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<p>CAMARB – Câmara de Arbitragem Empresarial – Brasil</p><p>Procedimento Arbitral nº A-00/23</p><p>BACAMASO ENGENHARIA S.A.</p><p>Requerente</p><p>vs.</p><p>TAPERO TECNOLOGIA S.A.</p><p>Requerida</p><p>________________________________________________________________</p><p>MEMORIAL DA REQUERENTE</p><p>Equipe nº 130</p><p>________________________________________________________________</p><p>Beagá/Corais, 17 de agosto de 2023</p><p>SUMÁRIO</p><p>LISTA DE ABREVIATURAS 4</p><p>SÍNTESE DOS FATOS 7</p><p>SÚMULA DAS PRETENSÕES 8</p><p>PRELIMINARMENTE 9</p><p>PARTE I: O FATO NOVO COMUNICADO PELA REQUERIDA (DEFERIMENTO</p><p>DO SEU PEDIDO DE RECUPERAÇÃO JUDICIAL) NÃO ENSEJA A REVOGAÇÃO</p><p>IMEDIATA DA DECISÃO DA ÁRBITRA DE EMERGÊNCIA 9</p><p>1.1. A decisão da árbitra de emergência é parte integrante da arbitragem e, portanto,</p><p>não se sujeita aos efeitos do stay period 9</p><p>1.1.1 A decisão da árbitra de emergência não comporta revogação imediata, independentemente</p><p>do vínculo com o procedimento arbitral principal 11</p><p>1.2 A revogação da decisão da árbitra de emergência pode acarretar prejuízos para a</p><p>Requerente, bem como para a Recuperação Judicial como um todo 12</p><p>1.3. Subsidiariamente, ao contrário do que alega a Requerida, o processamento da</p><p>Recuperação Judicial não impõe limites aos poderes do Tribunal Arbitral 14</p><p>PARTE II: O FATO DE A REQUERENTE NÃO TER SUBMETIDO AO DISPUTE</p><p>BOARD O SEU PEDIDO DE RESSARCIMENTO DOS PREJUÍZOS QUE</p><p>SUPORTOU EM RAZÃO DAS INTEMPÉRIES GEOLÓGICAS NÃO TÊM</p><p>IMPLICAÇÕES NO PROCEDIMENTO ARBITRAL 15</p><p>2.1 O direito da Requerente de submeter o pedido de ressarcimento não decaiu 16</p><p>2.2 Inobstante a ausência de submissão prévia do pedido de ressarcimento para o</p><p>Dispute Board, o Tribunal Arbitral pode e deve examinar o pleito da Requerente 17</p><p>DO MÉRITO 20</p><p>PARTE III: O RISCO GEOLÓGICO NÃO FOI ASSUMIDO PELA REQUERENTE</p><p>20</p><p>3.1 Os contratos de EPC são contratos de empreitada, sendo os riscos nessa modalidade</p><p>assumidos pela contratante 20</p><p>3.2 Ainda que o Contrato não seja entendido como de empreitada no racional contratual</p><p>do EPC, a dona da obra é quem assume os riscos geológicos. 21</p><p>3.3. A falta de colaboração da Requerida na fase pré-contratual constitui violação do</p><p>princípio da boa-fé e portanto, os riscos são assumidos por ela. 22</p><p>PARTE IV: A REQUERENTE NÃO PODE SER RESPONSABILIZADA PELOS</p><p>CUSTOS DA REQUERIDA COM A CONTRATAÇÃO SUBSTITUTIVA E PELOS</p><p>PREJUÍZOS SUPORTADOS EM RAZÃO DO ADIAMENTO DA INAUGURAÇÃO</p><p>DO DATA CENTER. 24</p><p>4.1 A Responsabilidade do Contrato de Financiamento não se estende à Requerente 24</p><p>4.1.1 O Contrato e o Contrato de financiamento não são coligados 24</p><p>4.1.2 Ainda que o Tribunal assim não entenda, a responsabilidade não se estende à Requerente</p><p>em virtude do princípio da relatividade dos contratos 26</p><p>4.2 A Requerente não pode ser responsabilizada pelos prejuízos suportados com o</p><p>adiamento da inauguração do Data Center, uma vez que foi ato unilateral e precipitado</p><p>pela Requerida 27</p><p>4.3 Ainda que o Tribunal entenda que a obra não tenha sido entregue dentro do prazo, o</p><p>atraso foi decorrente de força maior, logo não pode ser imputado à Requerente 30</p><p>PARTE V: PEDIDOS 31</p><p>BIBLIOGRAFIA 32</p><p>Doutrina Nacional 32</p><p>Doutrina Internacional 39</p><p>Jurisprudência Nacional 41</p><p>Legislações 43</p><p>Regulamentos 45</p><p>LISTA DE ABREVIATURAS</p><p>Abreviação Significado</p><p>§ Parágrafo</p><p>Art. ou art. ou arts. Artigo</p><p>AC, Ap. ou Apl. Apelação Cível</p><p>Aditivo 1º Aditivo ao “Contrato de Engineering,</p><p>Procurement and Construction, a preço global, na</p><p>modalidade ‘Lump Sum Turnkey (LSTK)’’</p><p>AgI Agravo de Instrumento</p><p>Banco Banco dos Corais</p><p>CAMARB Câmara de Arbitragem Empresarial - Brasil</p><p>Carta-convite Carta-convite de concorrência privada</p><p>fornecida pela Requerida</p><p>Caso Caso da XIV Competição Brasileira de</p><p>Arbitragem e Mediação Empresarial</p><p>CC Código Civil</p><p>CF Constituição da República Federativa do</p><p>Brasil</p><p>CPC Código de Processo Civil</p><p>Contrato Contrato de EPC, na modalidade LSTK</p><p>Contrato de Financiamento Contrato de Financiamento firmado entre a</p><p>Requerida e o Banco dos Corais</p><p>DAB Dispute Adjudication Board</p><p>Data Center Data center proposto pela Requerida e</p><p>posteriormente construído na região de</p><p>Portal do Sol, no estado de Corais</p><p>Dispute Board Dispute Review Board constituído no âmbito do</p><p>Contrato para acompanhamento da evolução</p><p>das obras do Data Center</p><p>Diretor da Requerida Diretor de Novos Negócios da Tapero</p><p>DRB Dispute Resolution Board</p><p>EPC Engineering, Procurement and Construction</p><p>Agreement</p><p>et al. Significa “e outros”</p><p>IPHAN Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico</p><p>Nacional</p><p>inc. Inciso (s)</p><p>Kangal Kangal Minerals Inc.</p><p>LArb Lei de Arbitragem</p><p>Lei de Monumentos Históricos Lei nº 3.924, de 26 de julho de 1961</p><p>LREF Lei de Recuperação Judicial e Falência</p><p>LSTK Lump Sum Turnkey, uma modalidade dos</p><p>contratos de EPC e que caracteriza o</p><p>Contrato celebrado pelas Partes</p><p>n ou nº Número (s)</p><p>Parte Requerente ou Requerida</p><p>Partes Requerente e Requerida</p><p>Procedimento Procedimento Arbitral nº A-00/23</p><p>Recuperação Judicial Pedido de recuperação judicial formulado</p><p>pela Requerida e posteriormente deferido</p><p>pelo juízo da 1ª Vara Empresarial da</p><p>Comarca de Portal do Sol/CO</p><p>REsp Recurso Especial</p><p>Regulamento Regulamento de Arbitragem da CAMARB de</p><p>2019</p><p>Regulamento de Dispute Board Regulamento de Dispute Boards da CAMARB</p><p>de 2017</p><p>Requerente Bacamaso Engenharia S.A.</p><p>Requerida Tapero Tecnologia S.A.</p><p>REsp Recurso Especial</p><p>Setenta Technology Setenta Co.</p><p>STJ Superior Tribunal de Justiça</p><p>Tribunal Arbitral ou Tribunal Tribunal Arbitral constituído no presente</p><p>procedimento</p><p>TJSP Tribunal de Justiça de São Paulo</p><p>V. ou Vs. Versus (contra)</p><p>Valor da Última Medição R$ 374.749.018,50 (trezentos e setenta e</p><p>quatro milhões, setecentos e quarenta e nove</p><p>mil, dezoito reais e cinquenta centavos)</p><p>SÍNTESE DOS FATOS</p><p>1. Em 10/2018, a Tapero Tecnologia S.A. (“Requerida”), empresa do ramo de tecnologia,</p><p>contraiu um financiamento exclusivamente com o Banco dos Corais (“Banco”), para viabilizar a</p><p>construção de um data center [Anexo 2, p.10] (“Data Center” e “Contrato de Financiamento”,</p><p>respectivamente). Após a celebração do Contrato de Financiamento, a Requerida iniciou o</p><p>processo de concorrência privada para contratar a construtora responsável pela obra.</p><p>2. A Carta-convite de concorrência privada elaborada pela Requerida (“Carta-Convite”)</p><p>continha a ressalva de que o Data Center deveria ser construído no subsolo, e que o valor a ser</p><p>pago pela construção deveria ser precificado com base no perfil de solo rochoso [Anexo 7, p.48,</p><p>§2]. Foi com base nessa descrição que a BACAMASO Engenharia S.A. (“Requerente”),</p><p>tradicional empreiteira do estado de Vila Rica [Caso, p.3, §6-7], precificou seus serviços e</p><p>firmou o “Contrato de Engineering, Procurement and Construction, a Preço Global, na Modalidade Lump</p><p>Sum Turnkey” junto à Requerida (“Contrato”), cujo objeto era a implementação do Data Center</p><p>[Contrato, p.20]. Para acompanhar a evolução das obras, as Partes ainda acordaram a pactuação</p><p>de um Dispute Review Board (“Dispute Board”) [Contrato, p.29-31, Cláusula 22.1].</p><p>3. Em 18/10/2019, durante a fase de escavações iniciais, a Requerente logo se deparou</p><p>com uma camada de rocha no solo, fato que divergia do perfil de solo outrora informado pela</p><p>Requerida [Caso, p.4, §11]. Na ocasião, a Requerente também verificou a existência de indícios</p><p>de um possível sítio arqueológico no local, motivo pelo qual solicitou que o Instituto do</p><p>Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (“IPHAN”) averiguasse a área [Caso, p.4, §§11-12].</p><p>4. Em 21/10/2019, a Requerente notificou a Requerida sobre as descobertas que fez</p><p>[Anexo 7, p.48-49], a qual apenas isentou-se da sua responsabilidade pela omissão do perfil do</p><p>solo [Esclarecimento 9, p.21]. Diante desse imprevisto, a Requerente contratou a Technology</p><p>Setenta Co. (“Setenta”), que forneceu o maquinário para a perfuração das rochas em linha com</p><p>o Contrato de Financiamento [Caso, p.5, §16; Anexo 10, p.68, §43].</p><p>5. A contratação da Setenta gerou custos para a Requerente que excederem o orçamento,</p><p>enquanto a investigação iniciada pelo IPHAN implicou na dilação do cronograma [Caso, p.4,</p><p>§13]. Apesar</p><p>Nessa perspectiva, é previsível e implícito que, se o</p><p>empreiteiro agir em descumprimento com as normas legais ambientais, existe a possibilidade de</p><p>o próprio dono da obra enfrentar problemas com a liberação do andamento da obra pelos</p><p>órgãos da administração pública [TELLES, p.203; SILVEIRA, p.14].</p><p>114. Quanto ao fato superveniente e inevitável (ii), o acontecimento em questão se deu após</p><p>a criação do vínculo contratual, sendo, portanto, um fato que excede o racional ordinário de</p><p>riscos no momento de celebração de um contrato. Além disso, trata-se de fato inevitável pois</p><p>não é possível evitar suas consequências ou que este afete o bom andamento da obra [MELLO,</p><p>p.329; RIZZARDO, p.30].</p><p>115. A (iii) irresistibilidade é uma consequência dos anteriores, uma vez que o acontecimento</p><p>foi uma situação excepcional que tornou extremamente difícil o cumprimento do prazo para a</p><p>entrega da obra. No caso, não haviam medidas para evitar que o tempo de investigação do</p><p>IPHAN impactasse o decurso da obra, já que ela suspendeu as atividades em um total de sete</p><p>meses [Caso, p.4, §13]. O evento força maior rompe a causalidade do ilícito contratual, uma vez</p><p>que, no caso, o atraso não se torna imputável à Requerente, mas sim ao acontecimento</p><p>inevitável e irresistível consequentemente sendo excludente de responsabilidade</p><p>116. Ressalta-se que a suspeita de presença do sítio arqueológico e a necessidade de</p><p>comunicação ao IPHAN foram os únicos motivos pelo considerável atraso no curso da obra.</p><p>Isso porque, considerando que o tempo gasto com a substituição do maquinário se deu</p><p>posteriormente à entrega tempestiva da obra (4.2.2), apenas o eventual atraso pela paralisação</p><p>das obras durante a análise do IPHAN poderia ser suscitado como imputável à Requerente e,</p><p>conforme demonstrado, tal a paralisação constitui força maior.</p><p>117. Pelo exposto, tendo em vista que o atraso nas obras ocorreu em decorrência de uma</p><p>obrigação legal da Requerente em informar os órgãos competentes e suspender da obra, não</p><p>prospera o intuito da Requerida em atribuir à Requerente responsabilidade por eventuais</p><p>prejuízos sofridos.</p><p>PARTE V: PEDIDOS</p><p>118. Com base no exposto, a Requerente pleiteia que o Tribunal Arbitral:</p><p>a) Reconheça que o fato novo comunicado pela Requerida não enseja a revogação imediata</p><p>da decisão da árbitra de emergência;</p><p>b) Reconheça o fato de a Requerente não ter submetido ao Dispute Board o seu pedido de</p><p>ressarcimento dos prejuizo que suportou em razão das intempéries geológicas não têm</p><p>implicações no procedimento arbitral;</p><p>c) Reconheça que o risco geológico não foi assumido pela Requerente; e</p><p>d) Reconheça que a Requerente não pode ser responsabilizada pelos custos suportados</p><p>pela requerida com a contratação substitutiva e pelos prejuízos que a Requerida sofreu</p><p>em razão do adiamento da inauguração do Data Center.</p><p>Beagá/Corais, 17 de agosto de 2023.</p><p>BIBLIOGRAFIA</p><p>Doutrina Nacional</p><p>Autor e Página Citação Completa</p><p>ALVIM, p. 7 ALVIM, Tereza Arruda. Inviabilidade da</p><p>Demanda de Anulação da Sentença Arbitral</p><p>Estrangeira Ajuizada perante o Poder</p><p>Judiciário Brasileiro. Revista dos Tribunais</p><p>Online, São Paulo, Vol. 1, 2012.</p><p>ARAÚJO, p. 4 ARAÚJO, p. 4 Araújo, Maria Angélica Benetti.</p><p>Autonomia da Vontade no Direito</p><p>Contratual.Revista de Direito Privado, Vol. 27,</p><p>jul - set, 2006</p><p>AZEVEDO, p. 2 AZEVEDO, Antônio Junqueira de. Princípios</p><p>do novo direito contratual e</p><p>desregulamentação do mercado. Revista dos</p><p>Tribunais, São Paulo, Vol. 750/117.</p><p>BAPTISTA, PRADO, p. 37</p><p>BAPTISTA, PRADO, p. 42</p><p>BAPTISTA, Luiz Olavo. PRADO, Maurício</p><p>Almeida. Construção Civil e Direito. São</p><p>Paulo: Lex Editora, 2011.</p><p>BARBI apud DOLINGER, TIBURCIO, p.</p><p>669</p><p>BARBI apud DOLINGER, Jacob; TIBURCIO,</p><p>Carmem. Direito Internacional Privado. Rio</p><p>de Janeiro: Forense, 2020.</p><p>BERGSTEIN, p. 2</p><p>BERGSTEIN, p. 3</p><p>BERGSTEIN, Laís. 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Data de publicação: 31/08/2018.</p><p>Disponível em:</p><p>https://processo.stj.jus.br/SCON/GetInteiroT</p><p>eorDoAcordao?num_registro=201800025298&</p><p>dt_publicacao=31/08/2018. Acesso em 20 jul.</p><p>2023.</p><p>STJ, REsp 1.465.535/SP BRASIL, Superior Tribunal de Justiça (4°</p><p>Turma). Recurso Especial n° 1.465.535/SP.</p><p>Relator: Min. Luis Felipe Salomão, 21 de junho</p><p>de 2016. Data de publicação: 22/08/2016.</p><p>Disponível em:</p><p>https://processo.stj.jus.br/processo/revista/do</p><p>cumento/mediado/?componente=ATC&seque</p><p>ncial=62711687&num_registro=201102936413</p><p>&data=20160822&tipo=5&formato=PDF.</p><p>Acesso em: 22 jul. 2023.</p><p>STJ, REsp 1.355.831/SP BRASIL, Superior Tribunal de Justiça (3ª</p><p>Turma). Recurso Especial n° 1.355.831/SP.</p><p>Relator: Sidnei Beneti, 19 de março de 2013.</p><p>Data de publicação: 22/04/2013. Disponível</p><p>em:</p><p>https://processo.stj.jus.br/SCON/GetInteiroT</p><p>eorDoAcordao?num_registro=201201743827&</p><p>dt_publicacao=22/04/2013. Acesso em: 19 jul.</p><p>2023.</p><p>STJ, REsp 1.367.955/SP BRASIL, Superior Tribunal de Justiça (3ª</p><p>Turma). Recurso Especial nº 1.367.955/SP.</p><p>Relator: Ministro Paulo de Tarso Sanseverino,</p><p>18 de março de 2014. Data de Publicação:</p><p>24/3/2014. Disponível em:</p><p>https://processo.stj.jus.br/SCON/GetInteiroTeorDoAcordao?num_registro=201800025298&dt_publicacao=31/08/2018</p><p>https://processo.stj.jus.br/SCON/GetInteiroTeorDoAcordao?num_registro=201800025298&dt_publicacao=31/08/2018</p><p>https://processo.stj.jus.br/SCON/GetInteiroTeorDoAcordao?num_registro=201800025298&dt_publicacao=31/08/2018</p><p>https://processo.stj.jus.br/processo/revista/documento/mediado/?componente=ATC&sequencial=62711687&num_registro=201102936413&data=20160822&tipo=5&formato=PDF</p><p>https://processo.stj.jus.br/processo/revista/documento/mediado/?componente=ATC&sequencial=62711687&num_registro=201102936413&data=20160822&tipo=5&formato=PDF</p><p>https://processo.stj.jus.br/processo/revista/documento/mediado/?componente=ATC&sequencial=62711687&num_registro=201102936413&data=20160822&tipo=5&formato=PDF</p><p>https://processo.stj.jus.br/processo/revista/documento/mediado/?componente=ATC&sequencial=62711687&num_registro=201102936413&data=20160822&tipo=5&formato=PDF</p><p>https://processo.stj.jus.br/SCON/GetInteiroTeorDoAcordao?num_registro=201201743827&dt_publicacao=22/04/2013</p><p>https://processo.stj.jus.br/SCON/GetInteiroTeorDoAcordao?num_registro=201201743827&dt_publicacao=22/04/2013</p><p>https://processo.stj.jus.br/SCON/GetInteiroTeorDoAcordao?num_registro=201201743827&dt_publicacao=22/04/2013</p><p>https://processo.stj.jus.br/processo/pesquisa/?</p><p>src=1.1.3&aplicacao=processos.ea&tipoPesquis</p><p>a=tipoPesquisaGenerica&num_registro=20110</p><p>2623917. Acesso em : 17 ago.2023.</p><p>STJ, REsp 1.862.508/SP BRASIL, Superior Tribunal de Justiça (3ª</p><p>Turma). Recurso Especial nº 1.862.508/SP.</p><p>Relator: Min. Ricardo Villas Bôas Cueva.</p><p>Julgado em: 24/11/2020. DJe de 18/12/2020.</p><p>STJ, REsp 1.639.035/SP BRASIL, Superior Tribunal de Justiça (3ª</p><p>Turma). Recurso Especial n° 1.639.035/SP.</p><p>Relator: Min. Paulo de Tarso Sanseverino.</p><p>Julgado em: 18/09/2018. Publicado em:</p><p>15/10/2018.</p><p>STJ, REsp 1.699.855/RS BRASIL, Superior Tribunal de Justiça. (3ª</p><p>Turma). Recurso Especial n° 1.699.855/RS.</p><p>Relator: Marco Aurélio Bellizze, 01 de junho de</p><p>2021. Data de publicação: 08/06/2021.</p><p>Disponível em:</p><p>https://processo.stj.jus.br/SCON/GetInteiroT</p><p>eorDoAcordao?num_registro=201702407421&</p><p>dt_publicacao=08/06/2021. Acesso em: 14</p><p>ago. 2023.</p><p>TJMG, AgI 1.0000.20.079850-2/002 BRASIL, Tribunal de Justiça de Minas Gerais.</p><p>Agravo de Instrumento</p><p>1.0000.20.079850-2/002. Relator: Des. Amauri</p><p>Pinto Ferreira. Julgado em: 20/10/2021.</p><p>Publicado em 20/10/2021.</p><p>TJSP, AC 1033030-68.2021.8.26.0100 BRASIL, Tribunal de Justiça de São Paulo.</p><p>Apelação Cível 1033030-68.2021.8.26.0100.</p><p>Relator: Des. J. B. Franco de Godoi. Julgado</p><p>em: 03/05/2023. Data de Publicação:</p><p>05/05/2023. Disponível em:</p><p>https://esaj.tjsp.jus.br/cjsg/getArquivo.do?cdA</p><p>cordao=16720583&cdForo=0. Acesso em: 20</p><p>jul. 2023.</p><p>TJSP, AC 0012763-56.2009.8.26.0248 BRASIL, Tribunal de Justiça de São Paulo.</p><p>Apelação Cível 0012763-56.2009.8.26.0248.</p><p>Relator: Des. Renato Rangel Desinano. Julgado</p><p>em: 04/08/2016. Data de Publicação:</p><p>05/08/2016.</p><p>TJSP, AgI 9044554-23.2007.8.26.0000 BRASIL, Tribunal de Justiça de São Paulo.</p><p>Agravo de Instrumento</p><p>9044554-23.2007.8.26.0000. Relator: Pereira</p><p>Calças. Julgado em: 25/06/2008. Disponível</p><p>https://processo.stj.jus.br/SCON/GetInteiroTeorDoAcordao?num_registro=201702407421&dt_publicacao=08/06/2021</p><p>https://processo.stj.jus.br/SCON/GetInteiroTeorDoAcordao?num_registro=201702407421&dt_publicacao=08/06/2021</p><p>https://processo.stj.jus.br/SCON/GetInteiroTeorDoAcordao?num_registro=201702407421&dt_publicacao=08/06/2021</p><p>https://esaj.tjsp.jus.br/cjsg/getArquivo.do?cdAcordao=16720583&cdForo=0</p><p>https://esaj.tjsp.jus.br/cjsg/getArquivo.do?cdAcordao=16720583&cdForo=0</p><p>em:</p><p>https://esaj.tjsp.jus.br/cjsg/getArquivo.do?cdA</p><p>cordao=3254081&cdForo=0. Acesso em: 18</p><p>jul. 2023.</p><p>TJSP, AgI 2050314-13.2023.8.26.0000 BRASIL,</p><p>Tribunal de Justiça de São Paulo.</p><p>Agravo de Instrumento</p><p>2050314-13.2023.8.26.0000. Relator: Celina</p><p>Dietrich Trigueiros. Julgado em: 30/06/2023.</p><p>Data de publicação: 30/06/2023. Disponível</p><p>em:</p><p>https://esaj.tjsp.jus.br/cjsg/getArquivo.do?cdA</p><p>cordao=16904519&cdForo=0. Acesso em: 81</p><p>jul. 2023.</p><p>Legislações</p><p>Nome ou Número da Legislação Citação Completa</p><p>art. 393, CC</p><p>art. 422, CC</p><p>art. 610, CC</p><p>art. 625, inc. II, CC</p><p>BRASIL. Código Civil. Disponível em:</p><p>https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/200</p><p>2/l10406compilada.htm. Acesso em: 05 jul.</p><p>2023.</p><p>art. 20, inc. X, CF BRASIL. [Constituição (1988)]. Constituição</p><p>da República Federativa do Brasil de 1988.</p><p>Brasília, DF: Presidência da República.</p><p>Disponível em:</p><p>https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constitu</p><p>icao/constituicao.htm. Acesso em: 05 jul. 2023.</p><p>art. 69, §2°, inc. IV, CPC</p><p>art.. 139, inc. IV, CPC</p><p>art.. 300, CPC</p><p>art. 515, inc VII, CPC</p><p>art. 536, CPC</p><p>BRASIL. Código de Processo Civil. Lei n.</p><p>13.105, de 16 de Março de 2015. Brasília, 2015.</p><p>Disponível em:</p><p>http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato201</p><p>5-2018/2015/Lei/L13105.htm. Acesso em: 06</p><p>jul. 2023.</p><p>art. 22-C, LArb</p><p>art. 22-B, § único LArb</p><p>art. 31, LArb</p><p>BRASIL. Lei de Arbitragem. Lei n. 9.307 de</p><p>23 de setembro de 1996. Dispõe sobre a</p><p>arbitragem. Brasília, 1996. Disponível em:</p><p>http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l930</p><p>7.htm. Acesso em: 15 jun.2023.</p><p>art. 6°, §3°, LREF</p><p>art. 6°, inc. II, LREF</p><p>art. 6°, inc. III, LREF</p><p>art. 6°, §4°, LREF</p><p>art. 47, LREF</p><p>art. 52, inc. II, LREF</p><p>BRASIL. Lei de Recuperação Judicial,</p><p>Extrajudicial e Falência. Lei n° 11.101/2005.</p><p>09 de fevereiro de 2005. Brasília, 2005.</p><p>Disponível em:</p><p>http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004</p><p>-2006/2005/lei/l11101.htm. Acesso em: 20 jul.</p><p>https://esaj.tjsp.jus.br/cjsg/getArquivo.do?cdAcordao=3254081&cdForo=0</p><p>https://esaj.tjsp.jus.br/cjsg/getArquivo.do?cdAcordao=3254081&cdForo=0</p><p>https://esaj.tjsp.jus.br/cjsg/getArquivo.do?cdAcordao=16904519&cdForo=0</p><p>https://esaj.tjsp.jus.br/cjsg/getArquivo.do?cdAcordao=16904519&cdForo=0</p><p>https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/l10406compilada.htm</p><p>https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/l10406compilada.htm</p><p>https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm</p><p>https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm</p><p>http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9307.htm</p><p>http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9307.htm</p><p>http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2005/lei/l11101.htm</p><p>http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2005/lei/l11101.htm</p><p>art. 58, §2º e art. 126, LREF 2023.</p><p>art. 18, Lei nº 3.924/61 BRASIL. Lei nº 3.924, de 26 de julho de 1961.</p><p>Dispõe sobre os monumentos arqueológicos e</p><p>pré-históricos. Disponível em:</p><p>https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/195</p><p>0-1969/l3924.htm. Acesso em: 30 jun. 2023.</p><p>CJF, Enunciado 76 BRASIL, Enunciado n° 76. I Jornada de</p><p>Prevenção e Solução Extrajudicial de</p><p>Litígios. Disponível em:</p><p>https://www.cjf.jus.br/enunciados/enunciado/</p><p>937</p><p>CJF, Enunciado 80 BRASIL, Enunciado n° 80. I Jornada de</p><p>Prevenção e Solução Extrajudicial de</p><p>Litígios. Disponível em:</p><p>https://www.cjf.jus.br/enunciados/enunciado/</p><p>938</p><p>CJF, Enunciado 222 BRASIL, Enunciado n° 222. II Jornada de</p><p>Prevenção e Solução Extrajudicial de</p><p>Litígios. Disponível em:</p><p>https://www.cjf.jus.br/cjf/corregedoria-da-justi</p><p>ca-federal/centro-de-estudos-judiciarios-1/prev</p><p>encao-e-solucao-extrajudicial-de-litigios.</p><p>Regulamentos</p><p>Câmara ou Centro Citação Completa</p><p>Resolução n° 06/20, item 8.3 CAMARB. Resolução n° 06/2020. Disponível</p><p>em:</p><p>https://camarb.com.br/en/arbitration/adminis</p><p>trative-resolutions/administrative-resolution-no</p><p>-06-20/. Acesso em: 07 jul. 2023.</p><p>CAMARB, item 9.5 CAMARB. Regulamentos e leis: arbitragem</p><p>e mediação. Disponível em</p><p>https://camarb.com.br/arbitragem/regulament</p><p>o-de-arbitragem/. Acesso em: 20 jun. 2023.</p><p>CAMARB 2, itens 6.1 a 6.3</p><p>CAMARB 2, itens 7.1 a 7.2</p><p>CAMARB. Regulamento de Dispute Board.</p><p>Disponível em</p><p>https://camarb.com.br/wpp/wp-content/uplo</p><p>ads/2018/11/regulamento-de-db-camarb-2017-</p><p>final.pdf. Acesso em: 19 jul. 2023</p><p>https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/1950-1969/l3924.htm</p><p>https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/1950-1969/l3924.htm</p><p>https://camarb.com.br/en/arbitration/administrative-resolutions/administrative-resolution-no-06-20/</p><p>https://camarb.com.br/en/arbitration/administrative-resolutions/administrative-resolution-no-06-20/</p><p>https://camarb.com.br/en/arbitration/administrative-resolutions/administrative-resolution-no-06-20/</p><p>https://camarb.com.br/wpp/wp-content/uploads/2018/11/regulamento-de-db-camarb-2017-final.pdf</p><p>https://camarb.com.br/wpp/wp-content/uploads/2018/11/regulamento-de-db-camarb-2017-final.pdf</p><p>https://camarb.com.br/wpp/wp-content/uploads/2018/11/regulamento-de-db-camarb-2017-final.pdf</p><p>dos contratempos causados pela Requerida, o Data Center foi regularmente</p><p>entregue pela Requerente. Inobstante, a contraparte, irrazoavelmente, exigiu que a Requerente</p><p>substituísse o maquinário, pois, segundo aquela, este violava a Cláusula 9ª do Contrato de</p><p>Financiamento [Caso, p.5, §17-18], o que não foi aceito pela Requerente. Ainda, solicitou o</p><p>ressarcimento dos prejuízos com a postergação da inauguração do Data Center [Caso, p.5, §20].</p><p>6. Com o intuito de imputar à Requerente a responsabilidade pelo seu descumprimento do</p><p>Contrato de Financiamento, em 26/07/2022, a Requerida acionou o Dispute Board para que</p><p>fosse reconhecida (i) a desconformidade do maquinário, (ii) a validade da retenção do montante</p><p>de R$ 374.749.018,50 (trezentos e setenta e quatro milhões, setecentos e quarenta e nove mil,</p><p>dezoito reais e cinquenta centavos) (“Valor da Última Medição”); e (iii) a responsabilização da</p><p>Requerente pelas despesas incorridas pela Requerida [Caso, p.5, §21]. Em resposta, a Requerente</p><p>solicitou que: (i) a obra fosse declarada concluída de forma regular, pois os equipamentos eram</p><p>adequados, e (ii) fosse realizado o pagamento do Valor da Última Mediação.</p><p>7. Em 17/10/2022, em recomendação favorável à Requerente, que sequer foi impugnada</p><p>[Esclarecimento 1, p.131], o Dispute Board confirmou que a obra foi concluída regularmente,</p><p>pois o maquinário era apropriado e a sua substituição foi realizada unilateralmente pela</p><p>Requerida [Anexo 10, p.69-70, §52]. Como consequência desse ato da Requerida e da sua má</p><p>gestão de negócios, diversas ações judiciais foram iniciadas contra a parte contrária, o que</p><p>resultou no seu pedido de recuperação judicial (“Recuperação Judicial”) [Caso, p.6, §25].</p><p>8. Ciente da Recuperação Judicial, a Requerente notou que, mesmo após a recomendação</p><p>do Dispute Board, o crédito relativo ao Valor da Última Medição, indevidamente retido pela</p><p>Requerida, foi listado pela Requerida na Recuperação Judicial em montante substancialmente</p><p>inferior ao valor devido [Caso, p.6, §§25-26]. Na tentativa de esclarecer a questão pacificamente,</p><p>a Requerente questionou a Requerida sobre o ínfimo valor listado [Anexo 11, p.72].</p><p>9. Em resposta, o Diretor de Novos Negócios da Requerida (“Diretor da Requerida”),</p><p>infundadamente, culpabilizou a Requerente pela crise financeira da Requerida e ressaltou que o</p><p>Valor da Última Medição não seria pago [Anexo 11, p.74-76]. Sem alternativa, em 05/01/2023,</p><p>a Requerente submeteu à CAMARB: (i) requerimento de árbitro de emergência para que fosse</p><p>determinado o depósito do Valor da Última Medição pela Requerida, a título de garantia, em</p><p>conta vinculada à CAMARB, bem como (ii) solicitação de arbitragem [Caso, p.6, §28].</p><p>10. Em 01/2023, a árbitra de emergência deferiu o pedido da Requerente de depósito do</p><p>Valor da Última Medição, o qual foi realizado pela Requerida voluntariamente [Anexo 14,</p><p>p.93-94]. Em 22/01/2023, em resposta à solicitação de arbitragem, a Requerida pleiteou que: (i)</p><p>o Tribunal revogasse a decisão de emergência unicamente em razão do deferimento do</p><p>processamento da Recuperação Judicial, e (ii) fosse ressarcida pelos prejuízos supostamente</p><p>causados pela Requerente. Por isso, em 01/06/2023, o Tribunal emitiu Ordem Processual para</p><p>solicitar às Partes que apresentassem memoriais acerca dos pontos controvertidos.</p><p>SÚMULA DAS PRETENSÕES</p><p>11. Em razão dos fatos narrados, a Requerente demonstrará, preliminarmente, que: (i) o</p><p>deferimento da Recuperação Judicial não enseja a revogação imediata da decisão da árbitra de</p><p>emergência, e que (ii) o fato de a Requerente não ter submetido ao Dispute Board o pedido de</p><p>ressarcimento dos prejuízos que suportou em razão das intempéries geológicas não gera</p><p>implicações na presente arbitragem. No Mérito, comprovará que (iii) o risco geológico não foi</p><p>assumido pela Requerente e que (iv) a Requerente não pode ser responsabilizada pelos custos da</p><p>contratação substitutiva incorridos pela Requerida, tampouco pelos prejuízos ocasionados pelo</p><p>adiamento da inauguração do Data Center.</p><p>PRELIMINARMENTE</p><p>PARTE I: O FATO NOVO COMUNICADO PELA REQUERIDA (DEFERIMENTO</p><p>DO SEU PEDIDO DE RECUPERAÇÃO JUDICIAL) NÃO ENSEJA A REVOGAÇÃO</p><p>IMEDIATA DA DECISÃO DA ÁRBITRA DE EMERGÊNCIA</p><p>12. A Requerente comprovará que o fato novo não enseja a suspensão do procedimento</p><p>arbitral vigente e, consequentemente, não implica na revogação imediata da decisão da árbitra</p><p>de emergência, pois (1.1) a arbitragem não se sujeita ao stay period e, como a decisão de</p><p>emergência antecede e integra o procedimento arbitral principal, esta não pode ser suspensa e</p><p>tampouco revogada. Independentemente disto, (1.1.1) a decisão de emergência sequer comporta</p><p>revogação imediata, porque não configura título executivo, logo, não se sujeita ao stay period. Por</p><p>fim, a Requerente demonstrará que (1.2) a revogação da decisão de emergência, além de</p><p>prejudicar o recebimento do crédito da Requerente no valor correto, também pode</p><p>comprometer o propósito da Recuperação Judicial e, subsidiariamente, (1.3) ao contrário do que</p><p>alega a Requerida, a Recuperação Judicial não limita os poderes do Tribunal Arbitral.</p><p>1.1. A decisão da árbitra de emergência é parte integrante da arbitragem e, portanto,</p><p>não se sujeita aos efeitos do stay period</p><p>13. Diversamente do que alega a Requerida [Anexo 13, p.87], a revogação da decisão da</p><p>árbitra de emergência em razão do mero processamento da Recuperação Judicial [Anexo 14,</p><p>p.93] é indevida. Isso porque, o pedido de emergência e o procedimento arbitral principal estão</p><p>intrinsecamente ligados, assim, dado que este não se sujeita ao stay period, consequentemente, a</p><p>decisão da árbitra não comporta revogação imediata.</p><p>14. O pedido de emergência antecede e integra o procedimento arbitral principal. Isso</p><p>porque, os provimentos jurisdicionais de emergência podem ser submetidos a eventual revisão</p><p>pelo tribunal arbitral que, quando constituído, será o competente para manter, modificar ou</p><p>revogar, integral ou parcialmente, a decisão ora concedida [CAMARB, item 9.5; Resolução</p><p>06/20, item 8.6; TJSP, AC 1033030-68.2021.8.26.0100]. Ainda, uma eventual revogação da tutela</p><p>concedida em caráter de urgência poderia ocorrer somente após a reapreciação pelo tribunal</p><p>arbitral, quando constituído, em forma de sentença arbitral, e não meramente devido ao</p><p>processamento de uma recuperação judicial.</p><p>15. In casu, as próprias Partes pactuaram no Aditivo que as tutelas de urgência vinculadas ao</p><p>procedimento de emergência poderiam ser reapreciadas e revogadas pelo Tribunal [Anexo 14,</p><p>p.93; Anexo 4, p.35, Cláusula 22.3.4.2]. Logo, a análise acerca da revogação (ou não) da decisão</p><p>de emergência proferida perpassa, primeiro, pela discussão relativa à possibilidade de suspensão</p><p>(ou não) do presente procedimento, o qual não deve ser suspenso em função da Recuperação</p><p>Judicial, como se passa a expor.</p><p>16. Sabe-se que o deferimento da recuperação judicial acarreta a suspensão de todas as</p><p>ações e execuções ajuizadas contra a recuperanda - in casu, a Requerida -, pelo período de 180</p><p>(cento e oitenta) dias [art. 6°, inc. III, LREF; art. 6°, §4°, LREF; art. 52, inc. II, LREF].</p><p>Entretanto, tal suspensão não abrange os procedimentos arbitrais [art. 6°, §9°, LREF;</p><p>DICKSTEIN, FICHTNER, p.380; SACRAMONE, p.144], e outras ações que versem sobre</p><p>quantias ilíquidas [art. 6°, §1° e §9°, LREF], cujo fim é a discussão da existência, extensão e</p><p>valor de créditos cobrados em face do devedor [TOMAZETTE, p.152; TOLEDO, p.2; STJ,</p><p>REsp 1.355.831/SP].</p><p>17. Nesse sentido, os procedimentos arbitrais, possuem caráter essencialmente ilíquido, uma</p><p>vez que visam, justamente, a constituição de um título executivo judicial [art. 31, LArb;</p><p>CRIPPA, p.7; DECCACHE, p.9; MARTINS, p.10-11]. No caso em tela, a Requerente solicita</p><p>justamente a condenação da Requerida [Anexo 12, p.83] e não a execução de um valor já</p><p>constituído expresso em um título executivo. Sendo assim, o que pretende a Requerente é o</p><p>arbitramento dos valores devidos pela Requerida</p><p>em razão dos prejuízos causados pela</p><p>prestação de informações infundadas quanto à geologia do canteiro de obras, bem como das</p><p>parcelas retidas do preço à Requerente [Esclarecimento 3, p.132].</p><p>18. Se assim não fosse, a Requerente tampouco teria motivos para submeter seu conflito à</p><p>arbitragem, visto que para solicitar a efetiva execução dos valores o juízo competente seria o</p><p>estatal. Isso, pois, os tribunais arbitrais sequer detêm poder coercitivo para adotar medidas</p><p>executórias, as quais somente podem ser praticadas pelo Poder Judiciário [art. 139, inc. IV, CPC;</p><p>art. 536, CPC; OLIVEIRA NETO, 2019; STEINBERG, 2021; STJ, REsp 1.465.535/SP].</p><p>19. Desse modo, nota-se que o propósito desse procedimento arbitral principal é</p><p>justamente discutir e atestar a exigibilidade dos valores devidos pela Requerida, que, por serem</p><p>ilíquidos, não sujeitam-se aos efeitos do stay period. Portanto, diante todo o exposto, o</p><p>procedimento arbitral não deve ser suspenso em razão do deferimento da Recuperação Judicial</p><p>e, consequentemente, a decisão de emergência, por estar intrinsecamente ligada ao</p><p>procedimento principal, também não deve ser revogada.</p><p>1.1.1 A decisão da árbitra de emergência não comporta revogação imediata,</p><p>independentemente do vínculo com o procedimento arbitral principal</p><p>20. Resta demonstrado que a decisão da árbitra de emergência não se sujeita aos efeitos do</p><p>stay period, uma vez que integra o procedimento arbitral principal, o qual não deve ser suspenso</p><p>(1.1). Adicionalmente, a Requerente passará a demonstrar que, inobstante o referido vínculo, a</p><p>decisão proferida no procedimento de emergência não comporta revogação imediata por si só.</p><p>21. Inicialmente, destaca-se que, no ordenamento jurídico brasileiro, são considerados</p><p>títulos executivos todas as sentenças condenatórias ou decisões proferidas em juízo nas quais</p><p>sejam prontamente apuradas a exigibilidade das obrigações, de modo a estipular a sua liquidez</p><p>[THEODORO JÚNIOR, p.78; art. 515, CPC]. Nesse sentido, o CPC inclui, no art. 515, inc.</p><p>VII, a sentença arbitral no rol dos títulos executivos judiciais, sendo desnecessário que essa</p><p>submeta-se à homologação posterior em juízo estatal para adquirir caráter de título executivo</p><p>[THEODORO JÚNIOR 2, p.89; ALVIM, p.7; MUNIZ, p.64; STJ, REsp 1.325.847/AP].</p><p>22. Entretanto, diferentemente da sentença arbitral, as decisões proferidas com caráter de</p><p>tutela de urgência na arbitragem não apuram de maneira integral a exigibilidade do direito</p><p>postulado, logo, apresentam característica transitória e não detêm natureza de título executivo</p><p>[SCHERER, RICHMAN, GERBAY, p.156; SOUZA, FIGUEIREDO, p.3-5]. Ou seja,</p><p>independentemente do vínculo com o procedimento arbitral principal, somente caberia a</p><p>revogação imediata da decisão da árbitra de emergência caso esta configurasse um título</p><p>executivo, que, por conseguinte, seria submetido ao stay period [art. 6°, inc. II da LREF].</p><p>23. Ressalta-se que as decisões cautelares proferidas pelos árbitros de emergência, assim</p><p>como as cautelares proferidas pelos tribunais arbitrais já constituídos, somente possuem caráter</p><p>executório caso, para o seu cumprimento, a parte interessada provoque o árbitro a solicitar a</p><p>cooperação com o juízo cível [art. 22-C LArb; art. 300, CPC; CARMONA, p.322-329;</p><p>MEDINA, p.344; STJ, REsp 1.325.847/AP]. Todavia, não se verifica tal premissa no caso.</p><p>24. Pelo contrário, o que se observa é que a referida decisão sequer foi contestada pela</p><p>Requerida, que, por sua vez, realizou, voluntariamente, o depósito do valor requisitado pela</p><p>Requerente e determinado pela árbitra em conta vinculada à CAMARB [Caso, p.7, §31]. Nota-se</p><p>que, além da decisão da árbitra de emergência não ser terminativa, logo, ilíquida, não foi</p><p>necessária nenhuma intervenção do juízo estatal para que a Requerida cumprisse a determinação</p><p>da árbitra, portanto, a decisão cautelar transitória foi concretizada sem a adoção de quaisquer</p><p>medidas coercitivas e, por isso, não possui caráter de título executivo [art. 22-B, § único, LArb].</p><p>25. Conclui-se, assim, que a decisão de emergência não foi contestada pela contraparte, não</p><p>é terminativa e tampouco é classificada como título executivo. Isto posto, independente da</p><p>vinculação entre o procedimento arbitral principal e o procedimento de emergência, a tutela de</p><p>urgência não se submete ao stay period, portanto, não comporta revogação imediata.</p><p>1.2 A revogação da decisão da árbitra de emergência pode acarretar prejuízos para a</p><p>Requerente, bem como para a Recuperação Judicial como um todo</p><p>26. Demonstrada a impossibilidade de revogação da decisão da árbitra de emergência (1.1),</p><p>cumpre destacar os prejuízos que a revogação da referida decisão pode desencadear. Isso pois,</p><p>além de (i) afetar o recebimento do crédito da Requerente, que tão somente usou dos meios que</p><p>tinha à disposição para resguardar seu direito de receber o Valor da Última Medição, (ii) a</p><p>revogação da tutela de emergência ainda pode comprometer a própria Recuperação Judicial.</p><p>27. Quanto ao primeiro prejuízo (i), destaca-se que, quando da formulação do requerimento</p><p>do procedimento de emergência, a via arbitral era a única alternativa que a Requerente possuía, à</p><p>época, para resguardar o seu crédito. Assim, a Requerente agiu corretamente ao requerer, à</p><p>árbitra de emergência, o depósito do Valor da Última Medição, como se passa a expor.</p><p>28. Uma vez pactuada cláusula compromissória, a arbitragem se torna a única via possível</p><p>para solucionar os conflitos provenientes do contrato no qual está inserida [CARMONA, p.16;</p><p>MARTINS, p.3; STJ, REsp 1.733.370/GO; STJ, REsp 1.699.855/RS]. Finalizado o</p><p>procedimento arbitral, conforme exposto (1.1.1), a sentença arbitral, tal qual a sentença judicial,</p><p>possui força de título executivo [art. 31, LArb]. Essa sentença, por ter caráter de título executivo</p><p>judicial, pode ser usada para habilitação de crédito em uma recuperação judicial [TJSP, AgI</p><p>9044554-23.2007.8.26.0000]. Isso porque, o referido pronunciamento atesta a existência e</p><p>exigibilidade daquele crédito discutido [TJSP, AgI 2050314-13.2023.8.26.0000].</p><p>29. No caso, a Requerente acionou a cláusula compromissória em 05/01/2023, ocasião em</p><p>que foram formulados o requerimento do árbitro de emergência e a solicitação de arbitragem</p><p>[Caso, p.6, §28; Anexo 12, p.79]. Contudo, o deferimento do processamento da Recuperação</p><p>Judicial somente veio a ocorrer em 05/03/2023, 2 meses depois. Assim, depreende-se dos fatos</p><p>que o pedido de tutela da Requerente foi realizado após o ajuizamento da Recuperação Judicial,</p><p>mas antes do deferimento do seu processamento [Anexo 16, p.109].</p><p>30. Ora, se o pedido de emergência foi requerido antes da instauração da competência do</p><p>juízo recuperacional, esse cenário fático apenas permite inferir uma única conclusão: o pedido</p><p>de arresto do Valor da Última Medição, em sede de tutela arbitral de emergência, foi</p><p>direcionado ao juízo competente para dirimir as questões acerca do Contrato, qual seja, o juízo</p><p>arbitral. Consequentemente, qualquer alegação da Requerida em sentido oposto tampouco</p><p>poderia prosperar, já que a Requerente tão somente agiu conforme o Contrato e acionou o</p><p>único meio previsto para ter a satisfação do seu pedido de emergência.</p><p>31. Atrelada a esse contexto, destaca-se, também, o cenário de insegurança jurídica que se</p><p>desdobrou em face da Requerente no tocante ao recebimento do seu crédito. No caso, o</p><p>Diretor da Requerida propositalmente listou na relação inicial de credores o crédito ínfimo de</p><p>apenas R$49.581,00 (quarenta e nove mil, quinhentos e oitenta e um reais), montante 7.600 (sete</p><p>mil e seiscentas) vezes inferior ao crédito realmente devido à Requerente, correspondente ao</p><p>Valor da Última Medição [Caso, p.6, §27; Anexo 11, p.74-75]. Adicionalmente, também foi</p><p>sinalizado pelo próprio Diretor da Requerida a irresignação da parte contrária quanto ao</p><p>pagamento do crédito listado, que, imerso em sua narrativa falaciosa e leviosa, ainda tentou</p><p>imputar a culpa pelo estado de fragilidade financeira</p><p>à Requerente [Anexo 11, p.78]</p><p>32. Diante desse cenário de risco para a satisfação de seu crédito é que a Requerente,</p><p>sem outra alternativa, recorreu ao procedimento arbitral de emergência para garantir o depósito</p><p>do correto Valor da Última Medição. Por conseguinte, a revogação da decisão de emergência,</p><p>além descabida, dado que o pedido de emergência foi feito ao juízo existente e competente para</p><p>apreciá-lo quando da sua proposição, colocaria em risco justamente o que se visava assegurar</p><p>com a decisão: a garantia do recebimento, pela Requerente, do Valor da Última Medição.</p><p>33. Quanto ao segundo prejuízo (ii), a revogação da decisão poderia acarretar consequências</p><p>não só para a Requerente - conforme exposto -, mas para os demais credores. Isso porque, ao</p><p>oposto do que a Requerida tenta fazer crer [Anexo 13, p.84], a arbitragem pode ser uma aliada</p><p>do juízo recuperacional, na medida em que contribui, de forma célere e especializada, na</p><p>solução de controvérsias que “podem frustrar as expectativas geradas pela aprovação do Plano, seja pelo</p><p>retardamento de medidas efetivas tendentes a assegurar a superação da crise ou, no limite, pela convolação do</p><p>estado de recuperação em falência, com prejuízos visíveis para todos os envolvidos e, até mesmo, terceiros.”</p><p>[PINTO, p.6]. Destarte, a cooperação entre o juízo arbitral e recuperacional mostra-se benéfica</p><p>e viável para assegurar que o propósito da Recuperação Judicial seja atingido de forma célere.</p><p>34. Salienta-se que, no atual cenário, o processamento da Recuperação Judicial já encontra</p><p>obstáculos, pois não há juiz designado para dar andamento ao processo [Esclarecimento 4,</p><p>p.132] e ainda não houve qualquer manifestação da Administração Judicial quanto à impugnação</p><p>de crédito oferecida pela Requerente [Esclarecimento 6, p.132]. Assim, sujeitar a Requerente a</p><p>um procedimento moroso de impugnação de crédito, significaria uma sujeição não só à</p><p>insegurança de não ver seu crédito constituído, mas também onerar ainda mais o juízo</p><p>recuperacional com uma análise que pode e deve ser plenamente resolvida pela via arbitral.</p><p>35. Ainda que a Requerida venha a suscitar que a manutenção do depósito do Valor da</p><p>Última Medição poderia comprometer a Recuperação Judicial, a Requerente não desconhece</p><p>que o objetivo do procedimento recuperacional é a preservação e recuperação da empresa [art.</p><p>47, LREF; GARDINO, p.14; BEZERRA FILHO, p.123], e tampouco deseja tumultuar o</p><p>processo recuperacional. O que se busca é tão somente propor a cooperação entre o juízo</p><p>arbitral e o juízo recuperacional [art. 69, §2°, inc. IV, CPC], visto que, inclusive, é dever do juiz</p><p>incentivar, com o auxílio do administrador judicial, a desjudicialização da crise empresarial no</p><p>processo recuperação recuperacional, a fim de “encontrar a solução mais adequada ao caso e, com isso,</p><p>concretizar o princípio da preservação da atividade viável [CJF, Enunciado 222].</p><p>36. Tendo em vista que a presente arbitragem trata de um crédito comum, ilíquido e</p><p>submetido à Recuperação Judicial (1.1), a manutenção do depósito em conta vinculada da</p><p>CAMARB é a maneira mais adequada de dar destinação a esse recurso até que o curso da</p><p>Recuperação Judicial avance. Assim, é possível viabilizar a concretização do princípio da</p><p>recuperação da empresa supramencionado.</p><p>37. Portanto, a revogação da decisão da árbitra de emergência apenas fomentaria o cenário</p><p>de insegurança quanto à satisfação do direito da Requerente, que não possuiria qualquer</p><p>previsibilidade de ver seu crédito listado corretamente. Ademais, a revogação prejudicaria a</p><p>satisfação do objetivo da Recuperação Judicial, visto que é de interesse de todos os credores a</p><p>celeridade do aludido processo, sendo a arbitragem uma ferramenta imprescindível para tanto, o</p><p>que pode ser viabilizado mediante a cooperação entre o juízo arbitral e o juízo recuperacional,</p><p>impulsionando, assim, a recuperação da própria Requerida.</p><p>1.3. Subsidiariamente, ao contrário do que alega a Requerida, o processamento da</p><p>Recuperação Judicial não impõe limites aos poderes do Tribunal Arbitral</p><p>38. Como demonstrado (1.1), o mero deferimento do processamento da Recuperação</p><p>Judicial não conduz à suspensão do presente procedimento. Nesse sentido, na resposta à</p><p>solicitação de arbitragem, a própria Requerida não se opôs à manutenção do procedimento</p><p>arbitral principal [Anexo 13, p.84, §1], mas se limitou a mencionar que o fato novo</p><p>supostamente impõe limites ao procedimento arbitral, pois o arresto do Valor da Última</p><p>Medição, supostamente, implicaria em violação do princípio do par conditio creditores. Contudo, a</p><p>Requerente demonstrará que a alegação da parte contrária não merece prosperar, visto que o</p><p>fato novo não limita, de modo algum, os poderes deste Tribunal.</p><p>39. O par conditio creditores visa garantir a paridade entre os créditos sujeitos à recuperação</p><p>judicial, de modo que cada um dos créditos listados na recuperação judicial respeitem a classe à</p><p>qual pertencem prevista em lei e, consequentemente, a ordem de pagamento após elaboração</p><p>do plano de recuperação judicial [art. 58, §2º e art. 126, LREF; FAZZIO JÚNIOR, p.19;</p><p>SOUZA, PITOMBO, p.269]. Todavia, diferente do que alega a Requerida [Anexo 13, p.84, §1],</p><p>o processamento da Recuperação Judicial não limita os poderes do Tribunal Arbitral.</p><p>40. Isso, pois, os tribunais arbitrais são competentes para determinar a realização da reserva</p><p>de créditos submetidos ao processo recuperacional, a fim de salvaguardar o direito de alguma</p><p>das partes, sem que isso implique violação do patrimônio da recuperanda e tampouco do</p><p>princípio do par conditio creditores [art. 6°, §3°, LREF; BENETTI, p.18; TOMAZETTE, p.152].</p><p>Atrelado a isso, frisa-se que, inobstante a impossibilidade de prática de atos executórios na</p><p>arbitragem, o árbitro de emergência “poderá impor medidas visando ao cumprimento de suas decisões,</p><p>inclusive multas e prestação de garantias” [Resolução n° 06/2020, item 8.3].</p><p>41. No caso, em momento algum, a Requerente pretendeu violar da fila de credores, visto</p><p>que o que se pretende é tão somente assegurar o seu direito de receber com o depósito, a título</p><p>de garantia, o Valor da Última Medição [Anexo 14, p.93], sendo que o referido depósito,</p><p>inclusive, foi feito em conta vinculada à CAMARB e não em conta pessoal da Requerente [Caso,</p><p>§28, p.6]. Este cenário reforça o caráter exclusivo de garantia do arresto e afasta qualquer</p><p>discussão acerca do suposto caráter executivo da decisão, como já foi comprovado (1.1.1).</p><p>42. Portanto, o processamento da Recuperação Judicial não limita os poderes deste</p><p>Tribunal, que pode salvaguardar o crédito da Requerente mediante a manutenção da decisão da</p><p>árbitra de emergência, sem que isso signifique uma violação da fila de credores. Logo, a alegação</p><p>da Requerida deve ser rechaçada.</p><p>PARTE II: O FATO DE A REQUERENTE NÃO TER SUBMETIDO AO DISPUTE</p><p>BOARD O SEU PEDIDO DE RESSARCIMENTO DOS PREJUÍZOS QUE</p><p>SUPORTOU EM RAZÃO DAS INTEMPÉRIES GEOLÓGICAS NÃO TÊM</p><p>IMPLICAÇÕES NO PROCEDIMENTO ARBITRAL</p><p>43. Demonstrada a impossibilidade de revogação da decisão da árbitra de emergência (1.1),</p><p>(2.1) a Requerente comprovará que, ao contrário do que alega a Requerida [Anexo 13, p.85, §3],</p><p>o seu direito de pleitear o ressarcimento dos prejuízos suportados em função das intempéries</p><p>geológicas não decaiu. Ademais, (2.2) conquanto a Requerente não tenha formulado o pedido</p><p>de ressarcimento para o Dispute Board, este Tribunal pode e deve recepcioná-lo, pois (i) inexiste</p><p>obrigação formal de submissão prévia de pedidos ao Dispute Board como condição precedente</p><p>para análise dos tribunais arbitrais, e (ii) a matéria objeto da presente arbitragem tampouco se</p><p>limita ao que já foi tratado pelo comitê.</p><p>2.1 O direito da Requerente de submeter o pedido de ressarcimento não decaiu</p><p>44. A Requerida alega que o direito da Requerente de formular o requerimento de</p><p>ressarcimento pelos prejuízos incorridos na obra, supostamente, teria decaído [Anexo 13, p.85,</p><p>§3]. Entretanto, essa não é a realidade,</p><p>já que o prazo estabelecido no Contrato para submissão</p><p>de pedidos ao Dispute Board não abarca as questões discutidas perante o Tribunal Arbitral, e o</p><p>Dispute Board tampouco estava em vigor quando da formulação do pedido da Requerente.</p><p>45. A decadência é um instituto jurídico que tutela o perecimento de um direito em função</p><p>da inércia do titular após o decurso do prazo fixado para o seu exercício [THEODORO</p><p>JÚNIOR 3, p.246; DINIZ, p.79; LEAL, p.114]. In casu, foi estipulado no Contrato o prazo de</p><p>até 30 (trinta) dias para submissão, pelas Partes, de eventuais controvérsias para análise do</p><p>Dispute Board1 [Contrato, p.12, Cláusula 22.1.3]. Ou seja, trata-se de uma disposição contratual</p><p>que tão somente delimita o prazo máximo para realização de pedidos perante o comitê.</p><p>46. Todavia, com fulcro em uma interpretação completamente incongruente com o real</p><p>objetivo da Cláusula 22.1.3, a Requerida erroneamente tenta invalidar o pleito da Requerente.</p><p>Nesse contexto, a contraparte aduz que o intuito da Cláusula 22.1.3 do Contrato era impedir a</p><p>criação de “disputas sem sentido” no final da obra [Anexo 13, p.85, §4] e que, por tal, a</p><p>inobservância do prazo de 30 (trinta) dias teria culminado na suposta decadência do direito da</p><p>Requerente de formular o pedido de ressarcimento para o Tribunal [Anexo 13, p.85, §4]. Porém,</p><p>tal alegação é demasiadamente descabida.</p><p>47. O prazo de submissão de pedidos na via arbitral não se confunde com o prazo de</p><p>submissão de eventuais controvérsias ao Dispute Board. Nesse tocante, diversamente do prazo</p><p>acima aplicável ao Dispute Board, à cláusula compromissória do Contrato tão somente prevê que</p><p>o “o processo arbitral pode ser iniciado antes, durante ou após o término da execução do Contrato” [Contrato,</p><p>p.32], cabendo às Partes a submissão de pedidos quando for conveniente. Nota-se, assim, que</p><p>inexiste qualquer prazo decadencial relativo à submissão de pedidos para análise deste Tribunal.</p><p>48. Atrelado a isso, ressalta-se, também, que o foco de atuação dos dispute boards tampouco</p><p>confunde-se com o papel exercido pelos tribunais arbitrais, o que justifica a ausência de</p><p>submissão prévia do pedido de ressarcimento para o Dispute Board. Os dispute boards limitam-se a</p><p>dirimir discussões anteriores ao possível conflito entre partes com o fim de analisar questões</p><p>técnicas que venham surgir durante o acompanhamento das obras, logo, foco de análise dos</p><p>comitês não são as questões jurídicas, papel que é atribuído aos tribunais arbitrais</p><p>[MARCONDES, p.137; PETKUTE-GURIENE, p.20; ROSA, p.5, p.14]. Não é por menos que</p><p>1 O dispute board é um meio extrajudicial de resolução de conflitos contratuais, por meio do qual um comitê</p><p>formado por profissionais é responsável por acompanhar a execução de um contrato, com o fim de prevenir</p><p>possíveis controvérsias, principalmente nos contratos de longa duração, como os de construção [MIMOSO E</p><p>BORTONE, p.303; MARCONDES, p.327; MADERO, p.174; SOUZA, p7.2; VAZ, p.140; VALDÉS, p.127].</p><p>esse método é comumente indicado para solucionar questões técnicas nos contratos de</p><p>construção, visto que os comitês realizam o acompanhamento do cotidiano da obra em tempo</p><p>real [CJF, Enunciado 80]</p><p>49. Importa destacar que, quando a pretensão jurídica de ressarcimento da Requerente foi</p><p>formulada, o Dispute Board sequer estava em vigor [Esclarecimento 2, p.132]. Ou seja, o Dispute</p><p>Board tampouco poderia recepcionar o pleito da Requerente, uma vez que a pretensão de</p><p>ressarcimento surgiu após o encerramento das obras. Nota-se, assim, que a Requerente tão</p><p>somente agiu conforme o Contrato e acionou a cláusula compromissória.</p><p>50. Ademais, a tentativa da Requerida de enquadrar a conduta da Requerente como</p><p>oportunista é incongruente com a realidade dos fatos. Isso porque, a contraparte insinua que o</p><p>objetivo da Cláusula 22.1.3 seria impedir a criação de “disputas sem sentido” no fim da obra</p><p>[Anexo 13, p.85, §4], todavia, a própria incorre em contradição, já que objetiva, infundadamente,</p><p>impedir a análise do pedido de ressarcimento da Requerente por este Tribunal. O que a</p><p>Requerida almeja ao alegar a decadência do legítimo direito da Requerente é esquivar-se da sua</p><p>responsabilidade tocante aos riscos geológicos da obra assumidos no Contrato, para imputar à</p><p>Requerente o ônus de arcar com a contratação substitutiva e com os prejuízos oriundos do</p><p>adiamento da inauguração do Data Center, sendo que ambos fato foram decorrentes do repasse</p><p>de informações inverídicas pela própria Requerida, como será demonstrado (3.3)</p><p>51. Diante do exposto, não há o que se falar no prazo decadencial em relação ao pedido de</p><p>ressarcimento formulado pela Requerente e o Tribunal deve analisá-lo. Assim, conclui-se que o</p><p>fato da Requerente não ter submetido tal pleito ao Dispute Board não gera implicações no</p><p>Procedimento, que deve prosseguir normalmente.</p><p>2.2 Inobstante a ausência de submissão prévia do pedido de ressarcimento para o</p><p>Dispute Board, o Tribunal Arbitral pode e deve examinar o pleito da Requerente</p><p>52. Atrelada à inexistência da decadência do direito da Requerente (2.1), será comprovado</p><p>que a ausência de submissão prévia do pleito ressarcitório para análise do comitê não obsta, de</p><p>nenhuma forma, a análise do presente Tribunal Arbitral. Isso, pois, o que as Partes pactuaram</p><p>foi um DRB, que, devido ao seu caráter meramente recomendatório, não teria o condão de pôr</p><p>fim à controvérsia entre as Partes e, considerando a não limitação da arbitragem ao que foi</p><p>tratado pelo comitê, este Tribunal pode e deve analisar o pleito da Requerente.</p><p>53. O método do dispute board pode ser pactuado em duas modalidades principais: (i) o</p><p>Dispute Adjudication Board (“DAB”), que profere decisões com força vinculante e de</p><p>cumprimento imediato [CAMARB 2, itens 7.1 a 7.3; OWEN, p.44-45; MADERO, p.175-178;</p><p>MACHADO, p.15], e (ii) o Dispute Resolution Board (“DRB”), cuja função é meramente sugestiva,</p><p>conforme disposto no Regulamento de Dispute Board da CAMARB [CAMARB 2, itens 6.1 a 6.3;</p><p>GALVÃO, p.198; LIMA, p.275; WALD, p.18]. Desse modo, a escolha da modalidade de dispute</p><p>board mais conveniente ao negócio jurídico é definida por convenção consensual das partes que,</p><p>no exercício de sua autonomia da vontade [ARAÚJO, p.4, MARTINS-COSTA, p.405,</p><p>TREVISAN, p.203].</p><p>54. No caso, as Partes livremente acordaram a modalidade de DRB, quando poderiam, sem</p><p>impedimento algum, ter acordado a modalidade do DAB, que seria apto a proferir decisões com</p><p>força vinculante entre as Partes, se assim quisessem, no entanto, não procederam dessa forma</p><p>[Contrato, p.29, Cláusula 22.1]. Isto posto, em razão da opção livre e consensual das Partes</p><p>[Caso, p.3, §7], às manifestações realizadas pelo Dispute Board são apenas recomendatórias, como</p><p>disposto na Cláusula 22.1.4 do Contrato, a qual dispõe que as manifestações sobre os</p><p>requerimentos formulados por quaisquer das Partes ao comitê seriam emitidas em forma de</p><p>mera “recomendação” [Contrato p.30, Cláusula 22.1.4].</p><p>55. Dessa forma, resta evidente que o caráter das decisões proferidas por este Tribunal não</p><p>se confunde com o caráter das recomendações proferidas pelo Dispute Board. Tanto assim é que,</p><p>no Contrato, as Partes estipularam o papel de cada método com a seguinte ressalva: “a atuação do</p><p>Comitê não se confunde com a atuação de Tribunal Arbitral” [Contrato, p.12, Cláusula 22.1.3.4].</p><p>56. Isto posto, diante de uma pretensão jurídica que necessite de uma decisão terminativa</p><p>no âmbito de contratos que possuam a previsão de um DRB e da cláusula arbitral, como in casu,</p><p>é perfeitamente cabível que a análise do pedido seja feita pelo tribunal arbitral, já que as</p><p>recomendações do dispute board não são reconhecidas e executadas da mesma maneira que uma</p><p>sentença arbitral, que, como exposto (1.1.1), possuem caráter de título executivo.</p><p>Diferentemente, as manifestações do comitê, mesmo quando proferidas no âmbito do DAB, tão</p><p>somente obrigam contratualmente as partes [CAIRNS, MADALENA, p.187; SEPPALA, p. 927;</p><p>CJF, Enunciado 76]</p><p>57. Ainda, cumpre</p><p>ressaltar que o comitê in casu possui caráter informal, sendo que apenas</p><p>um de seus membros possuía formação jurídica [Anexo 5, p.37]. Assim, a Requerente corria o</p><p>risco de sujeitar a análise do seu pedido de ressarcimento ao crivo de profissionais que, em</p><p>razão da ausência de conhecimento específico, poderiam interpretar o Contrato sem uma análise</p><p>minuciosa dos riscos envolvidos na contratação [BATES, TORRES-FOWLER, p.242]</p><p>58. Ora, tendo em vista que a natureza da pretensão de ressarcimento da Requerente é</p><p>jurídica e, por tal, seu objetivo com o referido pedido é obter uma decisão terminativa acerca da</p><p>controvérsia, ao passo que o DRB sequer possui poderes para proferir decisões, conclui-se que a</p><p>Requerente agiu corretamente e dentro do que é esperado pelas partes diante de um contrato</p><p>com cláusula compromissória: submeteu o seu pedido ressarcitório para o único juízo</p><p>competente para proferir uma decisão exauriente sobre a matéria, isto é, o juízo arbitral. Logo, a</p><p>ausência de submissão do pedido ao Dispute Board não gera implicações no Procedimento.</p><p>59. Ademais, a previsão do Dispute Board não pode ser confundida com um pré-requisito</p><p>para acionar o Tribunal Arbitral, como tenta fazer crer a Requerida [Caso, p.85, Anexo 13, p.2].</p><p>Não se vislumbra no Contrato qualquer obrigatoriedade quanto à submissão de pedidos ao</p><p>Dispute Board como condição precedente para análise do Tribunal. Pelo contrário, as Partes tão</p><p>somente limitaram-se a acordar a necessidade de realização obrigatória do procedimento de</p><p>mediação, que deveria ser feito após o encerramento do Dispute Board [Contrato, p.32, Cláusula</p><p>22.2]. Contudo, não foi incluída pelas Partes qualquer disposição similar relativa à</p><p>compulsoriedade do Dispute Board. Ainda, foi pactuado expressamente na Cláusula 22.3.5 do</p><p>Contrato que nenhuma das Partes no procedimento arbitral estaria limitada apenas aos fatos e</p><p>argumentos já tratados pelo Dispute Board [Contrato, p.32].</p><p>60. Outrossim, resta claro o adimplemento da Requerente com todas as disposições</p><p>contratuais, visto que, quando foi necessário e, diante de uma questão técnica, a Requerente</p><p>submeteu o seu requerimento ao Dispute Board [Caso, p.5, §21]. No entanto, apesar do comitê ter</p><p>esclarecido em sua recomendação a evidente a responsabilidade da Requerida acerca do</p><p>montante despendido com a contratação substitutiva e a invalidade da retenção do Valor da</p><p>Última Medição [Anexo 10, p.15], a contraparte, deliberadamente, decidiu ignorá-la e, logo em</p><p>seguida, em oposto à recomendação do comitê, listou o crédito da Requerente na Recuperação</p><p>judicial como meros R$ 49.581.000 (quarenta e nove milhões e quinhentos e oitenta e um mil</p><p>reais) [Caso, p.6, §27].</p><p>61. Sendo assim, a submissão do pedido de ressarcimento da Requerente ao Dispute Board</p><p>seria totalmente descabida, tendo em vista que, além de não ser suficiente para satisfazer o</p><p>objetivo pretendido pela Requerente com o pedido de ressarcimento, apenas iria desgastar as</p><p>partes financeiramente para realizar a manutenção de um comitê que já tinha se encerrado (2.1)</p><p>e que, ainda que estivesse em vigor, sequer poderia proferir decisão terminativa. Ainda, mesmo</p><p>que houvesse análise prévia do Dispute Board, fato é que a Requerida poderia simplesmente não</p><p>acatar a recomendação do comitê, assim como já fez anteriormente. Deste modo, não resta</p><p>dúvidas de que o Tribunal é a única via adequada para a submissão do pedido de ressarcimento,</p><p>de forma que este Tribunal pode e deve analisar o pleito da Requerente.</p><p>62. Diante do exposto, é evidente que a Requerente agiu corretamente ao submeter o seu</p><p>para este Tribunal. Diante do caráter unicamente recomendatório das disposições do DRB, bem</p><p>como a não vinculação do Tribunal às recomendações do Dispute Board, não há de se falar em</p><p>interferências da não submissão do pedido de ressarcimento ao Dispute Board no Procedimento</p><p>e, por isso, o Tribunal pode e deve analisar o pedido de ressarcimento da Requerente.</p><p>DO MÉRITO</p><p>63. Superadas as questões preliminares, a Requerente passa a expor que: (3) não assumiu o</p><p>risco geológico do canteiro de obras, e (4) tampouco pode ser responsabilizada pelos custos</p><p>suportados pela Requerida em razão da contratação substitutiva e pelos prejuízos em razão do</p><p>adiamento da inauguração do Data Center.</p><p>PARTE III: O RISCO GEOLÓGICO NÃO FOI ASSUMIDO PELA REQUERENTE</p><p>64. O risco geológico não pode ser atribuído à Requerente, uma vez que (3.1) os contratos</p><p>de EPC são contratos de empreitada, e nessa modalidade a contratante é quem assume os riscos</p><p>geológicos (3.2) e ainda que o Tribunal entenda que não se trata de um contrato de empreitada a</p><p>lógica do EPC aloca os riscos no dono da obra isto é, a Requerida. Além disso, (3.3) a falta de</p><p>colaboração da Requerida na fase pré-contratual constitui violação do princípio da boa-fé e</p><p>portanto, os riscos são assumidos por ela.</p><p>3.1 Os contratos de EPC são contratos de empreitada, sendo os riscos nessa modalidade</p><p>assumidos pela contratante</p><p>65. A denominação dada ao Contrato é de “Engineering, Procurement and Construction”,</p><p>conhecido como EPC. No entanto, apesar da aparente atipicidade do Contrato, na realidade</p><p>trata-se de um contrato de empreitada, devendo ser respeitado o equilíbrio contratual previsto</p><p>no CC diante de riscos geológicos imprevisíveis, não podendo a dona da obra responsabilizar a</p><p>empreiteira.</p><p>66. Primeiramente, cumpre tecer que, ainda que não exista previsão legal específica do tipo</p><p>contratual EPC no CC haja vista que a forma de contratação é importada do direito estrangeiro,</p><p>é comum o uso dos dispositivos dos contratos de empreitada para regularem os contratos de</p><p>EPC celebrados com foro e regência das leis brasileiras, já que versam sobre obrigações que</p><p>possuem convergência material [CARMO apud PINESE, p.61; DEUS, p.255; BARBI apud</p><p>DOLINGER, TIBURCIO p.669]. O simples fato de ser uma forma de contratação que difere</p><p>minimamente da estipulada no CC não invalida a tipicidade do contrato, que possui elasticidade</p><p>de adaptação sem perder sua natureza [MARTINS-COSTA 2, p.4].</p><p>67. Nessa perspectiva, caracterizam-se como contratos de empreitada aqueles em que é</p><p>estipulada uma obrigação de construção de obra de grande porte, no qual o empreiteiro pode</p><p>contribuir com o seu trabalho em uma obrigação de fazer, seus materiais em uma obrigação</p><p>instrumental, ou ambos [MARINELLI apud MESQUITA, p.134; art. 610, CC]. In casu, o objeto</p><p>do Contrato é a construção de uma obra de grande porte, com preço global em que o</p><p>contratado fornece tanto a mão de obra quanto os materiais utilizados na construção, sendo</p><p>evidentemente classificado pelo ordenamento jurídico nacional como um contrato de</p><p>empreitada [Contrato, p.21].</p><p>68. Justamente por ser um contrato de empreitada, versa o CC que, em razão de fatos</p><p>supervenientes relacionados à geologia ou à hidrologia durante o curso da obra que (i) tornem o</p><p>cumprimento da obrigação excessivamente onerosa para o empreiteiro, e (ii) havendo a recusa</p><p>de reajuste por parte do contratante, não há a transmissão dos referidos riscos ao empreiteiro</p><p>[art. 625, II, CC]. Dessa forma, as disposições no Contrato que, supostamente, alocam todo e</p><p>qualquer risco geológico sobre a Requerente, devem ser interpretadas de acordo com o</p><p>equilíbrio contratual estabelecido no inc. II do art. 625 do CC [MARTINS-COSTA 2, p.4-5].</p><p>69. Ainda que não se entenda que a interpretação geral dos contratos de empreitada deva</p><p>respeitar o equilíbrio contratual mencionado, os riscos geológicos materializados no presente</p><p>caso, quais sejam a divergência no tipo do solo e a suspeita de sítio arqueológico não podem ser</p><p>imputados à Requerente. Sob a luz do art. 625 do CC, a Requerente, ao perceber a discrepância</p><p>nas informações fornecidas pela Requerida e tão logo identificado um possível sítio</p><p>arqueológico, (i) incorreu em uma situação de excessiva onerosidade pelo substancial aumento</p><p>de 40% (quarenta por cento) dos custos inicialmente previstos, prontamente notificou a</p><p>Requerida,</p><p>que (ii) negou a responsabilidade dos pontos como dona da obra [Anexo 7, p.48-49;</p><p>Esclarecimento 3, p.132; Esclarecimento 9, p.133].</p><p>70. Considerando que a alocação de riscos não é livre a ser realizada pelas partes uma vez</p><p>que contratos de EPC são de empreitada e devem se sujeitar às disposições do CC, o risco</p><p>geológico no âmbito do Contrato não deve ser transmitido à Requerente. Ainda, caso se</p><p>entenda que a alocação de riscos é válida, os riscos materializados no presente caso não são de</p><p>responsabilidade da Requerente.</p><p>3.2 Ainda que o Contrato não seja entendido como de empreitada no racional contratual</p><p>do EPC, a dona da obra é quem assume os riscos geológicos.</p><p>71. Comprovado que o Contrato é de empreitada e por isso, está submetido ao princípio do</p><p>equilíbrio contratual (3.1) cumpre demonstrar que a própria lógica dos Contratos de EPC assim,</p><p>como os contratos de empreitada entende pela paridade entre as partes ao alocar os riscos</p><p>geológicos para o dono da obra no caso em questão, a Requerida.</p><p>72. Primeiramente, é necessário definir que riscos geológicos são aqueles relacionados às</p><p>características do subsolo onde determinado projeto será construído, isto é, as variações</p><p>existentes na camada inferior do solo que impactam na execução de determinada obra</p><p>[PASTORE, p.111; BAPTISTA, PRADO, p.37]. Em contratos de EPC, o risco geológico é</p><p>alocado à dona da obra, que assume os riscos imprevisíveis que podem alterar os trabalhos e</p><p>eventuais problemas geológicos ou geotécnicos encontrados durante a construção</p><p>[MESQUITA, p.62; SILVA, p.22; GÓMEZ et al, p.79-82]. Isso ocorre em razão da contratante</p><p>ser responsável pelo projeto básico, sua viabilidade inicial e estudos ambientais [GÓMEZ et al,</p><p>p.79-82].</p><p>73. O dono da obra é aquele que exerce a função de dar origem ao empreendimento e</p><p>mandar executá-lo, posteriormente sendo beneficiado com a propriedade do projeto</p><p>[BAPTISTA, PRADO, p.42]. No presente caso, é fato incontroverso que a Requerida figura</p><p>como dona da obra [Caso, p.3, §4], tendo em vista ser ela a autora do projeto básico do Data</p><p>Center [Esclarecimento 15, p.135], que foi apresentado aos participantes da concorrência privada</p><p>e que, ao final da construção do projeto, será ela constituída como proprietária do Data Center</p><p>[Contrato, p.20]. Dessa forma, a Requerida incorre com os riscos geológicos inerentes à</p><p>viabilização do projeto.</p><p>74. Ademais, ainda que se alegue que a Requerente assumiu o risco contratualmente,</p><p>baseando-se na cláusula de declarações e garantias [Contrato, p.22], esse argumento também</p><p>não prospera. Isso porque, a Requerente sequer teve oportunidade de negociar as disposições</p><p>referentes ao risco geológico [Esclarecimento 13, p.133] e ainda, não pode de fato analisar as</p><p>condições do terreno sendo obrigada a confiar em documentos que não continham declarações</p><p>verdadeiras sobre o estado do subsolo [Caso, p.4, §11; Esclarecimento 10, p.133].</p><p>75. Diante do exposto, considerando o entendimento de que os riscos geológicos são</p><p>alocados à dona da obra, no caso, a Requerida, e que a Requerente não possuía informações</p><p>suficientes para identificar o possível risco, este, de forma alguma, deve ser atribuído à</p><p>Requerente.</p><p>3.3. A falta de colaboração da Requerida na fase pré-contratual constitui violação do</p><p>princípio da boa-fé e portanto, os riscos são assumidos por ela.</p><p>76. Além do risco geológico ser assumido pela Requerida em decorrência da própria</p><p>natureza do Contrato (3.2), ela mesma deu causa para que o referido risco fosse acentuado</p><p>através de suas condutas, uma vez que, além de prestar informações inverídicas e desatualizadas</p><p>acerca do solo, impediu que a Requerente verificasse as informações prestadas na Carta-convite</p><p>[Caso, p. 4, §11; Esclarecimento 10, p. 133]. Razão pela qual, resta configurado, in casu, a</p><p>violação da Requerida ao princípio da boa fé contratual, bem como, dos deveres anexos.</p><p>77. A priori, sabidamente tem-se que os contratos devem ser regidos pelo princípio da</p><p>boa-fé objetiva, que deve perdurar durante toda a relação contratual, incluindo a fase</p><p>pré-contratual [art. 422, CC; PEREIRA, p. 39; STJ, REsp 1.862.508/SP e STJ, REsp</p><p>1.367.955/SP]. Esse princípio nada mais é que o dever das partes em agir com honestidade,</p><p>cooperação e lealdade [MARTINS-COSTA, p.437, 577-578; DINIZ 2, p.418; PEREIRA, p.39].</p><p>Porquanto, em decorrência da boa fé, as partes se prestam aos deveres anexos de informação e</p><p>colaboração [MARTINS-COSTA, p.439], todavia não é o que se verifica in casu.</p><p>78. Como se sabe, a relação contratual é marcada por uma assimetria de informações entre</p><p>contratantes [FILHO, p.311]. Ocorre que, a Requerida, embora tenha declarado que os estudos</p><p>do solo fornecidos na carta convite foram realizados seguindo as melhores práticas do mercado</p><p>[Anexo 12, p.79-80, §3], apresentou à Requerente informações baseadas em estudos superficiais</p><p>e completamente desatualizados [Esclarecimento 10, p.133]. E mais, na fase concorrencial, a</p><p>Requerente solicitou à Requerida acesso ao solo para que pudesse inspecioná-lo, todavia, a</p><p>Requerida negou-lhe o pedido, e permitiu somente a realização de inspeção superficial</p><p>[Esclarecimento 10, p.133].</p><p>79. Ora, aqui ressalta-se que todo o contexto do Contrato foi moldado usando como</p><p>referência as informações fornecidas pela Requerida na Carta-convite, diante da sua declaração</p><p>de veracidade das informações ali prestadas, bem como pela impossibilidade da Requerente em</p><p>realizar a conferência das informações de forma aprofundada, ante a negativa da Requerida,</p><p>dona da obra, para tal feito.</p><p>80. Repita-se, a base contratual foi elaborada sob a presunção de que as informações</p><p>prestadas pela Requerida eram verdadeiras e atualizadas. Porquanto, a vigência e prazo para</p><p>execução do objeto do Contrato, bem como o preço global [Contrato, p.22-23] fora fixado de</p><p>acordo com as informações prestadas na Carta-convite, tomando como presunção que as partes</p><p>estavam amparadas pela boa fé contratual e seus deveres anexos, o que observa-se, não foi o</p><p>caso. Deste modo, a Requerente celebrou o Contrato acreditando, fidedignamente, nas</p><p>informações prestadas pela Requerida e somente com o decorrer das obras foi verificada a</p><p>divergência das informações prestadas pela própria dona da obra [Caso, p.4, §11].</p><p>81. Nesse cenário, o que se verifica é que a Requerida violou o princípio da boa-fé objetiva,</p><p>bem como o dever anexo de informação e colaboração na fase pré processual, haja vista que</p><p>deixou de informar as reais condições do solo, assim como, se recusou a colaborar com a</p><p>Requerente ao não permitir que ela fizesse a medição aprofundada do solo. Porquanto, tem-se a</p><p>impossibilidade de agora querer que este Tribunal aloque os riscos geológicos do contrato à</p><p>Requerente, eis que, quem desrespeitou os princípios basilares do ordenamento brasileiro foi a</p><p>própria dona da obra. Quem impediu que fosse realizado um estudo aprofundado e adequado</p><p>do solo, foi a dona da obra. Quem prestou informações inverídicas e desatualizadas foi a dona</p><p>da obra. Portanto, cabe à dona da obra a assunção dos riscos geológicos do Contrato.</p><p>PARTE IV: A REQUERENTE NÃO PODE SER RESPONSABILIZADA PELOS</p><p>CUSTOS DA REQUERIDA COM A CONTRATAÇÃO SUBSTITUTIVA E PELOS</p><p>PREJUÍZOS SUPORTADOS EM RAZÃO DO ADIAMENTO DA INAUGURAÇÃO</p><p>DO DATA CENTER.</p><p>82. Comprovado que o risco geológico foi assumido pela Requerida, a Requerente passa a</p><p>expor que (4.1) a responsabilidade do Contrato de Financiamento não se estende à Requerente</p><p>e que, portanto, (4.2) não pode ser responsabilizada pela contração substitutiva do maquinário e</p><p>pelo adiamento da inauguração do Data Center. Além disso, (4.3) ainda que o tribunal entenda</p><p>que a obra não tenha sido entregue dentro do prazo, o atraso foi decorrente de força maior, não</p><p>podendo ser imputado à Requerente.</p><p>4.1 A Responsabilidade do Contrato de Financiamento não se estende à Requerente</p><p>83. As disposições do Contrato de financiamento não se estendem à Requerente, pois</p><p>(4.1.1) este não é considerado coligado</p><p>ao Contrato e, (4.1.2) ainda que o Tribunal assim não</p><p>entenda, a responsabilidade não se estende à Requerente em virtude do princípio da relatividade</p><p>dos contratos.</p><p>4.1.1 O Contrato e o Contrato de financiamento não são coligados</p><p>84. Visando a obtenção de recursos para o pagamento da construção do Data Center, a</p><p>Requerida celebrou o Contrato de Financiamento junto ao Banco, no valor de 80% (oitenta por</p><p>cento) do montante total do Contrato [Caso, p.3, §5; Anexo 2, p.10]. Todavia, cumpre esclarecer</p><p>que as disposições pactuadas pela Requerida no Contrato de Financiamento não vinculam a</p><p>Requerente, eis que não se tratam de contratos coligados.</p><p>85. A coligação contratual se traduz a partir da natureza acessória de um dos contratos</p><p>quando eles possuem relação de dependência unilateral ou recíproca, gerando um vínculo entre</p><p>relações jurídicas diferentes que conformam uma operação econômica unificada [MARINO,</p><p>p.99; BERGSTEIN, p.2; LEONARDO, p.3]. A ocorrência da coligação depende de três</p><p>requisitos cumulativos: (i) o propósito comum; (ii) a unidade da operação econômica; e (iii) a</p><p>pluralidade de relações contratuais interligadas sob uma perspectiva funcional [STJ, AgI nos</p><p>EDcl no REsp 1.773.569/DF]. Entretanto, conforme passa-se a demonstrar tais requisitos não</p><p>estão preenchidos no caso.</p><p>86. Em relação ao primeiro (i) cumpre notar que apesar de os contratos estarem</p><p>relacionados ao mesmo projeto, inexiste propósito comum entre eles, eis que, enquanto o</p><p>Contrato tem como objeto a obra para implementação do Data Center, ficando sua obrigação</p><p>restrita a fornecer os bens e serviços necessários à sua implantação [Contrato, p.21], o Contrato</p><p>de Financiamento objetiva apenas prover recursos financeiros para financiamento do projeto</p><p>[Anexo 2, p.10].</p><p>87. A unidade de operação econômica, por sua vez, (ii) é a manifestação do fenômeno</p><p>negocial dentro do contrato [POMPEU, POMPEU, p.4; MARINO, p.119]. No caso, não há que</p><p>se falar em unidade de operação econômica, e sim em uma duplicidade, enquanto em um o</p><p>negócio comercial é um financiamento bancário [Anexo 2, p.10], noutro o negócio comercial</p><p>está relacionado ao setor de infraestrutura [Contrato, p.19].</p><p>88. Já, o terceiro requisito (iii) está diretamente relacionado ao primeiro, ou seja, a</p><p>necessidade que os contratos tenham a mesma finalidade, nesse sentido, não estando presente</p><p>tal quesito, também não há que se falar em uma interligação sob uma mesma perspectiva</p><p>funcional. Além disso, os contratos não se completam e não se excluem, há apenas uma relação</p><p>instrumental entre eles [GOMES, p.133].</p><p>89. Nessa perspectiva, resta comprovado que os contratos são independentes, cada um com</p><p>sua finalidade específica e portanto, embora relacionados ao mesmo projeto, não formam uma</p><p>coligação contratual.</p><p>90. E ainda que se entenda pela existência de eventual coligação, o que se admite por</p><p>argumentar, no caso, a única hipótese seria uma coligação unilateral, classificada como aquela</p><p>que ocorre quando apenas um dos contratos depende do outro, na sua existência e validade</p><p>[MOREIRA, p.4; MARINO, p.99]. Isso pois, in casu, o Contrato de Financiamento possui a</p><p>finalidade única e exclusiva de financiar o projeto do Data Center [Anexo 2, p.10], ou seja, sua</p><p>existência depende da existência do Contrato. Logo, Contrato é o contrato principal, enquanto</p><p>o Contrato de Financiamento é o contrato acessório. Nesse aspecto, o contrato base conserva a</p><p>sua autonomia em relação ao subcontrato.</p><p>91. Ao revés da coligação recíproca, em que é necessário que os contratos tenham sido</p><p>estipulados pelas mesmas partes em relação de dependência mútua [MESSINEO, p.402;</p><p>BERGSTEIN, p.3]. Fato esse, que não pode ser verificado uma vez que, no Contrato de</p><p>Financiamento, as partes são a Requerida e o Banco, enquanto no Contrato figura como parte a</p><p>Requerida e a Requerente [Anexo 2, p.10; Contrato,, p.19].</p><p>92. Logo, ressalta-se que estamos diante de uma coligação unilateral, todavia, tal fato não</p><p>significa que a Requerente é automaticamente responsável pelas disposições no Contrato de</p><p>Financiamento isso porque, “ao contrário do que por vezes se afirma, a existência de contratos coligados não</p><p>implica a verificação de todas as consequências jurídicas que, em tese, deles podem advir” [MARINO, p.141].</p><p>Nessa modalidade de coligação, o contrato base conserva a sua autonomia em relação ao</p><p>subcontrato em razão de estarem vinculados a uma lógica acessória, ou seja, o contrato</p><p>principal não sofre influência dos demais [BERGSTEIN, p.2; MARINO, p.124; STJ, REsp</p><p>1.639.035/SP]. Consequentemente, conservam-se as disposições de cada instrumento</p><p>negocial às suas respectivas partes.</p><p>93. Pelas razões expostas, é evidente que os contratos em questão não são coligados. Ainda,</p><p>na remota hipótese deste Tribunal entender que há algum tipo de coligação, esta só pode ser</p><p>considerada unilateral e, tratando-se de coligação unilateral, o Contrato de Financiamento</p><p>subordina-se ao Contrato de modo que, conservam-se as individualidades de cada um. Por isso,</p><p>a Requerente não está vinculada aos termos do Contrato de Financiamento.</p><p>4.1.2 Ainda que o Tribunal assim não entenda, a responsabilidade não se estende à</p><p>Requerente em virtude do princípio da relatividade dos contratos</p><p>94. Além de não acontecer a vinculação automática às cláusulas do Contrato de</p><p>Financiamento pela Requerente por não se tratar de contratos coligados, não há que se falar de</p><p>extensão da responsabilidade à Requerente, em virtude do princípio da relatividade contratual.</p><p>95. Tal princípio caracteriza-se no sentido de que o contrato só vincula as partes da</p><p>convenção, não prejudicando terceiros [GOUTAL, p.17; AZEVEDO, p.2; TJMG, AgI</p><p>1.0000.20.079850-2/002]. O referido princípio deriva-se do princípio da autonomia da vontade,</p><p>no qual ninguém se obriga contra a sua vontade, ou impõe outrem obrigação sem que este a</p><p>consinta, vez que os negócios jurídicos celebrados somente atingem as partes contratantes</p><p>[LEONARDI, p.3; SILVA. et. al. p.109]</p><p>96. Por esse princípio, os contratos celebrados entre as partes não aproveitam nem</p><p>prejudicam terceiros, uma regra de natureza eminentemente racional [FERNANDES, p.16;</p><p>THEODORO JÚNIOR 2, p.17; VENOSA, p.143]. Nesse sentido, é possível constatar que a</p><p>relatividade contratual desempenha uma importante função de segurança jurídica, impedindo</p><p>que o raio de eficácia de uma dada relação obrigacional alcance indivíduos alheios a ela. Isto é,</p><p>aqueles que com ela não consentiram não podem ser submetidos a uma cláusula contratual que</p><p>não foi fruto de sua própria vontade individual. [FERNANDES, p.17; LEITÃO, p.95;</p><p>NEGREIROS, p.10].</p><p>97. No caso em questão, ressalta-se que a iniciativa, por parte da Requerida, de substituir a</p><p>parte eletromecânica e mecatrônica da obra, conforme será melhor demonstrada no ponto 4.2,</p><p>se deu por mera liberalidade e vontade da Requerente, posteriormente à conversa tida com o</p><p>diretor do Banco [Caso, p.5, §18], ou seja, um terceiro não relacionado diretamente à relação</p><p>jurídica entre as Partes.</p><p>98. Em regra, os efeitos da relação jurídica obrigacional somente podem alcançar aqueles</p><p>que são partes do ato negocial, assim compreendidas as pessoas que integram o vínculo</p><p>contratual [FERNANDES, p.16; NEGREIROS, p.12] - in casu, a Requerida e o Banco -. Isso</p><p>porque, há um espectro de eficácia contratual interno que a Requerida parece ignorar, o qual</p><p>somente diz respeito aos contratantes, ainda que dada relação contratual esteja inserida em um</p><p>contexto de grupos contratuais [GAGLIARDI p.140, FERNANDES, p.91]. No caso, a</p><p>Requerida tenta imputar à Requerente a responsabilidade advinda do Contrato de</p><p>Financiamento do qual a Requerente sequer figura como parte.</p><p>99. Ademais, mesmo que a Requerida tente alegar que a Requerente deva ser</p><p>responsabilizada em razão da oponibilidade contratual, essa alegação também não merece</p><p>prosperar. A oponibilidade dos contratos a terceiros é um conceito derivado da função social</p><p>dos contratos, a qual permite a expansão</p><p>da eficácia dos contratos para terceiros não integrantes</p><p>de uma relação contratual [FIGUEIREDO, p.35-44; NEGREIROS p.272; THEODORO</p><p>NETO, p.189]. Contudo, a oponibilidade contratual não pode ser aplicada no caso, pois violaria</p><p>a própria função social do contrato, da qual esta se origina.</p><p>100. A função social do contrato tem como objeto assegurar que não haja qualquer tipo de</p><p>sobreposição de vantagens em relação às partes [SILVA. et al., p.126]. No caso, ao tentar impor</p><p>a obrigação à Requerente de um responsabilidade a qual não possui, a Requerida busca obter</p><p>vantagens indevidas na relação contratual.</p><p>101. Demonstrada a incidência do Princípio da Relatividade Contratual, resta claro que os</p><p>efeitos da Cláusula 9º só se estendem às suas partes contratantes. Dessa forma, não é possível</p><p>estender a responsabilidade da Requerida, enquanto parte legítima do Contrato de</p><p>Financiamento, à Requerida, que sequer celebrou o referido instrumento.</p><p>4.2 A Requerente não pode ser responsabilizada pelos prejuízos suportados com o</p><p>adiamento da inauguração do Data Center, uma vez que foi ato unilateral e precipitado</p><p>pela Requerida</p><p>102. A Requerida pleiteia, além do ressarcimento dos valores despendidos com a contratação</p><p>substitutiva, a responsabilização da Requerente por prejuízos incorridos pelo adiamento na</p><p>inauguração do Data Center [Caso, p.8, §36]. No entanto, tal pleito não deve prosperar já que o</p><p>adiamento da inauguração do Data Center foi um ato precipitado e unilateral tomado pela</p><p>Requerida.</p><p>103. Inicialmente, cumpre esclarecer que a construção do Data Center foi finalizada</p><p>dentro do prazo estipulado, conforme indicado na recomendação proferida pelo Dispute</p><p>Board [Anexo 10, p.68, §44], inexistindo qualquer atraso por parte da Requerente. Dessa forma,</p><p>o Contrato fora cumprido conforme estipulado pelas partes e, a partir da entrega, não se</p><p>encontrava mais vigente [Esclarecimento 2, p.131]. Diante da situação apresentada, a decisão da</p><p>Requerida de adiar a inauguração do Data Center, já perfeitamente funcional e regularmente</p><p>entregue, para a substituição de todo o maquinário instalado não pode ser imputada à</p><p>Requerente, haja vista a inexistência de vínculo contratual vigente no momento.</p><p>104. Qualquer atraso alegado pela Requerida foi causado por suas próprias ações e opções,</p><p>uma vez que a suposta necessidade de substituição de todo o maquinário devidamente instalado</p><p>no Data Center, que efetivamente se tornou um empecilho para a operacionalização do Data</p><p>Center, surgiu em razão de suspeitas não confirmadas de que um dos componentes utilizados na</p><p>produção dos equipamentos, o germânio, tinha origem de mão de obra análoga à escrava [Caso,</p><p>p.5, §18]. A regularidade técnica dos equipamentos adquiridos pela Requerente junto à Setenta</p><p>foi confirmada pelo Dispute Board [Anexo 10, p.68, §43], e em nenhum momento, foram</p><p>apresentadas provas concretas de que a obtenção dos equipamentos fornecidos pela Setenta era</p><p>de má qualidade ou que apresentaram alguma falha [Anexo 10, p.68, §42]. Pelo contrário, os</p><p>equipamentos são de primeira qualidade e conceituados no mercado, fato que foi confirmado</p><p>em testes, análises técnicas e laudos de especialistas [Anexo 10, p.67, §40].</p><p>105. Caso a Requerente precisasse verificar todos os fornecedores dos inúmeros</p><p>componentes utilizados em todos os equipamentos integrantes do Data Center a obrigação de</p><p>construção se tornaria extremamente mais dispendiosa do que já é. Nesse sentido, cumpre</p><p>destacar a realidade da cadeia produtiva dos equipamentos utilizados no Data Center. A</p><p>Requerente compra os equipamentos da fornecedora Setenta, que, por sua vez, adquire um dos</p><p>materiais utilizados na produção de um dos equipamentos - o germânio - da Kangal. As</p><p>suspeitas não confirmadas de uso de mão de obra análoga à escrava recaem somente sobre a</p><p>Kangal, ou seja, sobre a subcontratada da subcontratada da Requerida [Caso, p.5, §16],</p><p>conforme fluxograma abaixo:</p><p>106. Além da não vinculação da Requerente ao Contrato de Financiamento (4.1), não houve</p><p>qualquer violação à Cláusula 9ª que gerasse a necessidade de substituição de todo o maquinário</p><p>devidamente instalado. Conforme exposto, as suspeitas de que a Kangal utilizava mão de obra</p><p>análoga à escrava sequer eram comprovadas pelas agências internacionais [Anexo 10, p.68, §42],</p><p>tratando-se de rumores e especulações sem o devido lastro fático. Ainda, a cláusula que estipula</p><p>o vencimento antecipado do Contrato dispõe sobre o conhecimento “de que as atividades da</p><p>BENEFICIÁRIA violam as obrigações previstas na Cláusula Nona” [Anexo 2, p.17, Cláusula 10.1(b)],</p><p>sendo fundamental para o exercício do direito à efetiva violação do disposto na Cláusula 9ª, a</p><p>qual não pode ser invocada em função de meras suspeitas, como pretendido pela Requerida.</p><p>107. Dessa forma, a contraparte tenta, de forma oportunista, transmitir à Requerente uma</p><p>ameaça infundada de vencimento antecipado do Contrato de Financiamento feita pelo Banco e</p><p>imputar à Requerente prejuízos por um atraso que não ocorreu, posto que, não fosse a decisão</p><p>da Requerida de substituir todos os equipamentos já instalados e prontos para serem</p><p>operacionalizados, o Data Center estaria em funcionamento na data prevista e todas as</p><p>consequências que a Requerida alega ter sofrido teriam sido evitadas.</p><p>108. Diante da inexistência de atraso na entrega do Data Center e a ausência de efetiva</p><p>violação por qualquer das partes ao disposto na Cláusula 9º, a Requerente não pode ser</p><p>responsabilizada por um ato unilateral e precipitado da Requerida de adiamento na inauguração</p><p>do Data Center, razão pela qual o pleito de reparação por danos incorridos do referido</p><p>adiamento não podem ser imputados à Requerente.</p><p>4.3 Ainda que o Tribunal entenda que a obra não tenha sido entregue dentro do prazo, o</p><p>atraso foi decorrente de força maior, logo não pode ser imputado à Requerente</p><p>109. Comprovada a inexistência de atraso na entrega das obras (4.2.2), ainda que o Tribunal</p><p>entenda que houve certa demora na entrega do Data Center, a Requerente não deve ser</p><p>responsabilizada por tais prejuízos, uma vez que (i) a paralisação pelo IPHAN constitui força</p><p>maior, e (ii) a Requerente agiu em cumprimento de um dever legal.</p><p>110. A força maior é um fato de ocorrência (i) necessária, sem nexo causal de culpa pelas</p><p>condutas do devedor, (ii) inevitável, e (iii) irresistível, ou seja, que os melhores esforços do</p><p>devedor não são suficientes que ele evite o inadimplemento. Por ser decorrente do acaso,</p><p>trata-se de uma excludente de responsabilidade prevista no ordenamento jurídico brasileiro</p><p>[TJSP, AC 0012763-56.2009.8.26.0248; LÔBO, p.252; VENOSA 2, p.383; GONÇALVES,</p><p>p.160; GAGLIANO, PAMPLONA FILHO, p.177], cuja consequência é a desobrigação do</p><p>devedor pelas consequências advindas do fato de força maior [MARIANO, p.76; LÔBO 2,</p><p>p.163; art. 393, CC]. No presente caso, todos os três requisitos estão presentes.</p><p>111. O (i) fato necessário é evidente, pois, ainda no início das escavações, ao identificar a</p><p>suposta presença de um sítio arqueológico, a Requerente, diligentemente, entrou em contato</p><p>com o IPHAN. Na ocasião, a Requerente, solicitou ao IPHAN que investigasse a possível</p><p>existência de patrimônio histórico-cultural no local, investigação que perdurou por</p><p>aproximadamente 7 (sete) meses [Caso, p.12, §12].</p><p>112. Tal atitude se deu pelo fato de que, por determinação legal, todas as descobertas</p><p>fortuitas de quaisquer elementos de interesse arqueológico ou pré-histórico, histórico, artístico</p><p>ou numismático, devem ser imediatamente comunicadas ao IPHAN [art. 18, Lei nº 3.924/61].</p><p>Todas as cavidades naturais subterrâneas e os sítios arqueológicos e pré-históricos são</p><p>considerados bens da União [art. 20, inc. X, CF] fato que cria dever de informação aos órgãos</p><p>competentes imediatamente após a suspeita fundamentada da existência de um sítio</p><p>arqueológico.</p><p>113. Além disso, os bens arqueológicos possuem proteção ex vi legis, ou seja, por força de lei</p><p>[MIRANDA, p.74; TELLES, p.206].</p>