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<p>FRANCO CAMBI Copyright 1995 by Laterza & Figli Título original em italiano: Storia della pedagogia. HISTÓRIA DA Os capítulos 2 e 3 e os parágrafos 2, 3 e 4 do Capítulo 4 da Terceira Parte (A época moderna) do presente volume foram escritos por Giuseppe Trebisacce. Copyright 1999 da tradução brasileira: PEDAGOGIA Fundação Editora da UNESP (FEU) Praça da Sé, 108 01001-900 - São Paulo SP Tel.: (0xx11)3242-7171 Fax: (0xx11)3242-7172 Home page: www.editora.unesp.br E-mail: feu@editora.unesp.br Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Cambi, Franco História da pedagogia / Franco Cambi ; tradução de Álvaro Lorencini. - São Paulo : Editora UNESP, 1999 - (Encyclopaidéia) Título original: Storia della pedagogia Bibliografia. ISBN 85-7139-260-9 1. Educação - Filosofia - História 2. Educação - História 3. Pedagogia História I. Título. II. Série. 99-3733 CDD-370.9 Índice para catálogo sistemático 1. Educação : História 370.9 2. Pedagogia : História 370,9 Editora afiliada: UNESP Editora Asociación de Editoriales Universitarias Associação de de America Latina y el Caribe Editoras DIREITO</p><p>86 FRANCO CAMBI HISTÓRIA DA PEDAGOGIA sivas do discurso, além de desenvolver uma crítica radical ao eleatismo e grande importância espiritual, ligada ao crescimento da personalidade e à sua visão metafísica por ser impossível ao homem (Górgias). humanidade do jovem. Estamos já no limiar da grande descoberta "Nasce assim uma cultura diferente" em relação ao passado. Feita educativa ateniense e também de toda a cultura grega: a paidéia que, da "de conhecimentos e de capacidades distintas da sapiência do sacerdote, época dos sofistas em diante, torna-se a noção-base da tradição da produção teórica do cientista, das habilidades do técnico especialista" gica antiga. e "entendida como a formação moral, retórico-lingüística, histórica do homem político enquanto tal". E "a transmissão desta cultura" torna-se "a tarefa fundamental da atividade educativa" (Vegetti). De uma educa- 5 () NASCIMENTO DA PAIDÉIA ção pública, retirada da família e do santuário, que visa à formação do cidadão e das suas virtudes (persuasão e capacidade de liderança, sobre- No curso dos séculos V-IV a. C., a cultura grega caracterizada agora tudo). É uma educação que se liga à palavra e à escrita e tende à for- pelo papel hegemônico de Atenas entra numa fase de crise e de trans- mação do homem como orador, marcado pelo princípio do kalokagathos formação, em paralelo com uma profunda mudança da sociedade em seu (do belo e do bom) e que visa cultivar os aspectos mais próprios do conjunto. Novos grupos sociais, ligados ao comércio e de riqueza recente, humano em cada indivíduo, elevando-o a uma condição de excelência, reclamam uma presença política e apontam para uma democracia que que todavia não se possui por natureza, mas se adquire pelo estudo e favoreça a troca de classes na gestão do poder. Ao lado dessa mobilidade pelo empenho. social e dessa exigência de democracia, delineia-se também uma cultura Mais ainda: essa complexa formação (social, política, cultural e mais crítica em relação ao saber religioso e mitopoiético e mais técnico- educativa) coloca em crise o éthos tradicional da pólis grega, que era aris- científica, que exalta a dimensão livre e livre exercício da razão próprio tocrático-religioso, transmitido por meio do exemplo e dos processos de de cada indivíduo e disposto a submeter à análise qualquer crença, qual- socialização e vivido como uma profunda e também natural, imediata quer ideal, qualquer princípio da tradição. Esse modelo de cultura essen- identidade social. A pólis como organismo também educativo entra em cialmente democrática deu lugar àquele período do "iluminismo grego" crise; a ela se contrapõe indivíduo, sujeito, que vive uma profunda que foi interpretado de maneira exemplar pelos sofistas. Estes eram mes- desorientação e é levado a buscar uma nova identidade. Trata-se de fixar tres de retórica (e não mestres da verdade como os sapientes desde Tales modelos de homem, de cultura e de participação na vida social bem dife- até filósofos-cientistas, cosmólogos etc.) e de sophia (de sa- rentes dos do passado, não mais sustentados pelos valores da pólis, mas, piência técnica, ligada à técnica do discurso) que ensinavam mediante pa- ao mesmo tempo, mais pessoais, mais individualmente escolhidos e gamento por quase toda a Grécia, dedicando-se aos grupos sociais emer- construídos, e mais universais, mais idôneos para a formação do homem gentes e iniciando-os na techne da oratória, por meio de discursos enquanto tal, sem limite de etnia, de casta, cidadania: um homem de- exemplares e argumentações erísticas (que punham em dificuldade () ad- senvolvido de maneira mais geral mais livre, mais apto a reconhecer e versário). Os sofistas, portanto, indicam uma dupla virada na cultura grega: realizar sua própria "livre universalidade humana". atenção quase exclusiva para homem e seus problemas, como tam- bém para suas técnicas, a partir do discurso; além da cultura tradicional, Se os sofistas exemplificam bem a guinada antropológica da educação naturalista e religiosa, cosmológica, que é submetida a uma dura e de como ela se torna techne da formação humana (através da linguagem), será Sócrates quem irá mostrar a dramaticidade e a universalidade de tal A posição mais exemplar entre os sofistas foi assumida por Protágoras de Abdera (484-411 a. C.) e por Górgias de Lentini (484-376 a. C.), que su- processo, que envolve indivíduo ab imis e busca sua identidade pela blinharam antropologismo e relativismo de todo saber enquanto O ativação de um daimon que traça seu caminho e pelo uso da dialética que homem "é medida de todas as coisas" (Protágoras) e as formas persua- produz a universalização do indivíduo pela discussão racional e pelo seu</p><p>HISTÓRIA DA PEDAGOGIA 87 processo sempre renovado, a fim de atingir a virtude mais própria do homem, que é "conhece-te a ti mesmo". Estamos já no horizonte da paidéia, daquele ideal de formação humana, da "formação de uma huma nidade superior" nutrida de cultura e de civilização, que atribui ao mem sobretudo uma identidade cultural e histórica. "Ela não parte do indivíduo, mas da idéia. Acima do homem-rebanho, e do homem pretensamente autônomo, está o homem como idéia", ou seja, "como imagem universal e exemplar da espécie" (Jaeger) nutrida de história e capaz de realizar os princípios da vida contemplativa (bios theoretikos). Esse humanismo (ou humanitas) ninguém o possui por natureza, ele é fruto apenas da educação, e é desafio máximo que alimenta todos os proces- SOS de formação. Se a noção de deve ser procurada já nas fases mais remotas da cultura grega, atingindo a cultura dos médicos, depois a dos trágicos e por fim a dos filósofos, é todavia na época dos sofistas e de Sócrates que ela se afirma de modo orgânico e independente e assinalà a passagem - explícita da educação para a pedagogia, de uma dimensão pragmática da educação para uma dimensão teórica, que se delineia segundo as ca- racterísticas universais e necessárias da filosofia. Nasce a pedagogia como saber autônomo, sistemático, rigoroso; nasce pensamento da educação como episteme, e não mais como éthos e como práxis apenas. A guinada será determinante para a cultura ocidental, já que reelabora num nível mais alto e complexo os problemas da educação e os enfrenta fora de qualquer localismo e determinismo cultural e ambiental, num processo de universalidade racional; e porá em circulação aquela noção que sustentou por milênios a reflexão educativa, reelaborando-se como paidéia como paidéia humanística e depois como Bildung. 6 GRANDES MODELOS TEÓRICOS: SÓCRATES, ISÓCRATES, ARISTÓTELES Entre Sócrates e Aristóteles, no breve arco de tempo que vê a filo- sofia afirmar-se como "ciência régia" (conexa com a metafísica, a ética e a lógica em particular) e que a vê organizar-se em amplos e complexos sistemas especulativos, oferecendo uma imagem completa e rigorosa do</p>

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