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1 MBA EM GESTÃO E TECNOLOGIA DE RESÍDUOS 2 ÉTICA AMBIENTAL 3 SUMÁRIO FUNDAMENTOS DA ÉTICA E DA MORAL ................................................................. 4 EPISTEMOLOGIA E AMBIENTE ............................................................................... 18 A INVENÇÃO DA MODERNIDADE ........................................................................... 35 RACIONALIDADE INSTRUMENTAL ......................................................................... 42 Antropocentrismo ....................................................................................................... 46 Biocentrismo .............................................................................................................. 46 CRISE AMBIENTAL: AS CONSEQUÊNCIAS DA MODERNIDADE .......................... 48 CONSEQUÊNCIAS SOCIOAMBIENTAIS ................................................................. 51 ÉTICA AMBIENTAL: UMA DISCUSSÃO INTERNACIONAL ..................................... 54 ECONOMIA: ASPECTOS GERAIS ........................................................................... 58 O AMBIENTE NA ECONOMIA: UM PANORAMA GERAL ........................................ 60 ECONOMIA E AMBIENTE: PERSPECTIVAS TEÓRICAS ........................................ 64 ECOMARXISMO........................................................................................................ 65 ECONOMIA AMBIENTAL .......................................................................................... 67 Escola Neoclássica .................................................................................................... 70 A ECONOMIA ECOLÓGICA ...................................................................................... 73 DESENVOLVIMENTO PARA LIBERDADE ............................................................... 76 DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL/SUSTENTABILIDADE ................................ 80 ECOLOGISMO DOS POBRES .................................................................................. 83 DESENVOLVIMENTO SEM CRESCIMENTO ........................................................... 84 SUSTENTABILIDADE: A QUESTÃO DO OBJETO E DO DISCURSO ..................... 86 SUSTENTABILIDADE E O DISCURSO NO SETOR ECONÔMICO ......................... 88 MERCADO VERDE E A CIDADANIA ........................................................................ 93 SUSTENTABILIDADES E DISCUSSÕES CORRELATAS ........................................ 97 BIOÉTICA E A DECLARAÇÃO ................................................................................ 103 REFERÊNCIAS ....................................................................................................... 106 4 FUNDAMENTOS DA ÉTICA E DA MORAL NOÇÃO DE ÉTICA E MORAL “A ética é daquelas coisas que todo mundo sabe o que são, mas que não são fáceis de explicar, quando alguém pergunta”. (VALLS, 1993). O que é Ética? Talvez muitos se arriscariam a responder tal questão e muitos ainda ficariam confusos quanto à definição. Fala-se em Ética na Medicina, na Política, na Imprensa, Profissional, Acadêmica e, recentemente, na Ciência e para com os Animais e Meio Ambiente. Em certas circunstâncias a Ética corresponde ainda ao sinônimo de respeito, moral, virtude, justiça, solidariedade, honra, etc. Existem inúmeras interpretações para ética: religiosas, filosóficas, sociológicas, psicanalíticas, etc, todas abarcando questões polêmicas e delicadas. As questões éticas pousam em terreno pantanoso, ainda mais se consideradas sob o ponto de vista da ciência. Tanto por ser um conhecimento abstrato passível de ambiguidades conceituais e argumentativas, quanto por procurar racionalmente esclarecer e responder a problemas ético-sociais concretos. O escopo está em apontar os princípios da ação moral individual e coletiva, fundamentando o corpo de ações ético-morais numa determinada sociedade. A Ética (do grego Ethos: modo de ser, caráter) também chamada de Filosofia da Moral ou ainda de Ciência do Dever diz respeito à reflexão, à interpretação e ao debate sobre os aspectos e regras morais que devem nortear o comportamento humano em uma determinada sociedade e tempo histórico. A ética tem como objeto a Moral e é através da interpretação e investigação teórica que ela estabelece os princípios e preceitos da Moral e orienta a consciência do indivíduo em suas decisões e comportamentos. 5 As primeiras reflexões sobre a ética e a moral (no ocidente) foram feitas na antiguidade clássica ocidental pelo filósofo Sócrates, que, segundo Marilena Chauí, percorria Atenas questionando os cidadãos sobre “o que eram os valores nos quais acreditavam e que respeitavam ao agir”. E indagava: O que é a coragem? O que é a justiça? O que é a piedade? O que é a amizade? A elas os atenienses respondiam dizendo serem virtudes. Sócrates voltava a indagar: ‘o que é a virtude?’ Retrucavam os atenienses: ‘é agir em conformidade com o bem’. E Sócrates questionava: ‘que é o bem’? (CHAUÍ, 1989). Estas questões e inquietações indicam elementos constitutivos do campo dos valores morais, referindo-se ao conjunto do agir individual e coletivo. O desenvolvimento do pensamento de Sócrates podemos encontrar nas obras de Platão e Aristoteles, que também defendiam a ideia de que os homens, na condição de seres racionais, não deveriam apenas seguir tradições e rotinas de forma cega, mas questionar os valores, costumes e os fundamentos das ações humanas.4 Eduardo Bittar, retomando essa ideia dos antigos afirma: A ética encontra na mais robusta fonte de inquietações humanas o alento para sua existência. É na balança ética que se devem pesar as diferenças de comportamentos, para medir-lhes a utilidade, a finalidade, o direcionamento, as consequências, os mecanismos, os frutos... Se há que se especular em ética sobre alguma coisa, essa ‘alguma coisa’ é a ação humana. O fino equilíbrio sobre a modulação e a dosagem dos comportamentos no plano da ação importa à ética. O pensamento Ético é especulativo, associando-se a uma reflexão teórica minuciosa do comportamento, ao contrário da Moral, que é intimamente relacionada à ação prática. Daqui, já podemos traçar uma distinção essencial entre a Moral e Ética, muitas vezes confundidas conceitualmente. A moral, palavra de origem latina mos (costume) e mores (costumes) – que na Roma Antiga foi usada como sinônimo de ética – 6 se define como um conjunto de normas, preceitos ou regras que orienta a conduta dos agentes conscientes de uma determinada sociedade frente às questões ou ações do comportamento humano (individual e/ou coletivo). A questão prática central que a Moral nos coloca é: como devemos agir? Assim, procura delimitar o que é bom e o que é mal, o que é vício e virtude, etc. E o seu valor relativo ou absoluto varia conforme a sociedade e o tempo sócio-histórico, sendo, portanto, a Moral uma construção cultural que permite aos indivíduos se adequarem às tendências mais convenientes para o desenvolvimento social. Nesse sentido, a Moral, conteúdo da especulação Ética, tem o cárater normativo/prático, pretendendo fazer corresponder a realidade aos princípios estabelecidos, justificando a escolha de um valor em detrimento de outro. Segundo Chauí (1998): “Toda moral é normativa, pois cabe-lhe a tarefa de inculcar nos indivíduos os padrões de conduta, os costumes e valores da sociedade em que vivem” – e adverte – “... mas nem toda ética precisa ser normativa”. Os estudos teóricos da Filofofia Moral subdividem a Ética6 em diversas categorias, as principais são três: Ética Descritiva, Ética Metaética e Ética Normativa. 7 Ética Descritiva Descreve o que é o Bem e o que é o Mal, através da apreensão empírica dos fenômenos morais. Não há posicionamento normativo. Metaética É abstrata e epistemológica, seu objetivo é investigar a natureza dos valores, dos juízos morais (bem/mal); e os significados da linguagem avaliativa (das estruturas do discurso), métodos e lógica. Ética Normativa Procura racionalmente configurar o campo prático da moral em um estudo “histórico- filosófico ou conceitual” sobre normas morais das sociedades, desenvolvendo critérios – o foco das problemáticas é a ação-moral. As principais correntes de pensamento e discussões ético- normativas podem ser divididas em duas correntes de pensamento teórico: Ética Normativa Teleológica (ou Ética Consequêncialista) e Ética Normativa Deontológica. Do grego déon (dever), também chamada de Teoria do Dever, foca-se nas intenções e no valor da ação/regra, que devem corresponder às aspirações morais internas de cada indivíduo. Foi o filósofo Immanuel Kant quem começou traçar os caminhos para uma sistematização teórica da Ética Deontológica dentro da Filosofia Moral10. Argumentava que nossas obrigações morais devem derivar do imperativo categórico, formulado como se fosse uma Lei Universal: “Age somente em concordância com aquela máxima através da qual tu possas ao mesmo tempo querer que ela venha a se tornar uma lei universal da humanidade”. A Ética kantiana é compreendida como uma ética formal que apresenta indicações gerais da ação, não normas rígidas de conduta. As indicações sugerem para pensarmos em nós como legisladores autônomos, formadores de nossas próprias leis e máximas, baseados nos imperativos categóricos. Defendia que uma ação era ético-moral quando 8 realizada com sentimento pleno de dever (moral), reconhecendo o outro sempre como um fim em si mesmo, nunca como um meio. Nessa perspectiva o valor das consequências é independente da ação. Ética Teleológica Do grego teleos (fim), também denominada de Ética Consequêncialista, é a ética, como o próprio nome sugere, que valoriza as consequências, os fins da ação. Em oposição à Ética Deontológica, na ação a intenção é o menos importante, as consequências é que devem ser boas. E o bom é considerado o fim natural, a felicidade. Os defensores desta ética – Aristóteles, Sócrates, Platão, Epicuro, Stuart Mill, Bentham, Hare, Singer, etc – alegavam que todos os homens se devem reger por esta finalidade, as melhores opções são as que oferecem melhores resultados. A doutrina ética utilitarista é um bom exemplo da Ética Teleológica, seus pressupostos prescrevem que o objetivo último de toda ação humana é a felicidade: “Agir sempre de forma a produzir a maior quantidade de bem-estar”. A Ética ainda pode ser dividida em dois grandes conjuntos: a Ética Geral e a Ética Aplicada. A Ética Geral é abrangente, faz a análise das normas e moralidades (e códigos morais) que permeiam a sociedade como um todo – preceito, regras, legislações – absorvendo a peculiaridade cultural, espacial e histórica de cada sociedade. A Ética Aplicada é uma área recente da filosofia moral, mais restrita que a primeira, procura fazer reger os códigos de ética para determinada categoria e setor social e discutir problemas morais concretos da sociedade. Segundo Singer a Ética Aplicada: Trata de questões práticas como o aborto, a eutanásia, sobre se há justificativa em criar e em matar animais para a alimentação e sobre a obrigação de compartilhar nossa riqueza com aqueles que vivem em extrema pobreza em outros países. (SINGER, 1994). O estudo desta exige uma qualificação (intelectual/prática) em algum campo de interesse que toma questões ético-sociais específicas. Exemplo da Ética Aplicada: Ética Profissional, Ética Empresarial, Ética Animal, Ética Ecológica, Ética Científica, Bioética, etc. Nesse sentido, uma teoria ética, incluindo a Ética Ambiental, procura desenvolver critérios gerais para discernir o que é bom, certo, justo, etc, através de uma compreensão social das relações em questão. Oferece orientações em diversas situações concretas, nos quais nossas concepções morais se tornam inseguras ou parecem contraditórias. A 9 ética busca legitimar a conduta, como por exemplo: o uso de animais em experimentos científicos, as formas de apropriação dos “recursos” naturais, a questão das células- troncos, aborto, etc. Contudo, as reflexões éticas surgem através de problemas concretos do indivíduo e da sociedade. E para entender e se posicionar diante do jogo de relações entre fins e meios, deve-se minimamente procurar justificativas racionais para chegar a algum julgamento sólido e intersubjetivamente válido. Embora a divisão e classificação da Ética sejam precisas, em termos metodológicos e conceituais, é claro que devemos reconhecer o constante diálogo entre elas. O desenvolvimento de uma Filosofia Moral que atenda a atual demanda de conflitos e problemáticas depende inalienavelmente de estudos trans e interdisciplinares e de uma conversa mais íntima com outras áreas do saber (como Biológicas e Exatas). A FINALIDADE DA VIDA MORAL “Duas coisas me enchem o ânimo de admiração e respeito: o céu estrelado acima de mim e a lei moral que está em mim”. Immanul Kant A conduta ética é oriunda da consciência moral do agente (sujeito e/ou pessoa) consciente, que além de saber distinguir a dualidade bem/mal, certo/errado, permitido/proibido, virtude/vício é capaz de julgar o valor das ações, condutas ou atos em conformidade com seus valores. O discernimento e julgamento atribuem ao agente a responsabilidade de suas ações e consequências. A vida ética é a comunhão inalienável da consciência e responsabilidade. A consciência moral orientará a avaliação sobre as possíveis decisões e deliberações do agente frente às situações, atos e/ou condutas. Este, por sua vez, seguirá seus valores éticos. O campo ético prescinde da liberdade do agente exercer sua vontade, autodeterminando-se, no poder deliberativo-decisório, manifestando os valores e obrigações de suas condutas morais em consonância com o bem que, assim como o agente moral, é construído pela relação dialética entre a intersubjetividade do sujeito e o ambiente socioculturalmoral onde vive. Existem dois tipos de condicionamentos: o interno, determinado pelo caráter do indivíduo, o que diz respeito à subjetividade; e o externo – coletivo – relativo aos costumes. Estes dois condicionamentos determinam a conduta do indivíduo. 10 Neste campo existem duas categorias de agentes: passivos e ativos. E é o exercício da autodeterminação que definirá um e outro. O agente passivo não é capaz de controlar suas paixões e impulsos, e é governado por vontades de outrem, comprometendo sua própria consciência, liberdade e responsabilidade às forças alheias ao seu ser. O ativo – ao contrário, considerado virtuoso e autônomo – consegue controlar suas inclinações internas, estabelecendo suas próprias regras de conduta em conformidade com o bem, refletindo sobre o sentido, meios e fins das circunstâncias e avaliando suas consequências, tendo em consideração todos os seres cientes e não- cientes. Contudo, para se alcançar os fins da ação ética ou a finalidade da vida moral o agente não se pode valer (utilizar) de qualquer meio – é importante atentar-se a isso. Os meios também devem ser conduzidos pela conduta virtuosa, regida pelos valores éticos. Assim, os fins éticos morais pressupõem necessariamente meios éticos, contrariando a famosa expressão: “os fins justificam os meios”. É assim, como lembra o filósofo Edgard Morin: “A ética se manifesta em nós de maneira imperativa, como exigência moral” (MORIN, 1996). 11 ÉTICA AMBIENTAL: PARA UMA NOVA EPISTEMOLOGIA EPISTEMOLOGIA E SABER AMBIENTAL (...) não é suficiente conhecer o instrumental de uma civilização para compreendê- la; é que a significação desse instrumental não se acha em si mesmo; depende das atitudes fundamentais tomadas pelos homens de uma dada civilização face às suas próprias possibilidades técnicas (...) (RICOEUR, 1968). A legitimidade da crise ecológica, no final dos anos 60 e começo dos 70, começou a ser anunciada pela comunidade científica e política das sociedades industrializadas com mais veemência. As inquietações e denúncias – relevantes – de cientistas naturais acerca dos desequilíbrios ambientais tomaram as agendas intergovernamentais. O consenso de que medidas precisavam ser tomadas urgentemente foi um fato fatídico. As ameaças ganharam proporções globais, pois, além das grandes possibilidades de crises econômicas, o planeta se via à beira de uma entropia, de um colapso. Foi a primeira vez na história que a humanidade – como um todo – se viu ameaçada de extinção. A ciência, a panaceia moderna, viu-se obrigada a criar subcampos de diferentes ramos das áreas tecnológicas e naturais, na tentativa de responder à demanda das questões ambientais (Engenharia Ambiental, Gestão Ambiental, Direito Ambiental, Arquitetura ambiental, etc). A partir de então, mudanças rápidas – e um tanto que paradoxais, tanto no foco, objeto de análise e resultados – ocorrem constantemente no campo científico, paralelamente, com investimentos faraônicos, por diversas instituições, destinados às pesquisas.Assistimos um boom do “capitalismo e mercado verde”, de pesquisas ambientais, das “escolas de educação ambiental”, de projetos “sustentáveis” – 12 financiados por bancos multilaterais – o que dá impressão de que estamos caminhando para uma suposta “conciliação” com a natureza. Será? No entanto, é importante destacar que este amplo processo, nas últimas décadas do século XX e início do XXI, ainda pouco têm contribuído na formação e na consolidação de uma nova ética, humanista e ambiental. Pouco, em relação à rapidez das mudanças globais de nosso tempo. A ética precisa de bases morais sólidas construídas culturalmente; conjugadas por novas cosmologias e/ou a racionalidades, que guiam as relações sociais e ambientais de produção do mundo material, moral e simbólico. Afinal: O mundo não é um conjunto de coisas e fatos estudados pelas ciências segundo relações de causa e efeito e leis naturais. Além do mundo como conjunto racional de fatos científicos, há o mundo como lugar onde vivemos com os outros e rodeados pelas coisas (. ). Somos seres culturais – criamos a linguagem, o trabalho, a sociedade, a religião, a política, a ética, as artes e as técnicas, a filosofia e as ciências. (CHAUÍ, 1989). E, para formar uma ética ambiental, trabalho de reeducação em nossa sociedade ocidental, (Ab’Saber, 1994), tem-se que buscar reformular a raciolnalidade vigente, responsável pela orientação dos valores e do comportamento humano. Isto, possivelmente, direcionará as raízes da crise ambiental, pois, em termos metodológicos, para se solucionar algum problema – prático ou teórico – ou procurar caminhos para se sair de uma crise, deve-se primeiro saber, compreender e interpretar as dimensões do problema/crise dentro da realidade posta. Caso contrário, se a atenção se direciona apenas para os efeitos deste (problema/crise) em detrimento das verdadeiras causas e fatores, a solução será provisória, ilusória e superficial.Assim, se identificarmos a crise ecológica com a crise da “modernidade danificada”, como propõe o sociólogo contemporâneo Anthony Giddens e o ecólogo político Enrique Leff, a reflexão da problemática recai sobre a base motora desta: a racionalidade instrumental, meio pelo qual o indivíduo moderno absorve subjetivamente a realidade concreta, inferindo de modo direto no campo epistêmico que, por sua vez, se objetivará nas relações sociotecnicoambientais. Atualmente, é ínfimo o número de pesquisadores, gestores e dirigentes políticos e empresariais que tem dado atenção a este fato, decisivo na formação de uma nova sociedade que responda adequadamente aos desafios socioambientais. A ciência- tecnicista, a serviço da economia capitalista, impõe paradigmas e perspectivas imediatistas, consolidando o que se chama de racionalidade instrumental. 13 Contudo, se a compreensão das questões ambientais e medidas de ação prática, pautada em outra ética, dependem de como apreendemos o mundo objetivo (moderno) e suas relações, outra racionalidade deve ser proclamada em cima de novo modelo epistemológico. O caminho está na expansão da reflexão crítica acerca da modernidade, de seus paradigmas metodológicos e epistemológicos, e na criação de um espaço efetivo – de diálogos e debates entre as diferentes ciências e campos dos saberes – para a construção do conhecimento ambiental. Para uma ética ambiental faz-se necessária uma racionalidade que: Compreenda a degradação ambiental como um processo social, estabelecendo correlações com conceitos e categorias além das áreas das ciências naturais e biológicas, percorrendo campos da filosofia, da economia política, da sociologia, com o fim de se criar procedimentos apropriados à compreensão da teia de interações entre sociedade e natureza. (LEONEL, 1998). É nesse contexto que o mexicano Enrique Leff sugere a emergência de uma racionalidade ambiental ou uma Epistemologia Ambiental. PERSPECTIVAS PARA A CONSTRUÇÃO DE UMA ÉTICA AMBIENTAL Cada período histórico sofre transformações que exigem novas bases morais e éticas. A necessidade constante de repensar a Ética, identificar seus paradigmas, no que se fundamenta e qual a extensão de seus efeitos se dá por ser muitas vezes responsável por orientar uma série de circunstâncias, formando estruturas determinantes no processo sociocultural, como bem nos demonstrou Max Weber quando investigou quais as razões do capitalismo haver se desenvolvido fortemente primeiro nos países como a Inglaterra e Alemanha. http://pt.wikipedia.org/wiki/Inglaterra http://pt.wikipedia.org/wiki/Alemanha 14 Dizia que as condutas e comportamentos aspirados pelo protestantismo (ética protestante) nestes países tiveram um papel crucial, na medida em que favoreciam, de forma ética, a procura racional de ganho econômico, formando o que Weber chamou de “espírito do capitalismo”. Assim, a postura ética, quando fixada com preceitos naturalizados (internalizados) e aspirados pelo indivíduo, corrobora para a “imposição” de um novo modus vivendi. Uma crise moral-ética geralmente insurge em meio aos grandes problemas históricos da humanidade, já estimulando o aparecimento de novos modus vivendi e ideologias. O homem, moderno e/ou pós-moderno, viu-se engendrado em um sistema em que a ética está inserida na racionalidade instrumental/tecnologica que conduz, coercitivamente, o indivíduo às condutas utilitaristas15 – de interesses meramente econômicos e individualistas. Na medida em que a consciência humana é controlada pelas relações sociais de produção gera-se uma “mecânica do conformismo” no sistema social e no indivíduo. O filósofo alemão Herbert Marcuse considera a “mecânica do conformismo”, dentro de nossa sociedade “unidimensional”16, causa da crise ética e do esvaziamento moral, visto que no processo de internalização da ideologia de mercado o homem perde sua capacidade de distinguir e contestar seus atos no atual sistema de consumo e se acha satisfeito em suas falsas necessidades. A perda do debate público sobre questões éticas é uma das consequências deste fato. A partir disso, discussões, pesquisas e reflexões sobre a temática restringem-se a um pequeno grupo de especialistas e estudiosos, quando deveria se estender não só para todos os setores sociais, mas também para todas as áreas do saber. As experiências do século passado e do começo deste século são mais do que um convite para inserirmos reflexões éticas em nosso cotidiano, é uma necessidade. Valorar as discussões acerca dos Códigos Éticos é (re) colocar a questão da moralidade do homem moderno, discutindo os parâmetros mínimos de convivência e respeitabilidade nesta era de globalização e de catástrofes socioambientais. OS PRINCÍPIOS DA ÉTICA AMBIENTAL: CAMINHOS PARA UMA TEORIA As questões socioambientais vêm irrompendo o campo de discussões éticas, desafiando teorias e exigindo novos postulados e perspectivas, se colocando como um 15 dos problemas mais importantes deste século. A Ética Ambiental emergiu como meta “oficial” e global a partir da Conferência de Estocolmo sobre Meio Ambiente Humano de 1972, o objetivo primeiro era estimular uma nova consciência moral sobre a relação sociedade-natureza, até então, vilipendiada pelas relações de produção e pela ideologia dominante. A Ética Ambiental emerge como uma ética, acima de tudo política e social de primeira ordem. Une em suas diretrizes a racionalidade, valores e práticas sociais objetivas. Seus princípios básicos são: Sustentabilidade, Justiça Social e Preservação/Conservação. Estes três últimos elementos são centrais nos discursos atuais e por isso merecem sempre atenção em termos conceituais. É muito comum falta de clareza conceitual, que gera sérias ambiguidades, acarretando graves problemas éticos. Por isso o entendimento conceito-contexto em determinadas situações é fundamental, principalmente quando tratamos de elementos e questões atravessados por distintas ideologias e perspectivas ético-morais. Para citar um exemplo, quando uma determinada empresa emprega o termo sustentabilidade, embora não pareça, seu significado em muito pode diferenciar quando empregado por uma comunidade local autônoma. Por quê? Porque ambos os termos então inseridos em contextos ideológicas e sociais diferentes ou antagônicos. Sustentabilidade, no primeiro, acentua a inserção do mercado, na elaboração de produtos “verdes”; já no segundo, pode convergir para práticas alternativas, buscando-se maior diálogo com o mudus vivendi tradicional. Sustentabilidade é um termo complexo porque não estamos tratando de um estado estático, de simplesmente manter alguma coisa. O termo sustentabilidade geralmente é usado assim, como o equivalente de salvaguardar a natureza, ou manter o status quo, o que não o torna dinâmico. A sociedade é um todo orgânico em constante desenvolvimento, assim como o próprio ambiente, desta forma, o conceito e a práxis devem ser compatíveis com seu ideal. A sustentabilidade tem que ser, realmente, um desenvolvimento que é sustentável. Um tipo de desenvolvimento com o qual podemos arcar hoje que não seja à custa do amanhã. Construir uma teoria e prática para a Ética Ambiental é construir bases sólidas e sustentáveis, para uma nova cultura intelectual e social – respectivamente – que se opõe à atual cultura de massa e consumista, a teleologia, e o transcendentalismo – que devem ser superados. O desafio está posto pelos fatos. O processo de construção é 16 autorreflexivo e emancipatório, que multidimensiona o ser humano em condições de agente moral consciente. Transmutar a visão tradicionalista dominante requer estratagemas de atuação mais elaborados e isso exige a análise mais profunda de pontos importantes, dissolvidos no caráter ativista e mercadológico, para não corrermos o perigo de infiltrarmos em terrenos ideológicos conservadores, que se omitem no discurso e propagandas sofisticadas. A crise ecológica colocou em cheque os limites morais da humanidade e questiona o arcabouço ético em que apoia as condutas do indivíduo moderno. Esta crise reorienta o itinerário histórico. A crise ambiental está no mesmo patamar das crises morais. A ética ergue-se ante as desigualdades socioambientais: concentração de poder técnico-científico, apropriação privada dos saberes tradicionais (Biopirataria), pobreza/miséria material, alienação por desconhecimento, etc. A consolidação da Ética Ambiental fornecerá os pilares da nova cultura, na qual se construirão novas visões e surgirão novas estratégias para uma cidadania ambiental global, projetando valores e internalizando novas práticas. A Ética Ambiental provoca o enlaçamento da Conscientização, Solidariedade, Participação Política Ativa, Valores Comuns, reaproximação com a natureza, implicando na reformulação plural do sujeito “imoral” na determinação da ética predominante, através da reflexão crítica e da ação moral. Trata-se de um processo híbrido para uma gestão racional do sócio e do ambiental. O caminho da conscientização ética deve abarcar questionamentos de todas as ordens. As propostas de sustentabilidade, os valores em jogo e seu compromisso com a democracia e justiça social devem ser verificados juntamente com as estratégias de poder que carregam, que tipo de conduta estes orientam, quais os efeitos desta dominação, etc. Uma verificação minuciosa. A base teórica da Ética Ambiental é sem dúvida uma nova epistemologia do saber ambiental, incluindo um conjunto do pensamento humanista- filosófico. O saber ambiental se arraiga em novas identidades. Os sabres não são hierarquizados. O que é um saber hierarquizado? É aquele que privilegia e valora como superior determinado modelo epistêmico em detrimento do outro, como por exemplo, o antagonismo hoje estabelecido: Ciência (saber institucionalizado) e Conhecimento Tradicional. A ciência apresenta um projeto unitário investido de poder, ao contrário, a hermenêutica/saber ambiental que ressignifica moralmente o ambiente. 17 Segundo Leff: “A complexidade ambiental é um processo de reconstituição de identidades resultantes da hibridação entre o material e o simbólico; é o campo no qual se gestam novos atores sociais que se mobilizam para a apropriação da natureza”. (LEFF, 2003). A ética da democracia é justaposta aqui. Nesse processo, faz parte a socialização dos saberes e a expansão dos espaços onde se faça fluir por vias democráticas a racionalidade comunicativa que estabeleça diálogos abertos de diferentes interesses e atores sociais. A Epistemologia Ambiental traz a ideia do ressurgimento de uma nova racionalidade de caminhos novos de conhecimento na articulação multidimensional da ciência, tecnologia, sociedade e natureza. Entrecruzam saberes científicos e tradicionais, superando a reducionismo atual, sob o apoio dialético de posições antagônicas, no diálogo dos saberes, em um contexto de interculturalidade. A Epistemologia Ambiental vai além do projeto interdisciplinar de articulação de paradigmas científico-tecnológicos, as subjetividades se inscrevem nos diálogos dos saberes e na Ética Ambiental. As dimensões de saberes são ampliadas, os questionamentos permeiam e entrecruzam os campos da política, ciência da economia. Os problemas éticos emanam do desenvolvimento das relações sociais de produção no mundo objetivo. Neste início de século presenciamos muitas experiências para se colocar em prática os princípios de uma nova ética ambiental em diferentes setores sociais. Mas faltou – e falta – estímulo a estudos e práticas que fundamentam uma ética ambiental em uma nova epistemologia, pois as crises que presenciamos refletem nada menos que o problema do reconhecimento e da reapropriação do mundo, por vias não antropocêntricas. EPISTEMOLOGIA: AOS TERMOS A Epistemologia, do grego episteme (conhecimento, ciência), é o estudo dos métodos, técnicas e estruturas do conhecimento relativo ao campo de pesquisa, em cada ramo das ciências. O conhecimento/saber, produto da dinâmica dialética entre teorias, crenças, valores, ideias e conceitos, é indissociável de processos. Para vias de discussões sobre as possibilidades, essências, formas, valor (veracidade) e limites do conhecimento, a compreensão prossesual é fundamental. Temos então que olhar a construção do saber como uma atividade intelectual através da qual é feita a apreensão de um objeto exterior ao sujeito cognoscente. 18 Os conhecimentos são internalizados ou construídos muitas vezes orientados por determinadas posturas intelectuais – variando conforme as inclinações morais e ideológicas – inferindo na forma como será apresentado algum fenômeno, fato ou objeto. As principais posturas são: - Dogmática: O dogmatismo revela um conjunto sistemático de ideologias, valores ou normas, não passíveis de discussões ou revisões críticas, expressando uma espécie de “fundamentalismo intelectual”. O sujeito defende que as verdades absolutas existem dentro do campo do conhecimento, tendo ainda a absoluta certeza de que o mundo é exatamente como o percebe. - Ceticista: O princípio do ceticista é a dúvida, todo conhecimento é questionado. Admite a dificuldade intransponível de compreensão de fenômenos. Existe dentro desta concepção o ceticismo filosófico, o que adota uma postura de constante dúvida (o eterno procurar saber); e o ceticismo científico, o que tem uma posição crítica com relação à validade de ideias. Usam como ferramentas o método científico e o pensamento crítico. - Relativista: Parte da noção de que as verdades sociais variam conforme a cultura, o indivíduo, a época e o lugar. Ao contrário do etnocentrismo, não defende uma verdade ou valor absoluto. Considera que todo indivíduo possui sua própria verdade de acordo com sua cultura, a qual em cada período histórico gera padrões distintos para a construção de princípios morais, conhecimentos, crenças, etc. Perspectivista: Acredita na existência de uma única realidade, com uma verdade absoluta, a qual ninguém nunca chegará, mas cada indivíduo tem uma visão de partes desta verdade através de perspectivas alteráveis. EPISTEMOLOGIA E AMBIENTE A Epistemologia do Ambiental é uma expressão recente no campo científico. Evoca http://pt.wikipedia.org/wiki/M%C3%A9todo_cient%C3%ADfico http://pt.wikipedia.org/wiki/Relativismo 19 o estudo sistemático de mecanismos conceituais e metodológicos, apropriados para a abordagem biossocioambiental, o que permite nosso conhecimento mais preciso sobre o ambiente e suas problemáticas na sociedade. Primeiramente, a busca de um saber ambiental parte da problematização – e não a extinção – do nosso atual modelo epistêmico configurado no paradigma da ciência-tecnológica, a qual fundou a modernidade e o capitalismo tal como conhecemos hoje. No livro “Estrutura das Revoluções Científicas” (1978), Thomas Kuhn elucidou bem este conceito ao apresentar o paradigma como um “mito fundador” de uma comunidade científica, que estabelece: “...um critério (dentro das investigações e entendimentos) para a escolha de problemas que, enquanto o paradigma for aceito, poderemos considerar como dotados de uma solução possível”. A ciência predominante, aliada com o poder econômico, dita os paradigmas atuais e consequentemente as práticas, as resoluções, as pesquisas, abordagens e saberes, omitindo nos processos do conhecimento determinadas esferas (sociais) e fatos, os quais poderiam prejudicar os interesses dos dirigentes econômico-políticos, além de não admitir sua incapacidade de por si só responder às demandas das questões ambientais. As principais críticas apontam para os efeitos socioambientais da hierarquia de conhecimento imposta pela pretensão dominante – e naturalizada – da Ciência tecnológica. Afinal, é automático a palavra ciência, ou cientista, emitir no imaginário aspectos ou pesquisadores relacionados às ciências da biotecnologia, tecnologia mecânica, química, – o que evidencia, sutilmente, uma hierarquia de saber, que dá sequência à estruturação desigual nas relações de poder. Tanto é que hoje o discurso de um “saber oficial”, que estabele verdades, normas e preceitos, muitas vezes envolvendo elementos socioculturais, é preferencialmente dado por especialistas representantes das ciencias tecnológico-biológicas (a ciência predominante). Se Ciência é “o conjunto de conhecimentos socialmente adquiridos ou produzidos, historicamente acumulados, dotados de universalidade e objetividade que permitem sua transmissão, e estruturados com métodos, teorias e linguagens próprias, que visam compreender e possam orientar a natureza e as atividades humanas”, é bom termos consciência da existência de ciências no plural. Extinguir o apartheid existente entre as Ciências Humanas, Ciências Naturais e outras Ciências21 é diminuir o fundamentalismo intelectual responsável pelo caráter simplista, reducionista e funcionalista do paradigma científico. 20 Sintetizando, como caráter reducionista pode-se entender aquilo que reduz os objetos e fenômenos de ordem de importância significativa às combinações teóricas e factuais vazias, dissolve-os em suas funções. E o funcionalista, àquele de abordagem superficial que toma o modo de funcionar pela forma, sendo que o sentido verdadeiro fica obsoleto, e todo o conjunto que se infere obtém pressupostos acríticos, sem ter ao menos reflexões de ordem ética ou moral. O enlace dessas características desenvolve potenciais destrutivos para a relação ambiente x sociedade. As análises de cunho crítico da sociedade muito tem contribuído para identificar, nestes últimos anos, o conjunto de fatores que conduzem os agentes formadores de cultura a transformarem uma vasta rede de sociabilidade – interconectada com o meio físico-material – em um processo de autodestruição e desumanização: as relações de modo de produção (Marx), a formação de uma sociedade de massa, indústria cultural (Adorno), consumismo, o poder burocrático (Weber) encarnado em microestruturas sociais (Foucault), as nefastas consequências humanas da globalização (Bauman), etc. Esse proceso, presente nos conflitos socioambientais, não pode ser mitigado e solucionado somente mediante a administração científica da natureza; verifica-se uma necessidade urgente de revisão epistemológica em nosso modo uniforme e/ou reducionista de aprender os fatos e objetos. A realidade não é fragmentada, como é colocada, ainda mais quando se trata de problemas ecológicos que envolvem determinados grupos humanos. Recortar o ambiente, desvinculando-o da parte sociocultural, é típico de uma abordagem unilateral, que mais servirá para orientar uma economia lucrativa e restrita aos que obtém poder, do que projetos sustentáveis consistentes. Quando na administração de proteção de recursos naturais, ou no aumento potencial técnico destes mesmos recursos, a ciência tecnológica – discurso oficial – legitima sua sobreposição no saber tradicional- local, subestimando suas possíveis contribuições “sustentáveis” e sem dialogar com os ocupantes do ambiente. Fere drasticamente os preceitos éticos e de Direitos Humanos. Para a indiana Vandana Shiva, ativista indiana, representante importante do ecofeminismo, a ciência reducionista destrói a multiplicidade dos saberes. Além de outorgar um conhecimento uniforme e monótono, movido por interesses econômicos de uma minoria, torna a natureza mais sensível a choques externos, comprometendo gerações futuras. A Revolução Verde (RV), ciclo de inovações agrícolas promovido nas décadas de 1960 e 1970, é um bom exemplo utilizado por Shiva para ilustrar a 21 problemática, sobretudo envolvendo aspectos éticos e morais. Para aumentar a produção agrícola, principalmente em países menos desenvolvidos, foi empregada a mecanização e a disseminação intensiva de sementes híbridas (melhoradas em laboratórios), de grande quantidade de fertilizantes e de agrotóxicos, o que provocou uma imensurável degradação ambiental e também cultural, como: extinção do saber tradicional e da agricultura de pequena escala, ecomigrações, perda da biosociodiversidade, dependência tecnológica, etc. Consequências de um modelo e prática cultural imposta, desrespeitosamente, por países do “primeiro mundo” aos dos “terceiro mundo”. Contudo, Shiva adverte que a produtividade poderia ser melhorada e com retornos sociais, qualitativos e permanentes, se tivesse sido feita através de métodos tradicionais de agricultura. E conclui que ciência tecnológica a serviço da economia afunila o pensamento para um tipo de conhecimento: o científico, cultivando o que chama metaforicamente de Monoculturas da Mente. É isso que, na práxis social, Horkheimer e Adorno qualificam de domínio da “racionalidade instrumental”, uma racionalidade objetivadora e reducionista que não atende a demanda dos fenômenos ambientais, justamente por não tratar das causas e origens dos problemas. As crises ecológicas, para o cientista político Elmar Altvater, é o que chama no seu livro – de mesmo nome – “O Preço da Riqueza”, onde propõe uma ecologização da economia. Em sua concepção, a ciência reducionista conduz ao desaparecimento de todo um sistema – um sistema simbólico cultural, como mostrado acima – por meio das “mais complexas demandas de luxo, com artefatos técnicos da maior e mais fantástica complexidade, nunca antes tido na história da humanidade” (ALTVATER, 1995). E na mesma perspectiva de Giddens, concorda que as crises do ambiente são uma lenta crise civilizatória da modernidade, que tece a nossa condição pós-moderna proclamada por David Harvey sobre os destroços do projeto iluminista das ciências de “promover o controle das forças naturais e a compreensão do mundo do eu, o progresso moral, a justiça das instituições e mesmo a felicidade dos seres humanos” (HARVEY, 1996). Já o sociólogo Edgard Morin identifica a ciência reducionista com o paradigma da disjunção do homem com o ambiente, responsável pela dicotomia sociedade-natureza. Desta forma, é fato que os dilemas ecológicos contemporâneos necessitam de um “princípio de explicação mais rico do que o princípio de simplificação (separação/redução), que podemos denominar princípio de complexidade” (MORIN, 1996, 22 p. 30). E complexo, do latim complexus, é tudo aquilo que é tecido em conjunto. Desta forma, em contraposição ao reducionismo das abordagens e práticas sociais promovidas pelas políticas públicas e por determinados campos científicos, emerge a perspectiva que sugere a construção de um saber ambiental, com metodologias e teorias de interpretação/compreensão que apreenda a complexidade do ambiente, pois, como defende o ecólogo político Enrique Leff: “o ambiente não é ecologia e sim a complexidade do mundo” (LEFF, 2000). E esta complexidade ecológica, que é ‘uma questão social’, coloca a ecologia e a sociedade no mesmo patamar, exigindo uma reforma de pensamento e nas inter-relações entre os homens e o ambiente. Para Morin, a formulação do pensamento complexo inscreve no ambiente seus aspectos sociais, culturais e biológicos inerentes, o que traça a possibilidade de superação do pensamento fragmentado no processo de apreensão das questões do ambiente. Enxergar a complexidade elimina qualquer pretensão de explicação unilateral, o próprio pensamento já pressupõe uma rede de relações que anuncia cuidados conceituais e teóricos. Na explicação de Morin: [...] com a palavra ‘complexo’ não estamos dando uma explicação, mas sim assinalando uma dificuldade para explicar. Designamos algo que, não podendo realmente explicar, vamos chamar de ‘complexo’. Por isso é que, se existe um pensamento complexo, este não será um pensamento capaz de abrir todas as portas (como essas chaves que abrem caixas-fortes ou automóveis), mas um pensamento onde estará sempre presente a dificuldade [...] (MORIN, 1996, p. 274, grifo nosso). O ativismo político necessita da absorção da complexidade ambiental, até por ser esta de caráter dialógico, envolvendo múltiplas culturas e a valoração da pluralidade dos sujeitos e atores sociais. Leff sugere a ligação da Epistemologia Ambiental com a Democracia24, considerando princípios da sustentabilidade. Neste sentido, o saber ambiental pode “desenvolver um problema com ramificações extensas. Mas não finge solucioná-lo com ‘fórmulas universais’” (ELIAS, 1990, página). Daí a crítica social e o surgimento de novas problemáticas nas fronteiras do conhecimento “força” uma desestabilização nas estruturas do atual modus de saber, que postula verdades com a criação de disciplinas modernas e novos pontos de reflexão coletiva. A complexidade se coloca como um exercício especulativo da realidade da ação proativa e autocrítica, fazendo nascerem novos valores e saberes. Diante disso, o filósofo das ciências Bachelard anuncia que: “... a alma não pode, por decreto, tornar-se igênua. É 23 impossível de anular, de um só golpe, todos os conhecimentos habituais. Diante do real, aquilo que cremos saber ofusca o que deveríamos saber”. (BACHELARD, 1996). Talvez seja coveniente retomarmos alguns aspectos da epistemologia weberiana25, que acaba por contribuir no processo do saber. Uma realidade complexa é uma realidade não fragmentada, como bem observou Max Weber: a realidade é algo infinito e pode ser aprendida de vários ângulos, mas nunca a sua totalidade – a perspectiva de análise e apreensão da realidade é infinita. O processo de conhecimento fará com que façamos um corte particular deum fenômeno ou problema. Para Weber esse exercício de pensar uma Ciência da Realidade parte de duas premissas: - Primeira premissa: o conhecimento é possível a partir da referência de valores e interessses; - Segunda premissa: valores, realidades e interesses não podem ser hierarquizados. Daí nos coloca no campo de reflexão a tríade “conhecimento, valores e realidade”, fundamental para a construção do saber.26 Weber, numa postura neokantiana, separa a realidade do conhecimento. Afirma que só é possível o conhecimento atingir a realidade por meio de categorias bem definidas (que seguem as premissas) e construções conceituais claras e apropriadas, que não omitem os valores e interesses do sujeito que procura conhecer. Mas, mesmo como rigor da prática teórica, Althusser adverte que o que é apresentado não é a realidade, “a ciência nunca é a realidade”, e a ciência reducionista minimiza mais ainda o conhecimento complexo de determinados fenômenos ou fatos. Nesta linha pode-se confrontar, no campo da reflexão das crises ecológicas, o atual logos científico com a complexidade do ambiente socionatural, colocando em cheque as certezas e verdades sobre a realidade apresentada pela ciência-tecnológica moderna. O que conduz a tarefa de submeter as ciências a uma reflexão social: ela não e uma relação imediata do homem com a natureza objetiva, antes vem sempre filtrada pelo caráter sociocultural dos sujeitos cognoscentes que percebem e pesquisam. A epistemologia ambiental propõe um campo de sentidos e (re) significados do ambiente que projete a rede complexa das relações ambiente-sociedade e construa um conhecimento genuíno e orgânico. Para muitos especialistas, gestores e cientistas isto é uma espécie de “aventura epistemológica” que causa ainda certa insegurança, até porque “todo conhecimento é polêmico”, já dizia Bachelard. 24 Bachelard (1976) aponta que: “antes de constituir um conhecimento deve destruir as construções passadas e abrir lugar às novas construções; o ato de conhecer dá-se contra um conhecimento anterior, destruindo conhecimentos mal estabelecidos...” É este o movimento desconstrução-construção que constitui uma tarefa da nova epistemologia. E é importante (re) conhecer e identificar os obstáculos (epistemológicos) em dois procedimentos: adentrar as discussões (teóricas e práticas) socioambientais no cenário de eventos sociais, políticos, econômicos e ambientais de escala planetária – que não devem ser vilipendiados nas discussões, deslocando-as da realidade concreta – e intercruzar diálogos e reflexões sobre a produção social do discurso científico, pois cada campo do saber tem suas lógicas peculiares no que diz respeito aos conceitos, categorias e metodologias, assim, os discursos científicos diferenciam-se, refletindo nas estruturas sociais. Neste último caso, o mais viável é cada saber/ciência e discurso respeitar às formações culturais locais e se articular com outros saberes/ciência e discursos através de diálogos e intercâmbios. Muitas discussões irão suscitar, afinal, a produção do conhecimento está sempre circunscrita em um campo de diferentes noções morais, movimentos ideológicos, interesses setoriais, perspectivas teóricas, militantismo, que podem combinar e divergir em teorias e/ou práticas. Mas, por isso, o requerimento de espaços de diálogos de saberes e ciências (predominantes e tradicionais) é imediato, para dar base à constituição de um vasto campo de atividades, experiências e práxis, religando domínios do conhecimento até então incomunicáveis. É com base no diálogo intedisciplinar e na autorreflexão da modernidade que se egendra lentamente uma nova epistemologia, que pretende articular um processo dialético, o rico conhecimento e descobertas das ciências tecnológicas-naturais, as discussões filosóficas entre ciências com matrizes no pensamento crítico contemporâneo e as experiências socioculturais, num contexto dialógico aberto para expressão não hierarquizada da biossociodiversidade. Os diálogos entre ciências devem convergir na diluição do espaço de exclusão criado pelo desenvolvimento técnico-científico-informacional, que advém da transferência e aplicação Mas a perspectiva da totalidade oferece uma armadilha. Ela pode cair numa relação vaga e genérica, que pouco contribuirá para a compreensão socioambiental, pois pode cair num outro tipo reducionista. Um exemplo é o famoso físico norte-americano Fritjof Capra, que desenvolve paralelos interessantes, porém superficiais, do ponto de 25 vista da construção de um conhecimento prático e adequado para nossa atual realidade. Como dizia Pascal: “é impossível conhecer as partes sem conhecer o todo, como é impossível conhecer o todo sem conhecer particularmente as partes” (MORIN, 1996). É importante frisar que a Epistemologia não pretende (re) totalizar o objeto na intenção assimilação às práticas e saberes tradicionais de uso dos recursos. O saber ambiental deve ser internalizado com o desenvolvimento de uma racionalidade comunicativa, através da socialização do saber. O saber ambiental ultrapassa o campo da racionalidade científica e da objetividade teórica, de onde emergem novas estratégias conceituais. Isso propõe a revalorização de um conjunto de saberes sem pretensão de cientificidade. (LEFF, 2001a). É necessário reforçar a ideia de que o saber ambiental não procura uma pureza científica ou ainda ruptura epistemológica drástica e, sim, busca permanentemente o diálogo para fundir os objetos teóricos na ciência unificadora. É claro que com níveis diferenciados de articulações e de relações práticas, até porque cada ciência tem uma especificidade. A incorporação de teorias e métodos externos depende do critério de cada área do saber e de cada local de aplicação. O objetivo é diluir a ruptura “homem e ambiente”, que é o equivalente a sujeito e objeto, pois como em uma espécie de jogo autopoiético entre o sujeito cognoscente e o objeto sobre o qual se quer saber existe uma mútua interação e determinação não dicotomizada. Mas todas as estratégias conceituais precisam ser elaboradas no princípio da complexidade do ambiente: ...não há um único método válido, mas métodos que, ao trabalharem com a perspectiva da totalidade, podem e devem dialogar entre si, reconhecendo as especificidades de cada ciência e de outros métodos, num processo aberto que permita a redefinição dos objetos de cada ciência e recortes da materialidade da vida. (LEFF, 2003). de saber tudo, até porque primeiramente a realidade foi colocada como complexa. Nesse percurso, o rigor ético e científico dialógico é condição para a formação de uma Epistemologia Ambiental entre as ciências, o que está em consonância com o apelo de Pierre Bourdieu de que todo objeto, para tornar-se científico, “deve passar pelo crivo de uma teoria rigorosamente construída”. E tomar cuidado com os pretensiosos estudos de caso de áreas ambientais28, que muitas vezes dão o caráter descritivo e narrativo com métodos falhos e crítica superficial, não revelando as múltiplas relações inerentes da realidade – poder, ideologias, conflitos, jogo de interesses, etc – pautando-se no 26 julgamento do senso comum ou do militantismo romântico. A abertura do conhecimento proporcionada pelas (re) conciliações do sujeito/objeto e subjetividade/objetividade diminui o reducionismo viciante, em um encontro com a alteridade e complexidade. Esse processo é o alargamento dos quadros do conhecimento complexo que é concomitante com o projeto de uma nova sociedade pautada na ética ambiental. Daí que parte a construção de laços societários acompanhados do reconhecimento de interlocutores, na valoração da experiência biossociodiversa, e na movimentação livre de novos movimentos sociais e novos sentidos políticos e éticos. A epistemologia ambiental e o saber ambiental, assim, não são a ecologia das ciências ou a identificação de nexo entre ciências, mas o encontro de saberes no espaço social amplo e democrático. SOCIEDADE E AMBIENTE A natureza antecede as sociedades, dando condição necessária para a existência e desenvolvimento social. No plural: os ambientes e as sociedades interagem e modificam-se (LEONEL, 1998, página). A relação dialética Ambiente-Sociedade forma um sistema de fluxos e processos únicos, em que os fenômenos de ambos se influenciam mutuamente. A fronteira, natureza e sociedade são relativas, suas relações são algo inalienável aos seres humanos, écondição de vida, sobrevivência e cultura. Os alimentos de caça e coleta, a beleza inspiradora das paisagens, as intermitências climáticas, a matéria-prima para artefatos, os elementos simbólicos, são riquezas proporcionadas pelo fluxo vivo da natureza, que possibilitaram o desenvolvimento e transformações plurais das mais diversas culturas na humanidade; cada uma se relacionando à sua maneira com o ambiente, para obter determinado fim, “(...) valendo-se, antes e, sobretudo, da mão” (ENGELS, 1976), do trabalho manual, objetivado uma determinada realidade, fato considerado por Engels uma diferença básica, mas não excludente, entre o Homem e o Animal. O movimento de contínua mudança no ambiente foi acelerado pela intervenção do homem conforme a cosmologia de cada grupo humano. Os aspectos subjetivos construídos socialmente, por exemplo, como se veem em relação à natureza e qual a noção, significado que dão a determinados elementos naturais, e como estes irão se integrar no espaço cotidiano, é que conduziram e conduzem os métodos e formas de 27 conhecimento, apropriação e integração com o ambiente. Esta relação dialética homem-natureza cria uma natureza artificial e é aqui que insurgem as problemáticas ecológicas e as questões éticas, pois dependendo de como conduzem esta relação substancial pode ameaçar seriamente – seja no futuro e/ou no presente – as condições de vida e sobrevivência digna de um grupo ou dos seres humanos como um todo, e outras manifestações de vida cientes e não cientes. Desta forma, toda história foi e é movida pela ação do homem sobre a natureza. E desta conversão “das formas naturais em formas sociais”, nas palavras do geógrafo Ruy Moreira, deu-se o processo de “hominização do homem”. À medida que o homem intervém no ambiente (sempre dinâmico), aperfeiçoa as técnicas; desenvolve ciências e estruturas sociais (classe, cargo, função, principalmente por meio da divisão de trabalho e modos de produção); cria modelos de organização espaçotemporais; e modifica os campos e redes simbólicas. Estes aspectos demonstram o caráter cada vez mais complexo e principalmente diverso – ou melhor, biossociodiverso – da relação homem- natureza. Infelizmente a valoração “legítima” da biossociodiversidade se dá em tempos hodiernos, após longos e intensos períodos de repulsão à diferença, da exploração compulsória e privada da natureza, aliada pela dominação – violenta ou sutil – de povos, através de práticas etnocídicas, desprezo sociopolítico, ocupação de território tradicional, etc. A racionalidade individualista e competitiva da economia capitalista, iniciada na Idade Moderna, é que potencializou essa fragmentação Homem-Natureza e Homem-Natureza- Homem, evidenciada já na concepção judaico-cristã da Idade Média, que via a Natureza como objeto do Homem, e estetinha como tarefa dominar “os peixes do mar, as aves do céu, os animais domésticos, subjugar a terra”. Ao contrário, no mundo grego antigo, para esclarecer as modificações sociais da noção de Natureza, em determinada época, por exemplo, o planeta era visto como Mãe- Terra, Gaia, numa relação mítico-religiosa que condicionava o homem a se integrar, respeitosamente, na lógica de vida ambiental, partindo da noção de que a devastação da natureza levaria consequentemente à autodestruição humana. Os cantos de Hesíodo evocavam esta aspiração: “Gaia de amplos seios, base segura para sempre oferecida a todos os seres vivos”. Mas é importante enfatizar que a abertura que assistimos para a manifestação da biossociodiversidade no cenário de políticas públicas não implica, necessariamente, na dissolução da racionalidade 28 predominante. Muitas vezes, é por ela proporcionada. A promoção e exotização das culturas dos povos tradicionais (índios, quilombolas, ribeirinhos, o homem pantaneiro) em seus respectivos ambientes naturais (ou ecossistemas) criam um interessante mercado, que continua a concentrar capital nas mãos de uma minoria – de bens econômicos e bens simbólicos – é uma relação corretiva, aparentemente harmônica com a Natureza e com a diversidade. Embora seja comum nestes casos o discurso pautar-se na sustentabilidade e na valoração da diversidade dos povos, deve-se analisar mais a fundo a realidade. Em que medida as práticas em questão corroboram para a autonomia e interdependência orgânica, no decorrer do tempo, de determinado povo? Qual a perspectiva (local, global, científica, tradicional) que fundamenta a relação Homem-Natureza? Nesse momento de transição, de transformações abruptas do poder e do atual modelo econômico-político excludente, o indivíduo deve adotar para si uma postura constantemente crítica e investigativa, para realizar-se como sujeito moral, capaz de discernir e conduzir, conscientemente, seu comportamento e opinião dentro de um conjunto de processos que envolvem a relação Homem e Natureza. É um princípio de ética individual. Assim, a “revitalização” da sociedade biossociodiversa tem que ir além do reconhecimento formal-institucional de identidades. Primeiramente, deve-se romper com os cânones da exotização cultural no imaginário social. Tomar o outro” como exótico coloca doisperigos eminentes: facilita a comercialização de “cultura”. Culturas tradicionais são absorvidas no sistema de mercado – principalmente o turístico, o de produtos nativos30 e o fotográfico – sem menores cuidados, e sem retornos substantivo/equitativos de recursos sociais e financeiros. Pois:Os produtos que realmente poderiam ter bons resultados financeiramente são os que menos essas populações (tradicionais) estão preparadas para administrar, os mais interferentes e predatórios, como os farmacêuticos, sementes, material genético, madeira nobre, mineração, ecoturismo, atividades ligadas a esferas e circuitos complexos do mercado (. ) (LEONEL, 2003). Nesse processo, quando o ethos cultural do grupo não é respeitado ocorre a imposição de outra lógica organizacional e de valor, alterando significamente a relação do grupo tradicional com o ambiente, restando-lhe apenas caracteres estéticos, que estimulam a construção de uma identidade para o mercado; abrindo margem também para a exploração de um negócio lucrativo que cria “simulacros fotográficos” e “pastiches 29 culturais” um tanto quanto exótico. A “lógica do simulacro”, na visão do pós-modernista Jameson, “(...) faz muito mais do que meramente replicar a lógica do capitalismo tardio: ela a reforça e a intensifica” (JAMESON, 1996, p. 72). A superficialidade com que tratam o “outro” e a falta de percepção das complexidades culturais e sua relação com o ambiente são constitutivos da racionalidade hegemônica técnico- científica que muitas vezes, para não deixar-se sucumbir frente à crise ecológica, utiliza o sofisticado e sutil recurso34 de transformar a biossociodiversidade em uma grande coleção de imagens (retratando o modus vivendi local em ecossistemas preservados), peças de artesanatos e de produtos nativos exóticos, voltados para o mercado – e tudo isso conduzido por agentes institucionais, especialistas e cientistas externos. Esse procedimento enfraquece a autonomia dos povos, principalmente no que diz respeito ao manejamento de “recursos” naturais que foram, e são, a base secular para a sobrevivência e dinâmica cultural; insurgindo uma arena de conflitos que coloca em jogo os princípios democráticos. O outro perigo da exotização cultural é que ela colabora para reforçar a ideia etnocêntrica de superioridade organizacional e tecnológica ocidental capitalista com relação aos outros grupos culturais. Para nós, que fomos criados no contexto dessa tradição do pensamento científico- tecnológico, tomar como referência para avaliar ou julgar outros povos, nossos próprios padrões culturais e valores morais, seja político, religioso ou econômico, é quase que “natural”. Nas palavras do antropólogo político Pierre Clastres: “A referência imediata, espontânea é, senão, aquilo que melhor se conhece, pelo menos o mais familiar”. (CLASTRES, 1988) E é a visão unidimensional e homogeneizadora da sociedade que favorece para o desconhecimento de outros saberes. A sociedade interioriza certezas e verdades proclamadas pela ciência e pela economia, que é complementada com a convicção conservadora de que a “(...) história tem um sentido único de que toda sociedade está condenada a inscrever-se nessa história e a percorrer as suas etapas” (CLASTRES, 1988). Partindo disso, verificamos que nossos conceitos – incluindo principalmente os que se referem à relação homem-natureza – são carregados de valores ideológicos determinantes que às vezes nem nos damos conta. Dois exemplos: o conceito de recursos naturais e economia de subsistência. A expressão “recursos” demonstra a forma como a sociedade apropriou-se do ambiente natural, como um “sistema maquinário” a serviço do desenvolvimento e 30 crescimento econômico; pressupondo a dicotomia – natureza e sociedade –, o que implicou, durante anos, a unilateralidade das pesquisas e resoluções parciais e mitigadas dos problemas ambientais. Já o conceito de economia de subsistência dá a entender que os povos tradicionais não possuem a capacidade ou desconhecem a prática de economia de mercado, a qual se fundamenta na produção excedente de produtos para se obter a mais-valia, ou seja, o lucro. Devido a isso, trazemos em nosso imaginário a ideia de pobreza, de uma subsistência. Durante séculos, em alguns povos, as relações com a natureza fora equilibrada, procuraram extrair o mínimo necessário à sobrevivência. Mas, como temos como referência nosso próprio mundo, caímos na tentação de julgar a economia tradicional tecnologicamente inferior, incapaz de desenvolver meios eficazes e precisos de produção excedente. Por isso, pouca atenção tem-se dado aos saberes tradicionais por parte da comunidade cientifica36. Todavia, então, o que entendemos como técnica? Como sugere Clastres (1988), a técnica se resume em um: “(...) conjunto dos processos de que se munem os homens, não para assegurarem o domínio absoluto da natureza (. ) mas, para garantir um domínio do meio natural adaptado e relativo às suas necessidades”. Equivocado seria julgar arcaica, ou inferior, a tecnologia dos povos tradicionais. A produção de excedentes é projeto da modernidade, cujos efeitos e consequências ambientais, imensuráveis e irreversíveis, estamos sentindo agudamente. Ao longo da história as concepções de natureza (s) e técnicas na relação sociedade- ambiente foram tão diversas quanto às culturas. Investigações da História Natural, arqueológicas, antropológicas38, paleontológicas39, e até da Glaciólogia, vêm nos demonstrando não só a riqueza do saber milenar que permitiu a sobrevivência de muitas culturas, através da criação de técnicas adequadas com o meio; mas também, alguns desastres provocados pela relação imprópria com o ambiente. Para elucidar, vamos a alguns fatos: O biólogo Jared Diamond, num método interdisciplinar, reconstruiu o caminho dos fracassos ambientais de povos localizados em espaços-tempo distintos – Maias (Mesoamérica), Vikings (Groenlândia), Anasazi (EUA) até habitantes da Ilha de Páscoa – no livro “Collapse -How Societies Choose to Fail or Succeed” (Colapso - Como as Sociedades Escolhem o Fracasso ou o Sucesso). 31 NASAZI – EUA MOAI – ILHA DE PÁSCOA CONSTRUÇÃO MAIA – MESOAMÉRICA 32 Diamond identificou cinco fatores comuns da decadência destes povos: 1 - Mudanças climáticas; 2 - Agressão ambiental; 3 - Inimigos vizinhos; 4 - Problemas econômicos; 5 - Respostas culturais insuficientes para atender os efeitos dos itens anteriores; Conta da Ilha de Páscoa, onde o desmatamento vegetal em grande escala para a construção dos Moai, monumentos sagrados, levou à escassez de alimentos na ilha, e – consequentemente – à fome generalizada dos habitantes. Diamond coloca que as civilizações, através dos esgotamentos de recursos ambientais vitais e de uma racionalidade estéril para responder às problemáticas ambientais, são conduzidas, inevitavelmente, à autodestruição, ao autocolapso. Há uma relação com os dias de hoje? Nesse sentido, é interessante enchergarmos que estamos cometendo erros semelhantes – bem mais potencializados –, devido às complexidades sociais de civilizações grandiosas do passado que entraram em colapso ambiental. Os processos eminentemente sociopolíticocientíficos do projeto neoliberal triunfam uma ciência- Panaceia, oriunda do Siècle des Lumières, impedindo a admissão de erros estruturais e de uma reorientação no modelo epistêmico científico, que omite que nosso futuro é uma escolha e não fatores naturais decorrentes da tecnologia. Ao contrário, os povos da floresta tropical, os ameríndios, evidenciaram maior potencial criativo e perceptivo do meio. Temos que: “Os lugares mais preservados, florestas e rios, ainda coincidem com espaços interiores ocupados por índios e outras culturas tradicionais”. (MAURO, 2003). As respostas culturais às peculiaridades do ambiente se fundem na conjunção da elaboração de técnicas instrumentais com as perspectivas cosmológicas. As técnicas ameríndias foram muito menos agressivas ao ambiente se comparadas às outras culturas, e o mérito da questão se amplia quando reconhecemos que a Floresta Amazônica é um território de solo frágil, sem nutrientes, hostil às práticas agrícolas. Cientistas atestam que neste deserto coberto de árvores “o ideal seria que a floresta amazônica pudesse ser preservada intacta até que as pesquisas revelassem a melhor 33 maneira de explorá-la produtivamente por tempo indefinido. (LEONEL, 1988, apud, GOODLAND e IRWIN, 1975). Mas, na mesma direção, pesquisas apresentam como povos viveram longos períodos em florestas tropicais úmidas através de manejos “sustentáveis”. O antropólogo francês Philippe Descola apresentou em seus estudos como os Achuar da Amazônia mantiveram o regime de roças e extração de alimentos na floresta com base na forte inter-relação homem-espírito-animal-plantas-natureza. Descola argumenta que viviam em um sistema de continuidade, o movimento da natureza era intimamente imbricado com o movimento social, assim o manejo florestal se integrava na ordem da dinâmica do ecossistema. Enfatiza – um importante fator – que as cosmologias de muitos povos da Amazônia não categorizam com diferenças ontológicas dos animais e do homem. Na relação homem-meio prevalece a reciprocidade, na qual se descarta a possibilidade de o primeiro dominar o segundo. O grupo Kayapó, tribo do sul do Pará, e os Kuikuru, do alto Xingu, também ilustraram a possibilidade de interferir na floresta sem prejuízos graves, através de técnicas elaboradas que respeitavam as peculiaridades de cada ambiente, mostrando grande conhecimento no uso do solo e do clima. Praticavam a shifting cultivation, sistemas indígenas de agricultura itinerante, que evitava a rápida exaustão dos solos, e associava à plantação de várias espécies de plantas, inclusive árvores de grande porte, privilegiando a diversidade e o adensamento. Os povos tradicionais também têm demonstrado grande saber a respeito da diversidade das espécies de plantas e animais. No ensaio “O Pensamento Selvagem”, do antropólogo Lévi-Strauss, são expostas algumas características científicas do saber dos povos tradicionais – curiosidade, observação e investigação – que, baseando-se em constatações empíricas, foram capazes de criar técnicas sofisticadas, como a transformação de grãos ou raízes tóxicas em alimentos; e classificaram as espécies de seres vivos não como conhecemos na nossa ciência especializada. Todo o processo de conhecimento da vida material é relativo ao universo simbólico. Os conhecimentos – que se conjugam no saber e habilidade – do solo, clima, plantas não são reduzidos a divisões reducionistas (como muito tempo se divide a ciência positivista), estão interligados. E as técnicas estão sempre disponíveis a todos de forma adequada e aprimorada. Vandada Shiva sempre destaca a importância do saber e sistema tradicional. A 34 natureza local do conhecimento responde às peculiaridades de cada ecossistema, assumindo formas vernaculares em diferentes lugares. Quando se refere à agricultura tradicional descreve como práticas adequadas de manejo e cultivos mantiveram por anos a fertilidade dos solos, o controle de pragas, até a diversidade faunística, por meio de polinização e de seleção de sementes. O saber tradicional coloca-nos a reflexão acerca das relações Sociedade x Natureza. O envolvimento com as idiossincrasias de diversos segmentos sociais aumenta nosso potencial criativo e abre novas possibilidades para novos saberes e práticas. As questões ambientais sempre irão extrapolar os limites de nossas ciências, exigindo o resgate e a (re) criação de perspectivas e caminhos com base no “Conhecimento Híbrido” e na “compreensão de ‘compreensões’ diferentes da nossa”. (GEERTZ, 1989). Longe de um romantismo nostálgico verifica-se que o problema não está em sermos culturalmente ocidentais destruidores, mas sim na questão de nos acharmos superiores tecnologicamente e detentores de conhecimento científico, isso influi no bloqueio de vias e fluxos de diálogos epistemológicos entre ciências. A compreensão das sociabilidades permite desvendar uma etnociência. E o estabelecimento de um diálogo pode nos ajudar a criar modus vivendi sustentável e ético acima de tudo. Mas sabemos que nosso sistema ecológico e social em colapso não se regenerá em pouco tempo, mesmo com a aplicação de medidas de alta-tecnologia. As consequências socioambientais sempre serão agravantes. Os processos de adaptações graduais impostas pelos efeitos da crise ambiental devem precindir urgentemente à alteração na relação Ambiente x Sociedade, com o cuidado desta percepção não vir tarde demais aos campos de poder político-econômico global. Assim, a relação multidimensional Sociedade x Ambiente impõe oscilações ao tecido social, político e econômico. Os problemas ambientais são de ordem diversa, abrangendo uma vasta realidade interligada, que pode ser apreendida entre múltiplas perspectivas correlacionadas com problemas sociais. “Conflitos étnicos, desentendimentos entre nacionalidades, empobrecimento por causa de más colheitas ou por causa de políticas equivocadas”. (ALTVALTER, 1995). Contundo, comprender as relações sociedade x natureza não significa querer idealizar uma interação romântica e predominatemente harmônica, isso fragilizaria a construção de uma epistemologia ambiental sólida e fundamentada na realidade. Temos que procurar abrir portas para pensarmos coletivamente, a partir de experiências já 35 47 existentes, outras possibilidades menos danosas – e viáveis – ao planeta e aos seres humanos, aprendendo suas implicações (entre conflitos, solidariedade e reciprocidade) dentro da dinâmica socioambiental no decorrer da história, em uma perspectiva de unidade dialética. A INVENÇÃO DA MODERNIDADE ILUMINISMO "O Iluminismo representa a saída dos seres humanos de uma tutelagem que estes mesmos se impuseram a si. Tutelados são aqueles que se encontram incapazes de fazer uso da própria razão independentemente da direção de outrem. É-se culpado da própria tutelagem quando esta resulta não de uma deficiência do entendimento mas da falta de resolução e coragem para se fazer uso do entendimento independentemente da direção de outrem. Sapere aude! Tem coragem para fazer uso da tua própria razão! - esse é o lema do Iluminismo". Kant, Immanuel (1784) Durante o século XVII e XVIII o mundo ocidental vivenciou a emergência de um novo projeto para a humanidade: o Iluminismo, pautado no progresso técnico, cultural e humano. Este período - Siècle des Lumières - é caracterizado pelas fortes rupturas com o modus vivendi e pensanti da Idade Média (do sistema feudal) por meio de uma série de movimentos culturais, científicos, filosóficos e artísticos, que estimularam à volta de 36 preocupações sobre o ser humano (como indivíduo), e de formas e modelos políticos, científicos e sociais - à luz da Razão. A racionalidade iluminista formou novos valores ético-morais e modelos de apreensão e percepção do mundo - objetivo e subjetivo – revolucionando a organização e o desenvolvimento de todos os setores sociais, proclamando a libertação política da ignorância e do obscurantismo religioso e do Antigo Regime. A Razão, ou esclarecimento,40 forneceu não só o alicerce para a construção da modernidade racionalizada, mas também, elementos para a formação de um novo tipo de irracionalidade. Isto constitui um paradoxo no desenvolvimento do saber científico, considerando que este nasceu da oposição do sistema de pensamento mítico- religioso medieval (fé, crenças tradicionais, superstições, cosmologia deificada), e do repúdio à irracionalidade promovido por este sistema. A passagem do mito para o saber, foi o momento primeiro do “desencantamento do mundo”41 e da natureza, e procurou destituir das relações sociais e da concepção do mundo o animismo tradicional e religioso. A sensibilidade e o subjetivo foram substituídos pelo conceito, fórmula, regra, probabilidade e objetivação. O que levou a ruína progressiva da moralidade, da educação, do sujeito como ser (ente) e consciente, das organizações autônomas e orgânicas da sociedade, que se expandiram com os avanços do cientificismo tecnológico - principalmente nos fins do século XIX e século XX. Diante disso, cabe aqui à questão proferida pelo crítico Adorno: “Por que a humanidade, em vez de entrar em um estado verdadeiramente humano, está se afundando em uma nova espécie de barbárie?” (Adorno e Horkheimer, 2006) A ciência não perde, assim, sua própria raison d'êt 37 Estas questões fazem com que retornemos às concepções e às noções cruciais do projeto do Siècle des Lumières, justamente pela racionalidade iluminista – com seus princípios e valores - estarem por trás das contradições e das crises de nossa modernidade. E, esta retomada é ela mesmo um processo de auto –crítica da sociedade, e um convite à reflexão, que deve ser permanente para qualquer mente que procure enxergar uma das possíveis causas das ises socio- ambientais que vivenciamos.(Sistema de Copérnico) A teoria heliocentrica de Nicolau Copénico colocou o Sol como o centro do Sistema Solar, o que divergia com a vigente teoria que considerava, a Terra como o centro - teoria geocêntrica. Esta foi uma das mais importantes hipóteses científicas de todos os tempos. Foram as descobertas dos grandes cientistas - Isaac Newton (mecanicismo), Galileu Galilei (leis de movimentos e inécia), René Descartes (métodos cartesianos), Francis Bacon (empirismo), Nicolau Copérnico (Revolução Astronômica Copernicana), que permitiram engendrar, no campo do saber uma concepção mecanicistas da natureza e do universo, tornando a natureza uma natureza matematizada, passível de previsões. Francês Bacon, "o pai da filosofia experimental", de acordo com Adorno: “capturou bem a mentalidade da ciência que se fez depois dele. O casamento feliz entre o entendimento humano e a natureza das coisas que ele tem em mente é patriarcal: o entendimento que vence a superstição deve imperar sobre a natureza desencantada. Poder e conhecimento são sinônimos. Para Bacon, como para Lutero, o estéril prazer que o conhecimento proporciona não passa de uma espécie de lascívia. O que importa não é aquela satisfação que, para os homens, se chama "verdade", mas a "operation", o procedimento eficaz.” (Adorno e Horkheimer,2006) http://pt.wikipedia.org/wiki/Sol http://pt.wikipedia.org/wiki/Sistema_Solar http://pt.wikipedia.org/wiki/Sistema_Solar http://pt.wikipedia.org/wiki/Terra http://pt.wikipedia.org/wiki/Isaac_Newton http://pt.wikipedia.org/wiki/Galileu_Galilei http://pt.wikipedia.org/wiki/Galileu_Galilei http://pt.wikipedia.org/wiki/Ren%C3%A9_Descartes http://pt.wikipedia.org/wiki/Francis_Bacon http://pt.wikipedia.org/wiki/Nicolau_Cop%C3%A9rnico http://pt.wikipedia.org/wiki/Mecanicismo 38 A razão iluminista, assim, colocou a natureza como máquina destituída de valor intrínseco, como algo independente do homem e a ser dominado, ou melhor, operacionalizado. Este fato foi decisivo para a objetivação da natureza no decorrer do desenvolvimento sócio econômico capitalista da modernidade. A Razão se impôs como logos (dominador da natureza) determinante, conferindo à ciência e ao ratio iluminista o papel de panacéia para os males sociais. Para os iluministas, o imperativo: “a natureza precisava ser dominada” corria pari passu com a idéia que também “o homem precisava dominar sua natureza, suas paixões”. A exigência social de auto-dominação, de controle das emoções é parte do “processo civilizatório” (Nobert Elias) e da idéia de progresso social e moral do iluminismo, que, pacificando a sociedade civil concentrou a coerção física nas mãos do Estado, fazendo estabelecer o “monopólio da violência” (Weber) no poder político por meio da organização política o Estado-nação. O “processo civilizador”, aliado ao domínio da ciência tecnológica e à monopolização estatal da violência, manifestou-se em massacres e atos nefastos jamais vista na história. Desde, as práticas etnocidas imperialistas, passando pela destruição de Hiroxima e Nagasaki, pela ameaça nuclear e corrida armamentista da Guerra Fria, até execução “científica” de seis milhões de judeus pelos Nazistas, o progresso tão almejado do projeto Iluminista diluiu-se na “barbarização da humanidade” (Foto: Aushwitz na Alemanha:campo de concentração nazista) Theodor Adorno45 entende a barbárie, como: “... algo muito simples, ou seja, 39 que, estando na civilização do mais alto desenvolvimento tecnológico, as pessoas se encontrem atrasadas de um modo peculiarmente disforme em relação a sua própria civilização – e não apenas por não terem em sua arrasadora maioria experimentado a formação nos termos correspondentes ao conceito de civilização, mas a agressividade primitiva, um ódio primitivo ou, na terminologia culta, um impulso de destruição, que contribui para aumentar ainda mais o perigo de que toda esta civilização venha explodir, aliás uma tendência imanente que a caracteriza (Adorno, 2000). A barbárie é conseqüência dos impactos da revolução científico-tecnológica sobre as estruturas da sociedade, é o cume da irracionalidade, pois, relega seres humanos, e outras manifestações de vida na Natureza, à imoralidade da máquina social, que tem como princípio a descartabilidade. Assim, a ciência-tecnológica colocou-se a serviço de políticas de estado: de controle social, de imperialismo de massacre e de violência em grande escala. Seu vínculo com o aparelho do poder, se não inerente, se mostra explícito na história das atrocidades. Por exemplo, o que representa Auschwitz46 senão um espaço cientificamente organizado com alta tecnologia para matar judeus e ciganos. O sociólogo “pós-modernista” Zygmunt Bauman aponta isto como um produto da racionalização técnica e burocrática, típico do “processo civilizador” que sob o julgo da “neutralidade” científica, colabora por eliminar as influências ético-morais nas estruturas político- econômicas da sociedade. Lowy, caracteriza a barbárie promovida pela racionalidade técnico-científica pelos seguintes aspectos: “- Utilização de meios técnicos modernos. Industrialização do homicídio. Exterminação em massa graças às tecnologias científicas de ponta. - Impessoalidade do massacre. Populações inteiras – homens e mulheres, crianças e idosos – são “eliminados”, com o menor contato pessoal possível entre quem toma a decisão e as vítimas. - Gestão burocrática, administrativa, eficaz, planificada, “racional” (em termos instrumentais) dos atos bárbaros. - Ideologia legitimadora do tipo moderno: “biológica”, “higiênica”, “científica” (e não religiosa ou tradicionalista) - Todos os crimes contra a humanidade, genocídios e massacres do 40 século XX não são modernos no mesmo grau: o genocídio dos armênios em 1915, o genocídio levado a cabo pelo Pol Pot no Camboja, aquele dos tutsis em Ruanda etc. associam, cada um de maneira específica, traços modernos e traços arcaicos.” No mesmo sentido, Herbert Marcuse48 faz uma comparação entre três tipos de organização social: capitalista, nazista e socialista. E, identifica um aspecto semelhante nas três: a predominância de um controle social feito através do uso de tecnologias. A racionalidade técnica é estendida tanto no mundo físico –material quanto nas subjetividades dos sujeitos (moral, ética, sexualidade, lazer, família e etc.). No Socialismo, por exemplo, houve um processo de estruturação e condução técnica da moral, o que garantia a coesão interna do sistema. A neutralidade da razão-técnica e da ciência é uma problemática pertinente exposta por Marcuse. Pois, os objetos podem ser neutros, mas é fato que a relação objetivada não. Quando abdicam os aspectos valorativos - certo ou errado, bom ou mal, verdadeiro ou falso – no obscuro campo neutralizado – os fins são omitidos, e a percepção do mundo será instrumental. Daí as ambíguas “ajustações sócioambientais” – muitas vezes carregadas de injustiça social - são tidas como procedimentos meramente técnicos: deslocamento populacional, apropriação de terras e recursos naturais tradicionais, gestões ambientais que se alinham a interesses que não são locais e etc. No desenvolvimento do campo científico a busca por uma neutralidade serviu para impedir que normas e regras fossem impostas por outros campos que não o da ciência, como fora na Idade Média com o poder religioso. Mas, há de se questionar agora esta suposição, pois ela implica em drásticas conseqüências sociais e epistemológicas. Quando entendemos como neutra a racionalidade técnico-científica estamos lhe dando a condição de agir independente dos valores e fins. Os fins não são evidentes, o que obscurece o sentido das práticas – principalmente política-econômica. E, dissociar campos tão imbricados – como ciência e valores - é característica das relações de poder vigente. O poder absorve a racionalidade tecnicista num campo supostamente neutro, ganhando um caráter impessoal que lhe dá maior controle, centralização e administração nas práticas políticas, sociais, econômicas, disciplinares e cientifica. A burocracia atual, foi criada nestes termos, Weber aponta-a como um instrumento político tecnicamente - 41 peculiarmente ocidental -que permite uma organização eficiente, baseada na racionalidade funcional técnica e em regras impessoais, que instrumentalizam o mundo e a si mesmo. E, com a instrumentalização do mundo a Natureza e a Vida perdem seus valores intrinsecos, passando a ser racionalizada – como instrumento - dentro de uma “máquina”, idéia mecanicista herdada dos primeiros Iluministas. A racionalidade técnico-científica neutra criou e cria formas de dominação cada vez mais sofisticado . Se o poder político está inter-relacionado com a técnica, e se a técnica é neutra, não define a dimensão ética- moral do poder político, e maquia às conseqüências da prática institucional e da práxis social. E, todo este conjunto de fatos deriva de uma idéia tecnicista da Razão, que deveria estar a favor da humanidade - para o ser humano, o que implica todo o envolvimento de uma dimensão ética e moral. O problema não é a Razão-técnica ou a ciência em si, mas os usos sociais indevidos e os fins anti-éticos. Razão, Ciência, Política e Ética são elementos que não devem dissociar-se num campo de reflexão crítica e numa abordagem interpretativa/compreensiva dos fenômenos sócio-ambientais. A reflexão da racionalidade técnico-cientifica é uma reflexão sobre a relação substancial do homem-natureza-homem. O caráter instrumental deve ser substituido antes que o meio socioambiental sucumba-se. O projeto de um novo saber e racionalidade, com bases na ética ambiental, só é possível na emergência de um pensamento ético-moral dentro de novas relações objetivas tecnico-cientifica, dentro do que Marcuse chamou de razão Sensível. A própria história com o aparecimento de crises e atrocidades, nos direciona ao questionamento sobre as diretrizes de nossa Razão, ciência e tecnologia, herdada do Siécle de Luminière. A auto-reflexão, ausente no desenvolvimento das ciências, deve e tem a tarefa de evitar um novo tipo de irracionalismo, e promulgar um nova racionalidade que tem consistência na razão crítica e na ética sócio-ambiental. 42 RACIONALIDADE INSTRUMENTAL (Goya - Caprichos, El sueño de la razon produce monstruos) Quem quiser (...) a verdade da vida (...) tem que investigar sua configuração alienada. (Adorno) Como já foi dito o desenvolvimento da atual sociedade estende-se no interior da dinâmica do sistema técnico-científico-informacional, o qual vitaliza a máquina social determinada. E o elemento que potencializa essa dinâmica é o “esclarecimento” proporcionado pela racionalidade instrumental, a qual ganhou força na segunda metade do século XVIII com o significante processo cultural de ordem burguesa. Para este tópico iremos nos adentrar nas reflexões de Theodor Adorno. Adorno se coloca numa discussão que resgata a possível origem do esclarescimento, para corroborar assim no desenvolvimento de uma crítica da sociedade capaz de elucidar um conhecimento objetivo. Ele mostrou que o primeiro intuito da racionalidade instrumental foi tomado pelo desejo de libertar o ser humano do mito (da mitificação do conhecimento), esclarecendo- o. Mas, ela constitui de duas dimensões: uma é o de esclarecimento e a outra de dominação. Na primeira, fio condutor da segunda, constata-se uma contradição intrínseca de seu processo: pois, atentando que essa razão foi criada com o fim de esclarecer, 43 percebe-se que ela não esclarece a si mesma e nem é capaz de refletir sobre a ausência de seu auto-esclarecimento. Essa racionalidade que tem como raiz destruir o mito se enfatizou-se no Positivismo, reafirmando sua principal característica: a abdicação da Reflexão. Mas se a reflexão é a base da racionalidade, e se a razão instrumental à considera supérflua, então é claro que o próprio esclarecimento torna-se irracional. Portanto, sua expressão reverte-se em uma nova forma de mitologia, pois os arautos da desmistificação, da racionalidade instrumental, são dotadas de falsos princípios e conhecimentos. Sombreia-se, assim, a objetividade do conhecimento, que perde suas finalidades humanas, atribuindo a razão uma única finalidade: a Dominação da Natureza. Segundo Adorno e Horkheimer, já na origem da civilização ocidental, era possível identificar uma dialética entre o mito e esclarecimento; civilização e barbárie. Com a época ilustrada (Iluminismo) isso ganhou vigor, culminando na supremacia do mito, no mesmo tempo em que se afirmava a razão. Os resultados disso, foram os desastrosos acontecimentos do século XX, que representam fatos indicativos de como esse tipo de racionalidade, motivada pela ciência e pela técnica, é incapaz de refletir sobre si mesmo, manifestando desta forma sua irracionalidade maquiada. A predominância dessa racionalidade instrumental é garantida pela sua incessante auto-reafirmação e auto-reprodução, principalmente nos mecanismos de comunicações de nosso cotidiano, confirmando seu caráter imperativo que desfalece sua primeira pretensão: o esclarecimento. Por esse motivo Adorno e Horkheimer criticam a redução do pensamento que a ordem social dominante da consciência contemporânea faz da razão, que afeta drasticamente o conhecimento e o pensamento, tornando-os unidimensional e instrumental. Todo objeto é apreendido em sua imediatidade - numa paranóia incapaz de transcender o imediato. E processos factuais, produtores do conhecimento instrumental, baseados numa mera descrição de dados, números, classificações e cálculos, fazem uma reprodução alienada da realidade imediata. Isso dá a ilusão na consciência dos indivíduos de um real conhecimento. Nesse processo o merit é atribuído à procedimentos científicos- técnicos e matemáticos. Mas, onde pode existir esclarecimento aqui, se o “formalismo matemático, cujo o instrumento é o número, a figura mais abstrata do imediato, mantém o pensamento firmemente preso à mera imediatidade” (ADORNO; HORKHEIMER, 1985). Isso ganha uma postura em que o mundo exterior fica reduzido a um simples 44 objeto a ser mantido. A ânsia de querermos dominar o objeto na condição de sujeito acaba-nos transformando, inversamente, num objeto. É o preço da submissão do sujeito ao formalismo lógico o que, nas palavras de Adorno e Horkheimer, “aparece como triunfo da racionalidade objetiva”. A predominância da racionalidade instrumental é perversa e violenta na medida em que ela dilacera a verdadeira objetividade do saber/conhecimento e se mostra auto- insuficiente em sua missão esclarecedora. Todo o sistema de racionalização atinge até mesmo a produção cultural dando origem à Indústria Cultural. Seu produto é a reprodução da vida dos homens sob as relações de produção dominante. A cultura é tematizada no presente apenas para legitimar a sociedade imperante, que constrói uma cópia ordenada estritamente afirmativa. A sociedade copia a si mesma. A ratificação desse complexo de formação, ou melhor de semiformação, é fundamentada basicamente: na redução do pensamento, na construção de necessidades retroativas, na inversão de papéis sujeito-objeto e meio-fins, e principalmente, na anulação das contradições que perfazem o conhecimento. A consciência do sujeito é (semi)formada pelo processo de reprodução do presente. Há, nessa semiformação, uma renúncia da dialética que obstrui o esclarecimento. “Quanto mais a maquinaria do pensamento subjuga o que existe, tanto mais cegamente ela se contenta com essa reprodução”. (ADORNO; HORKHEIMER) Por isso, o imperativo categórico da Indústria Cultural: “tu deve submeter-se!”. E com o espírito subjugado à esta aparelhagem cultural, que condiciona para totalidade repressiva, submete-se obedientemente transformando a sua submissão em conformismo que maquiará possíveis incoerências na ordem da imposição de formas sociais determinadas eliminando as contradições do que é imediatamente dado. Afinal, num mundo onde as tensões são cada vez menos resolvidas, as mercadorias (bens, dados, semicultura, política, tecnologia) da Indústria Cultural mostram-se potentes em resolvê- las. O que resulta da ação contínua da conduta da Indústria Cultural é a anti- desmitificação do esclarecimento, e Adorno e Horkheimer explicam: “Do mesmo modo que os mitos já levam a cabo o esclarecimento, assim também o esclarecimento fica cada vez mais enredado, a cada passo que dá, na mitologia” (ADORNO; HORKHEIMER 1985). A princípio, a meta do esclarecimento seria livrar-se do mito e substituir a imaginação pelo saber. Porém, na visão dos autores, o processo de mitologização e 45 mistificação da razão se encontra desde a origem do desenvolvimento da racionalidade instrumental. E a cada momento que há um “avanço” do esclarecimento, mais engendrado ele se encontra na mitificação. Portanto, vemos o desmoronamento do projeto de esclarecimento e da libertação do homem da mitificação do conhecimento. Essa racionalidade dominante relegou o elemento vital do conhecimento: a Reflexão. Métodos sutis da Indústria Cultural permitiram sua predominância na (semi)formação da consciência social. Onde o que é imediatamente dado e factual é apreendido como verdade. O indivíduo (semi)formado é condicionado a sujeitar-se a esse sistema se colocando em posição de objeto, e abdicando das contradições causadas pela realidade. Isso só é possível graças as falsas conciliações, da realidade imediata, promovidas pela Indústria Cultural, a qual usa do mesmo artifício para produzir, em escala industrial, o esclarecimento. “Desse modo, o esclarecimento regride a mitologia da qual jamais soube escapar”ADORNO; HORKHEIMER; 1985). Enfim, de acordo com Adorno e Horkheimer, a única forma para emancipar-se desse falso conhecimento é a razão voltar a refletir sobre ela mesma. Deixando que as contradições explicitem-se, possibilitando fazer uma crítica da sociedade a partir de uma crítica do Antropocentrismo - do grego anthropos, "humano" e kentron, "centro" – é uma Cabe refletirmos: "vivemos em uma época esclarecida?" Kant respondeu: "Não. Mas certamente em uma época de esclarecimento". (ADORNO, 1995). ANTROPOCENTRISMO; BIOCENTRISMO; ESPECISMO Abaixo serão apresentado alguma das principais perspectivas epistemológicas e ideológicas do processo de conhecimento e de práxis da modernidade. 46 Antropocentrismo (Leonardo da vinci) concepção em que homem é o centro das perspectivas epistemológicas e de todo entendimento. Nasceu na Idade Moderna para contrapor a visão teocêntrica medieval, que colocava Deus no centro do conhecimento do mundo. Essa noção, além de estar presente no paradigma judaico-cristão: “Crescei e mutiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a. Dominai... sobre os peixes, as aves, os animais e as plantas.” 50 - dominou as perspectivas intelectuais e científicas, a partir do Siécle des Lémunière, desvalorizando outras espécies vivas na biosfera. O Iluminista, “fundador da filosofia moderna”, René Descarte já anunciava a tendencia que abriu margem para a submissão e a exploração da natureza à serviço das necessidades humanas::“Somos mestres e possuidores da natureza”, dizia. Biocentrismo 47 O biocentrismo – do grego bios, “vida” e kentron, "centro" - é um conceito, e também um movimento filosófico, que se opõe ao antropocentrismo. Desloca o homem como o centro das perspectivas de conhecimento e de visão de mundo e coloca todas as manifestações vivas em posição de igual importância, retirando da sociedade humana o status de superioridade. Assim, não existe divisões entre homens e ambiente, pré- requisito básico para a construção de uma nova ética sócio-ambiental. Especismo Especismo é um conceito, pouco conhecido, que baseia-se na diferenciação de espécie, hierarquizando seus interesses. Associando-o à prática antropocêntrica, é muito comum nas sociedades ocidentais capitalistas, em que os interesses humanos sobrepõem-se sobre a vida dos animais: experimentação em laboratórios, rodeios, granjas de sistema intensivo e etc. Há espécies, em determinadas épocas e culturas, que são escolhidas como alvo de disciminação, e outras são privilegiadas, variando conforme os interesses e caprichos dos homens. Esta visão possibilita os animais serem tratados como propriedades do homem, o que durante anos causou malstratos e desiquilibrios em várias espécies. O termo foi criado pelo psicólogo britânico Richard D. Ryder, pioneiro do movimento de Libertação Animal. Depois fora muito utilizados por Tom Regan e pelo filósofo Peter Singer, ambos escreveram muitos ensaios e artigos sobre a questão Ética com relação à vida animal, onde assemelham e colocam no mesmo circuito a Ética Ambiental, Ética Humana e Ética Animal. A relação Homem e Ambiente, nesse sentido, equivale a relação Homem-Animal- Ambiente. E, consideram um equivoco grave e antropocentrico não tratarem da causa animal quando se fala das questões sócio- ambientais. Alertam que a atual sociedade tratam os animais como meras mercadorias e 48 instrumentos sem o menor respeito com suas vidas, num ato alienante e anti-ético. Dizem: se querem tratar a Natureza com respeito, os Animais devem estar inclusos. CRISE AMBIENTAL: AS CONSEQUÊNCIAS DA MODERNIDADE HUMANIDADE E O PROGRESSO Os últimos séculos foram períodos excepcionais, onde a ciência e técnica surpreenderam e revolucionaram as estruturas sociais, acompanhados de grandes contradições. Os avanços tecnológicos, científicos e sociais cresceram paralelamente com recuos e crises sociais, ecológicas e ético-morais. O mundo sem fronteiras – globalizado – fora construído na construção de outras novas fronteiras, mais sutis – microfísicas diria Foucault51 - e eficientes. O progresso faz parte da concepção tradicional de história, que enxerga um caminho unívoco para a humanidade: o caminho da evolução das ciências e tecnologias. Os homens, se libertando das amarras míticas tradicionais da Idade Média, abraçou os paradigmas “evolutivos”, que lhe trouxeram uma aparente superioridade e hegemonia sobre as coisas do mundo, dando- lhe um sentido acabado totalizante. A visão evolucionista-progressita fora estabelecidas, no século XIX, pelas idéias que suscitaram a partir das concepções biológicas de Charles Darwin, o qual postulou a Teoria da evolução das espécies no livro Origem das espécies52 – ou "Sobre a origem das espécies através da seleção natural ou a preservação de raças favorecidas na luta pela vida". Aplicou-se esta abordagem tanto nas Ciências Humanas53 – Linguística, Sociologia, Historiologia, Filosofia quanto na própria natureza espiritual do Homem, abordada em algumas filosofias religiosas. A política, também enveredou-se por este caminho. Segundo o filósofo político (da época) Thomas Hobbes o Estado-Nação, como organização social, foi o símbolo do progresso. Posteriormente, muitos teóricos, através de estudos comparativos com povos tradicionais (em especial os ameríndios e os africanos)56, tentaram demonstrar cientificamente a suposta superioridade da civilização ocidental-européia, devido ao desenvolvimento técnico-cientifico, e à racionalização do poder, até então não identificada em outros povos. Assim, as ditas “Sociedades sem Estados” (Clastres) foram e são relegadas e submetidas ao processo de “civilização” por serem consideradas primitivas e 49 não estarem ‘no caminho do progresso.” Neste contexto, a racionalidade iluminista concebe ao progresso técnico científico e à racionalidade burocrática a força motriz da evolução da humanidade – projetando estes elementos no mito fundador da modernidade. O mito iluminista é como o mito religioso no sentido de encontrarem “(...)suas raízes nas mesmas necessidades básicas : sobrevivência,autoconservação e medo”( Olgária Matos, 1987). Até hoje, o mito da modernidade persegue o objetivo de libertação humana e de investir no homem o esclarecimento (o conhecimento e domínio técnico-cientifico) para alcançar a posição de senhores do mundo natural, e porque não social. Mas, esse processo carrega em si características contraditórias inerentes da racionalidade iluminista. Como a própria história nos mostra, a auto-conservação e a libertação do homem estão caminhando junto com a autodestruição e a dominação. Vide acontecimentos dos períodos de Guerras e Pós-guerras:ameaça nuclear, intensificação do aquecimento global, degradação de “recursos” naturais e etc. Isso faz valer a revelação de Theodor Adorno: (...) “a terra totalmente esclarecida resplandece sob o signo de uma calamidade triunfal”, perdendo sua totalidade, por meio da separação do sujeito do objeto e limitando-se ao reducionismo técnico e totalitário. Walter Benjamin, grande crítico da modernidade, afirma ainda, ser o progresso fundado na catástrofe. Acentua em sua teoria crítica da história mais o sentido regressivo, principalmente no espírito humano, do que progressivo, constatando, como Karl Marx, o processo de reificação (coisificação) intensiva do ser humano nas relações sociais de produção e o empobrecimento nas experiências humanas59, baseado na troca do ser pelo ter. Ambos reconhecem os avanços das ciências e do conhecimento, mas recusam obstinadamente o mito de um progresso entendido como resultado imanente da dedicação de cientistas nos laboratórios em suas pesquisas para as grandes corporações multilaterais; do aumento da capacidade produtiva; da intensificação da economia globalizada; da criação de redes globais em tempos reais; da falsa noção de dominação sobre a natureza e etc. Benjamin fala de dois perigos do uso da tecnologia no capitalismo: a produção de armamentos e destruição da natureza, e hoje podemos acrescentar o desenvolvimento da biotecnologia e da engenharia genética. A expressão progresso desperta quase que automaticamente no imaginário social somente os aspectos positivos e uma falsa noção de bem-estar eqüitativo. Diariamente na 50 mídia são anunciados os fantásticos fenômenos e descobertas da microbiologia, da nanotecnologia, da biogenética, da robótica, da comunicação, juntamente com a promessa de cura para doenças incuráveis, e prolongamento e qualidade de vida. Vislumbrando-nos, inegavelmente, com o espetáculo científico, lembrando da Sociedade do Espetáculo preconizada por Guy Debord61. O importante é observar a ausência de reflexão e de conscientização sobre os riscos reais do tipo de desenvolvimento humano que estamos inseridos, que é ofuscado do imaginário social, quando aliado à racionalidade e à interesses dominantes, conduzindo-nos a um movimento contrário do que esperamos. Atualmente a mídia constrói em torno do conceito progresso um modelo econômico a ser venerado e seguido. O mercado é sinônimo de progresso, e esta idéia, ao contrário do que se desejava no começo do Iluminismo, o Estado deve ser mínimo. Isto desestabiliza a relação Estado-Sociedade para a fortificação da relação Mercado- Progresso e Sociedade. Por isso, hoje vivenciamos uma crise de legitimidade institucional e representativa das instituições políticas, que coloca a sociedade civil à deriva de representantes com interesses adversos, alargando ainda mais os problemas ético62. O filósofo alemão Jurgüen Habermas no livro Técnica e ciência como ideologia constata que a ideologia do progresso técnico-científico estabeleceu um processo de despolitização da sociedade, enfraquecendo sua função política. A política fora reduzida a responder às necessidades funcionais do sistema sócio-economico dominante. Assim, seja nos discursos elitista ou de agentes institucionais da política e da economia, o progresso implicará: - Crescimento físico-material: grandes infra-estruturas, aumento na quantidade de produtos produzidos, extensão das áreas de produção; - Esclarescimento: avanços das ciências naturais – tecnológicas; - Globalização técnico-cientifico-informacional63. Este é o tripé do ideal neoliberal que fatalmente traz consigo as desigualdades sócio- econômicas; mas, fundamentalmente necessária para auto-reprodução ideológica e manutenção do atual sistema sócio-político. Dissolve o Estado passa submeter a sociedade aos ditames do mercado, desta forma, o progresso se torna uma verdade-mito, sempre reformulada, a ser prescrevida, transformado em discurso hegemônico. Há de reconhecer que os novos paradigmas aparecem em função disto, - como o 51 Saber Ambiental-; a ciência e a tecnologia são precárias e insuficientes para abarcar as conseqüências deletérias para a sociedade e ambiente, que tem como causa primeva as relações de dominação do homem sobre a natureza, como bem adverte Walter Benjamin, dizendo ainda que a libertação do homem deva preceder a libertação da natureza. 64 As transformações, mais éticas, nos usos sociais da ciência e da tecnologia possivelmente levarão às mudanças substantivas nas relações sócioambientais e de trabalho. Considerando, neste último caso, que a degradação e a intensificação do trabalho é pari passu com o desenvolvimento da tecnologia. Vê-se que a problemática centra-se não no progresso ou na ciência-tecnologica em si, mas na racionalidade (forma) que é conduzido os processos sociais. O que faz o homem destruir a si mesmo, senão a falta de reflexão e domínio sobre sua razão65. Quanto mais razão se evoca, mais desejos e pseudas necessidades são injetados nos indivíduos. Benjamin coloca a ciência e a tecnologia não como algo a ser tratado somente pelas Ciências Naturais ou tecnológicas, e sim como algo associado, inalienavelmente, às Ciências humanas. A questão progresso versus ambiente é um fato sociológico e histórico, com agentes sociais transformadores no tecido social, e por isso reclama por estudos e reflexões de caráter social-filosófico (principalmente da filosofia moral). Nessa sociedade, em que o conhecimento visa domínio técnico “como fazer”, em detrimento do saber e do “porque fazer”, dificilmente servirá para guiar a ação moral do indivíduos. A conduta ética hoje, parte da necessidade da reflexão sobre os (des)caminhos do progresso, de reforma epistemológica e moral, que reabilite os princípios de responsabilidade. Diante destas evidências cabe pensarmos a quem o progresso serve? Quem o determina? E a que custo e riscos sócio-ambientais ele é mantido? E o que podemos esperar do futuro na progressão vertiginosa deste sistema? CONSEQUÊNCIAS SOCIOAMBIENTAIS A era técnico-cientifico-informacional não assume responsabilidades com o ambiente e estreita os espaços de manifestação orgânica66 da biosóciodiversidade. Apesar dos consideráveis avanços na criação de medidas preventivas e no aumento das organizações sociais as degradações ambientais continuam alarmantes. 52 O desprezo com o princípio de responsabilidade advém da dissociação do ambiente com a sociedade. Segundo o filósofo húngaro Ervin László67 – a relação sociedade-ambiente está inscrita em um sistema multidimensional e dinâmico, e atualmente ela se aproxima de um estado que chama de “ponto de bifurcação”, que pode resultar em colapso ou avanço. Ervin László explica que para avançar deve-se superar o pensamento instrumental, o individualismo liberal, isto implica mudanças substanciais na sociedade como um todo: desde no cotidiano do individuo até nas relações de produção das empresas e políticas públicas de instituições e agentes políticos. Para Lazló é preciso olhar para a crise sócio- ambiental também em termos dinâmico de “evolução sistêmica”, pois, possivelmente chegaremos a um ponto de bifurcação de mudanças drásticas chamado de tipping point68, e quando atingido este ponto, dificilmente o homem conseguirá adaptar-se, em longo prazo, na biosfera do Planeta. O cientista inglês James Lovelock69, crítico das ações ambientais, diz em várias entrevistas que já ultrapassamos o tipping point, se queríamos ter mudado a “rota” deveríamos ter feito nas décadas de 1960 e 1970 – já anunciou por diversas vezes que quase tudo que está sendo feito para ‘salvar o planeta’ é insuficiente. Lovelock é cético quanto as atuais medidas paliativas, como: neutralização de carbono, capitalismo verde, ecoeconomia, reciclagem etc. Chama estes últimos de “fantasia ilusória”, que, mais colabora para efeitos psicológicos de diminuição de crise moral e de consciência da sociedade, do que para refrear a auto-destruição em que nos colocamos. Então, provoca dizendo que é para deixar a “Terra seguir seu curso”. No Vingança da Gaia prevê que a humanidade, daqui a poucos anos, vivenciará as mais alarmantes crises da história, os problemas climáticos atingiram situações extrema em 2020, e em 2040 regiões desérticas irão aumentar e o mundo sofrerá muito com os “refugiados ambientais” e com a escassez de produção de alimentos. Ervin Lazló, explora estes pontos nos livro Chaos Point e no Macroshift oncordando que passaríamos por uma fase crítica na primeira década do século XXI, e que, em suas previsões, no ano de 2012 a humanidade haveria de presencia a “Janela do Caos”. Lazló é otimista achando que poderemos evitar o colapso se assim reformularmos as bases de nosso desenvolvimento e do nosso pensamento. Para este caso, Lester Brown71, analista do ambiente norte americano, propõe um Plan B (Plano B)72, opondo ao Plano A, indentificado com nosso atual modelo sócio- 53 economico, advertindo que a sustentação de nossa civilização depende da mudança para uma economia alimentada por energia renovável, de reutilização e reciclagem, com um sistema de transportes diversificado. Brown chama a atenção para o fato de que tradicionalmente os EUA são apontados como os maiores vilões do ambiente consumindo – com apenas 5% da população do planeta - um terço ou mais de recursos naturais “disponíveis”, mas o cenário econômico mundial, segundo especialista, aponta que a China agora anda superando estes dados. A China hoje consome - entre as mercadorias básicas – grãos e carne, no setor de alimentos, petróleo e carvão, no energético, e aço, no industrial mais que os EUA, com exceção do petróleo. Enquanto os EUA consomem 39 milhões de toneladas de carne ao ano a China consome o dobro com 67 milhões de toneladas, e no setor industrial os EUA utilizam 104 milhões de toneladas e a China 258 milhões de toneladas. A pergunta é: se o consumo per capita desses recursos na China alcançar o atual nível dos EUA? Economistas afirmam que se a China continuar crescendo com um percentual acima de 8% sua renda per capita, em 2031, alcançará o atual nível dos EUA. E considerando ainda que as previsões apontem que o crescimento populacional saltará de 8 para 9 bilhões de pessoas até 2050, teremos um salto proporcional nas desigualdades sociais pois, nem todos podem aspirar o padrão de vida média do Norte Ocidental, o Planeta não suportaria. O Plan B é evocado mais que urgente, as evidencias das conseqüências sócioambientais do atual sistema são de proporções globais, e é a primeira vez na humanidade que o ser humano se sente ameaçado de extinção. E, lembrando do Princípio de Responsabilidade de Hans Jonas, onde se uma ação oferece perigo ou risco para o ser humano, ela deve ser renunciada, pois- o direito Humano fundamental de longo prazo é o do direito à existência como espécie (Jonas, 1995). Mas, como vemos não foi este princípio que se estabeleceu nos últimos anos. Por exemplo: a situação hídrica do planeta é delicada, pesquisas alertam que os oceanos crescem o dobro nos últimos 150 anos; há um grande aumento na salinização da água doce, que já é um fato preocupante, pois, têm altíssimos custos de reversão. Constata-se que 90% da água dos países em desenvolvimento precisam ser tratada, o que já demonstra que as questões ambientais está intimamente relacionada com as questões sociais. 54 Os exemplos de conseqüências sócioambientais são infindáveis, responsabilidade deve abranger não só o indivíduo ou instituições isoladas, mas, a coletividade. Precaução/responsabilidade: requer que se renuncie à ação danosamente plausível. Isso exige retirar o discurso de progresso mesmo quando há “suporte de um discurso hegemônico” e verificar os interesses em jogo de grupos e lobbys particulares. ÉTICA AMBIENTAL: UMA DISCUSSÃO INTERNACIONAL CONFERÊNCIAS E ENCONTROS INTERINSTITUCIONAIS; Abertura da Conferência de Estocolmo Foto Oficial da Rio-92, Presidente Collor com os Chefes de Estado que participaram A temática homem –natureza e globalização não pode restringir-se às discussões de políticos, economistas, acadêmicos, cientistas, filósofos e especialista, pelo ao http://www.senado.gov.br/web/senador/FernandoCollor/f_eco.asp#%23 http://www.senado.gov.br/web/senador/FernandoCollor/f_eco.asp#%23 55 contrário, é um debate público e aberto, pois estão tão próximas dos cidadão quanto outras questões de justiça social. Temos o ônus e a responsabilidade de identificar e refletir sobre como inferem em nosso cotidiano e na humanidade. Atualmente as questões sócio-ambientais estão ocupando o cenário das Conferências Encontros Interinstitucionais, construindo um espaço real de discussões internacionais. Vale ressaltar, que diante das problemáticas e agravamento, elas ainda são mínimas, e pouco, em termos proporcionais, tem estimulado mudanças de paradigma econômico global. Constata-se que, além das cláusulas imprecisas, há em vigor um pequeno número de tratados assinados; as estratagemas são frágeis ao atual sistema sócio-político-econômico, e a implementação de projetos sustentáveis não tem demonstrado meios para efetividade sócio-ambiental. Iremos tratar de dois grandes, e principais, encontros internacionais sobre questões do Meio Ambiente realizado pelas Nações Unidas, um em 1972 na cidade de Estocolmo – capital da Suécia –e o outro em 1992 na cidade do Rio de Janeiro (Brasil). Em 1972, foi a primeira vez que a comunidade internacional reuniu-se com o objetivo de discutir e firmar possíveis metas para minimizar os efeitos da crise ambiental. Representantes de 250 ONGs (organizações – não – gorvernamentais) e países compareceram na conferência e elaboraram juntos um Plano de Ação e uma Declaração sobre o Meio Ambiente Humano com o fim de legitimar a responsabilidade global para a construção de uma nova ética ambiental. A discussão fora centrada nas ações deletérias do homem para com o ambiente, chamando a atenção para os riscos de sobrevivência da espécie. Diferentes perspectivas dos países participantes marcaram o debate de idéias, postulações, ações políticas e econômicas, paradigmas e etc. o que ocasionou num confronto de interesses principalmente entre países do Sul e Norte. Os países do norte defendiam programas de conservação da natureza em nível global, repudiando as práticas de devastação de recursos naturais. Já os do Sul, colocavam em pauta a destruição histórica dos países industrializados, e criticavam as medidas de conservação, colocavam a questão: assolados na miséria, como os paises subdesenvolvidos irão se industrializar se não aproveitarem os recursos naturais disponíveis em seus territórios? Até hoje estas discussões Norte-Sul estão em evidência. Fabio Feldman esclarece que no início das discussões e acordos internacionais as pautas eram a dos interesses de alguns países o que acabou ampliando no sistema jurídico 56 internacional, cita: águas internacionais, o continente Antártico, o espaço aéreo, regiões costeiras, e recursos aquíferos e pesqueiros. (Fabio Feldman). Feldman identifica que na conferência predominou uma visão antropocêntrica e reducionista, onde os interesses do homem era o centro de todos as metas e acordos firmados, minimizando outras complexidades do ecossistema. Em 1992, foi a vez do Rio de Janeiro presenciar a magna "Cúpula da Terra" ou Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento (CNUMAD). Cerca de 1400 ONGs (organizações – não – gorvernamentais), 172 países, 116 chefes de Estado e mais de 10 000 participantes compareceram à reunião. No Rio 92, fizeram uma avaliação conjunta da situação sócioambiental desde a primeira conferencia de Estocolmo (1972). Discutiram as ações e medidas nacionais e internacionais sobre políticas ambientais executadas, estabelecendo, assim, novas metas, cooperação internacional e criação de novas instituições. Preocuparam-se com o desenvolvimento de mecanismos de transferência de tecnologia não poluentes aos países “em desenvolvimento”. Destacam-se cinco documentos desta reunião: Agenda 21 Convenção da Biodiversidade Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima Princípios para a Administração Sustentável das Florestas Declaração do Rio sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento Vamos aos fundamentos dos documentos: - Agenda 21 Este documento estabeleceu os princípios éticos, de responsabilidade, de cooperação, e de reflexão, em nível local, nacional e global, sobre as questões sócioambientais. Ficou acordado que cada Estado-Nação fizesse discussões internas e desenvolvessem a sua Agenda 21. No Brasil criou-se a Comissão de Políticas de Desenvolvimento Sustentável que coordena a Agenda 21 nacional (CPDS), e a partir destas se expande a construção de Agenda 21 locais. A Agenda 21 local, segundo o Ministério do Meio Ambiente: “... é o processo de planejamento participativo de um 57 determinado território que envolve a implantação, ali, de um Fórum de Agenda 21. Composto por governo e sociedade civil, o Fórum é responsável pela construção de um Plano Local de Desenvolvimento Sustentável, que estrutura as prioridades locais por meio de projetos e ações de curto, médio e longo prazos. No Fórum são também definidos os meios de implementação e as responsabilidades do governo e dos demais setores da sociedade local na implementação, acompanhamento e revisão desses projetos e ações.(MMA – Ministério do Meio Ambiente) No Brasil a construção do desenvolvimento sustentável80 procuram envolver diretamente questões de inclusão social, saúde, educação, ética sócio-ambiental, ética política-econômica e preservação dos “recursos” naturais. Assim, a agenda 21 se constituiu um importante Plano de ação e instrumento de discussões e reflexões sobre os paradigmas da atual sociedade e de criações de mecanismos de planejamentos participativos. - Convenção da Diversidade Biológica A Convenção da Diversidade Biológica foi um acordo assinado, no Rio-92, por 156 “Os objetivos dessa Convenção, a serem observados de acordo com as disposições aqui expressas, são a conservação da biodiversidade, o uso sustentável de seus componentes e a divisão eqüitativa e justa dos benefícios gerados com a utilização de recursos genéticos, através do acesso apropriado a referidos recursos, e através da transferência apropriada das tecnologias relevantes, levando-se em consideração todos os direitos sobre tais recursos e sobre as tecnologias, e através de financiamento adequado.” ( MMA – Ministério do Meio Ambiente) Ela estabelece, por meios legais, a segurança dos “recursos”naturais através do uso adequado e sustentável. Mas, ainda a ação prática está difusa, pela negligencia política de signatários. - Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima O objetivo da Convenção sobre Mudança do Clima: “O objetivo final desta Convenção e de quaisquer instrumentos jurídicos com ela relacionados que adote a Conferência das Partes é o de alcançar, em conformidade com as disposições pertinentes desta Convenção, a estabilização das concentrações de gases de efeito estufa na 58 atmosfera num nível que impeça uma interferência antrópica perigosa no sistema climático. Esse nível deverá ser alcançado num prazo suficiente que permita aos ecossistemas adaptarem-se naturalmente à mudança do clima, que assegure que a produção de alimentos não seja ameaçada e que permita ao desenvolvimento econômico prosseguir de maneira sustentável.”(MCT –Ministérioda Ciência e da tecnologia) - Princípios para a Administração Sustentável das Florestas O documento traça normas de segurança para o manejo, conservação e desenvolvimento sustentável das florestas. - Declaração do Rio sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento A Declaração é composta por 27 princípios a vigorar no projeto de desenvolvimento sustentável. “Princípio 1: Os seres humanos estão no centro das preocupações com o desenvolvimento sustentável. Têm direito a uma vida saudável e produtiva, em harmonia com a natureza. (...)Princípio 3: O direito ao desenvolvimento deve ser exercido de modo a permitir que sejam atendidas equitativamente as necessidades de desenvolvimento e de meio ambiente das gerações presentes e futuras. (...)Princípio 27:Os Estados e as pessoas devem cooperar de boa fé e num espírito de parceria para o cumprimento dos princípios constantes dessa Declaração e para o desenvolvimento do Direito Internacional no campo do desenvolvimento sustentável.” ECONOMIA: ASPECTOS GERAIS 59 As Ciências Econômicas têm como objetivo o estudo sistemático da produção, distribuição e consumo de bens e serviços. Lionel Robbins define como: “a ciência que estuda as formas de comportamento humano resultantes da relação existente entre as ilimitadas necessidades a satisfazer e os recursos que, embora escassos, se prestam a usos alternativos.” Esta ciência aponta as possíveis escolhas e estratégias para se evitar a escassez de energia, para manter o bom gerenciamento dos recursos nas dinâmicas de trocas econômicas, nas relações sociais de mercado, e para uma boa relação entre os agentes socioeconômicos. Os dois pilares das Ciências Econômicas são: Microeconomia (ou Teoria dos Preços): explica como é fixado o preço e seus fatores de produção através do estudo desde as unidades de consumo – comportamentos de agentes com mercados específicos como indivíduos, famílias e empresas –, delineando a Teoria do Consumidor e a Teoria de Empresa, até a formação de preços no mercado de bens, serviços e fatores produtivos, escrevendo a Teoria da Produção. Macroeconomia ou “cross-section”, analisa a economia como um todo – “de cima para baixo”, estudando o comportamento do sistema econômico (organização que envolve recursos produtivos em seus agregados e interações). A partir da dinâmica das microeconomias (produção, preços, renda, uso dos recursos e comércio) analisa as tendências para um melhor planejamento no crescimento da produção, do consumo e de empregos, para o controle inflacionário e para a manutenção da balaça comercial favorável. São cinco mercados que compõe a macroeconomia: Trabalho, Monetário, Títulos, Divisas, Bens e Serviços. Ainda existem outras categorias e subcategorias dentro das Ciências Econômicas – que não vamos nos atentar aqui –, como a Economia Ortodoxa, Heterodoxa, Positiva, Normativa, Financeira, Geografia Economica, etc. 60 O AMBIENTE NA ECONOMIA: UM PANORAMA GERAL “O consumo é a única finalidade e o único propósito de toda produção.” (Adam Smith) Os longos períodos de recessão, crises políticas, ambientais e econômicas – a mais grave fora a grande depressão de 1929 – e uma série de acontecimentos que tumultuaram o cenário no Breve Século XX fizeram com que surgissem diferentes concepções de políticas desenvolvimentistas sob as mais diversas bases teóricas, e sob o aumento inescrupuloso do crescimento econômico89, tido como inalienável para o bom andamento da sociedade. O projeto desenvolvimentista da modernidade mostrou caminhos frágeis e contraditórios, e procurou de todo o modo responder e superar as grandes problemáticas inerentes do próprio modelo político-econômico adotado. E, se um projeto se consagra em seus sucessos, os seus insucessos merecem uma reavaliação. Temos que a prosperidade atingiu somente alguns campos da sociedade, principalmente os do mercado e tecnologias. Enquanto que no setor social, muitos indivíduos e sociedades – apesar de grandes conquistas, principalmente o dos Direitos Humanos –, ainda se encontram à deriva de políticas sociais solidárias e assistencialistas, usufruindo de maneira precária e desigual os “progressos” científicos e tecnológicos do sistema de globalização. Nesse sentido, há um aspecto importante a ser considerado pelas ciências: o da incapacidade – ou “opção” (Dupas) – do crescimento econômico em promover políticas sociais eficientes, que sejam capazes de expandir o bem-estar para uma parcela significativa da sociedade e diminuir a alta degradação ambiental. Vale ressaltar que os baixos indicadores sociais vêm sendo acompanhados com as graves crises ambientais, 61 aumentando a necessidade urgente de uma reflexão sobre os modelos e paradigmas econômicos. Em “Mito do Progresso” o sociólogo Gilberto Dupas sintetiza bem este fato: A globalização não amplia os espaços, estreita-os; não assume responsabilidades sociais e ambientais; pelo contrário, acumula problemas, transforma-se em sintoma de sobrecarga. A história é o resultado de numerosas e complexas intenções particulares que se entrecruzam, se enlaçam e se desviam. (...) É a opção privilegiada e inexorável pela acumulação de capital, em detrimento do bem-estar social amplo. (DUPAS, 2007). Para mitigar os drásticos efeitos negativos disso, projetos e mais projetos foram acionados e construídos em cima de dados superficiais e reducionistas. Balanços feitos por economistas, sociólogos e cientistas políticos atestam muitas falhas, inclusive históricas, e que são constantemente repetidas por alguns dirigentes de estado. Uma delas refere-se às análises e estratégias que se baseiam somente em dados quantitativos, muito comuns nos relatórios internacionais, utilizados no decorrer do século. Por exemplo: a avaliação quantitativa do PIB (Produto Interno Bruto), em que os aspectos distributivos das “riquezas” e do “progresso” configuram-se em quadros distorcidos e pouco reais. Esta medida, ainda importante para mensurar o desenvolvimento de um Estado- Nação, foi complementada pela proposta de um IDH - Índice de Desenvolvimento Humano, que se coloca como uma avaliação multidimensional do desenvolvimento humano – o Índice foi criado pelo economista indiano Amartya Sen, ganhador do Prêmio Nobel de Economia de 1998, e pelo economista paquistanês Mahbub ul Haq. Falhas também foram constatadas em políticas com pressupostos Keynesianos, com duras críticas à ação livre do mercado e na defesa da intervenção do Estado na economia, que não ficaram isentas de um reducionismo nas análises e estratagemas. Daí que nas últimas décadas o que mais presenciamos foi uma centralização cada vez maior do capital, e é importante termos claro do vínculo entre capital-ambiente, como bem nos diz Isabel Loreiro em “Mudar o sentido do progresso ou parar o progresso?”: O movimento ecológico e os partidos verdes nasceram em oposição a esse ideário (progressista) , mas frequentemente são incapazes de ver que os problemas ambientais e sociais resultam da lógica da acumulação do capital e que só poderão ser resolvidos por meio de uma transformação radical da sociedade capitalista. São poucos que ousam a pensar – ou melhor – colocar em prática esta ideia, numa 62 sociedade onde a ordem hegemônica capitalista parece não abrir espaço para formas alternativas de modus pensanti e modus vivendi. O que é evidente, em tempos hodiernos, é o fato de que todos os sistemas econômicos, em seus diversos modelos e perspectivas, vivenciam a problemática dos impactos ambientais, atribuindo aos mecanismos econômicos e às tecnologias sustentáveis grande valor político e social. É por isso que milhões e milhões de dólares (ou reais) são gastos para financiamentos de projetos e pesquisas que colaborem para o estabelecimento do que passaram a chamar de “desenvolvimento sustentável”. Assim, a maior parte dos economistas e dirigentes políticos globais, diante de uma época em que a “estabilidade”, ou melhor, a sustentação temporária da instabilidade se vê ameaçada, acreditam que o desenvolvimento depende agora da boa gerência, da inserção do ambiente na economia e da racional condução dos modelos de produção e do Capital. Visão esta que oculta a necessidade de transformações substanciais nas estruturas do poder e das relações sociais de produção. Outra lógica de gestão nas organizações é talvez mais urgente do que a produção faraônica de produtos e meios tecnológicos, segundo ambientalistas críticos. Mas a ala dos economistas de mercado pouca atenção dão à logística predominante. Desde a década de 1970 (quando oficializou internacionalmente a adoção de políticas econômicas ambientais) preocupavam mais com a conciliação de políticas econômicas com as políticas ecoambientais (no sentido de prevenir a escassez de matéria-prima para o mercado) do que com o ambiente em si (como um sistema vivo dotado de valor intrínseco); pois, o que se temia – e se teme até hoje – é que se criem aleatoriamente empecilhos para o crescimento de mercado e progresso nacional/global. Nos últimos anos houve muitas manifestações de vertentes de pensamento nas ciências econômicas preocupadas com a inserção das questões ambientais em seus programas de análises e estudos, que vão desde o temor com a situação catastrófica promovida pela relação homem-ambiente (que está abreviando o tempo de vida na biosfera terrestre) até as inquietações econômicas, no que se refere às falhas nos sistemas de permuta (energético- material)93, que por sua vez acaba prejudicando a obtenção de lucro e o livre desenvolvimento do capital. Desta forma, as preocupações com os recursos naturais tiveram presentes nas discussões de teorias econômicas de formas diferentes. A alocação intemporal dos recursos naturais, ora foram tratadas como assunto de primeira ordem, ora segunda. Na 63 escola dos fisiocratas94 do século XVIII, por exemplo, os recursos naturais, em especial a terra, tinham grande valor. Acreditavam que a riqueza só podia vir da terra. Com o advento da Revolução Industrial houve uma mudança de enfoque, os recursos naturais ganham um papel secundário, tornando-se apenas um fator de produção. O economista britânico David Ricardo95, já na elaboração das leis de rendimentos, advertia da limitação dos recursos naturais. Mas não com a ideia de que os recursos poderiam atingir o desenvolvimento do capitalismo – acreditava que o único fator capaz de impor limitações ao sistema capitalista era o ritmo de inovações tecnológicas. Aproximando de Ricardo o economista Joseph Alois Schumpeter atribui às inovações tecnocientíficas a variável responsável pela expansão econômica e pelo ritmo dos ciclos econômicos. O enfoque é tecnicista, não chega a fazer referência teórica sobre a inserção dos recursos naturais nos processos produtivos. A tecnociência é também observada por Marx – que ressalta sua importância na economia e nas configurações de caminhos determinantes para a expansão do Capital. Marx anuncia que o sistema capitalista tem suas limitações pautadas nas próprias contradições sociais que provoca. Embora em suas teorias os recursos naturais ocupem um lugar secundário, a visão das contradições internas deste processo histórico contribuiu metodologicamente não só para o surgimento do ecomarxismo, mas também para complementar a compreensão da realidade atual feita por uma série de teóricos e estudiosos da questão. Contudo, foram as evidências das contradições nas relações sociais de produção que trouxeram novos elementos para serem discutidos e incluídos nas grandes discussões das ciências econômicas. O meio ambiente foi um deles, insurgindo como um grande desafio teórico, metodológico e prático. Neste contexto, que emergem Economia(s) voltada para o Ambiente – como possibilidade de atender as demandas e de se buscar uma aproximação de planejamento econômico com os princípios de sustentabilidade ambiental. 64 ECONOMIA E AMBIENTE: PERSPECTIVAS TEÓRICAS “A economia por si só é uma grande fonte de receitas”. (SÊNECA, 2000). Sob a ótica da sustentabilidade existem três principais correntes nas Ciências Econômicas para o ambiente: - Economia Ambiental Neoclássica - Economia Ecológica - Ecomarxismo Os desenvolvimentos destas perspectivas pairam nas seguintes questões: - Como incluir variáveis não econômicas no planejamento das políticas públicas econômicas? - Como mensurar o valor ambiental? - Como lidar com os futuros colapsos econômicos devido à escassez de “energia” (no sentido amplo)? - Será que é possível desenvolver uma economia para o ambiente eficiente, mesmo que ela esteja pautada na racionalidade vigente? 65 ECOMARXISMO Do mesmo modo que não podemos julgar um indivíduo pelo que ele pensa de si mesmo, não podemos tampouco julgar estas épocas de revolução pela sua consciência, mas, ao contrário, é necessário explicar esta consciência pelas contradições da vida material, pelo conflito existente entre as forças produtivas e as relações de produção. (MARX, 1986). O Ecomarxismo (ou ecossocialismo)98 surgiu em meados da década de 196099, ganhando força pioneira principalmente na Europa e Austrália. Tem como base a reflexão teórica de Karl Marx100. Esta corrente não é fácil de caracterizar sistematicamente, pois existe uma grande diversidade de autores e com posições também variadas. Os ecomarxistas têm em comum o uso do método do materialismo histórico nas questões socioambientais, fazendo também uma leitura da teoria do valor postulada por Marx, baseada exclusivamente no valor de troca. Assim, dão uma importante ênfase nas contradições sociais do sistema socioeconômico capitalista, dirigindo críticas sob as relações sociais homem-natureza e sob as relações de propriedade e meios de produção. Acreditam que a dinâmica competitiva capitalista é a principal responsável pela crise ambiental, e por isso é fundamental fazer uma compreensão das relações de poder e de trabalho (divisão do trabalho), já que este último é responsável pelas transformações no ambiente. Na perspectiva marxiana a natureza significa a totalidade do mundo que rodeia o homem, com limites físicos naturais – um conceito semelhante ao de biosfera – lembra o 66 sociólogo Franz Josef Brüseke. A natureza é o ponto de partida da história e sobre ela o homem possui uma atividade vital consciente, o que o diferencia do animal. O trabalho, para Marx, é que define o homem e o torna particular enquanto espécie:(...) o homem produz universalmente; o animal produz sob o domínio da necessidade física imediata, enquanto o homem produz livremente as necessidades físicas e só produz verdadeiramente ao libertar-se de si mesmo; o animal produz somente a si mesmo, enquanto o homem reproduz toda a natureza; o produto do animal tem uma relação de pertinência imediata com o seu corpo físico, enquanto o homem defronta-se livremente com o seu produto. (. ) é exatamente na transformação do mundo concreto que o homem apenas se afirma efetivamente como um ser de espécie. Esta produção é a sua vida útil de espécie. Através dela a natureza surge como sua obra e realidade (MARX, 1986). Em uma noção um tanto que antropocêntrica, o homem é o centro da criação e transforma o mundo de acordo com sua imagem103. Assim, Marx não se preocupou muito com a degradação ambiental e o que poderia advir disso. A Natureza é um elemento separado e a serviço do Homem. (ECKERSLEY, 1995). E se a natureza é considerada um recurso estático e transformada em produto de mercado no sistema capitalista, é aqui – nas relações sociais que estão envolvidas – que as análises e propostas devem se pautar. As propostas dos ecossocialistas, geralmente as mais ortodoxas, não são compatíveis com a dinâmica do sistema capitalista, já que esta conduz a acumulação de capital nas mãos de uma minoria e a relação conflituosa de interesses classistas, que é a causa de tanta pobreza e de tanto desastre ambiental, entre outros fatores. O Estado é constantemente exigido para assumir um novo papel que criará também uma nova relação homem-ambiente e uma nova organização sociogeográfica. Esta perspectiva ajuda a entender a crise ambiental na forma social de produção capitalista105. As necessidades sociais devem ser colocadas como prioridades em detrimento de lucros, mas o ideal seria agrupá-la junto com as demandas econômicas, articulando no eixo de formulação de políticas públicas. O que é interessante resgatar na teoria marxiana é que o homem, em todo momento, é colocado como um sujeito histórico moral transformador e deve, assim, estar consciente de suas ações, pois ele tem em si princípios de responsabilidade. É somente nesta condição que o homem pode construir uma nova ética e racionalidade. 67 ECONOMIA AMBIENTAL FONTE: Pedro Martinelli, ano “A economia compreende todas as atividades do país, mas nenhuma atividade do país compreende a economia”. MILLÔR FERNANDES A Economia Ambiental é um dos sub-ramos das Ciências Econômicas que se preocupa com a agregação de custos relativos ao valor da preservação, da manutenção e da recuperação dos recursos naturais (tidos como propriedade comum), em que o mau gerenciamento e a escassez destes, e políticas públicas ineficientes, podem causar graves falhas no mercado. Nos anos 1960 e 1970 a evidência do crescimento acelerado das degradações ambientais estimulou o surgimento de ideologias ambientais antiprogressistas, adotadas por ambientalistas e ecologistas mais radicais. Mas todos os setores sociais começaram a encarar que a escassez dos recursos naturais era um fato verídico. O estopim para isto foi a crise do petróleo na década de 1970. Durante décadas existiram controvérsias quanto à natureza do crescimento econômico e a finitude dos recursos naturais. Muitos acreditavam que o crescimento não inferia na exaustão do ambiente e muito menos na diminuição da qualidade de vida social, ao contrário, outros demonstravam que as diretrizes do pensamento econômico precisavam ser alteradas para poder encarar a nova realidade que se afligia. Neste contexto, a Economia Ambiental desenvolve-se como subdisciplina e como uma reação ao paradigma convencional vigente, para apoiar o processo de crescimento e conservação de recursos naturais. Esta corrente de pensamento é otimista quanto ao 68 crescimento e vê como base para isso as tecnologias e os processos mercantis compensatórios. Ela sugere não apenas o seguimento de exigências do mercado e o respeito às legislações ambientais, mas também uma boa oportunidade de maximização das receitas em longo prazo. Ou seja, um ótimo planejamento ambiental reduzirá muitos custos e possivelmente no futuro trará mais lucros. Prevendo a escassez dos recursos naturais e a insuficiência deste em sustentar em longo prazo o padrão de consumo e “necessidades” da sociedade atual, procuram mitigar as problemáticas socioambientais através da maximização do valor da “Natureza” e da análise do custo-benefício. O que almejam é alcançar o Ótimo de Pareto, que diz respeito ao desenvolvimento da microeconomia, onde basicamente106 se procura melhorar a situação de alguns consumidores sem prejudicar qualquer outro. A grande dificuldade tem sido minimizar a cultura da imediaticidade, empecilho para a elaboração de estratégias que melhorem a relação homem- natureza. Afinal, também devemos considerar o ritmo das transformações naturais, que é lento e, de todo modo, incompatível com nosso compasso de produção material e poluição ambiental. O que desanima os empresários e investidores públicos são os altos custos operacionais, administrativos e de infraestruturas iniciais para as mudanças na lógica na racionalização de produção, que fundamentalmente requer no mínimo estruturas fixas para a diminuição dos desperdícios – através do aproveitamento dos resíduos da produção, a reciclagem, o gerenciamento adequado dos recursos naturais, etc. Levando em conta que os custos para a construção de um SGA (Sistema de Gerenciamento Ambiental) dependem das características do ambiente socioambiental do local a ser implantado. 69 A visão pluralista e interdisciplinar da economia ambiental vem contribuindo para a construção de um pensamento econômico que abarque as principais questões ambientais. A economia ambiental procura, assim, fornecer parâmetros teóricos práticos para a melhor estratégia econômica de determinados projetos e gerenciamentos, implantando o desenvolvimento da economia através meio “sustentável”. Os objetivos deste projeto são: - a preservação; - o manejo mais adequado dos recursos naturais, - a diminuição da degradação ambiental já ocasionada; - e o melhoramento de vida da sociedade de hoje e das gerações futuras. O tratamento com os setores e elementos envolvidos, embora interdisciplinares, serão de abordagem econômica. E este tipo de economia basicamente tende a atender os interesses dos países de primeiro mundo, segundo o estudioso Charles C. Muller108. As soluções propostas na abordagem econômica procuram incorporar valor nas análises, configurando um dos grandes dilemas nas ciências sociais e econômicas como um todo. - Como colocar valor numa floresta, por exemplo? É um assunto delicado, que não agrada muitas correntes ambientalistas, ecologistas e até filósofos. É muito comum o uso da seguinte expressão: Valor de uso (VU) + Valor de Opção (VO) + Valor de Existência (VE) = Valor Econômico Total VU = Este valor é atribuído pelos indivíduos que usam o recurso ambiental. VO = Valor atribuído pelos indivíduos que não utilizam o recurso ambiental, 70 mas, que podem ser usados posteriormente. VE = Valor atribuído à existência do recurso independente da utilidade. VT = É a soma total dos elementos acima. Só que este método, entre outros parecidos, apresenta uma série de falhas, entre elas: a incerteza dos acontecimentos futuros e a ausência de indicadores dos impactos em longo prazo. O valor é uma variável sócio-histórica, passível de mudança, de acordo com os fatos político-econômicos e com as características socioculturais peculiares de cada recurso. Os métodos de avaliação de produção sacrificam o valor dos impactos negativos ao ambiente, no sentido de que uma produção não incorpora os custos intemporais (referentes à disponibilidade de recursos para gerações futuras). E quando há interesse na utilização de um recurso natural é comum o método de uma avaliação contingente, que tende a mensurar o valor que um consumidor pode pagar pelo bem natural que utilizará, ou o valor que recebe em compensação da perda deste. As técnicas de avaliação permeiam um mercado hipotético. Os custos de proteção são os de danos ambientais, medidas de proteção, custos sociais e custos externos. Escola Neoclássica A escola de economistas neoclássicas109, também chamada de marginalistas, vigorou no pensamento econômico no período entre 1870 e 1929. Procurava determinar as causas da riqueza para a alocação de recursos, visando sempre a maximilização da utilidade. A economia ambiental neoclássica pauta na ideia de Arthur C. Pigou e de seu discípulo Keynes. A questão percorre a alocação de recursos ambientais escassos e a dinâmica da “mão invisível do mercado”. Pigou utilizou o conceito das externalidades negativas em relação à natureza no ensaio Economics of Welfare (PIGOU, 1920). Custos externos positivos são custos que uma empresa lança a outra. A lesão por causas externas prejudica o objetivo central da Economics of Welfare: que é o Optimun-Pareto. Para garantir o bem-estar é recomendado que se coloque impostos às empresas que causaram custos externos negativos, que corresponda à soma do prejuízo causado. 71 Assim, a relação da economia neoclássica com os recursos naturais tem no princípio de escassez o norte para a fixação de preços – conforme o mercado – e para a “internalização da externalidade”. Os recursos naturais são tidos como um Bem Econômico stricto senso. Os recursos naturais, então, passam a permear a lógica do mercado. A privatização de bens públicos, concessões, licenças, taxas, etc, são as principais sugestões de ações dos neoclássicos, que veem na apropriação e no gerenciamento de uma minoria a melhor maneira de preservação e conservação. Há graves problemas éticos e democráticos com relação à privatização de bens públicos, pois ferem direitos não só de povos tradicionais110, mas também de todos os cidadãos. E é claro que a privatização acaba por servir aos interesses particulares de pequenos grupos políticos e/ou econômicos. PASTO DE OVELHAS A privatização foi a mesma resposta que o biólogo americano Garrett Hardin deu aos problemas de degradação dos recursos naturais no ensaio de 1968: “The Tragedy of the Commons”, para a Revista Science. Chamava a atenção para os conflitos de interesses, a gerenciação deficiente, a hiperexploração e a finitude dos bens naturais que fatalmente – profetizava – levariam à Tragédia dos Comuns. Apontava para problemas causados pelo crescimento populacional (uma posição Malthusiana), para os quais não haveria soluções técnicas. Em seus ensaios sempre deixa claro que a ciência e a tecnologia não têm soluções previsíveis para sustentar o atual consumo – em longo prazo. Afinal, sempre recolocava este ponto: “The population problem has no technical solution; it requires a fundamental extension in morality” (“O problema da população não tem solução 72 técnica: ele exige uma ampliação fundamental da moralidade”). Aqui percebe-se a necessidade de uma racionalidade com bases na ética ambiental e social (incluindo as gerações futuras). Deve-se colocar limites energéticos no planeta e minimizar substancialmente o consumo dos recursos, pois isto interferia diretamente na qualidade de vida de todos seres humanos. Garrett Hardin coloca um exemplo de uma pastagem que é compartilhada com um grupo de pastores em comum. Suponha que um grupo dos pastores queira aumentar a produção e por isso aumenta o número de animais. Há dois aspectos neste fato: um positivo e outro negativo. No mesmo tempo em que o pastor recebe um determinado lucro por cada animal, o ambiente sofrerá impactos negativos, porque estará proporcionalmente mais degradado. O lucro irá ser concedido ao pastor dono do maior número de animais e a degradação da pastagem será compartilhada entre os pastores proprietários. Ou seja, somente os aspectos negativos serão compartilhados. E se ainda o pastor que obteve maior lucro continuar investindo no aumento de seu rebanho, maior ficará a devastação da pastagem, e maior será o prejuízo dos outros pastores, porque sofrerão a aceleração da degradação do pasto comum. E imagine se isto fosse possível (o aumento do rebalho) para cada pastor. Consequentemente, o pasto não iria suportar. E esta lógica é que Hardin considera a Tragédia dos Bens Comuns. Por isso, na condição de serem bens comuns os recursos naturais é que Hardin e os neclássicos defendem uma adminisração mais sistemática. Esta superpopulação de animais é um bom exemplo de externalidade e internalizar a externalidade conforme a lógica do mercado é o propósito da economia ambiental. O pressuposto é a privatização (ou outras licitações do gênero) do recursos naturais, criado para evitar abusos de determinados segmentos sociais. Esta perspectiva elimina qualquer valor intrínseco da natureza. Além deste exemplo podemos citar as taxas de contaminação, que isentam o poluidor de responsabilidade ambiental. Esta prática é muito comum entre negociações e relações norte- sul. Os países industrializados do norte tendem a transferir consequências deletérias de seu desenvolvimento ao ambiente dos países do sul (pobres) – através da compra de créditos de carbono, instalação de indústrias, exploração de recursos naturais, transferência de contaminação do solo, aguá, etc. 73 A perspectiva de ação ambiental a partir dos princípios da economia ambiental tem sido muito criticada pela sua postura unidimensional e reducionista, pois todas as estratagemas são balizadas segundo o movimento do mercado, deslocando a responsabilidade social de cada agente e desprezando uma série de problemáticas morais, éticas e democráticas, além de relegar a dimensão das contradições e dos custos sociais. Estes pontos são coerentes com o tipo de racionalidade instrumental. Mas, diante disso, os economistas do ambiente afirmam que estas medidas evitariam muitos desastres e a intensificação da crise ecológica. Apoiam-se principalmente no princípio de escassez dos economistas neoclássicos, dando aos recursos naturais status de “bens econômicos”. Cabe-nos perguntar: quais são as vantagens sociais deste tipo de ação? Seria ela uma boa condutora para uma sociedade sustentável? A ECONOMIA ECOLÓGICA Durantes anos a economia considerou a ecologia um empecilho para o crescimento. Nessa ótica os problemas ambientais são considerados imperfeições de mercado que podem ter se originado tanto do mau gerenciamento dos “bens livres” comuns, quanto da ausência metodológica em quantificação, determinação de propriedade ou processos similares. Mas a Economia Ecológica – também um campo de pesquisas interdisciplinares que está ganhando espaço aos poucos nas formulações de desenvolvimento sustentável – procura ir além do que meramente formar preços no mercado, partir de princípios de escassez ou mesmo instituir novos bens econômicos. 74 Sua análise econômica se preocupa, antes, em estudar e interpretar os limites que a dinâmica dos recursos naturais113 oferece aos processos de produção, distribuição e consumo – partindo do pressuposto, holístico e multidimensional, de que as instituições político-econômicas devam atender às demandas diferenciadas colocadas pela sociedade. Esta visão holística atribui valor intrínseco à natureza, o meio ambiente em seu aspecto geral deve ser aprendido como uma teia, com inter-relações complexas e inseparáveis. Assim, dirige duras críticas, a partir dos aspectos físico-químicos do planeta e da interação da vida à Economia Neoclássica Ambiental – a qual considera insustentável e também às formas sociais de produção capitalista. As análises da Economia Ecológica se pautam nas Leis Físicas da Termodinâmica – Lei de Entropia ou Lei de Conservação de Energia – aproximando os ecossistemas naturais da dinâmica econômica. Foi na década de 1970, principalmente com estudos de economistas ligados à área das exatas, que aspectos físico-químicos começaram a ganhar visibilidade e a serem usados como argumento contra a visão de produção ilimitada. A Lei de Entropia (segunda Lei da Termodinâmica) foi descrita pela primeira vez nos fins do século XIX pelo físico alemão Rudolf Julius Emmanuel Clausius (1822-1888). Entropia, basicamente, é a medida da “quantidade de desordem” de um sistema. Muita desordem possui uma entropia alta, ao passo que a ordem implica uma baixa entropia. Para entender esta lei: - O universo (com energia interna constante) é um sistema fechado, que contém dentro de si sistemas abertos, que sempre estão em inter-relação, perdendo e absorvendo energia. Há um continumm de troca e transformações de energia. A entropia do universo tende ao máximo. Embora as trocas de energias sejam constantes, e exista uma determinada capacidade do sistema em preservar energia, a reversão de processos é impossível. Do ponto de vista da dinâmica humana, o economista Nicholas Georgescu-Roegen distingue a energia em: - Energia aproveitável - Energia não-aproveitável Adverte que a quantidade de energia fora do controle é oriunda de processos 75 de transformações. Num sistema fechado as diferentes concentrações, ou melhor, potenciais de energia ou matérias no espaço, ao se interagiram tendem a equilibrarem. Lembrando, são processos irreversíveis. O equilíbrio impossibilita o uso dos potenciais energéticos (de um determinado recurso natural ou ecossistema) nos processos de trabalho humano. O que isso significa é que para podermos usar no “trabalho humano” a energia e a matéria têm que estar estruturadas no espaço, demonstrando um alto grau de ordem. O que a entropia faz é aumentar a desordem. Um ecossistema tem baixo nível de entropia e um alto grau de organização de energia e matéria. Quando se destrói um ecossistema se extingue a ordem energética e material. A devastação ambiental diminui a complexidade estrutural. As atividades humanas produzem entropia pelas atividades desreguladas e irracionais, como a industrialização e a alta extração de madeiras – fatores que no século XIX revelaram com veemência a insustentabilidade de nosso modelo socioeconômico. Nesse sentido, poderíamos atentar mais, por exemplo, às sofisticadas técnicas e organização espacial de povos tradicionais da Amazônia que viveram por séculos com capacidade de compensar energias naturais. O mau aproveitamento dos recursos naturais é o que leva – inevitavelmente – ao aumento de entropia. A dinâmica da natureza é sim capaz de compensar as perdas de energia, o que dependerá da forma como o homem interfere no processo. O grande dilema está no uso irracional e acelerado dos recursos naturais. A economia durante anos se configurou como o principal agente de produção de entropia. Portanto, a transferência de energia, num todo estruturado e ordenado, é condição básica para o funcionamento da economia. O agravante se consolidou com a utilização sistemática dos recursos naturais não renováveis (carvão mineral, urânio, petróleo). Quanto aos recursos não renováveis, sua entropia é baixa e seu uso nunca pode chegar a um equilíbrio na dinâmica de entropia, pois seus produtos (quando não reciclados) são transformados em lixo e lançados ao ambiente, alterando outros processos e organizações de trocas de energia. Não há como reverter, afinal, a reciclagem é limitada (na proporção que produzimos matéria) e pode somente reduzir a entropia. Nossa consciência deve-se alarmar para o fato de que a natureza destruída 76 não pode ser renovável. Os renováveis estão se tornando não renováveis120. Portanto, a fórmula de entropia tem contribuído para pensar a destruição do planeta. Jeremy Rifkin no livro “Entropy: A New World View” (“Entropia: Uma Nova Cosmovisão”) alerta a necessidade de construirmos uma sociedade sustentável com baixa entropia, pois ela será responsável por um novo paradigma. É incisivo quando afirma: Se continuarmos a ignorar a verdade da Lei da Entropia... então faremos isso ao risco de nossa própria extinção... Após finalizar este livro, alguns permanecerão não convencidos... Outros estarão convencidos, mas concluirão, desesperados, que a Lei da Entropia é uma prisão cósmica gigante a partir da qual não há como escapar. Finalmente, haverá aqueles que verão a Lei da Entropia como a verdade que pode nos libertar. O primeiro grupo continuará a defender o paradigma do mundo existente. O segundo grupo estará sem uma cosmovisão. O terceiro grupo será o dos precursores da nova era. (...) Haverá tentativas de usar inescrupulosamente a Lei da Entropia na cosmovisão existente, mas isso fracassará no final. Os políticos proclamarão a importância dela, enfocando questões que irão da energia ao desarmamento. Os teólogos construirão novas interpretações da autoridade bíblica com base nela. (RIFKIN, 1980). Enfim, esta perspectiva tende a levar à conclusão de que as soluções são técnicas, podendo ocultar uma necessidade prioritária de reformulação sociocultural e de questionamentos sobre os fundamentos das relações sociais das atuais formas de produção. Sociedade sustentável, com baixo nível de entropia, é possível por meio de uma “nova cosmovisão”, desde que inclua uma nova racionalidade pautada na ética da responsabilidade e na construção de uma nova cultura política socioambiental. DESENVOLVIMENTO PARA LIBERDADE “A racionalidade inerente a esta prática é mostrada no fato de que um acordo alcançado comunicativamente deve ser baseado no final em razões”. É comum, desde a antiguidade, pensar a sociedade em que se vive, seja nas dimensões político-econômicas históricas ou contemporâneas. As reflexões sobre o modus vivendi, modus pensante e práxis prescrevem esperança de se traçar um futuro melhor. Afinal, nossa condição de sujeitos sociais e históricos transformadores 77 da realidade, onde podemos agir ética e moralmente, desde que pratiquemos o exercício contínuo de autoconscientização, nos traz a possibilidade de melhorar nossas escolhas, fundamentadas em outra razão que não a instrumental. Mas essa tarefa, necessária para o autodesenvolvimento e desempenho social, requer maior profundidade em análises, um olhar apropriado para as realidades e sociedades e compromisso valorativo-ético acima de tudo, já que as formas de relações sociais predominantes nas sociedades de mercado flutuam em ações e práticas amorais e utilitaristas. As teorias e práticas que se apresentam globais (universais, tendendo para a ação homogênea ou mecânica), principalmente as de desenvolvimento e econômicas (em geral), não estão sendo capazes de fazer aparecer normas de comportamento, raciocínios adequados com o objetivo que se pauta. Muito teóricos críticos são céticos em soluções e progressos vindos da razão predominante. O economista indiano Amartya Sen reconhece muitos sucessos – e também insucessos – alcançados por meio desta, essencialmente no período pós- guerra, quando surgiram diversas experiências e construções teóricas para o desenvolvimento. Esta conjuntura, segundo Sen, é que favorece hoje – mais do que nunca – a colocação de uma questão básica e crucial: - Qual a direção que está tomando nosso desenvolvimento? E, podemos complementar: - As propostas que se apresentam diante das crises socioambientais são realmente capazes de atender as demandas colocadas? A defesa de um desenvolvimento pautado em uma razão ético-valorativa e estruturada se faz necessária. Esse projeto, ambicioso, tem que reconhecer que as diferenças de valores entre os indivíduos em sociedade tornam difícil o uso da razão moral-ética. Como retirar escolhas sociais de preferências individuais? A tal fato o economista Kenneth Arrow referiu-se ao Teorema da Impossibilidade, mostrando que a soma das escolhas (ou racionalidades) individuais não formam uma racionalidade coletiva, aproximando das reflexões de Émile Durkheim, pai da 78 sociologia moderna, que colocou pela primeira vez a ideia da existência de uma “Consciência Coletiva” formada na inserção do indivíduo em sociedade – o indivíduo sente, pensa ou age independente de suas vontades pessoais. O comportamento é conduzido – coercitivamente – pelo coletivo. O Teorema postula que não há como obter informação prévia das ações individuais perante uma dada situação, o todo reage no indivíduo obtendo regras (coletivas) próprias diferentes das racionalidades pessoais. Já Amartya Sen responde com a proposta de que as abordagens substantivas dos indivíduos fiquem “registradas” em uma “base informacional”, a amplitude desta leva à tomada de decisões mais acertadas, e a diminuição induz ao erro ou decisões inadequadas com a realidade. Um exemplo: se um projeto de “desenvolvimento sustentável” ou de práticas sociais numa determinada sociedade/população limitar-se ao planejamento e decisões de profissionais políticos, tecnólogos e cientistas, relegando às “bases informacionais” e decisões locais, temos uma ação-solução um tanto que autoritária semelhante ao caráter ditatorial e populista. A base informacional é mais importante que a escolha das pessoas, os juízos sociais supõem informações mais completas. Isto valora a qualidade moral- substancial dos diversos saberes, inscrevendo a integração das informações como possíveis chaves frente “ao dilema da impossibilidade e das decisões sociais”. Concordâncias parciais dos indivíduos eliminam as inaceitáveis, sem ser necessária uma unanimidade completa. Desta forma, a justiça social se fundamenta na qualidade moral-ética das decisões e não na quantidade de votos ou escolhas, e ela torna-se uma práxis central na ética e normas individuais, que por sua vez influenciarão, definitivamente, políticas públicas. Assim, todas as possibilidades sociais alternativas precisam ser conhecidas para criar “bases informacionais”, e em seguida formar “sociedades sustentáveis” – no plural, como propõe o sociólogo Antônio Carlos Diegues. É a pluralidade se sobrepondo à homogeneidade da racionalidade econômico- reducionista. É neste contexto que podemos retomar as discussões frisadas pelo filósofo político Jürgen Habermas sobre ação comunicativa e racionalidade dialógico- intersubjetiva, que tem base na atenção para a dialética entre ação e reflexão, a qual pode criar comportamentos morais-éticos adequados para a realidade posta. A 79 estruturação de uma “base informacional” pressupõe uma comunicação dialogada, livre, racional e crítica. Já que a discussão pública dialogada é que exerce grande influência para a germinação de novos valores individuais, Habermas no livro “A Teoria da Ação Comunicativa” identifica o grande déficit de comunicação decorrente da alienação humana causada pelas atuais relações sociais de produção (econômico, social e político) encarnadas também na indústria cultural. A racionalidade dialógica busca desamarrar o pensamento da alienação da razão predominante, seu fundamento é recolocação do sujeito moral como autoconstrutor (transformador) da história. A ação comunicativo-dialógica aparece como condição do desenvolvimento – mas, eticamente, para liberdade e para ampliação da justiça social –como coloca Amartya Sen, ao invés do desenvolvimento amoral para crescimento econômico. A ação comunicativa aumenta a “base informacional”, pois ela baseia-se nas expressões valorativas que: (...) suplementam os atos de fala constantes na constituição de uma prática comunicativa que, contra um pano de fundo de um mundo da vida130, é orientada para alcançar, sustentar e renovar o consenso e, na verdade, um consenso que se baseia no reconhecimento intersubjetivo de pretensões de validades criticáveis. A racionalidade inerente a esta prática é mostrada no fato de que um acordo alcançado comunicativamente deve ser baseado no final em razões. E a racionalidade daqueles que participam dessa prática comunicativa é determinada pelo fato de que, se necessário, podem, sob circunstâncias convenientes, fornecer razões para suas expressões131. (HABERMAS, 1984). Esta perspectiva leva à compreensão de que interesses, discussões e participação de um setor limitado da sociedade cria uma massa de indivíduos amorfos, sem capacidade criativa e autônoma para se criar, e muito menos manter um possível projeto de sustentabilidade (tendo este como o mais novo projeto da modernidade). Políticas públicas têm que programar prioridades através de valores, compromissos éticos e afirmações sociais que vão além do projeto iluminista para o desenvolvimento. Assim, ao contrário de muitos céticos da razão que falam das “consequências não premeditadas”, é possível crer no uso equilibrado da razão, a qual integra em 80 suas bases valores humanos, comportamento moral-ético e normas de comportamento. Os valores e os raciocínios não devem dissociar-se quando o escopo são as liberdades: - Políticas: participação, ação, transparência;Sociais: oportunidades, bem-estar, segurança;Econômicas: acesso, integração; - Que se ligam entre si com fins de plenitude da emancipação humana e desenvolvimento. DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL/SUSTENTABILIDADE “Se você acredita que as coisas vão acontecer de acordo com as tendências que existem hoje, então não temos muito tempo, teremos um drama antes da metade do século. Nesse caso, a única esperança é que essas tendências estejam sendo alteradas por diferentes atores.” (BRUNDTLAND, 2007, p. 22). O conceito de desenvolvimento sustentável surgiu oficialmente no relatório “Nosso Futuro Comum (WCED, 1991)”. Os tópicos centrais do conceito de desenvolvimento sustentável elaborados pela CMMAD (Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento) e contidos no mencionado relatório ou Relatório Brundtland se tornaram a base da Agenda 21. Foi na “Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento – CNUMAD” (mais conhecida por Rio-92 ou Eco-92) que se buscou o consenso internacional para a operacionalização do conceito do desenvolvimento sustentável. A partir desta conferência, o termo desenvolvimento sustentável ganhou grande popularidade e vem sendo base dos projetos ambientais da atualidade. 81 O Relatório Brundtland ou Nosso Futuro Comum é um dos documentos mais famosos a respeito da introdução de uma nova ética nas relações socioeconômicas. Publicado no ano de 1987, é o resultado de um debate organizado pela ONU (Organização das Nações Unidas), chefiado pela Gro Harlem Brundtland – primeira- ministra da Noruega. O relatório colaborou para as discussões mundiais sobre a relação conflituosa entre desenvolvimento sustentável e os padrões de vida material (consumismo) e de certa forma para críticas, embora muito limitadas, ao modelo de desenvolvimento adotado pelos países industrializados e reproduzido pelos países mais pobres. DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL O Desenvolvimento Sustentável é um termo transeunte e cheio de significado que às vezes não se concilia. A expressão desperta no imaginário social uma nova esperança frente às crises ecológicas, tornando-a palavra-chave da vez. Ora desgastada ora contraditória, a expressão-conceito está muito presente nos discursos governamentais e nos escopos de grandes projetos multilaterais. E estudos e eventos são realizados em seu nome, aliados à discussão da construção de outro desenvolvimento – menos excludente e menos deletério ao ambiente. 82 Nesse contexto, o que se faz necessário hoje é rediscutir o conteúdo e perspectivas deste projeto – anunciado em diversos documentos internacionais – que, por enquanto, limita-se a recursos linguístico-discursivos. A discussão deve colocar em jogo as causas das problemáticas socioambientais: o projeto progressista iluminista e os paradigmas da racionalidade instrumental. Antes de nos atentarmos à sustentabilidade devemos sempre procurar saber quais são os pressupostos de desenvolvimento e crescimento que um conceito carrega. Por exemplo, se desenvolvimento é sinônimo de crescimento econômico (aumento da taxa de crescimento do PIB - Produto Interno Bruto), ou se ambos consideram variáveis sociais, etc. Isto é determinante nas formas de implantação de práticas sustentáveis. Sobre o desenvolvimento Osvaldo Sunkel e Pedro Paz (1988) destacam três enfoques: - Desenvolvimento como crescimento econômico material; - Desenvolvimento como etapas históricas – baseado na ideia evolucionista e de caminho único, é dessa perspectiva que surge a expressão “Países em Desenvolvimento”; e, - Desenvolvimento como mudanças estruturais – o que exige mudanças sociopolíticas. Segundo os autores, os economistas latino-americanos vêm contribuindo para este enfoque, pois formulam modelos de análises Centro-Periferia – baseadas na leitura crítica e marxista dos processos de reprodução do subdesenvolvimento na periferia do capitalismo mundial – a teoria da dependência.O que todos estes modelos de desenvolvimento apresentam em comum é o pouco enfoque na mudança de paradigmas. E mostram, mesmo com a crise socioambiental que incomoda este cenário, a crença na crescente industrialização e na expansão do mercado sem limites (vide: o aumento de concessões florestais, redução de impostos para empresas multinacionais, etc). http://pt.wikipedia.org/wiki/Cr%C3%ADtica http://pt.wikipedia.org/wiki/Marxista http://pt.wikipedia.org/wiki/Reprodu%C3%A7%C3%A3o http://pt.wikipedia.org/wiki/Subdesenvolvimento http://pt.wikipedia.org/wiki/Periferia http://pt.wikipedia.org/wiki/Capitalismo 83 - Nesta perspectiva, as nações, culturas e sociedades possuem suas peculiaridades sócio-históricas diferentes, que impõe um movimento descontínuo no desenvolvimento. Enquanto os países “em desenvolvimento” procuram recuperar um suposto atraso numa industrialização – muitas vezes, obsoleta no sentido socioambiental, os países industrializados tornam-se pós-industrializados, com os mais altos padrões de consumo e devastação ambiental. E, como aliar as noções de desenvolvimento sustentável a este quadro? As desigualdades socioeconômicas internas de muitos países do sul – resultado de longos períodos históricos – são condições que inviabilizam a proposta de desenvolvimento adotada durante muito tempo como modelo global. Quando estes mesmos países tentam alcançar o nível de concorrência no mercado internacional, ou tentam imitar modelos – que não correspondem com a realidade local – dos países do norte, aumentam ainda mais a distância socioeconômica entre norte-sul. E, se alguns países do sul chegam próximos dos industrializados, é com grande ônus e aumento das desigualdades sociais internas. ECOLOGISMO DOS POBRES Os custos do progresso e modernização causam muitas vítimas, fazendo crescer na mesma proporção a pobreza e a crise ecológica, que estão intimamente associadas às questões de Direitos e Justiça Social. A este fato, o economista espanhol Joan Martínez Alier propõe uma análise a partir de um Ecologismo dos 84 Pobres, que é uma ideia que dialoga com a ecologia política e com a ecologia ecológica. Dentro deste ecologismo procura-se compreender e relevar discussões de temas cruciais para a construção um pensamento teórico acerca da sustentabilidade, mas que é muitas vezes colocado em segundo plano, como: - Migração ambiental - Luta por direitos e sobrevivência de povos tradicionais – em face do crescimento econômico - Movimentos sociais de camponeses e agricultores familiares - Democracia participativa O Ecologismo dos Pobres traça um panorama do aumento das tensões pelo acesso a recursos naturais e da relação entre progresso econômico, desenvolvimento e impactos socioambientais – ajudando a entender as marcas de desigualdade na distribuição dos benefícios e dos custos ambientais entre nações e sociedades. Diante das proposições que aparecem, não adianta mais falarem em transferência de tecnologia (discurso comum dos agentes globais econômicos verdes), porque o comércio internacional desenvolvido ganha no teorema das vantagens comparativas dos custos. As tecnologias sem qualificações e sem adequação cultural fracassam. Assim, o desenvolvimento ou a Riqueza das Nações (na expressão de Elmar Altvater) não vem das ações inteligentes do Estado, mesmo quando favorece um projeto de recuperação do atraso industrial e tecnológico – vem, antes, de uma “reorganização” e reformulação político-cultural. O industrialismo e o mercado são complexos em todos os campos: técnicos, sociais, econômicos, culturais, políticos, ecológicos, de regulação e produção, por isso o Ecologismo dos Pobres colabora para uma possível compreensão dos fatos. DESENVOLVIMENTO SEM CRESCIMENTO O crescimento das forças produtivas veio acoplado ao progresso científico e técnico, associado ao crescente domínio da natureza e da produtividade, (...) a falta de liberdade se apresentava sob a forma de uma submissão à aparelhagem técnica, que dá mais conforto à existência e aumenta a produtividade do trabalho. Assim, a 85 racionalidade tecnológica (...) defende [legitimação técnica] em um contexto de uma sociedade racionalmente totalitária. (DUPAS. O Mito do Progresso, 2007). Do ponto de vista ecológico, temos que a relação desenvolvimento e ambiente são recíprocos, e mesmo com propostas do tipo crescimento zero, se gasta energia e matéria-prima. Altvater (1995) acredita que o problema não está no coeficiente de crescimento, mas no modo de regulação do “metabolismo” e da troca material entre a natureza, o indivíduo e a sociedade. Nesse sentido, o reforço da capacidade das ciências em salientar a importância de se questionar o “sistema metabólico” da sociedade do consumo e de formular modelos alternativos tem sido peça-chave do desenvolvimento sustentável. Já Herman E. Daly coloca que é impossível, através do crescimento econômico, sair da pobreza e da degradação ambiental. A sustentabilidade nunca poderá se pautar no crescimento. Crescimento sustentável é um mau oximoro, adverte Daly. Crescimento é igual aumento da riqueza e diminuição da pobreza. Será? É preciso rediscutir a margem e escala atual, o que nos torna mais ricos? Os fatos atestam que o que torna os países do norte mais ricos torna os sulistas mais pobres, pois os custos aumentam mais do que os benefícios. Por isso, é preferível a expressão desenvolvimento – expandir ou realizar os potenciais de; trazer gradualmente a um estado mais completo, maior ou melhor – fazendo até analogia à dinâmica ecossistêmica que autodesenvolve-se. Então, o termo desenvolvimento faz sentido – quando se refere à sustentabilidade – quando não há crescimento: desenvolvimento sem crescimento. O crescimento nulo é necessário para a construção de desenvolvimentos sustentáveis, adaptando-se e aperfeiçoando-se em conhecimento, organização, eficiência técnica e sabedoria. E deve carregar em si grandes mudanças estruturais, que se efetivarão pari passu com adaptação cultural, transformações ideológicas, epistêmicas e paradigmáticas. Afinal, projetos e modelos que visam reformas unidimensionais tendem a cair no fracasso. Então, há de se pensar não um projeto homogêneo, imposto pela lógica mercadológica instrumental, caracterizado por gestões e perspectivas meramente econômicas e tecnocientíficas – incompatíveis com as culturas locais – e sim se pensar em vários tipos 86 de sustentabilidades ancoradas em uma construção orgânica de sociedades, identidades e a diversidades ecológicas. SUSTENTABILIDADE: A QUESTÃO DO OBJETO E DO DISCURSO Presenciamos o empobrecimento de conceitos e paradigmas das ciências sociológicas ou econômicas, porque perderam a capacidade de absorver a realidade complexa – difundindo um valor simbólico e valor teórico difuso. Muitos conceitos e teorias entram em crise quando o objeto começa a fugir dos conceitos: Assistimos hoje a derrota de algumas metanarrativas incapazes de narrar a história real. No entanto, isto não quer dizer que a grande teoria em si perdeu sempre sua função, como alguns dos chamados pós-modernistas estão considerando, mas, sim, que certas teorias com uma grande aceitação até agora implodiram na medida em que seu objeto se transformou.A noção das dimensões do ambiente no planejamento da sustentabilidade é questão central. Precisar o objeto e encaminhar a metodologia. Se se tem bem definido o objetivo, é porque já se tem um panorama básico da realidade construída a partir do sistema de pensamento. O geógrafo Milton Santos, ao referir que o ambiente é questão também de interdisciplinaridade, alega que toda problemática de compreensão se inscreve no campo da metodologia, da questão da objetividade do objeto e do sujeito, os elementos de análises não são dados a priori, como muitos projetos vem sendo construídos. Cada época, cada objeto e cada fato social em sua abrangência têm peculiaridades nas relações interdisciplinares. As formas de tratamento com o meio socioambiental são históricas e vernaculares, afinal os fenômenos correm autônomos e exigem tratamentos específicos, não universais. Partindo da consciência de um todo dinâmico, de suas variantes, fatores, significâncias, leva-se em conta as transformações do objeto ou do fenômeno que muda paralelamente com a verdade (no mesmo caso da interdisciplinaridade aparecer como sócio- histórica). A inscrição da sustentabilidade em outra ordem de entendimento socioambiental faz criar novos diálogos, saberes e principalmente novas posturas éticas. Mas antes deve compreender a história do passado formativo. A ausência 87 disso pode conduzir a abordagens e práticas ineficientes, com base numa cadeia causal inadequada. A sustentabilidade deve rever a construção histórica do objeto identificando os aspectos que delimitam os fatos. É a partir daqui que muitos teóricos retomam a reflexões sobre a consolidação das ciências e tecnologias, já que são mediadoras da relação ambiente e sociedade. A construção do projeto sustentável requer reflexão sobre a importância da técnica. Nesse caso, deve-se focalizar na existência de muitos ambientalismos que ao se construírem, assumem o papel científico de salvaguardar o planeta. Milton Santos (2006) coloca uma questão interessante: “em que medida as campanhas globais não estariam aniquilando a força dos conceitos, impondo novas formas de controle de trabalho intelectual?” Não diretamente, mas poderia o autor também estar se referindo às Grandes ONGs Multilaterais/Transnacionais, pois possuem recursos financeiros e alianças com Bancos (Banco Mundial) para a expansão de grandes campanhas pelo mundo. A aniquilação de conceitos e a difusão de conteúdos fragmentados resultam da reprodução de ambiguidades e contradições na formulação e/ou implantação da sustentabilidade. Esta problemática é acentuada pelo processo de globalização que fortalece o processo da inserção das grandes campanhas na dinâmica e lógica capitalista, proporcionando visões, estruturas e estratégias que contribuem mais para a conformação de uma superestrutura predeterminada pelo mercado, passível de um reducionismo, do que para a consolidação de um pensamento sustentável. Mesmo com muitas ações conservacionistas e preservacionistas das grandes instituições, há muitas fragilidades socioculturais dos resultados de desenvolvimentos pautados nestes termos. A força das imagens presentes no discurso ecológico de sustentabilidade confirma o triunfo da apresentação sobre a significação. A geopolítica mundial funciona com novos parâmetros hoje, aniquila os conceitos e esvazia significações. Vale ressaltar que excesso de recursos técnicos e a polifonia de especialistas (que se tornaram as vozes da verdade) vêm mutilando as percepções sociais – por meio de estratégias de marketing, discursos, etc –, construindo um espaço fragmentado para prática social sustentável, característico da Modernidade Líquida. Um bom exemplo é a expansão da prática do Cyberativismo. Assim, fazendo analogia à Sociedade do Espetáculo de Guy Debord podemos 88 dizer que existe a Natureza do Espetáculo, sintética/cybernética, que substitui a natureza analítica histórica. Segundo Milton Santos este é o processo de ocultação do significado, que promove confusões metodológicas práticas entre sistemas técnicos, a natureza, a sociedade e a cultura. Ana Fani A. Carlos diz que: O discurso ecológico tem substituído o espaço concreto da prática social do vivido, aquele do habitar no sentido amplo (percursos, encontros, gestos, símbolos, signos, conflitos) pelo espaço abstrato. Passa-se do vivido ao abstrato para projetar essa abstração do nível vivido. Nesse sentido, a natureza vira signo e torna-se estratégia política. (CARLOS, 1994). O outro espaço a ser conquistado e interpretado pelas ciências é o espaço abstrato – intrinsecamente complexo: entre signos e conflitos. A natureza deve ser apreendida em seus aspectos simbólicos, fornecendo elementos para estratégias políticas sociais. Nesta ótica, não há como dissociar as questões socioambientais das configurações materiais-simbólicas, que se identificam nas representações, discursos e diferenciações que os sujeitos morais fazem do mundo social. Estamos tratando de espaços relacionais subjetivos, principalmente os de posições ocupadas por sujeitos sociais em função da superestrutura. Este é um convite para uma visão integrativa, que permita ao discurso da sustentabilidade assumir um papel fundamental na nova ordem mundial, para não deixar ocorrer a substantivação de setores sociais e a redução da complexidade dos sujeitos e agentes morais. SUSTENTABILIDADE E O DISCURSO NO SETOR ECONÔMICO “Embora campeiem debates sobre a noção de sustentabilidade em quase todas as áreas do conhecimento, eles obrigatoriamente têm suas raízes nas reflexões de duas disciplinas consideradas científicas: Ecologia e Economia”. (VEIGA, 2008, p. 22). O discurso do desenvolvimento sustentável está sendo absorvido por todo setor econômico, mas mesmo com as grandes mudanças no mundo corporativo e com a aparente conscientização ambiental por parte das empresas há uma grande distância entre o discurso e práxis. Logotipos, brindes, eventos sustentáveis ressaltam a característica das novas estratégias de marketing das empresas e 89 instituições financeiras. A grande questão se inscreve na exigência – cada vez maior – feita pelo consumidor atual de uma Responsabilidade Socioambiental. As grandes empresas não estão dispostas a correr riscos que comprometam a rentabilidade em seus investimentos – podendo ficar fora do mercado – e assumem imediatamente como principio coorporativo o “esverdeamento” nas relações econômicas. Para o cientista social Philippe Pomier Layrargues, o ambiente, deixando de ser um perigo nas agendas econômicas hoje, apresenta dois discursos: - O discurso para o Mercado - O discurso para o Estado São discursos que se complementam. Para o Estado sempre reforçam que na logística adotada será incorporada às pautas ambientais e que o mercado pode fazer isso sem incentivo do Estado (Princípio Neoliberal). Já para o Mercado sinalizam as vantagens do marketing ecológico e da importância do uso de produtos “politicamente corretos”. Criam, assim, um “diálogo” entre Mercado-Sociedade. Esta é uma estratégia clássica do ambientalismo empresarial, que: (...) paralela ao desenvolvimento de novas tecnologias, está assentada no deslocamento do eixo do circuito Mercado-Estado-Sociedade, de uma posição altamente ameaçadora da livre iniciativa, para uma posição mais flexível: assim procedendo, desloca o agente regulador dos órgãos governamentais de controle ambiental do Estado para o próprio Mercado, com o compromisso de realizar auditorias ambientais para avaliar a qualidade dos Sistemas de Gestão Ambiental. (LAYRARGUES, 2003). A ação sustentável, configurada assim, a diminuição da presença do Estado, elevando a posição do mercado e possibilitando o fortalecimento de outros tipos de governanças. É a manutenção plena da ideologia neoliberal. Nesta empreitada as empresas agem de maneiras diferentes. Há muitas companhias que buscam adaptar a sustentabilidade às velhas práticas de negócios (a economia neoliberal tradicional). Ao contrário, outras, como o Grupo Eco149, na linha de Produtos Promocionais Sustentáveis, nascem com uma visão voltada 100% para 90 sustentabilidade, tratando-se de organizações inovadoras nas questões da logística verde. Esta lógica revela o caminho de encontro entre o capital financeiro e os discursos de sustentabilidade. Nos últimos anos houve grande procura pelas organizações que promovem a sustentabilidade. Diretores e gerentes de marketing são orientados de que a empresa precisa ser sustentável, o que levou a um aumento de mais de 200% nas vendas. Segundo o presidente do Grupo SustentaX, de Newton Figueiredo: Ações socioambientais que geram valor corporativo precisam fazer parte do planejamento estratégico das empresas. Uma das tendências que precisa ser corrigida é a aplicação de recursos em projetos sociais ou ambientais que não têm relação com os negócios das corporações... Se a empresa não vier a ser reconhecida como ética e socioambientalmente responsável, vai perder seus clientes de forma progressiva. Então, os conteúdos das discussões sobre ética e desenvolvimento sustentável flutuam em práticas que por vezes podem ser superficiais; por isso, a necessidade do conhecimento mais aprofundado na logística da empresa ou organização, ao invés de se levar em conta apenas as logomarcas. Uma pesquisa do Grupo IBOPE (Especialista em pesquisas de mercado, mídia e opinião), que procurou analisar a opinião da comunidade empresarial no Brasil, entrevistou 537 executivos (381 de empresas nacionais). A pergunta era se já ouviram falar em sustentabilidade empresarial: 79% responderam que sim, destes, 59% associavam o conceito ao de responsabilidade social e 58% ao de preservação do meio ambiente. E, dos executivos que praticam a sustentabilidade, 62% disseram que iriam investir em tecnologias e 60% em desenvolvimento de produtos, e um percentual baixo de 25% deles iriam investir em preservação ambiental. Fizeram também a mesma entrevista com cidadãos e 55% revelaram que conheciam sustentabilidade empresarial, destes 33% disseram que consideram uma prática de desenvolvimento de produtos ecologicamente corretos; e 23% já atrelavam o conceito à “solidez” – logística – da empresa. Outra pesquisa feita com 474 entrevistados, sobre o sucesso e crescimento econômico mundial, 74% falaram que a China caminha para o sucesso internacional, 51% concordam que o país investe no setor social e 78% entendem que a China não preserva o meio ambiente. (SAFATLE, 2007). Estes últimos dados confirmam a perigosa ideia de que sucesso e crescimento econômico estão aliados, enquanto as 91 questões socioambientais estão dissociadas da ideia de progresso. Como foi mencionado anteriormente, o conceito progresso, herdado do Siècle des Lumières, está na base do que se chama de desenvolvimento, que se identifica com a acumulação de riqueza material anunciada pelo economista Adam Smith no livro “Riquezas das Nações” (1776). A ideia de desenvolvimento, infelizmente, ainda segue o clichê mecanicista e a crença no conhecimento técnico-científico como instrumento para a construção de uma alta civilização. O primeiro estudo já revela um número alto de conhecimento pelos cidadãos (não podemos dizer diretamente conscientização) – pelo menos da expressão da sustentabilidade empresarial; mas o estudo ainda mostra que há ainda um distanciamento entre a crença e a prática de ações ambientais, pois 92% dos cidadãos concordam em reciclar e 61% não reciclam. Em termos qualitativos, percebemos que os cidadãos devem ir além do saber instrumental. Não está perceptível que suas atitudes éticas e sua condição de cidadão estão pautadas, desde o que consome (mercado) até na procura pela prática do que visa como ideal. Esta é a realização do sujeito moral. Sobre o cidadão, Lia Diskin153, em entrevista ao Instituto Ethos, coloca bem: (...) o que se requer agora é criar mecanismos que permitam qualificar o cidadão para contextualizar informações e planejar ações, isto é, para ele se tornar um agente permanente de transformação dentro de sua realidade local, que é onde mantém uma rede mais numerosa e significativa de relacionamentos com os quais partilha necessidades e aspirações, dificuldades e potencialidades. Desse modo, a corresponsabilidade permeará a ordem social na qual ele deseja viver e desenvolver suas capacidades. A dissonância entre discurso e prática – vista entre os cidadãos – está bem mais presente nas ações das empresas. Muitos indicadores apontam para a incoerência entre discurso e prática no ambientalismo empresarial. Layrargues coloca: (...) discurso empresarial verde como uma mudança representa apenas uma singela reforma, uma adequação às novas realidades, em conformidade à nova ordem mundial, o que de modo algum pode configurar-se numa transformação paradigmática. (LAYRARGUES, 2000). O termo “paradigma” foi diluído nos discursos de muitos dirigentes políticos 92 econômicos, mas na maioria dos casos não é compreendida a profundeza e a complexidade de seu significado e prática em termos teóricos e metodológicos. Desenvolvimento sustentável não pode ser uma mera ferramenta de gestão ou palavra-chave para obtenção de financiamentos. Aqui entra a questão da necessidade de uma reflexão sobre as relações entre a sustentabilidade e o poder nas organizações (financeiras, sociais, políticas), dentro da integração e participação política no poder e nas relações econômicas dos cidadãos de diversos setores sociais. Deve-se, assim, exigir das empresas e organizações propostas de mudanças substâncias, em termos de sustentabilidade, que demonstrem verdadeiras “transformações paradigmáticas” em suas estratégias corporativas, não se limitando a movimentações restritivas nas políticas, econômicas e tecnológicas. Outro dado que podemos citar é o da Fundação Dom Cabral155, que realizou um estudo com 134 empresas do grupo envolvido com a Global Compact da ONU - Índice de Sustentabilidade Empresarial da Bovespa e Global Reporting Initiative (traziam em seus slogans o termo ou a expressão “desenvolvimento sustentável ou responsabilidade social”). A pesquisa demonstrou categoricamente que as empresas comprometidas com a causa ambiental não conhecem os impactos negativos das formas de produção sobre o meio ambiente e a sociedade, pois estão movidas pela racionalidade econômica liberal, onde sua razão de ser está associada à cumulação de capital nos indicadores econômicos. Por outro lado, os indicadores econômicos não incorporam estimativas de degradação socioambiental. O grande problema econômico global é que os sistemas de contas das nações indicados pelo PIB (Produto Interno Bruto) não contabilizam esta depreciação do capital feito pelo homem. A externalidade negativa não se configura como um item no balanço negativo na determinação da renda. Deixam de considerar a depreciação do capital natural. Portanto, um bom desempenho econômico pode aparecer como falso, os benefícios estão às expensas de gerações futuras. Por exemplo, entre 1955 e 1995 as jazidas de manganês do Amapá exauriram. Então os crescimentos desordenados são efeitos destrutivos ignorados. É neste caso que os economistas neoclássicos impõem que se busque uma valoração monetária para os recursos naturais. Mas, como lembra Clóvis Cavalcante: “Sustentabilidade é a 93 manutenção dos estoques físicos de capital natural, não a de seus correspondentes valores monetários”.156 As empresas e as grandes organizações financeiras não percebem o grande impacto econômico gerado pela concentração de renda. Por mais que se gerem empregos, prestação de serviços ou pagamento de impostos há uma evidente concentração de capital financeiro, intelectual, tecnológico e de recursos humanos e naturais. A sustentabilidade é incompatível com as antigas formas de operar o mundo (racionalidade instrumental). Especialistas em sustentabilidade atestam que para avaliar os sucessos de uma empresa em termos ambientais deve-se identificar as práticas insustentáveis no cotidiano. Sucesso e sustentabilidade, por assim, são valores – sem dúvida – inerentes para uma nova ética de mercado. Os setores sociais evoluem para sistemas mais abertos interinfluenciados socialmente: mercado-sociedade-estado. Influenciando-se mutuamente, alteram o comportamento e padrões de consumo, e atuam com os sistemas vivos em ecossistemas complexos. A sociedade civil, empresas e o estado devem procurar assumir um papel mais proativo, indo além dos discursos falaciosos, vazios e estratégicos. E, neste contexto, quem sabe, surja do choque de racionalidades entre ambientalistas e agentes políticos e econômicos uma nova cultura sociopolíticoambiental – capaz de transformar os modelos rígidos e hierarquizados da nossa sociedade atual em modelos – político-administrativos – mais flexíveis, autogestivos e orgânicos. MERCADO VERDE E A CIDADANIA (...) concomitante à crise ambiental, vivenciamos uma crise de produção, onde o liberalismo cede espaço ao neoliberalismo, que postula que o Estado, antes considerado necessário para impulsionar a competitividade no mercado, deve retirar- se completamente de cena. Assim, também para as questões ambientais, a resposta estaria no mercado total, como postula o desenvolvimento sustentável, e não em ação conjunta com o planejamento. (LAYRARGUES, 1997).157 Seja em slogans ou em discursos de promoção político-econômica, o tema Mercado Verde e Cidadania está sendo demasiadamente abordado por telejornais, outdoors, desfiles de moda, rótulos de mercadorias, etc. A legitimidade da crise ecológica, a partir destes meios, criou o consenso das necessidades de 94 transformações urgentes e profundas na esfera pública e privada, só possíveis mediante a ação dos indivíduos conscientes e principalmente pela sua participação política como cidadãos. É neste contexto que o século XXI assiste o esverdeamento da sociedade, fenômeno recente peculiar das transformações da modernidade. Embora este processo seja proporcionado por vários tipos de movimentos ecológicos e motivado por diferentes fatores políticos e ideológicos, é o ambientalismo empresarial que orienta a construção de uma cidadania ambiental. Recriar o ser cidadão é um dos principais e primeiros desafios a serem enfrentados no processo de busca de soluções para os problemas socioambientais e para a consolidação da Ética Ambiental. Mas, para que os cidadãos sejam agentes conscientes de suas práticas ambientais é fundamental, e justamente o que não acontece, que reconheçam que a crise é efeito inalienável da racionalidade instrumental e burocrática que rege o modelo de sociedade capitalista e industrial. O ideário ecocapitalista dos discursos políticos e de mercado coloca os cidadãos como agentes responsáveis pelos problemas e variáveis ambientais; e já anunciam o perfil do que chamam de cidadão ambiental: o indivíduo que consome consciente, o “consumidor verde”. É a nova categoria de mercado, o mercado verde, que determina os caminhos para a construção de consciências que procuram agregar valores e éticas ambientais; e dita as normas por meio de veículos de informação de massa, para ações práticas “ecologicamente corretas”, alienando as consciências das causas estruturais, históricas e ideológicas da crise socioambiental. Com isso, a divulgação e o marketing ganham grande importância, fazendo surgir inovações nos objetos para que, novamente, a distância social seja restituída: entre os ambientalistas e os não. Semelhante a qualquer outra esfera econômico- capitalista, é reproduzido um campo social estruturado, onde as distinções se solidificam em construções de valor simbólico (no consumo), através das diferenciações de classe ou grupos. Vide no mercado a diferenciação de preço de produtos ambientalmente corretos, reciclados, naturais, biodegradáveis, etc. Os produtos não estarão mais 95 relacionados exclusivamente à sua utilidade ou à sua contribuição para a diminuição dos desastres ambientais e, sim, ao prestígio simbolizado por sua posse. Nesse processo, a adesão do discurso ecológico pelo ambientalismo empresarial e de estado, além de reforçar os ajustes sociais promovidos pelo mito do mercado – que, por estar tão presente no cotidiano, se constitui na própria “razão”, adquirindo categoria de autoridade absoluta para ditar normas e preceitos ambientais – fatalmente sabota os alicerces éticos e os princípios práticos dos movimentos socioambientais cívicos e autônomos. Observa-se hoje, assim, o enfraquecimento das críticas e do ativismo dos movimentos ambientalistas originais dentro da esfera pública. Na modernidade, vê-se esta desagregação do espaço público de discussão e de construção política coletiva. A gravidade do fato está na redução de possibilidades de desenvolvimento de outro modelo de consciência pautado na racionalidade ecológica. E o que colabora, essencialmente, para isso, é a restrição da ação política ambiental à esfera privada, condicionada pelo estímulo ao “consumo verde”, que responsabiliza exclusivamente o consumidor, enquanto atenua a responsabilização do sistema de produção e reforça a ética individual em detrimento da ética coletiva. É a manutenção da dinâmica moderna do progresso tecnológico e da produção massificada de mercadoria que exige o incentivo deste consumo verde como uma forma de exercício da cidadania, pois outras respostas e soluções para os dilemas ambientais, fora da racionalidade econômica, abalam o modelo de relações sociais de produção vigente. E romper com o paradigma econômico, responsável-mor pela maior parte dos problemas socioambientais do planeta, não é nem de perto o objetivo das empresas “amigas da terra”, dos empresários ambientalistas e naturebas, e da mídia elitista verde. A cidadania ambiental que promovem forma indivíduos para servir o sistema industrial e mercadológico pela sua capacidade de consumir, em uma espécie de responsabilidade social; não tendo, portanto, nada de emancipadora ou consciente. Sendo assim, a ecologia de mercado e o ambientalismo empresarial não darão conta de atender às demandas dos problemas socioambientais, por estarem fundados na mesma racionalidade (econômica, burocrática e instrumental) que as causou. E, muito menos, surtirá efeito de resolução as ações limitadas e pouco 96 reflexivas dos cidadãos ambientais que estão sendo produzidas em massa. A invenção semântica “consumo verde” tem que ser enxergada como produto do ambientalismo de mercado e a “cidadania ambiental” deve ser denunciada pelo seu caráter de reificação 158e alienação do indivíduo. A superação dos modelos predominantes de making political ecology, derivados das decisões políticas e econômicas globais, só poderá vir por meio da participação política dos cidadãos, tanto na esfera pública quanto na privada; e pelo fortalecimento dos movimentos sociais autônomos, que se estabelecem pela ação comunicativa, pelas críticas e reflexões sobre os modos de vida e de informação, e pela responsabilidade de construção de espaços no qual se forme a opinião pública e onde o conjunto social atue. Lembra Habermas que o fortalecimento dos movimentos sociais está intimamente coligado com o conceito de cidadania e eles são os únicos, hoje, a serem capazes de captar os ecos dos problemas sociais e ambientais que surgem nas esferas privadas, trazendo para a esfera pública a possibilidade de discussão. Portanto, o esverdeamento de mercado, característico da modernidade, pode contribuir decididamente para a redução do papel político da cidadania – do indivíduo –, transformando todos em consumidores, usuários e, se possível, em coisa. As respostas à atual crise socioambiental devem ser fundadas em uma racionalidade ecológica, contradizendo e questionando a racionalidade econômica e burocrática. Desta forma, o estímulo para participação política dos indivíduos nas esferas públicas e privadas, por via dos ovimentos sociais e ambientais, se faz vital para o desenvolvimento de uma cidadania e ética socioambiental consciente. 97 14 2 SUSTENTABILIDADES E DISCUSSÕES CORRELATAS “A compreensão das sociedades diferenciadas do sistema global, além de recomendar prudência na atribuição de valores, estimula a retomada da reflexão sobre o estado e o progresso, como um retorno à questão da tutela e da alienação” .159 (LEONEL, 1998). A proposta de Antonio Carlos Diegues merece nossa atenção, pois sugere: ao invés de se pensar em desenvolvimento sustentável, questiona, não seria mais ético pensar em sociedades sustentáveis? Defende que as sociedades possuem suas próprias sustentabilidades, de acordo com as tradições e cosmologias étnicas. Assim, cada cultura define seus próprios modus vivendi sustentáveis. Para delinear um bom campo de discussão temos que ter agregado nos conceitos desenvolvimento sustentável ou/e sociedades sustentáveis, os seguintes pontos inter-relacionados: - A cumulação de capital; - Concentração de renda; - Ética socioambiental; - Democracia participativa; - Racionalidade instrumental; - Para distinguir: 98 - Os preservacionistas: são antiprogressitas e defendem a proteção ambiental por meio de áreas protegidas e sem ocupação humana. Foi desta ideia que surgiram os parques nacionais; a criação de parques prevê espaços desabitados por seres humanos. E as populações que ocupavam determinada área a ser protegida – fundamentalmente – dependiam Estes temas/pontos norteiam a (re) formulação de projetos e propostas socioambientais que possivelmente superam o modismo e os discursos verdes. E as discussões- bases devem se assentar: - Na manutenção e conservação de processos fundamentais dos ecossistemas – como fotossíntese, ciclos hidrológicos, reciclagem dos nutrientes, preservação da biogenética e diversidade biossociocultural, abandonando as perspectivas utilitaristas, como bem fazem os defensores da Ecologia Profunda160 (Deep Ecology), que confrontando com os paradigmas atuais, abordam a natureza como um sistema constituído de seres vivos com direitos plenos de existência, independente de valor de uso. - Na associação sustentabilidade e democracia. Quando se reduzem as questões ambientais aos aspectos naturais, vilipendiando aspectos sociais, cai-se no problema da democratização, principalmente no que diz respeito aos recursos naturais (acesso) e distribuição dos custos e benefícios do desenvolvimento. Nesse caso, foi e continua sendo comum, nos últimos anos, a proteção ambiental antidemocrática, carregar em si a redução da diversidade sociocultural, devido às variações de concepções conservacionistas e preservacionistas que geraram uma série de problemas democráticos. os recursos naturais presentes no território. E quando há uma transferência, assim, de território, degrada todo um meio simbólico construído historicamente, inferindo às questões de respeito com determinada cultura. - Os conservacionistas já sugerem o manejo criterioso dos recursos naturais em proveito da sociedade como um todo. Mas o perigo é a ocorrência da biopirataria161, quando este manejo fica a critério de grandes organizações financeiras (farmacêuticas, cosméticos) que monopolizam a exploração e/ou comercialização internacional de recursos biológicos que contrariam as normas da 99 Convenção sobre a Diversidade Biológica (1992). BIOÉTICA “A bioética é o conjunto de conceitos, argumentos e normas que valorizam e justificam eticamente os atos humanos que podem ter efeitos irreversíveis sobre os fenômenos vitais”.163 (KOTTOW, 1995). A bioética vem despertando crescentemente o interesse e a conscientização popular, mas no que ela consiste? A bioética, como o próprio nome sugere, é um estudo moral (teórico e prático), ético, deontológico e de direito da vida humana e não humana (tratando também da natureza, da flora e da fauna). Investiga e procura orientar as condições para um “gerenciamento” responsável da vida e resolver conflitos éticos concretos. Promove uma nova consciência nos direitos socioculturais e também ambientais, a partir da configuração de novos postulados e paradigmas éticos nos progressos científico-tecnológicos. Embora algumas enciclopédias, como a Encyclopedia of Bioethics, refiram-se à bioética como restritivamente uma ética médica, vemos outros escritos reduzindo o campo social conflitivo do conceito – podemos considerar que a bioética abrange um amplo campo de estudos específicas e delicadas, tais como o aborto164, eutanásia, fertilização in vitro, teste genético com impressão em DNA, experimentação em humanos e em animais (vivissecção), clonagem, transgênicos, células-tronco, entre outros. Por isso é tida como: Um campo disciplinar [e também multi- interdisciplinar]166 compromissado com o conflito moral na área da saúde e da doença dos seres humanos e dos animais não humanos. Seus temas dizem respeito a situações de vida que nunca deixaram de estar em pauta na história da humanidade... (DINIZ e GUILHEM, 2002). Não só como disciplina, a bioética se configurou como uma ética aplicada e um movimento cultural humanista que envolve biodireito e biopoder. Esta nova proposta de reflexão por ser um movimento recente – pode propor soluções sem avaliar a natureza da mudança socioestrutural que representa, por isso sempre está em rediscussão. A bioética começou a seconsolidar com mais força após os acontecimentos do período das Guerras Mundiais, principalmente devido: - aos avanços na biologia molecular e biotecnologia; 100 - aos choques morais – entre culturas, instituições, religiões, racionalidades – na sociedade, referentes à vida, à saúde, à reprodução e à morte;Quanto às definições, existem várias para o termo e orientações práticas, variando conforme as tradições científicas e filosóficas e até mesmo com o próprio objeto em questão. Os conceitos e definições são extensos e de definições variadas – por ultrapassarem diversas fronteiras. Mas basicamente há um tripé (Durant) de sustentação: a vida, ética e o direito, entre inúmeras abordagens prospectivas, interdisciplinares e sistemáticas167 168(DURANT, 1995). Foi Van R. Potter169 que em 1971 apresentou o termo Bioética 170 no livro Bioethics: bridge to the future171. Como Bioética entendia a ciência da sobrevivência ou ciência dos sistemas vivos (bio) e do conhecimento dos sistemas de valores humanos (ética):Eu proponho o termo Bioética como forma de enfatizar os dois componentes mais importantes para se atingir uma nova sabedoria, que é tão desesperadamente necessária: conhecimento biológico e valores humanos. (POTTER, 1971). Destarte, este campo emerge como uma reflexão sistemática das interações humanas em sociedade e ambiente, que tem três básicas funções segundo: - Função descritiva: descrever os conflitos e questões; - Função normativa: apontar os tipos de comportamento considerados reprovável e aprovável; - Função protetora: mediando – diplomaticamente – determinados conflitos. E de acordo com o Prof. Dr. Volnei Ivo Carlin, podendo atingir três categorias de norma ao exigirem comportamento ético na Biologia, Direito e Medicina: Deontológica, Ética e Jurídica. Para o filósofo político Norbert Bobbio a bioética passa a pertencer ao quadro dos novos direitos, a dos direitos de quarta geração, lembrando da proximidade destes direitos com o desenvolvimento dos Direitos Humanos e Cidadania. Por ser recente, tem-se tornado um desafio teórico e prático para a ciência 101 jurídica, apontando ainda um distanciamento entre as ciências e as consequências sociais. Afinal, no atual período a tecnociência cria objetos e conhecimentos sem reflexões sobre as implicações éticas – tanto do presente como do futuro. É o que o filósofo Hurssel chamou de “buraco cego do objetivismo científico”. Talvez este fato seja justificado pela rapidez dos avanços tecnocientíficos, que exigem de diversas áreas do saber a mesma velocidade no processo de autorreflexão. As desigualdades de desenvolvimento tecnocientífico também contam nestes processos, pois discussões giram em torno de um setor restrito ainda da sociedade: cientistas e filósofos. Não podemos nos esquecer que são questões mais que cotidianas (aborto, transgênicos na alimentação, etc) e deve expandir a conhecimento de todos. Devemos formular novos parâmetros de ações e usos da tecnociência. A bioética, assim, com sua característica inerente multidisciplinar, contribui para a formulação de respostas equilibradas ante os conflitos distributivos. É nesse contexto que conflitos gerados – direta ou indiretamente – pelo “progresso” são cada vez mais delicados, envolvendo questões de direito e justiça. A busca por novos direitos jurídicos articulados na justiça constitui um desafio à cegueira do homem moderno, ainda dominado pela utopia da razão instrumental. A bioética e a Ética Ambiental necessitam de novas perspectivas para o futuro, associando-as aos direitos e cidadania. O filósofo Maurizio Mori acredita que os novos dilemas modernos, em evidência já nos meados dos anos de 1970, contribuíram para a expansão das discussões éticas e que isto pode levar a transformações morais e culturais significativas para nossa época. É só lembrarmos que os abusos científicos feitos pelos nazistas, a condição de descartabilidade humana, nos colocaram questionamentos morais éticos cruciais para o nosso período. E, para que fatos atrozes não ocorram novamente, é preciso sempre o exercício da autorreflexão moral e ética. Esses fatos geram a esperença que também seja o retorno da filosofia prática, o que não infere no desprezo pelas especulações mais teóricas e analíticas da ética, pelo ao contrário, elas se fazem necessárias para a consolidação de reflexões bem fundamentadas em um estatuto epistemológico da filosofia moral. É nesse sentido que são estudadas várias teorias para a construção de uma 102 metodologia que absorva diferentes propostas e ofereça orientações práticas consistentes: o Kantianismo, o utilitarismo, a ética das virtudes, o individualismo liberal, ethic of care173, legalistas racionalistas, etc. Contudo, temos que destacar grande relevância no pensar sobre a “ação moral” (no justo/injusto, no benéfilo/maléfico). A retomada no pensamento crítico- normativo nas dimensões sociopoliticoambientais ganha relevância no âmbito individual e coletivo para a construção de espaços dialógicos e democráticos, pois são os novos parâmetros morais que devem ser levados a discussões públicas e por diversos setores sociais, possibilitando o estabelecimento de mecanismos de participação e decisórios mais éticos, requerindo a necessidade urgente de novos ordamentos jurídicos socioambientais que abarquem as demandas da realidade posta. 103 BIOÉTICA E A DECLARAÇÃO Em um mundo cada vez mais globalizado, uma leitura e perspectiva crítica frente aos dilemas e discussões – conflitivos e polêmicos – do campo da bioética e ética-socioambiental se faz necessária para a sociedade civil como condição inalienável para o desenvolvimento técnico e econômico. Valores, normas e objetivos precisam ser construídos coletivamente: a bioética, a ética ambiental, a ética aplicada e a retomada da filosofia moral. Foi nos anos 80 que se expandiram as discussões através de revistas e artigos acadêmicos, eventos específicos, etc. Já na década de 90 identifica-se como a fase de revisão crítica dos princípios bioéticos. Volmei Garrafa caracteriza dois tipos de movimento nas discussões da bioética: - O movimento que partia dos princípios universais – “principalismo” – propagado pelos norte-americanos, juntamente com o reconhecimento das diferenças e importância sociopoliticoambiental dos diversos atores e movimentos sociais. - E o dos preocupados com as questões sanitárias e maior inclusão social nos benefícios do progresso tecnocientífico. Diz respeito à ética social – em sentido amplo, ética da responsabilidade pública do Estado para com a sociedade civil. (GARRAFA, 2005). Com a ampliação nas questões em pauta, incluindo a dimensão socioambiental, muitos estudiosos mencionam o termo: Macrobioética: para designar temas como ecologia (conservação, preservação) e na área da saúde de comunidades e populações a Medicina Sanitária. Microbioética: voltada para as relações entre profissionais e instituições.No ano de 2005 foi apresentada pela UNESCO a Declaração Universal de Bioética e Direitos Humanos, com caráter multi-intertransdisciplinar das disposições gerais: “Artigo 1 – Escopo a) A Declaração trata das questões éticas relacionadas à medicina, às ciências da vida e às tecnologias associadas quando aplicadas aos seres humanos, levando em conta suas dimensões sociais, legais e ambientais. 104 b) A presente Declaração é dirigida aos Estados. Quando apropriado e pertinente, ela também oferece orientação para decisões ou práticas de indivíduos, grupos, comunidades, instituições e empresas públicas e privadas. Artigo 2 – Objetivos Os objetivos desta Declaração são: (i) prover uma estrutura universal de princípios e procedimentos para orientar os Estados na formulação de sua legislação, políticas ou outros instrumentos no campo da bioética; (ii) orientar as ações de indivíduos, grupos, comunidades, instituições e empresas públicas e privadas; (iii) promover o respeito pela dignidade humana e proteger os direitos humanos, assegurando o respeito pela vida dos seres humanos e pelas liberdades fundamentais, de forma consistente com a legislação internacional de direitos humanos; (iv) reconhecer a importância da liberdade da pesquisa científica e os benefícios resultantes dos desenvolvimentos científicos e tecnológicos, evidenciando, ao mesmo tempo, a necessidade de que tais pesquisas e desenvolvimentos ocorram conforme os princípios éticos dispostos nesta Declaração e respeitem a dignidade humana, os direitos humanos e as liberdades fundamentais; (v) promover o diálogo multidisciplinar e pluralístico sobre questões bioéticas entre todos os interessados e na sociedade como um todo; (vi) promover o acesso equitativo aos desenvolvimentos médicos, científicos e tecnológicos, assim como a maior difusão possível e o rápido compartilhamento de conhecimento relativo a tais desenvolvimentos e a participação nos benefícios, com particular atenção às necessidades de países em desenvolvimento; (vii) salvaguardar e promover os interesses das gerações presentes e futuras; (viii) ressaltar a importância da biodiversidade e sua conservação como uma preocupação comum da humanidade”. (Declaração Universal de Bioética e Direitos Humanos). A referência mais específica sobre o Meio ambiente está posto no Artigo 17: 105 “Artigo 17 – Proteção do Meio Ambiente, da Biosfera e da Biodiversidade Devida atenção deve ser dada à inter-relação de seres humanos com outras formas de vida, à importância do acesso e utilização adequada de recursos biológicos e genéticos, ao respeito pelo conhecimento tradicional e ao papel dos seres humanos na proteção do meio ambiente, da biosfera e da biodiversidade”. (Declaração Universal de Bioética e Direitos Humanos). Portanto, como outros documentos e propostas oficiais internacionais, aqui também são situados a necessidade de uma mudança de paradigma social, político e econômico, colocando também a crise ética como uma crise civilizatória. 106 REFERÊNCIAS AB´SABER, Aziz N. (Re) conceituando educação ambiental. In: MAGALHÃES, L. E. A questão ambiental. São Paulo: Terra Graph, 1994. ADORNO, T. W.; HORKHEIMER, M. 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