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<p>Oito Mulheres de Fé</p><p>Traduzido do original em inglês</p><p>Eight Women of Faith</p><p>Copyright © 2016 by Michael A. G. Haykin.</p><p>■</p><p>Publicado por Crossway Books,</p><p>Um ministério de publicações de Good News Publishers</p><p>1300 Crescent Street</p><p>Wheaton, Illinois 60187, USA.</p><p>Copyright © 2017 Editora Fiel</p><p>Primeira Edição em Português: 2017</p><p>Todos os direitos em língua portuguesa reservados por Editora Fiel da Missão Evangélica Literária</p><p>PROIBIDA A REPRODUÇÃO DESTE LIVRO POR QUAISQUER MEIOS, SEM A PERMISSÃO ESCRITA DOS</p><p>EDITORES, SALVO EM BREVES CITAÇÕES, COM INDICAÇÃO DA FONTE.</p><p>■</p><p>Diretor: James Richard Denham III</p><p>Editor: Tiago J. Santos Filho</p><p>Coordenação Editorial: Renata do Espírito Santo</p><p>Tradução: Catarina Muller</p><p>Revisão: Shirley Lima - Papiro Soluções Textuais</p><p>Diagramação: Larissa Nunes</p><p>Capa: Larissa Nunes</p><p>Ebook: Yuri Freire</p><p>ISBN: 978-85-8132-430-2</p><p>Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)</p><p>(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)</p><p>H419o Haykin, Michael A. G.</p><p>8 mulheres de fé / Michael A. G. Haykin ; [tradução:</p><p>Catarina Muller] ; [ilustrações: Vanessa Alexandre]. –</p><p>São José dos Campos, SP: Fiel, 2017.</p><p>2Mb ; ePUB</p><p>Tradução de: 40 questions about interpreting the Bible.</p><p>Inclui referências bibliográficas</p><p>ISBN 978-85-8132-430-2</p><p>1. Mulheres no cristianismo - Biografia. 2. Vida cristã.</p><p>I. Título.</p><p>CDD: 248.843</p><p>Caixa Postal, 1601</p><p>CEP 12230-971</p><p>São José dos Campos-SP</p><p>PABX.: (12) 3919-9999</p><p>www.editorafiel.com.br</p><p>http://www.editorafiel.com.br/</p><p>1</p><p>2</p><p>3</p><p>4</p><p>5</p><p>6</p><p>7</p><p>8</p><p>[Sumário]</p><p>Prefácio, por Karen Swallow Prior</p><p>Introdução</p><p>O testemunho de Jane Grey, uma rainha protestante</p><p>“Somente a fé justifica”</p><p>O testemunho de Richard Baxter sobre Margaret Baxter</p><p>“Governado por seu amor prudente em muitas coisas”</p><p>Anne Dutton e suas obras teológicas</p><p>“A glória de Deus e o bem das almas”</p><p>Sarah Edwards e a visão de Deus</p><p>“Uma doçura maravilhosa”</p><p>Anne Steele e seus hinos</p><p>“A língua melodiosa que cantou... O grande louvor de seu Redentor”</p><p>Esther Edwards Burr sobre a amizade</p><p>“Um dos melhores auxílios para manter a religião na alma”</p><p>Ann Judson e o projeto missionário</p><p>“A verdade nos impeliu”</p><p>A fé cristã de Jane Austen</p><p>“O valor da santa religião”</p><p>prefácio</p><p>Gênesis 2 nos conta que Deus criou um jardim com “toda a sorte de</p><p>árvores agradáveis à vista e boas para alimento” (v. 9). Deus disse a Adão</p><p>que comesse livremente de toda árvore, à exceção de uma. Mas, em vez de</p><p>focarem na abundância que Deus havia oferecido livremente, Adão e Eva</p><p>direcionaram o foco para a única coisa que estava fora dos limites. E, depois</p><p>disso, o resto é a história da humanidade.</p><p>Tanto dentro como fora da Igreja, temos tratado, de igual forma, a</p><p>admoestação bíblica em relação ao ministério feminino: focamos na única</p><p>coisa que está fora dos limites e, portanto, fracassamos em perceber as</p><p>numerosas oportunidades e os papéis que Deus claramente nos ofereceu,</p><p>alguns, inclusive, retratados de maneira persuasiva nas histórias presentes</p><p>neste livro. Igualmente, a admoestação bíblica tem gerado, com frequência,</p><p>limitação extrabíblica às mulheres, assim como opressão antibíblica, o que</p><p>também se reflete nas restrições no âmbito social que essas oito mulheres</p><p>experimentaram em suas vidas. Esse tipo de fracasso em relação às mulheres</p><p>– limitações injustamente impostas em sua personalidade e igualdade de alma</p><p>– tem levado, algumas vezes, a um fracasso secundário: a falha em ver e</p><p>contar as histórias das mulheres de modo claro, verdadeiro e satisfatório.</p><p>Dessa forma, existe uma abundância de obras sobre a vida de mulheres na</p><p>Igreja que apresentam aos leitores santas não realistas, mulheres que não são</p><p>de carne e osso. Esses relatos constituem bons contos de fadas, mas não são</p><p>exemplos justos ou adequados da verdadeira vida de fé. Por outro lado, boa</p><p>parte da retrospectiva sobre as mulheres na história tende a voltar o foco, de</p><p>maneira compreensível e às vezes justa, às limitações impostas às mulheres.</p><p>Muito foi negado às mulheres, e ainda o é, tanto na igreja como na cultura em</p><p>geral.</p><p>Os instantâneos deste livro de somente oito mulheres em apenas dois</p><p>séculos oferecem uma surpreendente gama de conquistas obtidas e de papéis</p><p>desempenhados por mulheres em uma época em que não representavam nem</p><p>mesmo uma segunda categoria de cidadãs, pois sequer eram consideradas</p><p>cidadãs. Então, apesar (e talvez por causa) desses tais obstáculos, as</p><p>contribuições e realizações das mulheres são ricas e variadas. Nestas páginas,</p><p>encontramos rainha, esposa, teóloga, compositora de hinos, romancista,</p><p>missionária, filha e amiga. Ainda mais importante, encontramos mulheres de</p><p>fé cujas vidas manifestaram a graça e a glória de Deus por meio de sua</p><p>obediência fiel aos papéis para os quais foram chamadas, na vida de solteira</p><p>ou no casamento, na doença ou na saúde, na riqueza ou na pobreza e, por fim,</p><p>na morte.</p><p>As facetas da feminilidade representadas em Oito mulheres de fé brilham</p><p>intensamente. Essa abundância é notável especialmente no princípio da era</p><p>moderna representada pelas vidas detalhadas aqui. O período se articula com</p><p>um momento decisivo e bastante significativo tanto na história da</p><p>humanidade como na história da Igreja: a Reforma Protestante. A ênfase da</p><p>Reforma na fé somente e nas Escrituras somente deu origem ao indivíduo</p><p>moderno (e, assim, à tradição evangélica) – e é a vida das mulheres que</p><p>reflete mais claramente as dramáticas mudanças históricas daí decorrentes.</p><p>São as mulheres de fé, particularmente a fé evangélica (com sua ênfase na</p><p>salvação individual), que espelham, de modo mais evidente, essa grande</p><p>mudança na história e na cultura da humanidade que engrandeceu a atividade</p><p>humana e a igualdade. Esses avanços me levaram a fazer meu próprio estudo</p><p>sobre uma mulher evangélica dessa era, Hannah More, poeta britânica,</p><p>abolicionista e reformadora do final do século XVIII e começo do XIX – e</p><p>me trouxeram também a esta obra fascinante.</p><p>Os retratos pintados por Haykin dessas mulheres extremamente diferentes</p><p>não as reduzem nem aos seus papéis, nem à sua religião, mas, em vez disso,</p><p>mostram como a fé delas informava, formava e cumpria com seu chamado na</p><p>terra. Além disso, independentemente de seus relacionamentos com os</p><p>homens (solteiras, casadas, esposas, filhas ou mães), as mulheres são</p><p>apresentadas como indivíduos, sendo tanto influenciadas como</p><p>influenciadoras nos papéis que desempenham. Margaret Baxter e Sarah</p><p>Edwards, por exemplo, são descritas como servas fiéis do evangelho, que</p><p>tanto foram servidas como serviram a seus respectivos maridos, Richard</p><p>Baxter e Jonathan Edwards. A teologia incorporada pelos escritos de Anne</p><p>Dutton, Anne Steele e Jane Austen demonstra a abundância no jardim de</p><p>Deus: podemos obedecer ao mandamento de não comer do fruto proibido e,</p><p>ainda assim, usufruir de um banquete suficientemente abundante para nutrir</p><p>todos os fiéis.</p><p>As vidas aqui retratadas demonstram a verdade das palavras de Jane</p><p>Austen, as quais se aplicam a homens e mulheres de igual forma: “Os cristãos</p><p>devem levantar-se e trabalhar neste mundo”. As mulheres apresentadas nesta</p><p>obra, cada uma à sua maneira, fizeram isso. E, após ler sobre elas, você</p><p>também desejará fazer.</p><p>Karen Swallow Prior</p><p>Liberty University,Virgínia, EUA</p><p>introduçao</p><p>A palavra feminismo apareceu pela primeira vez na língua inglesa no final</p><p>do século XIX.1 Apesar disso, já havia, por um período considerável antes</p><p>disso, vários debates sobre o papel e o status da mulher na sociedade. Veja,</p><p>por exemplo, a era histórica das Guerras Civis Britânicas (1638–1651) e o</p><p>governo republicano do puritano Oliver Cromwell (1599–1658), que se</p><p>seguiram a essas guerras, na década de 1650. Trata-se de um período</p><p>histórico que tem sido descrito adequadamente como “um mundo de cabeça</p><p>para baixo”. Muitos assuntos antes tomados como certos passaram a ser</p><p>questionados e, entre essas questões, estavam aquelas que tratavam do papel</p><p>da mulher.</p><p>Os quakers e as mulheres pregadoras</p><p>Os quakers, por exemplo, que surgiram como uma força poderosa nos</p><p>anos 1650, declaravam que não havia diferença espiritual entre</p><p>o</p><p>outro é necessário para a ajuda mútua.82</p><p>Margaret, por outro lado, estava geralmente sobrecarregada por medos</p><p>irracionais obsessivos, pesadelos e pavor. Parte disso foi causada por haver</p><p>quase morrido pelo menos quatro vezes antes de conhecer Richard, além de</p><p>um incidente traumático, em especial na Guerra Civil, quando o castelo de</p><p>sua mãe foi cercado, invadido e saqueado, e “homens foram mortos bem na</p><p>sua frente”.83 E ela também sofria de várias enfermidades, em especial</p><p>ataques regulares de enxaqueca e congestão dos pulmões.84 De resto, tinha</p><p>“uma perspicácia extraordinária, aguda e contundente” e era capaz de avaliar</p><p>o caráter de homens e mulheres bem rapidamente. Ela tendia, segundo</p><p>Baxter, a ser quieta e reservada, e dado o dom dela de compreender os outros,</p><p>esperava “que todos compreendessem sua mente sem [ela] expressá-la”.</p><p>Como era de se esperar, quando as pessoas, inclusive seu marido, falhavam</p><p>em entender o que ela estava pensando, sentia-se frustrada.85 Apesar disso, ao</p><p>contrário de seu marido, ela não tinha problemas com a raiva.</p><p>Ademais, as circunstâncias em que foram criados deram a eles</p><p>expectativas bem distintas acerca de como cuidar da casa, o que, sem dúvida,</p><p>causava certa tensão. Baxter escreve sobre si mesmo:</p><p>Fui criado em meio a pessoas simples, inferiores [quer dizer, humildes], e</p><p>acreditava que lavar tanto as escadas como os quartos, para mantê-los limpos</p><p>como tábuas de cortar pão ou louça, e toda a falação a respeito de limpeza e</p><p>ninharias, tudo isso era curiosidade pecaminosa e gasto de tempo dos servos, os</p><p>quais poderiam, durante aquele tempo, ler algum bom livro. Mas ela, que fora</p><p>criada de outra forma, tinha outro modo de pensar.86</p><p>Os anos que passou sozinho deixaram Baxter indiferente quanto às</p><p>questões de cuidar de uma casa. Apesar disso, ele ficou feliz de ter alguém</p><p>eficiente que cuidasse de seus assuntos. A casa dos Baxter, como todas as</p><p>outras, tirando as mais pobres daquela época, tinha servos. Margaret se</p><p>mostrava uma senhora extremamente gentil e carinhosa em relação a eles,</p><p>quase sempre deixando passar suas faltas e erros.87 Ela insistia em que</p><p>Richard os catequizasse uma vez por semana e lhes ensinasse a Bíblia. Havia</p><p>ocasiões em que Baxter estava tão envolvido em seus estudos que se esquecia</p><p>de sua obrigação. Então, Margaret o lembrava gentilmente com uma</p><p>expressão de “encrenca” no rosto.88 Os servos no lar dos Baxter eram</p><p>tratados como família: “Ela nutria um desejo sincero pela conversão e a</p><p>salvação de seus servos”, escreveu Baxter, “e se sentia muito preocupada</p><p>com a possibilidade de que tantos deles (embora toleráveis em seu serviço)</p><p>fossem embora tão ignorantes, ou alheios em relação à verdadeira piedade,</p><p>quanto tinham chegado; e aqueles que se convertiam genuinamente conosco,</p><p>ela amava como se fossem filhos”.89</p><p>Eles também viveram tempos muito difíceis quando os conhecidos como</p><p>puritanos se viram atirados em uma fornalha de perseguição. Richard,</p><p>conhecido como o principal líder entre os puritanos, viu-se perseguido por</p><p>espiões, era alvo frequente de calúnias e, em pelo menos uma ocasião, foi</p><p>detido e aprisionado. Eles precisavam mudar de casa frequentemente e, mais</p><p>de uma vez, viveram no que só podia ser chamado de circunstâncias</p><p>miseráveis.90 Pode-se ter uma boa ideia da natureza do caráter de Margaret</p><p>quando Baxter nos conta que, por ocasião de sua primeira prisão, em 1669,</p><p>Margaret “alegremente foi comigo para a prisão; ela levou sua melhor cama</p><p>para ali e se esforçou muito para remover as inconveniências da prisão. Acho</p><p>que, poucas vezes, ela passou um período mais agradável na vida do que</p><p>quando esteve lá comigo”.91</p><p>“A ajudadora mais apropriada que eu poderia ter tido”92</p><p>Como se pode ler no relato de Richard acerca de seu matrimônio, há pouco</p><p>para se duvidar do profundo respeito dele e de Margaret um pelo outro, bem</p><p>como da apreciação sem limites que nutriam dos dons e das qualidades um do</p><p>outro. Baxter admitia abertamente que Margaret era melhor do que ele em</p><p>resolver problemas relacionados a questões civis e financeiras. “Ela, ao ouvir</p><p>pela primeira vez”, dizia ele, “entendia a questão melhor do que eu poderia</p><p>fazê-lo, mesmo depois de pensar muito e longamente”.93 Mesmo quando se</p><p>tratava de questões práticas da vida cristã, Baxter passou a confiar na</p><p>sabedoria de sua esposa.</p><p>Seu entendimento dessas coisas era muito mais rápido e perspicaz que o meu;</p><p>embora, de alguma forma, eu estivesse naturalmente obstinado com minhas</p><p>próprias concepções, os motivos dela e a minha experiência geralmente me</p><p>diziam que ela estava com a razão e que sabia mais do que eu. Ela entendia</p><p>melhor a questão ao ouvir pela primeira vez do que eu poderia fazê-lo depois de</p><p>muita reflexão… Sim, direi que… exceto nos casos que exigiam estudo e</p><p>habilidade em dificuldades teológicas, ela era melhor em resolver um assunto de</p><p>consciência do que a maioria dos teólogos que já conheci em toda a minha vida.</p><p>Em geral, eu apresentava casos a ela, que ela prontamente resolvia, de maneira a</p><p>me convencer de algum grau de desatenção na minha própria resolução. Chegou</p><p>ao ponto, nos últimos anos, confesso, em que eu estava acostumado a entregar a</p><p>ela todos os casos, exceto os que exigiam segredo, para ouvir o que ela poderia</p><p>me dizer… Então, ela apresentava todas as circunstâncias juntas, comparava-as e</p><p>me mostrava uma resolução mais exata do que aquela que eu poderia obter.94</p><p>Portanto, Richard podia afirmar: “Não estou envergonhado de ter sido bem</p><p>governado por seu amor prudente em muitas coisas”.95 Como Bo Salisbury</p><p>observa corretamente, o casamento de Richard com Margaret “revela ainda</p><p>outra faceta das excepcionais habilidades de Baxter como pastor, algo a que</p><p>os pastores modernos devem prestar atenção em especial: seu espírito de</p><p>humildade e submissão aos outros. Quanto aos homens, seu relacionamento</p><p>com as esposas geralmente revelará a profundidade ou a superficialidade de</p><p>sua humildade e, então, sua adequação para a tarefa da liderança humilde,</p><p>como servo, dentro do Corpo de Cristo”.96</p><p>Margaret, por sua vez, reconhecia o dom de Richard como pregador.</p><p>Embora sua pregação fosse ilegal, ela regularmente fez uso de grande parte</p><p>de sua riqueza para conseguir locais em Londres nos quais o marido pudesse</p><p>pregar. Ela chegou até mesmo a pagar para construir capelas para o</p><p>ministério de seu marido. Um exemplo que Baxter recordou em particular</p><p>ocorreu em 1673:</p><p>Em Londres, quando ela me viu desanimado e deprimido demais, para buscar</p><p>qualquer emprego até que fosse chamado… Ela primeiro tentou saber de mim em</p><p>que lugar eu desejava que houvesse mais pregação. Eu disse a ela que na</p><p>paróquia de St. Martin, onde dizem que há mais de quarenta mil que podem vir</p><p>para a igreja… Onde muitos vizinhos vivem como americanos e não ouvem</p><p>sermão algum por muitos anos.97</p><p>Então, ela alugou um cômodo grande em um andar superior no qual</p><p>Baxter podia pregar aos domingos pela manhã e outro ministro podia pregar à</p><p>noite. Na primeira reunião, a multidão que veio ouvir Baxter era tão grande –</p><p>havia aproximadamente oitocentas pessoas – que se ouviu um estrondo no</p><p>assoalho de madeira, depois outro, o que fez com que “todos se pusessem a</p><p>correr, gritando nas janelas em busca de escadas”. Margaret Baxter encontrou</p><p>um meio de descer por entre a multidão e indagar a profissão do primeiro</p><p>homem que avistou. Por acaso, ele era carpinteiro. Ele vivia ali perto, então</p><p>foi até em casa e buscou um suporte apropriado para a viga. No dia seguinte,</p><p>eles puxaram o assoalho e descobriram que a viga estava presa por um</p><p>pedaço de madeira tão fino que eles “consideraram uma maravilha que a casa</p><p>não tivesse caído de repente”. Obviamente, o prédio não podia conter a</p><p>multidão que era atraída pela pregação de Baxter. O susto de tantas pessoas</p><p>quase terem perecido, observou Baxter, “aumentou o espanto de minha</p><p>esposa, de modo que ela nunca superou os efeitos disso enquanto viveu”.98</p><p>Para não se sentir derrotada, porém, Margaret se dispôs, em 1676, a</p><p>mandar construir uma capela a partir do zero em um terreno</p><p>próximo</p><p>desocupado. Baxter pregou no primeiro domingo depois da conclusão da</p><p>obra, mas estava ausente na semana seguinte, visto que tinha de viajar para</p><p>um local a cerca de trinta quilômetros de Londres. Robert Seddon (1629–</p><p>1695), um pregador de Derbyshire – “homem humilde e piedoso”, assim</p><p>Baxter o descreve –, concordou em assumir o lugar de Baxter e pregar no</p><p>domingo seguinte. Porém, oficiais do estado tomaram conhecimento dessa</p><p>empreitada e foram prender Baxter por pregação ilegal. Com um mandado de</p><p>prisão, eles desceram até a capela. Sem encontrar Baxter, porém, prenderam</p><p>Seddon em seu lugar e o colocaram na prisão por alguns meses. Margaret</p><p>ficou intensamente abalada com a prisão de Seddon e culpou a si mesma.</p><p>Assim, ela fez uso de seus próprios recursos para visitar e consolá-lo na</p><p>prisão, pagar todos os custos com um advogado e também dar suporte à sua</p><p>família.99</p><p>Houve um custo para todo esse trabalho, e não foi meramente material.</p><p>Isso também trouxe, escreve Richard, “dificuldades para o corpo e para a</p><p>mente, pois a faca dela era muito afiada e cortava a bainha. Seu desejo estava</p><p>sinceramente mais voltado a fazer o bem do que sua mente e cabeça delicadas</p><p>poderiam suportar”.100 Havia alguns que, com base na ideia de que o lugar de</p><p>uma mulher é fundamentalmente em casa, culpavam Margaret por ocupar</p><p>“tanto a sua mente com igrejas e trabalhos de caridade” e não estar “contente</p><p>em viver de modo quieto e privado”.101</p><p>Mas Baxter a defendia:</p><p>Isso não passa do que não crentes profanos dizem contra todo o zelo e piedade</p><p>espiritual: por que todo esse barulho? Paulo não chama algumas mulheres para</p><p>ajudá-lo no evangelho?102 Aquele que sabe o que é fazer o bem e faz disso o</p><p>negócio da sua vida neste mundo, e sabe o que é prestar contas de nossa</p><p>mordomia e estar fadado a ser o servo inútil saberá como responder a essa</p><p>acusação.103</p><p>Considerações finais</p><p>Richard e Margaret, como todo casal, eram pessoas imperfeitas. Como</p><p>Richard disse: “Minha querida esposa de fato procurou mais coisas boas em</p><p>mim do que encontrou, em especial ultimamente, em minha fraqueza e</p><p>envelhecimento. Todos nós somos como quadros – não devemos olhá-los</p><p>muito de perto. Aqueles que se aproximam de nós encontram mais falhas e</p><p>maldade do que aqueles que estão distantes conhecem”.104 Embora as</p><p>circunstâncias penosas em que viveram fossem mais estressantes do que</p><p>aquelas que a maior parte dos casais enfrenta, todos os casais experimentam</p><p>tensão e estresse. Apesar disso, eles conseguiram ter um casamento</p><p>maravilhoso. Qual era o segredo deles?</p><p>Bem, duas coisas em especial se destacam. Primeiro, seguiram o conselho</p><p>que Richard deu aos casais em seu Christian Directory:</p><p>Marido e esposa devem ter prazer no amor, e companhia, e diálogo um com o</p><p>outro. Não há nada a que o coração do homem esteja mais excessivamente</p><p>disposto quanto o prazer e, apesar disso, o prazer lícito que Deus lhes permite,</p><p>eles podem transformar em abominação e desdém. O prazer que o enredaria no</p><p>pecado, e o desviaria de sua obrigação e de Deus, é aquele que lhe é proibido:</p><p>mas esse é um prazer que o auxilia em seu dever e o afasta do pecado. Quando</p><p>marido e esposa têm prazer um no outro, isso os une nos deveres e os ajuda,</p><p>tornando mais fácil fazerem seu trabalho e suportarem seus fardos; e essa não é a</p><p>menor parte do consolo de se estar casado. “Alegra-te com a mulher de tua</p><p>mocidade, corça de amores e gazela graciosa. Saciem-te os seus seios em todo o</p><p>tempo; e embriaga-te sempre com as suas carícias” [Pv 5.18-19].105</p><p>Porém, mais importante ainda: eles tinham um acordo excepcional sobre o</p><p>que afinal importa nesta vida. “Adequação no julgamento e disposição</p><p>religiosa”, escreveu Baxter quando relatou seu casamento com Margaret,</p><p>preservam com mais intensidade o amor e o acordo (como foi conosco) do que a</p><p>adequação de idade, a educação e a riqueza; mas, apesar disso, essas questões</p><p>não devem ser negligenciadas imprudentemente. Nada pode originar uma união</p><p>tão próxima, intensa e confortável quanto estar unido em um Deus, um Cristo,</p><p>um Espírito, uma Igreja, uma esperança da glória celestial.106</p><p>45. A maior parte deste capítulo apareceu pela primeira vez em Michael A. G. Haykin, The Reformers</p><p>as Spiritual Mentors: “Hope Is Kindled” (Ontário, Canadá: Joshua Press, 2012), 143–61. Usado com</p><p>permissão.</p><p>46. J. N. D. Kelly, Jerome: His Life, Writings, and Controversies (New York: Harper & Row, 1975),</p><p>183, 187.</p><p>47. James A. Mohler, Late Have I Loved You: An Interpretation of Saint Augustine on Human and</p><p>Divine Relationships (New York: New City Press, 1991), 71.</p><p>48. Edmund Leites, “The Duty to Desire: Love, Friendship, and Sexuality in Some Puritan Theories of</p><p>Marriage”, Journal of Social History 15 (1981–1982): 384.</p><p>49. Mohler, Late Have I Loved You, 68.</p><p>50. Citado em Richard Stauffer, The Humanness of John Calvin, tradução de George H. Shriver</p><p>(Nashville: Abingdon Press, 1971), 45.</p><p>51. J. I. Packer, “Marriage and Family in Puritan Thought”, em sua obra A Quest for Godliness: The</p><p>Puritan Vision of the Christian Life (Wheaton, IL: Crossway, 1990), 259–60.</p><p>52. Citado em C. H. George and K. George, The Protestant Mind of the English Reformation 1570–</p><p>1640 (Princeton, NJ: Princeton University Press, 1961), 268.</p><p>53. Citado em Margo Todd, Christian Humanism and the Puritan Social Order (Cambridge, UK:</p><p>Cambridge University Press, 1987), 100. Para mais informações, ver Daniel Doriani, “The Puritans,</p><p>Sex, and Pleasure”, Westminster Theological Journal 53 (1991): 128–29; Leland Ryken, Worldly</p><p>Saints: The Puritans As They Really Were (Grand Rapids, MI: Zondervan, 1986), 41–42.</p><p>54. Citado em Leites, “Duty to Desire”, 387.</p><p>55. Citado em Todd, Christian Humanism and the Puritan Social Order, 113.</p><p>56. Sobre a importância da ordem das razões dadas para a instituição do casamento, ver Packer, Quest</p><p>for Godliness, 261–62. Ver também Todd, Christian Humanism and the Puritan Social Order, 99–100.</p><p>57. Packer, Quest for Godliness, 262.</p><p>58. A Christian Directory: or, A Sum of Practical Theology, and Cases of Conscience II.1, em The</p><p>Practical Works of the Rev. Richard Baxter (1846; repr. Morgan, PA: Soli Deo Gloria, 2000), 1:404.</p><p>59. J. I. Packer, “A Man for All Ministries”, Reformation and Revival Journal 1 (Inverno de 1992): 56.</p><p>60. “Richard Baxter’s Love-Story and Marriage”, in The Autobiography of Richard Baxter, abr. J. M.</p><p>Lloyd Thomas (Totowa, NJ: Rowman & Littlefield, 1974), 274–75.</p><p>61. A melhor introdução à vida de Baxter é Autobiography of Richard Baxter. Para um estudo</p><p>biográfico recente, ver Geoffrey F. Nuttall, Richard Baxter (London: Thomas Nelson & Sons, 1965).</p><p>Para breves esboços biográficos, ver J. I. Packer, “Great Pastors – V. Richard Baxter (1615–1691)”,</p><p>Theology 56 (1953): 174–79; e Packer, “A Man for All Ministries”, 53–74.</p><p>A história do relacionamento amoroso de Richard e Margaret é contada pelo próprio Baxter em seu A</p><p>Breviate of the Life of Margaret, The Daughter of Francis Charlton, of Apply in Shropshire, Esq., And</p><p>Wife of Richard Baxter (London, 1681), reimpresso por John T. Wilkinson, Richard Baxter and</p><p>Margaret Charlton: A Puritan Love-Story (London: George Allen & Unwin, 1928). Mais</p><p>recentemente, J. I. Packer produziu uma condensação de Breviate: A Grief Sanctified: Passing Through</p><p>Grief to Peace and Joy (Ann Arbor, MI: Servant Publications, 1997). Para um estudo útil da teologia</p><p>geral do casamento de Baxter, ver Tim Beougher, “The Puritan View of Marriage: The Nature of the</p><p>Husband/Wife Relationship in Puritan England as Taught and Experienced by a Representative Puritan</p><p>Pastor, Richard Baxter”, Trinity Journal 10 (1989): 131–60.</p><p>62. Citado em Nuttall, Richard Baxter, 6.</p><p>63. Citado em N. H. Keeble, Richard Baxter: Puritan Man of Letters (Oxford, UK: Clarendon Press,</p><p>1982), 11.</p><p>64. Packer, A Grief Sanctified, 43.</p><p>65. Citado em Keeble, Richard Baxter, 12.</p><p>66. Citado em Nuttall, Richard Baxter, 11.</p><p>67. Citado em Keeble, Richard Baxter, 12.</p><p>68. Richard Baxter, The Reformed Pastor, ed. William Brown (1862; repr. Edinburgh: Banner</p><p>of Truth,</p><p>1974), 11.</p><p>69. Autobiography of Richard Baxter, 79. Para um excelente estudo do evangelismo de Baxter, ver</p><p>Timothy K. Beougher, “Richard Baxter and Puritan Evangelism”, Journal of the Academy for</p><p>Evangelism in Theological Education 7 (1991–1992): 82–94. Ver também Gary E. Milley, “A Puritan</p><p>Perspective on Preaching”, Resource 2 (jan.-fev. de 1988): 16–17.</p><p>70. Citado em Packer, “Richard Baxter”, 175.</p><p>71. Wilkinson, Richard Baxter and Margaret Charlton, 70.</p><p>72. Ibid., 78, 81.</p><p>73. Ibid., 107..</p><p>74. Ibid., 73-74. Ver também Packer, A Grief Sanctified, 21-22.</p><p>75. Wilkinson, Richard Baxter and Margaret Charlton, 75-77.</p><p>76. Nuttall, Richard Baxter, 93.</p><p>77. Autobiography of Richard Baxter, 173–74; Wilkinson, Richard Baxter and Margaret Charlton,</p><p>109. Mas, mesmo após o seu próprio casamento, ele conseguia encorajar os ministros a pensarem duas</p><p>vezes antes de se casar: Wilkinson, Richard Baxter and Margaret Charlton, 155–58; Christian</p><p>Directory II.1, em Practical Works of the Rev. Richard Baxter, 1:400–401. Ver também Beougher,</p><p>“Puritan View of Marriage”, 152.</p><p>78. Wilkinson, Richard Baxter and Margaret Charlton, 155–56.</p><p>79. Ibid, 110.</p><p>80. Ibid., 132, 135-36, 142.</p><p>81. Ibid. 129.</p><p>82. Christian Directory II.7, em Practical Works of the Rev. Richard Baxter, 1:436.</p><p>83. Wilkinson, Richard Baxter and Margaret Charlton, 106-7. Ver também 116-17, 134-35, em que</p><p>Baxter dá outras razões para o medo dela.</p><p>84. Ibid., 146.</p><p>85. Ibid., 106.</p><p>86. Ibid., 137.</p><p>87. Ibid., 132, 135.</p><p>88. Ibid., 129.</p><p>89. Ibid., 136.</p><p>90. Ibid., 111-14.</p><p>91. Ibid. 113.</p><p>92. Ibid., 129.</p><p>93. Ibid., 127.</p><p>94. Ibid.</p><p>95. Ibid., 126.</p><p>96. Bo Salisbury, Good Mr. Baxter: Sketches of Effective, Caring Leadership for the Church from the</p><p>Life of Richard Baxter, cap. 10. “Husband”. Acesso em 27 jul. 2015. Disponível em</p><p>http://www.bosalisbury.com/interests/richard-baxter/good-mr-baxter/10-husband/. Para uma</p><p>admoestação geral aos maridos com vistas a, algumas vezes, serem submissos às suas esposas, ver Ef</p><p>5.21.</p><p>97. Wilkinson, Richard Baxter and Margaret Charlton, 115-16.</p><p>98. Ibid., 115-17</p><p>99. Ibid., 118.</p><p>100. Ibid., 132.</p><p>101. Ibid., 124.</p><p>102. Uma referência a textos como Rm 16.2, 3, 6; Fl 4.3.</p><p>103. Wilkinson, Richard Baxter and Margaret Charlton, 124.</p><p>104. Ibid., 152.</p><p>105. Christian Directory II.7, em Practical Works of the Rev. Richard Baxter, 1:432.</p><p>106. Wilkinson, Richard Baxter and Margaret Charlton, 155; ver também 128-29.</p><p>http://www.bosalisbury.com/interests/richard-baxter/good-mr-baxter/10-husband/</p><p>03</p><p>Anne Dutton e suas obras teológicas</p><p>“A glória de Deus e o bem das almas”</p><p>Enquanto, no início da era moderna, as mulheres trabalhavam como</p><p>costureiras, chapeleiras, sapateiras, bordadeiras, cervejeiras e confeiteiras, até</p><p>mesmo farmacêuticas, as profissões de professora, advogada e médica, todas</p><p>requerendo educação formal, eram vedadas a elas. De igual forma, as</p><p>mulheres não eram encorajadas a se tornar escritoras. Quando Anne Locke</p><p>Prowse (1530–pós-1590), a esposa do puritano Edward Dering (–1576), por</p><p>exemplo, publicou sua tradução de Of the Markes of the Children of God, de</p><p>Jean Taffin (1529–1602), o ministro e teólogo valão, afirmou em sua carta-</p><p>dedicatória:</p><p>Cada um no seu chamado está destinado a realizar um pouco para o incremento</p><p>da santa edificação; mas, visto que, em razão do meu sexo, não posso fazer</p><p>grandes coisas, e aquelas que posso, eu devo fazer, tenho, de acordo com a minha</p><p>obrigação, trazido meu pequeno cesto de pedras para o fortalecimento das</p><p>muralhas de Jerusalém, da qual (pela graça) somos todos cidadãos e membros.107</p><p>Essa atitude em relação às escritoras persistiu, acentuadamente, ao longo</p><p>do século XVIII, como evidenciado na defesa de Anne Dutton (1692–1765)</p><p>de sua autoria em um pequeno tratado de doze páginas, Uma carta para</p><p>aqueles servos de Cristo que possam ter qualquer escrúpulo sobre a</p><p>legitimidade da impressão de qualquer coisa escrita por uma mulher (1743).</p><p>O homem de letras Samuel Johnson (1709–1784), crítico contumaz das</p><p>autoras, considerava as escritoras dessa era “amazonas da caneta”.108 Nesse</p><p>contexto, o legado literário de Dutton se torna ainda mais significativo.109</p><p>Esboço biográfico dos primeiros anos de Anne</p><p>Dutton nasceu Anne Williams, em Northampton, de pais congregacionais</p><p>piedosos. Frequentou a Igreja Congregacional Independente em Castle Hill,</p><p>professando sua conversão aos 13 anos e se unindo à igreja dois anos mais</p><p>tarde, sob o pastorado de John Hunt (–1709). Com a morte de Hunt, Thomas</p><p>Tingey se tornou pastor de Williams em 1709, sobre quem Anne tinha pouca</p><p>coisa boa a dizer. Devido à sua insatisfação com o ministério dele, ela se</p><p>transferiu para a Igreja Batista de membresia aberta em College Lane,</p><p>Northampton, uma igreja na qual a membresia era concedida pela profissão</p><p>de fé, sem a necessidade do batismo. Foi aqui, sob o ministério de John</p><p>Moore (–1726), que ela foi batizada como crente e se tornou membro ativo.</p><p>Lá, segundo suas palavras, ela encontrou “pastos verdejantes”, pois “o sr.</p><p>Moore era um grande pregador de doutrina”. Como ela explicou: “A</p><p>vantagem especial que recebi sob o ministério dele foi o estabelecimento do</p><p>meu julgamento nas doutrinas do Evangelho”.110</p><p>Quando contava com 22 anos, em 1714, casou-se com Thomas Cattell e se</p><p>mudou para Londres com o marido. Enquanto estavam lá, ela congregou na</p><p>Igreja Batista Calvinista, que se reunia em um prédio na rua Wood, dentro de</p><p>Cripplegate. Fundado por Hanserd Knollys (1599–1691), uma das principais</p><p>figuras batistas do século XVII, esse trabalho passara por uns tempos difíceis</p><p>dias antes de Anne e Thomas chegarem à igreja. David Crosley (1670–1744),</p><p>o evangelista dos montes Apeninos, havia sido seu pastor de 1705 a 1709,</p><p>mas foi excomungado por se embriagar, ter uma conduta impura com</p><p>mulheres e mentir para a igreja quando da acusação. Muitos anos depois, ele</p><p>voltaria a ter alguma utilidade no serviço do Senhor.111 Mas, nos anos 1710,</p><p>ele perdeu toda a credibilidade. A dor e a sensação de traição,</p><p>desapontamento e consternação na igreja devem ter sido profundas.</p><p>Foi somente em 1714 que a igreja conseguiu encontrar um novo pastor.</p><p>John Skepp (1675–1721), membro da Igreja Congregacional de Cambridge,</p><p>de Joseph Hussey (1659–1726), foi chamado naquele ano para ser seu pastor.</p><p>Hussey, em geral, é visto como o pai do desvio teológico do hipercalvinismo,</p><p>visto que argumentou, em seu livro God’s Operations of Grace: but No</p><p>Offers of Grace (1707), que falar de Cristo indiscriminadamente aos</p><p>pecadores é algo que desonra o Espírito Santo, pois se aproxima de “cooperar</p><p>com a criatura e concorrer com a criatura” na obra da salvação.112 Skepp</p><p>publicou apenas um livro que apareceu postumamente: Divine Energy: or</p><p>The Efficacious Operations of the Spirit of God upon the Soul of Man (1722).</p><p>Nele, parece ter seguido a abordagem de Hussey em relação ao evangelismo.</p><p>Algumas vezes, argumenta-se se a exposição de Anne Dutton, ainda jovem,</p><p>ao hipercalvinismo teria moldado seu pensamento para o resto da vida. Se</p><p>isso é verdade, é curioso vê-la se regozijando no ministério de pregadores</p><p>como George Whitefield nos anos posteriores.</p><p>Skepp, porém, era um pregador impressionante. A tendência geral na</p><p>igreja durante o seu ministério era a de crescimento. Havia 179 membros</p><p>quando ele chegou como pastor, em 1714. Quando ele morreu, em 1721, a</p><p>membresia da igreja havia crescido para 212. E Anne se alegrava no que</p><p>chamava de sua “rapidez de pensamento, aptidão de expressão, afeição</p><p>adequada e elocução bastante agradável”.113 No entanto, nos primeiros meses</p><p>de 1719, a vida de Anne passou por uma grande provação quando seu marido</p><p>– com quem era casada havia cinco ou seis anos – faleceu. Ela retornou para</p><p>a sua família em Northampton e se viu em uma luta espiritual. Em suas</p><p>palavras, Anne buscava Deus “em ordenanças, aqui ou ali; mas ai de mim!</p><p>Eu não o encontrava”.114 No entanto, Anne não ficou solteira por muito</p><p>tempo. Em meados de 1720, casou-se novamente com Benjamin Dutton</p><p>(1691–1747), que era o mais novo dos seis</p><p>filhos de Matthew Dutton (–</p><p>1719). Benjamin era um costureiro que havia estudado para o ministério</p><p>vocacional em vários lugares, entre eles, a Universidade de Glasgow. Ele e</p><p>Anne se conheceram no final de 1719 e, um ano depois, estavam casados.115</p><p>O ministério levou o casal a cidades como Whittlesey e Wisbech, em</p><p>Cambridgeshire, antes de levá-los finalmente, em 1731, a uma congregação</p><p>batista em Great Gransden, Huntingdonshire, cerca de vinte quilômetros a</p><p>leste de Cambridge. É importante observar que, antes desse chamado para</p><p>Great Gransden, Benjamin Dutton tivera problemas com o alcoolismo. Mas o</p><p>Senhor o libertou completamente por volta desse período. Segundo as</p><p>próprias palavras de Benjamin Dutton:</p><p>Chegado o tempo da minha libertação, como foi dito, o Senhor se aproximou</p><p>bastante do meu espírito: pôs o meu coração contra o pecado, todo pecado, e</p><p>particularmente aquele pecado que tinha sido minha grande ferida. E eu estava</p><p>firmemente resoluto, com a ajuda do Senhor, que manteria a maior distância de</p><p>toda, até mesmo a menor, aparência daquele mal, de maneira especial.116</p><p>E, mais uma vez, ele disse que agora “não necessitava mais de vinho ou</p><p>bebida forte. O Senhor também, em sua grande bondade, removeu minha</p><p>inclinação a isso; de modo que eu não tinha mais inclinação para isso, ou</p><p>desejo disso, como se eu nunca tivesse provado disso em toda a minha</p><p>vida”.117</p><p>Sob a pregação de Dutton, a igreja floresceu de tal modo que, em qualquer</p><p>domingo, a congregação chegava a um número entre 250 e 350 pessoas, entre</p><p>as quais aproximadamente cinquenta eram membros. Esse crescimento levou</p><p>à construção de um novo local de pregação, que ainda se encontra naquela</p><p>vila. Entretanto, Benjamin faleceu no mar, em 1747. Ele tinha ido à América</p><p>para ajudar a levantar fundos para quitar o débito gerado pela construção do</p><p>ponto de pregação, e o navio em que ele estava retornando naufragou não</p><p>muito longe da Costa Britânica. Viúva agora pela segunda vez, Anne viveu</p><p>ainda mais 18 anos. Nesse período, “a fama de sua piedade primitiva” – para</p><p>usar a maneira com que o historiador batista Joseph Ivimey (1773–1834) se</p><p>referia à sua espiritualidade, típica do Novo Testamento – tornou-se</p><p>conhecida nos círculos evangélicos em ambos os lados do Atlântico, e isso</p><p>por meio de várias publicações literárias.</p><p>Talento para a escrita</p><p>Anne já escrevera por vários anos antes da morte de Benjamin. Com o seu</p><p>falecimento, um fluxo contínuo de panfletos e tratados, coleções de</p><p>correspondências exclusivas e poemas verteu de sua pena. Entre seus</p><p>numerosos correspondentes, estavam Howel Harris (1714–1773); Selina</p><p>Hastings, a Condessa de Huntingdon (1707–1791); e George Whitefield –</p><p>todos figuras importantes no Avivamento Evangélico do século XVIII, que</p><p>estava varrendo todo o mundo falante de língua inglesa nos meados daquele</p><p>século. Com a expulsão dos puritanos da Igreja da Inglaterra, em 1662, como</p><p>observado no capítulo anterior, a causa puritana se dividiu em três grupos</p><p>principais: os presbiterianos, os congregacionais e os batistas calvinistas ou</p><p>particulares. Anne Dutton pertencia a esse terceiro grupo. Juntamente com a</p><p>Igreja da Inglaterra, todos esses grupos experimentaram declínio significativo</p><p>nas primeiras décadas do século XVIII. Os presbiterianos ingleses</p><p>basicamente perderam seu entendimento da ortodoxia clássica, tornando-se</p><p>unitários. Os congregacionais e os batistas particulares retiveram as doutrinas</p><p>principais da fé cristã, mas estagnaram por várias razões e nutriam,</p><p>reconhecidamente, uma necessidade profunda de avivamento e renovo em</p><p>meados do século XVIII.</p><p>Quando o reavivamento de fato veio, nos anos 1730, teve início entre os</p><p>anglicanos. Isso representou um choque para os congregacionais e batistas,</p><p>pois não foram as suas comunidades que haviam guardado a fé e, em</p><p>especial, a forma bíblica de governo da Igreja – a saber, o modelo</p><p>congregacional – após passar pelas chamas da perseguição na segunda</p><p>metade do século XVII? Assim, muitos congregacionais e batistas estavam</p><p>profundamente desconfiados da autenticidade do avivamento. É importante</p><p>notar que Anne Dutton construiu relacionamentos próximos com muitas das</p><p>figuras-chave do avivamento nos primeiros dias daquele despertar.</p><p>Howel Harris estava convencido de que o Senhor havia confiado a ela “um</p><p>talento de escrita para ele”. Quando William Seward (1711–1740), antigo</p><p>pregador metodista que fora morto por um bando no País de Gales, leu uma</p><p>carta que ela escrevera para ele em maio de 1739, achou-a “cheia de tanto</p><p>consolo e respostas diretas ao que ele tinha escrito que aquilo encheu seus</p><p>olhos com lágrimas de alegria”. E Whitefield, que ajudou a promover e</p><p>publicar os escritos de Anne, disse, após encontrá-la, que “a conversa tinha</p><p>tanto peso quanto suas cartas”.118</p><p>Em 1740, ela já havia escrito sete livros; mais 14 foram escritos entre 1741</p><p>e 1743. Outros 14 ainda foram publicados até 1750.119 Na verdade, ela</p><p>continuou a escrever até a sua morte, em 1765. Sem filhos, ela se considerava</p><p>mãe de seus cerca de cinquenta livros. Entre as mulheres, ela foi claramente a</p><p>autora batista mais produtiva do século XVIII.</p><p>Anne, porém, tinha dificuldade de saber se era bíblico que ela fosse</p><p>escritora. Em seu tratado Uma carta para aqueles servos de Cristo que</p><p>possam ter algum escrúpulo sobre a legitimidade de imprimir qualquer coisa</p><p>escrita por uma mulher, Dutton sustentou que escrevia não pela fama, mas</p><p>“somente para a glória de Deus e o bem das almas”.120 Para aqueles que</p><p>pudessem acusá-la de violar 1Tm 2.12, ela respondia que seus livros não</p><p>eram para ser lidos em um contexto público de adoração, o qual o texto de 1</p><p>Timóteo se designa a tratar. Em vez disso, a instrução que seus livros davam</p><p>eram particulares, pois deviam ser lidos pelos crentes em “suas próprias</p><p>casas”.121 Ela pedia àqueles que se opunham às mulheres escritoras a</p><p>“imaginar então... quando meus livros chegarem à sua casa, que eu vim fazer</p><p>uma visita” e a “pacientemente prestar atenção” às suas “ceceaduras”</p><p>infantis.122 E se alguma outra autora tivesse usado a imprensa para</p><p>“ninharias”? Bem, ela respondia: “Ninguém daquele sexo suportará aparecer</p><p>ao lado de Cristo para falar das maravilhas do seu amor, buscar o bem das</p><p>almas e o avanço do interesse do Redentor”.123</p><p>Sobre a perfeição cristã</p><p>Anne não hesitava em criticar as posições teológicas que considerava</p><p>errôneas. Por exemplo, ela era crítica dos sandemanianos, que promoviam</p><p>uma fé intelectualista,124 e de William Romaine (1714–1795), figura de</p><p>destaque no Avivamento Evangélico, o qual ela criticava por sua visão da</p><p>divindade – ela suspeitava que ele fosse ligado ao modalismo.125 Ela também</p><p>era crítica de John Wesley (1703–1791) e de seu tipo do arminianismo</p><p>protestante, embora sua crítica nunca fosse abusiva. Além de numerosas</p><p>cartas para Wesley, ela escreveu dois livretos o criticando: primeiro, uma</p><p>defesa do calvinismo, Uma carta ao Reverendo Senhor John Wesley, em</p><p>vindicação às doutrinas de absoluto, eleição incondicional, redenção</p><p>particular, vocação especial e perseverança final (1742); e então, no ano</p><p>seguinte, um ataque ao ensinamento de Wesley sobre a perfeição cristã,</p><p>Cartas ao Reverendo Senhor John Wesley contra a perfeição como não</p><p>atingível nesta vida (1743).126 Próximo do período em que redigiu esses</p><p>tratados, ela enviou Uma carta da Senhora Anne Dutton ao Reverendo</p><p>Senhor G. Whitefield (1743), a qual Whitefield imprimiu na Filadélfia com o</p><p>conhecido impressor William Bradford (1719–1791), editor do periódico The</p><p>Pennsylvania Journal.127</p><p>No início dos anos 1740, John Wesley começou a ensinar em Londres e</p><p>Bristol que a perfeição cristã – a ausência de pecado conhecido e o amor</p><p>perfeito para com Deus e o próximo – era possível nesta vida como uma</p><p>experiência pós-conversão. Wesley se referia a essa experiência como a</p><p>“segunda bênção”. Além disso, condizente com o arminianismo, Wesley</p><p>sustentava que esse estado podia ser perdido. De maneira previsível, alguns</p><p>de seus seguidores deram um passo adiante e afirmaram que, uma vez</p><p>experimentada,</p><p>essa bênção não podia mais ser perdida, exatamente porque a</p><p>possibilidade de pecar havia sido removida pela bênção. No tratado para</p><p>Whitefield, Dutton apresentava, inicialmente, sua preocupação:</p><p>Pobre Bristol! Quantos têm sido iludidos pelo pecado e por Satanás, de tal</p><p>maneira a pensar que não têm pecado. Pois, de fato, senhor, eu posso ver que isso</p><p>não passa de uma ilusão do inimigo das almas e de um engano do coração, para</p><p>que se pense que existe tal coisa atingível nesta vida, tal como uma perfeição</p><p>completa sem pecado; e, ainda muito mais, que pensem que eles mesmos</p><p>alcançaram esse estado. Estranho é que qualquer um possa pensar, ou afirmar,</p><p>que não pecou em pensamento, palavras, ou atos por meses! E ainda mais</p><p>estranho, que eu nunca ouvi antes, que qualquer um possa imaginar que o ser do</p><p>pecado seja retirado de sua natureza!128</p><p>Para Anne, “a inteira perfeição sem pecado” é uma ilusão satânica. Ela não</p><p>titubeava em refutar essa visão com base em vários textos das Escrituras,</p><p>dentre os quais o mais significativo para ela era Tt 2.11-12:</p><p>“Se dizemos que não temos pecados” (diz o apóstolo João) “estamos nos</p><p>enganando, e não há verdade em nós”, 1Jo 1.8. E diz o Espírito Santo, por</p><p>intermédio de Salomão, “Não existe no mundo ninguém que faça sempre o que é</p><p>direito e que nunca erre”, Ec 7.20. A grande obra da graça de Deus, que traz</p><p>salvação para os salvos, é ensinar a eles que, negando “a impiedade e as paixões</p><p>mundanas, vivamos, no presente século, sensata, justa e piedosamente”, Tt 2.11-</p><p>12. A palavra ensinar, no tempo presente, denota o trabalho constante da graça</p><p>divina sobre os sujeitos dali, enquanto eles estão neste mundo. A palavra negar</p><p>denota a obrigação constante e a tarefa dos cristãos enquanto estão neste mundo</p><p>presente. E o ensinamento da graça para negar a impiedade, e a negação do</p><p>mesmo, ambos tendo igual duração com a permanência dos cristãos neste mundo</p><p>presente: negar uma pessoa ou coisa supõe o ser e as solicitações daquela pessoa</p><p>ou coisa. Então, negar a impiedade e os desejos mundanos supõe o ser e as</p><p>solicitações disso. E, assim como o serviço de um cristão, sua obra constante</p><p>consiste em uma contínua negação de impiedade e paixões mundanas; deve</p><p>inegavelmente supor o ser e as solicitações do pecado, enquanto estiverem neste</p><p>mundo.129</p><p>Aqui, Anne inicialmente apela para 1Jo 1.8 e Ec 7.20 para argumentar no</p><p>sentido da realidade do pecado na vida de todo ser humano neste mundo. Seu</p><p>texto principal é Tt 2.11-12, no qual ela argumenta que o tempo presente dos</p><p>verbos principais nesse verso, “ensinar” e “negar”, implica uma obrigação</p><p>sempre presente na vida do cristão, significando que ele nunca está livre do</p><p>pecado neste mundo.</p><p>Anne encontra ainda mais apoio para sua posição em 2Co 7.1 e 1Jo 3.2-3:</p><p>2Co 7.1 “Tendo, pois, ó amados, tais promessas, purifiquemo-nos de toda</p><p>impureza, tanto da carne como do espírito”, aperfeiçoando a santidade no temor</p><p>de Deus: necessariamente supõe nossas impureza e imperfeição atuais, tanto na</p><p>alma como no corpo, enquanto estamos nesta vida. Além disso, 1Jo 3.3, “E a si</p><p>mesmo se purifica todo o que nele tem esta esperança, assim como ele é puro”;</p><p>necessariamente implica sua impureza presente enquanto ele está neste mundo;</p><p>(ou até que ele usufrua da bênção esperada de ver Cristo como ele é), pois, de</p><p>outro modo, não haveria lógica em dizer que ele se purifica. Então, de igual</p><p>forma, nossa imperfeição na santidade, que surge do ser, e a obra do pecado em</p><p>nossa natureza corrupta, estão necessariamente implicadas – v. 2, onde o apóstolo</p><p>diz: “Quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque haveremos de</p><p>vê-lo como ele é”. Ele não diz que somos como ele... mas que seremos como ele.</p><p>E ele dá a grande causa desse grande feito: porque o veremos como ele é. A visão</p><p>de Cristo é a causa da semelhança com ele. A visão parcial de Cristo nesta vida</p><p>produz semelhança parcial. A visão total de Cristo na vida que está por vir</p><p>produzirá semelhança total com ele.130</p><p>Mais uma vez, Anne observou cuidadosamente esses textos bíblicos e</p><p>descobriu que ambos sustentam a ideia de que a santidade perfeita é uma</p><p>realidade da vida que está por vir, e não da vida deste mundo. Seus</p><p>comentários finais são incisivos e fazem lembrar a pregação puritana, a qual,</p><p>em geral, continha observações sucintas como uma ferramenta de ensino: “A</p><p>visão parcial de Cristo nesta vida produz semelhança parcial. A visão total de</p><p>Cristo na vida que está por vir produzirá semelhança total com ele”.</p><p>A presença de Cristo, o Senhor, na Santa Ceia</p><p>Um dos escritos mais importantes de Anne, valoroso por sua piedade</p><p>eucarística, é Pensamentos sobre a Ceia do Senhor, quanto à natureza, aos</p><p>sujeitos e à participação correta dessa ordenança correta, que foi publicado</p><p>anonimamente em 1748. Como observamos no Capítulo 1, uma das questões</p><p>que causavam mais divisão entre a Igreja Católica Romana e os</p><p>Reformadores, assim como entre os próprios Reformadores, era a natureza da</p><p>presença de Cristo à Mesa. Embora todos os Reformadores rejeitassem o</p><p>dogma romano da transubstanciação, não concordavam sobre o que</p><p>realmente acontece durante a celebração da Ceia do Senhor.</p><p>Na visão de Martinho Lutero (1483–1546), o corpo e o sangue de Cristo</p><p>estão presentes “dentro, com e debaixo” do sangue e do vinho.</p><p>Contrariamente ao dogma romano da transubstanciação, o pão permanece</p><p>pão; apesar disso, de alguma forma, também contém o corpo de Cristo após a</p><p>oração de consagração. Assim, o vinho contém o sangue dele depois dessa</p><p>oração, embora permaneça vinho. O reformador suíço Ulrico Zuínglio (1484–</p><p>1531), por outro lado, considerava o pão e o vinho essencialmente símbolos</p><p>do que Deus realizou por meio da morte de Cristo, e a Ceia, portanto, é</p><p>principalmente um memorial. Em discussões recentes acerca da perspectiva</p><p>de Zuínglio quanto à Ceia do Senhor, geralmente defende-se que Zuínglio</p><p>não era de fato zuingliano; ou seja, ele viu mais na Ceia do Senhor do que</p><p>simplesmente um memorial.131 No entanto, seja qual for a posição de</p><p>Zuínglio, surgiu uma tradição a partir daqueles aspectos de seu pensamento</p><p>que enfatizava fundamentalmente a natureza memorial da Ceia do Senhor.</p><p>Uma terceira visão que buscava atingir um meio-termo entre Lutero e</p><p>Zuínglio e evitar um distanciamento permanente entre luteranos e zuinglianos</p><p>era a de João Calvino (1509–1564). Na perspectiva de Calvino quanto à</p><p>natureza da Ceia do Senhor, o pão e o vinho são símbolos e garantias</p><p>presentes de uma realidade. Para aquele que come o pão e bebe o vinho com</p><p>fé, é transmitido o que eles simbolizam, a saber, Cristo. O canal, na verdade,</p><p>por meio do qual Cristo é expresso ao crente é tão somente o Espírito Santo.</p><p>O Espírito age como um tipo de elo ou ponte entre os crentes e o Cristo, que</p><p>ascendeu ao céu. Cristo é recebido pelos crentes na Ceia “não porque é</p><p>inerente aos elementos, mas porque o Espírito Santo une os crentes” a ele.</p><p>Mas, sem fé, o que se recebe são meros elementos.132</p><p>A obra de Anne Pensamentos sobre a Ceia do Senhor constitui uma das</p><p>melhores exposições de Calvino do século XVIII. Dutton dedica a primeira</p><p>seção de seu tratado de sessenta páginas sobre a Ceia do Senhor para esboçar</p><p>sua natureza. Nessa seção, argumenta que a Ceia é, entre outras coisas, uma</p><p>“comunicação”. “Visto que o nosso Senhor está espiritualmente presente em</p><p>sua própria ordenança”, escreve ela, “então de fato se comunica desse modo,</p><p>ou se entrega, seu corpo partido e seu sangue derramado, com todos os</p><p>benefícios de sua morte, aos receptores dignos”.133 Aqui, Dutton afirma que</p><p>Cristo está de fato presente na celebração de sua Ceia e faz dela um meio da</p><p>graça para aqueles que participam dela com fé. Como ela afirma adiante no</p><p>mesmo tratado: na Ceia do Senhor, “o Rei se alegra de sentar conosco, à sua</p><p>Mesa”.134</p><p>Sua base bíblica se encontra em 1Co 10.16, que ela interpretou</p><p>corretamente ao sugerir a presença de Cristo à Mesa. Nessa passagem, Paulo</p><p>argumenta que os cristãos não deveriam acreditar que a adoração aos ídolos é</p><p>inofensiva porque os deuses pagãos</p><p>não têm real existência no mundo. Em</p><p>1Co 8.5, Paulo tinha afirmado que a cultura greco-romana conhecia “muitos</p><p>‘deuses’ e muitos ‘senhores’” no céu e na terra. Porém, prossegue o apóstolo</p><p>no versículo seguinte, apesar daquilo em que seus contemporâneos gregos e</p><p>romanos acreditavam, seus irmãos cristãos e ele estavam certos de que havia</p><p>apenas “um Deus e um Pai” e “um Senhor Jesus Cristo”. Quanto aos deuses</p><p>gregos e romanos, a Igreja antiga reconhecia que eles não tinham, segundo as</p><p>palavras de Paulo, “existência real” (1 Co 8.3). Sem dúvida, eles “existiam”</p><p>para aqueles que os adoravam, mas, sob a perspectiva da realidade,</p><p>simplesmente não existiam. Eles eram, como Paulo afirma em seu discurso</p><p>no Aerópago, uma defesa clássica da perspectiva cristã sobre a vida, “uma</p><p>imagem formada pela arte e a imaginação do homem” (At 17.29). Apesar</p><p>disso, Paulo prossegue argumentando em 1Co 10, isso não significava que a</p><p>religião pagã fosse inofensiva. Na verdade, aquele era “o locus da atividade</p><p>demoníaca, e… adorar tais ‘deuses’ é, na verdade, ter comunhão com</p><p>demônios” (1Co 10.19-20).135 E, para ilustrar seu argumento de que a</p><p>adoração de ídolos envolve a presença de outros seres além dos adoradores,</p><p>Paulo dá o exemplo da adoração no templo no Antigo Testamento e na Ceia</p><p>do Senhor. No último caso, seu argumento supõe que a adoração na Ceia do</p><p>Senhor envolve a presença do Senhor Jesus.</p><p>Ele valoriza tão grandemente esse meio da graça que Anne pode afirmar,</p><p>de uma forma que outros batistas calvinistas de sua era poderiam descrever</p><p>como certo exagero, que a celebração da Ceia do Senhor “admite” crentes</p><p>“na aproximação mais íntima ao seu ser glorioso (ou seja, de Cristo), que nós</p><p>podemos fazer em um caminho de ordenança na Terra, nesse lado da sua</p><p>glória no Céu”.136 A linguagem de Anne pode soar extravagante para alguns,</p><p>mas revela, creio, algo da intensidade espiritual que estava disponível às</p><p>congregações batistas em meados do século XVIII. De fato, um dos poucos</p><p>efeitos negativos do Reavivamento Evangélico pode ser a maneira pela qual</p><p>essa espiritualidade da Mesa foi diluída na urgência de tornar igrejas centros</p><p>de evangelismos.</p><p>A centralidade de Cristo e a centralidade da cruz permeiam todo o tratado.</p><p>Para dar apenas um exemplo: “Ó que plano maravilhoso”, declara ela logo no</p><p>início do livro, “que plano doador de vida em seu próprio sangue precioso,</p><p>Deus nosso Salvador, o Senhor que nos ama, dá aos pecadores que estão</p><p>morrendo, aos seus amados nessa gloriosa ordenança”.137</p><p>Os últimos dias de Anne</p><p>Anne faleceu na segunda-feira, 17 de novembro de 1765, provavelmente</p><p>de câncer na garganta. Existe um relato contundente de seus dias finais feito</p><p>por Robert Robinson (1735–1790), em uma carta que ele escreveu a um</p><p>amigo em 1766 e que apenas recentemente veio à luz.</p><p>Você (sem dúvida) ouviu falar da partida da querida senhora Dutton. Eu a vi</p><p>algumas semanas antes de seu falecimento. Naquele momento, ela sabia da</p><p>proximidade de sua morte. Ela não conseguiu entrar no templo para o sermão…</p><p>Ó, como ela falava extasiada. Ela estava de pé e se assentou perto do fogo. Seu</p><p>semblante – não direi tranquilo e composto, mas alegre, brilhante, cheio de uma</p><p>serenidade, ou talvez cheio de imortalidade –, minha mente estava permeada</p><p>daquele trecho nas Escrituras que eu achei ter visto exemplificado na senhora</p><p>Dutton. Salmos 92.12 etc. O justo florescerá como a palmeira, que parece</p><p>crescer mais rápido sob fardos... Na velhice darão ainda frutos. – Uma mulher de</p><p>74 anos, cheia de frutos do Espírito. Amor, alegria, paz, longanimidade,</p><p>benignidade, bondade, fé, mansidão, domínio próprio. Gálatas 5.22... Não seco,</p><p>nem enrugado, nem manchado com dúvidas, medos, morte etc., mas como frutos</p><p>finos e maduros, que imediatamente encantam os olhos, de cheiro refrescante e</p><p>sabor gratificante. A visão ilustra o final mencionado pelo salmista... Ouvi que</p><p>preciosa aos olhos do Senhor é a morte de seus santos, e agora eu vi que ele (ou</p><p>seja, Deus) foi verdadeiro em sua palavra, pois estava presente pelo seu Espírito</p><p>na doença e na morte da senhora Dutton. Seu mal era uma garganta inflamada e</p><p>uma de suas expressões era: “Meu querido senhor, eu me alegro em pensar que</p><p>não há nada além da espessura de um fio de cabelo entre mim e a casa de meu</p><p>Pai. Basta o Senhor parar a minha respiração e estarei com ele. E assim estarei</p><p>para sempre com o Senhor”.138</p><p>107. “The Epistle Dedicatory” a Jean Taffin, Of the markes of the children of God, tradução de Anne</p><p>Prowse (London: Thomas Man, 1590), [iv–v].</p><p>108. Citado em Vivien Jones, ed., Women in the Eighteenth-Century: Constructions of femininity</p><p>(London: Routledge, 1990), 140.</p><p>109. A maior parte das obras de Anne sobreviveu em apenas algumas cópias. Felizmente, hoje suas</p><p>obras estão disponíveis em uma edição publicada pela Mercer University Press: Selected Spiritual</p><p>Writings of Anne Dutton: Eighteenth Century, British-Baptist, Woman Theologian (2003–), ed. JoAnn</p><p>Ford Watson, 6 vols.</p><p>110. A Brief Account of the Gracious Dealings of God, with a Poor, Sinful, Unworthy Creature (1750),</p><p>em Watson, Selected Spiritual Writings of Anne Dutton, 3:47, 50.</p><p>111. Para a história dele, ver o excelente pequeno estudo de B. A. Ramsbottom, The Puritan Samson:</p><p>The Life of David Crosley 1669–1744 (Hertfordshire, UK: Gospel Standard Trust, 1991).</p><p>112. God’s Operations of Grace: but No Offers of Grace (London: D. Bridge, 1707), 163, 209.</p><p>113. Brief Account of the Gracious Dealings of God, in Watson, Selected Spiritual Writings of Anne</p><p>Dutton, 3:51.</p><p>114. Ibid., 3:70.</p><p>115. Michael D. Sciretti Jr., “‘Feed My Lambs’: The Spiritual Direction Ministry of Calvinistic British</p><p>Baptist Anne Dutton During the Early Years of the Evangelical Revival”, tese de pós-doutorado,</p><p>Baylor University (2009), 77.</p><p>116. Citado em Sciretti, “Feed My Lambs”, 91.</p><p>117. Ibid., 91–92.</p><p>118. Para as citações desse parágrafo, ver Stephen J. Stein, “A Note on Anne Dutton, Eighteenth-</p><p>Century Evangelical”, Church History 44 (December 1975): 488–89.</p><p>119. Sciretti, “Feed My Lambs”, 100–101.</p><p>120. A letter to such of the Servants of Christ, who may have any scruple about the Lawfulness of</p><p>Printing any thing written by a Woman, in Watson, Selected Spiritual Writings of Anne Dutton, 3:254.</p><p>121. Ibid.</p><p>122. Ibid., 3:257.</p><p>123. Ibid., 3:256.</p><p>124. Mr. Sanddeman Refuted by An Old Woman (London: J. Hart, 1761), em Selected Spiritual</p><p>Writings of Anne Dutton, 5:41–75.</p><p>125. A Letter on the Divine Eternal Sonship of Jesus Christ (London: J. Hart, 1757), em Watson,</p><p>Selected Spiritual Writings of Anne Dutton, 5:1–13.</p><p>126. Ambos podem ser encontrados em Watson, Selected Spiritual Writings of Anne Dutton, 1:5–84.</p><p>Para o conflito entre Wesley e Dutton, ver Arthur Wallington, “Wesley and Anne Dutton”, Proceedings</p><p>of the Wesley Historical Society 11 (junho de 1918): 43–48.</p><p>127. Para essa carta enviada a Whitefield, ver também Watson, Selected Spiritual Writings of Anne</p><p>Dutton, 1:1–4.</p><p>128. Letter… to the Reverend Mr. George Whitefield, in Watson, Selected Spiritual Writings of Anne</p><p>Dutton, 1:2.</p><p>129. Ibid., 1:2–3.</p><p>130. Ibid., 1:3; destaque no original.</p><p>131. Ver Derek R. Moore-Crispin, “‘The Real Absence’: Ulrich Zwingli’s View of the Lord’s Supper”,</p><p>in Union and Communion, 1529–1979 (London: Westminster Conference, 1979), 22–34.</p><p>132. Victor A. Shepherd, The Nature and Function of Faith in the Theology of John Calvin (Macon,</p><p>GA: Mercer University Press, 1983), 220. Outros estudos úteis sobre a teologia de Calvino sobre a Ceia</p><p>do Senhor incluem B. A. Gerrish, “The Lord’s Supper in the Reformed Confessions”, Theology Today</p><p>13 (1966–1967): 224–43; John D. Nicholls, “‘Union with Christ’: John Calvin on the Lord’s Supper”,</p><p>in Union and Communion, 35–54; John Yates, “Role of the Holy Spirit in the Lord’s Supper”,</p><p>Churchman 105 (1991): 355–56; B. A. Gerrish, Grace and Gratitude: The Eucharistic Theology of</p><p>John Calvin (Minneapolis: Fortress Press, 1993).</p><p>133. Thoughts on the Lord’s Supper, Relating to the Nature, Subjects, and right Partaking of this</p><p>Solemn</p><p>Ordinance (London: J. Hart, 1748), 3–4.</p><p>134. Ibid., 21.</p><p>135. Gordon D. Fee, The First Epistle to the Corinthians (Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1987), 370.</p><p>136. Thoughts on the Lord’s Supper, 25; ver também, 56.</p><p>137. Ibid., 7</p><p>138. Carta a John Robinson, 30 de novembro de 1766, em Timothy Whelan, “Six Letters of Robert</p><p>Robinson from Dr Williams’s Library”, The Baptist Quarterly, 39, nº 7 (julho de 2002): 355–56.</p><p>04</p><p>Sarah Edwards e a visão de Deus</p><p>“Uma doçura maravilhosa”</p><p>Como todo avivamento, o Primeiro Grande Despertamento do século</p><p>XVIII não foi um evento idílico: somado à grande bênção, houve vários</p><p>problemas. Nesse caso, foram incidentes e comportamentos fanáticos. O</p><p>principal teólogo que abordou essas questões foi Jonathan Edwards (1703–</p><p>1758), autor de New England.139 Entre suas defesas do avivamento, está a</p><p>obra Some Thoughts Concerning the Present Revival of Religion in New-</p><p>England, escrita durante o ano de 1742, embora tenha sido publicada apenas</p><p>em meados de março de 1743.140 No período em que Edwards se dedicou a</p><p>escrevê-la, uma divisão quanto ao avivamento estava se tornando cada vez</p><p>mais óbvia. Dois partidos estavam surgindo, os Old Lights e os New Lights,</p><p>como vieram a ser chamados, os quais, Edwards observa, tendiam a dividir as</p><p>igrejas de New England “em dois exércitos separados, dispostos em formação</p><p>de guerra, prontos para lutar um contra o outro”.141 Numa tentativa de</p><p>apaziguar essa situação, Edwards elaborou sua extensa obra, que chegou a</p><p>378 páginas em sua primeira edição.</p><p>Ao mesmo tempo que Edwards estava comprometido em apoiar o</p><p>avivamento como uma obra autêntica de Deus, o Espírito Santo, estava cada</p><p>vez mais crítico dos excessos imprudentes cometidos por certos “amigos” do</p><p>avivamento.142 O livro se divide em cinco partes principais. Na primeira, o</p><p>pastor de Northampton defende o avivamento como uma “obra gloriosa de</p><p>Deus”.143 A divisão seguinte do livro delineia as “obrigações que todos</p><p>devem reconhecer, alegrar-se nelas e promover a obra”.144 A terceira seção</p><p>busca defender os “promotores zelosos” dessa obra.145 A quarta parte é a</p><p>maior seção do livro, com foco em como os amigos do avivamento precisam</p><p>corrigir vários problemas na obra.146 A seção final é dedicada a resumir</p><p>várias providências que podem ser adotadas para promover o avivamento.147</p><p>O tamanho da quarta parte do livro deixa bastante claro que a preocupação</p><p>crescente de Edward é com o grande e verdadeiro risco do fanatismo. “Uma</p><p>pessoa verdadeiramente zelosa”, observa ele, “pode fazer mais (pois Satanás</p><p>é muito sutil para ele) para impedir a obra do que cem oponentes declarados</p><p>grandes e fortes”.148 Bem, um aspecto do trabalho que é único e notável é o</p><p>relato da experiência espiritual de Sarah Edwards (1710–1758), em que</p><p>Edwards apresenta sua esposa como um modelo de pessoa verdadeiramente</p><p>cheia do Espírito.149</p><p>Sarah Pierpont pelos olhos de Jonathan Edwards</p><p>Amanda Porterfield observou, em um estudo histórico recente, a</p><p>espiritualidade das mulheres americanas:</p><p>Um dos fenômenos mais impressionantes a respeito dos puritanos de New</p><p>England é que seus grandes ministros e governantes – Thomas Shepard, John</p><p>Winthrop, Simon Bradstreet, Edward Taylor e Jonathan Edwards, por exemplo –</p><p>amavam incomensuravelmente suas esposas. Esses homens encontraram em suas</p><p>mulheres representantes terrenas da beleza de Deus. Para eles, uma esposa</p><p>amorosa não era apenas um modelo cristão, mas também uma expressão da</p><p>beleza do mundo que apontava para além de si mesmo, para a beleza divina. E o</p><p>gozo da beleza de Deus era a essência da espiritualidade puritana.150</p><p>Os poucos textos que temos de autoria de Edwards explicitamente sobre</p><p>sua esposa, Sarah, certamente ajudam a corroborar esses comentários</p><p>notáveis. Lamentavelmente, Sarah não era escritora e não deixou para trás um</p><p>diário extensivo ou correspondências substanciais por meio das quais</p><p>pudéssemos traçar sua vida espiritual. Mas temos um texto sobre o início de</p><p>sua vida que recentemente veio à luz, e há um texto extraordinário em Some</p><p>Thoughts, mencionado acima, que fornece entendimento de como operava</p><p>seu coração. No tocante a muitos aspectos de sua vida, porém, devemos</p><p>confiar nas palavras de outros, especialmente nas de seu marido e do primeiro</p><p>biógrafo dele, Samuel Hopkins.</p><p>Sarah nasceu em uma família rica de privilégios espirituais. Seu pai, James</p><p>Pierpont (–1714), havia sido ministro da Primeira Igreja de New Haven, em</p><p>Connecticut, de 1685 até sua morte. Sua mãe, Mary Hooker, era neta de</p><p>Thomas Hooker (1586–1647), um dos puritanos mais influentes da primeira</p><p>geração da New England. Jonathan conheceu sua futura esposa por volta de</p><p>1723, quando ela contava com treze anos e ele, com vinte. Ele escreveu sobre</p><p>ela:</p><p>Dizem que há uma jovem em [New Haven] que é querida do Todo-poderoso, que</p><p>fez e governa o mundo, e há certas ocasiões em que esse Grande Ser, de alguma</p><p>forma invisível, vem até ela e enche sua mente com um gozo sobremaneira doce,</p><p>e ela pouco se importa com algo mais, a não ser meditar nele – pois ela espera,</p><p>depois de um tempo, ser recebida onde ele está, ser levada deste mundo e</p><p>arrebatada ao céu; está certa de que ele a ama demais para deixá-la permanecer a</p><p>alguma distância dele para sempre. Ela está ali para habitar com ele e extasiar-se</p><p>com seu amor, favor e gozo para sempre. Portanto, se lhe apresentarem todo o</p><p>mundo, com os mais ricos de seus tesouros, ela ignora tudo isso e faz pouco-</p><p>caso, não se importando com qualquer dor ou aflição. Ela tem uma estranha</p><p>doçura em sua mente, e doçura de temperamento, uma pureza incomum em suas</p><p>afeições; é justa e louvável em todas as suas ações; e não se pode persuadi-la a</p><p>fazer qualquer coisa errada ou pecaminosa, ainda que se lhe desse todo o mundo,</p><p>pois ela não ofenderia esse Grande Ser. Ela é de uma doçura maravilhosa, calma</p><p>e benevolência universal de mente; em especial depois daqueles momentos em</p><p>que esse grande Deus se manifesta à mente dela. Às vezes ela canta docemente,</p><p>de um lugar para [lugar]; e parece estar sempre cheia de alegria e prazer; e</p><p>ninguém sabe pelo quê. Ela ama estar sozinha e ama vagar pelos campos e</p><p>montanhas, e parece haver alguém invisível sempre conversando com ela.151</p><p>Pouco se duvida de que Jonathan tenha ficado profundamente</p><p>impressionado com a espiritualidade de Sarah e sua maturidade cristã. A</p><p>doçura de Sarah – sua doçura de mente e temperamento, seu doce cantar e o</p><p>“doce prazer abundante” que ela nutre em relação a Deus – em particular</p><p>atraiu Edwards, para quem o adjetivo doce estava sempre nos lábios quando</p><p>ele falava de Deus e das coisas divinas.152 Não surpreende que Jonathan não</p><p>mencione nesse parágrafo o que os outros, com frequência, comentavam: a</p><p>beleza física de Sarah. Samuel Hopkins (1721–1803), que viveu com os</p><p>Edwards enquanto estava sendo informalmente ensinado por Jonathan e, mais</p><p>tarde, escreveu as memórias de seu mentor, lembra que Sarah era “graciosa e</p><p>bonita”.153 Para Jonathan, contudo, evidentemente, em primeiro lugar estava</p><p>a beleza interior da alma de Sarah, que o atraiu para ela.</p><p>Em suas próprias palavras</p><p>Uma revista pouco conhecida, The Panoplist and Missionary Magazine</p><p>United, publicou um arquivo intitulado “A Relíquia da Senhora Edwards”,</p><p>que contém um relato raro e aparentemente genuíno da experiência cristã</p><p>inicial de Sarah.154 De acordo com o editor dessa revista, os parágrafos que</p><p>se seguem foram extraídos “com poucas alterações verbais, de um papel com</p><p>a letra da senhora Sarah Edwards”, “datado de 22 de outubro de 1735…”.155</p><p>Tenho olhado neste dia para as razões de minha esperança em relação ao meu</p><p>futuro estado, e não me falta esperança de que estou em paz com Deus. Cerca de</p><p>nove anos atrás, fui levada a ver meu perigo de destruição eterna; mas tomei a</p><p>decisão de buscar misericórdia. Eu pensava que, se algum dia perecesse, seria aos</p><p>pés do Redentor. As palavras “ainda que ele me mate, nele esperarei” com</p><p>frequência vinham à minha mente.</p><p>Não muito depois disso, o capítulo 44 de Isaías, versos 4, 5 e 6, eram palavras</p><p>que derretiam</p><p>meu coração. Pareciam ser um chamado de Deus para mim, e</p><p>acredito que fui capacitada pela fé a ouvir e obedecer a ele. No sábado seguinte,</p><p>fui levada a apreciar a proximidade de Cristo como a maior felicidade da criatura.</p><p>Minha alma tinha sede dele, de modo que a morte nada parecia para mim, desde</p><p>que eu pudesse estar com ele; pois ele era completamente adorável. E esse estado</p><p>de espírito continuou por algum tempo.</p><p>No inverno seguinte, mais do que nunca, tive uma compreensão maior do meu</p><p>próprio estado vil. Eu podia dizer de fato que me detestava e me arrependia no pó</p><p>e na cinza. Não era por causa do mal que o pecado traria sobre mim, mas porque</p><p>ele desonrava a Deus. Essa visão do pecado tinha uma grande propensão a me</p><p>quebrantar e me inclinar a buscar a Deus pelo perdão. Eu tinha grande confiança</p><p>em meu amor por Cristo; e não sentia medo de apelar a ele, como Pedro fez, e</p><p>dizer: “Senhor, tu sabes de todas as coisas; tu sabes que te amo”. Eu amava a</p><p>Cristo pelo que ele era em si mesmo; eu o amava em todos os seus ofícios; eu vi</p><p>minha absoluta necessidade dele em todos os seus ofícios; e pensava que estava</p><p>tão disposta a ser governada por suas leis quanto a ser salva por seus méritos.</p><p>Encontrei uma disposição de ir a Deus como a um pai. Uma maneira de ser salva</p><p>que esvazia a alma e exalta a Deus era no que eu grandemente me deleitava. Os</p><p>pensamentos do meu coração eram “O que possuo que não tenha recebido?” e</p><p>“Quem me faz sobressair?”. Eu sentia grande amor pelo povo de Deus; ainda que</p><p>fossem pessoas de quem antes não gostasse; ainda assim, eu sentia terna afeição</p><p>em relação a eles e prazer em sua companhia.</p><p>Durante seis meses depois disso, senti muito pouco medo da morte. Cristo, como</p><p>eu sabia, tinha vencido a morte. Nesse período, senti tamanha paz interior e</p><p>descanso na alma ao refletir sobre essas coisas que não consigo expressar. A</p><p>vaidade do mundo era muito grande ao meu ver. Parecia quase impossível que,</p><p>em algum momento, eu pudesse estar sequer um pouco inquieta sobre qualquer</p><p>coisa com que pudesse deparar neste mundo; pois todas as coisas estavam à</p><p>disposição de Deus. Isso foi o bastante para me fazer, com paciência e</p><p>humildade, suportar o que quer que me acontecesse. Eu pensava que</p><p>Lamentações 3.39, “Por que, pois, queixa-se o homem vivente? Queixe-se cada</p><p>um de seus próprios pecados”, devia ordenar o silêncio de todos, embora</p><p>deparassem com coisas tão contrárias ao seu modo de pensar.</p><p>Em julho de 1727, casei-me e me mudei de New Haven para Northampton. Por</p><p>algum tempo antes de vir para cá, quase tudo o que eu pedia era que Deus viesse</p><p>comigo. A oração de Moisés estava muito presente em meu coração. E eu espero</p><p>que Deus tenha estado comigo aqui.</p><p>No outono após a minha chegada, preocupei-me com o medo de que fosse como</p><p>os ouvintes do solo rochoso. Eu temia que, se provada com perseguição, viesse a</p><p>cair. Mas Deus me mostrou que ele poderia facilmente me tornar disposta a</p><p>morrer pela sua causa, se me chamasse para isso; e que, por meio de Cristo, que</p><p>me fortalece, eu poderia me regozijar nas chamas.</p><p>Eu tinha o espírito de me regozijar em Deus como a porção da minha alma, e</p><p>meu desejo mais sincero tem sido que eu possa me aproximar até mesmo do seu</p><p>tribunal; e, para mim, vale mais um dia em seus átrios do que mil em outro lugar.</p><p>Eu me alegrava no fato de que o Senhor reina.</p><p>Durante um tempo de grande aflição, eu dizia com frequência: a quem tenho no</p><p>céu além de ti? E não há ninguém na terra que eu deseje além de ti. Minha alma</p><p>tem sede de Deus, o Deus vivente. Quando virei e estarei diante de Deus?</p><p>Eu costumava dizer no meu coração: há alegria em crer. Eu sinceramente</p><p>desejava imitar o exemplo de Cristo, na paciência, na humildade e na</p><p>autonegação.</p><p>Nesse texto, Sarah se engaja em uma típica reflexão puritana sobre as</p><p>razões que tem para acreditar que é verdadeiramente filha de Deus. O fato de</p><p>ela, afinal, deleitar-se em uma salvação que esvaziava a alma e exaltava a</p><p>Deus foi determinante para sua paz de espírito em relação à autenticidade de</p><p>sua conversão.</p><p>Após o seu casamento com Jonathan, em 1727, Sarah ficou extremamente</p><p>ocupada com as questões domésticas, pois o casal teve onze filhos entre 1728</p><p>e 1750. Embora Jonathan desempenhasse papel significativo como mentor</p><p>espiritual de seus filhos,156 boa parte da criação deles recaía sobre Sarah. É</p><p>compreensível que a pressão das obrigações maternas e de todas as outras</p><p>tarefas em administrar uma casa cheia e movimentada tenha pesado</p><p>grandemente sobre ela. Para lidar com isso, Sarah entregou a si mesma e tudo</p><p>o que ela era sem reserva a Deus em pelo menos algumas ocasiões diferentes</p><p>em 1739 e 1740.157</p><p>Essa abnegação – na tradição puritana, no sentido de fazer uma aliança</p><p>pessoal com Deus – viria a ser o fundamento de algumas experiências</p><p>extraordinárias no final de janeiro e começo de fevereiro de 1742. Jonathan</p><p>esteve longe de Northampton por boa parte desse período, em uma viagem de</p><p>duas semanas para pregar que envolvia pelo menos oito reuniões em</p><p>Massachusetts e Connecticut. Enquanto ele esteve fora, outros ministros –</p><p>dentre eles, o mais notável era Samuel Buell (–1798), que mais tarde se</p><p>estabeleceu em East Hampton, Long Island, e cujo sermão de ordenação</p><p>Edwards pregou em 1746 – subiram ao púlpito em Northampton.158 Sarah</p><p>estava inquieta com muitas coisas naquele momento, em especial um</p><p>comentário que seu marido fizera, pouco antes de partir em sua viagem para</p><p>pregar, de que ele acreditava que Sarah “tinha falhado em alguma medida na</p><p>questão da prudência em uma conversa que tivera com o sr. [Chester]</p><p>Williams”, um ministro em Hadley e primo distante. Sarah estava angustiada</p><p>por não ter “uma boa opinião de meu marido”.159 Outras situações de estresse</p><p>– por exemplo, as finanças e os ciúmes em relação à bênção sobre o</p><p>ministério de outros em Northampton, tais como Buell e Williams – levaram</p><p>algumas pessoas a sugerirem que as experiências de Sarah faziam parte de</p><p>um colapso nervoso. Elisabeth Dodds, por exemplo, descreve Sarah se</p><p>tornando uma tagarela grotesca, alucinada e bastante fraca”.160 Edwards, por</p><p>sua vez, estava convicto de que as experiências de sua esposa representavam</p><p>um encontro genuíno com o Deus trino e de que o estresse em sua vida era o</p><p>meio de Deus trazê-la a um ponto de absoluta submissão à sua doce</p><p>soberania.161</p><p>“Uma desorientação benigna, mansa, pietista, divina e gloriosa”</p><p>Quando Edwards retornou de sua viagem, pediu a Sarah que fizesse um</p><p>relato de suas experiências. Em seguida, cuidadosamente editou o relato da</p><p>esposa de modo a remover qualquer indicação de identidade e gênero do</p><p>autor e mudou cada pronome pessoal para “a pessoa”, inserindo, então, essa</p><p>versão editada em Some Thoughts.</p><p>A Sarah, foram dadas, como lemos,</p><p>tais visões da glória das perfeições divinas e excelências de Cristo que a alma,</p><p>naquele momento, era como se estivesse perfeitamente comovida e tomada pela</p><p>luz e pelo amor, com um doce consolo, um descanso e uma alegria da alma que</p><p>eram completamente inexprimíveis; e, mais de uma vez, por cinco ou seis horas</p><p>consecutivas, sem qualquer interrupção, naquela visão clara e vívida ou senso da</p><p>beleza infinita e amabilidade de Cristo e a doçura celestial do seu amor</p><p>transcendente; de modo que (para usar as expressões da própria pessoa) a alma</p><p>permanecia em um tipo de júbilo celestial, e era como se nadasse nos raios do</p><p>amor de Cristo, como um pequeno mote nadando nos raios de sol, ou raios de sua</p><p>luz que entram pela janela; e o coração foi tomado em um tipo de brilho do amor</p><p>de Cristo, descendo do coração dele no céu, como uma fonte constante de doce</p><p>luz, ao mesmo tempo a alma toda fluindo de amor por ele; de modo que parecia</p><p>haver um fluir e refluir constantes de coração para coração.162</p><p>Por outro lado, houve vezes em que Sarah teve “um senso vívido e</p><p>profundo” de sua “própria pequenez e estado vil”.163 Ela nutria</p><p>um senso extraordinário da temível majestade e grandeza de Deus, (…) um senso</p><p>da santidade do Senhor, como de uma chama infinitamente pura e brilhante, (…)</p><p>um senso do penetrante</p><p>olho de Deus que tudo vê, (…) uma visão extraordinária</p><p>do infinito terror da ira de Deus, (…) juntamente com um senso da miséria</p><p>inefável dos pecadores que são expostos a essa ira, a qual tem sido dominadora:</p><p>às vezes a poluição excedente do próprio coração da pessoa, como um antro de</p><p>toda sorte de abominação, e um ninho de víboras, e o horror de um fogo eterno</p><p>da ira de Deus, se abria para ver ambos juntos.164</p><p>Mas fundamental para todas essas experiências profundas foi</p><p>um doce júbilo da alma ao pensamento de Deus sendo infinitamente e</p><p>imutavelmente feliz, e uma alegria exultante de que Deus é autossuficiente, e está</p><p>infinitamente acima de toda dependência, reinando sobre todos e fazendo sua</p><p>vontade com poder e soberania absoluta e incontrolável (…) e a alma [da pessoa]</p><p>geralmente entretida com gozo indizível (…) os pensamentos do céu, como um</p><p>mundo de amor, em que o amor será o alimento eterno dos santos, e eles</p><p>habitarão na luz do amor e nadarão no oceano do amor, e onde o próprio ar e o</p><p>próprio fôlego nada serão além do amor; amor para o povo de Deus, ou os</p><p>verdadeiros santos de Deus, que possuem a imagem de Cristo, e como aqueles</p><p>que, em pouquíssimo tempo, brilharão em sua perfeita imagem, a qual tem sido</p><p>acompanhada de tamanhas ternura e unidade de coração, e de doçura e</p><p>entusiasmo da alma, que é completamente inexprimível.165</p><p>Juntamente com essas várias experiências, havia certos fenômenos</p><p>corporais incomuns, mais de vinte deles em uma só contagem.166 Essa “visão</p><p>das coisas divinas”, ouvimos dizer, geralmente privava seu corpo de “toda</p><p>habilidade de ficar de pé ou falar”.167 Quando Sarah recebeu “um senso</p><p>extraordinário da temível majestade e grandeza de Deus”, perdeu toda a força</p><p>de seu corpo.168 Outra vez, “o esmagador senso da glória da obra da redenção</p><p>e o caminho da salvação por Jesus Cristo” é que fizeram com que seu corpo</p><p>desmaiasse.169 Em outra ocasião ainda, “um senso da glória do Espírito</p><p>Santo, como o grande Consolador” era tamanho, “a ponto de arrebatar tanto a</p><p>alma como o corpo”.170 Certa vez, ela estava de tal forma tomada pela alegria</p><p>de conhecer um Deus tão maravilhoso que teve de “saltar com todo o poder,</p><p>com alegria e grandiosa exultação da alma”.171</p><p>Edwards, porém, esforçou-se muito para observar que a alegria de Sarah</p><p>nunca era acompanhada “pela mínima aparência de qualquer sorriso ou</p><p>leveza de semblante”. Pelo contrário, levava a um “novo comprometimento</p><p>de coração para viver para a honra de Deus e vigiar e lutar contra o</p><p>pecado”.172 Essa visão da vida cristã como uma guerra contra o pecado é</p><p>tipicamente puritana. De igual modo, suas experiências não resultavam em</p><p>nenhuma inclinação à perfeição sem pecado que Edwards observa como “a</p><p>compreensão dos Wesley e de seus seguidores e alguns outros grandes</p><p>fingidores da espiritualidade nesses dias”.173 Essa referência à doutrina</p><p>wesleyana da perfeição cristã parece ser a única referência pública de</p><p>Edwards aos irmãos Wesley.</p><p>As experiências de Sarah não envolviam “nenhuma disposição entusiástica</p><p>[ou seja, fanática] de seguir impulsos ou quaisquer supostas revelações</p><p>proféticas”.174 Edwards sempre insistia em dizer que o Espírito de Deus</p><p>sempre direciona aqueles em quem habita para observar as Escrituras como</p><p>“a grande e permanente regra para a direção de sua Igreja em todas as</p><p>questões religiosas e todas as preocupações de suas almas em todas as</p><p>eras”.175 “Entusiastas” ou fanáticos, por outro lado, com frequência</p><p>“depreciam essa regra escrita e colocam a luz interior ou alguma outra regra</p><p>acima dela”.176 Em outras palavras, as experiências de Sarah se provaram</p><p>genuínas por sua recusa em procurar Deus em outro lugar que não fosse em</p><p>sua divina Palavra.</p><p>Além do mais, o que ajudou Edwards a chegar a uma decisão sobre a fonte</p><p>divina dessas experiências foram os frutos em sua vida diária. Sarah não</p><p>sentia que suas experiências a colocavam acima dos outros. Pelo contrário,</p><p>ela</p><p>nutria uma sensível aversão particular a julgar outros que eram cristãos professos</p><p>de boa reputação na igreja visível, de que eles não fossem convertidos ou no que</p><p>dizia respeito a seus graus de graça; ou de maneira alguma participando dessa</p><p>questão, a ponto de condenar os outros no íntimo de seu coração, por ser isso</p><p>odioso e não condizente com a humildade de um cordeiro, a mansidão, a</p><p>gentileza e a caridade, que a alma então, sobre outras ocasiões, viu a beleza e</p><p>sentiu disposição para tal.177</p><p>Humildade e mansidão eram características que Edwards regularmente</p><p>enfatizava como uma marca infalível de alguém cheio com o Espírito.</p><p>Edwards também observou que sua esposa tinha uma compreensão profunda</p><p>de sua necessidade de ajudar os pobres.178 Além disso, ao vê-la envolvida em</p><p>suas responsabilidades domésticas diárias, ele via uma pessoa que agora</p><p>estava “comendo por Deus, trabalhando por Deus, dormindo por Deus e</p><p>suportando a dor e as dificuldades por Deus, fazendo tudo a serviço do amor,</p><p>e fazendo isso com ânimo, paz e alegria contínuos”.179 Não havia o menor</p><p>desejo de negligenciar “as questões necessárias” de seu chamado como</p><p>esposa e mãe. “Os serviços deste mundo têm sido cumpridos com grande</p><p>entusiasmo, como parte do serviço de Deus.” Sarah dizia ao seu marido que,</p><p>quando desempenhava seu serviço dessa forma, era “tão bom quanto a</p><p>oração”.180</p><p>Pouco causa surpresa, então, que Edwards diga na conclusão de seu relato</p><p>editado acerca da experiência de Sarah:</p><p>Bem, se tais coisas são entusiasmo, e fruto de um cérebro doentio, que meu</p><p>cérebro seja ainda mais possuído desse feliz descontrole! Se isso for distração,</p><p>oro a Deus para que toda a humanidade possa ser tomada por essa desorientação</p><p>benigna, mansa, beneficente, divina e gloriosa!181</p><p>Mas, sem a presença dessa centralidade de Deus, as manifestações físicas</p><p>não teriam tido valor algum, sendo até mesmo prejudiciais à piedade genuína.</p><p>Sarah, assim, tornou-se anonimamente um modelo do que o verdadeiro</p><p>avivamento pessoal deve ser.182</p><p>Benevolência divina</p><p>Existe ainda outra afirmação nessa seção de Some Thoughts digna de nota.</p><p>Parte da experiência de Sara, Edwards escreveu, foi</p><p>uma benevolência universal para com a humanidade, com um desejo como se</p><p>fosse abraçar o mundo todo nos braços da misericórdia e do amor; ideias de</p><p>sofrer por intermédio dos inimigos as maiores fúria e crueldade concebíveis com</p><p>disposição ao amor ardente e à misericórdia, a ponto de ser compreendida pelo</p><p>pensamento; desmaiando de misericórdia pelo mundo, que jaz na ignorância e na</p><p>perversidade; às vezes sentia-se com disposição a uma vida entregue ao lamento</p><p>somente no deserto por um mundo miserável e perdido; a compaixão por eles</p><p>geralmente chegava a tal ponto que não permitia apoio ou descanso, preferindo ir</p><p>até Deus e derramar a alma em oração por eles; desejos sinceros de que a obra de</p><p>Deus, que está agora na terra, seja realizada, e isso com as maiores pureza e</p><p>liberdade de todo zelo amargo, reprovação, orgulho espiritual, disputas</p><p>acaloradas etc.</p><p>Um desejo veemente e constante pelo estabelecimento do reino de Cristo na</p><p>terra, como um reino de santidade, pureza, amor, paz e felicidade para a</p><p>humanidade...183</p><p>O que Sarah demonstrava aqui era, na visão de seu marido, o verdadeiro</p><p>amor divino, que ele mais tarde definiria, em The Nature of True Virtue</p><p>(1755, publicado em 1765), como “amor de benevolência”, que é aquela</p><p>“afeição ou propensão do coração em relação a qualquer ser, que faz com que</p><p>ele se incline ao seu bem-estar ou o dispõe a desejar e ter prazer em sua</p><p>felicidade”.184 Esse tipo de amor não requer qualquer beleza em seu objeto.</p><p>Por outro lado, o amor que exigia que seu objeto fosse bonito era o que</p><p>Edwards chamava de “amor de complacência”.185 Claramente, o amor de</p><p>Deus pelos pecadores é do primeiro tipo. E o que emocionava Edwards</p><p>quanto às experiências de sua esposa era que esse tipo de amor, esse amor de</p><p>benevolência que ama independentemente da beleza de seu objeto, a</p><p>acompanhava. Nas palavras de James Wm. McClendon, o que “Deus deu a</p><p>ela era um amor compreendido como consentimento</p><p>cordial, sua capacidade</p><p>de dizer sim a Deus e a todos que fossem de Deus”.186</p><p>E certamente foi a esse tipo de amor que Edwards se referiu em seu leito</p><p>de morte, ao falar da “união incomum” que por tanto tempo subsistiu entre</p><p>ele e sua esposa, a qual “foi de tal natureza que creio ser espiritual e,</p><p>portanto, continuará para sempre”.187 O amor benevolente deles por Deus e</p><p>seu mundo – realmente incomum neste mundo egoísta e pecaminoso – os</p><p>unira durante a vida de casados. Era um amor “espiritual”. Como McClendon</p><p>bem observa, eles foram “dois que respiraram juntos o fôlego do mesmo</p><p>Espírito”.188 E, como tal, foi eterno, pois os uniu ao Deus trino.</p><p>139. Para Edwards como um teólogo do reavivamento, ver Michael A. G. Haykin, Jonathan Edwards:</p><p>The Holy Spirit in Revival (Durham, UK: Evangelical Press, 2005). A maior parte deste capítulo foi</p><p>retirada dessa obra e utilizada com permissão.</p><p>140. The Great Awakening, vol. 4, The Works of Jonathan Edwards, ed. C. C. Goen (New Haven, CT:</p><p>Yale University Press, 1972), 65n9.</p><p>141. Ibid., 499.</p><p>142. Iain H. Murray, Jonathan Edwards – A New Biography (Edinburgh: Banner of Truth, 1987), 237–</p><p>38.</p><p>143. Goen, ed., Great Awakening, 293–347.</p><p>144. Ibid., 348–83. Citação da página 348.</p><p>145. Ibid., 384–408.</p><p>146. Ibid., 409–95.</p><p>147. Ibid., 496–530.</p><p>148. Ibid., 411.</p><p>149. Ibid., 331–41. Para o próprio relato de Sarah de que Jonathan se valeu para sua obra, ver Sereno E.</p><p>Dwight, “Memoirs of Jonathan Edwards, A. M”, em The Works of Jonathan Edwards (Edinburgh:</p><p>Banner of Truth, 1987), 1:lxii–lxviii.</p><p>150. Amanda Porterfield, Feminine Spirituality in America: From Sarah Edwards to Martha Graham</p><p>(Philadelphia: Temple University Press, 1980), 49.</p><p>151. Letters and Personal Writings, ed. George S. Claghorn, vol. 16, The Works of Jonathan Edwards</p><p>(New Haven, CT: Yale University Press, 1998), 789–90. Para um estudo da vida de Sarah, ver</p><p>Elisabeth D. Dodds, Marriage To a Difficult Man. The Uncommon Union of Jonathan & Sarah</p><p>Edwards (1971; repr. Laurel, MS: Audubon Press, 2004). Para estudos menos profundos, ver Ethel</p><p>Wallace, “A Colonial Parson’s Wife: Sarah Pierrepont Edwards 1710–1758: ‘And a Very Eminent</p><p>Christian’”,The Review and Expositor 47 (1950): 41–56; Ruth A. Tucker, First Ladies of the Parish.</p><p>Historical Portraits of Pastors’ Wives (Grand Rapids, MI: Zondervan, 1988), 73–81; Noël Piper,</p><p>“Sarah Edwards: Jonathan’s Home and Haven”, in A God Entranced Vision of All Things: The Legacy</p><p>of Jonathan Edwards, ed. John Piper and Justin Taylor (Wheaton, IL: Crossway, 2004), 55–78.</p><p>152. Leonard I. Sweet observa que a palavra doce era “incontestavelmente a palavra favorita de</p><p>Edwards”. “The Laughter of One: Sweetness and Light in Franklin and Edwards”, em Benjamin</p><p>Franklin, Jonathan Edwards, and the Representation of American Culture, ed. Barbara B. Oberg and</p><p>Harry S. Stout (New York: Oxford University Press, 1993), 126.</p><p>153. “A short Sketch of Mrs. Edwards’s Life and Character”, apêndice 1 para seu livro Memoirs of the</p><p>Life, Experience and Character of the Late Rev. Jonathan Edwards, A.M., em The Works of President</p><p>Edwards (1817; repr. New York: Burt Franklin, 1968), 1:94. Ver também os comentários de</p><p>Porterfield, Feminine Spirituality, 39–40.</p><p>154. O autor inicialmente enviou essa obra a Douglas Sweeney, o diretor do Centro Jonathan Edwards,</p><p>na Trinity Evangelical Divinity School, para confirmar sua autenticidade. Ele, por sua vez, enviou-a a</p><p>Kenneth Minkema, editor-executivo de Works of Jonathan Edwards, do Centro Jonathan Edwards e do</p><p>Arquivo On-line na Universidade Yale, que acredita que “possa ser mesmo a obra” (Kenneth Minkema,</p><p>e-mail enviado a Doug Sweeney, 6 de setembro de 2012). A revista Panoplist and Missionary</p><p>Magazine United fora fundada pelos seguidores de Edwards, Nathaniel Emmons e Samuel Spring,</p><p>juntamente com Jedidiah Morse e Jeremiah Evarts, em 1808, homens que estavam em posição de ter</p><p>acesso a um documento genuíno como esse.</p><p>155. “Relic of Mrs. Edwards”, The Panoplist and Missionary Magazine United 4 (1811–1812): 507. Os</p><p>extratos vão até as páginas 508–9.</p><p>156. Samuel Hopkins observou que Jonathan “aproveitou as oportunidades para conversar” com cada</p><p>um de seus filhos “no estudo dele, individualmente e de maneira próxima sobre as preocupações de</p><p>suas almas; e também para lhes dar advertências, exortação e direção, conforme ele via necessidade”.</p><p>Uma vez por semana, cada sábado à noite, Jonathan instruía seus filhos com o Breve Catecismo de</p><p>Westminster, “não apenas cuidando que eles o aprendessem de cor”, Hopkins observou, “como também</p><p>levando-os a entender as doutrinas ali ensinadas, fazendo perguntas a eles para cada resposta e</p><p>explicando a eles”. Memoirs of the Life, Experience and Character of the Late Rev. Jonathan Edwards,</p><p>em Works of President Edwards, 1:46.</p><p>157. Goen, ed., Great Awakening, 333.</p><p>158. Para Buell, ver Deborah Gill Hilzinger, “The Ministry of Samuel Buell”, MA thesis, Columbia</p><p>University, 1989; e Douglas Dicarlo, “The Religious Mind-Set of Samuel Buell, Clergyman of</p><p>Eighteenth-Century Long Island”, MA thesis, Long Island University, 1994.</p><p>159. Dwight, “Memoirs of Jonathan Edwards”, em Works of Jonathan Edwards, 1:lxii.</p><p>160. Dodds, Marriage to a Difficult Man, 99. Para algumas das várias análises das experiências de</p><p>Sarah, ver James Wm. McClendon Jr., Ethics: Systematic Theology, vol. 1 (Nashville, TN: Abingdon</p><p>Press, 1986), 121–23. Ver também a excelente análise e a narração das experiências de Sarah por</p><p>George Marsden, Jonathan Edwards: A Life (New Haven, CT: Yale University Press, 2003), 240–49.</p><p>161. Ver Piper, “Sarah Edwards”, 68–72.</p><p>162. Goen, ed., Great Awakening, 332. Para a passagem na narrativa de Sarah da qual Edwards faz</p><p>inferências, ver Dwight, “Memoirs of Jonathan Edwards”, em Works of Jonathan Edwards, 1:lxv.</p><p>163. Goen, ed., Great Awakening, 333.</p><p>164. Ibid., 336.</p><p>165. Ibid., 339.</p><p>166. Julie Ellison, “The Sociology of ‘Holy Indifference’: Sarah Edwards’ Narrative”, American</p><p>Literature 56 (1984): 489.</p><p>167. Goen, ed., Great Awakening, 332.</p><p>168. Ibid., 336.</p><p>169. Ibid., 336.</p><p>170. Ibid., 337.</p><p>171. Ibid., 332; também 333. Guy Chevreau (Catch the Fire: The Toronto Blessing: An experience of</p><p>renewal and revival [London: HarperCollins, 1994], 83), equivocadamente, afirma que, em uma dessas</p><p>ocasiões, Sarah perdeu as forças de seu corpo a tal ponto que, “aparentemente, caiu de cara na refeição</p><p>da ceia”. Nem o relato de Edwards em Some Thoughts nem a própria narrativa de Sarah afirmam tal</p><p>coisa.</p><p>172. Goen, ed., 334–35.</p><p>173. Ibid., 341.</p><p>174. Ibid., 335.</p><p>175. Ibid., 253.</p><p>176. Ibid., 255.</p><p>177. Ibid., 335.</p><p>178. Ibid., 339.</p><p>179. Ibid., 340.</p><p>180. Ibid.</p><p>181. Ibid., 341.</p><p>182. Porterfield, Feminine Spirituality, 44.</p><p>183. Goen, ed., Great Awakening, 338–39.</p><p>184. “Two Dissertations, II. The Nature of True Virtue”, em Ethical Writings, ed. Paul Ramsey, vol. 8,</p><p>The Works of Jonathan Edwards (New Haven, CT: Yale University Press, 1989), 542. Para uma</p><p>discussão recente desse tratado, ver Philip L. Quinn, “The Master Argument of The Nature of True</p><p>Virtue”, Jonathan Edwards: Philosophical Theologian, ed. Paul Helm e Oliver D. Crisp (Burlington,</p><p>VT: Ashgate, 2003), 79–97.</p><p>185. Ramsey, ed., Ethical Writings, 543.</p><p>186. McClendon, Ethics, 125. Toda a discussão de McClendon acerca desse ponto tem sido</p><p>extremamente útil na compreensão dessa seção da obra de Edwards Some Thoughts; ver sua obra</p><p>Ethics, 124–26.</p><p>187. Samuel Hopkins, “The Life and Character of the Late Reverend Mr. Jonathan Edwards”, em</p><p>Jonathan Edwards: A Profile, ed. David Levin (New York: Hill and Wang, 1969), 80.</p><p>188. McClendon, Ethics, 127. Ver também Porterfield, Feminine Spirituality, 42–43.</p><p>05</p><p>Anne Steele e seus hinos</p><p>“A língua melodiosa que cantou… o grande louvor de seu Redentor”189</p><p>É sabido que todos os grandes escritores de hinos do século XVIII eram</p><p>homens – Isaac Watts (1674–1748), Charles Wesley (1707–1788), William</p><p>Cowper (1731–1800) e John Newton (1725–1807), por exemplo –, todos, à</p><p>exceção de uma mulher, Anne Steele (1717–1778), que</p><p>homens e</p><p>mulheres, e, portanto, não deveria haver distinção no ministério. Margaret</p><p>Fell (1614–1702), esposa do líder quaker George Fox (1624–1691), afirmava</p><p>seu direito de pregar em sua obra mais conhecida como Women’s Speaking</p><p>Justified, Proved and Allowed of by the Scriptures (Londres, 1666),2 assim</p><p>como algumas outras mulheres quakers nas décadas de 1640 e 1650, como</p><p>Elizabeth Fletcher (c. 1638–1658), em Oxford, e Martha Simmonds, em</p><p>Londres, e isso às vezes de modo contrário à liderança quaker masculina.3</p><p>Jacqueline Broad observa que os argumentos de Margaret Fell em favor da</p><p>pregação feminina se baseavam em um princípio de igualdade espiritual ou</p><p>na ideia de que tanto homens como mulheres têm a luz sobrenatural de Cristo</p><p>dentro de si. Mas, para Fell, a habilidade de alcançar aquela luz requer,</p><p>implicitamente, que as mulheres tenham a capacidade natural de discernir por</p><p>si sós a verdade, de exercitar a força de vontade e de exibir virtude moral ou</p><p>excelência de caráter. Nesse aspecto, os argumentos de Fell favoráveis à</p><p>pregação feminina contêm um desafio feminista implícito às percepções</p><p>negativas no que diz respeito à moral e às habilidades intelectuais da mulher</p><p>daquele tempo.4</p><p>Resposta puritana à visão quaker sobre a pregação feminina</p><p>Essa breve discussão dos quakers é significativa, pois as mulheres</p><p>pregadoras quakers fortaleceram na mente dos puritanos mais convencionais,</p><p>como, por exemplo, os batistas, que haver mulheres pregando era algo</p><p>definitivamente errado.5 Em 1645, antes do surgimento dos quakers, quando</p><p>alguns representantes das igrejas batistas calvinistas se encontraram – no que</p><p>ficou conhecido como Western Association, questionou-se se as mulheres</p><p>podiam falar na igreja. A resposta foi clara: “Não é permitido que a mulher</p><p>fale na Igreja em circunstância alguma, seja orando, pregando, profetizando</p><p>ou perguntando, 1Co 14.34; 1Tm 2.11”.6 A mesma questão foi levantada</p><p>cerca de dez anos depois, com o início do movimento quaker. Dessa vez, o</p><p>questionamento foi feito na Midland Association. Basicamente, a resposta foi</p><p>a mesma, somada à razão para o silêncio das mulheres: por causa da</p><p>“inferioridade do sexo delas” e para prevenir qualquer “usurpação de</p><p>autoridade sobre o homem”. Apesar disso, foram feitas cinco exceções para</p><p>os momentos em que uma mulher podia falar na igreja:</p><p>1. Dar testemunho público de conversão ao desejar batizar-se ou se tornar</p><p>membro da igreja.</p><p>2. Fazer relatório caso tenha trabalhado em prol da restauração de algum membro</p><p>desobediente.</p><p>3. Se tiver recebido uma mensagem de outra congregação (teriam pensado em</p><p>Febe aqui, Romanos 16.1.2?).</p><p>4. Se precisasse da ajuda da igreja e tivesse de expor essa necessidade diante da</p><p>congregação.</p><p>5. Se tivesse sido “desassociada” por causa de pecado e estivesse em busca do</p><p>perdão da congregação e de reconciliação.7</p><p>Mulheres essenciais para o não conformismo puritano</p><p>Apesar dessas restrições, nos grupos puritanos convencionais – batistas,</p><p>assim como nos congregacionais e presbiterianos –, as mulheres</p><p>desempenhavam papel crítico em duas áreas fundamentais. Em primeiro</p><p>lugar, exerciam a função fundamental de ensinar às crianças e aos servos em</p><p>casa, de acordo com a nota de rodapé na Bíblia de Genebra interpretando</p><p>Deuteronômio 21.18: “É dever da mãe também instruir seus filhos”.8</p><p>Defensores da Igreja estatal temiam essa ênfase dos puritanos na família</p><p>como uma escola de vida piedosa, pois, a seu ver, isso enfraquecia a igreja</p><p>paroquial.9</p><p>Então, ao abrir seus lares para os ministros puritanos, as mulheres</p><p>desempenhavam, com frequência, um papel importante no estabelecimento</p><p>das congregações puritanas. Por exemplo, a sra. Dorothy Hazzard (–1675) se</p><p>separou da igreja paroquial de seu marido, Matthew Hazzard, em 1640, a fim</p><p>de estabelecer o que, mais tarde, se tornou a Igreja Batista Broadmead. A</p><p>igreja começou de fato com Hazzard e quatro homens se encontrando na casa</p><p>dos Hazzard, a qual, é claro, também era a casa do ministro da paróquia! Três</p><p>anos depois, a igreja já contava com cento e sessenta membros. Não</p><p>surpreende que essa congregação também designasse diaconisas nos anos de</p><p>1660 e 1670. A primeira diaconisa a ser nomeada foi Mary West, em 1662.</p><p>Após a sua morte, Mary foi substituída, em 1673, por uma “irmã Murry” e,</p><p>até 1679, outras três mulheres haviam sido designadas. De acordo com 1Tm</p><p>5.9, essas mulheres deviam ser viúvas com mais de sessenta anos de idade</p><p>que concordassem em não buscar novo casamento. Elas deviam cuidar das</p><p>necessidades físicas dos doentes da congregação e estar prontas a “comunicar</p><p>palavras às suas almas sempre que a ocasião assim o exigisse”.10 Como</p><p>Patricia Crawford corretamente conclui, “as mulheres foram essenciais para o</p><p>não conformismo”, tanto para seu surgimento como para seu crescimento.11</p><p>O apóstolo Paulo e os dias modernos</p><p>Os papéis fundamentais que as mulheres desempenhavam no avanço das</p><p>congregações puritanas e não conformistas têm precedentes bíblicos de peso.</p><p>Por exemplo, uma leitura atenta de Romanos 16.1-16 revela a verdade do</p><p>comentário de Roger Gryson, no sentido de que “não há dúvidas de que</p><p>Paulo se beneficiou de numerosos exemplos de assistência por parte de</p><p>mulheres em seu serviço como apóstolo”.12 Dos vinte e sete crentes</p><p>mencionados em Romanos 16, dez são mulheres, com uma parte sendo</p><p>elogiada por seu trabalho dedicado ao Senhor (Maria, v. 6; Trifena e Trifosa,</p><p>v. 12a; Pérsida, v. 12b) e outras que foram especialmente reconhecidas por</p><p>sua ajuda a Paulo (Febe, v. 1-2; Priscila, v. 3-4; a mãe de Rufo, v. 13b). As</p><p>observações de Paulo nesse capítulo de Romanos têm de ser vistas à luz do</p><p>ambiente cultural de seu tempo, o qual, frequentemente, menosprezava as</p><p>mulheres.</p><p>Hoje, felizmente, as tendências misóginas de certas áreas da cultura</p><p>ocidental têm sido desafiadas, e as questões que os cristãos enfrentam nesse</p><p>sentido são, de certa forma, diferentes daquelas de Paulo. Um movimento</p><p>feminista forte na cultura ocidental gerou, de maneira eficaz, uma crise de</p><p>masculinidade em muitas áreas do pensamento ocidental. Do menosprezo das</p><p>mulheres, nossa cultura tem oscilado em muitos aspectos para o extremo</p><p>oposto: o menosprezo dos homens. E, no meio disso tudo, a Igreja precisa</p><p>manter-se fiel ao testemunho bíblico. Em uma cultura inundada por um</p><p>tsunami de feminismo, o grande perigo para a Igreja é ter uma reação</p><p>automática e falhar em apreciar o que a geração dos apóstolos e a de nossos</p><p>antepassados puritanos e não conformistas sabiam: a importância vital das</p><p>mulheres para a vida da Igreja.</p><p>A gênese e a natureza deste livro</p><p>Este livro – um ensaio estendido que abrange oito diferentes vinhetas</p><p>históricas e textuais – busca lembrar os cristãos contemporâneos, em especial</p><p>os evangélicos, do papel vital que as mulheres têm desempenhado na história</p><p>de nossa fé. Embora eu tenha começado a palestrar nos anos 1990 sobre as</p><p>mulheres na história da Igreja, a inspiração imediata para este livro reside em</p><p>uma sugestão feita por meu bom amigo Jim Fraser, professor de ensino</p><p>médio no Simcoe County School Board, durante uma semana em que eu</p><p>estava ensinando no Centro Bíblico Muskoka, em Ontário, no verão de 2013.</p><p>Na ocasião, ele observou que Eric Metaxas acabara de lançar seu livro Seven</p><p>Men: And the Secret of Their Greatness13 e que eu deveria escrever um livro</p><p>equivalente sobre as mulheres. Eu estava desejoso de seguir essa sugestão</p><p>enquanto reconhecia a real necessidade de um livro desse tipo na vida da</p><p>Igreja. Sou muito grato pelo encorajamento contínuo de Jim para que eu</p><p>escrevesse sobre esse tópico.</p><p>Eu havia deparado com obras antigas, tais como Memoirs of Eminently</p><p>Pious Women of the British Empire (1823), de Samuel Burder, uma expansão</p><p>de três volumes de um volume anterior de Thomas Gibbons, que fora</p><p>publicado pela primeira vez em 1777. No entanto, livros assim estavam</p><p>esgotados havia muito tempo. Mais recentemente, Jamie Janosz escreveu</p><p>When Others Shuddered: Eight Women Who Refused to Give Up,14 com foco</p><p>em oito figuras do século XIX. De diversas maneiras, eu</p><p>tem sido descrita</p><p>como “a equivalente batista a Isaac Watts”.190 Nascida em uma das principais</p><p>famílias batistas calvinistas no sul da Inglaterra, seus hinos foram compostos,</p><p>em primeiro lugar, como veículo de devoção pessoal. No entanto, seu pai,</p><p>William Steele, pastor da Capela Batista em Broughton, Hampshire, gostou</p><p>tanto deles que começou a fazer com que fossem cantados durante a adoração</p><p>em sua igreja. Com o tempo, alguns de seus hinos foram incluídos em um</p><p>hinário batista e, dois anos depois de sua morte – Anne morreu em 1778 –,</p><p>Caleb Evans (1737–1791), tutor da Academia Batista Bristol àquela época, e</p><p>John Ash (1724–1779), pastor batista de Pershore, Worcestershire,</p><p>publicaram um conjunto de três volumes de hinos e poemas dela. Alguns de</p><p>seus hinos, como “Pai de misericórdias, em tua Palavra”, ainda estão em uso</p><p>hoje.</p><p>A igreja e a família de Anne em Broughton</p><p>Broughton é um pequeno vilarejo no sul da Inglaterra, bem no meio do</p><p>caminho entre Salisbury e Winchester, duas cidades com catedrais. Os Steele</p><p>eram uma das famílias mais prósperas da comunidade – o pai de Anne,</p><p>William, pastor da igreja, e seu irmão, também William, estavam bastante</p><p>envolvidos no comércio de madeira, vendendo madeira serrada para a</p><p>Marinha britânica que serviria de mastro para seus navios, e isso envolvia</p><p>centenas, talvez milhares, de libras. Por um bom período, os Steele foram a</p><p>família mais importante na Capela Batista Calvinista em Broughton, que era</p><p>uma das mais antigas do país.</p><p>Cento e onze cristãos se reuniram pela primeira vez em 1653 para fundar a</p><p>Igreja Batista em Porton, Wiltshire, alguns quilômetros ao norte de</p><p>Salisbury.191 Em 1710, foi realocada para Broughton, alguns quilômetros a</p><p>leste, no rio Wallop. Nove pessoas foram batizadas na primeira reunião. A</p><p>igreja sobreviveu aos anos cruéis de perseguição, de 1660 a 1688. Em 1699,</p><p>dez anos depois de o Ato de Tolerância – que trouxe liberdade religiosa para</p><p>os não conformistas fora da Igreja da Inglaterra – ter sido sancionado, Henry</p><p>Steele (1655–1739) tornou-se pastor. Ele havia sido membro por dezenove</p><p>anos e se envolvera com a pregação itinerante. Henry permaneceu como</p><p>pastor pelos próximos quarenta anos, até 1739, e se recusou a receber</p><p>qualquer suporte financeiro da igreja, visto que fizera fortuna em contratos de</p><p>fornecimento de madeira – carvalho inglês – para a Marinha Real. Boa parte</p><p>do lucro foi, então, investida em fazendas.192 Existe uma história de que</p><p>Henry Steele era um pregador tão popular que o ministro local da Igreja da</p><p>Inglaterra reclamou ao bispo que Steele estava tomando sua congregação,</p><p>apenas para receber a resposta antipática de que, se ele pregasse tão bem</p><p>quanto Steele, sua congregação voltaria para ele.193</p><p>Henry não teve filhos homens, então seu sobrinho William (pai de Anne) o</p><p>ajudava nos negócios e também na pregação. Por fim, William acabou por</p><p>assumir tanto os negócios de Henry como o pastorado, em 1739. A casa de</p><p>sua família era uma habitação elegante e espaçosa, chamada “Grandfathers”,</p><p>que, ainda hoje, se encontra naquele povoado. A primeira esposa de William</p><p>foi Anne Froude, filha do ministro batista Edward Froude, que havia assinado</p><p>a Segunda Confissão de Londres, em 1689. Ali em Grandfathers, o casal se</p><p>alegrou com o nascimento de um filho e uma filha, a quem deram seus</p><p>próprios nomes, William (nascido em 1714) e Anne. Infelizmente, quando</p><p>outro bebê chegou, em 1720, tanto a mãe como o recém-nascido faleceram.</p><p>Assim, William ficou sozinho com a responsabilidade de cuidar dos filhos,</p><p>William, de cinco anos, e Anne, de três.</p><p>Três anos depois, em 1723, William voltou a se casar – com outra Anne,</p><p>que seguia a tradição puritana de manter um diário. Os volumes com seus</p><p>escritos, datados de 1731–1735, 1748–1749 e 1753–1760, foram preservados.</p><p>Nesses períodos, sua enteada, Anne, contava com treze a dezoito anos, trinta</p><p>e um a trinta e dois anos, e trinta e seis a quarenta e três anos.194 Os escritos</p><p>nesses diários dão evidências valiosas sobre a vida de Anne Steele. Também</p><p>mostram que sua madrasta era uma mulher de vida profundamente piedosa.</p><p>Ela assumiu a responsabilidade pelos enteados, William e Anne (apelidada</p><p>como Nany ou Nanny), de uma forma muito séria. Seu diário, por exemplo,</p><p>registra momentos de conversas “doces” ou “deleitosas” sobre assuntos</p><p>espirituais com Anne.</p><p>A vida para as crianças Steele girava em torno das reuniões regulares da</p><p>Igreja Batista. A pesquisa da historiadora batista Karen Smith nos trouxe uma</p><p>descrição de como era a vida dos batistas calvinistas daquele período.195</p><p>Embora William e Anne fossem pequenos, estavam acostumados a ouvir seu</p><p>tio-avô Henry pregar. Os cultos, nos domingos pela manhã e à tarde, eram</p><p>simples em seu formato: orações inesperadas feitas pelo ministro, salmos</p><p>métricos, hinos “levados” por alguém da congregação e o sermão. Algumas</p><p>vezes, havia reuniões de debates informais nas noites de domingo e pelo</p><p>menos uma reunião de oração durante a semana.</p><p>Os batismos eram realizados no batistério, que fora construído em 1727 (a</p><p>pessoa encarregada de enchê-lo recebia o pagamento de um xelim). Nesse</p><p>período, era bastante incomum uma igreja contar com um batistério interno.</p><p>Em geral, o batismo era feito na parte externa, em um rio, lago ou lagoa. Os</p><p>candidatos a batismo vestiam roupas especiais: um roupão longo para os</p><p>homens e um vestido branco, longo e liso para as mulheres. A Ceia do</p><p>Senhor era celebrada uma vez por mês, precedida de séria preparação, tanto</p><p>do grupo como individual. A mesa era “fechada”, quer dizer, apenas os</p><p>crentes batizados da membresia daquela igreja ou de outra comunidade</p><p>reconhecida podiam participar. Novos membros seriam bem-vindos à</p><p>comunhão na Ceia do Senhor após o seu batismo. A membresia era um</p><p>compromisso sério: esperavam-se o comparecimento regular nas reuniões e a</p><p>adesão à aliança, comprometendo os membros com a oração uns pelos outros</p><p>e em prestar apoio mútuo. A frequência irregular ou a violação clara dos</p><p>padrões bíblicos ou da aliança eram punidas inicialmente com a suspensão da</p><p>Ceia do Senhor e, por fim, com a excomunhão. A disciplina era praticada e,</p><p>vez ou outra, havia alguns casos mais sérios, como em 1732, o ano do</p><p>batismo de Anne, quando uma mulher chamada Betty Jones deixou o marido</p><p>e fugiu com o pastor de outra congregação batista.</p><p>A membresia da Igreja Batista de Broughton tinha cerca de cinquenta e um</p><p>anos quando Anne contava com quatorze anos, em 1731. No ano seguinte, ela</p><p>e seu irmão, William, deram seu testemunho na reunião da igreja e foram</p><p>batizados, juntamente com outros nove. No século XVIII, era comum que os</p><p>candidatos ao batismo e à membresia da igreja fizessem um relato verbal de</p><p>sua conversão. Os batistas, como vemos, valorizavam o princípio da “igreja</p><p>reunida”, ou seja, apenas as pessoas realmente convertidas deviam ser</p><p>consideradas membros em potencial. Enquanto eles procuravam</p><p>ansiosamente por “sinais” de conversão em seus filhos pequenos, que, em</p><p>geral, professavam a fé, era comum esperar pelo menos até meados da</p><p>adolescência até que os jovens “entregassem sua experiência”. Note que essa</p><p>era uma das poucas ocasiões em que as mulheres podiam falar na reunião da</p><p>igreja. Algumas pessoas achavam que “entregar seu testemunho” consistia</p><p>em uma experiência inquietante, e muitas igrejas abrandaram a exigência ao</p><p>longo do século seguinte, permitindo que enviassem um testemunho por</p><p>escrito ou, então, que fizessem uma entrevista para membresia com pelo</p><p>menos dois membros seniores ou oficiais.</p><p>Como já observamos, em 1739, quando Anne tinha vinte e dois anos, seu</p><p>tio-avô Henry faleceu. Ele havia sido pastor por quarenta anos. O pai de</p><p>Anne, William, que o vinha auxiliando e pregando regularmente por muitos</p><p>anos, naquele momento assumiu o pastorado. A igreja estava usufruindo de</p><p>um tempo de crescimento – em contraste com o declínio geral da</p><p>denominação em muitas áreas do país. Apenas oito anos mais tarde, em 1745,</p><p>a membresia alcançou noventa e um membros. Tinha havido muitos batismos</p><p>(entre 1730 e 1739, trinta e sete), mas,</p><p>depois de 1745, as coisas começaram</p><p>a declinar e, na década seguinte, houve apenas quatro batismos registrados.</p><p>Depois, entre 1759 e 1768, a situação voltou a melhorar, com doze novos</p><p>membros, todos, à exceção de um, chegando por meio de confissão de fé e</p><p>batismo.</p><p>O pai de Anne, William, foi um homem de negócios bem-sucedido, e</p><p>continuou a se sustentar por meio do negócio de madeira. Mas também foi</p><p>um pastor devotado. Sua segunda esposa se dedicou à vida da igreja, e seus</p><p>filhos também foram membros entusiasmados. A sensibilidade de Anne em</p><p>relação às necessidades da adoração pública a inspirou a escrever hinos em</p><p>toda a gama de temas apropriados a diferentes ocasiões e a preencher a</p><p>diversidade de tópicos cobertos pelo ministério da pregação.</p><p>Os primeiros anos de Anne</p><p>As oportunidades educacionais em casa eram, em geral, limitadas e, assim,</p><p>como era comum, entre muitas famílias prósperas, as crianças Steele foram</p><p>enviadas para um colégio interno.196 Havia uma academia dissidente para</p><p>treinamento de ministros em Trowbridge, e Anne foi enviada a um internato</p><p>para meninas que provavelmente era ligado a essa academia. Não se sabe por</p><p>quanto tempo Anne permaneceu nessa escola. Ela também frequentou um</p><p>colégio interno bastante rico em Salisbury, aos dezesseis anos.</p><p>Não temos conhecimento preciso do conteúdo da educação formal de</p><p>Anne, mas igualmente importante foi a educação contínua realizada por</p><p>correspondência com o círculo de amigos de sua família e as noites em casa,</p><p>quando os amigos visitavam a família. Entre seus correspondentes, estava um</p><p>bom número de ministros batistas: John Lavington (1690–1759), da Igreja</p><p>Batista Exeter; Philip Furneaux (1726–1783), de Londres; James Fanch</p><p>(1704–1767), de Romsey; Caleb Evans, de Bristol; e John Ash, de Pershore,</p><p>Worcestershire.197 Furneaux ajudou a publicar a obra de Anne em 1760, e</p><p>Evans e Ash colaboraram em uma edição adicional de seus poemas após a</p><p>sua morte.</p><p>Quando a família e os amigos visitavam a família Steele, uma típica noite</p><p>social envolvia conversas sobre uma ampla variedade de tópicos e, às vezes,</p><p>a leitura de poesia e outra literatura. Sabemos de uma ocasião em que a</p><p>grande literária evangélica Hannah More (1745–1833) visitou Anne em</p><p>Broughton.198 Anne também viajava bastante para visitar parentes em</p><p>Hampshire, Wiltshire e Somerset.199 Ela também tinha acesso à “extensa</p><p>biblioteca de teologia puritana e de teologia do século XVIII” de seu pai e, ao</p><p>que parece, ela leu bastante.200</p><p>Quando Anne tinha quatorze anos, vemos a primeira de muitas referências</p><p>no diário da madrasta de Anne Steele a uma “febre”, a qual a medicina</p><p>moderna tem argumentado convincentemente ter sido malária recorrente.</p><p>Anne sofreu com isso por toda a sua vida, e as maiores consequências teriam</p><p>sido anemia, fraqueza e suscetibilidade a outras infecções. Esse quadro</p><p>também ocasionou episódios de febre alta e deixou Anne vulnerável a</p><p>contrair tuberculose.201</p><p>Naquela época, a malária era comum na Inglaterra e foi associada, em</p><p>especial, a áreas pantanosas e ao nível do mar, e a casa de Anne,</p><p>“Grandfathers”, ficava bem perto de alguns campos aquosos próximos ao rio</p><p>Wallop. Parece que Anne nunca usufruiu de um período prolongado de boa</p><p>saúde e, com muita frequência, sentia intensas dores. Analgésicos eficientes</p><p>eram desconhecidos nos dias de Anne, e os métodos empregados pelos</p><p>médicos apenas aumentavam o sofrimento. Remédios comuns eram</p><p>sangramento (por meio de faca ou sanguessuga); calor escaldante</p><p>(agonizantemente doloroso, mas que, supostamente extraía fluídos corporais</p><p>ruins); e indução de vômito. Tudo isso era um resquício da crença antiga de</p><p>que a doença era o efeito de um desequilíbrio dos “humores” ou dos fluidos</p><p>corporais.</p><p>Dos quatorze anos em diante, a saúde de Anne foi uma preocupação</p><p>constante para sua madrasta, e há muitas referências angustiantes ao fato nos</p><p>diários. Anne parece ter sofrido de uma terrível dor de estômago</p><p>(provavelmente uma úlcera péptica) e de uma dor de dente agonizante</p><p>(bastante comum em um século em que a higiene bucal era primitiva, e o</p><p>tratamento, bárbaro).202 Disseram à sua madrasta que Anne provavelmente</p><p>tinha tuberculose, e ela, com frequência, desabafava em seu diário que a</p><p>morte de Anne era iminente. Aos dezoito anos, Anne caiu de um cavalo e</p><p>machucou o quadril. Porém, como não há outras menções ao fato, isso</p><p>certamente não a deixou inválida por toda a vida, como alguns biógrafos de</p><p>Anne inferiam.203</p><p>Quando Anne tinha trinta e quatro anos, sua saúde estava tão ruim que ela</p><p>foi para Bath com sua irmã para passar os meses de maio e junho, a fim de se</p><p>tratar com as águas. A visita não foi especialmente feliz, visto que Anne ficou</p><p>doente demais pela maior parte do tempo para se banhar ou até mesmo para</p><p>beber as águas. Ela esteve doente durante boa parte de seu trigésimo sétimo</p><p>ano. Quando ela tinha quarenta anos, surgiram os primeiros sinais de um</p><p>distúrbio nervoso (o que se encaixa com o prognóstico de malária) e, aos</p><p>quarenta e três, as primeiros sintomas de dificuldade para respirar. Daí até os</p><p>cinquenta e quatro anos, houve períodos que alternavam, com frequência, boa</p><p>e má saúde, mas, dos cinquenta e quatro anos até a sua morte, seis anos mais</p><p>tarde, ela ficou efetivamente dentro de casa. A própria experiência de</p><p>sofrimento de Anne e sua aceitação consciente disso, colocando-se nas mãos</p><p>de Deus, significaram que seus poemas e hinos quanto a esse tema tinham</p><p>grande impacto naqueles que sofriam.</p><p>Vida de solteira: uma escolha consciente</p><p>Quando Anne tinha vinte anos, talvez tenha iniciado uma corte com um</p><p>jovem chamado sr. Elcomb, que mais tarde se afogou em um acidente</p><p>aquático. Elcomb foi ao rio Wallop se banhar e, ao ingressar em uma parte</p><p>mais profunda, acabou por ser levado pela correnteza.204 Em 1830, o</p><p>historiador batista Joseph Ivimey escreveu, de maneira romântica, que essa</p><p>tragédia aconteceu um dia antes do casamento de Anne e Elcomb. Tornou-se,</p><p>então, voz corrente que o emocional de Anne nunca se recuperou. Entretanto,</p><p>não há evidências – nem nos escritos subsequentes de Anne nem nos diários</p><p>de sua madrasta – que indiquem ter ela sofrido perpetuamente, com o coração</p><p>partido.205</p><p>Sabemos de fato que, quando Anne tinha vinte e cinco anos, recebeu uma</p><p>proposta de casamento do ministro da Capela Batista Particular em Bourton-</p><p>on-the-Water, Benjamin Beddome (1717–1795). Ele também tinha vinte e</p><p>cinco anos, e abriu seu coração em uma proposta apaixonada, até mesmo</p><p>fazendo uma analogia do primeiro momento em que a viu à primeira visão de</p><p>Eva por Adão em Paraíso perdido, de John Milton.206 Não temos registro da</p><p>resposta de Anne. Parece que a eloquência de Beddome falhou em persuadi-</p><p>la. Evidentemente, Beddome se recuperou o suficiente de seu</p><p>desapontamento para se casar com Elizabeth Bothwell em um momento</p><p>posterior.</p><p>Algum tempo depois, Anne recebeu outra proposta de casamento, mas ela</p><p>fez a escolha consciente de permanecer solteira. Em uma carta que escreveu à</p><p>sua meia-irmã após recusar uma dessas propostas – possivelmente a de</p><p>Beddome –, ela disse que o pretendente tinha oferecido sua mão para ajudar a</p><p>subir um lance de escada, quer dizer, se casar. Mas, quando ela observou o</p><p>campo do casamento, escreveu: “Olhei e não vi flores; observei, sim, muitos</p><p>espinhos, e suponho que existam mais escondidos debaixo das folhas, mas,</p><p>como não há pastos o suficiente para cobrir metade deles, deve estar próximo</p><p>do inverno, como penso que geralmente acontece quando olho para tal</p><p>campo”.207</p><p>Os hinos de Anne</p><p>Anne, então, permaneceu solteira. Mas sua solteirice deu a ela tempo de se</p><p>dedicar à escrita de poesia e hinos, um dom com o qual o Senhor a abençoara</p><p>ricamente. Cerca de dez anos antes de sua morte, sessenta e dois hinos foram</p><p>publicados no hinário batista intitulado Uma coleção de hinos adaptados</p><p>para a adoração pública (1769), mais conhecidos como a “Coleção Bristol”,</p><p>produzidos para os batistas calvinistas por dois pastores: Caleb Evans e John</p><p>Ash. Esse hinário deu aos hinos dela ampla circulação por todos os meios</p><p>batistas208</p><p>e, com o tempo, seus hinos se tornaram tão conhecidos nos</p><p>círculos batistas quanto os de Isaac Watts.</p><p>Anne compôs hinos de toda a gama de tópicos úteis à adoração</p><p>congregacional: batismo, Santa Ceia, as três pessoas da Trindade, a livre</p><p>oferta do evangelho. Contudo, escreveu também sobre muitos outros temas,</p><p>como criação, exaltação de Cristo, convicção, hinos nacionais, hinos para</p><p>funerais, aproximação da morte e vitória sobre a morte. Muitos de seus hinos</p><p>focam na transitoriedade dessa vida e em Deus como o único bem verdadeiro.</p><p>Quando Anne morreu, em 1778, foi velada por seu irmão, pela segunda</p><p>esposa dele, por suas sobrinhas e sobrinhos, pelo círculo da igreja e por seus</p><p>amigos. Mas ela ainda era desconhecida do público cristão em geral, visto</p><p>que seus poemas e hinos haviam aparecido sob o pseudônimo Teodósia. Esse</p><p>anonimato era exatamente o que ela havia desejado durante a vida. Dois anos</p><p>depois de sua morte, sua identidade tornou-se conhecida, quando Caleb</p><p>Evans republicou os poemas e hinos.</p><p>A livre oferta do evangelho</p><p>No Capítulo três, observamos que os batistas particulares ou calvinistas na</p><p>Inglaterra estavam em declínio durante boa parte do século XVIII. Um dos</p><p>pouquíssimos hinos de Anne que, ainda hoje, são cantados revela a maneira</p><p>pela qual a ampla circulação de seus hinos foi relevante para a revitalização</p><p>da causa batista calvinista por toda a Inglaterra. O hino era originalmente</p><p>intitulado “O convite do Salvador” e se baseava nas palavras de Jesus em</p><p>João 7.37: “Se alguém tem sede, venha a mim e beba”.</p><p>O Salvador chama – que cada ouvido</p><p>responda ao som celestial.</p><p>Ó almas duvidosas, mandem embora o medo,</p><p>sorri e revive a Esperança tal.</p><p>Para cada coração sedento e desejoso,</p><p>Correntes de generosidade a fluir.</p><p>E Vida, e Cura, e Felicidade concede,</p><p>para a angústia mortal banir.</p><p>Aqui, nasce a fonte do sagrado Prazer</p><p>que todas as tuas dores aliviará.</p><p>(Fonte Imortal! Provisão completa!)</p><p>Em vão tu não sofrerás.</p><p>Ó Pecadores, venham até a</p><p>Voz da Misericórdia.</p><p>Ao chamado da graça acatar.</p><p>A Misericórdia convida para as</p><p>Alegrias celestiais,</p><p>Tu ainda consegues adiar?</p><p>Querido Salvador, atrai os</p><p>corações relutantes,</p><p>A Ti os pecadores corram.</p><p>E tomem da Felicidade que o Teu amor concede, bebam e nunca mais</p><p>morram.209</p><p>Com base no convite aberto de Jesus aos pecadores de vir até ele e beber,</p><p>ou seja, encontrar a vida eterna, Steele insta “todo ouvido” a “atender” ao</p><p>convite celestial de Cristo. O hino chama todos aqueles que estão “sedentos”</p><p>e “desejosos” para virem até ele, onde encontrarão “Vida, e Cura, e</p><p>Felicidade”; em resumo, “Fontes do sagrado prazer” que irão amenizar todo</p><p>pesar. Esse convite é um mandamento – “Ao chamado da graça acatar” – e</p><p>uma livre oferta –</p><p>“Tu ainda consegues adiar?”.210 Mas Steele também está ciente de que um</p><p>“coração sedento e desejoso” não é suficiente em si mesmo para vir até</p><p>Cristo. Na análise final, é um “coração relutante”, cheio de dúvida e medo.</p><p>Então, ela ora: “Querido Salvador, atrai os corações relutantes”. E essa é uma</p><p>oração que pode ser feita com confiança, pois o Salvador com quem ela fala é</p><p>uma “Fonte Imortal”, Misericórdia encarnada que ama os pecadores e tem</p><p>prazer em lhes conceder “alegrias celestiais”. Assim, quando os homens e as</p><p>mulheres batistas da Inglaterra cantavam esses hinos, Deus os estava</p><p>preparando para o avivamento.</p><p>De igual modo, em seu hino “Ao Glorioso Nome do Nosso Redentor”, a</p><p>congregação cantava:</p><p>Jesus, que deixou seu trono nas alturas</p><p>O reino brilhante de felicidade deixou.</p><p>E veio à terra para sangrar e morrer –</p><p>Alguém com essa intensidade já amou?</p><p>Anne oferece esta oração em favor de todos aqueles que estão ao alcance</p><p>do som dos cantores e do pregador – crentes ou incrédulos:</p><p>Querido Senhor, enquanto adorando a ti damos</p><p>Nossas humildes graças e vigor</p><p>Que cada coração com êxtase diga</p><p>Morreu por mim o Salvador.</p><p>Oh! Que o tema doce e feliz</p><p>Encha cada língua e cada coração</p><p>Até que desconhecidos amem o teu nome encantador</p><p>E se unam à sagrada canção.211</p><p>A ênfase em “cada língua e coração” e “desconhecidos” indica a paixão</p><p>evangelística em ver o evangelho causar impacto profundo naquela sociedade</p><p>e no mundo.</p><p>Centrado na Palavra, centrado em Cristo</p><p>Entre os poucos hinos de Anne que retêm aceitação, está “Pai de</p><p>Misericórdias, em Tua Palavra”, que revela o prazer de Anne nas Escrituras,</p><p>algo típico dos piedosos de sua comunidade batista.</p><p>Pai de Misericórdias, em Tua Palavra</p><p>Que a glória eterna brilhe!</p><p>Para sempre seja teu nome adorado</p><p>Por essas linhas celestiais de maravilha.</p><p>Ó, que essas páginas celestiais sejam</p><p>meu querido prazer.</p><p>E ainda uma luz crescente</p><p>E novas belezas eu possa ver.</p><p>Estejas Tu para sempre perto</p><p>Instrutor Divino, Senhor gracioso</p><p>Ensina-me a amar tua sagrada Palavra</p><p>E ver meu Salvador precioso.212</p><p>Perceba que o supremo valor das Escrituras para Anne é que ela encontra e</p><p>vê nelas seu Salvador, o Senhor Jesus. Como confessa em outro hino, “Tu,</p><p>fonte adorável do verdadeiro gozo”:</p><p>Tu, fonte adorável do verdadeiro gozo</p><p>A quem eu, sem ver, adoro.</p><p>Revela tuas belezas à minha vista</p><p>Para que eu te ame mais, eu imploro.</p><p>Tua glória sobre a criação brilha</p><p>Mas em tua Palavra Santa</p><p>Em linhas mais brilhantes e belas</p><p>Meu Senhor sangra e morre.213</p><p>A revelação da beleza de Cristo estava, para Anne, profundamente ligada à</p><p>experiência da leitura e da audição: era nas “linhas mais brilhantes e nítidas”</p><p>das Sagradas Escrituras que ela via o Senhor.</p><p>189. A citação é da inscrição no túmulo de Anne Steele. Estou em dívida com Tracey Richards por essa</p><p>transcrição.</p><p>Neste capítulo, sou profundamente devedor a Sharon James, “Anne Steele (1717–1778)”, trabalho não</p><p>publicado, 1999. Para outro material sobre Anne Steele, ver Karen Smith, “The Community and the</p><p>Believers: A Study of Calvinistic Baptist Spirituality in Some Towns and Villages of Hampshire and</p><p>the Borders of Wiltshire, c. 1730–1830”, dissertação DPhil, Regent’s Park College, University of</p><p>Oxford, 1986; J. R. Broome, A Bruised Reed: The Life and Times of Anne Steele (Hertfordshire, UK:</p><p>Gospel Standard Trust, 2007); Nancy Jiwon Cho, “‘The Ministry of Song’: Unmarried British</p><p>Women’s Hymn Writing, 1760–1936”, tese de PhD, Durham University (2007), 43–84; Cynthia Y.</p><p>Aalders, To Express the Ineffable: The Hymns and Spirituality of Anne Steele (Milton Keynes, UK:</p><p>Paternoster, 2008); e Priscilla Chan, Anne Steele and Her Spiritual Vision: Seeing God in the Peaks,</p><p>Valleys and Plateaus of Life (Grand Rapids, MI: Reformation Heritage, 2012).</p><p>190. Matthew W. Ward, “Book Reviews: To Express the Ineffable: The Hymns and Spirituality of</p><p>Anne Steele. By Cynthia Y. Aalders”, Southwestern Journal of Theology 53 (primavera de 2011): 227.</p><p>191. Para a história inicial da congregação, ver Rosalind Johnson, “Early Baptists in Wiltshire and</p><p>Hampshire: The Evidence of the Porton and Broughton Baptist Church Book, 1655–1689”, um trabalho</p><p>apresentado ao Ecclesiastical History Society Postgraduate Colloquium, University of Manchester, 4 de</p><p>fevereiro de 2011.</p><p>192. Robert W. Oliver, “Book Reviews: A Bruised Reed: The Life and Times of Anne Steele. J. R.</p><p>Broome”, Banner of Truth 535 (abr. 2008): 26.</p><p>193. Edward Compton, A History of the Baptist Church, Broughton, Hampshire: from the year 1653 to</p><p>the present time, compiled from the old church books (Leicester, UK 1878), 15–16.</p><p>194. Esses diários fazem parte da Steele Collection na Angus Library, Regent’s Park College,</p><p>Universidade de Oxford.</p><p>195. Para a informação sobre Broughton Church nesta seção, tenho dívida quanto à pesquisa feita por</p><p>Smith, “The Community and the Believer”.</p><p>196. Marjorie Reeves, Pursuing the Muses: Female Education and Nonconformist Culture, 1700-1900</p><p>(London: Leiscester University Press, 1997). Este trabalho inclui uma discussão da obra de Anne Steele</p><p>e de seu círculo de amigos. Marjorie Reeves fez uma pesquisa extensa sobre os não conformistas de</p><p>Hampshire e Wiltshire, a maior parte baseada em valorosas fontes primárias de sua própria família.</p><p>197. Reeves, Pursuing the</p><p>Muses, 27-28.</p><p>198. John Westmacott, “Anne Steele 1717-1778 Hymn-Writer”, Our Inheritance (verão de 1999), 8.</p><p>199. Oliver, “Book Reviews: A Bruised Reed”, 26.</p><p>200. Ibid.</p><p>201. Michael F. Dixon e Hugh F. Steele-Smith, “Anne Steele’s Health: A Modern Diagnosis”, Baptist</p><p>Quarterly 32 (julho de 1988): 351–56.</p><p>202. Ibid., 351 e notas.</p><p>203. Anne Steele Papers, STE 1/5 (Angus Library, Regent’s Park College, Oxford).</p><p>204. Ver Jiwon Cho, “Ministry of Song”, 43–48. Estou em dívida com Matthew Crawford, durante seus</p><p>estudos de doutorado na Durham University, pelo acesso à tese dele.</p><p>205. Essa carta está guardada na Angus Library. Está endereçada a “Mrs. Steele”. A convenção</p><p>determinava que uma mulher não casada de status social superior fosse tratada como “Mrs”, fosse</p><p>casada ou solteira. Anne Steele, embora não casada, era geralmente chamada de “Mrs. Steele”.</p><p>206. Anne Steele Papers, STE 3/10 iii (Angus Library, Regent’s Park College, Oxford).</p><p>207. Jiwon Cho, “Ministry of Song”, 77–78.</p><p>208. A Collection of Hymns Adapted to Public Worship, 3rd ed. (Bristol, UK: W. Pine, 1778), hino 145.</p><p>209. A Collection of Hymns Adapted to Public Worship, 3rd ed. (Bristol, UK: W. Pine, 1778), hino 145.</p><p>210. Sobre a livre oferta do evangelho nos hinos de Steele, ver principalmente Sharon James, In</p><p>Trouble and in Joy: Four Women Who Lived for God (Durham, UK: Evangelical Press, 2003), 154.</p><p>211. Collection of Hymns Adapted to Public Worship, hino 388, estrofes 4–6.</p><p>212. Ibid., hino 79, estrofes 1, 5–6.</p><p>213. Ibid., hino 263, estrofes 1–2.</p><p>06</p><p>Esther Edwards Burr sobre a amizade</p><p>“Um dos melhores auxílios para manter a religião na alma”</p><p>Nossa cultura não é do tipo que provê grande encorajamento para criar e</p><p>desenvolver amizades profundas, duradouras e satisfatórias. Tais amizades</p><p>requerem tempo e sacrifício, e a cultura ocidental do início do século XXI é</p><p>ocupada, um mundo que, via de regra, está muito mais interessado em</p><p>receber e ter do que em sacrificar e dar.214 O que é especialmente perturbador</p><p>em relação a esse fato é que o cristianismo ocidental é um pouco diferente de</p><p>sua cultura. O escritor inglês anglicano C. S. Lewis (1898–1963) escreveu</p><p>um pequeno livro intitulado Cartas do diabo ao seu aprendiz, um comentário</p><p>extraordinário sobre a batalha espiritual do ponto de vista do nosso inimigo.</p><p>Nele, há uma carta do diabo sênior, Screwtape, ao seu sobrinho Wormwood</p><p>em que Screwtape se alegra pelo fato de que, “nos escritos modernos</p><p>cristãos”, encontram-se “poucos dos avisos antigos sobre as vaidades</p><p>terrenas, a escolha de amigos e o valor do tempo”.215 Bem, não se sabe se</p><p>Lewis está certo ou não em relação à escassez de literatura cristã sobre “as</p><p>vaidades terrenas” e o “valor do tempo” no mundo moderno, mas sem dúvida</p><p>está correto no que diz respeito ao tópico da amizade.</p><p>Pensando a amizade</p><p>Como nosso mundo é diferente a esse respeito do mundo dos antigos,</p><p>tanto dos pagãos como dos cristãos! No mundo antigo, a amizade estava</p><p>fadada a ser de tal importância vital que o filósofo pagão Platão (c. 428/427–</p><p>348/347 a.C.) dedicou um livro inteiro, Lísis, assim como porções</p><p>substanciais de dois outros livros, Fedro e O banquete, a uma análise de sua</p><p>natureza. Aristóteles (384–322 a.C.), outro pensador importante do período</p><p>grego clássico, também considerava o tópico da amizade relevante o</p><p>suficiente para que uma discussão a seu respeito ocupasse dois de dez livros</p><p>de Ética a Nicômaco, seu maior trabalho sobre as questões éticas. Para os</p><p>gregos antigos – e isso também é verdadeiro quanto aos romanos –, a</p><p>amizade constituía um dos ideais mais elevados da vida humana.</p><p>Embora não encontremos discussões tão extensas sobre o conceito de</p><p>amizade nas Escrituras, encontramos algumas reflexões, como, por exemplo,</p><p>em Eclesiastes 4.7-12, e ilustrações maravilhosas do que a amizade deveria</p><p>ser, como, por exemplo, entre Rute e Noemi, ou entre Davi e Jônatas. No</p><p>compêndio de sabedoria do Antigo Testamento, Provérbios, também existem</p><p>conselhos sobre como ter amigos e mantê-los. Esses textos deixam a</p><p>impressão de que o mundo da Bíblia considera a amizade uma parte muito</p><p>importante da vida.</p><p>Bem, a Bíblia usa duas imagens em sua representação da amizade.216 A</p><p>primeira é a união profunda de almas. Deuteronômio traz a mais antiga</p><p>menção a esse respeito de um “amigo que te é como a tua alma” (Dt 13.6),</p><p>quer dizer, aquele que é costurado com a sua alma ou aquele que é uma</p><p>companhia dos pensamentos e sentimentos mais íntimos. Isso é bem ilustrado</p><p>pela amizade de Jônatas e Davi, como retratado em 1Sm 18.1, 3-4, em que a</p><p>mesma frase é utilizada como em Dt 13. Vemos aqui ideias de forte ligação</p><p>emocional e lealdade.217 De fato, “amigo” naturalmente se tornou outro nome</p><p>para crentes e irmãos no Senhor (3Jo 15). Os privilégios e as</p><p>responsabilidades de uma “alma gêmea” no sentido bíblico, então, envolvem</p><p>intimidade, lealdade e forte ligação emocional.</p><p>A segunda imagem que a Bíblia usa para representar a amizade é o</p><p>encontro face a face. Essa é a imagem usada para o relacionamento de Moisés</p><p>com Deus: no tabernáculo, Deus falou com Moisés “face a face, como um</p><p>homem fala ao seu amigo” (Êx 33.11; ver também Nm 12.8). A imagem face</p><p>a face implica uma conversa, uma partilha de confidências e,</p><p>consequentemente, um encontro de mentes, objetivos e rumos.218 Um dos</p><p>benefícios do encontro face a face entre amigos é a compreensão elevada.</p><p>Um provérbio que destaca essa ideia está em Pv 27.17: “Como o ferro com o</p><p>ferro se afia, assim, o homem, ao seu amigo”.</p><p>Existem várias ilustrações fabulosas desse tipo de amizade bíblica na</p><p>história da Igreja. Este capítulo observa a de Esther Edwards Burr (1732–</p><p>1758) e Sarah Prince (1728–1771).219</p><p>Os primeiros anos de Esther</p><p>Esther Edwards Burr, a terceira filha de Jonathan e Sarah Edwards – de</p><p>quem falamos no Capítulo quatro –, nasceu em Northampton, Massachusetts,</p><p>em 13 de fevereiro de 1732. Dos primeiros anos de Esther, sabemos muito</p><p>pouco. Samuel Hopkins, que escreveu a primeira biografia do pai dela,</p><p>Jonathan Edwards, e que morou na casa deles por mais de um ano, lembrou-</p><p>se dela como uma menina de “imaginação alegremente viva, com um</p><p>pensamento rápido e penetrante”.220</p><p>Seus anos de infância coincidiram com os anos do Grande Avivamento.</p><p>Ela tinha oito anos quando esse movimento começou e ouviu George</p><p>Whitefield pregar para a congregação do pai dela em outubro daquele ano;</p><p>ela contava com dez anos quando o Avivamento acabou, em 1742. Tudo isso</p><p>teria causado uma grande impressão nela.221 Sem dúvida, o Avivamento</p><p>reforçaria em sua mente que o cristianismo genuíno é uma religião do</p><p>coração e que “a única religião verdadeira e sincera implica nada menos do</p><p>que uma submissão total e alegre à vontade de Deus”.222 Ela própria fez uma</p><p>profissão de fé perante a igreja quando tinha “cerca de quinze anos”, embora</p><p>sua conversão tenha uma data anterior – provavelmente quando Whitefield</p><p>pregou para a congregação de Northampton.223</p><p>Casamento e mudança para Newark</p><p>Em 29 de junho de 1752, aos vinte anos, Esther se casou com Aaron Burr</p><p>Sr. (1715–1757), um ministro cuja disposição mental evangélica era bem</p><p>parecida com a sua e que era profundamente respeitado pelo pai dela.224</p><p>Aaron era o pastor da Igreja Presbiteriana em Newark, Nova Jersey, e o</p><p>segundo presidente da recém-formada Universidade de Nova Jersey (que</p><p>mais tarde se chamaria Princeton, quando se mudou para a cidade com esse</p><p>nome, durante a presidência de Burr). Ele era consideravelmente mais velho</p><p>que Esther – dezessete anos, para sermos mais exatos –, o que gerou alguma</p><p>especulação. Joseph Shippen, um dos alunos da universidade, notou em</p><p>Esther “uma grande beleza” quando a viu, mas a considerou “jovem demais</p><p>para o presidente”.225 Mais tarde, porém, Shippen avaliou positivamente o</p><p>casamento de Burr, chamando Esther de mulher “de muito bom senso, de</p><p>uma educação virtuosa e gentil, amável em sua pessoa, de grande afabilidade</p><p>e agradabilidade na conversa, além de excelente gestora”.226</p><p>Aaron Burr tinha visto Esther pela última vez quando a menina</p><p>contava</p><p>com quatorze anos, mas foram necessários apenas poucos dias de corte para</p><p>que ela concordasse em se casar com ele. A aparente imprevisibilidade de sua</p><p>decisão pode ter tido algo a ver com as dificuldades financeiras da família</p><p>Edwards naquele momento, visto que, em 1750, dois anos antes, Jonathan</p><p>Edwards fora dispensado do pastorado em Northampton.227 Existem, porém,</p><p>evidências de que ela amava Aaron profundamente. Como ela disse em seu</p><p>diário: “Você acha que eu trocaria meu bom sr. Burr por qualquer pessoa, ou</p><p>coisa, ou por todas as coisas na face da terra? Claro que não! Nem por um</p><p>milhão de tais mundos em que não exista o sr. Burr”.228</p><p>A mudança de Esther para Newark significou que ela estava a cerca de</p><p>250 quilômetros de seus pais e da família em Stockbridge, Massachusetts,</p><p>uma distância considerável para se viajar naquela época. Além do mais, Nova</p><p>Jersey era bem diferente tanto de Massachusetts como de Connecticut.</p><p>Embora não tão desenvolvido, o local era bem mais cosmopolita, o que, vez</p><p>ou outra, fazia com que Esther sentisse saudades de casa e de suas raízes em</p><p>New England.229 Tudo isso foi exacerbado pelo fato de que seu marido,</p><p>como presidente da universidade, estava frequentemente longe, pregando e</p><p>levantando fundos. Esther se sentia suficientemente “isolada” e faminta pela</p><p>comunhão das “jovens mulheres com interesses espirituais similares aos</p><p>dela”.230 Para manter sua aliança com uma amiga próxima de Boston, Sarah</p><p>Prince – a filha de Thomas Prince (1687–1758), pastor da Igreja Old South</p><p>de Boston e amigo próximo de Edwards –, decidiram manter a amizade</p><p>escrevendo diários uma para a outra. Esther tentou incluir um escrito por dia,</p><p>mas alguns dias, principalmente aos sábados, ela ficava sobrecarregada para</p><p>fazê-lo, como os seguintes relatos indicam:</p><p>5 de junho de 1756:</p><p>Tudo uma correria, com tanta roupa para passar, então não consigo tempo para</p><p>dizer qualquer coisa, a não ser que penso em você se não falo com você.</p><p>12 de junho de 1756:</p><p>Sábado todo na pressa – odeio essa correria de sábado. Eu nunca o teria assim se</p><p>pudesse evitar.</p><p>7 de agosto de 1756:</p><p>Sábado, ocupada, ocupada – corra, voe, corra.231</p><p>Esther estivera em Newark havia cerca de um ano e meio, quando Sarah</p><p>Prince viajou para o sul partindo de Boston, no outono de 1753, para passar</p><p>alguns meses com ela. Esther estava esperando seu primeiro filho durante a</p><p>visita de Sarah, e Sarah permaneceu até o período do parto de Esther. O nome</p><p>da primeira filha, Sally (redução de Sarah), parece ter sido uma homenagem</p><p>às duas mulheres mais importantes de sua vida, sua mãe e sua melhor</p><p>amiga.232</p><p>Uma piedade típica dos Edwards</p><p>Não deveria ser surpresa alguma que a piedade de Esther fosse bem típica</p><p>dos Edwards. Seu deleite em ter o pai como mentor espiritual é notório na</p><p>anotação em seu diário de 19 de setembro de 1756, quando escreveu durante</p><p>uma visita aos pais, em Stockbridge:</p><p>Noite passada, tive certa conversa livre com Meu Pai sobre as grandes coisas que</p><p>afetam meu interesse – mostrei minhas dificuldades a ele bem livremente e ele</p><p>também livremente me aconselhou e orientou. A conversa removeu algumas</p><p>dúvidas angustiantes que muito me desencorajavam em minha batalha cristã. Ele</p><p>me deu algumas direções excelentes para serem observadas em segredo que</p><p>tendem a manter a alma próxima de Deus, assim como outras para serem</p><p>observadas de modo mais público – que misericórdia tenho eu em ter um Pai</p><p>assim! Que Guia!233</p><p>Como o pai dela, Esther estava comprometida com um Deus que se havia</p><p>revelado, em salvação e história, como um Deus de misericórdia234 e</p><p>soberania:235 “Misericordioso, sábio, poderoso, bom Deus, que era desde a</p><p>eternidade e, assim, continuará até a eternidade – embora todas as coisas</p><p>mudem, ainda assim o nosso Deus é o que ele sempre foi”.236 E, assim como</p><p>o pai, ela enfatizava a necessidade da “religião do coração”. Como ela</p><p>escreveu em 14 de junho de 1755:</p><p>O conhecimento de Deus que não produz amor por ele e o desejo de ser como ele</p><p>não é um verdadeiro conhecimento – aquele conhecimento de qualquer coisa que</p><p>produz amor também produzirá o desejo de ser como o que conhecemos e</p><p>amamos – que os anjos caídos sabem muito sobre Deus é certo e que, quanto</p><p>mais eles o conhecem, mais o odeiam, é certo, e isso porque seus corações estão</p><p>cheios de inimizade contra todo o bem.237</p><p>Amizade: um meio da Graça</p><p>Então, uma das coisas mais importantes que Esther prezava em mantê-la</p><p>próxima de Deus era a conversação espiritual com os amigos próximos, como</p><p>ocorria com Sarah Prince:</p><p>Eu deveria valorizar altamente (assim como você, minha querida) amigas</p><p>encantadoras como você – amigos com quem se pode desvendar a alma</p><p>também… Entendo a conversação religiosa como uma das melhores ajudas para</p><p>se manter a religião na alma, à exceção apenas da devoção secreta, não sei o que</p><p>é melhor – então que coisa lamentável que isso seja negligenciado pelos próprios</p><p>filhos de Deus.238</p><p>Perceba a conexão entre amizade e o que Esther chama de “conversação</p><p>religiosa”. Para o cristão, amigos verdadeiros são aqueles com quem é</p><p>possível compartilhar as coisas mais profundas da vida. São pessoas com</p><p>quem é possível ser transparente e aberto. Nas palavras de Esther, são</p><p>pessoas com quem é possível “revelar toda a alma”. E, no curso da conversa</p><p>sobre coisas espirituais, o crente pode encontrar força e encorajamento para</p><p>levar uma vida cristã. Referindo-se à conversação espiritual com amigos</p><p>como “um dos melhores auxílios para manter a religião na alma”, Esther</p><p>obviamente a vê como meio da graça, uma das maneiras como o Espírito</p><p>Santo de Deus mantém os cristãos em comunhão com o Salvador. Como</p><p>outro cristão de New England, Nathanael Emmons (1745–1840), um teólogo</p><p>que foi orientado por seguidores próximos de Jonathan Edwards, expressa em</p><p>uma de suas máximas favoritas: “Um homem é feito por seus amigos”.239</p><p>Esta é a forma como Esther verbalizou o mesmo pensamento em outra</p><p>ocasião, ao enfatizar a importância da amizade cristã como um meio para</p><p>andar com Deus:</p><p>Nada é mais refrescante para a alma (exceto a comunicação com o próprio Deus)</p><p>do que a companhia e a associação com um amigo – alguém que tenha o espírito</p><p>de verdadeira amizade e tenha gosto por ela – isso é tornar a alma racional – isso</p><p>é a semelhança com Deus.240</p><p>E Sarah era essa amiga, como os registros de Esther de 11 de outubro de</p><p>1754 e de 4 de junho de 1755 revelam:</p><p>É um grande consolo para mim, quando meus amigos estão longe, que eu os</p><p>tenha em algum lugar do mundo, e você, minha querida, é uma delas, e não está</p><p>entre as menores, pois eu a estimo como uma das melhores e, em alguns</p><p>aspectos, mais próxima do que qualquer irmã que eu tenha. Não tenho nenhuma</p><p>irmã para quem eu possa escrever tão livremente quanto para você, a irmã do</p><p>meu coração.241</p><p>Considere, minha amiga, que coisa rara é encontrar uma amiga como eu tenho</p><p>em minha Fidelia – Quem não valorizaria e prezaria tal amigo acima do ouro, da</p><p>honra ou de qualquer outra coisa que o Mundo possa proporcionar?242</p><p>Esther estava convencida de que essa amizade era um dom dos céus.</p><p>Como ela afirmou em dois registros em seu diário – o primeiro de 5 de</p><p>outubro de 1754 e o segundo de 15 de fevereiro de 1755:</p><p>A sra. Smith e eu estávamos conversando (…) E concluímos que o que quer que</p><p>tenha sido dito em confidência enquanto estávamos ali devia ser uma questão de</p><p>amizade, mantendo-se em segredo. Embora a amizade estivesse encerrada, ainda</p><p>assim a obrigação era tão forte quanto sempre foi, e a sra. Smith pensa ainda de</p><p>forma mais intensa (…) Vejo os laços da Amizade como sagrados, e acredito que</p><p>devem ser uma questão de Oração Solene a Deus (onde exista uma amizade</p><p>contraída) que ela possa ser preservada.243</p><p>Você pensará que não sou tão indiferente em relação a tudo neste mundo, mas,</p><p>para dizer a verdade, quando falo de mundo e das coisas que estão no Mundo,</p><p>não quero dizer amigos, pois a amizade não pertence a este mundo. A verdadeira</p><p>amizade é, em primeiro lugar, acesa por uma centelha do céu, e o céu jamais irá</p><p>lamentar</p><p>que ela parta, mas ela arderá por toda a Eternidade.244</p><p>Um ano mais tarde, em 23 de janeiro de 1756, Esther voltou a afirmar sua</p><p>convicção sobre a vital necessidade de ter amigos cristãos:</p><p>É, minha querida, uma grande misericórdia que tenhamos quaisquer amigos – o</p><p>que seria deste Mundo sem eles? – uma pessoa que considera a si mesma sem</p><p>amigos deve, entre a maior parte das criaturas, ser miserável nesta vida – esta é a</p><p>Vida da Vida.245</p><p>Perceba o modo como Esther valoriza os amigos cristãos. Para ela, eles</p><p>são uma das maiores fontes de felicidade neste mundo. Por que Esther</p><p>depositava tanto valor na amizade? Bem, certamente porque percebia que os</p><p>amigos cristãos e a conversa com eles são vitais para o crescimento espiritual.</p><p>Esther é desafiada por John Ewing</p><p>As convicções de Esther em relação à amizade como um meio da graça</p><p>foram desafiadas em 12 de abril de 1757, quando um dos tutores da</p><p>faculdade, John Ewing (1732–1802), que, mais tarde, seria professor de Ética</p><p>na Universidade da Filadélfia e pastor da Primeira Igreja Presbiteriana na</p><p>Filadélfia, desafiou sua compreensão acerca da amizade:</p><p>Tive um combate inteligente com o sr. Ewing a respeito de nosso sexo – ele é um</p><p>homem talentoso e capacitado, mas que nutre pensamentos inferiores sobre as</p><p>mulheres – ele começou a disputa dessa maneira. Ao falar de Miss Boudanot, eu</p><p>disse que se tratava de uma criatura amigável e sociável (…). Mas o sr. Ewing</p><p>disse: “Ela e os Stockton são cheios de conversa sobre Amizade e sociedade e</p><p>coisas assim”, e fez uma careta, como se tivesse muito nojo – perguntei a ele</p><p>sobre o que gostaria que eles falassem – se ele escolheria que eles falassem de</p><p>moda ou vestidos – ele respondeu coisas que eles entendessem. Ele não acha que</p><p>as mulheres saibam o que é amizade. Dificilmente, elas seriam capazes de</p><p>qualquer coisa tão agradável e racional quanto a amizade. (Minha língua, sabe,</p><p>ali estava bem relaxada, e os pensamentos se acumulavam — então, falei</p><p>gaguejando e com bastante cuidado.) Você pode imaginar que grande campo esse</p><p>discurso abriu para mim – repliquei com muitas coisas severas sobre ele antes</p><p>que tivesse tempo de voltar a falar. Ele corou e parecia confuso (...) mantivemos</p><p>o debate ainda por uma hora. Eu o calei com minhas palavras. Ele se levantou e</p><p>disse “seu servo” e foi embora (…). Uma das últimas coisas que ele disse foi que</p><p>nunca, em toda a sua vida, conheceu ou ouviu falar de uma mulher que tivesse</p><p>um pouco mais de aprendizado do que [o comum?] e que isso não a deixasse</p><p>orgulhosa a tal ponto que ela se tornasse repulsiva [para] todos que a</p><p>conheciam.246</p><p>Ewing provavelmente nunca se esqueceu desse encontro com a formidável</p><p>filha de Edwards.247 Esther sabia, por experiência própria, em virtude de sua</p><p>rica amizade com Sarah Prince, do que se trata a verdadeira amizade e que</p><p>Ewing não tinha ideia do que estava falando.</p><p>O comentário final de Esther sobre o desdém de Ewing pelas mulheres que</p><p>eram educadas nos mostra muito do que ele era e também da própria Esther.</p><p>Jonathan Edwards, seu pai, assim como o pai dele, Timothy Edwards (1669–</p><p>1758), acreditavam no valor de se educarem as meninas. Edwards era o</p><p>quinto de onze filhos – dez meninas e Jonathan! As irmãs de Edwards se</p><p>tornaram mulheres altas, cada uma com mais de um metro e oitenta, e aqueles</p><p>que as conheciam falavam dos “dezoito metros de filhas de Timothy</p><p>Edwards”!248 Bem incomum para um homem do século XVII, Timothy</p><p>Edwards as encorajou a se desenvolverem intelectualmente, assim como</p><p>espiritualmente.249 Além de dar às suas filhas educação similar à de Jonathan,</p><p>Timothy enviou todas elas, à exceção de uma, para uma escola de boas</p><p>maneiras em Boston. Diante de tudo isso, essa educação produziu mulheres</p><p>espiritualmente focadas que não receavam falar o que pensavam. Assim</p><p>como o encontro de Esther com Ewing mostra, a forma como Jonathan criou</p><p>suas filhas produziu mulheres igualmente fortes, assim como suas próprias</p><p>irmãs.</p><p>214. Diogenes Allen, Love: Christian Romance, Marriage, Friendship (Cambridge, MA: Cowley,</p><p>1987), 45–46.</p><p>215. C. S. Lewis, The Screwtape Letters, Carta 10, em The Best of C. S. Lewis (Washington, DC:</p><p>Canon Press, 1969), 43.</p><p>216. “Friendship”, em Dictionary of Biblical Imagery, ed. Leland Ryken et al. (Downers Grove, IL:</p><p>InterVarsity Press, 1998), 308–9.</p><p>217. R. Paul Stevens, “Friendship”, em The Complete Book of Everyday Christianity, ed. Robert Banks</p><p>e R. Paul Stevens (Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 1997), 439. Observe também 1Sm. 23.16–</p><p>18, onde Jonatas busca fortalecer seu amigo Davi no Senhor, e não com base no relacionamento deles.</p><p>Para um exemplo desse tipo de amizade no Novo Testamento, ver João 11.11, 35–36.</p><p>218. No Novo Testamento, ver 2Jo 12.</p><p>219. 6. Para um estudo da amizade deles, ver Lucia Bergamasco, “Amitié, amour et spiritualité dans la</p><p>Nouvelle-Angleterre du XVIIe siècle: l’expérience d’Esther Burr et de Sarah Prince”, Annales ESC 41</p><p>(1986): 295–323. Para um estudo de Sarah Prince, ver Lucia Bergamasco, “Female education and</p><p>spiritual life: the case of ministers’ daughters”, em Current Issues in Women’s History, ed. Arina</p><p>Angerman et al. (New York: Routledge, 1989), 39–60.</p><p>220. Citado em Carol F. Karlsen and Laurie Crumpacker, eds., The Journal of Esther Edwards Burr</p><p>1754–1757 (New Haven, CT: Yale University Press, 1984), 8. Para um esboço biográfico bastante</p><p>breve de Esther, ver Gerald R. McDermott, “Burr, Esther Edwards”, em The Blackwell Dictionary of</p><p>Evangelical Biography 1730–1860, ed. Donald M. Lewis (Cambridge, MA: Blackwell, 1995), 1:175.</p><p>Ver também o capítulo “Through Esther’s Eyes”, em Iain H. Murray, Jonathan Edwards – A New</p><p>Biography (Edinburgh: Banner of Truth, 1987), 399–420. Ver as várias referências em George M.</p><p>Marsden, Jonathan Edwards: A Life (New Haven, CT: Yale University Press, 2003), passim.</p><p>221. Sereno E. Dwight (“Memoirs of Jonathan Edwards, A. M.”, em The Works of Jonathan Edwards</p><p>[1834; repr. Edinburgh: Banner of Truth, 1987], 1:clxxix) observa que Esther “parece ter sido alvo de</p><p>percepções divinas aos sete ou oito anos de idade”. Cf., e.g., a percepção sobre Bethan-Lloyd-James,</p><p>nascida Phillips, de seis anos, pelo Avivamento Galês de 1904 e 1905, “Memories of the 1904–05</p><p>revival in Wales”, Evangelicals Now 20 (janeiro de2005): 15–18.</p><p>222. Karlsen and Crumpacker, eds., Journal of Esther Edwards Burr, 9.</p><p>223. Dwight, “Memoirs”, em Works, 1:clxxix; Karlsen and Crumpacker, eds., Journal of Esther</p><p>Edwards Burr, 12.</p><p>224. Sobre Burr, ver Randall Blamer, “Burr, Aaron”, in Blackwell Dictionary of Evangelical</p><p>Biography, 1:175.</p><p>225. Citado em Marsden, Jonathan Edwards, 392.</p><p>226. Citado em Herbert S. Parmet e Marie B. Hecht, Aaron Burr: Portrait of an Ambitious Man (New</p><p>York: Macmillan, 1967), 1–2. Esther é equivocadamente chamada de “Sarah” nesse livro.</p><p>227. Karlsen and Crumpacker, eds., Journal of Esther Edwards Burr, 13.</p><p>228. Registro de 15 fev. 1755; Karlsen e Crumpacker, eds., Journal of Esther Edwards Burr, 92. A</p><p>grafia e as ênfases nesse registro e nos subsequentes são de Esther.</p><p>229. Murray, Jonathan Edwards, 401.</p><p>230. Karlsen and Crumpacker, eds., Journal of Esther Edwards Burr, 14–15. Ver também Murray,</p><p>Jonathan Edwards, 402.</p><p>231. Karlsen and Crumpacker, eds., Journal of Esther Edwards Burr, 207, 208 e 216.</p><p>232. Ibid., 15.</p><p>233. Ibid., 224.</p><p>234. Ibid., 237, 243.</p><p>235. Ibid., 168, 245.</p><p>236. Ibid., 243.</p><p>237. Ibid., 124.</p><p>238. Em 20 de abril de 1755, ibid., 112.</p><p>239. Citado em The Works of Nathanael Emmons, D. D., ed. Jacob Ide (Boston: Congregational Board</p><p>of Publication, 1861), 1:115.</p><p>240. Registro em 23 de janeiro de 1756, em Karlsen e Crumpacker, eds., Journal of Esther Edwards</p><p>Burr, 185.</p><p>241. Ibid., 53.</p><p>242. Ibid., 118.</p><p>243. Ibid., 50.</p><p>244. Ibid., 92.</p><p>245. Ibid., 185.</p><p>246. Ibid., 257. Sobre Ewing, ver “Penn Biographies: John Ewing (1732–1802)”. Acesso em 30 jul.</p><p>2015, http://www.archives.upenn.edu/people/1700s/ewing_john.html.</p><p>247. Ver também Marsden, Jonathan Edwards, 420.</p><p>248. Murray, Jonathan Edwards, 9.</p><p>249. Sobre as irmãs</p><p>de Jonathan, ver Kenneth P. Minkema, “Hannah and Her Sisters: Sisterhood,</p><p>Courtship, and Marriage in the Edwards Family in the Early Eighteenth Century”, New England</p><p>Historical and Genealogical Register 146 (janeiro de 1992): 35–56.</p><p>http://www.archives.upenn.edu/people/1700s/ewing_john.html</p><p>07</p><p>Ann Judson e o projeto missionário</p><p>“A verdade nos impeliu”</p><p>O historiador David S. Schaff, filho do famoso historiador Phillip Schaff,</p><p>estava realmente certo quando observou que o nome de Ann Hasseltine</p><p>Judson (1789–1826) “é um dos nomes imortais na biografia missionária”.250</p><p>Francis Wayland (1796–1865), o maior biógrafo do marido de Ann do século</p><p>XIX, registrou, após ter passado um tempo com ela em 1822: “Não me</p><p>lembro de alguma vez ter conhecido uma mulher mais extraordinária”. Com</p><p>seu marido, Adoniram Judson (1788–1850), ela foi a primeira de uma longa</p><p>linhagem de missionários protestantes americanos. De fato, sua aceitação, e</p><p>também a de seu marido, em 1812, dos princípios batistas representam um</p><p>dos momentos decisivos na história dos batistas americanos, marcando a</p><p>entrada dessa comunidade no movimento missionário moderno, um evento</p><p>selado, dois anos mais tarde, pela formação da Convenção Trianual, assim</p><p>chamada porque se reunia a cada três anos. Além disso, a história de vida de</p><p>Ann se repetiu inúmeras vezes nos séculos XIX e XX – praticamente todos os</p><p>anos, entre 1830 e 1856, havia uma nova edição de sua biografia, o que fez</p><p>com que uma autora, Lydia Maria Child, a descrevesse como “um livro…</p><p>universalmente conhecido”.251 Assim, ela se tornou, juntamente com seu</p><p>marido e outros como William Carey (1761–1834) e Hudson Taylor (1832–</p><p>1905), fonte fundamental de inspiração para o movimento missionário</p><p>moderno. Por conseguinte, sua vida é reconstituída por meio de várias cartas</p><p>selecionadas, que detalham sua decisão de se tornar missionária ao lado de</p><p>seu marido, Adoniram, de se tornar batista e, finalmente, seu trabalho</p><p>fundamental na missão na Birmânia, junto com seu marido.</p><p>“Eu temia desagradar a Deus”</p><p>Nascida pouco antes do Natal de 1789, em Bradford, Massachusetts, Ann</p><p>Hasseltine se converteu em um avivamento ocorrido em sua cidade em 1806,</p><p>quando ainda era adolescente. O avivamento integrava um movimento maior,</p><p>conhecido como o Segundo Grande Avivamento. Em um diário que escrevia</p><p>àquela época, Ann menciona que sua</p><p>principal alegria agora consistia em contemplar a perfeição moral do Deus</p><p>glorioso. Eu desejava que todas as criaturas inteligentes o amassem. (...) O</p><p>pecado, em mim mesma e nos outros, parecia como aquela abominação que um</p><p>Deus santo odeia – e eu sinceramente me esforçava para evitar o pecado, não</p><p>apenas porque eu tivesse medo do inferno, mas porque eu temia desagradar a</p><p>Deus e entristecer seu Santo Espírito.252</p><p>Quatro anos mais tarde, em 28 de junho de 1810, Adoniram Judson, seu</p><p>futuro marido, veio almoçar na casa de seus pais com três outros alunos,</p><p>todos congregacionalistas que se haviam oferecido para servir como</p><p>missionários na Igreja, sob a tutela do Conselho Americano de Comissários</p><p>para Missões Estrangeiras. Eles seriam os primeiros missionários americanos</p><p>no exterior. Quase imediatamente, Adoniram ficou encantado com a</p><p>vivacidade, o charme e a beleza de Ann, e, um mês depois, perguntou a ela,</p><p>formalmente, em uma carta se lhe daria consentimento para cortejá-la. Ann,</p><p>então, respondeu que ele deveria pedir permissão ao pai dela.</p><p>E assim foi que, em julho de 1810, Adoniram enviou ao pai dela uma das</p><p>cartas mais extraordinárias de um genro em potencial:</p><p>Devo perguntar-lhe se o senhor pode concordar em se afastar de sua filha no</p><p>início da próxima primavera e não vê-la mais neste mundo. Se o senhor pode</p><p>consentir com a partida dela para uma terra pagã, de modo que ela esteja sujeita</p><p>às dificuldades e aos sofrimentos de uma vida missionária. Se o senhor consente</p><p>em que ela se exponha aos perigos do oceano; à influência fatal do clima do sul</p><p>da Índia; a todo o tipo de necessidade e angústia; a degradação, insultos,</p><p>perseguição e, talvez, morte violenta. O senhor pode consentir com tudo isso, por</p><p>amor a ele, que deixou seu lar celestial e morreu por ela e por você; por amor às</p><p>almas imortais que perecem; por amor a Sião e à glória de Deus? O senhor pode</p><p>consentir com tudo isso, na esperança de encontrar sua filha no mundo da glória,</p><p>com uma coroa de justiça abrilhantada pelas aclamações de louvor que deverão</p><p>ressoar para o Salvador dela dos gentios salvos, por meio dela, do infortúnio e do</p><p>desespero eterno?253</p><p>Os pais de Ann, John e Rebecca Hasseltine, permitiram que Ann decidisse</p><p>sozinha. De sua parte, Ann não foi capaz de responder de imediato a</p><p>Adoniram. Em primeiro lugar, ela mal o conhecia. E, então, deu-se conta de</p><p>que casar-se com Adoniram implicava comprometer-se com a vocação</p><p>missionária e, a princípio, ela não estava certa de que era o que Deus desejava</p><p>para sua vida. Como Ann escreveu em seu diário, em 10 de setembro de</p><p>1810:</p><p>Uma oportunidade me foi apresentada, de passar meus dias entre os gentios, na</p><p>tentativa de persuadi-los a receber o evangelho. Se estivesse convencida de ser</p><p>esse o chamado de Deus, e que isso seria mais agradável a ele, que eu passasse</p><p>minha vida dessa forma, e não de outra, penso que deveria estar disposta a</p><p>abdicar de cada objeto terreno e, diante da visão completa dos perigos e</p><p>dificuldades, entregar a mim mesma à grande obra.254</p><p>Por dois meses, ela lutou com seus sentimentos, seu amor pela família e o</p><p>pavor de sofrer, sozinha, em uma terra estrangeira. Por fim, embora muitos</p><p>de seus amigos e conhecidos condenassem sua decisão de deixar a América</p><p>em um “empreendimento romântico e selvagem”,255 ela chegou à conclusão</p><p>de que o casamento com Judson e a vida missionária eram, de fato, a vontade</p><p>de Deus para a sua vida. Como ela escreveu a uma amiga:</p><p>Cheguei à conclusão de renunciar a todo o meu conforto e prazer aqui, sacrificar</p><p>minha afeição pelos parentes e amigos, e ir para onde Deus, em sua providência,</p><p>pensa ser o lugar adequado para mim. Minha decisão não é repentina nem</p><p>tomada sem analisar os perigos, as provações e as dificuldades presentes em uma</p><p>vida missionária. (...). [M]inhas decisões [foram] tomadas (...) com um senso de</p><p>minhas obrigações para com Deus, e com a convicção plena de se tratar de um</p><p>chamado da providência e, consequentemente, de minha obrigação.256</p><p>Cerca de vinte meses depois, em 5 de fevereiro de 1812, Ann e Adoniram</p><p>se casaram, na casa Hasseltine, onde se encontraram pela primeira vez. No</p><p>dia seguinte, ocorreu a ordenação de Adoniram na Igreja Congregacional do</p><p>Tabernáculo em Salém, juntamente com outros três missionários</p><p>congregacionais para o serviço no subcontinente indiano: Samuel Nott</p><p>(1788–1869), Gordon Hall (1784–1826) e Samuel Newell (1784–1821), com</p><p>um quarto, Luther Rice (1783–1836), sendo acrescentado no último</p><p>momento. Duas mil pessoas se aglomeraram no templo. Um grande silêncio</p><p>tomou conta da multidão até o momento da ordenação, quando, então, uma</p><p>onda de choro e suspiros varreu a congregação.257 Duas semanas depois, os</p><p>missionários tinham tudo preparado para navegar para a Índia: os Judson e</p><p>Samuel Newell e sua esposa, Harriet (1793–1812), de Salém, e os outros com</p><p>suas esposas, da Filadélfia.</p><p>“Somos batistas confirmados”</p><p>Ann passou a maior parte da viagem para a Índia lendo. Na ocasião, havia</p><p>um assunto em especial que ocupava o casal: o batismo. Alguns anos antes,</p><p>de 1808 a 1810, quando Adoniram ainda estava no Seminário Teológico</p><p>Andover, havia começado a trabalhar em uma tradução para o inglês do Novo</p><p>Testamento grego e, entre outras questões gramaticais e linguísticas, ele se</p><p>vira desafiado a traduzir a palavra grega baptizō. Além disso, ao partir para a</p><p>Índia, ele imaginara que teria de se encontrar com William Carey, Joshua</p><p>Marshman (1768–1837) e William Ward (1769–1823), três batistas convictos</p><p>que estavam em Serampore, na Índia, e ver-se compelido a dar uma resposta</p><p>a qualquer pergunta que eles pudessem formular sobre os assuntos próprios</p><p>do batismo cristão.258</p><p>Essa viagem para a Índia, que durou quatro meses, de</p><p>19 de fevereiro a 17 de junho de 1812, ofereceu-lhe o contexto ideal para,</p><p>junto com a esposa, voltar a estudar em profundidade esse assunto. Ann e</p><p>Adoniram achavam que, ao estudarem o assunto, estariam munidos de</p><p>material para defender o pedobatismo, ou batismo de infantes. Eles mal</p><p>podiam sonhar com o que viria em seguida.</p><p>Em uma carta que escreveu para uma amiga na América, Ann Judson</p><p>resumiu muito bem o que aconteceu naquela viagem significativa em 1812.</p><p>No dia anterior, 6 de setembro de 1812, ela e seu marido haviam sido</p><p>batizados como crentes por William Ward, na Capela Lall Bazar, em Calcutá.</p><p>Talvez você ache essa mudança muito repentina, visto que eu nada disse a esse</p><p>respeito antes; mas, minha querida, essa alteração não foi trabalho de uma hora,</p><p>de um dia ou de um mês. O assunto foi examinado de forma madura, franca e,</p><p>espero, debaixo de oração, por meses a fio. O exame do assunto do batismo teve</p><p>início a bordo da Caravana.259 Enquanto Judson dava continuidade à tradução do</p><p>Novo Testamento – a qual ele começou nos Estados Unidos –, teve muitas</p><p>dúvidas a respeito do significado da palavra batizar. Isso, juntamente com a ideia</p><p>de encontrar batistas em Serampore, quando, então, ele desejaria defender suas</p><p>próprias posições, induziu a um exame mais meticuloso do fundamento do</p><p>sistema pedobatista. E, quanto mais ele examinava, mais as suas dúvidas</p><p>aumentavam; e, indisposto como estava em admitir, ele tinha medo de que os</p><p>batistas estivessem certos, e ele, errado. Quando chegamos a Calcutá, sua atenção</p><p>se voltou desse assunto para as preocupações com a missão e as dificuldades com</p><p>o governo. Mas, como sua mente ainda estava inquieta, ele mais uma vez</p><p>retomou o assunto. Então, tive medo de que ele se tornasse batista e, com</p><p>frequência, argumentava quanto às infelizes consequências se ele o fizesse. Mas</p><p>ele dizia que sua obrigação o compelia a satisfazer sua própria mente e a abraçar</p><p>aqueles sentimentos que pareciam ter mais concordância com as Escrituras. Eu</p><p>sempre ficava do lado pedobatista quando arrazoava com ele, mesmo depois de</p><p>já estar com tantas dúvidas em relação à verdade do sistema deles quanto ele</p><p>próprio estava. Partimos de Serampore para ficar em Calcutá por uma semana ou</p><p>duas, antes da chegada de nossos irmãos;260 e, como não tínhamos nada em</p><p>particular para ocupar nossa atenção, limitamo-nos exclusivamente a esse</p><p>assunto. Procuramos pelos melhores autores de ambos os lados, comparando-os</p><p>com as Escrituras, examinando e reexaminando os sentimentos dos batistas e</p><p>pedobatistas, e finalmente fomos compelidos, por uma convicção da verdade, a</p><p>abraçar o pensamento dos primeiros. Assim, minha querida Nancy, fomos</p><p>confirmados batistas, não porque desejássemos ser, mas porque a verdade nos</p><p>impeliu a ser. Vimos esforçando-nos para estimar as consequências disso e</p><p>estamos preparados para as provas mais severas que resultam dessa mudança de</p><p>sentimento. Estamos prevendo a perda da reputação, da afeição e da estima de</p><p>muitos de nossos amigos americanos. (...) Sentimos que estamos sozinhos no</p><p>mundo, sem um amigo verdadeiro e ninguém de quem possamos depender, a não</p><p>ser Deus.261</p><p>Na Caravana, os Judson tinham em primeiro lugar as Escrituras para</p><p>examinar. Quando chegaram à Índia, puderam consultar uma variedade de</p><p>obras pedobatistas e credobatistas por um período de dois meses.262 Como</p><p>Ann contou, em outra carta, agora enviada aos pais, no ano seguinte:</p><p>Depois de nos mudarmos para Calcutá, ele [quer dizer, Adoniram] encontrou na</p><p>biblioteca em nossa câmara muitos livros de ambos os lados, os quais ele se</p><p>determinou a ler sinceramente e em oração, e se apegar, abraçar a verdade, por</p><p>mais que fosse mortificante, por mais que o sacrifício fosse grande. Então,</p><p>comecei a ler sobre o assunto, com todos os meus preconceitos no lado</p><p>pedobatista. Tivemos conosco os escritos do dr. Worcester, do dr. Austin, de</p><p>Peter Edwards e outros escritos pedobatistas. Mas, depois de examinar</p><p>atentamente o assunto por muitas semanas, fomos forçados a reconhecer que a</p><p>verdade parecia estar no lado dos batistas.263</p><p>Aqui, Ann menciona três autores pedobatistas específicos. Samuel</p><p>Worcester (1770–1821) era um congregacionalista de Massachusetts e</p><p>defensor ardente da teologia conhecida como Nova Divindade. Esse sistema</p><p>teológico era promovido pelos herdeiros de Jonathan Edwards e combinava</p><p>uma abordagem renovada, como a soberania de Deus e a liberdade da</p><p>vontade, com especial atenção para o cristianismo prático e a natureza do</p><p>avivamento. Com o tempo, essa confluência de ênfases teológicas veio a</p><p>prover um firme fundamento para as missões transculturais. O próprio pai de</p><p>Adoniram, o sr. Adoniram Judson (1719–1790), também era um expoente</p><p>dessa perspectiva teológica, tendo sido tutelado pelo confidente de Edwards,</p><p>Joseph Bellamy (1719–1790). Bem, Worcester era autor de duas obras que</p><p>abordavam, especificamente, a questão do pedobatismo: Two Discourses on</p><p>the Perpetuity and Provision of God’s Gracious Covenant with Abraham and</p><p>His Seed (1805) e Serious and Candid Letters to the Rev. Thomas Baldwin,</p><p>D.D on His Book Entitled “The Baptism of Believers Only, and The</p><p>Particular Communion of the Baptist Churches, Explained and Vindicated”</p><p>(1807).264 Adoniram Judson cita ambas as obras em seu Christian Baptism</p><p>(1813),265 que teve origem em um sermão prolatado três semanas depois de</p><p>seu batismo e resume, em um documento público, o fruto da pesquisa de</p><p>Judson quanto à natureza do batismo.266 Ler o trabalho de Worcester deve ter</p><p>trazido doces memórias a esse homem, pois foi na Igreja Tabernáculo de</p><p>Worcester, em Salém, que Judson e seus amigos missionários foram</p><p>ordenados e encarregados da missão ao Extremo Oriente.267</p><p>O segundo autor mencionado por Ann foi Samuel Austin (1760–1830).</p><p>Entre os trabalhos de Austin, estava A View of the Economy of the Church of</p><p>God as it existed primitively under the Abrahamic Dispensation and the Sinai</p><p>Law (1807), ao qual Adoniram também se refere em seu Christian</p><p>Baptism.268 Assim como Worcester, Austin deve ser contado entre os homens</p><p>da Nova Divindade. Ele tinha conexões muito próximas com dois dos</p><p>principais teólogos dessa escola de pensamento: ele havia estudado com</p><p>Jonathan Edwards, o Jovem (1745–1801), e mais tarde veio a se casar com</p><p>Jerusha Hopkins, a filha de um dos principais seguidores de Edwards à</p><p>época, Samuel Hopkins (1721–1803).269 O terceiro autor, Peter Edwards, era</p><p>um inglês que fora batista antes de abraçar as convicções pedobatistas. Em</p><p>seguida, ele escreveu Candid Reasons for Renouncing the Principles of Anti-</p><p>Paedobaptism (1795), um trabalho que passou por muitas edições de ambos</p><p>os lados do Atlântico.</p><p>Na citação acima, Ann não menciona nenhum autor batista. O livro de seu</p><p>marido, Christian Baptism, revela, explicitamente, que os Judson</p><p>encontraram muitos motivos para a reflexão no livro de Abraham Booth</p><p>(1734–1806) Paedobaptism Examined (1784/1787).270 O livro de Peter</p><p>Edwards, mencionado acima, foi escrito como uma resposta direta a essa obra</p><p>de Booth. Outras figuras batistas citadas por Judson nesse sermão incluem</p><p>Henry Danvers (c. 1622–1687), cujo livro A Treatise of Batism (1673)</p><p>consiste, essencialmente, em uma defesa do batismo do crente;271 John Gill</p><p>(1697–1771), decano dos teólogos batistas no século XVIII e especialmente</p><p>crítico do batismo de infantes;272 e o batista do sétimo dia Joseph Stennett I</p><p>(1663–1713), um dos mais proeminentes dissidentes daqueles dias.273</p><p>À medida que Adoniram e, depois, Ann estudavam todas essas obras e</p><p>comparavam o que liam com as Escrituras, “a verdade os impeliu”, como</p><p>Ann afirma, a reconhecer que os melhores argumentos bíblicos estavam com</p><p>os batistas. É bastante evidente, em ambas as cartas de Ann, que Adoniram e</p><p>Ann começaram esse estudo como pedobatistas firmemente consolidados. Foi</p><p>somente com grande relutância que eles foram levados a convicções distintas.</p><p>Em seu diário daquele verão de 1812, Ann registrou suas orações ao Espírito</p><p>Santo de Deus para que direcionasse</p><p>sua busca. “Se algum dia busquei</p><p>conhecer a verdade”, escreveu ela, “se já olhei para o Pai das luzes; se</p><p>alguma vez abri mão de mim mesma em favor da Palavra inspirada, foi isso o</p><p>que fiz durante essa investigação”.274</p><p>Na primeira carta citada, Ann também está bastante ciente de algumas das</p><p>consequências envolvidas nessa mudança de sentimento de ambos: isso</p><p>resultaria na perda de apoio financeiro e até mesmo de oração por parte de</p><p>seus amigos congregacionais em New England. Isso também significaria</p><p>identificação com um corpo de igrejas, os batistas, os quais eram tidos com</p><p>grande desdém pelos congregacionais de New England. Como Francis</p><p>Wayland, um dos primeiros biógrafos batistas de Adoniram, observou, nas</p><p>primeiras décadas do século XIX havia “um forte sentimento de antagonismo</p><p>sectarista entre os congregacionais e os batistas”.275 Os Judson, porém,</p><p>estavam determinados a seguir a verdade bíblica aonde quer que ela os</p><p>levasse, fosse qual fosse o preço. Adoniram descreveu essa determinação ao</p><p>final de Christian Baptism ao implorar a seus ouvintes (e, mais tarde,</p><p>leitores):</p><p>Meus irmãos, diligentemente usem os meios para descobrir a verdade.</p><p>Coloquem-se no caminho das evidências. Permitam-se o exame livre. Embora o</p><p>sol brilhe com muita nitidez, você nunca verá aquela luz de que os outros</p><p>usufruem se estiver confinado em uma caverna na qual os raios do sol não</p><p>possam penetrar. Esteja certo de que há evidência suficiente nesse quesito se</p><p>você buscar descobri-lo. Mas, se o seu amor pela verdade não for suficientemente</p><p>forte para torná-lo disposto a se empenhar na descoberta das evidências, Deus</p><p>provavelmente o deixará estar contente com o erro. (...) Portanto, para estimular</p><p>suas mentes à pesquisa sincera e vigorosa, prezem pela verdade acima de todas as</p><p>coisas.276</p><p>“Sob medida para a missão [birmanesa]”</p><p>Assim, os Judson foram batizados e tiveram de se desligar da organização</p><p>missionária congregacional que os enviara para a Índia. Eles informaram ao</p><p>Conselho Americano de Comissários para Missões Internacionais de sua</p><p>nova perspectiva assim que chegaram à Índia. Para o Conselho, Adoniram</p><p>escreveu uma carta que resplandece de amor cristão, ao explicar sua mudança</p><p>de convicção em relação ao batismo. Essa mudança, disse ele, foi o evento</p><p>mais angustiante que já acontecera a eles, visto que os impediria de trabalhar</p><p>lado a lado com homens a quem eles consideravam irmãos queridos. Eles</p><p>enviaram Luther Rice – que também havia sido batizado como crente – de</p><p>volta à América para fazer contato com os batistas americanos e, assim,</p><p>levantar fundos para eles.</p><p>A Companhia Britânica das Índias Orientais, que tinha um mandato para</p><p>governar as possessões britânicas no subcontinente, mostrava-se</p><p>intensamente hostil em relação aos missionários na Índia. A única maneira</p><p>viável para o Trio Serampore – Carey, Ward e Marshman – ali permanecer</p><p>era residir na colônia dinamarquesa de Serampore. Assim, dez dias depois da</p><p>chegada dos Judson à Índia, eles receberam uma ordem da Companhia para</p><p>deixar o país. Mas, de acordo com a providência divina, por fim eles foram</p><p>levados para a Birmânia, chegando a Rangoon em 13 de julho de 1813.</p><p>A Birmânia ficava entre a China e a Índia, cercada de montanhas em</p><p>ambas as fronteiras. Era um império regido por um imperador déspota que</p><p>governava pelo medo. A corrupção dentro do governo era endêmica, e as leis,</p><p>bastante cruéis. A tortura e a execução em massa eram rotineiras e</p><p>mantinham a população subserviente aos governantes. A religião dos</p><p>birmaneses era o budismo, que Ann descreve corretamente dizendo:</p><p>A religião da Birmânia, então, é, com efeito, o ateísmo; e a maior recompensa da</p><p>piedade, o objeto de desejo mais sincero e sua busca incansável é a aniquilação.</p><p>Que sistema miserável é esse; quão destituído de motivos adequados para a</p><p>virtude; e quão vazio de consolo!</p><p>Felix Carey (1786–1822), filho de William Carey, e sua família já</p><p>moravam lá. Nos meses que se seguiram, Felix ficou animado de ter</p><p>Adoniram e Ann como companheiros na obra missionária. Alguns meses</p><p>depois, ele escreveu para seu pai sobre os Judson: “Eles [tanto Adoniram</p><p>como Ann] são feitos sob medida para a missão [birmanesa]”. E prosseguiu:</p><p>“Judson tem uma compreensão esplêndida da língua [birmanesa] e é</p><p>exatamente o colega que eu queria ter”.277 Felix poderia ter mencionado que</p><p>Ann também estava se desenvolvendo na compreensão da língua. A língua</p><p>birmanesa não é uma língua fácil de aprender, pois sua forma escrita não</p><p>possui letras maiúsculas, nem divisão de palavras, tampouco quebra de</p><p>sentenças, mas os Judson perseveraram no aprendizado, como veremos.</p><p>A parceria missionária entre os Judson e Felix Carey e sua esposa,</p><p>contudo, não iria durar. Em junho de 1816, Carey, Marshman e Ward</p><p>disseram a Thomas Baldwin (1753–1825) e a outros membros do Conselho</p><p>Missionário da Convenção Trianual que Felix havia “entrado no culto de sua</p><p>majestade birmanesa”.278 De maneira mais franca, e também mais famosa, o</p><p>ancião Carey disse a seu amigo próximo na Inglaterra, John Ryland Jr.</p><p>(1753–1825), que seu filho fora “rebaixado de missionário a embaixador”.279</p><p>Mas Felix Carey estava certo sobre Judson e sua esposa. E, à medida que a</p><p>história da missão batista americana na Birmânia se desenrolava, tornou-se</p><p>bastante óbvio que esse casal era de fato “sob medida” para a Birmânia.</p><p>Ann e Adoniram viveram em Rangoon por dez anos, de 1813 a 1823,</p><p>lidando com a perseguição e várias outras adversidades. Nesse período,</p><p>ambos passaram a dominar a língua, embora esse feito não tenha vindo sem</p><p>muita perseverança. Ann observou em seu diário em 15 de agosto de 1813:</p><p>Comecei estudar a língua. Achei bastante complicado e difícil não contar com</p><p>nenhum dos auxílios usuais em se adquirir uma língua, exceto com uma pequena</p><p>parte de uma gramática e seis capítulos do Evangelho de Mateus do sr. [Felix]</p><p>Carey.</p><p>E, como seu marido observou com maior extensão em uma carta escrita</p><p>em 1816,</p><p>para um europeu ou americano adquirir uma língua viva do Oriente, por</p><p>completo, e torná-la sua, é bem diferente de aprender uma língua cognata do</p><p>Ocidente ou qualquer das línguas mortas [ou seja, o latim ou o grego antigo],</p><p>conforme são estudadas nas escolas (...). Quando aprendemos uma língua</p><p>ocidental, a similaridade nos caracteres, em muitos termos, em muitos modos de</p><p>expressão e na estrutura geral das sentenças, o fato de estar em boa impressão</p><p>(uma circunstância na qual raramente pensamos) e a assistência de gramáticas,</p><p>dicionários e instrutores, tudo isso torna o trabalho comparativamente mais fácil.</p><p>Mas [é bem difícil] quando começamos a aprender uma língua falada por um</p><p>povo do outro lado da terra, cujo próprio pensamento corre em canais diferentes</p><p>dos nossos, e cujos modos de expressão são, consequentemente, todos novos e</p><p>toscos; quando descobrimos as letras e as palavras completamente destituídas da</p><p>menor semelhança com qualquer língua com que já deparamos, e essas palavras</p><p>não são divididas razoavelmente nem se mostram distintas, como na escrita</p><p>ocidental, com pausas, pontos, letras maiúsculas, mas seguem juntas e em linha</p><p>contínua, uma sentença ou um parágrafo parecem a nossos olhos apenas uma</p><p>palavra longa; quando, em vez de caracteres claros no papel, encontramos apenas</p><p>rabiscos obscuros em folhas de palmeira seca costuradas, e que se chama de</p><p>livro; quando não temos dicionário, nem intérprete para explicar um única</p><p>palavra, e se deve apreender algo da língua, antes que possamos fazer uso da</p><p>assistência de um professor nativo (...). Inevitavelmente, são necessários vários</p><p>anos até se ter domínio dessa língua, com o fim de conversar e escrever, de forma</p><p>inteligível, sobre as grandes verdades do evangelho. Certa vez, o dr. Carey me</p><p>disse que, depois de alguns anos em Bengala, pensou que estava indo muito bem</p><p>em conversar e pregar para os nativos, mas eles (como Carey, mais tarde,</p><p>convenceu-se) não entendiam nada do que ele estava falando. Um jovem</p><p>missionário que espera aprender a língua em um ano ou dois provavelmente</p><p>descobrirá que não</p><p>estimou esse tempo devidamente. Se tivesse a felicidade de</p><p>conseguir um bom intérprete, ele poderia ser útil. Mas ele aprenderá,</p><p>principalmente se estiver em um lugar novo, no qual o caminho não está</p><p>preparado, e as ideias prévias não lhe foram comunicadas, que qualificar-se para</p><p>comunicar, de modo inteligível, a verdade divina, pela voz ou pela caneta, não é</p><p>trabalho de um ano. Entretanto, não obstante minha atual grande incompetência,</p><p>estou começando a traduzir o Novo Testamento, e me vejo extremamente ansioso</p><p>em tornar algumas partes da Escritura mais inteligíveis.280</p><p>Em dezembro de 1815, Ann dizia às suas irmãs nos Estados Unidos que</p><p>ela e Adoniram “sentiam-se em casa e já conseguiam conversar com</p><p>facilidade sobre assuntos gerais”. Ela sentia que falava a língua tão bem</p><p>quanto Adoniram; mas, quanto a ler e escrever, estava “bem atrás” do</p><p>marido. O que eles descobriram ser um desafio foi a conversação sobre as</p><p>coisas de Deus, “por causa da necessidade de haver termos religiosos em sua</p><p>língua”.281 É importante observar que Adoniram se absteve de pregar até</p><p>adquirir um bom domínio da língua e traduzir parte das Escrituras para o</p><p>birmanês.</p><p>Em 1817, Ann e Adoniram conseguiram imprimir – usando uma</p><p>impressora que fora enviada a eles por William Carey – um resumo da</p><p>doutrina cristã de Adoniram e um catecismo de Ann. E, naquele mês de maio,</p><p>Adoniram terminou de traduzir o Evangelho de Mateus, e eles imprimiram</p><p>oitocentas cópias.282 Adoniram havia começado a pregar em agosto de 1818.</p><p>E, um ano depois, em 27 de junho de 1819, o primeiro convertido da</p><p>Birmânia, um homem chamado Mong Nau, foi batizado como crente.</p><p>Nesse período, Ann também estava estudando siamês (hoje conhecido</p><p>como tailandês), que ela descobriu não ser uma língua tão difícil quanto a</p><p>birmanesa. Em abril de 1819, ela havia traduzido para o siamês seu catecismo</p><p>em língua birmanesa e o Evangelho de Mateus em birmanês de seu marido.</p><p>Essa tradução de Ann foi a primeira porção das Escrituras a ser traduzida</p><p>para o siamês. Mais tarde, ela passou a ajudar Adoniram, também traduzindo</p><p>os livros de Daniel e Jonas para o birmanês.283</p><p>Suas últimas palavras foram em birmanês</p><p>No final de 1821, Ann resolveu retornar aos Estados Unidos por um</p><p>período, devido a um severo problema no fígado. Foi uma decisão difícil</p><p>deixar a Birmânia e também Adoniram, mas necessária para a recuperação de</p><p>sua saúde. Ann seguiu viagem pela Inglaterra e, finalmente, chegou aos</p><p>Estados Unidos em 25 de setembro de 1822. Sua saúde ainda não estava</p><p>suficientemente recuperada quando ela decidiu fazer a viagem de retorno para</p><p>Rangoon via Calcutá, em 22 de junho de 1823. Ela chegou a Calcutá em</p><p>meados de outubro de 1823 e foi aconselhada a não prosseguir para a</p><p>Birmânia, visto que a guerra entre a Grã-Bretanha e a Birmânia parecia</p><p>iminente. Mas Ann estava ansiosa para ver Adoniram, então, em novembro,</p><p>ela foi de navio para Rangoon, chegando em 5 de dezembro de 1823. Ela</p><p>estivera fora por dois anos e quatro meses no total, e a última carta que</p><p>Adoniram havia recebido dela fora treze meses antes de seu retorno!</p><p>Imediatamente após a sua volta, Adoniram e Ann se mudaram para a</p><p>capital real de Ava. Alguns meses após a chegada deles, irrompeu a Primeira</p><p>Guerra Anglo-Birmanesa (1824-1826). Essa seria a primeira das três guerras</p><p>entre os britânicos e o Império Birmanês ao longo do século XIX. A guerra,</p><p>que começara por causa do controle do nordeste da Índia, terminou em uma</p><p>vitória britânica decisiva e foi a batalha mais longa e mais cara na história da</p><p>Índia Britânica. Quinze mil soldados europeus e indianos morreram, além de</p><p>um número desconhecido de militares birmaneses e baixas de civis. Além</p><p>disso, a guerra custou aos britânicos entre cinco e treze milhões de libras</p><p>esterlinas (aproximadamente 18,5 bilhões a 48 bilhões de dólares americanos</p><p>atuais).</p><p>Embora os Judson fossem americanos, todos os ocidentais se tornaram</p><p>suspeitos, e Adoniram foi preso em condições terríveis. Ann literalmente</p><p>salvou a vida dele implorando aos oficiais do governo que o deixassem viver,</p><p>levando comida para ele na prisão e pressionando incansavelmente as</p><p>autoridades governamentais durante a guerra para libertá-lo. Porém, assim</p><p>que Adoniram foi liberto, em 1826, Ann caiu doente, exausta por causa desse</p><p>período de estresse e de perseguição, bem como pelo fardo de gerenciar os</p><p>assuntos sem a ajuda de seu marido. Ela morreu em 24 de outubro de 1826, e</p><p>suas últimas palavras foram pronunciadas em birmanês, a língua do povo que</p><p>ela passou a amar.</p><p>250. Citado em Leslie K. Tarr, “Ann Judson - Woman of Courage”, Decision, Canadian ed., 33</p><p>(outubro de 1994): 25.</p><p>251. Entre os mais importantes desses relatos, estão os seguintes: Edward Judson, Adoniram Judson: A</p><p>biography (c. 1883; repr. Philadelphia: American Baptist Publication Society, 1894); Courtney</p><p>Anderson, To the Golden Shore: The Life of Adoniram Judson (1956; repr. Valley Forge, PA: Judson</p><p>Press, 1987); Sharon James, My Heart in His Hands: Ann Judson of Burma: A Life with Selections from</p><p>Her Memoir and Letters (Durham, UK: Evangelical Press, 1998). Para o próprio relato de Ann sobre</p><p>sua vida, ver An Account of the American Baptist Mission to the Burman Empire in a Series of Letters</p><p>Addressed to a Gentleman in London (London: Joseph Butterworth, 1823).</p><p>252. Citado em James, My Heart in His Hands, 27.</p><p>253. Ibid., 33, 35.</p><p>254. Ibid., 36.</p><p>255. Ann Hassletine, Diary, 28 out. 1810, em ibid., 37.</p><p>256. Ann Hasseltine, Carta para Lydia Kimball, 8 de setembro de 1810, ibid., 39.</p><p>257. Anderson, To the Golden Shore, 112.</p><p>258. Na verdade, os irmãos de Serampore parecem ter tornado uma questão de princípios nunca</p><p>levantar esse assunto com convidados pedobatistas. Ver Francis Wayland, A Memoir of the Life and</p><p>Labors of the Rev. Adoniram Judson, D.D. (Boston: Phillips, Sampson, 1853), 1:95. Ver também o</p><p>relato de Careys sobre o pensamento de Judson acerca de encontrar Carey e seus ajudadores: Letter to</p><p>John Williams, 20 out. 1812, citado em Serampore Letters: Being the Unpublished Correspondence of</p><p>William Carey and Others with John Williams 1800–1816, ed. Leighton Williams and Mornay</p><p>Williams (New York: Putnam’s Sons, 1892), 144.</p><p>259. O navio no qual os Judson e seus irmãos missionários Samuel e Harriet (1793–1812) Newell</p><p>navegaram para a Índia.</p><p>260. Uma referência a Luther Rice e aos outros missionários congregacionais, Gordon Hall e Samuel e</p><p>Roxana Nott, que haviam sido comissionados com os Judson. Luther Rice e os três outros chegaram em</p><p>10 de agosto. Ver William H. Brackney, Dispensations of Providence: The Journal and Selected</p><p>Letters of Luther Rice (Rochester, NY: American Baptist Historical Society, 1984), 68.</p><p>261. Ann Judson, Carta a uma amiga, 7 set. 1812, citada em Edward Judson, The Life of Adoniram</p><p>Judson (New York: Anson D. F. Randolph, 1883), 38–40.</p><p>262. É necessário observar que os Judson não falaram com ninguém do Trio Serampore sobre essa</p><p>questão até que tomaram a decisão de se tornar batistas. Ver Adoniram Judson, Christian Baptism</p><p>(Calcutta, 1813), [3]. Para a carta, escrita em 27 de agosto, na qual informaram Carey, Marshman e</p><p>Ward de seu desejo de serem batizados, ver The Story of the Lall Bazar Baptist Church Calcutta, comp.</p><p>Edwards Steane Wenger (Calcutta: Edinburgh Press, 1908), 98.</p><p>263. Ann Judson, carta para seus pais, 14 fev. 1813, em Judson, Life of Adoniram Judson, 40.</p><p>264. Ambos os trabalhos foram publicados em Salém, MA. The Two Discourses foram revisados para</p><p>uma segunda edição que apareceu em 1807, juntamente com as cartas para Baldwin. Para a vida de</p><p>Worcester, ver a biografia escrita por seu filho, Samuel Melanchthon Worcester, The Life and Labors</p><p>of Rev. Samuel Worcester, D.D., 2 vols. (Boston, MA: Crocker & Brewster, 1852). Para um esboço</p><p>breve, ver David W. Kling, “Worcester, Samuel”, em The Blackwell Dictionary of Evangelical</p><p>Biography, 1730–1860, ed. Donald M. Lewis (Oxford, UK: Blackwell, 1995), 2:1, 219.</p><p>265. Christian Baptism, 6, n.*; 14, n.*; 15, n.†; 33, n.*; 38, n.*; 42, n.*; 57, n.*; 82, n.*</p><p>sentia que os</p><p>séculos anteriores, principalmente o século XVIII, mereciam especial</p><p>investigação, especialmente porque foi nesse século que a cultura ocidental se</p><p>lançou no projeto “inovador” de reconfigurar a sociedade com base</p><p>inteiramente na razão e na experiência humana. Como as mulheres cristãs</p><p>daquele período teriam respondido aos desafios à sua volta?</p><p>Assim, o livro que está em suas mãos resulta da interação desses eventos</p><p>passados e de sugestões. Ao longo do caminho, tive o privilégio de ensinar</p><p>parte desse material não apenas em minhas turmas no Seminário Teológico</p><p>Batista do Sul, como também em conferências de um dia na Igreja Batista do</p><p>Calvário de Lenexa, Kansas (graças, em particular, ao pastor Brian Albert), e</p><p>na Igreja Batista Emmanuel, em Otisville, Michigan (graças ao pastor Leroy</p><p>Cole). Boa parte desses capítulos também foi ensinada em sessões matinais</p><p>em uma semana bíblica no Centro Bíblico Muskoka, no verão de 2014, e sou</p><p>profundamente grato a John Friesen, CEO desse Centro, pela oportunidade de</p><p>fazê-lo, e a toda a equipe do Centro Bíblico, que facilitou o processo.</p><p>Finalmente, sou muito grato também a Linda Reed, pelo convite para</p><p>coensinar um curso, “As grandes mulheres da fé cristã”, em junho passado,</p><p>no Seminário Teológico Heritage, o que me ajudou a focar nos capítulos</p><p>deste livro.</p><p>De algumas maneiras, o livro se divide em duas partes. Os dois primeiros</p><p>capítulos, sobre Lady Jane Grey e Margaret Baxter, exploram a vida das</p><p>mulheres na Igreja antes das mudanças significativas do século XVIII. Jane</p><p>fala de como as mulheres se apropriaram da fé na Reforma, e Margaret</p><p>mostra como as mulheres ajudaram os homens em seu ministério – nesse</p><p>caso, seu marido, Richard Baxter. Exploro esses temas analisando certos</p><p>textos, escritos tanto por essas duas mulheres como a respeito delas. Os seis</p><p>capítulos seguintes constituem um ensaio prolongado sobre como era ser uma</p><p>mulher cristã no século XVIII, e os escritos, mais uma vez, desempenham</p><p>papel crucial nos capítulos. Anne Dutton, uma autora teóloga altamente</p><p>competente, ajudou ao atuar como guia espiritual em seus livros; Sarah</p><p>Edwards, que praticamente não deixou nenhuma pegada impressa, embora</p><p>isso revele o modo como as mulheres cristãs tiveram experiências profundas</p><p>de Deus para a bênção da Igreja; Anne Steele é pioneira entre as mulheres</p><p>compositoras de hinos, com os quais as mulheres auxiliaram o louvor</p><p>congregacional por meio da canção e da melodia; o diário de Esther Edwards</p><p>Burr, filha de Sarah Edwards, é uma janela fabulosa com vista para a amizade</p><p>cristã, uma área da vida cristã há tanto tempo negligenciada. Ann Judson foi</p><p>uma missionária pioneira com seu marido e se tornou uma espécie de ícone</p><p>por gerações de mulheres missionárias que a seguiram; e, finalmente, há um</p><p>capítulo sobre Jane Austen, de longe a mulher mais famosa entre todas as</p><p>apresentadas neste livro, que também era uma cristã séria, embora isso não</p><p>seja lembrado com frequência.</p><p>Que o Espírito Santo se agrade de usar este livro para o bem tanto de</p><p>homens como de mulheres na Igreja do Senhor Jesus.</p><p>Dundas, Ontário</p><p>31 de julho de 2015</p><p>1. Lisa L. Moore e Joanna Brooks, “Introduction”, em Transatlantic Feminisms in the Age of</p><p>Revolution, ed. Lisa L. Moore, Joanna Brooks e Caroline Wigginton (Oxford, UK: Oxford University</p><p>Press, 2012), 7.</p><p>2. Ver Jacqueline Broad, “Margaret Fell”, na Stanford Encyclopedia of Philosophy. Acesso em 31 jul.</p><p>2015. Disponível em http://plato.stanford.edu/entries/margaret-fell/. Fox já tinha escrito The Woman</p><p>Learning in Silence (1656), desafiando aqueles que limitavam o Espírito de Deus a “homens estudados,</p><p>velhos livros e [velhos] autores” e não permitiam que as mulheres falassem na igreja.</p><p>3. Sobre Simmonds, ver Patricia Crawford, “The Challenges to Patriarchalism: How Did the</p><p>Revolution Affect Women?”, em Revolution and Restoration England in the 1650s, ed. John Morrill</p><p>(London: Collins & Brown, 1992), 122.</p><p>4. Broad, “Margaret Fell”.</p><p>5. Ver B. R. White, The English Baptists of the Seventeenth Century, vol. 1, A History of the English</p><p>Baptists (Oxfordshire, UK: Baptist Historical Society, 1996), 136.</p><p>6. Citado em ibid., 147.</p><p>7. Ibid., 148–49.</p><p>8. Richard L. Greaves, “The Role of Women in Early English Nonconformity”, Church History 52</p><p>(1983): 301–2.</p><p>9. Amanda Porterfield, “Women’s Attraction to Puritanism”, Church History 60 (1991): 205.</p><p>10. Greaves, “Role of Women in Early English Nonconformity”, 302; Claire Cross, “‘He-Goats Before</p><p>the Flocks’: A Note on the Part Played by Women in the Founding of Some Civil War Churches”, in</p><p>Popular Belief and Practice, ed. G. J. Cuming e Derek Baker (Cambridge, UK: Cambridge University</p><p>Press, 1972), 195–98; Anne Laurence, “A Priesthood of She-Believers: Women and Congregations in</p><p>Mid-Seventeenth-Century England”, em Women in the Church, ed. W. J. Sheils e Diana Wood</p><p>(Oxford, UK: Basil Blackwell for the Ecclesiastical History Society, 1990), 350–51; White, English</p><p>Baptists of the Seventeenth Century, 146.</p><p>11. Crawford, “Challenges to Patriarchalism”, 123.</p><p>12. Roger Gryson, Le Ministère des femmes dans l’Église ancienne (Gembloux, France: Editions J.</p><p>Duculot, S. A., 1972), 25. Ver também H. Wayne House, “The Ministry of Women in the Apostolic</p><p>and Postapostolic Periods”, Bibliotheca Sacra 145 (1988): 387–88.</p><p>13. Eric Metaxas, Seven Men: And the Secret of Their Greatness (Nashville: Thomas Nelson, 2013).</p><p>14. Jamie Janosz, When Others Shuddered: Eight Women Who Refused to Give Up (Chicago: Moody,</p><p>2014).</p><p>http://plato.stanford.edu/entries/margaret-fell/</p><p>01</p><p>O testemunho de Jane Grey, uma</p><p>rainha protestante</p><p>“Somente a fé justifica”</p><p>A data é 10 de fevereiro de 1554. Estamos em um quarto na Torre de</p><p>Londres, onde Lady Jane Grey (1537–1554), que havia sido rainha da</p><p>Inglaterra por pouco mais de uma semana no ano anterior – de 10 a 19 de</p><p>julho de 1553 –, está aprisionada. Ela foi condenada à morte por sua prima,</p><p>Maria I (1516–1558), também conhecida por “Bloody Mary”. Embora Mary,</p><p>uma católica romana ultraconservadora, esteja determinada a dar um fim à</p><p>vida terrena de Jane, também quer salvar a alma da prima. Por isso, enviou</p><p>um de seus capelães mais capacitados, um monge beneditino chamado John</p><p>Feckenman (c. 1515–1584), para falar com Jane e convencê-la de seus erros</p><p>teológicos.15 Feckenham não era nenhum novato no debate teológico, visto</p><p>que havia argumentado com diversos teólogos protestantes importantes do</p><p>começo dos anos 1550, homens como John Hooper (1500–1555) e John</p><p>Jewel (1522–1571). É possível que ele tenha pensado que uma jovem como</p><p>Jane encontraria dificuldade para resistir à sua capacidade de raciocínio.</p><p>Após a partida de Feckenham, Jane fez o registro desse diálogo. De acordo</p><p>com o relato dela – e não temos relato similar de Feckenham, embora não</p><p>pareça haver motivo para duvidar da veracidade da recordação de Jane –,</p><p>depois de ela haver confessado sua fé na triunidade de Deus, ela afirmou que</p><p>as pessoas são salvas somente pela fé. Feckenham respondeu citando 1Co</p><p>13.2: “Ainda que eu tenha tamanha fé... se não tiver amor, nada serei”. Em</p><p>outras palavras, Feckenham estava persistindo na ideia de que a salvação</p><p>resultava tanto da fé como do amor demonstrado pelas boas obras. Jane</p><p>manteve sua posição:</p><p>Jane: É verdade, pois como posso amar alguém em quem não confio? Ou como</p><p>posso confiar em quem não amo? A fé e o amor caminham juntos, em</p><p>consonância, embora o amor esteja compreendido na fé.</p><p>Feckenham: Como podemos amar o nosso próximo?</p><p>Jane: Amar o nosso próximo é alimentar os famintos, vestir aquele que está nu e</p><p>dar de beber aos sedentos, e fazer a ele o que faríamos a nós mesmos.</p><p>Feckenham: Por que, então, é necessário fazer boas obras para a salvação e crer</p><p>apenas não é suficiente?</p><p>Jane: Isso, eu nego e afirmo que somente a fé salva. Mas é apropriado para os</p><p>cristãos, como sinal de que eles seguem seu mestre, Cristo, fazer boas obras, mas,</p><p>apesar disso, não podemos dizer que elas tenham proveito para a salvação. Pois,</p><p>embora todos nós façamos tudo o que podemos, ainda</p><p>266. Esse sermão foi pregado pela primeira vez em Calcutá, em 27 de setembro. Carey julgou que se</p><p>tratasse de “um discurso bem excelente” (Letter to John Williams, 20 out. 1812, citado em Williams</p><p>and Williams, eds., Serampore Letters, 144), e “o melhor sermão sobre batismo que já li” (Letter to</p><p>William Staughton, 20 out. 1812, citado em James D. Knowles, Memoir of Mrs. Ann H. Judson, 2nd ed.</p><p>[London: Wightman & Cramp, 1829], 66).</p><p>267. Ver Anderson, To the Golden Shore, 103–14. Há muito considero a obra de Anderson sobre a vida</p><p>de Adoniram Judson o melhor trabalho escrito sobre o missionário americano. Nunca me esquecerei da</p><p>profunda impressão que o livro teve sobre mim ao lê-lo em um verão, no início dos anos 1990, na casa</p><p>de campo de meu cunhado em Port Elgin, Ontário.</p><p>268. Ver Judson, Christian Baptism, 62, n.*.</p><p>269. Para um esboço da vida de Austin, ver William B. Sprague, Annals of the American Pulpit:</p><p>Congregationalists (New York: Robert Carter & Brothers, 1857), 2:221–28.</p><p>270. Adoniram Judson, Christian Baptism, [3]. Luther Rice também se beneficiou de ler Brackney,</p><p>Dispensations of Providence, 73. Ver a discussão desse livro feita por Sharon James, “Abraham</p><p>Booth’s Defence of Believer’s Baptism by Immersion: A Summary”, em “The First Counsellor of Our</p><p>Denomination”: Studies on the Life and Ministry of Abraham Booth (1734–1806), ed. Michael A. G.</p><p>Haykin e Victoria J. Haykin (Springfield, MO: Particular Baptist Press, 2011), 132–62. Abraham Booth</p><p>foi descrito por Andrew Fuller, alguém que o conhecia bem, como “o primeiro conselheiro da nossa</p><p>denominação”, quer dizer, os batistas ingleses. Citado em Ernest Payne, “Abraham Booth, 1734–1806”,</p><p>Baptist Quarterly 26 (1975–1976): 28.</p><p>271. Judson, Christian Baptism, 76–77, n.‡, onde se faz referência a A Treatise of Baptism. Para dois</p><p>estudos da vida e da carreira de Danvers, ver G. Eric Lane, Henry Danvers: Contender for Religious</p><p>Liberty (n.p.: Fauconberg Press, 1972); e Richard L. Greaves, Saints and Rebels: Seven Nonconformists</p><p>in Stuart England (Macon, GA: Mercer University Press, 1985), 157–77.</p><p>272. Judson, Christian Baptism, 70, n.*; 76–77, n.‡. O esboço biográfico padrão de Gill é a obra de</p><p>John Rippon, A Brief Memoir of the Life and Writings of the Late Rev. John Gill, D.D. (repr.</p><p>Harrisonburg, VA: Gano, 1992). Para estudos mais recentes sobre Gill e sua teologia, ver George M.</p><p>Ella, John Gill and the Cause of God and Truth (Eggleston, CO: Go Publications, 1995); Michael A. G.</p><p>Haykin, ed., The Life and Thought of John Gill (1697–1771): A Tercentennial Appreciation (Leiden,</p><p>NL: E. J. Brill, 1997); e Timothy George, “John Gill”, em Theologians of the Baptist Tradition, rev.</p><p>ed., ed. Timothy George and David S. Dockery (Nashville: Broadman, 2001), 11–33.</p><p>273. Christian Baptism, 77, n.|| e 79, n.*, ambos citam a obra de Stennett An Answer to Mr. David</p><p>Russen’s Entitul’d Fundamentals without a Foundation, or a True Picture of the Anabaptists (London,</p><p>1704). Para a vida e o ministério de Stennett, ver especialmente “Some Account of the Life Of the</p><p>Reverend and Learned Mr. Joseph Stennett”, em The Works Of the late Reverend and Learned Mr.</p><p>Joseph Stennett (London, 1732), 1:3–36; R. L. Greaves, “Stennett, Joseph (1663–1713)”, em</p><p>Biographical Dictionary of British Radicals in the Seventeenth Century, ed. R. L. Greaves e Robert</p><p>Zaller (Sussex, UK: Harvester Press, 1984), 3:205–6; Allen Harrington e Martha Stennett Harrington,</p><p>“The Stennetts of England”. Acesso em 30 jul. 2015. Disponível em http://www.blue-</p><p>hare.com/stennett/tpgindex.htm#prefixa.</p><p>274. Citado em James, My Heart in His Hands, 55.</p><p>275. Wayland, Life and Labors of the Rev. Adoniram Judson, 1:86. Ver também a declaração de</p><p>Adoniram Judson quanto ao fato de ele passar a ser considerado por seus amigos congregacionais “um</p><p>batista fraco e desprezível”. Wayland, Life and Labors of the Rev. Adoniram Judson, 1:102.</p><p>276. Judson, Christian Baptism, 88.</p><p>277. Citado em S. Pearce Carey, William Carey, 8th ed. (London: Carey Press, 1934), 320.</p><p>278. William Carey, Joshua Marshman e William Ward, Letter to U.S. Baptist Board of Missions, 25 de</p><p>junho de 1816, em “English Baptist Mission”, American Baptist Magazine and Missionary</p><p>Intelligencer 1 (1817–1818): 186.</p><p>279. Citado em Sunil Kumar Chatterjee, Felix Carey (A Tiger Tamed) (Hooghly, West Bengal: Sunil</p><p>Kumar Chatterjee, 1991), 114. Para os notórios problemas em torno de Felix ser embaixador birmanês,</p><p>ver D. G. E. Hall, “Felix Carey”, Journal of Religion 12 (out. 1932): 484–91.</p><p>280. Em Ann H. Judson, An Account of the American Baptist Mission to the Burman Empire, 2nd ed.</p><p>(London: Joseph Butterworth, 1827), 43–45.</p><p>281. James, My Heart in His Hands, 82.</p><p>282. O primeiro esboço da Bíblia birmanesa inteira só foi concluído em janeiro de 1834. Judson,</p><p>porém, não ficou completamente feliz com esse primeiro esboço, então imediatamente começou a</p><p>revisá-lo. Foi apenas em 1840 que ele ficou satisfeito, e a Bíblia birmanesa completa foi publicada em</p><p>uma edição tipo quarto, algo que ele considerou sua maior realização literária. Francis Wayland</p><p>observou que Judson merece ser elencado junto com John Wycliffe (c. 1330–1384) e Martin Luther</p><p>(1483–1546) pela solidez e a excelência de seu trabalho de tradução.</p><p>283. Dana L. Robert, “Judson, Ann (‘Nancy’) (Hasseltine)”, em Biographical Dictionary of Christian</p><p>Missions, ed. Gerald H. Anderson (New York: Macmillan, 1998), 346.</p><p>http://www.blue-hare.com/stennett/tpgindex.htm#prefixa</p><p>08</p><p>A fé crista de Jane Austen</p><p>“O valor da santa religião”</p><p>Ao analisar os romances e escritos de Jane Austen, é absolutamente vital</p><p>lembrar que ela pertence ao “longo século XVIII”, que se estendeu da</p><p>Restauração da Monarquia (1660) ao fim da Era Georgiana (1830).284</p><p>Portanto, ela cresceu e viveu em um mundo no qual o Estado britânico e a</p><p>Igreja Anglicana eram considerados uma unidade orgânica. Foi apenas na Era</p><p>Vitoriana que essas duas esferas começaram a se separar, e muitos</p><p>romancistas vitorianos – de Charles Dickens (1812–1870) e Anthony</p><p>Trollope (1815–1882) a George Eliot (1819–1880) e Thomas Hardy (1840–</p><p>1928) – usaram o romance para criticar o cristianismo. Como Michael Giffin</p><p>nos lembra: “[Jane] Austen é uma anglicana devota que aceita as verdades</p><p>canônicas apresentadas nas Escrituras hebraicas e cristãs, e que está de</p><p>acordo com as verdades teológicas apresentadas no Livro Comum de Orações</p><p>(1662)”.285 Giffin, assim, argumenta que Austen deve ser lida como “uma</p><p>autora anglicana que escreve histórias cristãs”.286 Irene Collins, que ensinou</p><p>literatura inglesa por muitos anos na Universidade de Liverpool, concorda</p><p>veementemente com isso. Ela observa que o “número sem precedentes de</p><p>biografias de Jane Austen” que têm aparecido em anos recentes</p><p>falha em reconhecer um fato central sobre a autora: ela era uma pessoa</p><p>profundamente religiosa. Suas convicções cristãs ou têm sido ignoradas ou</p><p>mencionadas brevemente e com aparente relutância, como se representassem um</p><p>tópico constrangedor, passível de tornar Jane Austen inacessível aos leitores</p><p>atuais.287</p><p>Isso, contudo, não a impede de criticar os elementos do anglicanismo</p><p>georgiano.</p><p>Uma das figuras mais odiosas em suas novelas, por exemplo, é o Rev.</p><p>William Collins, um clérigo da Igreja da Inglaterra de alguma forma convicto</p><p>de sua própria importância, que aparece em Orgulho e preconceito (1813).</p><p>Austen era uma observadora astuta da natureza humana e também era</p><p>abençoada com uma perspicácia brilhante, e algumas das cenas mais</p><p>engraçadas da literatura inglesa foram escritas por ela. Observe sua descrição</p><p>do pedido de casamento de Collins à heroína do romance, Elizabeth Bennet.</p><p>Elizabeth considera o Rev. Collins “um homem bobo, cheio de si, pomposo e</p><p>de mente estreita”,288 mas tem de suportar seu pedido no meio do qual o</p><p>clérigo anglicano informa Elizabeth de suas três razões para querer se casar</p><p>com ela, o que revela a tolice sem limites do homem:</p><p>Minhas razões para me casar são, em primeiro lugar, o fato de eu achar que é a</p><p>coisa certa para todo clérigo em</p><p>circunstâncias favoráveis (como eu), ou seja, dar</p><p>o exemplo do matrimônio em sua paróquia. Em segundo lugar, estou convencido</p><p>de que isso irá somar bastante para a minha felicidade; e, terceiro, que talvez eu</p><p>devesse ter mencionado antes, que é o conselho e a recomendação específica da</p><p>nobre senhora a quem tenho a honra de chamar de protetora [uma mulher que</p><p>atende pelo nome de Lady Catherine de Bourgh, que havia assegurado a</p><p>indicação de Collin para sua paróquia]. Por duas vezes, ela condescendeu em me</p><p>dar sua opinião (também sem pedir!) nessa questão; ela disse: “Sr. Collins, você</p><p>deve se casar. Um clérigo como o senhor deve se casar. – Escolha</p><p>apropriadamente, escolha uma dama, por minha causa; e por você mesmo, que</p><p>ela seja o tipo de pessoa ativa e prestativa, que não tenha sido criada com luxo,</p><p>mas que seja capaz de passar bem com uma renda pequena. Esse é o meu</p><p>conselho”.289</p><p>Por outro lado, em Mansfield Park (1814), o herói é Edmund Bertram, que</p><p>está em busca de sua ordenação como clérigo anglicano. Na primeira cena</p><p>que alude explicitamente ao cristianismo, ele repreende um dos outros</p><p>personagens do romance, Mary Crawford, que é crítica da adoração</p><p>congregacional, a qual, a seu ver, mal pode ser séria mesmo em relação a</p><p>assuntos sérios.290 Então, próximo ao final do romance, Mary zomba de</p><p>Edmund, dizendo a ele que esperava ouvir dele “como um pregador</p><p>celebrado em alguma sociedade elevada de metodistas, ou um missionário em</p><p>terras estrangeiras”.291 Mas Jane não compartilha do tom zombador da</p><p>personagem. Como Edmund dissera a Mary Crawford anteriormente no livro</p><p>– e essa é a compreensão de Jane do que está envolvido no ministério</p><p>pastoral –, um ministro</p><p>está encarregado de tudo o que é de primeira importância para a humanidade,</p><p>considerado individual ou coletivamente, de modo temporal ou eterno (...) [e]</p><p>tem a guarda da religião e da moral e, consequentemente, das maneiras que</p><p>resultam da influência delas. (...) As maneiras de que eu falo podem até mesmo</p><p>ser chamadas de conduta, talvez, o resultado de bons princípios; o efeito, em</p><p>suma, dessas doutrinas, que é obrigação deles ensinar e recomendar.292</p><p>Na verdade, dos doze clérigos que aparecem em seus romances, apenas</p><p>“três são criticados” – o sr. Collins, aqui citado, o sr. Elton, em Emma, e o dr.</p><p>Grant, em Mansfield Park – e apresentados como figuras risíveis, por causa</p><p>de suas falhas pessoais. Mas não há um só indício de que Jane seja crítica de</p><p>sua vocação ou teologia per si.293 E ainda importa observar que o pai de Jane</p><p>era um clérigo anglicano, dois de seus irmãos foram ordenados – um deles,</p><p>Henry, era de fato evangélico294 – e cerca de oito de seus outros parentes</p><p>eram ministros.295</p><p>Após um panorama de sua vida e de seus romances, voltaremos o olhar</p><p>para a fé cristã de Jane Austen, como expressa abertamente em uma oração</p><p>que ela escreveu.</p><p>O contexto familiar de Jane</p><p>Jane Austen (1775–1817) nasceu em 16 de dezembro de 1775, no</p><p>presbitério anglicano de Steventon, Hampshire, a cerca de noventa</p><p>quilômetros a sudeste de Londres. Jane foi a sétima filha e segunda de duas</p><p>filhas mulheres de George Austen (1731–1805), pároco da Igreja de São</p><p>Nicolas do século XII em Steventon, e de sua esposa, Cassandra (1739–</p><p>1827), a filha mais nova de outro clérigo, Reverendo Thomas Leigh (1696–</p><p>1764), de Harpsden, Oxfordshire.</p><p>George Austen foi o filho único de William Austen (1701–1737),</p><p>cirurgião de Tonbridge, Kent. Quando William Austen morreu, aos trinta e</p><p>seis anos, em 1737 – sua esposa tinha morrido antes –, a responsabilidade</p><p>pelo bem-estar e pela educação de George e de suas irmãs, Philadelphia</p><p>(1730–1792) e Leonora (1732–1783), recaiu sobre Francis Austen (1698–</p><p>1791), tio deles. George, por fim, foi para John’s College, em Oxford. Em</p><p>março de 1754, ele foi ordenado diácono em Oxford e, em maio de 1755,</p><p>padre em Rochester, Kent. Seis anos depois, George Austen foi indicado para</p><p>a paróquia em Steventon, embora não tenha ido de fato para a paróquia até</p><p>1764, depois de seu casamento com Cassandra Leigh, a quem provavelmente</p><p>ele conheceu em Oxford.</p><p>George e Cassandra Austen tiveram seis filhos e outra filha:</p><p>• James (1765–1819), que se tornou vigário de aldeia e foi pároco de</p><p>Steventon depois da morte de seu pai.</p><p>• George (1766–1838), que era epilético, e aos seis anos foi enviado para</p><p>um lar, para receber cuidados especiais.</p><p>• Edward (1767–1852), que, em 1783, se tornou herdeiro da propriedade</p><p>de um segundo primo, de nome Thomas Knight; Edward tomou seu nome e,</p><p>no devido tempo, tornou-se o rico benfeitor de sua mãe, irmãos e irmãs.</p><p>• Henry Thomas (1771–1850), oficial do exército, banqueiro e</p><p>empreendedor e, finalmente, clérigo.</p><p>• Francis William (Frank) Austen (1774–1865), que se tornou um distinto</p><p>almirante.</p><p>• Charles John (1779–1852), que também entrou na Marinha e cresceu até</p><p>se tornar almirante.</p><p>• A filha mais velha deles, Cassandra Elizabeth (1773–1845), que morreu</p><p>sem se casar, tal como Jane.</p><p>Jane Austen foi batizada de modo privado no dia seguinte ao seu</p><p>nascimento, 17 de dezembro de 1775. Ela foi formalmente recebida na igreja</p><p>de seu pai, em Steventon, em 5 de abril de 1776.</p><p>Os primeiros anos de Jane296</p><p>A imagem-padrão da infância feliz de Jane Austen vem de seu sobrinho</p><p>(James) Edward Austen-Leigh (1798–1874), que, com a ajuda de sua meia-</p><p>irmã, Anna Austen (mais tarde, Lefroy; 1793–1872), e da irmã, Caroline</p><p>Austen (1805–1880), escreveu a primeira memória de Jane Austen, em 1870.</p><p>Um aspecto importante da infância de Jane exige menção. Em Orgulho e</p><p>preconceito (1813), a heroína, Elizabeth Bennet observa, no tocante à sua</p><p>própria criação e à de suas irmãs: “Sempre fomos encorajadas a ler”.297 O</p><p>mesmo podia ser dito de Jane. Além disso, ela e sua irmã mais velha,</p><p>Cassandra, eram inseparáveis. A mãe delas costumava dizer: “Se Cassandra</p><p>fosse cortar o cabelo, Jane insistia em compartilhar do mesmo destino”.298</p><p>Depois de uma vida como amigas próximas, não surpreende que, três dias</p><p>após a morte de Jane, Cassandra tenha escrito à sua sobrinha Fanny Knight:</p><p>“Perdi um tesouro tamanho, como irmã e como amiga, tesouro que jamais</p><p>poderá ser preenchido – ela era o sol da minha vida”.299 À exceção de dois</p><p>períodos breves estudando longe de casa – em Southampton (1783) e</p><p>Reading (1785–1786) –, Jane foi educada principalmente por seu pai e pelos</p><p>irmãos mais velhos.</p><p>Do início de 1787 a junho de 1793, Jane escreveu um grande número de</p><p>peças literárias e romances epistolares, conhecidos como sua juvenília.</p><p>Aqueles que ela desejou guadar, mais tarde copiou para três cadernos vazios</p><p>que ganhara de seu pai, nomeados como Primeiro Volume, Segundo Volume</p><p>e Terceiro Volume. No geral, existem vinte e sete obras nesses cadernos.</p><p>Jane Austen começou a trabalhar em Elinor and Marianne, uma versão</p><p>anterior de Razão e sensibilidade (1811), em junho de 1793 – diz-se que esse</p><p>romance teria sido lido para a família por volta de 1795. Possivelmente foi</p><p>nesse período que Austen também começou seu romance Lady Susan,</p><p>embora a cópia do manuscrito (agora na Biblioteca Pierpont Morgan, em</p><p>Nova Iorque) esteja sem título e tenha sido escrita em papel com a marca</p><p>d’água do ano de 1805.</p><p>Em agosto de 1796, Jane visitou seu irmão Edward e sua esposa,</p><p>Elizabeth, na primeira casa deles, uma grande fazenda em Kent. Foi durante</p><p>sua estada ali, ou imediatamente depois de voltar para casa, naquele mês de</p><p>outubro, que ela começou Orgulho e preconceito, ainda intitulado “Primeiras</p><p>impressões”. Jane tinha a mesma idade que a heroína do livro, Elizabeth</p><p>Bennet, no começo da composição (“ainda não completara vinte e um”).300</p><p>Esse, o primeiro de seus romances a ser concluído, foi finalizado em agosto</p><p>de 1797, e oferecido pelo pai dela ao editor Thomas Cadell em novembro</p><p>daquele ano. O editor declinou sem nem mesmo olhar o manuscrito. O título</p><p>seria mudado, porém, depois da publicação do romance First Impressions ou</p><p>The Portrait, de Margaret Holford (1757?–1834), em 1801. Austen o</p><p>renomeou Orgulho e preconceito, tirando a expressão de Cecilia</p><p>(1782), de</p><p>Fanny Burney (1752–1840), como seu novo título.</p><p>Nesse momento, Jane decidiu concluir seu outro romance que estava em</p><p>espera, o conto de duas irmãs, Elinor e Marianne. Ela trabalhou nele ao</p><p>mesmo tempo que em A Abadia de Northanger, uma paródia de ficção</p><p>gótica, que naquele momento causava furor, escrita por Jane de 1798 a 1799.</p><p>Intitulado Susan, aquele romance foi vendido por dez libras para um editor de</p><p>Londres chamado Crosby and Co., em 1803. Crosby, contudo, nunca o</p><p>publicou e segurou o manuscrito por seis anos. Jane o inquiriu sobre o</p><p>manuscrito em 1809 e, por fim, teve de pagar dez libras, em 1816, para</p><p>consegui-lo de volta! Ele foi publicado postumamente como Persuasão, em</p><p>1817.</p><p>Em 1800, George Austen subitamente decidiu mudar-se com a família</p><p>para Bath, enquanto seu filho mais velho, James, assumia como vigário na</p><p>paróquia de Steventon. Parece que Jane não ficou muito entusiasmada com a</p><p>chance de deixar a única casa que ela havia conhecido por vinte e cinco anos</p><p>de sua vida, embora, mais tarde, tenha aceitado a ideia de se mudar para Bath,</p><p>uma cidade da qual ela não gostava. Em dezembro do ano seguinte, quando</p><p>visitava a região de Steventon, Jane aceitou uma proposta de casamento de</p><p>um certo Harris Bigg-Wither, um homem socialmente desajeitado, seis anos</p><p>mais novo que ela, que gaguejava, e alguém a quem ela não amava. Alguns</p><p>anos mais tarde, ela aconselharia sua sobrinha: “Prefere-se ou suporta-se</p><p>qualquer coisa que não seja casar sem afeição”.301 Entretanto, durante a</p><p>noite, Jane pensou melhor na proposta e, no dia seguinte, rompeu o noivado.</p><p>Foi o mais próximo que Jane Austen parece ter chegado de um casamento.302</p><p>Uma autora publicada</p><p>Seu pai morreu em 1805 e, no ano seguinte, Jane, sua mãe e a irmã</p><p>deixaram Bath. Elas moraram em vários lugares, até que Edward, seu irmão,</p><p>que herdara uma grande propriedade, encontrou “uma casa espaçosa,</p><p>despretensiosa, com seis quartos, no centro da vila de Hampshire de</p><p>Chawton, perto da grande casa senhorial que pertencia a ele mesmo”.303 As</p><p>irmãs Austen e sua mãe se mudaram para lá em 7 de julho de 1809, e foi a</p><p>partir daí que a carreira de Austen como escritora com livros publicados teve</p><p>início. Razão e sensibilidade foi publicado em 1811, por Thomas Egerton,</p><p>um amigo do irmão de Jane, Henry. Essa obra foi publicada em três volumes</p><p>e custava 15 xelins. Provavelmente teve uma tiragem de mil exemplares ou</p><p>menos. Também foi um livro anônimo, com uma simples atribuição na</p><p>página do título: “Por uma dama”. A primeira edição se esgotou e deu a</p><p>Austen “140 libras, além dos direitos autorais”. Orgulho e preconceito</p><p>apareceu logo depois, em janeiro de 1813, ao preço de 18 xelins. Não se sabe</p><p>a tiragem, mas provavelmente foi algo em torno de 1.500 cópias. Foi um</p><p>sucesso enorme, mas Austen não teve lucro com ele além da primeira edição,</p><p>visto que Egerton é quem detinha os direitos autorais.</p><p>O planejamento de Mansfield Park – seu romance mais ambicioso e o</p><p>primeiro a ser completamente escrito em Chawton – começou pouco antes de</p><p>1811. De acordo com Cassandra, a obra foi finalizada pouco depois de junho</p><p>de 1813. Foi oferecido a Thomas Egerton possivelmente em janeiro de 1814,</p><p>sendo publicado em maio de 1814, ao preço de 18 xelins, provavelmente com</p><p>uma tiragem de 1.250 cópias. Em novembro, todas as cópias já estavam</p><p>vendidas, e o lucro de Austen foi de pelo menos 320 libras – mais do que ela</p><p>recebeu em toda a sua vida por qualquer um de seus romances.</p><p>O quarto romance de Austen, Emma, veio logo em seguida, em 1816. De</p><p>acordo com sua irmã, Cassandra, foi escrito rapidamente, em quatorze meses,</p><p>entre 21 de janeiro de 1814 e 29 de março de 1815. Austen ofereceu Emma</p><p>em agosto ou setembro de 1815 ao editor John Murray. Emma foi</p><p>devidamente anunciado em 1815 e publicado mais tarde naquele mesmo mês</p><p>(embora conste a data de 1816 na página do título). Murray imprimiu duas</p><p>mil cópias de Emma, o que se provou ser muita coisa. Em sua vida, Austen</p><p>recebeu apenas 48 libras e 13 xelins por Emma, o qual alguns consideram seu</p><p>melhor romance.</p><p>Um primeiro rascunho do quinto romance de Austen, Persuasão, “uma</p><p>reflexão sobre o amor romântico e o casamento”, foi escrito entre 8 de agosto</p><p>de 1815 e 18 de julho de 1816. Depois de trabalhar novamente em</p><p>Persuasão, em agosto de 1816, Jane escreveu um prefácio para A Abadia de</p><p>Northanger. Naquele outono, porém, ela caiu doente com uma variedade de</p><p>sintomas: náusea, diarreia e fadiga. Alguns estudiosos acreditam que</p><p>estivesse sofrendo da doença de Addison, mal que envolve a falência das</p><p>glândulas adrenais, na parte superior dos rins. Em sua biografia de Jane,</p><p>Carol Shields sugere câncer de mama.304</p><p>Austen mal pôde escrever naquele outono. No mês de maio seguinte – 24</p><p>de maio, para sermos exatos –, Cassandra levou Jane para Winchester, a fim</p><p>de se consultar com um médico e obter melhor assistência médica do que</p><p>estava disponível em Chawton. Por fim, foi tudo em vão. Na noite de 17 de</p><p>julho, Jane sentia muita dor. Cassandra perguntou à sua irmã se desejava</p><p>algo, ao que ela respondeu: “Nada além da morte”, uma citação da obra O</p><p>peregrino, e orou: “Deus me conceda paciência. Ore por mim. Ó, ore por</p><p>mim”.305</p><p>Ela morreu na rua College, número 8, Winchester, às quatro e meia da</p><p>tarde, nos braços de Cassandra. Em dezembro daquele mesmo ano, 1.750</p><p>cópias de Persuasão e de A Abadia de Northanger foram impressas juntas</p><p>por John Murray, prefaceadas pelo “Aviso biográfico sobre o autor”, de</p><p>Henry Austen, o primeiro reconhecimento impresso de Jane Austen como</p><p>autora de seus seis romances.</p><p>Certa vez, Jane Austen comparou seus romances ao “marfim no qual</p><p>trabalho com um pincel tão fino”.306 Todos eles têm limites definidos em</p><p>relação a seu conteúdo: lidam com o mundo em miniatura que Austen tão</p><p>bem conhecia: a aristocracia da classe média inglesa. As classes mais alta e</p><p>mais baixa realmente aparecem.307 E, enquanto os eventos entusiasmantes de</p><p>sua época recebem às vezes alguma alusão – como, por exemplo, as</p><p>revoluções americana e francesa, as guerras napoleônicas, os avivamentos</p><p>evangélicos do século XVIII e as revoltas da Revolução Industrial –, o que</p><p>assume posição central é a vida das poucas famílias da aristocracia da classe</p><p>média.308 Nas palavras de Peter Leithart, Jane “nos dá uma descrição densa</p><p>de pequenos eventos”309 e faz isso tão bem que é devidamente considerada a</p><p>mais proeminente romancista de sua época.310</p><p>A fé de Jane Austen</p><p>Jane “demonstra uma reserva anglicana quanto às afeições religiosas”,311 e</p><p>é muito interessada no cristianismo como formador da moral. Assim, não</p><p>causa surpresa o fato de que Jane não fosse protestante.312 De fato, em 1809,</p><p>Jane foi bem clara, ao se referir a um romance de Hannah More, dizendo à</p><p>sua irmã, Cassandra: “Não gosto dos protestantes”.313 Em 1814, porém, sua</p><p>atitude mudou. Conforme ela disse à sobrinha Fanny Knight (1793–1882):</p><p>“Não estou, de modo algum, convencida de que não devêssemos ser todos</p><p>protestantes. Estou certa de que aqueles que o são, de mente e sentimento,</p><p>devem sentir-se mais felizes e seguros”.314 Observa-se que seu romance</p><p>Mansfield Park, concluído não muito tempo depois desse comentário a Fanny</p><p>Knight, revela clara “simpatia pelo protestantismo”.315 Essa simpatia estava</p><p>especialmente centrada na crença que Jane e os evangélicos tinham em</p><p>comum: “Os cristãos devem estar de pé e trabalhando no mundo”.316 Por</p><p>exemplo, Mansfield Park aborda um tema caro ao coração de muitos</p><p>evangélicos no final do século XVIII: a abolição do comércio de escravos.317</p><p>Jane pôde, assim, escrever, no outono de 1814, em uma carta enviada a uma</p><p>amiga, Martha Lloyd (1765–1843), que a sua esperança nos estágios finais da</p><p>Guerra de 1812 era: “Se seremos arruinados, isso não pode ser evitado, mas</p><p>deposito minha esperança de coisas melhores em um pedido de proteção do</p><p>céu, como uma nação religiosa, uma nação que, apesar de tanto mal, avança</p><p>na religião, o que não posso acreditar que os americanos tenham”.318 É claro</p><p>que os protestantes haviam figurado, com bastante proeminência, na onda</p><p>de</p><p>avivamento religioso que varreu a Grã-Bretanha cerca de vinte anos antes,</p><p>um avivamento que havia assistido à vitória evangélica na abolição do</p><p>comércio de escravos.</p><p>Uma posição de vantagem para observar a fé de Jane é analisar uma das</p><p>três orações que foram atribuídas a ela e que provavelmente datam de sua</p><p>vida após a morte do pai dela, em 1805,319 embora existam dúvidas acerca da</p><p>autenticidade de duas delas.320 A terceira segue como veremos e realmente</p><p>parece ter sido escrita por Jane:</p><p>Dê-nos graça, poderoso Pai, tanto de orarmos como de merecermos ser ouvidos;</p><p>de nos dirigirmos a ti com nossos corações e também com nossos lábios. Tu estás</p><p>presente em todo lugar, de ti nenhum segredo pode ser escondido. Que o</p><p>conhecimento disso nos ensine a fixar nossos pensamentos em ti, com reverência</p><p>e a devoção de que não oramos em vão.</p><p>Olhe com misericórdia para os pecados que cometemos nesses dias e, com</p><p>misericórdia, faça-nos senti-los, para que nosso arrependimento seja sincero, e</p><p>nossas resoluções firmes de nos empenhar em não cometê-los no futuro. Ensina-</p><p>nos a entender a pecaminosidade de nosso próprio coração, e trazer ao teu</p><p>conhecimento cada falha de temperamento e cada mau hábito no qual temos</p><p>incidido em prejuízo de nossos companheiros e no perigo de nossas próprias</p><p>almas. Que possamos agora, e em cada noite, considerar como passamos o dia,</p><p>quais têm sido nossos pensamentos, palavras e ações predominantes e até que</p><p>ponto podemos nos inocentar do mal. Pensamos em ti de maneira irreverente,</p><p>desobedecemos a teus mandamentos, negligenciamos alguma obrigação</p><p>conhecida ou causamos dor a qualquer ser humano por vontade própria? Inclina-</p><p>nos a fazer essas perguntas ao nosso coração, ó, Deus, e livra-nos de enganar a</p><p>nós mesmos pelo poder ou a vaidade.</p><p>Dê-nos um senso de gratidão pelas bênçãos em que vivemos, dos muitos</p><p>consolos de tua parte; que não mereçamos perdê-las por descontentamento ou</p><p>indiferença.</p><p>Seja gracioso com nossas necessidades e nos guarde, e também a tudo que</p><p>amamos, do mal nesta noite. Que os doentes e aflitos sejam, agora e sempre,</p><p>cuidados por ti; e, de coração, oramos pela segurança de todo aquele que viaja</p><p>pela terra ou pelo mar, para o conforto e a proteção do órfão e da viúva, e que tua</p><p>piedade seja mostrada sobre todos os cativos e prisioneiros.</p><p>Acima de todas as outras bênçãos, ó, Deus, por nós mesmos e por nossos irmãos,</p><p>imploramos a ti que acelere nosso senso de tua misericórdia na redenção do</p><p>mundo, do valor daquela santa religião na qual fomos criados, e que nós, por</p><p>nossa própria negligência, não joguemos fora a salvação que nos tem dado, nem</p><p>sejamos cristãos apenas no nome. Ouça-nos, Deus poderoso, pelo nome daquele</p><p>que nos redimiu, e ensina-nos assim a orar:</p><p>Pai nosso, que estás nos céus, santificado seja o teu nome; venha o teu reino;</p><p>faça-se a tua vontade, assim na terra como no céu; o pão nosso de cada dia dá-</p><p>nos hoje; e perdoa-nos as nossas dívidas, assim como temos perdoado aos nossos</p><p>devedores; e não nos deixes cair em tentação; mas livra-nos do mal.</p><p>Pois teu é o reino, o poder e a glória para sempre. Amém.321</p><p>A linguagem dessa oração é claramente retirada do Livro Comum de</p><p>Orações, que era tão familiar a Jane.322 É expressa na primeira pessoa do</p><p>plural e não se trata de arte literária; é uma oração simples, sem adorno, a</p><p>Deus, para ser feita por um grupo de crentes em um contexto familiar,</p><p>provavelmente o próprio círculo familiar de Jane.323 Nessa oração, ela está</p><p>profundamente preocupada em não machucar o próximo, tema comum em</p><p>seus romances. Como Irene Collins afirma, “os personagens de Jane que</p><p>experimentam a verdadeira felicidade são aqueles que pensam nos outros”.324</p><p>Emma Woodhouse comenta sobre o personagem do sr. Weston em Emma:</p><p>“Benevolência geral, e não amizade geral, torna um homem o que ele deve</p><p>ser”.325 No mesmo romance, é a preocupação do sr. Knightley com o pai de</p><p>Emma e a senhorita Bates que se ergue como modelo de Jane para o</p><p>verdadeiro comportamento cristão.326</p><p>A nota da sinceridade de coração também corre ao longo da oração: “Dê-</p><p>nos graça, Pai poderoso, para nos aproximar de ti com nossos corações”, e ela</p><p>ora por “misericórdia”, para que possa “sentir” seus pecados</p><p>“profundamente” e que seu “arrependimento seja sincero”. Um comentário</p><p>escrito por Jane em 1814 na parte de trás de um dos sermões de seu irmão</p><p>James e que recentemente veio a lume sugere que a sinceridade religiosa era</p><p>intensamente valorizada por Jane: “Os homens podem adquirir o hábito de</p><p>repetir as palavras de nossas orações mecanicamente, talvez sem entendê-las</p><p>por completo – certamente sem sentir, em plenitude, sua força e seu</p><p>significado”.327 E, ligado a esse desejo por sinceridade, está o desejo por</p><p>autoconhecimento, a libertação do autoengano.328</p><p>Somente no final da oração, porém, é que ouvimos uma nota e um tom</p><p>especificamente cristãos, pois Jane pede a Deus que ela possa continuar a</p><p>valorizar a salvação e “aquela santa religião na qual [ela havia] sido criada”,</p><p>um clamor que é feito especificamente “em nome daquele que nos redimiu”.</p><p>E, com um fervor que se iguala ao de qualquer evangélico, Jane pede a Deus</p><p>que “acelere nosso senso de tua misericórdia na redenção do mundo”.329</p><p>Como Bruce Stovel observa, esses sentimentos nos dizem que “Jane Austen</p><p>tinha uma fé [cristã] religiosa profunda e sincera”.330 E esses são sentimentos</p><p>que foram endossados de coração por todas as mulheres que vimos nesta</p><p>obra.</p><p>284. Michael Giffin, “Jane Austen and Religion: Salvation and Society in Georgian England”,</p><p>Persuasions On-Line 23 (Winter 2002). Acesso em 30 jul. 2015. Disponível em:</p><p>http://www.jasna.org/persuasions/on-line/vol23no1/giffin.html. Ver também Gary Kelly, “Religion and</p><p>politics”, em The Cambridge Companion to Jane Austen, ed. Edward Copeland e Juliet McMaster</p><p>(Cambridge, UK: Cambridge University Press, 1997), 149.</p><p>285. Giffin, Jane Austen and Religion: Salvation and Society in Georgian England (New York:</p><p>Palgrave Macmillan, 2002), 5.</p><p>286. Ibid., 27.</p><p>287. Irene Collins, Jane Austen: The Parson’s Daughter (1998; repr. New York: Hambledon</p><p>Continuum, 2007), xi.</p><p>288. Jane Austen, Pride and Prejudice (New York: Alfred A. Knopf, 1991), 128 (chap. 24).</p><p>289. Ibid., 100–101 (cap. 19).</p><p>290. Jane Austen, Mansfield Park (New York: Alfred A. Knopf, 1992), 89 (vol. 1, cap. 9).</p><p>291. Ibid., 472 (vol. 3, cap. 16).</p><p>292. Ibid., 94–95, 96 (vol. 1, cap. 9).</p><p>293. Collins, Jane Austen, 46–47.</p><p>294. Peter Leithart, Miniatures and Morals: The Christian Novels of Jane Austen (Moscow, ID: Canon</p><p>Press, 2004), 15.</p><p>295. Collins, Jane Austen, 46.</p><p>296. Para o esboço da vida de Jane Austen, fiz bastante uso da obra de Marilyn Butler, Jane Austen</p><p>(Oxford, UK: Oxford University Press, 2007). É o mesmo que Marilyn Butler, “Austen, Jane (1775–</p><p>1817)”, Oxford Dictionary of National Biography (Oxford University Press, 2004); online ed., acesso</p><p>em 8 out. 2013. Disponível em: http://www.oxforddnb.com.libaccess.lib.mcmaster.ca/view/article/904.</p><p>297. Austen, Pride and Prejudice, 156 (cap. 29). Ver também Fiona Stafford, Brief Lives: Jane Austen</p><p>(London: Hesperus Press, 2008), 49.</p><p>298. Citado em James Edward Austen-Leigh, A Memoir of Jane Austen, 4th ed. (London: Richard</p><p>Bentley & Son, 1879), 15.</p><p>299. Citado em William Austen-Leigh e Richard Arthur Austen-Leigh, Jane Austen: A Family Record,</p><p>rev. Deirdre Le Faye (New York: Konecky & Konecky, 1989), 240.</p><p>300. Austen, Pride and Prejudice, 157 (cap. 29).</p><p>301. Carta para Fanny Knight, 18-20 nov. 1814. Jane Austen’s Letters, 4th ed., ed. Deirdre Le Faye</p><p>(Oxford, UK: Oxford University Press, 2011), 292.</p><p>302. Ver Stafford, Brief Lives: Jane Austen, 56–57.</p><p>303. Butler, Jane Austen, 53.</p><p>http://www.jasna.org/persuasions/on-line/vol23no1/giffin.html</p><p>http://www.oxforddnb.com.libaccess.lib.mcmaster.ca/view/article/904</p><p>304. Carol Shields, Jane Austen (New York: Penguin, 2001), 173–74.</p><p>305. Citado em David Nokes, Jane Austen: A Life (Berkeley, CA: University of California Press,</p><p>1997), 518.</p><p>306. Carta para Edward Knight, 16-17 dez. 1816.</p><p>Le Faye, Jane Austen’s Letters, 337.</p><p>307. Leithart, Miniatures and Morals, 16–17.</p><p>308. Ibid., 14.</p><p>309. Ibid., 30.</p><p>310. Collins, Jane Austen, 236.</p><p>311. Leithart, Miniatures and Morals, 31; Collins, Jane Austen, 236: “Religion was to her [that is, Jane]</p><p>a private matter: to discuss it in a novel would have been a breach of good taste”.</p><p>312. Ver a discussão de John Wiltshire, The Hidden Jane Austen (Cambridge, UK: Cambridge</p><p>University Press, 2014), 82–84.</p><p>313. Carta para Cassandra, 24 jan. 1809. Le Faye, Jane Austen’s Letters, 177. Sobre a influência de</p><p>Hannah More nesse período, ver Irene Collins, Jane Austen and the Clergy (New York: Hambledon &</p><p>London, 1994), 145–47. Ver também Collins, Jane Austen, 216–17 sobre a antipatia de Jane quanto à</p><p>pregação evangélica. Para outras áreas em que Jane discordava do protestantismo, ver Collins, Jane</p><p>Austen and the Clergy, 186–88.</p><p>314. Carta a Fanny Knight, 18-20 nov. 1814, em Le Faye, Jane Austen’s Letters, 292.</p><p>315. Kelly, “Religion and politics”, in Copeland and McMaster, eds., Cambridge Companion to Jane</p><p>Austen, 156.</p><p>316. Collins, Jane Austen and the Clergy, 185.</p><p>317. Ibid.</p><p>318. Carta a Martha Lloyd, 2 set. 1814, em Le Faye, Jane Austen’s Letters, 285.</p><p>319. Austen-Leigh e Austen-Leigh, Jane Austen, 274n57.</p><p>320. Wiltshire, Hidden Jane Austen, 78–79. Para a história textual das orações, ver Jane Austen,</p><p>Catharine and Other Writings, ed. Margaret Anne Doody e Douglas Murray (Oxford, UK: Oxford</p><p>University Press, 1993), 283–84; Bruce Stovel, “‘A Nation Improving in Religion’: Jane Austen’s</p><p>Prayers and Their Place in Her Life and Art”, Persuasions: A Publication of the Jane Austen Society of</p><p>North America, 16 (1994): 185–186.</p><p>321. Encontrado em Jane Austen, Catharine and Other Writings, ed. Doody and Murray, 247–48. Ver</p><p>também The Prayers of Jane Austen (Eugene, OR: Harvest, 2015).</p><p>322. Collins, Jane Austen and the Clergy, 194; Wiltshire, Hidden Jane Austen, 79.</p><p>323. Stovel, “A Nation Improving in Religion”, 185–196, passim.</p><p>324. Collins, Jane Austen, 50. Ver também Wiltshire, Hidden Jane Austen, 79.</p><p>325. Jane Austen, Emma, ed. Fiona Stafford (1816; repr. London: Penguin, 1996), 264 (vol. 3, cap. 2).</p><p>326. Collins, Jane Austen, 50–51.</p><p>327. Sam Marsden, “New Jane Austen manuscript criticises ‘men repeating prayers by rote,’” The</p><p>Telegraph (3 fev. 2014). Acesso em 31 jul. 2015. Disponível em</p><p>http://www.telegraph.co.uk/culture/books/booknews/10615541/New-Jane-Austen-manuscript-</p><p>criticises-men-repeating-prayers-by-rote.htm.</p><p>328. Stovel, “A Nation Improving in Religion”, 193.</p><p>329. Collins, Jane Austen and the Clergy, 194.</p><p>330. Stovel, “A Nation Improving in Religion”, 189.</p><p>http://www.telegraph.co.uk/culture/books/booknews/10615541/New-Jane-Austen-manuscript-criticises-men-repeating-prayers-by-rote.htm</p><p>O Ministério Fiel visa apoiar a igreja de Deus, fornecendo conteúdo fiel às</p><p>Escrituras através de conferências, cursos teológicos, literatura, ministério</p><p>Adote um Pastor e conteúdo online gratuito.</p><p>Disponibilizamos em nosso site centenas de recursos, como vídeos de</p><p>pregações e conferências, artigos, e-books, audiolivros, blog e muito mais. Lá</p><p>também é possível assinar nosso informativo e se tornar parte da comunidade</p><p>Fiel, recebendo acesso a esses e outros materiais, além de promoções</p><p>exclusivas.</p><p>Visite nosso website</p><p>www.ministeriofiel.com.br</p><p>http://www.ministeriofiel.com.br/</p><p>Folha de rosto</p><p>Copyright</p><p>Sumário</p><p>Prefácio</p><p>Introduçao</p><p>1. O testemunho de Jane Grey, uma rainha protestante</p><p>2. O testemunho de Richard Baxter sobre Margaret Baxter</p><p>3. Anne Dutton e suas obras teológicas</p><p>4. Sarah Edwards e a visão de Deus</p><p>5. Anne Steele e seus hinos</p><p>6. Esther Edwards Burr sobre a amizade</p><p>7. Ann Judson e o projeto missionário</p><p>8. A fé crista de Jane Austen</p><p>Ministério Fiel</p><p>assim somos servos</p><p>inúteis, e somente a fé no sangue de Cristo salva.16</p><p>Quem foi essa jovem extraordinária e como ela chegou a essa situação</p><p>crítica na infame Torre de Londres? Sob alguns aspectos, é difícil contar a</p><p>história de Jane, visto que não pode ser compreendida sem que se leve em</p><p>conta a política em torno de sua vida. Assim, ao lembrarmos sua história,</p><p>embora nosso foco se volte para sua fé cristã, o cenário político não pode ser</p><p>ignorado. Jane era neta da irmã mais nova e favorita de Henrique VIII (1491–</p><p>1547), Maria Tudor (1496–1533), e, portanto, era sobrinha-neta daquele</p><p>malicioso monarca. Ao longo da vida, Jane foi a quarta na linha de sucessão</p><p>ao trono inglês após os três filhos de Henrique – Eduardo VI (1537–1553),</p><p>Maria e Elizabete (1533–1603) – e foi coroada depois da morte de seu primo</p><p>Eduardo VI, em 1553. Assim, qualquer reflexão acerca da vida de Jane</p><p>envolve, inevitavelmente, observar a política da época.</p><p>O início da vida de Jane</p><p>Jane Grey foi filha de Henry Grey (1517–1554), o Marquês de Dorset, e</p><p>sua esposa, Frances (1517–1559), sobrinha de Henrique VIII. Jane nasceu em</p><p>Bradgate Manor, a suntuosa casa que possuíam em Leicestershire, no começo</p><p>de outubro de 1537. Seu nome parece ter sido uma homenagem à então</p><p>rainha, Jane Seymour (c. 1508–1537), a terceira esposa de Henrique VIII e</p><p>mãe do futuro Eduardo VI.</p><p>Os pais de Jane eram extremamente ambiciosos e cruéis, pessoas que não</p><p>retrocediam diante de nada. A princípio, eles esperavam casar Jane com</p><p>Eduardo, o único filho de Henrique VIII, que tinha nascido no mesmo mês de</p><p>Jane. Por isso, impuseram à menina um sistema rígido de educação, exigindo</p><p>que ela dominasse línguas como latim, grego, francês e italiano, a fim de se</p><p>tornar atraente ao futuro monarca. Em 1546, quando tinha nove anos, Jane foi</p><p>enviada à corte de Henrique, a fim de viver sob a guarda da Rainha Catherine</p><p>Parr (1512–1548), a sexta e última esposa de Henrique VIII. Tudo isso fazia</p><p>parte do esquema egoísta de seus pais de casá-la com Eduardo e, assim,</p><p>melhorar seu status na sociedade. Mas, segundo a providência de Deus, isso</p><p>fez com que Jane ficasse sob a influência de Catherine Parr, uma das</p><p>mulheres mais charmosas e inteligentes da época, alguém que, ademais, era</p><p>uma cristã genuína. Nas palavras de um de seus capelães: “Sua bondade rara</p><p>fazia com que todo dia fosse domingo”.17 Parece que foi durante essa</p><p>temporada na casa da Rainha Catherine que Jane adquiriu fé viva em</p><p>Cristo.18 Como Paul Zahl observou, Catherine foi “a verdadeira mãe de Jane</p><p>no cristianismo”.19</p><p>Em 1547, no entanto, com a morte de Henrique VIII, Catherine Parr ficou</p><p>viúva e, em consequência, Jane logo retornou para a casa de seus pais.</p><p>Henrique foi substituído no trono por seu filho Eduardo, que foi coroado</p><p>Eduardo VI, em 20 de fevereiro de 1547. Ele tinha apenas nove anos de</p><p>idade. Apesar disso, Eduardo estava cercado de vários conselheiros piedosos,</p><p>entre eles, Thomas Cranmer (1489–1556), o Arcebispo de Canterbury, que</p><p>estava determinado a tornar a Inglaterra o bastião da fé reformada.20 O</p><p>grande reformador francês João Calvino (1509–1564) de fato escreveu uma</p><p>carta ao guardião de Eduardo, seu tio Eduardo Seymour (c. 1500–1552), em</p><p>que comparava Eduardo VI ao Rei Josias. E, com o tempo, o jovem monarca</p><p>inglês foi realmente como Josias, desejoso de que seus súditos aprendessem a</p><p>verdade bíblica. Entre uma centena de tratados que saíram das mãos de</p><p>Eduardo, uma boa parte evidencia, de forma clara, seu comprometimento</p><p>com a fé evangélica.</p><p>Quando Jane retornou à casa dos pais, em Bradgate, parece que eles a</p><p>viram como um “símbolo de fracasso e esforços em vão – e a trataram à</p><p>altura”.21 A reação de Jane foi entregar-se aos estudos. Jane começou a se</p><p>sobressair no grego e até começou a se corresponder com alguns</p><p>reformadores do continente europeu, como Martin Bucer (1491–1551), que,</p><p>na ocasião, vivia em Cambridge, e Heinrich Bullinger (1504–1575), de</p><p>Zurique.22 Ela estava crescendo na graça e se tornando bem articulada em sua</p><p>fé, embora haja evidência de que ela tivesse uma personalidade muito forte e,</p><p>às vezes, mostrasse um lado bastante teimoso, como muitos outros de seus</p><p>parentes Tudor.23</p><p>Casamento e morte de Eduardo</p><p>Na primavera de 1552, o Rei Eduardo contraiu sarampo e, sem tempo para</p><p>se recuperar, logo começou a apresentar sintomas de tuberculose. À medida</p><p>que o ano se passava, tornava-se cada vez mais claro para aqueles que</p><p>estavam próximos ao rei que ele não chegaria à idade adulta. O testamento de</p><p>Henrique VIII havia nomeado sua filha Mary como a próxima na linha de</p><p>sucessão ao trono. Se Eduardo não se casasse e gerasse um herdeiro, um</p><p>católico governaria a Inglaterra. O primeiro-ministro de Eduardo, John</p><p>Dudley (1504–1553), Duque de Northumberland, bem sabia que seria punido</p><p>por Maria em razão de seu apoio à causa protestante. Então, começou a</p><p>buscar um meio de evitar que ela se tornasse rainha. Jane Grey era a quarta na</p><p>linha de sucessão ao trono e representava, para Northumberland, sua única</p><p>chance real de manter o poder e o status que ele havia conquistado. Assim,</p><p>deu início a uma aproximação com Henry e Frances Grey e, no momento</p><p>apropriado, os convenceu a casar a filha deles, Jane, com seu filho, Guildford</p><p>Dudley (1535–1554).</p><p>No começo de maio de 1553, os pais de Jane disseram a ela que deveria</p><p>casar-se com Guildford. Embora Jane tenha protestado e se recusado</p><p>categoricamente, pois tinha aversão a Guildford, não obteve sucesso. Depois</p><p>de seu pai insultá-la e amaldiçoá-la, e sua mãe lhe dar uma surra terrível, ela</p><p>cedeu.24 Então, em 25 de maio de 1553, Jane se casou com Guildford em</p><p>Durham House, Londres.</p><p>Oito semanas depois, no dia 6 de julho de 1553, uma quinta-feira, o Rei</p><p>Eduardo, então com quinze anos, faleceu, cercado por seus conselheiros, que</p><p>se haviam reunido à beira de seu leito. Em seus últimos dias, encorajado por</p><p>John Dudley, mas também em consonância com seu próprio modo de pensar,</p><p>ele mudou o testamento de seu pai e fez de Jane sua herdeira. Suas duas</p><p>meias-irmãs, Maria e Elizabete, haviam sido deserdadas pelo pai antes da</p><p>morte de Henrique VIII, e Thomas Cranmer, o Arcebispo de Canterbury,</p><p>declarara as duas ilegítimas, de modo que, tecnicamente, nenhuma das duas</p><p>poderia herdar o trono.25</p><p>Jane não soube da morte de Eduardo até o dia 9 de julho, um domingo,</p><p>quando, então, foi informada de que deveria ir à residência do Duque de</p><p>Northumberland, a Syon House, em Isleworth, no Thames. Duas horas mais</p><p>tarde, quando Jane entrou na Syon House pelo lado do rio, ingressou primeiro</p><p>no que era chamado de Great Hall. Aos poucos, o recinto se encheu de</p><p>pessoas conhecidas de Jane, inclusive os membros do Conselho Privado e sua</p><p>família mais próxima, todos jurando defender, com a própria vida, o direito</p><p>dela ao trono.</p><p>Bastante comovida com a notícia da morte de seu primo, o rei, juntamente</p><p>com o choque de ouvir sua proclamação como rainha, Jane desmaiou.</p><p>Aparentemente, ninguém foi ajudá-la, até que ela, por fim, se reanimou por si</p><p>só, se levantou e, mostrando-se inflexível, insistiu que não era ela a rainha</p><p>por direito. Esse direito era de Maria. Dudley, então, respondeu: “Vossa</p><p>Graça age indevidamente consigo mesma e com sua casa”. Ele, então, narrou</p><p>os termos do testamento de Eduardo, que a nomeava como sua herdeira. Os</p><p>pais de Jane se juntaram a ela, exigindo que ela aceitasse. Com isso, ela se</p><p>ajoelhou em oração e encontrou força interior para dizer, um pouco depois,</p><p>ainda ajoelhada: “Se o que me é dado é legitimamente meu, que sua divina</p><p>Majestade me conceda a graça de poder governar para sua glória e serviço,</p><p>em benefício deste reino”.26</p><p>Rainha Jane</p><p>No dia seguinte, Jane foi levada de barco do Thames até a Torre de</p><p>Londres, onde, tradicionalmente, os monarcas permaneciam até o dia da</p><p>coroação. Foi, então, proclamado ao povo de Londres que “Jane, pela graça</p><p>de Deus, [é] Rainha da Inglaterra, França e Irlanda, Defensora da Fé e da</p><p>Igreja da Inglaterra e da Irlanda, sob Cristo na Terra, o Chefe Supremo”. A</p><p>maioria das pessoas teria ficado bastante surpresa,</p><p>visto que Jane era pouco</p><p>conhecida na capital. Além disso, teriam reconhecido Maria como herdeira</p><p>legítima, embora ela tivesse sido deserdada.</p><p>De 9 de julho, um domingo, a 19 de julho, uma quarta-feira, Lady Jane</p><p>Grey foi rainha. Ela assinou alguns documentos, talvez seis ao todo; teve um</p><p>jantar oficial e participou de um ou dois compromissos. Também se recusou,</p><p>de forma resoluta, a anuir com o pedido de seu marido e a exigência violenta</p><p>de sua sogra de que Guildford Dudley fosse coroado rei.</p><p>Nesse ínterim, tão logo Maria soube que Jane fora coroada rainha,</p><p>marchou em Londres com um exército, e todos, à exceção de um ou dois dos</p><p>cortesãos que haviam jurado defender Jane até a morte, evaporaram diante do</p><p>poderio militar de Maria. Até o próprio pai de Jane declarou Maria como a</p><p>rainha legítima, na esperança de que pudesse escapar com vida.27 É digno de</p><p>nota que Thomas Cranmer, o Arcebispo de Canterbury, não abandonou Jane</p><p>a seus inimigos. Quanto à própria Jane, uma testemunha ocular sugere que</p><p>ela parecia aliviada por não ser mais rainha. Ingenuamente, ela esperava que</p><p>lhe fosse permitido retornar para sua casa. Mas Maria – que logo viria a ser</p><p>Maria I – não confiava nela e a enviou à prisão na torre.</p><p>Jane condenada à morte</p><p>Em 24 de julho, o sogro de Jane, Dudley, que havia sido preso, também foi</p><p>posto na torre como prisioneiro. Na esperança de obter o perdão da rainha,</p><p>ele se retratou de suas crenças protestantes, dizendo que fora seduzido “pelos</p><p>ensinamentos falsos e errôneos” dos evangélicos. Ele reivindicou o direito de</p><p>frequentar a missa, no que foi atendido por Maria. Com desgosto, Jane viu,</p><p>de sua janela, o sogro ser levado à missa, e ouviram-na dizer: “Oro a Deus</p><p>para que nem eu nem algum amigo meu venhamos a morrer assim”. Um</p><p>breve alívio foi concedido a Dudley, mas ele não conseguiu escapar da morte,</p><p>sendo decapitado em 23 de agosto de 1553.</p><p>Jane e o marido, Guildford, filho de Dudley, foram a julgamento em 13 de</p><p>novembro. Ambos foram considerados culpados e sentenciados à morte. Mas</p><p>Jane realmente não esperava morrer dessa forma e, a princípio, é provável</p><p>que Maria tivesse pouca intenção de fazer cumprir a sentença. Contudo, uma</p><p>insurreição civil, conhecida como a Rebelião Wyatt, a fez mudar de ideia. Sir</p><p>Thomas Wyatt (1521–1554) reuniu um pequeno grupo de soldados em Kent</p><p>que ficaram irritados quando souberam que Maria planejava casar-se com o</p><p>Rei Filipe II da Espanha (1527–1598). Ao seu ver, a presença de um rei</p><p>espanhol católico no trono inglês era algo completamente impensável.</p><p>Wyatt conseguiu abrir caminho por Londres em 7 de fevereiro de 1554.</p><p>Mas, quando entrou na capital, os habitantes da cidade se recusaram a apoiar</p><p>sua causa, e a rebelião sucumbiu. Henry Grey, o pai de Jane, estava</p><p>estreitamente envolvido nesse levante, e esse envolvimento foi decisivo para</p><p>Maria ordenar que tirassem a vida de Jane. Em 7 de fevereiro de 1554, em</p><p>consequência disso, Maria assinou as sentenças de morte de “Guilford</p><p>Dudley e sua esposa”. Quando Henry Grey foi executado, deve-se mencionar,</p><p>afirmou que morria “na fé de Cristo, confiando ser salvo apenas pelo seu</p><p>sangue (e não por qualquer coisa frívola)”.28</p><p>A conversa com Feckenham</p><p>Foi assim que, alguns dias depois de sua sentença de morte ser assinada,</p><p>Jane conheceu John Feckenham, travando o diálogo já citado. Eis a conversa</p><p>na íntegra:</p><p>Feckenham diz primeiro: O que se requer de um cristão?</p><p>Jane: Crer em Deus Pai, em Deus Filho, em Deus Espírito Santo, três pessoas e</p><p>um Deus.</p><p>Feckenham: Não há nada mais necessário em um cristão além de crer em Deus?</p><p>Jane: Sim, devemos crer nele e amá-lo de todo o coração, de toda a nossa alma e</p><p>de todo o nosso entendimento, e também ao nosso próximo como a nós mesmos.</p><p>Feckenham: Por que, então, a fé não justifica nem salva?</p><p>Jane: De fato, somente a fé (como São Paulo afirma) justifica.</p><p>Feckenham: Por que Paulo diz: Se eu tiver tamanha fé sem amor, nada terei?</p><p>Jane: É verdade, pois como posso amar aquele em quem não confio? Ou como</p><p>posso confiar em quem não amo? A fé e o amor caminham juntos, em</p><p>consonância, embora o amor esteja compreendido na fé.</p><p>Feckenham: Como devemos amar o nosso próximo?</p><p>Jane: Amar o nosso próximo é alimentar o faminto, vestir aquele que está nu e</p><p>dar de beber ao sedento, e fazer ao próximo o que faríamos a nós mesmos.</p><p>Feckenham: Por que, então, é necessário fazer boas obras para a salvação e crer</p><p>apenas não é suficiente?</p><p>Jane: Isso, eu nego e afirmo que somente a fé salva. Mas é apropriado para os</p><p>cristãos, como sinal de que eles seguem seu mestre, Cristo, fazer boas obras, mas,</p><p>apesar disso, não podemos dizer que elas tenham proveito para a salvação. Pois,</p><p>embora todos nós façamos tudo o que podemos, ainda assim somos servos</p><p>inúteis, e somente a fé no sangue de Cristo salva.2</p><p>Feckenham: Quantos sacramentos existem?</p><p>Jane: Dois: Um é o sacramento do batismo, e o outro, o sacramento da Ceia do</p><p>Senhor.</p><p>Feckenham: Não, existem sete.29</p><p>Jane: Em que parte das Escrituras se encontra isso?</p><p>Feckenham: Bem, falaremos disso doravante. Mas o que significam seus dois</p><p>sacramentos?</p><p>Jane: Pelo sacramento do batismo, sou lavada com água e regenerada pelo</p><p>Espírito, e esse lavar é um sinal e uma lembrança para mim de que sou filha de</p><p>Deus. O sacramento da Ceia do Senhor me é oferecido como um selo e um</p><p>testemunho certo de que eu sou, pelo sangue de Cristo que ele derramou por mim</p><p>na cruz, feita copartícipe do reino eterno.</p><p>Feckenham: Por qual razão, o que você recebe nesse pão? Você não recebe o</p><p>próprio corpo e o sangue de Cristo?</p><p>Jane: Certamente, não, não creio assim. Penso que, nessa ceia, não recebo nem</p><p>carne nem sangue, mas tão somente pão e vinho. Pão que, quando é partido, e</p><p>vinho que, quando é bebido, trazem à minha mente como o corpo de Cristo foi</p><p>partido pelos meus pecados, e seu sangue derramado na cruz; e, com aquele pão e</p><p>aquele vinho, recebo os benefícios que vieram pelo ato de partir seu corpo e de</p><p>derramar seu sangue na cruz pelos meus pecados.</p><p>Feckenham: Por que, Cristo não diz estas palavras: “Tomai, comei; isso é o meu</p><p>corpo”?30 Precisamos de palavras mais óbvias? Ele não diz que aquele é o seu</p><p>corpo?</p><p>Jane: Concordo que ele disse isso e também afirmou: “Eu sou a videira, eu sou a</p><p>porta”,31 mas, apesar disso, ele nunca foi a videira nem a porta. São Paulo não</p><p>disse que ele chamou essas coisas que não são como se fossem?32 Deus me livre</p><p>que eu dissesse que como o próprio corpo natural e o sangue de Cristo, porque,</p><p>então, ou eu deveria arrancar minha redenção ou haveria dois corpos, ou dois</p><p>Cristos ou ainda dois corpos – um que foi atormentado na cruz e, então, se eles</p><p>realmente comeram outro corpo, então ou ele tinha dois corpos, ou, se seu corpo</p><p>foi comido, ele não foi partido na cruz, ou então, se ele foi partido na cruz, não</p><p>foi comido por seus discípulos.</p><p>Feckenham: Por que não é possível que Cristo, pelo seu poder, fizesse seu corpo</p><p>tanto ser comido como partido, assim como nascer de uma mulher sem a semente</p><p>do homem, e andar sobre o mar, tendo um corpo, e outros milagres que ele</p><p>realizou somente pelo seu poder?</p><p>Jane: Sim, de fato, se Deus desejasse fazer um milagre em sua ceia, poderia ter</p><p>feito, mas afirmo que ele não tinha em mente qualquer obra ou milagre além de</p><p>partir seu corpo e derramar seu sangue na cruz pelos nossos pecados. Mas peço</p><p>que você me responda a esta única pergunta: Onde estava Cristo quando ele</p><p>disse: “Tomai, comei; isso é o meu corpo”? Ele não estava à mesa quando disse</p><p>isso? Ele estava vivo naquele momento e, só no dia seguinte, começou o</p><p>sofrimento. Bem, o que ele tomou a não ser pão? E o que ele partiu a não ser</p><p>pão? E o que ele deu, além de pão? Veja, o que ele tomou, ele partiu, e veja, o</p><p>que ele partiu, ele deu; e veja, o que ele deu, foi isso que eles realmente</p><p>comeram; no entanto, tudo isso enquanto ele mesmo estava na ceia perante seus</p><p>discípulos; se não foi assim, eles foram enganados.</p><p>Feckenham: Você fundamenta sua fé nesses autores que dizem e desdizem,</p><p>ambos com um fôlego, e não na Igreja, a quem você deve</p><p>dar crédito.</p><p>Jane: Não. Fundamento a minha fé na Palavra de Deus, e não na Igreja. Pois, se a</p><p>Igreja é uma boa Igreja, a fé da Igreja deve ser provada pela Palavra de Deus, e</p><p>não a Palavra de Deus pela Igreja, nem mesmo a minha fé. Devo acreditar na</p><p>Igreja por causa de sua antiguidade? Ou devo dar crédito àquela Igreja que tira de</p><p>mim a metade da Ceia do Senhor, e não permite que os leigos a recebam em</p><p>ambos os tipos? Pois, ao nos negarem, negam-nos parte de nossa salvação, e eu</p><p>digo que essa é uma Igreja má, e não a Noiva de Cristo, mas a noiva do diabo,</p><p>que altera a Ceia do Senhor, e tanto retira dela como acrescenta a ela. A essa</p><p>Igreja, eu digo que Deus acrescentará pragas e, dessa Igreja, ele tirará sua parte</p><p>do Livro da Vida. Você não aprendeu com Paulo quando ele ministrou aos</p><p>coríntios com os dois tipos?33 Devo, então, acreditar nessa Igreja? Deus me livre!</p><p>Feckenham: Isso foi feito com uma boa intenção da Igreja, a fim de evitar uma</p><p>heresia que veio a lume nela.</p><p>Jane: Por que a Igreja alteraria a determinação do Senhor e suas ordenanças com</p><p>boa intenção? Como o Senhor definiu o Rei Saul?</p><p>Com essas e outras persuasões, ele teria feito com que eu me inclinasse para a</p><p>Igreja, mas isso não aconteceu. Houve muitas outras coisas que debatemos, mas</p><p>essas foram as principais.34</p><p>Essa conversa é importante porque mostra como Jane havia abraçado as</p><p>doutrinas centrais da Reforma como se fossem dela própria. De acordo com</p><p>Paul Zahl, é possível que houvesse outros presentes nessa conversa e, assim,</p><p>deve ter sido algo semelhante aos debates públicos que se desdobraram entre</p><p>os católicos romanos e os protestantes na era da Reforma.35 Isso explicaria a</p><p>forma como a conversa destaca as três áreas de controvérsia durante a</p><p>Reforma: Como homens e mulheres são salvos? Qual é o significado da Ceia</p><p>do Senhor? E com que base se articulam respostas a essas perguntas?</p><p>A respeito de como uma pessoa é salva, Jane mantém o que se tornara a</p><p>perspectiva protestante padrão: as pessoas são salvas somente pela fé. Não é a</p><p>fé e o amor ou a fé e as boas obras que salvam, mas somente a fé. Essa fé</p><p>envolve tanto o amor como as boas obras; assim, a verdadeira fé se</p><p>exterioriza em obras de amor e bondade. Mas Jane afirma, de modo</p><p>inequívoco, que a salvação se baseia, antes de tudo, na simples confiança em</p><p>Deus.</p><p>Então, na segunda temática de debate entre Jane e Feckenham, Jane insiste</p><p>no argumento de que a Ceia do Senhor é um memorial – [Os elementos]</p><p>“trazem à minha mente” – e um instrumento de garantia – é “um selo e um</p><p>testemunho certo” –, e de maneira alguma um evento em que o corpo físico e</p><p>o sangue de Cristo se tornam presentes para o cristão. Esta foi uma questão</p><p>decisiva na Reforma: Qual é a natureza da Ceia do Senhor e como Cristo está</p><p>presente à sua mesa?36 Embora não pudessem concordar entre si quanto à</p><p>natureza da presença de Cristo, todos os reformadores negavam a doutrina</p><p>católica romana do final da Idade Média da transubstanciação, no sentido de</p><p>que o pão e o vinho se tornariam os próprios corpo e sangue de Cristo durante</p><p>a celebração da Mesa do Senhor. Implicitamente, Jane também negou essa</p><p>doutrina ao rejeitar a ideia da unipresença do corpo de Cristo.37</p><p>Os reformadores também se opunham à prática católica romana de</p><p>oferecer apenas o pão, e não o vinho, aos leigos durante a Santa Ceia, uma</p><p>prática que se tornara quase uniforme no final da Idade Média. Para Jane, a</p><p>prática católica nesse quesito indicava que a Igreja de Roma era a noiva do</p><p>Diabo, e não de Cristo, visto que, de forma flagrante, alterava os</p><p>mandamentos de Cristo. Isso é parte de uma discussão maior que Feckenham</p><p>introduziu ao dizer que Jane estava ouvindo, não a Igreja, mas vários autores</p><p>individuais, os quais ele considerava hereges. A pergunta central do debate</p><p>entre Jane e Feckenham nesse ponto tinha a ver com a fonte da doutrina</p><p>fidedigna. Para Feckenham, a fonte era de fato as Sagradas Escrituras, mas as</p><p>Escrituras como eram interpretadas pelos mestres sancionados pela Igreja.</p><p>Jane, por outro lado, insistia em basear seu ponto de vista apenas na Palavra</p><p>de Deus. E era por essa Palavra que toda doutrina tinha de ser provada. Ela</p><p>claramente rejeitou a visão de que se devia crer apenas nas doutrinas</p><p>aprovadas pela Igreja Católica Romana.</p><p>Antes de Feckenham partir, disse que sentia muito por ela, acrescentando:</p><p>“Estou certo de que nós dois iremos nos encontrar”, quer dizer, encontrar no</p><p>céu, visto que ele considerava Jane uma herege. Confrontada com a</p><p>iminência da morte, a fé de Jane brilhou claramente, e ela respondeu:</p><p>A verdade é que nós dois nunca nos encontraremos, a não ser que Deus mude seu</p><p>coração. Pois estou certa (a não ser que você se arrependa e se volte para Deus)</p><p>de que você está em má situação, e eu oro a Deus, nas profundezas de sua</p><p>misericórdia, que lhe envie seu Espírito Santo. Pois, assim como ele deu a você o</p><p>grande dom da palavra, se agradar a ele, também abrirá os olhos de seu coração</p><p>para a verdade dele.38</p><p>Feckenham ficou tão impressionado com a coragem de Jane que perguntou</p><p>se poderia acompanhá-la ao cadafalso no dia de sua execução, que seria 12 de</p><p>fevereiro. Jane concordou, pois Maria havia recusado seu pedido de ter um</p><p>ministro evangélico para acompanhá-la.39</p><p>Algumas palavras finais</p><p>Naquela noite, Jane escreveu, em seu Novo Testamento em grego, uma</p><p>carta para sua irmã mais nova, Katherine (1540–1568):</p><p>Eu lhe envio, boa irmã Katherine, um livro que, embora não seja adornado com</p><p>ouro em seu exterior, no interior é mais valioso do que pedras preciosas. É esse o</p><p>livro, querida irmã, da Lei do Senhor. É o testamento dele, o qual ele deixou</p><p>como legado a nós, pecadores, e que poderá guiar você para o caminho da alegria</p><p>eterna. E, se você o ler com boa disposição e com o desejo sincero de segui-lo,</p><p>ele trará a você vida eterna e imortal. Ele a ensinará a viver e a morrer.</p><p>(…) E, ao se aproximar a minha morte, alegre-se como eu, boa irmã, que eu seja</p><p>liberta dessa corrupção e levada à incorrupção. Pois estou certa de que eu, ao</p><p>perder uma vida mortal, ganharei a vida que é imortal.40</p><p>Aqui, vemos três pontos sobre a fé de Jane. Ela sentia o mesmo amor da</p><p>Reforma pelas Escrituras: “É mais valioso do que pedras preciosas”.</p><p>Fundamental para esse amor foi a clara concepção de Jane sobre a razão pela</p><p>qual a Bíblia foi dada à humanidade por Deus: com o propósito de levar</p><p>pecadores – a quem Jane chamou de “nós, pecadores” – à “alegria eterna” e à</p><p>“vida imortal e eterna”. Vemos aqui também a profunda certeza de Jane</p><p>quanto à salvação, a mesma certeza que os reformadores também</p><p>costumavam afirmar.</p><p>Por que Jane tinha tanta certeza? Bem, um documento final que ela redigiu</p><p>na véspera de sua execução nos fala a esse respeito. Ela escreveu as três</p><p>sentenças seguintes em seu livro de oração: a primeira em latim, a segunda</p><p>em grego e a última em inglês:</p><p>Se a justiça foi feita com meu corpo, minha alma encontrará a misericórdia em</p><p>Deus. A morte trará dor ao meu corpo pelos seus pecados, mas a alma será</p><p>justificada perante Deus. Se as minhas falhas merecem punição, pelo menos</p><p>minha juventude e minha imprudência foram dignas de perdão; Deus e a</p><p>posteridade me mostrarão favor.41</p><p>Jane tinha certeza da salvação porque fora justificada diante de Deus, ou</p><p>seja, fora feita justa com Deus e, portanto, estava confiante em seu favor.</p><p>O fim terreno de Jane</p><p>Pouco antes das onze da manhã de 12 de fevereiro, Sir John Brydges</p><p>(1492–1557), o tenente da Torre de Londres, conduziu Jane até o cadafalso</p><p>que fora construído contra a parede da Torre Branca central, na esquina</p><p>noroeste (a esquina mais próxima da Capela Real de São Pedro ad</p><p>Vincula).42 No cadafalso, Jane encontrou Feckenham, juntamente com vários</p><p>outros capelães católicos. Uma testemunha registrou o que aconteceu em</p><p>seguida:</p><p>Ela subiu as escadas do cadafalso e, ali de pé, naquela manhã fria de fevereiro,</p><p>Jane falou brevemente ao pequeno agrupamento presente e fez questão de que</p><p>soubessem que ela morria como “uma cristã genuína”, dizendo: “Busco ser</p><p>salva</p><p>por nenhum outro meio além da misericórdia de Deus, no sangue de seu único</p><p>Filho, Jesus Cristo”. Então, ajoelhou-se e recitou o Salmo 51 em inglês. Em</p><p>seguida, Feckenham recitou em latim e, depois disso, Jane disse a ele: “Rogo a</p><p>Deus que ele o recompense abundantemente por sua bondade em meu favor”. Ele</p><p>ficou completamente sem palavras e começou a chorar. Ao ver a sua angústia,</p><p>Jane, ao que parece, inclinou-se e beijou-o na face, e por alguns momentos o</p><p>capelão católico romano e a rainha protestante ficaram de mãos dadas.43 Em</p><p>seguida, ela deu suas luvas à dama de companhia e seu livro de orações a Sir</p><p>John Brydges. O carrasco, depois de pedir perdão a Jane, por ela concedido,</p><p>mandou que ela ficasse próximo ao cepo para a execução. Ela, então, se ajoelhou,</p><p>amarrando um lenço em volta dos olhos desajeitadamente. Com os olhos</p><p>vendados, ela deveria estar diretamente de frente para o cepo e, assim, poderia</p><p>posicionar o pescoço facilmente no sulco do cepo, mas ela calculou mal a</p><p>distância. Impossibilitada de localizar o cepo, ela se mostrou ansiosa. “Onde</p><p>está? O que devo fazer?”, perguntou ela com a voz fraquejante. Ninguém,</p><p>contudo, se moveu para ajudá-la – talvez por não estarem dispostos a ser</p><p>cúmplices daquela morte.44 Finalmente, depois do que deve ter parecido uma</p><p>eternidade, um expectador subiu no cadafalso e a guiou ao cepo. Suas palavras</p><p>finais foram gritadas com a voz nítida: “Senhor, em tuas mãos entrego o meu</p><p>espírito”.</p><p>15. Seu nome verdadeiro era John Howman; ele nasceu em Feckenham, Worcestershire, e, como o</p><p>historiador J. Stephan Edwards observa, era comum na época que monges abandonassem o sobrenome</p><p>de suas famílias e, em seu lugar, usassem apenas seu primeiro nome e o nome da cidade em que haviam</p><p>nascido – assim, “John de Feckenham”, em uma entrevista com Justin Taylor, “The Execution of Lady</p><p>Jane Grey: 460 Years Ago Today”. Acesso em 27 jul. 2015. Disponível em</p><p>http://www.thegospelcoalition.org/blogs/justintaylor/2014/02/12/the-execution-of-lady-jane-grey-460-</p><p>years-ago-today/.</p><p>16. An Epistle of the Ladye Jane Whereunto is added the communication she had with Master</p><p>Feckenham... Also another epistle which she wrote to her sister, with the words she spake upon the</p><p>Scaffold before she suffered (n.p., 1554), [18–19], grafia modernizada. Essa fonte não é paginada. O</p><p>texto também pode ser encontrado em The Harleian Miscellany (London: Robert Dutton, 1808), 1:369–</p><p>71, com a grafia original com que Jane o escreveu.</p><p>17. Faith Cook, Lady Jane Grey: Nine Day Queen of England (Durham, UK: Evangelical Press, 2004),</p><p>39. A obra de Faith Cook tem sido muito útil no estudo de Jane Grey, assim como o breve ensaio de</p><p>Paul F. M. Zahl, Five Women of the English Reformation (Grand Rapids, MI: Eerdmans, 2001), 56–74.</p><p>Para uma biografia recente de Katherine Parr, juntamente com uma edição de alguns de seus escritos,</p><p>ver Brandon G. Withrow, Katherine Parr: A Guided Tour of the Life and Thought of a Reformation</p><p>Queen (Phillipsburg, NJ: P&R, 2009).</p><p>18. Cook, Lady Jane Grey, 43.</p><p>19. Zahl, Five Women, 59.</p><p>20. Sobre Cranmer, ver Michael A. G. Haykin, The Reformers and Puritans as Spiritual Mentors:</p><p>“Hope Is Kindled”, The Christian Mentor, vol. 2 (Ontário, Canadá: Joshua Press, 2012), 31–48.</p><p>21. “Lady Jane Grey – Biography: Jane and the Seymours – till Somerset’s fall (1549/1550)”. Acesso</p><p>em 27 jul. 2015. Disponível em http://www.geocities.ws/jane_the_quene/bio3.html.</p><p>22. Cook, Lady Jane Grey, 94–99.</p><p>23. Ibid., 93.</p><p>24. Ibid., 109–10.</p><p>25. Ibid., 116.</p><p>26. Ibid., 126–27.</p><p>27. Ibid., 135–41.</p><p>28. Citado em Zahl, Five Women, 66–67.</p><p>29. O catolicismo romano crê em sete sacramentos – batismo, confirmação, confissão auricular,</p><p>eucaristia, casamento, ordem e unção dos enfermos –, enquanto os protestantes, historicamente, se</p><p>apegaram a dois: batismo e Ceia do Senhor.</p><p>30. Marcos 14.22.</p><p>http://www.thegospelcoalition.org/blogs/justintaylor/2014/02/12/the-execution-of-lady-jane-grey-460-years-ago-today/</p><p>http://www.geocities.ws/jane_the_quene/bio3.html</p><p>31. João 10.9; 15.1–10.</p><p>32. Rm 4.17.</p><p>33. Ver 1Co 11.17–34.</p><p>34. Epistle of the Ladye Jane, [18–23].</p><p>35. Zahl, Five Women, 68.</p><p>36. Ibid., 69.</p><p>37. Ibid.</p><p>38. Epistle of the Ladye Jane, [24].</p><p>39. Cook, Lady Jane Grey, 187–88.</p><p>40. Epistle of the Ladye Jane, [25, 27].</p><p>41. Citado em Zahl, Five Women, 67n3.</p><p>42. J. Stephan Edwards, em entrevista com Justin Taylor, “The Execution of Lady Jane Grey”.</p><p>43. Citado em Cook, Lady Jane Grey, 198.</p><p>44. Ibid., 200.</p><p>02</p><p>O testemunho de Richard Baxter</p><p>sobre Margaret Baxter45</p><p>“Governado por seu amor prudente em muitas coisas”</p><p>Os cristãos nunca negaram, explicitamente, que o casamento é um bom</p><p>estado ordenado por Deus. Apesar disso, houve períodos na história da Igreja</p><p>em que, definitivamente, houve uma baixa consideração por essa instituição</p><p>vital. O teólogo do século IV Jerônimo (c. 347–420), por exemplo, que foi</p><p>responsável pela tradução da Bíblia para o latim, conhecida como Vulgata,</p><p>defendia, de forma contundente, a ideia de que o celibato era um estado</p><p>amplamente superior ao casamento, mais virtuoso e mais agradável a Deus.</p><p>Segundo Jerônimo, todos aqueles nas Escrituras que eram mais próximos do</p><p>Senhor eram celibatários. Jerônimo argumentava que a relação sexual entre</p><p>cônjuges representava um claro obstáculo para se levar uma vida devotada à</p><p>busca da espiritualidade genuína.46</p><p>As ideias de Agostinho (354–430), outro teólogo falante de latim e</p><p>contemporâneo de Jerônimo, fundamentaram boa parte do pensamento da</p><p>Idade Média. Agostinho defendia, igualmente, que o celibatário que se devota</p><p>a Cristo é como os anjos e experimenta um prelúdio do céu, pois lá não há</p><p>casamento.47 Por que, então, Deus ordenou o matrimônio? Na opinião de</p><p>Agostinho, em primeiro lugar, com a finalidade de procriação de filhos.</p><p>Comentando Gênesis 2, o teólogo estava convencido de que Eva não teria</p><p>serventia alguma para Adão se não fosse capaz de gerar filhos. O que dizer,</p><p>então, da ideia bíblica que se encontra no mesmo capítulo de Gênesis, de que</p><p>a mulher foi feita para ser uma companhia prazerosa para o homem, fonte de</p><p>conforto e força? E quanto ao fato de o homem desempenhar esse papel para</p><p>a mulher? Essas ideias recebem pouquíssima atenção na teologia de</p><p>Agostinho.48 Em outras obras, Agostinho argumenta que Deus instituiu o</p><p>casamento basicamente por três razões: (1) fidelidade, quer dizer, para evitar</p><p>o sexo ilícito; (2) procriação; e (3) como um símbolo da unidade daqueles</p><p>que herdariam a Jerusalém celestial.49 Os posicionamentos de Jerônimo e</p><p>Agostinho foram amplamente aceitos pela Igreja Católica Romana medieval.</p><p>Algumas perspectivas puritanas quanto a o casamento</p><p>Então, para muitos na Europa Ocidental, a Reforma representou não</p><p>apenas uma redescoberta do âmago do evangelho e o caminho para a</p><p>salvação, como vimos no capítulo anterior, como também a recuperação da</p><p>completa gama de ideias contidas na Bíblia acerca do casamento. Com a</p><p>morte de sua esposa, Idelette, em março de 1549, João Calvino, por exemplo,</p><p>escreveu para seu colega reformador Pierre Viret (1511–1571): “Estou</p><p>privado de minha excelente companheira de vida, aquela que, se viesse a má</p><p>sorte, teria sido minha companhia não apenas no exílio ou no pesar, mas até</p><p>mesmo na morte”.50 Essa declaração simples de uma das figuras centrais da</p><p>Reforma, pessoa, em geral, bastante discreta acerca de seus sentimentos</p><p>pessoais, é uma porta de entrada para o pensamento da Reforma a respeito do</p><p>casamento – sua excelência inata, sua importância como um lugar de afeição</p><p>e amizade cristãs, seu papel como uma escola de santificação. Os puritanos,</p><p>herdeiros dos reformadores nesse aspecto, assim como em muitos outros,</p><p>transmitiram fielmente esse ensinamento sobre casamento, mas também,</p><p>como J. I. Packer afirma, deram a ele “força, substância e solidez suficientes</p><p>para garantir o veredicto de que… abaixo de Deus… eles foram os criadores</p><p>do casamento cristão inglês”.51</p><p>Como os reformadores, os puritanos se opunham com veemência ao</p><p>celibato do clero, afirmando que o casamento é inerentemente</p><p>tão bom</p><p>quanto a virgindade, dando até a entender que pode ser ainda melhor. Como</p><p>Thomas Adams (1612–1653), um renomado pregador puritano dos meados</p><p>do século XVII, afirmou: “Não existe fonte de conforto na terra como o</p><p>casamento”.52 De igual forma, o autor puritano do período elizabetano Robert</p><p>Cleaver (–c. 1613) afirmava: “Não existe sociedade ou companhia de maior</p><p>grandeza do que entre um homem e sua esposa”.53 Os puritanos estavam</p><p>bastante cientes de que o casamento tem outros benefícios além de evitar a</p><p>fornicação e os males que a acompanham.</p><p>William Gouge (1578–1653), líder entre os puritanos de Londres e</p><p>membro fundamental da Assembleia de Westminster, repetia o ponto de vista</p><p>de Agostinho, no sentido de que Deus projetou o casamento para a procriação</p><p>de filhos, mas foi além ao enfatizar que Deus também desejou que o</p><p>matrimônio fosse para o auxílio mútuo entre marido e esposa. “O homem não</p><p>encontra auxílio em qualquer outra criatura como encontra em uma esposa,</p><p>ou a mulher em seu marido.”54 Quando os puritanos refletiam sobre Gênesis</p><p>2, discordavam, de forma significativa, da leitura de Agostinho desse texto.</p><p>Deus fez Eva para ser muito mais do que a geradora dos filhos de Adão. Ela</p><p>devia ser sua companhia, pois, como Cleaver observa: “O marido também</p><p>deve entender que, assim como Deus criou a mulher, também a criou não do</p><p>pé de Adão, para que ela fosse pisada e desprezada, mas da costela, para que</p><p>ela pudesse andar junto com o homem”.55 Assim, não é por acaso que,</p><p>quando o melhor e mais típico texto puritano, a Confissão de Fé de</p><p>Westminster, lista as razões para o casamento, a questão da companhia vem</p><p>em primeiro lugar. “O matrimônio foi ordenado”, lemos no Capítulo 25.2,</p><p>“para o mútuo auxílio de marido e mulher, para a propagação da raça humana</p><p>por uma sucessão legítima e da Igreja por uma semente santa, bem como para</p><p>impedir a impureza”.56</p><p>Como Packer observa, os pregadores e autores puritanos estão</p><p>frequentemente “fazendo todos os esforços para proclamar a bênção suprema</p><p>da intimidade no casamento”.57 Por exemplo, Richard Baxter (1615–1691),</p><p>cuja experiência de matrimônio com Margaret Charlton (1636–1681)</p><p>constitui o assunto do restante desse capítulo, afirma:</p><p>Grande misericórdia é ter uma amiga fiel, que o ama inteiramente e é tão</p><p>verdadeira com você quanto você mesmo; a quem é possível revelar seus</p><p>pensamentos e comunicar o que se passou, e que está pronta para fortalecê-lo e</p><p>compartilhar com você os cuidados de seus assuntos e da família, e que o ajuda a</p><p>carregar seus fardos e o consola em seu pesar, sendo a companhia diária de sua</p><p>vida e copartícipe de suas alegrias e tristezas. E é um ato de misericórdia ter uma</p><p>amiga tão próxima que seja como uma ajudadora de sua alma; que se una a você</p><p>em oração e outras práticas santas; que o vigie e fale de seus pecados e perigos, e</p><p>promova em você a graça de Deus, trazendo à sua memória a vida que está por</p><p>vir, e que, alegremente, o acompanhe nos caminhos da santidade.58</p><p>Nessa passagem, Baxter fala com base em uma experiência rica e</p><p>prazerosa. Essas palavras vieram de A Christian Directory: or, A Sum of</p><p>Practical Theology, and Cases of Conscience, “compêndio de um milhão de</p><p>palavras de ensinamento puritano sobre a vida e a conduta cristãs”,59 e foram</p><p>escritas em meados dos anos 1660, embora o livro não tenha sido publicado</p><p>na íntegra até 1673. Poucos anos antes de Baxter escrever essas palavras,</p><p>casara-se com Margaret Charlton, uma de suas paroquianas. N. H. Keeble,</p><p>estudioso de Baxter do século XX, resume bem esse casamento: “Nunca um</p><p>ministro teve melhor companheira (…) No fim das contas, essa união deve</p><p>ter chegado bem próximo de um ‘casamento ideal’ que se espera entre um</p><p>homem e uma mulher, exceto pelo fato de não haver filhos”.60</p><p>Richard e Margaret Baxter antes do casamento61</p><p>A vida de Richard Baxter abrange boa parte do século XVII, um dos</p><p>períodos mais decisivos e turbulentos da história inglesa. Baxter cresceu em</p><p>Shropshire, local não muito distante de Shrewsbury. Quando era menino e</p><p>adolescente, sua educação formal foi superficial, o que é digno de nota, tendo</p><p>em vista que Baxter é considerado um dos mais cultos dos puritanos. Parece</p><p>que ele obteve sua educação por meio da leitura, o que também foi um dos</p><p>maiores meios que Deus usou para levá-lo ao conhecimento salvador de</p><p>Cristo. Mais tarde, observando, como um cristão maduro, o momento de sua</p><p>conversão, ele afirmaria que não sabia quando isso se deu exatamente, um</p><p>fato que, de certa forma, o deixava desconfortável. Uma ponderação mais</p><p>profunda o levou a perceber que “Deus não parte o coração de todos os</p><p>homens da mesma forma”.62</p><p>Outra influência estruturante em sua vida cristã foi o estado doentio</p><p>crônico, que o perseguia desde a infância. Em 1671, quando ele tinha 56</p><p>anos, lembrou-se de que, desde os 14 anos, “não estive um ano livre de</p><p>sofrimento; desde os 22 anos, alguns poucos dias; e, desde 1646 (o que</p><p>equivale à idade de 25 anos), tive apenas algumas horas sem dor (embora, por</p><p>meio da graça de Deus, não insuportável)”.63 Ele era, segundo as palavras de</p><p>J. I. Packer, “um verdadeiro museu de doenças”.64 Qual foi o efeito de todo</p><p>esse estado de saúde ruim? Em primeiro lugar, isso fez com que Baxter se</p><p>acostumasse a pensar em si mesmo como um homem à margem da</p><p>eternidade. Essa perspectiva lhe deu, segundo suas palavras, “um profundo</p><p>senso da grande preciosidade do tempo”.65 Seus problemas físicos, então,</p><p>produziram nele uma visão séria da vida. “A face da morte e a proximidade</p><p>da eternidade me convenceram de quais livros ler e quais estudos preferir e</p><p>desenvolver.66 Por fim, isso fez dele um pregador sério e determinado. “Eu</p><p>pregava”, certa vez ele comentou em um aforismo que citava com frequência,</p><p>“como se nunca tivesse certeza de que iria pregar novamente, pregava como</p><p>um homem que estava morrendo para homens que estavam morrendo”.67 Aos</p><p>23 anos, em 1638, Baxter foi ordenado diácono. Pelos próximos dois anos,</p><p>ele serviu como vigário ou assistente do ministro anglicano em Bridgnorth,</p><p>Shropshire, um homem chamado William Medstard. Ele, então, se mudou</p><p>para cerca de vinte quilômetros ao sul de Kidderminster, Worcestershire.</p><p>Esse foi o local de seu ministério mais famoso, que aconteceu entre os anos</p><p>de 1641 e 1661. Quando ele chegou à cidade, a maior parte dos habitantes</p><p>era, segundo as próprias palavras de Baxter, “um povo ignorante, rude,</p><p>festeiro e barulhento”,68 mas isso estava prestes a mudar significativamente.</p><p>O perfil da comunidade inteira foi transformado em consequência da</p><p>pregação de Baxter uma vez aos domingos e outra às quintas-feiras, com a</p><p>realização de um fórum semanal de pastores para discussão teológica,</p><p>reuniões de oração das quais todos podiam participar, distribuição de Bíblias</p><p>e bons livros cristãos, além da catequese pessoal de oitocentas famílias da</p><p>cidade anualmente.</p><p>Baxter nos relata, da melhor forma possível, os resultados dramáticos</p><p>desse ministério.</p><p>A congregação estava, em geral, cheia, de maneira que tivemos a alegria de</p><p>precisar construir cinco galerias depois da minha ida para ali; a própria igreja era</p><p>bastante espaçosa [comportava até mil pessoas] e era a mais ampla e confortável</p><p>em que já estivera. Nossas reuniões privativas também ficavam lotadas. No dia</p><p>do Senhor, não se via desordem pela cidade, mas era possível ouvir centenas de</p><p>famílias entoando salmos e repetindo sermões quando passávamos pelas ruas.</p><p>Em resumo, quando cheguei ali, havia praticamente uma família por rua que</p><p>adorava a Deus e clamava o nome dele; quando saí de lá, havia algumas ruas em</p><p>que não passava de uma família em um lado da rua que não o fazia, que não, ao</p><p>professar piedade comprometida, nos dava a esperança de sua sinceridade.69</p><p>E o fruto desse ministério parece ter sido genuíno. É fascinante ler uma</p><p>nota que George Whitefield (1714–1770), o grande evangelista do século</p><p>XVIII, registrou em seu diário no último dia de 1743, depois de uma visita a</p><p>Kidderminster: “Senti-me bastante revigorado ao constatar que o doce sabor</p><p>da doutrina, as obras</p><p>e a disciplina do bom sr. Baxter permanecem até o</p><p>presente dia”.70</p><p>Entre os convertidos pela pregação de Baxter em Kidderminster, estava</p><p>Margaret Charlton. Tal como Baxter, ela viera de Shropshire – na verdade,</p><p>ela fora criada apenas a alguns quilômetros de onde Baxter cresceu, embora</p><p>em uma condição financeira consideravelmente melhor. Ela veio morar em</p><p>Kidderminster com sua mãe piedosa, Mary Hanmer (–1661), que ficara viúva</p><p>por duas vezes e estava se deleitando com o ministério de pregação de</p><p>Baxter. A princípio, Margaret tinha pouca apreciação por Baxter ou pelas</p><p>pessoas da cidade. Ela nutria – Baxter conta em A Breviate of the Life of</p><p>Margaret, The Daughter of Francis Charlton, and Wife of Richard Baxter,</p><p>seu relato da vida deles juntos – uma “grande aversão à pobreza e à</p><p>severidade do povo” daquela cidade. Frívola e presa às alegrias deste mundo,</p><p>ela estava muito mais interessada em “se iluminar com vestimentas caras”.71</p><p>Apesar disso, o Espírito Santo estava realizando uma obra em sua vida. Uma</p><p>série de sermões que Baxter pregou sobre a doutrina da conversão, que, mais</p><p>tarde, veio a ser impressa como A Treatise of Conversion (1657), foi,</p><p>conforme Baxter nos conta, “recebida em seu coração como um selo na cera”.</p><p>Sua transformação espiritual foi rápida e genuína. Como ela escreveu mais</p><p>tarde:</p><p>Deus me... uniu a ele, levando-me à sua família e me plantando em seu jardim, e</p><p>me regando com o orvalho do céu… Eu sou tua, Senhor, não pertenço a mim</p><p>mesma… Tu, Senhor, que sabes todas as coisas, sabes que devotei o meu tudo a</p><p>ti.72</p><p>Um dos primeiros sinais dessa mudança radical em sua vida foram “suas</p><p>orações fervorosas em secreto”. Ela escolheu orar em uma parte da casa de</p><p>sua mãe que não estava em uso desde que fora danificada durante a Guerra</p><p>Civil. Naturalmente, ela pensava que não podia ser ouvida. Mas suas orações</p><p>podiam ser ouvidas por sua mãe e amigos na casa. De acordo com Baxter,</p><p>eles afirmavam que “nunca tinham ouvido orações tão fervorosas de quem</p><p>quer que fosse”.73 Não muito tempo depois de sua conversão, o que trouxe</p><p>muito júbilo a muitos na cidade, ela foi atingida por tuberculose e, passados</p><p>alguns meses, sua vida parecia estar desvanecendo. Baxter e um grupo</p><p>daqueles que ele chama de “pessoas humildes de oração” resolveram orar e</p><p>jejuar pela cura de Margaret. E Deus ouviu as orações deles. O Senhor,</p><p>Baxter relata, “rapidamente a libertou, como se não fosse nada”.74 Em um</p><p>evento público realizado em abril de 1660, quando foram rendidas ações de</p><p>graças a Deus por sua cura, Margaret reconheceu sua grande misericórdia e</p><p>declarou que “teria somente a ele por Deus e principal felicidade”.75</p><p>O contexto histórico</p><p>No momento dessa reversão dramática de ambições e objetivos na vida de</p><p>Margaret, também houve grandes mudanças varrendo o cenário nacional.</p><p>Oliver Cromwell (1599–1658), que se tornara governante de uma Inglaterra</p><p>republicana nos anos 1650, depois de aproximadamente dez anos de guerra</p><p>civil religiosa, havia morrido dois anos antes. Durante a Guerra Civil Inglesa,</p><p>o Rei Carlos I (1600–1649) tinha sido executado como traidor por guerrear</p><p>contra seus próprios súditos, e seu filho, que viria a ser Carlos II (1630–</p><p>1685), havia sido obrigado a fugir para o exílio no continente europeu. Com a</p><p>morte de Cromwell, a Inglaterra parecia estar entrando em colapso rumo à</p><p>anarquia; assim, um grupo de antigos companheiros de batalha de Cromwell</p><p>tomou a decisão de restaurar a monarquia. Carlos II pisou na costa de Dover</p><p>em 25 de maio de 1660, recebendo boas-vindas estrondosas. Na ocasião,</p><p>deram-lhe uma Bíblia em inglês, a qual ele descreveu como o que mais</p><p>amava, acima de qualquer outra coisa no mundo. Eventos subsequentes</p><p>lançariam dúvida sobre a sinceridade dessa confissão.</p><p>No poder junto com Carlos, estava um parlamento inclinado a acabar para</p><p>sempre com o poder político e a influência espiritual do puritanismo. Aqueles</p><p>que haviam assinado a sentença de morte de Carlos I e ainda estavam vivos</p><p>eram rapidamente levados a julgamento e executados. No ano subsequente à</p><p>restauração da monarquia, testemunhou-se a primeira de uma série de</p><p>medidas punitivas contra os puritanos, o que se tornaria conhecido como o</p><p>“Código Clarendon”. Nomeado segundo o nome do primeiro-ministro de</p><p>Carlos, eles tinham como alvo todos aqueles que não se conformavam</p><p>completamente aos ritos da Igreja da Inglaterra. Digno de menção em</p><p>especial é o Ato da Uniformidade, que passou a ser executado em 24 de</p><p>agosto de 1662. Cerca de dois mil ministros foram retirados de seus</p><p>ministérios, pois não davam consentimento sincero a tudo o que dizia o Livro</p><p>de Oração Comum, que ordenava uma vida de adoração da Igreja da</p><p>Inglaterra. Entre eles, estava Baxter. Seu ministério precioso em</p><p>Kidderminster fora tirado dele e, agora, era ilegal pregar ou liderar a adoração</p><p>não apenas lá, como também em qualquer outro lugar da Inglaterra.</p><p>Reluzente nesse tempo de escuridão, estava “um brilhante raio de luz”76 –</p><p>seu casamento com Margaret, apenas pouco mais de duas semanas depois de</p><p>o Ato de Uniformidade ser efetivado.</p><p>Richard e Margaret: o perfil do casamento deles</p><p>Por várias razões, o casamento de Richard e Margaret se tornou o assunto</p><p>de Londres. Havia a diferença de idade entre eles: Richard era velho o</p><p>suficiente para ser pai dela. Havia também a disparidade entre a situação</p><p>social de ambos: a morte da mãe dela, em 1661, lhe deu uma riqueza</p><p>considerável. Finalmente, era conhecido de todos que Baxter tinha advogado</p><p>o celibato para ministros, devido à necessidade de se devotarem sem reservas</p><p>aos seus ministérios.77 Embora Baxter nunca tivesse afirmado a visão</p><p>católica romana de que o casamento dos ministros era ilegal, advertia-os com</p><p>o desejo de supervisionar o rebanho:</p><p>O trabalho do sagrado ministério é suficiente para ocupar o homem inteiro, se ele</p><p>tivesse a força e os atributos de muitos homens… Acredite, aquele que tiver uma</p><p>esposa deverá passar muito de seu tempo em sua companhia, em oração e outras</p><p>obrigações familiares… E, se ele tiver filhos, ó, quanto cuidado, tempo e trabalho</p><p>eles irão demandar.78</p><p>Porém, uma vez que se casou, Baxter descobriu que o casamento estava</p><p>em bastante sintonia com ele. Como ele escreveu depois da morte de sua</p><p>esposa: “Vivemos em amor inviolável e mútua complacência, cientes do</p><p>benefício do auxílio mútuo. Nesses quase dezenove anos, não me lembro de</p><p>uma única vez que tenhamos divergido em questão de amor ou de</p><p>interesse”.79</p><p>Essa afirmação, contudo, deve ser lida à luz do fato de que nem Richard</p><p>nem Margaret eram pessoas tranquilas. Richard, estudioso e, de certa forma,</p><p>recluso, era não era muito treinado no trato social. Às vezes, era mal-</p><p>humorado e tinha uma língua afiada, possivelmente um efeito colateral por</p><p>viver regularmente com dores.80 Margaret, então, o repreendia gentilmente</p><p>quando ele se mostrava descuidado ou precipitado em seu discurso. Baxter</p><p>escreve: “Se minha aparência não estivesse agradável, ela fazia com que eu</p><p>me ajeitasse (o que meu estado físico fraco e doloroso me deixava indisposto</p><p>a fazer)”.81 Baxter aprendeu uma lição valorosa sobre o casamento por meio</p><p>da correção de Margaret em relação às suas faltas. Não foi nada menos do</p><p>que uma escola de santificação. E aconselhou maridos e esposas em</p><p>Christian Directory:</p><p>Não ocultem o estado de suas almas, nem escondam suas falhas um do outro.</p><p>Vocês são como uma carne e devem ter um coração: e, assim como é tão</p><p>perigoso para um homem ser desconhecido para si mesmo, também é muito</p><p>nocivo para o marido ou a esposa serem desconhecidos um do outro; nesses</p><p>casos, eles necessitam de ajuda. Não passa de uma tola sensibilidade de sua parte</p><p>quando você esconde a doença de seu médico ou de seu amigo prestativo; e quem</p><p>deveria ser gentil e prestativo para você como vocês deveriam ser um para o</p><p>outro? De fato, em alguns poucos casos, em que revelar uma falta ou um segredo</p><p>não fará nada além de extinguir a afeição, e não promover o auxílio do outro, é</p><p>sábio ocultar; mas esse não é o caso mais corriqueiro. Abrir o coração um para</p>

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