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BOURDIEU E A VIOLÊNCIA SIMBÓLICA 2 SOCIOLOGIA • Viviane Catolé À primeira vista, a violência parece um conceito fácil de ser definido e claro, porém, vamos ver que não é tão simples assim. Primeiramente, começamos com a definição geral. A violência se define como uma ação que gera, de maneira intencional, dano, ou intimidação moral, a outro indivíduo ou ser vivo. A violência pode implicar em um trauma, dano psicológico, ou também em uma morte. Então, ela tem consequências relativamente diversas, mas todas incidem em traumas. Existem diferentes tipos: a violência entre pessoas, a violência de Estado, a violência criminal, a política, a econômica, a natural ou também a simbólica. PIERRE FÉLIX BOURDIEU (1930-2002) • • Clássico autor francês, de origem simples e campesina, é filósofo por formação e professor na École de Sociologie du Collège de France; • • Buscou estudar representações e estruturas sociais, sempre investigando suas desigualdades e se posicionado contra os ideais liberais e a globalização; • • Sua observação e análise dos hábitos culturais, especialmente dos franceses, conduziram-no à conclusão de que os gostos e estilos de vida eram condicionados pela experiência social de cada grupo: classe operária, classe média e burguesia. O PODER SIMBÓLICO (1989) - Bourdieu busca superar o “interacionismo” e sua redução das relações de força às relações de comunicação, afirmando que tais relações sempre serão reflexos das relações de poder, pois dependem do poder material ou simbólico acumulados pelos agentes envolvidos nestas relações. Campo, capital e habitus CAMPO: sistema estruturado por posições com regras específicas, um universo que segue as próprias leis e sintetiza a autonomia. ; São as formas do capital que definirão a posição nos campos de disputa de cada sujeito e o habitus “compatibilizará” o sujeito ao seu campo; O campo social é permeado por relações de poder e de dimensões simbólicas, é preciso, portanto, não apenas dissolvê-lo como algo que está em toda parte e em parte alguma, mas descobri-lo e reconhecê-lo “onde ele se deixa ver menos, onde ele é mais completamente ignorado” (BOURDIEU, 1989, p. 07). Poder “invisível” constantemente exercido, inclusive por quem não o quer reconhecer que é sujeito ou que o exerce. • • PODER/CAPITAL - A estrutura social é um sistema hierárquico em que os diversos arranjos interdependentes de poder material e simbólico determinam a posição social ocupada por cada grupo. O poder tem múltiplas fontes, por isso, a influência que um determinado grupo exerce sobre os demais é fruto da articulação entre elas: • • poder financeiro • • poder cultural • • poder social • • poder simbólico CAPITAL ECONÔMICO - abrange os recursos materiais, renda e posses. CAPITAL SOCIAL - Refere-se às relações sociais que podem ser capitalizadas, ou seja, à rede de relações que propicia algum tipo de ganho, que pode ser prestígio, um bom emprego, aumento de salário, influência política, espaço no mundo cultural; enfim, representa benefícios em qualquer das outras modalidades de poder. A noção de ‘capital cultural’ visa, portanto, conservar as relações sociais capitalistas, construindo uma nova sociabilidade a partir da redefinição da relação entre Estado e sociedade civil, apontando para uma ‘ação integrada’ entre essas duas esferas. CAPITAL SIMBÓLICO - É o que confere status, honra e BOURDIEU E A VIOLÊNCIA SIMBÓLICA 3Viviane Catolé • SOCIOLOGIA prestígio, tratamento diferenciado, privilégios sociais. A soma ou a ausência desses recursos de poder, herdados ou adquiridos, determinará o lugar ocupado por grupos e indivíduos na hierárquica estrutura das sociedades e condicionará seu estilo de vida e suas oportunidades de ascensão. Esse sistema de dominação, marcado pela violência simbólica e difusor dos interesses das classes hegemônicas, se institucionaliza e se reproduz graças à construção sócio- histórica da desigualdade e da exclusão dos dominados, por meio do trabalho de agentes e instituições específicos, tais como a Família, a Igreja, a Escola e o Estado. A Família, a Igreja e a Escola atuam coordenadamente e focalizam, sobretudo, a formação de estruturas inconscientes calcadas em saberes ditos indispensáveis para uma inserção adequada nas relações sociais que cerceiam a reflexão e o questionamento sobre o dado. Ao ser colocada em prática, a violência simbólica legitima a cultura dominante, que é imposta e acaba sendo naturalizada. Ao chegarem nesse último estágio, os indivíduos dominados não conseguem mais responder ou se opor com força suficiente; muitas vezes, sequer vendo a si mesmos como vítimas, sentindo que sua condição é algo impossível de ser evitado. HABITUS: constituído de diferentes tipos de capital (econômico, cultural, social, acadêmico, linguístico, político), um conjunto de recursos e poderes utilizáveis, como a propriedade, domínio de conteúdos, discussões ou conhecimentos intelectuais e status. O “poder” da estrutura (externa) sobre o indivíduo, por sua vez, internalizada e interiorizada tão sutilmente pelos grupos e instituições sociais que são capazes de determinar os modos de pensar, agir e interagir. “O habitus é simultaneamente individual e social.” O habitus é, portanto, criado na relação do “eu individual” com o meio social (cultura) e suas instituições, sendo reproduzido e transformado na interação subconsciente do indivíduo e as estruturas sociais. Em resumo, o campo é estruturante e o habitus, estruturado na interação individual, o “traduz” e o normaliza, moldando os sentimentos, ações e práticas sociais, de forma que as estratégias de reprodução social se dão pela violência simbólica e o domínio do capital cultural. Sistemas simbólicos Nos exercem poder enquanto instrumentos de conhecimento e da comunicação estruturando as relações e a realidade justamente porque são estruturados, tendendo, assim, a estabelecer urna ordem gnosiológica (concepção única e homogênea das noções de existência), o que Durkheim chamaria de “o sentido imediato do mundo” ou “conformismo lógico”. Os símbolos (instrumentos de conhecimento e comunicação) de uma sociedade são, por essência, os instrumentos da integração social, pois são responsáveis por possibilitar o consensus sobre o sentido do mundo social, que, por sua vez, está ligado à reprodução da ordem social. Produção simbólica: ideologias cumprem papel estruturante, pois são frutos das condições sociais que as produzem e as fazem circular, podendo ainda serem duplamente determinadas: aos interesses das classes que elas exprimem, mas também aos interesses específicos daqueles que as produzem e à lógica específica do campo de produção. Discurso dominante e função ideológica; Correspondência entre estruturas para legitimar e estabelecer uma determinada ordem (estruturas de pensamento) como “natural”, embora imposta. Bourdieu, destaca que a base da dominação é o controle dos recursos de poder, correlacionando ainda à posse do capital simbólico, que pode converter-se em capital político e gerar diversos efeitos políticos. Dito isso, partindo da concepção bourdieusiana de que o indivíduo é moldado pelos habitus de seu grupo e, consequentemente, tem seus gostos, interesses e visões de mundo a partir do capital simbólico (cultural, político ou intelectual, por exemplo) presente, tornando-se, por sua gênese, também um marcador de classe. O QUE É A VIOLÊNCIA SIMBÓLICA? “Violência simbólica, violência suave, insensível, invisível as suas próprias vítimas, que se exerce essencialmente pelas vias puramente simbólicas da comunicação e do conhecimento, ou, mais precisamente, do desconhecimento, do reconhecimento, ou em última instância, do sentimento. Essa relação social extraordinariamente ordinária oferece também uma ocasião única de apreender a lógica da dominação, exercida em nome de um princípio simbólico conhecido e reconhecido tanto pelo dominantequanto pelo dominado, de uma prioridade distintiva, emblema ou estigma, dos quais o mais eficiente simbolicamente é essa propriedade corporal inteiramente arbitrária.” (BOURDIEU, Dominação Masculina, 2007, p. 78) 4 SOCIOLOGIA • Viviane Catolé É um conceito desenvolvido por Pierre Bourdieu, que corresponde ao poder de impôr um proceso de submissão pelo qual os dominados percebem a hierarquia social como legítima e natural. Por exemplo, as mulheres pertencem ao espaço privado (a casa), e os homens, ao espaço público (o trabalho). Isso é um tipo de violença simbólica. • • Sistemas simbólicos (cultura) arbitrários e “universais”; • • Legitima e impõe a cultura dominante; • • Impossibilidade em se opor com força suficiente; • • Internalizar culpas, responsabilidades e violências. A violência simbólica é, portanto, a mola propulsora de todas as outras violências. É esta violência invisível, sutil e ainda mais perigosa, propagada todos os dias nos noticiários, propagandas, bem como em produções artísticas e culturais. Anotações