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AULA 2 EPIDEMIOLOGIA Profª Ivana Maria Saes Busato 2 INTRODUÇÃO Fundamentos da epidemiologia O conceito da epidemiologia foi construído historicamente, por conta do crescimento do pensamento epidemiológico, da evolução das ciências e do conhecimento do processo saúde-doença. A epidemiologia está presente em qualquer atividade profissional da área de saúde. A investigação causal de agravo, doença ou evento de saúde implica o levantamento de informações, situações e dados, números que devem ser analisados por meio da ciência da epidemiologia, com base no raciocínio epidemiológico, que deve estar presente em todo processo de trabalho em saúde. TEMA 1 – CONCEITO DE EPIDEMIOLOGIA Segundo Almeida Filho e Rouquayrol (2013), o termo epidemia aparece nos textos hipocráticos. Etimologicamente, a palavra é formada pela junção do prefixo epí (“em cima de; sobre”) com o radical demos (“povo”). O sufixo logos, do grego, significa “palavra, discurso, estudo”. Ele é geralmente empregado para designar disciplinas científicas nas línguas ocidentais modernas. Assim, a palavra epidemiologia significa etimologicamente “ciência do que ocorre (se abate) sobre o povo” (Almeida Filho; Rouquayrol, 2013). Last (2001, p. 87, tradução nossa) conceitua a epidemiologia como “o estudo da distribuição e dos determinantes de estados ou eventos relacionados à saúde em populações específicas, e sua aplicação na prevenção e controle dos problemas de saúde”. Almeida Filho e Rouquayrol (2013, p. 1) fazem uma conceituação clássica da epidemiologia, apontando todos os aspectos que compõem a sua dimensão como ciência: “epidemiologia estuda o processo saúde-enfermidade na sociedade, analisando a distribuição populacional e fatores determinantes do risco de doenças, agravos e eventos associados à saúde”. “A Clínica, a Estatística e Medicina Social compõem os elementos conceituais, metodológicos e ideológicos, da epidemiologia” (Busato, 2016). A microbiologia teve grande participação na epidemiologia, contribuindo com a identificação dos agentes etiológicos e com medidas de prevenção e 3 tratamento das doenças infectocontagiosas, possibilitando com isso a diminuição expressiva da morbimortalidade, nos séculos XIX e XX (Gomes, 2015). A primeira escola de saúde pública nos Estados Unidos da América, baseada no relatório de Abraham Flexner, de 1910, o Medical Education in the United States and Canada, apontou a necessidade de mudanças no ensino superior para a medicina. Esse documento foi inovador, com importância reconhecida até os dias atuais. O modelo de “escola de saúde pública” foi difundido para todo o mundo por meio da Fundação Rockefeller, novamente com papel importante no avanço da epidemiologia, tendo sido responsável pela capacitação dos primeiros epidemiologistas brasileiros. A epidemiologia tentava ampliar os seus conhecimentos para além das doenças infectocontagiosas quando o livro The Principles of Epidemiology, do final dos anos 1920, focou exclusivamente as enfermidades infecciosas. A crise econômica mundial de 1929 trouxe a necessidade de uma certa abordagem na saúde, cenário em que se redescobriu o caráter coletivo da epidemiologia para a organização da saúde. O estabelecimento dos estados de bem-estar-social na Europa Ocidental, em especial Inglaterra e França, na organização dos serviços de saúde, juntou a assistência à saúde com as políticas sociais, trazendo para a epidemiologia a necessidade de inovar nas investigações sociais. Os períodos das guerras mundiais trouxeram grande avanço na realização de inquéritos epidemiológicos para a avaliação da saúde física e mental das tropas, especialmente enfermidades não infecciosas, fazendo surgir novas abordagens de estudos na população. Porém, em todas as guerras aconteceram propagações de epidemias. 1.1 Elementos conceituais: clínica, estatística e medicina social A clínica contribui com o conhecimento sobre descrição, diagnóstico e tratamento de doenças, eventos e agravos em saúde que acometem as pessoas e as comunidades, tendo como alicerce o avanço nas pesquisas e o desenvolvimento da tecnologia médica. Os séculos XVII e XVIII, especialmente na França e na Inglaterra, contribuíram para o desenvolvimento da epidemiologia com a prática profissional, com base em observação e descrição minuciosas de sinais e sintomas de 4 pacientes, resultando em uma terapêutica individual, o que contribuiu para o progresso da clínica médica. Um dos fundadores dessa clínica moderna foi Thomas Sydenham (1624- 1689), médico e liderança política em Londres, que contribuiu como precursor da ciência epidemiológica, a partir do conceito de história natural das enfermidades. Na década de 1980, despontou a epidemiologia clínica, que utilizava a metodologia epidemiológica com ênfase na identificação de casos e na avaliação da eficácia terapêutica, tendo difundido a medicina baseada em evidências, reforçando o uso da clínica no estudo epidemiológico. O império romano contribuiu para a epidemiologia na realização de registro periódico de nascimentos e óbitos, além de censos populacionais periódicos, trazendo a estatística para o uso epidemiológico. No século XVII, nascia a estatística, uma disciplina científica de cunho mercantil e político. Com foco em probabilidades, buscava dimensionar as doenças e seus efeitos. A aritmética política, de William Petty, (1623-1687), e os levantamentos estatísticos de John Graunt (1620-1674), são considerados os precursores da demografia, estatística e epidemiologia. Willian Farr (1807-1883) criou o registro anual de morbidade e mortalidade para Inglaterra e País de Gales, promovendo a institucionalização dos sistemas de informação em saúde. Outro importante nome na história da área foi Foucault (1926-1984), pensador francês, que realizou os primeiros registros de contagem de enfermos (ovinos), visando o controle de uma enfermidade (epizootia), em estudos veterinários, nos primórdios da medicina científica moderna. A introdução dos computadores provocou a matematização da epidemiologia, promovendo a sua expansão na capacidade de investigação, o que possibilitou o desenvolvimento de estudos multicêntricos, com grande número de variáveis e sujeitos de pesquisa, por meio da quantificação. Destaque para os estudos de avaliação da eficácia dos tratamentos clínicos utilizando a estatística de Pierre-Charles Alexandre Louis (1787-1872), que integraram a clínica moderna e a estatística. A medicina social foi impulsionada no final do século XVIII, com a ascensão do poder político da burguesia emergente e o aumento da urbanização, partindo da necessidade de iniciativas de intervenção do Estado na saúde das populações, de modo a conter as doenças e manter a ordem pública. 5 Com base em conceitos de higiene, a medicina social trouxe um conjunto de normas e preceitos que devem ser aplicados em âmbito individual, e ainda outros referentes à saúde coletiva, por meio de leis e regulamentos. Devemos citar ainda Louis Villermé (1782-1863) e sua pesquisa sobre o impacto da pobreza e das condições de trabalho na saúde das pessoas. O francês Guérin, em 1838, cunhou o termo medicina social, usado para indicar modos de abordar a questão da saúde coletivamente. As pesquisas epidemiológicas relacionam os condicionantes e os determinantes sociais no processo saúde-doença, impulsionando o estudo de doenças crônicas não transmissíveis, como diabetes, hipertensão e, em especial, câncer, considerando a transição demográfica e epidemiológica. TEMA 2 – OBSERVAÇÕES E REGISTROS DE INDIVÍDUOS/POPULAÇÕES Estudos epidemiológicos observam e registram pessoas e populações por meio de diversas características ou atributos individuais, informaçõesque são de interesse à saúde para o conhecimento das pessoas, seja individualmente ou considerando grupos populacionais. Agora, vamos estudar algumas características que se destacam na epidemiologia. Os modelos explicativos do processo saúde-doença sempre trabalharam com características específicas ou atributos individuais essenciais para a observação e o registro de indivíduos e populações, buscando a causa das doenças e/ou agravos. Estudos epidemiológicos estratificam as pessoas em gênero e sexo: • Gênero é um construto social que determina como homens e mulheres se diferenciam na sociedade, na dimensão social. • Sexo é um marcador biológico de aspectos anatômicos e fisiológicos, masculino e feminino, na dimensão biológica. Ambos são importantes para estudos de grupos populacionais e do conhecimento das pessoas, com influência no processo saúde-doença. A etnia ou a raça é uma outra característica importante para a estratificação biológica e social, com implicações profundas na saúde. A idade é um dos principais determinantes do estado de saúde e do perfil de morbimortalidade em uma população, pois situa os sujeitos de pesquisa nos ciclos de vida que 6 impactam o processo saúde-doença. Os eventos de saúde são distribuídos diferentemente nos ciclos de vida. A migração é um processo demográfico e social de grande relevância para o estado de saúde de indivíduos e populações. Estudos de migrantes têm como objetivo determinar o risco de adoecimento entre os migrantes que são oriundos de uma região, considerando se há alteração (aumento ou diminuição de risco) após a migração para outra região. A classe social condiciona o acesso aos recursos produtivos e molda as experiências de vida nas esferas de produção e consumo (Barata et al., 2013). As variáveis socioeconômicas, isoladas ou combinadas em indicadores, classificam as pessoas ou grupos populacionais em posição socioeconômica. As variáveis utilizadas podem ser: renda, ocupação, escolaridade e acesso a eletrodomésticos. A classe social e a posição socioeconômica apresentam uma associação importante com o nível de saúde, de modo que são de interesse epidemiológico. O estudo dos comportamentos individuais e do estilo de vida é fundamental para a compreensão do processo saúde-doença, na formulação de políticas de promoção da saúde. Alguns comportamentos são bastante estudados: consumo de álcool, drogas, hábito de fumar, alimentação saudável e atividade física. O modelo explicativo do processo saúde-doença da determinação social da saúde abrange as principais características ou atributos a serem estudados na epidemiologia. TEMA 3 – DISTRIBUIÇÃO DAS DOENÇAS, AGRAVOS E EVENTOS NO ESPAÇO E NO TEMPO A análise espacial em saúde é o estudo quantitativo da distribuição de doenças ou serviços de saúde. Deve ser usada para identificar padrões espaciais de morbidade e mortalidade, com fatores associados a esses padrões. Objetiva mostrar os processos de difusão de doenças, eventos ou agravos, podendo gerar conhecimento sobre a etiologia, buscando garantir predição e controle. A análise espacial é um instrumento importante na avaliação do impacto de processos e estruturas sociais na determinação da saúde. A distribuição das doenças no espaço objetiva contextualizar territorialmente a ocorrência de doenças, agravos ou eventos de interesse da saúde, visando a formulação de hipóteses etiológicas com a associação de fatores 7 ambientais, urbanização, condições e avaliação em diferentes períodos temporais, entre outros fatores. Para o conceito de espaço, é preciso considerar as características geográficas, naturais e sociais do lugar. Importante ainda observar a sociedade em movimento, construída nos processos históricos. 3.1 Geoprocessamento Uma das primeiras análises geográficas de uma doença para o estudo etiológico foi realizada por John Snow, em 1854, em Londres, no mapeamento de óbitos por cólera para a análise epidemiológica, tema já estudado na história da epidemiologia. Uma ferramenta importante na análise de distribuição das doenças no espaço e no tempo é o uso do geoprocessamento. Conforme descrevem Almeida Filho e Barreto (2012, p. 146), o geoprocessamento é um “conjunto de técnicas computacionais de coleta, tratamento, manipulação e apresentação de dados espaciais, visando organizar informações espacialmente referidas num território”. O geoprocessamento aplicado à epidemiologia permite o mapeamento de doenças, agravos ou eventos de interesse da saúde, na avaliação de riscos, no planejamento de ações de saúde e na avaliação de redes de atenção. Conta com a participação de diversas disciplinas, como cartografia, computação, geografia e estatística. O geoprocessamento é realizado com a ajuda de tecnologias computacionais para o tratamento e a manipulação de dados geográficos, como o sensoriamento remoto, a digitalização de dados, a automação das tarefas cartográficas, a utilização de Sistemas de Posicionamento Global (GPS) e os Sistemas de Informação Geográfica (SIG ou GIS, de Geographic Information System) (Brasil, 2007, p. 15). 3.2 Distribuição no tempo A distribuição das doenças no tempo pode fornecer várias informações para compreensão, previsão, busca etiológica, prevenção de doenças e avaliação do impacto de intervenções em saúde. Conforme apontam Almeida Filho e Barreto (2012, p. 133), as informações temporais são apresentadas por três diferentes períodos temporais, ou tempo calendário. 8 O primeiro tipo é caracterizado por períodos relativamente curtos, como horas, dias, meses e anos, como observamos nas situações epidêmicas. O segundo é descrito por longos períodos, chamados de tendência secular ou histórica, que mostra variações nas frequências de uma doença por um longo período, em geral anos ou décadas. Os autores completam que o terceiro tipo inclui variações cíclicas e variações sazonais. As variações cíclicas são caracterizadas por flutuações na incidência de uma doença ocorrida em um período maior a um ano. Já a variação sazonal mostra a variação na incidência de uma doença, coincidindo com as estações do ano (Almeida Filho; Barreto, 2012, p. 133). TEMA 4 – CONCEITOS BÁSICOS DE EPIDEMIOLOGIA A epidemiologia estuda o processo de saúde-doença por meio de um modelo explicativo, visualizando a distribuição populacional e geográfica. Descrevendo os fatores de risco, a epidemiologia propõe medidas de prevenção específicas, de promoção da saúde, de recuperação da saúde. A atuação da epidemiologia tem alcance individual e/ou coletivo, com a responsabilidade de produzir informações e conhecimento de saúde. As aplicações da epidemiologia abrangem três grandes áreas de atuação: diagnóstico de situação de saúde de populações, investigação etiológica e determinação de risco. Gomes (2015, p. 12) define que “diagnóstico da situação de saúde consiste na coleta sistemática de dados sobre a saúde da população, informações demográficas, econômicas, sociais, culturais e ambientais, que servirão para compor os indicadores de saúde”. O diagnóstico da situação de saúde de uma população (cidade, estado, país, vila, território de uma equipe de saúde da família) é a base para o planejamento estratégico em saúde, buscando a priorização de ações e a organização dos serviços. A investigação etiológica é vocação da epidemiologia, em busca de determinantes e condicionantes do processo saúde-doença, com a descrição das doenças, além da proposição de prevenção, promoção e recuperação da saúde. A determinação do risco é estudada por meio de medidas de associação, com indicadores de saúde. Vamos abordar esses conceitos nas próximas etapas. É importante diferenciar alguns conceitos epidemiológicos para compreender a extensão da investigação epidemiológica. Uma epidemia é 9 considerada na ocorrênciade determinada doença ou evento relacionado com a saúde, com elevação brusca e temporária, além de um aumento expressivo em relação ao que seria esperado para determinada população, em determinado período temporal e espaço geográfico. O termo pandemia é usado quando uma epidemia atinge o mundo todo ou grandes áreas geográficas, atravessando fronteiras internacionais e atingindo muitas pessoas. A Organização Mundial da Saúde (OMS) define pandemia como a disseminação mundial de uma nova doença. O termo passa a ser usado quando uma epidemia, surto que afeta uma região, se espalha por diferentes continentes, com transmissão sustentada de pessoa para pessoa. A endemia, em oposição à epidemia, é definida como presença usual de uma doença, dentro de limites esperados, em determinada área geográfica, por um período temporal ilimitado – enfim, uma ocorrência contínua e esperada de uma doença ou agravo. Epizootia é um termo usado para epidemias em populações de animais. Um surto é a ocorrência epidêmica de uma doença ou agravo, com um número baixo de atingidos, em área geográfica pequena e delimitada, como vilas, bairros etc., ou para população institucionalizada, como colégios, creches e quartéis. Importante ainda diferenciar outros conceitos usados em epidemiologia: o caso autóctone se origina no mesmo local do contágio, no qual foi observada a ocorrência. Acontece no mesmo local em que é diagnosticado (apareceu); já o caso alóctone ocorre quando o caso é importado, e portanto o contágio ou ocorrência acontecem em numa localidade e o diagnóstico em outra. As medidas de associação mostram a quantificação da diferença encontrada entre dois grupos populacionais, contrastados pela ocorrência de doença, agravo ou evento da saúde, entre grupo exposto e grupo não exposto ao fator de risco. A epidemiologia contribui para a obtenção das respostas que envolvem o conhecimento das doenças nas populações. Tais respostas se baseiam em algum tipo de medida de associação. 4.1 Conceito de risco e fator de risco “As medidas de associação podem ser: absoluta e relativa. Medidas da associação entre exposição (fator de risco) e desfecho (doença, evento ou agravo) 10 são utilizadas para expressar quantitativamente as possíveis relações causais” (Luiz; Costa; Nadanovsky, 2005, p. 166). Almeida Filho e Rouquayrol (2013, p. 73) definem “risco como a probabilidade da ocorrência de uma doença, agravo, óbito ou condição relacionada à saúde (incluindo cura, recuperação ou melhora), em uma população ou grupo, durante um período de tempo determinado”. Risco é a possibilidade de uma pessoa, exposta a determinada situação, desenvolver doença, agravo, óbito ou condição relacionada à saúde. Essas situações podem desencadear os chamados fatores de risco. O fator de risco é o atributo de um grupo da população que pode apresentar maior ocorrência de uma doença, agravo ou evento à saúde, em comparação com outros grupos definidos por ausência ou menor exposição a esse atributo. Os fatores de risco podem ser ambientais, hereditários ou ainda resultado de escolhas ligadas ao estilo de vida. O desafio da epidemiologia é identificar os atributos que permitem reconhecer grupos menos vulneráveis (ou mais protegidos) em relação a certo problema de saúde, o que podemos chamar de fatores de proteção, característica que possibilita a implementação de medidas de prevenção e promoção da saúde. As medidas de associação podem ser absolutas, do tipo diferença, ou relativas, do tipo razão. A associação absoluta apresenta a diferença quantitativa entre grupos quando avaliamos o quanto a frequência de uma doença no grupo dos expostos excede (é maior) em relação ao grupo de não expostos. (Luiz; Costa; Nadanovsky, 2005, p. 173) A medida relativa é a razão dessas diferenças, com base na força da associação, ou seja, quantas vezes o risco é maior em expostos em comparação ao risco nos não expostos. A escolha da medida de associação, absoluta ou relativa, depende do objetivo do estudo e da escala de mensuração. As medidas de associação relativas são mais utilizadas na pesquisa etiológica, em busca de causas, enquanto as medidas absolutas são mais utilizadas para o planejamento de ações. O risco é estimado na forma de proporção. Matematicamente, é a razão (divisão) entre duas grandezas (valores). O numerador está obrigatoriamente dentro do denominador. No estudo epidemiológico de uma doença, vemos, no numerador, os casos (pessoas) da doença, enquanto no denominador temos a população a que 11 pertencem esses casos. Considera-se população como o número total de pessoas residentes em determinado espaço geográfico, no período temporal considerado, sendo expressa no total de contingente demográfico: Risco = casos / população O cálculo de risco é pouco utilizado, porém é importante compreender que a razão entre esses valores traduz o risco de um grupo em relação à população a que ele pertence. Conhecer esse conceito é importante para compreender as medidas de frequência. Em estudos que envolvem pessoas com e sem risco, com e sem fator de risco, utilizamos a tabela de contingência 2X2. A tabela de contingência tipo 2X2 mostra como devemos analisar as medidas de associação. Tabela 1 – Tabela de contingência 2X2 Risco Fator de risco Sim Não Sim A B Expostos fator de risco = A + B Não C D Não expostos fator de risco = C + D Total Risco = A +C Sem Risco = B + D População= A + B + C + D Analisando a tabela, podemos perceber que, em uma população (A + B + C+ D), existem pessoas com risco (A + C) e sem risco (B + D), quanto à ocorrência de uma doença, agravo ou evento de interesse à saúde. Nessa população, existe ainda o grupo de expostos ao fator de risco (A + B) e os não expostos ao fator de risco (C + D). Podemos extrair outras avaliações da tabela de contingência, como o risco de adoecer de uma população, com a seguinte fórmula: Risco de adoecer da população = A + C / A + B + C + D Para avaliar o risco com o fator de risco, utilizamos a seguinte fórmula: Risco com fator de risco = A/ A + B Para mensurar o risco sem fator de risco, temos a seguinte fórmula: Risco sem fator de risco = C/ C + D 12 O cálculo para o risco de adoecer, de uma população, é utilizado na epidemiologia para prever a ocorrência de doenças, agravos ou eventos de interesse à saúde, para o planejamento de ações de prevenção e promoção de saúde, além do planejamento da assistência à saúde. Especificamente, se existe a necessidade de avaliar um fator de risco, como em fumantes, podemos usar o risco com fator de risco de uma população. O mesmo vale para o planejamento de ações de prevenção, promoção e assistência à saúde. O Risco Atribuível (RA), ou Diferença de Riscos, é uma medida de associação do tipo absoluta, que calcula a diferença entre risco dos expostos ao fator de risco e risco dos não expostos ao fator de risco. Utilizamos a seguinte fórmula: RA = (A/ A + B) – (C/ C + D) Essa avaliação mostra o quanto o risco de expostos é maior do que o risco dos não expostos, o que representa a diferença atribuída à exposição ao fator de risco. O Risco Relativo, ou Razão de Risco, é a comparação do risco de expostos com risco de não expostos. Essa é a principal medida de associação da epidemiologia, tipo razão, conhecido pela sigla RR. Calculamos da seguinte forma: RR = A/(A+B) / C/(C+D) O resultado mostra uma razão entre os expostos em relação aos não expostos. 4.2 Razão de chance A chance de adoecer é expressa em uma medida de associação do tipo razão, em que o numerador (probabilidade de adoecer) não está contido no denominador (1 - probabilidade de adoecer). Diferentemente do conceito de risco, em que o numerador está obrigatoriamente contido no denominador, assim podemos observar a diferença entre risco e chance (Medronhoet al., 2009) A chance é calculada com a seguinte fórmula: Chance de adoecer = (doentes/população) / 1 (doentes/ população) 13 Nessa fórmula, consideramos o risco (doentes/população) dividido por 1 menos o risco (doentes/população). Apesar de a chance de adoecer ser pouco utilizada, a sua compreensão é importante para entender a Razão de Chances ou Odds Ratio (OR), muito utilizada na epidemiologia e em trabalhos científicos quantitativos. Se o objetivo é responder se a chance de desenvolver uma doença no grupo de expostos é maior (ou menor) do que no grupo de não expostos, devemos utilizar a razão de chances como medida de associação. Inicialmente, é preciso conhecer a chance de adoecer entre o grupo de expostos e entre o grupo de não expostos ao fator de risco, utilizando novamente a tabela de contingência 2X2. Tabela 2 – Tabela de contingência 2X2 Risco Fator de risco Sim Não Sim A B Expostos fator de risco = A + B Não C D Não expostos fator de risco = C + D Total Risco = A +C Sem Risco = B + D População= A + B + C + D A chance de adoecer entre o grupo de expostos é calculada da seguinte forma: A/(A+B) / B/(A+ B) = A/B A chance de adoecer entre o grupo de não expostos utiliza as seguintes informações: C/(C+D) / D/ (C+D) = C/D A razão chance (OR) utiliza a chance de adoecer entre o grupo de expostos (A/B), valor dividido pela chance de adoecer entre o grupo de não expostos (C/D). Podemos afirmar que a razão entre essas duas chances (expostos e não expostos) é a razão de chance (OR). A fórmula para esse cálculo é: OR = A/B / C/D, que matematicamente se resume em OR = A x D / B x C. 14 TEMA 5 – TRANSIÇÃO DEMOGRÁFICA E EPIDEMIOLÓGICA A palavra transição vem do latim transitione, e significa atos, efeitos, ou modos de passar lentamente de um lugar, estado ou assunto para outro. Remete às noções de passagem, trajeto ou trajetória. 5.1 Transição demográfica e epidemiologia A teoria da transição demográfica surgiu no início do século XX, com observações realizadas em países europeus desde o século XVIII. Buscava avaliar a mortalidade por idade e natalidade. Observava as transformações demográficas influenciadas pelo processo de industrialização. Existem três períodos clássicos de transição: fase pré-industrial, com crescimento populacional lento; fase de industrialização, caracterizada por crescimento populacional intenso; e terceira fase, pós-industrial, com tendência populacional estável ou regressiva. Essa teoria consolidou-se como explicação para as mudanças demográficas verificadas no decorrer da história das sociedades, com seus determinantes históricos, sociais e econômicos. A transição demográfica é a alteração de um contexto populacional, em que prevalecem valores elevados nos indicadores de mortalidade e natalidade, para outro, em que esses indicadores alcançam valores muito reduzidos. Em termos demográficos, uma sociedade apresenta quatro fases distintas de transição demográfica: • Primeira fase ou fase 1: “caracterizada por sociedades com altas natalidades e mortalidades, principalmente mortalidade infantil, com crescimento populacional lento. Abrange a história desde suas origens até a Revolução Industrial, meados do século XVIII” (Busato, 2016, p. 118- 119). • Segunda fase ou fase 2: chamada de fase intermediária, própria dos países em processo de industrialização, apresenta redução da mortalidade, com natalidade ainda elevada, o que provoca elevado crescimento populacional. Países ricos estiveram nessa fase a partir do século XVIII. Há países que iniciaram essa fase somente no século XX. • Terceira fase ou fase 3: a natalidade inicia uma importante redução, associada a uma decrescente mortalidade, o que provoca ainda um crescimento demográfico alto. O efeito principal dessa fase é o 15 envelhecimento populacional. Os países ricos completaram o processo de passagem da fase 2 para a 3 no século XX. • Quarta fase ou fase 4: é típica das sociedades pós-industriais, que apresentam indicadores de mortalidade e natalidade reduzidos, com um crescimento populacional em equilíbrio. Conhecida também pela fase da modernidade. Caracteriza-se por aumento da expectativa de vida e envelhecimento da população de forma geral, principalmente à custa da participação das mulheres. 5.2 Transição epidemiológica A transição epidemiológica revela o resultado das mudanças ocorridas no tempo nos padrões de mortalidade, morbidade e invalidez de uma população. Em geral, ocorrem em conjunto com transformações demográficas, sociais e econômicas. O processo engloba três mudanças básicas: substituição das doenças transmissíveis por doenças não transmissíveis e causas externas; deslocamento da carga de morbimortalidade de grupos mais jovens a grupos mais idosos; e mudança de mortalidade pela morbidade (Schramm et al., 2004, p. 898). No Brasil, a transição epidemiológica não tem ocorrido de acordo com o modelo experimentado pela maioria dos países industrializados, porque há superposição entre as etapas. Impera o predomínio das doenças transmissíveis e crônico-degenerativas, com reintrodução de doenças como dengue e a manutenção de doenças como malária, hanseníase e leishmaniose, caracterizando uma transição prolongada, com contrastes entre as diferentes regiões em um mesmo país, com discrepantes situações epidemiológicas. A transição epidemiológica brasileira caracteriza-se pela dificuldade do Estado em estabelecer controle sobre as doenças transmissíveis, considerando ainda a redução da mortalidade infantil, “no desenvolvimento e aplicação de estratégias para a efetiva prevenção e tratamento das doenças crônico-degenerativas e suas complicações levando a uma perda de autonomia e qualidade de vida” (Schramm et al., 2004, p. 898). 16 REFERÊNCIAS ALMEIDA FILHO, N.; BARRETO, M. L. Epidemiologia & saúde: fundamentos, métodos, aplicações. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2012. ALMEIDA FILHO, N.; ROUQUAYROL, M. Z. Introdução à epidemiologia. 4. ed. rev. e ampliada. reimp. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2013. BARATA, R. B. et al. Classe Social: conceitos e esquemas operacionais em pesquisa em saúde. Rev. Saúde Pública, São Paulo, v. 47, n. 4, p. 647-655, ago. 2013. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Fundação Oswaldo Cruz. SANTOS, S. M.; SOUZA, W. V. (Org.). 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