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DANIELLA FORCHETTI SUPLEMENTAR E ALTERNATIVA COMUNICAÇÃO C om unicação suplem entar e alternativa D aniella Forchetti9 786558 212157 ISBN 978-65-5821-215-7 Código Logístico I000876 Comunicação suplementar e alternativa Daniella Forchetti IESDE BRASIL 2023 Todos os direitos reservados. IESDE BRASIL S/A. Al. Dr. Carlos de Carvalho, 1.482. CEP: 80730-200 Batel – Curitiba – PR 0800 708 88 88 – www.iesde.com.br © 2023 – IESDE BRASIL S/A. É proibida a reprodução, mesmo parcial, por qualquer processo, sem autorização por escrito da autora e do detentor dos direitos autorais. Projeto de capa: IESDE BRASIL S/A. Imagem da capa: VictorThemes/Envato Elements 23-81983 CDD: 371.9 CDU: 376 CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ F791c Forchetti, Daniella Comunicação suplementar e alternativa / Daniella Forchetti. - 1. ed. - Curitiba [PR] : IESDE, 2023. Inclui bibliografia ISBN 978-65-5821-215-7 1. Educação especial. 2. Comunicação na educação. 3. Distúrbios da comunicação. 4. Tecnologia educacional. 5. Educação inclusiva. I. Título. Meri Gleice Rodrigues de Souza - Bibliotecária - CRB-7/6439 13/01/2023 18/01/2023 Daniella Forchetti Mestre em Distúrbios da Comunicação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Especialista em Audiodescrição pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e em Linguagens das Artes pela Universidade de São Paulo (USP). Graduada em Fonoaudiologia pela PUC-SP. Consultora em acessibilidade e em projetos culturais. Agora é possível acessar os vídeos do livro por meio de QR codes (códigos de barras) presentes no início de cada seção de capítulo. Acesse os vídeos automaticamente, direcionando a câmera fotográ�ca de seu smartphone ou tablet para o QR code. Em alguns dispositivos é necessário ter instalado um leitor de QR code, que pode ser adquirido gratuitamente em lojas de aplicativos. Vídeos em QR code! SUMÁRIO 1 Conceitos básicos 9 1.1 O que é comunicação? 9 1.2 Comunicação expressiva e receptiva 14 1.3 Comunicação suplementar e alternativa (CSA) 20 2 Programa de comunicação de Jan Van Dijk 29 2.1 Apresentação do programa 30 2.2 Fases pré-simbólicas 32 2.3 Fases simbólicas 36 3 Do concreto ao abstrato 43 3.1 Como trabalhar com imagens e símbolos pictográficos? 43 3.2 Recursos de baixa tecnologia 47 3.3 Recursos de alta tecnologia 54 4 LetMeTalk: aplicativo de comunicação 59 4.1 Apresentação do aplicativo 59 4.2 Uso em situações comunicativas 62 4.3 Criação de atividades 66 5 CSA: um caminho para a inclusão 74 5.1 Qual é a importância da CSA na escola? 74 5.2 Escola, família e terapeutas: como trabalhar juntos 80 5.3 Desafios da comunicação suplementar e alternativa 84 Resolução das atividades 91 Agora é possível acessar os vídeos do livro por meio de QR codes (códigos de barras) presentes no início de cada seção de capítulo. Acesse os vídeos automaticamente, direcionando a câmera fotográ�ca de seu smartphone ou tablet para o QR code. Em alguns dispositivos é necessário ter instalado um leitor de QR code, que pode ser adquirido gratuitamente em lojas de aplicativos. Vídeos em QR code! A comunicação suplementar e alternativa é uma área de prática e pesquisa que envolve a parte tanto clínica quanto educacional e é voltada para crianças e adultos que apresentam algum tipo de comprometimento na linguagem oral. Neste livro nos voltaremos para o trabalho desenvolvido no âmbito escolar, procurando contribuir para que um número maior de professores possa ampliar seus conhecimentos na área da comunicação, em particular da comunicação suplementar e alternativa voltada para os estudantes com deficiência. No Capítulo 1 conheceremos os conceitos básicos da comunicação e aprenderemos a diferenciar os termos comunicação expressiva e receptiva. Aprenderemos a conceituar o que é comunicação suplementar e alternativa e conheceremos o público-alvo que pode se beneficiar desse trabalho. No Capítulo 2 apresentaremos o programa criado por Jan Van Dijk, professor de Ciências da Comunicação, que procurou reconhecer as fases de aquisição da comunicação da criança com deficiência para poder compreender como apoiá-la no seu desenvolvimento. Esse trabalho se baseia em reconhecer as experiências motoras vivenciadas por crianças não verbais em conjunto com o professor, por meio do movimento. Apresentaremos essas fases a fim de oferecer apoio para que o estudante com deficiência possa atingir uma autonomia na sua forma de comunicação. Trata-se de um projeto que se inicia de maneira individualizada e que proporciona a possibilidade de um desenvolvimento como parte do coletivo. Para isso, contaremos com o apoio da família e de terapeutas para construir uma rede de apoio. No Capítulo 3 abordaremos o que são os pictogramas e as imagens desenvolvidas para o programa de comunicação suplementar e alternativa. Daremos sugestões de como compor atividades de maneira prática, com exemplos de materiais de baixa tecnologia e baixo custo e de alta tecnologia e alto custo, e que necessitem do apoio institucional da escola. APRESENTAÇÃOVídeo 8 Comunicação suplementar e alternativa Esses materiais vão apoiar o aprendizado do estudante com deficiência, visando a formas mais autônomas de comunicação. No Capítulo 4 aprenderemos na prática como utilizar o programa de comunicação suplementar e alternativa LetMe Talk. Trata-se de um aplicativo gratuito para Android e iOS que visa compensar as dificuldades na área da comunicação e linguagem por meio de imagens. Veremos como ele funciona, qual público pode utilizá-lo no dia a dia escolar e como criar diversas atividades em formato de cardápios, livros e cadernos de comunicação. No Capítulo 5 compreenderemos como podemos criar uma rede entre os profissionais da escola, os familiares e a equipe técnica de saúde, a fim de apoiar os processos de inclusão do estudante com deficiência por meio do uso de recursos de tecnologias assistivas e do material pedagógico adaptado com o sistema de comunicação suplementar e alternativa. Ao final, entenderemos qual é a importância do trabalho da comunicação suplementar e alternativa para a inclusão de todos os estudantes, com e sem deficiência, procurando compreender quais são as necessidades complexas de comunicação desse público-alvo e quais são seus desafios, a fim de criarmos juntos uma relação mais equitativa dentro de nossas escolas. Conceitos básicos 9 1 Conceitos básicos Este livro é um convite para conhecer os conceitos básicos da comuni- cação, a importância dela na sociedade e na construção de nossas relações. Neste capítulo vamos aprender a diferenciar os termos comunicação expressiva e receptiva, a fim de criar atividades voltadas para necessidades diversas de estudantes com deficiência. Sempre vamos procurar focar na realidade esco- lar, em especial, em como poderemos trabalhar no contexto de sala de aula. Vamos também aprender a conceituar o que é comunicação suplementar e alternativa e conhecer o público-alvo que pode se beneficiar desse trabalho. Sendo assim, este livro procura contribuir para que um número maior de professores possa aprofundar seus conhecimentos na área da comu- nicação, em particular a comunicação suplementar e alternativa. Com o estudo deste capítulo, você será capaz de: • aprender os conceitos básicos da comunicação; • diferenciar os termos comunicação expressiva e receptiva, a fim de criar atividades voltadas para cada necessidade da pessoa com deficiência; • saber conceituar a CSA e conhecer o público-alvo que pode se be- neficiar desse trabalho. Objetivos de aprendizagem 1.1 O que é comunicação? Vídeo A comunicação é um conceito amplo e historicamente construído. Segundo Vigotski (2000), ela representa a função primordial da fala. Po- de-se entender, desse modo, que está relacionada diretamente à capaci-dade de interação interpessoal envolvendo a linguagem natural (idioma) e a artificial (codificação, signos, sinais de trânsito, notação musical etc.). Voltando às origens da humanidade, a comunicação foi o meio pelo qual as pessoas poderiam expressar seus costumes, estilo de vida e valo- 10 Comunicação suplementar e alternativa res, constituindo e transmitindo cultura. Foi por meio da comunicação que aprendemos a viver em sociedade. O modo como pensamos e agimos é compartilhado por meio da comunicação, que alimenta essa expressão. Nesse contexto, podemos citar como exemplo a pintura rupestre, que foi uma das primeiras maneiras de deixar mensagens e registrar experiên- cias encontrada pelos humanos, com registros datados desde 40 mil anos atrás. A arte rupestre permite observar que os hominídeos costumavam registrar sua vida cotidiana, representando os animais que caçavam e pos- sivelmente os ritos e as celebrações de suas comunidades. Partindo de uma perspectiva mais fisiológica, a amamentação, além de importante para o desenvolvimento neuropsicomotor do bebê e o laço afetivo entre ele e seu cuidador, também estimula todo o sistema orofacial (lábios, língua e bochechas) através da sucção, favorecendo no futuro o desenvolvimento da linguagem oral necessária para a co- municação receptiva e expressiva. É possível observar a comunicação desde a primeira infância, quando, com poucos meses de nascimento, a criança já sente a necessidade de fazer uso de recursos comunicati- vos, como choro, balbucio etc. Entre as várias expressões de comunicação dos bebês, o choro é o mais comum para indicar as necessidades que precisam ser satisfei- tas, muitas vezes ligadas à alimentação e à atenção. Os bebês podem começar a emitir gritos e a vocalizar a partir dos dois ou três meses. Nessa fase inicia-se o balbucio, e eles aprendem a responder movendo a cabeça entre os quatro e cinco meses. A partir dos seis meses, conse- guem vocalizar os sons e pronunciar as primeiras vogais. A partir dos oito ou nove meses, começam a usar gestos como mandar beijo, tchau e sinalizar não e sim. A partir dos doze meses, podem começar a emitir vocábulos isolados com significado, como mama ou papa. A partir dos vinte e quatro meses, já se apropriaram das primeiras palavras e ini- ciam pequenos diálogos. Esses marcos do chamado desenvolvimento da linguagem são parâ- metros baseados em bebês que nasceram sem deficiência. Por isso é importante não nos apegarmos a números fixos, e sim ficarmos atentos para observar se a criança está em crescente desenvolvimento. É pre- ciso, então, não comparar a criança a parâmetros, mas compreender que cada uma tem seu tempo para aprender. Nesse processo pode-se observar o brincar da criança, uma vez que por meio da ludicidade ela aprende a seguir regras, compartilhar as coisas e ouvir o outro. Conceitos básicos 11 Em relação ao acompanhamento do desenvolvimento da criança, cabe ao professor estar próximo das famílias e se atentar às suas demandas para dar suporte quando necessário. Este suporte pode incluir a indica- ção de um profissional da área da saúde para avaliar a criança, caso ela demonstre em sala de aula alguma coisa que não foi percebida pelos pais. É fundamental, portanto, considerar que nascemos imersos na co- municação e é por meio dela que aprendemos a nos expressar. Obser- var o que falamos, como falamos e para quem falamos, por exemplo, permite identificar como nossa comunicação influencia diretamente a compreensão do outro. A comunicação é um fenômeno universal tão relevante que não se dá somente entre as pessoas – os animais, de modo geral, também se expressam – e pode ser apresentada de forma verbal e não verbal. A verbal utiliza recursos de diferentes línguas e dialetos, e a não verbal se dá por meio do olhar, de gestos, do tom de voz, da fisionomia e da postura corporal, por exemplo. Ainda, a comunicação está presente em nosso dia a dia como uma forma de organizar a sociedade. Basta olhar ao redor para reconhecer ícones e símbolos que, sem percebermos, nos levam a mergulhar num mundo pictográfico. Figura 1 Placas de trânsito e ícones para banheiros Pedestre, ande pela direita An to n Pr oh or ov /S hu tte rs to ck Fa tih Ya vu z/ Sh ut te rs to ck Proibido estacionar 12 Comunicação suplementar e alternativa Esses símbolos universais – podemos chamar assim pelo menos den- tro de países ocidentais – se prestam para uma comunicação efetiva, rá- pida e que não dependa da língua falada. De longe podemos reconhecer suas funções e, se estivermos viajando por um país do qual não conhece- mos a língua local, identificar sozinhos o que eles querem dizer. Outro aspecto importante da comunicação é a escrita. Uma das pri- meiras apresentadas de modo sistematizado apareceu na Mesopotâmia, quando o povo sumério desenvolveu a escrita cuneiforme, aproximada- mente em 3500 a.C., em que os registros do cotidiano e de questões políticas e econômicas eram feitos em impressões na argila, com sím- bolos. Na mesma época, surge no Egito os hieróglifos, mas estes eram dominados apenas por pessoas com poder – os escribas e os sacerdotes. Figura 2 Escrita cuneiforme (a) e hieróglifos (b) a) b) Ih or B on da re nk o/ Sh ut te rs to ck Co up er fie ld /S hu tte rs to ck Conceitos básicos 13 Diante disso, podemos perceber que a comunicação é muito mais do que a fala e a escrita; é um conjunto de expressões que pode relatar o que pensamos, sentimos e fazemos. E nesse contexto, vários recursos foram criados e aprimorados no decorrer da história para facilitar a nossa comunicação, os chamados meios de comunicação. São exemplos deles: o rádio, a TV, a telefonia, a fotografia e a internet. Já a escrita pode ser apresentada em tinta, como a letra cursiva, bastão, ideograma, pictogramas, e pode ser tátil, como o Sistema Braille. A indústria gráfica foi evoluindo e multiplicando as formas de compartilhamento dos jornais, revistas e livros. Atualmente, o que era impresso está sendo transformado em digital, e as informa- ções são compartilhadas pelos meios eletrônicos. Já como exemplo das funções da comunicação, temos: a informação, o entretenimento, o ensino, a relação social, a interpretação dos acon- tecimentos, a produção e transmissão cultural etc. Devido a essas varia- das funções, quando viajamos a outro país e não partilhamos a mesma língua materna, podemos ter algumas dificuldades, mas também pode- mos aprender com o outro a nos expressar de diferentes formas. Quan- to mais estamos imersos em determinada cultura, mais podemos nos expressar de maneira autônoma a partir do domínio de seu idioma. É por reconhecermos o valor da comunicação que sempre convém ter alguns cuidados ao usá-la. Algumas perguntas podem auxiliar esse processo: Para quem estou falando? Todas as pessoas que me ouvem estão me compreendendo? Que recursos estou utilizando para atingir meus objetivos e alcançar diferentes públicos? A comunicação é essencial, portanto, para diversos propósitos. Na educação, ela deve ser meio e objeto de aprendizagem. Durante a Pandemia de Covid-19, por exemplo, vivemos uma condição que afe- tivamente pôde nos aproximar da situação vivida por muitas pessoas com deficiência, que é o isolamento social. Tivemos nossa liberdade de ir e vir restringida, impactando nossa qualidade de vida. Esse perío- do impactou também a renda familiar, o que aumentou a insegurança alimentar e prejudicou a aprendizagem de crianças e adolescentes que não tiveram garantidas as condições básicas ao seu desenvolvi- mento (UNICEF, 2021). A pandemia demonstrou que a escola é um suporte importante para o desenvolvimento saudável de crianças e adolescentes. Sabemos que 14 Comunicação suplementar e alternativa muitos alunos, por exemplo, têm na escola pública sua principal refeição do dia ou o único espaço adequado para se dedicarem aos seus estudos. Na pandemia, muitas famílias tiveram dificuldade de apoiar seusfilhos em casa, pois não tinham disponíveis celulares ou computadores para que eles pudessem acessar às aulas à distância. Ainda, muitos desses alunos eram pessoas com deficiência cujos recursos tecnológicos não promoviam acessibilidade, o que os levou a ficar sem suporte escolar. Essa realidade teve diferentes impactos por todo o Brasil. Os professo- res tiveram de se reinventar, e a comunicação se estabeleceu por novas vias. A tecnologia passou a ser a principal ferramenta de comunicação entre o professor e os estudantes. Com o retorno às aulas presenciais pós-pande- mia, percebemos novos desafios. Agora nos resta criar uma rede de apoio, principalmente junto às famílias com crianças e jovens com deficiência. Sendo assim, no decorrer deste livro procuramos contribuir para que um número maior de professores possa aprofundar seus conheci- mentos na área da comunicação, em particular a comunicação suple- mentar e alternativa. A seguir, vamos aprofundar esse tema um pouco mais, falando sobre a comunicação expressiva e receptiva e como esse conceito se apresenta para as pessoas com deficiência. 1.2 Comunicação expressiva e receptiva Vídeo A comunicação receptiva é um processo relacionado à forma como com- preendemos as mensagens, já a comunicação expressiva é a forma como podemos expressar nossas necessidades, vontades e sentimentos. No en- tanto, esse processo pode ser restringindo por conta de uma deficiência. Para adentrarmos no assunto pretendido por este livro, antes de tudo, precisamos compreender o que é deficiência. Vamos ao conceito apontado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) – do inglês World Health Organization (WHO) –, revisto no ano de 2012: A deficiência é complexa, dinâmica, multidimensional e questio- nada. Nas últimas décadas, o movimento das pessoas com defi- ciência, juntamente com inúmeros pesquisadores das ciências sociais e da saúde têm identificado o papel das barreiras físicas e sociais para a de ciência. A transição de uma perspectiva in- dividual e médica para uma perspectiva estrutural e social foi Conceitos básicos 15 descrita como a mudança de um “modelo médico” para um “mo- delo social” no qual as pessoas são vistas como deficientes pela sociedade e não devido a seus corpos. (WHO, 2012, p. 4) A comunicação, dessa forma, deve ser observada com base no poten- cial de cada criança e não pelas limitações que sua condição impõe ou pelas restrições ligadas ao meio, tanto se ela for ouvinte ou surda, vidente ou não vidente, ou com mobilidade reduzida. São tantos os fatores que influenciam o aprendizado que é importante que o professor/cuidador fi- que atento à forma como a criança percebe o mundo e se expressa. Abordando o conceito de comunicação receptiva no contexto da pessoa com deficiência, no que diz respeito a como percebemos o mundo, primeiramente devemos observar a criança e perceber se ela passou por alguma privação no seu desenvolvimento devido à condi- ção de ser uma pessoa com deficiência, se ela vive numa relação que a incapacita ou se possui uma limitação devido a uma situação de des- vantagem em relação a fatores econômicos ou sociais, por exemplo. Em seguida, perceber como o estudante aprende é a chave para entender como ele recebe as informações, se pelo interesse em coisas visuais e texturas, ou por cheiros, sons e sabores. Ou ao contrário, se é avesso a ruídos e sons altos, tem hipersensibilidade a texturas ásperas e não suporta comer alimentos mais sólidos. Esses comportamentos, por exemplo, podem nos apontar o caminho para conduzir o trabalho. Pensando em construir uma rotina com a criança, para que ela possa se organizar e compreender que o mundo tem um tempo e uma forma, podemos utilizar atividades mais concretas inicialmente e, depois, seguir para atividades mais simbólicas, à medida que ela perceba o processo de desnaturalização dos objetos. Esse conceito está ligado à possibilidade de tornar algo mais concreto em algo mais abstrato (símbolos, por exemplo). Não devemos impor nas crianças nosso tempo e ritmo, mas sim ficar atentos em como elas vão se interessar por uma determinada atividade ou ter aversão a outra. Devemos observar seu tempo de concentração em atividades individuais e dentro do coletivo, ou se preferem um ambiente fechado a um ambiente aberto – são múltiplos os fatores para ficarmos atentos ao estruturarmos a aprendizagem quanto à forma e ao conteúdo. Uma possibilidade de aproximação é saber dos familiares os cam- pos de interesse da criança: o que ela come, os horários que dorme O importante Relatório Mundial Sobre a Deficiência trata sobre os conceitos e as formas de atendi- mento às pessoas com deficiência, seus desafios ligados às questões da saúde e às barreiras em nossa sociedade, sob uma perspectiva de diversida- de humana. Disponível em: https://appswho.int/ iris/bitstream/handle/10665/ 44575/9788564047020_por.pdf. Acesso em: 28 set. 2022. Leitura https://apps.who.int/iris/bitstream/handle/10665/44575/9788564047020_por.pdf https://apps.who.int/iris/bitstream/handle/10665/44575/9788564047020_por.pdf https://apps.who.int/iris/bitstream/handle/10665/44575/9788564047020_por.pdf 16 Comunicação suplementar e alternativa e acorda, se tem brinquedos e brincadeiras prediletos, entre outros. Temos como objetivo sempre focar o potencial, o que lhe é interes- sante. À medida que a criança cresce e amadurece, poderemos ofere- cer outras coisas fora do seu interesse individual e compartilhar mais do que é do interesse do grupo. Para tanto, as atividades de vida diária podem ser um bom pon- to de partida para observarmos como essa criança se organiza e se já aprendeu a incorporar uma rotina. Em qualquer tempo, o foco sempre é a autonomia da criança, seja a curto, médio ou longo prazo – isso vai variar dependendo das atividades que ela realiza. Podem existir casos em que a criança consegue perceber os obje- tos que fazem parte da hora do lanche, por exemplo, mas ainda está aprendendo a jogar bola ou a segurar um lápis em sala de aula. À me- dida que o tempo vai passando, é importante observarmos se a criança reconhece a função das coisas. Um conceito importante a ser apresentado é o de objetos de refe- rência, que dizem respeito a um objeto concreto ou a uma parte dele com uma representação no campo da comunicação. Segundo Nasci- mento (2006, p. 24): A utilização desses objetos cria várias possibilidades para a crian- ça se comunicar com o mundo exterior, facilitando a interação com os outros, permitindo-lhe entender melhor o que se passa a sua volta (o que vai acontecer, onde, porque, como e com quem), e tornando os conceitos mais fáceis de serem apreendidos. A utilizacão de objetos de referência é também um auxiliar da me- mória, possibilitando à criança relembrar acontecimentos. E como devemos selecionar e apresentar esses objetos? 1. Selecione um objeto que faça parte da rotina da criança. Exemplos: o copo que ela usa para beber no refeitório, a massinha por meio da qual faz atividades em sala de aula, o boné utilizado para fazer atividades na quadra. Esses objetos serão sempre os mesmos e devem ser apresentados no início das aulas para saber qual rotina haverá naquele dia. Esses objetos representam uma ação (beber água ou brincar, por exemplo) e serão apresentados de modo sequencial, organizando a rotina do dia. Depois, vamos um a um mostrando que as atividades têm um tempo de início, meio e fim. Após o uso de cada objeto, guardamos e introduzimos um novo na sequência de atividades do dia. Conceitos básicos 17 2. Começamos com uma rotina reduzida e vamos ampliando o tempo da atividade à medida que a criança apresentar maior interesse e disponibilidade em permanecer fazendo a atividade. Portanto, quando a criança consegue antecipar a atividade relacionada ao objeto ou algum acontecimento, podemos propor o início da desnaturalização do objeto. O copo que ela usava para ir ao refeitório vai sair do plano tridimensional e passarápara o bidimensional. O professor irá escolher uma melhor forma para apresentar esse objeto, que se tornará uma referência para uma atividade. Ele pode colar ou prender numa placa de papelão ou MDF o copo que se transformará em referência para quando a criança quiser ir ao refeitório. Chegando lá, terá outro copo, que pode ter a mesma textura, mas em cor diferente, ou ser de outro material e forma para que ela possa fazer essa mesma função. A criança vai então começar a ampliar seu repertório de objetos de referência e de atividades ao perceber diferentes perspectivas do mesmo objeto. Cada uma vai levar um tempo, e o mais importante é o professor estar atento se a criança está compreendendo esse processo. Provavelmente, em uma sala de aula existe uma rotina própria, pensada antecipadamente pelo professor. Se for o caso de haver uma criança com deficiência, devemos considerar a possibilidade de ter um professor de apoio para ser o mediador dessa relação com o grupo. O tempo que essa criança vai levar para executar as mesmas atividades pode variar conforme o modo como ela se relaciona com as coisas a sua volta. É importante garantir que a criança ao mesmo tempo vá conquistando sua independência de maneira individual, mas também junto ao grupo de colegas em sala de aula. Sabemos que são muitos os fatores que interferem nessa relação, mas a quantidade de estudantes para o número de professores será sempre o grande desafio. Salas superlotadas, sem a possibilidade de trabalhar com professores de apoio e de Educação Especial fazem diferença no processo de inclusão. É importante também pensar como trabalhar a mesma atividade em sala de aula com crianças que percebem o mundo de maneiras diferentes. Isso não se reduz à condição de uma criança com deficiência, isso faz parte do ser humano. 3. Continuando, se o objeto de referência fizer sentido para a criança em relação às atividades, às pessoas e aos lugares que ela conhece, poderemos ampliar o nível de simbolização. Para 18 Comunicação suplementar e alternativa isso, vamos utilizar uma parte do objeto. Tomando o exemplo do copo (pensando num material plástico) que primeiro era íntegro, depois foi colocado no plano bidimensional e agora poderá ser cortado ao meio e colado no cartão/placa. É interessante que sempre que possível a criança participe dessa montagem de material e observe a transformação. 4. No último processo de desnaturalização, encontramos a possibilidade do uso de objetos em miniatura ou representações de objetos de maneira visual (contorno do objeto, utilizando cores que contrastam entre figura/fundo), tátil (a representação de um animal em miniatura ou o contorno de um objeto pequeno em baixo-relevo) e auditiva (nomeação do objeto, atividade ou pessoas). Para as crianças surdas, a nomeação se dará através da Língua Brasileira de Sinais e, para as crianças surdocegas, uma das possibilidades é a Libras tátil. É interessante lembrar que o uso da miniatura e dos contornos seja as- sociado sempre à figura real, para que a criança tenha a possibilidade de comparar a representação com a imagem que é apresentada na realidade. Com o tempo, isso também poderá ir crescendo gradativamente, à medida que a criança demonstre interesse e compreensão do que lhe é proposto. A atividade com miniaturas não é voltada exclusivamente para as crianças com deficiência. No método Montessori, uma das atividades é apresentar as miniaturas para as crianças entre três e seis anos, por exem- plo. Começa com poucas peças, que aumentam com o tempo. Podem ser trabalhadas como um jogo de adivinhação ou como nomeação. O mais importante é que o professor/cuidador, ao apresentar essas ati- vidades, esteja atento à compreensão da criança. Muitas vezes precisamos pensar que ela pode não estar interessada numa determinada atividade, pois pode ter sido feita em um tamanho que não é adequado para o mo- mento do seu desenvolvimento, por exemplo, ou em relação às cores, po- demos trabalhar com mais contraste entre preto e o branco, ou azul escuro e amarelo, o que pode favorecer o foco. Também é preciso estar atento se o ambiente é ruidoso ou tem muitas informações visuais distrativas – tudo isso fará diferença num bom aproveitamento das atividades. Dessa forma, é muito importante reconhecer a realidade em que essa criança está inserida e sua cultura local, hábitos e costumes. Partindo e va- lorizando esses aspectos, teremos maior possibilidade de adesão das ativi- dades, além de ser uma ação afirmativa junto a todo o grupo de estudantes. Conceitos básicos 19 Vamos agora retomar o termo comunicação expressiva: A comunicação expressiva abrange vários comportamentos comunicativos, dentre eles expressões corporais, faciais, movi- mentos diferenciados, gestos, emissão de sons, uso de objetos concretos. Uma vez que consigam comunicar com sucesso, terão a base para poder adquirir sistemas mais elaborados de comuni- cação. (NASCIMENTO, 2006, p. 32) Para que isso ocorra, é importante o professor/cuidador ficar atento em procurar sentar-se próximo ao estudante a fim de ter maior contato. Isso favorece as crianças surdas, com a leitura labial, e as crianças com deficiência visual, pois evita o ruído ambiente da sala de aula e possibili- ta ao professor prestar uma atenção maior aos pequenos sinais, gestos corporais ou vocalizações que a criança possa fazer durante um diálogo. Dessa forma, procurando apoiar a criança a se expressar de manei- ra autônoma, vamos pensar em formas mais concretas, de maneira ini- cial, até chegar às competências mais simbólicas. Temos uma gama de possibilidades, mas, geralmente quando uma criança inicia o processo escolar na primeira infância, o professor deve estar atento em como ela faz para pedir as coisas e como indica o que gosta e não gosta. A fa- mília tem um papel fundamental de dizer aos professores como é que essa criança se comunica. Como ela é em casa pode ser muitas vezes diferente de como ela se expressa na escola, já que viverá num am- biente comunitário e com mais pessoas. Também é importante entrar em contato com os terapeutas para saber o que realizar para poder adequar os materiais e atividades ao uso em sala de aula. A parceria entre família, terapeutas e escola traz um diálogo coeso, favorecendo as formas de expressões comunicativas que a criança está aprendendo ou desenvolvendo. Isso pode mudar com o tempo, mas é importante que essa transição seja feita de maneira progressiva. As crianças, quando bebês, expressam-se primeiramente com bal- bucios, outras já começam a apontar as coisas, outras fazem pouco contato visual. Cada forma de expressão deve ser valorizada; muitas vezes o que observamos ser uma birra é a dificuldade da criança de expressar seus sentimentos e vontades. À medida que a criança vai sendo instrumentalizada e aprende formas mais organizadas de se co- municar, o seu comportamento vai “melhorando” – na verdade, essa adequação vai sendo corrigida à medida que são ouvidas suas necessi- dades e os seus desejos são levados em consideração. Muitas crianças 20 Comunicação suplementar e alternativa partem de um gesto natural – como sorrir, chorar e apontar – para iniciar o processo de interação social e de nomeação das coisas e pes- soas. Com o tempo, elas aprendem as expressões faciais para diferen- ciar seus sentimentos e a fazer movimentos com a cabeça de sim e não, por exemplo. Os gestos naturais vão se tornando símbolos à medida que ela consegue compreender e desnaturalizar as coisas, por exem- plo, quando usam um gesto arbitrário para designar passeio. Assim acontece com a fala, que pode ser restrita quando se trata de uma criança com deficiência auditiva, ou quando se tem um quadro neurológico, em que a criança escuta, mas tem dificuldade de articular as palavras, ou mesmo por questões ligadas à má formação do cére- bro. Nesses casos, pode ser interessante que essa criança, à medida que aprende a desnaturalizar os objetose pessoas, seja introduzida ao sistema de comunicação alternativa e suplementar, com pictogramas e ideogramas – assunto que veremos a seguir. 1.3 Comunicação suplementar e alternativa (CSA) Vídeo A comunicação alternativa está relacionada a um conjunto de re- cursos de tecnologias assistivas desenvolvido junto às pessoas com deficiência que não oralizam ou não têm uma fala funcional e que necessitem de um apoio para se expressar ou relacionar. Já a comu- nicação suplementar (que também é conhecida como aumentativa) complementa a fala, ampliando a comunicação, e é voltada para pes- soas com deficiência que tenham desenvolvido parcialmente a lingua- gem oral. Conforme a ISAAC-Brasil (2022): A CSA é uma área de prática e pesquisa, clínica e educacional para crianças e adultos, que envolve um conjunto de ferramentas e es- tratégias utilizadas para resolver desafios cotidianos de comunica- ção de pessoas que apresentam algum tipo de comprometimento da linguagem oral, na produção de sentidos e na interação. Os usuários que podem se beneficiar da CSA são: pessoas com pa- ralisia cerebral (PC), com apraxia de fala, com deficiência intelectual, com transtorno do espectro autista (TEA), com quadros de hidrocefa- lia e microcefalia, que tiveram um acidente vascular cerebral (AVC) ou um trauma cranioencefálico (TCE), com doenças neurodegenerativas e Conceitos básicos 21 síndromes genéticas – esses são os exemplos mais comuns. Isso não impede que os recursos sejam utilizados de modo a apoiar todo o tra- balho em sala de aula, favorecendo também os estudantes que têm alguma dificuldade na aprendizagem de modo geral. Para Moretti (1999, p. 15), o sistema de comunicação deve possuir os seguintes requisitos: permitir uma vasta gama de formas de comunicação; ser adaptá- vel para as outras necessidades da pessoa; permitir um amplo uso social; poder ser utilizado em um grande número de ambientes; poder ser capaz de dar acesso a um léxico adequado e poder ex- primir um número elevado de mensagens; possuir um bom padrão ergonômico: não gerar trabalho, poder expressar a dimensão emo- cional, ser rápido etc; poder ser personalizado em grau máximo; possuir características que o faça acessível aos interlocutores; ser tecnicamente de confiança, poder ser mantido facilmente em fun- cionamento e, se possível, não ter um custo muito elevado. Dessa forma, os objetivos do uso da CSA são: ser um facilitador no desenvolvimento da autonomia do estudante com deficiência no campo da comunicação expressiva e receptiva, favorecendo a aprendizagem de maneira global; dar a ele oportunidade de comunicar suas necessidades básicas, desejos, sensações e sentimentos, seja para a família, no contexto escolar e junto à comunidade em geral; dar oportunidade ao estudante com deficiência de desenvolver sua comunicação oral, seja de maneira na- tural ou por meio de recursos de tecnologia assistiva (com sintetizadores de voz, por exemplo); e possibilitar que ele aprenda conceitos e desenvol- va habilidades ligadas à leitura, à escrita e às estruturas linguísticas. As ferramentas da CSA “incluem material específico, entre eles, con- juntos de sinais gráficos desenvolvidos especificamente para a comu- nicação alternativa, agrupados em categorias sintáticas e semânticas, além da utilização de fotos, palavra escrita e alfabeto” (ISAAC-BRASIL, 2022). Esses recursos serão apresentados mais à frente como baixa tecnologia e alta tecnologia, referente às questões de baixo e alto custo. A seguir, apresentamos alguns exemplos de símbolos gráficos de- senvolvidos para o uso da CSA: • Bliss 1 – criado em 1965 pelo austríaco Karl Blitz. É um sistema suplementar e/ou alternativo de comunicação, constituindo-se em um sistema simbólico gráfico-visual. Por meio dele é possível criar frases simples e complexas – isso vai depender do usuário A ISAAC-Brasil é uma asso- ciação sem fins lucrativos que promove o desenvol- vimento da comunicação suplementar e alternativa e a melhoria da qualidade de vida das pessoas com deficiência e necessidades complexas de comunica- ção, que têm dificuldade de se expressar por meio da fala. Tem como objetivo reunir profissionais, usuá- rios de CSA e familiares, divulgar e promover a comunicação alternativa em território nacional. Disponível em: https:// www.isaacbrasil.org.br/ comunicaccedilatildeo-alternativa. html. Acesso em: 14 nov. 2022. Site Pode ser encontrado em: http://mimisaac.blogspot. com/2015/05/el-sistema- -blis.html. Acesso em: 26 dez. 2022. 1 https://www.isaacbrasil.org.br/comunicaccedilatildeo-alternativa.html https://www.isaacbrasil.org.br/comunicaccedilatildeo-alternativa.html https://www.isaacbrasil.org.br/comunicaccedilatildeo-alternativa.html https://www.isaacbrasil.org.br/comunicaccedilatildeo-alternativa.html http://mimisaac.blogspot.com/2015/05/el-sistema-blis.html http://mimisaac.blogspot.com/2015/05/el-sistema-blis.html http://mimisaac.blogspot.com/2015/05/el-sistema-blis.html 22 Comunicação suplementar e alternativa e pelo contexto comunicativo. Os símbolos derivam de formas geométricas e o quadrado é a referência usada como um guia. a casa con mamá • PIC – Pictogram Ideogram Communication 2 , desenvolvido em 1980 pela terapeuta Subhas Maharaj. É constituído por sím- bolos pictográficos cujas imagens consistem em figuras estiliza- das, desenhadas em branco sobre fundo preto, e têm o fim de ser acessível às pessoas com deficiência cognitiva ou baixa-visão. O significado do símbolo é escrito na sua parte inferior e o desenho em alto contraste. Man/person Fish • PCS – Picture Communication Symbols 3 , criado em 1981 pela Mayer-Johnson. São pictogramas coloridos com categorias que representam substantivos, pronomes, verbos e adjetivos forman- do um código cromático. Ele funciona por meio de software para computador que foi desenvolvido especificamente para criação de pranchas de comunicação alternativa/aumentativa. Possui uma biblioteca de símbolos e várias ferramentas que permitem a construção de recursos de comunicação personalizados, é um programa de alto custo e sempre que instalado, serve apenas para um computador, não podendo ser compartilhado. O siste- ma também tem um programa chamado Speaking Dynamically Pro, que permite gravar uma voz ou utilizar uma voz sintetizada em vários idiomas. Pode ser encontrado em: http://design-cu.jp/ias- dr2013/papers/2112-1b. pdf. Acesso em: 26 dez. 2022. 2 Pode ser encontrado em: https://us.tobiidynavox. com/products/picture- -communication-symbol- s-pcs. Acesso em: 26 dez. 2022. 3 http://design-cu.jp/iasdr2013/papers/2112-1b.pdf http://design-cu.jp/iasdr2013/papers/2112-1b.pdf http://design-cu.jp/iasdr2013/papers/2112-1b.pdf https://us.tobiidynavox.com/products/picture-communication-symbols-pcs https://us.tobiidynavox.com/products/picture-communication-symbols-pcs https://us.tobiidynavox.com/products/picture-communication-symbols-pcs https://us.tobiidynavox.com/products/picture-communication-symbols-pcs Conceitos básicos 23 • LetMeTalk– Aplicativo gratuito de CSA, criado em 2014 pela No- tize, para Android e IoS, que apoia a comunicação em todas as áreas da vida. Ele é financiado por meio de donativos. O banco de imagens pertence ao ARASAAC – Centro Aragonês de Comunica- ção Aumentativa e Alternativa. É possível incluir outras imagens no dispositivo ou tirar fotografias com a câmera incorporada. Possui também um sistema de voz sintetizada em vários idiomas. COMER PÃO Para Manzini (2006, p. 4), essas referências visuais podem ser usa- das pela pessoa com deficiência como uma espécie de tabuleiro de comunicação que contém símbolos gráficos. Tais símbolos podem se compor de fotos, ilustrações, figuras, letras, palavras e frases que, ao serem indicados pela pessoa, constroem sentenças e permitem que a comunicação seja efetivada nos diversos ambientes de convívio, espe- cialmente escolar e social. Além do uso de tabuleiros de comunicaçãofísicos, há tecnologia avançada para a comunicação suplementar e al- ternativa, como os sistemas computadorizados e softwares específicos. É importante que esses recursos façam parte da vida cotidiana da pessoa com deficiência, tanto no uso familiar quanto na escola, na clínica e nas terapias. Tratando propriamente dos aspectos escolares, é impor- tante que o professor reconheça as diferentes formas de comunicação e, ao mesmo tempo, as particularidades apresentadas por cada estudante ao se expressar. Não há uma fórmula a ser replicada, cada caso terá de ser tratado de maneira única, visto que seus contextos social, familiar e acadêmico são distintos. Dessa forma, é importante que o professor/ coordenador seja instrumentalizado tanto pelo professor de sala de re- curso (especializado em CSA) quanto pelo professor especialista em Edu- cação Especial/Inclusiva. Esse suporte é fundamental para que todo o conteúdo de sala de aula seja previamente pensado e organizado a fim de formar um meio propício para o estudante com deficiência apren- 24 Comunicação suplementar e alternativa der simultaneamente ao restante da classe. É importante ressaltar que o uso da CSA e de recursos de tecnologia assistiva exige do estudante um manuseio que demora um certo tempo para ser apropriado, às vezes os estudantes levam anos e alguns vão precisar sempre de apoio, devido principalmente às necessidades motoras. São muitos profissionais que irão trabalhar em regime de cooperação, portanto, é importante que o professor de sala de aula se aproprie dos recursos a fim de dialogar com quem fará os materiais adaptados para sala de aula. É importante também lembrar que uma educação inclusiva promo- ve um aprendizado em conjunto. Na sala de aula, o professor deve ficar atento àqueles estudantes que tomam a iniciativa de se aproximarem do estudante com deficiência, seja para conhecê-lo melhor, seja para fazer amizade. Devemos prezar pelo aprendizado entre esse círculo de amigos, possibilitando que eles também possam ser mediadores no processo de aprendizagem – o que um aprende, ensina para outro. Nessa relação é essencial frisar que, na sala, todos em algum momento aprendem e ensinam, portanto, é importante que o estudante com de- ficiência tenha a oportunidade de também compartilhar algo que sabe com os colegas da turma. Assim, a CSA deve ser trabalhada de maneira transversal no grupo para que os colegas aprendam como se comunicar com o estudante com deficiência. Além disso, é importante mostrar como se utiliza os materiais (como os tablets), para que se utiliza, em que momentos será utilizado e que esse material é de uso pessoal, portanto, não é para as outras crianças mexerem sem a autorização do estudante com defi- ciência. Se for o caso e houver possibilidade, é ideal que se tenha mais material adaptado e compartilhado em sala de aula para o manuseio de todos. Esse ambiente compartilhado vai favorecer o processo de inclusão de maneira equitativa, propiciando o acesso à medida de cada necessidade do estudante. Ao realizar todo esse processo, devemos observar que os benefícios da CSA poderão ser: tornar mais autônoma a vida de estudantes com deficiência; aprender uma forma funcional de comunicação; tornar mais independentes as atividades acadêmicas; auxiliar e ampliar as possibili- dades de tomada de decisões; ampliar a quantidade de interlocutores e melhorar a qualidade de vida e autoestima do estudante com deficiência. Conceitos básicos 25 A CSA também pode ser utilizada junto da língua de sinais, da lingua- gem fácil e da audiodescrição, por exemplo. Podemos encontrar casos de crianças com múltiplas deficiências sensoriais ou surdocegas que se beneficiarão desse apoio. No caso, a língua de sinais é uma prática an- tiga; na Antiga Grécia já havia relatos de pessoas que se comunicavam por sinais. Já a Língua Brasileira de Sinais foi implantada pelo Instituto Nacional de Educação de Surdos (Ines), no Rio de Janeiro, no século XIX no período de D. Pedro II. Desses tempos até então surgiram as escolas bilíngues para educação dos surdos que têm como primeira língua a Lín- gua Brasileira de Sinais e como segunda o português. A linguagem fácil (plain language) é uma técnica de comunicação que surgiu no Reino Unido e nos Estados Unidos com o objetivo de tornar os textos e documentos mais fáceis de ler. A pessoa consegue reconhecer a informação de maneira fácil, entendê-la e colocá-la em prática. Outro obje- tivo importante está relacionado à causa social, sobre o direito civil do ser humano de entender as informações do nosso dia a dia. Essa técnica auxilia a comunicação de modo geral, facilitando a compreensão de um texto para um maior número de pessoas. Ela pode auxiliar em particular pessoas com deficiência intelectual, tornando os textos mais simples, enfocando os obje- tivos principais, numa linguagem mais fácil e informal, por exemplo. Já a audiodescrição é um recurso de acessibilidade comunicacional que traduz as informações visuais em palavras, voltado para o público com de- ficiência visual. Essa técnica pode ser apresentada de maneira escrita, com descrições de imagens dos livros didáticos, por exemplo, e quem vai ler é o leitor de tela do computador do estudante. Esses programas são gratuitos e podem ser baixados tanto no celular como nos computadores. A audio- descrição também se apresenta de maneira gravada e ao vivo. Gravada, ela pode ser encontrada em exposições de museus, por exemplo. Ao vivo, em espetáculos de teatro, dança, circo, ópera – tudo que seja dinâmico. Esses três recursos podem ser combinados à CSA como apoio para alguns estudantes. Portanto, é fundamental que o professor de sala de apoio e o especialista em Educação Especial aprendam esses recursos de maneira efetiva, para poder somar ao trabalho de comunicação su- plementar e alternativa. Para finalizar, gostaríamos de lembrar que a escola que prioriza o ensino da mesma forma para diferentes estudantes estará na contra- 26 Comunicação suplementar e alternativa mão de uma aprendizagem que parte das necessidades do indivíduo imerso dentro do coletivo. Cada criança percebe o mundo de uma de- terminada forma, única. Se uma criança não interage nem encontra uma via de expressão, poderá viver como numa ilha. Isolada, ela pode ficar em seu mundinho e não encontrar motivos para se relacionar com o que tem à sua volta. Outro ponto é estar atento a observar o tempo de processamento da informação; quanto tempo o estudante demora entre receber uma informação e realizar uma ação condizente ao que foi proposto. Dar espaço para que a criança tenha tempo para tomar iniciativas no diálogo e realizar as atividades faz parte do processo de aprendizagem. Também é importante oferecer à criança a possibilida- de de escolha. No início, o ideal é começar com duas atividades e ir aumentando as opções, até que ela própria possa fazer seu calendário, dentro do que é proposto em grupo, mas no seu ritmo. A CSA vai auxi- liar o estudante com deficiência em todos esses aspectos, levando mais qualidade de vida para a criança e dando oportunidades que desenvol- vam sua comunicação de maneira autônoma. CONSIDERAÇÕES FINAIS O que pretendemos com o uso da comunicação suplementar e alter- nativa é oferecer uma oportunidade para que os estudantes com defi- ciência possam fazer parte das atividades de sala de aula de maneira mais propositiva e autônoma, assim, poderão ser capazes de compreender os conteúdos utilizando tanto sistemas de comunicação como contando com o apoio da tecnologia assistiva. Dessa forma, apontamos para uma educação que: como cada um de nós, deve escolher a roupa adequada para os dias frios assim como para os de calor, os alimentos compatíveis com o horário e/ou clima, os comportamentos para as situações de alegria ou de tristeza, as expressões emocionais para momen- tos públicos ou de intimidade... Enfim, escolher o melhor (para cada um de nós e para aqueles que nos cercam)para um melhor viver. (AMARAL, 1998, p. 5) Esse melhor viver está relacionado à questão da equidade, oferecendo oportunidades para que todos aprendam juntos, cada qual recebendo apoio às suas diferentes necessidades. Todos ganham na educação inclu- siva, aprendendo com a diversidade e respeitando as diferenças. Conceitos básicos 27 ATIVIDADES Atividade 1 Qual a importância da amamentação para a comunicação dos bebês? Atividade 2 Qual a diferença entre comunicação suplementar e alternativa? Atividade 3 Quais são os benefícios da comunicação suplementar e alternativa? REFERÊNCIAS AMARAL, L. A. Sobre crocodilos e avestruzes: falando de diferenças físicas, preconceitos e sua superação. In: AQUINO, J. G. (org.) Diferenças e preconceitos na escola: alternativas teóricas e práticas. São Paulo: Summus Editorial, 1998. ISAAC-BRASIL. International Society for Augmentative and Alternative Communication. O que é a Comunicação Suplementar e Alternativa (CSA)? Brasil, 2022. Disponível em: https:// www.isaacbrasil.org.br/comunicaccedilatildeo-alternativa.html. Acesso em: 14 nov. 2022. MANZINI, E. J. Portal de ajudas técnicas para educação: equipamento e material pedagógico especial para educação, capacitação e recreação da pessoa com deficiência física – recursos para comunicação alternativa. 2. ed. Brasília: MEC; SEESP, 2006. MORETTI, G. Princípios e Significados da Comunicação Alternativa. E se falta a palavra, qual comunicação, qual linguagem? Discurso sobre comunicação alternativa. São Paulo: Memnon, 1999. NASCIMENTO, F. A. A. A. C. Educação Infantil: saberes e práticas da inclusão. Dificuldades de comunicação e sinalização: surdocegueira/múltipla deficiência sensorial. Brasília, DF: MEC, 2006. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/seesp/arquivos/pdf/surdosegueira. pdf. Acesso em: 28 set. 2022. UNICEF – Fundo das Nações Unidas para a Infância. Impactos Primários e Secundários da COVID-19 em Crianças e Adolescentes Relatório de análise 3ª Rodada, IPEC - Inteligência e https://www.isaacbrasil.org.br/comunicaccedilatildeo-alternativa.html https://www.isaacbrasil.org.br/comunicaccedilatildeo-alternativa.html http://portal.mec.gov.br/seesp/arquivos/pdf/surdosegueira.pdf http://portal.mec.gov.br/seesp/arquivos/pdf/surdosegueira.pdf 28 Comunicação suplementar e alternativa Pesquisa em Consultoria, 19 de julho de 2021. Disponível em: https://www.unicef.org/brazil/ relatorios/impactos-primarios-e-secundarios-da-covid-19-em-criancas-e-adolescentes- terceira-rodada. Acesso em: 14 nov. 2022. VIGOTSKI, L. S. Pensamento e linguagem. Martins Fontes: São Paulo, 2000. WHO – World Health Organization. Relatório mundial sobre a deficiência “The World Bank”. Trad. de Lexicus Serviços Lingüísticos. São Paulo: SEDPcD, 2012. https://www.unicef.org/brazil/relatorios/impactos-primarios-e-secundarios-da-covid-19-em-criancas-e-adolescentes-terceira-rodada https://www.unicef.org/brazil/relatorios/impactos-primarios-e-secundarios-da-covid-19-em-criancas-e-adolescentes-terceira-rodada https://www.unicef.org/brazil/relatorios/impactos-primarios-e-secundarios-da-covid-19-em-criancas-e-adolescentes-terceira-rodada Programa de comunicação de Jan Van Dijk 29 2 Programa de comunicação de Jan Van Dijk Neste capítulo conheceremos o programa de comunicação de Jan Van Dijk, reconhecendo as fases de aquisição da comunicação da criança com deficiência para compreender como apoiá-la no seu desenvolvimento. O trabalho se baseia em reconhecer as experiências motoras vivenciadas por crianças não verbais em conjunto com o professor, por meio do movimento. Serão apresentadas as fases desse movimento para que o professor possa construir um trabalho de antecipação e oferecer o que a criança ne- cessita naquele momento. Isso é movimento constante; não devemos nos prender às fases, elas servem para nos apoiar na criação de um direcio- namento no trabalho – a criança é a verdadeira diretriz. Observando suas necessidades, oferecemos caminhos que serão trilhados com o professor para que ela possa atingir uma autonomia na sua comunicação. Temos um grande instrumental para apoiá-la, por isso o trabalho de observação e escuta da família e do que vem por ventura trabalhando com terapeutas devem ser somados às suas proposições. E, o mais importante, dar opor- tunidade para que a criança expresse seus desejos e suas necessidades – isso exige atenção e respeito ao seu tempo de aprendizagem. Dessa forma, criamos uma rede de apoio que todos os envolvidos fazem parte do processo de ensino-aprendizagem. Um projeto que se inicia de ma- neira individualizada, mas que pode ser construído aos poucos também dentro do coletivo. Com o estudo deste capítulo, você será capaz de: • conhecer o programa de comunicação de Jan Van Dijk; • conhecer as modalidades de comunicação com base no movimento; • trabalhar em conjunto professor/criança, buscando a ampliação da comunicação; • saber introduzir os primeiros símbolos de atividades para as crian- ças com deficiência; (Continua) Objetivos de aprendizagem An nG ay so rn /S hu tte rs to ck • saber utilizar objetos que viabilizem o contato e a condição concreta de manutenção do diálogo entre o professor e a criança com deficiência; • perceber se a criança está pronta para realizar as atividades após demonstração do professor ou sem a presença dele; • observar e reconhecer os gestos naturais comunicativos criados pela criança com deficiência. 2.1 Apresentação do programa Vídeo Descreveremos neste capítulo os principais níveis (ou etapas) de co- municação que englobam o programa de Jan Van Dijk, sociólogo holandês, professor de Ciências da Comunicação e um dos maiores especialistas do mundo em educação e desenvolvimento de crianças com surdocegueira e com múltiplas deficiências. Esse estudioso procurou apoiar as famílias e os profissionais ao oferecer um melhor atendimento no campo da lingua- gem e comunicação de pessoas com deficiência, em particular, com defi- ciência sensorial. Van Dijk tinha uma vasta experiência avaliando crianças, observando e seguindo seus movimentos, suas emoções e seus interes- ses, para obter informações sobre o processo de aprendizagem de cada uma. Seu método de avaliação guiado pela criança foi reconhecido e usa- do em todo o mundo. A seguir conheceremos um pouco desse trabalho. Para ele, o desenvolvimento da comunicação na educação de crian- ças não verbais (que apresentam ausência total de fala ou com dificulda- des de se expressar verbalmente) deve partir da experiência do corpo como um veículo e de sua relação com o mundo, buscando estabelecer a comunicação entre o professor e essas crianças. Writer (1993 apud FORCHETTI, 2000, p. 53) nos aponta que “o enfoque é baseado no movi- mento que esboça uma seqüência aproximada de níveis de comunicação ao longo da qual a criança progride no desenvolvimento de sua consciência simbólica”. Segundo Van Dijk, as experiências mo- toras vivenciadas por crianças não verbais em conjunto com o professor, por meio 3030 Comunicação suplementar e alternativaComunicação suplementar e alternativa https://www.shutterstock.com/pt/g/AnnGaysorn Programa de comunicação de Jan Van Dijk 31 do movimento coativo (que será descrito a seguir), constituem a base do desenvolvimento e da aprendizagem e melhoram nessas crianças “a qualidade e quantidade de interações com pessoas, objetos e aconteci- mentos” (MAIA; NASCIMENTO, 2003, p. 13). As principais etapas de comunicação são conhecidas como: nutrição (afeto), ressonância, movimentos coativos, referências não represen- tativas, imitação e gestos naturais. É importante falarmos que, por se tratarem de conceitos traduzidos, temos palavras que se aproximam da nossa língua e outras que procuramos fazer uma tradução direta para manter o conceito original. Essas etapas não são rígidas e podem não seguir a sequência que apresentamos, portanto o estudante com defi- ciência pode estar num primeiro momento em um nível e em outra ativi-dade ter conquistado mais independência comunicativa, ou pode pular alguma dessas etapas. É importante que o professor proporcione à criança um ambiente organizado, com atividades e objetos que a motivem a se expressar e a se relacionar com o mundo. Para tanto, o contato do professor com a família é uma primeira referência como ponto de partida para conhe- cer o que motiva e desmotiva a criança com deficiência, a forma como ela se comunica ou não se expressa e como ela interage de maneira independente com o mundo. Caso o estudante tenha um acompanhamento terapêutico, é funda- mental conhecermos a forma como ele está sendo tratado e como a sua comunicação está sendo estimulada. De modo geral, o fonoaudiólogo faz o papel do profissional que trabalha com a linguagem/comunicação de pacientes não verbais. Mas também temos terapeutas ocupacionais que fazem o trabalho com as atividades de vida diárias da criança, os ajustes de posicionamento de pranchas de comunicação, utilizando os recursos de tecnologia assistiva, por exemplo, além do fisioterapeuta, que cuida das atividades globais e posturais da criança. Por certo, a melhor forma de conseguirmos as informações com re- lação à criança é a convivência no dia a dia. Para isso, é relevante que se tenha um professor de apoio fazendo esse papel na transição das eta- pas. E por quê? Porque cada qual tem um forma de lidar com a criança. É fundamental que esse professor de apoio seja uma referência para o estudante com deficiência para o vínculo se estabelecer. Isso não quer dizer que o professor de sala de aula, o professor de Educação Especial Para quem quiser conhe- cer um pouco mais sobre o trabalho desenvolvido no campo da fonoaudio- logia com comunicação alternativa, a dissertação de mestrado A história de Iago: o menino guerreiro no mundo da comunicação al- ternativa permite conhecer um estudo de caso e os níveis de comunicação de Van Dijk e como eles são utilizados nessa área. Tam- bém poderão acompanhar o relatório do paciente Iago, que apresenta como cada um o observa: a fonoaudióloga, a família, a professora de escola comum e a instituição de Educação Especial. Disponível em: https:// tede2.pucsp.br/bitstream/ handle/12073/1/tese_61218.pdf. Acesso em: 28 dez. 2022. Leitura https://tede2.pucsp.br/bitstream/handle/12073/1/tese_61218.pdf https://tede2.pucsp.br/bitstream/handle/12073/1/tese_61218.pdf https://tede2.pucsp.br/bitstream/handle/12073/1/tese_61218.pdf 32 Comunicação suplementar e alternativa e sala de recurso, os professores de Arte e Educação Física e o cuidador não façam parte do processo. Eles devem saber que esse professor de apoio será por um tempo o mediador dessa criança com deficiência até que ela se torne autônoma o suficiente para comunicar seus desejos, seus sentimentos e suas ações. Todos da escola devem estar envolvidos nesse processo de conquis- ta da autonomia das crianças com deficiência – isso envolve o porteiro, o segurança, os faxineiros, os cozinheiros e os jardineiros. O valor de todos que fazem parte da equipe e de suas profissões deve ser apre- sentado para esse estudante. Cada um em sua função dará suporte a esse professor de apoio, que aos poucos vai deixando de ser a referên- cia para ser o mediador na relação com os outros profissionais e com os colegas dessa criança. 2.2 Fases pré-simbólicas Vídeo Nutrição: relação de afeto e confiança A primeira etapa trata-se do desenvolvimento de uma relação de afeto e confiança entre a criança com deficiência e o professor/cuida- dor. Van Dijk nos aponta que para ajudar a criança com deficiência na construção do afeto devemos estabelecer uma rotina diária, com estí- mulos que tragam confiança. Desde a fase tenra, o bebê utiliza o choro e o riso para expressar suas emoções. Van Dijk coloca que pode aconte- cer das “crianças com múltiplas deficiências terem problemas para dis- tinguir a si mesma das pessoas em sua volta. Em certas ocasiões, vêem as coisas como prolongamentos de seu próprio corpo” (DIJK, 1968 apud WRITER, 1993, p. 4). Assim, trabalhar movendo-se junto à criança vai a estimular a reconhecer as coisas, e ao adulto a perceber o tempo da criança para fazer cada uma das atividades. Pensando num ambiente escolar, nessa primeira fase de contato é importante que um único profissional para realizar o trabalho seja privilegiado. Quanto menor a criança maior a atenção a esse aspecto. Também devemos ficar atentos quanto a isso quando uma nova crian- ça inicia na escola. Em um primeiro momento o trabalho será voltado para estabelecer- mos o vínculo/contato do professor com seu novo estudante. É muito importante que o professor esteja atento aos sinais apresentados pela Winnicott, em seu livro Os bebês e suas mães, discorre sobre as comunicações silenciosas iniciais. A res- piração, o cheiro, o hálito e o batimento cardíaco da mãe são considerados únicos e marcam uma for- ma de comunicação física com o bebê. O movimento de embalar o filho é parte da função materna, do holding (apoio), função que quando suficientemente boa fará com que o bebê se sinta protegido. O mo- vimento traz ao bebê uma sensação de afeto. WINNICOTT, D. W. São Paulo: Martins Fontes, 1996. Livro criança, a forma como percebe o mundo, como se relaciona e como se expressa. Procuramos criar uma relação genuinamente afetiva, ofere- cendo confiança para que a criança tenha possibilidade de mostrar seu potencial e não se sentir avaliada o tempo todo. É essencial discutir com a equipe quem será o profissional mais apto para iniciar esse processo. Pensando na possibilidade de se con- tar com um professor de apoio, esse profissional deverá ser o que fará a mediação da criança com deficiência e o restante da escola. O professor deverá se sentir confortável em se aproximar do estu- dante, a fim de oferecer suporte para que ele se sinta seguro em estar com o professor e convivendo com o restante do grupo. Muitas vezes, essa criança com deficiência conviveu apenas com seu núcleo familiar, tendo pouco contato com outras crianças. Winnicott (1956) nos apre- senta um conceito importante que diz respeito a esse momento, quan- do a criança tem condições de viver o holding 1 , o qual contribui para a construção da sua identidade. Sem essa base anterior, a aquisição e o desenvolvimento de linguagem da criança com deficiência poderão ser afetados, dificultando a possibilidade de ela se comunicar. No espaço potencial ou no espaço em comum entre professor e a criança com deficiência é que surge a brincadeira como uma forma me- diadora da comunicação. Com base no brincar, experiências prazero- sas e de afeição mútua podem ser vivenciadas. Em alguns casos, pode acontecer de a família da criança com deficiência não brincar com ela ou não saber qual a melhor forma de se comunicar. É impor- tante compartilharmos cada momento de aprendizado com a família, especialmente no início, para que essa família reconheça o potencial do filho e também invista em casa. Podemos dizer que holding é uma sensação de continência, de se sentir acolhido pelo adulto/cuidador. 1 Ol es ia Bi lke i/S hu tte rs to ck Programa de comunicação de Jan Van DijkPrograma de comunicação de Jan Van Dijk 3333 https://www.shutterstock.com/pt/g/olesiabilkei Essa primeira relação já será um passo em direção à ampliação da socialização da criança com deficiência. Esse vínculo social é um pré- -requisito importante para o desenvolvimento da comunicação e da linguagem, e depois do vínculo bem formado ela poderá estar mais segura para prosseguir seu processo de aprendizagem. Fenômeno de ressonância Trabalhar em ressonância é mover-se com o seu estudante. Em muitos casos quem será mais privilegiado por esse tipo de trabalho são crianças com múltiplas deficiências sensoriais, surdocegas, com deficiência visual e casos neurológicos. São crianças que necessitam do apoio do professor para realizar um movimento, mas é importan- te dizermos quea iniciativa do movimento deve partir da criança. O professor pode apresentar a atividade para ela, como jogar bola, fazer uma atividade com massinha ou comer o lanche. É pertinente que ele tome o cuidado de colocar sua mão próxima à da criança, mas não deve agarrá-la. A mão do professor fica embaixo, e a do estudante por cima, que pode passar os dedos nos espaços da mão do adulto, a fim de sentir o objeto e poder tocar algo, indiretamente. O professor vai procurar se mover com o estudante com o objetivo de mostrar como é a atividade. Uma vez feita a demonstração, ela deve ser breve e o tempo deve ser aumentado conforme a compreensão do estudante. O professor aguarda uma resposta do aluno seja se este faz o mesmo movimento ou de outra forma, tentando fazer uma outra aproximação. Devemos ficar atentos à sensação de prazer ou desprazer causada pela atividade, se o estudante demonstra querer continuar ou finalizar. 3434 Comunicação suplementar e alternativaComunicação suplementar e alternativa Programa de comunicação de Jan Van Dijk 35 O movimento corpo a corpo tem como finalidade produzir os pri- meiros contatos da criança com a comunicação (como o diálogo, que é experimentado no corpo) com base no movimento. Crianças que fazem parte da comunidade surda, quando adentram uma escola bilíngue, apresentarão grande interesse por essa fase, já que a língua utilizada por elas – a Língua Brasileira de Sinais (Libras) – é visual e acontece por meio do seu corpo. As expressões devem ser evidenciadas para que elas possam ter a oportunidade de comunicar seus sentimentos de maneira autônoma. Quando uma criança surda entra numa escola de educação inclusiva, é importante que seus outros colegas sejam in- troduzidos à Libras, para que ela se sinta parte do processo. Da mesma forma que ela aprenderá a Língua Portuguesa, seus colegas aprende- rão a língua de sinais – que é considerada a segunda língua do país. Todos ganham quando o ambiente é preparado. Os professores mes- mo contando com os intérpretes de Libras na escola também devem buscar conhecimento nessa área, a fim de poderem propor atividades mais contextualizadas. Movimento coativo O movimento coativo, conhecido como mão sobre mão, caracteriza- -se pela ampliação da comunicação entre o adulto e a criança. Nessa etapa o professor realiza ações com o estudante com deficiência lado a lado. Isso pode ocorrer em posições sentadas ou fazendo atividades de pé, e aos poucos a distância física entre eles pode ser ampliada. Se pensarmos que antes o adulto estava próximo, realizando com a crian- ça, agora esse espaço entre ambos vai dar mais liberdade para que ela possa guiar as próprias ações com mais autonomia. O professor pode estar de mãos dadas com o estudante, ombro a ombro, por exemplo, trabalhando em par. Temos a possibilidade de oferecer atividades va- riadas como uma dança, um movimento que vai sendo delineado em conjunto. Também poderia ser uma atividade esportiva, como correr lado a lado, ou no computador, escrevendo uma atividade juntos. O objetivo dessa fase consiste em ampliar os recursos de comuni- cação. A criança demonstra maior interesse pelo trabalho realizado e participa do movimento, movendo-se com o professor, que vai procu- rar desenvolver a habilidade de antecipação das atividades, a fim de a criança poder compreender que cada coisa tem um tempo e selecionar o que deseja fazer primeiro, por exemplo. Para poder compreender melhor essa relação entre professor e estudante nas fases iniciais de comu- nicação, sugerimos o filme O milagre de Anne Sullivan, que conta a história verí- dica da professora Anne Sullivan e seu trabalho com Helen Keller, uma menina surdocega com dificuldades de com- preender o mundo que a cerca e de se comunicar. A professora, ao mesmo tempo em que trabalha com a criança com o alfa- beto datilológico (alfabeto manual feito nas mãos), procura se aproximar da família e mostrar o potencial que essa criança poderá desenvolver ao ampliar sua comunicação. O filme faz um papel importante ao contar a história de vida de Hellen Keller, que chegou a ser conhecida no mundo inteiro quando adentrou a universidade e lutou a favor dos direitos das pessoas com deficiência. Diretor: Arthur Penn. EUA: MM Disney Enterprises, 1962. Filme 36 Comunicação suplementar e alternativa Nessa fase trabalharemos a transição das atividades do objeto con- creto para uma representação mais abstrata, passando pelo tridimen- sional até chegar ao bidimensional. Exemplo disso são atividades que trabalham o contorno dos objetos. Esse contorno pode ser com um canetão de ponta grossa e cor escura sobre um papel de cor clara para que se destaque, ou um contorno com um barbante colado para ter uma textura do entorno. É importante observarmos se nessa fase a criança apresenta con- dições para entender que todas as atividades têm começo, meio e fim e que poderá acontecer atividades em sequência. A criança pode ter a oportunidade de começar a compreender as atividades coletivas, sen- do incentivada a jogar com um colega, por exemplo. Os jogos coope- rativos podem ser interessantes, já que nenhuma criança fica de fora – nesse tipo de jogo agrega-se mais uma criança até o final. A essência dessa atividade é proporcionarmos uma nova forma de jogar, não ex- cluindo ninguém. Numa dança das cadeiras, por exemplo, tiram-se as cadeiras, acumulando uma criança sentada no colo da outra. Também existem muitas brincadeiras em que os participantes devem estar com as mãos dadas. A dança de roda e as cantigas são muito utilizadas na infância e trazem uma oportunidade de se trabalhar lado a lado. As atividades coativas se constroem por meio da participação da criança em movimentos compartilhados com o professor, enfatizando a antecipação, a mudança de rotina, a noção de tempo/duração e o au- mento de repertório. A criança desenvolverá interesse pelo lugar em que estuda e perceberá que suas ações podem interferir nesse ambiente. 2.3 Fases simbólicas Vídeo Referência não representativa Nessa etapa a criança é estimulada a perceber seu próprio corpo e a indicar as partes dele nela e no professor, por exemplo. Podemos tam- bém utilizar uma referência tridimensional, como uma criança, boneca ou escultura. Nessa fase, a criança já consegue elaborar uma imagem corporal por meio da referência das partes concretas do seu corpo. Além das pistas tridimensionais, também são introduzidos desenhos de figuras humanas, podendo ser fotos e recortes de revistas ou livros. Inspiradas no método desenvolvido e nas pesquisas criadas por Van Dijk, as autoras de Saberes e práticas da inclusão: difi- culdades de comunicação e sinalização – surdoce- gueira/múltipla deficiência sensorial compilaram experiências práticas com base em anos de trabalho a partir dos fundamentos de comunicação. Nessa obra foi observado o quanto o trabalho de Van Dijk oferece uma melhora na qualidade da comunicação expressiva e receptiva de pessoas sur- docegas e com múltiplas deficiências sensoriais. MAIA, S.; NASCIMENTO, F. A. A. A. C. Brasília: MEC; SEESP, 2003. Livro Programa de comunicação de Jan Van Dijk 37 Assim os primeiros trabalhos de referência não representativa são coa- tivos, portanto a criança já iniciou o estágio simbólico. Nessa fase é importante a criança perceber que um objeto pode- rá indicar uma atividade e que esse objeto de referência tenha uma equivalência simbólica com o objeto real e com a atividade que ele representa. Ela também passa a fazer as atividades por mais tempo sem ter o professor por perto o tempo inteiro, o qual consegue man- ter uma certa distância. Podemos valorizar também esse trabalho com a família, apoiando as atividades de vida diárias (AVD) desse estudante. Como exemplo dessas atividades podemos citar o estudante com deficiência que pode aprender a: servir-se de seu lanche na hora do recreio, comer com os colegas, escolher quais alimentos são desua preferência, descartar o lixo orgânico e os recicláveis, vestir-se sozinho ou com auxílio, esco- var os dentes, lavar as mãos e o rosto, trocar de roupa, entre outros. Em muitas escolas de primeira infância que trabalham com o método Montessori sabe-se da importância dessa fase no desenvolvimento da autonomia do estudante. Por exemplo, aprender a lavar o copo de- pois de beber o suco, pegar a esponja cuidadosamente e passar tanto internamente quanto externamente é uma forma básica de trabalhar a motricidade fina; entre tantas outras formas de trabalhos manuais que ajudam a trazer independência ao estudante com deficiência e a prepará-lo, com tempo, para a introdução da escrita. Podemos utilizar os símbolos de comunicação suplementar e alter- nativa (CSA) para apresentar imagens com um objeto, por exemplo, visto que a criança já experimentou fazer anteriormente o contorno desse objeto. Elas podem ser impressas coloridas, inicialmente de maneira isolada, pareando um objeto a uma imagem, sendo sempre a mesma se repetindo (como várias imagens de copos, que podem ser de formatos e cores diferentes). Essa imagem pode ser apresentada em um tamanho maior e depois ir diminuindo, mas o tamanho deve ser suficientemente bom para que a criança enxergue bem. Caso te- nhamos alguma dúvida, é sempre interessante conversarmos com a família a respeito de ter a possibilidade de uma avaliação com um oftalmologista. Podemos ter casos de crianças que descobrem a ne- cessidade de usar óculos de grau só depois que se inicia o processo de alfabetização, por exemplo. 38 Comunicação suplementar e alternativa A Escola Perkins para Cegos, situada em Watertown (EUA), desenvolve forma- ções de professores pelo mundo para apoiar o atendimento de pessoas com deficiência visual, surdocegas e com múltiplas deficiências sensoriais. Podemos conhecer esse trabalho acessando o artigo Desarrolo de la comunicación, com o nome traduzido em português para O Desenvolvimento da Comunicação. Acesso em: 28 dez. 2022. https://www.yumpu.com/pt/document view Artigo Imitação Esse trabalho será realizado com estudantes com deficiência que se encontram no estágio simbólico. Nesse instante se inicia o trabalho de frente com o estudante; a intenção é que ele já perceba a presença do professor como um outro. Esse trabalho frente a frente é um marco, pois o professor e o estudante estão numa posição espelhada, a qual envolve mais desafios. A fase da imitação deve surgir da observação dos acontecimentos e da interiorização por parte da criança. Portanto, não se trata de um trabalho de treinamento, pois esse não se converteria na desnaturali- zação dos objetos e das pessoas, não chegando, desse modo, futura- mente aos gestos naturais. Além de participar das brincadeiras e atividades propostas pelo professor e pelos colegas de sala de aula, o professor de apoio co- meçará a mudar a sequência das atividades e a propor outras. Em sala de aula ele pode observar o tempo em que o estudante per- manece numa atividade que lhe dá mais prazer, por exemplo, de- senhar, e propor que este use o desenho como registro para outra atividade. Como esse trabalho se dá em comunhão com o professor de sala de aula e com os professores da sala de recurso e de Educa- ção Especial, é importante haver coerência em todas essas proposi- ções com o estudante. Nesse momento ele já se utiliza de alguns gestos naturais cria- dos por ele mesmo e está sendo introduzido à Língua Brasileira de Sinais (Libras), por exemplo. Pode ser um estudante com deficiência visual que está iniciando a aprendizagem dos pontos em braile, para futuramente decodificar e escrever por essa forma. Pode também ser um estudante não verbal que iniciou com figuras pictográficas de maneira isolada e começou a formar um cardápio/caderno de https://www.yumpu.com/pt/document/view/12403993/o-desenvolvimento-da-comunicacao-associacao-educacional-para- Pr ed ra gL as ic a/ Sh ut te rs to ck Pr ed ra gL as ic a/ Sh ut te rs to ck comunicação, criando um repertório de imagens e expandindo seu vocabulário. Essas imagens são introduzidas à medida que o estu- dante compreende a atividade associada àquela imagem. Podemos introduzir a parte da alimentação, por exemplo, como tema que se inicia no refeitório e expandir para a sala de aula, com palavras que serão trabalhadas por associação de cores. Também pode ser inicia- do o trabalho do caderno com as AVD. Nessa fase, a independência do estudante começa a se eviden- ciar. É importante valorizar as AVD, como se alimentar com os seus colegas de sala no recreio, aprender a se servir, fazer escolhas. De- pois, sempre que possível é preciso realizar o descarte do que foi servido para ensinar sobre o lixo orgânico e os recicláveis. É fundamental frisarmos que a dedicação ao trabalho voltado para a CSA deve ser abraçada por toda a escola. No que se refere aos símbolos pictográficos, deve ser feita uma reunião com toda a equi- pe gestora da escola para que eles possam fazer parte do cotidiano escolar. Esses símbolos devem estar distribuídos por toda a parte, primeiro como referência de espaço – sala de aula 1º ano; refeitório; quadra; banheiro; sala da diretoria; sala de reunião –, depois cada um dos profissionais poderá usar um crachá em que deverá estar escrito sua principal designação: professor, cuidador, cozinheiro, faxineiro, porteiro, diretor etc. Todos são parte desse processo. Essa relação vai se tornando cada vez mais simbólica, o que permite maior autonomia comunicativa desse estudante. O livro Do sentido...pelos sentidos...para o sentido é composto de vários arti- gos, muitos escritos por professores de Educação Especial e também por profissionais da área do atendimento às pessoas com deficiência sensorial. Ele foi organizado pela Profª. Dra. Elcie Masini, pioneira nos estudos aca- dêmicos no Brasil, e trata das singularidades, dando um panorama geral do trabalho com estudantes com deficiência sensorial. MASINI, E. F. S. São Paulo: Vetor, 2002. Livro Programa de comunicação de Jan Van DijkPrograma de comunicação de Jan Van Dijk 3939 Gestos naturais Nessa etapa a criança também já se encontra no estágio simbólico e deve fazer uma relação entre os objetos e as atividades. O gesto na- tural muitas vezes é criado pela própria criança com deficiência, como uma forma de nomeação que não seja o apontar. A criança deverá passar pelo processo de desnaturalização dos ges- tos naturais para as Libras. A desnaturalização é uma transição entre o que é mais concreto para o mais abstrato, podendo ser, nesse caso, um símbolo, um gesto, uma imagem. A criança com deficiência que não oraliza pode ter a oportunidade de ser introduzida a um tablet de co- municação alternativa, com pictogramas que à medida que ela toca o aparelho uma voz sintetizada é emitida. Também esses pictogramas serão utilizados em contextos di- ferentes, a fim de que a criança que não oraliza possa antecipar as atividades e as ações das pessoas e possa criar imagens mentais. É importante que sejam utilizadas imagens do vocabulário do progra- ma que estejam dentro do contexto de sua rotina diária, para que ela possa usá-las de maneira espontânea. No caso de imagens de fa- miliares, amigos e profissionais da escola, é importante que estejam Ra wp ix el .c om /S hu tte rs to ck Ra wp ix el .c om /S hu tte rs to ck 4040 Comunicação suplementar e alternativaComunicação suplementar e alternativa https://www.shutterstock.com/pt/g/Rawpixel Programa de comunicação de Jan Van Dijk 41 postas em categorias para que a criança possa acessar com mais rapi- dez, e todos devem estar representados para que ela possa escolher com quem conversará, por exemplo. Para chegar a essa etapa foi importante a criança experimentar an- tes viver uma rotina mais concreta e, a partir daí, chegar ao que seria mais abstrato. A escrita em tinta e o Braille podem vir acompanhando as pistas concretas, mas somente agoraé que eles começarão a fazer mais sentido e a ser trabalhados pelo professor. É relevante lembrarmos que nesse processo é preciso “considerar como intenção comunicativa qualquer expressão corporal, facial ou vo- calizações” (BOVE; RIGGIO, 1993, p. 4). Nesse trabalho cada dia é uma oportunidade de conhecer um pouco mais seu estudante com deficiên- cia e se deixar conhecer por ele. O vínculo inicial cultivado dará bons frutos no momento em que seu estudante demonstrar qual forma de comunicação será mais eficiente para ele. A família deve fazer parte desse processo, pois esse trabalho não se restringe ao ambiente esco- lar e terapêutico, deve fazer parte do dia a dia desse estudante. Por meio do Portal de ajudas técnicas, o pro- fessor contará com um equipamento e material pedagógico voltado para a Educação Especial. O documento apresenta recursos de comunicação suplementar e alterna- tiva para a formação e recreação de pessoas com deficiência física. Disponível em: http://portal.mec.gov. br/seesp/arquivos/pdf/ajudas_tec. pdf. Acesso em: 28 dez 2022. Leitura CONSIDERAÇÕES FINAIS Com base no programa de Van Dijk, tenta-se criar um ambiente com base na sensibilidade do professor em buscar o vínculo com seu estudante com deficiência, ao oferecer a este segurança. Há a utiliza- ção do resíduo visual e auditivo (dependendo da criança) com ênfase no trabalho voltado para o diálogo, a criação de um ambiente coope- rativo – onde estudante e professor se movem juntos (apoio) –, de um ambiente coativo que atua em unidade – ao trabalhar com o distancia- mento – e de um ambiente interativo, que busca trabalhar a iniciativa própria do estudante (minha vez/sua vez). Portanto, devem ser utilizadas as mais diversas formas de comuni- cação com a criança com deficiência como meio de instrumentalizá-la para que possa desenvolver sua comunicação de maneira mais am- pla, e não ser tolhida pelos desafios que enfrenta, oferecendo, dessa forma, a oportunidade de apoiar o potencial comunicativo/expressivo de cada uma. http://portal.mec.gov.br/seesp/arquivos/pdf/ajudas_tec.pdf http://portal.mec.gov.br/seesp/arquivos/pdf/ajudas_tec.pdf http://portal.mec.gov.br/seesp/arquivos/pdf/ajudas_tec.pdf 42 Comunicação suplementar e alternativa ATIVIDADES Atividade 1 Por que é importante selecionar apenas um professor de apoio no início do trabalho desenvolvido com um estudante com deficiência? Atividade 2 Apresente as características principais da Língua Brasileira de Sinais. Atividade 3 Explique alguns exemplos de atividades de vida diária (AVD). REFERÊNCIAS BOVE, M.; RIGGIO, M. La comunicación pre-linguistica com enfasis en descapacidad severa. In: 11ª CONFERÊNCIA INTERNACIONAL PARA A EDUCAÇÃO DOS SURDOCEGOS. Anais [...] Córdoba: IADB, 1993. FORCHETTI, D. A história de Iago: o menino guerreiro no mundo da comunicação alternativa. Dissertação ( Mestrado em Distúrbios da Comunicação). São Paulo, PUC/SP, 2000. Disponível em: 20 jan. 2023. MAIA, S.; NASCIMENTO, F. A. A. A. C. Saberes e práticas da inclusão: dificuldades de comunicação e sinalização – surdocegueira / múltipla deficiência sensorial. Brasilia: MEC, SEESP, 2003. VAN DIJK, J. Movement and communication with rubella children. In: CONFERÊNCIA DA REUNIÃO GERAL ANUAL DA ORGANIZAÇÃO NACIONAL DE CEGOS DE MADRID. Madrid: ONCE, 1968. WINNICOTT, D.W. Preocupação materna primária. In: Textos Selecionados Da Pediatria à Psicanálise. 4..ed. Rio de Janeiro: Editora Francisco Alves, 1956. WRITER, J. A movement-based approach to the education of students who are sensory impaired/ multihandicapped. Baltimore: Paul Brooks Publishing Co., 1993. Do concreto ao abstrato 43 3 Do concreto ao abstrato Neste capítulo iremos aprender, por meio de exemplos práticos, do que se trata o material composto por imagens e símbolos pictográficos desenvolvido para a comunicação suplementar e alternativa (CSA), partin- do dos materiais mais concretos até os mais abstratos. Apresentaremos vários exemplos para serem aplicados em projetos escolares. Esses ma- teriais são de baixa tecnologia, de fácil acesso e baixo custo, e conhe- ceremos também exemplos dos de alta tecnologia, de custo mais alto e que necessitam do apoio institucional da escola. É importante estarmos atentos ao potencial do estudante com deficiência, ofertando uma diver- sidade de atividades até que ele aponte os melhores caminhos para o seu aprendizado. Para isso, é importante termos repertório tanto teórico como prático para que os materiais adaptados realizados em sala de aula possam servir para toda a classe e o estudante com deficiência se sinta verdadeiramente incluído no ambiente escolar. Com o estudo deste capítulo, você será capaz de: • aprender por meio de exemplos práticos do que se trata o material composto por imagens e símbolos pictográficos; • compreender o que são materiais de baixa tecnologia, de fácil acesso e baixo custo; • conhecer exemplos de materiais de alta tecnologia, de alto custo e que necessitam do apoio institucional da escola. Objetivos de aprendizagem 3.1 Como trabalhar com imagens e símbolos pictográficos? Vídeo Para falar do trabalho relacionado às imagens e aos símbolos, de- vemos apresentar primeiramente o termo tecnologia assistiva ou tec- nologia de apoio. As tecnologias assistivas consistem em serviços e produtos capazes de compensar uma limitação funcional de uma pes- 44 Comunicação suplementar e alternativa soa com deficiência, oferecendo a ela mais autonomia. Podem ser equi- pamentos, produtos adaptados ou feitos sob medida para melhorar a qualidade de vida da pessoa com deficiência. Figura 1 Exemplos de tecnologia assistiva zl ik ov ec /S hu tte rs to ck Ch an so m P an tip /S hu tte rs to ck m ad y7 0/ Sh ut te rs to ck Ch oo Ch in /S hu tte rs to ck No Brasil, no Decreto n. 3.298 de 20 de dezembro de 1999, o termo usado é ajudas técnicas. Esses materiais garantem as adaptações tanto ambientais, do mobiliário, material pedagógico como também próte- ses (auditivas, visuais e físicas), órteses que facilitam a funcionalidade e os recursos e produtos que favorecem a comunicação. No decreto em questão consta: “os elementos que permitem compen- sar uma ou mais limitações funcionais, motoras, sensoriais ou mentais da pessoa portadora de deficiência, com o objetivo de permitir-lhe superar as barreiras da comunicação e da mobilidade e de possibilitar sua plena inclu- são social” (BRASIL, 1999). Em 2009, o Comitê de Ajudas Técnicas (CAT) fez uma revisão bibliográfica e reformulou o conceito de tecnologia assistiva: Tecnologia Assistiva é uma área do conhecimento, de característi- ca interdisciplinar, que engloba produtos, recursos, metodologias, Do concreto ao abstrato 45 estratégias, práticas e serviços que objetivam promover a funcio- nalidade, relacionada à atividade e participação, de pessoas com deficiência, incapacidades ou mobilidade reduzida, visando sua autonomia, independência, qualidade de vida e inclusão social. (BRASIL, 2009, p. 9) É importante conhecermos as leis e sua evolução para podermos referendar oficialmente a necessidade de materiais e serviços que au- xiliarão no ensino/aprendizagem do estudante com deficiência. Na versão atualizada do Estatuto da Pessoa com Deficiência (2019; 2020, p. 38), no capítulo III (Da Tecnologia Assistiva), que trata desse tema, encontramos na descrição geral do artigo 74 que: “É garantido à pessoa com deficiência acesso a produtos, recursos, estratégias, práti- cas, processos, métodos e serviços de tecnologia assistiva que maximi- zem sua autonomia, mobilidade pessoal e qualidade de vida”. Vamos nos deter aqui aos recursos de tecnologias assistivas que fa- vorecem a comunicação suplementar e alternativa de estudantes com deficiência no ambiente escolar. Para isso, antes de confeccionar o ma- terial, é importante o professor compreender: Qual a situação do estudante com deficiência no contexto escolar? M ay oC re at ive/S hu tte rs to ck Quais ambientes ele frequenta? Quem são seus interlocutores (professores, estudantes e funcionários)? A partir daí é importante conhecer qual o planejamento do profes- sor para saber quais recursos escolher e quais estratégias são necessá- rias para introduzir o aluno na prática. É importante também lembrar da forma como se dão as interações entre o estudante que se utiliza de CSA e seus interlocutores – profes- sores, colegas e funcionários da escola. Essas relações são “marcadas por assimetria nas formas de comunicação, pois enquanto os interlo- cutores usam predominantemente a linguagem oral, os usuários de CAA 1 empregam comunicação multimodal composta por gestos, ex- pressões faciais, sistemas gráficos e vocalizações” (NUNES, 2004, p. 22). Comunicação aumentati- va e alternativa. 1 46 Comunicação suplementar e alternativa Dessa forma, fica clara a importância de o interlocutor conhecer e do- minar o uso do sistema de CSA, principalmente o professor de apoio, que será o mediador entre os interlocutores e o estudante com deficiência. No caso da adaptação de um material já existente, é importante sa- ber como se deu o manuseio inicial por parte da criança e qual foi seu desempenho no uso em uma determinada atividade proposta. As sugestões de confecção dos recursos servem para que o professor possa ter uma ideia de como iniciar seu trabalho. Para isso é importante garantirmos as informações necessárias com os terapeutas que aten- dem a criança com deficiência e saber se na prática, na escola, aquela adaptação está sendo válida. Também é necessário pensar junto aos profissionais da área da saúde e incluir a família – os pais são as pessoas que conhecem a criança por mais tempo; além de colher as informações básicas de como é essa criança em casa, como a escola vai propor essas adaptações no campo pedagógico e como fazer com que toda a sala de aula participe do processo. É importante dar oportunidade a todas as crianças da classe de também serem lembradas. As atividades propostas para a criança com deficiência devem ser pensadas de maneira indivi- dualizada, mas dentro de um coletivo. Sempre que possível é interessante que os materiais construídos se- jam confeccionados com a presença da criança, nem que seja uma parte ou a finalização, principalmente quando falamos em desnaturalização do objeto. Quando partimos de algo mais concreto para o mais abstrato, fará toda a diferença a criança compreender como se deu esse processo de transformação. Às vezes, precisamos refazer esse trabalho ou repeti-lo al- gumas vezes, para que a criança aprenda de modo mais consistente. Todos os materiais confeccionados pelo professor devem ser pen- sados com base na idade em que a criança ou o adolescente se encon- tra. Temos de ter cuidado para não “infantilizar” a atividade. É sempre mais interessante nos basearmos em imagens reais ou relacionadas a um grupo de pictogramas que serão introduzidos e adequadas à idade do estudante com deficiência. É importante apresentarmos os conceitos de imagem e pictograma. A imagem diz respeito ao que observamos com nossos olhos, mas para isso não basta enxergar; somos criados numa cultura que nos insere num mundo visual nomeado e aprendemos a reconhecer e a distinguir objetos, pessoas e lugares, por exemplo. O pictograma é um símbolo que representa um objeto ou concei- to por meio de figuras. Podem ser usadas de modo individual ou na construção de uma escrita com desenhos. Geralmente, abaixo do de- senho está escrito o nome do símbolo – dessa forma ele pode ser escrito em vários idiomas. Figura 2 Conceito de imagem (a) e pictogramas (b) (a) (b) tiv er ylu ck y/ Sh ut te rs to ck No ch /S hu tte rs to ck Agora vamos apresentar exemplos de atividades práticas e recursos de tecnologia assistiva de baixa e alta tecnologia. Esses materiais vão permitir a participação do estudante com deficiência em sala de aula de maneira mais equitativa, ou seja, ele deverá ter suas necessidades supri- das à medida que as atividades são realizadas com o grupo e poderá ter a oportunidade de desenvolver uma comunicação mais autônoma. Processo de prescrição e confecção de recursos de tecnologia assistiva para educação infantil (2010), de autoria de Aila Rocha, é uma dissertação de mestrado que apresenta o que são os recursos de tecnologia assistiva – de baixa e alta tecnologia – trazendo exemplos de como foram aplicados em sala de aula, voltados para a Educação Infantil. Também apresenta os benefícios da tecnologia assistiva na inclusão do aluno com deficiência, promovendo a qualidade de vida, autonomia e independência. Disponível em: https://repositorio. unesp.br/handle/11449/91211. Acesso em: 28 dez. 2022. Leitura https://repositorio.unesp.br/handle/11449/91211 https://repositorio.unesp.br/handle/11449/91211 Do concreto ao abstrato 47 O pictograma é um símbolo que representa um objeto ou concei- to por meio de figuras. Podem ser usadas de modo individual ou na construção de uma escrita com desenhos. Geralmente, abaixo do de- senho está escrito o nome do símbolo – dessa forma ele pode ser escrito em vários idiomas. Figura 2 Conceito de imagem (a) e pictogramas (b) (a) (b) tiv er ylu ck y/ Sh ut te rs to ck No ch /S hu tte rs to ck Agora vamos apresentar exemplos de atividades práticas e recursos de tecnologia assistiva de baixa e alta tecnologia. Esses materiais vão permitir a participação do estudante com deficiência em sala de aula de maneira mais equitativa, ou seja, ele deverá ter suas necessidades supri- das à medida que as atividades são realizadas com o grupo e poderá ter a oportunidade de desenvolver uma comunicação mais autônoma. Processo de prescrição e confecção de recursos de tecnologia assistiva para educação infantil (2010), de autoria de Aila Rocha, é uma dissertação de mestrado que apresenta o que são os recursos de tecnologia assistiva – de baixa e alta tecnologia – trazendo exemplos de como foram aplicados em sala de aula, voltados para a Educação Infantil. Também apresenta os benefícios da tecnologia assistiva na inclusão do aluno com deficiência, promovendo a qualidade de vida, autonomia e independência. Disponível em: https://repositorio. unesp.br/handle/11449/91211. Acesso em: 28 dez. 2022. Leitura 3.2 Recursos de baixa tecnologia Vídeo Os recursos de baixa tecnologia são confeccionados com material de baixo custo e são construídos geralmente de maneira artesanal e individual. Para isso, precisamos utilizar o conceito de objeto de referência, partindo do mais concreto para o mais abstrato. Não há uma regra: à medida que a criança com deficiência vai conseguindo perceber o processo de desnaturalização do objeto, ela compreen- derá a função do símbolo. https://repositorio.unesp.br/handle/11449/91211 https://repositorio.unesp.br/handle/11449/91211 48 Comunicação suplementar e alternativa Vamos iniciar exemplificando com a imagem de uma colher. A criança que sempre usou a mesma colher, ou colheres iguais, tem a possibilidade de fazer duas transposições: a de colar a colher num pedaço de papelão ou placa de MDF, ou a de contornar a colher, por exemplo, de preferência em um fundo branco com tinta preta. Em al- gumas exceções pode facilitar se o fundo for azul escuro, contornado em amarelo, ou um fundo preto, contornado de branco. Vai depender se a criança tem baixa visão ou alguma outra alteração visual. Figura 3 Sequência de desnaturalização do objeto Esses objetos podem ser organizados de maneira a serem apre- sentados em formato de calendário. Pensando que cada objeto pas- sa a ser representado como um símbolo, consequentemente cada um deles passa a ser um conceito. O calendário deve conter os con- ceitos principais que um estudante com deficiência, ao ser introduzi- do na sala de aula, precisa conhecer. Com base na rotina da escola, pode ser construído de maneira a concretizar as principais experiên-cias e servir de antecipação de outras atividades. Primeiro a criança será introduzida em cada uma das atividades de maneira individual: atividade de artes, educação física, recreio, parquinho, trabalho em sala de aula, horário de saída, por exemplo. Do concreto ao abstrato 49 Os materiais serão todos realizados no mesmo formato, com uma placa no fundo que poderá ser maior ou menor. Devemos criar uma forma de montar o calendário de maneira a guardar cada uma das atividades de modo sequencial. Alguns exemplos são: uma caixa de sapato do lado da outra; uma bandeja de plástico ao lado da outra; uma caixa de sorvete do lado da outra. Esses elementos podem ser utilizados com tampa – à medida que a criança observa a sequência de atividades, ela vai destapando, por exemplo. É importante permitir que ela sempre retome as atividades. Às vezes ela pode querer repetir a atividade que já acabou ou querer pular uma atividade que não gosta muito e assim por diante. Figura 4 Calendário com caixas: representação da atividade de Educação Física (bola) e refeitório (colher) À medida que a criança tem a compreensão dessa estrutura de ativida- de, podemos passar para a introdução de figuras. É importante que essa escolha se baseie no que a criança com deficiência já tem experiência. Se ela já utiliza com um terapeuta algum sistema de comunicação alternativa ou suplementar é sempre bom reforçar usando os mesmos símbolos. Isso vai ajudar a criança a assimilar o conceito de cada um deles e começar a compreender que eles juntos vão servir como uma escrita no uso sequen- cial. A criança vai aprendendo que as imagens colocadas em sequência têm uma representação a partir da qual podem construir pequenas frases. 50 Comunicação suplementar e alternativa Se a criança com deficiência ainda não se utiliza de um sistema de comunicação, você pode iniciar com as “pistas de imagens”. Elas se referem aos contornos de objetos, dese- nhos e fotografias. A criança vai se familia- rizando com os símbolos (bidimensionais) derivados de um objeto (tridimensional). Como falamos anteriormente, ela pode co- meçar contornando esse objeto. Podemos também tentar utilizar desenhos que já es- tejam disponíveis nos livros didáticos, por exemplo, e construir as atividades basea- das no mesmo material utilizado em sala de aula. Também podemos utilizar as fo- tografias – por exemplo, podemos come- çar com a fotografia da própria criança. Esses exemplos se referem diretamente às crianças vi- dentes ou que tenham bom aproveitamento da visão. À medida que a criança adquire uma capacidade maior de abstra- ção, ela entra em fases mais simbólicas e fica apta a trabalhar com novos recursos. Progressivamente, ela vai compreendendo os mo- delos de representação e acessando fases que exigirão mais de suas 1 S as aS to ck /S hu tte rs to ck 2 R ea ls to ck ve ct or /S hu tte rs to ck 3 g rm ar c/ Sh ut te rs to ck 1 2 3 As tir a 99 /S hu tte rs to ck M ar i M uz z/ Sh ut te rs to ck 2 1 Sa sa St oc k/ Sh ut te rs to ck - 2 Pi ne ap pl e st ud io /S hu tte rs to ck 1 Do concreto ao abstrato 51 capacidades cognitivas. Portanto, com o tempo, a criança evolui para modelos mais simbólicos, mas é importante perceber se ela está com- preendendo de maneira funcional os recursos escolhidos. Um exemplo de atividade introdutória nesse estágio mais simbólico é fazer uma apresentação da família: uma foto da criança, com seu nome es- crito abaixo, uma foto de cada membro da família, começando com os pais. Devemos tomar cuidado ao propor uma atividade dessas, conhecer quem são os membros da família nuclear da criança e perguntar a ela por onde começar. Pode ser que ela se identifique muito com os avós. É sempre bom que a motivação para fazer a atividade venha da criança. Essa atividade pode ser realizada em um caderno de desenho, numa folha avulsa colocada depois em uma pasta da criança, em um pequeno cartaz que pode ser feito na escola e mandado para casa para ser utilizado em família. Pr es sm as te r/ S hu tte rs to ck PAI EUMÃE Uma coisa importante para se lembrar é que, geralmente, quando inserirmos a escrita abaixo de uma fotografia ou símbolo, ela deve ser em caixa-alta, para não só facilitar a aprendizagem da leitura, como para apresentar a forma da escrita bastão. Também se faz presente a possibilidade de uti- lizar a miniatura como parte das atividades, fazen- do uma transição do que seria mais concreto para o mais abstrato. Devemos ter o cuidado de lembrar que, para uma criança com deficiência visual, o uso da miniatura pode ser descontextualizado porque ela não conhece o conceito apresentado. As miniatu- ras para quem enxerga podem servir de processo de nomeação e futuramente de pareamento de alguma atividade em que se utilize a introdução da imagem (desenho, foto ou símbolo). Essa nomeação poderá ser feita por aqueles que conseguem oralizar mini- mamente, apontando os objetos e associando as fi- su pp ar so rn / S hu tte rs to ck BOLA 52 Comunicação suplementar e alternativa guras, como forma de aprender o nome das coisas. Isso irá ajudar na ampliação do vocabulário da criança. À medida que a criança for expandindo seu vocabulário, podemos criar fichários, pastas e pranchas de categorização. Esses elementos poderão ser apresentados em formato de um dicionário, por exemplo, ou por associa- ção de conceito. Um exemplo simples é criar uma pasta com o tema famí- lia. As imagens podem ser apresentadas uma por página no início, sempre associadas ao nome que está abaixo e de um tamanho que garanta a boa visão e a compreensão delas. À medida que a criança vai se familiarizando, a fotografia pode ir diminuindo de tamanho, mas sempre devemos ficar atentos a uma forma que seja confortável para a criança fazer a leitura da imagem. Podemos passar da categoria pasta para uma prancha, em que to- das as imagens estão em um mesmo local. Podemos criar várias pastas que vão se transformando em pranchas. Essas pranchas podem com o tempo assumir um formato de categoria de leitura, por exemplo: no lado esquerdo estão localizadas as pessoas (sujeitos); no centro, os símbolos que sugerem ação (verbo); no canto direito, os complementos (adjetivos e expressões de sentimentos). Cada uma delas terá uma cor de fundo para representar a mesma categoria. Conforme essa prancha aumenta seu conteúdo, pode se tornar um cardápio e conter um vasto vocabulário com várias categorias. Sempre começamos com os símbolos os quais a criança já reconhe- ce individualmente. Depois disso podemos somar mais símbolos até que a criança perceba uma sequência lógica de leitura de imagem da esquerda para a direita, como no formato apresentado na leitura/es- crita. Lembrando que esse trabalho é feito aos poucos e no tempo da criança. Devemos observar o quanto ela está interessada em nos con- tar algo. Os símbolos vão nomear o que ela vai nos descrever. Podemos criar atividades junto à criança que propiciem a leitura de livros. Para estudantes com deficiência visual os leitores de tela são uma ferramenta importante. Existem softwares gratuitos, pagos e na- tivos no sistema (quando o leitor de tela já está integrado ao sistema), que fornecem informações por meio de síntese de voz sobre os ele- mentos exibidos na tela do computador. Esses softwares capturam as informações apresentadas na forma de texto e as transformam em resposta falada por meio de um sintetizador de voz. Para navegar uti- lizando um leitor de tela, o usuário faz uso de comandos pelo teclado. Já para crianças não verbais, se na escola há um dia de visitar a bibliote- ca, veja quais livros do interesse dela podem ser convertidos em símbolos Do concreto ao abstrato 53 para que possam ser apresentados pela criança com deficiência para a clas- se. Podemos apresentar uma página por vez, dependendo da disposição e do interesse da criança. Pode ser que ela se interesse por desenhar as ilus-trações do livro. São muitas as opções que podem auxiliar no processo de alfabetização do estudante com deficiência e futuramente servir como uma forma de ele ler os trabalhos/atividades feitos em sala de aula e em casa. Figura 5 Atividade leitura de símbolos Fonte: Daniella Forchetti. Da mesma forma que trabalhamos com a imagem para introduzir a criança na leitura dos símbolos, podemos criar atividades para introduzi-la ao conceito matemático. Pensando na desnaturalização do objeto, come- çamos com o concreto e vamos em direção ao conceito mais abstrato. Existem muitas atividades/materiais realizados no método Montessori que favorecem isso. Podemos começar com a contagem com o uso de palitos de sorvete; esses palitos depois podem ser contornados e apresentados com o numeral. Outra atividade que pode ser realizada é contar as frutas na árvore, que pode ser feita desde uma forma mais concreta, se houver 54 Comunicação suplementar e alternativa a possibilidade de a criança estar num ambiente na natureza e brincar de criar sua própria árvore tridimensional; ou pode ser feita no papel/feltro para fazer a contagem da quantidade das frutas. A árvore pode ser trans- formada em símbolo e passar para o papel junto ao numeral. Podem ser feitas inúmeras formas de pareamento com os símbolos associados aos números. Essa é uma atividade para ser feita ao ar livre, no pátio da escola. Partindo dessa imagem real ela vai construir com o professor e até junto aos colegas sua própria árvore, que pode ser também de brinquedo – vai depender do quanto a criança consegue abstrair. Ch ic co Do di FC /S hu tte rs to ck MAÇà Geralmente a criança que já está utilizando símbolos é assistida por um fonoaudiólogo que faz o acompanhamento e a introdução desse trabalho. É importante alinhar o que está se fazendo na escola com o que se faz nas terapias, para que a criança perceba a possibilidade de se comunicar em diferentes ambientes e que também perceba o que poderá usar em casa e com seus colegas fora da escola. Um ambiente imersivo apoiado pelos recursos trará mais autonomia à criança com deficiência, tornando-a protagonista no seu processo de comunicação. 3.3 Recursos de alta tecnologia Vídeo Os recursos de alta tecnologia estão associados a um alto custo e são fabricados em larga escala, requerendo uma mão de obra espe- cializada. Para as atividades desenvolvidas em sala de aula podemos dar exemplo de materiais que podem ser utilizados no trabalho com o estudante com deficiência. Programas de comunicação alternativa e Do concreto ao abstrato 55 aumentativa, mesmo quando se tratam de aplicativos gratuitos, serão usados em um tablet, que terá um custo para a família. Existem tam- bém sistemas de comunicação alternativa e suplementar que geral- mente são utilizados em consultórios de fonoaudiólogos e terapeutas ocupacionais. Eles também podem ser instalados nos tablets e compu- tadores da criança com deficiência, mas têm o custo do aparelho e das manutenções. Também temos a possibilidade de acoplar uma colmeia ao teclado, para facilitar a digitação de estudantes com paralisia cere- bral, por exemplo. Algumas escolas públicas 1 , atualmente, oferecem tan- to um tablet como um computador para os estudantes com e sem deficiência, mas percebemos que nem sem- pre eles são compatíveis com aplicativos de comunicação suplementar e alternativa. Portanto, a família acaba tendo que arcar com essas despesas. Também é comum que crianças que fazem acompanhamento com fonoaudiólogos usem um sistema de comu- nicação pago. Outros recursos oferecidos para os computadores é a linha braile, um aparelho capaz de converter instantaneamente os tex- tos ou dados dos computadores, dispositivos móveis ou de uma me- mória interna para uma linha de texto em alto relevo usando o Sistema Braille (para estudantes cegos e surdocegos), e aplicativos que realizam a tradução para a Língua Brasileira de Sinais para estudantes surdos – ambos podem ser baixados gratuitamente. Figura 7 Linha braile em um teclado Re sh et ni ko v_ ar t/ Sh ut te rs to ck Figura 6 Teclado adaptado com colmeia transparente As escolas públicas municipais no estado de São Paulo contam com o empréstimo de tablets e computadores para os estudantes, e a família recebe por consignação, mas esses aparelhos não são compatíveis com o aplicativo LetMeTalk. Em outras regiões do Brasil, essa realidade pode ser diferente. 1Reshetnikov_art/Shutterstock 56 Comunicação suplementar e alternativa O artigo A comunicação alternativa escrita (2003), de Miryam Pelosi, aponta para a importância do computador na escola como um instrumento fundamental para a inclusão de alunos com dificuldade de comunicação, tanto oral como escrita. Mas para isso é importante que os professores tenham uma formação no uso da informática como recurso de trabalho juntamente à comunicação suplementar e alternativa e suas adaptações. Acesso em: 29 dez. 2022. http://tecnologiaseinclusao.pbworks.com/f/CAA%20escrita.pdf Artigo Já para estudantes com deficiência neurológica e física, a escola pode solicitar quando necessário um acionador adaptado para ser utilizado tanto no tablet como no computador. Ele também pode ser colocado em brin- quedos para os tornar mais interativos para as crianças. Geralmente, esses acionadores são adaptados pelo terapeuta ocupacional que poderá orien- tar a escola em como melhor proceder em sala de aula e nas atividades. Figura 8 Computador com mouse adaptado Re sh et ni ko v_ ar t/ Sh ut te rs to ck Pensando em uma atividade de confecção de livros, além da possibi- lidade impressa do material, podemos criar audiolivros com audiodes- crições, assim como videolivros, com a inserção da Língua Brasileira de Sinais (Libras). Em ambos os formatos podemos trabalhar com os picto- gramas, selecionando os símbolos principais para criar as frases do livro. Caso o estudante tenha baixa visão ou seja uma criança cega, poderá se beneficiar do material e compartilhar com os outros colegas que enxer- gam. A audiodescrição é um recurso de acessibilidade comunicacional que traduz o que é visual em palavras para o público com deficiência visual de maneira clara, concisa e objetiva. O audiodescritor deve ser um Do concreto ao abstrato 57 profissional que fará tanto o roteiro como a narração e gravação do áu- dio. No caso dos videolivros, podemos utilizar o apoio de um intérprete de Libras para gravar e inserir em formato de janela de Libras, geral- mente no canto direito abaixo da tela. Videolivros são livros que contém uma gravação de uma história realizada por meio da Língua Brasileira de Sinais para o público surdo. Esses livros podem ser gravados e com- partilhados pelo computador ou tablet do estudante com deficiência. É importante que a escola tenha acesso ao apoio tanto do audiodescritor como do intérprete de Libras para poder trabalhar em conjunto. Livro em Multiformatos: o espelho mágico (2020) é um artigo que fala das possibilidades de criação de um livro acessível em multiformatos e como criar um texto literário para o maior número de pessoas possível, na perspec- tiva do desenho universal. O artigo traz ilustrações dos livros para inspirar como é possível trabalhar desde um texto impresso até o compartilhado pelo computador, com o uso de softwares livres. Acesso em: 29 dez. 2022. https://periodicos.ufsm.br/educacaoespecial/article/view/54666 Artigo CONSIDERAÇÕES FINAIS É muito importante, para a criança desenvolver sua autonomia, que, ao inserirmos um recurso de tecnologia, ele deva estar contextualizado no am- biente escolar, pois servirá de apoio para as atividades a serem desenvolvi- das pelo professor. Essas atividades deverão ser elaboradas pelo professor de educação em conjunto com o e professor de sala de recurso, no caso de escolas públicas. Também devemos pensar que quem será o introdutor desses recursos na escola é o professor de apoio. Ele será o mediadorentre a criança com deficiência e o professor e colegas de classe, por isso será a peça chave para que efetivamente se ponha em prática esses recursos, devendo ser instrumen- talizado pelos profissionais especializados na área de Educação Especial, e o professor de sala de aula deve ser como um parceiro para tornar o ambiente escolar mais inclusivo. Caso não tenha um professor de apoio, é importante ter outro professor disponível em sala de aula para fazer esse papel, de preferên- cia sempre o mesmo, para que possa entender como funciona esse processo de adaptação, aplicação nas atividades e apoio na rotina escolar. A escola por si só deve estar preparada e equipada para receber os estudantes com deficiência de maneira planejada e antecipada. Esses ma- teriais e equipamentos devem estar integrados ao ambiente escolar e de- https://periodicos.ufsm.br/educacaoespecial/article/view/54666 58 Comunicação suplementar e alternativa vem ser apresentados para todos os estudantes, com e sem deficiência, para que compreendam o que cada material de apoio pode proporcionar e, sempre que possível, para proporcionar uma experiência coletiva. Esses en- sinamentos não só apoiarão o estudante com deficiência como mostrarão que, com a convivência, podemos construir um território de diversidade, em que todos se sintam parte, respeitados em sua individualidade, num ambiente que preze a equidade. ATIVIDADES Atividade 1 Antes de confeccionar o material de apoio para o estudante com deficiência, o que é importante o professor compreender? Atividade 2 Diferencie os conceitos de imagem e de pictograma. Atividade 3 Para a confecção de um livro adaptado, aborde pelo menos duas possibilidades de criação dessa atividade. REFERÊNCIAS BRASIL. Decreto n. 3298 de 20 dezembro de 1999. Diário Oficial da União, Poder Executivo, Brasília, DF, 21 dez. 1999. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/CCivil_03/decreto/ d3298.htm. Acesso em: 3 jan. 2023. BRASIL. Estatuto da Pessoa com Deficiência 3 ed. Brasília: Senado Federal, Coordenação de Edições Técnicas, 2019. Disponível em: https://www2.senado.leg.br/bdsf/bitstream/ handle/id/554329/estatuto_da_pessoa_com_deficiencia_3ed.pdf. Acesso em: 20 jan. 2023. BRASIL. Tecnologia Assistiva. Subsecretaria Nacional de Promoção dos Direitos da Pessoa com Deficiência. Comitê de Ajudas Técnicas. Brasília: CORDE, 2009. Disponível em: https:// www.assistiva.com.br/Tecnologia%20Assistiva%20CAT.pdf. Acesso em: 3 jan. 2023. NUNES, L. R. d’ O. P. (org.). Favorecendo o Desenvolvimento da Comunicação em Crianças e Jovens com Necessidades Educacionais Especiais. Rio de Janeiro: Qualitymark Editora, 2004. http://www.planalto.gov.br/CCivil_03/decreto/d3298.htm http://www.planalto.gov.br/CCivil_03/decreto/d3298.htm https://www.assistiva.com.br/Tecnologia%20Assistiva%20CAT.pdf https://www.assistiva.com.br/Tecnologia%20Assistiva%20CAT.pdf LetMeTalk: aplicativo de comunicação 59 4 LetMeTalk: aplicativo de comunicação Neste capítulo aprenderemos na prática como utilizar o programa de comunicação suplementar e alternativa do aplicativo LetMeTalk – como ele funciona, qual público pode utilizá-lo e em quais situações comunicativas do dia a dia escolar podemos empregá-lo. Também aprenderemos a criar diversas atividades usando o aplicativo, com a possibilidade de elas serem impressas em formato de cardápios, livros e cadernos de comunicação. O LetMeTalk foi selecionado para ser apresentado nesta obra porque várias pesquisas em universidades apontam os benefícios que ele traz, por ser de fácil acesso às famílias com crianças com deficiência e uma forma de introduzir a comunicação suplementar e alternativa, além de ser gratuito. Com o estudo deste capítulo, você será capaz de: • aprender a utilizar o aplicativo LetMeTalk, inclusive em diversas situações comunicativas do dia a dia escolar; • aprender a criar várias atividades a partir do aplicativo que po- dem ser impressas em formato de cardápios, livros e cadernos de comunicação. Objetivos de aprendizagem 4.1 Apresentação do aplicativo Vídeo O LetMeTalk é um aplicativo gratuito para Android e iOS que visa com- pensar as dificuldades na área da comunicação e linguagem por meio de imagens. Ele pode ser baixado no tablet e depois utilizado sem o usuário estar conectado à internet. É importante ressaltar que o tablet é mais versátil, pois o usuário tem autonomia para levar consigo em diferentes ambientes. O público que pode se beneficiar com o uso desse material é amplo: pessoas com paralisia cerebral e outros quadros neurológicos, 60 Comunicação suplementar e alternativa pessoas com autismo, pessoas com deficiência intelectual e síndrome de Down, pessoas com deficiência auditiva e como apoio às pessoas com dificuldade na leitura e escrita. Também pode ser utilizado por: idosos, pessoas em internação hospitalar privadas da comunicação oral e para aprender uma segunda língua, no caso de estrangeiros. Os benefícios encontrados foram: melhora da atenção e da con- centração nas atividades; colaboração com a percepção e com o re- conhecimento das informações; e auxílio para a memória e para o aprendizado, facilitando a recordação dos vários tipos de conhecimen- to (PREECE; ROJERS; SHARP, 2005). O aplicativo contém mais de 9 mil pictogramas do Centro Aragonês de Comunicação Aumentativa e Alternativa (ARASAAC) e é financiado pelo Departamento de Educação, Cultura e Desporto do Governo de Aragão, da Espanha. Ele dá suporte à comunicação, permitindo ao usuário selecionar imagens e construir frases que podem ser lidas uti- lizando o programa de voz sintetizada do dispositivo. Além dos pictogramas instalados, é possível adicionar imagens ar- mazenadas no dispositivo, ou inserir fotografias enviadas por e-mail e baixadas, ou utilizar a câmera do dispositivo. Os pictogramas são elementos visuais que compõem um sistema de sinalização e comuni- cação com representação figurativa e capacidade de comunicar men- sagens simples e complexas com base na combinação de símbolos gráficos: objetos, representações e conceitos. O ARASAAC (2023) pertence à área de inovação e formação profissional do go- verno da Espanha em colaboração com pesquisadores de todo mundo e oferece: recursos gráficos e materiais adaptados sob licença Creative Commons (BY – NC – SA) para facilitar a comunicação e a aces- sibilidade cognitiva a todas as pessoas que, por diferentes razões (autismo, deficiência intelectual, ausência de linguagem, idade, etc.), apresentam sérias dificuldades nestas áreas que impedem a sua inclusão em qualquer domínio da vida quotidiana. Trata-se de um portal que financia um banco de imagens, pictogramas, locu- ções e vídeos ligados à comunicação suplementar e alternativa. Você pode encontrar as informações da página em várias línguas – selecione português. Atualmente encontramos uma versão para o português do Brasil, colaborando para a formação de um vocabulário imagético. Também podemos encontrar O site da ARASAAC pode ser acessado por meio do link a seguir. Disponível em: https://arasaac.org/. Acesso em: 2 jan. 2023. Site (Continua) https://arasaac.org/ LetMeTalk: aplicativo de comunicação 61 muitas dicas de material adaptado e conhecer mais como surgiu o aplicativo LetMeTalk. Ainda é possível acessar o banco de pictogramas (por meio do link https://ara- saac.org/pictograms/search) para fazer a seleção completa de imagens para suas atividades e a impressão do tamanho e da forma que for mais conveniente para seus estudantes (escreva “Português do Brasil” na barra de busca). Figura 1 Banco de imagens – Pictogramas ARASAAC Fonte: ARASAAC, 2023. É importante recordarmos que entre os pictogramas temos aqueles com maior ou menor complexidade, dependendo do nível de abstração ou convenção, quando a imagem está relacionada à língua de sinais (gestual). A organização das pranchas de comunicação e a forma como são distribuídos os pictogramas são essenciais para dar maior velocida-de à comunicação, permitindo a busca de imagens mais precisas. Muitas vezes as famílias já trazem de casa algum material de apoio, que deve ser utilizado na escola para saber se poderá auxiliar também na sala de aula. Geralmente, esses materiais são confeccionados por profissionais das áreas de fonoaudiologia e terapia ocupacional ou in- dicados pelo professor de sala de recursos. Se o estudante faz uso de um aplicativo diferente do sugerido aqui, vale a pena lembrar que o Kamyla Soares, na dissertação Design de interação e comunicação aumentativa e alternativa (CAA): uma análise da usabilidade de aplicativos CAA com especialistas em reabilitação de autistas, tem como objetivo avaliar a usabilidade de aplicativos de comunicação aumen- tativa e alternativa (CAA) na preparação do material destinado à reabilitação de pessoas autistas feita por especialistas. Foram ana- lisados vários aplicativos, entre eles o LetMe Talk e o Symbol Talk. Foram encon- trados vários benefícios do LetMe Talk em relação aos outros, como a funcionali- dade e a usabilidade. Disponível em: https:// www.udesc.br/arquivos/ ceart/id_cpmenu/1229/ Disserta__o_Kamyla_Lemes_ Soares_15718347779443_1229. pdf. Acesso em: 2 jan. 2023. Leitura https://arasaac.org/pictograms/search https://arasaac.org/pictograms/search https://www.udesc.br/arquivos/ceart/id_cpmenu/1229/Disserta__o_Kamyla_Lemes_Soares_15718347779443_1229.pdf https://www.udesc.br/arquivos/ceart/id_cpmenu/1229/Disserta__o_Kamyla_Lemes_Soares_15718347779443_1229.pdf https://www.udesc.br/arquivos/ceart/id_cpmenu/1229/Disserta__o_Kamyla_Lemes_Soares_15718347779443_1229.pdf https://www.udesc.br/arquivos/ceart/id_cpmenu/1229/Disserta__o_Kamyla_Lemes_Soares_15718347779443_1229.pdf https://www.udesc.br/arquivos/ceart/id_cpmenu/1229/Disserta__o_Kamyla_Lemes_Soares_15718347779443_1229.pdf https://www.udesc.br/arquivos/ceart/id_cpmenu/1229/Disserta__o_Kamyla_Lemes_Soares_15718347779443_1229.pdf 62 Comunicação suplementar e alternativa professor deve conversar com a família e com os terapeutas para com- preender desde quando começaram o uso do material adaptado e o porquê dessa escolha. Não é recomendado o uso de sistemas diferen- tes, pois primeiro o estudante deve ter conhecimento de uma forma; caso ele não se adapte ou necessite de uma ampliação, devemos pro- curar algo mais adequado às suas necessidades. É importante pontuar que na pesquisa realizada por comparativo entre aplicativos que se utilizam de sistemas de comunicação suple- mentar e alternativa o LetMeTalk ficou entre os dois mais bem cota- dos, apresentando melhores ajustes e adequações às necessidades diversas de pessoas com deficiência. No quesito funcionalidade, observamos que ele apresenta: possibilidade de inserção de pictogra- mas, inserção de fotos e imagens, divisão por categorias, sistemas de cor (contorno do símbolo), cadastro de usuários, alteração do tama- nho das imagens, mudança de posição das categorias e pictogramas, saída de áudio/voz, limite de símbolos na frase, e posição dinâmica do tablet – horizontal e vertical (SOARES, MAGER; 2020). 4.2 Uso em situações comunicativas Vídeo Para começar, vamos aprender como usar o aplicativo? A seguir faremos uma descrição dos primeiros passos para o professor se apropriar do conteúdo e colocá-lo em prática de maneira efetiva. Teremos duas formas distintas: uma para iOS e outra para Android. Para tablets e celulares iOS o aplicativo deve ser baixado pela App Store. Você encontrará muitas opções gratuitas, mas é importante ficar atento ao ícone verde com balão de fala branco. Para tablet e celulares na versão Android você pode baixar pelo Aptoide App 1 . Acesse o link indicado, entre nas configurações do seu tablet/celular e dê permissão para instalar (é possível que ele abra direto, vai de- pender das configurações de segurança do seu aparelho). Você tam- bém tem a opção de baixar o aplicativo escaneando um QR code. Você perceberá que as versões são similares. Como sugestão, você pode deixar um ícone sozinho em uma tela para o próprio estudante abrir o aplicativo de modo mais autônomo. Disponível em: https://letmetalk. br.aptoide.com/app. Acesso em: 2 jan. 2023. 1 https://letmetalk.br.aptoide.com/app https://letmetalk.br.aptoide.com/app LetMeTalk: aplicativo de comunicação 63 Figura 2 Ícone do aplicativo Fonte: LetMe Talk, 2022. Para tablets e celulares Android Na barra superior, no canto esquerdo, há a indicação da página inicial do aplicativo. No canto direito estão cinco ícones, que representam as se- guintes ações: apagar o pictograma; enviar por e-mail ou compartilhar; (+) adicionar imagem/pictograma, tirar uma foto, adicionar imagem/foto da galeria ou adicionar nova categoria; doação; e menu de configurações. Figura 3 Interface no Android Fonte: LetMeTalk, 2022. Na barra de baixo, no canto direito, há uma seta grande que serve para fazer a leitura dos ícones selecionados. Nela é onde se escreve 64 Comunicação suplementar e alternativa com as imagens/pictogramas selecionadas das categorias (geral, famí- lia, comer, beber). Na parte inferior ficam as categorias e os pictogramas apresenta- dos como sugestão pelo aplicativo. Lembre-se de que teremos que ir nas configurações e selecionar “Português do Brasil”. Fique atento pois também encontramos a tradução “Português de Portugal”. Para iPhones e iPads iOS Na versão para iOS, no canto superior direito há o ícone (+) adi- cionar imagem/pictograma, tirar uma foto, adicionar imagem/foto da galeria ou adicionar nova categoria. Na barra de baixo, no canto direito, há uma seta grande que serve para fazer a leitura dos íco- nes selecionados. Nessa barra podemos escrever com as imagens/ pictogramas selecionadas das categorias (geral, comida, bebida…). Na barra inferior, no canto direito, está a lixeira, que servirá para apagar as imagens da barra principal de escrita/leitura. No canto abaixo, es- querdo, está o ícone de uma engrenagem, que se refere às configu- rações, bem como compartilhar e suporte e dados da licença (sobre). No caso desse aplicativo, como ele traz menos controles na tela, o manuseio é facilitado para o estudante. Também não encontramos o ícone de doação, que nos remete à outra página. Figura 4 Interface no iOS 1 Pr es sm as te r/ S hu tte rs to ck 11 Fonte: LetMe Talk, 2022. LetMeTalk: aplicativo de comunicação 65 Como sugestão, na barra de leitura/escrita há dois exemplos de como podemos escrever a informação da imagem. Ela pode ser escrita com todas as letras em caixa-baixa ou caixa-alta. Sugerimos utilizar a caixa-alta, já que a criança pode estar sendo alfabetizada em letra de fôrma, para facilitar o pareamento. Também facilita a visualização na tela, já que é de um formato maior. Como em ambas as versões as palavras são escritas em caixa-baixa ou a primeira em caixa-alta e o restante em caixa-baixa (nas categorias), teremos o cuidado de fazer todos os ajustes antes de passar para o estudante. Também é impor- tante fazer essa correção a cada palavra nova introduzida. Outra informação relevante é que em ambas as versões o apare- lho foi utilizado na horizontal. Esse formato oferece mais espaço na barra de leitura/escrita para visualizarmos as imagens. Pode deixar fixado dessa forma. Feito todos os ajustes, o estudante poderá utilizar o aplicativo na escola para interagir com seus colegas. Isso otimiza a amizade entre seus pares e com seus professores, para poder fazer suas perguntas e respondê-las, para comunicar seus desejos e vontades, se quer ir ao banheiro, comer ou beber água, por exemplo. Ele desenvolverá maior autonomia e se sentirá apoiado na sua forma de aprender e ter conta- to com o conteúdo apresentado para todos da classe. Da mesma ma- neira, é interessante que seus colegas tenham acesso a esse material. Como ele é muito rico em imagens, poderá auxiliar outros estudantes, além de ser importante os colegas aprenderem como o estudante com deficiência se comunica,para poder apoiá-lo e saber o tempo necessá- rio entre as perguntas e respostas, por exemplo. Por último, devemos relembrar a importância da tecnologia assistiva para o uso dos tablets. Devemos dar oportunidade para que a criança com deficiência possa desenvolver seu potencial e autonomia no uso do tablet. Para isso, devemos oferecer formas diferentes de ela acionar os símbolos na tela. Se caso a criança não tiver essa possibilidade inicial de fazer sozinha o movimento de ligar/desligar e tocar a tela, é impor- tante pensarmos em acionadores adaptados para ela poder utilizar o tablet sempre que possível e autonomamente. O aplicativo não apre- senta um sistema de varredura de tela, para isso exigiria o uso de outro 66 Comunicação suplementar e alternativa sistema de comunicação suplementar e alternativo de custo mais alto. Mas vale observar como podemos adaptar para que a criança possa, mesmo com o auxílio de um adulto, ser introduzida no sistema. Nesse caso, devem ser pensadas novas formas para que estudantes tetra- plégicos, devido à limitação de movimento de mãos, braços, pernas e cabeça, não percam a oportunidade de se comunicar com autonomia. No início, pode ser difícil para muitas crianças acionar apenas uma vez o símbolo devido ao peso do dedo na tela – algumas usam mais for- ça, outras menos. A mediação de um adulto fará toda a diferença, por isso a importância de um professor de apoio em uma escola pública, que já tem esse papel designado, uma vez que as crianças podem não se desenvolver de maneira totalmente autônoma e precisarão sempre de um mediador no uso do tablet. Outras, com o tempo, ou com os anos, conseguem chegar a esse patamar de independência. O mais importante é que elas possam ter a possibilidade de desenvolver sua comunicação e o aprendizado escolar. 4.3 Criação de atividades Vídeo Vamos começar com exemplos mais simples de introdução ao uso do aplicativo. Primeiro, é importante que antes de experimentar o uso dos pic- togramas no tablet o estudante tenha a possibilidade de ser apresentado aos símbolos pictográficos em um formato impresso, para que possamos, inclusive, saber qual o tamanho ideal do símbolo. Isso vai variar de criança para criança, mas devemos saber que o tablet também tem uma limitação de tamanho que pode não ser suficiente para o estudante. Como já men- cionamos, para selecionarmos a categoria, é sempre bom começar com um tema que a criança aprecie. Comida, bebida, brinquedos, brincadeiras e família são os exemplos mais comuns. Selecionada a categoria, vamos apresentando um ícone por vez. Como vimos, pode ser que na tradução do português de Portugal para o brasileiro tenhamos de ajustar a nomen- clatura. Para isso devemos ir no sinal (+), no canto superior direito, e re- nomear o pictograma. Podemos fazer isso com todos, inclusive quando inserimos uma fotografia da própria criança ou de um membro da família. Sabendo que a criança já se utiliza de um símbolo de maneira isolada, podemos montar categorias com uma prancha com velcro removível. A LetMeTalk: aplicativo de comunicação 67 prancha pode ser confeccionada com a base em papelão forrado com pa- pel contact transparente ou uma placa fina de MDF. Temos por preferência a segunda opção, pois as placas são mais duráveis e podem ser compradas ou confeccionadas em lojas de artesanato a um baixo custo. Os velcros são colados na base, e podemos iniciar com quatro ou seis ícones, introduzidos um a um. Podemos pensar na categoria comida e selecionar quatro tipos de frutas que a criança mais gosta – banana, melancia, uva e manga, por exem- plo. Estas serão, depois de impressas, conferidas pela criança para saber se ela se interessa e se desenvolveu independência para selecioná-las. Vale ressaltar que para fazermos a impressão dos pictogramas para a confecção de pranchas/cadernos de leitura devemos primeiro esco- lher a imagem ou um grupo de imagens, selecionar no aplicativo o íco- ne “enviar” (em formato de seta) localizado no canto direito e enviar para um e-mail. Será necessário ter uma conta salva no tablet, que ser- virá de apoio para enviar as imagens aos professores, terapeutas etc. Ao receber o e-mail, podemos selecionar para imprimir. Nesse caso, configuramos o tamanho da imagem e como ela deva ser apresentada na impressão, seja em série formando uma frase ou de maneira isola- da, para ser recortada e aplicada numa placa, por exemplo. A organização dos símbolos na prancha também é importante. Como falamos nas categorias, essa organização ajudará a criar espaços com as mesmas temáticas, em que a criança pode otimizar o espaço da tela princi- pal para ter uma visão geral de todas as categorias. Mas pode ser que essa forma não seja a ideal e seja necessário colocar todos os símbolos na pri- meira tela para que a criança possa utilizar de maneira independente. Cada criança será de uma forma. Outras podem já se apoiar com o contorno co- lorido do símbolo. Os contornos servem de apoio visual para compreen- der se na estrutura de escrita a imagem representa pessoas, substantivos, verbos ou adjetivos, por exemplo. Para inseri-los você deve apertar sobre o pictograma. Aparecerá algumas categorias, selecione “Mudar cor de fun- do”. Essas categorias podem ser inspiradas no programa criado pelo Picture Communication Symbols (PCS), com o contorno do símbolo no aplicativo. Por exemplo: o contorno das pessoas é amarelo; o de verbos é verde; o de subs- tantivos é alaranjado; e o de adjetivos é azul. As cores ajudarão a introduzir conceitos gramaticais e o início da estruturação de frases. 68 Comunicação suplementar e alternativa Figura 5 Pictogramas com cores diferentes de fundo 1 Pr es sm as te r/ S hu tte rs to ck 11 Fonte: Elaborado pela autora com base em LetMeTalk, 2022. À medida que o estudante começa a reconhecer as figuras e fo- rem sendo introduzidas as letras para o processo de alfabetização, podemos fazer pranchas com o alfabeto móvel, de modo que o es- tudante possa criar as palavras, tanto no tablet quanto fora dele. Esse alfabeto móvel é muito utilizado na alfabetização no método Montessori. Você pode encontrar esse material pronto, impresso em placas de MDF e pequenos cubos, ou pode fazê-lo com a impressão das letras. Sugerimos manter o padrão vogais em vermelho e con- soantes em azul, por exemplo, para a criança ter o apoio de fundo para distinguir os conceitos. Figura 6 Alfabeto móvel LetMeTalk: aplicativo de comunicação 69 Caso a criança ainda reconheça apenas as vogais e poucas consoantes, podemos montar uma prancha de letras, podendo estas serem de velcro, como apresentado anteriormente, ou como uma categoria no tablet. Figura 7 Prancha de letras no aplicativo LetMeTalk 1 Pr es sm as te r/ S hu tte rs to ck 11 Fonte: Elaborado pela autora com base emLetMeTalk, 2022. Como sabemos, o tablet tem uma quantidade limitada de símbolos para leitura na barra de ferramentas, mas isso não nos impede de criar frases que possam gerar uma história ou um livro. Essa experiência pode ser totalmente composta de símbolos ou símbolos acompanhados da escrita. Tudo é possível pelo tablet. É muito importante lembrarmos da possibilidade de a criança acionar o ícone de leitura sobre o que escreveu. Isso dará a ela a possibilidade de ouvir sua produção e retroalimentar sua audição, para que futuramente consiga evocar algum vocábulo. A seguir compartilhamos uma atividade criada com base no livro Olfato (2020) distribuído na coleção de livros das escolas municipais da cidade de Campinas, em São Paulo. Foram utilizados os símbolos com a escrita apre- sentada a seguir, com destaque no artigo o, que a criança já reconhece. Da mesma forma, entre os ícones há pictogramas com figuras representativas, baseadas na língua de sinais, em gestos naturais e em uma fotografia. Essa atividade iniciou-se em casa com a família, que leu o livro e depois reconhe- ceu junto da criança os ingredientes que tinham em casa e eramcitados na obra. Esses ingredientes foram selecionados e apresentados para a criança, fotografados e colocados junto da impressão do livro. A criança, em segui- da, teve a possibilidade de fazer um pareamento do símbolo com a foto. 70 Comunicação suplementar e alternativa Todas essas são camadas mais ou menos abstratas dos símbolos. Portanto, mesmo com o livro tendo uma mesma narrativa, o que cada criança apreende dele pode variar. Podemos observar o interesse dela nos personagens principais, em como eles se relacionam na história ou algum tipo de identificação com a sua própria realidade, criando uma his- tória paralela. Depois, em sala de aula, a criança apresenta para a classe seu livro impresso e no tablet com os símbolos dispostos, para que o apa- relho faça a leitura oral para a criança que necessita dessa suplementação. Figura 8 Atividade livro do Olfato tem cheiro gostoso vontade de comer feijão hortelã alho cebola pão O mundo feito cheiros bom ruim cheiramos nariz LIVRO DO OLFATO Fonte: Daniella Forchetti. Para finalizarmos as sugestões, é bom lembrarmos da possibilidade de imprimir um calendário para a criança. É importante recordar o quan- to os símbolos podem apoiar essa rotina dentro da escola, que pode Recomendamos a leitura do fascículo produzido por Sartoretto e Bersch, A educação especial na pers- pectiva da inclusão escolar. Recursos pedagógicos aces- síveis e comunicação au- mentativa e alternativa, que faz parte de uma coleção de obras sobre Educação Especial na escola comum. A coleção tem por objetivo repensar o trabalho de gestores e professores do atendimento educacional especializado (AEE) da escola e instruir como utilizar os recursos peda- gógicos acessíveis como facilitadores da aprendiza- gem na escola e fora dela. Também apresenta os ma- teriais, desde a seleção até a confecção e indicação, que servirão de orientação aos professores, no intuito de eliminar barreiras de qualquer natureza e apoiar a aprendizagem. Disponível em: https://repositorio. ufc.br/handle/riufc/43218. Acesso em: 2 jan. 2023. Leitura https://repositorio.ufc.br/handle/riufc/43218 https://repositorio.ufc.br/handle/riufc/43218 LetMeTalk: aplicativo de comunicação 71 ser também expandida e modificada à medida que a criança passa a conhecer o sistema de comunicação. Esse calendário passa a apoiar a criança na compreensão da rotina escolar e, quando possível, dá a ela a possibilidade de poder opinar nas atividades ou na sequência à qual ela será apresentada no dia ou na semana. Também auxiliará na memoriza- ção e ajudará a criança a se sentir mais segura dentro dessa experiência. Figura 9 Calendário com símbolos Fonte: Daniella Forchetti. Segundo Sartoretto (2010, p. 16), devemos ter o cuidado de não pri- var a participação dos estudantes com deficiência em sala de aula tam- bém pela falta de acessibilidade. Alunos com impedimentos na expressão oral utilizam as pran- chas de comunicação para expressarem sua compreensão e interpretação daquilo que está sendo lido. Os recursos devem sempre mediar a ação que se realiza entre o aluno e o texto e possibilitar que o professor da classe comum interprete o pro- cesso de aquisição de conhecimento que está sendo construído pelo aluno e planeje suas intervenções. Como podemos observar, por meio da prática contínua podemos apri- morar o uso do programa LetMeTalk – isso vale para nossos estudantes. Primeiro é importante aprendermos como utilizar o aplicativo, pensando em como poderemos oferecer de maneira segura e cuidadosa as ativida- des que apoiarão nossos estudantes em sala de aula. 72 Comunicação suplementar e alternativa CONSIDERAÇÕES FINAIS Este capítulo procurou compartilhar, em primeiro lugar, como pode- mos efetivamente compreender o uso do aplicativo LetMeTalk como um sistema de comunicação suplementar e alternativa, desde a elaboração de atividades até o momento de colocá-las em prática. Os professores devem aprender a se familiarizar com o tablet e todas as possibilidades que o aplicativo apresenta para que possam criar os materiais e as atividades dentro do seu contexto escolar e, assim, se sintam aptos a apoiar a comunicação da criança com deficiência. Somente dessa forma o es- tudante poderá se apropriar do conteúdo e utilizá-lo de modo que lhe traga mais autonomia, dentro de suas possibilidades comunicativas. Caso o estu- dante já venha com um material de apoio, criado pelos terapeutas e pais, o professor deverá compreender de que forma o material poderá ser utilizado em sala de aula para promover a inclusão do estudante no contexto escolar. Os materiais apresentados aqui servem de sugestão para que os professores possam se inspirar e compreender que temos um passo a passo nesse processo: primeiro observamos a criança, suas relações com o mundo e como ela se expressa; depois fazemos uma proposição inicial de atividade, baseada na escuta da família e nos trabalhos realizados pe- los terapeutas, caso ela venha sendo acompanhada na reabilitação; após é necessário compreendermos a relação entre sala de recurso e sala de aula, como um processo que vai se construindo a partir das devolutivas da criança; por fim reconheceremos a importância do professor de apoio (nas redes públicas) como mediador do uso do tablet e responsável pela apresentação do sistema de comunicação alternativa e suplementar no dia a dia da escola para o estudante com deficiência. Todas as atividades aqui apresentadas foram contextualizadas em sala de aula, procurando o compartilhamento delas, de maneira síncrona, com todos os estudantes. Lembrando que as atividades também podem es- tar mimetizadas em alguns momentos e todos podem utilizar de modos diversos o mesmo material de apoio, compondo cada um uma relação diferente, cada qual dentro do seu potencial. Esses materiais podem e devem ser compartilhados com as famílias, para que elas também compreendam o que se passa em sala de aula e promovam a continuidade dessas atividades em casa. Também es- peramos que as famílias, depois de assistidas e apoiadas nas questões técnicas, como no uso do tablet, possam ter a independência de criar com seus filhos novas atividades e, principalmente, saber compartilhar o cotidiano da família. É uma via de duas mãos. LetMeTalk: aplicativo de comunicação 73 Nesse processo de ensino/aprendizagem quem ganha é a criança, que contará com os recursos profissionais, técnicos e instrumentais para desenvolver seu potencial em sala de aula em uma relação equitativa. A inclusão se faz na prática, construída dia a dia em sala de aula. ATIVIDADES Atividade 1 Quais são os benefícios do uso de sistemas de comunicação suple- mentar e alternativa? Atividade 2 Qual a diferença na interface do aplicativo LetMeTalk do Android para o iOS? Atividade 3 Como a atividade de criação de um calendário pode auxiliar na escola? REFERÊNCIAS ARASAAC – Centro Aragonês de Comunicação Aumentativa e Alternativa. ARASAAC, 2023. Página inicial. Disponível em: https://arasaac.org/. Acesso em: 3 jan. 2023. GUILLEN, G. O livro do olfato. São Paulo: Editora Elo, 2020. PREECE, J.; ROJERS, Y.; SHARP, H. Design de interação: além da interação homem-computador. São Paulo: Bookman, 2005. SARTORETTO, M. L.; BERSCH, R. de C. R. A educação especial na perspectiva da inclusão escolar. Recursos pedagógicos acessíveis e comunicação aumentativa e alternativa. Brasília: Ministério da Educação; Secretaria de Educação Especial, 2010. SOARES, K. L.; MAGER, G. B. Pictogramas, categorias e iconotipos: uma análise em aplicativos de comunicação aumentativa e alternativa (CAA). Revista Brasileira de Design da Informação, São Paulo, v. 17, n. 1, p. 56-72, 2020. https://arasaac.org/ 74 Comunicação suplementar e alternativa 5 CSA: um caminho para a inclusão Neste capítulo compreenderemos como funcionam os processos de inclusão da criança com deficiência por meio do uso de recursos de tec- nologias assistivas e de material pedagógicoadaptado ao sistema de co- municação suplementar e alternativa (CSA). Também discutiremos como é possível criar um trabalho de parceria entre a escola, os familiares e a equipe técnica de saúde, que atendem aos estudantes com deficiência. E, para encerrar, entenderemos qual a importância do trabalho com a CSA para a inclusão de todos os estudantes, com e sem deficiência, e quais são seus desafios ao pensarmos em uma relação mais equitativa. Com o estudo deste capítulo, você será capaz de: • compreender como funcionam os processos de inclusão da crian- ça com deficiência por meio do uso de recursos de tecnologias assistivas e material pedagógico adaptado ao sistema de CSA; • entender como é possível contar com o apoio dos familiares da criança com deficiência; • compreender como pode ser feito o trabalho de parceria entre equipe escolar e equipe técnica de saúde que atendem às crianças com deficiência; • conhecer os maiores desafios que os professores podem encon- trar junto às escolas; • entender a importância do trabalho adaptado ao material de CSA para a inclusão de todos os estudantes, com e sem deficiência. Objetivos de aprendizagem 5.1 Qual é a importância da CSA na escola? Vídeo Em primeiro lugar, é importante retomar nossos estudos sobre comunicação suplementar e alternativa e observar o quanto desse conhecimento os pedagogos tiveram oportunidade de ter contato du- rante sua estadia na universidade. Em uma formação que leva em con- CSA: um caminho para a inclusão 75 sideração a educação inclusiva, é preciso pensar em mais do que uma adaptação curricular no atendimento aos estudantes com deficiência. Devemos construir um ambiente que trabalhe com o sistema CSA e os recursos de tecnologia assistiva como parte do processo de ensino- -aprendizagem. Isso transcende o instrumental desenvolvido para o es- tudante com deficiência. Segundo Deliberato e Donati (2020, p. 10-11), o sistema de comunicação suplementar e alternativa é um grupo integrado do uso dos símbolos visuais, táteis e/ou auditivos que representam um significado com os recursos de baixa e/ou alta tecnologia e as técnicas de acesso aos símbolos utilizadas durante a atuação com CSA […] Recurso: é um material concreto que podemos utilizar para inserir os símbolos. Os re- cursos podem ser de baixa ou alta tecnologia. Os recursos de acessibilidade servem para apoiar o ensino de ma- neira equitativa, colocando os estudantes em pé de igualdade. Os estu- dantes sem deficiência também se beneficiarão desse processo, e esse trabalho será compartilhado por todos os profissionais e familiares, de maneira inter e transdisciplinar. Por isso, o professor deve acessar esse conhecimento, de modo a se apropriar do conteúdo, para poder tro- cá-los com os profissionais especialistas e também apoiar a família do estudante com deficiência. Conforme Carnevale et al. (2013, p. 5): No Brasil, apesar da maioria dos estudos em CA voltarem-se ao campo da Educação e terem se intensificado nos últimos anos, a adoção de suas abordagens no ambiente escolar pode ser consi- derada ainda incipiente principalmente se levarmos em conta as instituições localizadas fora dos pólos regionais já constituídos e reconhecidos como produtores e disseminadores dos conheci- mentos e práticas nessa área. O artigo Comunicação Alternativa no contexto educacional: conhecimento de pro- fessores investigou a visão de profissionais da pedagogia sobre o conhecimen- to e/ou uso da comunicação alternativa nos casos de crianças com paralisia cerebral, não falantes oralmente. Foram entrevistados 23 profissionais que atuam em uma escola de Educação Especial situada no interior do Paraná. O artigo também traz uma relação de teóricos que argumentam sobre a prática da educação inclusiva. Acesso em: 29 dez. 2022. https://www.scielo.br/j/rbee/a/bt5YWJxZBKqkpQMsBSkJrXK/abstract/?lang=pt Artigo https://www.scielo.br/j/rbee/a/bt5YWJxZBKqkpQMsBSkJrXK/abstract/?lang=pt 76 Comunicação suplementar e alternativa Para contribuir para a disseminação desses estudos, é impor- tante lembrar que a CSA utiliza diferentes recursos sensoriais, que facilitam a aprendizagem de todos, pois cada um tem uma via de preferência que auxilia o acesso aos seus estudos. Como os recursos possuem muitos estímulos gráfico-visuais com cores, tamanhos e padronagens diversas, o ensino se torna mais interessante e cria- tivo. Com vimos, esse material pode ser impresso, desenhado ou apresentado num tablet. São muitos os recursos, além do mais, temos a opção de associá-los a um sistema de voz, para tablets e computadores, e também de usar acionadores de diferentes formas, cores e tamanhos, mais ou menos robustos, dependendo da força impressa sobre eles. Podemos trabalhar também quando necessá- rio com texturas diferentes, associadas a cores e formas. Isso vai garantir um atendimento integrado – todos que vão colaborar para esse processo têm de ter acesso às possibilidades e às necessidades do estudante com deficiência. Como vimos antes, desde os objetos concretos, que compõe nosso dia a dia, até o processo de desnaturalização, tudo isso pode e deve fazer parte do trabalho na sala de aula com todos os estudantes. É um processo muito enriquecedor em que temos a oportunidade de “pen- sar fora da caixa” e compartilhar um ensino em que todos são levados em consideração no processo de aprendizagem. Fundamentados no fluxograma para o desenvolvimento de ajudas técnicas, criado por Manzini e Deliberato (2006), apresentaremos pon- tos importantes a serem considerados na utilização de materiais e ob- jetos que auxiliam o aprendizado de estudantes com deficiência. Entender a situação que envolve o estudante: procurando escutar os desejos e vontades, identificar características físicas e psicomotoras, observar o estudante no ambiente escolar e no seu contexto social. (Continua) Gerar ideias: possibilitar a conversa entre o estudante, a família e os colegas; procurar soluções junto à família; pesquisar materiais que podem ser utilizados e alternativas para confecção do objeto/ material. Escolher a alternativa viável: considerar as necessidades a serem atendidas entre o educador/estudante e a disponibilidade de recursos materiais para a confecção, além dos custos. M ay oC re at ive /S hu tte rs to ck CSA: um caminho para a inclusão 77 Representar a ideia (por meio de desenhos, modelos, ilustrações): definir os materiais e as dimensões do objeto – formas, medidas, peso, textura, cor etc. Construir o objeto/ material para experimentação: testá-lo na situação real do uso. Avaliar o uso do objeto/ material: ponderar se atendeu o desejo da pessoa no contexto determinado e verificar se o objeto facilitou a ação do estudante e do educador. Acompanhar o uso: verificar se as condições mudam com o passar do tempo e se há necessidade de fazer alguma adaptação no objeto/material. M ay oC re at ive /S hu tte rs to ck Partindo desses princípios, podemos pensar em criar materiais que possam ser utilizados pelos estudantes com deficiência tendo em vista as suas especificidades. É importante que esse material seja incorpora- do à rotina de sala de aula e que todas as crianças possam ter contato com ele. Por exemplo, na construção de uma rotina de aula, todos os estudantes devem participar. Em um primeiro momento, apresentamos para a criança com deficiência o material que representa as atividades. Na sala de aula, inicia-se com matemática, depois prosseguimos com uma atividade de leitura na biblioteca, em seguida há a hora do recreio, posteriormente uma atividade de artes no ateliê, e por último uma aula de Educação Física na quadra. Para cada uma dessas atividades, haverá uma representação genérica do espaço, por exemplo, e também algo que identifique depois o professor caso seja uma pessoa diferente – cada profissional pode usar uma pulseira diferente, ou um crachá di- ferente, com texturase imagens distintas para se identificar. Para cada uma dessas aulas terá uma atividade específica. 78 Comunicação suplementar e alternativa É interessante que ao final da atividade seja feito um registro, num caderno ou no tablet de CSA, para que o estudante possa compartilhar futuramente com quem fará a atividade seguinte, com seus colegas, e possa contar em casa. Chamamos esse registro de caderno de comunica- ção. É comum as crianças ao retornarem para casa falarem de algumas coisas que fizeram no dia. O caderno de comunicação serve como um livro de memória que será repassado pela criança quantas vezes ela se interessar em contar, por exemplo, o que ela fez na semana passada e o que gostaria de repetir essa semana, e conterá os registros das prin- cipais atividades apresentadas ao estudante com deficiência. No tablet, com o aplicativo LetMeTalk, isso não ficará armazenado, mas o registro poderá ser enviado ao final do dia para um e-mail, podendo ser impres- so e, assim, colocado no caderno de comunicação com o que foi criado ao longo do dia escolar. A utilização do tablet/prancha ao longo do dia escolar será feita pelo professor de apoio, mas este poderá contar com o auxílio do professor do atendimento educacional especializado (AEE) para criar as ativida- des e materiais adaptados. Os recursos de comunicação e recursos pedagógicos que utilizam estratégias da CAA são confeccionados pelo professor do Atendi- mento Educacional Especializado, que ensina o seu aluno a usar e a usufruir as ferramentas de CAA na escola e fora dela. O professor de AEE realiza seu trabalho em estreita parceria com o professor da escola comum, com a família e com outros profissionais, que atuam conjuntamente no caso. (SARTORETTO; BERSCH, 2010, p. 47) Pode ser que a criança já tenha um material adaptado que veio de casa. Para isso, devemos ver como ele pode ser utilizado no contexto escolar e entrar em contato com quem criou – a fonoaudióloga ou terapeuta ocu- pacional – para apoiar esse desdobramento nas atividades de sala de aula. E como podemos trabalhar com a CSA dentro desse contexto escolar? Paulo Freire (1989, p. 9) já nos disse: “a leitura do mundo precede a leitura da palavra”. Esse conceito nos relembra da importância do trabalho com o estudante com deficiência ser contextualizado para todos. Antes mesmo de termos um estudante que necessita utilizar a CSA, podemos mostrar que de alguma forma ela já faz parte da escola. Já que encontramos os pic- togramas como referência de masculino e feminino na frente das portas dos banheiros, por exemplo, podemos da mesma forma fazer outras re- ferências nos demais espaços escolares. Seria muito positivo formar uma CSA: um caminho para a inclusão 79 comissão de estudantes, professores e funcionários que selecionassem qual símbolo estará na porta de entrada dos diferentes locais que com- põem o ambiente escolar: a biblioteca, a sala de computação, a cozinha e o refeitório, por exemplo. Também é interessante analisar como produ- zir esses símbolos de maneira mais universal e que permita apresentar algumas especificidades exigidas por uma criança com deficiência, como tamanho, forma, cor e textura. Diante desse contexto, podemos trabalhar com o conceito de desenho universal. Desenho Universal aplicado a um projeto consiste na criação de ambientes e produtos que possam ser usados por todas as pessoas, na sua máxima extensão possível […] O conceito de Desenho Universal surgiu em decorrência de reivindicações de dois segmentos sociais. O primeiro composto por pessoas com deficiência que não sentiam suas necessidades contempladas nos espaços projetados e construídos. O segundo formado por arquitetos, engenheiros, urbanistas e designers que desejavam maior democratização do uso dos espaços e tinham uma visão mais abrangente da atividade projetual. (SÃO PAULO, 2010, p. 14) Democratizar as informações do desenho universal fará com que mais pessoas possam apoiar a entrada de um estudante com deficiên- cia, compreendendo essa relação de equidade e, ao mesmo tempo, trazendo o compromisso de todos nesse processo. Essa poderá ser a porta de entrada para discutir a acessibilidade na escola como um todo: A vaga de estacionamento foi pintada no local correto? Existe uma rampa na entrada mais próxima? Os brinquedos do parquinho são acessíveis para todos? Existe a necessidade de criar rampas ou co- locar um elevador para facilitar o acesso à quadra ou à horta comunitá- ria? Esses são exemplos práticos de casos que os pais das crianças com deficiência podem perceber nas escolas. Essa é uma discussão ampla que envolve questões muito maiores que as de acessibilidade comunicacional, principalmente sobre como vencer as barreiras atitudinais. Essas envolvem as atitudes ou compor- tamentos que impedem ou prejudicam a participação social da pessoa com deficiência em igualdade de condições e oportunidades com as demais pessoas. Sendo assim, como podemos contribuir para cocriar essa escola de educação inclusiva, na qual todos se sintam fazendo parte dela? Veremos agora, mais especificamente, como fazer esse tra- balho em parceira com a família e com a equipe terapêutica. 5.2 Escola, família e terapeutas: como trabalhar juntos Vídeo É relevante começarmos reconhecendo os direitos garantidos pela Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Estatuto da Pes- soa com Deficiência) no que tange aos familiares dos estudantes. Con- forme o artigo 8º, está assegurada a “participação dos estudantes com deficiência e de suas famílias nas diversas instâncias de atuação da co- munidade escolar” (BRASIL, 2015). Diante desse contexto, é sempre bom lembrar que, para a educação inclusiva se fazer na prática, é importante contar com o apoio da família de todos os estudantes – não há quem saiba mais da realidade daquela criança e quem possa trazer mais informações valiosas para contribuir para o trabalho dentro do ambiente escolar. A LBI também garante, no seu artigo 7º, “um atendimento educacional especializado, de orga- nização de recursos e serviços de acessibilidade e de disponibilização e usabilidade pedagógica de recursos de tecnologia assistiva” (BRASIL, 2015). Esse ponto é imprescindível de ser colocado. Há famílias que não sabem dos direitos das pessoas com deficiência, por isso é essencial a escola apoiar e esclarecer o que pode oferecer ao estudante com deficiência. Se for o caso, encaminhar a questão para uma professora de sala de recurso que seja especializada na área para que ela possa indicar quais os recursos de tecnologia assistiva são mais apropriados para o estudante e como solicitar junto aos órgãos públicos, no caso do Ensino Regular de uma escola municipal ou estadual. Ja re n Ja i W ic klu nd /S hu tte rs to ck 8080 Comunicação suplementar e alternativaComunicação suplementar e alternativa CSA: um caminho para a inclusão 81 Os professores e familiares também devem buscar apoio nos Ambu- latórios de Saúde Especializados a fim de fazer parcerias com os terapeu- tas, para esses profissionais apoiarem a escola em um momento que o aluno precisará de um diagnóstico preciso, ou tirar alguma dúvida, como a implementação de um material de apoio de CSA. Segundo a Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia: Qualquer alteração na compreensão e/ou na expressão da lin- guagem oral e escrita deve ser investigada. A família pode e deve ser orientada a respeito da Comunicação Suplementar e Alter- nativa (CSA) e como esta área de conhecimento pode contribuir para a aquisição e o desenvolvimento da linguagem de crianças e jovens com necessidades complexas de comunicação desde muito cedo. (DELIBERATO; DONATI, 2020, p. 2) Com o conhecimento nas mãos, família e escola podem fazer uma par- ceria que visa, em primeiro lugar, ao bem-estar do estudante com deficiên- cia, apoiando-o em suas singularidades e o colocando em pé de igualdade com seus colegas de sala de aula. Quanto mais esclarecida, mais a famíliapoderá lutar pelos direitos de seus filhos e colaborar com os professores. Trabalho em equipe: escola e atendimento terapêutico O trabalho com a tecnologia assistiva envolve uma equipe inter e transdisciplinar, constituída de especialistas, como fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, fisioterapeutas, psicólogos, enfermeiras, as- sistentes sociais, oftalmologistas, ortoptistas, otorrinos, audiologistas, ortopedistas, protéticos, e engenheiros, por exemplo. Essas equipes são construídas com base nas necessidades de cada pessoa com defi- ciência, sempre considerando o lugar que ela vive e estuda. Dessa for- ma, os educadores são parte importante nesse processo, tanto quanto os familiares. No eixo principal está a pessoa com deficiência que vai nos mostrar quais são suas necessidades e anseios. Procuramos levar o apoio necessário para que todos os envolvidos estejam esclarecidos com relação ao lugar que essa pessoa ocupa. Onde ela está e para onde poderá ir? Nessa caminhada, devemos pensar no presente: Como a pessoa com deficiência está hoje? É muito importante que o professor que atua com o AEE possa fazer a ponte entre o professor de sala de aula e os profissionais da área da saúde. Também pode ocorrer que na sua escola não tenha uma sala de O material Perguntas e respostas a respeito da co- municação suplementar e alternativa para familiares de crianças e jovens com necessidades complexas de comunicação tem o intuito de instruir e alertar famílias de crianças e jovens com necessidades complexas de comunica- ção sobre a possibilidade deles apresentarem algum transtorno de linguagem, de fala, de escrita, de sinais – ou qualquer empecilho que afete a comunicação – em qualquer etapa da vida. As questões são apresenta- das de maneira didática e auxiliarão os familiares a detectar e buscar auxílio para seus filhos, além de instruir sobre a importân- cia da CSA. Esse material pode ser um ponto inicial para uma discussão que envolva toda a escola, os professores, os funcioná- rios e os estudantes. Disponível em: https://www.sbfa. org.br/portal2017/campanhas/ campanha-comunicacao- suplementar-e-alternativa/pdf/faq- pdf.pdf. Acesso em: 29 dez. 2022. Leitura https://www.sbfa.org.br/portal2017/campanhas/campanha-comunicacao-suplementar-e-alternativa/pdf/faq-pdf.pdf https://www.sbfa.org.br/portal2017/campanhas/campanha-comunicacao-suplementar-e-alternativa/pdf/faq-pdf.pdf https://www.sbfa.org.br/portal2017/campanhas/campanha-comunicacao-suplementar-e-alternativa/pdf/faq-pdf.pdf https://www.sbfa.org.br/portal2017/campanhas/campanha-comunicacao-suplementar-e-alternativa/pdf/faq-pdf.pdf https://www.sbfa.org.br/portal2017/campanhas/campanha-comunicacao-suplementar-e-alternativa/pdf/faq-pdf.pdf recurso, mas exista um professor especialista em Educação Especial. Tanto o professor especialista quanto o da sala de recursos poderão auxiliar na criação de uma rede entre as necessidades do estudante com deficiência na escola, os profissionais da área da saúde e a família, compartilhando como é a realidade de sala de aula e o dia a dia escolar. Dessa forma, esse conhecimento poderá ser levado para o professor que atua direto em sala de aula e para os colegas de turma, assim eles também poderão colaborar para esse contexto. Quanto mais naturali- zado for o uso de sistemas de comunicação suplementar e alternativa e dos recursos de tecnologias assistivas, mais próximos estaremos de uma Educação Equitativa e Inclusiva. Vale a pena ressaltar no artigo 1º do Decreto n. 6.979 o propósito da Convenção dos Direitos da Pessoa com Deficiência: promover, proteger e assegurar o exercício pleno e eqüitativo de todos os direitos humanos e liberdades fundamentais por todas as pessoas com deficiência e promover o respeito pela sua dig- nidade inerente. Pessoas com deficiência são aquelas que têm impedimentos de longo prazo de natureza física, mental, intelec- tual ou sensorial, os quais, em interação com diversas barreiras, podem obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade em igualdades de condições com as demais pessoas. (BRASIL, 2009) Vale também lembrar que sempre que possível é importante que os terapeutas que atuam com o estudante com deficiência possam fa- zer uma visita à escola e ter um conhecimento in loco. Esse trabalho de observação não deve ser invasivo, e sim ser contextualizado para a sala, por isso a im- portância dos colegas de turma fazerem parte desse processo. O especialista pode fazer parte de alguma atividade específica. Por exemplo, a fonoaudiólo- ga pode fazer uma visita na hora do re- creio, ela poderá comer junto às crianças e conhecer o paciente num momento de descontração com o grupo – não para aten- dê-lo nesse momento, mas apenas para acompanhar o processo. Da mesma for- ma o fisioterapeuta poderá fazer parte da aula de Educação Física; e a terapeu- ta ocupacional, da atividade de Artes. AB O PH OT OG RA PH Y/ Sh ut te rs to ck 8282 Comunicação suplementar e alternativaComunicação suplementar e alternativa https://www.shutterstock.com/pt/g/Andrea+Obzerova CSA: um caminho para a inclusão 83 Devemos trabalhar por aproximação, dentro da realidade escolar, não descolada dela. Nesse contexto, todos poderão acompanhar como o estudante com deficiência se comunica, como faz uso de sua prancha, tablet ou objetos concretos, como o professor de apoio está atuando nessa relação, e como o estudante interage com os colegas. Podemos também escutar os colegas, não fazendo perguntas diretas, mas com- pondo com a rotina escolar. Quanto mais mimetizado o terapeuta esti- ver na escola, mais natural será para o estudante com deficiência. Com base nessas informações colhidas, em um segundo momento é necessário marcar um encontro para poder escutar o professor de sala de aula e ouvir suas dúvidas e questionamentos. Se houver opor- tunidade, será muito enriquecedora a presença do professor de apoio e do professor de sala de recurso juntos – cada um vive uma parte da realidade do estudante com deficiência, mas, todos, a princípio, cami- nham em prol do trabalho para uma inclusão efetiva. Se houver a opor- tunidade de marcar mais um outro encontro para poder falar como foi a experiência na sala de aula depois das sugestões apresentadas – que visam contribuir para um trabalho mais efetivo com a CSA e com os recursos de tecnologias assistivas no ambiente escolar –, melhor. Isso leva tempo e o comprometimento de todos é importante. Caso seja possível ainda, vale convidar um familiar mais próximo do estudante com deficiência para compor a reunião da equipe; ele será de grande valia para, inclusive, dizer o que já foi efetivado em casa e que, por ven- tura, pode ainda não ter sido alcançado em sala de aula, ou vice-versa. Para contribuir com essa discussão, Pelosi e Nunes (2011) apresen- tam os benefícios observados pelo uso dos recursos de tecnologias as- sistivas, incluindo, entre elas, a comunicação suplementar e alternativa no ambiente escolar, pensando na relação entre equipe educacional, profissionais da saúde, familiares e estudantes com deficiência: Os benefícios observados pelo uso dos recursos de Tecnologia As- sistiva foram: o desenvolvimento de uma comunicação alternativa à fala; mudança de atitude do aluno com maior envolvimento e par- ticipação nas tarefas; aumento da auto-estima; melhor posiciona- mento na postura sentada dentro e fora da sala de aula; melhora na comunicação com a professora e maior proximidade com os colegas; maior participação nas aulas complementares como Edu- cação Física e Artes; possibilidade de escrita autônoma; melhora na relação com a família; independência nas atividades de vida diária e participação nas atividades de lazer. (PELOSI; NUNES, 2011, p. 58) 84 Comunicação suplementar e alternativa O artigo A ação conjunta dos profissionais da saúde e da educação na escola inclusiva tem como objetivo avaliar se a introdução da tecnologia assistiva favoreceu a inclusãode estudantes com paralisia cerebral. A pesquisa se deu em quatro escolas regulares do município do Rio de Janeiro por meio de uma ação conjunta entre profissionais da saúde e educação. Os resultados dessa ação compreenderam situações de aprendizagem que favoreceram a inclusão escolar e a aproximação entre professores e alunos. Acesso em: 29 dez. 2022. https://www.revistas.usp.br/rto/article/view/14120 Artigo E agora nos defrontaremos com os desafios que podemos encontrar nessa jornada – começando com as questões conceituais. 5.3 Desafios da comunicação suplementar e alternativa Vídeo Sabemos que, à medida que o tempo passa, as terminologias vão se alterando e se ajustando, criando novas nomenclaturas. Da mesma forma, a educação caminhou de um ensino mais segregado para uma educação mais inclusiva. Essa transformação também aconteceu com o termo pessoa com deficiência. Tivemos momentos, primeiramente, que denominamos essas pessoas apenas como deficientes ou portadores de deficiência e, infelizmente, muitas outras terminologias pejorativas e de menos valia foram utilizadas. Não acreditamos ainda que dividir as pessoas como sem deficiência ou com seja a melhor forma, pois há um estigma na pa- lavra com deficiência, que vem reverberando historicamente. Portanto, é importante colocarmos a palavra pessoa à frente nos dois casos, por uma questão ética e de valoração. Isso também está acontecendo com a forma como nos dirigimos aos usuários de sistemas de comunicação suplementar e alternativa, chamados agora de pessoas com necessidades complexas de comuni- cação (NCC). Seguindo o mesmo argumento, a palavra pessoa vem à frente do conceito, seguida de sua adjetivação. Esse movimento vem de encontro a uma necessidade de como podemos nos autodeclarar e também garantir nossos direitos perante a lei. A questão é que muitas pessoas com necessidades complexas de comunicação também po- https://www.revistas.usp.br/rto/article/view/14120 CSA: um caminho para a inclusão 85 dem vir acompanhadas de necessidades físicas e/ou neurológicas, por se tratarem de usuários de cadeira de rodas, de andadores, bengalas e muletas, por exemplo – pode ser uma somatória de necessidades que tornam o caso complexo. Além disso, essa pessoa com necessidades complexas de comunicação pode ter associada uma deficiência senso- rial, principalmente relacionada ao déficit visual e/ou auditivo. Confor- me Rodrigues et al. (2016, p. 696): “Entende-se por pessoas com NCC aquelas que, devido a uma ampla gama de causas físicas, sensoriais e ambientais apresentam restrições e limitações em suas habilidades comunicativas que interferem diretamente na sua capacidade de parti- cipar de forma independente na sociedade”. O artigo O uso da comunicação suplementar e alternativa como recurso para a interpretação de livros de literatura infantil relata como foi possível constatar a eficácia da comunicação suplementar e alternativa como recurso pedagógico e de apoio em atividades de compreensão e interpretação de histórias em sala de aula por sete estudantes com necessidades complexas de comunica- ção e com paralisia cerebral. Foi possível observar estudantes com comprometimento ou ausência de fala que apresentaram dificuldade nas atividades de sala de aula e que foram beneficiados com a comunicação suplementar e alternativa, que mediou a comunicação entre esses estudantes, seus colegas e professores. Acesso em: 29 dez. 2022. https://www.scielo.br/j/rcefac/a/ctkGknQfjGWNFLsDtNp7MJs/?format=pdf&lang=pt Artigo Sendo assim, conhecer o estudante com deficiência em sua integra- lidade é o primeiro passo para um bom trabalho. É preciso ficar atento às questões relacionadas à saúde e se necessário fazer os devidos en- caminhamentos, além de conversar com a família, buscando conhecer o cotidiano de casa. Também é relevante saber das crenças da família, o que é mais importante para esse aluno – e compreender que isso vai muito além dos muros da escola, pois é necessário conhecer a realida- de do estudante para saber como planejar suas atividades e apoiá-lo em suas rotinas. Outro desafio é o estudante utilizar o sistema de comunicação su- plementar e alternativa apenas durante a reabilitação com a fonoaudió- loga e a terapeuta ocupacional, por exemplo. É certo que a família e a escola devem abraçar esse processo e, cada qual, saber como utilizá-lo nos seus diferentes contextos. O mais importante é lembrar que mais do que realizar atividades pedagógicas adaptadas, o sistema de comu- https://www.scielo.br/j/rcefac/a/ctkGknQfjGWNFLsDtNp7MJs/?format=pdf&lang=pt 86 Comunicação suplementar e alternativa nicação suplementar e alternativa se presta para que a pessoa com de- ficiência possa desenvolver sua autonomia no campo da comunicação/ linguagem. O tempo todo nos comunicamos e somos questionados sobre nossos desejos, vontades e habilidades. Por isso, os estudantes com necessidades complexas de comunicação devem ter seus direitos garantidos para que possam participar de maneira ativa em sala de aula e interagir com os colegas e profissionais de modo mais independente. Espera-se que a fala oralizada seja o mais comum entre nós, mas de- vemos lembrar que podemos falar de muitas formas: com as mãos, por meio da Língua Brasileira de Sinais e de gestos naturais; falamos com as expressões e o olhar; falamos com um sistema de voz sintetizada de um tablet ou computador… São muitas as possibilidades. É impor- tante que não se tenha uma hierarquia, o melhor é que todos possam desenvolver sua autonomia no campo da expressão, seja ela qual for. Às vezes, as pessoas com necessidades complexas de comunicação necessitam de apoio para utilizar sua prancha, tablet ou computador. O mediador nessa relação deve se isentar de suas colocações parti- culares e aguardar o tempo da pessoa com necessidades complexas de comunicação. Para tanto, ele necessita conhecer bem o estudante com deficiência, suas expressões e os gestos naturais que utiliza como apoio, como também sua fala – essa pode apresentar uma restrição, uma distorção ou ser totalmente ausente. As diferentes formas de ex- pressão devem ser valorizadas por todos os professores, cuidadores e colegas. Devemos caminhar para uma educação em que a diversidade é valorizada e saber que cada indivíduo tem o potencial de aprender e contribuir para o ambiente escolar. Para mim essa jornada não iniciou hoje, nem termina aqui. Tive a oportunidade de trabalhar por mais de 25 anos como fonoaudióloga, especialista em CSA. Pude ver o começo da implantação desse serviço no Brasil, quando um grupo de brasileiros profissionais da área da saúde e alguns engenheiros fizeram parte de um congresso de Comunicação Alternativa na Espanha, e cada qual em sua região foi desenvolvendo suas pesquisas, que buscaram implantar esse importante trabalho. Hoje temos a ISAAC-Brasil, um capítulo oficial da Isaac International Society for Augmentative and Alternative Communication, que reúne mui- tos profissionais que se dedicam à pesquisa e à disseminação da CSA. Foram muitas conquistas até então, inclusive a instituição do outubro como Mês da Conscientização da Comunicação Alternativa. (Continua) O livro Inclusão escolar: o que é? por quê? como fazer?, em particular, aproxima- -nos de uma escola aberta incondicionalmente a todos os alunos, sem dis- criminações, portanto, uma escola inclusiva. Também aborda os aspectos da formação do professor e propõe direcionamentos, como grupos de estudos, para que os próprios pro- fessores possam encontrar apoio entre si. É uma opor- tunidade de pensar como a comunicação suplementar e alternativa pode fazer parte dessa escola inclusi- va, que se repensa e recria, fundamentada na realida- de de cada comunidade. MANTOAN, M. T. E. São Paulo: Moderna, 2003. Livro Relato da autora CSA: um caminho para a inclusão 87 Mas posso dizer que também estamos distantes de uma realidade mais equitativa. Digo isso por experiênciaprópria, depois de atuar por quase 20 anos na área apoiando famílias com filhos com necessidades complexas de comunicação, eu me tornei mãe de um menino com deficiência. Ele nasceu com um quadro neurológico e, por conta disso, hoje, necessita utilizar um andador para se locomover, pois tem a mobilidade reduzida, e um tablet de comunicação para suplementar sua fala oral. Mesmo eu já tendo todo esse conhecimento e experiência, isso não garantiu que meu filho tivesse melhores oportunidades dentro da escola. Deparamo-nos com grandes desafios quan- do propunha fazer parcerias para garantir que ele pudesse utilizar sistemas de CSA em sala de aula. Da mesma forma que compartilhei com vocês neste livro, fiz com as professoras de meu filho. Ele começou desde muito pequeno no Ensino Regular em uma escola de primeira infância. No início, foi utilizado um caderno de desenho como um caderno de comunicação, no qual se faziam os registros das principais atividades junto a sua professora e a nós (a família), com as atividades que despertavam maior interesse dele em casa, nos finais de semana. Isso era muito difícil para os professores, e a maioria não tinha esse conhecimento ainda, nem tinha visto em sua formação universitária. Figura 1 Caderno de comunicação – atividades a ) Sobre papel branco, pintura a dedo com as cores azul, verde e vermelho. b) Colagem de figuras geométricas coloridas. c) Colagem de areia. Fonte: Daniella Forchetti. Meu filho estudou em escolas particulares pequenas até completar o 2º ano do Fundamental 1, sempre com uma professora e uma outra assisten- te. Geralmente, a assistente desempenhava a função de uma professora de apoio, mas não era sempre que estava disponível. A melhor experiência escolar que tive com ele foi na primeira infância, em que teve a oportunidade de ficar por quase três anos em uma escola montesso- riana. O ambiente preparado e organizado não só o auxiliou como também observo que lhe propiciou desenvolver uma maior independência, como todos os seus colegas. Os materiais concretos serviram para ele e todos os outros, facilitando a aprendizagem de modo geral. Infelizmente, não tivemos mais como dar continuidade a esse método pois a escola que frequentava não tinha continuidade. Na nossa região havia uma única escola que estava iniciando o Fundamental 1 com esse método e que não era bilíngue, mas ficava em um prédio de três andares, sem elevador – o que demonstra que a escola não tinha a preocupação com a inclusão. Tentamos depois outras escolas que se intitulavam como baseadas em projetos – nenhuma deu certo. Infelizmente, (Continua) 88 Comunicação suplementar e alternativa essas foram nossas piores experiências. Foi então que eu comecei a perceber a necessidade de compartilhar mais sobre trabalhos no cam- po da acessibilidade, fazendo formações e atuando como uma artista pesquisadora. Depois da pandemia que ocorreu por conta do coronavírus em 2020, nós decidimos migrar para uma escola pública. Já são quase dois anos desde então. Creio que se temos que contribuir para a melhoria do ensino, ela deva começar na escola pública. Podem ter certeza que ainda enfrentamos muitos desafios, mas creio que todas as mudanças conquistadas que buscamos para nosso filho reverberam para a qua- lidade de toda a escola. CONSIDERAÇÕES FINAIS Neste nosso último capítulo, procuramos compartilhar quais são os potenciais desafios enfrentados por profissionais da área da educação e da área da saúde e pelos familiares de pessoas com necessidades com- plexas de comunicação, além de considerar nesse processo a importância da CSA nas escolas, o papel da família e o trabalho em equipe. Sabemos que cada comunidade escolar é uma realidade, mas pudemos acompa- nhar ao longo desse livro como as considerações de profissionais que se dedicaram a estudar a comunicação suplementar e alternativa (CSA) podem contribuir para a criação de uma ambiente escolar mais inclusivo. Estamos aqui com a intenção de oferecer uma formação com mais qualidade a fim de que os professores possam se apropriar de conceitos importantes para atuarem numa escola de educação inclusiva e eman- cipatória. Essa realidade só será possível com o comprometimento de todos vocês e o apoio das famílias dos estudantes com necessidades complexas de comunicação. Segundo Mantoan (2003, p. 8): “estamos ‘ressignificando’ o papel da escola com professores, pais, comunidades interessadas e instalando, no seu cotidiano, formas mais solidárias e plu- rais de convivência. É a escola que tem de mudar, e não os alunos, para terem direito a ela!”. Essa jornada não termina aqui, ela é apenas o início de um longo trabalho para que possamos oferecer melhores condições de modo que estudantes com e sem deficiência encontrem uma escola em que todos sejam bem-vindos! CSA: um caminho para a inclusão 89 ATIVIDADES Atividade 1 Com base no fluxograma para o desenvolvimento de ajudas técnicas, explique pelo menos três pontos a serem considerados na utilização de materiais e objetos para auxiliar o aprendizado de estudantes com deficiência. Atividade 2 Qual a importância da visita dos terapeutas que acompanham o estudante com deficiência na escola? Atividade 3 Com quais outras formas podemos nos comunicar que não so- mente a fala oralizada? REFERÊNCIAS BRASIL. Decreto n. 6.949, de 25 de agosto de 2009. Diário Oficial da União, Poder Executivo, Brasília, DF, 25 ago. 2009. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007- 2010/2009/decreto/d6949.htm. Acesso em: 29 dez. 2022. BRASIL. Lei n. 13.146 de 6 de Julho de 2015. Diário Oficial da União, Poder Executivo, Brasília, DF, 6 jul. 2015. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/ lei/l13146.htm. Acesso em: 29 dez. 2022. CARNEVALE, L. B. et al. Comunicação Alternativa no contexto educacional: conhecimento de professores. Rev. bras. educ. espec., v.19, n. 2, jun. 2013. DELIBERATO, D.; DONATI, G. C. F. Perguntas e Respostas a respeito da Comunicação Suplementar e Alternativa para familiares de Crianças e Jovens com Necessidades Complexas de Comunicação. São Paulo: Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia, 2020. Disponível em: https://www.sbfa.org.br/portal2017/campanhas/campanha-comunicacao-suplementar-e- alternativa/pdf/faq-pdf.pdf. Acesso em: 29 dez. 2022. FREIRE, P. A importância do Ato de Ler: em três artigos que se completam. São Paulo: Cortez Editora, 1989. https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2009/decreto/d6949.htm https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2009/decreto/d6949.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13146.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13146.htm https://www.sbfa.org.br/portal2017/campanhas/campanha-comunicacao-suplementar-e-alternativa/pdf/faq-pdf.pdf https://www.sbfa.org.br/portal2017/campanhas/campanha-comunicacao-suplementar-e-alternativa/pdf/faq-pdf.pdf 90 Comunicação suplementar e alternativa MANTOAN, M. T. E. Inclusão escolar: o que é? por quê? como fazer? São Paulo: Moderna, 2003. MANZINI, E. J.; DELIBERATO, D. Portal de ajudas técnicas para educação: equipamento e material pedagógico especial para educação, capacitação e recreação da pessoa com deficiência física: recursos para comunicação alternativa. 2. ed. Brasília, DF: Ministério da Educação/Secretaria de Educação Especial, 2006. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/ seesp/arquivos/pdf/ajudas_tec.pdf. Acesso em: 29 dez. 2022. PELOSI, M. B.; NUNES, L. R. D. P. A ação conjunta dos profissionais da saúde e da educação na escola inclusiva. Revista de Terapia Ocupacional da Universidade de São Paulo, v. 22, n. 1, p. 52-59, jan./abr. 2011. RODRIGUES, V. et al. O uso da comunicação suplementar e alternativa como recurso para a interpretação de livros de literatura infantil. Rev. CEFAC, v.18, n. 3, 2016. SÃO PAULO. Governo do Estado de São Paulo. Desenho Universal: habitação de interesse social. São Paulo: CDHU- Superintendência de Comunicação Social, mar. 2010. Disponível em: http://www.mpsp.mp.br/portal/page/portal/Cartilhas/manual-desenho-universal.pdf. Acesso em: 29 dez. 2022. SARTORETTO, M. L.; BERSCH R. C. R. A Educação Especial na Perspectiva da Inclusão Escolar Recursos Pedagógicos Acessíveis e Comunicação Aumentativa e Alternativa. Brasília, DF: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Especial; Fortaleza: Universidade Federal do Ceará, 2010. http://portal.mec.gov.br/seesp/arquivos/pdf/ajudas_tec.pdf http://portal.mec.gov.br/seesp/arquivos/pdf/ajudas_tec.pdf http://www.mpsp.mp.br/portal/page/portal/Cartilhas/manual-desenho-universal.pdf Resolução das atividades 1 Conceitos básicos 1. Qual a importância da amamentação para a comunicação dos bebês? A amamentação é importante porque estimula todo o sistema orofacial (lábios, língua e bochechas) do bebê com o intuito de que, no futuro, o bebê possa desenvolver a linguagem oral e a comunicação receptiva e expressiva. 2. Qual a diferença entre comunicação suplementar e alternativa? A comunicação alternativa está relacionada a um conjunto de recursos de tecnologias assistivas desenvolvido junto às pessoas com deficiência que não oralizam ou não têm uma fala funcional e que necessitem de um apoio para se expressar/relacionar. Já a comunicação suplementar (que também é conhecida como aumentativa) complementa a fala, ampliando a comunicação, e é voltada para pessoas com deficiência que tenham desenvolvido parcialmente a linguagem oral. 3. Quais são os benefícios da comunicação suplementar e alternativa? Os benefícios da CSA podem ser: tornar mais autônoma a vida de estudantes com deficiência; aprender uma forma funcional de comunicação; tornar mais independentes as atividades acadêmicas; auxiliar e ampliar as possibilidades de tomada de decisões; ampliar a quantidade de interlocutores e melhorar da qualidade de vida e autoestima do estudante. 2 Programa de comunicação de Jan Van Dijk 1. Por que é importante selecionar apenas um professor de apoio no início do trabalho desenvolvido com um estudante com deficiência? No primeiro momento, o trabalho será voltado para estabelecer o vínculo/contato do professor com seu novo estudante. É muito importante que o professor esteja atento aos sinais apresentados pela criança, a forma como ela percebe o mundo, como se relaciona e como se expressa e, para isso, ele necessita de tempo e uma interação direta com a criança. Procurando criar uma relação genuinamente afetiva, a criança vai sentir confiança no profissional, o que aumenta a possibilidade de mostrar seu potencial. Resolução das atividades 91 2. Apresente as características principais da Língua Brasileira de Sinais. A Língua Brasileira de Sinais é conhecida como Libras, uma língua visual e acontece por meio do corpo e das expressões faciais combinadas. Ela é considerada a segunda língua no Brasil, utilizada principalmente por pessoas surdas. 3. Explique alguns exemplos de atividades de vida diária (AVD). O estudante com deficiência pode aprender a se servir de seu lanche na hora do recreio, comer junto com os colegas, escolher quais alimentos são de sua preferência, aprender a descartar o lixo orgânico e os recicláveis. Aprender a se vestir sozinho ou com auxílio, escovar os dentes, lavar as mãos e o rosto, trocar de roupa, entre outros. 3 Do concreto ao abstrato 1. Antes de confeccionar o material de apoio para o estudante com deficiência, o que é importante o professor compreender? O professor precisa compreender a situação do estudante com deficiência no contexto escolar, os ambientes que ele frequenta e quem são seus interlocutores. 2. Diferencie os conceitos de imagem e de pictograma. A imagem diz respeito ao que observamos com nossos olhos. Não basta enxergar, somos criados numa cultura que nos insere num mundo visual nomeado e aprendemos a reconhecer e a distinguir objetos, pessoas e lugares. O pictograma é um símbolo que representa um objeto ou conceito por meio de figuras. Pode ser usado de modo individual ou na construção de uma escrita com desenhos. 3. Para a confecção de um livro adaptado, aborde pelo menos duas possibilidades de criação dessa atividade. Impressão de material utilizando os pictogramas para formação da história; gravação da audiodescrição para confecção de um audiolivro; gravação de um intérprete de Libras para a confecção de um videolivro. 92 Comunicação suplementar e alternativa 4 LetMe Talk: aplicativo de comunicação 1. Quais são os benefícios do uso de sistemas de comunicação suplementar e alternativa? Os benefícios são: melhora da atenção e concentração nas atividades; colaboração da percepção e do reconhecimento das informações; e auxílio da memória e do aprendizado, facilitando recordar os vários tipos de conhecimento. Os materiais relacionados ao programa de comunicação suplementar e alternativa criados na escola podem e devem ser compartilhados com as famílias, para que elas também compreendam o que se passa em sala de aula e deem continuidade em casa. Também esperamos que as famílias, depois de assistidas e apoiadas nas questões técnicas no uso do tablet, possam ter a independência de criar com seu filho novas atividades e, principalmente, saber compartilhar do cotidiano da família. É uma via de duas mãos. Quem ganha é a criança nesse processo de ensino/aprendizagem, pois contará com os recursos profissionais, técnicos e instrumentais para desenvolver seu potencial em sala de aula em uma relação equitativa. 2. Qual a diferença na interface do aplicativo LetMeTalk do Android para o iOS? Os ícones são distribuídos de modo diferente na barra superior e inferior. Na versão Android, os ícones são distribuídos no canto superior direito e representam as ações: apagar o pictograma; enviar por e-mail ou compartilhar; (+) adicionar imagem/pictograma, tirar uma foto, adicionar imagem/foto da galeria ou adicionar nova categoria; doação; e menu de configurações. Na versão para iOS, no canto superior direito há o ícone (+) adicionar imagem/pictograma, tirar uma foto, adicionar imagem/foto da galeria ou adicionar nova categoria. Na barra inferior, no canto direito, está a lixeira, que servirá para apagar as imagens da barra principal de escrita/leitura. No canto inferior esquerdo está o ícone de uma engrenagem, que se refere às configurações, bem como às opções compartilhar, suporte e dados da licença. 3. Como a atividade de criação de um calendário pode auxiliar na escola? O calendário passa a apoiar a criança na compreensão da rotina escolar e, quando possível, dá a ela a possibilidade de opinar nas atividades ou na sequência que será apresentada no dia ou na semana. Também apoia a memorização e ajuda a criança a se sentir mais segura dentro dessa experiência. Resolução das atividades 93 5 CSA: um caminho para a inclusão 1. Com base no fluxograma para o desenvolvimento de ajudas técnicas, explique pelo menos três pontos a serem considerados na utilização de materiais e objetos para auxiliar o aprendizado de estudantes com deficiência. • Procurar escutar os desejos e vontades do estudante; identificar ca- racterísticas físicas e psicomotoras; e observar o estudante no am- biente escolar e no seu contexto social. • Possibilitar a conversa entre o estudante, a família e os colegas; procurar soluções junto à família; e pesquisar materiais que podem ser utilizados e alternativas para confecção do objeto/material. • Considerar as necessidades a serem atendidas entre o educador/ estudante e a disponibilidade de recursos materiais para a confec- ção e os custos. • Definir os materiais, as dimensões do objeto – formas, medidas, peso, textura, cor etc. • Construir o objeto/material para experimentação na situação real do uso. • Considerar se o objeto atendeu ao desejo da pessoa no contexto determinado; e verificar se o objeto facilitou a ação do estudante e do educador. • Verificar se as condiçõesmudam com o passar do tempo e se há necessidade de fazer alguma adaptação no objeto/material. 2. Qual a importância da visita dos terapeutas que acompanham o estudante com deficiência na escola? Para poder observar como o estudante com deficiência interage com o professor, cuidador e colegas de turma. A partir disso, deve-se marcar uma reunião com professor de sala de aula e, preferencialmente, com a presença dos professores de apoio e da família. Também podemos contar com a presença do professor de Educação Especial e da sala de recurso. Cada um deles vivencia uma parte da vida do estudante e será importante os terapeutas conhecerem todos os contextos para poderem auxiliar e tirar dúvidas. 3. Com quais outras formas podemos nos comunicar que não somente a fala oralizada? Podemos nos comunicar apontando as coisas com as mãos, com gestos naturais, com as expressões, o olhar, a voz sintetizada, entre outros. 94 Comunicação suplementar e alternativa DANIELLA FORCHETTI SUPLEMENTAR E ALTERNATIVA COMUNICAÇÃO C om unicação suplem entar e alternativa D aniella Forchetti9 786558 212157 ISBN 978-65-5821-215-7 Código Logístico I000876