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<p>Conceitos e Princípios do</p><p>Processo Tributário</p><p>Direito Processual</p><p>Tributário</p><p>Diretor Executivo</p><p>DAVID LIRA STEPHEN BARROS</p><p>Gerente Editorial</p><p>CRISTIANE SILVEIRA CESAR DE OLIVEIRA</p><p>Projeto Gráfico</p><p>TIAGO DA ROCHA</p><p>Autoria</p><p>FERNANDA SILVEIRA COSTA</p><p>AUTORIA</p><p>Fernanda Silveira Costa</p><p>Olá! Sou formada em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de</p><p>Minas Gerais, advogada criminalista, pós-graduanda em Direito Público,</p><p>mestre em Ciências Jurídico-Criminais pela Universidade de Coimbra,</p><p>tenho experiência técnico-profissional em educação não formal pelo</p><p>programa Erasmus Plus da União Europeia e trabalho como professora</p><p>para a Modular Acadêmico, empenhada cada dia mais em contribuir para</p><p>a educação do nosso país. Foi com grande alegria que aceitei o desafio de</p><p>participar e dar o meu contributo para esse maravilhoso projeto da Editora</p><p>Telesapiens, fazendo parte do elenco de autores independentes. Me sinto</p><p>muito grata por poder contribuir para o seu aprendizado. Conte comigo!</p><p>ICONOGRÁFICOS</p><p>Olá. Esses ícones irão aparecer em sua trilha de aprendizagem toda vez</p><p>que:</p><p>OBJETIVO:</p><p>para o início do</p><p>desenvolvimento de</p><p>uma nova compe-</p><p>tência;</p><p>DEFINIÇÃO:</p><p>houver necessidade</p><p>de se apresentar um</p><p>novo conceito;</p><p>NOTA:</p><p>quando forem</p><p>necessários obser-</p><p>vações ou comple-</p><p>mentações para o</p><p>seu conhecimento;</p><p>IMPORTANTE:</p><p>as observações</p><p>escritas tiveram que</p><p>ser priorizadas para</p><p>você;</p><p>EXPLICANDO</p><p>MELHOR:</p><p>algo precisa ser</p><p>melhor explicado ou</p><p>detalhado;</p><p>VOCÊ SABIA?</p><p>curiosidades e</p><p>indagações lúdicas</p><p>sobre o tema em</p><p>estudo, se forem</p><p>necessárias;</p><p>SAIBA MAIS:</p><p>textos, referências</p><p>bibliográficas e links</p><p>para aprofundamen-</p><p>to do seu conheci-</p><p>mento;</p><p>REFLITA:</p><p>se houver a neces-</p><p>sidade de chamar a</p><p>atenção sobre algo</p><p>a ser refletido ou dis-</p><p>cutido sobre;</p><p>ACESSE:</p><p>se for preciso aces-</p><p>sar um ou mais sites</p><p>para fazer download,</p><p>assistir vídeos, ler</p><p>textos, ouvir podcast;</p><p>RESUMINDO:</p><p>quando for preciso</p><p>se fazer um resumo</p><p>acumulativo das últi-</p><p>mas abordagens;</p><p>ATIVIDADES:</p><p>quando alguma</p><p>atividade de au-</p><p>toaprendizagem for</p><p>aplicada;</p><p>TESTANDO:</p><p>quando o desen-</p><p>volvimento de uma</p><p>competência for</p><p>concluído e questões</p><p>forem explicadas;</p><p>SUMÁRIO</p><p>Conceito e Função dos Princípios Jurídicos .................................... 10</p><p>Princípios Gerais do Processo Tributário ...........................................20</p><p>Justiça ................................................................................................................................................... 20</p><p>Segurança Jurídica .........................................................................................................................22</p><p>Isonomia ...............................................................................................................................................24</p><p>Legalidade ............................................................................................................................................25</p><p>Razoabilidade e Proporcionalidade .................................................................................26</p><p>Publicidade .........................................................................................................................................28</p><p>Princípios Vetores de Procedimentos Administrativos ...............30</p><p>Oficialidade .........................................................................................................................................33</p><p>Inquisitoriedade ................................................................................................................................34</p><p>Cientificação ....................................................................................................................................... 36</p><p>Busca pela Verdade Real .........................................................................................................37</p><p>Subordinação Hierárquica ....................................................................................................... 38</p><p>Dever de Fundamentação ...................................................................................................... 39</p><p>Princípios do Processo Administrativo e Judicial ..........................42</p><p>Princípios Jurídicos que Incidem sobre os Processos Administrativos e</p><p>Judiciais Tributários ........................................................................................................................43</p><p>Devido Processo Legal ............................................................................................44</p><p>Ampla Defesa ................................................................................................................44</p><p>Contraditório ....................................................................................................................45</p><p>Instrumentalidade ......................................................................................................45</p><p>Economia Processual ............................................................................................... 46</p><p>Duplo Grau de Jurisdição ...................................................................................... 46</p><p>Necessária Fundamentação das Decisões .............................................47</p><p>Princípios do Processo Administrativo .......................................................................... 48</p><p>Princípios do Processo Judicial .......................................................................................... 50</p><p>7</p><p>UNIDADE</p><p>02</p><p>Direito Processual Tributário</p><p>8</p><p>INTRODUÇÃO</p><p>Você sabia que o ordenamento jurídico é composto por alguns</p><p>princípios fundamentais que se desdobram em outros princípios deles</p><p>decorrentes, e, posteriormente, em regras? Isso mesmo! Os princípios</p><p>jurídicos são uma espécie de norma jurídica que consagram determinados</p><p>valores, fins ou objetivos a serem observados na elaboração e aplicação</p><p>de regras jurídicas, bem como na interpretação e aplicação de outros</p><p>princípios. Desse modo, dedicaremos a presente unidade ao estudo</p><p>dos princípios jurídicos do Processo Tributário, uma vez que são estes</p><p>princípios os responsáveis por orientar todo o ordenamento jurídico e</p><p>todo o conteúdo das normas infraconstitucionais no que diz respeito à</p><p>matéria processual tributária. Entendeu? Então vamos juntos mergulhar</p><p>nesse universo!</p><p>Direito Processual Tributário</p><p>9</p><p>OBJETIVOS</p><p>Olá. Seja muito bem-vindo à Unidade 2. Nosso objetivo é auxiliar</p><p>você no desenvolvimento das seguintes competências profissionais até o</p><p>término desta etapa de estudos:</p><p>1. Discernir sobre o conceito e a função dos princípios jurídicos.</p><p>2. Identificar os princípios gerais do processo tributário.</p><p>3. Identificar os princípios vetores de procedimentos administrativos.</p><p>4. Compreender os princípios do processo tributário administrativo</p><p>e judicial.</p><p>Então? Preparado para mais uma viagem sem volta rumo ao</p><p>conhecimento? Ao trabalho! E lembre-se que a pertinência nos estudos</p><p>realiza o impossível!</p><p>Direito Processual Tributário</p><p>10</p><p>Conceito e Função dos Princípios</p><p>Jurídicos</p><p>OBJETIVO:</p><p>Ao final deste capítulo, você será capaz de entender em</p><p>que consistem os princípios jurídicos e qual é a sua função</p><p>no ordenamento jurídico. Isto será fundamental para que</p><p>possa compreender as principais diretrizes que guiam</p><p>todas as normas jurídicas vigentes. E então? Motivado para</p><p>desenvolver esta competência? Então vamos lá!</p><p>Primeiramente, é preciso saber o que é um princípio, para então</p><p>definirmos o que é um princípio jurídico. Portanto, indago-lhes: o que é um</p><p>princípio? Pois bem, a própria linguagem coloquial já nos dá uma noção</p><p>de que princípio é o primeiro momento da existência de algo, ou, ainda, a</p><p>causa primeira, raiz ou razão de alguma coisa.</p><p>A primeira noção de princípios foi concebida sob a perspectiva de</p><p>um Direito Natural que identificava os princípios como espécies de normas</p><p>supremas norteadoras da conduta humana que atuavam</p><p>mas com o dever de</p><p>pronunciar definitivamente acerca do entendimento da Administração</p><p>Pública sobre o eventual conflito.</p><p>Portanto, no processo administrativo, se as partes estiverem inertes,</p><p>o processo não é extinto sem julgamento do mérito, como ocorre no</p><p>processo judicial. Na seara administrativa, por força do referido princípio,</p><p>é dever da autoridade impulsionar o processo, a fim de obter “um</p><p>pronunciamento da Administração Tributária acerca do conflito que lhe foi</p><p>submetido, sob pena de perempção” (SEGUNDO, 2020, p. 47).</p><p>E então? Gostaram do que viram até aqui? Agora, para finalizar o</p><p>nosso capítulo iremos ver mais de perto as peculiaridades do processo</p><p>judicial que fazem sobre ele incidir uma série e princípios que lhe são</p><p>próprios. Vamos lá!</p><p>Princípios do Processo Judicial</p><p>Como dito anteriormente, o processo judicial enseja um provimento</p><p>estatal definitivo para pôr termo a um conflito de interesses. E é justamente</p><p>por isso que o processo judicial, além de reclamar uma aplicação mais</p><p>cuidadosa do princípio do devido processo legal e daqueles que dele</p><p>se desdobram; também reclama a aplicação de princípios que lhe são</p><p>próprios.</p><p>Você sabe me dizer alguns desses princípios? Pois bem, alguns dos</p><p>mais importantes princípios peculiares do processo judicial são: o princípio</p><p>da inafastabilidade da jurisdição; efetividade da tutela jurisdicional;</p><p>imparcialidade; inércia e verdade formal.</p><p>Direito Processual Tributário</p><p>51</p><p>O princípio da inafastabilidade da jurisdição pode ser deduzido do</p><p>preceito constitucional que determina que a lei não excluirá da apreciação</p><p>do Poder Judiciário lesão ou ameaça a direito (art. 5º, inciso XXXV, da</p><p>Constituição Federal). Nesse sentido, o princípio em tela estabelece a</p><p>impossibilidade jurídica de haver um conflito de interesses que não possa,</p><p>pelo menos a princípio, ser levado ao crivo do Poder Judiciário pelas partes</p><p>interessadas. É deste princípio que extraímos, por decorrência lógica, que</p><p>o Poder Judiciário detém o monopólio da jurisdição, de modo que só</p><p>ele tem competência para pôr fim, de forma definitiva, a um conflito de</p><p>interesses.</p><p>E é justamente por ter para si o monopólio da jurisdição que o</p><p>Estado tem o dever de assegurar que esta jurisdição seja prestada de</p><p>modo efetivo, útil, célere e adequado. O referido dever, por sua vez, é</p><p>imposto pelo princípio da tutela jurisdicional, que estabelece que o</p><p>processo judicial deve, entre outras coisas, proporcionar a existência</p><p>de procedimentos específicos adequados à tutela de determinados</p><p>direitos; a possibilidade de fato de os cidadãos, de qualquer classe social,</p><p>recorrerem ao Poder Judiciário; a existência e o deferimento de tutelas</p><p>de urgência adequadas à preservação da máxima efetividade possível do</p><p>provimento final etc. (SEGUNDO, 2020).</p><p>Ante o caráter infestável da atividade jurisdicional e da natureza</p><p>definitiva de suas decisões finais, impõe-se que a autoridade que</p><p>conduz o processo judicial seja imparcial (princípio da imparcialidade), e,</p><p>consequentemente, que seja inerte (princípio da inércia), de modo que a</p><p>instauração do processo dependa sempre de provocação das partes, não</p><p>podendo ser levada a cabo de forma oficiosa pelo julgador. E em razão do</p><p>princípio da inércia e imparcialidade que incidem sobre o órgão julgador</p><p>do Poder Judiciário, este deve se alterar os elementos trazidos nos autos</p><p>pelas partes, razão pela qual a doutrina aponta a incidência do princípio</p><p>da verdade formal sobre os processos judiciais.</p><p>Direito Processual Tributário</p><p>52</p><p>RESUMINDO:</p><p>E então? Gostou do que mostramos? Aprendeu mesmo</p><p>tudinho? Para resumir tudo o que aprendemos no presente</p><p>capítulo é importante que você tenha em mente que</p><p>a grande diferença entre os meros procedimentos e o</p><p>processo judicial e administrativo tributário é que nesses</p><p>há um conflito de interesses que lhe é subjacente, sendo</p><p>sua precípua finalidade saná-lo; enquanto aqueles</p><p>consistem em meras operacionalizações da prática de</p><p>atos administrativos típicos. Portanto, a tais processos</p><p>aplicam-se outras espécies de princípios. Desse modo,</p><p>vimos que sobre o processo judicial e administrativo, dada</p><p>a sua natureza processual, em sentido estrito, aplicam-</p><p>se com vigor o princípio do devido processo legal,</p><p>contraditório, ampla defesa, instrumentalidade, economia</p><p>processual, duplo grau de jurisdição e o princípio da</p><p>necessária fundamentação das decisões. Por outro lado,</p><p>ante as peculiaridades que incidem sobre os processos</p><p>administrativos e judiciais, cada um deles reclama princípios</p><p>específicos. No processo administrativo, vigoram com força</p><p>os princípios da utilidade do processo administrativo, da</p><p>não-submissão do órgão julgador ao poder hierárquico,</p><p>da verdade material e da oficialidade (sendo estes dois</p><p>últimos aplicados em conformidade com as peculiaridades</p><p>do processo referido processo). E, no processo judicial,</p><p>por sua vez, incidem de forma peculiar os princípios</p><p>da inafastabilidade da jurisdição; efetividade da tutela</p><p>jurisdicional; imparcialidade; inércia e verdade formal; pois</p><p>o referido processo enseja um provimento estatal definitivo</p><p>para pôr termo a um conflito de interesses. E é justamente</p><p>por isso que o processo judicial, além de reclamar uma</p><p>aplicação mais cuidadosa do princípio do devido processo</p><p>legal e daqueles que dele se desdobram; também reclama</p><p>a aplicação dos princípios que lhe são próprios.</p><p>Direito Processual Tributário</p><p>53</p><p>REFERÊNCIAS</p><p>BARACHO, J. A. Direito processual constitucional: aspectos</p><p>contemporâneos. Belo Horizonte: Fórum, 2006.</p><p>CANOTILHO, J. J. Direito Constitucional e Teoria da Constituição.</p><p>7. ed. Coimbra: Almedina, 2003.</p><p>CIRLOT, J. E. Dicionário dos símbolos. São Paulo: Moraes, 1984.</p><p>FERNANDES, B. G. Curso de Direito Constitucional. 12. ed. Salvador:</p><p>Juspodivm, 2020.</p><p>MACHADO, H. Os Princípios jurídicos da tributação na Constituição</p><p>de 1988. 4. ed. São Paulo: Dialética, 2001.</p><p>MARINS, J. Direito Processual Tributário Brasileiro. São Paulo:</p><p>Dialética, 2001.</p><p>MELLO, C. A. Curso de Direito Administrativo. 9. ed. São Paulo:</p><p>Malheiros, 1997.</p><p>PINTO, A. Processo administrativo: recurso hierárquico. São Paulo:</p><p>Dialética, 2003.</p><p>SILVA, J. A. Comentário Contextual à Constituição. São Paulo:</p><p>Malheiros, 2006.</p><p>Direito Processual Tributário</p><p>_GoBack</p><p>Conceito e Função dos Princípios Jurídicos</p><p>Princípios Gerais do Processo Tributário</p><p>Justiça</p><p>Segurança Jurídica</p><p>Isonomia</p><p>Legalidade</p><p>Razoabilidade e Proporcionalidade</p><p>Publicidade</p><p>Princípios Vetores de Procedimentos Administrativos</p><p>Oficialidade</p><p>Inquisitoriedade</p><p>Cientificação</p><p>Busca pela Verdade Real</p><p>Subordinação Hierárquica</p><p>Dever de Fundamentação</p><p>Princípios do Processo Administrativo e Judicial</p><p>Princípios Jurídicos que Incidem sobre os Processos Administrativos e Judiciais Tributários</p><p>Devido Processo Legal</p><p>Ampla Defesa</p><p>Contraditório</p><p>Instrumentalidade</p><p>Economia Processual</p><p>Duplo Grau de Jurisdição</p><p>Necessária Fundamentação das Decisões</p><p>Princípios do Processo Administrativo</p><p>Princípios do Processo Judicial</p><p>definindo os</p><p>padrões substanciais de justiça. E isto num momento histórico em que</p><p>o Direito ainda era associado às ordens normativas de cunho moral,</p><p>ético, religioso e econômico. Assim, para que o Direito positivo fosse</p><p>considerado legítimo ele deveria observar o conjunto de ordens e</p><p>disposições fixadas pela divindade. Os princípios, por serem concebidos</p><p>pela divindade, forneciam padrões de justiça perfeitos, sem anomia ou</p><p>antinomia e imutáveis (FERNANDADES, 2020).</p><p>Direito Processual Tributário</p><p>11</p><p>Figura 1 – Desse modo, num primeiro momento, esses padrões de justiça foram definidos a</p><p>partir de uma realidade religiosa, de modo que a ordem jurídica consistia em mandamentos</p><p>originados por uma racionalidade superior à dos homens, ou seja, originados por Deus</p><p>Fonte: Freepik.</p><p>Num segundo momento, com o advento do positivismo jurídico,</p><p>os princípios passaram a ser inseridos, ao lado de outras normas</p><p>jurídicas, nos códigos jurídicos e, com isso, deixaram de ser considerados</p><p>instâncias supralegais, um direito natural fundado no divino e carentes de</p><p>juridicidades. Nesses termos, uma vez que, na lógica positivista, o Direito</p><p>é considerado como um sistema fechado de normas jurídicas, cujas</p><p>formas de aplicação estão devidamente previstas no texto normativo,</p><p>os princípios são tidos como princípios gerais do Direito, que têm como</p><p>função impedir o vazio normativo, que eventualmente pudesse ocorrer</p><p>na falta de regras específicas para determinadas situações concretas</p><p>(FERNANDES, 2020).</p><p>Portanto, pode-se afirmar que, sob a ótica do positivismo jurídico,</p><p>os princípios assumem o papel de verdadeiras fontes secundárias de</p><p>Direito, uma função supletiva, cuja tarefa é a de auxiliar o intérprete</p><p>na interpretação, bem como na integração do ordenamento jurídico,</p><p>preenchendo eventuais falhas. Já as regras, enquanto prescrições</p><p>imperativas específicas que estabelecem pressupostos e consequências</p><p>determinadas, assumem o papel de normas jurídicas por excelência e de</p><p>fonte primeira do Direito.</p><p>Direito Processual Tributário</p><p>12</p><p>Figura 2 – Somente com o advento do pós-positivismo é que os princípios assumem a</p><p>posição de norma jurídica com a mesma força normativa e juridicidade que as regras</p><p>jurídicas</p><p>Fonte: Freepik.</p><p>Sob essa moderna perspectiva do pós-positivismo, os princípios</p><p>passam a ser também encarados como forma principal e primária de</p><p>aplicação ante uma situação fática concreta, assim como as regras</p><p>jurídicas. Os princípios passam a deter uma eficácia imediata e mediata,</p><p>podendo ser explícitos ou implícitos no ordenamento jurídico, aplicados</p><p>de forma direta ou indireta, desempenhando um poderoso papel na</p><p>interpretação do Direito.</p><p>REFLITA:</p><p>Uma vez que as normas jurídicas não são apenas regras,</p><p>mas também princípios, como diferenciar essas duas</p><p>espécies?</p><p>Direito Processual Tributário</p><p>13</p><p>Pois bem, vários são os critérios trazidos pela doutrina. Nesta</p><p>oportunidade, trazemos, em síntese, os critérios lecionados por Canotilho</p><p>(2003):</p><p>a) quanto ao grau de abstração: os princípios são normas</p><p>com um elevado grau de abstração e as regras com um</p><p>grau de abstração relativamente baixo; b) quanto ao grau</p><p>de determinabilidade na aplicação do caso concreto: os</p><p>princípios, por serem vagos e indeterminados, precisam de</p><p>mediação do legislador e do juiz, já as regras são aplicadas</p><p>diretamente; c) quanto ao caráter de fundamentalidade no</p><p>sistema das fontes de Direito: os princípios são normas</p><p>estruturantes e, portanto, fundamentais no sistema das</p><p>fontes de Direito, ante a posição hierárquica que ocupa;</p><p>d) quanto à proximidade da ideia de Direito: os princípios</p><p>são “standarts” juridicamente vinculantes radicados na</p><p>exigência de justiça ou de Direito, já as regras são normas</p><p>vinculativas com conteúdo meramente funcional; e) quanto</p><p>à natureza normogenética: os princípios são fundamentos</p><p>das regras, estão na base e constituem as regras, por</p><p>isso exercem uma função normogenética fundamental</p><p>(CANOTILHO, 2003, p. 1159-1162).</p><p>IMPORTANTE:</p><p>As duas teorias que se sobressaem na teoria do Direito</p><p>sobre a diferença entre regras e princípios são a Tese da</p><p>Distinção Quantitativa e a Tese da Distinção Qualitativa.</p><p>A tese da distinção quantitativa distingue os princípios das regras</p><p>pelo grau de abstração ou de determinabilidade. Nesta perspectiva, os</p><p>princípios são dotados de alta abstração e baixa determinabilidade, já as</p><p>regras são dotadas de baixa abstração e alta determinabilidade. A tese</p><p>qualitativa leva em consideração a forma ou modo de aplicação das regras</p><p>e princípios em caso de colisões. Desse modo, a referida tese afirma que</p><p>as regras são aplicadas ao modo tudo ou nada, ou seja, havendo colisão</p><p>entre regras, se a hipótese de incidência de uma regra é preenchida, ou</p><p>a regra é válida e, por consequência, tal normatividade deve ser aceita,</p><p>ou ela não é considerada válida e deve sair do ordenamento jurídico.</p><p>Direito Processual Tributário</p><p>14</p><p>Em outras palavras, havendo colisão entre regras, a aplicação de uma</p><p>invalida a aplicação da outra, devendo a norma inválida ser extirpada do</p><p>ordenamento jurídico; ou seja, “conflitos entre regras devem ser resolvidos</p><p>pela dimensão da validade, por meio da técnica da subsunção do fato a</p><p>regra” (FERNANDES, 2020, p. 326).</p><p>Quanto aos princípios, estes são passíveis de cumprimento em</p><p>diferentes graus, portanto, havendo colisão entre eles, a aplicação de um</p><p>determinado princípio a um caso concreto não invalida o outro e não o</p><p>extirpa do ordenamento jurídico, pois aplica-se a técnica do sopesamento.</p><p>Figura 3 – Eventual colisão entre princípios é resolvida pela dimensão do peso, por meio da</p><p>técnica do sopesamento ou balanceamento</p><p>Fonte: Freepik.</p><p>“Desse modo, os princípios são considerados como mandamentos</p><p>de otimização, normas que exigem que algo seja feito da melhor maneira</p><p>possível, diante das condições fáticas e jurídicas” (FERNANDES, 2020, p.</p><p>326--327).</p><p>Direito Processual Tributário</p><p>15</p><p>Assim sendo, pode-se afirmar que, uma vez que as regras são</p><p>normas jurídicas que contêm descrições hipotéticas de determinado</p><p>fato e estabelecem descrições a serem procedidas se e quando tais</p><p>hipóteses se concretizarem; a imprevisibilidade de situações futuras torna</p><p>insuficiente um ordenamento jurídico composto meramente por regras. E</p><p>é por isto que os princípios assumem importância, pois são uma espécie</p><p>de norma jurídica que consagra determinados valores, fins ou objetivos, a</p><p>serem seguidos, na medida do possível, perante a elaboração de regras</p><p>novas e na interpretação e na aplicação de normas vigentes e de outros</p><p>princípios.</p><p>NOTA:</p><p>Em suma, pode-se afirmar que é fundamental o estudo</p><p>dos princípios jurídicos para o trato de qualquer questão</p><p>jurídica, pertinente a qualquer ramo do Direito, posto que</p><p>são eles os responsáveis por orientar a interpretação de</p><p>todo o ordenamento jurídico e por determinar o conteúdo</p><p>das normas jurídicas.</p><p>Ainda, é importante destacar que, na doutrina brasileira,</p><p>alguns autores designam como princípios algumas normas, que não</p><p>necessariamente assumem a estrutura de princípio, sendo, a rigor,</p><p>verdadeiras regras. E isso, geralmente, ocorre porque alguns autores</p><p>consideram princípios aquelas disposições que, independentemente</p><p>de sua estrutura normativa, positivam preceitos ou desdobramentos de</p><p>valores fundamentais para a ordem jurídica. A título de exemplo, temos</p><p>a legalidade e a anterioridade, que, na verdade, possuem estruturas de</p><p>regras (SEGUNDO, 2020).</p><p>O autor Hugo de Brito Segundo exemplifica tal afirmativa:</p><p>“exemplificando, um tributo criado por meio de um decreto</p><p>será sempre inválido, não sendo possível qualquer tipo de ‘sopesamento</p><p>de princípios’ para validá-lo” (SEGUNDO, 2020, p. 55). A legalidade, a rigor,</p><p>é uma regra. Já uma lei que estabeleça limitações à livre iniciativa, desde</p><p>que o faça de modo a conciliar proporcionalmente a livre iniciativa com</p><p>Direito Processual</p><p>Tributário</p><p>16</p><p>outros princípios (proteção ao trabalho humano, ao meio ambiente, ao</p><p>consumidor etc.), poderá ser constitucional. “Isso porque a proteção à livre</p><p>iniciativa é um verdadeiro princípio, do ponto de vista de sua estrutura</p><p>normativa” (SEGUNDO, 2020, p. 55).</p><p>Entretanto, desde que se tenha o cuidado de analisar cada norma</p><p>e de aplicá-la conforme sua estrutura lógica, essa questão terminológica</p><p>acaba não tendo grande importância. E isto porque, se estivermos diante</p><p>de uma regra, por mais que ela seja denominada “princípio”, ela jamais</p><p>poderá ser relativizada em razão de algum princípio constitucional</p><p>propriamente dito. As regras são aplicáveis ou não, válidas ou não, elas não</p><p>podem ser sopesadas. Portanto, não seria possível, por exemplo, sopesar</p><p>a regra da legalidade, relativizando em face do princípio da eficiência da</p><p>administração.</p><p>VOCÊ SABIA?</p><p>Foi após a Segunda Guerra Mundial, ante o impacto causado</p><p>pelas atrocidades cometidas pela Alemanha nazista, muitas</p><p>delas autorizadas ou impostas pelo ordenamento jurídico</p><p>nacional-socialista; que os teóricos do Direito passaram</p><p>a admitir a positividade de certos princípios, como por</p><p>exemplo, o princípio da justiça, da segurança jurídica,</p><p>da razoabilidade e da dignidade da pessoa humana.</p><p>Como efeito, desde então, tem-se reconhecido sua força</p><p>normativa e teorizado sua interpretação e aplicação.</p><p>Direito Processual Tributário</p><p>17</p><p>Figura 4 – Desde então, os princípios foram positivados na maioria das Constituições dos</p><p>Estados, ou tidos, pela doutrina e pela jurisprudência, como nelas presentes de maneira</p><p>implícita</p><p>Fonte: Freepik.</p><p>Desde então, os princípios que, até então, eram meramente</p><p>subsidiários à lei, sendo aplicados nas hipóteses de lacuna legal, passaram</p><p>a assumir uma posição de superioridade, foram positivados na maioria</p><p>das Constituições dos Estados e tornaram-se verdadeiras bússolas</p><p>responsáveis por orientar a interpretação de todo o ordenamento jurídico</p><p>e a determinar o conteúdo das normas infraconstitucionais.</p><p>No âmbito processual, é importante destacar que a relação</p><p>processual é uma relação jurídica, submetida a uma série de princípios,</p><p>mas nem sempre foi assim. A atividade de resolução de conflitos através</p><p>do Direito por meio de um processo, durante um longo período histórico,</p><p>foi preponderantemente arbitrária. O Estado era tido como infalível, e,</p><p>portanto, o Direito não disciplinava as atividades materiais do Estado, a</p><p>função jurisdicional não se submetia a normas. A título ilustrativo, podemos</p><p>citar a postura adotada em julgados na Europa Medieval, “nos quais o</p><p>direito de defesa era tido por absolutamente desnecessário em face da</p><p>diligência dos julgadores, que sempre teriam o discernimento suficiente</p><p>para reconhecer os inocentes” (SEGUNDO, 2020, p. 15).</p><p>Direito Processual Tributário</p><p>18</p><p>Somente a medida em que a distribuição da justiça e o ato de</p><p>julgar os conflitos de interesses saiu das mãos dos reis para os chamados</p><p>tribunais dos reis, e, posteriormente para os tribunais dos Estados</p><p>constitucionais e democráticos, é que o evidenciou-se a necessidade de</p><p>o Direito regulamentar as atividades materiais e processuais do Estado,</p><p>submetendo a jurisdição a uma série de normas e princípios. E isto porque,</p><p>da normatização do direito material do Estado, disciplinando sua conduta,</p><p>evoluiu, de modo natural, o Direito Processual, como instrumento através</p><p>do qual se garantia a efetividade do direito material estatal.</p><p>Nesse sentido, atualmente, é consolidado o entendimento de que</p><p>a atividade jurisdicional não deve ser apenas disciplinada por regras, a</p><p>atividade jurisdicional do Estado deve também ser exercida por órgãos</p><p>independentes, que imponham às pessoas e ao próprio Estado o</p><p>cumprimento efetivo do Direito. Nesse contexto, a relação processual</p><p>é entendida como uma relação jurídica submetida a regras e princípios</p><p>que ditam diretrizes a serem seguidas pelas partes e especialmente pelo</p><p>julgador, ao aplicar o Direito posto, na resolução de conflitos, seja entre os</p><p>particulares, ou entre esses e o próprio Estado.</p><p>Os princípios, portanto, devem ser observados na aplicação do</p><p>Direito, tanto na esfera judicial, no exercício da atividade jurisdicional</p><p>propriamente dita, quanto na esfera administrativa que, por sua vez,</p><p>dirime os conflitos por meio de um processo contraditório que deve ser</p><p>submetido praticamente aos mesmos princípios do processo judicial</p><p>(SEGUNDO, 2020, p.15).</p><p>IMPORTANTE:</p><p>Destaca-se, ainda, que mesmo nos meros procedimentos</p><p>administrativos não contenciosos, deve-se observar</p><p>os princípios inerentes ao Direito como um todo,</p><p>nomeadamente os de Direito Público (SEGUNDO, 2020).</p><p>Direito Processual Tributário</p><p>19</p><p>Como no Processo Tributário há três realidades processuais</p><p>diferentes, sendo elas: os meros procedimentos administrativos, o</p><p>processo administrativo e o processo judicial; nas seções que se seguem,</p><p>trataremos dos princípios gerais aplicáveis a qualquer uma dessas etapas,</p><p>bem como dos princípios preponderantes em cada uma delas.</p><p>RESUMINDO:</p><p>E então? Gostou do que mostramos? Aprendeu mesmo</p><p>tudinho? Agora, só para termos certeza de que você</p><p>realmente entendeu o tema de estudo deste capítulo,</p><p>vamos resumir tudo o que vimos. Você deve ter aprendido</p><p>que a primeira noção de princípios foi concebida sob</p><p>a perspectiva de um Direito Natural que identificava os</p><p>princípios como espécies de normas supremas norteadoras</p><p>da conduta humana que atuavam definindo os padrões</p><p>substanciais de justiça; e que, atualmente, os princípios</p><p>podem ser definidos como mandamentos de otimização,</p><p>espécie de norma jurídica que consagra determinados</p><p>valores, fins ou objetivos, a serem seguidos, na medida</p><p>do possível, perante a elaboração de regras novas e na</p><p>interpretação e na aplicação de normas vigentes e de</p><p>outros princípios.</p><p>No âmbito processual, vimos que a relação processual é uma</p><p>relação jurídica, submetida a uma série de regras e princípios que ditam</p><p>diretrizes a serem seguidas pelas partes e especialmente pelo julgador,</p><p>ao aplicar o Direito posto, na resolução de conflitos, seja entre os</p><p>particulares, ou entre esses e o próprio Estado. E, por fim, aprendemos</p><p>que os princípios devem ser observados na aplicação do Direito, tanto na</p><p>esfera judicial, no exercício da atividade jurisdicional propriamente dita,</p><p>quanto na esfera administrativa que, por sua vez, dirime os conflitos por</p><p>meio de um processo contraditório que deve ser submetido praticamente</p><p>aos mesmos princípios do processo judicial.</p><p>Direito Processual Tributário</p><p>20</p><p>Princípios Gerais do Processo Tributário</p><p>OBJETIVO:</p><p>Ao final deste capítulo, você será capaz de entender quais</p><p>são os princípios gerais aplicáveis ao processo tributário.</p><p>Isto será fundamental para que você compreenda as</p><p>diretrizes gerais que guiam todas as espécies de Processo</p><p>Tributário, seja ela a fase dos meros procedimentos, do</p><p>processo administrativo e processo judicial tributário. E</p><p>então? Motivado para desenvolver esta competência?</p><p>Vamos juntos!.</p><p>Você sabe me dizer quais são esses princípios gerais, aplicáveis a</p><p>quaisquer das três etapas do Processo Tributário? E por que são assim</p><p>considerados? Pois bem, alguns dos mais importantes princípios são: o</p><p>princípio da justiça, segurança jurídica, isonomia, legalidade, razoabilidade,</p><p>proporcionalidade e publicidade. Eles são considerados como princípios</p><p>gerais, aplicáveis a quaisquer das três etapas, porque são inerentes ao</p><p>Direito como um todo.</p><p>Vejamos, então, alguns dos aspectos fundamentais desses princípios.</p><p>Justiça</p><p>Estabelece o art. 3º, I, da nossa Constituição, que constituem</p><p>objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil construir uma</p><p>sociedade livre, justa e solidária. Mas em que consiste o princípio da</p><p>justiça? Esta é uma questão na qual gravitam inúmeras controvérsias</p><p>doutrinárias. Uma grande parte da doutrina explicita o conteúdo do</p><p>princípio da justiça valendo-se</p><p>de outros princípios constitucionais,</p><p>como por exemplo, o princípio da proteção à vida, da dignidade da</p><p>pessoa humana e da isonomia. O presente princípio enseja não só a sua</p><p>observância pelo legislador na edição de regras jurídicas, mas também “o</p><p>afastamento da regra ou do ato injusto, pelo aplicador do direito, mesmo</p><p>que estes sejam, aparentemente, válidos sob o aspecto formal e, ainda, à</p><p>luz de outras normas” (SEGUNDO, 2020, p. 17).</p><p>Direito Processual Tributário</p><p>21</p><p>Figura 5 – “O símbolo místico da justiça é a balança, que traduz a ideia de equivalência</p><p>entre o castigo e culpa. É o símbolo do comportamento correto, da medida certa e o do</p><p>equilíbrio” (CIRLOT, 1984, p. 112)</p><p>Fonte: Freepik.</p><p>A justiça é o princípio fundamental de todo ordenamento jurídico. É</p><p>deste princípio que todos os outros se desdobram, como o princípio da</p><p>dignidade da pessoa humana e o princípio da tributação de acordo com a</p><p>capacidade contributiva, por exemplo.</p><p>Nossa Constituição consagra uma série de outros princípios que,</p><p>considerados de forma sistemática e harmônica, impõem ao aplicador do</p><p>direito a adoção de soluções justas para o caso concreto, como é, por</p><p>exemplo, o caso do dever de observância dos princípios da razoabilidade,</p><p>da proporcionalidade e da isonomia.</p><p>Direito Processual Tributário</p><p>22</p><p>NOTA:</p><p>“Independentemente do quão complexo e permeado de</p><p>princípios e regras diversos, for o ordenamento jurídico, o</p><p>intérprete sempre estará diante de mais de uma solução</p><p>formalmente possível para determinado caso concreto”</p><p>(SEGUNDO, 2020, p. 18). E, por força do art. 3º, I, da nossa</p><p>Carta Magna, impõe-se a adoção daquela que for a mais</p><p>justa possível.</p><p>Por fim, devemos ressaltar que o princípio da justiça encontra limites</p><p>válidos apenas em um outro princípio fundamental, qual seja, o princípio</p><p>da segurança jurídica. E a ele nos dedicaremos na seção seguinte.</p><p>Segurança Jurídica</p><p>Como dito anteriormente, o princípio fundamental da justiça</p><p>tem seu alcance limitado pelo princípio da segurança jurídica. Mas em</p><p>que consiste esse princípio? Se procurarmos em qualquer dicionário</p><p>encontraremos as palavras confiança, garantia, firmeza, estabilidade e</p><p>certeza como sinônimos de segurança. No âmbito jurídico, o princípio</p><p>da segurança jurídica traduz a ideia de impor a maior previsibilidade e</p><p>estabilidade possível às relações humanas tratadas pelo Direito.</p><p>Se por um lado, o princípio da justiça determina que uma sentença</p><p>incorreta, mesmo que transitada em julgado, deve ser revista, o princípio</p><p>da segurança, por outro lado, determina que tal revisão só pode ser feita</p><p>em determinados casos, em ação própria, que no caso brasileiro, é a ação</p><p>rescisória, e, ainda, dentro de um prazo previamente estabelecido.</p><p>Nesse sentido, determina o caput do art. 5º da Constituição</p><p>Federal que a todos os brasileiros e estrangeiros residentes no País deve</p><p>ser garantida a inviolabilidade do direito à segurança, que se traduz no</p><p>preceito constitucional de que a lei não deve prejudicar direito adquirido,</p><p>o ato jurídico perfeito e a coisa julgada (art. 5º, XXXVI, da Constituição</p><p>Federal).</p><p>Direito Processual Tributário</p><p>23</p><p>Figura 6 – Segundo o princípio da segurança jurídica nem mesmo a lei tem o condão de</p><p>prejudicar direito adquirido, o ato jurídico perfeito e a coisa julgada</p><p>Fonte: Freepik.</p><p>DEFINIÇÃO:</p><p>Desse modo, pode-se afirmar que o princípio da segurança</p><p>jurídica é:</p><p>“Conjunto de condições que tornam</p><p>possível às pessoas o conhecimento an-</p><p>tecipado e reflexivo das consequências</p><p>diretas de seus atos e de seus fatos à</p><p>luz da liberdade reconhecida. Uma im-</p><p>portante condição da segurança jurídica</p><p>está na relativa certeza que os indiví-</p><p>duos têm de que as relações realizadas</p><p>sob o império de uma norma devem</p><p>perdurar ainda quando tal norma seja</p><p>substituída” (SILVA, 2006, p. 133).</p><p>No que tange o Processo Tributário, o princípio da segurança</p><p>jurídica é o que fundamenta a existência de prazos para a realização de</p><p>procedimentos, como por exemplo, os prazos definidos para a realização</p><p>de procedimentos de fiscalização, os prazos de decadência do direito de</p><p>Direito Processual Tributário</p><p>24</p><p>a Fazenda Pública lançar tributos que considera devidos, os prazos para a</p><p>interposição de recursos, da preclusão e da coisa julgada etc.</p><p>Ao lado da garantia constitucional da inviolabilidade do direito</p><p>à segurança, o art. 5º da Constituição traz também a garantia da</p><p>inviolabilidade do direito à igualdade, preceito este resguardado pelo</p><p>princípio da isonomia. Princípio que iremos estudar na próxima seção.</p><p>Vamos lá?!</p><p>Isonomia</p><p>O princípio da isonomia traz o preceito de que todos são iguais</p><p>perante a lei, sem distinção de qualquer natureza. Seu aspecto jurídico</p><p>deve ser visto sobre duas acepções, quais sejam, a formal e a substancial.</p><p>No seu aspecto formal impõe que as normas jurídicas sejam aplicadas</p><p>indistintamente a todos. Contudo, como leciona grande parte da doutrina,</p><p>o aspecto formal do princípio da isonomia não é suficiente para defini-</p><p>lo, pois a verdadeira igualdade deve consistir no tratamento igual entre</p><p>os iguais e no tratamento desigual aos desiguais, na medida de suas</p><p>desigualdades (MACHADO, 2001, p. 59). Portanto, seu aspecto material</p><p>impõe tratamento diferenciado para situações diferenciadas.</p><p>Nesse sentido, deve ser vedada pelo Direito situações que,</p><p>por exemplo, favoreçam, de forma injustificada, um contribuinte em</p><p>detrimento dos demais, ou que favoreçam, injustificadamente, a Fazenda</p><p>Pública em detrimento dos contribuintes em geral.</p><p>IMPORTANTE:</p><p>Desse modo, no âmbito do Processo Tributário, o princípio</p><p>da isonomia vincula não apenas o legislador, mas também</p><p>a atividade administrativa do Estado e especialmente o juiz,</p><p>de modo que sejam vedadas normas ou situações nas quais</p><p>os contribuintes sejam tratados de forma distinta entre si,</p><p>estando em situações de igualdade; e situações nas quais</p><p>a Fazenda Pública seja beneficiada em detrimento dos</p><p>contribuintes, de uma maneira geral, sem que isso ocorra</p><p>de forma justificada.</p><p>Direito Processual Tributário</p><p>25</p><p>De fato, a Fazenda Pública, precisamente porque é distinta dos</p><p>cidadãos em geral, reclama tratamento diferenciado, contudo isto não</p><p>deve ser justificativa para abusos e injustificados privilégios, sob pena de</p><p>contrariar o princípio da isonomia. Nesse sentido, tem-se que condição</p><p>diferenciada da Fazenda Pública não é suficiente para validar todos os</p><p>privilégios que eventualmente se lhe concedem, tais como diminuição e</p><p>até dispensa de honorários advocatícios de sucumbência, recursos que</p><p>lhe são privativos, etc. (SEGUNDO, 2020).</p><p>Isto posto, passaremos agora à análise do princípio da legalidade e</p><p>seus efeitos sob o processo tributário de uma maneira geral.</p><p>Legalidade</p><p>Determina o art. 5º, II, da nossa Constituição que ninguém será</p><p>obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei.</p><p>Esse preceito nada mais é do que a tradução do princípio da legalidade.</p><p>Por legalidade pode-se entender a garantia concedida aos cidadãos de</p><p>que somente por força de lei é que poderão ser obrigados a fazer ou</p><p>deixar de fazer alguma coisa e isto tanto em virtude do direito material</p><p>quanto do direito processual.</p><p>Figura 7 – Qualquer atividade processual tributária, seja ela no âmbito dos procedimentos</p><p>administrativos preliminares, como também no processo administrativo de controle interno</p><p>da legalidade dos atos administrativos e o processo judicial tributário, deve desenvolver-se</p><p>nos exatos termos previstos previamente em lei</p><p>Fonte: Freepik.</p><p>Direito Processual Tributário</p><p>26</p><p>NOTA:</p><p>No caso dos meros procedimentos, segundo alguns</p><p>autores, a importância do princípio da legalidade se</p><p>sobressai, uma vez que, nessa fase, há quem não considere</p><p>aplicável o princípio do devido processo legal, por se tratar</p><p>de atividade meramente procedimental (SEGUNDO, 2020).</p><p>Por outro lado, nas demais fases processuais propriamente ditas,</p><p>a legalidade,</p><p>embora relevante, acaba por ser englobada pelo princípio</p><p>do devido processo legal. Que por sua vez, é o princípio que impõe o</p><p>direito de ação e o direito de defesa judicial, assegurando aos indivíduos</p><p>“de modo completo, por toda uma série de normas constitucionais, que o</p><p>processo deve ser justo e leal” (BARACHO, 2006, p. 67).</p><p>Podendo ainda ser deduzido do princípio do devido processo legal,</p><p>a doutrina destaca o princípio, tido como constitucionalmente implícito, o</p><p>princípio da razoabilidade e é a ele que dedicaremos algumas linhas do</p><p>nosso trabalho na seção que se segue.</p><p>Razoabilidade e Proporcionalidade</p><p>A própria palavra razoabilidade já nos revela uma ideia daquilo que</p><p>está em conformidade com a razão ou racional. Mas em termos jurídicos,</p><p>você sabe me dizer em que consiste a razoabilidade? Pois bem, o princípio</p><p>da razoabilidade exerce influência sobre todo o ordenamento jurídico</p><p>promovendo um maior controle sobre os atos do Poder Público, impedido o</p><p>vigor daqueles atos que, embora sejam formalmente legais e que busquem</p><p>finalidade lícitas, valem-se de meios não admissíveis na consecução dessas</p><p>finalidades, pois são tidos como excessivos ou desviados.</p><p>Portanto, em suma, podemos afirmar que o princípio da</p><p>razoabilidade impõe o dever de o Poder Público empregar não apenas</p><p>os meios adequados para atingir determinadas finalidades, mas também</p><p>os meios necessários a essa finalidade, que estejam em conformidade</p><p>com “o senso comum, o que nos conduz a uma ideia de consenso, de</p><p>legitimidade, de compatibilidade com os valores prevalentes naquela</p><p>Direito Processual Tributário</p><p>27</p><p>comunidade na qual o princípio será aplicado” (SEGUNDO, 2020, p. 23).</p><p>E é por esses princípios que as normas processuais tributárias também</p><p>devem se guiar.</p><p>IMPORTANTE:</p><p>O princípio da proporcionalidade, por sua vez, possui um</p><p>núcleo em comum com o princípio da razoabilidade, no</p><p>sentido de que ambos viabilizam o controle das relações</p><p>entre os meios e os fins dos atos do Poder Público; contudo,</p><p>não se confundem.</p><p>De acordo com o princípio da proporcionalidade, “o ato estatal</p><p>praticado como meio à consecução de um fim, ainda que lícito esse fim,</p><p>e além de naturalmente atender a outros requisitos decorrentes de outras</p><p>normas jurídicas, deve ser adequado, necessário e proporcional em</p><p>sentido estrito” (SEGUNDO, 2020, p. 23).</p><p>Esta proporcionalidade em sentido estrito, por sua vez, diz respeito</p><p>à necessária conciliação que deve haver entre o ato praticado pelo Poder</p><p>Público, a finalidade por ele buscada, e o valor a eles subjacente; com os</p><p>demais princípios constitucionais</p><p>NOTA:</p><p>Essa conciliação, por sua vez, deve se dar “com a atribuição</p><p>de maior peso, ou de maior eficácia, ao princípio que, em</p><p>determinado caso concreto, em sendo aplicado, cause</p><p>menor estrago aos demais com os quais está sendo</p><p>conciliado” (SEGUNDO, 2020, p. 24).</p><p>Em matéria processual, podemos citar a título de exemplo a</p><p>aplicação da proporcionalidade na conciliação de princípios constitucionais</p><p>que fundamentam a concessão ou não de medidas liminares e no</p><p>estabelecimento de certas formalidades processuais que viabilizam o</p><p>conhecimento ou não de recursos.</p><p>Direito Processual Tributário</p><p>28</p><p>Publicidade</p><p>E, por fim, temos o princípio da publicidade. Você saberia me</p><p>dizer em que consiste o princípio jurídico da publicidade? Pois bem,</p><p>esse relevante princípio jurídico tem sua importância atrelada ao</p><p>disciplinamento da conduta daqueles que corporificam o Poder Público.</p><p>Uma vez num Estado Democrático de Direito, todo poder emana do</p><p>povo, é indispensável que todos conheçam o que, em seu nome, é</p><p>feito, com os bens e direitos que, inclusive, em último crivo, são seus.</p><p>Insta destacar ainda que é pela publicidade dos atos praticados pelo</p><p>poder público que as ilegalidades são levadas a público e devidamente</p><p>impugnadas e desfeitas.</p><p>Portanto, por força do artigo 5º, LX da Constituição Federal, a lei só</p><p>poderá restringir a publicidade dos atos processuais quando a defesa da</p><p>intimidade ou o interesse social o exigirem. Nesse sentido, a publicidade</p><p>dos atos processuais deve ser regra e não uma exceção; tal preceito</p><p>deve ser, inclusive, observado, não apenas no processo judicial, mas</p><p>também nos meros procedimentos e nos processos administrativos,</p><p>bem como em todos os demais atos do Poder Público (SEGUNDO, 2020,</p><p>p. 25).</p><p>Direito Processual Tributário</p><p>29</p><p>RESUMINDO:</p><p>E então? Gostou do que mostramos? Para resumir tudo que</p><p>vimos é importante ter em mente que alguns dos princípios</p><p>gerais de Direito mais importantes na interpretação e</p><p>aplicação das normas jurídicas que disciplinam o Processo</p><p>Tributário são: o princípio da justiça, segurança jurídica,</p><p>isonomia, legalidade, razoabilidade, proporcionalidade e</p><p>publicidade; e que eles são considerados como aplicáveis</p><p>a quaisquer das três etapas do Processo Tributário, porque</p><p>são inerentes ao Direito como um todo, bem como são os</p><p>princípios responsáveis por disciplinar e limitar os atos do</p><p>Poder Público. Portanto, ao interpretar e aplicar uma norma</p><p>processual de Direito Tributário, em atenção ao princípio</p><p>da justiça, deve ser adotada a solução mais justa possível;</p><p>em atenção ao princípio da segurança jurídica, deve ser</p><p>observado que a lei não deve prejudicar direito adquirido,</p><p>o ato jurídico perfeito e a coisa julgada; e em atenção ao</p><p>princípio da isonomia, deve ser dado tratamento igual</p><p>entre os iguais e tratamento desigual aos desiguais, na</p><p>medida de suas desigualdades.</p><p>Sob o aspecto do princípio da legalidade, deve ser observado</p><p>que ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa</p><p>senão em virtude de lei. No âmbito do princípio da razoabilidade e</p><p>proporcionalidade, devemos ter em mente que o ato estatal praticado</p><p>como meio à consecução de um fim, ainda que lícito esse fim, e além de</p><p>naturalmente atender a outros requisitos decorrentes de outras normas</p><p>jurídicas, deve ser adequado, necessário e proporcional. E, por fim, em</p><p>atenção ao princípio da publicidade, deve ser observado que a lei só</p><p>poderá restringir a publicidade dos atos processuais quando a defesa da</p><p>intimidade ou o interesse social o exigirem.</p><p>Direito Processual Tributário</p><p>30</p><p>Princípios Vetores de Procedimentos</p><p>Administrativos</p><p>OBJETIVO:</p><p>Ao final deste capítulo, você será capaz de entender quais</p><p>são os princípios fundamentais que regem os meros</p><p>procedimentos administrativos. Isto será fundamental</p><p>para compreender as diretrizes gerais que devem guiar</p><p>a interpretação e a aplicação dos normas jurídicas que</p><p>disciplinam tais procedimentos. E então? Motivado para</p><p>aprender um pouco mais sobre essa fase do Processo</p><p>Tributário? Vamos lá!.</p><p>Até aqui, tivemos a oportunidade de aprender que o processo</p><p>tributário é dividido em três etapas: os meros procedimentos administrativos,</p><p>que antecedem a prática de atos de lançamento, de parcelamentos,</p><p>de compensações, de reconhecimento de imunidades e isenções etc.;</p><p>o processo administrativo de controle de legalidade desses atos; e o</p><p>processo judicial (processo em sentido estrito). No capítulo anterior, por</p><p>sua vez, vimos os mais importantes princípios jurídicos que a todas estas</p><p>fases do Processo Tributário se aplicam, por serem princípios inerentes à</p><p>atividade do Estado, atuando como limitadores do Poder Público.</p><p>NOTA:</p><p>Convém ressaltar, contudo, que o processo judicial</p><p>tributário e o processo administrativo de controle interno</p><p>da legalidade dos atos administrativos versam sobre</p><p>um conflito de interesses que lhe é subjacente, sendo a</p><p>finalidade destes processos o alcance de um provimento</p><p>estatal que lhe dirima da forma mais justa possível.</p><p>Portanto, a estes processos são aplicados, com toda força,</p><p>os princípios do devido processo legal, da ampla defesa</p><p>e do contraditório. Entretanto, nos que tange os meros</p><p>procedimentos, o mesmo não ocorre.</p><p>Direito Processual Tributário</p><p>31</p><p>Figura 9 – Os meros procedimentos tributários, como por exemplo, os lançamentos</p><p>e</p><p>o reconhecimento de imunidades ou isenções, não têm por fim dirimir um conflito de</p><p>interesses, mas sim apenas a operacionalização da prática de atos administrativos típicos,</p><p>consistindo numa mera sequência de atos logicamente encadeadas</p><p>Fonte: Freepik.</p><p>É exatamente porque os meros procedimentos administrativos não</p><p>têm por finalidade a solução de um conflito, e por consequência, não há que</p><p>se falar em participação de eventuais interessados como forma de legitimar</p><p>a formação do resultado, participação esta que implicaria na incidência</p><p>dos princípios da ampla defesa e do contraditório; é que eles são não</p><p>considerados como processos no sentido estrito do termo. Portanto, sobre</p><p>eles incidem, preponderantemente, outras espécies de princípios jurídicos,</p><p>diferentes dos que norteiam os processos administrativos e judicial.</p><p>Direito Processual Tributário</p><p>32</p><p>NOTA:</p><p>Uma vez que a finalidade dos meros procedimentos</p><p>administrativos é a de promover o controle e promoção da</p><p>atividade administrativa estatal, eles não são submetidos</p><p>aos princípios da ampla defesa e do contraditório, nem a</p><p>princípio do devido processo legal. E é esta a razão pela</p><p>qual se pode afirmar que, no âmbito do processo tributário,</p><p>em sentido amplo, tem-se, nos meros procedimentos,</p><p>garantias constitucionais em grau mínimo; nos processos</p><p>administrativos, garantias constitucionais em grau</p><p>intermediário e, no processo judicial, em grau máximo</p><p>(SEGUNDO, 2020).</p><p>Desse modo, se imaginarmos uma situação de mera fiscalização,</p><p>pode-se dizer que o contribuinte poderá se defender do auto de</p><p>infração contra ele lavrado, mas somente em momento posterior, se</p><p>for o caso de efetuado um lançamento. Neste caso, o contribuinte não</p><p>tem necessariamente a oportunidade de se defender antes da feitura</p><p>do lançamento, pois trata-se apenas de uma mera fiscalização de</p><p>seu estabelecimento, ou seja, trata-se de uma mera conferência do</p><p>cumprimento espontâneo da norma tributária e não de uma solução de</p><p>uma lide.</p><p>Entretanto, por outro lado, seria incorreto afirmar que os princípios</p><p>da ampla defesa, contraditório e devido processo legal, não possuem</p><p>nenhuma importância dentro dos meros procedimentos administrativos;</p><p>até porque são princípios cujo conteúdo se estendem por todo o</p><p>Ordenamento Jurídico e a todos os atos públicos ou particulares, com</p><p>base no Direito praticado. Acrescenta-se ainda o fato de que o mero</p><p>procedimento não pode desenvolver-se e ser concluído de maneira</p><p>tal que a efetividade dos princípios do contraditório e ampla defesa,</p><p>por exemplo, sejam inviabilizados, pois eventualmente, em momento</p><p>posterior, tais preceitos poderão ser invocados pelo cidadão contribuinte.</p><p>Direito Processual Tributário</p><p>33</p><p>Desse modo, não é porque um procedimento de fiscalização não</p><p>assegura prévia oportunidade de defesa ao contribuinte que isso legitima</p><p>o agente fiscal a seguir um procedimento que não esteja previamente</p><p>estabelecido em lei ou que não seja razoável; bem como que o</p><p>procedimento seja por ele concluído de modo obscuro, com a lavratura</p><p>de um ato sem a devida fundamentação; ou que o procedimento seja</p><p>concluído com a prática de um ato contra o qual o contribuinte seja</p><p>impedido de oferecer impugnação com efeito suspensivo, dando início a</p><p>um processo interno de controle da legalidade de tal ato.</p><p>Isto posto, passaremos agora ao estudo dos princípios fundamentais</p><p>que prevalecem sobre o trâmite dos meros procedimentos administrativos.</p><p>Oficialidade</p><p>Como vimos até aqui, os meros procedimentos consistem na prática</p><p>de atos meramente administrativos que, ante a sua complexidade prática,</p><p>exigem uma série de atos que devem ser realizados anteriormente,</p><p>ou seja, exigem uma série de atos preparatórios. Portanto, nos meros</p><p>procedimentos não se busca a resolução de conflitos, e por isso não vigora</p><p>a participação dialética dos interessados. Nesse sentido, embora alguns</p><p>procedimentos possam ser instaurados por iniciativa do contribuinte,</p><p>todos eles podem igualmente ser iniciado pela Administração que, por</p><p>sua vez, tem o dever de impulsioná-los e concluí-los, independente de</p><p>provocação. E é essa a ideia que traduz o que preconiza o princípio da</p><p>oficialidade (SEGUNDO, 2020, p. 28).</p><p>IMPORTANTE:</p><p>Pelo princípio da oficialidade, a Administração Tributária</p><p>tem a faculdade de agir de ofício na instauração de</p><p>procedimentos, mas o dever de desenvolvê-los e concluí-</p><p>los, independente de provocação.</p><p>Direito Processual Tributário</p><p>34</p><p>Portanto, o princípio da oficialidade impõe o dever de agir de ofício</p><p>das autoridades independente de os procedimentos administrativos</p><p>atenderem ou não os interesses arrecadatórios do Estado, ou se</p><p>beneficiará o cidadão. O dever das autoridades deve ser estritamente o</p><p>de cumprir a lei. O Fisco deve ser visto pelo cidadão como alguém de</p><p>confiança e a lei como um instrumento valorizado pela Fazenda. Nesse</p><p>sentido, seria inadmissível que os atos de ofício fossem praticados apenas</p><p>quando desfavoráveis ao cidadão, devendo os que o beneficiam ser</p><p>praticados apenas se houver requerimento.</p><p>Por fim, insta destacar que os processos administrativos contencio-</p><p>sos também devem ser impulsionados e concluídos pelas autoridades</p><p>competentes, sendo que alguns deles podem, inclusive, ser instaurados</p><p>de ofício, apesar de ser menos comum em matéria tributária. Portanto, é</p><p>de se ressaltar que o princípio da oficialidade norteia também os proces-</p><p>sos administrativos contenciosos ou propriamente ditos.</p><p>Inquisitoriedade</p><p>Uma vez que os meros procedimentos administrativos são</p><p>operacionalizações da atividade administrativa típica do Estado, e,</p><p>portanto, sem conteúdo decisório acerca de um conflito em interesse</p><p>com o contribuinte, pode-se afirmar que sobre eles incide o princípio da</p><p>inquisitoriedade; mas você sabe me dizer o que isso significa? Pois bem,</p><p>o princípio da inquisitoriedade estabelece que o “processo” administrativo</p><p>pertence à Administração Pública e não ao particular, portanto</p><p>deverá obedecer apenas ao rito legal estabelecido, independente da</p><p>manifestação do interessado. Dito de outra maneira, a Administração</p><p>Pública tem a prerrogativa de investigar o contribuinte sem que para este</p><p>irradiem as garantias constitucionais como a ampla defesa, o contraditório</p><p>etc.</p><p>Direito Processual Tributário</p><p>35</p><p>Figura 10 – Ao contrário dos processos propriamente ditos, sejam eles administrativos ou</p><p>judiciais, nos meros procedimentos não há que ser oportunizada aos sujeitos envolvidos</p><p>a participação na decisão final, pois não há um conflito de interesse que legitime a</p><p>participação do contribuinte no resultado. E é daí que extraímos a inquisitoriedade dos</p><p>meros procedimentos</p><p>Fonte: Freepik.</p><p>IMPORTANTE:</p><p>Cumpre-nos ressaltar que, apesar de o princípio da</p><p>inquisitoriedade incidir sobre os meros procedimentos,</p><p>estes não podem ser arbitrários, discricionários ou</p><p>secretos, pois, além de se submeterem aos princípios</p><p>gerais do ordenamento jurídico como o princípio da justiça,</p><p>segurança, legalidade, razoabilidade, proporcionalidade,</p><p>publicidade etc. “Os meros procedimentos, como qualquer</p><p>outra atividade tributária, são desenvolvidos através de uma</p><p>atividade administrativa inteiramente vinculada” (MARINS,</p><p>2001, p. 180).</p><p>Direito Processual Tributário</p><p>36</p><p>Nesse sentido, podemos afirmar que é precisamente a</p><p>inquisitoriedade dos meros procedimentos que o diferencia dos</p><p>processos, seja o processo de controle interno da legalidade dos</p><p>atos administrativos, seja o processo judicial. Portanto, o princípio da</p><p>inquisitoriedade é exclusivo dos meros procedimentos, não abrangendo</p><p>os processos administrativos e menos ainda os processos judiciais.</p><p>Cientificação</p><p>Apesar de o contribuinte não ter necessariamente oportunidade</p><p>de manifestação no âmbito do mero procedimento, em virtude da sua</p><p>natureza inquisitória, o seu conhecimento pelo interessado não pode ser</p><p>negado. Você sabe me dizer por quê? Pois bem, esse preceito decorre</p><p>do princípio da cientificação que, por sua vez, decorre do princípio da</p><p>publicidade.</p><p>Segundo o princípio da cientificação, impõe-se o dever de</p><p>a Administração Tributária comunicar, previamente, o contribuinte</p><p>interessado sobre a instauração de meros procedimentos administrativos</p><p>tributários que lhe digam respeito. E isto se dá porque, apesar de o</p><p>contribuinte necessariamente não ter oportunidade de participação nos</p><p>meros procedimentos, a ele não deve ser negada a oportunidade de</p><p>conhecer o procedimento e de o acompanhar, a fim de que não reste</p><p>prejudicado o seu direito de posterior e eventualmente querer o seu</p><p>controle de legalidade.</p><p>Por fim, resta-nos o dever de salientar que também nos processos</p><p>administrativos propriamente ditos e no processo judicial há incidência</p><p>do referido princípio. Nos casos dos processos, porém, a necessidade</p><p>de cientificação do interessado decorre, principalmente, do princípio da</p><p>ampla defesa, diferentemente do que ocorre nos meros procedimentos;</p><p>pois, apesar de que o contribuinte não pode defender-se da instauração</p><p>de um mero procedimento administrativo tributário, a ele não pode ser</p><p>negado o direito de dele tomar conhecimento (SEGUNDO, 2020).</p><p>Direito Processual Tributário</p><p>37</p><p>Busca pela Verdade Real</p><p>O efetivo conhecimento dos fatos e como eles ocorreram é fator</p><p>indispensável para que a correta lei seja aplicada ao caso concreto.</p><p>Portanto, conhecer a verdade real ou verdade material dos fatos é um</p><p>requisito básico para que o princípio da legalidade seja preservado. Desse</p><p>modo, é possível perceber que do princípio da legalidade decorre um</p><p>outro princípio indispensável, a promoção dos meros procedimentos</p><p>administrativos tributários. Você saberia me dizer qual é esse princípio?</p><p>Pois bem, a doutrina nomeia este princípio como princípio da busca pela</p><p>verdade real ou busca pela verdade material.</p><p>Figura 11 – Segundo o princípio da busca pela verdade real, a Administração Tributária</p><p>não pode agir baseada apenas em presunções, pelo menos não quando lhe for possível</p><p>descobrir a verdade real dos fatos correspondentes ou a sua efetiva ocorrência</p><p>Fonte: Freepik.</p><p>Direito Processual Tributário</p><p>38</p><p>NOTA:</p><p>Se a Administração agir presumindo a ocorrência de</p><p>um fato que de fato não ocorreu, ela termina por aplicar</p><p>ao caso concreto uma lei que, a rigor, sobre ele não</p><p>se aplica ou sobre ele não deve incidir; portanto, ela</p><p>pratica uma ilegalidade. Por outro lado, sendo impossível</p><p>reconhecer a verdade real de determinado caso concreto,</p><p>ante determinada falta imputável ao contribuinte, como</p><p>por exemplo, se o contribuinte não possuir escrituração</p><p>contábil, nem disponha de qualquer dos elementos que</p><p>possa demonstrar seu lucro real; a Administração não pode</p><p>ter a sua atividade obstaculizada e o seu interesse frustrado.</p><p>Nesse sentido, o princípio da busca pela verdade real impõe que a</p><p>Administração deve sempre buscar a verdade real como forma de realizar</p><p>o interesse público. Caso contrário, ante tal impossibilidade, a presunção</p><p>dos fatos, como no arbitramento (dentro dos critérios legais), é possível,</p><p>se de fato, for a última solução possível, como para o cálculo de um</p><p>tributo; não podendo ser a arbitrariedade imposta como uma penalidade</p><p>pelo descumprimento de um mero dever acessório ou irrelevante.</p><p>Subordinação Hierárquica</p><p>As autoridades públicas responsáveis pela promoção dos</p><p>meros procedimentos administrativos são submetidas ao chamado</p><p>poder hierárquico, justamente porque exercem atividades executivas,</p><p>chamadas de atividades administrativas típicas. Mas o que isso implica</p><p>nos meros procedimentos administrativos tributários? Pois bem, como a</p><p>atividade administrativa tributária é plenamente vinculada, as autoridades</p><p>superiores exercem esse poder hierárquico sobre as autoridades</p><p>subordinadas, nomeadamente através da edição de normas infralegais,</p><p>como por exemplo, as portarias ou ordens de serviços.</p><p>Direito Processual Tributário</p><p>39</p><p>NOTA:</p><p>Nesse sentido, um dos desdobramentos do princípio da</p><p>subordinação hierárquica, no desenvolvimento dos meros</p><p>procedimentos tributários, consiste no poder-dever de o</p><p>superior hierárquico apreciar e corrigir, independente de</p><p>provocação ou previsão legal para tanto, atos praticados por</p><p>um servidor público a ele subordinado, que eventualmente</p><p>venha a contrariar as disposições editadas por seus superiores.</p><p>O presente princípio, por sua vez, incide exclusivamente sobre os</p><p>meros procedimentos, pelos quais se exerce atividade administrativa</p><p>típica, de cunho executivo. O mesmo não ocorre em relação aos</p><p>órgãos administrativos julgadores, em relação ao exercício da atividade</p><p>jurisdicional exercida de forma atípica, até porque sobre eles vigora o</p><p>princípio do devido processo legal.</p><p>Dever de Fundamentação</p><p>Por fim, temos o princípio do dever de fundamentação. Você sabe</p><p>me dizer em que ele consiste e como incide sobre os meros procedimentos</p><p>administrativos? Pois bem, o princípio do dever de fundamentar consiste</p><p>no dever de o Poder Executivo fundamentar os atos que compõem os</p><p>procedimentos administrativos e, especialmente, o ato praticado ao final</p><p>deste. O referido princípio decorre da necessária motivação dos atos</p><p>administrativos no exercício das atividades administrativos típicas.</p><p>Nesse sentido, uma vez que, é justamente pela força do princípio</p><p>da fundamentação, juntamente com o vigor do princípio da publicidade,</p><p>que se pode avaliar a finalidade e a legitimidade dos atos administrativos,</p><p>pode-se afirmar que o princípio da fundamentação é indispensável na</p><p>promoção dos demais princípios do Estado Democrático de Direito,</p><p>como por exemplo, o princípio da ampla defesa, do contraditório e do</p><p>amplo acesso ao Judiciário. “Desse modo, o referido princípio acaba</p><p>sendo um valoroso limite à atuação do Poder Executivo, pois ele vincula</p><p>a autoridade competente para proferir decisão à ordem jurídica, que por</p><p>sua vez disciplinar a relação objeto da decisão” (SEGUNDO, 2020, p. 34).</p><p>Direito Processual Tributário</p><p>40</p><p>RESUMINDO:</p><p>E então? Aprendeu mesmo tudinho? Agora, só para</p><p>fixarmos melhor o tema de estudo deste capítulo, vamos</p><p>resumir tudo o que vimos. Você deve ter aprendido que</p><p>os meros procedimentos tributários, como por exemplo,</p><p>os lançamentos e o reconhecimento de imunidades</p><p>ou isenções, não têm por fim dirimir um conflito de</p><p>interesses, mas sim apenas a operacionalização da prática</p><p>de atos administrativos típicos, consistindo numa mera</p><p>sequência de atos logicamente encadeadas; não há que</p><p>se falar em participação de eventuais interessados como</p><p>forma de legitimar a formação do resultado final. Desse</p><p>modo, sobre os meros procedimentos administrativos</p><p>tributários incidem, preponderantemente, outras espécies</p><p>de princípios jurídicos, diferentes dos que norteiam os</p><p>processos administrativos e judiciais propriamente ditos.</p><p>Os princípios vetores dos meros procedimentos são:</p><p>oficialidade; inquisitoriedade; cientificação; busca pela</p><p>verdade real; subordinação hierárquica e pelo princípio</p><p>do dever de fundamentação. Segundo o princípio da</p><p>oficialidade, a Administração Tributária tem a faculdade</p><p>de agir de ofício na instauração de procedimentos, mas o</p><p>dever de desenvolvê-los e concluí-los, independente de</p><p>provocação.</p><p>O princípio da inquisitoriedade preconiza que os meros</p><p>procedimentos pertencem à Administração Pública e não ao particular,</p><p>portanto deverá obedecer apenas ao rito legal estabelecido, independente</p><p>da manifestação do interessado. O princípio da cientificação determina o</p><p>dever de a Administração Tributária comunicar, previamente, o contribuinte</p><p>interessado sobre a instauração de meros procedimentos administrativos</p><p>tributários que lhe digam respeito. O princípio da busca pela verdade real</p><p>estabelece que a Administração Tributária não pode agir baseada apenas</p><p>em presunções, pelo menos não quando lhe for possível descobrir a</p><p>verdade real dos fatos correspondentes ou a sua efetiva ocorrência. O</p><p>Direito Processual Tributário</p><p>41</p><p>princípio da subordinação hierárquica, por sua vez, determina que, como a</p><p>atividade administrativa tributária é plenamente vinculada, as autoridades</p><p>superiores têm a prerrogativa de exercer esse poder hierárquico sobre as</p><p>autoridades subordinadas, nomeadamente através da edição de normas</p><p>infralegais, como por exemplo, as portarias ou ordens de serviços. E por</p><p>fim, vigora o princípio do dever de fundamentação que impõe o dever</p><p>de a Administração Tributária fundamentar os atos que compõem os</p><p>procedimentos administrativos e, especialmente, o ato praticado ao final</p><p>deste.</p><p>Direito Processual Tributário</p><p>42</p><p>Princípios do Processo Administrativo e</p><p>Judicial</p><p>OBJETIVO:</p><p>Ao final deste capítulo, você será capaz de entender quais</p><p>são os princípios jurídicos que norteiam a interpretação</p><p>e a aplicação das regras jurídicas que disciplinam, tanto</p><p>o processo administrativo, quanto o processo judicial</p><p>propriamente ditos. Para isto, será fundamental que você</p><p>compreenda os referidos processos como um todo, bem</p><p>como seus preceitos e finalidades fundamentais. E então?</p><p>Entusiasmados para desenvolver esta competência?</p><p>Avante!.</p><p>Até o presente momento, foi possível assinalar que a grande</p><p>diferença entre os meros procedimentos e o processo judicial e</p><p>administrativo tributário é que nestes há um conflito de interesses que</p><p>lhe é subjacente, sendo sua precípua finalidade saná-lo; enquanto</p><p>aqueles consistem em meras operacionalizações da prática de atos</p><p>administrativos típicos. Portanto, a tais processos aplicam-se outras</p><p>espécies de princípios, como, por exemplo, o do devido processo legal,</p><p>da ampla defesa e do contraditório, e todos os que deles decorrem; bem</p><p>como há ainda princípios que são particulares ao processo administrativo</p><p>e outros que são aplicados somente ao processo judicial.</p><p>Desse modo, iniciaremos nossos estudos analisando mais de</p><p>perto os princípios jurídicos que incidem sobre ambos os processos,</p><p>posteriormente debruçarmo-nos sobre os princípios que norteiam,</p><p>particularmente, os processos administrativos e em seguida os processos</p><p>judiciais. Entusiasmados para aprender mais sobre os princípios jurídicos</p><p>que incidem sobre o processo tributário? Vamos juntos!</p><p>Direito Processual Tributário</p><p>43</p><p>Princípios Jurídicos que Incidem sobre</p><p>os Processos Administrativos e Judiciais</p><p>Tributários</p><p>Trataremos a seguir do processo em sentido estrito, ou seja,</p><p>da série de atos encadeados, de uma maneira lógica, que tem como</p><p>finalidade a solução de um conflito, e que, portanto, oferece às partes</p><p>igual oportunidade de participação da decisão final proferida. Entretanto,</p><p>os conceitos de processo aqui trabalhados dizem respeito, tanto ao</p><p>processo administrativo, quanto ao processo judicial. Mas entre eles há</p><p>uma diferença fundamental, você sabe me dizer qual é esta diferença?</p><p>O processo judicial consiste em um instrumento de prestação</p><p>jurisdicional, promovido por órgão do Poder Judiciário, que tem por</p><p>finalidade a resolução definitiva de conflitos de interesses. O processo</p><p>administrativo, por sua vez, consiste no exercício de função administrativa</p><p>atípica com feição de jurisdicional, “uma vez que resolve conflitos de</p><p>interesses, de modo não necessariamente definitivo, numa espécie</p><p>de autotutela vinculada ou autocontrole, exercido por órgãos de Poder</p><p>Executivo” (SEGUNDO, 2020, p. 35).</p><p>IMPORTANTE:</p><p>Como ambos os processos (administrativos e judiciais)</p><p>objetivam o reconhecimento do direito subjetivo de uma parte</p><p>envolvida, em detrimento do de outra, cujo interesse jurídico</p><p>é conflitante; eles são submetidos a princípios específicos</p><p>como o devido processo legal, ampla defesa, contraditório,</p><p>instrumentalidade, economia processual, duplo grau de</p><p>jurisdição e a necessária fundamentação das decisões.</p><p>Entretanto, como o processo administrativo não impõe uma solução</p><p>definitiva, o contribuinte pode recorrer ao Judiciário e como o órgão que</p><p>julga o processo administrativo também integra a própria estrutura de uma</p><p>das partes interessadas, alguns dos princípios constitucionais processuais</p><p>a eles não se aplicam ou não se aplicam tanto vigor. Diferentemente do</p><p>processo judicial, pois sobre ele tais princípios devem incidir com força, já</p><p>que atuam em relação às partes. Isso posto, passemos a análise desses</p><p>princípios comuns ao processo administrativo e judicial.</p><p>Direito Processual Tributário</p><p>44</p><p>Devido Processo Legal</p><p>Determina o art. 5º, LIV, da Constituição Federal que ninguém será</p><p>privado da liberdade ou de seus bens sem o devido processo legal.</p><p>Mas o que isso significa sob o aspecto do Processo Tributário? O devido</p><p>processo legal possui, doutrinariamente, duas acepções, uma formal</p><p>e outra substancial. O devido processo legal formal estabelece que</p><p>ninguém poderá ser privado da liberdade ou de seus bens se não houver</p><p>um devido processo para tal, que se desenvolva nos termos das normas</p><p>legais preestabelecidas. O devido processo legal substancial, por sua vez,</p><p>estabelece que o devido processo legal “é aquele que corre promovendo</p><p>a garantia da igualdade das partes envolvidas, o contraditório, a ampla</p><p>defesa e demais princípios constitucionais processuais fundamentais”</p><p>(SEGUNDO, 2020, p. 35).</p><p>NOTA:</p><p>É importante salientar que tais acepções não se excluem,</p><p>pelo contrário, elas se complementam.</p><p>No âmbito do processo tributário, o referido princípio</p><p>orienta não somente o processo judicial, mas também o</p><p>administrativo, conferindo ao cidadão o direito ao controle</p><p>da legalidade dos atos praticados pelo poder público,</p><p>bem como que tal processo ocorra de forma equilibrada</p><p>e razoável.</p><p>Ampla Defesa</p><p>Determina o art. 5º, LV, da Constituição Federal que aos litigantes,</p><p>em processo judicial ou administrativo, e aos acusados em geral são</p><p>assegurados o contraditório e a ampla defesa, com os meios e recursos</p><p>a ela inerentes.</p><p>Direito Processual Tributário</p><p>45</p><p>NOTA:</p><p>Nesse sentido, é possível afirmar que o princípio da</p><p>ampla defesa e do contraditório são típicos exemplos de</p><p>desdobramentos do princípio do devido processo legal.</p><p>O princípio da ampla defesa, em linhas gerais, determina que às</p><p>partes em litígio devem ser assegurados todos os meios necessários “à</p><p>articulação de suas pretensões, à comprovação dos fatos sobre os quais</p><p>estas se fundam e à reforma de decisões eventualmente equivocadas”</p><p>(SEGUNDO, 2020, p. 37).</p><p>No âmbito tributário, o princípio em tela culmina no dever de os</p><p>atos públicos serem realizados em conformidade com todos os requisitos</p><p>legais a eles impostos, pois a falta desses requisitos pode dificultar ou</p><p>até inviabilizar a defesa do sujeito passivo, consistindo, inclusive, em uma</p><p>clara causa de nulidade do ato. Um auto de infração, por exemplo, se</p><p>não constar, como se deve, o devido detalhamento da descrição do fato</p><p>imputado ao sujeito passivo, gerador do dever de pagar o tributo ou multa</p><p>lançados, bem como dos dispositivos legais que a Administração entende</p><p>ser aplicáveis, prejudicaria e muito a defesa do contribuinte.</p><p>Contraditório</p><p>“O princípio do contraditório, por sua vez, estabelece o dever de</p><p>ser dado ciência às partes do resultado ou do que se pretende apurar</p><p>pelo processo, bem como da possibilidade de cooperar e contrariar”</p><p>(SEGUNDO, 2020, p. 36 apud DINAMARCO, 1998, [n. p.]). Desse modo, em</p><p>sob o âmbito tributário, o princípio do contraditório é aquele que impede</p><p>que não prevaleça acusações errôneas sobre os contribuintes, como por</p><p>exemplo, uma autuação infundada.</p><p>Instrumentalidade</p><p>O princípio da instrumentalidade concebe o processo como um</p><p>instrumento de realização do direito material através do autocontrole</p><p>Direito Processual Tributário</p><p>46</p><p>administrativo, no caso do processo administrativo, ou da prestação da</p><p>tutela jurisdicional, no caso do processo judicial.</p><p>Nesse sentido, o processo que verse sobre Direito Tributário, como</p><p>aponta o doutrinador:</p><p>Tanto no processo judicial, como no processo</p><p>administra-</p><p>tivo, o cumprimento de qualquer formalidade só será exi-</p><p>gível quando, além de previsto em lei, e compatível com</p><p>os demais princípios jurídicos, for adequado, necessário e</p><p>proporcional ao atendimento das finalidades às quais cita-</p><p>dos processos se destinam (SEGUNDO, 2020, p. 39).</p><p>Economia Processual</p><p>É sabido que o termo economia, normalmente, é sinônimo de</p><p>racionamento ou contenção. Mas em que consiste a economia processual</p><p>enquanto princípio jurídico? Pois bem, o princípio da economia processual</p><p>oportuniza e promove a adoção de meios processuais menos onerosos</p><p>e mais simples, no decorrer dos processos, tanto administrativo, quanto</p><p>judicial, a fim de que os resultados sejam alcançados da forma mais breve</p><p>e proveitosa possível. O presente princípio, por exemplo, fundamenta</p><p>institutos processuais como o litisconsórcio e a prova emprestada.</p><p>Duplo Grau de Jurisdição</p><p>O princípio do duplo grau de jurisdição é um princípio constitucional</p><p>implícito, que se pode extrair das disposições que tratam do princípio</p><p>do devido processo legal, principalmente os que preveem o direito de</p><p>impugnar um julgado que se considera equivocado.</p><p>IMPORTANTE:</p><p>O princípio do duplo grau de jurisdição, portanto, estabelece</p><p>o direito de a parte, insatisfeita com o provimento estatal</p><p>final, recorrer a um segundo órgão julgador para que este</p><p>profira nova decisão em substituição à recorrida.</p><p>Direito Processual Tributário</p><p>47</p><p>Contudo, insta salientar que as decisões proferidas pelo Supremo</p><p>Tribunal Federal são tomadas em única ou última instância, pois aqui</p><p>assistimos a conciliação do princípio da segurança jurídica com o princípio</p><p>em estudo, bem como destes com “o próprio direito à tutela jurisdicional,</p><p>a qual, para ser prestada, há de sê-lo por meio de um processo que um</p><p>dia possa chegar ao fim” (SEGUNDO, 2020, p. 40).</p><p>Necessária Fundamentação das Decisões</p><p>E, por fim, temos o princípio da necessária fundamentação das</p><p>decisões proferidas no decorrer do processo, seja ele administrativo</p><p>ou judicial. “O referido princípio preconiza que toda decisão deve ser</p><p>suficientemente fundamentada a fim de que seja capaz de inverter o ônus</p><p>argumentativo, sob pena de nulidade da decisão” (SEGUNDO, 2020, p. 42).</p><p>Nomeadamente, sobre o referido princípio no âmbito do processo</p><p>judiciário, determina o artigo 93, IX da Constituição Federal, que todos</p><p>os julgamentos dos órgãos do Poder Judiciário serão públicos, e</p><p>fundamentadas todas as decisões, sob pena de nulidade, podendo a</p><p>lei limitar a presença, em determinados atos, às próprias partes e seus</p><p>advogados, ou somente a estes, em casos nos quais a preservação do</p><p>direito à intimidade do interessado no sigilo não prejudique o interesse</p><p>público à informação.</p><p>Preceito este que deve ser também observado no âmbito</p><p>do processo administrativo, primeiro porque o referido dispositivo</p><p>constitucional explicita uma regra que decorre do princípio do devido</p><p>processo legal, princípio este, que como vimos, se aplica às duas</p><p>modalidades processuais; e, segundo, porque o art. 15 do Código de</p><p>Processo Civil determina a aplicação supletiva das suas disposições às</p><p>demais espécies de processo, e nele consta a imposição do dever de</p><p>fundamentar suas decisões nos termos em que explicitado naquele</p><p>diploma legislativo (art. 489, § 1).</p><p>Isto posto, como dito anteriormente, passaremos à análise dos</p><p>princípios que, particularmente, regem o processo administrativo.</p><p>Direito Processual Tributário</p><p>48</p><p>Princípios do Processo Administrativo</p><p>Como dito anteriormente, o processo administrativo instrumentaliza</p><p>o exercício de atividade com feição jurisdicional exercida atipicamente</p><p>pelo Poder Executivo. Portanto, submete-se aos princípios norteadores</p><p>da conduta do Estado de uma maneira geral, bem como princípios</p><p>gerais do processo, como vimos nas seções anteriores. Por outro lado, ao</p><p>processo administrativo não se aplicam os princípios inerentes aos meros</p><p>procedimentos (atividade administrativa típica), nem todos os princípios</p><p>inerentes à função jurisdicional exercida de forma típica pelo Poder</p><p>Judiciário, pois “não se trata de um julgamento com todas as características</p><p>daquele proferido no âmbito da função jurisdicional propriamente dita”</p><p>(SEGUNDO, 2020, p. 43).</p><p>IMPORTANTE:</p><p>São essas pequenas peculiaridades que reclamam</p><p>aplicações de princípio específicos para os processos</p><p>administrativos. Alguns dos mais importantes deles são: o</p><p>princípio da utilidade do processo administrativo, da não-</p><p>submissão do órgão julgador ao poder hierárquico,</p><p>da verdade material e da oficialidade (sendo estes dois</p><p>últimos aplicados em conformidade com as peculiaridades</p><p>dos processos administrativos).</p><p>O princípio da utilidade do processo administrativo, em linhas gerais,</p><p>determina que não se pode permitir que, antes do termo do processo,</p><p>uma das partes interessadas sofra dano de tal forma que o provimento</p><p>estatal final perca sua finalidade. E isto, porque, como corolário do direito</p><p>de petição e da própria existência do processo administrativo tributário,</p><p>o contribuinte tem direito a valer do processo administrativo para obter</p><p>uma resposta estatal útil; como preceitua o próprio princípio do devido</p><p>processo legal.</p><p>Como vimos anteriormente, geralmente, os agentes públicos</p><p>estão fielmente subordinados às instruções normativas editadas por seus</p><p>superiores hierárquicos. Portanto, um fiscal de tributos, por exemplo,</p><p>Direito Processual Tributário</p><p>49</p><p>deve seguir integralmente as instruções normativas editadas por seus</p><p>superiores.</p><p>Entretanto, a autoridade administrativa competente para julgar</p><p>eventual conflito de interesses está adstrita aos princípios constitucionais</p><p>processuais acima elencados. E isto ocorre justamente em observância</p><p>ao princípio da não submissão do órgão julgador ao poder hierárquico</p><p>que, por sua vez, determina que os órgãos julgadores da seara</p><p>administrativa estão adstritos ao poder hierárquico do Ministro do</p><p>Estado, ou do Secretário Estadual ou Municipal, apenas no que tange</p><p>às suas funções administrativas típicas, como por exemplo, “horário de</p><p>funcionamento da repartição e critérios de nomeação; contudo a eles</p><p>não estão subordinados no que se relaciona ao mérito de suas decisões”</p><p>(PINTO, 2003, p. 7). Salienta-se que o referido princípio também incide no</p><p>processo judicial, pois nele “um juiz não está vinculado ao entendimento</p><p>do tribunal, nem pode ter suas decisões reformadas de ofício e a qualquer</p><p>tempo em virtude do “poder hierárquico”” (SEGUNDO, 2020, p. 44)</p><p>O princípio da verdade material, já estudado anteriormente, é</p><p>novamente destacado porque no âmbito do processo administrativo</p><p>propriamente dito abrange esferas um tanto quanto distintas das que</p><p>abrange nos meros procedimentos. A incidência do princípio da verdade</p><p>material no âmbito do processo administrativo incide preponderantemente</p><p>no que diz respeito à dilação probatória, à preclusão e à chamada presunção</p><p>de veracidade dos atos administrativos, pois é indiferente que a parte</p><p>aceite como verdadeiro algo que não o é, ou que negue a veracidade do</p><p>que é, pois no procedimento administrativo, independentemente do que</p><p>haja sido aportado aos autos pela parte, ou pelas partes, a Administração</p><p>deve sempre buscar a verdade substancial (MELLO, 1997).</p><p>NOTA:</p><p>Portanto, é dever da autoridade julgadora valer-se de</p><p>todos as provas e circunstâncias que tome conhecimento,</p><p>na busca da verdade material, posto que o interesse</p><p>substancial do Estado deve ser a justiça.</p><p>Direito Processual Tributário</p><p>50</p><p>No que tange o princípio da oficialidade, assim como nos meros</p><p>procedimentos e no processo judicial, é dever da autoridade administrativa</p><p>impulsionar o procedimento ou o processo para chegar a seu termo.</p><p>Contudo, no processo administrativo, uma vez que a autoridade julgadora</p><p>está vinculada à legalidade estrita e à verdade material, a ela cumpre</p><p>o dever de impulsionar o feito de forma célere,</p>