Prévia do material em texto
<p>Marise Nogueira Ramos A PEDAGOGIA DAS COMPETENCIAS: autonomia ou adaptação?</p><p>Marise Nogueira Ramos Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Ramos, Marise Nogueira A pedagogia das competências : autonomia ou adaptação? / A PEDAGOGIA DAS Marise Nogueira Ramos: - São Paulo : Cortez, 2001 COMPETÊNCIAS: Bibliografia. ISBN 85-249-0816-5 autonomia ou adaptação? 1. Educação baseada na competência 2. Educação profissional - Brasil 3. Educação técnica - Brasil I. Título. 01-4927 CDD-370.11 Índices para catálogo sistemático: 1. Competência : Educação : Finalidades e objetivos 370.11 2. Educação baseada na competência 370.11 G CORTEZ EDITORA</p><p>A PEDAGOGIA DAS COMPETÊNCIAS autonomia ou adaptação? Capa: DAC Preparação dos originais: Silvana C. Leite Revisão: Maria de Lourdes de Almeida Composição: Dany Editora Ltda. Coordenação editorial: Danilo A.Q. Morales Nenhuma parte desta obra pode ser duplicada ou reproduzida sem expressa autorização da autora e do editor. by Autora Aos meus pais, Luiz Gonzaga e Maria da Glória, que Direitos para esta edição me ensinaram os mais sólidos valores humanos; com CORTEZ EDITORA quem aprendi a lutar pelo direito de construir dig. Rua Bartira, 217 - Perdizes namente os sonhos por meio do 05009-000 - São Paulo-SP Tel.: (11) 3864-0111 Fax: (11) 3864-4290 Aos meus sobrinhos, Flávio, Eduardo, Laís e Gabriel, e-mail: cortez@cortezeditora.com.br crianças brasileiras, desejando que também conquis- tem o direito de sonhar. Aos trabalhadores, sujeitos históricos dos sonhos co- Impresso no Brasil - outubro de 2001 letivos que ainda podem se</p><p>A PEDAGOGIA DAS COMPETÊNCIAS SUMÁRIO Siglas 1 Prefácio 1 Introdução 1 I. EDUCAÇÃO PROFISSIONAL E QUALIFICAÇÃO: CATEGORIAS HISTÓRICO-SOCIAIS DA FORMAÇÃO HUMANA 2 1. A Formação do Trabalhador sob Capitalismo: Educação Básica e Educação Profissional 2 2. O Conceito de Qualificação e a Noção de Competência: Convergências e Divergências 3 2.1. A Qualificação como Relação Social 4 2.2. A Noção de Competência frente às Dimensões da Qualificação 6 2.2.1. O Deslocamento Divergente: Enfraquecimento das Dimensões Conceitual e Social da Qualificação 6 2.2.2. O Deslocamento Convergente: Fortalecimento da Dimensão Experimental da Qualificação 6 II. A INSTITUCIONALIZAÇÃO DE SISTEMAS DE COMPETÊNCIA: MATERIALIDADE DO DESLOCAMENTO CONCEITUAL 7 1. Bases Econômico-Políticas dos Sistemas de Competência 7</p><p>8 A PEDAGOGIA DAS COMPETÊNCIAS A PEDAGOGIA DAS COMPETÊNCIAS 2. Bases Teórico-Metodológicas dos Sistemas de IV. A NOÇÃO DE COMPETÊNCIA COMO ORDENA- Competência 80 DORA DAS RELAÇÕES DE TRABALHO 171 2.1. Os Subsistemas de Competência Profissional: 1. A Competência como Pressuposto e Resultado da Normalização, Formação, Avaliação e Certificação Organização Qualificante: Do Trabalho Alienado ao de Competências 81 Trabalho Comprometido? 177 2.2. As Matrizes de Investigação dos Processos de 1.1. Outras Abordagens da Noção de Competência Trabalho 89 Apropriadas à Gestão Qualificante do Trabalho 186 2.2.1. As Tendências Hegemônicas: Condutivismo 1.2. A Tensão entre a Competência e a Qualificação e Funcionalismo 89 na Gestão do Trabalho 191 2.2.2. O Construtivismo Francês 94 2. Do Trabalho Comprometido ao Comportamento Adaptado: a Pertinência Gestionária da Noção de 2.2.3. Entre Funcionalismo e Construtivismo: Competência Dentro e Fora da Empresa 197 O Caso Australiano 99 2.1. A Empregabilidade: Autonomia Dirigida e 3. Um Recorte Internacional dos Sistemas de Adaptação Regulada 205 Competência 101 V. A NOÇÃO DE COMPETÊNCIA COMO 3.1. Sistemas com Institucionalidade Impulsionada ORDENADORA DAS RELAÇÕES EDUCATIVAS 221 pelos Governos: Reino Unido, Austrália, México 1. A Pedagogia das Competências em sua Dimensão e Espanha 103 Psicológica 223 3.2. Sistema com Institucionalidade Impulsionada 2. A Pedagogia das Competências em sua Dimensão pelo Mercado: Estados Unidos 107 Sócio-Econômica 236 3.3. Sistemas com Institucionalidade Impulsionada 2.1. A (Re)Construção Social das Identidades pelos Sujeitos Sociais: Alemanha, França e Profissionais e os Processos Educativos 239 Canadá 108 3. As Implicações Curriculares suscitadas pela 4. A Institucionalização dos Sistemas de Competência Pedagogia das Competências 257 na América Latina 112 3.1. A Pedagogia das Competências: Construtivismo III. A NOÇÃO DE COMPETÊNCIA NA REFORMA DO e Apreensões Subjetivas da Realidade 274 ENSINO MÉDIO E DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL CONCLUSÕES 281 DE NÍVEL TÉCNICO NO BRASIL 125 1. A Noção de Competência na Reforma da Educação REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 305 Brasileira: a Identidade do Ensino Médio 126 2. A Noção de Competência na Reforma da Educação Brasileira: a Identidade da Educação Profissional de Nível Técnico 144 2.1. A Determinação Psicológico-Subjetiva da Noção de Competência na Reforma Educacional Brasileira 160</p><p>A PEDAGOGIA DAS COMPETÊNCIAS 17 LISTA DE SIGLAS ABENDE - Associação Brasileira de Ensaios ABRAMAN - Associação Brasileira de Manutenção A CAP - Accord du Conduite et Activité Professionnel AMOD - A Model ANPEd Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação BID - Banco Interamericano de Desenvolvimento BIRD Banco Internacional de Reconstrução para o CBET Competence Based Education and Training CEB - Câmara de Educação Básica CEFET - Centro Federal de Educação Tecnológica CEQUAL - Centro de Qualificação CEREQ - Centre du Recherché et Études sur les Qualifications CINTERFOR Centro Interamericano de Investigação e Documentação sobre Formação Profissional CNE Conselho Nacional de Educação CNI Confederação Nacional das Indústrias CONET - Congresso de Educação Tecnológica CONOCER - Conselho Nacional de Educação Profissional (México) CSN - Conselhos Setoriais Nacionais (Canadá) DACUM - Developing the Curriculum ENEM - Exame Nacional do Ensino Médio ETF - Escola Técnica Federal FAT Fundo de Amparo ao Trabalhador FBTS - Fundação Brasileira de Soldagem FIESP Federação das Indústrias do Estado de São Paulo FIRJAN - Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro FMI - Fundo Monetário Internacional</p><p>12 A PEDAGOGIA DAS COMPETÊNCIAS 13 FUNDEF - Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério INEM Instituto Nacional de Emprego (Espanha) INET Instituto Nacional de Educação Tecnológica (Argentina) LDBEN e LDB Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional LOGSE Lei Orgânica de Ordenação Geral do Sistema Educacional (Espanha) MEC Ministério da Educação MEN Ministério da Educação Nacional (França) MCT - Ministério de Ciência e Tecnologia MERCOSUL Mercado Comum do Sul MTb Ministério do Trabalho PREFÁCIO MTE Ministério do Trabalho e Emprego NAFTA North American Free Trade Agreement NCVQ National Vocational Qualification Council (Reino Unido) Em todos os momentos históricos que se experimentam NVQ National Vocational Qualification (Reino Unido) mudanças profundas na materialidade das relações sociais nos OCDE Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico âmbitos econômico, cultural e político entram em eferves- PCN Parâmetros Curriculares Nacionais cência os embates teóricos e ideológicos e reformam-se os PBQP Programa Brasileiro de Qualidade e Produtividade processos de formação humana e concepções Es- PCI Programa de Competitividade Industrial tas mudanças podem ter um sentido de avanço em termos de PIB - Produto Interno Bruto ganhos para a humanidade ou de retrocesso. PL Projeto de Lei O tempo histórico que vivemos neste final do século XX PLANFOR Programa de Formação Profissional e início do século XXI traz, inequivocamente, a marca do re- PNQC - Programa Nacional de Qualificação e Certificação trocesso da ideologia neoliberal, do processo de mundialização PPO - Pedagogia por Objetivos PROEP Programa de Expansão da Educação Profissional do capital e a exponencial concentração da riqueza, apropria- PROFAE Programa de Profissionalização de Auxiliares de ção privada da ciência e tecnologia subordinada à lógica do Enfermagem mercado e ampliação dos processos de cisão do RCN Referenciais Curriculares Nacionais gênero humano e aumento da desigualdade social. Um tempo SAC Subsistema de Avaliação de Competências de vingança do capital contra as barreiras ao livre mercado e SCID Systematic Curriculum Instructional Developing às conquistas históricas da classe trabalhadora. O capital, na SCANS - Secretarys Commission on Achieving Necessary Skills avaliação do filósofo Iztvan Mézáros, esgotou sua capacidade SCC Sistema de Certificação de Competências civilizatória e agora para prosseguir tem que destruir os direi- SEFOR Secretaria de Formação e Desenvolvimento Profissional tos dos trabalhadores. SEMTEC Secretaria de Educação Média e Tecnológica No plano ideológico O ideário que se afirma de todas as SENAI Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial formas, mormente mediante as poderosas redes de informa- SENA Serviço Nacional de Aprendizagem (Colômbia) SES Section de Éducation Spécialisé ção, é de que estamos iniciando um novo tempo- tempo da globalização, da modernidade competitiva, de reestrutu- UNESCO Oficina para Educação e Cultura das Organizações Unidas ração produtiva e de reengenharia - e do qual estamos defa- sados e devemos irreversivelmente nos ajustar. Este ajusta- mento pressupõe conter e restringir a esfera pública e efeti-</p><p>PREFÁCIO 15 14 A PEDAGOGIA DAS COMPETÊNCIAS var-se de acordo com as leis da competitividade do mercado "governabilidade", "empregabilidade", "underclass" e exclu- são; nova economia e "tolerância zero", "comunitarismo", mundial. A queda do muro de Berlim em 1989 e, nos anos "multiculturalismo" e seus primos pós-modernos, "etnicidade", seguintes, colapso do socialismo real, serviram de sofisma "identidade", "fragmentação" etc. (id., ibid., p. 1). de composição para afirmar credo neoliberal. A tese mais emblemática e cínica do pensamento neoconservador foi afir- O contexto acima vem se concretizando de forma diver- mada por Fukuyama como sendo "fim da histórica". Vale sa em diferentes formações sociais. A sociedade brasileira, dizer, fim de qualquer perspectiva alternativa ao capitalis- paradoxalmente, experimentou na década de 80 um rico pro- mo. cesso de luta pela redemocratização, após um longo período Trata-se, como assinalam Bourdieu e Wacquant (2000, de ditadura civil-militar, cuja direção confrontava O ideário pp. da produção de uma nova vulgata no âmbito plane- neoliberal. A organização de parte da sociedade civil novo tário: sindicalismo, movimentos sociais, emergência de um partido popular de massa comprometida com as lutas históricas "Como todas as mitologias da idade da ciência, a nova vulgata pela superação de relações sociais que vêm mantendo Bra- planetária apóia-se numa série de oposições e equivalências, sil como uma das sociedades mais injustas e desiguais do que se sustentam e contrapõem para descrever as transforma- mundo, logrou ganhos significativos na afirmação de direitos ções contemporâneas das sociedades avançadas: desengaja- econômicos, sociais e subjetivos no texto da constituição de mento econômico do Estado e ênfase em seus componentes 1988. É neste contexto que se afirma a perspectiva da am- policiais e penais, desregulamentação dos fluxos financeiros e desorganização do mercado de trabalho, redução das prote- pliação do espaço público e da escola pública, gratuita, laica, ções sociais e celebração modernizadora da unitária e universal. Ganhou por outro lado, amplo espaço individual". debate da formação humana omnilateral, tecnológica ou poli- técnica. Como e, ao mesmo tempo, reforço, afir- A década de 90, todavia, reiterou uma espécie de castigo ma-se com uma força extraordinária a ética individualista. de Sísifo que nos assola historicamente. Com governo Collor No campo pedagógico esta ética manifesta-se sob as noções de Mello ensaia-se um projeto hegemônico para integrar de de competência, competitividade, habilidade, qualidade to- forma subordinada e aviltante Brasil à nova (des)ordem tal, empregabilidade, mas que no âmbito social mais amplo mundial dentro do ideário da globalização. O impeachement se define por noções constitutivas de um suposto novo de Collor foi a expressão de sua incapacidade política de afir- paradigma pós-industrial, pós-classista, pós-moderno, etc. mar este projeto. O grupo político que sucedeu, tendo Trata-se, como nos mostram os autores acima, de um jargão Fernando H. Cardoso como Presidente, é que teve a compe- ideológico dentro do invólucro de uma novlange: tência para denominado ajuste sob a férrea doutrina dos organismos internacionais. Como nos analisava Florestan em todos os países avançados, altos funcionários in- Fernandes (1991, p. 36), trata-se de uma política que decreta ternacionais, intelectuais de projeção na mídia e jornalistas de a continuidade de um Brasil "gigante de pés de barro. Nação primeiro escalão se puseram em acordo em falar uma estranha com história, mas determinada lá fora. Com antigos escravos novlange cujo vocabulário, aparentemente sem origem, está e seus descendentes prosseguiremos presos a uma liberdade em todas as bocas: "globalização", "flexibilidade", ilusória que é, por si só, uma terrível escravidão". As conquistas da década de 80 foram uma a uma anula- das em nome do ajuste da economia, mediante os mecanis- 1. BOURDIEU, P. & WACQUANT, L. A nova bíblia do Tio Sam. Jornal Le Monde Diplomatique, edição brasileira, ano 1, n. 4, agosto de 2000. mos da desregulamentação, descentralização, flexibilização e</p><p>16 A PEDAGOGIA DAS COMPETÊNCIAS privatização. Os debates dos educadores durante uma década profunda feita no Brasil e na América Latina sobre a noção e suas formulações e propostas para a nova Lei de Diretrizes e de competência e sua relação com o campo educativo e ou- Bases da Educação e, posteriormente, para o Plano Nacional tros desdobramentos no âmbito do mundo do trabalho, cam- de Educação, não eram compatíveis com ideologia e políticas po sindical e dos homens de negócio. Mais especificamente, do ajuste e, por isso, foram duramente combatidas e rejeita- analisa a materialidade das condições societárias, no âmbito das. Instaura-se uma reforma educativa autoritária e em con- econômico, político, cultural e ideológico, onde se gesta se sonância com ajuste neoliberal tanto no plano institucional desenvolve que denomina de deslocamento conceitual da quanto no plano da concepção educativa. qualificação e formação humana para o modelo das compe- No plano institucional a educação de direito social e tências. subjetivo de todos passa a ser cada vez mais encarada como A pertinência da análise que empreende de forma clara um serviço a ser prestado e adquirido no mercado ou e densa se origina de uma dupla inserção da utora nos emba- filantropia. As campanhas de adote uma escola, amigo da es- tes do campo educacional nas últimas décadas: no plano da cola e, agora, do voluntariado, explicitam a substituição de disputa das concepções educativas e seus fundamentos teóri- políticas efetivas por campanhas filantrópicas. cos e ético-políticos e no âmbito da definição da política, O parâmetro do mercado para a qualidade do ensino mormente da Educação Técnica e Profissional. O livro estru- evidencia de forma mais profunda e, por isso, radical, a tura-se em cinco apiítulos articulados. Um capítulo inicial, dominância do pensamento privatista como diretriz educa- no qual a autora expõe e discute as categorias centrais cional. A implementação da Reforma do Ensino, mediante os constitutivas do deslocamento conceitual: a concepção de parâmetros curriculares e os mecanismos de avaliação (ENEM, qualificação como relação social e a noção de competência O SAEB e Provão) ao eleger como perspectiva a pedagogia das segundo e terceiro capítulos expõem eixo sócio-empírico, competências para a empregabilidade, assume o ideário evidenciando como este deslocamento se configura no âmbi- particularista, individualista e imediatista do mercado e dos to internacional e nacional. No quarto e quinto capítulos a empresários como perspectiva geral do Estado. autora analisa eixo teórico-filosófico dentro do qual a noção Esta perspectiva pedagógica individualista, como assi- de competência vem ordenando as relações de trabalho e as nalamos acima, é coerente com ideário da desregulamen- relações educativas. Finalmente, no capítulo conclusivo, com tação, flexibilização e privatização e com desmonte dos di- base em sua perspectiva dialética de análise, resgata a dimen- reitos sociais ordenados por uma perspectiva de compromis- são utópica, evidanciando caráter limitado desta noção e a social coletivo. Cada indivíduo terá de agora em diante, necessidade de se ter como noção fundamental a de qualifi- então, de adquirir um banco ou pacote de competências dese- cação como relação social e, mais amplamente, de formação jadas pelos homens de negócio no mercado empresarial, per- humana articulada a um projeto alternativo de sociedade. manentemente renováveis, cuja certificação lhe promete Trata-se de resgatar como centro dos processos educativos empregabilidade. Da certificação por competências transita- ser humano como parâmetro e não mercado. Isto nos con- se para contrato por competências, reduzindo o contrato de duz a perceber que permanece atual a concepção e luta pela trabalho a um contrato civil como qualquer outro. escola unitária, tecnológica e politécnica. É dentro deste amplo debate das mudanças sociais e Trata-se, pois, de um livro que servirá de base para uma educacionais das últimas décadas que se situa livro de profunda análise crítica ao ideário pedagógico das reformas Marise Nogueira Ramos, A Pedagogia das Competências: Au- educativas dominantes no Brasil e na América Latina que tonomia ou que tenho a alegria e honra de pre- permeiam os diferentes níveis de ensino e, especialmente, faciar. Trata-se certamente da análise crítica mais ampla e âmbito da educação técnico-profissional. Uma obra obrigató-</p><p>18 A PEDAGOGIA DAS COMPETÊNCIAS INTRODUÇÃO 19 ria como referência para professores do ensino fundamental, médio e superior, para sindicatos e grupos que atuam com processos educativos e de formação junto aos trabalhadores e que resistem às concepções educativas impostas pelo ideário neoliberal. Mais do que isso, o leitor encontrará, também, os elementos básicos que fundamentam propostas educativas alternativas para uma sociedade efetivamente democrática e solidária. Gaudêncio Frigotto A cultura do simulacro entrou em circulação em uma sociedade em que o valor de troca se generalizou a tal ponto que mesmo a lembran- ça do valor de uso se apagou. Jameson, 1996, p. 45. Este livro apresenta um estudo sobre a noção de compe- tência. Não encerrada em si mesma, mas como noção que surge com objetivo de responder a necessidades teóricas e empíricas postas pela realidade. Por isto, analisamos a noção de competência no sentido em que ela reafirma e nega o con- ceito de qualificação, com qual disputa espaço no ordena- mento teórico-empírico das relações que a têm como referên- cia e, por isto, o desloca. Ao mesmo tempo, colocamos tam- bém a noção de empregabilidade em foco, com o objetivo de demonstrar que, em conjunto, essas noções contribuem para uma elaboração ideológica que explica a questão social do ponto de vista do sujeito individual. Nesse sentido, nosso objeto de estudo se amplia para além da competência, pas- sando a ser o deslocamento conceitual da qualificação à com- petência. Mas esse deslocamento não ocorre unicamente no pla- no teórico, nem se limita às políticas educacionais ou de trabalho. Ainda que o deslocamento adquira materialidade, essas políticas compõem uma rede complexa de relações, em que as leis da economia e da sociedade, as</p><p>20 A PEDAGOGIA DAS COMPETÊNCIAS INTRODUÇÃO 21 filosofias e as ciências, resultam da ação e da interação hu- Como categorias específicas tomamos os conceitos de manas e podem ser transformadas pelos indivíduos. Essas qualificação como relação social e de educação profissional, transformações são resultados de disputas entre diferentes situando-os como mediações no processo de reprodução his- concepções de mundo que pretendem ter a hegemonia. tórica da existência humana. A construção teórica que faz Assim, procuramos apreender a essência do deslocamen- Schwartz (1995), sobre a dimensões conceitual, social e expe- to conceitual, seus motivos e seus significados, tomando-o, pri- rimental da qualificação foi a que nos possibilitou organizar a meiro, como um fenômeno histórico; segundo, como mediação relação entre o significado da qualificação e da competência, de uma totalidade; terceiro, como processo contraditório e que, bem como suas convergências e divergências. Sabemos que por isto, não está definitivamente determinado em favor da clas- essa opção não seria a única nem, necessariamente, a melhor. se dominante. Pode, sim, ser reapropriado pela classe traba- Entretanto, após perseguir um referencial adequado, a partir lhadora a partir de seus motivos e conferindo-lhe seus signifi- deste conseguimos formular as interrogações que faríamos à cados. Para isto, porém, é necessário enxergar esse fenômeno noção de competência nas suas diversas apropriações. no movimento do real e encará-lo como questão política. A educação profissional foi tomada efetivamente como Historicidade, totalidade e contradição, foram nossas categoria de análise e não como política econômico-social. categorias gerais, compreendidas como pressupostos da aná- Em outras palavras, a educação profissional, à medida que lise concreta do real. A historicidade indica que tudo que explicita a função econômica da educação, permitiu-nos situ- existe está em contínua transformação, de modo que nenhum ar deslocamento conceitual em relação às categorias gerais, fato ou situação é imutável. Tal como o conceito de qualifica- ou seja, na sua historicidade, totalidade e contradição. ção tem sido continuamente redefinido, a noção de compe- Em nossa exposição, primeiro capítulo contemplará a tência pode ser também ressignificada resgatando, simulta- discussão de nosso referencial teórico-analítico mediante a neamente, a importância de se compreender a qualificação análise dessas categorias. A partir disto, estruturamos este li- como relação social. em três eixos fundamentais: sócio-empírico, teórico-filo- A categoria totalidade, como nos explica Lowy (1985, e utópico. p. 16), "significa a percepção da realidade social como um Em torno do eixo sócio-empírico organizaram-se o se- todo orgânico, estruturado, no qual não se pode entender gundo e o terceiro capítulos. No segundo capítulo apreende- um elemento, um aspecto, uma dimensão, sem perder a sua mos deslocamento da qualificação à competência em nível relação com conjunto". Por isto insistimos em analisar a internacional, analisando as políticas de educação profissio- noção da competência no âmbito do deslocamento conceitual nal em alguns países da Europa, América do Norte e América e este em face das mudanças que se processam na produção Latina. No terceiro capítulo esforçamo-nos para identificar e na cultura. como deslocamento conceitual se efetua no Brasil, a partir O desenvolvimento histórico da sociedade, entendendo- da apropriação da noção de competência pela reforma do en- a como um todo articulado e interdeterminado um bloco sino médio e do nível técnico da educação profissional. Indi- histórico se dá num movimento contraditório entre forças camos algumas mediações e contradições presentes nessa e relações de produção que leva à contradição entre as classes apropriação. sociais. Portanto, a formação social implica a luta entre ideo- O segundo eixo chamamos de que or- logias, sendo que essa luta é determinada, principalmente, ganizou quarto e o quinto capítulos, por meio do qual veri- pelas relações e interesses econômicos. Por isto, identifica- ficamos como a noção de competência tem ordenado as rela- mos o deslocamento conceitual como questão política a ser ções de trabalho e as relações educativas, considerando-se os disputada também pela classe trabalhadora. contextos econômico-político e sociocultural</p><p>22 A PEDAGOGIA DAS COMPETÊNCIAS INTRODUÇÃO 23 neos. Inicialmente, no quarto capítulo, dedicamos nossa aten- conceitual dinâmico e contraditório da qualificação à compe- ção ao ordenamento das relações de trabalho pela noção de tência, na relação trabalho-educação. competência, quando essa noção foi vista principalmente sob Essas conclusões foram ordenadas em torno do eixo de a ótica da gestão da produção. Também elucidamos a relação análise denominado utópico. Demonstramos os limites da entre competência e empregabilidade mediante o que se defi- noção de competência sob a perspectiva da formação huma- ne como empresa qualificante e empresa aprendiz. na, indicando a necessidade de ressignificá-la coerentemente No quinto capítulo, dedicamo-nos à análise das relações com uma concepção de mundo que tenha a transformação da educativas sob ordenamento da noção de competência. Nos- realidade da classe trabalhadora como projeto. Mesmo so foco, nesse momento, voltou-se para a relação entre as di- ressignificada, recomendamos tomar essa noção de forma su- mensões psico-pedagógicas e da competên- bordinada ao conceito de qualificação como relação social. cia, quando resgatamos a construção das identidades profis- Este, por situar a relação trabalho-educação no plano das con- sionais e definimos que chamamos de código ético-político tradições engendradas pelas relações sociais de produção, da profissão ou profissionalidade de tipo liberal. Procuramos possibilita melhor compreender as condições levantar as implicações curriculares suscitadas pela noção de cas da classe trabalhadora, que é essencial para se construir competência e apresentar indicações sobre a função que as- um projeto de formação humana segundo a concepção histó- sume a educação sob essa nova lógica. rico-social de homem. Reafirmamos, por fim, que horizonte Toda a discussão aqui exposta é atravessada pelas se- educativo a ser perseguido deve ter a formação omnilateral dos guintes perguntas: a) a noção de competência compõe con- indivíduos como propósito ético-político e deve construir-se junto de novos signos e significados talhados pela pós-moder- como realidade na forma da Escola Unitária. nidade? b) a apropriação econômica de uma noção originária O amplo escopo deste trabalho demonstrou-nos uma di- da psicologia conferiria à educação papel de adequar psico- versidade de enfoques sob os quais a noção de competência logicamente os trabalhadores aos novos padrões de produ- deve, ainda, ser analisada. Privilegiando-se as relações de tra- ção? c) o novo senso comum teria um caráter neoconservador balho, assinalamos anteriormente um dos desafios: proceder e neoliberal, considerando-se que as relações de trabalho a uma análise sociológica comparada dos sistemas de compe- atuais e os mecanismos de inclusão social pautam-se pela com- tência de diferentes países, captando-se as mediações históri- petência individual? cas, políticas, econômicas e culturais que conferem a esses As conclusões responderam positivamente a essas per- sistemas características específicas. Outro desafio seria anali- guntas, posto ter-se identificado que os significados conferi- sar a apropriação dessa noção no interior das empresas, iden- dos à noção de competência, independentemente da forma tificando-se objetivas nas relações trabalhis- como adquirem materialidade, fundamentam-se em uma con- tas e na conformação da subjetividade dos trabalhadores. Esse cepção natural-funcionalista de homem e subjetivo-relativista tipo de análise poderia ser feita, ainda, sob a ótica de diferen- de conhecimento, que reforça O irracionalismo pós-moderno tes sujeitos sociais, tais como sindicatos, empresas, governos, nas suas principais características. A análise de sistemas de organismos multilaterais, dentre outros. competência profissional permitiu também concluir que, Privilegiando-se, por outro lado, as relações educativas, metodologicamente, sua institucionalização ancora-se na Te- campo do currículo seria próprio para situar uma análise oria Funcionalista, atualizada pela Teoria Geral dos Sistemas. sobre a noção de competência, do ponto de vista psicológico, Constatamos, ainda, a existência de um movimento sociológico ou epistemológico. No primeiro caso, a noção de neo de reafirmação e negação do conceito de qualificação pela competência deveria ser analisada no âmbito das teorias da noção de competência, que se processa como um deslocamento aprendizagem, elucidando-se os limites das pedagogias psi-</p><p>24 A PEDAGOGIA DAS COMPETÊNCIAS A PEDAGOGIA DAS COMPETÊNCIAS 25 cológicas com as quais a noção de competência guarda coe- rência. A sociologia do currículo, por sua vez, conjugada com um enfoque epistemológico, poderia explicitar confronto entre competências e disciplinas e, também, verificar como a pedagogia das competências adquire concreticidade no inte- rior das escolas e das instituições de formação. De nossa parte, tentamos produzir um trabalho que, não se detendo sobre nenhum desses recortes específicos, pro- curou dar visibilidade aos determinantes mais gerais e signi- ficativos do deslocamento conceitual da qualificação à com- petência. Por isso mesmo, caminhamos pela fértil interface lavrada pela relação trabalho-educação, na qual a noção de competência situa-se como uma nova mediação ou como uma EDUCAÇÃO PROFISSIONAL E QUALIFICAÇÃO: mediação renovada pela acumulação flexível do capital. Pro- curamos entender a noção de competência não como idéia categorias histórico-sociais da formação humana cujo sentido poderia ser debatido ou mesmo revisto também no campo das idéias mas como fenômeno. Portanto, como algo concreto que manifesta e esconde uma essência produzi- "Mas a essência humana não é uma abstração inerente ao indivíduo singular. Em sua realida- da pelas relações sociais de produção. de, é conjunto das relações sociais". Marx, 1991, p. 13. Neste capítulo pretendemos, inicialmente, reafirmar a concepção de homem como um ser histórico-social, com- preendendo a formação humana como um processo histórico e contraditório por meio do qual os indivíduos tomam cons- ciência de si e das relações sociais das quais são sujeitos. A partir desse posicionamento, recuperaremos a discussão so- bre o surgimento da educação moderna, situando-a no plano de disputa entre os projetos da classe tra- balhadora e da classe burguesa e, ainda, no interior dos pró- prios projetos desta última classe. Recuperaremos, também, debate relativo ao conceito de qualificação, ordenando-o de modo a elucidar os determinantes que fazem da qualificação um conceito cujo significado constrói-se historicamente e, por isto, mantém-se inacabado. Veremos que, no confronto com a noção de competên- cia, algumas das dimensões do conceito de qualificação são enfraquecidas, ao mesmo tempo em que se reforçam os as-</p><p>A PEDAGOGIA DAS COMPETÊNCIAS 27 26 A PEDAGOGIA DAS COMPETÊNCIAS pectos associados à subjetividade do trabalhador aos quais a vida genérica seja uma vida individual mais particular ou geral". 1978, p. 10). noção de competência daria maior expressividade. A reflexão realizada neste capítulo fundará nosso referencial teórico-ana- O processo de formação humana pressupõe desenvol- lítico a partir do qual se dará a construção dos capítulos pos- vimento do indivíduo como particularidade e como generali- teriores. dade, ou seja, como ser social individual, que reúne em si "o modo de existência subjetivo da sociedade pensada e sentida 1. A Formação do Trabalhador sob o Capitalismo: Educação Básica e para si, do mesmo modo que também na efetividade ele exis- Educação Profissional te tanto como intuição e gozo efetivo do modo de existência social, quanto como uma totalidade de exteriorização de vida A questão sobre a formação do homem em sua totalida- humana"(ibid. p. 10). Dessa forma, esse processo visa pro- de, perante modo de produção capitalista, é central para a mover a possibilidade de homem desenvolver-se e apropriar- compreensão das relações sociais e sua possível transforma- se do seu ser de forma global, de todos os seus sentidos e ção. À medida que trabalho industrial foi-se tornando mais potencialidades como fonte de gozo e de realização. complexo, esse tema passou a atravessar os debates sobre Sob O modo de produção capitalista, os sentidos huma- educação e O conceito de qualificação adquiriu importância nos foram subjugados à lógica da propriedade privada, que sociológica. atrela gozo e a realização à posse dos objetos como capital O homem produz sua existência por meio do trabalho e, valorizáveis e geradores de lucro ou como meio de sub- por meio deste, entra em contato com a natureza e com ou- sistência socialmente determinado destinados à satisfação tros homens, desenvolvendo relações econômicas e sociais. de necessidades de diversas ordens. Igualmente, as potencia- Assim sendo, analisar formas, processos e perspectivas que a lidades humanas físicas, intelectuais e emocionais fo- formação humana adquire na sociedade capitalista implica ram alienadas do homem e apropriadas pela classe capitalista investigar as múltiplas formas que toma trabalho coletivo e como mercadoria força de trabalho. O modo como o homem age e se modifica ao se constituir em parte desse trabalho. "[Na propriedade privada] cada indivíduo especula sobre É preciso, inicialmente, dizer que compreendemos por modo de criar no outro uma nova necessidade para obrigá-lo a formação humana O processo de conhecimento e de realiza- um novo sacrifício, para levá-lo a uma dependência, para ção individual, que se expressa socialmente e que ultrapassa desviá-lo para uma nova forma de gozo e, com isso, da ruína a dimensão do agir unicamente determinado pela necessida- Cada qual trata de criar uma força essencial estra- nha sobre O outro, para encontrar assim satisfação para seu de de subsistência. Marx, nos Manuscritos Econômico-Filosó próprio carecimento egoísta. Com a massa de objetos cresce, ficos, afirma: pois, reino dos seres alheios aos quais homem está subme- tido e cada novo produto é uma nova potência do engano recí- "o indivíduo é um ser social. A exteriorização da sua vida proco e da pilhagem recíproca. O homem torna-se cada vez ainda que não apareça na forma imediata de uma mais pobre enquanto homem, precisa cada vez mais do di- exteriorização de vida coletiva, cumprida em união e ao mes- nheiro para apossar-se do ser inimigo, e poder do seu di- mo tempo com outros é, pois, uma exteriorização e confir- mação da vida social. A vida individual e a vida genérica do nheiro diminui em relação inversa à massa da produção: isto homem não são distintas, por mais que, necessariamente, é, seu carecimento cresce quando poder do dinheiro aumen- modo de existência da vida individual seja um modo mais ta (...). A quantidade de dinheiro torna-se cada vez mais sua particular ou mais geral da vida genérica, ou quanto mais a única propriedade dotada de poder" (ibid., p. 16).</p><p>28 A PEDAGOGIA DAS COMPETÊNCIAS A PEDAGOGIA DAS COMPETÊNCIAS 29 Sendo assim, os processos sociais de formação humana o nível de complexificação do trabalho e orientam ações sob o modo de produção capitalista são a relação dialética de organizadas no plano tanto da sociedade civil quanto da soci- subsunção do homem ao capital e a luta contra essa mesma edade política. Essa dialética é expressão da objetivação da es- A importância da relação trabalho-educação se justifica sência humana, que se realiza pelo trabalho na sua dimensão porque justamente a partir dela a formação humana configu- concreta e abstrata, quando o homem tanto se reconhece como ra-se como processo contraditório e marcado pelos valores sujeito, quanto pode se perder no seu próprio objeto. capitalistas. Esse processo, à medida que se institucionaliza, forja categorias apropriadas para defini-lo socialmente, como, "O homem só não se perde em seu objeto quando este se con- por exemplo: educação básica, formação profissional, educa- figurar como objeto humano ou homem objetivado. E isso so- ção profissional, qualificação profissional. mente será possível quando se lhe configurar como objeto so- cial e quando ele mesmo se configurar como ser social, assim A educação básica consolidou-se como categoria do pen- como a sociedade se configurará nesse objeto como ser para samento liberal, pelo menos enquanto direito formal dos po- ele. Assim, enquanto, de um lado, para o homem em socieda- vos, ainda que não tenha sido historicamente universalizada de a efetividade objetiva se configura em geral como efetividade e assegurada a todos os indivíduos. Concebida a educação das forças essenciais humanas, como efetividade humana e como forma de socializar os indivíduos de acordo com valo- por isso como efetividade de suas próprias forças essenciais, res e padrões culturais e ético-morais de uma determinada todos os objetos se lhe apresentarão como objetivação de si sociedade e meio de socializar de forma sistemática os conhe- próprio, como objetos que confirmam e efetivam sua indivi- cimentos científicos construídos pela humanidade, direito dualidade, como seus objetos, isto é, objeto vem a ser ele a ela consta como condição necessária para o exercício da mesmo" (ibid., p. 12). cidadania, de acordo com os princípios liberais. Isso quer dizer que nos processos de produção estão em Adquirindo uma característica social, o ensino, que du- jogo tanto as forças subjetivas do indivíduo, potencialmente rante a aristocracia se realizava particularmente no seio das capazes de produzir sua própria existência, desde que libera- próprias famílias, passa a contar com espaços coletivos: as do do jugo capitalista, quanto as forças objetivas estranhas a escolas. A gênese histórica da escola, como espaço ele, forças essas determinadas pelo movimento constante de institucional de realização dos fins acima mencionados, dá- valorização do capital, que promove a separação entre esse se, portanto, ao longo do século XVIII e coincide com ad- mesmo indivíduo e produto de seu trabalho. De forma sim- vento da Ciência Moderna e do Estado Moderno. Nesse perío- ples, o fundamento dessa dialética é sentido que toma a do, a sociedade está se produzindo por meio da cooperação e relação sujeito-objeto: homem se objetiva para ele ou para da manufatura, necessitando de um novo saber e de uma nova capital. Enquanto se objetiva para capital, sua educação. A educação das populações é condição necessária é pelo capital apropriada e homem não se reconhece como para laicizar o saber, a moral e a política, separando nitida- sujeito. mente fé e razão, natureza e política e igreja. A formação humana é expressa, portanto, pelas formas Pautando-se pela igualdade natural entre os homens, históricas que adquire essa luta, na qual atua um conjunto de discurso pedagógico burguês é de uma educação de base para sujeitos coletivos, representantes das classes fundamentais todos, formadora do cidadão. A pedagogia moderna se origi- burguesia e trabalhadores cada qual com objetivo de na da totalidade de questões políticas centrais no Iluminismo, configurá-la, respectivamente, sob a ótica do capital ou sob a que giram em torno da origem do poder, de sua legitimidade, ótica do trabalho. Essa luta é orientada segundo as categorias das formas de governo, da soberania do Estado e do povo, da básicas das relações sociais de produção a divisão social e participação e da cidadania.</p><p>30 A PEDAGOGIA DAS COMPETÊNCIAS A PEDAGOGIA DAS COMPETÊNCIAS 31 A educação moderna vai-se configurando nos novos con- O projeto burguês passa pela transformação da proprie- frontos sociais e políticos, ora como um dos instrumentos de dade, pela libertação das forças produtivas e pelo estabeleci- conquista da liberdade, da participação e da cidadania, ora mento de formas de organização social e política capazes de como um dos mecanismos para controlar e dosar os graus de banir qualquer entrave ao progresso econômico. As teorias da liberdade, de civilização, de racionalidade e de submissão economia política refletiram a interpretação da nova realida- suportáveis pelas novas formas de produção industrial e pe- de e estiveram mais próximas do projeto burguês do que O las novas relações sociais entre os homens. Em outras pala- racionalismo ilustrado, tanto que Adam Smith, em a Riqueza vras, desde século XVIII, ela se insere no plano de luta das Nações, expõe seu pensamento sobre educação, ao tratar hegemônica, devido à sua dimensão socializadora e de for- dos gastos do Estado. Justifica a necessidade de educação em mação de consciências que prevalece inicialmente, já que a função da divisão parcelar do trabalho: seria conveniente que consolidação da cidadania é seu mote principal. Porém, no Estado facilitasse, encorajasse e até mesmo impusesse a projeto da classe burguesa ascendente, essa cidadania é mui- quase toda a população a necessidade de aprender os pontos to mais de caráter formal e delimitada ao direito de proprie- mais essenciais da ler, escrever, contar e rudimen- dade privada e à liberdade. Aos não-proprietários cabia uma tos de geometria e mecânica. Assim, a educação dos trabalha- cidadania restrita: como cidadãos passivos, teriam direito à dores pobres teria por função discipliná-los para a produção, proteção de sua pessoa, de sua liberdade e de sua crença, mas proporcionando à maioria da população somente o mínimo eram qualificados como membros ativos do Estado. necessário para fazer do trabalhador um cidadão passivo que, Filosoficamente, a caracterização do papel social da edu- apesar de tudo, tivesse alguns poucos direitos. cação ao final do século XVIII e no século XIX percorrerá, de Observamos, então, que projeto burguês de educação, um lado, o humanismo e racionalismo ilustrado o que desde o final do século XVIII, já é fortemente marcado pela reforçará a crença na educação como precondição para a par- concepção de educação para as massas como fator de racio- ticipação política do homem comum e, de outro, pensa- nalização da vida econômica, da produção, do tempo e do mento da economia política, que defenderá a educação da ritmo do corpo. Em outras palavras, a educação do trabalha- gente comum, dos trabalhadores, como mecanismo de liber- dor, no projeto burguês, é subsumida à necessidade do capi- tação dos obstáculos que se poderiam opor à marcha tal de reproduzir a força de trabalho como mercadoria. A di- inexorável do progresso econômico. mensão relativa à constituição da classe trabalhadora como O pensamento iluminista entendia as diferenças sociais sujeito de direitos sociais e políticos fica demarcada nos limi- como diferenças de capacidades, resultando daí que a tarefa tes da ordem burguesa. A educação de caráter geral, clássico e científico, destina-se à formação das elites dirigentes. É pre- central seria libertar o homem de si mesmo, tarefa eminente- ciso ressaltar, porém, que essa dualidade não atravessa a his- mente pedagógica. O racionalismo ilustrado, por sua vez, re- tória de forma linear e sem contradições. Ao contrário, a edu- forçava a centralidade da educação e da racionalidade como cação é pensada em relação à cidadania, participação e liber- condição do homem histórico e político. Por outro lado, se a dade no momento em que as massas tinham de ser constituí- classe burguesa não se apoiava na concepção política que das como trabalhadores disponíveis, livres para mercado, e mantivesse a ilustração dos homens, enquanto instrumento os súditos tinham de ser feitos cidadãos livres para a partici- de transformação de uma consciência que poderia modificar pação na cidade, no novo convívio social. A construção da mundo ou construir uma nova ordem, ela também não po- moderna utopia social e política passou a ser impensável sem deria ignorar a conexão entre os planos social, político e eco- a educação, mesmo que esta tivesse de receber as determina- nômico para equacioná-los devidamente a seu favor e cons- ções econômicas que passam a predominar a partir do século truir a ordem capitalista. XX.</p><p>32 A PEDAGOGIA DAS COMPETÊNCIAS A PEDAGOGIA DAS COMPETÊNCIAS 33 Que processos educativos formais se destinam, então, Não obstante, a preparação para o trabalho, ao longo do aos trabalhadores? Se analisarmos do ponto de vista da base tempo, não se esgota no simples binômio disciplina/doutrina. técnica do trabalho que passa a comandar processo produti- A expansão dos mercados e a formação dos Estados Nacio- na grande que levou trabalho à sua máxima nais fizeram emergir levas de imigrantes a alguns países. Além parcialização e simplificação, a educação escolar não seria disso, a extensa migração campo/cidade e outros tantos fato- imediatamente necessária, já que as tarefas podiam ser rapi- res criavam massas de indivíduos que precisavam vender sua damente aprendidas no próprio posto de trabalho. Ao traba- força de trabalho no mercado que, aos poucos, já apresentava lhador que efetivamente operava as máquinas, adicionavam- alguma retração. A sociedade burguesa passou a investir na se ajudantes, na sua maioria, É a perspectiva de criação do exército industrial de reserva. estas últimas virem a ser os futuros trabalhadores adultos que Ao mesmo tempo, a tendência de universalização de um incita a instalação de escolas destinadas menos ao conjunto de técnicas básicas entre indústrias de ramos dife- ensinamento das técnicas de trabalho do que a adaptar essas rentes foi gerando na população a necessidade de dominar crianças à rotina e ao ritmo de trabalho com disciplina e uma certa quantidade de conhecimentos e destrezas para de- docilidade. São as workhouses, que se convertem em Schools senvolver-se em qualquer trabalho ou fora dele, em uma soci- of Industry ou Colleges of Labour, surgidas primordialmente edade que se industrializava e se urbanizava. A aprendiza- na Inglaterra, no século XVIII, que introduzem na cultura gem, portanto, já não podia ocorrer diretamente ou, exclusi- ocidental a prática da formação para trabalho. Como expli- vamente, no próprio local de trabalho, voltando-se às escolas ca Enguita (1989), os projetos de lei que pretendiam assegu- que, aos poucos, passaram a assumir papel não só de socia- rar um mínimo de instrução literária às crianças das classes lização, mas também de transmissão do saber técnico. populares foram sistematicamente rejeitados, durante parte As técnicas que compõem um processo produtivo, à do século XIX, não só na Inglaterra, que já dispunha de um medida que se aprimoraram, condensaram-se em alguns ofí- certo arsenal industrial, como também na França, berço da cios parciais desse mesmo processo e passaram a se consti- ilustração. tuir como básicas mesmo em indústrias de ramos diferentes. O avanço das relações capitalistas de produção, no en- Um novo tipo de saber, menos especializado do ponto de vis- tanto, obrigou a relativizar-se esse cerceamento, já que a pro- ta do produto acabado como no caso do artesanato ou mes- liferação da indústria iria exigir um novo tipo de trabalhador. mo da manufatura mas suficiente para garantir ao traba- Já não bastaria que fosse piedoso e resignado (qualidades de- lhador alguma mobilidade entre as diferentes indústrias e senvolvidas pela religião), embora isto continuasse sendo mesmo no interior delas, vai-se constituindo e adquire, aos necessário. Era preciso também aceitar trabalhar para outro e poucos, caráter profissional, relacionado ao domínio de um fazê-lo nas condições que este outro lhe impusesse. Enguita ofício. Isso, além de tudo, permite aos empregadores estabe- explica que a educação, desde a infância, oferecia a vantagem lecer parâmetros mínimos para a definição do perfil do traba- de poder modelar as crianças (os adultos das gerações seguin- lhador necessário na produção. Assim sendo, O ensino levado tes) desde cedo, de acordo com as necessidades da nova or- a cabo pelas escolas destinadas a formar trabalhadores já não dem capitalista e industrial, as novas relações de produção e visa somente ato de disciplinar, mas conferir ao trabalhador domínio de um ofício. A formação para O trabalho passa a os novos processos de trabalho. significar formação profissional. A emergência das profissões modernas se constitui, então, em da divisão fabril e social do trabalho, hierarquizadas de acordo com as 1. Nogueira (1990), nos cinco primeiros capítulos de seu livro, analisa a ex- ploração e a regulação do trabalho infantil na sociedade industrial emergente. classes sociais a que se destinam operários fabris ou técni-</p><p>34 A PEDAGOGIA DAS COMPETÊNCIAS A PEDAGOGIA DAS COMPETÊNCIAS 35 engenheiros, cientistas, e assim por diante. Esse é ápice tarefas a serem executadas quando trabalhador viesse a da divisão entre trabalho manual e que se verifi- ocupar aquele posto. Essa abordagem contribuiu para a for- ca tanto na sociedade quanto no interior da fábrica. Do ponto mulação dos códigos das profissões e para sua classificação de vista da formação, as profissões passam a ser classificadas no plano da hierarquia social. de acordo com seu nível de complexidade que, por sua vez, A associação do termo qualificação aos processos de tra- se relaciona com nível de escolaridade necessário para balho e ao desenvolvimento do saber profissional e social do desenvolvimento de cada uma delas. trabalhador sob O modo de produção capitalista, consideran- A classificação dos processos de preparação da força de do a relação pedagógica que se estabelece pelo uso dos meios trabalho é característica do modelo taylorista-fordista de or- de produção e pelo contato com outros trabalhadores na ganização da produção no que se refere ao modo de organizar objetivação do trabalho abstrato, ocorreu à medida que se O ensino, seja por via formal e escolar (pela qual se deu, prin- buscou verificar a tendência a ser tomada pelo trabalho não cipalmente, a formação do técnico), seja por ações diretas das só quanto à complexidade/simplicidade, como também aos empresas, realizadas normalmente por seus centros de for- efeitos sobre trabalhador na sua totalidade (ser humano, mação (onde se deu a formação dos operários qualificados). classe social e força de trabalho). Sob essa perspectiva, à qua- Tendo em vista O modo de organização do ensino, em face do lificação do trabalho se associava potencial das relações téc- modo de organização do trabalho, a categoria qualificação nicas e sociais de elevar conhecimento do trabalhador, tan- parece ter tomado vários sentidos. to de ordem explícita quanto tácita. Dessas análises emergi- O uso mais corrente do termo qualificação se relacio- ram as teses da qualificação e desqualificação do trabalho e a nou aos métodos de análise ocupacional, que visavam iden- da polarização das qualificações. Esta última foi uma varian- tificar as características do posto de trabalho e delas inferir te consagrada, durante um longo período de tempo, do deba- perfil ocupacional do trabalhador apto a ocupá-lo. Em ou- te aberto por no início dos anos setenta, em tor- tras palavras, procurava-se identificar que tipo de qualifica- no da desqualificação inelutável, gradual, progressiva, como ção deveria ter O trabalhador para ser admitido num deter- do aprofundamento da divisão do trabalho no minado emprego. Dessa forma, termo qualificação esteve capitalismo. Segundo a tese da polarização das qualificações, associado tanto ao processo quanto ao produto da formação a modernização tecnológica estaria criando, de um lado, uma profissional, quando visto pela ótica da preparação da força massa de trabalhadores qualificados e, de outro, uma massa de trabalho. Nesse sentido, um trabalhador desqualificado de trabalhadores desqualificados (Hirata, 1994). poderia vir a ser qualificado para desempenhar determina- Hirata explica que a qualificação se consolidou como um das funções requeridas pelo posto de trabalho por meio de conceito-chave da sociologia do trabalho, cuja multidi- cursos de formação profissional. Por outro lado, visto pela mensionalidade é ressaltada por autores como D. Kergoat e ótica do posto de trabalho, termo qualificação se relacio- M. Do ponto de vista do capital, entretanto, há a nou ao nível de saber acumulado expresso pelo conjunto de tentativa constante de mantê-lo circunscrito às normas insti- 2. A divisão entre trabalho intelectual e trabalho manual é sempre relativa, uma vez que o trabalho manual, por mais repetitivo que seja, não prescinde 3. BRAVERMAN, H. Travail et Capitalisme Monopoliste. Paris: Maspéro, absolutamente de algum nível de intelectualidade e, muitas vezes, ao trabalho 1976. intelectual também está associado algum nível de trabalho manual. A questão, 4. KERGOAT, D. Les Ouvrières. Paris: Sycomore, 1982 e Qualification et portanto, deve ser analisada mais em termos da quantidade e da qualidade de Division sexuelle du Travail. Revue CFDT Cadres, n. 313, 1984 e FREYSSENET, conhecimentos que são postos em jogo na realização do trabalho, que, por sua M. La Division Capitaliste du Travail. Paris: Savelli, 1977. Obras citadas também vez, interfere na classificação profissional e social. por Stroobants (1993) e Tanguy (199-).</p><p>36 A PEDAGOGIA DAS COMPETÊNCIAS A PEDAGOGIA DAS COMPETÊNCIAS 37 tuídas de produção de valor e acumulação do capital. Mas, ao e, de outro, do fenômeno do trabalho temporário (os trabalha- mesmo tempo, a dimensão relacional da qualificação dores não têm nenhuma garantia de emprego), parcial (os tra- potencializa acirramento da correlação de forças entre capi- balhadores são integrados precariamente às empresas) e da tal e trabalho, ampliando significado desse mesmo concei- subcontratação. Esses são os trabalhadores da economia in- to. Portanto, ao se falar de qualificação profissional há que se formal que envolve cerca de 50% da população trabalhadora considerar sua multidimensionalidade e as tendências do tra- dos países avançados. balho frente à nova materialidade produtiva. A desespecialização dos operários profissionais, em de- Sobre esse último aspecto, verifica-se que, vinte anos corrência da criação dos trabalhadores multifuncionais, tam- depois dos primeiros estudos sobre as da in- bém significou um ataque ao saber profissional dos operários trodução das novas tecnologias na divisão do trabalho e na qualificados, a fim de diminuir seu poder sobre a produção e qualificação, autores como M. Freyssenet, B. Coriat, H. Kern aumentar a intensidade do trabalho. Esse processo mostra que, e M. Schumann e Piore e constatam um certo nível de enquanto se visualiza uma tendência para a qualificação do requalificação dos operadores. Essa requalificação estaria re- trabalho, se desenvolve também intensamente um nítido pro- lacionada à adoção dos novos modelos de organização indus- cesso de desqualificação dos trabalhadores, que acaba confi- trial que levariam as empresas a adotarem organizações do gurando um processo contraditório "que superqualifica em trabalho qualificantes. Os novos paradigmas da produção exi- vários ramos produtivos e desqualifica em outros" (Freyssenet, giriam uma massa de conhecimentos e atitudes bastante dife- apud Antunes, ibid, p. 54). rentes das qualificações formais requeridas pelas organiza- Nesse contexto, a hegemonia das classes empresariais ções de trabalho de tipo taylorista-fordista. tem motivado a emergência de novas categorias, pretensa- Simultaneamente, observa-se que a alteração na nature- mente mais adequadas para expressar as demandas requeridas za qualitativa do trabalho impulsiona uma maior qualifica- pelos sistemas produtivos sob modo de produção capitalis- ção mas gera, também, um certo grau de desqualificação dos ta. Demonstração inequívoca desse movimento é a relevância trabalhadores. O primeiro movimento resulta da redução da que adquire a noção de competência frente ao conceito de dimensão variável do capital, em decorrência do crescimento qualificação. Essa relevância, como veremos adiante, enfra- da sua dimensão constante. Em outras palavras, a substitui- quece algumas das dimensões da qualificação, provocando a ção do trabalho vivo pelo trabalho morto, oferece a possibili- crise do valor dos diplomas e das trajetórias lineares e rígidas dade de trabalhador aproximar-se do que Marx chamou de de profissionalização e de classificação profissional. No en- "supervisor e regulador do processo de produção" (Antunes, tanto, como essência não imediatamente visível do fenôme- 1995, p. 47). no, efeito principal de tal relevância pode vir a ser esmaecer Em contraposição, Antunes demonstra que a desqualifi- dos debates e da luta no sentido de valorizar a formação hu- cação de inúmeros setores operários resulta, de um lado, da mana. desespecialização do operário industrial oriundo do fordismo 2. o Conceito de Qualificação e a Noção de Competência: 5. FREYSSENET, M (op. cit.); CORIAT, B. Pensar al Revés (Trabajo y Convergências e Divergências Organización en la Empresa Japonesa). México/Espanha: Siglo XXI. 1992; KERN, H. et SCHUMANN, M. La Fin de la Division du Travail? La Rationalisation dans As mudanças tecnológicas e de organização do trabalho la Production Industrielle. Paris: Éd. De la Maison des Sciences de l'Homme, 1989; PIORE, M. et SABEL, C. Les Chemins de la Prospérité. De la Production de por que passam os países de capitalismo avançado a partir Masse à la Spécialisation Souple. Paris: Hachette, 1989. Obras citadas por Antunes dos meados da década de 80 configuram mundo produtivo (1995), Hirata (1994) e Stroobants (1993). com algumas características tendenciais: flexibilização da</p><p>38 A PEDAGOGIA DAS COMPETÊNCIAS A DAS COMPETÊNCIAS 39 produção e reestruturação das ocupações; integração de seto- renovadas em sua forma, mas conservadas em seu conteúdo, res da produção; multifuncionalidade e polivalência dos traba- configuras como um neofordismo. Ao mesmo tempo, renova- lhadores; valorização dos saberes dos trabalhadores não liga- se a em torno da qualificação humana como pro- dos ao trabalho prescrito ou ao conhecimento formalizado. cesso através do qual as subjetividades individuais e coleti- No campo acadêmico, esse quadro incitou debate so- vas se enriquecem, apropriando-se das forças sociais existen- bre a validade das teses da desqualificação tendencial do tes e dos conflitos, estimuladas pela busca de superação de trabalho nas organizações capitalistas, emergindo como va- desigualdades exigidas pelas necessidades históricas de de- riantes as teses da polarização das qualificações e da requali- senvolvimento humano. ficação. Outros estudos apresentaram a tendência Nesse plano de indefinições, recupera-se debate sobre nea de desespecialização e de precarização do trabalho, a a qualificação como relação social, ao mesmo tempo em que primeira, relativa a seu conteúdo, uma vez que os saberes se testemunha a emergência da noção de competência aten- dos trabalhadores tendem a ser incorporados pelos sistemas dendo, pelo menos, a três propósitos: a) reordenar conceitual- de computadores; a segunda, devido à desregulamentação e mente a compreensão da relação trabalho-educação, desvian- flexibilização das regras de acesso e permanência no merca- do foco dos empregos, das ocupações e das tarefas para do de trabalho6. trabalhador em suas implicações subjetivas com trabalho; No campo sócio-empírico, apresentou-se questiona- b) institucionalizar novas formas de educar/formar os traba- mento sobre a adequação e a suficiência do conceito de quali- lhadores e de gerir o trabalho internamente às organizações e ficação como estruturante das relações de produção e dos no mercado de trabalho em geral, sob novos códigos profis- códigos de acesso e permanência no mercado de trabalho. Isto sionais em que figuram as relações contratuais, de carreira e pelo fato de esse conceito apresentar uma dimensão societária de salário; c) formular padrões de identificação da capacida- determinada pela cultura do trabalho construída em cada de real do trabalhador para determinada ocupação, de tal modo sociedade e, também, por expressar mais a capacidade possa haver mobilidade entre as diversas estruturas de potencial do trabalhador do que sua capacidade real. Ao mes- emprego em nível nacional e, também, em nível regional (como mo tempo, questionam-se a validade das trajetórias formais e entre os países da União Européia e do Mercosul). lineares da formação profissional e, até mesmo, a validade ou Não obstante debate que envolve a qualificação, suficiência dos diplomas. um conceito consolidado na sociologia, pelo menos nos limi- No campo teórico-filosófico, tem-se preocupado com a tes em que organiza as relações formais de trabalho remeten- subjetividade dos trabalhadores, pelo fato de esses se virem do-se, simultaneamente, à existência de práticas educativas motivados a resgatar sua autonomia e envolver-se subjetiva- que ajudam a legitimar o estatuto do trabalho qualificado. Já mente com os saberes que organizam as atividades de traba- a noção de competência, original das ciências cognitivas, sur- lho, supostamente mais integradas e flexíveis. ge com uma marca fortemente psicológica para interrogar e Esse debate permanece atravessado por indefinições. ordenar práticas sociais. Pergunta-se até que ponto essas transformações, na verdade, Se que se processa atualmente, tanto no plano teórico não aprisionam a subjetividade do trabalhador às necessida- quanto na materialidade das relações de trabalho é um deslo- des de reprodução do capital, diante de relações de trabalho camento ou não, está longe de constituir um consenso. Caaillaud et alli (1997, p. 4), por exemplo afirmam não existir propriamente um deslocamento de um modelo (qualificação) 6. As análises de Antunes (1995), Harvey (1996), Rifkin (1994) e Gorz (1998) sugerem, em alguma medida a convivência da precarização com a requalificação para outro (competência); sugerem que as mudanças obser- do trabalho. vadas sejam sobredeterminadas pelo imperativo da</p><p>40 A PEDAGOGIA DAS COMPETÊNCIAS A.PEDAGOGIA DAS COMPETÊNCIAS 41 mobilização de Segundo eles, esse imperati- senta de mais objetivo, ordenou historicamente as relações da mobilização é que faria da competência um conceito sociais de trabalho e educativas, frente à materialidade do que, aprimorando modelo da qualificação, tornaria mais fácil mundo produtivo. Essa centralidade tende a ser ocupada, adaptar o sistema sociotécnico aos requerimentos econômi- contemporaneamente, não mais pelo conceito de qualifica- cos do século XXI. ção, mas pela noção de competência que, aos poucos consti- Ferretti (1997, p. 258) considera que a noção de compe- tui-se como um conceito socialmente concreto. Não obstante, tência "representa a atualização do conceito de qualificação, a noção de competência não substitui ou supera conceito segundo as perspectivas do capital, tendo em vista adequá-lo de qualificação. Antes, ela nega e afirma simultaneamen- às novas formas pelas quais este se organiza para obter maior te, por negar algumas de suas dimensões e afirmar outras. e mais rápida valorização". Frigotto (1995), por sua vez, ao Esta também é a razão de não concordarmos com a pro- qualificar as bases histórico-sociais em que se fundamentam posta de que a noção de competência atualizaria o conceito novas exigências educativas com as quais, afirmamos, a de qualificação porque, se assim ocorresse, não se justificaria noção de competência guarda coerência, conclui que elas se a emergência de um novo signo. E, ainda, porque próprio configuram como um rejuvenescimento da teoria do capital significado do conceito de qualificação vem sendo historica- humano. Nesses termos, a relevância da noção de competên- mente atualizado, como resultado de disputas teórico-filosó- cia poderia ser a expressão de uma metamorfose do conceito ficas e sócio-empíricas, à medida que os processos de produ- de qualificação na sua conotação produtivista. ção se modificam. Por essa ótica, conceito de qualificação Nós, entretanto, defenderemos aqui a existência de um como relação social seria absolutamente atual, expressando deslocamento conceitual. Sabemos que termo deslocamen- contradições das relações sociais de produção. to pode ser utilizado tanto no sentido psicanalítico, como um Também não consideramos que fenômeno se manifes- mecanismo simbólico de transferência de significados de um te como uma metamorfose porque, se assim fosse, teríamos signo para outro; quanto no sentido espacial, em que a trans- a competência como um novo signo mas não com outro signi- ferência é um processo materialmente objetivo, ainda que ficado, pelo menos na essência. Mas a noção de competência possa resultar ou ser resultante de ações subjetivas. Neste es- não somente se apresenta como um novo signo, como tam- tudo, entretanto, utilizaremos termo com um sentido dis- tinto dos anteriores. bém possui significados diferentes ao do conceito de qualifi- cação. O ponto de partida para se compreender fundamento Portanto, tanto na perspectiva teórico-filosófica quanto do que denominamos como deslocamento conceitual é tomar sócio-empírica, a forma como explicitamos fenômeno, aju- a qualificação como um conceito central na relação trabalho- educação. Mesmo podendo-se caracterizá-lo como um con- dados pelas palavras, é definindo-o como um deslocamento ceito polissêmico, cujos significados encontram-se historica- conceitual da qualificação à competência. As reflexões poste- mente em disputa, conceito de qualificação, no que apre- riores, esperamos, serão elucidativas a esse respeito. conceito de sobredeterminação tem origem no pensamento de Althusser, 2.1. A Qualificação como Relação Social como a dimensão simbólica de uma determinada materialidade. Nesta referên- cia, conceito parece indicar a dimensão simbólica do determinismo tecnológico O conceito de qualificação remonta ao surgimento do que tem marcado os significados da noção de competência. No plano subjetivo, Estado de Bem-Estar Social retomando, no processo de con- portanto, muito além de desenvolver competências demandadas pelo avanço solidação da sociedade industrial, papel regulador jogado tecnológico, trabalhador deve reconfigurá-las e mobilizá-las permanentemen- te, aos diversos contextos produtivos. outrora pelas corporações.</p><p>42 A PEDAGOGIA DAS COMPETÊNCIAS A PEDAGOGIA DAS COMPETÊNCIAS 43 As corporações codificaram as relações de trabalho (re- Essa abordagem pode ser interessantemente complemen- gras de contratação, salário e formação) entre mestres, com- tada pelo esquema de Schwartz (1995), pelo qual ele atribui à panheiros e aprendizes, de maneira a permitir a competição qualificação três conceitual, social e experimen- mas também a controlar seus efeitos. A liberalização das rela- tal. A primeira define a qualificação como função do registro ções de trabalho ocorridas a partir do século XVIII, que aju- de conceitos teóricos formalizados e, então, dos processos de dou a impulsionar processo de industrialização, vem acom- formação, associando-a ao valor dos diplomas. A segunda di- panhada do desaparecimento de dois princípios fundamen- mensão coloca a qualificação no âmbito das relações sociais tais de regulação social, a saber: a) as regras coletivas regis- que se estabelecem entre os conteúdos das atividades e re- trantes das ligações entre os empregados e empregadores, que conhecimento social dessas atividades, remetendo-a às gra- deram lugar ao contrato particular; b) a aprendizagem profis- des de classificação coletivas. Por fim, a terceira dimensão sional, que tornou o aprendiz um jovem operário submetido, está relacionada ao conteúdo real do trabalho, em que se ins- sem proteção, a tarefas pouco formadoras. crevem não somente os registros conceituais, mas conjunto O conceito de qualificação é uma resposta a essa ausên- de saberes (incluindo os saberes tácitos) que são postos em cia de regulações sociais. Nascido no pós-guerra, ele formali- jogo quando da realização do trabalho. Esta última dimensão za, de certo modo, as aquisições dos movimentos sociais pre- estaria sendo perseguida como condição de eficiência produ- cedentes. Aplicadas ao mundo do trabalho, as regulações so- tiva. ciais visam reconhecer O trabalhador como membro de um A sistematização feita por Schwartz, vista pela ótica do coletivo dotado de um estatuto social além da dimensão pu- processo de trabalho, leva-nos à explicitação que ramente individual do contrato de trabalho (Castel, 1998). A (apud Castro, 1994) fez sobre seus dois sentidos: um prático, qualificação do trabalho irá constituir-se como referência des- entendido como conjunto de atividades que transformam sas regulações. matérias-primas em ; e um relacional, que valori- A qualificação estará apoiada sobre dois sistemas: a) as za analiticamente as relações sociais tecidas no interior da convenções coletivas, que classificam e hierarquizam os pos- produção entre os trabalhadores e entre estes e a gerência. tos de trabalho; b) ensino profissional, que classifica e orga- Esta precisão permite desenvolver conceito de relações de niza os saberes em torno dos diplomas. Nota-se, portanto, que produção que destaca primeiro sentido e de relações o conceito de qualificação nasce de forma correlata e consoli- na produção, que destaca segundo sentido, ampliando a da-se com modelo taylorista-fordista de produção, em torno noção do processo de trabalho para além da sua dimensão do qual se inscrevem tanto os padrões de formação quanto os econômica (produção e maximização de valor). Incluem-se, de emprego, carreira e remuneração. assim, as dimensões política (produção, reprodução e trans- O debate em torno do significado histórico-social da formação de relações sociais) e ideológica (produção de expe- qualificação, entretanto, toma conotações bastante instigan- riências). tes ao longo do tempo. Forté8 (apud Roche, 1999b), por exem- Uma das vertentes do debate sobre a qualificação visa plo, admite três fases deste debate: o determinismo tecnoló- explorar e compreender os efeitos do progresso técnico sobre gico, determinismo societal e princípio da eficiência pro- o trabalho. O debate entre Georges Friedmann e Pierre dutiva. 9. BURAWOY, M. Manufacturing Consent. Chicago: University of Chicago 8. FORTÉ, M. La Qualification dans une Économie de Création Permanen- Press, 1979. te: une Catégorie Fondatrice. Dans: JACOT, J. H; TROUSSIER, J. F. Travail, 10. Pela ótica contemporânea, o processo de trabalho deve ser compreendido Compétitivité, Performance. Paris: Economica, 1992. aqui tanto como meio de produção de mercadorias como também de serviços.</p><p>44 A PEDAGOGIA DAS COMPETÊNCIAS PEDAGOGIA DAS COMPETÊNCIAS 45 (apud Stroobants, 1993) trava-se em torno do que incoveniente. O fato de esses tempos variarem segundo di- seria realmente qualificável: trabalho ou trabalhador. versas condições provaria ser este um elemento geral de valo- Friedmann possui uma concepção substancialista ou rização social. à medida que identifica a qualificação como por sua vez, é partidário de uma concepção uma propriedade dos postos de trabalho. Essa posição parece relativista, que outros denominam de centra a advir da dificuldade em se encontrar parâmetros que possibi- análise da qualificação no homem, porém não como fenôme- litassem classificar a qualificação dos trabalhadores. Apesar no técnico individualizado, mas como valor social e diferen- de, em 1956, ter concordado com Naville sobre cial dos trabalhadores ou, em outras palavras, como relação fato de que os tempos de formação poderiam se constituir social complexa entre as operações técnicas e a estimativa de em bom critério de apreciação da qualidade do trabalho, dois seu valor social. Por esta ótica, processo de qualificação in- anos mais tarde ele recua desta Igualmente, junto corporaria um julgamento de valor exercido globalmente e com Naville, também considera que salário não seria um que classifica os trabalhadores uns em relação aos outros. Por bom critério de qualificação, por não ser sistemática sua re- isso, a qualificação não seria simplesmente função das capa- lação com as grades de classificação. Assim, na ausência de cidades individuais, uma vez que essas seriam formadas ao um parâmetro comum que permitisse classificar os traba- longo do tempo, quando concorrem diversos elementos tais lhadores, Friedmann propôs apreender a qualificação a par- como a duração dos períodos de aprendizagem, a experiência, tir do trabalho ele mesmo: "a qualificação não pertence mais dentre outros. ao homem, ela pertence ao posto [...] e deve-se falar não de O autor recusa-se a definir a qualificação a partir do con- uma classificação dos operários, mas de uma classificação teúdo das tarefas, devido à associação entre técnica e estrutu- dos postos" (Friedmann e apud Stroobants, 1993, ras sociais. Analisando a automação da produção, conclui p. 78). sobre a separação tendencial entre O assalariado e seu traba- Friedmann discorda da tese de Naville por considerar lho, pelo fato de a polivalência tornar-se uma característica que os tempos de formação não são nem uma quantidade ho- do trabalho automatizado. A polivalência não teria um valor mogênea nem uma variável sempre determinante. Entretan- necessariamente positivo, mas dependeria do valor a ela atri- to, para este último autor, a heterogeneidade dos tempos de buído, bem como do tipo de mobilidade assim gerada. Essa formação representa uma vantagem de análise, e não um tendência, sob a base social capitalista, poderia se conflitar com a estrutura hierárquica da empresa. Friedmann considerou a polivalência como uma forma 11. FRIEDMANN, G. et NAVILLE, P. (éd.). Traité de Sociologie du Travail, tomes I & II, Paris, Armand Colin, 1962. de revalorização do trabalho, mas identificou uma dialética 12. Stroobants (ibid.) explica que a tradição que domina a sociologia do interna ao progresso técnico: de um lado, a degradação da trabalho ao menos na França, inscreve-se na perspectiva habilidade profissional; de outro, O surgimento de novos ofí- substancialista assumida por Friedmann. Raros seriam os autores como Rolle, cios qualificados devido à sofisticação dos equipamentos. Tripier ou que prolongaram e reativaram os argumentos de Naville para Percebe-se, assim, que a polarização das qualificações havia quem, apreender globalmente a qualificação implica não somente sair da ofici- na, mas também da empresa. Essa fronteira marca a clivagem que é aprofundada sido prevista por Friedmann. posteriormente, entre uma sociologia do trabalho e uma sociologia do emprego. 13. FRIEDMANN, G. Le Travail en Miettes. Paris: Gallimard, 1956. 14. A nova posição desse autor é exposta na obra: FRIEDMANN, G et 16. O autor apresenta sua posição sobre esse tema na obra: NAVILLE, P. REYNAUD, J-D. Sociologie des Techniques de Production et du Travail, in Essai sur la Qualification du Travail. Paris: Marcel Rivière, 1956. GURVITCH, G. (éd.). Traité de Sociologie, t. 1, Paris, PUF, 1958, p. 441-458. 17. A designação relativista é dada por Stroobants (ibid) enquanto a 15. Ibid. historicista é usada por Tanguy (1999).</p><p>46 A PEDAGOGIA DAS COMPETÊNCIAS A PEDAGOGIA DAS COMPETÊNCIAS 47 (apud Stroobants, 1993) aprimora a tese de deveria assinalar uma requalificação. À fase C, de Tourraine, Naville ao definir a qualificação como um status reconhecido portanto, associa-se a emergência das novas tecnologias e a no sistema social de produção, associado a um potencial de tese da requalificação. Para corroborar essa tese, a idéia da participação na vida técnica da produção. Ele aponta três fa- valorização do saber tácito dos trabalhadores proposta por ses desse sistema. Na fase A, em que predomina sistema Jones e associado ao trabalho real, ajuda a enfraque- artesanal, trabalhador detinha larga autonomia para proce- cer a hipótese de uma desqualificação tendencial, progresiva, der à fabricação. Sua qualificação não dependia das máqui- massiva e inelutável, na realização do trabalho. Deixaria de nas, pouco especializadas, nem da empresa, mas de sua habi- ser importante somente a tarefa visível, para se destacar tam- lidade. Na fase B, transição ao sistema taylorista, predomina bém a atitude que ela subentende e os conhecimentos que ela uma forma mista de organização do trabalho e da padroniza- pressupõe (as capacidades imperceptíveis). Os saberes táci- ção de procedimentos. A qualificação dos trabalhadores seria tos resistiriam à automatização e, ao mesmo tempo, seriam determinada pelo nível de conhecimento especializado e por indispensáveis para supervisionar os autômatos. O uso des- seu rendimento. Na fase C, a fase da automação, predomina ses saberes frente aos novos desafios do trabalho incluiria sistema técnico, quando a fabricação é assegurada pelas ins- processo de requalificação. O princípio da eficiência produti- talações, independentemente dos trabalhadores que supervi- va aporta-se nessas transformações e será enriquecido pelas sionam seu funcionamento. A qualificação dependeria me- teses da especialização flexível dos economistas Piore e Sabel, nos de um saber-fazer técnico do que da atitude, da comuni- nos EUA e dos novos conceitos de produção, de Kern e cação e de traços da personalidade do trabalhador. No racio- Shumann, na Alemanha. cínio desses três autores esteve presente, durante um decê- Nesse debate está ancorada uma das importantes dimen- nio, a idéia de que a automação conduziria a uma elevação sões da qualificação propostas por Schwartz (op. cit.): a di- das qualificações. mensão conceitual, configurando a qualificação do trabalha- Em sentido contrário, entretanto, surgiu a tese da dor em função do registro de conceitos e processos formais desqualificação inelutável, cujos expoentes são, nos EUA, de escolarização e profissionalização. Braverman e, na França, Eles anunciam a restri- A dimensão conceitual da qualificação é que se refere, ção progressiva da autonomia dos trabalhadores talvez, à justamente, à formação e ao diploma, portanto, ao nível de luz da análise de Touraine, em favor da autonomia dos pro- domínio dos conceitos e do conhecimento. Qualquer que seja cessos automatizados e a polarização das qualificações seu modo de aquisição, esse domínio reverte em um impor- como processo contínuo e intermediário à desqualificação tante capital em todo uso profissional da noção de qualifica- absoluta. À referida fase B, indicada por Tourraine, podería- ção. O diploma é, então, freqüentemente, perseguido como inter- mos, então, associar a tese da desqualificação, já que é a fase face entre a formação e o emprego. Ele garantiria uma qualifi- característica do Essa mesma tese seria cação, um status, uma remuneração. Garantiria a competên- associada também à fase C se não fosse a idéia de que, mesmo cia? Recentemente questionada essa última dimensão da qua- havendo a redução do saber-fazer e da autonomia do traba- lificação, diploma deixa de ser O único ou principal pressu- lhador, toda manifestação diferencial de saber ou de poder posto para emprego e passa a concorrer com as formações ditas qualificantes que visam a adaptação ao emprego. 18. A. L'Évolution du Travail aus Usines Renault. Pa- ris, CNRS, 1955. 20. JONES, B. et WOOD, S. Qualifications Tacites, Division du Travail et 19. A literatura associa à Freyssenet também a defesa da tese da polariza- Nouvelles Technologies. Sociologie du Travail, 1984, 4: 407-421. Obra citada ção das qualificações. Ver, por exemplo, Hirata (1994) e Tanguy (1993). por Stroobants (ibid.), dentre outros autóres.</p><p>48 A PEDAGOGIA DAS COMPETÊNCIAS A PEDAGOGIA DAS COMPETÊNCIAS 49 Os debates sobre a qualificação travam-se também em valor individual do assalariado" (Bollon e apud torno das relações sociais e da luta pelas condições de traba- Roche, op. cit., p. 42). Esse debate consolida outra dimensão lho, de emprego, de carreira e de remuneração. Esses deba- da qualificação, qual seja, a dimensão social de Schwartz, tes relacionam-se aos anteriores, visto que, no seio das aná- caracterizando a relação existente entre conteúdos das ativi- lises sobre as tendências de desqualificação ou de requali- dades e reconhecimento social dessas atividades. ficação do trabalho, estão as relações sociais entre conteúdo (apud Castro, 1994) também apresenta uma abor- da atividade e reconhecimento dessa atividade, que levanta dagem que destaca a característica multifacetada do conceito questões sobre a avaliação e reconhecimento da qualifica- de qualificação, destacando três das diferentes concepções que ção. Ressaltam-se, novamente, as duas vertentes da qualifi- ele reconhece existir. A primeira delas entende a qualificação cação: dos postos de trabalho e do trabalhador, como como um conjunto de características objetivas das rotinas de inferências relativas da qualidade e da complexidade do tra- trabalho, definindo-se, então, em termos do tempo de apren- balho prescrito. dizagem no trabalho ou do tipo de conhecimento que está na Tratando-se da qualificação do trabalho, buscou-se dis- base de uma dada ocupação. Este enfoque, ancorado no posto por de elementos explícitos que permitissem controlar modo de trabalho, aproxima-se da visão essencialista de Friedmann. de fixação das remunerações. Nessa perspectiva, surgiram os Porém, à medida que admite uma relação com tempo de grandes sistemas ou grades de classificação de empregos e aprendizagem, exige que se remeta simultaneamente ao tra- salários como, por exemplo, Job ou sistema balhador. Com isto, este enfoque se aproximaria também do Hay elaborado nos EUA em 1927 e aplicado largamente na relativismo de Naville é homem que se qualifica em fun- França nos anos 50 e as Classificações Parodi-Croizart, que ção dos tempos de formação ressaltando-se, pelo esquema serve de base para as negociações entre o patronato e os sin- de Schwartz, a dimensão conceitual da qualificação. dicatos franceses desde 1954. No Brasil que temos até então A segunda abordagem apontada por Litter conceitua são a Classificação Brasileira de Ocupações (CBO) e as legis- qualificação a partir da sua relação com a possibilidade de lações do exercício profissional regulamentadas e controla- autonomia no trabalho, dependendo, então, das margens de das pelos Conselhos Profissionais. controle exercido pelo trabalhador sobre o processo de traba- A qualificação do trabalhador, por outro lado, remete à lho como um conjunto. Uma vez que esse potencial de con- demonstração feita pelo candidato ao emprego, de que suas trole é função do saber especializado que permite ao traba- qualidades estão de acordo com as exigências do posto de lhador dominar plenamente suas atividades de trabalho, esta trabalho. Uma associação lógica se estabelece entre a qualifi- abordagem estrutura-se pelo mesmo viés anterior, acrescen- cação, considerada como um processo e como um resultado, tando-se, talvez, uma virtualidade política, já que nível de e a codificação da qualificação que conduz ao salário e à autonomia conquistado pelo trabalhador em função de sua hierarquização social. No debate sobre a qualificação e na sis- especialidade configura-se num importante trunfo nas nego- tematização de sua codificação social, a organização das clas- ciações de classificação, carreira e salário. sificações acabou por se impor à análise do processo de qua- lificação, visto que, qualquer que seja método de classifica- ção, "a remuneração mantém-se ligada ao emprego e não ao 22. BOLLON, DUBOIS, M. Qualification et Cognition. Dans: EL RHAZI, A. et JEANTER, A. (dir. publ.). Techinique, Qualification et Émergence de Nouveaus Modéles Socioproductifs. Toulouse, Erés, 1996. 21. Método americano de avaliação de bases mais racionais da remunera- 23. LITTER, C. Introduction: Basis Issues of Labour Process Debate. In: The ção do trabalho. O conceito é freqüentemente traduzido em francês pela expres- Developement of the Labour Process in Britain, Japan and USA. Londres, são "qualificação dos empregos". Heinemann, 1982.</p><p>50 A PEDAGOGIA DAS COMPETÊNCIAS A PEDAGOGIA DAS COMPETÊNCIAS 51 O fato, entretanto, de essas abordagens sustentarem-se codificadas sob a síntese das suas dimensões conceitual e so- sobre uma base aparentemente objetiva do processo de traba- cial, até então bem definida por Touraine, ao entender a lho fazem-na limitadas quanto ao seu potencial analítico. qualificação como um status reconhecido no sistema social Castro explica que isto conduziu à formulação de uma tercei- produtivo, associado a um potencial de participação na vida ra concepção de qualificação, que a vê como socialmente técnica nesse sistema. Sob O modo de produção capitalista, a construída através de processos artificiais de delimitação e categoria profissão parece-nos expressar bem esta síntese, pelo de classificação de campos, que a tornam equivalente a um fato de formalizar que O conceito de qualificação possui de status social. Por essa abordagem, os trabalhadores são consi- concreto em termos de sociabilidade codificada e regulada, derados qualificados ou desqualificados em função da exis- resumido em termos dos saberes estruturantes e do reconhe- tência ou não de regras deliberadas de restrição à ocupação, cimento social da atividade, como implicações sobre os coletivamente produzidas, partilhadas e barganhadas e não parâmetros de classificação e de remuneração. necessariamente em decorrência da natureza da ocupação O traço importante que distingue as profissões em sua dimensão corporativa seria a capacidade de auto-regulação Nesse sentido, a qualificação dependeria, na verdade, de coletiva e uma certa capacidade de regular O mercado de pres- fatores tais como costume e a tradição socialmente tação de serviços profissionais, sobretudo pelo lado da oferta, construídos, por um lado, e a organização coletiva, por outro; oferecendo algum tipo de proteção a seus membros. Por outro esta última sustenta a definição de regras restritivas ao lado, nem todas as ocupações que sociologicamente são hoje mesmo tempo defensivas e ofensivas que protegem as profissões tinham tal estatuto no passado. O que os sociólo- corporações ou os coletivos auto-identificados por direitos e gos chamam de profissionalização consiste precisamente no trajetórias profissionais. No limite, essa vertente poderia le- processo pelo qual ocupações adquirem status de profissão, var à afirmação de ser possível intitular como qualificada uma devendo-se esclarecer caráter historicamente contingente atividade profissional independentemente até do seu conteú- desse processo e suas formas e variações em diferentes socie- do técnico. Entretanto, uma versão menos radical postularia dades. que algum conteúdo objetivo pode ser identificado, apesar de A organização das profissões regulamentadas descansa a condição de qualificada ser outorgada às tarefas ao mesmo em três pilares, cada qual com função diversa: as organiza- tempo estratégicas no processo produtivo e sustentadas por ções para a fiscalização do exercício profissional; sindicato, coletivos organizados para defender suas posições. Assim, para encaminhar reivindicações de natureza trabalhista; e a presevar-se-ia alguma relação entre habilitação técnica do tra- associação, para atender aos aspectos mais tipicamente balhador e sua condição de qualificado. normativos e associativos. Um dos mecanismos explícitos de Parece-nos que essas duas últimas abordagens inserem- delimitação do acesso ao mercado de prestação de serviços se no âmbito do determinismo societal, tal como Forté defi- profissionais é O credenciamento educacional, isto é, a posse niu e, consequentemente, privilegia a dimensão também so- do certificado ou diploma. cial da qualificação, segundo Schwartz, ainda que recorra Não obstante, Castro chama a atenção para a existência marginalmente à dimensão conceitual, por admitir a relação de tensas relações intra-classe, implicadas na idéia de que as entre habilitação técnica do trabalhador e sua condição de barreiras de acesso - que definem coletivos como qualifica- qualificado. dos e com as quais esses mesmos coletivos defendem as suas Procede insistir na idéia de que, por mais que quaisquer posições relativas - são, ao mesmo tempo, barreiras de ex- dessas abordagens visem colocar foco sobre uma ou outra clusão social tecidas entre trabalhadores. Em outras palavras, dimensão da qualificação, as relações sociais de trabalho são além das lutas e conflitos entre classes, assumidas normal-</p><p>52 A PEDAGOGIA DAS COMPETÊNCIAS A PEDAGOGIA DAS COMPETÊNCIAS 53 mente pelos sindicatos, em que estão em jogo os interesses do dos reais do trabalho, principalmente aqueles que transcen- capital e do trabalho, de empregados e patrões, haveria um dem ao prescrito e às qualidades dos indivíduos, expressas campo de luta de caráter não classista- de competitividade pelo conjunto de saberes e de saber-fazer realmente colocado entre os próprios trabalhadores. Essas lutas seriam fundadas em prática, incluindo, para além das aquisições de formação, na defesa de interesses profissionais, voltadas para a produ- seus atributos pessoais, as potencialidades, os desejos, os va- ção e reprodução dessas barreiras. Nos campos de luta to- lores. mam força as legislações do exercício profissional, assumin- A qualificação caracterizada por esses aspectos passa a do um importante papel, os órgãos de fiscalização. Ocorrem, ser concebida como qualificação real e remete, sobretudo, à também, as disputas no interior dos próprios grupos, equipes pessoa, indo além da relação social estabelecida entre as ca- ou de produção, em que se manifestam as relações pacidades profissionais e sua classe de salário. A visibilidade de poder e de constrangimento advindas de parâmetros tais dada à qualificação real é operada pelas competências. Sendo como no posto, acesso privilegiado a informa- assim, essa última passa a ser, pouco a pouco, a referência ções, expertise, dentre outros. Percebemos, portanto, que com- para processo de trabalho nos dois sentidos apontados por preender a qualificação na sua dimensão social exige politizar Burawoy prático e relacional. as relações de trabalho que se tecem internamente e externa- É nessa fase que se valoriza a terceira dimensão da qua- mente à produção, numa síntese dialética com suas determi- lificação proposta por Schwartz: a dimensão experimental, nações de ordem técnica. relacionada ao conteúdo do trabalho e perseguida como con- A partir dos anos 80, os debates centrados tanto no dição de eficiência produtiva. São valorizados significativa- determinismo tecnológico quanto no determinismo societal mente os saberes tácitos, como aqueles saberes que, por resis- tornaram-se limitados. Pouco se valorizou a análise dos con- tirem à automatização, seriam exatamente indispensáveis para teúdos da qualificação e a contribuição efetiva do sujeito na supervisionar os autômatos. Como explica Castro, os saberes produção, tanto para a produção da capacidade individual e tácitos seriam uma forma de conhecimento que, conquanto coletiva de trabalho, quanto para as transformações das rela- essencial à aquisição e ao desenvolvimento de tarefas qualifi- ções sociais na produção. cadas, é sempre apreendido através da experiência subjetiva, Com advento das novas tecnologias e sistemas de or- sendo muito difícil a sua transmissão através da modalidade ganização do trabalho processo chamado genericamente da linguagem explícita e formalizada. Por isso mesmo, esse de reestruturação produtiva que podemos associar à fase C conhecimento está ligado à vivência concreta de um traba- de Tourraine, a qualificação entrou numa fase em que, sob lhador particular numa situação específica, como conhece- alguns aspectos, é tomada como pressuposto da eficiência dor único das idiossincrasias da totalidade ou de partes do produtiva; por outros, ela tende a ser abandonada como con- processo de produção que envolve. Esse conhecimento não ceito organizador das relações de trabalho e de formação, dan- seria inferior, mas estaria na base da constituição da experi- do lugar à noção de competência. Alguns aspectos passam a ência da qualificação adquirida por num posto, ser valorizados em nome da eficiência produtiva: os conteú- sendo insubstituível mesmo quando as mais modernas tecnologias informatizadas busquem internalizar no equipa- mento a experiência, a vivência e a memória do trabalhador 24. Falamos indistintamente de grupos, equipes e turmas de produção, in- individual. dependentemente do nível de integração do trabalho. É verdade que os dois primeiros termos têm uma conotação mais coletiva e de compartilhamento inte- Ao mesmo tempo, a idéia de qualificação social no lugar grado de funções, enquanto segundo é mais apropriado à divisão técnica de de qualificação técnica toma força, à medida que requisitos trabalho do tipo taylorista-fordista. tais como a responsabilidade, a abstração e a interdependência</p><p>54 A PEDAGOGIA DAS COMPETÊNCIAS A PEDAGOGIA DAS COMPETÊNCIAS 55 entram no registro do trabalho e evocam os chamados sabe- tende a definir um certo tipo de trabalho, transformando res ou saber-ser. Os saberes sociais compreenderiam conhecimento tácito do trabalhador em atributo daquela ati- mais que os saberes técnicos, pois apelam aos aspectos de vidade profissional. É nesse sentido que Acselrad (1995) co- personalidade e aos atributos do trabalhador. Por exemplo, local como um dos limites dos enfoques correntes sobre a qua- destaca-se a responsabilidade devida à necessidade de um grau lificação esta dimensão temporal. Segundo ele a qualificação mais elevado de vigilância ao processo de trabalho; a capaci- dos trabalhadores evolui em razão do permanente acúmulo dade de abstração, pela importância de se prefigurar de experiências concretas de trabalho e da aquisição de no- veis eventos; as capacidades comunicacionais, de liderança, vos conhecimentos e habilidades, por vias formais ou infor- de trabalhar em equipe, associadas à interdependência dos mais, e condicionados que são também por mudanças técni- postos de trabalho que parece constituir um corolário da cas, estas são incorporadas, da mesma forma, nas qualifica- automação. ções prescritas para posto de trabalho. Essa incorporação, Nesse contexto, a qualificação é compreendida, cada vez em muitos casos, não é explícita, mas compõe fluxo de co- mais, como uma construção social dinâmica, isto é, tomada nhecimentos que existe na realização das atividades e se in- como um construto que é síntese das dimensões conceitual, sere na complexidade das relações sociais sentido prático social e experimental. Nenhuma dessas dimensões isolada- e relacional do processo de trabalho que caracterizam a mente pode ser tomada como a qualificação, nem a qualifica- qualificação como síntese entre condições objetivas e subjeti- ção pode se reduzir a uma ou algumas dessas dimensões. vas de trabalho. Do ponto de vista das relações de produção Assim compreendido, O conceito de qualificação exige (Burawoy, 1979), a dimensão experimental definida por que se enfoque sujeito face à objetividade das relações so- Schwartz, é atual para expressar essa síntese. ciais em que está inserido. Assim, a qualificação depende tanto Schwartz considera que se deva questionar a visão que das condições objetivas de trabalho quanto da disposição entende a qualificação como tributária somente da dimensão subjetiva por meio da qual os trabalhadores coletivos, como conceitual, que privilegia a formação, diploma e os níveis sujeitos ativos, constroem e reconstroem sua profissiona- de domínio técnico da situação de trabalho. A qualificação lidade. A qualificação individual é, ao mesmo tempo, pres- não poderia ser reduzida à execução de conceitos materiali- suposto e resultado de um processo de qualificação coleti- zados em da formação, pois todo sistema de va, processo este dado pelas condições na organização da trabalho é um sistema pré-estabelecido de ação individual e produção social. O grau de complexidade em que se expres- coletiva, onde se cruzam singularidades de toda ordem (ma- sa a qualificação individual depende das possibilidades de terial e humana), a experiência, a história, as normas criadas potenciação dos tipos de trabalho conhecidos na sociedade. e modificadas pelos diferentes sujeitos sociais. Desta forma, É por esse motivo que a qualificação do trabalhador não pode além da formação, a cultura do trabalho é condição determi- ser considerada somente a efetivação prática das competên- nante da qualificação, já que toda a atividade de trabalho su- cias individuais. em certo grau, uma articulação aleatória entre registro Pelo mesmo motivo, trabalho qualificado, per se, não de domínio conceitual (o que autor chama de dimensão teria características específicas definidas plenamente e para conceitual ou registro 1) e dos saberes individuais e coletivos sempre, mas essas seriam mutáveis à medida que saber do não formalizados postos em prática na realização da ativida- trabalhador é também incorporado na atividade prática que de (dimensão experimental ou registro 2). Na discussão relativa à qualificação que tomou corpo 25. Stroobants (1998b) observa que a noção de saberes sociais pode sugerir no Brasil principalmente a partir da década de 80, muitos que todos os saberes são sociais, gerando uma apreensão exógena da técnica. teóricos, de uma perspectiva crítica, assinalaram a necessi-</p><p>58 A PEDAGOGIA DAS COMPETÊNCIAS A PEDAGOGIA DAS COMPETÊNCIAS 59 mudança do conteúdo do trabalho; a segunda, em virtude da Analisada sob a perspectiva do trabalho abstrato, por desregulamentação e flexibilização do mercado de trabalho. outro lado, Machado (1996) nos diz que conteúdo da subje- tividade, as formas de ser do trabalhador, o modo como elas De qualquer forma, tem-se construído um consenso em torno da tese de que as novas tecnologias valorizariam as qua- se constituem e se expressam, enfim, sua qualificação, tem lificações tácitas e as qualificações sociais dos trabalhadores, fundamento na objetividade do trabalho inserido na lógica da pois nelas se encontrariam elementos novos que permitiriam sociedade capitalista, em que seu significado é circunscrito a recuperação do controle do saber e da produção pelos traba- às necessidades privadas de condições mínimas de vida. Sob lhadores. essa lógica, os seres humanos deixam de ser sujeitos das rela- Market (1994) entende que a base técnica de qualifica- ções que estabelecem entre si, submetendo-se às relações so- ciais como naturais e dadas, reproduzindo-as de forma não ção das novas condições de produção e qualificação contri- bui para desenvolvimento de competências abrangentes nos reflexiva e espontânea. trabalhadores sintetizadas como competências técnicas, me- As condições subjetivas da produção incluem a dinâmi- tódicas e componentes das qualificações-chave trans- ca interativa nas relações de trabalho, as formas de ação e feríveis. São compreendidas como qualificações amplas, co- reação dos trabalhadores aos métodos de racionalização do nhecimentos de âmbito geral, capacidade de associação de aparelho produtivo e aos apelos de cooperação, a construção dados e informações, capacidade de decisão frente a situa- dos valores sociais, as formas de consciência e representação, ções complexas. No contexto dessa tendência valorizam-se a dinâmica conflitiva inerente à dialética entre integração características pessoais e traços de personalidade, tais como: objetiva e integração subjetiva. Elas ocorrem sobre uma "desenvolvimento de senso de responsabilidade, de espírito materialidade de relações, organizações, processos e institui- crítico e de auto-consciência" (ibid., p. 107). Ou seja, as qua- ções que, ao mesmo tempo, condicionam e reprimem as sub- lificações-chave (que incluem as qualificações sociais), soma- jetividades, levando-as a atuar segundo a lógica do capital, das às qualificações tácitas, eqüivaleriam à qualificação real inibindo a plena objetivação do indivíduo humano como per- do trabalhador. sonalidade consciente, crítica e solidária. As subjetividades Como percebemos, a perspectiva qualificante do traba- dos trabalhadores sofrem, portanto, os influxos complexos das lho, presente nessas análises, efetiva-se com base na valoriza- conflituosas estratégias relativas ao jogo que preside o movi- ção da subjetividade do trabalhador, de modo que muitos mento de qualificação e desqualificação, tornando-se dividi- das e contraditórias. autores têm recorrido à inevitabilidade de enfocá-la como ele- mento central aos processos de inovações in- Não obstante esse jogo, Deluiz (1995, p. 168) acredita cluindo os níveis de produtividade, as relações entre gerentes que, ao se enfatizar a dimensão da subjetividade dos traba- e trabalhadores e as relações de controle. A potência lhadores, as novas qualificações, por um lado, possibilitam transformadora e criadora dos sujeitos tem sido requisitada colocar em discussão O papel dos indivíduos na produção, como ponto chave nos processos produtivos, que se tornam não mais como apêndice de máquinas, mas ati- mais fortemente dependentes da sensibilidade humana e da vos, em um processo de reconstrução de sua identidade. Por capacidade de avaliação e predição do trabalhador. outro lado, permitem desenvolver questionamento sobre a natureza e a qualidade ética do trabalho com o qual se está envolvido, que remete ao debate sobre as implicações do 30. Essa abordagem de competências relacionadas com as qualificações- uso da tecnologia, sobre que e como produzir, integrando, chave é própria do sistema de formação da Alemanha e será discutida sucinta- desse modo, as diferentes dimensões dos sujeitos como pro- mente no segundo capítulo. 31. É o caso de Hirata (1994), Deluiz (1995) e Machado (1996), entre outros. dutores, consumidores e cidadãos.</p><p>A PEDAGOGIA DAS COMPETÊNCIAS A PEDAGOGIA DAS COMPETÊNCIAS 61 2.2. A Noção de Competência frente às Dimensões da Qualificação corporaria um conjunto de outros elementos que jogam im- portante papel frente à ação concreta dos sujeitos. Essa vi- Confrontarmos conceito de qualificação com a noção são parece ser compartilhada por aqueles que identificam a de competência, não implica defender uma oposição univer- potencialidade da noção de competência de atuar em bene- sal entre eles, mas alertar sobre uma tensão permanente que fício do resgate e da valorização da subjetividade do traba- as une e as afasta dialeticamente. A literatura sobre O tema lhador. indica-nos as principais tensões que figuram neste debate. Não obstante, nossa discussão sobre a qualificação como Uma das visões que mais instiga a reflexão e a pesquisa, relação social, permitiu-nos verificar as múltiplas dimensões anuncia uma oposição mais contundente entre essas noções, que caracterizam esse conceito e que ordenam práticas e pro- pois identifica a qualificação com regime taylorista-fordista, cedimentos concretos no plano das relações sociais de produ- associada a uma visão estática do mundo do trabalho. Ao con- ção, construindo códigos de sociabilidade associados à cultu- trário, a noção de competência emergiria dos novos modelos ra do trabalho. Por isto, afirmamos que a visão que nega o de produção, sendo afeta à dinamicidade e à transformação. conceito de qualificação por completo ignora sua múltipla Nesse sentido, a qualificação e as categorias que lhes são as- determinação. Ao mesmo tempo, a difundida pela OIT sociadas sofreriam um feroz ataque, tendendo a ser substitu- parece fazer um recorte restrito do conceito de qualificação, ídas totalmente pela noção de competência. Esta visão parece além de mantê-lo associado aos limites das ocupações, mes- ser compartilhada pelos empresários europeus e grupos en- mo que reconfiguradas pelas transformações produtivas. volvidos com as reestruturações administrativas, valendo-se Assim, a análise que melhor identifica a dialeticidade dela para defender mudanças significativas na arquitetura so- do deslocamento conceitual da qualificação à competência cial em que estão em jogo a formação, controle do trabalho e baseia-se nas dimensões propostas por Schwartz-que, como as negociações coletivas de carreira e salários. observamos, contempla a perspectiva da qualificação como As outras visões ancoram-se também na idéia de mu- relação social e é desenvolvida por Roche. Manifestamos dança ao mesmo tempo trazida e atendida pela noção de com- nossa afiliação a esse quadro analítico a ser apresentado nes- petência, mas admitem uma convivência complementar des- te trabalho. sas noções. Um primeiro exemplo é a construção conceitual da OIT, compreendendo a qualificação como a capacidade potencial do trabalhador de realizar atividades de trabalho e 2.2.1. O Deslocamento Divergente: Enfraquecimento das Dimensões Conceitual a competência como alguns aspectos do acervo de conheci- e Social da Qualificação mentos e habilidades dessa capacidade potencial. A compe- tência expressaria, assim, a capacidade real do sujeito para Sob a predominância do taylorismo-fordismo conceito atingir um objetivo ou um resultado num dado contexto. de qualificação esteve restrito às relações diretas, por um lado, Autores que defendem a emergência de uma nova esco- com a formação e com os diplomas e, por outro, com os códi- la de gestão do trabalho, por sua vez, vêem a competência gos das profissões. Isto é, destacaram-se as dimensões como uma mediação entre a qualificação (que pode ser asso- conceitual e social, intimamente relacionadas entre si, ciada à capacidade potencial, tal como na visão da OIT) e justificadas por um determinismo tecnológico inicial, segui- desempenho efetivo. Essa visão não se difere substancialmente do por um de cunho societal. daquela que admite conceito de qualificação como capaci- Essas dimensões da qualificação são agora fortemente dade potencial e as competências como manifestação subjeti- questionadas: sistema de classificação, carreira e salários va dessa capacidade. Conquanto seja real, a capacidade in- baseado nos diplomas, portanto em profissões bem definidas,</p><p>62 A PEDAGOGIA DAS COMPETÊNCIAS A PEDAGOGIA DAS COMPETÊNCIAS 63 seria inadequado à instabilidade das ofertas de emprego e a as competências, existiria uma distância importante" (Roche, uma gestão flexível no interior das organizações. Isto porque op. cit., p. 51, tradução livre). a qualificação repousa sobre os repertórios relativamente es- táveis: os postos de trabalho, cuja classificação é determinada Os motivos apontados anteriormente crise do em- de maneira estática; diploma e a profissão, cuja possessão é prego, fim da ilusão planificadora, novos métodos de gestão a combinação de direitos precisos e duráveis e não podem ser colocaram também a dimensão social da qualificação em questionados. cheque. A liberação tendencial dos códigos de classificação, A crise do emprego, acompanhada do fim da ilusão de carreira, salário e exercício profissional em relação aos planificadora e dos novos métodos de gestão, contribui para diplomas ou à especialização comprovada e validada, pro- a deterioração do conceito de qualificação, na sua dimen- movem novos modos de regulação do mercado de trabalho, são conceitual, tanto no que se refere à dificuldade de destacando o livre mercado de negociações. Isto porque os repertoriar o conteúdo dos empregos quanto à sua relação referidos parâmetros reguladores normalmente com os diplomas e com as perspectivas de desenvolvimen- corporativos e classistas perdem legitimidade. Em oposi- to de uma carreira linear e crescente, possibilitado pelo sis- ção, a competência é apresentada como um bem privado que tema de classificação vigente. Ao lado da retração do em- se deve permutar no mercado ativo e bem informado. As- prego industrial, ampliam-se as atividades de serviço, em sim, os modos de negociação, paritárias, nacionais e relação aos quais os métodos e parâmetros clássicos de in- classistas, sobre os quais repousava a qualificação, perdem vestigação da qualificação dos postos de trabalho não se a importância. adequam plenamente. O emprego industrial também recon- Internamente às organizações, a lógica da qualificação figura-se em função da automação gestão de eventos e desenvolveu modelo de carreira, em que a trajetória profis- polivalência realçam o valor do trabalho real em detrimen- sional era enquadrada pelos parâmetros de classificação, cor- to da prescrição tornando as características dos empre- respondentes aos conjuntos de postos reunidos por similari- gos mais instáveis. dade técnica. A progressão ao seio de uma carreira obedecia a Com isto, a dimensão conceitual da qualificação, que regras que se aplicavam, particularmente nas grandes empre- remete à formação teórica e aos diplomas que validam essa sas, combinadas à e à seleção apoiada sobre cri- formação, é colocada em questão. Em outras palavras, a rela- térios objetivos. Desta forma, a trajetória profissional associa- ção formação-emprego é tensionada pela distância entre ob- va promoção ao aumento do conhecimento técnico e da res- jetivos econômicos e recursos promovidos pela experiência ponsabilidade, com uma correspondente elevação na hie- educativa. Observamos que rarquia salarial. Sob a égide da autonomia requerida pelos processos "durante decênios, sancionados pelo diploma, saber ofere- automatizados, as formas de gestão do trabalho fazem incidir ceu garantias de competências. Isso não é mais verdadeiro atual- sobre os próprios trabalhadores a responsabilidade por gerar mente. As competências não se deduzem automaticamente dos condições de promoção. Novos princípios de contratação e saberes. A profissionalização, quer dizer, a construção de com- de gestão incluem os procedimentos participativos, os con- petências ou de competência, exige mais que os saberes. Em a construção de competências coloca em causa tratos por objetivos, as formas de avaliação e de auto-avalia- os conteúdos da formação, os métodos de transmissão e ção, o deslocamento do controle direto sobre as tarefas para a certificação pelo diploma. É então a ligação entre a dimensão controle da qualidade dos produtos. Enfim, são procedimen- conceitual da qualificação e das competências que é fortemente tos que emergem sob a lógica da gestão por competência. Eles questionada. Entre a qualificação, no seu sentido conceitual, e modificam o sistema hierárquico no seio da empresa levando</p><p>64 A PEDAGOGIA DAS COMPETÊNCIAS A PEDAGOGIA DAS COMPETÊNCIAS 65 cada trabalhador a se considerar como parte predominante derrotados ou vitoriosos - com a necessidade de se reer- de uma cadeia que liga, continuamente, à direção. guerem economicamente e restaurarem um pacto social e Notamos, então, que duas das dimensões estruturantes político. Mesmo como mediação, a importância do conceito do conceito de qualificação são enfraquecidas. Por isto, po- de qualificação como ordenadora de práticas e idéias não é demos afirmar que deslocamento não é meramente semân- negligenciável. tico, e sim concreto, uma vez que, conforme afirma Dugué Dugué (1998) vê que a lógica da competência se inscreve (1999), é toda a arquitetura social que suporta a articulação no movimento que se acirra nos anos 80 tanto na França entre trabalho e formação que está em jogo. Relações sociais em que se inscreviam direitos conquistados e acordos cole- como em outros países de declínio das intervenções regu- tivamente negociados também se fragilizam. A solidez de ladoras do Estado no domínio econômico, modificando as algumas dessas relações mundo do trabalho e sistema formas de regulação entre oferta e demanda de emprego. Com educativo, organização e conteúdo das atividades educativas, a competência, diz ela, a referência aos postos ideais (defini- validação e reconhecimento dos saberes e das capacidades dos no coração dos negócios coletivos e paritários) se rarefi- profissionais, modalidades de recrutamento e de gestão das zeram em proveito das formas de adaptação à diversidade do carreiras fluidificam-se para tomar a forma de práticas concreto. Desenvolvem-se as negociações por ramos profissi- referentes à competência, que fundam a relação trabalho- onais, os acordos por competências na empresa, as novas for- educação sobre novas bases (também instáveis) e recorrem mas de certificação, acompanhadas da validação das aquisi- freqüentemente aos recursos e procedimentos individuali- ções profissionais. Em todos esses casos, as regulações tende- zantes. ram a não mais se efetuar sob a égide do Estado. São os par- O redirecionamento econômico-político das funções do ceiros sociais (ao nível dos ramos profissionais ou da empre- Estado constituem parte fundamental da reconfiguração des- sa) ou mesmo, ao extremo, os indivíduos que realizam os acor- sa arquitetura social. No pós-guerra, Estado incumbiu-se de dos, limitados e conjunturais, mas que não diminui os efeitos guiar e de organizar a formação dos trabalhadores como re- mais globais. quisito necessário à reestruturação industrial que nesse perí- Mesmo admitindo a necessidade de uma reconfiguração odo se processou. A qualificação, com sua categoria correlata dos parâmetros de classificação em vigor, (apud - a profissão foi um suporte das políticas educativas as- Roche, 1999b) alerta também sobre O perigo, para a empresa e sim como das políticas industriais, permitindo organizar e para os equilíbrios sociais em geral, de uma explosão muito disciplinar O mercado de trabalho, antecipar e guiar as evolu- brutal e profunda dos referenciais de classificação. Mas não ções dos sistemas de produção e dos empregos. Permitiu, ain- se pode negar que essas novas práticas nasçam da crise da da, ao Estado, intervir na regulação entre oferta e demanda de qualificação e da emergência da competência. Pode-se afir- empregos, enquadrando as situações conseqüentes da defini- mar que a lógica da competência, que introduz a instabilida- ção de diplomas e fixando os grandes objetivos educativos. de em contraposição à permanência e os interesses indivi- Sabendo-se que O Estado não é uma entidade homogênea e duais confrontados com os coletivos, vem ameaçar os equilí- universal, obrigando-nos a localizar sua função econômico- brios obtidos à época do taylorismo-fordismo. Nessas condi- política historicamente e em relação às diferentes organiza- societárias, podemos afirmar que essa função planificadora e reguladora das provisões educativas em fun- 32. SCHWARTZ, Y. A Propos du Glissement Sémantique ção das necessidades econômicas e sociais tendeu a se esta- Compétence": La Qualification à la Recherche de ses Conditions aux Limites. Journées de Sociologie du Travail. PIRTTEM-CNRS, Université de Toulouse-Le belecer pelo menos nos países que saíram da grande Mirail. Vol 1, pp. 177-199.</p><p>66 A PEDAGOGIA DAS COMPETÊNCIAS A PEDAGOGIA DAS COMPETÊNCIAS 67 ções fundadas sobre as dimensões conceitual e social do-se com outros atores para mobilizar suas próprias capaci- competência e qualificação divergem. dades. Note-se que termo inteligência não remete somente à dimensão cognitiva da realização do trabalho, mas também à dimensão compreensiva. Essa última é mais subtendida, me- 2.2.2. Deslocamento Convergente: Fortalecimento da Dimensão Experimental nos formalizável, pois compreender uma situação é saber da Qualificação apreciá-la, tendo em conta os comportamentos de seus constitutivos, sejam eles elementos materiais (as máquinas) Para Schwartz (1990) a competência explica a nova arti- ou humanos. culação entre a dimensão experimental e a dimensão concei- A dimensão compreensiva se revela na interação social, tual dos saberes necessários à ação. Com a competência, to- quando sujeito deve interpretar os comportamentos huma- mam lugar o saber-fazer proveniente da experiência, os regis- nos à luz, mesmo parcial, das razões que os motivam. A inte- tros provenientes da história individual ou coletiva dos tra- ligência é dita prática pelo fato de ser orientada à ação. balhadores, ao lado dos saberes mais teóricos tradicionalmente Ao mesmo tempo, afirma-se que exercício da compe- valorizados na lógica da qualificação. Enfim, fundamentada tência não existe sem a profundidade dos conhecimentos sobre a valorização da implicação subjetiva no conhecimento, que poderão ser mobilizados na situação. Os conhecimen- ela desloca a atenção para a atitude, o comportamento e os tos não se limitam ao nível de sua aplicabilidade, mas, jus- saberes tácitos dos tamente porque depende de um exercício reflexivo, pressu- Por essa ótica, a emergência da noção de competência é que sujeito mobilize suas aprendizagens em favor fortemente associada a novas concepções do trabalho basea- das situações. das na flexibilidade e na reconversão permanente, em que se Nesse sentido, a dialética que Zarifian afirma se instau- inscrevem atributos como autonomia, responsabilidade, ca- rar entre competência e conhecimentos é equivalente à pacidade de comunicação e polivalência. Nesse sentido, O dialética que Schwartz propõe entre as dimensões conceitual domínio do processo de trabalho faz apelo às qualificações e experimental da qualificação: de um lado os registros tácitas, implícitas e não formalizadas por parte dos trabalha- conceituais que estruturam trabalho e do outro a mobilização dores. Para (apud Roche, op. cit., p. 49), a dimen- prática e reflexiva desses registros. A dialética ocorre à medi- são experimental da qualificação se reporta à capacidade dos da que os conhecimentos se modificam no contato com os indivíduos de gerir individualmente ou coletivamente os pro- cessos de trabalho, de maneira a atender aos objetivos fixa- problemas e acontecimentos encontrados em situações con- cretas, em função das iniciativas conquistadas, das responsa- dos superando os disfuncionamentos que contrariam a reali- bilidades efetivamente exercidas, dos estudos de explicação zação. e de compreensão que foram manejadas para saber plenamente Essa abordagem vem ao encontro da definição que o porquê das ocorrências ou dos casos que falharam nessa Zarifian (1999a) propõe para a competência, que pode ser sin- situação. Ao mesmo tempo, qualquer prescrição pode ser pro- tetizada como a capacidade que os trabalhadores têm de en- fundamente transformada, ampliada ou enriquecida pela ação frentar situações e acontecimentos próprios de um campo dos sujeitos. profissional, com iniciativa e responsabilidade, guiados por uma inteligência prática do que está ocorrendo e coordenan- O que está em jogo nessa relação, então, é a atividade formal e a atividade real, a implicação subjetiva do sujeito no conhecimento e a idéia de que sujeito habita seu domínio 33. TROUSSIER, J. F. Travail Colletif et Nouvelles Technologies. Grenoble: de conhecimento quaisquer que sejam os modos de organiza- IREPD, 1987. ção do trabalho. Nesse sentido, a competência e a qualifica-</p><p>68 A PEDAGOGIA DAS COMPETÊNCIAS A PEDAGOGIA DAS COMPETÊNCIAS 69 ção não estariam afastadas uma da outra. Se existe, a frontei- truindo-se como conceito histórico-concreto de mediação da ra entre a dimensão experimental da qualificação e compe- relação trabalho-educação, a competência, por abstrair essas tência é extremamente tênue e seria muito mais tributária da múltiplas determinações da atividade humana, pode resgatar diferença entre a sociologia e a psicologia, campos teóricos uma compreensão essencialista do trabalho, cujo centro, ao originais em que se inscrevem, respectivamente, o conceito invés de ser posto de trabalho, desloca-se para o sujeito abs- de qualificação e a noção de competência. traído das relações sociais. O exposto leva-nos a concluir que entre a competência e a dimensão experimental da qualificação existe uma gran- de proximidade, na medida em que ambas reportam às qua- lidades da pessoa e ao conteúdo de trabalho. As qualidades e os conteúdos do trabalho, porém, são modificados: indi- víduo evoluiria de uma lógica de ter (ter uma qualificação, ter conhecimentos,) a uma lógica de ser (ser competente, ser qualificado). Essa mudança de lógica tem cias importantes sobre a gestão do trabalho e incidências significativas sobre as outras dimensões da qualificação, como vimos. Entretanto, se compreendido historicamente, conceito de qualificação não deixaria de responder à mu- dança de enfoque do objeto para sujeito mas, ao contrá- rio, pelo fato de ser uma construção social histórico-con- creta, incorporaria movimento de transformações sociais próprias do homem no processo de produção e reprodução da existência. Por isto, acompanhamos Bollon e Duboi (apud Roche, op. cit., p. 49) quando dizem que a qualificação não pode se reduzir à noção de competência porque esta subestima a di- mensão social das relações de trabalho. Além disto, traba- lho, na sua perspectiva ontológica, não se reduz ao sujeito, mas envolve todo o movimento contraditório de produção e reprodução da existência humana, estando o homem em rela- ção dialética com a natureza e com os outros homens. Nesse processo, constroem-se conhecimentos e se produzem bens materiais com valor de uso. A qualificação é uma mediação do processo em que se relacionam trabalho concreto e as aprendizagens subjetivas e sociais. Apropriado pelo capita- lismo, trabalho concreto transforma-se em trabalho abstra- to e seus conceitos de mediação reduzem-se a fatores de pro- dução. Assim, conquanto a qualificação remeta-se ao homem em suas condições históricas de produção da existência, cons-</p><p>A PEDAGOGIA DAS COMPETÊNCIAS 71 A INSTITUCIONALIZAÇÃO DE SISTEMAS DE COMPETÊNCIA: materialidade do deslocamento conceitual "O presentismo, o fato empírico imediato sem a mediação da análise e reflexão, mecanismo estrutural ou a fragmentação pós-moderna, constituem-se em barreiras ao olhar crítico so- bre a realidade" (Frigotto, 1998, p. 50). Chamamos de institucionalização de sistemas de com- petência processo por meio do qual diversos sujeitos so- ciais implementam ações concretas baseadas na noção de com- petência, conferindo, assim, materialidade ao deslocamento conceitual. Essa institucionalização tem ocorrido mais expres- sivamente mediante reformas no sistema educativo, cresci- mento e diversificação da oferta em educação profissional. Experiências mais localizadas indicam a forma como a com- petência também reorganiza a gestão do trabalho, o que dis- cutiremos posteriormente. Por ora, buscaremos verificar os mecanismos de institucionalização no plano internacional, localizando algumas especificidades de caráter regional. Caillaud et alli (1997), referindo-se especificamente à Europa, afirmam que, apesar de o termo competência ser muito utilizado por políticos e por pesquisadores em educação, seu</p><p>72 A PEDAGOGIA DAS COMPETÊNCIAS A PEDAGOGIA DAS COMPETÊNCIAS 73 significado e suas práticas ocorrem em um texto específico, o que torna muito complexo realizar medi- pequeno número de países. Caso notável é do Reino Unido, das dessas competências objetivamente, em particular se elas onde instituiu-se sistema de qualificações baseado em com- tiverem de ser reconhecidas fora do contexto em que foram petência. Por outro lado, em países como a França ou a desenvolvidas. Holanda, onde ele é largamente utilizado, ainda significa muito A necessidade de superação dessas dificuldades a favor pouco em termos práticos, tanto no sistema educacional quan- dos consensos previamente indicados leva os autores em re- to no sistema de qualificação. Entretanto, debate sobre o ferência a indicarem a conciliação dos projetos dos princi- modelo da competência envolve rapidamente diversas socie- pais sujeitos envolvidos nessa problemática como a melhor dades, nele incorporando governos, empresários, trabalhado- estratégia. O projeto individual implica a responsabilidade res, intelectuais e educadores. que tem indivíduo na gestão de sua própria carreira profis- Uma das principais questões quanto à institucionaliza- sional. O projeto das empresas, seja qual for tipo, deve cui- ção do modelo de competência refere-se à necessidade ou não dar das relações de competitividade nas organizações e de de uma regulação geral das competências. Alguns argumen- suas responsabilidades em desenvolver as competências in- tam que as competências podem ser reguladas com base em dividuais. Por fim, projeto social tem como foco a dimensão acordos bilaterais entre empregador e empregado e ser reco- social e coletiva do profissionalismo e papel assumido pelo nhecidas ao nível da empresa. Outros destacam a fragilidade governo e pela sociedade em geral (organizações sociais e pro- que isso criaria nas relações de trabalho e defendem a neces- fissionais) em prover os recursos e oportunidades iguais às sidade de se construir um novo sistema coletivo para regular pessoas para se tornarem profissionais e terem seu os meios de acesso ao emprego e O reconhecimento indivi- profissionalismo reconhecido. Os sistemas de competência dual de competências. profissional têm-se apresentado como tentativa de realizar essa conciliação. A partir desse debate, pelo menos três pontos de con- senso podem ser indicados: a) a necessidade de acordos em torno de sistemas para reconhecer competências ou a compe- 1. Bases dos Sistemas de Competência tência profissional de um indivíduo que não esteja baseada somente nos diplomas educacionais; b) a necessidade de os Do ponto de vista empresarial, tem-se tornado forte a sistemas educacionais serem geridos no sentido de desenvol- relação entre competitividade e inovação na gestão do traba- ver competências profissionais; c) a necessidade de se ofere- lho; fato que envolve as idéias de formação ampla dos traba- cerem aos indivíduos, incluindo os desempregados, iguais lhadores e desempenho na empresa. Não se trata, entretanto, oportunidades de desenvolver suas competências ao longo de de qualquer tipo de formação, mas aquela que se vincula às uma carreira. inovações em tecnologia e na organização da produção. Os Mesmo assim, dificuldades de se construir um novo sis- empresários denunciam a existência de obstáculos organiza- tema profissional baseado em competência são apontadas. Por cionais a esse tipo de formação, tanto externa quanto interna- exemplo, a abordagem por competência enfatiza a ação que mente às empresas, acrescentando a isto as dificuldades de se processa em contextos específicos de produção, sendo en- definição dos conteúdos da formação. tão geridas segundo os interesses da própria empresa, tornan- Os obstáculos internos, normalmente, vinculam-se à ri- do difícil construir um sistema global e genérico que possa gidez da jornada de trabalho, que dificulta compatibilizá-la ser aplicado externamente à empresa. Outra dificuldade é o com os horários da formação, bem como à falta de incentivos fato de essa abordagem enfatizar, também, as características aos trabalhadores para se capacitarem. Os obstáculos exter- pessoais e a capacidade de mobilizar competências num con- nos, em geral, situam-se no plano das políticas educacionais,</p><p>74 A PEDAGOGIA DAS COMPETÊNCIAS A PEDAGOGIA DAS COMPETÊNCIAS 75 consideradas desatentas em relação às demandas atuais de tal, tem uma conotação muito mais ideológica, enquanto que, formação e incapazes de acompanharem avanço tecnológico. na perspectiva do trabalho, a mobilização sindical em torno Referem-se a problemas tais como: formação para ocupações desse tema tem funcionado, pelo menos em parte, como ten- em vias de extinção, frágil estrutura de educação continuada, tativa de manutenção da coesão interna às categorias. Ade- currículos rígidos, conteúdos ultrapassados. mais, tem-se comprovado que os esforços em capacitação não Essas dificuldades têm feito as empresas, em seu inte- se traduzem, necessariamente, em mais empregos, de modo rior, modificarem as estruturas de gestão e, em relação às po- que a defesa desse tema acaba convertendo-se em retórica líticas educacionais, exigir do Estado que garanta a educação neoconservadora. básica de qualidade e forneça apoio financeiro e político para Outro argumento a favor da institucionalização de siste- a estruturação da educação profissional inicial e continuada ma de competência profissional tem sido a possibilidade de num sistema amplo de parcerias. se abrir espaço de negociação aos trabalhadores individuais Mas esses obstáculos também advêm da cultura da no interior das empresas e, aos trabalhadores coletivos, de se competitividade ainda predominante, que considera o inves- organizarem no sentido de evitarem a completa explosão da timento em formação de trabalhadores um fator de risco, pelo integração econômica. Estando em coerência com as tendên- fato de o trabalhador poder vir a mudar de emprego e, então, cias esse sistema promoveria oportu- transferir know how, obtido por meio da empresa, para ou- nidades de formação atualizada e coerente com as tendências tras empresas. Em contraposição a esta cultura, análises têm do mercado para trabalhadores em diversas situações: em- mostrado que a consolidação de um mercado com vigor eco- pregados, desempregados ou com risco de perderem o empre- nômico exige das empresas uma postura em que principal go; trabalhadores não qualificados ou com necessidade de objetivo não seja a eliminação do competidor ou a incorpora- requalificação. ção de outras empresas em sua estrutura corporativa, mas a Assim sendo, afirma-se que os sindicatos deveriam formação de uma economia diversificada e policêntrica. Em potencializar politicamente essas ações, participando ativa- síntese, dever-se-ia passar da lógica da competitividade para mente na definição e atualização das competências, servindo a lógica da cooperação, incluindo alianças estratégicas com como instrumento ativo nas políticas de empregabilidade. Isto empresas pequenas que, apesar de não terem as mesmas ba- demandaria uma nova cultura sindical no sentido de incor- ses tecnológicas das grandes, ocupam um importante papel porar a importância da formação profissional nas pautas polí- na produção flexível. ticas dos sindicatos, como também ações que integrem os dis- A estruturação de um sistema de competência profissio- tintos grupos de trabalhadores: qualificados, não qualifica- nal é indicada como capaz de demarcar uma esfera de coope- dos, com qualificação obsoleta e outros. Entendemos que es- ração entre as organizações, na qual se definem os elementos sas questões, na perspectiva sindical, não pode ser analisada requeridos pelo mercado em matéria de educação profissio- a partir delas mesmas, mas em conjunto com os diversos ele- nal. Ao mesmo tempo, em relação aos conteúdos da forma- mentos que configuram a luta de classes e as negociações ção, sistema de competência poderia orientar e renovar as letivas. Este parece ser um importante desafio para os sindi- políticas e as ações educacionais, gerando parâmetros perma- catos. nentemente renováveis. Na ótica do capital, o fortalecimento da noção de com- Com relação aos trabalhadores, a educação profissional petência é defendido como ponto de convergência dos proje- tem sido valorizada como contra-medida às ameaças de de- tos dos empresários e dos trabalhadores em termos de educa- semprego. Face à ausência de outras políticas econômicas e ção profissional. Um terceiro sujeito social o governo sociais com este objetivo, esse argumento, por parte do capi- convocado a dar materialidade a essa convergência, impul-</p><p>76 A PEDAGOGIA DAS COMPETÊNCIAS A PEDAGOGIA DAS COMPETÊNCIAS 77 sionando as políticas que integrem esses projetos. Entretanto, da às demandas do mercado de trabalho. Neste caso, a com- por mais genéricas e universais que sejam as motivações que petência ajuda na formulação de um código de comunicação os justifiquem, serão os problemas mais específicos de cada entre as instituições formativas e as organizações produtivas. sociedade que orientarão a opção de se institucionalizar a A Colômbia e a maioria dos países são noção de competência por meio da implantação de sistemas. enquadrados aqui, ainda que possamos generalizar o papel Analisando as tendências que têm tomado essas políti- que cumpre a competência profissional como código de diá- cas de certificação de competências na América Latina, logo entre as esferas formativa e produtiva. Hernández (2000a) relaciona alguns motivos que justificam a Em outras ocasiões, a competência profissional respon- institucionalização da noção de competência. de à necessidade de gerar referenciais para ordenar e criar Um dos motivos por ele apresentados vincula-se à ne- uma oferta formativa de qualidade que permita elevar nível cessidade de se reformar os sistemas de educação geral e de de qualificação dos trabalhadores de um determinado setor educação profissional. Nesses casos, pretende-se construir de atividade. Projetos em desenvolvimento no Chile e na Ar- instrumentos que ajudem atualizar formações que se torna- gentina incluem-se neste caso. Algumas ações em andamento ram obsoletas, fortalecer as aprendizagens profissionais fren- no Brasil também são exemplares, como a que se tem realiza- te às aprendizagens acadêmicas, articular formação geral com do nos setores de hotelaria, turismo e saúde. formação profissional ou a formação inicial com a formação Por fim, estão as exigências colocadas por determinados contínua, criar novos trânsitos entre esses segmentos, ampli- mercados em atividades sujeitas a normas internacionais de ar oportunidades de acesso e progressão em determinadas tra- qualidade, quando a certificação se aplica tanto a produtos jetórias de aprendizagem. A proposta é gerar um sistema de quanto a pessoas. É esta conotação que assumem os sistemas referenciais para a atualização das ofertas de formação, para a de certificação e de qualificação existentes em atividades for- construção de trajetórias de aprendizagem, para o temente normalizadas do mercado de trabalho, tais como ordenamento de oportunidades de mobilidade educacional e soldagem, atividades de inspeção e de manutenção, dentre profissional. Este é caso de países como Chile, Argentina e Brasil, na América Latina, mas também de França, Espanha, Hernández propõe pensar sistema de competência de Portugal, Austrália. uma forma mais ampla, no âmbito do projeto social. Tendo Outro motivo relaciona-se com a preocupação do setor como foco inicial a certificação, autor demonstra como esta público com respeito à qualidade e à pertinência da educação prática deve ser analisada na perspectiva de seus efeitos em profissional que está financiando, além de se desejar ampliar termos de identidade, reconhecimento e hierarquização so- a oferta de formação a grupos sociais vulneráveis em termos cial. Afirma, então, que essas políticas encerram um grande de integração ao mercado de trabalho, geralmente excluídos desafio: também das oportunidades formativas tradicionais. A proposta agora é gerar padrões de qualidade em relação aos quais po- "podem tornar mais ou menos público o debate sobre as for- dem-se medir os resultados da formação oferecida. Podemos mas como a sociedade define as hierarquias entre saberes, so- incluir nessa perspectiva Chile e Brasil, além de Reino bre as formas de reconhecimento e legitimação dos mesmos e Unido e México. sobre os efeitos que se seguem de tudo isto para as pessoas em termos de identidades, oportunidades e exclusão" Como uma importante motivação está a necessidade de 2000a, p. 6., tradução livre) reformar e modernizar as instituições de formação profissio- nal, utilizando-se a competência profissional para sair de uma Pelo fato de as identidades profissionais tradicionais esta- estrutura baseada na oferta, em direção a outra mais vincula- rem comprometidas pelas mudanças tecnológicas e organi-</p><p>78 A PEDAGOGIA DAS COMPETÊNCIAS A PEDAGOGIA DAS COMPETÊNCIAS 79 não só funcionamento do mercado de trabalho se A implantação de sistemas de competência com o marco vê afetado, como também as referências em que se baseava a conceitual previamente referido obedece a uma de formação. Explica ele que, nesse âmbito, as alternativas so- procedimentos institucionalizados bem definida: descrição ciais podem ser o refúgio defensivo nas tradições que, aos dos desempenhos esperados por meio de metodologias de poucos perdem valor e reconhecimento efetivo no mercado investigação de competência aplicadas ou validadas por pes- de trabalho; a fragmentação em identidades profissionais soas implicadas com trabalho; formulação das normas de múltiplas e locais que converge ao individualismo ou a cria- competência; realização das avaliações em situações de tra- ção de mecanismos e âmbitos institucionalizados nos quais balho ou em condições preferencialmente por seja possível transformar as tradições em processos de apren- organismos diferentes daqueles que formaram o trabalhador. dizagem abertos, capazes de refletir e atualizar-se de modo Esse é um marco conceitual característico dos sistemas que permanente. se espelham na experiência do Reino Unido. Ao mesmo tempo, essas identidades profissionais forja- O segundo marco conceitual insiste sobre conjunto de ram-se por meio de uma formação inicial e hoje se vêem con- saberes e características (atributos e disposições) incorpora- frontadas com a necessidade de a aprendizagem ser conti- das e mobilizadas por uma pessoa nas diversas situações de nuamente renovada. Cada vez mais adquirem legitimidade os trabalho com outras pessoas. O autor chama essa abordagem conhecimentos e saberes que se desenvolvem pela de conceito disposicional e reflexivo de competência. cia ou por outras vias que não seja a educação instituciona- A competência assim abordada, é concebida como o con- lizada, pleiteando-se a legalidade de mecanismos que confi- junto de saberes e capacidades que os profissionais incorpo- ram reconhecimento público e oficial a esses saberes. A ram por meio da formação e da experiência, somados à capa- abertura de espaço para outros tipos de saberes questiona a cidade de integrá-los, utilizá-los e transferi-los em diferentes hierarquia que tende a organizar os sistemas educativos. situações profissionais. Esse marco conceitual aproxima-se Nesse sentido, autor argumenta que, de forma delibe- muito do que os australianos definem como abordagem inte- rada ou não, a institucionalização de sistemas de competên- grada ou holística ou, ainda, com a definição proposta por cia potencializa uma reforma também dos códigos de comu- Zarifian (1999a), em que relaciona inteligência prática, res- nicação ou das normas e valores de uma sociedade; essas nor- ponsabilidade, autonomia, cooperação e disposição comuni- mas e esses valores são utilizados para a tomada de decisões cativa. Ainda que esse marco conceitual também exija proce- vinculadas às biografias pessoais, à formação e aos mercados dimentos definidos para a implantação dos sistemas, uma de trabalho. Portanto, as opções políticas realizadas quanto à diferença importante é ser menos sistemático ou pragmático. institucionalização ou não de sistemas de competência e o Adotam-se procedimentos mais exploratórios, incorporando respectivo aporte conceitual, tem uma dimensão cultural, tanto interlocutores diversos, resolvendo problemas e adaptando no sentido de que nascem dos códigos e valores existentes continuamente as soluções a distintas situações que se apre- quanto por virem a gerar novos valores, a respeito dos quais sentem. ainda pouco se sabe. A preocupação central das políticas que têm este marco De uma forma muito interessante, Hernández identifica conceitual não é tanto desenvolvimento de sistemas exter- dois marcos conceituais que tem ordenado a implantação de nos às instituições formativas, mas a construção de mecanis- sistemas de competência profissional. O primeiro, que ele mos de diálogo que aproximem os sujeitos sociais do mundo chama de conceito performativo, associa a competência ao produtivo e que permitam a construção de referenciais (mais desempenho efetivo demonstrado em situações profissionais, do que normas) a partir dos quais podem-se redesenhar e atua- de acordo com os padrões de qualidade. lizar os processos formativos. Desta forma, parte-se da</p><p>80 A PEDAGOGIA DAS COMPETÊNCIAS A PEDAGOGIA DAS COMPETÊNCIAS 81 institucionalidade existente, explorando formas de aproxima- mando decisões com base nesses As competências ção com O mundo do trabalho, a fim de atualizar e flexibilizar validadas tornam-se instrumentos de negociação do trabalha- a oferta de formação profissional inicial com a formação con- dor passíveis de gerar mobilidade profissional horizontal ou tínua, incorporando novos âmbitos de aprendizagem e novas vertical, interna ou externa à empresa, ganhos de remunera- tecnologias. ção, acesso à educação continuada, dentre outros. Dependendo da estrutura existente de títulos e diplo- Três são as principais atuais matrizes referências dos mas essa perspectiva, ao invés de negar por absoluto sua vali- métodos de investigação de competência: a condutivista, uti- dade, propõe atualizar, ordenar e diversificar as certificações lizada predominantemente nos Estados Unidos; a funciona- vigentes, modificando seu alcance, as formas de defini-la e lista, que se tem tornado hegemônica; e a construtivista, de estabelecendo ligações entre elas. A competência é incorpo- origem francesa. Posteriormente discutiremos suas respecti- rada à linguagem tradicional de títulos, diplomas e qualifica- vas implicações. Por ora veremos quais as principais caracte- ções. Esforços são envidados, ainda, para fortalecer O valor rísticas de cada um dos subsistemas de competência profissi- dos certificados obtidos por vias não tradicionais. Isto se rea- onal. liza tanto pela criação de mecanismos de certificação à parte dos sistemas formativos quanto conferindo às instituições existentes a prerrogativa de validar e certificar as competên- 2.1. Os Subsistemas de Competência Profissional: Normalização, Formação, cias adquiridas. Avaliação e Certificação de Competências A normalização de competências é processo de defini- 2. Bases Teórico-Metodológicas dos Sistemas de Competência ção de um conjunto de padrões ou normas válidas em dife- rentes ambientes produtivos. No interior das organizações Um sistema de competência profissional é integrado por produtivas, a norma constitui um instrumento que permite três cujas características se definem de acordo articular a formação com outros elementos de recursos hu- com a matriz de investigação dos processos de a) manos, tais como O sistema de pagamento, a participação, a normalização das competências; b) formação por competên- promoção. Externamente à organização, as normas geram um cias; c) avaliação e certificação de competências. A investiga- sistema de informação sobre o que os processos produtivos ção das competências tem por objetivo garantir a evidência demandam dos trabalhadores, convertendo-se em elementos das competências requisitadas pelos empregos, possibilitan- orientadores para sistema educativo. Ela deve ser confor- do a definição e a sistematização de um perfil profissional. mada pelos conhecimentos, habilidades, destrezas, compre- Elaboram-se, então, as normas de competência mediante a ensão e atitudes, que podem ser identificadas na etapa de in- confrontação do perfil com as ocupações ou situações típicas vestigação das competências profissionais para um desempe- de trabalho, deduzindo-se os desempenhos satisfatórios. A nho competente em uma determinada função produtiva. A partir de então, Estado e as próprias organizações empresa- norma permite, também, descrever a capacidade de uma pes- riais podem promover processos de formação para orientar a soa para obter resultados de qualidade com desempenho efi- aquisição dessas competências, avaliá-las e certificá-las, to- ciente e seguro de uma atividade; a capacidade para resolver os problemas emergentes no exercício da função produtiva e a capacidade para transferir os conhecimentos, habilidades e 1. A explicação sobre cada um desses subsistemas, de forma objetiva e de destrezas que já possui, a outros contextos profissionais. acordo com a visão da Organização Internacional do Trabalho, pode ser encon- Espera-se que uma normalização pactuada entre os di- trada em Vargas (1999). versos sujeitos sociais envolvidos no processo governo,</p><p>82 A PEDAGOGIA DAS COMPETÊNCIAS A PEDAGOGIA DAS COMPETÊNCIAS 83 empresários, trabalhadores e educadores possa melhorar a da organização e dos clientes-usuários, a formação por compe- empregabilidade das pessoas, sempre que as normas se refe- tências privilegiaria a aprendizagem em ritmo individual, gra- rirem a competências transferíveis que podem ser atualizadas dual e desenvolvimento da capacidade de auto-avaliação. depois de um determinado período. O destaque aos contextos e às situações reais de traba- A construção da norma depende de como interpretar lho deve-se, dentre outros motivos, ao fato de que a compe- distintos contextos e situações e, portanto, do método de in- tência envolve a iniciativa, a capacidade de realizar análises vestigação de competências. Com isso, pode-se chegar a nor- para identificar, planejar e propor soluções a problemas, a mas duras, porque são critérios relacionados a resultados di- capacidade de trabalho em equipe, etc; são competências mais retos obtidos pela análise funcional, a normas brandas, deri- próximas ao comportamento do que à memorização ou à des- vadas da abordagem condutivista; e normas contextuais, deri- treza. Portanto, os modelos educativos se defrontam com o vadas da abordagem construtivista. A construção da norma objetivo de desenvolver essas capacidades mediante ambien- também depende do marco institucional em que se insere: a) tes de aprendizagem que estimulem a busca de soluções nacional, setorial ou de empresa; b) bases nacionais compre- produzam a autonomia do aluno e sua própria determinação ensivas e uniformes (Reino Unido); c) bases para uma pre- em atingir os objetivos de aprendizagem. paração inicial, facilitando a transição da escola ao trabalho Outra característica da formação, que não exclui, mas (Alemanha, Dinamarca) ou bem para facilitar a mobilidade sim complementa as anteriores, é a possibilidade de um en- de trabalhadores qualificados (Japão, Canadá) (Mertens, sino individualizado e de uma organização modular dos cur- 1996a). sos, o que permitiria ao indivíduo acoplar melhor seus atri- Ao tratar da formação, por outro lado, verificamos quan- butos e capacidades pessoais com as necessidades de forma- to se tem subestimado a dificuldade que apresenta desen- ção. volvimento curricular de um ensino baseado em normas de Em uma investigação recente sobre a aplicação dos pro- competência. É por esta razão que muitas vezes as normas de gramas de capacitação na Austrália, obteve-se como resulta- competência são apresentadas como se fossem as competên- do que a colocação em prática das características da formação cias em si mesmas ou próprio currículo. Entretanto, é óbvio por competência ainda é muito limitada. Ou seja, mesmo que se encontrem alguns daqueles aspectos em menor ou maior que as normas, ao não responderem à lógica de ensino e apren- medida nos programas de capacitação, poucos foram os casos dizagem, não apresentam nenhuma que observe onde todos os elementos estavam presentes explicitamente uma metodologia própria para a formação. Como vimos, elas apud Mertens, 1996a). expressam um objetivo, um resultado esperado e não uma metodologia de como aprender e chegar ao resultado. A des- Como mecanismo complementar à formação ou de vali- crição de atividades não é suficiente para a aprendizagem dos dação dos saberes do trabalhador, a certificação de compe- tência costuma resultar da avaliação do desempenho. Nesse respectivos fundamentos contexto, a avaliação torna-se um instrumento de diagnóstico Enquanto os resultados da investigação de competên- não só para os educadores se estiver associada à formação cias expressam que trabalhador deve ser capaz de fazer, mas também para trabalhador e para empregador. Grosso os currículos estabeleceriam as estratégias para construir essa modo, esse tipo de avaliação se caracteriza por centrar-se nos capacidade. O currículo corresponderia a um conjunto de experiências de aprendizagem concretas e práticas, focadas em atividades que se realizam nos contextos ou situações 2. HARRIS, R.; BARNES, G. y HAINES, B. Competence based Programs: a reais de trabalho. Assim como no trabalho que se privilegia Viable Alternative in Vocational Education and Training. Australian Journal of é a competência individual dos trabalhadores posta a serviço TAFE Research and Development, n. 2, 1991.</p><p>84 A PEDAGOGIA DAS COMPETÊNCIAS A PEDAGOGIA DAS COMPETÊNCIAS 85 resultados do desempenho profissional, processando-se de cognitivas. Para evitar esse reducionismo, tem-se recomenda- forma totalmente individualizada. Na avaliação por compe- do uma avaliação recontextualizada, em que as medidas que se tência, interessa a comparação com resultado pré-estabele- fixam no desempenho foram substituídas por aquelas que per- cido, que não é a média de um grupo de indivíduos, mas sim mitem inferir conhecimento subjacente à competência. os objetivos da organização ou a própria norma de competên- Sabe-se que os critérios de seleção, recrutamento, remu- cia. O que importa é resultado final em relação à norma que foi deduzida da investigação, e não desenho de uma curva neração e promoção das organizações produtivas podem es- coletiva de desempenho, como se costuma fazer quando se tar integrados ou não aos programas de formação. Sabe-se, aplica a avaliação a turmas de alunos, por exemplo. ainda, que as avaliações podem se realizar no âmbito das or- ganizações e, portanto, em relação direta com sua estrutura Por uma abordagem integrada da competência, das quais de gestão, ou externamente a ela, mediante os sistemas de se aproximam, como veremos adiante, os modelos francês e certificação de competências. Quando inserida no desenvol- australiano, desempenho é compreendido como a expres- vimento dos programas de formação, entre a avaliação e a são concreta dos recursos que indivíduo articula e mobiliza norma existe a mediação pedagógica. Neste caso, a avaliação no enfrentamento das situações de trabalho. A competência cumpre duplo papel de regular as aprendizagens e identifi- seria, então, a condição do desempenho ou O mecanismo car seus resultados. Por isto, pode ser desenvolvida de forma subjacente que permite a integração de múltiplos conheci- processual e em paralelo ao processo de formação, de manei- mentos e atos necessários à realização da ação. Por essa ótica, ra que a avaliação das aprendizagens permita inferir sobre seus a competência não poderia ser avaliada somente através de resultados. Entretanto, quando descolada do processo de for- resultados ou dos atos realizados, nem desempenho pode- mação, as avaliações tornam-se parte complementar da norma, ria ser reduzido a esses resultados ou aos atos. Em outras pa- medindo distanciamento do indivíduo ante a norma. lavras, não poderia ser limitado a um conjunto de tarefas, A dimensão acreditativa ou certificativa da avaliação é a operações ou atividades descritas e codificadas com precisão. que se destaca neste último caso. As normas cumprem papel A observação do desempenho permitiria identificar o uso que determinante porque, em princípio, as competências certifi- faz sujeito daquilo que sabe (a articulação e a mobilização cadas adquirem validade ampla, muito além das das capacidades ou dos saberes em uso). Portanto, desem- especificidades de uma ou outra organização, diferentemente penho seria o ponto de convergência dos vários elementos de quando a avaliação é realizada internamente. É claro que a relevantes que compõem a competência ante uma situação organização pode, em seu modelo de gestão, estabelecer jogo (Jimenez, 1995). entre competências certificadas (externamente) e competên- No caso dos modelos funcionalistas, particularmente ins- cias validadas (internamente). pirados no sistema britânico, a avaliação visa reconhecer evi- De qualquer forma, para trabalhador, todas essas nor- dências e fazer juízo a respeito de se os indivíduos cumprem mas devem compor seu balanço de competências. Ainda que com os critérios de desempenho de cada elemento que foi es- a dimensão formativa da avaliação quando os resultados pecificado para a competência, confrontado com a norma. Esta servem para indicar ao indivíduo as competências consolida- demonstração tem que ser feita em condições mais semelhan- das e aquelas que ele ainda precisa desenvolver - também tes possíveis às reais. As competências baseiam-se em crité- esteja presente em qualquer tipo de avaliação, aproveita- rios de desempenho com origem behaviorista, ocupando-se da mento que faz indivíduo dessa dimensão formativa estará avaliação somativa de resultados pré-determinados. Esse tipo relacionada com os objetivos da avaliação. Os resultados da de avaliação foi desenhado para ser usada somente no treina- avaliação podem então servir para a retomada de uma trajetó- mento vocacional, que explica sua restrição nas relações ria formativa, envolvendo continuidade de estudos ou educa-</p><p>A PEDAGOGIA DAS COMPETÊNCIAS A PEDAGOGIA DAS COMPETÊNCIAS 87 ção permanente; para O acesso a um emprego ou para a mobi- jeto do CINTEFOR-OIT, seguido de diversas iniciativas leva- lidade na grade de classificação profissional, com efeitos so- das a cabo em vários países, como resultado do deslocamento bre a remuneração. do conceito de qualificação para a noção de competência. A São identificados três princípios básicos para chegar a idéia central em qualquer caso, é distanciar a certificação da uma avaliação apropriada de competência profissional concepção acadêmica de credencial obtida ao concluir estu- dos com êxito demonstrado por meio de provas e aproximá- apud Mertens, 1996a): é preciso selecionar os méto- dos diretamente relacionados e mais relevantes para tipo de lo da descrição de capacidades profissionais reais do traba- lhador, independentemente da forma como as tenha adquiri- desempenho a avaliar, que podem ser técnicas de perguntas, simulações, provas de habilidades, observação direta, evidên- do. Assim, a certificação de competências profissionais pode cias de aprendizagem prévia. Quanto mais estreita seja a base pela instituição em que se tenha cursado progra- mas de formação profissional ou por um organismo criado de evidência, menos generalizáveis serão os resultados para desempenho de outras tarefas, recomendando-se, então, uti- especialmente para certificar essas competências. lizar uma mescla de métodos que permitam a inferência da A certificação de competências passa a adquirir um va- competência mais amplamente possível; para poder cum- lor relacionado com a empregabilidade dos trabalhadores pelo prir vários elementos de competência, convém utilizar-se fato de se referirem a competências de base ampla, quando possível métodos holísticos ou integrados de ava- normalizadas em sistemas que facilitem sua transferibilidade liação. Isto permite que a avaliação alcance um maior grau de entre diferentes contextos ocupacionais. Admite-se, também validade. A integração significa a combinação de conhecimen- que, sob a égide da formação contínua e permanente, certi- to, compreensão, resolução de problemas, habilidades técni- ficado tenha validade limitada, de modo que o trabalhador cas, atitudes e ética na avaliação. Uma avaliação integrada ou deve atualizá-lo permanentemente em face do avanço tecno- holística se caracterizaria por estar orientada ao problema; lógico. O certificado de competência é expedido com base nas ser interdisciplinar; considerar a prática; cobrir grupos de normas de competência. Por referir-se a funções produtivas competência; exigir habilidades analíticas, e combinar a teo- reais, os certificados podem abranger unidades de competên- ria com a prática (Gonczi, 1997, p. 168). cias diferentes, de modo que trabalhador acumule certifica- Percebemos, então, que a abrangência da avaliação ba- dos de sucessivas unidades de competência nas quais tenha seada em competência estará associada à compreensão que demonstrado domínio. Acredita-se que, assim, ele pode se tem do desempenho, disputada pelas vertentes conduti- incrementar suas possibilidades de promoção e de mobilida- vista, funcionalista e construtivista. de profissional. Dependendo da configuração do sistema, um Como dissemos anteriormente, a avaliação de compe- conjunto de certificados que correspondam à totalidade das 'tências pode-se realizar, também, no âmbito de sistemas de unidades de competência de uma função pode receber equi- certificação. A certificação de competências é um aperfeiçoa- valência à respectiva qualificação. mento da certificação que surge como um pro- Como explica Vargas (199-b) um sistema de certificação pressupõe a atuação em duas dimensões. De um lado, os com- ponentes institucionais e, de outro, os componentes técnicos. 3. HAGER, P. Competency Standards a Help or a Hindrance?: an Australian Os primeiros referem-se aos diferentes atores sociais que cum- Perspective. Journal of European Industrial Training, Bradford, n. 7, 1992. 4. No Brasil, a certificação ocupacional adquiriu sistematicidade no âmbito prem papéis em diversos níveis. Os segundos são as diferen- do PBQP, mais especificamente no subprograma destinado à capacitação de re- tes fases a se desenvolver no processo de certificação. cursos humanos, dentro do qual está inserido o Programa Nacional de Qualifica- Os componentes institucionais dividem-se em três ní- ção e Certificação. Para conhecer algumas ações em andamento ver Mertens veis: a direção do sistema, o nível executivo setorial e nível (1996) e Hernández (2000a).</p><p>88 A PEDAGOGIA DAS COMPETÊNCIAS A PEDAGOGIA DAS COMPETÊNCIAS 89 operativo. O nível diretivo gera acordos necessários para es- ordenadora das relações de trabalho acaba se consolidando à tabelecer a estrutura do sistema, isto é, é responsável pela medida que consegue promover reconfigurações materiais elaboração da base institucional e do marco legal. Contam convergentes na gestão do trabalho e nos processos formativos. com a representação dos trabalhadores e dos setores empre- sarial e governamental. O nível setorial é de caráter executivo e é conformado pelos empresários e trabalhadores de um se- 2.2. As Matrizes de Investigação dos Processos de Trabalho tor ocupacional específico. É nesse nível que se processam a investigação das competências e as normas de desempenho O aporte principal da investigação de competência con- sobre as quais se certifica. No nível operativo figuram as ins- tinua sendo a análise ocupacional (ou análise dos empregos tituições dedicadas à certificação e à formação dos candida- ou, ainda, Job Evaluation). Uma abordagem de mesma raiz, tos à certificação. mas que é considerada superior à análise ocupacional, é a As instituições formadoras devem definir seus currícu- análise funcional. Esta toma a ocupação como agrupamento los a partir das normas de desempenho estabelecidas e de atividades profissionais pertencentes a diferentes postos institucionalizadas. As entidades certificadoras, por sua vez, de trabalho com características comuns normas, técnicas e encarregam-se de estabelecer que um trabalhador aspirante à instrumentos semelhantes correspondendo a um mesmo certificação é ou não competente. Para isto desenvolvem os nível de qualificação. Ao invés de a análise centrar-se nas ta- instrumentos de avaliação, sobre os quais já discorremos. refas a serem cumpridas, foca-se a função estratégica da em- Nesse quadro, discute-se se a instituição que forma deve ou presa e os respectivos resultados esperados da atuação dos não certificar. Algumas visões defendem uma maior indepen- trabalhadores. Apesar de a análise funcional ser a matriz de dência da avaliação em relação à formação, conferindo à investigação de competências predominante, utilizam-se, ain- certificação uma identidade mais clara, à medida que a sepa- da, a matriz condutivista e a construtivista. A primeira, utili- ra da titulação que se obtém ao fim de uma ação formativa. zada principalmente nos Estados Unidos, consideram as com- Outras visões, particularmente aquelas em que a competên- petências superiores e, por isto, analisam as atividades de- cia, muito mais do que reconfigurar toda a base da formação senvolvidas pelos experts com vistas a levar o conjunto de profissional, atua como uma nova linguagem entre os sujei- trabalhadores a um estágio equivalente de desempenho. A tos sociais, consideram que essa separação é inócua, quando matriz construtivista, por outro lado, que tem sua origem na não, indesejável. França, incorpora a contribuição dos trabalhadores com me- Há que se definir, por fim, qual a validade dos certifica- nor nível de desempenho, buscando construir uma análise dos e sua coerência com a divisão técnica e social do traba- integrada e participativa dos processos de trabalho. lho. Validade e coerência são normalmente explicitadas em termos de grades de classificação ou catálogos de ocupações. A implantação de um sistema de competência, acaba exigin- 2.2.1. As Tendências Hegemônicas: Condutivismo e Funcionalismo do que se reformule e se atualize a classificação vigente. Este A matriz condutivista de análise do trabalho advém da procedimento pode ser meramente formal ou compreender mesma estrutura comportamentalista que nasce nos Estados mudanças significativas, tanto no plano operacional quanto Unidos por meio de Skinner na psicologia, e de Bloom, Mager conceitual. Neste último caso, pode vir a se materializar nos e outros, na pedagogia, que se estenderam a diversos países e códigos das profissões e do exercício do trabalho, um dos ei- campos de atuação. Guarda forte relação com propósito da do deslocamento da qualificação para a competência que eficiência social e se manifesta, mais fortemente, também nos temos discutido aqui. A noção de competência como Estados Unidos, na elaboração de um modelo genérico de com-</p><p>A PEDAGOGIA DAS COMPETÊNCIAS 90 A PEDAGOGIA DAS COMPETÊNCIAS petência gerencial. A competência é definida como as carac- do sistema de competência profissional na Inglaterra. A aná- terísticas de fundo de um indivíduo que guarda uma relação lise funcional foi acolhida pela Teoria Geral dos Sistemas como causal com desempenho efetivo ou superior no trabalho fundamento Nessa teoria, a análise fun- cional não se refere ao sistema em si, no sentido de uma mas- (Boyatzis, apud, Mertens, 1996a). sa ou um estado que se deve conservar ou de um efeito que se O desempenho efetivo é um elemento central na compe- deve produzir, mas pretende analisar e compreender a rela- tência e se define como a forma de alcançar resultados espe- ção entre sistema e em torno, ou seja, a diferença entre ambos cíficos com ações específicas, em um contexto dado de políti- (Luhmann5, apud Mertens, ibid.). cas, procedimentos e condições da organização. As compe- tências são as características que diferenciam um desempe- Desde a perspectiva funcionalista, os objetivos e funções nho superior de um desempenho médio ou pobre. Aquelas da empresa não devem ser formulados tomando a organiza- características necessárias para realizar trabalho, mas que ção como sistema fechado, mas em relação com o mercado, a não conduzem a um desempenho superior, são denominadas tecnologia, as relações sociais e institucionais. Em conseqü- habilidades mínimas. ência, a função de cada trabalhador na organização deve ser posta não somente em sua relação com o em torno da empre- A análise condutivista parte das pessoas que fazem bem sa, mas considerando que o próprio trabalhador compõe seu trabalho de acordo com os resultados esperados. Passan- subsistemas existentes dentro do sistema empresa, onde cada do do âmbito das competências gerenciais para os trabalha- função é o em torno de outra. dores em geral e seguindo alguns dos princípios da análise O valor explicativo do método funcional e de seus re- condutivista, preparou-se, ao início dos anos 90 nos Estados sultados depende de como se especifique a relação entre o Unidos, um informe sobre as mudanças que se deveriam fa- problema ou objetivo e a possível solução do mesmo. Tradu- zer nas escolas para que delas saíssem jovens melhor prepa- zido nas competências, analisam-se as diferentes relações que rados para os desafios da competitividade e produtividade do existem nas empresas entre resultados, habilidades, conhe- futuro próximo, assim como para definir a agenda de cimentos e atitudes dos trabalhadores. O ponto de apoio do capacitação e requalificação de trabalhadores para os postos método é que quanto mais diversas sejam as circunstâncias avançados do futuro. que podem confirmar habilidades e conhecimentos requeri- O informe, elaborado por uma comissão representante dos aos trabalhadores, mais apropriados seriam os resultados dos órgãos governamentais de educação, trabalho e gestão de da análise. pessoal, chamada Secretary's Commission on Achieving A característica da análise funcional está em que descre- Necessary Skills (SCANS), baseou-se em discussões com um vem produtos, não processos; importam os resultados, não amplo grupo de informantes-chave do mundo empresarial, como se chegam a eles. Para isso as funções sindical, da educação e da academia. Procurou-se identificar de trabalho em unidades e essas em elementos de competên- as principais áreas de habilidades necessárias para obter um cia (ou realizações profissionais, na apropriação espanhola), emprego. Definiram-se, então, duas grandes famílias de habi- seguindo princípio de descrever, em cada nível, os produ- lidades: habilidades fundamentais necessárias em todos os tos. Os elementos de competência são complementados com trabalhos como mínimo; e competências, definidas como as um enunciado de alcance que especifica contextos e circuns- habilidades que distinguem trabalhador com perfil de exce- tâncias em que os trabalhadores devem demonstrar bom de- lência. sempenho. Outra construção que se tem tornado hegemônica nos diversos países, é a análise funcional, baseada no pensamen- to funcionalista da sociologia, aplicada como filosofia básica 5. LUHMANN, N. Sistemas sociales. Mexico, Alizanza, 1991.</p><p>92 A PEDAGOGIA DAS COMPETÊNCIAS A PEDAGOGIA DAS COMPETÊNCIAS 93 Os critérios de desempenho não fornecem elementos matriz condutivista); b) uma forma efetiva de descrever um suficientes para definir os currículos requeridos de formação trabalho ou ocupação consiste em resenhar as tarefas que os e capacitação. Assim, agregam-se outras especificações às trabalhadores expertos desenvolvem; c) todas as tarefas, para normas: os conhecimentos e a compreensão subjacente que serem desenvolvidas corretamente, demandam uso de devem subsidiar trabalhador para cumprir os requerimen- habilidades, ferramentas e condutas positivas tos de um elemento de competência. Elaboraram-se listas de do trabalhador. conhecimentos e listas de especificação de avaliações (que As metodologias SCID (Systematic Curriculum Instruc- indicam níveis mínimos requeridos para efeito de certificação). tional Developing) e AMOD (A Model) são derivadas do Os elementos de competência agrupam-se em unidades e es- DACUM. A primeira se propõe principalmente a facilitar a sas, por sua vez, dão forma a um título de competência. Por elaboração de guias didáticos centrados na auto-aprendiza- essa ótica, a competência é definida como algo que uma pes- gem e de formação individualizada do aluno e pode ser soa deve fazer ou deveria estar em condições de fazer. É a implementada mediante aprofundamento do DACUM ou descrição de uma ação, conduta ou resultado que a pessoa com auxílio de outros instrumentos tais como a opinião de competente deve especialistas ou entrevistas com trabalhadores. A segunda Uma metodologia muito difundida que visa evidenciar pode ser compreendida como O mapa DACUM ordenado competências com objetivo de delinear os programas de for- seqüencialmente com sentido pedagógico para facilitar a for- mação, estabelecer critérios de avaliação e identificar neces- mação do trabalhador e guiar O instrutor. Pode ser utilizado sidades de capacitação é o chamado DACUM (Developing a para que os trabalhadores se auto-avaliem e definam de for- Curriculum), que foi impulsionado e desenvolvido no Centro ma autônoma suas necessidades de capacitação (Vargas, de Educação e Formação para Emprego na Universidade do 1999). Estado de Ohio (Vargas, 1999). A metodologia consiste em Essas metodologias sofrem muitas críticas, sendo de mui- reunir trabalhadores e supervisores em pequenos grupos por ta relevância as que fazem Hamlin e (apud, Mertens, aproximadamente dois dias quando, de forma conjunta, iden- 1996a) e também os australianos Gonczi e Athanazou, quan- tificam O desenvolvimento das tarefas dos postos de trabalho, to ao fato de a utilização corrente da análise funcional verifi- ordenando-as em O DACUM baseia-se em três pre- car somente que se alcançou mas não como se alcançou. missas: a) os trabalhadores expertos podem descrever e defi- Em relação ao DACUM e os métodos que lhe são associados, nir seu trabalho ou ocupação mais precisamente do que qual- argumentam serem muito úteis para separar as diferentes ta- quer outro (no que guarda semelhança com os métodos de refas de uma área ocupacional, mas não bastam para estabe- lecer um vínculo entre essas tarefas nem tampouco, para re- lacionar as tarefas e os atributos (conhecimentos, habilidades 6. As categorias da análise funcional e respectivas definições podem ser e atitudes) em que estão baseadas. Em síntese, nenhuma de- encontradas em Vargas (199-a). 7. Cariola e Queiroz (1996) remetem a origem deste método ao Canadá, las considera os conhecimentos subjacentes às práticas de tra- onde ele é utilizado amplamente como um método único, inovador e efetivo balho que não poderiam ser isoladas entre si. A contundência para realizar a análise ocupacional. O DACUM é visto como um método efetivo das críticas faz os australianos afirmarem que até agora, siste- para determinar rapidamente, e a um baixo custo, as tarefas que devem ser rea- mas como esses são sistemas de avaliação carentes de um lizadas por pessoas empregadas em um trabalho dado ou numa área ocupacional. marco curricular coerente. Nesses casos, o currículo acaba Ele é utilizado como base para desenvolvimento curricular, detecção de neces- sidades de capacitação, avaliação do desempenho dos trabalhadores, desenvol- vimento de provas de competências, descrições de tarefas, entre outros. Uma explicação detalhada sobre método DACUM pode ser encontrada em Lluch 8. HAMLIN, B. y STEWART, J. Competence based Qualifications: The Case (199-). Against Change. Journal of Industrial Training, Bradford, n. 10, 1992.</p><p>94 A PEDAGOGIA DAS COMPETÊNCIAS A PEDAGOGIA DAS COMPETÊNCIAS 95 tendo relação direta com as funções e com as tarefas Um dos princípios da metodologia construtivista, que especificadas nas normas de competência. visa regular a aquisição de competências em coerência com as competências requeridas, é que a capacitação individual só tem sentido dentro de uma capacitação coletiva. Por isso 2.2.2. o Construtivismo Francês supõe-se que a definição das competências e da capacitação deva realizar-se segundo uma investigação participante. Com- Na França, apesar de Acordo sobre a Conduta da Ativi- preende-se, também, que envolvimento do pessoal não qua- dade Profissional (A CAP 2000), que marca a introdução da lificado repercute em evoluções dos seus próprios comporta- gestão da produção por competência nesse país, ter-se forma- mentos. A identificação das competências e dos objetivos do lizado em 1990, a idéia da aproximação empresa-escola re- trabalho começa por identificar e analisar as disfunções pró- monta aos anos 50, sob a liderança de intelectuais, educado- prias a cada organização. A definição de competências res e homens de empresa que constituíram que se chamou requeridas e a perspectiva de capacitação, permitem gerar um de Escola de Nancy. Um dos protagonistas, senão o principal ambiente de motivação fundamental para a aprendizagem. De representante dessa escola, é Bertrand Schwartz, que desen- certa maneira, essa metodologia engendra uma relação dinâ- volveu uma metodologia de investigação de competências mica entre capacitação coletiva dos empregados e sua partici- definida como construtivista. Segundo ele, conceito pação progressiva e coordenada, nas modificações de suas ta- construtivista faz alusão às relações mútuas e as ações exis- refas, de seus postos de trabalho e de suas intervenções. tentes entre os grupos e seu em torno, mas também entre situ- Não obstante, Zarifian (1999a) afirma que, mesmo re- ações de trabalho e situações de capacitação (B. Schwartz, correndo abundantemente ao termo competência, a gestão 1995, apud, Mertens, 1996a). Na verdade, essa metodologia permanece muito marcada pelos instrumentos e abordagens rechaça a defasagem entre construção da competência e a dos anos 70, construídos em torno da qualificação do empre- norma por um lado e, por outro, a estratégia de capacitação. go. O conteúdo das competências é definido com relação ao Na verdade, essa metodologia parece realizar simultaneamen- conteúdo do emprego, sendo que os métodos para qualificá- te, a investigação de novas competências requeridas consi- lo não variam muito em relação ao Job Evaluation. derando não somente aquelas que nascem diretamente do Para conciliar uso da noção de competência com sua mercado de trabalho, mas também das percepções e contribui- aplicação baseada no taylorismo-fordismo, Zarifian (1999b) ções das pessoas frente aos seus objetivos e possibilidades e explica que O significado atribuído à competência pelos em- a formação em serviço que proporcione sua presários tenta manter uma certa neutralidade quanto aos novos aspectos mais representativos esperados do trabalha- dor, tais como autonomia, responsabilidade e comunicação. 9. Manfredi (1998) considera que trabalho de Bertrand Schwartz consti- tui-se numa das contribuições trazidas por algumas pesquisas realizadas no cam- Eles definem a competência profissional como uma combina- po da formação profissional sob a ótica dos trabalhadores, como é caso de ção de conhecimentos, know how, experiências e comporta- projetos de formação profissional de população jovem, ainda não inseridas no mentos que se exercem em determinado contexto; é mercado de trabalho, e de trabalhadores que enfrentam desafio da constatável quando se deve aplicar em situação profissional e requalificação. Cita, estudo feito por ele junto à fábrica Renault durante o período de 1986/1989, em que se um programa de forma- é validável a partir dela. É verdade que, com algumas variações, ção em serviço, do qual participaram trabalhadores, representantes sindicais, essa tem sido a definição mais freqüentemente encontrada na comissão de fábrica, encarregados e engenheiros. Observa, ainda, que seu gran- literatura sobre competência. de intento com esses estudos e experiências educativas era combater a exclusão social, mostrando que os processos de reestruturação produtiva não podem se Tanguy (1997a) nos mostra como se realiza a investiga- dar às custas de parcelas significativas da população. ção das competências requeridas para emprego, coerente</p><p>96 A PEDAGOGIA DAS COMPETÊNCIAS A PEDAGOGIA DAS COMPETÊNCIAS 97 com a observação anteriormente feita por Zarifian sobre os por suas qualidades profissionais mas por suas qualidades limites que ainda encerram modelo da competência nas pessoais, segundo critérios deixados a cargo da apreciação por empresas francesas. O MIA Método de Investigação das parte da direção da empresa, assistidos pelos especialistas Atividades é operacionalizado pelos Engenheiros de Re- psicológicos. cursos Humanos e se efetua por meio de referenciais de ativi- Malglaive (1994), por sua vez, considera que um méto- dades profissionais baseados nas categorias saber, saber-fazer do de análise do trabalho e de análise de competências deve e saber-ser, cuja posse se mede em termos de ser capaz de. contar, indispensavelmente, com a participação de três ca- Os resultados desse método são os descritores do con- tegorias de especialistas: a) os operadores competentes, aos teúdo técnico da atividade, as referências ao nível de respon- quais se dirige a formação; b) os quadros diretamente res- sabilidade e de autonomia requeridas para a ocupação do ponsáveis por organizar e controlar as tarefas constitutivas emprego e a funcionalidade do emprego para a organização. do trabalho; c) os formadores, especializados pelas discipli- Esses descritores formalizam os conjuntos de tarefas que de- nas que compõem a priori saber em uso ligado ao trabalho vem ser realizadas na ocupação de um emprego. Assim, as analisado e à transmissão pedagógica dessas disciplinas. Isto competências reconhecidas dos trabalhadores tornam-se, na porque ele afirma que procedimentos como aqueles que de- verdade, um modo de ajuste das capacidades pessoais às tare- limitam os descritores em termos da expressão ser capaz de, fas que fixam O conteúdo do emprego. Por isto Zarifian afir- seguida de um verbo de ação, não designam, na realidade, ma que esse modelo acaba por permanecer no mesmo quadro nenhuma capacidade ou competência, transformando-se em do modelo taylorista, supondo uma passividade do indivíduo simples meio retórico de enunciação das tarefas constitutivas em relação aos requisitos de qualificação que foram de uma atividade. O que permanece, entretanto, importante predefinidos e objetivados e aos quais ele deverá se adaptar ou mesmo fundamental, é a substância dessas tarefas, cuja para parecer competente. Conclui dizendo que fato de os definição não constitui somente O horizonte de todo dispo- assalariados diretamente envolvidos participarem ou não da sitivo de formação ordenada a uma situação profissional: ela elaboração do descritor de emprego tem um efeito secundário. é também o que permite engajar os conteúdos e seus proce- Para se avaliarem as competências adquiridas e captar dimentos. as expectativas dos trabalhadores, usa-se como instrumento outras palavras, autor afirma que, no processo de as entrevistas individuais. Acredita-se que elas podem evi- análise do trabalho e análise das competências, a descrição denciar as competências transversais ou genéricas, tidas como das tarefas deve se completar com uma compreensão do que indicadores importantes para gerir a mobilidade dos traba- permite sua realização. Isso salienta uma análise do trabalho lhadores por diferentes empregos. Por outro lado, as entrevis- que não se contenta com uma abordagem superficialmente tas têm sua ambivalência pois podem se transformar em meio descritiva, mas faz apelo ao conjunto de conhecimentos psi- sofisticado de controle do trabalho. cológicos e sociológicos que permitem designar um modelo Outra estratégia usada para captar as competências trans- da dinâmica estrutural das competências desdobradas na ati- versais consiste analisar as proximidades dos conteúdos das vidade analisada. atividades de empregos diferentes e inferir as capacidades Tanguy (1997a, p. 185) também apresenta alguns ques- que indivíduo poderia transferir de um emprego a outro. tionamentos a esses procedimentos, a saber: a) por aplicar-se Pode-se supor, ainda, a existência de competências a serem essencialmente ao exercício do trabalho, os problemas de or- mobilizadas, independentemente da categoria de emprego. ganização de trabalho surgem apenas por dedução dos anteri- Seriam as competências sociais ou saber-ser. Zarifian diz ores, como se a organização do trabalho se definisse com base que risco dessa abordagem é avaliar os trabalhadores não nas competências dos assalariados e fosse tanto qualificante</p><p>98 A PEDAGOGIA DAS COMPETÊNCIAS A PEDAGOGIA DAS COMPETÊNCIAS quanto produtiva; b) os instrumentos, procedimentos e prática acaba gerando metodologias rígidas e limitadas aos categorizações são demasiadamente gerais para atingir ob- propósitos de caracterizar os empregos; quando muito, desvi- jetivo de dominar um conjunto de problemas em um dado am foco das tarefas em suas especificidades para os resulta- momento; c) essas técnicas de administração ignoram toda a dos esperados do trabalho. historicidade da empresa, representando essa instância como um conjunto de indivíduos isolados, movidos por regras raci- onais, mecanicamente determinadas por causas, supondo que 2.2.3. Entre o Funcionalismo e Construtivismo: Caso Australiano os agentes sociais são seres igualmente de disposi- ções ao cálculo racional. Para que se possa perceber a disputa que envolve a no- ção de competência, é interessante comentar a abordagem Contrapondo esse quadro com modelo de gestão por conceitual que fazem Gonczi e Athanasou (1995), como as- competência proposto por ele, Zarifian (1999a) teme que uma pectos introdutórios à adoção do modelo na Austrália. lógica da competência possa morrer pelo fato de ser colocada entre, de um lado, um aparelho burocrático destinado mais a Os referidos autores chamam a atenção para a compe- tência analisada em função das tarefas independentes, quan- controlar do que a animar uma nova lógica, e de outra, uma do se adotam metodologias condutivistas, a análise funcional interpretação estritamente individualizante. Então, a lógica aplicada pelos ingleses, o método DACUM (Developing a da competência estaria longe de ser experimentada na dimen- Curricullum) e outras relacionadas a esta última. Nesses ca- são de uma construção social. Os indicadores dessa limitação sos, objetivo é especificar detalhada e claramente todas as ele também apresenta como expomos a seguir. tarefas, de maneira que haja acordo sobre que constitui Primeiro, permanece-se sob a apreciação de competên- desempenho satisfatório de cada uma delas. Com isso, as ta- cias requeridas, diretamente referidas aos conteúdos dos em- refas acabam se convertendo nas próprias competências. Aque- pregos típicos. Mesmo que sejam definidos de maneira am- les que adotam essa abordagem, tendem a considerar que pla, seu conteúdo é explicitado sob a forma de uma lista de currículo tem relação direta com as funções e tarefas atividades que não está muito longe da tradicional lista de especificadas nas normas de competência da ocupação. O tarefas apropriadas à análise de postos de trabalho. Segundo, ponto mais frágil desse enfoque é ignorar os atributos a definição da ação explicitada sobre a organização escapa ao subjacentes aos processos coletivos, assim como seu efeito assalariado de base e aos supervisores, na medida em que sobre O desempenho, cuja complexidade é marcada pela di- fica como um recurso exclusivo das direções operacionais e, versidade de experiências sociais. em particular, dos engenheiros, que acaba por levar ao es- Os australianos apresentam a abordagem da competên- quema tradicional em que as competências dos trabalhado- cia como relação holística ou integrada, que pretende com- res devem se adaptar à evolução dos esquemas da organiza- binar O enfoque de atributos gerais com O contexto em que ção que os engenheiros definem. Por fim, O percurso profis- se aplicam. Para isso, analisa-se a complexa combinação de sional permanece, na maioria das vezes, limitado à progres- atributos (conhecimentos, valores e habilidades) postos em são em itinerários de diferentes níveis no seio dos empregos jogo para que os estudantes interpretem a situação especí- típicos. fica em que se encontram e na qual, em atu- Parece-nos, portanto, que, por mais que Bertrand Schwartz, am, conferindo às competências uma dimensão relacional. Phillippe Zarifian e outros busquem a elaboração de modelos Este enfoque leva em conta contexto e a cultura do local que coloquem trabalhador no centro do sistema de gestão e de trabalho onde se dá a ação, permitindo, ainda, incorporar de formação, para desenvolver e aplicar todas as suas a ética e os valores como elementos de desempenho compe- potencialidades e sua real competência, O que se processa na tente, além de considerar que seja possível ser competente</p><p>100 A PEDAGOGIA DAS COMPETÊNCIAS A PEDAGOGIA DAS COMPETÊNCIAS 101 de diferentes maneiras. Pelo enfoque holístico da compe- das características assinaladas anteriormente, autor resgata tência, currículo deve integrar esses três aspectos num todo a dimensão psicológica da competência, pretendendo uni-la coerente: conhecimentos gerais, conhecimentos profissionais à dimensão filosófica, indicando os trabalhos da psicologia e experiência no trabalho, promovendo a interação entre co- cognitiva como base de algumas vertentes da educação ba- nhecimentos, habilidades e atitudes necessários em um de- seada em competência. Particularmente, destaca trabalhos que terminado contexto. sugerem que a aprendizagem ocorre dentro de um contexto Sob a perspectiva da teoria da análise funcional, a críti- cultural específico e fato de que a implicação disto para o ca dos analistas australianos ao modelo inglês consiste em currículo é a existência da necessidade de combinar a base de que é uma aplicação parcial dessa teoria. Identificam-se e conhecimentos específicos com as exigências da prática, in- documentam-se os resultados desejados (descrição do proble- corporando o domínio afetivo com conhecimento do proce- ma) e algumas facetas de solução (conhecimentos subjacentes), dimento e das proposições. Gonczi discute a tendência de se porém, não se faz nenhuma especificação acerca de como es- desenvolverem competências pela proposição de situações em tes dois momentos se encontram. que os educandos experimentem problemas verdadeiros nos Mertens sugere uma afiliação dos australianos ao mode- quais O pensamento prático se confronta com pensamento lo funcionalista, desde que se aplique adequadamente seus de outros trabalhadores mais expertos. Por isto, considera que princípios. Entretanto, Vargas (199-b) inclui modelo austra- os métodos baseados em problemas são métodos de compe- liano na matriz construtivista, juntamente com modelo fran- tência por excelência, já que buscam combinar conhecimen- cês. to, habilidades e atitudes em situações autênticas ou muito São as seguintes as da proposta australia- parecidas com a realidade. na para conceito de norma de competência: a) desempe- nho é observável diretamente, enquanto que a competência não o é e tampouco se deixa inferir do desempenho. É por 3. Um Recorte Internacional dos Sistemas de Competência isso que a competência se define como a combinação de atri- Gonczi e Athanasou (1995) assinalam que a modificação butos subjacentes a um desempenho bem sucedido; b) os pa- dos setores de educação posterior à obrigatória, tal como a drões de competência podem ser estabelecidos em vários ní- educação profissional, é parte de um fenômeno mundial em veis, como, por exemplo, trabalhador experimentado, especi- quase todos os países da Europa e da América do Norte. En- alista; c) os atributos do praticante e O desempenho mostrado tretanto, consideram eles que a educação baseada em compe- em atividades chave são os ingredientes essenciais desta defi- tência na verdade, resgatar a ênfase nos resultados da nição de competência. Isto significa que os atributos por si só aprendizagem e, por isso, não teria que estar necessariamente não constituem a competência, nem fazem mero desem- vinculada a mudanças significativas na educação posterior à penho de uma tarefa. Melhor, esta noção de competência in- obrigatória. Ela seria anterior a todas essas políticas porque, tegra atributos com desempenho. Uma concepção integrada em maior ou menor grau, quase todos os enfoques didáticos significa que a competência incorpora aspectos de conheci- incorporariam alguns dos princípios da educação baseada em mento, habilidades e atitudes aplicadas num contexto de ta- competência. Assim, conjunto de críticas adversas a esse refas reais e cuidadosamente escolhidas que representam um modelo se dirigiria, na verdade, às políticas que acompanham nível de generalidade. a instrumentalização desse enfoque expressa pelas normas Tendemos a concordar com Vargas, quanto à afiliação de competência. construtivista dos educadores australianos, principalmente Autores que analisam a emergência da noção de compe- com base em algumas argumentações de Gonczi (1997). tência nos sistemas europeus de formação profissional desta-</p>