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<p>Artigo</p><p>47Paisagens X - Nov 2012</p><p>O ICMS Ecológico como instrumento</p><p>de justiça fiscal ambiental:</p><p>um caso dos novos instrumentos de</p><p>regulação do território1</p><p>Iara Viviani e Souza2</p><p>Resumo:</p><p>Este artigo apresenta a definição de ICMS3 Ecológico e destaca sua contri-</p><p>buição ao meio ambiente por incentivar e compensar financeiramente os municípios</p><p>com restrições às atividades economicamente produtivas – e que são, assim, os mais</p><p>prejudicados pela lógica da atual política tributária brasileira. O ICMS Ecológico</p><p>representa um modelo alternativo ao desenvolvimento poluidor e, até o momento,</p><p>tal política tem apresentado resultados positivos.</p><p>Palavras-chave: ICMS Ecológico, justiça fiscal, políticas públicas.</p><p>Introdução</p><p>Ao longo do século XX a discus-</p><p>são sobre a questão ambiental chegou</p><p>a um patamar inédito. Se até a década</p><p>de 1960 a questão era relacionada ape-</p><p>nas à sistematização do conhecimento</p><p>da natureza e à política de protecionis-</p><p>mo, foi a partir do Clube de Roma 4,</p><p>em 1968, que o tema ganhou destaque</p><p>no que Latour (1998, apud SANTOS,</p><p>2003) denomina mundo social – isto é,</p><p>o assunto ganhou as ruas. Aos poucos</p><p>a questão ambiental foi incorporada</p><p>pela sociedade, pela mídia e – inevita-</p><p>velmente, quando um assunto torna-se</p><p>de interesse geral – pela política.</p><p>No Brasil, os primeiros documen-</p><p>tos relacionados ao tema foram escritos</p><p>1Este artigo apresenta as</p><p>ideias centrais do Traba-</p><p>lho de Graduação Indivi-</p><p>dual de mesmo título, de-</p><p>fendido em fevereiro de</p><p>2011 sob orientação do</p><p>Prof. Dr. Ricardo Mendes</p><p>Antas Jr.</p><p>2Graduada pelo Depar-</p><p>tamento de Geografia da</p><p>Faculdade de Filosofia,</p><p>Letras e Ciências Huma-</p><p>nas da Universidade de</p><p>São Paulo.</p><p>E-mail: iaraviviani</p><p>@hotmail.com</p><p>3Imposto sobre Opera-</p><p>ções relativas à Circu-</p><p>lação de Mercadorias e</p><p>Prestação de Serviços de</p><p>Transporte Interestadu-</p><p>al e Intermunicipal e de</p><p>Comunicação – popular-</p><p>mente conhecido como</p><p>Imposto sobre Circu-</p><p>lação de Mercadorias e</p><p>Serviços.</p><p>4O Clube de Roma é con-</p><p>siderado pelos estudiosos</p><p>na área ambiental como</p><p>o marco das preocupa-</p><p>ções do homem moderno</p><p>com o meio ambiente,</p><p>incorporando também</p><p>questões sociais, políticas,</p><p>ecológicas e econômicas</p><p>com uso racional dos re-</p><p>cursos (SANTOS, 2003).</p><p>O Clube de Roma foi um</p><p>Iara Viviani e Souza</p><p>48 Paisagens X - Nov 2012</p><p>nas primeiras décadas do século XIX,</p><p>motivado pelos alertas dados por D. João</p><p>VI ao imperador D. Pedro II acerca dos</p><p>impactos provenientes das atividades</p><p>humanas sobre os recursos naturais. Po-</p><p>rém, como bem destaca Santos (2003),</p><p>as observações partiram de naturalis-</p><p>tas comumente desvinculados de com-</p><p>promissos com metas políticas ou com</p><p>planejamento regional – os prenúncios</p><p>desse tipo de proposta tornaram-se mais</p><p>concretos a partir da década de 1930,</p><p>com a instituição do Código de Águas</p><p>(Decreto n° 24.643/34) do Código Flo-</p><p>restal (Lei n° 4.771/65) e da Lei de Pro-</p><p>teção à Fauna (Lei n° 5.197/67), entre</p><p>outros. Portanto, as medidas tomadas</p><p>à época não podem ser caracterizadas</p><p>como políticas públicas5 ambientais.</p><p>O inegável elo entre o acelerado</p><p>processo de degradação ambiental e a</p><p>crescente industrialização ao longo do</p><p>século XX criou uma relação de indis-</p><p>solubilidade entre os fatos, como se os</p><p>impactos negativos causados ao meio</p><p>ambiente por conta da industrialização</p><p>fosse um mal necessário em prol do de-</p><p>senvolvimento. Aliás, outro equívoco é</p><p>a falsa analogia entre desenvolvimento e</p><p>crescimento econômico – que, embora</p><p>posta em xeque já ao final da década de</p><p>1960, ainda é vista no modo como algu-</p><p>mas políticas públicas são conduzidas.</p><p>De acordo com Veiga (2008), até</p><p>o início dos anos 1960 não era neces-</p><p>sária a desambiguação entre desenvolvi-</p><p>mento e crescimento econômico porque</p><p>as poucas nações desenvolvidas eram</p><p>as que haviam se tornado ricas através</p><p>da industrialização; os países subdesen-</p><p>volvidos, por sua vez, eram aqueles nos</p><p>quais o processo de industrialização era</p><p>incipiente ou sequer existia. Porém, a</p><p>constatação de que o intenso cresci-</p><p>mento econômico ocorrido após a 2°</p><p>Guerra em diversos países semi-indus-</p><p>trializados (entre eles o Brasil) não im-</p><p>plicou no acesso de populações pobres</p><p>a bens materiais e culturais – como</p><p>saúde, educação e moradia –, tal como</p><p>ocorreu nos países desenvolvidos, tor-</p><p>nou necessária a reflexão sobre o que</p><p>seria, de fato, desenvolvimento.</p><p>A política brasileira, sobretudo</p><p>durante o regime militar, era focada</p><p>em segurança e crescimento econômi-</p><p>co, vistos como elementos-chave para</p><p>a solidez, o progresso político-econô-</p><p>mico interno e a projeção internacional</p><p>do país (FREITAS, 2004). O “milagre</p><p>brasileiro” (1968-1973) idealizado pelo</p><p>então ministro da fazenda Delfim Neto</p><p>era calcado na acumulação de renda para</p><p>uma posterior redistribuição entre os es-</p><p>tados. O crescimento a qualquer custo,</p><p>defendido pela delegação brasileira du-</p><p>rante a I Conferência Internacional das</p><p>Nações Unidas sobre o Meio Ambiente</p><p>(1972) ficou muito claro durante o aca-</p><p>lorado embate entre representantes dos</p><p>países periféricos, que reivindicavam o</p><p>“desenvolvimento” trazido pela indus-</p><p>trialização, e das nações ricas, que eram</p><p>a favor da interrupção do crescimento</p><p>econômico de base industrial, poluidor</p><p>e consumidor de recursos naturais não</p><p>renováveis. Segundo Donda (2009),</p><p>embora o legislativo brasileiro da época</p><p>estivesse do lado da comunidade cientí-</p><p>fica mundial, o governo militar brasilei-</p><p>ro agia de forma oposta, incentivando</p><p>o desmatamento e a produção industrial</p><p>agrícola a qualquer custo. Foi emble-</p><p>mática a declaração (que a autora atri-</p><p>bui a Miguel Ozório de Almeida, mas</p><p>que também é comumente atribuída ao</p><p>encontro com especialis-</p><p>tas de diversos países e de</p><p>diversas áreas do conhe-</p><p>cimento com a finalidade</p><p>de discutir o uso racional</p><p>dos recursos naturais e o</p><p>futuro da humanidade. O</p><p>Relatório Meadows, gera-</p><p>do a partir das discussões,</p><p>abalou as convicções da</p><p>época sobre o valor do</p><p>desenvolvimento econô-</p><p>mico, de forma que a so-</p><p>ciedade, a partir de então,</p><p>passou a pressionar os go-</p><p>vernos por medidas de pro-</p><p>teção ao meio ambiente.</p><p>5Para Pereira (1994, apud</p><p>DESENNSZAJH, 2000,</p><p>p. 59), política pública é</p><p>uma “linha de ação coleti-</p><p>va que concretiza direitos</p><p>sociais declarados e garan-</p><p>tidos em lei. É mediante</p><p>políticas públicas que são</p><p>distribuídos ou redistri-</p><p>buídos bens e serviços</p><p>sociais, em resposta às de-</p><p>mandas da sociedade”.</p><p>Artigo</p><p>49Paisagens X - Nov 2012</p><p>ministro do interior à época, Costa Ca-</p><p>valcante) realizada pela representação</p><p>brasileira aos que propunham o “cres-</p><p>cimento zero”:</p><p>Bem-vindos à poluição, esta-</p><p>mos abertos para ela. O Brasil é</p><p>um país que não tem restrições.</p><p>Temos várias cidades que rece-</p><p>beriam de braços abertos a sua</p><p>poluição, porque o que nós que-</p><p>remos são empregos, são dólares</p><p>para o nosso desenvolvimento</p><p>(apud DONDA, 2009, p. 1).</p><p>A pauta da conferência não era</p><p>apenas ambiental, pois questões maio-</p><p>res, relacionadas à soberania das nações</p><p>emergentes, estavam em jogo – tanto é</p><p>que, de acordo com Ribeiro (2005) a de-</p><p>cisão de escolher Estocolmo como lo-</p><p>cal para a realização da conferência de-</p><p>correu da necessidade de discutir temas</p><p>ambientais que poderiam gerar conflitos</p><p>internacionais. O tom geopolítico das</p><p>discussões foi adotado, segundo Dupuy</p><p>(1980), por um conflito de interesses</p><p>entre os países de primeiro e terceiro</p><p>mundo. Tal conflito, de acordo com o</p><p>autor, põe em xeque a versão de Santos</p><p>(2003) para a mudança do paradigma do</p><p>desenvolvimento.</p><p>Para Santos (2003), a percepção de</p><p>que a mentalidade voltada para o consu-</p><p>mo era a responsável pelas mais diversas</p><p>mazelas socioambientais – da poluição</p><p>ao aumento da desigualdade social –</p><p>deu início ao questionamento da exis-</p><p>tência de um único modelo de desen-</p><p>volvimento. Assim, o desenvolvimento</p><p>poluidor, aplicado nas nações ricas, não</p><p>deveria ser aplicado no restante do glo-</p><p>bo porque a cópia pura e simples de um</p><p>modelo não era a garantia de prosperi-</p><p>dade econômica. O melhor modelo era,</p><p>portanto,</p><p>aquele que a sociedade decide</p><p>e que atenda às suas necessidades em es-</p><p>pecífico, de acordo com suas condições</p><p>e sua representatividade social. Dessa</p><p>forma surgiram então outros modelos,</p><p>considerando benefícios desvinculados</p><p>do aspecto puramente econômico –</p><p>como qualidade de vida, conforto, hi-</p><p>giene, educação – e das características</p><p>negativas próprias do chamado mundo</p><p>desenvolvido – isto é, da degradação</p><p>ambiental (SANTOS, 2003).</p><p>Dupuy (1980) apresenta uma outra</p><p>versão para os fatos. Para o autor, a ne-</p><p>cessidade de mudança já era prevista por</p><p>economistas do passado, de Adam Smith</p><p>a Ricardo, porém por outro motivo: o des-</p><p>gaste do capitalismo, que, cedo ou tarde,</p><p>poderia estagnar devido a uma saturação</p><p>das necessidades. A crise ecológica eviden-</p><p>ciou a contradição do capitalismo entre a</p><p>necessidade de assegurar uma demanda</p><p>suficiente e a produtividade crescente.</p><p>Para tanto, era necessário valores de troca</p><p>cada vez maiores para satisfazer valores</p><p>de uso constantes. Os custos crescentes</p><p>da reprodução do sistema produtivo en-</p><p>careciam os já altos custos de produção</p><p>da demanda, pois o reaproveitamento e a</p><p>racionalização dos recursos naturais utili-</p><p>zados tornavam o processo de produção</p><p>mais custoso. Por isso, o autor afirma que</p><p>a preocupação em proteger (pelo menos</p><p>em parte) o meio ambiente não deve ser</p><p>atribuída a uma questão filantrópica ou a</p><p>qualidade de vida, mas a constatação de</p><p>que tal medida era imprescindível para</p><p>a manutenção do status quo (DUPUY,</p><p>1980). O autor mostra-se cético até mes-</p><p>mo ao que Santos chama de “qualidade de</p><p>vida”, o que para ele é uma ideologia cria-</p><p>da para compensar o custo da ecologia na</p><p>produção econômica.</p><p>Iara Viviani e Souza</p><p>50 Paisagens X - Nov 2012</p><p>Há de se destacar que as mazelas</p><p>ocasionadas pelas disparidades regio-</p><p>nais e pela concentração de renda que o</p><p>“milagre econômico“desencadeou são</p><p>frutos de um processo histórico muito</p><p>anterior a 1964. De acordo com Moraes</p><p>(2005), a sociedade brasileira contempo-</p><p>rânea, estruturada a partir da década de</p><p>1930, é marcada pela conquista territo-</p><p>rial, pelo padrão dilapidador dos recur-</p><p>sos, pela dependência econômica exter-</p><p>na, pela concepção estatal geopolítica,</p><p>pelo Estado patrimonial, pela sociedade</p><p>excludente e pela tensão federativa –</p><p>enfim, pelos processos que o território</p><p>brasileiro conheceu desde o período</p><p>colonial. Somada à influência externa,</p><p>inevitável em tempos de globalização, as</p><p>disparidades regionais e a concentração</p><p>de renda tornaram-se ainda mais eviden-</p><p>tes, pois as obras de infraestrutura, bem</p><p>como as indústrias, foram alocadas de</p><p>forma bastante seletiva do ponto de vis-</p><p>ta espacial, de modo que os benefícios</p><p>desse processo foram também altamen-</p><p>te seletivos do ponto de vista social.</p><p>Cataia (2001) afirma que o capita-</p><p>lismo fez com que todos os países produ-</p><p>zissem novas divisões internas ao territó-</p><p>rio nacional para torná-lo mais funcional</p><p>à produção. Por isso, afirma, o território</p><p>não é apenas a base da propriedade pri-</p><p>vada e da produção, mas também base de</p><p>todo poder político. Não há Estado sem</p><p>território, assim como não há território</p><p>sem compartimentações políticas – isto</p><p>é, sem fronteiras.</p><p>Para Scaff e Tupiassu (2004), as</p><p>novas formas de organização da socie-</p><p>dade, bem como a formação de grandes</p><p>blocos econômicos tem criado a necessi-</p><p>dade de repensar os conceitos de sobe-</p><p>rania, território e povo – e, portanto, a</p><p>concepção e o papel do Direito na so-</p><p>ciedade. Porém, como ressalta Antas Jr.</p><p>(2005), a ciência jurídica não acompanha</p><p>as transformações geográficas no mes-</p><p>mo ritmo e, por mais recente e progres-</p><p>sista que se pretenda uma lei, ela é fruto</p><p>de necessidades passadas que pode, se</p><p>muito, estabilizar as relações sociais no</p><p>espaço e no tempo – mas não as rever-</p><p>ter. Portanto, a justificativa para a criação</p><p>de normas especialmente orientadas para</p><p>a proteção ao meio ambiente se deu no</p><p>momento em que, espacialmente, foi</p><p>constatado que sua não criação implica-</p><p>ria em grandes danos ambientais. O dife-</p><p>rencial das legislações ambientais criadas</p><p>a partir da década de 1970 é o reconhe-</p><p>cimento das gerações futuras e da pró-</p><p>pria natureza como sujeitos de direito, de</p><p>essencial importância para a definição de</p><p>uma nova sociabilidade mais responsável</p><p>em relação à sociedade-mundo (SILVA-</p><p>SÁNCHEZ, 2000).</p><p>A redemocratização do país tornou</p><p>necessária a criação de uma nova Cons-</p><p>tituição, mais condizente com a situação</p><p>política do país e que incorporasse novas</p><p>perspectivas políticas. A Constituição Fe-</p><p>derativa de 1988 foi a primeira a dedicar</p><p>um capítulo específico ao meio ambiente</p><p>– reflexo tardio das discussões ambien-</p><p>talistas iniciadas na década anterior. O</p><p>compromisso do Estado em garantir a</p><p>todos o meio ambiente ecologicamente</p><p>equilibrado é estabelecido pelo art. 225,</p><p>que ainda atribui ao Poder Público e à</p><p>coletividade o dever de defender e pre-</p><p>servar o meio ambiente para as presentes</p><p>e futuras gerações.</p><p>O trabalho O ICMS Ecológico</p><p>como instrumento de justiça fiscal am-</p><p>biental: um caso dos novos instrumen-</p><p>tos de regulação do território, defendido</p><p>Bibliografia</p><p>ANTAS JR., R. M. Territó-</p><p>rio e regulação: espaço geográfico,</p><p>fonte material e não-material do</p><p>direito. São Paulo: Humani-</p><p>tas/Fapesp, 2005. 248 p.</p><p>BORBA, C. Direito Tribu-</p><p>tário: Teoria e 1000 questões.</p><p>22ª ed. atualizada. Rio de</p><p>Janeiro: Elsevier, 2007.</p><p>874 p. (Série Provas e</p><p>Concursos).</p><p>BRASIL. Lei n° 5.172,</p><p>de 25 de outubro de 1966.</p><p>(Denominado Código</p><p>Tributário Nacional).</p><p>Dispõe sobre o Sistema</p><p>Tributário Nacional e</p><p>institui normas gerais de</p><p>direito tributário aplicá-</p><p>veis à União, Estados e</p><p>Municípios. Disponível</p><p>em: <http://www.planal-</p><p>to.gov.br/ccivil_03/Leis/</p><p>L5172.htm>. Acesso em:</p><p>03 set. 2010.</p><p>Artigo</p><p>51Paisagens X - Nov 2012</p><p>junto ao Departamento de Geografia da</p><p>FFLCH em fevereiro de 2011 trata de</p><p>um modelo de política ambiental calca-</p><p>do no princípio de justiça fiscal. Um dos</p><p>aspectos positivos do ICMS Ecológico</p><p>é compensar a perversa lógica da atual</p><p>política tributária brasileira, que, por pri-</p><p>vilegiar com maiores repasses os esta-</p><p>dos e municípios mais economicamente</p><p>ativos, dificulta o acesso de estados e</p><p>municípios de menor expressão econô-</p><p>mica às benesses usufruídas pelos mais</p><p>abastados. O ICMS Ecológico apresen-</p><p>ta uma proposta para a redistribuição do</p><p>imposto sobre e circulação de mercado-</p><p>rias e serviços a partir de critérios am-</p><p>bientais (e, em alguns estados, também</p><p>sociais). O ICMS Ecológico representa,</p><p>enfim, a iniciativa das esferas subnacio-</p><p>nais pela repartição do bolo.</p><p>Sobre o art. 158 da Constituição Fe-</p><p>derativa de 1988 e o ICMS Ecológi-</p><p>co: algumas considerações</p><p>Como foi destacado na Introdu-</p><p>ção, a conscientização sobre os impactos</p><p>das atividades humanas sobre o meio</p><p>ambiente implicou na necessidade da</p><p>criação de políticas públicas voltadas para</p><p>sua proteção. No caso brasileiro, a maior</p><p>parte das políticas surgiram no início dos</p><p>anos 1980, principalmente a partir da</p><p>promulgação da última Constituição.</p><p>Outra inovação da Constituição</p><p>de 1988 é a relativa autonomia conce-</p><p>dida a estados e municípios, possibili-</p><p>tando ações de caráter institucional e</p><p>de alcance territorialmente limitado,</p><p>porém com implicações no âmbito da</p><p>totalidade da formação socioespacial</p><p>(CASTILLO; TOLEDO; ANDRADE,</p><p>1997). E se um dos papéis do Direito é</p><p>a implementação de políticas públicas,</p><p>responsáveis por alavancar a sociedade</p><p>para o alcance dos valores estabeleci-</p><p>dos pelos Princípios Jurídicos, logo não</p><p>é possível ignorar a finalidade social do</p><p>Direito Tributário, já que os tributos6,</p><p>em função de sua própria natureza,</p><p>devem exercer uma finalidade eminen-</p><p>temente voltada para o bem comum</p><p>(SCAFF, TUPIASSU, 2004).</p><p>Para compreender o papel do ICMS</p><p>no orçamento da administração pública, é</p><p>necessário, antes, definir imposto. Confor-</p><p>me o art. 16 do Código Tributário Nacio-</p><p>nal, imposto é “o tributo cuja obrigação tem</p><p>por fato gerador uma situação independen-</p><p>te de qualquer atividade</p><p>estatal específica,</p><p>relativa ao contribuinte” (BRASIL, 1966).</p><p>Distingue-se, portanto, da taxa e da contri-</p><p>buição de melhoria – outras formas de tri-</p><p>butos definidas, respectivamente, pelos tí-</p><p>tulos IV e V da lei –, por não ser destinada à</p><p>promoção de um benefício em específico,</p><p>mas para atender as necessidades gerais da</p><p>administração pública (BORBA, 2007).</p><p>A relativa autonomia dada a estados</p><p>e municípios estende-se também a gestão</p><p>de alguns tributos. De acordo com o art.</p><p>155, inciso II, compete aos estados e ao</p><p>Distrito Federal instituir impostos sobre</p><p>operações relativas à circulação de mer-</p><p>cadorias e prestação de serviços de trans-</p><p>porte interestadual e intermunicipal e de</p><p>comunicação – ou seja, instituir o ICMS.</p><p>Por isso, nosso objeto de estudo somente</p><p>pode ser viabilizado com a flexibilização no</p><p>repasse dos tributos da União aos estados,</p><p>conforme disposto no Título VI, Capítulo</p><p>I da Carta Maior. Mais especificadamente a</p><p>Seção VI – Da Repartição das Receitas Tri-</p><p>butárias – ponto de partida para a criação</p><p>do ICMS Ecológico.</p><p>Sobre a repartição das receitas tri-</p><p>butárias, o artigo 158, inciso IV estabe-</p><p>6De acordo com o art. 3°</p><p>do Código Tributário Na-</p><p>cional (Lei n° 5.172, de</p><p>25 de outubro de 1966):</p><p>“Tributo é toda expressão</p><p>pecuniária compulsória,</p><p>em moeda ou cujo valor</p><p>nela se possa exprimir,</p><p>que não constitua sanção</p><p>de ato ilícito, instituída</p><p>em lei e cobrada median-</p><p>te atividade administrati-</p><p>va plenamente vinculada</p><p>(BRASIL, 1966).</p><p>Bibliografia (cont.)</p><p>______. Constituição</p><p>da República Federativa</p><p>do Brasil de 1988. Dis-</p><p>ponível em:<http://</p><p>www.planalto.gov.br/</p><p>ccivil_03/constituicao/</p><p>const i tu i%C3%A7ao.</p><p>htm>. Acesso em: 03 set.</p><p>2010.</p><p>______. Lei Complementar</p><p>n° 63, de 11 de janeiro de</p><p>1990. Dispõe sobre cri-</p><p>térios e prazos de crédito</p><p>das parcelas do produto</p><p>da arrecadação de impos-</p><p>tos de competência dos</p><p>Estados e de transferên-</p><p>cias por estes recebidos,</p><p>pertencentes aos Muni-</p><p>cípios, e dá outras provi-</p><p>dências. Disponível em:</p><p><http://www.planalto.</p><p>gov.br/ccivil_03/Leis/</p><p>LCP/Lcp63.htm>. Aces-</p><p>so em: 17 out. 2010.</p><p>CASTILLO, R.; TOLE-</p><p>DO, R.; ANDRADE, J.</p><p>“Três dimensões da solida-</p><p>riedade em Geografia. Au-</p><p>tonomia político-territorial e</p><p>tributação”. Experimental,</p><p>São Paulo, n. 3, p. 69-99,</p><p>set. 1997.</p><p>Iara Viviani e Souza</p><p>52 Paisagens X - Nov 2012</p><p>lece pertencer aos municípios 25% do</p><p>produto da arrecadação do imposto do</p><p>estado sobre as operações na qual incide</p><p>o ICMS (os 75% restantes pertencem ao</p><p>estado). Ainda sobre as parcelas de re-</p><p>ceitas dos municípios, diz a Constituição</p><p>Figura 1: Distribuição do ICMS entre estado e municípios</p><p>Fonte: Constituição Federativa do Brasil de 1988 (organizado pela autora)</p><p>que três quartos dos 25%, no mínimo, de-</p><p>vem ser creditadas na proporção de valor</p><p>adicionado 7 nas operações onde incidem o</p><p>ICMS e até um quarto conforme o dis-</p><p>posto em lei estadual ou, no caso de terri-</p><p>tórios, em lei federal (BRASIL, 1988).</p><p>Figura 2: Estados que possuem o ICMS Ecológico</p><p>Organização dos dados: Iara Viviani e Souza</p><p>7De acordo com o art.</p><p>3° da Lei Complementar</p><p>Federal nº 63, de 11 de</p><p>janeiro de 1990, o valor</p><p>adicionado correspon-</p><p>de, para cada município,</p><p>ao valor das mercadorias</p><p>saídas, acrescido do valor</p><p>das prestações de servi-</p><p>ços, no seu território, de-</p><p>duzido o valor das merca-</p><p>dorias entradas em cada</p><p>ano civil ou 32% da recei-</p><p>ta bruta, nas hipóteses de</p><p>tributação simplificada.</p><p>Em linhas gerais, para</p><p>efeito de cálculo do valor</p><p>adicionado são computa-</p><p>das as operações e presta-</p><p>ções que constituem fato</p><p>gerador do imposto e as</p><p>operações imunes do im-</p><p>posto (BRASIL, 1990).</p><p>Bibliografia (cont.)</p><p>CATAIA, M. A. Território</p><p>nacional e fronteiras internas:</p><p>a fragmentação do território</p><p>brasileiro. 2001. 234 f. Tese</p><p>(Doutorado em Geografia</p><p>Humana) – Faculdade de</p><p>Filosofia, Letras e Ciências</p><p>Humanas, Universidade de</p><p>São Paulo, São Paulo, 2001.</p><p>DEGENNSZAJH, R. R.</p><p>“Desafios da gestão democrá-</p><p>tica das políticas sociais”. In:</p><p>CFESS/ABEPSS-CEAD/</p><p>NED-UnB. Capacitação</p><p>em Serviço Social e Polí-</p><p>tica Social. Brasília: UnB/</p><p>CEAD, 2000. (p.57-70).</p><p>DONDA, Y. O Uso da</p><p>Propriedade Rural e suas Li-</p><p>mitações Ambientais. 2009.</p><p>Disponível em: <http://</p><p>www.buranello.com.br/</p><p>upload/uso_da_proprie-</p><p>dade_rural_e_suas_limita-</p><p>coes_ambientais_112009.</p><p>pdf>. Acesso em: 11 dez.</p><p>2010. 3 f.</p><p>Artigo</p><p>53Paisagens X - Nov 2012</p><p>É preciso considerar, no entanto,</p><p>que a legislação estadual que define os</p><p>critérios para a redistribuição dos 25% de</p><p>ICMS a que cada estado tem direito não</p><p>tem como teto os 25% (18,75%+6,25%)</p><p>destinados aos municípios, mas somente</p><p>os 6,25% – ou seja, 25% dos 25% citados</p><p>no inciso IV do art. 158.</p><p>Atualmente diversos Estados pos-</p><p>suem o ICMS Ecológico, a saber: Acre,</p><p>Amapá, Ceará, Mato Grosso, Mato</p><p>Grosso do Sul, Minas Gerais, Paraná,</p><p>Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro, Rio</p><p>Grande do Sul, Rondônia, São Paulo e</p><p>Tocantins. A discussão sobre o ICMS</p><p>Ecológico ocorre em diferentes estágios</p><p>em Alagoas, Amazonas, Bahia, Espírito</p><p>Santo, Goiás, Pará, Paraíba, Rio Gran-</p><p>de do Norte, Santa Catarina e Sergipe.</p><p>Ainda, de acordo com a informação do</p><p>website ICMS Ecológico8, o Distrito Fe-</p><p>deral não é apto a possuir lei específica</p><p>sobre ICMS Ecológico porque não pos-</p><p>sui municípios e este é um mecanismo</p><p>de redistribuição da arrecadação estadu-</p><p>al do imposto aos municípios.</p><p>De acordo com Marques (2009),</p><p>até 2009 somente Roraima e Maranhão</p><p>não possuíam ainda iniciativas em an-</p><p>damento para a implantação do ICMS</p><p>Ecológico. Algo que, para Loureiro, é</p><p>uma questão de tempo: “O importan-</p><p>te é que esse tipo de compensação e</p><p>estímulo fiscal à manutenção do meio</p><p>ambiente está ganhando adeptos”. “É</p><p>um caminho sem volta” (Loureiro,</p><p>2009 ,apud MARQUES, 2009).</p><p>Embora assim popularizado, Scaff</p><p>e Tupiassu (2004) destacam que o ICMS</p><p>Ecológico não é exatamente um impos-</p><p>to ambiental, mas uma relação de crité-</p><p>rios ambientalmente relevantes apoiados</p><p>financeiramente através da repartição</p><p>das receitas obtidas normalmente com</p><p>o ICMS, sem qualquer ônus financeiro</p><p>para os estados ou aumento da carga tri-</p><p>butária dos contribuintes. É, portanto,</p><p>um mecanismo de indução econômica</p><p>criado a partir do permissivo constitu-</p><p>cional dado pelo art. 158 da Constitui-</p><p>ção de 1988.</p><p>De acordo com Loureiro (2000),</p><p>O ICMS Ecológico surgiu no Paraná,</p><p>em 1991, a partir da iniciativa de alguns</p><p>prefeitos em reclamar da restrição eco-</p><p>nômica que os municípios com unidades</p><p>de conservação e mananciais de abaste-</p><p>cimento sofriam em prol da preservação</p><p>dessas áreas. Porém, o autor destaca que o</p><p>governo paranaense buscava modernizar</p><p>suas políticas públicas ambientais desde</p><p>a década de 1980, momento em que o</p><p>estado passou por dificuldades para con-</p><p>ter a rápida e agressiva expansão agrícola</p><p>– liderada pelas lavouras de soja e café –</p><p>porque muitos municípios eram desma-</p><p>tados para dar lugar às lavouras e, assim,</p><p>aumentar a arrecadação municipal.</p><p>De fato, os municípios mais popu-</p><p>losos ou os que mais geram circulação de</p><p>mercadorias são os que possuem maiores</p><p>condições de desenvolver atividades eco-</p><p>nomicamente produtivas. Assim sendo, aos</p><p>municípios que se dedicam ao desenvolvi-</p><p>mento econômico em detrimento da pre-</p><p>servação ambiental estão garantidos maio-</p><p>res repasses – entre eles, os 75% referentes</p><p>ao valor adicionado. No entanto, o preço</p><p>pago pelos municípios que buscam preser-</p><p>var os bens naturais é a restrição em sua ca-</p><p>pacidade de desenvolvimento econômico,</p><p>além de repasses menores por contarem</p><p>com uma menor circulação de mercadorias</p><p>e serviços. Sem uma política de apoio, estes</p><p>municípios são duplamente prejudicados</p><p>(SCAFF; TUPIASSU, 2004).</p><p>8O endereço http://</p><p>www.icmsecologico.org.</p><p>br, criado em 2009 por</p><p>iniciativa da The Nature</p><p>Conservancy (e com o</p><p>apoio das ONGs Conser-</p><p>vação Internacional e SOS</p><p>Mata Atlântica), apresen-</p><p>ta informações sobre os</p><p>estados que adotaram o</p><p>ICMS Ecológico. Embora</p><p>incompleto e desatualiza-</p><p>do, foi de grande impor-</p><p>tância como material de</p><p>pesquisa.</p><p>Bibliografia (cont.)</p><p>DUPUY, J. P. Introdução</p><p>à crítica da ecologia política.</p><p>Rio de Janeiro, Civilização</p><p>Brasileira, 1980. 112 p.</p><p>FREITAS, J. M. C. A</p><p>escola geopolítica brasileira.</p><p>Rio de Janeiro: Biblioteca</p><p>do Exército, 2004. 136 p.</p><p>(Coleção General Bení-</p><p>cio, v. 405).</p><p>JATOBÁ, J. O ICMS como</p><p>instrumento econômico para</p><p>a gestão ambiental: o caso do</p><p>Brasil. 34 f. Divisão de</p><p>Meio Ambiente e de As-</p><p>sentamentos Humanos</p><p>da Comissão Econômica</p><p>para a América Latina e o</p><p>Caribe-CEPAL, Santiago</p><p>de Chile, 2003.</p><p>LOUREIRO, W. O ICMS</p><p>Ecológico na Biodiversida-</p><p>de: Experiências de Brasil</p><p>– Caso do Paraná. 2000.</p><p>Disponível em: <http://</p><p>www.icmsecologico.org.</p><p>br/images/artigos/a019.</p><p>pdf>. Acesso em: 07 nov.</p><p>2010.</p><p>Iara Viviani e Souza</p><p>54 Paisagens X - Nov 2012</p><p>Cataia (2001) apresenta em sua</p><p>tese críticas a um efeito colateral da</p><p>relativa autonomia dada pela Consti-</p><p>tuição aos estados: o número crescente</p><p>de municípios criados no país. Entre os</p><p>argumentos apresentados, destaca que</p><p>mais de 70% dos municípios possuem</p><p>menos de 20 mil habitantes e que gran-</p><p>de parte não possui receita própria para</p><p>manter prefeituras e câmaras de vere-</p><p>adores, essenciais para a gestão. São,</p><p>portanto, dependentes do Fundo de</p><p>Participação dos Municípios9. Affonso</p><p>(1998, apud CATAIA, 2001) é enfático</p><p>ao afirmar que a crise federativa brasi-</p><p>leira está apoiada na crise fiscal, fruto</p><p>da ruptura do padrão de financiamento</p><p>público que ocorreu entre o final dos</p><p>anos 1980 e início dos anos 1990, res-</p><p>ponsável por diminuir a capacidade da</p><p>União em articular as esferas subnacio-</p><p>nais. Endossamos a opinião de Cataia</p><p>por também acreditarmos que o terri-</p><p>tório brasileiro cumpre papel de desta-</p><p>que nessa crise, pois se a política está</p><p>ancorada no território, logo a política</p><p>fiscal é também territorial.</p><p>É evidente que a lógica de repar-</p><p>tição do ICMS privilegia os municípios</p><p>mais economicamente desenvolvidos,</p><p>capazes de gerar maiores receitas tribu-</p><p>tárias, desconsiderando o esforço dos</p><p>que arcam com a responsabilidade de</p><p>preservar o bem natural e que propiciam</p><p>benefícios que comumente extrapolam</p><p>os limites municipais. Além disso, como</p><p>bem lembra Moraes (2005), os recursos</p><p>naturais são desigualmente distribuídos,</p><p>o que contribui para as heranças espa-</p><p>ciais estarem alocadas de forma diferen-</p><p>cial. Assim sendo, é preciso, em alguns</p><p>casos, que municípios cooperem com</p><p>outros, assumindo o ônus desse tipo de</p><p>compromisso. Como recompensar, por</p><p>exemplo, o conforto térmico causado</p><p>pela preservação de uma área verde que</p><p>não é restrito ao município na qual se</p><p>encontra? Como garantir a manutenção</p><p>de um manancial que abastece municí-</p><p>pios que não podem contar com recur-</p><p>sos hídricos próprios?</p><p>Inicialmente como uma política</p><p>compensatória, através da utilização de</p><p>uma forma de subsídio, o ICMS Ecológi-</p><p>co surgiu como um instrumento de justi-</p><p>ça fiscal, visando dar suporte a um direito</p><p>previsto na Carta Maior e influenciando</p><p>a ação voluntária de municípios que bus-</p><p>cavam ampliar sua receita sem abrir mão</p><p>da qualidade de vida de sua população</p><p>(SCAFF; TUPIASSU, 2004). Portanto,</p><p>se antes era visto como uma política de</p><p>compensação, atualmente é visto como</p><p>um instrumento de incentivo à criação,</p><p>defesa e monitoramento de áreas de pre-</p><p>servação. Um aspecto positivo de tal po-</p><p>lítica é a subversão da ordem “poluidor-</p><p>pagador” para a de “protetor-recebedor”</p><p>(VEIGA NETO, 2000) – isto é, uma</p><p>política de prevenção que recompensa os</p><p>municípios que conservam a natureza ao</p><p>invés de exigir deles compensação após</p><p>grandes impactos ambientais.</p><p>Embora a aprovação do ICMS Eco-</p><p>lógico possa ter sido apoiada pela popula-</p><p>ção – e, principalmente, por movimentos</p><p>ambientalistas –, salienta-se que por trás</p><p>de sua criação não houve qualquer mo-</p><p>vimentação por parte da sociedade civil,</p><p>articulada ou não com autoridades fiscais</p><p>e ambientais. Para Jatobá (2003), isso se</p><p>deu por conta da dificuldade de inserir a</p><p>questão ambiental na política pública dos</p><p>diversos níveis de governo e do legisla-</p><p>tivo. Por isso mesmo, afirma, o ICMS</p><p>Ecológico não foi precedido de muitas</p><p>9O Fundo de Participação</p><p>dos Municípios (FPM) é</p><p>uma transferência previs-</p><p>ta na Constituição. Para</p><p>mais detalhes, ver art. 159</p><p>da Constituição Federal</p><p>de 1988.</p><p>Bibliografia (cont.)</p><p>MARQUES, D. “A cida-</p><p>de que ganha para conservar</p><p>a natureza”. Horizonte</p><p>Geográfico (versão on-</p><p>line). ed. 123. São Paulo:</p><p>Horizonte, 2009. Dispo-</p><p>nível em: <http://www.</p><p>horizontegeografico.com.</p><p>br/index.php?acao=exi</p><p>birMateria&materia[id_</p><p>materia]=601>. Acesso</p><p>em: 15 dez. 2010.</p><p>MORAES, A. C. R. Meio</p><p>Ambiente e Ciências Humanas.</p><p>4ª ed. ampliada. São Paulo:</p><p>Annablume, 2005. 162 p.</p><p>(Coleção Geografias).</p><p>RIBEIRO, W. C. A ordem</p><p>ambiental internacional. 2ª</p><p>ed. São Paulo: Contexto,</p><p>2005. 181 p.</p><p>SANTOS, R. F. Princípios</p><p>de Planejamento Ambiental.</p><p>2003. 221 f. Livre do-</p><p>cência (Livre-docência</p><p>em Engenharia Civil, na</p><p>área de concentração Sa-</p><p>neamento e Ambiente) –</p><p>Faculdade de Engenharia</p><p>Civil, Universidade Esta-</p><p>dual de Campinas, Cam-</p><p>pinas, 2003.</p><p>SCAFF, F. F.; TUPIASSU,</p><p>L. V. C. “Tributação e políti-</p><p>cas públicas: o ICMS Ecoló-</p><p>gico”. Hiléia, Manaus, n. 2,</p><p>p. 15-36, jan./jun. 2004.</p><p>SILVA-SÁNCHEZ, S. S.</p><p>Cidadania ambiental: novos</p><p>direitos no Brasil. São Pau-</p><p>lo: Humanitas/Annablu-</p><p>me, 2000. 204 p.</p><p>Artigo</p><p>55Paisagens X - Nov 2012</p><p>discussões, ainda mais porque o executivo</p><p>estadual temia que a proposta não fosse</p><p>adiante, dado o amplo histórico de dificul-</p><p>dades que a agenda ecológica já detinha.</p><p>Portanto, optou-se, em muitos casos, por</p><p>encaminhar os projetos de lei rapidamen-</p><p>te para apreciação e votação, de forma</p><p>que não houvesse tempo para articulação</p><p>dos grupos de resistência, nem discussões</p><p>com os atores interessados. “Ou seja, não</p><p>se evitou a discussão, que foi apenas pos-</p><p>tergada, mas elevaram-se as chances de</p><p>sua aprovação” (JATOBÁ, 2003, p. 7-8).</p><p>A partir da iniciativa paranaen-</p><p>se em criar o ICMS Ecológico, outros</p><p>estados aderiram à criação. Para tanto,</p><p>foi preciso que cada um buscasse um</p><p>modelo próprio ou adaptasse um mo-</p><p>delo pronto à realidade de seu estado.</p><p>Por isso o ICMS Ecológico pode apre-</p><p>sentar diferentes denominações em al-</p><p>guns estados – como o ICMS Verde, do</p><p>Acre – ou até mesmo agregar em seu</p><p>nome outros critérios que não sejam ne-</p><p>cessariamente ambientais, mas também</p><p>sociais – caso do ICMS Socioambiental,</p><p>denominação comum às políticas adota-</p><p>das no Ceará e em Pernambuco, embora</p><p>sejam diferentes entre si10. Consequen-</p><p>temente, ao apoiar os municípios que,</p><p>voluntariamente ou por falta de alterna-</p><p>tiva11, não possuem em seus territórios</p><p>atividades economicamente produtivas,</p><p>o ICMS Ecológico promove também</p><p>uma justiça territorial.</p><p>Considerações Finais</p><p>Ante o exposto, ressaltamos o pa-</p><p>pel do Direito Tributário na consecução</p><p>de políticas públicas para a amenização</p><p>de disparidades regionais. Ao nosso ver,</p><p>o ICMS Ecológico não deve ser analisa-</p><p>do apenas como uma política ambiental,</p><p>mas também como uma política tributá-</p><p>ria – aliás, foi por este motivo que pre-</p><p>feitos paranaenses mobilizaram-se por</p><p>mudanças no repasse aos municípios.</p><p>A Geografia é uma disciplina que</p><p>tem aspectos da temática ambiental den-</p><p>tro de seu horizonte tradicional de pesqui-</p><p>sa – tanto é que a relação natureza/socie-</p><p>dade é uma constante em suas discussões.</p><p>Porém, não negamos a contribuição das</p><p>referências buscadas em outras áreas de</p><p>conhecimento, pelo contrário: a interdis-</p><p>ciplinaridade enriquece ao tema e revelou</p><p>um objeto de estudo que, embora rele-</p><p>vante para a Geografia, é praticamente</p><p>restrito a trabalhos acadêmicos de enge-</p><p>nharia de produção, engenharia florestal,</p><p>desenvolvimento e agricultura e direito.</p><p>Há também uma escassez de artigos re-</p><p>ferentes ao tema, sendo que os poucos</p><p>existentes abordam o ICMS Ecológico</p><p>sob o ponto de vista ambiental, jurídico e</p><p>até político, sem, porém, ir mais a fundo</p><p>em questões como as implicações causa-</p><p>das pela sua implantação na formação do</p><p>território brasileiro e</p><p>nas finanças muni-</p><p>cipais. E sabemos que a Geografia pode</p><p>em muito contribuir para a discussão.</p><p>10As especificidades do</p><p>modelo de ICMS Eco-</p><p>lógico de cada estado</p><p>podem ser conferidas no</p><p>Trabalho de Graduação</p><p>Individual, disponível no</p><p>Laboratório de Geografia</p><p>Política e Planejamento</p><p>Territorial e Ambiental</p><p>(LABOPLAN).</p><p>11Consideramos como</p><p>sem alternativa os mu-</p><p>nicípios que não conse-</p><p>guem atrair atividades</p><p>economicamente produ-</p><p>tivas (embora tentem) e</p><p>os que são obrigados a</p><p>conservar uma parcela do</p><p>município, seja em prol</p><p>de outros municípios –</p><p>como os que devem zelar</p><p>por um manancial cujo</p><p>abastecimento é com-</p><p>partilhado entre os mu-</p><p>nicípios próximos –, seja</p><p>por interesse do Estado</p><p>– como aqueles que abri-</p><p>gam aldeias indígenas.</p><p>Bibliografia (cont.)</p><p>VEIGA, J. E. Desenvolvimen-</p><p>to sustentável: o desafio do século</p><p>XXI. 3ª ed. Rio de. Janeiro:</p><p>Garamond, 2008. 220 p.</p><p>VEIGA NETO, F. C.</p><p>Análise de incentivos econô-</p><p>micos nas Políticas Públicas</p><p>para o Meio Ambiente – O</p><p>caso do “ICMS Ecológico”</p><p>em Minas Gerais. 2000. 161</p><p>f. Dissertação (Mestrado</p><p>em Desenvolvimento,</p><p>Agricultura e Sociedade,</p><p>na área de concentração</p><p>Desenvolvimento e Agri-</p><p>cultura) – Instituto de Ci-</p><p>ências Humanas e Sociais,</p><p>Universidade Federal Ru-</p><p>ral do Rio de Janeiro, Rio</p><p>de Janeiro, 2000.</p>