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Prévia do material em texto

<p>UNIVERSIDADE FEDERAL DE UBERLÂNDIA</p><p>INSTITUTO DE PSICOLOGIA</p><p>PSICOPATOLOGIA GERAL II</p><p>Profª Drª Lucianne Sant’Anna de Menezes</p><p>Uma leitura da histeria enquanto mudança paradigmática em Psicanálise</p><p>Ana Vitória Borges Rodrigues- 12011PSI053</p><p>Andressa Ribeiro Ferreira - 12011PSI001</p><p>Fernanda Cortes Faria - 11921PSI001</p><p>Jéssica Resende de Andrade - 12011PSI054</p><p>Luiza Cunha Machado - 12011PSI003</p><p>Maria Paula Silva Oliveira - 12011PSI005</p><p>Melissa Teixeira da Cunha - 12011PSI041</p><p>Rômulo Silva Bueno - 11911PSI030</p><p>Uberlândia - MG</p><p>2023</p><p>1. Introdução</p><p>Ao longo do texto, Freud (1905[1901]) discorre sobre alguns aspectos importantes da análise para aqueles que seguem suas técnicas e atuam como analistas, além de trazer aspectos teóricos sobre a histeria, neurose, recalque e claro, sobre seu último livro publicado, a Interpretação dos Sonhos (FREUD, 1900-1901). Ademais, trata sobre alguns preconceitos e pudores da época sobre como em seus atendimento com uma jovem moça podem abordar conversas sobre sexualidade de forma ética e conta sobre a história de Dora ser uma “petite hystérie” (FREUD, 1905[1901], p. 16), ou seja, é um caso de uma pequena histeria, considerada comum, e por isso, relevante, pois o autor aponta que o que falta de conhecimento sobre a histeria e a neurose é a elucidação de casos mais comuns, com seus sintomas mais frequentes.</p><p>A histeria, que deriva do grego, hystera (matriz, útero), possui um variado leque de quadros clínicos e sintomas, e, na época de Freud, refletia os conflitos psíquicos que atravessavam das burguesas ricas da cidade de Viena às loucas do povo que habitavam asilos e manicômios.</p><p>A feminilidade sempre foi associada à condição histérica, mas, como sublinha Gladys Swan, não é uma doença de mulheres, mas a própria doença em seu estado puro, “que não é nada em si, mas é passível de assumir a forma de todas as demais”. Em outras palavras, é o que torna a experiência da feminilidade em algo adoecido por essência.</p><p>A histeria persistiu na história da humanidade e existiram diversas formas de encará-la, todas frutos de seu tempo. Com suas raízes na Grécia antiga, a histeria era entendida como uma doença orgânica de fonte uterina que afetava todo o corpo. Platão entendia que a mulher carregava em seu âmago uma animalidade que a diferenciava do homem, uma noção que perdurou por séculos. Depois, surge a ótica religiosa sobre as histéricas, em que os quadros eram entendidos como intervenções demoníacas, bruxaria, contrações em busca de prazer, etc. Mulheres eram submetidas a torturas, tratamentos bizarros e, por vezes, à morte em decorrência de seus comportamentos.</p><p>É apenas no século XVIII que a histeria é entendida como uma doença nervosa fruto de “humores desbalanceados”, e daí surgem também as práticas alienistas. De forma nada inédita, as mulheres tiveram suas narrativas e histórias silenciadas, mas agora de uma nova forma: a institucionalização em asilos manicomiais, alas psiquiátricas e hospitais era a forma perfeita de não só controlar quadros psicopatológicos mas o universo feminino como um todo. A alienação desses corpos era uma excelente forma de controle social e físico de mulheres dissidentes. A histeria foi instrumentalizada por instituições para emudecer as perspectivas, revoltas e dilemas do mundo feminino. Não era incomum que essa internação servisse propósitos que não tinham fins terapêuticos. Foi o trabalho de Charcot que começou a devolver a dignidade à histeria, uma vez que essa doença é propriamente entendida como uma neurose a partir de então.</p><p>A neurose histérica, já ao fim do século XIV, se tornou uma verdadeira epidemia, e isso atrai a atenção de Freud, que sublinha sua origem em traumas de ordem sexual na infância, o que acaba sendo modulado em sua teoria da libido, apropriada da sexologia. Esse novo olhar libertou as histéricas da suspeita de simulação e do estigma de cronicidade e imutabilidade do quadro, algo que embasava e justificava os abusos cometidos contra elas.</p><p>Freud cria, gradualmente, uma prática clínica que valoriza as experiências, dores e angústias da histeria ao criar uma postura médica que realmente se debruça sobre as histórias das mulheres através da terapia pela fala. Isso é perceptível no caso de Dora, cuja narrativa finalmente é legitimada e ouvida por alguém de sua época.</p><p>As primeiras versões da psicanálise freudiana revolucionou o mundo da psiquiatria, e apesar de suas noções serem permeadas por influências problemáticas de sua época, como os estigmas do mundo feminino (casamento, sexualidade, maternidade, etc.), é enfim ofertado às mulheres a capacidade de elaborarem suas próprias vivências e conflitos.</p><p>2. História do Caso</p><p>A dinâmica relacional das pessoas envolvidas na história de Dora é composta por ela, seu pai, sua mãe, o Sr. K., a Sra. K., como será descrito aqui com base na obra de Freud (1905[1901]). e também seu irmão mais velho, sua tia e a governanta. O pai de Dora adoeceu muito desde que ela tinha 6 anos de idade, quando teve uma tuberculose forte e a família se mudou para a cidade B devido ao clima, quando Dora tinha 10 anos ele teve um descolamento da retina e dois anos depois uma crise confusional, sendo consultado por Freud. O pai se insere na história como uma pessoa dominante, sendo extremamente admirado por Dora. Seu pai, ao longo das histórias retratadas por Dora, está inicialmente em local onde é admirado e recebe muito carinho da filha, e devido a alguns acontecimentos com o casal K., Dora passa a se dirigir ao pai com raiva e comportamento inamistoso.</p><p>Dora tem 18 anos quando inicia seus atendimentos com Freud em 1900, e começa a apresentar sintomas neuróticos desde seus 8 anos, apresentando uma dispnéia crônica. Com 12 anos Dora passa a ter enxaquecas e acessos de tosse nervosa, com 16 anos sua enxaqueca foi desaparecendo gradualmente e com 18 anos tem acesso de tosse e a perda completa da voz.</p><p>Em relação à mãe de Dora, as duas sempre tiveram uma relação inamistosa, a filha menosprezava a mãe, e é referenciado como uma mão com “psicose da dona-de-casa” (FREUD, 1905[1901], p. 14), sendo que não demonstrava interesse nos filhos e no marido, apenas se preocupava com os afazeres da casa. O irmão mais velho de Dora fora antes seu modelo, mas atualmente são mais distantes e há uma atração sexual costumeira na família, na qual o filho se apoia e defende mais a mãe, e a filha tem essa relação com o pai. Dora tinha também sua tia como modelo, até que ela falece quando Dora tinha 16 anos.</p><p>Além disso, o casal K. se tornam importantes amigos da família, após se conhecerem em B, sendo que Sra. K. cuida do pai de Dora enquanto está enfermo, o apoiando muito. A Sra. K. e Dora foram amigas próximas por muitos anos, sendo que Dora era sua confidente e ouviu sobre seus problemas conjugais com o Sr. K. Já Sr. K. era muito amável com Dora, Dora tinha muito carinho pelos filhos do casal e passava tempo com a família deles, o Sr. K. passou a passear muito com Dora e a dar presentes a ela. Nenhum membro das famílias pensava que esse comportamento do era Sr. K. estranho, como se cortejasse a garota. Após algumas sessões com Freud, é mostrado que havia um acordo não dito entre o pai de Dora e Sr. K., no qual o pai de Dora ignorava o comportamento do Sr. K. com sua filha para que ele não atrapalhasse o caso amoroso que o pai de Dora tinha com a Sra. K. Isso fez com que Dora se sentisse um objeto de troca, exigindo que seu pai cortasse contato com o casal. Nesse sentido, destacam-se duas cenas importantes entre Dora e o Sr. K., a cena do beijo e a cena do lago.</p><p>2.1. Cena do beijo</p><p>A cena do beijo se passa em 1896, quando Dora tinha 14 anos. Essa foi uma experiência, de acordo com Freud (1905[1901]), que opera como um trauma sexual, ou seja, que diz respeito ao desejo do Sr. K. sobre ela. Nessa cena, Sr. K. havia combinado de sair com Dora e com a Sra. K., mas induz a esposa a ficar em casa. Os dois se encontram em um cômodo no qual Sr. K. fecha uma das portas e, “ao invés de sair pela porta aberta, estreitou subitamente</p><p>a moça contra si e depôs-lhe um beijo nos lábios. Era justamente a situação que, numa mocinha virgem de quatorze anos, despertaria uma nítida sensação de excitação sexual. Mas Dora sentiu naquele momento uma violenta repugnância, livrou-se do homem e passou correndo por ele em direção à escada, daí alcançando a porta da rua” (REFERÊNCIA?).</p><p>De acordo com Dora (FREUD, 1905[1901]), nada foi dito sobre o ocorrido, não falaram com ninguém sobre e Dora apenas passou a evitar ficar sozinha com ele novamente. Após a cena do beijo, Dora apresenta alguns sintomas que se relacionam à experiência com o Sr. K., sendo eles repugnância, uma sensação de pressão do abraço do homem e não gostava de passar perto de homens em conversa afetuosa. Ao contar sobre sua repugnância ou asco, menciona que tinha dificuldades para comer, o que mostra um recalcamento da zona erógena dos lábios, o que se relaciona a seus outros sintomas da mesma região, a tosse, afonia e coceira na garganta. Além disso, Dora conta que continuava sentindo na parte superior de seu corpo a pressão do abraço de Sr. K., o que de acordo com Freud se dá por um deslocamento de uma sensação da parte inferior do corpo para a superior, pois baseado em diversas sessões e discussões, Freud acreditava que além do beijo, Dora havia sentido o membro ereto de Sr. K. contra seu ventre, o que foi recalcado por ela. O seu comportamento de não gostar de passar perto de homens que estão em conversa afetuosa se relaciona com isso, pois ela tinha medo de que eles possam estar em excitação sexual.</p><p>2.2. Cena do lago</p><p>Segundo relatos de Dora (FREUD, 1905[1901]), aos 16 anos, a menina passeava com Sr. K em torno de um lago e se declara a ela, dizendo que estava interessado e que Sra. K. não era nada para ele. Ao ouvir isso, Dora se desestabiliza pois a Sra. K. é para ela um símbolo de sustentação do desejo pelos homens, que, a partir dessa cena, lhe é tirado então. Dora dá um tapa no rosto de Sr. K por não saber mais como lidar com o desejo masculino investido nela. O Sr. K naturalmente negou qualquer atitude com essa conotação ainda com o apoio da esposa, a qual afirmou que a moça só mostrava interesse por assuntos sexuais, provavelmente excitada pelas leituras que andava fazendo.</p><p>Após a cena do lago, Dora insiste para que seu pai rompa laços com os K., mas o pai não o faz. Dora se sente um objeto de troca, pois estava certa em pensar que seu pai não acreditava nos relatos dela sobre o comportamento errado de Sr. K. para não ser incomodado em sua relação com a Sra. K. Dora já desconfiava que seu pai e Sra. K. tinham um caso, antes da cena do lago, pois eles viajavam ao mesmo tempo e se encontravam, não sendo muito discretos. Porém, ela censurava esse conhecimento e facilitava a relação do pai com a Sra. K., sendo que essa censura recai sobre ela mesma, para ocultar dela mesma e dos outros seu enamoramento pelo Sr. K.</p><p>Dora tinha muita ternura pelo pai e, após a cena do lago, ela recalca seus sentimentos pelo Sr. K. e, de acordo com Freud (1905[1901]), é forçada a recorrer a sua afeição infantil pelo pai, para de proteger desse enamoramento, ignorando em sua consciência esses sentimentos, e por isso é tão dolorido ter se sentido um objeto de troca entre seu pai e Sr. K Dora tira como proveito desse recalcamento o convencimento de que não havia mais sentimentos pelo Sr. K. após a cena do lago.</p><p>Dora relata para Freud estar brava com o pai por não romper relação com os K., e tinha raiva principalmente da Sra. K., pois tinha um ciúme do pai e da Sra. K. Porém, essa raiva direcionada especificamente à Sra. K. fica confusa para o leitor ao acompanhar o caso. Isso se esclarece ao longo do processo de análise de Freud, ao conversarem sobre a amizade de Dora e Sra. K., que por anos foram boas amigas e confidentes. Dora se sente traída pela Sra. K., pois após a cena do lago, ela conta ao pai sobre o comportamento inapropriado do Sr. K. e seu pai o confronta. Em um primeiro momento, Sr. K. defendeu a honra de Dora, falando bem dela, porém depois de algumas semanas, Sr. K. muda seu discurso depreciando Dora, dizendo como ela havia inventado o que ocorreu no lago, pois só tinha interesse em assuntos sexuais e lia Mantegazza. Acontece que, apenas a Sra. K., antes confidente de Dora, sabia de seus interesses de leitura, portanto a Sra. K. a traiu e a enganou, mostrando que não tinha carinho para com ela, mas apenas direcionava seu afeto ao pai de Dora – a Sra. K. amava Dora apenas devido ao interesse por seu pai.</p><p>Aqui, Freud entra em contato com a bissexualidade, que será melhor explorada posteriormente, compreendendo que Dora, afinal, tinha sentimentos pela Sra. K., pois apresenta um enamoramento por ela e também pelo pai, tendo ciúme dos dois. Além disso, Dora direcionava raiva à mãe, por aparentar não se importar com a relação extraconjugal do pai.</p><p>Durante esse conflito, Dora, tomada pela raiva do pai por não romper contato com o casal K., passa a apresentar sintomas de desânimo e alteração do caráter, e escreve uma carta de despedida, o que preocupa imensamente o pai, e assim leva a filha para se consultar com Freud. Freud chega à conclusão de que a moça não tinha intenção de cometer suicídio, e que sua intenção ao escrever a carta era busca a compaixão do pai ou uma vingança, causando preoupação e culpa no pai.</p><p>Dora aprende com a própria Sra. K. a tirar proveito de sua doença: percebia que a mulher adoecia assim que o marido retornava de viagem, sendo que um dia antes gozava de saúde, ou seja, entendeu que a presença de seu marido a fazia adoecer e que isso a livraria dos deveres conjugais que não gostava. Assim, Freud pensou que os estados de saúde e doença de Dora também dependiam de algo específico. Questiona, então, qual a duração média dos ataques -três a seis semanas-, e quanto tempo durava a ausência do Sr. K: três a seis semanas também. Sendo assim, com sua doença ela demonstrava seu amor pelo homem, da mesma forma que Sra K demonstrava sua aversão. Ao ficar longe de seu amado, Dora tinha muitas dores de garganta e tosse e, em especial, a afonia, pois gostava de conversar com ele, porém não havia sentido se não estivesse por perto. Essa voz se redireciona para a escrita, uma vez que a menina escrevia muitas cartas a Sr.K.</p><p>2.3. Primeiro sonho</p><p>Dora conta que volta a ter um sonho que já havia ocorrido repetidas vezes da mesma forma:</p><p>“Uma casa estava em chamas. Papai estava ao lado da minha cama e me acordou. Vesti-me rapidamente. Mamãe ainda queria salvar sua caixa de joias, mas papai disse: `Não quero que eu e meus dois filhos nos queimemos por causa da sua caixa de joias.’ Descemos a escada às pressas e, logo que me vi do lado de fora, acordei.(FREUD, 1905[1901], p. 39)”</p><p>Dora não se lembrava exatamente a primeira vez que havia sonhado, porém se recorda que havia sonhado 3 vezes sucessivas no lugar em que ocorreu a cena do lago com o Sr. K, e havia voltado a sonhar algumas noites atrás. para entender o que desencadeou o evento do sonho mais recente, Freud pediu para que Dora o destrinchasse. Ela relata que recentemente os pais tiveram uma discussão por a mãe trancar a porta da sala de jantar, única passagem para o quarto do irmão. Seu pai se opôs pois não queria que o filho ficasse trancado assim à noite porque pode acontecer alguma coisa durante a noite que torne necessário sair, o que a fez pensar no risco de incêndio.</p><p>Ao destacar essa última frase “pode acontecer alguma coisa durante a noite que torne necessário sair”, Dora se lembrou da casa da cena do lago, onde o pai estava com medo de que ocorresse um incêndio pois chegaram no meio de uma tempestade e a casa de madeira não tinha para-raios. Esse então seria o vínculo com a causa recente e a causa original. Além disso, continuando a análise do sonho, Dora percebeu outra semelhança: “Na tarde seguinte ao nosso passeio pelo lago, do qual o Sr. K. e eu voltamos ao meio-dia, eu tinha-me recostado no sofá do quarto, como de costume, para dormir um pouco. De repente, acordei e vi o Sr. K. parado em frente a mim…” (FREUD,</p><p>1905[1901]), – da mesma forma que seu pai estava em seu sonho (ao lado da cama).</p><p>Diante de todas as análises e associações, Freud conclui então que o sonho se repetia toda noite para corresponder a um propósito, o qual persistia até que ele fosse realizado. “No caso, seu propósito era sair da casa em que se encontrava” (FREUD, 1905[1901]).Ansiava sair da casa pois temia ficar sozinha com Sr. K., assim como temia o amor que sentia por ele. Temia, acima de tudo, ela mesma, pois receava cair na tentação do homem, fato que confirmava tamanho amor.</p><p>Nesse sonho, havia o desespero de Dora de retirar a caixinha de jóias de sua mãe da casa em chamas. É necessário comentar sobre um episódio prévio ao sonho, uma discussão entre o pai e a mãe de Dora.</p><p>A mãe pede ao pai novas jóias, brincos de pérola, para que ela então os use e o guarde em sua caixa de jóias. Dora entende nesse momento que presentear jóias à mulher amada é como um ato de retribuição pelo amor recebido, amor este que também é sexual.</p><p>A “caixinha de jóias” de uma mulher é entendida como uma alusão ao próprio órgão genital feminino, e mais ainda, a virgindade. Dora se desespera no sonho, pois não poderia deixar um bem tão precioso ser completamente consumido pelo fogo, simbolizado aqui como o desejo sexual, este muito marcado pelos sentimentos ambíguos acerca de Sr. K.</p><p>Dora teme e anseia por entregar, como gesto de retribuição amorosa, sua “caixa de jóias” ao desejo ardente de Sr. K. A ansiedade da perda de sua castidade é também simbolizada pela pressa em pôr suas roupas durante o incêndio no sonho, um reflexo de um comportamento que precisou adotar na realidade ao perceber que Sr. K tinha, praticamente, livre acesso aos seus aposentos.</p><p>O desejo de substituir o Sr. K. pelo pai forneceu a força impulsora (pulsional) para o sonho, Dora busca evocar seu antigo amor do pai para se proteger de Sr. K.</p><p>2.4. Segundo sonho</p><p>Após algumas semanas, Dora narra um segundo sonho, cujo fato mais importante é a morte do pai. Conforme o processo de análise vai ocorrendo, surge uma sequência de fatos relembrados e narrados por Dora. Ela conta de sua apendicite, a qual deixou uma sequela incomum de arrastar o pé, caracterizado como um autêntico sintoma histérico por não possuir justificativas orgânicas. Como essa sequela é posterior à cena do lago, ela se adequa ao sentido sexual do quadro patológico. Os noves meses entre a cena e a apendicite, junto com as dores abdominais e o fluxo menstrual inconstante, simbolizam a fantasia de um parto. Nessa conjuntura, o arrastar do pé simboliza um “passo em falso” dado por ela, além de ter torcido esse mesmo pé na infância. O parto e as consequências do passo em falso aludem para um lamento de Dora referente ao desfecho da cena. Logo, Freud revela a Dora que o amor dela pelo Sr. K. não terminou com a cena em questão, mas persistiu em seu inconsciente até o momento da terapia (FREUD, 1905[1901]).</p><p>Na sessão seguinte, Dora afirma que é sua última vez ali, fazendo uma comparação com um aviso prévio de quatorze dias dado por uma governanta aos K. no lago. O Sr. K. fez a essa governanta a mesma proposta que fez a Dora, porém a governanta aceitou. Em pouco tempo, o Sr. K. parou de dar atenção a ela, que começou a odiá-lo e foi embora algum momento depois. Diante dessa história, Freud afirma que a bofetada da cena do lago foi uma vingança por ciúme, por ele ter usado as mesmas palavras com uma governanta, pelo ciúme e por motivos de prudência conscientes. Há diversas identificações de Dora com a governanta: ambas escreveram cartas aos pais contando a proposta do Sr. K.; despedida da terapia como um aviso prévio de governanta; carta do sonho com a permissão de retornar ao lar como oposta à carta dos pais da moça, em que ela é proibida de fazê-lo (FREUD, 1905[1901]).</p><p>Ademais, Dora teria esperado renovação das propostas para descobrir se ele queria algo sério com ela. Como isso não ocorre, Dora começa sua vingança contra o Sr. K. A moça acredita que o Sr. K. estava esperando o amadurecimento dela para que se casassem, e apoia a relação entre o pai e a Sra. K. para que ela pedisse o divórcio. Freud conclui que Dora não quer ser lembrada de ter imaginado que a proposta era séria e que o Sr. K. não desistiria de casar com ela. Depois de Freud confrontar Dora com o exposto, ela não o contradiz parecendo emocionada, porém despede-se e nunca mais volta (FREUD, 1905[1901]).</p><p>3. Neurose: Mecanismo do recalque (Verdrängung) e a histeria de conversão</p><p>Por meio da psicanálise freudiana, temos que as neuroses são transtornos psíquicos que possuem raízes na infância do sujeito, naquilo que concerne à sua sexualidade. Em sua obra “Neurose e Psicose”, Freud (1924) afirma que “a neurose seria o resultado de um conflito entre o eu e o id” (p. 95), isto é, o eu recusa a ordem libidinal advinda do id através do seu mecanismo de defesa, o recalque (verdrängung). Contudo, a fonte dessa pulsão recalcada não é eliminada, enviando estímulos frequentes ao consciente e procurando por saídas pelas quais o eu não obtém controle: um representante substituto, um sintoma (POLETTO, 2019).</p><p>As histerias de conversão podem ser desencadeadas por um Complexo de Édipo fracassado, ou seja, um desejo com o qual o sujeito não conseguiu ou soube lidar, que estava associado ao desejo do Outro no campo pulsional. Logo, nessas psicopatologias, o recalque atua nas lembranças traumáticas simbolizadas - fantasias e desejos sexuais infantis - e o seu retorno aparece de forma distorcida, visando criar um termo de compromisso entre os sistemas pré-consciente e consciente para que sua expressão não incite o desprazer. Portanto, o retorno do recalcado expressa-se pelo sintoma, em que há uma ruptura entre o afeto e a representação insuportável ao sujeito: o afeto é convertido para o corpo/somático e a representação é recalcada novamente, agora, não pelo mecanismo de defesa da neurose, mas pelo recalque como destino pulsional (POLETTO, 2019).</p><p>Em suma, segundo Freud (1984), a histeria de conversão é a “predisposição psicofísica para transpor enormes somas de excitação para a inervação somática” (p. 57), sendo possível pela regressão da libido e pela fixação na fase fálica, que viabilizam o investimento libidinal no corpo do sujeito (SANTOS, 2017). Destaca-se que, recorrentemente, os desejos dos neuróticos adquirem novas configurações apoiadas nas nuances do mundo da fantasia, visto que almejam realidades alternativas que se assemelham a um período satisfatório de suas vidas, livrando-se de exigências rígidas da sociedade (POLETTO, 2019).</p><p>4. O sintoma como fantasia encenada</p><p>Durante o tratamento, Freud conta sobre como a constatação da permanência do sintoma da tosse, ao mesmo tempo em que Dora insistia nas acusações em relação ao pai, o levou a desconfiar de que esse sintoma tinha algum significado a ele conectado (FREUD, 1905[1901]). É, então, com base nessa percepção que ele introduz, no texto, a seguinte concepção: “o sintoma significa a representação - a realização - de uma fantasia de conteúdo sexual, isto é, uma situação sexual” (p. 28). O sintoma da tosse espasmódica de Dora, cujo estímulo consistia em uma sensação de cócega na garganta, representava uma cena de satisfação sexual per os [pela boca] entre duas pessoas cuja ligação amorosa ocupava insistentemente a moça (o seu pai e a Sra. K) (FREUD, 1905[1901]).</p><p>Para entender de que modo Dora cria uma fantasia inconsciente de obtenção de satisfação sexual pela sucção do órgão masculino e a expressa através do sintoma conversivo, é preciso retomar dois aspectos. De acordo com Nasio (1991), “o sofrimento vivido pelo histérico num sintoma de conversão equivale à satisfação de um orgasmo; e a parte do corpo que é sede da conversão adquire o valor de um órgão sexual” (p. 147). Considerando a existência de um sintoma conversivo, ou seja, de uma via de descarga somática do afeto (a sensação de cócega na garganta por meio dos ataques de tosse), uma fixação originada da imitação compassiva da enfermidade de seu pai, “depois que uma parte</p><p>da libido voltou-se novamente para o pai, o sintoma obteve o que talvez seja sua significação última: representar a relação sexual com o pai pela identificação de Dora com a Sra. K” (FREUD, 1905[1901], p. 50).</p><p>Por outro lado, tomemos outra passagem freudiana: “As forças impulsoras da formação dos sintomas histéricos não provêm apenas da sexualidade normal recalcada, mas das moções perversas inconscientes” (FREUD, 1905[1901], p. 31). As formas de satisfação consideradas perversas fazem parte do que Freud denomina de sexualidade perverso-polimorfa da criança. Nos psiconeuróticos, as inclinações perversas são fortemente acentuadas, tendo sido apenas recalcadas ao longo do desenvolvimento. No caso específico de Dora, que se lembrava de ter sido uma “chupadora de dedo” na infância, a intensa atividade na zona erógena da membrana mucosa dos lábios e da boca em uma idade precoce engendrou a complacência somática necessária para que a estimulação dessa zona se tornasse passível de fixação. Em outras palavras, essa região do corpo tinha um alto grau de significação de uma zona erógena e estava apta a dar expressão à libido excitada (FREUD, 1905[1901]).</p><p>Dada essa pré-condição somática, quando, posteriormente, Dora conhece o objeto sexual propriamente dito, o órgão sexual masculino, uma situação que torna a aumentar a excitação na zona da boca leva a uma substituição, na fantasia de satisfação, do mamilo originário e do dedo, que, por sua vez substituía aquele, pelo pênis.</p><p>Bissexualidade e as identificações histéricas</p><p>Ademais, a importância do caso Dora para a clínica e a teoria psicanalítica enquanto mudança paradigmática também pode ser constatada por meio do conceito de identificação histérica. De acordo com Iannini (2022),</p><p>Dora nos mostra que a bissexualidade constitucional em psicanálise não se reduz a escolhas de objeto de ambos os sexos ou gêneros, mas se estende também à oscilação e à coexistência de posições de identificação ditas masculinas e femininas - bem como de modalidades de satisfação pulsional ativas e passivas - em um mesmo sujeito, apontando para um fundo de indeterminação estrutural na sexualidade humana [...]. (IANNINI, 2022, pp. 10-11).</p><p>A bissexualidade em psicanálise é própria da subjetividade humana, fundamentada na diferença sexual, o que pressupõe que o sujeito deve realizar uma escolha sexual, quer recalque os dois componentes da sexualidade, aceite a ambos ou renegue a realidade da diferença sexual (ROUDINESCO; PLON, 1998, p. 71). Entretanto, a histérica admite uma concomitância de identificações masculinas e femininas, modalidades de satisfação pulsional ativas e passivas, o que aponta para a indeterminação estrutural da sexualidade histérica.</p><p>Dora não consegue realizar a escolha sexual por nenhum dos sexos, nem identificar-se secundariamente (simbolicamente) com o lugar da mãe como mulher. Ela se identifica com o homem (no caso, seu pai), para ter acesso à mulher proibida – daí a mimetização de sintomas do pai, como a tosse, ao que a histérica é conhecida anedoticamente como “a grande imitadora”. Ao mesmo tempo, identifica-se com a mulher proibida (a Sra. K.) para acessar o homem proibido (o Sr. K.) – o que se expressa em sintomas como os ataques de afonia relacionados à presença e ausência do Sr. K., da mesma forma que a esposa deste.</p><p>5. ‘A estrutura do caráter histérico’</p><p>Os conceitos de estrutura e conduta são amplos e implicam em uma ampla discussão. Pode-se conceber a estrutura psicopatológica, seja a neurose, a psicose ou a perversão, a partir da valorização de condutas que a evidenciam. Nesse sentido, tomam-se determinadas condutas como neuróticas, psicóticas ou perversas a partir de diferentes parâmetros, como o aparato psíquico utilizado na resolução de conflitos que geram angústia, de modo que é possível sistematizar estruturas de caráter que, no entanto, não estabelecem condutas "normais" ou exclusivas de um modo de organização psíquica (MAYER, 1989).</p><p>Com base na estrutura de caráter histérico, é possível identificar alguns traços histéricos, a saber: teatralidade, exibicionismo e sedução; ingenuidade; infantilismo, dependência de certos personagens idealizados; necessidade de perfeição; frieza emocional, dissociação afetivo-seuxal e inibição genital, bem como seus possíveis sentidos, visto que tais atitudes permitem muitas interpretações (MAYER, 1989).</p><p>A estrutura de caráter histérico está associada a um pai extremamente idealizado que relaciona-se a um ponto de fixação da sedução infantil e a um deslocamento da dependência da mãe para a idealização da figura do pai, devido a experiências de rechaço materno. Além disso, há um apego a um mundo fantasioso que, regido pelo princípio do prazer, permite direta ou indiretamente a realização de aspirações infantis. Tais desejos infantis constituem fantasias inconscientes que serão base para uma trama argumental que compõe a experiência da pessoa histérica, muitas vezes vista como alguém teatral, que está representando. Outro elemento é a ingenuidade, devido ao erotismo que é colocado no conteúdo e na forma como se fala e que não é percebido pela pessoa histérica, pois remete às fixações edípicas recalcadas (MAYER, 1989).</p><p>Paralelo a isso, a ferida infantil, consequente do Complexo de Édipo que impõe uma lei e expõe uma falta (o falo), resulta em uma tentativa de dissimular essa falta ou de transferi-la ao outro. O maior desejo da pessoa histérica consiste em conservar seu desejo intacto, visto que o desejo corresponde à própria vida. Nesse sentido, experienciam diversas experiências de fracassos e decepções e apresentam uma atitude sexual pautada na ideia de que o organismo significa o fim do prazer, do desejo e, consequentemente, da vida (MAYER, 1989).</p><p>6. Histeria no homem*.</p><p>7. Referências:</p><p>FONTOURA, L. L. “A Dora de cada um”, Correio APPOA, Porto Alegre, outubro de 2015, p. 1-3.</p><p>FREUD, S. A Interpretação dos Sonhos (II): Sobre os Sonhos. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1900-1901. 229 p.</p><p>FREUD, S. “Fragmento da análise de um caso de histeria” (1905[1901]) – ‘Caso Dora’.</p><p>In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, v.7.</p><p>FREUD, S. (1924). Neurose e Psicose. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, v. 3.</p><p>FREUD, S. (1894). As neuropsicoses de defesa. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996.</p><p>IANNINI, G. “Apresentação. Cinco casos paradigmáticos da clínica psicanalítica”. In FREUD, S. Histórias clínicas: Cinco casos paradigmáticos da clínica psicanalítica. Belo Horizonte: Autêntica, 2022.</p><p>MAYER, H. Histeria. Porto Alegre: Artes Médicas, 1989, p.37-71 (cap. 4: ‘A estrutura do caráter histérico’).</p><p>POLETTO, M. Neurose e Psicose: Semelhanças e Diferenças sob a Perspectiva Freudiana. Psicanálise &amp; Barroco em Revista, [S. l.], v. 10, n. 2, 2019. DOI: 10.9789/1679-9887.2012.v10i2.%p. Disponível em: http://seer.unirio.br/psicanalise-barroco/article/view/8702. Acesso em: 22 abr. 2023.</p><p>ROUDINESCO, ELISABETH e PLON, MICHEL Dicionário de Psicanálise, verbetes:</p><p>Histeria; Bauer, Ida (Caso Dora); identificação (identificação histérica).</p><p>SANTOS, J. C. O complexo de édipo e o complexo de castração nos Estados limítrofes. Orientador: Prof. MSc João Stemler. 2017. 47 p. Trabalho de Conclusão de Curso (Pós-Graduação em Teoria Psicanalítica) - Centro Universitário de Brasília, Instituto CEUB de Pesquisa e Desenvolvimento - ICPD, Brasília, 2017. Disponível em: https://repositorio.uniceub.br/jspui/handle/235/12037. Acesso em: 22 abr. 2023.</p><p>SANTOS, T. C.; OLIVEIRA, F. L. G. “Teoria e clínica psicanalítica da psicose em Freud e</p><p>Lacan”, Psicologia em Estudo, Maringá, v. 17, n. 1, p. 73-82, jan/mar, 2012.</p>

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