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As ciencias da religiao e o ensino religioso Aproximacoes

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<p>A</p><p>A</p><p>Formatado</p><p>por</p><p>J.P.</p><p>A</p><p>A</p><p>A</p><p>A</p><p>A</p><p>A</p><p>A</p><p>A</p><p>A</p><p>A</p><p>A</p><p>A</p><p>1.</p><p>CIÊNCIAS DA RELIGIÃO</p><p>“A fé e a razão (fides et ratio) constituem como que as duas asas pelas quais o espirito</p><p>humano se eleva para a contemplação da verdade”. (Papa João Paulo II, 1998)</p><p>Neste capítulo, apresentaremos um quadro geral das ciências da religião com o</p><p>objetivo de oferecer um repertório inicial que aproxime você dessa área do</p><p>conhecimento e de sua contribuição para a vida humana em sociedade.</p><p>Inicialmente, traçaremos um breve panorama histórico das ciências da religião</p><p>no Brasil e seus conceitos fundamentais. Na sequência, abordaremos a religião como</p><p>um bem cultural da humanidade e detalharemos como a experiência religiosa humana</p><p>sistematiza-se naquilo que se denomina conhecimento religioso.</p><p>Destacaremos, ainda, as contribuições da filosofia da religião, no esclarecimento</p><p>da essência formal de sua relação com a existência humana, e da teologia, na reflexão</p><p>da relação do ser humano com o transcendente e na promoção do diálogo entre ciência</p><p>e fé.</p><p>15 Ciências da Religião</p><p>1.1 Breve panorama histórico das</p><p>ciências da religião no Brasil</p><p>Antes de iniciarmos o esforço epistemológico de definir a área das ciências da religião,</p><p>alertamos que existe, neste campo acadêmico, uma questão relativa à concordância</p><p>gramatical, envolvendo a discussão sobre a possibilidade de conceber uma ciência</p><p>autônoma da religião em contraposição à compreensão de que esta, na condição de</p><p>objeto de estudo, encontra convergências em um conjunto de áreas do conhecimento</p><p>(Mendonça, 2004).</p><p>A compreensão e o estudo da religião remontam ao início da própria</p><p>experiência humana. Embora seus estudos na Antiguidade, na Idade Média e na</p><p>Modernidade sempre tenham indagado sobre os fenômenos religiosos e sobre a figura</p><p>de Deus na história da humanidade, formalmente, atribui-se o estabelecimento de seu</p><p>estudo científico a um período que compreende do final do século XVIII até o princípio</p><p>do século XX, na chamada Era protestante, sustentada pelo império colonial e cultural</p><p>da Inglaterra em todo o mundo. Uma das justificativas da origem das ciências da</p><p>religião foi o esforço de “defender o cristianismo no confronto inevitável com as</p><p>religiões recém-descobertas, usando com frequência o método comparativo por vezes</p><p>sobre pressupostos positivistas/evolucionistas” (Mendonça, 2004, p. 28), que se</p><p>esmeraram em estudar a religião como fenômeno humano sem pôr de lado a fé, na</p><p>tentativa de sistematizar um estudo científico. Nesse esforço, destacaram-se como</p><p>pioneiras as pesquisas comparativas de religião na antropologia de William Robertson</p><p>Smith (1846-1894) e Sir James George Frazer (1854-1941), além dos estudos teológicos</p><p>do liberalismo protestante de Adolf von Hamack (1851-1930) e Ernst Troeltsch (1865-</p><p>1923) sobre a essência e a história do cristianismo.</p><p>16 Ciências da Religião</p><p>Acredita-se que, no Brasil, o desenvolvimento dessa área se iniciou entre os</p><p>séculos XIX e XX, por meio de intelectuais, como Gilberto Freyre, que abordaram o</p><p>tema da religião sob a perspectiva do sincretismo. Já seu estabelecimento como campo</p><p>de pesquisa na universidade brasileira deu-se a partir dos estudos do francês Roger</p><p>Bastide (1898-1974) na Universidade de São Paulo (USP).</p><p>Na obra Diálogos brasileiros: uma análise da obra de Roger Bastide, Fernanda Arêas</p><p>Peixoto (2000) apresenta o caráter multifacetado da produção de Bastide norteada pela</p><p>junção entre as tradições sociológicas francesa e norte-americana, a releitura de sua</p><p>experiência no Brasil, a sua aproximação com as ideias dos modernistas da época,</p><p>como Mário de Andrade, e o estudo da obra de Gilberto Freyre sobre a formação da</p><p>cultura brasileira, especificamente das religiões afro-brasileiras. A autora também</p><p>comenta que a obra de Florestan Fernandes foi crucial na concepção sociológica de</p><p>Bastide no que tange à compreensão do folclore e das relações raciais no Brasil,</p><p>principalmente por possibilitar uma análise do fenômeno religioso sem preconceitos</p><p>teóricos. Isso lhe permitiu transitar por distintas tradições culturais, o que se</p><p>evidenciou, no início da década de 1930, em sua publicação Éléments de sociologie</p><p>religieuse, na qual relaciona arte, vida mística e religião.</p><p>Sobre a influência de Bastide nos estudos de religião no Brasil, Antônio Gouvêa</p><p>Mendonça (2004, p. 19) comenta:</p><p>Bastide deu status acadêmico e científico ao estudo da religião, abordando-a</p><p>sob os ângulos da antropologia, da sociologia e da psicologia. Como seguidores</p><p>imediatos de Bastide podem ser citados Maria Isaura Pereira de Queiroz e</p><p>Duglas Teixeira Monteiro,</p><p>17 Ciências da Religião</p><p>ambos com seus estudos sobre movimentos messiânicos no Brasil. Além</p><p>desses, Cândido Procópio Ferreira de Camargo e Beatriz Muniz de Souza,</p><p>aquele com sua preocupação com a realidade cultural da religião no Brasil, essa</p><p>[sic] com seu trabalho pioneiro sobre o pentecostalismo.</p><p>Além disso, o autor assinala que Duglas Teixeira Monteiro fundou, no interior</p><p>do Departamento de Ciências Sociais da USP, em 1975, o Centro de Estudos de</p><p>Religião, que, após sua morte, foi nomeado, em sua homenagem, Centro de Estudos da</p><p>Religião Duglas Teixeira Monteiro. Esse centro estabeleceu importantes parcerias com</p><p>pesquisadores de outras instituições, como a Pontifícia Universidade Católica de São</p><p>(PUC-SP). Por meio de iniciativas acadêmicas como essa, os estudos sobre a religião</p><p>cresceram e galgaram espaço nos programas acadêmicos em universidades públicas e</p><p>confessionais, bem como em grupos e núcleos de pesquisa em todo o país.</p><p>Em 2016, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior</p><p>(Capes) reconheceu a área Ciências da Religião e Teologia com o código 44, por meio</p><p>da Portaria Capes n. 174, de 11 de outubro de 2016 (Brasil, 2016), retificada pela</p><p>Resolução n. 1, de 4 de abril de 2017 (Brasil, 2017b). De acordo com o órgão</p><p>governamental: “A área desenvolve investigações que se orientam por abordagem de</p><p>perfil multidisciplinar, interdisciplinar ou transdisciplinar e abrange cursos de</p><p>Mestrado Acadêmico, Doutorado e Mestrado Profissional em Ciência(s) da(s)</p><p>Religião(ões) e em Teologia” (Brasil, 2017a, p. 1).</p><p>O Relatório de avaliação quadrienal de 2017 (Brasil, 2017a), subdivide a área</p><p>Ciências da Religião e Teologia em oito subáreas, conforme esquematizado no Quadro</p><p>1.1.</p><p>18 Ciências da Religião</p><p>Quadro 1.1 - Subáreas compreendidas na área Ciências da Religião e Teologia,</p><p>de acordo com a Capes</p><p>Área Ciências da Religião e Teologia</p><p>Subáreas</p><p>Ciência da religião aplicada</p><p>Ciências da linguagem religiosa</p><p>Ciências empíricas da religião</p><p>Epistemologia das ciências da religião</p><p>História das teologias e religiões</p><p>Teologia fundamental-sistemática</p><p>Teologia prática</p><p>Tradições e escrituras sagradas</p><p>Fonte: Elaborado com base em Brasil, 2017a.</p><p>O mesmo documento destaca, ainda, que, até o final do quadriénio 2013-2016,</p><p>a área Ciências da Religião e Teologia estava presente em todo o país e contava com</p><p>21 programas de pós-graduação, distribuídos entre 12 programas de Ciência(s) da(s)</p><p>Religião(ões) e 9 programas de Teologia (Brasil, 2017a). Percebe-se, nessa breve leitura</p><p>do processo histórico de consolidação da área, que esta vem alcançando</p><p>reconhecimento e espaço nos programas de pesquisa nas universidades.</p><p>Ademais, considerando a publicação da Base Nacional Comum Curricular</p><p>(BNCC) em 2017 e o reconhecimento do Ensino Religioso1 como “área de</p><p>conhecimento” e “componente curricular”, é possível assinalar que este favorece a</p><p>comunicação entre conhecimentos e saberes de diferentes componentes curriculares.</p><p>A BNCC define que:</p><p>O conhecimento religioso, objeto</p><p>no Dia de Finados. O municio de</p><p>Bebedouro no Estado de São Paulo</p><p>59 Conhecimento religioso na sociedade</p><p>é um exemplo desse fenômeno. Em 2 de novembro 2018, aproximadamente seis mil</p><p>pessoas visitaram o Cemitério Municipal da cidade, cuja população estimada é de</p><p>77.555 habitantes (IBGE, 2020).</p><p>Se atentarmos para algumas cerimônias familiares, como batismos,</p><p>casamentos, bodas e funerais, constataremos a marca cultural cristã como elemento</p><p>predominante, mesmo em famílias que não são tão praticantes do cristianismo.</p><p>Nos esportes, é comum atletas fazerem o sinal da cruz, ajoelharem-se pedindo</p><p>proteção e força divinas. Em suas entrevistas, muitos destes falam de Deus, do Senhor,</p><p>de Jesus etc. No âmbito da música, existem inúmeros discos, CDs, DVDs, gravações e</p><p>shows com letras e melodias religiosas. Nesse sentido, merece destaque a música gospel</p><p>brasileira, com festivais expressivos como a Marcha para Jesus, o Festival Promessas e</p><p>o The Send Brasil.</p><p>Também na esfera artística, englobando o cinema, as artes visuais, o teatro e a</p><p>literatura nacionais, é possível averiguar e constatar como diversas obras estão,</p><p>parcial ou totalmente, impregnadas de elementos religiosos. É possível citar alguns</p><p>exemplos:</p><p>▪ O artista argentino Hector Julio Páride Bernabó, conhecido como Carybé, legou</p><p>mais de 5.000 trabalhos que retratam a religiosidade e a vida popular em Salvador,</p><p>no Brasil. Entre estes, destacam-se 128 aquarelas, produzidas entre 1940 e 1980,</p><p>sobre os deuses africanos no candomblé da Bahia.</p><p>▪ Eduardo Kobra é um reconhecido muralista brasileiro dedicado a retratar pessoas</p><p>que lutaram contra a violência e promoveram a cultura de paz. Um exemplo de</p><p>seus trabalhos é a obra Olhar a Paz (2015), produzida em um muro de Los Angeles,</p><p>nos Estados Unidos.</p><p>60 Conhecimento religioso na sociedade</p><p>Caso analisemos cuidadosamente o campo das decisões políticas institucionais,</p><p>perceberemos o quanto a moral e a ética cristãs estão presentes. Alguns exemplos disso</p><p>são:</p><p>▪ Políticas ecológicas: A encíclica Laudato Si’, sobre o cuidado da casa comum,</p><p>publicada em 2015 pelo Papa Francisco, que trata da crise ecológica e dos desafios</p><p>de uma conversão ecológica pautada no cuidado, no princípio do bem comum e na</p><p>justiça intergeracional (Francisco, 2015); a Rede Eclesial Pan-Amazônica (Repam),</p><p>organização da Igreja Católica que promove o protagonismo dos povos</p><p>amazônicos com a intenção de defender e cuidar da floresta.</p><p>▪ Políticas sociais: O documento “Fraternidade Humana em prol da paz mundial e</p><p>da convivência comum”, assinado pelo Papa Francisco e pelo xeque Ahmad Al-</p><p>Tayyeb em fevereiro de 2019.</p><p>▪ Questões éticas e bioéticas: As preocupações da Academia Pontifícia da Vida da</p><p>Igreja Católica, do Vaticano, sobre as questões éticas e morais ligadas ao</p><p>desenvolvimento de robôs, expressas, por exemplo, no seminário “Roboética:</p><p>Humanos, Máquinas e Saúde”, realizado em 2019; as discussões legislativas em</p><p>torno da legalização do aborto.</p><p>▪ Políticas educacionais: As discussões legislativas a propósito do ensino religioso</p><p>confessional e da legitimidade do homeschooling.</p><p>▪ Instituições da sociedade civil organizadas com base em princípios cristãos:</p><p>Sociedade Brasileira de Cientistas Católicos (SBCC), Associação Brasileira Cristãos</p><p>na Ciência (ABC), Associação de Dirigentes Cristãos de Empresa (ADCE), União</p><p>dos Juristas Católicos (Ujuca), Associação dos Médicos Católicos, entre outras.</p><p>61 Conhecimento religioso na sociedade</p><p>Embora ainda haja certo predomínio do cristianismo na cultura religiosa</p><p>brasileira, os Censos Demográficos de 2000 e 2010 mostram que esse cenário está</p><p>mudando, conforme outras culturas religiosas ganham força e expressão nacional</p><p>(IBGE, 2010). Trataremos dessa diversidade crescente na Seção 2.5.</p><p>2.2 Fenômeno religioso</p><p>No primeiro capítulo, ao caracterizar a religião como bem cultural, buscamos</p><p>evidenciar que esta é produto da ação humana por meio de determinada cultura</p><p>envolta em necessidades e desejos. Nesse sentido, entendemos que o fenômeno</p><p>religioso, compreendido por meio dessa lógica como resultado da autonomia humana,</p><p>requer uma análise fenomenológica. Nosso desafio nesta seção consiste em</p><p>demonstrar a possibilidade de perceber o conhecimento religioso como um saber</p><p>fenomenológico.</p><p>IMPORTANTE!</p><p>Metodologicamente, a fenomenologia, quando voltada ao imenso universo da religião,</p><p>corresponde ao “estudo do fenômeno religioso a partir de sua realidade objetiva:</p><p>como se mostra, como se deixa ver, como aparece e se instaura” (Jorge, 1998, p. 7,</p><p>grifo nosso). É fundamental reiterar, ainda, que o saber fenomenológico,</p><p>comprometido com a suspenção de juízo de valor, busca compreender o sentido e o</p><p>significado último da religião como fenômeno singularmente humano e presente em</p><p>todas as culturas nos mais diferentes momentos da história.</p><p>Para evidenciar como essa universalidade da religião e sua consequente</p><p>manifestação na história e nas diversas culturas são questões preciosas à</p><p>fenomenologia, resgatamos a compreensão de Irineu Wilges (2010, p. 9), segundo o</p><p>qual “o fenômeno religioso</p><p>62 Conhecimento religioso na sociedade</p><p>é universal”, já que “em todos os tempos, lugares e povos encontramos tal fenômeno.</p><p>Esta afirmação é atestada pela etnologia e pela história das religiões”. Para confirmar</p><p>sua tese, o autor mobiliza uma passagem de Plutarco (citado por Wilges, 2010, p. 9):</p><p>“Podereis encontrar uma cidade sem muralhas, sem edifícios, sem ginásios, sem leis,</p><p>sem uso de moedas como dinheiro, sem cultura das letras. Mas um povo sem Deus,</p><p>sem oração, sem juramentos, sem ritos religiosos, sem sacrifícios, tal nunca se viu”.</p><p>Em seu livro Cultura religiosa: o homem e o fenômeno religioso, o pesquisador J.</p><p>Simões Jorge também cita a contribuição de alguns respeitados autores que</p><p>corroboraram com a ideia da presença universal desse fenômeno:</p><p>A constatação da presença universal do fenômeno religioso leva o antropólogo</p><p>Bronislaw Malinowoski a afirmar que “não há povo, por mais primitivo que seja,</p><p>em que não se veja a religião”. O pensador francês Henri Bergson escreve que</p><p>“se encontram no passado, e se encontram até hoje sociedades humanas que</p><p>não possuem ciência, nem artes, nem filosofia. Mas nunca existiu sociedade</p><p>sem religião”. [...] Battista Mondim, partindo de pesquisas antropológicas,</p><p>assevera que “o homem desenvolveu uma atividade religiosa desde a sua</p><p>primeira aparição no cenário da história e que todas as tribos e todas as</p><p>populações, de qualquer nível cultural, cultivaram alguma forma de religião”.</p><p>(Jorge, 1998, p. 11-12)</p><p>Além dessa dimensão universal, consideramos essencial apresentar, mesmo</p><p>que brevemente, alguns elementos que são inerentes a todo e qualquer fenômeno</p><p>religioso, como: o sagrado, o mito e o rito.</p><p>Nessa condição, o sagrado passou a ser estudado por grandes pesquisadores,</p><p>entre os quais se destacam Rudolf Otto (1869-1937) e Mircea Eliade (1907-1986). Com</p><p>sua canônica obra O sagrado,</p><p>63 Conhecimento religioso na sociedade</p><p>publicada pela primeira vez em 1917, o teólogo luterano Otto (2011) entrou, de modo</p><p>incontestável, para a história das ciências da religião. Alguns anos mais tarde, com a</p><p>obra O sagrado e o profano, o cientista da religião Mircea Eliade (1992) também teve seu</p><p>nome e seus trabalhos inseridos na história dessa área do conhecimento.</p><p>Incontestavelmente, as contribuições desses dois pensadores tornaram-se</p><p>fundamentais para uma compreensão mais profunda das religiões e, sobretudo, da</p><p>questão do sagrado. No parecer de Eduardo Gross (2017, p. 41):</p><p>As definições que Otto e Eliade oferecem para o sagrado estão entre as mais</p><p>consagradas, merecendo por isso atenção no âmbito do estudo do sagrado [...].</p><p>Otto visa superar uma compreensão da religião reduzida à racionalidade e à</p><p>moral, destacando</p><p>para isso elementos irracionais e caracterizando como</p><p>numinoso o específico da religião. Eliade entende o sagrado como fenômeno</p><p>que se manifesta em hierofanias cujo estudo sistemático permite descobrir as</p><p>estruturas deste sagrado.</p><p>Com as contribuições de Otto e Eliade, a categoria sagrado passou a denotar algo</p><p>que, simultaneamente, compreende a natureza da religião e se apresenta como seu</p><p>traço mais especial. Com esse elemento, é possível acessar a essência do fenômeno</p><p>religioso e, sobremaneira, analisar com profundidade o que se denomina experiência</p><p>religiosa. Na seção 2.3, adensaremos essa reflexão a propósito do conceito de sagrado</p><p>no pensamento desses dois autores.</p><p>O mito também é considerado um elemento indispensável para a compreensão</p><p>de determinado fenômeno religioso. De fato, é notório que as grandes narrativas</p><p>religiosas acerca da origem do mundo, do ser humano e de tantas outras coisas se</p><p>estruturam por meio dos mitos. Estes, ao contrário do que muitos afirmam no universo</p><p>religioso, não são meras inverdades fantasiosas, mas se configuram tentativas de</p><p>explicar a realidade. Isso porque,</p><p>64 Conhecimento religioso na sociedade</p><p>diante do mistério da vida – marcada por profunda insegurança pessoal (doença,</p><p>morte) – e dos fenômenos naturais, a narrativa mítica surge como primeira forma</p><p>humana de conhecimento e de construção de uma moralidade capaz de nortear a</p><p>vida comum de um grupo e dar sentido à sua existência. Por meio dos mitos, o</p><p>homem primitivo buscava compreender a realidade que o cercava e, de certo modo,</p><p>transmitir às futuras gerações seus conhecimentos e suas convicções. Nesse sentido,</p><p>Gaarder, Hellern e Notaker (2005, p. 21-22) afirmam:</p><p>o mito religioso tem um significado mais profundo do que a lenda e os contos</p><p>folclóricos. O mito procura explicar alguma coisa. É uma resposta metafórica</p><p>para as questões fundamentais: de onde viemos e para onde vamos? Por que</p><p>estamos vivos e por que morremos? Como foi que a humanidade e o mundo</p><p>passaram a existir? Quais são as forças que controlam o desenvolvimento do</p><p>mundo?</p><p>É importante ressaltar que, ao tratar de determinadas situações que envolvem</p><p>a existência humana, como a criação do mundo e do homem, os mitos religiosos não</p><p>têm por finalidade narrar fatos históricos, mas fornecer uma explicação geral que visa</p><p>apaziguar a interioridade de indivíduos e comunidades.</p><p>Outro elemento fundamental para compreender o fenômeno religioso é o rito e</p><p>sua gama de significados. De modo geral, nota-se uma proliferação de rituais para</p><p>marcar a passagem de uma etapa da vida para outra, para celebrar momentos especiais</p><p>e por outras razões diversas. Assim, a vida humana é permeada por ritos, tal que viver</p><p>coincide, de alguma forma, com uma ritualização da própria existência.</p><p>No âmbito religioso, diferentes fenômenos, nas mais diversas culturas e épocas,</p><p>são fortemente marcados pela presença de rituais. Como afirma o professor José Lisboa</p><p>Moreira de Oliveira</p><p>65 Conhecimento religioso na sociedade</p><p>(2018a, p. 10, grifo nosso e do original), “um lugar todo especial nas religiões é ocupado</p><p>pelo ritual e pelos ritos. O ritual [...] é a ação ou ato através do qual as religiões</p><p>organizam as suas formas de rezar, de cantar, de dançar aos deuses, de fazer</p><p>oferendas e sacrifícios às divindades”.</p><p>IMPORTANTE!</p><p>Por meio dos ritos, expressam-se sentimentos e convicções religiosas. De modo</p><p>padronizado, um ou mais indivíduos, ou mesmo toda uma comunidade, servem-se de</p><p>ritos para se conectar com um ou vários deuses, seres espirituais ou forças</p><p>sobrenaturais, para agradecer, pedir, oferecer sacrifícios, cumprir um preceito, entre</p><p>outras finalidades.</p><p>Desse modo, vinculados aos mitos e como forma de expressão concreta do</p><p>entendimento acerca do sagrado, os ritos têm papel fundamental na compreensão de</p><p>um determinado fenômeno religioso. Além desses três aspectos, há, em boa parte das</p><p>grandes religiões, sobretudo das institucionalizadas, outros elementos importantes a</p><p>considerar, como o universo simbólico, os lugares e textos (orais e escritos) sagrados e</p><p>as organizações religiosas.</p><p>2.3 O sagrado e suas manifestações</p><p>O que é o sagrado? Como este se manifesta? Nesta seção, assumiremos o desafio de</p><p>responder a essas indagações.</p><p>Conforme pontuamos, entre os principais autores que pesquisaram e</p><p>abordaram com propriedade a questão do sagrado, destacam-se o filósofo e teólogo</p><p>alemão Rudolf Otto (2011) e o filósofo e historiador romeno Mircea Eliade (1992). Será,</p><p>portanto, com</p><p>66 Conhecimento religioso na sociedade</p><p>base em suas obras que buscaremos respostas para as perguntas apresentadas.</p><p>Algumas expressões são fundamentais para compreender o pensamento de</p><p>Otto acerca do sagrado, como experiência religiosa, numinoso, irracional e mysterium</p><p>tremendum et fascinans. Em sua perspectiva, o ser humano realiza interiormente uma</p><p>experiência objetiva de algo absoluto e transcendente, a qual o projeta para além do</p><p>puramente racional, ou seja, supera o limite da compreensão e adentra o universo da</p><p>intuição. É nesse âmbito da existência que o sagrado se manifesta. Mais do que pensar,</p><p>trata-se de experimentar. Por isso, Irineu Wilges (2010, p. 12) afirma que “a religião é</p><p>o resultado de uma experiência religiosa. É a experiência do sagrado. Esse manifesta-</p><p>se [sic] fora da rotina e do cotidiano”.</p><p>Embora Otto estivesse ciente da necessidade de superar uma compreensão da</p><p>religião que, na passagem do século XIX para o XX, estava reduzida à racionalidade e</p><p>à moral, sua proposta não se restringiu a opor o irracional ao racional, mas buscou ir</p><p>além. Isso não significa dizer que a racionalidade e a moralidade sejam aspectos</p><p>desimportantes para o estudo dos fenômenos religiosos, senão que outras dimensões</p><p>também devem ser consideradas. Para o autor, o irracional corresponde às</p><p>“profundezas psíquicas e sensações místicas na alma e na humanidade, inspiração,</p><p>pressentimento, intuição profunda” (Otto, 2011, p. 97). Em sua compreensão, como</p><p>numinoso, o irracional é o “totalmente outro”. Além disso, pondera que “ao redor [...</p><p>do] âmbito de clareza conceituai existe uma esfera misteriosa e obscura que foge não</p><p>ao nosso sentir, mas ao nosso pensar conceituai, e que por isso chamamos de ‘o</p><p>irracional’” (Otto, 2011, p. 98). Por essa razão, o autor procura enfatizar alguns</p><p>elementos irracionais e, sobretudo, caracteriza o dado específico da religião como</p><p>numinoso. Nesse sentido, Simões Jorge (1998, p. 30, grifo nosso) assinala:</p><p>67 Conhecimento religioso na sociedade</p><p>Na concepção de Otto, o Sagrado apresenta características especiais que o</p><p>distinguem de todas as outras realidades. Entre essas características,</p><p>salientam-se a numinosidade (numen = divindade), o misterioso, a majestade,</p><p>o fascínio e, também, o medo, o respeito e a reverência. Com isso, Otto quer</p><p>dizer que o homem, diante do Sagrado, experimenta um duplo movimento</p><p>espiritual: de um lado, o medo, o respeito, a reverência e, de outro, a atração,</p><p>a alegria, a confiança.</p><p>Essa experiência do sagrado como numinoso é traduzida por Otto (2011) como</p><p>mysterium tremendum et fascinas. Segundo ele, diante do mistério de tal experiência, o</p><p>ser humano sente temor – tremendum – e, ao mesmo tempo, fascínio, encanto,</p><p>segurança e atração – fascinas. Trata-se de um processo de harmonia de contrastes. Isso</p><p>porque, como aponta o próprio autor, o “excelso”, de alguma forma, “humilha e eleva</p><p>ao mesmo tempo, reprime a psique e a transporta para além de si, desencadeia, por</p><p>um lado, um sentimento semelhante ao temor e, por outro, enche a pessoa de</p><p>felicidade” (Otto, 2011, p. 83).</p><p>Na perspectiva ottoniana, o sagrado manifesta-se de vários modos e, à medida</p><p>que é assimilado e compreendido por uma pessoa ou grupo, passa a ser expresso de</p><p>forma direta: “Na postura solene, no gesto, no tom de voz [...],</p><p>na solene concentração</p><p>e devoção da comunidade em oração” (Otto, 2011, p. 100). O numinoso pode, ainda,</p><p>expressar-se por meio da arte, como no caso da imagem do “excelso” na arquitetura,</p><p>nas construções, nas canções, nos símbolos. Segundo Otto (2011), um exemplo</p><p>concreto dessa expressão artística do sagrado é a catedral da cidade alemã Ulm, com</p><p>torres de mais de 160 metros de altura apontadas para o céu (Figura 2.1).</p><p>68 Conhecimento religioso na sociedade</p><p>69 Conhecimento religioso na sociedade</p><p>Mircea Eliade (1992, p. 13), por sua vez, conceitua o sagrado como um fenômeno</p><p>que se manifesta por meio de hierofanias e se contrapõe a tudo que é considerado</p><p>profano: “o homem toma conhecimento do sagrado porque este se manifesta, se</p><p>mostra como algo absolutamente diferente do profano”.</p><p>Podemos aprofundar a compreensão dessa contraposição do seguinte modo: “O</p><p>profano é o comum, o corriqueiro, aquilo que carece de significado especial [...]. O</p><p>sagrado é o incomum, o especial, o que apresenta um significado particular em nossa</p><p>vida, de modo absoluto” (Jorge, 1998, p. 32-33, grifo do original).</p><p>Instigado a estudar as estruturas e a essência da religião, em sua principal obra</p><p>sobre esta temática, O sagrado e o profano, Eliade (1992) aponta a relação intrínseca que</p><p>há entre sagrado e hierofania: “A fim de indicarmos o ato da manifestação do sagrado,</p><p>propusemos o termo hierofania. Este termo é cômodo, pois não implica nenhuma</p><p>precisão suplementar: exprime apenas o que está implicado no seu conteúdo</p><p>etimológico, a saber, que algo de sagrado se nos revela” (Eliade, 1992, p. 13).</p><p>Para enfatizar a importância das hierofanias na qualidade de manifestação do</p><p>sagrado, Eliade (1992, p. 13) recorre a exemplos concretos da história:</p><p>Poder-se-ia dizer que a história das religiões – desde as mais primitivas às mais</p><p>elaboradas – é constituída por um número considerável de hierofanias, pelas</p><p>manifestações das realidades sagradas. A partir da mais elementar hierofania</p><p>– por exemplo, a manifestação do sagrado num objeto qualquer, uma pedra ou</p><p>uma árvore – e até a hierofania suprema, que é, para um cristão, a encarnação</p><p>de Deus em Jesus Cristo, não existe solução de continuidade. Encontramo-nos</p><p>diante do mesmo ato misterioso: a manifestação de algo “de ordem diferente”</p><p>– de uma realidade que não pertence ao nosso mundo – em objetos que fazem</p><p>parte integrante do nosso mundo “natural”, “profano”.</p><p>70 Conhecimento religioso na sociedade</p><p>Conforme descrevemos, as contribuições de Otto e Eliade são insubstituíveis para um</p><p>adensamento da compreensão do sagrado e das suas manifestações. Depois de</p><p>abordarmos as fundamentações teóricas de conceitos centrais para as ciências da</p><p>religião, voltaremos à análise das relações entre o fenômeno religioso e a sociedade,</p><p>discorrendo, na próxima seção, acerca das manifestações religiosas populares.</p><p>2.4 Religiosidade popular</p><p>Uma vez que ampliamos nosso conhecimento acerca do sagrado e de suas expressões,</p><p>podemos dar um passo adiante, buscando perceber o processo de manifestação do</p><p>saber religioso na vida cotidiana, ou seja, no âmbito popular. Por uma questão de</p><p>objetividade, focaremos, singularmente, na realidade brasileira. Entretanto, como</p><p>ponto de partida conceituai, assumiremos uma proposição da III Conferência Geral do</p><p>Episcopado Latino-americano, que ocorreu em Puebla de los Ángeles, no México, em</p><p>1979. No texto oficial conclusivo da conferência, consta:</p><p>Entendemos por religião do povo, religiosidade popular ou piedade popular o</p><p>conjunto de crenças profundas marcadas por Deus, das atitudes básicas que</p><p>derivam dessas convicções e as expressões que as manifestam. Trata-se da</p><p>forma ou da existência cultural que a religião adota em um povo determinado.</p><p>(Ceiam, 1979, p. 151)</p><p>Nesse sentido, a religiosidade popular comporta um conjunto de crenças que</p><p>envolvem atitudes, convicções e expressões religiosas assumidas por um grupo de</p><p>pessoas ou um povo, geralmente, uma comunidade mais simples e empobrecida. Isso</p><p>porque, na sequência, o texto oficial aponta que, embora abranja “todos os</p><p>71 Conhecimento religioso na sociedade</p><p>setores sociais”, essa proposta de “religião do povo” é praticada, preferencialmente,</p><p>pelas pessoas mais “pobres e simples” (Ceiam, 1979, p. 152). Jorge (1998, p. 65)</p><p>concorda com essa compreensão ao dizer que a religiosidade popular “é um conjunto</p><p>de práticas religiosas produzidas pelos estratos sociais mais simples e subalternos da</p><p>sociedade”.</p><p>No contexto da vivência religiosa no Brasil, basta um olhar atento para o</p><p>cotidiano da população para perceber como, em todo território nacional, a maioria dos</p><p>brasileiros vive sua religiosidade, de maneira popular, acreditando na presença da</p><p>ação divina na história humana. É relevante destacar que tal vivência, não raro,</p><p>acontece em paralelo ao que se prega e se orienta oficialmente nas tradições religiosas</p><p>institucionalizadas. No âmbito do catolicismo, por exemplo,</p><p>cerca de 70% a 80% dos católicos brasileiros praticam sua religião de modo</p><p>privatizado e/ou em comunidades de “cura divina”, muito inconstantes e</p><p>abertas ao sincretismo. O núcleo é a devoção aos santos, não somente os</p><p>canonizados, mas também as denominações locais e familiares (crianças</p><p>assassinadas) e santos anônimos (almas vaqueiras ou benditas). Além do que,</p><p>em cada imagem, ainda que do mesmo santo, há um santo diferente: carregado</p><p>com outros poderes de intermediação para o Deus, criador, todo-poderoso.</p><p>(Aragão, 2013, p. 14-15)</p><p>Essa questão de vivência da fé de forma autônoma e paralela ao âmbito oficial</p><p>tem origens antigas. De acordo com Jorge (1998), desde o início da colonização no</p><p>Brasil, a religião cristã católica recebeu influências do catolicismo popular português.</p><p>O autor, citando o historiador Riolando Azzi, salienta também que a matriz católica</p><p>trazida pelos portugueses aos poucos misturou-se com a</p><p>72 Conhecimento religioso na sociedade</p><p>matriz religiosa indígena e com a matriz religiosa afro, própria dos escravos que</p><p>chegavam ao território brasileiro. A mistura dessas culturas com suas bases religiosas</p><p>próprias criou, gradativamente, um povo mestiço, assim como um processo de</p><p>vivência e prática de crenças, ritos, símbolos e expressões diversas, paralelamente ao</p><p>que se orientava – e se orienta – no catolicismo oficial romano e elitizado. Neste, por</p><p>exemplo, predominava – e ainda prevalece – a prática dos sacramentos e as</p><p>interpretações bíblicas segundo o magistério da igreja, enquanto, no meio popular,</p><p>havia uma iniciativa e uma autonomia por parte de lideranças que surgiam</p><p>espontaneamente dentro das comunidades e passavam a conduzi-las de acordo com</p><p>as necessidades e crenças de cada uma.</p><p>Como exemplo atual, podemos citar o caso das grandes peregrinações</p><p>devocionais que ocorrem dentro do catolicismo popular, cujas romarias, na maioria</p><p>das vezes, são organizadas por pessoas simples e que são líderes em suas</p><p>comunidades. Nesse sentido, é paradigmático o caso das peregrinações até Juazeiro</p><p>do Norte, no Ceará, por devoção a Padre Cícero, conforme atesta reportagem</p><p>veiculada pelo Jornal Nacional em 2 de novembro de 2010:</p><p>Pela quantidade de excursões, a estimativa da Igreja é de que pelo menos meio</p><p>milhão de pessoas visitaram Juazeiro do Norte. Aos pés da estátua, o romeiro</p><p>encontra conforto e deixa a fé marcada.</p><p>[...]</p><p>[...], os romeiros percorrem a cidade pra visitar cada lugar que tenha relação</p><p>com a história de vida do Padre Cícero [...].</p><p>[...]</p><p>De um jeito simples, os devotos transformam a maior romaria do Nordeste num</p><p>gesto coletivo de gratidão pelas graças alcançadas. (Fiéis..., 2010)</p><p>73 Conhecimento religioso na sociedade</p><p>É importante destacar que, independentemente da aprovação da religião oficial,</p><p>tanto dentro do catolicismo quanto em outras instâncias</p><p>religiosas cristãs e não cristãs,</p><p>o povo cria seus costumes e suas práticas segundo suas convicções e necessidades.</p><p>No dia 25 de janeiro de 2017, em artigo publicado no site da Província Santa</p><p>Cruz, Frei Francisco Van Der Poel (2017) concordou que, “na sua religiosidade</p><p>popular, o povo age com espontaneidade e autonomia” e apontou algumas</p><p>características muito comuns nesse contexto:</p><p>linguagem simples, sabedoria, poesia; fé num Deus vivo e presente; a</p><p>linguagem corporal; ritual e simbologia próprios; forte tradição oral com</p><p>provérbios, rezas, benditos e histórias; zelo do sagrado e do santuário (casa</p><p>santa). A religião do povo está ligada à vida [...]. Revela a dignidade do pobre</p><p>de pouca leitura, que consegue improvisar e adaptar suas tradições ao celebrar</p><p>o Sagrado [...]. Seus líderes sabem lidar com emoções e imprevistos, de forma</p><p>natural. As procissões, penitências, leilões, mutirões a dança de roda são ações</p><p>comunitárias. A festa é de todos, com fartura. Seus doentes são tratados de</p><p>modo integral com reza, remédio e simpatias. A comunidade honra seus</p><p>antepassados. (Poel, 2017)</p><p>Fora do eixo cristão, a religiosidade popular brasileira dentro da matriz africana</p><p>tem grande força, exemplos são verificáveis no candomblé e em outras religiões. Entre</p><p>estes, apontamos a grande manifestação popular que ocorreu em dezembro de 2018,</p><p>por ocasião da morte de Mãe Stella de Oxóssi, em Salvador. De acordo com a imprensa</p><p>brasileira, uma multidão saiu pelas ruas da capital do Estado da Bahia para</p><p>acompanhar o enterro da tão venerada mãe de santo:</p><p>74 Conhecimento religioso na sociedade</p><p>Mãe Stella de Oxóssi foi enterrada por volta das llh30 (12h30 de Brasília) deste</p><p>sábado (29 [de dezembro de 2018]), no cemitério Jardim da Saudade, em</p><p>Salvador. O corpo da ialorixá, considerada uma das mais importantes do país,</p><p>foi levado para o local após um cortejo que saiu da Terreiro llê Opô Ajonjá, em</p><p>São Gonçalo do Retiro, pelas ruas do bairro.</p><p>Uma multidão participou da cerimônia. [...] filhos e filhas de santo do templo</p><p>religioso liderado pela ialorixá, além de representantes de terreiros irmãos,</p><p>acompanharam as últimas homenagens.</p><p>[...]</p><p>A ialorixá foi enterrada ao som dos atabaques e dos cânticos tradicionais do</p><p>candomblé. [...] filhos e filhas de santo se abraçaram em um momento de</p><p>silêncio absoluto, em respeito à memória de Mãe Stella. Antes de deixarem o</p><p>local, eles acenderam velas ao lado do jazigo. (Multidão..., 2018)</p><p>Os episódios descritos evidenciam a força, o dinamismo, as características e a</p><p>diversidade de expressões próprias da religiosidade popular, sobretudo, no contexto</p><p>das práticas que permeiam a sociedade brasileira.</p><p>2.5 Diversidade cultural e religiosa</p><p>Diante da imensidão do planeta Terra, observamos uma larga variedade de povos e</p><p>culturas, que, consequentemente, remete à diversidade religiosa. Assim, surge um</p><p>grande desafio: aprender a valorizar o conhecimento religioso das diferentes matrizes</p><p>culturais.</p><p>Nessa perspectiva, o pesquisador de ciências da religião Wagner Lopes Sanchez</p><p>(2005, p. 13) afirma que, “ao olharmos o mundo atual, constatamos um verdadeiro</p><p>mosaico de religiões”. Na sequência,</p><p>75 Conhecimento religioso na sociedade</p><p>destaca, ainda, a importância de “Reconhecer o direito de as religiões expressarem-se</p><p>livremente” e, sobretudo, de “reconhecer que todas as religiões têm legitimidade,</p><p>porque expressam as diferentes formas humanas de aproximação do mistério</p><p>fundante da vida” (Sanchez, 2005, p. 13).</p><p>Para ilustrar a grande complexidade da diversidade cultural e religiosa global,</p><p>abordaremos algumas regiões culturais e suas religiões predominantes, obviamente</p><p>sem a pretensão de abarcar e detalhar essa multiplicidade completamente. De acordo</p><p>com Gaarder, Hellern e Notaker (2005), o estudo da cultura indiana permite constatar</p><p>que, em seu seio, surgiram religiões, como o hinduísmo e o budismo, marcantes para</p><p>a história da humanidade e influentes para outras culturas. No extremo oriente,</p><p>consolidaram-se outras formas religiosas, como o confucionismo, o taoísmo e o</p><p>xintoísmo. No Oriente Médio, emergiram grandes tradições religiosas de cunho</p><p>monoteísta, como o judaísmo, o cristianismo e o islamismo. Os autores também</p><p>apresentam religiões africanas, como o candomblé, e afro-brasileiras, como a</p><p>umbanda e o batuque, bem como elencam outras expressões de religiões ocidentais,</p><p>antigas e modernas, como o espiritismo.</p><p>Além disso, dentro de cada tradição religiosa há uma variedade de</p><p>interpretações e modos de praticar a crença. No caso do cristianismo, por exemplo, há</p><p>a igreja católica, a igreja ortodoxa, as igrejas da reforma protestante, as igrejas</p><p>pentecostais e neopentecostais etc. Todas pertencem à matriz cristã, porém cada uma</p><p>tem suas particularidades na hora de praticar e vivenciar a fé.</p><p>Voltando a atenção para a realidade brasileira, também constatamos que a</p><p>diversidade cultural e religiosa é inegável. Essa pluralidade se iniciou nas primeiras</p><p>décadas de colonização e se estende até a atualidade. Além das diferentes</p><p>comunidades</p><p>76 Conhecimento religioso na sociedade</p><p>indígenas que existiam no território, o processo de colonização acarretou a migração</p><p>de espanhóis, portugueses e indivíduos de outras tantas nacionalidades. Além disso,</p><p>é marcante e decisiva a presença dos povos africanos que chegaram como escravos na</p><p>colônia. Com o passar dos séculos, o processo migratório para o Brasil intensificou-se</p><p>e, com facilidade, encontram-se, nas ruas do país, pessoas de diferentes nacionalidades</p><p>e etnias: portugueses, espanhóis, angolanos, senegaleses, moçambicanos, italianos,</p><p>alemães, russos, poloneses, ucranianos, franceses, holandeses, judeus, chineses,</p><p>japoneses, haitianos, venezuelanos, entre tantos outros. Naturalmente, cada povo</p><p>carrega consigo seus traços culturais e suas práticas religiosas, tal que se amplia a</p><p>pluralidade brasileira. Essa constatação é iterada por Airton Vitorino da Silva e</p><p>Claudete Beise Ulrich (2017, p. 84), quando afirmam precisamente que “o Brasil</p><p>contemporâneo é marcado pela pluralidade religiosa”.</p><p>Segundo análise do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) sobre</p><p>o Censo Demográfico de 2010, embora o cristianismo ainda exerça predomínio na</p><p>cultura religiosa brasileira, o cenário está mudando, conforme outras culturas</p><p>religiosas ganham força e expressão nacional:</p><p>Os resultados do Censo Demográfico 2010 mostram o crescimento da</p><p>diversidade dos grupos religiosos no Brasil, revelando uma maior pluralidade</p><p>nas áreas mais urbanizadas e populosas do País. A proporção de católicos</p><p>seguiu a tendência de redução observada nas duas décadas anteriores, embora</p><p>tenha permanecido majoritária. Em paralelo, consolidou-se o crescimento da</p><p>parcela da população que se declarou evangélica. Os dados censitários indicam</p><p>também o aumento do total de pessoas que professam a religião espírita, dos</p><p>que se declararam sem religião, ainda que em ritmo inferior ao da década</p><p>anterior e do conjunto pertencente a outras religiosidades. (IBGE, 2010, p. 90)</p><p>77 Conhecimento religioso na sociedade</p><p>Além da redução dos católicos e do aumento de evangélicos e espíritas, o IBGE</p><p>analisou também o crescimento dos sem religião e a situação da umbanda, do</p><p>candomblé e das outras expressões religiosas, conforme as várias regiões do país:</p><p>No Estado do Rio de Janeiro, evidencia-se também grande quantitativo de</p><p>pessoas sem religião e de evangélicos, além de presença significativa dos</p><p>adeptos das religiões de matrizes africanas existentes no Brasil.</p><p>No que tange à umbanda verifica-se que parte importante dos que se</p><p>declararam pertencentes a essa religião são residentes nos Estados do Rio</p><p>Grande do Sul, do Rio de Janeiro e de São Paulo enquanto que entre aqueles</p><p>que professavam a religião candomblé, grande parcela situava-se no</p><p>Estado da</p><p>Bahia, especialmente em Salvador e municípios próximos, e também no Estado</p><p>do Rio de Janeiro [...].</p><p>Da observação dos diversos mapas, entende-se que a diversificação dos grupos</p><p>religiosos em curso nas últimas décadas tem como características importantes</p><p>a dinâmica da ocupação do Território Nacional [...].</p><p>É importante destacar também que o avanço das frentes de ocupação das</p><p>Regiões Centro-Oeste e Norte foi acompanhado por diversos segmentos</p><p>evangélicos pentecostais, e a crescente urbanização dessas áreas proporcionou</p><p>uma adequação espacial e cultural para o surgimento de novos grupos</p><p>religiosos, assim como a disseminação de outros já existentes. (IBGE, 2010, p.</p><p>93)</p><p>Perante a diversidade cultural e religiosa, corre-se, comumente, o risco de</p><p>realizar comparações. Nesse sentido, é de suma</p><p>78 Conhecimento religioso na sociedade</p><p>importância alertar que, ao compararmos dois objetos, fenômenos ou realidades, há</p><p>uma tendência muito forte em supervalorizar um e, por conseguinte, inferiorizar</p><p>outro. Por exemplo, comparando a cultura da Região Sul do Brasil com a da Região</p><p>Nordeste, muitas pessoas podem dizer que os sulistas são muito superiores aos</p><p>nordestinos ou, ao contrário, que o Nordeste é bem melhor do que o Sul, ou coisas</p><p>similares. Em se tratando das religiões não é diferente, ao comparar o cristianismo com</p><p>o islamismo, à guisa de ilustração, corre-se o risco de se afirmar que um seja melhor</p><p>ou superior em relação ao outro. Comparações entre católicos, evangélicos, espíritas,</p><p>umbandistas e outros podem acarretar o equívoco de privilegiar um grupo em</p><p>detrimento dos demais. Infelizmente, práticas desse tipo ainda são muito comuns no</p><p>cotidiano das famílias brasileiras, tal que, não raro, pessoas defendem sua igreja como</p><p>a única verdadeira e capaz de guiar ao caminho da salvação.</p><p>A fim de dirimir tamanho risco, propomos que, quando estudarmos,</p><p>compararmos e analisarmos diversas culturas e religiões, percebamos a riqueza e a</p><p>importância de cada uma delas. Sanchez (2005, p. 14) compartilha dessa proposição,</p><p>na introdução de seu livro Pluralismo religioso: as religiões no mundo atual, ao afirmar a</p><p>pretensão de que “o estudo do pluralismo religioso crie no leitor a admiração pela</p><p>diversidade religiosa e o desejo de mergulhar no rico universo das religiões”.</p><p>Além do risco da comparação negativa, a realidade plural pode levar</p><p>indivíduos a uma radicalização de seus posicionamentos e convicções, a ponto de</p><p>caírem no fundamentalismo religioso. Este</p><p>79 Conhecimento religioso na sociedade</p><p>impacta negativamente na vida em sociedade, pois, se alguém encara sua religião</p><p>como a única absolutamente verdadeira, tende a não respeitar aqueles que pertencem</p><p>às demais matrizes, gerando conflitos.</p><p>Tendo em vista que vivemos em uma sociedade democrática, livre e plural, na</p><p>qual deve prevalecer a tolerância e a convivência fraterna, faz-se necessário reconhecer</p><p>e respeitar a pluralidade cultural e religiosa, sendo o diálogo inter-religioso um</p><p>aspecto fundamental nesse processo. De acordo com Silva e Ulrich (2017, p. 89):</p><p>O diálogo inter-religioso direciona para o encontro de pessoas que a partir da</p><p>sua fé se encontram e dialogam com pessoas de outras tradições religiosas. O</p><p>diálogo inter-religioso se caracteriza pela abertura ao outro, tendo como</p><p>característica a compreensão mútua e o recíproco enriquecimento. Um</p><p>aprende do outro. No diálogo inter-religioso, nenhuma pessoa tenta impor a</p><p>sua fé</p><p>Por meio do diálogo inter-religioso, baseado, como apontam os autores, na</p><p>compreensão e no enriquecimento recíprocos, percebe-se, com clareza, que todas as</p><p>religiões são construções humanas, portanto, imperfeitas.</p><p>Nesse sentido, torna-se necessário suspender nossos juízos de valor, de modo a</p><p>evitar qualquer tipo de julgamento em relação ao outro em dimensões culturais e</p><p>religiosas, estimando os diferentes conhecimentos produzidos e vivenciados por</p><p>diversas culturas e religiões. Esse é o caminho mais sábio para que, em uma realidade</p><p>permeada pela diversidade, haja uma convivência humana fraterna e harmoniosa.</p><p>80 Conhecimento religioso na sociedade</p><p>81 Conhecimento religioso na sociedade</p><p>ATIVIDADES DE AUTOAVALIAÇÃO</p><p>1. Analise as seguintes afirmações a respeito do fenômeno religioso:</p><p>I. É universal.</p><p>II. É particular.</p><p>III. É diverso.</p><p>IV. É complexo.</p><p>V. É homogêneo.</p><p>Agora, assinale a alternativa correta:</p><p>A] Somente as afirmações I e III são corretas.</p><p>B] Somente as afirmações II, IV e V são corretas.</p><p>C] Somente as afirmações I, III e IV são corretas.</p><p>D] Somente as afirmações II, III e IV são corretas.</p><p>E] Somente as afirmações I, III, IV e V são corretas.</p><p>2. Leia, a seguir, uma citação de Jostein Gaarder, Victor Hellern e Henry Notaker</p><p>(2005) e identifique o termo que corresponde ao sentido do parágrafo:</p><p>O __________ religioso tem um significado mais profundo do que a lenda e os</p><p>contos folclóricos. O __________ procura explicar alguma coisa. É uma</p><p>resposta metafórica para as questões fundamentais: de onde viemos e para onde</p><p>vamos? Por que estamos vivos e por que morremos? Como foi que a</p><p>humanidade e o mundo passaram a existir? Quais são as forças que controlam</p><p>o desenvolvimento do mundo? (Gaarder; Hellern; Notaker, 2005, p. 21-22)</p><p>A] Sagrado.</p><p>B] Fenômeno.</p><p>C] Rito.</p><p>D] Mito.</p><p>E] Conhecimento.</p><p>82 Conhecimento religioso na sociedade</p><p>3. Rudolf Otto (2011) e Mircea Eliade (1992) destacam-se por suas contribuições para</p><p>a compreensão do sagrado. Sobre suas reflexões, analise as assertivas a seguir:</p><p>I. Otto supera uma compreensão da religião reduzida à racionalidade e à</p><p>moral, destacando para isso elementos irracionais e caracterizando como</p><p>numinoso o específico da religião.</p><p>II. Eliade entende o sagrado como fenômeno que se manifesta em hierofanias</p><p>cujo estudo sistemático permite descobrir as estruturas deste sagrado.</p><p>III. Com as contribuições de Otto e Eliade, a categoria sagrado passou a denotar</p><p>algo que, simultaneamente, compreende a natureza da religião e se</p><p>apresenta como seu traço mais especial.</p><p>IV. O sagrado possibilita acessar a essência do fenômeno religioso e,</p><p>sobremaneira, analisar com profundidade o que se denomina experiência</p><p>religiosa.</p><p>Agora, assinale a alternativa correta:</p><p>A] As assertivas I e II são corretas.</p><p>B] As assertivas I, II e IV são corretas.</p><p>C] As assertivas II e III são corretas.</p><p>D] As assertivas III e IV são corretas.</p><p>E] As assertivas I, II, III e IV são corretas.</p><p>4. Leia a definição publicada no texto oficial conclusivo da III Conferência Geral do</p><p>Episcopado Latino-americano, que ocorreu em Puebla de los Ángeles, no México,</p><p>em 1979, e identifique os conceitos aos quais se refere:</p><p>[...] o conjunto de crenças profundas marcadas por Deus, das atitudes básicas</p><p>que derivam dessas convicções e as expressões que as manifestam. Trata-se da</p><p>forma ou da existência cultural que a religião adota em um povo determinado.</p><p>(Ceiam, 1979, p. 151)</p><p>83 Conhecimento religioso na sociedade</p><p>A] Mito, rito e fenômeno religioso.</p><p>B] Instituições religiosas, textos canônicos e teologia.</p><p>C] Filosofia da religião, transcendentalismo e imanência.</p><p>D] Sincretismo religioso, religiosidade nacional e religiosidade afro-americana.</p><p>E] Religiosidade do povo, religião do povo e piedade popular.</p><p>5. Considerando que vivemos em uma sociedade democrática, livre e plural, na qual</p><p>deve prevalecer a tolerância e a convivência fraterna, faz-se necessário reconhecer</p><p>e respeitar a pluralidade cultural e religiosa, sendo o diálogo inter-religioso um</p><p>aspecto fundamental nesse processo. Nesse sentido, analise as assertivas a seguir.</p><p>I. O diálogo inter-religioso compreende a postura de indivíduos que, com</p><p>base em sua própria fé, se encontram e dialogam com pessoas de outras</p><p>tradições religiosas.</p><p>II. O diálogo inter-religioso caracteriza-se pela abertura ao outro, baseada na</p><p>compreensão mútua e no recíproco enriquecimento.</p><p>III. Na promoção do diálogo inter-religioso, atitudes de imposição de crenças e</p><p>convicções doutrinárias são essenciais para evitar que religiões com menos</p><p>adeptos assumam posições de influência nacional e/ou internacional.</p><p>IV. Para promover o diálogo inter-religioso é necessário suspender juízos de</p><p>valor, de modo a evitar qualquer tipo de julgamento em relação ao outro,</p><p>em dimensões culturais e religiosas, estimando os diferentes conhecimentos</p><p>produzidos e vivenciados por diversas culturas e religiões.</p><p>V. No diálogo inter-religioso, nenhuma pessoa tenta impor a sua fé, ao</p><p>contrário, os envolvidos buscam promover a convivência humana fraterna</p><p>e harmoniosa.</p><p>84 Conhecimento religioso na sociedade</p><p>Agora, assinale a alternativa correta:</p><p>A] As assertivas I e II são corretas.</p><p>B] As assertivas II, IV e V são corretas.</p><p>C] As assertivas I, III e IV são corretas.</p><p>D] As assertivas I, II, IV e V são corretas.</p><p>E] As assertivas III, IV e V são corretas.</p><p>ATIVIDADES DE APRENDIZAGEM</p><p>Questões para reflexão</p><p>1. Pesquise sobre a técnica “Pensamento visual” (Visual Thinking) e busque</p><p>compreender sua proposta de representação do vocabulário visual. Como</p><p>introdução ao assunto, recomendamos ovídeo a seguir:</p><p>ARTE DA CONVERSA. Pensamento visual em 2 minutos. 22 maio 2019.</p><p>Disponível em: <https://www.youtube.comAvatch?v=x_Zs9km2dyQ>. Acesso</p><p>em: 14 jan. 2021.</p><p>Em seguida, apoie-se nessa técnica para representar os principais temas abordados</p><p>no capítulo, a saber:</p><p>▪ A cultura religiosa.</p><p>▪ O fenômeno religioso.</p><p>▪ O sagrado e as suas manifestações.</p><p>▪ A religiosidade popular.</p><p>▪ A diversidade cultural e religiosa.</p><p>2. Leia a citação de Irineu Wilges (2010, p. 12) a seguir e explique seu conceito de</p><p>religião:</p><p>“a religião é o resultado de uma experiência religiosa. É a experiência do</p><p>sagrado. Esse manifesta-se [sie] fora da rotina e do cotidiano”.</p><p>85 Conhecimento religioso na sociedade</p><p>3. Baseando-se em sua compreensão pessoal e em suas crenças, responda às questões:</p><p>▪ De onde viemos?</p><p>▪ Para onde vamos?</p><p>▪ Por que estamos vivos?</p><p>▪ Por que morremos?</p><p>Em seguida, analise suas respostas por meio da proposta metodológica das ciências</p><p>da religião, identificando as contribuições dessa área para a compreensão do</p><p>sentido da vida.</p><p>4. Com base no estudo realizado no capítulo, complete o quadro a seguir:</p><p>86 Conhecimento religioso na sociedade</p><p>5. Neste capítulo, compreendemos que as manifestações do sagrado correspondem</p><p>ao objeto de estudo das ciências da religião. Elabore um resumo apresentando três</p><p>ideias sobre essas manifestações que sejam essenciais para a compreensão e a</p><p>socialização do conhecimento religioso na escola.</p><p>6. Pesquise dados e outras informações relevantes sobre a religiosidade no Brasil com</p><p>base no Censo Demográfico de 2010, realizado pelo Instituto Brasileiro de</p><p>Geografia e Estatística (IBGE). Elabore um texto dissertativo a propósito dos</p><p>resultados de sua pesquisa, apresentando as principais características das regiões</p><p>e dos estados brasileiros em relação às matrizes religiosas.</p><p>IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Censo demográfico 2010:</p><p>características gerais da população, religião e pessoas com deficiência. Rio de</p><p>Janeiro, 2010. Disponível em:</p><p><https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/periodicos/94/cd_2010_religiao_</p><p>deficiencia. pdf>. Acesso em: 10 dez. 2020.</p><p>7. Pesquise sobre aspectos da religiosidade popular de sua cidade natal ou da cidade</p><p>onde atualmente reside. Com as informações obtidas, escolha um tema específico</p><p>e produza um vídeo informativo. Em seguida, socialize sua produção com seus</p><p>colegas ou na internet.</p><p>Atividade aplicada: prática</p><p>1. Um dos temas estudados neste segundo capítulo foi a religiosidade popular. Nesse</p><p>sentido, destacamos alguns exemplos de como o povo cria seus costumes e suas</p><p>práticas conforme suas convicções e necessidades.</p><p>Com base nessa motivação e com a intenção de aprofundar o tema, convidamos</p><p>você a conhecer a Festa do Círio de Nossa Senhora de Nazaré, por meio de duas</p><p>referências:</p><p>87 Conhecimento religioso na sociedade</p><p>DOCUMENTÁRIO:</p><p>C ÍRIO de Nossa Senhora de Nazaré. DocumentAÇÃO. Brasília: TV Brasil, 2 jun. 2013.</p><p>Programa de televisão. Disponível em:</p><p><https://www.youtube.com/watch?v=raUPABLBb_s>. Acesso em: 14 jan. 2021.</p><p>LIVRO:</p><p>IPHAN – INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTI- CO NACIONAL.</p><p>Círio de Nazaré. Rio de janeiro: Iphan, 2006. (Dossiê Iphan, v. 1).</p><p>Após, ter assistido ao filme e ter realizado a leitura do livro, imagine que uma</p><p>revista educativa com foco no público escolar convidou você a escrever um</p><p>texto de uma página sobre a Festa do Círio de Nazaré. Escreva o texto</p><p>apresentando curiosidades e incluindo uma imagem representativa da festa.</p><p>3.</p><p>PENSAMENTO RELIGIOSO</p><p>E INSTITUIÇÃO DA(S)</p><p>RELIGIÃO(ÕES)</p><p>Considerando o pressuposto epistemológico de que a religião também se constitui em</p><p>uma área do conhecimento, constata-se a necessidade de conhecer os vários</p><p>fenômenos religiosos e/ou as várias expressões religiosas que se deram ao longo da</p><p>história. Isso porque é inegável o impacto cultural dessas manifestações</p><p>historicamente estabelecidas sobre as diferentes sociedades e épocas, o que implica, de</p><p>certo modo, uma responsabilidade científica de abertura e de comprometimento com</p><p>o conhecimento produzido nessa área do saber. Além disso, o pensamento religioso</p><p>oriundo das diferentes manifestações e/ou instituições sempre mobilizou um</p><p>respeitoso número de cientistas e acadêmicos.</p><p>No entanto, é importante considerar também, como acenamos ao tratar da</p><p>religião como um bem cultural da humanidade, que, antes da institucionalização de</p><p>um determinado fenômeno religioso, este foi manifestado publicamente e, sobretudo,</p><p>vivenciado por indivíduos ou grupos.</p><p>Sob essa perspectiva, neste terceiro capítulo, apresentaremos algumas</p><p>considerações históricas sobre os principais grupos religiosos, bem como as matrizes</p><p>religiosas orientais e ocidentais, as religiões nativas da América, a religiosidade afro-</p><p>brasileira e o pensamento religioso contemporâneo.</p><p>89 Pensamento religioso e instituição da(s) religião(ões)</p><p>3.1 A(s) religião(ões)</p><p>Ao longo da história, muitas experiências religiosas foram manifestadas publicamente</p><p>por meio de rituais, celebrações e símbolos, por conseguinte, ganharam força,</p><p>institucionalizaram-se e projetaram-se, de modo que transformaram culturas, grupos</p><p>e indivíduos. Para citar apenas algumas, entre tantas, podemos lembrar das mais</p><p>tradicionais e populares, como o hinduísmo, o budismo, o confucionismo, o xintoísmo,</p><p>o judaísmo, o cristianismo, o islamismo, o espiritismo, as tradições africanas.</p><p>Nos séculos XIX e XX, imbuídos de intelectualismo, cientificismo, laicismo e</p><p>encantamento exacerbado com as novas tecnologias, chegou-se a pensar no</p><p>desaparecimento das religiões. Contudo, contrariando tal presságio, elas continuam</p><p>vivas e o quanto suas mensagens estão presentes nas mais diversas culturas humanas.</p><p>De fato, em pleno século XXI, os fenômenos religiosos ainda exercem um papel</p><p>importantíssimo na história da humanidade.</p><p>Considerando a riqueza e a diversidade religiosa, nas próximas seções e</p><p>subseções desenvolveremos de forma mais detalhada o pensamento religioso de</p><p>acordo com diferentes culturas e épocas.</p><p>3.2 Pensamento religioso oriental</p><p>Antes de qualquer descrição a respeito do pensamento religioso oriental, ocidental e</p><p>de outras narrativas, duas observações devem ser feitas: a primeira refere-se ao</p><p>cuidado necessário para evitar o equívoco de comparar as religiões de modo a</p><p>supervalorizar uma e inferiorizar a outra – problemática abordada no Capítulo</p><p>2; já a</p><p>segunda diz respeito à classificação dicotômica que separa Oriente e Ocidente para</p><p>conceituar o pensamento religioso; na realidade, constata-se que todas as grandes</p><p>religiões surgiram em territórios</p><p>90 Pensamento religioso e instituição da(s) religião(ões)</p><p>convencionados como orientais, por exemplo, o Oriente Médio e o Sudeste Asiático.</p><p>Para evitar o risco de comparações de cunho negativo e depreciativo,</p><p>ressaltamos, nesta e nas próximas seções, indistintamente, a singularidade e a riqueza</p><p>de cada pensamento religioso.</p><p>No tangente à classificação dicotômica entre Oriente e Ocidente, podemos</p><p>recorrer a considerações do cientista da religião Frank Usarski (2009), que, ao ser</p><p>interrogado por Patricia Fachin sobre qual seria a especificidade das religiões orientais,</p><p>respondeu:</p><p>Em primeiro lugar, temos que lembrar que todas as chamadas “grandes</p><p>religiões”, inclusive a religião “ocidental” par excellence, o Cristianismo,</p><p>surgiram no Oriente. Ao mesmo tempo, sabemos que, na época da globalização</p><p>e devido a processos de difusão intensificada das religiões para qualquer parte</p><p>do mundo, a questão da origem das religiões e, com isso, a dicotomização entre</p><p>“religiões ocidentais” e “religiões orientais” é cada vez menos relevante. Mas</p><p>isso não significa que de princípio sua pergunta não implica categorias</p><p>heuristicamente funcionais, ou seja, na sua pergunta, repercute uma</p><p>classificação que tem uma boa tradição nos estudos da religião.</p><p>Cientes de que, no mundo globalizado, essa classificação dicotômica “é cada</p><p>vez menos relevante”, mas respeitando a tradição dos grandes estudos realizados em</p><p>torno do universo das religiões, discorreremos sobre singularidades e especificidades</p><p>do pensamento religioso oriental e, depois, do ocidental.</p><p>As religiões orientais mais expressivas, entre tantas que surgiram na índia e no</p><p>Extremo Oriente, são o hinduísmo, o budismo, o confucionismo, o taoísmo e o</p><p>xintoísmo. De modo geral, essas tradições têm uma visão cíclica da história, isto é, a</p><p>história costuma repetir-se em um ciclo interminável. Prevalecem o politeísmo e um</p><p>certo panteísmo, ou seja, a ideia de que Deus – ou o sagrado,</p><p>91 Pensamento religioso e instituição da(s) religião(ões)</p><p>ou o divino – manifesta-se em muitas divindades, inclusive na natureza. A fim de</p><p>fornecer uma referência concreta, apresentaremos breves resumos, nas subseções a</p><p>seguir, sobre o hinduísmo, o budismo e o xintoísmo, base na obra Cultura religiosa: as</p><p>religiões no mundo, de Irineu Wilges (2010).</p><p>3.2.1 Hinduísmo</p><p>O hinduísmo é considerado a mais antiga das religiões sapienciais, cuja origem</p><p>geográfica remete à índia e a histórica, ao período de 1500 a.C. Trata-se de uma religião</p><p>nascida da experiência humana e consiste na investigação das profundezas da alma,</p><p>com a tarefa de atingir a autorreflexão. Não tem um fundador individualizado e seus</p><p>principais livros sagrados são os Vedas (saber), os Brahmanas (manuais para sacrifício),</p><p>os Upanichades (comunicações confidenciais), os Puranas (antiguidades) e o</p><p>Bhagavadgita (Canto do Sublime).</p><p>Em relação a Deus, no hinduísmo, crê-se fundamentalmente na existência de</p><p>um espírito universal denominado Brahma, que significa “alma do mundo”. Há, ainda,</p><p>uma concepção trinitária que compreende Brahma (criador), Vishnu ou Krishna</p><p>(conservador) e Shiva (destruidor). Além desses, a crença hindu compreende muitos</p><p>deuses menores.</p><p>Nessa religião, predomina um sistema de quatro castas: os sacerdotes; os reis e</p><p>guerreiros; os negociantes e agricultores; e os súditos, o restante do povo. Abaixo</p><p>dessas quatro castas estão os párias, os escravos. Nessa lógica, encontra respaldo a</p><p>teoria da reencarnação, segundo a qual os indivíduos de boa conduta nessa vida</p><p>reencarnam em uma casta superior na outra vida. Como em cada homem pode estar o</p><p>antepassado reencarnado, a não violência se torna uma das principais regras</p><p>doutrinais do hinduísmo (Wilges, 2010).</p><p>92 Pensamento religioso e instituição da(s) religião(ões)</p><p>O mundo ou a realidade terrestre consiste em uma aparência enganosa que</p><p>proporciona sofrimento. É possível fugir deste por meio da meditação, que permite o</p><p>mergulho de uma pessoa em seu próprio eu.</p><p>No hinduísmo, a vaca é o principal animal sagrado, porque representa o último</p><p>estágio da alma do mundo antes de atingir a divindade e, também, porque sempre</p><p>acompanhou os hindus em suas peregrinações, alimentando-os com leite.</p><p>3.2.2 Budismo</p><p>O budismo é outra religião muito antiga, sendo considerada oriental e sapiencial. Foi</p><p>fundada no século VI a.C., no Nepal, ao norte da índia, por Sidhartha Gautama,</p><p>conhecido como Buda, que significa o iluminado.</p><p>De acordo com Wilges (2010), o livro sagrado dos budistas é o Tripitake, que</p><p>designa os três cestos da sabedoria. Nessa religião, existem, sobretudo, quatro grandes</p><p>verdades. A primeira postula que vida é repleta de dores, há um passado de dores, um</p><p>presente de dores e um futuro de dores. A segunda consiste no fato de que a origem</p><p>da dor está no desejo de experiências sensoriais. A terceira compreende a extinção do</p><p>sofrimento, ou seja, o fim do desejo de experiências sensoriais, trata-se do “céu”</p><p>budista, um estágio denominado nirvana. A quarta corresponde ao caminho que leva</p><p>à supressão do desejo, o meio-caminho a que se chega através das oito vias, a saber:</p><p>Fé pura: a verdade é o guia do homem; Vontade pura: ser sempre calmo e</p><p>nunca fazer dano a nenhuma criatura; Palavra pura: nunca mentir, nunca</p><p>difamar ninguém e nunca usar a linguagem grosseira ou áspera, Ação pura:</p><p>nunca roubar, nunca matar e nunca fazer nada de que uma pessoa possa mais</p><p>tarde arrepender-se ou envergonhar-se; Meios de existência: nunca escolher</p><p>uma ocupação</p><p>93 Pensamento religioso e instituição da(s) religião(ões)</p><p>que seja má, tal como a falsificação, manejo de coisas roubadas, usura e</p><p>semelhantes; Atenção pura: procurar sempre o que é bom e afastar-se do que</p><p>é mau; Memória pura: ser sempre calmo e não permitir-se pensamentos que</p><p>estejam dominados pela alegria ou pela tristeza; Meditação pura: consegue-se</p><p>quando todas as outras regras foram seguidas e a pessoa atingiu o nível da paz</p><p>perfeita. (Wilges, 2010, p. 33-34)</p><p>O último estágio antes de se alcançar o nirvana é o monástico, razão que leva o</p><p>budismo a ser, sobremaneira, uma religião de monges e monjas. Estes, obrigados à</p><p>castidade perfeita, à obediência e à pobreza, dedicam-se aos estudos dos textos antigos</p><p>e às orações feitas à base de fórmulas e ladainhas. Não se acredita que Buda seja um</p><p>deus, senão apenas alguém que entrou no nirvana, por isso sua doutrina deve ser</p><p>seguida e praticada. Assim como o hinduísmo, essa religião também aceita a</p><p>reencarnação (Wilges, 2010).</p><p>3.2.3 Xintoísmo</p><p>Outra religião oriental muito significativa é o xintoísmo. Segundo Wilges (2010), sabe-</p><p>se que essa tradição é de origem japonesa, embora seu fundador não seja conhecido, e</p><p>seu principal livro sagrado é o Kojiki, que significa “livro das coisas antigas”. Seus</p><p>membros acreditam que o Idzanagui e a Idzanami receberam dos deuses a incumbência</p><p>pela criação do universo. Da prática e da moral xintoístas decorre um forte patriotismo</p><p>religioso.</p><p>INDICAÇÃO CULTURAL</p><p>Guilherme Silva (2016), em sua monografia de conclusão de curso Xintoísmo e produção</p><p>de presença: a espiritualidade no mangá Mushihi, aborda e detalha aspectos fundamentais</p><p>do xintoísmo e sua presença em produtos culturais do Japão contemporâneo. Trata-se</p><p>de uma boa fonte de informações sobre essa religião.</p><p>94 Pensamento religioso e instituição da(s) religião(ões)</p><p>SILVA, G. Xintoísmo e produção de presença: a espiritualidade no mangá</p><p>Mushihi. 79 f. Monografia (Graduação em História) – Departamento de História,</p><p>Centro de Filosofia e Ciências Sociais, Universidade Federal de Santa Catarina,</p><p>Florianópolis,</p><p>2016.</p><p>Nesse sentido, é possível perceber que elementos como meditação, sacrifício,</p><p>paz, iluminação, união com o divino, reencarnação e conhecimento místico permeiam</p><p>o pensamento religioso oriental.</p><p>3.3 Pensamento religioso ocidental</p><p>Embora no universo religioso atual se constate, com certa facilidade, a presença de</p><p>religiões orientais no Ocidente, a tônica religiosa predominante nessa região gira em</p><p>torno das matrizes judaica, cristã e islâmica. Trata-se de religiões monoteístas com uma</p><p>visão linear da história, isto é, acredita-se em um começo e em um fim do mundo.</p><p>Nesse sentido, crê-se em um Deus criador todo poderoso e em criaturas que, em sua</p><p>fragilidade, dependem dessa suprema divindade.</p><p>A fim de compreender em maiores detalhes esse pensamento religioso</p><p>ocidental, nas subseções a seguir, apresentaremos, ainda com base nos estudos de</p><p>Wilges (2010), pequenos resumos sobre o judaísmo, o cristianismo e o islamismo.</p><p>3.3.1 Judaísmo</p><p>O judaísmo é a mais antiga das três grandes religiões proféticas. Sua fundação remete</p><p>ao século XII a.C, na região da Palestina (correspondente ao atual Estado de Israel),</p><p>sendo Moisés</p><p>95 Pensamento religioso e instituição da(s) religião(ões)</p><p>considerado seu fundador, pois foi quem deu ao povo os Dez Mandamentos, a pedra</p><p>de toque dessa religião.</p><p>Para essa tradição, o Antigo Testamento é o livro sagrado, com um destaque</p><p>especial para o Pentateuco, também chamado de Torá (lei, em hebraico), que</p><p>compreende os cinco primeiros livros – Bereshit ('Gênesis), Shemot (Êxodo), Vaikrá</p><p>(Levítico), Bremidbar (Números) e Devarim (Deuteronômio). Essas escrituras são</p><p>consideradas a palavra de Deus, de modo que o judaísmo se apresenta como uma</p><p>religião revelada por ele, por meio dos acontecimentos da história e da palavra dirigida</p><p>aos profetas. Além disso, nessa perspectiva, a harmonia, a ordem e a sabedoria</p><p>existentes no mundo são uma prova de sua revelação sagrada.</p><p>De acordo com a tradição judaica, Moisés identificou o Deus dos patriarcas</p><p>(Abraão, Isaac e Jacó) com Javé, considerado único e universal, de modo que o</p><p>judaísmo se consolida como uma religião monoteísta. Além disso, há uma fortíssima</p><p>crença no messianismo, ou seja, na vinda, a este mundo, do Messias salvador. Desde</p><p>o exílio da Babilônia, iniciado em 587 a.C., os judeus cultivam a veemente esperança</p><p>de um futuro próspero, “em que Deus mesmo governará o povo e o mundo,</p><p>provavelmente por meio de um novo profeta (como Moisés), ou rei (como Davi),</p><p>chamado Messias (= ungido). Espera-se uma era em que Deus dará a seu povo a</p><p>grandeza e a felicidade” (Rampazzo, 2004, p. 101). Assim, projeta-se um mundo de</p><p>justiça e de paz, com uma humanidade verdadeiramente obediente aos preceitos da</p><p>Torá.</p><p>No âmbito moral, além dos dez mandamentos, há diversas outras leis que um</p><p>judeu deve observar, por exemplo: não comer carne de animais impuros, não comer</p><p>carne de animais não sangrados, rezar três vezes ao dia (pela manhã, pela tarde e ao</p><p>amanhecer), comer apenas alimentos permitidos (kosher), sacrificar os animais para</p><p>consumo de um modo específico e extrair todo seu sangue antes de ingeri-los,</p><p>descansar aos sábados etc.</p><p>96 Pensamento religioso e instituição da(s) religião(ões)</p><p>Além disso, o judaísmo conta com alguns ritos fundamentais. A circuncisão</p><p>deve ser realizada oito dias após o nascimento do menino, sendo considerada o sinal</p><p>de aliança entre Javé e seu povo. Quando o garoto completa treze anos, acontece o rito</p><p>de iniciação, simbolizando que, a partir de então, ele deve começar a cumprir os</p><p>deveres de adulto. Por meio do casamento – geralmente celebrado em uma sinagoga –</p><p>, o judeu passa a cumprir o preceito bíblico “crescei e multiplicai-vos” (Cf. Gn 1,18).</p><p>Ser casado é, inclusive, pré-requisito para se tornar rabino – líder religioso da</p><p>comunidade judaica.</p><p>Entre as principais festas dessa tradição, destacam-se:</p><p>A Páscoa: celebra a libertação da escravidão do Egito. Dia em que o pão comum</p><p>é substituído pelo pão sem fermento e ervas amargas, e come-se o cordeiro</p><p>pascal. O mais jovem pergunta ao pai sobre o significado da festa. E este conta</p><p>a história da libertação do Egito.</p><p>Shavuót: celebra o encontro de Deus no Sinai. Deus e Israel fizeram uma</p><p>aliança.</p><p>Sucót: festa que relembra os quarenta anos passados no deserto.</p><p>[...]</p><p>Yom Kipur. dia da expiação. (Wilges, 2010, p. 59, grifo do original)</p><p>É importante considerar também que, de acordo com Wilges (2010, p. 59-60), a</p><p>fé judaica pode ser sintetizada em alguns pontos fundamentais, a saber:</p><p>1] Deus criou e governa todos os seres.</p><p>2] Deus é uno.</p><p>3] Não tem corpo.</p><p>4] É eterno.</p><p>5] Deve ser o único a ser adorado.</p><p>6] Todas as palavras dos profetas são verdadeiras.</p><p>7] Moisés é o maior dos profetas.</p><p>97 Pensamento religioso e instituição da(s) religião(ões)</p><p>8] Toda a Torá (lei) é a que foi dada a Moisés.</p><p>9] Esta lei não pode ser alterada nem substituída.</p><p>10] Deus conhece todas as ações e todos os pensamentos dos homens.</p><p>11] Deus recompensa os que observam seus mandamentos e pune os que</p><p>os transgridem.</p><p>12] Deus fará viro Messias.</p><p>13] Deus fará reviver os mortos.</p><p>No judaísmo, a Palavra Sagrada e a Lei são imperativos centrais. Deus é</p><p>onisciente e age como um juiz que pune os maus e recompensa os bons. Atualmente,</p><p>é possível constatar quatro tendências nessa religião: o judaísmo ortodoxo, o judaísmo</p><p>conservador, o judaísmo reformador e o judaísmo liberal.</p><p>3.3.2 Cristianismo</p><p>Em se tratando do cristianismo, é fundamental considerar que este surgiu do</p><p>judaísmo. Segundo Wilges (2010), nos primórdios dessa religião, o apóstolo Paulo,</p><p>originalmente judeu, entrava em sinagogas e pregava a palavra de Cristo. Por volta do</p><p>ano 70 d.C., os judeus expulsaram os seguidores e/ou adeptos de Cristo do judaísmo.</p><p>Mais tarde, os romanos também passaram a perseguir os cristãos. No entanto, isso</p><p>mudou no ano 313 d. C., quando o imperador romano Constantino I (272 d.C. -337</p><p>d.C.), senhor do Oriente e do Ocidente, concedeu, por meio do Édito de Milão, a</p><p>liberdade religiosa ao cristianismo. Em 380 d.C., com Teodósio I (347 d.C.-395 d.C.), o</p><p>cristianismo passou a ser a religião oficial do Império Romano.</p><p>Na história dessa religião, não se pode deixar de mencionar algumas divisões</p><p>importantes. Em 1054, a Igreja de Constantinopla, ortodoxa, e de Roma separaram-se,</p><p>excomungando-se mutuamente. A Igreja Ortodoxa integra o grupo das igrejas</p><p>orientais, separadas de Roma, e é constituída, sobretudo, por ortodoxos</p><p>98 Pensamento religioso e instituição da(s) religião(ões)</p><p>gregos e russos. A outra grande cisão aconteceu no século XVI, na denominada reforma</p><p>protestante, com as separações promovidas por Martinho Lutero (1483-1546), em 1521,</p><p>por João Calvino (1509-1564), em 1536, e pelos anglicanos, em 1534, em relação à Igreja</p><p>Católica. Com essas divisões, passa-se a compreender o cristianismo por meio de três</p><p>principais igrejas: a católica, a oriental e a reformada. Porém, não se pode ignorar que,</p><p>a partir da reforma, no âmbito do protestantismo, surgiram diversas igrejas cristãs.</p><p>No cristianismo, crê-se em um único Deus, que deve ser adorado, sendo Jesus</p><p>Cristo seu único mediador e o salvador da humanidade. Além disso, a Bíblia é</p><p>considerada a Palavra de Deus, em que estão os principais ensinamentos e preceitos a</p><p>serem praticados. Acredita-se, também, na vida após a morte, isto é, na ressurreição</p><p>dos mortos ou na condenação eterna.</p><p>Nota-se, ainda, o envolvimento de algumas igrejas cristãs com questões sociais,</p><p>políticas e econômicas. Há uma preocupação com a</p><p>dignidade da pessoa humana; a destinação de todos os bens do mundo para</p><p>uso de todos os homens; o direito de propriedade particular e de livre iniciativa;</p><p>a função social da propriedade particular; a primazia do trabalho em relação ao</p><p>capital; a produção deve estar a serviço</p><p>do homem e de todo homem; a</p><p>remuneração justa do trabalho; o trabalho como um direito e um dever para</p><p>todos. (Wilges, 2010, p. 74-75)</p><p>O humanismo cristão parte de critérios evangélicos e afirma a dignidade do ser</p><p>humano. Nesse sentido, reconhece a liberdade pessoal e propugna a igualdade em</p><p>dignidade, portanto, em direitos de todos os seres humanos. Assim, por meio de uma</p><p>concepção cristã da realidade, afirma que, na ordem social, deve-se buscar a justiça</p><p>com base nos princípios da solidariedade e da subsidiariedade.</p><p>99 Pensamento religioso e instituição da(s) religião(ões)</p><p>3.3.3 Islamismo</p><p>Embora sua presença seja proeminente no Oriente, o islamismo vem crescendo nos</p><p>países ocidentais. Uma vez que professa a fé em um só Deus todo-poderoso, absoluto</p><p>e juiz supremo, que pune os bons e castiga os maus, a lógica monoteísta islã coaduna</p><p>mais com o pensamento religioso ocidental do que com o oriental.</p><p>Faz parte da doutrina islâmica o cumprimento das seguintes obrigações</p><p>religiosas:</p><p>1º) A profissão de fé: Alá é o Deus e Maomé o seu profeta.</p><p>2º) Recitar, cinco vezes por dia, uma oração, voltado para Meca:</p><p>1) entre a aurora e ao nascer do sol; 2) ao meio dia; 3) à tarde; 4) ao</p><p>pôr-do-sol; 5) depois do sol posto.</p><p>3º) Esmola aos pobres. [...]</p><p>4º) A Jejuar no mês de Ramadã, desde o surgir até o desaparecer do sol.</p><p>[...]</p><p>5º) Peregrinação a Meca: o maometano tem a obrigação de uma vez na</p><p>vida fazer essa peregrinação. (Wilges, 2010, p. 63)</p><p>Os muçulmanos ou islamitas acreditam na revelação. Para eles, a primeira</p><p>revelação aconteceu com Moisés; a segunda, mais perfeita que a anterior, com Jesus</p><p>Cristo; e a terceira e última, a mais perfeita de todas, com Maomé, considerado o</p><p>fundador dessa religião.</p><p>O principal livro sagrado do islamismo é o Alcorão, composto de 114 suras</p><p>(capítulos), divididos em versículos. Este contém ensinamentos sobre questões legais,</p><p>sociais e religiosas. A tradição muçulmana acredita que Deus revelou o Alcorão ao</p><p>profeta Maomé.</p><p>Como Maomé não deixou filho varão ao morrer (632 d. C.) e o Alcorão não</p><p>estabelecia nada sobre sua substituição, produziu-se, inicialmente, uma divisão em</p><p>três correntes: os sunitas, os xiitas e os kharijistas. Posteriormente, em cada uma dessas</p><p>correntes,</p><p>100 Pensamento religioso e instituição da(s) religião(ões)</p><p>aconteceram novas divisões e diferenças doutrinais. Por exemplo, no século VIII,</p><p>surgiram os sufis, uma corrente ascética e mística que promove a importância da vida</p><p>interior e a purificação moral.</p><p>Na contemporaneidade, por conta da imigração muçulmana para a Europa e da</p><p>globalização cultural, uma parte dos muçulmanos tem-se esforçado no diálogo e outra</p><p>reage com posturas fundamentalistas, na tentativa de implantar a tradição do</p><p>islamismo medieval.</p><p>3.4 Religiões nativas da América</p><p>Nesta seção, vamos apresentar com clareza algumas percepções acerca das religiões</p><p>nativas da América. Isso porque conhecer as expressões religiosas dos povos nativos</p><p>permite uma melhor compreensão de sua cultura, tal que se faz possível superar</p><p>quaisquer julgamentos equivocados e preconceitos em relação ao seu modo de vida.</p><p>No entanto, precisamos tecer antes algumas considerações a propósito da relação do</p><p>ser humano com a terra, tendo em vista o contexto da América.</p><p>A frase “Aprendemos muito mais sobre nós com a Terra do que em todos os</p><p>livros”, do clássico Terra dos homens, publicado em 1939 por Antoine Saint-Exupéry</p><p>(citado por Dardel, 2015, p. VII), serve de epígrafe ao livro O homem e a terra: natureza</p><p>da realidade geográfica, do professor francês Eric Dardel, precursor dos estudos de</p><p>geografia com base na fenomenologia, publicado originalmente em 1952. Tal</p><p>afirmação pode funcionar como uma chave para compreendermos o estudo da ciência</p><p>da religião, sobretudo em nossa realidade latino-americana.</p><p>Dardel, “O homem de fé”, como o descreveu Philippie Pinchemel (2015, p. 156),</p><p>tratou sobre a relação profunda e afetiva que o indivíduo mantém com a natureza. O</p><p>espaço geográfico é o mundo existencial, em que e com o qual o homem se relaciona</p><p>101 Pensamento religioso e instituição da(s) religião(ões)</p><p>teórica, prática, afetiva e simbolicamente. No capítulo dedicado à indagação sobre a</p><p>história da geografia, Dardel (2015, p. 47-48, grifo nosso e do original) pondera:</p><p>A história da geografia [...] só faz sentido se compreendemos que a Terra não é</p><p>um dado bruto a medirmos como ele “se dá”, mas que sempre transita entre o</p><p>Homem e a Terra uma interpretação, uma estrutura e um “horizonte” de</p><p>mundo, um “esclarecimento” que mostra o real no real, uma “base” a partir da</p><p>qual a consciência se desenvolve.</p><p>Para o autor, da terra vêm as forças que atacam ou protegem o homem e</p><p>determinam sua existência social. Adverte também que, na geografia mítica, não é</p><p>possível ignorar a legitimidade, baseada em sua antiguidade e universalidade, da</p><p>religião da tellus mater1, a qual sente a terra como vivificante, fértil e fecunda. Disso</p><p>deriva a experiência mítica que postula “homem é feito de terra”, inscrita na</p><p>etimologia da língua latina que atrela húmus e humanus2. A relação entre humanidade</p><p>e terra é uma concepção “vivida”, “da sempre atual religio, que o culto deve renovar</p><p>todo dia” (Dardel, 2015, p. 48). A origem do passado e a morte como morada é nutrida</p><p>pela função materna da terra, que fez nascer, reproduzir e germinar generosamente a</p><p>vida. Essa relação existencial inspira ritos e atitudes mentais atualizadas pela troca</p><p>recíproca constante do cultus (culto, cultura). Exemplos disso são os trabalhos agrícolas</p><p>constitutivos de rituais que renovam a generosidade da Terra para produzir o alimento</p><p>e reconhecem nela o útero do princípio sagrado da vida.</p><p>_______________</p><p>1 A tellus mater ou terra mater refere-se à “terra mãe”, considerada por tradições religiosas mediterrâneas como</p><p>aquela que dá o nascimento a todos os seres. Essa compreensão também está presente na tradição dos povos</p><p>nativos da América, que a consideram a “Mãe Terra”, a “Pachamama” (em quíchua) – expressão utilizada pelos</p><p>povos andinos, os quais acreditam que todos os seres da criação são nossos irmãos e irmãs.</p><p>2 Experiência que encontramos, por exemplo, no livro do Gênesis.</p><p>102 Pensamento religioso e instituição da(s) religião(ões)</p><p>Indiscutivelmente, muito antes dos colonizadores chegarem à América</p><p>trazendo suas experiências e religiões, havia diversas manifestações religiosas de</p><p>diferentes grupos, povos e comunidades estabelecidos no território. Como exemplo,</p><p>podemos citar o caso dos indígenas brasileiros que possuíam – e ainda possuem – uma</p><p>profunda religiosidade.</p><p>No material preparado pela Associação Inter-Religiosa de Educação (Assintec)</p><p>da Secretaria Municipal de Educação (SME) de Curitiba (Curitiba, 2007) para o curso</p><p>“O fenômeno religioso nas tradições religiosas II”, que trata das “tradições religiosas</p><p>indígenas e afro-brasileiras”, há dados significativos acerca dessa discussão:</p><p>A origem histórica das tradições religiosas indígenas como a de todas as</p><p>religiões nativas perde-se nos tempos da história da humanidade. Todas</p><p>possuem seus mitos fundantes transmitidos oralmente e revividos por meio</p><p>dos ritos. É através dos mitos que essas culturas explicam o mundo, o</p><p>desconhecido, a origem do seu povo e a sua organização social e religiosa.</p><p>(Curitiba, 2007, p. 5)</p><p>O padre José Artulino Besen (2020) indica que, embora sejam bastante</p><p>religiosos, “os indígenas brasileiros não construíram templos ou locais de culto”. Por</p><p>serem “nômades ou seminômades”, esses povos têm o mundo por seu templo. O</p><p>universo e, particularmente, a Terra corresponde ao seu espaço sagrado.</p><p>Os povos nativos, em sua maioria, são considerados animistas, isto é, creem que</p><p>“tudo tem alma”. Além disso, acreditam que Deus está em todas as coisas e em todos</p><p>os lugares, e que</p><p>os espíritos se fazem presentes nos mais diferentes fenômenos da</p><p>natureza. Segundo Besen (2020), nessa perspectiva, “tudo tem alma, Deus está em</p><p>tudo, na árvore, na pedra, no animal, nas pessoas, no raio, no trovão, no riacho, na</p><p>lagoa. Toda a natureza e seus fenômenos</p><p>103 Pensamento religioso e instituição da(s) religião(ões)</p><p>estão povoados de espíritos. Não há lugar ou pessoa que não sejam sagrados, não há</p><p>o dualismo sagrado-profano”.</p><p>Entre os indígenas é riquíssima a diversidade de concepções em relação à Deus,</p><p>considerado por eles como Ser Supremo. Em vários grupos existentes, como os</p><p>guaranis e os tupinambás, constata-se a crença nesse Ser Supremo com base em</p><p>realidades perceptíveis – por exemplo, uns identificam-no com o Sol, outros, com a</p><p>Lua; e há ainda aqueles que identificam o transcendente (Deus) com a Avó ou Mãe do</p><p>Grande Espírito. Para corroborar com essa descrição, Besen (2020, grifo do original)</p><p>fornece alguns exemplos sobre a concepção de Deus para determinados povos nativos:</p><p>É o grande Pai que criou o mundo e a primeira mulher (guaranis apapocuva);</p><p>É um Deus onisciente e herói civilizador que ensinou aos homens a caça e a</p><p>agricultura (tupis mundicuru [sic]);</p><p>É um Ser superior que criou o céu, a terra, os pássaros, os animais</p><p>(tupinambás);</p><p>É um Ser superior do qual descendem três grandes divindades:</p><p>Guaraci – o sol, criador dos homens, Jaci – a lua, criadora dos vegetais, e Ruda</p><p>– o amor, guerreiro que reside nas nuvens (tupis);</p><p>É a Deusa-mãe, virgem, com cauda de serpente, símbolo do tempo e a raiz de</p><p>todas as coisas, não nasce nem morre, mas se renova eternamente (caraíba).</p><p>Considerando o exposto pela Assintec/SME de Curitiba (Curitiba, 2007), em</p><p>alguns povos, o transcendente (Deus) é compreendido como um ser natural e bondoso.</p><p>Em outros, acredita-se “num mundo espiritual povoado de divindades (espíritos), sem</p><p>uma hierarquia definida entre eles. São espíritos do ancestrais, os espíritos das</p><p>florestas, das ervas medicinais, entre outros” (Curitiba, 2007,</p><p>104 Pensamento religioso e instituição da(s) religião(ões)</p><p>p. 5). Assim, podemos constatar que o modo de perceber e crer na divindade é muito</p><p>diverso entre os grupos indígenas brasileiros.</p><p>Além da harmonia com a Mãe Terra e da vasta diversidade de crenças e ritos,</p><p>outro aspecto muito importante das tradições religiosas indígenas, segundo a</p><p>Assintec/SME de Curitiba, é o fato de serem marcadas “pela praticidade, tudo gira em</p><p>torno da experiência do sagrado e não numa fundamentação teórica” (Curitiba, 2007,</p><p>p. 5). Dessa forma, a religiosidade permeia o cotidiano da vida do povo. No lugar de</p><p>um dualismo entre sagrado e profano, há uma integração entre vida na comunidade e</p><p>religião, tal que para os nativos tudo é sagrado.</p><p>3.5 Pensamento religioso afro-brasileiro</p><p>O pensamento religioso afro-brasileiro também é de suma importância para as</p><p>ciências da religião na contemporaneidade.</p><p>Sabemos todos que, do ponto de vista religioso, ainda há, no Brasil, um</p><p>predomínio do pensamento cristão, marcado pelo catolicismo e pelo protestantismo.</p><p>No entanto, atualmente é possível verificar um crescimento no número de adeptos de</p><p>outras expressões religiosas (IBGE, 2010). Entre essas religiões não cristãs, “há um</p><p>grupo que se destaca pela posição de relevância estrutural que ocupa no quadro geral</p><p>da cultura brasileira: o grupo das religiões afro-brasileiras” (Gaarder; Hellern;</p><p>Notaker, 2005, p. 311, grifo do original).</p><p>Quando falamos de um pensamento religioso afro-brasileiro, referimo-nos ao</p><p>fenômeno que engloba as experiências religiosas de matriz africana desenvolvidas em</p><p>contato com cultura brasileira.</p><p>De acordo com Jostein Gaarder, Victor Hellern e Henry Notaker (2005, p. 312),</p><p>é “cada vez maior o número de brancos, e até mesmo de descendentes de japoneses e</p><p>coreanos, que estão aderindo ao</p><p>105 Pensamento religioso e instituição da(s) religião(ões)</p><p>candomblé e, mais ainda, à umbanda”. Entretanto, não se pode negar que os negros e</p><p>os descendentes de africanos constituem, ainda, a maior parcela dos adeptos dessas</p><p>religiões. Nesse sentido, a prática religiosa de matriz africana, sobretudo o candomblé,</p><p>é uma valorização e uma promoção da cultura e das tradições que envolvem a</p><p>população negra, mantendo vivas as bases religiosas de seus antepassados africanos.</p><p>Aos poucos e em diferentes momentos da história do país, as religiões afro-</p><p>brasileiras formaram-se e assumiram características, formas, rituais e, até mesmo,</p><p>nomes diversos. Nas variadas regiões e estados do Brasil, constata-se, facilmente, a</p><p>presença viva de inúmeros grupos religiosos que se formaram com base nas matrizes</p><p>africanas e ainda lutam para preservar sua identidade e sua história. Gaarder, Hellern</p><p>e Notaker (2005, p. 312) destacam alguns exemplos dessa variedade:</p><p>▪ candomblé, na Bahia;</p><p>▪ xangô, em Pernambuco e Alagoas;</p><p>▪ tambor de mina, no Maranhão e no Pará;</p><p>▪ batuque, no Rio Grande do Sul; e</p><p>▪ macumba, depois umbanda, no Rio de Janeiro.</p><p>Nessa gama de expressões religiosas, sobressaem-se, em número de adeptos, o</p><p>candomblé e a umbanda, detalhados nas subseções a seguir.</p><p>3.5.1 Candomblé</p><p>O candomblé é, por excelência, a tradição religiosa mais carregada de características</p><p>africanas. Diferentemente do cristianismo, que é pautado por uma moralidade</p><p>específica orientada para a ideia de salvação, a marca principal do candomblé é a</p><p>magia e o ritual. De acordo com Gaarder, Helllern e Notaker (2005, p. 312,</p><p>106 Pensamento religioso e instituição da(s) religião(ões)</p><p>grifo do original), “No candomblé o que se busca é a interferência concreta do</p><p>sobrenatural ‘neste mundo’ presente, mediante a manipulação de forças sagradas, a</p><p>invocação das potências divinas e os sacrifícios oferecidos às diferentes divindades, os</p><p>chamados orixás”. Enfatizando essa singularidade do pensamento religioso afro-</p><p>brasileiro, os autores complementam:</p><p>Os orixás não são divindades moralistas, que exigem e recompensam quem é</p><p>bom, ou condenam e castigam quem faz o mal. Diferentemente das grandes</p><p>religiões mundiais surgidas da palavra e da ação extraordinária de grandes</p><p>personalidades proféticas, religiões moralizadoras cuja mensagem visa</p><p>regulamentar com princípios éticos gerais e sanções morais bem definidas [...],</p><p>a ênfase do candomblé é ritual [...].</p><p>Não existe pecado no candomblé, porque não existe um código de conduta</p><p>geral aplicável a todos os seres humanos, nem mesmo a todos os seguidores da</p><p>religião dos orixás, uma vez que estes são muitos e a distinção entre o bem e o</p><p>mal depende basicamente da relação entre cada seguidor e seu deus pessoal,</p><p>o orixá. (Gaarder; Hellern; Notaker, 2005, p. 313)</p><p>É interessante compreender que, no candomblé, cada pessoa tem um orixá</p><p>como guia, o qual é acompanhado e ao qual são oferecidos sacrifícios. Além disso, o</p><p>indivíduo pode realizar rituais de acordo com as próprias necessidades pessoais e em</p><p>conformidade com as características de seu orixá. A descoberta do orixá de cada pessoa</p><p>ocorre por meio do jogo de búzios.</p><p>Além de seus poderes distintos, os orixás estão vinculados a outras</p><p>particularidades, como símbolos, roupas, objetos, adereços, batidas de atabaque,</p><p>bebidas e alimentos específicos. Cada indivíduo deve considerar com muita seriedade</p><p>os atributos de seu orixá,</p><p>107 Pensamento religioso e instituição da(s) religião(ões)</p><p>tal que, geralmente, estes são incorporados como se fossem suas próprias</p><p>características. Ademais, o candomblecista pode ter uma segunda divindade, chamada</p><p>de juntó, que o acompanha e o orienta. Por exemplo, uma pessoa pode ser filha de</p><p>Xangó e Oxu; e outra, filha de Iemanjá e Oxalá etc. (Gaarder; Hellern; Notaker, 2005).</p><p>A fim de facilitar a compreensão e alargar o conhecimento acerca dos orixás,</p><p>apresentamos, na sequência, o Quadro 3.1, indicando</p><p>da área do Ensino Religioso, é produzido no</p><p>âmbito das diferentes áreas do conhecimento científico das Ciências Humanas</p><p>e Sociais, notadamente da(s) Ciência(s)</p><p>_______________</p><p>1 A Resolução n. 4, de 13 de julho de 2010 (Brasil, 2010a), e a Resolução n. 7, de 14 de dezembro de 2010 (Brasil,</p><p>2010b), do Conselho Nacional de Educação e da Câmara de Educação Básica (CNE/CEB) reconheceram o Ensino</p><p>Religioso como uma das cinco áreas de conhecimento do ensino fundamental de 9 anos.</p><p>19 Ciências da Religião</p><p>da(s) Religião(ões). Essas Ciências investigam a manifestação dos fenômenos</p><p>religiosos em diferentes culturas e sociedades enquanto um dos bens</p><p>simbólicos resultantes da busca humana por respostas aos enigmas do mundo,</p><p>da vida e da morte. Oe modo singular, complexo e diverso, esses fenômenos</p><p>alicerçaram distintos sentidos e significados de vida e diversas ideias de</p><p>divindade(s), em torno dos quais se organizaram cosmovisões, linguagens,</p><p>saberes, crenças, mitologias, narrativas, textos, símbolos, ritos, doutrinas,</p><p>tradições, movimentos, práticas e princípios éticos e morais. Os fenômenos</p><p>religiosos em suas múltiplas manifestações são parte integrante do substrato</p><p>cultural da humanidade. (Brasil, 2018, p. 436, grifo nosso e do original)</p><p>Nesta seção, buscamos apresentar algumas considerações introdutórias, de</p><p>modo a indicar alguns elementos contextuais da área das ciências da religião, sua</p><p>emergência, seu campo de pesquisa, além de sua incidência e sua responsabilidade na</p><p>formação básica dos estudantes brasileiros.</p><p>1.2 Conceitos fundamentais</p><p>das ciências da religião</p><p>Antes de compreendermos uma definição de ciências da religião, é necessário</p><p>analisarmos os significados dos conceitos de ciência e de religião.</p><p>Primeiramente, é necessário lembrar que a discussão conceituai em torno do</p><p>que se entende por ciência é bastante complexa. Tendo surgido na Modernidade com</p><p>diversos propósitos, entre eles romper com a metafísica, a ciência propôs uma nova</p><p>forma de produção de conhecimento que requer um método próprio: o conhecimento</p><p>científico.</p><p>20 Ciências da Religião</p><p>Com intuito de facilitar nosso estudo, assumiremos as propostas teóricas de</p><p>Antônio Joaquim Severino (2007), em sua obra Metodologia do trabalho científico. Nesta,</p><p>o autor afirma que, para compreender a ciência, é necessário considerar e integrar</p><p>vários elementos, entre os quais se destacam a teoria e a prática. Severino (2007, p. 100)</p><p>define a ciência como “o enlace de uma malha teórica com dados empíricos, [...] uma</p><p>articulação do lógico com o real, do teórico com o empírico, do ideal com o real”, e</p><p>afirma que esta “se faz quando o pesquisador aborda os fenômenos aplicando recursos</p><p>técnicos, seguindo um método e apoiando-se em fundamentos epistemológicos”.</p><p>Por outro lado, embora todos nós tenhamos ouvido muitas coisas acerca da</p><p>religião e estejamos imersos em um contexto cultural e social profundamente marcado</p><p>por ela, hesitamos para defini-la. Essa dificuldade, no entanto, não é exclusividade</p><p>nossa. Ao longo da história, a religião foi, e ainda é, alvo de muitas e variadas</p><p>interpretações. Na Europa, por exemplo, uma vez que a cultura do continente foi</p><p>profundamente marcada pela hegemonia do cristianismo, é natural que, ao ouvir falar</p><p>em religião, os europeus pensem, em primeiro lugar, na matriz religiosa cristã. E as</p><p>outras tantas religiões que compõem o cenário mundial?</p><p>Em se tratando do Brasil, há também um grande equívoco a ser superado em</p><p>relação a essa questão. Facilmente os brasileiros confundem religião e cristianismo com</p><p>catolicismo. Isso se deve a um fator histórico, visto que, no início da colonização, o</p><p>poder civil e o religioso confundiam-se ou, ao menos, atrelavam-se. Nesse caso, o</p><p>poder religioso era marcado pela hegemonia católica e, por esta ser uma religião cristã,</p><p>tornou-se sinônimo de cristianismo e/ou mesmo de religião para o imaginário da maior</p><p>parte da população do país. Contudo, sabemos que há diversas outras religiões, como</p><p>o judaísmo, o budismo, o espiritismo e as religiões afro. Além disso, o próprio</p><p>cristianismo não é homogêneo e uno, pelo contrário,</p><p>21 Ciências da Religião</p><p>“manifesta-se como católico romano, evangélico, batista, metodista, ortodoxo-russo e</p><p>assim por diante” (Greschat, 2005, p. 17).</p><p>Diante de tamanha diversidade, ao querer encontrar uma definição para o</p><p>termo religião o pesquisador da ciência da religião Hans-Jürgen Greschat (2005, p. 20)</p><p>afirma:</p><p>Não há uma definição que não seja rejeitada por, pelo menos, uma pessoa.</p><p>Quando, por exemplo, o cientista “A” afirma que religião diz respeito, em todos</p><p>os casos, a seres espirituais, o colega “B” diz “não, não, de jeito nenhum a seres</p><p>espirituais, mas sim à promessa de redenção” [...]. Quando *C” assume que a</p><p>religião oferece para os seres humanos o sentido da vida, “D” o contradiz, pois</p><p>acredita que ela é um tipo de debilidade mental para a qual a humanidade deve</p><p>encontrar a cura o mais rápido possível. Procurando definições, pensadores</p><p>cristãos têm algo cristão na mente e não se ocupam muito de religiões</p><p>estrangeiras. Hindus, muçulmanos e outros fazem o mesmo, definindo religião</p><p>de acordo com valores a que estão acostumados desde a infância.</p><p>A essa altura, você já deve ter constatado que é improvável chegar a uma</p><p>resposta consensual ou estabelecer uma definição unanimemente aceita sobre o que é</p><p>religião.</p><p>IMPORTANTE!</p><p>A maneira com que cada observador ou pesquisador se debruça sobre a religião</p><p>depende muito de suas crenças particulares, bem como do lugar e da época em que se</p><p>situa geográfica e historicamente.</p><p>Cientes dessa complexidade e, consequentemente, do risco de sermos</p><p>questionados por outros intelectuais, assumiremos as propostas conceituais de</p><p>Mendonça (2004, p. 23), que define a religião como “as variadas e mesmo infinitas</p><p>formas com que</p><p>22 Ciências da Religião</p><p>Deus se expressa no mundo, na história e no cotidiano das pessoas”. Nessa</p><p>perspectiva, “As Ciências da Religião estudam não Deus, mas suas formas de</p><p>expressão [...] nas pessoas e na cultura. Nesse ponto, Ciências da Religião se</p><p>distinguem da Teologia, porque não cogitam de questões a respeito de Deus, como sua</p><p>existência e natureza. Estudam efeitos e não causa” (Mendonça, 2004, p. 23). O autor</p><p>conclui que se faz necessário, nos estudos dessa área, “distinguir religião como forma</p><p>de crença e seus efeitos culturais e sociais, da religião instituída, objeto das ciências</p><p>que estudam as instituições sociais” (Mendonça, 2004, p. 24).</p><p>Com base nas contribuições de Mendonça (2004), sintetizamos o objeto de</p><p>estudo e o método das ciências da religião na Figura 1.1, a seguir.</p><p>23 Ciências da Religião</p><p>O esquema ilustrado na Figura 1.1 parte do pressuposto de que o objeto de</p><p>estudo das ciências da religião corresponde às variadas formas com que divindades se</p><p>expressam no mundo, na história e no cotidiano das pessoas, isto é, na experiência</p><p>cultural humana. Considerando o conjunto dessas ciências e, consequentemente, o</p><p>método de investigação específico de cada uma, Mendonça (2004) conclui que é difícil</p><p>definir um núcleo concentrado capaz de sustentar uma metodologia única para a área.</p><p>Contudo, o autor argumenta que o método fenomenológico constitui uma opção</p><p>factível que permite descrever a experiência sociocultural do fenômeno religioso com</p><p>o objetivo de explicar suas formas de expressão. Além disso, embora o interesse de</p><p>estudar a religião e a decorrente influência da experiência religiosa do pesquisador</p><p>sejam alvos de críticas, baseadas em acusações de inconsistência de neutralidade</p><p>científica, Mendonça (2004, p. 25) afirma ser fundamental não ignorar que “os estudos</p><p>científicos da religião tiveram origem nas obras de religiosos”, o que, de alguma forma,</p><p>continua perene.</p><p>Em sua unicidade epistemológica, as</p><p>os mais conhecidos no</p><p>candomblé e suas respectivas características.</p><p>108 Pensamento religioso e instituição da(s) religião(ões)</p><p>3.5.2 Umbanda</p><p>Outra importante manifestação do pensamento religioso afro-brasileiro é a umbanda,</p><p>presente em várias partes do país. Diferentemente, do candomblé, e de outras</p><p>tradições afrodescendentes, a umbanda apresenta uma preocupação um pouco menor</p><p>em manter sua identidade negra. Especialmente no Sudeste do Brasil, um número</p><p>considerável de brancos aderiu a essa prática religiosa (Gomes, 2018). Conforme</p><p>Gaarder, Hellern e Notaker (2005, p. 318-319) afirmam, a umbanda corresponde à mais</p><p>universal das vertentes africanas:</p><p>A umbanda surgiu na década de 1920, no Rio de Janeiro. E quando em seguida</p><p>começou a aparecer aqui e ali, nas décadas de 30 e 40, desde logo se</p><p>propagando no tecido mais urbano do Brasil, [...] a umbanda se comportou</p><p>como uma “religião universal”.</p><p>Não tardaria que ela, mais do que se comportar, passasse a se pensar dessa</p><p>forma, a assumir-se como uma religião aberta a todos os brasileiros e não</p><p>circunscrita apenas aos afrodescendentes. Desde o início a umbanda se</p><p>mostrou visivelmente multiétnica, com uma forte presença de brancos em seus</p><p>quadros, mesmo entre os pais de santo.</p><p>Não se pode negar que a umbanda é “afro”, mas esta é, sobremaneira, afro-</p><p>brasileira. E, talvez, seja ela a mais brasileira de todas as religiões. Isso porque a</p><p>umbanda surgiu do encontro entre diversas crenças religiosas africanas, o catolicismo</p><p>popular brasileiro e uma vertente do espiritismo kardecista. Além da presença da</p><p>crença nos orixás – à semelhança do candomblé –, os rituais umbandistas caracterizam-</p><p>se pelos espíritos que baixam nas pessoas. Estes são chamados de guias (os caboclos,</p><p>os pretos-velhos etc.) e escalonados em diferentes linhas (Oxalá, Iemanjá, Oxóssi,</p><p>Xangô, Ogum, Oriente e linha das Almas) (Gaarder; Hellern; Notaker, 2005).</p><p>109 Pensamento religioso e instituição da(s) religião(ões)</p><p>Por conta do caráter aberto e acolhedor da umbanda, qualquer pessoa que se</p><p>achegue a um terreiro umbandista é muito bem acolhida e respeitada.</p><p>3.6 Pensamento religioso na</p><p>contemporaneidade</p><p>Na contemporaneidade, os desafios multiplicam-se e as exigências relacionadas ao ser</p><p>humano intensificam-se gradativamente. Muitas são as crises pelas quais um</p><p>indivíduo passa, inclusive no âmbito do pensamento religioso. No entendimento do</p><p>professor José Carlos Aguiar de Souza (2012, p. 233),</p><p>A crise atual da sociedade, da cultura e da religião encontra seu enraizamento</p><p>na crise da própria tradição ocidental do pensar. As concepções de</p><p>racionalidade, verdade, objetividade e realidade, que constituíram a cultura</p><p>ocidental como um todo, são rejeitadas, até mesmo como ideais, pelo</p><p>pensamento contemporâneo.</p><p>A contemporaneidade também é marcada por uma série de contradições. Se, de</p><p>um lado, muito se fala em globalização, com afirmações de que não há mais fronteiras,</p><p>de que somos uma aldeia, do outro, constata-se um forte individualismo, que leva as</p><p>pessoas, de forma muito egoísta, a pensarem apenas em si mesmas. Ao mesmo tempo</p><p>que nos importamos com a questão da alteridade, descartamo-la com facilidade. No</p><p>fim, prevalece um certo subjetivismo imediatista.</p><p>RELATO PESSOAL</p><p>Recentemente, ao entrar na sala para ministrar aulas, ouvi uma jovem garota dizendo</p><p>o seguinte: “os outros que se danem!” Confesso que, diante de tamanha empáfia, fiquei</p><p>indignado e, logo, comecei a pensar o quanto aquela jovem, de nariz empinado,</p><p>110 Pensamento religioso e instituição da(s) religião(ões)</p><p>precisaria aprender a valorizar e se importar com as outras pessoas. No entanto,</p><p>também pensei que ela podia estar apenas repetindo um jargão comum de modo</p><p>impensado.</p><p>Antes de a confrontar de forma moralista e, consequentemente, infértil, senti</p><p>que era a oportunidade para que eu mesmo fizesse uma boa reflexão. Assim, comecei</p><p>a pensar nas várias ocasiões da vida nas quais precisamos uns dos outros, do</p><p>nascimento até a morte. O quanto dependemos uns dos outros.</p><p>No entanto, somos seres dependentes. Para sermos concebidos e para</p><p>nascermos precisamos de nossos pais, de médicos, de enfermeiros. Depois,</p><p>necessitamos de pessoas para nos dar banho e comida, trocar nossas fraldas e roupas,</p><p>acariciar-nos e acalmar-nos. De modo geral, todo conhecimento que adquirimos ao</p><p>longo da vida, em certa medida, devemos aos outros. Isso se estende a todas as esferas</p><p>de nossa existência – por exemplo, se pensarmos nas inúmeras viagens que fizemos,</p><p>precisamos considerar motoristas que conduziram os ônibus e os carros, ou pilotos e</p><p>controladores de voo que guiaram as aeronaves. Sempre há um responsável pelos</p><p>lugares que visitamos e pelas refeições deliciosas das quais desfrutamos. Nas</p><p>instituições em que trabalhamos, nas escolas, faculdades e universidades que</p><p>frequentamos, sempre necessitamos da colaboração de outras pessoas. Para sermos</p><p>filhos, pais, mães, esposos e esposas; para constituir a família e para amar,</p><p>dependemos dos outros. No âmbito religioso, é por intermédio de terceiros que</p><p>passamos a conhecer tradições, credos, doutrinas, livros sagrados, símbolos, rituais</p><p>etc.</p><p>Uma grande verdade de nossa existência reside no fato de que esta está</p><p>condicionada à existência dos outros. Ao olharmos para o entardecer de nossas vidas,</p><p>percebemos o quanto precisaremos ainda mais de outras pessoas. Mesmo quando</p><p>morrermos, os outros carregarão nosso corpo.</p><p>111 Pensamento religioso e instituição da(s) religião(ões)</p><p>Nesse contexto, as tradições religiosas têm muito espaço para nos ajudar a</p><p>refletir sobre a importância dos outros para a nossa vida e, até mesmo, a pensar na</p><p>importância do transcendente, o outro por excelência.</p><p>É possível constatar também que, depois de diversas promessas – relativas a</p><p>demandas da vida social, no sentido de garantir as condições para o bem-estar da</p><p>comunidade humana em harmonia com o planeta, e, por conseguinte, à própria</p><p>autorrealização a propósito do sentido de vida – não cumpridas por parte da</p><p>racionalidade moderna e do cientificismo, o ser humano contemporâneo anseia por</p><p>respostas que o satisfaçam e preencham seu vazio existencial. Isso pode explicar a</p><p>intensa retomada da busca pelo sagrado. Nesse sentido, notamos outra grande</p><p>contradição da contemporaneidade. A despeito de muitos racionalistas insistirem em</p><p>dizer que a religião pertence à área do mito, do infantilismo, da superstição, da</p><p>fantasia, do fanatismo, do atraso, a busca pelo sagrado intensificou-se bastante nas</p><p>últimas décadas (Vaz, 2014).</p><p>Além disso, é importante notar que, diferentemente de outras épocas, na</p><p>contemporaneidade a religião faz-se presente de um modo muito diverso. Atualmente,</p><p>tratamos de multiculturalismo, de diversidade religiosa e cultural, de pluralismo</p><p>religioso ou pluralidade de religiões. Ao mesmo tempo, constatamos uma certa</p><p>descrença em relação às instituições religiosas. Busca-se o sagrado, o religioso, o</p><p>místico, mas sem que se aceite as instituições. Por vezes, estas têm sido questionadas,</p><p>confrontadas e, até mesmo, rejeitadas. A respeito disso, Souza (2012, p. 235) pondera:</p><p>O pluralismo cultural da contemporaneidade faz emergir novos modos de</p><p>subjetividade em que o indivíduo é estimulado à satisfação imediata de suas</p><p>necessidades. A crise da cultura se manifesta na desconfiança das ideologias e</p><p>das instituições tradicionais, sobretudo as instituições religiosas.</p><p>112 Pensamento religioso e instituição da(s) religião(ões)</p><p>A fim de especificar melhor a questão do impacto cultural e religioso acarretado</p><p>pela nova realidade do mundo em crise e demonstrar o quanto a religiosidade vem</p><p>apresentando-se com necessidades e modos distintos, o autor prossegue:</p><p>O surgimento de uma “cultura mundial” (world culture) gera uma profunda</p><p>crise</p><p>de identidade cultural e fomenta a diversidade e o pluralismo, abrindo</p><p>espaço para modos outros de vivências religiosas e espiritualidades: busca de</p><p>novos valores humanos, felicidade pessoal, novas formas de expressão religiosa</p><p>não necessariamente sacrais. A religião passou à dimensão do subjetivo, do</p><p>privado, retirando a referência central da instituição religiosa. Assim, a religião</p><p>deixa de ser a única grande narrativa do sagrado: há uma multiplicidade de</p><p>grandes discursos e nenhum é superior ao outro. (Souza, 2012, p. 235-236)</p><p>Diante disso, compreendemos que as questões vinculadas às ciências da religião</p><p>devem ser repensadas com muita seriedade.</p><p>Trata-se de uma exigência da contemporaneidade que demanda novas formas de</p><p>pensamento e ação.</p><p>É urgente refletirmos sobre o que queremos ser e o que pretendemos fazer neste</p><p>novo mundo em que vivemos e que continuará trazendo, gradativamente, novas</p><p>exigências e desafios. Nesse sentido, nos próximos capítulos, discutiremos as relações</p><p>entre conhecimento religioso e educação.</p><p>113 Pensamento religioso e instituição da(s) religião(ões)</p><p>114 Pensamento religioso e instituição da(s) religião(ões)</p><p>ATIVIDADES DE AUTOAVALIAÇÃO</p><p>1. Analise as afirmações a seguir a propósito das características predominantes das</p><p>religiões nativas da América.</p><p>I. Predomina uma relação existencial entre a humanidade e a terra.</p><p>II. Os povos nativos, em sua maioria, são considerados animistas.</p><p>III. As religiões nativas consideram a Terra um “espaço sagrado”,</p><p>IV. Os povos nativos manifestam uma crença na ancestralidade.</p><p>Agora, assinale a alternativa correta:</p><p>A] As afirmações I e II são corretas.</p><p>B] As afirmações I, II e IV são corretas.</p><p>C] As afirmações II e III são corretas.</p><p>D] As afirmações III e IV são corretas.</p><p>E] As afirmações I, II, III e IV são corretas.</p><p>2. Considerando os elementos marcantes do pensamento religioso na</p><p>contemporaneidade, analise as assertivas a seguir.</p><p>I. Há uma presença marcante do pluralismo religioso e/ou do pluralismo de</p><p>religiões.</p><p>II. Manifesta-se uma busca pelo sagrado, pelo religioso e pelo místico em</p><p>instituições religiosas tradicionais.</p><p>III. O diálogo inter-religioso aparece como um desafio necessário para a</p><p>promoção da cultura de paz.</p><p>IV. O respeito à liberdade de concepções, de diferenças de credo, de expressões</p><p>de fé ou de opções não religiosas constitui uma atitude primordial para a</p><p>convivência fraterna.</p><p>Agora, assinale a alternativa correta:</p><p>A] As assertivas I e II são corretas.</p><p>B] As assertivas I, II e IV são corretas.</p><p>115 Pensamento religioso e instituição da(s) religião(ões)</p><p>C] As assertivas I, III e IV são corretas.</p><p>D] As assertivas III e IV são corretas.</p><p>E] As assertivas I, II, III e IV são corretas.</p><p>3. Leia o texto a seguir e identifique a qual matriz religiosa ele se refere:</p><p>São majoritariamente politeístas, embora seja possível encontrar traços de um</p><p>certo panteísmo, isto é, a concepção de que Deus – ou o sagrado, ou o divino –</p><p>manifesta-se em muitas divindades, inclusive na natureza. É comum, nessas</p><p>crenças, que o tempo seja concebido de maneira cíclica, isto é, acredita-se que a</p><p>história costuma se repetir em um ciclo interminável.</p><p>A] Religiões ocidentais.</p><p>B] Religiões orientais.</p><p>C] Religiões afro-brasileiras.</p><p>D] Religiões nativas da América.</p><p>E] Religiões africanas.</p><p>4. Relacione cada religião com sua respectiva característica:</p><p>1. Hinduísmo</p><p>2. Budismo</p><p>3. Xintoísmo</p><p>4. Judaísmo</p><p>5. Cristianismo</p><p>6. Islamismo</p><p>7. Candomblé</p><p>8. Umbanda</p><p>A] Tradição religiosa de origem japonesa, embora seu fundador não seja</p><p>conhecido. Seu principal livro sagrado é o Kojiki, que significa “livro das</p><p>coisas antigas”.</p><p>B] Nessa tradição religiosa, cada pessoa tem um orixá como guia, o qual é</p><p>acompanhado e ao qual são oferecidos sacrifícios.</p><p>116 Pensamento religioso e instituição da(s) religião(ões)</p><p>C] Foi fundada no século VI a.C., no Nepal, ao norte da índia, por Sidhartha</p><p>Gautama, conhecido como Buda, que significa o iluminado.</p><p>D] Surgiu na década de 1920, no Rio de Janeiro, do encontro entre diversas</p><p>crenças religiosas africanas, o catolicismo popular brasileiro e uma vertente</p><p>do espiritismo kardecista.</p><p>E] Seu principal livro sagrado é o Alcorão, que contém ensinamentos sobre</p><p>questões legais, sociais e religiosas.</p><p>F] Crê-se em um único Deus que deve ser adorado, sendo Jesus Cristo seu</p><p>único mediador e o salvador da humanidade.</p><p>G] Trata-se de uma religião nascida da experiência humana e consiste na</p><p>investigação das profundezas da alma, com a tarefa de atingir a</p><p>autorreflexão.</p><p>H] Para essa tradição, o Antigo Testamento é o livro sagrado, com destaque</p><p>especial para o Pentateuco, também chamado de Torá.</p><p>Agora, assinale a alternativa que apresenta a sequência correta de combinações</p><p>obtidas:</p><p>A] lc, 2g, 3e, 4f, 5h, 6a, 7b, 8d.</p><p>B] lg, 2c, 3a, 4h, 5f, 6e, 7b, 8d.</p><p>C] lc, 2g, 3e, 4h, 5f, 6a, 7b, 8d.</p><p>D] lg, 2c, 3a, 4h, 5f, 6e, 7d, 8b.</p><p>E] lc, 2g, 3e, 4f, 5h, 6b, 7a, 8d.</p><p>5. Analise as afirmações a seguir a propósito do pensamento religioso afro-brasileiro.</p><p>117 Pensamento religioso e instituição da(s) religião(ões)</p><p>I. Refere-se às experiências religiosas de matriz africana desenvolvidas em</p><p>contato com cultura brasileira.</p><p>II. A prática religiosa de matriz africana, sobretudo o candomblé, é uma</p><p>valorização e uma promoção da cultura e das tradições que envolvem a</p><p>população negra, mantendo vivas as bases religiosas de seus antepassados</p><p>africanos.</p><p>III. A umbanda surgiu do encontro entre diversas crenças religiosas africanas,</p><p>o catolicismo popular brasileiro e uma vertente do espiritismo kardecista.</p><p>IV. Xangô, Tambor de mina e Batuque são exemplos de expressões religiosas</p><p>que se formaram em diferentes regiões do Brasil, com base nas matrizes</p><p>religiosas africanas.</p><p>Agora, assinale a alternativa correta:</p><p>A] As afirmações I e II são corretas.</p><p>B] As afirmações I, II e IV são corretas.</p><p>C] As afirmações II e III são corretas.</p><p>D] As afirmações III e IV são corretas.</p><p>E] As afirmações I, II, III e IV são corretas.</p><p>ATIVIDADES DE APRENDIZAGEM</p><p>Questões para reflexão</p><p>1. Leia e analise atentamente as informações do Quadro 3.2, que apresenta de forma</p><p>simplificada as características das tradições religiosas predominantes no Ocidente</p><p>e no Oriente3. Em</p><p>_______________</p><p>3 Os autores do quadro alertam que essa divisão entre Oriente e Ocidente consiste em uma convenção ainda</p><p>muito utilizada na área do estudo das religiões e que, no entanto, é limitada para realizar uma análise</p><p>socioeconômica, política e/ou cultural, por exemplo. Nessa compreensão, “consideram-se religiões ocidentais</p><p>(principalmente por sua influência na cultura ocidental, embora não tenham nascido no Ocidente) o judaísmo, o</p><p>cristianismo e o islamismo, enquanto as principais religiões orientais são o hinduísmo, o budismo e o taoísmo”</p><p>(Oliveira et al., 2007, p. 92).</p><p>118 Pensamento religioso e instituição da(s) religião(ões)</p><p>seguida, selecione uma tradição religiosa de cada uma dessas duas grandes</p><p>matrizes e descreva, em um texto dissertativo, como esses aspectos estão presentes</p><p>em suas crenças, seus dogmas e suas cosmologias.</p><p>119 Pensamento religioso e instituição da(s) religião(ões)</p><p>2. Com base no Quadro 3.2, pesquise sobre as características das tradições religiosas</p><p>indígenas latino-americanas e afro-brasileiras e complete o Quadro 3.3 com o</p><p>material coletado. Sugerimos como fonte de pesquisa o material da Secretaria de</p><p>Estado de Educação do Paraná (Seed-PR) a propósito da diversidade religiosa:</p><p>PARANÁ. Secretaria de Estado de Educação. Superintendência da Educação. Ensino religioso:</p><p>diversidade cultural e religiosa. Curitiba: Seed-PR, 2013. Disponível em:</p><p><http://www.ensinoreligioso.seed.pr.gov.br/arquivos/File/livro_er_19_3_2015.pdf>.</p><p>Acesso</p><p>em: 6 jan. 2021.</p><p>120 Pensamento religioso e instituição da(s) religião(ões)</p><p>121 Pensamento religioso e instituição da(s) religião(ões)</p><p>Atividade aplicada: prática</p><p>1. Busque assistir a, pelo menos, três episódios da série documental Religiões do</p><p>mundo (Religions of the World). Em seguida, com base na técnica do pensamento</p><p>visual e/ou outra da sua preferência, elabore uma apresentação sobre um desses</p><p>episódios.</p><p>RELIGIÕES do mundo. Estados Unidos: Greenstar Television, 1998. Minissérie de</p><p>televisão.</p><p>4.</p><p>CONHECIMENTO RELIGIOSO</p><p>NA ESCOLA</p><p>“A melhor religião é a que te faz melhor”.</p><p>(Dalai Lama, citado por Boff, 2016, p. 28-29)</p><p>Neste capítulo, forneceremos recursos para que o professor e/ou pedagogo</p><p>compreenda os fundamentos que justificam a presença do Ensino Religioso no</p><p>currículo escolar. Com esse entendimento, torna-se viável uma proposta curricular</p><p>orientada por pressupostos didáticos que, respeitando a diversidade cultural e</p><p>religiosa do Brasil, ofereçam ao aluno uma compreensão intercultural do fenômeno</p><p>religioso.</p><p>Para isso, inicialmente contextualizaremos a relação entre o ser humano e o</p><p>universo do religioso, a fim de expor o fundamento existencial que sustenta a</p><p>religiosidade na sociedade e a pertinência de socializar esse conhecimento na escola.</p><p>Apresentaremos o conhecimento religioso como bem cultural decorrente das</p><p>experiências de homens e mulheres com o transcendente, as quais são compartilhadas</p><p>em ambientes sociais e ao longo da história.</p><p>Além disso, discutiremos as características do ser humano na condição tanto de</p><p>ser relacional quanto de ser religioso que busca dar sentido à sua existência. Com base</p><p>nas reflexões de Paulo Freire, apresentaremos a religiosidade como um fator inerente</p><p>ao ser humano que se manifesta na experiência concreta de sua vida.</p><p>123 Conhecimento religioso na escola</p><p>Explicitaremos a relação entre cultura e religião, com a intenção de demonstrar que o</p><p>saber religioso se manifesta em diversas expressões da cultura. Também</p><p>evidenciaremos que tal saber simultaneamente influencia os comportamentos</p><p>humanos e é influenciado pelas relações socioculturais em que se circunscreve.</p><p>Finalmente, sintetizaremos as manifestações da experiência religiosa no</p><p>conceito de fenômeno religioso, entendido como objeto de estudo do Ensino Religioso.</p><p>Assim, aproximaremos a discussão do contexto escolar, apontando como esse</p><p>conhecimento pode estar à disposição como um saber integrante da formação integral</p><p>da criança e do adolescente, com vistas à sua felicidade e convivência social.</p><p>4.1 Experiência religiosa</p><p>é conhecimento</p><p>Quem somos nós? A grande maioria dos indivíduos faz essa pergunta durante sua</p><p>vida. Basta lembrarmos do clássico Dom Quixote, de Miguel de Cervantes (2005), no</p><p>qual apreciamos o caminho do cavaleiro Dom Quixote e de seu escudeiro Sancho na</p><p>busca incessante pela liberdade e pela realização dos seus sonhos. A obra literária</p><p>integra o choque entre a poesia e a realidade. A primeira é toda a capacidade do fidalgo</p><p>de imaginar, sonhar, querer, esperar, ou seja, toda sua ilusão e todo seu impulso para</p><p>fazer e viver. Já a realidade é o confronto permanente da busca que realiza. A obra de</p><p>Cervantes revela esse caminho, essa descoberta pessoal e, ao mesmo tempo,</p><p>compartilhada, na qual se integram a poesia e a realidade.</p><p>A filosofia socrática difundiu a frase “Conhece-te a ti mesmo” (Platão, 2002, p.</p><p>95), que foi inscrita no Santuário de Delfos, na Grécia Antiga, e nos faz refletir sobre o</p><p>significado do autoconhecimento como caminho para a felicidade. Em sua Defesa,</p><p>quando</p><p>124 Conhecimento religioso na escola</p><p>se despediu do tribunal que o havia condenado a morte, Sócrates proferiu suas últimas</p><p>palavras: “É a hora de irmos: eu para a morte, vós para as vossas vidas; quem terá a</p><p>melhor sorte? Só os Deuses sabem” (Platão, 2003 p. 30). As ideias de Sócrates,</p><p>transmitidas nos diálogos de Platão, ajudam-nos a compreender que a vida, quando</p><p>carece de reflexão e investigação, não vale a pena ser vivida.</p><p>Conforme assinala Marilena Chaui (2006, p. 252), “descobrimos que somos seres</p><p>humanos quando temos a experiência de que somos conscientes das coisas, dos outros</p><p>e de nós mesmos”. À medida que indagamos, percebemos que existe uma ordem no</p><p>universo e reconhecemos que não somos seus criadores. Desse tipo de percepção,</p><p>nascem as crenças na(s) divindade(s) e nosso desejo de interação e comunicação com</p><p>ela(s).</p><p>Se uma criança nos perguntasse em sala de aula: “Professor(a), Deus existe?”, o</p><p>que responderíamos? No contexto escolar, essa resposta deve ser educativa e</p><p>pedagógica. O conhecimento religioso é patrimônio da humanidade, isto é, um bem</p><p>cultural, que necessita estar à disposição da escola. De certo modo, a escola precisa</p><p>convidar seus alunos a percorrer uma sorte de “viagem de Théo”, como no livro de</p><p>Catherine Clément (1998) – A viagem de Théo: romance das religiões –, o qual indaga sobre</p><p>as razões que levam tantas pessoas a se aproximarem das religiões e encontrarem nelas</p><p>uma segurança para suas vidas.</p><p>O ser humano busca iluminar “o desconhecido” com a sua inteligência,</p><p>valendo-se de conhecimentos como o religioso. Nesse percurso, a cultura ilumina o</p><p>mistério, que, por sua vez, a sustenta, tendo em vista que na raiz de toda criação</p><p>cultural está a transcendência. Segundo Albert Einstein (citado por Crease, 2006, p.</p><p>139), “a coisa mais bela que podemos experimentar é o mistério. Essa é a fonte de toda</p><p>a arte e de toda a ciência verdadeiras”.</p><p>125 Conhecimento religioso na escola</p><p>Roque de Barros Laraia (2009, p. 89), por sua vez, destaca que:</p><p>O homem sempre buscou explicações para fatos tão cruciais como a vida e a</p><p>morte. Estas tentativas de explicar o início e o fim da vida humana foram sem</p><p>dúvida responsáveis pelo aparecimento dos diversos sistemas filosóficos [...].</p><p>[...] E hoje todos sabem que o homem só pode compreender o mistério da vida</p><p>quando dispõe de instrumentos que lhe permitam desvendar o mundo</p><p>infinitamente pequeno.</p><p>Ao percebermo-nos como seres sociais e relacionais, compreendemos que a</p><p>religião é um vínculo, por meio do qual buscamos respostas às nossas indagações.</p><p>Conforme são internalizadas, essas respostas constituem um conhecimento religioso</p><p>que pode ser aprofundado e socializado.</p><p>IMPORTANTE!</p><p>Paulo Freire (2005, p. 27), em seu livro Educação e mudança, afirma que “Não é possível</p><p>fazer uma reflexão sobre o que é a educação sem refletir sobre o próprio homem”. É</p><p>possível desdobrar essa afirmação considerando o escopo deste livro, de modo a</p><p>formular uma nova e mais específica proposição: não é possível fazer uma reflexão</p><p>sobre o ensino religioso sem refletir sobre a própria religiosidade do homem.</p><p>Em sua teorização, Freire (2005, p. 30, grifo nosso) concebe o homem como um</p><p>“ser de relações”:</p><p>O homem está no mundo e com o mundo. Se apenas estivesse no mundo não</p><p>haveria transcendência nem se objetivaria a si mesmo. Mas como pode</p><p>objetivar-se, pode também distinguir entre um eu e um não eu.</p><p>126 Conhecimento religioso na escola</p><p>Isto o torna um ser capaz de relacionar-se; de sair de si; de projetar-se nos</p><p>outros; de transcender. Pode distinguir órbitas existenciais distintas de si</p><p>mesmo.</p><p>Estas relações não se dão apenas com os outros, mas se dão no mundo, com o</p><p>mundo e pelo mundo (nisto se apoiaria o problema da religião).</p><p>O animal não é um ser de relações, mas de contatos. Está no mundo e não</p><p>com o mundo.</p><p>A compreensão de Freire remete-nos à afirmação de Ludwig Feuerbach (1988,</p><p>p. 4) de que “A religião baseia-se na diferença essencial que existe entre o homem e o</p><p>animal. Os animais não têm nenhuma religião”. O homem é um ser religioso e</p><p>expressou atitudes religiosas em</p><p>todos os tempos e lugares nos quais habitou (Birck,</p><p>2002). A religião é um fenômeno humano, ao mesmo tempo universal, porque se</p><p>manifesta em todas as culturas, e particular, pois assume diferentes formas em cada</p><p>uma delas (Oliveira et al., 2007).</p><p>Ao considerarmos o homem como ser religioso, reconhecemos que este</p><p>responde às suas necessidades de forma cultural, isto é, por meio de sua criatividade.</p><p>Essas necessidades humanas não se limitam unicamente à sobrevivência, mas também</p><p>envolvem o sentido da existência e a vontade de viver. Como destaca Zilles (2009, p.</p><p>6, grifo nosso), “o problema religioso toca o homem em sua raiz ontológica. [...] Em</p><p>outras palavras, a religião tem a ver com o sentido último da pessoa, da história e do</p><p>mundo”.</p><p>Cabe lembrarmos, aqui, da filosofia de Martin Heidegger (1988, p. 262), que</p><p>discute, em sua obra Ser e tempo, a confirmação da interpretação existencial da presença</p><p>como cura na intenção de compreender os fundamentos ontológicos “que nós mesmos</p><p>somos e que chamamos de homem”. Nessa interpretação, Heidegger (1988, p. 264) cita</p><p>a fábula de Higino como testemunho</p><p>127 Conhecimento religioso na escola</p><p>pré-ontológico em que se distingue Deus como imortal no “percurso temporal no</p><p>mundo”. Indagações, como a do filósofo, sobre a natureza do tempo e sobre a</p><p>existência de um tempo sagrado levam-nos a compreender que, no universo religioso,</p><p>o tempo não passa e os deuses não morrem. Nessa temporalidade sagrada, as religiões</p><p>encontram explicações para a origem das coisas e do próprio ser humano, e, nas</p><p>diferentes festas e rituais, atualizam e fazem memória dos eventos sagrados (Eliade,</p><p>1992).</p><p>O termo religião deriva do verbo relegere, que significa “reler” (Oliveira et. al.,</p><p>2007, p. 102).Tal interpretação está acunhada na obra Sobre a natureza dos deuses (De</p><p>natura deorum), de Cícero (2018, p. 89): “aqueles que diligentemente retratavam e, por</p><p>assim dizer, reliam todas as coisas que se referiam ao culto dos deuses, eles foram</p><p>chamados de religiosos”. Nessa perspectiva, compreende-se a ideia da religião como</p><p>vínculo, como relação com a divindade, com Deus.</p><p>IMPORTANTE!</p><p>A religião é uma resposta ao sentido humano e, assim, as práticas religiosas precisam</p><p>ser humanizadoras, isto é, significativas para a existência. A relação, mediada pela fé,</p><p>revelada entre o homem e o transcendente dá sentido à vida e marca a história da</p><p>humanidade.</p><p>Ao compreender a relação entre cultura e religião, Oliveira et al. (2007, p. 70,</p><p>grifo nosso) afirmam:</p><p>a religião manifestou-se e manifesta-se em um universo cultural, ora</p><p>influenciando a cultura, ora sendo influenciada por ela. É impossível, pois,</p><p>querer entender a religião sem remeter-se à cultura em que ela está inserida.</p><p>O homem religioso pode olhar o mundo pelas lentes dadas por sua cultura e</p><p>tradição religiosa, e seu comportamento, nesse caso, será orientado por essa</p><p>visão de mundo.</p><p>128 Conhecimento religioso na escola</p><p>Em seu livro Como vejo o mundo, Einstein (1981, p. 5) indagou: “Tem um sentido</p><p>a minha vida? A vida de um homem tem sentido? Posso responder a tais perguntas se</p><p>tenho um espírito religioso”. Nesse sentido, consideramos a religiosidade como</p><p>inerente ao ser humano, porque esta se conecta diretamente com questionamentos e</p><p>necessidades fundamentais.</p><p>No interior das relações culturais estabelecidas por homens mulheres em suas</p><p>diversas maneiras de ser, pensar e viver, o fenômeno religioso manifesta-se por meio</p><p>de objetos e valores especificamente religiosos, isto é, relativos ao “divino” (Quiles,</p><p>1985), cuja fenomenologia constitui o objeto de estudo e interpretação do ensino</p><p>religioso.</p><p>A palavra fenômeno vem do grego phainómenon, que significa “tudo que é</p><p>percebido pelos sentidos, ou pela consciência” (Cunha, 2007, p. 353). Considerando</p><p>essa etimologia, o fenômeno evidencia-se, mostra-se a partir de si mesmo. Nesse</p><p>sentido, a fenomenologia das religiões, ao considerá-las sob a perspectiva do</p><p>fenômeno, estuda e busca descrever de forma sistemática “aquilo que aparece” na</p><p>experiência religiosa. Como afirmamos, “A religião pode auxiliar o ser humano a</p><p>definir-se no mundo e em relação a seus semelhantes e emprestar-lhe um sentido de</p><p>vida. Constitui uma fonte de informações para seus fiéis e orienta-os, em suas ações,</p><p>em questões relacionadas à origem, destino e sentido da existência” (Oliveira et al.,</p><p>2007, p. 103, grifo nosso).</p><p>Essa relação inscrita na cultura dá sentido ao fenômeno religioso e garante</p><p>significados para suas práticas, seus lugares, seus atos, suas palavras, seus símbolos e</p><p>suas ideias. Simbolizada em várias culturas, a ligação religiosa qualifica o tempo com</p><p>a marca do sagrado (narrativas, histórias, teogonias etc.) e organiza-o com o espaço,</p><p>de modo a se manter por meio de ritos. Assim, a religião tende a ampliar o campo</p><p>simbólico e sacraliza “seres e objetos do mundo, que se tornam símbolos de algum fato</p><p>religioso” (Chaui,</p><p>129 Conhecimento religioso na escola</p><p>2006, p. 255). Nesse sentido, o sagrado corresponde a uma experiência simbólica da</p><p>presença do sobrenatural que habita algum ser (humano, animal, vegetal, coisa,</p><p>elementos da natureza etc.) e que marca uma superioridade (Chaui, 2006).</p><p>Chaui (2006, p. 263) sintetiza essa experiência destacando que “A invenção</p><p>cultural do sagrado se realiza como processo de simbolização e encantamento do</p><p>mundo, seja na forma da imanência do sobrenatural no natural, seja na da</p><p>transcendência do sobrenatural. O sagrado dá significação ao espaço, ao tempo e aos</p><p>seres que neles nascem, vivem e morrem”.</p><p>IMPORTANTE!</p><p>Em suma, a experiência religiosa fornece ao ser humano explicações sobre a origem, a</p><p>vida, a morte e a existência; traz-lhe proteção e oferece-lhe esperança de vida após a</p><p>morte. Além disso, cumpre um papel crucial nas relações sociais, propondo princípios</p><p>para orientar a ação moral e cultivar a prática das virtudes.</p><p>De acordo com o Fórum Nacional Permanente do Ensino Religioso (Fonaper)1,</p><p>a raiz do fenômeno religioso encontra-se no limiar da liberdade e da insegurança do</p><p>ser humano ante as perguntas fundamentais de sua existência: “O homem finito,</p><p>inconcluso, busca fora de si o desconhecido, o mistério: transcende” (Fonaper, 1997, p.</p><p>41). Por meio dessa busca por respostas às indagações humanas, o conhecimento</p><p>religioso adquire sentidos e significados, que podem ser socializados no componente</p><p>curricular Ensino Religioso. Dessa forma, a leitura e a interpretação dos fenômenos</p><p>_______________</p><p>1 “Fundado em 26 de setembro 1995, em Florianópolis/SC, vem atuando na perspectiva de acompanhar,</p><p>organizar e subsidiar o esforço de professores, pesquisadores, sistemas de ensino e associações na efetivação do</p><p>Ensino Religioso como componente curricular. O FONAPER é um espaço de discussão e ponto aglutinador de</p><p>ideias, propostas e ideais na construção de propostas concretas para a operacionalização do Ensino Religioso na</p><p>escola” (Fonaper, 2020).</p><p>130 Conhecimento religioso na escola</p><p>precisa configurar-se como uma experiência de convivência e diálogo que possibilite</p><p>aos alunos o conhecimento da diversidade cultural e religiosa do Brasil e do mundo.</p><p>No início desta seção, propomos a seguinte indagação a respeito das discussões</p><p>religiosas em contexto escolar: Caso uma criança nos perguntasse, em sala de aula, se</p><p>Deus existe, qual seria a nossa resposta como professores de Ensino Religioso?</p><p>Acreditamos ser essa uma pergunta-chave que nos permite compreender a proposta</p><p>educativa do Ensino Religioso e que se refere diretamente ao respeito à diversidade</p><p>cultural e religiosa do Brasil, a qual está presente, de variadas formas, na escola e na</p><p>sala de aula.</p><p>Com a intenção de oferecer elementos ao professor de Ensino Religioso perante</p><p>essa questão-problema, percorremos o caminho esquematizado na Figura 4.1.</p><p>Esse percurso nos permite compreender que, nos fundamentos do ensino</p><p>religioso, as ciências da religião oferecem um conteúdo essencial sobre estudo das</p><p>formas de expressão de Deus nos indivíduos e na cultura. O método fenomenológico</p><p>evidencia como o conhecimento religioso é produzido na história e no cotidiano das</p><p>pessoas, constituindo um patrimônio cultural da humanidade que precisa estar à</p><p>disposição da escola. Com base nisso, discorremos sobre como a religiosidade é</p><p>inerente à vida do ser humano, expressando-se em diferentes formas de ser, pensar e</p><p>agir. Assim, assinalamos que o ensino religioso é uma oportunidade para que os</p><p>alunos compreendam os fenômenos da experiência humana religiosa, não unicamente</p><p>por um viés informativo, mas também</p><p>131 Conhecimento religioso na escola</p><p>como uma experiência de interpretação capaz de suscitar respeito e diálogo.</p><p>Desse modo, se algum aluno nos perguntasse: “Professor(a), Deus existe?”,</p><p>poderíamos responder de diferentes maneiras e de formas criativas, pois o foco do</p><p>ensino religioso não está na afirmação moral e/ou na prova da existência de Deus,</p><p>senão na percepção e no reconhecimento de que Deus está presente na vida das</p><p>pessoas e se expressa de diferentes formas no cotidiano das sociedades. Esse</p><p>conhecimento religioso é um bem e um patrimônio cultural que não pode ser negado</p><p>e cujo reconhecimento afirma a identidade social e favorece a convivência.</p><p>4.2 Legislação brasileira e</p><p>Conhecimento religioso na escola</p><p>Nesta seção, apresentaremos as principais legislações que fundamentam o ensino</p><p>religioso no Brasil, especificamente, as disposições relativas à sua inserção no ambiente</p><p>escolar.</p><p>Inicialmente, abordaremos a trajetória do componente curricular Ensino</p><p>Religioso na legislação brasileira, a fim de perceber elementos de sua organização e de</p><p>sua inserção na história da educação no país. Na sequência, destacaremos o direito à</p><p>liberdade religiosa na perspectiva dos direitos humanos e do seu reconhecimento,</p><p>assinalando de que modo isso influencia na escola. Também apresentaremos os</p><p>dispositivos legais atuais que fundamentam o Ensino Religioso no Brasil, tanto como</p><p>área de conhecimento quanto como componente curricular.</p><p>Por fim, descreveremos a necessidade de respeito à diversidade cultural e</p><p>religiosa por parte das propostas de ensino religioso, assim como o desafio que desta</p><p>decorre no sentido de superar manifestações e práticas de intolerância religiosa ou</p><p>qualquer outra</p><p>132 Conhecimento religioso na escola</p><p>forma violência contra os direitos humanos. Acreditamos que o ensino religioso tem</p><p>papel fundamental na formação básica do cidadão e na promoção da cultura de paz</p><p>na sociedade.</p><p>O Ensino Religioso é obrigatório no currículo escolar? Se o Brasil é um país laico,</p><p>por que este é ofertado na escola? Questões como essas são frequentes nas discussões</p><p>sobre esse componente curricular, envolvendo não somente o debate pedagógico, mas</p><p>também o jurídico, o político, o religioso e o civil, alcançando a relação da escola com</p><p>a família e determinando as possibilidades do ensino da disciplina, bem como o</p><p>reconhecimento de sua identidade pedagógica e de sua contribuição na formação</p><p>básica do aluno. Nesse contexto, os professores também participam das discussões e</p><p>se posicionam com base em seus conhecimentos e suas compreensões a propósito das</p><p>políticas educacionais.</p><p>Esse debate repercute na formação inicial e continuada dos professores de</p><p>Ensino Religioso e explica, em certa medida, a carência nas propostas de formação</p><p>inicial específicas para a docência na disciplina. Isso impacta diretamente em suas</p><p>propostas curriculares, didáticas e avaliativas.</p><p>Diante dessas questões, analisaremos, agora, as leis que regulamentam o ensino</p><p>religioso na educação brasileira. Inicialmente, vamos descrever as principais</p><p>legislações que normatizaram a disciplina na história da educação brasileira, a fim de</p><p>destacar elementos que nos ajudem a compreender sua situação atual e sua identidade</p><p>no país.</p><p>No Quadro 4.1, a seguir, expomos os principais tópicos dos documentos legais</p><p>que orientaram o ensino religioso no Brasil, desde o Império até a Lei de Diretrizes e</p><p>Bases (LDB) para o ensino de Io e 2o graus – Lei n. 5.692, de 11 de agosto de 1971 (Brasil,</p><p>1971).</p><p>133 Conhecimento religioso na escola</p><p>134 Conhecimento religioso na escola</p><p>Por meio dos fragmentos de textos legais apresentados no Quadro 4.1, podemos</p><p>acompanhar, ainda que de forma geral, elementos que marcaram a trajetória do ensino</p><p>religioso no Brasil. Por exemplo, no período imperial, percebemos a relação entre</p><p>Império e Igreja, bem como a determinação oficial do ensino dos princípios da moral</p><p>cristã e da doutrina da Igreja Católica Apostólica Romana.</p><p>Já no início da República, verificamos as noções de dever social e de laicidade</p><p>do Estado, com a determinação de que as aulas de religião seriam de responsabilidade</p><p>dos ministros de cada confissão religiosa, devendo ser realizadas em seus templos, não</p><p>na escola. Essa decisão indica a influência do pensamento positivista no processo</p><p>educacional brasileiro, assim como dos ideais da escola pública e laica e para todos.</p><p>Contudo, ao longo dos outros documentos legais, notamos certa indefinição na</p><p>compreensão e na proposta do ensino religioso. Se, por um lado, aceitavam-se</p><p>novamente as aulas de religião de acordo com a confissão dos alunos ou dos interesses</p><p>de seus pais ou responsáveis, por outro, reproduzia-se, na escola, o modelo de</p><p>educação religiosa das igrejas, o que ficou expresso nas disposições da primeira Lei de</p><p>Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN), a Lei 4.024/1961.</p><p>135 Conhecimento religioso na escola</p><p>A partir da década de 1960, o reconhecimento do Ensino Religioso como</p><p>disciplina no período republicano caracterizou-se pela construção da própria</p><p>identidade da disciplina, discorrendo pelo reconhecimento da sua oferta obrigatória e</p><p>da matrícula facultativa por parte do estudante. As experiências didáticas foram</p><p>diferenciadas e marcadas pela orientação de diferentes organizações religiosas, no que</p><p>se refere aos objetivos, conteúdos e acompanhamento dos professores. Essas</p><p>experiências transitaram entre a confessionalidade e a interconfessionalidade, com</p><p>destaque para a perspectiva ecumênica, de iniciativa das tradições cristãs.</p><p>Embora na década de 1980 se iniciasse um processo de res- significação da</p><p>disciplina e fosse latente a preocupação com a formação dos professores (Oliveira et</p><p>al., 2007), esse debate sobre sua identidade pedagógica acompanhou a disciplina de</p><p>Ensino Religioso até a sua configuração atual.</p><p>A disposição do art. 210 da Constituição Federal de 1988 (Brasil, 1988), que</p><p>normatiza o Ensino Religioso no Brasil, reafirma-se no art. 332 da LDBEN- Lei n. 9.394,</p><p>de 20 de dezembro de 1996, que dispõe:</p><p>Art. 33. O ensino religioso, de matrícula facultativa, é parte integrante da</p><p>formação básica do cidadão e constitui disciplina dos horários normais das</p><p>escolas públicas de ensino fundamental, assegurado o respeito à diversidade</p><p>cultural religiosa do Brasil, vedadas quaisquer formas de proselitismo.</p><p>§ 1o Os sistemas de ensino regulamentarão os procedimentos para a definição</p><p>dos conteúdos do ensino religioso e estabelecerão as normas para a habilitação</p><p>e admissão dos professores.</p><p>§ 2o Os sistemas de ensino ouvirão entidade civil, constituída pelas diferentes</p><p>denominações religiosas, para a definição dos conteúdos do ensino religioso.</p><p>(Brasil, 1996)</p><p>_______________</p><p>2 Artigo alterado pela Lei n. 9.475, de 22 de julho de 1997 (Brasil, 1997).</p><p>136 Conhecimento religioso na escola</p><p>Note que o art. 33 aponta algumas orientações centrais para o Ensino Religioso:</p><p>A] Cursar a disciplina é facultativo e cabe ao responsável familiar</p><p>assinar o respectivo</p><p>termo no ato da matrícula.</p><p>B] O Ensino Religioso é parte integrante da formação básica do cidadão. Essa</p><p>afirmação suscita um questionamento relativo ao item (a): A facultatividade da</p><p>disciplina não é contraditória, visto que esta é considerada parte integrante da</p><p>“formação básica” do cidadão?</p><p>C] A oferta da disciplina precisa ocorrer nos horários normais das escolas públicas de</p><p>ensino fundamental. Nesse sentido, os municípios são responsáveis pelos anos</p><p>iniciais e os estados, pelos anos finais.</p><p>D] A proposta pedagógica de Ensino Religioso precisa resguardar o respeito à</p><p>diversidade cultural e religiosa do Brasil, evitando qualquer forma de proselitismo.</p><p>Essa disposição precisa ser assegurada mesmo no caso da gestão do município</p><p>e/ou estado, ou no contexto das escolas particulares. A abordagem deve ser</p><p>confessional e/ou interconfessional e/ou inter-religiosa.</p><p>E] As secretarias de educação municipais e estaduais são responsáveis pela definição</p><p>dos conteúdos da disciplina, assim como pela contratação e pela formação dos</p><p>professores.</p><p>Sobre o estatuto da disciplina na educação básica, cabe destacar o disposto pelas</p><p>Resoluções n. 4, de 13 de julho de 2010 (Brasil, 2010a), e n. 7, de 14 de dezembro de</p><p>2010 (Brasil, 2010b), da Câmara de Educação Básica (CEB) e do Conselho Nacional de</p><p>Educação (CNE), que reconheceram o Ensino Religioso como uma das cinco áreas do</p><p>ensino fundamental de nove anos. No Quadro 4.2, apresentamos os textos específicos</p><p>dessas resoluções em relação ao Ensino Religioso.</p><p>137 Conhecimento religioso na escola</p><p>Todas essas disposições legais que normatizam o Ensino Religioso no Brasil</p><p>foram referenciadas no documento da Base Nacional Comum Curricular (BNCC)</p><p>(Brasil, 2018), em que essa disciplina é definida como área e componente curricular da</p><p>formação básica do aluno no ensino fundamental.</p><p>4.3 Ensino Religioso e diversidade</p><p>cultural e religiosa</p><p>O direito humano à liberdade religiosa é afirmado na Constituição Federal brasileira</p><p>de 1988. No Título II “Dos direitos e garantias fundamentais”, Capítulo I, “Dos direitos</p><p>e deveres inidividuais e coletivos”, consta:</p><p>Art. 5°Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza,</p><p>garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes</p><p>138 Conhecimento religioso na escola</p><p>no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança</p><p>e à propriedade, nos termos seguintes:</p><p>[...]</p><p>VI – é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o</p><p>livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos</p><p>locais de culto e a suas liturgias; [...]. (Brasil, 1988)</p><p>Já no Título VIII “Da ordem social”, Capítulo III, “Da educação, da cultura e do</p><p>desporto”, Seção I, “Da Educação”, art. 210, que trata dos conteúdos mínimos para o</p><p>ensino fundamental, lê-se:</p><p>Art. 210. Serão fixados conteúdos mínimos para o ensino fundamental, de</p><p>maneira a assegurar formação básica comum e respeito aos valores culturais e</p><p>artísticos, nacionais e regionais.</p><p>§ 1o O ensino religioso, de matrícula facultativa, constituirá disciplina dos</p><p>horários normais das escolas públicas de ensino fundamental. (Brasil, 1988)</p><p>Ademais, convém registrar as disposições legais presentes no Estatuto da</p><p>Criança e do Adolescente (ECA) – Lei n. 8.069, de 13 de julho de 1990:</p><p>Art. 3o A criança e o adolescente gozam de todos os direitos fundamentais</p><p>inerentes à pessoa humana, sem prejuízo da proteção integral de que trata esta</p><p>Lei, assegurando-se-lhes, por lei ou por outros meios, todas as oportunidades</p><p>e facilidades, a fim de lhes facultar o desenvolvimento físico, mental, moral,</p><p>espiritual e social, em condições de liberdade e de dignidade.</p><p>Parágrafo único. Os direitos enunciados nesta Lei aplicam-se a todas as crianças</p><p>e adolescentes, sem discriminação de nascimento, situação familiar, idade,</p><p>sexo, raça, etnia ou cor, religião ou crença, deficiência, condição pessoal de</p><p>desenvolvimento e</p><p>139 Conhecimento religioso na escola</p><p>aprendizagem, condição econômica, ambiente social, região e local de moradia</p><p>ou outra condição que diferencie as pessoas, as famílias ou a comunidade em</p><p>que vivem. (Brasil, 1990, grifo nosso)</p><p>Analisando o art. 3 do ECA, percebemos a indicação de facultar à criança e ao</p><p>adolescente o desenvolvimento espiritual. Trata-se de um aspecto essencial para o</p><p>processo pedagógico, especificamente nas situações de aprendizagem que são</p><p>propostas na escola. Nos Capítulos 1 e 2, apresentamos as bases do conhecimento re-</p><p>ligioso e da sua relação com o processo de formação integral do ser humano. Sendo</p><p>assim, o ensino religioso, conforme socializa esse conhecimento cultural, contribui na</p><p>formação e no desenvolvimento do aluno.</p><p>Por fim, ressaltamos que, no art. 16, inciso III, do ECA, especifica-se que o</p><p>direito à liberdade compreende, entre outros aspectos, “crença e culto religioso”</p><p>(Brasil, 1990). Essa disposição também incide diretamente na compreensão da</p><p>disciplina de Ensino Religioso e nas suas propostas didáticas na escola.</p><p>Nesta seção, até aqui, retomamos as disposições legais do ensino religioso que</p><p>visam assegurar o respeito à diversidade cultural e religiosa do Brasil (Brasil,</p><p>1988,1996,2010b). Na sequência, vamos comentar, em termos gerais, a possibilidade de</p><p>o currículo do Ensino Religioso orientar-se na perspectiva da interculturalidade.</p><p>No art. 26-A3 da LDBEN, afirma-se:</p><p>Art. 26-A. Nos estabelecimentos de ensino fundamental e de ensino médio,</p><p>públicos e privados, torna-se obrigatório o estudo da história e cultura afro-</p><p>brasileira e indígena.</p><p>[...]</p><p>§ 2o Os conteúdos referentes à história e cultura afro-brasileira e dos povos</p><p>indígenas brasileiros serão ministrados no âmbito</p><p>_______________</p><p>3 Redação estabelecida pela Lei n° 11.645, de 11 de março de 2008 (Brasil, 2008).</p><p>140 Conhecimento religioso na escola</p><p>de todo o currículo escolar, em especial nas áreas de educação artística e de</p><p>literatura e história brasileiras. (Brasil, 2008)</p><p>Ainda que, nesse caso, não haja referência direta ao Ensino Religioso, quando</p><p>se indica que tais conteúdos “serão ministrados no âmbito de todo o currículo escolar”</p><p>(Brasil, 2008), pressupõe-se que também, nessa disciplina, se torna obrigatório o estudo</p><p>das histórias e das culturas afro-brasileira e indígena. Isso fica evidente quando a</p><p>BNCC, considerando os marcos normativos, afirma que o Ensino Religioso deve</p><p>atender aos seguintes objetivos:</p><p>a) Proporcionar a aprendizagem de conhecimentos religiosos, culturais e</p><p>estéticos, a partir das manifestações religiosas percebidas na realidade dos</p><p>educandos;</p><p>b) Propiciar conhecimentos sobre o direito à liberdade de consciência e de crença,</p><p>no constante propósito de promoção dos direitos humanos;</p><p>c) Desenvolver competências e habilidades que contribuam para o diálogo entre</p><p>perspectivas religiosas e seculares de vida, exercitando o respeito à liberdade</p><p>de concepções e o pluralismo de ideias, de acordo com a Constituição Federal;</p><p>d) Contribuir para que os educandos construam seus sentidos pessoais de vida a</p><p>partir de valores, princípios éticos e da cidadania. (Brasil, 2018, p. 436)</p><p>Ao normatizar esses objetivos, a BNCC destaca que o conhecimento religioso</p><p>nào pode privilegiar nenhuma crença ou convicção, devendo ser abordado “com base</p><p>nas diversas culturas e tradições religiosas, sem desconsiderar a existência de filosofias</p><p>seculares devida” (Brasil, 2018, p. 436).</p><p>No Capítulo 5, aprofundaremos a proposta didática do Ensino Religioso e</p><p>demonstraremos de que forma a alteridade e sua ética constituem fundamentos</p><p>teóricos e pedagógicos. Agora, porém,</p><p>141 Conhecimento religioso na escola</p><p>com base no exposto nas seções anteriores e considerando que essa disciplina precisa</p><p>assegurar o respeito à diversidade</p><p>cultural e religiosa, vamos nos deter sobre o desafio</p><p>do conhecimento religioso ante a intolerância religiosa.</p><p>Em 2007, por meio da Lei n. 11.635, de 27 de dezembro de 2007 (Brasil, 2007),</p><p>foi instituído o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, a ser celebrado em</p><p>21 de janeiro. Essa data recorda o dia do falecimento, no ano de 2000, de Ivalorixá Mãe</p><p>Gilda, do terreiro Axé Abassá de Ogum, no estado da Bahia, que foi vítima de atos de</p><p>violência por ser praticante de uma religião de matriz africana.</p><p>Além disso, cabe mencionar a instituição do Programa de Combate à</p><p>Intimidação Sistemática (bullying) por meio da Lei n. 13.185, de 6 de novembro de 2015</p><p>(Brasil, 2015). A lei reprova atos de intimidação, humilhação ou discriminação e</p><p>orienta que as escolas assegurem medidas de conscientização, prevenção, diagnóstico</p><p>e combate a esse tipo de violência, com o objetivo de promover a cidadania e o respeito</p><p>nos marcos de uma cultura de paz e tolerância mútua.</p><p>Princípios muito semelhantes estão explícitos nas competências específicas</p><p>propostas na BNCC para o Ensino Religioso no ensino fundamental, entre as quais, a</p><p>quarta e a sexta apontam diretamente para o desafio de superação da intolerência</p><p>religiosa:</p><p>4. Conviver com a diversidade de crenças, pensamentos, convicções, modos de</p><p>ser e viver.</p><p>[...]</p><p>6. Debater, problematizar e posicionar-se frente aos discursos e práticas de</p><p>intolerância, discriminação e violência de cunho religioso, de modo a assegurar</p><p>os direitos humanos no constante exercício da cidadania e da cultura de paz.</p><p>(Brasil, 2018, p. 437)</p><p>142 Conhecimento religioso na escola</p><p>Nesse sentido, a BNCC aponta que as aulas de Ensino Religioso precisam ser</p><p>um espaço de aprendizagens, trocas de experiência, intercâmbios e práticas de diálogo,</p><p>objetivando “o acolhimento das identidades culturais, religiosas ou não, na</p><p>perspectiva da interculturalidade, direitos humanos e cultura de paz” (Brasil, 2018, p.</p><p>437).</p><p>O Brasil é um país laico, porque não tem uma religião oficial e reconhece sua</p><p>diversidade cultural e religiosa. Esse princípio orienta a concepção do Ensino</p><p>Religioso, no dever de assegurar uma proposta curricular que contemple</p><p>interculturalidade, bem como seus processos didáticos e a formação de seus</p><p>professores. Como verificamos, essa perspectiva é explicitada tanto em documentos</p><p>normativos do Ministério da Educação quanto em leis, portanto, deve ser</p><p>compreendida pelos professores como um pressuposto didático e avaliativo das</p><p>experiências de aprendizagem escolar.</p><p>4.4 Ética, direitos humanos e ensino</p><p>religioso</p><p>Uma vez que os desafios enfrentados pela sociedade contemporânea exigem de cada</p><p>um de nós conhecimentos significativos a respeito da ética e dos direitos humanos,</p><p>relacionaremos, nesta seção, esses tópicos com o conhecimento religioso, por meio da</p><p>lógica de seu ensino.</p><p>É notório o quanto a ética passou a ser reivindicada em toda a parte na</p><p>contemporaneidade, por exemplo, sob a forma de expressões que ouvimos com</p><p>frequência, como: atitude antiética, ação ética, falta de ética, pessoa sem ética, ética na política,</p><p>ética nos negócios, ética profissional, ética empresarial, código de ética, bioética, ética para o</p><p>terceiro milênio, ética cristã, ética protestante etc. Portanto, ao pensarmos no mundo</p><p>religioso, não podemos deixar de tratar desse tema tão pertinente. No entanto, antes</p><p>de prosseguirmos, é importante</p><p>143 Conhecimento religioso na escola</p><p>interrogarmo-nos: Ética e moral são a mesma coisa? O que dizer sobre o moralismo?</p><p>Muitas vezes, notamos que pessoas confundem ética, moral e moralismo. Desse modo,</p><p>consideramos necessário conceituar de maneira mais clara esses termos.</p><p>O termo ética provém do grego ethos, cujo significado denota</p><p>“costume/caráter”. Filosoficamente, por ética entende-se a reflexão sobre a conduta</p><p>moral da natureza humana. Assim, é possível afirmar que a ética está vinculada à</p><p>teoria (reflexão/discurso / argumentos). Como afirma Leonardo Boff (2004, p. 37), “a</p><p>ética é parte da filosofia. Considera concepções de fundo acerca da vida, do universo,</p><p>do ser humano e de seu destino, estatui princípios e valores que orientam pessoas e</p><p>sociedades. Uma pessoa é ética quando se orienta por princípios e convicções”.</p><p>Nessa direção, o filósofo Adolfo Sánchez Vázquez (2012, p. 22) permite-nos</p><p>ampliar a reflexão feita por Boff (2004), ao atestar que</p><p>A ética depara com uma experiência histórico-social no terreno da moral, ou</p><p>seja, com uma série de práticas morais já em vigor e, partindo delas, procura</p><p>determinar a essência da moral, sua origem, as condições objetivas e subjetivas</p><p>do ato moral, as fontes da avaliação moral, a natureza e a função dos juízos</p><p>morais, os critérios de justificação destes juízos e o princípio que rege a</p><p>mudança e a sucessão de diferentes sistemas morais.</p><p>Essa perspectiva teórica indica que cabe à ética refletir sobre os princípios e os</p><p>valores que permeiam o comportamento humano e, no contexto desta obra, que</p><p>norteiam a conduta e as práticas religiosas.</p><p>Embora também esteja ligada ao comportamento humano, a moral tem outra</p><p>perspectiva, orientando-se para a prática. O termo moral é de origem latina, remetendo</p><p>a mos (costume) e mores (hábito). Trata-se da prática da conduta humana, das normas</p><p>de comportamento (isso pode, mas aquilo não, faça isso e não</p><p>144 Conhecimento religioso na escola</p><p>faça aquilo, há o certo e o errado etc.). A esse respeito, Boff (2004, p. 37) afirma: “A</p><p>moral é parte da vida concreta. Trata da prática real das pessoas que se expressam por</p><p>costumes, hábitos e valores culturalmente estabelecidos. Uma pessoa é moral quando</p><p>age em conformidade com os costumes e valores consagrados. Estes podem,</p><p>eventualmente, ser questionados pela ética”.</p><p>Buscando ampliar esse processo de distinção, Yves de La Taille (2006) aborda a</p><p>existência de dois planos diferentes: o plano moral e o plano ético. No primeiro, a</p><p>pergunta basilar é “como devo agir?”, enquanto no segundo o questionamento central</p><p>é “que vida eu quero viver?”</p><p>Atrelada à questão da ética e da moral, há a problemática do moralismo,</p><p>compreendido como toda forma de obrigatoriedade advinda de alguma imposição.</p><p>São diversos os exemplos de ações moralistas: o voto obrigatório em um regime</p><p>político que pretende ser democrático; a noção de que a salvação depende do pertenci-</p><p>mento a uma religião específica; as políticas de escolas em que só progride quem torce</p><p>para o time do chefe ou é amigo da direção; a concepção de que quem bebe não é boa</p><p>pessoa etc.</p><p>Elaboramos o Quadro 4.3 para sintetizar as principais características desses três</p><p>conceitos.</p><p>No tocante aos direitos humanos, em conformidade com a Declaração Universal</p><p>dos Direitos Humanos (DU|QH), proposta em 1948 pela Assembleia Geral das Nações</p><p>Unidas (ONU, 1948), podemos afirmar que estes correspondem a um ideal a ser alcan-</p><p>çado pela humanidade de maneira geral. De alguma forma, toda</p><p>145 Conhecimento religioso na escola</p><p>sociedade deve empenhar-se para que tais direitos sejam garantidos, como dispõe o</p><p>preâmbulo do referido documento:</p><p>Considerando ser essencial que os direitos humanos sejam protegidos pelo</p><p>império da lei, para que o ser humano não seja compelido, como último</p><p>recurso, à rebelião contra a tirania e a opressão,</p><p>[...]</p><p>a Assembleia Geral [das Nações Unidas, em 10 de dezembro de 1948,] proclama</p><p>a presente Declaração Universal dos Diretos Humanos como o ideal comum a</p><p>ser atingido por todos os povos e todas as nações, com o objetivo de que cada</p><p>indivíduo e cada órgão da sociedade, tendo sempre em mente esta Declaração,</p><p>esforce-se, através do ensino e da educação, por promover o respeito a esses</p><p>direitos e liberdades. (ONU, 1948)</p><p>Outra importante contribuição acerca dos direitos humanos, encontra-se na</p><p>obra de Dalmo de Abreu Dallari (2004),</p><p>que os menciona na condição de direitos</p><p>fundamentais e/ou necessidades essenciais da pessoa humana.</p><p>IMPORTANTE!</p><p>Portanto, quando falamos de direitos humanos, tratamos de uma série de direitos a</p><p>diversos elementos fundamentais e/ou essenciais para o ser humano, como o direito</p><p>à vida, a ser pessoa, à liberdade, à moradia, à saúde, à educação, à igualdade de</p><p>direitos e oportunidades (ONU, 1948).</p><p>Quanto à questão religiosa, a DUDH, em seu art. 18, afirma:</p><p>Artigo 18. Todo ser humano tem direito è liberdade de pensamento,</p><p>consciência e religião; esse direito inclui a liberdade de mudar de religião ou</p><p>crença e a liberdade de manifestar essa religião ou crença pelo ensino, pela</p><p>prática, pelo culto em público ou em particular. (ONU, 1948, grifo nosso)</p><p>146 Conhecimento religioso na escola</p><p>Ter uma religião, mudar de religião, manifestar sua religião e, inclusive, ensinar</p><p>religião configuram direitos proclamados pelo documento oficial da Organização da</p><p>Nações Unidas (ONU).</p><p>Do ponto de vista da ética e dos direitos humanos, compreendemos que o</p><p>ensino religioso é um direito de todos, devendo os órgãos responsáveis garanti-lo aos</p><p>cidadãos de cada nação. Do contrário, violar esse direito configuraria uma afronta à</p><p>ética como princípio e um ataque à dignidade humana. De modo mais específico, o</p><p>Brasil, por meio do Ministério da Educação (MEC), busca trabalhar essa questão com</p><p>responsabilidade. Inclusive, o documento da BNCC propõe:</p><p>No Ensino Fundamental, o Ensino Religioso adota a pesquisa e o diálogo como</p><p>princípios mediadores e articuladores dos processos de observação,</p><p>identificação, análise, apropriação e ressignificação de saberes [...].</p><p>[...]</p><p>[...] busca problematizar representações sociais preconceituosas sobre o</p><p>outro, com o intuito de combater a intolerância, a discriminação e a exclusão.</p><p>Por isso, a interculturalidade e a ética da alteridade constituem fundamentos</p><p>teóricos e pedagógicos do Ensino Religioso, porque favorecem o</p><p>reconhecimento e respeito às histórias, memórias, crenças, convicções e</p><p>valores de diferentes culturas, tradições religiosas e filosofias de vida. (Brasil</p><p>2018, p. 436-438, grifo nosso)</p><p>Com base nesses pressupostos éticos e pedagógicos, no Capítulo 5,</p><p>apresentaremos propostas didáticas para o Ensino Religioso, destacando seu objeto de</p><p>estudo, seus objetivos e suas propostas metodológicas.</p><p>147 Conhecimento religioso na escola</p><p>148 Conhecimento religioso na escola</p><p>Atividades de autoavaliação</p><p>1. Leia, a seguir, a citação de Oliveira et al. (2007, p. 70), que trata da relação entre</p><p>cultura e religião. Em seguida, assinale a alternativa que apresenta as palavras</p><p>faltantes, na ordem e na concordância do texto.</p><p>A ______ manifestou-se e manifesta-se em um universo ______, ora</p><p>influenciando a ______, ora sendo influenciada por ela. É impossível, pois,</p><p>querer entender a ______ sem remeter-se à ______ em que ela está inserida. O</p><p>homem ______ pode olhar o mundo pelas lentes dadas por sua cultura e</p><p>tradição religiosa, e seu comportamento, nesse caso, será orientado por essa</p><p>visão de mundo.</p><p>A] cultura – religioso – religião – cultura – religião – cultural.</p><p>B] religião – cultural – cultura – religião – cultura – religioso.</p><p>C] cultura – religioso – religião – cultura – religião – religioso.</p><p>D] religião – sagrado – cultura – religião – cultura – religioso.</p><p>E] religião – religioso – cultura – cultura – religião – cultural.</p><p>2. Analise as afirmações a seguir a propósito do Ensino Religioso, com base no art. 33</p><p>da LDBEN n. 9.394/1996.</p><p>I. A matrícula na disciplina é obrigatória.</p><p>II. Trata-se de uma disciplina dos horários normais das escolas públicas de</p><p>ensino fundamental.</p><p>III. Deve assegurar o respeito à diversidade cultural e religiosa do Brasil,</p><p>vedadas quaisquer formas de proselitismo.</p><p>IV. Os sistemas de ensino são responsáveis por regulamentar os procedimentos</p><p>para a definição dos conteúdos do ensino religioso e estabelecer as normas para</p><p>a habilitação e a admissão dos professores.</p><p>V. Os sistemas de ensino devem ouvir entidade civil, constituída pelas</p><p>diferentes denominações religiosas, para a definição dos conteúdos do ensino</p><p>religioso.</p><p>149 Conhecimento religioso na escola</p><p>Agora, assinale a alternativa correta:</p><p>A] As afirmações I e III são corretas.</p><p>B] As afirmações II, IV e V são corretas.</p><p>C] As afirmações I, III e IV são corretas.</p><p>D] As afirmações II, III e IV são corretas.</p><p>E] As afirmações II, III, IV e V são corretas.</p><p>3. Analise as afirmações a seguir sobre o direito à liberdade religiosa e assinale V para</p><p>as verdadeiras e F para as falsas.</p><p>[ ] De acordo com a Constituição Federal de 1988, é inviolável a liberdade de</p><p>consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos</p><p>e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias (art.</p><p>5, VI, CF, Brasil, 1988).</p><p>[ ] Entre os objetivos específicos para o Ensino Religioso no ensino fundamental</p><p>dispostos pela BNCC, está o de “propiciar conhecimentos sobre o direito à</p><p>liberdade de consciência e de crença, no constante propósito de promoção dos</p><p>direitos humanos” (Brasil, 2018, p. 436).</p><p>[ ] Uma das competências específicas propostas na BNCC para o Ensino Religioso</p><p>é a de “Conviver com a diversidade de crenças, pensamentos, convicções,</p><p>modos de ser e viver” (Brasil, 2018, p. 437).</p><p>[ ] A DUDH afirma que todo ser humano tem direito à liberdade de religião e à</p><p>liberdade de manifestá-la pelo ensino, pela prática, pelo culto em público ou em</p><p>particular (ONU, 1948).</p><p>Agora, assinale a alternativa que apresenta a sequência correta:</p><p>A] V, V, F, V.</p><p>B] F, V, V, V.</p><p>C] F, F, F, F.</p><p>D] V, V, V, V.</p><p>E] F, V, V, F.</p><p>150 Conhecimento religioso na escola</p><p>4. Analise as afirmações a seguir a propósito da forma como o ser humano é</p><p>concebido no âmbito do conhecimento religioso.</p><p>I. Um ser social e relacional.</p><p>II. Um ser de contatos, capaz de transcender.</p><p>III. Um ser que busca respostas às suas indagações existenciais.</p><p>IV. Um ser que expressou e expressa atitudes religiosas em todos os tempos e</p><p>lugares nos quais habitou.</p><p>V. Um ser finito, inconcluso e que busca fora de si o desconhecido, o mistério.</p><p>Agora, assinale a alternativa correta:</p><p>A] As afirmações I, II e III são corretas.</p><p>B] As afirmações II, IV e V são corretas.</p><p>C] As afirmações I, III e IV são corretas.</p><p>D] As afirmações II, III, IV e V são corretas.</p><p>E] Todas as afirmações são corretas.</p><p>5. Em relação à experiência religiosa, analise as afirmações a seguir.</p><p>I. Ela fornece ao ser humano explicações sobre a origem, a vida, a morte e a</p><p>existência.</p><p>II. Ela adquire maior significado nas tradições religiosas monoteístas.</p><p>III. Ela traz ao ser humano proteção e oferece-lhe esperança de vida após a</p><p>morte.</p><p>IV. Ela garante ao ser humano maiores possibilidades de salvação em relação</p><p>aos outros que não aderiram a uma das religiões tradicionais.</p><p>V. Ela cumpre um papel crucial nas relações sociais, propondo princípios</p><p>para orientar a ação moral e cultivar a prática das virtudes.</p><p>151 Conhecimento religioso na escola</p><p>Agora, assinale a alternativa correta:</p><p>A] As afirmações I, II e III são corretas.</p><p>B] As afirmações II, IV e V são corretas.</p><p>C] As afirmações I, III e V são corretas.</p><p>D] As afirmações II, III, IV e V são corretas.</p><p>E] Todas as afirmações são corretas.</p><p>ATIVIDADES DE APRENDIZAGEM</p><p>Questões para reflexão</p><p>1. Pesquise sobre o estado atual do debate a respeito do componente curricular Ensino</p><p>Religioso no ensino público, analise a legislação vigente e reflita, também, sobre a</p><p>perspectiva confessional nas escolas particulares. Em seguida, sintetize suas</p><p>informações e reflexões em um texto de cunho argumentativo, posicionando-se</p><p>sobre essas questões.</p><p>2. Leia o item</p><p>4.5 da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), dedicado ao Ensino</p><p>Religioso, e organize um mapa conceituai com os principais conceitos e categorias</p><p>teóricas apresentadospelo documento.</p><p>BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Básica. Base Nacional</p><p>Comum Curricular: Educação é a base. 2018. Disponível em:</p><p><http://basenacionalcomum.mec.gov.br/images/BNCC_EI_EF_110518_</p><p>versaofinal_site.pdf>. Acesso em: 9 dez. 2020.</p><p>3. Analise as propostas relativas ao Ensino Religioso nos documentos curriculares de</p><p>seu estado e de seu município. Sintetize as informações e relacione-as em um mapa</p><p>conceitual, como na questão anterior.</p><p>152 Conhecimento religioso na escola</p><p>4. Pesquise o cordel “Intolerância”, de Bráulio Bessa, e a canção “Intolerância”, de</p><p>Marcelo Bonfá. Analise ambas as produções artísticas e, com base nelas, escreva</p><p>uma proposta didática para abordar o tema da intolerância religiosa com alunos</p><p>do ensino fundamental ou do ensino ifeédio.</p><p>Atividade aplicada: prática</p><p>1. Acesse o Caderno Pedagógico Ensino religioso: diversidade cultural e religiosa,</p><p>elaborado pela Secretaria de Estado da Educação do Paraná (2013). Escolha um dos</p><p>capítulos e realize a leitura, registrando anotações que considerar relevantes.</p><p>PARANÁ. Secretaria de Estado de Educação. Superintendência da Edu¬cação. Ensino religioso:</p><p>diversidade cultural e religiosa. Curitiba: Seed-PR, 2013. Disponível em:</p><p><http://www.ensinoreligioso.seed.pr.gov.br/arquivos/File/livro_er_19_3_2015.pdf>. Acesso</p><p>em: 6 jan. 2021.</p><p>Depois, elabore um plano de aula com foco nos anos finais do ensino fundamental (6o</p><p>ao 9o ano). A seguir apresentamos um modelo que pode ser utilizado como referência:</p><p>A</p><p>153 Conhecimento religioso na escola</p><p>5.</p><p>PROPOSTA DIDÁTICA</p><p>DO ENSINO RELIGIOSO</p><p>NO BRASIL</p><p>“A regra de ouro consiste em sermos amigos do mundo e em considerarmos toda família</p><p>humana como uma só família. Quem faz distinção entre os fiéis da própria religião e os</p><p>de outra, deseduca os membros da sua religião e abre caminho para o abandono, a ir</p><p>religião”. (Mahatma Gandhi, citado por Biaca, 2006, p. 39)</p><p>Neste capítulo, apresentaremos, de forma geral, a proposta didática do Ensino</p><p>Religioso no Brasil, “considerando o contexto histórico-cultural da disciplina no país e</p><p>os desafios na escolariza- ção que perpassam experiências de confessionalidade,</p><p>interconfessionalidade e interculturalidade” (Contreras, 2017, p. 15158-15159). Cabe</p><p>destacar que, mesmo sendo incluso na Base Nacional Comum Curricular – BNCC</p><p>(Brasil, 2018), o Ensino Religioso, tanto como área quanto como componente</p><p>curricular, pode ser considerado um ensaio curricular quando comparado às</p><p>realidades escolares da disciplina.</p><p>A história do ensino religioso no Brasil é centenária – como verificamos no</p><p>Capítulo 4, especialmente no Quadro 4.1 –, de modo que, neste capítulo, optamos por</p><p>apresentá-lo com base no marco</p><p>155 Proposta didática do Ensino Religioso no Brasil</p><p>legal vigente, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN) – Lei n. 9.394,</p><p>de 20 de dezembro de 1996 (Brasil, 1996). A elaboração dessa normativa foi</p><p>influenciada por movimentos da sociedade civil determinantes para o posicionamento</p><p>da disciplina nas discussões dos sistemas de ensino e no trabalho docente dos</p><p>professores. Conforme relatamos em um estudo anterior:</p><p>É importante destacar que essa redação atual foi dada pela Lei n° 9.475, de 22</p><p>de julho de 1997. A alteração foi motivada por professores e estudiosos,</p><p>representantes das diversas tradições religiosas e dos sistemas de ensino que</p><p>participaram, desde 1995, do Fórum Nacional Permanente do Ensino Religioso</p><p>(Fonaper). Tal mobilização da sociedade brasileira contribuiu na elaboração</p><p>coletiva dos Parâmetros Curriculares Nacionais de Ensino Religioso (PCNER),</p><p>em 1997. Isso motivou ao Conselho Nacional de Educação (CNE) a contemplar</p><p>a disciplina de Ensino Religioso como uma área de conhecimento para o Ensino</p><p>Fundamental (Resolução CBE/CNE n° 2 de 1998), determinação esta que</p><p>confirmasse na Resolução n° 4 de 2010, a qual define o Ensino Religioso como</p><p>parte da formação básica comum na Educação Básica do país. (Contreras, 2017,</p><p>p. 15159-15160)</p><p>Na análise desse movimento, é importante destacar dois aspectos basilares para</p><p>a disciplina de Ensino Religioso: (1) sua formulação como parte integrante da formação</p><p>do cidadão; e (2) seu compromisso de assegurar o respeito à diversidade cultural e</p><p>religiosa brasileira (Oliveira et al., 2007). Contudo, os desafios e as perspectivas da área</p><p>no Brasil ainda não são consensuais, demandando, pois, esforços contínuos para</p><p>afirmar seu estatuto, por meio “da definição mais consistente de seus conteúdos</p><p>escolares, de referências didático-pedagógicas e científicas, bem como da formação dos</p><p>professores” (Contreras, 2017, p. 15160).</p><p>156 Proposta didática do Ensino Religioso no Brasil</p><p>5.1 Objetos de estudo e objetivos</p><p>do Ensino Religioso</p><p>O conhecimento religioso está inscrito na cultura e marca o comportamento do ser</p><p>humano em sociedade, constituindo um bem cultural que precisa estar à disposição</p><p>na escola, por meio, prioritariamente, do Ensino Religioso. Nesse ponto, é importante</p><p>reforçar que</p><p>A raiz do fenômeno religioso está na produção do ser humano em dar respostas</p><p>às suas perguntas existências [sic] na experiência do seu cotidiano. [...] Sendo</p><p>assim, “contribui na busca de respostas aos questionamentos existenciais dos</p><p>estudantes, no entendimento da identidade religiosa, na convivência com as</p><p>diferenças e na alteridade, numa perspectiva de compromisso histórico diante</p><p>da vida e da transcendência” (Oliveira et al, 2007, p. 103). Em síntese, a</p><p>disciplina de Ensino Religioso contribui na abertura ao transcendente como</p><p>fonte de humanização. (Contreras, 2017, p. 15161)</p><p>O Ensino Religioso deve garantir essa oportunidade educativa de entendimento</p><p>do fenômeno religioso “à luz da relação entre</p><p>culturas e tradições religiosas” (Oliveira et al., 2007, p. 105). Para os estudantes, a</p><p>participação na disciplina precisa corresponder a uma experiência coletiva de</p><p>ampliação da capacidade de leitura e interpretação do conhecimento religioso, tal que</p><p>se promova sua abertura ao mistério e à alteridade. Como pontuou Volney</p><p>Berkenbrock (1996, p. 327): “É importante que o diálogo inter-religioso seja</p><p>impulsionado pelo desejo de um melhor entendimento humano [...] que contribua</p><p>para uma melhor convivialidade[sic] humana”.</p><p>Em semelhante perspectiva, a BNCC (Brasil, 2018) assinala que os objetivos do</p><p>Ensino Religioso1 devem ser alcançados por meio da experiência escolar do</p><p>conhecimento religioso, no âmbito das</p><p>_______________</p><p>1 Para maiores destelhes sobre tais objetivos verifique o Capítulo 4, mais especificamente a Seção 4.3, desta</p><p>obra.</p><p>157 Proposta didática do Ensino Religioso no Brasil</p><p>ciências humanas e sociais, notadamente, da(s) ciência(s) da(s) religião(ões), conforme</p><p>esquematizado na Figura 5.1.</p><p>Dessa forma, a BNCC organiza o conhecimento religioso para a experiência</p><p>escolar em três unidades temáticas, detalhadas no Quadro 5.1.</p><p>158 Proposta didática do Ensino Religioso no Brasil</p><p>Com base nessas unidades temáticas, a BNCC propõe uma série de objetos de</p><p>conhecimento para serem abordados no ensino fundamental. O Quadro 5.2 detalha as</p><p>questões previstas para cada uma das unidades temáticas.</p><p>No Capítulo 4, Seção 4.3, apresentamos duas das seis competências que devem</p><p>ser desenvolvidas pelos alunos no Ensino Religioso, segundo a BNCC. Agora que</p><p>estamos investigando mais a fundo as proposições didáticas relativas a esse</p><p>componente curricular, vamos verificar a lista em sua totalidade:</p><p>159 Proposta didática do Ensino Religioso no Brasil</p><p>1] Conhecer os aspectos estruturantes das diferentes tradições/ movimentos</p><p>religiosos e filosofias de vida, a partir de pressupostos científicos, filosóficos,</p><p>estéticos e éticos.</p><p>2] Compreender, valorizar e respeitar as manifestações religiosas e filosofias</p><p>de vida, suas experiências e saberes, em diferentes tempos, espaços e</p><p>territórios.</p><p>3] Reconhecer e cuidar de si, do outro, da coletividade e da natureza, enquanto</p><p>expressão de valor da vida.</p><p>4] Conviver com a diversidade de crenças, pensamentos, convicções, modos de</p><p>ser e viver.</p><p>5] Analisar as relações entre as tradições religiosas e os campos da cultura, da</p><p>política, da economia, da saúde, da ciência, da tecnologia e do meio</p><p>ambiente.</p><p>6] Debater, problematizar e posicionar-se frente aos discursos e práticas de</p><p>intolerância, discriminação e violência de cunho religioso, de modo a</p><p>assegurar os direitos humanos no constante exercício da cidadania e da</p><p>cultura de paz. (Brasil, 2018, p. 437)</p><p>É importante destacar que essa organização dos objetos de conhecimento</p><p>relacionados às respectivas habilidades e distribuídos nos anos escolares do ensino</p><p>fundamental constitui um agrupamento possível, mas não obrigatório, para os</p><p>currículos escolares (Brasil, 2018). O aspecto referencial que a BNCC determina para o</p><p>componente curricular está na definição de seus objetivos e suas competências</p><p>específicas para o ensino fundamental. Com base nessa orientação, as escolas podem</p><p>elaborar seus currículos, considerando as características locais da comunidade</p><p>educativa.</p><p>5.2 Proposta metodológica do</p><p>Ensino Religioso</p><p>A proposta metodológica para o Ensino Religioso, considerando suas competências</p><p>específicas, orienta-se para oportunizar experiências de intercâmbio e diálogo entre os</p><p>estudantes, de modo que</p><p>160 Proposta didática do Ensino Religioso no Brasil</p><p>acolham a diversidade cultural e religiosa, demnstrando atitudes de respeito e</p><p>reconhecimento pautadas nos direitos humanos e na cultura de paz (Figura 5.2).</p><p>Para tanto, a mediação do professor é fundamental, considerando sua própria</p><p>experiência – pessoal e didática – com conhecimento religioso. A aula corresponde a</p><p>um espaço inter-religioso, aberto à troca, ao diálogo e à convivência entre os</p><p>estudantes, em que se busca levá-los “à compreensão, comparação e análise das</p><p>diferentes manifestações do Sagrado, com vistas à interpretação dos seus múltiplos</p><p>significados” (Paraná, 2008, p. 47). Esse repertório apoiará o estudante na compreensão</p><p>do campo religioso e das suas influências na sociedade, tanto em situações de</p><p>afirmação quanto de negação do sagrado.</p><p>Nesse sentido, com base nos estudos de Biaca et al. (2006), Schlögl (2010) e de</p><p>Oliveira et al. (2007), listamos, a seguir, algumas orientações didáticas e metodológicas</p><p>para o processo de mediação docente.</p><p>161 Proposta didática do Ensino Religioso no Brasil</p><p>Orientações didáticas e metodológicas para o professor de Ensino</p><p>Religioso</p><p>▪ O professor [... precisa] compreender que os conteúdos precisam estar sempre</p><p>vinculados às experiências que foram historicamente construídas no âmbito das</p><p>diferentes culturas e tradições;</p><p>▪ O professor precisa considerar que os conteúdos a serem desenvolvidos incluam,</p><p>de modo equitativo, tradições de matrizes africanas, nativas, ocidentais e orientais;</p><p>▪ O professor precisa tratar pedagogicamente as diferentes manifestações do</p><p>sagrado, trazendo interpretações oriundas das próprias culturas geradoras das</p><p>religiões em estudo;</p><p>▪ Só se torna possível o estudo das manifestações do sagrado se houver uma abertura</p><p>do professor para compreender universos completamente novos e distintos do seu</p><p>próprio universo de significações pessoais;</p><p>▪ No âmbito da pluralidade religiosa, o professor deve adotar uma postura</p><p>observadora e descritiva ante as diferentes manifestações do sagrado, zelando pelo</p><p>uso de uma linguagem que favoreça o diálogo e evite preconceito;</p><p>▪ O professor [... precisa] levar em conta a caracterização do grupo de alunos, o</p><p>contexto histórico-social a que estão circunscritos e os conteúdos precisam estar</p><p>relacionados às situações e aos acontecimentos do cotidiano;</p><p>▪ Os conteúdos devem favorecer o exercício da sensibilidade diante de qualquer</p><p>discriminação religiosa no trato cotidiano, o respeito à identidade na alteridade dos</p><p>diferentes e às suas opções de fé;</p><p>▪ O professor ao considerar a diversidade de referenciais teóricos para suas aulas,</p><p>torna-se recomendável [sic] que dê prioridade às produções de pesquisadores da</p><p>respectiva manifestação do sagrado para evitar fontes de informação</p><p>comprometidas com interesses de uma ou outra tradição religiosa;</p><p>162 Proposta didática do Ensino Religioso no Brasil</p><p>▪ É preciso respeitar o direito à liberdade de consciência e à opção religiosa do</p><p>educando, razão pela qual a reflexão e a análise dos conteúdos valorizarão aspectos</p><p>reconhecidos como pertinentes ao universo do sagrado e da diversidade</p><p>sociocultural;</p><p>▪ [...] fazem-se necessários critérios para articular os conteúdos: a favorecer a</p><p>formação do senso crítico, uma consciência ecológica e a relação entre a cultura e a</p><p>experiência religiosa. (Contreras, 2017, p. 15164)</p><p>A aprendizagem no Ensino Religioso realiza-se na experiência permanente de</p><p>pesquisa e diálogo, considerados “princípios mediadores e articuladores” (Brasil,</p><p>2018, p. 436) dos processos de observação, identificação, análise, apropriação e</p><p>ressignificação dos saberes específicos do conhecimento religioso. Essa dinâmica do</p><p>aprendizado está esquematizada na Figura 5.3.</p><p>163 Proposta didática do Ensino Religioso no Brasil</p><p>Esse processo interativo de ampliação da consciência religiosa dos estudantes</p><p>precisa ser enriquecido de múltiplos métodos, como “experiências de contato com</p><p>fontes, documentos, filmes, [jogos,] estudos do meio, aulas-passeio e/ou turismo</p><p>religioso aos lugares sagrados” (Contreras, 2017, p. 15166). Essas atividades precisam</p><p>ser mediadas por “linguagem e atitudes interculturais e [... pelo] entendimento de que</p><p>o conhecimento religioso é patrimônio cultural” (Contreras, 2017, p. 15166). Nesse</p><p>sentido:</p><p>O professor da disciplina precisa elaborar instrumentos que o auxiliem no</p><p>registro tanto do educando quanto da turma sobre a apropriação dos</p><p>conteúdos tratados nas aulas de Ensino Religioso. Isso significa dizer que o que</p><p>se busca com o processo avaliativo é identificar em que medida os conteúdos</p><p>passam a serem [sic] referências para a compreensão das manifestações do</p><p>sagrado pelos alunos. [...] A modo de exemplo, algumas questões que poderiam</p><p>orientar o processo avaliativo: Em que medida o aluno expressa uma relação</p><p>respeitosa com os colegas de classe que têm opções religiosas diferentes da</p><p>sua? O aluno reconhece que o fenômeno religioso é um dado de cultura e de</p><p>identidade de cada grupo social? O aluno emprega conceitos adequados para</p><p>referir-se às diferentes manifestações do sagrado? O aluno aceita as diferenças</p><p>de credo ou de expressão de fé?[2] (Contreras, 2017, p. 15166)</p><p>O Ensino Religioso, na condição de experiência de aprendizagem, oferece aos</p><p>estudantes encontros com o conhecimento religioso, dos quais participam e com os</p><p>quais convivem, diariamente, nos diferentes tempos e espaços que os constituem como</p><p>sujeitos históricos.</p><p>_______________</p><p>2 Algumas possibilidades avaliativas podem ser consultadas nas Diretrizes Curriculares da Educação Básica para</p><p>o Ensino Religioso da Secretaria de Estado da Educação Básica (Seed) do Paraná (2008).</p><p>164 Proposta didática do Ensino Religioso no Brasil</p><p>165 Proposta didática do Ensino Religioso no Brasil</p><p>ATIVIDADES DE AUTOAVALIAÇÃO</p><p>1. Analise as seguintes assertivas:</p><p>I. A superação das aulas tradicionais de religião, pautadas em um ensino</p><p>confessional.</p><p>ciências da religião abrigam uma</p><p>pluralidade interdisciplinar, que se configura, simultaneamente, um desafio e um</p><p>elemento potencial. Essa multirreferencialidade (Franco; Pimenta, 2016) que sustenta</p><p>seu ensino e sua pesquisa é uma das características necessárias para compreendermos</p><p>sua contribuição na formação social.</p><p>1.3 Religião como bem cultural</p><p>da humanidade</p><p>Ao longo de sua existência, os seres humanos produziram muitos elementos que</p><p>compõem seu patrimônio histórico-cultural. Nesse sentido, devemos considerar que</p><p>a religião também é produto humano e, por conseguinte, um bem cultural da</p><p>humanidade.</p><p>24 Ciências da Religião</p><p>Para alargar o entendimento sobre essa questão, vamos apresentar e assumir um</p><p>conceito de cultura que seja basilar para nossa compreensão da religião.</p><p>Antes, porém, é importante levar em conta que, em nossos dias, o termo cultura</p><p>é bastante polissêmico, isto é, tem vários sentidos. Com muita frequência, ele é</p><p>empregado com diversos significados, em múltiplas situações e dimensões. Fala-se em</p><p>“cultura erudita”, “cultura popular”, “cultura jovem”, “cultura pop”, “cultura negra”,</p><p>“cultura indígena”, “cultura brasileira”, “cultura ocidental”, “cultura oriental”,</p><p>“cultura organizacional” etc. Diante dessa diversidade, resta uma pergunta: O que é</p><p>mesmo cultura? De acordo com José Lisboa M. de Oliveira (2018b, p. 1, grifo do</p><p>original),</p><p>a palavra cultura é de origem latina. Deriva do verbo colere (cultivar ou instruir)</p><p>e do substantivo cultus (cultivo, instrução). Etimologicamente tem muito a ver</p><p>com o ambiente agrário, com o costume de trabalhar a terra para que ela possa</p><p>produzir e dar frutos. Ainda hoje se costuma usar a palavra cultura para</p><p>designar o desenvolvimento da pessoa humana por meio da educação e da</p><p>instrução. Disso vêm os termos culto e inculto, usados no jargão popular com</p><p>uma carga de preconceito e de discriminação, considerando uma cultura</p><p>(especialmente a letrada) superior às outras. Porém, não existem grupos</p><p>humanos sem cultura e não existe um só indivíduo que não seja portador de</p><p>cultura.</p><p>Para além de sua etimologia e de seu emprego voltado para o desenvolvimento</p><p>humano, nota-se que diferentes áreas do saber se servem do termo cultura e lhe</p><p>empregam sentidos próprios. Assim sendo, essa diversidade de usos e significados</p><p>evidencia a complexidade do conceito e, portanto, a dificuldade de estabelecer uma</p><p>definição aceita pela maioria dos pensadores. Nessa lógica, o professor de Literatura</p><p>Inglesa da Universidade de Oxford Terry Eagleton (2011, p. 9,11) afirma que “‘Cultura’</p><p>é considerada uma</p><p>25 Ciências da Religião</p><p>das duas ou três palavras mais complexas de nossa língua [... e] codifica várias</p><p>questões filosóficas fundamentais”.</p><p>Mesmo que restrinjamos nossa análise ao campo da antropologia, o termo</p><p>continua tendo ampla compreensão. Marina de Andrade Marconi e Zelia Maria Neves</p><p>Presotto (2008, p. 21-22) endossam essa constatação: “Para os antropólogos, a cultura</p><p>tem significado amplo [...]. Desde o final do século passado os antropólogos vêm</p><p>elaborando inúmeros conceitos sobre cultura. Apesar de a cifra ter ultrapassado 160</p><p>definições, ainda não chegaram a um consenso sobre o significado exato do termo”.</p><p>Conforme apontamos, é notória a dificuldade de encontrar uma definição exata</p><p>de cultura, pois muitos são os posicionamentos e as contribuições dos pesquisadores.</p><p>No entanto, independentemente do sentido atribuído ao termo, um elemento parece</p><p>permanecer imprescindível em todas as proposições apresentadas: o fator humano.</p><p>Nessa perspectiva, pode-se dizer que, diferentemente de elementos da natureza e de</p><p>animais, em geral, o ser humano é capaz de produzir cultura, a qual se apresenta como</p><p>uma consequência de sua evolução. Conforme o antropólogo Roque de Barros</p><p>Laraia (2009, p. 28), o ser humano</p><p>foi diferenciado dos demais animais por ter a seu dispor duas notáveis</p><p>propriedades: a possibilidade da comunicação oral e a capacidade de</p><p>fabricação de instrumentos, capazes de tornar mais eficiente o seu aparato</p><p>biológico. Mas, estas duas propriedades permitem uma afirmação mais ampla:</p><p>o homem é o único ser possuidor de cultura.</p><p>Os predicados da liberdade e da razão também são dados importantes que</p><p>garantem ao ser humano a condição de possuir e produzir cultura. Mediante a</p><p>comunicação, a capacidade de fabricação, a liberdade e a racionalidade, torna-se</p><p>possível escolher entre uma e outra coisa, entre fazer e não fazer, entre diversos</p><p>26 Ciências da Religião</p><p>modos de fazer etc. Enquanto os demais seres vivos são determinados pela natureza,</p><p>a espécie humana é capaz de pensar sobre sua própria condição e sobre a natureza do</p><p>universo. Podemos atribuir sentido às coisas e construir símbolos para representar</p><p>nossa compreensão do mundo e sobre nós mesmo.</p><p>IMPORTANTE!</p><p>Nessa perspectiva, de maneira geral, a cultura envolve toda e qualquer ação humana.</p><p>Seguindo esse caminho antropológico, Maria L. de Arruda Aranha e Maria H. Pires</p><p>Martins (2005, p. 20-21, grifo nosso) afirmam que o conceito designa a “construção</p><p>simbólica, que vai guiar toda ação humana, [... bem como] o modo como indivíduos</p><p>e comunidades respondem às suas necessidades e aos seus desejos simbólicos”.</p><p>Na sequência, Aranha e Martins (2005, p. 21, grifo nosso) desdobram essa</p><p>definição antropológica propondo que a cultura “engloba a língua que falamos, as</p><p>ideias de um grupo, as crenças, os costumes, os códigos, as instituições, as</p><p>ferramentas, a arte, a religião, a ciência, enfim, todas as esferas da atividade</p><p>humana”. Ressaltamos, entretanto, que, naturalmente, em cada região do planeta e em</p><p>cada época, os seres humanos desenvolveram suas atividades ao seu modo, segundo</p><p>suas necessidades e seus desejos. Por conta disso, proliferaram-se tanto diferentes</p><p>culturas quanto diferentes aparatos dentro de uma mesma cultura, inclusive o dado</p><p>religioso.</p><p>No âmbito religioso, podemos afirmar que as diferentes experiências religiosas</p><p>foram surgindo ao longo da história da humanidade como resultados das</p><p>necessidades de grupos humanos de responderem a certas indagações existenciais e</p><p>relacionarem-se com alguma forma de transcendência. Isso porque, diante do mistério</p><p>da vida, da morte e do enigma da existência em si mesma,</p><p>27 Ciências da Religião</p><p>surgiram as grandes perguntas a respeito da origem de todas as coisas, da verdadeira</p><p>essência do que existe e do fim último, seja dos humanos, seja de todo o universo.</p><p>Nesse contexto, passam a fazer muito sentido questões como: De onde venho?</p><p>Quem sou? Para onde vou? Porque viver? Oque fazer da vida? O mundo vai acabar</p><p>mesmo? Como?</p><p>Urbano Zilles (2009, p. 6, grifo nosso) compartilha dessa perspectiva ao dizer:</p><p>No fundo de toda a situação verdadeiramente religiosa encontra-se a</p><p>referência aos fundamentos últimos do homem: quanto à origem, quanto ao</p><p>fim e quanto à profundidade. O problema religioso toca o homem em sua raiz</p><p>ontológica. Não se trata de fenômeno superficial, mas implica a pessoa como</p><p>um todo. Pode caracterizar-se o religioso como zona do sentido da pessoa. Em</p><p>outras palavras, a religião tem a ver com o sentido último da pessoa, da história</p><p>e do mundo.</p><p>À medida que as experiências religiosas, baseadas na relação com o</p><p>transcendente, passaram a fazer sentido, preenchendo o vazio existencial e,</p><p>consequentemente, apaziguando a interioridade humana de modo a diminuir sua</p><p>angústia, começaram a aparecer os ritos, os símbolos, as normas religiosas etc. Tudo</p><p>isso, aos poucos, foi organizado e sistematizado de acordo com a lógica de cada</p><p>cultura. Chamamos esse processo de organização da experiência humana com o</p><p>transcendente de religião. Esta, como afirma José Lisboa M. de Oliveira (2018a, p. 8,</p><p>grifo nosso e do original), “é a institucionalização da experiência religiosa e da</p><p>religiosidade,</p><p>II. A integração de conteúdos que considerem a diversidade das manifestações</p><p>religiosas.</p><p>III. Motivar tanto os educandos quanto seus pais a participarem de alguma das</p><p>igrejas ou seitas religiosas.</p><p>IV. Definir de forma mais consistente seus conteúdos escolares, bem como a</p><p>formação dos professores.</p><p>Agora, assinale a alternativa que apresenta a numeração de todas as</p><p>proposições que contemplam desafios enfrentados pelo ensino religioso na</p><p>atualidade:</p><p>A] I e III.</p><p>B] II e IV.</p><p>C] I, II e IV.</p><p>D] I, II, III e IV.</p><p>E] II e III.</p><p>2. Quais são os principais encaminhamentos metodológicos que o professor de</p><p>Ensino Religioso precisa ter presente em sua proposta de ensino?</p><p>A] O desenvolvimento de práticas pedagógicas que fomentem o respeito às</p><p>diversas manifestações religiosas.</p><p>B] A dedicação para que todo conteúdo tratado nas aulas contribua para</p><p>superar o preconceito contra qualquer crença religiosa e questione toda</p><p>forma de proselitismo.</p><p>C] O respeito ao direito à liberdade de consciência e à opção religiosa do</p><p>educando.</p><p>D] A valorização do fenômeno religioso como algo inerente ao ser humano na</p><p>condição de ser histórico e cultural.</p><p>E] Todas as alternativas anteriores estão corretas.</p><p>166 Proposta didática do Ensino Religioso no Brasil</p><p>3. De acordo com o que dispõe a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – Lei</p><p>n. 9.394, de 20 de dezembro de 1996 (Brasil, 1996) – sobre a disciplina de Ensino</p><p>Religioso, analise as afirmativas a seguir:</p><p>I. O Ensino Religioso é parte essencial do currículo escolar para a formação do</p><p>cidadão.</p><p>II. O Ensino Religioso é de matrícula facultativa para o aluno e exige respeito à</p><p>diversidade cultural e religiosa do Brasil.</p><p>III. O Ensino Religioso configura-se em objeto de reprovação para o aluno.</p><p>Agora, assinale a alternativa que apresenta a(s) assertiva(s) correta(s):</p><p>A] Somente I.</p><p>B] II e III.</p><p>C] Somente II.</p><p>D] I e II.</p><p>E] I, II e III.</p><p>4. Com relação ao processo avaliativo no Ensino Religioso, é incorreto afirmar:</p><p>A] O componente curricular Ensino Religioso não constitui objeto de reprovação.</p><p>B] A avaliação do processo educativo dos alunos requer identificar em que</p><p>medida eles reconhecem o fenômeno religioso como uma manifestação</p><p>cultural e histórica.</p><p>C] A disciplina de Ensino Religioso é avaliada conforme as crenças religiosas</p><p>próprias de cada aluno.</p><p>D] Um dos parâmetros que orientam o processo avaliativo no Ensino Religioso</p><p>é o respeito mútuo demonstrado pelos alunos perante diferentes</p><p>manifestações do sagrado.</p><p>167 Proposta didática do Ensino Religioso no Brasil</p><p>E] O professor deve elaborar instrumentos que o auxiliem a registrar se seus</p><p>alunos estão se apropriando ou não dos conteúdos tratados nas aulas de</p><p>Ensino Religioso.</p><p>5. Observe a figura e, com base nela, analise as afirmativas elencadas a seguir.</p><p>I. O fenômeno religioso estrutura-se na bipolarização entre cultura e tradição</p><p>religiosa, visto que toda cultura tem, em seu substrato, a presença do religioso</p><p>e que toda tradição religiosa se constitui no bojo de uma cultura, num processo</p><p>simultâneo e interativo.</p><p>II. A finalidade do componente curricular Ensino Religioso na escola é o</p><p>diálogo e a reverência.</p><p>III. Na escola, perante a pluralidade de culturas e tradições religiosas em que o</p><p>educando se insere, o Ensino Religioso, pelo estudo do fenômeno religioso,</p><p>desencadeia o diálogo e a reverência</p><p>168 Proposta didática do Ensino Religioso no Brasil</p><p>Agora, assinale a alternativa que apresenta as assertivas corretas:</p><p>A] Somente I.</p><p>B] II e III.</p><p>C] I e III.</p><p>D] I, II e III.</p><p>E] I e II.</p><p>ATIVIDADES DE APRENDIZAGEM</p><p>Questões para reflexão</p><p>1. De acordo com a BNCC, quais são os princípios articuladores para a mediação da</p><p>aprendizagem no Ensino Religioso? Descreva cada um deles e sua importância.</p><p>2. A BNCC organiza o conhecimento religioso para a experiência escolar em três</p><p>unidades temáticas. Quais são essas unidades? Quais são seus objetivos? Quais</p><p>conteúdos cada uma delas pode contemplar?</p><p>Atividade aplicada: prática</p><p>Entreviste três professores(as) que ministrem aulas de Ensino Religioso e os(as)</p><p>questione sobre os seguintes temas:</p><p>1. Opinião sobre a proposta da BNCC para o Ensino Religioso.</p><p>2. Principais desafios didáticos que enfrenta nas aulas de Ensino Religioso.</p><p>3. Suas formações inicial e continuada na área de Ensino Religioso.</p><p>Para isso, sugerimos que elabore duas ou três perguntas sobre cada um desses</p><p>temas.</p><p>Após realizar as entrevistas, organize os dados coletados. A seguir,</p><p>apresentamos um modelo que pode ser utilizado.</p><p>169 Proposta didática do Ensino Religioso no Brasil</p><p>170 Proposta didática do Ensino Religioso no Brasil</p><p>171</p><p>CONSIDERAÇÕES FINAIS</p><p>Iniciamos esta obra contextualizando as ciências da religião, seus conceitos</p><p>fundamentais e sua contribuição na compreensão da religião como um bem cultural</p><p>da humanidade. Destacamos como os pensamentos filosófico e teológico nos ajudam</p><p>na sistematização do conhecimento religioso, permitindo-nos uma aproximação da</p><p>relação dialógica entre ciência e fé. Também apontamos a contribuição das ciências e</p><p>das artes na compreensão do fenômeno religioso.</p><p>No segundo capítulo, aprofundamos os elementos constituintes do</p><p>conhecimento religioso na sociedade, perpassando reflexões sobre a cultura religiosa,</p><p>o fenômeno religioso, as manifestações do sagrado, a religiosidade popular e a</p><p>diversidade cultural e religiosa presente no país e no mundo. Tais aproximações,</p><p>permitiram a compreensão, no terceiro capítulo, dos pensamentos religiosos oriental,</p><p>ocidental, afro-brasileiro e das tradições nativas da</p><p>América. Além disso, ressaltamos aspectos sobre o pensamento religioso na</p><p>contemporaneidade.</p><p>No quarto capítulo, contextualizamos essas discussões no universo escolar e</p><p>pedagógico, apresentando as bases legais que garantem e normatizam a oferta da</p><p>disciplina de Ensino Religioso nas escolas brasileiras, bem como os documentos</p><p>curriculares que orientam sua proposta didática. Por fim, o quinto capítulo sintetiza o</p><p>objeto de estudo, os objetivos de ensino e os encaminhamentos metodológicos para a</p><p>mediação do docente dessa disciplina.</p><p>Esperamos que o percurso do estudo realizado tenha oferecido a você, leitor,</p><p>uma aproximação com o conhecimento religioso e o motivado a continuar</p><p>pesquisando sobre o tema.</p><p>172</p><p>Reconhecemos a importância do conhecimento religioso como parte integrante</p><p>da formação discente e ressaltamos a relevância da mediação docente como garantia e</p><p>oportunidade para os alunos ampliarem suas compreensões do sagrado e suas</p><p>manifestações, expressando atitudes de respeito e admiração pelas mais diversas</p><p>tradições religiosas. As aulas de Ensino Religioso oportunizam a ampliação da</p><p>consciência sobre a diversidade cultural e religiosa do Brasil e do mundo.</p><p>Consideramos que o Ensino Religioso fundamentado nos princípios da</p><p>educação em direitos humanos tem uma contribuição primordial na formação</p><p>orientada à cidadania, especificamente na promoção de atitudes de reconhecimento e</p><p>respeito às alteridades.</p><p>Desejamos-lhe continuidade em seus estudos e um ótimo percurso acadêmico!</p><p>173</p><p>REFERÊNCIAS</p><p>ARAGÄO, G. Inculturação da fé cristã na religiosidade popular. Vida Pastoral, ano</p><p>54, n. 289, p. 11-20, mar./abr. 2013. Disponível em: <http://www. vida</p><p>pastoral.com.br/wp-content/uploads/2013/02/mar%C 3% A7o-abril-de-2013.pdf>.</p><p>Acesso em: 10 dez. 2020.</p><p>ARANHA, M. L. de A.; MARTINS, M. H. P. Temas de filosofia. 3. ed. São Paulo:</p><p>Moderna, 2005.</p><p>ÁVILA, A. Para conhecer a psicologia da religião. São Paulo: Loyola, 2007.</p><p>BERKENBROCK, V. A atitude franciscana no diálogo inter-religioso. In: MOREIRA,</p><p>A. da S. (Org.). Herança franciscana. Petrópolis: Vozes, 1996. p. 308-338.</p><p>BESEN, J. A.</p><p>O mundo religioso dos indígenas americanos. índios brasileiros. História</p><p>do Brasil. Portal São Francisco. Disponível em: <https://www.</p><p>portalsaofrancisco.com.br/historia-do-brasil/indios-brasileiros>. Acesso em: 27 nov.</p><p>2020.</p><p>BIACA, V. et al. O sagrado no Ensino Religioso. Curitiba: Seed-PR, 2006. (Cadernos</p><p>Pedagógicos do Ensino Fundamental, v. 8). Disponível em:</p><p><http://portaldoprofessor.mec.gov.br/storage/materiais/0000014238. pdf>. Acesso</p><p>em: 28 jan. 2021.</p><p>BÍBLIA. Português. Bíblia do peregrino. Versão de Luís Alonso Schõkel. Tradução de</p><p>José Bortolini, Ivo Storniolo e Raimundo Vidigal. São Paulo: Paulus, 2002.</p><p>BIRCK, B. Fenômeno religioso. In: GHELLER, E. G. (Org.). 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São Paulo: Paulus, 2009.</p><p>183</p><p>BIBLIOGRAFIA COMENTADA</p><p>BIACA, V. et al. O sagrado no Ensino Religioso. Curitiba: Seed- PR, 2006. (Cadernos</p><p>Pedagógicos do Ensino Fundamental, v. 8). Disponível em:</p><p><http://portaldoprofessor.mec.gov.br/storage/ materiais/0000014238.pdf>. Acesso</p><p>em: 28 jan. 2021.</p><p>Trata-se de um material de apoio para o trabalho pedagógico do professor. Está</p><p>organizado em oito unidades que abordam diversos aspectos das manifestações</p><p>religiosas, como: respeito à diversidade; lugares sagrados; textos sagrados orais</p><p>ou escritos; organizações, festas, ritos e símbolos religiosos; concepções de vida</p><p>e morte. São apresentados também conceitos-chave, exemplos e</p><p>encaminhamentos metodológicos.</p><p>CECCHETTI, E.; SIMONI, J, C. (Org.). Ensino religioso não confessional: múltiplos</p><p>olhares. São Leopoldo: Oikos, 2019. [Livro Eletrônico]. Disponível em:</p><p><http://oikoseditora.com.br/files/</p><p>Ensino%20religioso%20n%C3%A3o%20confessional%20-%20E-book.pdf>. Acesso</p><p>em: 28 jan. 2021.</p><p>Ao longo de seus 15 capítulos, esse livro apresenta um panorama geral do</p><p>ensino religioso não confessional no Brasil. Aborda aspectos históricos do</p><p>componente curricular e de sua organização na Base Nacional Comum</p><p>Curricular (BNCC). Discorre sobre diversos temas educativos e didáticos</p><p>relacionados ao ensino religioso, como os direitos humanos, a cultura e</p><p>religiosidade afro-brasileiras e a contribuição desse componente curricular para</p><p>a educação integral. Além disso, oferece reflexões sobre a docência no ensino</p><p>religioso.</p><p>184</p><p>OLIVEIRA, L. B. de et al. Ensino religioso: fundamentos e métodos. São Paulo: Cortez,</p><p>2007.</p><p>Esse livro propõe-se a apresentar um panorama histórico do ensino religioso no</p><p>Brasil e uma reflexão sobre sua proposta didática na escola. Discorre sobre seus</p><p>objetos e objetivos de ensino, seus conteúdos e seus encaminhamentos</p><p>metodológicos e de avaliação, bem como trata da identidade e da formação do</p><p>professor. Além disso, fornece orientações didáticas para a realização de</p><p>atividades, apontando possibilidades transdisciplinares e interdisciplinares</p><p>baseadas na proposta didática do ensino religioso.</p><p>PARANÁ. Secretaria de Estado de Educação. Superintendência da Educação. Ensino</p><p>religioso: diversidade cultural e religiosa. Curitiba: Seed-PR, 2013. Disponível em:</p><p><http://www.ensi-noreligioso.seed.pr.gov.br/arquivos/File/livro_er_19_3_2015.</p><p>pdf>. Acesso em: 6 jan. 2021.</p><p>Esse é um ótimo material de apoio didático e pedagógico para professores de</p><p>Ensino Religioso. Sua organização em oito capítulos propõe uma reflexão sobre</p><p>os principais objetos de conhecimento da área, fomentando o interesse e o</p><p>respeito pelas culturas religiosas. São apresentadas também curiosidades e</p><p>atividades que podem ser aproveitadas em sala de aula.</p><p>SILVEIRA, E. S. da; JUNQUEIRA, S. O Ensino Religioso na BNCC: teoria e prática</p><p>para o ensino fundamental. Petrópolis: Vozes, 2020.</p><p>Essa obra trata do Ensino Religioso com base na organização da BNCC,</p><p>destacando os principais temas a serem abordados nesse componente</p><p>curricular. Organizado em nove capítulos, o livro permite que o leitor</p><p>compreenda a importância das ciências da religião para a construção do</p><p>conhecimento religioso e, consequentemente, para a estruturação de propostas</p><p>didáticas e metodológicas do Ensino Religioso.</p><p>185</p><p>RESPOSTAS</p><p>186</p><p>187</p><p>SOBRE OS AUTORES</p><p>Denilson Aparecido Rossi é mestre em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica</p><p>do Paraná (PfecPR), especialista em Filosofia Clínica pelas Faculdades Itecne de</p><p>Cascavel, em Docência na Educação Superior pela Faculdade Padre João Bagozzi e em</p><p>Formação Humana – Counseling pela Faculdade Educacional de Ponta Grossa,</p><p>licenciado em Filosofia pela Faculdade Padre João Bagozzi e bacharel em Teologia pela</p><p>PUCPR. É professor universitário nos níveis de graduação e pós-graduação. Tem</p><p>experiência em teologia pastoral e assessora comunidades, paróquias e dioceses nos</p><p>cursos de extensão Teologia para leigos.</p><p>Humberto Silvano Herrera Contreras é doutor em Educação pela Universidad</p><p>Católica Santa Fe (UCSF), mestre em Educação pela UniversidadeTuiuti do Paraná</p><p>(UTP), especialista em Gestão Ambiental e em Docência na Educação Superior pela</p><p>Faculdade Padre João Bagozzi e graduado em Filosofia e Pedagogia pela mesma</p><p>instituição. É professor nos cursos de Pedagogia e Filosofia da Faculdade Padre João</p><p>Bagozzi e assessor de Serviços Educacionais da SM Educação. Presta assessoria</p><p>pedagógico-pastoral no Setor Universidades da Conferência Nacional dos Bispos do</p><p>Brasil (CNBB). Participa no Núcleo de Estudos, Pesquisas e Extensão em Pedagogia,</p><p>Pedagogia Social e Educação Social da Universidade Estadual de Ponta Grossa</p><p>(Nupepes/UEPG) e do Grupo de Pesquisa Movimento, Sabedoria, Ideias e Comunhão</p><p>(Mosaico), da Universidade Federal de Lavras (Ufla). É membro da Rede Internacional</p><p>de Filosofia Ecológica Integral, da Sociedade Brasileira de Cientistas Católicos (SBCC)</p><p>e do Grupo de Pastoral da Associação Nacional de Educação Católica do Brasil (Anec).</p><p>188</p><p>a padronização do caminho para a relação com o Transcendente, feito</p><p>por um grupo social ou cultural”. Indubitavelmente, isso nos leva a afirmar</p><p>seguramente que a religião, baseada em uma necessidade humana, é produto,</p><p>resultado, enfim, um bem cultural da humanidade.</p><p>28 Ciências da Religião</p><p>1.4 Conhecimento religioso</p><p>Depois de compreendermos a religião como bem cultural da humanidade,</p><p>analisaremos como se dá o conhecimento religioso. Para realizar essa tarefa com êxito,</p><p>primeiramente trataremos do processo do conhecimento em si e, na sequência,</p><p>adentraremos o campo do conhecimento religioso propriamente dito.</p><p>Já de início, vale destacar que o conhecimento resulta da relação entre um</p><p>sujeito que investiga e um objeto que é investigado. Sobre isso, o filósofo alemão</p><p>Johannes Hessen (2012, p. 20, grifo do original) assinala: “no conhecimento defrontam-</p><p>se consciência e objeto, sujeito e objeto. O conhecimento aparece como uma relação</p><p>entre esses dois elementos”. Nessa relação, há, portanto, alguém (sujeito) que deseja</p><p>conhecer e algo (objeto) que se deixa ser conhecido, apreendido.</p><p>Apesar desses elementos se apresentarem de forma dualista, isto é, de um lado</p><p>o sujeito e, de outro, o objeto, o estudioso da teoria do conhecimento busca demonstrar</p><p>que, no fundo, há uma relação intrínseca e recíproca entre sujeito e objeto. Mais</p><p>especificamente, aponta que há uma correlação entre ambos de tal maneira que, para</p><p>gerar conhecimento, a existência de um depende da existência do outro. Assim sendo,</p><p>a função de um somente tem sentido em relação à do outro. Segundo o autor, “o sujeito</p><p>só é sujeito para um objeto e o objeto só é objeto para um sujeito. Ambos são o que são</p><p>apenas na medida em que o são um para o outro. [...] A função do sujeito é apreender</p><p>o objeto; a função do objeto é ser apreensível e apreendido pelo sujeito” (Hessen, 2012,</p><p>p. 20).</p><p>Em se tratando da aplicação dessa lógica da teoria do conhecimento ao universo</p><p>da religião, sob o ponto de vista da ciência, de um lado, há o cientista como sujeito e,</p><p>do outro, a religião como objeto. Dessa relação emerge o que podemos denominar</p><p>conhecimento religioso. Todavia, para que esse conhecimento seja</p><p>29 Ciências da Religião</p><p>reconhecido e validado como seguro e respeitável, é importante considerar algumas</p><p>singularidades que envolvem o objeto religião e os sujeitos que se propõem a</p><p>investigá-lo.</p><p>Segundo o pesquisador Hans-Jürgen Greschat (2005, p. 22), deve-se considerar</p><p>que, de modo geral, “A forma como os observadores reagem ao objeto religião também</p><p>depende do lugar e da época de suas existências [... e] daquilo em que eles creem”. Em</p><p>suma, é preciso sempre atentar para o fato de que suas proposições acerca da religião</p><p>têm lastro em suas condições e lentes geográficas, históricas, existenciais e de crenças</p><p>pessoais. Diante disso, faz-se fundamental pontuar que a religião é um fenômeno</p><p>inegável e se impõe como objeto próprio e digno de ser estudado, visto que, onde há</p><p>seres humanos, ela se faz presente. Sem dúvidas, qualquer pesquisador que se propõe</p><p>a investigar o ser humano, mais cedo ou mais tarde depara-se com a questão dos</p><p>fenômenos religiosos. Todavia, cada um foca e prioriza com veemência sua área de</p><p>interesse, como aponta Hans-Jürgen Greschat (2005, p. 23, grifo nosso):</p><p>Arqueólogos refletem sobre a possível função de um item escavado.</p><p>Historiadores reconstroem a religião de arcebispos, mendicantes ou</p><p>camponeses. Historiadores da arte tentam interpretar o sentido de motivos</p><p>religiosos nas pinturas. Pesquisadores de história da literatura estudam a</p><p>importância da religião nas obras de autores nacionais e estrangeiros.</p><p>Sociólogos pesquisam o papel da religião na sociedade. Geógrafos interessam-</p><p>se por formas de hábitat influenciadas pela religião. Desde sempre o trabalho</p><p>de etnólogos tem de ver a religião como parte essencial de culturas</p><p>estrangeiras. Psicólogos examinam transes, conversões e meditação. Médicos</p><p>abordam a face patológica da religião.</p><p>A essa altura, podemos afirmar seguramente que o conhecimento religioso é</p><p>complexo e múltiplo, isto é, da relação com o</p><p>30 Ciências da Religião</p><p>objeto religião os sujeitos humanos podem fazer brotar diferentes formas de saber.</p><p>De modo a garantir um caráter mais científico ao conhecimento religioso,</p><p>Greschat (2005) propõe que o cientista da religião deve ir além do que os outros</p><p>observadores em sua análise do fenômeno religioso. Em primeiro lugar, de acordo com</p><p>o autor, os cientistas da religião não podem perder “de vista a totalidade da religião</p><p>estudada” (Greschat, 2005, p. 24). Em segundo lugar, ao escolher uma, entre tantas</p><p>religiões existentes, deve-se, além de focar sua totalidade, proceder a investigação de</p><p>acordo com quatro elementos ou camadas que são comuns às matrizes religiosas:</p><p>comunidade, sistemas de atos, conjunto de doutrinas e sedimentação de</p><p>experiências. Nesse sentido, o autor argumenta:</p><p>Religiões integram seres humanos em uma comunidade [...].</p><p>Tão logo os pesquisadores atravessam as fronteiras exteriores de uma</p><p>comunidade religiosa, deparam-se com uma segunda camada de fenômenos,</p><p>ou seja, com os atos religiosos [...].</p><p>Os pesquisadores, porém, só conseguem entender os atos religiosos de uma</p><p>religião depois de estudar a terceira camada, ou seja, a da doutrina [...].</p><p>[...]</p><p>Uma dificuldade, porém, embaraça cientistas da religião em todos os casos. Ela</p><p>está vinculada à quarta camada do objeto, ou seja, à experiência religiosa. Tal</p><p>experiência é como a força vital que anima as religiões, alimentando seus</p><p>ensinamentos e os ritos transmitidos. (Greschat, 2005, p. 25-26)</p><p>Além de investigar determinada religião tendo em vista sua totalidade e os</p><p>quatro elementos ou camadas que a compõem, os cientistas dessa área precisam</p><p>considerar o dinamismo transformador do fenômeno. Como assegura Greschat (2005,</p><p>p. 27,</p><p>31 Ciências da Religião</p><p>grifo nosso). “Religiões vivas mudam sem cessar. Por vezes uma mudança fica</p><p>escondida até que se torne perceptível”. Recorrentes mudanças, por sua vez, devem</p><p>chamar a atenção dos pesquisadores porque, de certa forma, representam a força vital</p><p>das religiões.</p><p>É fundamental compreender também que a produção de um determinado</p><p>conhecimento segue, via de regra, um caminho, isto é, um método próprio. Com os</p><p>cientistas da religião não pode ser diferente. Para estes, Greschat (2005) apresenta um</p><p>caminho constituído por sete etapas, sintetizadas na Figura 1.2 e detalhados na</p><p>sequência.</p><p>Primeira etapa: “identificar problemas”</p><p>Antes de se aventurar em uma pesquisa, é importante ter clareza a respeito do que se</p><p>pretende investigar. Trata-se, nessa primeira etapa, de identificar um problema que</p><p>seja cientificamente relevante e, sobretudo, que esteja ao alcance da ciência da religião.</p><p>As indagações precisam ser bem formuladas.</p><p>Segunda etapa: “escolher um problema”</p><p>Por mais que o pesquisador se defronte com vários problemas cientificamente</p><p>relevantes e pertinentes, é fundamental fazer escolhas. Isso porque não é prudente, de</p><p>modo algum, querer resolver todas as questões significativas para a ciência da religião.</p><p>Para o êxito da pesquisa, deve-se, nessa segunda etapa, propor perguntas como:</p><p>32 Ciências da Religião</p><p>“O que realmente me interessa?”, “Por que tal questionamento me interessa?”, “Como</p><p>resolverei esse problema científico?”.</p><p>Terceira etapa: “coletar material”</p><p>Nessa etapa, estar atento à coleta de material torna-se muito importante, porque</p><p>somente uma pesquisa bem fomentada e rigorosamente abastecida pode alcançar a</p><p>maturidade cientifica. Mesmo que algum material não pareça, a princípio, central, é sa</p><p>lutar considerá-lo em um primeiro momento. Depois, no decorrer da pesquisa, separa-</p><p>se o que é principal do que é secundário.</p><p>Quarta etapa: “achar uma</p><p>substância aglutinante”</p><p>Vale ressaltar que, muitas vezes, o pesquisador depara-se com inúmeras variáveis em</p><p>torno do material coletado. Disso decorre a necessidade de encontrar um elemento</p><p>aglutinante que possa unir e dar corpo à pesquisa. Para tanto, pode ser preciso recorrer</p><p>a outros cientistas da religião com mais experiência, a fim de favorecer o trabalho e</p><p>gerar resultados mais contundentes.</p><p>Quinta etapa: “achar a solução”</p><p>Aos poucos, torna-se necessário encontrar soluções para as questões levantadas. É</p><p>possível que, no meio do processo, surjam novas perguntas ou, até mesmo, que o</p><p>problema escolhido sofra alguma modificação. O imprescindível nessa etapa é manter</p><p>o foco na busca pela solução, que, por sinal, pode, até mesmo, surgir por intermédio</p><p>de algum insight.</p><p>Sexta etapa: “pôr o resultado à prova”</p><p>Uma vez que foi encontrada a solução para o problema proposto, orienta-se que se</p><p>coloque o resultado da pesquisa à prova. Trata-se de checar os mínimos detalhes,</p><p>realizar uma autocrítica e pôr, de fato, sob o crivo de possíveis críticas. O cientista da</p><p>religião também</p><p>33 Ciências da Religião</p><p>precisa fazer uma verificação séria e consistente no resultado do seu trabalho para,</p><p>somente em seguida, tornar sua pesquisa conhecida pelo público.</p><p>Sétima etapa: “comunicar os resultados”</p><p>Tendo passado pelo crivo de uma prova rigorosa, os resultados da pesquisa podem, e</p><p>devem ser comunicados com segurança. Hm se tratando da religião, a partir dessa</p><p>sétima etapa, há, então, o conhecimento religioso, que pode ser acessado pelo maior</p><p>número possível de pessoas.</p><p>Sem dúvida, depois de um trabalho sério, cujo caminho foi trilhado com o rigor</p><p>de uma autêntica pesquisa cientifica, colhemos um conhecimento que merece respeito</p><p>e notoriedade, o que, obviamente, não quer dizer que será unanimemente aceito. Isso</p><p>porque, por mais profundo que seja, todo conhecimento, inclusive o religioso, é</p><p>passível de questionamentos, mas isso não significa sua invalidação.</p><p>1.5 Filosofia da religião</p><p>Na perspectivados fundamentos das ciências da religião, a filosofia, bem como a</p><p>contribuição dos grandes pensadores para a temática, mostra-se relevante.</p><p>É pertinente lembrar do fato de que se estuda a religião, na qualidade de</p><p>fenômeno singularmente humano, em diferentes áreas do conhecimento, como a</p><p>história, a fenomenologia, a sociologia, a psicologia, a teologia e, dependendo das</p><p>circunstâncias, o direito, a medicina, a geografia, a etnologia, a arqueologia etc.</p><p>(Greschat, 2005). No entanto, os profissionais e pesquisadores dessas variadas áreas</p><p>enxergam a religião por meio de suas “janelas”, cujos enfoques se limitam às</p><p>circunstâncias que lhes são dadas, aos seus interesses e às suas convicções.</p><p>34 Ciências da Religião</p><p>Um historiador pode se interessar por analisar o quanto determinado fato de</p><p>cunho religioso impactou a história da humanidade, por exemplo, o surgimento do</p><p>cristianismo, ou a inquisição, ou as cruzadas.</p><p>Importante!</p><p>A fenomenologia, comprometida com a suspenção do juízo de valor, busca</p><p>compreender o sentido e o significado da religião como fenômeno singularmente</p><p>humano e presente em todas as culturas.</p><p>A sociologia tem interesse em compreender o papel e o impacto da religião em</p><p>diversas sociedades, sobretudo com relação a certos temas, como a política, a saúde, a</p><p>educação, a família e a comunidade.</p><p>Os psicólogos analisam se determinada expressão religiosa ou narrativa de</p><p>experiência religiosa è autêntica ou imbuída de neurose, além de se dedicarem ao</p><p>estudo de fenômenos como transes, conversões, meditações etc. (Greschat, 2005).</p><p>A teologia analisa a relação do ser humano com o transcendente. baseando-se</p><p>no pressuposto da Revelação de Deus ao homem. A reflexão teológica pressupõe,</p><p>necessariamente, o dado da fé: a existência Deus.</p><p>Os filósofos, por sua vez, intentam analisar a religião em sua totalidade. Por</p><p>meio do predicado da razão, a filosofia prima pela busca da verdade envolvida nas</p><p>questões religiosas, na medida em que estas estão ligadas à necessidade humana de</p><p>autocompreensão em sua relação com um ser superior ou poder que o transcende.</p><p>Nesse sentido, Urbano Zilles (2009, p. 5) argumenta que a filosofia da religião</p><p>“é uma reflexão realizada com a única ajuda da razão, sendo seu objeto a religião e as</p><p>condições em que esta é possível”. Ela busca esclarecer “a essência formal da religião</p><p>na existência humana’. Na sequência, o autor acrescenta:</p><p>35 Ciências da Religião</p><p>Da mesma maneira que o ato filosófico não fundamenta a existência humana,</p><p>mas tenta esclarecê-la, assim também a filosofia da religião não fundamenta,</p><p>nem inventa a religião, mas tenta esclarecê-la, servindo-se das exigências</p><p>propriamente filosóficas. A filosofia da religião tematiza a abertura do homem</p><p>para o mistério que o envolve de maneira positiva, aceitando-o, ou de maneira</p><p>negativa, rejeitando-o. (Zilles, 2009, p. 5)</p><p>Conforme aponta o professor de filosofia da Universidade de Montreal Jean</p><p>Grondin (2012, p. 21, grifo nosso), “a religião é certamente o lugar de todos os</p><p>paradoxos”. Enquanto, para alguns, a religião é sinal de alienação, para outros, é a</p><p>base de uma real libertação o que parece negativo para uns, pode ser positivo para</p><p>outros. De fato, a religião configura um campo do conhecimento humano permeado</p><p>por muita subjetividade.</p><p>Ao longo da história, existiram ilustres personagens que se posicionaram</p><p>radicalmente contrários à religião, negando-a totalmente. Entre estes, merecem</p><p>destaque Ludwig Feuerbach (1804-1872), Friedrich Nietzsche (1844-1900) e Sigmund</p><p>Freud (1856-1939). Por outro lado, houve também quem a defendeu profundamente,</p><p>por exemplo, os apologistas cristãos. Nenhum desses extremos pertence propriamente</p><p>à filosofia da religião, pois esta não se dedica a negar ou afirmar a religião, senão como</p><p>disciplina própria; segundo Zilles (2009, p. 10): “Tenta esclarecer o [seu J ser e a [sua]</p><p>essência”.</p><p>É muito importante compreender o caráter autônomo da filosofia da religião,</p><p>que segue um caminho próprio, racional e argumentativo, com caráter especulativo e</p><p>sem vínculo com a descrença ou com a crença. Nesse sentido, podemos tratar das</p><p>principais questões da filosofia no tangente à questão religiosa.</p><p>36 Ciências da Religião</p><p>Importante!</p><p>A primeira e grande tarefa da filosofia da religião é manter-se fiel à sua própria</p><p>essência: ‘Trata-se de indagação filosófica que usa métodos filosóficos com objetivos</p><p>filosóficos’ (Zilles, 2009, p. 17).</p><p>De acordo com Zilles (2009, p. 17), outra tarefa fundamental da disciplina é</p><p>“investigar se o fenômeno religioso é originário e irredutível no homem, e se leva, por</p><p>sua natureza, a um termo supremo chamado Deus”, tendo em vista que há muitos</p><p>autores que negam tal originalidade e irredutibilidade. Para citar alguns, “Feuerbach</p><p>vê a religião como alienação, Marx como ópio do povo, Nietzsche como debilidade</p><p>gregária e Freud como sobrevivência nociva e patológica da imagem paterna na ideia</p><p>de Deus” (Zilles, 2009, p. 17).</p><p>Considerando o contexto de diversidade religiosa que permeia o Ocidente,</p><p>Urbano Zilles (2009, p. 18, grifo do original) entende que a filosofia da religião deve</p><p>assumir a tarefa de “formular questões que angustiam os indivíduos, as igrejas c a</p><p>sociedade”, tais quais:</p><p>A] Entre a tradição religiosa e as experiências da intersubjetividade crítica</p><p>moderna surgiu um abismo profundo (...].</p><p>B] A relação do cristianismo e das igrejas para com as religiões não cristãs</p><p>modificou-se profundamente (...].</p><p>C] O lugar e a função da religião e das igrejas no novo mundo político-social</p><p>modificaram-se radicalmente [...].</p><p>Diante dessas questões, o desafio é manter-se criticamente na busca pela</p><p>verdade contida na religião e cm suas problemáticas correlatas.</p><p>Depois de evidenciar a importância da filosofia</p><p>da religião e as suas principais</p><p>tarefas, seria interessante analisar também o que grandes filósofos pensaram sobre</p><p>Deus e o fenômeno religioso. No entanto, uma vez que esse desenvolvimento fugiria</p><p>ao escopo</p><p>37 Ciências da Religião</p><p>deste livro, vamos enfocar um exercício filosófico realizado no contexto da filosofia</p><p>grega antiga.</p><p>Ressaltamos que, em meio a tantos questionamentos e investigações acerca da</p><p>origem e da ordem do universo, desde seus primórdios, a filosofia ocupou-se, também,</p><p>de entender racionalmente questões religiosas, seja admitindo a existência de Deus,</p><p>seja criticando a forma de compreendê-lo e representá-lo. Em meio a uma realidade</p><p>cultural grega na qual as práticas e convenções religiosas professavam a crença em</p><p>vários deuses, sendo que muitos eram representados com figuras, formas e</p><p>comportamentos humanos, surgiram os primeiros questionamentos acerca do</p><p>universo religioso.</p><p>Segundo a professora Marilena Chaui (2000, p. 194), em seu livro Convite à</p><p>filosofia, “as primeiras críticas à religião feitas no pensamento ocidental vieram dos</p><p>filósofos pré-socráticos, que criticaram o politeísmo e o antropomorfismo', próprios do</p><p>universo religioso grego. Para eles, a luz da razão, seria um contrassenso a pluralidade</p><p>dos deuses, uma vez que a essência da divindade compreende a “plenitude infinita' e</p><p>a potência una. De acordo com Chaui (2000, p. 394), “declararam também absurdo o</p><p>antropomorfismo, uma vez que este reduz os deuses a condição de seres super-</p><p>humanos, isto é, as qualidades da essência divina não podem confundir-se com as da</p><p>natureza humana”.</p><p>Grondin (2012, p. 45) concorda com a análise de Chaui (2000) ao assinalar que</p><p>o filósofo pré-socrático Xenófanes “reprova os poetas por terem atribuído aos deuses</p><p>propriedades por demais humanas”. Inclusive, Grondin comenta um argumento</p><p>muito interessante atribuído a Xenófanes (citado por Grondin, 2012, p. 45-46):</p><p>Se os bois e os leões tivessem mãos e pudessem pintar como o fazem os</p><p>humanos, eles dariam aos deuses, que eles desenhassem,</p><p>38 Ciências da Religião</p><p>corpos bem parecidos com os deles, os cavalos os colocariam sob a figura de</p><p>cavalos e os bois sob a figura de bois; único e todo-poderoso, soberano dos</p><p>mais fortes, deus não é semelhante a nós, nem no espirito nem no corpo; os</p><p>humanos ao fazer os deuses a sua imagem, emprestam-lhes seus pensamentos,</p><p>suas vozes e seus rostos.</p><p>Logicamente, o leitor deve ter percebido que as críticas feitas ao politeísmo e ao</p><p>antropomorfismo, presentes na prática religiosa do mundo grego, não negam a</p><p>existência de Deus nem a importância da religião. Contudo, para esses filósofos, há</p><p>dois princípios que precisam ser considerados: (1) Deus é único, uno; e (2) Deus trans-</p><p>cende totalmente os humanos e não pode ser comparado a eles.</p><p>1.6 Pensamento teológico e</p><p>diálogo entre ciência e fé</p><p>O diálogo entre ciência e fé, definitivamente, não é uma questão fácil. Basta olhar mais</p><p>atentamente a história para constatar que muitos foram os conflitos, as tensões e, até</p><p>mesmo, as guerras envolvendo essas duas áreas do saber. Infelizmente, ainda hoje,</p><p>algumas pessoas consideram simplesmente impossível uma conciliação entre ambas.</p><p>No entanto, não podemos fugir desse debate, pois tanto a ciência quanto a fé estão</p><p>presentes no cotidiano das sociedades contemporâneas e são muito importantes para</p><p>a humanidade como um todo. Necessariamente, precisamos de uma c de outra para</p><p>compreender o ser humano de ontem, de hoje c de amanhã e, sobretudo, para</p><p>pensarmos sobre a dignidade das pessoas menos favorecidas.</p><p>Nesse contexto, o foco principal desta seção é analisar melhor o campo do</p><p>pensamento teológico e pensar em que medida este</p><p>39 Ciências da Religião</p><p>pode contribuir para o diálogo entre ciência e fé, considerando e respeitando,</p><p>naturalmente, as características próprias de cada uma.</p><p>O exercício de reflexão elaborado no universo teológico depende, em primeira</p><p>mão, da compreensão que se tem da própria teologia. Na Seção 1.5, ao assinalar que</p><p>as diferentes áreas do conhecimento abordam a questão da religião de acordo com seus</p><p>interesses e condições próprias, apontamos que a teologia busca refletir e analisar a</p><p>relação do ser humano com o transcendente, com base o pressuposto da Revelação c</p><p>da fé.</p><p>A essa altura, as contribuições do teólogo brasileiro Clodovis Boff (2014) acerca</p><p>do surgimento concreto da teologia merecem destaque. Km sua obra Teoria do método</p><p>teológico, atesta que “a teologia nasce do coração da própria fé [...). A fé é uma</p><p>realidade unitária, mas é também complexa. E é segundo essa complexidade que a fé</p><p>c fonte, objeto e fim da teologia” (Boff, 2014, p. 17, grifo nosso). Nesse sentido,</p><p>podemos afirmar que a fé é um pressuposto necessário para u teologia.</p><p>Como nas demais ciências, na teologia também devemos distinguir o objeto</p><p>material e o objeto formal. Sobre isso, afirma Boff (2014, p. 21, grifo do original):</p><p>O objeto material da teologia é, em primeiro lugar, Deus e depois tudo o mais.</p><p>Portanto, nada há que não seja em principio teologizável. (...) O objeto formal</p><p>da teologia é Deus enquanto revelado e também toda e qualquer realidade na</p><p>medida em que se relaciona com Deus revelado. Tal é o aspecto determinante</p><p>em teologia, que dá qualidade teológica ao seu discurso. Portanto, faz-se</p><p>teologia sempre que se reflete algo “à luz da fé” ou da Revelação.</p><p>Considerando esse princípio como procedente, é possível afirmar que a teologia não</p><p>se ocupa somente com a questão de Deus. Pelo contrário, por meio da fé e/ou da</p><p>Revelação, o indivíduo</p><p>40 Ciências da Religião</p><p>interessado na busca pela verdade pode debruçar-se sobre qualquer problemática</p><p>humana e relacioná-la à transcendência. Nessa perspectiva, abre-se uma possibilidade</p><p>imensa para o diálogo com as demais ciências, uma vez que todas elas compartilham</p><p>do anseio pela verdade. Na medida em que a teologia assume e “realiza a tríplice</p><p>caracterização formal de toda ciência, que é a de ser crítica, sistemática e</p><p>autoamplificativa” (Boff, 2014, p. 24), ela incorpora o predicado de ser ciência, no caso,</p><p>ciência humana.</p><p>Além disso, é fundamental considerar que a fé, na condição de dado</p><p>fundamental para o ato de teologar, segundo Boff (2014), compreende três elementos:</p><p>o cognitivo, o afetivo e o ativo. Cada um desses elementos compõe uma dimensão</p><p>especifica e torna-se fonte para a teologia. A fim do simplificar a compreensão, propo-</p><p>mos o esquema presente na Figura 1.3 a seguir.</p><p>A propósito do elemento cognitivo, Boff (2014, p. 28) afirma que a Fé-Palavra</p><p>precisa ser assumida como a ‘fonte primeira c decisiva” para a teologia. Enfatizando o</p><p>primado da Revelação, ou da Palavra de Deus, e da fé, ele esclarece que “fazer teologia</p><p>é ver finalmente tudo ‘à luz da Palavra’. [...] é refletir Deus e tudo ‘à luz da fé’” (Boff,</p><p>2014, p. 28).</p><p>No âmbito afetivo, a Fé-experiência é apresentada como uma outra fonte para</p><p>a teologia. Para Boff (2014), é justamente pela experiência da fé que a teologia vai nutrir</p><p>se como numa fonte segura c profícua. Sem a experiência mística com o transcendente,</p><p>41 Ciências da Religião</p><p>ela corre o risco de perder-se em um intelectualismo estéril. Isso porque, como afirma</p><p>Boff (2014, p. 33), “só um teólogo que banhe na experiência do Espírito vivificador e</p><p>que saia daí gotejando poderá produzir uma teologia viva e vivificadora”.</p><p>Ademais, em relação ao elemento ativo, deve-se considerar a Fé-prática como</p><p>uma das fontes para o fazer teológico. Embora o primado da Fé-Palavra seja</p><p>determinante para a teologia, é essencial olhar, sabiamente, para a prática devida das</p><p>pessoas e para os eventos concretos, a fim de atualizar a Revelação e seu significado</p><p>na e para a humanidade. A esse respeito, Boff (2014, p. 35, grifo do original) esclarece:</p><p>Não é a</p><p>prática que constitui o princípio iluminador dominante da teologia, mas</p><p>sim a Palavra da fé, devendo antes a prática ser iluminada pela Fé. Contudo, a</p><p>prática, como por um 'retorno dialético', pode também iluminar a fé e</p><p>contribuir, com seu potencial epistemológico próprio, para o conhecimento</p><p>teológico.</p><p>Compreendendo que a prática pode iluminar a fé, o teólogo precisa estar atento</p><p>ao cotidiano das pessoas de fé e de suas respectivas comunidades, tal que seu discurso</p><p>teológico incorpore as manifestações divinas experienciadas na vida prática. Desse</p><p>modo, sua reflexão tornar-se, naturalmente, mais encarnada, mais significativa, além</p><p>de potencialmente provocadora e promotora de transformação humana e social.</p><p>Nessa perspectiva, a teologia é convidada a abrir-se às demais ciências, de modo</p><p>que o pensamento teológico passa a contribuir significativamente para o diálogo</p><p>profícuo entre fé e ciência. É justamente na concretude da vida dos seres humanos que</p><p>esse encontro deve ocorrer, produzindo formas de conhecimento capazes de elevar as</p><p>condições de vida e de dignidade para todos, sobretudo para os menos favorecidos.</p><p>42 Ciências da Religião</p><p>Um comentário do teólogo e bioeticista Mario Antonio Sanches (2010, p. 157)</p><p>serve de ilustração para essas constatações:</p><p>Quem de fato encontra Deus passa a servi-Lo e não O transforma em posse</p><p>privada para promover o bem próprio. Quem de fato ama a ciência não aceita</p><p>que ela seja manipulada por grupos que querem se perpetuar no poder,</p><p>reproduzindo a injustiça. A verdade buscada na religião e na ciência é altiva, é</p><p>nobre e, se de fato for encarnada, a todos libertará.</p><p>Não obstante as conhecidas dificuldades reais da relação entre ciência e fé, o</p><p>professor Sanches convida-nos a adotar uma postura otimista, em especial, em uma</p><p>dimensão ética que deve visar ao bem comum e, portanto, a uma sociedade mais justa</p><p>e igualitária para todos. Isso porque, se colocarmos esses dois campos de produção do</p><p>conhecimento em compartimentos totalmente separados e incomunicáveis, com</p><p>certeza teremos uma visão fragmentada do mundo e da vida. Para Sanches (2010, p.</p><p>161), “falar do diálogo entre religião e ciência é promover a busca de uma sociedade</p><p>mais justa, quando a dignidade de todos e de cada um possa ser respeitada”.</p><p>Quando tanto a ciência quanto as práticas religiosas imbuídas pela fé enfocarem</p><p>o bem e a dignidade humana, sem dúvidas o diálogo entre estas será muito mais fácil.</p><p>Nesse sentido, é necessário empenho para que a produção do pensamento teológico</p><p>contemporâneo contribua de modo exitoso com uma associação entre fé e ciência,</p><p>objetivando a garantia de uma vida plena e digna para todos.</p><p>43 Ciências da Religião</p><p>1.7 Contribuição das ciências e das artes</p><p>na compreensão do fenômeno religioso</p><p>Na condição de manifestação própria, o fenômeno religioso é autônomo e deve ser</p><p>compreendido como tal. No entanto, é inegável a notória contribuição das ciências e</p><p>das artes em sua compreensão.</p><p>Em relação às ciências, conforme assinalamos nas seções anteriores, muitas são</p><p>as áreas que contribuem para a compreensão do fenômeno religioso. Em consonância</p><p>com os propósitos desta obra, destacaremos e detalharemos três: antropologia,</p><p>sociologia e psicologia.</p><p>Na condição de ciência, a antropologia possibilita a compreensão clara de que</p><p>a religião é um fenômeno singularmente humano, de modo que nenhuma é perfeita,</p><p>inexistindo qualquer hierarquia valorativa entre elas. Todas as matrizes religiosas, em</p><p>qualquer temporalidade, resultam das necessidades e dos desejos humanos, sendo,</p><p>portanto, obra humana. Dessa forma, em uma perspectiva antropológica, caso se</p><p>deseje conhecer profundamente o ser humano, não se pode ignorar a religião. Ao</p><p>mesmo tempo, percebemos que, quanto mais investigamos os fenômenos religiosos,</p><p>mais compreendemos a respeito da humanidade e das suas diferentes culturas.</p><p>IMPORTANTE!</p><p>Por meio de uma análise diacrônica, a antropologia possibilita constatar que o</p><p>fenômeno religioso está presente na história humana desde os primórdios. De acordo</p><p>com as antropólogas Marconi e Presotto (2008, p. 150), “Os registros arqueológicos</p><p>mais antigos sobre religião datam do Paleolítico Superior, com o homem de</p><p>Neandertal, que enterrava seus mortos com oferendas, demonstrando assim uma</p><p>crença em algo sobrenatural”.</p><p>44 Ciências da Religião</p><p>Uma vez que diversos antropólogos se debruçaram sobre dados acerca de</p><p>questões religiosas e/ou os compilaram, a contribuição dessa área para o estudo dos</p><p>fenômenos religiosos é bastante expressiva. Segundo as autoras citadas, “Os dados</p><p>acumulados sobre as crenças e práticas são inúmeros e os enfoques, variados. Uns</p><p>preocupando-se com o sobrenatural, com os sistemas de relação e ação, com a função</p><p>e origem da religião; outros, dando maior importância ora às crenças, ora às práticas”</p><p>(Marconi; Presotto, 2008, p. 150-151).</p><p>Nas pegadas da antropologia e em suas proximidades, a sociologia contribui</p><p>significativamente na compreensão do fenômeno religioso na medida em que busca</p><p>compreender os impactos das convicções e dos preceitos religiosos em questões</p><p>sociais, como a política, a saúde, a educação, a família, a comunidade, em diferentes</p><p>sociedades. De certa maneira, esse interesse pelos fenômenos religiosos faz com que</p><p>os processos de análise e investigação ajudem a explorá-los mais profundamente,</p><p>contribuindo para sua compreensão.</p><p>Quando a sociologia se ocupa da religião e sobre esta se debruça, o faz com o</p><p>objetivo de compreender suas funções sociais tendo em vista uma tríplice perspectiva:</p><p>A] determinação dos conteúdos sociais implícitos num sistema religioso;</p><p>B] análise da “retícula” religiosa (e da sua solidez a longo prazo) como elemento</p><p>de conexão com uma dada estrutura social;</p><p>C] configuração das modalidades sociológicas nas quais e através das quais um</p><p>sistema religioso articula as próprias estruturas simbólico-institucionais.</p><p>(Filoramo; Prandi, 2010, p. 91)</p><p>45 Ciências da Religião</p><p>Muitos autores canônicos da sociologia se ocuparam do estudo exaustivo do</p><p>fenômeno religioso. Entre tantas contribuições, podemos citar a obra de Émile</p><p>Durkheim (1858-1917) As formas elementares da vida religiosa, publicada em 1912; os</p><p>trabalhos de Max Weber (1864-1920), em especial A ética protestante e o espírito do</p><p>capitalismo, de 1903; e, mais recentemente, as reflexões do sociólogo Zygmunt Bauman</p><p>(1925-2017), que, ao discutir sobre a pós-modernidade, adentrou o tema da religião.</p><p>Outra área do conhecimento que também contribui consideravelmente para a</p><p>compreensão do fenômeno religioso é a psicologia que, na qualidade de ciência,</p><p>analisa as questões humanas por meio do psiquismo, que envolve, entre diversas</p><p>questões, a religiosidade.</p><p>Em sua obra A religiosidade humana, o estudioso Hans-Jüegen Fraas (2007, p. 9,</p><p>11, grifo nosso), assinala que “a religiosidade do ser humano [..., ou seja,] a</p><p>experiência religiosa e suas formas de expressão, o comportamento religioso do</p><p>indivíduo e de grupos”, constitui-se em um objeto de estudo que muito interessa à</p><p>psicologia, assim como “a pessoa religiosa, a religião vivida pelo indivíduo e a</p><p>subjetividade religiosa”.</p><p>Segundo o entendimento de Antonio Ávila (2007, p. 15), a psicologia propõe-se</p><p>a estudar “tanto a experiência religiosa do homem que se confessa crente como o</p><p>fenômeno da incredulidade ou indiferença religiosa”.</p><p>Nessa perspectiva, o autor aponta que a psicologia voltada às questões</p><p>religiosas se dedica a:</p><p>inventariar os comportamentos religiosos, explorar as diferenças significativas,</p><p>compreender as relações com outros fenômenos humanos, conhecer as</p><p>estruturas internas das experiências e dos comportamentos religiosos,</p><p>discernir a atitude religiosa aparente da autêntica e formular hipóteses</p><p>compreensivas da dimensão religiosa do homem. (Ávila,</p><p>2007, p. 18)</p><p>46 Ciências da Religião</p><p>Nessa perspectiva de compreensão do fenômeno religioso, além das</p><p>contribuições científicas, podemos destacar as contribuições advindas do universo das</p><p>artes.</p><p>O notório livro Las 1000 caras de Dios, de Rebecca Hind (2004), é uma coleção de</p><p>arte religiosa que abrange milhares de anos e uma ampla variedade de tradições do</p><p>mundo inteiro. Nele, a autora comenta que o legado artístico das culturas e das épocas</p><p>passadas encerra um tesouro de crenças e tradições que continua vivo nas religiões e</p><p>nos cultos da contemporaneidade. O universo da arte sacra ilustra a maneira pela qual</p><p>artistas de diferentes matrizes culturais e históricas expressaram e expressam suas</p><p>necessidades em relação ao transcendente e à Deus (Hind, 2004).</p><p>É importante ressaltar o quanto as obras de arte auxiliam a compreender, com</p><p>certa clareza, determinados fenômenos religiosos. Para ilustrar, indicamos dois</p><p>exemplos de arte sacra cristã a seguir.</p><p>47 Ciências da Religião</p><p>A pedido do Papa Júlio II (1443-1513), o artista renascentista Michelangelo</p><p>(1475-1564) pintou o afresco A criação de Adão (Figura 1.4) para retratar a passagem</p><p>do livro do Gênesis, que narra a criação do primeiro ser humano por Deus (Cf. Gn</p><p>1,26).</p><p>48 Ciências da Religião</p><p>Em homenagem a seu mestre, seguindo a iconografia ortodoxa e baseando-se na</p><p>narrativa bíblica do livro do Gênesis (Cf. Gn 18), o monge russo Andrei Rublev ([136-</p><p>?]-1430) pintou o ícone A Santíssima Trindade para representar a suprema divindade</p><p>cristã.</p><p>49 Ciências da Religião</p><p>ATIVIDADES DE AUTOAVALIAÇÃO</p><p>1. A respeito do desenvolvimento da área das ciências da religião no Brasil, analise as</p><p>assertivas a seguir:</p><p>I. Teve início entre os séculos XIX e XX, na obra de intelectuais, como Gilberto</p><p>Freyre, que abordaram o tema da religião sob a perspectiva do sincretismo e</p><p>da formação da cultura brasileira, especificamente das religiões afro-</p><p>brasileiras.</p><p>II. Seu estabelecimento como campo de pesquisa na universidade brasileira deu-</p><p>se a partir dos estudos do francês Roger Bastide (1898-1974) na Universidade</p><p>de São Paulo (USP). Ele destacou-se por dar status acadêmico e científico ao</p><p>estudo da religião, por meio de perspectivas da antropologia, da sociologia e</p><p>da psicologia.</p><p>III. Por influência de Roger Bastide, surgiram iniciativas acadêmicas voltadas aos</p><p>estudos da religião em universidades públicas e confessionais. Entre estas,</p><p>destacou-se o Centro de Estudos de Religião, fundado por Duglas Teixeira</p><p>Monteiro, no Departamento de Ciências Sociais da Universidade de São Paulo</p><p>(USP), em 1975.</p><p>Agora, assinale a alternativa correta:</p><p>A] Somente a assertiva I é correta.</p><p>B] Somente a assertiva II é correta.</p><p>C] As assertivas I e II são corretas.</p><p>D] As assertivas II e III são corretas.</p><p>E] As assertivas I, II e III são corretas.</p><p>2. Com base nos conceitos e métodos das ciências da religião propostos por Antônio</p><p>Gouvêa Mendonça (2004), analise as afirmações a seguir e assinale V para as</p><p>verdadeiras e F para as falsas.</p><p>50 Ciências da Religião</p><p>[ ] A religião compreende as variadas e mesmo infinitas formas com que Deus</p><p>se expressa no mundo, na história e no cotidiano das pessoas.</p><p>[ ] As Ciências da religião estudam as formas de expressão de Deus, nas pessoas</p><p>e na cultura.</p><p>[ ] As Ciências da religião se assemelham à Teologia porque cogitam de questões</p><p>a respeito de Deus, como sua existência e natureza.</p><p>[ ] O método fenomenológico constitui uma opção factível que permite</p><p>descrever a experiência sociocultural do fenômeno religioso com o objetivo</p><p>de explicar suas formas de expressão</p><p>Agora, assinale a alternativa que apresenta a sequência correta:</p><p>A] V, F, F, V.</p><p>B] F, F, V, V.</p><p>C] V, V, F, V.</p><p>D] V, V, V, F.</p><p>E] F, V, V, F.</p><p>3. A definição “processo de organização da experiência humana com o</p><p>transcendente” corresponde:</p><p>A] à filosofia da religião</p><p>B] às ciências da religião</p><p>C] à religião</p><p>D] à teologia</p><p>E] ao fenômeno religioso.</p><p>4. De acordo com os estudos de Hans-Jürgen Greschat (2005), o cientista da religião,</p><p>ao escolher uma entre tantas religiões existentes, deve considerar, em sua</p><p>investigação, quatro elementos ou camadas comuns às diferentes matrizes, a saber:</p><p>A] comunidade, fenômeno religioso, manifestações do sagrado e</p><p>espiritualidade.</p><p>B] experiência pessoal, conjunto de doutrinas, fenômeno religioso e</p><p>comunidade.</p><p>51 Ciências da Religião</p><p>C] instituição religiosa, textos sagrados, lideranças religiosas e doutrinas.</p><p>D] comunidade, sistemas de atos, conjunto de doutrinas e sedimentação de</p><p>experiências.</p><p>E] experiência pessoal, textos sagrados, lideranças religiosas e universo</p><p>simbólico.</p><p>5. Relacione cada área de conhecimento a sua contribuição e/ou relação na</p><p>compreensão do objeto das ciências da religião:</p><p>1. Filosofia</p><p>2. Teologia</p><p>3. Antropologia</p><p>4. Artes</p><p>5. Psicologia</p><p>6. Sociologia</p><p>a) Estuda o fenômeno humano, presente em sua história.</p><p>b) Expressa a experiência religiosa do ser humano com o transcendente em</p><p>diferentes linguagens.</p><p>c) Esclarece a essência formal da religião na existência humana.</p><p>d) Estuda a religiosidade do ser humano, a experiência religiosa, as suas formas</p><p>de expressão e o comportamento religioso individual e coletivo.</p><p>e) Compreende os impactos das convicções e dos preceitos religiosos em</p><p>questões sociais.</p><p>f) Reflete e analisa a relação do ser humano com o transcendente, com base no</p><p>pressuposto da Revelação e da fé.</p><p>Agora, assinale a alternativa que apresenta as combinações corretas:</p><p>A] la, 2f, 3c, 4b, 5e, 6d.</p><p>B] lf, 2a, 3e, 4d, 5f, 6b.</p><p>C] lc, 2f, 3a, 4b, 5d, 6e.</p><p>D] lc, 2a, 3f, 4b, 5e, 6d.</p><p>E] lf, 2a, 3e, 4d, 5c, 6b.</p><p>52 Ciências da Religião</p><p>ATIVIDADES DE APRENDIZAGEM</p><p>Questões para reflexão</p><p>1. Com base nos conteúdos estudados neste capítulo, resolva o jogo de palavras</p><p>cruzadas:</p><p>A] Intelectual francês que deu status acadêmico e científico ao estudo da</p><p>religião no Brasil, abordando-a sob as perspectivas da antropologia, da</p><p>sociologia e da psicologia.</p><p>B] “Consiste nas variadas e mesmo infinitas formas com que Deus se expressa</p><p>no mundo, na história e no cotidiano das pessoas” (Mendonça, 2004, p. 23).</p><p>C] Área do conhecimento que estuda as formas de expressão de Deus nas</p><p>pessoas e na cultura.</p><p>D] Método que constitui uma opção factível para descrever a experiência</p><p>sociocultural da religião com o objetivo de explicar as formas de expressão</p><p>do fenômeno religioso.</p><p>53 Ciências da Religião</p><p>E] As construções simbólicas realizadas pelos seres humanos na tentativa de</p><p>responder às suas necessidades e aos seus desejos.</p><p>F] Intelectual brasileiro que se destacou por abordar o tema da religião sob a</p><p>perspectiva do sincretismo, dedicando-se, especialmente, à formação da</p><p>cultura brasileira e às religiões afro-brasileiras.</p><p>G] Área do conhecimento que reflete e analisa a relação do ser humano com o</p><p>transcendente com base no pressuposto da Revelação de Deus ao homem.</p><p>H] Filósofo que considerou a religião uma forma de alienação.</p><p>I] Área do conhecimento que analisa a religião em sua totalidade, na condição</p><p>de necessidade humana de autocompreensão e de relação com um ser</p><p>superior ou poder transcendente.</p><p>J] Pensador da área da sociologia que escreveu a obra A ética protestante e o</p><p>espírito do capitalismo.</p><p>2. Elabore um glossário dos principais conceitos analisados neste primeiro capítulo,</p><p>como:</p><p>▪ Ciência</p><p>▪ Religião</p><p>▪ Ciências da religião</p><p>▪ Teologia • Cultura</p><p>▪ Transcendente</p><p>▪ Filosofia da religião</p><p>3. Pesquise sobre o diálogo entre a ciência e a fé na contemporaneidade. Em seguida,</p><p>sintetize em três aspectos centrais desse debate teórico.</p><p>4. Escolha um dos pensadores citados ao longo deste capítulo e pesquise sobre</p><p>sua</p><p>produção bibliográfica. Depois, escreva uma resenha crítica com base no estudo</p><p>realizado.</p><p>54 Ciências da Religião</p><p>Atividade aplicada: prática</p><p>1. Com base nos estudos realizados sobre as contribuições dos campos do</p><p>conhecimento na compreensão do fenômeno religioso, entreviste ao menos três</p><p>profissionais de áreas diferentes e pergunte-lhes sobre como cada um deles aborda</p><p>o estudo da religião e/ou das manifestações religiosas.</p><p>Além das áreas apresentadas neste capítulo (filosofia, teologia, antropologia,</p><p>sociologia, psicologia e artes), você pode escolher outras, por exemplo, história,</p><p>geografia, medicina etc.</p><p>Na sequência, elabore um quadro comparativo contendo:</p><p>▪ nome do entrevistado;</p><p>▪ área de conhecimento e atuação;</p><p>▪ principais elementos relativos ao tratamento da religião.</p><p>Por fim, analise as respostas e escreva um texto comparativo mostrando as</p><p>especificidades das áreas e as suas contribuições para o campo das ciências da</p><p>religião.</p><p>2.</p><p>CONHECIMENTO RELIGIOSO</p><p>NA SOCIEDADE</p><p>“Por isso, o Homem Sagrado abraça a unidade</p><p>Tornando-a o modelo sob o céu</p><p>Não julga por si, por isso é óbvio</p><p>Não vê por si, por isso é resplandecente</p><p>Não se vangloria, por isso há realização</p><p>Não se exalta, por isso cresce</p><p>Só por não disputar, nada pode disputar com ele”.</p><p>(Lao Tse, 2021, Capitulo XXII)</p><p>No Capítulo 1, quando abordamos as ciências da religião, reservamos um tópico</p><p>específico para refletir sobre o conhecimento religioso, que conceituamos como</p><p>resultante da relação dos sujeitos humanos com o objeto religião. Nesse sentido, dada</p><p>a complexidade de seu objeto, podemos dizer seguramente que o conhecimento</p><p>religioso é intrincado e múltiplo.</p><p>Considerando tamanha complexidade, proporemos, neste segundo capítulo,</p><p>adensar nossas discussões abordando o conhecimento religioso em sua relação com a</p><p>sociedade. Para tanto, vamos analisar e refletir sobre alguns pontos, como a cultura</p><p>religiosa, o fenômeno religioso, o sagrado e suas manifestações, a religiosidade</p><p>popular, a diversidade cultural e religiosa, bem como a relação entre ensino religioso,</p><p>ética e direitos humanos.</p><p>56 Conhecimento religioso na sociedade</p><p>2.1 Cultura religiosa</p><p>Na Seção 1.3, “A religião como bem cultural da humanidade”, assumimos um conceito</p><p>de cultura com base na perspectiva antropológica, segundo a qual, “o homem é o único</p><p>ser possuidor de cultura” (Laraia, 2009, p. 28). Assim sendo, é possível assinalar que</p><p>toda “construção simbólica” feita pelos seres humanos, que, na maioria das vezes,</p><p>busca responder às suas necessidades e aos seus desejos, denomina-se cultura (Aranha;</p><p>Martins, 2005).</p><p>Quando tais necessidades e desejos humanos tocam o mais profundo da</p><p>existência dos indivíduos e conectam-se ao transcendente na busca de fundamentações</p><p>para o sentido da vida, de sua origem até após morte, surgem construções simbólicas</p><p>que evidenciam o que pode ser chamado de cultura religiosa.</p><p>IMPORTANTE!</p><p>Se, por um lado, é verdade que a religião é resultado de processos culturais, por outro,</p><p>é correto dizer que, ao longo da história da humanidade, esta sempre exerceu e</p><p>continua exercendo profunda influência nas mudanças culturais. A religião é parte</p><p>integrante da cultura, com a qual gera transformações e elabora novos sentidos e</p><p>significados para as vidas de indivíduos e grupos humanos. Para Irineu Wilges (2010,</p><p>p. 8), “a religião é uma força que nem políticos, nem sociólogos, nem psicólogos e</p><p>pessoas em geral podem ignorar, porque faz parte da cultura cotidiana”.</p><p>Desse modo, a cultura religiosa mostra-se bastante abrangente, complexa e</p><p>desafiadora. Basta atentar para a imensidão do território brasileiro, de norte a sul e de</p><p>leste a oeste, para constatarmos o quanto o país e sua população são marcados por essa</p><p>complexidade, que se manifesta por meio de ideias, crenças, músicas, ritos e símbolos.</p><p>Ao expandir a análise para além do Brasil, constata-se,</p><p>57 Conhecimento religioso na sociedade</p><p>de acordo com cada nação ou região, que a população global também é profundamente</p><p>marcada por questões de ordem cultural e religiosa, em suas mais variadas formas.</p><p>Ressaltamos, todavia, que a presença da religião nos diferentes povos e culturas se dá,</p><p>muitas vezes, de modo um tanto controverso. Das experiências mais conflitantes às</p><p>mais solidárias, práticas e crenças religiosas permeiam a vida cotidiana de uma parte</p><p>significativa do planeta. Para ilustrar essas constatações, é possível recorrer a uma</p><p>afirmação do escritor norueguês Jostein Gaarder, em parceria com Victor Hellern e</p><p>Henry Notaker, na obra O livro das religiões:</p><p>Um rápido olhar para o mundo ao redor mostra que a religião desempenha um</p><p>papel bastante significativo na vida social e política de todas as partes do globo.</p><p>Ouvimos falar de católicos e protestantes em conflito na Irlanda do Norte,</p><p>cristãos contra muçulmanos nos Bálcãs, atrito entre muçulmanos e hinduístas</p><p>na índia, guerra entre hinduístas e budistas no Sri Lanka. Nos Estados Unidos e</p><p>no Japão há seitas religiosas extremistas que já praticaram atos de terrorismo.</p><p>Ao mesmo tempo, representantes de diversas religiões promovem ajuda</p><p>humanitária aos pobres e destituídos do Terceiro Mundo. É difícil adquirir uma</p><p>compreensão adequada da política internacional sem que se esteja consciente</p><p>do fator religião. (Gaarder; Hellern; Notaker, 2005, p. 16)</p><p>Além de se fazer presente no cotidiano social, político e, até mesmo, profissional</p><p>de tantas pessoas, é importante considerar que a religião, como fenômeno cultural,</p><p>também influencia preponderantemente a maneira como as pessoas enxergam o</p><p>mundo e os seus comportamentos. A cultura religiosa presente em uma determinada</p><p>comunidade ou país pode ser comparada a uma lente por meio da qual os indivíduos</p><p>percebem e analisam a realidade que os circunda. Por essa razão, é de grande</p><p>importância compreender os movimentos que permeiam determinada nação ou povo.</p><p>58 Conhecimento religioso na sociedade</p><p>Em um mundo cada vez mais multicultural e, nesse caso, marcado pela</p><p>multiplicidade religiosa, torna-se fundamental um conhecimento religioso sólido que</p><p>possibilite compreender o outro e respeitá-lo em sua alteridade.</p><p>Para garantir uma dimensão mais concreta a essa discussão, vamos analisar</p><p>alguns exemplos relacionados ao cotidiano da sociedade brasileira, evidenciando o</p><p>quanto as lentes culturais e religiosas presentes em nosso país influenciam a vida, o</p><p>comportamento, os valores e as convicções das pessoas.</p><p>Começando por algumas datas comemorativas e memorativas, constatamos</p><p>que há, no Brasil, uma série de feriados, locais e nacionais, dedicados a santos</p><p>padroeiros. Por exemplo, o dia 20 de janeiro é feriado no munícipio do Rio de Janeiro</p><p>e nessa data se comemora a festa de São Sebastião; o dia 25 de janeiro é feriado</p><p>municipal em São Paulo, devido ao santo padroeiro que leva o mesmo nome; em</p><p>Curitiba, o dia 8 de setembro é feriado, por conta da festa da padroeira Nossa Senhora</p><p>da Luz.</p><p>Já a nível nacional, o dia 12 de outubro é feriado devido à festa dedicada a Nossa</p><p>Senhora Aparecida, padroeira do Brasil. A sexta-feira que antecede o domingo de</p><p>Páscoa também é um feriado nacional, assim como o dia 25 dezembro, no qual se</p><p>comemora o Natal. Todas essas – e outras tantas – datas estão vinculadas ao universo</p><p>cristão e, mais especificamente, ao católico, indicando o quanto essas culturas</p><p>religiosas norteiam o calendário brasileiro.</p><p>Outra data marcadamente impregnada da cultura cristã é o dia 2 de novembro,</p><p>dedicado aos fiéis defuntos. Isso fica evidente se observarmos os rituais religiosos mais</p><p>praticados nos cemitérios brasileiros: orações, celebrações, velas, flores etc. O feriado</p><p>está tão enraizado que mesmo uma pequena cidade do interior do país pode levar</p><p>centenas e até milhares de pessoas a uma celebração</p>

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