL
O tratamento endodôntico é uma microcirurgia que deve ser realizada, se possível,
em sessão única, sendo indiferente o estado pulpar (vital ou necrose) ou a presença
de lesão periapical crônica. Tecnicamente, desde que se obtenha a secagem dos canais
radiculares, esses podem ser obturados na mesma sessão. No entanto, por motivos
exclusivamente associados a dificuldades técnicas, complexidades anatômicas ou
problemas sistêmicos dos pacientes, o tratamento de canal radicular pode ser rea
lizado em duas ou mais sessões. O índice de sucesso, a curto ou longo prazo, é igual.
Devido às propriedades mencionadas antes e pela facilidade de sua aplicação
e remoção do interior dos canais, a clorexidina na forma de gel pode ser utilizada
como medicação intracanal entre as sessões de tratamento em períodos curtos (uma
ou duas semanas).
Nos períodos mais longos, é mais apropriado usar a associação gel de clorexidina
+ Ca(OH)2 (pó) para promover uma barreira física, obturando o espaço do canal ra
dicular com o objetivo de prevenir ou retardar um novo crescimento bacteriano.19
'
21
106 Francisco José de Souza Filho (Organizador)
Essa medicação mostrou, in vitro, capacidade de difusão na dentina radicular e
inibição do crescimento bacteriano14 e, por essa razão, pode permanecer no interior
dos canais radiculares por um período de tempo maior. A Figura 11.8 mostra o resul
tado da pesquisa in vitro realizada em dentes humanos unirradiculares, instrumenta
dos, esterilizados e selados com as medicações testadas em seu interior.
<1111 FIGURA 11.8
Halos de inibição de crescimento para Ente
rococcus faeca/is produzidos pelas diferentes
medicações intracanal, quando o cemento ra
dicular foi removido ou não. A) Hidróxido de
cálcio+ soro fisiológico: 1-sem raspagem, 2 -
com raspagem. B) Hidróxido de cálcio+ gel de
clorexidina a 2%: 1 - com raspagem, 2 - sem
raspagem. C) Gel de clorexidina a 2%: 1-sem
raspagem, 2 - com raspagem . D) Hidróxido de
cálcio + óxido de zinco + gel de clorexidina a
2%: 1 - sem raspagem, 2 - com raspagem.
Essa pesquisa conclui que o gel de clorexidina a 2% e suas associações com hi
dróxido de cálcio e óxido de zinco demonstraram rápida capacidade de difusão na
dentina radicular, ocasionando inibição de crescimento bacteriano na placa Agar.22
Outras vantagens do gel de clorexidina
• Amplo espectro antimicrobiano.
• Solubilidade em água quando preparado com gel à base de Natrozol, que é ampla
mente utilizado na fabricação de xampus e sabonetes.23
• Mínima toxicidade para os tecidos periapicais - essa é considerada uma das prin
cipais razões para a utilização da clorexidina como substância química auxiliar.24
• O produto tixotrópico tende a ter maior vida de prateleira (shelf-life), pois, durante
o armazenamento, ele apresenta viscosidade constante, o que dificulta a separação
dos constituintes da formulação. 25
• A estabilidade química é maior entre pH 5 e 8 quando armazenado à temperatura
ambiente em embalagem capaz de proteger da luz.
• Inexistência de reações alérgicas e resistência bacteriana.
A adsorção da clorexidina pela dentina facilita a absorção do adesivo pelos tú
bulos dentinários26 e, além disso, estudos mostraram que a substância melhora a
longevidade da adesão pela inibição de metaloproteinases, enzimas que degradam o
colágeno da camada híbrida. Tais substâncias, que estão contidas na dentina, tornam
a camada híbrida mais estável, melhorando a força de adesão.27
•
31
Endodontia passo a passo 107
ASSOCIAÇÃO DO HIPOCLORITO DE SÓDIO COM A CLOREXIDINA
A associação de NaOCl e clorexidina durante o tratamento endodôntico não é re
comendada, pois provoca uma reação química imediata que resulta na formação de
um precipitado denso e de coloração acastanhada que pode comprometer a estética
dentária e a permeabilidade dentinária. O componente final dessa reação química
produz uma camada superficial em toda a dentina do canal radicular com aspecto
de uma smear layer química (Figuras 11.9 e 11.10), reduzindo o número de túbu
los dentinários patentes e afetando a formação da camada híbrida necessária para
a adesão nas restaurações e cimentação de pinos de fibra de vidro, além de deixar
um filme residual nas paredes do canal, aumentando o risco de microinfiltração
coronária.2 1
'
32
~ FIGURA 11.9
A) Cana l radicular preenchido
com gel de clorexidina a 2%. B)
Formação de smear layer química
após a mistura do hipoclorito de
sódio com clorexidina.
~ FIGURA 11.10
Fotomicrografia de varredura mostrando a formação
de um filme residual nas paredes do canal radicular
após a mistura do NaOCI com clorexidina.
108 Francisco José de Souza Filho (Organizador)
PARACLOROANILINA
A paracloroanilina (PCA) é registrada no CAS (Chemical Abstracts Service) sob o
número 106-47-8, não é encontrada normalmente na natureza, mas, em razãoda
atividade industrial, pode ser detectada no solo, no ar e nos rios. Estudos para o
monitoramento dos níveis de PCA em rios e solos foram conduzidos nas décadas de
1980 e 1990 em vários países da Europa, como Finlândia, Alemanha e Itália, detec
tando concentrações que variavam de 0,007 a 0,06 ppm. Não há dados para avaliar a
exposição à PCA e outros resíduos em cosméticos e produtos farmacêuticos, mas o
teor permitido nessas formulações deve ficar no máximo em 3 ppm.
Abed
33
realizou estudo com o objetivo de avaliar as propriedades físico-químicas
do gluconato de clorexidina a 0,12% na forma de bochecho por um ano e verificou
que não houve alteração significativa no teor de PCA durante o período e que a con
centração de PCA ficou sempre abaixo do limite estabelecido de 3 ppm.
A meia-vida de um fármaco é determinada pelo tempo necessário para que
ocorra a degradação de 5 a 10% do substrato da substância. A PCA é um produto
que se forma com a degradação da clorexidina. A otimização do prazo de validade
para uma formulação de clorexidina depende da combinação de fatores como resis
tência da formulação, condições de armazenamento, otimização do pH, controle de
temperatura ou refrigeração. O mais importante é minimizar a concentração inicial
de PCA a partir de uma solução a granel durante a preparação da formulação. Vários
absorventes para remoção de PCA têm sido utilizados com sucesso, uma vez que
conseguem remover até 100% de PCA e praticamente não diminuem a concentração
do componente farmacêutico ativo.
Estudos realizados por Gonçalves (dissertação em andamento) mostraram que
quando a clorexidina é aquecida à temperatura acima de 120°C ocorre sua degrada
ção, com a precipitação de PCA. Nesse estudos, realizados com o objetivo de avaliar
a degradação da clorexidina, foram testados vários produtos contendo clorexidina,
sendo encontrado um teor de PCA que variou de O a 8,56 ppm (a legislação permite
até 3 ppm). Amostras do gel de clorexidina Endogel• (Essencial Pharma - Itapetinin
ga, Brasil) foram analisadas e não apresentaram PCA na sua formulação, não haven
do consequentemente formação do precipitado mesmo após a degradação térmica.
IRRIGAÇÃO: SORO FISIOLÓGICO
A irrigação é um dos passos mais importantes para auxiliar na limpeza e remoção
dos detritos produzidos durante a instrumentação de canais radiculares. Dispositivos
de irrigação diferentes estão disponíveis para melhorar a distribuição e o fluxo de
irrigante no canal radicular. A irrigação com seringa e agulha é o mais comum e facil
mente acessível para o clínico, mas sua eficácia é questionável, sobretudo na limpeza
do entulho no terço apical. A irrigação ultrassônica passiva, exigindo a substituição
do irrigante, mostra melhor eficácia no desbridamento.
Independentemente do dispositivo utilizado, a irrigação deve ser ativa e com vo
lume suficiente para fazer com que o fluxo e refluxo da solução irrigadora promovam
essa limpeza. O ideal é que as soluções irrigantes sejam atóxicas, dado o risco de que
o vazamento da solução através do forame apical aumente quando se faz a ampliação
do forame.
Endodontia passo a passo 109
O soro fisiológico é o agente de irrigação ideal, uma vez que pode ser usado com
total segurança, mesmo quando passa através do forame apical, o que ocorre com
frequência quando tal forame é ampliado.
O corpo do canal devidamente ampliado possibilitará a inserção completa da
agulha no interior do canal radicular (agulha de 20 mm de comprimento x 5,5 mm de
diâmetro). É importante que a ponta da agulha fique a cerca de 4 a 5 mm do forame
apical.
A posição da agulha e a pressão no êmbolo da seringa fazem com que o soro
fisiológico ultrapasse o forame apical e efetue uma irrigação na região periapical.
Isso proporciona uma limpeza adicional no periápice, diminuindo a concentração
de substâncias químicas liberadas durante o preparo, e auxilia na remoção de debris
liberados na região durante a instrumentação.
Nas Figuras 11.11e11.12 (sequência de radiografias antes e durante o tratamen
to endodôntico ), pode-se observar a irrigação feita com uma solução de iodo não
iônico como contraste e a área periapical marcada pelo contraste que ultrapassou o
forame apical durante a irrigação.
& FIGURA 11.12
"ill FIGURA 11.11
Radiografia periapical inicial mostrando a área
periapical normal antes do tratamento endo
dôntico.
B
A) Radiografia periapical mostrando área radiopaca decorrente do extravasamento da solução irri
gadora (soro fisiológico) com contraste (iodo não iônico) utilizada como solução irrigante (seta). B)
Na radiografia com contraste colorido, nota-se que a substância contrastante ultrapassa o forame
apical (seta).
110 Francisco José de Souza Fi lho (Organizador)
POSICIONAMENTO DA AGULHA DE IRRIGAÇÃO
Para uma efetiva irrigação do canal radicular, pode-se utilizar a agulha 20 x 5Y2, com
bisel, na profundidade de 16 mm no interior do canal radicular. Nessa posição, a
força da irrigação levará a substância irrigadora (soro fisiológico) sob pressão para a
área apical, promovendo uma melhor limpeza na região (Figura 11.13 ).
<1111 FIGURA 11.13
Irrigação do canal com agulha 20 x 5Y. (20 x 5,5
mm). Note que a agulha de irrigação está inse
rida no canal radicu lar. Essa agulha é ideal para
uma completa limpeza e irrigaç.ão dos canais
radicu lares.
PASSOS PARA UTILIZAÇÃO DA SUBSTÂNCIA QUÍMICA AUXILIAR E DA
IRRIGAÇÃO
• A clorexidina em gel deve ser colocada em seringa descartável de 3 mL e agulha 20
x 5lh (5,5 mm).
• Preencher o canal radicular e a câmara pulpar com o gel e em seguida iniciar a
instrumentação.
• Observar que, ao instrumentar, o gel (incolor) fica com aspecto leitoso devido à
incorporação de restos de dentina.
• Fazer a irrigação dos canais radiculares com soro fisiológico ou água destilada em
seringas plásticas descartáveis de 5 mL ou com aparelho de ultrassom.
• Quando realizada com seringas e agulhas adequadas, a irrigação deve ser feita sob
pressão para que o líquido ultrapasse o forame apical e promova uma irrigação no . , .
per1ap1ce.
• Usar agulha com bisel para facilitar o refluxo da solução irrigadora.
• Ampliar o corpo do canal de tal forma que a agulha penetre até a proximidade do
terço apical (4 a 5 mm apical).
REMOÇÃO DA SMEAR LAYER: EDTA A 17%
O EDTA-T a 17% é o ácido etilenodiaminotetracético, que apresenta propriedades
como ação quelante (se liga a íons cálcio e fosfato da parte inorgânica da smear layer),
capacidade de remoção de matéria inorgânica e orgânica, aumento da permeabilidade
dentinária e abertura dos túbulos dentinários, além de fazer a associação do tergentol
na solução (tensoativo aniônico), que melhora ainda mais as propriedades do EDTA.
Devido à sua ação quelante e diante da possibilidade de entrar em contato com
a clorexidina, sua interação foi estudada. Verificou-se a formação de um precipitado
branco oriundo da neutralização eletrostática da clorexidina, formando sais. A PCA
-e· trd 34 nao tOI encon a a.
REFER~NCIAS
1. De-Deus G, Pinho MAB, Reis C, Fidel S, Souza E and Zehn
der M. Sodium Hypochlorite with Reduced Surface Tension
Does Not Improve ln Situ Pulp Tissue Dissolution. 1 Endod.
2013;39:1039-43.
2. Evans GE, Speight PM, Gulabivala K. The inOuence of prepa
ration technique and sodium hypochlorite on removal ofpulp
and predentine from root canais of posterior teeth. lnt Endod
J. 2001;34:322-30.
3. Freire A. [Avaliação histológica da capacidade de limpeza das
áreas de istmos e reentrâncias após instrumentação de canais
radiculares utilizando diferentes substâncias quJmicas awci
liares) [dissertação]. Campinas: Faculdade de Odontologia de
São Leopoldo Mandic; (201-). Em andamento.
4. Laba D. Rheological properties of cosmetics and toiletries.
New York: Marcel Dekker; 1993. p. 9-33
5. Leonardi GR, Maia Campos PMBG. Estabilidade de formula
ções cosméticas. ln! J Pharm Compounding. 2001;3(4):154-6.
6. Ferraz CCR,Gomes BPFA, Zaia AA. Teixeira FB, Souza Fi
lho FJ. ln vitro assessment of the antirnicrobial action and the
mechanical ability of chlorhexidine gel as an endodontic Irri
gant. J Endod. 2001;27(7):452-5.
7. Schãfer E, Bõssmann K. Antimicrobial efficacy of CHX and
two calcium hydroxide formulations against Enterocoecus fae
calis. J Endod. 2005;31(1):53-6.
8. Rõlla G, Lõe H. Schiott CR. The affinity of chlorhexidine
for hydroxyapatite and salivary mucins. J Periodontal Res.
1970;5:90-5.
9. Leonardo MR. Tanomaru Filho. Silva LA, Nelson Filho P, Boni
fácio KC, !to IY. ln vivo antimicrobial activity of 2% CHX used
as a root canal irrigatingsolution. J Endodon. 1999;25:167-71.
10. Khademi AA. Mohammadi Z, Havaee A. Evaluation of the
antibacterial substantivity of severa! intra-canal agents. Aust
Endod]. 2006;32: 112-5.
11. Rosenthal S. Spangberg L. Safavi KE. CHX substantivity in
root dentine. Oral Surg Oral Med Oral Pathol Oral Radio!
Endod. 2004;98:488-92.
12. Emilson CG. Ericson T, Heyden G. Magnusson BC. Uptake of
CHX tohydroxyapatite. J Periodontal Res Suppl.1973;12:17-21.
13. Heling 1, Chandler NP. Antimicrobial effect ofirrigant combi
nations within dentina! tubules. lnt Endod J. 1998;31:8-14.
14. Gomes BP, Montagner F, Berber VB, Zaia AA, Ferraz CC, de
Almeida JF, et al Antimicrobial action of intracanal medica
ments on the externai root surface. J Dent. 2009;37(1):76-81.
15. Love RM, Jenkinson HF. lnvasion of dentinal tubules by oral
bacterias. Crit Rev Oral Biol Med. 2002;13(2):171-83.
16. Portenier 1, Haapasalo H, Orstavik D, Yamauchi M, Haa
pasalo M. lnactivation of the antibacterial actívity of iodide
potassium iodide and chlorhexidine digluconate against En
terococcus Jaeca/is by dentun, dentin matrix, type-1 collagen,
and heat-killed microbial whole cells. J Endod 2002;28:634-7.
17. Moreira DM, Almeida JFA, Ferraz CCR, Gomes BP, Line SRP,
Zaia AA. Structural analysis ofbovine root dentin after use of
different endodontics awciliary chemical substances. J Endod.
2009;35(7): 1023-7.
LEITURAS RECOMENDADAS
Corrêa NM, Camargo Júnior FB, Ignácio RF e Leonard! GR. Ava
liação do comportamento reológíco de diferentes géis hidrofl
licos. Rev Sras Ciênc Farmacêuticas. 2005;41(1):74-8.
Gomes BPFA, Vianna ME, Zaia AA, Almeida JFA, Souza Filho
FJ, Ferraz CCR. Cholrhexidine in Endodontics. Braz Dent J.
2013;24(2):89-102.
Gurgel Filho ED, Vivacqua Gomes N, Gomes BP, Ferraz CC, Zaia
AA, Souza Filho FJ. ln vitro evaluation of the effectiveness of
the chemomechanical preparation against Enterococcus fae
calis after single or multiple visit root canal treatment. Braz
Oral Res. 2007;21(4):308-13.
Saber SE. Hashem AAR Efficacy of different final irrigation activation
techniques on smear layer removal. J Endod 2011;37:1272-5.
Endodontia passo a passo 111
18. Santos JN, Carrilho MR, De Goes MF, Zaia AA, Gomes BP,
Souza Filho FJ, Ferraz CC. Effect of chemical irrigants on the
bond strength of a self-etching adhesive to pulp chamber den
tin. J Endod. 2006;32(11):1088-90.
19. Veríssimo RD, Gurgel-Filho ED. De-Deus G, Coutinho-Filho
T, Souza-Filho FJ. Coronal leakage of four intracanal medi
cations after exposure to human saliva in the presence of a
temporary filling material. Ind J Dent Res. 2010;21(1):35-9.
20. Souza Filho FJ, Soares AJ, Vianna ME, Zaia AA, Ferraz CC,
Gomes BP. Antimicrobial effect and pH of chlorhexidine gel
and calcium hydroxide alone and associated with other mate
riais. Braz Dent J. 2008;19(1): 28-33.
21. Gomes BP, Souza SFC, Ferraz CCR et ai. Effectiveness of 2%
CHX gel and Ca(OH)2 against E faecalis in bovine root denti
ne in vitro. lnt Endod J. 2003;36:267-75.
22. Montagner F. Avaliação in vitro da ação antimicrobiana de
diferentes medicações intracanal na superfície radicular ex
terna [especialização). Campinas: Faculdade de Odontologia,
Universidade Estadual de Campinas; 2007.
23. Miyamoto T, Takahashi S, Inagaki H, !to H, Noishiki Y. Tissue
biocompatibility of cellulose and its derivates. J Biomed Mater
Res. 1989;23:125-33.
24. Ryan S. Chlorhexidine as a canal irrigant: a review. Compen
dium. 2010;31(5):338-43.
25. Martin A. A physical pharmacy. 4th ed. Philadelphia: Lea &
Febiger; 1993. p. 153-476.
26. Erdemir A, Ari H, Güngünes H, Belli S. Effect of medications
for root canal treatment on bonding to root canal dentin. J
Endod.2004;30(2):113-16.
27. Carrilho MR, Carvalho RM, de Goes MF, di Hipólito V. Ge
raldeli S, Tay FR, et al. Chlorhexidine preserves dentine Bond
in vitro. J Dent Res. 2007;86:90-4.
28. Breschi L, Mazzoni A, Nato F, Carrilho M, Visintini E, Rugge
ri A Jr, et al. Chlorhexidine stabilizes the adhesive interface: a
2-year in vitro study. Dent Mater. 2010;26:320-5.
29. Ricci HA, Sanabe ME, de Souza Costa CA, Pashley DH, He
bling j. Chlorhexidine increases the longevity of in vivo resin
-dentin bonds. Eur J Oral Sei. 2010;118:411-6.
30. Chang YE, Shin DH. Effect of chlorhexidine application
methods on microtensile bond strength to dentin in Class 1
cavities. Oper Dent 2010;35:618-23.
31. Stanislawczuk R, Reis A, Loguercio AD. A 2-year in vitro eva
luation of a chlorhexidine containing acido n the durability of
resin dentin interfaces. J Dent. 2011;39:40-7.
32. Bui TB, Baumgartner JC, Mitchell JC. Evaluation of the
interaction between sodium hypochlorite and chlorhe
xidine gluconated and its effect on root dentin. J Endod.
2008;34(2):181-5.
33. Abed HH. Long-term stability study of chlorhexidine
gluconate mouth wash in experimental formula. MDJ.
2007;4(2):136-43.
34. Rasimick BJ, Nekich M, Hladek MM, Musikant BL, Deuts
ch AS. Interaction between chlorhexidine dígluconate and
EDTA. J Endod. 2008;34(12):1521-3.
Spencer HR, Ike V. Brennan PA. Review: the use ofhypochlorite in
endodontics: potential complications and their management
Brit Dent J. 2007;202(9):555-9.
Veríssimo RD, Zílio DM, Ferraz CC, Zaia AA, Souza Filho FJ, Go
mes BP. Concentration of hydrogen ions in severa! calcium
hydrohide pastes over differents periods of time. Braz Dent
]. 2009;20(5): 382-8.
Vianna ME, Gomes BP, Berber VB, Zaia AA, Ferraz CC, Souza
Filho FJ. ln vitro evaluation of the antimicrobial activity of
chlorhexidine and sodium hypochlorite.
Oral Surg Oral Med Oral Pathol Oral Radio! Endod. 2004;97( 1):79-
84.
Zehnder M. Root canal irrigants. J Endod. 2006;32(5):389-98.
Limite apical, patência
e ampliação do f arame
FRANCISCO JOSÉ DE SOUZA FILHO
CONSIDERAÇÕES GERAIS
O conceito de que o preparo e a obturação do canal radicular devam ser realizados no
limite cemento-dentina-canal (CDC) é corrente. Esse princípio, apresentado e aceito
como referência no início da década de 1930,' tem sido consensual, sendo pratica
mente estabelecido como uma referência clínica clássica, ainda que tenha sido consa
grado por razões morfológicas, visto que não existe uma descontinuidade estrutural
entre o tecido conjuntivo pulpar e o tecido conjuntivo periapical.
Entretanto, de acordo com a evolução dos estudos, esse conceito tem sido per
manentemente controverso, afinal, o limite de preparo e obturação dos canais radi
culares restritos ao limite CDC (1 mm aquém do forame) como tradicionalmente
concebido implica uma imediata questão: como garantir a limpeza do restante do
canal apical contendo restos de tecido infectado?
Vale raciocinar que, se as alterações periapicais estão associadas à presença de
microrganismos e tecido necrótico no interior dos canais radiculares e nas proximi
dades do forame apical, não existem razões histológicas, fisiológicas ou patológicas
para que o processo da limpeza e remoção se limite a um ponto no interior do canal,
na medida em que o seu término se localiza no forame apical.
As primeiras proposições contrárias ao limite apical aquém do forame foram
publicadas por Schilder2 e Butler.3 Esses autores preconizaram, para os dentes com
necrose pulpar, a patência, o desbridamento do forame apical e a obturaçãotridi
mensional dos canais radiculares e acessórios, incluindo o forame. O sequencia
mento técnico segue com o completo preenchimento dos demais espaços internos
com cimento obturador, bem como o extravasamento do material para o espaço
periapical.
Contudo, essas publicações não resultaram em impacto científico suficiente para
promover mudanças na prática clínica endodôntica. As mudanças tiveram início
Endodontia passo a passo 113
apenas a partir de Buchanan,4 que retomou a linha dos estudos de Schilder, introdu
zindo a prática da patência do forame apical e do preenchimento tridimensional do
canal radicular com cimento.
PATÊNCIA E AMPLIAÇÃO DO FORAME APICAL
Schilder, em 1974, considerou a limpeza e a modelagem do sistema de canais radicu
lares como bases para o sucesso do tratamento endodôntico.5 O autor relatou que os
conceitos de preparo dos canais radiculares permaneceram empíricos com o passar
do tempo, ignorando conceitos físicos e biológicos necessários para o reparo, além de
ignorarem a verdadeira anatomia dental e a natureza química dos materiais obtura
dores, e propôs maneiras de melhorar a limpeza e modelagem do sistema de canais
radiculares baseadas nesses conceitos, como manter a região apical limpa com o uso
de uma lima de patência (Figura12.1).
<411 FIGURA 12.1
Lima # 10 fazendo a patência do forame apical em
dente com raiz achatada.
A resposta inflamatória periapical aos agentes microbianos oriundos do canal
radicular é inespecífica e faz parte do processo biológico de reparação e defesa, in
dependentemente do local em que se instale o agente agressor. Na região periapical,
o processo inflamatório provoca destruição nos tecidos periapicais e reabsorção do
osso alveolar e do cemento radicular, criando um espaço ocupado por um tecido
de granulação. Esse tecido é responsável pela organização da defesa contra a dis
seminação bacteriana, com intenção reparadora, desde que se eliminem os agentes
agressores. É preciso ficar claro que a reparação desse tecido de granulação ocorre
naturalmente, com a eliminação do foco da infecção e com o devido selamento do
forame apical por um material obturador que apresente boa qualidade seladora e
compatibilidade biológica com os tecidos periapicais.
Clinicamente, para a elaboração de estratégias de tratamento, o conhecimento
desse mecanismo biológico é fundamental. Ou o tecido necrótico e as bactérias são
removidos mecanicamente ou devem ficar expostos ao sistema de fagocitose do or
ganismo. Dentro do canal radicular, incluindo o canal cementário e o forame apical, é
pouco provável que ocorra a fagocitose de microrganismos pela presença do biofilme
bacteriano e ausência de vascularização. Portanto, o desbridamento do forame api
cal, conforme descrito na literatura por Butler, é essencial para que a área do forame
seja devidamente limpa pela ação mecânica dos instrumentos. Para que tal limpeza
114 Francisco José de Souza Filho (Organizador)
ocorra, o forame apical deve ser alargado, sinalizando a importância da ampliação e
modelagem (Figura 12.2).
• FIGURA 12.2
Ampliação do forame apical com lima# 35.
AMPLIAÇÃO DO FORAM E APICAL
As características do reparo periapical após a ampliação do forame em dentes de cães
com polpa vital foram estudadas por Benatti e colaboradores.6 Cento e trinta e qua
tro canais radiculares foram sobreinstrumentados 2 mm além do forame apical com
limas # 40, 60 e 80 e obturados 1 a 3 mm aquém do ápice radiográfico. Os animais
foram sacrificados em 3, 7, 30 e 120 dias após o tratamento endodôntico, e os dentes
foram processados para análise histológica. Os resultados mostraram a proliferação
do tecido conjuntivo periodontal em direção aos canais radiculares e as alterações
morfológicas da maturação desse tecido ao longo do tempo. O alargamento do fo
rame apical permitiu invaginação do tecido conjuntivo em direção aos canais radi
culares e formação de uma camada espessa de cemento na porção apical dos canais
radiculares.
Souza Filho e colaboradores/ em 1987, estudaram a influência do diâmetro do
forame apical e a intensidade da contaminação do canal no reparo tecidual periapical
em dentes necrosados de cães. Trinta e dois canais radiculares de pré-molares inferio
res foram expostos a contaminação, e o desenvolvimento de uma inflamação apical
ocorreu em um período de 45 dias. Os canais foram sobreinstrumentados 2 mm além
do forame apical com lima # 60 e foram subobturados 2 a 3 mm aquém do ápice ra
diográfico. Em 90 dias após o tratamento endodôntico, houve cura e invaginação de
tecido conjuntivo em direção ao canal em 67,8% dos casos.
Os resultados histopatológicos mostraram que o processo de reparação tem iní
cio imediatamente após a organização do coágulo sanguíneo, que sofre proliferações
e diferenciações celulares até a completa reparação dos tecidos lesionados.
Nessa mesma linha de pesquisa, Souza Filho e colaboradores7 verificaram que,
em dentes com necrose pulpar e lesão periapical, o procedimento de ampliação do
forame não somente auxiliou na descontaminação da região, mas também diminuiu
a contaminação do canal radicular na região do forame e favoreceu a reparação dos
tecidos periapicais. Esses achados, também confirmados por Borlina e colaborado
res, 8 mostraram que a ampliação do forame apical contribuiu para melhorar a limpe
za e reduzir a contaminação do canal radicular na área apical.
Endodontia passo a passo 115
Quando o tratamento endodôntico com ampliação foraminal é realizado em
dentes com polpa vital e o canal é obturado aquém do forame apical (2 a 3 mm),
ocorre, invariavelmente, uma neoformação de tecido conjuntivo ocupando a área li
vre na porção apical do canal. Esse tecido neoformado, com o passar do tempo, sofre
diferenciação, tomando-se um tecido de constituição fibrosa, com característica de
normalidade e que, em contato com a dentina das paredes internas do canal radicu
lar, deposita um tecido cementoide, que se desenvolve em camadas e tende a formar
um selamento biológico apical.
Esse comportamento do tecido periapical, após a sobreinstrumentação, demons
tra que não existe nenhum problema quanto à reparação periapical após a remoção
do coto periodontal e a ampliação do forame apical.
Por outro lado, quando o preparo do canal radicular é feito 1 mm aquém do
forame apical, preservando o coto periodontal, independentemente da substância
química utilizada no preparo, inicia-se uma reação inflamatória que promove a fa
gocitose do tecido pulpar dilacerado pelos instrumentos. Essa reação inflamatória,
certamente, perdura por um tempo muito maior do que aquela que ocorre a partir
do coágulo apical. Na ausência de microrganismos, a organização do coágulo ocorre
num período relativamente curto, como mostram as Figuras 12.3 e 12.4.
FIGURA 12.4 ...
A) Terço apical de dente de cão, 120 dias
após a ampliação do forame apical, mos
trando as características de normalidade
do tecido invaginado para o interior do
canal radicular. B) Maior aumento da fi
gura anterior, mostrando a formação de
cemento nas paredes internas do canal.
~ FIGURA 12.3
A) Corte histológico mostrando a for
mação de tecido conjuntivo no interior
do canal radicu lar. B) Maior aumento da
figura anterior mostrando o tecido inva
ginado no canal com características de
normalidade.
116 Francisco José de Souza Filho (Organizador)
Quando a obturação ficar, intencionalmente, aquém do limite apical, ocorrerá a
revascularização ou invaginação do tecido periodontal apical para o interior do ca
nal, assim como a neoformação de tecido cementoide nas paredes do canal radicular.
Essa propriedade inerente do tecido conjuntivo de crescer para espaços vazios livres
de bactérias pode ser aplicada nos dentes com rizogênese incompleta, nos tratamen
tos denominados revascularização ou na revitalização do canal radicular.
Ampliação do forame apical e sangramento no interior do canal
Após realizar a patência e a ampliaçãodo forame apical, pode ocorrer um pequeno sangra
mento, que deve cessar imediatamente após a irrigação com soro fisiológico. O sangramen
to do ligamento periapical não é persistente, pois assim que o tecido conjuntivo é atingido
pelo instrumento endodôntico ocorre a formação de coágulo. Em geral, um sangramento
consistente ocorre devido a restos pulpares no interior do canal radicular.
AMPLIAÇÃO DO FORAME APICAL E DOR PÓS-OPERATÓRIA
Com o propósito de avaliar a dor após os procedimentos de ampliação do forame
apical, propusemo-nos a investigar esse assunto, inicialmente nas dissertações de
mestrado de Alexandra Camelo9 e Thais Natsuco Sonoda11 e na pesquisa clínica de
Marcelle Louise Sposito Bourreau.10 Do ponto de vista clínico, os resultados mos
traram que os tratamentos endodônticos realizados em sessão única com patência
e ampliação do forame apical, independentemente da substância química auxiliar
utilizada, apresentaram mínima incidência de dor pós-operatória. Os resumos dessas
pesquisas são apresentados a seguir.
Avaliação da sintomatologia pós-operatória em tratamentos
endodônticos realizados com patência e ampliação foraminal,
comparando duas substâncias químicas auxiliares
(Dissertação de mestrado de Alexandra Magalhães Camelo;9 orientador, Francisco
José de Souza Filho)
Resumo
O objetivo desse trabalho foi avaliar, in vivo, a sintomatologia pós-operatória de tra
tamentos e retratamentos endodônticos realizados em sessão única, submetidos à pa
tência e ampliação do foram e apical utilizando duas substâncias químicas auxiliares,
hipoclorito de sódio e gel de clorexidina, durante o preparo e a modelagem.
Métodos
Foram realizadas 300 intervenções, por um único operador especialista em Endo
dontia, divididas em três grupos de acordo com a substância química utilizada: gru
po 1 - gel de clorexidina a 2% e soro fisiológico; grupo 2 - hipoclorito de sódio a
5,25%; grupo 3 - hipoclorito de sódio a 5,25% e soro fisiológico. A avaliação da sinto-
Endodontia passo a passo 117
matologia pós-operatória foi feita 24 horas após a realização do atendimento, tendo
sido utilizado um escore para classificar a dor quanto à sua intensidade: sem dor (não
houve necessidade de medicação analgésica); com dor - moderada (houve necessi
dade de uma ou duas doses de medicação analgésica) ou intensa (houve necessidade
de reintervenção, que incluiu procedimento de urgência).
Resultados
Os resultados mostraram que 92% (276/300) dos pacientes não tiveram dor ou não
necessitaram de medicação analgésica; 8% (24/300) tiveram dor, sendo que 7,3%
(22/300) apresentaram dor moderada e necessitaram de uma ou duas doses de me
dicação analgésica e apenas 0,7% (2/300) apresentaram dor intensa com necessidade
de reintervenção.
Conclusão
O tratamento endodôntico com patência e ampliação do forame apical realizado em
sessão única, independentemente da substância química auxiliar utilizada durante o
tratamento, apresenta baixa incidência de dor pós-operatória.
Avaliação prospectiva da sintomatologia clínica pós-operatória de
tratamentos endodônticos realizados em sessão única com patência e
ampliação do forame apical
(Dissertação de mestrado de Thais Sonoda, 11 orientador Francisco José de Souza Filho)
Resumo
Esse estudo clínico prospectivo randomizado avaliou a intensidade e ocorrência
da dor pós-operatória de tratamentos endodônticos com patência e ampliação fo
raminal, realizados em sessão única, independentemente da condição pulpar e pe
riapical.
Métodos
Foram analisados 232 dentes de 179 pacientes, encaminhados para o Orocentro (Ita
petininga, São Paulo, Brasil) para tratamento endodôntico, no período de outubro
de 2008 a agosto de 2010. Após 24 horas, a intensidade da dor pós-operatória foi
registrada por meio de uma escala verbal, assim classificada: nenhum desconforto;
desconforto (sem necessidade de medicação analgésica); dor moderada (uma ou
duas doses de medicação analgésica); dor severa (uma ou duas doses de medicação
ineficaz no alívio da dor, exigindo reintervenção). A ocorrência ou não de dor foi
definida pelo uso ou não de medicação analgésica após o tratamento endodôntico.
Resultados
Os resultados mostraram que 93,5% (217/232) dos pacientes não apresentaram dor
pós-operatória e 6,5% (15/232) relataram dor; desses, 5,2% (12/232) tiveram dor mo
derada e 1,3% (3/232), dor severa.
118 Francisco José de Souza Filho (Organizador)
Conclusão
O tratamento endodôntico com patência e ampliação foraminal, realizado em sessão
única, independentemente da condição pulpar e periapical, apresentou baixa ocor
rência de dor pós-operatória.
Avaliação dos sintomas pós-operatórios de tratamentos endodônticos
realizados com desbridamento, alargamento e obturação do forame
a picai
(Artigo submetido à Revista da Associação Paulista de Cirurgiões Dentistas [APCD])
Resumo
Esse estudo clínico prospectivo randomizado analisou a influência de duas substân
cias químicas auxiliares diferentes na dor pós-operatória de 301 tratamentos endo
dônticos concluídos em uma sessão, com o alargamento do forame apical e sobreob
turados. Foram utilizados como substâncias químicas auxiliares o gel de clorexidina
a 2% (n = 145) e o hipoclorito de sódio a 5,25% (n = 156). A incidência de dor e
desconforto pós-operatórios foi avaliada em 24 horas e foi expressa em porcentagem.
O teste exato de Fischer e o teste de Quí Quadrado para tendências e para dados
não paramétricos foram usados para comparar a variação da dor pós-operatória.
Os fatores analisados foram dor presente, substância química auxiliar, estado pul
par, faixa etária e número de canais radiculares, e os resultados mostraram que a
dor prévia presente exerceu influência significante na dor pós-operatória (p < 0,001).
Após 24 horas, 93,7% (282/301) dos dentes não apresentaram nenhum sintoma, e
6,3% (19/301) apresentaram dor pós-operatória de qualquer intensidade e fizeram
uso de uma ou duas doses de medicação. Desses, apenas 0,66% (2/301) apresentaram
flare-up e retornaram para nova avaliação. Não houve influência das diferentes subs
tâncias químicas auxiliares na dor pós-operatória.
As Figuras 12.5 e 12.6 ilustram, respectivamente, a presença de debris aderidos
nas paredes do foram e apical e fotomicrografias de limas anatômicas posicionadas no
forame apical, com a forma final do forame após a ampliação.
~ FIGURA 12.S
Presença de debris aderidos nas paredes do forame
apical (setas).
A
e
.)
.1 ••
•
à FIGURA 12.6
•
Endodontia passo a passo 119
B
. '
D
•
•
A) Fora me apical não preparado. B) Patência do forame apical com a lima# 15. C) Lima anatômica
final posicionada no forame. D) Forma final do forame apical após a ampliação (fotomicrografias
cedidas por Thiago Farias Rocha Lima - Rev Assoe Paul Cir Dent 2012;66(3) :200-5).
REFERÊNCIAS
1. Grove CJ. Further evidence that root canais can be füled to
the dentinocemental junction. JADA. 1930:1529.
2. Schi.lder H. Filling root canal in three dimensions. Dent Clin
Dent Am. 1967:723-44.
3. Butler NP. Apical debridement: a hypothesis and preliminary
report. J Brit Endod Soe. 1970:52-6.
4. Buchanan LS. The continuous wave of obturation technique:
"centered" condensation of warm gutta percha in 12. Dent
Today. !996;15(1):60-2, 64-7.
5. Schilder H. Cleaning and shaping the root canal Dent Clin
North Am.1974;18(2):269-96.
6. Benatti O, Valdrighi I, Bital RR, Pupo J. A histological study of
the effect of diameter enlargement of the apical portion of the
root canal. J Endod. 1985;11:428-34.
7. Souza Filho FJ, Almeida OP, Valdrighi L. Influence of the
enlargement of the apical foramen in periapical repair of
contamined teeth of dogs. Oral Surg Oral Med Oral PathoL
1987;1l4( 4):480-4.
8. Borlina CS, Souza V, Holland R, Murata SS, Dezan Junior E,
Marion JJC, et al Influence of apical foramen widening and
sealer on the healing of chronic periapical lesions induced in
dogs' teeth.Oral Surg Oral Med Oral Phatol Oral Radio! En
dod. 2010;109(6):932-40.
9. Camelo AM. Avaliação da sintomatologia pós-operatória em
tratamentos endodônticos realizados com patência e amplia
ção foraminal, comparando duas substâncias químicas awci
liares (dissertação). Campinas: Centro de Pesquisas Odonto
lógicas São Leopoldo Mandic; 2011.
10. Bourreau MLS. Avaliação radiográfica da qualidade da ob
turação tridimensional de canais radiculares utilizando dois
protocolos de substâncias químicas awciliares [dissertação).
Campinas: Centro de Pesquisas Odontológicas São Leopoldo
Mandic; 2013.
11. Sonoda TN. Avaliação prospectiva da sintomatologia clínica
pós-operatória de tratamentos endodônticos realizados em
sessão única com patência e ampliação do foram e apical [ dis
sertação). Campinas: Centro de Pesquisas Odontológicas São
Leopoldo Mandic; 2011.
120 Francisco José de Souza Filho (Organizador)
LEITURAS RECOMENDADAS
Andreasen JO, Bakland LK Pulp regeneration after non-infected
necrosis, what type of tissue do we want? a review. Dent Trau
matoL 2012; 28(1):13-8.
Banchs F, Trope M. Revascularization of immature permanent te
eth wíth apical periodontitis: new treatment protocol? J En
dod 2004;30(4):196-200.
Coolidge ED. The reaction of cementum in the presence of injury
and infection. JADA. 1931:499-526.
Davis MS, Joseph SW, Bucher JF. Periapical and intracanal healing
following incomplete root canal ftlling ln dogs. Oral Surg
Oral Med Oral Pathol. 1971;3:662-75.
Hulsmann M, Schafer E. Apical patency: fact and fiction - a myth
or a must? A contribuition to the discussion. Endo (Lond
Engl). 2009;3(4):285-307.
Laureys WG, Cuvelier CA, Dermaut LR, De Pauw GA. The criticai
a picai díamete.r to obtain regeneration of the pulp tissue after
tooth transplantation, replantation or regenerative endodon
tic treatment. J Endod. 2013;39(6):759-63.
Lima TFR, Soares AJ, Souza Filho FJ. Rev Assoe Paul Cir Dent.
2012;66(3 ):200-5.
Nygaard Ostby B, Hjortdal D. Tissue formation in the roo! canal
following pulpremoval. Scand J Dent Res. l 971;79:333-49.
Nygaard Ostby B. The role of the blood clot ín endodontic the
rapy. An experimental histologic study. Acta Odont Scand.
1961;19(6):323-53.
Pramila R, Muthu M. Regeneration potential of pulp-dentin com
plex.: systematic review. J Conserv Dent. 2012;15(2): 97-103.
Selye H. Diaphragms for analyzing the development of connective
tissue. Nature.1959; 184:701-3.
Souza Filho FJ, Valdrighi L, Bernardínellí N. Influência do nível da
obturação e do alargamento do forame apical no processo de
reparo periapical. Rev APCD. 1996;50(2):175-7.
Torneck CD. Reaction of the rat connective tissue polyethylene tube
implants. Oral Surg Oral Med Oral Pathol. 1966;21 :379-87.
Wigler R, Kaufman AY, Un S, Steinbock N, Hazan-Molina H, Tor
neck CD. Revascularization: a treatment for permanent teeth
with necrotic pulp and incomplete root development. J En
dod. 2013;39(3): 319-26.
Zand er HZ, Hurzeler B. Continuous cementum apposition. ]ADA.
1952;44: 1035-44.
Restauracão coronária e
J
radicular em endodontia
FRANCISCO JOSÉ DE SOUZA FILHO, RAFAEL ROCHA PACHECO
E ANA CAROLINA ROCHA LIMA CAIADO
CONSIDERAÇÕES GERAIS
A restauração de dentes sem vitalidade é um dos maiores desafios para o dentista,
pois requer conhecimento conjunto de Endodontia, Periodontia e Dentística. O cli
nico deve escolher uma técnica reabilitadora de acordo com a quantidade de tecido
dentário saudável remanescente, além de considerar os desafios funcionais e estéticos
da restauração. Antes mesmo da realização do tratamento endodôntico, é importante
prever os passos clínicos restauradores necessários para que o dente possa novamente
ser colocado em função. Uma restauração coronária bem-realizada pode significati
vamente aumentar a taxa de sobrevivência de um dente endodonticamente tratado.1
'
2
A resistência de um dente é diretamente proporcional à quantidade de tecido
dentário saudável remanescente.3'
4 É a inter-relação estrutural e física entre um tecido
duro (esmalte) e um mais resiliente (dentina) que proporciona à estrutura dental a
habilidade de absorver e dissipar as tensões provenientes da ação fisiológica da mas
tigação e da variação térmica a que o dente é submetido durante toda a vida. 5 Quando
essa relação é perdida, é preciso devolver a resistência da estrutura dentária usando
materiais que possam, biomecanicamente, substituir os tecidos dentários perdidos.
Em dentes que apresentam coroa intacta ou apenas uma pequena perda de es
trutura, como dentes tratados endodonticamente por motivos protéticos ou trauma,
a reconstrução pode ser realizada usando sistemas adesivos e resinas compostas em
técnicas diretas.6 Por outro lado, dentes que perderam muito tecido devido a cáries
extensas, fraturas, canais excessivamente ampliados ou dentes com ápices ainda aber
tos necessitam de pinos intrarradiculares para reter a futura restauração coronária e
aumentar a resistência à fratura. 7
Ligas metálicas foram tradicionalmente usadas como materiais de escolha para
a fabricação de pinos intrarradiculares fundidos ou pré-fabricados. Porém, devido
122 Francisco José de Souza Filho (Organizador)
à crescente demanda por restaurações estéticas, tornou-se frequente o uso de pinos
fabricados em cerâmicas à base de zircônia. O fator limitante de pinos fabricados
com ligas metálicas ou cerâmicas é o alto módulo de elasticidade (alta rigidez) desses
materiais que difere da dentina radicular. O resultado do uso de materiais com pro
priedades biomecânicas diferentes é a geração de tensões na região apical do pino,
que costumam levar à fratura da raiz. 8
Materiais rígidos vêm sendo gradualmente substituídos pela resina composta e
pinos de fibra de vidro, que, além de apresentarem estética favorável, possuem um
módulo de elasticidade mais próximo ao da dentina (fibra de vidro = 17,5 a 21,6,
dentina = 14 a 18,6 GPa). O resultado é uma redução do risco de fraturas radiculares,
uma alta resistência ao impacto, absorção de choques e alta resistência à fadiga.9
'
1º
A técnica de confecção de pinos de fibra de vidro permite que sejam preparados
imediatamente após o tratamento endodôntico, propiciando selamento no momento
mais oportuno para evitar uma recontaminação dos canais radiculares.11 O uso de
técnicas adesivas para criar um conjunto com composições homogêneas (pino-com
pósito-dentina) também permite uma abordagem mais conservadora utilizando pi
nos de fibra de vidro com diâmetro mais próximo ao espaço do conduto radicular.
Estudos retrospectivos e prospectivos relacionados ao uso de pinos de fibra de
vidro para reabilitar dentes endodonticamente tratados revelam resultados positivos,
mas o deslocamento dos pinos continua sendo a principal falha desse tipo de restau
ração.
Os fatores que levam a falhas na união entre o pino cimentado e a dentina do canal radicu
lar são principalmente:
• A dificuldade da luz em atingir as áreas profundas do canal.12
• A morfologia e a composição do substrato radicular.13
• A contração da resina composta à base de metacrilato durante a polimerização, que gera
tensões na interface dentina/restauração.
• A geometria desfavorável do canal radicular (alto fator C). 14
• A dificuldade técnica do emprego de sistemas adesivos e cimentos resinosos dentro do
canal radicular.
Logo, a técnica adesiva selecionada para cimentar o pino de fibra de vidro requer
uma série de passos criteriosos que devem ser respaldados pelo conhecimento das
dificuldades clínicas e o domínio dos materiais a serem empregados.
MATERIAIS E TÉCNICAS ADESIVAS EMPREGADOS PARA CIMENTAÇÃO DO
PINO DE FIBRA DE VIDRO
Sistemas adesivos
Terminado o preparo do espaço intrarradicular, o objetivo é selecionar um sistema
adesivo e cimento resinoso compatíveis com a união ao tecido dentinário do canal
radicular e ao pino de fibra de vidro.
Os sistemas adesivos comercialmente disponíveiscombinam três ou dois passos
para a utilização da técnica úmida (etch-and-rinse) e dois ou apenas um passo (todos-
Endodontia passo a passo 123
-em-um) para a forma autocondicionante. Mais recentemente, foram introduzidos
no mercado os adesivos denominados universais, que podem ser aplicados usando
tanto a técnica úmida quanto a autocondicionante.
Técnica úmida
A técnica úmida, independentemente do número de passos, requer o uso do ácido
fosfórico por 15 a 20 segundos (no caso da dentina radicular) para desmineralizar
a hidroxiapatita que envolve as fibras colágenas. É nesse momento que se encontra
a primeira dificuldade clínica da técnica, já que o uso prolongado do ácido pode
resultar em uma desmineralização excessiva da dentina e na impossibilidade de
o adesivo penetrar no substrato e envolver as fibras colágenas expostas durante o
tempo clínico empregado. Essa camada de dentina desmineralizada com colágeno
exposto é mais suscetível a degradação. Por esse motivo, o ácido deve ser lavado no
tempo previsto com uso abundante de água. Isso leva à segunda dificuldade clinica
da técnica: secar adequadamente o substrato. No caso de canais radiculares, esse
problema é agravado, já que todas as soluções empregadas tendem a se acumular
na região apical do canal. O uso de pontas de papel absorvente auxilia na remoção
desses excessos, porém a dentina não deve ser ressecada, pois isso significaria o co
lapso das fibras colágenas que, por sua vez, prejudicaria a infiltração do adesivo a ser
empregado futuramente.
O segundo passo é a aplicação do primer que contém monômeros hidrófilos e
solventes que melhoram a capacidade de umedecimento da superfície das fibras colá
genas expostas. Nos adesivos de três passos, a aplicação do primer corresponde a um
passo independente que é seguido pela aplicação do adesivo, ou seja, uma resina de
baixa viscosidade. O primer nos sistemas de três passos corresponde à função hidró
fila do material e, portanto, confere compatibilidade do adesivo à dentina radicular.
O adesivo é a porção mais hidrófoba dos sistemas de três passos, é composto por
monômeros mais viscosos e não contém solventes orgânicos.
É necessário ressaltar que o tipo de solvente presente em qualquer adesivo deve
determinar a umidade que a dentina precisa apresentar antes da aplicação.15 No caso
de adesivos que contêm água na composição, a dentina deve ser mantida ligeiramen
te mais seca. Mesmo que a remoção de água tenha sido excessiva e haja o colapso de
fibras colágenas em alguns pontos, a água presente no adesivo se encarregará de reex
pandir as fibrilas. Já nos sistemas que não apresentam água na composição, é preciso
manter a superfície visivelmente úmida. O solvente anidro presente nesses sistemas
(em geral a acetona) não é capaz de reexpandir a dentina colapsada.
Outra forma de apresentação mais simplificada dos sistemas de técnica úmida é
a combinação de primer e adesivo em um único frasco. Nessa versão, os componentes
do primer hidrofílico foram misturados com os monômeros resinosos hidrofóbicos
do adesivo. Assim, após a colocação do ácido, é aplicada uma solução única que fun
ciona simultaneamente como agente de formação da camada híbrida e ligação com
o material restaurador. A Figura 13.1 mostra exemplos de adesivos que empregam a
técnica úmida usando três e dois passos.
124 Francisco José de Souza Fi lho (Organizador)
à FIGURA 13.1
Adesivos que empregam a técnica úmida. A técnica úmida pode apre
sentar três passos (aplicação do ácido+ primer +adesivo) ou dois pas
sos (ácido+ primer/adesivo).
Técnica autocondicionante
Os sistemas autocondicionantes (Figura 13.2) não requerem a aplicação isolada de
um ácido para produzir porosidades no substrato. De maneira geral, a formulação
desses adesivos inclui monômeros resinosos ácidos que simultaneamente desminera
lizam e infiltram os tecidos dentais. Uma vez que os próprios monômeros ácidos in
filtram o substrato, não há necessidade de lavá-los após a aplicação. Isso é vantajoso,
pois a umidade do substrato já não se torna um fator determinante para a obtenção
de uma boa união, deixando a técnica menos suscetível a falhas.16
'
17
O desempenho do adesivo autocondicionante está relacionado à classe do adesi
vo, que é determinada pelo seu pH (supersuave: pH > 2,5; suave: pH = 2; intermediá
rio: pH 1a2 e forte: pH < 1) e, sobretudo, pela composição e, mais especificamente,
pelo monômero funcional incluído na formulação do adesivo. 18
Apesar de os sistemas autocondicionantes já serem apresentados como adesivos
simplificados, os fabricantes continuam buscando formas de facilitar ainda mais as
etapas clínicas. Introduzidos mais recentemente no mercado, encontram-se os ade
sivos de "passo único" (Figura 13.3). A solução desenvolvida é aplicada diretamente
sobre a dentina e desempenha a função de desmineralização, infiltração e posterior
ligação ao material restaurador.
Os adesivos de passo único podem ser subdivididos em adesivos de um ou dois
componentes. Os adesivos de dois componentes separam os componentes ativos, tal
como o monômero funcional da água, para aumentar a vida útil do adesivo. Ainda
assim, é necessário misturar os componentes no momento da aplicação. Apenas os
adesivos de um componente e de um passo combinam o passo de condicionamento,
aplicação do primer e aplicação do adesivo em um único tempo clínico sem a neces
sidade de misturar componentes.
Endodontia passo a passo 125
""' FIGURA 13.2
Adesivos autocondicionantes de dois passos.
FIGURA 13.3 ....
Adesivos autocondicionantes de um passo.
Adesivos universais
Recentemente, uma nova categoria denominada adesivos universais (ou multimodo)
foi lançada no mercado. Trata-se de fórmulas de frasco único que podem ser aplica
das clinicamente usando tanto a técnica convencional quanto a autocondicionante.
Na teoria, a vantagem para o clinico é a praticidade de utilizar apenas um único ade
sivo para qualquer indicação de restauração direta. Alguns exemplos encontrados
no mercado são o Scotchbond Universal (3M ESPE), o All-Bond Universal (Bisco) e
o G-bond Plus (GC). No momento, existem poucos estudos referentes a esses novos
adesivos em esmalte e dentina coronária.19 Novos estudos devem ser realizados, prin
cipalmente usando a dentina radicular como substrato, antes de empregá-los para a
cimentação de pinos de fibra de vidro.
Cimentos resinosos
Cimentos resinosos são resinas compostas com um menor volume de partículas inor
gânicas comparadas às resinas compostas restauradoras. A matriz orgânica desses
materiais contém monômeros de bis-GMA, UDMA e TEGDMA. A parte inorgânica,
126 Francisco José de Souza Filho (Organizador)
que compreende entre 20 e 50% em volume, é composta por partículas vítreas. Esse
menor volume proporciona uma menor viscosidade, que possibilita o escoamento
desse material entre a superfície da restauração e a superfície do adesivo unido aos
tecidos dentários.
Os cimentos resinosos disponíveis no mercado apresentam diferentes mecanis
mos de reação de polimerização, podendo ser quimicamente ativados, fotoativados
ou dualmente ativados (químico e físico). No caso da cimentação de pinos intrarra
diculares, a fotoativação do cimento resinoso é parcial. Logo, nessa condição é con
veniente optar por cimentos que iniciam a polimerização de forma química e física
(cimentos resinosos duais).
Incompatibilidades entre sistemas adesivos e cimentos resinosos
No caso dos sistemas de três passos de técnica úmida (ácido + primer + adesivo) e dos
sistemas autocondicionantes de dois passos (primer ácido + adesivo), a última cama
da de monômero deixada sobre a superfície da dentina é proveniente do adesivo, que
é composto principalmente por monômeros hidrófobos. Assim, essa camada mais
hidrófoba é a que entra em contato com o cimento resinoso. Por outro lado, nos siste
mas adesivos de dois passos da técnica úmida (ácido + primer/adesivo) e de um passo
da técnicaautocondicionante, a última camada do adesivo que entra em contato com
o cimento é formada por monômeros ácidos hidrófilos. Quando o monômero ácido
presente nessa camada reagir com a amina terciária (ativador) do cimento resinoso
quimicamente ativado ou dual, haverá a formação de um sal (reação ácido-base). O
resultado será a inativação da polimerização química do cimento.20
Portanto, durante a seleção do adesivo e cimento, é importante optar por com
binações compatíveis, como o uso de sistemas adesivos em que a última camada em
pregada é principalmente composta por monômeros hidrófobos e pouco ácidos.
Escolha do sistema adesivo
A escolha do sistema adesivo e do cimento resinoso deve ser embasada não somente
no conhecimento técnico e científico do dentista, mas também na simplicidade da
técnica. Considerando a dificuldade clínica da aplicação de sistemas adesivos dentro
de canais radiculares, a técnica adesiva autocondicionante apresenta mais vantagens
para a cimentação de pinos de fibra de vidro desde que a última camada do adesivo
seja composta de monômeros hidrófobos (técnica autocondicionante de dois passos),
para que não haja incompatibilidade com o cimento resinoso.
Cimentos autoadesivos: uma solução simples e eficiente para cimentação
intrarradicular
Contrariamente à complexidade técnica dos sistemas adesivos que são tradicional
mente combinados aos cimentos resinosos, foram introduzidos no mercado cimen
tos autoadesivos de dupla ativação. O objetivo desses cimentos é produzir união
com uma simples aplicação, eliminando qualquer tipo de preparo prévio do substra
to. Uma técnica tão simples é de particular interesse quando se considera o desafio
que é realizar uma técnica adesiva dentro de canais radiculares. Apesar de ser um
Endodontia passo a passo 127
material relativamente recente no mercado odontológico, estudos revelam resulta
dos promissores em relação à integridade marginal21 e à resistência de união com a
dentina radicular e coronária.22 Devido à sua simplicidade técnica e por evitar aci
dentes, como a incompatibilidade entre cimentos e adesivos, o cimento autoadesivo
de dupla ativação é o material de escolha para a técnica do pino anatômico descrita
neste capítulo.
PREPARO DO SUBSTRATO DENTINÁRIO ANTES DA CIMENTACÃO DO PINO
Avaliação do remanescente dentário
Antes mesmo de iniciar o tratamento endodôntico, é fundamental a avaliação clí
nica e radiográfica do remanescente dentário. A remoção completa de restaurações
antigas e de tecido cariado deve ser realizada para visualizar a quantidade de tecido
dentário remanescente. O uso de microscópio operatório possibilita uma remoção
mais conservadora do tecido cariado e a visualização de pequenas trincas e fraturas
que possam passar despercebidas, como mostra a Figura 13.4 .
.... FIGURA 13.4
Usando um microscópio operatório, é possível
observar uma discreta linha de fratura (seta
azul) no assoalho do molar superior após a
completa remoção de uma restauração de
amálgama.
O uso de sonda periodontal é também necessário para o diagnóstico de linhas
de fratura subgengivais que podem não ser vistas pelo microscópio ou pela imagem
radiográfica. É indispensável que o clínico avalie ainda a saúde dos tecidos de suporte
e a necessidade de cirurgias periodontais. A avaliação radiográfica antes e depois do
tratamento endodôntico permite a visualização da anatomia radicular e do espaço
disponível para a confecção do futuro pino.
Preparo do canal e escolha do pino
O preparo do canal deve respeitar a anatomia original do canal. Para a remoção
mecânica do material obturador, são utilizadas brocas como Gates-Glidden, brocas
de Largo ou brocas especificamente desenvolvidas para a confecção de pinos de
fibra de vidro. Graças ao uso de materiais que podem produzir união ao dente e
que apresentam módulo de elasticidade próximo ao da dentina, a profundidade do
preparo para o pino de fibra de vidro não precisa ultrapassar a proporção 1: 1 (pino/
núcleo).23
É fundamental a remoção da dentina superficial do canal radicular e da câmara
pulpar. Tal preparo não tem apenas o objetivo de remover pequenas retenções para
128 Francisco José de Souza Filho (Organizador)
facilitar a inserção do pino, mas também remover a dentina alterada por soluções
irrigadoras e restos de material obturador presentes dentro do canal radicular após
o tratamento endodôntico. Soluções de hipoclorito de sódio,24
.
25 clorexidina24
.
26 e ci
mentos endodônticos com eugenol27 na composição foram associados a queda de
valores de resistência de união.
Todo o procedimento deve ser realizado sob isolamento absoluto a fim de evitar
a recontaminação do canal.
ESCOLHA DA TÉCNICA ADESIVA E DE CIMENTAÇÃO DO PINO
Os procedimentos que envolvem a cimentação de pinos pré-fabricados devem ser
realizados, se possível, na mesma sessão do tratamento endodôntico, e pelo próprio
endodontista, com o principal objetivo de prevenir a recontaminação dos sistemas de
canais radiculares.
O procedimento em si é altamente previsível, desde que seja realizado com au
xílio de microscópio operatório para verificar a limpeza completa da dentina intrar
radicular e deixar um substrato adequado para a instalação do pino. Esse cuidado é
essencial para evitar o deslocamento do pino de fibra de vidro, como mostra a Figu
ra 13.5.
... FIGURA 13.S
Deslocamento do pino de fibra de vidro devido
à falha adesiva e limpeza inadequada do subs
trato dentinário. Note a presença de resíduos
de cimento obturador do canal radicular na su
perfície do pino intrarradicular (seta azul).
REQUISITOS BÁSICOS PARA A CONFECÇÃO DE PROCEDIMENTOS
RESTAURADORES COM PINOS DE FIBRA DE VIDRO
O cirurgião-dentista deve utilizar o microscópio operatório para visualizar o interior
do canal radicular e realizar uma limpeza adequada das paredes do espaço para o
pino (qualidade do substrato dentinário):
• A estrutura dentária remanescente deve estar hígida, livre de cárie ou tecido amo
lecido e completamente limpa para ficar livre de resíduos de material obturador.
• A presença de remanescente coronário é um requisito importante, mas os pinos
de fibra de vidro podem ser utilizados com sucesso em dentes sem remanescente
coronário.
• O cirurgião-dentista deve conhecer bem as propriedades dos materiais, o tipo de
cimento resinoso e a técnica de cimentação a serem utilizados.
Endodontia passo a passo 129
• Deve-se verificar o tipo de oclusão dos dentes (bruxismo e forças de corte tipo
cisalhamento podem provocar o deslocamento do pino ou a fratura da raiz).
• O diâmetro e a profundidade do espaço devem possibilitar uma efetiva fotopoli
merização da camada adesiva para que a hibridização da dentina e o reforço da
estrutura radicular com resina composta sejam realizados com qualidade.
INDICAÇÕES E VANTAGENS DA INSTALAÇÃO DE PINOS DE FIBRA DE VIDRO
• Proteção coronária imediata após a conclusão do tratamento de canal.
• Pinos fabricados com ligas metálicas ou cerâmicas apresentam módulo de elastici
dade (alta rigidez) muito superior ao da dentina e, pelo fato de gerarem tensões na
região apical do pino, frequentemente levam à fratura da raiz.
• Pinos de fibra de vidro apresentam estética favorável e possuem um módulo de
elasticidade mais próximo ao da dentina (fibra de vidro = 17,5 a 21,6, dentina= 14
a 18,6 GPa), reduzindo o risco de fraturas radiculares.
• Diminuição do número de etapas laboratoriais.
• Possibilidade de concluir o tratamento em uma única sessão.
• Nas raízes debilitadas e sem estrutura coronária remanescente, a instalação de
pinos, tanto metálicos quanto de fibra de vidro, apresenta menor previsibilidade
de sucesso, embora os pinos de fibra de vidro tenham menor risco de fratura
radicular.
• Existem indicações apropriadas que devem ser levadas em conta, especialmente
quando o paciente não tiver recurso econômico para alternativas como próteses
fixas ou implantes.
ESCOLHA DA TÉCNICA: PINOCONVENCIONAL, PINO ANATÔMICO OU
REFORÇO RADICULAR
A presente seção deste capítulo apresenta o passo-a-passo de três técnicas para a con
fecção de pinos. A escolha de cada técnica pelo dentista deve ser baseada na quanti
dade de tecido dentário remanescente.
Técnicas para confecção de pinos:
• Técnica convencional (dentes com canais pouco ampliados)
• Técnica do pino anatômico (dentes com canais amplos e raízes preservadas)
• Técnica do reforço radicular (dentes com canais amplos e raízes fragilizadas)
Técnica convencional (dentes com canais pouco ampliados)
Em dentes com canais radiculares conservados (pouco alargados), pode-se reali
zar o espaço para o pino de forma mais conservadora, seguindo a técnica do pino
convencional. Uma vez feito o preparo do espaço para o pino, realiza-se a limpeza
130 Francisco José de Souza Filho (Organizador)
da cavidade, com auxílio de microscópio clínico, para visualizar as áreas impregna
das com material obturador do canal radicular. Após o preparo do espaço, faz-se a
seleção do pino que melhor se ajusta ao espaço do canal. Algumas marcas comer
ciais de pinos pré-fabricados disponíveis atualmente no mercado disponibilizam,
em seus sistemas, brocas específicas para preparo do remanescente radicular que
permitem melhor adaptação dos respectivos pinos às paredes do conduto. Os pinos
devem ser limpos com o auxílio de ácido fosfórico a 37%, lavados e secos, seguidos
de aplicação de duas camadas de silano. Em preparas conservadores, a escolha do
cimento a ser utilizado é essencial, uma vez que a hibridização da dentina depen
de fundamentalmente da realização de uma adequada técnica adesiva. Os proce
dimentos adesivos são dificultados pelo reduzido diâmetro dos canais, tornando
cada passo da técnica mais crítico, sobretudo no que diz respeito à fotoativação
dos materiais adesivos no interior dos condutos, que é altamente reduzida devido
à perda de energia.
Contrariamente à complexidade técnica dos sistemas adesivos tradicionalmente
combinados aos cimentos resinosos, foram introduzidos no mercado os cimentos
denominados autoadesivos, que eliminam os passos de hibridização da dentina ra
dicular, de dupla ativação, cujo objetivo é produzir união direta com a dentina com
uma simples aplicação, sendo uma boa opção para contornar as dificuldades técnicas
de tratamento para esse tipo de canal mais conservado.
Técnica do pino anatômico (dentes com canais amplos
e raízes preservadas)
Clinicamente, é comum que se encontrem canais excessivamente alargados e com
grande perda de estrutura. Nessas situações, a dimensão transversal do canal radicu
lar difere muito do diâmetro do pino, e o procedimento de cimentação resulta em um
grande volume de cimento entre o pino pré-fabricado e a parede do canal radicular.
Quando se combinam a geometria desfavorável do canal radicular (alto fator C) e o
grande volume de cimento resinoso que contrai durante a polimerização, o resultado
é uma alta geração de tensões na interface dente/restauração que pode levar à falha
da união.
Para contrabalançar as limitações da técnica convencional de polimerização em
canais amplos, foi sugerida a confecção de um pino anatomicamente modelado vi
sando compensar qualquer desadaptação entre o pino de fibra e as paredes do canal
radicular. 28 Para isso, o pino de fibra de vidro é tratado de maneira que em seguida
receba uma camada de resina composta. O conjunto não polimerizado é levado ao
conduto (previamente isolado com gel hidrossolúvel) e posicionado de forma que, ao
ser inserido, modele suas paredes, apresentando maior adaptação às paredes do ca
nal. A fotoativação inicia-se dentro do canal (por poucos segundos), sendo o conjun
to removido do canal para que possa ser fotoativado por todas as direções durante 40
segundos em face. O resultado é um pino confeccionado de acordo com a anatomia
do canal radicular, permitindo uma menor linha de cimentação e reduzindo, assim, a
indução de tensões e falhas na interface.
Endodontia passo a passo 131
Sequência passo a passo da técnica do pino anatômico
Preparo do substrato radicular
No caso de canais radiculares amplos com a raiz preservada (p. ex., incisivos centrais
superiores), está indicada a técnica do pino anatômico.
1. O preparo do espaço para o pino deve ser feito com auxílio de microscópio ope
ratório com uma boa iluminação. Atenção para linhas de fratura ou perfurações
radiculares.
2. Utilizam-se brocas esféricas carbides de baixa rotação, em motor elétrico nave
locidade de 500 a 1.000 rpm para limpar a superfície da dentina radicular (man
ter a expulsividade no preparo do conduto).
3. O canal deve ser irrigado com soro fisiológico para remover resíduos. Em segui
da, pontas de papel absorventes devem ser usadas para secar o canal.
Seleção e preparo do pino de fibra de vidro
1. O pino de fibra de vidro selecionado deve ser aquele que melhor se adapta às
paredes do canal.
2. A limpeza do pino de fibra de vidro pode ser feita utilizando ácido fosfórico a
37% por 15 a 20 segundos.
3. O ácido deve ser removido do pino com jatos de água por 15 a 20 segundos. Jatos
de ar livre de óleo devem ser utilizados para secar o pino.
4. Com o pino de fibra de vidro seco, deve-se aplicar, com auxílio de pincel descar
tável (do tipo microbrush), duas camadas de silano, com uma adequada secagem
entre as camadas. Uma fma camada de adesivo (monômero hidrófobo - p. ex.,
Bond - Scotch Bond Multipurpose - 3M ESPE) pode ser aplicada no pino usan
do um pincel do tipo microbrush para permitir um melhor molhamento da resi
na sobre o pino. O adesivo deve ser polimerizado por 40 segundos em diferentes
posições ao redor do pino.
5. Um incremento de resina composta não polimerizada deve ser aplicado ao redor
de toda a superfície do pino de fibra que entrará em contato com as paredes do
canal radicular.
Confecção do pino anatômico
1. Previamente à modelagem do pino de fibra de vidro, o canal radicular deve ser
isolado utilizando um gel hidrossolúvel.
2. O pino de fibra de vidro envolvido pela resina composta não polimerizada deve
ser inserido lentamente dentro do canal radicular até alcançar o fmal do preparo.
3. Uma rápida fotoativação (de cerca de 3 segundos) deve ser realizada na emboca
dura do canal.
4. Em seguida, o conjunto "pino de fibra de vidro + resina compostà' deve ser re
movido de dentro do canal seguido de uma fotoativação por toda a extensão da
132 Francisco José de Souza Filho (Organizador)
resina composta por um tempo de exposição prolongado (aproximadamente 40
segundos em cada face) para permitir uma adequada polimerização da resina
composta envolvendo o pino.
5. O remanescente do pino que não fará parte do preparo coronário pode ser remo
vido antes da cimentação do pino modelado com resina (pino anatômico), assim
como a porção coronária do núcleo de preenchimento pode ser construída e
preparada antes mesmo da cimentação do conjunto.
6. Deve-se aplicar ácido fosfórico a 3 7% por 1 O segundos, no conjunto, para remo
ção de contaminantes, e o pino deve ser lavado por 10 segundos e seco, previa
mente aos procedimentos de cimentação.
Cimentação do pino anatômico utilizando um cimento resinoso convencional
(sistema adesivo de condicionamento total)
1. O conduto deve ser lavado para remoção do gel hidrossolúvel.
2. Para condicionamento da dentina, aplica-se o ácido fosfórico a 37% por 10 se
gundos, e o conduto deve ser lavado com água corrente por 1 O segundos e seco
utilizando pontas de papel absorvente.
3. O ativador químico do sistema adesivo deve ser aplicado com auxílio de pincel
descartável (do tipo microbrush) por toda a extensão do canal previamente ao
primer, para permitir a polimerização química do sistema adesivo (p. ex., Ati
vador, passo 1.5 do sistema adesivo Scotchbond Multipurpose - 3M ESPE), e
aplica-se levemente um jato de ar por 10 segundos.
4. Em seguida, aplica-se o primer do sistema adesivo, também com auxíliode mi
crobrush, seguido de leve jato de ar por 10 segundos (p. ex., Primer, passo 2 do
sistema adesivo Scotchbond Multipurpose - 3M ESPE).
5. Alguns sistemas adesivos apresentam, também, um passo adicional chamado
de Catalisador (aplicado no canal antes da inserção do cimento resinoso), que
permite maior grau de conversão dos monômeros resinosos presentes tanto no
sistema adesivo quanto no cimento resinoso, e também deve ser aplicado com
auxílio de microbrush, seguido de leve jato de ar por 10 segundos (p. ex., Catali
sador, passo 2.5 do sistema adesivo Scotchbond Multipurpose - 3M ESPE).
6. O cimento resinoso convencional (p. ex., RelyX ARC - 3M ESPE) deve ser ma
nipulado e inserido dentro do canal com auxílio do sistema da seringa Centrix•
para evitar a incorporação de bolhas.
7. O cimento pode ser aplicado, também, sobre a superfície do pino.
8. O pino anatômico deve ser inserido dentro do canal, em um movimento firme e
único (o pino deve ser inserido especificamente no mesmo local em que foi mo
delado), com aplicação de pressão digital por cerca de 1 minuto (não remover a
pressão até o início da fotoativação do cimento resinoso).
9. O excesso de cimento deve ser removido, seguido de f otoativação por, pelo me
nos, 40 segundos em cada face do remanescente.
Endodontia passo a passo 133
Cimentação do pino anatômico utilizando um cimento resinoso
autocondicionante (sistema adesivo autocondicionante)
1. O conduto deve ser lavado para remoção do gel hidrossolúvel e seco utilizando
pontas de papel absorvente e jatos de ar livres de óleo.
2. O ativador químico do sistema adesivo deve ser misturado com auxílio de mi
crobrush ao primer do sistema adesivo em um "casulo plástico" fornecido pelo
fabricante, e a mistura deve ser aplicada por toda a extensão do canal ativa
mente (p. ex., ED Primer A e ED Primer B do sistema adesivo presente no
kit do cimento resinoso Panavia F 2.0 - Kuraray), com leve jato de ar por 10
segundos.
3. O cimento resinoso autocondicionante (p. ex., Panavia F 2.0 - Kuraray) deve ser
manipulado e inserido dentro do canal com auxílio do sistema da seringa Cen
trix• para evitar a incorporação de bolhas.
4. O cimento pode ser aplicado, também, sobre a superfície do pino.
5. O pino anatômico deve ser inserido dentro do canal, em um movimento firme e
único (o pino deve ser inserido especificamente no mesmo local em que foi mo
delado), com aplicação de pressão digital por cerca de 1 minuto (não remover a
pressão até o início da fotoativação do cimento resinoso).
6. O excesso de cimento deve ser removido, seguido de fotoativação por, pelo me
nos, 40 segundos em cada face do remanescente.
Cimentação do pino anatômico utilizando um cimento resinoso autoadesivo (sem
aplicação de sistema adesivo)
1. O conduto deve ser lavado para remoção do gel hidrossolúvel e seco utilizando
pontas de papel absorvente.
2. O cimento autoadesivo (RelyX U200 - 3M ESPE) deve ser manipulado e inse
rido dentro do canal com auxílio do sistema da seringa Centrix• para evitar a
incorporação de bolhas.
3. O cimento pode ser aplicado, também, sobre a superfície do pino.
4. O pino anatômico deve ser inserido dentro do canal, em um movimento firme e
único (o pino deve ser inserido especificamente no mesmo local em que foi mo
delado), com aplicação de pressão digital por cerca de 1 minuto (não remover a
pressão até o início da fotoativação do cimento resinoso).
5. O excesso de cimento deve ser removido, seguido de fotoativação por, pelo me
nos, 40 segundos em cada face do remanescente.
Técnica do reforço radicular (dentes com canais amplos e raízes
fragilizadas)*
Como alternativa à técnica do pino anatômico para canais amplos ou debilitados, a
técnica do reforço radicular se mostra uma excelente opção, visto que a amplitude
*Proposta por Souza Filho.
134 Francisco José de Souza Filho (Organizador)
do canal favorece o preparo ideal do substrato (limpeza e qualificação da dentina) e
também permite uma área para fotoativação direta do adesivo, possibilitando a for
mação de uma camada híbrida adequada em toda a extensão do preparo radicular. O
preparo e a qualificação do substrato dentinário são fundamentais para que a camada
híbrida seja realizada com perfeição, uma vez que desempenha papel importante na
retenção do pino no canal radicular.
Sequência passo a passo da técnica do reforço radicular
Primeira etapa
Preparo da camada lubrida e reconstrução radicular
1. O preparo do substrato para o pino deve ser feito com auxílio de microscópio
operatório com uma boa iluminação.
2. Deve-se manter abertura e profundidade suficientes para uma adequada quali
ficação da dentina e para que a hibridização possa ser feita com total capacidade
de fotoativação do sistema adesivo.
3. A limpeza e o aprofundamento do espaço para o pino devem ser realizados com
broca esférica carbide de haste longa# 5 ou# 6 (Komet ou similar) na profundi
dade de 8 a 12 mm, de acordo com o tamanho da raiz e da inserção óssea, sem
necessidade de mais de dois terços da raiz como nos preparativos para os pinos
de metal.
4. O preparo deve ser realizado com auxílio de motor elétrico na velocidade de
900 a 1.000 rpm, para remover a camada de dentina modificada por substâncias
químicas utilizadas durante o tratamento endodôntico e ampliar o diâmetro do
canal para que a fotoativação do material seja adequada.
5. A dentina deve ser lavada cuidadosamente com auxílio de soro fisiológico e pin
cel do tipo microbrush.
6. O conduto deve ser irrigado com soro fisiológico, e as paredes dentinárias de
vem ser condicionadas com ácido fosfórico a 37% por 10 segundos.
7. O ácido deve ser removido com copiosa irrigação dentro do canal, aspirando-se
o excesso de água com cânula de aspiração, seguido de secagem com cones de
papel absorvente.
8. O sistema adesivo escolhido (de preferência um sistema com ativador químico)
deve ser aplicado de acordo com as instruções do fabricante.
9. Remove-se o excesso com cânula de aspiração seguido de um leve jato de ar para
eliminar componentes voláteis.
10. Realiza-se a fotoativação por 40 segundos.
11. Em pequenas porções, a resina flow é inserida no interior do canal e adaptada
com o auxílio de uma sonda lisa, de modo que todas as paredes fiquem reco
bertas.
Endodontia passo a passo 135
12. Repete-se a fotoativação por 40 segundos.
13. Aplicam-se novas camadas de resinaflow, mantendo sempre um espaço central
para orientar o direcionamento da broca na repreparação do novo espaço para o
pino sobre a resina flow.
Segunda etapa
Repreparo do espaço para o pino sobre a resina flow
1. Selecionar uma broca esférica de baixa rotação HL # 4 (para o pino# 2 ou# 3)
para o repreparo do espaço para o pino sobre a camada de resina flow.
2. Gradativamente, com motor elétrico em 500 rpm, a broca HL # 4 deve ser apro
fundada, seguindo o espaço deixado no centro para a orientação da direção do
preparo, respeitando a profundidade preestabelecida.
3. Selecionar o diâmetro do pino compatível com a broca esférica escolhida para o
preparo.
4. O pino deve ser testado no espaço e verificado novamente quanto à adaptação e
profundidade antes da cimentação.
5. Uma limpeza final do canal com ácido fosfórico e microbrush, para remover de
tritos produzidos durante o repreparo do espaço, deve ser realizada.
6. Lavar copiosamente o canal com água ou soro fisiológico.
7. Secar adequadamente o espaço do canal com jatos de ar.
Terceira etapa
Preparo e tratamento da superfície do pino de fibra de vidro
1. Testar o pino no canal e observar sua profundidade e justeza no canal.
2. Fazer a limpeza do pino com ácido fosfórico por 15 segundos.
3. Lavar, secar e aplicar o silano em duas camadas sobre o pino.
4. Aplicar o bond do sistema adesivo (Scotchbond Multipurpose -3M ESPE) sobre
. opmo.
5. Fotoativar por 40 segundos em todas as faces.
Quarta etapa
Cimentação do pino de fibra de vidro
1. Utilizaro cimento resinoso RelyX ARC (3M ESPE), que é compatível com a
resina flow das paredes do canal.
2. Irrigar copiosamente o canal com água ou soro fisiológico.
3. Secar com jatos de ar.
4. Preparar o cimento e levar ao canal com auxílio de seringa Centrix•.
5. O pino deve ser inserido no canal, em um movimento firme e único, com aplica
ção de pressão digital por cerca de 1 minuto (não remover a pressão até o início
da fotoativação do cimento resinoso).
136 Francisco José de Souza Filho (Organizador)
6. O excesso de cimento deve ser removido com auxilio de um pincel tipo micro
brush, seguido de fotoativação por, pelo menos, 40 segundos em cada face do
remanescente.
7. Reconstruir o núcleo com resina composta.
8. Fazer o preparo do núcleo.
9. Confeccionar uma coroa provisória.
As Figuras 13.6 a 13.12 ilustram a sequência passo a passo da reconstrução radi
cular em canais debilitados.
B
A FIGURA 13.6
A) Canal radicular após a obturação endodôntica em raiz debilitada. B) Preparo do espaço do canal
com broca esférica# 6. C) Espaço do canal preparado com a broca esférica# 6.
A B e
A FIGURA 13.7
A) Limpeza do espaço preparado no canal radicular com auxíl io de microbrush e soro fisiológico. B)
Aplicação do adesivo nas paredes do canal. C) Fotopolimerização por 40 segundos.
Endodontia passo a passo 137
A B e
à FIGURA 13.8
A) Inserção de pequena porção de resina f/ow na entrada do canal. B) Distribuição da resina flow
com auxílio de sonda endodôntica lisa, revestindo as paredes dentinárias (o revestimento deve
ser feito em camadas até que as paredes do canal sejam reconstruídas). C) O repreparo do espaço
para o pino deve ser feito sobre a resina flow, com broca esférica# 4, em motor elétrico, na velo
cidade de 500 a 900 rpm, seguindo a direção de um espaço mantido no centro da reconstrução.
A B e
à FIGURA 13.9
A) Espaço do pino preparado sobre a camada de resinaflow. B) Teste do pino no interior do espaço
preparado. C) Pino cimentado no canal radicular.
A B
~ FIGURA 13.10
A) Preenchimento do núcleo com
resina composta. B) Núcleo pre
parado com o término do preparo
em dentina.
138 Francisco José de Souza Filho (Organizador)
~ FIGURA 13.11
Sequência da instalação de pino no espaço intrarradicular. A) Canal preparado após limpeza e
remoção da dentina alterada. B-C) Colocação da resina flow nas paredes internas do canal pela
técnica do reforço radicular. D) Fotopolimerização direta com dispositivo para polimerizar a re
sina no interior do canal radicular. E-G) Repreparo do espaço para o pino sobre a resina flow.
H) Pino de fibra de vidro cimentado no canal radicular pronto para a confecção do núcleo de
resina composta.
Endodontia passo a passo 139
à FIGURA 13.12
A) Radiografia inicial. B) Radiografia final do tratamento endodôntico e colocação de pino de fibra
de vidro. C) Radiografia de controle após nove meses.
REFERÊNCIAS
1. lmura N, Pinheiro ET, Gomes BP, Zaia AA, Ferraz CC, Souza
Filho FJ. The outcome of endodontic treatment: a retrospec
tive study of 2000 cases performed by a specialist. J Endod.
2007;33(11):1278-82.
2. Ng YL, Mann V. Gulabivala K. Tooth survival following non
-surgical root canal treatment: a systematic review of the lite
rature. lnt Endod J. 2010;43(3):171-89.
3. Trabert KC CA, Abou-Rass M. Tooth fracture: a compa
rison of endodontics and restorative treatments. J Endod.
1978;4:341-5.
4. Sornkul E SJ. Strength of roots before and after endodontic
treatment and restoration J Endod. 1992;18:440-3.
5. Cate T. Oral histology, development, structure, and function.
7th ed. St. Louis: Mosby Elsevier; 2008.
6. Soares PV, Santos-Filho PC, Gomide HA, Araujo CA, Martins
LR, Soares CJ. Influence of restorative technique on the bio
mechanical behavior of endodontically treated maxillary pre
molars. Part II: strain measurement and stress distribution. J
Prosthet Dent. 2008;99(2):114-22.
7. Santana FR, Castro CG, Simamoto-Junior PC, Soares PV,
Quagliatto PS, Estrela C, et al Influence of post system and
remaining coronal tooth tissue on biomechanical behaviour
of root filled molar teeth. Int Endod ]. 2011;44(5):386-94.
8. Le Bell-Ronnlof AM, Lassila LV, Kangasniemi ! , Vallit
tu PK. Load-bearing capacity of human incisor restored
with various fiber-reinforced composite posts. Dent Mater.
2011;27(6):el07-15.
9. Asmussen E. Peutzfeldt A, Heitmann T. Stiffness, elastic li
mít, and strength of newer types of endodontic posts. J Dent.
1999;27(4):275-8.
10. de Castro Albuquerque R, Polleto LT, Fontana RH, Cimini
CA. Stress analysís of an upper central Incisor restored with
different posts. J Oral Rehabil. 2003;30(9):936·43.
11. Vianna ME, Horz HP, Conrads G, Zaia AA, Souza Filho
FJ, Gomes BP. Effect of root canal procedures on endoto·
xins and endodontic pathogens. Oral Microbiol Immunol.
2007;22(6):411·8.
12. Cerutti F, Acquaviva PA, Gagliani M, Ferrari M, Mangani F,
Depero LE, et ai. Degree of conversion of dual-cure resins li
ght-cured through glass-fiber posts. Am J Dent 2011;24(1):8-
12.
13. Caiado AC, de Goes MF, de Souza Filho FJ, Rueggeberg FA.
The effect of acid etchant type and dentin location on tubular
density and dimension. J Prosthet Dent. 2010;103(6):352-61.
14. Tay FR, Loushíne RJ, Lambrechts P, Weller RN, Pashley OH.
Geometric factors affecting dentin bondíng ín root canais: a
theoretical modeling approach. J Endod. 2005;31(8):584-9.
15. Reis A, Loguercio AD, Azevedo CL, de Carvalho RM, da Julio
Singer M, Grande RH. Moisture spectrum of demineralized
dentin for adhesive systems with different solvent bases. J
Adhes Dent. 2003;5(3):183-92.
16. Franco EB, Lopes LG, D'Alpino PH, Pereira JC. Influen·
ce of pH of different adhesive systems on the polymeriza·
tion of a chemically cured composite resin. Braz Dent J.
2005;16(2):107-11.
17. Ten Akimoto N, Takamízu M, Momoi Y. 10-year clinicai
evaluation of a self-etching adhesive system. Oper Dent.
2007;32(1):3-10.
18. van Dijken JW, Sunnegardh-Gronberg K, Líndberg A. Cli
nicai long-term retention of etch-and-rinse and self-etch
adhesive systems in non-carious cervical lesions: a 13 years
evaluation. Dent Mater. 2007;23(9):1101-7.
19. Munoz MA, Luque l, Hass V. Reis A, Loguercio AD, Bombar·
da NH. Immediate bondíng properties of universal adhesives
to dentine. J Dent 41. 2013;(5):404·1 l.
20. Van Meerbeek B, Yoshihara K, Yoshida Y, Mine A, De Munck
], Van Landuyt KL. Sta te of the art of self-etch adhesíves. Dent
Mater. 2011;27(1):17·28.
21. Caiado ACRL. Avaliação da integridade marginal e dureza
Knoop de cimentos resinosos usados na fixação de pinos de
fibra de vidro anatomicamente reembasados. [tese]. Piracica
ba: Faculdade de Odontologia de Piracicaba; 2010.
22. Rocha· Lima AC. Resistência da união e caracterização mor·
fológica a da dentina coronária e radicular tratada com siste·
140 Francisco José de Souza Filho (Organizador)
mas adesivos [dissertação). Piracicaba: Faculdade de Odonto
logia de Piracicaba; 2006.
23. Santos-Filho PC, Castro CG, Silva GR, Campos RE, Soa
res CJ. Effects of post system and length on the strain and
fracture resistance of root filled bovine teeth. Int Endod ].
2008;4l(6):493·501.
24. Santos ]N, Carrilho MR, De Goes MF, Zaía AA, Gomes PB,
Souza-Filho FJ, et a1 Effect of chemícal irrigants on the bond
strength of a self-etching adhesive to pulp chamber dentin. ]
Endod. 2006;32(1 l): 1088·90.
25. Moreira DM, Almeida JF, Ferraz CC, Gomes BP, Line SR, Zaia
AA. Structural analysis ofbovine root dentin after use of di-
fferent endodontics auxiliary chemical substances. ] Endod.
2009;35(7):1023· 7.
26. Hiraishi N, Yiu CK, King NM, Tay FR. Effect of2% chlorhexi
dine on dentin mícrotensile bond strengths and nanoleakage
ofluting cements.] Dent. 2009;37(6): 440·8.
27. Menezes MS, Queiroz EC, Campos RE, Martins LR, Soares
C]. Influence of endodontic sealer cement on fibreglass post
bond strength to root dentine. lntEndod ]. 2008;41(6):476-
84.
28. De Goes MF, Azevedo CS, Caiado ACRL. Pinos e núcleos es
téticos. ln: Fonseca, AS. Odontología estética: a arte da perfeí·
ção. São Paulo: Artes Médicas; 2008. p. 380·407.
140 Francisco José de Souza Filho (Organizador)
mas adesivos [dissertação). Piracicaba: Faculdade de Odonto
logia de Piracicaba; 2006.
23. Santos-Filho PC, Castro CG, Silva GR, Campos RE, Soa
res CJ. Effects of post system and length on the strain and
fracture resistance of root filled bovine teeth. Int Endod ].
2008;4l(6):493·501.
24. Santos ]N, Carrilho MR, De Goes MF, Zaía AA, Gomes PB,
Souza-Filho FJ, et a1 Effect of chemícal irrigants on the bond
strength of a self-etching adhesive to pulp chamber dentin. ]
Endod. 2006;32(1 l): 1088·90.
25. Moreira DM, Almeida JF, Ferraz CC, Gomes BP, Line SR, Zaia
AA. Structural analysis ofbovine root dentin after use of di-
fferent endodontics auxiliary chemical substances. ] Endod.
2009;35(7):1023· 7.
26. Hiraishi N, Yiu CK, King NM, Tay FR. Effect of2% chlorhexi
dine on dentin mícrotensile bond strengths and nanoleakage
ofluting cements.] Dent. 2009;37(6): 440·8.
27. Menezes MS, Queiroz EC, Campos RE, Martins LR, Soares
C]. Influence of endodontic sealer cement on fibreglass post
bond strength to root dentine. lnt Endod ]. 2008;41(6):476-
84.
28. De Goes MF, Azevedo CS, Caiado ACRL. Pinos e núcleos es
téticos. ln: Fonseca, AS. Odontología estética: a arte da perfeí·
ção. São Paulo: Artes Médicas; 2008. p. 380·407.
Protocolos farmacológicos
para procedimentos eletivos
e urgências endodônticas
EDUARDO DIAS DE ANDRADE. PAULA SAMPAIO DE MELLO
E ANA PAULA GUERREIRO SENTES
CONSIDERAÇÕES GERAIS
Nos dias de hoje, o tratamento endodôntico realizado por meio de técnicas conven
cionais tem uma taxa de sucesso em torno de 90 a 95% dos casos, em função das téc
nicas de preparo e obturação, da incorporação de avanços tecnológicos já consolida
dos e do grau de experiência do profissional. De forma simplista, a terapia consiste na
descontaminação e modelagem do sistema de canais radiculares, seu preenchimento
com um material obturador, seguido de um período de acompanhamento clínico que
finda com o processo de reparo da lesão. Os 5a10% dos casos de insucesso endodôn
tico podem ainda ser resolvidos com o auxílio de cirurgias perirradiculares.
Na prática da Endodontia, há dois tipos de procedimentos: os eletivos, em pacientes assin
tomáticos, que permitem o pré-agendamento das consultas, e as urgências, quando invaria
velmente os pacientes são sintomáticos, exigindo pronto atendimento.
Independentemente do tipo de procedimento, a maior preocupação dos endo
dontistas diz respeito à dor inflamatória, sintoma quase sempre presente nas situa
ções de urgência, como pulpites, pericementites e abscessos.
Todavia, durante o preparo químico-mecânico do sistema de canais radiculares,
mesmo em pacientes previamente assintomáticos, fatores irritantes, como bactérias e
seus produtos, tecido necrosado, soluções irrigadoras ou substâncias contidas nos "cura
tivos de demora~ podem ser, inadvertidamente, forçadas além do ápice para os tecidos
periapicais. Essa agressão pode ser suficiente para deflagrar uma resposta inflamatória
local, com presença de dor (e até mesmo edema) de diferentes graus ou magnitudes.
Outra preocupação dos endodontistas diz respeito às infecções bacterianas. Infeliz
mente, muitos profissionais ainda supervalorizam o papel dos antibióticos, em detri
mento dos procedimentos de descontaminação do local, ou seja, a remoção da causa.
142 Francisco José de Souza Filho (Organizador)
Antibiótico pode ser definido como uma substância que possui a capacidade de
interagir com microrganismos que causam infecções, matando-os ou inibindo sua
reprodução, permitindo ao sistema imunológico combatê-los com maior eficácia.
Assim, fica fácil entender que o sistema imunológico do hospedeiro é o grande res
ponsável pela cura das infecções, sendo atribuído aos antibióticos apenas um papel
auxiliar ou complementar à intervenção clínica.
Por fun, para completar a tríade, o endodontista não pode negligenciar o cha
mado estresse cirúrgico, pois é sabido que muitos pacientes são muito ansiosos ou
temerosos, a ponto de não suportarem o tratamento endodôntico sem um adequado
condicionamento psicológico e emocional, às vezes complementado pelo uso de fár
macos ansiolíticos.
Feita essa introdução, no presente capítulo são apresentados os protocolos far
macológicos para procedimentos eletivos e situações de urgência em Endodontia,
sugeridos pela área de Farmacologia, Anestesiologia e Terapêutica da Faculdade de
Odontologia de Piracicaba-Unicamp.
PROCEDIMENTOS ELETIVOS (PACIENTES PREVIAMENTE ASSINTOMÁTICOS)
Tratamentos endodônticos favoráveis
Estão incluídos dentes permanentes com polpa viva ou necrosada, cuja anatomia não
ofereça dificuldades para a instrumentação.
Nesses casos, a expectativa em relação ao período pós-operatório é de que opa
ciente pode acusar apenas certo desconforto ou, quando muito, dor de intensidade
leve, prevenida e controlada pelo uso exclusivo de um analgésico, como mostra o
Quadro 14.1.
Quadro 14.1 Protocolo farmacológico para o controle da dor em tratamentos endodônticos
favoráveis
Primeira opção: dipirona sódica - 500 mg a 1 g. •
Fármacos alternativos: ibuprofeno 200 mg ou paracetamol 750 mg.
Posologia: administrar a primeira dose ao final do atendimento, antes de cessarem os efeitos da anestesia
local. Prescrever as doses de manutenção, com intervalos de 4 horas para a dipirona e de 6 horas para o ibu
profeno ou paracetamol, durante o período restante do dia do atendimento.
*No caso de se prescrever a solução oral "gotas" de dipirona sódica, é importante lembrar que 20 gotas equivalem a
aproximadamente 500 mg e 40 gotas à dose-teto de 1 g.
Fonte: Andrade e Souza Filho.'
Tratamentos endodônticos de maior complexidade
Aqui se enquadram os retratamentos endodônticos, ou mesmo determinados trata
mentos de dentes permanentes cuja instrumentação apical é dificultada pela presen
ça de atresias, curvaturas radiculares, nódulos pulpares ou calcificações.
Recomenda-se a administração de um corticosteroide de ação prolongada, via
oral, antes do estímulo lesivo,2 seguida da prescrição de medicação analgésica de su
porte, pelo período de 24 a 48 horas pós-operatórias, com dipirona sódica ou ibupro
feno (Quadro 14.2).
1 .
• • • ..
• .. ..
••
Endodontia passo a passo 143
Quadro 14.2 Analgesia perioperatória sugerida para tratamentos endodônticos desfavoráveis
ou retratamentos endodônticos
Pré-operatório: dexametasona 4 mg (1 comp.) ou betametasona 4 mg (2 comp. de 2 mg).
Dose única, cerca de 30 a 45 minutos antes do atendimento.
Pós-operatório: dipirona sódica - SOO mg a 1 g, a cada 4 horas, por 24 a 48 horas, ou ibuprofeno 200 mg, a
cada 6 horas, por 24 a 48 horas.
Fonte : And rade e Souza Filho.
1
A justificativa para esse protocolo, denominado analgesia perioperatória, é de
que os mediadores inflamatórios devem manter-se inibidos por um período de tem
po mais prolongado, pois a sensibilização central pode não ser prevenida se o trata
mento for interrompido durante a fase aguda da inflamação. 3
Antes do tratamento ou retratamento endodôntico de elementos assintomáticos,
muitas vezes o endodontista pode não achar necessário o uso de um corticosteroide
como medicação pré-operatória. Entretanto, ao frnal do procedimento, pode mudar
de ideia, em função da complexidade do procedimento, que não foi prevista, espe
cialmente em molares.
Nesses casos, na região apical do dente envolvido (que ainda se encontra aneste
siada), basta fazer uma infiltração submucosa de 1 mL da solução injetável de fosfato
dissódico de dexametasona (2 mg/mL), ou 0,5 a 1 mL da solução injetável de fosfato
dissódico de betametasona ( 4 mg/mL). Para isso, deve-se empregar uma seringa de 1
mL (100 unidades) e agulha 13 x 4,5, as mesmasusadas para a aplicação de insulina
(Figura 14.1).
2. 3.
-
~ FIGURA 14.1 l
•
Seringa
100U = 1 ml
Dexametasona
ou betametasona
1 nfi !tração
submucosa
Analgesia preventiva por meio de
injeção submucosa de betameta
sona, feita ao término da instru
mentação, na região periapical
do dente envolvido.
Aqui, a opção é pela analgesia preventiva, ou seja, a introdução de um regime
analgésico após o estímulo lesivo (no caso, a instrumentação), porém antes do início
da sensação dolorosa. Essa simples conduta pode evitar ou minimizar a dor e o des
conforto pós-operatórios após a cessação dos efeitos da anestesia local.1
'
4
Como alternativa ao uso parenteral da betametasona, nessa mesma situação,
pode-se lançar mão do cetorolaco de trometamina 10 mg, via sublingual, logo após o
término da instrumentação endodôntica.
144 Francisco José de Souza Filho (Organizador)
Cirurgias perirradiculares
Em razão dos avanços científicos e tecnológicos da implantodontia, as cirurgias pe
rirradiculares têm perdido espaço como alternativa terapêutica no caso de insucesso
de tratamentos ou retratamentos endodônticos, se analisada a inter-relação risco/
custo/benefício.
No planejamento de uma cirurgia perirradicular, além de se preocupar com a
dor e o edema pós-operatórios, o endodontista deve considerar um protocolo para o
controle da ansiedade e do medo por parte do paciente, que podem interferir nega
tivamente no curso da intervenção ou até mesmo inviabilizá-la. Por fim, o operador
precisa se preocupar com a possibilidade de uma possível infecção da ferida cirúrgica.
Quanto a esse último aspecto, e provavelmente por insegurança, nota-se que mui
tos cirurgiões prescrevem antibióticos pelo período de até 10 dias para "prevenir" a
infecção do local operado em pacientes imunocompetentes. Deve-se enfatizar que não
há base científica para esse tipo de conduta, considerada desnecessária e inadequada.
Se o profissional optar pela profilaxia antibiótica, o regime de dose única pré-opera
tória (p. ex., amoxicilina 1 g, 1 hora antes) é o mais indicado.5 Em geral, as doses pro
filáticas pós-operatórias não trazem benefícios ao paciente, pois os antibióticos não
conseguem penetrar e desorganizar o biofilme bacteriano formado no local da ferida.6
Portanto, é cada vez mais consensual que, se as medidas de assepsia e antissepsia
forem seguidas à risca, a profilaxia antibiótica não é indicada nessas situações, a me
nos que o sistema imune do paciente esteja comprometido ou apresente condições
de risco para infecções à distância.7 Além disso, é estimado que 6 a 7% dos pacientes
medicados com antibióticos experimentam algum tipo de reação adversa, fato que
deve ser considerado quando da avaliação do risco/benefício de seu emprego.8
Com base nessas necessidades e considerações, o Quadro 14.3 traz a sugestão de
um protocolo farmacológico para as cirurgias perirradiculares.
Quadro 14.3 Protocolo farmacológico para cirurgias perirradiculares
Medicação e cuidados pré-operatórios: midazolam 7,5 mg-1 comprimido e dexametasona 4 mg-1 com
primido.
Administrar, na chegada ao consultório, 30 minutos antes do início dos procedimentos de antissepsia local.
Previamente à anestesia local, pedir que o paciente bocheche vigorosamente com 15 ml de uma solução
aquosa de digluconato de clorexidina a 0,12%, por 1 minuto.
Medicação e cuidados pós-operatórios: dipirona (SOO mg a 1 g) ou ibuprofeno 200 mg ou paracetamol
750 mg.
Tomar a primeira dose ao final dos efeitos da anestesia local, repetindo o procedimento a cada 4 horas (dipi
rona) ou 6 horas (ibuprofeno ou paracetamol), nas primeiras 24 a 48 horas pós-operatórias.
Prescrever solução aquosa de digluconato de clorexidina a 0,12%, com a orientação de bochechar com 15
ml da solução, por 1 minuto, a cada 12 horas, pelo período de 5 a 7 dias.
URG~NCIAS ENDODÔNTICAS (PACIENTES PREVIAMENTE SINTOMÁTICOS)
As condições pulpares e periapicais que requerem tratamento endodôntico de ur
gência são as pulpites irreversíveis e as necroses com ou sem envolvimento periapical
(pericementites e abscessos apicais agudos).
Endodontia passo a passo 145
Pulpites irreversíveis
No tratamento das pulpites irreversíveis, a conduta mais importante é o alívio da
dor, em geral espontânea, por meio da remoção da causa ("tirar a dor com as mãos':
como se falava antigamente). Portanto, a anestesia local é um importante passo do
tratamento. Os critérios de escolha da solução anestésica e a descrição das técnicas
anestésicas complementares são apresentados no Capítulo 9.
Após os procedimentos endodônticos para a remoção da causa (pulpotomia ou
pulpectomia), basta prescrever um analgésico para controle da dor residual, quando
ainda presente, conforme o protocolo a seguir:
Dipirona sódica - 500 mg a 1 g ou ibuprofeno 200 mg ou paracetamol 750 mg.
Deve-se administrar a primeira dose ao final do procedimento e prescrever doses de manu
tenção com intervalos de 4 horas (dipirona) ou 6 horas (ibuprofeno ou paracetamol), caso
a dor ainda persista, pelo período máximo de 24 horas.
Em casos raros, pode haver necessidade da prescrição de um anti-inflamatório.
Opta-se então por 1 comprimido de betametasona 2 mg, via oral, ou 1 comprimido
de cetorolaco de trometamina 1 O mg, via sublingual.
Após 24 horas, deve-se obter informações do paciente com relação à remissão
dos sintomas. Caso a dor ainda não tenha sido controlada, agendar nova consulta
para avaliar a necessidade de outra intervenção clínica, objetivando a complementa
ção do tratamento endodôntico.
Necroses pulpares sem envolvimento periapical
Embora o dente envolvido não responda a estímulos como frio, calor ou teste elétri
co, ele ainda pode conter tecido vital inflamado na porção apical do canal radicular.
Por essa razão e para o maior conforto do paciente na colocação do isolamento abso
luto, a anestesia local deve sempre ser realizada no tratamento de dentes com polpas
necrosadas.
Após o preparo do sistema de canais radiculares (parcial ou total), fmalizado
com a colocação de um curativo de demora ou obturação final, basta prescrever um
analgésico, de acordo com o protocolo a seguir:
Dipirona sódica - 500 mg a 1 g ou ibuprofeno 200 mg ou paracetamol 750 mg.
Deve-se administrar a primeira dose ao final do procedimento e prescrever doses de manu
tenção com intervalos de 4 horas (dipirona) ou 6 horas (ibuprofeno ou paracetamol), caso
a dor ainda persista, pelo período máximo de 24 horas.
Após 24 horas, deve-se obter informações do paciente com relação à presença de
dor ou deflare-up (dor intensa acompanhada de edema da face), complicação que é
cada vez mais rara quando o tratamento endodôntico é feito por especialistas ( 1,5 a
2% dos casos).9
'
1º
146 Francisco José de Souza Filho (Organizador)
Periodontites apicais agudas (pericementites) sem envolvimento
pulpar (p. ex., por trauma oclusal)
O tratamento consiste no ajuste da oclusão do elemento envolvido e na prescrição de
um analgésico (dipirona, ibuprofeno ou paracetamol, seguindo o mesmo protocolo
descrito para as pulpites). Além disso, deve-se orientar o paciente quanto aos cuida
dos com a mastigação.
Periodontites apicais agudas (pericementites) com envolvimento
pulpar (necrose)
O paciente chega ao consultório com a boca entreaberta e relata a sensação de dente
"crescido" (extrusão dental). Pode não acusar dor espontânea, mas essa se manifesta
ao mínimo toque do dente antagonista, quanto mais pela percussão vertical. O pro
tocolo farmacológico está contido no Quadro 14.4, entendendo-se que a causa será
removida (principal conduta), além da orientação dos cuidados com a mastigação.
Quadro 14.4 Protocolo farmacológico para as periodontites apicais agu das com envolvimento
p ulpar
Administrar 4 mg de dexametasona ou betametasona, por via oral, na chegada do paciente ao consultório.
Anestesia local: se for empregada a t écnica infiltrativa, intraóssea ou intraligamentar,optar pela solução de
articaína a 4% com epinefrina 1:100.000 ou 1:200.000, por sua melhor difusibilidade óssea.•
Medicação pós-operatória: dipirona sódica -500 mg a 1 g ou paracetamol 750 mg ou ibuprofeno 200 mg.
*Nos bloqueios regionais na mandíbula, pode-se considerar o uso de um tubete da solução de lidocafna a 2% com
epinefrina 1:100.000 e um segundo tubete de uma solução de bupivacafna a 0,5% com epinefrina 1:200.000. Com
isso, além da maior duração da anestesia, reduz-se o consumo de analgésico no perlodo pós-operatório.
Após 24 horas, deve-se obter informações do paciente com relação à remis
são ou exacerbação dos sintomas. Nesse último caso, reavaliar o quadro, decidindo
por nova intervenção clinica e/ou prescrição de um anti-inflamatório não esteroide
(p. ex., cetorolaco de trometarnina 10 mg sublingual).
Abscessos apicais agudos
A dor observada nos abscessos apicais agudos é atribuída à queda do pH na região
inflamada e à pressão mecânica exercida pelo exsudato purulento, que estimulam
diretamente as terminações nervosas livres do local. Paralelamente, os nociceptores
são sensibilizados pela liberação de mediadores químicos pró-inflamatórios, como
histamina, bradicinina, prostaglandinas e leucotrienos.
A descontaminação do local, por meio da incisão cirúrgica dos tecidos moles, com
auxílio de um bisturi, é o melhor tratamento para aliviar a dor dos abscessos de origem
endodôntica. Numa segunda etapa, deve-se proceder à descontaminação parcial do
sistema de canais radiculares (terço médio e cervical), onde se encontra o maior "reser
vatório" de bactérias. Com isso, consegue-se também alterar o pH do meio.
Os anti-inflamatórios praticamente não contribuem para o controle da dor de
corrente dos abscessos de origem endodôntica. Para o controle da dor residual, de
corrente da incisão cirúrgica, basta empregar um analgésico como a dipirona ou o
paracetamol, desde que a intervenção local tenha sido bem conduzida.
Endodontia passo a passo 147
Por ocasião da drenagem de abscessos, deve-se considerar um protocolo de se
dação mínima, obtida pela administração de mídazolam 7,5 mg, via oral, que promo
ve um rápido início de ação. Essa conduta tem por objetivo tornar o paciente mais
cooperativo aos procedimentos de drenagem, permitindo que o profissional trabalhe
com mais rapidez e menos estresse.
O midazolam deve estar disponível no consultório. Enquanto se aguarda o efeito desse
ansiolitico e a obtenção de níveis plasmáticos do antibiótico (quando indicado), deve-se
providenciar o instrumental e materiais necessários para os procedimentos de drenagem
cirúrgica do abscesso.
Uso de antibióticos como terapia complementar
No caso dos abscessos apicais agudos localizados, na ausência de sinais de dissemi
nação local ou manifestações sistêmicas do processo infeccioso, o uso de antibióticos
não é recomendado, bastando que se proceda à descontaminação do local (drenagem
cirúrgica da coleção purulenta, curetagem das fístulas e esvaziamento do sistema de
canais radiculares). 1
Exceções a essa regra dizem respeito aos pacientes portadores de doenças sistêmi
cas que induzem alterações metabólicas ou imunossupressão, como ocorre no diabetes,
na doença renal crônica e no lúpus eritematoso sistêmico, entre outras patologias.1
Ao contrário, alguns abscessos apicais agudos podem apresentar sinais de dis
seminação local (celulite, linfadenite, limitação da abertura bucal) e manifestações
sistêmicas do quadro infeccioso (febre, taquicardia, falta de apetite, mal-estar geral).
Isso indica ao profissional que os sistemas de defesa do paciente não estão conseguin
do, por si só, controlar a infecção e, portanto, o uso de antibióticos é imprescindível.1
O Quadro 14.5 traz os protocolos antimicrobianos indicados no tratamento de
abscessos apicais agudos com sinais de disseminação, em fase inicial e avançada, com
base na história do problema (anamnese) e no exame físico.
Quadro 14.S Regimes antimicrobianos complementares indicados no tratamento das infecções
endodônticas, com as dosagens para adultos
Abscessos aplcals
em fase Inicial
Pacientes com história de
alergia às penicilinas
Infecções disseminadas
(presença de celulite)
Quando não se obtém
resposta ao tratamento com
amoxícilina + metronidazol
Pacientes com história de
alergia às penicilinas
• • •
Amoxicilina
Claritromicina
ou
azitromici na
Amoxicilina
+
metronidazol
Amoxicilina
associada com
clavulanato K
Clindamicina
• • •
500 mg a cada 8 horas
500 mg a cada 12 horas
ou
500 mg a cada 24 horas
500 mg a cada 8 horas
+
250 mg a cada 8 horas
SOO mg a cada 8 horas
300 mg a cada 8 horas
•o tratamento deve ser iniciado com uma dose de ataque, em geral o dobro das doses de manutenção (p. ex., amo·
xicil ina: dose de ataque = 1 g).
Fonte: Mascali e colaboradores.
11
148 Francisco José de Souza Filho (Organizador)
Complicações dos abscessos de origem endodôntica
Nos casos de disseminação do processo infeccioso para os espaços teciduais adja
centes, com a presença de trismo, linfadenite, febre, taquicardia, mal-estar geral e
outras manifestações sistêmicas da infecção, os pacientes devem ser encaminhados
a especialistas, que em geral cuidam da internação hospitalar, para tratamento ci
rúrgico sob anestesia geral, complementado por antibioticoterapia específica por via
intravenosa e outras medidas de suporte.
Recomenda-se, portanto, que o endodontista, frente às infecções bacterianas bu
cais disseminadas, não prescreva antibióticos ou anti-inflamatórios na expectativa de
que este procedimento, por si só, vá resolver o problema.
As infecções bucais com sinais de disseminação podem evoluir e acarretar sérias
complicações à distância como abscessos orbitais ou endoftalmite purulenta, 11
•
13 exi
gindo cuidados imediatos de um cirurgião bucomaxilofacial e outros especialistas da
área médica, em ambiente hospitalar.
REFER~NCIAS
1. Andrade ED, Souza-Filho FJ. Protocolos farmacológicos em
endodontia. ln: Andrade ED. Terapêutica Medicamentosa em
Odontología. 3. ed. São Paulo: Artes Médícas; 2006, p.169· 78.
2. Pochapski MT, Santos FA, Andrade ED, Sydney GB. Effect
of pretreatment dexamethasone on postendodontic pain.
Oral Surg Oral Med Oral Pathol Oral Radio! Endod.
2009;108(5):790·5.
3. M0iniche S, Kehlet H, Dahl JB. A qualitative and quantitative
systematic review of preemptive analgesia for postoperative
pain relief: the role of timing of analgesia. Anesthesiology
2002 Mar;96(3):725-41.
4. Pinheiro, MLP. Infiltração submucosa intrabucal de beta·
metasona na prevenção ou controle da dor em endodontia.
[tese). Piracicaba: Faculdade de Odontologia de Piracicaba
. Unicamp; 2005.
5. Peterson LJ. Antibiotic prophylrutis against wound infections
in oral and maxillofacial surgery. J Oral Maxillofac Surg.
1990;48:617-20.
6. Groppo FC, Dei Fio! FS, Andrade ED. Profilrutia e tratamento
das infecções bacterianas. ln: Andrade ED. Terapêutica medí
camentosa em odontologia. 2. ed. São Paulo: Artes Médicas;
2006. p. 61-93.
LEITURA RECOMENDADA
Andrade ED, Bentes APG, Brito, FC. Antibióticos em endodontia:
uso profilático e curativo. ln: Endodontia: uma visão contem
porânea/Rui Hizatugu, Eduardo Fregnani, organizadores. São
Paulo: Santos; 2012. p. 151-60.
7. Tong DC, Rothwell BR. Antibiotic prophylaxis in dentistry:
a review and practice recommendations. J Am Dent Assoe.
2000;131:366·74.
8. Alanis A, Weintein AJ. Adverse reactions associated with the
use of oral penicillins and cephalosporins. Med Clin North
Am. 1983;67:1 13.
9. Imura N, Zuolo ML Factors associated with endodontic fla
re-ups: a prospective study. lnt Endod J. 1995;28(5):261-5.
10. Alves VO. Endodontic flare-ups: a prospective study. Oral
Surg Oral Med Oral Pathol 2010;110(5):68-72.
11. Mascali R, Berguiga M, Delhoum S, Le Loir M, Cochener
B, Grambelle J, et ai. Endogenous bacterial endophthal
mitis related to dentalabscess: case report. J Fr Ophtalmol.
2012;35(1):35-9.
12. Antunes AA, de Santana Santos T, de Carvalho RW, Avelar
RL, Pereira CU, Pereira JC. Brain abscess of odontogenic ori
gin. J Craniofac Surg. 20! 1;22(6):2363-5.
13. Li X, Tronstad L, Olsen I. Brain abscesses caused by oral in
fection. Endod Dent Traumatol. 1999;15(3):95-101.
Sistemas de instrumentacão
.1
mecanizada
NILTON VIVACQUA GOMES
CONSIDERAÇÕES GERAIS
Toda técnica empregada para executar um determinado procedimento precisa ser exaus
tivamente treinada antes de sua utilização e, independentemente das variações, deve ser
sempre baseada em importantes princípios para que se alcance o sucesso esperado.
A escolha de um instrumento ou equipamento deve atender de forma eficiente
a demanda de cada caso, além de ser de fácil utilização e ter baixo custo, se possível.
A exploração e ampliação prévia dos condutos com limas especiais, tipo VDW
C-Pilot (recomendadas ao invés da tipo K convencional), bem como das emboca
duras, com a LA Axxess (SybronEndo), por exemplo, facilita muito o processo de
instrumentação e também estende a vida útil das limas.
Uma fase muito importante é a irrigação, que deve ser feita a cada troca de lima
ou a cada duas limas, dependendo do desgaste dentinário provocado. Isso deve ser
feito de maneira abundante, antes do próximo instrumento, lembrando que os mes
mos devem ter suas espiras limpas antes da reutilização, caso ela seja necessária.
PRINCÍPIOS BÁSICOS DE PRÉ-ALARGAMENTO E AMPLIAÇÃO DOS TERÇOS
CERVICAL E MÉDIO
Os sistemas de instrumentação mecanizada trouxeram uma importante inovação para
a Endodontia. Os Orifice Openers ou Orifice Shapers (OS) permitem a ampliação dos
terços cervical e médio sem o auxílio das brocas de Gates-Glidden. Os OS normalmen
te possuem pontas de # 25 a # 40 e conicidades de 0.08 a 0.12 mm/mm. Cada sistema
tem seus OS próprios, com suas características peculiares, porém todos podem ser
usados com as duas primeiras cinemáticas de instrumentação descritas mais adiante.
A sua utilização é mais rápida e deixa o preparo mais centrado e regular, o que os
diferencia das brocas de Gates, que são difíceis de usar e desgastam exageradamente a
estrutura dental, podendo ocasionar perfurações laterais. Os OS, por serem calibro-
150 Francisco José de Souza Filho (Organizador)
sos, apenas são indicados para as porções retas dos condutos, evitando assim fraturas
e desvios, por isso têm grande durabilidade. Exigem, em geral, velocidades e torques
mais altos que os outros instrumentos e maior pressão durante o seu uso, bem como
um tempo prolongado para o pincelamento.
CINEMÁTICAS DE INSTRUMENTAÇÃO MECANIZADA
• Cinemática 1 para penetração (bicada): nesse movimento, visa-se apenas ao avanço da
lima, utilizando-se movimentos curtos de ida e volta, sempre com a ida lenta e a volta rápida
(1 segundo no total).
• Cinemática 2 para ampliação lateral (anticurvatura): movimento aplicado em porções
já preparadas com a cinemática 1 ou 3, que visa ao alargamento cervical e médio dos con
dutos. Insere-se o instrumento passivamente; em seguida, o pincelamento lento é feito
com pressão em uma das paredes durante o retomo. Essa cinemática é usada apenas, ou
preferencialmente, com os OS.
• Cinemática 3 para movimento reciprocante (vaivém): este é utilizado para quaisquer
limas acionadas com cinemática reciprocante. Nele, o movimento de vaivém é lento e
longo, tanto na penetração, quanto na retirada do instrumento (2 segundos no total).
SISTEMAS DE INSTRUMENTAÇÃO ROTATÓRIA
K3 (XF) RS6 (SybronEndo)
A sequência RS6 (Rotatória com Segurança em 6 Instrumentos) (Figura 15.1) foi
desenvolvida pelo autor com base em cálculos físico-matemáticos, com o objetivo de
reduzir ao máximo a fratura desses instrumentos durante o preparo dos canais radi
culares, aumentando assim a sua reutilização com segurança e diminuindo o custo
total do tratamento. A sequência proposta foi desenhada considerando-se o princípio
da torção, um dos métodos mais importantes de falha dos instrumentos. Ao detectar
o ponto de torção mais provável de fratura em um instrumento, pode-se alterar a
ordem e a penetração das limas para minimizar esse risco, bem como a configuração
do motor. Porém, essas alterações de segurança deixam a sequência mais lenta.
Graças às características de grande resistência à torção, dado o formato de sua
secção transversal em tripla hélice com planos radiais à exceção dos OS, que possuem
secção de retângulo modificado, os instrumentos K3 da SybronEndo foram escolhi
dos para compor essa sequência. Como essas características não coexistem com gran
de flexibilidade das limas, sobretudo em numerações maiores, o seu uso fica limitado
às curvaturas de, no máximo, 35º de angulação. Portanto, se não existirem curvaturas
importantes, é possível reutilizar com segurança esses instrumentos em até 60 con
dutos, desde que não haja deformação das espiras, situação em que as limas devem
ser descartadas, independentemente da contagem de utilizações. Esse kit foi original
mente montado com as limas K3, mas com a sua descontinuada produção, ele passou
a ser montado com as limas K3 XF (descritas adiante), agregando maior flexibilidade.
Sequência de uso de acordo com a recomendação do autor
• Exploração com limas manuais tipo K # 15, 2 a 3 mm aquém do comprimento
aparente do dente (CAD).
Endodontia passo a passo 151
• K3 30/.06 - 250 rpm e torque 0,8 N.cm. Movimentos de bicada até o início da curva
tura. Não é necessária em condutos com amplitude moderada, podendo ser usada ao
final da sequência apical, no comprimento real de trabalho (CRT) de condutos retos.
• K3 25/.10 (OS) - 350 rpm e torque 2 N.cm. Movimentos de bicada e pincelamento
anticurvatura até o início da curvatura. Seguir com a odontometria.
• K3 15/.04 - 250 rpm e torque 0,5 a 0,8 N.cm. Movimentos de bicada até o CRT.
Apenas em condutos onde a lima manual# 15 teve dificuldade de penetração.
• K3 15/.06, 20/.06 e 25/.06 - 250 rpm e torque 0,8 a 1,2 N.cm. Usadas em sequência,
todas com movimentos de bicada até o CRT. Caso alguma lima não alcance o CRT,
retornar com o OS em maior profundidade, seguida de pincelamento anticurvatura,
e/ou, em casos mais constritos, utilizar brocas de Gates 4, 3 e 2, coroa-ápice até o iní
cio do terço apical para reduzir o toque dentinário nas limas apicais de conicidade .06.
• Se necessário, utilize limas extras com conicidade 0,04 para maior ampliação apical.
~
K~XF
Rotary Niokel TttenNm File
SEQUtNCIA RS6
PlllOJ". ttllTON VfVACll4.JA
JIJ/ /16 UI /16
25(.10 20/116
UI .oc UI 116
6PCS
Ma41 lnMa:áco -....... * " 1312 s l.oM Hll Awnu•
~e.CAIS74f0.t.Ut USA --·-Gn-«176 l\W, 1 SUD1 TO Of"IH
ProDesign S (Easy)
R 1
g
... FIGURA 15.1
Sequência RSG desenvolvida pelo autor e
produzida com K3.
Designada para compor uma sequência curta e eficiente, a ProDesign S da Easy Equi
pamentos é uma evolução bastante clara da já conhecida ProDesign Original, passan
do de sete instrumentos para apenas quatro (Figura 15.2). A principal diferença entre
as duas é que a ProDesign S possui dois OS, que são responsáveis por grande parte da
ampliação, instrumentando os condutos até 3 ou 4 mm aquém do CRT. Isso permite
uma menor quantidade de instrumentos para ampliação apical.
Em sua versão mais nova, os instrumentos possuem um tratamento térmico da
liga metálica, o que provoca a deposição de óxido de titânio na superfície da lima, con
ferindo-lhes maior flexibilidade pela perda da memória elástica .. O instrumento branco
tem secção transversal em forma de S, o amarelo e azul, em forma de tripla hélice, e o
vermelho, em forma de quadri-hélice. A longevidade desses instrumentos alcança de
20 a 30 condutos, desde que não envolvam curvaturas acentuadas ( 45º no máximo).
Sequência de uso de acordo com a recomendação do autor e do fabricante
• Pode-se iniciar o uso desse sistema com uma das duas opções abaixo:
• Opção 1 - Exploraçãocom limas manuais tipo K # 1 O até o terço médio, seguida
da ProDesign S Vermelha (descrita adiante), em vaivém, para obtenção direta
152 Francisco José de Souza Filho (Organizador)
do CRT (é importante conhecer a odontometria). Este passo reduz a vida útil
dessa lima em relação às outras. Caso ela não alcance o CRT, utilize a opção 2.
• Opção 2 - Exploração com limas manuais tipo K # 15, 2 a 3 mm aquém do CAD.
• Após a escolha de uma das opções anteriores, continue com a sequência descrita
.
a seguir:
• ProDesign S branca (OS 30/.10} - 500 a 900 rpm e torque 3 N.cm. Movimentos
de bicada e pincelamento anticurvatura apenas na parte reta do conduto.
• ProDesign S amarela (OS 25/.08} - 500 a 900 rpm e torque 2 N.cm. Movimentos
de bicada e pincelamento anticurvatura 2 a 3 mm mais profundamente que a lima
anterior. Pode adentrar curvaturas não acentuadas. Seguir com a odontometria.
• ProDesign S vermelha "Gisele" (25/.01) - 350 rpm e torque 0,5 a 1 N.cm. Mo
vimentos de vaivém até ultrapassar o CRT. Este passo deve ser omitido no caso
da escolha da opção 1 como passo inicial. Caso esta não alcance o CRT, obter
patência com limas manuais ou com MRA (apenas no motor Easy SI e lima
15/.05) e depois voltar a utilizar a lima vermelha no CRT.
• ProDesign S azul (20/.06) - 350 rpm e torque 1 N.cm. Movimentos de bicada
até o CRT. Caso este instrumento não alcance o CRT, retomar com o OS amare
lo em maior profundidade, seguido de pincelamento.
• Para maior ampliação, utilizar as limas extras (30 a 40/.05).
easy
SISTEMAS COM MOVIMENTOS RECIPROCANTES
Reciproc (VDW)
~ FIGURA 15.2
Sequência ProDesign S.
Inaugurando uma categoria totalmente inovadora de instrumentação mecanizada,
o sistema Reciproc modificou a maneira de se compreender o preparo acionado a
motor. Enquanto todos os sistemas existentes rotacionavam os instrumentos para a
direita, o Reciproc inovou com o movimento chamado reciprocante (que significa
alternar). Essa nova cinemática só pode ser alcançada por alguns poucos motores no
mercado. No caso do Reciproc (Figura 15.3), os motores VDW Silver e Gold possibi
litam esse feito, como também a cinemática rotatória para instrumentos convencio
nais. Esse movimento consiste em uma oscilação assimétrica para a direita e para a
esquerda, sendo que a rotação para a esquerda (150º anti-horário) é 120º maior que
Endodontia passo a passo 153
aquela no sentido inverso (30º horário), resultando em uma volta completa para a
esquerda a cada três ciclos de oscilação. Tal movimento é feito na velocidade de 10
ciclos de oscilação por segundo, gerando uma velocidade final de 200 rpm.
O movimento oscilatório simétrico, no qual a oscilação é igual para ambos os
lados, já existe há muitos anos e é utilizado com limas manuais, porém nunca foi
largamente utilizado para a instrumentação completa dos canais radiculares. Com
o movimento nomeado reciprocante, possibilitou-se a instrumentação de um con
duto com somente alguns poucos passos ou, em algumas situações, com apenas um
instrumento. Esse movimento foi desenvolvido, propositalmente, para rotacionar o
instrumento à esquerda, diferente de todos os instrumentos no mercado, que têm
as suas espiras usinadas para a direita. Isso obviamente impede o uso de quaisquer
instrumentos além daqueles designados a essa cinemática.
O sistema é composto por apenas três instrumentos, todos com secção trans
versal em formato de S. Esses instrumentos são fabricados a partir de uma liga de
níquel-titânio com tratamento especial, denominada M-Wire. Essa liga apresenta
flexibilidade maior quando comparada à liga convencional. A lima vermelha (R25)
possui ponta # 25 e conicidade de 0.08 nos três primeiros milímetros. A lima preta
(R40) possui ponta# 40 e conicidade de 0.06, também nos três primeiros milímetros.
Da mesma forma, a líma amarela (RSO) possui ponta# 50 e conicidade de O.OS. Em
todos os três instrumentos, a conicidade diminui do quarto ao décimo sexto milíme
tro, assumindo uma conicidade média de 0.04 nessa porção.
A técnica original Reciproc, preconizada pelo fabricante, é bem simples e consis
te na escolha e no uso de apenas um desses três tamanhos de limas, logo após o aces
so às embocaduras. A R25 pode ser utilizada em 10 a 15 condutos aproximadamente
(considerando curvaturas leves), apesar de a recomendação ser de uso único. A R40
e a RSO possuem longevidade bem menor.
Sequência de uso de acordo com a recomendação do fabricante
• Exploração passiva com uma lima manual# 10 ou# 20 ou# 30. O instrumento
que penetrar passivamente até as proximidades do CAD determinará qual lima
Reciproc será utilizada. Para a lima manual# 10, seleciona-se a R25; para a lima
manual # 20, a R40 e para a lima manual # 30, a RSO. Selecionada a Reciproc,
configura-se o motor para o movimento Reciprocating Reciproc.
• Inserir a lima escolhida com movimentos de vaivém no sentido apical (3 a 5 repe
tições ou até a resistência). Pode-se executar também o movimento anticurvatura,
apesar de não possuir a mesma eficiência do mesmo quando em cinemática rotatória.
• Retirar a lima e limpar as espiras, fazer uma irrigação copiosa, seguida de explora
ção com limas manuais. Seguir com a odontometria.
• Repetir os movimentos dos dois itens anteriores, até alcançar o CRT. A lima será
usada duas vezes nos casos mais fáceis e até quatro vezes nos mais difíceis, sempre
intercalando com irrigação e patência.
• Pode-se mesclar o sistema Reciproc utilizando previamente limas OS de outras
marcas para ampliação dos terços cervical e médio, deixando assim apenas o terço
apical para seleção e uso do Reciproc. Isso permite melhor formatação e menos
desgaste dos instrumentos, aumentando a segurança e o número de usos possíveis.
Se necessário, deve-se ampliar o terço apical com instrumentos mais calibrosos.
154 Francisco José de Souza Filho (Organizador)
• u
ProDesign Duo Híbrido (Easy)
.... FIGURA 15.3
Sequência Reciproc VDW.
Com uma alteração na programação do motor Easy Endo SI, em resposta aos sistemas
reciprocantes, a ProDesign S ganhou um protocolo totalmente inovador de uso, permi
tindo ainda a rotação à direita, o MRA (Movimento Rotatório Alternado para ganho de
patência), e agora também o movimento reciprocante anti-horário à esquerda (para uso
dos sistemas Reciproc e Wave One). Um quarto movimento foi incluído nessa última e
importante atualização de firmware: o movimento reciprocante à direita (sentido horá
rio). Essa inversão de sentido permite utilizar qualquer instrumento rotatório usinado
ou torcido para a direita com a cinemática reciprocante, expandindo muito as possibili
dades. É claro que apenas alguns intrumentos funcionam bem nesse tipo de cinemática.
Dessa forma, surgiu o Sistema ProDesign Duo Híbrido (Figura 15.4), em que o
Sistema ProDesign Sé utilizado tanto na cinemática rotatória quanto na reciprocan
te. É claro que a longevidade, nessa nova proposta, fica reduzida à metade em relação
ao protocolo original, compensada pelo aumento da rapidez no preparo. Com essa
modificação, a sequência de quatro limas que era usada na ordem branca e amarela,
nos terços cervical e médio, e vermelha e azul, no terço apical, sofreu alteração, con
forme descrito a seguir.
Sequência de uso de acordo com a recomendação do fabricante
• Exploração com limas manuais tipo K # 10, nos terços cervical e médio.
• ProDesígn S vermelha "Gisele" (25/.01) - 350 rpm e torque 1 N.cm. Movimentos
de vaivém para execução da exploração e patência (deve-se conhecer a odontome
tria). Caso não se alcance o CRT, siga para o próximo passo.
• A seguir, selecione apenas uma das outras três limas da sequência: branca (30/.10)
para condutos amplos e retos, amarela (25/.08) para condutos médios e com pouca
curvatura, e azul (20/.06) para condutos constritos ou curvos.
• A lima selecionada é utilizada em movimento rotatório com bicada e pincelamento
anticurvatura até o terço médio ou início da curvatura,com configurações de fábri
ca de 950 rpm e 4 N.cm. Seguir com a odontometria, caso ainda não o tenha feito.
• Caso não tenha alcançado o CRT no passo 2, a lima "Gisele" vermelha agora é
reutilizada até o CRT, após patência manual ou com MRA (apenas no motor Easy
SI), se necessário.
Endodontia passo a passo 155
• Alterando para o movimento reciprocante à direita, a mesma lima selecionada no
terceiro tópico é utilizada em movimentos de vaivém até o CRT.
• No último passo, a mesma lima é novamente usada, agora em movimento rotató
rio e de pincelamento no CRT, para refinamento do preparo. As configurações de
fábrica são de 600 rpm e 1,5 N.cm.
• Para maior ampliação, utilizar as limas extras (30 a 40/.05).
1 • o • •
• o • o
• • o o
<Ili FIGURA 15.4
Sequência ProDesign Duo Hí
brido (Easy).
SISTEMAS ROTATÓRIOS E RECIPROCANTES PARA CONDUTOS
COM CURVATURAS
K3 XF RCS (Axis/SybronEndo)
Os instrumentos K3XF(Figura15.5) são uma combinação da resistência dos instru
mentos K3 originais com a mesma secção em tripla hélice com planos radiais, unidas
ao tratamento térmico de estabilização da fase "R" dos instrumentos Twisted File
(TF), da mesma marca, resultando em limas mais flexíveis quando comparadas às
K3 convencionais, porém menos flexíveis e mais resistentes que as TFs. Ou seja, são
limas portadoras de características intermediárias em relação às outras duas.
A K3 XF pode ser utilizada para compor uma sequência inteiramente nova desti
nada a condutos com curvaturas moderadas a severas, denominada pelo autor de se
quência RCS {rotatória para curvatura em segurança), utilizada em, no máximo 65º de
angulação, possui longevidade de cerca de 15 condutos. As limas devem sempre serdes
cartadas em caso de deformação das espiras, independentemente da contagem de usos.
Sequência de uso de acordo com a recomendação do autor
• Exploração com limas manuais tipo K # 15, 2 a 3 mm aquém do CAD.
• K3 XF 25/0.08 - 350 rpm e torque 2 N.cm. Movimentos de bicada e pincelamento
anticurvatura até o início da curvatura. Seguir com a odontometria.
• K3 XF 15/.04 - 250 rpm e torque 0,4 a 0,8 N.cm. Movimentos suaves, rápidos e
curtos de bicada até o CRT. Não forçar apicalmente.
• K3 XF 20/.04, 25/.04 e 30/.04 {em sequência) - 250 rpm e torque 0,8 a 1 N.cm.
Movimentos suaves, rápidos e curtos de bicada até o CRT. Não forçar apicalmente.
O uso das três limas dependerá da curvatura apical.
156 Francisco José de Souza Filho (Organizador)
• K3 XF 20/.06 - 250 rpm e torque 1 N.cm. Movimentos suaves, rápidos e curtos de
bicada até sentir resistência. Esse instrumento é utilizado como opção para melhor
formatação do terço médio, porém, dependendo da curvatura e da anatomia do con
duto, ele pode não alcançar o CRT. Nesse caso, não se deve forçá-lo apicalmente.
Rotery Nicke4 Titanium File
SEQUtNOA RCS
PIO'. NllTOH VNN:QUA
25/.0I 2S/JJA
IS/.04 )l)/JJA
20/.04 20/.o6
6 PCS
.. ~laMti>:f••
~ lJll $ Lone ... '*""'~
~CA91)..0.lnl USA -·-077..cd'M ...,.._a SUDl TO Of'l:lf ,_
TF Adaptive (SybronEndo)
~ FIGURA 15.5
Sequência K3 XF RCS (Axis/ SybronEndo).
O TF Adaptive (Figura 15.6), acionado pelo motor Elements, é o mais recente sistema
de instrumentação lançado no mercado e veio para, mais uma vez, inovar o campo
da instrumentação mecanizada, pois introduz um novo movimento no preparo dos
canais radiculares. Diferente dos outros sistemas, este é composto por dois tipos de
movimentos que se alternam automaticamente ao longo do uso das limas. Em uma
primeira fase, este realiza rotação não contínua para a direita (sentido horário) de
600º (o que equivale a uma volta e mais dois terços de volta), seguido de uma rápida
parada, depois outros 600º e assim consecutivamente. Esse ciclo se repete até que
o instrumento necessite de maior torque. Quando isso acontece, o próprio motor
Elements automaticamente modifica o movimento, passando a desenvolver uma
segunda fase, com movimento reciprocante, também para a direita. Nessa segunda
fase, a angulação é de 370º (pouco mais de uma volta), seguido de 50º (em torno de
um oitavo de volta) no sentido inverso (anti-horário), e então mais 370º no sentido
horário, e assim consecutivamente. Reduzindo a necessidade de torque pela remoção
da pressão no instrumento, o movimento volta à fase 1. Esse ciclo pode se alternar
automaticamente durante todo o preparo. Não há configurações personalizáveis para
esse movimento misto (TF Adaptive), e a velocidade e o torque de cada fase são fixa
dos na programação do fabricante. A rotação média gira em torno de 500 rpm. Claro
que o motor também possibilita o uso de programações rotatórias convencionais.
Novos instrumentos TF foram lançados para esse novo movimento, em dois kits
com três limas cada. O terceiro instrumento é opcional e pode ser usado para amplia
ção apical extra. A utilização é muito rápida e versátil, podendo ser utilizado em pra
ticamente quaisquer curvaturas, mas a durabilidade é pequena, apresentando torção
das espiras após alguns poucos condutos, dependendo da lima.
O kit Small (Condutos constritos) possui as limas 20/.04, 25/.06 e 35/.04. O kit
Medium Large (Condutos médios e amplos) contém as limas 25/.08, 35/.06 e 50/.04.
Ambos são identificados e usados nas cores verde, amarelo e vermelho, respectiva
mente, sendo que cada lima deve ser inserida até o CRT, todas sob a mesma progra-
Endodontia passo a passo 157
mação TF Adaptive. O kit Small é identificado por um anel colorido e o Medium
Large por dois anéis coloridos.
Sequência de uso de acordo com a recomendação do fabricante
• Exploração com limas manuais tipo K # 15 até o CRT (deve-se conhecer a odonto
metria). Escolha do kit.
• Lima verde (20/.04, kit Small ou 25/.08, kit Medium Large) - introduzir com leve
pressão apical até promover resistência, utilizando movimentos de bicada ( cine
mática fase 1) ou vaivém (cinemática fase 2).
• Fazer limpeza das espiras, irrigação copiosa e exploração com lima# 15.
• Retornar com a lima verde até alcançar o CRT, caso não se tenha alcançado no
primeiro uso.
• Repetir os três passos anteriores com a lima amarela (25/.06, kit Small ou 35/.06,
kit Medium Large).
• Em caso de necessidade, repetir os mesmos passos com a lima vermelha (35/.04,
kit Small ou 50/.04, kit Medium Large), para maior alargamento apical.
• Outra opção interessante para o uso com o movimento Adaptive é o conceito de
lima única, já demonstrado por outros sistemas. Nesse caso, pode-se utilizar o ins
trumento TF (ou de outra marca) 25/.06 ou 25/.08, por exemplo, e executar os
quatro primeiros passos descritos na sequência acima. O instrumento escolhido
deve preferencialmente possuir arestas de cor te bem-afiadas e apresentar boa fle
xibilidade, como por exemplo, a encontrada em limas com tratamento especial .
• ·- -
•
\ • • •
ADAPTIVE
~ PKlctor am.-~
1 ;~M;· 1 ~::1
l!iil ... ..., 117-*1 '
\ --.
~
W ~1*~ 6 PCS · -- ' • • • • •
~ •
• • • • • •
- ,.,, l.\Mt._. A ....... l
....... ""ttf-0 ",. uSA ! ' • • • --- ...... t ~ ' 1
~ FIGURA 15.6
Sequência TF Adaptive (SybronEndo).
LEITURAS RECOMENDADAS
Arías A, Perez. Higueras JJ, de la Macorra JC. Differen= in Cyclic
Fatigue Resistance at Apical and Coronal Leveis of Recíproc
and WaveOne New Files. J Endod. 2012;38: 1244-8.
Baek SH, Lee CJ, Versluis A, Kim BM, Lee W. Kirn HC. Com·
parison of to rsional stiffness of nickel·titan iurn rotary
files with d ifferent geornetric characteristics. J Endod.
2011;37:1283·6.
Bahia MGA, Melo MCC, Buono VTL. lníluence of sirnulated cli·
nicai use on the torsional behavior of nickel·titaniu.m rotary
endodontic instrurnents. Oral Sur Oral Med Oral Pathol Oral
Radio! Endod. 2006;101:675·80.
Barbosa FOG, Gomes JACP, Araújo MCP. Influence of previous
angular deforrnation on ílexural fatigue resistance of k3 ni·
ckel-titanium rotary instruments. ] Endod. 2008;33: 1477·80.
De-Deus G, Arruda TEP, Souza EM, Neves A, Magalhães K,
Thuanne E, et ai.The ability of the Reciproc R25 instrument
to reach the full root canal working length without a glide
path. lnt Endod J. 2013;46 (10):993·8.
158 Francisco José de Souza Filho (Organizador)
Gambarini G, Grande NM, Plotino G, Somma F, Garala M, De
Luca M, et ai. Fatigue resistance of engine-driven rotary ni·
ckel-titanium instruments produced by new manufacturing
methods. J Endod. 2008;34:1003·5.
Gavini G, Caldeira CL, Akísue E. Candeiro GTM, Kawakami DAS.
Resistance to flexural fatigue of reciproc R25 files under
continuous rotation and reciprocating movement. J Endod.
2012;38:684-7.
Grande NM, Plotino G, Pecci R, Bedini R, Malagnino VA, Somma
F. Cyclic fatigue resistance and lhree-dimensional analysís of
instruments from two nickel-titanium rotary systems. Int En·
dod J. 2006;39:755-63.
King JB, Roberts HW, Bergeron BE. Mayerchak MJ. The effect of
autoclaving on torsional moment oftwo nickel-titanium en
dodontic files. Int Endod ). 2012;45:156-61.
Lopes HP, Ferreira AA, Elias CN, Moreira EJ, de Oliveira JC, Si
queira Jr. JF. Influence of rotacional speed ofthe cyclic fatigue
of rotary nickel-titanium endodontic instruments. J Endod.
2009;35:1013-6.
Melo MCC, Pereira ESJ, Viana ACD, Fonseca AMA, Buono VTL,
Bahia MGA. Dimensional characterization and mechanical
behavior ofK3 rotary instruments. lnt End ). 2008;41:329-38.
Versani MA, Leoni GB. Steier F, De-Deus G, Tassani S, Pécora )D,
et ai. Micro-computed tomography study of oval-shaped ca
nais prepared with the self-adjusting file, Reciproc, WaveOne,
and ProTaper universal systems. J Endod. 2013;39:1060-6.
Park SY, Cheung GS, Yum ), Hur B, Park JK, Kim HC. Dynamic
torsional resistance of nickel-titanium rotary instruments. J
Endod. 2010;36(7):1200-4.
Pedulla E, Grande NM, Plotino G, Gambarini G, Rapisarda E.
Influence of continuous or reciprocating motion on cyclic
fatigue resistance of 4 different nickel-titanium rotary instru
ments. J Endod. 2013;39:258-261.
Plotino G, Costanzo A, Grande NM, Petrovic R, Testarelli L, Gam
barini G. Experimental evaluation on the influence of auto·
clave sterilization on lhe cyclic fatigue of new nickel-titanium
rotary instruments. J Endod. 2012;38:222·5.
Rodrigues RC, Lopes HP. Elias CN, Amaral G, Vieira VT, De Mar·
tin AS. Influence of different manufacturing melhods on lhe
cyclic fatigue of rotary nickel-titanium endodontic instru·
ments. J Endod. 2011;37(11):1553·7.
Siqueira Jr JF, Alves FRF, Versiani MA, Roças IN, Almeida BM, Ne·
ves MAS, et ai. correlatíve bacteriologic and mlcro-computed
tomographic analysis of mandibular molar mesial canais pre
pared by self-adjusting file, Reciproc, and Twisted File Syste
ms. J Endod. 2013;39:1044·50.
Troian CH, So MVR, Figueiredo JAP, Oliveira EPM. Deformation
and fracture of RaCe and K3 endodontic instruments accor
ding to the number of uses. lnt Endod J. 2006;39:616·25.
Viana AC, Melo MCC, Bahia MGA, Buono VTL. Relationship be
tween flexibility and physical, chemical, and geometric cha
racteristics of rotary nickel-titanium instruments. Oral Surg
Oral Med Oral Pathol Oral Radio! Endod. 2010;110(4):527-
33.
Vivacqua-Gomes N. Comparação da longevidade de sistemas ro
tatórios de niquei-titânio utilizando uma nova plataforma de
análise matemática (M.A.P.E.R.) [tese]. Campinas: Faculdade
de Odontologia, UNICAMP; 2012.
Xu X, Eng M, Zheng Y, Eng D. Comparative study of torsional and
bencling properties for six models of nickel-titanium root
canal instruments with different cross-sections. J Endod.
2006;32:372-5.
Zarrabi MH, JAvicli M, Vatanpour M, Esmaeili H. The influence
of torque and manual glide path on the defect or separation
rate ofNiTi rotary instruments in root canal therapy. Indian J
Dental Res. 2012;21:107-11.
Zhang EW, Cheung GS, Zheng YF. Influence of cross-sectional
design and climension on mechanical behavior of nickel-ti
tanium instruments under torsion and bending: a numerical
analysis. J Endod. 2010;36(8):1394-8.
Microscopia operatória
em endodontia
FRANCISCO JOSÉ DE SOUZA FILHO E PATRICK BALTIERI
CONSIDERAÇÕES GERAIS
A introdução do microscópio operatório na Endodontia modificou os protocolos
clínicos até então utilizados. É considerado uma ferramenta essencial, e seu uso é
uma condição sine qua non para que os resultados dos tratamentos sejam previsíveis
em sucesso e longevidade.
As primeiras publicações sugerindo o uso de microscópio operatório na Endo
dontia foram de Selden, 1'
2 que descreveu o papel do microscópio operatório na Endo
dontia e o uso do microscópio em canais radiculares calcificados.
Em 1992, Gary Carr publicou um importante trabalho no Journal of the Califor
nia Dental Association, em que descreveu, com muitos detalhes, as inúmeras aplica
ções do microscópio operatório na Endodontia. 3 A partir dessa publicação, houve
um importante avanço no uso da microscopia operatória na Odontologia, especial
mente nas áreas da Endodontia e da Periodontia.
No Brasil, a Faculdade de Odontologia de Piracicaba da Unicamp foi pioneira na
criação do primeiro Centro de Ensino de Microscopia Operatória (CEMO) em 1995.
A partir daí, muitos centros de ensino foram equipados para o ensino da microsco
pia operatória no País, mas ainda é preciso refletir sobre a importância do ensino da
microscopia na Endodontia.
A excepcional casuística dos resultados alcançados com o seu uso pode ser ex
plicada pelo amplo benefício do operador em visualizar claramente o campo opera
tório - condição que no passado dependia significativamente de sensibilidade tátil,
experiência, imaginação e perseverança, quesitos regidos pelo binômio iluminação/
ampliação, cuja intensidade e qualidade não podem ser comparadas aos métodos
atuais. O uso do microscópio não transformará um bom dentista em um dentista
brilhante, mas fará com que ambos se tornem melhores, pois poderão enxergar
melhor.
160 Francisco José de Souza Filho (Organizador)
Segundo John West, 4 o benefício alcançado é simples de analisar - o microscópio
permite ao clínico ver melhor, sentir melhor e pensar melhor, definindo um nível de
precisão e uma potencial excelência nos procedimentos clínicos.
Dessa forma, hoje, diante da ampla experiência clínica com o uso do micros
cópio operatório para minimizar os obstáculos impostos por iluminação deficiente,
tamanho da câmara pulpar, dificuldade de visualização do assoalho da câmara pulpar
e de istmos e reentrâncias nas paredes dos canais, dificuldade de avaliar a limpeza das
paredes do canal após a instrumentação, entre tantos outros impostos pela anatomia
dental, entende-se que o especialista na área de Endodontia necessita do microscópio
operatório não apenas como opção, mas como ferramenta indispensável no trata
mento endodôntico.
A pergunta que se faz é esta: por que continuar "enxergando com os dedos"?
O microscópio operatório (Figura 16.1) é um equipamento simples, de fácil ma
nuseio, mas que depende de um treinamento e de uma curva de aprendizado longa,
que deve ir muito além dos treinamentos feitos com microscópios de bancadas.
O uso clinico do microscópio requer o ensino prático com atendimento de pacientes. Di
ferentemente do microscópio de bancada, os pacientes se movimentam, o posicionamento
ergonômico é mais difícil e requer uma boa dose de persistência e paciência, mas todas as
dificuldades podem ser superadas com tranquilidade desde que algumas orientações sejam
seguidas:
• Entender o funcionamento de todas as partes que compõem o microscópio: estativa, bra
ços articulados, cabeça óptica, lentes binoculares, lente objetiva, iluminação e fonte de luz.
• Treinar o ajuste da distância interpupilar nas lentes binoculares.
• Treinar o ajuste do foco primário pela aproximação da lente objetiva ao foco (dente do
paciente).
• Treinar o ajuste da dioptria (correção possível nas lentes binoculares para ajustar o foco
para cada olho e corrigir as deficiências visuais).
• Empenhar-se em estabelecer o hábitode utilizar o microscópio durante a execução de
quaisquer procedimentos clínicos.
• No início, executar procedimentos mais simples e não invasivos.
• Selecionar os diversos acessórios que podem ser acoplados a esse equipamento para do
cumentação de casos clínicos, dentre eles divisor de luz; dupla íris; adaptador para câme
ra fotográfica ou câmera de vídeo; binocular carona; conjunto de espelhos e conjunto de
afastadores labiais, entre outros.
.... FIGURA 16.1
Tratamento com auxílio do microscópio
operatório.
Endodontia passo a passo 161
A grande vantagem do microscópio operatório é a possibilidade de usar diferen
tes magnificações num mesmo equipamento, o que não acontece com as lupas, que
possuem uma única magnificação em cada dispositivo. Dessa forma, o cirurgião
-dentista que deseja empregar o microscópio durante todos os procedimentos clíni
cos deve utilizar todas as magnificações disponíveis em seu equipamento. O Quadro
16.1 apresenta algumas sugestões para utilização de cada grupo de magnificação com
suas características.
Quadro 16.1 Uso das magnificações
Magnificação Apllca.ção
3x ou Sx Exame clínico, visualização da linha de sorriso, anestesia, isolamento absoluto, incisão e
rebatimento de tecidos moles, entre outras aplicações.
Maior campo visual e profundidade de imagem.
Sx Remoção de restaurações e tecido cariado, acesso coronário, preparo e obturação dos
canais radiculares, selamento coronário, instalação de retentor intrarradicular, se lamento
de perfurações, osteotomia, apicectomia, retropreparo e retro-obturação, entre outras
aplicações.
12,Sx ou19x
Magnificação em que a maioria das decisões clínicas são tomadas.
Diagnóstico de trincas, localização de canais, remoção de instrumentos fraturados, inspe
ção do ápice radicular após a apicectomia e retropreparo, entre outras aplicações.
Menor campo visual e profundidade de imagem.
Requer maior intensidade de luz.
Algumas aplicações do microscópio cirúrgico no tratamento endodôntico con
vencional são mostradas nas Figuras 16.2 a 16.9.
à FIGURA 16.2
Identificação da dentina normal e calcificação na entrada dos canais radiculares observando-se,
principalmente, a diferença de cor mais escura da dentina do assoalho da câmara pulpar em con
traste com a dentina terciária, mais clara.
162 Francisco José de Souza Filho (Organizador)
~ FIGURA 16.3
Identificação de canais extras localizados no assoalho da câmara pulpar de canais de molares.
~ FIGURA 16.4
Identificação e limpeza de tecido pulpar nas áreas de istmos e reentrâncias.
Endodontia passo a passo 163
A FIGURA 16.5
Selamento de perfurações acidentais localizadas no assoalho da câmara pulpar ou da raiz.
A FIGURA 16.6
Visualização de instrumentos fraturados no interior do canal radicular.
164 Francisco José de Souza Filho (Organizador)
à FIGURA 16.7
Tratamento endodôntico em dentes com anatomia incomum.
à FIGURA 16.8
Visualização de trincas no assoalho da câmara pulpar.
Endodontia passo a passo 165
A FIGURA 16.9
Qualificação dentinária anterior à restauração coronária após o tratamento endodôntico.
REFER~NCIAS
1. Selden HS. The role of the dental operating microscope in
endodontics. PA Dent J (Harrisb). 1986;53(3):36-7.
2. Selden HS. The role of dental operating microscopie in im
proved nonsurgical treatment of "calcified" canais. Oral Surg
Oral Med Oral Phatol. 1989;68(1):93-8.
LITERATURA RECOMENDADA
Carr GB, Murgel CA. The use of the operating microscope in en·
dodontics. Dent Clin North Am. 2010;54(2):191 ·214.
Kim S. Modern endodontic practice: instruments and techniques.
Dent Clin North Am. 2004;48(1):1·9.
3. Carr GB. Microscopes in endodontics. J Calif Dent Assoe.
1992;20(11):55-61.
4. West J. Endodontic update 2006. j Esthet Restor Dent.
2006;18(5):280-300.
Murgel CAF, Gondim Junior E, Souza Filho FJ. Microscópio cirúr·
gico: a busca da excelência na clinica odontológica. Rev Assoe
Paul Cir DenL 1997;51(1):31·5.
Tratamento de dentes
com rizogênese incompleta:
revitalização ou apicificação
ADRIANA DE JESUS SOARES, ALEXANDRE A. ZAIA, CAIO CEZAR RANDI FERRAZ,
JOSÉ FLÁVIO A. ALMEIDA E FRANCISCO JOSÉ DE SOUZA FILHO
CONSIDERAÇÕES GERAIS ACERCA DA REVITALIZAÇÃO (REVASCULARIZAÇÃO)
O sucesso do tratamento de dentes necrosados com ápice aberto tem sido um desafio
na Endodontia devido à dificuldade na obtenção da limpeza adequada e na obturação
do canal radicular. O desenvolvimento das paredes do canal é interrompido após a
necrose pulpar, e a estrutura da raiz permanece fma e frágil, o que a torna suscetível a
fraturas.
Historicamente, o tratamento de escolha para o dente imaturo com necrose pul
par consiste em sucessivas trocas de hidróxido de cálcio, as quais induzem a formação
de uma barreira de tecido duro apical. Essa abordagem costuma ser bem-sucedida,
embora possua algumas desvantagens, tais como as várias sessões de tratamento, que
possibilitam a recontaminação do canal durante o longo período de tratamento. Além
disso, as paredes do canal permanecem frágeis, o que au.menta o risco de fratura.
Recentemente, uma nova possibilidade para o tratamento, a revitalização ou re
vascularização do canal radicular, tem sido recomendada. Essa pode ser uma alter
nativa promissora para casos de dentes imaturos com necrose pulpar. No cenário de
hoje, profissionais da área médica e odontológica enfrentam uma tarefa hercúlea ao
tratar situações médicas desconcertantes como falência de órgãos ou perda de tecido.
Existem diferentes estratégias para substituí-los, porém o ideal é a substituição pelo
mesmo tecido natural a partir de células-tronco. Em odontologia, a investigação em
células-tronco ainda está atrasada em comparação com a área médica, mas, ainda
assim, muito progresso tem sido alcançado nos últimos anos. As células-tronco têm
proporcionado resultados interessantes, como a regeneração do complexo dentino
-pulpar e a regeneração periodontal, mas o resultado é que ainda há muito a ser pes
quisado antes de sua aplicação clínica tornar-se uma realidade.
Basicamente, a revitalização pulpar utiliza a capacidade inerente de proliferação
de células do tecido conjuntivo para preencher os espaços vazios no corpo. Essa pro-
Endodontia passo a passo 167
priedade, estudada pela primeira vez por Selye 1 para analisar o crescimento de tecido
no interior dos tubos vazios implantados, subcutaneamente, em ratos e coelhos, foi
confirmada pelos estudos de Benatti e colaboradores2 e Souza Filho e colaboradores3
realizados em dentes de cães com vitalidade pulpar, os quais mostraram que, após a
ampliação do forame apical com limas tipo K # 25 a # 80, ocorreu a invaginação do
tecido periodontal apical para o interior do canal radicular. Estudos posteriores mos
traram que os tecidos formados no espaço radicular de dentes imaturos com necrose
e lesão apical são tecidos semelhantes aos do ligamento periodontal.4
-
6
De acordo com Kling e colaboradores,7 esse crescimento de tecido está direta
mente relacionado com o diâmetro do forame e o comprimento do espaço intrarra
dicular. Segundo Torneck, 8 a proliferação de tecido para o interior de tubos depende
do diâmetro e do comprimento dos tubos.
Um detalhe importante observado nesses estudos foi a neoformação contínua de
um material, tal como o cemento radicular, formado em camadas (lamelas) nas pare
des do canal, proporcionando um estreitamento da sua luz e aumento da resistência
da raiz. Melcher9 ponderou sobre a capacidade reparadora das células do ligamento
periodontal. São células mesenquimais indiferenciadas (células-tronco adultas) com
capacidade de se diferenciar em certos tipos celulares, tais como cementoblastos, os
teoblastos ou fibroblastos. É possível que a neoformação de cemento no interior do
canal radicular se deva à diferenciação dessas células mesenquimais indiferenciadas
em cementoblastos, que exercem o papel biológico de recobrir a dentina radicular. 10
REVITALIZAÇÃO(REVASCULARIZAÇÃO)
O preparo do canal radicular para a revitalização consiste na instrumentação mecâni
ca, que deve ser feita, delicadamente, com limas manuais tipo K associadas a uma subs
tância química auxiliar que apresente excelente propriedade antimicrobiana e baixa
toxicidade. Utiliza-se para isso o gel de clorexidina a 2% (Endogel• - Essencial Pharma,
Itapetininga, Brasil). A irrigação do canal radicular deve ser feita abundantemente com
soro fisiológico para remover o material necrosado do interior do canal radicular.
O tratamento, que requer um treinamento clínico adequado do operador, pode
ser concluído em uma sessão, de acordo com as condições clínicas apresentadas. Se
necessário, uma segunda sessão pode ser realizada e, nesse caso, um preenchimento
do canal com hidróxido de cálcio (pó) condensado no interior do canal, com auxílio
de calcadores manuais, deve permanecer por uma ou duas semanas, com o objetivo
de ocupar o espaço do canal radicular e prevenir o crescimento bacteriano.
Sequência passo a passo para o procedimento em sessão única
• Fazer uma radiografia periapical inicial para o planejamento do caso.
• Realizar anestesia local inftltrativa.
• Preparar a cavidade de acesso coronário.
• Fazer o isolamento com dique de borracha.
• Preencher o canal com gel de clorexidina a 2% e fazer uma descontaminação pro
gressiva do canal radicular com limas tipo K da segunda série (45-80).
• Fazer uma copiosa irrigação com solução salina para remover detritos e restos ne
cróticos da polpa.
168 Francisco José de Souza Filho (Organizador)
• Renovar a substância química auxiliar.
• Fazer a odontometria (tendo como referência o comprimento aparente do dente -
CAD - obtido com a radiografia inicial).
• Instrumentar suavemente as paredes do canal radicular para remover debris e bio
ftlme bacteriano e irrigar copiosamente o canal com solução salina para remover
detritos e restos necróticos da polpa.
• Aspirar o conteúdo do canal com uma ponta Capilary Tip Ultradent (evitar pontas
de papel).
• Transpassar o forame apical cerca de 2 a 3 mm com lima tipo K # 70 ou # 80 para
estimular a formação de um coágulo.
• Se conseguir que o coágulo preencha o canal radicular, fazer uma barreira com
hidróxido de cálcio PA (pó), levado ao canal com um porta-amálgama (plástico),
e aguardar até a formação de uma barreira para amparar o MTA (agregado de tri
óxido mineral), que é o material utilizado para promover o selamento coronário.
• Preparar o MTA numa consistência fluida.
• Levar o MTA ao canal com auxílio de uma sonda lisa e colocar sobre a base de
hidróxido de cálcio.
• Secar com um jato suave e contínuo de ar para que ocorra uma rápida evaporação
do excesso de liquido.
• Completar a barreira de MTA com novas camadas até o limite de 2 mm abaixo da
junção amelocementária (para evitar o escurecimento da coroa).
• Se não conseguir a formação de coágulo no interior do canal, deixar o espaço vazio
apical de 10 a 12 mm para induzir o crescimento de tecido conjuntivo do ligamen
to periodontal a partir do coágulo apical.
A invaginação do tecido conjuntivo periapical ocorre com ou sem o preenchimento do
canal com coágulo, pois a ocupação do espaço vazio é uma capacidade inerente do teci
do conjuntivo. As células mesenquimais indiferenciadas do tecido invaginado, em contato
com a parede dentinária, sintetizam e secretam um tecido tipo cementoide que se forma
em camadas e, gradativamente, promove um fechamento do espaço e reforça a estrutura
do canal radicular.
Sequência passo a passo para o procedimento em duas sessões
Primeira sessão
Caso se opte pela realização dos procedimentos em duas sessões, é necessário fazer o
preenchimento do canal radicular com um material temporário que ocupe o espaço
vazio, apresente propriedade antimicrobiana e seja de fácil colocação e remoção do
interior do canal. O material de escolha é o hidróxido de cálcio PA. A medicação deve
permanecer no interior do canal radicular por 3 a 14 dias. O acesso coronário precisa
ser selado com material restaurador adesivo.
Endodontia passo a passo 169
Segunda sessão
• Fazer a anestesia inftltrativa.
• Remover a restauração coronária.
• Fazer o isolamento absoluto com dique de borracha.
• Irrigar copiosamente o canal radicular com soro fisiológico para remover o hidró
xido de cálcio.
• Estimular a formação do coágulo no periápice ultrapassando uma lima manual
tipo K # 70 ou # 80.
• Se conseguir o preenchimento do canal com coágulo, realizar os passos para for
mação da barreira cervical com MTA.
• Se não conseguir o preenchimento do canal com coágulo, preencher o canal com
hidróxido de cálcio PA (pó) e fazer a base para colocação do MTA no terço cervi
cal, deixando um espaço intrarradicular de 10 a 12 mm para que ocorra a invagi
nação de tecido conjuntivo do periodonto apical (Figuras 17.1a17.3).
• Colocar uma barreira de Coltosol sobre o MTA e realizar os procedimentos res
tauradores.
A B e
à FIGURA 17.1
A) Dente com necrose pulpar e ápice aberto. B) Instrumentação do canal radicular 2 mm além do
forame para provocar um coágulo na região apical. C) Formação do coágulo apical e blindagem
coronária com MTA e Coltosol e resina composta.
. -..
A B
~ FIGURA 17.2
A) Invaginação de tecido conjuntivo do
ligamento periodontal para o espaço
vazio deixado no interior do canal ra
dicular. B) Neoformação de material
cementoide (tipo cemento) nas paredes
do canal radicular.
170 Francisco José de Souza Filho (Organizador)
... FIGURA 17.3
A) Dente com rizogênese
incompleta após limpeza e
descontaminação do canal
radicular. B) Canal p reen
chido pelo tecido conjuntivo
oriundo do ligamento perio
dontal apical.
As Figuras 17.4 e 17.5 mostram ilustrações histopatológicas de revascularização,
e as Figuras 17 .6 e 17. 7 mostram casos clínicos de revascularização.
FIGURA 17.4 111>
A) Corte histológico de dentes
de cão, mostrando o tecido con
juntivo periodontal no interior,
do canal radicu lar. B) Maior au
mento da figura anterior mos
trando a deposição de cemento
celular nas paredes do canal
radicular.
Fonte: Marion .11
'
• •
A
... FIGURA 17.5
A) Corte histológico da região apical de dente de cão, mos
t rando a invaginação de tecido conjuntivo do periodonto a pi
cai para o interior do canal radicular (revitalização do canal) .
Fonte: Marion. 11
FIGURA 17.6 ~
A) Radiografia após a finalização dos
procedimentos de revascularização
em dente com necrose e lesão peria
pical em que se observa a barreira de
MTA e a instalação de pino de fibra
de vidro - procedimentos realizados
em sessão única. B) Radiografia de
controle após oito meses, mostran
do a diminuição da área radiolúcida
periapical.
Endodontia passo a passo 171
~ FIGURA 17.7
A) Revascularização do dente 21.
B) Controle após um ano.
CONSIDERAÇÕES GERAIS ACERCA DA APICIFICAÇÃO
A apicificação é um tratamento para dentes com ápice aberto, que visa ao selamento
do forame apical por meio da neoformação de um tecido mineralizado induzido pela
ação de uma medicação à base de hidróxido de cálcio usada para preencher o canal
radicular. A abordagem tradicional para o tratamento de apicificação tem sido ques
tionada. O tratamento exige inúmeras trocas de curativo e não atinge os resultados
clínicos desejados porque as raízes permanecem finas e curtas e costumam apresen
tar risco de fratura.
Atualmente, a apicificação está mais indicada para dentes que sofreram trauma
tismo dental severo, do tipo intrusão ou avulsão, e apresentam risco de reabsorções
radiculares por substituição. Nesses dentes, a manutenção de uma obturação do ca
nal com material obturador à base de hidróxido de cálcio favorece o processo de
reparação. O protocolo de obturação investigado por Soares12 mostrou-se eficaz no
tratamento de dentes traumatizados, tanto naqueles com formação radicular comple
ta quanto nos casos de rizogênese incompleta.
Os procedimentosde preparo e descontaminação do canal radicular são os mes
mos utilizados para os procedimentos de revascularização e consistem na instrumen-
172 Francisco José de Souza Filho (Organizador)
tação suave do canal radicular com instrumentos manuais # 70 ou # 80, empregando
como substância química auxiliar o gel de clorexidina a 2% e como agente de irriga
ção, o soro fisiológico.
O canal radicular deve ser obturado com material obturador provisório que con
siste em uma pasta à base de gel de clorexidina, óxido de zinco (pó) e hidróxido de
cálcio PA (pó). A pasta deve ser vigorosamente espatulada até que se consiga uma
consistência firme, para ser introduzida no canal radicular e condensada com calca
dores manuais até seu completo preenchimento.
O acesso coronário deve ser restaurado, imediatamente, com resina composta,
após o selamento do canal radicular. Essa obturação pode ser mantida definitivamen
te no canal radicular.
O controle deve ser feito mediante exame clínico e radiográfico em 6 e 12 meses,
período suficiente para a formação de uma base cementária na região apical, forman
do um selamento biológico.
A vantagem da técnica é que o tratamento pode ser realizado em sessão única,
sem a clássica troca de curativos normalmente utilizada no tratamento de apicificação.
A desvantagem em relação à revascularização é que as paredes do canal radicular
continuarão fmas e frágeis.
PROCEDIMENTO DE APICIFICAÇÃO EM SESSÃO ÚNICA*
Material obturador temporário
A pasta obturadora foi desenvolvida e testada na pesquisa de Soares13 em dentes trau
matizados submetidos a um protocolo de medicação intracanal, sem trocas periódi
cas. Após a instrumentação e descontaminação, os canais radiculares foram preen
chidos com a pasta composta pela associação de hidróxido de cálcio, óxido de zinco
e gel de clorexidina a 2%. A pasta foi preparada em uma consistência adequada para
ser compactada no interior do canal. O acesso coronário foi restaurado com resina
composta, e os pacientes foram acompanhados pelo período de um ano com resul
tados importantes, retardando e até impedindo o desenvolvimento de processos de
reabsorção radicular.
Pasta obturadora provisória à base de hidróxido de cálcio (PA), óxido de
zinco (pó) e clorexidina (gel)
Componentes
• Hidróxido de cálcio (pó) - 1 parte
• Óxido de zinco (pó) - 2 partes
• Gel de clorexidina a 2% (o suficiente para conseguir uma pasta com consistência
firme)
Preparação
• Misturar os componentes vigorosamente numa placa de vidro até obter uma con
sistência firme (semelhante ao Coltosol).
* Técnica proposta por Souza Filho e Soares.
Endodontia passo a passo 173
Indicações para apicificação
• Presença de reabsorções radiculares após traumatismo dental em dentes com ápice
incompleto.
• Dentes reimplantados após avulsão traumática ou intrusão.
Sequência clínica para apicificação
• Anestesia.
• Abertura de acesso coronário.
• Isolamento absoluto.
• Descontaminação inicial com gel de clorexidina a 2%.
• Instrumentação suave das paredes do canal para remover detritos e restos pulpares.
• Irrigação vigorosa com soro fisiológico.
• Aspiração do conteúdo do canal com CapilaryTip (Ultradent).
• Inserção no canal radicular do material obturador temporário, em pequenas por
ções, com o auxílio de condensadores manuais, com o diâmetro apropriado de
acordo com a amplitude do canal.
• Compressão do material no canal radicular até o completo selamento.
• Verificação da qualidade da vedação do canal com radiografia periapical.
• Selamento da porção cervical do canal (2 a 3 mm abaixo da junção amelocemen-
tária) com Coltosol.
• Restauração com resina composta do acesso coronário.
• Controle clínico nas primeiras 48 horas.
• Acompanhamento clínico e radiográfico depois de 30, 90, 180 e 360 dias.
Durante o período de controle, se não houver reabsorção do material obturador temporá
rio, não é necessária a troca da obturação por materiais definitivos.
A Figura 17.8 mostra ilustrações histopatológicas de apicificação, e a Figura 17.9
traz um caso clínico de apicificação.
<Ili FIGURA 17.8
A) Corte histológico de periápice de dente de cão,
mostrando a formação de tecido mineralizado no
ápice radicular após o período experimental de seis
meses. B) Maior aumento da figura anterior, mos
trando o selamento apical do canal radicular com
cernente neoformado.
Fonte: Marion.
11
174 Francisco José de Souza Filho (Organizador)
FIGURA 17.9 ....
A) Radiografia mostrando o dente 22 com
ápice aberto e lesão periapical. B) Radiogra
fia final após a obturação do canal radicular
com a pasta SFS.
REFERÊNCIAS
1. Selye. H. Diaphragms for analysing the development of con
nective tissue. Nature. 1959;184:701-3.
2. Benatti O, Valdrighi L, Biral RR, Pupo J. A histological study
of the effect of diameter enlargement of the apical portion of
the root canal. J Endod. 1985;11 (10):428-34.
3. Souza Filho FJ, Benatti 0, Almeida OP. Influence of the en
largement ofthe apical foramen in periapical repair of conta
minated teeth of dogs. Oral Surg Oral Med Oral Pathol. 1987;
64( 4): 480-4.
4. Huang GT. Pulp and dentin tissue engineering and regenera
tion: current progress. Regen Med. 2009;4(5):697-707.
5. Huang GTJ, Sonoyama W, Liu Y, Liu H, Wang S, Shi S. The hi
dden treasure in apical papilla: the potential role in pulp/dentin
regeneration and bioroot engineering. J Endod. 2008;34:645-51.
6. Wang X, Thibodeau B, Trope M, Lin LM, Huang GT. Histolo
gic characterization of regenerated tissues in canal space after
the revitalization/revascularization procedure of immature
dog teeth with apical periodontitis. J Endod. 2010;36( 1 ):56-63.
7. Kling M, Cvek M, Mejare 1. Rate and predictability of pulp
revascularization in therapeutically reimplanted permanent
incisors. Endod Dent Traumatol. 1986:2;83- 9.
8. Torneck CD. Reaction of rat connective tissue to polyethylene
tube implants. Oral Surg. 1966;21:379-87.
LEITURAS RECOMENDADAS
Benatti O, Valdrighi L. Reparação apical e periapical pós tratamen
to endodôntico decorrente da ampliação do forame apical
(estudo histopatológico em dentes de cães). Rev Ass Paul Ci
rurg Dent. 1984;38(6):431-7.
Gomes BP, Montagner F, Berber VB, Zaia AA, Ferraz CC, de Al
meida JF, et al. Antimicrobial action of intracanal medica
ments on the externa! root surface. J Dent. 2009;37(1):76-81.
Ostby Nygaard B. The role of the bood clot in endodontic therapy.
Acta Odont Scand 1961;19(6):323-53.
Soares AJ, Lins FF, Nagata JY, Gomes BP, Zaia AA, Ferraz CC, et
al Pulp revascularization after root canal descontamination
with calcium hydroxide and 2% chlorhexidine gel. J Endod.
2013;39(3 ):417-20.
Soares, AJ. Análise cínica e radiográfica de dentes traumatizados
submetidos a um protocolo de medicação intracanal com a
associação hidróxido de cálcio, gel de clorexidina a 2% e óxi
do de zinco, sem trocas periódicas (tese]. Piracicaba: Faculda
de de Odontologia de Piracicaba - Unicamp; 2007.
Souza Filho FJ, Benatti O, de Almeida OP. Influence of the en
largement of the apical foramen in periapical repair of con-
9. Melcher AH. On the repair potential of periodontal tissues. J
Periodontol. 1976;47(5):256-60.
10. Lovelace TW. Henry MA, Hargreaves KM, Diogenes A. Eva
luation of the delivery of mesenchymal stem cells into the
root canal space of necrotic immature teeth after clinica! rege
nerative endodontic procedure. J Endod. 2011;37(2):133-8.
11. Marion JJC. Efeitos da ampliação do forame apical no pro·
cedirnento de revitalização do canal radicular de cães com
ápices completamente formados (histológico em dentes com
polpa vital e com necrose pulpar. [lesei. Campinas: Uruversi
dade Estadual de Campinas; 2013.
12. Soares AJ, Lima TFR, Nagata JY, Gomes BPF, Zaia AA, Souza
-Filho FJ. Intracanal dressing paste composed by calcium
hydroxide, chlorhexidine and zinc oxide for the treatment
of irnmature and mature traumatized teeth.Braz J Oral Sei.
2014; 13(1):6-11.
13. Soares, AJ. Análise cínica e radiográfica de dentes traumati
zados submetidos a um protocolo de medicação intracanal
com a associação hidróxido de cálcio, gel de clorexidina a 2%
e óxido de zinco, sem trocas periódicas [tese]. Piracicaba: Fa
culdade de Odontologia de Piracicaba, Unicamp; 2007.
tamined teeth of dogs. Oral Surg Oral Med Oral Pathol
1987;64(4):480· 4.
Souza Filho FJ, Soares AJ, Vianna ME, Zaia AA, Ferraz CC, Go
mes BP. Antimicrobial effect and pH of chlorhexidine gel and
calcium bydroxide alone and associated with other materiais.
Braz Dent J. 2008;19( 1 ):28-33.
Souza Filho FJ, Valdrighi L, Bernardinelli N. Influência do nível da
obturação e do alargamento do forame apical no processo de
reparo tecidual. Rev Ass Paul CirurgDent 1996;50(2):175-7.
Souza Filho FJ, Soares AJ, Vianna ME, Zaia AA, Ferraz CC, Go
mes BP. Antimicrobial effect and pH of chlorhexidine gel and
calcium bydroxide alone and associated with other materiais.
Braz Dent J. 2008;19(1):28·33.
Soares AJ, Gomes BP. Zaia AA, Ferraz CC. de Souza Filho FJ. Rela
tionship between clirucal-radiographic evaluation and outcome
of teeth replantation. Dent Traumatol. 2008;24(2):183-8.
Veríssimo RD, Zílio DM, Ferraz CC, Zaia AA, Souza Filho FJ,
Gomes BP. Concetration of hydrogen ions in severa! calei um
hydrohide pastes over differents periods of time. Braz Dent J.
2009;20(5):382-8.
• •
Avaliacão dos resultados ..
dos tratamentos de
canais radiculares
LUIZ VALDRIGHI E PATRICK BALTIERI
CONSIDERAÇÕES GERAIS
Em qualquer setor da saúde, o controle dos resultados clínicos é um valioso instrumen
to de avaliação das estratégias utilizadas, além de permitir o arquivamento de dados
fundamentais para a evolução de diversos níveis de estudos. O trabalho de avaliar e
tabular resultados clínicos segue diretrizes estabelecidas de acordo com as áreas especí
ficas - em Endodontia os critérios normativos para a detecção do sucesso e do insucesso
no tratamento são baseados em aspectos clínicos, radiográficos e histológicos.
Em geral, pressupõe-se que as decisões clinicas sejam fundamentadas no rigor do
processo diagnóstico e na prática de procedimentos embasados por critérios técnicos
claramente estabelecidos. Nos tratamentos de canais radiculares, vale salientar que o
cumprimento de tais premissas permite assegurar uma previsibilidade de sucesso em
torno de 95%. Por outro lado, o modelo convencional de avaliação de sucesso de qual
quer tratamento tem como referência o clássico "ausência de sinais e sintomas': Dessa
forma, é aceito que, em Endodontia, o sucesso dos tratamentos tem como parâmetro a
ausência de doença nas regiões perirradicular e periapical, conforto e normalidade fun
cional do dente tratado e avaliação clínica e radiográfica com controle mínimo de um
ano. O processo de avaliação dessas condições é chamado de proservação* - a proserva
ção clínica e radiográfica dos tratamentos realizados faz parte da rotina da Endodontia.
FOLLOW-UP
O follow-up deve ser realizado por exame clínico-radiográfico em média um ano
após a realização do tratamento. O modelo de avaliação utiliza as imagens radiográfi
cas iniciais (de diagnóstico) e as imagens da conclusão do tratamento - essas são ana-
• O termo proservação tem sido empregado em linguagem médica com o sentido de seguimento, acompanhamento.
Corresponde à expressão inglesa follcw-up.
176 Francisco José de Souza Filho (Organizador)
lisadas comparativamente com as radiografias obtidas no momento da proservação.
Vale enfatizar que as radiografias devem ser tomadas com o mesmo enquadramento
e a mesma angulagem e processadas corretamente.
Alguns fatores externos ao tratamento endodôntico em si, mas que podem in
fluenciar ou interferir no resultado final dos tratamentos, devem ser cuidadosamente
avaliados - esses fatores podem estar associados a uma significativa incidência de
insucessos clínicos. Destacam-se, entre outros, os traumatismos oclusais derivados
de prematuridades associadas a episódios de bruxismo. As consequências incluem
microfraturas, mobilidades, etc.
Cabe ainda mencionar que a queixa de dor no dente ou na área do dente pode
estar associada a outras fontes próximas ou à distância. Vale enfatizar que a cavidade
oral, bem como todos os seus componentes, apresentam uma complexa rede neural e
que as diversas aferências trigeminais produzem dores referidas em todo o seu terri
tório. O profissional deve estar atento e apto a realizar testes diferenciais para exclu
são ou inclusão das fontes pulpares - na rotina clínica, o exemplo mais frequente são
as sinusopatias que costumam referir sintomatologia para os dentes.
EXAME RADIOGRÁFICO
As lesões periapicais costumam ser os achados mais frequentes no follow-up - as
radiografias convencionais, em função de alguns fatores, como maior facilidade de
aquisição e baixo custo, têm sido consideradas suficientes para as necessidades dos
profissionais da prática endodôntica. Entretanto, os modernos estudos de imageo
logia convergem sistematicamente para o uso das imagens digitais, claramente um
método mais apurado para definir reparos ou presença de lesões periapicais.
É preciso considerar que a tecnologia digital é uma nova fronteira alcançada pela
radiologia odontológica. Método seguro, de alta eficácia e de fácil execução, o sistema
oferece uma gama de benefícios, como a diminuição da dose de exposição, a elimina
ção do processamento e a possibilidade de manipulação das imagens. A correção do
contraste e brilho e a verificação de densidade óptica são alternativas viáveis com a
aplicação de softwares específicos para o tratamento de imagens. O uso de subtração
radiográfica digital possibilita o estudo e acompanhamento da evolução das lesões
ósseas a partir de imagens digitais obtidas de forma padronizada em diferentes pe
ríodos de tempo.
Vantagens da radiografia digital
• Possibilidade de manipulação da imagem para que as informações nela contidas tomem
-se mais facilmente detectáveis.
• Facilidade para mensurações e cálculos a respeito de dimensões e variações de densida
de.
• Eliminação da necessidade de câmara escura e do processamento químico, a segunda
maior causa de repetição de radiografias convencionais.
• Redução de até 80% da dose de radiação utilizada para obtenção da imagem.
• Agilização dos processos de arquivamento, comparações, obtenção de cópias e transmis
são da imagem à distância.
• A imagem aparece instantaneamente na tela do computador.
Endodontia passo a passo 177
Além dessas considerações, as referências para julgar o sucesso do tratamento
baseadas na interpretação do exame radiográfico devem contemplar as seguintes ob
servações:
• Continuidade da lâmina dura alveolar em toda a extensão do contorno radicular.
• Espessura uniforme da imagem radiolúcida do espaço do ligamento periodontal
menor que 1 mm.
• Desaparecimento da imagem radiolúcida de lesões periapicais crônicas preexisten
tes ao tratamento, substituída pela reposição da arquitetura do trabeculado ósseo
(radiopaco ).
• Ausência de reabsorção óssea e/ou radicular.
Em complementação ao exame radiográfico, deve-se, clinicamente, atentar para
alguns dados que podem ser considerados como referências indicativas de insucesso
dos tratamentos, a saber:
• Presença de dor e/ou edema.
• Continuidade ou aparecimento de fístula.
• Perda de função: o paciente não usa mais o dente na mastigação.
• Imagem de radiolucência periapical igual ou maior do que a imagem prévia.
• Aparecimento de radiolucência periapical pós-tratamento endodôntico.
TOMOGRAFIA COMPUTADORIZADA
No contexto da expectativa clínico-científica da Endodontia, cada vez mais centrada
no rigor da precisão, vale mencionar o frequente aperfeiçoamento do processo das
imagens - a tecnologia associada ao aprofundamento do conhecimento científico
disponibilizou para o uso odontológico as imagens tridimensionais.
A tomografiacomputadorizada (TC) oferece imagens com alto padrão de defi
nição, sem sobreposições, e elimina as distorções geométricas e volumétricas dos re
paros anatômicos investigados. Contudo, aspectos como o deslocamento do paciente
para centros radiológicos que oferecem os serviços e sobretudo fatores econômicos
limitam de maneira significativa a sua utilização na rotina da clínica. Dessa forma, a
sua indicação pode ser considerada mais seletiva, por vezes diante de casos excepcio
nalmente complexos, relacionada às tomadas de decisão diagnóstica ou terapêutica.
Observa-se que essa modalidade de imagem, em função dos vários fatores já mencio
nados, tem sido mais usada em estudos do que no dia-a-dia clínico.
CAUSAS DO INSUCESSO
Alguns aspectos importantes devem ser considerados ao analisar os percentuais de
sucesso ou insucesso das avaliações relatadas na literatura, atinando para a época, as
técnicas empregadas, os critérios de avaliação e o nível de capacitação do operador, a
fim de dar validade a parâmetros comparativos. Nesse contexto, deve ser ressaltado
que, com o passar do tempo, foi se consolidando uma inquestionável correlação entre
insucesso e falta de qualidade dos tratamentos de canais radiculares.
178 Francisco José de Souza Filho (Organizador)
Vale dizer que a principal causa dos insucessos dos tratamentos endodônticos
não são as bactérias - como equivocadamente e com frequência é mencionado na
introdução dos trabalhos de interesse microbiológico -, mas sim os tratamentos de
baixa qualidade. Assim, por dedução lógica, a principal causa dos insucessos dos tra
tamentos de canais radiculares deve ser atribuída ao responsável por sua execução.
LITERATURA RECOMENDADA
American Association of Endodontics. Quality assurance guideli
nes. Chicago: AAE; 1987. p.l-27.
Bender IB, Seltzer S, SaltinolfW. Endodontic success-a reappraisal
of cri teria. Oral Surg. l %6;22:780-92.
Grossman LI, Chephard LI, Pearson LA. Roentgenologic and cli
nica! evaluatíon of endodotícally treated teeth. Oral Surg.
1964;17:368-74.
Gutmann JL. Clinica!, roentgenographic and histologic perspectí
ves on success and failure in endodontics. Dental Clin North
Am. 1992;36:379-92.
Heling l, Gorfil C, Slutz.ky H, Kopolovic K, Zalkind M, Slutzky
· Goldberg I. Endodontic failure caused by inadequate resto
rative procedures: Revíew and treatment recommendations. J
Prosth Dent. 2002;87:674-8.
Hommez GM, Coppens CR, De Moor RJ. Int Endod J. 2002;35:680-9.
Imura N, Pinheiro ET, Gomes BP, Zaia AA, Ferraz CC, Souza Fi
lho FJ. The Outcome of endodontíc treatment: a retrospec
tíve study of 2000 cases performed by a specialist. J Endod.
2007;33(11):1278-82.
Khayat A, Lee SJ, Torabinejad M. Human saliva penetration
of coronally unsealed obturated root canal. J Endod.
l 993;19(9):458-61.
Madison S, Wilcox LS. An evaluation of coronal microleakage in
endodontica!ly treated teeth. Part III. ln vívo study. J Endod.
1988;14:455-8.
Magura ME, Kafrawy HA, Brown CE Jr, Newton CW. Saliva coro
nal microleakage in obturated root canais. A in vítro study. J
Endod. 1991;17:324-31.
Ray HA. Trope M Periapical status of endodontically treated teeth
in relation to the root filling and the coronal restoration. lnt
Endod ). 1995;28:12-8.
Riccuci D, Grondhal K, Bergenholtz G. Periapical status of root
-filled teeth exposed to the oral environment by loss of resto
ration or caries. Oral Surg. 2000;90:354-59.
Savaví KE, Dowden WE, Langeland K. influence of delayed coro
nal permanent restoration on endodontic prognosis. Endod
Dent Traumatol 1987;3:187-91.
Stewart GG. Evaluation of endodontic results. D Clin N Amer.
1967:711-22.
Swenson K, Madison, S. An evaluation of coronal microleakage in
endodondic:ally treated teeth. Part 1. Time periods. J Endod.
l 987;13:56-9.
Torabinejad M, Ung B, Kettering JD. ln vítro bacterial penetration
of coronally unsealed endodontically treated teeth. J Endod.
1990;16:566-9.
Tronstad L, Asbjornsen K, Doving L, Pedersen !, Eriksen HM.
lnfluence of coronal restorations on the peripical health
of endodontically treated teeth. Endod Dent Traumatol.
2000;16:218-21.