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<p>Psicoterapia Existencial Valdemar Augusto Angerami - Camon Esta obra, rica em subsídios teóricos para uma compreensão mais Psicoterap abrangente das diversas correntes psicoterápicas, é direcionada tanto aos trabalhos universitários, quanto aos inúmeros profissionais que buscam embasamento para sua prática Polêmicos são os temas aqui abordados - Liberdade, Solidão, Sentido de Ser, Angústia, Culpa, Felicidade - apresentando justapo- sição direta da Psicoterapia Existencial com outras correntes do pensamento contemporâneo, fazendo desta obra leitura indispen- sável também para os estudiosos da Psicologia e Ciências Humanas. Aplicações Leitura complementar para as disciplinas aconselhamento psico- lógico, teoria e técnicas de psicoterapia, psicopatologia, supervisão clínica, teorias da personalidade, psicologia da saúde e psicologia clínica em cursos de graduação e pós-graduação em Psicologia. I ISBN 185-221-0552-9 Visite nossos sites: Valdemar Augusto Angerami THOMSON www.thomsonlearning.com.br www.thomsonlearning.com Camon</p><p>1 Temas existenciais: conceitos fundamentais A verdade não deve ser buscada senão na paixão. Kierkegaard Existência Porque, sendo possível o prazo da existência levar como o loureiro, de um verde mais sombrio que todos os outros verdes, com leves ondulações no contorno das folhas (como um sorriso do vento) - porque então, escravos do humano, anelar pelo destino fugindo ao destino? Rainer Maria Rilke Um dos principais temas existenciais é a convergência da discussão filo- sófica sobre a existência, ao contrário de outros posicionamentos, nos quais a era discutida em detrimento da outra. Para os existencia- listas, a discussão da existência é a verdadeira temática da Filosofia. Entretanto, não houve preocupação dos pensadores existencialistas com uma definição formal do termo existência que pudesse lo de outras correntes filosóficas. Etimologicamente o termo existência significa "estar fora de", e, numa tentativa de manter o sentido etimoló- gico da palavra, os existencialistas, a separaram com um hifen, usando "ex-istência" em vez de "existência". Os valores existencialistas é que irão determinar uma nova forma de vida e a inegável negação de outras formas existenciais. Em relação a isso, 13</p><p>Psicoterapia existencial Augusto Angerami Camon as correntes existencialistas criticam tanto o modo de vida do homem Por outro lado, também não é verdadeira a acusação de que os exis- comum quanto as orientações filosóficas tradicionais. tencialistas exploram somente o lado trágico da existência e apenas trou- Tanto Heidegger como Sartre se colocam sobre a disparidade radical xeram à reflexão formas conhecidas da existência. Suas investigações não entre o humano e o não humano, que ambos os autores exprimem, reser- poderiam ser realizadas excluindo-se da discussão temas que legam ao vando o termo "existência" para o homem Heidegger escreve: homem sofrimento e desespero. "O ser que existe é o homem. Só o homem existe. As pedras são, mas não A partir do pensamento existencialista, temáticas que, embora sempre existem. As árvores são, mas não existem. Os cavalos são, mas não exis- fossem parte da existência, como morte, solidão e outras, tornaram se pas- tem. Os anjos são, mas não existem. Deus é, mas não existe"3 síveis de reflexão e aprofundamento diante das discussões que visam à E tanto para Heidegger como para Sartre é a consciência que distin- melhor compreensão da realidade humana. gue radicalmente o homem de outros seres. A natureza essencial do Também é no pensamento existencialista que a angústia sofreu nova homem é a razão pela qual o homem pode representar os seres como tais dimensão nos pontos referentes à sua compreensão e passou a ser vista e pela qual pode estar consciente deles4. como inerente à condição humana, e não como uma forma de patologia. Heidegger enumera o que denomina categorias básicas da existência A função dos valores existencialistas é libertar o homem dessas formas humana: sentimento ou afetividade, entendimento e linguagem. Sartre degeneradas e doentias de angústia8. não adotou essa definição de Heidegger, mas naturalmente a aprova na É de Sartre uma das citações que melhor definem a necessidade de rejeição das categorias tradicionais, enquanto consideradas aplicáveis aos uma redimensão da existência: o homem está condenado a ser livre" seres humanos5. Condenado, porque não criou a si próprio, e, no entanto, livre, por- Para o homem comum e para a filosofia tradicional, o ideal supremo é que, uma vez lançado ao mundo, é responsável por tudo quanto atingir uma vida de e sem sofrimentos, na qual a felicidade Este passa a ser um dos principais valores existencialistas: a liberdade para plena esteja presente6. assumir a totalidade dos próprios atos. O existencialista contrapõe essa posição trazendo à tona das discussões o fato de não ser possível esse tipo de idealização na medida em que determinadas agruras existenciais angústia, solidão, tédio etc. fazem Liberdade parte, de modo inerente e indissolúvel, da existência humana. Dessa Assim a flecha ultrapassa a corda, para ser no mais do que ela maneira, não é possível pensar em realizações humanas e ao mesmo mesma. Pois em parte alguma se detém. tempo excluir os sofrimentos a ela inerentes. Essa noção de sofrimento Rainer Maria Rilke humano, que converge de forma direta para aqueles advindos dos siste- mas sociopolíticos, dá à corrente existencialista uma denominação vulgar A palavra liberdade é usada no linguajar popular para definir situações e errônea de "filosofia pessimista". nas quais as pessoas decidem determinados objetivos; não é livre aquele A condição humana, e isso é inegável, é que determina as agruras e infe- que não tem condições para tal. Se uma pessoa, por exemplo, decide licidades. O homem não poderia tornar-se feliz sem deixar de ser homem. mudar de residência, ela será livre para alcançar esse objetivo de acordo Ou ainda, nas palavras de impossível fugir à impressão de que com suas condições pessoais, que incluem desde realidade econômica as pessoas comumente empregam falsos padrões de avaliação isto é, de até questões mais subjetivas. Entretanto, se condições adversas prejudica- que buscam poder, sucesso e riqueza para elas mesmas e os admiram nos rem essa mudança, então, essa pessoa não será considerada livre para rea- outros, subestimando tudo aquilo que verdadeiramente tem valor na vida". lizar seu projeto inicial. 14 15</p><p>Em termos políticos, o sentido de liberdade também possui conotação não atenta ao fato de que, se a liberdade é fazer, tal fazer é necessariamen- própria. Dizemos possuir liberdade quando temos condição de expressar te histórico, não só porque supõe a historicidade como rasgo essencial do nossa vontade e opinião, seja através do voto, seja através da manifestação homem como também porque a determinação histórico-metafísica do que de idéias contrárias à ordem estabelecida. E, de uma forma mais extrema- seja o homem determina inclusive a essência da da, quando podemos manifestar um pensamento contrário ao poder sem A questão da liberdade dentre as diversas questões apresentadas pelos ser confinados à prisão ou golpeados pelas polícias políticas. existencialistas é a que se apresenta como uma das mais axiomáticas. Uma Diferentemente das explicações comuns sobre o termo, para o existen- pessoa exposta a uma situação em que seja necessária a determinação de cialismo, o homem é liberdade em seu próprio ser. Podemos afirmar que uma opção, a liberdade será o determinante da condição humana. a liberdade e a consciência se circunscrevem reciprocamente. A existên- Sartre, escrevendo sobre a vida na França durante os anos de guerra, cia precede e comanda a essência, e todo empenho em demarcar a liber- ilustra esse aspecto de forma bastante clara: dade torna-se contraditório, pois a liberdade se explica como fundamento "Nunca fomos mais livres do que sob a ocupação Perdemos de todas as essências. Não se trata de uma propriedade ou de uma tendên- todos os nossos direitos, a começar pelo de falar; cada dia éramos depor- cia acrescida à minha natureza; trata-se do estofo mesmo de meu ser, e, tados em massa, como trabalhadores, como judeus, como prisioneiros analogamente à consciência, deve-se ver nela uma simples necessidade de políticos; e por isso tudo éramos livres. Porque o veneno nazista se infil- fato, uma contingência radical. Por ser o homem livre, escapa ao seu pró- trava até em nosso pensamento, cada pensamento correto era uma con- prio ser, faz-se sempre outra coisa do que aquilo que se pode dele quista; a cada momento vivíamos, o sentido desta pequena frase banal: "Estou condenado a existir para sempre além de minha essência, além 'todos os homens são E a escolha que cada um fazia de si pró- de móveis e dos motivos de meu ato: estou condenado a ser livre." A prio era autêntica, porque se fazia em presença da morte, porque podia única necessidade que a liberdade conhece está aqui: o homem não é ter sido expressa sob a forma: 'antes a morte que...'; todos os que dentre livre para deixar de ser nós conheciam alguns fatos concernentes à Resistência se perguntavam De modo geral, sem entrar na questão da condição humana de esco- com angústia: me torturarem, firme? Assim, a questão lha e liberdade, através de termos como "liberdade de auto-realização", básica da liberdade se colocava, e tínhamos sido levados ao limiar daque- "liberdade de indeterminação" ou ainda "liberdade da vontade", alguns le conhecimento mais profundo que o homem pode ter de si mesmo. filósofos tradicionais definiram a capacidade de realizar objetivos previa- Pois o segredo de um homem não é seu complexo de Édipo ou de infe- mente propostos. rioridade; é o limite efetivo de sua liberdade, é seu poder de resistência E, num contraponto dos mais ricos em nuanças e exuberância, o pen- ao suplício e à samento existencialista determina uma nova reflexão sistemática sobre a "A liberdade não é uma qualidade que se acrescente às qualidades que já possuía como homem: a liberdade é o que precisamente me estrutura O homem é um ser que, livre, decide a própria vida. O homem arca como homem, porque é uma designação específica da própria qualidade com a responsabilidade de sua escolha. E escolher sua própria vertente de ser consciente, de poder negar, de transcender. A liberdade é o que significa lutar pela própria dignidade. O homem é absolutamente livre define a minha possibilidade de me recusar como coisa, projetando-me ou não é. A alternativa é radical: ou determinismo absoluto ou liberdade para além disso, ou, se quiser, para além de mim"16. E se a concepção existencialista de liberdade traz à tona o questiona- O homem é livre por necessidade ontológica, e qualquer tentativa de mento da totalidade da dimensão humana, é através dessa visão que se fugir dessa condição é, por assim dizer, uma forma de quietismo. Sartre determina uma nova transparência dos fatos da vida. E se Sartre ilustrou apresenta a tese da liberdade como um valor absoluto, supra-histórico: ele seu conceito de liberdade usando como referência a ocupação nazista na 16 17</p><p>Psicoterapia existencial Valdeman Augusto Angerami Camon França, Marighella personagem expressivo da verdadeira história do Brasil na prisão, e após sessões bárbaras e desumanas de torturas, assim se expressou sobre a liberdade: Solidão é saber do amor; da paixão, de momentos de prazer; é saber que a vida tem momentos felizes. Felizes e suaves deleites da vida. Liberdade E apesar de tudo saber da tua ausência. Não ficarei tão só no campo da arte, Valdemar Augusto Angerami e, ânimo firme, sobranceiro e forte, tudo farei por ti para exaltar-te, A solidão, assim como a angústia, foi outro tema que a partir dos existen- serenamente, alheio à própria sorte. cialistas ganhou nova dimensão. A solidão passou a ser vista como sendo Para que eu possa um dia contemplar-te inerente à existência humana e não um fenômeno isolado que acomete dominadora, em férvido transporte, direis que és bela e pura em toda parte, determinadas pessoas. por maior risco em que essa audácia importe. A idéia que a maioria das pessoas faz da solidão é de um sentimento doido, que nos acomete em determinados momentos. Aquela sensação de Queira-te eu tanto, de tal modo e suma, que não exista força humana alguma mal-estar que nos invade na sexta-feira à noite ou no domingo à tarde, sozi- que esta paixão embriagadora dome. nhos em casa, sem programa. Ou o estado em que um amigo se encontra por estar passando por um período difícil, depois de uma separação. E que eu por ti, se torturado for, Na verdade, a solidão, uma condição imanente ao homem, faz parte possa feliz, indiferente à dor, morrer sorrindo a murmurar teu da vida. Só que, em determinados momentos, a percebemos mais aguda- mente e não sabemos como lidar com ela. Embora Marighella não seja um pensador existencialista, seu grito de cla- A solidão parece estar longe quando mantemos um relacionamento mon pela liberdade se harmoniza com a conceituação de Sartre. Tal fato muito estreito, muito íntimo com uma pessoa que amamos, com a qual mostra claramente que liberdade não é mera concessão das instituições temos bastante afinidade e pontos de contato. Ou numa relação sexual políticas diante de serviciências ideológicas, nem tampouco a condição de em que os dois sentem a possibilidade de uma união total. Mas, cedo ou se posicionar diante de determinados fatos; a liberdade é a condição excel- tarde, chega a hora de encarar a conclusão inevitável: cada um é um. sa do homem que o conduz em busca da verdadeira condição humana e Muitas vezes, percebo-me como parte de um todo de uma família, que determina que as atitudes sejam assumidas plenamente, e inclusive a de um grupo de amigos, de uma comunidade, mas chegará o ponto em parcela de responsabilidade na transformação ou manutenção da socieda- que tomarei consciência de que, para minhas realizações pessoais, depen- de injusta e despótica que escraviza milhares de seres humanos. do de minhas possibilidades. Em suma, por mais que se viva junto das Assim, ao assumir a liberdade como um dos valores fundamentais da pessoas que se ama, por mais que se interaja socialmente não será possí- existência, estamos assumindo a nossa própria ação, dando ao verbo que vel evitar, lá no fundo, a certeza de ser só. a determina a condição de transitivo direto numa frase em que o sujeito Entender o que é um ser ajuda a compreender a solidão. Ao contrário e a ação tenham a mesma congruência. de um objeto inanimado, o homem tem consciência de ser. Essa cons- ciência é que vai levá-lo à conclusão "sou uma pessoa que tem que resol- ver suas próprias coisas". Ou seja, "em última instância, é de mim que dependo para minhas opções". 18 19</p><p>A solidão, na maioria das vezes, é diretamente associada com desespe- Ao pensar na solidão como fazendo parte da existência humana, esta- ro, com sofrimento e com o suicídio. É como se a grande maioria das pes- mos assumindo a nossa condição de seres únicos e, portanto, responsáveis soas não a condição de ser só. E tudo então é desesperador. As pela dimensão dada a essa existência. provas são os bares noturnos das grandes cidades cada vez mais repletos O confronto com a própria solidão, ao contrário do que possa parecer, de pessoas solitárias que buscam o Outro, e as milhares de chamadas tele- leva o homem à busca de alternativas existenciais muitas vezes contrárias fônicas recebidas por serviços como o CVV Centro de Valorização da às formas desesperadoras e fechadas. Vida. Um dia acordo sentindo-me sozinho, necessitado de alguém. O que tiro disso? A consciência de que preciso do Outro. O Outro também é procurado, seja através de uma carta, da lembrança Essência de alguém Quem é que não sentiu essa espécie de vazio alguma vez sozi- E de repente, neste árduo Nada, o ponto inexprimível, nho em casa? A televisão não distrai, a música, em vez de consolar, lembra onde a insuficiência pura incompreensivelmente se transforma situações em que havia a presença do Outro, a figura de pessoas queridas. e salta àquela vazia plenitude onde o cálculo Nessas situações, tudo é difícil, até mesmo concentrar-se em um livro. de muitos algarismos se resolve sem números. Mas basta ligar para alguém, e uns minutos de prosa já mudam esse pano- Rainer Maria Rilke rama sombrio. A do Outro é aquela que me faz alguém com signifi- cação própria. Uma das cantinelas mais polêmicas que envolvem a existência é o enre- Entrar em contato com a solidão não é algo fácil. Mas, ao compreen- damento da Idéia de Descartes: "Penso, logo existo". Esse enredamento dê-la, ao constatar que cada um é único com sua própria história, seu pró- determinista possui um nexo causal que lega aos homens a condição prio percurso, sua própria biografia, sua maneira própria de buscar senti- de existirem apenas e tão-somente a partir do pensamento ou da cons- do para a vida também se percebe que ela demonstra a grandeza e a bele- ciência dos fatos. O pensamento, presunçosamente, determinará a exis- za da condição humana. tência dos seres. Essa idéia, que predominou na Filosofia por muito Há momentos em que as perspectivas da condição humana se perdem tempo e ainda predomina em alguns segmentos do pensamento, tornou- e o sofrimento vence. São períodos críticos de perdas reais ou aparentes. se infundada diante de contraposições feitas aos seus princípios pelos Nem sempre são felizes ou bem-sucedidas as tentativas de aliviar a soli- pensadores existencialistas. dão a qualquer custo. Uma árvore é real, independentemente do pensamento, e, por mais Hoje, muitas pessoas dispostas a procurar companhia encontram al- que possam surgir polêmicas que debatam esse fato, colocando que ela só guém num bar, saem, conversam e até mesmo se relacionam sexualmente. adquire concretude na consciência quando a consciência consegue Isso tudo, inevitavelmente, levará essa pessoa a um estado que pode ser per- apreendê-la, isoladamente, essa árvore em nada depende dessa consciên- feitamente definido como "ressaca moral", pois, se tiver alguma lucidez, ela cia para ganhar de forma e concretude. Sua realidade é única e indepen- perceberá que, para suprir uma carência, procurou alguém que nada tinha de do pensamento, formas e contornos que a consciência possa lhe deter- a ver com sua realidade existencial. minar. Com isso, nega-se o idealismo e sua crença de que a consciência O homem vive a solidão de maneira indissolúvel. Nasce e vive só, dei- originaria a existência humana e os objetos. Se uma dessa xando o espectro da solidão apenas e tão-somente quando morre, e o que negação implica aceitar a concretude de modo independente da consciên- é mais agravante: não tem conhecimento do desespero que a solidão pro- cia, torna-se necessário, no entanto, diferenciar, ao menos brevemente, o voca em seu semelhante, legando a si isoladamente essa problemática pensamento existencialista do materialista ou realista. Embora Sartre como se fosse algo pessoal e tenha se esforçado por aproximá-los, reconhecendo a importância da con- 20 21</p><p>Valdemar Augusto Angerami Camon cretude, todos os existencialistas acreditam na possibilidade de a existência Deus, quando cria, sabe perfeitamente o que cria. Assim, o conceito do atingir um sentido mais elevado, um "algo mais" que meros organismos homem, no espírito de Deus, é assimilável ao conceito de um corta-papel biológicos. É no encontro do homem com a concretude do mundo que a no espírito do industrial; e Deus produz o homem segundo técnicas e existência acontece antes de qualquer pensamento. uma concepção, exatamente como o artífice fabrica o corta-papel, segun- A existência humana, portanto, pode ter como premissa outra idéia: do uma definição e uma técnica. Assim, o homem individual realiza um "Existo, logo penso". A existência, assim, irá determinar o pensamento e certo conceito que está na inteligência até mesmo direcioná-lo segundo as vertentes pelas quais possa enveredar. Na Sartre traz à tona o posicionamento das filosofias do A existência, em suas múltiplas possibilidades, lega a todos os século XVIII, que, apesar de mostrarem-se contrárias aos pontos tecidos a ela inerentes a condição de serem considerados reais apenas a partir de pelos filósofos antepassados, têm entre si similaridade e congruência. "No si e não do pensamento isoladamente. século XVII, para o ateísmo dos filósofos, suprime-se a noção de Deus, Nesse sentido, a questão que envolve a temática da essência humana mas não a idéia de que a essência precede a existência. Tal idéia encon- deve ser colocada da seguinte forma: a existência precede a essência. tramo-la em Diderot, em Voltaire e até mesmo em Kant. O homem pos- Essência, etimologicamente, é assim definida: natureza íntima das coisas; sui uma natureza humana; esta natureza, que é o conceito humano, aquilo que faz que uma coisa seja o que é ou lhe dá a aparência domi- encontra-se em todos os homens, o que significa que cada homem é um nante; aquilo que constitui a natureza de um objeto. exemplo particular de um conceito universal o homem; para Kant, Sartre estabelece uma distinção entre a essência humana e a natureza de resulta de tal universalidade que o homem da selva, o homem primitivo, objetos: "(...) consideremos um objeto fabricado, como, por exemplo, um como o burguês, estão adstritos à mesma definição e possuem as mesmas livro ou um corta-papel: tal objeto foi fabricado por um artífice que se ins- qualidades de base. Assim, pois, ainda aí a essência do homem precede pirou em um conceito; ele reportou-se ao conceito do corta-papel e igual- essa existência histórica que encontramos na mente a uma técnica prévia de produção que faz parte do conceito, que é, E Sartre torna-se enfático mostrando como o pensamento existencia- no fundo, uma receita. Assim, o corta-papel é, ao mesmo tempo, um obje- lista lega ao homem a condição de ser pleno e único: "(...) há pelo menos to que se produz de uma certa maneira e que, por outro lado, tem uma uti- um ser no qual a existência precede a essência, um ser que existe antes lidade definida: não é possível imaginar um homem que produzisse um de poder ser definido por qualquer conceito, e que este ser é o homem, corta-papel sem saber para que há de servir tal objeto. Diremos, pois, que, ou, como diz Heidegger, a realidade humana"23. para o corta-papel, a essência quer dizer, conjunto de receitas e caracte- Diante dessas colocações, surge uma outra questão: que significa, rísticas que permitem produzi-lo e defini-lo precede a existência: e assim aqui, dizer que a existência precede a essência? Significa que o homem a presença diante de mim, de tal corta-papel ou de tal livro, está bem deter- primeiramente existe, descobre-se, surge no mundo, e só depois se defi- minada. Temos, pois, uma visão técnica do mundo, na qual se pode dizer ne. O homem tal como o concebe o existencialista, se não é definível, é que a produção precede a porque primeiramente não é Essa concepção existencialista de A comparação com a fabricação de tais objetos para equiparar-se à con- homem antagoniza-se de forma radical com os conceitos determinalistas dição humana prescindiria de um ente criador de nome Deus, que assim de compreensão do homem. fabricaria entes chamados homens: "(...) quando concebemos um Deus Se existem tantas resistências na aceitação desse preceito existencialis- criador, esse Deus identificamo-lo quase sempre com um artífice superior; ta, deve-se ao determinismo legado ao homem pelas ciências contempo- e, qualquer que seja a doutrina que consideremos, trata-se duma doutrina râneas. Esse determinismo, que encontra eco nas mais diversas correntes como a de Descartes ou a de Leibniz; admitimos sempre que a vontade do pensamento contemporâneo, coisifica o homem, determinando-lhe os segue mais ou menos a inteligência ou pelo menos a acompanha, e que próprios sentimentos em conceituações insólitas. Ao se comparar, por 22 23</p><p>Psicoterapia existencial Augusto Angeram Camon outro lado, a essência humana com a essência de outros seres, fica notó- temas de nuances envolventes de expressão e idéias que, embora diver- ria a condição de ser existente que se transforma e se projeta na própria gentes na transparência, convergem no fato de sedimentar facetas indelé- dimensão de seu ser. Uma árvore, por exemplo, se desenvolve a partir da veis do mesmo fenômeno: a existência. essência de sua semente; seu desenvolvimento e crescimento serão deter- minados a partir das condições climáticas. A sua essência, no entanto, é 0 ser-no-mundo inalterável: não se consegue, como era citação, a partir de sementes de laranja, um abacateiro. Por mais que possam existir adubos e implemen- Não posso escrever versos. Não sou poeta. tos agrícolas que propiciem condições de desenvolvimento em situações Não posso distribuir as frases artisticamente climáticas desfavoráveis, ainda assim, a essência de uma dada semente é para que produzam luzes e sombras; não sou pintor. inalterável. Mesmo em se tratando de sementes transgênicas, o que muda Tampouco posso expressar meus sentimentos e idéias são as características, não a essência da planta. por meio de gestos e pantomimas: não sou bailarino. A essência humana, ao contrário, tem condições de desenvolver-se e Mas posso fazê-lo por meio de sons: sou músico. transformar-se segundo projetos de vida previamente estabelecidos pelo Wolfgang Amadeus Mozart próprio homem. A essência, ao ser determinada pela existência, torna-se a própria O homem existe não apenas em sua relação corpórea ou pelo lugar que dimensão da vida em sua forma mais exuberante, a despeito de a idéia de ocupa no espaço. O homem existe em relação a sua condição de ser-no- Descartes ainda pontear a quase totalidade da tecnocracia e do determi- mundo. nismo da própria ciência em seu nexo causal. Do ponto de vista do existencialismo, o homem não está sob influência A essência humana, dessa forma, jamais é estática ou a mera repetição daquilo que é externo a ele; na verdade, ele se compõe juntamente a esse de fenômenos a partir de fatos ocorridos no passado. Essa condição asse- externo, misturando-se com ele. Explicando o pensamento de Heidegger, gura ao homem a peculiaridade de poder se transformar e, se necessário, Steiner nos ensina: "O mundo é um fato que é, sem sombra de dúvida, recomeçar e reconstruir a cada instante uma vida quedada diante do o prodígio e a fonte primordial de todo o perguntar ontológico. aqui sofrimento e das agruras da existência. e agora e por todo o lado à nossa volta. Nós somos/estamos nele. Completamente. (Como é que poderíamos estar/ser em qualquer 'outro' Se a essência humana recebe, nos últimos tempos, diversos questiona- lugar?) Para expressar esta imanência radical, esta incrustação, Heidegger mentos filosóficos, seu valor enquanto fato absoluto torna-se insólito dian- utiliza o termo composto In-der-Welt-sein (um te da proposta existencialista. Desde as correntes filosóficas, cujas vertentes apontam em direção ao místico até aquelas embasadas em éticas eminen- O fato de estar-no-mundo constitui um fato por si só determinante de temente materialistas, a questão da essência humana traz em si a condição muito sofrimento e desespero. O mundo com suas condições e normas excelsa da existência em sua capacidade de transcendência. Existem diver- morais, éticas, políticas, religiosas cerceia a quase totalidade do desdo- gências na forma da análise das correntes místicas em relação às materia- bramento das possibilidades existenciais. Assim, será muito difícil uma listas no que tange ao significado da essência em sua condição mutante, existência plena e digna num mundo tão despótico e caótico. Seria pos- sendo, porém, uma das mais expressivas convergências diante das divergên- sível negar o aniquilamento existencial provocado pelas condições adver- cias do pensamento contemporâneo, o encontro dessas vertentes. sas e advindas do emaranhado social em que vivemos? Como negar o sofrimento e até mesmo o desespero diante das injustiças legadas ao As correntes existencialistas, determinantes do pensamento e da aná- homem pelos sistemas políticos criados segundo a conveniência e o pri- lise da existência em todas as suas formas e contornos, são, pelo próprio vilégio de minorias? confronto de seus postulados, separadamente ou até mesmo entre si, sis- 24 25</p><p>Psicoterapia existencial Valdemar Augusto Angerami Camon O ser-no-mundo implica uma luta constante do homem consigo próprio sabe: ente é aquilo que é. Qual a outra solução para o ente a não ser esta: para não perder sua dignidade existencial e suas características individuais. ser? E, entretanto, precisamente o fato de o ente permanecer recolhido Na medida em que os valores são determinados pelo enfeixamento de nor- no Ser, de o fenômeno de Ser manifestar-se no ente, é que deixava atôni- mas sociais, os conflitos serão diversos e exigirão um discernimento bastan- tos os gregos, e a eles primeiro e unicamente te lúcido no sentido de uma reflexão constante para não se tornar presa de Em cada sentença que proferimos, o ser é afirmado. Mas não nos dete- um sistema social em que a dignidade humana sequer é questionada. mos para indagar de nós mesmos o que é que estamos dizendo ou, mais O homem é o ser que existe, ao contrário de outros seres e objetos que exatamente, o que é que nos permite, na verdade, e nos compele a dizer apenas são. O ser é. O ser é em si. O ser é o que O homem, no entan- que é. Não indagamos quanto aos fundamentos existenciais de nossa to, é um ser para si. própria existência ou não existência as duas são formal e substancial- E a questão do ser-no-mundo converge diretamente para a angústia do mente inseparáveis nem quanto ao status de entidade atribuído (confe- aqui e do agora. Dentre os existencialistas, é Gabriel Mareei quem mais rido?) ao mundo por toda e qualquer coisa que dizemos. E justamente ressalta essa forma de angústia. "Por que", pergunta ele num espanto porque não fazemos tal indagação que a questão de Heidegger e conse- extremo, "existo como um autor num ponto particular do espaço e do qüente discurso nos parecerão "loucos" (em sua própria palavra) ou vazios. Este pedaço de giz é branco; é de tal composição química e dis- tempo, num mundo moderno, escrevendo um livro de Filosofia? Por que tribuição molecular; seus elementos possuem este ou aquele peso atômi- não seria um leproso num ponto de espaço e do tempo, num mundo co; pode ser usado para fazer marcas visíveis em tais materiais e não em medieval, tocando a sineta para prevenir o burgo, encerrado em suas muralhas, de minha outros; pode ser transformado por diluição, por calor ou pelo frio nas seguintes e assim por diante. Que há mais para dizer? Ou ainda nas palavras de Pascal: "Quando considero a pequena dura- Tudo, propõe Heidegger. Por que é este pedaço de giz? Por que é, ção da minha vida, absorvida na eternidade precedente e o quando poderia não ser? E já temos de fazer uma pausa, diante do insó- pequeno espaço que ocupo, e me vejo, mesmo, perdido na infinita imen- lito da formulação e de sua aparente vacuidade. E o que é mais: que pos- sidão dos espaços que ignoro e que me ignoram, sinto-me aterrorizado e sível resposta pode haver para tais perguntas a não ser uma tautologia admirado de me ver aqui e não lá, pois não há nenhuma razão porque (explicar um conceito usando o próprio conceito de maneira diferente)? aqui e não lá, porque agora e não O pedaço de giz é porque é. Mas sendo assim, então, a palavra é e a enti- O ser-no-mundo traz também a questão de que o homem é o único ser dade que ela implica não seria mais do que uma palavra vazia. Nada sig- que constrói seu ambiente de vida (talvez destrua, se se levarem em conta nifica de real, tangível, material. O seu significado é uma névoa irreal e os desastres ecológicos provocados pelas mãos humanas no seu de [des] (...) quem quer correr atrás dessa construir novas situações ambientais). Os animais, por outro lado, habitam Merleau-Ponty, de outro lado, refletindo sobre a questão do Ser, colo- determinado ambiente sem condições de transformá-lo ou até mesmo de ca que vemos as coisas mesmas; o mundo é aquilo que vemos fórmulas se adaptarem noutro ambiente. Se a existência traz em si aspectos tão desse gênero exprimem uma fé comum ao homem natural e ao filósofo, desesperadores como a solidão, é a questão do ser-no-mundo que o direcio- desde que abra os olhos; remetem para uma camada profunda de "opi- na ao encontro da consciência do outro; forma-se, nessa análise, a própria niões" mudas, implícitas em nossa nova vida. Mas essa fé tem isto de estra- relação da percepção de si, do outro e, conseqüentemente, do mundo. nho: se procurarmos articulá-la numa tese ou num enunciado, se pergun- Heidegger aprofunda-se, direcionando a reflexão para aspectos que tarmos o que é este nós, o que é este ver e que é esta coisa ou este mundo, envolvem o ente e Ser. "Todo ente é no Ser. Ouvir tal coisa soa de modo penetramos num labirinto de dificuldades e contradições. "(...) pois se é trivial em nosso ouvido, quando não de modo ofensivo. Pois, pelo fato de certo que vejo minha mesa, que minha visão termina nela, que ela fixa e ente ter seu lugar no Ser, ninguém precisa preocupar-se. Todo mundo detém meu olhar com sua densidade insuperável, como também é certo 26 27</p><p>Psicoterapia existencial Valdemar Augusto Angerami Camon que eu, sentado diante de minha mesa, ao pensar na ponte da Concórdia, acima como segunda tese (... a decisão resoluta de assumir a finitude não não estou mais em meus pensamentos, mas na ponte da Concórdia; e que, apenas alivia o terror original que a perspectiva da morte inspira; serve finalmente, no horizonte de todas essas visões ou quase-visões está o pró- também de ato de encerramento de nossa vida e sua constituição numa prio mundo que habito, o mundo natural e o mundo histórico, com todos espécie de totalidade, modificando, assim, a profunda brecha em nosso os vestígios humanos de que é feito (...)"31. ser, causada pela necessidade ontológica de perpétua O ou aquilo que se manifesta, consiste em ser "plena posi- cia. Assumindo a morte, interiorizamo-la como possibilidade última, tividade, sua essência é um 'aparecer' que já não se opõe ao ser, pois que como elemento final de todos os atos de autotranscendência. Na morte, é, ao contrário, a sua medida, porque o ser de um existente reside preci- somos a totalidade que não pudemos ser em vida; mas, mesmo em vida, samente no fato de que ele O ser do fenômeno mostra-se em podemos em certo sentido antecipar-nos a nós mesmos em direção à seu aparecer o fenômeno ou o relativo absoluto. É relativo no sentido morte e, assumindo a morte, adotar um ponto de vista sobre nós como de que o aparecer supõe de um modo essencial alguém a quem o apare- totalidade). Humanizando e interiorizando a morte, o homem pode ali- cer aparece. Mas o fenômeno em si mesmo deve ser considerado um jar-lhe o caráter de restrição da liberdade. A doutrina heideggeriana se absoluto, no sentido de que se trata de um aparecer que nada esconde apresentava assim a Sartre como um meio de resguardar a teoria da liber- atrás de si, não podendo ser compreendido como manifestação de uma dade total: "Esse limite aparente de nossa liberdade, interiorizando-se, é suposta coisa em si que seria, ela, o absoluto. O que o fenômeno é, ele o recuperado pela liberdade"36 Porém, tendo considerado mais tarde a é absolutamente, tal como é: o fenômeno é "absolutamente indicativo de si doutrina, que acreditava também de Rilke e Malraux, acrescenta: "Nem mesmo", é um a comodidade dessa idéias, nem a parte incontestável de verdade que "O homem é o ser que não é o que é, e que é o que não é"34. É neces- encerram, nos devem confundir. É necessário retomar do começo o sário, então, que o homem seja entendido como o ser que é, não um exame da mero conjunto de mecanismos desprovido de sentimentos, mas um ser Criticando a primeira tese heideggeriana, a saber, que a consciência transfenomenal que se percebe enquanto fenômeno e se anuncia no da morte intensifica a autopercepção e nos confere a categoria da indivi- fenômeno como um além deste. Assim, o homem será capaz de criar e dualidade, Sartre se detém sobre o juízo de que a morte é a única coisa até mesmo enredar a compreensão de sua própria existência, partir de sua que ninguém pode fazer por mim: "É perfeitamente gratuito dizer que condição de ser, um ser capaz de alcançar a transfenomenalidade do 'morrer é a única coisa que ninguém pode fazer por mim' (...) se a morte fenômeno de for considerada como possibilidade última e subjetiva, evento que só con- cerne ao para-si, é evidente que ninguém pode morrer por mim. Mas Morte segue-se disso que nenhuma de minhas possibilidades, tomadas desse ponto de vista (...) pode ser projetada por um outro que não eu. Ninguém Morrer é viver as possibilidades do pode amar por mim, se entendermos com isso fazer esses juramentos, e É saber que a transcendência é a vida, que são meus juramentos, experimentar as emoções (...) que são minhas vida em morte, e morrer em cada instante emoções (...) Se pelo contrário de sua função, de sua eficiência e de seu no pulsar de um beijo, no afagar de resultado, é pacífico que o outro sempre pode fazer o que faço: se se trata Valdemar Augusto Angerami de tornar certa mulher feliz, de defender sua vida ou sua liberdade, de lhe dar os meios de realizar sua salvação ou simplesmente de construir A morte foi um tema sobre o qual os existencialistas escreveram com ela um lar, 'dar-lhe filhos', se isso é o que define amor, então um muito. Sartre coloca que, por algum tempo, foi muito atraído pelas con- outro poderá amar em meu lugar, poderá mesmo amar por mim (...). E o cepções de Heidegger sobre a morte, especialmente a que indicamos mesmo acontece com todas as minhas atitudes (...). Minha morte entrará 28 29</p><p>Psicoterapia existencial Valdeman Augusto Angerami Camon também nessa categoria: se morrer é morrer para edificar, para testemu- condenado entre condenados, que ignora o dia de sua execução, porém nhar, para a pátria etc., qualquer um pode morrer em meu lugar"38. vê executar a cada dia seus companheiros de presídio. Isto não é inteira- Sartre entretece ainda seu esboço contrapondo as idéias de Heidegger mente exato: melhor seria comparar a um condenado a morte que se pre- com Rilke: "Rilke se esforça para mostrar que o fim de cada homem se para valentemente para último suplício, que se prepara com cuidado para assemelha a sua vida, porque toda vida individualmente é preparação fazer bem seu papel no cadafalso e que, entretanto, é arrebatado por uma desse fim; neste sentido, Malraux, em Les Conquérants, mostra que a cul- epidemia de gripe espanhola. É o que há compreendido da sabedoria tura européia, ao dar a certos asiáticos o sentido da morte própria, penetra cristã, que recomenda preparar-se para morrer como se a morte pudesse imediatamente a verdade desesperadora e embriagadora de que 'a morte sobrevir a qualquer hora. Com efeito: se o sentido de nossa vida se con- é A Heidegger estava reservado dar forma filosófica a esta humani- verte em espera da morte, esta, ao sobrevir, não pode senão pôr seu selo zação da morte: com efeito, se o Dasein (termo utilizado por Heidegger sobre a vida. E, no fundo, o que há de mais positivo na decisão resoluta para designar o ser do homem) não necessita nada, precisamente porque (Entschlossenheit) de Heidegger. Desgraçadamente, são consensos mais é projeto e antecipação, deve ser antecipação e projeto de sua própria fáceis de ser seguidos, não a causa de uma debilidade natural da realida- morte como possibilidade de não realização mas presença no mundo. de-humana, ou de um projeto originário de inautenticidade, senão a Assim, a morte se converteu em possibilidade própria do Dasein; ser da causa da morte mesma. Com efeito, um pode esperar a morte particular, realidade humana se define como Tanto que Dasein porém não a morte"41 decide seu projeto para a morte, realiza a liberdade-para-morrer e se cons- Para Sartre, a morte é a ocorrência que determina o fim da existência titui a si mesmo como totalidade pela livre escolha da pondo fim a todos os projetos elaborados. Heidegger, de outra parte, colo- Sartre, na coloca de maneira bastante clara e constrita seu ca a morte como fazendo parte da vida. posicionamento sobre a morte num contraponto com as idéias de A existência humana sofre perda de continuidade com o ato de mor- Heidegger: "Tal teoria, à primeira vista, não pode deixar de nos seduzir: rer. A morte tem a condição de determinar à existência o fim de seus interiorizar a morte serve aos nossos próprios desígnios; esse limite aparen- devaneios, planos e ilusões. A morte é, assim, a ocorrência mais concreta te de nossa liberdade ao interiorizá-la é recuperado pela liberdade. da existência humana, determinando, muitas vezes, a condição de absur- Entretanto, nem a comodidade de tais concepções, nem a incontestável didade da vida. parte de verdade que encerram nos devem confundir. É necessário retomar Para Heidegger, a nossa primeira abordagem objetiva do fenômeno do desde o começo o exame da questão. É certo que a realidade humana, pela término do Dasein, que é a morte, ocorre através da morte de outros. qual a condição humana torna-se realidade, não poderia encontrar-se com Como ser é sempre um ser-com-outros, "adquirimos literalmente uma o inumano; o conceito de inumano mesmo é um conceito de homem. É experiência da morte" em numerosos momentos, durante a nossa própria necessário, pois, abandonar toda esperança, ainda que em si a morte seja existência. Além disso, Heidegger, neste ponto, atinge um dos seus uma passagem para um absoluto não-humano, de considerá-la como uma momentos mais estranhamente pungentes, a morte de outros coloca-nos luz aberta a esse absoluto. diante de "esse extraordinário fenômeno de ser que pode definir-se com A morte nada nos revela senão acerca de nós mesmos e desde um ponto a mudança de uma entidade da espécie de ser (ou da vida) do Dasein de vista humano. Significa isto que pertence a priori à realidade humana? para não-mais-Dasein"42 Antes de mais nada é necessário advertir do caráter absurdo da Dessa maneira, o morto abandona o nosso mundo, mas, em termos de Sartre, em seguida, coloca o distanciamento de seu posicionamento ente, "aqueles que ficam podem ainda estar com Em um nível, em relação a Heidegger: "Nesse sentido, toda tentação de considerá-la Heidegger está reafirmando a qualidade compartilhada e constantemente como um acorde de resolução ao término de uma melodia deve ser rigo- participatória do cotidiano existencial, "ser-com" de todo ente. Num rosamente apartada. A menos que acreditemos estar na situação de um 30 31</p><p>Psicoterapia existencial Augusto Angerami Camon outro nível, ele está aduzindo a verdade psicológica perfeitamente ordi- condição mercantilista de trabalho em busca da sobrevivência. Também, nária, mas profunda, de que os mortos podem estar mais perto de nós, se não houvesse a morte, a vida prescindiria totalmente da Medicina mais ativamente conosco, mais plenamente uma parte de nosso ser do definida em suas lides como sendo a arte de manter acesa a chama da que os vivos. O estudo dos pensamentos de um homem morto, a contem- vida. As doenças que ceifam e dizimam milhares de vidas humanas não plação de sua arte, a realização de seu propósito político, a intensa recor- mais atuariam sobre a espécie humana. dação de seu são exemplos de cuidados inteiramente típicos da existência Wilma C. Torres45 coloca que a morte é, no século XX, o sujeito ausente do discurso, afirmando também que vários fatores costumam ser O enunciado de Heidegger (com seu aparente eco da famosa oração apontados para justificar o desencontro do homem com a morte. Esse de Rilke para Uma Morte Estritamente Pessoal) obteve uma formidável desencontro ocorre, em parte, porque na relação do homem com a morte influência: "Ninguém pode arrebatar a outro a sua morte. É claro, há uma aparente contradição. Se a morte é natural, por que o conflito? alguém pode a morte por outrem'. Mas isso significa sempre Por que a resistência? A resposta é dada inicialmente pela própria biolo- sacrificar-se por outrem em 'algum caso definido'. Tal 'morrer por' nunca gia. Na verdade, em termos biológicos, a morte é "natural" apenas no pode significar que ao outro foi-lhe assim arrebatada sua morte. Morrer é sentido de que é universal, inevitável. É isso o que demonstra a nova teo- algo que todo Dasein deve ele mesmo assumir no tempo. ria científica da morte, pois a biologia, ao estudar o fenômeno mais de Por sua própria essência, a morte é, em todo o caso, minha, na medida perto, pode afirmar que o que mais caracteriza o organismo vivo é a imor- em que E, com efeito, a morte significa uma peculiar possibilidade-de- talidade e não a morte: as células vivas são potencialmente imortais ou ser em que o mesmo ser do próprio Dasein do homem é o fim, um amortais. Os seres unicelulares são potencialmente imortais. Assim desfecho final. No morrer, mostra-se que 'pertencer a mim' (mineness) sendo, diz Weissman, a morte dos seres superiores não se baseia em uma e existência são, ontologicamente, constitutivos para a morte. Morrer não é propriedade original da substância viva, mas decorre de condições espe- um evento; é um fenômeno a ser compreendido existencialmente"44. ciais de organização dos seres evoluídos. Dessa forma, a biologia desco- briu que a morte não é uma fatalidade da vida orgânica. Os seres vivos A transparência dos fatos e a própria dimensão do ato de morrer, ao ser em sua origem não são "heideggerianos" a vida não é a morte. Na ver- trazida à consciência, determina o esteio sobre o qual a vida é sedimenta- dade, em termos evolucionistas, a morte "natural" foi uma descoberta da. Em uma simples projeção, para se ter uma idéia do alcance desse tardia da vida, sem "luxo", e por isso, para a biologia, atualmente, pro- posicionamento, é praticamente impossível pensar-se de que forma seria blema mais misterioso e apaixonante do que o da origem da vida é o da a existência sem a morte. Se não existisse a possibilidade de se morrer, origem da morte. Quanto mais se sobe na escala dos organismos vivos, na então, seguramente teríamos que conceber uma forma de existência escala das especializações, mais diminui a possibilidade de regeneração sequer tangível pela razão e, portanto, pela não razão. Os modelos eco- celular; a célula mais evoluída a nervosa parece mesmo incapaz de se nômicos, sejam eles capitalistas, socialistas ou de qualquer outra estrutu- renovar. Como se pode ver, a regressão se mostra como lei necessária das ração, embora sedimentados em bases que não aquelas meramente filo- células especializadas. A morte surge como preço da organização, da dife- sóficas, têm seu poderio sobre outras sociedades a partir do determinante renciação, da da morte e do ato de morrer. Assim, uma nação é poderosa em relação à Na tentando aprofundar ainda mais esse questionamento, outra pelo porte de seu arsenal bélico e, portanto, pela condição de des- Torres coloca que o homem transcende os limites da biologia e que, se a truição do povo ou nação adversária. Se não existisse a morte, a condição morte é contrária à sua natureza biológica, é ainda mais contrária à essên- bélica perderia o significado e o poder. A espoliação mercantilista que cia mesma da natureza humana. Quem procura demonstrar isso, dentro avilta o trabalho do homem, impondo-lhe condições desumanas na de uma perspectiva existencialista é Landsberg, em seu notável tra- busca da pura sobrevivência, perderia o significado. Deixaria de haver a balho Essai Sur l'Expérience de la Mort (Ensaio sobre a experiência da condição de espoliação e de exploração: ninguém necessitaria expor-se à morte). Landsberg, ainda segundo Torres, contrariando Heidegger, afirma 32 33</p><p>Psicoterapia existencial Valdeman Augusto Angerami Camon que a pessoa humana, na sua essência, não é existência para a morte; tam- Dentre os temas existenciais, o sentido da vida seguramente é um dos que bém argumenta que a angústia da morte seria incompreensível se a estru- mais provocam celeumas quando de seu questionamento. A questão do tura fundamental de nosso ser não contivesse o postulado existencial de sentido da vida é uma das temáticas que mais convertem para a dimensão um "outro lado". Se assim não fosse, a morte seria simplesmente um fato do pensamento existencialista em suas nuanças e convergências. do futuro, talvez bastante penoso, mas sem nenhum peso excepcional e A vida enquanto existência única e isolada não tem sentido. O homem sem nenhuma outra ameaça metafísica. A angústia mesma nos revela que existe a partir de suas realizações, não existindo pela sua própria vida iso- a morte e o nada se à tendência mais profunda e mais inevitável lado do contexto de suas do nosso ser. No fundo do ser há um ato: a afirmação de si mesmo. Na pes- E se a vida não tem sentido, ou usando a definição existencialista, "a soa que se sabe única encontramos a afirmação desse elemento único a existência é absurda", tal consciência nos leva em busca de realizações realizar, afirmação que implica a tendência a ultrapassar o tempo. A morte interpretada como definitiva, a morte física interpretada como negação significativas visando dar sentido e cor a essa existência. A consciência de universal de nossa existência, é apenas o reflexo da descrença desesperada, que a vida é um emaranhado de sofrimentos e agruras existenciais faz uma negação da pessoa por ela mesma. Se a natureza humana tem neces- com que assumamos a dimensão da nossa responsabilidade enquanto sidade de sobrevivência, não é nem por egoísmo, nem por burla, nem por seres livres e responsáveis pela construção dos próprios ideais de vida. regressão, nem por um atavismo histórico qualquer. Esta necessidade O sentido da vida é a propulsão capaz de levar o homem a horizontes mesma é o testemunho de uma estrutura ontológica a cons- sequer atingíveis pela razão. No entanto, é preciso dimensionar a vida ciência imita o ser profundo. Se nenhuma possibilidade verdadeira cor- como carente de sentido e que necessitará das realizações humanas para respondesse a essa tendência, toda a existência humana submergiria do tornar-se algo além da própria vida. Basta pensar numa criança de cinco nada. Portanto, a consciência da morte caminha paralela à individualiza- anos de idade, por exemplo. Essa criança tem, na própria vida, seu senti- ção humana, com a constituição de individualidades singulares, obra da do; sua vida será brincar, demonstrar e quebrar os próprios brinquedos, pessoa. Talvez isso explique por que épocas históricas ricas de individua- buscar o provimento de suas necessidades básicas de sobrevivência ali- lidades singulares sejam perseguidas pela idéia da morte e por que só mentação, afeto, proteção etc. sociedades como a moderna (que sofre profunda crise de individualida- Para essa criança, mesmo em situações de sofrimento provocadas por de) façam da morte um doenças, brigas e desajustes familiares, entre outras causas, a vida trans- A morte é, muitas vezes, um processo vital que determina inclusive a cende pela própria vida. O adulto, por outro lado e num contraponto própria condição da vida. com essa criança aludida no exemplo anterior, precisa dar sentido a sua Ao se trazer a temática da morte para discussão a partir de várias ópti- própria vida, pois ela estará desprovida disso; necessitará de realizações, cas, estamos, na realidade, mostrando uma das facetas mais contunden- sejam afetivas, sejam emocionais, sejam profissionais, sejam de outra tes da existência em suas performances e manifestações. natureza para encontrar algum sentido em sua vida. Ainda assim, diante de questionamentos que evoquem o porquê da existência humana a 0 sentido da vida vida, a morte, as doenças, o sofrimento, a questão de Deus, a incom- preensão do próprio fenômeno da vida o sentido da vida variará de Tivesse, como nós, consciência animal acordo com as situações que envolvem esse pensamento. em outro sentido nos arrastaria; seu ritmo seria o nosso. Izar Xausa, refletindo sobre a obra de Victor E. coloca que o Seu ser, porém é infinito, inapreensível e sem olhar. sentido da vida é um problema caracteristicamente humano e uma indaga- E ele tudo vê, puro e inconsciente de si, onde nós vemos futuro, em tudo se vê e salvo para sempre. ção que todo homem faz a si mesmo. Para assumir um compromisso com a vida, é preciso descobrir-lhe o sentido. O sentido assume, portanto, uma Rainer Maria Rilke</p><p>Psicoterapia existencial Valdemar Augusto Angerami Camon importância vital. Daí a ênfase dada por Victor Frankl a esta necessidade O homem passa a maior parte de sua existência buscando o sentido da que todo o homem possui de responder a esta pergunta de sentido. Em sua vida, perguntando o que é a vida, qual a sua obstinação, qual a sua verdade. própria existência, Frankl inquiriu, mais explicitamente, sobre o sentido da Em sua busca desvairada, recorre a todos os tipos de respostas, buscando vida quando de posse apenas da sua existência desnuda; como prisioneiro desde verdades místicas até aquelas chamadas científicas. 119.104 viveu a trágica situação-limite do campo de O sentido da vida é algo buscado pelo homem desde os primórdios da Xausa lembra ainda que Frankl dizia que o prisioneiro que perdia a fé humanidade. No entanto, a atenção dedicada a esse aspecto é pratica- no futuro estava condenado a definhar, confirmando a estreita relação mente nula. Ao mesmo tempo que o homem evolui nos avanços tecno- existente entre o ânimo de uma pessoa, seu valor e suas esperanças. De lógicos, chegando mesmo ao ápice do desenvolvimento e conhecimento forma instintiva, sua sobrevivência e a de seus companheiros que resisti- técnicos, a busca do sentido da vida continua sendo tartamudeada da ram devia-se, portanto, ao sentido que lhes dava capacidade de transcen- mesma forma há milênios. der àquelas grades, através do sofrimento, numa atitude intencional e Na busca dessa compreensão, o homem enveredou pelos chamados livremente aceita rumo a um valor mais alto. conhecimentos científicos, e, na medida em que a ciência mostrou-se Frankl encontrou sentido para se realizar naquela espécie de vida subu- incapaz de responder aos seus anseios, houve uma convergência do mís- mana e percebeu que todo aquele que também encontrava um sentido tico para o científico. A ciência, então, passou a trilhar caminhos nos adquiria forças para sobreviver ao infortúnio. Assim, a resposta ao sentido da quais as teorias, acima de toda e qualquer verificação, dependem basica- vida é mobilizadora de forças vitais. Ou, pelo contrário, o vazio ou o vazio mente do crivo da fé, da crença dogmática e indissolúvel que sequer per- existencial é capaz de causar enfermidade. Frankl ensina que a vida não se mite questionamentos e indagações. trata de uma atribuição de sentido, mas de um achado de sentido, o que A existência humana passou a ser explicada por conceitos cósmicos, nos faz não dar um sentido, mas encontrá-lo: encontrar, diremos, e não energéticos e outros emprestados da física, hidráulica e até mesmo de inventar, já que o sentido da vida não pode ser inventado, antes tem que realizações pertinentes às ciências exatas. E a existência em si continua ser deixando o homem perplexo pela sua complexidade, pela sua falta de O sentido e a significação da vida são determinantes da gratificação lógica. A vida é tida como um mistério profundo cujo conhecimento real emocional obtidos pelas realizações alcançadas ao longo do parece cada vez mais distante do homem, e sentido da vida continua a O homem existe a partir de suas realizações, não pela sua própria vida, ser uma das grandes celeumas contemporâneas. isolado do contexto de suas realizações. Se se permitisse à existência o O próprio sentido da vida, muitas vezes, é determinado pelas crenças desenvolvimento pleno de suas realizações, o homem teria possibilidades que norteiam a existência. Quantas existências não ganham significado a de crescimento pessoal muito mais amplas. partir de dogmas e realizações místicas, ou, então, por princípios ideoló- O homem é aniquilado e acachapado pelo sistema social, que o torna gicos que, muitas vezes, são irreais ou até mesmo utópicos?! mero mecanismo desprovido de todo e qualquer sentido existencial. O siste- O sentido da vida é determinante da gratificação emocional obtida ma social que o desumaniza, por outro lado, foi sedimentado por ele próprio pelas realizações alcançadas ao longo da existência. e, dessa forma, sua destruição é feita apenas e tão-somente por si mesmo. O homem é um contínuo vir-a-ser, e a própria dinâmica propulsora da Ao longo de sua existência, o homem busca afoitamente um sentido existência é a renovação da motivação inerente ao sentido da vida. É de vida que lhe uma significação plena e total. Nessa busca, depara necessário, no entanto, que ele decida de maneira adequada seu projeto com as mais diversas dificuldades, fazendo com que a existência seja per- de vida, para que o sentido da vida seja pertinente às suas realizações. De meada de obstáculos a serem vencidos e que, na grande maioria das outra forma, será necessário adequar-se a inúmeras frustrações e até vezes, lhes dão uma dimensão irreal dos fatos e fenômenos da existência. mesmo a uma existência permeada pelos parâmetros impostos pelas aspe- 36 37</p><p>Psicoterapia existencial Valdeman Augusto Angerami Camon rezas do caminho. Existem também pessoas que, ao tomarem como sen- de ele mesmo, na medida em que não se reduz a nenhuma delas nem à tido de vida a realização de projetos praticamente inalcançáveis, atingem soma das não as metas inicialmente propostas, mas certamente alcançam patama- Merleau-Ponty afirma que não nos perguntamos se o mundo existe, res muito superiores aos impostos pela própria existência. De outra perguntamos o que é, para ele, existir. No entanto, mesmo assim transfor- forma, ao decidir-se por realizações aquém de suas possibilidades, o que mada, a questão ainda não é radical, pois é possível entendê-la num sen- fará com que o sentido de vida seja pobre, cerceado e limitado, a conse- tido superficial que esconde sua verdadeira motivação57. quência será a geração de muito sofrimento, bem como o aniquilamento A questão é, assim, remetida à transcendência da própria fé percepti- das possibilidades do desdobramento da va58 em relação ao mundo propriamente dito e à linguagem através da Dessa maneira, é através do sentido da vida, das polêmicas e cantile- qual tentamos significá-lo, indevidamente, já que é com palavras que se nas evocadas, quando de seu questionamento, que o pensamento existen- responderá à questão. cialista contribui de maneira significativa para uma tomada de consciên- Merleau-Ponty coloca ainda que, do ponto de vista do Ser e do Nada, cia decisiva sobre a própria realidade da existência humana. Também é a abertura para o ser significa apreendê-lo nele próprio: se permanece através do sentido da vida que determinados sentimentos podem ser ava- afastado é porque o nada, o anônimo em mim que vê, leva adiante de si liados e superados de modo livre e autêntico. uma zona de vazio onde o ser não é apenas, mas é visto. É, portanto, o meu nada quem faz a distância do ser e também sua proximidade, a pers- Transcendência pectiva como distinta da própria coisa, que constitui em limites os limi- tes do meu campo; ele franqueia estes limites, este afastamento, na medi- Eu viajo dos teus braços da em que os faz; só faz surgir as perspectivas fazendo surgir o geometral, beijo teus lábios na ausência vai ao todo porque não é nada então, não há mais alguma coisa, não há toco nos teus seios sem distanciamento mais abertura, pois não há mais trabalho do olhar contra esses limites, e transcendo os sentidos da paixão. não há mais inércia da visão que faz com que se diga que temos abertura Augusto Angerami para o mundo59. Pelo conceito de transcendência é que se pode perceber a extensão de Uma pedra existe no espaço com os limites de sua área. A dimensão que que o homem não é um ser estático, mas sim um ser em contínuo desen- ocupa no espaço não transcende suas formas tampouco seus próprios limi- volvimento. É nesse sentido a famosa frase de Sartre: homem é o ser tes. O homem, ao contrário, ocupa uma dimensão que transcende, ultra- que não é o que é e que é o que não É a transcendência à questão que passa seus limites corpóreos. O homem tangencia as estrelas com sua ima- nos permite definir a condição humana da introspecção e meditação. ginação, toca a Lua com sua percepção e desliza mar adentro através de Também é pela transcendência que o homem descobre a totalidade de suas sensações. O homem antecipa seu futuro, vivencia seu passado, trans- suas possibilidades existenciais, possibilidades que não se esgotam ainda cende limiar do tempo e do espaço. Sua imaginação leva a horizontes que a existência esteja quedada, inerte diante das vicissitudes existenciais. somente alcançáveis por sua capacidade de transcendência. O homem é um ser capaz de alcançar a transfenomenalidade do fenô- mostra que Sartre nos pede para entender a idéia de "ser- meno de ser. Não basta, entretanto, dizer que o ser se atinge no fenôme- no-mundo" no sentido de movimento, e, aqui, isso significa que todo no, pois, como afirma Sartre, ser dos fenômenos não se resolve num fenômeno psíquico tem de ser completado no movimento de síntese, fenômeno de ser"60. É necessário que o homem seja entendido como o como, aliás, acontece às notas de uma melodia. Assim, o Ego (a defini- ser que é, não um mero conjunto de ligações e conexões biológicas, mas ção é de Sartre) se constitui na unidade de transcendência e a transcen- um ser transfenomenal, que se percebe enquanto um fenômeno e se anuncia no fenômeno como um ser além deste. 38 39</p><p>Psicoterapia existencial Valdemar Augusto Angerami Camon Sartre, em A Transcendência do Ego61, refletindo sobre a consciência, da consciência que distingue radicalmente o homem de outros seres. diz que ela determina sua existência a cada momento sem que possamos Heidegger coloca ainda que "a natureza existencial do homem é a razão conceber qualquer coisa que a pela qual o homem pode representar os seres como tais e pela qual pode Nossa espontaneidade não é algo sobre o qual tenhamos qualquer do- estar consciente deles". mínio, assim como erguer meu braço ou deixá-lo onde está; é algo que Sartre ensina que o homem autêntico é aquele que se submete à con- pode ser ou não ser. Considere-se o primeiro momento em que a consciên- versão radical através da angústia e assume sua liberdade. Não como pas- cia existe. Obviamente ela não pode ser causada por algum estado anterior tor do ser, como diria Heidegger, mas como a causa do existir num de si mesma, pois, por hipótese, este é o seu primeiro estado. Tampouco mundo e fonte única desse valores e inteligibilidade do mundo. Na ela- pode ser causada por alguma coisa, pois não é uma coisa, e coisas só podem boração dessa concepção fundamental, Sartre é levado a distinguir três ser invocadas na explicação de coisas. Assim, a consciência é casualmente formas de inautenticidade. Uma que deriva do não reconhecimento da independente de tudo. Por certo que é dependente do mundo, na medida dualidade entre nosso ser-para-nós e nosso ser-para-outrem. A outra se em que exige um objeto, mas o objeto apenas determina o conteúdo da baseia na confusão do nosso ou seja, entre estar consciência, não a sua existência. Assim, a consciência é uma espontanei- se relacionando com o mundo e estar confusamente misturado ao dade no que concerne a qualquer coisa dentro ou fora dela. Aplicar-lhe mundo, mas essa forma de inautenticidade é analisada com pouca aten- noções causais é tratá-la simplesmente como se fosse uma ção. A terceira forma de inautenticidade decorre do não reconhecimen- Se a própria condição humana, em sua forma única de existência, to de nossa situação ambígua com um em-si-para-si "destotalizado", ou determina as possibilidades inerentes a essa condição, é através da trans- da confusão entre nosso ser como em-si e nosso ser como cendência que as realizações humanas ganham a dimensão capaz de Numa espécie de manifesto publicado em 1939 na Nouvelle Revue transformar e até mesmo de redimensioná-la. A existência, que é um con- Française, Sartre declarava: "Tocaremos as próprias coisas. Não somos tínuo "vir-a-ser", um sempre "ainda-não" com a possibilidade de um mais prisioneiros de nossas sensações como homens proustianos. A cons- "poder-ser", na condição de transcendência, se desdobra e faz com que ciência está sempre fora de si mesma; é consciência de alguma coisa"65 nos projetemos para além de nossas próprias possibilidades existenciais. Bornheim66 diz que Sartre, baseado em sua concepção de liberdade, pretende erigir a sua moral da responsabilidade e do compromisso. O Autenticidade empreendimento, contudo, não deixa de oferecer sérias dificuldades, e é nesse ponto que mais se ressente a ausência de uma discussão ampla do Quem nunca estabeleceu convivência amorosa fenômeno ético. O subjetivismo de Sartre revela-se extremo: "tudo que não poderá se manifestar, não poderá ser acontece é meu", "tudo o que me acontece acontece por transparente para si mesmo. Tanto para Sartre como para Heidegger, o homem autêntico é que Binswanger reconhece a dualidade radical entre o humano e não humano, que reco- nhece que estar-no-mundo não implica É à O termo "autenticidade" foi introduzido por Heidegger e mais tarde reto- luz desses temas que se fundamentam os conceitos de inautenticidade mado por Sartre. No sentido mais amplo, a vida autêntica é a que se acima descritos. O ambiente humano artificial das fábricas exemplifica o baseia numa apreciação exata da condição humana. Conforme citação acoplamento da condição humana diante das coisas. O próprio trabalha- anterior, de acordo com Heidegger: "O ser que existe é o homem. Só o dor se torna quase uma máquina. Todos os seus atos são determinados por homem existe. As pedras são, mas não existem. Os cavalos são, mas não um grupo de gerentes que não conhece ou que não o conhecem. Seu tra- existem. Os anjos são, mas não existem. Deus é, mas não É o fato balho é inteiramente rotinizado; praticamente qualquer pessoa poderia 40 41</p><p>Psicoterapia existencial Valdemar Augusto Angerami Camon E ele não tem o menor interesse no produto final. É simples- e então no entardecer mente um objeto servindo às necessidades de um público voraz. Não está eu irei adormecer presente ao mundo como um pintor ou poeta estão; está no mundo como para numa acordar um objeto físico, está no mundo com outros objetos e a minha vida O homem sente nas próprias entranhas a dor da exploração mercanti- Evandro Angerami lista de sua capacidade de trabalho. Sofre na totalidade a dor de ver o tempo passar sem poder viver plenamente suas possibilidades existen- A angústia, dentro dos valores existencialistas, é seguramente um dos ciais. Percebe a dor que existe ao seu redor, conhece as agruras da fome, mais apaixonantes. Ao contrário das reflexões anteriores que legavam à da desolação e da miséria. É reprimido em sua capacidade sexual. É ani- angústia a condição de patologia, o pensamento existencialista a coloca quilado na sua forma de amar e muitas vezes, inclusive, é induzido ao como um dos determinantes que trazem a condição humana à nossa pre- ódio. Até que possamos conhecer e perceber melhor o mundo dos ani- sença e nos direciona à categoria de seres livres e únicos. Dentre os vários mais, podemos afirmar que nenhum tem a capacidade do homem de sen- pontos discutidos pelos existencialistas, a angústia é aquele que irá apare- tir-se e perceber-se humilhado e avassalado em seus direitos existenciais cer na maioria dos escritos dessa corrente. mais básicos. Para os existencialistas, a angústia não é um sentimento negativo, e A consciência determina ao homem sua condição em relação sim uma experiência valiosa que emerge quando tomamos consciência às coisas. Uma forma de vida inanimada não tem conhecimento de da nossa condição humana; é um sentimento que nos amedronta diante outras vidas, tampouco interage com outros elementos da natureza. do "nada" existencial. Mesmo num contraponto com o reino animal, em que as espécies ani- Somos lançados no mundo, proclama Heidegger. O nosso ser-no- mais interagem entre si, seja buscando acasalamento, proteção ou confor- mundo é um "ser lançado". Nada há de místico ou metafórico nessa pro- to, seja interagindo num processo predador de destruição e até mesmo de posição. É uma banalidade primordial que a especulação metafísica sobrevivência, com pleno conhecimento de seus semelhantes e até ignorou. O mundo em que somos lançados sem escolha pessoal e sem mesmo de seus predadores, ainda assim a consciência do homem dá a ele conhecimento prévio estava aí diante de nós e estará aí depois de uma condição de se colocar acima desse enredamento de fatos. A inalienabilidade da morte, o fato simples mais irresistível de que A busca da autenticidade é a própria busca da condição humana cada um deve morrer para si mesmo, de que a morte é a única potencia- naquilo que ela tem de mais peculiar e sublime: a consciência de si e do lidade existencial que nenhuma escravização, nenhuma promessa, outro. É na autenticidade que o homem se torna, através da consciência, nenhum poder dos "outros" pode arrebatar ao homem individual é a ver- homem na busca dos valores que irão determinar-lhe essa condição. dade fundamental do significado do ser, e, por determi- nante de uma angústia inerente à própria condição humana. Angústia A consciência da liberdade é angústia. "A angústia em sua estrutura essencial é liberdade." Os exemplos, contudo, e o fato de que podemos Uma precisar deles apenas sublinham o fato e trazem esse fato estrutural acer- Carros, tensão, nervosismo, poluição, violência na contramão, ca da espontaneidade à consciência reflexiva. Assim, essa consciência não assaltos sobre asfalto, medo, ansiedade, angústia, pode ser nada do tipo automaticamente garantido por algum esquema Dou giros sem saber o que fazer. Alguns quilômetros, mata virgem, existencial, já que deverei sempre estar consciente da liberdade na cons- Aquela imagem parece miragem paz, tranquilidade, vida, liberdade, trição da consciência livre; daí estar eu em permanente angústia, se é pássaros a voar, seriemas a gritar, vida a viver, liberdade de correr, nisso que a angústia importa, mesmo que se trate apenas de servir-me de natureza conviver, outro croissant ou de tirar uma 42 43</p><p>Psicoterapia existencial Valdeman Augusto Angerami Camon Como a idéia de angústia representa papel tão destacado nos textos encontrá-las presentes de modo a enfeixar a totalidade da própria realida- existencialistas, tanto em Kierkegaard e Heidegger quanto em Sartre, de existencial. cabe aqui mais uma palavra a respeito. Em primeiro lugar, ela é um sen- A angústia de ser é o sentimento que nos invade quando cogitamos timento, de certa forma, elitista e e pouco ou nada tem a ver que o nada foi, e ainda é, tão possível quanto ser; quando nos pergunta- com aqueles estados nos quais os homens comuns são aterrorizados pelo mos por que existe algo, ao invés de não existir nada. É fato curioso nossa perigo e pelas asperezas da vida, e que podem ser chamados de angústia, incapacidade de sentir o prodígio e o mistério do existir, sem pensarmos com os sentimentos que se experimenta quando uma carta não chega, ou no nada absoluto. Metaforicamente, poder-se-ia dizer que só podemos ter uma criança adoece, ou um emprego ou o país são ameaçados. uma visão ampla do ser através da perspectiva do nada74. Não é preciso um filósofo para nos dizer que a vida é angustiante nesse A angústia do ser é mais do que algo transitório e esporádico, é algo sentido. Seja como for, tal espécie de angústia é transitória e esporádica, que abarca a totalidade da existência. enquanto a angústia a que aludem os existencialistas refere-se à totalida- Não se deve, entretanto, confundir a angústia de ser com a angústia de da existência humana, não apenas a episódios sombrios que podem ou da morte, embora a idéia da morte possa evocar e, de fato, amiúde evo- não ocorrer nela. Seu conteúdo, aquilo a que diz respeito, é a liberdade que a primeira. A angústia de ser é propriamente experimentada quando humana, pelo menos em Kierkegaard e Sartre, e o nada, em Heidegger. pensamos que nada e ninguém poderiam nunca ter vindo à existência ou Assim, nem todos sofrem aquilo que podemos agora designar como angús- que tudo e todos poderiam deixar de existir num instante. Ao tentarmos tia metafísica, mesmo que sejam livres e estejam pré-reflexivamente cons- imaginar o mundo no momento da criação a partir do nada ou no cientes de o serem. "Ela é completamente excepcional", escreve Sartre. momento da transformação em poeira cósmica, aproximamo-nos De certo modo, é acessível apenas aos que chegam a uma consciência Segundo os existencialistas, desde que só Deus poderia dar sentido ao reflexiva de sua liberdade, não importa como, e que reconhecem que ser, e desde que Deus não existe, o ser é absolutamente sem sentido. Os somos nós mesmos "a fonte original da possibilidade" ou, mais dramati- existencialistas religiosos, por outro lado, embora permitam acreditar, por camente, que criamos nosso próprio um ato de fé, que Deus existe e que para Ele o ser tem sentido, a "inco- A angústia é o reconhecimento de que as coisas têm o significado que mensurabilidade radical" entre Deus e o homem torna impossível para lhes damos, que o sistema através do qual definimos a cada momento a nós sequer imaginar qual seja esse sentido. nossa situação é atribuído ao mundo por nós, e que, portanto, não pode- Não há meio concebível de se mostrar que o mundo foi feito para o mos derivar deles a maneira de ser do homem, que o homem foi feito para adorar a Deus ou que Deus nos recom- A angústia é mais do que algo transitório e esporádico, é a totalidade pensará pela obediência. A criação não é apenas um mistério que transcen- da existência humana. Assim, a angústia é deslocada daquelas situações de o entendimento humano; é um paradoxo lógico intransponível. As pro- em que uma mãe vê seu filho ameaçado por uma doença ou a possível priedades metafísicas do Ser platônico, que os cristãos atribuem a Deus, são iminência de uma guerra para situações que nos remetem à condição logicamente incompatíveis com as propriedades de um criador76. humana como tal em seu nível mais profundo de sofrimento existencial. De outra parte, o lado positivo da angústia de ser seria a própria antí- A angústia seria, assim, o objeto primário de sofrimento da própria tese do que foi dito até então. Se não existem seres eternos e imutáveis ou existência, ou ainda a particularidade ou individualidade da condição se eles são impenetráveis ao entendimento humano, então o homem se humana. torna a fonte de valor e do sentido. O lugar anteriormente ocupado por Podemos falar de três tipos de angústia: angústia de ser, angústia diante Deus ou pela Natureza é assumido por seres humanos individuais. do aqui-agora e angústia da liberdade. É evidente que a compreensão de O homem é exaltado. Ele se investe da dignidade de ser o único responsá- uma maneira não exclui a ocorrência de outra; muitas vezes, iremos vel por si mesmo77. 44 45</p><p>Psicoterapia existencial Valdeman Augusto Angerami Camon Nietzsche o exprimiu magistralmente: "Toda a beleza e sublimidade ferência dessa responsabilidade para o outro é necessariamente derrotista, que atribuímos a objetos reais ou imaginários reivindico como proprieda- seja esse outro representado pelo Estado, pela opinião pública, pelo de e criação do homem. Elas são sua mais bela justificativa. O homem grupo social etc. Não optar é uma forma de opção, pois, assim agindo, como poeta e pensador! O homem como Deus, como amor, como estamos transferindo nosso poder decisório ao outro de maneira indisso- poder! Com que generosidade real ele se empobreceu e se fez infeliz lúvel, nos responsabilizando pela decisão do outro. para adorar coisas. Até o presente, sua maior baixeza foi ter admirado e De outra parte, podemos perceber que a angústia da liberdade se rela- venerado coisas, esquecendo que foi ele quem criou o que ciona de maneira sutil e complexa com as outras formas de angústia. O fenômeno da existência, por si, deveria dar ao homem o encanto e A angústia do aqui-agora leva inevitavelmente à angústia da liberdade. o discernimento necessário para que ele pudesse viver de modo mais Sartre coloca que "Toda escolha é uma escolha da A ação pleno, transformando a própria condição da angústia de ser. humana deve ser vista, assim, como uma reação a determinado estado de A angústia do aqui-agora, por outro lado, revela um traço da condição coisas e uma tentativa de instauração de um estado ideal de coisas. humana que pode ser expresso negativa ou positivamente. Negativamente, Implica tanto o reconhecimento de uma dada situação como indesejável ele significa que, mesmo que existissem objetos eternos, o homem não quanto a concepção de uma situação ideal como desejável. É através da poderia participar de sua eternidade. Positivamente, que o homem é por angústia que o homem poderá direcionar seus atos e sair do quietismo natureza um ser temporal, com uma história individual confinada em em que muitas vezes é lançado pela condição social. É também através determinada época histórica e determinada região do Essa condi- da angústia que a existência adquire plenitude e contornos específicos de ção da angústia do aqui-agora determina, inclusive, o condicionamento do condição libertária. homem estar preso a uma região limitada do espaço e do tempo, não podendo, assim, identificar-se com a humanidade em geral, mesmo que Amor fosse obrigação moral fazê-lo e isso trouxesse satisfação pessoal. O conceito da humanidade vai, então, ao encontro dos princípios aristotélicos que o Eu sei, minha doce menina concebem como sendo uma abstração vazia. Assim, não há como estabe- de corpo de formas poéticas, lecer relação vital entre um indivíduo concreto e uma abstração vazia. Essa ah eu sei, amor de todos os amores situação em nada se modificará se se conceber a humanidade historica- é o que ontem senti mente como sendo uma sucessão de gerações, pois, na medida em que o quando teus lábios beijei destino da humanidade, assim concebida, continua oculta ao olhar do indi- e teu corpo toquei... víduo singular, o conceito é indeterminado. O futuro da humanidade é Valdemar Augusto Angerami desconhecido, e o indivíduo não pode se identificar com o A angústia da liberdade, de outra parte, é, segundo Sartre, decorrente Os existencialistas escreveram sobre o amor evocando abstrações criadas da necessidade de que o indivíduo é obrigado a optar. A negação da no imaginário, num contraponto muito claro e preciso em relação a angústia diante da liberdade é a própria negação da liberdade como con- outros preceitos filosóficos, principalmente ao Humanismo, que viam no dição humana. amor um meio pelo qual o indivíduo se identifica com o gênero, deixan- O homem é um ser arrojado que, uma vez lançado ao mundo, terá do de ser o intelecto para ser algo predominado pela empatia ou por algu- que, na mais absoluta liberdade, buscar condições existenciais que pos- ma emoção mais forte. sam trazer novas perspectivas à própria vida. Mareei e Jaspers afirmaram amiúde que aquele que ama a humanida- A angústia da liberdade surge com a consciência precisa de que somos de não ama ninguém. O amor é, por definição, uma relação pessoal entre responsáveis pelos nossos próprios atos. E que o peso da tentativa de trans- dois seres concretos. Não pode haver relação pessoal entre um ser huma- 46 47</p><p>Psicoterapia existencial Augusto Angerami Camon no individual e a abstração da humanidade. A pessoa que se sacrifica em gratifica as vicissitudes da vida. Amor apenas amor. E, por mais diferen- nome da humanidade não age movida pelo amor universal; ela simples- tes que sejam as atribuições e contornos que possa receber, nenhuma mente revela sua incapacidade de amor outra vertente da existência provoca tanto desalento quanto ela ao se fazer Buber83 coloca que "Toda relação atual com um ser presente no mundo ausente. é exclusiva. O seu Til é destacado, posto à parte, o único existente diante de O amor é o amanhecer de cada dia; é o Sol rompendo a madrugada nós. Ele enche o horizonte, não como se nada mais existisse, mas tudo o com seus raios energéticos. É a cerimônia sagrada do com os mais vive na sua O que vem a ser amor é uma afirmação cuja asser- pássaros orando contemplativamente ao infinito. ção está longe de se tornar real. Se se indagar a várias pessoas o que é o As várias definições dadas ao amor fazem, por outro lado, com que amor, seguramente, teremos uma quantidade bastante diversificada de res- muitas vezes determinados atos sejam chamados de amor num total dis- postas, de acordo com o número de respondentes. O amor que acalenta tanciamento dos fatos. E até mesmo determinados envolvimentos afeti- o coração de um amante apaixonado certamente não é, em essência, o vos, ao serem chamados de amor, perdem sua verdadeira essência. mesmo do missionário que dedica sua vida embrenhando-se na mata densa em auxílio de seus semelhantes. Desde os tempos mais remotos, sonhadores se diziam românticos e escreviam todas as formas possíveis de cantigas de exaltação ao amor. Os humanistas estão certos ao dizerem que o amor universal depende- Amor, sublime forma de inspiração dos apaixonados que, sob sua ria de algum tipo de identificação com os outros. E seguramente aceitar o outro como semelhante é algo muito difícil de ser vivido e até mesmo magia, já erigiu os mais lindos cantos e elegias de dor. Se o amor carece dimensionado. de uma conceituação mais precisa quanto ao seu significado, a inspiração dos poetas converge no sentido de torná-lo dor d'alma diante da excelsi- Ao reconhecermos o outro como nosso semelhante, práticas como tor- tude da existência. tura, espoliação mercantilista de mão-de-obra, a miséria, a fome e tantas outras atrocidades provocadas ao homem pelo próprio homem tornam-se Amor é o que se sente pelo exaurir duma intensa emoção, e nunca o inconcebíveis. Afinal, aquilo que acontece a um semelhante igualmente que se define e se conceitua pela razão. ocorre comigo mesmo na projeção do outro como pessoa. Como seme- O amor não existe como valor absoluto ou fenômeno real. Nunca lhante, não posso aceitar esses desatinos alguém viu, cheirou ou pegou o amor; o amor, se existente, é sentido O amor é visto por alguns como sendo aquela forma de entrega afeti- duma forma única e finita. E tudo o que é expressado pelos sentimentos va na qual o amante, após estender a chama de seu fogo às raias do arre- apenas à emoção se torna tangível. batamento, recebe com intensidade ainda maior essa mesma chama. Amor é um sorriso de criança com seu olhar de esperança; é o trem O amor seria assim um processo de entrega em que as pessoas amam que parte rumo ao desconhecido, levando sonhos e ilusões daqueles que para serem amadas. Segundo essa conceituação, o amor seria um proces- ficam e daqueles que se vão. É o nada e o tudo, mas nunca o princípio, dialético, o que, de alguma forma, exclui aquelas formas de entrega em sempre o fim. que não existem simetria e troca. O homem, afirmam alguns românticos e sonhadores, existe para O sentimento de uma mãe pela criança não seria, amar, quaisquer que sejam as formas como esse sentimento possa ser assim, definido como amor. Tampouco seriam amor as lágrimas de dor entendido. O amor é a própria cor e, apesar de não haver como defini-lo, diante de um ente querido que se faz ausente. existe também conceituação, ainda que meramente retórica, de seu anta- Para outros tantos, o amor é o próprio sentido da vida. Esses afirmam gonismo, o desamor. que a vida existe a partir do amor e que apenas este dá luz e cor à própria Sartre diz que algumas atitudes humanas, como o desejo físico, a indi- existência. Definem o amor como uma forma de renúncia e entrega que ferença e o amor, são, de uma forma ou de outra, alguma modalidade de 48 49</p><p>Psicoterapia existencial Augusto Angerami Camon sadismo ou masoquismo, e todas estão fadadas à frustração, em última enfeixar as razões de toda uma existência. Quando um objeto é amado, análise, pelas mesmas razões. Querer ser amado, afirma Sartre, é querer intensamente amado, estabelece-se uma sintonia que busca levar toda a colocar-se para além de todo o sistema de valores do outro e ser tomado propulsão existencial rumo a ele. como condição de toda a valorização e o fundamento objetivo de todos Ao determinar os objetos de deleite da alma, a existência determina os valores (...). A amante exige que o amado lhe sacrifique, em seus atos, também a não razão dos "porquês" que possam circunstanciá-la. O deter- a moral tradicional e se preocupa em saber se o amado trairia os amigos minismo de escolha legado a certos objetos é o próprio sentido da transpa- por ela, se "roubaria por ela", se "mataria por ela" etc.86 rência dos fenômenos. Se somos a própria realidade dos O amor dos amantes é aquela forma em que mais fortemente seu expres- o amor a determinados objetos fará com que esses sejam também parte sionismo se mistura a outros sentimentos, tornando-se praticamente impos- dessa realidade. Se se concebessem formas de transcendência dos objetos sível uma separação desses valores. É no amor da posse que se deseja ini- para a própria realidade da existência, teríamos que fazer do amor a trans- cialmente, com bastante ardor, o corpo do outro para, em seguida, pos- parência capaz de transformar essa realidade ou até mesmo de construí-la suir-lhe também a própria alma e os sentimentos. É o atirar-se numa busca segundo parâmetros que não a realidade. de prazer indo-se de encontro ao vazio, ao nada. "Eu te amo", "eu te A realidade transcende sua própria conotação ao fazer da existência a adoro" são os símbolos maiores dos amantes e, quando traduzidos, tor- busca de objetos aquém de sua própria transparência, mas sempre em dire- nam-se objetos de possessão d'alma, permitidos e acalentados. ção ao ideal, ao supremo. A essência humana que determina a realidade da Sartre coloca que o amante quer possuir liberdade como liberdade num existência será a vertente em cujos tecidos se encontra a "razão", postergan- exercício contínuo de excitação da paixão do outro. "Assim o amante pede do à "não razão" o limiar dessa transcendência de escolha do objeto amado. um juramento e se arrufa com o juramento." Quer ser amado através de uma O amor são plantas que, ainda molhadas pelo aguaceiro, cintilam na liberdade, mas exige que esta liberdade enquanto liberdade não seja mais presença do Sol. E o vaga-lume brilhando nas noites enluaradas, tentan- livre. Não é o determinismo das que desejamos no outro, no amor, do seduzir o luar. nem uma liberdade fora do alcance, mas uma liberdade que representa o O amor é negado por algumas correntes da Psicologia as ditas cien- papel do determinismo das e que acaba por enlear-se na própria tíficas por não possuir condições de ser definido operacionalmente. O amor é, "por sua própria natureza, um logro e um referi- A Ciência, como sustentáculo maior das estruturas sociais e que inclusive mento ao infinito, de modo que amar é querer que me sedimenta o enfeixamento determinista de espoliação mercantilista e des- Desejar o próprio desejo como se o desejo fosse arbítrio existencial é pótica, nega todo e qualquer fato e fenômeno que não tenham explicações uma forma de tentar fazer do amor a expressão de tantas outras coisas que a partir de sua lógica determinista. Os cientistas transvestem-se do dogma transcendem a própria conceituação dos fatos. de sumos sacerdotes da moderna religião dominante a Ciência. Amor é a pureza das "Cantatas" de Bach; é o esplendor dos "Concertos" Imbuídos que estão desse papel, tornam real o mito de que apenas o de Mozart. É a ilusão de amar; é a vida e o sufoco da dor d'alma. "conhecimento científico" é um conhecimento verdadeiro e real; somente A vida ganha a dimensão do eterno quando o amor adquire as formas aquilo que pode ser expresso quantitativamente ou formalizado, ou então do pleno, do belo. expresso livremente sob condições laboratoriais, pode ser o conteúdo de um A conotação filosófica do amor tendência da alma para se apegar aos verdadeiro conhecimento. O amor, a emoção, a beleza de um sorriso e objetos remete-nos a vertentes bastante complexas quanto à sua concei- outros sentimentos primários de prazer e dor são negados como conheci- tuação e amplitude. mentos válidos e verdadeiros. O amor é negado, mesmo porque não é englo- bado em nenhuma teoria científica. Os homens, através da Ciência, bus- O objeto de apego da alma é, por assim compreender e definir, a meta cam valores absolutos para sua orientação a partir de sinais exteriores que determina os aspectos que possam envolver, ou então, ao contrário,</p><p>Psicoterapia existencial Valdemar Augusto Camon A música, assim como o amor, existe, ainda que não se tenha sensibilidade Vivemos a era da informática com os computadores robotizando a para escutá-la e apreciá-la. O amor, embora negado, existe de maneira abso- própria essência humana. As máquinas robotizadas em que o homem se luta, independentemente da capacidade de os experimentos científicos o transformou são dissolvidas apenas quando o amor é sentido em suas perceberem. entranhas. Certamente sofreriam um processo de humanização se conse- O amor, há milênios, atravessa a dimensão do tempo e do espaço, trans- guissem abrir o coração para o desabrochar do amor. Conforme diria o forma-se com as épocas, mas é sempre o indelével que deifica a existência escritor Mário de Andrade, amar é um verbo intransitivo, apesar de mui- humana. Algumas manifestações remetem-nos a outra conceituação distinta tas vezes ser definido como transitivo direto e até mesmo pronominal. de nossa capacidade de compreensão para fenômenos semelhantes. Entretanto, o amor é maior do que todas as conceituações de definições Ao se observar o comportamento dos animais na floresta, pode-se perce- que a Lingüística possa lhe conferir. Amor e amar, palavras que se mistu- ram e se fundem na imensidão do infinito e que, se vividas intensamente, ber um relacionamento de afinidade em diversos tipos de convivência tornam azul o cinza do ódio. entre várias espécies. A proteção dada pelas mães aos filhotes assemelha-se àquela dada pelas mães humanas. O próprio sentimento de proteção de algumas espécies, quando atacadas por seus predadores, dá-nos, por outro Tédio existencial lado, a dimensão de que a sobrevivência e a luta desenvolvida nessa dire- ção são passíveis de uma redefinição do que seja o amor enquanto manifes- Não posso dizer-lhe o que não daria para tação e fenômeno eminentemente humanos. E mesmo o comportamento estar contigo em Baden, em vez de ficar das pessoas diante das situações de flagelo e calamidade, comumente defi- parado aqui. Por puro tédio, compus hoje nido como solidariedade humana, na verdade, mostra uma das facetas mais uma ária para minha lindas que o amor possui. A própria emoção presente nessas situações trans- Wolfgang Amadeus Mozart cende a mais otimista das conceituações para transformar-se no entrelaça- mento da condição humana diante do sofrimento. O tédio existencial é um tema que surge de forma bastante pulverizada nos O amor, quando vivido intensamente, deixa na alma marcas dilace- escritos existencialistas; talvez essa definição que usamos não seja de todo rantes. Por mais que possa ser questionada ou até mesmo dimensionada, precisa e clara numa convergência direta com esses escritos. Tédio, etimo- a reminiscência de situações passadas torna aqueles momentos vividos logicamente, é definido como aborrecimento, desgosto, enfado, fastio. no presente inócuos e desprovidos de significação. E o amor, amor que O tédio existencial é uma temática bastante pertinente à reflexão do tudo supera, galopa como um cavalo que, solto nas pradarias, torna seu homem contemporâneo. Sem dúvida, e isso é inegável, o tédio existencial trajeto indefinível. é um dos determinantes que mais sofrimento têm legado à existência, estan- O amor é o acinte da pobreza de São Francisco de Assis diante da do sempre presente, embora não necessariamente com essa definição, na Igreja, dos papas revestidos pelo poder. São as palavras de Simone de prática psicoterápica. Sua inclusão no rol e temáticas existenciais visa tornar Beauvoir referindo-se à separação de Sartre: "Sua morte nos separa. constrita a reflexão sobre a realidade contemporânea da existência. Minha morte não nos reunirá. Assim é: já é belo que nossas vidas tenham O tédio existencial basicamente pode ser definido como aquela situa- podido harmonizar-se por tanto tempo". ção em que o homem sofre a dor de ver o tempo passar e não estar reali- Amor é o sentimento que torna dócil e meigo o próprio ódio: nada, zando o desdobramento de suas possibilidades existenciais. nem ser existente, resiste ao encanto de sua fragrância e magia. E como De modo significativo, podemos afirmar que um número cada vez sentimento, sentimento capaz de dar formas concretas ao abstrato, é a maior de pessoas padece desse sofrimento, até mesmo em níveis orgânicos: própria esperança, capaz de escorraçar o ódio dos corações humanos. a consciência de que as possibilidades da vida não estão sendo atingidas,</p><p>Psicoterapia existencial Augusto Angerami Camon seja por dificuldades existenciais impostas socialmente, seja pela própria O tédio existencial está a exigir das ciências do comportamento uma falta de assumir essas possibilidades como parte inerente à existência. definição mais precisa sobre uma ocorrência. Somente assim paciente Sartre, no romance intitulado A Náusea89, mostra a angústia de ser no poderá ser compreendido de uma forma mais abrangente. O desprezo e personagem Roquentin. Este, num instante crítico, torna-se cônscio de não o sofrimento provocados pelo tédio são tão insólitos quanto a negação de ter tido aventuras, não por ter levado uma vida sem brilho e cor, ao contrá- sua rio, a monotonia não aconteceu em sua vida. No entanto, pelo fato de que É através do tédio existencial que a própria existência se angustia e se conceito de aventura era algo diferente do que vivia, conceito de narrati- torna desesperadora diante da condição de homem contemporâneo vas, e algo distante da própria vivência. Seu tédio é desolador e sua existên- dor, sofrimento, espoliação mercantilista, fome, miséria e outras tantas cia atinge hiato do existir e conceito das coisas. impossíveis de serem enumeradas, mas que se tornaram possíveis pela A questão da "superfluidade" da existência e do conceito das coisas é condição degradante que homem impôs a si colocada de forma constrita: "Supérflua a Velleda: E eu mesmo mole, fraco, obsceno, digerindo, jogando com pensamentos sombrios eu tam- Culpa bém sou O tédio existencial torna-se avassalador diante desses questionamentos. Você chama de violentas as águas de um rio que tudo arrastam A existência de cada coisa, inclusive a humana, é superfluamente desne- mas não chama de violentas as margens que oprimem. cessária: esta conotação possui igualmente sentido dúbio. Ao mesmo Bertolt Brecht tempo que a existência carece de sentido e nos atira ao encontro da absur- didade da vida, também nos leva ao fato de que, ao superarmos o tédio Assim como a solidão e a angústia, a culpa é outro tema trazido à luz das existencial que nos estamos conquistando horizontes que nos tor- discussões pelos existencialistas como sendo ontológico, ou seja, perten- nam excelsos e decididamente humanos no sentido mais amplo do termo. cente ao ser como tal, não constituindo, portanto, um sintoma específico. A falta de sentido para a existência é que nos leva, em última análise, A culpa se apresenta quando o homem questiona a realização de suas àqueles atos fulminantes nos quais a morte é instantânea. possibilidades existenciais, quando renuncia à sua liberdade humana. Impossível excluir tédio. Ele não é uma entidade que vem de fora e A culpa também se faz presente quando enfrentamos outros homens se instala em nós. Como se lida com ele é outra questão. Pode-se ouvir sem respeito à sua condição humana; quando coisificamos nosso seme- seus avisos e partir para a ação ou deixar que ele se instale como uma lhante, aniquilando suas possibilidades existenciais. A culpa ainda é pre- neurose. Para uns, o tédio existencial significa aniquilamento, a corro- sente quando dimensionamos nossa responsabilidade social. são lenta e doída da própria solidão; para outros, foi o último aviso que os No entanto, é necessária uma distinção entre a culpa ontológica e levou à libertação e ao crescimento. sintoma decorrente de não ser assumida como tal. Nesses casos, teremo- la transformada num sintoma ou patologia. O tédio existencial leva muitas pessoas a um sofrimento em que a pró- pria sintomatologia supera os limites do conhecimento. Quando alguém Boss94 discorre sobre a culpa em contraponto com os escritos psicana- diz "estou angustiado", é importante esclarecer o que está sentindo. líticos: "Mas a culpabilidade ainda permanece. Será que também ela, O medo, a depressão, os sintomas físicos (gastrite, tonturas, taquicardia), como a angústia, pode ser superada? O que é que ela propriamente 'deve' em todos estes milenares sentimentos de culpa padronizados e patológi- associados ao que essa pessoa identifica como "angústia", podem ser a cos, no sentimento de culpa da criança diante dos pais e dos professores, expressão do temor do futuro, da sua falta de perspectiva, da sensação de nos adultos em seu relacionamento com o próximo, com o estado, com estar sendo aniquilada pela vida, do desinteresse generalizado, da incapa- Deus, com destino, com a vida? E quem é o credor específico destas cidade de enfrentar a morte, de tudo isso 54 55</p><p>Psicoterapia existencial Augusto Angerami Camon Após discorrer sobre a temática, Boss define a convergência da temá- A pura sobrevivência, para outras tantas pessoas, é a única condição tica: "(....) Em outras palavras, de acordo com nossa percepção imediata, cabível de realização. o ser humano se mostra como sendo aquele ser do qual o nosso mundo Numa sociedade em que a maioria da população gasta cerca de seis precisa, como o âmbito de claridade necessário para poder aparecer, para horas diárias para locomover-se de suas casas até o local de trabalho e poder ser. Justamente é este deixar-se-necessitar, e nada mais, que o ser quase sempre num total desconforto, a discussão da temática que envolve humano deve àquilo que é e que há de ser. É por isso que todos os sen- aspectos inerentes à felicidade parece desprovida de propósito e sentido. timentos de culpa baseiam-se neste ficar-a-dever; se os senhores quise- É um acinte ouvir celeumas que envolvem a questão sobre o prazer rem, é a culpabilidade existencial do ser quando existem tantas pessoas envolvidas na mais degradante das misé- Diferentemente do uso corrente da palavra culpa, que tende a respon- rias, além de outras tantas situações inconcebíveis de aviltamento à dignida- sabilizar uma pessoa por um ato determinado e específico numa relação de humana. de causa e efeito, entende-se a culpa ontológica, em termos existenciais, Felicidade é uma temática que parece não ter espaço nas discussões das como o sentimento de "estar em dívida". Pensando dessa maneira, vê-se necessidades do homem contemporâneo. A sobrevivência está cada vez que se trata de um fenômeno pertinente a todas as existências, seja em mais difícil e torna indelével tudo que não remeta às discussões da espo- termos pessoais (em dívida comigo mesmo), interpessoais (em dívida liação mercantilista a que homem contemporâneo está submetido. com o outro) e até mesmo sociais (em dívida com a realidade social). Parece até redundante discutir-se sobre o prazer quando o sofrimento Conforme trecho já citado de Boss, esse é fundamento de todo senti- aniquila todos os ideais humanos. A simples observação de um trem de mento de culpa. subúrbio levando pessoas esmagadas entre si rumo aos seus locais de tra- balho abre ao nosso campo perceptivo a idéia (errônea) de que aquele Felicidade grupo apenas trabalha numa luta acachapante pela pura sobrevivência. Torna-se praticamente inconcebível acreditar que aquelas pessoas Felicidade é uma pipa ainda encontrem algum prazer em suas existências. E, apesar de tudo, leve e solta no ar... povo sorri; sorri na esperança de dias melhores; sorri na dimensão que os remete ao infinito; sorri diante da vitória dos times do coração. Felicidade é outra temática que, a partir do pensamento existencialista, Noutra forma de análise, que nos remete a observar pessoas que, apres- ganhou novas formas e contornos. De uma mera abstração, começou a sadas nos centros das grandes cidades, trazem a expressão da angústia e do ser dimensionada de maneira profunda e abrangente. sofrimento estampadas no semblante, igualmente dá-nos a dimensão que Felicidade é a ausência do desprazer. Ser feliz é o que todo ser exis- não mais existe lugar para a felicidade no mundo contemporâneo. tente deseja. A angústia humana, cada vez mais cáustica, está aliada à degradação A felicidade, no entanto, está cada vez mais distante do alcance humana imposta pelas adversidades econômicas das sociedades contem- humano. Parece ser permitida apenas e tão-somente às crianças, na porâneas. As pessoas estão cada vez mais avassaladas com o espectro da medida em que existe toda uma propulsão social no sentido de levá-las solidão; a angústia parece adquirir uma dimensão irreal diante do sofri- ao seu encontro; o adulto parece não mais ter direito a ela. mento. Viver parece tornar-se um peso insuportável para um número O sentido de vida do adulto, na quase totalidade das vezes, é a reali- cada vez maior de pessoas. zação profissional, no que se empenha durante grande parte do tempo da A ansiedade diante das incertezas dos sistemas sociopolíticos é, segura- existência. mente, um dos indícios da forma e dimensão que tomam as agruras da exis- tência do homem contemporâneo. Existem muitas formas de sociedade 56 57</p><p>Psicoterapia existencial Valdemar Augusto Angerami Camon que transferem a óptica das discussões para a organização material buscan- A felicidade é uma forma de ser indelével que, embora buscada de do, assim, formas de realizações iminentemente humanas. O homem con- forma incessante, não tem modelos estanques de estruturação. A essência temporâneo busca suas realizações na estruturação material sem ao menos da felicidade pode ser definida como aquela exuberância capaz de prover perceber que esse tipo de realização não preenche o seu vazio interior. esperança e ilusão à existência humana. A própria forma automatizada O tédio existencial caminha distante dos bens materiais, não permitindo como vivem os habitantes das grandes cidades e, por assim dizer, a quase complementaridade por si nessa justaposição de fatos e valores. totalidade dos seres existentes é quebrada pela ilusão que a busca da feli- Basta evocar os Estados Unidos, por exemplo, para uma análise desse cidade acena. Constituem-se numa sociedade altamente evoluída no A miséria ao longo das favelas existentes nas grandes cidades é a tocante ao desenvolvimento material e científico. As ciências possuem estampa maior das desigualdades existentes no seio das sociedades capi- uma evolução tanto nas ditas naturais como nas exatas, a perfor- talistas; seus habitantes vivem da maneira mais degradante possível e mance demonstrada apresenta evolução em todos os níveis passíveis de sem apresentar indícios do conforto material existente nessas sociedades. questionamento. No entanto, as pessoas que compõem essa "sociedade Sua gente é sofrida e padece na pele as agruras do despotismo financeiro. evoluída" apresentam a mesma insatisfação e tédio existencial de outros O mundo dos homens, com sua estruturação em países e sociedades, cantos e países. Sua evolução tecnológica não traz o preenchimento do é praticamente dominado por um número bastante reduzido de pessoas. vazio de seus corações. Todos os capitalistas, no mais lato sentido do termo, que, investindo além O homem nasce e existe para se desenvolver a partir de suas realiza- das fronteiras, determinam a própria estruturação política das sociedades ções, dando sentido e significação para sua vida. O apego e a busca do em que atuam. O poder que detêm é absurdo e dantesco; de suas deci- desenvolvimento material aniquilam essa possibilidade existencial. O sen- são ocasionadas muitas degradações e flagelos à humanidade. tido das realizações humanas esbarra na divergência da plenitude de seus ideais mais sublimes quando envolvido nas realizações materiais. Esse poder, no entanto, não os torna felizes; o acúmulo de riquezas materiais não consegue trazer alívio para seus devaneios existenciais. E, O homem se ilude buscando empreendimentos materiais e acreditan- apesar de deterem entre si o poder decisório de toda a humanidade, não do que irá, concomitantemente ao enriquecimento material, desenvol- conseguem seguramente a ilusão da felicidade. ver-se em sua plenitude existencial. Apesar de ser cantada em prosa e verso em todos os escritos humanos, a felicidade não tem como adquirir Os depoimentos desses poderosos levam-nos ao debruçar de fatos que, formas concretas diante da ilusão nascida no seio do sofrimento humano. ao serem comparados entre si, mostram que, ao mesmo tempo que degra- Alguns afirmam que a felicidade é a meta suprema da existência dam milhares de pessoas pela espoliação capitalista, degradam-se igual- humana. Outros, poeticamente, afirmam não existir felicidade, e sim mente pela fúria inusitada do poder. momentos felizes. Desde as conceituações filosóficas mais eruditas e A própria análise feita sobre a propulsão que leva determinadas pessoas complexas até as afirmações mais simplórias e chulas, a felicidade parece a buscarem o poder de forma tão selvagem torna-se inócua, remete-nos a revestir-se do ideal supremo que norteia a existência humana. vertentes que mostram que esses poderosos são extremamente infelizes; A própria solidão, espectro maior do homem contemporâneo, é vista são corroídos pelo tédio existencial com a mesma intensidade com que como sendo algo que finda com os chamados momentos felizes. A dimen- corroem a dignidade existencial de milhares de pessoas, subjugando-as ao são dada pelo homem na sua busca em direção ao prazer o leva ao encon- aviltamento da condição mercantilista de suas forças de trabalho. tro de limites ilusórios e irreais da sua condição humana. É possível que aquelas pessoas submetidas a viver sua existência no O tédio existencial legado ao homem pelas vicissitudes das sociedades seio de uma favela tenham mais sentido de vida e ilusão de ir ao encon- modernas faz com que este busque, de forma cada vez mais afoita, algo tro da felicidade. que possa suprir o vazio existencial de seu coração.</p><p>Psicoterapia existencial Valdemar Augusto Angerami Camon A própria consciência dos fatos possuída pelos poderosos faz com que O homem busca a felicidade sem, entretanto, saber-lhe a forma e a estes promovam embotamento de consciência do oprimido, criando- essência. A própria essência e a divergência do "vir-a-ser" feliz mostra de lhes a ilusão de que a felicidade é algo diretamente associado à aquisição forma bastante clara que a felicidade é muito mais uma questão filosófica de bens materiais de consumo. Uns, infelizes pela degradação humana do que qualquer outra conotação que lhe possa ser dada. em que vivem, e outros pela total falta de perspectiva de uma existência O homem existe em convívio direto com seus semelhantes, fato que sem o ódio e a violência inerentes ao poder que detêm. muitas vezes determina que a conceituação de felicidade exista a partir de As seitas místicas e as religiões acenam para seus fiéis e seguidores, outrem. Felicidade, nesses casos, é um processo de complementaridade, acenos permeados com promessas de que em suas lides e verdades se e o sofrimento legado a essa situação é iminente quando ocorre quebra encontra a tão almejada felicidade. Buscam na salvação eterna a promes- de continuidade nesse processo. sa de uma vida eterna feliz. O surgimento de um número tão grande de É necessário ao homem, num mundo que padece todos os níveis possí- seitas místicas mostra claramente quanto o homem está desesperançado e veis de sofrimento e desespero, criar condições que permitam a felicidade infeliz com seu modo de vida. na dimensão de uma sociedade mais justa e humana sem a associação A felicidade eterna consegue não apenas aliviar as agruras da existên- de felicidade com a aquisição de bens de consumo ou posse desvairada de cia, como também tornar suportável a vida materializada e coisificada riquezas materiais. imposta pela tecnocracia moderna. Felicidade é algo como o desdobrar duma intensa emoção; é o arreba- A filosofia de vida pregada pelas seitas místicas, na sua quase maioria, tamento capaz de deificar as realizações humanas, colocando-as num embora apresente propostas de resignação diante da transformação social, nível superior à coisificação imposta pela tecnocracia. consegue fazer com que seus seguidores espiritualizem a própria materia- No entanto, felicidade é uma possibilidade que se contrapõe ao "vir-a- lização coisificante em que estes vivem. ser", condição inerente à existência humana. O homem, na medida em Um dos pontos marcantes dessas seitas e religiões é a afirmação de que que é um contínuo "vir-a-ser", um sempre "poder-ser" e com a possibilida- Deus é a totalidade universal, estando presente em toda parte, corporifi- de de um "ainda-não", tem na felicidade um de seus anseios idealizados, cando a totalidade do Universo. não à luz da razão que determina outras possibilidades da existência, mas No entanto, são erigidos grandes templos de adoração que, quase sem- no circunstancial de uma emoção que o faz buscar a felicidade sem saber- pre, são ornamentados com todos os bens materiais propiciados pelo lhe a forma e os determinantes. "capital". São propostos uma espiritualização e um desapego à posse O sentir de uma intensa emoção dá ao homem uma sensação que trans- material, mas oficializam seus rituais em templos suntuosíssimos. E tudo forma essa emoção num fragmento de momento que, seguramente, será em nome da felicidade eterna, o bálsamo cicatrizante de tantas desven- definido como feliz. E, apesar de toda a celeuma existente que a torna inde- turas e sofrimentos existenciais. lével, a felicidade é acenada no seio das promessas que envolvem a constru- As seitas místicas e religiões parecem ser as únicas instituições que tra- ção de um mundo menos despótico e sem o arbítrio do totalitarismo. zem à tona a discussão sobre a felicidade, tornando-a, no entanto, tangível O trem de subúrbio que corre nos trilhos levando milhares de pessoas apenas em discussões cujas vertentes nos remetem à vida eterna. Outras em busca de uma sobrevivência acintosa diante dos preceitos de dignidade realizações humanas passam a ser consideradas como condição de desen- humana atravessa célere o rio do tempo, em cujo leito padecem a emo- volvimento terreno, perdendo importância diante da felicidade eterna. ção e o anseio de felicidade dessas pessoas. Um número muito grande de pessoas renuncia a suas vidas, cercean- O trem carrega em seus vagões um número absurdo de pessoas que do inúmeras possibilidades existenciais almejando única e tão-somente a sequer possuem consciência de outras possibilidades existenciais que não sonhada felicidade do além-mundo. a exploração aviltante e mercantilista de sua força de trabalho. O mesmo 60 61</p><p>Psicoterapia existencial Valdemar Augusto Angerami Camon rio do tempo que o trem atravessa mostra, através dos meios de comuni- Como a felicidade pode ser considerada uma possibilidade inerente cação, a imagem contemporânea da felicidade: um alto nível de consu- à existência se essa mesma existência, concomitantemente, apresenta a mismo que vai além da percepção... possibilidade do ato de morrer?! As utopias sociais, por outro lado, mostram-se vulneráveis diante dos O ato de morrer presente na existência humana não se isola na possi- questionamentos de realização e felicidade das pessoas que fazem parte bilidade da morte de uma dada pessoa, isoladamente; ao contrário, esten- de suas estruturas. de-se a todo círculo de pessoas que, de alguma forma, pertença a essa As sociedades mantêm-se estruturadas a partir do arbítrio de seus existência. governantes; o círculo de pessoas que se levantam em protesto contra o A morte é sempre uma possibilidade que a felicidade um "poder- aniquilamento da dignidade humana é calado de todas as formas. ser", abrindo-se para um "ainda-não" e convergindo para um "vir-a-ser". As prisões estão repletas de rangidos de sofrimento das torturas a que O homem, mostrou-nos Sartre, é a realidade de seus próprios fenôme- são submetidos os presos políticos. A felicidade, nesse caso, reveste-se da nos, e a busca, tentando trazer à consciência determinantes que possam performance da justeza e fraternidade existencial. fazer a totalidade de suas realizações como fatos plenos e reais, leva-o a Os justos que clamam por uma vida mais digna e feliz para os seus realizações gratificantes e prazerosas. semelhantes são açoitados e agrilhoados em seus ideais. E, desgraçada- A consciência humana, lamentavelmente, está embotada, e o mente, todas as utopias sociais, sejam elas capitalistas, sejam socialistas, homem, cada vez mais, torna-se distante daquelas realizações em que a carecem de sentido na promoção de uma vida feliz e satisfatória. essência humana seja permeada por condições a ela inerentes. Não se Os defensores das utopias chamadas indevidamente de socialistas são pode reconhecer no conjunto de atitudes humanas um indício, por obrigados a calar-se diante dos abusos cometidos pelos governantes dessas menor que seja entre os menores, que possa tornar-se reconhecível sociedades, fato que se repete na mesma dimensão com os defensores das daqueles princípios que deveriam ser e que, ao contrário, distam de utopias capitalistas. forma abismática daqueles de dignidade à condição excelsa da existência. Os socialistas acusavam os capitalistas das barbáries cometidas pelo É possível fazer uma projeção que, embora intuitiva e sem qualquer Fascismo e mais recentemente pelo Imperialismo Estadunidense. Atiram fundamentação prática e sistematizada, revela que o homem, apesar de pedras ao Imperialismo Estadunidense pelas torturas, espoliação e outros sua busca desvairada da felicidade, nunca, em momento algum, foi tão tipos de atrocidades cometidas na América Latina em nome da "paz infeliz como é na atualidade. social" e da felicidade do povo. Nunca o ódio e a destruição ganharam formas tão marcantes, até Mas, certamente, teriam de se calar ou atirar pedras com a mesma naqueles relacionamentos interpessoais mais estreitos. Anteriormente, intensidade diante de atos como a invasão soviética no Afeganistão. Ou, apesar da destruição e do ódio presentes nas grandes guerras mundiais e então, o que dizer diante dos dissidentes soviéticos presos na Sibéria?! Ou setoriais, a existência humana não era avassalada de forma tão infeliz. até mesmo da implosão do Leste Europeu? Basta notar, num retrato pormenorizado, que o homem anteriormente As utopias sociais não têm como manter-se diante dos fatos e da aná- sofria na pele as agruras da escravatura. Sabia e se sentia escravo; era "pro- lise da realidade. priedade" de outros semelhantes. A própria Bíblia, quando narra a trajetó- Ser feliz é uma possibilidade, por outro lado, que coloca a morte ria de Moisés, mostra a preocupação deste em estabelecer normas que possibilidade única e isolada da existência humana e da qual todo ser garantissem e preservassem a posse do homem pelo próprio homem. existente terá de abrir-se numa forma arrebatadora para vivenciá-la Hoje, liberto da escravatura, ele tem a ilusão de estar livre das algemas como determinante de antagonismo. dos feitores. Ao contrário: é mais escravo do que nunca, aprisionado que é pelo "capital". Sofre até com mais intensidade do que seus antepassa- 62 63</p><p>Psicoterapia existencial Valdemar Augusto Angerami Camon dos. O que se torna mais agravante é o fato de possuir a ilusão de que se tingíveis, fazendo com que seja reduto apenas nos sonhos e ilusões. Ser libertou da escravatura, podendo, um dia, "vir-a-ser" feliz... feliz, felicidade buscada, com a mesma avidez com que o poeta busca ins- A felicidade esbarra em sua própria conceituação e no significado que piração nas noites estreladas para os versos e elegias d'alma. lega ao homem. Muitos buscam-na avidamente e, somente após viver A felicidade eterna, buscada pelos fiéis em seus devaneios místicos, determinadas situações, dão a dimensão de fatos à consciência que torna parece ganhar contorno quando da paz da oração. E o que é a existência, algumas experiências passadas como sendo felizes. senão a fuga do desprazer e da dor?! Outros evocam reminiscências de um passado distante para dimensio- A paz da oração é tangível ao crente, mas não pode estabelecer con- nar quão infeliz é o presente. A felicidade passa a ser o passado, toma for- tornos reais à felicidade. mas e contornos concretos quando é trazida à consciência a partir disso, homem, enquanto ser que se capacita não apenas de que é livre, mas e, numa outra consideração de valores, dificilmente alguém se diz feliz também de que sua existência como ser livre se caracteriza pela precarie- em plenitude e realizações a partir de fatos presentes. dade e pela carência de condições existenciais, seguramente sofrerá em A felicidade, assim, parece ser o determinante que mostra a existência níveis orgânicos toda a dor dessa condição de forma única e em compartimentos estanques, nas quais os fatos são codificados e Na busca da construção de suas coisas, a existência experienciará a ganham significação após vividos. angústia da liberdade, de decidir suas próprias vertentes e de buscar a feli- A de determinados quando de sua ocorrência, cidade em cada ato e realização. não basta para impregná-los de plenitude e exuberância. A felicidade esbarra nos anseios humanos, fazendo com que a própria Os dias passam levando a existência de forma irredutível. A falta de essência humana transcenda o limiar de seus determinantes. consciência e o próprio abrir-se diante de emoções fortes e significativas Existe a preconização da felicidade como um estado de segurança, mostram uma série infinita de sensações, que, dependendo das formas e paz de espírito, calma ou tranquilidade do qual a angústia, o sofrimento dos contornos adquiridos, são definidas, mas não procuradas e conceitua- e a dor estão totalmente ausentes. das em essência, como situações em que a felicidade tornou-se presente, dando alento aos fatos. tais afirmações, colocando-se que é impossível que as várias formas de experiência, se intensamente vividas, não tragam angús- Uma mãe chorosa diante da gravidade de uma cirurgia a que o filho tia, sofrimento e dor em seu bojo. se vê submetido repentinamente definirá o êxito dessa cirurgia, bem como o restabelecimento do filho como uma situação de extremo arreba- Se a felicidade é buscada por aqueles que acentuam os valores espiri- tamento, em que seu coração transbordará de felicidade. Se a felicidade tuais como forma de tornar suportáveis os sofrimentos físicos a que se está presente no coração dessa mãe, certamente estará no coração de um vêem expostos ao longo da existência, ela é vista como tendo forma e con- adolescente que, após superar as dificuldades de um árduo vestibular, tornos adquiridos pelas realizações humanas. Como a emoção se confun- consegue a tão almejada vaga na universidade. Também se faz presente de com a presença nos momentos maiores de devaneios e ilusão, a felici- no coração dos torcedores de um time de futebol a despeito de quantas dade não tem como adquirir traços de verdade. desventuras, sofrimentos e desatinos a existência possui quando esse O homem é condenado à infelicidade de forma drástica e, ao longo time sagra-se campeão de determinado torneio. de sua vida, procura ignorar fatos desagradáveis dela e, se exposto a situa- A felicidade ainda é presente naquelas situações nas quais, após lon- ções em que, qualquer que seja a opção, nenhuma for de felicidade, está gos períodos de separação e espera, amantes se encontram e se extasiam desamparado. num frenesi inexaurível. O homem, ao adquirir consciência de que a vida é um emaranhado E na noite, noite que traz o espectro da solidão de modo único, com inextricável de situações e fatos desagradáveis, adota uma atitude de total o sofrimento e a dor a ela inerentes, a felicidade adquire contornos ina- liberdade diante da existência e, a partir disso, realiza projetos de vida 64 65</p><p>Psicoterapia existencial Valdeman Augusto Angerami Camon alvissareiros em face das dificuldades. Mas o distanciamento do sofrimento 3 Idem, ibidem. é cada vez mais 4 Idem, ibidem. Na América Latina, onde os altares dourados dos Incas estão cobertos 5 Idem, ibidem. pelo sangue das vítimas das ditaduras militares, onde os trabalhadores 6 Adiante discutiremos a felicidade. mineiros estão morrendo solapados nas minas de carvão com os pulmões 7 Freud, S. O Mal-Estar na Civilização. Rio de Janeiro: Imago, 1979. enfraquecidos e doentes, a felicidade, que é? 8 A angústia será mais bem discutida posteriormente. América, onde o fuzil dos militares cala a da justeza. América das 9 Sartre, J. P. e Ferreira, V. O Existencialismo é um Humanismo. Lisboa: crianças de pés crianças sem vida, sem chocolates e sem parques Presença, 1970. de diversão; crianças que conhecem a fome, a miséria e vento frio da 10 Idem, ibidem. madrugada a esfriar-lhes o amanhã e a perspectiva de outra forma de vida. 11 Sartre. Op. cit. Crianças e adultos, todos unidos no desalento. 12 Sartre, J. P. El Ser y la Nada. Buenos Aires: Losada, 1981. América, onde canto dos pássaros é abafado pelo grito dos tortura- 13 Sartre, dentre os existencialistas, foi o único a elaborar uma teoria sistemáti- dos, onde cada promessa de justiça e paz é um açoite, uma mentira. ca e minuciosa da liberdade, apesar da importância que todos atribuem à América, continente de sonhos onde a felicidade é aniquilada das possi- liberdade humana. Assim, as principais reflexões existencialistas sobre liber- bilidades existenciais, antes mesmo de ser sonhada. dade ou são do próprio Sartre ou, então, originárias de seus escritos. Sartre, J. Felicidade e América, favelas e povo sufocado pelo grito de liberdade. P. O Ser e o Nada. Petrópolis: Vozes, 2003. América que, banhada por dois oceanos, está encharcada de sangue, se 14 Sartre. Op. cit. entorpecendo com todos os tipos de droga para se anestesiar de tanto 15 Idem, ibidem. sofrimento e dor. E a felicidade insiste em procurar lugar em seu seio. 16 Sartre, J. P. Situations III. Paris: Gallimard, 1949. Felicidade, felicidade, felicidade, não há como existires em plenitude, 17 O Existencialismo é um Humanismo. Op. cit. como alguns apregoam. Certamente existes longe dos anseios humanos 18 "Liberdade", C. Marighella, in Batismo de Sangue, de Frei Betto. Rio de que te conhecem apenas através da idealização de alguns sonhadores. Janeiro: Civilização Brasileira, 1982. O que é felicidade, se a vida é um intenso e infindável sofrimento? E 19 Esse trecho foi extraído de meu livro Solidão. A Ausência do Outro. São se se desse ao homem a possibilidade de ser feliz, na plenitude de sua Paulo: Pioneira Thomson, 1990. existência, a vida teria de ser redefinida e redimensionada em outra dire- 20 Idem, ibidem. ção: o infinito. 21 O Existencialismo é um Humanismo. Op. cit. O palhaço, símbolo universal da felicidade infantil, antes do espetáculo 22 Idem, ibidem. circense pinta o rosto com alvaiade misturado a vaselina. Também coloca 23 Idem, ibidem. secante, porque senão a tinta escorre; escorre com o calor do espetáculo, como ainda escorre com as lágrimas de sua dor d'alma. E, entre suor e lágri- 24 Idem, ibidem. mas, o espetáculo não pode parar... 25 Steiner, G. Heidegger. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1990. 26 El Ser Y la Nada. Op. cit. Notas 27 Introdução Existencialismo. Op. cit. 28 Idem, ibidem. Adiante discutiremos melhor a questão da essência. 2 Introdução Existencialismo. Op. cit. 29 Heidegger, M. Being and Time. Londres: Oxford, 1962. 66 67</p><p>Psicoterapia existencial Valdemar Augusto Angerami Camon 30 Steiner, G. As Idéias de Heidegger. São Paulo: Cultrix, 1980. 59 O Visível e Invisível. Op. cit. 31 Merleau-Ponty, M. O Visível e Invisível. São Paulo: Perspectiva, 1971. 60 El Ser y la Nada. Op. cit. 32 El Ser y la Nada. Op. cit. 61 Sartre, J. P. A Transcendência do Ego. 33 Sartre. Op. cit. 62 Idem, ibidem. 34 El Ser y la Nada. Op. cit. 63 As Idéias de Sartre. Op. cit. 35 Angerami, V. A. Existencialismo G Psicoterapia. São Paulo: Traço, 1984. 64 Idem, ibidem. 36 El Ser y la Nada. Op. cit. 65 Idem, ibidem. 37 Idem, ibidem. 66 Sartre. Op. cit. 38 Idem, ibidem. 67 Idem, ibidem. 39 Idem, ibidem. 68 Idem, ibidem. 40 Idem, ibidem. 69 Idem, ibidem. 41 Idem, ibidem. 70 As Idéias de Heidegger. Op. cit. 42 As Idéias de Heidegger. Op. cit. 71 As Idéias de Sartre. Op. cit. 43 Idem, ibidem. 72 Idem, ibidem. 44 Idem, ibidem. 73 Idem, ibidem. 45 Torres, W. C.; Guedes, G. W. e Torres C. R. (orgs.) A Psicologia e a Morte. 74 Introdução Existencialismo. Op. cit. Rio de Janeiro: Fundação Getulio Vargas, 1983. 75 Idem, ibidem. 46 "A Redescoberta da Morte", Torres, W. C. in A Psicologia e a Morte. Op. cit. 76 Idem, ibidem. 47 Idem, ibidem. 77 Idem, ibidem. 48 Existencialismo G Psicoterapia, Op. cit. 78 Vontade de Potência. Op. cit. 49 Idem, ibidem. 79 Introdução ao Existencialismo. Op. cit. 50 Xausa, I. A. M. A Psicologia do Sentido da Vida. Petrópolis: Vozes 1986. 80 Idem, ibidem. 51 Idem, ibidem. 81 El.Ser y la Nada. Op. cit. 52 Idem, ibidem. 82 Introdução ao Existencialismo. Op. cit. 53 Existencialismo Psicoterapia. Op. cit. 83 Buber, M. Eu e Tu. São Paulo: Moraes & Cortez, 1977. 54 Idem, ibidem 84 Idem, ibidem. 55 Bertolino, P. Sartre - Transcendência e Constituição do Ego, in Revista 85 Solidão. A Ausência do Outro. Op. cit. de Ciências Humanas, publicação da Editora Universidade Federal de Santa 86 El Ser y la Nada. Op. cit. Catarina, V. 2, Florianópolis, 1982. 87 Idem, ibidem. 56 Idem, ibidem. 88 Idem, ibidem. 57 O Visível e o Invisível. Op. cit. 89 Sartre, J. P. A Náusea. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981. 58 Fé perceptiva é um conceito desenvolvido por Merleau-Ponty para designar 90 Idem, ibidem. a crença que temos em nossa percepção, ou seja, acreditamos que aquilo que percebemos como real, temos fé perceptiva. 91 Solidão. A Ausência do Outro. Op. cit. 68 69</p><p>Psicoterapia existencial 92 Idem, ibidem. PARÊMIA DE PRIMAVERA 93 Ou ainda, na citação filosófica de "O homem é o lobo do homem". E mesmo Freud, em seu trabalho O Mal Estar na Civilização, mostra uma Hoje é tempo de luz... imagem de tal modo pessimista do homem que torna os existencialistas oti- de vida, de amor, de cor; mistas: "Enfim, de que nos vale uma vida longa se ela se revela difícil e esté- Tempo de esplendor, de fé, de saudades. ril em alegrias e tão cheia de desgraças que só a morte é por nós recebida Tempo da florada maravilhosamente tingida como uma libertação?". de ouro-amarelo da Sibipiruma. 94 Boss, M. Angústia, Culpa e Libertação. São Paulo: Duas Cidades, 1977. É Primavera... 95 Idem, ibidem. Hoje é tempo de renascer... 96 Idem, ibidem. do despetalar de rosas brancas; vermelhas e azuis. Tempo do acalanto no amarelo e no branco das margaridas. Do Sol brilhante nas flores azuis levemente tingidas de roxo do É Primavera... Primavera no coração... Primavera na alma... Primavera no corpo... na brisa suave que, na noite, se mistura com o aroma da "Dama-da-Noite". Tempo da certeza, do encantamento do "Beija-Flor" pousando a essência da Natureza na flor do Hibisco. Tempo do deslumbramento amarelo-luz do É Primavera... Primavera no sorriso da criança... Primavera na lágrima de dor... Primavera na alegria do reencontro... na canção do vento que bate na janela, arauto do sonho encantado das flores. Da florada branco-paz do Ipê-Branco. E da Figueira. É Primavera... Hoje é tempo de viver a vida no azul... no cintilar da estrela. Tempo de passar na luz da Lua... na marola que arrebenta na areia na relva enfeitada de verde... Tempo da certeza de que a Primavera é a própria vida... o amor em flor... a flor em amor iluminado a certeza de muitas Primaveras... Valdemar Augusto Angerami 70</p>