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AULA 2 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
EPIDEMIOLOGIA 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Profª Ivana Maria Saes Busato 
 
 
 
 
2 
INTRODUÇÃO 
Fundamentos da epidemiologia 
O conceito da epidemiologia foi construído historicamente, por conta do 
crescimento do pensamento epidemiológico, da evolução das ciências e do 
conhecimento do processo saúde-doença. A epidemiologia está presente em 
qualquer atividade profissional da área de saúde. 
A investigação causal de agravo, doença ou evento de saúde implica o 
levantamento de informações, situações e dados, números que devem ser 
analisados por meio da ciência da epidemiologia, com base no raciocínio 
epidemiológico, que deve estar presente em todo processo de trabalho em saúde. 
TEMA 1 – CONCEITO DE EPIDEMIOLOGIA 
Segundo Almeida Filho e Rouquayrol (2013), o termo epidemia aparece 
nos textos hipocráticos. Etimologicamente, a palavra é formada pela junção do 
prefixo epí (“em cima de; sobre”) com o radical demos (“povo”). O sufixo logos, do 
grego, significa “palavra, discurso, estudo”. Ele é geralmente empregado para 
designar disciplinas científicas nas línguas ocidentais modernas. Assim, a palavra 
epidemiologia significa etimologicamente “ciência do que ocorre (se abate) sobre 
o povo” (Almeida Filho; Rouquayrol, 2013). 
Last (2001, p. 87, tradução nossa) conceitua a epidemiologia como “o 
estudo da distribuição e dos determinantes de estados ou eventos relacionados à 
saúde em populações específicas, e sua aplicação na prevenção e controle dos 
problemas de saúde”. 
Almeida Filho e Rouquayrol (2013, p. 1) fazem uma conceituação clássica 
da epidemiologia, apontando todos os aspectos que compõem a sua dimensão 
como ciência: “epidemiologia estuda o processo saúde-enfermidade na 
sociedade, analisando a distribuição populacional e fatores determinantes do risco 
de doenças, agravos e eventos associados à saúde”. “A Clínica, a Estatística e 
Medicina Social compõem os elementos conceituais, metodológicos e ideológicos, 
da epidemiologia” (Busato, 2016). 
A microbiologia teve grande participação na epidemiologia, contribuindo 
com a identificação dos agentes etiológicos e com medidas de prevenção e 
 
 
3 
tratamento das doenças infectocontagiosas, possibilitando com isso a diminuição 
expressiva da morbimortalidade, nos séculos XIX e XX (Gomes, 2015). 
A primeira escola de saúde pública nos Estados Unidos da América, 
baseada no relatório de Abraham Flexner, de 1910, o Medical Education in the 
United States and Canada, apontou a necessidade de mudanças no ensino 
superior para a medicina. Esse documento foi inovador, com importância 
reconhecida até os dias atuais. O modelo de “escola de saúde pública” foi 
difundido para todo o mundo por meio da Fundação Rockefeller, novamente com 
papel importante no avanço da epidemiologia, tendo sido responsável pela 
capacitação dos primeiros epidemiologistas brasileiros. 
A epidemiologia tentava ampliar os seus conhecimentos para além das 
doenças infectocontagiosas quando o livro The Principles of Epidemiology, do final 
dos anos 1920, focou exclusivamente as enfermidades infecciosas. A crise 
econômica mundial de 1929 trouxe a necessidade de uma certa abordagem na 
saúde, cenário em que se redescobriu o caráter coletivo da epidemiologia para a 
organização da saúde. 
O estabelecimento dos estados de bem-estar-social na Europa Ocidental, 
em especial Inglaterra e França, na organização dos serviços de saúde, juntou a 
assistência à saúde com as políticas sociais, trazendo para a epidemiologia a 
necessidade de inovar nas investigações sociais. 
Os períodos das guerras mundiais trouxeram grande avanço na realização 
de inquéritos epidemiológicos para a avaliação da saúde física e mental das 
tropas, especialmente enfermidades não infecciosas, fazendo surgir novas 
abordagens de estudos na população. Porém, em todas as guerras aconteceram 
propagações de epidemias. 
1.1 Elementos conceituais: clínica, estatística e medicina social 
A clínica contribui com o conhecimento sobre descrição, diagnóstico e 
tratamento de doenças, eventos e agravos em saúde que acometem as pessoas 
e as comunidades, tendo como alicerce o avanço nas pesquisas e o 
desenvolvimento da tecnologia médica. 
Os séculos XVII e XVIII, especialmente na França e na Inglaterra, 
contribuíram para o desenvolvimento da epidemiologia com a prática profissional, 
com base em observação e descrição minuciosas de sinais e sintomas de 
 
 
4 
pacientes, resultando em uma terapêutica individual, o que contribuiu para o 
progresso da clínica médica. 
Um dos fundadores dessa clínica moderna foi Thomas Sydenham (1624-
1689), médico e liderança política em Londres, que contribuiu como precursor da 
ciência epidemiológica, a partir do conceito de história natural das enfermidades. 
Na década de 1980, despontou a epidemiologia clínica, que utilizava a 
metodologia epidemiológica com ênfase na identificação de casos e na avaliação 
da eficácia terapêutica, tendo difundido a medicina baseada em evidências, 
reforçando o uso da clínica no estudo epidemiológico. 
O império romano contribuiu para a epidemiologia na realização de registro 
periódico de nascimentos e óbitos, além de censos populacionais periódicos, 
trazendo a estatística para o uso epidemiológico. 
No século XVII, nascia a estatística, uma disciplina científica de cunho 
mercantil e político. Com foco em probabilidades, buscava dimensionar as 
doenças e seus efeitos. A aritmética política, de William Petty, (1623-1687), e os 
levantamentos estatísticos de John Graunt (1620-1674), são considerados os 
precursores da demografia, estatística e epidemiologia. 
Willian Farr (1807-1883) criou o registro anual de morbidade e mortalidade 
para Inglaterra e País de Gales, promovendo a institucionalização dos sistemas 
de informação em saúde. Outro importante nome na história da área foi Foucault 
(1926-1984), pensador francês, que realizou os primeiros registros de contagem 
de enfermos (ovinos), visando o controle de uma enfermidade (epizootia), em 
estudos veterinários, nos primórdios da medicina científica moderna. 
A introdução dos computadores provocou a matematização da 
epidemiologia, promovendo a sua expansão na capacidade de investigação, o que 
possibilitou o desenvolvimento de estudos multicêntricos, com grande número de 
variáveis e sujeitos de pesquisa, por meio da quantificação. 
Destaque para os estudos de avaliação da eficácia dos tratamentos clínicos 
utilizando a estatística de Pierre-Charles Alexandre Louis (1787-1872), que 
integraram a clínica moderna e a estatística. 
A medicina social foi impulsionada no final do século XVIII, com a ascensão 
do poder político da burguesia emergente e o aumento da urbanização, partindo 
da necessidade de iniciativas de intervenção do Estado na saúde das populações, 
de modo a conter as doenças e manter a ordem pública. 
 
 
5 
Com base em conceitos de higiene, a medicina social trouxe um conjunto 
de normas e preceitos que devem ser aplicados em âmbito individual, e ainda 
outros referentes à saúde coletiva, por meio de leis e regulamentos. 
Devemos citar ainda Louis Villermé (1782-1863) e sua pesquisa sobre o 
impacto da pobreza e das condições de trabalho na saúde das pessoas. O francês 
Guérin, em 1838, cunhou o termo medicina social, usado para indicar modos de 
abordar a questão da saúde coletivamente. 
As pesquisas epidemiológicas relacionam os condicionantes e os 
determinantes sociais no processo saúde-doença, impulsionando o estudo de 
doenças crônicas não transmissíveis, como diabetes, hipertensão e, em especial, 
câncer, considerando a transição demográfica e epidemiológica. 
TEMA 2 – OBSERVAÇÕES E REGISTROS DE INDIVÍDUOS/POPULAÇÕES 
Estudos epidemiológicos observam e registram pessoas e populações por 
meio de diversas características ou atributos individuais, informaçõesque são de 
interesse à saúde para o conhecimento das pessoas, seja individualmente ou 
considerando grupos populacionais. Agora, vamos estudar algumas 
características que se destacam na epidemiologia. 
Os modelos explicativos do processo saúde-doença sempre trabalharam 
com características específicas ou atributos individuais essenciais para a 
observação e o registro de indivíduos e populações, buscando a causa das 
doenças e/ou agravos. 
Estudos epidemiológicos estratificam as pessoas em gênero e sexo: 
• Gênero é um construto social que determina como homens e mulheres se 
diferenciam na sociedade, na dimensão social. 
• Sexo é um marcador biológico de aspectos anatômicos e fisiológicos, 
masculino e feminino, na dimensão biológica. 
Ambos são importantes para estudos de grupos populacionais e do 
conhecimento das pessoas, com influência no processo saúde-doença. 
A etnia ou a raça é uma outra característica importante para a estratificação 
biológica e social, com implicações profundas na saúde. A idade é um dos 
principais determinantes do estado de saúde e do perfil de morbimortalidade em 
uma população, pois situa os sujeitos de pesquisa nos ciclos de vida que 
 
 
6 
impactam o processo saúde-doença. Os eventos de saúde são distribuídos 
diferentemente nos ciclos de vida. 
A migração é um processo demográfico e social de grande relevância para 
o estado de saúde de indivíduos e populações. Estudos de migrantes têm como 
objetivo determinar o risco de adoecimento entre os migrantes que são oriundos 
de uma região, considerando se há alteração (aumento ou diminuição de risco) 
após a migração para outra região. 
A classe social condiciona o acesso aos recursos produtivos e molda as 
experiências de vida nas esferas de produção e consumo (Barata et al., 2013). 
As variáveis socioeconômicas, isoladas ou combinadas em indicadores, 
classificam as pessoas ou grupos populacionais em posição socioeconômica. As 
variáveis utilizadas podem ser: renda, ocupação, escolaridade e acesso a 
eletrodomésticos. A classe social e a posição socioeconômica apresentam uma 
associação importante com o nível de saúde, de modo que são de interesse 
epidemiológico. 
O estudo dos comportamentos individuais e do estilo de vida é fundamental 
para a compreensão do processo saúde-doença, na formulação de políticas de 
promoção da saúde. Alguns comportamentos são bastante estudados: consumo 
de álcool, drogas, hábito de fumar, alimentação saudável e atividade física. 
O modelo explicativo do processo saúde-doença da determinação social 
da saúde abrange as principais características ou atributos a serem estudados na 
epidemiologia. 
TEMA 3 – DISTRIBUIÇÃO DAS DOENÇAS, AGRAVOS E EVENTOS NO ESPAÇO 
E NO TEMPO 
A análise espacial em saúde é o estudo quantitativo da distribuição de 
doenças ou serviços de saúde. Deve ser usada para identificar padrões espaciais 
de morbidade e mortalidade, com fatores associados a esses padrões. Objetiva 
mostrar os processos de difusão de doenças, eventos ou agravos, podendo gerar 
conhecimento sobre a etiologia, buscando garantir predição e controle. A análise 
espacial é um instrumento importante na avaliação do impacto de processos e 
estruturas sociais na determinação da saúde. 
A distribuição das doenças no espaço objetiva contextualizar 
territorialmente a ocorrência de doenças, agravos ou eventos de interesse da 
saúde, visando a formulação de hipóteses etiológicas com a associação de fatores 
 
 
7 
ambientais, urbanização, condições e avaliação em diferentes períodos 
temporais, entre outros fatores. 
Para o conceito de espaço, é preciso considerar as características 
geográficas, naturais e sociais do lugar. Importante ainda observar a sociedade 
em movimento, construída nos processos históricos. 
3.1 Geoprocessamento 
Uma das primeiras análises geográficas de uma doença para o estudo 
etiológico foi realizada por John Snow, em 1854, em Londres, no mapeamento de 
óbitos por cólera para a análise epidemiológica, tema já estudado na história da 
epidemiologia. 
Uma ferramenta importante na análise de distribuição das doenças no 
espaço e no tempo é o uso do geoprocessamento. Conforme descrevem Almeida 
Filho e Barreto (2012, p. 146), o geoprocessamento é um “conjunto de técnicas 
computacionais de coleta, tratamento, manipulação e apresentação de dados 
espaciais, visando organizar informações espacialmente referidas num território”. 
O geoprocessamento aplicado à epidemiologia permite o mapeamento de 
doenças, agravos ou eventos de interesse da saúde, na avaliação de riscos, no 
planejamento de ações de saúde e na avaliação de redes de atenção. Conta com 
a participação de diversas disciplinas, como cartografia, computação, geografia e 
estatística. 
O geoprocessamento é realizado com a ajuda de tecnologias 
computacionais para o tratamento e a manipulação de dados geográficos, como 
o sensoriamento remoto, a digitalização de dados, a automação das tarefas 
cartográficas, a utilização de Sistemas de Posicionamento Global (GPS) e os 
Sistemas de Informação Geográfica (SIG ou GIS, de Geographic Information 
System) (Brasil, 2007, p. 15). 
3.2 Distribuição no tempo 
A distribuição das doenças no tempo pode fornecer várias informações 
para compreensão, previsão, busca etiológica, prevenção de doenças e avaliação 
do impacto de intervenções em saúde. Conforme apontam Almeida Filho e Barreto 
(2012, p. 133), as informações temporais são apresentadas por três diferentes 
períodos temporais, ou tempo calendário. 
 
 
8 
O primeiro tipo é caracterizado por períodos relativamente curtos, como 
horas, dias, meses e anos, como observamos nas situações epidêmicas. O 
segundo é descrito por longos períodos, chamados de tendência secular ou 
histórica, que mostra variações nas frequências de uma doença por um longo 
período, em geral anos ou décadas. 
Os autores completam que o terceiro tipo inclui variações cíclicas e 
variações sazonais. As variações cíclicas são caracterizadas por flutuações na 
incidência de uma doença ocorrida em um período maior a um ano. Já a variação 
sazonal mostra a variação na incidência de uma doença, coincidindo com as 
estações do ano (Almeida Filho; Barreto, 2012, p. 133). 
TEMA 4 – CONCEITOS BÁSICOS DE EPIDEMIOLOGIA 
A epidemiologia estuda o processo de saúde-doença por meio de um 
modelo explicativo, visualizando a distribuição populacional e geográfica. 
Descrevendo os fatores de risco, a epidemiologia propõe medidas de prevenção 
específicas, de promoção da saúde, de recuperação da saúde. A atuação da 
epidemiologia tem alcance individual e/ou coletivo, com a responsabilidade de 
produzir informações e conhecimento de saúde. 
As aplicações da epidemiologia abrangem três grandes áreas de atuação: 
diagnóstico de situação de saúde de populações, investigação etiológica e 
determinação de risco. 
Gomes (2015, p. 12) define que “diagnóstico da situação de saúde consiste 
na coleta sistemática de dados sobre a saúde da população, informações 
demográficas, econômicas, sociais, culturais e ambientais, que servirão para 
compor os indicadores de saúde”. O diagnóstico da situação de saúde de uma 
população (cidade, estado, país, vila, território de uma equipe de saúde da família) 
é a base para o planejamento estratégico em saúde, buscando a priorização de 
ações e a organização dos serviços. 
A investigação etiológica é vocação da epidemiologia, em busca de 
determinantes e condicionantes do processo saúde-doença, com a descrição das 
doenças, além da proposição de prevenção, promoção e recuperação da saúde. 
A determinação do risco é estudada por meio de medidas de associação, com 
indicadores de saúde. Vamos abordar esses conceitos nas próximas etapas. 
É importante diferenciar alguns conceitos epidemiológicos para 
compreender a extensão da investigação epidemiológica. Uma epidemia é 
 
 
9 
considerada na ocorrênciade determinada doença ou evento relacionado com a 
saúde, com elevação brusca e temporária, além de um aumento expressivo em 
relação ao que seria esperado para determinada população, em determinado 
período temporal e espaço geográfico. 
O termo pandemia é usado quando uma epidemia atinge o mundo todo ou 
grandes áreas geográficas, atravessando fronteiras internacionais e atingindo 
muitas pessoas. A Organização Mundial da Saúde (OMS) define pandemia como 
a disseminação mundial de uma nova doença. O termo passa a ser usado quando 
uma epidemia, surto que afeta uma região, se espalha por diferentes continentes, 
com transmissão sustentada de pessoa para pessoa. 
A endemia, em oposição à epidemia, é definida como presença usual de 
uma doença, dentro de limites esperados, em determinada área geográfica, por 
um período temporal ilimitado – enfim, uma ocorrência contínua e esperada de 
uma doença ou agravo. Epizootia é um termo usado para epidemias em 
populações de animais. 
Um surto é a ocorrência epidêmica de uma doença ou agravo, com um 
número baixo de atingidos, em área geográfica pequena e delimitada, como vilas, 
bairros etc., ou para população institucionalizada, como colégios, creches e 
quartéis. 
Importante ainda diferenciar outros conceitos usados em epidemiologia: o 
caso autóctone se origina no mesmo local do contágio, no qual foi observada a 
ocorrência. Acontece no mesmo local em que é diagnosticado (apareceu); já o 
caso alóctone ocorre quando o caso é importado, e portanto o contágio ou 
ocorrência acontecem em numa localidade e o diagnóstico em outra. 
As medidas de associação mostram a quantificação da diferença 
encontrada entre dois grupos populacionais, contrastados pela ocorrência de 
doença, agravo ou evento da saúde, entre grupo exposto e grupo não exposto ao 
fator de risco. 
A epidemiologia contribui para a obtenção das respostas que envolvem o 
conhecimento das doenças nas populações. Tais respostas se baseiam em algum 
tipo de medida de associação. 
4.1 Conceito de risco e fator de risco 
“As medidas de associação podem ser: absoluta e relativa. Medidas da 
associação entre exposição (fator de risco) e desfecho (doença, evento ou agravo) 
 
 
10 
são utilizadas para expressar quantitativamente as possíveis relações causais” 
(Luiz; Costa; Nadanovsky, 2005, p. 166). 
Almeida Filho e Rouquayrol (2013, p. 73) definem “risco como a 
probabilidade da ocorrência de uma doença, agravo, óbito ou condição 
relacionada à saúde (incluindo cura, recuperação ou melhora), em uma população 
ou grupo, durante um período de tempo determinado”. Risco é a possibilidade de 
uma pessoa, exposta a determinada situação, desenvolver doença, agravo, óbito 
ou condição relacionada à saúde. Essas situações podem desencadear os 
chamados fatores de risco. 
O fator de risco é o atributo de um grupo da população que pode apresentar 
maior ocorrência de uma doença, agravo ou evento à saúde, em comparação com 
outros grupos definidos por ausência ou menor exposição a esse atributo. Os 
fatores de risco podem ser ambientais, hereditários ou ainda resultado de 
escolhas ligadas ao estilo de vida. 
O desafio da epidemiologia é identificar os atributos que permitem 
reconhecer grupos menos vulneráveis (ou mais protegidos) em relação a certo 
problema de saúde, o que podemos chamar de fatores de proteção, característica 
que possibilita a implementação de medidas de prevenção e promoção da saúde. 
As medidas de associação podem ser absolutas, do tipo diferença, ou 
relativas, do tipo razão. A associação absoluta apresenta a diferença 
quantitativa entre grupos quando avaliamos o quanto a frequência de 
uma doença no grupo dos expostos excede (é maior) em relação ao 
grupo de não expostos. (Luiz; Costa; Nadanovsky, 2005, p. 173) 
A medida relativa é a razão dessas diferenças, com base na força da 
associação, ou seja, quantas vezes o risco é maior em expostos em comparação 
ao risco nos não expostos. 
A escolha da medida de associação, absoluta ou relativa, depende do 
objetivo do estudo e da escala de mensuração. As medidas de associação 
relativas são mais utilizadas na pesquisa etiológica, em busca de causas, 
enquanto as medidas absolutas são mais utilizadas para o planejamento de 
ações. 
O risco é estimado na forma de proporção. Matematicamente, é a razão 
(divisão) entre duas grandezas (valores). O numerador está obrigatoriamente 
dentro do denominador. 
No estudo epidemiológico de uma doença, vemos, no numerador, os casos 
(pessoas) da doença, enquanto no denominador temos a população a que 
 
 
11 
pertencem esses casos. Considera-se população como o número total de pessoas 
residentes em determinado espaço geográfico, no período temporal considerado, 
sendo expressa no total de contingente demográfico: 
Risco = casos / população 
O cálculo de risco é pouco utilizado, porém é importante compreender que 
a razão entre esses valores traduz o risco de um grupo em relação à população a 
que ele pertence. Conhecer esse conceito é importante para compreender as 
medidas de frequência. 
Em estudos que envolvem pessoas com e sem risco, com e sem fator de 
risco, utilizamos a tabela de contingência 2X2. A tabela de contingência tipo 2X2 
mostra como devemos analisar as medidas de associação. 
Tabela 1 – Tabela de contingência 2X2 
 Risco 
Fator de risco Sim Não 
Sim A B Expostos fator de risco = A + 
B 
Não C D Não expostos fator de risco = 
C + D 
Total Risco = A +C Sem Risco = B + D População= A + B + C + D 
Analisando a tabela, podemos perceber que, em uma população (A + B + 
C+ D), existem pessoas com risco (A + C) e sem risco (B + D), quanto à ocorrência 
de uma doença, agravo ou evento de interesse à saúde. Nessa população, existe 
ainda o grupo de expostos ao fator de risco (A + B) e os não expostos ao fator de 
risco (C + D). 
Podemos extrair outras avaliações da tabela de contingência, como o risco 
de adoecer de uma população, com a seguinte fórmula: 
Risco de adoecer da população = A + C / A + B + C + D 
Para avaliar o risco com o fator de risco, utilizamos a seguinte fórmula: 
Risco com fator de risco = A/ A + B 
Para mensurar o risco sem fator de risco, temos a seguinte fórmula: 
Risco sem fator de risco = C/ C + D 
 
 
12 
O cálculo para o risco de adoecer, de uma população, é utilizado na 
epidemiologia para prever a ocorrência de doenças, agravos ou eventos de 
interesse à saúde, para o planejamento de ações de prevenção e promoção de 
saúde, além do planejamento da assistência à saúde. Especificamente, se existe 
a necessidade de avaliar um fator de risco, como em fumantes, podemos usar o 
risco com fator de risco de uma população. O mesmo vale para o planejamento 
de ações de prevenção, promoção e assistência à saúde. 
O Risco Atribuível (RA), ou Diferença de Riscos, é uma medida de 
associação do tipo absoluta, que calcula a diferença entre risco dos expostos ao 
fator de risco e risco dos não expostos ao fator de risco. Utilizamos a seguinte 
fórmula: 
RA = (A/ A + B) – (C/ C + D) 
Essa avaliação mostra o quanto o risco de expostos é maior do que o risco 
dos não expostos, o que representa a diferença atribuída à exposição ao fator de 
risco. 
O Risco Relativo, ou Razão de Risco, é a comparação do risco de 
expostos com risco de não expostos. Essa é a principal medida de associação da 
epidemiologia, tipo razão, conhecido pela sigla RR. 
Calculamos da seguinte forma: 
RR = A/(A+B) / C/(C+D) 
O resultado mostra uma razão entre os expostos em relação aos não 
expostos. 
4.2 Razão de chance 
A chance de adoecer é expressa em uma medida de associação do tipo 
razão, em que o numerador (probabilidade de adoecer) não está contido no 
denominador (1 - probabilidade de adoecer). Diferentemente do conceito de risco, 
em que o numerador está obrigatoriamente contido no denominador, assim 
podemos observar a diferença entre risco e chance (Medronhoet al., 2009) 
A chance é calculada com a seguinte fórmula: 
Chance de adoecer = (doentes/população) / 1 (doentes/ população) 
 
 
13 
Nessa fórmula, consideramos o risco (doentes/população) dividido por 1 
menos o risco (doentes/população). Apesar de a chance de adoecer ser pouco 
utilizada, a sua compreensão é importante para entender a Razão de Chances ou 
Odds Ratio (OR), muito utilizada na epidemiologia e em trabalhos científicos 
quantitativos. Se o objetivo é responder se a chance de desenvolver uma doença 
no grupo de expostos é maior (ou menor) do que no grupo de não expostos, 
devemos utilizar a razão de chances como medida de associação. Inicialmente, é 
preciso conhecer a chance de adoecer entre o grupo de expostos e entre o grupo 
de não expostos ao fator de risco, utilizando novamente a tabela de contingência 
2X2. 
Tabela 2 – Tabela de contingência 2X2 
 Risco 
Fator de risco Sim Não 
Sim A B Expostos fator de risco = A + 
B 
Não C D Não expostos fator de risco = 
C + D 
Total Risco = A +C Sem Risco = B + D População= A + B + C + D 
A chance de adoecer entre o grupo de expostos é calculada da seguinte 
forma: 
A/(A+B) / B/(A+ B) = A/B 
A chance de adoecer entre o grupo de não expostos utiliza as seguintes 
informações: 
C/(C+D) / D/ (C+D) = C/D 
A razão chance (OR) utiliza a chance de adoecer entre o grupo de expostos 
(A/B), valor dividido pela chance de adoecer entre o grupo de não expostos (C/D). 
Podemos afirmar que a razão entre essas duas chances (expostos e não 
expostos) é a razão de chance (OR). 
A fórmula para esse cálculo é: OR = A/B / C/D, que matematicamente se 
resume em OR = A x D / B x C. 
 
 
 
14 
TEMA 5 – TRANSIÇÃO DEMOGRÁFICA E EPIDEMIOLÓGICA 
A palavra transição vem do latim transitione, e significa atos, efeitos, ou 
modos de passar lentamente de um lugar, estado ou assunto para outro. Remete 
às noções de passagem, trajeto ou trajetória. 
5.1 Transição demográfica e epidemiologia 
A teoria da transição demográfica surgiu no início do século XX, com 
observações realizadas em países europeus desde o século XVIII. Buscava 
avaliar a mortalidade por idade e natalidade. Observava as transformações 
demográficas influenciadas pelo processo de industrialização. 
Existem três períodos clássicos de transição: fase pré-industrial, com 
crescimento populacional lento; fase de industrialização, caracterizada por 
crescimento populacional intenso; e terceira fase, pós-industrial, com tendência 
populacional estável ou regressiva. Essa teoria consolidou-se como explicação 
para as mudanças demográficas verificadas no decorrer da história das 
sociedades, com seus determinantes históricos, sociais e econômicos. 
A transição demográfica é a alteração de um contexto populacional, em que 
prevalecem valores elevados nos indicadores de mortalidade e natalidade, para 
outro, em que esses indicadores alcançam valores muito reduzidos. Em termos 
demográficos, uma sociedade apresenta quatro fases distintas de transição 
demográfica: 
• Primeira fase ou fase 1: “caracterizada por sociedades com altas 
natalidades e mortalidades, principalmente mortalidade infantil, com 
crescimento populacional lento. Abrange a história desde suas origens até 
a Revolução Industrial, meados do século XVIII” (Busato, 2016, p. 118-
119). 
• Segunda fase ou fase 2: chamada de fase intermediária, própria dos países 
em processo de industrialização, apresenta redução da mortalidade, com 
natalidade ainda elevada, o que provoca elevado crescimento 
populacional. Países ricos estiveram nessa fase a partir do século XVIII. Há 
países que iniciaram essa fase somente no século XX. 
• Terceira fase ou fase 3: a natalidade inicia uma importante redução, 
associada a uma decrescente mortalidade, o que provoca ainda um 
crescimento demográfico alto. O efeito principal dessa fase é o 
 
 
15 
envelhecimento populacional. Os países ricos completaram o processo de 
passagem da fase 2 para a 3 no século XX. 
• Quarta fase ou fase 4: é típica das sociedades pós-industriais, que 
apresentam indicadores de mortalidade e natalidade reduzidos, com um 
crescimento populacional em equilíbrio. Conhecida também pela fase da 
modernidade. Caracteriza-se por aumento da expectativa de vida e 
envelhecimento da população de forma geral, principalmente à custa da 
participação das mulheres. 
5.2 Transição epidemiológica 
A transição epidemiológica revela o resultado das mudanças ocorridas no 
tempo nos padrões de mortalidade, morbidade e invalidez de uma população. Em 
geral, ocorrem em conjunto com transformações demográficas, sociais e 
econômicas. O processo engloba três mudanças básicas: substituição das 
doenças transmissíveis por doenças não transmissíveis e causas externas; 
deslocamento da carga de morbimortalidade de grupos mais jovens a grupos mais 
idosos; e mudança de mortalidade pela morbidade (Schramm et al., 2004, p. 898). 
No Brasil, a transição epidemiológica não tem ocorrido de acordo com o 
modelo experimentado pela maioria dos países industrializados, porque há 
superposição entre as etapas. Impera o predomínio das doenças transmissíveis e 
crônico-degenerativas, com reintrodução de doenças como dengue e a 
manutenção de doenças como malária, hanseníase e leishmaniose, 
caracterizando uma transição prolongada, com contrastes entre as diferentes 
regiões em um mesmo país, com discrepantes situações epidemiológicas. A 
transição epidemiológica brasileira caracteriza-se pela dificuldade do Estado em 
estabelecer controle sobre as doenças transmissíveis, considerando ainda a 
redução da mortalidade infantil, “no desenvolvimento e aplicação de estratégias 
para a efetiva prevenção e tratamento das doenças crônico-degenerativas e suas 
complicações levando a uma perda de autonomia e qualidade de vida” (Schramm 
et al., 2004, p. 898). 
 
 
 
16 
REFERÊNCIAS 
ALMEIDA FILHO, N.; BARRETO, M. L. Epidemiologia & saúde: fundamentos, 
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