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<p>2 Hermenêutica fenomenológica da experiência de si mesmo e NOVAES DE SÁ Um das tendências centrais do pensamento filosófico contem- é a chamada desconstrução da noção substancialista da alma ou do sujeito, na terminologia da filosofia moderna. Subs- aqui, não entendida apenas como característica do que um modo de ser extenso, mas daquilo que subsiste por si mesmo enquanto algo dado no mundo, ainda que em um modo não extenso, a res cogitans cartesiana. Essa tendência desconstrucionista tem influenciado as práticas psicológicas clínicas de maneira significativa. Constata-se no heterogêneo campo dessas práticas, paralelamente à revitalização dos projetos cientificistas biologizantes e fisicalistas, uma perspectiva crítica que tende a deslocar a questão metafísica o que é o homem, qual a sua qüididade, o seu ser em-si, para a questão sobre o sentido do seu ser, ou seja, uma questão hermenêutica. Com esse des- locamento do plano metafísico para aquele de uma hermenêutica que sabe irremediavelmente histórica, as psicoterapias se definem menos partir de formulações técnico-cientificas e se afirmam como práticas reflexivas de conhecimento e transformação de si, envolvendo as di- mensões ontológicas, estéticas, éticas e políticas da existência humana. As abordagens fenomenológicas e existenciais na psicologia têm um papel relevante nestas transformações históricas da psicoterapia, justa- mente por se inspirarem em uma concepção não metafísica de homem e assumirem uma posição crítica com relação aos projetos cientificistas da psicologia moderna. Esse texto foi publicado originalmente em 2009, na coletânea Psicologia e Filosofia, organizada pela Profa. Ana Feijoo e editada pela Fundação Rosa, em Belo Horizonte, MG. Agradeço às colegas Myriam Prota- sio e Ana Feijoo que julgaram pertinente a sua reedição e à FGR que concedeu a autorização. Situações Clínicas 45</p><p>geralmente o indivíduo é reduzido, ao contrário, ao egoís- Apresentaremos neste trabalho algumas dificuldades que, ao nos mo nu, vegetativo. Um egoísmo sem eu. (1993, p. 27-28) ver, a crítica da moderna metafísica do sujeito encontra e o enca minhamento que a questão ganha no pensamento de Heidegger. Em Apesar das críticas, a intuição cotidiana nos doa, em um primeiro seguida relataremos um caso clínico no qual as questões discutidas nos momento, a vida psíquica como interioridade denominada como eu, parecem essencialmente implicadas. Não estabeleceremos uma corre personalidade, espírito, alma, sujeito, consciência como mundo lação pontual entre as noções filosóficas de Heidegger e o desenrolar do interno correlativamente à nossa experiência do mundo cir- processo psicoterapêutico apresentado, até porque entendemos ser este A dissolução do dado intuitivo que essas noções encobrem, um caminho perigoso, facilmente assimilável pela compulsão técnico enquanto produção histórica ou estrutura biológica de funções adap- científico de sistematização e controle dos entes. O saber clínico es é uma abstração científica sem preenchimento em nossa expe- sencial é aquele que somos e não o que temos enquanto representação direta de si ou do outro como semelhante a nós. O único efeito conceitual. A contribuição que buscamos na filosofia não é a de funda desta redução apressada parece ser um afastamento maior mentação de uma teoria psicológica, mas a de uma reflexão essencial relação aos problemas existenciais e responsabilidades concretas que, na medida em que afeta nosso horizonte de compreensão e dispo implicados no fato de que a experiência que faço é sempre e a cada vez sição afetiva, altera necessariamente nosso modo de cuidado clínico. minha: sou. Com isso não queremos pregar o resgate de uma meta- A crítica contemporânea ao sujeito, principalmente fundamenta do sujeito, longe disso, nossa intenção é questionar apenas a in- da nas filosofias de Nietzsche e Heidegger e amplamente desenvolvida de uma desconstrução meramente intelectual, tal como tem no pensamento francês por Derrida, Deleuze, Foucault e na psicanálise sido promovida pelo pensamento contemporâneo no Ocidente. O fato de Lacan, aponta a inconsistência da ideia de um eu ou si-mesmo de que a experiência ôntica, cotidiana, do eu não seja base adequada e mano auto fundado na razão e na vontade, suporte de uma identidade suficiente para sua tematização ontológica, também não autoriza que constante, coerente e auto transparente. Por outro lado, as descons- descarte simplesmente essa experiência sem uma investigação mais truções de caráter fisicalista, como as dos behaviorismos e de grande detida do seu sentido. A ideia da insubstancialidade e heteronomia do parte das neurociências, apesar de se apoiarem em uma perspectiva ra- não é uma originalidade histórica da modernidade e da contempo- dicalmente distinta daquele desconstrucionismo filosófico, convergem ocidental. Linhagens tradicionais do pensamento oriental e na produção de uma cultura intelectual de desilusão com respeito ao mesmo correntes do pensamento místico no Ocidente têm explorado há valor e às expectativas que o humanismo moderno havia depositado séculos, de forma consistente, esta concepção. Queremos pensar, ainda no eu livre e soberano. Mas, curiosamente, mesmo no ambiente cultu- que de modo introdutório, sobre a necessidade de uma via longa para ral em que esta desconstrução é produzida e promovida, muitas vezes essa desconstrução, que considere uma fenomenologia da experiência com entusiasmo libertário, os comportamentos individuais e sociais, as de si-mesmo, em suas múltiplas possibilidades e sentidos, além das prá- relações em geral, não parecem menos fundadas em uma experiência ticas e estratégias existenciais de transformação da experiência de si. de si com egoidade. Isto é, não há, até agora, indícios aparentes de que Compreender o eu é compreender a si mesmo, não se trata, portanto, a crítica intelectual à noção de um eu substancial tenha como conseqü- de um tipo de conhecimento que se possa meramente ter, no sentido ência um modo de ser menos egoísta. Parecem se aplicar bem à nossa de aumentar o acervo de nossas representações conceituais sobre as experiência contemporânea do si-mesmo, as palavras de Simone Weil: Aqui, mais do que em qualquer outro tipo de interrogação, fica patente a impossibilidade de dissociação entre saber e ser. fato de terem perdido o eu não significa que não tenham Criticar a noção de um sujeito substancial não significa, obrigato- mais egoísmo. Ao contrário. Certamente, isso acontece al- riamente, reduzir a experiência de si a um mero efeito de causas físicas gumas vezes, quando se produz uma devoção de cão. Mas Situações Clínicas 46 Roberto Novaes de Sá</p><p>ou históricas. A fenomenologia de Husserl, nos alerta para a insepara ainda da constância e da identidade de algo simplesmente-dado bilidade das noções de ser e de experiência. Ser é aparecer: trata no sujeito kantiano. Heidegger (1990, p. 112-5) argumenta A crítica fenomenológica ao eu empírico de Descartes, ou a qualquer não basta evitar a separação entre o eu e o pensar, como fez Kant, forma de objetivação da consciência, visa justamente preservar a de que na determinação fundamental da experiência de nariedade da consciência e sua irredutibilidade à condição de algo dado mesmo já está desde sempre, como pressuposto ontológico, o eu penso dentro do mundo. O eu é a condição ontológica de possibilidade para colsa. Neste alguma coisa pressupõe-se, implicitamente, o mun- a doação de qualquer coisa enquanto coisa, não podendo ser, portanto, Dizer eu significa dizer, portanto, eu-sou-no-mundo-com e não um ele mesmo tomado como alguma coisa, sem que se perca a si mesmo que acompanha, como substrato estável, a diversidade no que lhe é mais essencial. É para expressar esse caráter radicalmen te originário que Husserl lança mão da noção de eu transcendental, A análise fenomenológica da existência revela na experiência do embora a expressão tenha dado margem a interpretações ambíguas, que não necessita ser discursivamente explicitada, a constituição já que sugere facilmente, no contexto de nossa tradição metafísica, a do eu como ser-no-mundo. A apropriação cotidiana da ex- ideia de uma reificação idealista do Se lembrarmos, no entanto, periência de si parte, no entanto, do mundo das ocupações e tende a papel fundamental que a intencionalidade teve na própria origem da interpretar-se do mesmo modo como toma aquilo que lhe vem ao en- fenomenologia, podemos compreender porque a noção husserliana de no mundo, isto é, como sendo simplesmente dado dentro do consciência já aponta para uma unidade antepredicativa com o No falatório natural sobre o eu pronuncia-se um eu que, de A característica essencial da consciência é ser sempre consciência de e na maior parte das vezes, eu não sou. É na experiência silencio- algo. O ser não é simplesmente dado como qüididade em-si, como pro- de si como acontecimento originalmente entrelaçado com tempo e uma metafísica realista, nem dado por uma consciência prévia auto mundo, justamente quando não se diz eu, que emerge o ser si-mesmo subsistente, como quer uma metafísica idealista. Como disse Merleau- em um modo próprio. A possível subsistência do eu como continuida- Ponty (1994): "Trata-se de reconhecer a própria consciência como pro- de do ser si mesmo não se fundamenta em nenhum tipo de jeto do mundo, destinada a um mundo que ela não abarca nem possui, mas na pura liberdade de poder perder-se naquilo em que se ocupa ou mas em direção ao qual ela não cessa de se dirigir" (p. 15). De qualquer antecipar-se na lembrança de si como ser-no-mundo. modo, para ser mais fiel à fenomenologia que o próprio mestre, e não Heidegger, em sua analítica da existência cotidiana, realizada em para negá-la, Heidegger substitui a noção do eu transcendental pela de Ser e Tempo, nos alerta sobre as dificuldades de uma fenomenologia da ser-no-mundo (In-der-Welt-sein), tentando evitar, assim, o peso cotidianidade mediana do ser-aí (Dasein) humano. Ao interpelar dire- tico depositado nas noções de eu, sujeito ou consciência, pela tradição a experiência de si e dizer sempre eu sou a existência cotidiana metafísica. Aqui, ao contrário da tradição ou mesmo da fenomenologia ainda não dá provas de que subsiste na atenção e escolha de suas possibi- husserliana, é a condição própria ao homem de abertura ao ser, o ser-aí lidades singulares de ser si mesma. É possível que, justamente, no fato de (Dasein), que constitui a condição ontológica de possibilidade da cons- ser sempre minha a existência encontre suas motivações para, de início e ciência e do si-mesmo. na maior parte das vezes, não ser ela própria. Isso não quer dizer que ela Ao chegar, após o exercício metódico da dúvida, ao cogito ergo seja absolutamente desprovida de eu, mas que o modo de ser deste eu é sum, penso, logo existo, Descartes prioriza o cogito, penso, em detri- perda de si próprio enquanto singularidade. A existência encontra, de mento do sum, existo. Considera, assim, o eu, a partir da ontologia a si mesma naquilo que lhe vem ao encontro no mundo: as coisas natural do ser-simplesmente-dado, como coisa pensante, res cogitans. de que se ocupa e os outros com quem convive. Tanto a eficiência das Embora Kant negue a substancialidade do eu e conceba o eu penso ocupações, quanto a deficiência das convivências cotidianas tendem a como mero sujeito, isto é, como consciência de si no pensamento ou na encobrir o mundo como abertura de sentido, isto é, a lançar a existência 48 Roberto Novaes de Sá Situações Clínicas</p><p>em uma pré-compreensão de si e dos outros como simplesmente dentro de um mundo igualmente dado. Essa convivência deficiente, existência cotidiana é sempre temerosa; teme por si mesma frente gida pela ocupação, dissolve o ser si mesmo no modo de ser dos ameaças do mundo. Mas, todo temor ôntico, enquanto temor por de tal forma que os outros desaparecem em sua diferença e singularida ancora-se ontologicamente na possibilidade distintiva de para constituir o todo mundo que não é ninguém específico. de poder não mais ser, em sua finitude. Esse temor sem ger denomina essa dinâmica vigente na cotidianidade como o impessoal é denominado como angústia. Na angústia a existência é arran- (Das Man, substantivação do pronome impessoal): falamos cotidiana das ocupações com os entes intramundanos para a livre abertura mente como impessoalmente se fala, nos comportamos em cada que se dá o mundo como tal. Mas a angústia, neste sentido pró- ção como as pessoas devem se comportar, somos diferentes e um fenômeno raro na existência cotidiana, predomina em geral como se deve ser e até criticamos a impessoalidade da vida cotidiana experiência imprópria enquanto medo de algo com o qual possa- como todo mundo critica. Quanto maior a falta de estranhamento e sur nos ocupar, controlando e assegurando a habitação impessoal na presa, mesmo quando a curiosidade e a novidade são exaltadas, mais qual nos protegemos da liberdade e da responsabilidade constitutivas impessoalidade domina a existência cotidiana. de nosso poder ser si mesmo singular. Encontramo-nos aqui em um hermenêutico, no interior do qual a cotidianidade permanece Esta análise, feita por Heidegger, não deve em hipótese alguma ser tomada como uma crítica valorativa à cotidianidade, como se denun encerrada: a existência desvia-se de si mesma enquanto ser-no-mundo, ciasse um erro imputável a um sujeito negligente ou de má índole. Tal prendendo-se às ocupações e tomando-se como simplesmente dada, interpretação seria por si mesma contraditória, pois é justamente a por que se angustia diante do mundo como livre abertura de sentido; e culdade de determinação de um sujeito imputável que foi desvelada na não ultrapassa a angústia, em direção à possibilidade de um deixar-ser livre e sereno, por que permanece fechada na experiência de si como investigação. Trata-se, antes, de uma estrutura ontológica, constitutiva, um eu isolado, simplesmente dado no interior do mundo. portanto, da existência. Não se passa de um modo impessoal para outro As reflexões de Heidegger sobre o ser do homem levam a um es- pessoal e singular como se isso fosse um desenvolvimento evolutivo da personalidade. Impessoalidade e singularidade são possibilidades exis paradoxo. Se, por um lado, trata-se de superar toda concepção de um eu simplesmente dado ou qualquer forma de subjetivismo, essa tenciais sempre em jogo a cada momento do existir concreto. Se o essencial ao homem não é objetivável, se o humano experiência apenas pode ser posta em curso na medida em que o ho- mem se aproxima de seu ser-si-mesmo. Nenhuma desconstrução de é mero poder-ser, é pura abertura de sentido, cabe, então a caráter meramente intelectual ou moral é capaz de deslocar o ser-aí por que de início e na maior parte das vezes a existência se toma como humano em direção ao seu centro próprio e, somente a partir desta algo simplesmente dado dentro de um mundo também dado? Entre con-centração é possível ao homem uma autêntica experiência de des- tanto, para que a pergunta possa se encaminhar de forma adequada à centramento. Quando suspendemos ou somos arrancados das identifi- natureza do que se interroga, é necessário que descartemos de antemão cações cotidianas dos entes em geral e de nós mesmos como coisas auto as direções mais usuais em que perguntamos pelos porquês das subsistentes, abrimos a experiência do mundo como co-emergente e Não poderia se tratar aqui de perguntar pela decisão voluntarista de um interdependente de nós. Se suportarmos a vertigem inicial e a angús- sujeito autônomo, nem, muito menos, por uma causa, no sentido deter- perante esse nada (no sentido de que nada aparece como simples- minista das ciências naturais. A interrogação se dirige, antes, ao sentido mente dado), apreendemos nosso ser mais próprio como mero poder- da experiência cotidiana impessoal, ao âmbito daquilo que ainda não ser, mera transparência, através da qual os entes aparecem segundo o sendo nela apropriado, se constitui, por isso mesmo, como sua moti- jogo de luz e sombra que se articula nesta abertura de possibilidades. vação essencial. Toda a cotidianidade mediana se estrutura como uma Con-centrados em nosso ser si-mesmo mais próprio, enquanto ser-no- fuga, um desvio da existência em relação ao seu modo mais próprio de mundo-com, percebemos que nosso verdadeiro centro não é nenhum 50 Roberto Novaes de Sá Situações Clínicas 51</p><p>núcleo substancial estável no interior de nós mesmos, ser originaria mas para pensar a essência do homem como abertura ao mente em-meio-aos-entes significa ser ex-cêntrico ou ter o seu o segundo Heidegger trata mais diretamente do acontecimento naquela abertura transparente que sempre ultrapassa nossa consciência histórico do ser, ainda é da apropriação histórica do homem ao ser que de sujeitos. O si-mesmo do ser-aí jamais se confunde, portanto, com se trata. qualquer compreensão psicológica de algum verdadeiro self Heidegger retoma a noção de serenidade, apreendida com Eckhart, em oposição ao eu Se o deslocamento da experiência de pensar um caminho, em meio à nossa época dominada pela técni- efetuado pela suspensão do mundo impessoal das ocupações de resgate da experiência daquilo que é mais essencial ao homem, abre sempre outras possibilidades de identificações, o essencial deste abertura ao ser. Para ele, a serenidade, enquanto uma equanimida- movimento não são essas novas identificações possíveis, mas o da alma perante tudo aquilo que é, nos permitiria dizer sim e não, poder-ser, a pura liberdade aberta ao mistério. Não sendo o si-mesmo à técnica moderna, estabelecendo deste modo uma um verdadeiro self, não há oposições em relação a falsos selfs. Não há relação mais livre com ela. A disposição de serenidade não se confunde nenhum verdadeiro self a ser alcançado, ser si-mesmo em um sentido nenhuma espécie de passividade, que seria ainda uma possibili- próprio ou impróprio diz respeito apenas ao grau de aprisionamento ou dade interna à posição voluntarista. A serenidade é um modo de ser de liberdade em relação às nossas identificações. livre e aberto ao mistério. Seguindo a breve referência que Heidegger Inspirando-se no místico alemão Mestre Eckhart, Heidegger de Ser e Tempo no texto proposto como comentário à serenidade, já nomina como Serenidade (Gelassenheit) a disposição espiritual em que mencionado acima, sugerimos que, além da disposição afetiva da an- nos colocamos para além da experiência de um sujeito auto fundado a serenidade também poderia ser pensada como uma disposição na razão e na vontade. Embora este tema seja tratado pelo filósofo a privilegiada para a experiência do ser-aí humano em seu modo mais partir da década de quarenta, em um contexto semântico já distante de próprio e singular. Usando a conceitualidade de Ser e Tempo, pensamos Ser e Tempo, dois motivos nos autorizam uma aproximação entre essas que a partir da serenidade é possível dizer, simultaneamente, sim e não conceitualidades diacrônicas. Primeiro, em um texto de 1945, Diálogo do impessoal. É possível dizer sim porque o mundo das num caminho do campo, que Heidegger sugere como comentário à con- cotidianas é visto como um horizonte de desvelamento de ferência Serenidade, ele próprio faz uma aproximação entre a sentido, não sendo o caso de negá-lo reativamente em nome de alguma de e a noção de decisão (Entschlossenheit), utilizada em Ser e outra suposta verdade. Ao mesmo tempo, é possível dizer não porque De acordo com ele, decisão, "[...] tal como é pensada em 'Ser e a experiência de que o poder deste horizonte não lhe é inerente, deve se entender como: propriamente assumido abrir-se do ser-aí ao mas, faz parte de uma dinâmica de originação que o ultrapassa. aberto" (2000, p. 58), acreditamos, portanto, ser essencial esta luz re- Essas considerações têm por objetivo, como apontamos inicial- trospectiva do chamado segundo Heidegger sobre a compreensão de Ser mente, contribuir para uma discussão sobre a crítica da metafísica mo- e Tempo. Segundo, é ainda o próprio Heidegger quem sugere, em uma derna do sujeito no âmbito das práticas psicológicas clínicas. Acredita- carta a Boss de 1971, a leitura da conferência Serenidade para os psiquia- mos que na maioria das psicoterapias contemporâneas entra em jogo tras participantes dos seminários de Zollikon e membros da, então, re- uma experiência de desconstrução e desidentificação das identidades cém fundada Associação Suiça de Daseinsanalyse (2001, p. 301-2). Mas, subjetivas que se tornaram rígidas, impedindo um poder corresponder para que tal aproximação faça sentido, devemos deixar em suspenso as mais livre e flexível às variadas demandas de tudo aquilo que nos vem ao interpretações que estabelecem uma tensão conflitiva entre os chama- encontro no mundo. Mas, pensamos também que na grande maioria dos dos primeiro e segundo Heidegger, e compreender suas diferença apenas casos, a nova identidade estabelecida é entendida como um si-mesmo como uma modulação complementar de perspectivas. Se o primeiro mais verdadeiro do que aquele com o qual se estava identificado antes. Heidegger trata do ser-aí humano, não é para construir uma antropolo- Muitas teorias psicológicas reforçam essa tendência, de lastro existencial, 52 Roberto Novaes de Sá Situações Clínicas 53</p><p>através de noções essencialistas do psíquico. Para uma clínica de Com uma frase negligentemente solta em meio ao discurso, ela expres- ração heideggeriana, talvez o insight terapêutico mais essencial, não seja in de modo bem mais significativo seus sentimentos: meu pai nunca a descoberta de potenciais identidades positivas, mas a experiência de gostou de mim. como mero poder-ser. Narramos a seguir um caso que, em nossa Quando procura a terapia, Clara tem trinta anos de idade. Casada perspectiva de compreensão, foi um processo de abertura da experiência desde os vinte e dois, ela tem um filho de cinco anos. Sente-se sobre- de si, para além da mera mudança de identidades subjetivas. com os afazeres domésticos e os cuidados com o filho. Diz Ao falar de seus problemas, no primeiro encontro, a principal quel que marido age sempre como uma criança e que não divide nenhum xa de Clara diz respeito ao modo de relação que ela tem com o seu problema com ela: ele é casado apenas na alegria e na saúde e não na sente-se aprisionada a uma teia de sentimentos ambivalentes que sequer e na doença. consegue explicitar para si mesma adequadamente. Os afetos são Com relação ao seu filho, ela tem uma preocupação específica: mulados através de uma forma de diálogo que, segundo ela, possui sem que ele vai conseguir crescer? Este receio não se refere apenas ao pre um tom de ironia, humor negro ou cinismo. Chora ao lembrar-se da físico, mas também à maturidade. Clara acha que ele é muito frase que ele falava quando ela era pequena e se vaso haixo em comparação às crianças da mesma idade e teme que, no futu- não quebra. Ela diz que ficava muito magoada diante da indiferença dele ele tenha dificuldades para relacionar-se no mundo dos adultos, da e que a dor de se sentir um vaso ruim era maior que a do machucado. mesma forma que ela sente. Aquele mundo é visto como chato por ser Ela se identifica com uma imagem muito negativa de si mesma, sério demais. Ela se considera infantil e teme que suas experiências se Considera-se burra, sem jeito, pouco feminina. Clara é formada em repitam na vida do filho. Esse temor leva Clara, de certa forma, a reali- psicologia, mas nunca exerceu a profissão. Sente-se incompetente para a expectativa temida ao trocar o filho de escola a cada ano, dificul- lidar com qualquer tipo de problema e não gosta de atividades que en- assim, que ele estabeleça vínculos mais estáveis com os colegas. volvem grupos de pessoas, pois nunca sabe o que dizer. Acha que fez Afirmações do tipo: eu fiz psicologia porque minha mãe queria uma psicologia porque sua mãe queria que alguma filha fosse freira. Assim, filha freira, meu marido é assim porque a mãe o superprotegeu ou meu ela poderia ajudar as pessoas e, de certa forma, realizar o desejo da filho vai pegar o hábito da mentira porque o pai dele mente, fazem parte Sua família possuía uma pequena confecção de roupas, na qual Clara da sua teoria de que o modo de ser das pessoas é determinado por aquilo trabalhava no setor de encomendas, visitando os clientes, função que que os pais foram ou fizeram com elas. Embora, a partir de nossa visão exigia dela um grande esforço emocional para lidar com as situações fenomenológica existencial do homem, essas afirmações possam pare- de exposição. Ela explicava seu medo de encontrar os compradores do cer simplistas e ingênuas, a psicoterapia não é um espaço para críticas, seguinte modo: como vender, fazer propaganda do meu produto? É discussões ou explicações conceituais. essencial seria elaborar tema- como se eu estivesse falando bem de mim e isso não combina. ticamente o sentido dessas crenças no projeto existencial de Clara, que Clara tem uma irmã aproximadamente dois anos mais velha. Ela implicações elas tinham no seu modo de lidar com as indeterminações, me diz que sempre competiu com a irmã pela atenção do pai e se com- os temores, a liberdade e a responsabilidade perante a existência? para a ela freqüentemente. Procura justificar racionalmente a maior Clara gosta de desenhar e acha que se pendurasse todos os seus proximidade do pai em relação à irmã por eles terem mais interesses desenhos na parede e ficasse olhando todos os dias, entenderia melhor em comum, mas não parece dar muita importância a essa explicação. sua vida. Ela pergunta, espontaneamente, se há papel e lápis cera na sala para que possa desenhar durante os atendimentos. Embora as téc- 2 Apesar de verossímil, o caso clínico apresentado é ficcional e foi criado a nicas lúdicas e expressivas sejam mais utilizadas com crianças, não há, partir de minha própria experiência como psicoterapeuta, supervisor clínico e em princípio, nenhum problema quanto à sua utilização em uma abor- orientador de pesquisa. Agradeço aos bolsistas de PIBIC e estagiários do Servi- de Psicologia Aplicada da UFF pela colaboração. dagem fenomenológica, a especificidade se apresenta apenas no modo 54 Roberto Novaes de Sá Situações Clínicas 55</p><p>de compreensão das imagens ou histórias elaboradas, mas esta especifi cidade já caracteriza a escuta do relato usual em primeira pessoa. terrivel porque a perda seria maior. Não corroboro essa interpre- desenhos, todos em estilo abstrato, são feitos enquanto conversamos de que medo da morte seria, então, a causa das suas resistências Em um dos encontros, pergunto se alguma daquelas formas lhe su is mudanças. Entendo que o sentido da morte aqui ainda estava restrito gere algo. Ela aponta um girino em um dos desenhos e conta que tem de evento biológico pontual. Remeto, ao contrário, a questão da observado os girinos virarem sapos no aquário que o marido montou no medo das transformações, ao medo da vida em sua dimen- para o seu filho, mas que não consegue compreender como é possível de indeterminação e insegurança. Percebemos que era um essa Lembra-se, ainda, de um desenho animado em que importante da terapia, pois o sentimento do desamparo esta- um girino, ao observar a metamorfose de uma lagarta, pensou que um sendo explicitado e elaborado em uma perspectiva de compreensão dia ele também se transformaria em borboleta. Enquanto ele observava ampla do que aquela do desamparo paterno. Seu humor continuava fechado para a realização de novos projetos. este processo, transformou-se, sem se dar conta, não em borboleta, mas discurso de auto censura ou de queixas contra o pai já não eram em sapo. Ela finaliza a história com um tom de perplexidade, dizendo Em alguns momentos, as cobranças morais eram substituí- que o girino queria ser como as borboletas, mas ao compreender que era um sapo, sentiu-se muito bem. das por um questionamento mais objetivo sobre as possibilidades de sua existência. No final de uma sessão, Clara diz já ter cumprido todas as suas Seu discurso revela a dificuldade em compreender as ções. Clara demonstra ambivalência e resistência às novidades, o que terminou a faculdade, se casou e teve filho. Agora não queria ela mesma é capaz de identificar não apenas na esfera emocional, mas a mais nada. Pergunto a ela o que significa isso: se ela quer di- também nas atividades corriqueiras do cotidiano. Seu temor e que não precisa fazer mais nada na vida ou se agora pode escolher o dade de experienciar transformações, traduz-se em um modo queixo- que quer fazer? Fica calada alguns segundos e depois responde com um irônico: significa que agora posso escolher não fazer mais nada. e esquivo de lidar com a vida. Na terapia, procura voltar sempre à Concordo, também com um sorriso, e nos despedimos. temática do desamparo paterno, como explicação para os sentimentos Em uma das sessões seguintes, Clara relata um sonho que a dei- de insuficiência e restrição existencial. Oscila entre a culpa, por ser a filha que não desabrochou para uma vida adulta rica em realizações, e intrigada: Eu morava em uma casa velha, cheia de lixo, coisas ve- a raiva do pai, que não teria lhe dado o afeto e a segurança necessários quebradas e sem valor. Aparecia, então, um catador de lixo com um para esse carrinho de madeira para levar aquelas coisas embora. Mas, quando ele Durante anos, Clara teve um sonho recorrente: o mar invadia o começava a separar as tralhas, encontrava muitos objetos bons, coisas novas e de valor que ele ia colocando feliz no seu carrinho. Eu ficava com quintal de sua casa, ela estava trancada em seu quarto, olhava aterrori- cara de boba e eram tantas coisas boas que ele nem conseguia colocar zada para a janela fechada na expectativa de que ela não resistiria à for- tudo no carrinho. ça da água, mas, embora isso não a tranqüilizasse, não pingavam nem Discutimos o conteúdo deste sonho pensando sobre o modo gotas pelos cantos da janela. Falamos sobre esse sonho diversas vezes, como ela estava se relacionando com suas coisas velhas e sem valor e ela percebia que o medo que sentia no sonho era semelhante ao que suas coisas boas e caras na vida desperta. Atendo-nos estritamente ao sentia em alguns momentos da vida quando se sentia demandada por material onírico (surpresa ao encontrar estas coisas de valor que ela situações que achava estarem além de suas possibilidades. Diante des- sas cobranças do mundo adulto ela também se trancava completamente pensava serem apenas lixo e o fato de só conseguir ver este valor media- e nenhuma gota de transformação penetrava sua existência. do pelo olhar de um outro), percebemos que, também aqui, Clara não vê como alguém que possui outras possibilidades de ser, apenas se Quase um ano após o início da terapia, Clara fala sobre seu medo reconhece como uma pessoa inútil e sem valor. Porém, ao revelar que da morte e acrescenta que se a vida melhorasse, morrer se tornaria ainda o valor das coisas muda de acordo com o observador, o sonho amplia 56 Roberto Novaes de Sá Situações Clínicas 57</p><p>espaço existencial de apropriação de outros modos de ser Abelha-espelho, para Clara, liberando-a, para sua surpresa (eu ficava com cara de boba), Com veneno mágico do peso da identificação restritiva de sua existência com significações (todo veneno é mágico?) de insuficiência e carência de valor. Esta ampliação do espaço existen Me transformou em mulher-com-dor. do poder-ser nunca é uma conquista definitiva, no momento Do canto do meu quarto, seguinte a uma experiência de desencobrimento de possibilidades, por Quadrado, demos retornar a uma identificação encobridora. Por outro lado, tais Me vi no centro, experiências de desidentificação nunca deixam a existência incólume, Mulher-abelha. como fazem as meras compreensões representacionais, sem nenhum A dor passou, preenchimento intencional na própria existência. Virou história. Sentimo-nos ameaçados quando nosso contexto cotidiano de sig Desta vez escapei, nificações é abalado por algum acontecimento que emerge como im Mas ainda temo a abelha previsto, inusitado ou carente de sentido no âmbito deste horizonte. Na E seu mágico veneno, maior parte das vezes, essas experiências nos remetem, de modo não Capaz de me acordar temático, à condição de desabrigo existencial. A ameaça é tão mais Ou me adormecer tensa e insuportável, quanto mais restrita e rigidamente estruturada for Na dor. a existência, isto é, quando nosso modo de ser se constrange à identi- ficações rigidamente cristalizadas, não havendo, portanto, flexibilidade Recuando diante da experiência da dor, desidentificando-se ela para lidar com aquilo que surge como diferente. Mas, é também aí que pôde ver sua dinâmica de constituição (mulher-abelha, mulher-com- pode se abrir de modo privilegiado a experiência de co-pertencimento dor), tornando-se, assim, mais livre (acordada) com relação à dor. Al- entre homem e mundo. O desabrigo e a angústia perante a ausência guns dias depois, Clara chega excitada, dizendo ter feito uma descober- de qualquer sentido previamente dado para a vida são a contraparte, la muito importante, que a frase Meu pai nunca gostou de mim, contém na maioria das vezes necessária, embora nem sempre suficiente, das afirmação: Meu pai gostou de mim, bastando para isso, retirar o não experiências de liberdade, gratuidade e aceitação serena do existir em da mesma forma, Meu pai gosta mais da minha do que de mim sua condição própria de mistério. Os eventos que suscitam essas expe- também contém Meu pai gosta de mim. Ela fala que se moveu de um riências de estranhamento não precisam ser exóticos ou grandiosos. ponto pra outro, que não sabe muito bem explicar como, mas que agora Acontecimentos simples do dia-a-dia podem produzir pequenas ilu- estava diferente com o pai. Pergunta-me como é que ocorrem estas mu- minações a partir do modo de co-respondência daquele que os acolhe. danças, porque ela não consegue localizar exatamente quando houve Clara relata uma experiência em que um contra tempo corriqueiro a esse salto, mas que era estranho como, de repente, as queixas contra seu convidou à reflexão sobre si: uma abelha picou seu braço na varanda de pai e o sentimento de abandono não pareciam mais tão reais. Pergunto casa. Convite ao qual ela correspondeu produzindo uma poesia: que ela sentia naquele instante, e que significado essa descoberta tinha em sua vida. Ela responde que estava se sentindo mais independente e que não havia mais necessidade de colocar à prova ou competir pelo amor do pai. 3 termo "existenciário" faz referência à dimensão ôntica da existência. Clara comprou um livro que falava sobre o que as pessoas apren- Ontologicamente, o poder-ser é uma determinação existencial constitutiva do dem em diferentes idades. Cada página começava da mesma forma: Eu ser-aí, apenas por isso é possível que onticamente a existência sofra restrições (fulano) aos (tantos anos) aprendi que.... Ela escreveu na última página: em seu poder-ser. Situações Clínicas 59 58 Roberto Novaes de Sá</p><p>Eu, Clara, aos 32 anos de idade, aprendi que meu pai gosta de mim e Longe o Infante, esforçado, deu de presente ao pai. No dia seguinte, sua mãe telefonou dizendo que Sem saber que intuito tem, o pai havia lido o livro e que estava muito emocionado. Clara diz Rompe o caminho fadado. apenas confirmado o que já havia compreendido, o quanto ela também Ele dela ignorado. sempre havia sido importante para ele, e que para amar de forma adulta Ela para ele é ninguém. tinha que sair de si mesma para olhar o outro. Neste mesmo período, ao dizer sua idade para alguém que preen Mas cada um cumpre o chia uma ficha de cadastro, Clara teve a estranha sensação de não estar Ela dormindo encantada, falando a verdade, isto porque não se sentia com 32 anos: Como 32, se Ele buscando-a sem tino eu acabei de acordar? Como, se foi agora que eu nasci e abri os olhos pro Pelo processo divino mundo? Acho que sempre associei juventude à liberdade, talvez por Que faz existir a estrada. isso me sentisse como uma criança velha, sem liberdade, agora que me sinto amadurecendo, sinto-me também mais jovem. E, se bem que seja obscuro Fazendo um balanço sobre o caminho percorrido durante estes Tudo pela estrada fora, dois anos de terapia, ela me fala sobre o que mudou e, ao referir-se E falso, ele vem seguro, ao marido, o coloca na posição de adormecido, como aquele que está E, vencendo estrada e muro, fechado às mudanças, abandonado às traças, frase que a mãe dele Chega onde em sono ela mora. tuma dizer. Lê, então, uma poesia de Fernando Pessoa que transcreveu pra ele em um belo cartão que deu junto com um presente pelos dez E, inda tonto do que houvera, anos de casados: À cabeça, em maresia, Ergue a mão, e encontra hera, Conta a lenda que dormia E vê que ele mesmo era, Uma Princesa encantada A Princesa que dormia. A quem só despertaria Um Infante que viria Clara diz, sorrindo, que tem em casa um belo adormecido. Que, De além do muro da estrada. por muito tempo se chateou e brigou, pois, ela mesma adormecida, só via o adormecido, mas que agora também via o Ele tinha que tentado, Em outra sessão, Clara diz que, recentemente, releu um de seus Vencer o mal e o bem, livros da época da faculdade e compreendeu textos que antes pareciam Antes que, já libertado, absurdos. A insistência da família para que ela encontre um emprego Deixasse o caminho errado como psicóloga não tem mais o mesmo efeito constrangedor. Recente- Por o que a Princesa vem. mente, Clara iniciou uma distribuidora de roupas em um anexo de sua A Princesa adormecida, casa, além de vender a produção da família, também compra de outras Se espera, dormindo espera. confecções. Ter o seu negócio próprio e fazê-lo ao seu modo tem lhe Sonha em morte a sua vida, dado muita satisfação. Não acha mais tão difícil fazer propaganda dos E orna-lhe a fronte esquecida, seus produtos. Lembro-me que ela expressava essa dificuldade antes, Verde, uma grinalda de hera. dizendo que falar bem daquilo que vendia era como falar bem de si 60 Roberto Novaes de Sá Situações Clínicas 61</p><p>mesma e isso parecia não combinar. Pergunto se, agora, a boa não se sentir capaz de fazer a música e que pediria a um amigo dos produtos combina com a auto imagem dela. Clara diz que, compor para ela. Se conseguisse dominar a música, seria perfeito. simplesmente, a boa ou má qualidade das roupas não tinha nada a ela: é possível dominar a música? Ela me responde que assim com as qualidades dela. A resposta de Clara me surprendeu, pensel que palavra dominar saiu de sua boca teve certeza que eu faria algum eu mesmo talvez ainda não tivesse me dado conta do quanto ela a respeito. Sinto-me desconfortavelmente previsível. Ela ver as coisas de forma madura e perspicaz. Por outro lado, foi também dizendo que, na verdade, não achava que seria a palavra mais um sentimento Nas últimas semanas eu me lembrava adequada ao que estava querendo dizer, mas que não conseguiu encon- com de que em breve estaria viajando para um No final desta sessão, Clara diz que não pretende procurar acadêmico e teria que interromper minhas atividades clínicas por um terapeuta e que tudo vai ficar bem. Sorrio comigo mesmo sem período mínimo de seis meses. Ainda não havia comentado o transparecer e penso que ela inverteu os nossos papéis. com Clara. A viagem dependeria de apoio financeiro de uma agência Nas sessões seguintes, Clara retoma questões de sua vida cotidiana. de pesquisa e eu dizia para mim mesmo que só falaria quando filho que está com alergia respiratória e comenta que as pes- algo concreto, mas eu já tinha essa confirmação há quinze dias e tivera recriminam porque ela fica com pena de levá-lo para tomar injeção. dois encontros com ela desde então sem mencionar nada. Embora de sua infância e do quanto era para ela ir ao posto de não considerasse ter problemas pessoais com o término das relações Questiono a suposição de que a experiência do filho será igual rapêuticas, identificava em mim uma certa dificuldade quando pensava Ela então me pergunta por que eu estou sempre interrogando a no assunto. Mesmo não achando que a origem deste desconforto era das causas que ela me expõe como explicação para o que ocorre. alguma presunção de que ela não poderia prescindir da terapia comigo, vontade de discorrer para ela sobre fenomenologia, mas me limito o fato de ela ter mostrado uma compreensão das coisas para além da que as perguntas visam apenas compreender melhor o sentido do minha intervenção psicologizante foi confortador. Senti que era uma que acontece. Ela retruca: é muito bonito na teoria, mas na prática é difícil. boa oportunidade para lhe dizer que daí a três meses eu teria que me Concordo com ela. Clara retorna a um discurso muito parecido com o do ausentar. Para minha surpresa, ela expressou um desapontamento ape da terapia. Fala sobre o pai, sobre o marido, sobre as velhas quei- nas educado e tratou o assunto com objetividade. Observei em mim um no mesmo tom de lamentação. Acho estranha a maneira como ela misto de decepção e rejeição diante de sua objetividade fria, junto com coloca neste momento porque não sinto como uma fala autêntica, mas preocupação por achar que a reação dela era um modo de suportar seu uma provocação dirigida a mim. Não acho oportuno questionar o próprio sentimento de abandono. Estaria eu novamente subestimando seu discurso, digo apenas que sei bem o quanto, às vezes, a vida parece Clara e, desta vez, para lidar com minha própria dificuldade em aceitar e solitária. que talvez eu não fosse tão importante assim para ela? Clara retorna mais animada na semana seguinte. Traz uma letra Na sessão seguinte, discutimos melhor as opções diante da in de música que fez sobre a luta diária a procura de uma vaga de estacio- terrupção que se aproximava: continuar com outro terapeuta ou parar namento para seu carro quando visita os clientes. Diz que ainda está sem previsão de data para o retorno. Clara diz que não queria parar, procurando alguém para fazer a melodia. Enquanto leio, uma plura- tinha medo de que interromper a terapia significasse parar também as lidade de significações vai me ocorrendo. Estacionar o carro é, certa- transformações que sentia em sua vida: Tenho vontade de desistir e ficar mente, um problema bastante comum nos centros urbanos, mas não satisfeita com o que já mudou, mas ainda falta algo muito importante, poderia ela estar falando também sobre a sua busca por um lugar, no falta música, ia dar um colorido todo especial. Clara havia recentemente sentido de se posicionar diante das situações e ocupar seu espaço nos voltado a brincar, como ela dizia, com o violão que ela tocara um pou- diferenciados contextos da vida? É uma possibilidade de interpretação CO na adolescência. Estava fazendo uma letra para uma canção, mas que faz sentido diante da sua história. Digo isto a ela. Quanto à melo- 62 Roberto Novaes de Sá Situações Clínicas 63</p><p>dia, me recordo de nossa conversa sobre a interrupção da terapia, entulhar este movimento tão significativo com pa- que ela disse que faltava a Explicito a analogia e pergunto diz que a perspectiva da sala sob aquele ângulo é mais bonita. seria interessante que ela mesma tentasse compor a Clara me talvez seja o deslocamento de posição que esteja permitindo que, na verdade, já está tentando, mas ainda não sabe se vai pois eu também estou achando a vista da minha nova por isso, não é bom descartar a possibilidade de uma parceria. bastante interessante. Ficamos em silêncio a maior parte dizendo que essa liberdade de compor sozinha ou fazer parcerias mas não há aquele desconforto tenso do silêncio que ain- meu ver, muito mais interessante do que dominar a apenas a impotência do falatório diante da grave proximidade do No início de nossa penúltima sessão, Clara diz que ainda não Na terapia, o silêncio do cliente é, com frequência, associado ao similou muito bem essa ideia de parar a terapia. Não está segura de mas aqui o silêncio era reconhecimento e gratidão pela ex- que seja o momento certo e teme não conseguir continuar o da abertura existencial, que nos foi proporcionada através do sozinha. Em seguida, me conta que começou a conversar com uma Não apenas a abertura circunstancial de uma autoimagem po- soa desconhecida pela internet: estava buscando alguém para desta precisamos sempre falar mais. No entanto, nenhum discur- quando acabassem os atendimentos. Segundo Clara, esta pessoa, com pode dar abrigo definitivo ao homem. silêncio é o traço essencial quem ela conversaria on-line, ocuparia um lugar semelhante ao de um diatintivo da existência humana, condição ontológica de possibilidade terapeuta, porque não teria o mesmo nível de envolvimento cotidiano de qualquer discurso. um amigo, seria um outro tipo de intimidade, menor e maior ao tempo. Pergunto por que, então, ela não considera melhor a possibilida de de continuar a terapia com outro psicólogo, eu mesmo poderia REFERÊNCIAS dar alguma indicação. Ela diz que vai pensar, mas que talvez seja apenas medo e não uma necessidade real. Falo que a internet pode ser um Heidegger, M. (2001). Seminários de Zollikon. (Trad. Gabriella Arnhold meio de comunicação para pessoas que se encontram a grandes & Maria de Fátima de Almeida Prado). Petrópolis, RJ: Vozes. tâncias físicas, e pergunto se poderia entender a alusão a um terapeuta (Original publicado em 1987) virtual como uma sugestão para a continuação de nossas conversas, Heidegger, M. (1989). Ser e Tempo. Parte I. (Trad. Marcia Sá Cavalcante Clara ri e diz que não havia pensado nisso, mas agora me ouvindo falar Schuback). Rio de Janeiro: Vozes. (Original publicado em 1927) parecia óbvio. Digo a ela que esta possibilidade já tinha me ocorrido e que já ouvira até falar em pesquisas sobre atendimento Heidegger, M. (1990). Ser e Tempo. Parte II. (Trad. Marcia Sá Cavalcante Schuback). Rio de Janeiro: Vozes. (Original publicado em 1927) tico on-line, mas além de ser um campo onde eu não gostaria de me aventurar no momento, também não poderia assumir outros compro- Heidegger, M. (2000) Serenidade. (Trad. Maria Madalena Andrade e Olga missos, pois minha agenda de trabalho no período em que estaria fora Santos). Lisboa: Instituto Piaget. (Original publicado em 1959) seria bastante apertada. Ela me diz que entende e que não vê realmen- Merleau-Ponty, M. (1994) Fenomenologia da percepção. (tradução Car- te necessidade de que eu lhe dê alguma indicação de outro los Alberto Ribeiro de Moura). São Paulo: Martins Fontes. (Ori- Afirma que está bem com sua vida e que é mesmo difícil abrir mão de ginal publicado em 1945) um espaço que foi tão importante para o seu crescimento, diz que será Weil, S. (1993) A gravidade e a graça. (Trad. Paulo Neves). São Paulo: mais uma transformação e embora ainda não consiga entender como Martins Fontes. (Original publicado em 1947) acontece, já sabe que acontece. Chega o momento de nossa última sessão. Clara sugere que tro- quemos nossos lugares, sentando um na cadeira do Eu concordo, 64 Roberto Novaes de Sá Situações Clínicas 65</p>

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