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ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM AO PACIENTE QUEIMADO 2 Sumário INTRODUÇÃO........................................................................................................................... 3 CLASSIFICAÇÃO DAS QUEIMADURAS................................................................................... 6 QUEIMADOS – ALTERAÇÕES METABÓLICAS E SUPORTE NUTRICIONAL. ........................ 8 DANOS RESPIRATÓRIOS E QUEIMADURA INALATÓRIA .................................................... 11 FLUIDOTERAPIA PARA REANIMAÇÃO DO QUEIMADO ...................................................... 14 MONITORIZAÇÃO NO PACIENTE QUEIMADO ..................................................................... 16 TÉCNICAS ANESTÉSICAS ..................................................................................................... 18 PAPEL DO ENFERMEIRO NA ASSISTÊNCIA AO PACIENTE QUEIMADO ........................... 24 REFERÊNCIAS ....................................................................................................................... 25 3 INTRODUÇÃO Queimaduras são lesões na pele que podem ser causadas por diversos fatores, como calor, eletricidade, produtos químicos, radiação ou fricção. O tratamento de um paciente queimado pode variar dependendo da gravidade e extensão das queimaduras. As queimaduras são classificadas em primeiro, segundo ou terceiro graus, dependendo da profundidade e da extensão do dano tecidual. Se faz necessario verificar outras lesões associadas, como trauma por inalação em queimaduras em áreas próximas às vias respiratórias. Se a queimadura for causada por calor, é importante resfriar a área afetada com água fria corrente por pelo menos 10-20 minutos para evitar danos adicionais aos tecidos. A área queimada deve ser cuidadosamente limpa para remover sujeira, detritos e tecido necrosado, o que pode reduzir o risco de infecção. A administração de analgésicos pode ser necessária para aliviar a dor associada às queimaduras. Dependendo da extensão e profundidade das queimaduras, podem ser aplicados curativos estéreis ou pomadas específicas para queimaduras para proteger a área afetada e promover a cicatrização. Pacientes com queimaduras graves podem perder uma quantidade significativa de líquidos e nutrientes. A reposição adequada de fluidos e a nutrição adequada são essenciais para prevenir complicações como desidratação e desnutrição. Pacientes com queimaduras estão em maior risco de infecções, portanto, medidas preventivas, como administração de antibióticos tópicos ou sistêmicos, podem ser necessárias para reduzir o risco de infecção. Em casos de queimaduras graves, pode ser necessário realizar cirurgia para remover tecido necrótico (desbridamento) ou para enxertar pele saudável na área afetada. Após a fase aguda do tratamento, a reabilitação pode ser necessária para restaurar a função e a aparência da área afetada, através de fisioterapia, terapia ocupacional, entre outros. 4 HISTÓRIA DA QUEIMADURA É incrível como a sabedoria ancestral dos povos indígenas já incluía métodos de tratamento para lesões por queimaduras, usando recursos naturais como plantas medicinais. Essa prática demonstra uma profunda compreensão dos recursos disponíveis na natureza para tratar diferentes condições de saúde. A evolução ao longo do tempo, com o surgimento de preocupações mais formais e sistematizadas com o tratamento de queimaduras, marca um avanço significativo na história da medicina. A criação de serviços hospitalares especializados reflete o reconhecimento da importância de um tratamento dedicado e específico para pacientes com queimaduras, levando a uma melhoria substancial na qualidade dos cuidados oferecidos. Essa transição histórica ilustra como o conhecimento e a prática médica evoluem ao longo do tempo, incorporando novas descobertas, tecnologias e abordagens terapêuticas para melhor atender às necessidades dos pacientes. A introdução de novos tratamentos e abordagens para o cuidado de pacientes queimados reflete os avanços contínuos na área da medicina e da saúde. A criação da Sociedade Brasileira de Queimaduras em 1995 representa um marco importante no Brasil, pois demonstra o reconhecimento da gravidade das queimaduras como um problema de saúde pública e a necessidade de abordagens coordenadas e especializadas para lidar com essa questão. A SBQ busca incentivar o avanço do conhecimento científico no campo das queimaduras, apoiando pesquisas e estudos que contribuam para melhorar o tratamento, prevenção e reabilitação de pacientes queimados. A sociedade trabalha para disseminar informações atualizadas e práticas sobre o tratamento de queimaduras, garantindo que profissionais de saúde e público em geral tenham acesso a recursos e diretrizes eficazes. Uma das principais missões da SBQ é educar a população sobre medidas preventivas para evitar acidentes que levam a queimaduras, incluindo conscientização sobre segurança em casa, no trabalho e em ambientes públicos. A SBQ enfatiza a importância dos primeiros socorros adequados no tratamento inicial de queimaduras, fornecendo orientações claras e práticas para lidar com emergências. A sociedade apoia a formação e o desenvolvimento contínuo de profissionais de saúde envolvidos no tratamento de queimaduras, fornecendo oportunidades de educação, treinamento e atualização em práticas e técnicas relevantes. 5 A SBQ promove o intercâmbio de conhecimentos e experiências entre profissionais de diferentes países e instituições, facilitando a colaboração internacional e a disseminação das melhores práticas no tratamento de queimaduras. Ao trabalhar em conjunto com profissionais de saúde, pesquisadores, instituições acadêmicas e organizações governamentais e não governamentais, a Sociedade Brasileira de Queimaduras desempenha um papel fundamental na melhoria da qualidade do atendimento e na redução do impacto das queimaduras na sociedade brasileira. 6 CLASSIFICAÇÃO DAS QUEIMADURAS As queimaduras são classificadas de acordo com a extensão da superfície corpórea queimada, calculada em porcentagem da área total queimada (ATSQ). Além da área queimada, deve-se observar a profundidade das queimaduras, que podem ser de primeiro, segundo, terceiro grau ou quarto grau. As queimaduras de 1º grau (queimadura solar) são dolorosas, duram de 48 a 72 horas sem comprometimento hemodinâmico e geralmente não justificam internamentos. As queimaduras de 2º grau podem ser superficiais ou profundas, conforme atinjam apenas a epiderme e o terço superior da derme. Geralmente evoluem de forma benigna, com formação de bolhas dolorosas e resolução em torno de 14 dias. Quando afetam a parte profunda da derme, embora haja preservação dos folículos pilosos e glândulas sudoríparas, geram uma expectativa de reepitelização prolongada, tornando o resultado estético precário. Na queimadura de 3º grau, a pele é geralmente destruída (epiderme e derme), com danos profundos que podem levar a alterações hemodinâmicas, dependendo da Área Total de Superfície Corporal Queimada (ATSQ). Geralmente, requerem tratamento com intervenção cirúrgica para aproximação das bordas das feridas ou enxertia cutânea. A queimadura de quarto grau é uma condição grave em que além de afetar a derme e a epiderme, atinge estruturas mais profundas como fáscia, músculos, tendões, articulações, ossos e cavidades. Essas queimaduras são consideradas extremamente graves devido à sua profundidade e extensão, exigindo intervenção médica urgente e tratamento especializado. Existem várias formas de calcular a Área Total de Superfície Corporal Queimada (ATSQ), sendo a Regrados Nove de Wallace uma das mais utilizadas. No entanto, é importante destacar que a avaliação da ATSQ em crianças difere da avaliação em adultos. Para crianças, é recomendado usar a "Regra dos Onze" em vez da "Regra dos Nove". Essa adaptação leva em consideração as proporções corporais diferentes entre adultos e crianças, e ajuda a fornecer uma estimativa mais precisa da área queimada. 7 Tabela 1 - Regra dos Nove de Wallace Tabela 2 - Regra dos onze, para criança A gravidade das queimaduras está intimamente relacionada com a extensão da área corporal queimada, a profundidade da queimadura, idade, sexo e outros fatores. Índices foram desenvolvidos para ajudar a estimar a mortalidade após queimaduras graves, levando em consideração diversos parâmetros. Além da área total do corpo queimada, a profundidade da queimadura e a presença de comprometimento de tecidos profundos, como músculos e ossos, são indicativos importantes da gravidade da lesão. A inalação de fumaça e produtos tóxicos também pode aumentar o risco de complicações e mortalidade. Idade é outro fator relevante, com pacientes jovens geralmente apresentam melhor prognóstico do que pacientes mais velhos. No entanto, a mortalidade em pacientes idosos, especialmente acima de 75 anos, muitas vezes permanece elevada, apesar dos avanços no tratamento. A mortalidade também pode variar de acordo com o sexo, com mulheres na faixa etária de 30 a 59 anos apresentando uma taxa de mortalidade duas vezes maior do que homens na mesma faixa etária. Além disso, a atividade da colinesterase plasmática tem sido utilizada como um indicador de mortalidade em pacientes queimados. Pacientes com baixa atividade de colinesterase no plasma tendem a ter uma maior mortalidade em comparação com aqueles com atividade elevada de colinesterase. Esses fatores são importantes para estimar o prognóstico e direcionar o tratamento adequado para pacientes queimados. 8 QUEIMADOS – ALTERAÇÕES METABÓLICAS E SUPORTE NUTRICIONAL. A resposta ao estresse no paciente queimado é caracterizada por uma resposta hipermetabólica intensa e prolongada, que difere significativamente de outros pacientes críticos ou com trauma severo. Essa resposta é marcada por um aumento dramático nas necessidades metabólicas do corpo. Após grandes queimaduras, ocorre uma resposta hiperdinâmica, que se manifesta pelo aumento da temperatura corporal, maior consumo de glicose e oxigênio, aumento na produção de dióxido de carbono, glicogenólise, lipólise e proteólise. Enquanto pacientes com outras condições, como peritonites, podem apresentar um aumento na taxa metabólica de 5% a 25%, e pacientes com trauma severo podem ter um aumento de 30% a 70%, os pacientes com grandes queimaduras podem experimentar um aumento de até 200% em seu metabolismo. As catecolaminas desempenham um papel crucial nesse processo de hipermetabolismo. A liberação de noradrenalina pelos terminais nervosos e pela medula adrenal é significativamente aumentada em proporção à extensão da área queimada. Os níveis de noradrenalina podem atingir de 2 a 10 vezes os níveis normais, o que exerce uma forte influência na ocorrência de falência de múltiplos órgãos e na mortalidade dos pacientes queimados. Essa resposta metabólica exacerbada destaca a complexidade e a gravidade das queimaduras e destaca a importância de uma abordagem multifacetada no tratamento desses pacientes. As respostas metabólicas do paciente com grandes queimaduras são complexas e evoluem ao longo do tempo. Inicialmente, logo após a queimadura, há uma diminuição acentuada na velocidade do metabolismo. O débito cardíaco também diminui significativamente, chegando a atingir entre 50% e 60% dos valores basais. Isso ocorre nos primeiros dias após a lesão. Após esse período inicial, e com a eficácia da reanimação cardio-circulatória por meio da administração de fluidos, a taxa metabólica começa a aumentar novamente. Esse aumento atinge seu pico entre o 7º e o 12º dia após a queimadura. Em casos de queimaduras extensas, acima de 60% da área corporal total queimada, essa taxa de crescimento metabólico pode chegar a até duas vezes a velocidade metabólica inicial. Esse estado hipermetabólico resulta em um severo catabolismo protéico, que pode levar à diminuição da imunidade e retardar a cicatrização da ferida. A demanda aumentada de oxigênio muitas vezes requer a suplementação de oxigênio para garantir uma cicatrização adequada. Após o trauma causado pela queimadura, os mediadores da inflamação liberados nos locais da ferida promovem um grande edema. Esses mediadores incluem radicais livres de oxigênio, metabólitos do ácido aracdônico e componentes do sistema complemento. Em queimaduras com área de superfície corporal pequena, o edema pode ficar confinado ao local da ferida. 9 Nos pacientes com queimaduras extensas, acima de 10% da área corporal total, os mediadores da inflamação provocam respostas sistêmicas, caracterizadas por um aumento significativo na concentração de cortisol e na produção de citocinas mediadoras do processo inflamatório. Além disso, ocorre uma diminuição precoce e persistente nos níveis de testosterona, que pode durar meses após o início do tratamento, afetando o anabolismo proteico. A administração de testosterona é sugerida como uma forma de restaurar o anabolismo das proteínas da musculatura esquelética e reduzir a perda de nitrogênio orgânico nos pacientes queimados. Quando ocorre a quebra da integridade da derme, com comprometimento de todas as suas camadas, especialmente em queimaduras que afetam mais de 40% da área total corporal, há um aumento significativo no risco de infecção por diversos agentes bacterianos. Isso ocorre devido ao desarranjo da resposta imunológica, tanto pelos fatores específicos (mediadores celulares e humorais) quanto pelos não específicos (como os leucócitos polimorfonucleares e macrófagos). A liberação de histamina no local da queimadura leva à ativação do complemento, aumentando a liberação de xantina oxidase e ativando as células inflamatórias. Além disso, ocorre um aumento na permeabilidade capilar, resultando em edema na área queimada e em áreas adjacentes nas 24 horas seguintes, afetando toda a área corporal, inclusive as regiões não queimadas. Interessantemente, o peptídeo intestinal vasoativo (VIP), que aumenta em casos de grandes traumas, permanece inalterado nos pacientes queimados. Esse fenômeno pode facilitar a cicatrização da ferida devido ao efeito citoprotetor do VIP na mucosa intestinal, bloqueando a liberação de óxido nítrico nos tecidos afetados pelas queimaduras. É crucial notar que dois componentes estão diretamente implicados na resposta ao estresse no paciente queimado: a hiperglicemia e o alto catabolismo proteico. Estudos in vitro e in vivo têm demonstrado um substancial impedimento na função imunológica e na cicatrização das feridas devido à elevação da glicemia. Portanto, o controle adequado da glicemia é essencial para otimizar a resposta do paciente queimado ao tratamento. A manutenção de níveis normoglicêmicos pode ajudar a preservar a função imunológica e promover uma cicatrização mais eficaz das feridas. Além disso, estratégias para reduzir o catabolismo proteico, como a oferta adequada de nutrientes por meio da alimentação enteral e o uso de suplementos como a glutamina, podem ser benéficas para minimizar a perda de massa muscular e promover uma recuperação mais rápida e eficiente. Pacientes portadores de diabetes mellitus, com controle da glicemia durante o período de queimaduras, apresentam menores incidências de neuropatias, nefropatias e complicações oftalmológicas. Por outro lado, a hiperglicemia está associada a perdas repetidas de enxertos cutâneos, com uma grande prevalência de septicemia e aumento da mortalidade. 10 Além disso, outrosfatores estão relacionados a complicações e mortalidade no paciente queimado. A infecção por herpes é encontrada em pelo menos 15% dos pacientes entubados e está associada a um aumento na mortalidade. A transfusão sanguínea parece contribuir de maneira específica para a imunossupressão. Como medida de proteção do paciente e controle da perda sanguínea durante as enxertias de pele autóloga, recomenda-se o uso de solução salina com epinefrina no tecido subcutâneo da ferida do queimado e na área doadora do enxerto, a fim de reduzir a necessidade de transfusão intraoperatória. Estima-se que isso possa reduzir as transfusões em até 50%. A temperatura ambiente também tem um efeito importante na taxa metabólica do paciente queimado. Em pacientes com área total de superfície queimada acima de 44%, uma temperatura ambiente termoneutra de 28 a 32ºC pode resultar em uma taxa metabólica 1,5 vez maior do que a de um paciente não queimado. Portanto, é importante evitar baixas temperaturas. Além disso, uma maneira de melhorar a taxa metabólica desses pacientes é iniciar imediatamente o suporte nutricional após a queimadura. Isso pode ser feito assim que o paciente atingir a fase de estabilidade hemodinâmica, em alguns centros, iniciando-se até 4 horas após esse período. Essas medidas devem ser complementadas pelo controle da dor, alívio da ansiedade, controle térmico do ambiente e controle eficaz da liberação de catecolaminas para garantir energia suficiente para a cicatrização tecidual. 11 DANOS RESPIRATÓRIOS E QUEIMADURA INALATÓRIA O dano pulmonar causado pela queimadura resulta de diversos fatores, incluindo o trauma direto, o processo inflamatório desencadeado pelo trauma, o aumento do líquido extravascular pulmonar e a inalação do ar superaquecido. A presença de inalação de fumaça contribui significativamente para o aumento da mortalidade nesses casos. Uma breve exposição da epiglote ou laringe a ar seco com temperatura de 300ºC ou vapor com temperatura de 100ºC pode causar um maciço edema e rápida obstrução das vias aéreas. Esse fenômeno é especialmente grave em crianças, podendo resultar em condições como macroglossia, epiglotite, laringotraqueíte e bronquite. Como consequência imediata, ocorre asfixia devido à inalação de monóxido de carbono (CO) e cianeto, bem como uma diminuição das trocas gasosas devido ao edema, uma diminuição da complacência pulmonar e torácica, e um aumento da resistência vascular pulmonar. Os achados histopatológicos característicos incluem edema intersticial da microcirculação pulmonar, membrana hialina e um alto influxo de neutrófilos. A hipoproteinemia e a diminuição da pressão oncótica do plasma também contribuem para o aumento do líquido extravascular pulmonar. Esses eventos combinados podem levar a complicações respiratórias graves e até mesmo à insuficiência respiratória. A pneumonia é uma complicação comum em pacientes queimados, ocorrendo em cerca de 48 a 56% dos casos e frequentemente exigindo o uso de ventilação mecânica. A inalação de vapor durante a queimadura é um fator de risco significativo, podendo aumentar em até duas vezes o risco de desenvolvimento de pneumonia. Os principais agentes causadores são bactérias endógenas, originadas principalmente da flora da orofaringe e do trato gastrointestinal, incluindo Staphylococcus aureus, Streptococcus pneumoniae e Haemophilus influenzae. A queimadura da via aérea superior é particularmente crítica nas primeiras 4 a 48 horas após o incidente, período durante o qual ocorre um edema significativo da epiglote e das estruturas laríngeas. O tratamento da hipovolemia pode contribuir para a formação desse edema. A obstrução das vias aéreas superiores reduz o fluxo inspiratório sem diminuir o fluxo expiratório, podendo levar a uma insuficiência respiratória grave que pode exigir intubação oro ou nasotraqueal. Essa intubação muitas vezes precisa ser mantida por um período mínimo de 72 horas para garantir uma adequada ventilação e oxigenação. 12 No caso de pacientes traumatizados por queimaduras, é crucial considerar sempre a possibilidade de entubação traqueal. As condições podem ser desafiadoras devido ao edema facial, possíveis lacerações nos tecidos moles, inchaço das vias aéreas superiores devido à inalação de vapor e intoxicação por monóxido de carbono ou cianeto. A inalação da fumaça pode causar danos tanto nas vias aéreas superiores quanto no trato respiratório inferior. Os produtos químicos resultantes da combustão, como amônia, dióxido de nitrogênio e dióxido de enxofre, quando combinados com água no trato respiratório, formam ácidos e bases fortes, que podem induzir broncoespasmo, edema e ulceração da membrana mucosa. Esses agentes químicos podem penetrar nas camadas mais profundas do tecido pulmonar, causando lesões nos alvéolos e interferindo nas trocas gasosas normais. A capacidade de desenvolver edema nos tecidos moles da orofaringe e do tecido subcutâneo é comum em pacientes com queimaduras na face e no pescoço, especialmente quando há inalação de gases aquecidos, mesmo em casos de queimaduras abrangendo até 30% da área corporal. A intoxicação por monóxido de carbono (CO) deve ser sempre considerada em pacientes queimados em ambientes fechados, como em explosões de automóveis ou espaços pequenos. É importante lembrar que o monóxido de carbono se liga à hemoglobina de forma muito mais estável do que o oxigênio, além de deslocar a curva de dissociação da hemoglobina para a esquerda, dificultando a liberação de oxigênio para os tecidos. Portanto, em casos de intoxicação por monóxido de carbono, a decisão de entubar o paciente deve ser rápida para garantir uma adequada suplementação de oxigênio. Quanto ao uso de bloqueadores neuromusculares (BNM), deve ser feito de forma criteriosa. O uso de bloqueadores despolarizantes, como a succinil-colina, deve ser evitado devido ao risco de hipercalemia, que pode levar à parada cardíaca. Estudos sugerem que os efeitos dos bloqueadores despolarizantes podem ser sentidos por até um ano ou dois após sua administração inicial em pacientes queimados. O uso de bloqueadores despolarizantes pode apresentar uma atividade reduzida em pacientes queimados, exigindo doses até cinco vezes maiores do que o habitual para alcançar o efeito desejado. Isso pode aumentar o risco de efeitos indesejáveis, especialmente em pacientes com queimaduras na face, onde a ventilação pode ser mais difícil de ser realizada. O barotrauma é uma complicação frequente devido à baixa complacência pulmonar e torácica, exigindo cautela na aplicação da técnica ventilatória. Em alguns 13 casos, a fasciotomia pode ser necessária para permitir uma ventilação pulmonar adequada, especialmente quando há presença de edema massivo. Novas estratégias de ventilação têm sido adotadas na fase aguda do paciente queimado para evitar o trauma induzido pela ventilação. A ventilação de alta frequência é uma alternativa satisfatória à ventilação convencional, promovendo uma distribuição adequada de gás com baixa pressão nas vias aéreas e pouco impacto no sistema circulatório. A ventilação de alta frequência oscilatória também tem sido utilizada, embora seu impacto na redução da mortalidade ainda não esteja claro. Devido ao massivo edema presente em alguns casos, a indicação de dispositivos como a máscara laríngea e o Combitube pode ser limitada. Nesses casos, a entubação com o paciente acordado ou sob broncoscopia é mais segura. A necessidade de cricotiroidostomia ou traqueostomia também deve ser considerada. Uma vez inserida a cânula respiratória, é importante verificar sua posição regularmente para evitar deslocamentos e mantê-la adequadamente posicionada. 14 FLUIDOTERAPIA PARA REANIMAÇÃO DOQUEIMADO Retardar o início da reanimação com fluidos em pacientes queimados aumenta significativamente o risco de insuficiência renal e mortalidade. Embora existam várias estratégias e escalas para calcular a hidratação, a fórmula de Parkland é amplamente aceita: administrar 4 ml de solução de Ringer lactato por kg de peso por percentual da área corporal queimada durante as primeiras 24 horas. Metade desse volume deve ser administrado nas primeiras 8 horas e a outra metade nas 16 horas seguintes. No entanto, é importante ressaltar que essa fórmula é apenas um guia e outros parâmetros devem ser considerados para uma ressuscitação adequada. O uso da solução hipertônica de cloreto de sódio, conhecida como "salgadão", foi abandonado devido ao risco de aprofundar as lesões do queimado, aumentar a incidência de insuficiência renal e suprimir a função imunológica. Uma reposição hídrica excessiva está associada ao desenvolvimento de edema tecidual e pulmonar, o que pode levar à diminuição da perfusão tecidual e ao desenvolvimento da síndrome do compartimento. Nos primeiros 48 horas da reposição, pode ocorrer aumento do líquido extravascular pulmonar, dificultando a ventilação e a difusão, e em alguns casos, pode ocorrer edema pulmonar se a reposição ultrapassar 400% do cálculo estabelecido pela fórmula de Parkland. Em casos como esses, o acesso central com cateter venoso central (CVC), medida da Pressão Pulmonar ou Volume Diastólico Final do Ventrículo Direito podem ser úteis na avaliação do paciente e na melhoria subsequente do resultado. No entanto, é importante observar que pode ocorrer depleção do volume intravascular persistente por até 4 dias, mesmo com uma reposição adequada, e isso deve ser monitorado diariamente. A inalação de ar quente ou vapor, além de agravar o quadro respiratório, requer uma maior hidratação, mesmo na ausência de lesões tegumentares significativas causadas pela queimadura. Durante o processo de reanimação, a meta é manter um débito urinário de 0.5 a 1 ml por kg por hora, como uma reposição aceitável e necessária para o controle da volemia. O lactato plasmático e o déficit de base têm sido propostos como métodos de avaliação para a titulação da reanimação em casos de hemorragia e choque séptico no paciente queimado. No entanto, alguns argumentam que o lactato plasmático não é um indicador confiável de uma reposição insuficiente no paciente queimado em choque, 15 mas sim, uma ferramenta útil para avaliar rapidamente a extensão da área queimada no período imediato pós-queimadura. Durante esse período, há uma diminuição do débito cardíaco, independentemente do volume vascular reposto. Além disso, a contratilidade cardíaca está reduzida devido a fatores circulantes, como a resposta diminuída às catecolaminas endógenas e a diminuição do fluxo coronariano. Embora não tenha sido identificado um fator específico para essa depressão miocárdica, acredita-se que seja causada por fatores como o fator de necrose tumoral, radicais livres de oxigênio, endotelina-1 e interleucina. A resposta cardiovascular diminuída às catecolaminas, tanto endógenas quanto exógenas, é causada pela diminuição da afinidade dos receptores adrenérgicos no músculo cardíaco. Além disso, a diminuição do fluxo coronariano no período pós- queimadura contribui para essa diminuição da contratilidade cardíaca. Esses fenômenos são mais acentuados em pacientes mais idosos. No caso das crianças, a reanimação segue uma abordagem diferente em comparação aos adultos, geralmente exigindo uma quantidade maior de líquidos cristaloides. Uma média de 6 ml/kg por percentagem de área corporal queimada é usada para manter um débito urinário adequado. Assim como nos adultos, as crianças com queimaduras graves também apresentam hiperglicemia nas primeiras 24 horas. Após esse período, em crianças menores, pode-se optar pela utilização de uma solução de dextrose a 5% com solução salina a 0,45% para reposição de líquidos. Em algumas situações, a reposição com coloides pode ser necessária em crianças queimadas, devido à rápida queda na concentração de proteínas plasmáticas durante a reposição com cristaloides. Pacientes que não respondem bem à reposição convencional muitas vezes apresentam características como grandes áreas de queimaduras, acima de 40%, profundas o suficiente para afetar fáscias e músculos, além de extremos de idade, queimaduras inalatórias e comorbidades como diabetes e hipertensão. Alguns centros médicos optam por utilizar reposição com plasma em pacientes para estabilização hemodinâmica e para limitar a reposição líquida, embora essa medida não seja amplamente aceita em todos os lugares. 16 MONITORIZAÇÃO NO PACIENTE QUEIMADO A monitorização das vítimas de queimaduras que serão submetidas a procedimentos anestésico-cirúrgicos deve levar em consideração as condições clínicas prévias do paciente, a extensão do trauma, a magnitude da abordagem cirúrgica e suas possíveis complicações. É importante que essa monitorização seja o mais completa possível para garantir uma avaliação precisa do paciente a ser anestesiado. A oximetria é um método não invasivo para avaliar a saturação da hemoglobina com oxigênio, fornecendo informações cruciais, especialmente em situações graves, onde o consumo de oxigênio está aumentado devido ao estado hipermetabólico. É importante observar que em pacientes intoxicados por monóxido de carbono, a oximetria de pulso pode fornecer leituras superestimadas, pois a presença de carboxihemoglobina mascara a detecção de oxihemoglobina pelo oxímetro. Isso ocorre porque o monóxido de carbono possui uma afinidade 250 vezes maior pela hemoglobina do que o oxigênio, competindo com ele e reduzindo a capacidade de transporte de oxigênio pela hemoglobina, o que pode levar à hipoxemia e acidose metabólica. Em tais casos, pode ser necessário encontrar alternativas para a colocação do sensor do oxímetro, como nariz, orelha, língua, entre outros locais. O cooxímetro, que mede as percentagens de hemoglobina, oxihemoglobina, carboxihemoglobina e metahemoglobina, é essencial para uma avaliação precisa da saturação de oxigênio, especialmente em pacientes com intoxicação por monóxido de carbono. A colocação dos eletrodos do ECG pode representar um desafio para o anestesiologista em pacientes com queimaduras, pois idealmente eles devem ser colocados em áreas não afetadas pela queimadura. Se não houver áreas intactas disponíveis ou se estas estiverem dentro do campo cirúrgico, podem ser utilizadas agulhas conectadas aos eletrodos ou até mesmo um eletrodo esofágico. A pressão arterial pode ser medida de forma indireta através de um manguito, mesmo em áreas queimadas, desde que não estejam muito edemaciadas, o que poderia interferir na precisão da medida. No entanto, a medida direta da pressão arterial é preferível, especialmente em procedimentos longos ou quando os pacientes necessitam de monitorização mais invasiva. O acesso arterial, além de fornecer uma avaliação contínua da pressão arterial, facilita a coleta de exames sanguíneos seriados. A capnografia é uma ferramenta crucial para garantir a ventilação adequada do paciente queimado, pois ele tende a produzir uma grande quantidade de dióxido de carbono devido ao seu estado hipermetabólico. Monitorizar a diurese horária também é 17 essencial em pacientes gravemente queimados, e a instalação de uma sonda vesical é mandatória para uma avaliação precisa. O débito urinário é um indicador importante de perfusão tecidual e renal, com metas específicas a serem observadas para adultos e crianças. A incidência de insuficiência renal aguda em pacientes queimados varia, mas pode ser associada a uma alta taxa de mortalidade. A temperatura corporal também deve ser rigorosamente monitorizada, pois os pacientes queimados são vulneráveis à hipotermia,que é comum e difícil de prevenir. Estratégias como o uso de gases inspirados aquecidos e umidificados, colchões térmicos, líquidos intravenosos aquecidos e manutenção de temperaturas elevadas nas salas cirúrgicas podem ajudar a prevenir a hipotermia e contribuir para a estabilidade metabólica desses pacientes. O bloqueio neuromuscular é essencial ao administrar fármacos dessa classe a pacientes queimados, pois eles frequentemente desenvolvem resistência aos bloqueadores neuromusculares adespolarizantes. Essa resistência pode se manifestar como uma diminuição no tempo de ação desses bloqueadores, começando cerca de uma semana após a queimadura e podendo persistir por até 18 meses. A resistência ocorre devido à proliferação de receptores de acetilcolina, tanto nas áreas afetadas pelas queimaduras quanto em locais distantes. Em pacientes com queimaduras extensas ou comorbidades graves, a monitorização invasiva da pressão arterial, pressão venosa central e cateter de artéria pulmonar é recomendada. Isso permite um controle mais preciso da reposição volêmica, o uso de substâncias cardioinotrópicas e a detecção precoce de instabilidade hemodinâmica. Esses dispositivos proporcionam uma visão mais abrangente do estado hemodinâmico do paciente e ajudam na tomada de decisões clínicas mais assertivas. É fundamental realizar exames laboratoriais como hemogramas, coagulogramas, gasometrias arteriais, ionogramas, função renal, glicemia, proteínas séricas, colinesterases plasmáticas e outros de forma periódica em pacientes queimados. Esses exames são essenciais para monitorar as alterações decorrentes da patologia e das intervenções cirúrgicas realizadas. Eles devem ser solicitados sempre que as condições clínicas do paciente indicarem sua necessidade, para garantir um acompanhamento adequado e intervenções oportunas, se necessário. 18 TÉCNICAS ANESTÉSICAS A escolha da técnica anestésica no paciente queimado depende de diversos fatores, incluindo a extensão e localização das queimaduras, o estado hemodinâmico do paciente e a natureza do procedimento a ser realizado. Geralmente, a anestesia geral é a opção mais comum devido às características específicas desses pacientes. Para procedimentos como balneoterapia e troca de curativos, a anestesia venosa com cetamina é frequentemente preferida devido à praticidade, segurança e estabilidade hemodinâmica que oferece. Em casos de desbridamento e enxertia cutânea em membros sem infecção cutânea, os bloqueios de plexo, peridural ou raquianestesia podem ser adequados e bem tolerados pelos pacientes. No entanto, em pacientes com queimaduras extensas, choque ou instabilidade hemodinâmica, especialmente quando há comprometimento de áreas críticas como face, pescoço, tórax e vias aéreas, a anestesia geral combinada é frequentemente utilizada, seguindo critérios de segurança e risco. É importante evitar o uso de succinil- colina devido ao risco de parada cardíaca nesses pacientes. Os bloqueadores neuromusculares adespolarizantes são frequentemente indicados em pacientes queimados, porém, sua dose precisa ser aumentada, às vezes até cinco vezes mais do que o habitual. Isso ocorre devido ao aumento dos receptores musculares de acetilcolina, o que resulta em resistência a esses bloqueadores. Esse efeito começa dentro de uma semana após a queimadura e pode durar mais de 18 meses. Embora se pense que essa resistência seja mais evidente em pacientes com queimaduras que afetam mais de 30% da área corporal, estudos mostraram que os receptores de acetilcolina também estão aumentados em pacientes com queimaduras em áreas menores, como 2% da área corporal. Quanto à escolha do agente volátil para anestesia, não parece haver uma influência significativa nos resultados, mas é importante ter cautela com o uso repetido do halotano. O enflurano e o isoflurano afetam o sistema cardiovascular, reduzindo o débito cardíaco, sendo que o isoflurano tem uma ação predominante na redução da resistência vascular periférica, diminuindo a pós-carga. Por sua rápida indução, ausência de odor irritante e estabilidade hemodinâmica, o sevoflurano tem sido preferido entre os halogenados, especialmente em crianças queimadas, embora não haja comprovação de hepatite induzida pelo halotano nesses pacientes. 19 Todos os agentes intravenosos são eficazes na anestesia do paciente queimado. A cetamina é amplamente utilizada devido aos seus efeitos benéficos, embora possa causar efeitos disfóricos. O etomidato é uma boa opção em pacientes instáveis, embora seus efeitos mioclônicos possam ser exacerbados em pacientes queimados, podendo até mimetizar convulsões. O propofol e o tiopental também podem ser utilizados nesses pacientes com cautela, pois ambos podem causar uma significativa queda no débito cardíaco. Pacientes queimados frequentemente sofrem de dor intensa e requerem tratamento analgésico potente com opioides para garantir conforto durante e após os procedimentos cirúrgicos. Devido à exposição repetida a esses medicamentos devido a múltiplos procedimentos cirúrgicos e trocas de curativos, os pacientes podem desenvolver tolerância aos opioides. Remifentanil, alfentanil, fentanil e sufentanil são opções eficazes e bem toleradas para o controle da dor nesses pacientes. No entanto, o remifentanil, apesar de apresentar o melhor perfil farmacocinético para infusão contínua, pode ser insuficiente para proporcionar uma analgesia adequada no período pós-operatório em pacientes queimados. O sufentanil se destaca como uma opção preferencial devido à sua potência analgésica, estabilidade e perfil farmacocinético adequado para infusão contínua. Especialmente em pacientes com queimaduras extensas, o sufentanil proporciona uma analgesia eficaz durante o procedimento cirúrgico e pode continuar a oferecer alívio da dor no pós-operatório por até 4 horas após a interrupção da infusão. Isso reduz a necessidade de analgésicos adicionais durante esse período crítico. Dessa forma, é essencial abordar a dor de forma eficaz, pois ela é uma consequência inevitável das grandes queimaduras. Além disso, é importante reconhecer e tratar os componentes de ansiedade e depressão, que são frequentemente presentes em pacientes que experimentam tanto trauma físico quanto psicológico. 20 CUIDADOS COM A FERIDA POR QUEIMADURA A sulfadiazina de prata é de fato um dos antimicrobianos mais comumente utilizados no tratamento de queimaduras. Sua aplicação cria uma barreira protetora contra infecções e ajuda a promover a cicatrização da ferida. É importante aplicar uma camada adequada do medicamento sobre a área afetada e cobri-la com gaze absorvente, seguindo as orientações do fabricante. A troca do curativo a cada 12 horas é essencial para garantir a eficácia do tratamento e prevenir infecções. Além disso, outros cuidados locais e sistêmicos podem ser necessários, dependendo da profundidade, localização e extensão da queimadura. Uma abordagem multidisciplinar e individualizada é fundamental para o manejo adequado de cada caso. Os curativos oclusivos têm se destacado globalmente devido à sua eficácia na promoção da cicatrização. Eles devem ser espessos o suficiente para evitar vazamentos de secreções da ferida, manter a temperatura do paciente e fornecer um ambiente úmido que favoreça o crescimento celular e impeça a penetração de germes e raios ultravioleta. Apesar dos benefícios, esses curativos não são recomendados para áreas genitais e faciais. Os hidrogéis são outra opção de curativo que tem sido amplamente utilizada. Eles proporcionam alívio da dor devido à sensação de frescor causada pela alta umidade e ajudam na reparação do tecido lesionado, criando um ambiente ideal para o processo de cicatrização. Os hidrogéis são indicados tanto para feridas de espessura parcial quantopara aquelas com exsudação abundante. A frequência de troca do curativo depende da eficácia do produto utilizado e das características da ferida. Uma abordagem individualizada e acompanhamento médico são essenciais para determinar o melhor tipo de curativo e a frequência adequada de troca para cada paciente. Os curativos úmidos são uma opção eficaz para regiões genitais e faciais, proporcionando analgesia adequada. Eles consistem em gazes embebidas em solução fisiológica, que são trocadas a cada duas horas por profissionais de enfermagem capacitados. Essa abordagem ajuda a manter um ambiente úmido na ferida, o que favorece a cicatrização. As películas de proteção são utilizadas para criar um ambiente propício à epitelização da ferida. Elas são indicadas em feridas com controle bacteriano e após a remoção do tecido necrótico. Essas películas são transparentes, permitindo que a 21 evolução da ferida seja acompanhada, e devem ser removidas somente quando a lesão estiver completamente epitelizada. Dentre as opções de películas de proteção, destacam-se as membranas amnióticas, de colágeno e, mais recentemente, de ácido hialurônico, glucosamina, quitosano e cana de açúcar. Cada uma dessas membranas tem suas próprias propriedades e benefícios, e a escolha do tipo mais adequado depende das características específicas da ferida e das necessidades do paciente. O tratamento das feridas por queimadura inclui a excisão precoce do tecido necrosado e a cobertura local da área afetada. Esse procedimento é crucial para evitar infecções e melhorar a sobrevida dos pacientes. Nos casos de queimaduras de terceiro grau, o desbridamento da ferida é essencial para remover o tecido desvitalizado, prevenindo infecções e promovendo a cicatrização. É importante ressaltar que toda queimadura não desbridada tende a se tornar infectada após o décimo quinto dia pós- queimadura, mesmo com o uso de agentes antimicrobianos tópicos adequados. A oxigenoterapia hiperbárica é uma opção de tratamento coadjuvante para queimaduras, aproveitando os efeitos bioquímicos e biofísicos do oxigênio. Esse procedimento aumenta a disponibilidade de oxigênio para as células e tecidos através de sua maior dissolução no plasma quando administrado em pressões superiores às atmosféricas normais, conforme a Lei de Henry. No entanto, a eficácia da oxigenoterapia hiperbárica em pacientes com queimaduras ou intoxicação por incêndio ainda é questionada. Além disso, é importante considerar as contraindicações desse tratamento, como claustrofobia, doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), histórico de convulsões, sinusite, otite e pneumotórax não drenado. 22 PREVENÇÃO DA LESÃO POR QUEIMADURA As queimaduras representam importantes causas de morbidade e mortalidade, constituindo um sério problema de saúde pública no Brasil. Embora haja avanços no tratamento das lesões causadas por queimaduras, a prevenção ainda é a abordagem mais eficaz, com um excelente custo-benefício. É responsabilidade do poder público e das equipes de saúde divulgar medidas preventivas e orientar a população sobre os riscos e cuidados necessários para evitar queimaduras. O alto número de crianças envolvidas em acidentes por queimaduras ressalta a importância da prevenção, uma vez que esses incidentes podem deixar sequelas em vidas que estão apenas começando. Portanto, é fundamental promover a conscientização e implementar medidas preventivas para proteger as crianças e toda a população contra os perigos das queimaduras. As queimaduras representam importantes causas de morbidade e mortalidade, constituindo um sério problema de saúde pública no Brasil. Embora haja avanços no tratamento das lesões causadas por queimaduras, a prevenção ainda é a abordagem mais eficaz, com um excelente custo-benefício. É responsabilidade do poder público e das equipes de saúde divulgar medidas preventivas e orientar a população sobre os riscos e cuidados necessários para evitar queimaduras. O alto número de crianças envolvidas em acidentes por queimaduras ressalta a importância da prevenção, uma vez que esses incidentes podem deixar sequelas em vidas que estão apenas começando. Portanto, é fundamental promover a conscientização e implementar medidas preventivas para proteger as crianças e toda a população contra os perigos das queimaduras. As queimaduras representam um sério problema de saúde pública no Brasil, com cerca de um milhão de acidentes ocorrendo anualmente, dos quais apenas 10% procuram atendimento médico. Esses acidentes resultam em aproximadamente 2.500 mortes por ano, direta ou indiretamente relacionadas às lesões causadas pelas queimaduras. Dois terços dos acidentes térmicos acontecem dentro do domicílio da vítima, afetando principalmente jovens do sexo masculino, crianças menores de 15 anos e idosos. Entre os adultos do sexo masculino, as queimaduras frequentemente ocorrem no local de trabalho. Já entre as mulheres adultas, os casos mais comuns de queimaduras estão relacionados a diversas situações domésticas, especialmente no ambiente da cozinha. Isso inclui o preparo de alimentos, a manipulação de água fervente, o uso de 23 fogões com panelas mal adaptadas ou com cabos soltos, a manipulação de óleo quente e problemas com sistemas de botijão de gás mal conectados ou em mau estado de conservação. Além disso, casos de tentativas de autoextermínio também contribuem para o número de queimaduras. As queimaduras representam uma importante causa de morbimortalidade na população infanto-juvenil, podendo resultar em limitações funcionais significativas. Embora as estatísticas no Brasil sejam limitadas, dados do DATASUS indicam que em 2006, ocorreram 16.573 hospitalizações de crianças e adolescentes menores de 15 anos devido a lesões por queimadura, representando 14% dos acidentes de causas externas nesse grupo etário. No mesmo ano, as queimaduras foram responsáveis por 363 óbitos nessa faixa etária. Em 2010, o número de hospitalizações aumentou para 21.472, mas houve uma redução no número de casos fatais, que caiu para 313. Esses dados sugerem que, embora o atendimento hospitalar possa ter contribuído para a redução das mortes, ainda são necessárias medidas preventivas eficazes para reduzir o impacto das queimaduras na população infanto-juvenil. As queimaduras entre crianças e adolescentes geralmente ocorrem por acidentes domésticos, sendo as escaldaduras com líquidos quentes as principais causas desse tipo de lesão. Além disso, a manipulação de produtos químicos ou inflamáveis, acidentes com panelas quentes e fogos de artifício também representam riscos significativos. As causas variam de acordo com a faixa etária: em crianças menores de dois anos, os banhos com água quente são a principal causa; nos pré-escolares de dois a sete anos, substâncias inflamáveis são mais comuns, devido à sua curiosidade e exploração do ambiente. Já as queimaduras por combustão são mais comuns em escolares e adolescentes. No caso dos idosos, o aumento da população nessa faixa etária os expõe a maior risco de acidentes domésticos, devido à baixa acuidade visual e auditiva, reflexos diminuídos e mudanças na estrutura familiar que podem deixá-los mais vulneráveis. Entre os homens, as queimaduras estão frequentemente relacionadas ao ambiente de trabalho, com acidentes envolvendo eletricidade de alta voltagem, agentes térmicos e químicos. Os agentes causadores mais comuns incluem produtos químicos, eletricidade, líquidos superaquecidos, fogo e superfícies quentes. Esses dados ressaltam a importância de medidas preventivas adequadas para reduzir o risco de queimaduras em diferentes grupos populacionais. 24 PAPEL DO ENFERMEIRO NA ASSISTÊNCIA AO PACIENTE QUEIMADO É crucial que o enfermeiro esteja atento aos parâmetros ventilatórios do paciente e à necessidadede suporte de oxigênio em casos de queda na saturação de oxigênio abaixo de 95%. A avaliação dos sinais de choque hipovolêmico também é fundamental, e o enfermeiro deve intervir imediatamente com reposição de líquidos e eletrólitos conforme as orientações terapêuticas estabelecidas pelo médico responsável. Essas ações demonstram o papel central do enfermeiro na promoção da saúde e no cuidado integral ao paciente queimado. A monitorização contínua da saturação de oxigênio com oxímetro de pulso e a elevação da cabeceira do paciente em 30º, juntamente com a hiperextensão da região cervical, são medidas essenciais para garantir uma adequada oxigenação e prevenir complicações respiratórias. A limpeza prévia das lesões com água corrente clorada é uma prática comum para remover detritos e contaminantes da área afetada. No caso de lesões oculares, a lavagem copiosa do olho afetado com solução fisiológica 0,9% é crucial para remover qualquer substância irritante ou contaminante. Os cuidados de enfermagem são muito importantes para o tratamento adequado de feridas, especialmente em pacientes com queimaduras significativas. A remoção dos tecidos desvitalizados e a aplicação de uma cobertura antimicrobiana ajudam a prevenir infecções e promover a cicatrização da ferida. O tratamento tópico da ferida, incluindo a limpeza, desbridamento e aplicação da cobertura, é crucial para criar um ambiente favorável à reepitelização, o processo pelo qual a pele se regenera. A reavaliação regular do paciente é essencial para monitorar o estado neurológico, padrão respiratório e temperatura corporal, especialmente em casos de queimaduras extensas que podem levar à hipotermia. Além disso, é importante estar atento à presença de edema em regiões e membros afetados, pois isso pode afetar a circulação e a recuperação do paciente. A elevação da cabeceira do leito e dos membros é uma medida importante para prevenir e controlar o edema, ajudando a melhorar a circulação sanguínea e reduzir o acúmulo de fluidos nas áreas afetadas. Esses cuidados combinados são essenciais para garantir uma recuperação adequada e minimizar complicações em pacientes com queimaduras e outras lesões graves. 25 REFERÊNCIAS Brigham PA, McLoughlin E - Burn incidence and medical care use in United States: Estimate, trende anddata sources. J Burn Care Rehabil 1996; 17:95-107. 1.Brigham PA, McLoughlin E - Burn incidence and medical care use in United States: Estimate, trende anddata sources. J Burn Care Rehabil 1996; 17:95-107. Saffle JR, Davis B, Williams P - Recent outcomes in the in the treatment of burns injury in the United States:A report from te American Association patient registry. J Burn Care Rehabil 1995; 16:218-31. TompkinsRG,BurkeJF,SchoenfeldDAPromptescharexcision:Atreatmentsystemcontributingtored uceburn mortality. Ann Surg 1986; 204:272-81. Periti P, Donati L - Survial and therapy of burn patients at the threshold of the twenty-first century: A review.J Chemoter 1995; 7:475-502. 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