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<p>Casa Velha de Machado de Assis por Kelly Naiara Rosário Poliedro AOL Sistema de Ensino Análise de Obras</p><p>Poliedro Sistema de Ensino COLEÇÃO AOL Copyright Poliedro Sistema de Ensino Ltda., 2023. Todos os direitos de edição reservados ao Poliedro Sistema de Ensino Ltda. Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal, Lei n° 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. ISBN 978-65-5613-436-9 Presidente: Nicolau Arbex Sarkis Autoria: Kelly Naiara Rosário Gerência editorial: Fabíola Bovo Mendonça Coordenação de projeto editorial: Ana Paula Enes e Juliana Grassmann dos Santos Edição de conteúdo: Marina Ribeiro Candido e Letícia Morais Dantas de Castilho Gerência de design e produção editorial: Ricardo de Gan Braga Coordenação de revisão: Rogério Fernandes Salles Revisão: Anna Carolina Garcia, Flávia Baggio, Talita Pompeu e Barbara Benevides Produção de Textos Coordenação de arte: Leonardo Carvalho Diagramação: Typegraphic Ilustração: Fabio Eugênio Adaptação de projeto gráfico e capa: Leonardo Carvalho Coordenação de licenciamento e iconografia: Leticia Palaria de Castro Rocha Analista de licenciamento: Vitor Medeiros Planejamento editorial: Maria Paula Ramos Paes Poliedro Sistema de Ensino Ltda., pesquisou junto às fontes apropriadas a existência de eventuais detentores dos direitos de todos os textos e de todas as imagens presentes nesta obra Em caso de de quaisquer créditos, colocamo-nos à disposição para avaliação e consequentes correção e inserção nas futuras estando, ainda, reservados os direitos referidos no art. 28 da Lei n° Poliedro Sistema de Ensino T. 12 3924-1616 sistemapoliedro.com.br</p><p>Casa Velha de Machado de Assis por Kelly Naiara Rosário AOL Poliedro Sistema de Ensino Análise de Obras</p><p>Casa Velha de Machado de Assis Primeiro intelectual a presidir a Academia Brasileira de Letras, Machado de Assis é, com certeza, um dos maiores escritores, não só do Brasil, como também do mundo. Imagine a euforia da biógrafa e crítica literária Lucia Miguel Pereira quando encontrou, publicado em uma revista carioca de moda de 1885 - A Estação - um texto inédito do autor. Era apenas um dos vinte e cinco episódios. A pesquisadora trabalhou incansavelmente para reunir todos os capítulos e, em 1943, a história foi ilustrada por Santa Rosa e publicada como livro: Casa Velha. Por que será que 0 texto não foi publicado em livro, como os outros? Não estaria à altura da produção do autor? Eis 0 que veremos... Os trechos da obra reproduzidos nesta análise foram extraídos do livro: ASSIS, Machado de. Casa Velha. Rio de Janeiro: Paz e Terra,</p><p>5 INTRODUÇÃO Há uma certa dificuldade entre os teó- ricos em definir o gênero da obra Casa Velha. Lucia Miguel Pereira, a pesquisadora que encon- trou o texto, chamou-o primeiramente de novela; talvez pelo fato de ter sido publicado em forma de folhe- tim e por representar apenas um recorte da vida do narrador: ele contará os fatos que viveu e presenciou especificamente em 1839, quando tinha 32 anos de idade. Já o inglês John Gledson, que reacendeu as análises sobre tex- to muitas décadas depois (1986), classifica-o como um "romance", atribuindo a ele maior densidade na configuração das personagens do que fizera a sua colega. Por fim, a edição completa da Editora Nova Aguiar (1992) publica a história como um conto, um dos contos esquecidos do autor. Se há dúvidas quanto ao gênero da obra, há também problema de localizá-la na trajetória do autor. Isso porque a obra de Machado de Assis costuma ser didatica- mente subdividida em duas fases, a romântica e a realista. À primeira fase perten- ceriam as narrativas mais previsíveis e lineares, talhadas na reprodução do modo de vida burguês e na tratativa de suas contradições; à segunda, pertenceriam seus ro- mances e contos mais críticos, centrados na análise psicológica das personagens e nos conflitos gerados pela sua relação com o meio. Casa Velha, entretanto, foi publicada no período cronológico que corresponderia à segunda fase (1885-1886), mas possui vários elementos da fórmula inicial Há quem diga que, na necessidade de cumprir seu contrato com a revista A Estação e por se tratar de uma re- vista de moda, autor teria utilizado algum escrito antigo na tentativa de agradar ao público. Há, na obra, a história clássica da menina pobre e do menino rico que se apaixonam, bem à moda Cinderela, em que figura não a madrasta, mas a mãe do rapaz como obstáculo à concretização desse amor; e há também o foco narrativo não confiável, o final esférico e irônico, elemento característico da fase mais madura do autor. Diferente de produções tipicamente românticas de Machado de Assis, como Helena e Garcia, a obra não tem como título o nome de sua heroína, mas o do lugar em que os fatos se desen- rolam: Casa Velha. Talvez se pense a palavra velha com adjetivos como desusada, obsoleta, decrépita, abandonada; mas nenhum des- ses termos corresponde ao lugar de que se fala. A casa era velha porque antiga, porque havia sido construída muitos anos antes, no século anterior em que se passam os fatos narrados, mas ainda era uma casa imponente, ainda era uma referên- cia de tradição em toda a redondeza.</p><p>6 A casa, cujo lagar e direção não é preciso dizer, tinha entre o povo o nome de Casa Velha, e realmente: datava dos fins do outro século. Era uma edificação sólida e vasta, gosto severo, nua de adornos. Eu, desde criança, conhecia-lhe a parte exterior, a grande varanda da frente, os dous portões enormes, um especial às pessoas da família e às visitas, e outro des- tinado ao serviço, às cargas que iam e vinham, às seges, ao gado que saía a pastar. Além dessas duas entradas, havia, do lado oposto, onde ficava a capela, um caminho que dava acesso às pessoas da vizinhança, que ali iam ouvir missa aos domingos, ou rezar a ladainha aos sábados. Os portões da casa marcam o fluxo de quem a frequenta: senhores (famí- lia e visitas), serviçais (serviços e cargas) e homens livres (a vizinhança que a capela acolhia para a prática religiosa) um retrato da sociedade oitocen- tista. Todo esse movimento era orquestrado por Dona Antônia Quintanilha, a viúva de um ex-ministro de D. Pedro I que, junto a seu único filho Félix -, governava a propriedade. Ao redor desse núcleo familiar, além dos serviçais, viviam os agregados. A figura do agregado é muito comum nas narrativas do século XIX e, em especial, de Machado de Assis. Trata-se de alguém que conquista a con- fiança dos donos da casa e é por eles abrigado e protegido; muitas vezes, sustentado. Cláudia é a figura de uma agregada que trará desequilíbrio à harmonia do lar. narrador, que também acaba se tornando uma pessoa bem próxima da casa, afirma dividir com o leitor uma experiência vivida que não deseja- ria nem mesmo "ao seu maior inimigo". E, assim, começa a história: Não desejo ao meu maior inimigo o que me aconteceu no mês de abril de 1839. Tinha-me dado na cabeça escrever uma obra política, a história do reinado de D. Pedro I. [...] Comecei logo a recolher os materiais rios, jornais, debates, documentos públicos, e a tomar notas de toda a parte e de tudo. No meado de fevereiro, disseram-me que, em certa casa da cidade, acharia, além de livros, que poderia consultar, muitos papéis manuscritos, al- guns reservados, naturalmente importantes, porque o dono da casa, falecido desde muitos anos, havia sido ministro de Estado. Compreende-se que esta notícia me aguçasse a curiosidade. A casa, que tinha capela para uso da famí- lia e dos moradores próximos, tinha também um padre contratado para dizer missa aos domingos, e confessar pela quaresma: era o Rev. Mascarenhas. Fui ter com ele para que me alcançasse da viúva a permissão de ver os papéis. Que fatos tão estarrecedores ele teria presenciado naquele lugar? Essa é a descoberta que o leitor fará nas páginas de Casa Velha.</p><p>7 SOBRE 0 AUTOR Pequena biografia do autor de de Assis Joaquim Maria Machado de Assis nasceu em 21 de junho de 1839, no Rio de Janeiro. Ele faleceu em 29 de setembro de 1908, aos 69 anos, também no Rio de Janeiro. A Machado de Assis era filho de pai brasileiro e mãe açoriana oriunda do arquipélago de Açores, situado no Atlântico Norte, antiga colônia de Portugal; moravam no Morro do Livramento, no Rio de Janeiro, como agregados na chá- cara do senador Bento Barroso Pereira. Machado perdeu a mãe ainda quando era criança e, anos depois, o pai acabou ficando sob os cuidados de sua madras- ta, que era doceira. Entre 15 e 16 anos, Machado de Assis come- de çou a publicar seus primeiros poemas e tornou- -se colaborador do jornal Marmota Fluminense. do Entrou para a Imprensa Nacional como aprendiz de e tinha o hábito de se esconder du- rante o expediente para ler tudo de que gostava. Teve aulas de francês com um forneiro de pada- ria e de latim com um padre, a quem ajudava nas celebrações. Logo tornou-se revisor e colega de escritores influentes, como Manuel Antônio de Almeida (1831-1861) e Joaquim Manuel de Macedo (1820-1882). autor trabalhou para jornais e revistas como crítico e como produtor de conteúdo. Usou nimos como Gil, Job e Platão e fazia resenhas sobre as reuniões do Em 1861, publicou suas pri- meiras peças teatrais e tornou-se atuante em diversas associações de escritores, como a Sociedade Arcádia Morro do Livramento, no Rio de Janeiro, onde Machado de Brasileira, a Arcádia Fluminense, entre outras. Assis nasceu e passou parte de sua</p><p>8 Em 1864, Machado de Assis publicou seu primeiro de Rio livro de poesias intitulado Crisálidas - e, em 1866, conheceu a portuguesa Carolina Augusta Xavier de do Novais, que anos depois se tornaria sua esposa. Seu primeiro romance - Ressurreição seria publicado em 1872; Machado de Assis foi condecorado cavaleiro na Ordem da Rosa e, em 1873, exerceu seu primeiro cargo político, como Secretário da Agricultura, Comércio e Obras Públicas. Sua produção foi intensa em todos os aspectos, ten- do escrito e publicado ao longo da vida, além de críticas em jornais e de poemas, mais de dez romances, dez pe- ças teatrais, duzentos contos e seiscentas crônicas. Em 1884, mudou-se para a Rua Cosme Velho, no bairro de mesmo nome na zona sul do Rio de Janeiro, onde resi- diu até o ano de sua morte. Casa da Rua Cosme Velho, onde Em 1897, o escritor participou da inauguração da Academia Brasileira Machado de Assis morou por quase 25 anos. Um dos apelidos do autor de Letras, a qual presidiu por dez anos. Com a morte da esposa em 1904, é "O bruxo do Cosme Velho", em que era, além de sua revisora, também sua enfermeira, Machado de Assis referência a essa casa. caiu em profunda depressão. escritor faleceu no ano de 1908, aos 69 anos, em decorrência de uma série de problemas de saúde, entre eles uma úlcera cancerígena na boca e a epilepsia, que o perseguiu por toda a vida. Em sua homenagem, a Academia Brasileira de Letras também é conhecida como Casa de Machado de Assis. Machado de Assis se tornou, como se constata em sua biografia, uma personalidade relevante em seus dias. Desde adolescente encontrava apoio em profissionais que reconheciam seu talento. Os jornalistas Francisco Otaviano (1825-1889), Pedro (1839-1884) e Quintino Bocaiúva (1836-1912) o inseriram no Correio Mercantil e o escritor Manuel Antônio de Almeida (1831-1861) incentivava sua prática escrita, tornando-se uma espécie de protetor. Ainda jovem, pu- blicava no Jornal das Famílias histórias que faziam grande sucesso nos serões da burguesia carioca. Prédio da Imprensa Nacional, onde Machado de Assis iniciou seu ofício de tipógrafo e escritor.</p><p>A escrita de Machado, ainda jovem, logo mostraria deixando seu primogênito, Pedro, como príncipe-regente as marcas de sua origem: negro, pobre, tímido, gago do Brasil. e epilético; homem do século XIX, época também domi- A elite brasileira, a fim de manter os avanços nada pelas elites, mas que ainda não conhecia as políticas merciais obtidos, começa um movimento pela perma- inclusivas, que têm como objetivo acolher, entre outras nência de Dom Pedro no Brasil. O dia 9 de janeiro de demandas, os talentos do seu povo. De qualquer forma, 1822 ficou conhecido como o Dia do Fico, em que nenhum traço trágico de sua biografia conseguiu impedi-lo o regente declarou que iria permanecer no Brasil. de se transformar no maior escritor brasileiro de todos os Em 7 de setembro do mesmo ano, Dom Pedro decla- tempos, e os fatores que poderiam ser impeditivos para sua rou a Independência, rompendo sua subordinação a carreira tornaram-se influência em sua forma de represen- Portugal e se autointitulando o primeiro imperador do tar o mundo, com uma escrita refinada, crítica e irônica. Brasil. Não obstante, em 1831 ele abdicou em favor de seu filho Pedro de Alcântara que tinha apenas 0 autor e seu período 5 anos de idade; surgiram, então, as figuras dos regen- Em 1839, o Brasil vivia o Período Regencial (1831- tes, auxiliares de governo capazes de gerenciar o país -1840), entre o Primeiro e o Segundo Reinado, um pe- mantendo os interesses da Coroa. Aos 13 anos, com ríodo marcado politicamente pela ausência de um um golpe de maioridade, D. Pedro II assume a lideran- imperador no trono: Dom Pedro I havia regressado a ça, dando início ao Segundo Portugal e o filho dele, Dom Pedro II, ainda era jovem Nesse período, o país passa por instabilidades polí- demais para ocupar o posto. ticas e econômicas, muitas vezes comentadas nas obras Antes disso, o Brasil testemunhara mudanças polí- de Machado de Assis, com críticas às autoridades e ticas relevantes: a transferência da corte portuguesa, o membros da elite, da Igreja e do governo da época. A reconhecimento do Rio de Janeiro como nova metró- imagem do imperador perde força, e a sociedade come- pole portuguesa e a independência do Brasil em relação ça a optar pela figura de um presidente para o gover- a Portugal. no. A Proclamação da República acontece em 1889, A coroa portuguesa se instalara no Rio de Janeiro culminando em muitas mudanças na política e na so- em 1808, após fugir de Portugal em decorrência da in- ciedade, com militares tendo grande poder de decisão vasão francesa capitaneada por Napoleão Bonaparte. por meio das figuras do Marechal Manuel Deodoro A corte fora transferida para o Brasil, que se tornou a da Fonseca (1827-1892) e de Floriano Peixoto (1839- nova metrópole alçando novo status de antiga colônia -1895), os dois primeiros presidentes do Brasil. para sede do reino, isto é, para A partir disso, uma série de transformações culturais, políticas e eco- nômicas aconteceram no território brasileiro de novos de acordos de comércio a reformas urbanas, da fundação de escolas e bancos até o desenvolvimento de novos ciclos de produção econômica em produtos como borracha e algodão, entre muitas outras. Esses avanços não agrada- ram a população que havia ficado em Portugal, que não queria ser rebaixada a "colônia", governada pela coroa portuguesa a partir do território brasileiro. Por conta dis- so, houve uma revolta em Portugal, e Dom João VI, com Aclamação de Dom Pedro I, Imperador do Brasil, no receio de perder o trono, acabou voltando para Lisboa, Campo de Sant'Ana, Rio de Janeiro, de Jean-Baptiste Debret. Litografia, 1839.</p><p>10 A PRODUÇÃO LITERÁRIA Obras do autor O caminho da porta (1862) A Poesias protocolo (1862) Crisálidas (1864) Quase ministro (1863) Falenas (1870) Os deuses de casaca (1865) Americanas (1875) Tu, só tu, puro amor (1881) Ocidentais (1901) Poesias completas (1901) Algumas obras póstumas Crítica (1910) Romances Teatro coligido (1910) Ressurreição (1872) A mão e a luva (1874) Outras relíquias (1921) Helena (1876) Correspondência (1932) Garcia (1878) A semana (1914/1937) póstumas de Brás Cubas (1881) Páginas escolhidas (1921) Quincas Borba (1891) Novas relíquias (1932) Dom Casmurro (1899) Crônicas (1937) Esaú e Jacó (1904) Contos fluminenses (1937) Memorial de Aires (1908) Crítica literária (1937) Crítica teatral (1937) Contos Histórias românticas (1937) Contos fluminenses (1870) Páginas esquecidas (1939) Histórias da meia-noite (1873) Casa velha (1944) Papéis avulsos (1882) Diálogos e reflexões de um relojoeiro (1956) Histórias sem data (1884) Crônicas de Lélio (1958) Várias histórias (1896) Páginas recolhidas (1899) Conto de escola (2002) Relíquias da casa velha (1906) Antologias Teatro Obras completas - 31 volumes (1936) Queda que as mulheres têm para os tolos (1861) Contos e crônicas (1958) Desencantos (1861) Contos esparsos (1966) Hoje avental amanhã luva (1861) Contos: uma antologia - 2 volumes (1998)</p><p>11 Aspectos gerais da produção literária do autor Machado de Assis escreveu contos, crônicas, poemas, ensaios, críti- cas literárias, peças teatrais e fez traduções. Suas obras estão em domínio público e podem ser lidas gratuitamente na internet. Em sua escrita há algumas características que se sobressaem: Foco na burguesia: Em suas obras, predominam personagens burguesas, denunciadas na fragilidade de suas instituições e no desvio de caráter. Intertextualidade: Como lia bastante, Machado de Assis está sempre dialogando com autores da tradição literária, citando obras clássicas - seja em latim, inglês ou francês. Leitor incluso: No processo narrativo, o narrador machadiano costuma dialogar com o leitor, fazendo insinuações e provocações que lhe dão total controle da narrativa. Pessimismo: A natureza humana, na maioria de suas obras, é retratada a partir de seus vícios e interesses. Ironia: A ironia fina está ligada ao destino das personagens de forma intrigante, sem deboches ou piadas escancaradas. A Personagens femininas fortes: As mulheres machadianas não costumam ser idealizadas; elas agem de forma forte, enigmática, autônoma e decidida.</p><p>12 Um marco na escrita de Machado de Assis foi a transição do Romantismo para o Realismo. Em 1880, Machado de Assis publicou, na Revista Brasileira, Memórias póstumas de Brás Cubas e, em seguida, Quincas Borba, deixando para trás a fase das narrativas românticas para desenvol- ver o Realismo psicológico que o tornaria um escritor célebre. Características românticas Características realistas na escrita de Machado de Assis na escrita de Machado de Assis Subjetividade Objetividade Valor individual Valor universal Fantasia e imaginação Realidade e observação Personagens nobres e idealizadas Personagens reais e reveladas em suas fraquezas Crítica indireta Pessimismo e crítica direta Amor como salvação Amor por interesse Fé, crença nos valores da época Ironia e sarcasmo Personagens planas Personagens com densidade psicológica Se em Portugal o Realismo foi inaugurado pela Questão Coimbra (1865), expondo a dissidência entre os autores românticos (cuja visão de arte era tradicional, idealizada e academicista) e os inovadores (que se va- liam das questões políticas e sociais para estruturar suas críticas), na obra de Machado de Assis constatamos uma transição natural entre um período e outro, como um processo de amadurecimento de um autor conectado ao seu tempo.</p><p>13 Aspectos gerais da obra analisada Casa Velha, de Machado de Assis, é uma obra que coloca o leitor em contato com o modo de ser e de viver da sociedade oitocentista. Assim como o narrador é autori- zado a adentrar os ambientes íntimos e a rotina da casa, o leitor também é convidado a seguir com ele, compreendendo as referências que mantêm a estrutura familiar e o contexto sócio-histórico em que as ações se desenrolam. A análise de cada um dos elementos que compõem a narrativa pode trazer a percepção de como o autor criou significados entrelaçando vozes, tempos e espaços. Narrador A narrativa começa com uma frase em terceira pessoa: Aqui está que contava, há muitos anos, um velho cônego da Capela Imperial: Não desejo ao meu maior inimigo que me aconteceu no mês de abril de 1839. Entretanto, logo após os dois pontos e o travessão, o narrador dá ao velho padre, possibilitando que ele mesmo, em primeira pessoa, conte sua história. Essa mu- dança de perspectiva pode conferir maior autoridade à figura do narrador; já que não A é contada uma história de que se ouviu falar, mas, sim, algo que foi experienciado. Por outro lado, essa escolha torna o narrador uma VOZ extremamente subjetiva, questionável, uma vez que toda a história será narrada sob seu ponto de vista, e os fa- tos estarão condicionados à sua leitura. Além disso, a onisciência sobre o pensamento das personagens será reduzida, já que o narrador não apenas as observa, mas vivencia com elas cada uma das situações. A figura do padre também constitui um elemento de autoridade. No contexto do século XIX, o padre era a única pessoa que poderia nascer pobre e, ainda assim, transitar pela burguesia com credibilidade e respeito. próprio narrador afirma, com admiração, que foi bem recebido na casa. Creram-me naturalmente um sábio, tanto mais digno de admiração, quanto que contava apenas trinta e dous anos. A verdade é que era tão somente um homem lido e curioso. que leva à Casa Velha é o desejo de contar uma história. Na ver- dade, foi mais um ímpeto de vaidade. Queria provar que, a despeito de sua pouca habilidade de falar no púlpito, seria capaz de escrever uma boa peça o que logo depois descobre não ser uma tarefa tão simples. No mês de agosto de 1838 li as que outro padre, Gonçalves dos Santos, o Padre Perereca chamado, escreveu do tempo do rei, e foi esse livro que me meteu em brios. Achei-o seguramente e quis mostrar que um membro da igreja brasileira podia fazer cousa melhor.</p><p>14 É assim que a personagem se apresenta como um da moça, aprová-la, e santificá-la ante Deus e os homens. padre e segue sem ter o nome revelado até o fim da Que incômodo era então esse? que sentimento espúrio narrativa. intuito inicial de escrever um tratado his- vinha mesclar-se à minha caridade? Que contradição? tórico, entretanto, não será tão bem-sucedido, já que a que mistério? Todas essas interrogações surgiram do fun- história doméstica lhe ocupará mais a mente do que as do de minha consciência, não assim formuladas, com a pesquisas na biblioteca da fazenda. Ele confidencia ao sintaxe da reflexão remota e fria, mas sem liame algum, leitor que se esforçava em agradar às pessoas, principal- vagas, tortas e obscuras. Já se terá entendido a realidade. mente o jovem Félix, para obter delas algum favor. Também eu amava a menina. Como era padre, e nada As funções de historiador e de padre serão abala- me fazia pensar em semelhante cousa, o amor insinuou- das durante a jornada do padre. Ao conhecer Lalau, ele -se-me no coração à maneira das cobras, e só lhe senti a se apaixonará pela moça. Naquela época, encarar uma presença pela dentada de ciúme. moça poderia ser um gesto muito invasivo; ele confessa A própria D. Antônia o acusa de ter sido envolvido que, ao vê-la pela primeira vez, aproveitou-se de sua con- pelos feitiços da moça. Visto que a matriarca represen- dição de padre para se demorar admirando-a. Depois, re- tava a da tradição e da governança, ouvir sua de- conhece que sua tentativa de protegê-la e de fazê-la feliz claração e ainda enrubescer era visto com um sinal de é, antes de tudo, a única forma permitida de dispensar- culpa que, de certa forma, diminuía-lhe a autoridade. -lhe seu amor. No dia em que se certifica de que Lalau, de fato, ama Félix, o padre se sente desconcertado. Ela principalmente, parece tê-lo enfeitiçado. Não precisa ficar vermelho; as moças também enfeiti- Não explico a sensação que tive; lembra-me que foi çam os padres quando querem que eles as casem com de incômodo. Essa palavra súbita, cordial e franca, encer- os escolhidos do coração delas. rando todas as energias do amor, lacerou-me as orelhas como uma sílaba aguda que era. Que outra esperava, e Ainda que a paixão por Lalau não tenha qualquer que outra queria, senão essa? Não a pedira, não vinha tipo de concretização, a obra pode sugerir que mes- interceder por um e por outro? Criatura espiritual e neu- mo um cônego da Casa Imperial tem seus momentos tra, cabia-me tão somente alegrar-me com a declaração de instabilidade.</p><p>15 Espaço espanto, porque naturalmente a minha visita era desde A história se passa no Rio de Janeiro, no ano de alguns dias a preocupação de todos. Com efeito, a casa 1839. A maioria das ações se passa na casa que dá nome era uma espécie de vila ou fazenda, onde os dias, ao à obra, seja na biblioteca, na sala de estar ou de jantar; contrário de um rifão peregrino, pareciam-se uns com e na capela. A casa é um lugar estável, que representa a os outros; as pessoas eram as mesmas, nada quebrava a permanência, mesmo que a inovação se aproxime e tra- uniformidade das cousas, tudo quieto e patriarcal. ga novas concepções de mundo, ela, a Casa Velha, por sua vez, permanece. Logo no primeiro capítulo se Ainda que a casa represente a uniformidade e a mes- mice, a possibilidade de mudanças despontará no enredo Casa, hábitos, pessoas davam-me ares de outro da obra; a presença de Lalau e de seu espírito independen- tempo, exalavam um cheiro de vida clássica. Não era te evidenciam que, enfim, os costumes poderiam ser mo- raro uso de capela particular; que me pareceu único dificados. A casa mostra que tudo permanece como deve foi a disposição daquela, a tribuna de família, a sepul- ser: velhos costumes, velhos acordos, velha mentalidade. tura do chefe, ali mesmo, ao pé dos seus, fazendo lem- Talvez esse tenha sido caráter estarrecedor da brar as primitivas sociedades em que florescia a religião cia partilhada pelo narrador: a permanência. Mesmo dian- doméstica e culto privado dos mortos. Logo que as te da oportunidade, da historicidade, da legitimidade e da senhoras saíram da tribuna, por uma porta interior, vol- verdade revelada, algumas coisas não mudam. A tamos à sacristia, onde Padre Mascarenhas esperava Na obra, o endereço e a localização da casa não são com coronel e os outros. Da porta da sacristia, pas- registrados. Nas palavras do narrador, "lugar e direção sando por um saguão, descemos dous degraus para um não é preciso dizer". De certa forma, é como se a Casa pátio, vasto, calçado de cantaria, com uma cisterna no Velha não fosse uma casa específica, mas um local de meio. De um lado e outro corria um avaran- representação, como se os acontecimentos vividos ali dado, ficando à esquerda alguns quartos, e pudessem se passar em qualquer outro lugar, como uma à direita a cozinha e a copa. Pretas e mole- realidade já conhecida e comum a tantas outras casas ques espiavam-me, curiosos, e creio que sem velhas que existam.</p><p>16 Tempo A maioria dos fatos da obra Casa Velha são narrados em ordem cro- nológica e linear. A história se passa no ano de 1839, e o narrador tem 32 anos. A Guerra dos Farrapos e a Maioridade de D. Pedro II são fatos cita- dos diversas vezes na história; aparecem como temas despretensiosos, mas paralelamente vão acirrando a tensão entre o pensamento conservador e o progressista. Na obra, além da própria viúva e da casa em si, o polo conservador está representado na figura de Raimundo, visita sempre presente à mesa de D. Antônia. Com a patente de coronel e um chicote à mão, Raimundo representa o autoritarismo, o poder violento e arbitrário que, com a força de uns poucos homens, fazia sempre valer seus interesses. Reverendíssimo, bradou parando embaixo da janela o coronel, os farrapos invadiram Santa Catarina, entraram na Laguna, e os legais fugi- ram. Eu, se fosse o governo, mandava fuzilar a todos estes para escarmento... Já os pajens estavam ali, à porta, com bancos para as moças, apearam-se todos e subiram. Daí a alguns minutos Raimundo e Félix entravam-me pela sala, arrastando as esporas. Raimundo creio que ainda trazia o chicote; não me lembra. Lembra-me que disse ali mesmo, agarrando-me nos ombros, uma multidão de cousas duras contra Bento Gonçalves, e principalmente contra os ministros, que não prestavam para nada, e deviam sair. melhor de tudo era logo aclamar o imperador. Dessem-lhe cinquenta homens, vinte e cin- CO que fossem, e se ele em duas horas não pusesse imperador no trono, e os ministros na rua, estava pronto a perder a vida e a alma. Uns lesmas! Tudo levantado, tudo sublevado, ao Norte e ao Sul... Agora parece que iam mandar tropas, e falava-se no General para comandá-las. Tudo re- mendos. Sangue novo é o que se precisava.. Parola, muita parola. Já o narrador, apesar de não se posicionar politicamente nem afrontar a tendência dos integrantes da casa, mantém uma postura aberta em relação às transformações. Ele aprova a união entre Félix e Lalau, mesmo sabendo que os jovens advêm de classes sociais diferentes e, mais que isso, é capaz de confrontar a matriarca D. Antônia para que o matrimônio acontecesse. D. Antônia, por sua vez, não dava atenção às questões políticas. Sua casa era seu reino. Até quando o marido, ministro de D. Pedro I, era vivo, ela mes- ma foi ao paço apenas duas vezes; agora que ele estava falecido, seu cuidado pela manutenção da ordem na casa e nos seus domínios era ainda mais intenso. Era na varanda na manhã seguinte. Quando ali cheguei, dei com D. Antônia só, passeando de um para outro lado; a baronesa recolhera-se, e</p><p>17 os outros tinham saído a cavalo, depois de alguma espera para que eu os visse; mas cheguei tarde; por que é que não fui mais cedo? Não pude: estive sabendo as más notícias que vieram do Sul. Sim? perguntou ela. Contei-lhe que havia, acerca da rebelião; mas os olhos dela, despidos de curiosidade, vagavam sem ver, e, logo que o percebi parei subitamente. Ela, depois de alguma pausa: Ah! então os rebeldes... Repetiu a palavra, murmurou outras, mas sem poder vinculá-las entre si, nem dar-lhes o calor que só real interesse possui. Tinha outra rebelião em casa, e, para ela, a crise doméstica valia mais que a pública. É natural, pensei comigo; e tratei de ir aos meus papéis. Apesar de a personagem da matriarca da família sobrepor seus proble- mas domésticos aos públicos e como questões dissociadas, eles não o são; a solução que for dada na ficção para esse conflito poderá, de certa for- ma, modificar o destino da nação. A Regência de Araújo Lima (1837-1840) A representou um regresso político, uma resposta violenta e conservadora às revoltas liberais que eclodiam em diversas regiões do país. Os rebeldes eram um tema a se tratar, tanto dentro quanto fora de casa. Personagens A mãe D. Antônia, ou como é chama- da pelos mais novos, é a matriarca da casa. Na ausência do marido, ela representa a força patriarcal da sociedade burguesa. Conta que, desde menina, foi ensina- da pelo avô que "uma Quintanilha não treme nunca" - e assim se manteve altiva e segura em suas decisões. Era justa com os serviçais, cordial com os vizinhos, acolhedo- ra com as visitas e sempre manteve em casa agregados, por amizade e companhia. D. Antônia governava esse pe- queno mundo com muita discri- ção, brandura e justiça. [...] Era filha de Minas Gerais, mas foi criada no Rio de Janeiro, na- quela mesma Casa Velha, onde</p><p>18 casou, onde perdeu marido e onde lhe nasceram os filhos, Félix e uma menina que morreu com três anos. A casa fora construída pelo em 1780, voltando da Europa, donde trouxe ideias de solar e costumes fidalgos; e foi ele, e parece que também a filha, mãe de D. Antônia, quem deu a esta a pontazi- nha de orgulho, que se lhe podia notar, e quebrava a unidade da índole desta senhora, essencialmente Inferi isso de algumas anedotas que ela me con- tou de ambos, no tempo do rei. D. Antônia era antes baixa que alta, magra, muito bem composta, vestida com singeleza e austeridade; devia ter quarenta e seis a quarenta e oito anos. Primeiramente, ela resistiu à ideia de ter alguém em casa, remexendo a biblioteca e os documentos do marido (que permaneciam conservados e in- tocáveis), mas acabou cedendo à insistência do Reverendo Mascarenhas, que apresentou o padre à família. Foi o próprio reverendo que, certa feita, disse que ela era "a imperatriz da Casa Velha", ao que a jovem senhora sorriu lisonjeada. "Não batia com o cetro em ninguém, mas estimava saber que lho reconheciam". Ao perceber que o único filho, Félix, estava enamorado de uma de suas protegidas, fez de tudo para afastar o rapaz; chegou a pedir ao padre-narra- dor que o levasse para uma longa viagem na Europa, mas não obteve suces- Quando confrontada pelo padre para aceitar o matrimônio dos jovens, resistiu veementemente e até inventou uma mentira: disse que os dois eram irmãos e que se ficassem juntos estariam cometendo incesto. Para a viúva, era mais tolerável suportar uma possível traição do marido do que ver o ca- samento do filho com alguém que não estava à sua altura. Tendo casado por eleição e acordo dos pais, tendo visto casar assim todas as amigas e parentas, D. Antônia mal concebia que houvesse, ao pé deste tume, algum outro natural e anterior. Cuidava a princípio que a sua vontade bastava a compor as cousas; [...] supôs sempre que efeito da separação não passaria de algumas lágrimas. Foi um bilhete pessoal do ministro encontrado pelo padre que desmentiu essa versão da história, apresentando uma outra, bem mais dolorosa para D. Antônia. Por ter agido com orgulho (e se sentindo castigada por isso) ela acaba aceitando o casamento dos jovens que, para surpresa do leitor, não acontece. Entrava já no espírito de D. Antônia um pouco de amor-próprio ofen- dido com a recusa. No final da história, vemos o desapontamento de D. Antônia; não por um mal que precisasse ser reparado, mas por ter sua vontade ignorada.</p><p>19 pai ministro, já falecido, é apresentado na história apenas por um re- trato. Sua memória é respeitada e cultivada pela viúva. Para permitir que uma pesquisa fosse feita em seu gabinete, a mulher exigiu que houvesse discrição e que só fossem revolvidos os papéis públicos o que foi aceito. Havia ali dous retratos, um do finado ex-ministro, outro de Pedro I. Conquanto a luz não fosse boa, achei que o Félix parecia-se muito com o pai, descontada a idade, porque o retrato era de 1829, quando o ex-minis- tro tinha quarenta e quatro anos. A cabeça era altiva, o olhar inteligente, a boca voluptuosa; foi a impressão que me deixou o retrato. Félix não tinha, porém, a primeira nem a última expressão; a semelhança restringia-se à configuração do rosto, ao corte e viveza dos olhos. A boca do ministro é descrita como voluptuosa pelo narrador. sentido dessa palavra pode ser entendido como lasciva, erótica, liber- tina. Essa primeira impressão é confirmada pelo Coronel Raimundo A que, em meio a um acesso político, comenta sobre a personalidade do homem. [...] irritado com as interrupções, bradou-lhe que, se o pai fosse vivo, as cousas andariam de outro modo. Aquele não era paz d'alma, disse o coronel apontando para o retra- to. Fosse ele vivo! Não era militar, como sabe, continuou olhando para mim, mas era homem às direitas. Veja-me bem aqueles olhos, e diga-me se ali não há vida e força de vontade... Um pouco velhacos, é certo, acres- centou galhofeiramente. Tio Raimundo! suplicou Félix. Velhacos, repito, não digo velhacos para tratantadas, mas para amo- res; era maroto com as mulheres prosseguiu rindo e esquecendo intei- ramente a rebelião. Eu, quando Vossa Reverendíssima mudar de cara, e trouxer outra mais alegre, hei de contar-lhe algumas aventuras dele... Veja aqueles olhos! E não imagina como era gamenho, requebrado... Seu retrato, paralelo ao de Pedro I, pode sugerir uma projeção na- cional. imperador D. Pedro I também foi conhecido tanto por seus atos ditatoriais quanto por seus casos extraconjugais; de seu caso mais duradouro, com a dançarina francesa Noémi Thierry, resultou uma criança natimorta. A coincidência se projeta na única fala do ministro da casa: o bilhete pessoal encontrado pelo padre.</p><p>20 Era um trecho de bilhete a alguma mulher, cujo nome não estava ali, e referia-se a uma criança, com palavras de tristeza. Podiam ser outros amo- res; podiam ser os próprios amores da mãe de Lalau. Hesitei em guardar o papel, e cheguei a pô-lo dentro das folhas do relatório; mas tornei a tirá-lo, e guardei-o comigo. Reli-o em casa; dizia esse trecho do bilhete, que provavelmente nunca foi acabado nem remetido: Tenha confiança em mim, e ouça que digo. Não faça barulho, sossegue e não fale sempre no meu nome. Venha cá menos que puder; e não pense mais no anjinho. Deus é bom. (Cap. 10) No bilhete, o ministro fala com uma mulher não identificada. Pede a ela que não faça escândalo, que não o procure mais, afinal, não poderia pôr em risco sua posição. homem demonstra alívio e se contenta com o fato de a criança, provável fruto de seu adultério, ter morri- do. Ele expressa "Deus é bom" para sugerir que tudo tivera seu melhor fim. As palavras do padre em relação ao caso do ministro, talvez fossem as pala- vras que toda a nação desejasse proferir ao seu imperador: Estás morto. Gozaste e des- cansas; mas eis aqui os frutos podres da incontinência; e são teus próprios filhos que vão tragá-los. Mais uma vez Machado de Assis constrói personagens que podem ser vistas como alegorias de um estado nacional.</p><p>21 0 filho Félix, o filho único, é descri- to pelo narrador como um jovem simpático, educado, inteligente e, aparentemente, honesto. Tinha cer- ca de vinte anos e era o orgulho da mãe. Como um bom filho da épo- ca, nada faria abertamente para contrariá-la. Na comparação que o narrador faz entre o retrato do pai e a aparência do filho, viu nos dois os olhos inteligentes, mas Félix não teria nem a cabeça altiva, nem a boca voluptuosa do pai. Além de cuidar das demandas da casa, Félix acompanhava o hóspede em suas pesquisas na biblioteca. Foi essa proximidade que permitiu A ao padre perceber a paixão que o moço sentia pela jovem Lalau, que acabou conquistando o apoio do cônego, não pela sua elegância, mas pelo caris- ma da menina. Quando a mãe intentou enviá-lo para a Europa a fim de distraí-lo de sua paixão, Félix teve a ideia de seguir a carreira política e fazer-se deputado; a carreira exigiria que ele perma- necesse no Brasil e se envolvesse com as causas locais. Mas a empreitada não foi levada a sério. Nas palavras da mãe, era um jovem criado "com muito amor e bastante fraqueza"; segundo ela, ele não tinha ambição, deixava incompletos seus estudos e não se importa- va com nada. Félix é, na verdade, um representante machadiano da burguesia ociosa, sem aspiração ou projeto de vida. Félix passava uma parte do dia comigo, sempre que eu ali ia; falava-me de alguns planos relativamente a indústrias, ou mesmo a lavoura, não me lembra provavelmente, era tudo misturado, nada havia nele ainda definido; lembramo- -nos que já andara com ideias de ser deputado. O que ele queria agora era fazer alguma cousa que o aturdisse, que lhe ti- rasse a dor do recente desastre. Neste sentido, aprovava-lhe tudo. A apatia do jovem levava-o à conformidade. Fazia-lhe falta a porção "de vida e vontade" que o pai esbanjava.</p><p>22 A agregada Cláudia, ou Lalau, é a protagonista da história. O narrador a descre- ve como uma jovem de cerca de dezessete anos, com olhos claros e muito vivos, alegre e angelical. Chamava-se Cláudia; Lalau era o nome doméstico. Não tendo pai nem mãe, vivia em casa de uma tia. Quase se pode dizer que nasceu na Casa Velha, onde os pais estiveram muito tempo como agregados, e aonde iam passar dias e semanas. O pai, Romão Soares, exercia um ofício mecânico, e antes pertencera à guarda de cavalaria de polícia; a mãe, Benedita Soares, era filha de um escrivão da roga, e, segundo me disse a própria D. Antônia, foi uma das mais bonitas mulheres que ela conheceu desde o tempo do rei. Lalau, se não nasceu ali, ali foi criada e tratada sempre, ela como a mãe, no mesmo pé de outras relações; eram menos agre- gadas que hóspedas. Daí a intimidade desta mocinha, que chega- va a infringir a ordem austera da casa, não indo para a mesa com a dona dela. Lalau andava na própria sege de D. Antônia, vivia do que esta lhe dava, e não lhe dava pouco; em compensação, ama- va sinceramente a casa e a família. Tendo ficado desde 1831, D. Antônia cuidou de lhe completar a educação; sa- bia ler e escrever, coser e bordar; aprendia agora a fazer crivo e renda. Se algum vigor faltava a Félix, sobrava em Lalau. Sua edu- cação em nada devia às moças mais abastadas. Não obstante, não negava sua origem humilde; afirmava não gostar de "latinórios" porque não entendia a missa. Não idolatrava livros grandes e era a única que gostava de conver- sar com o velho sineiro, que lhe contava narrativas amalucadas. Quando algum moleque tentava fa- zer mal ao velho, Lalau o defendia com firmeza e autoridade. Sua jovialidade, por vezes, sugeria insensatez. Ria dos acidentes com a carroça, atrasava-se para o almoço com D. Antônia, chamou a um padre de "tabaquento", "muito feio", "cabeça gran- de" e andava livre pelos campos da fazenda. Era muito amada pela senhora, mas rejeitada como pretendente ao filho; essa contradição revela um precon- ceito velado pela matriarca.</p><p>23 Quando uma concorrente Sinhazinha conquistou a atenção da família, Lalau lamentou sua condição: [...] Devia ser assim mesmo; eu não valho nada, não sou nada, não tenho avó baronesa, sou uma agregadazinha... Mas então por que enganar- -me tanto tempo? Para caçoar comigo? A jovem sofreu muito quando soube que amor que nutria por Félix não poderia ser concretizado. Foi sua velha tia quem desmentiu a história de D. Antônia; quando os pais chegaram à fazenda, Lalau já era nascida; de fato, houve uma criança fruto de um adultério, mas foi natimorta. Lalau tinha total veneração pela mãe. Se o preço por viver o seu amor era a mácula da memória materna, então ela abdicava de sua felicidade. Voltei à casa delas, e instei novamente, ou só com ela, ou com a tia; ela mantinha-se no mesmo pé, e, para fim, com alguma impaciência. Um dia recebi recado de D. Mafalda; corri a ver o que era, disse-me que o filho do se- geiro, Vitorino, fora pedi-la em casamento, e que a moça, consultada, respon- deu que sim. Soube depois que ela mesma incitara a fazê-lo. Compreendi que tudo estava acabado. Félix padeceu muito com esta notícia; mas nada há eterno neste mundo, e ele próprio acabou casando com Sinhazinha. Se ele e Lalau foram felizes, não sei; mas foram honestos, e basta. Se esse final, por um lado, fortalece o status quo, por outro, concede à menina um poder de decisão, uma afronta aos valores que lhe intenta- vam impor. Observação: Lalau e a maturidade nacional Três datas marcam a história de Lalau: a menina nasceu em 1822; em 1831, aos nove anos, ficou e, em 1839, período em que a narrativa se passa, ela tem dezessete anos, ou seja, está próxima à maiorida- de. O crítico literário John Gledson não vê nessas datas uma mera coincidência: em 1822, o Brasil nasceu como nação independente; em 1831, D. Pedro I abdicou em favor do filho; em 1839, caberia, ao país, conquistar a maioridade, a autonomia, assim como a personagem. O pai de Lalau se chamava Romão Soares, o que poderia remeter à república romana (Roma), e Cláudia (verdadeiro nome de Lalau) seria uma alegoria para uma nova forma de governo no Brasil.</p><p>24 Estrutura Na revista A Estação, a história de Casa Velha foi publicada em 25 episódios, mas, na reorganização como livro, ela foi subdividida em dez capítulos. narrador apresenta a história como experiência vivida por um padre da Casa Imperial. Ele cede a ao próprio cônego que narra sua experiência na casa, por ocasião de uma pesquisa que decidiu fazer sobre o reinado de Capítulo 1 D. Pedro I, na casa de um ex-ministro já falecido. Apresenta-se a casa, a capela que havia na propriedade, a viúva (D. Antônia Quintanilha), o filho único do ministro (Félix), parentes e alguns agregados que por ali assistiam à missa. cônego conhece a biblioteca da casa e identifica muitos papéis que poderiam ser úteis à sua pesquisa, ainda que não soubesse por onde começar. Aos poucos vai se habituando à rotina da casa, almoçando com a família e Capítulo 2 se aproximando de Félix. Ao falar que tinha intenções de in à Europa, a viúva insiste muito para que o padre se faça acompanhar pelo rapaz, mas o moço não se interessa pela viagem. A jovem Cláudia (Lalau) chega para passar alguns dias na propriedade, e o padre percebe que entre ela e Félix, o filho da casa, havia um sentimento de amor. padre recebe a visita de Lalau na biblioteca, e a menina lhe fala sobre sua rápida convivência com a mãe (falecida) e com a família do ministro, pela qual foi acolhida. A mãe era conhecida por sua beleza extraordinária que, de certa forma, se refletia na graciosidade de Lalau. próprio padre fica fascinado pelos encantos da menina. Capítulo 3 Félix compartilha com o cônego seu desejo de seguir a carreira política e se fazer deputado. padre se irrita com a ideia de que Félix, como dono da casa, poderia nutrir planos para apenas seduzir Lalau e não se comprometer com a moça. Adoentado, o padre se ausenta da propriedade por alguns dias e é visitado por Félix. Eles conversam sobre Lalau Capítulo 4 e o rapaz conquista no padre um aliado para convencer a viúva a abençoar a união dos jovens o filho e sua protegida. A viúva pede para falar com o padre na sacristia e busca ajuda para tentar dissuadir o filho de seguir, naquele momento, a carreira política; a mãe achava que o rapaz precisava à Europa para amadurecer. Na verdade, tinha Capítulo 5 emergência em separar o filho de Lalau, e quando o padre tocou no assunto de casar os jovens, a viúva negou Novos hóspedes chegam à casa, inclusive Sinhazinha, a pretendente de boa família, conveniente ao moço da Capítulo 6 casa. tio do rapaz insinua que, casando-se com ela, o jovem herdaria ricas terras. Lalau se sente enciumada, mas segue para a casa da tia, deixando a família na propriedade. Em secreto, para impedir que o padre continuasse apoiando Lalau e Félix, D. Antônia diz a ele que os jovens seriam irmãos de sangue; que seu finado marido não teria resistido aos encantos da mãe de Lalau e se envolvido Capítulo 7 com ela e que, por isso, enviar o filho para a Europa e casar a menina com outro seria a melhor solução. Era apenas mais um estratagema da matrona para fazer imperar sua vontade. padre revela a Félix o motivo de a mãe não aprovar a união com Lalau, e o jovem se consola pensando na moça Capítulo 8 como Os hóspedes vão embora, e Sinhazinha parece ao padre o melhor destino para Félix. Félix se afasta de Lalau, e ela se sente rejeitada; a jovem acredita que o motivo do distanciamento do rapaz seja Sinhazinha. padre acaba revelando-lhe o segredo da família; a jovem decide de vez para a casa da tia e fala Capítulo 9 sobre sua decisão de cuidar da sua vida, adequando-a à sua situação social. padre termina sua pesquisa e, ao que parece, deixa os jovens separados de vez. Ao reorganizar os papéis para ir embora, o padre acaba encontrando um bilhete do ex-ministro; no papel, o homem escrevera a uma amante, com pesar, por um bebê falecido. A pessoa mais velha do círculo que poderia dar alguma informação sobre o caso era a tia de Lalau, D. Mafalda. Ela disse que, de fato, o ministro e a cunhada tiveram um Capítulo 10 caso, mas que o fruto dessa aventura havia morrido; Cláudia até já era nascida quando eles se conheceram e seria impossível ela ser de Félix. D. Antonia, que tinha inventado toda aquela história, acaba sendo confrontada com a infidelidade do finado marido. padre revela aos jovens a confusão, mas, para sua surpresa, Lalau não quisera retornar à casa e decidira casar-se com outro rapaz. Félix, por sua vez, casa-se com Sinhazinha.</p><p>25 Linguagem Além de uma boa história, uma obra literária, como manifestação artísti- ca que é, requer uma linguagem que a sustente, e esse é um elemento abun- dante na escrita de Machado de Assis. Entretanto, por se tratar de um texto escrito e publicado no século XIX, o leitor atual pode ter algum estranhamen- to, embora o contexto e o enredo sejam capazes de fazer a leitura fluir. Alguns pontos que merecem ser observados na linguagem da obra Casa Velha: Topicalização do objeto: Muitas vezes, na construção sintática, o substantivo é topicalizado e, no final, retomado por um pronome, como nessa fala de D. Antônia, em que se redunda: "os livros e papéis do meu marido ninguém mexe neles" quando, atualmente, a construção mais natural seria: "ninguém mexe nos livros e papéis do meu marido". Reverendíssimo, a casa está às suas ordens, disse-me ela. Fiz o que Sr. Padre Mascarenhas me pediu, e a muito custo, não porque o não julgue pessoa capaz, mas porque os livros e papéis de meu marido ninguém mexe neles. A Arcaísmo: Há várias expressões e construções sintáticas que, embora comuns no século XIX, já caíram em desuso, o que demonstra o caráter vivo da língua. Logo no primeiro parágrafo, o narrador afirma que "esperdiçara seu talento com alguma poesia"; "espediçar" é uma forma arcaica do termo "desperdiçar". Intertextualidade: A obra de Machado de Assis é rica em citações. Logo no primeiro capítulo há uma menção que expõe um dos pontos mais sensíveis da Igreja: o celibato. padre, remexendo com Félix os livros da biblioteca, trata do livro Storia Forentina, de Varchi; segundo o padre, páginas imundas teriam sido suprimidas de alguns exemplares da obra, as páginas que narram o estupro do Bispo Fano pelo filho do Papa Paulo III (1534-1549); na biblioteca da família o livro estava intacto. A conversa, que a princípio parece descompromissada e apenas uma forma de o padre exibir seu conhecimento, deixa exposta a ferida sem, entretanto, fazer uma crítica direta à instituição. padre cita, ainda, Voltaire e Rousseau, como referências na reflexão sobre a "promiscuidade nas coisas religiosas e incrédulas". Glossário Outro exemplo: ao descobrir a paixão entre Lalau e Félix, o padre disse que se sentia como "o bispo Cirilo entre Eudoro e Cimódoce", druida: sacerdote do antigo retomando o mito greco-romano. Nele, Eudoro, grego de confissão povo celta que era responsável cristã, se une a Cimódoce, uma druida, e acabam sendo perseguidos e por organizar rituais e resolver conflitos. martirizados pelo imperador Diocleciano (243-311); a citação poderia ser uma antecipação para que o leitor não esperasse um final feliz.</p><p>26 Antecipação: narrador machadiano tem total A aproximação com elementos comparativos controle da narrativa; ele revela características explícitos configura a símile. das personagens que, só mais tarde, farão sentido Hipérbole: Para narrador, a conversa de para leitor. Ao apresentar Lalau, ele registra que Lalau acontecia "em troncos", ou seja, com ela não foi à mesa de jantar assim que chegou à muitas ramificações. Ao explicar a Félix a fazenda, o que seria um protocolo a cumprir; conversa que tivera com ela, o rapaz pergunta esse traço será essencial para sua resistência no sobre o que falaram, ao que padre responde: desfecho da obra. Ao apresentar Félix, o narrador o mostra como volátil, o que justifica superar tão De mil cousas, talvez duas mil; com ela é difícil contar rapidamente seu término com Lalau. os assuntos; vai de um para outro com tal rapidez que, se a Figura de linguagem: No texto de Machado gente não toma cuidado, cai no caminho. de Assis são explorados diferentes recursos de sentidos, como: "Mil", "duas mil", as medidas exageradas Metáfora: Quando Lalau se queixa de que os configuram a hipérbole. livros podem ser grandes demais e se espanta por Para realçar a diferença na haver quem tenha paciência para ler páginas tão personalidade de Lalau e Félix, o narrador velhas, o padre lhe responde: "Que tem que sejam descreve uma cena que observa no quintal velhos? Deus é velho, e é a melhor leitura que há". da casa. Félix escutava calado e com fascínio Deus não é uma leitura; dizer que uma coisa a ocorrência que Lalau lhe contava; depois, é o que não é por aproximação de sentidos falaram baixinho. narrador complementa: constitui uma metáfora. "Olhei para os dous, adivinhei o que estariam Metonímia: Ao tratar da distância social dizendo, e, pior ainda, que estariam calando, entre Lalau e Félix, narrador afirma que e que se lhes podia ler no rosto e nas maneiras". jovem era "filho da casa-grande, herdeiro do "Falar" e "calar" criam uma oposição de ideias sangue do bisavô e tão orgulhoso nas veias da mãe". Não eram as veias que se orgulhavam; que revela hesitação, conflito e contradição. eram as pessoas pelas suas tradições. Ironia: Ao ser confrontada pelo padre para Tomar uma parte pelo todo configura uma abençoar a união do filho com sua protegida, metonímia. D. Antônia cita, com ironia, a Regência do Símile: Ao conhecer Lalau, o narrador fica Padre Feijó, dando a entender que sob seu extasiado com sua jovialidade. Ele chega a comando o país ficou desorganizado: compará-la a um anjo: Realmente, não sei que ideias entraram por aqui Realmente, era uma criatura adorável, espigadi- depois de 31. São ainda lembranças do Padre nha, não mais de dezessete anos, dotada de um par Parece mesmo achaque de padres. [...] Isto não é no- de olhos, como nunca mais vi outros, claros e vivos, vela de príncipes que acabam casando com roceiras, rindo muito por eles, quando não ria com a boca; mas ou de princesas encantadas. se riso vinha juntamente de ambas as partes, então é certo que a fisionomia humana confirmava com a Depois que sua invenção de incesto foi des- angélica, e toda a inocência e toda alegria que há no mascarada, por ironia maior, teve que enfren- céu pareciam falar por ela aos homens. tar a traição do marido:</p><p>27 A razão é que golpe recebido fora profundo. Vivera na fé do amor conjugal; adorava a memória do marido, como se pode fazer a uma santa de devoção íntima. Tinha dele as maiores provas de constante fidelidade. Viúva, mãe de um homem, vivia da felicida- de extinta e sobrevivente, respeitando morto o mesmo homem que amara vivo. E vai agora uma circunstância fortuita mostra-lhe que, inventando, acertara por outro modo, e que o que ela considerava puro na terra trouxera em si uma impureza. "feitiço" virar contra o "feiticeiro" constitui uma ironia. Observação: Para saber mais sobre a obra e a vida de Machado de Assis, assista ao documentário produzido pela TV Senado ou consulte a página do Ministério da Educação sobre a vida e a obra do escritor; o site, inclusive, reúne seus textos em domínio público. Machado de Assis - A crônica e a história, de TV Senado. 2019. em: 18 out. 2022. Machado de Assis - Vida e obra, de Ministério da Educação. Disponível em: Acesso em: 18 out. 2022.</p><p>28 QUESTÕES 1. Considere as definições a seguir: A Por que o narrador de Casa Velha deprecia sua na- Conto: narrativa curta, baseada em uma única trama, tureza de historiador? com número reduzido de personagens, tempo e espaço B O narrador menciona duas histórias: a que ele delimitados. esperava e a que trouxe de lá. Que histórias são Novela: narrativa de extensão mediana, normalmente essas? apresentada em ordem cronológica, com ritmo rápido e enredo de relativa simplicidade voltada para um Considere o trecho a seguir para responder às questões desfecho único. 4 e 5: Romance: narrativa mais longa, normalmente subdividida em capítulos, em que se encontram bem Logo que a primeira comoção passou, D. Antônia desenvolvidos e aprofundados todos os elementos da disse-me com muita dignidade que o passado estava estrutura narrativa. passado, que se arrependia da invenção, mas enfim A O que há de comum entre os três gêneros apresen- estava meia punida. Era preciso que o castigo fosse tados? inteiro; e a outra parte dele não era mais que unir os B O que os diferencia? dois em casamento. Opôs-se por soberba; agora, por C Por que há dificuldade em classificar a obra Casa humildade, consentia em tudo. Velha como pertencente a um desses gêneros ASSIS, Machado de. Casa Velha. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986. Disponível em: www.dominiopublico.gov.br/download/texto/ literários? bv000168.pdf. Acesso em: 4 2022. 2. Releia as frases que iniciam a obra. Por que se 4. O trecho foi transcrito do final do romance, pode dizer que há uma dupla narração na obra Casa quando a personagem é confrontada com sua farsa. Velha? A De que invenção o texto trata? B Por que a personagem se diz movida pela soberba? Aqui está que contava, há muitos anos, um velho C De que forma esse evento revela traços da fina iro- cônego da Capela Imperial: Não desejo ao meu maior nia machadiana? inimigo o que me aconteceu no mês de abril de 1839. ASSIS, Machado Casa Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986. 5. A expressão "meia punida" parece, à primeira Disponível em: www.dominiopublico.gov.br/download/texto/ Acesso em: 4 2022. vista, um desvio gramatical. Responda a seguir. A O que justifica essa primeira impressão? 3. Leia o trecho a seguir: B Por que, no texto, tal uso não configura um desvio? Tais eram as reflexões que vim fazendo, quando dali 6. ENEM 2010 Machado de Assis voltei nesse dia [...]; mas nem a alma de um homem é "Joaquim Maria Machado de Assis, cronista, contista, tão estreita que não caibam nela cousas contrárias nem dramaturgo, jornalista, poeta, novelista, romancista, eu era tão historiador como presumira. Não escrevi a crítico e ensaísta, nasceu na cidade do Rio de Janeiro história que esperava; a que de lá trouxe é esta. em 21 de junho de 1839. Filho de um operário mestiço ASSIS, Machado Casa Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986. de negro e português, Francisco José de Assis, e de Disponível em: www.dominiopublico.gov.br/download/texto/ Acesso em: 4 2022. D. Maria Leopoldina Machado de Assis, aquele que</p><p>29 viria a tornar-se o maior escritor do país e um mestre B condenou o romantismo e introduziu no Brasil o da língua, perde a mãe muito cedo e é criado pela realismo, que só trocou pelo naturalismo. madrasta, Maria Inês, também mulata, que se dedica C investigou com profundidade o homem universal, ao menino e o matricula na escola pública, única que nas personagens cotidianas, indo além da crítica à frequentou o autodidata Machado de Assis." sociedade. Considerando os seus conhecimentos sobre os gêneros D centrou suas críticas na sociedade de sua época; textuais, o texto citado constitui-se de por isso está hoje ultrapassado: o homem moderno A fatos ficcionais, relacionados a outros de caráter não pode ver-se em suas personagens. realista, relativos à vida de um renomado escritor. E norteou-se pelos princípios do naturalismo, ressal- B representações generalizadas acerca da vida de tando sempre os fatores biológicos do comporta- membros da sociedade por seus trabalhos e vida mento humano. cotidiana. C explicações da vida de um renomado escritor, com 9. FGV-SP Machado de Assis, a rigor, não foi estrutura argumentativa, destacando como tema seguidor fiel de nenhuma escola literária. No entanto, seus principais feitos. temos de convir que o autor não deixou de aceitar D questões controversas e fatos diversos da vida de concepções próprias do: personalidade histórica, ressaltando sua intimida- A Neoclassicismo. de familiar em detrimento de seus feitos públicos. B Ultrarromantismo. E apresentação da vida de uma personalidade, or- C Realismo. ganizada sobretudo pela ordem tipológica da D Futurismo. narração, com um estilo marcado por linguagem E Modernismo. objetiva. 10. UFSCar-SP O que sobressai na atividade criadora 7. UNIRG-TO 2016 A respeito da obra de Machado de Machado de Assis é: de Assis, assinale a alternativa incorreta. A a minuciosa busca de soluções aperfeiçoadoras, o A Usa o humor frequentemente para criticar o ser que só se conseguiu após inúmeros e continuados humano e suas fraquezas. exercícios. B Descreve a realidade com forte conteúdo otimista. B a grande capacidade de inspiração, uma vez que a C O narrador conversa com o leitor e analisa a pró- quantidade de romances que escreveu foi facilita- pria narrativa. da pela improvisação. D Preocupa-se mais com a análise das personagens C equilíbrio entre o improvisador, o inspirado e o artis- do que com a ação. ta, que é demonstrado pelas obras de valor desigual, que ocorrem no decorrer de sua produção literária. 8. USF-SP Machado de Assis, na sua obra de ficção D a sinceridade com que manifesta, por linguagem narrativa: desprovida de metáforas em cada romance que es- A começou romântico e como tal se manteve na idea- creveu, as várias fases de sua biografia. lização com que descreve as personagens de suas E ter iniciado a carreira escrevendo romances realis- obras. tas, convertendo-se, mais tarde, ao Naturalismo.</p><p>30 GABARITO 1. a) Conto, novela e romance são gêneros textuais es- acompanharia deveria ser invariável: "meio", que critos em prosa em que predominam a tipologia significa um pouco. narrativa. b) No texto, a expressão foi usada como punida pela b) A extensão dos textos e a complexidade do enredo metade; tanto que, logo em seguida, se opõe a cas- podem ser fatores para diferenciar o conto, a novela tigo por inteiro. A ideia partitiva define o numeral e romance. que pode ter flexão em gênero. c) Diferentes teóricos classificaram Casa Velha como 6. E conto, novela e romance partindo da complexidade texto apresenta dados da vida de Machado de Assis; que viram (ou não) na composição da narrativa. faz uma abordagem biográfica, em linguagem objetiva 2. A história é iniciada com um narrador observador, em e direta. pessoa, que logo depois passará a palavra a um padre 7. B que contará em pessoa os fatos que viveu na Casa Velha. Uma das características da escrita machadiana é o pes- 3. a) O narrador se deu conta de não ser tão bom histo- simismo; ele define o perfil de suas personagens reve- riador quanto presumira, pois foi à Casa Velha para lando-lhes vícios e fraquezas e apresenta a sociedade pesquisar sobre a história do imperador, mas acabou pelo viés de suas instituições corrompidas. se enveredando pelas histórias domésticas. 8. C b) A história de D. Pedro I, que ele se propôs a escrever, Machado de Assis sempre evitou o comprometimen- e a história de amor de Lalau e Félix, que ele presen- to ideológico; ele não discursava abertamente contra a ciou na fazenda. sociedade, mas representava os desvios de conduta por 4. a) Para separar Lalau e Félix, D. Antônia inventou que meio de suas personagens, desvelando a alma humana. eram irmãos, que seu marido tivera um caso com a 9. C mãe de Lalau. As obras de Machado de Assis circunscrevem-se no b) O único motivo pelo qual D. Antônia rejeitava a Romantismo e no Realismo; neste último movimento, união dos jovens era a questão social; por soberba entretanto, ele foi consagrado. ela chegou a mentir para separá-los e agora se sen- 10. tia cobrada. Machado de Assis escreveu mais de duzentos contos e c) Ironia foi saber que, de fato, o marido tinha tido um seiscentas crônicas. Como jornalista, precisou improvisar caso extraconjugal com a mãe de Lalau; sua inven- muitas vezes; para escrever tantas histórias, tinha muitas ção não era fortuita. Teve que descobrir a verdade referências e inspirações; em toda sua obra demonstrou por meio da mentira que ela mesma criou. ser um artista da palavra. Os críticos, porém, costumam 5. a) "Meia punida" parece um desvio gramatical pois a atribuir maior valor às suas obras realistas, indicando-as palavra "punida" é um adjetivo, e o advérbio que o como fruto da maturidade do trabalho do escritor.</p><p>31 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ASSIS, Machado. Casa Velha. Rio de Janeiro: 1885-86. Disponível em: pdf. Acesso em: 4 out. 2022. ATAÍDE, Vicente de Paula. A narrativa de Ficção. 3. ed. São Paulo: McGraw-Hill do Brasil, 1974. GANCHO, Cândida Vilares. Como analisar narrativas. 9. ed. São Paulo: Ática, 2006. GLEDSON, John. Machado de Assis: ficção e história. 2. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2003. Hélio de Seixas. Os leitores de Machado de Assis: o romance machadiano e o público de literatura no século dezenove. São Paulo: Nankin/Edusp, 2004. MIGUEL PEREIRA, Lucia. Prefácio. In: ASSIS, Machado de. Casa Velha. São Paulo: Livraria Martins Editora, 1952, p. 7-26. A</p><p>AOL Análise de Obras 0 estudo das obras promove a compreensão e o aprofundamento do texto, revela as intenções de cada autor e elucida as características da escola literária da qual a obra faz parte. Ler é condi- ção fundamental para compreender o mundo, os seres, os fenômenos e os acontecimentos. Entender e desvendar uma obra é prazer da leitura e da busca de novos saberes. É encontrar a beleza da essência de cada autor. sistemapoliedro.com.br São José dos Campos-SP Telefone: QUE Poliedro Sistema de Ensino 2023-A+P 10015128</p>

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