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<p>PROFESSORES</p><p>Me. Marllon Beraldo</p><p>Esp. Beatriz Gasparin Moreira</p><p>Fundamentos de</p><p>Direito Penal</p><p>ACESSE AQUI O SEU</p><p>LIVRO NA VERSÃO</p><p>DIGITAL!</p><p>EXPEDIENTE</p><p>NEAD - Núcleo de Educação a Distância</p><p>Av. Guedner, 1610, Bloco 4 Jd. Aclimação - Cep 87050-900 | Maringá - Paraná</p><p>www.unicesumar.edu.br | 0800 600 6360</p><p>Coordenador(a) de Conteúdo</p><p>Isis Carolina Massi Vicente</p><p>Projeto Gráfico e Capa</p><p>André Morais, Arthur Cantareli e</p><p>Matheus Silva</p><p>Editoração</p><p>Dario Mercado</p><p>Design Educacional</p><p>Bárbara Neves</p><p>Curadoria</p><p>Ávila Fernanda Tobias</p><p>Cleber Rafael Lopes Lisboa</p><p>Revisão Textual</p><p>Salen Nascimento Silva</p><p>Ilustração</p><p>Eduardo Aparecido</p><p>André Azevedo</p><p>Fotos</p><p>Shutterstock</p><p>Universidade Cesumar - UniCesumar. U58</p><p>Impresso por:</p><p>Bibliotecária: Leila Regina do Nascimento - CRB- 9/1722.</p><p>Núcleo de Educação a Distância.</p><p>Ficha catalográfica elaborada de acordo com os dados fornecidos pelo(a) autor(a).</p><p>Fundamentos de Direito Penal / Marllon Beraldo,</p><p>Beatriz Gasparin Moreira. - Indaial, SC: Arqué, 2023.</p><p>Reimpresso em 2024.</p><p>192 p. : il.</p><p>ISBN papel 978-85-459-2475-3</p><p>ISBN digital 978-85-459-2470-8</p><p>“Graduação - EaD”.</p><p>1. Direito 2. Penal 3. Justiça 4. Princípios I. Título.</p><p>CDD - 340</p><p>FICHA CATALOGRÁFICA</p><p>02511412</p><p>Beatriz Gasparin Moreira</p><p>Olá, aluno(a)! Meu nome é Beatriz Gasparin Moreira. Sou</p><p>formada em Direito pela Universidade Estadual de Marin-</p><p>gá (UEM), especialista em Direito Material do Trabalho e</p><p>Direito Processual do Trabalho, pelo Centro Universitário</p><p>UniDomBosco, e em Direito Processual Civil, pelo Instituto</p><p>Damásio de Direito. Atualmente, sou advogada em Ma-</p><p>ringá, no Paraná, e atuo nas áreas de Direito de Família,</p><p>Direito Civil e Direito do Consumidor. Também atuo como</p><p>Professora Mediadora no Curso de Investigação Forense</p><p>e Perícia Criminal e Serviços Jurídicos e Notariais, na Uni-</p><p>Cesumar, desde o ano de 2021.</p><p>Para que você conheça mais sobre mim, vou te contar</p><p>um pouquinho da minha história. Nasci numa cidade bem</p><p>pequena no interior do Paraná, de aproximadamente dois</p><p>mil habitantes, chamada Ivatuba. Quando completei 16</p><p>anos, eu e minha família nos mudamos para a cidade de</p><p>Maringá em busca de mais estrutura e meios para os estu-</p><p>dos. Ingressei no curso de Direito aos 19 anos e me formei</p><p>aos 24. Desde então, busco me aperfeiçoar nesse ramo de</p><p>atuação, afinal de contas, nunca devemos parar de estudar!</p><p>https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/17806</p><p>Nas horas vagas, gosto de assistir a uma boa série</p><p>ou filme. Também gosto de viajar e conhecer novos lu-</p><p>gares, novas culturas, novas experiências gastronômicas</p><p>e novas pessoas. Um delicioso churrasco aos finais de</p><p>semana, sempre vai bem!</p><p>Aceitei o grande desafio de escrever este livro, pois</p><p>sou grande entusiasta e estudante da área do Direito Pe-</p><p>nal e, espero que eu consiga, pelo menos um pouco, fazer</p><p>com que você se interesse por esse ramo do Direito, que</p><p>possui tamanha importância. Acredito que o conhecimen-</p><p>to e o estudo são as armas mais fortes que podemos ter,</p><p>as quais ninguém nunca poderá nos nos tirar! Portanto,</p><p>usufruam ao máximo deste material, que foi feito com</p><p>tanto carinho para vocês.</p><p>Olá, estudante! Seja bem-vindo(a) à disciplina Fundamentos do Direito Penal. Nossa</p><p>finalidade é trabalhar com as questões fundamentais para o Direito Penal e explicar</p><p>sua área de abrangência e importância para o mundo jurídico. Esta disciplina resgata</p><p>os aspectos históricos, que tiveram influência na criação do Direito Penal, bem como</p><p>explica sua evolução até os dias atuais.</p><p>Você aprenderá os temas mais importantes que cercam o Direito Penal, como os</p><p>elementos que estruturam o crime, suas classificações, seu objeto de proteção, prin-</p><p>cípios, causas que excluem a punibilidade do agente infrator, entre outros assuntos.</p><p>Apresentados os temas primordiais a serem estudados, você saberia dizer qual a</p><p>relevância desses assuntos para a sua formação profissional? De que maneira o co-</p><p>nhecimento desses temas implicará no exercício da sua profissão?</p><p>Compreender o Direito Penal é relevante, tendo em vista que se trata de uma ciência</p><p>cujo objetivo primordial é a proteção dos bens mais importantes para os indivíduos e</p><p>sociedade, como a vida, a liberdade, a integridade física, o patrimônio e a administração</p><p>pública. Conhecer até que ponto podemos ir, para que o bem jurídico de outra pessoa</p><p>ou da coletividade não seja violado, é de suma importância aqui.</p><p>Dessa forma, nosso assunto torna-se muito importante para a sua trajetória acadê-</p><p>mica, profissional e pessoal, uma vez que apresenta as questões fundamentais para o</p><p>Direito Penal e explica sua área de abrangência e importância para o mundo jurídico,</p><p>a qual é imprescindível para sua a formação.</p><p>Para, de fato, compreender a relevância dos Fundamentos do Direito Penal, ima-</p><p>gine como seria uma sociedade sem a previsão normativa de infrações penais e suas</p><p>respectivas sanções para punição de determinadas ações ou omissões. Como seria se</p><p>cada pessoa pudesse praticar qualquer ação, sem a preocupação de ser punida pelo</p><p>Estado? Ainda, como seria se cada pessoa pudesse fazer justiça com as próprias mãos,</p><p>tendo em vista a inexistência de sanções legais?</p><p>Pensando nisso, podemos perceber como o Direito Penal e os seus Fundamentos são</p><p>primordiais para a compreensão da nossa própria sociedade. A tipificação de determina-</p><p>das condutas e a imposição das respectivas sanções penais são relevantes, tendo em vista</p><p>que determinadas ações humanas não devem ficar impunes. Essas punições, no entanto,</p><p>também não podem ser realizadas ao livre arbítrio do Estado, uma vez que este deve</p><p>respeitar os Direitos Fundamentais consagrados na Constituição Federal. Dessa forma, o</p><p>Direito Penal procura, por meio de diversas teorias, as quais lhe serão apresentadas, criar</p><p>uma tipificação que possibilite estabelecer uma proporção objetiva entre a ação humana</p><p>que originou infração penal e a proporcionalidade da pena ao fato.</p><p>Assim, a preocupação principal desta disciplina é apresentar um panorama histórico</p><p>geral sobre o Direito Penal e, posteriormente, as diversas teorias que os cercam, bem</p><p>como uma análise do seu conceito, fundamento, características, funções, objetos, signi-</p><p>ficação dos principais princípios, que norteiam o Direito Penal, e as classificações gerais</p><p>dos crimes. Estudaremos, também, as principais teorias da conduta, do nexo causalidade</p><p>e da culpabilidade, bem como as hipóteses excludentes da ilicitude e da culpabilidade.</p><p>Após essas discussões, apresentaremos o conceito e as hipóteses de concurso de</p><p>crimes e concurso de pessoas, assim como as diferenças entre autor e partícipe, de</p><p>acordo com cada teoria adotada. Por fim, explicaremos as causas extintivas da punibi-</p><p>lidade, com atenção especial à prescrição, considerando suas diversas modalidades, e</p><p>detalhando a forma como é feita a contagem de cada prazo.</p><p>Querido(a) aluno(a), após realizadas todas essas ponderações, tenho certeza de que você</p><p>percebeu que o Direito Penal é uma ciência que vai muito além de prever crimes e cominar</p><p>sanções. São diversas as teorias criadas, que sustentam e fundamentam o Direito Penal.</p><p>Após realizar a leitura deste livro didático e compreender os Fundamentos do Di-</p><p>reito Penal, você saberá o que é uma conduta criminosa e quais são os elementos que</p><p>devem estar presentes para considerá-la como tal. Perceberá que não é apenas neces-</p><p>sário verificar se determinada conduta se adequa à determinada norma, como também</p><p>é imprescindível notar se não estão presentes nenhuma causa que exclua a ilicitude e</p><p>a culpabilidade. Ademais, irá notar que se passado determinado lapso temporal, ainda</p><p>que típica, ilícita e culpável, determinada conduta não poderá ser mais punida.</p><p>A disciplina que envolve os Fundamentos do Direito Penal é complexa, mas, ao mesmo</p><p>tempo, encantadora. Compreendê-la fará com que você se torne um melhor profissional na</p><p>sua área de formação, tendo em vista que saberá os limites que envolvem o Direito Penal.</p><p>Dessa</p><p>após o cometimento do fato, pretendendo aplicá-la a este, seria totalmente inútil</p><p>para a segurança que a norma penal deve representar a todos os seus destinatários”.</p><p>Portanto, de acordo com o princípio da anterioridade, a lei somente poderá</p><p>ser aplicada a fatos praticados depois da sua entrada em vigor. É proibida a sua</p><p>aplicação ainda que no período de vacatio legis. É desse princípio que deriva a</p><p>irretroatividade da lei penal, salvo para beneficiar o réu.</p><p>Já para o princípio da intervenção mínima, a criminalização de uma conduta</p><p>só se legitima se constituir meio necessário para a proteção de um bem jurídico.</p><p>Assim, se outras sanções, como, por exemplo, civis ou administrativas, forem su-</p><p>ficientes para a proteção de um bem jurídico, não se deve criminalizar a conduta.</p><p>Nesse sentido, esclarece Greco (2022, p. 115):</p><p>“ O princípio da intervenção mínima, ou ultima ratio, é o responsá-</p><p>vel não só pela indicação dos bens de maior relevo que merecem</p><p>a especial atenção do Direito Penal, mas se presta, também, a fa-</p><p>zer com que ocorra a chamada descriminalização. Se é com base</p><p>neste princípio que os bens são selecionados para permanecer sob</p><p>a tutela do Direito Penal, porque considerados como os de maior</p><p>importância, também será com fundamento nele que o legislador,</p><p>atento às mutações da sociedade, que com a sua evolução deixa de</p><p>dar importância a bens que, no passado, eram da maior relevância,</p><p>fará retirar do nosso ordenamento jurídico-penal certos tipos in-</p><p>criminadores (GRECO, 2022, p. 115).</p><p>Do princípio da intervenção mínima derivam outros dois princípios: o da fragmen-</p><p>tariedade e o da subsidiariedade. Conforme o princípio da fragmentariedade,</p><p>apenas os valores tidos como fundamentais serão considerados infrações penais,</p><p>ou seja, apenas podem ser tutelados pelo Direito Penal os ilícitos que coloquem em</p><p>UNICESUMAR</p><p>UNIDADE 2</p><p>46</p><p>risco bens jurídicos tidos como fundamentais para a manutenção e progresso do ser</p><p>humano e da sociedade. Portanto, nem todo ilícito será um ilícito penal.</p><p>Por outro lado, segundo o princípio da subsidiariedade, o Direito Penal somente</p><p>deve atuar quando os demais ramos do Direito, que são considerados mais brandos</p><p>(Direito Administrativo, Direito Civil, por exemplo), se mostrarem insuficientes para o</p><p>controle da ordem pública. Dessa forma, o princípio da subsidiariedade atua como um</p><p>soldado reserva, ou seja, fica condicionado ao fracasso dos demais ramos do Direito.</p><p>No que se refere ao princípio da ofensividade ou lesividade, a conduta</p><p>criminosa a ser tipificada pelo legislador deve ofender um bem jurídico, não</p><p>podendo ser considerado crime condutas inofensivas a um certo bem jurídico.</p><p>Portanto, de acordo com esse princípio, não há infração penal quando não houver</p><p>lesão ou perigo de lesão a um bem jurídico, assim, o Direito Penal não deve se</p><p>preocupar com questões morais, éticas, religiosas, políticas ou filosóficas.</p><p>De acordo com o princípio da alteridade, que é um subprincípio do princípio</p><p>da lesividade, para que o Direito Penal seja aplicado, a lesão ao bem jurídico precisa</p><p>transcender da esfera individual do agente. Logo, ninguém pode ser punido por</p><p>causar um mal a si próprio. É devido a esse motivo que não se pune a autolesão.</p><p>Segundo o princípio da culpabilidade, não se pode aplicar uma pena se não</p><p>houver culpabilidade. Veda-se por esse princípio a teoria da responsabilidade objeti-</p><p>va no Direito Penal (quando não são levados em consideração o dolo ou a culpa do</p><p>agente criminoso). Já o princípio da humanidade, decorre da dignidade da pessoa</p><p>humana, prevista no artigo 1º, inciso III, da Constituição Federal. Segundo Masson</p><p>(2020, p. 50), “esse princípio apregoa a inconstitucionalidade da criação de tipos penais</p><p>ou cominação de penas que violem a incolumidade física ou moral de alguém”.</p><p>Nesse sentido, a Constituição Federal afirma, em seu artigo 5º, inciso XLVII, que</p><p>não haverá penas de morte (salvo em caso de guerra declarada), de caráter perpétuo, de</p><p>trabalhos forçados, de banimento ou cruéis. Consoante, adverte Rodrigues (2021, p. 3):</p><p>“ Em relação a essa regra, cumpre frisar que a principal função do</p><p>princípio da dignidade da pessoa humana incide diretamente na</p><p>aplicação e execução da pena, momento em que o direito penal</p><p>precisa ter freios e parâmetros comprometidos com os direitos fun-</p><p>damentais, garantindo assim o respeito e preservação da dignidade</p><p>da pessoa humana (RODRIGUES, 2021, p. 3).</p><p>47</p><p>Consoante o princípio da adequação social, só se devem criminalizar as condu-</p><p>tas que tenham uma certa relevância social; condutas tidas pela sociedade como</p><p>adequadas não devem ser criminalizadas. De acordo com a doutrina majoritária,</p><p>esse princípio tem natureza jurídica de causa supralegal de exclusão da tipicidade,</p><p>pela ausência de tipicidade material. É o caso, por exemplo, dos trotes moderados</p><p>praticados por acadêmicos, bem como o furo de orelhas de crianças recém-nascidas.</p><p>Já o princípio do no bis in idem (não repetir sobre o mesmo fato) dispõe que</p><p>ninguém pode ser punido mais de uma vez pela mesma falta. Tem previsão no artigo</p><p>8º, parágrafo 4º, do Pacto de São José da Costa Rica, incorporado ao nosso ordenamen-</p><p>to jurídico pelo decreto 678/1992. Nesse sentido, foi editada a súmula 241 do Superior</p><p>Tribunal de Justiça que afirma que: “a reincidência penal não pode ser considerada</p><p>como circunstância agravante e, simultaneamente, como circunstância judicial”.</p><p>Daremos agora, querido(a) aluno(a), uma atenção especial ao princípio da in-</p><p>significância, também conhecido como princípio da bagatela, que surgiu no Direito</p><p>Romano, quando invocava-se o brocardo: de minimus non curat praetor, que quer</p><p>dizer: juízes e tribunais não deveriam se preocupar com assuntos irrelevantes (MAS-</p><p>SON, 2020). Esse princípio foi incorporado ao Direito Penal, em 1970, pelos estudos</p><p>de Claus Roxin e afirma que o Direito Penal não deve atuar em situações em que a</p><p>conduta não seja capaz de lesionar ou colocar em perigo o bem jurídico tutelado.</p><p>Ele decorre do princípio da fragmentariedade e possui natureza jurídica</p><p>de causa de exclusão da tipicidade (material). Portanto, o princípio da bagatela</p><p>tem como finalidade a interpretação restritiva da atuação do Direito Penal, ou</p><p>seja, limitar a sua prática.</p><p>Para a sua aplicação, é necessário a presença de requisitos objetivos e subjetivos.</p><p>De acordo com jurisprudência do Supremo Tribunal Federal, os requisitos objetivos</p><p>são: mínima ofensividade da conduta do agente; ausência de periculosidade social</p><p>da ação; reduzido grau de reprovabilidade do comportamento e inexpressividade</p><p>da lesão jurídica provocada. Os requisitos subjetivos, por sua vez, dizem respeito à</p><p>condição da vítima do fato criminoso bem como às condições pessoais do agente.</p><p>Atualmente, há uma divergência na jurisprudência em relação à possibilidade</p><p>de aplicação do princípio da insignificância aos agentes reincidentes ou habituais.</p><p>Uma primeira corrente, defendida pelo Supremo Tribunal Federal, afirma não</p><p>ser possível a aplicação do prin0cípio da insignificância àqueles que já foram</p><p>condenados por uma infração penal. Uma segunda, defendida pelo Superior</p><p>Tribunal da Justiça, afirma que é possível a aplicação do referido princípio, mesmo</p><p>UNICESUMAR</p><p>UNIDADE 2</p><p>48</p><p>em relação àqueles que são reincidentes, uma vez que a reincidência genérica é</p><p>apenas utilizada na ponderação da dosimetria da pena.</p><p>No entanto, é importante destacar que, em recentes entendimentos, o Supre-</p><p>mo Tribunal Federal vem entendendo que a reincidência não impede, por si só,</p><p>que o juiz da causa reconheça a insignificância penal da conduta:</p><p>“ Para o colegiado, como regra, a habitualidade delitiva específica [ou</p><p>seja, o fato de o réu já responder a outra ação penal pelo mesmo delito] é</p><p>um parâmetro [critério] que afasta a análise do valor do bem jurídico tu-</p><p>telado para fins de aplicação do princípio da bagatela. Excepcionalmen-</p><p>te, no entanto, as peculiaridades do caso concreto podem justificar</p><p>a exclusão dessa restrição, com base na</p><p>ideia da proporcionalidade</p><p>em sentido concreto. Essa é justamente a situação dos autos, de furto</p><p>de um galo, quatro galinhas caipiras, uma galinha garnizé e três quilos</p><p>de feijão, bens avaliados em pouco mais de cem reais. O valor dos bens</p><p>é inexpressivo e não houve emprego de violência. Enfim, é caso de mí-</p><p>nima ofensividade, ausência de periculosidade social, reduzido grau de</p><p>reprovabilidade e inexpressividade da lesão jurídica. Mesmo que conste</p><p>em desfavor do paciente outra ação penal instaurada por igual conduta,</p><p>ainda em trâmite, a hipótese é de típico crime famélico. A excepcionali-</p><p>dade também se justifica por se tratar de hipossuficiente. Não é razoável</p><p>que o Direito Penal e todo o aparelho do Estado-polícia e do Estado-juiz</p><p>movimente-se no sentido de atribuir relevância a estas situações. Habeas</p><p>Corpus nº 141440 AgR/MG, Acórdão de 14/08/2018, Relator Min. Dias</p><p>Toffoli, Publicação: DJE - Diário de Justiça Eletrônico, de 22/08/2018)</p><p>(INFORMATIVO STF, 2018, grifos dos autores).</p><p>Ainda, conforme entendimento do Supremo Tribunal Federal, é vedada a apli-</p><p>cação do princípio da insignificância aos crimes militares, em razão da maior</p><p>reprovabilidade da conduta, bem como a crimes cometidos por meio de violência</p><p>ou grave ameaça, uma vez que os reflexos dessas transgressões não podem ser</p><p>considerados irrelevantes (MASSON, 2020).</p><p>No que toca aos crimes contra à administração pública, de maneira geral, o</p><p>princípio da bagatela nunca foi admitido. Tal entendimento vai de encontro à</p><p>súmula 599 do Superior Tribunal de Justiça, que afirma que: “o princípio da</p><p>insignificância é inaplicável aos crimes contra a Administração Pública”.</p><p>49</p><p>No entanto, é importante ponderar que há entendimentos do Supremo Tribunal</p><p>Federal admitindo a aplicação do princípio em raras exceções.</p><p>Em relação aos crimes previstos na Lei de Drogas, o Superior Tribunal de Jus-</p><p>tiça possui entendimento consolidado de que é inaplicável o princípio da insig-</p><p>nificância a tais delitos, uma vez que são crimes de perigo abstrato (presumido).</p><p>Igual raciocínio deve ser utilizado ao crime previsto no artigo 28 da lei (crime de</p><p>posse ou porte de drogas para consumo pessoal), pois entender de maneira diversa</p><p>seria o mesmo que descriminalizar o porte de pequenas quantidades de drogas. No</p><p>entanto, o Supremo Tribunal Federal possui entendimento afirmando ser possível</p><p>a aplicação do princípio ao crime do artigo 28 da Lei de Drogas, bem como, de</p><p>maneira excepcional, ao artigo 33 da mesma lei, o qual dispõe sobre o tráfico de</p><p>drogas, quando consistir à venda de uma grama de maconha (MASSON, 2020).</p><p>Em relação aos crimes ambientais, a regra é a possibilidade de aplicação do</p><p>princípio da insignificância, ainda que, de maneira geral, os tribunais superiores</p><p>não adotem o mesmo aos crimes que possuem bem jurídico coletivo ou difuso.</p><p>Por fim, em regra, o princípio da insignificância se aplica aos crimes tributá-</p><p>rios federais e de descaminho quando o crédito tributário não ultrapassar o limite</p><p>de vinte mil reais. No entanto, é inaplicável aos crimes de contrabando.</p><p>O princípio da exclusiva proteção ao bem jurídico diz respeito à impos-</p><p>sibilidade de aplicar o direito penal a pensamentos, intenções e modos de viver.</p><p>Não serve para resguardar questões de ordem moral, ética, ideológicas, filosófi-</p><p>cas e políticas. O Direito Penal deve tutelar bens jurídicos fundamentais para o</p><p>desenvolvimento do indivíduo e sociedade (MASSON, 2020).</p><p>O princípio da responsabilidade pessoal, pessoalidade ou intranscen-</p><p>dência da pena expressa que a pena não pode passar do autor da infração, ou</p><p>seja, somente o condenado deve se submeter à pena que lhe foi aplicada pelo</p><p>Estado. No entanto, os efeitos secundários da pena, ou seja, perdimentos de bens</p><p>e reparação do dano, podem se estender aos sucessores até o limite da herança.</p><p>O princípio da proporcionalidade exige que haja um juízo de ponderação</p><p>entre a gravidade do crime cometido e a pena aplicada. Tal princípio possui duas</p><p>faces. Por um lado, veda a proteção insuficiente dos bens jurídicos tutelados e,</p><p>por outro lado, veda a aplicação de penas exageradas ou desproporcionais.</p><p>Para finalizar o assunto referente aos princípios do Direito Penal, é importante</p><p>que você, querido(a) aluno(a), conheça o princípio da confiança, que surgiu na</p><p>Espanha, com aplicação aos crimes de trânsito. Segundo esse princípio, aquele</p><p>UNICESUMAR</p><p>UNIDADE 2</p><p>50</p><p>que dirige com as devidas cautelas, seguindo todas as regras de trânsito, acredita</p><p>que as demais pessoas também irão agir de acordo com as normas. Portanto, uma</p><p>pessoa que ultrapassa o sinal verde de trânsito e colide com outra que ultrapassou</p><p>o sinal vermelho, não pode ser punida, uma vez que possuía a confiança de que</p><p>as demais pessoas também iriam respeitar as regras de trânsito.</p><p>É nesse sentido que o princípio da confiança atua, ou seja, espera-se que as</p><p>demais pessoas atuem de maneira lícita, respeitando as normas do ordenamento</p><p>jurídico. Ainda que inicialmente aplicado para crimes de trânsito, hoje possui</p><p>aplicação bastante ampla. Para Juarez Tavares (2003, p. 294):</p><p>“ Segundo esse princípio, todo aquele que atende adequadamente ao</p><p>cuidado objetivamente exigido, pode confiar que os demais copar-</p><p>ticipantes da mesma atividade também operem cuidadosamente. A</p><p>consequência da aplicação desse pensamento no direito penal será</p><p>a de excluir a responsabilidade dos agentes em relação a fatos que</p><p>se estendam para além do dever concreto que lhes é imposto nas</p><p>circunstâncias e nas condições existentes no momento de realizar</p><p>a atividade. Como seria absolutamente impossível exigir-se de cada</p><p>pessoa uma atenção extraordinária que pudesse ir além daquela que</p><p>lhe era atribuível segundo juízo concreto de adequação, este prin-</p><p>cípio vigora como limitador do dever de cuidado, precisamente no</p><p>âmbito da atividade concreta (TAVARES, 2003, p. 294).</p><p>Caro(a) aluno(a), agora passarei a explicar o estudo da lei penal e sua aplica-</p><p>ção. Ocorrido um fato criminoso, três questões se colocam para solucioná-lo,</p><p>quais sejam: se esse fato será ou não regulado pela lei de seu tempo; se esse fato</p><p>será ou não regulado pela lei do local em que se tenha realizado; se esse fato foi</p><p>ou não realizado por certa pessoa. De posse dessas constatações, existirá a sub-</p><p>sunção do fato às devidas normas penais.</p><p>Isso se torna importante, pois alguns problemas podem ocorrer nessa subsun-</p><p>ção, como, por exemplo, determinado fato foi praticado em um dado dia, sendo</p><p>que, nesse dia ele não era considerado criminoso, porém, no dia seguinte, surge</p><p>uma nova lei, dizendo que aquele fato se tornou uma conduta criminosa; daí, surge</p><p>a indagação: referido fato será regido pela lei velha ou pela lei nova?</p><p>51</p><p>Ainda, certo fato criminoso é pra-</p><p>ticado na divisa entre dois países,</p><p>ou até mesmo, é praticado em par-</p><p>te em um país e parte, em outro;</p><p>diante disso, surge a seguinte inda-</p><p>gação: qual o território competen-</p><p>te para julgá-lo? E se um dado fato</p><p>criminoso é praticado por uma</p><p>pessoa que possui imunidade po-</p><p>lítica ou diplomática? Sendo assim,</p><p>surge a seguinte indagação: esse</p><p>caso será julgado por um órgão</p><p>jurisdicional comum? Passaremos</p><p>a responder todas essas perguntas.</p><p>Primeiramente, é importante</p><p>destacar que em decorrência do</p><p>princípio da legalidade, aplica-se,</p><p>em regra, a lei vigente no momen-</p><p>to da realização do fato criminoso,</p><p>salvo no caso de lei posterior que</p><p>seja mais benéfica ao agente, tendo</p><p>em vista que a lei penal mais ma-</p><p>léfica não pode retroagir.</p><p>O Código Penal, em seu artigo 4º, adotou a teoria da atividade, ao dispor</p><p>que: “Considera-se praticado o crime no momento da ação ou omissão, ainda</p><p>que outro seja o momento do resultado”. Ou seja, aplica-se a lei penal que esta-</p><p>va em vigor no momento da conduta, salvo se, posteriormente, for editada lei</p><p>penal mais benéfica, bem como analisa-se a imputabilidade do agente também</p><p>no momento da conduta.</p><p>É importante aferir que apenas as leis penais de caráter material (de conteúdo</p><p>penal) ou misto</p><p>(de conteúdo penal e processual) não são capazes de retroagir</p><p>quando forem mais maléficas. Portanto, lei de caráter estritamente processual</p><p>pode retroagir para alcançar fatos pretéritos.</p><p>UNICESUMAR</p><p>UNIDADE 2</p><p>52</p><p>Podemos concluir que, no estudo da lei penal do tempo, o Direito Penal se preo-</p><p>cupa em definir qual norma será aplicada ao fato ocorrido. Conforme Estefam e</p><p>Gonçalves (2012, p. 224), o conflito das leis penais no tempo “dá-se quando duas</p><p>ou mais leis penais, que tratam do mesmo assunto de modo distinto, sucedem-se.</p><p>Isso acarreta diversas questões de direito intertemporal”.</p><p>Passaremos a analisar, a partir de agora, as possíveis consequências que sur-</p><p>gem em decorrência da aplicação da lei penal do tempo:</p><p>1ª) Hipótese: imagine que determinado fato atípico (não criminoso) seja prati-</p><p>cado hoje, e, posteriormente, seja editada uma lei que considere fato criminoso.</p><p>Nessa hipótese, o fato praticado anteriormente será considerado atípico e, como</p><p>consequência, inexistirá punição ao agente criminoso, não se aplicando a lei poste-</p><p>rior. Aqui, vigora o princípio da irretroatividade da lei penal, decorrente do próprio</p><p>princípio da anterioridade capitulado no artigo 1° do CP: “Não há crime sem lei</p><p>anterior que o defina. Não há pena sem prévia cominação legal.”</p><p>2ª) Hipótese: imagine que determinado fato típico (criminoso) seja praticado</p><p>hoje, e, posteriormente, seja editada uma lei que estabeleça pena mais severa ao</p><p>mesmo fato criminoso.</p><p>53</p><p>Nessa hipótese, o fato praticado anteriormente será julgado com base na lei</p><p>anterior, e como consequência, será aplicada a pena mais branda. Aqui, vigora</p><p>o princípio da irretroatividade da lei penal, decorrente do próprio princípio da</p><p>anterioridade capitulado no artigo 1° do CP: “Não há crime sem lei anterior que</p><p>o defina. Não há pena sem prévia cominação legal.”</p><p>3ª) Hipótese: imagine que determinado fato típico seja praticado hoje, e, poste-</p><p>riormente, seja editada lei posterior que estabeleça a atipicidade desse mesmo fato.</p><p>Nessa hipótese, o fato praticado anteriormente será regido pela lei posterior, e,</p><p>como consequência, não existirá mais crime por ser o fato atípico. Aqui, vigora o</p><p>princípio da retroatividade da lei penal benéfica, capitulado no artigo 2° caput do</p><p>CP: “Ninguém pode ser punido por fato que lei posterior deixa de considerar crime,</p><p>cessando em virtude dela a execução e os efeitos penais da sentença condenatória.”</p><p>Consoante, Bitencourt (2022, p. 225) afirma: “A lei penal mais benéfica, re-</p><p>petindo, não só é retroativa, mas também ultrativa. A eficácia ultrativa da norma</p><p>penal mais benéfica, sob o império da qual foi praticado o fato delituoso, deve</p><p>prevalecer sempre que, havendo sucessão de leis penais no tempo, constatar-se</p><p>que o diploma legal anterior era mais benéfico ao agente.”</p><p>Em suma, a lei penal mais benéfica é retroativa, porque se for posterior ao</p><p>fato praticado irá voltar para se aplicar ao mesmo ocorrido, bem como é ultrativa,</p><p>pois, mesmo que cessada sua vigência, irá se estender ao fato.</p><p>4ª) Hipótese: imagine que determinado fato típico seja praticado hoje – com</p><p>pena mais severa – e posteriormente uma lei seja editada com pena mais branda</p><p>ao mesmo fato criminoso.</p><p>Nessa hipótese, o fato praticado anteriormente será regido pela lei posterior,</p><p>e como consequência, terá a pena mais branda. Aqui, vigora o princípio da re-</p><p>troatividade da lei penal benéfica, capitulado no artigo 2° parágrafo único do CP.</p><p>5ª) Hipótese: imagine que determinado fato típico seja praticado hoje, e, poste-</p><p>riormente, lei posterior seja editada e estabeleça qualquer benefício para o mes-</p><p>mo fato criminoso.</p><p>Nessa hipótese, o fato praticado anteriormente será regido pela lei posterior, e,</p><p>como consequência, terá a aplicação dos benefícios trazidos pela nova lei. Aqui,</p><p>UNICESUMAR</p><p>UNIDADE 2</p><p>54</p><p>vigora o Princípio da Retroatividade da Lei Penal Benéfica, capitulado no</p><p>artigo 2°, parágrafo único, do CP.</p><p>Sempre que uma nova lei penal que de qualquer forma beneficiar o agente</p><p>criminoso, será aplicada ao fato, seja retroagindo, seja sendo ultrativa.</p><p>Agora, querido(a) aluno(a), irei falar da aplicação da lei temporária ou excep-</p><p>cional, prevista no artigo 3º do Código Penal, o qual dispõe que: “A lei excepcional</p><p>ou temporária, embora decorrido o período de sua duração ou cessadas as cir-</p><p>cunstâncias que a determinaram, aplica-se ao fato praticado durante sua vigência.”</p><p>Lei temporária é aquela lei que tem prefixado o tempo de sua vigência, en-</p><p>quanto lei excepcional tem como função atender as necessidades transitórias</p><p>estatais, como calamidades, guerras, epidemias etc.</p><p>Essas duas leis têm como características principais a ultratividade e au-</p><p>torrevogabilidade. A ultratividade significa que ela pode retroagir para atingir</p><p>os fatos praticados no tempo da sua vigência, ainda que já tenha sido revogada.</p><p>A autorrevogabilidade significa que após encerrar o prazo prefixado para a sua</p><p>existência, bem como cessadas as necessidades transitórias que ocasionam o seu</p><p>surgimento, elas serão revogadas.</p><p>Analise agora as situações envolvendo leis excepcionais e temporárias:</p><p>1ª) Hipótese: imagine que determinado fato criminoso seja praticado na vigên-</p><p>cia da lei excepcional ou temporária, posteriormente encerra o fim da vigência</p><p>dessa lei, estabelecendo-se a atipicidade do fato.</p><p>55</p><p>Nessa hipótese, o fato praticado anteriormente será regido pela lei anterior, isto</p><p>é, ao fato praticado será aplicada a lei excepcional ou temporária, e mesmo que</p><p>essa lei tenha cessada a sua vigência no decorrer de um processo-crime, ao sujeito</p><p>ativo deverá ser reconhecido o cometimento do crime. Aqui, vigora o princípio da</p><p>ultratividade da lei excepcional ou temporária capitulado no artigo 3° do CP. Esse</p><p>princípio se funda na expressão tempus regit actum (o tempo do crime rege o ato).</p><p>2ª) Hipótese: imagine que determinado fato criminoso seja praticado sob vigên-</p><p>cia da lei excepcional ou temporária com pena mais severa. Posteriormente, há</p><p>a prorrogação da lei excepcional ou temporária para o mesmo fato criminoso,</p><p>estabelecendo, todavia, pena mais branda.</p><p>Nessa hipótese, o fato praticado anteriormente será regido pela lei anterior,</p><p>isto é, ao fato praticado será aplicada a lei excepcional ou temporária inicial, e</p><p>mesmo que essa lei tenha sido prorrogada com pena mais branda, ao sujeito ativo</p><p>deverá ser aplicada a pena mais severa. Aqui, vigora o princípio da ultratividade</p><p>da lei excepcional ou temporária capitulado no artigo 3° do CP. Esse princípio</p><p>se funda na expressão tempus regit actum (o tempo do crime rege o ato).</p><p>No que diz respeito à aplicação da lei penal no tempo quando ocorre altera-</p><p>ção do complemento da lei penal em branco (lei que possui o preceito primário</p><p>incompleto, necessitando de outra norma jurídica para complementá-la), assunto</p><p>que veremos logo mais à frente, deve-se analisar o caso a depender da situação</p><p>de excepcionalidade ou não da alteração.</p><p>Para o Superior Tribunal Federal, quando o complemento da norma penal em</p><p>branco é encontrado em outra lei (homogênea), deve retroagir para beneficiar o</p><p>réu. No entanto, quando o complemento não acontece por meio de outra lei, e</p><p>sim por um ato administrativo (heterogênea), a situação merece duas considera-</p><p>ções. Se o ato administrativo se der em situação de excepcionalidade, a alteração</p><p>do complemento não retroage. No entanto, caso a situação não se dê em situação</p><p>de excepcionalidade, deve retroagir.</p><p>Como exemplo, imagine que ocorra o tráfico de terminada droga “X”, previsto</p><p>no artigo 33 da Lei 11.343/2006 (norma penal em branco), por estar em desa-</p><p>cordo com a portaria “Y”, que é um ato administrativo. Posteriormente é editada</p><p>nova portaria “W”, que estabelece que a droga “X” não é mais considerada droga.</p><p>Nesse caso, a norma deve retroagir para beneficiar o réu, uma vez que a altera-</p><p>ção da portaria não é uma medida que aconteceu em situação de excepcionalidade.</p><p>UNICESUMAR</p><p>UNIDADE 2</p><p>56</p><p>Após o estudo da aplicação da lei penal no tempo, gostaria de</p><p>lhe fazer o seguin-</p><p>te questionamento: caso ocorra um fato criminoso, e aparentemente possa ser</p><p>aplicada a ele mais de uma norma penal – ambas vigentes - qual norma aplicar?</p><p>Perceba que, diferentemente do que ocorre quando há um conflito de leis no</p><p>tempo, em que somente é possível a aplicação de uma norma, tendo em vista</p><p>que a outra já está revogada, nesse caso, as duas normas estão em vigor. A isso</p><p>se denomina conflito aparente de normas.</p><p>O conflito aparente de normas requer três pressupostos: unidade de conduta,</p><p>pluralidade de normas, identificando a mesma conduta como delituosa, e vigên-</p><p>cia de ambas as normas.</p><p>Para solucionar o conflito, são aplicados quatro princípios. São eles: especia-</p><p>lidade, subsidiariedade, consunção e alternatividade.</p><p>O princípio da especialidade (também denominado de princípio da especiali-</p><p>zação) é aplicado quando existem especializantes no tipo que se requer para subsumir</p><p>ao fato praticado. Em outras palavras, o princípio da especialidade apregoa que, no</p><p>conflito entre uma norma geral e uma norma especial, esta deverá prevalecer.</p><p>Como adverte Nucci (2022, p. 269):</p><p>57</p><p>“ Para identificar a lei especial, leva-se em consideração a existência</p><p>de uma particular condição (objetiva ou subjetiva), que lhe imprima</p><p>severidade menor ou maior em relação à outra. Deve haver entre</p><p>os delitos geral e especial relação de absoluta contemporaneidade.</p><p>Exemplo: furto qualificado exclui o simples; crime militar exclui</p><p>o comum; infanticídio exclui o homicídio (NUCCI, 2022, p. 269).</p><p>Como exemplo de aplicação do princípio da especialidade, pode-se indicar: o</p><p>crime de infanticídio (artigo 123 do CP) é uma norma especial frente ao crime</p><p>de homicídio (artigo 121 do CP), que é uma norma geral, pois o primeiro contém</p><p>todos os elementos do segundo e mais algumas especializantes (“estado puerpe-</p><p>ral”, “próprio filho”, “durante ou logo após o parto”). O princípio da especialidade</p><p>foi consagrado pelo CP em seu artigo 12.</p><p>O princípio da subsidiariedade é aplicado quando, no ordenamento</p><p>jurídico, existirem normas principais e subsidiárias que descrevem graus de</p><p>violação de um mesmo bem jurídico. Geralmente, na legislação, quando se</p><p>quer dar ênfase a subsidiariedade da norma, o legislador, ao cominar a pena do</p><p>delito, tem se utilizado da expressão “se o fato não constitui crime mais grave”.</p><p>Trata-se da subsidiariedade expressa.</p><p>Na subsidiariedade tácita, o tipo não utiliza de nenhuma expressão ou fórmula.</p><p>No entanto, é possível perceber o caráter subsidiário. Como exemplo disso, pode-se</p><p>elencar o crime de perigo para a vida ou saúde de outrem (artigo 132 do CP). Esse</p><p>crime é uma norma subsidiária em relação ao crime de tentativa de homicídio (nor-</p><p>ma principal). Assim, se o sujeito “A” desfere um tiro contra a pessoa de “B” e não</p><p>o acerta, sendo impedido de prosseguir com a execução de sua conduta, só estará</p><p>caracterizado o delito do artigo 132 do CP se ficar constatado que ele não tinha dolo</p><p>de matar “B”, pois se o tiver, o crime será o de tentativa de homicídio.</p><p>O princípio da consunção (também denominado de princípio da absorção)</p><p>é aplicado quando existe entre os delitos uma relação de meio e fim. Como bem</p><p>acentua Bitencourt (2022, p. 275): “Pelo princípio da consunção, ou absorção,</p><p>a norma definidora de um crime constitui meio necessário ou fase normal de</p><p>preparação ou execução de outro crime”. Dessa forma, o crime-fim consome</p><p>(absorve) o crime-meio, respondendo o agente só pelo crime-fim.</p><p>UNICESUMAR</p><p>UNIDADE 2</p><p>58</p><p>Hipóteses do princípio da consunção:</p><p>• Crime progressivo: quando o agente precisa realizar o crime-meio para atingir o</p><p>crime-fim. Exemplo: Para cometer o crime de homicídio, o agente precisa primeiro</p><p>praticar o crime de lesão corporal.</p><p>• Progressão criminosa: é a alteração do dolo do agente, o qual inicia a prática de um</p><p>fato típico e depois de alcançar o resultado, inicia a prática de nova conduta.</p><p>• Fato anterior impunível: quando o agente realiza o crime-meio para atingir o crime-fim,</p><p>no entanto, diferentemente do que acontece no crime progressivo, não era necessária a</p><p>prática do crime-meio. Exemplo: crime de falsidade documental para a prática do crime</p><p>de estelionato.</p><p>• Fato posterior impunível: trata-se do exaurimento do crime principal. Exemplo: cri-</p><p>me de dano à coisa roubada.</p><p>Fonte: os autores.</p><p>EXPLORANDO IDEIAS</p><p>O princípio da alternatividade é aplicado nos casos de crimes plurinucleares, ou de</p><p>ação múltipla, os quais possuem mais de um núcleo verbal. Nesse caso, quando o agen-</p><p>te pratica mais de um núcleo desse tipo, é punido por um só crime. Exemplo: quem</p><p>importar drogas em desacordo com determinação legal, e, em seguida, vendê-las,</p><p>responde uma única vez pelo crime de tráfico, previsto no artigo 33 da Lei de Drogas.</p><p>59</p><p>Querido(a) aluno(a), nem sempre o crime atinge apenas o interesse de um país. Em</p><p>razão do bem jurídico tutelado, da configuração do crime e da nacionalidade do autor</p><p>ou da vítima, dois ou mais países podem ter o interesse em punir o autor do crime.</p><p>Nas lições de Jesus (2012, p. 161):</p><p>“ A lei penal é elaborada para viger dentro dos limites em que o Es-</p><p>tado exerce sua soberania. Como cada Estado possui sua própria</p><p>soberania, surge o problema da delimitação espacial do âmbito de</p><p>eficácia da legislação penal. Estamos em face do denominado Direi-</p><p>to Penal Internacional [...]. O Direito Penal Internacional estabelece</p><p>regras de determinação da lei aplicável em caso de a conduta punível</p><p>lesar o ordenamento jurídico de mais de um Estado. Trata-se de</p><p>Direito Público Interno, motivo por que tem recebido críticas a de-</p><p>nominação. É direito de aplicação do Direito Penal, ou superdireito</p><p>(JESUS, 2012, p. 161).</p><p>Esse problema será resolvido pelos princípios que regem a lei penal no espaço.</p><p>Cinco princípios procuram solucionar o problema, a saber:</p><p>1°) Princípio da Territorialidade: a lei penal do país aplica-se aos crimes ocor-</p><p>ridos no seu território, qualquer que seja a nacionalidade do autor e da vítima do</p><p>crime e qualquer que seja o bem jurídico atingido.</p><p>2°) Princípio da Personalidade: a lei do país segue o cidadão onde quer que</p><p>ele esteja. Divide-se em: Princípio da Personalidade Ativa, quando se aplica a lei</p><p>pessoal do acusado independentemente do bem jurídico (ex.: crime praticado</p><p>por brasileiro no exterior) – artigo 7º, inciso II, b, do CP; e Princípio da Persona-</p><p>lidade Passiva, quando se aplica à lei penal da nacionalidade do sujeito passivo (a</p><p>lei brasileira será aplicada ao crime praticado por estrangeiro contra brasileiro)</p><p>– artigo 7º, parágrafo 3º, do CP.</p><p>3°) Princípio da Defesa Real ou Proteção: o país exerce o direito de punir sem-</p><p>pre que for nacional (do Estado ou de seu cidadão) o bem jurídico atingido pelo</p><p>crime, seja qual for o lugar onde seja praticado, seja quem for o agente: nacional</p><p>ou estrangeiro – artigo 7º, inciso I, a, b, c.</p><p>UNICESUMAR</p><p>UNIDADE 2</p><p>60</p><p>4°) Princípio da Universalidade/Justiça Cosmopolita/Justiça Universal: o</p><p>autor do crime será punido onde for detido. Esse princípio está normalmente</p><p>presente nos tratados internacionais de cooperação de repressão a determinados</p><p>delitos de alcance transnacional – artigo 7º, inciso I, d, e inciso II, a, do CP.</p><p>5°) Princípio da Representação/da Bandeira/Subsidiário: a lei penal de de-</p><p>terminado país é também aplicável aos crimes cometidos em aeronaves e em-</p><p>barcações privadas de natureza nacional, quando realizados no estrangeiro e aí</p><p>não venham a ser julgados – artigo 7º, inciso II, c, do CP.</p><p>Os países não adotam com exclusividade um único princípio. Adotam um como</p><p>regra geral e, excepcionalmente, todos os outros. No Brasil, adotou-se como regra</p><p>geral o Princípio da Territorialidade (artigo 5° do CP). Todavia, nesse próprio</p><p>artigo 5° do CP, ressaltou-se a possibilidade de adotar-se outros princípios.</p><p>Conforme o artigo 6° do CP, considera-se lugar do crime o local onde tenha</p><p>ocorrido a ação ou omissão, bem como onde se produziram seus efeitos ou se</p><p>deu seu resultado. Adotou-se, assim, no artigo</p><p>6° do CP, a chamada teoria</p><p>da ubiquidade ou mista.</p><p>De acordo com Nucci (2022, p. 219):</p><p>“ Ocorre que o artigo 6º do Código Penal destina-se, exclusivamente,</p><p>ao denominado direito penal internacional, ou seja, à aplicação</p><p>da lei penal no espaço, quando um crime tiver início no Brasil e</p><p>terminar no exterior ou vice-versa (é o denominado “crime a</p><p>distância”). Firma-se a competência da Justiça brasileira, valendo-</p><p>se da teoria mista, em qualquer situação na qual se verifique tenha o</p><p>delito tocado território brasileiro, em plena afirmação da soberania</p><p>nacional para processar e punir os culpados (NUCCI, 2022, p. 219).</p><p>É importante saber que o território nacional é considerado todo espaço onde im-</p><p>pera a soberania brasileira. Nas precisas palavras de Faria (1960, p. 33), “se entende</p><p>todo o espaço sujeito aos poderes políticos da nação e sobre o qual exerce livremente</p><p>sua soberania”. Especificamente no campo penal, considera-se território nacional:</p><p>61</p><p>■ O espaço geográfico compreendido entre as nossas fronteiras.</p><p>■ O mar territorial tem uma extensão de 12 milhas. Já as 200 milhas do mar</p><p>territorial têm incidência para efeitos econômicos. O mar territorial está</p><p>regulamentado pela Lei 8.617/1993.</p><p>■ Os rios internacionais de divisas. Tais rios podem pertencer a um único</p><p>país; podem ser comuns aos países; como podem ser divididos ao meio</p><p>(Talweg – divisão com base na parte mais profunda do rio).</p><p>■ O espaço aéreo, correspondendo a troposfera e a tropopausa a mais ou</p><p>menos 12 quilômetros. A estratosfera não é considerada território nacional.</p><p>■ As embarcações e aeronaves brasileiras públicas ou a serviço do governo</p><p>brasileiro em qualquer lugar que estejam na face da terra (artigo 5°, pa-</p><p>rágrafo 1°, do CP).</p><p>■ As embarcações e aeronaves brasileiras privadas (mercantes ou de re-</p><p>creio) quando em alto-mar ou no espaço aéreo internacional (artigo 5°,</p><p>parágrafo 1°, do CP).</p><p>■ As embarcações e aeronaves estrangeiras de propriedade privada quando</p><p>no mar territorial ou porto brasileiros ou no espaço aéreo correspondente</p><p>ou aeroporto do Brasil (artigo 5°, parágrafo 2°, do CP).</p><p>Atualmente, as embaixadas não são consideradas extensão do território nacional. Nas</p><p>palavras de Mossin (2005, p. 3), “as sedes das embaixadas são consideradas território</p><p>nacional, não se reconhecendo a elas extraterritorialidade ou extensão do território es-</p><p>trangeiro”. Todavia, os embaixadores, cônsules, diplomatas possuem certas imunidades.</p><p>As regras sobre extraterritorialidade estão elencadas no artigo 7° do</p><p>CP. É a aplicação da lei brasileira ao crime praticado no estrangeiro. Ela pode</p><p>ser considerada condicionada, incondicionada e hipercondicionada.</p><p>A incondicionada significa que o simples fato de um crime ter sido prati-</p><p>cado no exterior, já autoriza a incidência da lei brasileira, independentemente</p><p>de qualquer requisito. São as hipóteses previstas no artigo 7º, I, do CP. Vejamos:</p><p>■ Crimes praticados contra a vida ou a liberdade do Presidente da Repú-</p><p>blica. Aplica-se o princípio da defesa real ou proteção.</p><p>■ Crimes contra o patrimônio ou a fé pública da União, do Distrito Federal,</p><p>de Estado, de Território, de Município, de empresa pública, sociedade de</p><p>economia mista, autarquia ou fundação instituída pelo Poder Público.</p><p>Aplica-se o princípio de defesa real ou proteção.</p><p>UNICESUMAR</p><p>UNIDADE 2</p><p>62</p><p>■ Crimes praticados contra a administração pública, por quem está a seu</p><p>serviço. Aplica-se o princípio de defesa real ou proteção.</p><p>■ Crimes de genocídio, quando o agente for brasileiro ou domiciliado no</p><p>Brasil. Aplica-se o princípio da justiça universal ou cosmopolita.</p><p>Por sua vez, na condicionada é preciso respeitar alguns requisitos previstos no</p><p>Código Penal. São as hipóteses previstas no artigo 7°, II, do CP. Vejamos:</p><p>■ Crimes que, por tratado ou convenção, o Brasil se obrigou a reprimir.</p><p>Aplica-se o princípio da justiça universal.</p><p>■ Crimes praticados por brasileiro. Aplica-se o princípio da personalidade/</p><p>nacionalidade ativa.</p><p>■ Crimes praticados em aeronaves ou embarcações brasileiras, mercantes</p><p>ou de propriedade privada, quando em território estrangeiro e aí não</p><p>sejam julgados. Aplica-se o princípio da representação/bandeira/pavilhão.</p><p>As condições cumulativas estão previstas no artigo 7º, parágrafo 2º, do Código</p><p>Penal, quais sejam:</p><p>a) Entrar o agente no território nacional;</p><p>b) Ser o fato punível também no país em que foi praticado;</p><p>c) Estar o crime incluído entre aqueles pelos quais a lei brasileira autoriza</p><p>a extradição;</p><p>d) Não ter sido o agente absolvido no estrangeiro ou não ter aí cumprido a pena;</p><p>e) Não ter sido o agente perdoado no estrangeiro ou, por outro motivo, não</p><p>estar extinta a punibilidade, segundo a lei mais favorável;</p><p>Por fim, a hipercondicionada está prevista no artigo 7º, parágrafo 3º, do Códi-</p><p>go Penal e significa que para ser aplicada a lei brasileira ao crime cometido por</p><p>estrangeiro – princípio da personalidade passiva –, além dos requisitos acima,</p><p>precisam constar que:</p><p>a) Não foi pedida ou foi negada a extradição;</p><p>b) Houve requisição do Ministro da Justiça;</p><p>63</p><p>Caro(a) aluno(a), para determinadas pessoas existem algumas prerrogativas.</p><p>Tais pessoas possuem aludidas prerrogativas em virtude da função que ocupam.</p><p>Consoante, Bitencourt (2022, p. 248) afirma que: “As imunidades — diplomáticas</p><p>e parlamentares — não estão vinculadas à pessoa autora de infrações penais,</p><p>mas às funções eventualmente por ela exercidas, não violando, assim, o preceito</p><p>constitucional da igualdade de todos perante a lei”.</p><p>Portanto, as imunidades levam em conta os dados objetivos e não os subjetivos</p><p>de determinada pessoa, tendo em vista que as prerrogativas são inerentes ao cargo</p><p>e não ao indivíduo. Nesse sentido, a lei penal aplica-se a todos, indistintamente.</p><p>Acontece que, em alguns casos, algumas pessoas, em razão do cargo que exercem,</p><p>ou em razão de algumas regras internacionais, possuem algumas imunidades.</p><p>UNICESUMAR</p><p>UNIDADE 2</p><p>64</p><p>Iniciaremos falando das imunidades diplomáticas. A imunidade diplomá-</p><p>tica garante que o indivíduo respeite os preceitos primários dos países em que se</p><p>encontram, mas não se aplicam aos mesmos os preceitos secundários (punição),</p><p>ficando a cargo do seu país de origem a sua aplicação. As pessoas que desfrutam</p><p>das imunidades diplomáticas são:</p><p>■ Chefes de governo ou de Estado estrangeiro, sua família e membros de</p><p>sua comitiva;</p><p>■ Embaixadores e sua família;</p><p>■ Funcionários do corpo diplomático e suas respectivas famílias;</p><p>■ Funcionários das organizações internacionais, quando em serviço.</p><p>As imunidades parlamentares, aplicadas aos senadores e deputados federais,</p><p>podem ser materiais (absolutas, real, substanciais) e processuais (relativas ou</p><p>formais). As materiais encontram-se previstas no artigo 53 da Constituição Fe-</p><p>deral, que dispõe que: “Os Deputados e Senadores são invioláveis, civil e penal-</p><p>mente, por quaisquer de suas opiniões, palavras e votos.”</p><p>Portanto, os Deputados e Senadores não responderão criminalmente caso</p><p>pratiquem um fato típico, por exemplo, injuriar alguém, quando exercido du-</p><p>rante o mandato e estiver relacionado com o cargo. O nexo causal, entre o fato</p><p>típico e o exercício do cargo é presumido quando o parlamentar estiver dentro</p><p>das dependências do parlamento, por outro lado, o nexo precisa ser comprovado</p><p>quando o parlamentar estiver fora das dependências do parlamento.</p><p>No que se refere às imunidades processuais, elas podem ser relativas ao</p><p>processo, à condição de testemunha e à prisão. Encontram-se previstas nos</p><p>parágrafos do artigo 53 da Constituição Federal.</p><p>Em relação ao processo, o artigo 53, da Constituição Federal, dispõe em</p><p>seu parágrafo 3º:</p><p>“ Recebida a denúncia contra o Senador ou Deputado, por crime</p><p>ocorrido após a diplomação, o Supremo Tribunal Federal dará ciên-</p><p>cia à Casa respectiva, que, por iniciativa de partido político nela</p><p>representado e pelo voto da maioria de seus membros, poderá, até</p><p>a decisão final, sustar o andamento da ação (BRASIL, 1998).</p><p>65</p><p>Portanto, é a possibilidade de sustação da casa legislativa de algum processo em</p><p>andamento em face do parlamentar.</p><p>Em relação à prisão, dispõe o artigo 53, parágrafo 2º, da Constituição Federal:</p><p>“ Desde a expedição do diploma, os membros do Congresso Nacional</p><p>não poderão ser presos, salvo em flagrante de crime inafiançável.</p><p>Nesse caso, os autos serão remetidos dentro de vinte e quatro horas</p><p>à Casa respectiva, para que, pelo voto da maioria de seus membros,</p><p>resolva sobre a prisão (BRASIL, 1998).</p><p>Portanto, os parlamentares não poderão ser presos durante o exercício do man-</p><p>dato, salvo em flagrante delito por crime inafiançável. Por fim, em relação à</p><p>condição de testemunha, o artigo 53 da Constituição Federal, em seu parágrafo</p><p>6º, dispõe que: “Os Deputados e Senadores não serão obrigados a testemunhar</p><p>sobre informações recebidas ou prestadas em razão do exercício do mandato,</p><p>nem sobre as pessoas que lhes confiaram ou deles receberam informações”.</p><p>No que se refere aos deputados estaduais, de acordo com o entendimento do</p><p>Supremo Tribunal Federal, conforme o princípio da simetria, as imunidades são</p><p>as mesmas dos deputados federais. É o que dispõe o artigo 27 da Constituição</p><p>Federal, em seu parágrafo 1º, quando diz que: “Será de quatro anos o mandato</p><p>dos Deputados Estaduais, aplicando-se-lhes as regras desta Constituição sobre</p><p>sistema eleitoral, inviolabilidade, imunidades, remuneração, perda de mandato,</p><p>licença, impedimentos e incorporação às Forças Armadas”.</p><p>Caro (a) aluno (a), o artigo 9º do Código Penal dispõe ainda que uma sentença</p><p>penal condenatória estrangeira pode ser homologada no Brasil, a fim de sujeitar o au-</p><p>tor do crime para obrigá-lo a ressarcir o dano ou a sujeitar-se à medida de segurança.</p><p>No primeiro caso, precisa de pedido da parte interessante, e no segundo, é necessário</p><p>existência de tratado de extradição com o país de cuja autoridade judiciária emanou</p><p>a sentença, ou, na falta de tratado, de requisição do Ministro da Justiça.</p><p>UNICESUMAR</p><p>UNIDADE 2</p><p>66</p><p>Interpretar a lei é estabelecer o seu conteúdo, seu real significado, a sua</p><p>vontade. Nas palavras de França (2011, p. 19), “a interpretação consiste</p><p>em aplicar as regras, que a hermenêutica perquire e ordena, para o bom</p><p>entendimento dos textos legais”. A interpretação pode ser dividida em:</p><p>interpretação quanto ao sujeito; interpretação quanto aos meios; e</p><p>interpretação quanto aos resultados.</p><p>A interpretação quanto ao sujeito fundamenta-se no autor da interpretação.</p><p>Tal interpretação pode ser:</p><p>1. Autêntica: é feita pelo legislador por meio de uma outra lei ou norma.</p><p>2. Doutrinária: é realizada pelos doutrinadores, que são os escritores ou</p><p>comentaristas de textos. Faz-se por tratados, livros, conferências, pales-</p><p>tras, artigos, aulas, entre outros.</p><p>3. Judicial: é feita pelos juízes e tribunais. Constitui a chamada jurispru-</p><p>dência.</p><p>67</p><p>A interpretação quanto aos meios refere-se ao meio, isto é, ao método empre-</p><p>gado pelo intérprete. Tal interpretação pode ser:</p><p>1. Gramatical (literal ou sintática): é o exame do sentido do significado</p><p>das palavras.</p><p>2. Lógica ou teleológica: busca-se a razão finalista da lei, a vontade da lei.</p><p>3. Histórica: busca-se a origem da lei.</p><p>4. Sistemática: Analisam-se o sistema em que a norma está inserida.</p><p>A interpretação quanto aos resultados refere-se ao conteúdo que se pode</p><p>chegar. Tal interpretação pode ser:</p><p>1. Declarativa: quando existe coincidência da vontade da lei e do texto. Não</p><p>há necessidade de se restringir ou ampliar o texto. A norma corresponde</p><p>àquilo que o legislador quis dizer.</p><p>2. Restritiva: quando tem que se reduzir o alcance da lei para poder encon-</p><p>trar a sua vontade exata. A norma diz mais do que o legislador gostaria.</p><p>3. Extensiva: na interpretação extensiva, existe a necessidade de ampliar o</p><p>alcance da lei. Na norma diz menos do que o legislador gostaria.</p><p>Certa semelhança existe entre a analogia, interpretação extensiva e inter-</p><p>pretação analógica, mas, essencialmente, se distinguem. Na interpretação</p><p>extensiva ocorre a ampliação do sentido da palavra para encaixá-la à própria</p><p>vontade da lei. Admite-se até mesmo no caso in malam partem. Na interpre-</p><p>tação analógica, o legislador deixou ampla margem para que o juiz pudesse</p><p>encontrar casos semelhantes. Também é possível a aplicação in malam partem.</p><p>Já na analogia o que se amplia é a própria vontade da lei para resolver um caso</p><p>não previsto explícito ou implicitamente pelo legislador. A analogia, portanto, não é</p><p>interpretação, mas criação ou formação de um direito novo. Com ela, o juiz torna-se</p><p>legislador para suprir as lacunas da lei. A analogia é um processo integrativo e não</p><p>interpretativo da lei. No direito penal, só se admite analogia in bonam partem.</p><p>Ainda, é importante saber que de acordo com a doutrina, as leis penais po-</p><p>dem ser classificadas da seguinte maneira:</p><p>UNICESUMAR</p><p>UNIDADE 2</p><p>68</p><p>1. Integrantes ou não incriminadoras: as leis penais integrantes discipli-</p><p>nam a aplicação e os limites das leis incriminadoras, bem como criam</p><p>institutos, firmam princípios, interpretam, estabelecem excludentes etc.</p><p>As leis penais integrantes podem ser:</p><p>a) Normas de aplicação: são aquelas que limitam o campo de aplicação</p><p>da norma. Exemplos: artigos 2° e 5° do CP;</p><p>b) Normas interpretativas: são aquelas que explicam o significado da</p><p>norma. Exemplo: artigo 327 do CP;</p><p>c) Diretivas: são aquelas que firmam princípios. Exemplo: artigo 1° do CP;</p><p>d) Permissivas: são aquelas que estabelecem excludentes de ilicitude.</p><p>Exemplo: artigo 23 do CP;</p><p>e) Exculpantes: são aquelas que estabelecem excludentes de culpabi-</p><p>lidade. Exemplo: artigo 26 do CP.</p><p>2. Leis penais incriminadoras: são normas que definem crimes e co-</p><p>minam penas. Elas aparecem na parte especial do Código Penal e na</p><p>legislação esparsa. A norma penal incriminadora ainda possui duas</p><p>partes: o preceito primário e o secundário. O preceito primário des-</p><p>creve as condutas ilícitas, declara a objetividade jurídica, isto é, o bem</p><p>tutelado. Por sua vez, o preceito secundário é a sanção expressa.</p><p>3. Gerais e Locais: a lei geral tem vigência em todo território nacional.</p><p>A lei local tem vigência em parte do território nacional (as leis locais</p><p>não existem no Brasil).</p><p>4. Comum e Especial: a lei penal comum é aplicada a todos, indistintamen-</p><p>te. A lei penal especial é aplicada a uma determinada categoria de pessoas.</p><p>5. Ordinária e Excepcional: a lei ordinária tem vigência indeterminada,</p><p>perdurando indefinidamente ou até que haja a sua revogação ou modifica-</p><p>ção. A lei excepcional (ou temporária) são aquelas impostas em situações</p><p>de emergência (estado de sítio, guerra, calamidade). Perduram por certo</p><p>tempo. Possuem um termo inicial e um termo final (data ou circunstância).</p><p>6. Completas e Incompletas: a lei completa é aquela que possui o pre-</p><p>ceito integral, sem necessitar de quaisquer complementações. A lei in-</p><p>completa é aquela que possui o preceito indeterminado, necessitando</p><p>de um complemento, isto é, de uma outra disposição legal, que pode</p><p>69</p><p>ser: uma outra lei, um decreto, uma portaria, um regulamento etc. As leis</p><p>penais incompletas são chamadas de Lei Penal em Branco.</p><p>Prezado(a) aluno(a), após abordados todos os aspectos introdutórios em relação</p><p>ao direito penal e aplicação das leis penais, passarei a explicar a teoria do crime,</p><p>ou seja, a parte do direito penal que se volta para a análise técnica do crime, apon-</p><p>tando sua definição, sua classificação, seus sujeitos, seus objetos, sua relação de</p><p>causalidade, dentre outros elementos. Na teoria geral do crime também se coloca</p><p>o estudo dos sujeitos e objetos da infração penal, pois se torna evidente a análise</p><p>de quem cometeu a infração, contra quem foi cometida, qual o bem/interesse que</p><p>o Estado está protegendo com aquela reprimenda ao crime.</p><p>Quando se busca definir um instituto, corre-se um grande risco, pois nem</p><p>sempre os pontos de vista são uniformes. É justamente daqui que acaba por se</p><p>encontrar variados conceitos. Com essa ideia, advirto, desde já, que</p><p>não tenho</p><p>a finalidade, neste texto, de esgotar todos os conceitos de crime, mas apenas re-</p><p>tratar os mais conhecidos. Em boa parte da doutrina, o crime é definido sob três</p><p>aspectos: o legal, o material e o analítico ou formal.</p><p>De acordo com o conceito material, busca-se os efeitos do crime, isto é, a</p><p>gravidade do dano social. Para a obtenção desse conceito, tem-se em vista o bem</p><p>jurídico tutelado. Para Nucci (2022, p. 278), o conceito material do crime é “a</p><p>UNICESUMAR</p><p>UNIDADE 2</p><p>70</p><p>concepção da sociedade sobre o que pode e deve ser proibido, mediante a ameaça</p><p>de aplicação de sanção penal. Em suma, no sentido material, o crime é a conduta</p><p>ofensiva a um bem juridicamente tutelado, ameaçada de pena”. Para Bitencourt</p><p>(2022, p. 295), “crime é a ação ou omissão que contraria os valores ou interesses</p><p>do corpo social, exigindo sua proibição com a ameaça de pena”.</p><p>O critério legal é dado pelo legislador, ou seja, é o que a lei definiu como</p><p>crime. Por sua vez, o critério analítico ou formal, procura examinar as ca-</p><p>racterísticas do crime. Põe-se à mostra seus aspectos essenciais, seus elementos</p><p>estruturais, seus predicados, em suma, os seus elementos constitutivos. Dentro</p><p>desse critério, podemos encontrar uma posição quadripartida (crime é fato tí-</p><p>pico, ilícito, culpável e punível), tripartida (crime é fato típico, ilícito e culpável)</p><p>ou bipartida (crime é fato típico e ilícito).</p><p>O conceito analítico tripartido de crime, que considera como elementos cons-</p><p>titutivos a tipicidade, a ilicitude (ou antijuridicidade) e a culpabilidade, é acatado</p><p>pela maioria dos doutrinadores.</p><p>Querido(a) aluno(a), iremos analisar, a partir de agora, as variadas classifi-</p><p>cações para as infrações penais:</p><p>1. Quanto à gravidade das infrações: as infrações penais se dividem em</p><p>crimes e contravenções penais. O Brasil adotou a divisão bipartida.</p><p>CONTRAVENÇÕES CRIMES</p><p>Pena máxima de cinco anos. Pena máxima de 40 anos.</p><p>Somente pode ser julgada pela</p><p>Justiça Estadual.</p><p>Pode ser julgada pela Justiça Esta-</p><p>dual e Federal.</p><p>Não pune os crimes tentados Pune os crimes tentados</p><p>Não admite a extraterritorialidade Admite a extraterritorialidade</p><p>Crimes de ação pública</p><p>incondicionada</p><p>Crimes de ação pública incondiciona-</p><p>da, condicionada e privada.</p><p>Quadro 1 – Diferenças entre crimes e contravenções penais / Fonte: os autores.</p><p>2. Quanto ao elemento subjetivo: as infrações penais podem ser dolosas,</p><p>culposas ou preterdolosas.</p><p>71</p><p>■ Dolosas: quando o agente quer cometer o crime ou assume o risco de cometer</p><p>o crime (artigo 18, inciso I, do CP). Exemplo: “A” com a vontade de matar</p><p>“B”, desfere neste uma facada e o mata. “A” responderá por homicídio doloso.</p><p>■ Culposas: quando não existe vínculo entre a vontade do agente e o resul-</p><p>tado criminoso (artigo 18, inciso II, do CP). Exemplo: “A” não querendo</p><p>matar “B”, atropela-o ao avançar um sinal vermelho e não vê que “B” estava</p><p>atravessando a faixa de pedestre. “A” responderá por homicídio culposo.</p><p>■ Preterdolosas: quando o agente tem dolo na conduta antecedente e culpa na</p><p>conduta consequente. Exemplo: “A” dá um soco em “B”, e este, ao se esquivar,</p><p>escorrega e cai ao chão, batendo sua cabeça e vindo a falecer. Nessa situa-</p><p>ção, “A” teve dolo de lesão corporal (soco - antecedente) e culpa na morte</p><p>(queda - consequente); “A” responderá por lesão corporal seguida de morte.</p><p>3. Quanto ao elemento objetivo: a forma pela qual a conduta é praticada.</p><p>Podem ser comissivas, omissivas próprias e omissivas impróprias.</p><p>■ Comissivas: o agente realiza o tipo por meio de uma ação, sendo que o tipo</p><p>descreve uma conduta proibida. Exemplos: artigos 121 e 155 do Código Penal.</p><p>■ Omissivas (próprias ou puras): o agente realiza o tipo por meio de uma</p><p>inação (omissão). A omissão está contida do tipo. Exemplos: artigos 135,</p><p>269, 244, 246, todos do Código Penal.</p><p>■ Omissivas impróprias (ou comissiva-omissiva): o agente realiza um tipo</p><p>comissivo, usando como meio de execução uma omissão. O tipo prevê</p><p>uma ação, mas o agente se mantém inerte. São os casos de dever de agir</p><p>previstos no artigo 13, parágrafo 2º, do CP.</p><p>4. Quanto ao grau de intensidade do resultado: crimes de perigo ou</p><p>crime de dano.</p><p>O crime de dano se consuma com a efetiva lesão ao bem jurídico tutelado, enquanto</p><p>o crime de perigo se contenta com a probabilidade de um dano. Os crimes de perigo</p><p>ainda podem se dividir em perigo abstrato e perigo concreto. Nos crimes de perigo</p><p>abstrato não é necessária a comprovação do perigo ocasionado ao bem jurídico</p><p>tutelado, uma vez que é presumido pela lei, ao passo que nos crimes de perigo</p><p>concreto, é necessária a efetiva comprovação da situação de perigo ao caso concreto.</p><p>UNICESUMAR</p><p>UNIDADE 2</p><p>72</p><p>5. Quanto à relação entre a conduta e o resultado naturalístico: mate-</p><p>riais, formais e de mera conduta.</p><p>Nos crimes materiais, o tipo exige uma conduta e um efetivo resultado. Podemos</p><p>citar, como exemplo, o crime de homicídio previsto no artigo 121 do Código Pe-</p><p>nal, uma vez que para que o crime se efetive, é necessário a produção do resultado</p><p>naturalístico, ou seja, a morte do sujeito passivo, caso contrário a conduta não</p><p>passará de uma mera tentativa.</p><p>Nos crimes formais, o tipo não exige a produção do resultado concreto, mas ele</p><p>existe. Podemos citar, como exemplo, o crime de extorsão mediante sequestro pre-</p><p>visto no artigo 159 do Código Penal, uma vez que para que o crime se efetive, não é</p><p>necessário a produção do resultado naturalístico, ou seja, o crime estará consumado</p><p>a partir do momento em que o agente realiza a extorsão. O pagamento do resgate em</p><p>troca da liberdade da vítima, caso ocorra, é considerado mero exaurimento do crime.</p><p>Nas infrações de mera conduta, o tipo se satisfaz com uma ação desobediente.</p><p>Não prevê resultado naturalístico. Exemplo: porte de arma de fogo.</p><p>6. Quanto à estrutura do tipo penal: simples e complexos.</p><p>Nos crimes simples, o fato se amolda a um único tipo penal. Exemplo: furto.</p><p>Nos crimes complexos, há a junção de mais de um tipo penal. Exemplo: rou-</p><p>bo, uma vez que une o crime de furto mais o crime de ameaça ou lesão corporal.</p><p>7. Quanto ao número de agentes: unilaterais ou unissubjetivos e plurila-</p><p>terais ou plurissubjetivos.</p><p>■ Unilaterais: são os crimes praticados por um único agente.</p><p>■ Plurilaterais: são os crimes praticados necessariamente por mais de um agente.</p><p>8. Quanto ao número de atos executórios: unissubsistentes e plurissub-</p><p>sistentes.</p><p>■ Unissubsistentes: o crime depende de apenas um ato. Inadmissível a tentativa.</p><p>■ Plurissubsistentes: o crime depende da prática de mais de um ato. Ad-</p><p>mite a tentativa.</p><p>73</p><p>9. Quanto à existência autônoma: principais ou acessórios.</p><p>Crimes principais: independem da existência de outro.</p><p>Crimes acessórios: dependem da existência de outro.</p><p>10. Quanto à qualidade do sujeito ativo: próprios, comuns e de mão própria.</p><p>O crime comum pode ser realizado por qualquer pessoa, não se exigindo quais-</p><p>quer qualidades do sujeito ativo. Exemplos: artigos 121 e 155 do Código Penal.</p><p>No crime próprio, o tipo exige uma qualidade do sujeito ativo. Exemplos:</p><p>artigos 123 e 312 do Código Penal.</p><p>Os crimes de mão própria só podem ser realizados pessoalmente pelo agente.</p><p>Exemplo: artigo 342 (falso testemunho) do Código Penal.</p><p>11. Quanto à natureza da ação penal: crimes de ação pública incondicio-</p><p>nada ou condicionada.</p><p>Os crimes de ação pública incondicionada não precisam de uma condição de</p><p>procedibilidade para a ação penal ser deflagrada, ao contrário dos crimes de ação</p><p>pública condicionada, que precisam de uma condição de procedibilidade para a</p><p>ação penal ser deflagrada.</p><p>12. Quanto ao momento da consumação: instantâneos, permanentes ou</p><p>instantâneos com efeitos permanentes.</p><p>Crimes instantâneos são crimes que se consumam em determinado momento.</p><p>Não se prolongam no tempo, diferentemente dos crimes permanentes, que se</p><p>prolongam no tempo, durando enquanto o autor da conduta desejar. Enquanto</p><p>os crimes instantâneos com efeitos permanentes são os crimes em que, apesar</p><p>de já estarem</p><p>consumados, seus efeitos continuam a existir.</p><p>13. Quanto ao bem jurídico atingido: mono-ofensivos e pluriofensivos.</p><p>Crimes mono-ofensivos lesam apenas um bem jurídico, enquanto os pluriofen-</p><p>sivos lesam mais de um bem jurídico.</p><p>UNICESUMAR</p><p>UNIDADE 2</p><p>74</p><p>Caro(a) aluno(a), sujeitos do crime são aquelas pessoas que estão envolvidas no</p><p>fato criminoso, tanto em relação à autoria da conduta, quanto às consequências</p><p>da empreitada criminosa. Sujeito ativo do crime é aquele que comete o crime.</p><p>Via de regra, o sujeito ativo é a pessoa física, maior de 18 anos. Discute-se atual-</p><p>mente sobre a possibilidade de a pessoa jurídica ser sujeito ativo de um crime.</p><p>A Constituição Federal admitiu a possibilidade de a pessoa jurídica ser sujeito</p><p>ativo em crimes contra o meio ambiente, contra a ordem econômica e financeira</p><p>e contra a economia popular, independentemente da responsabilidade individual</p><p>dos seus dirigentes. Atualmente, somente foi editada a lei 9.605/1998 (Lei de</p><p>Crimes Ambientais), que dispõe expressamente sobre a responsabilização penal</p><p>da pessoa jurídica, enquanto em relação aos crimes contra a ordem econômica</p><p>e financeira, bem como contra a economia popular, não sobreveio lei definidora</p><p>dos crimes da pessoa jurídica (MASSON, 2020).</p><p>Dessa forma, de acordo com o entendimento predominante dos tribunais</p><p>superiores, é possível a responsabilização penal das pessoas jurídicas em relação</p><p>aos crimes ambientais, sejam dolosos ou culposos.</p><p>75</p><p>Por outro lado, sujeito passivo é aquele que é titular do bem jurídico ofendi-</p><p>do, ou seja, é aquele que sofre as consequências da conduta criminosa. Pode</p><p>ser o ser humano, sendo que a lei o protege mesmo antes de seu nascimento e a</p><p>pessoa jurídica. Existem crimes ainda em que o sujeito passivo é indeterminado,</p><p>ou seja, não existe uma vítima concreta, pois há ofensa a toda a coletividade.</p><p>Trata-se do chamado crime vago.</p><p>No que se refere ao objeto do delito, ele pode ser classificado em material</p><p>ou jurídico. Objeto jurídico de um crime é o bem/interesse protegido pela</p><p>norma penal. Para Mirabete e Fabbrini (2007, p. 115), “bem é tudo aquilo que</p><p>satisfaz a uma necessidade humana, inclusive as de natureza moral, espiritual, etc.,</p><p>e o interesse é o liame psicológico em torno desse bem, ou seja, o valor que tem</p><p>para seu titular”. Os códigos classificam os crimes tendo em vista o objeto jurídico</p><p>tutelado. Nos títulos, aparecem os objetos jurídicos genéricos, nos capítulos os</p><p>objetos em espécie. Por exemplo, no crime de homicídio o objeto jurídico tutela-</p><p>do é a vida, no crime de furto é o patrimônio. Já o objeto material é a coisa ou</p><p>pessoa que foi atingida pela conduta criminosa. Por exemplo, no crime de</p><p>homicídio, o objeto é a pessoa, enquanto no furto, é a coisa subtraída.</p><p>Caro(a) aluno(a), nesta unidade, foi possível compreender um pouco mais sobre</p><p>os princípios do Direito Penal, bem como a aplicação da lei penal em relação ao tempo,</p><p>espaço e às pessoas. Também foram analisadas as formas de interpretação da lei penal</p><p>e sua classificação, assim como os aspectos iniciais acerca da teoria do crime.</p><p>Constatou-se, precipuamente, que o Direito Penal não é compreendido ape-</p><p>nas por artigos de leis, mas também por princípios que visam limitar sua atuação,</p><p>bem como garantir a coesão e proporcionalidade na sua incidência. Dessa forma,</p><p>após a análise do caso trazido no início da unidade, que envolvia o furto famélico,</p><p>NOVAS DESCOBERTAS</p><p>Um exemplo de responsabilidade criminal de pessoa jurídica, com am-</p><p>pla notoriedade nacional, foi o caso de Brumadinho, no ano de 2019.</p><p>Leia a notícia que trata da responsabilidade da mineradora Vale S/A:</p><p>UNICESUMAR</p><p>https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/18809</p><p>UNIDADE 2</p><p>76</p><p>foi possível perceber a possibilidade de aplicação do artigo 155 do Código Penal</p><p>(crime de furto), no entanto, em razão da proporcionalidade, inexistência de le-</p><p>são ao bem jurídico tutelado e o ínfimo valor do patrimônio, a tipicidade material</p><p>da conduta foi afastada e restou aplicado ao caso o princípio da insignificância.</p><p>Dessa forma, você pôde perceber que os princípios penais são de grande</p><p>valia na ponderação das penas aplicadas, e devem ser considerados na grande</p><p>maioria dos casos. Deve ser realizada uma análise entre a gravidade da conduta</p><p>e a pena aplicada para que não haja punições desproporcionais. Além das penas</p><p>cominadas a cada caso concreto, é necessário analisar a situação e verificar se não</p><p>existe a possibilidade de aplicação de algum princípio norteador do Direito Penal.</p><p>77</p><p>A partir do momento em que o agente pratica uma conduta que se amolda a</p><p>um tipo penal, ele sai do plano estritamente abstrato e passa para o plano concreto,</p><p>permitindo ao Estado a aplicação da sua punição, por meio das penas previstas na</p><p>legislação. No entanto, cabe ao intérprete realizar o juízo de ponderação para cada</p><p>caso, em razão do princípio individualizador da pena, uma vez que não é possível</p><p>que o legislador consiga abarcar todas as situações possíveis da vida cotidiana.</p><p>No caso em análise, ainda que a mulher tenha praticado o crime de furto, o</p><p>Código Penal não previu situações de punibilidade nos casos em que ele é pra-</p><p>ticado para saciar a fome. Ademais, de acordo com os princípios da intervenção</p><p>mínima, fragmentariedade e subsidiariedade, o Direito Penal não deve se preocu-</p><p>par com situações irrelevantes ou ínfimas. Mas para que todas essas ponderações</p><p>sejam possíveis, é necessário a existência dos princípios com toda a sua carga de</p><p>proporcionalidade e ponderação.</p><p>Além dos princípios, verificou-se que é de suma importância o entendimento</p><p>acerca da aplicação das leis penais, uma vez que ao analisar o tempo do crime, é</p><p>possível constatar a imputabilidade do agente e a lei penal a ser aplicada. Assim</p><p>como, ao analisar o lugar do crime, é possível constatar o local onde ocorreu o</p><p>resultado e a prática da conduta para posterior fixaçã o de competência.</p><p>Por fim, observou-se que o Direito Penal por excelência é uma ciência preo-</p><p>cupada em conceituar o crime, pois dependendo de sua definição será maior ou</p><p>menor a conduta criminosa, existindo, inclusive, a possibilidade de determinado</p><p>fato jurídico não ter importância criminal. Por outro lado, também é mister com-</p><p>preender as mais variadas classificações das infrações penais, a fim de agrupá-las</p><p>em uma certa modalidade no intuito de melhor retratar suas características es-</p><p>senciais, bem como conhecer os sujeitos do crime.</p><p>UNICESUMAR</p><p>78</p><p>1. “Princípio é, por definição, mandamento nuclear de um sistema verdadeiro, alicerce</p><p>dele, disposição fundamental que se irradia por diferentes normas, compondo-lhes</p><p>o espírito e servindo de critério para a sua exata compreensão e inteligência exata-</p><p>mente por definir a lógica e a racionalidade do sistema normativo, no que lhe confere</p><p>a tônica e lhe dá sentido harmônico” (MELLO, 2002, p. 807-808).</p><p>MELLO, C. A. B. Curso de direito administrativo. 14. ed. São Paulo: Malheiros, 2002.</p><p>Considerando o texto acima, o estudo a respeito dos princípios limitadores do Di-</p><p>reito Penal, assinale a alternativa que indica o princípio que está relacionado com o</p><p>disposto no artigo 1ª do Código Penal, o qual afirma: “Não há crime sem lei anterior</p><p>que o defina. Não há pena sem prévia cominação legal”.</p><p>a) Lesividade.</p><p>b) Legalidade.</p><p>c) Proporcionalidade.</p><p>d) Alteridade.</p><p>e) Confiança.</p><p>2. “Quando lhe for indagado o conceito de crime, uma resposta mais técnica e minucio-</p><p>sa deve ser apresentada. De fato, o crime pode ser conceituado levando em conta</p><p>três aspectos: material, legal, formal ou analítico” (MASSON, 2020, p. 159).</p><p>MASSON, C. Direito penal: parte geral. Rio de Janeiro: Forense; São Paulo: Método, 2020.</p><p>Sob o ponto de vista dos conceitos de crime, discorra sobre o conceito analítico e</p><p>informe seus elementos.</p><p>3. “Destarte, a distinção entre crime e contravenção é de grau quantitativa (quantidade</p><p>da pena), e qualitativa (qualidade da pena) e não ontológica. Daí não nos parece</p><p>correto denominar esta última de “crime anão”, inclusive</p><p>pela ausência de critérios</p><p>para tanto” (MASSON, 2020, p. 160).</p><p>MASSON, C. Direito penal: parte geral. Rio de Janeiro: Forense; São Paulo: Método,</p><p>2020.</p><p>Considerando o texto acima, disserte sobre as diferenças entre crime e contravenção penal.</p><p>3Teoria Geral do</p><p>Crime: Fato Típico,</p><p>Ilícito e Culpável</p><p>Me. Marllon Beraldo</p><p>Esp. Beatriz Gasparin Moreira</p><p>Nesta unidade, estudaremos os elementos que compõem o crime,</p><p>quais sejam: fato típico, antijuridicidade e culpabilidade. Ademais,</p><p>nortearemos a conduta criminosa com o núcleo do tipo penal e per-</p><p>ceberemos a relação do nexo de causalidade com o resultado. Por</p><p>fim, ainda dentro da teoria geral do crime, analisaremos o segundo e</p><p>o terceiro elemento do crime – antijuridicidade e culpabilidade –, e as</p><p>causas excludentes.</p><p>UNIDADE 3</p><p>82</p><p>Prezado(a) aluno (a), imagine a seguinte situação: você está fazendo um passeio</p><p>de barco em alto mar, quando, em determinado momento, essa embarcação vira</p><p>e você e as outras pessoas, que estavam a bordo, precisam colocar os coletes</p><p>salva-vidas para conseguirem sobreviver. Ocorre que não há coletes salva-vidas</p><p>para todo mundo. Você avista o último colete boiando ao mesmo tempo em que</p><p>Maria, e vocês dois vão em direção a ele o mais depressa possível, pois quem che-</p><p>gar primeiro irá se salvar. Por fim, você consegue chegar primeiro para pegar o</p><p>colete e Maria morre afogada. Agora, eu lhe pergunto: nessa situação, você seria</p><p>acusado de homicídio em razão da morte de Maria?</p><p>Para que um fato seja considerado criminoso, é necessário que ele preencha os</p><p>três elementos que compõem o crime, ou seja, ele precisa ser típico, antijurídico</p><p>e culpável. Para ser típico, a sua conduta basicamente precisa estar prevista em</p><p>lei. Para ser antijurídico, ele precisa ser contrário ao direito, ou seja, não pode</p><p>estar amparado por nenhuma causa de exclusão de ilicitude, seja ela legal ou</p><p>supralegal. Por fim, ele precisa ser culpável. No caso acima, está presente clara-</p><p>mente a excludente de ilicitude legal chamada estado de necessidade, que acon-</p><p>tece quando alguém pratica determinado crime para salvar a sua própria vida</p><p>ou de terceiros. Portanto, ainda que o caso narrado se amolde em um fato típico,</p><p>ele não é antijurídico/ilícito, pois está acobertado pelo estado de necessidade e,</p><p>consequentemente, não preenche o segundo elemento do crime.</p><p>Agora é sua vez! Leia o julgado, em que o réu foi absolvido</p><p>por se encontrar em estado de necessidade, assim como em</p><p>nosso exemplo. Boa leitura!</p><p>Após a leitura do julgado acima, conseguiu visualizar me-</p><p>lhor a importância de conhecermos o estado de necessidade?</p><p>Como veremos, o estado de necessidade é só uma das hipóteses</p><p>de excludentes de ilicitude. Dessa forma, é de suma importância aprendermos</p><p>os elementos do crime, uma vez que, em determinados momentos, ainda que</p><p>o agente realize uma conduta criminosa, ele pode estar amparado por alguma</p><p>excludente de ilicitude ou de culpabilidade e, assim, não será responsabilizado</p><p>penalmente. A partir dessa reflexão, escreva no seu diário de bordo as suas im-</p><p>pressões iniciais sobre as excludentes de ilicitude e sobre a importância de co-</p><p>nhecer os elementos do crime. Bom trabalho!</p><p>https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/18236</p><p>83</p><p>Caro(a) aluno(a), o fim imediato do Direito Penal é o estudo do crime, seja</p><p>na sua definição, seja nas consequências que pode trazer, seja nas causas que o</p><p>proporciona, dentre outros. Chamamos esse estudo de teoria geral do crime, ou</p><p>seja, a parte do Direito Penal que se volta para a análise técnica do crime, apon-</p><p>tando sua definição, sua classificação, seus sujeitos, seus objetos, sua relação de</p><p>causalidade, dentre outros elementos.</p><p>Como foi citado no início, no conceito analítico de crime (corrente majo-</p><p>ritária), o crime é composto pelos seguintes elementos: fato típico, ilicitude e</p><p>culpabilidade. Portanto, a partir de agora, passaremos a analisar cada um deles,</p><p>começando pelo fato típico.</p><p>Fato típico é composto pela conduta, tipicidade, nexo causal e resultado.</p><p>RESULTADO</p><p>TIPICIDADE</p><p>NEXO</p><p>CAUSAL</p><p>CONDUTA FATO</p><p>TÍPICO</p><p>A conduta é o conceito básico de crime, é o núcleo material do tipo, que se ex-</p><p>terioriza por meio de um verbo. Pode ser estudada tanto pela teoria causalista</p><p>ou clássica, neokantista ou neoclássica e finalista.</p><p>Segundo a teoria causalista, conduta é um movimento humano voluntário</p><p>que produz alteração no mundo exterior. Essa concepção foi elaborada por Von</p><p>Liszt e Beling, que defendiam que a “conduta humana é um movimento corporal</p><p>voluntário manifestado no mundo exterior por um fazer ou por um não fazer,</p><p>com a produção de um resultado” (WELSEL, 1970, p. 61, tradução nossa).</p><p>UNICESUMAR</p><p>UNIDADE 3</p><p>84</p><p>Decompondo-se esse conceito de conduta, verificam-se as seguintes ca-</p><p>racterísticas:</p><p>• Voluntariedade;</p><p>• Manifestação exterior, por meio de uma ação positiva ou negativa;</p><p>• Resultado, que é uma modificação no mundo exterior (modificação</p><p>do status quo ante).</p><p>As bases do modelo causal da conduta surgiram no século XVII, caracterizando-se</p><p>pelo desenvolvimento das ciências físicas, em particular da mecânica newtoniana.</p><p>Em síntese, segundo Masson (2020), a caracterização da conduta consiste em</p><p>apenas o agente produzir um resultado físico que assinale uma infração penal,</p><p>independentemente de dolo ou culpa. Para muitos doutrinadores, essa teoria</p><p>é considerada um modelo avalorado, uma vez que não permite elementos</p><p>normativos do tipo, ou seja, os elementos do tipo não permitem juízo de valor.</p><p>Para a teoria neokantista ou neoclássica, a conduta deixa de ser um movimen-</p><p>to humano voluntário e passa a ser considerada um comportamento humano</p><p>voluntário, que causa modificação no mundo exterior. Aqui, há uma introdução</p><p>de elementos normativos no tipo, passando, portanto, a ser um modelo valorado.</p><p>Por fim, de acordo com a teoria finalista, principalmente para Welzel (1970,</p><p>p. 162, tradução nossa), “toda conduta humana é dirigida a um fim. A conduta</p><p>humana é a realização de um propósito”.</p><p>Observando as características apresentadas, o conceito de conduta demonstra</p><p>uma estrutura psicológico-causal. A estrutura psicológica compreende a parte</p><p>subjetiva da conduta (realização de um propósito). Para Masson (2020), condu-</p><p>ta, segundo essa teoria, é um comportamento humano, consciente e voluntário,</p><p>dirigido a um fim. Portanto, aqui, levou-se em conta a finalidade do agente.</p><p>Dessa forma, a conduta pode ser ou não criminosa, de acordo com a vontade</p><p>(elemento subjetivo) do agente. Aqui, o dolo e a culpa, que na teoria clássica, eram</p><p>elementos da culpabilidade, migram para o interior da conduta e, consequente-</p><p>mente, para o fato típico.</p><p>Existe também a chamada teoria social da ação, de criação do autor Schmidt,</p><p>a qual “agrega ao finalismo um componente normativo indicado por sua relevân-</p><p>cia social. Assim, o modelo social admite todos os elementos do modelo final,</p><p>85</p><p>acrescentando um elemento normativo que atribui à ação o caráter de aconteci-</p><p>mento socialmente relevante” (BITENCOURT, 2010, p. 263).</p><p>De acordo com a teoria social da ação, um fato não pode ser considerado cri-</p><p>minoso se for aceito socialmente pela sociedade, uma vez que estaria ausente um</p><p>elemento implícito do tipo penal, que consiste na repercussão social da conduta.</p><p>Assim, para que uma conduta seja considerada criminosa, além de estarem presen-</p><p>tes todos os componentes da teoria finalista, ela precisa possuir relevância social.</p><p>É importante destacar que não há crime sem conduta, ou seja, o Direito Penal</p><p>brasileiro não admite crimes de mera suspeita. Ainda, a conduta pode ocorrer</p><p>de duas formas: positiva e negativa.</p><p>A conduta positiva é caracterizada por uma ação, ou seja, o agente realiza</p><p>uma conduta vedada. Enquanto a conduta negativa é caracterizada por uma</p><p>omissão, ou seja, o agente deixa de realizar uma ação que deveria ser feita. Há</p><p>ainda, as condutas mistas, caracterizadas por uma ação seguida de omissão. É o</p><p>caso do crime de apropriação de coisa achada, previsto no artigo</p><p>169, parágrafo</p><p>único, inciso II, do Código Penal.</p><p>UNICESUMAR</p><p>UNIDADE 3</p><p>86</p><p>Há duas espécies de crimes omissivos: próprios e impróprios. Os crimes</p><p>omissivos próprios são aqueles que estão descritos no tipo como uma omissão,</p><p>ou seja, o agente devia agir, mas se mantém inerte. Ele pode ser aplicado a qual-</p><p>quer pessoa, como, por exemplo, o crime de omissão de socorro. Por outro lado,</p><p>nos crimes omissivos impróprios, o tipo descreve uma ação, ou seja, o resultado</p><p>naturalístico só acontece devido à inércia do agente. Não são aplicados a todos,</p><p>mas somente àqueles que estão na posição de “garantes”, que são aquelas pessoas</p><p>que estão previstas no artigo 13, parágrafo 2º, do Código Penal.</p><p>Nos crimes omissivos impróprios, a omissão é considerada relevante quan-</p><p>do o omitente podia e devia agir para evitar o resultado. Dessa forma, o dever</p><p>de agir incumbe a quem:</p><p>a) Tenha por lei a obrigação de cuidado, proteção ou vigilância. Essa obri-</p><p>gação provém de uma lei, que advém: do poder familiar, do casamento,</p><p>da família, da tutela, da curatela, da adoção etc. Por exemplo: o pai, que</p><p>deixa de prover a subsistência do filho, comete o crime do artigo 244 do</p><p>CP. Se essa atitude do pai causar lesão ou morte do filho, ele responderá</p><p>pelos delitos dos artigos 129 ou 121 do CP, respectivamente, tratando-se,</p><p>nessa hipótese, de um delito omissivo impróprio, por ter o pai o dever de</p><p>agir, conforme preceitua a letra “a” do parágrafo 2°, do artigo 13 do CP.</p><p>b) No caso da letra “b” do parágrafo 2,° do artigo 13 do CP, o dever de agir</p><p>decorre de um dever contratual, no qual a pessoa assume a posição de ga-</p><p>rantidor (“garante”). Assim, o guia de alpinista tem o dever de proteção em</p><p>relação ao alpinista; o médico ou enfermeiro tem o dever de proteção em</p><p>relação ao doente; o professor em relação ao aluno; o salva-vidas em relação</p><p>ao nadador; o bombeiro em relação a uma pessoa em perigo. Por exemplo:</p><p>o guia de alpinista, que deixa de socorrer um alpinista em perigo, comete o</p><p>crime de omissão de socorro do artigo 135 do CP. No entanto, se, com essa</p><p>omissão do guia, o alpinista sofrer lesão ou morrer, o guia responderá pelos</p><p>delitos dos artigos 129 e 121 do CP, respectivamente, eis que, o guia possui</p><p>o dever de agir, por força da letra “b” do parágrafo 2°, do artigo 13 do CP. É</p><p>importante observar que, nesse caso, não se aplica ao guia de alpinista a regra</p><p>do parágrafo único do artigo 135 do CP, pois ela só é aplicável àqueles que</p><p>não têm o dever de agir.</p><p>87</p><p>c) Na letra “c” do parágrafo 2°, do artigo 13 do CP, o legislador estabeleceu</p><p>que o dever de agir surge quando uma pessoa com um comportamento an-</p><p>terior criou o risco para uma outra pessoa. Por exemplo: uma pessoa, por</p><p>brincadeira, joga outra em uma piscina, colocando-a em perigo. Com esse</p><p>comportamento, quem jogou o outro na piscina adquiriu o dever de agir.</p><p>Prezado(a) aluno(a), existem algumas causas que excluem a conduta e, conse-</p><p>quentemente, o fato típico. São elas: caso fortuito e força maior, movimentos refle-</p><p>xos, sonambulismo e hipnose coação física irresistível. Veremos cada uma delas:</p><p>■ Caso fortuito e força maior: são acontecimentos humanos imprevisíveis</p><p>e inevitáveis, em que não há vontade e, portanto, não há tipicidade.</p><p>■ Movimentos reflexos: são movimentos corporais involuntários; reações fi-</p><p>siológicas.</p><p>■ Sonambulismo e hipnose: atos praticados em estado de inconsciência.</p><p>■ Coação física irresistível: o comportamento é controlado pelo coator, de</p><p>forma que o coagido é mero instrumento e não possui vontade, portanto,</p><p>não há o que se falar em conduta.</p><p>UNICESUMAR</p><p>UNIDADE 3</p><p>88</p><p>O resultado pode ser jurídico/normativo ou material/naturalístico. O resul-</p><p>tado jurídico é a violação do bem jurídico tutelado pela lei, ou seja, é a violação</p><p>da lei penal. Já o resultado material é aquele que causa modificação do mundo</p><p>exterior em razão da conduta praticada pelo agente.</p><p>Nexo causal é a relação de causalidade que existe entre a conduta praticada</p><p>pelo agente e o resultado.</p><p>Em todo crime material, existe uma ação ou omissão e a produção de um</p><p>resultado. Diante disso, há que se indagar: o resultado foi gerado pela ação ou</p><p>omissão? Por exemplo: “A” alveja (ação) “B”. “B” é socorrido e levado a um hospital,</p><p>porém não é atendido; “B” é levado a um novo hospital e é atendido; neste novo</p><p>hospital, “B” é operado, sofre um choque anafilático e morre. Nesse exemplo, entre</p><p>a ação e o resultado, há uma série de circunstâncias intermediárias, não podendo</p><p>se saber de imediato se o resultado foi gerado diretamente pela ação de «A».</p><p>Surge, então, a questão da relação de causalidade.</p><p>Para resolver o problema da relação de causalidade, existem várias teorias,</p><p>sendo que, o CP adotou a teoria da equivalência dos antecedentes causais, tam-</p><p>bém denominada de teoria da condictio sine quanon (de Von Buri), segundo o</p><p>qual, tudo o que concorre para o resultado é causa dele.</p><p>Segundo essa teoria, não há distinção entre causa e concausa, causa e condição,</p><p>causa e ocasião. Está firmada no artigo 13 caput do CP. Existirá relação de causalidade</p><p>entre ação ou omissão e o resultado, sempre que este não tenha ocorrido sem aquela.</p><p>Portanto, causa, segundo Masson (2020, p. 209), “é todo comportamento</p><p>humano, comissivo ou omissivo, que de qualquer modo concorreu para a pro-</p><p>dução do resultado naturalístico. Pouco importa o grau de contribuição. Basta</p><p>que tenha contribuído para o resultado material, na forma e quando ocorreu”.</p><p>Para identificar se tal acontecimento foi causa ou não, utiliza-se o método da</p><p>eliminação hipotética de Thyrém. Segundo esse método, suprime-se determinado</p><p>acontecimento que compõe o crime. Se, com a supressão do acontecimento, elimina-se</p><p>o crime, então, podemos dizer que ele era considerado causa. No entanto, se com a su-</p><p>pressão, o crime ainda permanece, então aquele acontecimento não era causa do crime.</p><p>Como exemplo desse modelo, imagine que “A” deseje matar “B” e, em deter-</p><p>minado dia, para isso, pega emprestado a arma de “C” para cometer o delito. No</p><p>momento em que iria matar B, A desistiu de utilizar a arma de “C” e mata “B”</p><p>com as próprias mãos. Diante disso, indago: a conduta de “C” (emprestar a arma)</p><p>é causa do homicídio de “B”? Devemos pensar da seguinte maneira: eliminando</p><p>89</p><p>a conduta de “C”, “B”, mesmo assim, morreria? No exemplo citado, sim, uma vez</p><p>que “A” não utilizou a arma emprestada de “C”. Dessa forma, a conduta de “C”</p><p>não pode ser considerada causa do crime.</p><p>No entanto, essa causalidade física não é e nem poderia ser o único pressuposto da</p><p>responsabilidade penal. Acha-se, portanto, a causalidade subordinada à existência do</p><p>elemento subjetivo, isto é, após se averiguar que alguém causou um resultado lesivo, há</p><p>que se indagar se o agente agiu com dolo ou culpa. Se não fosse o elemento subjetivo,</p><p>por exemplo, os fabricantes de armas responderiam por todos os crimes ou os pais</p><p>dos criminosos também seriam responsabilizados, pois sem a concepção dos filhos,</p><p>o crime não iria existir. Dessa forma, haveria um regressus ad infinitum.</p><p>O parágrafo 1°, do artigo 13, do CP, abrandou a teoria da equivalência ao prever a</p><p>hipótese da independência relativa de uma causa superveniente. A teoria que justifica</p><p>essa exceção é chamada de teoria da causalidade adequada. Segundo essa teoria,</p><p>são consideradas as circunstâncias idôneas e adequadas à produção do resultado.</p><p>Imagine a seguinte situação: “A” alveja (ação) “B”. “B” é socorrido em um hospital,</p><p>mas acaba morrendo em razão de uma infecção hospitalar. Segundo a teoria dos</p><p>antecedentes causais, se retiramos a conduta de “A”, “B” não teria morrido. Portanto,</p><p>a conduta de “A” é considerada causa do resultado. Analisando pela perspectiva da</p><p>teoria da causalidade adequada, é necessário analisar quais são os desdobramentos</p><p>estatísticos prováveis e ver se eles são compatíveis com o resultado.</p><p>UNICESUMAR</p><p>UNIDADE 3</p><p>90</p><p>Nesse caso, de acordo com a teoria da causalidade adequada, “A” responde pelo</p><p>crime de homicídio consumado, uma</p><p>forma, convido-lhe a realizar a leitura deste livro didático. Bons estudos!</p><p>IMERSÃO</p><p>RECURSOS DE</p><p>Ao longo do livro, você será convida-</p><p>do(a) a refletir, questionar e trans-</p><p>formar. Aproveite este momento.</p><p>PENSANDO JUNTOS</p><p>NOVAS DESCOBERTAS</p><p>Enquanto estuda, você pode aces-</p><p>sar conteúdos online que amplia-</p><p>ram a discussão sobre os assuntos</p><p>de maneira interativa usando a tec-</p><p>nologia a seu favor.</p><p>Sempre que encontrar esse ícone,</p><p>esteja conectado à internet e inicie</p><p>o aplicativo Unicesumar Experien-</p><p>ce. Aproxime seu dispositivo móvel</p><p>da página indicada e veja os recur-</p><p>sos em Realidade Aumentada. Ex-</p><p>plore as ferramentas do App para</p><p>saber das possibilidades de intera-</p><p>ção de cada objeto.</p><p>REALIDADE AUMENTADA</p><p>Uma dose extra de conhecimento</p><p>é sempre bem-vinda. Posicionando</p><p>seu leitor de QRCode sobre o códi-</p><p>go, você terá acesso aos vídeos que</p><p>complementam o assunto discutido.</p><p>PÍLULA DE APRENDIZAGEM</p><p>OLHAR CONCEITUAL</p><p>Neste elemento, você encontrará di-</p><p>versas informações que serão apre-</p><p>sentadas na forma de infográficos,</p><p>esquemas e fluxogramas os quais te</p><p>ajudarão no entendimento do con-</p><p>teúdo de forma rápida e clara</p><p>Professores especialistas e convi-</p><p>dados, ampliando as discussões</p><p>sobre os temas.</p><p>RODA DE CONVERSA</p><p>EXPLORANDO IDEIAS</p><p>Com este elemento, você terá a</p><p>oportunidade de explorar termos</p><p>e palavras-chave do assunto discu-</p><p>tido, de forma mais objetiva.</p><p>Quando identificar o ícone de QR-CODE, utilize o aplicativo Unicesumar</p><p>Experience para ter acesso aos conteúdos on-line. O download do</p><p>aplicativo está disponível nas plataformas: Google Play App Store</p><p>https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/3881</p><p>APRENDIZAGEM</p><p>CAMINHOS DE</p><p>1 2</p><p>3 4</p><p>5</p><p>INTRODUÇÃO</p><p>AO DIREITO</p><p>PENAL</p><p>11</p><p>PRINCÍPIOS E</p><p>APLICAÇÃO DA</p><p>LEI PENAL NO</p><p>TEMPO E NO</p><p>ESPAÇO</p><p>41</p><p>81</p><p>TEORIA GERAL</p><p>DO CRIME: FATO</p><p>TÍPICO, ILÍCITO E</p><p>CULPÁVEL</p><p>121</p><p>CONCURSO DE</p><p>CRIMES E DE</p><p>PESSOAS</p><p>147</p><p>EXTINÇÃO DA</p><p>PUNIBILIDADE</p><p>1Introdução ao</p><p>Direito Penal</p><p>Me. Marllon Beraldo</p><p>Esp. Beatriz Gasparin Moreira</p><p>Há algumas correntes de pensamento que afirmam ser o Direito Penal</p><p>a seara mais dura do Direito, contudo, esse ramo também preocupa-</p><p>se muito com questões que envolvem direitos individuais e, de certa</p><p>forma, até oferece certa resistência à criminalização de alguns fatos.</p><p>Sendo assim, devido à importância do Direito Penal para a sociedade</p><p>contemporânea, estudaremos o contexto histórico que subsidiou a</p><p>criação do Direito Penal, bem como sua relação com outros ramos do</p><p>Direito, bem como conheceremos suas fontes.</p><p>UNIDADE 1</p><p>12</p><p>É muito comum as pessoas se questionarem se devem ou não respeitar determinada</p><p>regra, bem como é comum que elas busquem compreender se determinada ação</p><p>deve ser executada da exata forma como foi posta. E você? Já parou para pensar</p><p>sobre essas questões? Já pensou sobre como o Direito Penal se iniciou? Qual foi o</p><p>ponto de partida para o surgimento das normas de Direito Penal até chegarmos no</p><p>modelo que temos hoje no Brasil? Será que conseguiríamos viver em sociedade sem</p><p>que existissem as normas de Direito Penal, tutelando e punindo algumas condutas?</p><p>É importante destacarmos que a base da criação das normas e, em especial,</p><p>do próprio Direito Penal, é o convívio social. Precisamos considerar também</p><p>o reconhecimento de alguns direitos, como o direito à propriedade, à vida e</p><p>à pacificação social, por exemplo. No entanto, não podemos nos esquecer de</p><p>considerar os valores, costumes e tradições vigentes em um determinado lugar e</p><p>tempo. Dessa forma, quando analisamos o contexto histórico, constatamos que</p><p>desde os primórdios, até mesmo antes de Cristo, o jus puniendi, ou seja, o “direito</p><p>de punir”, já estava presente. Ocorre, no entanto, que a sua titularidade não perten-</p><p>cia ao Estado como vemos hoje, bem como as leis não eram escritas e as punições</p><p>podiam ser completamente desproporcionais e, até mesmo, desarrazoadas ante</p><p>a perspectiva da sociedade ocidental contemporânea em que estamos inseridos.</p><p>Considerando esse histórico que permeia a criação e evolução do Direito</p><p>Penal até chegar ao modelo brasileiro que conhecemos hoje, te convido a acessar</p><p>e ler o artigo chamado O Código Penal do Império. Nesse artigo, são retratados</p><p>os principais aspectos do primeiro código penal brasileiro, criado em 1830. Po-</p><p>de-se perceber, a partir da sua análise, não apenas a evolução da própria lei, se</p><p>comparada com o código atual, como também da sociedade.</p><p>Esse Código Penal apontava penas diversas entre pessoas</p><p>livres e escravos, permitindo punições corporais, como a tor-</p><p>tura e o açoite para os escravos. Contudo, alegava-se que seu</p><p>objetivo seria a erradicação de penalidades tidas como desu-</p><p>manas (até pena de morte e esquartejamento público) aplica-</p><p>das pela Corte Portuguesa no Brasil Colônia.</p><p>Depois de realizar essa leitura, tenho certeza de que você observou as di-</p><p>ferenças entre as regras impostas na sociedade brasileira no período Imperial.</p><p>É importante ressaltar que essas mudanças já vinham acontecendo em todo o</p><p>mundo, tendo em vista que as mudanças de regras acompanham a evolução dos</p><p>costumes e valores da sociedade.</p><p>https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/17893</p><p>13</p><p>Perceba que a sociedade brasileira evoluiu muito do período Imperial até os</p><p>dias de hoje, e esse movimento foi ocasionado não só pela mudança de valores</p><p>vivenciados, mas também pela influência das normas de Direito de outros paí-</p><p>ses, que aqui são replicadas. É importante ponderar que mais recentemente esse</p><p>movimento tornou-se mais dinâmico pela globalização.</p><p>Diante dessas mudanças e da ampliação do corpo social, e no sentido de</p><p>aumentar as garantias, o Direito Penal deixou de ser consuetudinário (baseado</p><p>nos costumes) para tornar-se positivado (escrito), determinando as condutas</p><p>definidas como crime e suas respectivas sanções.</p><p>A partir dessa análise, é possível perceber a evolução histórica do Direito</p><p>Penal desde os tempos mais antigos até os dias atuais. Agora é sua vez! Escreva</p><p>em seu diário de bordo suas impressões iniciais a respeito do Direito Penal, bem</p><p>como sobre como esse ramo do Direito surgiu na sociedade e foi imposto às</p><p>pessoas. Informe também as causas que, em sua opinião, foram cruciais para o</p><p>seu surgimento. Bom trabalho!</p><p>UNICESUMAR</p><p>UNIDADE 1</p><p>14</p><p>Caro(a) aluno(a), para que você compreenda de fato a origem do Direito Penal</p><p>é de suma importância que você saiba o seu conceito. De forma simplória, iden-</p><p>tificamos que uma grande parte das pessoas entendem que o Direito Penal é</p><p>destinado a promover punições, e elas não estão erradas.</p><p>Dessa forma, vamos analisar o conceito de Direito Penal trazido por Cléber Masson</p><p>(2020, p. 3), que o define como sendo “o conjunto de princípios e regras destinadas a</p><p>combater o crime e a contravenção penal, mediante a imposição de uma sanção penal”.</p><p>Para Bitencourt (2022, p. 43):</p><p>“ O Direito Penal apresenta-se, por um lado, como um conjunto de</p><p>normas jurídicas que tem por objeto a determinação de infrações de</p><p>natureza penal e suas sanções correspondentes — penas e medidas</p><p>de segurança. Por outro lado, apresenta-se como um conjunto de</p><p>valorações e princípios que orientam a própria aplicação e interpre-</p><p>tação das normas penais (BITENCOURT, 2022, p. 43).</p><p>Para Nucci (2022, p. 41), Direito Penal “é o corpo de normas jurídicas voltado à</p><p>fixação dos limites do poder punitivo do Estado, instituindo infrações penais e</p><p>as sanções correspondentes, bem como regras atinentes à sua aplicação”.</p><p>15</p><p>Portanto, é praticamente pacífico sob o ponto de vista doutrinário que o Di-</p><p>reito Penal é uma compilação de princípios e regras que permitem a punição de</p><p>quem realizar uma conduta descrita perfeitamente a um tipo penal. O Direito</p><p>Penal, por meio do Código Penal, é que vai definir os fatos típicos e puníveis</p><p>como crime, além de suas respectivas sanções. Posteriormente, abordarei com</p><p>mais detalhes informações sobre Direito Penal, crime e como ocorre a punição.</p><p>A princípio, basta que tenhamos em mente o seu conceito para que possamos</p><p>compreender a sua história</p><p>vez que a infecção hospitalar está no des-</p><p>dobramento provável da sua conduta.</p><p>Agora, imagine uma situação diferente: “A” alveja (ação) “B”. “B” é socorrido em</p><p>um hospital e sofre uma intervenção cirúrgica. Todavia, na fase de recuperação, a</p><p>enfermeira que cuida de “B” ministra veneno em sua água, e destarte, “B” morre.</p><p>Nesse caso, “A” responderá por tentativa de homicídio simples, uma vez que a</p><p>morte de “B” não está no desdobramento normal ou provável de sua conduta,</p><p>enquanto a enfermeira responderá por homicídio qualificado consumado (artigo</p><p>121, parágrafo 2°, inciso III, do CP).</p><p>Para finalizar o fato típico – primeiro elemento do conceito de crime – falare-</p><p>mos agora, querido(a) aluno(a), da tipicidade. Conforme Fragaso (1995, p. 187),</p><p>“tipo é o modelo legal do comportamento proibido, compreendendo o conjunto</p><p>das características objetivas e subjetivas do fato punível”. A tipicidade representa</p><p>a adequação da conduta humana a uma norma penal incriminadora, que é de-</p><p>nominada de tipo penal (ou tipo legal).</p><p>O tipo é o elemento material, objetivo, exterior. O tipo penal objetivo (ou</p><p>tipo legal) é a descrição da conduta humana feita pela lei e correspondente ao</p><p>crime. É um modelo abstrato que descreve um comportamento humano proibido</p><p>ou um comportamento humano devido. O tipo objetivo é composto de vários</p><p>elementos. Tais elementos podem ser descritivos, normativos ou subjetivos.</p><p>Os elementos descritivos são aqueles que apenas descrevem. Por exemplo:</p><p>matar alguém, filho, mulher, dentre outros. Elementos normativos são aqueles que</p><p>precisam ser completados por um juízo de valor. Por exemplo: honra, dignidade,</p><p>decoro, dentre outros. Por fim, os elementos subjetivos relacionam-se com a in-</p><p>tenção do agente. Por exemplo: “para si ou para outrem” no caso do crime de furto.</p><p>Entendem os finalistas, como consequência da própria concepção de con-</p><p>duta, que não há o se falar em tipo sem que se inclua no seu conceito o ele-</p><p>mento subjetivo. Assim, o tipo apresenta uma dupla estrutura: 1) O tipo ob-</p><p>jetivo: que é a descrição da conduta humana feita pela lei e correspondente ao</p><p>crime. 2) O tipo subjetivo: que é constituído por um elemento geral e às vezes</p><p>por um elemento especial. O elemento subjetivo geral é o dolo. Por exemplo,</p><p>o artigo 121 do CP (crime de homicídio simples). Os elementos subjetivos</p><p>especiais são as intenções e tendências especiais previstas pelo legislador na</p><p>norma incriminadora e que são chamados pela doutrina tradicional de dolo</p><p>91</p><p>específico. Esses elementos especiais aparecem no tipo legal por meio das</p><p>expressões: “a fim de”, “com o fim de”, “para”, dentre outras.</p><p>Sobre o dolo, o Código Penal adotou duas teorias. A teoria da vontade e a</p><p>teoria do assentimento. Segundo a teoria da vontade, o agente age dolosamente,</p><p>ou seja, tem consciência e vontade de realizar o tipo objetivo de um crime. Por</p><p>sua vez, para a teoria do assentimento (ou consentimento), existe dolo quando o</p><p>agente consente (assume) em causar o resultado ao praticar uma conduta.</p><p>Por meio da expressão “quis”, o Código Penal adotou a teoria da vontade, ao</p><p>estabelecer o chamado dolo direto. Por meio da expressão “assumir o risco”, ado-</p><p>tou a teoria do assentimento, ao estabelecer o chamado dolo eventual.</p><p>Dessa forma, o dolo é integrado pelos seguintes elementos: 1) Consciência: no</p><p>sentido de representação, de conhecimento do fato. Essa consciência tem de ser</p><p>atual, isto é, no momento do fato; 2) Vontade: no sentido de decisão: de realizar</p><p>o fato. É a decisão de agir para realizar o tipo de crime. Relaciona-se com o fim</p><p>proposto. Essa vontade de querer ou de assumir o risco tem de ser incondicionada</p><p>(livre, espontânea, isenta de erro).</p><p>O dolo, ainda, segundo a doutrina majoritária, pode ser classificado em:</p><p>Dolo direto e dolo indireto</p><p>Dolo direto ou imediato ocorre quando o agente quer o resultado. Dolo indireto</p><p>ou mediato subdivide-se em eventual (quando o agente não quer o resultado, mas</p><p>assume o risco de produzi-lo) e alternativo (quando o agente quer produzir um</p><p>ou outro resultado – por exemplo: matar ou ferir).</p><p>Segundo Hungria (1972, p. 192) “assumir o risco é alguma coisa a mais que</p><p>ter consciência de correr o risco. É consentir previamente com o resultado, caso</p><p>venha realmente a ocorrer”. Assumir o risco é concordar com o resultado.</p><p>Dolo de dano e dolo de perigo</p><p>■ Dolo de dano: aparece nos crimes de dano, quando o agente quer causar</p><p>um efetivo dano a um bem jurídico tutelado. Por exemplo: artigo 130,</p><p>parágrafo 1°, e artigo 131, ambos do CP.</p><p>UNICESUMAR</p><p>UNIDADE 3</p><p>92</p><p>■ Dolo de perigo: aparece nos crimes de perigo, quando a lei se contenta</p><p>apenas com o querer do agente de causar perigo. Por exemplo: artigos</p><p>130, 250, 251, todos do CP.</p><p>Dolo geral (ou dolo genérico) e dolo específico</p><p>■ Dolo geral (ou dolo genérico): o dolo é alheio a qualquer fim particular.</p><p>Por exemplo: artigo 121 do CP.</p><p>■ Dolo específico (ou dolo com elementos especiais subjetivos): quando a</p><p>lei pressupõe ou menciona um fim especial ou determinado. Por exemplo:</p><p>artigo 159 do CP.</p><p>Dessa forma, como vimos, para que o dolo se caracterize, é necessário que</p><p>exista uma vontade consciente do agente. Essa vontade consciente precisa ain-</p><p>da estar em conformidade com a realidade, isto é, não pode estar alterada em</p><p>razão de erro. Se isso ocorrer, surge o chamado erro de tipo, que incide sobre</p><p>os elementos pertencentes ao tipo penal.</p><p>O erro do tipo pode ser essencial, que trata da falsa percepção da realidade</p><p>que recai sobre os elementos essenciais do tipo, por exemplo, subtrair o celular</p><p>do amigo pensando ser o seu. Aqui, o erro recai sobre o elemento “coisa alheia”</p><p>previsto no crime de furto (artigo 155 do CP) e, dessa forma, o agente não res-</p><p>ponderá dolosamente pelo crime. No erro de tipo essencial, o dolo sempre será</p><p>afastado, no entanto, a culpa deve ser analisada caso a caso. Se o erro for pre-</p><p>visível, o agente responderá de forma culposa (se houver previsão legal), caso</p><p>contrário, se o erro for imprevisível, a tipicidade será afastada. E também o erro</p><p>pode ser acidental, que recai sobre os dados periféricos do tipo, ou seja, tudo</p><p>aquilo que não for elemento essencial. A grande diferença entre o erro do tipo</p><p>acidental e o erro do tipo essencial é que no caso do último, caso o agente venha</p><p>a ser avisado sobre o erro que está prestes a cometer, ele cessa imediatamente a</p><p>sua conduta e não pratica o ato. Enquanto no caso do erro do tipo acidental, caso</p><p>o agente venha a ser avisado sobre o seu erro, ele permanece com a sua conduta,</p><p>mas de maneira diversa. Vejamos:</p><p>93</p><p>a) Erro acidental sobre o objeto: quando o agente almeja um alvo espe-</p><p>cífico e atinge outro. Nesse caso, ele responderá pelo objeto lesado e não</p><p>o visado. Por exemplo, se o agente quer subtrair um quadro raríssimo e</p><p>furta um falsificado, ele responderá pelo falsificado.</p><p>b) Erro acidental sobre a pessoa ou error in personae: quando o agente</p><p>almeja atingir uma pessoa, mas por erro de representação, atinge outra.</p><p>Por exemplo, o agente visa matar o presidente da república, mas ao avistá-</p><p>-lo, confunde-se e mata o seu segurança. Nesse caso, ele responderá como</p><p>se tivesse de fato matado o presidente da república.</p><p>c) Erro acidental sobre a execução (aberratio ictus): o agente visa matar</p><p>determinada pessoa, a observa corretamente, mas por erro na execução,</p><p>ou seja, por uma falha operacional, acaba matando outra. Se ele matar</p><p>apenas a vítima diversa, responde como se tivesse matado a pretendida, no</p><p>entanto, se ele atinge a diversa e a pretendida, ele responde em concurso</p><p>formal. No erro acidental sobre a execução, o bem jurídico atingido e o</p><p>pretendido são idênticos.</p><p>d) Resultado diverso do pretendido (aberratio criminis): o agente visa</p><p>matar determinada pessoa, a observa corretamente, por exemplo, dentro</p><p>de sua casa, mas por acidente ou erro na execução, acaba apenas quebran-</p><p>do a janela. Nesse caso, ele responderá por tentativa de homicídio, tendo</p><p>em vista que o bem jurídico pretendido (vida) era mais</p><p>valioso do que o</p><p>atingido (janela), em concurso com o crime de dano. Se o bem jurídico</p><p>pretendido for menos grave do que o atingido, o agente responderá pela</p><p>modalidade culposa, se houver previsão legal, do crime cometido. No</p><p>erro acidental sobre o resultado diverso do pretendido, o bem jurídico</p><p>atingido e o pretendido são diversos.</p><p>e) Erro acidental sobre o nexo causal (aberratio causae): o agente co-</p><p>mete o crime de maneira diferente do que planejou, ou seja, com nexo</p><p>causal diverso. Por exemplo, o agente acredita que matou uma pessoa</p><p>por asfixia, e para se livrar do corpo, joga-o de um penhasco para cair</p><p>dentro do mar. Ocorre que a vítima vem a falecer devido à queda, e não</p><p>por conta da asfixia.</p><p>UNICESUMAR</p><p>UNIDADE 3</p><p>94</p><p>Caro (a) aluno (a), os crimes dolosos são a regra, enquanto os crimes cul-</p><p>posos são a exceção. Um crime somente será culposo se a lei prevê a sua</p><p>modalidade culposa.</p><p>No tipo culposo, existe uma vontade dirigida a uma certa conduta (geralmen-</p><p>te lícita, porém imprudente, negligente ou imperita), ocasionando um resultado</p><p>involuntário. Em suma, há crime culposo quando o agente, violando o cuidado, a</p><p>atenção ou a diligência a que estava adstrito, causa o resultado que podia prever,</p><p>ou que previu, supondo, no entanto, levianamente que não ocorreria.</p><p>No artigo 18, inciso II, do CP, não existe a definição de culpa, eis que, o</p><p>legislador referiu-se apenas às suas modalidades, que são: imprudência, negligência</p><p>ou imperícia, as quais são fórmulas gerais de inobservância do cuidado exigível.</p><p>1. Imprudência: possui a forma ativa. O agente atua com precipitação</p><p>sem tomar as cautelas necessárias; não usa os poderes inibidores. É a</p><p>falta de prudência, de cautela, de precaução, ou seja, é a conduta arris-</p><p>cada. Por exemplo: dirigir em excesso de velocidade; atravessar o sinal</p><p>vermelho; caçar em local de acesso público; manejar armas na presença</p><p>de pessoas; dentre outros.</p><p>2. Negligência: possui a forma negativa. O agente não usa os poderes de ati-</p><p>vidade. Caracteriza-se pela inação, inércia, passividade por não obedecer</p><p>95</p><p>às cautelas exigíveis. É a forma omissiva, desatenta, desleixada, descuida-</p><p>da. Por exemplo: dirigir os veículos com os pneus carecas ou com freios</p><p>em mau estado; deixar armas ao alcance de crianças; não colocar avisos</p><p>em obstáculos; dentre outros.</p><p>3. Imperícia: é a falta de prática ou a ausência de conhecimentos técnicos</p><p>no exercício da arte ou profissão. A imperícia pressupõe sempre a neces-</p><p>sidade de habilitação legal para o exercício de arte ou de profissão. Por</p><p>exemplo: o motorista habilitado que freia em uma curva; o médico clínico</p><p>que realiza uma operação que requer especialidade.</p><p>São elementos do tipo culposo:</p><p>■ Resultado de dano definido em lei: há de existir um resultado involun-</p><p>tário previsto pela lei, por exemplo, homicídio culposo, lesão corporal</p><p>culposa etc.</p><p>■ Previsibilidade de um resultado danoso: a previsibilidade é o ponto nu-</p><p>clear da culpa. É a possibilidade que o homem comum na vida em socie-</p><p>dade possui de prever um resultado de dano.</p><p>■ Inobservância do dever objetivo de cuidado: é a não realização de con-</p><p>dutas exigidas pela própria sociedade. Manifesta-se pelas condutas im-</p><p>prudentes, negligentes e imperitas.</p><p>■ Nexo de causalidade: é a relação entre o resultado de dano e a conduta</p><p>lesiva do dever de cuidar.</p><p>■ Conduta.</p><p>■ Tipicidade.</p><p>São espécies de culpa:</p><p>■ Culpa consciente: culpa com previsão que muito se assemelha ao dolo</p><p>eventual, todavia, são distintos: no dolo eventual, assumir o risco é con-</p><p>cordar com o resultado caso este venha a ocorrer. Na culpa consciente, o</p><p>agente prevê o resultado, mas acredita sinceramente que este não ocorrerá.</p><p>■ Culpa inconsciente: nessa concepção de culpa, não há a previsão de um</p><p>resultado, eis que, previsibilidade não é previsão. O agente realiza uma</p><p>conduta, sem prever o resultado que poderia ser previsto.</p><p>UNICESUMAR</p><p>UNIDADE 3</p><p>96</p><p>Remonta ao direito romano uma gradação de culpa em: grave, leve ou levíssima. A</p><p>culpa grave seria aquela que qualquer pessoa pudesse prever o resultado. A culpa</p><p>leve é aquela que somente o muito diligente tivesse a possibilidade de prever o re-</p><p>sultado. A culpa levíssima é aquela que somente a excepcional cautela impediria o</p><p>resultado. Tal gradação de culpa só tem valor histórico na atualidade, principalmen-</p><p>te, depois de estruturada as concepções de culpa consciente e culpa inconsciente.</p><p>Querido(a) aluno(a), não existe compensação de culpa no Direito Penal. O</p><p>fato de a vítima também concorrer para o resultado não elimina a culpa do agente.</p><p>Só não será responsabilizado criminalmente o agente quando o evento ocorrer</p><p>por culpa exclusiva da vítima. Todavia, a culpa da vítima deve ser considerada</p><p>no cálculo da pena base (artigo 59 do CP).</p><p>O dolo deve cobrir todos os elementos da tipicidade. Todavia, algumas ve-</p><p>zes, a lei prevê em parágrafos ou em artigos pena mais severa quando ocorre</p><p>um resultado mais grave não pretendido pelo agente. Essas infrações penais são</p><p>denominadas de crimes qualificados pelo resultado. Esse resultado mais grave</p><p>pode decorrer: por dolo do agente; por culpa do agente; ou por mero nexo causal.</p><p>Nos termos do artigo 19 do CP, quando houver um resultado mais grave, o</p><p>agente só será responsabilizado criminalmente por esse resultado se tiver agido</p><p>com dolo ou culpa. Assim, por exemplo, se um sequestrado fugir do cativeiro e</p><p>for atropelado, e consequentemente morrer, o sequestrador não será responsa-</p><p>bilizado por esse resultado mais grave (morte), eis que, não laborou com dolo</p><p>ou culpa. Responderá o sequestrador pelas sanções do artigo 159, caput do CP.</p><p>Quando o resultado mais grave decorrer de culpa, tem-se o chamado crime</p><p>preterdoloso. O crime preterdoloso é aquele em que existe dolo no antecedente</p><p>e culpa no consequente. Exemplo típico de crime preterdoloso é a lesão corporal</p><p>seguida de morte (artigo 129, parágrafo 3°, do CP). Nesse tipo, fica bem claro que</p><p>há dolo de lesão (dolo no antecedente) e culpa na morte (culpa no consequente).</p><p>Por outro lado, se o agente tiver dolo de lesão e dolo de morte, o crime será</p><p>de homicídio e não de lesão corporal seguida de morte.</p><p>97</p><p>Prezado(a) aluno(a), quando o agente se propõe à realização do fato criminoso,</p><p>em Direito Penal, diz-se que, em regra, a conduta desencadeada deverá percorrer</p><p>um caminho, um itinerário. É o que se denomina de iter criminis.</p><p>O iter criminis é composto dos seguintes elementos:</p><p>a) a cogitação: quando o crime existe na mente do agente, sendo que, não</p><p>há que se falar em exteriorização do ato criminoso. É a fase interna do iter.</p><p>Essa fase, como regra, não implica responsabilização criminal.</p><p>b) a preparação: quando o crime sai da esfera psíquica do agente e passa</p><p>a ser preparada a sua realização. O agente pratica atos objetivos com a</p><p>finalidade de cometer a infração. Por exemplo, o agente adquire uma faca</p><p>para praticar um homicídio, estuda o local para furtar uma residência,</p><p>dentre outros. É a fase externa do iter. Essa fase, como regra, não implica</p><p>responsabilização criminal. Só de forma excepcional o agente poderá</p><p>responder criminalmente, quando o legislador erigir tal fase em crime</p><p>autônomo, como, por exemplo, no crime de quadrilha (artigo 288 do</p><p>CP) em que são punidos os quadrilheiros que estavam preparados para</p><p>cometerem crimes, ou, no crime de petrechos para falsificação de moeda</p><p>(artigo 289 do CP), em que o agente possui o maquinário e está preparado</p><p>para iniciar a falsificação da moeda.</p><p>c) execução: quando o crime deixa a fase preparatória e passa a existir na</p><p>fase de realização efetiva. É a fase externa do iter.</p><p>Algumas teorias buscam diferenciar os atos preparatórios dos atos executórios.</p><p>Podemos citar:</p><p>UNICESUMAR</p><p>UNIDADE 3</p><p>98</p><p>■ Teoria subjetiva: não há diferença entre os atos preparatórios e os atos</p><p>executórios. O que deve ser levado em consideração é o elemento sub-</p><p>jetivo do agente.</p><p>■ Teoria da hostilidade ao bem jurídico: considera-se atos executórios</p><p>somente aqueles</p><p>que lesam o bem jurídico tutelado.</p><p>■ Teoria objetiva formal: considera-se atos executórios todos aqueles que</p><p>realizam o núcleo do tipo. Essa é a teoria majoritária no Brasil.</p><p>■ Teoria objetiva individual: considera-se atos executórios todos aqueles</p><p>que realizam o núcleo do tipo e também aqueles imediatamente anterio-</p><p>res na visão do agente da conduta.</p><p>■ Teoria objetiva material: considera-se atos executórios todos aqueles que</p><p>realizam o núcleo do tipo e também aqueles imediatamente anteriores na</p><p>visão de um terceiro observador.</p><p>d) consumação: quando no crime se fazem presentes todos os elementos</p><p>da definição legal do delito (art. 14, I do CP). É a fase externa do iter. Aqui</p><p>ocorre a total produção do resultado desvalioso ao bem jurídico tutelado,</p><p>preenchendo-se todos os elementos do tipo.</p><p>Do exposto pode-se assim esquematizar o iter criminis:</p><p>COGITAÇÃO PREPARAÇÃO EXECUÇÃO CONSUMAÇÃO</p><p>De acordo com Masson (2020), exaurimento é o delito em que ocorrem efeitos lesivos após</p><p>a sua consumação. É o caso, por exemplo, do recebimento do resgate no crime de extorsão</p><p>mediante sequestro, uma vez que ele já se encontra consumado no momento da privação</p><p>da liberdade com o fim de obter vantagem econômica indevida. No terreno da tipicidade, o</p><p>exaurimento não se encontra no iter criminis que se encerra com a consumação. No entan-</p><p>to, influencia diretamente na dosimetria da pena, uma vez que o artigo 59 do Código Penal</p><p>trouxe como hipóteses as consequências do crime e suas condições. Em alguns casos, ainda,</p><p>o exaurimento pode ser considerado uma qualificadora ou aumento de pena, como ocorre</p><p>nos casos dos artigos 329, parágrafo 1º, e 327, parágrafo 1º, ambos do CP, respectivamente.</p><p>EXPLORANDO IDEIAS</p><p>99</p><p>O iter criminis é o itinerário do crime. Quando iniciada a fase de execução de um</p><p>crime e esse não se consumar, duas hipóteses poderão ocorrer: Se o crime não</p><p>se consumou por circunstâncias alheias à vontade do agente; trata-se de crime</p><p>tentado. Por outro lado, se o crime não se consumou pela própria vontade do</p><p>agente, trata-se das figuras da desistência voluntária e do arrependimento eficaz.</p><p>Veremos cada uma dessas figuras a seguir.</p><p>Crime tentado, conforme mencionado, é todo aquele que, iniciado a sua exe-</p><p>cução pelo agente, não se consuma por circunstâncias alheias à sua vontade. De</p><p>acordo com o artigo 14, inciso II, do CP: “Diz-se o crime: II - tentado, quando, ini-</p><p>ciada a execução, não se consuma por circunstâncias alheias à vontade do agente.”</p><p>Cumpre notar que atos de tentativa são necessariamente atos praticados na</p><p>fase de execução. Por isso, não há que se falar em tentativa nas fases de cogitação e</p><p>preparação. Como assinala Fragaso (1995, p. 167), “não se pune a tentativa porque</p><p>é expressão da vontade reprovável [...], mas sim porque constitui início de execu-</p><p>ção de conduta que se considera atentatória ao bem jurídico tutelado”.</p><p>Consoante determinação do parágrafo único do artigo 14 do CP, a tentativa é</p><p>punida, como regra geral, com a mesma pena do crime consumado, diminuída de um</p><p>a dois terços. Excepcionalmente, o crime tentado poderá ser punido com outra pena,</p><p>como, por exemplo, no crime do artigo 352 do CP, também chamados de crimes de</p><p>mero empreendimento, em que se equipara ao crime consumado o crime tentado;</p><p>o mesmo acontece com o crime do artigo 309 da lei 4.737/1965 (Código Eleitoral).</p><p>Há alguns crimes que não admitem a tentativa, como os crimes culposos,</p><p>unissubsistentes, habituais, os de mero empreendimento, conforme mencionado,</p><p>omissivos próprios, crimes obstáculos e as contravenções penais (neste último</p><p>caso, a tentativa é admitida, mas não é punida devido a sua irrelevância).</p><p>A tentativa pode ser classificada em:</p><p>a) Tentativa perfeita (ou acabada ou crime falho): quando o agente esgota</p><p>os meios de execução, mas o crime não se consuma por circunstâncias</p><p>alheias à sua vontade.</p><p>b) Tentativa imperfeita (ou inacabada): quando o agente não consegue</p><p>esgotar os meios de execução, eis que é impedido de prosseguir.</p><p>c) Tentativa inidônea (mais conhecido como crime impossível): estabe-</p><p>lecida no artigo 17 do CP. O crime impossível (ou quase-crime) ocorre</p><p>quando existe uma ineficácia absoluta do meio (instrumento) empregado,</p><p>como, por exemplo, o agente criminoso ministra açúcar pensando ser</p><p>UNICESUMAR</p><p>UNIDADE 3</p><p>100</p><p>veneno à vítima; ou quando existe uma absoluta impropriedade do objeto</p><p>(que é o bem jurídico tutelado), como, por exemplo, o agente criminoso</p><p>alveja uma pessoa que já está morta. Nesses dois exemplos, trata-se de um</p><p>crime impossível, e, por conta disso, a tentativa não é punida.</p><p>d) Tentativa branca: o objetivo material não é atingido.</p><p>e) Tentativa vermelha: o objeto material é atingido.</p><p>O artigo 15 do Código Penal ainda retrata as figuras da desistência voluntária e</p><p>do arrependimento eficaz, também conhecidas, de acordo com a doutrina, por</p><p>pontes de ouro ou tentativa qualificada/abonada.</p><p>Na desistência voluntária, o agente desiste da execução, mesmo tendo a</p><p>possibilidade de prosseguir. Por exemplo, o sujeito “A” alveja o sujeito “B” e erra</p><p>o tiro; ainda tendo mais balas no resolver, desiste de atirá-las voluntariamente.</p><p>No arrependimento eficaz, o agente realiza uma contra-atividade para evitar a</p><p>consumação do crime. Por exemplo, o sujeito “A” alveja o sujeito “B” acertando-o;</p><p>“A”, de forma eficaz, leva “B” para o hospital, onde “B” é salvo.</p><p>Tanto na desistência voluntária, como no arrependimento eficaz, o agente</p><p>que assim laborou, só responderá pelos atos já praticados e não pela tentativa.</p><p>Nos exemplos acima, no primeiro, o agente só responderá pelo crime de perigo</p><p>de vida (artigo 132 do CP), e no segundo, o agente só responderá pelos crimes</p><p>de lesões corporais (artigo 129 do CP).</p><p>O arrependimento eficaz não se confunde com o arrependimento posterior con-</p><p>templado no artigo 16 do CP. No arrependimento posterior, conhecido também como</p><p>ponte de prata, o agente é beneficiado com uma redução de sua pena de um a dois</p><p>terços, desde que cometa um crime sem violência ou grave ameaça à pessoa, repare o</p><p>dano ou restitua a coisa até o recebimento da denúncia ou queixa de forma voluntária.</p><p>101</p><p>Não se concebe a existência de uma conduta típica que não afete um bem jurídico, posto</p><p>que os tipos não passam de particulares manifestações de tutela jurídica desses bens.</p><p>Embora seja certo que o delito é algo mais – ou muito mais – que a lesão a um bem jurídi-</p><p>co, essa lesão é indispensável para configurar a tipicidade. É por isso que o bem jurídico</p><p>desempenha um papel central na teoria do tipo, dando o verdadeiro sentido teleológico</p><p>(de telos, fim) à lei penal. Sem o bem jurídico, não há um “para quê?” do tipo e, portanto,</p><p>não há possibilidade alguma de interpretação teleológica da lei penal. Sem o bem jurídico,</p><p>caímos num formalismo legal, numa pura “jurisprudência de conceitos”.</p><p>Fonte: ZAFFARONI, E. R.; PIERANGELI, J. H. Manual de direito penal brasileiro: parte geral. 7.</p><p>ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2007. v. 1.</p><p>EXPLORANDO IDEIAS</p><p>Querido(a) aluno(a), conforme já informado, o crime, sob seu aspecto ana-</p><p>lítico, segundo a teoria mais usual, possui três elementos, quais sejam: o fato</p><p>típico, a antijuridicidade e a culpabilidade. Após o estudo do fato típico e seus</p><p>elementos, passaremos agora a estudar o segundo elemento do conceito ana-</p><p>lítico, a antijuridicidade ou ilicitude.</p><p>Para que exista a infração penal, não basta que o fato ocorrido se subsuma ao</p><p>tipo (objetivo e subjetivo), pois torna-se necessária, também, a ilicitude da conduta</p><p>realizada, ou seja, o fato além de ser típico, deverá ser também contrário ao direito.</p><p>A teoria da antijuridicidade tem por fim precípuo demonstrar que aquilo</p><p>que foi realizado pelo agente criminoso está ou não autorizado pelas regras</p><p>do Direito Penal, podendo-se, assim, falar em condutas conforme ao direito</p><p>ou condutas contrárias ao direito.</p><p>Dessa forma é que surgem os institutos do estado de necessidade, da legítima</p><p>defesa, do estrito cumprimento do dever legal</p><p>e do exercício regular de direito.</p><p>Por exemplo, se uma pessoa dolosamente matar outra, a princípio chega-se à</p><p>conclusão de que ela cometeu o crime de homicídio, pois estão presentes os tipos</p><p>objetivo e subjetivo na sua conduta; contudo, se essa mesma pessoa matou porque</p><p>estava moderadamente se defendendo de agressões injustas praticadas pela outra</p><p>pessoa, não há que se falar em crime de homicídio, pois nesta ocasião ocorre a</p><p>excludente de ilicitude da legítima defesa, que demonstra ser o fato praticado</p><p>conforme ao direito. O mencionado exemplo só vem retratar a importância do es-</p><p>tudo das excludentes de ilicitude, sejam legais ou supralegais, conforme veremos.</p><p>UNICESUMAR</p><p>UNIDADE 3</p><p>102</p><p>Ilicitude (que é sinônimo de antijuridicidade) é uma concepção jurídica,</p><p>isto é, de Direito. É um predicado, um atributo, uma qualidade. É a contradição</p><p>estabelecida entre a conduta e a norma. Injusto é uma concepção mais social,</p><p>uma noção do conceito de justiça. É ligado ao sentimento social de justiça, isto é,</p><p>aquilo que o homem em sociedade tem por certo, por justo. É a própria conduta</p><p>valorada como antijurídica. A diferença fundamental entre ilicitude e injusto</p><p>ocorre na mensurabilidade.</p><p>Na ilicitude, a conduta não pode ser mensurada qualitativamente e quantita-</p><p>tivamente. Para a ilicitude, pouco importa ser a lesão grave ou leve, homicídio ou</p><p>latrocínio, furto ou roubo, tudo é ilícito. No injusto, a conduta pode ser mensura-</p><p>da, eis que o injusto valora essa conduta. Assim, a lesão grave é diferente da leve,</p><p>o homicídio é diferente do latrocínio, o furto é diferente do roubo. Essa diferença</p><p>é mensurada por meio da cominação da pena.</p><p>Como advertem Delmanto e outros autores (2002, p. 44):</p><p>“ Para que o comportamento seja considerado criminoso, é neces-</p><p>sário que ele seja um fato típico (descrito por lei como crime) e</p><p>antijurídico (contrário à ordem jurídica como um todo). Vê-se que a</p><p>ilicitude (também chamada de antijuridicidade) é nada mais do que</p><p>a contradição entre o comportamento do sujeito e a ordem jurídica</p><p>(DELMANTO et al., 2002, p. 44).</p><p>Em suma, uma conduta ilícita é uma conduta contrária ao Direito.</p><p>Pode haver uma conduta típica que não seja ilícita, aparecendo as chamadas</p><p>excludentes de ilicitude (ou excludentes de antijuridicidade, ou descriminantes,</p><p>ou excludentes de injuridicidade). Nesses casos, o fato é permitido ou ordenado</p><p>por outra norma jurídica, por um tipo permissivo. A conduta deixa de ser crime</p><p>e passa a ser objetivamente lícita. As excludentes de ilicitude podem ser:</p><p>1. Legais: que são as previstas no artigo 23 do CP (estado de necessidade, legí-</p><p>tima defesa, estrito cumprimento do dever legal e exercício regular de direito).</p><p>2. Supralegais: que são aquelas que não se encontram previstas em lei,</p><p>como, por exemplo, o consentimento do ofendido.</p><p>Segundo o artigo 24 do CP: “Considera-se em estado de necessidade quem pratica</p><p>o fato para salvar de perigo atual, que não provocou por sua vontade, nem podia</p><p>103</p><p>de outro modo evitar, direito próprio ou alheio, cujo sacrifício, nas circunstâncias,</p><p>não era razoável exigir-se.”</p><p>Para Mirabete e Fabbrini (2007, p. 171):</p><p>“ O estado de necessidade pressupõe um conflito entre titulares de in-</p><p>teresses lícitos, legítimos, em que um pode perecer licitamente para</p><p>que outro sobreviva. Exemplos clássicos de estado de necessidade</p><p>são o furto famélico; a antropofagia, no caso de pessoas perdidas; a</p><p>destruição de mercadorias de uma embarcação ou aeronave, para</p><p>salvar tripulantes e passageiros; a morte de um animal que ataca</p><p>o agente sem interferência alguma de seu dono etc. Não podendo</p><p>o Estado acudir aquele que está em perigo, nem devendo tomar</p><p>partido a priori de qualquer dos titulares dos bens em conflito,</p><p>concede o direito de que se ofenda bem alheio para salvar direito</p><p>próprio ou de terceiro ante um fato irremediável.</p><p>Da própria definição do estado de necessidade firmada no artigo 24 do CP,</p><p>verifica-se que quatro são os seus requisitos:</p><p>1. A existência de um perigo atual não provocado voluntariamente pelo agente.</p><p>Trata-se de um perigo concreto, presente, imediato, com grande probabilidade</p><p>de causar um dano efetivo. Se o perigo for erroneamente suposto, trata-se de</p><p>estado de necessidade putativo (imaginário) que é uma descriminante putativa.</p><p>Não pode agir em estado de necessidade quem dolosamente provocou o pe-</p><p>rigo. Todavia, se o agente provocou culposamente o perigo, entende-se que se</p><p>caracteriza o estado de necessidade. O perigo poderá provir: da ação humana,</p><p>da ação de irracionais, de forças da natureza, como de qualquer acontecimento</p><p>desfavorável (incêndio, inundação, naufrágio, fome, peste).</p><p>2. Salvamento de um direito próprio ou de terceiros.</p><p>Qualquer direito pode ser objeto do estado de necessidade: vida, integridade</p><p>física, honra, pudor, patrimônio. O direito a ser salvo tanto poderá ser do próprio</p><p>agente como de um terceiro. O estado de necessidade é chamado defensivo quan-</p><p>do o agente sacrifica o direito de quem causou o perigo. O estado de necessidade</p><p>é chamado de agressivo quando é sacrificado o direito de um inocente.</p><p>UNICESUMAR</p><p>UNIDADE 3</p><p>104</p><p>3. Inevitabilidade do dano.</p><p>A possibilidade de fuga para evitar o perigo tem de ser exercitada, pois se o agente</p><p>assim não o fizer, não estará protegido pelo estado de necessidade. O exercício da</p><p>possibilidade de fuga é chamado de commodus discessus. Para a caracterização</p><p>do estado de necessidade, não é necessário que a ofensa seja injusta, resultando</p><p>daí que duas pessoas reciprocamente, ao mesmo tempo, possam agir em estado</p><p>de necessidade uma contra a outra, sendo, portanto, possível a reciprocidade do</p><p>estado de necessidade (o que não ocorre na legítima defesa).</p><p>4. Razoável inexigibilidade do sacrifício do direito ameaçado.</p><p>Deve existir a impossibilidade de se exigir o sacrifício do bem ameaçado, isto é,</p><p>uma proporcionalidade entre a conduta do agente e a natureza do perigo. Se o</p><p>sacrifício puder ser razoavelmente exigido, a pena será diminuída, desaparecendo</p><p>o estado de necessidade (artigo 24, parágrafo 2° do CP).</p><p>É importante ressaltar que não pode agir em estado de necessidade aquele que</p><p>possuía o dever legal de enfrentar o perigo (por exemplo: o bombeiro, o salva-vidas,</p><p>o policial etc.), conforme a regra do parágrafo 1°, do artigo 24 do CP. No entanto,</p><p>aquele que possui um dever contratual poderá agir em estado de necessidade.</p><p>Havendo excesso, fica descaracterizado o estado de necessidade, e, como con-</p><p>sequência, deverá o agente responder nos termos do parágrafo único do artigo</p><p>23 do CP. O excesso no estado de necessidade ocorre quando: cessa-se o perigo</p><p>ou extrapola-se a reação.</p><p>No que se refere à legítima defesa, o artigo 25 do Código Penal dispõe que:</p><p>“Entende-se em legítima defesa quem, usando moderadamente dos meios ne-</p><p>cessários, repele injusta agressão, atual ou iminente, a direito seu ou de outrem”.</p><p>Ainda houve um acréscimo no referido artigo, com a inserção do seu parágrafo</p><p>único, ocasionado pelo pacote anticrime, que passou a considerar legítima defesa</p><p>o agente de segurança pública que repele agressão ou risco de agressão à vítima</p><p>mantida refém durante a prática de crimes.</p><p>Da própria definição de legítima defesa firmada no artigo 25 do CP, verifi-</p><p>ca-se que três são os seus requisitos:</p><p>https://www.google.com/search?sxsrf=ALiCzsZmYihocRRGd64kB9xZ2yMK66qSsA:1671491860133&q=commodus+discessus&spell=1&sa=X&ved=2ahUKEwjjusW06Ib8AhU3ppUCHfvcBHkQkeECKAB6BAgIEAE</p><p>https://www.google.com/search?sxsrf=ALiCzsZmYihocRRGd64kB9xZ2yMK66qSsA:1671491860133&q=commodus+discessus&spell=1&sa=X&ved=2ahUKEwjjusW06Ib8AhU3ppUCHfvcBHkQkeECKAB6BAgIEAE</p><p>105</p><p>1. A existência de uma agressão injusta.</p><p>Conforme Masson (2020), “agressão é toda ação ou omissão humana, cons-</p><p>ciente e voluntária, que lesa ou expõe a perigo de lesão um bem ou interesse</p><p>consagrado pelo ordenamento jurídico”.</p><p>Agressão injusta é aquela que ameaça, sem causa legal, um bem/interesse</p><p>juridicamente tutelado.</p><p>2. A preservação de um direito próprio</p><p>ou de terceiros.</p><p>O artigo não exige que o direito protegido seja do defensor. Portanto, admite-se</p><p>que a defesa pode ser ocasionada para a proteção dos bens jurídicos de terceiros.</p><p>3. Emprego moderado dos meios necessários à repulsa.</p><p>Meio necessário é o meio que se tem à disposição. A lei não exige a equivalência de</p><p>meios, pois tal exigência contraria a existência da legítima defesa. O meio só será</p><p>desnecessário quando o agente, podendo optar por um meio menos prejudicial</p><p>e eficiente, opta por um meio mais prejudicial. A moderação no uso dos meios</p><p>necessários à repulsa só se caracteriza enquanto a agressão não é repelida. A imo-</p><p>deração surge exatamente quando cessa a agressão e o agredido passa a ser agressor.</p><p>Há o excesso na legítima defesa quando uma pessoa injustamente agredida se</p><p>defende demais. Havendo excesso, desaparece a legítima defesa. O excesso ocorre</p><p>com a escolha de um meio desnecessário, ou com o uso de um meio moderado</p><p>desnecessariamente, isto é, após cessada a agressão.</p><p>Diferentemente do estado de necessidade, não existe a legítima defesa recí-</p><p>proca, isto é, duas pessoas ao mesmo tempo uma contra a outra não podem agir</p><p>em legítima defesa, pois é impossível a existência de agressões injustas recíprocas.</p><p>O exercício legal de um direito está previsto no artigo 23, inciso III, do CP, e</p><p>são as condutas praticadas por um cidadão, que estão autorizadas por lei desde</p><p>que não extrapolem os limites desse direito. São exemplos: o castigo moderado</p><p>dado pelos pais aos seus filhos (jus corrigendi); a violência desportiva, desde que</p><p>dentro das regras do jogo etc.</p><p>Por fim, o estrito cumprimento de um dever legal, também previsto no artigo</p><p>23, inciso III do CP, diz respeito às condutas praticadas pelos agentes públicos no</p><p>UNICESUMAR</p><p>UNIDADE 3</p><p>106</p><p>exercício de suas funções. Trata-se, portanto, de uma excludente de ilicitude, em</p><p>razão do agente público ter praticado um fato típico no exercício de sua função.</p><p>Se o agente se exceder, responderá pelo excesso.</p><p>Querido(a) aluno(a), fora as hipóteses legais, existem algumas possibilida-</p><p>des de exclusão de ilicitude, não estão previstas na lei, que são chamadas de</p><p>causas supralegais. Podemos citar como exemplo de uma causa supralegal, o</p><p>consentimento do ofendido, que nada mais é do que a renúncia do ofendido</p><p>à proteção jurídica. No entanto, para que esse consentimento seja válido, é</p><p>necessário atender aos seguintes requisitos:</p><p>1. Objetivo: em que o ofendido seja capaz, tenha vontade consciente e que</p><p>o consentimento seja anterior ao fato.</p><p>2. Subjetivo: no sentido de existir o conhecimento, por parte do autor da</p><p>ação típica, do consentimento do ofendido.</p><p>3. A validade de tal consentimento só se refere aos direitos disponíveis. Se</p><p>o direito for indisponível, não se caracteriza a excludente.</p><p>4. O consentimento precisa ser expresso, prévio ou simultâneo à conduta.</p><p>5. Ser o único titular do bem.</p><p>6. O consentimento precisa respeitar os bons costumes.</p><p>Caro(a) aluno(a), passaremos agora a estudar o último elemento do crime, segun-</p><p>do a teoria analítica: a culpabilidade. Para que exista a infração penal, não basta</p><p>que o fato ocorrido se subsuma ao tipo (objetivo e subjetivo) e seja contrário ao</p><p>direito. Requer-se, também, um juízo de reprovação sobre o autor desse fato. De-</p><p>monstra-se aqui que a culpabilidade é elemento do crime, muito embora outros</p><p>afirmem ser a culpabilidade um pressuposto de aplicação da pena.</p><p>Ofendículos são dispositivos perigosos colocados com a finalidade de proteger a proprie-</p><p>dade (por exemplo, caco de vidros em muros, prego em muros, cerca elétrica, um cão</p><p>bravo etc.). São considerados um exercício regular de direito de proteção da propriedade.</p><p>Todavia, a partir do momento em que determinado agente criminoso transpô-los e sofrer</p><p>qualquer lesão, estará o ofendículo em legítima defesa da propriedade.</p><p>Fonte: os autores.</p><p>PENSANDO JUNTOS</p><p>107</p><p>Como será visto em seguida, de acordo com nossa legislação, a culpabilidade é</p><p>decomposta em três elementos: a imputabilidade penal, a consciência poten-</p><p>cial da ilicitude e a exigibilidade de conduta diversa. Aludidos elementos</p><p>devem ser considerados em conjunto, pois a falta de um deles fará com que o</p><p>agente criminoso tenha isenção de sua pena.</p><p>É evidente que, para a culpabilidade hoje se colocar com esses três elementos</p><p>(imputabilidade penal, consciência potencial da ilicitude e exigibilidade de</p><p>conduta diversa), ela foi estudada por algumas teorias, sendo que dessas no-</p><p>ções ocorreram evoluções até os dias atuais. São as teorias da culpabilidade que</p><p>procuram explicar quais os elementos a abrangem. A seguir, serão retratadas</p><p>algumas dessas teorias, a fim de se possibilitar a compreensão da razão de ser da</p><p>culpabilidade e de seus elementos.</p><p>É importante ressaltar que não se busca, aqui, esgotar todas as teorias que</p><p>possam explicar a evolução do conceito de culpabilidade, mas apenas retratar</p><p>algumas delas que sejam mais pertinentes ao assunto.</p><p>A primeira teoria a ser estudada é a teoria psicológica da culpabilidade.</p><p>Segundo essa teoria, o agente criminoso quando realiza o fato possui uma rela-</p><p>ção psíquica em torno dele, isto é, existe uma relação de ânimo entre o agente e</p><p>o fato. Para essa teoria, o dolo e a culpa seriam as espécies da culpabilidade e a</p><p>imputabilidade seria pressuposto da pena.</p><p>UNICESUMAR</p><p>UNIDADE 3</p><p>108</p><p>Já para a teoria psicológico-normativa da culpabilidade (ou teoria normati-</p><p>va da culpabilidade), o dolo e a culpa não poderiam simplesmente ser as formas</p><p>da culpabilidade, mas sim seus elementos. O dolo passou a ser normativo, ou</p><p>seja, exigia-se do agente no momento da prática da conduta o conhecimento</p><p>da ilicitude. Aqui, cria-se a ideia de que a conduta do agente deve ser reprovada,</p><p>censurada (exige-se comportamento diferente). Ainda, a imputabilidade deixa de</p><p>ser pressuposto e passa a ser considerada elemento da culpabilidade. Também,</p><p>surge um terceiro elemento, a exigibilidade de conduta diversa.</p><p>Por fim, para a teoria normativa pura da culpabilidade (ou teoria da culpabili-</p><p>dade) desenvolvida pelos finalistas, a culpabilidade deve manter o caráter de reprova-</p><p>bilidade, contudo, sempre com natureza puramente normativa. Aqui, não se fala mais</p><p>em dolo e culpa, uma vez que foram transferidos para o fato típico. Desse modo, a</p><p>culpabilidade passa a possuir três elementos: a imputabilidade penal, a consciência</p><p>potencial da ilicitude e a exigibilidade de conduta diversa. O dolo deixa de ser norma-</p><p>tivo e passa a ser natural, ou seja, não é mais necessário a exigência do conhecimento</p><p>da ilicitude, mas sim o seu potencial conhecimento. A teoria normativa pura da cul-</p><p>pabilidade servirá de base para o estudo da culpabilidade com seus três elementos.</p><p>Passaremos a falar agora sobre os elementos da culpabilidade, começando</p><p>pela imputabilidade. Nas palavras de Mirabete (2007, p. 193), a imputabilidade</p><p>“é a condição pessoal de maturidade e sanidade mental que confere ao agente a</p><p>capacidade de entender o caráter ilícito do fato e de determinar-se segundo seu</p><p>entendimento”. Trata-se da plenitude das capacidades intelectivas e volitivas.</p><p>A imputabilidade, legalmente, pode ser compreendida por meio de interpre-</p><p>tação a contrario sensu do artigo 26 do CP. Tecnicamente a imputabilidade não</p><p>pode ser confundida com a responsabilidade. Segundo Noronha (1998, p. 172):</p><p>“ A responsabilidade é a obrigação que alguém tem de arcar com as</p><p>consequências jurídicas do crime. É o dever que tem a pessoa de</p><p>prestar contas de seu ato. Ele depende da imputabilidade do indiví-</p><p>duo, pois não pode sofrer as consequências do fato criminoso (ser</p><p>responsabilizado) senão o que tem consciência de sua antijuridici-</p><p>dade e quer executá-lo (NORONHA, 1998, p. 172).</p><p>De outra banda, a falta de imputabilidade gera a inimputabilidade, ou seja, a inim-</p><p>putabilidade é a não imputabilidade. A inimputabilidade pode ser extraída de três</p><p>109</p><p>artigos do CP, a saber: artigo 26 (inimputabilidade por doença mental ou desenvol-</p><p>vimento mental incompleto</p><p>ou retardado); artigo 27 (inimputabilidade por menori-</p><p>dade); e artigo 28, parágrafo 1º (inimputabilidade por embriaguez fortuita completa).</p><p>Na caracterização da inimputabilidade do artigo 26 do CP, foi adotado o mé-</p><p>todo biopsicológico, ou seja, a inimputabilidade leva em conta fatores biológicos</p><p>(doença mental, desenvolvimento mental incompleto ou retardado) e fatores</p><p>psicológicos (incapacidade de entender o caráter ilícito do fato e de determinar-se</p><p>de acordo com esse entendimento). No método biopsicológico, exige-se uma</p><p>efetiva averiguação da existência de um nexo causal entre o estado mental e a</p><p>perda das capacidades intelectivas e volitivas. Isso se dá, por exemplo, com os</p><p>silvícolas (indígenas) não civilizados ou com os surdos que não consigam expri-</p><p>mir suas vontades, os quais serão considerados inimputáveis. Os inimputáveis</p><p>são isentos de pena (exclui-se a culpabilidade). Eles, porém, sofrerão medida de</p><p>segurança (que é uma internação em casa de custódia e tratamento psiquiátrico</p><p>ou um tratamento ambulatorial – artigo 97 do CP).</p><p>Em termos processuais penais, a inimputabilidade será aferida por meio de</p><p>perícia, sendo que a sua conclusão poderá ou não ser acatada pelo juiz.</p><p>O parágrafo único do artigo 26 do CP retrata a figura dos denominados se-</p><p>mi-imputáveis (ou fronteiriços), que são aqueles que se situam entre a sanidade</p><p>e a insanidade mental. Para esses, não existe exclusão da culpabilidade, tendo tão</p><p>só a redução de sua pena (redução de um a dois terços), e, se necessária, a substi-</p><p>tuição de sua pena por medida de segurança (artigo 98 do CP). Essa substituição</p><p>alternativa (pena ou medida de segurança) retrata o sistema vicariante, o que faz</p><p>compreender a impossibilidade de se cumular a pena com a medida de segurança</p><p>(negando-se o sistema binário, que permite referida cumulação).</p><p>Na caracterização da inimputabilidade do artigo 27 do CP, foi adotado o mé-</p><p>todo biológico, ou seja, a inimputabilidade leva em conta como fatores apenas o</p><p>fator biológico de imaturidade. A menoridade para efeitos de inimputabilidade é</p><p>aquela compreendida de zero a 18 anos incompletos na data do fato criminoso. A</p><p>própria Constituição Federal estabelece, em seu artigo 228, que são penalmente</p><p>inimputáveis os menores de 18 anos. O menor de 18 anos estará submetido à</p><p>legislação especial quando cometer um ato típico e antijurídico. Em outras pala-</p><p>vras, o menor de dezoito anos que cometer uma infração penal será submetido</p><p>às normas de uma legislação própria, que, no caso pátrio, é o Estatuto da Criança</p><p>e do Adolescente (lei 8.069/1990).</p><p>UNICESUMAR</p><p>UNIDADE 3</p><p>110</p><p>O artigo 28, parágrafo 1°, do CP cuida da embriaguez completa e involun-</p><p>tária, decorrente de caso fortuito ou força maior. Segundo advertem Estefam e</p><p>Gonçalves (2012, p. 418):</p><p>“ [...] o legislador penal ciente da necessidade de não deixar impunes</p><p>os criminosos ébrios, restringiu de tal modo sua irresponsabilidade</p><p>penal, que somente contemplou como motivo de isenção de pena a</p><p>embriaguez completa e involuntária (causa) que, ao tempo da conduta</p><p>(requisito temporal), retire por inteiro a capacidade de entendimento ou</p><p>de autodeterminação (efeito) (ESTEFAM; GONÇALVES, 2012, p. 418).</p><p>Pelo retratado, não é qualquer embriaguez que exclui a culpabilidade, como inclusive</p><p>se infere do artigo 28, inciso II, do CP. A embriaguez do artigo 28, parágrafo 1°, do CP</p><p>deve ser involuntária (não querida – caso fortuito e força maior), além disso, deixar o</p><p>agente completamente impossibilitado nas suas capacidades intelectivas e volitivas.</p><p>Por exemplo, imagine o sujeito que não pode ingerir bebida alcoólica, pois encontra-se</p><p>fazendo uso de remédios contínuos; todavia, outro indivíduo insere no copo daquele</p><p>sujeito bebida alcoólica sem que ele perceba; por conta disso, o sujeito bebe de forma</p><p>involuntária e acaba sendo dominado pelos efeitos do álcool em contradição com</p><p>os efeitos do remédio, restando totalmente fora de si, e acabando por cometer uma</p><p>infração penal; nesse caso, o sujeito embriagado terá a sua culpabilidade excluída.</p><p>A embriaguez pré-ordenada (que é aquela em que o agente se embriaga para lhe</p><p>encorajar a cometer o crime), a embriaguez voluntária (que é aquela em que o agen-</p><p>te se embriaga por livre e espontânea vontade), a embriaguez culposa (que é aquela</p><p>em que o agente se embriaga por não respeitar um dever objetivo de cuidado) não</p><p>excluem a culpabilidade. Já a embriaguez patológica poderá excluir a culpabilidade</p><p>quando gerar uma doença mental, sendo que, aqui, aplica-se o artigo 26 do CP.</p><p>Tanto a embriaguez, como a emoção e a paixão, por não excluírem a culpabili-</p><p>dade, estão relacionadas com a teoria da actio libera in causa, ou seja, a conduta</p><p>do agente estava livre quando optou pela causa (embriaguez, emoção ou paixão).</p><p>Portanto, ainda que no momento da conduta, o agente não possuía plenamente</p><p>a consciência da sua conduta, o que se pune é o momento anterior, ou seja, o</p><p>momento em que ele optou por se embriagar e assumiu os riscos do seu estado.</p><p>A consciência potencial da ilicitude é o segundo elemento da culpabilidade. É</p><p>o fundamento do juízo de reprovação. Assim, para que se caracterize a culpabilidade,</p><p>111</p><p>não basta que o agente seja imputável, sendo indispensável, ainda, para o juízo de</p><p>reprovação que ele possa conhecer a antijuridicidade de sua conduta. Trata-se do</p><p>conhecimento leigo que as pessoas possuem acerca daquilo que é certo e do que é</p><p>errado. Não existindo referida consciência, carecerá de culpabilidade o agente. A falta</p><p>de consciência da ilicitude ocasionará o erro de proibição, como veremos adiante.</p><p>Como terceiro elemento da culpabilidade, ao lado da imputabilidade e da</p><p>consciência potencial da ilicitude, aparece a exigibilidade de conduta diver-</p><p>sa. A exigibilidade de conduta diversa significa que nas circunstâncias do fato</p><p>realizado pelo agente, fosse possível exigir deste um comportamento diverso</p><p>daquele que tomou ao praticar o fato típico e antijurídico. Vale dizer, o agente</p><p>deveria ter atuado diferentemente de como atuou, como, por exemplo, exige-se</p><p>do homicida que não mate, pois ele pode assim proceder; exige-se do ladrão</p><p>que não furte, pois ele pode assim proceder.</p><p>Pode ocorrer em determinadas situações em que o agente que está realizando a</p><p>conduta típica e antijurídica não tenha a possibilidade de atuar de outra forma, ou</p><p>seja, ao agente não se pode exigir que tenha outra conduta senão a conduta injusta</p><p>(típica e antijurídica). Nessa situação, fala-se em inexigibilidade de conduta di-</p><p>versa. A inexigibilidade de conduta diversa quer significar que o agente tem de se</p><p>conduzir da forma como se conduziu. O legislador, no artigo 22 do CP, estabelece</p><p>duas hipóteses de causas legais de inexigibilidade de conduta diversa, quais sejam:</p><p>1. Coação moral irresistível: a coação é irresistível quando não pode ser supe-</p><p>rada, senão com energia extraordinária e, portanto, juridicamente inexigível.</p><p>Por exemplo, o sujeito “A” aponta um revólver na cabeça do sujeito “B”, a fim</p><p>de que este se sinta gravemente ameaçado e pegue uma faca e mate a pessoa</p><p>de “C”. Nesse exemplo, não há como se exigir da pessoa de “B” outra conduta.</p><p>Para boa parte da doutrina, a coação física exclui a conduta (pois não há dolo)</p><p>e não a culpabilidade. Se a coação for resistível, aquele que atuou sob seu manto</p><p>não terá a culpabilidade excluída, mas terá sua pena atenuada, por força do artigo</p><p>65, inciso III, “c”, do CP.</p><p>2. Obediência hierárquica: conforme o artigo 22 do CP, se o fato é cometi-</p><p>do em estrita obediência à ordem, não manifestamente ilegal, de superior</p><p>hierárquico, só é punível o autor da ordem. Por exemplo, o funcionário</p><p>UNICESUMAR</p><p>UNIDADE 3</p><p>112</p><p>superior ordena que o funcionário inferior não forneça alimentação aos</p><p>presos; nesse caso, o superior responderá pelo crime (crime de abuso de</p><p>autoridade ou crime de maus tratos) e não o inferior.</p><p>Para que exista a excludente da obediência hierárquica, faz-se mister: uma relação</p><p>de subordinação de direito público (hierarquia);</p><p>uma ordem superior ilícita; e a</p><p>ilegalidade da ordem não manifesta.</p><p>A jurisprudência tem entendido que, além das causas legais de inexigibilidade,</p><p>também podem existir causas de inexigibilidade de conduta diversa supralegais,</p><p>como, por exemplo, não comete o crime do artigo 229 do CP, o proprietário que</p><p>possui alvará de funcionamento emitido pelo poder público, estando acobertado</p><p>por uma causa de inexigibilidade de conduta diversa supralegal.</p><p>Caro(a) aluno(a), voltemos um pouco ao erro de tipo. Como vimos, é aquele que ocor-</p><p>re quando o agente erra sobre os elementos do tipo penal, isto é, sobre a tipicidade em</p><p>si. No erro de tipo essencial, por exemplo, o agente não quer realizar a conduta ilícita</p><p>que está fazendo, na verdade, supõe que está praticando uma conduta lícita, pois se</p><p>soubesse que sua conduta era ilegal, jamais a teria praticado (por exemplo, se o agente</p><p>113</p><p>soubesse que transportava cocaína e não farinha de trigo, jamais teria realizado tal</p><p>conduta, por saber que o transporte de drogas é crime. O erro de tipo exclui o dolo”.</p><p>Diferentemente é o erro de proibição. No erro de proibição, o agente quer</p><p>realizar a conduta, pois não vislumbra que ela esteja contrária ao direito. O agente</p><p>tem a consciência da sua realização, porém não sabe que seu ato é contrário ao</p><p>direito (por exemplo, um árabe vem para o Brasil e contrai mais de um casamen-</p><p>to; o árabe conscientemente sabia que estava se casando, todavia, não sabia que,</p><p>no Brasil, possuir mais de um casamento é crime de bigamia).</p><p>Nas palavras de Mirabete (2007, p. 197):</p><p>“ Como visto, para existir culpabilidade, necessário se torna que haja</p><p>no sujeito ao menos a possibilidade de conhecimento da antijuridi-</p><p>cidade do fato. Quando o agente não tem ou não lhe é possível esse</p><p>conhecimento, ocorre o denominado erro de proibição. Há, portanto,</p><p>erro de proibição quando o autor supõe, por erro, que seu compor-</p><p>tamento é lícito. Nessa hipótese, o agente atua voluntariamente e,</p><p>portanto, dolosamente, porque seu erro não incide sobre elementos</p><p>do tipo; mas não há culpabilidade, já que pratica o fato por erro</p><p>quanto à ilicitude de sua conduta (MIRABETE, 2007, p. 197).</p><p>Para Toledo (1977, p. 71), não se deve “censurar-se de culpabilidade o autor de</p><p>um fato típico penal quando ele próprio, por não ter tido sequer a possibilidade</p><p>de conhecer o injusto de sua ação, cometeu o fato sem dar conta de estar</p><p>infringindo alguma proibição”.</p><p>No erro de proibição, o agente está convicto de que aquela conduta que ele</p><p>quer e faz é licitamente permitida. É de se destacar que essa convicção de ser a</p><p>conduta lícita tem de ser buscada no âmbito popular, leigo, social e não na téc-</p><p>nica jurídica. Em outras palavras, o acreditar ser a conduta permitida tem que</p><p>ser sentido no seio social. É justamente daqui que se faz uma diferenciação entre:</p><p>a) Erro de proibição inevitável: ocorre quando a média comum dos seres</p><p>humanos, na mesma situação vivida pelo agente, também irá errar. Nesse</p><p>caso, o erro exclui a reprovabilidade da conduta realizada, excluindo, as-</p><p>sim, a culpabilidade por não existir a potencial consciência da ilicitude.</p><p>Foi adotado pelo CP, em seu artigo 21, 2ª frase, 1ª parte.</p><p>UNICESUMAR</p><p>UNIDADE 3</p><p>114</p><p>b) Erro de proibição evitável: ocorre quando a média comum dos seres hu-</p><p>manos, na mesma situação vivida pelo agente, não erraria (parágrafo único</p><p>do artigo 21 do CP). Nesse caso, o erro não exclui a reprovabilidade da con-</p><p>duta realizada, todavia, poderá diminuir a pena do agente na proporção de</p><p>um sexto a um terço. Foi adotado pelo CP, em seu artigo 21, 2ª frase, 2ª parte.</p><p>O erro de proibição não se confunde com o erro sobre a norma. O erro sobre a</p><p>norma, disposto no artigo 21, 1ª frase do CP, refere-se ao desconhecimento da lei;</p><p>em face do próprio dispositivo legal referido, o erro sobre a norma é irrelevante,</p><p>não podendo o agente alegar o desconhecimento da lei. O agente responderá pelo</p><p>crime, todavia, sua pena será atenuada por força do artigo 65, II do CP.</p><p>Também existe a figura do erro acidental, que poderá incidir em relação à pes-</p><p>soa (artigo 20, parágrafo 3° do CP) ou à execução do crime (artigo 73 do CP). Existe,</p><p>ainda, a figura do erro determinado por terceiro, no qual podem ocorrer situações</p><p>fáticas em que o erro é determinado dolosamente por um terceiro. Nos termos do ar-</p><p>tigo 20, parágrafo 2° do CP, responderá pelo crime o terceiro que determinou o erro.</p><p>Querido(a) aluno(a), após entendermos os conceitos de erro de proibição e</p><p>erro do tipo, é necessário que você saiba o que são as descriminantes putativas,</p><p>previstas no artigo 20, parágrafo 1° do CP. Em termos sintéticos e didáticos, as</p><p>descriminantes putativas podem ser entendidas como situações imaginárias que</p><p>excluem o crime. Por exemplo, o agente imagina que está atuando em estado de</p><p>necessidade, em legítima defesa. Em que pese as controvérsias doutrinárias a respeito</p><p>das descriminantes putativas, pode-se dizer que elas possuem duas espécies:</p><p>a) Descriminante putativa por erro de tipo: incide quando o agente erra</p><p>a respeito da situação de fato de uma causa excludente (por exemplo, o</p><p>agente supõe, equivocadamente, que seu inimigo iria sacar de uma arma</p><p>que portava em seu bolso, quando na verdade, seu inimigo apenas colo-</p><p>cou a mão no bolso para pegar seu celular).</p><p>b) Descriminante putativa por erro de proibição: incide quando o agente</p><p>acredita que está agindo amparado por uma excludente de ilicitude, quan-</p><p>do na verdade não está (por exemplo, o marido que encontra sua esposa,</p><p>traindo-o com seu amante, e defere agressões a ambos).</p><p>115</p><p>Duas teorias se colocam para analisar a natureza das descriminantes putativas</p><p>por erro de tipo e por erro de proibição, a saber:</p><p>1. Para a teoria extremada da culpabilidade, não importa ser o erro sobre</p><p>apreciação fática da causa excludente ou sobre os limites da causa exclu-</p><p>dente, sempre existirá descriminante putativa que exclui a culpabilidade,</p><p>face tratar-se de erro de proibição.</p><p>2. Para a teoria limitada da culpabilidade, se o erro incidir sobre a apre-</p><p>ciação fática da causa excludente, existirá erro de tipo, e, como conse-</p><p>quência, se excluirá o tipo penal; se, por outro lado, o erro incidir sobre</p><p>os limites da causa de excludente, existirá erro de proibição, e, como</p><p>consequência, se excluirá a culpabilidade.</p><p>Elementos do Crime</p><p>Caro(a) aluno(a), após estudarmos de maneira por-</p><p>menorizada assuntos de grande relevância, convido-lhe</p><p>a escutar o podcast desta unidade, como forma de fixar</p><p>ainda mais o conteúdo. Nele, apresento os elementos do</p><p>crime de acordo com o seu conceito analítico, bem como</p><p>explico os elementos que compõem o fato típico, as causas</p><p>excludentes de ilicitude e culpabilidade.</p><p>Caro(a) aluno(a), finalizamos esta conversa aprendendo sobre os elementos do</p><p>crime: fato típico, ilicitude e culpabilidade. O fato típico, como vimos, é compos-</p><p>to pela conduta, nexo causal, resultado e tipicidade. Cada um desses elementos</p><p>possui suas próprias características, teorias e conceitos. Por sua vez, a ilicitude</p><p>nos traz causas excludentes, como a legítima defesa, estado de necessidade, estrito</p><p>cumprimento do dever legal e exercício regular de um direito, além das hipóteses</p><p>supralegais. Por fim, a culpabilidade, composta por seus elementos: imputabili-</p><p>dade, exigibilidade de conduta diversa e consciência potencial da ilicitude.</p><p>Ao relembrar o caso que apresentei no começo da unidade, que trazia o epi-</p><p>sódio de um homem que cometeu o crime de embriaguez ao volante, e, em de-</p><p>cisão de segunda instância, foi inocentado em razão da aplicação do estado de</p><p>necessidade, tendo em vista que o motivo de ter dirigido naquele estado era para</p><p>salvar a vida da sua sobrinha, que estava em trabalho de parto, percebemos que</p><p>envolvia o estado de necessidade.</p><p>UNICESUMAR</p><p>https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/17803</p><p>UNIDADE 3</p><p>116</p><p>Assim, aplicando os ensinamentos aqui aprendidos, é possível notar que,</p><p>no caso em concreto, estavam presentes os requisitos do estado de necessidade,</p><p>quais sejam: a existência de um perigo atual não provocado voluntariamente pelo</p><p>agente; salvamento de um direito de terceiros; inevitabilidade do dano; razoável</p><p>inexigibilidade do sacrifício do direito ameaçado. O primeiro requisito se preen-</p><p>che, uma vez que o fato de sua sobrinha ter entrado em trabalho de parto não foi</p><p>sua culpa. O segundo requisito se preenche, uma vez que, caso o réu não dirigisse</p><p>até o hospital, sua sobrinha ou a criança poderia ter complicações e até mesmo</p><p>perigo de perder a vida. O terceiro requisito se preenche, uma vez que não havia</p><p>outra forma de evitar o dano, tendo em vista que não existia mais ninguém, no</p><p>momento, que poderia levá-la ao hospital em razão dos motivos ilustrados na</p><p>jurisprudência destacada. Por fim, o último requisito se preenche, uma vez que</p><p>existiu uma proporcionalidade entre a conduta e a natureza do perigo.</p><p>Dessa forma, querido(a) aluno(a), finalizamos esta unidade. Na próxima,</p><p>estudaremos o concurso de pessoas e o concurso de crimes.</p><p>117</p><p>1. Imagine a seguinte situação: Pedro planeja assaltar determinada agência bancária.</p><p>Assim, em determinado dia, em horário comercial, entra na agência armado, colocan-</p><p>do todos, que estavam dentro do estabelecimento, na posição de refém, enquanto,</p><p>ao mesmo tempo, pedia para que o gerente lhe desse dinheiro. Para sua surpresa,</p><p>Pedro escuta sirenes de carros de polícia se aproximando, e foge rapidamente do</p><p>local, sem conseguir subtrair nada.</p><p>Fonte: os autores.</p><p>Considerando o caso narrado e o aprendido na unidade, assinale a alternativa que</p><p>apresenta corretamente a modalidade pela qual Pedro irá responder.</p><p>a) Roubo consumado.</p><p>b) Roubo tentado.</p><p>c) Furto consumado.</p><p>d) Furto tentado.</p><p>e) Extorsão.</p><p>2. Imagine a seguinte situação: Ricardo, desafeto de Lucas, planejou matá-lo na saída</p><p>do seu trabalho. Dessa forma, ficou aguardando escondido para que no momento</p><p>em que Lucas saísse, ele disparasse um tiro fatal. Lucas, ao sair do trabalho, estava</p><p>acompanhado de Maria, sua colega. Ricardo, ao avistá-lo, seguiu com o seu plano, e</p><p>realizou o disparo, no entanto, acabou atingindo Maria.</p><p>Fonte: os autores.</p><p>Considerando o aprendido acerca do erro do tipo, assinale a opção que apresenta</p><p>corretamente o erro do tipo apresentado.</p><p>a) Erro sobre a pessoa.</p><p>b) Erro sobre o objeto.</p><p>c) Erro sobre a execução.</p><p>d) Erro sobre o nexo causal.</p><p>e) Erro sobre o resultado.</p><p>118</p><p>3. Em palavras simples, ilicitude ou antijuridicidade é a relação de contrariedade de uma</p><p>conduta típica em face do ordenamento jurídico, sendo que de acordo com a estru-</p><p>tura adotada por nós, todo fato típico tende a ser ilícito, e será, salvo se houver causa</p><p>de justificação, ou seja, uma excludente de ilicitude presente na situação concreta.</p><p>RODRIGUES, C. Manual do direito penal. 2. ed. Indaiatuba: Foco, 2021.</p><p>Considerando o aprendido acerca das causas de excludente de antijuridicidade, expli-</p><p>que, em no mínimo 10 linhas, a diferença entre estado de necessidade e legítima defesa.</p><p>4Concurso de</p><p>Crimes e de</p><p>Pessoas</p><p>Me. Marllon Beraldo</p><p>Esp. Beatriz Gasparin Moreira</p><p>Nesta unidade, focaremos no aprendizado acerca do concurso de pes-</p><p>soas e suas teorias. Estudaremos também a diferença entre autor e</p><p>partícipe, a cooperação dolosamente distinta e as circunstâncias que</p><p>se comunicam ou não na realização de um fato criminoso por duas ou</p><p>mais pessoas. Também buscaremos compreender as consequências</p><p>da multiplicidade de infrações penais praticadas por uma só pessoa,</p><p>seja por meio do concurso formal, material ou da continuidade delitiva.</p><p>UNIDADE 4</p><p>122</p><p>Querido(a) aluno(a), imagine a seguinte situação: João e Pedro, com a intenção de</p><p>roubar um carro e utilizando arma de fogo, abordaram Ricardo quando ele se dirigia</p><p>ao seu veículo, que estava estacionado. Diante da situação e para garantir a eficácia da</p><p>empreitada criminosa, os assaltantes levaram a vítima para um barranco no alto de</p><p>um morro. Pedro ficou responsável por vigiar a vítima no cativeiro, enquanto João</p><p>realizaria outros crimes, utilizando o carro subtraído. Quando João saiu, Pedro atirou</p><p>em Ricardo por ele ter tentado fugir, e, em razão do tiro, este veio a falecer. Nesse caso,</p><p>João deve responder pela morte de Ricardo, junto com o Pedro?</p><p>Nesta unidade, estudaremos acerca do concurso de pessoas, que, de maneira</p><p>resumida, acontece quando duas ou mais pessoas, com o mesmo objetivo, reali-</p><p>zam determinada infração penal. Dentro da modalidade do concurso de pessoas,</p><p>encontramos a cooperação dolosamente distinta, que é quando duas ou mais</p><p>pessoas se juntam para cometer determinado crime, no entanto, durante a reali-</p><p>zação da empreitada criminosa, um dos agentes muda de ideia e acaba praticando</p><p>uma infração mais grave do que aquela ajustada. É o caso do problema relatado</p><p>acima, uma vez que, inicialmente, João e Pedro combinaram de praticar o crime</p><p>de roubo. Todavia, no decorrer da realização do tipo, Pedro acabou matando a</p><p>vítima sem a anuência de João.</p><p>Agora é sua vez! No link do QR code, há uma decisão rea-</p><p>lizada pela 1ª turma do Supremo Tribunal Federal, que trata de</p><p>um caso como o exemplo acima. Diante disso, leia a decisão e</p><p>perceba o posicionamento da turma sobre a solução desse caso.</p><p>Caro(a) aluno(a), após a leitura do caso apresentado, você</p><p>consegue perceber a importância de analisarmos o concurso de pessoas? Foi</p><p>possível perceber que, segundo a 1ª turma do Supremo Tribunal Federal, se o</p><p>latrocínio foi praticado por um dos agentes, que estavam cometendo um roubo,</p><p>os demais também responderão por aquele tipo penal, uma vez que o risco da</p><p>sua realização foi assumido por todos.</p><p>O concurso de pessoas, querido(a) aluno(a), tem como função explicar qual</p><p>crime deve ser imposto para cada pessoa que se junta com outras para a prática</p><p>de uma ou mais infrações penais. Até agora, analisamos como cada agente deve</p><p>ser punido individualmente quando comete um crime, observando se estão pre-</p><p>sentes os elementos objetivos e subjetivos do tipo. A partir desta unidade, você</p><p>entenderá como se dá a tipificação para um grupo de pessoas. A pena será a</p><p>mesma para todas? Como é possível saber se elas realmente estavam praticando</p><p>https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/18304</p><p>123</p><p>UNICESUMAR</p><p>o crime em conjunto? É possível que cada pessoa responda por crimes diferentes,</p><p>de acordo com a sua conduta dentro da divisão de tarefas durante a empreitada</p><p>criminosa? Antes de continuarmos a leitura, escreva, em seu diário de bordo, suas</p><p>impressões sobre o que vimos até aqui.</p><p>Prezado (a) aluno(a), uma infração penal poderá ser praticada por uma única</p><p>pessoa (por exemplo, o sujeito “A” mata o sujeito “B”), como também poderá ser</p><p>praticada por duas ou mais pessoas (por exemplo os sujeitos “A” e “B” matam a</p><p>pessoa de “C”). Quando realizada a infração por duas ou mais pessoas, pode-se</p><p>dizer que existe concurso de pessoas ou concurso de agentes nessa prática. No</p><p>concurso de pessoas, estuda-se o crime sob a perspectiva de realização múltipla</p><p>pelos envolvidos na conduta, como, por exemplo, se os sujeitos “A”, “B” e “C” matam</p><p>a pessoa de “D”, é mister averiguar qual a contribuição de cada um para a prática</p><p>delituosa, pois receberão a pena de acordo com sua culpabilidade.</p><p>Também se faz necessário compreender a distinção entre autor e partícipe</p><p>do crime, pois, nem sempre, exige-se do autor do crime que seja pessoalmente o</p><p>executor da infração, a qual poderá se dar a distância, ou até mesmo, ser realizada</p><p>por terceira pessoa. Como se verá, tal distinção é de suma importância, para se</p><p>saber a responsabilidade penal de cada um.</p><p>UNIDADE 4</p><p>124</p><p>O Código Penal trata do concurso de pessoas em seu artigo 29, ao estabelecer:</p><p>“Quem, de qualquer modo, concorre para o crime incide nas penas a este comi-</p><p>nadas, na medida de sua culpabilidade”. De acordo com Nucci (2022, p. 566):</p><p>“Trata-se da cooperação desenvolvida por várias pessoas para o cometimento de</p><p>uma infração penal. Chama-se, ainda, em sentido lato: coautoria, participação,</p><p>concurso de delinquentes, concurso</p><p>de agentes, cumplicidade”.</p><p>Já para Masson (2020, p. 425): “É a cooperação empreendida por duas ou mais</p><p>pessoas para a realização de um crime ou de uma contravenção penal”.</p><p>Portanto, concurso de pessoas, de maneira simplória, é quando duas ou mais</p><p>pessoas concorrem para a prática de uma mesma infração penal.</p><p>Quando um crime, como regra, pode ser realizado por uma só pessoa, o cha-</p><p>mamos de crime unissubjetivo, no entanto, quando esse mesmo crime é praticado,</p><p>eventualmente, por duas ou mais pessoas, ocorre o concurso eventual. Por outro lado,</p><p>há crimes que necessariamente devem ser realizados por duas ou mais pessoas. Nesses</p><p>casos, temos os chamados crimes plurissubjetivos ou crimes de concurso necessário.</p><p>Para que haja o concurso de pessoas, é necessário a conjunção de cinco</p><p>requisitos: pluralidade de condutas; relevância causal das condutas para a</p><p>produção do resultado; identidade dos crimes para todos os agentes; vínculo</p><p>subjetivo; e existência de fato punível.</p><p>A pluralidade de condutas significa que é necessário que duas ou mais</p><p>pessoas concorram para o evento danoso, seja como coautores ou autor e par-</p><p>tícipe. Para a doutrina majoritária, no caso do concurso eventual, que é o que</p><p>nos interesse no momento, todas as pessoas que concorrem para a prática da</p><p>infração penal devem necessariamente ser culpáveis, sob pena de caracterizar</p><p>autoria mediata. Diferentemente do que ocorre no concurso necessário, em que</p><p>apenas um dos agentes precisa ser culpável.</p><p>A relevância causal das condutas significa que as condutas dos agentes devem</p><p>obrigatoriamente ser relevantes para a prática do resultado, ou seja, deve existir uma</p><p>relação de causa e efeito entre a conduta e o resultado. Caso não haja essa relevância,</p><p>a doutrina chama a participação do agente de participação inócua.</p><p>A identidade dos crimes para todos os agentes significa que o crime come-</p><p>tido deve ser o mesmo para todos os concorrentes. No entanto, ainda que ocorra</p><p>a unidade/identidade dos crimes, não há a unidade das penas, uma vez que cada</p><p>um responde de acordo com a sua culpabilidade.</p><p>125</p><p>UNICESUMAR</p><p>No vínculo subjetivo, é necessário que exista um vínculo psicológico entre os</p><p>agentes para com o mesmo objetivo, mas não é necessário, de acordo com a doutri-</p><p>na, que exista ajuste prévio às condutas. Os agentes apenas precisam ter consciência</p><p>que suas respectivas condutas estão sendo direcionadas para um mesmo fim.</p><p>Por último, a existência de um fato punível, que passa a ser autoexplicativo,</p><p>significa dizer que para que exista um concurso de pessoas, é necessário que os</p><p>agentes pratiquem um fato punível. É nesse sentido que o artigo 31 do CP afirma:</p><p>“O ajuste, a determinação ou instigação e o auxílio, salvo disposição expressa</p><p>em contrário, não são puníveis, se o crime não chega, pelo menos, a ser tentado”.</p><p>OLHAR CONCEITUAL</p><p>CONCURSO</p><p>DE PESSOAS</p><p>PLURALIDADE DE CONDUTAS</p><p>necessário que duas</p><p>ou mais pessoas concorram</p><p>para o evento danoso.</p><p>RELEVÂNCIA CAUSAL</p><p>DAS CONDUTAS</p><p>as condutas dos agentes devem</p><p>obrigatoriamente ser relevantes</p><p>para a prática do resultado.</p><p>IDENTIDADE DOS CRIMES</p><p>o crime cometido deve</p><p>ser o mesmo para todos</p><p>os concorrentes.</p><p>VÍNCULO SUBJETIVO</p><p>é necessário que exista um</p><p>vínculo psicológico entre</p><p>os agentes para com</p><p>o mesmo objetivo.</p><p>Existência de um</p><p>fato punível</p><p>necessário que os</p><p>agentes pratiquem</p><p>um fato punível.</p><p>Doutrinariamente, há algumas teorias que buscam explicar se quando um crime é</p><p>praticado por mais de uma pessoa (coautores e partícipes) cada um responde por</p><p>um crime diferente ou todas respondem pelo mesmo delito. Vejamos cada uma delas:</p><p>a) Teoria monista: de acordo com essa teoria, cada pessoa que concorreu para a</p><p>conduta criminosa, responde pelo mesmo crime. Essa foi a teoria adotada pelo</p><p>Código Penal. Portanto, autores e partícipes respondem pelo mesmo crime.</p><p>UNIDADE 4</p><p>126</p><p>b) Teoria dualista: para essa teoria, há uma distinção entre autores e partí-</p><p>cipes. Aqui, os autores principais respondem por um crime e os partícipes</p><p>respondem por outro.</p><p>c) Teoria pluralista: já por essa vertente, apesar de os agentes praticarem</p><p>uma mesma conduta, visualizando atingirem o mesmo fato, cada um res-</p><p>ponde por um crime diferente. Essa teoria foi adotada, de maneira excep-</p><p>cional, pelo Código Penal, em alguns crimes, como por exemplo, no artigo</p><p>126 (aborto provocado por terceiro com o consentimento da gestante).</p><p>Caro(a) aluno(a), o Código Penal não buscou trazer expressamente a distinção</p><p>entre autor e partícipe. Diante disso, a doutrina passou a trazer essa diferenciação.</p><p>Surgiram, então, o exame de algumas teorias, que explicam essa diferença. Vamos</p><p>analisar algumas delas:</p><p>127</p><p>UNICESUMAR</p><p>a) Teoria unitária: todos que contribuírem para a infração serão conside-</p><p>rados autores, não existindo a figura dos partícipes. Todos estarão sujeitos</p><p>às mesmas penas.</p><p>b) Teoria extensiva: também apregoa que todos os envolvidos na infração</p><p>penal são autores (não existem partícipes), porém as penas devem ser</p><p>menores àqueles que tiveram uma contribuição de menor importância.</p><p>c) Teoria restritiva: aqui, faz-se a distinção entre autor e participe. Tal</p><p>teoria se divide em outras três:</p><p>1. Objetiva-formal: essa teoria é a adotada pelo CP. Segundo ela, au-</p><p>tor é aquele que realiza o núcleo do tipo penal, enquanto partícipe é</p><p>aquele que não realiza o núcleo do tipo. Já os coautores são aqueles</p><p>que realizam o núcleo do tipo de maneira conjunta.</p><p>2. Objetiva-material: aqui, o que importa é a contribuição da conduta</p><p>para o evento danoso. Portanto, aquele que tem uma contribuição</p><p>mais importante é considerado autor, enquanto aquele que possui</p><p>uma contribuição menos importante é considerado participe.</p><p>3. Objetiva/subjetiva ou teoria do domínio do fato: aqui, autor é aquele</p><p>que possui o domínio da realização da conduta típica, ou seja, possui</p><p>o poder de decidir sobre a paralisação ou continuidade da conduta</p><p>típica. Para Estefam e Gonçalves (2012, p. 439), autor é aquele que</p><p>“tem controle pleno do desenrolar do fato criminoso”. Já o partícipe</p><p>é aquele que não possui o domínio do fato típico, ou seja, não pode</p><p>decidir entre a continuidade e a paralisação da conduta típica. Ainda,</p><p>de acordo com Masson (2020, p. 431), “a teoria do domínio do fato</p><p>amplia o conceito de autor, definindo-o como aquele que tem o con-</p><p>trole final do ato, ainda que não realize o núcleo do tipo penal”.</p><p>Esse domínio final do fato define autor em três contextos:</p><p>a) Autor propriamente dito: é aquele que realiza diretamente o núcleo do</p><p>tipo penal.</p><p>b) Autor intelectual: é aquele que não realiza o núcleo do tipo penal, mas</p><p>é a cabeça da conduta criminosa. Sem ele, o tipo penal não acontece da</p><p>forma como planejada.</p><p>c) Autor mediato: é aquele que utiliza de um não culpável para a prática</p><p>do crime.</p><p>UNIDADE 4</p><p>128</p><p>Segundo a teoria do domínio do fato, coautores ou autores funcionais são todos</p><p>aqueles que possuem o domínio final do fato. Há uma divisão de tarefas, em que</p><p>todas elas são necessárias para que o fato criminoso seja realizado. Todos reali-</p><p>zam o núcleo do tipo penal. Por outro lado, participe é todo aquele que não tem</p><p>o controle final do fato criminoso.</p><p>Querido(a) aluno(a), existem ainda algumas outras formas de autoria. Dá-se</p><p>a autoria coletiva quando uma infração penal é realizada por dois ou mais auto-</p><p>res. Mencionada realização requer dois elementos: o elemento subjetivo, que é a</p><p>decisão comum de realizar a conduta típica ou o seu assentimento (à vontade de</p><p>um se adere a vontade de outro); e o elemento objetivo, que é a realização comum</p><p>da conduta típica, ou seja, a divisão do trabalho, a divisão de tarefas.</p><p>Na autoria mediata, o autor realiza a conduta típica por meio do domínio da</p><p>vontade de outrem, que exerce uma conduta dominada. O autor mediato serve de</p><p>mãos alheias para o cometimento de um fato próprio doloso. Por exemplo, o sujeito</p><p>“A”, apontando uma arma de fogo na cabeça do sujeito “B”, o constrange a matar a</p><p>pessoa de “C”. Na autoria mediata, não existe concurso</p><p>de pessoas, mas apenas um</p><p>autor mediato, que realiza indiretamente um fato típico por meio de outrem.</p><p>A autoria colateral constitui modalidade de autoria independente. Carac-</p><p>teriza-se pela ação isolada de vários autores, cujas vontades convergem para o</p><p>mesmo resultado típico, porém sem se caracterizar o concurso de pessoas, pois</p><p>não existe acordo de vontades ou assentimento.</p><p>Como observa Jesus (2012, p. 466), “a inexistência do vínculo subjetivo entre os</p><p>participantes pode levar à autoria colateral. Ocorre quando os agentes, desconhecen-</p><p>do cada um a conduta do outro, realizam atos convergentes à produção do evento a</p><p>que todos visam, mas que ocorre em face do comportamento de um só deles”.</p><p>Pode-se exemplificar a autoria colateral da seguinte forma: as pessoas de “A” e</p><p>“B”, sem combinarem e sem se verem, de tocaia, alvejam a pessoa de “C”, matan-</p><p>do-o. Nesse exemplo, não há concurso de pessoas, face ter inexistido o acordo de</p><p>vontades, sendo que, “A” e “B” responderão independentemente pelas suas condu-</p><p>tas (se ficar provado que quem matou a pessoa de “C” foi “A”, este responderá por</p><p>homicídio consumado e “B” por tentativa de homicídio; ou vice-versa).</p><p>Na existência da autoria colateral, poderá surgir o problema da autoria</p><p>incerta, em que não se consegue vislumbrar qual agente criminoso tenha</p><p>cometido o evento mais grave. Assim, no mesmo exemplo da autoria colateral,</p><p>129</p><p>UNICESUMAR</p><p>em que as pessoas de “A” e “B”, sem combinarem e sem se verem, de tocaia,</p><p>alvejam a pessoa de “C”, matando-o, mister se faz saber de qual dos sujeitos</p><p>(“A” ou “B”) veio o golpe letal. Caso não seja possível descobrir, ambos sujeitos</p><p>responderão por tentativa de homicídio, pois como não existiu acordo de von-</p><p>tades ou assentimento entre eles, seria injusto condenar o inocente pelo crime</p><p>mais grave (homicídio consumado) ou absolver o culpado.</p><p>Caso seja existente o acordo de vontades ou o assentimento (liame subjetivo),</p><p>torna-se desnecessário saber quem tenha praticado o golpe letal, haja vista, que</p><p>nessa situação todos respondem pelo mesmo crime, por serem coautores ou</p><p>partícipes (artigo 29 do CP).</p><p>Em razão das teorias estudadas anteriormente, pode-se dizer que a participação é</p><p>existente quando o sujeito concorre para a infração penal, sem contudo ser o seu autor.</p><p>Segundo Veneral (2020, p. 167): “O partícipe responderá por contribuir na</p><p>conduta criminosa do autor ou dos coautores, participando nos atos que não se</p><p>amoldem diretamente à figura típica e que não se refiram ao domínio do fato”.</p><p>UNIDADE 4</p><p>130</p><p>A participação possui duas modalidades:</p><p>a) participação psíquica (moral): que é aquela em que o agente age sobre</p><p>a vontade do autor. Essa conduta poderá se dar por:</p><p>1. induzimento: quando o partícipe faz nascer a ideia da infração no autor</p><p>(por exemplo, o segurança de um supermercado sugere a um amigo para</p><p>furtar o estabelecimento em que trabalha, face a vigilância ser fraca);</p><p>2. instigação: quando o partícipe estimula uma ideia preexistente no</p><p>autor (por exemplo, a pessoa de “A”, possuindo o conhecimento de que</p><p>a pessoa de “B” gosta de beber e sair dirigindo, estimula-o a beber e</p><p>sair dirigindo sua motocicleta).</p><p>3. participação material (ou cumplicidade): que é aquela em que o</p><p>agente presta auxílio doloso para o cometimento da infração penal. Por</p><p>exemplo, o agente empresta a arma do crime para um amigo, fornece a</p><p>senha, dentre outros. Para que exista a participação material, o auxílio</p><p>deve ser secundário, acessório, e jamais integrar a execução do tipo.</p><p>Diante disso, podemos concluir que a participação do partícipe é acessória, ou</p><p>seja, ela depende da conduta principal do autor para que a sua seja punida. Tal</p><p>natureza acessória encontra respaldo no artigo 31 do Código Penal, que afirma:</p><p>“O ajuste, a determinação ou instigação e o auxílio, salvo disposição expressa</p><p>em contrário, não são puníveis, se o crime não chega, pelo menos, a ser tentado”.</p><p>Algumas teorias foram construídas pela doutrina acerca dessa acessoriedade,</p><p>no que se refere à punibilidade do partícipe, quais sejam:</p><p>a) Teoria da acessoriedade mínima: o partícipe será punido se o autor</p><p>praticar um fato típico. Independe, para essa teoria, a ilicitude do fato, a</p><p>sua culpabilidade, bem como a punibilidade.</p><p>b) Teoria da acessoriedade limitada: o partícipe será punido se o autor</p><p>praticar um fato típico e ilícito. Independe para essa teoria a culpabilidade</p><p>e a punibilidade. Ainda que o Código Penal não tenha adotado expressa-</p><p>mente, a doutrina entende a favor dessa teoria.</p><p>c) Teoria da acessoriedade máxima: o partícipe será punido se o autor</p><p>praticar um fato típico, ilícito e culpável. Independe apenas a punibilidade.</p><p>d) Teoria da hiperacessoriedade: para que o partícipe seja punido segundo essa</p><p>teoria, o autor precisa ter praticado um fato típico, ilícito, culpável e punível.</p><p>131</p><p>UNICESUMAR</p><p>Após todas essas considerações, é importante que você entenda que o partícipe</p><p>responde pela mesma infração penal praticada pelo autor, ou seja, se, por exemplo,</p><p>a pessoa de “A” emprestou uma arma para que “B” matasse a pessoa de “C”, e esta</p><p>foi morta, tanto “A” (que é partícipe), como “B” (que é autor) responderão por ho-</p><p>micídio consumado. É esse o teor do artigo 29, caput, 1ª parte do CP. No presente</p><p>caso, perceba que “B” praticou um fato típico e ilícito, tendo em vista que não agiu</p><p>amparado por nenhuma excludente de ilicitude, e de acordo com a teoria da acesso-</p><p>riedade limitada, quando o autor pratica um fato típico e ilícito, o partícipe também</p><p>é punido pelo mesmo crime de acordo com a sua culpabilidade (artigo 29 do CP).</p><p>O artigo 29, caput, do CP, em sua parte final, quando ressalva: “na medida</p><p>da sua culpabilidade”, significa dizer que tanto o partícipe como o autor terão a</p><p>limitação de sua pena à medida da contribuição pessoal para o fato típico. Tam-</p><p>bém, consoante o parágrafo 1°, do artigo 29 do CP, o partícipe poderá ter a sua</p><p>pena reduzida de um sexto a um terço se sua participação tiver sido de menor</p><p>importância, o que deve ser analisada caso a caso.</p><p>A participação de menor importância é aquela que não teve grande con-</p><p>tribuição para o acontecer típico. Alguns doutrinadores entendem que significa</p><p>que é aquela que pode ser realizada por qualquer pessoa, uma vez que o fato típico</p><p>aconteceria da mesma forma.</p><p>Já no parágrafo 2° do artigo 29, do CP, encontramos a figura da cooperação</p><p>dolosamente distinta: “Se algum dos concorrentes quis participar de crime me-</p><p>nos grave, ser-lhe-á aplicada a pena deste; essa pena será aumentada até metade,</p><p>na hipótese de ter sido previsível o resultado mais grave”. Esse parágrafo traz a</p><p>hipótese em que o concorrente quer praticar um crime menos grave, mas acaba</p><p>sendo punido por um mais grave, em razão da mudança do elemento subjetivo</p><p>do seu cúmplice. Por exemplo, o mandante determina que seu capanga dê uma</p><p>surra na vítima; porém o capanga a mata. Algumas hipóteses podem se verificar:</p><p>1ª) Há a verificação de um evento mais grave, não querido por um dos con-</p><p>correntes, porém previsível o resultado mais grave. Por exemplo, o sujeito “A”</p><p>manda “B” dar uma surra em “C”; “B” age com tal brutalidade que acaba matando</p><p>a pessoa de “C”; “B” será responsabilizado pelo crime de homicídio consumado,</p><p>enquanto “A” será responsabilizado pelo crime de lesão corporal com a pena</p><p>aumentada de metade, eis que previsível o resultado.</p><p>UNIDADE 4</p><p>132</p><p>Caro(a) aluno(a), o artigo 30 do CP diz respeito às questões incomunicáveis, ao</p><p>dispor: “Não se comunicam as circunstâncias e as condições de caráter pessoal,</p><p>salvo quando elementares do crime”. Passaremos a entender esse instituto. De</p><p>acordo com o professor Masson (2020, p. 448), “circunstâncias incomunicáveis</p><p>são as que não se estendem, isto é, não se transmitem aos coautores e partícipes</p><p>de uma infração penal, pois se referem exclusivamente a determinado agente,</p><p>incidindo apenas em relação a ele”.</p><p>Por sua vez, elementares, segundo Veneral (2020, p. 171), referem-se aos dados</p><p>fundamentais de uma conduta</p><p>e evolução.</p><p>NOVAS DESCOBERTAS</p><p>Caro(a) aluno(a), te convido a assistir ao vídeo que está contido no</p><p>link abaixo, no qual o Professor Fernando Bolque explica de maneira</p><p>resumida e simplificada o conceito de Direito Penal, bem como extrai</p><p>suas principais características.</p><p>Podemos dizer que a história do Direito Penal se confunde com a história da pró-</p><p>pria sociedade. O Direito Penal primitivo, conforme aponta Nucci (2022, p. 70):</p><p>“ [...] é o mesmo que especular e apontar um não direito, pois</p><p>inexistiam regras precisas, nem protetoras dos direitos individuais.</p><p>Prevalecia a lei do mais forte e, quando agrupados em tribos, do</p><p>mesmo modo era a vontade do chefe supremo a ditar as sanções</p><p>e, pior, o que seria crime. Não havia segurança alguma contra</p><p>punições injustas, de modo que se estava bem distante daquilo que,</p><p>hoje, denominamos direito penal (NUCCI, 2022, p. 70).</p><p>Por conta disso, sentiu-se a necessidade de centralização das normas, o que pode</p><p>ser verificado nos direitos romano, germânico, canônico e comum.</p><p>O Direito Penal Romano conheceu a pena de Talião. Na República, em torno</p><p>de 509 a.C. houve a separação entre Direito e religião. No início, existiam os crimes</p><p>privados (conhecidos como delitos; aqui, quem punia era a própria vítima) e os crimes</p><p>públicos (conhecidos como crimes). Posteriormente a pena passou a ser pública.</p><p>UNICESUMAR</p><p>https://www.youtube.com/watch?v=1NSLfkfWhBg</p><p>UNIDADE 1</p><p>16</p><p>De acordo com Bitencourt (2022, p. 94), o direito romano revelou caracteres</p><p>públicos e sociais, uma vez que:</p><p>“ [...] os romanos conheceram o nexo causal, dolo, culpa, caso fortuito,</p><p>inimputabilidade, menoridade, concurso de pessoas, penas e sua</p><p>medição. Não procuraram defini-los, trabalhavam-nos casuistica-</p><p>mente, isoladamente, sem se preocupar com a criação, por exemplo,</p><p>de uma Teoria Geral de Direito Penal (BITENCOURT, 2022, p. 94).</p><p>Já o Direito Penal Germânico, segundo Greco (2022, p. 50), “não possuía fontes</p><p>escritas, sendo suas normas transmitidas por meio dos costumes. Os problemas pe-</p><p>nais eram resolvidos pela vingança ou pela perda da paz.” Também possuiu a pena de</p><p>Talião e a Compositio, considerava o crime como a quebra da paz, e a preocupação</p><p>maior era com o dano causado pelo crime e não com a culpa do criminoso.</p><p>O Direito Penal Canônico surge com o Cristianismo. Proclamava a igual-</p><p>dade de todos os homens. Destacou o elemento subjetivo do crime, isto é, a culpa.</p><p>Contra a vingança privada, o direito canônico criou o “direito de asilo” e as “trevas</p><p>de Deus”, bem como fez aparecer a estrutura das penitenciárias. Conforme Bi-</p><p>tencourt (2022, p. 96): “o Direito Canônico contribuiu consideravelmente para</p><p>o surgimento da prisão moderna, especialmente no que se refere às primeiras</p><p>ideias sobre a reforma do delinquente”.</p><p>O Direito Penal Comum surge na Idade Média. A maior influência do di-</p><p>reito penal comum foi o direito romano (também recebeu influências dos di-</p><p>reitos germânico e canônico) principalmente com o surgimento dos praxistas</p><p>(práticos), que foram os chamados Glosadores (1100–1250) e pós-Glosadores</p><p>(1250–1450), que comentavam os velhos textos romanos, revigorando-os. A vin-</p><p>gança persistia, sendo pública.</p><p>A preocupação do Direito Penal nesse período era a proteção dos soberanos</p><p>e seus favorecidos. Prevalecia ainda a desigualdade de classes, a desumanidade</p><p>das penas, incluindo a tortura e a pena de morte, os meios inquisitoriais, o sigilo</p><p>dos processos e a existência de leis imprecisas. Aparece aqui o lado mais sombrio</p><p>da história do direito penal.</p><p>O Período Humanitário foi marcado pela revolução das descobertas cien-</p><p>tíficas. Alastrou-se o livre-pensamento. Consagrou o Iluminismo, que teve seu</p><p>auge na França. Os pensadores iluministas defendiam uma reestruturação do</p><p>17</p><p>direito penal. O período humanitário foi um movimento de reforma que se ini-</p><p>ciou em 1764 com a obra Dos delitos e das penas, de Cesare Beccaria, mais tarde</p><p>conhecido como Marquês de Beccaria.</p><p>Beccaria inaugurou em seu tempo uma nova forma de enxergar o jus puniendi</p><p>(direito de punir) exercido pelo Estado. Ele abriu caminho para levantar vozes con-</p><p>tra as arbitrariedades cometidas pelo Estado. Afirmava e discutia a desproporção</p><p>entre a gravidade do crime e a pena aplicada e, dessa forma, foi um dos primeiros</p><p>pensadores a demonstrar preocupação com os direitos humanos. Algumas das</p><p>ideias que defendia eram o respeito ao princípio da legalidade na cominação das</p><p>penas e vedação do livre arbítrio da interpretação judicial, difusão das leis e amplo</p><p>acesso ao seu conhecimento, publicidade do processo e valor das provas, propor-</p><p>cionalidade entre o crime e sanção etc. (FONTES; HOFFMANN, 2021).</p><p>Na parte final de sua obra, Beccaria (1997, p. 102) destaca que: “para que a</p><p>pena não seja um ato de violência contra o cidadão, ela deve ser essencialmente</p><p>pública, pronta, necessária, a menor das penas aplicáveis, proporcional ao crime</p><p>e determinada pela lei.” Com isso, ele sugeriu a estruturação do direito moderno</p><p>e foi o grande nome da Escola Clássica.</p><p>A Escola Clássica tinha como influência os pensadores iluministas e ali-</p><p>cerçava-se em duas correntes: a) contratualista: baseada no contrato social de</p><p>Rousseau, que afirmava que o Estado surge com um pacto entre os homens, que</p><p>renunciam a parcela da sua liberdade em prol de direitos. Dessa forma, quando</p><p>um cidadão comete um crime, ele está ferindo esse contrato e dando margem</p><p>para a punição do Estado; b) utilitarista: que reconhecia o livre arbítrio do ho-</p><p>mem, ou seja, quando o homem comete um crime, ele opta por isso. Apesar dele</p><p>ter a opção de fazer o bem, ele escolheu o mal.</p><p>Posteriormente, em resposta à Escola Clássica de Beccaria, surge a Escola</p><p>Positiva, que se baseava nas ideias científicas e retirava a centralidade do crime,</p><p>previsto na Escola Clássica, e voltava-se para o delinquente. Os principais au-</p><p>tores dessa escola são Cesare Lombroso, Enrico Ferri e Raffaele Garofalo. Para</p><p>essa corrente, o crime é algo natural e o delinquente é um ser anormal, sem livre</p><p>arbítrio (FONTES; HOFFMANN, 2021).</p><p>Outras escolas e teorias surgiram no decorrer do tempo para explicar a cri-</p><p>minalidade, como as teorias do consenso e do conflito, mas a verdade é que hoje,</p><p>apesar de toda a transformação pela qual passou o sistema penal, o poder de</p><p>punição ainda permanece com o Estado. No entanto, o Estado não busca mais</p><p>UNICESUMAR</p><p>UNIDADE 1</p><p>18</p><p>Querido(a) aluno(a), uma questão que se destacou na história do direito penal</p><p>foi a finalidade da pena. Assim, a pena seria: um castigo? Uma punição? Uma</p><p>expiação? Uma eliminação? Uma intimidação? Uma educação? Uma correção?</p><p>Uma recuperação? Uma readaptação? Uma proteção? Uma defesa da sociedade?</p><p>Uma segregação? Um isolamento? A partir dessas perguntas, três teorias tentam</p><p>explicar a finalidade da pena. Vamos entender cada uma delas?</p><p>A primeira teoria que buscou explicar a finalidade da pena foi a Teoria Ab-</p><p>soluta ou Retributiva. Para tal teoria, a pena tinha como objetivo a retribuição</p><p>pelo mal que o agente praticou. Não possuía nenhum viés ressocializador. Em</p><p>resumo, pune-se porque o criminoso mereceu; é um castigo; é uma retribuição</p><p>pelo mau uso da liberdade.</p><p>a vingança ou a manutenção de um poder absoluto, mas as finalidades estabele-</p><p>cidas no artigo 59 do Código Penal, quais sejam a reprovação e a prevenção do</p><p>crime (FONTES; HOFFMANN, 2021).</p><p>19</p><p>A segunda teoria foi a Teoria Relativa, a qual está mais focada na utilização</p><p>da pena como prevenção do crime do que como castigo. Está relacionada ao pe-</p><p>ríodo do Iluminismo quando Beccaria defendia a pena como forma de prevenção</p><p>à prática de novos crimes.</p><p>A prevenção da Teoria Relativa pode ser dividida em: prevenção especial,</p><p>que é dirigida ao condenado e prevenção geral, que é dirigida à comunidade. A</p><p>prevenção especial e geral podem ainda ser divididas em negativa e positiva. A</p><p>prevenção especial negativa tem como objetivo a intimidação do condenado a</p><p>fim de evitar a reincidência, e a positiva tem como objetivo a sua</p><p>criminosa, compondo, portanto, a definição típica</p><p>internamente. Exemplo: no homicídio simples, as elementares são “matar” e “alguém”.</p><p>2ª) Há um evento mais grave, não querido por um dos concorrentes, e im-</p><p>previsível o resultado mais grave. Por exemplo, o sujeito “A” manda “B” dar uma</p><p>cusparada em “C em público”; “B”, ao se deparar com a pessoa de “C” acaba</p><p>matando-a; “B” será responsabilizado pelo crime de homicídio consumado, en-</p><p>quanto que “A” será responsabilizado tão só pelo crime de injúria real (artigo 140,</p><p>parágrafo 2°, do CP) sem ter sua pena aumentada.</p><p>133</p><p>UNICESUMAR</p><p>Já as condições pessoais são as qualidades e aspectos objetivos de determinado</p><p>indivíduo, que independem do acontecer típico, e independem de qualquer situação.</p><p>Após definidos os conceitos de circunstâncias, elementares e condições pes-</p><p>soais, trazidas no artigo 30 do CP, é necessário extrair as seguintes regras:</p><p>As circunstâncias/condições podem ser:</p><p>a) Objetivas (ou reais) que dizem respeito à execução ou à materialidade do</p><p>crime (por exemplo, veneno, criança, idoso). Por força de interpretação</p><p>a contrario s ensu do artigo 30 do CP, as circunstâncias/condições de</p><p>natureza objetiva se comunicam em um concurso de pessoas, desde que</p><p>do conhecimento do outro agente. Por exemplo, o sujeito “A” determina</p><p>que o sujeito “B” mate a pessoa de “C”, usando como meio de execução a</p><p>utilização de veneno; “B” realiza tal empreitada matando “C”; nesse caso,</p><p>tanto “A” como “B” responderão por homicídio qualificado pelo veneno</p><p>(artigo 121, parágrafo 2°, inciso III, do CP), pois o emprego de veneno se</p><p>comunica a todos no concurso de pessoas.</p><p>b) Subjetivas (ou pessoais), que dizem respeito às condições ou qualidades</p><p>referentes ao agente (por exemplo, motivo fútil, menoridade, inimpu-</p><p>tabilidade). Por força do artigo 30 do CP, as circunstâncias/condições</p><p>de natureza subjetiva não se comunicam em um concurso de pessoas,</p><p>independentemente do conhecimento dos agentes. Por exemplo, o sujeito</p><p>“A” determina que o sujeito “B”, menor de idade, mate a pessoa de “C”; “B”</p><p>realiza tal evento e mata “C”; nesse caso, “A” responderá por homicídio</p><p>consumado, enquanto “B”, por ser inimputável, não será responsabilizado</p><p>criminalmente pelo homicídio, pois a menoridade não se comunica a</p><p>todos no concurso de pessoas.</p><p>Por fim, o próprio artigo 30 do CP, em sua parte final, ressalva que as circunstân-</p><p>cias/condições subjetivas se comunicarão no concurso de pessoas quando forem</p><p>elementares do tipo, como, por exemplo, a condição de funcionário público. Para</p><p>os crimes praticados por funcionários públicos contra a administração pública,</p><p>comunica-se quando existir um concurso de pessoas entre um funcionário e</p><p>outro sujeito qualquer.</p><p>Caro(a) aluno(a), ainda há algumas ponderações importantes a respeito do con-</p><p>curso de pessoas que devem ser do seu conhecimento. Uma delas é a respeito do</p><p>concurso de pessoas em crimes culposos. De acordo com a doutrina majoritária,</p><p>UNIDADE 4</p><p>134</p><p>é perfeitamente possível a existência de coautoria em crimes culposos, desde que a</p><p>criação do perigo tenha sido em conjunto. No entanto, no que se refere à participação,</p><p>a doutrina entende não ser possível a participação dolosa em crime culposo.</p><p>Em relação aos crimes omissivos, existe divergência doutrinária acerca da</p><p>possibilidade ou não de coautoria. Para uma corrente, não seria possível, tendo</p><p>em vista que cada agente deve responder isoladamente pelo crime em que se omi-</p><p>tiu. Para outra corrente, seria possível desde que houvesse unidade de desígnios</p><p>para não realizar determinada conduta que deveria ser realizada. Por outro lado,</p><p>a doutrina prevalece no sentido de admitir a participação nos crimes omissivos,</p><p>quando a participação for moral. Por exemplo, quando o partícipe induz deter-</p><p>minada pessoa a se omitir quando deveria agir.</p><p>Por fim, é importante ressaltar sobre os crimes multitudinários, que são</p><p>aqueles cometidos por multidão. Há divergência doutrinária a respeito se esses</p><p>crimes são cometidos em concurso de pessoas ou não. No entanto, é certo que,</p><p>segundo o artigo 65, inciso III, alínea “e” do CP, é circunstância atenuante ser o</p><p>crime cometido sob a influência de multidão, enquanto aquele que provoca esses</p><p>crimes, possui a pena agravada, de acordo com o artigo 62, inciso I, do CP.</p><p>135</p><p>UNICESUMAR</p><p>Prezado(a) aluno(a), da mesma forma que uma infração penal pode ser cometida</p><p>por várias pessoas (concurso de pessoas), uma só pessoa pode cometer mais de</p><p>uma infração penal, e a isso damos o nome de concurso de crimes. Assim, con-</p><p>curso de crimes é um apêndice do Direito Penal que se volta para o estudo da</p><p>multiplicidade de infrações penais.</p><p>É o que ocorre, por exemplo, quando uma pessoa pratica dois ou mais crimes</p><p>ao mesmo tempo, necessitando-se saber que pena lhe será imposta. É por conta</p><p>disso que o concurso de crimes está intimamente ligado à aplicação da pena, pois</p><p>constatado que o agente criminoso tenha cometido várias infrações, é fácil con-</p><p>cluir que a ele será imposta uma pena condizente com os vários crimes praticados.</p><p>Deverá o agente, de regra, ser penalizado por todos os delitos que praticou.</p><p>Para que haja a referida penalização, fala-se em concurso de crimes, que tanto po-</p><p>derá ser um concurso material, concurso formal ou crime continuado, como</p><p>veremos a seguir. Em suma, ocorre o concurso de crimes quando o agente</p><p>por meio de uma ou mais ações ou omissões pratica dois ou mais crimes.</p><p>Segundo Masson (2020, p. 653), “concurso de crimes é o instituto que se verifica</p><p>quando o agente, mediante uma ou várias condutas, pratica duas ou mais infrações”.</p><p>A grande discussão no estudo do concurso de crimes diz respeito ao critério</p><p>de aplicação da pena, ou seja, de que forma deve ser aplicada a pena quando de</p><p>um concurso de crimes. A esse respeito, três sistemas se destacam, a saber:</p><p>a) Sistema do cúmulo material (ou real): por meio do qual, as penas dos</p><p>vários delitos devem ser somadas, isto é, se foram praticados vários crimes,</p><p>devem ser somadas todas as penas (por exemplo, se foram cometidos três</p><p>homicídios simples, tendo cada um deles a pena de seis a 20 anos, o agente</p><p>deverá receber a pena total de 18 a 60 anos). Esse sistema é aplicado nos</p><p>casos de concurso material, concurso formal impróprio e às penas de multa.</p><p>b) Sistema da exasperação da pena: por meio do qual, deve ser aplicada</p><p>a pena do crime mais grave, todavia, aumentada de um quantum (por</p><p>exemplo, imagine o cometimento de um crime de furto com uma pena</p><p>de um a quatro anos em concurso com um crime de estupro com uma</p><p>pena de seis a dez anos; nesse caso, só será aplicada a pena do crime mais</p><p>grave, que é o estupro, porém essa pena será aumentada de um quantum</p><p>que o próprio legislador estabelece). Esse sistema se aplica ao concurso</p><p>formal próprio e crimes continuados.</p><p>UNIDADE 4</p><p>136</p><p>c) Sistema de absorção: neste caso, aplica-se a pena da infração mais grave</p><p>cometida, absorvendo as penas das infrações menos graves. Esse sistema</p><p>não é utilizado pelo Código Penal Brasileiro.</p><p>Após introduzir o assunto e explicar o sistema de penas, passo agora a falar sobre</p><p>cada modalidade do concurso de crimes, começando pelo concurso material.</p><p>Primeiramente, cabe destacar que o concurso material (ou concurso real) está</p><p>regulamentado no artigo 69 do CP:</p><p>“ Art. 69 - Quando o agente, mediante mais de uma ação ou omissão,</p><p>pratica dois ou mais crimes, idênticos ou não, aplicam-se cumulati-</p><p>vamente as penas privativas de liberdade em que haja incorrido. No</p><p>caso de aplicação cumulativa de penas de reclusão e de detenção,</p><p>executa-se primeiro aquela.</p><p>§ 1º - Na hipótese deste artigo, quando ao agente tiver sido aplicada</p><p>pena privativa de liberdade, não suspensa, por um dos crimes, para os</p><p>demais será incabível a substituição de que trata o art. 44 deste Código.</p><p>§ 2º - Quando forem aplicadas penas restritivas de direitos, o</p><p>condenado cumprirá simultaneamente as que forem compatíveis</p><p>entre si e sucessivamente as demais (BRASIL, 1940).</p><p>Ocorre o concurso</p><p>material quando o agente, mediante mais de uma ação ou</p><p>omissão, pratica dois ou mais crimes, idênticos ou não (por exemplo, o sujeito “A”,</p><p>utilizando-se de uma faca, alveja primeiramente a pessoa de “B”, e depois alveja</p><p>a pessoa de “C”, matando-as). Repare que no exemplo citado, o agente cometeu</p><p>duas condutas de homicídio. Nesse caso, as penas devem ser somadas, ou seja, o</p><p>agente deverá responder duas vezes pelo crime de homicídio, em razão do sistema</p><p>do cúmulo material adotado pelo concurso material.</p><p>Ressalta-se que os termos ação ou omissão, devem ser enfocados no sentido</p><p>de conduta (fato). Assim, se uma pessoa subtrai do supermercado cinco pacotes</p><p>de bolachas, cometeu cinco atos, mas uma só conduta de furto. Praticou, portanto,</p><p>um só crime de furto. Na verdade, para que ocorra o concurso material, existe</p><p>a necessidade de que haja duas ou mais condutas (fatos), gerando dois ou mais</p><p>crimes e atingindo mais de um bem jurídico tutelado.</p><p>Ainda, o concurso material poderá ser:</p><p>137</p><p>UNICESUMAR</p><p>a) Concurso material homogêneo: quando os delitos praticados são</p><p>iguais (por exemplo, crime de furto em concurso com crime de furto;</p><p>crime de homicídio em concurso com crime de homicídio).</p><p>b) Concurso material heterogêneo: quando os delitos praticados são diversos</p><p>(por exemplo, o agente estupra a vítima e depois furta os seus pertences).</p><p>Ademais, de acordo com o artigo 69 do CP, segunda parte, caso a pena de um</p><p>crime seja a pena de reclusão e a pena do segundo crime seja detenção, executa-se</p><p>primeiro a de reclusão. Ainda, se um dos crimes gerar pena privativa de liberdade</p><p>e não puder ser substituída por pena restritiva de direitos, para os demais crimes</p><p>também não poderá ocorrer a substituição por penas restritivas de direitos, con-</p><p>forme dispõe o artigo 69, parágrafo 1º, do CP.</p><p>Se forem aplicadas apenas penas restritivas de direitos aos crimes realizados</p><p>em concurso material, o condenado cumprirá simultaneamente as que forem</p><p>compatíveis e sucessivamente as demais (artigo 69, parágrafo 2°, do CP).</p><p>Por sua vez, o concurso formal está regulamentado no artigo 70 do CP:</p><p>“ Art. 70 - Quando o agente, mediante uma só ação ou omissão, prati-</p><p>ca dois ou mais crimes, idênticos ou não, aplica-se-lhe a mais grave</p><p>das penas cabíveis ou, se iguais, somente uma delas, mas aumentada,</p><p>em qualquer caso, de um sexto até metade. As penas aplicam-se,</p><p>entretanto, cumulativamente, se a ação ou omissão é dolosa e os</p><p>crimes concorrentes resultam de desígnios autônomos, consoante</p><p>o disposto no artigo anterior.</p><p>Parágrafo único - Não poderá a pena exceder a que seria cabível</p><p>pela regra do artigo 69 deste Código (BRASIL, 1940).</p><p>No concurso formal, o legislador adotou o sistema da exasperação da pena, no</p><p>qual, aplica-se a pena do crime mais grave, porém aumentada por quantum (um</p><p>sexto até metade) estabelecido na própria legislação. Trata-se do denominado</p><p>concurso formal próprio ou perfeito.</p><p>O concurso formal poderá ser:</p><p>a) Concurso formal homogêneo: quando os delitos praticados são iguais</p><p>(por exemplo, o sujeito, imprudentemente dirigindo seu veículo automo-</p><p>tor, atropela dois pedestres, matando-os).</p><p>UNIDADE 4</p><p>138</p><p>b) Concurso formal heterogêneo: quando os delitos praticados são di-</p><p>versos (por exemplo, o sujeito, imprudentemente dirigindo seu veículo</p><p>automotor, atropela dois pedestres, matando um e lesionando o outro).</p><p>Ocorre o concurso formal quando o agente, mediante uma só ação ou omissão,</p><p>pratica dois ou mais crimes, idênticos ou não (por exemplo, o sujeito “A”, dirigindo</p><p>imprudentemente seu veículo automotor, atropela e mata as pessoas de “B” e “C”,</p><p>que estavam atravessando a faixa de pedestres). Repare que no exemplo citado, o</p><p>agente realizou uma só conduta (um fato de dirigir imprudentemente), todavia</p><p>cometeu dois crimes de homicídio culposo (concurso formal homogêneo) na</p><p>direção de veículo automotor.</p><p>Portanto, no concurso formal, será aplicada somente uma das penas (se cri-</p><p>mes iguais, somente uma delas; se crimes diferentes, a pena mais grave), porém</p><p>aumentadas de um sexto até metade, conforme disposto no artigo 70 do CP.</p><p>Por sua vez, ocorre concurso formal heterogêneo (crimes diversos) quan-</p><p>do, por exemplo, o sujeito “A”, dirigindo seu veículo automotor, em excesso de</p><p>velocidade, atropela as pessoas de “B” e “C”, sendo que “B” apenas sofre escoria-</p><p>ções, enquanto “C” vem a óbito. Nesse caso, o sujeito “A” cometeu um crime de</p><p>lesão corporal culposa na direção de veículo automotor (artigo 303 do Código</p><p>de Trânsito Brasileiro – pena de seis meses a dois anos) em concurso formal com</p><p>o crime de homicídio culposo na direção de veículo automotor (artigo 302 do</p><p>CTB – pena de dois a quatro anos). Sendo assim, o sujeito “A” receberá a punição</p><p>de dois a quatro anos (que é a pena do crime mais grave) aumentada de um sexto</p><p>à metade; “A” terá, portanto, pena mínima de dois anos e quatro meses (dois anos</p><p>+ 1/6) e uma pena máxima de seis anos (quatro anos + 1/2).</p><p>O artigo 70, parágrafo único do CP, retrata o denominado concurso material</p><p>benéfico, no qual o agente, mesmo cometendo crimes em concurso formal, será</p><p>beneficiado pela regra de contagem da pena constante do concurso material. Em</p><p>outras palavras, caso o agente cometa dois crimes por meio de uma só conduta</p><p>– em concurso formal – e ao ser realizada a contagem das penas pelo sistema da</p><p>exasperação, percebe-se que ela ficou maior do que ficaria se tivesse aplicado o</p><p>sistema do cúmulo material, o artigo 70 permite que de maneira excepcional seja</p><p>aplicado ao concurso formal o sistema do cúmulo material.</p><p>O concurso formal ainda pode ser próprio ou perfeito e impróprio ou im-</p><p>perfeito. Passemos a analisar:</p><p>139</p><p>UNICESUMAR</p><p>a) Concurso formal próprio/perfeito: aqui, o agente por meio de uma só</p><p>conduta produz dois ou mais crimes, sem a intenção de cometer cada um</p><p>deles de maneira individual. Esse propósito de produzir por meio de uma</p><p>única conduta mais de um crime é chamado de desígnio autônomo. No</p><p>concurso formal próprio, é aplicado o sistema da exasperação.</p><p>b) Concurso formal impróprio/imperfeito: aqui, o agente por meio de</p><p>uma só conduta produz dois ou mais crimes, com a intenção de cometer</p><p>cada um deles, ou seja, ele age com desígnios autônomos. Por exemplo:</p><p>o agente queria atropelar e matar todos e, para tanto, utilizou-se da única</p><p>conduta de jogar seu veículo para cima de todos. Nesse caso, é aplicado</p><p>o sistema do cúmulo material.</p><p>Conforme adverte Lyra (1958, p. 437), “há desígnios autônomos na hipótese de</p><p>múltipla ideação e determinação da vontade, com diversas individualizações.</p><p>Assim, os vários eventos não são um só perante a consciência e a vontade, embora</p><p>o sejam externamente”.</p><p>Por fim, temos a figura do crime continuado. Segundo Veneral (2020, p. 234):</p><p>“ A continuidade delitiva ocorre quando o agente, por meio de duas</p><p>ou mais condutas, comete dois ou mais crimes da mesma espécie e,</p><p>pelas condições de tempo, lugar, modo de execução e outras seme-</p><p>lhantes, devem os subsequentes serem havidos como continuação</p><p>do primeiro. Com relação à aplicação da pena, utiliza-se o sistema</p><p>da exasperação (VENERAL, 2020, p. 234).</p><p>Para Pimentel (1969, p. 82), “o crime continuado é uma realidade jurídica, mas a uni-</p><p>dade do crime é uma ficção, porque, na verdade, vários são os crimes que a compõem”.</p><p>O crime continuado nada mais é do que ficção criada em razão da política</p><p>criminal, para evitar que penas demasiadamente grandes fossem aplicadas. No</p><p>crime continuado, o agente realiza vários crimes em condições de tempo, modo</p><p>e lugar semelhantes, e, por razões de política criminal citada acima, o legislador</p><p>resolveu considerar praticado apenas um crime, ou seja, existem vários crimes</p><p>praticados, mas é considerado um só para fins de aplicação da pena. O crime</p><p>continuado está previsto no artigo 71 do CP, vejamos:</p><p>UNIDADE 4</p><p>140</p><p>“ Art. 71 - Quando o agente, mediante mais de uma ação ou omissão,</p><p>pratica dois ou mais crimes da mesma espécie e, pelas condições de</p><p>tempo, lugar, maneira de execução</p><p>e outras semelhantes, devem os</p><p>subsequentes ser havidos como continuação do primeiro, aplica-</p><p>-se-lhe a pena de um só dos crimes, se idênticas, ou a mais grave, se</p><p>diversas, aumentada, em qualquer caso, de um sexto a dois terços.</p><p>Parágrafo único - Nos crimes dolosos, contra vítimas diferentes,</p><p>cometidos com violência ou grave ameaça à pessoa, poderá o juiz,</p><p>considerando a culpabilidade, os antecedentes, a conduta social e a</p><p>personalidade do agente, bem como os motivos e as circunstâncias,</p><p>aumentar a pena de um só dos crimes, se idênticas, ou a mais grave,</p><p>se diversas, até o triplo, observadas as regras do parágrafo único do</p><p>artigo 70 e do artigo 75 deste Código (BRASIL, 1940).</p><p>Conforme o disposto no artigo 71, caput, do CP, o agente terá a pena de um só</p><p>dos crimes, se idênticas, ou a mais grave, se diversas, aumentada, em qualquer</p><p>caso, de um sexto a dois terços. A jurisprudência entende que caso não saiba com</p><p>exatidão quantos crimes foram praticados, é possível que o aumento da pena</p><p>ocorra em seu patamar máximo, ou seja, dois terços.</p><p>A sistemática para o aumento de pena nos casos dos crimes continuados</p><p>ocorre da seguinte maneira:</p><p>Número de crimes Aumento de penas</p><p>1</p><p>2 1/6</p><p>3 1/5</p><p>4 1/4</p><p>5 1/3</p><p>6 1/2</p><p>7 2/3</p><p>141</p><p>UNICESUMAR</p><p>Ainda, para que exista o crime continuado, é importante observar os seguintes</p><p>requisitos objetivos:</p><p>a) Pluralidade de condutas;</p><p>b) Pluralidade de crimes;</p><p>c) Que os crimes cometidos sejam da mesma espécie (mesmo tipo penal, tentados ou</p><p>consumados, simples ou qualificados, e atinjam o mesmo bem jurídico);</p><p>d) Que os crimes tenham sido cometidos pela mesma condição de tempo,</p><p>lugar, maneira de execução e outras semelhantes.</p><p>Quanto aos requisitos subjetivos:</p><p>a) Teoria objetiva-subjetiva: não basta a presença dos requisitos objetivos</p><p>previstos no caput do artigo 71, é necessário também que o agente tenha</p><p>se planejado em executar todos os crimes, ou seja, tenha agido com de-</p><p>sígnio autônomo em cada um deles.</p><p>b) Teoria objetiva pura ou puramente objetiva: apenas é necessário que</p><p>o agente tenha apresentado os requisitos objetivos contidos no caput do</p><p>artigo 71, não se fazendo necessária a presença da unidade de desígnios.</p><p>Querido(a) aluno(a), enquanto o caput do artigo 71 do CP, o qual vimos até agora,</p><p>traz a modalidade de continuidade delitiva comum (crimes com penas idênticas)</p><p>e qualificado (crimes com penas diversas), o seu parágrafo único traz a modalida-</p><p>de, conforme a doutrina denomina, de continuidade delitiva específica.</p><p>O aumento decorrente do concurso formal deve se dar de acordo com o número de in-</p><p>frações. Houve um aprimoramento desta tese, com a especificação do cálculo: [...] 5. A</p><p>exasperação da pena do crime de maior pena, realizado em continuidade delitiva, será</p><p>determinada, basicamente, pelo número de infrações penais cometidas, parâmetro este</p><p>que especificará no caso concreto a fração de aumento, dentro do intervalo legal de 1/6</p><p>a 2/3. Nesse diapasão, esta Corte Superior de Justiça possui o entendimento consolidado</p><p>de que, em se tratando de aumento de pena referente à continuidade delitiva, aplica-se</p><p>a fração de aumento de 1/6 pela prática de 2 infrações; 1/5, para 3 infrações; 1/4 para 4</p><p>infrações; 1/3 para 5 infrações; 1/2 para 6 infrações e 2/3 para 7 ou mais infrações [...].</p><p>Fonte: BRASIL. Superior Tribunal de Justiça (5. Turma). HC 543.725/PB. Relator: Ministro</p><p>Ribeiro Dantas. HC, 11 fev. 2020. DJe - Diário de Justiça Eletrônico, 14 fev. 2020.</p><p>EXPLORANDO IDEIAS</p><p>UNIDADE 4</p><p>142</p><p>A continuidade delitiva específica ocorre quando o agente comete crimes</p><p>apresentando todos os requisitos objetivos e subjetivos expostos acima, além</p><p>do fato de serem contra vítimas diferentes, cometidos com violência ou grave</p><p>ameaça. Assim, no caso de continuidade delitiva específica, poderá o juiz, consi-</p><p>derando a culpabilidade, os antecedentes, a conduta social e a personalidade do</p><p>agente, bem como os motivos e as circunstâncias, aumentar a pena de um só dos</p><p>crimes, se idênticas, ou a mais grave, se diversas, até o triplo.</p><p>Nem sempre será fácil trazer para os autos o número exato de crimes que foram prati-</p><p>cados, especialmente quando se trata de delitos sexuais. É o caso, por exemplo, de um</p><p>padrasto que mora há meses ou anos com a sua enteada e contra ela pratica constan-</p><p>temente estupro de vulnerável. Nessas hipóteses, mesmo não havendo a informação do</p><p>número exato de crimes que foram cometidos, o juiz poderá aumentar a pena acima de</p><p>1/6 e, dependendo do período de tempo, até chegar ao patamar máximo.</p><p>Assim, constatando-se a ocorrência de diversos crimes sexuais durante longo período de</p><p>tempo, é possível o aumento da pena pela continuidade delitiva no patamar máximo de</p><p>2/3 (art. 71 do CP), ainda que sem a quantificação exata do número de eventos criminosos.</p><p>BRASIL. Superior Tribunal de Justiça (5. Turma). HC 311.146/SP. Relator: Ministro Newton</p><p>Trisotto (desembargador convocado do TJ/SC). HC, 17 mar. 2015. DJe - Diário de Justiça</p><p>Eletrônico, 31 mar. 2015.</p><p>EXPLORANDO IDEIAS</p><p>Para finalizar, no que se refere às penas de multas no concurso de crimes, de</p><p>acordo com o artigo 72 do CP, são aplicadas distinta e integralmente, ou seja, a</p><p>pena de multa é aplicada independentemente do tipo de concurso de crimes pelo</p><p>sistema do cúmulo material.</p><p>Querido(a) aluno(a), antes de avançar na sua leitura, convi-</p><p>do-lhe a escutar o podcast da unidade, no qual eu explico,</p><p>de maneira resumida, os assuntos abordados até aqui. Nele,</p><p>você irá encontrar os requisitos necessários para a classifi-</p><p>cação do concurso de pessoas, as diferenças entre autor e</p><p>partícipe de acordo com cada teoria adotada, o conceito de</p><p>autoria incerta, colateral, entre outros assuntos. Espero que</p><p>lhe ajude ainda mais na compreensão do conteúdo!</p><p>https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/17804</p><p>143</p><p>UNICESUMAR</p><p>Prezado(a) aluno(a), assim, entendemos o conceito de concurso de crimes e</p><p>suas modalidades – material, formal e continuidade delitiva -, bem como a</p><p>diferença entre cada um e como acontece a aplicação das penas. Aprendemos</p><p>também sobre o concurso de pessoas e suas teorias. Analisamos que o Código</p><p>Penal Brasileiro adota a teoria unitária, ou seja, quando determinado crime</p><p>é praticado por duas ou mais pessoas, todas respondem pelo mesmo crime</p><p>de acordo com a sua culpabilidade.</p><p>Restou explicado as diferenças dos tipos de autorias, entre elas: a autoria</p><p>incerta e a mediata, bem como os tipos de participação, como a participação</p><p>moral e a material. Ainda, entendemos as teorias que cercam o conceito desses</p><p>institutos, como, por exemplo, a teoria do domínio do fato, que afirma que</p><p>autor do crime é todo aquele agente que possui o domínio do fato crimino-</p><p>so, qual seja, o poder de decidir a respeito da continuação ou paralisação do</p><p>crime, enquanto partícipe, segundo a mesma teoria, é aquele que não possui</p><p>o domínio do fato criminoso.</p><p>Também trouxemos o conceito da cooperação dolosamente distinta, que</p><p>é quando dois ou mais agentes combinam de realizar determinado tipo penal,</p><p>e durante a sua realização, um dos agentes pratica tipo diverso, que não estava</p><p>ajustado com os demais, como é o caso da problematização trazida no início</p><p>da nossa conversa.</p><p>Voltando ao início da nossa conversa, e considerando o conhecimento</p><p>adquirido aqui, você responderia aos questionamentos realizados no início</p><p>da unidade da mesma forma? Você havia considerado que trata-se de um</p><p>conceito de cooperação dolosamente distinta?</p><p>Ainda que João não tenha apertado o gatilho da arma e disparado contra</p><p>a vítima, de acordo com o posicionamento do Supremo Tribunal Federal,</p><p>estando ciente do porte de arma de Pedro, restou demonstrado o seu pleno</p><p>conhecimento da empreitada delitiva, de modo a impor-lhe a assunção do</p><p>risco de que as vítimas poderiam ser atingidas e levadas a óbito.</p><p>Em outras palavras, em regra, o coautor que participa de roubo armado</p><p>responde pelo latrocínio ainda que o disparo tenha sido efetuado só pelo</p><p>comparsa. Essa é a jurisprudência do STJ e do STF. Esse</p><p>seria o desfecho caso</p><p>o caso estivesse sob sua responsabilidade.</p><p>144</p><p>1. Senhor do fato é aquele que realiza em forma final, em razão da sua decisão volitiva.</p><p>A conformação do fato mediante a vontade de realização que dirige em forma pla-</p><p>nificada é o que transforma o autor em senhor do fato.</p><p>WELZEL. H. Derecho penal alemán. Tradução de Juan Bustos Ramirez e Sergio</p><p>Yanes Perez. Santiago: Editorial Jurídica del Chile, 1987.</p><p>De acordo com o aprendido, explique, em no mínimo 15 linhas, a diferença entre</p><p>autor e partícipe de crime segundo a teoria do domínio do fato.</p><p>2. O concurso de crimes ocorre quando determinado agente, por meio de uma ou mais</p><p>condutas (ações ou omissões), pratica dois ou mais delitos, sejam eles idênticos ou</p><p>não, para que de acordo com as algumas características específicas se defina a forma</p><p>de aplicação da pena para ele.</p><p>RODRIGUES, C. Manual do direito penal. 2. ed. Indaiatuba: Foco, 2021.</p><p>Considerando o estudo sobre o concurso de crimes, defina concurso material e</p><p>formal de crimes, explicando as suas diferenças.</p><p>3. Imagine a seguinte situação: João ao entrar dentro de um ônibus, apresenta uma</p><p>arma de fogo ao motorista e passageiros, iniciando um assalto. Nessa oportunida-</p><p>de, ele subtraí de cinco pessoas alguns pertences, como joias, dinheiro, relógios e</p><p>celulares. Após terminar de subtrair todos os objetos que queria, foi embora sem</p><p>deixar nenhum ferido.</p><p>A autora.</p><p>Considerando o aprendido acerca de concurso de crimes, podemos afirmar que a</p><p>conduta de João se adequa perfeitamente à:</p><p>a) roubo majorado em concurso formal próprio.</p><p>b) roubo majorado em concurso formal impróprio.</p><p>c) roubo majorado em continuidade delitiva.</p><p>d) furto qualificado em concurso formal próprio.</p><p>e) furto qualificado em concurso formal impróprio.</p><p>5Extinção da</p><p>Punibilidade</p><p>Me. Marllon Beraldo</p><p>Esp. Beatriz Gasparin Moreira</p><p>Nesta unidade, você terá a oportunidade de aprender a respeito da pu-</p><p>nibilidade dos crimes e as suas causas extintivas. Também, compreen-</p><p>derá a prescritibilidade de uma infração penal, seu conceito, espécies,</p><p>lapso temporal e os momentos em que ocorrem. Por fim, verá que nem</p><p>todo crime é prescritível, tendo em vista que a Constituição Federal traz</p><p>hipóteses de crimes em que o instituto da prescrição não é admitido.</p><p>UNIDADE 5</p><p>148</p><p>Caro(a) aluno(a), imagine que determinado sujeito, de nome Pedro, pratique o</p><p>crime de furto, o qual possui a pena prevista de um a quatro anos de reclusão</p><p>(artigo 155 do Código Penal). Ocorre que, durante a persecução penal, Pedro</p><p>vem a falecer. Diante disso, indaga-se: os descendentes de Pedro devem responder</p><p>criminalmente pelo crime em seu lugar, tendo em vista que são seus sucessores?</p><p>Agora, imagine outra situação, considerando o caso citado acima. Imagine</p><p>que Pedro, não venha a falecer, no entanto, após o cometimento do crime pas-</p><p>sam-se mais de oito anos sem a prolação de nenhuma sentença. Nesse caso, ainda</p><p>seria possível o Estado punir Pedro? Deve ser levado em consideração o fator</p><p>tempo para a concretização da punição pelo Estado?</p><p>A infração, enquanto não praticada por nenhum agente, permanece no plano</p><p>abstrato da norma, no entanto, quando o agente pratica determinada conduta</p><p>elencada como criminosa, ela passa do seu plano abstrato para aplicação no caso</p><p>concreto. Surge, então, para o Estado, a possibilidade de punir o agente.</p><p>A punibilidade estatal, no entanto, não é eterna. Ela é delimitada no tempo</p><p>para impedir que o sujeito infrator seja perseguido criminalmente por tempo</p><p>indeterminado pelo Estado, bem como para garantir que o Estado se movimente</p><p>de maneira célere, em prol da sociedade, tendo em vista que, com o decurso do</p><p>tempo, a pena perde sua finalidade retributiva, preventiva e ressocializadora.</p><p>Pensando nisso, proponho que, antes de continuar seus estu-</p><p>dos, você realize a leitura do julgado abaixo, proferido pelo Tri-</p><p>bunal de Justiça do Rio Grande do Sul, que traz um dos assuntos</p><p>a ser abordado nesta unidade: a prescrição. Como veremos, a</p><p>prescrição é uma das causas extintivas da punibilidade. A pres-</p><p>crição ainda possui diversas modalidades, sendo uma delas a prescrição retroativa.</p><p>No julgado, que pode ser acessado no QR code, você encontrará um caso que</p><p>envolve a extinção da punibilidade em razão da prescrição retroativa. Boa leitura!</p><p>Querido(a) aluno(a), após a leitura o julgado, você deve ter percebido que é</p><p>de suma importância a aplicação da extinção da punibilidade, uma vez que ela</p><p>garante que o Estado aja para punir o agente infrator em um prazo razoável. Caso</p><p>não existisse um marco temporal para aplicação da punibilidade, algumas situa-</p><p>ções poderiam ocorrer, como, por exemplo, a depender da gravidade do delito, o</p><p>seu esquecimento pela sociedade, deixando de existir o temor causado pela sua</p><p>prática e, por consequência, não mais existindo motivo para a punição. Ademais,</p><p>poderia surgir para o indivíduo infrator a aflição de que em qualquer momento</p><p>https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/18565</p><p>149</p><p>de sua vida, ainda que decorridos muitos anos da prática do delito, pudesse ser</p><p>descoberto, processado e punido. Podemos concluir também que quanto maior o</p><p>período de tempo entre a prática criminosa e o julgamento, torna-se mais difícil</p><p>a colheita de provas, tendo em vista que elas se perdem no tempo. Por fim, é fato</p><p>que com o decurso do tempo, a grande parte das pessoas mudam seu jeito de agir</p><p>e de pensar, portanto, pode ser que a depender de quando a pena fosse aplicada,</p><p>perderia o propósito de sua aplicação. A partir de toda essa reflexão, escreva no</p><p>diário de bordo abaixo a sua impressão inicial acerca da extinção da punibilidade</p><p>e seus aspectos positivos e negativos.</p><p>UNICESUMAR</p><p>UNIDADE 5</p><p>150</p><p>Ocorrido um fato criminoso, surge para o Estado o direito de punir (jus pu-</p><p>niendi) o agente que praticou o fato. O Estado deverá valer-se dos meios ofi-</p><p>ciais para impor, de maneira eficaz, a reprimenda ao criminoso. Todavia, há</p><p>situações em que mesmo existindo o direito de punir por parte do Estado, ele</p><p>não poderá aplicá-lo por situações que excluam o ius puniendi, ainda que já</p><p>tenha havido condenação definitiva.</p><p>Referidas situações são as denominadas causas extintivas da punibilidade,</p><p>que dependendo de sua espécie, serão impostas pelos mais variados motivos,</p><p>como, por exemplo, clemência, por morte, por revogação, por perdão, por decurso</p><p>do tempo e inércia, dentre outros. Com isso, fica evidente que, mesmo existindo</p><p>a ocorrência do fato criminoso, mesmo o crime tendo sido consumado e o su-</p><p>jeito esteja definitivamente condenado, poderão surgir situações que impeçam</p><p>o Estado de dar uma efetiva punição para o agente criminoso.</p><p>Por outro lado, como se verá, em certas ocasiões, ainda que o agente não seja</p><p>punido, poderão persistir algumas obrigações por parte dele, seja em relação ao</p><p>próprio Estado, seja em relação à vítima do delito, fazendo com que persistam</p><p>alguns resquícios da infração cometida.</p><p>Sendo assim, é importante que você saiba como a doutrina conceitua as causas</p><p>extintivas de punibilidade. Conforme acentua Nucci (2022, p. 868), causa extinti-</p><p>va da punibilidade “é o desaparecimento da pretensão punitiva ou executória do</p><p>Estado, em razão de específicos obstáculos previstos em lei, por razões de política</p><p>criminal”. Já para Greco (2022, p. 748), “quando nos referimos a causas de extinção</p><p>da punibilidade estamos diante de dados que não interferem na infração penal</p><p>em si, mas, sim, que a existência desses dados pode impedir que o Estado, mesmo</p><p>existindo a infração penal, seja impedido de exercitar o seu direito de punir”.</p><p>Em princípio, todo crime deve ensejar uma punibilidade, isto é, toda conduta</p><p>efetivamente criminosa contém em si a sua punibilidade, autorizando o Estado a</p><p>exercer seu jus puniendi; porém, outras situações poderão retirar do Estado esse</p><p>direito de punir, fazendo com que o agente criminoso não receba uma punição</p><p>concreta. A essa retirada do jus puniendi costuma-se denominar de extinção da</p><p>punibilidade. Nas palavras</p><p>de Tourinho (2012, p. 626): “contingências ou motivos</p><p>de conveniência ou oportunidade fazem desaparecer os próprios fundamentos</p><p>da punibilidade, tornando, assim, impossível a concretização do jus puniendi”.</p><p>151</p><p>Caro(a) aluno(a), existe uma diferença entre causas positivas de punibilidade</p><p>e causas negativas de punibilidade. As causas positivas de punibilidade, uma</p><p>vez presentes, autorizam o exercício do jus puniendi estatal, como ocorre com</p><p>as chamadas condições objetivas de punibilidade, que são elementos exteriores</p><p>ao tipo penal e ficam na dependência de acontecimentos futuros e incertos. Um</p><p>exemplo de causa objetiva de punibilidade seria a responsabilização de um agente</p><p>pelo cometimento de crime falimentar. Nesse caso, deverá ser prolatada uma</p><p>sentença que decrete a falência para que somente assim ele possa ser punido, ou</p><p>seja, a sentença que decreta a falência é a condição objetiva de punibilidade, de</p><p>forma que sem ela não há que se falar em punibilidade.</p><p>As causas negativas de punibilidade, por sua vez, desautorizam o exercício</p><p>do jus puniendi estatal, como ocorre com as chamadas escusas absolutórias, que</p><p>são condições especiais que impedem a imposição de uma pena para o agente</p><p>criminoso. Um exemplo de escusas absolutórias seria o crime de furto praticado</p><p>pelo filho em face de seu pai (artigo 181, inciso II, do CP), uma vez que presente</p><p>tal condição anula a punição do agente.</p><p>Ainda, conforme o artigo 108 do CP, a extinção da punibilidade dar-se-á de</p><p>forma independente nos crimes acessórios, complexos e conexos. A extinção da</p><p>punibilidade está regulamentada nos artigos 107 a 120 do CP.</p><p>UNICESUMAR</p><p>UNIDADE 5</p><p>152</p><p>Prezado(a) aluno(a), as causas extintivas da punibilidade poderão ocorrer antes ou</p><p>depois da sentença penal, restando daí a importância de saber seus efeitos. Veremos,</p><p>a partir de agora, as causas extintivas da punibilidade constante no artigo 107 do CP,</p><p>que elenca as causas extintivas da punibilidade. É importante ressaltar que referido</p><p>artigo possui um rol meramente exemplificativo, ou seja, outras causas poderão ser</p><p>consideradas extintivas da punibilidade ainda que não previstas nesse artigo como,</p><p>por exemplo, a morte da vítima no crime do artigo 236 do CP; o término do período</p><p>de provas sem revogação quando da suspensão condicional do processo a teor do</p><p>artigo 89, parágrafo 5°, da lei 9.099/1995; a aquisição superveniente de renda, que</p><p>assegure ao condenado meios básicos de subsistência na contravenção penal de vadia-</p><p>gem, a teor do parágrafo único do artigo 59 do decreto-lei 3.688/1941; dentre outras.</p><p>A primeira causa de extinção de punibilidade, prevista no artigo 107, inciso</p><p>I, do CP, é a morte do agente. A morte do agente criminoso faz extinguir sua</p><p>punibilidade. Conjuga-se com o referido artigo a regra constitucional de que ne-</p><p>nhuma pena passará da pessoa do condenado (artigo 5°, XLV, da CF). Todavia, a</p><p>obrigação de reparar o dano é transmissível aos herdeiros até as forças da herança.</p><p>Aqui, a extinção da punibilidade poderá ocorrer antes ou depois da condenação</p><p>definitiva. Ademais, a extinção da punibilidade pela morte do agente não se co-</p><p>munica em um eventual concurso de pessoas, bem como, conforme o artigo 62</p><p>do Código de Processo Penal, a extinção da punibilidade só poderá ser decretada</p><p>pelo juiz à vista da certidão de óbito, depois de ouvido o Ministério Público.</p><p>Querido (a) aluno (a), em tempos passados, a utilização de uma certidão de</p><p>óbito falsa, para que o magistrado declarasse a extinção da punibilidade pela</p><p>morte do agente, era vista pela doutrina como coisa julgada, não podendo mais</p><p>se voltar atrás face inexistir revisão criminal pro societate. O agente só responde-</p><p>ria pelo crime de falsidade documental e não mais pelo crime que estava sendo</p><p>processado anteriormente. Porém, conforme o moderno entendimento do Su-</p><p>premo Tribunal Federal, exarado em algumas decisões de habeas corpus, a ação</p><p>penal poderá ser retomada mesmo após o seu trânsito em julgado, inexistindo</p><p>ofensa à coisa julgada e muito menos revisão criminal pro societate. Assim, para o</p><p>Supremo Tribunal Federal, descoberta uma certidão de óbito falsa para se extin-</p><p>guir a punibilidade pela morte do agente, revoga-se a decisão que a reconheceu,</p><p>retomando o processo no curso em que parou.</p><p>153</p><p>O inciso II, do artigo 107 do CP, apresenta a anistia, graça e indulto como</p><p>causas extintivas da punibilidade, também denominadas de clemências sobera-</p><p>nas, uma vez que o Estado renuncia ao seu jus puniendi. Essas modalidades de</p><p>extinção da punibilidade alcançam tanto crimes de ação penal pública, como de</p><p>ação penal privada, pois sempre o jus puniendi será estatal.</p><p>A Constituição Federal, em seu artigo 5°, inciso XLIII, veda a concessão das</p><p>clemências soberanas aos crimes de tortura, terrorismo, tráfico de drogas e aos</p><p>definidos em lei como crimes hediondos. As clemências soberanas são:</p><p>1. A anistia consiste, como explica Bitencourt (2022, p. 980), no “esqueci-</p><p>mento jurídico do ilícito e tem por objeto fatos (não pessoas) definidos</p><p>como crimes, de regra, políticos, militares ou eleitorais, excluindo-se,</p><p>normalmente, os crimes comuns”. A anistia só se aplica a fatos pretéritos.</p><p>Como adverte Estefam e Gonçalves (2012, p. 682), “a anistia se diferencia</p><p>da abolitio criminis. Nesta, a norma penal incriminadora deixa de existir,</p><p>enquanto, naquela, são fulminados apenas fatos criminosos anteriores,</p><p>continuando a existir o tipo penal”.</p><p>UNICESUMAR</p><p>UNIDADE 5</p><p>154</p><p>Conforme o artigo 48, inciso VIII, da CF, a anistia deve ser concedida por lei apro-</p><p>vada no Congresso Nacional e sancionada pelo Presidente da República. A anistia,</p><p>ainda, extingue todos os efeitos penais da condenação (pena, reincidência, antece-</p><p>dentes etc.), existindo, todavia, os efeitos extrapenais (por exemplo: a indenização).</p><p>2. A graça (ou indulto individual) é a clemência concedida especificamen-</p><p>te a certa pessoa condenada irrecorrivelmente e tem por objeto crimes</p><p>comuns. A graça é concedida por decreto firmado pelo Presidente da Re-</p><p>pública, desde que requerida pela parte interessada. A graça tanto poderá</p><p>ser total (extinguir toda a punibilidade), como parcial (extinguir parte da</p><p>punibilidade, diminuindo a pena recebida). A graça não faz desaparecer</p><p>os efeitos penais e extrapenais da condenação.</p><p>3. O indulto (ou indulto coletivo) é a clemência concedida coletivamente a</p><p>um certo número de pessoas já condenadas irrecorrivelmente, e, também,</p><p>tendo por objeto crimes comuns. O indulto é concedido espontaneamente</p><p>por decreto firmado pelo Presidente da República, ou por sua delegação.</p><p>Assim como a graça, o indulto tanto poderá ser total, como parcial, bem</p><p>como não faz desaparecer os efeitos penais e extrapenais da condenação.</p><p>O processamento da anistia, da graça e do indulto está disciplinado nos artigos</p><p>187 a 193 da lei 7.210/1984 (Lei de Execuções Penais).</p><p>A abolitio criminis, prevista no artigo 107, inciso III, do CP, ocorre por meio</p><p>de retroatividade de lei que não mais considera o fato como criminoso e tem seu</p><p>fundamento no artigo 5°, inciso XL, da CF e artigo 2° do CP. Portanto, a abolitio</p><p>criminis ocorre quando uma nova lei entra em vigor e não considera mais como</p><p>criminoso uma certa infração. É o que se deu, por exemplo, com o antigo crime</p><p>de adultério (artigo 240 do CP), que foi revogado pela lei 11.106/2005.</p><p>A abolitio faz desaparecer os efeitos penais da condenação, porém, subsistem os</p><p>efeitos secundários. Ademais, comunica-se a todos em um eventual concurso de pessoas.</p><p>Por sua vez, o inciso IV, do artigo 107 do CP, traz a prescrição, decadência</p><p>e perempção como modalidades de extinção da punibilidade. A prescrição será</p><p>tratada de forma detalhada mais à frente. Por isso, neste momento, iremos analisar</p><p>somente a decadência e a perempção.</p><p>155</p><p>A decadência é a perda do direito de ação privada ou do direito de exercer</p><p>a representação nos crimes de ação penal pública condicionada, em razão da</p><p>inércia de seu titular. Certos delitos requerem que o jus</p><p>puniendi estatal seja</p><p>solicitado pela própria vítima para que o Estado puna o criminoso. Contudo,</p><p>essa solicitação, a qual chamamos de queixa ou representação, de acordo com a</p><p>própria legislação, possui um prazo estabelecido e, uma vez expirado, a punibi-</p><p>lidade é extinta pela decadência do direito (perda do direito).</p><p>Conforme o artigo 103 do CP, a decadência ocorre, em regra, em seis meses</p><p>de inatividade por parte do ofendido. Leis especiais poderão estabelecer prazos</p><p>diferenciados para a decadência. Conforme Bonfim (2012, p. 244), “o prazo de-</p><p>cadencial é fatal e improrrogável”.</p><p>Já a perempção é uma causa extintiva da punibilidade que ocorre quando</p><p>da desídia do autor de uma ação penal privada em dar andamento ao processo.</p><p>Para Mirabete (2007, p. 134), “a perempção é a perda do direito de prosseguir na</p><p>ação privada, ou seja, a sanção jurídica cominada ao querelante em decorrência</p><p>de sua inércia ou negligência”. Em termos mais singelos, o autor ingressa com um</p><p>processo privado, mas em razão da sua própria conduta inerte, não dá o devido</p><p>andamento ao feito, o que determinará a ocorrência de perempção. As hipóteses</p><p>de perempção estão elencadas no artigo 60 do CPP.</p><p>No que se refere à renúncia e ao perdão do ofendido, previstos no artigo 107,</p><p>inciso V, do CP, ambos somente ocorrem nos crimes apurados mediante ação penal</p><p>privada. A renúncia pode ser sintetizada como a abdicação do direito de exercer</p><p>a ação penal privada. Abdica-se o direito de queixa. É por isso que a renúncia só</p><p>ocorre antes do início da ação penal privada. É um ato unilateral (de exclusiva</p><p>vontade) do ofendido, não necessitando concordância do agente criminoso.</p><p>Conforme o artigo 104 do CP, a renúncia poderá ser expressa (mediante declara-</p><p>ção escrita) ou tácita (quando o titular da ação penal privada praticar atos incompatí-</p><p>veis com o direito de queixa, por exemplo, a vítima concorda com as críticas recebidas</p><p>após ser injuriada). A renúncia dirigida a um dos acusados, a todos aproveita, ou seja,</p><p>a renúncia se comunica em um concurso de pessoas (artigo 49 do CPP). Todavia,</p><p>existindo dois ofendidos, a renúncia de um deles não se estende ao outro.</p><p>Como informado, a renúncia só ocorre nos crimes apurados mediante ação pe-</p><p>nal privada. Contudo, referida regra comporta uma exceção, qual seja, nas infrações</p><p>penais de menor potencial ofensivo apuradas mediante ação penal pública condicio-</p><p>UNICESUMAR</p><p>UNIDADE 5</p><p>156</p><p>nada à representação, a composição civil homologada pelo juiz implica em renúncia</p><p>do direito de representação (artigo 74, parágrafo único, da lei 9.099/1995).</p><p>Por outro lado, o perdão do ofendido pode ser sintetizado como a desistên-</p><p>cia da ação penal privada instaurada. Desiste-se de prosseguir com o processo;</p><p>obsta-se o prosseguimento da ação (artigo 105 do CP). É por isso que o perdão</p><p>só poderá ocorrer durante o processo. É um ato bilateral, pois diferentemente da</p><p>renúncia, requer por parte do agente criminoso a aceitação do perdão dado pelo</p><p>ofendido (artigo 106, inciso III, do CP). Conforme o artigo 106 do CP, o perdão</p><p>do ofendido também poderá ser expresso (mediante declaração escrita) ou tácito</p><p>(quando o titular da ação penal privada praticar atos incompatíveis com o direito</p><p>de prosseguir na queixa - parágrafo 1°, do artigo 106 do CP).</p><p>O perdão dirigido a um dos acusados a todos aproveita, ou seja, o perdão se</p><p>comunica em um concurso de pessoas (artigo 106, inciso I, do CP e artigo 51 do</p><p>CPP). Todavia, existindo dois ofendidos, o perdão de um deles não se estende ao</p><p>outro (artigo 106, inciso II, do CP). Por fim, só se admite o perdão até antes do</p><p>trânsito em julgado da sentença penal (parágrafo 2° do artigo 106 do CP).</p><p>A retratação do agente, prevista no artigo 107, inciso VI, do CP, pode ser</p><p>definida como o ato jurídico pelo qual o sujeito reconhece o erro praticado, con-</p><p>fessa que errou e retira o que disse. Para Nucci (2022, p. 852), “é o ato pelo qual o</p><p>agente reconhece o erro que cometeu e o denuncia à autoridade, retirando o que</p><p>anteriormente havia dito”. Retratar-se é desdizer o que se disse. Em face da própria</p><p>lei, a retratação do agente só possui cabimento nos casos admitidos em lei (artigo</p><p>107, inciso VI, do CP). Assim, por exemplo, o artigo 143 do CP admite a retratação</p><p>nos crimes de calúnia (artigo 138 do CP) e difamação (artigo 139 do CP) apurados</p><p>mediante ação penal privada; o parágrafo 2° do artigo 342 do CP admite a retrata-</p><p>ção no crime de falso testemunho ou falsa perícia (artigo 342 do CP).</p><p>Para finalizar, o perdão judicial, previsto no artigo 107, inciso IX, do CP,</p><p>segundo Nucci (2022, p. 882), “é a clemência do Estado para determinadas</p><p>situações expressamente previstas em lei”. O perdão judicial não precisa ser</p><p>aceito pelo acusado, diferentemente do que ocorre com o perdão do ofendido.</p><p>Para que o juiz aplique o perdão judicial, deve existir a previsão em lei (artigo</p><p>107, inciso IX, do CP). Por exemplo, existe o perdão judicial para o homicídio</p><p>culposo (artigo 121, parágrafo 5°, do CP); existe o perdão judicial para o cri-</p><p>me de lesões corporais culposas (artigo 128, parágrafo 8°, do CP); também se</p><p>aplica o perdão judicial aos crimes de homicídio culposo na direção de veículo</p><p>157</p><p>Punibilidade</p><p>O Direito Penal não pretende realizar valores absolutos de justiça sobre a terra, nem exercitar</p><p>os cidadãos para a virtude da violência, senão garantir a inviolabilidade dos valores supremos</p><p>da ordem social, tornando possível a vida em comunidade. De acordo com esse ponto de</p><p>partida, (leia-se: natureza “instrumental” do Direito Penal a serviço da convivência humana),</p><p>entende a doutrina dominante que a missão essencial do Direito Penal, destarte, é a de prote-</p><p>ção dos valores fundamentais da ordem social; isto é, a salvaguarda de bens jurídicos.</p><p>Fonte: GOMES, L. F.; MOLINA, A. G. P.; BIANCHINI, A. Direito penal: introdução e princí-</p><p>pios fundamentais. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2007. v. 1.</p><p>EXPLORANDO IDEIAS</p><p>automotor e lesões corporais culposas na direção de veículo automotor (artigo</p><p>291 do Código de Trânsito Brasileiro); existe o perdão judicial para a receptação</p><p>culposa (artigo 180, parágrafo 5°, do CP); dentre outros.</p><p>O perdão judicial não se comunica em um eventual concurso de pessoas por</p><p>ser circunstância pessoal. Por força da Súmula 18 do Superior Tribunal de Justiça,</p><p>dando maior interpretação ao artigo 120 do CP, “a sentença concessiva do perdão</p><p>judicial é declaratória da extinção da punibilidade, não subsistindo qualquer</p><p>efeito condenatório”. Assim, a concessão do perdão judicial faz desaparecer os</p><p>efeitos penais e extrapenais da sentença.</p><p>UNICESUMAR</p><p>UNIDADE 5</p><p>158</p><p>Caro(a) aluno(a), passaremos, agora, a analisar de maneira específica o institu-</p><p>to da prescrição. Como já aprendido, ocorrido um fato criminoso, surge, para</p><p>o Estado, o direito de punir (jus puniendi) aquele agente criminoso. O Estado</p><p>deverá se valer dos meios oficiais para impor eficazmente a reprimenda recebi-</p><p>da pelo criminoso. Todavia, pode ocorrer que, mesmo existindo esse direito de</p><p>punir estatal, desde a ocorrência do fato criminoso até uma efetiva imposição</p><p>de sanção ao agente, ocorra o transcurso de um lapso temporal, fazendo com o</p><p>Estado perca o seu direito de aplicar o jus puniendi, tendo em vista que as ações</p><p>penais não devem ser eternas, como veremos.</p><p>A esse fenômeno se denomina prescrição, que de forma prática é uma cau-</p><p>sa extintiva da punibilidade em razão do transcorrer do tempo sem que tenha</p><p>havido qualquer imposição de sanção ao agente criminoso. Conforme veremos,</p><p>existem ainda certos tipos penais que são imprescritíveis, ou seja, ainda que se</p><p>tenha verificado um lapso temporal sem a imposição de pena ao agente, mesmo</p><p>assim ele poderá ser punido. Também, conheceremos as espécies prescricionais,</p><p>que variam de acordo com o momento processual.</p><p>Pois bem, ocorrendo uma infração penal, o Estado tem o dever de realizar a</p><p>punição do delinquente; para tanto, faz-se imprescindível conhecer a partir de</p><p>qual momento o delito já pode</p><p>ser perseguido (jus persequendi) pelo Estado. Em</p><p>palavras mais singelas, significa dizer que o crime praticado deve ser apurado em</p><p>um certo lapso temporal, bem como deve ser solucionado em um dado espaço de</p><p>tempo. Assim, desde o instante da prática do crime até o seu julgamento, deverá</p><p>o Estado exercer seu jus puniendi, sob pena de restar caracterizada a prescrição</p><p>da pretensão punitiva. Também, mesmo que o Estado tenha julgado o agente</p><p>criminoso, e sentenciado sua condenação, existirá a necessidade de efetivamente,</p><p>dentro de um certo lapso temporal, colocar o sentenciado para cumprir pena,</p><p>pois se assim não o fizer, deixando transcorrer tal lapso, restará caracterizada a</p><p>prescrição da pretensão executória.</p><p>Destarte, o próprio CP, em seu artigo 109, fornece uma tabela contendo os</p><p>prazos prescricionais para os mais variados crimes; cumpre notar que o legisla-</p><p>dor montou referida tabela proporcionalmente ao máximo da pena privativa de</p><p>liberdade do crime praticado. Dessa maneira, por exemplo, um crime que possua</p><p>pena máxima privativa de liberdade inferior a um ano (como é o caso do crime</p><p>de injúria – artigo 140 do CP), prescreverá em três anos (artigo 109, inciso VI,</p><p>do CP); o Estado possui três anos para sentenciar o agente, ou possui três anos</p><p>159</p><p>para fazer com que ele cumpra a pena recebida; se o Estado assim não agir nesse</p><p>período, restará caracterizada a prescrição do crime.</p><p>A Tabela 1, realizada de acordo com o disposto no artigo 109 do Código Penal,</p><p>ilustra os prazos prescricionais dos crimes, de acordo com a sua pena máxima:</p><p>Penas Prazos Prescricionais</p><p>> 12 anos 20 anos</p><p>8 a 12 anos 16 anos</p><p>4 a 8 anos 12 anos</p><p>2 a 4 anos 8 anos</p><p>1 a 2 anos 4 anos</p><p>até 1 ano 3 anos</p><p>Tabela 1 - Prazos que extinguem a punibilidade / Fonte: Brasil (1940, on-line).</p><p>Ademais, como veremos, o artigo 109 do CP se aplica a quaisquer espécies pres-</p><p>cricionais (prescrição da pretensão punitiva, prescrição intercorrente, prescrição</p><p>retroativa e prescrição da pretensão executória).</p><p>UNICESUMAR</p><p>UNIDADE 5</p><p>160</p><p>Caro(a) aluno(a), alguns delitos poderão ser considerados imprescritíveis, ou</p><p>seja, mesmo que transcorra um considerável lapso temporal sem que o Estado</p><p>tenha exercitado o seu jus puniendi, ainda assim, a qualquer momento referidos</p><p>crimes poderão ser apurados. Também, é importante mencionar que os crimes</p><p>imprescritíveis só poderão estar relacionados na Constituição Federal, pois ela</p><p>consagra a regra da prescritibilidade das infrações penais. As únicas duas exce-</p><p>ções apontadas a essa regra são os incisos XLII (crime de racismo – que se encon-</p><p>tra tipificado na lei 7.716/1989) e XLIV (crimes praticados por ações de grupos</p><p>armados, civis ou militares contra a ordem constitucional ou Estado Democrático</p><p>– referidos crimes se encontram definidos na lei 7.170/1983) do artigo 5° da CF.</p><p>Portanto, conforme a CF, são imprescritíveis (artigo 5º, inciso XLIV):</p><p>■ Racismo (lei 7.716/1989);</p><p>■ Ações de grupos armados, civis ou militares, contra a ordem constitucio-</p><p>nal ou contra o estado democrático de direito.</p><p>Adentrando ao mérito da prescrição, importante indicarmos o conceito do refe-</p><p>rido instituto para alguns autores.</p><p>Como aduz Greco (2022, p. 767):</p><p>“ A prescrição é uma das situações em que o Estado, em virtude do</p><p>decurso de certo espaço de tempo, perde seu ius puniendi. Embora</p><p>exista alguma controvérsia doutrinária, como frisamos, entende-</p><p>mos que com a prescrição existe a perda do direito de punir, e não</p><p>a renúncia ao direito de punir por parte do Estado. O Estado pode</p><p>renunciar ao seu exclusivo ius puniendi quando concede, por exem-</p><p>plo, a anistia, a graça e o indulto. Nessas hipóteses, embora podendo</p><p>levar a efeito o seu direito de punir, o Estado dele abre mão, ao con-</p><p>trário do que ocorre com a prescrição, quando, mesmo querendo,</p><p>não poderá exercê-lo (GRECO, 2022, p. 767).</p><p>161</p><p>Para Jesus (2012, p. 761):</p><p>“ A palavra prescrição, no sentido comum, significa preceito, ordem</p><p>expressa; no sentido jurídico, significa perda de um direito em face</p><p>de seu não exercício dentro de certo prazo. Prescrição penal, num</p><p>conceito preliminar, é a extinção do direito de punir do Estado pelo</p><p>decurso do tempo. Preferimos dizer que a prescrição penal é a per-</p><p>da da pretensão punitiva ou executória do Estado pelo decurso do</p><p>tempo sem o seu exercício (JESUS, 2012, p. 761).</p><p>Já para Nucci (2022, p. 885):</p><p>“ Cuida-se da perda do direito de punir do Estado pelo não exercício</p><p>em determinado lapso de tempo. Não há mais interesse estatal na</p><p>repressão do crime, tendo em vista o decurso do tempo e porque o</p><p>infrator não reincide, readaptando-se à vida social. Há duas maneiras</p><p>de se computar a prescrição: a) pela pena in abstracto; b) pela pena</p><p>in concreto. No primeiro caso, não tendo ainda havido condenação,</p><p>inexiste pena para servir de base ao juiz para o cálculo da prescrição.</p><p>Portanto, utiliza-se a pena máxima em abstrato prevista para o delito.</p><p>No segundo caso, já tendo havido condenação com trânsito em jul-</p><p>gado, ao menos para a acusação, a pena tornou-se concreta e passa</p><p>a servir de base de cálculo para a prescrição (NUCCI, 2022, p. 885).</p><p>Dessa forma, analisando os conceitos mencionados acima a respeito da prescrição,</p><p>conclui-se que ela só ocorre porque houve uma desídia, uma inação dentro de</p><p>um certo período, o que faz com que o Estado perca o seu direito de punir.</p><p>UNICESUMAR</p><p>UNIDADE 5</p><p>162</p><p>Boa parte da doutrina pátria entende que a prescrição tem natureza jurídica de</p><p>direito material (penal), aplicando-se a ela as mesmas regras do Direito Penal. É o</p><p>que sustentam Estefam e Gonçalves (2012, p. 689) ao afirmarem que “a prescrição é</p><p>instituto de direito material”. Do mesmo modo, enuncia Jesus (2012, p. 762): “cremos,</p><p>entretanto, que a prescrição tem natureza exclusivamente penal. Tanto que, consti-</p><p>tuindo causa extintiva da punibilidade, vem disciplinada no CP”. Tendo a prescrição</p><p>natureza de direito material (penal), a ela serão aplicadas as regras pertinentes ao</p><p>Direito Penal, tais como: a retroatividade de lei mais benéfica, irretroatividade de</p><p>lei maléfica, contagem material do prazo (artigo 10 do CP), dentre outras.</p><p>Querido(a) aluno(a), basicamente pode-se dizer que a prescrição possui duas</p><p>espécies: a prescrição da pretensão punitiva e a prescrição da pretensão</p><p>executória. A prescrição da pretensão punitiva é aquela que ocorre quando o jus</p><p>puniendi estatal é atingido antes do trânsito em julgado de uma sentença penal</p><p>condenatória, enquanto a prescrição da pretensão executória é aquela que ocorre</p><p>quando o jus puniendi estatal é atingido depois do trânsito em julgado de uma</p><p>sentença penal condenatória.</p><p>Existindo a prescrição da pretensão punitiva, o agente criminoso terá afas-</p><p>tado qualquer efeito penal (principal ou secundário) de uma eventual sentença</p><p>163</p><p>OLHAR CONCEITUAL</p><p>condenatória. Isso significa dizer que além do sujeito não receber pena, também</p><p>será considerado primário, de bons antecedentes, não existirá a obrigação certa</p><p>de indenizar, dentre outros. Todavia, a prescrição da pretensão punitiva não im-</p><p>pedirá a propositura de uma ação civil autônoma de reparação de dano, a teor</p><p>do artigo 67, inciso II, do CPP.</p><p>Existindo a prescrição da pretensão executória, o agente criminoso só terá</p><p>afastado o efeito penal principal da condenação, qual seja, o cumprimento da</p><p>pena imposta. De outro lado, os efeitos penais secundários subsistirão, como, por</p><p>exemplo, o agente será considerado reincidente, não terá bons antecedentes, terá</p><p>a obrigação certa de indenizar, dentre outros.</p><p>Passaremos a falar, agora, especificamente da prescrição da pretensão pu-</p><p>nitiva. Como dito anteriormente, a prescrição da pretensão punitiva (também</p><p>chamada de prescrição da ação) é aquela que se verifica antes do trânsito em</p><p>julgado de uma sentença penal condenatória. A prescrição da pretensão punitiva</p><p>pode ser dividida em quatro espécies, quais sejam: prescrição da pretensão pu-</p><p>nitiva propriamente dita; prescrição da pretensão punitiva retroativa; prescrição</p><p>da pretensão punitiva superveniente ou intercorrente; e prescrição da pretensão</p><p>punitiva virtual ou antecipada ou por prognose ou em perspectiva.</p><p>PRESCRIÇÃO DA PRETENSÃO</p><p>PUNITIVA RETROATIVA</p><p>PRESCRIÇÃO</p><p>DA PRETENSÃO</p><p>PUNITIVA PRESCRIÇÃO DA PRETENSÃO</p><p>PROPRIAMENTE DITA</p><p>PRESCRIÇÃO DA PRETENSÃO PUNITIVA</p><p>SUPERVENIENTE OU INTERCORRENTE</p><p>PRESCRIÇÃO DA PRETENSÃO</p><p>PUNITIVA VIRTUAL OU</p><p>ANTECIPADA OU POR</p><p>PROGNOSE OU EM</p><p>PERSPECTIVA</p><p>UNICESUMAR</p><p>UNIDADE 5</p><p>164</p><p>Falaremos, neste momento, sobre a prescrição da pretensão punitiva propriamen-</p><p>te dita, ou também conhecida como prescrição da pretensão punitiva em abstrato,</p><p>que é a forma mais comum de prescrição, a qual poderá ocorrer antes da instauração</p><p>do processo ou até mesmo antes da sentença penal condenatória transitar em julgado.</p><p>Ocorre, portanto, enquanto ainda não houver sentença condenatória com trânsito em</p><p>julgado para a acusação, e se regula pela pena em abstrato cominada ao delito.</p><p>O Estado deverá instaurar o processo ou, caso já instaurado, deve julgá-lo</p><p>antes do lapso prescricional estabelecido pela lei (artigo 109, caput, do CP). O</p><p>cálculo dessa prescrição será feito com base no artigo 109 do CP, sempre tendo</p><p>por parâmetro o máximo da pena privativa de liberdade abstratamente cominada</p><p>ao delito. Vamos aos exemplos: o crime de homicídio simples (artigo 121, caput,</p><p>do CP) possui como pena máxima privativa de liberdade, abstratamente comi-</p><p>nada, o quantum de 20 anos; aplicando-se a regra do artigo 109, inciso I, do CP, o</p><p>referido crime prescreverá em 20 anos, pois o máximo de sua pena é excedente a</p><p>12 anos. Em um segundo exemplo, o crime de furto simples (artigo 155, caput, do</p><p>CP) possui como pena máxima privativa de liberdade, abstratamente cominada,</p><p>o quantum de quatro anos; aplicando-se a regra do artigo 109, inciso IV, do CP, o</p><p>referido crime prescreverá em oito anos, pois o máximo de sua pena é superior</p><p>a dois anos, porém não excede a quatro anos.</p><p>Tanto a prescrição intercorrente como a prescrição retroativa serão computa-</p><p>das não mais com base na pena abstratamente cominada, mas sim com base na pena</p><p>efetivamente aplicada. Isso significa que, por exemplo, em um crime de estelionato</p><p>(artigo 171, caput, do CP), a pena máxima privativa de liberdade abstratamente co-</p><p>minada é de cinco anos; a partir do momento em que o magistrado julgar o acusado</p><p>por esse crime e lhe der uma pena de três anos, a prescrição será calculada com base</p><p>nesta pena (de três anos) e não mais com base naquela pena máxima abstratamente</p><p>cominada (de cinco anos); o crime agora de estelionato, em que a pena efetivamente</p><p>aplicada fora de três anos, prescreverá em oito anos, a teor do artigo 109, inciso IV, do</p><p>CP, não se preocupando mais com a pena abstratamente cominada.</p><p>A prescrição retroativa, ou prescrição pelo efeito retroativo da pena concre-</p><p>tizada na sentença condenatória, encontra seu fundamento no parágrafo 1°, do</p><p>artigo 109 do CP, ao lado da prescrição intercorrente. A prescrição retroativa</p><p>deve ser analisada regressivamente, ou seja, voltando-se atrás. Após a publicação</p><p>da sentença condenatória, deve-se pegar a pena em concreto fixada, verificar o</p><p>prazo prescricional definido para ela no artigo 109, e voltar no tempo para ver</p><p>165</p><p>se ele foi ultrapassado entre a data do recebimento da denúncia e a publicação</p><p>da sentença ou acórdão condenatório.</p><p>Como bem aduz Mirabete (2007, p. 441), “desde a época da edição da Súmula</p><p>146 do STF, entendeu-se que, aplicada a pena e não havendo recurso da acusação,</p><p>servia ela de base para o cálculo da prescrição referente aos prazos anteriores à</p><p>própria sentença, no que se denominou de prescrição retroativa”.</p><p>Como se observa, a prescrição retroativa tem seu campo de aplicação na aná-</p><p>lise dos momentos processuais anteriores à sentença, bem como é calculada com</p><p>base na pena efetivamente aplicada na sentença. Exemplo: imagine que um agente</p><p>criminoso tenha sido condenado por um crime de receptação (artigo 180, caput,</p><p>do CP) a uma pena efetiva de dois anos; referida sentença é publicada no ano de</p><p>2013; todavia, a denúncia constante desse processo foi recebida pelo juiz no ano</p><p>de 2008; sendo assim, retroagindo da publicação da sentença até o recebimento</p><p>da denúncia, já se passaram mais de quatro anos, e como a pena aplicada foi a</p><p>de dois anos, a teor do artigo 109, inciso V, do CP, o crime em tela já se encontra</p><p>prescrito retroativamente.</p><p>Portanto, de maneira resumida, a prescrição retroativa pressupõe uma sen-</p><p>tença ou acordão condenatório, leva em conta a pena efetivamente aplicada na</p><p>sentença, pressupõe o trânsito em julgado para a acusação e leva em consideração</p><p>os prazos dispostos no artigo 109 do CP.</p><p>É importante ressaltar que, por força do parágrafo 1° do artigo 109 do CP, a</p><p>prescrição retroativa não poderá incidir entre a data do fato e a data do recebi-</p><p>mento da denúncia ou queixa. Tendo uma visão minoritária, Estefam e Gonçalves</p><p>(2012, p. 702) entendem que:</p><p>“ [...] haverá ainda prescrição retroativa, na hipótese de haver decor-</p><p>rido o prazo entre o oferecimento e o recebimento da denúncia</p><p>ou queixa, uma vez que a lei 12.234/2010 só proíbe a prescrição</p><p>retroativa em data anterior ao seu oferecimento. Esta hipótese, em</p><p>regra, mostra-se presente quando o juiz rejeita a denúncia que só é</p><p>recebida muito tempo depois pelo tribunal (ESTEFAM; GONÇAL-</p><p>VES, 2012, p. 702).</p><p>UNICESUMAR</p><p>UNIDADE 5</p><p>166</p><p>A prescrição intercorrente (também chamada de prescrição superveniente ou</p><p>prescrição subsequente) é aquela que se verifica entre a prescrição da pretensão</p><p>punitiva e a prescrição da pretensão executória; a prescrição intercorrente encon-</p><p>tra-se iniciada logo depois do marco final da prescrição da pretensão punitiva, e</p><p>antes do marco inicial da prescrição da pretensão executória.</p><p>Em outras palavras, a prescrição intercorrente será analisada a partir do mo-</p><p>mento da publicação da sentença penal condenatória recorrível até o seu trânsito</p><p>em julgado (parágrafo 1° do artigo 109 do CP). E como relatado anteriormente, a</p><p>prescrição intercorrente será calculada com base na pena efetivamente aplicada</p><p>na sentença. De acordo com Nucci (2022, p. 891), a prescrição intercorrente “é a</p><p>prescrição da pretensão punitiva, com base na pena aplicada, com trânsito em</p><p>julgado para a acusação ou desde que improvido seu recurso, que ocorre entre a</p><p>sentença condenatória e o trânsito em julgado desta”.</p><p>Imagine, por exemplo, que o agente criminoso tenha sido condenado por</p><p>um crime de receptação (artigo 180, caput, do CP) a uma pena efetiva de dois</p><p>anos; a referida sentença é publicada no ano de 2013; desde essa publicação até</p><p>o trânsito em julgado, não poderão passar mais do que quatro anos (ou seja, a</p><p>sentença deverá transitar em julgado até o ano de 2017), pois se o lapso for su-</p><p>perior, o crime prescreverá.</p><p>Portanto, para que se configure a prescrição intercorrente, é necessário:</p><p>Prescrição da pretensão</p><p>punitiva retroativa</p><p>Prática do crime Recebimento</p><p>da renúncia Sentença</p><p>Trânsito em julgado para</p><p>o ministério público</p><p>Descrição da Imagem: esquema com cinco células, sendo que uma delas, acima, apresenta os dizerem</p><p>“prescrição da pretensão punitiva retroativa”. Abaixo dela, outras quatro células, da esquerda para a</p><p>direita, trazem os dizeres: “prática do crime”, “recebimento da renúncia”, “sentença”, “trânsito em julga-</p><p>do para o ministério público”. Uma linha vermelha une a célula “recebimento da denúncia” até a célula</p><p>“trânsito em julgado para o MP”, que se encontram em uma única seta que aponta para a célula de cima.</p><p>Figura 1 - Prescrição da pretensão punitiva retroativa / Fonte: os autores.</p><p>167</p><p>a) a publicação de uma sentença penal condenatória recorrível (termo ini-</p><p>cial da prescrição intercorrente);</p><p>b) o trânsito em julgado da sentença para a acusação, ou o improvimento</p><p>de seu recurso (pressuposto);</p><p>c) o transcurso do lapso prescricional (calculado com base na pena efeti-</p><p>vamente aplicada) entre a publicação da sentença penal condenatória e</p><p>o trânsito em julgado para ambas</p><p>as partes (termo final da prescrição</p><p>intercorrente).</p><p>Prescrição da pretensão</p><p>punitiva intercorrente</p><p>prática do crime recebimento</p><p>da denúncia</p><p>sentença</p><p>condenatória</p><p>trânsito em julgado</p><p>para o ministério</p><p>público</p><p>trânsito em julgado</p><p>para ambas as</p><p>partes</p><p>início da execução</p><p>da pena</p><p>Descrição da Imagem: esquema com sete células, sendo que uma delas, acima, possui os dizeres: “pres-</p><p>crição da pretensão punitiva superveniente/intercorrente”. Abaixo dela, outras seis células, da esquerda</p><p>para a direita, apresentam os dizeres: “prática do crime”, “recebimento da renúncia”, “sentença”, “trânsito</p><p>em julgado para o ministério público”, “trânsito em julgado para ambas as partes” e “início da execução</p><p>da pena”. Uma linha vermelha une a célula “trânsito em julgado para o MP” até a célula “trânsito em</p><p>julgado para ambas as partes”, que se encontram em uma única seta, que aponta para a célula de cima.</p><p>Figura 2 - Prescrição da pretensão punitiva superveniente/intercorrente / Fonte: os autores.</p><p>Por fim, a prescrição virtual (prescrição projetada ou prescrição antecipada pela</p><p>pena em perspectiva) é aquela prescrição em que é realizada uma análise hipotética</p><p>das situações que fossem levadas em conta no momento do juiz graduar a pena para</p><p>chegar em uma eventual condenação. Assim, levando em consideração a pena virtual-</p><p>mente considerada, seria possível verificar, de maneira antecipada, eventual prescrição.</p><p>Caso a eventual prescrição ocorresse, não haveria interesse do Estado em prosseguir</p><p>com a ação penal e, desse modo, seria possível considerá-la prescrita.</p><p>Exemplo: imagine que uma pessoa está sendo acusada por um crime de furto</p><p>(artigo 155, caput, do CP) e o recebimento da denúncia pelo crime de furto acon-</p><p>teceu no ano de 2008. Pelas provas evidenciadas nos autos, o agente criminoso</p><p>possui bons antecedentes, é primário e não voltará a delinquir, portanto, tudo</p><p>leva a crer que ele receberá uma pena mínima de um ano; estando o processo</p><p>UNICESUMAR</p><p>UNIDADE 5</p><p>168</p><p>até então sem julgamento no ano de 2013, e mesmo que o agente venha a ser</p><p>condenado, sua pena não irá ultrapassar um ano, sendo lógico concluir, assim,</p><p>que mesmo sendo condenado a qualquer momento, seu crime já estaria prescrito,</p><p>pois já está transcorrido o lapso prescricional (artigo 109, inciso V, do CP); por</p><p>questão de economia processual, seria interessante antecipar o reconhecimento</p><p>de sua prescrição.</p><p>A prescrição virtual, conforme dispõe o Superior Tribunal de Justiça, em</p><p>sua Súmula 438, não é admitida: “É inadmissível a extinção da punibilidade</p><p>pela prescrição da pretensão punitiva com fundamento em pena hipotética,</p><p>independentemente da existência ou sorte do processo penal”.</p><p>Consoante referida Súmula, a prescrição virtual não pode ser aplicada e con-</p><p>sequentemente reconhecida, seja no âmbito inquisitivo (na fase do inquérito</p><p>policial), seja no âmbito judicial (na fase do processo penal). Em outras palavras,</p><p>o crime deverá ser apurado normalmente, e só ao final, poderá ocorrer ou não a</p><p>prescrição. Muito se critica o entendimento exarado nessa Súmula, pois não seria</p><p>razoável deixar o transcorrer de um inquérito policial ou um processo penal,</p><p>para no fim se reconhecer a prescrição; estar-se-ia diante de flagrante ofensa ao</p><p>princípio da efetividade jurisdicional.</p><p>169</p><p>Caro(a), aluno(a), os termos iniciais da prescrição da pretensão punitiva estão</p><p>elencados no artigo 111 do CP. O legislador, nos incisos de I a V, do artigo 111 do</p><p>CP, estabeleceu o início da prescrição da pretensão punitiva considerando o tipo</p><p>de crime praticado. Vejamos cada inciso separadamente:</p><p>a) a prescrição começa a correr do dia em que o crime se consumou (in-</p><p>ciso I do artigo 111 do CP). Trata-se da regra geral do termo inicial da</p><p>prescrição da pretensão punitiva, a qual só começará a fluir quando da</p><p>realização completa do tipo penal.</p><p>Nucci (2022, p. 893) faz um importante apontamento quando dispõe:</p><p>“ De acordo com a classificação dos crimes, deve-se verificar qual a data</p><p>da consumação: materiais, no dia em que houve o resultado; formais e</p><p>de mera conduta, na data da atividade; omissivos próprios, na data do</p><p>comportamento negativo; omissivos impróprios, no dia do resultado;</p><p>preterdolosos ou qualificados pelo resultado, na data do resultado;</p><p>culposos, na data do resultado naturalístico. Nos crimes continuados,</p><p>vale a data da consumação de cada delito que os compõe.</p><p>b) a prescrição começa a correr, no caso da tentativa, do dia em que cessou a</p><p>atividade criminosa (inciso II do artigo 111 do CP). A prescrição passará</p><p>a fluir a partir do último ato de execução.</p><p>c) a prescrição começa a correr nos crimes permanentes do dia em que ces-</p><p>sou a permanência (inciso III do artigo 111 do CP). A prescrição passará a</p><p>fluir a partir do instante em que cessar a ofensa ao bem jurídico tutelado.</p><p>Por exemplo, em um crime de extorsão mediante sequestro (artigo 159,</p><p>caput, do CP), o crime se consuma com o tolhimento da liberdade da</p><p>vítima e o dolo do agente em receber o valor do resgate; uma vez libertada</p><p>a vítima do cativeiro, é partir dessa liberação que a prescrição irá fluir.</p><p>d) a prescrição começa a correr nos crimes de bigamia e nos de falsificação</p><p>ou alteração de assentamento do registro civil, da data em que o fato se</p><p>tornou conhecido (inciso IV, do artigo 111, do CP). A prescrição passará</p><p>a fluir a partir do momento em que referidos crimes forem descobertos</p><p>pelas autoridades encarregadas da persecução criminal (por exemplo:</p><p>delegados, investigadores de polícia, promotores de justiça). Enquanto</p><p>não se descobrirem esses crimes, a prescrição não fluirá.</p><p>UNICESUMAR</p><p>UNIDADE 5</p><p>170</p><p>e) nos crimes contra a dignidade sexual ou que envolvam violência contra</p><p>a criança e adolescente, a prescrição tem como termo inicial a data em</p><p>que a vítima completar 18 (dezoito) anos, salvo se a esse tempo já houver</p><p>sido proposta a ação penal. A prescrição só fluirá a partir do instante em</p><p>que a vítima desses crimes se tornar maior, a não ser que a ação penal já</p><p>tenha sido instaurada anteriormente (inciso V, artigo 111, do CP).</p><p>Tratando-se de crimes realizados em concurso material, formal ou de forma</p><p>continuada, a extinção da punibilidade incidirá sobre a pena de cada um, isola-</p><p>damente (artigo 119 do CP).</p><p>Querido(a) aluno(a), o Estado deverá se valer dos meios oficiais para executar a pena</p><p>imposta ao agente. Todavia, pode ocorrer que, mesmo existindo esse direito de punir</p><p>estatal, desde o momento da imposição da pena ao agente até a sua efetiva execução,</p><p>ocorra o transcurso de um lapso temporal que faça extinguir a punibilidade.</p><p>171</p><p>A esse fenômeno se denomina de prescrição da pretensão executória, que</p><p>de forma prática é uma causa extintiva da punibilidade em razão do transcorrer do</p><p>tempo sem que tenha havido qualquer imposição de sanção ao agente criminoso.</p><p>A prescrição da pretensão executória (também denominada de prescri-</p><p>ção da execução ou prescrição pela pena em concreto ou prescrição da pena)</p><p>ocorre quando, após o trânsito em julgado da sentença penal condenatória, o</p><p>Estado não realiza o cumprimento da sanção recebida pelo condenado, dentro</p><p>do prazo legal (artigo 110, caput, do CP).</p><p>Consoante, aduz Nucci (2022, p.886) referente à prescrição da pretensão</p><p>executória:</p><p>“ [...] ocorreu depois do trânsito em julgado para as partes, embora o</p><p>seu início se dê a partir da data do trânsito em julgado para a acusa-</p><p>ção. Nessa hipótese, a condenação somente perde o efeito para o fim</p><p>de imposição da sanção principal – a pena aplicada. Remanescem os</p><p>efeitos secundários da condenação, como o registro do antecedente,</p><p>a viabilidade de gerar reincidência, o dever indenizatório na área</p><p>cível etc. (NUCCI, 2022, p. 886).</p><p>Para Greco (2022, p. 771):</p><p>“ [...] somente podemos falar em prescrição da pretensão executória</p><p>quando o Estado já tiver formado o seu título executivo judicial, o</p><p>que somente acontece após o trânsito em julgado para ambas as par-</p><p>tes e, ainda, com a efetiva possibilidade de execução do título execu-</p><p>tivo judicial formado por meio do trânsito em julgado da sentença</p><p>penal condenatória. Caso contrário, mesmo que, aparentemente,</p><p>tenha havido a concretização da pena que fora aplicada ao agente,</p><p>se o Estado não teve, por um instante sequer, a possibilidade de fazer</p><p>valer sua decisão condenatória, executando a pena infligida ao con-</p><p>denado, a prescrição não poderá ser considerada como da pretensão</p><p>executória, mas, sim, da pretensão punitiva (GRECO, 2022, p. 771).</p><p>A prescrição da pretensão executória será regulada pela pena aplicada na sen-</p><p>tença, ou seja, pela pena em concreto. Por força do artigo 110, caput, do CP, a</p><p>prescrição da pretensão executória, e somente aqui, terá um acréscimo de 1/3 em</p><p>UNICESUMAR</p><p>UNIDADE 5</p><p>172</p><p>seus prazos se o condenado for reincidente. A prescrição da pretensão executória,</p><p>ainda, só faz desaparecer o efeito principal da sentença penal condenatória, qual</p><p>seja, a pena; todavia, os efeitos secundários persistem (reincidência, dever de</p><p>indenizar, confisco, dentre outros).</p><p>Os termos iniciais da prescrição da pretensão executória estão elencados no</p><p>artigo 112 do CP. O legislador, nos incisos I e II, do artigo 112 do CP, estabeleceu</p><p>o início da prescrição da pretensão executória. Assim:</p><p>a) a prescrição começa a correr do dia em que transita em julgado a sentença</p><p>condenatória, para a acusação, ou a que revoga a suspensão condicional da pena</p><p>ou o livramento condicional (inciso I, do artigo 112, do CP).</p><p>b) a prescrição começa a correr do dia em que se interrompe a execução, salvo</p><p>quando o tempo da interrupção deva computar-se na pena (inciso II, do artigo</p><p>112, do CP). Essa hipótese se dá, por exemplo, quando o acusado foge da prisão,</p><p>sendo que a prescrição passará a fluir desde a fuga e será contada com base no</p><p>restante da pena a cumprir pelo agente.</p><p>Prescrição da pretensão</p><p>executória</p><p>prática do crime recebimento</p><p>da denúncia sentença trânsito em julgado</p><p>para o ministério</p><p>público</p><p>trânsito em julgado</p><p>para ambas as</p><p>partes</p><p>início da execução</p><p>da pena</p><p>Descrição da Imagem: esquema com sete células, sendo que uma delas, acima, traz os dizeres: “prescri-</p><p>ção da pretensão executória”. Abaixo dela, as outras seis células, da esquerda para a direita, apresentam</p><p>os dizeres: “prática do crime”, “recebimento da renúncia”, “sentença”, “trânsito em julgado para o ministério</p><p>público”, “trânsito em julgado para ambas as partes” e “início da execução da pena”. Uma linha vermelha</p><p>une a célula “trânsito em julgado para o MP” até a célula “início da execução da pena”, que se encontram</p><p>em uma única seta, que aponta para a célula de cima</p><p>Figura 3 - Prescrição da pretensão executória / Fonte: os autores.</p><p>Após iniciado o prazo do transcurso da pretensão punitiva, algumas causas podem</p><p>acontecer que ocasionam a suspensão desse prazo ou até mesmo a sua interrupção.</p><p>As causas interruptivas são aquelas que uma vez verificadas fazem desapa-</p><p>recer todo prazo já transcorrido anteriormente, começando uma nova contagem</p><p>e desprezando a anterior. As causas suspensivas são aquelas que, uma vez verifi-</p><p>cadas, não fazem desaparecer o prazo já transcorrido, mas apenas o paralisam, e,</p><p>173</p><p>uma vez vencidas tais causas, o prazo volta a fluir do ponto em que havia parado,</p><p>computando-se àquele que já transcorreu.</p><p>Segundo Nucci (2022, p. 897): “Impedir ou suspender a prescrição significa</p><p>apenas paralisar o prazo prescricional, que recomeçará a correr do ponto onde</p><p>parou, tão logo a causa que fundamentou a suspensão termine” Já interromper,</p><p>para o mesmo autor, “significa recomeçar, por inteiro, o prazo prescricional (artigo</p><p>117, parágrafo 2º, CP). Exemplo: se após o decurso de dois anos do lapso pres-</p><p>cricional, de um total de quatro, houver a ocorrência de uma causa interruptiva,</p><p>o prazo recomeça a correr integralmente” (NUCCI, 2022, p. 899).</p><p>O legislador, nos incisos I a IV, do artigo 116 do CP, indica as causas suspen-</p><p>sivas da prescrição da pretensão punitiva, enquanto nos incisos I a IV, do artigo</p><p>117 do CP, indica as causas interruptivas da prescrição da pretensão punitiva. Já a</p><p>causa suspensiva da prescrição da pretensão executória encontra-se normatizada</p><p>no parágrafo único do artigo 116 do CP, enquanto suas causas interruptivas estão</p><p>definidas nos incisos V e VI, do artigo 117 do CP:</p><p>“ Art. 116 - Antes de passar em julgado a sentença final, a prescrição</p><p>não corre:</p><p>I - enquanto não resolvida, em outro processo, questão de que</p><p>dependa o reconhecimento da existência do crime;</p><p>II - enquanto o agente cumpre pena no exterior;</p><p>III - na pendência de embargos de declaração ou de recursos aos</p><p>Tribunais Superiores, quando inadmissíveis; e</p><p>IV - enquanto não cumprido ou não rescindido o acordo de não</p><p>persecução penal.</p><p>Parágrafo único - Depois de passada em julgado a sentença conde-</p><p>natória, a prescrição não corre durante o tempo em que o conde-</p><p>nado está preso por outro motivo.</p><p>Art. 117 - O curso da prescrição interrompe-se:</p><p>I - pelo recebimento da denúncia ou da queixa;</p><p>II - pela pronúncia;</p><p>III - pela decisão confirmatória da pronúncia;</p><p>IV - pela publicação da sentença ou acórdão condenatórios recorríveis;</p><p>UNICESUMAR</p><p>UNIDADE 5</p><p>174</p><p>§ 1º - Excetuados os casos dos incisos V e VI deste artigo, a interrupção</p><p>da prescrição produz efeitos relativamente a todos os autores do</p><p>crime. Nos crimes conexos, que sejam objeto do mesmo processo,</p><p>estende-se aos demais a interrupção relativa a qualquer deles.</p><p>§ 2º - Interrompida a prescrição, salvo a hipótese do inciso V deste</p><p>artigo, todo o prazo começa a correr, novamente, do dia da inter-</p><p>rupção (BRASIL, 1940).</p><p>No que se refere à reincidência (artigo 117, inciso VI, do CP), o STJ sumulou</p><p>entendimento (Súmula 220) de que a reincidência não influi no prazo da pres-</p><p>crição da pretensão punitiva.</p><p>Caro(a) aluno(a), no que se refere à prescrição quanto às penas restritivas de</p><p>direito, a teor do parágrafo único do art. 109 do CP, elas prescrevem pelos mesmos</p><p>prazos das penas privativas de liberdade. Isso significa que as penas restritivas</p><p>de direitos prescrevem seguindo a mesma estrutura da prescrição das penas pri-</p><p>vativas de liberdade. Segundo Nucci (2022, p. 890), os prazos prescricionais das</p><p>penas restritivas de direito “são os mesmos previstos para as penas privativas de</p><p>liberdade justamente porque as restritivas são substitutivas, significando que não</p><p>têm previsão autônoma no preceito secundário dos tipos penais incriminadores”.</p><p>Já no que se refere às penas de multas, o artigo 144 do CP tratou do assunto. Assim:</p><p>a) A prescrição da pena de multa ocorrerá em dois anos, quando a multa for</p><p>a única cominada ou aplicada (inciso I do artigo 114 do CP);</p><p>b) No mesmo prazo estabelecido para a prescrição da pena privativa de li-</p><p>berdade, quando a multa for alternativa ou cumulativamente cominada</p><p>ou cumulativamente aplicada (inciso II do artigo 114 do CP).</p><p>O artigo 115 do CP ainda versa sobre o que chamamos de menoridade relativa</p><p>e senilidade, quando dispõe que, sendo o agente criminoso menor de 21 (vinte e</p><p>um) anos na data do fato, ou maior de 70 (setenta) anos na data da sentença, seja</p><p>na prescrição da pretensão punitiva, seja a prescrição da pretensão executória,</p><p>todos os seus prazos prescricionais serão reduzidos pela metade.</p><p>Referidas idades não sofreram alterações, quer por parte do Código Civil (que</p><p>reduziu a maioridade para os 18 anos), quer do Estatuto do Idoso (que considera</p><p>idoso aquele que tenha idade igual ou superior a 60 anos). Para efeitos da pres-</p><p>crição penal, a idade a ser considerada será a estabelecida no artigo 115 do CP.</p><p>175</p><p>Importante ressaltar também que, tendo a prescrição natureza jurídica de</p><p>direito material (penal), ela deve ter a forma de contagem de seu prazo à luz da</p><p>regra do artigo 10 do CP, qual seja, no prazo prescricional o dia do começo in-</p><p>clui-se no seu cômputo. Assim, se um crime se consumou no dia 25 de fevereiro</p><p>de 2023, esse dia (25 de fevereiro de 2023) já é considerado o primeiro dia do</p><p>prazo prescricional. E, ainda, pelo disposto no artigo 10 do</p><p>ressocializa-</p><p>ção. A prevenção geral negativa é utilizada como intimidação da sociedade, para</p><p>mostrar que é possível a aplicação da pena quando cometido determinado crime,</p><p>e a prevenção geral positiva é utilizada para a sua educação, a fim de mostrar a</p><p>existência de normas jurídico-penais, bem como a sua eficácia.</p><p>Por fim, há a Teoria Mista, que foi acolhida pelo Código Penal em seu artigo</p><p>59, quando afirma que a pena será estabelecida pelo juiz conforme seja necessário e</p><p>suficiente para a reprovação e prevenção do crime. Para essa teoria, a pena serve como</p><p>castigo, como recuperação (prevenção especial) e intimidação (prevenção geral).</p><p>Teoria Absoluta Teoria Relativa Teoria Mista</p><p>A finalidade da pena</p><p>é a retribuição.</p><p>A finalidade da pena</p><p>é a prevenção.</p><p>A finalidade da pena é a retri-</p><p>buição e prevenção.</p><p>Quadro 1 - Teorias que explicam a finalidade da pena / Fonte: os autores.</p><p>Caro(a) aluno(a), o Direito Penal brasileiro também passou por várias revoluções,</p><p>desde a época em que somente habitavam em nossas terras os indígenas, passando</p><p>pelo Período Colonial, Independência, República, e se encaminhando até o Código</p><p>Penal atual. É importante que você conheça os principais marcos dessa história.</p><p>Inicialmente, os indígenas utilizavam o que chamamos de direito consuetudiná-</p><p>rio, que nada mais é do que um direito baseado nos costumes e crenças da comuni-</p><p>dade. Tal direito não exerceu qualquer influência no direito penal positivo brasileiro.</p><p>Conforme destaca Nucci (2022, p. 93): “antes do domínio português, prevalecia a lei</p><p>da selva, ditada pelos indígenas, geralmente com o predomínio da vingança privada</p><p>ou mesmo da lei do talião. Portanto, não há que falar de um direito penal”.</p><p>Sendo assim, para os indígenas, o Direito era bom senso.</p><p>UNICESUMAR</p><p>UNIDADE 1</p><p>20</p><p>Já no Período Colonial, os portugueses passaram a aplicar suas leis penais</p><p>no Brasil:</p><p>■ de 1500 a 1521: vigoraram as Ordenações Afonsinas;</p><p>■ de 1521 a 1603: vigoraram as Ordenações Manuelinas;</p><p>■ de 1603 a 1830: vigoraram as Ordenações Filipinas.</p><p>Tais regramentos se caracterizavam pela: exorbitância da pena; negação das ideias</p><p>de Beccaria; confusão entre direito, moral e religião; incitação do temor por meio</p><p>do castigo; abundância da pena de morte (principalmente em casos de crimes</p><p>ligados à religião e à Inquisição) e de penas de açoite, de degredo para as Gales</p><p>e para a África, de mutilação (amputação das mãos e língua), de queimadura, de</p><p>infâmia, de “capela de chifres” para os maridos tolerantes, dentre outras.</p><p>Em 7 de setembro de 1822, o Brasil declarou sua Independência. Como ad-</p><p>verte Murilo de Carvalho (2007, p. 43):</p><p>“ Não se pode olvidar, ainda, que, ao tempo da proclamação da Inde-</p><p>pendência e durante o século XIX, a igreja desempenhou um papel</p><p>fundamental ao auxiliar o Estado brasileiro em sua organização</p><p>política, na implementação do respeito às normas nos mais longín-</p><p>quos rincões brasileiros e, como consequência, na manutenção da</p><p>unidade de nosso país (CARVALHO, 2007, p. 43).</p><p>Em 1823, D. Pedro I convocou uma Assembleia Constituinte, que decidiu que em</p><p>matéria criminal continuariam em vigor no Brasil as Ordenações Filipinas até a</p><p>elaboração de um Código Penal pátrio. Em 1824, no dia 5 de março, D. Pedro I</p><p>dissolveu a mencionada Assembleia Constituinte e outorgou a 1ª Constituição</p><p>do Brasil, que foi extremamente liberal.</p><p>Em matéria penal prescrevia:</p><p>■ Nenhuma pena será aplicada em utilidade pública.</p><p>■ Ninguém será perseguido por motivo de religião.</p><p>■ Ninguém será preso sem culpa formada.</p><p>■ Prisão só em flagrante delito ou por ordem de autoridade.</p><p>■ A lei será igual para todos.</p><p>■ Ficavam abolidas as penas de açoite, tortura, marcas de ferro quente e</p><p>todas as penas cruéis. Todavia, apesar de liberal, a pena de morte existia.</p><p>21</p><p>Em 1830, foi criado o 1° Código Penal do Brasil, que também era extremamente</p><p>liberal. Apesar das grandes discussões sobre a pena de morte estar ou não inserida</p><p>nesse Código (os conservadores eram a favor da pena de morte e os liberais eram</p><p>contrários), o CP de 1830 a consagrou.</p><p>Conforme Bitencourt (2022, p. 108):</p><p>“ Em 1830, o imperador D. Pedro I sancionou o Código Criminal, primei-</p><p>ro código autônomo da América Latina. Destacava Aníbal Bruno que o</p><p>novo texto fundou-se nas ideias de Bentham, Beccaria e Mello Freire, no</p><p>Código Penal francês de 1810, no Código da Baviera de 1813, no Códi-</p><p>go Napolitano de 1819 e no Projeto de Livingston de 1825. Todavia, não</p><p>se filiou estritamente a qualquer deles, tendo sabido mostrar-se original</p><p>em mais de um ponto (BITENCOURT, 2022, p. 108).</p><p>Apesar desse pensamento, segundo Zaffaroni e Pierangelli (1980, p. 374): “o CP</p><p>de 1830 consagrou importantes institutos, como, por exemplo, o sistema dos</p><p>dias-multa” (valor unitário a ser pago pelo réu a cada dia de multa).</p><p>Ainda no reinado de D. Pedro II, ocorreu um grave erro judiciário que ficou</p><p>conhecido como MOTA-COQUEIRO. Diante de tal erro judiciário, o Imperador</p><p>revogou tacitamente a pena de morte, sendo que, por meio do instituto penal da</p><p>graça, D. Pedro II, sempre que alguém era condenado à pena de morte, comuta-</p><p>va-a em pena de prisão perpétua.</p><p>UNICESUMAR</p><p>UNIDADE 1</p><p>22</p><p>Em 15 de novembro de 1889, é proclamada a República no Brasil e, em 11 de ou-</p><p>tubro de 1890, foi aprovado o 2° Código Penal do Brasil (decreto 847). Devido</p><p>à celeridade de sua aprovação, esse Código estava repleto de defeitos; inúmeras</p><p>leis precisaram ser editadas para complementá-lo. Tanto eram as leis editadas,</p><p>que Vicente de Piragibe as consolidou, e através do decreto nº 22.213, de 14</p><p>de dezembro de 1932, essas leis originaram a chamada Consolidação das</p><p>Leis Penais (CLP) – o 3° Código Penal do Brasil.</p><p>Com a Revolução de 1937, o governo Vargas incumbiu Alcântara Machado</p><p>de elaborar um projeto de Código Penal. Esse projeto foi revisto por Narcélio de</p><p>Queiroz, Vieira Braga, Nélson Hungria e Roberto Lyra, dando origem ao decre-</p><p>to-lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940, que entrou em vigor em 1º de</p><p>janeiro de 1942, está vigente até o momento e é o nosso 4º Código Penal.</p><p>O decreto-lei nº 1.004, de 21 de outubro de 1969 (conhecido como projeto</p><p>Nelson Hungria), consagrou o anteprojeto de um novo Código Penal, que en-</p><p>traria em vigor em 1º de janeiro de 1970. A vigência desse código, no entanto, foi</p><p>prorrogada sucessivamente para 1971, 1972, 1973, 1974, 1975, 1976 e 1977, até</p><p>que a lei nº 6.578, de 11 de outubro de 1978, expressamente o revogou. É a mais</p><p>longa vacatio legis (vacância da lei) de que se tem notícia.</p><p>A lei 6.416/1977, chamada de Lei de Reformulação do Sistema da Pena, al-</p><p>terou toda a estrutura da pena. Já a lei 7.209/1984 alterou toda a parte geral do</p><p>Manuel da Mota Coqueiro foi um grande fazendeiro, na região de Macaé no Rio de Janei-</p><p>ro. Era um homem muito influente, de grandes negócios. Junto a sua esposa, Úrsula das</p><p>Virgens Cabral, possuía cinco vastas propriedades rurais.</p><p>Em uma noite chuvosa de 1852, um grupo de homens abordou a casa de Francisco Bene-</p><p>dito – ex-escravo, que vivia em uma das propriedades de Mota Coqueiro – e iniciou uma</p><p>chacina: Francisco e toda sua família foram mortos a golpe de facões por um grupo de cer-</p><p>ca de oito negros, escapando somente Francisca, a filha grávida. O caso foi levado às au-</p><p>toridades competentes e Mota Coqueiro foi acusado de ter sido o mandante da chacina.</p><p>De acordo com os registros da época, Mota afirmou ser inocente até momentos antes da</p><p>execução: “O crime fez-se, porém eu sou inocente, peço perdão ao povo e à Justiça, assim</p><p>como eu perdoo de todo o meu coração”. O caso Mota Coqueiro entrou para a História</p><p>como um dos maiores erros judiciários do Brasil.</p><p>Fonte: Souza (2017).</p><p>EXPLORANDO IDEIAS</p><p>23</p><p>Código Penal (artigos 1° ao 120), e a lei 7.210/1984 – conhecida como Lei de Exe-</p><p>cução Penal (LEP) – estabelece os regramentos acerca do cumprimento da pena.</p><p>Observa-se, então, que o Código Penal de 1940 sofreu reforma substancial em</p><p>1984, e passou a conter uma parte geral e uma especial, sendo chamado de Direito</p><p>CP, os dias, os meses</p><p>e os anos serão contados pelo calendário comum.</p><p>O artigo 118, quando estabelece que as penas mais leves obedecem ao prazo</p><p>prescricional das mais graves, está se referindo às penas restritivas de direito por</p><p>serem penas substitutivas. Assim, segundo Nucci (2022, p. 902), “se aplicadas uma</p><p>pena privativa de liberdade e uma restritiva de direitos – como admite o artigo</p><p>302 do Código de Trânsito Brasileiro, por exemplo –, prescrita a primeira, a se-</p><p>gunda segue o mesmo destino”.</p><p>Por fim, quando se tratar de concurso de crimes, seja ele material, formal ou</p><p>continuado, para efeitos de prescrição, leva-se em conta cada crime isoladamente,</p><p>sem considerar a somatória da pena no caso de concurso material, e sem consi-</p><p>derar a causa de aumento, nos casos de concurso formal e crimes continuados.</p><p>Extinção da Punibilidade e suas Hipóteses</p><p>Prezado(a) aluno(a), após realizada a leitura do conteúdo</p><p>até aqui, convido-lhe a escutar o podcast da unidade como</p><p>forma de fixação do conteúdo. Nele, será trazido o conceito</p><p>de extinção da punibilidade e suas hipóteses, bem como</p><p>será explicado de forma mais detalhada o instituto da pre-</p><p>scrição e suas modalidades.</p><p>Querido(a) aluno(a), como vimos neste conteúdo, o jus puniendi é um dever-poder</p><p>que surge para o Estado quando alguém pratica uma infração penal. Uma punição,</p><p>que até estava no plano abstrato da norma, passa para o plano concreto por meio</p><p>da aplicação da punibilidade estatal. Tal situação é totalmente diferente do que</p><p>acontecia nas fases primitivas da civilização, em que o jus puniendi se encontrava no</p><p>poder das próprias pessoas, que faziam justiça com “as próprias mãos”, uma vez que</p><p>não existia um Estado capaz de impor o Direito acima da vontade do homem, bem</p><p>como sequer existiam leis gerais e abstratas que impusessem punição ao homem.</p><p>UNICESUMAR</p><p>https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/17805</p><p>UNIDADE 5</p><p>176</p><p>Todavia, o jus puniendi não pode ser aplicado de forma indiscriminada</p><p>pelo Estado, bem como, em determinadas situações, o próprio Estado pode</p><p>desistir de aplicá-lo. Essas limitações do jus puniendi são chamadas de causas</p><p>de extinção da punibilidade.</p><p>Como informado no começo da unidade, o crime de furto possui pena má-</p><p>xima de quatro anos de reclusão e, diante disso, conforme aprendido, o Estado</p><p>possui prazo de até oito anos para punir o agente infrator, uma vez que se de-</p><p>corrido tal prazo, há por consequência a extinção da punibilidade. Na suposição</p><p>de morte do agente, também há a extinção da punibilidade, em observância do</p><p>princípio da intranscendência das penas. Essas hipóteses, entre outras que vimos,</p><p>estão presentes no rol não taxativo do artigo 109 do CP.</p><p>É certo que, quando alguém pratica uma infração penal, o Estado também</p><p>sofre com tal prática, uma vez que ele deve garantir à sociedade a punibilidade do</p><p>agente infrator para não gerar a sensação de impunidade, bem como para servir</p><p>de exemplo para que os demais não transgridam a lei, assim como garantir que</p><p>o infrator não volte a delinquir. No entanto, deve-se ter em mente que a punibi-</p><p>lidade não é eterna e que possui causas de extinção, seja para a própria proteção</p><p>do delinquente, seja para não deixar o Estado cair na inércia.</p><p>177</p><p>1. Imagine que João tenha praticado uma infração penal em 2011, tendo sido julgado e</p><p>condenado com o trânsito julgado em 2016, iniciando o cumprimento da sua pena</p><p>neste mesmo ano. Em 2020, foi publicada uma lei que deixou de considerar a infração</p><p>que João havia praticado como fato típico.</p><p>Fonte: a autora.</p><p>Considerando o exemplo acima e o aprendido sobre as causas extintivas da puni-</p><p>bilidade, assinale a alternativa abaixo que retrata a causa extintiva da punibilidade</p><p>em questão.</p><p>a) Abolitio criminis.</p><p>b) Prescrição.</p><p>b) Decadência.</p><p>b) Anistia.</p><p>b) Graça.</p><p>2. A prescrição gera a extinção da punibilidade e, portanto, é matéria de ordem pú-</p><p>blica, não havendo necessidade de um requerimento da parte interessada para o</p><p>seu reconhecimento. Nem mesmo do Ministério Público, seja como parte ou como</p><p>fiscal da lei. Em qualquer momento procedimental, ocorrendo a prescrição da pena</p><p>em abstrato ou em concreto, dentro das regras estabelecidas pelo Código Penal, o</p><p>magistrado deve julgar extinta a punibilidade do acusado ou condenado.</p><p>NUCCI, G. S. Curso de direito penal: parte geral. 6. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2022.</p><p>Acerca da extinção da punibilidade pela prescrição da pretensão executória, discorra,</p><p>em até 15 linhas, sobre seus efeitos no âmbito penal e cível.</p><p>3. É inaceitável a situação de alguém que, tendo cometido um delito, fique sujeito, ad</p><p>infinitum, ao império da vontade estatal punitiva. Se existem prazos processuais a</p><p>serem cumpridos, a sua não observância é um ônus que não deve pesar somente</p><p>contra o réu. A prestação jurisdicional tardia, salvo naquelas infrações constitucio-</p><p>nalmente consideradas imprescritíveis, não atinge o fim da jurisdição, qual seja, a</p><p>realização da Justiça.</p><p>BITENCOURT, C. R. Tratado de direito penal: parte geral. 28. ed. São Paulo: Saraiva, 2022.</p><p>Considerando o tema da prescrição, que é uma causa extintiva da punibilidade,</p><p>discorra em até 20 linhas, acerca das espécies da prescrição da pretensão punitiva.</p><p>178</p><p>UNIDADE 1</p><p>AULA 1 - parte 1 - introdução ao Direito Penal. [S. l.: s. n.], 2012. 1 vídeo (12 min e 25 seg).</p><p>Publicado pelo canal Tvjur. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=1NSLfkfWhBg.</p><p>Acesso em: 3 mar. 2023.</p><p>PESSOA, G. T. A. Código criminal do Império. Memória da Administração Pública Brasileira,</p><p>Rio de Janeiro, 9 maio 2014. Disponível em: http://mapa.an.gov.br/index.php/menu-de-catego-</p><p>rias-2/281-codigo-criminal. Acesso em: 3 mar. 2023.</p><p>BARROSO, L. R. Neoconstitucionalismo e constitucionalização do direito: o triunfo tardio do</p><p>direito constitucional no Brasil. Revista de Direito Administrativo, Rio de Janeiro, n. 240,</p><p>abr./jun. 2005, p. 1-42. Disponível em: https://bibliotecadigital.fgv.br/ojs/index.php/rda/article/</p><p>view/43618/44695. Acesso em: 3 mar. 2023.</p><p>BECCARIA, C. B. Dos delitos e das penas. Tradução Flório de Angelis. Bauru: Edipro, 1997.</p><p>BITENCOURT, C. R. Tratado de direito penal: parte geral. 28. ed. São Paulo: Saraiva, 2022.</p><p>FERRAJOLI, L. Direito e razão: teoria do garantismo penal. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2014.</p><p>FONTES, E.; HOFFMANN, H. Criminologia. 4. ed. Salvador: JusPodivm, 2021.</p><p>GRECO, R. Curso de direito penal. 24. ed. São Paulo: Atlas, 2022.</p><p>GUSMÃO, P. D. Introdução ao estudo do direito. Rio de Janeiro: Forense, 2004.</p><p>MASSON, C. Direito penal: parte geral. Rio de Janeiro; São Paulo: Forense; Método, 2020.</p><p>CARVALHO, J. M. D. Pedro II. São Paulo: Cia. das Letras, 2007. (Coleção Perfis Brasileiros).</p><p>NUCCI, G. S. Curso de direito penal: parte geral. 6. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2022.</p><p>SOUSA, V. N. M. O caso Mota Coqueiro. Jus.com.br, [s. l.], 13 fev. 2017. Disponível em: https://</p><p>jus.com.br/artigos/55822/o-caso-mota-coqueiro. Acesso em: 3 mar 2023.</p><p>VENERAL, D. C. Elementos do direito penal. Curitiba: Intersaberes, 2020.</p><p>ZAFFARONI, E. R.; PIERANGELLI, J. H. Tratado de derecho penal. Buenos Aires: Ediar, 1980. t. 1.</p><p>JESUS, D. E. Direito penal: parte geral. 30. ed. São Paulo: Saraiva, 2009. v. 1.</p><p>PACELLI, E. Curso de processo penal. 22. ed. São Paulo: Atlas, 2017.</p><p>179</p><p>UNIDADE 2</p><p>BITENCOURT, C. R. Tratado de direito penal: parte geral. 28. ed. São Paulo: Saraiva, 2022.</p><p>BRASIL. [Constituição (1988)]. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasí-</p><p>lia: Presidência da República, 1998. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Consti-</p><p>tuicao/Constituicao.htm. Acesso em: 8 mar. 2023.</p><p>BRASIL. Decreto-Lei 2.848, de 7 de dezembro de 1940. Código Penal. Brasília: Presidência</p><p>da República, 1940. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del2848.</p><p>htm. Acesso em: 8 mar. 2023.</p><p>BRASIL. Lei 11.343, de 23 de agosto de 2006. Institui o Sistema Nacional de Políticas Públi-</p><p>cas sobre Drogas - Sisnad; prescreve medidas para prevenção do uso indevido, atenção e re-</p><p>inserção</p><p>social de usuários e dependentes de drogas; estabelece normas para repressão à</p><p>produção não autorizada e ao tráfico ilícito de drogas; define crimes e dá outras providências.</p><p>Brasília: Presidência da República, 2006. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_</p><p>ato2004-2006/2006/lei/l11343.htm. Acesso em: 8 mar. 2023.</p><p>BRASIL. Lei 8.617, de 4 de janeiro de 1993. Dispõe sobre o mar territorial, a zona contígua,</p><p>a zona econômica exclusiva e a plataforma continental brasileiros, e dá outras providências.</p><p>Brasília: Presidência da República, 1993. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/</p><p>LEIS/L8617.htm. Acesso em: 8 mar. 2023.</p><p>BRASIL. Lei nº 678, de 6 de novembro de 1992. Promulga a Convenção Americana sobre Direi-</p><p>tos Humanos (Pacto de São José da Costa Rica), de 22 de novembro de 1969. Brasília: Presidên-</p><p>cia da República, 1992. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/d0678.</p><p>htm. Acesso em: 8 mar. 2023.</p><p>BRASIL. Lei nº 9.605, de 12 de fevereiro de 1998. Dispõe sobre as sanções penais e adminis-</p><p>trativas derivadas de condutas e atividades lesivas ao meio ambiente, e dá outras providências.</p><p>Brasília: Presidência da República, 1998. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/</p><p>leis/l9605.htm. Acesso em: 8 mar. 2023.</p><p>BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Súmula nº 241. A reincidência penal não pode ser consi-</p><p>derada como circunstância agravante e, simultaneamente, como circunstância judicial. Brasí-</p><p>lia, DF: Superior Tribunal de Justiça, 2000. Disponível em: https://scon.stj.jus.br/SCON/pesqui-</p><p>sar.jsp?b=SUMU&sumula=241. Acesso em: 8 mar. 2023.</p><p>BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Súmula nº 599. O princípio da insignificância é inaplicável aos</p><p>crimes contra a administração pública. Brasília, DF: Superior Tribunal de Justiça, 2017. Disponível</p><p>em: https://scon.stj.jus.br/SCON/pesquisar.jsp?b=SUMU&sumula=599. Acesso em: 8 mar. 2023.</p><p>180</p><p>BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Habeas Corpus nº 699572/SP. Trata-se de habeas corpus</p><p>substitutivo de recurso próprio, com pedido de liminar, impetrado em benefício de ROSÂN-</p><p>GELA CIBELE DE ALMEIDA MELO contra acórdão do Tribunal de Justiça do Estado de São Pau-</p><p>lo, proferido no julgamento do HC n. 2232330-03.2021.8.26.0000. Relator: Min. Joel Ilan Pa-</p><p>ciornik, 14 de outubro de 2021. Disponível em: https://www.jusbrasil.com.br/jurisprudencia/</p><p>stj/1297580324/decisao-monocratica-1297580335. Acesso em: 8 mar. 2023.</p><p>ESTEFAM, A.; GONÇALVES, V. E. R. Direito penal esquematizado: parte geral. São Paulo: Sa-</p><p>raiva, 2012.</p><p>FARIA, B. Código de processo penal. 2. ed. Rio de Janeiro: Record, 1960. v. 1.</p><p>FRANÇA, R. L. Hermenêutica jurídica. 11. ed. São Paulo: Saraiva, 2011.</p><p>GRECO, R. Curso de direito penal. 24. ed. Barueri: Atlas, 2022.</p><p>INFORMATIVO STF. Brasília: Superior Tribunal Federal, n. 911, 13 ago. 2018. Disponível em: https://</p><p>www.stf.jus.br/arquivo/informativo/documento/informativo911.htm. Acesso em: 8 mar. 2023.</p><p>JESUS, D. Direito penal: parte geral. 33. ed. São Paulo: Saraiva, 2012. v. 1.</p><p>MASSON, C. Direito penal: parte geral. Rio de Janeiro: Forense; São Paulo: Método, 2020.</p><p>MELLO, C. A. B. Curso de direito administrativo. 14. ed. São Paulo: Malheiros, 2002.</p><p>MIRABETE, J. F.; FABBRINI, R. N. Processo penal. 18. ed. São Paulo: Atlas, 2007.</p><p>MOREIRA, R. M. C. Responsabilidade civil, administrativa e criminal no caso Brumadinho. Consul-</p><p>tor Jurídico, São Paulo, 30 jan. 2019. Disponível em: https://www.conjur.com.br/2019-jan-30/</p><p>rafael-moreira-responsabilidade-envolvidos-brumadinho. Acesso em: 8 mar. 2023.</p><p>MOSSIN, H. A. Comentários ao código de processo penal: à luz da doutrina e da jurisprudên-</p><p>cia. Barueri: Manole, 2005.</p><p>NUCCI, G. S. Curso de direito penal: parte geral. 6. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2022.</p><p>REALE, M. Lições preliminares de direito. 24. ed. São Paulo: Saraiva, 1998.</p><p>RODRIGUES, C. Manual do direito penal. 2. ed. Indaiatuba: Foco, 2021.</p><p>TAVARES, J. Direito penal da negligência: uma contribuição à teoria do crime culposo. 2. ed.</p><p>Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2003.</p><p>181</p><p>UNIDADE 3</p><p>BITENCOURT, C. R. Tratado de direito penal: parte geral. 15. ed. São Paulo: Saraiva, 2010.</p><p>BRASIL. [Constituição (1988)]. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasí-</p><p>lia: Presidência da República, 1998. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Consti-</p><p>tuicao/Constituicao.htm. Acesso em: 8 mar. 2023.</p><p>BRASIL. Decreto-Lei 2.848, de 7 de dezembro de 1940. Código Penal. Brasília: Presidência</p><p>da República, 1940. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del2848.</p><p>htm. Acesso em: 8 mar. 2023.</p><p>BRASIL. Lei nº 4.737, de 15 de julho de 1965. Institui o Código Eleitoral. Brasília: Tribunal Su-</p><p>perior Eleitoral, 1965. Disponível em: https://www.tse.jus.br/legislacao/codigo-eleitoral/codi-</p><p>go-eleitoral-1/codigo-eleitoral-lei-nb0-4.737-de-15-de-julho-de-1965. Acesso em: 10 mar. 2023.</p><p>BRASIL. Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990. Dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adoles-</p><p>cente e dá outras providências. Brasília: Presidência da República, 1990. Disponível em: https://</p><p>www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8069.htm. Acesso em: 10 mar. 2023.</p><p>DELMANTO, C. et al. Código penal comentado. 6. ed. Rio de Janeiro: Renovar, 2002.</p><p>ESTEFAM, A.; GONÇALVES, V. E. R. Direito penal esquematizado: parte geral. São Paulo: Sa-</p><p>raiva, 2012.</p><p>FRAGASO, H. C. Lições de direito penal: parte geral. Rio de Janeiro: Forense, 1995.</p><p>HUNGRIA, N. Comentários ao código penal. Rio de Janeiro: Forense, 1972.</p><p>MASSON, C. Direito penal: parte geral. Rio de Janeiro: Forense; São Paulo: Método, 2020.</p><p>MIRABETE, J. F.; FABBRINI, R. N. Manual de direito penal: parte geral: artigos 1° a 120 do CP.</p><p>24. ed. São Paulo: Atlas, 2007.</p><p>NORONHA, E. M. Direito penal. 33. ed. São Paulo: Saraiva, 1998.</p><p>TOLEDO, F. A. O erro no direito penal. São Paulo: Saraiva, 1977.</p><p>WELZEL, H. Derecho penal aleman. Trad. Juan Bustos Ramirez e Sergio Yánes Pérez. Santiago:</p><p>Editora Jurídica de Chile, 1970.</p><p>ZAFFARONI, E. R.; PIERANGELI, J. H. Manual de direito penal brasileiro: parte geral. 7. ed. São</p><p>Paulo: Revista dos Tribunais, 2007. v. 1.</p><p>182</p><p>UNIDADE 4</p><p>BRASIL. Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940. Código Penal. Brasília: Presidên-</p><p>cia da República, 1940. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del-</p><p>2848compilado.htm. Acesso em: 16 mar. 2023.</p><p>BRASIL. Lei nº 9.503, de 23 de setembro de 1997. Institui o Código de Trânsito Brasileiro. Bra-</p><p>sília: Presidência da República, 1997. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/</p><p>l9503compilado.htm. Acesso em: 16 mar. 2023.</p><p>BRASIL. Superior Tribunal de Justiça (5. Turma). HC 311.146/SP. Relator: Ministro Newton Tri-</p><p>sotto (desembargador convocado do TJ/SC). HC, 17 mar. 2015. DJe - Diário de Justiça Eletrônico,</p><p>31 mar. 2015.</p><p>BRASIL. Superior Tribunal de Justiça (5. Turma). HC 543.725/PB. Relator: Ministro Ribeiro Dan-</p><p>tas. HC, 11 fev. 2020. DJe - Diário de Justiça Eletrônico, 14 fev. 2020.</p><p>ESTEFAM, A.; GONÇALVES, V. E. R. Direito penal esquematizado: parte geral. São Paulo: Sa-</p><p>raiva, 2012.</p><p>JESUS, D. Direito penal: parte geral. 33. ed. São Paulo: Saraiva, 2012. v. 1.</p><p>LYRA, R. Comentários ao código penal. Rio de Janeiro: Forense, 1958.</p><p>MASSON, C. Direito penal: parte Geral. Rio de Janeiro: Forense; São Paulo: Método, 2020.</p><p>NUCCI, G. S. Curso de direito penal: parte geral. 6. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2022.</p><p>PIMENTEL, M. P. Do crime continuado. 2. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1969.</p><p>RODRIGUES, C. Manual do direito penal. 2. ed. Indaiatuba: Foco, 2021.</p><p>VENERAL, D. C. Elementos do direito penal. Curitiba: Intersaberes, 2020.</p><p>WELZEL, H. Derecho penal alemán. Tradução de Juan Bustos Ramirez e Sergio Yanes Perez.</p><p>Santiago: Editorial Jurídica del Chile, 1987.</p><p>183</p><p>UNIDADE 5</p><p>BITENCOURT, C. R. Tratado de direito penal: parte geral. 28. ed. São Paulo: Saraiva, 2022.</p><p>BONFIM, E. M. Curso de processo penal. 7. ed. São Paulo: Saraiva, 2012.</p><p>BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil</p><p>de 1988. Brasí-</p><p>lia: Presidência da República, 1988. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/cons-</p><p>tituicao/constituicao.htm. Acesso em: 20 mar. 2023.</p><p>BRASIL. Decreto-lei nº 2.848, de 7 dezembro de 1940. Código Penal. Brasília: Presidência da</p><p>República, 1940. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del2848com-</p><p>pilado.htm. Acesso em: 20 mar. 2023.</p><p>BRASIL. Decreto-lei nº 3.688, de 3 de outubro de 1941. Lei das Contravenções Penais. Brasília:</p><p>Presidência da República, 1941. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-</p><p>-lei/del3688.htm. Acesso em: 20 mar. 2023.</p><p>BRASIL. Decreto-lei nº 3.689, de 3 de outubro de 1941. Código de Processo Penal. Brasília:</p><p>Presidência da República, 1941. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-</p><p>-lei/del3689.htm. Acesso em: 20 mar. 2023.</p><p>BRASIL. Lei 7.210, de 11 de julho de 1984. Institui a Lei de Execução Penal. Brasília: Presidência da Repú-</p><p>blica, 1984. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l7210.htm. Acesso em: 20 mar. 2023.</p><p>BRASIL. Lei nº 9.503, de 23 de setembro de 1997. Institui o Código de Trânsito Brasileiro. Bra-</p><p>sília: Presidência da República, 1997. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/</p><p>l9503compilado.htm. Acesso em: 20 mar. 2023.</p><p>BRASIL. Lei nº 11.106, de 28 de março de 2005. Altera os arts. 148, 215, 216, 226, 227, 231 e</p><p>acrescenta o art. 231-A ao Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940 – Código Penal e</p><p>dá outras providências. Brasília: Presidência da República, 2005. Disponível em: https://www.</p><p>planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2005/lei/l11106.htm. Acesso em: 20 mar. 2023.</p><p>ESTEFAM, A.; GONÇALVES, V. E. R. Direito penal esquematizado: parte geral. São Paulo: Saraiva, 2012.</p><p>GOMES, L. F.; MOLINA, A. G. P.; BIANCHINI, A. Direito penal: introdução e princípios fundamen-</p><p>tais. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2007. v. 1.</p><p>GRECO, R. Curso de direito penal. 24. ed. Barueri: Atlas, 2022.</p><p>JESUS, D. Direito penal: parte geral. 33. ed. São Paulo: Saraiva, 2012. v. 1.</p><p>MIRABETE, J. F.; FABBRINI, R. N. Manual de direito penal: parte geral: arts. 1° a 120 do CP. 24.</p><p>ed. São Paulo: Atlas, 2007.</p><p>NUCCI, G. S. Curso de direito penal: parte geral. 6. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2022.</p><p>TOURINHO, F. C. Processo penal. 33. ed. São Paulo: Saraiva, 2011. v. 1.</p><p>184</p><p>UNIDADE 1</p><p>1. São três as teorias que explicam a finalidade da pena: absoluta, relativa e a mis-</p><p>ta. A absoluta diz respeito ao caráter retribucionista da pena, ou seja, àque-</p><p>le que praticou uma infração penal deve ser aplicada uma pena como forma de</p><p>castigo. A teoria relativa possui caráter preventivo, ou seja, tem como objetivo</p><p>a prevenção do crime. Por fim, a teoria mista, adotada pelo Código Penal brasi-</p><p>leiro, de acordo com o artigo 59, possui caráter de retribuição e prevenção.</p><p>A teoria relativa ainda se subdivide em duas espécies: geral e especial. Essas, por sua</p><p>vez, subdividem-se em negativa e positiva. A prevenção geral negativa volta-se para</p><p>a sociedade com o fim de intimidação, enquanto a prevenção geral positiva volta-se</p><p>para a sociedade com o objetivo de educá-la. Por outro lado, a prevenção especial</p><p>negativa volta-se para o delinquente com o objetivo de evitar a sua reincidência, e a</p><p>prevenção especial positiva volta-se para o delinquente, visando à sua ressocialização.</p><p>2. De acordo com Pacelli (2017, p. 61), bem jurídico pode ser definido da seguinte for-</p><p>ma: “é a coisa, o valor, o atributo espiritual ou intelectual cujo usufruto e gozo são</p><p>reconhecidos como significativamente relevantes. Primeiro, para o efetivo desenvol-</p><p>vimento pessoal de seu titular e, depois e em consequência, para todo o corpo social,</p><p>de que é exemplo o meio ambiente ecologicamente equilibrado”. Dois exemplos são:</p><p>a liberdade de locomoção e a vida.</p><p>3. A Constituição Federal trata de vários princípios acerca do Direito Penal. São</p><p>exemplos de princípios penais na CF: o princípio da legalidade/anterioridade: ar-</p><p>tigo 5°, inciso XXXIX; princípios da irretroatividade e retroatividade benéfica: arti-</p><p>go 5°, inciso XL; princípio da personalidade da pena: artigo 5°, inciso XLV; e prin-</p><p>cípio da individualização da pena e da humanidade: art. 5°, incisos XLVI e XLVII.</p><p>Também se encontram na CF os princípios informadores do processo, tais como:</p><p>o princípio do contraditório, o princípio da ampla defesa, entre outros, bem como</p><p>mandados de criminalização, previstos no artigo 5º, incisos XLI, XLII, XLIII e XLIV.</p><p>185</p><p>UNIDADE 2</p><p>1. Letra B. O princípio da legalidade, ou reserva legal, encontra previsão nos artigos 5°,</p><p>inciso XXXIX, da Constituição Federal e 1°, do Código Penal, e afirma que só existe crime</p><p>ou pena se uma norma assim estabelecer. Em razão desse princípio, são inadmissíveis</p><p>no Direito Penal a criação de leis vagas, imprecisas para definir crimes e cominar penas.</p><p>2. No critério analítico ou formal, procura-se examinar as características do crime. Põe-se</p><p>à mostra seus aspectos essenciais, seus elementos estruturais, seus predicados, em</p><p>suma, os seus elementos constitutivos. Dentro desse critério, podemos encontrar uma</p><p>posição quadripartida (crime é fato típico, ilícito, culpável e punível), tripartida (crime</p><p>é fato típico, ilícito e culpável) ou bipartida (crime é fato típico e ilícito). Esse conceito</p><p>analítico de crime que considera como elementos constitutivos a tipicidade, a ilicitu-</p><p>de (ou antijuridicidade) e a culpabilidade é acatado pela maioria dos doutrinadores.</p><p>3. Contravenção: pena máxima de cinco anos; somente pode ser julgada pela Justiça Es-</p><p>tadual; não pode haver crimes tentados; não admite a extraterritorialidade; os crimes</p><p>são de ação pública incondicionada. Crimes: Pena máxima de 40 anos; pode ser julgada</p><p>pela Justiça Estadual e Federal; pune crimes tentados; admite a extraterritorialidade;</p><p>os crimes podem ser de ação pública incondicionada, condicionada e privada.</p><p>UNIDADE 3</p><p>1. A letra B é a correta.</p><p>O crime relatado é o crime de roubo, uma vez que ele ameaça pessoas para sub-</p><p>trair o bem, amoldando-se perfeitamente ao tipo previsto no artigo 156 do CP.</p><p>No entanto, deve ser punido na forma tentada, tendo em vista que crime tentado</p><p>é todo aquele que é iniciado a sua execução pelo agente, porém não se consuma</p><p>por circunstâncias alheias a sua vontade. De acordo com o artigo 14, inciso II, do</p><p>CP: “Diz-se do crime: II - tentado, quando, iniciada a execução, não se consuma por</p><p>circunstâncias alheias à vontade do agente”.</p><p>No caso relatado, o crime apenas não se consumou porque a polícia chegou no</p><p>local, ou seja, por circunstâncias alheias à vontade do agente.</p><p>186</p><p>2. A letra C é a correta.</p><p>O caso apresentado representa exatamente o erro sobre a execução, também</p><p>conhecido como aberratio ictus, no qual o agente visa matar determinada pessoa,</p><p>observa-a corretamente, mas, por erro na execução, ou seja, por uma falha opera-</p><p>cional, acaba matando outro indivíduo.</p><p>3. O estado de necessidade pressupõe um conflito entre titulares de interesses lícitos,</p><p>legítimos, em que um pode perecer licitamente para que outro sobreviva. Exemplos</p><p>clássicos de estado de necessidade são o furto famélico, a antropofagia no caso de</p><p>pessoas perdidas, a destruição de mercadorias de uma embarcação ou aeronave</p><p>para salvar tripulantes e passageiros, a morte de um animal que ataca o agente sem</p><p>interferência alguma de seu dono etc. Por sua vez, entende-se em legítima defesa</p><p>quem, usando moderadamente dos meios necessários, repele injusta agressão, atual</p><p>ou iminente, a direito seu ou de outrem.</p><p>UNIDADE 4</p><p>1. Autor é aquele que possui o domínio da realização da conduta típica, ou seja, possui o</p><p>poder de decidir sobre a paralisação ou continuidade da conduta típica. Já o partícipe</p><p>é aquele que não possui o domínio do fato típico, ou seja, não pode decidir entre a</p><p>continuidade e a paralisação da conduta típica. A teoria do domínio final do fato define</p><p>autor em três contextos:</p><p>a) Autor propriamente dito: é aquele que realiza diretamente o núcleo</p><p>do tipo penal.</p><p>b) Autor intelectual: é aquele que não realiza o núcleo do tipo penal, mas é a ca-</p><p>beça da conduta criminosa. Sem ele, o tipo penal não acontece da forma como</p><p>planejada.</p><p>c) Autor mediato: é aquele que utiliza de um não culpável para a prática do crime.</p><p>Ainda, segundo a teoria do domínio do fato, coautores ou autores funcionais são</p><p>todos aqueles que possuem o domínio final do fato. Há uma divisão de tarefas,</p><p>em que todas elas são necessárias para que o fato criminoso seja realizado. Todos</p><p>realizam o núcleo do tipo penal. Por outro lado, participe é todo aquele que não</p><p>tem o controle final do fato criminoso.</p><p>187</p><p>2. Ocorre o concurso material quando o agente, mediante mais de uma ação ou</p><p>omissão, pratica dois ou mais crimes, idênticos ou não. Já o concurso formal ocorre</p><p>quando o agente, mediante uma só ação ou omissão, pratica dois ou mais crimes,</p><p>idênticos ou não.</p><p>A continuidade delitiva ocorre quando o agente, por meio de duas ou mais condu-</p><p>tas, comete dois ou mais crimes da mesma espécie e, pelas condições de tempo,</p><p>lugar, modo de execução e outras semelhantes, devem os subsequentes ser havi-</p><p>dos como continuação do primeiro. Com relação à aplicação da pena, utiliza-se o</p><p>sistema da exasperação.</p><p>3. A letra A é a correta.</p><p>Roubo majorado, de acordo com o artigo 157, parágrafo 2º, inciso I, do CP, em con-</p><p>curso formal (artigo 70 do CP), uma vez que por meio de uma única ação o agente</p><p>pratica diversos roubos. Ainda é próprio, pois não ocorreram desígnios diferentes.</p><p>UNIDADE 5</p><p>1. Letra A.</p><p>A abolitio criminis que ocorre por meio de retroatividade de lei que não mais consi-</p><p>dera o fato como criminoso e tem seu fundamento no artigo 5°, inciso XL, da CF e</p><p>no artigo 2°, do CP. Portanto, a abolitio ocorre quando uma nova lei entra em vigor</p><p>e não considera mais como criminosa uma certa infração.</p><p>2. Existindo a prescrição da pretensão executória, o agente criminoso só terá afastado o</p><p>efeito penal principal da condenação, qual seja, o cumprimento da pena imposta. De</p><p>outro lado, os efeitos penais secundários subsistirão, como, por exemplo, o agente</p><p>será considerado reincidente, não terá bons antecedentes, terá a obrigação certa de</p><p>indenizar, dentre outros. Portanto, o agente criminoso.</p><p>188</p><p>3. A prescrição, propriamente dita, ocorre enquanto ainda não houver sentença conde-</p><p>natória com trânsito em julgado para a acusação e se regula pela pena em abstrato</p><p>cominada ao delito. O Estado deverá instaurar o processo ou, caso já instaurado, deve</p><p>julgá-lo, antes do lapso prescricional estabelecido pela lei (artigo 109, caput, do CP). O</p><p>cálculo dessa prescrição será feito com base no artigo 109 do CP, sempre tendo por</p><p>parâmetro o máximo da pena privativa de liberdade abstratamente cominada ao delito.</p><p>A prescrição intercorrente é aquela que se verifica entre a prescrição da pretensão</p><p>punitiva e a prescrição da pretensão executória. A prescrição intercorrente encontra-se</p><p>iniciada logo depois do marco final da prescrição da pretensão punitiva e antes do</p><p>marco inicial da prescrição da pretensão executória. Em outras palavras, a prescrição</p><p>intercorrente será analisada a partir do momento da publicação da sentença penal con-</p><p>denatória recorrível até o seu trânsito em julgado (parágrafo 1° do artigo 109 do CP).</p><p>A prescrição retroativa deve ser analisada regressivamente, ou seja, voltan-</p><p>do-se atrás. Após a publicação da sentença condenatória, deve-se pegar a pena</p><p>em concreto fixada, verificar o prazo prescricional definido para ela no arti-</p><p>go 109, e voltar no tempo para ver se ele foi ultrapassado entre a data do rece-</p><p>bimento da denúncia e a publicação da sentença ou acórdão condenatório.</p><p>Por fim, prescrição virtual é aquela em que é realizada uma análise hipotética das si-</p><p>tuações que fossem levadas em conta no momento do juiz graduar a pena para chegar</p><p>em uma eventual condenação. Assim, levando em consideração a pena virtualmente</p><p>considerada, seria possível verificar, de maneira antecipada, eventual prescrição. Caso</p><p>a eventual prescrição ocorresse, não haveria interesse do Estado em prosseguir com</p><p>a ação penal e, desse modo, seria possível considerá-la prescrita.</p><p>Introdução ao Direito Penal</p><p>Princípios e Aplicação da</p><p>Lei Penal no</p><p>Tempo e no Espaço</p><p>Teoria Geral do Crime: Fato Típico, Ilícito e Culpável</p><p>Concurso de Crimes e de Pessoas</p><p>Extinção da Punibilidade</p><p>_GoBack</p><p>_5newzgfjn4za</p><p>_9a0wl5bhnjq9</p><p>_GoBack</p><p>_umcchypc7gp2</p><p>Button 14:</p><p>Button 25:</p><p>Botão 28:</p><p>Button 15:</p><p>Página 8:</p><p>Botão 25:</p><p>Botão 26:</p><p>Botão 27:</p><p>Botão 24:</p><p>Botão 22:</p><p>Botão 23:</p><p>Penal Fundamental. Existem também uma enormidade de leis complementares (es-</p><p>peciais, extravagantes), as quais são denominadas de Direito Penal Complementar.</p><p>Em 2019, a lei 13.964, também chamada de Lei Anticrime ou Pacote Anti-</p><p>crime, trouxe inúmeras modificações relevantes para o Direito Penal, como a legítima</p><p>defesa protetiva, roubo majorado pelo emprego de arma branca, natureza da ação</p><p>penal nos crimes de estelionato, aumento no tempo máximo de cumprimento de pena,</p><p>execução da pena de multa e qualificadora no crime de homicídio.</p><p>Querido(a) aluno(a), após estudarmos o conceito do Direito Penal e um pou-</p><p>co da sua história, antes de adentrar na sistemática do direito penal, é importante</p><p>que você conheça seus caracteres, seu conteúdo/objeto, bem como suas divisões.</p><p>Primeiramente, apresentarei as características do Direito Penal. Para Masson</p><p>(2020, p. 4), “o Direito Penal é uma ciência cultural, normativa, valorativa,</p><p>finalista, de natureza predominantemente sancionatória e fragmentária”.</p><p>É importante que você entenda cada uma delas:</p><p>UNICESUMAR</p><p>UNIDADE 1</p><p>24</p><p>1. O Direito Penal pertence ao ramo do Direito Público: no Direito</p><p>Público, o Estado é o fim e não o meio. Todo crime, em geral, além de</p><p>ofender a vítima, abala, põe em risco o poder estatal.</p><p>2. É uma ciência cultural (dever-ser): estuda como os homens devem se</p><p>comportar; como deve ser a vida em sociedade.</p><p>3. É uma ciência normativa: são as normas que vão determinar como deve</p><p>ser a conduta em sociedade. A norma legítima é aquela que representa os</p><p>interesses do povo, e a norma jurídica é a maneira pela qual se expressa a</p><p>ordem jurídica (podem ser ordens ou proibições). Graças à ordem jurídica,</p><p>assegura-se o equilíbrio do conjunto social.</p><p>4. É uma ciência valorativa: é disciplina axiológica, ou seja, o Direito Penal não</p><p>é uma ciência exata, que utiliza regras matemáticas, mas, sim, trata-se da utili-</p><p>zação de juízos de valores, com base nos princípios e regras do Direito Penal.</p><p>Ao se cominar penas, leva-se em conta a importância do bem jurídico lesado.</p><p>5. É finalista por excelência: tem por finalidade proteger os bens mais</p><p>importantes da sociedade.</p><p>6. É sancionador: para proteger os bens mais importantes, são estabelecidas</p><p>sanções. As sanções penais são as mais drásticas do Direito.</p><p>O direito penal tem como objeto a proteção dos bens jurídicos mais importantes. De</p><p>acordo com Veneral (2020, p. 23-24), bem jurídico pode ser definido da seguinte forma:</p><p>“ [...] bens jurídicos são valores ou interesses relevantes para o indi-</p><p>víduo e a sociedade. Na esfera penal, o bem jurídico é selecionado</p><p>pelo legislador com o objetivo de garantir os valores consagrados</p><p>na Constituição Federal (CF) de 1988, conforme determina a teoria</p><p>constitucional do direito penal (VENERAL, 2020, p. 23-24).</p><p>Segundo Nucci (2022, p. 59):</p><p>“ Bem é um termo determinativo de algo desejável, que traz bem-estar</p><p>e prazer; algo que transmite vantagem e alívio; em suma, alguma coisa</p><p>objetivada pelas pessoas. Inserindo-se no ambiente jurídico, fazendo</p><p>a devida associação, atinge-se o bem jurídico, que nada mais é do</p><p>que um interesse de alguém protegido por lei (NUCCI, 2022, p. 59).</p><p>25</p><p>Para Greco (2022, p. 34):</p><p>“ A finalidade do Direito Penal é proteger os bens mais importantes e</p><p>necessários para a própria sobrevivência da sociedade, ou, nas preci-</p><p>sas palavras de Luiz Regis Prado, “o pensamento jurídico moderno</p><p>reconhece que o escopo imediato e primordial do Direito Penal</p><p>radica na proteção de bens jurídicos – essenciais ao indivíduo e à</p><p>comunidade” (GRECO, 2022, p. 34).</p><p>Portanto, o Direito Penal tem como objetivo a proteção dos bens jurídicos impres-</p><p>cindíveis à satisfação do indivíduo ou sociedade. Apenas os interesses mais relevantes</p><p>são tutelados pelo Direito Penal, em razão do seu caráter fragmentário, ficando a</p><p>cargo dos outros ramos do Direito a tutela dos bens jurídicos de menor relevância.</p><p>Após o estudo das características e do objeto do Direito Penal, veja como a</p><p>doutrina o divide:</p><p>■ Direito Penal Objetivo: é o próprio Direito positivo. São as normas jurí-</p><p>dicas de Direito Penal. A norma existente, incriminadora, de aplicabilidade.</p><p>■ Direito Penal Subjetivo: é o jus puniendi estatal. É o poder de punir que</p><p>o Estado possui. O Estado possui o direito de punir aquele que cometer</p><p>um crime.</p><p>UNICESUMAR</p><p>UNIDADE 1</p><p>26</p><p>■ Direito Penal Comum: é dirigido a todos os cidadãos indistintamente.</p><p>■ Direito Penal Especial: é dirigido a uma classe específica dos cidadãos.</p><p>■ Direito Penal Fundamental: é o Código Penal (parte geral e parte es-</p><p>pecial). É a lei base do Direito Penal.</p><p>■ Direito Penal Complementar: é o Direito tido nas leis esparsas ou ex-</p><p>travagantes. São normas que se encontram fora do Código Penal.</p><p>■ Direito Penal Substantivo: é o Direito Penal material. Definem-se crimes</p><p>e combinam-se penas, bem como se estabelecem normas de aplicabilidade.</p><p>■ Direito Penal Adjetivo: é o Direito Penal processual. São as normas</p><p>processuais. É a forma pela qual se realiza o Direito material. Em suma,</p><p>é o Processo Penal.</p><p>■ Direito Penal do autor: nesse Direito, a pessoa deve ser punida mais</p><p>pelo que é e menos pelo que fez.</p><p>■ Direito Penal do fato: nesse Direito, pune-se a pessoa pelo que fez, e</p><p>não pelo que é.</p><p>Caro(a) aluno(a), deve-se saber que o Direito Penal não pode ser encarado de</p><p>maneira estanque, sem jamais ter qualquer comunicação com outros ramos do</p><p>ordenamento jurídico. O Direito Penal, em muitos casos, associa-se a outras dis-</p><p>ciplinas, pois faz parte de um todo, sendo “um dos galhos de um tronco”. Mantém</p><p>relações com disciplinas jurídicas e outras ciências. É o que se pode denominar</p><p>de interdisciplinaridade do Direito Penal.</p><p>É por conta disso que o Direito Penal, apesar de possuir suas normas próprias,</p><p>também deverá obedecer a algumas normas que sejam peculiares de outras dis-</p><p>ciplinas, tal qual as normas relativas à constitucionalidade, ao Direito Adminis-</p><p>trativo, ao Direito Civil, ao Direito Processual, à psicologia, dentre outras. Existe</p><p>uma comunicação entre o Direito Penal e as outras disciplinas, no intuito de dar</p><p>sustentação ao todo. Dentre as relações mais importantes, estão:</p><p>1ª) Relação com o Direito Constitucional: é a Carta Magna, que trata dos</p><p>direitos do Estado e fixa os princípios básicos. Nenhuma lei pode contrariar a Cons-</p><p>tituição Federal (CF). Como aduz Barroso (2008, p. 3), “a Constituição foi capaz de</p><p>promover, de maneira bem-sucedida, a travessia do Estado brasileiro de um regime</p><p>autoritário, intolerante e, por vezes violento, para um Estado democrático de direito”.</p><p>27</p><p>São princípios penais na CF: o princípio da legalidade/anterioridade (artigo 5°,</p><p>inciso XXXIX); os princípios da irretroatividade e retroatividade benéfica (artigo</p><p>5°, inciso XL); o princípio da personalidade da pena (artigo 5°, inciso XLV); o</p><p>princípio da individualização da pena e da humanidade (artigo 5°, incisos XLVI</p><p>e XLVII). Também se encontram na CF os princípios informadores do processo,</p><p>tais como: o princípio do contraditório, o princípio da ampla defesa, entre outros.</p><p>2ª) Relação com o Direito Administrativo: sendo o Direito Administrativo a</p><p>disciplina jurídica que regula as atividades da administração (Estado), também</p><p>existem, no Poder Judiciário, agentes públicos que são partícipes do processo</p><p>penal como agentes administrativos. Muitos conceitos de Direito Penal têm que</p><p>ser buscados nas concepções do Direito Administrativo, como, por exemplo,</p><p>cargo, emprego, função, rendas públicas, dentre outros. A lei penal pune fatos</p><p>atentatórios à administração pública (artigos 312 a 359 do CP).</p><p>3ª) Relação com o Direito Processual Penal e o Direito Processual Civil:</p><p>é por meio do processo penal que se realiza o jus puniendi do Estado; aplica-se</p><p>analogicamente ao Direito Processual Penal normas de Direito Processual Civil.</p><p>UNICESUMAR</p><p>UNIDADE 1</p><p>28</p><p>4ª) Relação com o Direito Civil: muitos artigos, concepções existentes no Direito Pe-</p><p>nal devem ser buscadas no Direito Civil. Por exemplo:</p><p>os crimes dos artigos 235 a 237</p><p>do CP e as consequências civis pelo cometimento de crimes (artigos 944 a 954 do CC).</p><p>5ª) Relação com o Direito do Trabalho: o Direito Penal, em certas situações,</p><p>protege o Direito do Trabalho.</p><p>Os artigos 197 a 207 do CP tipificam os chamados “crimes trabalhistas”. O</p><p>artigo 482, alínea “d”, da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) permite a</p><p>despedida do empregado por justa causa quando for condenado criminalmente.</p><p>6ª) Relação com o Direito Internacional Público: o julgamento de certos</p><p>crimes (crimes de lesa-humanidade) poderá ocorrer em um Tribunal Penal Inter-</p><p>nacional (Estatuto de Roma), conforme parágrafo 4° do artigo 5° da CF. Todavia,</p><p>deve-se levar em conta a questão da soberania de cada país na criação de tais</p><p>delitos e efetivação de tais julgamentos.</p><p>Algumas vezes, um dado tipo de ilícito penal também poderá configurar um ilícito civil ou admi-</p><p>nistrativo. Muito embora exista uma relação do Direito Penal com o Direito Civil e o Direito Ad-</p><p>ministrativo, é oportuno compreender que as sanções de cada qual poderão ser diferenciadas.</p><p>Por outro lado, existirão situações em que a prática de um certo ilícito penal e a consequente</p><p>absolvição criminal influenciarão diretamente na responsabilidade civil ou administrativa.</p><p>Considerando isso, imagine um cidadão que pratica lesões corporais em outra pessoa,</p><p>fazendo com que esta fique inabilitada para trabalhar por sessenta dias. Além de existir a</p><p>possibilidade de punição na esfera penal, a vítima pode buscar reparação na esfera cível,</p><p>com o objetivo de ser indenizada pelos gastos com o tratamento de saúde. Ainda, se a</p><p>pessoa que provocou as lesões for um agente público, ele ainda poderá ser responsabili-</p><p>zado administrativamente. Portanto, as sanções não se comunicam, salvo raras exceções.</p><p>Fonte: os autores.</p><p>EXPLORANDO IDEIAS</p><p>Querido(a) aluno(a), é importante saber que o poder punitivo do Estado se de-</p><p>senvolve em duas etapas, por meio da criminalidade primária e secundária.</p><p>A criminalidade é a criação da lei em seu sentido formal, de forma abstrata, ti-</p><p>pificando determinadas condutas como crimes e permitindo outras. Por outro lado,</p><p>a criminalização secundária é a colocação na prática da criminalização primária,</p><p>29</p><p>ou seja, ocorre quando um indivíduo pratica a conduta vedada pelo Direito Penal</p><p>e, a partir de então, surge para o Estado a possibilidade de aplicação da punição.</p><p>Segundo Masson (2020, p. 5):</p><p>“ Para Zafaroni, a criminalização secundária possui duas caracterís-</p><p>ticas: seletividade e vulnerabilidade, pois há forte tendência de ser o</p><p>poder punitivo exercido precipuamente sobre pessoas previamente</p><p>escolhidas em face de suas fraquezas, a exemplo dos moradores de</p><p>rua, prostitutas e usuárias de drogas (MASSON, 2020, p. 5).</p><p>CRIMINALIDADE PRIMÁRIA CRIMINALIDADE SECUNDÁRIA</p><p>É a lei em seu sentido formal.</p><p>É a criminalidade primária colocada</p><p>em prática.</p><p>Quadro 2 - Criminalidade primária e secundária / Fonte: os autores.</p><p>Ao longo da História, o crime, o criminoso, a vítima e a sanção penal foram objeto</p><p>de estudo de várias ciências, também denominadas enciclopédia das ciências</p><p>penais. Não há, ainda, um consenso na doutrina sobre a quantidade de ciências</p><p>penais que existem, pois se discute a autonomia de cada uma delas. Vejamos, no</p><p>entanto, algumas das mais importantes.</p><p>Segundo a Antropologia Criminal, o Direito Penal pertencia à esfera da abstração</p><p>por meio da concepção do livre-arbítrio (escolha entre o certo e o errado). O crime era</p><p>um ente jurídico, sendo a violação de um direito dado por Deus à humanidade. Com o</p><p>surgimento da Escola Positiva, Cesare Lombroso em sua obra L’uomo Delinquente, de</p><p>1785, concedeu a figura do criminoso nato. Segundo sua concepção, o criminoso nato</p><p>seria um indivíduo propenso a praticar crimes em consequência de taras ancestrais.</p><p>UNICESUMAR</p><p>UNIDADE 1</p><p>30</p><p>Fundou-se, assim, a Antropologia Criminal, destacando-a da Antropologia</p><p>Geral. A partir desse momento, o Direito Penal passou para o campo das veri-</p><p>ficações objetivas sobre o delito e principalmente sobre seu autor. Passou-se a</p><p>utilizar o método experimental, isto é, a observação. Foi o que Lombroso fez, ao</p><p>analisar os caracteres externos dos criminosos.</p><p>Por outro lado, a Psicologia Criminal propôs desvendar as tendências e o</p><p>caráter do criminoso. Tem multiplicidade de disciplinas, como a psicologia da</p><p>multidão delinquente, a psicologia do comportamento da criança e do adoles-</p><p>cente, a psicologia judiciária, dentre outras. Em suma, a psicologia criminal é a</p><p>aplicação de conhecimentos psicológicos ao estudo da criminalidade e ao estudo</p><p>da produção de prova em processo penal.</p><p>A Sociologia Criminal de Ferri, discípulo de Lombroso, que estudou o fenôme-</p><p>no delituoso não tanto pelo aspecto orgânico, mas principalmente pelo aspecto social.</p><p>Em 1887, em sua obra Sociologia Criminal, Ferri deu ênfase aos fatores esquizógenos</p><p>(externos), admitindo que a criminalidade também é correlacionada ao ambiente e</p><p>ao meio social. Já por meio da estatística criminal, procura-se estabelecer um nexo de</p><p>causalidade entre o crime e determinados fatores por meio de uma análise estatística,</p><p>como, por exemplo, números envolvendo crimes e alcoolismo.</p><p>Temos ainda a Política Criminal, que observa o direito penal em vigor no</p><p>intuito de aperfeiçoá-lo. Em casos concretos, a política criminal deve ser aplicada</p><p>junto com a equidade para se buscar uma solução mais justa para a causa. Essa</p><p>ciência analisa de forma crítica a realidade social e a compara com o sistema</p><p>penal vigente, com o objetivo de propor modificações, inclusões, exclusões para</p><p>se adequar ao contexto social que está inserido.</p><p>A Criminologia é a ciência que estuda o crime como fato social; o delinquente; a</p><p>delinquência; o surgimento de normas de comportamento social; o processo de reação</p><p>social; condutas que não são criminosas, mas capazes de gerar os crimes (prostituição,</p><p>alcoolismo, dentre outras). É uma ciência interdisciplinar e empírica, que estuda “o</p><p>que é”, ao contrário do Direito Penal, que é uma ciência cultural, do “dever ser”. Um</p><p>dos precursores da criminologia é Garofalo com a sua obra Criminologia, de 1885.</p><p>Existem tendências criminológicas, como, por exemplo: a criminologia tradicional, a</p><p>criminologia clínica, a criminologia interacionista, a criminologia da passagem ao ato,</p><p>a criminologia da reação social; a criminologia radical, dentre outras. Atualmente, o</p><p>objeto de estudo da criminologia é a vítima, o criminoso, o crime e o controle social.</p><p>31</p><p>A Dogmática Penal tem como objetivo conhecer o sentido das normas e</p><p>princípios com o objetivo de desenvolver, de modo sistemático, o conteúdo do</p><p>Direito Penal. Segundo Masson, (2020, p. 10), “a dogmática penal é a interpretação,</p><p>sistematização e aplicação lógico racional do Direito Penal”.</p><p>Encontramos, ainda, algumas ciências auxiliares do Direito Penal que podem</p><p>ser exemplificadas como a Medicina Legal (é a disciplina que estuda o conjunto</p><p>de conhecimentos médicos utilizados na aplicação do Direito) e a Criminalísti-</p><p>ca/Polícia Científica (que é a técnica que resulta da aplicação de várias ciências</p><p>à investigação criminal, na descoberta de crimes e identificação de criminosos;</p><p>caracteriza-se por ser uma atividade pré-penal).</p><p>Caro(a) aluno(a), o Direito Penal não é uma disciplina meramente acadêmica,</p><p>uma vez que se ele faz necessário para que exista uma harmonia entre a convi-</p><p>vência entre os homens. Portanto, são inúmeras as suas funções.</p><p>Como estudado, uma das funções do Direito Penal é a proteção dos bens</p><p>jurídicos mais relevantes. O legislador seleciona os bens jurídicos mais relevantes</p><p>para a vida social, e os confere proteções especiais por meio do Direito Penal.</p><p>Outra de suas funções é o controle social. É por meio dele que se compreende</p><p>determinada ordem para o convívio pacífico em determinada sociedade. É diri-</p><p>gido a todas as pessoas mesmo que não se aplique a algumas delas.</p><p>O Direito Penal também pode ser um garantidor de direitos, tendo em</p><p>vista que somente pode ser aplicado quando alguém realiza determinada con-</p><p>duta proibida por lei. Ainda, há quem considere que o Direito Penal possui uma</p><p>função ético-social, uma vez que assegura o mínimo ético que deve reinar em</p><p>uma sociedade. A partir desse ponto de vista, desempenha um papel educador</p><p>em relação aos cidadãos, fomentando valores ético-sociais. É o caso, por exemplo,</p><p>das leis penais sobre os crimes fiscais e ambientais.</p><p>Já a função simbólica é aquela que apenas produz efeitos na mente dos</p><p>governantes e dos governados, não produzindo efeitos externos. Acontece ba-</p><p>sicamente quando ocorre algum fato que gera comoção popular e, para atender</p><p>a sua população, ou dar a sensação de que algo está sendo feito, os governantes</p><p>criam leis muitas vezes desnecessárias, causando a chamada hipertrofia do Di-</p><p>reito Penal. Devido a isso, gera automaticamente, na mente dos governantes, a</p><p>sensação de terem feito algo para resolver o problema, mas a verdade é que apenas</p><p>ocorre uma inflação legislativa e a solução do real problema fica adiada. Por sua</p><p>UNICESUMAR</p><p>UNIDADE 1</p><p>32</p><p>vez, na mente dos governados, há a sensação de que a situação está no controle</p><p>das autoridades e, por consequência, a criminalidade está contida.</p><p>A função ameaçadora do Direito Penal diz respeito ao poder de ameaça que</p><p>ele traz ao impor uma sanção, caso algum indivíduo pratique uma conduta tipifi-</p><p>cada. O Direito Penal moderno impõe uma nova finalidade, que é a de reduzir ao</p><p>máximo a violência estatal, utilizando-a somente nos casos estritamente necessá-</p><p>rios. Por fim, a função promocional do Direito Penal se preocupa em utilizá-lo</p><p>como instrumento de transformação social, a fim de que ele ajude na evolução</p><p>de determinada sociedade, e jamais seja um empecilho para o seu progresso.</p><p>Querido(a) aluno(a), como já é de conhecimento, o Direito Penal é um ramo do</p><p>ordenamento jurídico que se encontra imposto, aplicado às pessoas. Sendo assim,</p><p>surge a necessidade de se descobrir como essa imposição ocorre, ou seja, de onde</p><p>partem as regras que devem ser observadas. É nesse contexto que surge o estudo</p><p>das fontes do Direito, no sentido de se saber a origem das normas, em especial,</p><p>do Direito Penal, falando-se, por isso, em fontes do Direito Penal.</p><p>Como logo se verá, as fontes do Direito Penal estão divididas em: fontes</p><p>materiais e fontes formais. As fontes materiais são aquelas responsáveis pela</p><p>33</p><p>produção e criação do Direito Penal. Já as fontes formais são aquelas encarregadas</p><p>pela visualização e aplicação do Direito Penal.</p><p>Também, em razão do estudo das fontes do Direito Penal, surge a necessidade</p><p>de se estudar a interpretação da lei penal (como veremos posteriormente), para</p><p>se descobrir o verdadeiro alcance das normas penais. Esse estudo em muito se</p><p>dará por meio da aplicação da hermenêutica jurídica, que é a ciência encarregada</p><p>de desvendar os caminhos da interpretação.</p><p>Mas, você sabe o que pode ser entendido pela expressão “fonte”? Na linguagem</p><p>jurídica, a fonte é a origem, o lugar de onde provém o Direito. Fonte do Direito Penal</p><p>significa dizer de onde se originam as normas penais, de onde promana o Direito</p><p>Penal. Em suma, a fonte do Direito Penal é a origem das normas de Direito Penal.</p><p>A fonte material (ou fonte de produção ou fonte substancial) é o órgão ou</p><p>entidade de onde o Direito Penal provém. A fonte material de Direito Penal é o</p><p>Estado. É claro que por trás do Estado como fonte originária está a consciência</p><p>do povo em dado momento histórico, representando as necessidades sociais e</p><p>as aspirações culturais. Segundo Bitencourt (2022, p. 198): “No passado, a Igreja,</p><p>o pater familias e a sociedade também se apresentavam como fontes do Direito”.</p><p>Conforme o artigo 22, inciso I, da Constituição Federal, compete privativa-</p><p>mente à União legislar sobre Direito Penal, sendo que, por isso, normas de Direito</p><p>Penal são de competência federal, a cargo do Congresso Nacional. Todavia, o</p><p>próprio parágrafo único do artigo 22, da CF, autoriza que os Estados Membros</p><p>legislem a respeito de questões específicas de interesse local.</p><p>Agora, indago a você, caro(a) aluno(a): a medida provisória poderia versar so-</p><p>bre o Direito Penal? A emenda constitucional 32/2001 inseriu um dispositivo na</p><p>CF/1988, a qual vedou a elaboração de medida provisória que versasse sobre o Direi-</p><p>to Penal. Vale ressaltar que antes dessa emenda, não existia, na CF/1988, dispositivo</p><p>que vedava a elaboração de medida provisória com matéria de Direito Penal.</p><p>Ocorre que em 2000, ou seja, antes da emenda de 2001, o Superior Tribunal Fede-</p><p>ral (STF) apreciou o recurso extraordinário nº 254.818/PR e especificou que medida</p><p>provisória não poderia versar sobre Direito Penal, exceto se favorável ao réu. Atual-</p><p>mente, é pacífico na jurisprudência e doutrina que é possível que medida provisória</p><p>verse sobre assuntos de Direito Penal, desde que de forma favorável ao réu.</p><p>Por outro lado, a fonte formal (fonte de conhecimento ou fonte de cogni-</p><p>ção) é o meio pelo qual se expressa a vontade do Estado. Segundo Gusmão</p><p>UNICESUMAR</p><p>UNIDADE 1</p><p>34</p><p>(2004, p. 104): “as fontes formais são os meios ou formas pelas quais o Direito</p><p>Positivo se apresenta na História; são os meios de expressão e conhecimento do</p><p>Direito”. Portanto, pode-se dizer que a fonte formal é a forma pela qual o Direito</p><p>Penal se exterioriza, se objetiva, se concretiza, se dá a conhecer.</p><p>Ainda, as fontes formais subdividem-se em duas espécies: a formal imedia-</p><p>ta e a formal mediata ou secundária. A fonte formal imediata (fonte formal</p><p>direta ou fonte formal primária) é a lei penal. Segundo Masson (2020, p. 14):</p><p>“ É a lei, regra escrita concretizada pelo poder legislativo em consonância</p><p>com a forma determinada pela Constituição Federal. Em obediência</p><p>ao princípio da reserva legal ou da estrita legalidade (CF, artigo 5º, in-</p><p>ciso XXXIX, e CP, artigo 1º), constitui-se a única fonte formal imediata</p><p>do Direito Penal, pois somente ela pode criar crimes (e contravenções</p><p>penais) e cominar penas (MASSON, 2020, p. 14).</p><p>Algumas são as características da lei penal:</p><p>1ª. É imperativa, pois sua violação faz surgir o jus puniendi estatal e acarreta a</p><p>aplicação de uma pena.</p><p>2ª. É geral, pois é destinada a todos, mesmo os inimputáveis.</p><p>3ª. É impessoal e abstrata, por não se referir a pessoa determinada, nem se</p><p>referir a casos concretos.</p><p>4ª. É dirigida a fatos futuros (regra geral é irretroativa).</p><p>A fonte formal mediata (fonte formal indireta ou fonte formal secundária) é</p><p>o meio indireto pelo qual se exterioriza o Direito Penal. De acordo com a dou-</p><p>trina moderna, tais fontes são: a Constituição Federal, a jurisprudência, a doutrina,</p><p>os tratados ou convenções internacionais sobre os direitos humanos, os princípios</p><p>gerais do Direito e os atos administrativos. Vejamos brevemente cada um deles.</p><p>A Constituição Federal não cria crimes e nem comina penas. No entanto,</p><p>ela possui diversos artigos que se aplicam ao Direito Penal, como o princípio</p><p>da irretroatividade da Lei Penal (artigo 5º, inciso XL), intransmissibilidade ou</p><p>personalidade da pena (artigo 5º, inciso XLV), individualização da pena (artigo</p><p>35</p><p>5º, XLVI), bem como os mandados de criminalização. Além do mais, a Consti-</p><p>tuição Federal tem como função limitar o poder punitivo estatal e a proteção do</p><p>indivíduo por meio dos direitos e garantias fundamentais.</p><p>A jurisprudência também não cria crimes e nem comina penas. A jurispru-</p><p>dência é, na verdade, um conjunto de entendimentos elaborados pelos tribunais</p><p>superiores a respeito de determinado tema. As decisões elaboradas pelos tribunais</p><p>são muitas vezes consideradas obrigatórias e vinculantes, fato que é essencial para</p><p>o bom funcionamento da Justiça.</p><p>A doutrina, por sua vez, para alguns autores, não é considerada como fonte do</p><p>Direito Penal por não possuir caráter vinculante. Ela representa um estudo científico,</p><p>e serve como um instrumento útil para a aplicação e interpretação do Direito Penal.</p><p>Os tratados internacionais apenas podem ser considerados como</p><p>fon-</p><p>tes do Direito Penal quando forem incorporados no ordenamento jurídico</p><p>interno brasileiro. Ao serem incorporados, eles podem assumir três status.</p><p>Caso versem sobre matéria de direitos humanos e forem aprovados por meio</p><p>do rito de emendas, ou seja, em dois turnos em cada casa legislativa, por</p><p>três quintos dos votos (artigo 5º, parágrafo 3°, CF), irão assumir o status de</p><p>emenda constitucional, caso contrário, se não forem aprovados pelo rito de</p><p>emenda, mas versarem sobre matéria de direitos humanos, terão o status de</p><p>norma supralegal, estando abaixo da Constituição, mas acima das leis, em</p><p>nível de hierarquia. Por fim, caso o tratado não verse sobre matéria de direitos</p><p>humanos, possuirá o status de lei ordinária.</p><p>Os costumes são considerados uma repetição de comportamento devido</p><p>à crença na sua obrigatoriedade. Ele também não cria crimes e comina penas,</p><p>tendo em vista que somente a lei tem essa função em respeito ao princípio da</p><p>legalidade. No entanto, ele é fonte indireta/mediata porque:</p><p>■ Influencia a elaboração de novas leis;</p><p>■ Proporciona a compreensão de vários termos que aparecem na lei penal,</p><p>por exemplo, dignidade ou decoro (artigo 140 do CP), ato obsceno (artigo</p><p>233 do CP), entre outros;</p><p>■ Em certas situações, estende-se às causas de exclusão da ilicitude e da</p><p>culpabilidade, criando causas supralegais.</p><p>UNICESUMAR</p><p>UNIDADE 1</p><p>36</p><p>Os costumes ainda podem ser divididos em secum legem (interpretativo), contra</p><p>legem (negativo) e praeter legem (integrativo). O costume secum legem ou in-</p><p>terpretativo tem como função ajudar o aplicador do direito na interpretação de</p><p>alguma norma. Podemos dar como exemplo o artigo 233 do CP ao dispor sobre</p><p>ato obsceno, uma vez que ato obsceno pode ter várias interpretações, a depender</p><p>da região onde praticado. Por sua vez, o costume contra legem, ou costume ne-</p><p>gativo, é aquele que contraria a lei, mas não a revoga. São também chamados de</p><p>desuetudos. Como exemplo do costume contra legem, temos a venda dos CDs</p><p>piratas, tendo em vista que apesar de ser ilegal, em muitas regiões ainda ocorre.</p><p>Por fim, o costume praeter legem, também chamado de costume integrativo, tem</p><p>a função de auxiliar o aplicador da lei quando houver alguma lacuna legislativa</p><p>sobre determinado assunto. No entanto, apenas podem ser utilizados em relação</p><p>às normas penais não incriminadoras e para favorecer o agente.</p><p>Os princípios gerais de Direito podem ser definidos, segundo Jesus (2009,</p><p>p. 29) como “premissas éticas que são extraídas, mediante indução, do material</p><p>legislativo”. São valores fundamentais que ajudam na elaboração do Direito e</p><p>preservação do ordenamento jurídico. Ainda que não sirvam para a criação de</p><p>crimes ou cominação de penas, são muitas vezes usados pelos tribunais supe-</p><p>riores em julgados para absorver ou reduzir pena, como no caso da aplicação do</p><p>princípio da significância que retira do fato típico a tipicidade material.</p><p>Por fim, os atos administrativos podem ser utilizados para complemento das</p><p>normas penais em branco.</p><p>Conceito do Direito Penal e Sua Evolução Histórica</p><p>Querido(a) aluno(a), te convido, neste momento, a escutar o</p><p>podcast em que explico, de maneira resumida, os principais</p><p>temas trazidos nesta unidade. Nele, você irá encontrar</p><p>o conceito do Direito Penal e informações sobre como</p><p>ocorreu sua evolução histórica, bem como as suas carac-</p><p>terísticas e funções. Detalho também as fontes mediatas e</p><p>imediatas dessa ciência. Faça bom proveito!</p><p>https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/17801</p><p>37</p><p>Para fixar:</p><p>Fonte imediata:</p><p>Lei Ordinária.</p><p>Fontes mediatas:</p><p>Constituição Federal: não cria crimes e nem comina penas, mas possui diversos artigos</p><p>que se aplicam ao Direito Penal.</p><p>Jurisprudência: também não cria crimes e nem comina penas. A jurisprudência é na ver-</p><p>dade um conjunto de entendimentos elaborados pelos tribunais superiores a respeito de</p><p>determinado tema.</p><p>Tratados Internacionais: podem ser classificados como fonte do Direito Penal apenas</p><p>quando incorporados ao Direito interno.</p><p>Costumes: influenciam a elaboração de novas leis; proporciona a compreensão de vários</p><p>termos que aparecem na lei penal.</p><p>Princípios Gerais de Direito: são valores fundamentais que ajudam na elaboração do</p><p>Direito.</p><p>EXPLORANDO IDEIAS</p><p>Caro(a) aluno(a), como se viu nesta unidade, para se conhecer o Direito Penal</p><p>na forma como o encontramos hoje, com suas características, objeto e funções,</p><p>é necessário conhecer a sua história.</p><p>A construção da história do Direito Penal foi um processo lento e marcado</p><p>por erros, desde o elevado desrespeito à pessoa até a valorização dos direitos</p><p>humanos. O estudo e abordagem cronológica dessa evolução propicia o enten-</p><p>dimento sobre a mudança do pensamento humano em relação ao conceito de</p><p>crime e às penas que devem ser imputadas àquele que praticou uma infração.</p><p>Ainda, você pôde compreender que atualmente seu objetivo maior é a proteção</p><p>dos bens jurídicos mais relevantes, que são essenciais para a harmonia de uma socie-</p><p>dade. Foi possível perceber, também, que o Direito Penal pode comportar variadas</p><p>funções, de acordo com as concepções doutrinárias, bem como possui várias carac-</p><p>terísticas, sendo uma ciência normativa, de valores, fragmentária e sancionatória.</p><p>Diferentemente dos tempos antigos, em que o Direito Penal era lastreado</p><p>pelos costumes e uso do bom senso, ao estudar sobre as suas fontes, percebeu-se</p><p>que atualmente sua criação é fruto das leis, e que somente pode ocorrer sua modi-</p><p>ficação por meio de um processo legislativo estabelecido na Constituição Federal,</p><p>no qual a União é o ente federativo que possui competência privativa para legislar</p><p>a respeito, podendo somente delegar para os Estados em casos específicos.</p><p>UNICESUMAR</p><p>UNIDADE 1</p><p>38</p><p>Retornemos, neste momento, à atividade proposta no início da atividade: com</p><p>a leitura do Código Penal de 1830, pode-se perceber, após a leitura da unidade,</p><p>a evolução da ciência do Direito Penal, uma vez que naquela época o principal</p><p>objetivo da sua criação era substituir a codificação penal portuguesa, que vigorava</p><p>no Brasil apesar da sua independência.</p><p>O Direito Penal hoje é uma ciência que possui uma finalidade, interligada</p><p>a vários outros ramos do Direito, estudada por inúmeros doutrinadores, que</p><p>respeita os limites estabelecidos na Constituição Federal, bem como os direitos</p><p>humanos. Há uma preocupação maior com a dignidade da pessoa humana e</p><p>com as penas estabelecidas. A prisão atualmente é uma exceção e a liberdade a</p><p>regra. Não há mais pena de banimento, de caráter perpétuo e nem pena de morte.</p><p>Seu processo de modificação é extremamente complexo e pautado em estu-</p><p>dos e análises de acordo com a realidade inserida. O Direito Penal apenas incide</p><p>em casos pontuais, uma vez que possui caráter fragmentário. A jurisprudência,</p><p>juntamente com a doutrina, costumes e princípios dão embasamento aos estudos</p><p>para a modificação da lei. Obviamente está longe de ser uma ciência ideal, no</p><p>entanto, não é mais um ramo sem rigor científico.</p><p>Após toda essa introdução ao Direito Penal, você está pronto(a) para adentrar</p><p>ao estudo da matéria propriamente dita.</p><p>39</p><p>1. “A pena, segundo este princípio formulado nitidamente nas célebres definições de</p><p>Grócio, Pufendorf e Thomasius, é uma sanção cominada ab malum actionis, ou an-</p><p>tegressi delecti, ou propter delectum, isto é, aplicável quando se tenha praticado um</p><p>delito, que constitui sua causa ou condição necessária e do qual se configura como</p><p>efeito ou consequência jurídica” (FERRAJOLI, 2014, p. 338).</p><p>FERRAJOLI, Luigi. Direito e razão: teoria do garantismo penal. São Paulo. Revista</p><p>dos Tribunais, 2014.</p><p>Considerando o texto acima, discorra, em no mínimo 15 linhas, a respeito das teorias</p><p>que envolvem a finalidade da pena criminal.</p><p>2. “Apenas os bens jurídicos mais relevantes são erigidos a bens jurídicos penais, em</p><p>face do caráter fragmentário e da subsidiariedade do Direito Penal. O legislador sele-</p><p>ciona, em um Estado Democrático de Direito, os bens especialmente relevantes para</p><p>a vida social</p><p>e, por isso mesmo, merecedores da tutela penal” (MASSON, 2020, p. 8).</p><p>MASSON, Cléber. Direito penal: parte geral. Rio de Janeiro; São Paulo: Forense;</p><p>Método, 2020.</p><p>Considerando o texto acima sobre bens jurídicos, discorra, em no mínimo 10 linhas,</p><p>a respeito do seu conceito e cite dois exemplos.</p><p>3. “O direito penal é uno. O ordenamento jurídico, com efeito, é composto por conjuntos</p><p>de normas e princípios em vigor. Sua divisão em blocos se dá estritamente para fins</p><p>didáticos. Dessa forma, o Direito Penal se relaciona como todos os demais ramos</p><p>jurídicos” (MASSON, 2020, p. 5).</p><p>MASSON, Cléber. Direito penal: parte geral. Rio de Janeiro; São Paulo: Forense;</p><p>Método, 2020.</p><p>Considerando a relação do Direito Penal com os demais ramos do Direito, explique,</p><p>em no mínimo 10 linhas, a relação do Direito Penal com o Direito Constitucional.</p><p>2Princípios e</p><p>Aplicação da</p><p>Lei Penal no</p><p>Tempo e no Espaço</p><p>Me. Marllon Beraldo</p><p>Esp. Beatriz Gasparin Moreira</p><p>Nesta unidade, você compreenderá como o Direito Penal se limita</p><p>em razão da incidência de alguns princípios. Analisaremos as formas</p><p>de interpretação da lei penal em relação ao tempo, ao espaço e às</p><p>pessoas, e, a partir do estudo de noções da Teoria Geral do Crime,</p><p>evidenciaremos os diversos conceitos de crime e sua classificação,</p><p>bem como compreenderemos quem são os sujeitos do delito.</p><p>UNIDADE 2</p><p>42</p><p>Querido(a) aluno(a), imagine a seguinte situação: uma mãe pobre, que encontra-</p><p>-se desempregada e cria sozinha seus quatro filhos menores de idade, sem ter o</p><p>que comer há três dias, entra em um supermercado e, não vendo outra alternativa,</p><p>furta um saco de arroz e outro de feijão. Os seguranças do estabelecimento, após</p><p>perceberem a conduta suspeita, interceptam a mulher, que já estava saindo da loja,</p><p>e, na sequência, acionam a polícia. A pena prevista para o crime de furto é de um</p><p>a quatro anos de reclusão, conforme o artigo 155 do Código Penal (CP). Em sua</p><p>opinião, com base nos fatos e na pena prevista, seria proporcional a aplicação de</p><p>tal pena à autora do furto? Você sabe como o Direito Penal atua nessas situações?</p><p>É oportuno dizer que as normas penais estão divididas em regras e princípios.</p><p>As regras são normas de conteúdo determinado, que possuem comandos</p><p>precisos e específicos, enquanto os princípios são normas de conteúdo mais</p><p>abrangentes, os quais servem como instrumento de interpretação e integração.</p><p>Diferentemente das regras, os princípios são normas de conteúdo de grande ge-</p><p>neralidade e que são aplicados após a análise dos interesses do caso em concreto,</p><p>bem como há ponderação de valores e observa-se a proporcionalidade. Portanto,</p><p>ainda que uma determinada conduta se amolde perfeitamente a um tipo penal,</p><p>ainda é necessário analisar alguns princípios com o fim de realizar a tipificação.</p><p>Considerando essas ponderações iniciais, agora é sua vez! Te convido, queri-</p><p>do(a) aluno(a), a realizar a leitura do julgado abaixo, que trata do</p><p>princípio da insignificância nos casos de furto famélico, também</p><p>chamado de furto de alimentos, o qual versa sobre a problemá-</p><p>tica que analisamos acima. Boa leitura!</p><p>Após a leitura do julgado, você pôde perceber que, ainda que</p><p>o sujeito tenha praticado uma conduta típica, ele não sofreu as</p><p>reprimendas estatais. Isso porque, ainda que no caso em concreto fosse possível</p><p>a aplicação da norma penal, prevista no artigo 155 do CP, foi aplicado ao caso</p><p>o princípio da insignificância. É importante ressaltar que o princípio da insig-</p><p>nificância não foi criado para legitimar condutas típicas, mas para impedir que</p><p>condutas consideradas ínfimas fossem punidas pelo Direito Penal.</p><p>O princípio da insignificância será tratado de maneira mais aprofundada</p><p>nesta unidade, assim como os demais princípios que norteiam o Direito Penal</p><p>e auxiliam o legislador tanto quando da elaboração das normas, como em sua</p><p>interpretação para a aplicação da lei ao caso concreto.</p><p>https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/17912</p><p>43</p><p>Caro(a) aluno(a), é fundamental entender que as normas destinadas à aplicabi-</p><p>lidade do Direito Penal não se resumem somente a artigos de lei. Muitas dessas</p><p>normas são consideradas princípios, que são proposições tidas como verdades</p><p>fundantes e irrefutáveis. Esses referidos princípios norteiam o poder punitivo do</p><p>Estado, impondo limitações e garantindo direitos aos cidadãos.</p><p>Segundo Nucci (2022, p. 98):</p><p>“ Os princípios são normas com elevado grau de generalidade, aptos</p><p>a envolver inúmeras situações conflituosas com o objetivo de solu-</p><p>cioná-las. Não possuem a especificidade de uma regra, que contém</p><p>um comando preciso e determinado, mas constituem proposituras</p><p>amplas o suficiente para englobar as regras, dando-lhes um rumo,</p><p>mormente quando há conflito entre elas (NUCCI, 2022, p. 98).</p><p>De acordo com Masson (2020), os princípios são valores fundamentais que inspi-</p><p>ram a criação e manutenção do sistema jurídico. Eles têm como função o auxílio</p><p>ao legislador ordinário, bem como ao aplicador da norma, para garantir a limi-</p><p>tação do poder punitivo estatal e garantir a imposição de garantias ao cidadão.</p><p>UNICESUMAR</p><p>UNIDADE 2</p><p>44</p><p>Princípios são certos enunciados lógicos admitidos como condição ou base de validade das</p><p>demais asserções que compõem o campo do saber. [...] Os princípios podem ser omniva-</p><p>lentes quando aplicáveis a todos os ramos do saber, como o princípio da razão; plurivalen-</p><p>tes quando aplicáveis a vários campos do saber, como ocorre com o princípio da causalida-</p><p>de típico das ciências naturais e não extensível a outras ciências; e monovalentes quando</p><p>aplicáveis somente a um campo do saber, como o são os princípios gerais de direito.</p><p>Fonte: REALE, M. Lições preliminares de direito. 24. ed. São Paulo: Saraiva, 1998.</p><p>EXPLORANDO IDEIAS</p><p>Na aplicação do Direito Penal, que é realizada pelo Estado, o agente criminoso</p><p>está em uma posição de maior vulnerabilidade, pois as funções de investigar,</p><p>acusar e julgar são todas estatais; sendo assim, para garantir uma certa paridade</p><p>ao acusado, o próprio Direito Penal, ao longo de sua evolução consagrou algumas</p><p>normas (princípios) essenciais para tanto, a fim de se evitar abusos e ilegalidades</p><p>na aplicação do jus puniendi.</p><p>É exatamente daqui que se construíram os princípios penais, espalhando-se</p><p>por muitos ordenamentos jurídicos. Dentre os referidos princípios, pode-se des-</p><p>tacar os seguintes: princípio da legalidade, princípio da confiança, princípio da</p><p>intervenção mínima, princípio da fragmentariedade, princípio da ofensividade,</p><p>princípio da culpabilidade, princípio da humanidade, princípio da adequação</p><p>social, princípio da insignificância, princípio do no bis in idem, dentre outros.</p><p>Lei Penal e Estudo da Teoria Geral do Crime</p><p>Antes de analisarmos os princípios citados acima, te convi-</p><p>do, caro(a) aluno(a), a escutar o podcast em que eu explico</p><p>os principais assuntos abordados nesta unidade. Ele foi feito</p><p>com a intenção de te ajudar na compreensão da matéria.</p><p>Além dos princípios que se aplicam ao Direito Penal, es-</p><p>clareço os temas a serem tratados adiante: interpretação da</p><p>lei penal e início do estudo da Teoria Geral do Crime.</p><p>Iniciaremos a nossa análise dos princípios pelo princípio da legalidade ou reserva</p><p>legal, que se encontra no artigo 5º, inciso XXXIX, da Constituição Federal e no artigo</p><p>1° do Código Penal, o qual define que não há crime sem lei anterior que o defina, nem</p><p>https://apigame.unicesumar.edu.br/qrcode/17802</p><p>45</p><p>pena sem prévia cominação legal. Em razão desse princípio, são inadmissíveis, no</p><p>Direito Penal, a criação de leis vagas e imprecisas para definir crimes e cominar penas.</p><p>Por outro lado, segundo o princípio da anterioridade, para que exista crime</p><p>e pena, é essencial que elas sejam definidas e previstas pelo ordenamento jurídico</p><p>antes da conduta realizada pelo agente. Portanto, a norma deve ser anterior ao fato</p><p>tido como criminoso. Como acentua Nucci (2022, p. 66): “De nada adiantaria ado-</p><p>tar o princípio da legalidade sem a correspondente anterioridade, pois criar uma</p><p>lei,</p>

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