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PÓS-GRADUAÇÃO EM DIREITO PENAL E PROCESSUAL PENAL
MÓDULO: DIREITO PENAL PARTE ESPECIAL
Crimes Contra o Patrimônio
Professor: Fabrício Lima
1
Crimes Contra o Patrimônio
FURTO
1
Art. 155 - Subtrair, para si ou para outrem, coisa alheia móvel:
Pena – reclusão, de um a quatro anos, e multa.
§ 1º - A pena aumenta-se de um terço, se o crime é praticado durante o repouso noturno.
§ 2º - Se o criminoso é primário, e é de pequeno valor a coisa furtada, o juiz pode substituir a pena de reclusão pela de detenção, diminuí-la de um a dois terços, ou aplicar somente a pena de multa.
§ 3º - Equipara-se à coisa móvel a energia elétrica ou qualquer outra que tenha valor econômico.
Furto qualificado
§ 4º - A pena é de reclusão de dois a oito anos, e multa, se o crime é cometido:
I - com destruição ou rompimento de obstáculo à subtração da coisa;
I – com abuso de confiança, ou mediante fraude, escalada ou destreza;
III – com emprego de chave falsa;
IV – mediante concurso de duas ou mais pessoas.
2
Crimes Contra o Patrimônio
FURTO
1
§ 4º-A A pena é de reclusão de 4 (quatro) a 10 (dez) anos e multa, se houver emprego de explosivo
ou de artefato análogo que cause perigo comum. (Incluído pela Lei n. 13.654, de 2018)
§ 4º-B. A pena é de reclusão, de 4 (quatro) a 8 (oito) anos, e multa, se o furto mediante fraude é cometido por meio de dispositivo eletrônico ou informático, conectado ou não à rede de computa- dores, com ou sem a violação de mecanismo de segurança ou a utilização de programa malicioso, ou por qualquer outro meio fraudulento análogo. (Incluído pela Lei n. 14.155, de 2021)
§ 4º-C. A pena prevista no § 4º-B deste artigo, considerada a relevância do resultado gravoso: (Inclu- ído pela Lei n. 14.155, de 2021)
– aumenta-se de 1/3 (um terço) a 2/3 (dois terços), se o crime é praticado mediante a utilização de
servidor mantido fora do território nacional; (Incluído pela Lei n. 14.155, de 2021)
– aumenta-se de 1/3 (um terço) ao dobro, se o crime é praticado contra idoso ou vulnerável. (Incluído pela Lei n. 14.155, de 2021)
§ 5º - A pena é de reclusão de três a oito anos, se a subtração for de veículo automotor que venha a
ser transportado para outro Estado ou para o exterior. (Incluído pela Lei n. 9.426, de 1996)
§ 6º A pena é de reclusão de 2 (dois) a 5 (cinco) anos se a subtração for de semovente domesticável de produção, ainda que abatido ou dividido em partes no local da subtração. (Incluído pela Lei n. 13.330, de 2016)
§ 7º A pena é de reclusão de 4 (quatro) a 10 (dez) anos e multa, se a subtração for de substâncias explosivas ou de acessórios que, conjunta ou isoladamente, possibilitem sua fabricação, montagem ou emprego. (Incluído pela Lei n. 13.654, de 2018)
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Crimes Contra o Patrimônio
FURTO
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ANÁLISE DAS ELEMENTARES DO CRIME DE FURTO
As elementares do caput do art.155 são ricas de conteúdo dogmático. Lá, encontram-se: o núcleo subtrair, que abrange o sentido de tirar, retirar; para si ou para outrem que caracteriza uma elementar subjetiva especial.
O apossamento da coisa alheia, que caracteriza a conduta de subtrair, pode ser direto ou indireto.
Em razão da finalidade especial, representada pela elementar subjetiva específica, qual seja, “para si ou para outrem”, não há se falar em furto de uso como conduta típica. 
Tal previsão existe apenas no Código Penal Militar, no seu artigo 241: “Se a coisa é subtraída para o fim de uso momentâneo e, a seguir, vem a ser imediatamente restituída ou reposta no lugar onde se achava: Pena - detenção, até seis meses. Parágrafo único. A pena é aumentada de metade, se a coisa usada é veículo motorizado; e de um terço, se é animal de sela ou de tiro”.
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Crimes Contra o Patrimônio
FURTO
1
ANÁLISE DAS ELEMENTARES DO CRIME DE FURTO
A expressão coisa alheia constitui uma elementar normativa. Dessa forma, não é possível o furto de coisa própria, mesmo se o agente acreditar que estar subtraindo coisa alheia. Em tal hipótese, o fato será atípico se a coisa for própria. 
De forma reversa, no caso de o agente subtrair coisa alheia acreditando tratar-se de coisa própria, haverá erro de tipo que afasta o dolo, não há se perquirir se o erro é vencível e possibilidade de culpa, porque não existe furto na forma culposa (exemplo: Caio pega uma mala no aeroporto, acreditando tratar-se de coisa própria, porque a mala era idêntica à sua. Em seguida, é abordado por um segurança do aeroporto que solicita a devolução da mala que pertence a um terceiro. Caio atuou com erro de tipo (art.20 caput do CP) que incidiu sobre e elementar coisa alheia.
O bem jurídico tutelado na norma que se apresenta no caput do art.155 do CP é o patrimônio. Protege-se a posse, a detenção ou a propriedade da coisa (MARTINS, 2014, p.31). De forma imediata, protege-se a posse. Não há proteção de coisa abandonada ou de coisa de ninguém. “É necessário, porém, que a posse seja legítima. Assim, no exemplo do ladrão que furta ladrão, existe furto, entretanto o sujeito passivo do segundo fato não é o ladrão, e sim o dono da coisa” (JESUS, v.II, 2020, p.417).
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Crimes Contra o Patrimônio
FURTO
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ANÁLISE DAS ELEMENTARES DO CRIME DE FURTO
Bens móveis, segundo do art. 82 do Código Civil, são os bens suscetíveis de movimento próprio, ou de remoção por força alheia, sem alteração da substância ou da destinação econômico-social. No entanto, o sentido de bem móvel para o Direito Penal (sentido naturalístico) nem sempre corresponde ao sentido de coisa móvel atribuído pelo Direito Civil. Para o Direito Penal, a possibilidade de deslocamento do bem o caracteriza como bem móvel, enquanto o Direito Civil considera determinados bens como imóveis, apesar de poderem ser deslocados conforme art. 81 do CC:
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Crimes Contra o Patrimônio
FURTO
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QUESTÃO: o cheque pode ser objeto de furto?
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Crimes Contra o Patrimônio
FURTO
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QUESTÃO: o cheque pode ser objeto de furto?
Segundo o Superior Tribunal de Justiça (STJ), sim, conforme decisão abaixo:
JURISPRUDÊNCIA STJ [...]
3. Na hipótese dos autos, a despeito da res furtiva não possuir expressão econômica intrínseca - no caso, um talão de cheques -, é inegável a existência de prejuízos supor- tados pelo proprietário, acarretados pela cobrança de tarifas bancárias, bem como a sua sujeição a eventual constrangimento judicial ou administrativo por meio de órgãos com- petentes, fruto de estelionato, fraude, falsificação ou outro tipo de conduta que possa ocorrer com a ilícita circulação das cártulas. (AgRg no REsp 1342213/MT, Rel. Ministra LAURITA VAZ, QUINTA TURMA, julgado em 06/05/2014, DJe 13/05/2014).
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Crimes Contra o Patrimônio
FURTO
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 QUESTÃO: objeto não quantificável economicamente, mas que possui valor de afeição para o seu dono, pode figurar como coisa para efeito de crime patrimonial?
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Crimes Contra o Patrimônio
FURTO
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 QUESTÃO: objeto não quantificável economicamente, mas que possui valor de afeição para o seu dono, pode figurar como coisa para efeito de crime patrimonial?
Esse tema figura na doutrina de maneira divergente.
Uma parte da doutrina entende que a resposta é negativa, uma vez que não pode existir crime patrimonial se o interesse jurídico não é apreciado economicamente (Fragoso). 
A resposta é sim para Antolisei (1954, P.E.,v.1, p.189):
 O patrimônio não compreende apenas as relações jurídicas apreciáveis– isto é, os direitos que são avaliáveis em dinheiro– senão também as que versam sobre coisas que têm mero valor de afeição (recordações de família, objetos que nos são caros por motivo especiais, etc). posto que também essas coisas fazem parte do patrimônio, a subtração delas representa, sem dúvida, uma diminuição patrimonial e, assim, constitui um dano patrimonial.
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Crimes Contra o Patrimônio
FURTO
1
MOMENTO CONSUMATIVO DO FURTO
 
As teorias relativas à consumação do furto e do roubo são as seguintes:
 
Contrectatio: basta tocar a coisa alheia com a intenção de subtrair;
Apreensório ou apprehensio: basta segurar a coisa alheiacom a intenção de subtrair;
Amotio: basta a inversão da posse, ainda que por breve espaço de tempo, sem necessidade de posse mansa e pacífica;
Ablatio: exige a posse mansa e pacífica da coisa, de forma desvigiada;
Illatio: exige o transporte da coisa para o seu local de destino.
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Crimes Contra o Patrimônio
FURTO
1
MOMENTO CONSUMATIVO DO FURTO
A jurisprudência atual, tanto do STF quanto do STJ, no que concerne ao momento consumativo do furto e do roubo, adota a teoria da amotio, segundo a qual o furto e o roubo se consumam com a inversão da posse, sem necessidade de posse mansa e pacífica. Em alguns julgados, o STJ menciona amotio ou apreehensio, com imprecisão terminológica. 
Existe entendimento sumulado do STJ, no qual se observa o conceito da teoria da amotio: Súmula 582: “consuma-se o crime de roubo com a inversão da posse do bem mediante emprego de violência ou grave ameaça, ainda que por breve tempo e em seguida à perseguição imediata”.
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Crimes Contra o Patrimônio
FURTO
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O furto é um crime que somente pode ser cometido na forma dolosa. 
Trata-se de crime material, ou seja, consuma-se com o resultado naturalístico. 
Cuida-se de um crime de intenção, uma vez que, além do dolo de subtrair, o agente deve agir com um elemento subjetivo especial, caracterizado pelas expressões “para si ou para outrem”. 
A tentativa é possível, pois o crime é plurissubsistente, isto é, admite o fracionamento da fase executória em diversos atos.
Súmula 567 do STJ: “Sistema de vigilância realizado por monitoramento eletrônico ou por existência de segurança no interior de estabelecimento comercial, por si só, não torna impossível a configuração do crime de furto”.
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Crimes Contra o Patrimônio
FURTO
1
O furto simples é o previsto no caput do art.155. 
Suas elementares foram analisadas nos itens anteriores. A pena prevista é de reclusão de 1 a 4 anos e multa. 
É cabível a suspensão condicional do processo, previsto no art.89 da Lei 9099/95, ou o acordo de não persecução penal, contido no art. 28A do CPP.
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Crimes Contra o Patrimônio
FURTO
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FURTO PRATICADO DURANTE O REPOUSO NOTURNO
O furto cometido durante o repouso noturno constitui uma circunstância presente no §1º do art.155 que possui como consequência o aumento da pena em 1/3, em razão da maior facilidade de subtrair à noite, quando a vigilância do patrimônio costuma ser diminuída. Tal causa de aumento de pena incide na terceira fase da dosimetria da pena. 
É possível a convivência da causa de aumento de pena do repouso noturno com a forma simples do caput e com a forma privilegiada, não sendo admitida na forma qualificada.
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Crimes Contra o Patrimônio
FURTO
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FURTO PRATICADO DURANTE O REPOUSO NOTURNO
Ao incidir sobre a pena do furto simples previsto caput, a causa de aumento altera o patamar mínimo e impede a suspensão condicional do processo, mas não impede o acordo de não persecução penal. No caso de convivência do repouso noturno com a forma privilegiada, é possível a incidência da suspensão condicional do processo, uma vez que a causa de aumento corresponde ao aumento de 1/3, mas uma das alternativas do privilégio consiste na redução de 2/3 da pena.
Vale destacar ainda que a causa de aumento do furto praticado durante o repouso noturno não exige, para a sua incidência, a realização de furto em local habitado. Não há, portanto, vinculação à realização de furtos em locais habitados para a incidência da majorante.
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Crimes Contra o Patrimônio
FURTO
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QUESTÃO: há possibilidade de convívio do furto cometido durante o repouso noturno com a hipótese qualificada?
STJ decidiu pela impossibilidade do repouso noturno referente ao § 1° com a forma qualificada. Entre várias decisões, a conclusão se deu no tema repetitivo 1087.
Tema Repetitivo: 1087
Inaplicabilidade da causa de aumento do furto noturno à forma qualificada do delito. Julgamento de recursos especiais repetitivos (Tema 1.087), a Terceira Seção do Supe-Tribunal de Justiça (STJ) estabeleceu que a causa de aumento de pena pela prática furto no período noturno (artigo 155, parágrafo 1°, do Código Penal) não incide na ma qualificada do crime (artigo 155, parágrafo 4°, do CP). Com a fixação da tese - que arca uma mudança de posicionamento jurisprudencial do STJ -, os tribunais de todo o país poderão aplicar o precedente qualificado em casos semelhantes."
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Crimes Contra o Patrimônio
FURTO
1
QUESTÃO: há necessidade de habitação no local onde ocorreu a subtração para a incidência da causa de aumento de pena do furto cometido durante o repouso noturno?
Não, conforme tem decidido o STJ:
IV - A jurisprudência desta Corte é firme no sentido de que a causa especial de aumento de pena do furto cometido durante o repouso noturno pode se configu- rar mesmo quando o crime é cometido em estabelecimento comercial ou residência desabitada, sendo indiferente o fato de a vítima estar, ou não, efetivamente repousando (HC 191.300/MG, Rel. Ministra LAURITA VAZ, Quinta Turma, julgado em 12/6/2012, DJe 26/6/2012)
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Crimes Contra o Patrimônio
FURTO
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FURTO PRIVILEGIADO
O furto privilegiado, ainda denominado de furto de pequeno valor, possui previsão no §2º do art.155. Aplica-se ao agente primário em caso de pequeno valor da coisa furtada. Cuida-se de direito subjetivo do réu, quando preenchidos os requisitos legais (STJ HC 396785/SC). A primariedade exige a ausência de condenação transitada em julgado. De outro modo, para Rogério Greco, exige ausência de reincidência, não se afastando a primariedade com condenação transitada em julgada que só sirva para configurar maus antecedentes (GRECO, v.2, 15ª ed, 2018, p.582).
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Crimes Contra o Patrimônio
FURTO
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FURTO PRIVILEGIADO
O pequeno valor, segundo a doutrina, não pode ultrapassar um salário mínimo, conquanto não seja um critério absoluto. O pequeno valor, segundo Rogério Greco, é aquele que gira em torno de um salário mínimo (GRECO, v.2, 15ª ed, 2018, p.583). Há discussões sobre a necessidade de analisar a importância do valor para a vítima do caso concreto, quando da valoração do sentido da expressão “pequeno valor”.
Há quem entenda que a expressão constante no texto legal do furto privilegiado– pequeno valor– deve ser analisada de maneira objetiva, se refere apenas à coisa furtada, sem verificar a importância do valor para a vítima. Isso porque o legislador não usou a expressão “pequeno prejuízo”, como o fez na construção do estelionato privilegiado (art.171 §1º), quando a expressão remete à relação entre o valor da coisa e a sua importância para a vítima do caso concreto.
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Crimes Contra o Patrimônio
FURTO
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FURTO PRIVILEGIADO
São três as consequências alternativas em caso de reconhecimento do privilégio, segundo o mencionado §2º, quais sejam: “o juiz pode:
 substituir a pena de reclusão pela de detenção, 
diminuí-la de um a dois terços, ou 
aplicar somente a pena de multa”. 
A redução da pena leva em conta o valor do bem subtraído, segundo tem decidido o STJ:
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Crimes Contra o Patrimônio
FURTO
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FURTO PRIVILEGIADO
São três as consequências alternativas em caso de reconhecimento do privilégio, segundo o mencionado §2º, quais sejam: “o juiz pode:
 substituir a pena de reclusão pela de detenção, 
diminuí-la de um a dois terços, ou 
aplicar somente a pena de multa”. 
A redução da pena leva em conta o valor do bem subtraído, segundo tem decidido o STJ:
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Crimes Contra o Patrimônio
FURTO
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FURTO PRIVILEGIADO
O privilégio do furto pode conviver com a forma simples, com a majorada do repouso noturno e com a hipótese qualificada. No último caso, a qualificadora não pode ser subjetiva. Exemplo: o furto não pode ser privilegiado e qualificado pelo abuso de confiança. O abuso de confiança, qualificadora subjetiva do crime de furto, não convive com o privilégio. O privilégio do crime de furto pode conviver com qualificadora objetiva, não convive com qualificadora subjetiva.
Súmula 511: É possível o reconhecimento do privilégioprevisto no § 2º do art. 155 do CP nos casos de crime de furto qualificado, se estiverem presentes a primariedade do agente, o pequeno valor da coisa e a qualificadora for de ordem objetiva.
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Crimes Contra o Patrimônio
FURTO
1
FURTO PRIVILEGIADO
ATENÇÃO: Em várias decisões, o STJ tem afirmado o seu entendimento, com a inclusão da fraude, em algumas decisões, como circunstância subjetiva ao lado do abuso de confiança.
Vale ainda acrescentar que o furto de pequeno valor (privilegiado) não se confunde com o furto insignificante. O primeiro constitui uma modalidade especial do furto, com pena mais branda em razão da primariedade do agente e do pequeno valor da coisa. O segundo cuida de hipótese de fato atípico em razão da insignificância que elimina a tipicidade material da conduta.
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Crimes Contra o Patrimônio
FURTO
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FURTO DE ENERGIA
No §3º do CP, o legislador brasileiro anota que “equipara-se à coisa móvel a energia elétrica ou qualquer outra que tenha valor econômico”.
Vale destacar que o STJ já decidiu que o pagamento, antes do recebimento da denúncia, do prejuízo que fora resultado do furto de energia elétrica não extingue a punibilidade, por- quanto não se compara com tributos submetidos ao modelo do programa do REFIS tributário.
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Crimes Contra o Patrimônio
FURTO
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FURTO DE SINAL DE Tv A CABO
QUESTÃO: Configura crime de furto a subtração de sinal de TV a cabo ou de internet? 
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Crimes Contra o Patrimônio
FURTO
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FURTO DE SINAL DE Tv A CABO
QUESTÃO: Configura crime de furto a subtração de sinal de TV a cabo ou de internet? 
Sobre o tema, a jurisprudência tem decidido da seguinte forma: julgado antigo do STF considerou a hipótese como fato atípico. Julgados divergentes do STJ admitiram a tipicidade e a atipicidade da conduta no furto do155, § 3º, mas admitiram a tipicidade da conduta vender aparelhos de debloqueio de sinal no art. 183, parágrafo único, da Lei n.º 9.472/1997, bem como a conduta de transmitir o sinal sem autorização, ou seja, transmissão irregular de programação televisiva.
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Crimes Contra o Patrimônio
FURTO
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FURTO QUALIFICADO
 
As qualificadoras do furto implicam formas especiais de cometimento do delito, que se agregam à figura do caput, se revestem de especial gravidade, de modo a merecer uma sanção maior do que a prevista para forma básica.
As qualificadoras do furto são figuras acidentais ao delito, não constituem elementares, portanto devem ser interpretadas, no caso de concurso de eventual concurso de pessoas, com as ressalvas do art. 30 do CP. 
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Crimes Contra o Patrimônio
FURTO
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FURTO QUALIFICADO
 § 4º - A pena é de reclusão de dois a oito anos, e multa, se o crime é cometido:
– com destruição ou rompimento de obstáculo à subtração da coisa;
– com abuso de confiança, ou mediante fraude, escalada ou destreza;
– com emprego de chave falsa;
– mediante concurso de duas ou mais pessoas.
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Crimes Contra o Patrimônio
FURTO
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FURTO QUALIFICADO
 § 4º - A pena é de reclusão de dois a oito anos, e multa, se o crime é cometido:
– com destruição ou rompimento de obstáculo à subtração da coisa;
– com abuso de confiança, ou mediante fraude, escalada ou destreza;
– com emprego de chave falsa;
– mediante concurso de duas ou mais pessoas.
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Crimes Contra o Patrimônio
FURTO
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FURTO QUALIFICADO
Destaca-se que a jurisprudência aceita a incidência do princípio da insignificância no crime de furto, conforme a análise concreta dos requisitos objetivos e subjetivos. 
Nas últimas decisões, sem afirmar que se trata de uma posição absoluta, o STJ tem negado a incidência do princípio da insignificância em condutas de furto qualificado ou no caso de habitualidade. 
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Crimes Contra o Patrimônio
FURTO
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FURTO QUALIFICADO
Destaca-se que a jurisprudência aceita a incidência do princípio da insignificância no crime de furto, conforme a análise concreta dos requisitos objetivos e subjetivos. 
Nas últimas decisões, sem afirmar que se trata de uma posição absoluta, o STJ tem negado a incidência do princípio da insignificância em condutas de furto qualificado ou no caso de habitualidade. 
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Crimes Contra o Patrimônio
FURTO
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FURTO QUALIFICADO
JURISPRUDÊNCIA DO STJ:A aplicação do princípio da insignificância, segundo a orientação do Supremo Tribunal Federal, demanda a verificação da lesividade mínima da conduta, apta a torná-la atípica, considerando-se: a) a mínima ofensividade da conduta do agente; b) a inexistência de periculosidade social na ação; c) o reduzido grau de reprovabilidade do comportamento; e d) a inexpressividade da lesão jurídica provocada. O Direito Penal não deve ocupar-se de condutas que, diante do desvalor do resultado produzido, não representem prejuízo relevante para o titular do bem jurídico tutelado ou para a integridade da própria ordem social.
Inviável a aplicação do princípio da insignificância quando constatada a habituali- dade criminosa do réu, representada na apuração de diversos crimes patrimoniais por ele cometidos, pois fica evidenciada a reprovabilidade do comportamento.
A prática de furto qualificado por escalada, arrombamento ou rompimento de obstá- culo, em concurso de pessoas e durante o repouso noturno, indica a especial reprova- bilidade da conduta, razão suficiente para afastar a aplicação do princípio da insignificância.
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Crimes Contra o Patrimônio
FURTO
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FURTO QUALIFICADO
JURISPRUDÊNCIA DO STJ:A aplicação do princípio da insignificância, segundo a orientação do Supremo Tribunal Federal, demanda a verificação da lesividade mínima da conduta, apta a torná-la atípica, considerando-se: a) a mínima ofensividade da conduta do agente; b) a inexistência de periculosidade social na ação; c) o reduzido grau de reprovabilidade do comportamento; e d) a inexpressividade da lesão jurídica provocada. O Direito Penal não deve ocupar-se de condutas que, diante do desvalor do resultado produzido, não representem prejuízo relevante para o titular do bem jurídico tutelado ou para a integridade da própria ordem social.
Inviável a aplicação do princípio da insignificância quando constatada a habituali- dade criminosa do réu, representada na apuração de diversos crimes patrimoniais por ele cometidos, pois fica evidenciada a reprovabilidade do comportamento.
A prática de furto qualificado por escalada, arrombamento ou rompimento de obstá- culo, em concurso de pessoas e durante o repouso noturno, indica a especial reprova- bilidade da conduta, razão suficiente para afastar a aplicação do princípio da insignificância.
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Crimes Contra o Patrimônio
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FURTO QUALIFICADO
O §4º, inciso I, narra o furto qualificado “com destruição ou rompimento de obstáculo à subtração da coisa”
O STJ, conquanto não seja um entendimento razoável, possui posição no sentido de que a subtração do veículo automotor, precedida da quebra da janela do veículo para abrir a porta, não caracteriza crime de furto qualificado por rompimento de obstáculo, uma vez que a janela é inerente ao veículo, não constitui um obstáculo externo. Todavia, se o agente quebra a janela do veículo automotor para subtrair um aparelho de som ou uma bolsa que se encontra dentro do automóvel, a qualificadora do inciso I do § 4º se faz presente.
Com relação ao exame pericial no caso de furto cometido com rompimento de obstáculos, assim tem decidido o STJ:
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Crimes Contra o Patrimônio
FURTO
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FURTO QUALIFICADO
JURISPRUDÊNCIA DO STJ:
Para o Superior Tribunal de Justiça, a qualificadora da destruição ou rom- pimento de obstáculo só pode ser aplicada ao crime de furto mediante realização de exame pericial tendo em vista que, por ser infração que deixa vestígio, é imprescindível a realização de exame de corpo de delito direto, por expressa imposição legal. A substituição do laudo pericial por outros meios de prova apenas pode ocorrer se o delito não deixar vestígios, se esses tiverem desparecido ou, ainda, se as circunstâncias do crime não permitirem a confecçãodo laudo, o que não foi demonstrado no presente caso. AgRg no HC n. 245.635/MT, Ministro Nefi Cordeiro, Sexta Turma, DJe 9/2/2017
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Crimes Contra o Patrimônio
FURTO
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FURTO QUALIFICADO
JURISPRUDÊNCIA DO STJ:
STJ [...] 2. A jurisprudência firmada por esta Corte Superior de Justiça, que considera imprescindível a realização de exame de corpo de delito para a caracterização da qualificadora do rompimento de obstáculo, admitindo a prova indireta somente nas situações em que não mais subsistam vestígios ou quando outra circunstância impedir a realização do exame pericial. [...] (HC 540.317/SP, Rel. Ministro REYNALDO SOARES DA FON- SECA, QUINTA TURMA, julgado em 05/03/2020, DJe 23/03/2020).
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Crimes Contra o Patrimônio
FURTO
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FURTO QUALIFICADO
O §4º, inciso II, narra o furto qualificado “com abuso de confiança, ou mediante fraude, escalada ou destreza”. A primeira, abuso de confiança, trata-se de uma circunstância subjetiva, baseada nas relações antecedentes de confiança entre a vítima e o agente, de modo que a vítima confia no agente e não se preocupa com a vigilância de seus objetos, de modo a deixar coisas ao fácil alcance do agente. Exemplos: casos do empregado doméstico, ou de quem se vale de relação de hospitalidade, de coabitação (HUNGRIA, v.VII, 1958).
Já decidiu o STJ no sentido de recusar a incidência do princípio da insignificância no crime de furto cometido com abuso de confiança:
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Crimes Contra o Patrimônio
FURTO
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FURTO QUALIFICADO
JURISPRUDÊNCIA DO STJ:
Ademais, o crime de furto tentado foi qualificado pelo abuso de confiança, pois o Agravante trabalhava no supermercado de onde tentou subtrair as duas peças de picanha. Nesse contexto, consoante orientação desta Corte Superior, a incidência da respectiva qualificadora denota a maior reprovabilidade da conduta e inviabiliza a aplicação do princípio da insignificância. Hipótese de paciente condenado pelo crime de furto qualificado pelo abuso de confiança, não estando configurados, concretamente, os requisitos necessários ao reconhecimento da irrelevância material da conduta.” (STF, HC 175945 AgR, Rel. Min. ROBERTO BARROSO, Primeira Turma, DJe 14/05/2020; sem grifos no original). 
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Crimes Contra o Patrimônio
FURTO
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QUESTÃO: qual é a diferença entre o furto cometido com abuso de confiança e o estelionato?
Sobre o tema, já decidiu o STJ:
No furto mediante abuso de confiança, tem-se o bem subtraído por desatenção, uma vez que o agente, de forma fraudulenta, burla a vigilância da vítima para furtá-la. Já no estelionato, a fraude é usada como meio para obter o consentimento da vítima que, iludida, entrega voluntariamente o bem ao agente. 3. Hipótese em que a paciente se valeu da condição de enfermeira doméstica para, mediante abuso de confiança, furtar talões de cheques e utilizá-los de forma fraudulenta, restando caracterizado o crime previsto no art. 155, § 4º, II, do Código Penal. 4. Habeas corpus não conhecido. (HC 305.864/SC, Rel. Ministro GURGEL DE FARIA, QUINTA TURMA, julgado em 05/02/2015, DJe 12/02/2015).
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FURTO
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No que diz respeito à fraude como hipótese que qualifica o furto, a sua presença ocorre quando o agente a utiliza para afastar a vigilância da vítima. A fraude no furto é uma circunstância acidental, “é o emprego de meios ardilosos ou insidiosos para burlar a vigilância do lesado” (HUNGRIA, v.VII, 1958, p.43). É distinta da fraude no crime de estelionato, no qual a fraude constitui uma circunstância essencial, elementar do crime, para enganar a vítima e obter o seu consentimento viciado.
Para o STJ, configura furto mediante fraude a subtração de valores bancários mediante transferência ou saque sem autorização do correntista. Do mesmo modo, configura furto mediante fraude o uso de cartão clonado para subtrair valores bancários da conta da vítima.
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Crimes Contra o Patrimônio
FURTO
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O entendimento firmado pela Terceira Seção desta Corte Superior é no sen- tido de que a realização de saques indevidos na conta corrente da vítima, sem o seu consentimento, seja por meio de clonagem de cartão e/ou senha, seja por meio de furto do cartão, seja via internet, configuram o delito de furto mediante fraude. Precedentes. [...] (AgRg no AREsp 829.276/RJ, Rel. Ministro NEFI CORDEIRO, SEXTA TURMA, julgado em 17/10/2017, DJe 23/10/2017)”
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Crimes Contra o Patrimônio
FURTO
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É importante ressaltar a alteração legislativa promovida pela Lei 14.155/2021, que, entre outras modificações, introduziu o § 4º-B e o § 4º-C no art.155 do CP, para tratar de maneira mais gravosa, ou seja, com causas de aumento de pena do furto cometido mediante fraude por meio de dispositivo eletrônico ou informático, conectado ou não à rede de computadores, com ou sem a violação de mecanismo de segurança ou a utilização de programa malicioso, ou por qualquer outro meio fraudulento análogo.
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Crimes Contra o Patrimônio
FURTO
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QUESTÃO a conduta do agente que faz uso de cartão bancário ou de senha por meio de um computador para retirar valores da conta da vítima caracteriza furto mediante fraude ou estelionato (fraude eletrônica)?
Conforme decisões do STJ, vistas anteriormente, a conduta de retirar valores bancários da conta da vítima, sem o seu consentimento, mediante uso de cartão bancário, de cartão clonado, de senhas inseridas via internet, configuram furto mediante fraude (AgRg no AREsp 829.276/ RJ, Rel. Ministro NEFI CORDEIRO, SEXTA TURMA, julgado em 17/10/2017, DJe 23/10/2017).
 Todavia, diante dos novos dispositivos, quais sejam: § 4º-B e § 2º-A do art.171, quando se tratar de obtenção de dados bancários mediante o engano da vítima (ou de terceiro), para consequente uso no saque de valores de sua conta bancária, configurará o crime de estelionato. 
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Crimes Contra o Patrimônio
FURTO
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No que se refere à escalada como hipótese que qualifica o furto. A escalada possui o sen- tido literal de ação que leva ao topo, ao cume. Constitui ainda um esporte no qual o atleta usa braços e pernas para subir em blocos montanhas, paredões de rocha, geleiras. No contexto do furto, a doutrina costuma dar um sentido amplo ao termo escalada, o qual é empregado até para ingressos via túnel de esgoto.
No que concerne à destreza como hipótese que qualifica o furto, caracterizada pela habilidade de subtrair objeto da vítima sem lhe despertar a atenção.
Se a vítima percebe a subtração no momento no qual o agente executava o crime, não há se falar em destreza. O mesmo ocorre se um terceiro percebe o ato de subtrair. No entanto, há quem entenda que tais hipóteses devem ser examinadas em concreto, pois pode se tratar de um simples acidente na execução e não de um erro grosseiro. Nesse sentido, Hungria (1958, v.VII).
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Crimes Contra o Patrimônio
FURTO
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QUESTÃO: a subtração com arrebatamento de inopino não caracteriza destreza, mas sim audácia do agente. Nessa hipótese, há furto ou roubo?
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FURTO
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QUESTÃO: a subtração com arrebatamento de inopino não caracteriza destreza, mas sim audácia do agente. Nessa hipótese, há furto ou roubo?
. Para Hungria (1958, v.VII, p.45), no caso de arrebatamento de inopino não há destreza.
 
[...] pois em tal caso não há destreza, mas audácia, podendo apresentar-se, ou o furto qualificado pela violência (se há vis in rem furatam, como por exemplo, se, para o arrebatamento de uma bolsa, teve de ser rompida a respectiva alça), ou roubo (se há vis in personam, isto é, se resulta algum dano à integridade física do lesado: ao ser arrancado o anel, é ferido o dedo a que estava ajustado), ou furto simples (se não ocorre qualquer das referidas circunstâncias).
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FURTO
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O §4º, inciso III, narra o furto qualificado “emprego de chave falsa”. A chave falsa, para efeito da qualificadora do furto, possui o sentido de qualquer outro instrumento, ainda que sem a forma de chave, mas apto a abrir fechadura ou imprimir funcionamento em aparelhose máquinas. 
Com relação à perícia, vale a interpretação conjunta dos arts.158 e 167 do CPP, dada pela jurisprudência, qual seja, se o fato deixou vestígios, faz-se o exame pericial, caso contrário, a prova suplementar testemunhal pode suprir a falta do exame.
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Crimes Contra o Patrimônio
FURTO
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QUESTÃO: a chave verdadeira que fora subtraída da vítima ou que a vítima perdeu e foi usada pelo agente para realizar a subtração caracteriza emprego de chave falsa?
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Crimes Contra o Patrimônio
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QUESTÃO: a chave verdadeira que fora subtraída da vítima ou que a vítima perdeu e foi usada pelo agente para realizar a subtração caracteriza emprego de chave falsa?
O conceito de chave falsa abrange qualquer instrumento empregado para abrir fechaduras em geral. A chave do próprio agente, quando ilicitamente utilizada, também qualifica o crime de furto. Ordem indeferida.(HC 95014, Relator(a): Min. EROS GRAU, Segunda Turma, julgado em 07/10/2008, DJe-241 DIVULG 18-12-2008 PUBLIC 19-12- 2008 EMENT VOL-02346-07 PP-01483 RT v. 98, n.882, 2009, p. 518-521
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FURTO
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O §4º, inciso IV, exara o furto qualificado cometido “mediante concurso de duas ou mais pessoas”. Trata-se de um concurso eventual de pessoas que abrange tanto a coautoria quanto à participação. Não há necessidade de que todos estejam no local do crime, no momento da subtração, nem que todos pratiquem atividade executória.
Esse concurso de pessoas pode envolver um imputável e um inimputável. Nesse caso, o imputável responderá pelo furto qualificado pelo concurso de pessoas em concurso formal próprio com o crime de corrupção de menores previsto no art.244B da lei 8069/90 (ECA).
É possível coexistir o furto qualificado pelo concurso de pessoas em concurso material com o crime de associação criminosa. Não há se falar em bis in idem como sustenta determinado setor da doutrina. Os bens jurídicos são distintos e os momentos consumativos não se confundem.
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Crimes Contra o Patrimônio
FURTO
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Importa ainda salientar que o concurso de pessoas, no crime de furto, constitui qualificadora, enquanto no crime de roubo o concurso de pessoas figura como causa de aumento de pena. no furto, a consequência da qualificadora é maior em percentual de pena do que a previsão constante para a causa de aumento do roubo. 
Isso não fere a proporcionalidade conforme entendimento sumulado do STJ no enunciado de número 442: “É inadmissível aplicar, no furto qualificado, pelo concurso de agentes, a majorante do roubo”.
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O §4º, inciso IV, exara o furto qualificado cometido “mediante concurso de duas ou mais pessoas”. Trata-se de um concurso eventual de pessoas que abrange tanto a coautoria quanto à participação. Não há necessidade de que todos estejam no local do crime, no momento da subtração, nem que todos pratiquem atividade executória.
Esse concurso de pessoas pode envolver um imputável e um inimputável. Nesse caso, o imputável responderá pelo furto qualificado pelo concurso de pessoas em concurso formal próprio com o crime de corrupção de menores previsto no art.244B da lei 8069/90 (ECA).
É possível coexistir o furto qualificado pelo concurso de pessoas em concurso material com o crime de associação criminosa. Não há se falar em bis in idem como sustenta determinado setor da doutrina. Os bens jurídicos são distintos e os momentos consumativos não se confundem.
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Crimes Contra o Patrimônio
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O §5º do art.155 narra “A pena é de reclusão de três a oito anos, se a subtração for de veículo automotor que venha a ser transportado para outro Estado ou para o exterior”. (Quando tratarmos de roubo analisaremos essa questão).
Quanto ao § 6º do art.155, observa-se que o furto será qualificado, com pena de reclusão de dois a cinco anos, se a subtração for de semovente domesticável de produção, ainda que abatido ou dividido em partes no local da subtração
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Crimes Contra o Patrimônio
FURTO
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QUESTÃO: como deve proceder o julgador na dosimetria da pena, diante de mais de uma circunstância qualificadora no crime de furto?
Segundo o STJ: Nos termos da orientação jurisprudencial desta Corte, havendo pluralidade de qualificadoras, uma delas pode ser utilizada para reconhecimento do crime qualificado e as demais, como agravantes genéricas, se legalmente previstas ou como circunstância judicial desfavorável, na primeira etapa. Precedentes(AgRg no REsp 1920453/SP, Rel. Ministro OLINDO MENEZES (DESEMBAR- GADOR CONVOCADO DO TRF 1ª REGIÃO), SEXTA TURMA, julgado em 11/05/2021, DJe 17/05/2021). STJ [...] 1. De acordo com o entendimento consolidado desta Corte Superior, existindo pluralidade de qualificadoras, uma pode ser utilizada para qualificar o delito e a outra para exasperar a pena-base. 2. Mantida a pena de 6 anos de reclusão fixada pelas instâncias ordinárias, resta inviabilizada a pretensão defensiva de fixação do regime inicial aberto, e de substituição da pena corporal por restritiva de direitos, nos termos do art. 33, § 2º, alí- neas ‘b’ e ‘c’ do Código Penal. 3. Agravo regimental improvido. (AgRg no HC 543.343/SP, Rel. Ministro NEFI CORDEIRO, SEXTA TURMA, julgado em 03/03/2020, DJe 09/03/2020) 
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Crimes Contra o Patrimônio
FURTO
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FURTO DE COISA COMUM
O furto de coisa comum possui previsão no art.156 do CP com a seguinte redação:
 
Art. 156 - Subtrair o condômino, co-herdeiro ou sócio, para si ou para outrem, a quem legitimamente a detém, a coisa comum: Pena - detenção, de seis meses a dois anos, ou multa. § 1º - Somente se procede mediante representação. § 2º - Não é punível a subtração de coisa comum fungível, cujo valor não excede a quota a que tem direito o agente.
 No furto de coisa comum, o fundamento da punição reside no fato de que o agente não reti- ra apenas a sua parte, mas subtrai do bem comum uma parte que não lhe pertence. Cuida-se de crime próprio, uma vez que o sujeito ativo somente pode ser o condômino, coerdeiro ou sócio.
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ROUBO
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Possui descrição legal no art.157 do CP:
 
Art. 157 - Subtrair coisa móvel alheia, para si ou para outrem, mediante grave ameaça ou violência a pessoa, ou depois de havê-la, por qualquer meio, reduzido à impossibilidade de resistência:
Pena – reclusão, de quatro a dez anos, e multa.
§ 1º - Na mesma pena incorre quem, logo depois de subtraída a coisa, emprega violência contra pessoa ou grave ameaça, a fim de assegurar a impunidade do crime ou a detenção da coisa para si ou para terceiro.
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Crimes Contra o Patrimônio
ROUBO
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Possui descrição legal no art.157 do CP:
 
§ 2º A pena aumenta-se de 1/3 (um terço) até metade:
– (revogado)
– se há o concurso de duas ou mais pessoas;
– se a vítima está em serviço de transporte de valores e o agente conhece tal circunstância.
– se a subtração for de veículo automotor que venha a ser transportado para outro Estado ou para o exterior;
– se o agente mantém a vítima em seu poder, restringindo sua liberdade.
– se a subtração for de substâncias explosivas ou de acessórios que, conjunta ou isoladamente,
possibilitem sua fabricação, montagem ou emprego.
– se a violência ou grave ameaça é exercida com emprego de arma branca
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Crimes Contra o Patrimônio
ROUBO
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Possui descrição legal no art.157 do CP:
 
§ 2º-A A pena aumenta-se de 2/3 (dois terços
– se a violência ou ameaça é exercida com emprego de arma de fogo;
– se há destruição ou rompimento de obstáculo mediante o emprego de explosivo ou de artefato análogo que cause perigo comum.
§ 2º-B. Se a violência ou grave ameaça é exercida com emprego de arma de fogo de uso restrito ou proibido, aplica-se em dobro a pena prevista no caput deste artigo.
§ 3º Se da violência resulta
– lesão corporal grave, a pena é de reclusão de 7 (sete) a 18 (dezoito) anos, e multa;
– morte, a pena é de reclusão de 20 (vinte) a 30 (trinta) anos, e multa.
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ROUBO
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CONTEÚDO DOGMÁTICO DO CRIME DE ROUBO
O roubo é um crime complexo,ou seja, pluriofensivo que pode atingir vários bens jurídicos: patrimônio; liberdade individual; incolumidade física. E pode atingir até a vida na hipótese qualificada pela morte, ou seja, no caso de latrocínio.
Cuida-se de crime material que se consuma com o resultado naturalístico nos termos da já apresentada súmula 582 do STJ. O roubo pode ser classificado em: próprio; impróprio; majorado; qualificado.
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Crimes Contra o Patrimônio
ROUBO
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 CONTEÚDO DOGMÁTICO DO CRIME DE ROUBO
O roubo próprio está narrado no caput do art.157 do CP, o qual pode ser cometido com violência própria (vis absoluta–violência física), grave ameaça (vis relativa) e violência imprópria (outra forma que reduz a capacidade de resistência da vítima). A violência, a grave ameaça ou a violência imprópria são empregadas antes e/ou durante a subtração.
O roubo impróprio possui previsão no § 1º do art.157 do CP, o qual pode ser cometido com violência própria (vis absoluta–violência física) ou com grave ameaça (vis relativa). Não pode ser cometido com violência imprópria. Nessa modalidade, o agente, após furtar a coisa, no mesmo contexto fático, emprega violência contra pessoa ou grave ameaça, a fim de assegurar a impunidade do crime ou a detenção da coisa para si ou para terceiro.
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Crimes Contra o Patrimônio
ROUBO
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 CONTEÚDO DOGMÁTICO DO CRIME DE ROUBO
Parece que a adoção da teoria da amotio para resolver o problema de consumação do furto e do roubo (súmula 582 do STJ) impede a figura do roubo impróprio tentado, uma vez que, no referido crime, o agente remove a coisa da esfera de disponibilidade da vítima, consumando o furto, e, em seguida, usa violência ou grave ameaça para garantir a detenção da coisa ou a impunidade.
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ROUBO
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 CONTEÚDO DOGMÁTICO DO CRIME DE ROUBO
Parece que a adoção da teoria da amotio para resolver o problema de consumação do furto e do roubo (súmula 582 do STJ) impede a figura do roubo impróprio tentado, uma vez que, no referido crime, o agente remove a coisa da esfera de disponibilidade da vítima, consumando o furto, e, em seguida, usa violência ou grave ameaça para garantir a detenção da coisa ou a impunidade. O roubo majorado possui previsão nos § 2º, § 2ºA e § 2ºB do art.157 do CP e, em regra, convive com as formas básicas do caput ou do caput ou do § 1º, por sua vez.
 O § 2º estabelece aumento da pena de 1/3 a 1/2, ou seja, incidência de causa de aumento de pena na terceira fase da dosimetria da pena.
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ROUBO
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 CONTEÚDO DOGMÁTICO DO CRIME DE ROUBO
No inciso II, há a majorante do concurso de duas ou mais pessoas. Trata-se de um concurso eventual de pessoas que abrange tanto a coautoria quanto à participação. Não há necessidade de que todos estejam no local do crime, no momento da subtração, nem que todos pratiquem atividade executória.
Esse concurso de pessoas pode envolver um imputável e um inimputável. Nesse caso, o imputável responderá pelo roubo majorado/circunstanciado pelo concurso de pessoas em concurso formal próprio com o crime de corrupção de menores previsto no art.244B da lei 8069/90 (ECA).
É possível coexistir o roubo majorado/circunstanciado pelo concurso de pessoas em con- curso material com o crime de associação criminosa.
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No inciso III, o legislador narrou a seguinte majorante: se a vítima está em serviço de transporte de valores e o agente conhece tal circunstância. O elemento subjetivo constitui destaque aqui, qual seja, o agente deve saber, no momento da subtração, que a vítima transporta valores. 
No inciso IV, se a subtração for de veículo automotor que venha a ser transportado para outro Estado ou para o exterior. Essa causa de aumento de pena, fruto de alteração de 1996, quando o furto e roubo de veículos que eram transportados para outros estados e para o exte- rior foi objeto de preocupação do legislador, bem como desmanche de veículos com recepta- ção (receptação qualificada do § 1º do art.180 do CP) e a adulteração de sinal identificador de veículo automotor (art.311 do CP), conforme alterações advindas da Lei 9426/96.
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Crimes Contra o Patrimônio
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A circunstância do inciso IV atrai discussão quanto à possibilidade de convivência com a tentativa, ou seja, QUESTÃO: o roubo tentado e majorado pelo § 1º inciso IV é possível? 
Sobre o tema, a doutrina aponta as seguintes hipóteses:
Para Nucci (2019, p.1018-1019), não há possibilidade de tentativa:
 
A expressão venha a ser transportado acabou configurando um delito material, ou seja, exige-se o resultado naturalístico previsto no tipo penal, sendo necessário que o veículo automotor efetivamen- te seja levado para outro Estado da Federação ou ainda a outro país. Se ficar na mesma unidade federativa, não há a incidência da qualificadora. Portanto, cremos não haver tentativa de roubo com essa causa de aumento se o assaltante está conduzindo o veículo para outro Estado ou país e é surpreendido pela polícia. O veículo que efetivamente vai para outro Estado ou país torna o delito mais grave, pois dificulta sobremaneira a recuperação do bem pela vítima.
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QUESTÃO importante: se o carro foi subtraído no DF é transportado para o Estado de Goiás, pode se falar em causa de aumento de pena, considerando a ausência de previsão expressa do Distrito Federal no inciso IV § 2º do art.157?
Nesse sentido, decidiu o STJ:
A subtração de veículo automotor no Distrito Federal, seguida do transporte à região contígua, no estado de Goiás, atrai a incidência da causa de aumento do art. 157, § 2º, inciso IV, do Código Penal. 4. Recurso especial improvido. (REsp 1855785/DF, Rel. Ministro NEFI CORDEIRO, SEXTA TURMA, jul- gado em 02/06/2020, DJe 08/06/2020)”.
O caso anterior se ajusta perfeitamente à hipótese de interpretação extensiva da norma penal, quando a lei disse menos do que queria, não se cuida de analogia. Por isso, ao se tratar de interpretação extensiva, não há de se perquirir se é benéfica ou maléfica, apenas se é cabível tecnicamente.
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A circunstância do inciso V (se o agente mantém a vítima em seu poder, restringindo sua liberdade) é muito relevante, porquanto se faz presente em várias hipóteses fáticas do dia a dia da prática forense. Esse tempo de permanência da vítima com o autor pode ser pequeno, exemplo: agente ingressa em uma mercearia, abaixa a porta principal e, durante 10 minutos, submete o proprietário à ameaça de arma de fogo, enquanto o seu comparsa subtrai vários bens do estabelecimento comercial. Em seguida, ambos fogem do local em uma motocicleta”.
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Crimes Contra o Patrimônio
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Essa hipótese do inciso IV pode conviver em eventual concurso material de crimes entre roubo e extorsão, de modo que não há se falar de bis in idem quando as restrições da liber- dade para cada delito são distintas nos contextos fáticos sob exame.
Exemplo: Caio e João ingressam na casa das vítimas José e Maria e, mediante emprego de arma de fogo, ameaçam as vítimas e subtraem vários bens de valor econômico. Enquanto Caio apontava arma para as vítimas, João subtraia os bens menores de maior de valor que estavam na residência. Em de- terminado momento, ao ver um cartão bancário de Maria, João exige que Maria o acompanhe até uma Agência bancária para sacar dinheiro de sua conta com o referido cartão, enquanto Caio permanecia na casa ameaçando José com o emprego de arma de fogo. Ao fim, após o saque bancário, João traz Maria de volta para casa. Maria e José são colocados dentro do banheiro. Caio e João fogem com os bens.
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Crimes Contra o Patrimônio
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Nesse caso, com contextos fáticos distintos, Caio e João vão responder pelo crime de roubo cometido com restrição da liberdade das vítimas e emprego de arma de fogo (art.157 §2º V e §2ºA I), mais ainda o crime de extorsão com restrição da liberdade da vítima como condiçãopara a obtenção da vantagem (art.158 §3º do CP), em concurso material de crimes (art.69 do CP).
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Nesse caso, com contextos fáticos distintos, Caio e João vão responder pelo crime de roubo cometido com restrição da liberdade das vítimas e emprego de arma de fogo (art.157 §2º V e §2ºA I), mais ainda o crime de extorsão com restrição da liberdade da vítima como condição para a obtenção da vantagem (art.158 §3º do CP), em concurso material de crimes (art.69 do CP). Do mesmo modo, haverá concurso material entre roubo e extorsão se, no contexto do roubo, após esse crime, em seguida, ao invés de levar a vítima até a agência, os agentes a obrigasse a fornecer senha e cartão bancário
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JURISPRUDÊNCIA STJ:
É firme o entendimento desta Corte Superior de que ficam configurados os crimes de roubo e extorsão, em concurso material, se o agente, após subtrair bens da vítima, mediante emprego de violência ou grave ameaça, a constrange a entregar o cartão bancário e a respectiva senha, para sacar dinheiro de sua conta corrente (AgRg no AREsp n. 1.557.476/SP, Sexta Turma, Rel. Min. Nefi Cordeiro, DJe de 21/02/2020). 
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Em razão de vários furtos e roubos a bancos, com o uso de explosivos, que aconteciam de forma contínua no país, o legislador alterou inseriu qualificadora no furto e causa de au- mento roubo. No caso do roubo, o inciso VI exara: “se a subtração for de substâncias explosivas ou de acessórios que, conjunta ou isoladamente, possibilitem sua fabricação, montagem ou emprego”.
Por sua vez, o inciso VII, inserido em 2019, com a expressão “se a violência ou grave ameaça é exercida com emprego de arma branca”, retornou a causa de aumento do emprego de arma branca, a qual tempos atrás fazia parte do inciso I, agora revogado, que continha a expressão emprego de arma. O emprego de arma branca abrange, por exemplo, o uso de faca, punhal, facão etc.
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Crimes Contra o Patrimônio
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O § 2º-A traz um aumento maior de pena e patamar fixo de 2/3 quando, no roubo, a violência ou ameaça é exercida com emprego de arma de fogo, ou quando há destruição ou rompimento de obstáculo mediante o emprego de explosivo ou de artefato análogo que cause perigo comum. 
O §2º-B narra que a pena do caput será aplicada em dobro “se a violência ou grave ameaça é exercida com emprego de arma de fogo de uso restrito ou proibido, aplica-se em dobro a pena prevista no caput deste artigo”.
Com relação ao emprego de arma de fogo no roubo, a causa de aumento está condicionada à potencialidade lesiva dessa arma. Não se confunde aqui com a intepretação do perigo abstrato existente nos crimes de porte e de posse de arma de fogo, sem autorização legal, previstos na Lei 10826/2003 (potencialidade lesiva presumida, HC 446.679/RS do STJ). Dito de outro modo, no roubo, há necessidade de potencialidade lesiva da arma de fogo para configurar a causa de aumento prevista no § 2º-A I do art.157 (potencialidade lesiva não presumida). 
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Crimes Contra o Patrimônio
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A demonstração dessa potencialidade lesiva é feita com o exame de eficiência da arma de fogo que se apresenta nos autos do processo via Laudo de Exame de Eficiência da Arma de fogo, ou seja, crime que deixa vestígios exige-se o exame de corpo de delito direto. Não sendo possível o exame direto, faz-se o indireto, nos termos do art.158 do CPP. Não sendo possível nenhum dois, utiliza-se a prova testemunhal suplementar, conforme art.167 do CPP, ou o próprio depoimento da vítima.
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JURISPRUDÊNCIA DO STJ:
A Terceira Seção deste Tribunal Superior, no julgamento do EREsp n. 961.863/ RS, consolidou o entendimento de que a configuração da majorante atinente ao emprego de arma de fogo prescinde de apreensão da arma utilizada no crime e de realização de exame pericial para atestar a sua potencialidade lesiva, quando presentes outros ele- mentos probatórios que atestem o seu efetivo emprego na prática delitiva, tal como na hipótese dos autos, em que o uso do artefato foi evidenciado pela palavra da vítima.[...] (AgRg no REsp 1916225/RJ, Rel. Ministro REYNALDO SOARES DA FONSECA, QUINTA TURMA, julgado em 15/06/2021, DJe 21/06/2021).
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JURISPRUDÊNCIA DO STJ:
Importar ainda alertar que o uso de arma desmuniciada para cometimento de um crime de roubo não configura a causa de aumento de pena, mas somente a grave ameaça do caput do art.157 do CP.
A jurisprudência desta Corte Superior está sedimentada no sentido de que a utilização de arma desmuniciada ou sem potencialidade para realização de disparo, utilizada como meio de intimidação, serve unicamente à caracterização da elementar grave ameaça, não se admitindo o seu reconhecimento como a causa de aumento de pena em questão. 4. Writ não conhecido e, no mais, ordem concedida, de ofício, em parte, apenas para reduzir a pena para 5 anos e 4 meses de reclusão. (HC 445.043/SC, Rel. Ministro JOEL ILAN PACIORNIK, QUINTA TURMA, julgado em 21/02/2019, DJe 06/03/2019)
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No § 3º, há duas modalidades de roubo qualificado, ambas qualificadas pelo resultado, quais sejam: roubo do qual resulta lesão grave na vítima; roubo do qual resulta a morte da vítima. As hipóteses foram descritas de forma restritiva no que concerne à forma de cometimento, de modo que só podem ser cometidas mediante violência, não é possível a existência de tais qualificadoras quando o roubo for cometido com grave ameaça ou com violência imprópria.
O legislador apresentou a seguinte redação para as modalidades de roubo qualificado
 
§ 3º Se da violência resulta
– lesão corporal grave, a pena é de reclusão de 7 (sete) a 18 (dezoito) anos, e multa;
– morte, a pena é de reclusão de 20 (vinte) a 30 (trinta) anos, e multa.
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O ser humano pode figurar como objeto material do crime de roubo quando se trata, por exemplo, de latrocínio ou de roubo com lesão grave. É importante recordar o conceito tradicional de objeto material de crime, qual seja: pessoa ou coisa sobre a qual recai a conduta humana.
No que diz respeito à hipótese apontada no inciso II, denominada de latrocínio, vale re- afirmar que cuida de crime qualificado pelo resultado, isto é, pode ser cometido com dolo + dolo ou com dolo + culpa. O primeiro dolo é sempre o de roubar, de modo que a morte pode ser dolosa ou culposa no contexto do roubo para configurar o latrocínio. Na primeira hipótese, com dolo + dolo é possível a tentativa.
Já decidiu de forma clara o Superior Tribunal de Justiça:
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ROUBO
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O ser humano pode figurar como objeto material do crime de roubo quando se trata, por exemplo, de latrocínio ou de roubo com lesão grave. É importante recordar o conceito tradicional de objeto material de crime, qual seja: pessoa ou coisa sobre a qual recai a conduta humana.
No que diz respeito à hipótese apontada no inciso II, denominada de latrocínio, vale re- afirmar que cuida de crime qualificado pelo resultado, isto é, pode ser cometido com dolo + dolo ou com dolo + culpa. O primeiro dolo é sempre o de roubar, de modo que a morte pode ser dolosa ou culposa no contexto do roubo para configurar o latrocínio. Na primeira hipótese, com dolo + dolo é possível a tentativa.
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Crimes Contra o Patrimônio
ROUBO
2
QUESTÃO: se o agente mata duas pessoas com o objetivo de subtrair o patrimônio de uma delas, há um latrocínio ou dois latrocínios?
Há concurso de crimes com soma das penas. Há decisões antigas do STJ que solucionava com crime único. Todavia, a jurisprudência atual soma as penas, explicando que haverá con- curso formal impróprio se tudo ocorreu no mesmo contexto fático.
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Crimes Contra o Patrimônio
ROUBO
2
QUESTÃO: se o agente mata duas pessoas com o objetivo de subtrair o patrimônio de uma delas, há um latrocínio ou dois latrocínios?Descabe falar em reconhecimento de crime único de latrocínio. Isso porque as instâncias ordinárias adotaram entendimento em consonância com a jurisprudência prevalente neste Superior Tribunal de Justiça, no sentido de que há concurso formal impróprio na prática de latrocínio quando a conduta do agente tenha por escopo mais de um resultado morte, ainda que a subtração recaia sobre os bens de uma única vítima, na medida em que ficam evidenciados desígnios autônomos, atraindo, portanto, o comando legal disposto no art. 70, segunda parte, do Código Penal. [...] (AgRg no HC 531.133/MS, Rel. Ministro RIBEIRO DANTAS, QUINTA TURMA, julgado em 12/11/2019, DJe 25/11/2019).
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Crimes Contra o Patrimônio
ROUBO
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QUESTÃO: se o agente mata duas pessoas com o objetivo de subtrair o patrimônio de uma delas, há um latrocínio ou dois latrocínios?
Descabe falar em reconhecimento de crime único de latrocínio. Isso porque as instâncias ordinárias adotaram entendimento em consonância com a jurisprudência prevalente neste Superior Tribunal de Justiça, no sentido de que há concurso formal impróprio na prática de latrocínio quando a conduta do agente tenha por escopo mais de um resultado morte, ainda que a subtração recaia sobre os bens de uma única vítima, na medida em que ficam evidenciados desígnios autônomos, atraindo, portanto, o comando legal disposto no art. 70, segunda parte, do Código Penal. [...] (AgRg no HC 531.133/MS, Rel. Ministro RIBEIRO DANTAS, QUINTA TURMA, julgado em 12/11/2019, DJe 25/11/2019).
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Crimes Contra o Patrimônio
ROUBO
2
O roubo contra várias vítimas no mesmo contexto fático configura, segundo o STJ, concurso formal próprio de crimes.
JURISPRUDÊNCIA DO STJ:
É assente nesta Corte Superior que o roubo perpetrado contra diversas víti- mas, ainda que ocorra em um único evento, configura o concurso formal e não o crime único, ante a pluralidade de bens jurídicos tutelados ofendidos (HC 430.716/SP, Rel. Ministro REYNALDO SOARES DA FONSECA, QUINTA TURMA, julgado em 19/6/2018, DJe 29/6/2018)”.
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Crimes Contra o Patrimônio
ROUBO
2
O roubo cometido em concurso de pessoas com a participação de menor de idade resultará em responsabilidade penal do imputável por concurso formal próprio entre o roubo majorado pelo concurso de pessoas e o crime do art.244 B do ECA (corrupção de menor), ou seja, na forma do art.70 caput, primeira parte, do CP.
Sobre a presença de duas ou mais causas de aumento no roubo, vale destacar recentes entendimentos do STJ sobre tema em matéria de dosimetria de pena do referido crime. 
Foi dito outrora, com citação da jurisprudência do STJ, que há duas formas de se fazer a dosimetria da pena de um crime de roubo cometido com duas ou mais circunstâncias de aumento presentes no mesmo parágrafo (exemplo: 157 § 2º, II e IV): considerar ambas na terceira fase da dosimetria, com a ressalva de que o número de circunstâncias não implica necessariamente em um amento superior a 1/3 (súmula 443 do STJ); ou considerar somente uma das circunstâncias na 3ª fase da dosimetria, antecipando a outra para a primeira fase, quando da análise do artigo 59 do Código Penal.
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Crimes Contra o Patrimônio
EXTORSÃO
3
Sobre o crime de extorsão, a descrição legal de suas modalidades vai do art.158 ao art.159:
 
Extorsão
Art. 158 - Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, e com o intuito de obter para si ou para outrem indevida vantagem econômica, a fazer, tolerar que se faça ou deixar de fazer alguma coisa:
Pena – reclusão, de quatro a dez anos, e multa.
§ 1º - Se o crime é cometido por duas ou mais pessoas, ou com emprego de arma, aumenta-se a pena de um terço até metade.
§ 2º - Aplica-se à extorsão praticada mediante violência o disposto no § 3º do artigo anterior.
§ 3º Se o crime é cometido mediante a restrição da liberdade da vítima, e essa condição é neces- sária para a obtenção da vantagem econômica, a pena é de reclusão, de 6 (seis) a 12 (doze) anos, além da multa; se resulta lesão corporal grave ou morte, aplicam-se as penas previstas no art. 159,
§§ 2º e 3º, respectivamente Extorsão mediante sequestro
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Crimes Contra o Patrimônio
EXTORSÃO
3
Art. 159 - Sequestrar pessoa com o fim de obter, para si ou para outrem, qualquer vantagem, como
condição ou preço do resgate:
Pena – reclusão, de oito a quinze anos.
§ 1º Se o sequestro dura mais de 24 (vinte e quatro) horas, se o sequestrado é menor de 18 (dezoito) ou maior de 60 (sessenta) anos, ou se o crime é cometido por bando ou quadrilha
Pena – reclusão, de doze a vinte anos.
§ 2º - Se do fato resulta lesão corporal de natureza grave Pena – reclusão, de dezesseis a vinte e quatro anos
§ 3º - Se resulta a morte:
Pena – reclusão, de vinte e quatro a trinta anos
§ 4º - Se o crime é cometido em concurso, o concorrente que o denunciar à autoridade, facilitando a libertação do sequestrado, terá sua pena reduzida de um a dois terços
Extorsão indireta
Art. 160 - Exigir ou receber, como garantia de dívida, abusando da situação de alguém, documento que pode dar causa a procedimento criminal contra a vítima ou contra terceiro:
Pena – reclusão, de um a três anos, e multa.
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Crimes Contra o Patrimônio
EXTORSÃO
3
Quanto à extorsão do art.158 e seus parágrafos e incisos, vale ressaltar que cuida de crime formal, que se consuma com a conduta do agente que preenche as elementares do tipo, sem necessidade de resultado naturalístico consistente na obtenção da indevida vantagem econômica, o qual pode existir para fins de exaurimento do crime. Enfatiza-se, desde logo, que o crime de extorsão admite tentativa se praticado na forma plurissubsistente, a saber, com possibilidade de fracionar os atos da fase executória (exemplo: carta extorsionária que se desvia e não chega à vítima por circunstâncias alheias à vontade do agente). Não se admite tentativa se for praticado na forma unissubsistente, ou seja, sem possibilidade de fracionar os atos da fase executória (exemplo: o agente, de maneira verbal, sob uma ameaça de arma fogo, pratica a conduta contra a vítima exigindo que a vítima faça algo imprescindível para a obtenção da vantagem econômica).
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Crimes Contra o Patrimônio
EXTORSÃO
3
Sobre o momento consumativo da extorsão, apesar da afirmação contida no parágrafo anterior, ainda se observa certas divergências doutrinárias e em julgados. A súmula 96 do STJ exara: “O crime de extorsão consuma-se independentemente da obtenção da vantagem indevida”. No entanto, não esclarece o momento exato da consumação, apenas afasta a necessidade de obtenção da vantagem econômica. Os julgados do STJ apresentam as seguintes soluções sobre a consumação da extorsão do art.158 do CP:
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Crimes Contra o Patrimônio
EXTORSÃO
3
5. O crime de extorsão (art. 158, CP) é formal e consuma-se no momento em que a violência ou a grave ameaça é exercida com o intuito de constranger alguém a fazer ou deixar de fazer alguma coisa.2. A tese apresentada pela Corte de origem está em conformidade com a jurisprudência consolidada nos Tribunais Superiores, no sentido de que a consumação do delito de extorsão ocorre no momento em que há o efetivo constrangimento, independente da obtenção da vantagem. 3. O delito de extorsão é formal, consumando-se no momento em que o agente, mediante violência ou grave ameaça, constrange a vítima com o intuito de obter vantagem econômica indevida. O recebimento da vantagem indevida constitui mero exaurimento do crime. Neste sentido, foi editada a Súmula 96/STJ, segundo a qual “o crime de extorsão consuma-se independentemente da obtenção da vantagem indevida (HC n. 450.314/SP, Ministro Felix Fischer, Quinta Turma, DJe 14/8/2018). 
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Crimes Contra o Patrimônio
EXTORSÃO
3
A extorsão é diferente do roubo. Há várias distinções apontadas pela doutrina penal. A principal delas consiste na imprescindibilidade de atuação da vítima para que o agente obtenha a vantagem no crime de extorsão, o que não ocorre no crime de roubo.
Sobre o tema, a doutrina ainda aponta asseguintes distinções entre roubo e extorsão: Hungria= contrectatio e tradicio; Noronha = mal iminente e mal futuro; Luigi Conti= prescindibilidade ou não do comportamento da vítima; Weber Batista= na extorsão, o mal deve ser futuro e futura a obtenção da vantagem; Rogério Greco= necessidade de colaboração da vítima na extorsão.
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Crimes Contra o Patrimônio
EXTORSÃO
3
A extorsão é diferente do roubo. Há várias distinções apontadas pela doutrina penal. A principal delas consiste na imprescindibilidade de atuação da vítima para que o agente obtenha a vantagem no crime de extorsão, o que não ocorre no crime de roubo.
Sobre o tema, a doutrina ainda aponta as seguintes distinções entre roubo e extorsão: Hungria= contrectatio e tradicio; Noronha = mal iminente e mal futuro; Luigi Conti= prescindibilidade ou não do comportamento da vítima; Weber Batista= na extorsão, o mal deve ser futuro e futura a obtenção da vantagem; Rogério Greco= necessidade de colaboração da vítima na extorsão.
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EXTORSÃO
3
Há duas causas de aumento no § 1º do art.158, quais sejam: “Se o crime é cometido por duas ou mais pessoas, ou com emprego de arma, aumenta-se a pena de um terço até metade”. Aqui vale as observações feitas para o roubo.
Ressalta-se que a eventual presença das duas circunstâncias numa mesma hipótese fática não redunda, de forma automática, em um aumento superior a um terno, conforme lição da súmula 442 do STJ. Há sempre necessidade de fundamentação da decisão judicial na dosime- tria da pena quando da terceira fase para produzir um aumento superior a 1/3, o qual pode-se dar, inclusive, com uma única circunstância, desde que, repita-se, devidamente fundamentada. No § 2º do art.158, o legislador importou a qualificadora do roubo com lesão grave e do roubo com morte, previstas no § 3º, incisos I e II, “Aplica-se à extorsão praticada mediante violência o disposto no § 3º do artigo anterior”. Valem aqui as explicações dadas quando do exame do crime de roubo qualificado.
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Crimes Contra o Patrimônio
EXTORSÃO
3
No § 3º do art.158, o legislador acrescentou uma hipótese de extorsão na qual a restrição da liberdade da vítima é condição necessária para a obtenção da vantagem econômica. Tal modalidade não se confunde com a hipótese do art.159, na qual há privação da liberdade para trocá-la por qualquer vantagem. No § 3º do art.158, a restrição da liberdade não é trocada por vantagem, mas um meio necessário para que a vítima, submetida a violência ou grave ameaça, possa fazer algo para que o agente obtenha a vantagem. É o que ocorre, por exemplo, no caso do sequestro relâmpago, terminologia do cotidiano, quando o agente obriga a vítima a entrar no seu carro e a transporta até um caixa eletrônico para que o ofendido saque dinheiro para entregar ao criminoso.
A parte final do §3º do art.158 faz remissão ao art.159 §§ 2º e 3º nos casos de lesão grave de morte respectivamente. É curial alertar que a Lei 13.964 inseriu o inciso III ao art.1º da Lei 8072/90, de modo a considerar hediondo a “extorsão qualificada pela restrição da liberdade da vítima, ocorrência de lesão corporal ou morte (art. 158, § 3º)”.
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Crimes Contra o Patrimônio
EXTORSÃO
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No § 3º do art.158, o legislador acrescentou uma hipótese de extorsão na qual a restrição da liberdade da vítima é condição necessária para a obtenção da vantagem econômica. Tal modalidade não se confunde com a hipótese do art.159, na qual há privação da liberdade para trocá-la por qualquer vantagem. No § 3º do art.158, a restrição da liberdade não é trocada por vantagem, mas um meio necessário para que a vítima, submetida a violência ou grave ameaça, possa fazer algo para que o agente obtenha a vantagem. É o que ocorre, por exemplo, no caso do sequestro relâmpago, terminologia do cotidiano, quando o agente obriga a vítima a entrar no seu carro e a transporta até um caixa eletrônico para que o ofendido saque dinheiro para entregar ao criminoso.
A parte final do §3º do art.158 faz remissão ao art.159 §§ 2º e 3º nos casos de lesão grave de morte respectivamente. É curial alertar que a Lei 13.964 inseriu o inciso III ao art.1º da Lei 8072/90, de modo a considerar hediondo a “extorsão qualificada pela restrição da liberdade da vítima, ocorrência de lesão corporal ou morte (art. 158, § 3º)”.
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Crimes Contra o Patrimônio
EXTORSÃO
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QUESTÃO: quando o agente faz, via telefone ou outro meio, a simulação de sequestro de uma jovem para fazer a sua mãe depositar dinheiro caracteriza extorsão?
Sim.
Conforme jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça - STJ, a conduta de simulação de sequestro com o objetivo de ameaçar a vítima amolda-se ao delito de extorsão tipificado no art. 158 do Código Penal - CP. Isso porque, no crime de extorsão, a vítima entrega seus bens com medo de o agente cumprir suas ameaças, ao passo que, no estelionato, a vítima sofre o prejuízo por ser induzida a erro, mediante meio ardi- loso e sem ameaças. Precedentes: CC 129.275/RJ, Rel. Ministra LAURITA VAZ, TERCEIRA SEÇÃO, DJe 3/2/2014 e CC 115.006/RJ, Rel. Ministra MARIA THEREZA DE ASSIS MOURA, TERCEIRA SEÇÃO, DJe 21/3/2011) 
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Crimes Contra o Patrimônio
EXTORSÃO
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O §3º do art.158 não criou novo crime denominado de sequestro relâmpago.
A extorsão (art.158 do CP) não se confunde com a concussão (art.316 do CP). O primeiro é crime contra o patrimônio cometido com violência ou grave ameaça à pessoa. O segundo é crime contra a administração pública cometido com a exigência, sem violência ou grave ameaça. É certo que um funcionário público pode ser autor de extorsão, não somente de concussão, depende da conduta realizada.
A extorsão (art.158 do CP) pode ser cometida com ameaça de mal espiritual, segundo já de- cidiu o STJ.
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Crimes Contra o Patrimônio
EXTORSÃO
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Quanto à extorsão mediante sequestro, prevista no art.159 do CP, o agente priva a vítima da liberdade com o objetivo de obter qualquer vantagem. O crime é formal, que se consuma com a privação da liberdade da vítima, mesmo antes de o agente solicitar a vantagem para o seu resgate, desde que tenha agido com tal finalidade. Trata-se de crime no qual há o dolo de privar a liberdade da vítima e o elemento subjetivo especial consistente na obtenção de qualquer vantagem.
Há discussão sobre o significado de qualquer vantagem e discussão sobre a natureza da vantagem. Diferente do crime de extorsão doart.158 do CP, no qual o legislador especificou “in- devida vantagem econômica”. A elementar qualquer vantagem abrange vantagem não econômica e vantagem econômica. Esse parece ser o melhor sentido, apesar de o crime fazer parte do rol dos delitos patrimoniais.
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Crimes Contra o Patrimônio
EXTORSÃO
3
O crime se consuma com a privação da liberdade da vítima, como fora mencionado nas linhas anteriores, desde que o agente atue com a finalidade especial de trocar a sua liberdade por qualquer vantagem. Admite-se a tentativa, exemplo: agente impedido de privar a vítima de sua liberdade por circunstâncias alheias, quando tentava arrastar a vítima para o seu carro, de forma a transportá-la para o cativeiro.
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Crimes Contra o Patrimônio
EXTORSÃO
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O crime se consuma com a privação da liberdade da vítima, como fora mencionado nas linhas anteriores, desde que o agente atue com a finalidade especial de trocar a sua liberdade por qualquer vantagem. Admite-se a tentativa, exemplo: agente impedido de privar a vítima de sua liberdade por circunstâncias alheias, quando tentava arrastar a vítima para o seu carro, de forma a transportá-la para o cativeiro.
QUESTÃO: se o inimputável atinge a maioridade durante a prática do crime permanente, ele poderá ser responsabilidade pelo crime?
Sim.
Trata-se de crime permanente. Em consequência, se o menor atingir a idade de 18 (dezoito) anos enquanto os delitos se encontrarem em plena consumação, será por eles responsabilizado.
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Crimes Contra o Patrimônio
EXTORSÃO
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Além do patrimônio, a liberdade e a incolumidadefísica, bem como a vida, podem ser atingidos na extorsão mediante sequestro. Cuida-se, portanto, de delito pluriofensivo, formal, plurissubsistente, permanente, monossubjetivo.
A vítima da liberdade é o ser humano, mas a vítima patrimonial pode ser um ser humano ou uma pessoa jurídica, como ensina Bitencourt (2000):
As formas qualificadas da extorsão mediante sequestro estão narradas nos §§§ 1º, 2º e 3º do art.159 do CP.
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Crimes Contra o Patrimônio
EXTORSÃO
3
A extorsão mediante sequestro qualificada pela lesão grave ou pela morte são hipóteses qualificadas pelo resultado. Tais resultados podem “decorrer dos maus-tratos dispensados ao sequestrado como da natureza ou modo do sequestro” (CAPEZ, 2019, v.2, p. 746).
O legislador usou a expressão “se do fato” resulta lesão grave ou morte, de modo que o resultado pode decorrer tanto de violência física quanto de violência moral, não há a restrição que foi imposta pela lei penal no §3º do art.157, quando tratou do latrocínio e usou a expressão “se da violência”. Dessa forma, nos §§ 2º e 3º do art.159, a expressão “se do fato” permite variadas maneiras de provocar a lesão grave ou a morte durante a extorsão mediante sequestro.
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Crimes Contra o Patrimônio
EXTORSÃO
3
A delação do coautor ou do partícipe na extorsão mediante sequestro (§4º do art.159) se contribuir para a libertação da vítima constituirá uma causa de diminuição de pena, que incidirá na terceira fase da dosimetria da pena, conforme §4º do art.159 do CP e interpretação jurisprudencial acerca do tema.
É possível o concurso de crimes entre extorsão mediante sequestro e outros delitos, como, a título de ilustração, o delito de roubo. Nesse sentido, já decidiu o STJ:
No que diz respeito à extorsão indireta, o legislador narrou seguinte no art.160 do CP: “Art. 160 - Exigir ou receber, como garantia de dívida, abusando da situação de alguém, documento que pode dar causa a procedimento criminal contra a vítima ou contra terceiro: Pena - reclusão, de um a três anos, e multa”.
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Crimes Contra o Patrimônio
USURPAÇÃO
4
O crime de usurpação se divide em várias modalidades entre os arts.161 e 162 do CP, as- sim descritas:
 
Alteração de limites
Art. 161 - Suprimir ou deslocar tapume, marco, ou qualquer outro sinal indicativo de linha divisória, para apropriar-se, no todo ou em parte, de coisa imóvel alheia:
Pena – detenção, de um a seis meses, e multa.
§ 1º - Na mesma pena incorre quem:
Usurpação de águas
I – desvia ou represa, em proveito próprio ou de outrem, águas alheias; Esbulho possessório
II – invade, com violência a pessoa ou grave ameaça, ou mediante concurso de mais de duas pesso-
as, terreno ou edifício alheio, para o fim de esbulho possessório.
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Crimes Contra o Patrimônio
USURPAÇÃO
4
O crime de usurpação se divide em várias modalidades entre os arts.161 e 162 do CP, as- sim descritas:
 
§ 2º - Se o agente usa de violência, incorre também na pena a esta cominada.
§ 3º - Se a propriedade é particular, e não há emprego de violência, somente se procede mediante queixa.
Supressão ou alteração de marca em animais
Art. 162 - Suprimir ou alterar, indevidamente, em gado ou rebanho alheio, marca ou sinal indicativo de propriedade:
Pena – detenção, de seis meses a três anos, e multa.
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Crimes Contra o Patrimônio
USURPAÇÃO
4
Com relação ao esbulho possessório, previsto no inciso II, § 1º, do art.161, constitui a conduta de invadir, mediante violência ou grave ameaça a pessoa, ou mediante concurso de mais de duas pessoas, terreno ou edifício alheio, para o fim de esbulho possessório.
“Objeto jurídico imediato é a posse do imóvel. De forma secundária, o tipo penal protege outros objetos jurídicos, como a tranquilidade espiritual e a incolumidade física de quem se acha na posse” (JESUS, v.2, 2020, p.508).
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Crimes Contra o Patrimônio
USURPAÇÃO
4
A maioria da doutrina diz que “o concurso de mais de duas pessoas”, previsto na lei, pres- supõe o mínimo de quatro pessoas, ou seja, o agente invasor e mais três pessoas. Nesse pon- to, parece mais adequado o sentido de no mínimo de três pessoas como melhor interpretação ao dispositivo (de modo semelhante: (NUCCI, 2018, 3ª ed, p.565; HUNGRIA, 1959, v.2).
Há possibilidade de concurso de crimes com outro delito praticado com violência, conforme § 2º do art.161, se o agente usa de violência, incorre também na pena a esta cominada. “Assim, por exemplo, esbulho possessório e homicídio. Há três formas de cometimento do esbulho, de modo que duas delas não se somam a outros crimes, enquanto noutra – violência contra a pessoa – exige-se, expressamente, a punição também do delito violento contra alguém” (NUCCI, 2018, 3ª ed, p.567).
 O art.162 pune a conduta de supressão ou alteração de marca em animais
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Crimes Contra o Patrimônio
DANO
5
O crime dano, por sua vez, foi insculpido entre os arts.163 e 167 do CP:
 
Art. 163 - Destruir, inutilizar ou deteriorar coisa alheia: Pena – detenção, de um a seis meses, ou multa.
Dano qualificado
Parágrafo único. Se o crime é cometido:
I – com violência à pessoa ou grave ameaça;
II – com emprego de substância inflamável ou explosiva, se o fato não constitui crime mais grave
III – contra o patrimônio da União, de Estado, do Distrito Federal, de Município ou de autarquia, fundação pública, empresa pública, sociedade de economia mista ou empresa concessionária de serviços públicos; (Redação dada pela Lei n. 13.531, de 2017)
IV – por motivo egoístico ou com prejuízo considerável para a vítima:
Pena – detenção, de seis meses a três anos, e multa, além da pena correspondente à violência. Introdução ou abandono de animais em propriedade alheia
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Crimes Contra o Patrimônio
DANO
5
 O crime dano, por sua vez, foi insculpido entre os arts.163 e 167 do CP:
 Art. 164 - Introduzir ou deixar animais em propriedade alheia, sem consentimento de quem de direi- to, desde que o fato resulte prejuízo:
Pena – detenção, de quinze dias a seis meses, ou multa. Dano em coisa de valor artístico, arqueológico ou histórico
Art. 165 - Destruir, inutilizar ou deteriorar coisa tombada pela autoridade competente em virtude de valor artístico, arqueológico ou histórico:
Pena – detenção, de seis meses a dois anos, e multa. Alteração de local especialmente protegido
Art. 166 - Alterar, sem licença da autoridade competente, o aspecto de local especialmente protegi- do por lei:
Pena – detenção, de um mês a um ano, ou multa. Ação penal
Art. 167 - Nos casos do art. 163, do inciso IV do seu parágrafo e do art. 164, somente se procede mediante queixa.
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Crimes Contra o Patrimônio
DANO
5
O dano tratado no art.163 se refere ao dano físico contra a coisa. O dispositivo narra a conduta de destruir, inutilizar ou deteriorar coisa alheia. Dentro da expressão destruir compreende-se o fazer desaparecer (GRECO, v.2, 2018, p.742). A coisa precisa ser alheia ao agente. Do mesmo modo, quem destrói coisa abandonada ou destrói coisa de ninguém não pratica o crime. O erro sobre a elementar coisa alheia afasta o dolo (art.20, caput do CP).
O crime de dano somente é punido na forma dolosa. Trata-se de crimes plurissubsistente que, portanto, admite a tentativa. O dolo do crime de dano pressupõe que o agente atue com essa finalidade, ou seja, de danificar a coisa alheia. Não haverá punição pelo crime de dano quando a conduta constituir um meio ou forma de execução de outro crime (exemplo: furto qualificado pelo rompimento de obstáculos).
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Crimes Contra o Patrimônio
DANO
5
QUESTÃO: se o agente destrói o próprio bem que se encontra na posse legítima de terceiro responderá por algum crime?
Para Rogério Greco, cuida-se de fato atípico a ser solucionado no âmbito cível (GRECO, v.2, 2018, p.744). Segundo Magalhães Noronha (2004, v.2, p.304-305), a conduta teria subsunção no crime de dano. Enquanto Rogério Sanches (2013, p.329) enxerga a possibilidade e de configurar exercício arbitrário das próprias razões.
111
Crimes Contra o Patrimônio
DANO
5QUESTÃO: é necessário a presença do animus nocendi para caracterizar o crime de dano?
Para Hungria (1959, v.VII, p.108), seria necessário a presença do animus nocendi, ou seja, o propósito de prejudicar o proprietário. Por sua vez, Magalhães Noronha (2004, v.2, p.309) deixou registrado que este fim especial de prejudicar seria o dolo específico que não está presente, não se exige um fim exterior, uma vez que o prejuízo está ínsito no dano, quem destrói a coisa sabe que prejudica o seu dono ou possuidor. Segundo Rogério Greco.
112
Crimes Contra o Patrimônio
DANO
5
QUESTÃO: é necessário a presença do animus nocendi para caracterizar o crime de dano?
Sobre o tema, com uma intepretação prejudicial à tutela do patrimônio público, o STJ decidiu que não configura crime de dano a destruição pelo preso de bem público que impede a sua fuga, no ato de tentar fugir.
Nos termos da jurisprudência desta Corte, para que se possa falar em crime de dano qualificado contra patrimônio da União, Estado ou Município, mister se faz a comprovação do elemento subjetivo do delito, qual seja, o animus nocendi, caracterizado pela vontade de causar prejuízo ao erário. Nesse passo, a destruição, deterioração ou inutilização das paredes ou grades de cela pelo detento, com vistas à fuga de estabelecimento prisional, ou, ainda, da viatura na qual o flagranteado foi conduzido à delegacia de polícia, demonstra tão somente o seu intuito de recuperar a sua liberdade, sem que reste evidenciado o necessário dolo específico de causar dano ao patrimônio público
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Crimes Contra o Patrimônio
APROPRIAÇÃO INDÉBITA
6
As modalidades de apropriação indébita foram disciplinadas entre os arts.168 e 170 do CP:
 
Apropriação indébita
Art. 168 - Apropriar-se de coisa alheia móvel, de que tem a posse ou a detenção: Pena – reclusão, de um a quatro anos, e multa.
Aumento de pena
§ 1º - A pena é aumentada de um terço, quando o agente recebeu a coisa:
I – em depósito necessário;
II – na qualidade de tutor, curador, síndico, liquidatário, inventariante, testamenteiro ou depositário judicial;
III – em razão de ofício, emprego ou profissão.
Apropriação indébita previdenciária
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Crimes Contra o Patrimônio
APROPRIAÇÃO INDÉBITA
6
As modalidades de apropriação indébita foram disciplinadas entre os arts.168 e 170 do CP:
 
Art. 168-A. Deixar de repassar à previdência social as contribuições recolhidas dos contribuintes, no prazo e forma legal ou convencional:
Pena – reclusão, de 2 (dois) a 5 (cinco) anos, e multa.
§ 1º Nas mesmas penas incorre quem deixar de:
I – recolher, no prazo legal, contribuição ou outra importância destinada à previdência social que tenha sido descontada de pagamento efetuado a segurados, a terceiros ou arrecadada do público; II – recolher contribuições devidas à previdência social que tenham integrado despesas contábeis ou custos relativos à venda de produtos ou à prestação de serviços;
III – pagar benefício devido a segurado, quando as respectivas cotas ou valores já tiverem sido reembolsados à empresa pela previdência social. (Incluído pela Lei n. 9.983, de 2000)
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Crimes Contra o Patrimônio
APROPRIAÇÃO INDÉBITA
6
As modalidades de apropriação indébita foram disciplinadas entre os arts.168 e 170 do CP:
 
§ 2º É extinta a punibilidade se o agente, espontaneamente, declara, confessa e efetua o pagamento das contribuições, importâncias ou valores e presta as informações devidas à previdência social, na forma definida em lei ou regulamento, antes do início da ação fiscal. (Incluído pela Lei n. 9.983, de 2000)
§ 3º É facultado ao juiz deixar de aplicar a pena ou aplicar somente a de multa se o agente for primário e de bons antecedentes, desde que:
I – tenha promovido, após o início da ação fiscal e antes de oferecida a denúncia, o pagamento da
contribuição social previdenciária, inclusive acessórios; ou
II – o valor das contribuições devidas, inclusive acessórios, seja igual ou inferior àquele estabelecido pela previdência social, administrativamente, como sendo o mínimo para o ajuizamento de suas execuções fiscais.
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§ 4º A faculdade prevista no § 3º deste artigo não se aplica aos casos de parcelamento de contribuições cujo valor, inclusive dos acessórios, seja superior àquele estabelecido, administrativamente, como sendo o mínimo para o ajuizamento de suas execuções fiscais.
Apropriação de coisa havida por erro, caso fortuito ou força da natureza
Art. 169 - Apropriar-se alguém de coisa alheia vinda ao seu poder por erro, caso fortuito ou força da natureza:
Pena – detenção, de um mês a um ano, ou multa. Parágrafo único. Na mesma pena incorre:
Apropriação de tesouro
I – quem acha tesouro em prédio alheio e se apropria, no todo ou em parte, da quota a que tem direito o proprietário do prédio;
Apropriação de coisa achada
II – quem acha coisa alheia perdida e dela se apropria, total ou parcialmente, deixando de restituí-la ao dono ou legítimo possuidor ou de entregá-la à autoridade competente, dentro no prazo de quinze dias.
Art. 170 - Nos crimes previstos neste Capítulo, aplica-se o disposto no art. 155, § 2º
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Quanto ao crime de apropriação indébita, cuida-se de conduta caracterizada pelo início de uma posse lícita, mas que é invertida mais adiante, no momento em que é solicitada a coisa alheia do agente. A apropriação significa tornar como sua a coisa que pertence a outrem. O crime só pode ser cometido na forma dolosa, de forma que não constitui apropriação indébita a ausência de devolução do bem por culpa, ou seja, em decorrência de negligência, um esquecimento do agente.
Para Nucci (2019, 3ª ed., p.589), o crime é próprio porque o agente é especial, já que rece- beu a coisa em confiança. Enquanto Damásio (2020, v.2 p.537) entende “a apropriação indé- bita é delito comum, simples, instantâneo, material e comissivo”. Para o referido autor, só há apropriação indébita na detenção desvigiada, uma vez que na detenção vigiada, o fato constituiria furto (JESUS, 2020, v.2 p.537).
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 Trata-se de crime que se distingue do furto e do estelionato nas suas elementares e no momento de se apresenta o elemento subjetivo, não se confundem, conquanto sejam crimes contra o patrimônio. Como esclarece Nucci (2019, 3ª ed., p.586-587):
 
A diferença com o estelionato é de “tipo morfológico e comissivo”, pois na apropriação não existe a fraude prévia que, para o estelionato, é fundamental. Na apropriação, o agente detém a coisa lici- tamente; depois, quando instado a devolvê-la, torna-se ilícito. No caso do estelionato, desde o princípio, a coisa se transmite ao agente por meios ilícitos, embora a vítima possa nem perceber num primeiro momento. Por vezes, é justamente a prova da fraude que permite a clara distinção entre os dois delitos. Entre o furto e a apropriação, a diferença é ainda mais simples. No furto, o agente não detém a coisa e vai ao seu encalço, subtraindo-a da vítima, contra a sua vontade; na apropriação, o agente já detém a coisa, que lhe foi entregue pela própria vítima, tornando-se ilícito posteriormente, quando resolve não devolvê-la. Em ambas as situações não há fraude; na apropriação, existe abuso de confiança.
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 QUESTÃO: a coisa fungível pode ser objeto de apropriação indébita?
Segundo Nucci (2019, 3ª ed., p.586-587), não, salvo na hipótese de coisa que deveria ser transferida a terceiro:
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 O arrependimento posterior na apropriação indébita com a devolução da coisa antes do recebimento da denúncia deve ser tratado na forma do art.16 do Código Penal, ou seja, como causa de redução de pena. Não pode ser confundido com o efeito específico da apropriação indébita previdenciária tratada abaixo.
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A apropriação indébita previdenciária, foi tipificada no art.168 A com o seguinte texto:
 
Deixar de repassar à previdência social as contribuições recolhidas dos contribuintes, no prazo e for- ma legal ou convencional [...] §1º Nas mesmas penas incorre quem deixar de: I – recolher, no prazo legal, contribuição ou outra importância destinada à previdência social que tenha sido descontada de pagamento efetuado a segurados, a terceiros ou arrecadada do público; II – recolher contribui- ções devidas à previdência social que tenham integrado despesas contábeis ou custos relativos à venda de produtos ou à prestação de serviços; III - pagar benefício devido a segurado, quando as respectivas cotas ou valores já tiverem sido reembolsados à empresa pela previdência social.
 
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O bem jurídico protegido é o patrimônio público, porquanto se trata do “crédito oriundo da contribuição ou do reembolso que advém do benefício” (JESUS, 2020, v.2, p.543). Trata-se de crime próprio no qual o sujeito ativo é a pessoa que possui a obrigação de repassar à Previdência Social a contribuição recolhida dos contribuintes. O sujeito passivo primário é a Previdência social, enquanto os segurados são sujeitos passivos secundários.
 
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QUESTÃO: há necessidade de animus de ter para si os valores não recolhidos (animus rem sibi habendi) na apropriação indébita previdenciária?
Há necessidade do animus rem sibi habendi na apropriação indébita comum do art.168. No entanto, segundo a jurisprudência atual, Não há necessidade de ter para si os valores não recolhidos na apropriação indébita previdenciária, uma vez que trata-se de crime autônomo, distinto do previsto no art.168. Nesse sentido, tem decidido o STJ, tanto que diz respeito ao crime de apropriação indébita previdenciária (art.168 A) quanto no crime de sonegação fiscal do art. 2º II da Lei 8137/90:
 
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JURISPRUDÊNCIA DO STJ:
1. Em crimes de sonegação fiscal e de apropriação indébita de contribuição previdenciária, este Superior Tribunal de Justiça pacificou a orientação no sentido de que sua comprovação prescinde de dolo específico sendo suficiente, para a sua caracterização, a presença do dolo genérico. 2. Assentou a Corte local que a sonegação do tributo ICMS ocorreu nos períodos de janeiro/2018 até dezembro/2018, deixando o agravante de recorrer aos cofres públicos a importância de R$ 525.955,85, não havendo falar, in casu, em ausência de descrição da contumácia da inadimplência. 3. Agravo regimental improvido. (AgRg nos EDcl no HC 641.382/SC, Rel. Ministro OLINDO MENEZES (DESEMBARGADOR CONVOCADO DO TRF 1ª REGIÃO), SEXTA TURMA, julgado em 18/05/2021, DJe 21/05/2021 
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Para Damásio, não é possível a tentativa no crime de apropriação indébita previdenciária:
 
A consumação do delito do art. 168-A ocorre na data do término do prazo convencional ou legal do repasse ou recolhimento das contribuições devidas ou do pagamento do benefício devido a re- embolsado ou segurado ao estabelecimento pela Previdência Social. A tentativa é inadmissível. (JESUS, 2020, p.546-547).
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Vale destacar que o STJ tem entendido que a consumação do crime só ocorrer com a constituição definitiva do débito no âmbito administrativo:
JURISPRUDÊNCIA DO STJ:
Segundo entendimento adotado por esta Corte Superior de Justiça, os crimes de sone- gação de contribuição previdenciária e apropriação indébita previdenciária, por se tra- tarem de delitos de caráter material, somente se configuram após a constituição definitiva, no âmbito administrativo, das exações que são objeto das condutas(AgRg no AREsp 774.580/SC, Rel. Ministro JORGE MUSSI, QUINTA TURMA, julgado em 20/03/2018, DJe 04/04/2018
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APROPRIAÇÃO INDÉBITA
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QUESTÃO: aplica-se o princípio da insignificância em crime de apropriação indébita pre- videnciária?
Conquanto tenha admitido no passado, a jurisprudência atual do STJ pacificou o entendi- mento no sentido de não ser possível a aplicação do princípio da insignificância em crime de apropriação indébita previdenciária.
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Crimes Contra o Patrimônio
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Sobre a extinção da punibilidade com o pagamento, a jurisprudência do STJ entende que a extinção da punibilidade, narrada § 2º e seguintes do art.168 A, depende do pagamento integral, uma vez que o parcelamento apenas suspende a persecução penal; e tem permitido a persecução penal em caso de inadimplência reiterada.
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Quanto ao crime de estelionato previsto no caput do art.171 do CP, cuida-se de um crime contra o patrimônio que possui, entre as suas elementares, a fraude (a condução da vítima ao erro, ao engano). Sem fraude, não existe estelionato, a figura do caput que dirige as demais condutas narradas ao longo do dispositivo prevê.
A palavra estelionato tem origem na expressão stellio, a qual significa camaleão. Conforme
leciona Rogério Greco (v.2, 2018, p.822):
 
Concluindo, a palavra estelionato se origina de stellio, ou seja, camaleão, justamente pela qualidade que tem esse animal para mudar de cor, confundindo sua presa, facilitando assim, o bote fatal, bem como para poder fugir, também, dos seus predadores naturais, que não conseguem, em virtude de suas mutações, perceber a sua presença, tal como ocorre com o estelionatário que, em razão de seus disfarces, sejam físicos ou psíquicos, engana a vítima com a sua fraude, a fim de que tenha êxito na sua empresa criminosa.
 
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Crimes Contra o Patrimônio
ESTELIONATO
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É certo que fraude penal é distinta da fraude cível empregada nas relações comerciais para enaltecer um produto, mas não há critério científico que as diferencie. Tal distinção dependerá da análise do intérprete levando em conta os valores de cada época (GRECO, v.2, 2018, p.819; BITENCOURT, 2002, v.3, p.277).
A fraude por meio de artifício ocorre com o uso de algo material, no sentido de arte ou aparato, como, por exemplo, um documento falso. O artifício pode ainda se manifestar com gestos, atos. A fraude por meio de ardil se revela com o uso de sutilezas, manha, constitui uma fraude moral (intelectual), de modo que o agente leva a vítima ao engano, por exemplo, com um diálogo que se apresenta como verdadeira, conquanto seja falsa. O ardil, exemplo, pode ocorrer com o uso de envolvimento afetivo para enganar a vítima e obter vantagem ilícita em seu prejuízo. No caput do art.171, o legislador ainda aponta uma hipótese genérica, após a sequencia casuística, ou seja, “qualquer outro meio fraudulento. Faz-se necessário aqui usar a interpretação analógica, isto é; qualquer outro meio fraudulento semelhante ao emprego de artifício ou de ardil 
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Crimes Contra o Patrimônio
ESTELIONATO
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Fala-se em binômio no crime de estelionato, caracterizado pela vantagem ilícita e o prejuízo alheio. Ilícita é a vantagem contrária ao ordenamento jurídico, que não encontra abrigo no ordenamento jurídico. Parte da doutrina (maioria) entende que essa vantagem pode ou não ter natureza econômica. Nesse sentido, pensa Luiz Regis Prado (2000, v.2, p.523). Em sentido contrário, Rogério Greco (v.2, 2018, p.820) entende que há de existir vantagem ilícita somente no sentido econômico, para efeito e crime de estelionato, diante de uma intepretação sistemática que leva em conta a sua topografia de crime contra o patrimônio.
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Crimes Contra o Patrimônio
ESTELIONATO
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O agente, com o emprego da fraude no crime de estelionato, mantém ou induz a vítima ao erro. Erro, aqui, possui o sentido de equívoco sobre a realidade. A norma penal que se apresenta na lei do art.171 protege o patrimônio contra comportamentos fraudulentos, buscando preservara “confiança que deve existir entre os membros da sociedade” (GRECO, v.2, 2018, p.823), 
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ESTELIONATO
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Em regra, o estelionato é um crime comum que pode ser cometido por qualquer pessoa.
Do mesmo modo, o sujeito passivo é quem sofre o prejuízo. No caso do §3º do art.171, o sujeito passivo é restrito. O sujeito passivo do crime de estelionato deve possui capacidade de compreensão, ou seja, de discernimento, para que possa ser mantido ou induzido em erro. Sem tal capacidade, a subsunção típica não será no crime de estelionato, mas poderá se dar no crime do art.173 do CP (GRECO, v.2, 2018, p.823). sobre esse tema, argumenta Bitencourt (2002, v.3, p.277):
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Crimes Contra o Patrimônio
ESTELIONATO
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O estelionato é um crime, em regra, material, que se consuma com a obtenção da vantagem ilícita pelo agente em prejuízo do ofendido. Cuida-se de crime plurissubsistente, no qual a tentativa será possível. Nas modalidades especiais, há modalidade formal de estelionato, como a que se faz presente no inicio V, §2º do art.171 (fraude para recebimento de indenização ou de valor de seguro).
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Crimes Contra o Patrimônio
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QUESTÃO: o início da execução no crime de estelionato ocorre com o emprego da fraude ou somente com o engano da vítima?
Para Bitencourt, somente com engano da vítima “Quando o agente não consegue enganar a vítima, o simples emprego de artifício ou ardil caracteriza apenas a prática de atos preparatórios, não se podendo cogitar de tentativa”. BITENCOURT, 2002, v.3, p.287). Damásio (JESUS, v.2, 2020, p.558) parece caminhar no mesmo sentido ao dizer:
 
A tentativa é admissível quando o sujeito, enganando a vítima, não obtém a vantagem ilícita, ou, obtendo-a, não causa prejuízo a ela ou a terceiro. Ex.: no conto do bilhete premiado, enganado o ofendido, o sujeito é surpreendido no momento em que está recebendo o dinheiro.
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 O estelionato privilegiado foi previsto no §1º do art.171. Exige-se a primariedade do réu e o pequeno valor do prejuízo. A primariedade já foi discutida quando da análise do furto privilegiado. Distingue-se do furto privilegiado porque quanto no estelionato, o legislador usou a expressão pequeno prejuízo, naquele o legislador usou a expressão pequeno valor, de modo que o no crime de estelionato, é necessário analisar não somente o valor objetivo, mas principalmente o valor do prejuízo da vítima do caso concreto. A doutrina de Nucci (2018, 3ª ed., p.638) e de Capez (2019, v.2, p.840) apontam ainda o fato salário mínimo como limite para análise do pequeno prejuízo.
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Quanto ao estelionato do §3º do art.171, cuida-se de uma causa de aumento de pena narrada da seguinte forma; “A pena aumenta-se de um terço, se o crime é cometido em detrimento de entidade de direito público ou de instituto de economia popular, assistência social ou beneficência”.
Cuida-se de crime na permanente, para o beneficiário, a modalidade narrada no §3º do art.171. Se algum funcionário ajudar na fraude, para esse o crime será instantâneo de efei- tos permanentes. Essa distinção influencia em matéria de prescrição e, ainda, de prisão em flagrante.
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 A jurisprudência tem decidido que essa modalidade de estelionato não aceita a incidência do princípio da insignificância:
JURISPRUDÊNCIA DO STJ:
. Não é possível a aplicação do princípio da insignificância ao crime de estelio- nato contra a Previdência Social independentemente dos valores obtidos indevidamente pelo agente, pois, consoante jurisprudência do STJ e do STF, em se tratando de estelio- nato cometido contra entidade de direito público, considera-se o alto grau de reprova- bilidade da conduta do agente, que atinge a coletividade como um todo. (AgRg no AREsp 1476284/PE, Rel. Ministro RIBEIRO DANTAS, QUINTA TURMA, julgado em 25/06/2019, DJe 01/07/2019)”.
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Quanto à fraude eletrônica, modalidade de estelionato, inserida § § 2º-A e § 2º-B do art.171, os comentários foram feitos quando do exame do crime de furto. Vale ressaltar que o legislador rubricou como “fraude eletrônica” a caracterizada pelo estelionato cometido com a utilização de informações fornecidas pela vítima ou por terceiro induzido a erro por meio de redes sociais, contatos telefônicos ou envio de correio eletrônico fraudulento, ou por qualquer outro meio fraudulento análogo. E estabeleceu uma causa de aumento de pena no §2º-B.
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Na pode haver confusão essa modalidade de estelionato e o furto cometido por meio de dispositivo eletrônico. Diante dos novos dispositivos, quais sejam: § 4º-B e § 2º-A do art.171, quando se tratar de obtenção de dados bancários mediante o engano da vítima (ou de terceiro), para consequente uso no saque de valores de sua conta bancária, configurará o crime de estelionato. Dito de outro modo, se tais dados forem obtidos com a vítima em erro (ou de terceiro em erro), a qual fornece os dados ao agente que se passa por outra pessoa, como, a título de ilustração, seu gerente de banco, com a subsequente retirada dos valores de sua conta bancaria, haverá subsunção na fraude eletrônica do § 2º-A do art.171. o furto ocorrerá nas demais hipóteses, nos termos do § 4º-B do art.155 do CP. 
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A lei 14155/2021 acrescentou, ao art.171, outras circunstâncias que redundam em aumento de pena na terceira fase da dosimetria: “§ 4º A pena aumenta-se de 1/3 (um terço) ao dobro, se o crime é cometido contra idoso ou vulnerável, considerada a relevância do resulta- do gravoso”.
Sobre a ação penal no crime de estelionato, em regra, há necessidade de representação, salvo em algumas hipóteses (§ 5º do art.171), as quais são de ação pública incondicionada. Há discussão sobre a retroatividade da mudança legislativa. Por ora, o debate caminha da seguinte forma no STJ e no STF. Conforme o § 5º do art.171, acrescentado pela Lei 13.964, de 2019:
 
§ 5º Somente se procede mediante representação, salvo se a vítima for: I - a Administração Pública, direta ou indireta; II - criança ou adolescente; III - pessoa com deficiência mental; ou IV - maior de 70 (setenta) anos de idade ou incapaz.
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No âmbito do STF e do STJ, sobre a representação no estelionato em razão da modificação introduzida pela Lei 13964, por ora, o debate caminha da seguinte forma:
Junho de 2021 (mais recente). Para a 2ª Turma do STF, Previsão contida na lei “anticrime” (Lei 13.964/19), que exige manifestação da vítima para abertura de ação por estelionato, deve retroagir em benefício do réu. Esse entendimento foi adotado pela 2ª Turma do Supremo Tribunal Federal em julgamento em (22/6/2023). HC 180.421
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Para a 1ª Turma do STF, A única outra jurisprudência formada no Supremo sobre o assunto veio da 1ª Turma. No caso, o colegiado decidiu que a retroatividade da exigência de representação da vítima no crime de estelionato não deve ser aplicada nos casos em que o Ministério Público ofereceu a denúncia antes da entrada em vigor da lei “anticrime”. HC 187.341
Antes da pacificação pela 3ª Seção, para a 5ª Turma do STJ, a exigência de representação da vítima só retroage até o momento da denúncia, independentemente do momento da prática da infração penal. A exigência da representação seria condição de procedibilidade da representação e não de prosseguibilidade da ação penal (HC 573.093).
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Antes da pacificação pela 3ª Seção, para a 6ª Turma do STJ, a norma retroage até o trânsi- to em julgado da ação por estelionato, mas não leva à imediata extinção da punibilidade. O colegiado entendeu que, na hipótese, a vítima deveria ser intimada para manifestaro interesse na continuação da persecução penal, no prazo de 30 dias, sob pena de decadência (HC 583.837). 
O STJ pacificou a questão, em embate da 5ª e da 6ª Turma no âmbito da 3ª Seção da Corte: por maioria de votos, decidiu, por maioria de votos, que pacificou o entendimento de que não retroage o art. 171, § 5º, do CP, às hipóteses de denúncia oferecida antes da vigência da Lei n. 13.964/2019.
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QUESTÃO: em que consiste a reticência maliciosa no crime de estelionato?
A reticência maliciosa consiste na conduta do agente que se aproveita da inexperiência e da ausência de informação da vítima, a qual atua em erro ao, por exemplo, vender ao agente (colecionador) uma peça de grande valor por um preço irrisório (HUNGRIA, 1959).
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QUESTÃO: A torpeza bilateral configura estelionato?
A torpeza bilateral se apresenta quando a não somente o autor, mas também o próprio ofendido atua de má-fé. Após apontar vários exemplos, o Nelson Hungria entende que não ha- verá punição do agente pelo crime de estelionato: “Não há violação da ordem jurídica quando o interesse individual lesado se achava comprometido numa ilicitude ou imoralidade” (HUNGRIA, V.2, 1959, p.193). Essa também é a posição de Rogério Greco (v.2, 2018, p.828). Segundo Nucci (2019, 3ª ed, p.633-634). 
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 A torpeza bilateral:
 
Cuida-se da situação em que se vislumbra a mesma ânsia de levar indevida vantagem tanto do fornecedor/vendedor quanto do adquirente/comprador. Seria um cenário no qual ambos querem enganar, dependendo, pois, de sorte para tanto. Se essa ambição desmedida invadir o campo da fraude (ex.: vende--se um carro alheio, recebendo-se com cheque furtado), parece-nos que o fato é atípico, não se podendo eleger, aleatoriamente, quem punir. Por outro lado, não soa racional sustentar a ideia de ser o estelionato um crime de ação pública, logo, ambos devem ser punidos. Ora, o bem jurídico (patrimônio) não foi afetado, nem para quem vende bem alheio, nem para quem paga com título igualmente alheio.
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 Mas há forte posição na doutrina no sentido de que haverá estelionato no caso de torpeza bilateral ou fraude bilateral. Fernando Capez resume (2019, v.2, p.837):
 
(i) 1ª Posição: não existe crime de estelionato. É o entendimento de Nélson Hungria, com os se- guintes argumentos: (i) somente goza de proteção legal o patrimônio que serve a um fim legítimo, dentro de sua função econômico-social; (ii) o Código Civil, em seu art. 883, caput, dispõe que “não terá direito à repetição aquele que deu alguma coisa para obter fim ilícito, imoral, ou proibido por lei”. Só existe estelionato quando alguém é iludido em sua boa-fé; logo, quando houver má-fé da víti- ma, falta um pressuposto básico para o crime. (ii) 2ª Posição: existe estelionato, não importando a má-fé do ofendido. É a posição majoritária. Nosso entendimento: consideramos correta esta última posição, porque: (i) o autor revela maior temibilidade, pois ilude a vítima e lhe causa prejuízo; (ii) não existe compensação de condutas no Direito Penal, devendo punir-se o sujeito ativo e, se for o caso, também a vítima; (iii) a boa-fé do lesado não constitui elemento do tipo do crime de estelionato; (iv) o dolo do agente não pode ser eliminado apenas porque houve má-fé, pois a consciência e a vontade finalística de quem realiza a conduta independem da intenção da vítima.
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A receptação, por sua vez, está narrada do art.180 ao 180A do CP:
 
Receptação Art. 180 - Adquirir, receber, transportar, conduzir ou ocultar, em proveito próprio ou alheio, coisa que sabe ser produto de crime, ou influir para que terceiro, de boa-fé, a adquira, receba ou oculte:
Pena – reclusão, de um a quatro anos, e multa.
Receptação qualificada
§ 1º Adquirir, receber, transportar, conduzir, ocultar, ter em depósito, desmontar, montar, remontar, vender, expor à venda, ou de qualquer forma utilizar, em proveito próprio ou alheio, no exercício de atividade comercial ou industrial, coisa que deve saber ser produto de crime:
Pena – reclusão, de três a oito anos, e multa
 
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Crimes Contra o Patrimônio
RECEPTAÇÃO
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§ 2º Equipara-se à atividade comercial, para efeito do parágrafo anterior, qualquer forma de comér- cio irregular ou clandestino, inclusive o exercício em residência.
§ 3º Adquirir ou receber coisa que, por sua natureza ou pela desproporção entre o valor e o preço, ou pela condição de quem a oferece, deve presumir-se obtida por meio criminoso:
Pena – detenção, de um mês a um ano, ou multa, ou ambas as penas.
§ 4º A receptação é punível, ainda que desconhecido ou isento de pena o autor do crime de que proveio a coisa.
§ 5º Na hipótese do § 3º, se o criminoso é primário, pode o juiz, tendo em consideração as circuns- tâncias, deixar de aplicar a pena. Na receptação dolosa aplica-se o disposto no § 2º do art. 155.
 
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RECEPTAÇÃO
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§ 6º Tratando-se de bens do patrimônio da União, de Estado, do Distrito Federal, de Município ou de autarquia, fundação pública, empresa pública, sociedade de economia mista ou empresa concessio- nária de serviços públicos, aplica-se em dobro a pena prevista no caput deste artigo.
Receptação de animal
Art. 180-A. Adquirir, receber, transportar, conduzir, ocultar, ter em depósito ou vender, com a finalida- de de produção ou de comercialização, semovente domesticável de produção, ainda que abatido ou dividido em partes, que deve saber ser produto de crime:
Pena – reclusão, de 2 (dois) a 5 (cinco) anos, e multa.
 
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Crimes Contra o Patrimônio
RECEPTAÇÃO
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O crime de receptação se divide em várias modalidades.
No caput do art.180 do CP, o legislador, na primeira parte, tipificou a receptação própria, com a seguinte prescrição: “Adquirir, receber, transportar, conduzir ou ocultar, em proveito próprio ou alheio, coisa que sabe ser produto de crime. Nas condutas de transportar, conduzir e ocultar, o crime é permanente.
Quanto ao tipo subjetivo, exige-se o dolo direto. Se o agente atua com dolo eventual no cometimento do tipo objetivo narrado no caput do art.180 do CP (não no §1º do art.180), deverá responder por receptação culposa, segundo Capez (2012, 12ª ed, v.2, p.630): “Não basta o dolo eventual. Se assim agir, o fato será enquadrado na modalidade culposa do crime”. Há ainda um fim especial, uma elementar subjetiva especial, na expressão “em proveito próprio ou alheio”, no sentido de obter proveito para si ou para terceiro.
 
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RECEPTAÇÃO
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A lei penal não exigiu no crime de receptação que a coisa seja alheia ao agente. Desse modo, é possível a receptação de coisa própria. Exemplo de Magalhães Noronha (1994, v.2, p.484): “o bem se acha na posse do credor pignoratício, e, furtado por terceiro,, é receptado pelo proprietário. Nesta hipótese, ele recebe, adquire ou oculta coisa produto do crime (furto), praticado contra o legítimo possuidor”. Na segunda parte caput do art.180 do CP, tipificou a receptação imprópria, com a seguinte conduta: “influir para que terceiro, de boa-fé, a adquira, receba ou oculte”.
 
154
Crimes Contra o Patrimônio
RECEPTAÇÃO
9
 
Observa-se que a primeira parte do caput do art.180 do CP possui diversos verbos distribuídos de forma alternativa. Desse modo, se o agente praticar vários desses verbos no mesmo contexto fático, haverá um só crime de receptação, uma vez que cuida de tipo misto alternativo. Por sua vez, na segunda parte do caput, há uma conduta que não possui relação de alternatividade com a primeira parte. Existe uma figura de participação em crime de terceiro que foi tipificada de maneira autônoma, que não necessita da extensão do art.29 do CP.155
Crimes Contra o Patrimônio
RECEPTAÇÃO
9
 
Nessa perspectiva, se o agente, em um mesmo contexto fático, adquirir um produto, que sabe ser produto de crime, e, ainda, instigar um terceiro de boa fé a adquirir um produto seme- lhante, haverá dois crimes de receptação (própria e imprópria), um concurso de crimes. Essa é a nossa posição, uma vez que não há relação de alternatividade entre a primeira e a segunda parte do caput do art.180 do CP.
 
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Crimes Contra o Patrimônio
RECEPTAÇÃO
9
 
Há necessidade de um crime antecedente, que não precisa se tratar um crime patrimonial (pode ser um crime de peculato, por exemplo), chamado de delito pressuposto. Não há necessidade de demonstração da autoria do crime antecedente, basta a prova da existência do fato, ainda que desconhecido ou isento de pena o autor do crime anterior (§ 4º do art. 180). Vale essa regra tanto para a receptação dolosa quanto para a receptação culposa.
 
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Crimes Contra o Patrimônio
RECEPTAÇÃO
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Ressalta-se que não afasta a existência de receptação a extinção da punibilidade do crime antecedente ou a dependência de representação do ofendido ou de queixa-crime, porquanto basta a existência do fato. Não haverá receptação se o fato antecedente se tratar de uma contravenção.
 
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Crimes Contra o Patrimônio
RECEPTAÇÃO
9
 
QUESTÃO: Quanto ao objeto material, o bem imóvel pode ser objeto de receptação? 
Para Mirabete (v.2, p.355-356), sim, porque não haveria necessidade de deslocamento da coisa. Para Hungria (1959, v. VII, p.304), não, porquanto a receptação pressupõe o deslocamento da coisa, porque receptar é dar esconderijo, e apenas as coisas móveis podem ser escondidas/ ocultadas. A posição do Hungria é a mesma de Capez (2020, v.2, p.900) e do Damásio (2019, p.622-623).
 
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Crimes Contra o Patrimônio
RECEPTAÇÃO
9
 
Em relação à receptação qualificada, prevista no §1º do art.180 CP, fruto de inserção legislativa no ano de 1996, há mais verbos do que no caput e, ainda, um tipo subjetivo distinto do caput, uma vez que fala em “dever saber”.
Para a jurisprudência do STJ e do STJ, o deve saber da receptação qualificada abrange também o sabe, ou seja, admite dolo eventual e dolo direto. Ademais, a posição antiga do STF, em decisões cautelares sobre a inconstitucionalidade da receptação qualificada, foi superada pelo tribunal. Hoje, não se fala mais em inconstitucionalidade da receptação qualificada.
 
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Crimes Contra o Patrimônio
RECEPTAÇÃO
9
 
Quanto à receptação culposa, prevista no §3º do art.180, vale destacar que o legislador construiu aqui um tipo culposo fechado ao estabelecer três formas de cometimento. Isso não é comum, uma vez que o tipo culposo possui, em regra, narrativa aberta, como ocorre na lesão culposa e no homicídio culposo.
 
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Crimes Contra o Patrimônio
RECEPTAÇÃO
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 Sobre a receptação culposa, narra Capez:
 O legislador não inclui no tipo penal a conduta de ocultar a coisa, sendo atípica a ação de quem esconde bem de origem ilícita, sem conhecer sua procedência criminosa, ainda que tenha obrado com culpa. Da mesma forma, a conduta do agente que, tendo dúvida no tocante à procedência do objeto, influi para que terceiro de boa-fé adquira ou receba a coisa também é penalmente atípica [...]
(i) natureza do objeto material – citem-se como exemplos a venda de objetos de valor histórico, ve- ículo automotor sem documentação etc.; (ii) desproporção entre o valor e o preço – é a disparidade entre o valor real da coisa e aquele que é ofertado, por exemplo, a venda de um carro importado a preço vil; (iii) condição de quem oferece – cite-se como exemplo a venda de objetos de valor por um menor de rua. (CAPEZ, 2020, v.2, p.909).
 
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Crimes Contra o Patrimônio
RECEPTAÇÃO
9
 
 QUESTÃO: se o agente, após adquirir a coisa, descobre que se trata de um produto de crime, haverá receptação culposa?
 
Na hipótese de conhecimento posterior da origem criminosa do bem, esse fato “não pode dar lugar ao delito do parágrafo. A linguagem deste é por demais incisiva: ‘Adquirir ou receber coisa que... deve presumir-se obtida por meio criminoso’. A culpa só pode existir no ato de adquirir ou receber. Ela não se pode fundar num resultado posterior a esses atos. O que se pune é o ato culposo, e, se depois de consumado circunstâncias mostram a origem delituosa da coisa, não têm elas a força de retroagir àquele momento, tornando culposo um ato, quando culpa não houve. (CAPEZ, 2020, v.2, p.909-910).
 
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Crimes Contra o Patrimônio
RECEPTAÇÃO
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 QUESTÃO: Marcos, sem autorização legal, adquiriu arma de fogo e, dois dias depois, portou a referida arma em um aniversário. Nesse caso, haverá um só crime ou dois crimes?
O art.14 da Lei 10826/2003 (semelhante ao 16 nessa parte) estabelece não somente a conduta de portar, mas também a de adquirir, o que poderia resultar na conclusão de que Marcos praticou somente crime de porte ilegal de arma de fogo, adotando a solução do princípio da alternatividade que soluciona o conflito aparente de normas, em situações de tipo misto alternativo, com condutas perpetradas no mesmo contexto fático. Todavia, como se trata de contextos fáticos distintos, há decisões do STJ que aplicaram o concurso material de crimes para as hipóteses narradas.
 
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Crimes Contra o Patrimônio
RECEPTAÇÃO
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 QUESTÃO: É possível a receptação de receptação ou a receptação em cadeia?
Sim, é possível a receptação de receptação, ou receptação em cadeia. 
 Sobre o tema, ensina Capez (2020, v.2, p.904):
 É possível a receptação de receptação? Para parte da doutrina, sim, desde que a coisa conserve seu caráter delituoso; assim, se for adquirida por terceiro de boa-fé que a transmite a outro, não há re- ceptação, mesmo que o último adquirente saiba que a coisa provém de crime. Esse é o entendimen- to de Nélson Hungria e E. Magalhães Noronha. Em sentido contrário, Victor Eduardo Rios Gonçalves, para quem respondem pelo crime todos aqueles que, nas sucessivas negociações envolvendo o objeto, tenham ciência da origem espúria do bem [...] correta esta última posição.
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Crimes Contra o Patrimônio
RECEPTAÇÃO
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 Quanto à receptação de animais, merece destacar uma passagem de Damásio Evangelista de Jesus (2020, v.2, p.634):
 
A receptação de animais de produção domesticáveis é um tipo especial em relação à figura do art. 180 do CP, que tem como fatores especializantes os seguintes: (i) que o objeto material seja “semo- vente domesticável de produção”, por exemplo, gado, aves de criação, suínos; (ii) que o agente, ao menos, deva saber cuidar-se de produto de crime; (iii) que a conduta seja cometida com a finalidade de produção ou de comercialização.
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Crimes Contra o Patrimônio
RECEPTAÇÃO
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 Quanto à receptação de animais, merece destacar uma passagem de Damásio Evangelista de Jesus (2020, v.2, p.634):
 
A receptação de animais de produção domesticáveis é um tipo especial em relação à figura do art. 180 do CP, que tem como fatores especializantes os seguintes: (i) que o objeto material seja “semo- vente domesticável de produção”, por exemplo, gado, aves de criação, suínos; (ii) que o agente, ao menos, deva saber cuidar-se de produto de crime; (iii) que a conduta seja cometida com a finalidade de produção ou de comercialização.
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Crimes Contra a Administração Pública
BEM JURÍDICO
 	Os crimes contra a administração pública possuem como bem jurídico principal a moralidade administrativa. De forma secundária, pode também ser atingido o patrimônio material da administração e, também, do particular.
CRIMES FUNCIONAIS PRÓPRIOS (PUROS) E IMPRÓPRIOS (IMPUROS)
Os crimes funcionais contra a administração pública são, ainda, classificados em próprios (puros) e impróprios (impuros).
Osprimeiros – próprios ou puros – são aqueles que, cometidos por funcionários públicos, não possuem semelhante conduta típica para os não funcionários públicos, os particulares. 
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Crimes Contra a Administração Pública
Portanto, há necessidade de que o sujeito ativo da conduta seja funcionário público, de modo que, se não houver a figura do sujeito ativo funcionário público, não haverá crime, isto é: haverá uma conduta atípica (atipicidade absoluta). Exemplos: arts.319 (prevaricação), 320 (con- descendência criminosa) e 323 (abandono de função).
De outro lado, os segundos – impróprios ou impuros – são os crimes funcionais que possuem uma conduta semelhante tipificada quando o sujeito ativo for um particular, um não funcionário público, de forma que, se não houver a figura do sujeito ativo funcionário público, haverá crime, uma adequação típica para um crime não funcional, ou seja: haverá uma con- duta típica, uma forma de atipicidade relativa, diante da possibilidade de desclassificação da conduta de crime funcional para outra conduta típica que não corresponde a um crime funcional. São exemplos: peculato apropriação do art. 312 caput, o qual possui correspondência na apropriação indébita do art.168; peculato furto do art. 312, § 1º, o qual possui correspondência no crime de furto do art.155, todos do CP.
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Crimes Contra a Administração Pública
CONCURSO DE PESSOAS NOS CRIMES FUNCIONAIS
O crimes funcionais são os crimes cometidos por funcionários públicos contra a administração pública, que estão distribuídos no Código Penal e, ainda, na Legislação Especial criminal. Os crimes funcionais previstos na Parte Especial do Código Penal constam nos art.312 ao art.327.
A doutrina penal discute a possibilidade ou não de concurso de pessoas nos crimes funcionais. O concurso de pessoas se desmembra em coautoria e participação. É possível, em regra, concurso de pessoas em crimes funcionais, mas é importante considerar algumas peculiaridades.
Em primeiro lugar, o concurso de pessoas em crimes funcionais não pode ser explicado com a teoria do domínio do fato, uma vez que tal teoria não se aplica aos crimes classificados como crimes de infração de dever. Do mesmo modo, tal teoria não se aplica aos crimes culposos, logo não pode explicar, por exemplo, coautoria em peculato culposo.
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Crimes Contra a Administração Pública
CONCURSO DE PESSOAS NOS CRIMES FUNCIONAIS
Outro aspecto relevante merece ser destacado: os crimes funcionais são crimes próprios porque exigem uma qualidade especial do sujeito ativo, ou seja, a condição de funcionário público. No entanto, alguns crimes funcionais, além da elementar funcionário pública, exigem execução personalíssima (não admitem a transferência da execução a terceira pessoa), ou seja, são crimes de mão própria, como ocorre, por exemplo, no crime abandono de função do art.323 do CP. Logo, em tal modalidade delitiva, será admitida a participação, mas não será admitida a coautoria.
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Crimes Contra a Administração Pública
CONCURSO DE PESSOAS NOS CRIMES FUNCIONAIS
Vale registrar, portanto, a título de ilustração que é possível coautoria em crime de peculato entre um extraneus (particular) e um intraneus (funcionário público). Exemplo: Caio, particular, em coautoria mediante divisão de tarefas com Francisco (funcionário público), decidem cometer um crime de peculato furto. Na prática do fato, Francisco faz uso de sua condição de funcionário público para facilitar o cometimento do crime, o que era do conhecimento de Caio. Ambos subtraíram um computador da administração pública que estava em uma sala na qual Francisco e outros servidores tinham o acesso porque portavam a chave/senha da porta. Francisco subtraiu, enquanto Caio o ajudou a desinstalar a máquina e o alarme. Francisco e Caio responderão pelo crime do art.312 do CP. Ressalta-se que o artigo 29 cuida da coautoria de Caio no presente caso, enquanto o art.30 cuida da comunicação da condição de funcionário público ao particular.
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Crimes Contra a Administração Pública
CONCEITO DE FUNCIONÁRIO
O conceito de funcionário público, para efeito penal, decorre da previsão do art.327 e de seus parágrafos. Entende-se que o conceito de funcionário público é amplo, não restrito. Essa é a posição da jurisprudência atual, seja no sentido de sujeito ativo ou de sujeito passi- vo do crime.
Ademais, importa esclarecer que a expressão ‘funcionário público’ constitui uma elementar normativa dos crimes funcionais, que requer uma importação do sentido dado no artigo 327 para a devida interpretação da adequação típica dos crimes funcionais. Vale ressaltar que não basta a presença de funcionário público para a ocorrência do crime funcional, mas é necessário que o agente se valha da condição de funcionário, das características que lhe são inerentes para o desempenho da atividade funcional, para, desse modo, cometer o crime.
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Crimes Contra a Administração Pública
CONCEITO DE FUNCIONÁRIO
Sobre no tema em análise, o art.445 do Código de Processo Penal dispõe: “O jurado, no exercício da função ou a pretexto de exercê-la, será responsável criminalmente nos mesmos termos em que o são os juízes togados”.
Vale destacar ainda que o grau do cargo exercido pelo servidor público pode ser valorado no momento da dosimetria da pena base– não constitui bis in idem– conforme entendimento atual do Superior Tribunal de Justiça e Supremo Tribunal Federal.
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Crimes Contra a Administração Pública
SUJEITO ATIVO E SUJEITO PASSIVO
Os crimes contra a administração pública contidos nos arts.312 a 327 são cometidos por funcionário público (podendo ser realizados em coautoria com particular) que é, portanto, o sujeito ativo. Os demais crimes contra a administração pública previstos entre os arts328 e 359H são crimes competidos por particular ou por funcionário público (sem fazer uso do cargo, por exemplo), que são portanto os sujeitos ativos. O sujeito passivo é a administração pública (federal, estadual, municipal), mas é possível a existência de sujeito passivo secundário, ou seja, um particular prejudicado, por exemplo.
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Crimes Contra a Administração Pública
PROCEDIMENTO (Súmula 330 do STJ e Posição do STF)
O procedimento dos crimes funcionais é disciplinado no Código de Processo Penal nos artigos 513 a 518. O texto do artigo 514 do CPP merece destaque, o qual diz:
 
Art. 514. Nos crimes afiançáveis, estando a denúncia ou queixa em devida forma, o juiz mandará autuá-la e ordenará a notificação do acusado, para responder por escrito, dentro do prazo de quinze dias.
 
Com o objetivo de conferir uma interpretação uniforme sobre o dispositivo, o STJ editou a súmula 330, a qual alerta que o procedimento do art.514 não precisa ser seguido quando a Denúncia do Ministério Público estiver ancorada em investigação produzida em inquérito policial.
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Crimes Contra a Administração Pública
PROCEDIMENTO (Súmula 330 do STJ e Posição do STF)
Sumula 330 do STJ: “É desnecessária a resposta preliminar de que trata o artigo 514 do Código de Processo Penal, na ação penal instruída por inquérito policial”
O STF não tem seguido a linha de raciocínio contida na súmula 330 do STJ, ou seja, para o Supremo Tribunal Federal, deve ser aplicada a redação do art.514 tal qual se encontra no CPP. Todavia, tanto STF quanto STJ entendem que a nulidade pelo descumprimento do art.514 é relativa (necessidade de demonstrar prejuízo), não é absoluta.
É pacífica a jurisprudência desta Corte no sentido de que, para o reconheci- mento de nulidade decorrente da inobservância da regra prevista no art. 514 do CPP, é necessária a demonstração do efetivo prejuízo causado à parte. [...]. 4. Ordem denegada. (HC 128109, Relator(a): Min. TEORI ZAVASCKI, Segunda Turma, julgado em 08/09/2015, PROCESSO ELETRÔNICO DJe-189 DIVULG 22-09-2015 
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Crimes Contra a Administração Pública
PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA E CRIMES CONTRA A ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA
O bem jurídico tutela nos crimes contra a administraçãopública é a moralidade administrativa, que não se sujeita à análise de bagatela, à valoração pequena ofensividade da con- duta. Em outras palavras, por exemplo, ofende a moralidade administrativa tanto a corrupção que envolve uma vantagem de cinquenta reais quanto a corrupção de cem mil reais.
Nesse sentido, trilhou o STJ ao editar a súmula 599:
Súmula 599 - O princípio da insignificância é inaplicável aos crimes contra a administração pública. (Súmula 599, CORTE ESPECIAL, julgado em 20/11/2017, DJe 27/11/2017)
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Crimes Contra a Administração Pública
Todavia, a resistência aparente da súmula não se observa quando se trata do crime de descaminho, o qual, topograficamente, está inserido entre os crimes contra a administração pública, apesar das discussões doutrinárias sobre a sua natureza.
Quando se trata de descaminho, o STF e o STJ admitem a incidência do princípio da insig-
nificância, quando o valor sonegado não ultrapassa vinte mil reais.
STJ “[...] incide o princípio da insignificância aos crimes tributários federais e de des- caminho quando o débito tributário verificado não ultrapassar o limite de R$ 20.000,00 (vinte mil reais), a teor do disposto no art. 20 da Lei n. 10.522/2002, com as atualizações efetivadas pelas Portarias n. 75 e 130, ambas do Ministério da Fazenda. (REsp 1709029/ MG, Rel. Ministro SEBASTIÃO REIS JÚNIOR, TERCEIRA SEÇÃO, DJe 4/4/2018
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Crimes Contra a Administração Pública
Outrossim, apesar do consenso no sentido de não aplicar o princípio da insignificância aos crimes contra a administração pública, o STF aplicou em decisões casuísticas, que não refle- tem a sua jurisprudência sobre o tema, em casos de peculato do art.312 do CP e de uso de bem público no interesse particular no caso de conduta perpetrada por prefeito municipal, prevista como tipo penal no Dec.-lei 201.
Delito de peculato-furto. Apropriação, por carcereiro, de farol de milha que guarnecia motocicleta apreendida. Coisa estimada em treze reais. Res furtiva de valor insignificante. Periculosidade não considerável do agente. Circuns- tâncias relevantes. Crime de bagatela. Caracterização. Dano à probidade da administra- ção. Irrelevância no caso. Aplicação do princípio da insignificância. Atipicidade reco- nhecida. Absolvição decretada. HC concedido para esse fim. Voto vencido. Verificada a objetiva insignificância jurídica do ato tido por delituoso, à luz das suas circunstâncias, deve o réu, em recurso ou habeas corpus, ser absolvido por atipicidade do comporta- mento. (HC 112388, Relator(a): RICARDO LEWANDOWSKI, Relator(a) p/ Acórdão: CEZAR PELUSO, Segunda Turma, julgado em 21/08/2012
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Crimes Contra a Administração Pública
NORMAS DE CORRELAÇÃO EXPRESSA COM A PARTE GERAL
Quando se estuda os crimes contra a administração pública é importante correlacionar o tema com dispositivos da Parte Geral do Código Penal que fazem menção expressa às regras de extraterritorialidade incondicionada da lei penal, de condenação com perda do cargo e de progressão de regime. São eles:
 
Art. 7º Ficam sujeitos à lei brasileira, embora cometidos no estrangeiro: (Redação dada pela Lei n. 7.209, de 1984)
I – os crimes: (Redação dada pela Lei n. 7.209, de 11.7.1984) [...]
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Crimes Contra a Administração Pública
c) contra a administração pública, por quem está a seu serviço; (Incluído pela Lei n. 7.209, de 1984);
[...]
Art. 33. A pena de reclusão deve ser cumprida em regime fechado, semiaberto ou aberto. A de detenção, em regime semiaberto, ou aberto, salvo necessidade de transferência a regime fechado. (Redação dada pela Lei n. 7.209, de 11.7.1984)
[...]
§ 4º O condenado por crime contra a administração pública terá a progressão de regime do cumpri- mento da pena condicionada à reparação do dano que causou, ou à devolução do produto do ilícito praticado, com os acréscimos legais.
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Crimes Contra a Administração Pública
[...]
Art. 92. São também efeitos da condenação
I – a perda de cargo, função pública ou mandato eletivo:
a) quando aplicada pena privativa de liberdade por tempo igual ou superior a um ano, nos crimes praticados com abuso de poder ou violação de dever para com a Administração Pública
 Parágrafo único. Os efeitos de que trata este artigo não são automáticos, devendo ser motivada- mente declarados na sentença.
 
A redação do parágrafo único do art.92 possui um comando claro, qual seja: a perda do cargo do servidor público em razão de condenação penal, em regra, depende de fundamentação, não é automática
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Crimes Contra a Administração Pública
NORMAS DE CORRELAÇÃO EXPRESSA COM A LEGISLAÇÃO ESPECIAL
Além da correlação expressa com dispositivos da Parte Geral do Código Penal, no estudo dos crimes contra a administração pública, é importante observar a correlação com a legisla-
ção especial criminal, não raro, com necessidade de incidência do princípio da especialidade, que faz parte da solução do conflito aparente de normas.
A título de ilustração, a condenação de servidor público pelo crime de tortura gera a perda automática do cargo, conforme pacífico entendimento jurisprudencial. Isso não ocorre nos demais crimes contra a administração pública, uma vez que o parágrafo único do art.92 do CP exige motivação para a perda do cargo.
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Crimes Contra a Administração Pública
NORMAS DE CORRELAÇÃO EXPRESSA COM A LEGISLAÇÃO ESPECIAL
Além da correlação expressa com dispositivos da Parte Geral do Código Penal, no estudo dos crimes contra a administração pública, é importante observar a correlação com a legisla-
ção especial criminal, não raro, com necessidade de incidência do princípio da especialidade, que faz parte da solução do conflito aparente de normas.
A título de ilustração, a condenação de servidor público pelo crime de tortura gera a perda automática do cargo, conforme pacífico entendimento jurisprudencial. Isso não ocorre nos demais crimes contra a administração pública, uma vez que o parágrafo único do art.92 do CP exige motivação para a perda do cargo.
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