Prévia do material em texto
Bernardo Farias Lima CPF: 033.209.852-48 RG 2965268-5 Rua Barra Branca, 07, cidade nova, Manaus-Amazonas E-mail: bernardolima516@gmail.com Telefone: (92) 99465-8073 A VIA CHILENA PARA O SOCIALISMO SOB A ÓTICA CUBANA: DILEMAS E CONTRADIÇÕES DE DUAS VIAS PARA O SOCIALISMO (1964 – 1973) Linha de pesquisa: Fronteira, política e sociedade 2023 mailto:bernardolima516@gmail.com APRESENTAÇÃO DO TEMA/JUSTIFICATIVA Entre embates ideológicos e sociais no século XX na América Latina, dois movimentos que, do ponto de vista marxista, se demonstraram distintos em seus métodos ganharam destaque por propor uma transição ao socialismo. Não obstante as situações de países subdesenvolvidos, como eram Chile e Cuba, encontravam-se em contextos semelhante social e economicamente, com a convulsão social latente, sobretudo no caso chileno onde o operariado já se formara enormemente nas indústrias de cobre e os embates entre as distintas classes defrontavam-se no meio urbano. É de se supor que Cuba, com sua revolução ocorrida no final da década de 1950 tornasse a pequena ilha uma espécie de farol socialista no continente latino-americano, entretanto já nesse período surgiria o que viria desembocar na Unidade Popular, uma frente ampla chilena de partidos de esquerda com uma plataforma de governo que se inclinava, de certo modo, muito mais à social-democracia que prometia gradativamente desembocar em uma revolução socialista, o que muitos denominam, na falta de um conceito mais teórico, de “via chilena para o socialismo”. O que para muitos autores não marxistas, pode-se chamar simplesmente de socialismo, em ambos os casos, para os próprios envolvidos dos distintos países, essa comparação e essa relação tem contornos muito mais intricados do que se demonstra em seu sentido geral. A aproximação entre os dois países ocorreu de forma evidente, visto que o isolamento de ambos se deu de certo modo em meio às ditaduras civis-militares que se impunham na região, entretanto os métodos e pensamentos teóricos dos distintos modelos marxistas se demonstravam claros em pensamentos de Fidel Castro e Salvador Allende. Essa relação determina o ponto de partida da justificativa para o presente trabalho sobretudo através de um artigo1 escrito por Alberto Aggio (2003) acerca da visita de Fidel ao Chile, que me permite discordar de alguns pontos suscitados pelo autor que virão a ser abordado durante a pesquisa. Alinhado à tal interesse, parte de minha graduação teve enfoque nos acontecimentos da revolução em Cuba e no socialismo chileno, até seu golpe em 1973, temas esses que acabaram 1 AGGIO, Alberto. Uma insólita visita: Fidel Castro no Chile de Allende. Revista História: São Paulo, vol. 22, n. 2 2023, p. 151-166. servindo para artigos, pesquisas e por fim na monografia por mim apresentada na conclusão do curso de licenciatura em História. Conforme compreensão desses temas durante a graduação, a possibilidade de enxergar as relações existente além de simples compreensões ideológicas ou diplomáticas e levando em conta as particularidades existentes em cada experiência possibilitou-me pensar em como se desenvolveram as visões dos atores cubanos diante desse processo. Hobsbawm (1997) em “Sobre a História”, ao abordar sobre a escrita da revolução russa aponta que ao avanço de cada geração novas perguntas passam a surgir e novos interesses despertam (HOBSBAWM, 1997, p.332). Certamente essa pesquisa é a combinação de um interesse na compreensão de um passado que me é próximo através dos estudos de distintas histórias da contemporaneidade latino-americana, bem como na possibilidade de contribuição para uma discussão que permita um aprofundamento na agnição de uma relação que por vezes é tida como sólida entre distintos países latino-americanos, sem que se faça uma compreensão mais arraigado acerca de tais relações. Por conseguinte o interesse do presente trabalho ainda segue o compasso da compreensão da relação entre os dois países para além das proximidades propriamente ideológicas, decerto, podemos verificar que apesar de ambos se tornarem um processo político de cunho marxista e socialista, diferiam em métodos de organização e de evolução política, enquanto esse processo se deu através da ruptura de antigo regime em Cuba, no Chile esse processo se deu através da própria democracia liberal, particularidade que somente o Chile, até hoje, é lembrando por sua tentativa de aplicabilidade, já que não seguia a linha marxista- leninista que viria a ser adotada alguns anos depois do triunfo da revolução pelos cubanos. Não podemos negar a real aplicabilidade desse modelo através das visões dos cubanos que, para alguns, poderia ter uma visão um tanto pessimista e até soberba diante de Allende e seus companheiros, mas que enxergavam os problemas com uma ótica externa. Afinal era incompreensível uma aliança com diferentes setores, ainda que de esquerda, no sentido de transacionar ao socialismo, teorias mais amplas nesse sentido viriam surgir durante a década de 1970 com o eurocomunismo advindas de ideias gramscianas Assim pouco se aborda nos estudos brasileiros acerca dos projetos socialistas suas relações de proximidade e suas incompreensões mútuas que por vezes torna-se simplificada diante conceitos básicos do marxismo e do socialismo. O pensamento marxista e a revolução socialista não são dogmas, tampouco são estáticos, tivemos distintos pensadores após a morte de Marx e distintos revolucionários, que viam no materialismo histórico dialético uma compreensão do passado para a confrontação do presente, Cuba e Chile são, portanto, as variantes dessa compreensão e seus modos de luta e revolução não podem ser traduzidas em algo sintético, por exemplo à Revolução de Outubro. O movimento socialista da ilha do caribenha (que particularmente no período de Batista encontrava-se imóvel) e o país andino encontraram suas lutas através de condições de contradições com particularidades próprias em contextos que de forma inexorável iriam definir seus futuros. Desse modo o papel desse trabalho é compreender de forma mais específica as relações entre distintos países, de modo que se compreenda a visão cubana, com distintos modelos de transição ao socialismo e com distintas visões metodológicas. As leituras realizadas até aqui foram fundamentais na construção da ideia que levaram a esse projeto de pesquisa afinal é no decorrer dos estudos dos temas que surgem dúvidas e questionamentos, portanto esse trabalho não surgiu subitamente, foi construído através do interesse de anos de envolvimento no tema que se foca, constituindo assim papel fundamental na compreensão para além dos processos dos dois países de forma isolada. Compreender essas contradições são fundamentais não no sentido de constituir as inúmeras possibilidades do “o que poderia ter sido” da via chilena, a esse respeito há autores que há muito abordaram o tema, seja no campo político, econômico, entre outros. Mas há, senão, poucas fontes, algumas poucas exceções que contribuíram para a historiografia acerca da relação entre os dois países para além do caráter solidário, mas sobretudo na visão cubana do desenrolar da questão chilena seja no campo teórico do marxismo, do político e do econômico, principalmente, no Brasil. OBJETIVO GERAL Investigar a visão das autoridades e pensadores cubanos acerca da via pacifica para o socialismo no Chile suas contradições sobretudo no campo marxista e suas mais diversas teorias bem como seus problemas analisando de igual modo conforme bibliografia há muito constituída pelos mais diversos autores. OBJETIVOS ESPECIFICOS I. Analisar os apontamentos cubanos acerca do socialismo chileno e sua viabilidade II. Compreender a relação entre Salvador Allende e Fidel castro III. Analisar pontuações e diferenças teóricas entreos distintos métodos da práxis socialista DISCUSSÃO BIBLIOGRÁFICA A história política certamente ganhou destaque nas últimas décadas e certamente no campo das revoluções socialistas o afastamento do período revolucionário pôde contribuir para quebrar algumas paixões dando lugar a uma compreensão muito mais sóbria acerca dos temas, um dos pontos de crítica acerca da histórica política, Jacques Julliard negativamente descreve, A história política é psicológica e ignora os condicionamentos; é elitista, talvez biográfica, e ignora a sociedade global e as massas que a compõem; é qualitativa e ignora as séries; o seu objetivo é particular e, portanto, ignora a comparação; e narrativa e ignora a análise; é idealista e ignora o material; é ideológica e não tem consciência de sê-lo; é parcial e não o sabe; prende-se ao consciente e ignora o inconsciente; visa os pontos precisos, e ignora o longo prazo; em uma palavra, já que esta palavra tudo resume na linguagem dos historiadores, é uma história factual. (MEDEIROS apud JULLIARD, 2017, p. 262). Certamente após a ascensão do movimento operário foi fundamental o surgimento de um novo fazer da história, se antes havia necessidade de construir uma história positivista a fim de sustentar a construção do ideal de estado-nação, a partir do momento que o indivíduo surge como um agente da história não como simples individuo sem identidade a necessidade de compreender as organizações políticas para além do estado faz com que a história estabeleça uma nova compreensão e apreende novos temas surgidos nesse espaço de luta. Desse modo a história passa a exercer papel fundamental na construção da história e memória para além do seu aspecto político-economicista, vejamos o exemplo de Thompson (1998), em seu famoso texto a respeito da “economia moral da multidão”2, certamente há um quê de economia, mas que não se prende a pressupostos próprios do campo senão historicamente, mas sim à questão sociocultural dos ingleses nos séculos XVIII. Outros campos surgiram nesse interim, desde o discurso, o poder, até o poder repressivo do estado, os dois primeiros tratados principalmente por Foucault e o último por Gramsci e por Althusser, através da ideia de Estado ampliado e de Aparelhos ideológicos do estado respectivamente, cujas ideias nos é fundamentalmente importante na compreensão do papel do estado para entender a configuração do estado burguês e como ele se constituiu traço fundamental no processo chileno. Já que o traço do estado burguês não era essencialmente parte do corpo fechado do Estado chileno propriamente dito, ele representava apenas uma fração desse poderio que fundamentalmente contribuiu para o debacle do governo Allende que em sua tentativa da 2 Ler em Thompson, E. P. Costumes em comum – A economia moral da multidão inglesa no século XVII. São Paulo: Cia das letras, 1998. p. 150-203. construção do estado proletário, através da via democrática burguesa, entretanto esse enfoque não é nosso proposito nesse projeto inicial. Em Ler o Capital, texto de Althusser, cujo qual causou polêmica, sobretudo com Thompson, o filosofo argelino classifica um fato histórico como uma mutação das relações estruturais existentes. Thompson, de forma óbvia em seu ofício de historiador discorda do filósofo e diante da compreensível discordância do marxista britânico, tendo a concordar com Thompson, entretanto a pontuação de Althusser não é de todo errada. No caso das revoluções socialistas o ponto que interessa aos atores presentes é, de fato, a alteração na correlação de forças, fim das antigas relações e superação das sociedades de classes e isso envolve paixões, ideologias e rejeições de ideias, como esclarece Hobsbawm acerca da escrita da história da Revolução de Outubro, levará tempo até que as paixões desapareçam, e se, nesse caso, ocorrido há mais de 100 anos tais paixões ainda não se desfizeram gerando intensos debates, temas como a Revolução Cubana, que ainda não teve seu fim, ou a via pacifica para o socialismo chileno, que não somente gera debates, como teve implicações históricas ainda em voga, sobretudo após seu fim, onde se estabeleceu a ditadura pinochetista, não terão de estabelecer o fim da oposição acerca de temas por aqueles que nutrem paixões a respeito. Dito isso, há muito se discute por inúmeras áreas das humanidades o “e se”, sobretudo por pensadores de distintas matizes de pensamento marxista da via pacífica para o socialismo, suas viabilidades, possibilidade, erros ou acertos, entretanto de forma objetiva, o presente trabalho não se arriscaria a tal questão, afinal o papel da história não é esse, mas sim esclarecer de forma objetiva os acontecimentos ou pensamentos tais como foram ou minimamente de forma próxima à realidade. Aliado a isso precisamos esclarecer que aqui não almejamos alguns desvios idealistas analisando especificamente erros e acertos, ou concordando inteiramente como determinados pontos de vista dos cubanos ou dos chilenos, tampouco estabelecer vertente correta ou errada em referência à uma transição ao socialismo. Desse modo nosso objetivo é compreender através de distintas fontes pertinentes ao tema a relação e visão dos revolucionários cubanos acerca do processo do socialismo democrático chileno, tendo como ponto de partida o artigo de Aggio, anteriormente citado, onde se apresenta uma visão acerca do deterioramento do socialismo chileno a fim de que Fidel contribuísse para o declínio da Unidade Popular, tal artigo me permite discordar pontualmente acerca de tal visão, por compreender que esse problema se demonstrava claro desde o princípio da Unidade Popular e antes mesmo do governo Allende, como esclarece Marini (2019), a respeito da proposta político-econômica do governo reformista no Chile, quando esclarece “os problemas que a acumulação capitalista apresenta às massas só se resolvem através da revolução política”.3 Em um contexto de Guerra Fria que se tornava mais efusiva na região da América Latina, com golpes militares e ditaduras recém estabelecidas, mesmo em um país onde de certa forma, historicamente havia respeito à ordem democrática propor uma transição de um país subdesenvolvido, de interesse econômico aos EUA, significava desafiar a ordem política liberal, mas acima de tudo, no caso chileno, a ordem estava sendo desafiada através da sua própria lógica. Trocando em miúdos, a democracia liberal seria a via de transição ao socialismo, isso significava uma mudança de paradigma tanto no liberalismo quanto no socialismo. Se por um lado representava uma ameaça ao capitalismo norte-americano por outro representava a abertura de um novo horizonte que viria mais tarde a ser ventilado pelo eurocomunismo. É nesse contexto que as mudanças ocorrem na relação de Cuba com seus vizinhos latinos na perspectiva revolucionária, onde se estabeleceu até então no sentido de fomentar as ações através da luta armada, até mesmo no Chile até então onde não haviam obtido nenhum sucesso, isso se demonstra também na atuação em outros países da região que fracassaram no seu projeto de revolução. De forma óbvia as relações entre os revolucionários cubanos e os comunistas chilenos surgem bem antes do triunfo eleitoral de 1970, com estreitas relações com chilenos pró soviéticos durante a década de 60 que tiveram altos e baixos, sobretudo por Cuba ainda não se encontrar totalmente sob a órbita soviética. Entretanto as relações com os revolucionários chilenos compreendiam uma consciência que se tornara cada vez mais evidente para os cubanos, o Chile não apresentava claramente as condições existentes para uma revolução armada aos moldes da guerrilha cubana, segundo Harmer, quando Che Guevara se debruçou sobre os mapas da região para decidir onde poderia localizar um motor de guerrilha para impulsionar uma revolução continental, também não via o Chile como um localviável. [...] O vice primeiro-ministro de Cuba, Carlos Rafael Rodríguez, observou mais tarde que Chile sempre foi “uma das poucas 3 MARINI, Ruy Mauro. O reformismo e a contrarrevolução: estudos sobre o Chile. São Paulo: Expressão Popular: 2019. exceções” onde uma revolução pacífica poderia ter sucesso. (HARMER, 2011, P. 51, tradução nossa)4 Outro ponto fundamental na compreensão da histórica política concerne acerca da compreensão da política externa de vital importância na compreensão das relações entre os distintos países, sobretudo em um contexto como da guerra fria as aproximações políticas eram muito estimadas e significava acima de tudo uma aproximação ideológica, por mais que em momentos houvesse a quebra dessa proximidade puramente ideológica como era o caso da China que agia pragmaticamente nesse período. Entretanto nos casos dos países cuja a política externa é assentada, acima de tudo, em relações ideológicas, deve-se, em primeiro lugar compreender a estrutura política interna de forma que essas relações estabeleçam, sobretudo, uma consolidação de seu caráter ou regime político, Zara Steiner confirma tal característica, segunda ela “Num certo sentido, as políticas interna e externa sempre formaram um simples continuum, e, quando se procurou separá-las, os resultados foram desastrosos para os países envolvido”.5 Certamente em países socialistas ou que intentam ser essas relações certamente envolvem situações mais complexas tanto no plano interno quanto externo, no caso chileno e cubano, para além da situação externa onde havia um grande rival ideológico agindo sobre a região no plano interno (e com influência do mesmo rival) a situação do país sul-americano diferia da situação da ilha caribenha, enquanto naquele nível Cuba já conseguira erradicar minimamente a contrarrevolução interna, no caso chileno a situação apenas se agravava, citando o caso soviético, segundo Milza descreve que a política interna da URSS que desde “De Lenin a Gorbachev, a alternância de fases de tensão e de détente com os países ocidentais explica-se assim frequentemente tanto pelos imprevistos da conjuntura e da política econômicas, quanto pelas rivalidades entre indivíduos ou facções no interior do aparelho partidário”.6 O caso cubano, particularmente, teve em seu início uma disputa política entre um reformismo de cunho nacionalista, entretanto, liberal e uma ala revolucionária protagonizada por Fidel que saiu vencedor, já no caso chileno essa disputa era muito mais complexa visto que o reformismo era estabelecido não no programa da Unidade Popular, mas sobretudo, no caráter 4 “When Che Guevara had pored over maps of the region to decide where he could locate a guerrilla motor to power a continental revolution, he likewise had not seen Chile as a viable location. [...] As such, Cuba’s deputy prime minister, Carlos Rafael Rodríguez, later noted that Chile had always been “one of the few exceptions” where peaceful revolution could possibly succeed” 5 MILZA, Pierre. Por uma história política – 2. ed. RÉMOND, René (org). Rio de Janeiro: Editora é FGV, 2003, p. 365-400. 6 Ibid., 2003, p. 377. da democracia liberal que impunha limitações ao seu processo, essa disputa possuía vários atores e não só na estrutura do estado que não tinha cedido de seu caráter burguês, diferente do que acontecia em Cuba, essas disputas estabeleciam até mesmo discordâncias dentro da esquerda marxista, onde haviam aqueles que defendiam uma política mais branda e conciliatória (essa por parte do governo) e uma mais revolucionária (por parte do MIR). É claro que as diferenças entre os casos latino-americanos e da URSS tinham contextos e aspectos diferentes, no momento em que a revolução bolchevique havia se consolidado era de fato a primeira experiência socialista a surgir com uma liderança (Lênin) muito mais sóbria acerca das condições que se impunha e como possivelmente contorná-las, posteriormente já com Stalin se impôs a condição isolacionista de socialismo em um só país, que definitivamente limitava a internacionalização dos intentos comunistas obviamente isso não significava necessariamente que não houvesse relações com outros países. Entretanto o caso latino-americano prefigurava uma condição muito mais complexa por estar geograficamente próxima ao país que representava a maior oposição ao comunismo e onde a correlação de forças era extremamente desequilibrada, desse modo se impôs seriamente algumas restrições em seu modo de se relacionar não só com os países vizinhos, mas do ocidente, isso significava uma aproximação, acima de tudo ideológica, Cuba. Nesse lastro, as ditaduras que se impunham na região foram fundamentais também na formulação dessas relações onde isolava-se cada vez mais os dois países e as relações político- econômicas se deterioravam cada vez mais. Particularmente, quem conseguiu ter enorme contato com a experiência chilena foi Darcy Ribeiro, que se exilou no Chile em 1970, o sociólogo partilha da percepção dos cubanos referente às suas relações com os movimentos revolucionários na América Latina, percebendo que diante da transição em etapas muito brandas que pouco iria dissuadir as antigas estruturas e da revolução através de guerrilhas, a via chilena demonstrava-se uma terceira via. Para Darcy (1978), algumas estruturas de dominação haviam sido desmobilizadas, e o apoio popular aumentou a fim de que assim se pudesse combater os intentos contrarrevolucionários, entretanto, o sociólogo não nutria utopismos em relação ao socialismo chileno, via-o de bom modo, mas não anuía que esse processo seria de todo pacífico ou tranquilo, como se provou no fim. Não sei se parte daqui no Chile de uma guerra civil vitoriosa, mas também não se dispõe do controle total do poder que ela ensejaria. Não se perdera a capacidade gerencial e técnica dos setores intermédios, mas eles permaneciam em seus postos prontos a conspirar e a se insurgir. Não se necessitou implantar uma ditadura do proletariado, mas tampouco se contou com a mobilização popular suficiente para dissuadir a contrarrevolução. Não se enfrenta a pressão direta do inimigo externo, mas não se contava com a mobilização patriótica que ela provocaria. Não se estava diante de uma economia deteriorada por uma convulsão social, mas se tinha de edificar a nova economia a partir da existente que, dia após dia, debilitava-se. (COSTA apud DARCY, 2020, p. 416) Dentre outras visões, Ribeiro, compreendia que o socialismo chileno desafiava também os partidários da ideia de que a transição ao socialismo só se dava através de uma revolução radical e abrupta, ou seja, os ditos ortodoxos. Em contraposição ao castrismo que se baseou na guerrilha, o socialismo chileno para ele ia além e representava uma alternativa fundamental ao que ele entendia como uma espécie de “autoritarismo de esquerda” como seriam as pessoas ligadas à esquerda mais radical. Entendia inclusive, segundo Costa (2020), que o radicalismo poderia levar à uma ruptura radical dos contrarrevolucionários. O sociólogo mante esse posicionamento até o fim, é compreensível, de algum modo, que Darcy nutria forte sentimento pela experiência chilena e de certo modo se equivocou ao atribuir certa culpa à “esquerda desvairada” em um texto feito após o golpe em que achacava a esquerda que ele considerava dogmática e demasiada ortodoxa. Entretanto, Marini (2019) discorda profundamente de tal ideia, para ele a ruptura se deu não em nome das ações da esquerda mais radical, como por ações do MIR, as quais foram evitadas em nome da unidade durante o governo Allende (MARINI, 2019, p. 35-42). Contudo, em um governo que se encontrava ainda sob as bases da democracia burguesa e limitadas institucionalmente, a Unidade Popular precisava de alianças com setores médios da sociedade chilena, principalmente com os democratas cristãos. Os setores mais radicais,como os miristas, enxergavam a problemática da situação, já que ao invés de haver um avanço na organização de massas, essas alianças acabavam limitando as ações de Allende, afinal o estado ainda não estava plenamente no controle, já que, apesar de ações voltadas para estatização e nacionalização do setor privado, havia ainda setores da classe média mais elevada controlando boa parte da economia. Aliado a isso, no campo, apesar das ações de intervenção em propriedades rurais, as alianças com o DC, fez com que parte das relações no campo ainda estivessem intocáveis. Aqueles que defendem a via pacífica chilena certamente apelam para a oportunidade que se abria diante da formulação mais reformista do que revolucionária, conceitos esses que são debatidos arduamente por diversos autores marxistas, entretanto é possivelmente compreender teoricamente e na prática que o governo Allende não resistiria muito tempo sem qualquer crise que culminasse em uma saída violenta, Joan Garcés, assessor político do então presidente chileno justifica a via pacífica como forma de legitimar o governo e que através das vias legais, que, historicamente sempre estiveram em ordem enquadravam essa tentativa como possível “reduzindo as forças conservadoras a uma situação de isolamento sociopolítico e militar”. (apud AGGIO, 2002, p. 39) Entretanto “Garcés ao enxergar” a possibilidade de um governo de acordos, sobretudo com os democratas cristãos, não enxergava justamente suas limitações que terminaria por impor à Unidade Popular um limite de atuação ainda mais dentro da democracia burguesa, já que esse governo dependeria quase que de forma exclusiva de um partido cujo qual não havia unidade partidária, mas sim fortes discordâncias políticas entre a ala mais à esquerda e mais à direita. O que nos interessa a principio é jogar luz sobre algumas questões que pontuaremos de fato na dissertação, compreender determinados aspectos sobre o Chile é fundamental para compreendermos a visão cubana do processo no país andino desde o campo teórico à práxis revolucionária entre críticas e aproximações certamente a aproximação entre os dois modos de se fazer “revolução” refletia um relacionamento ambíguo não necessariamente ideológico mas em métodos, ambos compreendiam muito bem esse aspecto, não sem fundamento a dedicatória de “A guerra de Guerrilha” presenteada por Guevara à Allende quando este estivera em Havana explicativa isso “A Salvador Allende, que por outros meios trata de obter o mesmo”. A dedicatória comporta todas as divergências táticas entre os dois caminhos propostos: de um lado, Che Guevara, apostando na revolução pela via armada, de outro, Allende, acreditando que a estabilidade política do Chile sustentaria sua ousada proposta. Enfim, divergências que marcaram as décadas de 1960 e 1970 a partir de leituras distintas da realidade. Debray questionou Allende sobre o motivo que o levou a seguir assumindo a bandeira de Che Guevara e da revolução cubana, se eram propostas políticas distintas das suas. Allende respondeu que o motivo estava expresso na própria dedicatória do exemplar: “había diferencias indiscutiblemente, pero formales. En el fondo, las posiciones eran similares, iguales” (ALVES E SOUZA, 2021, p. 117) Acima de tudo o que é possível compreender a partir das analises preliminares aqui delineadas, ademais das discordâncias e concordâncias o que imperava entre os dois países era a solidariedade, era impensável para qualquer um dos dois o abandono do companheiro de ideologia, já que os fins eram os mesmos apenas diferiam nos métodos. Mas essa visão limitada, que não envolve uma visão política mais ampla desenvolvida pelos principais atores desses acontecimentos, talvez esqueça que essas relações são contornadas de métodos, sectarismos e formas do “fazer” o socialismo que só pode ser esclarecido a partir da um aprofundamento dessas relações e visões de mundo que diferiam sim em diversos pontos. Já que afinal de um lado temos uma revolução que se descobriu socialista em seu desenrolar e do outro temos uma tentativa de revolução que reivindicava como objetivo a construção do socialismo em seu princípio, mas que se encontrava dentro das limitações legais impostas pelas ideias burguesas, um conseguiu perpassar com muitas contradições essas ideias, enquanto a outra teve seu fim justamente nessas contradições. METODOLOGIA Antes de tudo para o desenvolvimento dessa pesquisa faz-se necessária o levantamento dos textos fundamentais no campo historiográfico para compreensão do presente tema. Compreendendo fundamentalmente textos que são básicos na introdução ao tema, alguns destes já estão inseridos desde então nesse projeto servindo essencialmente de introdução a um tema que será aprofundado ao decorrer da dissertação. Outrossim a pesquisa que irá se desenvolver é baseada em obras das mais diversas matizes das ciências humanas desde a economia até o campo das relações internacionais claro limitando-se ao papel que se supõe que esse trabalho permita fazer, obedecendo também ao espaço limítrofe que nos é íntimo no campo da história. É preciso ser claro que a analise que se segue parte de um viés do materialismo histórico, compreendendo é claro conceitos pertinentes ao campo da história marxista mas não se sustentando somente neste, mas é claro que dado o tema não temos como senão partir de um viés marxista da história e de outros campos teóricos do marxismo que conceitualmente são pertinentes na abordagem do presente trabalho, temas como revolução, contrarrevolução, transição socialista e econômica, ideologia são temas largamente explorados no seio da teoria da marxista de modo que esse debate irá se propor a partir de diferentes autores e ideias que mesmo pertencentes ao mesmo espaço ideológico não correspondem certamente a um dogma como acreditam alguns autores antimarxistas. O tema proposto é por si, um exemplo prático do que se propõe esse trabalho já que, afinal, importa uma discussão que antes, durante e depois do período aqui abordado se demonstra pertinente no campo marxista com distintos modelos e modos de se fazer a revolução, como no título provocativo de Rosa Luxemburgo “Reforma ou Revolução?” esse tema não é novo e demonstra um constante debate acerca da disputa mesmo dentro do movimento comunista internacional. Desse modo pretendemos ao logo da dissertação uma pesquisa em fontes oficiais (governamentais), discursos de indivíduos dos distintos países, acima de tudo de seus líderes, jornais ligados aos governos ou não, bem como as críticas e defesas de distintos pensadores do campo da história, economia, ciência política, sociologia, etc. Pretendemos analisar preferencialmente questões acerca do Estado, aportado nas ideias de Gramsci e Althusser a respeito das teorias acerca das questões ideológicas do Estado que serve como um passo na compreensão das acepções feitas pelo governo Allende acerca do estado burguês bem como suas limitações na transição. Pretendemos, de igual modo, fazer uma compreensão acerca do campo econômico na América Latina e suas questões de dependência baseada, sobretudo, mas não somente, a partir das ideias da teoria da dependência já que economia é correlata ao campo político portanto ambos são incindíveis, é preciso deixar isso claro afinal nas últimas décadas no campo econômico houve um desprendimento do político como se ambas não fossem codependentes. Para além desses aspectos minimamente necessários para compreensão básica do tema proposto, temos que nos debruçar minimamente no campo das relações exteriores, não objetivamos é claro em nos ater a um teoria intricada acerca dessa questão ou no campo das relações internacionais, afinal as condições existentes se alteraram demasiadamente nas últimas décadas, porém compreender minimamente tal fundamento é necessário para uma maior clareza no entendimentodas relações de países que por vezes se tornavam páreas diante do mundo, Assim sendo, contaremos com diversas fontes de diferentes origens e diferentes autores a fim de possibilitar a tomada do tema com diferentes vozes contribuindo fundamentalmente para uma compreensão mais factível do tema proposto e contribuindo para uma discussão que de algum modo não se faz tão presente nas discussões acerca das Revoluções latino-americanas senão de forma superficial e breve. FONTES PARA A PESQUISA Para tais objetivos é fundamental analisarmos a documentação arrolada por fontes do ministério das relações exteriores de Cuba, tal analise parece envolver enorme dificuldade, afinal não há possibilidade de se realizar a pesquisa in loco, entretanto nos foi possível defrontar com fontes como da Biblioteca Nacional do Chile compilado por Ricardo Perez Haristoy (2019) que trata acerca de documentos dos ministérios das relações exteriores de Cuba acerca do Chile, que contribui fundamentalmente no prosseguimento da presente pesquisa, além de demais fontes que já nos defrontamos ao desenrolar da pesquisa documental prévia. Ainda nos utilizaremos de fontes orais, através de entrevistas e discursos proferidos por líderes dos distintos países, registrados em fonte bibliográfica jornalísticas e revistas como a revista “Punto Final!”, 7responsável por diversas publicações das esquerdas na América Latina ao longo do período que delineamos o presente trabalho. Além disso de forma óbvia trabalharemos com fontes bibliográficas sobretudo no campo teórico do marxismo de conceitos particularmente importantes a esse trabalho, de teorias marxista-leninistas fundamentais na compreensão de alguns pontos chaves acerca da transição e governo socialista, bem como outros autores que abordam tal questão, bem como da bibliografia de Althusser, Gramsci, acerca de teorias do estado ampliado. Ruy Mauro Marini certamente foi quem mais se aprofundou acerca dos problemas da transição chilena ao socialismo, sobretudo a respeito da contrarrevolução, é, portanto, imprescindível neste trabalho assim como Moniz Bandeira autor que fundamentalmente contribuiu na assimilação da história de ambos os processos com dois excelentes livros bem documentados. CRONOGRAMA Atividade 2024 2025 2026 M ar ço A b ri l M ai o Ju n h o Ju lh o A g o st o N o v em b r o D ez em b r o Ja n F ev er ei r o M ar ço A b ri l M ai o Ju n h o Ju lh o A g o st o N o v em b r o D ez em b r o Ja n ei ro F ev er ei r o Disciplinas a serem cursadas X X X X X X X X X X X Levantamento Bibliográfico X X X X X X X Analise das fontes e dos dados coletados X X X X X Redação do trabalho X X X X X X Correções e ajustes x x x Defesa X BIBLIOGRAFIA ADAMS, José R. B.; Pfeifer, Mariana. O Estado ampliado de Gramsci. Revista Mosaico Social, ano 3, n. 3, dez. 2006, p 239-248. 7 Revista Punto Final! Página inicial Disponível em: https://www.puntofinal.la. Acesso em: 15 de out. de 2023. AGGIO, Alberto. Democracia e Socialismo, a experiência chilena. São Paulo: Annablume editora, 2002. _______________. Uma insólita visita: Fidel Castro no Chile de Allende. Revista História: São Paulo, vol. 22, n. 2 2023, p. 151-166. ALEJANDRO, Foxley (org.). Chile: búsqueda de um nuevo socialismo. Chile: Ediciones Nueva Universidad, 1971. ALTHUSSER, L. Ideologia e aparelhos ideológicos do estado. Lisboa: Editorial Presença, 1980. ALVES, HÉLIO A. de S., Soares, Amanda B. R. Fidel Castro e Salvador Allende: Relações políticas e institucionais do caribe ao cone sul (1959-1972). Trilhas da História, v. 10, n. 20, jan.-jul., ano 2021, p. 111-136. AYERB, Fernando Luis. Estados Unidos e América Latina: a construção da hegemonia. São Paulo: Editora Unesp, 2002. BAMBIRRA, Vânia. A Revolução Cubana: uma reinterpretação. Ed. Centelha, Coimbra, Brasil, 1975. BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz. De Martí a Fidel: A Revolução Cubana e a América Latina. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1998. COSTA, Adriane Vidal. Darcy Ribeiro o governo da Unidade popular e a esquerda desvairada. In: COSTA, A. V; BORGES, E. de C. (org).Os Cinquenta anos da Unidade Popular no Chile: um balanço historiográfico. Belo Horizonte: fino traço, 2020. p. 409-444. FERNANDES, Florestan. Da guerrilha ao socialismo: a Revolução Cubana. São Paulo: Expressão Popular, 2007. HARISTOY, Ricardo P. Fuentes para la historia de la republica volumen XLVII: Chile em los archivos del ministerio de relaciones exteriores de Cuba (1960-1974). Santiago de Chile: Biblioteca Nacional de Chile: 2019. HARMER, TANIA. Allend´s Chile & the inter american cold war. USA: The University of North Carolina Press, 2011. HARNECKER, Martha. Cuba: democracia ou ditadura? São Paulo: Global Editora, s/d. __________________. Fidel: a estratégia política da vitória. São Paulo: Expressão Popular, 2000. HOBSBAWM, Eric J. Viva la Revolucion: a era das utopias na América Latina. São Paulo: Cia das Letras, 2016. __________________. Sobre História. São Paulo: Cia das Letras, 2013. MARINI, Ruy Mauro. O reformismo e a contrarrevolução: estudos sobre o Chile. São Paulo: Expressão Popular: 2019. _________________ et al. Transicion al socialismo y experiencia chilena. São Paulo: Expressão Popular: 2019. Por uma história política – 2. ed. RÉMOND, René (org). Rio de Janeiro: Editora FGV, 2003. NETTO, José Paulo. Democracia e transição socialista: escritos de teoria e política. Belo Horizonte: Oficina de livros, 1990. Revista Punto Final! Página inicial Disponível em: https://www.puntofinal.la. Acesso em: 15 de out. de 2023. ROJAS, Rafael. Historia mínima de la Revolución Cubana. México: Colégio de México, 2015. SALES, JEAN et al. Revolução Cubana: ecos, dilemas e embates na América Latina. Aracaju: IFS, 2019. Thompson, E. P. Costumes em comum – A economia moral da multidão inglesa no século XVII. São Paulo: Cia das letras, 1998. p. 150-203.