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Geekie One - 1 srie EM - História - Cap 07_O início da Era Moderna_ o processo de centralização política na Europa e as Grandes Navegações (3)

Slides do capítulo 7 de História sobre o início da Era Moderna, centralização política na Europa e as Grandes Navegações. Contém rotina Ver‑Pensar‑Perguntar, mapa linguístico das Américas, questões orientadoras e textos sobre formação das monarquias, burguesia e crise do feudalismo.

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HISTÓRIA CAP. 07
O INÍCIO DA ERA MODERNA: O
PROCESSO DE CENTRALIZAÇÃO
POLÍTICA NA EUROPA E AS GRANDES
NAVEGAÇÕES
Exportado em: 20/05/2024
SLIDES DO CAPÍTULO
Para começar e refletir
VER
CAPÍTULO 7
Escaneie com o leitor de QR Code da busca de
capítulos na aba
Conteúdo
Rotina de pensamento: Ver-Pensar-Perguntar
 ROTINA DE PENSAMENTO
Observe com atenção o mapa abaixo para realizar a Rotina de Pensamento proposta.
1. Segundo o mapa, quais idiomas você vê como as línguas oficiais predominantes nas
Américas?
2. O que você pensa sobre a origem desses idiomas predominantes nas Américas? 3.
Quais perguntas você faria para investigar como esses idiomas se tornaram as línguas
oficiais dos países americanos?
Como você pode observar no mapa acima, hoje, no Brasil, o português é o idioma oficial. Em
nossos vizinhos na América do Sul, como Argentina, Uruguai, Paraguai, Bolívia e Venezuela,
o idioma oficial é o espanhol. A língua espanhola é também a oficial em praticamente todos
os países da América Central e no México, único país de idioma espanhol da América do
Norte. Na América Central ainda temos o Haiti, que tem como um de seus idiomas o francês,
que é também falado em regiões do Canadá. Esses idiomas não são originários do continente
americano, foram trazidos para cá. Como esses idiomas se estabeleceram na Europa e depois
chegaram às Américas é o que vamos abordar no presente capítulo. Vamos lá?
Os idiomas, as monarquias nacionais e as Grandes 2
Os idiomas, as monarquias nacionais e as Grandes Navegações
Os idiomas português, espanhol, francês e inglês têm suas origens nos países Portugal,
Espanha, França e Inglaterra, sendo os idiomas oficiais desses países. No entanto, nem
sempre foi assim. Durante a Idade Média, apesar de essas línguas já existirem, não havia uma
padronização.
No período que abrange o final da Idade Média e o início da Idade Moderna, ocorreu o
processo de formação das monarquias nacionais europeias. Por um lado, os reis queriam
acumular poder sobre os seus vassalos e sobre a Igreja; por outro, a nascente classe de
comerciantes (os burgueses) pretendia superar os entraves do feudalismo, que impunha
limites para o desenvolvimento de seus negócios, apoiando o rei na formação das nações
europeias, que teriam as mesmas leis, impostos e também idioma.
Porto de Sevilha no século XVI com intensa atividade comercial marítima, pintura de Alonso
Sánchez Coello (1531-1588), óleo sobre tela. Dimensões: 150 cm × 300 cm. Museu da
América em Madri, Espanha. Wikimedia Commons
Com o estabelecimento das monarquias europeias e com a consolidação do poder dos reis,
estes passaram a incentivar o desenvolvimento mercantil da classe burguesa, estimulando o
comércio, primeiramente por terra, depois pelo Mar Mediterrâneo.
De todo modo, a burguesia européia possuía um espírito mercantil aventureiro e passou a
apoiar a formação de monarquias nacionais, que foram essenciais para o financiamento e
apoio logístico e militar nas Grandes Navegações. Assim, os europeus chegaram à América,
dominaram seus territórios e povos e impuseram os seus idiomas. Neste capítulo,
estudaremos a formação das monarquias nacionais europeias e como esse processo
culminou nas Grandes Navegações. O fim da Idade Média e o início da Modernidade,
um
O fim da Idade Média e o início da Modernidade, um período de profundas
transformações
Miniatura de Crónicas de Gilles Li Muisis (1272-1353). Biblioteca Real da Bélgica.
Dimensões e autoria não identificados. Queima de vítimas da peste em Tournai. Wikimedia
Commons
No século XIV, o sistema feudal entrou em crise. O declínio do feudalismo teve várias
causas: a crise dos alimentos entre 1314 e 1315, causada por fortes chuvas que provocaram
enchentes e destruíram grandes plantações; a retração do comércio devido à discrepância
entre a capacidade produtiva e a demanda de consumo; a dificuldade de dinamizar o
comércio, que era um entrave para o desenvolvimento da classe de mercadores, a
burguesia; a mortalidade na Europa, que atingiu índices elevadíssimos com guerras e
epidemias. Além disso, o renascimento comercial e urbano e a volta das trocas monetárias
exigiam um sistema de comércio mais livre e diversificado, que não era encontrado no
sistema feudal, ainda preso às antigas relações de servidão e à subsistência.
Neste período, o poder na Europa era descentralizado e não havia unificação de taxas e
impostos entre os vários domínios feudais. À burguesia – camada comercial que surgiu a
partir dos burgos – não interessava a descentralização política e econômica do sistema
feudal. Os burgueses eram mais favoráveis à centralização do poder nas mãos de um só
nobre que, de preferência, deveria estar ao seu lado. Assim, o comércio entre os territórios
europeus não passaria por tantos feudos e os burgueses não teriam que pagar impostos a
todos eles, mas somente aos grandes complexos territoriais, como as monarquias
centralizadas. A unificação da moeda e das unidades de pesos e medidas também
facilitaria as transações comerciais.
Alguns nobres compartilhavam do pensamento dos burgueses e queriam centralizar o poder
em suas próprias mãos, garantindo maior hegemonia política em seus territórios,
diminuindo o poder da Igreja, vitoriosa na Querela das Investiduras, e também
subjugando outros nobres. Havia vários fatores que, com o tempo, permitiram a mudança de
pensamento e a transformação de uma política feudal para uma política de Estados
centralizados na figura de um rei. Os novos Estados passaram a instituir não apenas pesos e
medidas viáveis, mas também rotas comerciais, exércitos, tarifas internas e externas, uma
verdadeira máquina administrativa, que incluía políticos que auxiliavam o rei e um corpo
responsável pela Justiça. Os Estados centralizados nasciam “tímidos”, porém seu crescimento
era inevitável.
Nas próximas páginas, você conhecerá um pouco mais sobre a formação das monarquias
nacionais francesa, inglesa, espanhola e portuguesa, e quais os desdobramentos desse
processo histórico muito importante na transição da Idade Média para a Modernidade.
Relembre:
A Querela das Investiduras
A querela foi um conflito entre os poderes eclesiástico (papal) e imperial (representado pelo
imperador do Sacro Império Romano Germânico), mas esteve relacionada anteriormente a
um movimento de reforma religiosa que ganhou força dentro da Igreja a partir de alguns
monastérios da ordem de Cluny.
De forma geral, esse episódio foi um conflito entre o papado de Roma e monarcas europeus,
ocorrido entre os séculos XI e XII. Os monarcas conquistaram o poder de nomear bispos em
seus territórios, tornando o cargo de interesse religioso em meramente político. A Igreja,
então, entrou em conflito com os monarcas, para que as indicações fossem de interesse da
instituição, e não dos mandatários locais.
Agora é com você
Questão 01
Com suas palavras, responda: quais eram os dois grupos mais interessados na centralização
do poder na Europa no período entre o fim da Idade Média e o início da Modernidade?
Por quê?
A formação da monarquia francesa: da dinastia dos capetíngios à Guerra dos Cem
Anos
shutterstock.com
Após a divisão do Império Carolíngio, em 843, com o Tratado de Verdun, a dinastia
Carolíngia entrou em declínio, abrindo espaço para novas formas de poder. Em 987,
depois da morte prematura de Luís V (último monarca da dinastia Carolíngia), Hugo
Capeto tornou-se rei, transformando Paris na principal cidade do reino e reestruturando a
política interna e externa do território franco. Hugo deu origem à dinastia capetíngia, que
se estendeu até 1328. Ele tentou unificar os antigos territórios francos e aumentá-los. Seu
governo buscou superar as dificuldades internas, como a grande quantidade de línguas
faladas em seus domínios territoriais, o alto poder dos vassalos e a falta de um sistema de
moedas único.
A dinastia capetíngia teve grandes rivalidades, em especial com os reis que dominavam a
Inglaterra, pois havia territórios, ao norte da atual França, que estavam sob domínio
inglês. As lutasnão foram fáceis e, em 1108, o rei Luís VI, o Gordo, com ajuda do abade
Suger, começou a impor sua autoridade, pressionando condes e duques por uma política
de matrimônio entre os nobres e parentes próximos a ele, com o apoio do clero. Assim, os
Capetos tiveram progresso econômico, que aumentou ainda mais o poder de sua casa real.
Filipe Augusto (1180-1223), ou Filipe II, tomou para a Coroa os territórios da
Normandia, Anjou, Maine, Touraine e Artois. O território real cresceu três vezes depois
das adesões. Os nobres ingleses, detentores de vastos domínios na França, não
reconheceram a autoridade de Filipe Augusto, o qual, para dominá-los, organizou um
exército com ajuda das cidades manufatureiras do norte, sendo os ingleses derrotados na
Batalha de Bouvines, em 1214.
IMAGENS
Batalha de Bouvines, 27 de julho de 1214 , óleo sobre tela de
Horace Vernet, 1827. Dimensões: 510 cm × 958 cm. Museu de
História da França, França.
Representação do rei Felipe Augusto, de coroa, ao centro, na vitória francesa na Batalha de
Bouvines. Wikimedia Commons
Luís VIII, sucessor de Filipe Augusto, começou seu reinado em 1223, tomando parte do
litoral do Mediterrâneo e criando um sistema de funcionários e fiscais reais. Luís IX,
conhecido como São Luís das Cruzadas, governou de 1226 a 1270, apoiado pelos
mercadores das cidades, que recebiam proteção para as suas atividades em troca de
impostos. Lutou contra os albigenses (grupo habitante do sul da França considerado
herético), anexou seus territórios e derrotou Henrique III da Inglaterra, obrigando o
soberano inglês a jurar-lhe vassalagem.
O neto de Luís X, Filipe IV (1285-1314), foi um rei polêmico, pois o reino estava
vivendo complicações econômicas, e Filipe tentou sanar as dificuldades monetárias
incluindo a Igreja como contribuinte. Essa tentativa fez com que o papa Bonifácio VIII
se revoltasse e ameaçasse excomungar o rei, que convocou uma reunião com os
representantes dos comerciantes, da nobreza e do próprio clero para discutir a questão
dos impostos. A Assembleia dos Estados Gerais, como ficou conhecida essa organização
consultiva, decidiu pelo fim da isenção da Igreja, que passaria a pagar tributos.
IMAGEM
Palácio dos Papas, em Avignon, uma das maiores construções medievais da França. Pablo
Debat / shutterstock.com 7
IMAGEM
Com a morte de Bonifácio VIII, Filipe IV indicou e conseguiu impor a aprovação de
Clemente V como novo papa. Em troca, Clemente V aliou-se ao rei francês, dando salvo
conduto para a atuação do monarca, sem nenhum perigo de excomunhão. Clemente V
mudou a sede do papado, em 1307, para um palácio na cidade de Avignon, ao sul da
França, o que causou uma dependência e um rebaixamento da Igreja de Roma perante a
figura do rei da França. O papado de Avignon durou 70 anos (1307-1377) e é também
chamado de Cativeiro Babilônico da Igreja, pois os reis capetíngios detinham poder
sobre essa instituição.
A Guerra dos Cem Anos IMAGEM
Ingleses e franceses participam de uma encenação da Batalha de Azincourt, uma das mais
importantes da Guerra dos Cem Anos, no norte da França. A batalha, que completou 600 anos
em 2015, foi vencida pela Inglaterra.
Reprodução
Um evento histórico muito importante para a consolidação do Estado e da monarquia
francesa foi a Guerra dos Cem anos, entre França e Inglaterra. Ela, na verdade, não foi
uma guerra contínua, mas sim uma série de conflitos que ocorreram entre franceses e
ingleses no período de 1337 a 1453, tendo inclusive períodos de paz. A guerra teve início
devido a uma crise sucessória. Após a morte de Carlos IV, rei francês que não tinha
herdeiros, muitos nobres passaram a reivindicar o trono. Dentre eles, o rei inglês
Eduardo III, que era sobrinho de Carlos IV. Os ingleses queriam reconquistar territórios
perdidos para os franceses nos séculos anteriores, ao passo que os franceses não queriam
ser submetidos aos primeiros.
8IMAGEM
Estátua de Joana d’Arc na Catedral de Notre-Dame, em Paris, França. Jirawat Po /
shutterstock.com
Uma figura muito importante nesse período foi Joana d’Arc. De origem humilde e filha
de camponeses, tornou-se uma importante liderança francesa contra os ingleses.
Dizendo-se uma enviada de Deus, Joana d’Arc conseguiu unir os franceses contra um
inimigo comum, o que foi crucial para a formação de uma identidade nacional francesa. Ela
foi capturada e vendida aos ingleses, tendo um final trágico: condenada por heresia, foi
queimada em uma fogueira, com apenas 19 anos de idade. Alguns anos após sua morte, o
papa Calisto III anulou o julgamento contra Joana d’Arc, em 1456. Isso possibilitou a
construção da imagem da jovem guerreira como uma heroína francesa. Em 1920, ela foi
canonizada pelo papa Bento XV.
No final do conflito, já no século XV, os franceses conseguiram se sobrepor aos seus
inimigos, expulsando-os definitivamente de seu território. O conflito é considerado
muito importante para a consolidação das monarquias francesa e inglesa, para a
construção de suas identidades e de seus Estados nacionais.
9IMAGEM Sugestão para assistir: Joana d'Arc
Divulgação
Joana d’Arc
Durante a Guerra dos Cem Anos, entre Inglaterra e França, surgiu uma liderança
feminina no território francês. Joana d’Arc, que alegava ser uma enviada de
Deus para ajudar os franceses a derrotar os ingleses, foi uma jovem que conseguiu
unir os franceses em um ideal de libertação contra a Inglaterra. Com o apoio do rei
Carlos VII, Joana d’Arc liderou um exército que libertou a região de Reims do
domínio inglês. 10 IMAGEM
Agora é com você
Questão 01
1.A)
Aponte as principais realizações da dinastia capetíngia no comando da França.
1.b)
Qual a importância da Guerra dos Cem Anos para a formação da monarquia francesa e
unificação do país?
Formação da monarquia inglesa: da dinastia normanda à Guerra das
Duas Rosas IMAGEM
Localização da Inglaterra, em verde escuro no mapa, um dos países que compõem o Reino
Unido. País de Gales, Escócia e Irlanda do Norte são as outras nações que formam esse
conjunto de países. Alphathon / Wikimedia Commons
Localizada ao norte do continente europeu, a Inglaterra é uma das nações que compõem
o Reino Unido. Historicamente, esse território foi ocupado pelos povos anglos e saxões
logo após a queda do Império Romano do Ocidente. Com a fixação desses povos, foi
estabelecida para o local uma heptarquia, ou seja, um governo controlado por sete reis,
com clãs patriarcais.
No século IX, foi fundado o Estado Anglo-Saxão, comandado por Egberto, o rei de
Wessex. Ele conseguiu derrotar os monarcas dos outros reinos e controlar boa parte do que
hoje conhecemos como Inglaterra. Organizados em um só reino, os ingleses tenderam ao
sistema feudal, mantendo produções de lã para o consumo interno.
11IMAGEM
No século XI, os normandos, povo germânico que habitava a região da Normandia,
no Norte da França, invadiram as ilhas britânicas sob a liderança do rei Guilherme, o
Conquistador, que destronou, em 1066, Haroldo Godwinson, que teria assumido o trono com
a morte do último rei anglo-saxão (Eduardo, o Confessor). Guilherme empreendeu uma
intensa batalha e, no final do ano 1066, foi coroado na Abadia de Westminster. Ele, ainda,
submeteu nobres feudais e comerciantes ao seu controle, criando, assim, um expressivo
poder centralizado. Também conteve inúmeras invasões, em especial a dos vikings
noruegueses e dinamarqueses. Para facilitar a administração, dividiu a Inglaterra em
condados comandados por funcionários reais, os sheriffs, que tiveram importante papel
na reforma desses locais. IMAGEM
A Tapeçaria de Bayeux é um bordado que data do século XI e contém a descrição da
conquistada Inglaterra por Guilherme até a Batalha de Hastings, em 1066. Na imagem, aparece
a representação da cavalaria e de arqueiros normandos. A tapeçaria, pertencente ao acervo do
Museu Bayeux, na França, mede 70 metros de comprimento por 50 centímetros de altura e
pesa 350 quilos. Myrabella / Wikimedia Commons
Durante o reinado de Henrique II, que iniciou a dinastia Angevina, ou Plantageneta,
em 1154, o País de Galese a Irlanda foram totalmente conquistados e, para garantir a ordem
nos territórios, foi criado o sistema de common law, isto é, leis comuns a todo o território, cujo
cumprimento era assegurado por juízes que percorriam todos os condados. Henrique também
diminuiu o poder da Igreja Católica, determinando que os crimes de direito comum deveriam
ser julgados pelos tribunais civis e não pelos tribunais eclesiásticos. 12IMAGEM
Representação de Ricardo Coração de Leão em manuscrito de meados do século XIII. The
British Library
Henrique II foi sucedido por um dos mais famosos reis da Inglaterra, Ricardo I, ou
Ricardo Coração de Leão. O reinado de Ricardo I foi de 1189 a 1199, tendo participado da
Terceira Cruzada (1189-1192), também chamada de Cruzada dos Reis. Para garantir as
investidas contra os muçulmanos, aumentou os impostos e saqueou cidades, causando
desordens. O sucessor de Ricardo I foi seu irmão, “João Sem-Terra”, que teve a necessidade
de defender as posses inglesas na França e, para isso, aumentou ainda mais os impostos e
confiscou terras da Igreja. Temendo ser excomungado, teve que devolver as terras e acabou
perdendo possessões inglesas na França, por isso a alcunha de “Sem-Terra”.
Devido à sua fragilidade e ao crescente número de nobres feudais e burgueses revoltados
com os constantes aumentos de impostos, “João Sem-Terra” foi obrigado a assinar uma
Magna Carta, em 1215, considerada uma espécie de primeira Constituição
moderna, que garantia o aumento dos impostos somente com a aprovação do Grande
Conselho, formado pelos nobres e pelo clero. Como os reis seguintes não respeitaram a
Magna Carta nem o Grande Conselho, foi criado, em 1295, o Parlamento inglês, com o
objetivo de controlar o poder real.
IMAGEM
Com as Cruzadas, muitas coisas mudaram na Europa, levando ao renascimento
comercial e urbano. A Inglaterra virou um centro produtor de lã para as manufaturas de
tecidos de Flandres, e o comércio ganhou força. A nobreza via, nesse comércio, um novo
caminho a seguir. Os nobres já não pensavam mais em terras para o cultivo, o comércio
circulante da Europa motivava mais e mais ingleses a utilizarem suas terras para a
pastagem de ovelhas, criando, já no século XIII, um sistema denominado cercamentos.
Os cercamentos eram cercas postas em torno de terras de pastos de ovelhas para
dificultar a outros camponeses o acesso às riquezas da nova “nobre burguesia”. À
medida que os senhores das terras as cercavam, os camponeses iam sendo expulsos, o que
gerou o êxodo rural.
A Guerra das Duas Rosas IMAGEM
Representação dos símbolos das dinastias Lancaster, York e Tudor.Reprodução
No século XIV, a Inglaterra viveu o declínio do sistema feudal. Entretanto, mesmo
após o feudalismo, os ingleses mantiveram algumas estruturas inerentes a esse período.
No contexto da Guerra dos Cem Anos e da peste bubônica, a Inglaterra viveu a sua
última disputa dinástica antes da formação do Estado centralizado. Duas famílias
influentes, a família York, que tinha fortes ligações mercantis, e a família Lancaster, de
base feudal, protagonizaram a Guerra das Duas Rosas, de 1455 a 1485. A guerra
ganhou esse nome pelo fato de cada uma das famílias ter uma rosa como símbolo: os
Lancaster ostentavam uma rosa vermelha, enquanto os York, uma de cor branca.
Durante todo o período, foram cometidas atrocidades de guerra, chegando-se quase ao
extermínio das duas famílias. Em 1485, Henrique Tudor, descendente dos Lancaster,
casado com uma descendente da família York, utilizando o sobrenome Tudor, acabou
com os conflitos e pôs fim às tentativas dos nobres de chegarem ao poder,
estabelecendo um governo centralizado e forte na Inglaterra. 14 IMAGEM
Agora é com você
Questão 01
1.a) O que foram os cercamentos? Qual a importância dessa prática na história da
Inglaterra?
1.b) O que foi a Guerra das Duas Rosas?
A formação das monarquias nacionais ibéricas
O povoamento da Península Ibérica IMAGEM shutterstock.com
15 IMAGEM
Os povos que habitavam a região da Península Ibérica eram os mais variados desde a
pré história. O povoamento que deu origem aos ibéricos ainda é assunto de
controvérsias. O mais aceito na atualidade é que os povos ibéricos teriam aparecido na
região por volta de 1600 a.C., vindos do sul da Europa, ocupando habitações urbanas,
como era comum aos povos mediterrâneos. No entanto, os iberos não foram os únicos
habitantes da península. No final dos séculos VII e VI a.C., um grande número de
celtas, da cultura hallstatt, chegou à península e misturou-se rapidamente com os
povos dali, produzindo uma cultura celtibérica, que teve características mais rurais.
Vários povos utilizaram a região como entrepostos comerciais, sendo que fenícios,
cartagineses e romanos dominaram a região, invadida pelos visigodos após a queda
do Império Romano.
Os visigodos dominaram a região por cerca de dois séculos, e foi nesse momento que os
islâmicos chegaram à península. Com a morte de Maomé, em 632, e o início do
expansionismo islâmico, a região setentrional da África foi paulatinamente conquistada ao
longo dos séculos VII e VIII. Com a conquista, os islâmicos, sob o comando de Tarik,
em 711, atravessaram o estreito entre o norte da África e o sul da Península Ibérica, o
Estreito de Gibraltar e dominaram sem grandes dificuldades partes da Península
Ibérica.
Os islâmicos tentaram invadir o território dos francos, mas foram repelidos por Carlos
Martel, em 732. Eles, então, estabeleceram-se na Península Ibérica, onde ficaram por
vários séculos. Contudo, os povos que habitavam a região eram descendentes dos
visigodos que tinham se convertido ao cristianismo. A invasão muçulmana deslocou esses
povos, que formaram, ao norte da península, um império de resistência, o Reino das
Astúrias. A partir desse reino, teve início um movimento que durou cerca de sete séculos,
a Guerra de Reconquista, responsável pela expulsão dos mouros – muçulmanos que
ocuparam a Península Ibérica –, pela origem do sentimento nacionalista e,
consequentemente, pelo surgimento dos reinos português e espanhol.
16 IMAGEMWikimedia Commons
Centralização do poder em Portugal 17 IMAGEM
Gravura retratando o conde D. Henrique. Wikimedia Commons
O reino português surgiu a partir da Guerra de Reconquista. Ao longo dos séculos
XI e XII, motivada pelo movimento cruzadista e pela formação dos reinos ibéricos de Leão,
Castela, Navarra e Aragão, a luta contra os muçulmanos, ou mouros, como eram
chamados pelos ibéricos, ganhou mais força. Como era comum naquele período, foram
contratados inúmeros guerreiros e mercenários para combater e desocupar as terras ibéricas.
Um desses guerreiros medievais, o conde D. Henrique, um dos herdeiros do ducado de
Borgonha (parte central da França), motivado pelo espírito da cavalaria a serviço de
Cristo e por ter poucas possibilidades de ascender ao trono (era o filho mais novo), aceitou o
convite do rei D. Afonso VI, de Leão e Castela, para combater os mouros.
Os combates vencidos pelo jovem conde deram a ele, como recompensa, o chamado
Condado Portucalense e a mão da filha ilegítima de D. Afonso, D. Teresa de Leão.
Conforme estabeleciam as relações de suserania e vassalagem, D. Henrique de Borgonha,
ao receber o condado, passava à condição de vassalo e se obrigava a defender, proteger e
nunca se rebelar contra o nobre doador (suserano).
Com a morte de D. Henrique de Borgonha, em 1112, sua esposa ficou com a tutela do
Condado Portucalense. Entretanto, após alguns ataques e acordos de paz com membros da
própria família, Afonso Henriques, filho de D. Henrique, expulsou a mãe e aproveitou o
ensejo para proclamar o condado livre, transformando-o em reino de Portugal, em 1139. O
jovem se autoproclamou D. Afonso Henriques, rei e fundador de Portugal. 18 IMAGEM
Dinastias de Borgonha e de Avis
Durante o reinado de D. Afonso Henriques, o reino português tornou-se verdadeiramente
independente, pois suas terras foram reconhecidas autônomas e a ele foi dado o título de
rei, graças ao Tratado de Zamora – acordo de paz celebrado em 1143 entre D. AfonsoHenriques e D. Afonso VII, rei de Leão. Após cerca de três anos sem hostilidades entre
os dois territórios vizinhos, o encontro de Zamora serviu para definir as cláusulas da paz
e, possivelmente, os limites de cada reino. Embora reino livre, Portugal só foi declarado
como tal e reconhecido internacionalmente em 1179, quando a Santa Sé anunciou a Bula
Manifestis Probatum.
Por mais que Portugal tivesse sido reconhecido como reino, o Reino de Leão, governado
por Afonso VII, declarou-se um império. Como imperador, poderia ter vassalos a seu
mando e tentou submeter D. Afonso Henriques ao seu controle. Portugal, durante
praticamente todo o domínio da dinastia de Borgonha, viveu este drama: pelo lado norte
e leste, o Reino de Leão tentava uma invasão; e pelo sul, eram os muçulmanos que
tentavam retomar territórios.
Somente no reinado de D. Dinis (1279-1325) foi assinado o Tratado de Alcanizes
(1297), que garantia o limite territorial dos reinos de Portugal, Leão e Castela. Com esse
acordo, D. Dinis pôde se preocupar em administrar seu reino, explorando as terras e
garantindo riquezas, bem como criar a Universidade de Coimbra (1290) e a instituir o
português como língua oficial.
Portugal, no final do século XIV, vivia uma disputa interna entre a economia agrária,
defendida pela monarquia, e a economia mercantil, promovida pelos comerciantes da
costa atlântica, motivados pelos empreendimentos dos navegadores que viajavam até o
Mar do Norte para comercializar.
D. Fernando – que governou de 1367-1383 – morreu sem deixar um filho varão que
pudesse sucedê-lo. Em Portugal, assim como em Castela, havia a possibilidade de
sucessão pela via feminina, logo, D. Beatriz, sua filha, sucederia seu pai. Contudo, a
chegada de D. Beatriz (casada com D. João I, rei de Castela) ao poder, em 1383,
representava dois grandes problemas: o primeiro era o definitivo atrelamento à economia
agrária defendida também pelos reis de Castela; e o segundo, e mais sério, a perda da
independência, pois o rei de Castela poderia submeter Portugal ao seu domínio.
19 IMAGEM
Diante disso, um irmão bastardo de D. Fernando, que era mestre da Ordem de Avis, D.
João, foi alçado rei através de uma revolução amplamente apoiada pelos mercadores e
burgueses. Assim, a dinastia de Borgonha deu espaço a uma nova dinastia: a de Avis. A
Revolução de Avis, como ficou conhecida, consolidou a segunda dinastia portuguesa e
abriu a economia marítima de Portugal.
A dinastia de Avis começou quando, em 1385, na Batalha de Aljubarrota, a casa real
de Castela foi derrotada e teve início o novo governo. O fim das disputas ocorreu apenas
em 1411, com a assinatura do Tratado de Paz entre as nações. A dinastia de Avis se
caracterizou pela urbanização de Portugal, pelo forte desenvolvimento comercial e pelos
investimentos em tecnologias náuticas. O despertar do século XV para Portugal trouxe
um ânimo novo, com o desenvolvimento de técnicas e aprimoramentos mercantis e
políticos. Assim, Portugal estava preparado para iniciar a sua expansão marítima,
invadindo territórios para além da Europa.
IMAGEM
Ilustração do final do século XV representando a Batalha de Aljubarrota, ocorrida em 1385. A
vitória de Portugal, com o apoio da Inglaterra, selou o fim da Revolução de Avis e a
confirmação de D. João I como rei. Na imagem, os soldados de Portugal encontram-se à
direita, e os de Castela, à esquerda. Wikimedia Commons
Formação da monarquia espanhola e o Tribunal do Santo Ofício
As formações de Espanha e Portugal estão diretamente atreladas. Ambas tiveram início
com a Guerra de Reconquista, que formou, a princípio, um reinado ao norte (Reino das
Astúrias) e, a partir dele, formou a grande resistência cristã constituída por quatro reinos:
Leão, Castela, Navarra e Aragão. Inicialmente, esses reinos eram pequenos protetorados
feudais que disputavam entre si o poder. 20 IMAGEM
Com a invasão dos muçulmanos, Castela e Aragão anexaram os reinos de Leão e
Navarra, respectivamente, e passaram a impor derrotas aos mouros. As derrotas vinham
acompanhadas de inúmeros auxílios de guerreiros medievais atraídos pela possibilidade de
serem nomeados nobres, condes ou duques, pois os reinos de Castela e Leão, sob o sistema
de vassalagem, prometiam porções generosas de terras aos vitoriosos.
Durante quase sete séculos, os reis das Espanhas, como comumente eram chamados,
tiveram que lutar contra os muçulmanos, tentar reaver a relação de vassalagem com o
Reino de Portugal e conviver, nem sempre harmoniosamente, com os judeus que
habitavam aquela região desde a época do Império Romano, quando muitos deles se
encaminharam para a Península Ibérica, a partir do século III a. C.
19 IMAGEM
A Rendição de Granada, de Francisco Pradilla y Ortiz (1882). Quadro retrata a rendição da
cidade de Granada e a unificação definitiva da Espanha, em 1492. Wikimedia Commons
Em 1469, os reis de Aragão e Castela, — Fernando e Isabel —, casaram-se e uniram
forças e armas contra os muçulmanos, e a batalha ganhou uma nova dimensão. O avanço
das tropas (agora de uma só Espanha) resultou na expulsão dos muçulmanos, em 1492, de
seu último reduto, o território de Granada.
A Inquisição Espanhola 21 IMAGEM
Gravura de escudo da Inquisição Espanhola na Nova Espanha. Autor desconhecido. Wikimedia
Commons
Fernando e Isabel também foram responsáveis por instaurar um Tribunal do
Santo Ofício, que ficou conhecido na História como Inquisição Espanhola. A imposição
do Tribunal, a partir de 1478, pelos reis católicos foi uma tentativa de conter a influência
papal na região, além de manter uma identidade nacional ancorada em uma mesma matriz
religiosa, o catolicismo.
Após a formação da Espanha, os judeus e muçulmanos que ainda habitavam a região foram
obrigados a se converter ao catolicismo, ou a abandonar o reino. A partir daí surgiu a figura
dos cristãos novos, justamente aqueles que se tornaram cristãos a partir da imposição dos
reis católicos. A Inquisição espanhola fazia, além da perseguição aos não convertidos, o
trabalho de procura de hereges entre os novos cristãos, que poderiam ser julgados e
condenados pelo Tribunal do Santo Ofício. 22 IMAGEM
Leitura Complementar Questões religiosas na Espanha
Por volta de 1200, havia provavelmente mais de 200 mil judeus na Península
Ibérica. Essa notável população ocupava uma posição única sobre uma fronteira
entre a Espanha cristã e a muçulmana e entre a cultura latina e a católica da
Europa Medieval e a cultura árabe e islâmica do Oriente Médio.
Embora o hebraico fosse utilizado para os ritos religiosos e o estudo, os judeus
eram versados em árabe, latim e nas línguas vernáculas da península, e a sua cultura
e erudição refletiam essas influências. A sua vida espiritual mostrava também uma
grande vitalidade. Contudo, durante o Período Medieval, os judeus não tinham
território próprio e viveram sempre sob regras de outra fé que restringia a sua
liberdade.
Quando o equilíbrio do poder na península passou dos muçulmanos para os
cristãos, os judeus (embora não na Granada muçulmana) passaram de uma situação
de tolerância relativa para uma de submissão a uma propaganda cada vez mais hostil
que emanava do norte dos Pireneus: no ano de 1330, foi-lhes exigido (pelo menos
em teoria) que usassem uma faixa que os distinguissem.
Após uma série de ataques violentos, em 1391, milhares deles converteram-se ao
cristianismo. Embora os judeus eruditos do século XV ajudassem a compilar a
Bíblia de Alba, o seu destino já estava selado: o resto dos judeus da Ibéria foi
expulso da Espanha em 1492 e de Portugal em 1497.
VINCENT, Mary; STRADLING, R. A.Espanha e Portugal:
23 IMAGEM história e cultura da Península Ibérica. Portugal: Folio,
2007.
Questão 01
1.a) Inserida já no final do processo de consolidação política em Portugal, a dinastia de
Avis foi muito importante para a expansão marítima e comercial portuguesa.
Explique como teve início a dinastia de Avis e de que forma ela contribuiu para que
Portugal se tornasse uma potência ultramarina.
1.b)
O que foi a Guerra da Reconquista?Qual a sua importância para a formação da monarquia espanhola e a unificação
desse país?
Pratique:
formação das monarquias nacionais da França, Inglaterra e Península
Ibérica
Questão 01
Perante esta sociedade, a burguesia está longe de assumir uma atitude revolucionária. Não
protesta nem contra a autoridade dos príncipes territoriais, nem contra os privilégios da
nobreza, nem, principalmente, contra a Igreja. [...] A única coisa de que trata é a conquista
do seu lugar. As suas reivindicações não excedem os limites das necessidades mais
indispensáveis.
PIRENNE, H. História econômica e social da Idade Média, 1978.
Segundo o texto, é correto afirmar que
● A burguesia, nascida da própria sociedade medieval, nela não tem lugar; para
● A
● conquistá-lo, suas reivindicações são a liberdade de ir e vir, elaborar contratos, dispor
de seus bens e fazer comércio.
● Os burgueses, enriquecidos pelo comércio, reivindicam privilégios semelhantes aos
da
● B nobreza e do clero na sociedade moderna; acentuadamente revolucionários, os seus
interesses significam título.
● O território da burguesia é o solo urbano, a cidade como sinônimo de liberdade,
● C protegida da exploração da nobreza e do clero; para isso, cria o direito urbano, isto
é, leis para o comércio.
● A sociedade medieval tem um lugar específico para os burgueses, pois as
liberdades,
● D, as leis, a justiça e a administração estão em suas mãos; tal situação tem o
objetivo de brecar o poder político.
● Com exigências revolucionárias, como liberdade comercial, jurídica e
territorial, a
● E, a burguesia, cada vez mais rica, visa destruir a sociedade medieval e
impedir as transações comerciais na cidade.
23 imagem
Questão 02
A Idade Média foi um período em que ocorreram também articulações políticas que
procuravam fortalecer certas monarquias nacionais existentes. Na França, logo no início
da Idade Média, houve tentativas de centralização política. Na análise da monarquia
francesa, no período dos capetíngios, assinale V para verdadeiro e F para falso.
( ) Houve fortalecimento da nobreza, na época de Hugo Capeto, com uma política
de esvaziamento dos interesses da burguesia emergente.
( ) Os contatos entre o rei Felipe Augusto e a burguesia foram significativos, favorecendo
o fortalecimento do exército.
( ) O rei Felipe Augusto fracassou em suas tentativas de conquistar a Normandia,
sendo derrotado pelo exército de João Sem-Terra.
( ) No reinado de Felipe Augusto IV, as relações diplomáticas se tornaram tensas com
a Igreja Católica, que ameaçou o rei de excomunhão.
( ) Ocorreram tentativas de centralização política, que ajudaram no fortalecimento de
certos interesses da burguesia emergente.
Questão 03
Sobre a Carta Magna inglesa de 1215, é correto afirmar que:
A. foi assinada pelo rei João Sem-Terra, consolidando a separação entre a Inglaterra e
o papa, tornando-se o rei chefe da Igreja.
B. determinou que os bens da Igreja passariam às mãos da nobreza inglesa,
que apoiava o rei João Sem-Terra, instituindo a monarquia constitucional.
C. proclamou o rei João Sem-Terra lorde protetor de Inglaterra, Escócia e
Irlanda, desencadeando uma onda de nacionalismo extremo.
D: foi imposta pela nobreza inglesa ao rei João Sem-Terra, limitando o poder real
obrigando-o a respeitar os direitos tradicionais de seus vassalos.
E: criou o Parlamento inglês bicameral constituído pelas câmaras dos lordes e dos
comuns, impondo ao rei João Sem-Terra a Declaração de Direitos (Bill of Rights).
Fatores políticos, econômicos e sociais que impulsionaram a expansão marítima
e comercial
imagem
Representação dos perigos do mar durante o período medieval.
Reprodução
Durante boa parte da Idade Média e muito por conta do sistema feudal, de subsistência e
de poucas trocas comerciais, a Europa Ocidental acabou se fechando em si mesma.
Some-se a esses fatores o predomínio de uma sociedade extremamente religiosa, em que o
mágico e o fantástico se sobrepunham à racionalidade e à experiência. Assim, para
compreender o desconhecido, os grupos humanos passaram a criar tentativas de explicação
baseadas em elementos imaginários. Durante a Idade Média, o mar (oceano) foi um dos
principais elementos relacionados ao extraordinário e ao fantástico. O conjunto de imagens
e discursos que apresentavam o oceano como lugar perigoso orientou formas de pensar e
limitou as condições de liberdade e de mobilidade da sociedade feudal. Essa ordem
imaginária estava ancorada nas tradições populares, e era reafirmada pela Igreja Católica,
que tinha papel-chave na construção do imaginário popular à época, recheado de crenças e
superstições.
Contudo, ao incentivar o movimento cruzadista, a Igreja Católica também acabou
conduzindo a população europeia para profundas transformações, não só religiosas,
mas também econômicas, políticas, sociais e culturais. Engajados nas Cruzadas,
diferentes grupos sociais puderam viver novas experiências e, com isso, confrontar
valores e redimensionar as fronteiras do conhecimento. Os limites que existiam na
ordem imaginária foram reordenados, e as tradições que sustentavam o medo perderam
espaço. Assim, o Mar Mediterrâneo foi ocupado, e intensas relações de troca foram
estabelecidas com o Oriente.
No entanto, quando comparado com o Oceano Atlântico, o Mar Mediterrâneo era um
mar menor, sobretudo em riquezas. Por isso, apesar de o transporte de mercadorias por
vias terrestres ter predominado ao longo de toda a Idade Média, após as cruzadas o
comércio marítimo tomou forma e acabou atraindo cada vez mais a atenção de
comerciantes e outros grupos sociais, os quais começaram a se dedicar a incursões pelo
chamado Mar Tenebroso (Oceano Atlântico). A predominância de imagens de monstros e
ondas gigantes que arrebatavam embarcações e matavam seus tripulantes era ainda
recorrente. Apesar disso, principalmente a partir do século XV, diferentes grupos de
indivíduos se propuseram a superar os medos e enfrentar os perigos reais e imaginários.
2 6 imagem Vista panorâmica da cidade de Lisboa, em Portugal, publicada em
1572. Na imagem, perceba que a cidade e os seus habitantes estão fortemente ligados ao Tejo,
de onde partiam as embarcações rumo ao mar. Wikimedia Commons
Assim, já no final da Idade Média, era preciso incentivar a navegação por vários
motivos. Primeiramente, os produtos vindos do Oriente, desde a época das Cruzadas, eram
trazidos por terra e, por esse motivo, demoravam a chegar. Além disso, as mercadorias
eram caras, devido à dificuldade de transporte, e poderiam ser roubadas ou se estragar no
caminho. Os mercadores, ainda, poderiam morrer nas viagens ou se perder na tentativa de
desviar a rota para chegar mais rápido ou para fugir de saqueadores. Porém, as navegações
também poderiam levar aos mesmos perigos. Nesse sentido, outros fatores foram mais
decisivos para a diminuição do comércio por terra e o incentivo à expansão das
navegações, como a peste bubônica e a Guerra dos Cem Anos (1337-1453), que
prejudicaram determinantemente o comércio por terra. Por fim, havia o espírito cruzadista,
que ainda ecoava por toda a Europa, e aventureiro, característico dos mercadores, que
tinham a necessidade de obter maiores lucros para a nova classe burguesa em expansão.
27imagem
As cidades de Gênova e Veneza, na Itália, eram hegemônicas no comércio entre o Ocidente
e o Oriente, devido à posição privilegiada da Península Itálica no Mediterrâneo. Os
comerciantes tinham que passar por terra para levar mercadorias ao norte da Europa, no
território de Flandres, às margens do Mar do Norte, importante conexão nas rotas comerciais
marítimas. Esse comércio por vias terrestres, a cada década, tornava-se mais caro e perigoso,
pois os mercadores pagavam altos tributos para passar com seus produtos pelos diversos
territórios descentralizados da Europa e, ainda, sofriam saques. Em busca de melhorias, as
cidades italianas usaram novas rotas para chegar ao Mar do Norte, as quais passavam pelo
Estreito de Gibraltar, ao sul da Península Ibérica, e, chegando ao Oceano Atlântico,contornavam a Europa para atingir o Mar do Norte.
Saiba mais
Relato de um naufrágio português
Monumento aos Descobrimentos ou Padrão dos Descobrimentos, construído à beira do
Rio Tejo, em Lisboa, para homenagear os navegadores que serviram a Portugal durante as
Grandes Navegações. Inaugurado em 1960, esse monumento em forma de embarcação mede
56 metros de altura. Joaquim Alves Gaspar/Wikimedia Commons
O navegador português Francisco Correia relatou o naufrágio da nau (um navio de grande
porte) Nossa Senhora da Candelária, na última década do século XVII, devido a uma
tempestade.
Segundo o navegador, o barco naufragou próximo a uma ilha desconhecida, chamada
de Ilha Incógnita, que seria povoada por monstros. Leia abaixo:
Notamos que a terra era ilhada, habitada de aves e monstros [...] Vimos sair das águas uma
mulher marinha, e com tanta ligeireza entrou na terra e subiu ao monte que não tiveram todos
os companheiros o gosto de a verem. [...] Da cinta para baixo toda estava coberta de escamas,
e os pés eram do feitio de cabra, com barbatanas pelas pernas. Tanto que se viu no monte,
pressentindo ser vista, deu tais berros que estremecia a ilha pelo retumbo dos ecos; e saíram
tantos animais, e de tão diversas castas, que nos causou muito medo. [...]
Todos se assustaram, menos eu, pois já tinha visto outra no Cabo de Gué, e tinha perdido o
medo com outras semelhantes aparições. E me lembra que, junto a Tenerife, vi um homem
marinho de tão horrendo feitio que parecia o mesmo demônio. Tinha somente a aparência de
homem na cara, na cabeça não tinha cabelos, mas uma armação, como de carneiro, revirada
com duas voltas, as orelhas eram maiores que as de um burro, a cor era parda, o nariz com
quatro ventas, um só olho no meio da testa, a boca rasgada de orelha a orelha e duas ordens
de dentes, as mãos como de bugio [uma espécie de macaco], os pés como de boi e o corpo
coberto de escamas, mais duras que conchas. [...]
Francisco Correia. In: LANCIANI, Giulia. Os relatos de naufrágios na literatura
portuguesa dos séculos XVI e XVII. Venda Nova-Amadora, Portugal: [s.n.], 1979. p. 52-53.
(Biblioteca Breve, v. 41).
Agora é com você
Questão 01
Aponte os fatores que levaram os europeus a se aventurarem no Mar Tenebroso (Oceano
Atlântico), mesmo com todo o imaginário de medo que existia sobre as viagens marítimas.
O pioneirismo português nas grandes navegações europeias
O reino português ficava na rota de dois importantes postos comerciais, Gênova e Mar do
Norte, o que facilitava uma parada para reabastecimento e permitia que, na ocasião, vários
produtos fossem comercializados. Como resultado dessas relações, desenvolveu-se um
pequeno grupo de mercadores nessa área litorânea, impulsionando a economia local.
Com o fim da dinastia de Borgonha (1142-1385) em Portugal e a ascensão de D. João I,
omestre de Avis, a burguesia local ganhou nova força, e, em fins do século XIV e início do
XV, os portugueses passaram a investir nos estudos náuticos. Embora os primeiros
investimentos em tecnologia marítima tenham sido realizados no reinado de D. João I, foi
com seu filho D. Henrique que o conhecimento náutico foi aperfeiçoado e sistematizado, no
que ficou conhecido como Escola de Sagres. 29 imagem
Organizando as ideias:
Escola de Sagres
Ao reunir geógrafos, filósofos, navegadores, cartógrafos, astrônomos, astrólogos e muitos
outros cientistas daquela época, o infante D. Henrique contribuiu para que tal grupo fosse
reconhecido como Escola de Sagres. Apesar de a formação da Escola ser contestada
enquanto instituição física, é inegável a existência de núcleos de intelectuais que
compartilhavam saberes, com o intuito de garantir o aperfeiçoamento de técnicas e
tecnologias náuticas.
Glossário
Infante: termo utilizado em Portugal e na Espanha para denominar um filho do rei que não
herdaria o trono. 30 imagem
Representação de uma caravela, grande embarcação feita de madeira que facilitou o
transporte de pessoas e de mercadoras no contexto das Grandes Navegações.
shutterstock.com 29 imagem
É importante salientar que muitos dos conhecimentos desenvolvidos pela Escola de Sagres
não tiveram origem em Portugal, mas sim em inventos advindos do Oriente. Por exemplo, a
bússola, que permitia aos navegadores se localizarem e orientarem em alto mar é uma
invenção chinesa, assim como a pólvora, que foi um instrumento muito importante de
dominação dos portugueses sobre outros povos. O astrolábio, invenção que remonta à
Antiguidade e tem a função de orientação naval a partir da observação dos astros, também
foi trazido da China para a Europa. Além disso, as caravelas, embarcações utilizadas não
só pelos portugueses, mas por todos os países europeus que se aventuraram ao mar, que
consistem de embarcações à vela, são de origem árabe. Os árabes também foram
responsáveis por conservar os conhecimentos gregos sobre a geografia do Mediterrâneo,
assim como pelo intercâmbio de conhecimentos entre chineses e europeus.
Nessas condições, Portugal se destacava, frente aos outros países europeus, por sua
pioneira centralização política e por ser governado por uma monarquia ligada aos valores
da próspera burguesia local. Ainda há de se destacar que a excelente posição geográfica e
vários investimentos, que possibilitaram o aperfeiçoamento de técnicas e de instrumentos
de navegação, assim como a criação de embarcações mais resistentes, garantiriam o
pioneirismo português nas chamadas Grandes Navegações.
Acesse: a China já era uma potência marítima um século antes dos europeus
Acesse a reportagem da revista Aventuras na História sobre os impressionantes
navios do tesouro chinês. A reportagem aponta seis fatos que exemplificam como
os chineses dominavam as ciências náuticas e construíram colossais embarcações
no início do século XV. 31 imagem
Questão 01
Sobre os assuntos abordado na página sobre as Grandes Navegações
portuguesas, explique com suas palavras:
1.a) O que foi a Escola de Sagres?
1.b) Quais as influências orientais nos conhecimentos náuticos portugueses?
As viagens marítimas realizadas pelos portugueses
Antes de chegarem à América, os portugueses acumularam conhecimentos e experiências
de navegação, contornando o continente africano para chegar às Índias, chamado de
périplo africano. Quando chegaram ao que hoje é o território brasileiro, os portugueses já
acumulavam mais de 80 anos de experiência naval pelo Atlântico.
Ceuta: o início da conquista da África
O ano 1415 marcou o início das navegações portuguesas pelo Atlântico. Após a conquista
do território de Ceuta, no norte da África, prosseguiu o domínio das ilhas de Açores,
Madeira e Cabo Verde. No processo de expansão marítima em direção ao sul do continente
africano, os portugueses montaram muitas feitorias (entrepostos de comércio e de
administração) na costa da África. As viagens portuguesas contabilizaram inúmeras
mortes, naufrágios e prejuízos de todas as espécies. Passar o Cabo Bojador, também
conhecido como Cabo do Medo, foi um feito que tirou a vida de muitos navegadores e só
foi concretizado pela embarcação comandada por Gil Eanes em 1434.
A passagem do Cabo Bojador e do Cabo da Boa Esperança
O desaparecimento de embarcações que anteriormente tentaram contornar a costa oeste
africana levou ao mito da existência de monstros marinhos e da intransponibilidade do
Cabo Bojador. Ondas altas e recifes de arestas pontiagudas existentes naquela região
tornavam a navegação muito arriscada. Em maio de 1434, Gil Eanes aparelhou uma barca
de 30 toneladas, movida a remos, com um só mastro, uma única vela redonda,
parcialmente coberta, e uma tripulação de apenas 15 homens. 32 imagem
Ao chegar nas proximidades do Cabo do Medo, Gil Eanes decidiu manobrar para oeste,
afastando-se da costa africana. Após um dia inteiro de navegação longe da costa,
deparou-se com uma baía de ventos amenos, virou para o sudeste e logo percebeu que
havia deixado o Cabo Bojador para trás. Essa passagem derrubou os velhos mitos e abriu
caminho para as grandes viagens oceânicas, tornando-seum dos marcos mais importantes
da navegação portuguesa.
Reprodução
32 imagem
NASSOUR, Alberto Cury. A verdadeira história sobre a descoberta das
Américas.Revista Eletrônica de Ciências, São Paulo, n. 19, maio/jun. 2003;
ALBUQUERQUE, Manoel Maurício deet al. Atlas histórico escolar. 7. ed. Rio de
Janeiro: FENAME, 1977.
Em 1488, houve outro grande feito português: Bartolomeu Dias contornou o Cabo das
Tormentas, que passou a se chamar Cabo da Boa Esperança, no extremo sul do continente
africano. Passar por ali representava a possibilidade de chegar às Índias. Considerando que
as navegações portuguesas estavam há 73 anos descendo pela costa africana, após a
passagem pelo Cabo da Boa Esperança, a chegada às Índias só demoraria mais dez anos.
O anseio português finalmente se realizou, e a responsabilidade de encontrar o berço do
comércio oriental ficou a cargo do navegador Vasco da Gama, português da cidade de
Sines que, em 8 de julho de 1497, partiu de Portugal com quatro embarcações. Em sua
viagem, ele se distanciou um pouco mais da costa africana, o que, segundo relatos,
aproximou-o muito das terras posteriormente chamadas Brasil. Contornando o Cabo da
Boa Esperança, Vasco da Gama chegou a Calicute, na Índia, em 20 de maio de 1498.33
imagem
É importante lembrar também que, durante o périplo africano, os mercadores
portugueses passaram a perceber a lucratividade do comércio de escravizados trazidos
daquele continente. Se num primeiro momento o comércio de pessoas escravizadas foi
pequeno, após a chegada dos europeus à América, ele se tornou um dos principais pilares
do desenvolvimento econômico português, tanto comercializando escravizados em suas
colônias quanto levando para outros territórios coloniais do continente americano.
Os portugueses desembarcam na América
Para fechar o ciclo das primeiras grandes navegações portuguesas, deve-se registrar a
chegada de Pedro Álvares Cabral à terra que ficaria conhecida como Brasil, em 22 de
abril de 1500. Cabral saiu de Lisboa, no dia 9 de março de 1500, visando levar as treze
embarcações (dez naus e três caravelas) para as Índias. Ele teria desviado a rota e chegado
às terras de Pindorama, posteriormente nomeadas de Brasil. No entanto, muitas
controvérsias são relacionadas a essa viagem: por um lado, algumas correntes
historiográficas mais tradicionais afirmam que Cabral chegou ao Brasil ao acaso; por
outro, a maior parte das evidências indica o caminho da intencionalidade.
Desembarque de Pedro Álvares Cabral em Porto Seguro , de Oscar Pereira da Silva. 1922. 1
original de arte, óleo sobre tela, 190 cm × 330 cm. Museu Histórico Nacional, Rio de Janeiro.
Representação da chegada da frota de Cabral às terras americanas, especificamente no atual
Brasil.
Com a chegada às terras desconhecidas pelos portugueses, o navegador enviou Gaspar
de Lemos de volta a Portugal. Gaspar levou ao rei lusitano uma carta documental escrita
por Pero Vaz de Caminha, descrevendo com riqueza de detalhes o território encontrado.
Veja um trecho dessa descrição a seguir.
Esta terra, Senhor, parece-me que, da ponta que mais contra o sul vimos, até a outra ponta
que contra o norte vem, de que nós deste porto houvemos vista, será tamanha que haverá nela
bem vinte ou vinte e cinco léguas de costa. Traz ao longo do mar em algumas partes grandes
barreiras, umas 34 imagem
vermelhas e outras brancas; e a terra de cima toda chã e muito cheia de grandes arvoredos.
De ponta a ponta é toda praia... muito chã e muito formosa. Pelo sertão nos pareceu, vista do
mar, muito grande; porque a estender olhos, não podíamos ver senão terra e arvoredos – terra
que nos parecia muito extensa. Até agora não pudemos saber se há ouro ou prata nela, ou
outra coisa de metal, ou ferro; nem lha vimos. Contudo a terra em si é de muito bons ares
frescos e temperados como os de Entre-Douro-e-Minho, porque neste tempo d’agora assim
os achávamos como os de lá.
Águas são muitas; infinitas. Em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar,
dar-se-á nela tudo; por causa das águas que tem! Contudo, o melhor fruto que dela se pode
tirar parece-me que será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa
Alteza em ela deve lançar. E que não houvesse mais do que ter Vossa Alteza aqui esta
pousada para essa navegação de Calicute bastava. Quanto mais, disposição para se nela
cumprir e fazer o que Vossa Alteza tanto deseja, a saber, acrescentamento da nossa fé!
CAMINHA, Pero Vaz de. Carta de Pero Vaz de Caminha: a el-rei D. Manuel sobre o
achamento do Brasil. 2. ed. São Paulo: Martin Claret, 2014. (A obra-prima de cada autor).
Outras embarcações da frota de Cabral tomaram o rumo das Índias, onde ele conseguiu,
após algumas lutas contra árabes e indianos, carregar as naus com especiarias e retornar
com essas riquezas tão cobiçadas e esperadas pelo reino português.
Organizando as ideias:
O longo caminho até as Índias
O infográfico abaixo apresenta uma linha do tempo do longo período entre o início das
Grandes Navegações portuguesas, a conquista de Ceuta, até a chegada da frota de Pedro
Álvares Cabral ao território que viria a ser o Brasil. 35
Agora é com você
Questão 01
O avanço português sobre o Atlântico se deu contornando o continente africano. Esse
avanço se deu por quase um século. Explique o que foi o périplo africano, quais
seus motivos e objetivos e as principais dificuldades enfrentadas pelos portugueses.
A expansão marítima espanhola
No mesmo período em que Portugal já iniciava as suas grandes navegações, a Espanha
vivia ainda as disputas por uma unificação de reinos, que somente ocorreria com o
casamento de Isabel de Castela e Fernando de Aragão, em 1469, e com as Guerras de
Reconquista, finalizadas em 1492.
Vários fatores colaboraram para que a Espanha fosse uma das primeiras a investir nas
grandes navegações. Entre eles, destacam-se a localização e o contato com os mouros.
Uma de suas habilidades era a navegação, que acabou sendo incorporada pelos ibéricos.
Entretanto, por estar dividida, a Espanha não tinha condições de investir nas navegações,
tampouco reaver a região dominada. A unificação só veio com o casamento de Fernando
de Aragão e Isabel de Castela, em 1469.
A retomada de Granada, região ocupada pelos mouros, em janeiro de 1492, foi um marco
decisivo para o novo reino espanhol, e, a partir de então, as ideias inovadoras de Isabel
passaram a ganhar novos rumos. Portugal, sabedor dos interesses da Espanha e pioneiro nas
grandes navegações, forçou um acordo ultramarino, o Tratado de Toledo, que
impossibilitava a Espanha de contornar o continente africano e chegar às Índias. Com isso,
a Coroa espanhola passou a investir nas ideias do genovês Cristóvão Colombo, que
acreditava na Teoria da Esfericidade da Terra e que acreditava ser possível fazer a
circum-navegação em, no máximo, sete semanas, baseando-se especialmente nos estudos
de Eratóstenes (filósofo e matemático grego que desenvolveu a Teoria da Esfera Armilar e,
com ajuda da Trigonometria, calculou a esfericidade aproximada da Terra). A Espanha
entrou em grandes discussões sobre o futuro de tais ideias. Seria possível um homem
navegar sempre a oeste e chegar às Índias? Influenciados pelas possíveis conquistas, Isabel
e Fernando, os “reis católicos”, financiaram a viagem de Colombo, que tinha tentado apoio
também junto à corte portuguesa, que não viu vantagens em financiar uma “aventura”,
sendo que já tinha traçado seu caminho para as Índias contornando o continente africano.
No mapa, há duas grandes navegações:
as rotas percorridas por Colombo, que o levaram a Guanahani, na América, e a primeira volta
ao mundo realizada por Fernão de Magalhães e Sebastião del Cano, a serviço da Espanha, cuja
expedição partiu de Sevilha, em 1519.
Reprodução
ALBUQUERQUE, Manoel Maurício deet al. Atlas histórico escolar. 7. ed. Rio de
Janeiro: Fename, 1977. Representação da recepção feita a Cristóvão Colombo
pelos reis católicos em Barcelona, apósseu retorno da América.
Para a viagem, foram destinadas a nau Santa Maria e as caravelasPinta e Niña.
Colombo ainda contou com o auxílio dos experientes irmãos Pinzón.
A expedição partiu do Porto de Palos, em 3 de agosto de 1492, e, após dez semanas, no
dia 12 de outubro de 1492, chegou à Ilha de Guanahani, atual San Salvador, nas Bahamas.
O caminho não levou às Índias, mas deu à Espanha algo verdadeiramente lucrativo, a
América. Se Colombo sabia que não havia chegado às Índias, não há comprovação.
Com a chegada às terras que chamaram de “Novo Mundo”, os espanhóis intensificaram
as navegações para o oeste durante todo o século XVI, dominando áreas, conquistando
impérios e saqueando povos e territórios.
37 imagem Acesse: como era uma viagem marítima no tempo dos descobrimentos?
Leia a reportagem Como era uma viagem marítima no tempo dos
descobrimentos? e analise como eram as condições enfrentadas pelos que se
aventuraram no Oceano Atlântico no período das Grandes Navegações.
Sugestão para assistir
Divulgação 1492 – A conquista do paraíso
O filme traça um retrato da vida do navegador Cristóvão Colombo,
acompanhando diferentes períodos da sua vida, desde quando ele se convenceu de
que a Terra era redonda até a chegada à América, não deixando de lado também a
luta do navegador para colonizar um território desconhecido. 38imagrm
Questão 01
Quais fatores levaram a Espanha a investir na ideia de Cristóvão Colombo de navegar
em direção oeste para chegar às Índias?
Pratique: as Grandes Navegações
Questão 01
Texto 1
Mais vale estar na charneca com uma velha carroça do que no mar em um navio novo.
Provérbio holandês. In: SEBILLOT, Paul.Légendes, croyances et superstitions de
la mer. Paris: 1886. p. 73. Texto 2
PESSOA, Fernando. Obra poética. Rio de Janeiro: Aguilar, 1969. p. 82.
A: Com base nos textos anteriores e nos seus conhecimentos sobre o tema da
expansão marítima dos séculos XV e XVI, é correto afirmar que as navegações
constituíram uma realização sem precedentes na História da humanidade, uma vez
que foram muitos os obstáculos a serem superados nesse processo, tais como a ameaça que
representava o desconhecido e o fracasso de grande parte das expedições, que desapareceram
no mar.
B; propiciaram o fim do monopólio que espanhóis e italianos mantinham sobre o
comércio das especiarias do Oriente por meio do domínio do Mar Mediterrâneo, uma
vez que foram os franceses e os portugueses, a despeito das tentativas holandesas, que
realizaram o périplo africano e encontraram o caminho para as Índias.
C; resultaram na hegemonia franco-britânica sobre os mares, o que, em longo prazo,
permitiu a realização da acumulação originária de capital e, por meio desta, o
financiamento do processo de implantação da indústria naval, o que prolongou esta
hegemonia até o final da Primeira Guerra Mundial.
D; propiciaram o domínio da Holanda sobre os mares, fazendo com que a colonização
das novas terras descobertas dependesse da marinha mercante daquele país para a
manutenção das ações comerciais entre os demais países europeus e suas colônias no
restante do mundo.
E; representaram o triunfo da ciência e da tecnologia resultantes das concepções
cartesianas e, consequentemente, a destruição de lendas e mitos sobre o Novo
Mundo, uma vez que as expedições revelaram os limites do mundo e propiciaram
rapidamente formas seguras de transposição oceânica.
Questão 02
Durante a Baixa Idade Média, ocorreu, em Portugal, a denominada Revolução de
Avis (1383-1385), que resultou em uma mudança dinástica, cuja principal
consequência foi
A;o enfraquecimento do poder monárquico diante das pressões localistas
que ainda sobreviviam nas pequenas circunscrições territoriais do reino.
B; o surgimento de uma burguesia industrial cosmopolita e afinada com a
mentalidade capitalista que se instaurava na Europa.
C; o início das Grandes Navegações marítimas, que resultaram no descobrimento
da América e no reconhecimento da Oceania pelos lusitanos.
D; o início do processo de expansão ultramarina, que levaria às conquistas no
Oriente, além da ocupação e do desenvolvimento econômico da América portuguesa.
E; o surgimento de uma aristocracia completamente independente do Estado, que
tinha como projeto político mais relevante a expansão do ideal cruzadista.
Questão 03
As caravelas foram um grande avanço tecnológico no final do século XV. Graças a elas,
foi possível realizar viagens de longa distância de forma eficiente. Centenas de homens
embarcaram nas caravelas dos descobrimentos. Alguns buscavam enriquecimento rápido,
outros, oportunidade de difundir a fé em Cristo. Estes homens eram atraídos pela
aventura, porém as surpresas nem sempre eram agradáveis. Nas embarcações,
proliferavam doenças e a alimentação era precária.
Revista de História da Biblioteca Nacional, set. 2012. p. 22-25. (adaptado) imagem 40
Sobre a época descrita no texto, e considerando as informações apresentadas, é
correto afirmar que as viagens nas caravelas
A; foram realizadas no contexto da expansão do mercantilismo europeu,
visando também à ampliação do catolicismo.
B, não pretendiam descobrir novos territórios, apenas estabelecer rotas
para aventureiros e marginalizados da sociedade.
C; tinham como principal objetivo retirar as populações muçulmanas da
Península Ibérica, após as Guerras de Reconquista.
D; eram feitas em condições precárias, pois eram clandestinas, ou seja, eram
realizadas sem o consentimento das Coroas europeias.
E; não ocorriam em condições apropriadas, embora a maior parte dos tripulantes
das caravelas pertencesse à nobreza feudal.
Questão 04
Considere o texto adiante.
[...] aportei em Portugal, onde o rei dali entendia no descobrir ouro mais do que
qualquer outro; [mas] em quatorze anos não pude fazê-lo entender o que eu dizia.
Carta de Cristóvão Colombo, escrita em maio de 1505. In: AMADO, Janaína;
FIGUEIREDO.Colombo e a
América. São Paulo: Atual,
1991. p. 25
No contexto do renascimento do comércio europeu e das grandes navegações, o
projeto de descoberta de nova rota marítima em direção ao Oriente, idealizado por
"Cristóvão Colombo", suscitou várias controvérsias. A partir do texto e do
conhecimento histórico, é possível afirmar que
A
a Coroa portuguesa aceitou, de imediato, o projeto de Colombo, contribuindo
financeiramente para sua execução, desde que este se comprometesse a anunciar, com
exclusividade, o descobrimento das regiões mineradoras.
B
Cristóvão Colombo recusou o financiamento proposto pela Coroa portuguesa, haja vista o
interesse desta de obter 100% do lucro advindo do comércio ultramarino provindo das
regiões descobertas.
C
Cristóvão Colombo preferiu aceitar o financiamento proposto pela Coroa italiana para
realizar sua viagem em direção à América, em razão das preocupações exclusivamente
econômicas dos reis de Portugal.
D
a Coroa portuguesa rejeitou o projeto de Colombo, uma vez que tinha investido
recursos na rota do périplo africano, como alternativa viável para a conquista do
mercado oriental. Depois Colombo conseguiu o apoio da monarquia espanhola, que via o
seu caminho para as Índias impossibilitado pela presença portuguesa no continente
africano. imagem 41
E; Cristóvão Colombo esteve prestes a abandonar a execução de projeto de circunavegação,
haja vista o desinteresse das Coroas portuguesa e espanhola por seu plano fantasioso e
ultrapassado.
Noção de propriedade para os europeus, eurocentrismo e relação com outros povos
A Idade Moderna (ou Modernidade) foi, para o Ocidente, um período de transição do
feudalismo para o capitalismo. Desse modo, muitos valores, normas e práticas do período são
uma mistura de antigas concepções feudais com novas noções burguesas ainda em fase de
construção. Esse período foi marcado também pelas Grandes Navegações e pela
consolidação das monarquias nacionais europeias. Todos esses fatores fizeram com que a
noção de propriedade se alterasse para os povos europeus, o que influenciou suas formas de
ver o mundo e de empreender sua forma de dominação sobre outros povos e territórios.
No mundo feudal, a noção de propriedade estava ligada à relação devassalagem e à
lealdade. Um nobre estava conectado à terra através da hereditariedade ou da concessão. No
primeiro caso, a propriedade da terra era passada de pai para filho, já no segundo, era
estabelecida a partir de uma relação de lealdade entre suserano e vassalo. Desse modo, a terra
era vista como uma propriedade e uma riqueza, mas não como uma mercadoria, já que não
era possível vendê-la ou comprá-la. Além disso, a terra era vista como a provedora do
sustento, lembrando que as populações medievais viviam da subsistência a partir daquilo que
os servos produziam nos feudos.
Já no final da Idade Média e início da Modernidade, com o renascimento comercial e
urbano, somados ao aumento e enriquecimento da burguesia (classe de mercadores), a noção
de propriedade da terra começou a mudar. Aos poucos, a terra passou a ser vista como um
lugar de exploração comercial e como uma mercadoria que poderia ser vendida, comprada ou
acumulada. Logo, tanto na Idade Média quanto na Modernidade existia a noção de
propriedade privada da terra, a principal diferença é que na primeira a terra não era vista
como uma mercadoria, enquanto na segunda, sim.
A formação das monarquias nacionais está intimamente conectada a esse processo. Os reis,
42 imageem
Os reis por um lado, avaliavam a aliança com a burguesia como uma forma de enriquecerem
seus reinos, ao mesmo tempo que centralizaram o poder em suas mãos, dominando
territórios maiores. Por outro lado, a burguesia enxergava no apoio de um Estado
centralizado, com mesmas regras, moedas, um exército e marinha poderosos, uma forma de
dar continuidade à sua expansão comercial. As Grandes Navegações só foram possíveis
porque alinharam a necessidade burguesa de expansão comercial e de lucros, com o apoio
político e econômico das monarquias nacionais europeias, que possibilitaram as viagens
marítimas, a conquista e a manutenção de territórios além-mar. Esse movimento também
influenciou a própria forma de viver na Europa, como, por exemplo, na alimentação;
diversos elementos americanos foram incluídos na dieta dos europeus, que começaram a
comer milho, batata, cacau, tomate etc.
Todo esse processo possibilitou aos europeus chegarem a um continente ainda
desconhecido para eles, que foi posteriormente batizado de América, em homenagem a
Américo Vespúcio, navegador e geógrafo, que concluiu que Cristóvão Colombo chegara a
um novo continente e não às Índias.
Por muito tempo, a América foi chamada de “Novo Mundo” pelos europeus. A ideia de
“Novo Mundo” parte de uma concepção eurocêntrica e pode ser problematizada de várias
maneiras. Primeiramente, ao utilizarem o termo “Novo Mundo”, os europeus
desconsideravam a existência de civilizações milenares vivendo na América, cada uma com
suas próprias características. Esse mundo era novo para os europeus, mas não para povos
como astecas, maias, incas, tupis, cherokees dentre outros. Em segundo lugar, a ideia de
“novo” carrega consigo a noção de um lugar desconhecido, propício ao reconhecimento,
invasão e desbravamento, desconsiderando novamente as civilizações já existentes e citadas
anteriormente.
Eurocentrismo é um conceito de origem crítica. Ele questiona a construção de uma visão de
mundo ocidental moderno a partir da Europa como centro de referência, sem levar em
consideração outras realidades, vivências e culturas.
Assim, após a chegada dos espanhóis à América, houve uma divisão do mundo a partir de
tratados, que estudaremos nas páginas a seguir, com terras a serem exploradas por espanhóis
e portugueses. Com essa ideia de exploração de um território novo e “sem donos”, os
europeus tomaram para si os territórios, imbuídos também de um discurso religioso de
evangelização das populações originárias. imagem 43
Planisfério de Cantino (1502), uma das primeiras cartas náuticas portuguesas que situou Brasil
e indicou o Tratado de Tordesilhas, acordo de divisão de terras descobertas entre Espanha e
Portugal. Wikimedia Commons
O avanço da expansão das nações e das burguesias europeias sobre o Atlântico
configurou se a partir de uma nova noção de propriedade da terra, mais ligada à incipiente
burguesia e da terra como uma fonte de riquezas e, posteriormente, como uma mercadoria
em si. Portanto, as monarquias europeias enxergavam essas terras como uma possibilidade
de expansão de domínios e de controle de vastos territórios, ao mesmo tempo que a
burguesia enxergava aí uma oportunidade para dar continuidade ao seu enriquecimento a
partir da exploração comercial desses mesmos territórios. Todo esse processo intensificou a
mudança da noção de propriedade feudal para a capitalista, já no início da Modernidade,
dando início à Revolução Comercial e a uma lógica de acumulação de metais preciosos,
protecionismo econômico e manutenção de uma balança comercial favorável, que ganhou o
nome de mercantilismo.
Agora é com você
Questão 01
Muito se transformou na Europa do final da Idade Média para o início da
Modernidade. Explique como se deu esse processo e quais as principais mudanças
ocorridas na noção de propriedade para os europeus.
Questão 02
Sobre o eurocentrismo, responda:
2.a) O que quer dizer o termo eurocentrismo?
2.b) Quais foram as consequências do eurocentrismo para o mundo ocidental?
2.c) Aponte momentos da sua vida cotidiana em que você consegue perceber o
eurocentrismo.
Os acordos ultramarinos entre Portugal e Espanha
Com a expansão marítima, os países europeus passaram a dominar territórios em outros
continentes. Portugal e Espanha foram os primeiros a invadir e conquistar territórios além
mar. Os portugueses realizaram, ao longo do século XV, o périplo africano, ou seja, o
contorno do sul do continente africano, e chegaram às Índias. Enquanto isso, os espanhóis
navegaram rumo ao Oeste e aportaram, em 1492, em um continente até então
desconhecido dos europeus, nomeado, posteriormente, de América.
Para garantir as navegações e a posse dos territórios fora da Europa, os reis da Espanha e
de Portugal assinaram acordos que legitimariam o domínio das novas conquistas entre os
dois reinos. Com isso desconsideravam a existência de populações e culturas nessas
regiões, concedendo a si próprios o domínio e a propriedade dessas terras. Todos esses
acordos foram legitimados pela Igreja Católica, que enxergava nesses territórios e povos
uma possibilidade de expandir seus domínios e a fé cristã. imagem 45
Portugal, em especial, estava muito preocupado com a unificação da Espanha, temendo que
ela também realizasse o périplo africano, para chegar mais rápido às Índias. A fim de evitar
possíveis desentendimentos entre as Coroas, foram assinados três acordos: Tratado de
Toledo, a Bula Inter Coetera e o Tratado de Tordesilhas, que podem ser
vistos no infográfico abaixo. shutterstock.com
DUBY, Georges. Atlas historique mondial. Paris: Larousse, 2006. Leitura Complementar ,
imagem 46
O Tratado de Tordesilhas
[...] Em 7 de junho, os negociadores portugueses e espanhóis chegaram ao acordo
histórico conhecido como Tratado de Tordesilhas [...]. Na maior parte dos itens [o
Tratado] preservou as prescrições das bulas papais. Um dos poucos itens novos e
interessantes era que, dentro de dez meses a partir da assinatura do tratado, Espanha e
Portugal deveriam, cada um, despachar navios com o mesmo número de especialistas
em navegação, com astrólogos, pilotos e navegadores a bordo, a fim de se encontrarem
nas ilhas de Cabo Verde.
Então, eles deveriam prosseguir para oeste, para determinar a localização da
fronteira no mar; se a fronteira por acaso cortasse terra, deveriam ser construídas torres
de fronteira. Mas, claro, ainda não havia método para determinar com exatidão a
longitude, problema que persistiu ainda durante décadas, de modo que essas
determinações do tratado nunca foram satisfeitas.
O desvio mais significativo das proclamações de Alexandre VI foi o da localização da
linha oficial de demarcação. Reconhecendo que Alexandre tinha criado direitos jurídicos
para a Espanha, João II procurou mudar a linha oficial de demarcação maispara oeste.
Os navios portugueses, argumentava ele, estavam constantemente navegando por essas
águas, e os limites eram muito estreitos. Isso era aceitável para a delegação espanhola; a
nova linha de demarcação correria a 370 léguas (perto de 1,2 mil milhas) a oeste das ilhas
de Cabo Verde, e não a cem léguas para oeste, aproximadamente a de longitude. Isso
viria a ter consequências não intencionais ou apenas vagamente avaliadas em favor de
Portugal, e elas não ficariam evidentes por mais uma década. João II suspeitava que devia
haver terras no Atlântico mais ao sul do que as avistadas por Colombo, e no fim ele
estava certo.
A mudança da linha de demarcação do tratado foi a grande façanha de João II.
Menos de um ano depois, após um período de fraqueza e letargia, dores de cabeça e
náuseas, perda de apetite e confusão, ele morreu [...]. Ele [João II] não conseguira, em
vida, legitimar seu filho Jorge e, portanto, foi sucedido por seu primo Manuel.
O novo rei se mostrou outro líder ambicioso que canalizou os recursos do país para
novas explorações ao sul, ao longo da costa da África, embora ele também tenha
repetido alguns dos erros de João.
Falou-se muito a respeito da absurda e presunçosa arrogância do líder religioso europeu
lançando proclamações que afetaram o mundo inteiro, mas cabe lembrar que as bulas
de Alexandre VI tinham a intenção de regulamentar os atos de naçõ
cristãs em seus empreendimentos ultramar — e não regulamentar as ações de não europeus
ou não cristãos. As bulas, entretanto, eram audaciosas e pretensiosas o suficiente para excluir
todas as nações europeias, com exceção de Portugal e Espanha, das viagens de ultramar,
situação que inevitavelmente levaria a confusões. Contudo, nos anos 1490, nenhum outro
país possuía tecnologia para construir navios, experiência em navegação ou proximidade
geográfica das novas terras para ficar de imediato preocupado com os termos do Tratado de
Tordesilhas. Isabel e Fernando, no entanto, pouco informados que eram a respeito da
extensão do território ou sobre seus povos, encaravam as novas terras e as multidões de
pessoas que ali habitavam como parte de seu império, de modo que acreditavam que já os
possuíam.
Na época, claro, ninguém sabia bem o que estava sendo dividido. A verdadeira extensão do
mundo ainda não era conhecida, e considerava-se que fosse muito menor do que se mostrou.
Ainda se imaginava que a América do Norte era a extremidade oriental da Ásia ou das ilhas
do Japão. Nos anos seguintes, no entanto, à medida que um número cada vez maior de
viagens se aventurou para oeste pelo Atlântico, surgiu a suspeita de que havia alguma coisa
diferente. As viagens espanholas e portuguesas, em particular, começaram a revelar um
mundo cada vez maior para os europeus. Apesar da proibição papal contra a exploração, até a
Inglaterra e a França passaram a encarregar marinheiros de se aventurar no Atlântico.
BOWN, Stephen R. 1494: como uma briga de família na Espanha medieval dividiu o mundo
ao meio. Tradução de Helena Londres. São Paulo: Globo, 2013. p. 129-130.
Questão 01
Portugal e Espanha foram os primeiros países europeus a disputarem os domínios nos novos
territórios além-mar.
Como essas disputas foram solucionadas?
Impactos políticos, econômicos e sociais das Grandes Navegações
Após a crise do século XIV, assistiu-se na Europa a um amplo processo de retomada
econômica e comercial. Isso garantiu a diversos setores da sociedade europeia condições
necessárias para, de forma pioneira, iniciar transformações que resultariam nas primeiras
revoluções da modernidade. Com as Grandes Navegações, ocorreu uma alteração na
dinâmica das sociedades europeias, que se tornaram cada vez mais comerciais, deixando
para trás, aos poucos, o sistema feudal. Esse processo de alterações econômicas e sociais,
que durou até o século XIX, é chamado Revolução Comercial. imagem 48
Pintura de Claude Lorrain (1638) representando um porto comercial na França. Wikimedia
Commons
As Grandes Navegações fizeram com que o eixo comercial europeu se alterasse do
Mar Mediterrâneo para o Oceano Atlântico. Assim, surgiram novos portos, como o de
Lisboa (Portugal), Bordeaux (sudoeste da França), Liverpool (Inglaterra), Bristol
(sudoeste da Inglaterra) e Amsterdã (Holanda), arruinando os históricos comerciantes
de Gênova e Veneza, visto que as rotas comerciais pelo Mar Mediterrâneo estavam em
decadência, principalmente após a tomada de Constantinopla pelos turcos em 1453.
Nas novas negociações comerciais, possibilitadas pelas Grandes Navegações, uniam-se às
especiarias o couro e a lã da Europa e do Oriente, o fumo da América do Norte, o melaço e
o rum das Índias Ocidentais, o açúcar, o cacau e o chocolate da América do Sul, o marfim,
as penas de avestruz e até os escravizados da África. Dessa forma, criava-se um novo
circuito de bens e consumo.
O acúmulo de metais preciosos (ouro e prata), a manutenção de uma balança comercial
favorável e o protecionismo econômico foram as marcas do período. A essa prática damos
o nome de Mercantilismo. Os espanhóis saíram na frente nessa corrida comercial, tendo
em vista que, nas “novas terras” espanholas na América, os achados de metais e de pedras
preciosas eram constantes e em larga escala. Estima-se que, entre o início do século XVI e
49
meados do século XVII, a Espanha tenha acumulado cerca de 30 mil toneladas de prata e
400 toneladas de ouro. Em busca dessa riqueza, nada impedia os navegadores europeus de
saquearem as organizações sociais existentes na América. Com o tempo, as riquezas foram
crescendo de maneira tão desenfreada que os preços do ouro e da prata caíram, quebrando
economias até então estáveis, como a do Sacro Império Romano-Germânico e
enriquecendo a inglesa e a dos Países Baixos.
No âmbito político, as monarquias europeias angariaram cada vez mais poderes e
riquezas com as Grandes Navegações. Com a conquista e controles de vastos territórios e
populações, os países europeus se tornaram grandes impérios, muito ricos e com
poderosos exércitos marítimos e terrestres. As monarquias puderam se consolidar e muitos
dos países europeus formados no período existem até hoje.
Muitos conflitos aconteceram entre esses países, tendo em vista que passaram a disputar o
controle sobre territórios e o Oceano Atlântico. Num primeiro momento, Portugal e
Espanha saíram na frente nas Grandes Navegações e na conquista de territórios em outros
continentes. No entanto, já a partir do século XVI e XVII, países como Inglaterra, França e
Holanda (Países Baixos) começaram a disputar o controle de territórios além-mar,
intensificando a Revolução Comercial e aprofundando o desenvolvimento do sistema
capitalista.
Questão 01
Aponte ao menos dois impactos (cultural, econômico ou social) ocorridos na América
ou Europa a partir das Grandes Navegações.
Pratique:
os acordos ultramarinos na perspectiva eurocentrista e os impactos das Grandes
Navegações
Questão 01
Sobre a expansão marítima e comercial europeia (séculos XV e XVI), assinale a
alternativa correta.
A; A Espanha, em parceria com a França, dominou as rotas comerciais entre a
América do Norte e a Europa.
B; A Holanda, já no século XVI, impôs seu domínio marítimo e comercial, frente à
Inglaterra, na América do Sul.
C; A França, devido ao uso de expedições militares, controlou o comércio de
especiarias no litoral da América portuguesa.
D; Portugal, ao assinar o Tratado de Tordesilhas com a Espanha, buscava garantir
a exploração das terras localizadas no Atlântico Sul.
E; A Inglaterra, a partir da chegada de Cristóvão Colombo ao “Novo Mundo”,
firmou-se como a nação hegemônica, nas rotas comerciais entre a América Central e
Europa.
Questão 02
Os cosmógrafos e navegadores de Portugal e Espanha procuram situar estas costas
e ilhas da maneira mais conveniente aos seus propósitos. Os espanhóis situam-nas
mais para o Oriente, de forma a parecer que pertencem ao imperador (Carlos V);
os portugueses, por sua vez, situam-nas mais para o Ocidente, pois, desse modo,
entrariam em sua jurisdição.Carta de Robert Thorne, comerciante inglês, ao rei Henrique VIII, em 1527.
O texto remete diretamente
A; à competição entre os países europeus retardatários na corrida pelos
descobrimentos.
B; aos esforços dos cartógrafos para mapear com precisão as novas
descobertas.
C ; ao duplo papel da marinha da Inglaterra, ao mesmo tempo mercantil
e corsária. C
D; às disputas entre países europeus, decorrentes do Tratado de
Tordesilhas. D
E; à aliança das duas coroas ibéricas na exploração marítima.
Questão 03
Foram inúmeras as consequências da expansão ultramarina dos europeus, provocando uma
radical transformação no panorama da História da humanidade. Como significativa
consequência desse processo, podemos ressaltar
A a manutenção dos níveis de circulação de metais preciosos na Europa.
B o pioneirismo marítimo espanhol, explicado pela posição geográfica favorável.
C a constituição de impérios coloniais fundamentados pela lógica do mercantilismo.
D a manutenção do eixo econômico do Mar Mediterrâneo com acesso fácil ao Oceano
Atlântico.
E a dependência do comércio com o Oriente, fornecedor de produtos de luxo como
especiarias, porcelanas e pedras preciosas.
Questão 04
Observe a imagem do mapa de Waldseemüller e leia o texto a seguir. Martin Waldseemüller,
1507.
Esse mapa é de fundamental significação na história da cartografia. Sintetizou a revolução
dos vinte anos precedentes na Geografia e ampliou a imagem contemporânea do mundo,
proporcionando uma visão essencialmente nova do mesmo. [...] Seu histórico é conhecido
indubitavelmente a partir do tratado geográfico Cosmographiae Introductio que
acompanhou sua publicação em 1507. [...] Esse mapa tem uma importância histórica
única. Nele, o Novo Mundo recebe o nome de América pela primeira vez. Colombo
aparentemente nunca abandonou sua convicção de que as ilhas das Índias Ocidentais que
descobriu eram próximas à costa leste da Ásia. Vespúcio, entretanto, descobriu a verdade,
ou seja, que era um novo mundo. Waldseemüller aceitou essa visão e propôs – para honrar
Vespúcio – conceder seu nome à nova terra.
WHITFIELD, Peter. The image of the world: 20 centuries of world maps.
San Francisco: Pomegranate Artbooks & British Library, 1994. p. 48-49.
Com base no mapa, no texto e em seus conhecimentos sobre a epopeia dos
descobrimentos na Época Moderna, é correto afirmar que
A; o mapa de Waldseemüller foi elaborado para reforçar a concepção bastante difundida
durante a Idade Média de que a Terra era plana, contribuindo, assim, para afirmar a tese da
impossibilidade de atingir o Oriente navegando para o Ocidente.
B; o uso da expressão “descoberta da América” para designar o ocorrido em 1492
revela uma construção a posteriori da Historiografia, que assim estabelece uma
representação simbólica da presença europeia no continente pela primeira vez na Era
Moderna.
C; dizer que Vespúcio foi o responsável pela “descoberta do Novo Mundo” significa
evidenciar um traço da mentalidade greco-romana da Antiguidade, que prescrevia a
experimentação científica como método para obter o conhecimento da verdade das
coisas.
D; a verificação empírica da verdade dos “descobrimentos” possibilitou, ao longo do
século XVI, uma nova epistemologia para as Ciências Humanas, que passou a fundar-se
no testemunho direto dos acontecimentos como critério para o estabelecimento dos
fatos.
E; pelo relato sobre os “descobrimentos”, explicitado no texto, fica evidente que havia,
no período da publicação do mapa de Waldseemüller, uma nítida separação entre a
perspectiva de análise geográfico-cartográfica e a abordagem histórica dos eventos da
expansão marítima.
Pratique: Vestibulares e Enem
Questão 01
Acerca dos fatores que fizeram de Portugal o pioneiro no processo das Grandes
Navegações, examine as afirmativas a seguir.
I. Precoce centralização política que, a partir de 1143, fez do rei um elemento
fundamental na condução do projeto expansionista luso.
II. O enriquecimento da burguesia mercantil lusa, a partir dos contatos com o Mar do Norte
e com a Itália.
III. Voltado para o Mediterrâneo, Portugal assumiu uma privilegiada posição geográfica
que o levaria mais facilmente ao Oriente Médio, de onde vinham as especiarias.
Estão corretas as proposiçõ
A l
B ll
C lll
D, ll e
lll
E; l e ll
Questão 02
Todo homem de bom juízo, depois que tiver realizado sua viagem, reconhecerá que é um
milagre imagem 53
Todo homem de bom juízo, depois que tiver realizado sua viagem, reconhecerá que é um
milagre manifesto ter podido escapar de todos os perigos que se apresentam em sua
peregrinação; tanto mais que há tantos outros acidentes que diariamente podem ai ocorrer
que seria coisa pavorosa àqueles que aí navegam querer pô-los todos diante dos olhos quando
querem empreender suas viagens.
J. P. T. Histoire de plusieurs voyages aventureux. 1600. In: DELUMEAU,
J.História do medo no Ocidente:
1300-1800. São Paulo Cia. das Letras,
2009. (adaptado)
Esse relato, associado ao imaginário das viagens marítimas da época moderna, expressa um
sentimento de
A. gosto pela aventura.
B. fascínio pelo fantástico.
C. temor do desconhecido.
D. interesse pela natureza.
E. purgação dos pecados.
Questão 03
No início dos tempos modernos, assistiu-se a uma série de grandes transformações que
atuaram na desestruturação do mundo feudal e também se refletiram na diminuição do
poder da Igreja, na expansão comercial e marítima, no desenvolvimento da burguesia, no
Renascimento e na Reforma Religiosa. Também está ligada a esse período histórico:
a descentralização política e administrativa do
Estado. A
a formação das repúblicas federativas.
B
a ascensão das ditaduras pelas elites militares.
C
a ascensão das ditaduras lideradas pelas classes
trabalhadoras. D
a formação das monarquias nacionais
absolutistas. E
Questão 04
As primeiras expedições na costa africana a partir da ocupação de Ceuta em 1415,
ainda na terra de povos berberes, foram registrando a geografia, as condições de
navegação e de ancoragem. Nas paradas, os portugueses negociavam com as populações
locais e sequestravam pessoas que chegavam às praias, levando-as para os navios para
serem vendidas como escravas. Tal ato era justificado pelo fato de esses povos serem
infiéis, seguidores das leis de Maomé, considerados inimigos, e, portanto, podiam ser
escravizados, pois acreditavam ser justo guerrear com eles. Mais ao sul, além do rio
Senegal, os povos encontrados não eram islamizados, portanto, não eram inimigos, mas
eram pagãos, ignorantes das leis de Deus, e no entender dos portugueses da época também
podiam ser escravizados, pois ao se converterem ao cristianismo teriam uma chance de
salvar suas almas na vida além desta.
SOUZA, Marina de Mello.África e Brasil africano, 2007.
De acordo com o texto,
A; a motivação da conquista europeia da África foi essencialmente religiosa,
destituída de caráter econômico.
B; os líderes políticos africanos apoiavam a catequização dos povos nativos
pelos conquistadores europeus.
C; os africanos aceitavam a escravização e não resistiam à presença europeia
no continente.
D; os povos africanos reconheciam a ação europeia no continente como uma
cruzada religiosa e moral.
E; a escravização foi muitas vezes justificada pelos europeus como uma
forma de redimir e salvar os africanos.
Resumo
•
A transição da Idade Média para a Modernidade apresentou profundas transformações em
diversas áreas, dentre as quais podemos destacar, na política, a formação das Monarquias
Nacionais e, na economia, as Grandes Navegações.
•
A formação das monarquias nacionais europeias, a partir da aliança com a nascente
burguesia, pretendia expandir seus lucros através do comércio, e com os reis, que tinham
como objetivo subjugar outros nobres e também se sobrepor ao poder da Igreja Católica.
•
Os Estados modernos surgiram com o objetivo de centralizar o poder, facilitar o controle
sobre os feudos e estimular o comércio, com a unificação de moedas, pesos e medidas.
•
Ao longo da formação da monarquia francesa, houve a expansão doterritório e diversos
conflitos com a Inglaterra, que culminaram com a Guerra dos Cem Anos, ocorrida entre
1337 e 1453.
● A formação da monarquia inglesa esteve muito ligada às disputas com a
França, mas
também aos conflitos internos pelo poder, como a Guerra das duas Rosas; IMAGEM
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•
As monarquias portuguesa e espanhola se constituíram em um longo processo
de acordos e disputas entre reinos e domínios na Península Ibérica, além da
presença muçulmana, que foi combatida pelos reinos cristãos na chamada Guerra
de Reconquista.
•
A Revolução de Avis, em Portugal, foi fundamental para o desenvolvimento
da burguesia e para a expansão marítima portuguesa.
•
O medo do desconhecido persistiu ao longo de muitos séculos. Os oceanos eram tidos
como lugares onde criaturas atacavam embarcações e provocavam a morte de
suas tripulações. Posteriormente, diferentes grupos sociais se propuseram a
superar a herança imaginária da Idade Média.
•
Portugal foi o pioneiro na expansão marítima europeia por alguns fatores: localização
geográfica, com a costa voltada para o Oceano Atlântico e no caminho de rotas
comerciais entre o Mediterrâneo e o Mar do Norte; houve incentivo da Coroa lusitana
à formação da Escola de Sagres, que acumulou conhecimentos náuticos vindos de
diversas regiões; além de existir a predisposição da burguesia portuguesa em se
aventurar no Oceano Atlântico.
•
Em suas viagens, os portugueses fizeram o périplo africano, contornando a África
para chegar às Índias, ao longo do século XV, iniciando um processo de colonização.
Depois disso, ainda estiveram na América em 1500, com Pedro Álvares Cabral.
•
A expansão marítima espanhola foi condicionada à portuguesa. Não podendo
navegar ao sul para chegar às Índias, os espanhóis investiram na teoria de esfericidade
da Terra do genovês Cristóvão Colombo, que acreditava que poderia chegar às Índias,
navegando em direção oeste.
•
A partir da viagem de Colombo, os espanhóis chegaram a um continente
desconhecido dos europeus, que ganhou, posteriormente, o nome de América.
•
Com a expansão marítima de outros reinos, a exemplo do espanhol, vários
tratados foram criados com o objetivo de garantir a exclusividade de rotas, bem
como assegurar a conquista de domínios territoriais, sem levar em
consideração as civilizações já existentes nesses territórios.
•
Frente à nova dinâmica econômica conquistada com as Grandes Navegações,
alterações significativas foram sentidas nas relações comerciais, dando forma às
práticas mercantilistas e à Revolução Comercial.
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