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DIREITO EMPRESARIAL Pág. 1 de 265 Sumário Teoria Geral do Direito Empresarial ............................................................................................................................ 2 Requisitos para o exercício da atividade empresarial ................................................................................................ 5 Atividades não empresariais ..................................................................................................................................... 20 Espécies de empresários ............................................................................................................................................ 27 Requisitos para o incapaz continuar atividade empresária ..................................................................................... 36 Alienação de imóveis pelo empresário casado ......................................................................................................... 39 Estabelecimento empresarial .................................................................................................................................... 42 Registro da atividade empresarial ............................................................................................................................ 51 Nome empresarial ..................................................................................................................................................... 54 Estatuto da Micro e Pequena Empresa ..................................................................................................................... 57 Marco legal das Startups ........................................................................................................................................... 70 LEI Nº 9.609/1998 – LEI DE SOFTWARE ..................................................................................................................... 75 Sistema Brasileiro de Defesa da Concorrência (SBDC) ............................................................................................. 81 Títulos de crédito ....................................................................................................................................................... 91 Sociedades .................................................................................................................................................................. 95 Modificação das estruturas societárias ................................................................................................................... 145 Contratos Empresariais ............................................................................................................................................ 150 Propriedade Industrial ............................................................................................................................................. 169 Recuperação judicial de empresas .......................................................................................................................... 185 Recuperação extrajudicial ....................................................................................................................................... 208 Falência ..................................................................................................................................................................... 217 Participações societárias ......................................................................................................................................... 260 Grupo econômico ..................................................................................................................................................... 261 Consolidação processual e consolidação substancial na recuperação de empresas ............................................ 261 Pág. 2 de 265 SUMÁRIO Teoria Geral do Direito Empresarial 1. Conceito de empresário a) Histórico – Teoria dos Atos do Comércio b) Histórico – Teoria da Empresa 2. Exceção do artigo 966, parágrafo único do Código Civil Teoria Geral do Direito Empresarial Em 2021 o regramento do estabelecimento comercial no Código Civil foi modificado. O conceito de empresário e as teorias que veremos é um dos tópicos mais cobrados em concursos públicos e é a base do direito comercial. 1. Conceito de empresário Artigo 966, caput do Código Civil “Art. 966. Considera-se empresário quem exerce profissionalmente atividade econômica organizada para a produção ou a circulação de bens ou de serviços.” O Código Civil se vale da Teoria da Empresa, que surge com o Código Civil Italiano em 1942. a) Histórico – Teoria dos Atos do Comércio A primeira legislação a codificar o direito empresarial no Brasil foi o Código Comercial Brasileiro de 1850. Esse Código foi inspirado no direito francês, que foi o primeiro a regular o direito empresarial de forma codificada, com o Código Napoleônico, logo após a Revolução Francesa. O direito francês se pautava por uma teoria objetiva para conceituar o empresário, que era a Teoria dos Atos do Comércio, que foi adotada pelo nosso Código de 1850. Essa teoria era objetiva porque listava um rol de atividades que eram consideradas comerciais. As atividades que constavam na lista eram consideradas empresárias, e as que não constavam, não eram consideradas empresárias. Da mesma forma, o Código Comercial Brasileiro de 1850 tinha um anexo, a Resolução Imperial nº 737/1850, que listava as atividades consideradas empresárias. Essa teoria é pífia, porque evidentemente algumas atividades econômicas não estariam listadas, além do que novas atividades estão sempre surgindo. b) Histórico – Teoria da Empresa Pág. 3 de 265 Em 1942, na Itália, surgiu o Código Civil Italiano, que inovou em seu artigo 2.082, ao deixar de utilizar a teoria francesa, e criar uma teoria subjetiva para conceituar o empresário. Para a teoria francesa, importa qual atividade econômica é desenvolvida. Para a teoria italiana, importa como se desenvolve a atividade econômica. Assim foi criada a Teoria da Empresa, que foi recepcionada pelo nosso Código Civil, no artigo 966. O Brasil deixou de adotar a Teoria dos Atos de Comércio para adotar a Teoria da Empresa. O Código Comercial de 1850 foi derrogado pelo CC. Apenas uma pequena parte está em vigência, que trata de direito marítimo, mas não é cobrada em concursos públicos. Artigo 966 do Código Civil: empresário é quem exerce atividade econômica de forma profissional e organizada. Atividade: 1. Econômica 2. Profissional 3. Organizada O que é exercer atividade econômica de forma profissional e organizada? Vender uma caneta a alguém e obter lucro é uma prática econômica. Mas essa atividade deve ser praticada de forma profissional e organizada para ser uma atividade empresária. Exercer uma atividade de forma profissional é exercer de forma rotineira, habitual. Não basta vender alguns bens esporadicamente. A doutrina fala que a atividade é organizada quando ela reunir os quatro fatores de produção: 1. Capital: investir dinheiro na atividade 2. Insumos: são a matéria-prima para que se possa chegar ao produto final 3. Tecnologia: qualquer equipamento que melhore o desenvolvimento da atividade empresarial 4. Mão-de-obra: basta a mão-de-obra própria do empresário O fator de produção da tecnologia não significa que devem ser empregadas máquinas de última geração. A tecnologia é simplesmente qualquer equipamento que contribua. Exemplo: em uma sala de aula, as cadeiras são consideradas tecnologia. Com relação ao fator de produção mão-de-obra, basta a mão-de-obra própria do empresário, ou ele precisa contratar alguém? Exemplo: uma pessoa faz lanches sozinha e ela mesma os vendena porta de uma escola. Ela não contratou ninguém. Ela é empresária? Sim, porque exerce atividade econômica de forma profissional e organizada. Se fosse preciso contratar alguém, haveria menos empresários no Brasil, e menor recolhimento de tributos originários da atividade empresarial. Assim, a contratação de funcionários não é requisito da empresarialidade no nosso país, o que já foi cobrado em muitos concursos públicos. 2. Exceção do artigo 966, parágrafo único do Código Civil Pág. 4 de 265 “Parágrafo único. Não se considera empresário quem exerce profissão intelectual, de natureza científica, literária ou artística, ainda com o concurso de auxiliares ou colaboradores, salvo se o exercício da profissão constituir elemento de empresa.” Esse dispositivo traz as atividades econômicas que, mesmo exercidas de forma profissional e organizada, não serão consideradas atividades empresariais. Não serão considerados empresários os profissionais intelectuais de natureza artística, científica, literária ou cultural, salvo se sua atividade constituir elemento de empresa. Esse último trecho grifado é a exceção da exceção: os profissionais intelectuais de natureza científica, literária ou artística exercerão atividade empresária se a sua atividade constituir elemento de empresa. Pág. 5 de 265 SUMÁRIO 2. Exceção do artigo 966, parágrafo único do Código Civil Requisitos para o exercício da atividade empresarial 1. Capacidade 2. Ausência de impedimentos 2. Exceção do artigo 966, parágrafo único do Código Civil Exemplos de profissionais intelectuais de natureza científica, literária ou artística: cantor, químico, matemático, escritor, autor de peças de teatro ou de novela. A lei entende que esses profissionais têm uma causa maior, que não pode ser mercantil. O médico é um profissional intelectual de natureza científica, mas a causa da medicina é ajudar as pessoas, embora os médicos possam também auferir renda com essa atividade. A renda não pode ser causa da atividade, mas sim consequência. O elemento de empresa é um elemento subjetivo, perceptível na prática, na qual os elementos empregados na atividade se tornam mais importantes que o próprio serviço do profissional intelectual. Exemplo: o médico abriu um consultório de ortopedia e exerce atividade econômica de forma profissional e organizada, inclusive com a contratação de pessoas (embora isso não seja necessário para caracterizar a atividade empresária). A atividade não é empresarial. O consultório cresceu muito, comprou máquinas de ressonância magnética, ultrassom etc. e tornou-se um grande centro laboratorial. As pessoas não vão mais ao local para ver aquele primeiro médico, mas para fazer exames. Assim, a atividade se tornou empresarial. Deixou de ser pessoal. As clínicas de diagnóstico são empresas, muitas vezes de capital aberto. As pessoas procuram o local pelos elementos ali empregados, e não por causa de um médico em específico. Há três enunciados do Conselho da Justiça Federal (CJF) que têm força doutrinária, mas são cobrados em concurso público: ”193. O exercício das atividades de natureza exclusivamente intelectual está excluído do conceito de empresa. 194. Os profissionais liberais não são considerados empresários, salvo se a organização dos fatores de produção for mais importante que a atividade pessoal desenvolvida. 195. A expressão "elemento de empresa" demanda interpretação econômica, devendo ser analisada sob a égide da absorção da atividade intelectual, de natureza científica, literária ou artística, como um dos fatores da organização empresarial.” Ou seja, para caracterização da atividade empresarial, o que importa é avaliar se a atividade do profissional foi absorvida e se as pessoas são atraídas ao local pelos elementos de empresa. Pág. 6 de 265 O advogado é empresário? O escritório de advocacia exerce atividade empresarial? Segundo os artigos 15 e seguintes da Lei nº 8.906/1994, o Estatuto da OAB, o advogado e o escritório de advocacia NUNCA serão considerados atividades empresariais. Não há exceções a essa regra. Mesmo que os escritórios incorram em elementos de empresa, não exercerão atividades empresariais. Os escritórios são registrados em seccionais da OAB, e não na Junta Comercial. “Art. 15. Os advogados podem reunir-se em sociedade simples de prestação de serviços de advocacia ou constituir sociedade unipessoal de advocacia, na forma disciplinada nesta Lei e no regulamento geral. § 1o A sociedade de advogados e a sociedade unipessoal de advocacia adquirem personalidade jurídica com o registro aprovado dos seus atos constitutivos no Conselho Seccional da OAB em cuja base territorial tiver sede. (...) Art. 16. Não são admitidas a registro nem podem funcionar todas as espécies de sociedades de advogados que apresentem forma ou características de sociedade empresária, que adotem denominação de fantasia, que realizem atividades estranhas à advocacia, que incluam como sócio ou titular de sociedade unipessoal de advocacia pessoa não inscrita como advogado ou totalmente proibida de advogar.” Nos EUA, advocacia é atividade empresarial, mas no Brasil não é. Enquanto o Estatuto da OAB for omisso, aplicam-se aos escritórios as regras que regem as sociedades simples, e não empresárias. O advogado não está impedido de ser também empresário, como o juiz está impedido. Mas o advogado não é empresário no exercício da advocacia. Requisitos para o exercício da atividade empresarial Artigos 972 a 975 do Código Civil Qualquer pessoa pode ser empresário? O artigo 972 do Código Civil traz dois requisitos para que uma pessoa possa ser empresário, a capacidade e a ausência de impedimentos. “Art. 972. Podem exercer a atividade de empresário os que estiverem em pleno gozo da capacidade civil e não forem legalmente impedidos.” 1. Capacidade Artigos 3º e seguintes do Código Civil trazem as normas sobre capacidade. Pág. 7 de 265 O incapaz não pode ser empresário porque a atividade empresarial é uma atividade de risco, que pode comprometer o patrimônio da pessoa. E a incapacidade é uma proteção para que essa pessoa não seja prejudicada. Segundo o artigo 974 do Código Civil, o incapaz não pode iniciar uma atividade empresarial, mas pode continuá-la quando a receber por herança, ou quando houver incapacidade superveniente. “Art. 974. Poderá o incapaz, por meio de representante ou devidamente assistido, continuar a empresa antes exercida por ele enquanto capaz, por seus pais ou pelo autor de herança.” O Código Civil não é contraditório, mas sensato. Uma coisa é a empresa ainda não existir, situação em que só há o interesse do incapaz a ser tutelado, de forma que a criação da empresa é proibida. Mas é diferente se a empresa já está em funcionamento e é herdada pelo incapaz. Exemplo: morre o pai de uma criança de 10 anos, e a criança herda uma padaria com 50 funcionários. Há o interesse de outras pessoas a ser tutelado. O rol é taxativo: só é possível o incapaz exercer atividade empresarial se a receber por herança ou se houver incapacidade superveniente. Enunciado 203 do CJF: “203. O exercício da empresa por empresário incapaz, representado ou assistido, somente é possível nos casos de incapacidade superveniente ou incapacidade do sucessor na sucessão por morte.” A capacidade superveniente é aquela que surge no decorrer da atividade empresarial. Para que o incapaz continue a exercer atividade empresarial é necessária autorização judicial. Caso o juiz decida pela continuidade, será nomeado um representante. “Art. 974. (...) § 1º Nos casos deste artigo, precederá autorização judicial, após exame das circunstâncias e dos riscos da empresa, bem como da conveniência em continuá-la, podendo a autorização ser revogada pelo juiz, ouvidos os pais,tutores ou representantes legais do menor ou do interdito, sem prejuízo dos direitos adquiridos por terceiros. § 2º Não ficam sujeitos ao resultado da empresa os bens que o incapaz já possuía, ao tempo da sucessão ou da interdição, desde que estranhos ao acervo daquela, devendo tais fatos constar do alvará que conceder a autorização.” É possível o incapaz ser sócio de uma sociedade limitada? Sim, desde que o capital esteja integralizado e que ele não participe da administração (não pratique nenhum ato de gestão), nos termos do artigo 974, § 3º do Código Civil. “Art. 974. (...) § 3º O Registro Público de Empresas Mercantis a cargo das Juntas Comerciais deverá registrar contratos ou alterações contratuais de Pág. 8 de 265 sociedade que envolva sócio incapaz, desde que atendidos, de forma conjunta, os seguintes pressupostos: I – o sócio incapaz não pode exercer a administração da sociedade; II – o capital social deve ser totalmente integralizado; III – o sócio relativamente incapaz deve ser assistido e o absolutamente incapaz deve ser representado por seus representantes legais.” A sociedade limitada, em regra, não permite que o patrimônio dos sócios seja atingido pelas dívidas da sociedade. Havia quem defendesse que o incapaz pudesse ser sócio da sociedade limitada. Mas ainda há riscos. O artigo 1.052, caput do Código Civil estabelece que há responsabilidade solidária dos sócios pela integralização do capital social. Ademais, também é possível a desconsideração da personalidade jurídica. Esses dois fatores podem fazer com que o patrimônio dos sócios seja atingido. Se o incapaz não participa da gestão da sociedade limitada, ele não pratica nenhum ato com dolo ou com má-fé, nos termos da teoria maior da desconsideração da personalidade jurídica, de forma que seu patrimônio não poderá ser atingido. “Art. 1.052. Na sociedade limitada, a responsabilidade de cada sócio é restrita ao valor de suas quotas, mas todos respondem solidariamente pela integralização do capital social.” 2. Ausência de impedimentos Os impedimentos decorrem: 1. de sanção legal ou 2. do exercício de uma profissão que é incompatível com a atividade empresarial Exemplo de sanção legal que gera impedimento: segundo o artigo 102 da Lei nº 11.101/2005, o falido é impedido de exercer atividade empresarial até a sentença que extingue suas obrigações. “Art. 102. O falido fica inabilitado para exercer qualquer atividade empresarial a partir da decretação da falência e até a sentença que extingue suas obrigações, respeitado o disposto no § 1º do art. 181 desta Lei.” “Parágrafo único. Findo o período de inabilitação, o falido poderá requerer ao juiz da falência que proceda à respectiva anotação em seu registro.” Exemplo de exercício de profissão incompatível com a atividade empresarial: os impedimentos estão previstos nos estatutos de cada profissão. Estão impedidos o defensor público, o juiz (artigo 95, parágrafo único, da CF), membros do Ministério Público, delegados de Polícia, registradores e tabeliães, entre outros. “Art. 95. (...) Parágrafo único. Aos juízes é vedado: Pág. 9 de 265 I - exercer, ainda que em disponibilidade, outro cargo ou função, salvo uma de magistério; II - receber, a qualquer título ou pretexto, custas ou participação em processo; III - dedicar-se à atividade político-partidária. IV - receber, a qualquer título ou pretexto, auxílios ou contribuições de pessoas físicas, entidades públicas ou privadas, ressalvadas as exceções previstas em lei; V - exercer a advocacia no juízo ou tribunal do qual se afastou, antes de decorridos três anos do afastamento do cargo por aposentadoria ou exoneração.” A maioria dos servidores públicos é impedida de ser empresário individual, mas pode ser sócio de uma sociedade, desde que não participe da administração. O juiz não pode ter um açougue sozinho (ser empresário individual ou participar da administração), mas pode ser sócio de uma sociedade. O juiz pode comprar ações de empresas, ocasião em que se torna sócio, mas não pode fazer parte do Conselho da Petrobras, por exemplo. Pág. 10 de 265 SUMÁRIO Teoria geral do direito empresarial Requisitos para ser considerado empresário 1. Profissionalismo Vamos estudar o comércio terrestre, que é regido pelo Código Civil. Devemos acompanhar a aula com o Código. O Código Comercial está em vigor no que diz respeito ao comércio marítimo. O estudo do direito empresarial é dividido em: 1. Teoria geral 2. Direito societário, que trata das sociedades empresárias 3. Títulos de crédito 4. Falência e recuperação judicial Nos títulos de crédito, vamos estudar a letra de câmbio, a nota promissória, o cheque e a duplicata mercantil, sendo esse último um título criado pelo empresário brasileiro. Os contratos empresariais serão estudados nas aulas de direito civil. O Professor publicou o livro Anotações de Direito Empresarial, pela editora RT, que traz anotações de aula. Teoria geral do direito empresarial O artigo 966 do Código Civil traz o conceito de empresário lato sensu. Hoje vamos tratar do gênero empresário, e nas aulas seguintes falaremos das espécies de empresário. Os requisitos que estudaremos se referem tanto à pessoa física quanto à pessoa jurídica, motivo pelo qual se trata do gênero. Nos concursos públicos são cobradas as sociedades empresárias ou o empresário stricto sensu. Art. 966. Considera-se empresário quem exerce profissionalmente atividade econômica organizada para a produção ou a circulação de bens ou de serviços. Parágrafo único. Não se considera empresário quem exerce profissão intelectual, de natureza científica, literária ou artística, ainda com o concurso de auxiliares ou colaboradores, salvo se o exercício da profissão constituir elemento de empresa. Considera-se empresário aquele que, com profissionalismo, exerça uma atividade econômica organizada para a produção ou circulação de bens ou serviços. Pág. 11 de 265 Conforme ensina Norberto Bobbio, o legislador não deve dar conceitos, o que incumbe à doutrina. Mas nesse caso o Código fez bem em trazer o conceito de empresário, porque essa matéria é nova, já que nunca havia sido introduzida no Código Civil antes. Assim, o Código traz o conceito de empresário e de estabelecimento, por exemplo. Requisitos para ser considerado empresário 1. Profissionalismo É a atividade exercida reiteradamente e em nome próprio. Isso é até mesmo um pleonasmo, porque atividade é uma concatenação de atos. A teoria dos atos do comércio, antes da vigência do Código Civil, tinha o ato como paradigma. Hoje o paradigma é a atividade. A compra e venda de veículo automotor é uma atividade empresarial? Sim. A concessionária adquire carros da montadora e os revende. Há profissionalismo. Mas se uma pessoa vende o seu carro para outra, não há profissionalismo, porque trata-se de um único ato. Não é algo feito reiteradamente. A prática de atos isolados, como por exemplo uma compra e venda, não transforma o vendedor em empresário. Atos isolados não trazem o profissionalismo necessário para que alguém seja considerado empresário. Se uma pessoa montar uma loja e começar a revender carros reiteradamente, haverá profissionalismo e atividade empresária. Consumidor é aquele que adquire bens ou serviços como seu destinatário final, nos termos do artigo 2º do CDC. O fornecedor é identificado pela palavra “atividade” no artigo 3º do CDC. Assim, é fornecedor aquele que oferece bens ou serviços de forma reiterada. Art. 2° Consumidor é toda pessoa física ou jurídica que adquire ou utiliza produto ou serviço como destinatário final. Parágrafo único. Equipara-se a consumidor a coletividade de pessoas, ainda que indetermináveis, que haja intervindo nas relações de consumo. Art. 3° Fornecedoré toda pessoa física ou jurídica, pública ou privada, nacional ou estrangeira, bem como os entes despersonalizados, que desenvolvem atividade de produção, montagem, criação, construção, transformação, importação, exportação, distribuição ou comercialização de produtos ou prestação de serviços. § 1° Produto é qualquer bem, móvel ou imóvel, material ou imaterial. § 2° Serviço é qualquer atividade fornecida no mercado de consumo, mediante remuneração, inclusive as de natureza bancária, financeira, Pág. 12 de 265 de crédito e securitária, salvo as decorrentes das relações de caráter trabalhista. Exemplo: quando Fábio e Marcelo constituem uma sociedade empresária, eles vão verter parte de seu patrimônio pessoal para compor o capital social. O capital social é a primeira contribuição que os sócios fazem para a sociedade. Em regra, nasce uma pessoa jurídica (com exceção de duas sociedades empresárias). Quem é empresário é a sociedade. Fábio e Marcelo não são empresários, mas sócios. Eles não atuam em nome próprio, mas em nome da sociedade. O empresário é a pessoa física que exerce atividade empresarial, o que não é sinônimo de sócio. O sócio e o acionista de sociedade empresária não são considerados tecnicamente como empresários, pois o sócio e o acionista não realizam atividade em nome próprio. No direito societário, pergunta-se o que a sociedade tem por objetivo, e não o que o sócio ou o acionista têm por objetivo. Pág. 13 de 265 SUMÁRIO Teoria geral do direito empresarial Requisitos para ser considerado empresário 1. Profissionalismo 2. Requisito econômico 3. Atividade Requisitos para ser considerado empresário 1. Profissionalismo A Magistratura e o Ministério Público têm suas Leis Orgânicas, que regem as carreiras. Um juiz ou um promotor podem ser empresários? Não. A atividade que eles exercem é incompatível com ser empresário. Não há exceções. Um juiz ou um promotor podem ser sócios? Sim. Eles podem manter um número de ações, mas não podem ocupar um cargo em Conselho de Administração, por exemplo. Um magistrado pode comprar ações da Petrobras, por exemplo. 2. Requisito econômico O segundo requisito para ser empresário é o requisito econômico. Toda atividade empresarial deve ter por fim o lucro. Há doutrina que afirma que a sociedade anônima deve realizar a função social da empresa e atender a peculiaridades próprias. E isso é verdade. Mas o lucro é o elemento essencial para o início da atividade. O acionista que compra ações quer revender com lucro. Ele quer que a companhia lhe distribua lucros. O artigo 981 do Código Civil traz a definição clássica de sociedade empresária: é aquela que visa ao lucro para distribuí-lo entre seus sócios ou acionistas. Art. 981. Celebram contrato de sociedade as pessoas que reciprocamente se obrigam a contribuir, com bens ou serviços, para o exercício de atividade econômica e a partilha, entre si, dos resultados. Parágrafo único. A atividade pode restringir-se à realização de um ou mais negócios determinados. Se o lucro não é a essência de um ente, as normas de direito empresarial não vão tutelar esse ente. Pág. 14 de 265 Exemplos: associação, fundação, ONG. Se a associação vender rifas para obter um determinado lucro, ela pode ser transformada em sociedade empresária? Não, porque esse lucro visa a concretizar as finalidades da associação, e não ser distribuído entre os associados. 3. Atividade A atividade é a concatenação de atos. O que se deve realizar profissionalmente para ser empresário? Uma atividade. No direito penal há o tipo. Se a conduta no mundo fático se adequar ao tipo, o sujeito incide no tipo penal. O Professor criou um “tipo empresarial” com as condutas que serão consideradas empresariais: Atividade empresarial é toda aquela que visar à produção ou circulação de bens ou de serviços. Produzir é transformar matéria-prima em produto acabado. Exemplo: a montadora transforma a matéria-prima em veículos. O produtor é empresário. Quem vende os carros também é empresário. A farmácia que compra remédios do produtor também é empresária. A teoria dos atos do comércio não entendia assim, mas hoje, aquele que produz ou realiza serviços é considerado empresário. A atividade empresarial está em 99% dos serviços com que temos contato no dia a dia. A atividade empresarial é muito mais ampla que os atos do comércio. Havia uma lista do que era considerado atos do comércio. Exemplo: quem fazia funilaria e pintura não tinha direito a concordata porque “serviços” não estava na lista 737 de 1850, que previa os atos de comércio. Hoje não há mais lista, mas um conceito aberto de atividade empresarial. Para que serve o direito empresarial? Para reger a conduta do empresário? Também. Mas, principalmente, as normas de direito empresarial visam a tutelar a atividade. Mesmo que o empresário e a sociedade empresária venham a se extinguir, a Lei nº 11.101/2005 busca proteger a sociedade. Essas regras de proteção são criadas porque a atividade é baseada em um tripé que toda economia deve preservar: a) o trabalhador Pág. 15 de 265 b) o Estado (que aufere lucros na tributação da atividade empresária) c) o consumidor Quanto mais empresários exercerem uma atividade, haverá maior concorrência, o que resulta em menores preços e maior qualidade de bens e serviços. Nosso Código Civil teve como paradigma o Código Civil italiano de 1942. Há muitas similaridades entre o nosso direito empresarial e o italiano. A teoria dos atos do comércio era francesa e foi abandonada. Alberto Asquini era um italiano que tentava entender o que é a empresa. Ele escreveu o texto Perfis da empresa, que pode ser encontrado na internet. Ele escreveu que o conceito de empresa é poliédrico, ou seja, comporta vários significados. Ele identificou 4 perfis da empresa. Vamos estudar os 3 mais importantes: 1. Subjetivo 2. Objetivo 3. Funcional É preciso entender a qual desses sentidos uma pessoa se refere quando fala em empresa. Pág. 16 de 265 SUMÁRIO Teoria geral do direito empresarial Requisitos para ser considerado empresário 3. Atividade 4. Organização Primeira observação Segunda observação Requisitos para ser considerado empresário 3. Atividade Alberto Asquini identificou 4 perfis da empresa. Vamos estudar os 3 mais importantes: 4. Subjetivo 5. Objetivo 6. Funcional A partir de agora, vamos falar em empresa no sentido funcional. Para o direito empresarial moderno, empresa é atividade desenvolvida pelo empresário, ou seja, é a produção ou circulação de bens ou serviços. A empresa deve ser entendida em seu sentido funcional, que é a atividade que o empresário desenvolve. Quando há a palavra “empresa” no Código Civil, pode-se substituí-la por “atividade”. O Professor presta assessoria jurídica para a Avon, cuja empresa é a produção de cosméticos. No dia a dia, a empresa é referida em seu sentido subjetivo, quando se diz que “a Avon é uma empresa” ou “o carro de tal empresa abalroou o meu veículo”. A empresa em sentido subjetivo é entendida como a sociedade empresária. A Lei nº 8.934/1994 se refere à empresa em sentido subjetivo ao falar em “registro das empresas mercantis”. O termo “empresa” também pode ser entendido em seu sentido objetivo, que corresponde ao estabelecimento empresarial ou conjunto de bens. A penhora é uma constrição judicial. O bem penhorado não pode mais ser alienado porque está vinculado a um determinado credor. O CPC fala em “penhora da empresa”, referindo-se ao conceito objetivo de empresa. Trata- se de empresa no sentido de “conjunto de bens”, porque só se pode penhorar os bens. Subseção VIII – Da Penhora de Empresa, de Outros Estabelecimentos e de Semoventes Pág. 17 de 265 Art.862. Quando a penhora recair em estabelecimento comercial, industrial ou agrícola, bem como em semoventes, plantações ou edifícios em construção, o juiz nomeará administrador-depositário, determinando-lhe que apresente em 10 (dez) dias o plano de administração. (...) Para ser empresário, é preciso ter (i) profissionalismo, (ii) elemento econômico e (iii) empresa, no sentido de atividade. A mudança do nome de “direito comercial” para “direito empresarial” não é tão relevante. A teoria que hoje rege a atividade econômica é a teoria da empresa, de forma que muitos mudaram a nomenclatura para “direito empresarial”. Teoria da empresa não é aquela que rege as sociedades empresárias, mas a atividade empresária. Vamos estudar quais são as espécies de empresários que podem desenvolver empresa. A pessoa física do empresário tem uma empresa, não no sentido de sociedade (porque ele é uma pessoa física), mas no sentido de atividade. 7. Organização Para ser empresário, é preciso ter (i) profissionalismo, (ii) elemento econômico, (iii) atividade e (iv) organização. A teoria da empresa é ampla para poder recepcionar novas atividades que surgem no mundo fático. O direito empresarial não é imposto de cima para baixo, mas nasce a partir da realidade. Considera-se organizada toda atividade que reunir 4 elementos: i. Mão-de-obra É preciso que haja uma mão-de-obra destinada àquela atividade. ii. Capital iii. Tecnologia É uma forma organizada de vender os produtos, por exemplo. iv. Insumos Insumos são a matéria-prima que se transforma em produto acabado. Havendo a presença desses 4 elementos, há organização. Havendo organização e os outros 3 elementos que estudamos, há empresário, seja ele pessoa física ou jurídica. Primeira observação Vários manuais de direito empresarial dizem que o ambulante, como aquele que monta uma barraquinha em frente a uma escola, não é um empresário. Ele tem profissionalismo? Sim, porque exerce uma atividade reiteradamente e em nome próprio. Pág. 18 de 265 Há elemento econômico? Sim, porque ele visa a obter lucro. Há empresa? Sim, porque há atividade, vez que há circulação de bens ou serviços. Quem entender empresa no sentido subjetivo dirá que não há empresa. Há organização? Para o Professor, não. Não há mão-de-obra, o capital é diminuto, ele não tem tecnologia, nem insumos. Ele não precisa de uma recuperação judicial. Ele pode ser tutelado pelo direito civil. Assim, para o Professor, o ambulante não é empresário por falta de organização. Segunda observação Para ser empresário, é preciso estar inscrito na Junta Comercial? Não. De acordo com o artigo 966 do Código Civil, considera-se empresário quem exerce atividade econômica organizada, independentemente do registro. A teoria da empresa gira em torno da atividade. O registro não traz a qualidade de empresário a ninguém, com uma única exceção, que estudaremos posteriormente. O registro na Junta Comercial tem natureza meramente declaratória (e não constitutiva). O artigo 967 do Código Civil afirma que é obrigatório o registro do empresário ou da sociedade empresária no órgão competente, a Junta Comercial, antes do início da atividade. Art. 967. É obrigatória a inscrição do empresário no Registro Público de Empresas Mercantis da respectiva sede, antes do início de sua atividade. Não há antagonismo entre o artigo 966 e o artigo 967 do Código Civil. O primeiro conceitua o empresário e o segundo orienta o empresário a se inscrever na Junta Comercial antes de dar início à atividade. Mas a inscrição na Junta Comercial não é requisito para ser empresário. Se a inscrição na Junta Comercial não for feita antes do início da atividade, não se aplicarão os benefícios legais aplicáveis aos empresários. Exemplo: a recuperação judicial, segundo o artigo 48 da Lei nº 11.101/2005. Se não há inscrição prévia na Junta Comercial, não há direito a recuperação judicial, que é um grande benefício dado ao empresário. Art. 48. Poderá requerer recuperação judicial o devedor que, no momento do pedido, exerça regularmente suas atividades há mais de 2 (dois) anos e que atenda aos seguintes requisitos, cumulativamente: Pág. 19 de 265 I – não ser falido e, se o foi, estejam declaradas extintas, por sentença transitada em julgado, as responsabilidades daí decorrentes; II – não ter, há menos de 5 (cinco) anos, obtido concessão de recuperação judicial; III - não ter, há menos de 5 (cinco) anos, obtido concessão de recuperação judicial com base no plano especial de que trata a Seção V deste Capítulo; IV – não ter sido condenado ou não ter, como administrador ou sócio controlador, pessoa condenada por qualquer dos crimes previstos nesta Lei. Pág. 20 de 265 SUMÁRIO Teoria geral do direito empresarial Atividades não empresariais a) Atividades que não visam ao lucro b) Cooperativas c) Sociedade simples d) Atividade rural Estudamos na aula passada que empresa é a atividade econômica organizada para a produção e circulação de bens ou serviços. A teoria da empresa é ampla porque o direito empresarial quer recepcionar as novas atividades que surgem no dia a dia, tutelando-as. Atividades não empresariais Não são consideradas atividades empresariais: a) Atividades que não visam ao lucro Exemplo: atividades desenvolvidas por fundações, associações, ONGs etc. Se a empresa não teve lucro mas visava ao lucro, ela tem natureza empresarial e pode se beneficiar da recuperação judicial e da falência. b) Cooperativas A cooperativa é regida pelo artigo 1.093 e seguintes do Código Civil. A cooperativa não é sociedade empresarial. Art. 982. Salvo as exceções expressas, considera-se empresária a sociedade que tem por objeto o exercício de atividade própria de empresário sujeito a registro (art. 967); e, simples, as demais. Parágrafo único. Independentemente de seu objeto, considera-se empresária a sociedade por ações; e, simples, a cooperativa. A cooperativa não tem direito a recuperação judicial e falência. O artigo 32, II, “a” da Lei nº 8.934/1994, que trata do Registro Público de Empresas Mercantis (e que deveria se chamar “Lei do registro das sociedades empresárias e do empresário”), afirma que os atos constitutivos das cooperativas (em outras palavras, o contrato social) devem ser levados a registro na Junta Comercial. Art. 32. O registro compreende: Pág. 21 de 265 I - a matrícula e seu cancelamento: dos leiloeiros, tradutores públicos e intérpretes comerciais, trapicheiros e administradores de armazéns-gerais; II - O arquivamento: a) dos documentos relativos à constituição, alteração, dissolução e extinção de firmas mercantis individuais, sociedades mercantis e cooperativas; Essa norma ficou na lei por uma questão meramente de tradição. O mesmo ocorreu com relação aos tradutores juramentados e os leiloeiros, que não são considerados empresários. A Junta Comercial, a princípio, não atribui a condição de empresário para ninguém. Com exceção das atividades não empresariais que estamos listando, as demais atividades são atividade empresária, observados os demais requisitos que estudamos na aula passada. c) Sociedade simples Artigo 997 do Código Civil Art. 997. A sociedade constitui-se mediante contrato escrito, particular ou público, que, além de cláusulas estipuladas pelas partes, mencionará: I - nome, nacionalidade, estado civil, profissão e residência dos sócios, se pessoas naturais, e a firma ou a denominação, nacionalidade e sede dos sócios, se jurídicas; II - denominação, objeto, sede e prazo da sociedade; III - capital da sociedade, expresso em moeda corrente, podendo compreender qualquer espécie de bens, suscetíveis de avaliação pecuniária; IV - a quota de cada sócio no capital social, e o modo de realizá-la; V - as prestaçõesa que se obriga o sócio, cuja contribuição consista em serviços; VI - as pessoas naturais incumbidas da administração da sociedade, e seus poderes e atribuições; VII - a participação de cada sócio nos lucros e nas perdas; VIII - se os sócios respondem, ou não, subsidiariamente, pelas obrigações sociais. Parágrafo único. É ineficaz em relação a terceiros qualquer pacto separado, contrário ao disposto no instrumento do contrato. Pág. 22 de 265 A sociedade simples é uma sociedade que visa ao lucro. A sociedade simples é a antiga “sociedade civil”. Toda vez que for preciso montar uma sociedade e seu objeto não for empresarial, usa-se a sociedade simples. É o que se faz com a atividade intelectual, por exemplo, que não é empresarial. Na sociedade simples, duas ou mais pessoas querem desenvolver uma atividade intelectual, como fazer projetos de arquitetura, por exemplo. Essa é uma atividade científica? Sim. É preciso preparo científico para elaborar esses projetos. A sociedade simples formada por essas pessoas é empresarial? Não. A sociedade simples é como que uma “válvula de escape” para quando não se pode ser empresa. A sociedade simples é personificada. A sociedade em comum e a sociedade em conta de participação são as duas sociedades que não têm personalidade. Embora a sociedade simples abrigue atividades não empresariais, ela foi alocada dentro do capítulo da empresa porque serve de norma subsidiária para as sociedades empresárias. As sociedades que estão reguladas no Código Civil (e não a sociedade anônima, que é regida por lei específica) são disciplinadas subsidiariamente pelas normas da sociedade simples: i. Sociedade em comum ii. Sociedade em conta de participação iii. Sociedade em nome coletivo iv. Sociedade em comandita simples v. Sociedade limitada Essas 5 sociedades são conhecidas como sociedades de pessoas. Toda vez que algo não for disciplinado para essas sociedades, e o contrato social nada dispuser, aplicam-se as normas da sociedade simples. Exemplo: o capítulo da sociedade limitada não trata sobre a morte do sócio, situação em que os herdeiros podem querer entrar para a sociedade. O sócio falecido deixou 4 herdeiros e os demais sócios não querem que eles entrem para a sociedade. O contrato social da sociedade limitada não diz nada a respeito de morte dos sócios. Os herdeiros têm direito de participar na assembleia ou não? Como as normas da sociedade simples se aplicam de forma subsidiária para as sociedades empresariais, aplica-se o artigo 1.028 do Código Civil: Art. 1.028. No caso de morte de sócio, liquidar-se-á sua quota, salvo: I - se o contrato dispuser diferentemente; II - se os sócios remanescentes optarem pela dissolução da sociedade; III - se, por acordo com os herdeiros, regular-se a substituição do sócio falecido. Pág. 23 de 265 A regra é que os herdeiros não ingressam na sociedade, salvo se os demais sócios assim desejarem. d) Atividade rural Artigos 971 e 984 do Código Civil Art. 971. O empresário, cuja atividade rural constitua sua principal profissão, pode, observadas as formalidades de que tratam o art. 968 e seus parágrafos, requerer inscrição no Registro Público de Empresas Mercantis da respectiva sede, caso em que, depois de inscrito, ficará equiparado, para todos os efeitos, ao empresário sujeito a registro. Parágrafo único. Aplica-se o disposto no caput deste artigo à associação que desenvolva atividade futebolística em caráter habitual e profissional, caso em que, com a inscrição, será considerada empresária, para todos os efeitos. (Incluído pela Lei nº 14.193, de 2021) Art. 984. A sociedade que tenha por objeto o exercício de atividade própria de empresário rural e seja constituída, ou transformada, de acordo com um dos tipos de sociedade empresária, pode, com as formalidades do art. 968, requerer inscrição no Registro Público de Empresas Mercantis da sua sede, caso em que, depois de inscrita, ficará equiparada, para todos os efeitos, à sociedade empresária. Parágrafo único. Embora já constituída a sociedade segundo um daqueles tipos, o pedido de inscrição se subordinará, no que for aplicável, às normas que regem a transformação. Atividade rural é toda aquela realizada fora do perímetro urbano. É a atividade do agricultor, do pecuarista. Essa atividade recebeu um tratamento especializado pelo Código Civil, que chegou ao Congresso Nacional em 1960. A atividade rural é considerada de subsistência, e não merece a tutela do direito empresarial. Pág. 24 de 265 SUMÁRIO Teoria geral do direito empresarial Atividades não empresariais d) Atividade rural e) Atividade intelectual Atividades não empresariais a) Atividade rural A atividade rural não é considerada empresarial. No entanto, se o exercente dessa atividade, seja pessoa física ou pessoa jurídica, realizar o seu registro na Junta Comercial, ela passa a ser considerada empresarial. Se a atividade passa a ser organizada, isto é, passa a ter um grande número de funcionários, passa a ter um capital investido significativo etc., a atividade assume uma tal proporção que se torna organizada. Assim, o ato constitutivo deve ser registrado na Junta Comercial. A partir desse registro, o exercente da atividade rural se torna empresário. Quem exerce atividade rural tem direito a recuperação judicial? Depende. Se ele está inscrito na Junta Comercial, sim. O aspecto mais importante é que, para a atividade rural, o registro na Junta Comercial tem natureza constitutiva. Para que se possa ser considerado empresário rural, é preciso que haja registro. A aquisição da condição de empresário depende do registro na Junta Comercial. Para os demais empresários, o que os torna empresários é a atividade profissional, visando ao lucro, de forma organizada, por meio de empresa. b) Atividade intelectual Artigo 966, parágrafo único do Código Civil Art. 966. Considera-se empresário quem exerce profissionalmente atividade econômica organizada para a produção ou a circulação de bens ou de serviços. Parágrafo único. Não se considera empresário quem exerce profissão intelectual, de natureza científica, literária ou artística, ainda com o concurso de auxiliares ou colaboradores, salvo se o exercício da profissão constituir elemento de empresa. A atividade intelectual de natureza artística, científica ou literária, ainda que haja colaboradores, não é considerada atividade empresarial. Pág. 25 de 265 Atividade intelectual é aquela que depende de características próprias do sujeito. Isso é assim desde a Roma Antiga. A atividade intelectual exige uma preparação prévia, um estudo, diferentemente do comércio. O direito romano não regulava as atividades comerciais porque eram consideradas menos importantes. A atividade intelectual era regulada porque era considerada nobre. O Código Civil manteve esse afastamento entre a atividade intelectual e a atividade empresarial. Exemplos de atividades intelectuais de natureza científica: medicina, advocacia, engenharia. Exemplos de atividades intelectuais de natureza literária: a atividade dos escritores. Exemplos de atividades intelectuais de natureza artística: a atividade dos músicos, atores. A doutrina se debruçou mais sobre a atividade dos profissionais intelectuais da saúde, os médicos. O artigo 966, parágrafo único do Código Civil faz uma ressalva: a atividade intelectual não é empresária, salvo se o exercício da profissão (intelectual) constituir elemento de empresa. Para entender esse dispositivo, a empresa deve ser compreendida em seu sentido funcional, e não nos sentidos subjetivo ou objetivo (conforme os sentidos ensinados por Asquini). Em sentido funcional, a empresa é a atividade econômica organizada. Exemplo: A e B são médicos e querem constituir uma sociedade. Queremser sócios. Esses dois médicos podem constituir uma sociedade empresária ou não empresária? Depende do objeto, isto é, depende do que a sociedade fizer. Não importa o que o sócio tenha como profissão. Se a sociedade for realizar a compra e venda de veículos, eles podem montar uma concessionária e realizar a atividade econômica de forma organizada e profissional, sendo essa atividade empresarial, de forma que deve ser registrada na Junta Comercial. Por outro lado, se a sociedade for um consultório médico, for contratar médicos para prescrever medicamentos, para realizar diagnósticos, eles realizam atividade intelectual? Sim, o consultório médico será uma pessoa jurídica que irá exercer atividade intelectual de natureza científica. Se é uma atividade intelectual, aplica-se o artigo 966, primeira parte: não será uma atividade empresarial. Assim, essa atividade intelectual seria realizada por meio de uma sociedade simples, registrada no Cartório de Registro Civil de Pessoas Naturais e Jurídicas. O ato constitutivo é registrado nesse cartório, e não na Junta Comercial. E se esse consultório se transformar em um hospital? O hospital teria direito a recuperação judicial? (Pergunta-se indiretamente se o hospital é ou não atividade empresarial.) O Código Civil quer proteger todas as atividades. Não quer deixar ninguém sem a proteção do direito empresarial. O que quer dizer “salvo se o exercício da profissão constituir elemento de empresa”, na parte final do artigo 966 do Código Civil? Quando a sociedade oferecer somente atividade intelectual, ela não é empresarial. Pág. 26 de 265 Quando a atividade intelectual for oferecida juntamente com outros serviços de natureza empresarial, considera- se a atividade como tutelada pelo direito empresarial. A atividade precípua do hospital é intelectual? Sim. As pessoas vão ao hospital para se curar de doenças. O hospital também tem serviços de laboratório, vende medicamentos, tem estacionamento e restaurante, oferecendo serviços não intelectuais, ou serviços empresariais. Para proteger essa organização, considera-se o hospital tutelado pelo direito empresarial. A doutrina italiana afirma que a atividade intelectual oferecida para a sociedade não é empresarial. Mas se ela é oferecida em conjunto com outros serviços de natureza empresarial, a atividade passa a ser considerada empresarial também. Pág. 27 de 265 SUMÁRIO Teoria geral do direito empresarial Atividades não empresariais e) Atividade intelectual Espécies de empresários 1. Empresário stricto sensu 2. Sociedades empresárias Atividades não empresariais e) Atividade intelectual Em um acórdão do TJSP, entendeu-se que a atividade de um laboratório de exames médicos é uma atividade empresarial. Se há atividade intelectual oferecida com uma gama de outros serviços, a atividade se torna empresarial. É o que a doutrina italiana explica, valendo-se do exemplo do consultório médico e do hospital. Qual é a atividade intelectual que não se pode prestar juntamente com outros serviços? É o exercício da advocacia. A advocacia não pode ser exercida juntamente com outros serviços. A advocacia nunca será passível de interpretação sobre se a atividade é empresária ou não. A advocacia nunca será empresarial, pois essa atividade intelectual não poderá ser exercida juntamente com outros serviços. A sociedade anônima, também chamada de companhia, é regulada pela Lei nº 6.404/1976. O artigo 2º, § 1º da Lei nº 6.404/1976 dispõe: Art. 2º Pode ser objeto da companhia qualquer empresa de fim lucrativo, não contrário à lei, à ordem pública e aos bons costumes. § 1º Qualquer que seja o objeto, a companhia é mercantil e se rege pelas leis e usos do comércio. Assim, qualquer que seja o objeto desenvolvido pela companhia, ela será sempre de natureza empresarial. Nesse caso, não se aplica o artigo 966, parágrafo único do Código Civil, porque lex specialis derogat generali (a lei especial afasta a lei geral). Mesmo que a companhia tenha decidido desenvolver uma atividade intelectual, ela será sempre empresarial. Quando se escolhe uma estrutura organizada e complexa como a das sociedades anônimas, a atividade será empresarial. Pág. 28 de 265 Se alguém criar uma sociedade anônima para desenvolver o exercício da advocacia, essa atividade será empresarial? Para o Professor, não se pode fazer um escritório de advocacia como sociedade anônima. Para as demais profissões, se foi constituída sociedade anônima, há atividade empresarial. Espécies de empresários O artigo 966 do Código Civil trata do empresário lato sensu. A atividade empresarial pode ser exercida de duas maneiras: 1. Empresário stricto sensu É esse empresário que é cobrado nas provas de concursos públicos, e não o empresário lato sensu. Artigo 972 do Código Civil Art. 972. Podem exercer a atividade de empresário os que estiverem em pleno gozo da capacidade civil e não forem legalmente impedidos. 2. Sociedades empresárias Artigo 981 e seguintes do Código Civil. Há 7 tipos de sociedades empresárias. Para uma prova de primeira fase, devemos estudar todas as sociedades empresárias. Para uma prova de segunda fase, podemos nos concentrar em sociedade em comum, sociedade em conta de participação, sociedade limitada e sociedade anônima. A EIRELI estava prevista no artigo 980-A do Código Civil e não existe mais. Observação: o artigo 41 da Lei nº 14.195/2021 determinou que todas as EIRELIs existentes antes da promulgação dessa lei passem automaticamente, sem nenhum requerimento, a ser consideradas sociedades limitadas unipessoais. Art. 41. As empresas individuais de responsabilidade limitada existentes na data da entrada em vigor desta Lei serão transformadas em sociedades limitadas unipessoais independentemente de qualquer alteração em seu ato constitutivo. Parágrafo único. Ato do DREI disciplinará a transformação referida neste artigo. A EIRELI deixou de ser uma espécie de empresário. Hoje em dia há o empresário stricto sensu e a sociedade empresária. As provas de concurso público falam apenas em “empresário” e se referem ao empresário stricto sensu. O empresário não é sócio. Se a prova for perguntar sobre o sócio, ela dirá “sócio”, e se aplicam normas distintas. Pág. 29 de 265 O empresário é uma pessoa física que exerce uma atividade econômica organizada, respondendo com todo o seu patrimônio pelas obrigações que vier a contrair, sejam estas obrigações de natureza empresarial ou não empresarial. Uma pessoa física pode falir? Sim. Quando? Quando a pessoa física for empresária. O não empresário pode falir? No Brasil, não. Nos Estados Unidos, sim. Ele se registra na Junta Comercial para obter os benefícios legais de ser empresário. Quando ele vai à Junta Comercial e se registra, ele não adquire uma outra personalidade. Ele continua sendo pessoa física. Não existe no Brasil o fenômeno da dupla personificação do empresário. A pessoa física adquiriu personalidade no momento de seu nascimento. Nesse momento, ele ainda não tem capacidade, mas já tem personalidade. O recém-nascido pode ser dono de um apartamento. O nascituro pode ter expectativa de direito. A pessoa física tem um patrimônio. O patrimônio são as relações jurídicas que podem ser valoradas economicamente. O empresário responde com todo o seu patrimônio perante os seus credores. Nesse patrimônio há bens impenhoráveis, como o bem de família, os instrumentos que ele usa para desempenhar o seu mister, e outros listados no Código de Processo Civil. Art. 833. São impenhoráveis: I - os bens inalienáveis e os declarados, por ato voluntário, não sujeitos à execução; II - os móveis, os pertences e as utilidades domésticas que guarnecem a residência do executado, salvo os de elevado valor ou os que ultrapassem asnecessidades comuns correspondentes a um médio padrão de vida; Empresário pessoa física – Mário de Andrade Pág. 30 de 265 III - os vestuários, bem como os pertences de uso pessoal do executado, salvo se de elevado valor; IV - os vencimentos, os subsídios, os soldos, os salários, as remunerações, os proventos de aposentadoria, as pensões, os pecúlios e os montepios, bem como as quantias recebidas por liberalidade de terceiro e destinadas ao sustento do devedor e de sua família, os ganhos de trabalhador autônomo e os honorários de profissional liberal, ressalvado o § 2º; V - os livros, as máquinas, as ferramentas, os utensílios, os instrumentos ou outros bens móveis necessários ou úteis ao exercício da profissão do executado; VI - o seguro de vida; VII - os materiais necessários para obras em andamento, salvo se essas forem penhoradas; VIII - a pequena propriedade rural, assim definida em lei, desde que trabalhada pela família; IX - os recursos públicos recebidos por instituições privadas para aplicação compulsória em educação, saúde ou assistência social; X - a quantia depositada em caderneta de poupança, até o limite de 40 (quarenta) salários-mínimos; XI - os recursos públicos do fundo partidário recebidos por partido político, nos termos da lei; XII - os créditos oriundos de alienação de unidades imobiliárias, sob regime de incorporação imobiliária, vinculados à execução da obra. § 1º A impenhorabilidade não é oponível à execução de dívida relativa ao próprio bem, inclusive àquela contraída para sua aquisição. § 2º O disposto nos incisos IV e X do caput não se aplica à hipótese de penhora para pagamento de prestação alimentícia, independentemente de sua origem, bem como às importâncias excedentes a 50 (cinquenta) salários-mínimos mensais, devendo a constrição observar o disposto no art. 528, § 8º, e no art. 529, § 3º. § 3º Incluem-se na impenhorabilidade prevista no inciso V do caput os equipamentos, os implementos e as máquinas agrícolas pertencentes a pessoa física ou a empresa individual produtora rural, exceto quando tais bens tenham sido objeto de financiamento e estejam vinculados em garantia a negócio jurídico ou quando Pág. 31 de 265 respondam por dívida de natureza alimentar, trabalhista ou previdenciária. Mário de Andrade continuará a ser Mário de Andrade depois de se registrar na Junta Comercial. Firma é nome. O empresário exercerá a atividade sob uma firma, que será o nome dele. Firma não é sinônimo de local de trabalho. O empresário é pessoa física, continuará a sê-lo, e responderá pelos débitos com todo o seu patrimônio penhorável. Ele é pessoa física e, a despeito disso, tem um CNPJ, que é o Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica. Ele tem o CNPJ para fins fiscais, somente. Pág. 32 de 265 SUMÁRIO Teoria geral do direito empresarial Espécies de empresários 1. Empresário stricto sensu a. Pleno gozo da capacidade civil b. Ausência de impedimentos legais E-mail do Professor para o envio de dúvidas: mpiacomini@hotmail.com Espécies de empresários Todas as EIRELIs foram transformadas em sociedades limitadas unipessoais. O empresário lato sensu se divide em empresário stricto sensu e sociedades empresárias. 1. Empresário stricto sensu A pessoa física é empresário. A pessoa física vai até a Junta Comercial e se inscreve. Não há um contrato, como ocorre no direito societário. Quando a lei não impuser uma forma específica, escolhe-se a que quiser. A firma é o nome civil do empresário, ao qual ele pode acrescentar, se ele quiser, o ramo de atividade. Como o empresário tem uma esfera patrimonial única, ela responde por todas as dívidas contraídas. O empresário responde com seu patrimônio por todas as dívidas civis e empresariais. O artigo 91 do Código Civil fala em universalidade de direito, que tem como exemplo clássico o espólio. Art. 91. Constitui universalidade de direito o complexo de relações jurídicas, de uma pessoa, dotadas de valor econômico. O artigo 967 do Código Civil determina o registro da atividade empresária antes de seu início. Art. 967. É obrigatória a inscrição do empresário no Registro Público de Empresas Mercantis da respectiva sede, antes do início de sua atividade. No Brasil não há o fenômeno da dupla personificação do empresário. Após se registrar na Junta Comercial, o empresário continua a ser pessoa física. A partir do momento em que a pessoa física se registra na Junta Comercial, ela recebe um número de CNPJ, o que é feito somente para fins tributários. Pág. 33 de 265 A Receita Federal quer complementar o orçamento por meio de tributos. Se ela não fizesse essa ficção jurídica tributária de dar um CNPJ ao empresário, haveria um único Imposto de Renda. Mas essa pessoa física aufere dois tipos de rendimentos diferentes. Exemplo: um sujeito, atuando como Professor, aufere uma renda, que declarará por meio de seu CPF. Atuando como vendedor de veículos automotores, ele aufere outra renda, que declarará como empresário por meio de seu CNPJ. Um julgado do TJSP tratou bem dessa questão sobre o empresário individual. EMENTA EMPRESÁRIO INDIVIDUAL EXECUTADO. ATIVIDADE EMPRESARIAL QUE NÃO EQUIPARA O EMPRESÁRIO À PESSOA JURÍDICA, SALVO PARA FINS TRIBUTÁRIOS. AUSÊNCIA DE SEPARAÇÃO PATRIMONIAL. PENHORA "NA BOCA DO CAIXA" DA EMPRESA. REQUISITOS LEGAIS E VIABILIDADE NÃO DEMONSTRADOS. AGRAVO DE INSTRUMENTO IMPROVIDO. (...) Empresário, em termos jurídicos, é o profissional que exerce atividade econômica organizada para a produção ou circulação de bens ou serviços (empresa), conforme definição expressa no art. 966 do Código Civil. O conceito legal se refere ao empresário individual (pessoa natural), mas a pessoa jurídica também pode ser considerada empresária (sociedade empresária – art. 982 do CC). O registro na Junta Comercial, que atribui condição de empresário tanto para a pessoa natural quanto para a pessoa jurídica, possui a finalidade de regularizar a situação do empresário individual (pessoa natural) perante a comunidade empresarial. No caso da sociedade empresária (pessoa jurídica), o registro marca o próprio nascimento desta (art. 45 do CC), ou seja, o momento em que ganha personalidade jurídica e se estabelece a separação patrimonial entre a sociedade e seus sócios, além de caracterizá-la como exercente de atividade comercial. A pessoa natural, por outro lado, adquire personalidade jurídica com o nascimento (art. 4° do CC), que posteriormente deve ser levado a registro civil, e não se torna pessoa jurídica se exerce empresa individualmente, ou seja, sem se associar a outras pessoas, exceto quando se caracteriza como "empresa individual de responsabilidade limitada" – EIRELI (art. 980-A do CC). Assim, o empresário individual que exerce pessoalmente atividade empresarial (empresa individual), com registro na Junta Comercial e utilização de nome empresarial (artigos 967 e 1.155 do CC), não se transforma em pessoa jurídica (art. 44 do CC, exceto no caso da EIRELI prevista no inciso VI do dispositivo mencionado) e, portanto, NÃO possui personalidade jurídica própria e nem se beneficia da separação patrimonial. (TJSP, Agravo de Instrumento nº 0100103-11.2020.8.26.9024, Colégio Recursal, Comarca de Catanduva, Relator Alceu Correa Junior, j. 26/02/2021) Há dois requisitos para ser empresário: o pleno gozo da capacidade civil e a ausência de impedimentos legais. O artigo 972 do CC dispõe: Art. 972. Podem exercer a atividade de empresário os que estiverem em pleno gozo da capacidade civil e não forem legalmente impedidos. a) Pleno gozo da capacidade civil Pág. 34 de 265 A atividade empresarial, por si só, é de risco. Para exercer essa atividade, exige-se capacidade plena. Assim, só as pessoas que estiverem no pleno gozo de sua capacidadepodem exercer a atividade de empresário. Por que o Código Civil exige o pleno gozo da capacidade civil? O empresário é pessoa física e a personalidade civil dele é adquirida com o nascimento com vida. A Junta Comercial não lhe confere uma outra personalidade. Art. 2º A personalidade civil da pessoa começa do nascimento com vida; mas a lei põe a salvo, desde a concepção, os direitos do nascituro. Além da personalidade, há a capacidade, que é a possibilidade de se exercer direitos e obrigações sem que alguém auxilie. A capacidade civil plena advém quando se completa 18 anos de idade. Assim, só se permite que a pessoa seja empresária quando completar 18 anos. Um menino de 16 anos não tem capacidade civil plena. Ele pode se registrar na Junta Comercial por meio de um representante? Não. Como vimos, o empresário pessoa física só tem um patrimônio, que responde pelos débitos perante os credores. O incapaz nunca pode iniciar atividade como empresário, nem por meio de representante. Por quê? Porque se houver um representante, haverá um representado. O representante não exerce atividade empresarial em nome próprio, mas representando o representado. Isso é permitido no direito civil, mas não no direito empresarial, porque o incapaz continuaria respondendo com seu patrimônio por todas as dívidas. Não há reconhecimento automático da incapacidade advinda de doença mental, utilização de drogas e álcool. Para que haja essa incapacidade, é preciso que uma sentença o declare. Um incapaz que não tem discernimento mental completo, e que teve esse fato declarado por sentença, pode exercer atividade empresarial? Não, porque é uma atividade de risco, e deve-se protegê-lo. É uma falácia afirmar que ele está sendo tratado com igualdade e equiparado às outras pessoas, porque o patrimônio dele está sendo colocado em risco. Se ele perdesse tudo enquanto empresário, ele seria declarado falido. Mas isso não é uma verdadeira proteção. Essa é a opinião do Professor. Nos concursos públicos, o importante é fundamentar a sua posição. O Código Civil possibilita a emancipação. O emancipado é capaz. Assim, se a pessoa foi emancipada conforme o artigo 5º do Código Civil, ela é plenamente capaz e pode ser empresária. Se alguém tiver constituído estabelecimento empresarial e tiver economia própria, o juiz pode emancipar essa pessoa. Também há emancipação em caso de colação de grau e em outras hipóteses. Art. 5º A menoridade cessa aos dezoito anos completos, quando a pessoa fica habilitada à prática de todos os atos da vida civil. Pág. 35 de 265 Parágrafo único. Cessará, para os menores, a incapacidade: I - pela concessão dos pais, ou de um deles na falta do outro, mediante instrumento público, independentemente de homologação judicial, ou por sentença do juiz, ouvido o tutor, se o menor tiver dezesseis anos completos; II - pelo casamento; III - pelo exercício de emprego público efetivo; IV - pela colação de grau em curso de ensino superior; V - pelo estabelecimento civil ou comercial, ou pela existência de relação de emprego, desde que, em função deles, o menor com dezesseis anos completos tenha economia própria. b) Ausência de impedimentos legais A ausência de impedimentos legais é o segundo requisito para ser empresário. Pág. 36 de 265 SUMÁRIO Teoria geral do direito empresarial Espécies de empresários 1. Empresário stricto sensu a) Pleno gozo da capacidade civil b) Ausência de impedimentos legais i. Cargo ou função ii. Sentença judicial Requisitos para o incapaz continuar atividade empresária E-mail do Professor para o envio de dúvidas: mpiacomini@hotmail.com Espécies de empresários 1. Empresário stricto sensu a) Pleno gozo da capacidade civil O artigo 972 do Código Civil pode ser considerado protetivo de alguém? De quem? Sim, o artigo visa a proteger o patrimônio do incapaz. b) Ausência de impedimentos legais Há impedimento em razão de: i. Cargo ou função Não podem ser empresários: • Juiz de direito • Promotor de Justiça • Funcionários públicos • Procuradores dos Municípios que optam por dedicação exclusiva • Militares da ativa Eles estão proibidos de ser empresários porque a atividade deles exige dedicação exclusiva. ii. Sentença judicial Quem está impedido de ser empresário em razão de sentença judicial? Os falidos, isto é, os empresários que foram declarados falidos por exercerem uma atividade empresarial em nome próprio. Pág. 37 de 265 Quem é falido? O empresário que exerce atividade em nome próprio e malogrou nessa atividade, tendo sua falência decretada. Até que suas obrigações estejam extintas, ele não pode exercer nova atividade empresarial. Os sócios não se equiparam à sociedade, não se confundem com a sociedade. Se a sociedade é falida, isso não significa que o sócio não pode mais exercer atividade empresarial. Há infrações penais que, como efeito secundário, impedem o exercício da atividade empresarial. O incapaz nunca pode iniciar o exercício da atividade empresária. Se uma pessoa está exercendo uma atividade empresária e contrai uma doença mental que a impede de continuar a exercer essa atividade, há incapacidade superveniente, isto é, que advém depois da lucidez plena. O empresário desempenha um papel relevante na sociedade. Ele tem funcionários, que querem manter a atividade. Ele paga tributos. Ele beneficia a comunidade onde atua. Exemplo: um empresário que produz adubo orgânico e vende para os agricultores. Se ele ficou incapaz, o que deve ser feito? Antes do Código Civil de 2002, Rubens Requião falava que a atividade deveria ser encerrada. E se o empresário falecer e deixar herdeiros incapazes? Uma filha pode suceder o pai na atividade empresarial? Sim, sendo representada. O legislador permite, no artigo 974 do Código Civil, que o incapaz possa continuar o exercício da atividade, por meio de um representante legal, quando houver incapacidade superveniente (exemplo: o empresário que contraiu uma patologia e desconhece a realidade dos fatos) ou quando houver morte de empresário que deixa herdeiros ou sucessores incapazes. A palavra “continuar” é a diferença entre o artigo 972 e o artigo 974 do Código Civil. O incapaz nunca pode iniciar o exercício da atividade empresária, mas pode continuá-la. Requisitos para o incapaz continuar atividade empresária Para que o incapaz possa continuar a atividade empresária, são necessários três requisitos: i. Autorização judicial O representante legal do incapaz deverá solicitar ao juiz competente uma autorização judicial, para que esta seja arquivada na Junta Comercial. Esta autorização pode ser revogada a qualquer momento, caso qualquer fato modifique o entendimento do juiz. ii. Avaliação dos riscos para o incapaz Conforme o artigo 974, § 1º do Código Civil, para que o juiz conceda essa autorização, ele deverá avaliar os riscos da atividade empresária para o incapaz. Pág. 38 de 265 O juiz avaliará o passivo fiscal e trabalhista. Há impostos não recolhidos? Há passivo trabalhista? A atividade tem sido lucrativa ao longo dos últimos anos? Há quanto tempo a atividade é exercida? São elementos que o juiz avalia. Mas ainda assim é o patrimônio do representado que correrá os riscos da atividade empresária. Por isso há o terceiro requisito. iii. Separação do patrimônio do incapaz dos bens não vinculados à empresa Conforme o artigo 974, § 2º do Código Civil, se o juiz autorizar a continuidade da atividade empresária pelo incapaz, o juiz deverá separar o patrimônio do incapaz. O magistrado deverá separar do patrimônio do incapaz todos os bens que não estiverem vinculados à empresa. Estamos falando da empresa no seu perfil funcional, conforme Asquini. Exemplo: a atividade é de produção de adubo. Todos os bens que não estão relacionados à produçãode adubo serão separados do patrimônio do incapaz, como sua casa, seu carro, seu barco etc. Dispõe o artigo 974 do Código Civil: Art. 974. Poderá o incapaz, por meio de representante ou devidamente assistido, continuar a empresa antes exercida por ele enquanto capaz, por seus pais ou pelo autor de herança. § 1º Nos casos deste artigo, precederá autorização judicial, após exame das circunstâncias e dos riscos da empresa, bem como da conveniência em continuá-la, podendo a autorização ser revogada pelo juiz, ouvidos os pais, tutores ou representantes legais do menor ou do interdito, sem prejuízo dos direitos adquiridos por terceiros. § 2º Não ficam sujeitos ao resultado da empresa os bens que o incapaz já possuía, ao tempo da sucessão ou da interdição, desde que estranhos ao acervo daquela, devendo tais fatos constar do alvará que conceder a autorização. § 3º O Registro Público de Empresas Mercantis a cargo das Juntas Comerciais deverá registrar contratos ou alterações contratuais de sociedade que envolva sócio incapaz, desde que atendidos, de forma conjunta, os seguintes pressupostos: I – o sócio incapaz não pode exercer a administração da sociedade; II – o capital social deve ser totalmente integralizado; III – o sócio relativamente incapaz deve ser assistido e o absolutamente incapaz deve ser representado por seus representantes legais. Pág. 39 de 265 SUMÁRIO Teoria geral do direito empresarial Espécies de empresários 1. Empresário stricto sensu Requisitos para o incapaz continuar atividade empresária Alienação de imóveis pelo empresário casado Estabelecimento empresarial E-mail do Professor para o envio de dúvidas: mpiacomini@hotmail.com Espécies de empresários 1. Empresário stricto sensu Requisitos para o incapaz continuar atividade empresária O sócio que se torna incapaz não precisa de autorização judicial para continuar a ser sócio. Não necessariamente ele perderá a qualidade de sócio. Ele pode até ser excluído por se tornar incapaz. Ou ele pode ser destituído do cargo e continuar a ser sócio. As normas da sociedade simples, aplicáveis subsidiariamente a outras sociedades, dispõem que o sócio pode ser excluído por incapacidade superveniente. Mas não há necessidade de autorização judicial para que ele continue a ser sócio. Art. 1.030. Ressalvado o disposto no art. 1.004 e seu parágrafo único, pode o sócio ser excluído judicialmente, mediante iniciativa da maioria dos demais sócios, por falta grave no cumprimento de suas obrigações, ou, ainda, por incapacidade superveniente. Parágrafo único. Será de pleno direito excluído da sociedade o sócio declarado falido, ou aquele cuja quota tenha sido liquidada nos termos do parágrafo único do art. 1.026. Alienação de imóveis pelo empresário casado Questão de exame oral: Quem é o destinatário do artigo 978 do Código Civil? Art. 978. O empresário casado pode, sem necessidade de outorga conjugal, qualquer que seja o regime de bens, alienar os imóveis que integrem o patrimônio da empresa ou gravá-los de ônus real. Uma interpretação incorreta do artigo 978 do Código Civil é que “A sociedade pode alienar bens imóveis para terceiros sem que haja necessidade de obter a autorização do cônjuge do sócio”. Não é isso que o artigo afirma. Pág. 40 de 265 Nesse caso, o bem é da pessoa jurídica, que é uma pessoa distinta da dos sócios, e que pode vender o bem para quem ela bem entender. O empresário pessoa física casado pode alienar bem imóvel a um terceiro adquirente, qualquer que seja o regime de casamento, desde que este imóvel pertença à empresa, ou, segundo o artigo 978, que integre o patrimônio da empresa (e “empresa” não é o mesmo que “sociedade”). Assim, a resposta à pergunta é que o destinatário do artigo 978 é o empresário pessoa física que, casado, pode vender imóvel sem que precise de autorização do cônjuge, desde que o imóvel esteja vinculado ao exercício da atividade empresarial. Isso porque se quer permitir que o empresário possa negociar. Exemplo: o empresário compra e vende veículos. Ele adquiriu o imóvel onde exerce essa atividade quando já estava casado. Para dar a agilidade que a atividade empresarial exige, esse empresário pode vender esse imóvel, desde que ele esteja vinculado à atividade empresária. O destinatário do artigo 978 do Código Civil é o empresário pessoa física, que pode vender imóvel que esteja vinculado a sua atividade empresarial, mesmo que esteja casado, sem a necessidade da autorização do cônjuge. O dispositivo tem por escopo dar agilidade ao exercício da atividade empresarial. Entretanto, há um problema: o artigo 978 do Código Civil está divergente do artigo 1.647, I do Código Civil. Art. 1.647. Ressalvado o disposto no art. 1.648, nenhum dos cônjuges pode, sem autorização do outro, exceto no regime da separação absoluta: I - alienar ou gravar de ônus real os bens imóveis; II - pleitear, como autor ou réu, acerca desses bens ou direitos; III - prestar fiança ou aval; IV - fazer doação, não sendo remuneratória, de bens comuns, ou dos que possam integrar futura meação. Parágrafo único. São válidas as doações nupciais feitas aos filhos quando casarem ou estabelecerem economia separada. Segundo o artigo 1.647, I, se a pessoa é casada (exceto no regime da separação absoluta), não se pode alienar imóvel sem a autorização do cônjuge. Há um problema de eficácia do artigo 978 do Código Civil. No cartório de imóveis, o funcionário irá perguntar ao alienante se ele é casado. Se ele for, o funcionário não permitirá a alienação sem a autorização do cônjuge. O funcionário pode ser inclusive responsabilizado por desrespeitar essa norma. Assim, o artigo 978 fica sem eficácia diante do artigo 1.647, I do Código Civil. Vários doutrinadores tentam explicar a questão. As Jornadas de Direito Civil e de Direito Comercial tratam dessa matéria. Enunciado nº 58 da II Jornada de Direito Comercial O empresário individual casado é o destinatário da norma do art. 978 do CCB e não depende da outorga conjugal para alienar ou gravar de Pág. 41 de 265 ônus real o imóvel utilizado no exercício da empresa, desde que exista prévia averbação de autorização conjugal à conferência do imóvel ao patrimônio empresarial no cartório de registro de imóveis, com a consequente averbação do ato à margem de sua inscrição no Registro Público de Empresas Mercantis. Quando não soubermos do que trata uma questão de prova, devemos ler a exposição de motivos dos Códigos, que são doutrina pura. Estabelecimento empresarial Estabelecimento não é o local da atividade empresarial. O local é chamado de ponto empresarial, e o ponto é um dos elementos incorpóreos do estabelecimento. O estabelecimento empresarial é um conjunto de bens corpóreos e incorpóreos que o empresário ou a sociedade empresária utilizam para o exercício da empresa. Artigo 1.142 do Código Civil Art. 1.142. Considera-se estabelecimento todo complexo de bens organizado, para exercício da empresa, por empresário, ou por sociedade empresária. (Vide Lei nº 14.195, de 2021) § 1º O estabelecimento não se confunde com o local onde se exerce a atividade empresarial, que poderá ser físico ou virtual. (Incluído pela Lei nº 14.382, de 2022) § 2º Quando o local onde se exerce a atividade empresarial for virtual, o endereço informado para fins de registro poderá ser, conforme o caso, o endereço do empresário individual ou o de um dos sócios da sociedade empresária. (Incluído pela Lei nº 14.382, de 2022) § 3º Quando o local onde se exerce a atividade empresarial for físico, a fixação do horário de funcionamento competirá ao Município, observada a regra geral prevista no inciso II do caput do art. 3º da Lei nº 13.874, de 20 de setembro de 2019. (Incluído pela Lei nº 14.382, de 2022) O estabelecimento são todasas ferramentas reunidas para exercer a atividade empresarial. Na aula que vem encerramos essa matéria e começaremos a estudar os títulos de crédito. Pág. 42 de 265 SUMÁRIO Teoria geral do direito empresarial Espécies de empresários 1. Empresário stricto sensu 2. Sociedades empresárias Estabelecimento empresarial Há um julgado do STJ relacionado à matéria que vimos na aula passada, acerca da caracterização de clínica laboratorial como atividade empresária. STJ, 2ª Turma, REsp. nº 555.624/PB. EMENTA SOCIEDADES - MÉDICOS - ISS - SERVIÇOS PRESTADOS POR LABORATÓRIOS DE ANÁLISES - ITENS 1 E 2 DA LISTA DE SERVIÇOS ANEXA AO DECRETO-LEI N. 406/68 - NÃO INCIDÊNCIA DO §3º DO ARTIGO 9º DO REFERIDO DECRETO. De pronto, impende ressaltar que as sociedades de profissionais liberais, malgrado formadas exclusivamente por médicos, constituíram-se formalmente como sociedades comerciais, de modo que a simples presença desses não representa elemento hábil a desfigurar a natureza comercial da atividade exercida. Conquanto seu corpo de sócios seja formado exclusivamente por médicos, as sociedades constituídas sob a modalidade de limitadas desempenham atividade empresarial, uma vez que seus contratos sociais dispõem até mesmo como devem ser distribuídos os dividendos. Sobeja asseverar, por oportuno, que uma sociedade comercial formada exclusivamente por médicos também se encontra apta a praticar atos de comércio, de sorte que o principal fator a ser verificado para se identificar a finalidade da sociedade é seu objeto social. Em espécie, resta inequívoco que o objeto social das sociedades comerciais recorridas é a prestação de um serviço especializado, todavia, inequivocamente associado ao exercício da empresa. Merece reparo, portanto, o v. acórdão recorrido, porquanto nem todos os laboratórios de análises e clínicas que possuem profissionais de medicina entre seus sócios devem ser beneficiados pelo regime privilegiado de tributação concedido aos serviços previstos no item 1 daquela Lista pelo § 3º do artigo 9º do Decreto-Lei n. 406/68. Para tanto, é imprescindível seja aferido se os médicos que integram tais entidades desempenham a atividade de forma uniprofissional e sem finalidade empresarial. Recurso especial provido. (REsp 555.624/PB, Rel. Ministro FRANCIULLI NETTO, SEGUNDA TURMA, julgado em 19/02/2004, DJ 27/09/2004, p. 324) No mesmo sentido, dispõe um enunciado da III Jornada de Direito Civil: “Enunciado nº 194 da III Jornada de Direito Civil Pág. 43 de 265 Os profissionais liberais não são considerados empresários, salvo se a organização dos fatores de produção for mais importante que a atividade pessoal desenvolvida.” Isso está de acordo com o artigo 966 do Código Civil, que estudamos na aula passada. Espécies de empresários A atividade empresarial, chamada de empresa, é desenvolvida por dois sujeitos. 1. Empresário stricto sensu Empresário stricto sensu é a pessoa física que assume responsabilidade com seu patrimônio. 2. Sociedades empresárias A sociedade empresária em regra é formada por várias pessoas, físicas ou jurídicas (com exceção da sociedade unipessoal). Por que as pessoas se agrupam em determinados entes? Porque elas não conseguem realizar sua atividade por si só e precisam umas das outras para desenvolver atividades complexas. Atribui-se personalidade jurídica para esse ente, para que ele possa agir independentemente das pessoas que o formam. Foram criadas pessoas jurídicas em que as pessoas que a constituem possam limitar sua responsabilidade. Qual é a vantagem de se constituir uma sociedade ao invés de atuar como empresário individual? A responsabilidade limitada. Exemplo: A e B querem constituir uma sociedade. Geralmente se constitui uma sociedade limitada ou uma sociedade anônima, caso em que o patrimônio particular de A e de B será conservado intacto, a não ser que seja o caso de desconsideração da personalidade jurídica. O patrimônio que A e B verterem para a sociedade irá compor o capital social. Participar de uma sociedade também pode ter desvantagens. O sujeito não decide mais sozinho o caminhar da atividade. Caso a sociedade venha a malograr, é perdido o dinheiro investido na sociedade. Artigo 1º da Lei nº 6.404/1976 “Art. 1º A companhia ou sociedade anônima terá o capital dividido em ações, e a responsabilidade dos sócios ou acionistas será limitada ao preço de emissão das ações subscritas ou adquiridas.” A sociedade é algo anterior ao seu registro, conforme o artigo 986 do Código Civil, que prevê a sociedade em comum. É uma sociedade que existe antes do seu registro, sem personalidade jurídica. “Art. 986. Enquanto não inscritos os atos constitutivos, reger-se-á a sociedade, exceto por ações em organização, pelo disposto neste Capítulo, observadas, subsidiariamente e no que com ele forem compatíveis, as normas da sociedade simples.” Pág. 44 de 265 O artigo 45 do Código Civil afirma que a sociedade surge com o registro. Mas isso está errado, porque a sociedade é um fenômeno que preexiste ao registro. “Art. 45. Começa a existência legal das pessoas jurídicas de direito privado com a inscrição do ato constitutivo no respectivo registro, precedida, quando necessário, de autorização ou aprovação do Poder Executivo, averbando-se no registro todas as alterações por que passar o ato constitutivo. Parágrafo único. Decai em três anos o direito de anular a constituição das pessoas jurídicas de direito privado, por defeito do ato respectivo, contado o prazo da publicação de sua inscrição no registro.” Não há o fenômeno da dupla personificação do empresário. Ele não adquire uma personalidade jurídica por realizar o registro na Junta Comercial, mas continua a ser uma pessoa física. O objetivo da sociedade é obter lucro e distribuí-lo como dividendos para seus sócios. Estabelecimento empresarial As três esferas da empresa são a subjetiva, a objetiva e a funcional. Estudamos a primeira esfera, que é a do sujeito de direito, isto é, o empresário ou a sociedade empresária, que exercem profissionalmente uma atividade econômica organizada. Vamos estudar a segunda esfera, que diz respeito ao aspecto objetivo da empresa. O estabelecimento não é o local onde a empresa é desenvolvida. A empresa tem um ou vários estabelecimentos no território nacional. O estabelecimento é um complexo de bens. O autor que mais escreveu sobre esse tema é Oscar Barreto Filho, que foi Professor da Faculdade de Direito da USP. Para Oscar Barreto Filho, o estabelecimento é um conjunto de bens, que podem ser corpóreos (com existência física) ou incorpóreos (sem existência física), que o empresário ou a sociedade empresária utilizam para a consecução da empresa. Exemplo: a marca é um bem incorpóreo. Artigo 1.142 do Código Civil Art. 1.142. Considera-se estabelecimento todo complexo de bens organizado, para exercício da empresa, por empresário, ou por sociedade empresária. (Vide Lei nº 14.195, de 2021) § 1º O estabelecimento não se confunde com o local onde se exerce a atividade empresarial, que poderá ser físico ou virtual. (Incluído pela Lei nº 14.382, de 2022) § 2º Quando o local onde se exerce a atividade empresarial for virtual, o endereço informado para fins de registro poderá ser, conforme o Pág. 45 de 265 caso, o endereço do empresário individual ou o de um dos sócios da sociedade empresária. (Incluído pela Lei nº 14.382, de 2022) § 3º Quando o local onde se exerce a atividade empresarial for físico, a fixação do horário de funcionamento competirá ao Município, observada a regra geral prevista no inciso II do caput do art. 3º da Lei nº 13.874, de 20 de setembro de 2019. (Incluído pela Lei nº 14.382, de 2022) Observação: o estabelecimento é composto somente pelos bens corpóreos ou incorpóreos queo empresário utiliza para o exercício da empresa. O estabelecimento não se confunde com o patrimônio. O patrimônio é uno, é um só. O patrimônio é uma universalidade de direito, conforme o artigo 91 do Código Civil. Art. 91. Constitui universalidade de direito o complexo de relações jurídicas, de uma pessoa, dotadas de valor econômico. O estabelecimento são apenas os bens direcionados para o exercício da empresa. Há uma questão prática a assimilar: o empresário ou a sociedade empresária só tem um patrimônio, a não ser que a lei determine a sua divisão, como ocorre no artigo 974, § 2º do Código Civil, que determina a divisão de patrimônio para proteger o incapaz que continua a atividade empresária. “Art. 974. (...) § 2º Não ficam sujeitos ao resultado da empresa os bens que o incapaz já possuía, ao tempo da sucessão ou da interdição, desde que estranhos ao acervo daquela, devendo tais fatos constar do alvará que conceder a autorização.” O estabelecimento não é o patrimônio, mas sim uma parte do patrimônio. O comerciante pode ter dois ou mais estabelecimentos? Sim, porque o estabelecimento não se confunde com o patrimônio. O empresário terá quantos estabelecimentos quiser. Exemplo: A e B têm um estabelecimento ao montar uma farmácia para arrecadar dividendos e complementar sua renda. Ao montar outra farmácia, eles têm outro estabelecimento. O estabelecimento é um conjunto de bens organizado. A sociedade empresária organiza os bens para o exercício da empresa, da atividade. O estabelecimento, por uma ficção do direito tributário, tem um CNPJ ligado a si. Mas o estabelecimento não é uma pessoa jurídica apartada do sujeito que a detém. O direito tributário quer saber quais as rendas auferidas por cada um dos estabelecimentos. Para saber se algo é um estabelecimento, faz-se a pergunta: esse algo gera um faturamento? Se a resposta é sim, há um estabelecimento. Pág. 46 de 265 Exemplos: a farmácia gera faturamento por si só, de forma que é um estabelecimento. O galpão onde a empresa guarda bens não gera faturamento por si só. Assim, ele integra o patrimônio, mas não é um estabelecimento. O estabelecimento, esse complexo de bens corpóreos e incorpóreos, gera um aviamento. O aviamento é o potencial de lucro produzido pelo estabelecimento. O ordenamento jurídico trata o estabelecimento como uma coisa só porque há aviamento. O goodwill of trade é uma nomenclatura em inglês para o aviamento. Pág. 47 de 265 SUMÁRIO Teoria geral do direito empresarial Estabelecimento empresarial Natureza jurídica do estabelecimento empresarial Trespasse Estabelecimento empresarial A sociedade titulariza o estabelecimento. Não necessariamente há propriedade ou domínio. O ponto comercial, por exemplo, pode ser alugado. Assim, diz-se que a sociedade é titular do estabelecimento empresarial, e não proprietária. Quando se tem um complexo de bens organizado, ele tem uma mais-valia. A biblioteca custa mais do que o valor das obras que contém. A organização gera a mais-valia, um sobrevalor, que é representado pelo aviamento em caso de compra e venda do estabelecimento. Quando uma sociedade empresária compra um estabelecimento, ela não vai simplesmente pensar em inventariar os bens que lá estão, e qual é o seu valor. Pensa-se no aviamento. Quanto o estabelecimento gera de dinheiro por mês? Esse é um elemento a ser avaliado. Natureza jurídica do estabelecimento empresarial Qual é a natureza jurídica do estabelecimento? A doutrina, de modo unânime, entende que o estabelecimento é uma universalidade de fato, conforme o artigo 90 do Código Civil. Isso significa que o estabelecimento é um conjunto de bens, organizado pelo empresário lato sensu para o exercício da atividade, sendo que essa universalidade receberá uma proteção específica oferecida pelo ordenamento jurídico, sem que os bens que compõem a universalidade estejam desprotegidos pelo ordenamento. “Art. 90. Constitui universalidade de fato a pluralidade de bens singulares que, pertinentes à mesma pessoa, tenham destinação unitária. Parágrafo único. Os bens que formam essa universalidade podem ser objeto de relações jurídicas próprias.” O conjunto de bens que forma o estabelecimento é uma universalidade de fato, e não de direito. Uma vez que o conjunto de bens é organizado, ele recebe uma proteção do ordenamento jurídico. Os bens que compõem a universalidade não são uma universalidade de direito, porque não é o legislador que diz o que deve compor o estabelecimento. É o empresário que organiza o que haverá na farmácia, no mercadinho etc., de forma que a universalidade é de fato. Artigo 1.143 do Código Civil Pág. 48 de 265 “Art. 1.143. Pode o estabelecimento ser objeto unitário de direitos e de negócios jurídicos, translativos ou constitutivos, que sejam compatíveis com a sua natureza.” Pode-se ter o estabelecimento como objeto de um contrato translativo ou constitutivo. O negócio jurídico translativo por excelência é o trespasse. Negócio jurídico translativo é aquele que transfere a titularidade do estabelecimento. Negócio jurídico constitutivo é aquele que não transfere a titularidade, mas permite que a pessoa utilize o conjunto de bens, mediante o pagamento de um certo valor por isso. Exemplos: arrendamento e usufruto. O artigo 1.144 afirma que, uma vez que haja um negócio jurídico (seja ele translativo ou constitutivo), o contrato deve ser levado à Junta Comercial e publicado, para que todos saibam da mudança ocorrida. “Art. 1.144. O contrato que tenha por objeto a alienação, o usufruto ou arrendamento do estabelecimento, só produzirá efeitos quanto a terceiros depois de averbado à margem da inscrição do empresário, ou da sociedade empresária, no Registro Público de Empresas Mercantis, e de publicado na imprensa oficial.” Trespasse O trespasse é o negócio jurídico que tem por objeto a alienação do estabelecimento empresarial. Trespassar é alienar a titularidade do estabelecimento empresarial. Não se deve confundir o trespasse (artigos 1.142 a 1.149 do Código Civil) com o negócio jurídico de cessão de quotas, que é regulado por outros dispositivos. No mundo fático, não é possível distinguir entre os dois. Mas são negócios jurídicos distintos, que geram consequências distintas. Exemplo: a Droga Raia vai vender uma farmácia para a Sociedade XY Ltda., que tem dois sócios, A e B. O artigo 1.146 do Código Civil trata dos débitos do estabelecimento. “Art. 1.146. O adquirente do estabelecimento responde pelo pagamento dos débitos anteriores à transferência, desde que regularmente contabilizados, continuando o devedor primitivo solidariamente obrigado pelo prazo de um ano, a partir, quanto aos créditos vencidos, da publicação, e, quanto aos outros, da data do vencimento.” Esse é o dispositivo mais cobrado em concursos públicos sobre o estabelecimento. O adquirente responde pelos débitos que pertencem ao estabelecimento empresarial? A Sociedade XY Ltda. responde pelos débitos da Droga Raia? Não. O artigo 1.146 está mal redigido e induz os alunos em erro. Explicação de Oscar Barreto Filho: o estabelecimento é composto de bens, conforme o artigo 1.142 do Código Civil. Os débitos não são considerados bens, mas são relações jurídicas que integram o patrimônio. Como os débitos não Pág. 49 de 265 são bens, não fazem parte do estabelecimento. Portanto, o adquirente não responde pelo passivo, salvo o passivo regularmente contabilizado. Ao afirmar que “O adquirente do estabelecimento responde pelo pagamento dos débitos”, o artigo 1.146 passa a impressão de que o adquirente responde pelos débitos que pertencem ao estabelecimento empresarial. Há uma solidariedade entre o adquirente e o alienante pelo prazo de um ano. Assim, o adquirente responde apenas pelo passivo regularmente contabilizado,e não por todo o passivo. Apenas os débitos regularmente contabilizados são transferidos para o adquirente. Os débitos regularmente contabilizados são aqueles que estiverem escriturados nos livros obrigatórios mantidos pelo empresário. Quem compra o estabelecimento quer ver os livros obrigatórios. Hoje há um único livro obrigatório para todos, que é o diário. Mas dependendo da atividade desenvolvida pelo empresário, haverá outros livros, como aquele referente à emissão de duplicatas. Uma posição minoritária da doutrina entende que os débitos integram o estabelecimento empresarial. Há duas espécies de débitos que não são reguladas pela regra geral estabelecida pelo artigo 1.146 do Código Civil: 1. Artigo 448 da CLT “Art. 448 - A mudança na propriedade ou na estrutura jurídica da empresa não afetará os contratos de trabalho dos respectivos empregados. Art. 448-A. Caracterizada a sucessão empresarial ou de empregadores prevista nos arts. 10 e 448 desta Consolidação, as obrigações trabalhistas, inclusive as contraídas à época em que os empregados trabalhavam para a empresa sucedida, são de responsabilidade do sucessor. Parágrafo único. A empresa sucedida responderá solidariamente com a sucessora quando ficar comprovada fraude na transferência.” 2. Artigo 133 do CTN “Art. 133. A pessoa natural ou jurídica de direito privado que adquirir de outra, por qualquer título, fundo de comércio ou estabelecimento comercial, industrial ou profissional, e continuar a respectiva exploração, sob a mesma ou outra razão social ou sob firma ou nome individual, responde pelos tributos, relativos ao fundo ou estabelecimento adquirido, devidos até à data do ato: I - integralmente, se o alienante cessar a exploração do comércio, indústria ou atividade; II - subsidiariamente com o alienante, se este prosseguir na exploração ou iniciar dentro de seis meses a contar da data da alienação, nova Pág. 50 de 265 atividade no mesmo ou em outro ramo de comércio, indústria ou profissão. § 1o O disposto no caput deste artigo não se aplica na hipótese de alienação judicial: I – em processo de falência; II – de filial ou unidade produtiva isolada, em processo de recuperação judicial. § 2o Não se aplica o disposto no § 1o deste artigo quando o adquirente for: I – sócio da sociedade falida ou em recuperação judicial, ou sociedade controlada pelo devedor falido ou em recuperação judicial; II – parente, em linha reta ou colateral até o 4o (quarto) grau, consanguíneo ou afim, do devedor falido ou em recuperação judicial ou de qualquer de seus sócios; ou III – identificado como agente do falido ou do devedor em recuperação judicial com o objetivo de fraudar a sucessão tributária. § 3o Em processo da falência, o produto da alienação judicial de empresa, filial ou unidade produtiva isolada permanecerá em conta de depósito à disposição do juízo de falência pelo prazo de 1 (um) ano, contado da data de alienação, somente podendo ser utilizado para o pagamento de créditos extraconcursais ou de créditos que preferem ao tributário.” A lei especial derroga a lei geral. Trata-se de regra de hermenêutica. Quando se tratar do passivo tributário e do passivo trabalhista, há exceção ao artigo 1.146 do Código Civil. Pág. 51 de 265 SUMÁRIO Estabelecimento empresarial 3. Cláusula de não restabelecimento ou não concorrência Registro da atividade empresarial 3. Cláusula de não restabelecimento ou não concorrência Na aula passada estudamos a cláusula de não restabelecimento, segundo a qual o alienante do estabelecimento empresarial fica impedido de fazer concorrência ao adquirente por cinco anos após a venda. “Art. 1.147. Não havendo autorização expressa, o alienante do estabelecimento não pode fazer concorrência ao adquirente, nos cinco anos subsequentes à transferência. Parágrafo único. No caso de arrendamento ou usufruto do estabelecimento, a proibição prevista neste artigo persistirá durante o prazo do contrato.” Não há problema em vender uma churrascaria e abrir uma loja de roupas, porque não há concorrência. Há problema em vender uma churrascaria e abrir um restaurante de comida japonesa? É melhor especificar no contrato de trespasse se a proibição de concorrência é no mesmo ramo de atividades, e qual é o escopo da proibição. Na prática, o ponto relevante é que não haja desvio de clientela. Também é importante delimitar no próprio contrato de trespasse a chamada cláusula de raio, ou seja, fixar o raio no qual o alienante não poderá fazer concorrência. É possível fixar o raio em metros, quilômetros, por bairro ou por região. Na omissão do contrato, o STJ entende que o alienante não poderá fazer concorrência ao adquirente no raio até o qual o novo estabelecimento atraia clientela ou freguesia do estabelecimento vendido. Se necessário, o juiz determinará a realização de perícia para que se determine em que raio o restaurante consegue atrair clientela. Como ficam as dívidas após o trespasse? Caso hipotético: o estabelecimento foi vendido em 10/02/2022 - essa é a data da assinatura do contrato. Mas o contrato de trespasse foi publicado na imprensa oficial em data posterior. Quem responde pelas dívidas trabalhistas e perante os outros credores? O artigo 1.146 do CC estabelece que o adquirente assume todos os débitos devidamente contabilizados. “Art. 1.146. O adquirente do estabelecimento responde pelo pagamento dos débitos anteriores à transferência, desde que regularmente contabilizados, continuando o devedor primitivo solidariamente obrigado pelo prazo de um ano, a partir, quanto aos créditos vencidos, da publicação, e, quanto aos outros, da data do vencimento.” Pág. 52 de 265 O alienante continua solidariamente responsável pelo prazo de um ano pelos débitos existentes, contado o prazo da publicação do trespasse, no caso de dívidas vencidas, e, quanto aos outros, da data do vencimento do débito. O contrato de trespasse, entre as partes, tem efeito a partir do momento da assinatura. Mas perante terceiros, ele apenas produzirá efeito a partir do registro na Junta Comercial, que o publicará no Diário Oficial. Se o alienante vendeu o estabelecimento há dois anos, mas não registrou o contrato de trespasse na Junta Comercial, o trespasse não produzirá efeitos quanto a terceiros. O alienante continua responsável pelos débitos. Artigo 1.144 do Código Civil “Art. 1.144. O contrato que tenha por objeto a alienação, o usufruto ou arrendamento do estabelecimento, só produzirá efeitos quanto a terceiros depois de averbado à margem da inscrição do empresário, ou da sociedade empresária, no Registro Público de Empresas Mercantis, e de publicado na imprensa oficial.” O contrato de trespasse é solene - deve ser celebrado por escrito, registrado na Junta Comercial e publicado no Diário Oficial. É necessária a concordância dos credores para a eficácia do trespasse? Nem sempre. Imagine-se uma grande empresa, como a Magazine Luiza, que tem mais de 1.000 estabelecimentos. Essa empresa quer vender 4 estabelecimentos para a Via Varejo. Isso não afeta em nada os credores, porque o patrimônio da Magazine Luiza é muito expressivo, então não é preciso obter a concordância dos credores. Outro exemplo: uma empresa tem dois estabelecimentos comerciais e pretende vender um deles, o que fará com que, após a venda, o alienante não tenha mais patrimônio suficiente para pagamento dos credores. É preciso pedir a autorização dos credores para que o trespasse seja eficaz. Só será necessária a concordância de todos os credores, de forma expressa ou tácita, mediante notificação para responderem em 30 dias, se após a venda o alienante não conservar patrimônio suficiente para pagamento dos credores. Não havendo essa formalidade, haverá ineficácia do contrato. Artigo 1.145 do Código Civil“Art. 1.145. Se ao alienante não restarem bens suficientes para solver o seu passivo, a eficácia da alienação do estabelecimento depende do pagamento de todos os credores, ou do consentimento destes, de modo expresso ou tácito, em trinta dias a partir de sua notificação.” De quais credores deve-se obter a concordância? De todos eles. Se após 30 dias os credores não responderem, eles concordaram de forma tácita. As alternativas em questões de concurso público geralmente afirmam que é preciso obter a concordância expressa dos credores, mas ela pode ser tácita também. A empresa pode pagar o credor, para que ele deixe de sê-lo. Assim, se ele não é mais credor, não precisa mais concordar com o trespasse, e o alienante pode vender o estabelecimento. Pág. 53 de 265 Registro da atividade empresarial Houve mudança de lei com relação ao nome empresarial, que certamente será cobrada em concurso público. 1. Artigos 967 a 971 do Código Civil 2. Lei nº 8.934/1994 (LRPEM – Registro Público de Empresas Mercantis e Atividades Afins) 3. Nome empresarial: artigos 1.155 e ss. do Código Civil O registro é obrigatório ou facultativo? Uma pessoa monta uma loja de roupas, uma cantina, uma loja de autopeças. Ela pode se registrar ou deve se registrar? Artigo 967 do Código Civil “Art. 967. É obrigatória a inscrição do empresário no Registro Público de Empresas Mercantis da respectiva sede, antes do início de sua atividade.” O registro é ato obrigatório a todo empresário e sociedade empresária antes do início de suas atividades. Essa é a regra. Exceção: para o empreendedor rural, o registro é uma faculdade, ou seja, é no momento do registro que ele se equipara à atividade empresarial. Artigo 971 do CC “Art. 971. O empresário, cuja atividade rural constitua sua principal profissão, pode, observadas as formalidades de que tratam o art. 968 e seus parágrafos, requerer inscrição no Registro Público de Empresas Mercantis da respectiva sede, caso em que, depois de inscrito, ficará equiparado, para todos os efeitos, ao empresário sujeito a registro. Parágrafo único. Aplica-se o disposto no caput deste artigo à associação que desenvolva atividade futebolística em caráter habitual e profissional, caso em que, com a inscrição, será considerada empresária, para todos os efeitos. (Incluído pela Lei nº 14.193, de 2021)” O empreendedor rural exerce atividade econômica no âmbito rural. As atividades no meio rural estão divididas entre o agronegócio, composto de grandes empresas, e o empreendedorismo rural familiar, de subsistência. Se todos tivessem que se registrar, os pequenos produtores teriam que cumprir todas as regras, tais como contratar contador, escriturar livros, etc. E eles não conseguiriam suportar esses custos, de forma que são protegidos pela lei e têm a opção de se registrar ou não. Isso não traz um benefício indevido para as grandes empresas que atuam no agronegócio. Isso porque, na prática, essas empresas têm que se registrar, porque vendem sua produção para grandes parceiros comerciais, que pedem nota fiscal, que só pode ser emitida se a empresa estiver registrada. Pág. 54 de 265 SUMÁRIO Registro da atividade empresarial Nome empresarial Registro da atividade empresarial Qual é a natureza do registro? É constitutiva ou regularizatória? Se ele tiver natureza constitutiva, a empresa nasce quando for registrada. Se ele tiver natureza regularizatória, a empresa existe, mas antes do registro é irregular. Quando nós nascemos, devemos ser registrados. Se não formos registrados, ainda assim existimos, embora não estejamos regularizados perante o direito brasileiro. Da mesma forma, a empresa não registrada existe, mas está irregular. O direito não nega a existência das empresas não regularizadas, mas as estuda e as pune. Assim, o registro tem natureza regularizatória da atividade, e não constitutiva. Para o empreendedor rural, como o registro para ele é facultativo, a natureza jurídica do registro é constitutiva, pois é no momento do registro que ele se equipara à atividade empresarial. Assim, o empreendedor rural é uma exceção. Seu registro é facultativo. Ele só é equiparado a empresário se ele quiser se registrar. Para as sociedades, o registro também é constitutivo de personalidade jurídica. Portanto, no momento do registro, as sociedades se regularizam e adquirem personalidade jurídica. Já no caso do empresário individual, o registro não atribui a ele personalidade jurídica, pois é a própria pessoa física exercendo a empresa em seu próprio nome e sob sua responsabilidade. Órgãos onde é feito o registro (são conhecidos como Registro Público das Empresas Mercantis, e estão previstos na Lei nº 8.934/1994): 1. Junta Comercial: atribuição estadual e de efetiva execução do registro 2. DREI (Departamento de Registro Empresarial e Integração): é um órgão federal e tem a função de regulamentar (por meio da edição de Instruções Normativas) e fiscalizar a atividade de registro O DREI não irá registrar nenhuma empresa, mas somente fiscalizará e regulamentará a atividade de registro. Muitas vezes o Código Civil é omisso sobre algumas questões referentes ao registro, que são regularizadas por Instruções Normativas, tal como a Instrução Normativa nº 81/2020, que dispõe sobre as normas e diretrizes gerais do Registro Público de Empresas. Nome empresarial Artigos 1.155 e ss. do CC e artigo 35-A da Lei nº 8.934/1994 O artigo 35-A foi inserido pela Lei nº 14.195/2021. Pág. 55 de 265 O nome empresarial visa a individualizar a empresa. Modalidades de nome empresarial: 1. Firma: é o nome civil de um ou de todos os membros, de forma extensa ou abreviada 2. Denominação: é o elemento fantasia 3. Nome empresarial que consiste no número do CNPJ As empresas geralmente não gostam muito de firma, porque não é um nome que atrai muito os clientes. Mas há atividades que devem ser registradas na modalidade de firma, como veremos. No ano de 2021, foi aprovada a Lei nº 14.195/2021, que inseriu o artigo 35-A na Lei nº 8.934/1994, criando uma terceira modalidade de nome empresarial. Nos termos do artigo 35-A, o nome da empresa repete o seu número de CNPJ. “Art. 35-A. O empresário ou a pessoa jurídica poderá optar por utilizar o número de inscrição no Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ) como nome empresarial, seguido da partícula identificadora do tipo societário ou jurídico, quando exigida por lei. (Incluído pela Lei nº 14.195, de 2021)” Essa terceira modalidade de nome empresarial ainda é muito nova, e na prática as novas empresas ainda não estão conseguindo se registrar dessa forma, porque só se ganha um novo CNPJ após o registro na Junta Comercial. Mas uma empresa que já existe pode alterar o seu nome empresarial para o número de CNPJ, que ela já tem. Isso é bom porque vai evitar colidência de nome empresarial, já que cada CNPJ é único. A Medida Provisória nº 1.085/2021 (convertida na lei nº 14.382/22) mudou a redação dos artigos 1.160 e 1.161 do Código Civil: Art. 1.160. A sociedade anônima opera sob denominação integrada pelas expressões ‘sociedade anônima’ ou ‘companhia’, por extenso ou abreviadamente, facultada a designação do objeto social. (Redação dada pela Lei nº 14.382, de 2022) Parágrafo único. Pode constar da denominação o nome do fundador, acionista, ou pessoa que haja concorrido para o bom êxito da formação da empresa. Art. 1.161. A sociedade em comandita por ações pode, em lugar de firma, adotar denominação aditada da expressão ‘comandita por ações’, facultada a designação do objeto social. (Redação dada pela Lei nº 14.382, de 2022) A grande mudança é facultar a designação do objeto social. Antes, a designação do objeto social no nome era obrigatória, e passou a ser facultativa. Tal faculdade foi atribuída à sociedade anônima e àsociedade em comandita por ações. Pág. 56 de 265 Vamos fazer uma tabela sobre os tipos empresariais existentes e quais nomes empresariais eles podem adotar. Isso é muito cobrado em concursos públicos. A EIRELI foi expressamente revogada e não existe mais. A doutrina afirmava que a EIRELI já havia sido revogada de forma tácita, até que a Medida Provisória nº 1.085/2021 (posteriormente convertida pela Lei nº 14.382/22) a revogou de forma expressa. Pág. 57 de 265 SUMÁRIO Nome empresarial Estatuto da Micro e Pequena Empresa Tabela dos tipos empresariais existentes no ordenamento jurídico brasileiro e identificação dos nomes empresariais que cada um deles pode adotar: Tipos empresariais Firma Denominação Número de CNPJ Empresário individual (artigo 966 do CC) X X Sociedade em Comum (artigos 986 a 990 do CC) Não têm registro, logo, não tem nome empresarial Sociedade em Conta de Participação (artigos 991 a 996 do CC) Não têm registro, logo, não tem nome empresarial Sociedade em Nome Coletivo (artigos 1.039 a 1.044 do CC) X X Sociedade em Comandita Simples (artigos 1.045 a 1.051 do CC) X, apenas com o(s) nome(s) do(s) sócio(s) comanditado(s) X Sociedade Limitada (artigos 1.052 a 1.087 do CC) X X X Sociedade Anônima (Lei nº 6.404/1976) É uma grande sociedade, com muitos sócios, de forma que não é prático colocar o nome de todos no nome empresarial X Artigo 3º da Lei das S.A. X Sociedade Anônima de Futebol (S.A.F.) (Lei nº 14.193/2021) X Artigo 1º, § 3º da Lei nº 14.193/2021 X Sociedade em comandita por ações (artigos 1.090 a 1.092 do CC) X X X Pág. 58 de 265 A sociedade limitada deve escolher entre ter uma firma, uma denominação, ou reproduzir o número do seu CNPJ. Não se pode escolher mais de um ao mesmo tempo. Artigo 3º da Lei das S.A.: “Art. 3º A sociedade será designada por denominação acompanhada das expressões "companhia" ou "sociedade anônima", expressas por extenso ou abreviadamente mas vedada a utilização da primeira ao final. § 1º O nome do fundador, acionista, ou pessoa que por qualquer outro modo tenha concorrido para o êxito da empresa, poderá figurar na denominação. § 2º Se a denominação for idêntica ou semelhante a de companhia já existente, assistirá à prejudicada o direito de requerer a modificação, por via administrativa (artigo 97) ou em juízo, e demandar as perdas e danos resultantes.” Artigo 1º, § 3º da Lei nº 14.193/2021: “Art. 1º Constitui Sociedade Anônima do Futebol a companhia cuja atividade principal consiste na prática do futebol, feminino e masculino, em competição profissional, sujeita às regras específicas desta Lei e, subsidiariamente, às disposições da Lei nº 6.404, de 15 de dezembro de 1976, e da Lei nº 9.615, de 24 de março de 1998. (...) § 3º A denominação da Sociedade Anônima do Futebol deve conter a expressão “Sociedade Anônima do Futebol” ou a abreviatura “S.A.F.”. A adoção do nome empresarial como a inscrição no CNPJ é possível para qualquer tipo empresarial, porque a lei não delimitou. Assim, todos os tipos empresariais podem adotá-lo. Microempresa e Empresa de Pequeno Porte É um assunto muito cobrado em provas de concurso público. São as chamadas M.E.s e E.P.P.s. Trata-se de pequenas atividades empresariais, como uma pequena padaria, ou uma pequena papelaria. Por que o legislador se preocupou com elas? Em caráter isolado, elas não representam muito da economia. Mas, juntas, elas representam mais de 40% do PIB brasileiro, ou seja, mais de 40% das riquezas produzidas no Brasil. Se a lei não dispensar um tratamento diferenciado e benefícios a essas pequenas empresas, elas não vão conseguir arcar com as burocracias e encargos tributários que as empresas têm. E pode haver um efeito dominó, que impacta fortemente a economia. Pág. 59 de 265 A maior parte das empresas brasileiras é M.E. e E.P.P. Artigo 179 da CF “Art. 179. A União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios dispensarão às microempresas e às empresas de pequeno porte, assim definidas em lei, tratamento jurídico diferenciado, visando a incentivá-las pela simplificação de suas obrigações administrativas, tributárias, previdenciárias e creditícias, ou pela eliminação ou redução destas por meio de lei.” O artigo 179 é uma norma constitucional de eficácia limitada, contida. A CF não diz quais são os benefícios dessas empresas, e por isso foi criada a Lei Complementar nº 123/2006, o Estatuto da Micro e da Pequena Empresa. Microempresa, E.P.P. e M.E.I. não são tipos empresariais, mas enquadramentos que alguns tipos empresariais podem receber, em virtude principalmente de sua receita bruta anual (e de algumas atividades, mas principalmente da receita bruta anual). Os tipos empresariais são os que listamos na tabela acima. Lei Complementar nº 123/2006 Artigo 3º, caput da Lei Complementar nº 123/2006 define os enquadramentos da M.E. e da E.P.P.: 1. M.E.: Microempresa: é o empresário individual, a sociedade simples ou empresária que aufira receita bruta anual de até R$ 360.000,00 2. E.P.P.: Empresa de Pequeno Porte: é o empresário individual, a sociedade simples ou empresária que aufira receita bruta anual superior a R$ 360.000,00 e de até R$ 4.800.000,00 “Art. 3º Para os efeitos desta Lei Complementar, consideram-se microempresas ou empresas de pequeno porte, a sociedade empresária, a sociedade simples, a empresa individual de responsabilidade limitada e o empresário a que se refere o art. 966 da Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002 (Código Civil), devidamente registrados no Registro de Empresas Mercantis ou no Registro Civil de Pessoas Jurídicas, conforme o caso, desde que: I - no caso da microempresa, aufira, em cada ano-calendário, receita bruta igual ou inferior a R$ 360.000,00 (trezentos e sessenta mil reais); e II - no caso de empresa de pequeno porte, aufira, em cada ano- calendário, receita bruta superior a R$ 360.000,00 (trezentos e sessenta mil reais) e igual ou inferior a R$ 4.800.000,00 (quatro milhões e oitocentos mil reais).” A receita da E.P.P. é considerável, mas ainda assim ela tem muitos benefícios. E a lei fala corretamente em receita bruta, e não líquida, porque a líquida pode ser muito menor, descontadas as despesas. Pág. 60 de 265 Há um projeto de lei em trâmite que pretende aumentar esses números. Devemos acompanhar se será aprovado ou não. Essa é a regra, mas há as exceções. Vedações Artigo 3º, § 4º da Lei Complementar nº 123/2006 “§ 4º Não poderá se beneficiar do tratamento jurídico diferenciado previsto nesta Lei Complementar, incluído o regime de que trata o art. 12 desta Lei Complementar, para nenhum efeito legal, a pessoa jurídica: I - de cujo capital participe outra pessoa jurídica; II - que seja filial, sucursal, agência ou representação, no País, de pessoa jurídica com sede no exterior; III - de cujo capital participe pessoa física que seja inscrita como empresário ou seja sócia de outra empresa que receba tratamento jurídico diferenciado nos termos desta Lei Complementar, desde que a receita bruta global ultrapasse o limite de que trata o inciso II do caput deste artigo; IV - cujo titular ou sócio participe com mais de 10% (dez por cento) do capital de outra empresa não beneficiada por esta Lei Complementar, desde que a receita bruta global ultrapasse o limite de que trata o inciso II do caput deste artigo; V - cujo sócio ou titular seja administrador ou equiparado de outra pessoa jurídica com fins lucrativos, desde que a receita bruta global ultrapasse o limite de que trata o inciso II do caput deste artigo; VI - constituída sob a forma de cooperativas, salvo as de consumo; VII - que participe do capital de outra pessoa jurídica;VIII - que exerça atividade de banco comercial, de investimentos e de desenvolvimento, de caixa econômica, de sociedade de crédito, financiamento e investimento ou de crédito imobiliário, de corretora ou de distribuidora de títulos, valores mobiliários e câmbio, de empresa de arrendamento mercantil, de seguros privados e de capitalização ou de previdência complementar; IX - resultante ou remanescente de cisão ou qualquer outra forma de desmembramento de pessoa jurídica que tenha ocorrido em um dos 5 (cinco) anos-calendário anteriores; X - constituída sob a forma de sociedade por ações. Pág. 61 de 265 XI - cujos titulares ou sócios guardem, cumulativamente, com o contratante do serviço, relação de pessoalidade, subordinação e habitualidade.” As vedações visam a evitar fraude, ou que empresas grandes sejam enquadradas como M.E. ou E.P.P. para receber benefícios indevidamente. Inciso I: a empresa não é mais pequena se tem uma pessoa jurídica como sócio. Não faz jus ao enquadramento como M.E. ou E.P.P. Exemplo do inciso IX: faz-se a cisão da pessoa jurídica para que não se ultrapasse o limite da receita bruta anual, de forma a continuar a ter os benefícios de forma indevida Inciso X – as sociedades por ações voltam-se para as grandes atividades (ex.: empresa petrolífera), de forma que não podem ser M.E. ou E.P.P. M.E.I. – Microempreendedor Individual Artigos 18-A a 18-C da Lei Complementar nº 123/2006. O M.E.I. é um empresário individual que tem receita bruta anual de até R$ 81.000,00 (artigo 18-A, § 1º). A ideia de criar o M.E.I. é tirar os pequenos empreendedores da informalidade, tanto que eles têm alíquota tributária única. Exemplo: pessoa que faz bolo em casa para vender, faz lanche em casa, corta cabelo em casa. “Art. 18-A. O Microempreendedor Individual - MEI poderá optar pelo recolhimento dos impostos e contribuições abrangidos pelo Simples Nacional em valores fixos mensais, independentemente da receita bruta por ele auferida no mês, na forma prevista neste artigo. § 1º Para os efeitos desta Lei Complementar, considera-se MEI quem tenha auferido receita bruta, no ano-calendário anterior, de até R$ 81.000,00 (oitenta e um mil reais), que seja optante pelo Simples Nacional e que não esteja impedido de optar pela sistemática prevista neste artigo, e seja empresário individual que se enquadre na definição do art. 966 da Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002 (Código Civil), ou o empreendedor que exerça:” (...) Uma lei de dezembro de 2021 inseriu o artigo 18-F, que prevê a figura do M.E.I. Caminhoneiro. As provas de concurso público irão perguntar a respeito. A receita bruta dele pode ser um pouquinho maior que a do M.E.I. “Art. 18-F. Para o transportador autônomo de cargas inscrito como MEI, nos termos do art. 18-A desta Lei Complementar: (Incluído pela Lei Complementar nº 188, de 2021) I - o limite da receita bruta de que trata o § 1º e o inciso V do § 3º do art. 18-A desta Lei Complementar será de R$ 251.600,00 (duzentos e cinquenta e um mil e seiscentos reais); (Incluído pela Lei Complementar nº 188, de 2021) Pág. 62 de 265 II - o limite será de R$ 20.966,67 (vinte mil novecentos e sessenta e seis reais e sessenta e sete centavos) multiplicados pelo número de meses compreendidos entre o início da atividade e o final do respectivo ano-calendário, consideradas as frações de meses como um mês inteiro, no caso de início de atividades de que trata o § 2º do art. 18-A desta Lei Complementar; (Incluído pela Lei Complementar nº 188, de 2021) III - o valor mensal da contribuição de que trata o inciso X do § 1º do art. 13 desta Lei Complementar corresponderá ao valor resultante da aplicação da alíquota de 12% (doze por cento) sobre o salário-mínimo mensal. (Incluído pela Lei Complementar nº 188, de 2021)” Na próxima aula, continuaremos a estudar o M.E.I. Pág. 63 de 265 SUMÁRIO ESTATUTO DA MICRO E PEQUENA EMPRESA BENEFÍCIOS COLOCADOS À DISPOSIÇÃO DAS ATIVIDADES ENQUADRADAS NA LEI COMPLEMENTAR Nº 123/2006 ESTATUTO DA MICRO E PEQUENA EMPRESA Ser uma M.E. ou uma E.P.P. é um enquadramento empresarial, e não um tipo empresarial. A M.E. não pode extrapolar a receita bruta anual de R$ 360 mil. A E.P.P. não pode extrapolar a receita bruta anual de R$ 4.800.000,00. O M.E.I. aufere receita bruta anual de até R$ 81.000,00 (artigo 18-A, § 1º da Lei Complementar nº 123/2006). “§ 1º Para os efeitos desta Lei Complementar, considera-se MEI quem tenha auferido receita bruta, no ano-calendário anterior, de até R$ 81.000,00 (oitenta e um mil reais), que seja optante pelo Simples Nacional e que não esteja impedido de optar pela sistemática prevista neste artigo, e seja empresário individual que se enquadre na definição do art. 966 da Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002 (Código Civil), ou o empreendedor que exerça: (Redação dada pela Lei Complementar nº 188, de 2021) (...)” Foi inserido o artigo 18-F na Lei Complementar nº 123/2006 para criação do M.E.I. Caminhoneiro, que pode ter a receita bruta anual de R$ 251.600,00. É uma novidade da legislação que poderá ser cobrada em concursos públicos. “Art. 18-F. Para o transportador autônomo de cargas inscrito como MEI, nos termos do art. 18-A desta Lei Complementar: (Incluído pela Lei Complementar nº 188, de 2021) I - o limite da receita bruta de que trata o § 1º e o inciso V do § 3º do art. 18-A desta Lei Complementar será de R$ 251.600,00 (duzentos e cinquenta e um mil e seiscentos reais); (Incluído pela Lei Complementar nº 188, de 2021) II - o limite será de R$ 20.966,67 (vinte mil novecentos e sessenta e seis reais e sessenta e sete centavos) multiplicados pelo número de meses compreendidos entre o início da atividade e o final do respectivo ano-calendário, consideradas as frações de meses como um mês inteiro, no caso de início de atividades de que trata o § 2º do art. 18-A desta Lei Complementar; (Incluído pela Lei Complementar nº 188, de 2021) Pág. 64 de 265 III - o valor mensal da contribuição de que trata o inciso X do § 1º do art. 13 desta Lei Complementar corresponderá ao valor resultante da aplicação da alíquota de 12% (doze por cento) sobre o salário-mínimo mensal. (Incluído pela Lei Complementar nº 188, de 2021)” Hoje, em fevereiro de 2022, há um projeto de lei, atualmente na Câmara, que é o PLP nº 108/2021, que pretende aumentar o teto de faturamento do MEI para R$ 130.000,00 e permitir que ele contrate até 2 empregados. Todavia, esse projeto ainda não foi aprovado. Portanto, esses limites não estão vigorando, mas pode ser que venham a ser aprovados no decorrer de 2022. Devemos acompanhar esse projeto de lei. Atualmente, nos termos do artigo 18-C da Lei Complementar nº 123/2006, o M.E.I. pode contratar apenas 1 empregado. Isso se deve ao limite da receita bruta anual, que é de R$ 81.000,00, que é compatível com a contratação de apenas 1 empregado, que representa altos custos. “Art. 18-C. Observado o disposto no caput e nos §§ 1o a 25 do art. 18- A desta Lei Complementar, poderá enquadrar-se como MEI o empresário individual ou o empreendedor que exerça as atividades de industrialização, comercialização e prestação de serviços no âmbito rural que possua um único empregado que receba exclusivamente um salário mínimo ou o piso salarial da categoria profissional.” BENEFÍCIOS COLOCADOS À DISPOSIÇÃO DAS ATIVIDADES ENQUADRADAS NA LEI COMPLEMENTAR Nº 123/2006 O primeiro grande benefício está previsto no artigo 12 e seguintes da Lei Complementar nº 123/2006, e se trata do Simples Nacional. É um benefício fiscal, na área do direito tributário. “Art. 12. Fica instituído o Regime Especial Unificado de Arrecadação de Tributos e Contribuições devidos pelas Microempresas e Empresas de Pequeno Porte - Simples Nacional.” Asempresas pagam entre 40% e 50% de sua receita em tributos. Outras empresas pagam mais, como aquelas do setor tabagista ou de bebidas. É preciso fazer contabilidade, o que implica altos custos. Nesse cenário, as pequenas empresas precisam de benefícios, o que o Simples Nacional proporciona em duas vertentes: 1. Simplificação da arrecadação, por meio do pagamento de uma única guia 2. Menor alíquota O Simples Nacional é um tratamento tributário diferenciado, colocado à disposição das micro e pequenas empresas, que permitirá a elas arrecadar tributos de maneira unificada, pagando alíquotas mais baixas. Pág. 65 de 265 Todo dia 20 as micro e pequenas empresas pagam o DAS, o Documento de Arrecadação do Simples Nacional, que quita grande parte dos tributos da atividade empresarial. Ele quita o IR de pessoa jurídica, o ICMS, o ISSQN, a CSLL. Todavia, nem todos os tributos estão incluídos no Simples Nacional. É preciso verificar o artigo 13 da Lei Complementar nº 123/2006. Não estão incluídos, por exemplo, os impostos sobre propriedade, como IPTU, IPVA, ITR, além de II e IE. O artigo 13 traz os 3 principais impostos que a empresa paga dentro do Simples Nacional, que são o IR, o ICMS e o ISSQN. “Art. 13. O Simples Nacional implica o recolhimento mensal, mediante documento único de arrecadação, dos seguintes impostos e contribuições: I - Imposto sobre a Renda da Pessoa Jurídica - IRPJ; II - Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI, observado o disposto no inciso XII do § 1o deste artigo; III - Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL; IV - Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social - COFINS, observado o disposto no inciso XII do § 1o deste artigo; V - Contribuição para o PIS/Pasep, observado o disposto no inciso XII do § 1o deste artigo; VI - Contribuição Patronal Previdenciária - CPP para a Seguridade Social, a cargo da pessoa jurídica, de que trata o art. 22 da Lei nº 8.212, de 24 de julho de 1991, exceto no caso da microempresa e da empresa de pequeno porte que se dedique às atividades de prestação de serviços referidas no § 5º-C do art. 18 desta Lei Complementar; VII - Imposto sobre Operações Relativas à Circulação de Mercadorias e Sobre Prestações de Serviços de Transporte Interestadual e Intermunicipal e de Comunicação - ICMS; VIII - Imposto sobre Serviços de Qualquer Natureza - ISS. § 1o O recolhimento na forma deste artigo não exclui a incidência dos seguintes impostos ou contribuições, devidos na qualidade de contribuinte ou responsável, em relação aos quais será observada a legislação aplicável às demais pessoas jurídicas: I - Imposto sobre Operações de Crédito, Câmbio e Seguro, ou Relativas a Títulos ou Valores Mobiliários - IOF; II - Imposto sobre a Importação de Produtos Estrangeiros - II; Pág. 66 de 265 III - Imposto sobre a Exportação, para o Exterior, de Produtos Nacionais ou Nacionalizados - IE; IV - Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural - ITR; V - Imposto de Renda, relativo aos rendimentos ou ganhos líquidos auferidos em aplicações de renda fixa ou variável; VI - Imposto de Renda relativo aos ganhos de capital auferidos na alienação de bens do ativo permanente; VII - Contribuição Provisória sobre Movimentação ou Transmissão de Valores e de Créditos e Direitos de Natureza Financeira - CPMF; VIII - Contribuição para o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço - FGTS; IX - Contribuição para manutenção da Seguridade Social, relativa ao trabalhador; X - Contribuição para a Seguridade Social, relativa à pessoa do empresário, na qualidade de contribuinte individual; XI - Imposto de Renda relativo aos pagamentos ou créditos efetuados pela pessoa jurídica a pessoas físicas; XII - Contribuição para o PIS/Pasep, Cofins e IPI incidentes na importação de bens e serviços; XIII - ICMS devido: (...) XIV - ISS devido: a) em relação aos serviços sujeitos à substituição tributária ou retenção na fonte; b) na importação de serviços; XV - demais tributos de competência da União, dos Estados, do Distrito Federal ou dos Municípios, não relacionados nos incisos anteriores.” Ademais, o Simples Nacional também traz alíquotas mais baixas. A Lei Complementar nº 123/2006 traz os Anexos e as faixas de faturamento, que não são cobrados em concursos públicos. Exemplo: uma empresa que consta no Anexo III, e cuja receita bruta não supera R$ 180.000,00 ao ano (primeira faixa), paga 6% de alíquota para quitar IR, ICMS e ISSQN. Um segundo benefício aplicado às micro e pequenas empresas está previsto no artigo 61-A da Lei Complementar nº 123/2006: o investidor-anjo. Pág. 67 de 265 As M.E.s e E.P.P.s podem ter aporte de capital na modalidade investidor-anjo. O investidor-anjo é a pessoa natural ou jurídica que aporta capital nas micro ou pequenas empresas, mas este aporte não integra o capital social, ou seja, o investidor-anjo não se torna sócio da empresa na qual está investindo. As pequenas empresas muitas vezes atuarão com inovação, e podem estar reguladas pelo Marco Legal das Startups. Com frequência, elas precisam de investidores. Há quem queira investir e, em troca, exija ter 30% da empresa. Mas, para quem investe visando apenas o retorno financeiro, não é proveitoso se tornar sócio, porque isso enseja todos os direitos e obrigações de sócios, como fiscalizar e exigir prestação de contas. E os sócios também correm o risco de que seu patrimônio seja atingido com a desconsideração da personalidade jurídica. Em contrapartida, os sócios que constituíram a sociedade também se beneficiam, uma vez que conseguem os investimentos e, se o investidor-anjo não se torna sócio, ele não participa das assembleias, nem emite opinião, de forma que há maior liberdade para gerir a empresa. O investidor-anjo também será aplicável no Marco Legal das Startups, como veremos. “Art. 61-A. Para incentivar as atividades de inovação e os investimentos produtivos, a sociedade enquadrada como microempresa ou empresa de pequeno porte, nos termos desta Lei Complementar, poderá admitir o aporte de capital, que não integrará o capital social da empresa. (Incluído pela Lei Complementar nº 155, de 2016) Produção de efeito § 1o As finalidades de fomento a inovação e investimentos produtivos deverão constar do contrato de participação, com vigência não superior a sete anos. (Incluído pela Lei Complementar nº 155, de 2016) Produção de efeito” O prazo de vigência máximo do contrato é de sete anos. O contrato pode ser pactuado por um prazo menor, mas nunca superior a 7 anos. Esse é considerado o prazo adequado para a empresa vingar. “§ 2º O aporte de capital poderá ser realizado por pessoa física, por pessoa jurídica ou por fundos de investimento, conforme regulamento da Comissão de Valores Mobiliários, que serão denominados investidores-anjos. (Redação dada pela Lei Complementar nº 182, de 2021) Vigência” Uma vez que a ideia é fomentar investimentos, não faria sentido a lei limitar quem pode ser o investidor-anjo, que pode ser tanto uma pessoa física quanto jurídica. Pág. 68 de 265 “§ 3o A atividade constitutiva do objeto social é exercida unicamente por sócios regulares, em seu nome individual e sob sua exclusiva responsabilidade. (Incluído pela Lei Complementar nº 155, de 2016) Produção de efeito § 4o O investidor-anjo: (Incluído pela Lei Complementar nº 155, de 2016) Produção de efeito I - não será considerado sócio nem terá qualquer direito a gerência ou a voto na administração da empresa, resguardada a possibilidade de participação nas deliberações em caráter estritamente consultivo, conforme pactuação contratual; (Redação dada pela Lei Complementar nº 182, de 2021) Vigência II - não responderá por qualquer dívida da empresa, inclusive em recuperação judicial, não se aplicandoa ele o art. 50 da Lei no 10.406, de 10 de janeiro de 2002 - Código Civil; (Incluído pela Lei Complementar nº 155, de 2016) Produção de efeito III - será remunerado por seus aportes, nos termos do contrato de participação, pelo prazo máximo de 7 (sete) anos; (Incluído pela Lei Complementar nº 182, de 2021) Vigência IV - poderá exigir dos administradores as contas justificadas de sua administração e, anualmente, o inventário, o balanço patrimonial e o balanço de resultado econômico; e (Incluído pela Lei Complementar nº 182, de 2021) Vigência V - poderá examinar, a qualquer momento, os livros, os documentos e o estado do caixa e da carteira da sociedade, exceto se houver pactuação contratual que determine época própria para isso. (Incluído pela Lei Complementar nº 182, de 2021) Vigência” O § 4º dispõe sobre o que o investidor-anjo irá receber, e deixa claro que ele não administra a empresa. “§ 5o Para fins de enquadramento da sociedade como microempresa ou empresa de pequeno porte, os valores de capital aportado não são considerados receitas da sociedade. (Incluído pela Lei Complementar nº 155, de 2016) Produção de efeito § 6º As partes contratantes poderão: (Redação dada pela Lei Complementar nº 182, de 2021) Vigência Pág. 69 de 265 I - estipular remuneração periódica, ao final de cada período, ao investidor-anjo, conforme contrato de participação; ou (Incluído pela Lei Complementar nº 182, de 2021) Vigência II - prever a possibilidade de conversão do aporte de capital em participação societária. (Incluído pela Lei Complementar nº 182, de 2021) Vigência § 7º O investidor-anjo somente poderá exercer o direito de resgate depois de decorridos, no mínimo, 2 (dois) anos do aporte de capital, ou prazo superior estabelecido no contrato de participação, e seus haveres serão pagos na forma prevista no art. 1.031 da Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002 (Código Civil), não permitido ultrapassar o valor investido devidamente corrigido por índice previsto em contrato. (Redação dada pela Lei Complementar nº 182, de 2021) Vigência § 8o O disposto no § 7o deste artigo não impede a transferência da titularidade do aporte para terceiros. (Incluído pela Lei Complementar nº 155, de 2016) Produção de efeito § 9o A transferência da titularidade do aporte para terceiro alheio à sociedade dependerá do consentimento dos sócios, salvo estipulação contratual expressa em contrário. (Incluído pela Lei Complementar nº 155, de 2016) Produção de efeito § 10. O Ministério da Fazenda poderá regulamentar a tributação sobre retirada do capital investido. (Incluído pela Lei Complementar nº 155, de 2016) Produção de efeito” Pág. 70 de 265 SUMÁRIO Estatuto da Micro e Pequena Empresa Marco legal das Startups ESTATUTO DA MICRO E PEQUENA EMPRESA Outro benefício à disposição das micro e pequenas empresas está previsto no artigo 74 da Lei Complementar nº 123/2006. “Art. 74. Aplica-se às microempresas e às empresas de pequeno porte de que trata esta Lei Complementar o disposto no § 1º do art. 8º da Lei nº 9.099, de 26 de setembro de 1995, e no inciso I do caput do art. 6º da Lei nº 10.259, de 12 de julho de 2001, as quais, assim como as pessoas físicas capazes, passam a ser admitidas como proponentes de ação perante o Juizado Especial, excluídos os cessionários de direito de pessoas jurídicas.” Como regra, as pessoas jurídicas não podem se valer dos Juizados Especiais no âmbito Estadual ou Federal. As M.E.s ou E.P.P.s podem ser autoras nos Juizados Especiais Cíveis e Federais, contando com um processo inteiramente gratuito em Primeira Instância. MARCO LEGAL DAS STARTUPS A Lei Complementar nº 182/2021 instituiu o Marco Legal das Startups. É preciso olhar para as startups com enfoque jurídico. Quais são os requisitos para que as empresas sejam enquadradas como startups? É preciso estudar também a Lei de Software, a Lei nº 9.609/1998, que é uma matéria com a qual muitas das startups trabalham. O modo de vida das pessoas mudou muito nos últimos dez anos em razão da tecnologia. É possível alugar filmes, contratar meios de transporte, pedir refeições e compras de supermercado sem sair de casa. É um nicho de mercado que representa uma parcela muito importante da economia. E as empresas de tecnologia representarão cada vez mais riqueza. Muitas dessas empresas são pequenas, de forma que também precisam de um tratamento simplificado e com benefícios, ou não sobreviverão. A Netflix é uma startup, mas não estará enquadrada nessa lei complementar. O Marco Legal está preocupado com as startups pequenas, embrionárias. Pág. 71 de 265 Conceito de startup O que é uma startup? O conceito está previsto no artigo 4º da Lei Complementar nº 182/2021. “Art. 4º São enquadradas como startups as organizações empresariais ou societárias, nascentes ou em operação recente, cuja atuação caracteriza-se pela inovação aplicada a modelo de negócios ou a produtos ou serviços ofertados. § 1º Para fins de aplicação desta Lei Complementar, são elegíveis para o enquadramento na modalidade de tratamento especial destinada ao fomento de startup o empresário individual, a empresa individual de responsabilidade limitada, as sociedades empresárias, as sociedades cooperativas e as sociedades simples: I - com receita bruta de até R$ 16.000.000,00 (dezesseis milhões de reais) no ano-calendário anterior ou de R$ 1.333.334,00 (um milhão, trezentos e trinta e três mil trezentos e trinta e quatro reais) multiplicado pelo número de meses de atividade no ano-calendário anterior, quando inferior a 12 (doze) meses, independentemente da forma societária adotada; II - com até 10 (dez) anos de inscrição no Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ) da Secretaria Especial da Receita Federal do Brasil do Ministério da Economia; e III - que atendam a um dos seguintes requisitos, no mínimo: a) declaração em seu ato constitutivo ou alterador e utilização de modelos de negócios inovadores para a geração de produtos ou serviços, nos termos do inciso IV do caput do art. 2º da Lei nº 10.973, de 2 de dezembro de 2004; ou b) enquadramento no regime especial Inova Simples, nos termos do art. 65-A da Lei Complementar nº 123, de 14 de dezembro de 2006. § 2º Para fins de contagem do prazo estabelecido no inciso II do § 1º deste artigo, deverá ser observado o seguinte: I - para as empresas decorrentes de incorporação, será considerado o tempo de inscrição da empresa incorporadora; II - para as empresas decorrentes de fusão, será considerado o maior tempo de inscrição entre as empresas fundidas; e III - para as empresas decorrentes de cisão, será considerado o tempo de inscrição da empresa cindida, na hipótese de criação de nova sociedade, ou da empresa que a absorver, na hipótese de transferência de patrimônio para a empresa existente.” Pág. 72 de 265 Startup não é tipo empresarial, mas sim enquadramento que alguns tipos empresariais podem receber em virtude da atividade desenvolvida, da receita bruta anual e do tempo de inscrição do CNPJ. Mais cedo ou mais tarde, se a empresa continuar sua atividade, a startup será desenquadrada pelo decurso do tempo. A M.E. e a E.P.P. não são desenquadradas em função da passagem do tempo, mas apenas em função do aumento do faturamento bruto anual. A startup pode ser um empresário individual pessoa física, pode ser uma sociedade limitada. No ano passado, a EIRELI foi revogada. Por uma imprecisão, o artigo 41 da Lei nº 14.195/2021 fez referência à EIRELI, o que gerou polêmica. Grande parte da doutrina já entendia que a EIRELI já havia sido revogada de forma tácita, até que foi editada a Medida Provisória nº 1.085/2021 (posteriormente convertida na Lei nº 14.382/22), que revogou expressamente a EIRELI, o que encerroua polêmica. E essa MP certamente será convertida em lei. Hoje a startup pode ser tanto o empresário individual quanto as sociedades empresárias. Requisitos das startups: a) Atividade: que atue com inovação no seu modelo de negócio, ou no seu produto ou serviço A inovação não necessariamente precisa estar no produto ou no serviço. Ela pode estar na forma de oferecê-lo, que é o novo modelo de negócio. Filmes não são novos, mas a forma com que a Netflix os oferece é nova. O serviço de transporte de pessoas não é novo, mas o modelo de negócio do Uber é inovador. (Observação: Netflix e Uber não são startups nos termos da lei, em virtude de suas características.) b) Receita bruta anual: receita bruta anual de até R$ 16 milhões no ano-calendário anterior ou de R$ 1.333.334,00 multiplicado pelo número de meses de atividade no ano-calendário anterior Exemplo: se a empresa foi criada em outubro e exerceu atividade em outubro, novembro e dezembro do ano passado, multiplica-se por 3 o valor de R$ 1.333.334,00, conforme o artigo 4º, § 1º, I da Lei Complementar nº 182/2021. Há empresas que atingem rapidamente o valor de mercado de R$ 1 bilhão. c) Tempo de inscrição do CNPJ: a empresa deve ter até 10 anos de inscrição no CNPJ Assim, com o tempo, a empresa será desenquadrada como startup. Uma das ideias dessa lei complementar foi permitir diferentes modalidades de investimentos nas startups para que elas possam ser estimuladas, o que também fomenta a economia. O artigo 5º da lei traz as modalidades de investimentos que as startups podem receber: “Art. 5º As startups poderão admitir aporte de capital por pessoa física ou jurídica, que poderá resultar ou não em participação no capital social da startup, a depender da modalidade de investimento escolhida pelas partes.” Pág. 73 de 265 O investidor não precisa se tornar sócio. Isso é negociável. “§ 1º Não será considerado como integrante do capital social da empresa o aporte realizado na startup por meio dos seguintes instrumentos: I - contrato de opção de subscrição de ações ou de quotas celebrado entre o investidor e a empresa; II - contrato de opção de compra de ações ou de quotas celebrado entre o investidor e os acionistas ou sócios da empresa; III - debênture conversível emitida pela empresa nos termos da Lei nº 6.404, de 15 de dezembro de 1976;” As debêntures estão previstas nos artigos 52 e seguintes da Lei das S.A. “Art. 52. A companhia poderá emitir debêntures que conferirão aos seus titulares direito de crédito contra ela, nas condições constantes da escritura de emissão e, se houver, do certificado.” As debêntures são empréstimos que a S.A. toma por meio do mercado de capitais. O artigo 784, I do CPC atribui força executiva extrajudicial para as debêntures. “Art. 784. São títulos executivos extrajudiciais: I - a letra de câmbio, a nota promissória, a duplicata, a debênture e o cheque.” As pessoas naturais emprestam dinheiro junto aos bancos, pelos contratos de mútuo bancário, que cobram juros altos. As sociedades anônimas, para obter dinheiro, têm a faculdade de emitir debêntures para captar recursos. Quem compra debêntures se torna credor da sociedade anônima. Dando continuidade ao estudo do artigo 5º do Marco Legal das Startups: “IV - contrato de mútuo conversível em participação societária celebrado entre o investidor e a empresa; Pág. 74 de 265 V - estruturação de sociedade em conta de participação celebrada entre o investidor e a empresa; VI - contrato de investimento-anjo na forma da Lei Complementar nº 123, de 14 de dezembro 2006;” O investidor-anjo está previsto no artigo 61-A da Lei Complementar nº 123/2006, como vimos. “VII - outros instrumentos de aporte de capital em que o investidor, pessoa física ou jurídica, não integre formalmente o quadro de sócios da startup e/ou não tenha subscrito qualquer participação representativa do capital social da empresa. § 2º Realizado o aporte por qualquer das formas previstas neste artigo, a pessoa física ou jurídica somente será considerada quotista, acionista ou sócia da startup após a conversão do instrumento do aporte em efetiva e formal participação societária. § 3º Os valores recebidos por empresa e oriundos dos instrumentos jurídicos estabelecidos neste artigo serão registrados contabilmente, de acordo com a natureza contábil do instrumento.” Pág. 75 de 265 SUMÁRIO MARCO LEGAL DAS STARTUPS LEI Nº 9.609/1998 – LEI DE SOFTWARE MARCO LEGAL DAS STARTUPS Continuamos a estudar o artigo 5º do Marco Legal das Startups: “Art. 5º As startups poderão admitir aporte de capital por pessoa física ou jurídica, que poderá resultar ou não em participação no capital social da startup, a depender da modalidade de investimento escolhida pelas partes. § 1º Não será considerado como integrante do capital social da empresa o aporte realizado na startup por meio dos seguintes instrumentos: I - contrato de opção de subscrição de ações ou de quotas celebrado entre o investidor e a empresa; II - contrato de opção de compra de ações ou de quotas celebrado entre o investidor e os acionistas ou sócios da empresa; III - debênture conversível emitida pela empresa nos termos da Lei nº 6.404, de 15 de dezembro de 1976; IV - contrato de mútuo conversível em participação societária celebrado entre o investidor e a empresa; V - estruturação de sociedade em conta de participação celebrada entre o investidor e a empresa;” A sociedade em conta de participação não tem personalidade jurídica. Essa sociedade tem o sócio ostensivo e o sócio oculto ou participante. Eles celebram um contrato de sociedade em conta de participação e definem as regras aplicáveis. Quando a startup faz referência à sociedade em conta de participação, a startup será o sócio ostensivo, e os demais serão os sócios participantes. VI - contrato de investimento-anjo na forma da Lei Complementar nº 123, de 14 de dezembro 2006; VII - outros instrumentos de aporte de capital em que o investidor, pessoa física ou jurídica, não integre formalmente o quadro de sócios da startup e/ou não tenha subscrito qualquer participação representativa do capital social da empresa. Pág. 76 de 265 § 2º Realizado o aporte por qualquer das formas previstas neste artigo, a pessoa física ou jurídica somente será considerada quotista, acionista ou sócia da startup após a conversão do instrumento do aporte em efetiva e formal participação societária. § 3º Os valores recebidos por empresa e oriundos dos instrumentos jurídicos estabelecidos neste artigo serão registrados contabilmente, de acordo com a natureza contábil do instrumento.” Ainda sobre a Lei Complementar nº 182/2021: A União, os Estados, o DF e os Municípios precisam de soluções inovadoras. Um dos princípios da Administração Pública é a eficiência, e cada vez mais os serviços públicos serão prestados de forma informatizada e digital. Exemplo: a carteira de vacinação digital contra a Covid, a renovação da CNH por meio de aplicativo, a consulta a multas e o licenciamento de veículo por meio digital, a emissão de certidões negativas nos sites das Prefeituras. As startups devem contar com estímulos para que possam desenvolver essas inovações. Há uma modalidade específica de licitação relacionada às startups. O artigo 12 e seguintes da Lei Complementar nº 182/2021 prevê o contrato de soluções inovadoras pelo Estado. “Art. 12. As licitações e os contratos a que se refere este Capítulo têm por finalidade: I - resolver demandas públicas que exijam solução inovadora com emprego de tecnologia; e II - promover a inovação no setor produtivo por meio do uso do poder de compra do Estado. § 1º Os órgãos e as entidades da administração pública direta, autárquica e fundacional de quaisquerdos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios subordinam-se ao regime disposto neste Capítulo. § 2º As empresas públicas, as sociedades de economia mista e suas subsidiárias poderão adotar, no que couber, as disposições deste Capítulo, nos termos do regulamento interno de licitações e contratações de que trata o art. 40 da Lei nº 13.303, de 30 de junho de 2016, e seus conselhos de administração poderão estabelecer valores diferenciados para os limites de que tratam o § 2º do art. 14 e o § 3º do art. 15 desta Lei Complementar. § 3º Os valores estabelecidos neste Capítulo poderão ser anualmente atualizados pelo Poder Executivo federal, de acordo com o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) ou outro que venha a substituí-lo.” A Lei de Licitações se aplica em caráter subsidiário. Pág. 77 de 265 Devemos ler o artigo 13 e parágrafos da Lei Complementar nº 182/2021. “Art. 13. A administração pública poderá contratar pessoas físicas ou jurídicas, isoladamente ou em consórcio, para o teste de soluções inovadoras por elas desenvolvidas ou a ser desenvolvidas, com ou sem risco tecnológico, por meio de licitação na modalidade especial regida por esta Lei Complementar. § 1º A delimitação do escopo da licitação poderá restringir-se à indicação do problema a ser resolvido e dos resultados esperados pela administração pública, incluídos os desafios tecnológicos a serem superados, dispensada a descrição de eventual solução técnica previamente mapeada e suas especificações técnicas, e caberá aos licitantes propor diferentes meios para a resolução do problema. § 2º O edital da licitação será divulgado, com antecedência de, no mínimo, 30 (trinta) dias corridos até a data de recebimento das propostas: I - em sítio eletrônico oficial centralizado de divulgação de licitações ou mantido pelo ente público licitante; e II - no diário oficial do ente federativo. § 3º As propostas serão avaliadas e julgadas por comissão especial integrada por, no mínimo, 3 (três) pessoas de reputação ilibada e reconhecido conhecimento no assunto, das quais: I - 1 (uma) deverá ser servidor público integrante do órgão para o qual o serviço está sendo contratado; e II – 1 (uma) deverá ser professor de instituição pública de educação superior na área relacionada ao tema da contratação. § 4º Os critérios para julgamento das propostas deverão considerar, sem prejuízo de outros definidos no edital: I - o potencial de resolução do problema pela solução proposta e, se for o caso, da provável economia para a administração pública; II - o grau de desenvolvimento da solução proposta; III - a viabilidade e a maturidade do modelo de negócio da solução; IV - a viabilidade econômica da proposta, considerados os recursos financeiros disponíveis para a celebração dos contratos; e V - a demonstração comparativa de custo e benefício da proposta em relação às opções funcionalmente equivalentes. Pág. 78 de 265 § 5º O preço indicado pelos proponentes para execução do objeto será critério de julgamento somente na forma disposta nos incisos IV e V do § 4º deste artigo. § 6º A licitação poderá selecionar mais de uma proposta para a celebração do contrato de que trata o art. 14 desta Lei Complementar, hipótese em que caberá ao edital limitar a quantidade de propostas selecionáveis. § 7º A análise da documentação relativa aos requisitos de habilitação será posterior à fase de julgamento das propostas e contemplará somente os proponentes selecionados. § 8º Ressalvado o disposto no § 3º do art. 195 da Constituição Federal, a administração pública poderá, mediante justificativa expressa, dispensar, no todo ou em parte: I - a documentação de habilitação de que tratam os incisos I, II e III, bem como a regularidade fiscal prevista no inciso IV do caput do art. 27 da Lei nº 8.666, de 21 de junho de 1993; e II - a prestação de garantia para a contratação. § 9º Após a fase de julgamento das propostas, a administração pública poderá negociar com os selecionados as condições econômicas mais vantajosas para a administração e os critérios de remuneração que serão adotados, observado o disposto no § 3º do art. 14 desta Lei Complementar. § 10. Encerrada a fase de julgamento e de negociação de que trata o § 9º deste artigo, na hipótese de o preço ser superior à estimativa, a administração pública poderá, mediante justificativa expressa, com base na demonstração comparativa entre o custo e o benefício da proposta, aceitar o preço ofertado, desde que seja superior em termos de inovações, de redução do prazo de execução ou de facilidade de manutenção ou operação, limitado ao valor máximo que se propõe a pagar.” Quem vencer a licitação celebrará o Contrato Público para Solução Inovadora, nos termos do artigo 14 da lei. “Art. 14. Após homologação do resultado da licitação, a administração pública celebrará Contrato Público para Solução Inovadora (CPSI) com as proponentes selecionadas, com vigência limitada a 12 (doze) meses, prorrogável por mais um período de até 12 (doze) meses.” LEI Nº 9.609/1998 – LEI DE SOFTWARE Pág. 79 de 265 O artigo 1º da Lei de Software traz a definição de software: é toda linguagem codificada cujo objetivo é ser aplicado em um suporte físico (hardware). “Art. 1º Programa de computador é a expressão de um conjunto organizado de instruções em linguagem natural ou codificada, contida em suporte físico de qualquer natureza, de emprego necessário em máquinas automáticas de tratamento da informação, dispositivos, instrumentos ou equipamentos periféricos, baseados em técnica digital ou análoga, para fazê-los funcionar de modo e para fins determinados.” Hoje em dia hardware não é apenas computador, mas também celular, tablet, notebook etc. A lei fez bem em fazer referência a “suporte físico de qualquer natureza”, pois não se sabe o que irá surgir. Atualmente, a maior parte dos softwares são desenvolvidos para celular. Pegadinha de concurso público: software não é patente. São instrumentos jurídicos completamente diferentes. O software não é patenteado. Software Patente É regido pela Lei do Software (Lei nº 9.609/1998) É regida pela Lei de Propriedade Industrial (Lei nº 9.279/1996) – artigo 6º e seguintes Art. 6º Ao autor de invenção ou modelo de utilidade será assegurado o direito de obter a patente que lhe garanta a propriedade, nas condições estabelecidas nesta Lei. Software é uma linguagem codificada para ser aplicada em suporte físico (hardware) A patente é uma nova tecnologia, que pode ser de invenção ou modelo de utilidade A natureza do registro do software é declaratória, conforme o artigo 2º, § 3º da Lei de Software: § 3º A proteção aos direitos de que trata esta Lei independe de registro. Isso significa que, mesmo que a pessoa não registre, a o software está protegido. Há proteção independentemente do registro, decorrente da criação. A despeito, o registro é recomendável. A natureza do registro da patente é constitutiva, nos termos do artigo 7º da Lei de Propriedade Industrial: Art. 7º Se dois ou mais autores tiverem realizado a mesma invenção ou modelo de utilidade, de forma independente, o direito de obter patente será assegurado àquele que provar o depósito mais antigo, independentemente das datas de invenção ou criação. Parágrafo único. A retirada de depósito anterior sem produção de qualquer efeito dará prioridade ao depósito imediatamente posterior. Pág. 80 de 265 Isso significa que não interessa quem criou, mas quem primeiro requereu o depósito. Nesse caso, o registro é imprescindível. O registro é efetuado no INPI, o Instituto Nacional da Propriedade Industrial O registro é efetuado no INPI, o Instituto Nacional da Propriedade IndustrialA televisão é uma tecnologia patenteada pela LG, por exemplo, que contém softwares que foram registrados pela Netflix, por exemplo. O software é só a linguagem de programação. O prazo de proteção do software e da patente também é diferente, como veremos na próxima aula. Pág. 81 de 265 SUMÁRIO Lei nº 9.609/1998 – Lei de Software Sistema Brasileiro de Defesa da Concorrência (SBDC) Lei nº 9.609/1998 – Lei de Software Na aula passada, estudamos as diferenças entre o software e a patente. O software é uma linguagem codificada para ser aplicada em suporte físico, ao passo que a patente é uma nova tecnologia, que pode ser de invenção ou modelo de utilidade. A natureza do registro da patente é constitutiva, ao passo que o registro do software tem natureza declaratória. Falta estudarmos o prazo de proteção do software e da patente. Software Patente É regido pela Lei do Software (Lei nº 9.609/1998) É regida pela Lei de Propriedade Industrial (Lei nº 9.279/1996) – artigo 6º e seguintes Art. 6º Ao autor de invenção ou modelo de utilidade será assegurado o direito de obter a patente que lhe garanta a propriedade, nas condições estabelecidas nesta Lei. Software é uma linguagem codificada para ser aplicada em suporte físico (hardware) A patente é uma nova tecnologia, que pode ser de invenção ou modelo de utilidade A natureza do registro do software é declaratória, conforme o artigo 2º, § 3º da Lei de Software: § 3º A proteção aos direitos de que trata esta Lei independe de registro. Isso significa que, mesmo que a pessoa não registre, a o software está protegido. Há proteção independentemente do registro, decorrente da criação. A despeito, o registro é recomendável. A natureza do registro da patente é constitutiva, nos termos do artigo 7º da Lei de Propriedade Industrial: Art. 7º Se dois ou mais autores tiverem realizado a mesma invenção ou modelo de utilidade, de forma independente, o direito de obter patente será assegurado àquele que provar o depósito mais antigo, independentemente das datas de invenção ou criação. Parágrafo único. A retirada de depósito anterior sem produção de qualquer efeito dará prioridade ao depósito imediatamente posterior. Isso significa que não interessa quem criou, mas quem primeiro requereu o depósito. Nesse caso, o registro é imprescindível. Pág. 82 de 265 O registro é efetuado no INPI, o Instituto Nacional da Propriedade Industrial O registro é efetuado no INPI, o Instituto Nacional da Propriedade Industrial Artigo 2º, § 2º da Lei de Software: prazo de 50 anos a partir do ano subsequente à publicação ou criação. § 2º Fica assegurada a tutela dos direitos relativos a programa de computador pelo prazo de cinquenta anos, contados a partir de 1º de janeiro do ano subsequente ao da sua publicação ou, na ausência desta, da sua criação. Artigo 40 da LPI: o prazo de proteção é de 20 anos, contados do depósito do pedido para as invenções, e de 15 anos, contados do depósito do pedido para o modelo de utilidade. Esses prazos são improrrogáveis. Uma nova lei aprovada no ano passado revogou o parágrafo único do artigo 40 da LPI. Apenas o caput está em vigor. Assim, o software é protegido basicamente por sua vida útil inteira, porque é difícil encontrar um software de 50 anos que ainda esteja em uso. E quando há atualizações do software, são feitos novos registros. Sistema Brasileiro de Defesa da Concorrência (SBDC) O SBDC é regulado pela Lei nº 12.529/2011. A Constituição protege a livre concorrência. O artigo 170 da CF traz os princípios da ordem econômica e o inciso IV trata da livre concorrência. Art. 170. A ordem econômica, fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa, tem por fim assegurar a todos existência digna, conforme os ditames da justiça social, observados os seguintes princípios: I - soberania nacional; II - propriedade privada; III - função social da propriedade; IV - livre concorrência; V - defesa do consumidor; VI - defesa do meio ambiente, inclusive mediante tratamento diferenciado conforme o impacto ambiental dos produtos e serviços e de seus processos de elaboração e prestação; VII - redução das desigualdades regionais e sociais; VIII - busca do pleno emprego; IX - tratamento favorecido para as empresas de pequeno porte constituídas sob as leis brasileiras e que tenham sua sede e administração no País. Pág. 83 de 265 Parágrafo único. É assegurado a todos o livre exercício de qualquer atividade econômica, independentemente de autorização de órgãos públicos, salvo nos casos previstos em lei. O Estado brasileiro deve se pautar por uma concorrência livre, proba, justa e leal. Quanto mais players no mercado, melhor. Os atos praticados por qualquer pessoa que possam mitigar esses preceitos de liberdade de concorrência afetam os direitos de toda a população brasileira. Mas a Constituição não fala quais são os atos anticompetitivos, quais as punições aplicáveis, e qual é o órgão criado para proteger a concorrência. Para isso foi criada a Lei nº 12.529/2011. Essa lei traz o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE) como autarquia que fiscaliza e protege a livre concorrência no Brasil. Artigo 4º da Lei nº 12.529/2011 Art. 4º O Cade é entidade judicante com jurisdição em todo o território nacional, que se constitui em autarquia federal, vinculada ao Ministério da Justiça, com sede e foro no Distrito Federal, e competências previstas nesta Lei. O CADE é uma autarquia. Ele é subdividido em três órgãos: Art. 5º O Cade é constituído pelos seguintes órgãos: I - Tribunal Administrativo de Defesa Econômica; II - Superintendência-Geral; e III - Departamento de Estudos Econômicos. O Departamento de Estudos Econômicos faz um trabalho de pesquisa, de elaboração de estudos e pareceres, muitas vezes para fundamentar decisões do Tribunal Administrativo de Defesa Econômica. O Departamento de Estudos Econômicos é um órgão consultivo. A Superintendência-Geral é um órgão de efetiva fiscalização. Se houver indício de que ato anticompetitivo está sendo praticado, a Superintendência-Geral faz a investigação, inclusive in loco. Exemplo: a greve dos caminhoneiros fez com que o preço da gasolina aumentasse. Alguns postos de gasolina represaram a venda de combustível até que o produto se esgotasse nos outros postos, e então venderam gasolina por preço duas ou três vezes maiores que o normal. A Superintendência-Geral confirmou que isso estava ocorrendo, em sua atividade de fiscalização. A Superintendência-Geral não julga e não pune. Ela remete o inquérito para o Tribunal Administrativo de Defesa Econômica, que é um órgão judicante administrativo, que não integra o Poder Judiciário, e que irá julgar o caso e impor sanções. Art. 6º O Tribunal Administrativo, órgão judicante, tem como membros um Presidente e seis Conselheiros escolhidos dentre cidadãos com mais de 30 (trinta) anos de idade, de notório saber Pág. 84 de 265 jurídico ou econômico e reputação ilibada, nomeados pelo Presidente da República, depois de aprovados pelo Senado Federal. (...) A composição da Superintendência-Geral é definida pelo artigo 12 da lei: Art. 12. O Cade terá em sua estrutura uma Superintendência-Geral, com 1 (um) Superintendente-Geral e 2 (dois) Superintendentes- Adjuntos, cujas atribuições específicas serão definidas em Resolução. § 1º O Superintendente-Geral será escolhido dentre cidadãos com mais de 30 (trinta) anos de idade, notório saber jurídico ou econômico e reputação ilibada, nomeado pelo Presidente da República, depois de aprovado pelo Senado Federal. § 2º O Superintendente-Geral terá mandato de 2 (dois) anos, permitida a recondução para um único período subsequente. (...) O Departamento de Estudos Econômicosdo CADE está previsto no artigo 17 da lei: Art. 17. O Cade terá um Departamento de Estudos Econômicos, dirigido por um Economista-Chefe, a quem incumbirá elaborar estudos e pareceres econômicos, de ofício ou por solicitação do Plenário, do Presidente, do Conselheiro-Relator ou do Superintendente-Geral, zelando pelo rigor e atualização técnica e científica das decisões do órgão. A competência do Plenário do Tribunal é definida pelo artigo 9º da lei: Art. 9º Compete ao Plenário do Tribunal, dentre outras atribuições previstas nesta Lei: I - zelar pela observância desta Lei e seu regulamento e do regimento interno; II - decidir sobre a existência de infração à ordem econômica e aplicar as penalidades previstas em lei; III - decidir os processos administrativos para imposição de sanções administrativas por infrações à ordem econômica instaurados pela Superintendência-Geral; IV - ordenar providências que conduzam à cessação de infração à ordem econômica, dentro do prazo que determinar; (...) O artigo 9º evidencia que o Tribunal Administrativo é um órgão judicante. A competência da Superintendência-Geral é fixada pelo artigo 13 da lei: Art. 13. Compete à Superintendência-Geral: Pág. 85 de 265 I - zelar pelo cumprimento desta Lei, monitorando e acompanhando as práticas de mercado; II - acompanhar, permanentemente, as atividades e práticas comerciais de pessoas físicas ou jurídicas que detiverem posição dominante em mercado relevante de bens ou serviços, para prevenir infrações da ordem econômica, podendo, para tanto, requisitar as informações e documentos necessários, mantendo o sigilo legal, quando for o caso; III - promover, em face de indícios de infração da ordem econômica, procedimento preparatório de inquérito administrativo e inquérito administrativo para apuração de infrações à ordem econômica; IV - decidir pela insubsistência dos indícios, arquivando os autos do inquérito administrativo ou de seu procedimento preparatório; (...) Quem é o sujeito passivo dessa legislação? Quem pode incorrer nas condutas previstas e ter as penalidades aplicadas contra si? São apenas as grandes empresas? Não. A lei se aplica a todos, conforme o artigo 31. Os atos competitivos podem ser perpetrados por pessoa natural, por pessoa jurídica empresária ou não, e por entes que sequer têm personalidade. Pág. 86 de 265 SUMÁRIO Sistema Brasileiro de Defesa da Concorrência (SBDC) Sistema Brasileiro de Defesa da Concorrência (SBDC) Quem é o sujeito passivo dessa legislação? Art. 31. Esta Lei aplica-se às pessoas físicas ou jurídicas de direito público ou privado, bem como a quaisquer associações de entidades ou pessoas, constituídas de fato ou de direito, ainda que temporariamente, com ou sem personalidade jurídica, mesmo que exerçam atividade sob regime de monopólio legal. As pessoas jurídicas de direito público também podem cometer infrações à ordem econômica. A sociedade em comum e a sociedade em conta de participação são sociedades de fato. Não precisa ter personalidade jurídica para praticar fato anticompetitivo. Como é a atuação do CADE para fiscalizar a sociedade? O Professor fez a seguinte classificação, segundo a qual o CADE atua em duas frentes: 1. Controle repressivo A conduta já ocorreu ou está ocorrendo. O CADE irá tentar cercear a conduta e punir os agentes que a praticaram. 2. Controle preventivo A conduta ainda não ocorreu. O CADE será chamado para a análise de atos de concentração, tais como fusão, incorporação, compra de controle acionário, joint venture etc. Exemplo: em 2009 a Sadia se uniu à Perdigão. O CADE pode: i. aprovar o ato de concentração ii. rejeitar o ato de concentração iii. aprovar o ato de concentração com ressalvas No terceiro caso, o CADE faz com que a concentração seja mitigada, determinando medidas que os agentes devem adotar. O controle repressivo está previsto no artigo 36 da lei, segundo o qual a responsabilidade é objetiva (“independentemente de culpa”). Art. 36. Constituem infração da ordem econômica, independentemente de culpa, os atos sob qualquer forma manifestados, que tenham por objeto ou possam produzir os seguintes efeitos, ainda que não sejam alcançados: Pág. 87 de 265 I - limitar, falsear ou de qualquer forma prejudicar a livre concorrência ou a livre iniciativa; II - dominar mercado relevante de bens ou serviços; III - aumentar arbitrariamente os lucros; e IV - exercer de forma abusiva posição dominante. A lei dispõe que os atos serão punidos, ainda que seus efeitos não sejam alcançados. Muitas vezes os agentes de mercado tentam se defender afirmando que ninguém foi lesado pelo seu ato. Mas ainda assim, mesmo que o efeito não tenha sido alcançado, esse ato é anticompetitivo e deve ser sancionado. A falsificação, quando relacionada a marca, além de ser ato anticompetitivo, também enseja responsabilidade segundo a Lei de Propriedade Industrial. Com relação à proibição de aumentar arbitrariamente os lucros, tem-se que aumentar o preço não necessariamente é o mesmo que aumentar os lucros. Exemplo: os hotéis na praia são mais caros durante a alta temporada. Isso é normal. Não é um aumento arbitrário dos lucros. Aumentar arbitrariamente os lucros é se aproveitar de uma situação extraordinária para aumentar os lucros de forma injustificada. Exemplos: é o caso dos postos de gasolina que venderam gasolina mais caro durante a greve dos caminhoneiros, e dos fornecedores que venderam produtos mais caro durante a pandemia. Quanto ao inciso II, “dominar mercado relevante de bens ou serviços”, essa redação passa uma impressão errada, porque quem domina mercado de maneira proba, justa, leal, não pratica ato anticompetitivo. A ressalva está no artigo 36, § 1º: § 1º A conquista de mercado resultante de processo natural fundado na maior eficiência de agente econômico em relação a seus competidores não caracteriza o ilícito previsto no inciso II do caput deste artigo. A técnica de redação legislativa não é boa, porque o artigo 36, II já deveria trazer essa ressalva. É preciso verificar como o mercado foi dominado, se de forma proba ou de forma desleal, para avaliar se o ato é anticompetitivo. O artigo 36, § 2º trata de quando se presume posição dominante: § 2º Presume-se posição dominante sempre que uma empresa ou grupo de empresas for capaz de alterar unilateral ou coordenadamente as condições de mercado ou quando controlar 20% (vinte por cento) ou mais do mercado relevante, podendo este percentual ser alterado pelo Cade para setores específicos da economia. As penas estão previstas no artigo 37 da lei. A maior parte das penas é de multa. Pág. 88 de 265 Art. 37. A prática de infração da ordem econômica sujeita os responsáveis às seguintes penas: I - no caso de empresa, multa de 0,1% (um décimo por cento) a 20% (vinte por cento) do valor do faturamento bruto da empresa, grupo ou conglomerado obtido, no último exercício anterior à instauração do processo administrativo, no ramo de atividade empresarial em que ocorreu a infração, a qual nunca será inferior à vantagem auferida, quando for possível sua estimação; II - no caso das demais pessoas físicas ou jurídicas de direito público ou privado, bem como quaisquer associações de entidades ou pessoas constituídas de fato ou de direito, ainda que temporariamente, com ou sem personalidade jurídica, que não exerçam atividade empresarial, não sendo possível utilizar-se o critério do valor do faturamento bruto, a multa será entre R$ 50.000,00 (cinquenta mil reais) e R$ 2.000.000.000,00 (dois bilhões de reais); III - no caso de administrador, direta ou indiretamente responsável pela infração cometida, quando comprovada a sua culpa ou dolo, multa de 1% (um por cento) a 20% (vinte por cento) daquela aplicadaà empresa, no caso previsto no inciso I do caput deste artigo, ou às pessoas jurídicas ou entidades, nos casos previstos no inciso II do caput deste artigo. Nós vivemos em uma era de fusões e aquisições. Os atos de concentração estão previstos nos artigos 220 e seguintes da Lei nº 6.404/1976. Art. 227. A incorporação é a operação pela qual uma ou mais sociedades são absorvidas por outra, que lhes sucede em todos os direitos e obrigações. Art. 228. A fusão é a operação pela qual se unem duas ou mais sociedades para formar sociedade nova, que lhes sucederá em todos os direitos e obrigações. Art. 229. A cisão é a operação pela qual a companhia transfere parcelas do seu patrimônio para uma ou mais sociedades, constituídas para esse fim ou já existentes, extinguindo-se a companhia cindida, se houver versão de todo o seu patrimônio, ou dividindo-se o seu capital, se parcial a versão. Quando se fala em ato de concentração, há união de forças entre empresas. Isso ocorre na fusão, na incorporação, na aquisição de controle acionário. Exemplos: a fusão entre Itaú e Unibanco, a incorporação do Banco Real pelo Banco Santander. Pág. 89 de 265 Exemplo: quando uma empresa adquire 60% das ações ordinárias de outra, ela está assumindo o controle acionário dessa outra. Se ela faz isso com muitas empresas, há uma concentração. Isso pode resultar em um ato anticompetitivo, mas não necessariamente. Artigos 88 a 90 da Lei nº 12.529/2011. O CADE é chamado a analisar todos os atos de concentração? Não. Qual é o critério utilizado? O CADE analisa apenas atos de concentração de sociedades anônimas ou de sociedades limitadas? Não. O que importa não é o tipo empresarial, mas a receita da empresa. A portaria interministerial nº 994/2012 majorou a receita prevista em lei. Art. 88. Serão submetidos ao Cade pelas partes envolvidas na operação os atos de concentração econômica em que, cumulativamente: I - pelo menos um dos grupos envolvidos na operação tenha registrado, no último balanço, faturamento bruto anual ou volume de negócios total no País, no ano anterior à operação, equivalente ou superior a R$ 400.000.000,00 (quatrocentos milhões de reais); e [foi majorado para R$ 750 milhões] II - pelo menos um outro grupo envolvido na operação tenha registrado, no último balanço, faturamento bruto anual ou volume de negócios total no País, no ano anterior à operação, equivalente ou superior a R$ 30.000.000,00 (trinta milhões de reais). [foi majorado para R$ 75 milhões] Exemplo: o Santander vai incorporar o Banco Real. Isso precisa ser analisado pelo CADE? O Santander teve faturamento bruto superior a R$ 750 milhões no ano anterior? Sim. O Banco Real teve faturamento bruto superior a R$ 75 milhões no ano anterior? Sim. Então a operação deve ser analisada pelo CADE. Outro exemplo: a Ambev quer comprar uma pequena cervejaria. A Ambev teve faturamento bruto superior a R$ 750 milhões no ano anterior? Sim. A cervejaria teve faturamento bruto superior a R$ 75 milhões no ano anterior? Não. Então a operação não precisa ser analisada pelo CADE. Pág. 90 de 265 O artigo 90 da lei trata do ato de concentração. Art. 90. Para os efeitos do art. 88 desta Lei, realiza-se um ato de concentração quando: I - 2 (duas) ou mais empresas anteriormente independentes se fundem; II - 1 (uma) ou mais empresas adquirem, direta ou indiretamente, por compra ou permuta de ações, quotas, títulos ou valores mobiliários conversíveis em ações, ou ativos, tangíveis ou intangíveis, por via contratual ou por qualquer outro meio ou forma, o controle ou partes de uma ou outras empresas; III - 1 (uma) ou mais empresas incorporam outra ou outras empresas; ou IV - 2 (duas) ou mais empresas celebram contrato associativo, consórcio ou joint venture. Parágrafo único. Não serão considerados atos de concentração, para os efeitos do disposto no art. 88 desta Lei, os descritos no inciso IV do caput, quando destinados às licitações promovidas pela administração pública direta e indireta e aos contratos delas decorrentes. O CADE pode aprovar o ato de concentração, rejeitá-lo ou aprová-lo com ressalva. Na fusão entre Sadia e Perdigão, houve aprovação com ressalvas, e as empresas tiveram que vender unidades produtivas, vender abatedouros, vender marcas para a concorrência, para que o mercado ficasse mais equilibrado. Pág. 91 de 265 SUMÁRIO Títulos de crédito 1. Conceito 2. Princípios Cambiários 3. Títulos Típicos 3.1. Letra de Câmbio TÍTULOS DE CRÉDITO 1. Conceito De acordo com Vivante (doutrinador italiano), título de crédito é o documento necessário para o exercício do direito literal e autônomo nele mencionado. O ordenamento jurídico brasileiro conceituou o título de crédito de forma semelhante (CC, art. 887). “Art. 887 do CC – O título de crédito, documento necessário ao exercício do direito literal e autônomo nele contido, somente produz efeito quando preencha os requisitos da lei.” Os títulos de crédito disciplinados no Código Civil são chamados de títulos atípicos; logo, suas regras normalmente não são aplicáveis aos títulos de crédito típicos, pois estes estão regulados em leis especiais (que derrogam a lei geral). Os títulos típicos são: letra de câmbio, nota promissória, cheque e duplicata mercantil. Excepcionalmente, contudo, as regras dos títulos de crédito atípicos poderão ser aplicadas subsidiariamente aos títulos típicos (CC, art. 903). “Art. 903 do CC – Salvo disposição diversa em lei especial, regem-se os títulos de crédito pelo disposto neste Código.” 2. Princípios Cambiários Os princípios que regem os títulos de crédito são: a) Cartulariedade Trata-se da necessidade da cártula, ou seja, o credor deve estar de posse do título para poder exercer seu direito de crédito. A perda da cártula acarreta a perda da condição de credor? Existe exceção ao princípio? 2. Princípios Cambiários a) Cartulariedade Trata-se da necessidade da cártula, ou seja, o credor deve estar de posse do título para poder exercer seu direito de crédito. A perda da cártula acarreta a perda da condição de credor? Pág. 92 de 265 O CC, art. 887, afirma que o direito de crédito está contido no título – e, assim, com a perda da cártula, perder-se- ia também o direito de crédito. “Art. 887 do CC – O título de crédito, documento necessário ao exercício do direito literal e autônomo nele contido, somente produz efeito quando preencha os requisitos da lei.” Diferentemente, segundo Vivante, o direito de crédito está tão somente mencionado no título – e, dessa forma, a perda da cártula não acarretaria a do crédito. Trata-se da posição correta, e se o credor perder o título, não perderá a condição de credor, devendo, ante a impossibilidade de execução, ajuizar uma ação de reconstituição de título de crédito, demonstrando-se as posições de credor e devedor, e, ao final, sendo obtido um título executivo judicial, que substitui o extraviado. Existe exceção ao princípio da cartulariedade? A duplicata mercantil é uma exceção ao princípio da cartulariedade, pois o credor poderá executar e satisfazer seu direito de crédito sem estar de posse da cártula. b) Literalidade Todas as relações cambiárias precisam estar escritas, postas no título para produzirem efeitos (ex.: se um avalista afirmar que concede seu aval, mas por meio de uma escritura pública separada, em vez de fazê-lo no próprio título, o documento até pode ter validade, mas não gerará efeitos de aval). c) Autonomia O título de crédito, economicamente, tem por objetivo fazer com que o crédito circule e, assim, fomente a economia. As relações cambiárias são autônomas, e eventual vício que possa comprometer uma relação antecedente não contamina a relação jurídica subsequente. Ex.: A emite umcheque para o beneficiário B, que o endossa para C, e este o faz para D, que o faz para E. Se o possuidor do título E resolve executar A pelo título, este não pode alegar o vício na transmissão de C para D, por ser aquele um incapaz sem representante. O defeito se mantém apenas na relação em que ele se estabeleceu (no ex., entre C e D), não afetando as demais relações cambiárias. 3. Títulos Típicos 3.1. Letra de Câmbio a) Introdução Suas figuras são: Sacador Sacado Tomador (ordem) (pagar) b) Conceito Pág. 93 de 265 Trata-se de uma ordem de pagamento efetuada pelo sacador em face do sacado, determinando que este pague ao tomador determinada quantia em certa data (obs.: a instituição financeira nunca se encontra na posição de sacado. Se o estiver, o título será o cheque). Sacador é o emitente do título; sacado é a pessoa que recebe a ordem do emitente; e tomador é primeiro credor do título. Ex.: um professor ministra aulas particulares para um aluno, e, com isso, possui um crédito de R$ 10.000,00, a ser recebido no dia 13 de dezembro. Esse professor compra livros numa livraria, no valor de R$ 10.000,00, no dia 13 de novembro, e emite uma letra de câmbio à credora, no valor devido, para ser paga dia 13 de dezembro. Nela, há a ordem para que seu aluno pague diretamente à livraria. Assim, o professor é o sacador, a livraria é o tomador e o aluno é o sacado. O tomador deve apresentar o título recebido pelo sacador ao sacado, para verificar se ele aceita a ordem contida no título, haja vista ser ele quem terá de pagar o valor. c) Atos cambiários - Aceite Manifestação do sacado concordando com a ordem que lhe foi transmitida pelo sacador. Se o sacado aceitar, ele passa a ser chamado de aceitante; e o tomador, que é o credor, por sua vez, pode contar com 2 devedores: o sacador (co-devedor) e o sacado/aceitante (devedor principal). O sacado pode recusar o aceite? A recusa do aceite acarreta o vencimento antecipado do título: o tomador tem até o dia do vencimento para apresentar o título ao sacado – se o fizer antes, a recusa do sacado faz com que o título vença imediatamente para o sacador. A recusa de aceite deve ser comprovada por meio de protesto por falta de aceite (e não por falta de pagamento), em que o sacado é instado a se manifestar novamente, e, confirmando a recusa, esta ficará provada, acarretando o vencimento antecipado. A recusa parcial, por sua vez, consiste no ato do sacado de aceitar parte, mas recusar algum elemento constante no título. Pode ser de 2 espécies: . Modificativa O sacado altera algum dado que o sacador inseriu no título, desde que não relacionada ao valor do título (ex.: data de vencimento). . Limitativa O sacado altera o valor que o sacador inseriu no título. Quaisquer dessas recusas parciais (modificativa ou limitativa) acarretam o vencimento antecipado do título, da mesma forma como ocorre com relação à recusa integral. Na recusa modificativa, o tomador pode cobrar o sacador imediatamente (em razão do vencimento antecipado), e este poderá cobrar o sacado na forma modificada por este no título; na recusa limitativa, a cobrança a ser realizada pelo tomador possui 2 correntes de entendimento: a corrente majoritária (Fábio Ulhoa Coelho) afirma que o Pág. 94 de 265 vencimento antecipado ocorre na totalidade do valor, mesmo sendo a recusa de valor apenas parcial; a corrente minoritária (Rubens Requião) sustenta que somente vence antecipadamente o valor não aceito (crítica: nessa hipótese, por ser cobrável imediatamente apenas parte do valor, o tomador não pode entregar o título ao sacador, de modo que este não terá como comprovar o pagamento, haja vista que documento apartado não gera efeitos cambiários). Para ambas as correntes, na relação entre sacador e sacado, o valor recusado por este deve ser discutido por aquele judicialmente, fora da relação cambiária, após a satisfação do tomador por inteiro. - Endosso Ato cambiário pelo qual o endossante, por meio de uma assinatura no verso, transfere o título (e o crédito nele mencionado) a um endossatário. O saque é a criação do título pelo sacador, com sua entrega ao tomador. Como o título de crédito tem por objetivo fomentar a circulação econômica, a transferência deve ser feita de modo rápido – por meio de uma assinatura (no Direito Civil, o crédito circula por cessão de crédito, devendo haver comunicação do devedor, sendo mais burocrática). O endosso parcial é nulo, não sendo possível transferir a cártula com somente parte do valor. Pág. 95 de 265 SUMÁRIO Características societárias 1. Sociedades personificadas X Sociedades não personificadas 2. Sociedades empresárias X Sociedades simples 3. Sociedade conjugal Sociedades Características societárias São aspectos e classificações dos quais precisaremos quando formos estudar as sociedades em espécie. 1. Sociedades personificadas X Sociedades não personificadas Sociedades personificadas Sociedades não personificadas As sociedades personificadas têm personalidade jurídica. As sociedades não personificadas não têm personalidade jurídica. Deve ser feito o registro da sociedade no órgão competente, que varia conforme o tipo societário. O órgão pode ser: 1. a Junta Comercial: sociedades empresárias 2. o Cartório de Registro Civil de Pessoas Jurídicas: sociedades simples 3. a OAB: sociedades de advogados Mas para ter personalidade jurídica, não basta o registro. Não têm personalidade jurídica porque não têm registro. Elas não são sociedades ilícitas, mas a ausência de registro traz consequências mais onerosas. A sociedade não personificada pode ser registrada, por exemplo, no Cartório de Títulos e Documentos, mas isso não lhe confere personalidade jurídica, como o registro perante os demais órgãos (Junta Comercial, Cartório de Registro Civil de Pessoas Jurídicas e OAB). Previsão legal – artigo 44 do Código Civil Quando o credor cobra alguma dívida, ele atinge primeiro a pessoa jurídica (a sociedade personificada) e em segundo lugar atinge o patrimônio dos sócios. Os sócios têm responsabilidade subsidiária, o que equivale a dizer que eles têm benefício de ordem. Há uma ordem de cobrança. Quando o credor cobra alguma dívida, primeiro será atingido o patrimônio especial da sociedade não personificada, e em segundo lugar serão atingidos os sócios. Também há uma ordem de cobrança, de forma que os sócios têm responsabilidade subsidiária, o que equivale a dizer que eles têm benefício de ordem. Ler os artigos 1.024, 44 e 1.158 do Código Civil Ler os artigos 988 e 1.024 do Código Civil “Art. 44. São pessoas jurídicas de direito privado: Pág. 96 de 265 I - as associações; II - as sociedades; III - as fundações. IV - as organizações religiosas; V - os partidos políticos. VI - (Revogado pela Lei nº 14.382, de 2022) § 1 São livres a criação, a organização, a estruturação interna e o funcionamento das organizações religiosas, sendo vedado ao poder público negar-lhes reconhecimento ou registro dos atos constitutivos e necessários ao seu funcionamento. § 2 As disposições concernentes às associações aplicam-se subsidiariamente às sociedades que são objeto do Livro II da Parte Especial deste Código. § 3 Os partidos políticos serão organizados e funcionarão conforme o disposto em lei específica. Art. 1.024. Os bens particulares dos sócios não podem ser executados por dívidas da sociedade, senão depois de executados os bens sociais. Art. 1.158. Pode a sociedade limitada adotar firma ou denominação, integradas pela palavra final "limitada" ou a sua abreviatura. § 1 A firma será composta com o nome de umou mais sócios, desde que pessoas físicas, de modo indicativo da relação social. § 2 A denominação deve designar o objeto da sociedade, sendo permitido nela figurar o nome de um ou mais sócios. § 3 A omissão da palavra "limitada" determina a responsabilidade solidária e ilimitada dos administradores que assim empregarem a firma ou a denominação da sociedade. Art. 988. Os bens e dívidas sociais constituem patrimônio especial, do qual os sócios são titulares em comum.” Observação: o que é o patrimônio especial nas sociedades não personificadas? São os bens dos sócios que foram colocados no uso da empresa. Exemplo: duas pessoas montam uma lanchonete. Os bens que elas investiram na lanchonete, em dinheiro ou não (tais como geladeira, mesas e cadeiras), formam o patrimônio especial da sociedade. 2. Sociedades empresárias X Sociedades simples Pág. 97 de 265 Sociedades empresárias Sociedades simples A sociedade empresária é uma sociedade empresarial A sociedade simples é uma sociedade não empresarial O legislador define as sociedades que se encaixam em cada categoria. As sociedades por ações sempre são empresárias. No nosso ordenamento, as sociedades por ações são: 1. Sociedade anônima 2. Sociedade em comandita por ações A lei define que não são sociedades empresárias: 1. Cooperativa 2. Sociedade de advogados Para as demais sociedades, é preciso avaliar o objeto social, que é o ramo de atividade da sociedade. Objeto social: atividade empresarial, que é uma atividade: 1. Econômica 2. Exercida com profissionalismo (que é o mesmo que continuidade) 3. Organização Exemplos: padaria, escola, curso e banco são empresas. Para os demais casos, a sociedade é simples se o objeto social for de uma atividade não empresarial. Exemplos: sociedade de médicos, sociedade de dentistas. O profissional intelectual pode escolher ser uma sociedade empresária ou uma sociedade não empresária. Artigos 966 e 982 do Código Civil “Art. 966. Considera-se empresário quem exerce profissionalmente atividade econômica organizada para a produção ou a circulação de bens ou de serviços.” “Art. 982. Salvo as exceções expressas, considera-se empresária a sociedade que tem por objeto o exercício de atividade própria de empresário sujeito a registro (art. 967); e, simples, as demais.” “Parágrafo único. Independentemente de seu objeto, considera-se empresária a sociedade por ações; e, simples, a cooperativa.” Observação: a sociedade limitada é sociedade empresária ou sociedade simples? O legislador não definiu, então ela pode ser os dois, a depender do objeto social. Se for uma padaria, é uma empresa. Se for uma sociedade entre dentistas, é uma sociedade simples. 3. Sociedade conjugal É possível a sociedade conjugal, isto é, entre marido e mulher? No Código Civil de 2002, a sociedade conjugal é permitida, salvo se os cônjuges forem casados no regime de separação obrigatória de bens ou no regime de comunhão universal de bens. Pág. 98 de 265 Com relação ao regime da separação obrigatória de bens, o legislador não queria que o patrimônio dos cônjuges se comunicasse, então não se pode criar uma forma de o patrimônio se comunicar. Com relação ao regime da comunhão universal de bens, o problema é que há duas pessoas, mas um único patrimônio, de forma que é melhor que a pessoa que quer empreender monte uma sociedade unipessoal. Artigo 977 do Código Civil. “Art. 977. Faculta-se aos cônjuges contratar sociedade, entre si ou com terceiros, desde que não tenham casado no regime da comunhão universal de bens, ou no da separação obrigatória.” A depender de como a questão está colocada na prova, pode ser possível ou não a sociedade conjugal, devendo ser identificado o regime de bens. Pág. 99 de 265 SUMÁRIO 1. Sociedade em comum a) Espécies b) Prova da existência c) Responsabilidade dos sócios d) Falência da sociedade em comum 2. Sociedade em conta de participação 1. Sociedade em comum Artigos 986 a 990 do Código Civil A sociedade em comum é uma sociedade não personificada. Ela não tem personalidade jurídica porque não tem registro. a) Espécies Trata-se de termos criados pela doutrina, por Rubens Requião. Requião diz que a sociedade em comum pode ser uma sociedade irregular ou de fato. 1. Sociedade irregular: é aquela que tem um contrato social, mas ele não foi registrado ou foi registrado de forma irregular 2. Sociedade de fato: é aquela que não tem contrato social Não é a lei que faz essa classificação, mas a doutrina. b) Prova da existência Como se prova a existência da sociedade em comum, se ela não tem registro? Se um sócio quiser provar a existência da sociedade em comum, ele só pode prová-la por meio de documento (exemplos: contrato de locação, conta corrente conjunta, um contrato irregular). Se um terceiro quiser provar a existência da sociedade em comum, ele pode prová-la por qualquer meio. Pode ser por meio documental ou testemunhal, por exemplo, já que ele não deu causa à falta de registro da sociedade em comum, mas apenas foi vítima de contratar com quem não tinha registro. c) Responsabilidade dos sócios A responsabilidade dos sócios da sociedade em comum é ilimitada e solidária. Se o sócio A provar que B também é sócio da sociedade em comum, B será igualmente responsável. Os sócios têm benefício de ordem: o credor deve atingir primeiro o patrimônio especial da sociedade em comum, e apenas em segundo lugar o patrimônio dos sócios pode ser atingido. Pág. 100 de 265 Observação: se cair na prova a expressão “o sócio que contratou também responde de forma ilimitada e solidária e é excluído do benefício de ordem”, tal significa que seu patrimônio é atingido de forma direta. Exemplo: A tem uma sociedade com B e eles têm uma lanchonete sem registro (logo, é uma sociedade em comum). As partes combinaram que, por motivos práticos, B vai até um mercado atacadista para fazer compras para a sociedade e quer pagar a prazo. B não tem documentos da sociedade, de forma que apresenta o próprio RG e o próprio CPF para fazer a compra. Passado o dia de vencimento, B não paga o valor devido pelas compras. O atacadista irá cobrar em primeiro lugar a B, que é excluído do benefício de ordem. Mas se B provar que A é seu sócio, o mercado atacadista pode cobrar em segundo lugar do patrimônio especial da sociedade em comum, e em terceiro lugar, do sócio A. Ordem de cobrança que deve ser seguida pelo credor: 1. Patrimônio do sócio B 2. Patrimônio especial da sociedade em comum 3. Patrimônio do sócio A Artigo 990 do Código Civil. “Art. 990. Todos os sócios respondem solidária e ilimitadamente pelas obrigações sociais, excluído do benefício de ordem, previsto no art. 1.024, aquele que contratou pela sociedade.” d) Falência da sociedade em comum A sociedade em comum pode falir? Sim, ela pode sofrer falência, porque o legislador nunca afirmou que apenas quem é registrado pode falir. A Lei nº 11.101/2005 estabelece apenas que, para falir, é necessário exercer atividade empresarial. Se é uma empresa, pode falir. A sociedade em comum pode requerer recuperação de empresas? Não, porque o artigo 48 da Lei de Recuperação Judicial e Falência dispõe que, para pedir recuperação, é preciso estar registrado há pelo menos dois anos (a não ser com relação à atividade rural, para a qual o registro nunca foi exigido, e que consegue comprovar sua regularidade por escrituração fiscal). “Art. 48. Poderá requerer recuperação judicial o devedor que, no momento do pedido, exerça regularmente suas atividades há mais de 2 (dois) anos e que atenda aos seguintes requisitos, cumulativamente: (...)” A “sociedade limitada ainda não registrada” é a sociedade em comum. 2. Sociedade em conta de participação Artigos 991 a 996 do CódigoCivil A sociedade em conta de participação é uma sociedade não personificada. Pág. 101 de 265 As duas sociedades não personificadas previstas em lei (que não têm personalidade jurídica porque não têm registro nos três órgãos convencionais) são a sociedade comum e a sociedade em conta de participação. Há dois tipos de sócios na sociedade em conta de participação, o sócio ostensivo e o sócio participante. Sócio ostensivo Sócio participante (às vezes chamado pela doutrina de sócio oculto) O sócio ostensivo é aquele que realiza a atividade empresarial em nome próprio. Ele não se apresenta em público como se fosse uma sociedade. É o sócio ostensivo que aparece, que contrata com terceiros (com funcionários, credores, fornecedores etc.). Quando o terceiro quiser responsabilizar a sociedade, ele só pode atingir o patrimônio do sócio ostensivo, que vai responder de forma ilimitada. O sócio ostensivo pode ser uma pessoa física ou uma pessoa jurídica. O que não tem registro é a relação entre o sócio ostensivo e o sócio participante (não há uma pessoa jurídica formada pelos dois, mas apenas a sociedade em conta de participação), mas o sócio ostensivo pode ser ele mesmo uma pessoa jurídica. Pág. 102 de 265 SUMÁRIO 2. Sociedade em conta de participação a) Falência do sócio ostensivo b) Falência do sócio participante c) Liquidação da sociedade em conta de participação 2. Sociedade em conta de participação Sócio ostensivo Sócio participante (às vezes chamado pela doutrina de sócio oculto) O sócio ostensivo é aquele que realiza a atividade empresarial em nome próprio. Ele não se apresenta em público como se fosse uma sociedade. O sócio participante ou oculto não realiza a atividade empresarial da sociedade em conta de participação. É o sócio ostensivo que aparece, que contrata com terceiros (com funcionários, credores, fornecedores etc.). O sócio participante ou oculto não aparece, não contrata com terceiros. Quando o terceiro quiser responsabilizar a sociedade, ele só pode atingir o patrimônio do sócio ostensivo, que vai responder de forma ilimitada. O terceiro que contrata com essa sociedade não pode cobrar seu crédito do sócio participante ou oculto. O sócio participante pode ser cobrado pelo sócio ostensivo, dependendo das regras contratuais. Ele pode sofrer prejuízo, mas não porque foi cobrado pelo terceiro, mas pelo sócio ostensivo. O sócio ostensivo pode ser uma pessoa física ou uma pessoa jurídica. O que não tem registro é a relação entre o sócio ostensivo e o sócio participante (não há uma pessoa jurídica formada pelos dois, mas apenas a sociedade em conta de participação), mas o sócio ostensivo pode ser ele mesmo uma pessoa jurídica. O contrato entre os sócios ostensivo e participante não é um requisito formal da sociedade em conta de participação, mas pode existir, e normalmente existe. Todavia, não é o legislador que obriga a sua existência. O contrato entre os sócios ostensivo e participante pode ser registrado no cartório de Títulos e Documentos, ou no Cartório de Imóveis, se houver imóvel, mas isso não traz personalidade jurídica à sociedade em conta de participação. Pág. 103 de 265 A sociedade em conta de participação também tem patrimônio especial, que é a soma das contribuições do sócio ostensivo e do sócio participante. O patrimônio especial é a garantia dos credores, pode ser atingido por eles. A sociedade em conta de participação não tem nome empresarial, que só existe com o registro. E essa sociedade não foi registrada. Se a sociedade em conta de participação for registrada, ela não terá personalidade jurídica nessa qualidade. Porque ela nunca será registrada como uma sociedade em conta de participação. Se ela for registrada, será uma sociedade anônima ou uma sociedade limitada, por exemplo. a) Falência do sócio ostensivo O que acontece se o sócio ostensivo falir? A sociedade em conta de participação será dissolvida. Não há mais razão para ela existir. Se o sócio participante tiver algo a receber, ele se habilitará como credor quirografário, que é um credor que tem pouca chance de receber o que lhe é devido. b) Falência do sócio participante O que acontece se o sócio participante falir? Se o sócio participante falir, a sociedade em conta de participação continua a existir. Se o sócio ostensivo tiver algo a pagar ou a receber, será tratado na falência do sócio participante como um contrato bilateral (é aquele contrato que o administrador judicial analisa se faz sentido ele continuar, ou se é melhor que ele termine). O administrador dá o seu parecer, e o juiz decidirá se o contrato bilateral continuará ou não. Em resumo: Se faliu o sócio ostensivo, faliu quem era responsável pela sociedade, de forma que resta ao sócio participante se habilitar como credor quirografário, com baixa probabilidade de reaver seu crédito. Se faliu o sócio participante, o sócio ostensivo pode ter que pagar débitos, ou pode ter valores a receber. O sócio ostensivo será tratado como um contrato bilateral, que pode até continuar na falência do sócio participante. c) Liquidação da sociedade em conta de participação Quando a sociedade em conta de participação for dissolvida, a liquidação será resolvida pela ação de exigir contas, nos termos do artigo 996 do Código Civil. “Art. 996. Aplica-se à sociedade em conta de participação, subsidiariamente e no que com ela for compatível, o disposto para a sociedade simples, e a sua liquidação rege-se pelas normas relativas à prestação de contas, na forma da lei processual.” “Parágrafo único. Havendo mais de um sócio ostensivo, as respectivas contas serão prestadas e julgadas no mesmo processo.” Pág. 104 de 265 Nesse artigo consta a expressão “prestação de contas”, mas o Código de Processo Civil de 2015 trouxe a nova nomenclatura “ação de exigir contas”, que deve ser usada. Pág. 105 de 265 SUMÁRIO Sociedade limitada 1. Fonte legislativa 2. Capital social 3. Responsabilidade dos sócios Sociedade limitada 1. Fonte legislativa À sociedade limitada são aplicáveis regras específicas, previstas no Código Civil a partir do artigo 1.052. Quando houver omissão das regras específicas, o que se deve fazer? 1. Verificar se há alguma regra no contrato social O contrato social pode suprir a lei. Ele pode tratar de um assunto que não esteja na lei, ou pode ser omisso também. Se o contrato social for omisso, a que norma se deve recorrer? 2. Subsidiariamente, aplicam-se as regras de sociedades simples, que funcionam na prática quase que como uma teoria geral É possível usar a Lei das S.A. para regrar a sociedade limitada? Observação: as regras da Lei das S.A. podem ser aplicadas supletivamente apenas se houver previsão expressa no contrato social. Isso é muito importante e muito cobrado em concursos públicos. Artigo 1.053 do CC “Art. 1.053. A sociedade limitada rege-se, nas omissões deste Capítulo, pelas normas da sociedade simples. Parágrafo único. O contrato social poderá prever a regência supletiva da sociedade limitada pelas normas da sociedade anônima.” 2. Capital social É o lastro que a empresa tem. É o que foi investido na empresa. Toda empresa precisa ter capital social. Se não tiver essa informação, é um dos motivos para a Junta Comercial indeferir o registro. Não há mais na nossa legislação um valor mínimo do capital social. O valor será o tanto que os sócios entenderem necessário. Existia um valor mínimo de capital social na EIRELI, mas ela foi extinta. Capital social: é a soma do que os sócios se comprometeram a investir. O investimento pode ser em dinheiro ou em bens. Observação 1: toda vez que houver contribuição de determinado bem (e não dinheiro), é preciso fazer umaavaliação. Essa Pág. 106 de 265 avaliação é feita pelos sócios, e não há nenhuma formalidade para que ela seja feita. É possível, por exemplo, que um sócio faça sozinho a avaliação de um bem, sem nenhuma expertise, e atribua um valor incorreto. Realizada a avaliação, há uma consequência: os sócios são solidariamente responsáveis pela exata estimativa dos bens por 5 anos contados a partir do registro da sociedade. Uma vez que a avaliação conste no contrato social, os sócios são solidariamente responsáveis. Mas essa responsabilidade tem o prazo de 5 anos a partir do registro da sociedade. Exemplo: o sócio A contribuiu com um carro e o avaliou no valor de 10. O sócio A não contribuiu com nenhum capital, mas apenas com este bem. Por sua vez, o sócio B contribuiu com o capital de 20. Há o capital social total de 30. Com o passar do tempo, demonstra-se que o carro de A valia 2 (não porque se desvalorizou, mas porque esse era o seu valor mesmo). Assim, a diferença entre 10 e 2, no valor de 8, é de responsabilidade solidária de A e de B. Eles só serão responsabilizados se alguém cobrar a sociedade no prazo de 5 anos a partir do registro da sociedade. Art. 1.055 do CC “Art. 1.055. O capital social divide-se em quotas, iguais ou desiguais, cabendo uma ou diversas a cada sócio. § 1º Pela exata estimação de bens conferidos ao capital social respondem solidariamente todos os sócios, até o prazo de cinco anos da data do registro da sociedade. § 2º É vedada contribuição que consista em prestação de serviços.” Observação 2: o sócio não pode contribuir na sociedade limitada apenas com trabalho (prestação de serviços). A contribuição com trabalho é possível apenas na sociedade simples pura (que constará na prova como “sociedade simples”) e na cooperativa. Artigo 997, V do CC, sobre a sociedade simples: “Art. 997. A sociedade constitui-se mediante contrato escrito, particular ou público, que, além de cláusulas estipuladas pelas partes, mencionará: (...) V - as prestações a que se obriga o sócio, cuja contribuição consista em serviços” Artigo 1.094 do CC, sobre a cooperativa: “Art. 1.094. São características da sociedade cooperativa: I - variabilidade, ou dispensa do capital social; Pág. 107 de 265 II - concurso de sócios em número mínimo necessário a compor a administração da sociedade, sem limitação de número máximo; III - limitação do valor da soma de quotas do capital social que cada sócio poderá tomar; IV - intransferibilidade das quotas do capital a terceiros estranhos à sociedade, ainda que por herança; V - quorum, para a assembléia geral funcionar e deliberar, fundado no número de sócios presentes à reunião, e não no capital social representado; VI - direito de cada sócio a um só voto nas deliberações, tenha ou não capital a sociedade, e qualquer que seja o valor de sua participação; VII - distribuição dos resultados, proporcionalmente ao valor das operações efetuadas pelo sócio com a sociedade, podendo ser atribuído juro fixo ao capital realizado; VIII - indivisibilidade do fundo de reserva entre os sócios, ainda que em caso de dissolução da sociedade.” O capital social da sociedade limitada é dividido em cotas iguais ou desiguais, nos termos do artigo 1.055 do Código Civil. Exemplo acima: a cota do sócio A é de 10 e a cota do sócio B é de 20. Ou pode-se dizer que a cota é de 1, e A tem 10 cotas de 1 e B tem 20 cotas de 1. São duas formas diferentes de dizer a mesma coisa. 3. Responsabilidade dos sócios Na sociedade limitada, quanto se pode cobrar do patrimônio dos sócios com relação às dívidas da empresa? Não estamos falando de desconsideração da personalidade jurídica, mas da regra sobre a responsabilidade dos sócios na sociedade limitada. A sociedade X Ltda. tem o capital social de 100 Quanto cada sócio se comprometeu a investir? (Quanto ele subscreveu?) Quanto cada sócio colocou na empresa? (Quanto ele integralizou?) Quanto cada sócio ainda deve? Sócio A 90 50 40 Sócio B 10 10 0 Artigo 1.052 do CC “Art. 1.052. Na sociedade limitada, a responsabilidade de cada sócio é restrita ao valor de suas quotas, mas todos respondem solidariamente pela integralização do capital social. Pág. 108 de 265 § 1º A sociedade limitada pode ser constituída por 1 (uma) ou mais pessoas. (Incluído pela Lei nº 13.874, de 2019) § 2º Se for unipessoal, aplicar-se-ão ao documento de constituição do sócio único, no que couber, as disposições sobre o contrato social. (Incluído pela Lei nº 13.874, de 2019)” Há duas regras a observar: 1. Cada sócio responde pela integralização da cota que subscreveu (cada sócio deve pagar o que ele se comprometeu a investir) A sociedade X Ltda. pode cobrar de A o valor de 40, e não pode cobrar nada do sócio B, que integralizou todo o capital que subscreveu. 2. Todos os sócios respondem solidariamente até o limite do que falta ser integralizado Há responsabilidade solidária entre os sócios, mas apenas quando o capital social não foi todo integralizado. Exemplo: um credor vai cobrar 1000 da sociedade X Ltda. Ele cobrou tudo o que a empresa tinha, e ainda faltou receber 500. Na sequência, o credor vai cobrar o sócio A e o sócio B. Os dois são responsáveis solidariamente até o valor de 40, que não foi integralizado por A. A desconsideração da personalidade jurídica é outra questão, distinta. O sócio A é chamado de sócio remisso: o sócio que não integralizou as cotas que subscreveu. O que a sociedade pode fazer com ele? 1. Primeiro, notificá-lo para constituí-lo em mora 2. Depois, excluí-lo da sociedade ou cobrá-lo, nos termos do artigo 1.058 do CC “Art. 1.058. Não integralizada a quota de sócio remisso, os outros sócios podem, sem prejuízo do disposto no art. 1.004 e seu parágrafo único, tomá-la para si ou transferi-la a terceiros, excluindo o primitivo titular e devolvendo-lhe o que houver pago, deduzidos os juros da mora, as prestações estabelecidas no contrato mais as despesas.” Pág. 109 de 265 SUMÁRIO Sociedade limitada 4. Desconsideração da personalidade jurídica 5. Cessão de cotas 6. Administrador Sociedade limitada As regras de responsabilidade na sociedade limitada funcionam da forma que estudamos. A desconsideração da personalidade jurídica é excepcional. 4. Desconsideração da personalidade jurídica Houve uma modificação legislativa em 2019. A pessoa jurídica é criada para o fim de exercer a atividade empresarial e obter lucro, mas esse fim pode ser desviado. A desconsideração serve para que o credor da pessoa jurídica possa atingir o patrimônio dos sócios. Também é cabível quando o credor do sócio quer atingir o patrimônio da pessoa jurídica, caso em que há desconsideração inversa da personalidade jurídica. Os artigos 133 e seguintes do Código de Processo Civil dispõem sobre o procedimento no qual se pede a desconsideração da pessoa jurídica. Credores negociais Credores não negociais Podem exigir garantias. Exemplo: banco, fornecedores, outras empresas. Eles têm maior controle da contratação. Não podem exigir garantias. Exemplo: consumidor, trabalhador, meio ambiente. A desconsideração é mais difícil. É a chamada teoria maior da desconsideração da personalidade jurídica. A desconsideração é mais fácil. É a chamada teoria menor da desconsideração da personalidade jurídica. Requisitos da desconsideração: 1. Não pagamento do débito 2. Abuso da personalidade jurídica Único requisito da desconsideração: 1. A personalidade jurídica é um obstáculo ao pagamento do débito (criar dificuldades para pagar) Artigo 50 do CC Artigo 28, § 5º do CDC “Art. 50. Em caso de abuso da personalidade jurídica, caracterizado pelo desvio de finalidade ou pela confusão patrimonial, pode o juiz, a requerimento da parte, ou do Ministério Públicoquando lhe couber Pág. 110 de 265 intervir no processo, desconsiderá-la para que os efeitos de certas e determinadas relações de obrigações sejam estendidos aos bens particulares de administradores ou de sócios da pessoa jurídica beneficiados direta ou indiretamente pelo abuso. (Redação dada pela Lei nº 13.874, de 2019) § 1º Para os fins do disposto neste artigo, desvio de finalidade é a utilização da pessoa jurídica com o propósito de lesar credores e para a prática de atos ilícitos de qualquer natureza. (Incluído pela Lei nº 13.874, de 2019) § 2º Entende-se por confusão patrimonial a ausência de separação de fato entre os patrimônios, caracterizada por: (Incluído pela Lei nº 13.874, de 2019) I - cumprimento repetitivo pela sociedade de obrigações do sócio ou do administrador ou vice-versa; (Incluído pela Lei nº 13.874, de 2019) II - transferência de ativos ou de passivos sem efetivas contraprestações, exceto os de valor proporcionalmente insignificante; e (Incluído pela Lei nº 13.874, de 2019) III - outros atos de descumprimento da autonomia patrimonial. (Incluído pela Lei nº 13.874, de 2019) § 3º O disposto no caput e nos §§ 1º e 2º deste artigo também se aplica à extensão das obrigações de sócios ou de administradores à pessoa jurídica. (Incluído pela Lei nº 13.874, de 2019) § 4º A mera existência de grupo econômico sem a presença dos requisitos de que trata o caput deste artigo não autoriza a desconsideração da personalidade da pessoa jurídica. (Incluído pela Lei nº 13.874, de 2019) § 5º Não constitui desvio de finalidade a mera expansão ou a alteração da finalidade original da atividade econômica específica da pessoa jurídica. (Incluído pela Lei nº 13.874, de 2019) Art. 28. O juiz poderá desconsiderar a personalidade jurídica da sociedade quando, em detrimento do consumidor, houver abuso de direito, excesso de poder, infração da lei, fato ou ato ilícito ou violação dos estatutos ou contrato social. A desconsideração também será efetivada quando houver falência, estado de insolvência, encerramento ou inatividade da pessoa jurídica provocados por má administração. (...) Pág. 111 de 265 § 5° Também poderá ser desconsiderada a pessoa jurídica sempre que sua personalidade for, de alguma forma, obstáculo ao ressarcimento de prejuízos causados aos consumidores.” Nas questões de prova, avaliar quem está cobrando o crédito para identificar se o credor é negocial ou não. Se o débito é referente a dano ambiental, incide a teoria menor da desconsideração da personalidade jurídica. O abuso da personalidade jurídica ocorre por: 1. Desvio de finalidade: usar de forma abusiva a personalidade jurídica (para realizar algum ato fraudulento) 2. Confusão patrimonial: é a mistura de patrimônio entre o sócio e a sociedade. A mistura deve ser reiterada e de grande quantia Atualmente a desconsideração da personalidade jurídica só atinge os sócios e administradores envolvidos, beneficiados pelo abuso da personalidade jurídica. Não é preciso ser sócio; os administradores também podem ter seu patrimônio atingido. Antes dessa alteração legislativa, a desconsideração da personalidade jurídica envolvia todos os sócios e administradores, e não apenas os envolvidos. Exemplo: o casal Maria e Paulo tinha uma sociedade limitada. Maria passou a trair Paulo com seu amante Ricardo, e começou a emitir duplicatas frias em nome da sociedade para pegar o dinheiro e gastar com Ricardo. A empresa é desfalcada e deixa de pagar as suas obrigações. Um credor não tem o seu crédito quitado e pede a desconsideração da pessoa jurídica. Há desvio de finalidade, de forma que a personalidade jurídica da sociedade limitada será desconsiderada. Quem pode ter seu patrimônio atingido? Maria? Paulo? Ricardo? Apenas Maria, porque Paulo não estava envolvido nos atos de abuso. Ricardo não pode ser responsabilizado, porque ele não é sócio, nem administrador da sociedade limitada. 5. Cessão de cotas Cessão de cotas é a transferência de cotas de um sócio para outro. O contrato social pode livremente pactuar as regras sobre cessão de cotas. Se o contrato for omisso, incide o artigo 1.057 do CC, segundo o qual: 1. Se a cessão de cotas for entre sócios, ela é livre (ninguém pode se opor) 2. Se a cessão de cotas for para um terceiro, ela só é possível se não houver a oposição de sócios com mais de 1/4 do capital social Não se trata de exercício de direito de preferência. Os sócios não precisam comprar essas cotas, basta que eles tenham mais de 1/4 do capital social e se oponham. “Art. 1.057. Na omissão do contrato, o sócio pode ceder sua quota, total ou parcialmente, a quem seja sócio, independentemente de audiência dos outros, ou a estranho, se não houver oposição de titulares de mais de um quarto do capital social. Pág. 112 de 265 Parágrafo único. A cessão terá eficácia quanto à sociedade e terceiros, inclusive para os fins do parágrafo único do art. 1.003, a partir da averbação do respectivo instrumento, subscrito pelos sócios anuentes.” 6. Administrador O administrador é quem usa o nome empresarial (é quem assina pela empresa). Quem é o administrador? Pode ser um sócio ou um terceiro (pode ser alguém contratado para ser administrador, ou pode ser um funcionário elevado à condição de administrador). Como o administrador é designado? Isso é cobrado em provas. Ele pode ser designado no próprio contrato social ou em um documento separado (que não é um contrato de gaveta, mas uma ata de assembleia ou de reunião). Tipo de administrador Quórum de designação do administrador Administrador sócio Designação é feita por mais da metade do capital social (+ de 1/2) Administrador não sócio Se o capital não estiver integralizado, é preciso obter a concordância unânime dos sócios Se o capital estiver integralizado, o quórum é de 2/3 do capital social “Art. 1.061. A designação de administradores não sócios dependerá de aprovação da unanimidade dos sócios, enquanto o capital não estiver integralizado, e de 2/3 (dois terços), no mínimo, após a integralização.” O artigo 1.060 do CC é muito cobrado em provas. “Art. 1.060. A sociedade limitada é administrada por uma ou mais pessoas designadas no contrato social ou em ato separado. Parágrafo único. A administração atribuída no contrato a todos os sócios não se estende de pleno direito aos que posteriormente adquiram essa qualidade.” Apenas será administrador quem for sócio no momento da constituição da empresa. Quem vier depois não será administrador, nos termos do artigo 1.060, parágrafo único. Exemplo: no momento do registro da sociedade limitada, há os sócios A, B e C, e o contrato diz que todos são administradores. Depois, os sócios são A, B e D porque C vendeu a sua parte para D. Os sócios administradores são apenas A e B. D chegou depois, então não será sócio administrador. Pág. 113 de 265 SUMÁRIO Sociedade limitada 6. Administrador 7. Sociedade Unipessoal Limitada 8. Decisões 9. Retirada de sócio Sociedade limitada 6. Administrador O administrador pode ser responsabilizado? Sim, se agir com culpa, dolo, em benefício próprio, ou se contrariar a vontade dos sócios. Os poderes do administrador são definidos no contrato. Quando o administrador os exerce de forma regular, não é responsabilizado. Mas se ele não agir como os sócios determinam, será responsabilizado por perdas e danos. Que poderes o administrador tem? Atos de gestão: são aqueles relacionados ao objeto social. Com relação aos atos de gestão, não precisa haver nenhuma concessão expressa de poderes. Além do poder de praticar atos de gestão, o administrador pode ter outros poderes, desde que eles estejam expressos. Ex.: administrador de padaria pode vender carros, se esses poderes estiverem expressos. Observação:havia a possibilidade de responsabilização do administrador pelo ato ultra vires: é o ato realizado além do objeto social, e a consequência era que o administrador respondia isoladamente, mas foi revogado o parágrafo único do artigo 1.015, que previa tal responsabilidade. Não existe mais a responsabilidade por ato ultra vires. Se o administrador agir com excesso, a sociedade responderá e depois cobrará regressivamente do administrador. Não há mais a possibilidade de o administrador ser atingido sozinho. Artigos para ler sobre o administrador: Artigos 1.060 a 1.065 do CC Artigos 1.010 a 1.015 do CC 7. Sociedade Unipessoal Limitada O artigo 1.052, § 1º do Código Civil afirma que é possível a sociedade limitada com apenas um sócio. “§ 1º A sociedade limitada pode ser constituída por 1 (uma) ou mais pessoas. (Incluído pela Lei nº 13.874, de 2019) Pág. 114 de 265 § 2º Se for unipessoal, aplicar-se-ão ao documento de constituição do sócio único, no que couber, as disposições sobre o contrato social. (Incluído pela Lei nº 13.874, de 2019)” Não há prazo. A sociedade limitada pode ter um único sócio para sempre. Não se se aplica nenhuma regra de quórum, porque não há colegas a excluir da sociedade. Na sociedade unipessoal limitada, o registro separa o patrimônio do sócio e o da pessoa jurídica, sendo esse o momento em que a sociedade adquire sua própria personalidade jurídica. 8. Decisões Na sociedade limitada, as decisões são tomadas pelos sócios. Se a sociedade limitada tiver até 10 sócios, as decisões podem ser tomadas em reunião, informalmente. Se a sociedade limitada tiver mais de 10 sócios, as decisões serão tomadas em assembleia. Observação: tanto a reunião quanto a assembleia podem ocorrer de forma digital ou virtual. É possível o voto à distância, nos termos do artigo 1.080-A, parágrafo único do CC. “Art. 1.080-A. O sócio poderá participar e votar a distância em reunião ou em assembleia, nos termos do regulamento do órgão competente do Poder Executivo federal. (Incluído pela Lei nº 14.030, de 2020) Parágrafo único. A reunião ou a assembleia poderá ser realizada de forma digital, respeitados os direitos legalmente previstos de participação e de manifestação dos sócios e os demais requisitos regulamentares. (Incluído pela Lei nº 14.030, de 2020)” Quórum para alteração de contrato social: sócios com 3/4 do capital social. Quórum para requerer recuperação de empresas: sócios com mais da metade do capital social (+ de 1/2) Artigos 1.071 e 1.076 do CC “Art. 1.071. Dependem da deliberação dos sócios, além de outras matérias indicadas na lei ou no contrato: I - a aprovação das contas da administração; II - a designação dos administradores, quando feita em ato separado; III - a destituição dos administradores; IV - o modo de sua remuneração, quando não estabelecido no contrato; V - a modificação do contrato social; Pág. 115 de 265 VI - a incorporação, a fusão e a dissolução da sociedade, ou a cessação do estado de liquidação; VII - a nomeação e destituição dos liquidantes e o julgamento das suas contas; VIII - o pedido de concordata. Art. 1.076. Ressalvado o disposto no art. 1.061, as deliberações dos sócios serão tomadas (Redação dada pela Lei nº 13.792, de 2019) I - pelos votos correspondentes, no mínimo, a três quartos do capital social, nos casos previstos nos incisos V e VI do art. 1.071; II - pelos votos correspondentes a mais de metade do capital social, nos casos previstos nos incisos II, III, IV e VIII do art. 1.071; III - pela maioria de votos dos presentes, nos demais casos previstos na lei ou no contrato, se este não exigir maioria mais elevada.” Esses quóruns são cobrados em prova. 9. Retirada de sócio O direito de retirada é o direito do sócio de sair da sociedade. Esse é um direito potestativo do sócio. Não depende de previsão contratual. É imprescindível a notificação dos demais sócios, para que inclusive possam decidir se querem continuar a empresa sem a presença dessa pessoa. Quebra de affectio societatis: é a quebra do desejo de colaboração. Pode ocorrer por desavença ou simplesmente porque um sócio não quer mais ficar na sociedade. A lei divide em duas hipóteses: 1. motivada: artigo 1.077 do CC: o sócio não concorda com decisão que altere o contrato social 2. imotivada: artigo 1.029 do CC (está nas regras de sociedade simples) “Art. 1.077. Quando houver modificação do contrato, fusão da sociedade, incorporação de outra, ou dela por outra, terá o sócio que dissentiu o direito de retirar-se da sociedade, nos trinta dias subsequentes à reunião, aplicando-se, no silêncio do contrato social antes vigente, o disposto no art. 1.031. Art. 1.029. Além dos casos previstos na lei ou no contrato, qualquer sócio pode retirar-se da sociedade; se de prazo indeterminado, mediante notificação aos demais sócios, com antecedência mínima de sessenta dias; se de prazo determinado, provando judicialmente justa causa. Pág. 116 de 265 Parágrafo único. Nos trinta dias subsequentes à notificação, podem os demais sócios optar pela dissolução da sociedade.” Observação: se a sociedade limitada usar supletivamente a Lei das S.A. para regê-la, pode haver a retirada imotivada de sócio? A regra de retirada imotivada só está prevista para a sociedade simples (artigo 1.029 do CC), e não para a sociedade anônima. Conforme decisão proferida pelo STJ no REsp nº 1.839.078/SP, julgado pela Terceira Turma, aplica-se a retirada imotivada prevista no artigo 1.029 do CC também à sociedade limitada regida pela Lei das S.A. EMENTA RECURSO ESPECIAL. DIREITO EMPRESARIAL. DIREITO SOCIETÁRIO. SOCIEDADE LIMITADA. APLICAÇÃO SUPLETIVA DAS NORMAS RELATIVAS A SOCIEDADES ANÔNIMAS. ART. 1.053 DO CC. POSSIBILIDADE DE RETIRADA VOLUNTÁRIA IMOTIVADA. APLICAÇÃO DO ART. 1.029 DO CC. LIBERDADE DE NÃO PERMANECER ASSOCIADO GARANTIDA CONSTITUCIONALMENTE. ART. 5º, XX, DA CF. OMISSÃO RELATIVA À RETIRADA IMOTIVADA NA LEI N. 6.404/76. OMISSÃO INCOMPATÍVEL COM A NATUREZA DAS SOCIEDADES LIMITADAS. APLICAÇÃO DO ART. 1.089 DO CC. 1. Entendimento firmado por este Superior Tribunal no sentido de ser a regra do art. 1.029 do CC aplicável às sociedades limitadas, possibilitando a retirada imotivada do sócio e mostrando-se despiciendo, para tanto, o ajuizamento de ação de dissolução parcial. 2. Direito de retirada imotivada que, por decorrer da liberdade constitucional de não permanecer associado, garantida pelo inciso XX do art. 5º da CF, deve ser observado ainda que a sociedade limitada tenha regência supletiva da Lei n. 6.404/76 (Lei das Sociedades Anônimas). 3. A ausência de previsão na Lei n. 6.404/76 acerca da retirada imotivada não implica sua proibição nas sociedades limitadas regidas supletivamente pelas normas relativas às sociedades anônimas, especialmente quando o art. 1.089 do CC determina a aplicação supletiva do próprio Código Civil nas hipóteses de omissão daquele diploma. 4. Caso concreto em que, ainda que o contrato social tenha optado pela regência supletiva da Lei n. 6.404/76, há direito potestativo de retirada imotivada do sócio na sociedade limitada em questão. 5. Tendo sido devidamente exercido tal direito, conforme reconhecido na origem, não mais se mostra possível a convocação de reunião com a finalidade de deliberar sobre exclusão do sócio que já se retirou. 6. RECURSO ESPECIAL PROVIDO. (REsp 1839078/SP, Rel. Ministro PAULO DE TARSO SANSEVERINO, TERCEIRA TURMA, julgado em 09/03/2021, DJe 26/03/2021) Mesmo nesse caso, quando houver a indicação da Lei das S.A. para reger a sociedade limitada, não se usa, nesse assunto, a Lei das S.A., mas obedece-se a ideia de que o sócio não é obrigado a permanecer na sociedade. Pág. 117 de 265 SUMÁRIO Sociedades menores Sociedades menores Sociedade Características 1. Sociedadeem nome coletivo – artigos 1.039 a 1.044 do CC A sociedade em nome coletivo pode ser uma sociedade simples ou uma sociedade empresária, a depender do objeto social, porque o legislador não definiu previamente. Os sócios necessariamente são pessoas físicas e necessariamente respondem ilimitadamente e solidariamente entre eles. Todos administram a sociedade. (Esse é o ponto mais cobrado em concursos quanto a essa sociedade: a responsabilidade.) Uma vez que a responsabilidade dos sócios é ilimitada, essa sociedade é muito rara na prática. 2. Sociedade em comandita simples – artigos 1.045 a 1.051 do CC A sociedade em comandita simples pode ser uma sociedade simples ou uma sociedade empresária, a depender do objeto social. A sociedade em comandita simples tem duas categorias de sócios: 1. Sócio comanditado: é necessariamente uma pessoa física, que responde ilimitadamente pelas obrigações sociais e administra a sociedade. (Pode haver mais de um sócio pessoa física.) 2. Sócio comanditário: pode ser pessoa física ou pessoa jurídica, responde limitadamente ao valor de suas cotas e não administra a sociedade. Se ele administrar a sociedade, a responsabilidade dele será outra. 3. Sociedade em comandita por ações – artigos 1.090 a 1.092 do CC A sociedade em comandita por ações é sempre uma sociedade empresária, conforme o artigo 982 do CC. (Isso é sempre muito cobrado em concursos públicos.) Há duas categorias de sócios: 1. Acionista diretor: responde ilimitadamente pelas obrigações sociais e administra a sociedade 2. Demais acionistas: respondem limitadamente às suas ações 4. Sociedade cooperativa – artigos 1.093 a 1.096 do CC A sociedade cooperativa sempre é uma sociedade simples, por definição legal, nos termos do artigo 982 do CC. Dizer que uma sociedade é simples é o mesmo que dizer que ela é não empresária. Há várias peculiaridades a saber sobre a sociedade cooperativa. Na cooperativa, o capital social pode ser variável ou inexistente. Como o cooperado adere ao que já está fixado no estatuto social quando entra na cooperativa, e sai da cooperativa de acordo com as mesmas regras, ele pode colocar ou retirar uma quantia. Ou pode nem mesmo haver dinheiro comum aos cooperados (pode não haver capital social). Pág. 118 de 265 O voto é por cooperado, e não proporcional ao investimento. Na cooperativa, a responsabilidade dos cooperados pode ser limitada ou ilimitada. Depende do estatuto social. O estatuto pode definir que o cooperado seja responsável apenas se tiver culpa. Por exemplo, apenas se ele bater um carro da cooperativa com culpa é que será responsabilizado. Fundo de reserva é um valor estabelecido no estatuto social que é destinado à manutenção da própria cooperativa. O legislador diz que o fundo de reserva é indivisível entre os sócios, mesmo no caso de dissolução da cooperativa. As cotas são intransferíveis, mesmo em caso de cessão ou herança. Não se pode doar ou negociar a cota. Como se trata de uma sociedade de pessoas, toda entrada de cooperados pode ter requisitos muito subjetivos (por exemplo, em uma cooperativa médica, os cooperados devem ser médicos de uma certa especialidade, que moram em uma certa região, e os médicos devem fazer grandes investimentos na cooperativa). 5. Sociedade simples “pura” – artigos 997 a 1.038 do CC (o termo “pura” não aparecerá na prova) A sociedade simples “pura” deveria ter sido revogada em 2021, mas foi mantida na legislação. As normas de sociedade simples valem como se fossem uma teoria geral do direito societário, que são aplicáveis a outras sociedades, no que for cabível. A sociedade simples pode ser constituída por contrato particular ou por um instrumento público. A sociedade simples admite sócio que apenas preste serviços, nos termos do artigo 997, V do CC. As modificações do contrato social dependem de concordância unânime dos sócios, segundo o artigo 999 do CC. (Essa regra é sui generis. Na sociedade limitada, por exemplo, é preciso aprovação de 3/4 do capital social.) O sócio que presta serviços participa dos lucros na proporção média do valor das cotas e não participa das perdas, de acordo com o artigo 1.007 do CC (não participar das perdas é algo muito incomum). Ademais, o sócio que presta serviços não pode participar de atividade estranha à sociedade, salvo autorização dos demais, sob pena de ser privado dos lucros e excluído, nos termos do artigo 1.006 do CC. Exemplo: ele não pode dar aula em um curso durante a semana, na sociedade simples, e trabalhar em uma pizzaria de noite, a não ser que tenha autorização dos demais sócios para trabalhar na pizzaria. 3. Sociedade em comandita por ações “Art. 982. Salvo as exceções expressas, considera-se empresária a sociedade que tem por objeto o exercício de atividade própria de empresário sujeito a registro (art. 967); e, simples, as demais. Parágrafo único. Independentemente de seu objeto, considera-se empresária a sociedade por ações; e, simples, a cooperativa.” Pág. 119 de 265 5. Sociedade simples “pura” “Art. 997. A sociedade constitui-se mediante contrato escrito, particular ou público, que, além de cláusulas estipuladas pelas partes, mencionará: (...) V - as prestações a que se obriga o sócio, cuja contribuição consista em serviços;” “Art. 999. As modificações do contrato social, que tenham por objeto matéria indicada no art. 997, dependem do consentimento de todos os sócios; as demais podem ser decididas por maioria absoluta de votos, se o contrato não determinar a necessidade de deliberação unânime. Parágrafo único. Qualquer modificação do contrato social será averbada, cumprindo-se as formalidades previstas no artigo antecedente.” “Art. 1.006. O sócio, cuja contribuição consista em serviços, não pode, salvo convenção em contrário, empregar-se em atividade estranha à sociedade, sob pena de ser privado de seus lucros e dela excluído.” “Art. 1.007. Salvo estipulação em contrário, o sócio participa dos lucros e das perdas, na proporção das respectivas quotas, mas aquele, cuja contribuição consiste em serviços, somente participa dos lucros na proporção da média do valor das quotas.” Pág. 120 de 265 SUMÁRIO Sociedade anônima 1. Características 2. Ações a) Direitos comuns b) Direitos específicos Sociedade anônima 1. Características A sociedade anônima é sempre uma sociedade empresária, por definição do legislador no artigo 982 do Código Civil. Não importa o ramo de atividade da sociedade anônima, ela é sempre empresária. O capital social da sociedade anônima é composto por bens ou dinheiro, nos termos dos artigos 7º e 8º da Lei das S.A.: “Art. 7º O capital social poderá ser formado com contribuições em dinheiro ou em qualquer espécie de bens suscetíveis de avaliação em dinheiro.” Avaliação “Art. 8º A avaliação dos bens será feita por 3 (três) peritos ou por empresa especializada, nomeados em assembleia-geral dos subscritores, convocada pela imprensa e presidida por um dos fundadores, instalando-se em primeira convocação com a presença de subscritores que representem metade, pelo menos, do capital social, e em segunda convocação com qualquer número. (...)” O capital social é dividido por ações, segundo o artigo 4º da Lei das S.A. “Art. 4o Para os efeitos desta Lei, a companhia é aberta ou fechada conforme os valores mobiliários de sua emissão estejam ou não admitidos à negociação no mercado de valores mobiliários. (...)” “Ação” não é sinônimo de “cota”. A ação também reflete uma parte do investimento feito na sociedade. A ação não demonstra o poder de decisão do sócio na empresa, diferentemente do que ocorria com as cotas. O que importa é o tipo de ação. Sociedade anônima aberta Sociedade anônima fechada Pág.121 de 265 Os títulos são negociados no mercado de valores mobiliários, que também pode ser referido como mercado de capitais. Essa negociação ocorre na Bosa de Valores e no mercado de balcão (mercado de balcão: a negociação é feita por corretoras e instituições financeiras). Os títulos são negociados na própria sociedade anônima. Não há um lugar público para comprar as ações da sociedade anônima fechada. A sociedade anônima aberta é autorizada, regulamentada e fiscalizada pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Até 1976 era o Banco Central que fazia isso, o que não foi bem sucedido, até que foi criada a CVM. Não há fiscalização. Aplica-se apenas a Lei das S.A., e não as Instruções Normativas da CVM. A responsabilidade do acionista da sociedade anônima (quanto do seu patrimônio pessoal pode ser atingido por dívidas da empresa) é limitada pelo valor de emissão das ações que ele subscreveu, nos termos do artigo 1º da Lei das S.A.: “Art. 1º A companhia ou sociedade anônima terá o capital dividido em ações, e a responsabilidade dos sócios ou acionistas será limitada ao preço de emissão das ações subscritas ou adquiridas.” O que acontece com o acionista que não paga por suas ações? Ele é chamado de acionista remisso. Depois que a sociedade anônima notifica esse sujeito para constituí-lo em mora, ela pode: 1. Vender as ações para terceiros (no mercado, se for uma sociedade anônima aberta, ou vender para outra pessoa fora do mercado, se for uma sociedade anônima fechada), ou 2. Executar (o boletim de subscrição é o título executivo), nos termos dos artigos 106 e 107 da Lei das S.A. “Art. 106. O acionista é obrigado a realizar, nas condições previstas no estatuto ou no boletim de subscrição, a prestação correspondente às ações subscritas ou adquiridas. § 1° Se o estatuto e o boletim forem omissos quanto ao montante da prestação e ao prazo ou data do pagamento, caberá aos órgãos da administração efetuar chamada, mediante avisos publicados na imprensa, por 3 (três) vezes, no mínimo, fixando prazo, não inferior a 30 (trinta) dias, para o pagamento. § 2° O acionista que não fizer o pagamento nas condições previstas no estatuto ou boletim, ou na chamada, ficará de pleno direito constituído em mora, sujeitando-se ao pagamento dos juros, da correção monetária e da multa que o estatuto determinar, esta não superior a 10% (dez por cento) do valor da prestação.” Acionista Remisso Pág. 122 de 265 “Art. 107. Verificada a mora do acionista, a companhia pode, à sua escolha: I - promover contra o acionista, e os que com ele forem solidariamente responsáveis (artigo 108), processo de execução para cobrar as importâncias devidas, servindo o boletim de subscrição e o aviso de chamada como título extrajudicial nos termos do Código de Processo Civil; ou II - mandar vender as ações em bolsa de valores, por conta e risco do acionista. (...)” 2. Ações a) Direitos comuns Há direitos que são comuns aos acionistas, que estão listados no artigo 109 da Lei das S.A. Exemplo: todo acionista tem direito de preferência na aquisição de ações. Isso é importante porque esse direito de preferência não existe na sociedade limitada. “Art. 109. Nem o estatuto social nem a assembléia-geral poderão privar o acionista dos direitos de: I - participar dos lucros sociais; II - participar do acervo da companhia, em caso de liquidação; III - fiscalizar, na forma prevista nesta Lei, a gestão dos negócios sociais; IV - preferência para a subscrição de ações, partes beneficiárias conversíveis em ações, debêntures conversíveis em ações e bônus de subscrição, observado o disposto nos artigos 171 e 172; (Vide Lei nº 12.838, de 2013) V - retirar-se da sociedade nos casos previstos nesta Lei. (...)” Toda sociedade anônima deve garantir o direito de participação nos lucros e na liquidação da S.A. Participação nos lucros: a sociedade anônima, no final do exercício, aprova o seu balanço e o valor que será distribuído. Todo mundo terá participação nos lucros, a depender do tipo de ação que comprou. A liquidação ocorre após a dissolução da sociedade anônima. O direito de fiscalização também é um direito comum. Observação: os direitos dos acionistas não podem ser limitados por estatuto, mas podem ser suspensos por decisão da Assembleia Geral, nos termos do artigo 120 da Lei das S.A. Suspensão do Exercício de Direitos Pág. 123 de 265 “Art. 120. A assembléia-geral poderá suspender o exercício dos direitos do acionista que deixar de cumprir obrigação imposta pela lei ou pelo estatuto, cessando a suspensão logo que cumprida a obrigação.” A Assembleia Geral é um órgão que pode deliberar sobre a suspensão dos direitos, devendo haver um justo motivo. Exemplo: o sócio remisso não paga o que deve, logo, não deve participar dos lucros. b) Direitos específicos Os direitos específicos são vantagens que se tem além dos direitos comuns. De acordo com esses critérios, as ações podem ser de três tipos: 1. Ações ordinárias 2. Ações preferenciais 3. Ações de gozo ou fruição O artigo 15 da Lei das S.A. dispõe: “Art. 15. As ações, conforme a natureza dos direitos ou vantagens que confiram a seus titulares, são ordinárias, preferenciais, ou de fruição. § 1º As ações ordinárias e preferenciais poderão ser de uma ou mais classes, observado, no caso das ordinárias, o disposto nos arts. 16, 16- A e 110-A desta Lei. (Redação dada pela Lei nº 14.195, de 2021) § 2o O número de ações preferenciais sem direito a voto, ou sujeitas a restrição no exercício desse direito, não pode ultrapassar 50% (cinquenta por cento) do total das ações emitidas.” No mercado, são vendidas as ações ordinárias e preferenciais. Ações ordinárias Ações preferenciais Ações de gozo ou fruição Artigo 16 da Lei das S.A. Artigo 17 da Lei das S.A. Artigo 44, § 5º da Lei das S.A. Além dos direitos comuns, há direito de voto simples ou de voto plural. Exemplo: tem uma ação ordinária, e, portanto, tem direito a um voto padrão. As ações preferenciais podem ser com voto ou sem voto. Há um teto máximo: 50% das ações emitidas podem ser preferenciais com restrição ao voto. Vantagem patrimonial: possibilidade de participar de forma fixa, de forma mínima, ou de forma diferenciada. Pág. 124 de 265 Em uma sociedade anônima aberta, podem existir ações ordinárias com voto simples ou plural. Na sociedade anônima fechada, além do voto simples ou plural, podem existir outras classes. Exemplo de outras classes: conversível em ações preferenciais, direito de voto em separado etc. Para cada classe pode se dar direitos diferentes. Pág. 125 de 265 SUMÁRIO Sociedade anônima 2. Ações b) Direitos específicos c) Valores 3. Órgãos da sociedade anônima a) Assembleia Geral Sociedade anônima 2. Ações b) Direitos específicos Ações ordinárias Ações preferenciais Ações de gozo ou fruição Artigo 16 da Lei das S.A. Artigo 17 da Lei das S.A. Artigo 44, § 5º da Lei das S.A. Além dos direitos comuns, há direito de voto simples ou de voto plural. Exemplo: tem uma ação ordinária, e, portanto, tem direito a um voto padrão. As ações preferenciais podem ser com voto ou sem voto. Há um teto máximo: 50% das ações emitidas podem ser preferenciais com restrição ao voto. Vantagem patrimonial: possibilidade de participar de forma fixa, de forma mínima, ou de forma diferenciada. Em uma sociedade anônima aberta, podem existir ações ordinárias com voto simples ou plural. Na sociedade anônima fechada, além do voto simples ou plural, podem existir outras classes. Exemplo de outras classes: conversível em ações preferenciais, direito de voto em separado etc. Para cada classe pode se dar direitos diferentes. As ações preferenciaispodem ser de classes diferentes na sociedade anônima aberta ou fechada. Todo tipo de ação preferencial é possível. É possível uma ação ordinária que dê direito de voto, outra que conceda participação nos lucros em valor mínimo. A ação de gozo ou fruição é a ação usada quando a sociedade anônima amortiza o que o acionista teria direito no caso de liquidação. A liquidação ocorre depois que a sociedade é dissolvida. Ela tem esse nome porque ela irá se vestir do tipo de ação que a pessoa tinha. Pág. 126 de 265 c) Valores i. Valor nominal = capital social dividido pelo número de ações É um valor que diz quanto a ação corresponde ao capital social. ii. Valor de emissão: é o valor fixado pela sociedade anônima quando coloca ações no mercado. O Initial Public Offering (IPO) é feito no valor de emissão. O valor de emissão não pode ser inferior ao valor nominal. Exemplo: uma sociedade anônima tem o capital social de 1000 e emitiu 1000 ações. Qual será o valor nominal? Será de R$ 1,00. O valor nominal pode estar expresso na ação ou não (embora ele sempre exista). Qual será o valor de emissão? Será de pelo menos R$ 1,00. Pode ser de R$ 1,50, por exemplo, a depender das expectativas do mercado. Se o valor for de R$ 1,50, desse montante, R$ 1,00 vai para o capital social e R$ 0,50 vai compor a reserva de capital. Artigos 13 e 14 da Lei das S.A. SEÇÃO II Preço de Emissão Ações com Valor Nominal “Art. 13. É vedada a emissão de ações por preço inferior ao seu valor nominal. § 1º A infração do disposto neste artigo importará nulidade do ato ou operação e responsabilidade dos infratores, sem prejuízo da ação penal que no caso couber. § 2º A contribuição do subscritor que ultrapassar o valor nominal constituirá reserva de capital (artigo 182, § 1º).” Ações sem Valor Nominal “Art. 14. O preço de emissão das ações sem valor nominal será fixado, na constituição da companhia, pelos fundadores, e no aumento de capital, pela assembleia-geral ou pelo conselho de administração (artigos 166 e 170, § 2º). Parágrafo único. O preço de emissão pode ser fixado com parte destinada à formação de reserva de capital; na emissão de ações preferenciais com prioridade no reembolso do capital, somente a parcela que ultrapassar o valor de reembolso poderá ter essa destinação.” Pág. 127 de 265 iii. Valor patrimonial = patrimônio líquido (o ativo menos o passivo) dividido pelo número de ações Assim é possível saber quanto cada ação corresponde no patrimônio da empresa. Esse valor é usado no resgate, no reembolso e na liquidação. O artigo 45 da Lei das S.A. dispõe: “Art. 45. O reembolso é a operação pela qual, nos casos previstos em lei, a companhia paga aos acionistas dissidentes de deliberação da assembleia-geral o valor de suas ações. § 1º O estatuto pode estabelecer normas para a determinação do valor de reembolso, que, entretanto, somente poderá ser inferior ao valor de patrimônio líquido constante do último balanço aprovado pela assembleia-geral, observado o disposto no § 2º, se estipulado com base no valor econômico da companhia, a ser apurado em avaliação (§§ 3º e 4º). § 2º Se a deliberação da assembleia-geral ocorrer mais de 60 (sessenta) dias depois da data do último balanço aprovado, será facultado ao acionista dissidente pedir, juntamente com o reembolso, levantamento de balanço especial em data que atenda àquele prazo. Nesse caso, a companhia pagará imediatamente 80% (oitenta por cento) do valor de reembolso calculado com base no último balanço e, levantado o balanço especial, pagará o saldo no prazo de 120 (cento e vinte), dias a contar da data da deliberação da assembleia-geral. § 3º Se o estatuto determinar a avaliação da ação para efeito de reembolso, o valor será o determinado por três peritos ou empresa especializada, mediante laudo que satisfaça os requisitos do § 1º do art. 8º e com a responsabilidade prevista no § 6º do mesmo artigo. § 4º Os peritos ou empresa especializada serão indicados em lista sêxtupla ou tríplice, respectivamente, pelo Conselho de Administração ou, se não houver, pela diretoria, e escolhidos pela Assembleia-geral em deliberação tomada por maioria absoluta de votos, não se computando os votos em branco, cabendo a cada ação, independentemente de sua espécie ou classe, o direito a um voto. § 5º O valor de reembolso poderá ser pago à conta de lucros ou reservas, exceto a legal, e nesse caso as ações reembolsadas ficarão em tesouraria. § 6º Se, no prazo de cento e vinte dias, a contar da publicação da ata da assembleia, não forem substituídos os acionistas cujas ações tenham sido reembolsadas à conta do capital social, este considerar- se-á reduzido no montante correspondente, cumprindo aos órgãos da Pág. 128 de 265 administração convocar a assembleia-geral, dentro de cinco dias, para tomar conhecimento daquela redução. § 7º Se sobrevier a falência da sociedade, os acionistas dissidentes, credores pelo reembolso de suas ações, serão classificados como quirografários em quadro separado, e os rateios que lhes couberem serão imputados no pagamento dos créditos constituídos anteriormente à data da publicação da ata da assembleia. As quantias assim atribuídas aos créditos mais antigos não se deduzirão dos créditos dos ex-acionistas, que subsistirão integralmente para serem satisfeitos pelos bens da massa, depois de pagos os primeiros. § 8º Se, quando ocorrer a falência, já se houver efetuado, à conta do capital social, o reembolso dos ex-acionistas, estes não tiverem sido substituídos, e a massa não bastar para o pagamento dos créditos mais antigos, caberá ação revocatória para restituição do reembolso pago com redução do capital social, até a concorrência do que remanescer dessa parte do passivo. A restituição será havida, na mesma proporção, de todos os acionistas cujas ações tenham sido reembolsadas.” 3. Órgãos da sociedade anônima A sociedade anônima tem quatro órgãos. a) Assembleia Geral A Assembleia Geral é o órgão composto pelos acionistas. Ela exerce de forma suprema o poder de decisão. A Assembleia Geral é responsável pela tomada de decisões. Nem todas as decisões são tomadas pela Assembleia Geral. Podem ser tomadas por outros órgãos também. Veremos agora uma lista de atos privativos da Assembleia Geral. O que não estiver na lista pode ser decidido de outras formas. Atos privativos da Assembleia Geral: 1. Alterar estatuto social 2. Eleger administradores e membros do conselho de fiscalização 3. Aprovar as contas dos administradores O administrador apresenta as contas do ano anterior, e as contas podem ser aprovadas ou rejeitadas. As contas são avaliadas todo exercício. 4. Suspender direitos dos acionistas 5. Autorizar o pedido de falência e recuperação de empresas 6. Autorizar a sociedade anônima aberta a alienar mais de 50% dos ativos totais da empresa Os itens 3, 4 e 5 são os mais cobrados em provas. O item 6 é novidade legislativa. Pág. 129 de 265 O artigo 121 da Lei das S.A. dispõe: “Art. 121. A assembleia-geral, convocada e instalada de acordo com a lei e o estatuto, tem poderes para decidir todos os negócios relativos ao objeto da companhia e tomar as resoluções que julgar convenientes à sua defesa e desenvolvimento. Parágrafo único. Nas companhias, abertas e fechadas, o acionista poderá participar e votar a distância em assembleia geral, nos termos do regulamento da Comissão de Valores Mobiliários e do órgão competente do Poder Executivo federal, respectivamente. (Redação dada pela Lei nº 14.030, de 2020).” Como ocorre a convocação da Assembleia Geral? Houve alteração legislativa a respeito. A convocação pode ocorrer por meio de um anúncio publicado 3 vezes. Na sociedade anônima fechada, a primeira publicação precisa ocorrercom no mínimo 8 dias de antecedência. Na sociedade anônima aberta, a primeira publicação precisa ocorrer com no mínimo 21 dias de antecedência em relação à data da Assembleia, nos termos do artigo 124 da Lei das S.A.: “Art. 124. A convocação far-se-á mediante anúncio publicado por 3 (três) vezes, no mínimo, contendo, além do local, data e hora da assembleia, a ordem do dia, e, no caso de reforma do estatuto, a indicação da matéria. § 1o A primeira convocação da assembleia-geral deverá ser feita: I - na companhia fechada, com 8 (oito) dias de antecedência, no mínimo, contado o prazo da publicação do primeiro anúncio; não se realizando a assembleia, será publicado novo anúncio, de segunda convocação, com antecedência mínima de 5 (cinco) dias; II - na companhia aberta, com 21 (vinte e um) dias de antecedência, e a segunda convocação com 8 (oito) dias de antecedência. (Redação dada pela Lei nº 14.195, de 2021) (...)” O artigo 124, § 1º, II, com relação à sociedade aberta, é uma novidade legislativa de 2021. Resolução de questões sobre a matéria ministrada. Não existe solidariedade na sociedade anônima com relação à integralização do capital social. O voto plural está previsto no artigo 16 da Lei das S.A.: “Art. 16. As ações ordinárias de companhia fechada poderão ser de classes diversas, em função de: I - conversibilidade em ações preferenciais; II - exigência de nacionalidade brasileira do acionista; ou Pág. 130 de 265 III - direito de voto em separado para o preenchimento de determinados cargos de órgãos administrativos. IV - atribuição de voto plural a uma ou mais classes de ações, observados o limite e as condições dispostos no art. 110-A desta Lei. (Redação dada pela Lei nº 14.195, de 2021) Parágrafo único. A alteração do estatuto na parte em que regula a diversidade de classes, se não for expressamente prevista e regulada, requererá a concordância de todos os titulares das ações atingidas. (Redação dada pela Lei nº 14.195, de 2021)” SUMÁRIO Sociedade anônima 3. Órgãos da sociedade anônima b) Conselho de Administração b.1. Deveres do administrador b.2. Responsabilidade do administrador 3. Órgãos da sociedade anônima b) Conselho de Administração O Conselho de Administração é o órgão da sociedade anônima mais cobrado em provas, seguido da Assembleia Geral. O Conselho de Administração é composto por no mínimo 3 administradores, que são eleitos pela Assembleia Geral Ordinária, porque se trata de assunto corriqueiro (ordinário, e não extraordinário). Os administradores precisam ser pessoas físicas, idôneas (além do aspecto subjetivo da idoneidade, o legislador afirma que não pode ser condenado por crime falimentar, por peculato etc., ou não pode ser pessoa a quem a CVM imputou alguma sanção) e livres de impedimentos (são impedidos, por exemplo, o falido, o servidor público federal, o magistrado, o membro do Ministério Público). O Conselho de Administração tem como função a tomada de decisões não privativas da Assembleia Geral (assim, o Conselho de Administração não tem o poder de alterar o estatuto social, ou de aprovar o balanço da sociedade anônima, por exemplo). O Conselho de Administração toma muitas decisões que podem trazer lucro ou prejuízo. O Conselho de Administração é obrigatório em algumas sociedades: na sociedade anônima aberta, na sociedade de economia mista, na sociedade de capital autorizado (essa é uma sociedade cujo estatuto prevê o aumento do capital social). Exemplo de sociedade de capital autorizado: em uma certa sociedade anônima, o capital social é de R$ 1 milhão. Há a previsão de o capital social pode ser aumentado no valor x. Toda vez que a sociedade anônima quiser Pág. 131 de 265 aumentar o capital até o limite x, ela não precisa alterar o estatuto social. Observação 1: na sociedade anônima fechada, o Conselho de Administração é facultativo. Ele pode existir ou não existir. Observação 2: quando não houver Conselho de Administração, a Assembleia Geral e a Diretoria vão assumir suas funções. Ler os artigos 138, 140, 141 e 146 da Lei das Sociedades Anônimas. Observação 3: os administradores, se residirem no exterior, precisarão manter representantes domiciliados no Brasil para receber citações ou intimações, tanto processuais, quanto em procedimentos administrativos da CVM. b.1. Deveres do administrador Dever de lealdade: lealdade ao estatuto social e lealdade à lei. Os atos dos administradores devem ser pautados na busca no melhor resultado para a empresa, nos termos do estatuto. Dever de diligência: a diligência é a do homem de negócios, buscando lucros e preservando a função social da empresa. Dever de sigilo/transparência: quando as decisões são tomadas, elas precisam ser plenamente divulgadas. Por outro lado, durante a tomada de decisão, é preciso manter o sigilo, para que nem o administrador nem pessoas que ele queira beneficiar se valham dessas informações de forma indevida, caracterizando-se o insider trading. O benefício obtido pelo administrador não pode ser próprio, deve ser sempre para a própria empresa. Ler os artigos 153 a 157 da Lei das Sociedades Anônimas. b.2. Responsabilidade do administrador O administrador será responsabilizado quando violar seus deveres e quando houver prejuízo para a sociedade anônima. Ele será responsabilizado quando ele agir contra o estatuto social, contra a lei, em benefício próprio ou de terceiros, com culpa, com dolo – essas são expressões que aparecem em provas para evidenciar a situação. Se não houver prejuízo, o administrador não será responsabilizado. Por outro lado, quando ele causar prejuízo à sociedade anônima, pode ser responsabilizado. Deve haver esses 2 requisitos cumulados: prejuízo e violação de deveres. Anualmente, os administradores prestam contas para a Assembleia Geral Ordinária (quando apresentam os balanços e fazem explicações). O que pode ocorrer por ocasião da prestação de contas pelos administradores à Assembleia Geral Ordinária: 1. Assembleia Geral Ordinária aprovar as contas Nesse caso, a sociedade anônima não pode ingressar com ação de responsabilidade contra o administrador. Mas acionistas que representem 5% do capital social podem ingressar com ação de responsabilidade contra ele. Pág. 132 de 265 Os acionistas podem usar de sua legitimação extraordinária, em defesa da sociedade anônima. Se eles ganharem a ação, o dinheiro não é destinado a eles, mas à empresa. 2. Assembleia Geral Ordinária não aprovar as contas Nesse cenário, a sociedade anônima ingressará com ação de responsabilidade contra o administrador. Exemplo: ação ajuizada contra a Petrobras porque os administradores congelaram preços. Observação 1: quando o acionista pleitear direito próprio, não depende de decisão da Assembleia Geral Ordinária. Observação 2: o prazo prescricional para a ação de responsabilidade é de 3 anos contados daquela deliberação, nos termos do artigo 287, II, “b”, “2” da Lei das Sociedades Anônimas. “Art. 287. Prescreve: (...) II - em 3 (três) anos: (...) b) a ação contra os fundadores, acionistas, administradores, liquidantes, fiscais ou sociedade de comando, para deles haver reparação civil por atos culposos ou dolosos, no caso de violação da lei, do estatuto ou da convenção de grupo, contado o prazo: (...) 2 - para os acionistas, administradores, fiscais e sociedades de comando, da data da publicação da ata que aprovar o balanço referente ao exercício em que a violação tenha ocorrido (...)” O artigo 159 da Lei das Sociedades Anônimas trata da responsabilização do administrador: “Art. 159. Compete à companhia, mediante prévia deliberação da assembléia-geral, a ação de responsabilidade civil contra o administrador, pelos prejuízos causados ao seu patrimônio. § 1º A deliberação poderá ser tomada em assembléia-geral ordináriae, se prevista na ordem do dia, ou for conseqüência direta de assunto nela incluído, em assembléia-geral extraordinária. § 2º O administrador ou administradores contra os quais deva ser proposta ação ficarão impedidos e deverão ser substituídos na mesma assembléia. § 3º Qualquer acionista poderá promover a ação, se não for proposta no prazo de 3 (três) meses da deliberação da assembléia-geral. § 4º Se a assembléia deliberar não promover a ação, poderá ela ser proposta por Pág. 133 de 265 acionistas que representem 5% (cinco por cento), pelo menos, do capital social. § 5° Os resultados da ação promovida por acionista deferem-se à companhia, mas esta deverá indenizá-lo, até o limite daqueles resultados, de todas as despesas em que tiver incorrido, inclusive correção monetária e juros dos dispêndios realizados. § 6° O juiz poderá reconhecer a exclusão da responsabilidade do administrador, se convencido de que este agiu de boa-fé e visando ao interesse da companhia. § 7º A ação prevista neste artigo não exclui a que couber ao acionista ou terceiro diretamente prejudicado por ato de administrador.” Pág. 134 de 265 SUMÁRIO Sociedade anônima 3. Órgãos da sociedade anônima c) Diretoria d) Conselho Fiscal ou Conselho de Fiscalização 4. Acordo de acionistas 5. Valores Mobiliários 3. Órgãos da sociedade anônima c) Diretoria A Diretoria é composta por no mínimo um diretor. Essa modificação legislativa decorreu da Lei Complementar nº 182/2021, que passou a tratar das startups, que muitas vezes têm uma estrutura enxuta. Quais requisitos o diretor deve cumprir? Ele deve ser pessoa física, idônea, eleita pelo Conselho de Administração (se o Conselho existir), deve ser domiciliado no Brasil. As funções da Diretoria são a representação (assina contratos, assina emissão de títulos etc.) e execução das decisões tomadas (tornar real, prático o que foi decidido). O diretor pode também participar das decisões se o Conselho de Administração não existir. O diretor estatutário também presta contas sobre sua atuação. Os demais diretores são contratados, e não estatutários, e não têm os mesmos deveres (diretor de RH, diretor pedagógico, e outras funções de que a empresa precise). Os deveres e responsabilidades dos administradores são aplicados da mesma forma para os diretores. A função do diretor é diferente da função do administrador, mas os deveres de lealdade e os demais se aplicam da mesma forma. Dispõe o artigo 143 da Lei das Sociedades Anônimas: “Art. 143. A Diretoria será composta por 1 (um) ou mais membros eleitos e destituíveis a qualquer tempo pelo conselho de administração ou, se inexistente, pela assembleia geral, e o estatuto estabelecerá: (Redação dada pela Lei Complementar nº 182, de 2021) I - o número de diretores, ou o máximo e o mínimo permitidos; Pág. 135 de 265 II - o modo de sua substituição; III - o prazo de gestão, que não será superior a 3 (três) anos, permitida a reeleição; IV - as atribuições e poderes de cada diretor. § 1º Os membros do conselho de administração, até o máximo de 1/3 (um terço), poderão ser eleitos para cargos de diretores. § 2º O estatuto pode estabelecer que determinadas decisões, de competência dos diretores, sejam tomadas em reunião da diretoria.” d) Conselho Fiscal ou Conselho de Fiscalização O Conselho Fiscal é composto por 3 a 5 membros, que são eleitos pela Assembleia Geral Ordinária. A função do membro do Conselho Fiscal é realizar a fiscalização de contratos, livros, a atribuição dos administradores (avaliar se os administradores estão exercendo sua função corretamente). Observação: se a sociedade anônima aberta pedir recuperação de empresas, o Conselho Fiscal deve funcionar de forma permanente. O Conselho Fiscal tem existência obrigatória, mas o funcionamento dele depende de convocação. Alguém deve achar que há alguma irregularidade acontecendo para convocá-lo. Ler o artigo 48 da Lei nº 11.101/2005 e os artigos 161 e 162 da Lei das Sociedades Anônimas. Terminamos de estudar os órgãos das sociedades anônimas. 4. Acordo de acionistas O acordo de acionistas está relacionado ao voto. Ler o artigo 118 da Lei das Sociedades Anônimas. O acordo de acionistas pode tratar de compra e venda de ações, preferência para a aquisição de ações, exercício de voto, poder de controle. Para que o acordo de acionistas produza efeitos em relação à sociedade anônima, ele deve ser arquivado na sede da sociedade anônima, para que ela fique ciente do conteúdo do acordo e possa cumpri-lo. Se um acionista que faça parte do acordo estiver ausente na Assembleia Geral, o voto dele é ignorado ou computado? O voto dele é computado conforme os termos do acordo de acionistas. Se um acionista que faz parte do acordo votar em sentido contrário ao acordo na Assembleia Geral, o que acontece? O voto dele é computado conforme os termos do acordo, ou seja, a oposição será ignorada. Ele não pode combinar votar de uma forma, e então votar de outra. Ele precisaria primeiro sair do acordo de acionistas, para então mudar de opinião na Assembleia Geral. Pág. 136 de 265 O acordo não pode ser usado como isenção de responsabilidade no exercício do voto ou do controle. O voto plural está previsto no artigo 110-A da Lei das Sociedades Anônimas. Observação: o artigo 110-A, § 8º, II da Lei das Sociedades Anônimas afirma que as ações com voto plural (a possibilidade de ter até 10 votos por ação ordinária, como vimos em aula anterior) serão convertidas em ações ordinárias sem voto plural, no caso de acordo de acionistas entre titulares de voto plural e de voto comum para o exercício do voto em conjunto. “Art. 110-A. É admitida a criação de uma ou mais classes de ações ordinárias com atribuição de voto plural, não superior a 10 (dez) votos por ação ordinária: (Incluído pela Lei nº 14.195, de 2021) (...) § 8º As ações de classe com voto plural serão automaticamente convertidas em ações ordinárias sem voto plural na hipótese de: (Incluído pela Lei nº 14.195, de 2021) (...) II - o contrato ou acordo de acionistas, entre titulares de ações com voto plural e acionistas que não sejam titulares de ações com voto plural, dispor sobre exercício conjunto do direito de voto. (Incluído pela Lei nº 14.195, de 2021)” No acordo de acionistas, as pessoas votam em conjunto. Elas somam o seu poder de votos. Se um acionista que participa do acordo tem voto plural e o outro não tem, as ações que têm voto plural serão convertidas em voto comum, para o exercício do voto em conjunto. 5. Valores Mobiliários Valores mobiliários são títulos emitidos pela sociedade anônima. Valores mobiliários são títulos que a sociedade anônima pode emitir, além das ações. Os valores mobiliários englobam inclusive ações. Esses títulos são estranhos ao capital social. Se a sociedade anônima quiser colocar valores mobiliários no mercado, ela precisa de autorização da CVM. O título pode ser uma stock option, um commercial paper, e pode ter diversos outros nomes. A CVM verifica que o título tem lastro e autoriza a sua emissão. Pág. 137 de 265 SUMÁRIO Sociedade anônima 5. Valores Mobiliários a) Partes beneficiárias b) Debêntures c) Bônus de subscrição 5. Valores Mobiliários Vamos estudar os títulos estranhos ao capital social previstos na Lei das Sociedades Anônimas. a) Partes beneficiárias Esse título tem pouca importância prática, mas é bastante cobrado em provas. Ele está previsto nos artigos 46 e 47 da Lei das Sociedades Anônimas. Esse título confere participação nos lucros da sociedade anônima. Quem também tem direito a participação nos lucros é o acionista. Mas, no que diz respeito às partes beneficiárias, é diferente, porque exerce-se essa participação nos lucros apenas uma vez.Esse título tem um vencimento eventual. Não se sabe quanto vai receber, porque depende de a sociedade anônima ter lucro, e de o título poder ser resgatado. É preciso que haja lucro, e a participação atribuída às partes beneficiárias não ultrapassará 10% dos lucros. Esse título era emitido por empresas em dificuldade e que quase nunca tinham lucro. A cada ano se tentava resgatar o título, mas não se conseguia. Assim, a CVM passou a acompanhar a quem emitia partes beneficiárias. Por isso as partes beneficiárias não podem ser emitidas por sociedades anônimas abertas. Só podem ser vendidas em um universo pequeno, das sociedades anônimas fechadas. Observação: as partes beneficiárias é uma das possibilidades de um investidor-anjo investir em uma startup. O investidor-anjo não é sócio e não pode ser atingido por dívidas das startups, embora possa vir a se tornar sócio futuramente. b) Debêntures Ler os artigos 52 e 59 da Lei das Sociedades Anônimas. As debêntures têm grande importância na prática. Com a emissão de debêntures, a sociedade anônima está levantando dinheiro para alguma coisa que precisa. A debênture confere ao titular um direito de crédito contra a sociedade anônima. Pág. 138 de 265 Esse direito de crédito tem um vencimento certo (como consta na lei, um “vencimento não eventual”, o que significa que há uma data certa para receber). O pagamento é especificado com relação a: quantia, se há correção monetária, se há juros, se há garantia real (há garantia sobre um bem determinado) ou flutuante (há garantia sobre um ativo), se as debêntures são conversíveis em ações. Tudo isso consta da cártula. As decisões sobre emissão de debêntures normalmente são tomadas pela Assembleia Geral ou pelo Conselho de Administração (apenas na sociedade anônima aberta, quando a Assembleia Geral ou o estatuto concedeu essa atribuição). A debênture é um título executivo extrajudicial, nos termos do artigo 784, I do CPC: “Art. 784. São títulos executivos extrajudiciais: I - a letra de câmbio, a nota promissória, a duplicata, a debênture e o cheque” Observação 1: a debênture conversível em ações é uma das formas de investir em startups, conforme a Lei Complementar nº 182/2021. Observação 2: na Sociedade Anônima do Futebol (SAF, criada pela Lei nº 14.193/2021), adquire-se o ramo de futebol masculino e feminino (todas as ligas de que façam parte), conforme o artigo 1º, caput da lei. Os fundadores participam das decisões. A partir do momento que a SAF é constituída, o que tem maior poder é o controlador. “Art. 1º Constitui Sociedade Anônima do Futebol a companhia cuja atividade principal consiste na prática do futebol, feminino e masculino, em competição profissional, sujeita às regras específicas desta Lei e, subsidiariamente, às disposições da Lei nº 6.404, de 15 de dezembro de 1976, e da Lei nº 9.615, de 24 de março de 1998.” As Sociedades Anônimas do Futebol podem requerer recuperação de empresas, mas não sofrem falência. Elas se submetem a um Regime Centralizado de Execuções, conforme o artigo 14 da Lei nº 14.193/2021. Não há, por exemplo, crime falimentar na Sociedade Anônima do Futebol. “Art. 14. O clube ou pessoa jurídica original que optar pela alternativa do inciso I do caput do art. 13 desta Lei submeter-se-á ao concurso de credores por meio do Regime Centralizado de Execuções, que consistirá em concentrar no juízo centralizador as execuções, as suas receitas e os valores arrecadados na forma do art. 10 desta Lei, bem como a distribuição desses valores aos credores em concurso e de forma ordenada. § 1º Na hipótese de inexistência de órgão de centralização de execuções no âmbito do Judiciário, o juízo centralizador será aquele que tiver ordenado o pagamento da dívida em primeiro lugar. § 2º O requerimento deverá ser apresentado pelo clube ou pessoa jurídica original e será concedido pelo Presidente do Tribunal Pág. 139 de 265 Regional do Trabalho, quanto às dívidas trabalhistas, e pelo Presidente do Tribunal de Justiça, quanto às dívidas de natureza civil, observados os requisitos de apresentação do plano de credores, conforme disposto no art. 16 desta Lei.” No âmbito da SAF foi criada a debênture-fut, que é uma forma de a sociedade emitir títulos para conseguir investimentos, nos termos do artigo 26 da Lei nº 14.193/2021: “Art. 26. A Sociedade Anônima do Futebol poderá emitir debêntures, que serão denominadas “debêntures-fut”, com as seguintes características: I - remuneração por taxa de juros não inferior ao rendimento anualizado da caderneta de poupança, permitida a estipulação, cumulativa, de remuneração variável, vinculada ou referenciada às atividades ou ativos da Sociedade Anônima do Futebol; II - prazo igual ou superior a 2 (dois) anos; III - vedação à recompra da debênture-fut pela Sociedade Anônima do Futebol ou por parte a ela relacionada e à liquidação antecipada por meio de resgate ou pré-pagamento, salvo na forma a ser regulamentada pela Comissão de Valores Mobiliários; IV - pagamento periódico de rendimentos; V - registro das debênture-fut em sistema de registro devidamente autorizado pelo Banco Central do Brasil ou pela Comissão de Valores Mobiliários, nas suas respectivas áreas de competência. § 1º Os recursos captados por meio de debêntures-fut deverão ser alocados no desenvolvimento de atividades ou no pagamento de gastos, despesas ou dívidas relacionados às atividades típicas da Sociedade Anônima do Futebol previstas nesta Lei, bem como em seu estatuto social. § 2º (VETADO).” A Sociedade Anônima do Futebol foi criada para que as associações na área do futebol se transformem em sociedades abertas. Na mídia, há notícias sobre empresa estrangeira que quer investir R$ 700 milhões no Vasco. A empresa quer fazer acordos para reduzir as dívidas dessa associação, de forma a conseguir inclusive ter lucro. O último valor mobiliário que vamos estudar é o bônus de subscrição. c) Bônus de subscrição Dispõe o artigo 75 da Lei das Sociedades Anônimas: Pág. 140 de 265 “Art. 75. A companhia poderá emitir, dentro do limite de aumento de capital autorizado no estatuto (artigo 168), títulos negociáveis denominados "Bônus de Subscrição". Parágrafo único. Os bônus de subscrição conferirão aos seus titulares, nas condições constantes do certificado, direito de subscrever ações do capital social, que será exercido mediante apresentação do título à companhia e pagamento do preço de emissão das ações.” O bônus de subscrição confere direito de preferência na aquisição de ações. Ele tem privilégio inclusive em relação a acionistas. O bônus de subscrição pode ser comprado por acionistas e por não acionistas. A vantagem é que o valor da ação ofertada é o valor de emissão. O bônus de subscrição é emitido nas sociedades de capital autorizado (como vimos, aquelas nas quais já há autorização para que haja aumento de capital até certo limite). Pág. 141 de 265 SUMÁRIO Sociedade anônima 5. Valores Mobiliários a) Partes beneficiárias b) Debêntures c) Bônus de subscrição 5. Valores Mobiliários Vamos estudar os títulos estranhos ao capital social previstos na Lei das Sociedades Anônimas. a) Partes beneficiárias Esse título tem pouca importância prática, mas é bastante cobrado em provas. Ele está previsto nos artigos 46 e 47 da Lei das Sociedades Anônimas. Esse título confere participação nos lucros da sociedade anônima. Quem também tem direito a participação nos lucros é o acionista. Mas, no que diz respeito às partes beneficiárias, é diferente, porque exerce-se essa participação nos lucros apenas uma vez. Esse título tem um vencimento eventual. Não se sabe quanto vai receber, porque depende de a sociedade anônima ter lucro, e de o título poder ser resgatado. É preciso que haja lucro, e a participaçãoatribuída às partes beneficiárias não ultrapassará 10% dos lucros. Esse título era emitido por empresas em dificuldade e que quase nunca tinham lucro. A cada ano se tentava resgatar o título, mas não se conseguia. Assim, a CVM passou a acompanhar a quem emitia partes beneficiárias. Por isso as partes beneficiárias não podem ser emitidas por sociedades anônimas abertas. Só podem ser vendidas em um universo pequeno, das sociedades anônimas fechadas. Observação: as partes beneficiárias é uma das possibilidades de um investidor-anjo investir em uma startup. O investidor-anjo não é sócio e não pode ser atingido por dívidas das startups, embora possa vir a se tornar sócio futuramente. b) Debêntures Ler os artigos 52 e 59 da Lei das Sociedades Anônimas. As debêntures têm grande importância na prática. Com a emissão de debêntures, a sociedade anônima está levantando dinheiro para alguma coisa que precisa. A debênture confere ao titular um direito de crédito contra a sociedade anônima. Pág. 142 de 265 Esse direito de crédito tem um vencimento certo (como consta na lei, um “vencimento não eventual”, o que significa que há uma data certa para receber). O pagamento é especificado com relação a: quantia, se há correção monetária, se há juros, se há garantia real (há garantia sobre um bem determinado) ou flutuante (há garantia sobre um ativo), se as debêntures são conversíveis em ações. Tudo isso consta da cártula. As decisões sobre emissão de debêntures normalmente são tomadas pela Assembleia Geral ou pelo Conselho de Administração (apenas na sociedade anônima aberta, quando a Assembleia Geral ou o estatuto concedeu essa atribuição). A debênture é um título executivo extrajudicial, nos termos do artigo 784, I do CPC: “Art. 784. São títulos executivos extrajudiciais: I - a letra de câmbio, a nota promissória, a duplicata, a debênture e o cheque” Observação 1: a debênture conversível em ações é uma das formas de investir em startups, conforme a Lei Complementar nº 182/2021. Observação 2: na Sociedade Anônima do Futebol (SAF, criada pela Lei nº 14.193/2021), adquire-se o ramo de futebol masculino e feminino (todas as ligas de que façam parte), conforme o artigo 1º, caput da lei. Os fundadores participam das decisões. A partir do momento que a SAF é constituída, o que tem maior poder é o controlador. “Art. 1º Constitui Sociedade Anônima do Futebol a companhia cuja atividade principal consiste na prática do futebol, feminino e masculino, em competição profissional, sujeita às regras específicas desta Lei e, subsidiariamente, às disposições da Lei nº 6.404, de 15 de dezembro de 1976, e da Lei nº 9.615, de 24 de março de 1998.” As Sociedades Anônimas do Futebol podem requerer recuperação de empresas, mas não sofrem falência. Elas se submetem a um Regime Centralizado de Execuções, conforme o artigo 14 da Lei nº 14.193/2021. Não há, por exemplo, crime falimentar na Sociedade Anônima do Futebol. “Art. 14. O clube ou pessoa jurídica original que optar pela alternativa do inciso I do caput do art. 13 desta Lei submeter-se-á ao concurso de credores por meio do Regime Centralizado de Execuções, que consistirá em concentrar no juízo centralizador as execuções, as suas receitas e os valores arrecadados na forma do art. 10 desta Lei, bem como a distribuição desses valores aos credores em concurso e de forma ordenada. § 1º Na hipótese de inexistência de órgão de centralização de execuções no âmbito do Judiciário, o juízo centralizador será aquele que tiver ordenado o pagamento da dívida em primeiro lugar. § 2º O requerimento deverá ser apresentado pelo clube ou pessoa jurídica original e será concedido pelo Presidente do Tribunal Pág. 143 de 265 Regional do Trabalho, quanto às dívidas trabalhistas, e pelo Presidente do Tribunal de Justiça, quanto às dívidas de natureza civil, observados os requisitos de apresentação do plano de credores, conforme disposto no art. 16 desta Lei.” No âmbito da SAF foi criada a debênture-fut, que é uma forma de a sociedade emitir títulos para conseguir investimentos, nos termos do artigo 26 da Lei nº 14.193/2021: “Art. 26. A Sociedade Anônima do Futebol poderá emitir debêntures, que serão denominadas “debêntures-fut”, com as seguintes características: I - remuneração por taxa de juros não inferior ao rendimento anualizado da caderneta de poupança, permitida a estipulação, cumulativa, de remuneração variável, vinculada ou referenciada às atividades ou ativos da Sociedade Anônima do Futebol; II - prazo igual ou superior a 2 (dois) anos; III - vedação à recompra da debênture-fut pela Sociedade Anônima do Futebol ou por parte a ela relacionada e à liquidação antecipada por meio de resgate ou pré-pagamento, salvo na forma a ser regulamentada pela Comissão de Valores Mobiliários; IV - pagamento periódico de rendimentos; V - registro das debênture-fut em sistema de registro devidamente autorizado pelo Banco Central do Brasil ou pela Comissão de Valores Mobiliários, nas suas respectivas áreas de competência. § 1º Os recursos captados por meio de debêntures-fut deverão ser alocados no desenvolvimento de atividades ou no pagamento de gastos, despesas ou dívidas relacionados às atividades típicas da Sociedade Anônima do Futebol previstas nesta Lei, bem como em seu estatuto social. § 2º (VETADO).” A Sociedade Anônima do Futebol foi criada para que as associações na área do futebol se transformem em sociedades abertas. Na mídia, há notícias sobre empresa estrangeira que quer investir R$ 700 milhões no Vasco. A empresa quer fazer acordos para reduzir as dívidas dessa associação, de forma a conseguir inclusive ter lucro. O último valor mobiliário que vamos estudar é o bônus de subscrição. c) Bônus de subscrição Dispõe o artigo 75 da Lei das Sociedades Anônimas: Pág. 144 de 265 “Art. 75. A companhia poderá emitir, dentro do limite de aumento de capital autorizado no estatuto (artigo 168), títulos negociáveis denominados "Bônus de Subscrição". Parágrafo único. Os bônus de subscrição conferirão aos seus titulares, nas condições constantes do certificado, direito de subscrever ações do capital social, que será exercido mediante apresentação do título à companhia e pagamento do preço de emissão das ações.” O bônus de subscrição confere direito de preferência na aquisição de ações. Ele tem privilégio inclusive em relação a acionistas. O bônus de subscrição pode ser comprado por acionistas e por não acionistas. A vantagem é que o valor da ação ofertada é o valor de emissão. O bônus de subscrição é emitido nas sociedades de capital autorizado (como vimos, aquelas nas quais já há autorização para que haja aumento de capital até certo limite). Pág. 145 de 265 SUMÁRIO Modificação das estruturas societárias 1. Transformação 2. Incorporação 3. Incorporação por ações 4. Fusão 5. Cisão Credores prejudicados MODIFICAÇÃO DAS ESTRUTURAS SOCIETÁRIAS A modificação é aplicável a todos os tipos societários. 1. Transformação Artigos 1.113 e seguintes do CC e artigo 220 da Lei das S.A. Transformação é a mudança de um tipo empresarial em outro. Exemplos: uma sociedade limitada que se quer transformar em sociedade anônima. Uma sociedade limitada que quer se transformar em empresário individual. Observação: a mudança de uma sociedade anônima fechada para uma sociedade anônima aberta é uma transformação? Não, porque se trata do mesmo tipo empresarial. Apenas se está mudando a forma de negociação das ações. Na transformação não ocorre a dissolução e a liquidação. Não é preciso pagar todos os credores quando há transformação. Para que ocorra transformação, é necessária a concordância unânime dos sócios, salvo previsão em contrato social (o que não é comum). Exemplo: uma sociedade limitada se transformaem uma sociedade anônima. 2. Incorporação Artigos 1.116 e seguintes do CC e artigo 227 da Lei das S.A. A incorporação acontece quando uma ou mais sociedades são absorvidas por outra sociedade. A palavra “absorvida” é usada pela lei para descrever a incorporação. A empresa incorporada não é dissolvida nem liquidada. Limitada Sociedade anônima Pág. 146 de 265 Para que ocorra a incorporação de uma sociedade anônima por outra sociedade, o quórum de aprovação é de 1/2 do capital votante (1/2 das ações que dão direito de voto, que podem ser ações preferenciais ou ações ordinárias), conforme o artigo 136 da Lei de Sociedades Anônimas. “Art. 136. É necessária a aprovação de acionistas que representem metade, no mínimo, do total de votos conferidos pelas ações com direito a voto, se maior quórum não for exigido pelo estatuto da companhia cujas ações não estejam admitidas à negociação em bolsa ou no mercado de balcão, para deliberação sobre: (...) IV - fusão da companhia, ou sua incorporação em outra” Caso se trate da incorporação de uma sociedade limitada, o quórum de aprovação é de 3/4 do capital social, conforme o artigo 1.076, I do CC. “Art. 1.071. Dependem da deliberação dos sócios, além de outras matérias indicadas na lei ou no contrato: (...) VI - a incorporação, a fusão e a dissolução da sociedade, ou a cessação do estado de liquidação” “Art. 1.076. Ressalvado o disposto no art. 1.061, as deliberações dos sócios serão tomadas (Redação dada pela Lei nº 13.792, de 2019) I - pelos votos correspondentes, no mínimo, a três quartos do capital social, nos casos previstos nos incisos V e VI do art. 1.071" 3. Incorporação por ações Artigo 252 da Lei das Sociedades Anônimas. Na incorporação por ações, uma sociedade anônima absorve a totalidade das ações de outra, sem, no entanto, extingui-la. As duas sociedades continuam a existir. “Incorporação de Ações Art. 252. A incorporação de todas as ações do capital social ao patrimônio de outra companhia brasileira, para convertê-la em subsidiária integral, será submetida à deliberação da assembléia-geral das duas companhias mediante protocolo e justificação, nos termos dos artigos 224 e 225. (...)” A sociedade incorporada será considerada uma subsidiária integral da incorporadora, conforme o artigo 251 da Lei das Sociedades Anônimas. A B absorve A ativo e passivo de B Pág. 147 de 265 “Subsidiária Integral Art. 251. A companhia pode ser constituída, mediante escritura pública, tendo como único acionista sociedade brasileira. § 1º A sociedade que subscrever em bens o capital de subsidiária integral deverá aprovar o laudo de avaliação de que trata o artigo 8º, respondendo nos termos do § 6º do artigo 8º e do artigo 10 e seu parágrafo único. § 2º A companhia pode ser convertida em subsidiária integral mediante aquisição, por sociedade brasileira, de todas as suas ações, ou nos termos do artigo 252.” 4. Fusão Artigo 228 da Lei das Sociedades Anônimas e artigos 1.119 e seguintes do Código Civil. Na fusão, duas ou mais sociedades se unem para constituir uma nova sociedade. Há a extinção das sociedades envolvidas. Não ocorre a liquidação das envolvidas. Para aprovação da fusão, o quórum da sociedade anônima é de 1/2 do capital votante. Para aprovação da fusão, o quórum da sociedade limitada é de 3/4 do capital social. 5. Cisão Artigo 229 da Lei das Sociedades Anônimas. Na cisão, há uma divisão com versão total ou parcial para outra empresa. Pode ser que uma parte da empresa permaneça ainda como a original, ou que então toda a empresa seja assumida por uma outra. Na cisão total, parte da sociedade foi comprada pela sociedade A e outra parte foi comprada pela sociedade B. A B C A B A B Subsidiária integral A B Pág. 148 de 265 Na cisão parcial, a sociedade A se mantém e parte é comprada pela sociedade B. Credores prejudicados É possível que os credores que se sintam prejudicados ajuízem uma ação anulatória da modificação da estrutura societária. O prazo para ajuizamento da ação é distinto de acordo com o tipo de sociedade. Caso se trate de uma sociedade limitada, o prazo para ajuizamento da ação será de 90 dias, conforme o artigo 1.122 do CC. “Art. 1.122. Até noventa dias após publicados os atos relativos à incorporação, fusão ou cisão, o credor anterior, por ela prejudicado, poderá promover judicialmente a anulação deles. § 1º A consignação em pagamento prejudicará a anulação pleiteada. § 2º Sendo ilíquida a dívida, a sociedade poderá garantir-lhe a execução, suspendendo-se o processo de anulação. § 3º Ocorrendo, no prazo deste artigo, a falência da sociedade incorporadora, da sociedade nova ou da cindida, qualquer credor anterior terá direito a pedir a separação dos patrimônios, para o fim de serem os créditos pagos pelos bens das respectivas massas.” Por outro lado, se a anulação for referente a sociedades anônimas, o prazo é de 60 dias, conforme o artigo 232 da Lei das Sociedades Anônimas. “Direitos dos Credores na Incorporação ou Fusão Art. 232. Até 60 (sessenta) dias depois de publicados os atos relativos à incorporação ou à fusão, o credor anterior por ela prejudicado poderá pleitear judicialmente a anulação da operação; findo o prazo, decairá do direito o credor que não o tiver exercido. § 1º A consignação da importância em pagamento prejudicará a anulação pleiteada. § 2º Sendo ilíquida a dívida, a sociedade poderá garantir-lhe a execução, suspendendo-se o processo de anulação. § 3º Ocorrendo, no prazo deste artigo, a falência da sociedade incorporadora ou da sociedade nova, qualquer credor anterior terá o direito de pedir a separação dos patrimônios, para o fim de serem os créditos pagos pelos bens das respectivas massas.” Resolução de questões referentes à matéria ministrada. No consórcio, as empresas se unem para uma determinada atividade (como a construção de uma estrada, um aeroporto, uma ponte). Não há grupo econômico e não é necessário realizar uma modificação na estrutura societária das empresas consorciadas. A B Pág. 149 de 265 O consórcio não tem personalidade jurídica. Ele mantém a reunião das empresas e a solidariedade apenas com relação à obra. Pág. 150 de 265 SUMÁRIO Contratos Empresariais CONTRATOS EMPRESARIAIS As matérias que estudaremos podem ser cobradas nas provas de direito empresarial, direito civil e direito processual civil. Alienação fiduciária Trata-se do contrato mais cobrado em provas, que tem desdobramentos em diversas áreas. Legislação aplicável: • Quando se trata da alienação fiduciária de bens imóveis, aplica-se a Lei nº 9.514/1997 • Quando se trata da alienação fiduciária de bens móveis, aplica-se o Decreto-Lei nº 911/1969. É um diploma legal da época do AI-5, que não é muito favorável ao devedor • Artigos 1.361 e seguintes do Código Civil Historicamente, por que foi criada a alienação fiduciária? Os credores, que em sua maioria eram bancos (embora a alienação fiduciária em garantia não seja celebrada apenas por instituições financeiras), quando emprestavam dinheiro, tinham acesso a garantias reais. Havia a hipoteca sobre bem imóvel e o penhor sobre bem móvel. A dificuldade de recebimento era muito grande, a despeito dessas garantias. A alienação fiduciária foi criada para tornar mais fácil ao credor executar a garantia e receber seu crédito. a) Estrutura do contrato De um lado da relação há o credor e de outro lado há o devedor. O credor empresta uma quantia em dinheiro ao devedor. Esse contrato é chamado de mútuo, que é o empréstimo de um bem fungível. Não se trata de financiamento, que é um empréstimo com uma determinada destinação. O credor é chamado de mutuantee o devedor é o mutuário. O credor poderia tomar qualquer garantia. Poderia pedir uma fiança, poderia pedir um aval em um título de crédito. Mas opta pela alienação fiduciária. Pág. 151 de 265 Não existe contrato de alienação fiduciária isolado. Ele é sempre um contrato acessório, que serve como garantia e está vinculado a outro contrato. Alienar é transferir a propriedade. O devedor fiduciante alienou um bem em fidúcia (com confiança), o que enseja o desdobramento da posse. O credor fiduciário tem a posse indireta do bem e a propriedade fiduciária, que não é uma propriedade plena. Quando o contrato de mútuo é quitado, o credor fiduciário deve devolver a propriedade ao devedor fiduciante. Por outro lado, o devedor fiduciante tem a posse direta do bem. Tal vale tanto para o bem imóvel quanto para o bem móvel. As partes do contrato de alienação fiduciária são o fiduciante (o devedor) e o fiduciário (o credor). O fiduciante tem a posse direta do bem. Ele fica com a máquina, o carro, a casa etc. O fiduciário tem a posse indireta do bem e a propriedade fiduciária. A alienação fiduciária enseja o desdobramento da posse. b) Não pagamento pelo fiduciante As consequências do não pagamento do mútuo pelo devedor fiduciante são distintas quando se trata de bem móvel ou de bem imóvel. i. Bens móveis Decreto-Lei nº 911/1969. Quando o devedor não paga, é preciso uma notificação para que ele seja constituído em mora. Credor (mutuante) Fiduciário Posse indireta Propriedade fiduciária Devedor (mutuário) Fiduciante Posse direta Mútuo ($) Alienação fiduciária Pág. 152 de 265 Não basta que o devedor não pague as parcelas no vencimento. Ainda que ele não pague nada há mais de um ano, se ele não foi notificado a respeito, não está em mora. “Art. 2o No caso de inadimplemento ou mora nas obrigações contratuais garantidas mediante alienação fiduciária, o proprietário fiduciário ou credor poderá vender a coisa a terceiros, independentemente de leilão, hasta pública, avaliação prévia ou qualquer outra medida judicial ou extrajudicial, salvo disposição expressa em contrário prevista no contrato, devendo aplicar o preço da venda no pagamento de seu crédito e das despesas decorrentes e entregar ao devedor o saldo apurado, se houver, com a devida prestação de contas. (...) § 2o A mora decorrerá do simples vencimento do prazo para pagamento e poderá ser comprovada por carta registrada com aviso de recebimento, não se exigindo que a assinatura constante do referido aviso seja a do próprio destinatário.” Não é preciso que a notificação seja feita por cartório. Basta uma carta com aviso de recebimento. Uma vez que o devedor esteja em mora, o credor fiduciário irá ajuizar a ação de busca e apreensão, prevista no Decreto-Lei nº 911/1969. Não se trata da busca e ação cautelar, mas de um procedimento especial previsto no Decreto-Lei. “Súmula nº 72 do STJ A comprovação da mora é imprescindível à busca e apreensão do bem alienado fiduciariamente.” O objetivo dessa ação é buscar e apreender o bem para que na sequência ele seja vendido. Na petição inicial, o credor fiduciário pede que o juiz liminarmente determine a apreensão do bem. Pág. 153 de 265 SUMÁRIO CONTRATOS EMPRESARIAIS CONTRATOS EMPRESARIAIS Alienação fiduciária b) Não pagamento pelo fiduciante ii. Bens móveis Se o juiz entender que está comprovada a mora e que há um contrato de alienação fiduciária, ele concede a liminar de busca e apreensão. “Art. 3º O proprietário fiduciário ou credor poderá, desde que comprovada a mora, na forma estabelecida pelo § 2º do art. 2º, ou o inadimplemento, requerer contra o devedor ou terceiro a busca e apreensão do bem alienado fiduciariamente, a qual será concedida liminarmente, podendo ser apreciada em plantão judiciário.” Após essa liminar, o devedor fiduciante tem 15 dias para responder. Em sua contestação, ele só pode impedir a venda do bem após a sentença se ele: 1. Demonstrar que já pagou o débito (de forma que houve algum equívoco) 2. Pagar a integralidade da dívida O devedor não é citado para pagar somente a parcela do débito que está vencida, mas a totalidade do débito. Isso é muito desfavorável para o devedor. Na sequência, o juiz profere sentença e, em caso de procedência, o bem será vendido. 5 dias depois de a liminar ter sido executada, já haverá a plena propriedade do credor. Ocorre a consolidação da propriedade. Observação 1: 5 dias após a execução da liminar, ocorre a consolidação da propriedade para o fiduciário. Ele se torna pleno proprietário. “Art. 3º (...) § 1º Cinco dias após executada a liminar mencionada no caput, consolidar-se-ão a propriedade e a posse plena e exclusiva do bem no patrimônio do credor fiduciário, cabendo às repartições competentes, quando for o caso, expedir novo certificado de registro de propriedade em nome do credor, ou de terceiro por ele indicado, livre do ônus da propriedade fiduciária.” Observação 2: O devedor pode purgar a mora? Se fosse possível purgar a mora, seria o caso de o devedor pagar apenas as parcelas vencidas até aquele momento. Mas não é isso que ocorre. Não se pode purgar a mora. É preciso pagar a integralidade da dívida. Dispõe o artigo 3º, § 2º do Decreto Lei nº 911/1969: “Art. 3º (...) Pág. 154 de 265 § 2º No prazo do § 1º, o devedor fiduciante poderá pagar a integralidade da dívida pendente, segundo os valores apresentados pelo credor fiduciário na inicial, hipótese na qual o bem lhe será restituído livre do ônus.” Observação 3: Se a busca e apreensão era indevida, o juiz fixará uma multa para pagamento pelo credor fiduciário, em favor do devedor fiduciante, no valor de 50% do valor financiado, conforme o artigo 3º, § 6º do Decreto-Lei nº 911/1969. “§ 6o Na sentença que decretar a improcedência da ação de busca e apreensão, o juiz condenará o credor fiduciário ao pagamento de multa, em favor do devedor fiduciante, equivalente a cinquenta por cento do valor originalmente financiado, devidamente atualizado, caso o bem já tenha sido alienado.” iii. Bens imóveis Aplica-se a Lei nº 9.514/1997. Quando o devedor fiduciante não paga, também é preciso providenciar a sua notificação para constituí-lo em mora. O credor fiduciário vai até o Cartório de Registro de Imóveis, onde a alienação fiduciária em garantia foi registrada. Ele prova a mora e então o Cartório intima o devedor para, em 15 dias, pagar as parcelas vencidas até aquele momento (que é o mesmo que purgar a mora). Assim, purgar a mora não é possível quando se trata de bem móvel, mas é possível quando se trata de bem imóvel. Se o devedor fiduciante ainda assim não pagar, haverá a consolidação da propriedade para o fiduciário. Não é preciso ajuizar nenhuma ação. A partir desse momento, o credor fiduciário pode vender o bem imóvel, conforme o artigo 26 da Lei nº 9.514/1997. “Art. 26. Vencida e não paga, no todo ou em parte, a dívida e constituído em mora o fiduciante, consolidar-se-á, nos termos deste artigo, a propriedade do imóvel em nome do fiduciário. § 1º Para os fins do disposto neste artigo, o fiduciante, ou seu representante legal ou procurador regularmente constituído, será intimado, a requerimento do fiduciário, pelo oficial do competente Registro de Imóveis, a satisfazer, no prazo de quinze dias, a prestação vencida e as que se vencerem até a data do pagamento, os juros convencionais, as penalidades e os demais encargos contratuais, os encargos legais, inclusive tributos, as contribuições condominiais imputáveis ao imóvel, além das despesas de cobrança e de intimação.” Quando o bem é vendido, isso é feito sem nenhuma avaliação prévia. O maior valor oferecido irá prevalecer. A pessoa adquire o bem no estado em que se encontra. O imóvel pode estar ocupado, por exemplo. c)Se o fiduciante não pagar e falir Se o fiduciante não pagar o débito e falir, as consequências são as mesmas caso a garantia seja um bem móvel ou imóvel. O fiduciário deve apresentar pedido de restituição na falência do fiduciante, conforme o artigo 85 da Lei nº 11.101/2005. Isso é muito cobrado em concursos públicos. Pág. 155 de 265 “Art. 85. O proprietário de bem arrecadado no processo de falência ou que se encontre em poder do devedor na data da decretação da falência poderá pedir sua restituição. Parágrafo único. Também pode ser pedida a restituição de coisa vendida a crédito e entregue ao devedor nos 15 (quinze) dias anteriores ao requerimento de sua falência, se ainda não alienada.” O que o credor pretende é a restituição da própria coisa dada em garantia, seja ela bem móvel ou imóvel. Se o bem não existir (porque foi vendido ou despareceu, ou por qualquer outro motivo), haverá a restituição em dinheiro, de acordo com o artigo 84 da Lei nº 11.101/2005. O valor em dinheiro será pago juntamente com os créditos extraconcursais. “Art. 84. Serão considerados créditos extraconcursais e serão pagos com precedência sobre os mencionados no art. 83 desta Lei, na ordem a seguir, aqueles relativos: (Redação dada pela Lei nº 14.112, de 2020) (Vigência) (...) I-C - aos créditos em dinheiro objeto de restituição, conforme previsto no art. 86 desta Lei; (Incluído pela Lei nº 14.112, de 2020) (Vigência)” Para que sejam aplicadas estas normas, além do não pagamento, o devedor deve ter falido. d) Se o fiduciante não pagar e tiver a sua recuperação judicial deferida Se o devedor fiduciante não pagar o débito e sua recuperação judicial for deferida, o credor de alienação fiduciária não é atingido pela recuperação judicial, conforme o artigo 49 da Lei nº 11.101/2005. “Art. 49. Estão sujeitos à recuperação judicial todos os créditos existentes na data do pedido, ainda que não vencidos. (...) § 3º Tratando-se de credor titular da posição de proprietário fiduciário de bens móveis ou imóveis, de arrendador mercantil, de proprietário ou promitente vendedor de imóvel cujos respectivos contratos contenham cláusula de irrevogabilidade ou irretratabilidade, inclusive em incorporações imobiliárias, ou de proprietário em contrato de venda com reserva de domínio, seu crédito não se submeterá aos efeitos da recuperação judicial e prevalecerão os direitos de propriedade sobre a coisa e as condições contratuais, observada a legislação respectiva, não se permitindo, contudo, durante o prazo de suspensão a que se refere o § 4º do art. 6º desta Lei, a venda ou a retirada do estabelecimento do devedor dos bens de capital essenciais a sua atividade empresarial.” Isso significa que o credor fiduciário continuará a usar os meios previstos nas leis especiais (a busca e apreensão com relação a bens móveis e a consolidação da propriedade com relação a bens imóveis). e) Aplicação da teoria do adimplemento substancial Segundo o artigo 475 do CC, quando houver uma parcela vencida e o devedor estiver em mora, o credor pode cobrar as parcelas vencidas ou resolver o contrato. Pág. 156 de 265 “Art. 475. A parte lesada pelo inadimplemento pode pedir a resolução do contrato, se não preferir exigir-lhe o cumprimento, cabendo, em qualquer dos casos, indenização por perdas e danos.” Segundo o STJ, de acordo com a teoria do adimplemento substancial, quando faltar poucas parcelas para o cumprimento total do contrato, não seria possível resolver o contrato. O credor não teria mais o direito de resolver o contrato quando ele foi substancialmente adimplido. A teoria do adimplemento substancial não é aplicada para a alienação fiduciária de bens móveis. Pág. 157 de 265 SUMÁRIO CONTRATOS EMPRESARIAIS Alienação fiduciária Locação empresarial CONTRATOS EMPRESARIAIS Alienação fiduciária e) Aplicação da teoria do adimplemento substancial A teoria do adimplemento substancial não é aplicada para a alienação fiduciária de bens móveis porque não é possível pagar apenas as parcelas vencidas (purgar a mora), já que o credor pode exigir o pagamento total do débito (Informativo 540 do STJ, REsp. nº 1.418.593). EMENTA ALIENAÇÃO FIDUCIÁRIA EM GARANTIA. RECURSO ESPECIAL REPRESENTATIVO DE CONTROVÉRSIA. ART. 543-C DO CPC. AÇÃO DE BUSCA E APREENSÃO. DECRETO-LEI N. 911/1969. ALTERAÇÃO INTRODUZIDA PELA LEI N. 10.931/2004. PURGAÇÃO DA MORA. IMPOSSIBILIDADE. NECESSIDADE DE PAGAMENTO DA INTEGRALIDADE DA DÍVIDA NO PRAZO DE 5 DIAS APÓS A EXECUÇÃO DA LIMINAR. 1. Para fins do art. 543-C do Código de Processo Civil: "Nos contratos firmados na vigência da Lei n. 10.931/2004, compete ao devedor, no prazo de 5 (cinco) dias após a execução da liminar na ação de busca e apreensão, pagar a integralidade da dívida - entendida esta como os valores apresentados e comprovados pelo credor na inicial -, sob pena de consolidação da propriedade do bem móvel objeto de alienação fiduciária". 2. Recurso especial provido. (REsp n. 1.418.593/MS, relator Ministro Luis Felipe Salomão, Segunda Seção, julgado em 14/5/2014, DJe de 27/5/2014.) Esse julgado é de 2014, de forma que questões de concursos públicos anteriores a esse ano cobram um entendimento distinto. Resolução de questões referentes à matéria ministrada. Uma vez que a consolidação da propriedade tenha ocorrido, o bem deve ser vendido. O credor fiduciário não pode ficar com o bem para si. Dispõe o artigo 1.365 do Código Civil: “Art. 1.365. É nula a cláusula que autoriza o proprietário fiduciário a ficar com a coisa alienada em garantia, se a dívida não for paga no vencimento. Parágrafo único. O devedor pode, com a anuência do credor, dar seu direito eventual à coisa em pagamento da dívida, após o vencimento desta.” Locação empresarial Não se trata do aluguel do imóvel para morar, mas para exercício de uma atividade empresarial. Essa locação é regulada pela Lei nº 8.245/1991. a) Ação renovatória de contrato de locação empresarial Pág. 158 de 265 Exemplo: alguém aluga um espaço para exercício da atividade empresarial, faz uma reforma, faz publicidade etc., agregando valor para esse imóvel. Há o temor razoável de que em algum momento não se possa mais ficar com o imóvel. Diante do medo de se perder o ponto comercial, a ação renovatória permite a renovação compulsória do contrato de locação. É uma renovação apesar da inércia ou da discordância do proprietário do imóvel. i. Requisitos para o ajuizamento de ação renovatória 1. Contrato escrito e com prazo determinado Exemplo: contrato celebrado por 1 ano, 3 anos, 5 anos. A maior parte dos contratos tem prazo determinado. O problema é o que acontece se o contrato não for substituído no vencimento. Quando o contrato for por prazo determinado e não for substituído ao fim do prazo, ele se prorroga automaticamente por prazo indeterminado. 2. O locatário deve estar há pelo menos 5 anos no mesmo imóvel Não precisa ser um único contrato de 5 anos. Podem ser 5 contratos de 1 ano, por exemplo, ou um contrato de 2 anos e outro de 3 anos. 3. Nos 3 últimos anos, deve ser explorado o mesmo ramo de atividade Não há problema em ter começado com um restaurante e então mudar para um mercadinho, desde que observado o prazo mínimo de exercer o mesmo ramo de atividade nos últimos 3 anos. Esses três requisitos para o ajuizamento da ação renovatória de locação são cumulativos. Se um deles for negado na questão de prova, o locatário não pode ajuizar ação renovatória. “Art. 51. Nas locações de imóveis destinados ao comércio, o locatário terá direito a renovação do contrato, por igual prazo, desde que, cumulativamente: I - o contrato a renovar tenha sido celebrado por escrito e com prazo determinado; II - o prazo mínimo do contrato a renovar ou a soma dos prazos ininterruptos dos contratos escritos seja de cincoanos; III - o locatário esteja explorando seu comércio, no mesmo ramo, pelo prazo mínimo e ininterrupto de três anos. § 1º O direito assegurado neste artigo poderá ser exercido pelos cessionários ou sucessores da locação; no caso de sublocação total do imóvel, o direito a renovação somente poderá ser exercido pelo sublocatário. § 2º Quando o contrato autorizar que o locatário utilize o imóvel para as atividades de sociedade de que faça parte e que a esta passe a pertencer o fundo de comércio, o direito a renovação poderá ser exercido pelo locatário ou pela sociedade. § 3º Dissolvida a sociedade comercial por morte de um dos sócios, o sócio sobrevivente fica sub-rogado no direito a renovação, desde que continue no mesmo ramo. § 4º O direito a renovação do contrato estende-se às locações celebradas por indústrias e sociedades civis com fim lucrativo, regularmente constituídas, desde que ocorrentes os pressupostos previstos neste artigo.” Pág. 159 de 265 ii. Prazo para ajuizar ação renovatória A ação renovatória deve ser ajuizada nos primeiros 6 meses do último ano do contrato. “Art. 51. (...) § 5º Do direito a renovação decai aquele que não propuser a ação no interregno de um ano, no máximo, até seis meses, no mínimo, anteriores à data da finalização do prazo do contrato em vigor.” A ação renovatória não deve ser ajuizada nos últimos 6 meses antes do fim do contrato, mas nos primeiros 6 meses do último ano do contrato. Começo do último ano do contrato - Dezembro de 2020 6 meses após o começo do último ano do contrato - Maio de 2021 Final do contrato - Dezembro de 2021 Prazo para ajuizar ação renovatória Pág. 160 de 265 SUMÁRIO CONTRATOS EMPRESARIAIS CONTRATOS EMPRESARIAIS Locação empresarial b) Ação renovatória de contrato de locação empresarial iii. Possibilidade de retomada do imóvel pelo locador O locador deve poder retomar o imóvel. Essa previsão legal é importante, sob pena de inconstitucionalidade da ação renovatória. De um lado, é preciso preservar a livre iniciativa, e de outro, há o direito de propriedade. São dois direitos constitucionalmente protegidos que devem ser equilibrados. O artigo 52 da Lei do Inquilinato prevê as hipóteses em que o locador pode pedir a retomada do imóvel. “Art. 52. O locador não estará obrigado a renovar o contrato se: I - por determinação do Poder Público, tiver que realizar no imóvel obras que importarem na sua radical transformação; ou para fazer modificações de tal natureza que aumente o valor do negócio ou da propriedade;” O locador pode pedir o imóvel de volta para realizar reformas, que podem ter sido determinadas pelo Poder Público. Ou o próprio proprietário do imóvel pode entender que precisa fazer reformas para valorização do imóvel. Pode ser um imóvel tombado, ou pode ser um imóvel muito deteriorado, que corre o risco de desabar. É preciso apresentar uma descrição das obras que serão realizadas. Outro motivo para pedir a retomada do imóvel é a existência de uma melhor proposta de terceiro. Deve ser respeitado o direito de preferência, oferecendo-se o imóvel primeiro ao inquilino nas mesmas condições ofertadas para o terceiro. “II - o imóvel vier a ser utilizado por ele próprio ou para transferência de fundo de comércio existente há mais de um ano, sendo detentor da maioria do capital o locador, seu cônjuge, ascendente ou descendente.” O locador também pode pedir o imóvel de volta para uso próprio, o que significa que ele quer explorar uma atividade ou morar no local. Para Fábio Ulhoa Coelho, não se pode pedir o imóvel de volta e explorá-lo no mesmo ramo de atividade do locatário. O STJ não se posicionou de forma pacífica a respeito, mas há decisões no sentido de que não se pode impedir alguém para sempre de exercer um determinado tipo de atividade, ainda mais quando há regiões, avenidas, bairros, que são destinados a um determinado tipo de comércio. Então é possível exercer a mesma atividade que o locatário em algum momento. O que não se permite é a apropriação indevida, pelo locador, do fundo de comércio (que é o mesmo que estabelecimento) explorado pelo inquilino. Da mesma forma, quando se afirma que é possível o uso do imóvel por terceiro, não se trata de qualquer terceiro, mas de ascendente, descendente ou cônjuge do locador. É preciso demonstrar que essas pessoas já têm um fundo de comércio há pelo menos um ano. Esse fundo de comércio fica em algum outro lugar e se quer transferi-lo para o imóvel alugado, ou ampliar o negócio, criando uma filial, uma unidade secundária. Pág. 161 de 265 Com relação ao uso por terceiro, a lei também proíbe a exploração do mesmo ramo de atividade. “§ 1º Na hipótese do inciso II, o imóvel não poderá ser destinado ao uso do mesmo ramo do locatário, salvo se a locação também envolvia o fundo de comércio, com as instalações e pertences. § 2º Nas locações de espaço em shopping centers, o locador não poderá recusar a renovação do contrato com fundamento no inciso II deste artigo. § 3º O locatário terá direito a indenização para ressarcimento dos prejuízos e dos lucros cessantes que tiver que arcar com mudança, perda do lugar e desvalorização do fundo de comércio, se a renovação não ocorrer em razão de proposta de terceiro, em melhores condições, ou se o locador, no prazo de três meses da entrega do imóvel, não der o destino alegado ou não iniciar as obras determinadas pelo Poder Público ou que declarou pretender realizar.” c) Locação built to suit Essa matéria nunca foi cobrada em provas. A locação built to suit está prevista no artigo 54-A da Lei de Locação. Trata-se de situação em que o locador constrói o imóvel locado de acordo com as especificações do locatário. O futuro locatário define quais as características do imóvel que deve ser construído ou reformado (para que seja um pátio industrial, por exemplo). Em contrapartida, as despesas incorridas pelo locador podem ser acrescentadas no aluguel. “Art. 54-A. Na locação não residencial de imóvel urbano na qual o locador procede à prévia aquisição, construção ou substancial reforma, por si mesmo ou por terceiros, do imóvel então especificado pelo pretendente à locação, a fim de que seja a este locado por prazo determinado, prevalecerão as condições livremente pactuadas no contrato respectivo e as disposições procedimentais previstas nesta Lei. § 1o Poderá ser convencionada a renúncia ao direito de revisão do valor dos aluguéis durante o prazo de vigência do contrato de locação. § 2o Em caso de denúncia antecipada do vínculo locatício pelo locatário, compromete-se este a cumprir a multa convencionada, que não excederá, porém, a soma dos valores dos aluguéis a receber até o termo final da locação. § 3o (VETADO).” Observação: accessio temporis. Um dos requisitos para ajuizar ação renovatória é que o locatário esteja há 5 anos no imóvel. Como vimos, não é necessário que seja celebrado um único contrato para esses 5 anos. Se houver um intervalo entre os contratos, o prazo de 5 anos é interrompido ou os prazos dos contratos são somados? Exemplo: Pág. 162 de 265 A existência do intervalo interrompe a contagem do prazo de 5 anos, ou os prazos dos contratos serão somados? Há o entendimento de que, se o intervalo for curto, os prazos dos contratos serão somados. Há julgados que falam no intervalo de 3 meses como um intervalo curto. Se o intervalo fosse de 1 ano, por exemplo, haveria interrupção na contagem do prazo. É possível que o locador esteja dando causa à demora para renovar o contrato justamente para que haja uma interrupção na contagem do prazo. Se houver um intervalo entre contratos que seja curto (o que não tem uma medida exata), os prazos são somados. Inclusive a duração do intervalo é computada na contagem do prazo, porque nesse período o locatário continuou no imóvel e pagoualuguel. Era intenção do locador negociar um novo acordo para que a locação continuasse. Franquia Há uma nova legislação, a Lei nº 13.996/2019. O franqueador pode ampliar seu negócio de várias formas, dentre elas, a franquia. O franqueado quer aproveitar todo o conhecimento e desenvolvimento do franqueador. O franqueador oferece ao franqueado o uso de marca, patente, tecnologia (toda propriedade intelectual para o desenvolvimento do negócio). Em contrapartida, o franqueado irá pagar um valor, chamado de royalties. Início de contrato de locação escrito com prazo determinado de 2 anos Fim do contrato de 2 anos Início de novo contrato de locação escrito com prazo determinado de 3 anos Fim do contrato de 3 anos Franqueador Franqueado Intervalo sem contrato Marca, patente, tecnologia Pág. 163 de 265 O conceito de franquia está previsto no artigo 1º da lei: “Art. 1º Esta Lei disciplina o sistema de franquia empresarial, pelo qual um franqueador autoriza por meio de contrato um franqueado a usar marcas e outros objetos de propriedade intelectual, sempre associados ao direito de produção ou distribuição exclusiva ou não exclusiva de produtos ou serviços e também ao direito de uso de métodos e sistemas de implantação e administração de negócio ou sistema operacional desenvolvido ou detido pelo franqueador, mediante remuneração direta ou indireta, sem caracterizar relação de consumo ou vínculo empregatício em relação ao franqueado ou a seus empregados, ainda que durante o período de treinamento.” É uma novidade legislativa a referência ao uso de “outros objetos de propriedade intelectual”, além das marcas. Outra novidade legislativa é a inserção do trecho que afirma que não há relação de consumo ou vínculo empregatício entre o franqueador e o franqueado, ou entre o franqueador e os empregados do franqueado, ainda que durante o período de treinamento. Essas novidades legislativas têm maior chance de serem cobradas em concursos públicos. “§ 1º Para os fins da autorização referida no caput, o franqueador deve ser titular ou requerente de direitos sobre as marcas e outros objetos de propriedade intelectual negociados no âmbito do contrato de franquia, ou estar expressamente autorizado pelo titular. § 2º A franquia pode ser adotada por empresa privada, empresa estatal ou entidade sem fins lucrativos, independentemente do segmento em que desenvolva as atividades.” Royalties Pág. 164 de 265 SUMÁRIO CONTRATOS EMPRESARIAIS ARRENDAMENTO MERCANTIL CONTRATOS EMPRESARIAIS ARRENDAMENTO MERCANTIL Houve alteração legislativa nessa matéria em 2021. A Resolução nº 4.977/2021 do Conselho Monetário Nacional (CMN) é o principal texto a ser cobrado em provas. A despeito, o arrendamento mercantil continua a ser um contrato atípico. Uma das partes que celebram o contrato de arrendamento mercantil ou financeiro é a arrendadora. A arrendadora pode ser uma sociedade de arrendamento mercantil (que só realiza essa atividade), um banco múltiplo (de investimento ou de outras atividades), uma caixa econômica ou uma sociedade de crédito imobiliário, conforme o artigo 1º, § 1º da Resolução nº 4.977/2021. A arrendadora é uma pessoa jurídica e tem no seu objeto a atividade de arrendamento mercantil. “Art. 1º Esta Resolução disciplina as operações de arrendamento mercantil com o tratamento tributário previsto na Lei nº 6.099, de 12 de setembro de 1974. § 1º As operações de que trata esta Resolução são privativas das sociedades de arrendamento mercantil, dos bancos múltiplos com carteira de arrendamento mercantil e, no caso das operações de que trata o art. 11, também dos bancos múltiplos com carteira de investimento, de desenvolvimento ou de crédito imobiliário, dos bancos de investimento, dos bancos de desenvolvimento, das caixas econômicas e das sociedades de crédito imobiliário.” Do outro lado da relação jurídica está o arrendatário, que pode ser uma pessoa física ou uma pessoa jurídica. Não é preciso que seja uma empresa. Qual é o objeto do contrato de arrendamento mercantil? A arrendadora tem a propriedade resolúvel de um bem (móvel ou imóvel) que é escolhido pelo arrendatário. Exemplo: um carro de um determinado modelo de placa X, uma certa máquina descrita em detalhes. O arrendatário oferece um documento com a descrição do bem para que a arrendadora aceite. A arrendadora adquire o bem e se torna proprietária, tendo a propriedade resolúvel. A arrendadora também tem a posse indireta do bem. Por outro lado, a posse direta do bem fica com o arrendatário. Assim, no arrendamento mercantil ocorre o desdobramento da posse do bem, assim como ocorre na alienação fiduciária. Há duas modalidades de arrendamento mercantil: Pág. 165 de 265 “Art. 2º As operações de arrendamento mercantil de que trata esta Resolução são classificadas em arrendamento mercantil operacional e arrendamento mercantil financeiro.” Arrendamento mercantil financeiro Arrendamento mercantil operacional A arrendadora deve ter uma atividade de instituição financeira A arrendadora pode ser qualquer empresa do artigo 1º da Resolução nº 4.977/2021 do CMN As contraprestações abrangem custo e lucro As contraprestações não podem ultrapassar 90% do custo do bem Há valor residual garantido (VRG) Não há valor residual garantido (VRG) Os gastos com a manutenção, operação, assistência e serviços podem ser da arrendadora ou da arrendatária Duração mínima de 2 ou 3 anos, a depender da durabilidade do bem Duração mínima de 90 dias Devemos estudar o texto da Resolução nº 4.977/2021 do CMN, que revogou diversas outras resoluções. O lucro da atividade do arrendamento mercantil operacional não advém do pagamento das parcelas (embora ele cubra a maior parte do custo), uma vez que as contraprestações não podem ultrapassar 90% do custo do bem. O lucro da atividade advém da manutenção, operação, assistência e serviços prestados pela arrendadora. “Art. 7º Os contratos devem observar os seguintes prazos mínimos de arrendamento: I - para o arrendamento mercantil financeiro: a) 2 (dois) anos, compreendidos entre a data de entrega dos bens à arrendatária, consubstanciada em termo de aceitação e recebimento dos bens, e a data de vencimento da última contraprestação, quando se tratar de arrendamento de bens com vida útil igual ou inferior a 5 (cinco) anos; e b) 3 (três) anos, compreendidos entre a data de entrega dos bens à arrendatária, consubstanciada em termo de aceitação e recebimento dos bens, e a data de vencimento da última contraprestação, quando se tratar de arrendamento de bens com vida útil superior a 5 (cinco) anos; e II - para o arrendamento mercantil operacional, 90 (noventa) dias. Parágrafo único. Caso a opção de compra seja exercida antes de decorrido o respectivo prazo mínimo estabelecido no caput, a operação será considerada como de compra e venda a prazo.” O VRG não é obrigatório em todos os contratos de arrendamento mercantil, vez que só há VRG no arrendamento mercantil financeiro, e não no arrendamento mercantil operacional. O valor residual garantido (VRG) é um valor garantido pelo arrendatário como o mínimo que será recebido pela arrendadora no caso de venda do bem para terceiro. No arrendamento mercantil, o arrendatário pode escolher entre: 1. Renovar o contrato 2. Ficar com o bem 3. Devolver o bem Quando o arrendatário devolve o bem amigavelmente no final do contrato, ou quando o arrendatário deixa de pagar e o bem é recuperado, a arrendadora irá vender o bem. O VRG garante um valor mínimo à arrendadora. Pág. 166 de 265 Exemplo: se a arrendadora vender o bem e o valor da venda for inferior ao VRG, o arrendatário pagará a diferença. Outro exemplo: se a arrendadora vender o bem e o valor da venda for superior ao VRG pago até aquele momento,então será devolvida a diferença com o desconto das despesas contratuais. O VRG pode ser integralmente pago no início, ou pode ser pago somente ao final. O VRG é uma garantia que o arrendatário dá, afirmando que esse é o mínimo que a arrendadora irá receber, caso o arrendatário deixe de pagar o contrato ou se por alguma razão o bem tiver que ser vendido. Como a venda é feita pelo melhor preço, é normal que o valor vá decaindo (especialmente quando se trata de carro, que desvaloriza rapidamente). O VRG pode ser pago a qualquer momento, conforme o artigo 6º da Resolução nº 4.977/2021 do CMN e a Súmula nº 293 do STJ. “Art. 6º Os contratos de arrendamento mercantil devem ser formalizados por instrumento público ou particular, devendo conter, no mínimo, as seguintes especificações: I - a descrição dos bens que constituem o objeto do contrato, com todas as características que permitam sua perfeita identificação; II - o prazo de arrendamento; III - o valor das contraprestações ou a fórmula de cálculo das contraprestações, bem como o critério para seu reajuste; IV - a forma de pagamento das contraprestações por períodos determinados, não superiores a 1 (um) semestre, salvo no caso de operações que beneficiem atividades rurais, quando o pagamento pode ser fixado por períodos não superiores a 1 (um) ano; V - as condições para o exercício por parte da arrendatária do direito de optar pela renovação do contrato, pela devolução dos bens ou pela aquisição dos bens arrendados; VI - a concessão à arrendatária de opção de compra dos bens arrendados, devendo ser estabelecido o preço para seu exercício ou critério utilizável na sua fixação; VII - a taxa equivalente aos encargos financeiros da operação; VIII - as despesas e os encargos adicionais, inclusive despesas de assistência técnica, manutenção e serviços inerentes à operacionalidade dos bens arrendados; IX - as condições para eventual substituição dos bens arrendados, inclusive na ocorrência de sinistro, por outros da mesma natureza, que melhor atendam às conveniências da arrendatária, devendo a substituição ser formalizada por intermédio de aditivo contratual; X - as demais responsabilidades que vierem a ser convencionadas, em decorrência de: a) uso indevido ou impróprio dos bens arrendados; b) seguro previsto para cobertura de risco dos bens arrendados; c) danos causados a terceiros pelo uso dos bens; e d) ônus advindos de vícios dos bens arrendados; XI - a faculdade de a arrendadora vistoriar os bens objeto de arrendamento e de exigir da arrendatária a adoção de providências indispensáveis à preservação da integridade dos referidos bens; XII - as obrigações da arrendatária, nas hipóteses de: a) inadimplemento; e Pág. 167 de 265 b) destruição, perecimento ou desaparecimento dos bens arrendados; e XIII - a faculdade de a arrendatária transferir a terceiros no País, desde que haja anuência expressa da arrendadora, os direitos e obrigações decorrentes do contrato, com ou sem responsabilidade solidária. § 1º Para a definição da taxa equivalente mencionada no inciso VII do caput, deve-se considerar a taxa que equaliza o valor do bem arrendado, na data da contratação, ao valor presente de todos os recebimentos e pagamentos previstos ao longo do prazo contratual, incluindo, na ausência de valor residual garantido, o valor presente provável de realização do bem arrendado no final do contrato, deduzidos os custos de venda do bem. § 2º Com relação às despesas e encargos adicionais mencionados no inciso VIII do caput, no caso do arrendamento mercantil financeiro, admite-se: I - a previsão de a arrendatária pagar valor residual garantido em qualquer momento durante a vigência do contrato, não caracterizando o pagamento do valor residual garantido o exercício da opção de compra; e II - o reajuste do preço estabelecido para a opção de compra e o valor residual garantido.” “Súmula nº 293 do STJ A cobrança antecipada do valor residual garantido (VRG) não descaracteriza o contrato de arrendamento mercantil.” Anteriormente, o VRG só era pago ao final do contrato de arrendamento mercantil. Por esse motivo, por algum tempo se discutiu se a cobrança antecipada descaracterizaria o contrato de arrendamento mercantil. Ela não o descaracteriza. O VRG pode ser pago a qualquer momento. O valor residual ou preço residual é distinto do VRG. O valor residual ou preço residual é o valor definido para que o arrendatário fique com o bem no caso da opção de compra. É obrigatório que haja um valor residual, porque o arrendatário deve poder exercer a opção de compra. O valor residual deve estar definido ou deve haver o critério para que ele seja definido, conforme o artigo 6º, VII da Resolução nº 4.977/2021 do CMN. Observação: no arrendamento mercantil, o arrendatário pode: 1. renovar o contrato 2. devolver o bem (caso em que se apura o VRG) 3. optar pela compra do bem (o que é feito pelo valor residual) Resolução de questões referentes à matéria ministrada. Atualmente a cláusula de opção de compra é obrigatória no contrato de arrendamento mercantil, desde a edição da Resolução nº 4.977/2021 do CMN. Já o VRG não é obrigatório no arrendamento mercantil operacional. “Súmula nº 564 do STJ Pág. 168 de 265 No caso de reintegração de posse em arrendamento mercantil financeiro, quando a soma da importância antecipada a título de valor residual garantido (VRG) com o valor da venda do bem ultrapassar o total do VRG previsto contratualmente, o arrendatário terá direito de receber a respectiva diferença, cabendo, porém, se estipulado no contrato, o prévio desconto de outras despesas ou encargos pactuados.” Pág. 169 de 265 SUMÁRIO Propriedade Industrial PATENTE a) Requisitos b) Espécies de patentes e prazo c) Titular d) Procedimento e) Licença MARCA a) Requisitos b) Prazo de exclusividade c) Espécies de marca DESENHO INDUSTRIAL PROPRIEDADE INDUSTRIAL Lei nº 9.279/1996. A propriedade intelectual abrange direito autoral, patentes, marcas, desenho industrial etc. A propriedade industrial abrange patentes, marcas e desenho industrial. Vamos estudar apenas a propriedade industrial. PATENTE A patente é concedida sobre um produto que tem aplicação industrial. O que se quer proteger com uma patente é o produto propriamente dito, e não o nome pelo qual ele é conhecido. Pede-se a proteção da patente para que se tenha a exclusividade. Ao ter a exclusividade, o empreendedor pode cobrar o preço que quiser. Para que algo possa ser patenteado, devem ser observados três requisitos. a) Requisitos Artigo 8º da LPI “Art. 8º É patenteável a invenção que atenda aos requisitos de novidade, atividade inventiva e aplicação industrial.” 1. Novidade Novidade significa que não existe outro igual ou semelhante. Exemplo: uma nova fórmula, uma nova máquina. 2. Atividade inventiva Atividade inventiva é a atividade humana para chegar àquele resultado. Pág. 170 de 265 Exemplo: os experimentos feitos por alguém. 3. Aplicação industrial Para que haja aplicação industrial, deve-se verificar: a) É possível a produção em série? Exemplo: não cabe produção em série de artesanato ou de obra de arte, de forma que eles não podem ser patenteados. Ser vivo não pode ser patenteado. Pode ser patenteado um princípio ativo extraído e aplicado na indústria. Não há produção em série de ser vivo. b) É um produto? Um método científico não é uma coisa, mas uma ideia. Se é uma ideia, não pode ser patenteada. Um método contábil, um método de jogo e um método de diagnóstico não podem ser patenteados. Uma lata de tinta e um celular podem ser patenteados. Artigo 10 “Art. 10. Não se considera invenção nem modelo de utilidade: I - descobertas, teorias científicas e métodos matemáticos; II - concepções puramente abstratas;III - esquemas, planos, princípios ou métodos comerciais, contábeis, financeiros, educativos, publicitários, de sorteio e de fiscalização; IV - as obras literárias, arquitetônicas, artísticas e científicas ou qualquer criação estética; V - programas de computador em si; VI - apresentação de informações; VII - regras de jogo; VIII - técnicas e métodos operatórios ou cirúrgicos, bem como métodos terapêuticos ou de diagnóstico, para aplicação no corpo humano ou animal; e IX - o todo ou parte de seres vivos naturais e materiais biológicos encontrados na natureza, ou ainda que dela isolados, inclusive o genoma ou germoplasma de qualquer ser vivo natural e os processos biológicos naturais.” Artigo 18 “Art. 18. Não são patenteáveis: Pág. 171 de 265 I - o que for contrário à moral, aos bons costumes e à segurança, à ordem e à saúde públicas; II - as substâncias, matérias, misturas, elementos ou produtos de qualquer espécie, bem como a modificação de suas propriedades físico-químicas e os respectivos processos de obtenção ou modificação, quando resultantes de transformação do núcleo atômico; e III - o todo ou parte dos seres vivos, exceto os microorganismos transgênicos que atendam aos três requisitos de patenteabilidade - novidade, atividade inventiva e aplicação industrial - previstos no art. 8º e que não sejam mera descoberta. Parágrafo único. Para os fins desta Lei, microorganismos transgênicos são organismos, exceto o todo ou parte de plantas ou de animais, que expressem, mediante intervenção humana direta em sua composição genética, uma característica normalmente não alcançável pela espécie em condições naturais.” b) Espécies de patentes e prazo A patente pode ser: 1. Patente de invenção É algo absolutamente novo. O prazo para proteção da patente de invenção é de 20 anos contados do depósito. Depósito é o momento em que se dá entrada no pedido. O período de 20 anos é o período pelo qual se tem exclusividade. Depois de esgotado esse período, cai em domínio público. Caiu em domínio público a máquina de café com cápsulas, que inicialmente era de titularidade da Nespresso. Há diversas marcas atualmente. Os medicamentos genéricos existem porque caíram em domínio público. 2. Modelo de utilidade Modelo de utilidade é uma melhoria em algo que já existe. Exemplo: as melhorias dos primeiros celulares, que pareciam tijolos, até os celulares de hoje em dia. O prazo de proteção do modelo de utilidade é de 15 anos a partir do depósito. Artigos 9º e 40 da LPI “Art. 9º É patenteável como modelo de utilidade o objeto de uso prático, ou parte deste, suscetível de aplicação industrial, que Pág. 172 de 265 apresente nova forma ou disposição, envolvendo ato inventivo, que resulte em melhoria funcional no seu uso ou em sua fabricação.” “Art. 40. A patente de invenção vigorará pelo prazo de 20 (vinte) anos e a de modelo de utilidade pelo prazo 15 (quinze) anos contados da data de depósito. Parágrafo único. O prazo de vigência não será inferior a 10 (dez) anos para a patente de invenção e a 7 (sete) anos para a patente de modelo de utilidade, a contar da data de concessão, ressalvada a hipótese de o INPI estar impedido de proceder ao exame de mérito do pedido, por pendência judicial comprovada ou por motivo de força maior. (Vide ADIN 5529) (Revogado pela Lei nº 14.195, de 2021)” Recentemente o parágrafo único do artigo 40 foi declarado inconstitucional e então revogado. Ele tratava sobre o prazo mínimo de proteção a depender da demora do INPI. Há uma demora muito grande para analisar o pedido. A ideia era de que o empreendedor não podia ser prejudicado porque o INPI demora para analisar a questão. EMENTA “Ação direta de inconstitucionalidade. Parágrafo único do art. 40 da Lei nº 9.279/1996. Lei de propriedade industrial. Ampliação do prazo de vigência de patentes na hipótese de demora administrativa para a apreciação do pedido. Indeterminação do prazo de exploração exclusiva do invento. Ofensa à segurança jurídica, à temporalidade da patente, à função social da propriedade intelectual, à duração razoável do processo, à eficiência da administração pública, à livre concorrência, à defesa do consumidor e ao direito à saúde. Procedência do pedido. Modulação dos efeitos da decisão. 1. A proteção à propriedade industrial, prevista como direito fundamental no art. 5º, inciso XXIX, da Constituição de 1988, se dá de forma temporária e com fundamento no interesse social e no desenvolvimento tecnológico e econômico. Trata-se, portanto, de instituto com finalidade determinada pela Constituição e que não se circunscreve a um direito individual, pois diz respeito à coletividade e ao desenvolvimento do País. 2. Segundo o caput do art. 40 da Lei nº 9.279/1996, a vigência da patente observará os prazos fixos de 20 (vinte) anos para invenções e de 15 (quinze) anos para modelos de utilidade, contados da data de depósito. A Lei de Propriedade Intelectual (LPI) prevê, ainda, uma regra adicional no parágrafo único do dispositivo: a contar da data de concessão da patente, o prazo de vigência não será inferior a 10 (dez) anos para a patente de invenção e a 7 (sete) anos para a patente de modelo de utilidade. Portanto, extrai-se do art. 40 a relevância de dois marcos temporais para a determinação do prazo de vigência da patente: a data do depósito e a data da concessão do pedido. 3. O parágrafo único do art. 40 estabelece um prazo variável de proteção, pois esse depende do tempo de tramitação do respectivo processo administrativo no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). Assim, caso a autarquia leve mais de 10 (dez) anos, no caso da invenção, ou mais de 8 (oito) anos, no caso do modelo de utilidade, para proferir uma decisão final, o período total do privilégio ultrapassará o tempo de vigência previsto no caput do art. 40. 4. O parágrafo único do art. 40 da LPI teria sido instituído com o objetivo de compensar o acúmulo de pedidos de patentes (backlog) no INPI. O fenômeno existe desde a edição da Lei nº 9.279/1996, a qual, para se adequar ao Acordo sobre os Aspectos dos Direitos de Propriedade Intelectual Relacionados com o Comércio (Acordo TRIPS), tornou patenteáveis determinados produtos antes não sujeitos à exploração exclusiva. Internalizado o acordo e editada a Lei nº 9.279/1996 sem que fosse utilizado o prazo de transição conferido aos países em desenvolvimento, a autarquia federal não estava devidamente equipada para receber a carga adicional de novos produtos registrados, o que gerou um grande passivo de pedidos. Pág. 173 de 265 5. O Acordo TRIPS, no art. 33, assegura à patente no mínimo 20 anos de vigência desde o depósito do respectivo pedido. A lógica do acordo é que o mero depósito gera uma presunção em favor do requerente. Portanto, o prazo de vigência adicional a partir da concessão, conferido pelo parágrafo único do art. 40, não deriva do Acordo TRIPS; tampouco encontra paralelo em outras jurisdições, nas quais os direitos adicionais de exclusividade seguem uma lógica essencialmente diversa da adotada pela legislação brasileira, por terem aplicação reduzida, limitada a casos específicos e não serem direitos automáticos. Os instrumentos adotados no exterior para estender o período de exploração exclusiva de invenções - em suas variadas formas, prazos e regras específicas - contêm mecanismos que impedem que o prazo de validade da patente seja estendido por mais tempo do que o necessário. 6. O parágrafo único do art. 40 é desarrazoado sob diversos aspectos, haja vista que ele acaba por tornar o prazo de vigência das patentes indeterminado. Com efeito, não se sabe o prazo final da vigência de uma patente no Brasil até o momento em que essa é efetivamente concedida, o que pode demorar mais de uma década. A consequência prática disso é a ausência, de fato, de limitaçãotemporal para a proteção patentária no Brasil, redundando no cenário absurdo de haver patentes vigendo no país por prazos extremamente extensos, de cerca de 30 anos, o que desborda dos limites da razoabilidade e faz o país destoar das demais jurisdições em matéria de proteção da propriedade industrial. 7. Estando vigente o parágrafo único do art. 40, o prazo entre o depósito e a concessão de uma patente sempre será indeterminado, com ou sem backlog no INPI, visto que o tempo de processamento pelo escritório de patentes é um elemento indeterminado, dadas a complexidade envolvida na análise desse tipo de pedido - que é variável e depende do produto e do setor tecnológico pertinentes - e as intercorrências que podem ocorrer no trâmite administrativo –, algumas delas ensejadas pelos próprios requerentes no intuito de se beneficiarem da extensão automática prevista na norma questionada. Nesse sentido, mesmo que o INPI venha a superar o atraso crônico na análise dos pedidos de patentes, remanescerá a inconstitucionalidade do parágrafo único do art. 40. 8. A prorrogação do prazo de vigência da patente prevista na Lei de Propriedade Industrial, além de não contribuir para a solução do atraso crônico dos processos submetidos ao INPI, acaba por induzir ao descumprimento dos prazos previstos no caput do art. 40, pois ameniza as consequências da mora administrativa e prolonga o período de privilégio usufruído pelos depositantes, em prejuízo dos demais atores do mercado, além da própria Administração Pública e da sociedade como um todo. Há elementos suficientes nos autos que apontam para o fato de que a norma questionada retroalimenta o backlog, contribuindo para gerar o fenômeno que ela busca contornar, em direta afronta aos princípios da razoável duração do processo (art. 5º, LXXVIII, CF) e da eficiência administrativa (art. 37, caput, CF). 9. O impacto da extensão do prazo de vigência de patentes no Sistema Único de Saúde (SUS) é digno de atenção, pois, sendo ele um dos maiores sistemas de saúde pública do mundo e contando com uma rede de atendimento que visa universalizar o acesso à saúde gratuita, demanda recursos públicos compatíveis com sua amplitude e complexidade, os quais, todavia, esbarram em problemas financeiros e orçamentários típicos de um país em desenvolvimento como o Brasil. O domínio comercial proporcionado pela patente por períodos muito longos tem impacto no acesso da população a serviços públicos de saúde, uma vez que onera o sistema ao eliminar a concorrência e impor a aquisição de itens farmacêuticos por preço estipulado unilateralmente pelo titular do direito, acrescido do pagamento de royalties sobre os itens patenteados que o Poder Público adquire e distribui. 10. Quanto maior o prazo de exclusividade usufruído pelo titular da patente farmacêutica, mais será onerado o poder público e a sociedade, considerando-se a necessidade de aquisição de medicamentos em larga escala para a execução de políticas públicas em saúde. Esse contexto se torna ainda mais gravoso e dotado de urgência diante da emergência internacional de saúde decorrente da pandemia da Covid-19. O enfrentamento de uma crise de tamanha magnitude envolve a gestão de recursos escassos de diversas ordens, e não somente aqueles associados à aquisição de medicamentos com possível indicação para o tratamento da doença. A pressão sobre o sistema de saúde aumentou de forma global, elevando a demanda por insumos em toda a cadeia de atendimento. Pág. 174 de 265 11. O prolongamento indevido dos prazos de vigência de patentes farmacêuticas reveste-se de caráter injusto e inconstitucional, por privilegiar o interesse particular em detrimento da coletividade, impactando de forma extrema a prestação de serviços de saúde pública no país e, consequentemente, contrariando o direito constitucional à saúde (art. 196 da Constituição de 1988). A extensão do prazo de vigência das patentes afeta diretamente as políticas públicas de saúde do país e obsta o acesso dos cidadãos a medicamentos, ações e serviços de saúde, causando prejuízos não apenas a concorrentes e consumidores, mas, principalmente, àqueles que dependem do Sistema Único de Saúde para garantir sua integridade física e sua sobrevivência. 12. A indeterminação do prazo contido no parágrafo único do art. 40 da Lei 9.279/1996 gera insegurança jurídica e ofende o próprio Estado Democrático de Direito. A previsibilidade quanto ao prazo de vigência das patentes é essencial para que os agentes de mercado (depositantes, potenciais concorrentes e investidores) possam fazer escolhas racionais. Ademais, a ausência de regras claras dá margem ao arbítrio e à utilização oportunista e anti- isonômica das regras do jogo, tais como as estratégias utilizadas pelos depositantes para prolongar o período de exploração exclusiva dos produtos. 13. A temporalidade prevista no art. 5º, inciso XXIX, da CF/88 deve ser interpretada à luz do escopo da proteção patentária, que não se restringe a tutelar os interesses dos inventores/depositantes das patentes, garantindo, também, o usufruto do invento por toda a sociedade (i) a partir de regras claras e (ii) por prazo razoável. Portanto, a vantagem concorrencial concedida a autores de invenções ou modelos de utilidade deve ter vigência determinada e previsível, de forma que não apenas seus beneficiários, mas também os demais atores da indústria, possam aferir com exatidão a data do término da vigência da patente. Nesse sentido, o dispositivo questionado não observa o quesito da temporariedade, pois, ao se vincular a vigência da patente à data de sua concessão, ou seja, indiretamente ao tempo de tramitação do respectivo processo no INPI, se indetermina o prazo de vigência do benefício, o que concorre para a extrapolação dos prazos previstos no caput do art. 40 da LPI e para a falta de objetividade e previsibilidade de todo o processo. 14. A temporariedade da patente permite a harmonização da proteção à inventividade com o cumprimento da função social da propriedade, pois, apesar de resguardar os direitos dos autores de inventos ou modelos de utilidade por um período determinado, incentivando e remunerando os investimentos em inovação, garante ao restante da indústria e, em última análise, à sociedade, a possibilidade de se apropriar dos benefícios proporcionados pelos produtos da criatividade a partir da extinção dos privilégios de sua exploração. 15. O parágrafo único do art. 40 da LPI autoriza o adiamento da entrada da concorrência no mercado e a permanência dos efeitos da exclusividade por prazo indeterminado e excessivo, proporcionando a dominação dos mercados, a eliminação da concorrência e o aumento arbitrário dos lucros, aprofundando a desigualdade entre os agentes econômicos e transformando o que era justificável e razoável em inconstitucional, estando configurada, portanto, ofensa à função social da propriedade intelectual (art. 5º, inciso XXIX, c/c o art. 170, inciso III), à livre concorrência e à defesa do consumidor (art. 170, incisos IV e V). 16. A demora no tempo de exame das patentes é uma realidade que precisa ser combatida, para se garantir segurança jurídica a todos os agentes do mercado. Nada justifica um período de exame administrativo de cerca de dez anos. Apelo ao administrador público federal (Instituto Nacional da Propriedade Industrial, Agência Nacional de Vigilância Sanitária e Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde) para que envide efetivos esforços no sentido de superar as deficiências na análise dos pedidos de patentes. 17. Ação direta julgada procedente, declarando-se a inconstitucionalidade do parágrafo único do art. 40 da Lei nº 9.279/1996. 18. Modulação dos efeitos da decisão, conferindo-se efeitos ex nunc, a partir da publicação da ata deste julgamento, de forma a se manterem as extensões de prazo concedidas com base no preceito legal, preservando-se, assim, a validadedas patentes já concedidas e ainda vigentes em decorrência da aplicação do aludido preceito. Ficam ressalvadas da modulação (i) as ações judiciais propostas até o dia 7 de abril de 2021 (data da concessão parcial da medida cautelar no presente processo) e (ii) as patentes que tenham sido concedidas com extensão de prazo Pág. 175 de 265 relacionadas a produtos e processos farmacêuticos, bem como a equipamentos e/ou materiais de uso em saúde. A ambas as situações se aplica o efeito ex tunc, o que resultará na perda das extensões de prazo concedidas com base no parágrafo único do art. 40 da LPI, devendo ser respeitados os prazos de vigência das patentes estabelecidos no caput do art. 40 da Lei 9.279/1996 e resguardados eventuais efeitos concretos já produzidos em decorrência da extensão de prazo das referidas patentes.” (ADI 5529, Relator: DIAS TOFFOLI, Tribunal Pleno, julgado em 12/05/2021, PROCESSO ELETRÔNICO DJe-174 DIVULG 31-08-2021 PUBLIC 01-09-2021) c) Titular Quem é o titular da patente? Essa discussão é relevante quando há duas ou mais pessoas se dizendo inventoras. Quando há duas ou mais pessoas que conjuntamente se dizem inventoras, a patente pertence a ambas. Basta que uma delas compareça ao INPI para fazer o depósito. Se duas ou mais pessoas isoladamente se dizem inventoras, quem será o titular da patente? Nesse caso, a titularidade da patente é de quem primeiro depositou. Não foi Graham Bell que desenvolveu o telefone, mas duas outras pessoas. Mas quem pediu a patente foi Graham Bell, de forma que ele é o seu titular. Se a pessoa depositou a patente primeiro em outro país, ela tem a prerrogativa. O depósito não precisa ter sido feito no Brasil. O Brasil é parte do tratado internacional Convenção da União de Paris. Artigos 6º e 7º “Art. 6º Ao autor de invenção ou modelo de utilidade será assegurado o direito de obter a patente que lhe garanta a propriedade, nas condições estabelecidas nesta Lei. § 1º Salvo prova em contrário, presume-se o requerente legitimado a obter a patente. § 2º A patente poderá ser requerida em nome próprio, pelos herdeiros ou sucessores do autor, pelo cessionário ou por aquele a quem a lei ou o contrato de trabalho ou de prestação de serviços determinar que pertença a titularidade. § 3º Quando se tratar de invenção ou de modelo de utilidade realizado conjuntamente por duas ou mais pessoas, a patente poderá ser requerida por todas ou qualquer delas, mediante nomeação e qualificação das demais, para ressalva dos respectivos direitos. § 4º O inventor será nomeado e qualificado, podendo requerer a não divulgação de sua nomeação. Art. 7º Se dois ou mais autores tiverem realizado a mesma invenção ou modelo de utilidade, de forma independente, o direito de obter Pág. 176 de 265 patente será assegurado àquele que provar o depósito mais antigo, independentemente das datas de invenção ou criação. Parágrafo único. A retirada de depósito anterior sem produção de qualquer efeito dará prioridade ao depósito imediatamente posterior.” d) Procedimento Os principais atos do procedimento são os seguintes. A titularidade é definida no momento do depósito. É feito o requerimento no INPI e junta-se documentos sobre a invenção. É paga a taxa para que o INPI exerça sua atividade. Se o depositante não disser nada, o pedido não será analisado imediatamente. Segue-se um período chamado de período de sigilo, que dura 18 meses. O depositante pode afirmar no pedido que o período de sigilo não é necessário. Após o fim desse período, o titular manifesta ao INPI que continua interessado no depósito. Isso existe porque é possível que a pessoa se dê conta de que o pedido é “uma furada”, por exemplo, e deixe de ter interesse nele. Posteriormente ocorre a publicação na Revista de Propriedade Industrial. Se alguém souber de algo que possa impedir a concessão dessa patente, essa pessoa se manifesta para evitar a continuação da verificação. Após a publicação, inicia-se uma atividade que não tem prazo, que é o exame prévio. Pode demorar mais de uma década. Se tudo der certo, haverá a concessão, que ocorre com a expedição de um documento chamado carta-patente. A concessão e a exclusividade ocorrem apenas ao final do procedimento. Artigos 30 a 39 da LPI. e) Licença A licença é uma permissão de uso. O titular da patente permite a sua utilização por alguém. A licença pode ser voluntária, caso em que ela é fruto de acordo. A licença também pode ser compulsória, caso em que ela é determinada pelo legislador. Há três casos em que pode haver uma licença compulsória: 1. Abuso O abuso não tem a ver com o preço (se o titular está cobrando muito caro pelo produto patenteado), mas com a inércia. Há abuso se a patente não atende o mercado, ou se o titular não a explora, por exemplo. Só é possível falar em inércia se ela permanecer por 3 anos após a concessão da patente. “Art. 68. O titular ficará sujeito a ter a patente licenciada compulsoriamente se exercer os direitos dela decorrentes de forma Pág. 177 de 265 abusiva, ou por meio dela praticar abuso de poder econômico, comprovado nos termos da lei, por decisão administrativa ou judicial. § 1º Ensejam, igualmente, licença compulsória: I - a não exploração do objeto da patente no território brasileiro por falta de fabricação ou fabricação incompleta do produto, ou, ainda, a falta de uso integral do processo patenteado, ressalvados os casos de inviabilidade econômica, quando será admitida a importação; ou II - a comercialização que não satisfizer às necessidades do mercado. § 2º A licença só poderá ser requerida por pessoa com legítimo interesse e que tenha capacidade técnica e econômica para realizar a exploração eficiente do objeto da patente, que deverá destinar-se, predominantemente, ao mercado interno, extinguindo-se nesse caso a excepcionalidade prevista no inciso I do parágrafo anterior. § 3º No caso de a licença compulsória ser concedida em razão de abuso de poder econômico, ao licenciado, que propõe fabricação local, será garantido um prazo, limitado ao estabelecido no art. 74, para proceder à importação do objeto da licença, desde que tenha sido colocado no mercado diretamente pelo titular ou com o seu consentimento. § 4º No caso de importação para exploração de patente e no caso da importação prevista no parágrafo anterior, será igualmente admitida a importação por terceiros de produto fabricado de acordo com patente de processo ou de produto, desde que tenha sido colocado no mercado diretamente pelo titular ou com o seu consentimento. § 5º A licença compulsória de que trata o § 1º somente será requerida após decorridos 3 (três) anos da concessão da patente.” 2. Licença cruzada ou patente dependente Há uma dependência da exploração de uma patente em relação a outra. Para que isso ocorra, é preciso que: (i) haja dependência, (ii) haja tentativa de acordo (que não deu certo) e (iii) que a inovação traga um significativo progresso. Exemplo: há um mecanismo que só pode ser usado em um celular. Há uma relação de dependência. Se uma patente depende da outra e as partes não chegaram a um acordo, é possível que haja uma licença compulsória. Exemplo de significativo progresso: há uma patente para que a bateria do celular dure muito mais, mas não há nenhum acordo com o titular da patente do celular. “Art. 70. A licença compulsória será ainda concedida quando, cumulativamente, se verificarem as seguintes hipóteses: I - ficar caracterizada situação de dependência de uma patente em relação a outra; Pág. 178 de 265 II - o objeto da patente dependente constituir substancial progresso técnico em relação à patente anterior; e III - o titular não realizar acordo com o titular da patente dependente para exploração da patente anterior. § 1º Para os finsdeste artigo considera-se patente dependente aquela cuja exploração depende obrigatoriamente da utilização do objeto de patente anterior. § 2º Para efeito deste artigo, uma patente de processo poderá ser considerada dependente de patente do produto respectivo, bem como uma patente de produto poderá ser dependente de patente de processo. § 3º O titular da patente licenciada na forma deste artigo terá direito a licença compulsória cruzada da patente dependente.” 3. Licença por emergência nacional ou interesse público Ela sempre é declarada pelo Poder Executivo federal. A licença compulsória é possível inclusive na fase de sigilo. Será pago o valor de 1,5% do preço líquido de venda do produto para o titular. O artigo 71 da lei foi reformado em 2021. Há muitas novidades em função da pandemia da covid-19. Ler os artigos 68 a 71 da lei. “Art. 71. Nos casos de emergência nacional ou internacional ou de interesse público declarados em lei ou em ato do Poder Executivo federal, ou de reconhecimento de estado de calamidade pública de âmbito nacional pelo Congresso Nacional, poderá ser concedida licença compulsória, de ofício, temporária e não exclusiva, para a exploração da patente ou do pedido de patente, sem prejuízo dos direitos do respectivo titular, desde que seu titular ou seu licenciado não atenda a essa necessidade. (Redação dada pela Lei nº 14.200, de 2021) § 1º O ato de concessão da licença estabelecerá seu prazo de vigência e a possibilidade de prorrogação. (Renumerado do parágrafo único pela Lei nº 14.200, de 2021) § 2º Nos casos previstos no caput deste artigo, o Poder Executivo federal publicará lista de patentes ou de pedidos de patente, não aplicável o prazo de sigilo previsto no art. 30 desta Lei, potencialmente úteis ao enfrentamento das situações previstas no caput deste artigo, no prazo de até 30 (trinta) dias após a data de publicação da declaração de emergência ou de interesse público, ou do reconhecimento de estado de calamidade pública, excluídos as patentes e os pedidos de patente que forem objetos de acordos de transferência da tecnologia de produção ou de licenciamento voluntário capazes de assegurar o atendimento da demanda interna, Pág. 179 de 265 nos termos previstos em regulamento. (Incluído pela Lei nº 14.200, de 2021) § 3º Entes públicos, instituições de ensino e pesquisa e outras entidades representativas da sociedade e do setor produtivo deverão ser consultados no processo de elaboração da lista de patentes ou de pedidos de patente que poderão ser objeto de licença compulsória, nos termos previstos em regulamento. (Incluído pela Lei nº 14.200, de 2021) § 4º Qualquer instituição pública ou privada poderá apresentar pedido para inclusão de patente ou de pedido de patente na lista referida no § 2º deste artigo. (Incluído pela Lei nº 14.200, de 2021) § 5º A lista referida no § 2º deste artigo conterá informações e dados suficientes para permitir a análise individualizada acerca da utilidade de cada patente e pedido de patente e contemplará, pelo menos: (Incluído pela Lei nº 14.200, de 2021) I – o número individualizado das patentes ou dos pedidos de patente que poderão ser objeto de licença compulsória; (Incluído pela Lei nº 14.200, de 2021) II – a identificação dos respectivos titulares; (Incluído pela Lei nº 14.200, de 2021) III – a especificação dos objetivos para os quais será autorizado cada licenciamento compulsório. (Incluído pela Lei nº 14.200, de 2021) § 6º A partir da lista publicada nos termos do § 2º deste artigo, o Poder Executivo realizará, no prazo de 30 (trinta) dias, prorrogável por igual período, a avaliação individualizada das invenções e modelos de utilidade listados e somente concederá a licença compulsória, de forma não exclusiva, para produtores que possuam capacidade técnica e econômica comprovada para a produção do objeto da patente ou do pedido de patente, desde que conclua pela sua utilidade no enfrentamento da situação que a fundamenta. (Incluído pela Lei nº 14.200, de 2021) § 7º Patentes ou pedidos de patente que ainda não tiverem sido objeto de licença compulsória poderão ser excluídos da lista referida no § 2º deste artigo nos casos em que a autoridade competente definida pelo Poder Executivo considerar que seus titulares assumiram compromissos objetivos capazes de assegurar o atendimento da demanda interna em condições de volume, de preço e de prazo compatíveis com as necessidades de emergência nacional ou internacional, de interesse público ou de estado de calamidade pública de âmbito nacional por meio de uma ou mais das seguintes alternativas: (Incluído pela Lei nº 14.200, de 2021) I – exploração direta da patente ou do pedido de patente no País; (Incluído pela Lei nº 14.200, de 2021) Pág. 180 de 265 II – licenciamento voluntário da patente ou do pedido de patente; ou (Incluído pela Lei nº 14.200, de 2021) III – contratos transparentes de venda de produto associado à patente ou ao pedido de patente. (Incluído pela Lei nº 14.200, de 2021) § 8º (VETADO). (Incluído pela Lei nº 14.200, de 2021) § 9º (VETADO). (Incluído pela Lei nº 14.200, de 2021) § 10. (VETADO). (Incluído pela Lei nº 14.200, de 2021) § 11. As instituições públicas que possuírem informações, dados e documentos relacionados com o objeto da patente ou do pedido de patente ficam obrigadas a compartilhar todos os elementos úteis à reprodução do objeto licenciado, não aplicáveis, nesse caso, as normas relativas à proteção de dados nem o disposto no inciso XIV do caput do art. 195 desta Lei. (Incluído pela Lei nº 14.200, de 2021) § 12. No arbitramento da remuneração do titular da patente ou do pedido de patente, serão consideradas as circunstâncias de cada caso, observados, obrigatoriamente, o valor econômico da licença concedida, a duração da licença e as estimativas de investimentos necessários para sua exploração, bem como os custos de produção e o preço de venda no mercado nacional do produto a ela associado. (Incluído pela Lei nº 14.200, de 2021) § 13. A remuneração do titular da patente ou do pedido de patente objeto de licença compulsória será fixada em 1,5% (um inteiro e cinco décimos por cento) sobre o preço líquido de venda do produto a ela associado até que seu valor venha a ser efetivamente estabelecido. (Incluído pela Lei nº 14.200, de 2021) § 14. A remuneração do titular do pedido de patente objeto de licença compulsória somente será devida caso a patente venha a ser concedida, e o pagamento, correspondente a todo o período da licença, deverá ser efetivado somente após a concessão da patente. (Incluído pela Lei nº 14.200, de 2021) § 15. A autoridade competente dará prioridade à análise dos pedidos de patente que forem objeto de licença compulsória. (Incluído pela Lei nº 14.200, de 2021) § 16. Os produtos que estiverem sujeitos ao regime de vigilância sanitária deverão observar todos os requisitos previstos na legislação sanitária e somente poderão ser comercializados após a concessão de autorização, de forma definitiva ou para uso em caráter emergencial, pela autoridade sanitária federal, nos termos previstos em regulamento. (Incluído pela Lei nº 14.200, de 2021) § 17. (VETADO). (Incluído pela Lei nº 14.200, de 2021) Pág. 181 de 265 § 18. Independentemente da concessão de licença compulsória, o poder público dará prioridade à celebração de acordos de cooperação técnica e de contratos com o titular da patente para a aquisição da tecnologia produtiva e de seu processo de transferência. (Incluído pela Lei nº 14.200, de 2021) Art. 71-A. Poderá ser concedida, por razões humanitárias e nos termos de tratado internacional do qual a República Federativa do Brasil seja parte, licença compulsória de patentes de produtos destinados à exportação a países com insuficiente ou nenhuma capacidade de fabricação no setorfarmacêutico para atendimento de sua população. (Incluído pela Lei nº 14.200, de 2021)” Quebrar patente significa uma violação de direito de propriedade intelectual, o que acaba retirando o incentivo para que as pessoas desenvolvam novos produtos, novas criações. Não se pode quebrar patentes sem nenhum critério. MARCA A patente busca proteger um produto. A marca busca proteger um sinal visual. Há países que protegem sinal sonoro (como o barulho do motor da Harley Davidson) ou sinal olfativo. No Brasil, protege-se apenas o sinal visual. “Art. 122. São suscetíveis de registro como marca os sinais distintivos visualmente perceptíveis, não compreendidos nas proibições legais.” Para que se tenha exclusividade sobre o sinal visual, há requisitos cumulativos. a) Requisitos 1. Novidade relativa Não é preciso criar um sinal absolutamente novo. Ele precisa ser novo em determinada classe. Há uma classificação internacional, a Classificação de Nice, que é fruto da Convenção da União de Paris. Cada ramo de atividade tem um código. Ao registrar um nome no ramo editorial, por exemplo, é preciso indicar o número que corresponde a essa classe. 2. Não pode colidir com marca de alto renome Uma marca de alto renome é aquela famosa, que foi registrada no INPI como uma marca qualquer, protegida no seu remo de atividade, mas posteriormente o titular juntou uma pesquisa que provava o prestígio da marca, e pediu a sua proteção como marca de alto renome. Essa marca passa a ter uma proteção especial. Ela é protegida em todos os ramos de atividade. Artigo 125 “Art. 125. À marca registrada no Brasil considerada de alto renome será assegurada proteção especial, em todos os ramos de atividade.” A princípio, a marca tem proteção apenas no seu ramo de atividade, mas aqui extrapola-se essa proteção. Pág. 182 de 265 3. Não pode colidir com marca notoriamente conhecida Marca notoriamente conhecida é aquela que é conhecida não porque é famosa, mas porque foi registrada em outro país. Ela é protegida no Brasil por causa da Convenção da União de Paris. Há uma proteção especial. Essa marca é protegida sem que haja registro no Brasil. A proteção da marca notoriamente conhecida é apenas no próprio ramo de atividade. “Art. 126. A marca notoriamente conhecida em seu ramo de atividade nos termos do art. 6º bis (I), da Convenção da União de Paris para Proteção da Propriedade Industrial, goza de proteção especial, independentemente de estar previamente depositada ou registrada no Brasil. § 1º A proteção de que trata este artigo aplica-se também às marcas de serviço. § 2º O INPI poderá indeferir de ofício pedido de registro de marca que reproduza ou imite, no todo ou em parte, marca notoriamente conhecida.” b) Prazo de exclusividade O prazo de exclusividade da marca é de 10 anos contados a partir da concessão. O prazo de 10 anos é prorrogável sucessivamente. Pode-se prorrogar sem limite de tempo. O prazo de exclusividade da patente é contado a partir do depósito e não é prorrogável. Artigo 133 “Art. 133. O registro da marca vigorará pelo prazo de 10 (dez) anos, contados da data da concessão do registro, prorrogável por períodos iguais e sucessivos. § 1º O pedido de prorrogação deverá ser formulado durante o último ano de vigência do registro, instruído com o comprovante do pagamento da respectiva retribuição. § 2º Se o pedido de prorrogação não tiver sido efetuado até o termo final da vigência do registro, o titular poderá fazê-lo nos 6 (seis) meses subseqüentes, mediante o pagamento de retribuição adicional. § 3º A prorrogação não será concedida se não atendido o disposto no art. 128.” Exemplo: os personagens da Disney, tal como o Mickey, são protegidos como marca também, e não apenas como obra artística, e por isso não caem em domínio público. c) Espécies de marca As espécies de marca são definidas pela lei. Pág. 183 de 265 A marca de posição foi criada recentemente, mas não está prevista na lei, então não iremos estudá-la. Exemplo: a marca New Balance é escrita na lateral do tênis. Isso é uma marca de posição conforme Instrução Normativa do INPI. Há três espécies de marca previstas na lei: 1. Marca de produto ou serviço Marca de produto ou serviço é aquela usada para diferenciar um produto ou serviço de outro semelhante. Exemplo: uma pessoa compra uma maionese de uma determinada marca porque está acostumada com ela. Há a marca tridimensional (como o formato da garrafa de Coca-Cola), a marca de posição (como a marca New Balance na lateral do tênis) etc. 2. Marca de certificação A marca de certificação atesta a conformidade de um produto ou serviço. Exemplos: INMETRO e ISO 9000 são marcas de certificação. A empresa certificadora registra no INPI todas as regras para ela aferir qualidade ou quantidade. A empresa certificadora não pode ser titular também de uma empresa que desenvolve aquele produto, para manter sua isenção. 3. Marca coletiva A marca coletiva pertence a determinada entidade (que pode ser uma cooperativa, uma associação) e os membros da entidade podem utilizá-la. Artigo 123 “Art. 123. Para os efeitos desta Lei, considera-se: I - marca de produto ou serviço: aquela usada para distinguir produto ou serviço de outro idêntico, semelhante ou afim, de origem diversa; II - marca de certificação: aquela usada para atestar a conformidade de um produto ou serviço com determinadas normas ou especificações técnicas, notadamente quanto à qualidade, natureza, material utilizado e metodologia empregada; e III - marca coletiva: aquela usada para identificar produtos ou serviços provindos de membros de uma determinada entidade.” Quando alguém tem a exclusividade sobre marca ou patente, ele pode impedir terceiros de explorá-la e pedir reparação de danos. DESENHO INDUSTRIAL A proteção dada ao desenho industrial é para o formato ou o design de um determinado produto ou serviço, mas não sob o aspecto artístico, e sim sob o aspecto da produção em escala. Pág. 184 de 265 O desenho industrial é o conjunto ornamental de linhas e cores aplicados a um produto. Cuidado: não se trata de uma obra de arte. Mantém-se a ideia de produção em série. Exemplo: uma cadeira com um design diferenciado; um sofá com design diferenciado, que pode ser produzido em escala; uma garrafa térmica com design diferenciado. Artigo 95 “Art. 95. Considera-se desenho industrial a forma plástica ornamental de um objeto ou o conjunto ornamental de linhas e cores que possa ser aplicado a um produto, proporcionando resultado visual novo e original na sua configuração externa e que possa servir de tipo de fabricação industrial.” O prazo de proteção é de 10 anos contados do depósito. A proteção dada à marca é contada a partir da concessão. A proteção dada à patente e ao desenho industrial é contada a partir do depósito. O prazo de proteção do desenho industrial é prorrogável por 3 períodos de 5 anos, conforme o artigo 108 da lei. “Art. 108. O registro vigorará pelo prazo de 10 (dez) anos contados da data do depósito, prorrogável por 3 (três) períodos sucessivos de 5 (cinco) anos cada. § 1º O pedido de prorrogação deverá ser formulado durante o último ano de vigência do registro, instruído com o comprovante do pagamento da respectiva retribuição. § 2º Se o pedido de prorrogação não tiver sido formulado até o termo final da vigência do registro, o titular poderá fazê-lo nos 180 (cento e oitenta) dias subsequentes, mediante o pagamento de retribuição adicional.” Pág. 185 de 265 SUMÁRIO Recuperação judicial de empresas 1. Pilares da recuperação 2. Requisitos 3. Órgãos a) Administrador judicial Recuperação judicial de empresas Há a recuperação judicial e a extrajudicial de empresas. A maior parte dasquestões em provas de concursos públicos versa sobre a recuperação judicial. A Lei de Recuperação e Falência (LRF), Lei nº 11.101/2005 foi alterada em 2020, e as novidades ainda podem ser muito cobradas em prova. 1. Pilares da recuperação Os pilares da recuperação estão previstos no artigo 47 da LRF e são os seguintes: • Superação da crise econômico-financeira do devedor (manutenção do emprego, interesse dos credores, manutenção da fonte produtiva) A visão de superação da crise não é centrada no dono do negócio, mas nesses vários outros elementos. • Função social da empresa “Art. 47. A recuperação judicial tem por objetivo viabilizar a superação da situação de crise econômico-financeira do devedor, a fim de permitir a manutenção da fonte produtora, do emprego dos trabalhadores e dos interesses dos credores, promovendo, assim, a preservação da empresa, sua função social e o estímulo à atividade econômica.” 2. Requisitos Os principais requisitos para que se possa pedir a recuperação judicial estão no artigo 48 da LRF: “Art. 48. Poderá requerer recuperação judicial o devedor que, no momento do pedido, exerça regularmente suas atividades há mais de 2 (dois) anos e que atenda aos seguintes requisitos, cumulativamente: I – não ser falido e, se o foi, estejam declaradas extintas, por sentença transitada em julgado, as responsabilidades daí decorrentes; Pág. 186 de 265 II – não ter, há menos de 5 (cinco) anos, obtido concessão de recuperação judicial; III - não ter, há menos de 5 (cinco) anos, obtido concessão de recuperação judicial com base no plano especial de que trata a Seção V deste Capítulo; (Redação dada pela Lei Complementar nº 147, de 2014) IV – não ter sido condenado ou não ter, como administrador ou sócio controlador, pessoa condenada por qualquer dos crimes previstos nesta Lei. § 1º A recuperação judicial também poderá ser requerida pelo cônjuge sobrevivente, herdeiros do devedor, inventariante ou sócio remanescente. (Renumerado pela Lei nº 12.873, de 2013) § 2º No caso de exercício de atividade rural por pessoa jurídica, admite-se a comprovação do prazo estabelecido no caput deste artigo por meio da Escrituração Contábil Fiscal (ECF), ou por meio de obrigação legal de registros contábeis que venha a substituir a ECF, entregue tempestivamente. (Redação dada pela Lei nº 14.112, de 2020) (Vigência) § 3º Para a comprovação do prazo estabelecido no caput deste artigo, o cálculo do período de exercício de atividade rural por pessoa física é feito com base no Livro Caixa Digital do Produtor Rural (LCDPR), ou por meio de obrigação legal de registros contábeis que venha a substituir o LCDPR, e pela Declaração do Imposto sobre a Renda da Pessoa Física (DIRPF) e balanço patrimonial, todos entregues tempestivamente. (Incluído pela Lei nº 14.112, de 2020) (Vigência) § 4º Para efeito do disposto no § 3º deste artigo, no que diz respeito ao período em que não for exigível a entrega do LCDPR, admitir-se-á a entrega do livro-caixa utilizado para a elaboração da DIRPF. (Incluído pela Lei nº 14.112, de 2020) (Vigência) § 5º Para os fins de atendimento ao disposto nos §§ 2º e 3º deste artigo, as informações contábeis relativas a receitas, a bens, a despesas, a custos e a dívidas deverão estar organizadas de acordo com a legislação e com o padrão contábil da legislação correlata vigente, bem como guardar obediência ao regime de competência e de elaboração de balanço patrimonial por contador habilitado. (Incluído pela Lei nº 14.112, de 2020) (Vigência)” Quem tem legitimidade ativa para pedir a recuperação é o próprio devedor ou seus sucessores (o cônjuge, o companheiro, os filhos, o sócio que sobrou etc.). Para tanto, o devedor precisa exercer atividade empresarial regular há pelo menos 2 anos. Pág. 187 de 265 O normal é que a pessoa seja um empresário individual, uma EIRELI (a despeito de ter sido revogada, há as EIRELIs que foram constituídas regularmente e que podem pedir recuperação judicial), uma sociedade empresária. As atividades empresariais precisam estar registradas na Junta Comercial há pelo menos 2 anos (para que possam estar regulares há pelo menos 2 anos, conforme o requisito legal para pedir recuperação). O produtor rural, de acordo com o artigo 971 do CC, tem a faculdade de se registrar na Junta Comercial. A partir da alteração legislativa feita no artigo 48 da LRF, o produtor rural pode requerer recuperação judicial se conseguir comprovar a regularidade da sua atividade. O artigo 48, § 2º e § 3º indicam como o produtor rural pode comprovar a sua regularidade pelo período de 2 anos, para que possa requerer recuperação. Antes da alteração ao artigo 48 da LRF, incluindo-se o § 2º e o § 3º, já havia julgados que afirmavam que era possível conceder recuperação judicial para o produtor rural que exercesse sua atividade há dois anos. Atualmente, a lei afirma que o produtor rural deve exercer atividade regular, e deve comprová-la por meio dos documentos fiscais indicados. Há julgados de primeira instância que concedem recuperação judicial também para associações no âmbito do futebol. A recuperação foi concedida para a Chapecoense, por exemplo, na 1ª Vara Cível na Comarca de Chapecó, que reconheceu a atividade econômica organizada, exercida com profissionalismo, ainda que não tivesse 2 anos de atividade regular. O segundo requisito para pedir recuperação judicial é que o devedor não pode estar falido, salvo se houve a extinção de suas obrigações. A falência, uma vez decretada, não tem como deixar de existir. A única forma de alguém deixar de ser falido é a quitação de suas obrigações. O terceiro requisito para pedir recuperação judicial é que o devedor não pode ter obtido a concessão de outra recuperação judicial nos últimos 5 anos. Esse prazo de 5 anos é contado a partir da concessão da recuperação. (Se a recuperação for extrajudicial, o prazo será diferente.) O quarto requisito é que ele não pode ter sido condenado por crime falimentar (é uma condenação que recai sobre as pessoas físicas do empresário individual, do sócio controlador e do administrador). 3. Órgãos a) Administrador judicial Artigos 21 e seguintes da LRF. O administrador judicial é uma pessoa física ou uma pessoa jurídica nomeada pelo juiz. “Art. 21. O administrador judicial será profissional idôneo, preferencialmente advogado, economista, administrador de empresas ou contador, ou pessoa jurídica especializada. Parágrafo único. Se o administrador judicial nomeado for pessoa jurídica, declarar-se-á, no termo de que trata o art. 33 desta Lei, o nome de profissional responsável pela condução do processo de Pág. 188 de 265 falência ou de recuperação judicial, que não poderá ser substituído sem autorização do juiz.” Ele exerce as funções de: • elaborar o quadro de credores • fiscalizar a atividade do devedor e o cumprimento do plano de recuperação (ele não está à frente da administração da empresa no dia a dia; ele está como auxiliar da Justiça) • prestar relatórios mensais ao juiz para contar o andamento da recuperação judicial Observação: o administrador judicial não administra a empresa em recuperação judicial. Os artigos 64 e 65 da LRF indicam que os administradores da empresa são afastados e é nomeado o gestor judicial, que é escolhido pelos credores. “Art. 64. Durante o procedimento de recuperação judicial, o devedor ou seus administradores serão mantidos na condução da atividade empresarial, sob fiscalização do Comitê, se houver, e do administrador judicial, salvo se qualquer deles: I – houver sido condenado em sentença penal transitada em julgado por crime cometido em recuperação judicial ou falência anteriores ou por crime contra o patrimônio, a economia popular ou a ordem econômica previstos na legislação vigente; II – houverindícios veementes de ter cometido crime previsto nesta Lei; III – houver agido com dolo, simulação ou fraude contra os interesses de seus credores; IV – houver praticado qualquer das seguintes condutas: a) efetuar gastos pessoais manifestamente excessivos em relação a sua situação patrimonial; b) efetuar despesas injustificáveis por sua natureza ou vulto, em relação ao capital ou gênero do negócio, ao movimento das operações e a outras circunstâncias análogas; c) descapitalizar injustificadamente a empresa ou realizar operações prejudiciais ao seu funcionamento regular; d) simular ou omitir créditos ao apresentar a relação de que trata o inciso III do caput do art. 51 desta Lei, sem relevante razão de direito ou amparo de decisão judicial; V – negar-se a prestar informações solicitadas pelo administrador judicial ou pelos demais membros do Comitê; VI – tiver seu afastamento previsto no plano de recuperação judicial. Pág. 189 de 265 Parágrafo único. Verificada qualquer das hipóteses do caput deste artigo, o juiz destituirá o administrador, que será substituído na forma prevista nos atos constitutivos do devedor ou do plano de recuperação judicial.” “Art. 65. Quando do afastamento do devedor, nas hipóteses previstas no art. 64 desta Lei, o juiz convocará a assembléia-geral de credores para deliberar sobre o nome do gestor judicial que assumirá a administração das atividades do devedor, aplicando-se-lhe, no que couber, todas as normas sobre deveres, impedimentos e remuneração do administrador judicial. § 1º O administrador judicial exercerá as funções de gestor enquanto a assembléia-geral não deliberar sobre a escolha deste. § 2º Na hipótese de o gestor indicado pela assembléia-geral de credores recusar ou estar impedido de aceitar o encargo para gerir os negócios do devedor, o juiz convocará, no prazo de 72 (setenta e duas) horas, contado da recusa ou da declaração do impedimento nos autos, nova assembléia-geral, aplicado o disposto no § 1º deste artigo.” O administrador recebe uma remuneração, que é de no máximo 5% do total do valor devido aos credores submetidos à recuperação judicial. Essa porcentagem pode ser menor do que isso e é fixada pelo juiz. Observação: nas M.E.s e E.P.P.s, o máximo de honorários que o administrador judicial pode receber será de 2%, conforme o artigo 24 da LRF: “Art. 24. O juiz fixará o valor e a forma de pagamento da remuneração do administrador judicial, observados a capacidade de pagamento do devedor, o grau de complexidade do trabalho e os valores praticados no mercado para o desempenho de atividades semelhantes. § 1º Em qualquer hipótese, o total pago ao administrador judicial não excederá 5% (cinco por cento) do valor devido aos credores submetidos à recuperação judicial ou do valor de venda dos bens na falência. § 2º Será reservado 40% (quarenta por cento) do montante devido ao administrador judicial para pagamento após atendimento do previsto nos arts. 154 e 155 desta Lei. § 3º O administrador judicial substituído será remunerado proporcionalmente ao trabalho realizado, salvo se renunciar sem relevante razão ou for destituído de suas funções por desídia, culpa, dolo ou descumprimento das obrigações fixadas nesta Lei, hipóteses em que não terá direito à remuneração. Pág. 190 de 265 § 4º Também não terá direito a remuneração o administrador que tiver suas contas desaprovadas. § 5º A remuneração do administrador judicial fica reduzida ao limite de 2% (dois por cento), no caso de microempresas e de empresas de pequeno porte, bem como na hipótese de que trata o art. 70-A desta Lei. (Redação dada pela Lei nº 14.112, de 2020) (Vigência)” Pág. 191 de 265 SUMÁRIO Recuperação judicial de empresas 3. Órgãos b) Assembleia de credores c) Ministério Público d) Comitê de credores 4. Credores a) Credores atingidos b) Credores excluídos 3. Órgãos b) Assembleia de credores A assembleia de credores pode aprovar o plano de recuperação judicial. Os credores que comparecem resolverão os assuntos que sejam do interesse do devedor e dos credores. Quando a prova de concurso público falar em “voto sobre qualquer tema”, o normal é o que o voto seja proporcional ao crédito. O quórum necessário para aprovação é o de credores que representem mais da metade do valor total dos créditos presentes na Assembleia Geral, conforme o artigo 38 e o artigo 42 da LRF. “Art. 38. O voto do credor será proporcional ao valor de seu crédito, ressalvado, nas deliberações sobre o plano de recuperação judicial, o disposto no § 2º do art. 45 desta Lei. Parágrafo único. Na recuperação judicial, para fins exclusivos de votação em assembléia-geral, o crédito em moeda estrangeira será convertido para moeda nacional pelo câmbio da véspera da data de realização da assembléia.” “Art. 42. Considerar-se-á aprovada a proposta que obtiver votos favoráveis de credores que representem mais da metade do valor total dos créditos presentes à assembléia-geral, exceto nas deliberações sobre o plano de recuperação judicial nos termos da alínea a do inciso I do caput do art. 35 desta Lei, a composição do Comitê de Credores ou forma alternativa de realização do ativo nos termos do art. 145 desta Lei.” Qual é o quórum para aprovação do plano de recuperação judicial? Ele está previsto no artigo 45 da Lei de Recuperação Judicial e Falência. Pág. 192 de 265 “Art. 45. Nas deliberações sobre o plano de recuperação judicial, todas as classes de credores referidas no art. 41 desta Lei deverão aprovar a proposta. § 1º Em cada uma das classes referidas nos incisos II e III do art. 41 desta Lei, a proposta deverá ser aprovada por credores que representem mais da metade do valor total dos créditos presentes à assembléia e, cumulativamente, pela maioria simples dos credores presentes. § 2º Nas classes previstas nos incisos I e IV do art. 41 desta Lei, a proposta deverá ser aprovada pela maioria simples dos credores presentes, independentemente do valor de seu crédito. § 3º O credor não terá direito a voto e não será considerado para fins de verificação de quorum de deliberação se o plano de recuperação judicial não alterar o valor ou as condições originais de pagamento de seu crédito.” As classes de créditos estão previstas no artigo 41 da lei. “Art. 41. A assembléia-geral será composta pelas seguintes classes de credores: I – titulares de créditos derivados da legislação do trabalho ou decorrentes de acidentes de trabalho; II – titulares de créditos com garantia real; III – titulares de créditos quirografários, com privilégio especial, com privilégio geral ou subordinados. IV - titulares de créditos enquadrados como microempresa ou empresa de pequeno porte. § 1º Os titulares de créditos derivados da legislação do trabalho votam com a classe prevista no inciso I do caput deste artigo com o total de seu crédito, independentemente do valor. § 2º Os titulares de créditos com garantia real votam com a classe prevista no inciso II do caput deste artigo até o limite do valor do bem gravado e com a classe prevista no inciso III do caput deste artigo pelo restante do valor de seu crédito.” Credor trabalhista e decorrente de acidente de trabalho (é uma classe) e Credor M.E. e E.P.P. (é outra classe) Credor com garantia real (é uma classe) e Demais credores (quirografários, subordinados, com privilégio geral e com privilégio especial – é outra classe) Pág. 193 de 265 É preciso ter a concordância da maioria dos credores (O voto é por cabeça e não importa o valor do crédito de cada credor) É preciso ter a concordância da maioria dos credores presentes e que representem mais da metade dos créditos presentes O quórum é sempre computado com relaçãoaos credores presentes, e nunca com relação ao número total de credores. O quórum está previsto no artigo 45: “Art. 45. Nas deliberações sobre o plano de recuperação judicial, todas as classes de credores referidas no art. 41 desta Lei deverão aprovar a proposta. § 1º Em cada uma das classes referidas nos incisos II e III do art. 41 desta Lei, a proposta deverá ser aprovada por credores que representem mais da metade do valor total dos créditos presentes à assembléia e, cumulativamente, pela maioria simples dos credores presentes. § 2º Nas classes previstas nos incisos I e IV do art. 41 desta Lei, a proposta deverá ser aprovada pela maioria simples dos credores presentes, independentemente do valor de seu crédito. § 3º O credor não terá direito a voto e não será considerado para fins de verificação de quorum de deliberação se o plano de recuperação judicial não alterar o valor ou as condições originais de pagamento de seu crédito.” c) Ministério Público O Ministério Público pode exercer sua atividade de fiscal da ordem jurídica. Ademais, ele também pode: • Interpor recursos • Apresentar impugnação ao quadro de credores (apresentado pelo administrador judicial) – artigo 18 da LRF “Art. 18. O administrador judicial será responsável pela consolidação do quadro-geral de credores, a ser homologado pelo juiz, com base na relação dos credores a que se refere o art. 7º, § 2º, desta Lei e nas decisões proferidas nas impugnações oferecidas. Parágrafo único. O quadro-geral, assinado pelo juiz e pelo administrador judicial, mencionará a importância e a classificação de cada crédito na data do requerimento da recuperação judicial ou da decretação da falência, será juntado aos autos e publicado no órgão oficial, no prazo de 5 (cinco) dias, contado da data da sentença que houver julgado as impugnações.” Pág. 194 de 265 • ajuizar ação de retificação do quadro de credores, conforme o artigo 19 da LRF “Art. 19. O administrador judicial, o Comitê, qualquer credor ou o representante do Ministério Público poderá, até o encerramento da recuperação judicial ou da falência, observado, no que couber, o procedimento ordinário previsto no Código de Processo Civil, pedir a exclusão, outra classificação ou a retificação de qualquer crédito, nos casos de descoberta de falsidade, dolo, simulação, fraude, erro essencial ou, ainda, documentos ignorados na época do julgamento do crédito ou da inclusão no quadro-geral de credores. § 1º A ação prevista neste artigo será proposta exclusivamente perante o juízo da recuperação judicial ou da falência ou, nas hipóteses previstas no art. 6º, §§ 1º e 2º, desta Lei, perante o juízo que tenha originariamente reconhecido o crédito. § 2º Proposta a ação de que trata este artigo, o pagamento ao titular do crédito por ela atingido somente poderá ser realizado mediante a prestação de caução no mesmo valor do crédito questionado.” d) Comitê de credores Esse órgão está presente tanto na recuperação quanto na falência. Ler o artigo 26 e seguintes da LRF. Esse órgão tem uma existência facultativa. Quais são as funções dele? O comitê de credores tem: • função consultiva • função de fiscalizar a atividade do administrador judicial (acompanha a apresentação de relatórios, fiscaliza o plano de recuperação judicial) 4. Credores Esse tópico é muito relevante e é muito cobrado em provas. a) Credores atingidos Os credores atingidos se submetem à recuperação judicial. São todos os credores existentes até a data do pedido de recuperação judicial, quer os créditos estejam vencidos ou não. O que for contratado após a data do pedido de recuperação judicial ficará de fora da recuperação. Exemplo: se um contrato foi firmado após o pedido de recuperação judicial, o crédito decorrente estará fora da recuperação. Pág. 195 de 265 b) Credores excluídos Credor excluído não é o mesmo que credor prejudicado, porque o excluído pode continuar cobrando suas obrigações. São credores excluídos: i. Credores que têm direito de propriedade – o artigo 49, § 3º da lei traz vários exemplos, como o credor que tem reserva de domínio, o credor que comprou um imóvel com cláusula de irrevogabilidade ou irretratabilidade etc. “§ 3º Tratando-se de credor titular da posição de proprietário fiduciário de bens móveis ou imóveis, de arrendador mercantil, de proprietário ou promitente vendedor de imóvel cujos respectivos contratos contenham cláusula de irrevogabilidade ou irretratabilidade, inclusive em incorporações imobiliárias, ou de proprietário em contrato de venda com reserva de domínio, seu crédito não se submeterá aos efeitos da recuperação judicial e prevalecerão os direitos de propriedade sobre a coisa e as condições contratuais, observada a legislação respectiva, não se permitindo, contudo, durante o prazo de suspensão a que se refere o § 4º do art. 6º desta Lei, a venda ou a retirada do estabelecimento do devedor dos bens de capital essenciais a sua atividade empresarial.” Observação: no Informativo 720 do STJ, consta que os credores fiduciários estão excluídos da recuperação judicial somente em relação ao valor dos bens alienados. Quando há uma alienação fiduciária em garantia, ela recai sobre um bem móvel ou imóvel. O valor do bem alienado não é incluído na recuperação judicial. Mas todo o saldo existente entre o valor da venda do bem e o valor da dívida faz parte da recuperação judicial, porque a venda do bem pode ter sido insuficiente para quitar integralmente o débito. O valor obtido com a venda do bem foi usado para quitar parcialmente a dívida, e o saldo continuará a ser exigível. Se a dívida for maior que o valor do bem, o saldo entra na recuperação judicial. Tema: Crédito garantido por alienação fiduciária. Bens alienados pertencentes ao avalizado. Avalista em recuperação judicial. Expropriação de bens do avalista. Impossibilidade. DESTAQUE: Não pertencendo os bens alienados em garantia ao avalista em recuperação judicial, não podem ser expropriados outros bens de sua titularidade, pois devem servir ao pagamento de todos os credores. INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR: Conforme consignado no julgamento do REsp 1.677.939/SP, "O aval apresenta 2 (duas) características principais, a autonomia e a equivalência. A autonomia significa que a existência, validade e eficácia do aval não estão condicionadas à da obrigação principal. A equivalência torna o avalista devedor do título da mesma forma que a pessoa por ele avalizada. (...) Disso decorre que o credor pode exigir o pagamento tanto do devedor principal quanto do avalista, que não pode apresentar exceções pessoais que aproveitariam o avalizado, nem invocar benefício de ordem." Desse modo, se o avalizado for devedor principal, o avalista será tratado como se devedor principal fosse. Pág. 196 de 265 Assim, caso os bens alienados em garantia fossem dos avalistas, poderiam ser perseguidos pelo credor fora da recuperação judicial, já que a extraconcursalidade do crédito está diretamente ligada à propriedade fiduciária. No entanto, sendo os bens alienados em garantia de propriedade do devedor principal, o crédito em relação aos avalistas em recuperação judicial não pode ser satisfeito com outros bens de sua propriedade, que estão submetidos ao pagamento de todos os demais credores.” (STJ, REsp 1.953.180-SP, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, Terceira Turma, por unanimidade, julgado em 25/11/2021, DJe 01/12/2021.) ii. Credor tributário Observação: a execução tributária prossegue normalmente, mas se houver a constrição de bem, ela será resolvida por cooperação jurisdicional. A cooperação jurisdicional está prevista no artigo 6º, § 7-A da Lei de Recuperação e Falência. “§ 7º-A. O disposto nos incisos I, II e III do caput deste artigo não se aplica aos créditos referidos nos §§ 3º e 4º