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<p>TODOS os DIREITOS RESERVADOS. Proibida a reprodução total ou parcial, por qualquer meio ou processo, especialmente por sistemas gráficos, micro fotográficos, reprográficos, fonográficos e videográficos. Vedada a memorização e/ou recuperação total ou parcial em qualquer sistema de processamento de dados e a inclusão de qualquer parte da obra em qualquer programa jus cibernético. Essas proibições aplicam-se também às características gráficas da obra e à sua editoração. Diálogos com a Teoria da Editora filiada a Representação social Associação Brasileira de Editoras Organização: Maria de Fátima de Souza Santos Diálogos com a teoria da representação social / Leda Maria de Almeida organização Maria de Fátima de Souza Santos, Leda Maria de Almeida. - Ed. Universitária da UFPE, 2005. 200 p. il., fig. Inclui Bibliografia ISBN 85-7315-277-X Obra em convênio com a Universidade Federal de Alagoas 1. Sociologia - Representações sociais - Imaginário e realidade. 2. Violência e desenvolvimento humano. 3. Educação e representações sociais - Construção identitária - Prática pedagógica. I. Santos, Maria de Fátima de 304 CDU (2.ed.) UFPE ed UFAL Editora Universitária UFPE 303 CDD (22.ed.) BC-2005-429</p><p>UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS Reitora Ana Dayse Rezende Dórea Vice-reitor Eurico de Barros Filho Sumário Diretora da EDUFAL Sheila Diab Maluf Conselho Editorial Sheila Diab Maluf (Presidente) Apresentação 9 Cicero Péricles de Oliveira Carvalho Maria do Socorro Aguiar de Oliveira Cavalcante 1 A teoria das representações sociais 13 Roberto Sarmento Lima Maria de Fátima de Souza Santos Iracilda Maria de Moura Lima Lindemberg Medeiros de Araújo Flávio Antônio Miranda de Souza 2 As representações sociais, imaginário Eurico Pinto de Lemos e a construção social da realidade 39 Antonio de Pádua Cavalcante Geraldo José de Almeida Cristiane Cyrino Estevão Oliveira 3 Desenvolvimento humano e violência UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO na zona rural 77 Reitor Prof. Amaro Henrique Pessoa Lins Renata Lira dos Santos Aléssio Vice-Reitor Prof. Gilson Edmar Gonçalves e Silva Maria de Fátima de Souza Santos Diretora da EDUFPE Gilda Maria Lins de Araújo 4 A era da cognição social 99 Editora Executiva Angela Maria de Oliveira Almeida Maria José de Matos Luna COMISSÃO EDITORIAL 5 A pesquisa em representações sociais: proposições teórico-metodológicas 117 Maria Lins de Araújo Angela Maria de Oliveira Almeida Titulares: Anco Márcio Tenório Vieira, Aurélio Agostinho da Boaviagem, Carlos Alberto Cunha Miranda, Cláudio Cuevas, José Augusto Cabral de Barros, José Dias dos Santos, Gilda Lisboa 6 Representações sociais e prática Jairo Simião Dornelas, José Zanon de Oliveira pedagógica no processo de construção Passavante, Leonor Costa Maia. identitária 161 Suplentes: Izaltina Azevedo Gomes de Mello, Aldemar Araújo Leda Maria de Almeida Santos, Anamaria Campos Torres, Christine Paulette Yves Rufino Dabat, Elba Lúcia Cavalcanti de Gorki Mariano, José Policarpo Júnior, Patrícia Cabral de Azevedo Restelli Tedesco, Rita Maria Zorzenon dos Santos, Vera Lúcia Menezes Lima.</p><p>Apresentação Este livro nasceu de um encontro em sala de aula. A relação que se constrói entre as pessoas no contexto acadêmico pode ser uma relação de ensino-aprendizagem, passageira, superficial, pragmática. Ela pode ser tam- bém rica em afeto, troca de conhecimento, aprendizagem mútua, respeito e construção coletiva. Foi exatamente no contexto de um curso de pós-gradu- ação, em uma turma que se debruçava sobre a teoria das representações sociais buscando compreender seus conceitos, apreender a perspectiva de sujeito e sociedade subjacentes a eles que surgiu a idéia deste livro. Naquele momento surgiam as dúvidas, esbarrávamos nos conceitos e preconceitos sobre a pers- pectiva teórica das representações sociais, seu uso adequado ou não para compreender determinados Passamos muitas horas em uma discussão que partia das concepções sobre ciência, realidade, conhecimento verdadeiro, senso comum, conceitos teóricos da Teoria das Representações Sociais, métodos e técnicas possíveis em função dos pressupostos teóricos e dos objetos de pesquisa envolvidos. Discutíamos sobre as decisões que quotidianamente somos obrigados a tomar durante o processo de construção do conhecimento Havia uma diversidade de for mação que, longe de ser um empecilho, tor nou rica a discussão, estreitou os laços e beneficiou a todos. A partir dessa experiência surgiu a idéia de publicar um livro que pudesse ajudar àqueles que se iniciam na Teoria das Representações Sociais. Umlivro concebido para alunos de graduação, de pós-graduação, pesquisa- dores que se iniciam nesta perspectiva teórica. A proposta que nos seduziu foi a de poder apresentar os conceitos básicos da teoria, os métodos de pesquisa utilizados, exemplos de trabalhos</p><p>que pudessem dar ao leitor uma idéia de sua utilização. Talvez, no fundo, cuidado de apresentar os conceitos teóricos ligados à perspectiva metodológica. quiséssemos partilhar com o leitor as horas que passamos nas salas de aula, Ela discute detalhadamente algumas técnicas utilizadas na coleta e análise de o "clima" das nossas discussões, as dificuldades que encontramos e que dados possibilitando ao leitor um primeiro contato com a riqueza de possi- supostamente poderíamos minimizar para o outro. bilidades suscitadas pela proposta de Moscovici. Nesta perspectiva, decidimos que primeiro capítulo seria uma apre- último capítulo discute as representações sociais articuladas com a sentação da Teoria das Representações Nele buscou-se apresentar os prática pedagógica no processo de construção da identidade. Talvez o leitor principais conceitos desta teoria com cuidado de tentar responder a pergun- tas que ouvimos em sala de aula. possa pensar que voltamos ao início! A idéia do livro surge na sala de aula e finalizamos refletindo sobre a prática pedagógica e a construção da identi- segundo capítulo focaliza a importância de se articular teoricamente dade. Talvez tenha razão ao pensar assim. Afinal, quem constrói conheci- as representações sociais, o imaginário e a construção social da realidade através mento, seja ele científico ou de senso comum, é um sujeito humano. De fato, da análise do discurso. autor, Prof. Geraldo Almeida, defende a idéia de que conscientemente, não foi essa a intenção, porém faz sentido que uma relação a compreensão das representações sociais, do imaginário e do cotidiano "cons- em sala de aula que tenha sido rica, produtiva e afetiva nos leve a refletir sobre tituem-se no primeiro passo no sentido de compreender a construção social da realidade" (p.41). E, para ele, o discurso se constitui em um "um elemento de a prática pedagógica na construção da identidade. Como ressalta a Leda Almeida "O processo de construção identitária não é um processo de mediação entre o homem e sua realidade, uma forma de engajamento nesta autodescoberta, mas sim de auto-invenção mediada pelo olhar do outro e própria realidade, um lugar de conflito, de confronto ideológico e, por isso pela linguagem de outrem" (p. 194). mesmo um instrumento passível de análise e capaz de fornecer os elementos Colocamos, então, nas mãos do leitor esse livro, produzido a partir quetornam possível a compreensão da realidade social" (p.74-75). de alguns anos de experiência no ensino e na pesquisa com a teoria das terceiro capítulo apresenta os resultados de uma pesquisa cujo representações sociais. Vale ressaltar que essa perspectiva é uma das for mas objetivo era investigar a relação entre as representações sociais de violência e as possíveis de compreender alguns fenômenos. práticas educativas utilizadas por adultos visando desenvolvimento moral Como bem ressalta a Leda Almeida (p. 183), "no exercício das das crianças que vivem em assentamentos rurais. Aqui, busca-se exemplificar ações humanas intencionais, nas quais se incluem as práticas pedagógicas, dis- uma forma de compreender um fenômeno utilizando-se aporte da teoria tinguem-se três fases fundamentais: o planejamento, a execução e a avaliação". das representações sociais. As duas primeiras fases foram executadas ao produzir mos este livro. A terceira quarto e quinto capítulo apresentam, respectivamente, a aborda- fase, neste momento, ao leitor. Se trabalho aqui apresentado ajudar a gem da cognição social e a pesquisa em representações sociais. A autora, Maria de Oliveira Almeida faz um mapeamento das principais contri- compreender melhor a teoria das representações sociais e oferecer pistas para a construção do conhecimento científico, teremos atingido nosso objetivo. buições da cognição social. Essa perspectiva que se inicia na década de 50 visava retirar dos estudos em Psicologia, o foco do comportamento e "trazer Recife, 16 de junho de 2005. a mente de volta às ciências humanas, após um longo período de objetivismo" Maria de Fátima de Souza Santos (p. 102). Enquanto nos Estados Unidos se fazia que é denominado a "revolução cognitivista", na Europa Serge Moscovici desenvolve trabalho sobre a apropriação da Psicanálise pelo leigo e propõe a Teoria das Represen- tações Sociais na qual busca articular ação e conhecimento na análise das rela- ções do sujeito com os outros e com mundo. A Ângela Almeida retoma, então, a perspectiva teórica de Moscovici e as contribuições teóricas e metodológicas de Denise Jodelet, da abordagem societal de Wilhem Doise e da abordagem estrutural proposta por Jean-Claude Abric. A autora tem</p><p>1 A Teoria das Representações Sociais Maria de Fátima de Souza Santos Universidade Federal de Pernambuco Departamento de Psicologia/ Programa de Pós-Graduação em Serviço Social</p><p>A Teoria das Representações Sociais 1 - A Psicologia Social Clássica X Psicossociologia: contexto histórico. A Psicologia Social moderna teve seu desenvolvimento, sobretudo, nos Estados Unidos, onde predominava naquele momento a corrente behaviorista que tinha o comportamento humano como objeto de estudo. Na Europa, os primeiros psicólogos sociais, como Tarde e Le Bon, ao estudar em os de massa e de influência deram aos fatores emocionais, inconscientes, irracionais do comportamento. E, como afirma Moscovici (1986, p. 38) "suas teorias se fizeram aclamar nos meios reacionários e encontraram sucesso em particular nos meios nazistas. Não é nada surpreendente que os psicólogos sociais notadamente os sábios alemães como Lewin (1951) e Asch (1952) tivessem protestado contra esta maneira de abordar o comportamento e as relações sociais". Com a Segunda Guerra Mundial eclodindo na Europa, há uma forte migração de cientistas alemães e austríacos para os Estados Unidos, tais como Lewin e Asch, desenvolvendo- se naquele país uma Psicologia Social que tinha a preocupação para Social naquele processos para foco do do subjacentes. comportamento debate. A Utilizando Psicologia de trazer a consciência o centro momento tira o e traz a discussão os mentais a expressão consagrada na Gestalt, poderíamos dizer que a mente humana, através dos estudos dos cognitivos, passa a ser "figura" para esses pesquisadores. É nesse quadro 15</p><p>que se desenvolve, nos EUA, os estudos sobre atitudes, Essa concepção do saber popular como um saber menor, influência social e percepção social que se tornaram a marca porque não segue uma lógica for mal, está presente nas ciências de uma Psicologia Social denominada "americana", ou como humanas há longos anos. Encontramos concepções afirma Farr (1998, p.28) uma "psicologia social psicológica". semelhantes na Sociologia, na Antropologia (com o estudo "Emerge desses estudos uma visão de homem, animal racional. das chamadas "culturas primitivas") e na Psicologia. Baseada Doravante, comportamento e pensar humanos foram em uma perspectiva evolucionista, tudo se passa como se o estudados em um quadro social" (Moscovici, 1986, p. 38). pensamento seguisse naturalmente uma evolução: do Uma das teorias de maior destaque nessa perspectiva é a raciocínio pré-lógico, fragmentado, ao raciocínio lógico, Teoria da Dissonância Cognitiva de Festinger. Moscovici (1986, formal. Esse é um dos pressupostos que a teoria das p.39) afirma que período em que as atitudes influência social!) representações sociais vem romper. Moscovici à almejavam um lugar central na pesquisa, homem foi geralmente, natureza individual da psicologia social e busca resgatar as considerado como um animal racional Mas, a teoria da dissonância dimensões culturais e históricas na pesquisa psicossocial. cognitiva revela como uma criatura mais racionalizante que A concepção de sujeito subjacente às propostas teóricas Moscovici (1986, 40) afirma que naquele momento há de Moscovici é a de um sujeito ativo, construtor da realidade uma restrição do campo de investigação da Psicologia Social e social e nela construído. Para ele, o sujeito não é um simples o foco recai sobre o "As relações entre grupos foram processador de informações externas ou produto de uma substituídas pelas relações entre pessoas, a atenção que se tinha realidade exterior a ele. sujeito é ativo no processo de ao grupo foi substituída pela atenção aos indivíduos". apropriação da realidade objetiva, isto é, ele "remodela e Em seguida, a relação com outro é reintroduzida e a categoriza as informações as quais ele é confrontado e o faz cognição social passa a ser o foco de interesse dos psicólogos no contexto de um conjunto de relações com outros sociais americanos. É o momento da proliferação de estudos indivíduos e, é claro, a respeito de objetos 'socialmente sobre a percepção social e investigação sobre a análise das para ele." (Bonardi & Roussiau, 1999, p. 22). informações que indivíduo tem sobre o outro, a maneira que ele caracteriza esse outro e infere sua dimensão psicológica. Sobre 2 A Diversidade do Conhecimento essa abordagem da psicologia social, Moscovici faz duas críticas: por um lado, tudo é enfocado a partir das micro-relações. Por Um dos grandes problemas que se coloca para nós, que outro lado, o homem deixa de ser considerado, nessa perspectiva, estudamos a área das ciências humanas e sociais, é saber como como um animal racional e passa a ser concebido como "uma homem compreende e se relaciona com a realidade (física e máquina pensante". Uma máquina, entretanto, imperfeita, que social), como ele interpreta e dá sentido ao mundo em que vive. comete erros, não processa as informações corretamente. Uma Vários são os modos através dos quais o ser humano máquina que "não reproduz o cérebro do sábio profissional, mas produz conhecimento. Tomemos como exemplo a questão cérebro do sábio ingênuo" (Moscovici, 1986, p. 41). da origem do universo, observamos que há explicações 16 17</p><p>verdadeiras teorias no âmbito da religião, teorias construídas no âmbito das ciências e várias outras teorias populares, isto é, Por um lado, a pesquisa contribui para o desenvolvimento explicações no âmbito do senso comum. São conhecimentos de uma teoria esclarecendo conceitos. Por outro lado, a teoria produzidos pelo homem na sua busca de respostas às questões é, como afirma Bourdieu (1989, p.60) "um modus operandi que que ele se coloca na sua relação com mundo. Tais conhecimentos orienta e organiza a prática científica". se constituem em conjuntos de conceitos articulados fornecendo segundo ponto que nos chama a atenção, é o caráter um modelo de explicação teórica. Dentre as várias formas de provisório de uma teoria. Atualmente, a teoria científica não conhecimento vamos nos deter aqui no conhecimento produzido é mais considerada como uma explicação definitiva, uma pelo senso comum, o conhecimento popular. for mulação estática, uma verdade única. Uma de suas Antes, porém, devemos nos perguntar o que diferencia características é, ao contrário, a possibilidade de modificação, o conhecimento popular do conhecimento científico? Como já que ela é vista como uma explicação provisória dentro de um conhecimento da realidade é considerado científico e uma perspectiva específica. Como afirma diferenciado de outras formas de conhecimento, tais como o conhecimento religioso, o conhecimento do senso comum? A procura da originalidade a todo custo, Como, um conjunto de proposições teóricas pode ser facilitada pela ignorância e a fidelidade religiosa a este ou considerado um Conhecimento aquele autor canônico que leva à repetição impedem Entramos, portanto, no primeiro ponto de nossa discussão: uma e outra, a justa atitude para com a tradição teórica, que consiste em afirmar, ao mesmo tempo, a continuidadeed 3 Conhecimento científico X ruptura, a conservação e a superação, em se apoiar em todo Conhecimento do senso comum pensamento disponível sem temer acusação de seguidismo ou de ecletismo, para ir além dos antecessores, ultrapassados Uma teoria científica é uma forma de conhecimento da assim por uma utilização nova dos instrumentos para cuja realidade com características próprias. Ela reúne um conjunto produção eles "(Bourdieu, poder simbólico, de hipóteses e conceitos, articulados em um sistema dedutivo de modo a que algumas dessas hipóteses sejam premissas e as outras a sucedam logicamente. Se considerarmos a teoria científica não como verdade Segundo Duarte Junior (2002) "uma teoria científica é um acabada, mas como uma explicação provisória, podemos modelo construído para representar determinado aspecto da admitir também a possibilidade de outras explicações realidade, dentro de seu campo específico de significação" possíveis, de outros modelos a serem adotados. Existem duas características fundamentais nas Adotar uma postura teórica é, pois, ter um guia de modernas teorias científicas: sua estreita ligação com a conduta para abordar problema dentre os observação, logo com a pesquisa, e o seu caráter provisório. inúmeros guias existentes. É também admitir os limites e contribuições do modelo adotado. Uma teoria busca explicar 18 19</p><p>um fenômeno ou conjunto de delimitando, pois, envolvem a formulação de hipóteses, a observação e/ ou o tipo de problema a ser investigado. Além disso, ela delimita experimentação do objeto de estudo, a sua validação, também as formas de abordar o problema. Por exemplo, se comprovação ou interpretação, a previsão e aplicação dos pretendemos estudar atitudes adotando uma perspectiva resultados) e tem como função principal conhecer a natureza comportamentalista, não podemos utilizar o método clínico para e dominá-la, o conhecimento do senso comum é elaborado a abordar esse problema. Se estudo a representação social de um partir dos processos de objetivação e ancoragem, segue uma objeto qualquer não posso utilizar os batimentos cardíacos ou lógica natural, e tem como funções orientar condutas, apenas a reação galvânica da pele para elucidar minha questão. possibilitar a comunicação, compreender e explicar a realidade A metodologia escolhida é, portanto, do social, justificar aposteriori as tomadas de posição e as condutas modelo teórico adotado e possibilita a relação prática com do sujeito, e uma função identitária que permite definir objeto a ser identidades e salvaguardar as especificidades dos grupos. Existem, entretanto, outros modos de conhecer a São, pois, formas de conhecimento de natureza realidade. Somos, como afirma Moscovici (1988) uma diferente, construídos por processos diversos e cada um deles "maioria de leigos" em um mundo que valoriza o com funções específicas. Iremos nos deter aqui no conhecimento científico. conhecimento do senso comum e, mais especificamente, nas Para este autor, no mundo contemporâneo proposições contidas na teoria das Representações Sociais. conhecimento científico e conhecimento do senso comum caracterizam-se por uma polarização que é consequência de 4 - A Teoria das Representações Sociais uma "sociedade bifurcada: uma minoria de especialistas e uma maioria de amadores, consumidores do conhecimento A primeira questão a ser esclarecida é que a expressão absorvido através de uma educação sucinta ou através da "representações sociais", utilizada na Psicologia Social, refere- A oposição entre o pensamento standard e o que não se ao mesmo tempo, à teoria e ao objeto por entre o pensamento instruído do científico e o pensamento ela Falar em representações sociais é remeter-se do homem da rua é, definitivamente, menos de ao conhecimento produzido no senso Porém, não a ordem lógica ou orgânica do que de ordem todo e qualquer conhecimento, mas a uma forma de (Moscovici, 1988, p. 541). conhecimento compartilhado, articulado, que se constitui em Para Moscovici, o conhecimento do senso comum não uma teoria leiga a respeito de determinados objetos sociais. se contrapõe ao conhecimento científico. Ele se inscreve Por sua vez, falar na teoria das representações sociais é numa outra ordem de conhecimento da realidade, é uma forma referir-se a um modelo um conhecimento científico de saber diferenciado tanto no que se refere a sua elaboração que visa compreender e explicar a construção desse como na sua função. Enquanto o conhecimento científico é conhecimento leigo, dessas teorias do senso comum. Temos, construído a partir de passos formalmente delimitados (que portanto, a teoria das representações sociais que visa 20 21</p><p>compreender o fenômeno das representações sociais. É importante, aqui, ressaltar que a proposta contida na de Representação Social da Psicanálise, no qual apresenta os resultados de um estudo realizado na França a partir de teoria das representações sociais refere-se ao estudo de um específico e delimitado: as teorias do senso comum. questionários e matérias de jornais, sobre as representações que circulavam sobre a psicanálise na sociedade francesa. Estas teorias são conjuntos de conceitos articulados que têm Ao procurar entender como é assimilada a psicanálise origem nas práticas sociais e diversidades grupais cujas funções é dar sentido à realidade social, produzir identidades, pelo leigo, enquanto discurso científico, Moscovici (1976) não tinha como objetivo discutir a teoria psicanalítica, mas tentar organizar as comunicações e orientar as condutas. Não é, compreender como saber científico enraízava-se na portanto, todo e qualquer conhecimento do senso comum que consciência dos indivíduos e dos grupos. Ao estudar como o pode ser denominado de representação social. Para gerar leigo se apropria de um saber ajustando-o a representações sociais o objeto deve ser polimorfo, isto é, representações anteriores e construindo assim uma passível de assumir formas diferentes para cada contexto representação social da psicanálise, Moscovici estudava social e, ao mesmo tempo, ter relevância cultural para o grupo. cientificamente "senso Esse estudo implicava, pois, Como afirma Sá (1994, p. 42), só há representação social na análise das formas culturais de expressão dos grupos, na quando "o objeto se encontra implicado, de forma consistente, organização e transformação dessa expressão além da análise em alguma prática do grupo, aí incluída a da conversação e a de sua função mediadora entre o indivíduo e a sociedade. da exposição aos meios de comunicação de massa". A proposta básica do estudo da representação social Comunicação e representação social são, portanto, é a busca de compreensão do processo de construção social inseparáveis, interdependentes. Como afirma Moscovici (2003, da realidade, para retomar a expressão de Berger & p. 371) "uma condiciona a outra, porque nós não podemos Luckmann (1973). comunicar sem que partilhemos determinadas representações Moscovici (1976) retoma o conceito de "representação e uma representação é compartilhada e entra na nossa herança coletiva" de Durkheim, afirmando, porém, que este último social, quando ela se torna um objeto de interesse e de englobava como "representação coletiva" uma enorme classe comunicação". Dentre os diferentes tipos de comunicação, a de conhecimentos e crenças que incluíam a ciência, a conversação é destacada por Moscovici como o primeiro gênero religião, os mitos e as categorias de tempo e espaço, que de comunicação através do qual se constroem as representações devido a sua heterogeneidade e a impossibilidade de defini- sociais. Destaca ainda como formas secundárias de las através de poucas características gerais, dificultavam a comunicação a difusão, a propagação e a propaganda. delimitação do conceito. Inicialmente, Moscovici (1976) definiu a representação 4.1 As bases conceituais da teoria social como 'teorias', 'ciências coletivas', suis generis, Em 1961, Moscovici lança o livro La psychanalyse, son destinadas à interpretação e construção do real (p.48). (...) image et son public, traduzido em parte no Brasil com nome Elas deter minam o campo de comunicações possíveis, valores 22 23</p><p>ou idéias apresentadas nas visões compartilhadas pelos grupos "The proof of pudding is in the Na minha e regulam, por as condutas desejáveis ou construtivismo social não deve negar que um pudim, logo admitidas" (p.49). Seria então necessário compreender as já que comemos. Mas ele deve dar um sentido diferente dimensões latentes sobre as quais se constróem esse relação com pudim, lembrando-se que um estudo de Moscovici (1976) teve o grande mérito de que prepara. Eis porque "the proof of the pudding is still in propor uma noção "carrefour", segundo a expressão de Doise the eating" [em inglês no (Moscovici, 1994, p. 18- e Palmonari (1986), que permite considerar sujeito não 19) como um aparelho intra-psíquico, mas como produtor e produto de uma determinada sociedade. Assim, ele abriu a Representar implica sempre em um sujeito e um objeto, perspectiva de interconectar conceitos de Sociologia e da intrinsecamente ligados. Segundo Moscovici (1982, p.71) Psicologia considerando que a realidade social é construída "este laço com objeto é uma parte intrínseca do laço social em três momentos que foram sintetizados por Berger & e ele deve ser interpretado neste quadro". Luckmann (1973, p. 87) na expressão: "A sociedade é um Sendo a representação social uma construção do sujeito produto humano. A sociedade é uma realidade objetiva. O sobre objeto e não a sua reprodução, essa reconstrução se homem é um produto social". A sociedade existe enquanto dá a partir de infor mações que ele recebe de e sobre o objeto. realidade objetiva e produto humano. Ao ser apropriada pelos "Essas informações seriam filtradas e arquivadas na memória sujeitos ela se torna uma realidade subjetiva. Nesse processo de forma esquemática e coerente, constituindo uma 'matriz' de apropriação da realidade, sujeito não reproduz os cognitiva do objeto que permite ao sujeito compreendê-lo e elementos da realidade objetiva, há um processo de agir sobre ele' (Silva, 1978, p.20). Seria o que Jodelet (1984) reconstrução da realidade, uma reelaboração humana na qual considera o "crivo de leitura" da realidade. aspectos cognitivos e sociais entram em jogo. Como afirma Abric (1994, p. 13), "isto permite definir a representação social como uma visão funcional do mundo, "Toda realidade é uma construção euma construção que permite ao indivíduo ou grupo dar um sentido a suas da qual se pode seguir a Se representações condutas e compreender a realidade através de seu próprio encar nadas na nossa realidade e na nossa podemos sistema de referência, logo, adaptar-se e definir seu lugar nessa julgar sua verdade realidade". A representação social, continua Abric, "e ao De toda maneira, construtivismo social, tal como concebo, mesmo tempo 'o produto e processo de uma atividade não é antinômico ao real nem ao verdadeira É um modo mental pela qual um indivíduo ou um grupo reconstitui real ativo de conhecer toda a realidade, porque nós a fizemos e ao qual ele é confrontado e lhe atribui uma significação refizemos, como artista com sua obra Engels exprimiu a específica' (Abric, 1987, p. 64). visão da relação com a realidade independente pelo Na medida em que a representação social é provérbio compreendida enquanto conteúdo e processo, seu estudo 24 25</p><p>remete necessariamente aos processos perceptivos e Do ponto de vista de seu componente cognitivo, é imaginários do sujeito, às forças sociais e aos conteúdos preciso considerar que, sendo a representação sempre de culturais subjacentes às relações numa sociedade deter minada alguém, isto significa que é uma forma de conhecimento bem como a sua função mediadora entre indivíduo e submetido às regras dos processos cognitivos/afetivos do sociedade. Na verdade, para Moscovici, a representação social sujeito. Entretanto, tais processos são considerados como seria um fenômeno social que se fundamenta na vida mental. diretamente determinados pelas condições sociais nas quais Segundo Bonardi e Roussiau (1999, p. 17) são elaboradas e transmitidas as representações. Logo, do contexto social emergem regras diferentes da lógica formal, da "Sua eficácia na dinâmica social é assim uma das suas "lógica cognitiva". conhecimento do senso comum é regido características essenciais, ea idéia de dialética entre indivíduo/ por uma "lógica natural", que lhe é própria, e que estaria na sociedade desenvolvida na antropologia por Lévi-Strauss intercecção da lógica cognitiva e da lógica social, segundo retorna então ao primeiro plano: as relações entre indi víduos Abric (1994), que possibilita a integração de contradições, a das idéias e compartilhamento das do racional e do irracional, dando, na maioria das vezes, a representações. Porém as dinâmicas sociais, técnica, ideológica, impressão de um conhecimento incoerente ou ilógico. política, agem igualmente sobre as concepções A Em seu estudo sobre a representação social da psicanálise uma representaçãon portanto, nem inteiramente Moscovici (1976) destaca semelhanças entre o pensamento do do domínio social, nem totalmente do domínio individual; senso comum e pensamento infantil. Segundo Doise (1992, 'interface' (Jodelet, 1989, p. 40) ou passarela entre os dois p. 12), "esses dois pensamentos utilizam informações seria uma localização mais exata." fragmentárias, tiram conclusões muito gerais a partir de observações particulares, fazem prevalecer as conclusões sobre Como afir Jodelet (1989, p. 36), "as representações as premissas, baseiam argumentos de causalidade sobre devem ser estudadas articulando elementos afetivos, mentais associações de natureza avaliativa e recorrem a numerosas e sociais e integrando, ao lado da cognição, da linguagem e da redundâncias tanto léxicas quanto comunicação, a consideração das relações sociais que afetam Moscovici discute então a questão das características as representações sociais e a realidade material, social e ideal cognitivas das representações sociais. Seria o conhecimento do sobre as quais elas vão intervir". senso comum baseado em organizações intelectuais de umaidade Qualquer análise das representações sociais deve, por infantil ou ele corresponderia à adaptação a uma situação e uma conseguinte, levar em conta seus dois componentes: o interação coletivas? É nessa segunda vertente que ele desenvolve componente cognitivo e o componente social, ou melhor, "(...) seu trabalho. A aparente fragmentação e ausência de lógica do convém se prender prioritariamente à análise das relações entre conhecimento do senso comum só podem ser entendidas a partir processo individual de conhecimento, processo simbólico do momento em que se compreende o contexto social no qual cultural e ideologia". (Bonardi & Roussiau, 1999, p. 19) ele foi produzido. Nesse sentido, o conteúdo do conhecimento é 26 27</p><p>tão importante quanto seu processo de construção. A teoria das representações sociais, como afirma Doise do ambiente social. A intensidade de suas atitudes e o modo (1992), sustenta-se em torno da noção da existência de dois pelo qual ele relaciona os dados da realidade depende de seus sistemas cognitivos: o sistema operatório e o metassistema. hábitos lógicos e lingüísticos, de tradições históricas, do Enquanto o sistema operatório seria o responsável pelas acesso à informação e da estratificação de valores. modo associações, inclusões, discriminações e deduções, o como apreendo as informações dependerão de outros metassistema que "retrabalha a matéria produzida pelo conhecimentos que tenho. Uma informação sobre uma nova primeiro" (Moscovici, 1976, p. 254 apud Doise, 1992), doença, por exemplo, será apreendida diferentemente por responsável pelo controle, verificação e seleção utilizando médicos, engenheiros, agricultores ou estudantes. Porém não regras lógicas ou não. se trata apenas do nível de escolaridade. Se o engenheiro ou Para Doise (1992, p.12) o estudo das representações sociais agricultor é católico ou brasileiro ou sua refere-se ao estudo das regulações do metassistema, "na medida mação religiosa e sua cultura terão também um papel em que seus laços com posições específicas num conjunto de importante na apropriação do novo conhecimento. relações sociais sejam explicitados." c) Defasagem e Dispersão de Informação "esse fator refere-se às condições de acesso e exposição às 4.2 Por que construímos representações informações sobre objeto (inclusive do próprio objeto)" sociais acerca de determinados objetos? (Silva, 1978, p.27). Essa diversidade de informação refere-se Essa é uma das questões que se coloca Moscovici ao não só às informações disponíveis, mas também às condições estudar as representações sociais. Quais são os determinantes objetivas de acesso a elas, como, por exemplo, obstáculos de sociais das representações, isto é, por que construímos teorias transmissão, falta de tempo, barreiras educativas e até mesmo do senso comum a respeito de objetos sociais? autor levanta os efeitos de especialização. três determinantes sociais das Diante da pressão à inferência, da focalização e da a) a Pressão à Inferência Considerando que sujeito defasagem e dispersão de informações, as pessoas busca constantemente consenso com seu grupo e que a códigos comuns para "classificar e nomear de maneira unívoca ação o obriga a estimar, comunicar e responder às exigências as partes de seu mundo, de sua história individual e coletiva" da situação a cada momento, essas múltiplas pressões tendem (Moscovici, 1976, p. 11). Em outras palavras, compartilhar a influenciar a natureza dos julgamentos, preparando respostas teorias de senso comum a respeito de determinados objetos pré-fabricadas e forçando um consenso de opinião para garantir assegura a comunicação entre as pessoas e fornece um guia a comunicação e assegurar a validade da representação. para suas condutas. Para Moscovici (2003, p. 54) a b) a Focalização "Refere-se à desigualdade de finalidade de todas as representações sociais é tornar familiar interesses dos sujeitos em relação ao (Silva, 1978, algo não-familiar, ou a própria Para o autor, p.27). sujeito tende a dar uma atenção variável aos aspectos os universos consensuais são locais "onde todos querem se sentir em casa, a salvo de qualquer risco, atrito ou conflito. 28 29</p><p>Tudo o que é dito ou feito ali, apenas confirma as crenças e apreendida e reelaborada. as interpretações adquiridas, corrobora, mais do que contradiz, A análise dessas dimensões permite, segundo Moscovici a tradição". (p.54). Entretanto, isso não significa que os (1976), descrever as linhas sociais de separação dos grupos, universos consensuais sejam homogêneos. Ao se referir ao comparando conteúdo das representações. Foi assim que pensamento socialmente compartilhado Moscovici não em seu estudo sobre a psicanálise, ele pôde apreender defende a idéia de que as formas de pensar são de fato representações sociais diversas entre os diferentes grupos consensos dentro do grupo, homogeneidade de pensamento. estudados. A imprensa católica, por exemplo, tinha um campo As representações sociais incluem as convergências que representacional e explicitava informações e atitudes trazem a "familiaridade" e as divergências de pensamento, os referentes à Psicanálise diferente da imprensa marxista. conflitos que provocam a mudança. 4.4 Como se constróem as representações 4.3 Quais são as dimensões de uma sociais? representação social? No que se refere à elaboração das representações sociais, Ao analisar as dimensões latentes sobre as quais se Moscovici (1976) propõe dois processos como sendo constrói a representação social, Moscovici (1976) propõe três fundamentais: dimensões que dizem respeito à formação do conteúdo da 1) Objetivação processo de objetivação é o representação e que remetem ao quadro social em que se processo através do qual que era desconhecido torna-se insere o familiar. Ela torna concreto o que é abstrato. Transforma um a) Atitude expressa uma resposta organizada conceito em uma imagem ou em núcleo figurativo. Por (complexa) e latente (encoberta). Uma tomada de posição exemplo, complexo da teoria psicanalítica deixa de ser uma com relação a um objeto. A atitude é ligada à história do hipótese teórica e passa, no senso comum, a ser um atributo indivíduo ou do grupo. real do outro. As idéias construídas em contextos específicos b) Informação remete à quantidade e qualidade do são percebidas como algo palpável, concreto e exterior ao conhecimento possuído a respeito do objeto social. sujeito. Segundo Moscovici (2003, p. 71), Esses dois elementos do conteúdo se estruturam no: c) Campo da representação "seria uma unidade objetivação une a idéia de não-familiaridade com a de hierarquizada dos elementos que denota a organização desse realidade, torna-se a verdadeira essência da conteúdo (preponderância, oposição, etc., de um elemento Percebida primeiramente como um universo puramente sobre o outro) e o caráter vasto desse conteúdo, suas intelectual e remoto, a objetivação aparece, então diante de propriedades qualitativas e imageantes" (Silva, 1978, p. nossos olhos, física e acessível." campo representacional, assim, é uma estrutura que organiza, estrutura e hierarquiza os elementos da informação A objetivação implica em três movimentos: 30 31</p><p>a Seleção e a Descontextualização: Considerando a dispersão de informações dos objetos sociais, apenas alguns conhecidas. O objeto novo é reajustado para que se enquadre na categoria conhecida adquirindo características dessa elementos são retidos, retirados do contexto no qual surgiram em função de significados já existentes. Os sujeitos retiram categoria. Esse ato de classificar não é neutro e implica necessariamente em uma avaliação do objeto. Para Moscovici dos objetos algumas informações a partir de conhecimentos "ancorar é classificar e dar nome a alguma anteriores, valores culturais ou religiosos, tradição cultural, A ancoragem implica, portanto, em: experiência prévia etc. Do conjunto total de informações Atribuição de sentido o enraizamento de uma apenas algumas são retidas pelos sujeitos. representação inscreve-se numa rede de significados a Formação de um Núcleo Figurativo: é a construção articulados e hierarquizados a partir de conhecimentos e de um modelo figurativo, um núcleo imaginante a partir da valores preexistentes na cultura. Quando apareceram as transformação do conceito. primeiras informações sobre a AIDS, a imprensa a Naturalização dos elementos: os elementos que imediatamente chamou a "nova doença" de "câncer gay" foram construídos socialmente passam a ser identificados ou "peste gay". fato de ter sido descoberta inicialmente como elementos da realidade do objeto. Como afirma em sujeitos homossexuais, de causar a morte sem que se Jodelet (1986) é a biologização do social. As representações soubesse exatamente as causas e de ser contagiosa, levaram acerca da mulher, por exemplo, incluem a idéia de que toda a imprensa a associar ao câncer (mortal) e à peste mulher quer ser mãe, isso supostamente faria parte da (contagiosa e mortal). Um sentido foi atribuído ao novo natureza Não apenas o fato de poder ser mãe, objeto (AIDS) a partir de conhecimentos anteriores e um mas espera-se que toda e qualquer mulher tenha o desejo nome lhe foi atribuído. da maternidade. Essa idéia é de tal modo enraizada Instrumentalização do saber possibilita um valor socialmente que o fato de uma mulher não desejar ser mãe funcional à representação, na medida em que se torna uma é interpretado como um problema, um "defeito", seja de teoria de referência possibilitando a tradução e compreensão ordem física (ela não pode e então diz que não quer), seja do mundo social. de ordem moral (ela é uma mulher fria, egoísta), seja de Enraizamento no sistema de pensamento as novas ordem psicológica (ela teve problemas com a própria mãe, representações se inscrevem num sistema de representações é "traumatizada"), conforme pesquisa realizada por Santos, preexistentes, desta forma o novo torna-se familiar ao mesmo Novelino e Nascimento (2001). tempo em que transforma o conhecimento anterior. Assim, o 2) Ancoragem caracteriza-se pela inserção do objeto sistema de pensamento preexistente ainda predomina e serve num sistema de pensamentos preexistentes, estabelecendo como referência para os mecanismos de classificação, umarede de significações em torno do mesmo. É um processo comparação e de categorização do novo objeto. "Ao nomear que transforma algo desconhecido e perturbador em algo algo, nós o libertamos de um anonimato perturbador, para conhecido, através da comparação com categorias já dotá-lo de uma genealogia e para incluí-lo em um complexo 32 33</p><p>de palavras específicas, para localizá-lo, de fato, na matriz de como referências justificadoras do comportamento. Uma vez identidade de nossa 2003, p.66). que as representações são guias de conduta compartilhados 4.5 Quais as funções da representação socialmente, elas são utilizadas ao mesmo tempo para justificar social? as condutas relativas a determinados objetivos. Como já dissemos anterior mente, a representação social é um conjunto de conceitos articulados que tem origem nas 5 Representações sociais: uma proposta práticas sociais e diversidades grupais cuja função é dar sentido interdisciplinar. à realidade social, produzir identidades, organizar as comunicações e orientar as Temos assim, ao menos, Utilizar a proposta contida na teoria das representações quatro funções que se destacam: sociais é, necessariamente, lançar mão de conhecimentos a) Função de saber: as representações sociais servem produzidos em diferentes áreas de estudo. Ao tentar para que possamos explicar, compreender e dar sentido à compreender o conhecimento do senso comum na perspectiva realidade social. Na medida em que construímos de Moscovici é preciso apreender o contexto cultural, histórico representações sociais sobre a AIDS, por exemplo, nós e social em que tal conhecimento foi construído. "(...) quando pudemos explicá-la, compreendê-la e torná-la familiar no se estuda o senso comum, o conhecimento popular, nós âmbito do senso comum. estamos estudando algo que liga sociedade, ou indivíduos, a b) Função de orientação: as representações sociais são sua cultura, sua linguagem, seu mundo familiar" (Moscovici, guias de conduta. Elas orientam as práticas sociais (na medida 2003. p.322). Conhecimentos oriundos da antropologia, da em que precedem o desenvolvimento da ação). Porém, ela é história, da sociologia e da comunicação são essenciais na ao mesmo tempo gerada nas práticas sociais e condicionada apreensão das representações sociais. à evolução dessas práticas em uma dada sociedade. A função Não basta descrever os conteúdos obtidos, é de orientação, como afirma Abric (1987) não depende das fundamental que se compreenda o processo de construção condições objetivas da realidade, mas, sobretudo, do modo de tais conteúdos, isto é, as bases sobre as quais os grupos como o sujeito representa essa vão construindo os sentidos acerca dos diferentes objetos c) Função ao compartilhar uma sociais. A pesquisa em representação social exige que o representação social um grupo pode ser definido e diferenciado pesquisador compreenda o processo de construção do do outro grupo. Assim, a representação social possibilita uma conhecimento do senso comum, em outras palavras, é identidade grupal por permite a diferenciação necessário analisar os processos de objetivação e ancoragem grupal. Por outro lado, o sujeito que compartilha uma subjacentes às representações sociais. Isso abre, por representação social com um grupo determinado sente-se consequência, uma enorme leque de possibilidades como pertencente aquele grupo e não a outro. metodológicas no estudo desse d) Função justificadora: as representações sociais servem 34 35</p><p>Referências bibliográficas Jodelet, Denise (1989) (dir.). Les représentations sociales. Paris: P.U.F. Abric, Jean-Claude (1987) compétition et Moscovici, Serge (1976). La Psychanalyse, son image et son représentation sociale, Cousset: DelVal public. Paris: P.U.F. ed.). Abric, Jean-Claude (1994) Pratiques sociales et Moscovici, Serge (1982). The comming era of social représentations, Paris, P.U.F. psychology. Em: J-P Codol & J-P Leyens Cognitive aproaches to social behavior. The Hagne: Nighoff, p. 115- Berger, Peter & Luckmann, Thomas (1973). A construção social 50. da [ The social construction of reality, 1966]. Trad. Floriano de Souza Fernandes. Rio de Janeiro: Vozes. 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