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<p>RCY AZAMBUJA DARCY AZAMBUJA ORIA GERAL TEORIA GERAL O ESTADO DO ESTADO com a noção de Estado e sua origem, ao exame da Teoria Geral do Estado, seu o, e ao estudo da relação entre Política e Direi- stitucional. A partir daí analisa e ordena dados o objeto da Teoria Geral do Estado, mo soberania, poder político, nação, territó- rmas de governo, hierarquia de Estados e ou- oncluindo com a apresentação e discussão de uestões de grande importância, quais sejam os e deveres recíprocos do Estado e do indivíduo de Direito e a submissão do Estado ao Direi- A origem do Estado. Soberania, poder político, nação, território, formas de governo. Um livro indispensável aos estudantes e professores de Ciências Jurídicas e Ciências Sociais.</p><p>CAPÍTULO I o ESTADO A SOCIEDADE E ESTADO. NOÇÃO DE ESTADO. DE ESTADO. ORIGEM DA PALAVRA ESTADO. A No mundo moderno, o homem, desde que nasce e du- o rante toda a existência, faz parte, simultânea ou su- cessivamente, de diversas instituições ou sociedades, formadas por indivíduos ligados pelo parentesco, por interesses materiais ou por objetivos espirituais. Elas têm por fim assegurar 20 homem o de- senvolvimento de suas aptidões físicas, morais e intelectuais, e para isso impõem certas normas, sancionadas pelo costume, a moral ou a lei. A primeira em importância, a sociedade natural por a família, que o alimenta, protege e educa. As sociedades de na- tureza religiosa, ou a escola, a Universidade, são outras tan- tas instituições em que ele depois de adulto, passa ainda a fazer parte de outras organizações, algumas criadas por ele mes- com fins econômicos, profissionais ou simplesmente morais: empresas comerciais, institutos sindicatos, clubes, etc. o conjunto desses grupos sociais forma a Sociedade propriamente dita. Mas, ainda tomado neste sentido geral, a extensão e 2 com- preensão do termo sociedade variam, podendo abranger os grupos sociais de uma cidade, de um país ou de todos os países, e, neste caso, é a sociedade humana, a humanidade. Além dessas, há uma sociedade, mais vasta do que a família, me- nos extensa do que as diversas Igrejas e a humanidade, mas tendo</p><p>2 DARCY AZAMBUJA TEORIA GERAL DO ESTADO 3 sobre as outras uma proeminência que decorre da obrigatoriedade de cada um de seus termos constitui o conteúdo da própria disciplina dos laços com que envolve o indivíduo; é a sociedade o que expomos, a Teoria Geral do Estado. Estado. Comecemos por acentuar os traços e atributos fundamentais do Os grupos humanos, a que aludimos, são sociedades, porém nem Estado. todos os grupos humanos formam uma sociedade. Na acepção cien- É uma sociedade natural, no sentido de que decorre naturalmente tífica do termo, sociedade é "uma coletividade de indivíduos reuni- do fato de os homens viverem necessariamente em sociedade e aspi- dos e organizados para alcançar uma finalidade comum". (Giddings rarem naturalmente realizar o bem geral que lhes é próprio, isto é, Principes de Sociologie, págs. 1 e 3.) Supõe organização per- o bem público. Por isso e para isso a sociedade se organiza em Es- manente e objetivo comum. Por isso, uma multidão, a platéia de tado. um teatro, etc., não são sociedades; pois, ainda que se lhes reco- Deixando de parte a indagação sobre se merecem o nome de Es- nheça um efêmero objetivo comum, não têm no entanto organiza- tados os agrupamentos humanos rudimentares, é certo que estes, ao ção, nem são permanentes. atingir certo grau de desenvolvimento, tendem naturalmente para De modo mais analítico, e acentuando outros atributos, podemos essa forma de sociedade. dizer que uma sociedade é a união moral de seres racionais e livres, Por outro lado, o Estado é obra da inteligência e da vontade dos organizados de maneira estável e eficaz para realizar um fim co- membros do grupo social, ou dos que nele exercem o governo e mum e conhecido de todos. (Cf. Jolivet Traité de Philosophie, influência. I, pág. 283.) Na história de todas as sociedades "chegou um momento em que O Estado, é uma sociedade, pois se constitui essencial- os homens sentiram o vago e indeterminado, de um bem que mente de um grupo de indivíduos unidos e organizados perma- ultrapassa o seu bem particular e imediato e que ao mesmo tempo nentemente para realizar um objetivo comum. E se denomina so- fosse capaz de garanti-lo e promovê-lo. Esse bem é o bem comum ciedade política, porque, tendo sua organização determinada por ou bem público, e consiste num regime de de coordenação normas de Direito positivo, é hierarquizada na forma de gover- de esforços e intercooperação organizada. Por isso o homem se deu nantes e governados e tem uma finalidade o bem público. conta de que o meio de realizar tal regime era a reunião de todos E será uma sociedade tanto mais perfeita quanto sua organização em um grupo específico, tendo por finalidade o bem público. Assim. for mais adequada ao fim visado e quanto mais nítida for, na cons- a causa primária da sociedade política reside na natureza humana, ciência dos indivíduos, a representação desse objetivo, a energia e racional e No entanto, a tendência deve tornar-se um sinceridade com que a ele se dedicarem. ato: é a natureza que impele o homem a instituir a sociedade polí- tica, mas foi a vontade do homem que instituiu as diversas socie- Noção de É sobremodo difícil uma definição de Estado, devido dades políticas de outrora e de hoje. instinto natural não era à complexidade desse fato social, e não tentaremos suficiente, foi preciso a arte humana". (Dabin Doctrine Gé- emiti-la no momento. de l'État, págs. 89-90.) com intensidade diversa conforme o desenvolvimento Uma noção, entretanto, se faz necessária, que sirva como "hipó- social e a mentalidade de cada grupo, o instinto social leva ao Es- tese de trabalho", e permita ir adiante por entre as diversas corren- tado, que a razão e a vontade criam e organizam. Tendo em vista tes e orientações, algumas contraditórias entre si. Ainda assim. será sobretudo os dois últimos fatores, é que Burdeau disse que o Es- uma noção provisória, sujeita a sucessivas retificações, pois o exame tado é um "artifício" da inteligência humana.</p><p>4 DARCY AZAMBUJA TEORIA GERAL DO ESTADO 5 Com exceção da família, a que, pelo nascimento, o homem for- cosamente pertence, mas de cuja tutela se liberta com a maioridade, o Estado, é diferente. Eu não me posso furtar às suas decisões senão em todas as outras sociedades ele ingressa voluntariamente e delas a preço de uma penalidade. Não posso em nenhum caso importante se retira quando quer, sem que ninguém possa obrigá-lo a perma- me subtrair à sua jurisdição. Ele é a fonte última das decisões no necer. Da tutela do Estado, o homem não se emancipa jamais. meio normal da minha existência, e dá à sua vontade uma Estado o envolve na teia de laços inflexíveis, que começam antes importância, para mim maior que a dos outros grupos. Estado de seu nascimento, com a proteção dos direitos do nascituro, e se pode decidir esmagar-me de impostos, pode opor-se à prática de prolongam até depois da morte, na execução de suas últimas von- minha religião, pode obrigar-me a sacrificar a vida em uma guerra tades. No mundo moderno, o Estado é a mais formidável das or- que eu considere moralmente injusta, pode negar-me os meios de ganizações: "a contextura das vidas humanas se insere solidamente cultura intelectual, sem quais, no mundo moderno, não conse- no quadro das suas porque não existe esfera alguma guirei desenvolver minha personalidade." (Id. - Ibid., pág. 21). de atividade, ao menos em teoria, que não dependa de sua autori- o Estado aparece, aos e sociedades, como um dade. Estado moderno é uma sociedade à base territorial, divi- poder de mando, como governo e dominação. aspecto coativo dida em governantes e governados, e que pretende, nos limites do e a generalidade é o que distingue as normas por ele editadas; suas território que lhe é reconhecido, a supremacia sobre todas as demais decisões obrigam a todos os que habitam o seu território. instituições. De fato, é o supremo e legal depositário da vontade o Estado não se confunde, pois, nem com as sociedades em par- social e fixa a situação de todas as outras organizações. sob seu ticular. nem com a Sociedade, em geral. Os seus objetivos são os domínio todas as formas de atividade, cujo controle ele julgue con- de ordem e defesa social, e diferem dos objetivos de todas as de- veniente. Na lógica dessa supremacia se subentende que tudo quanto mais organizações. Para atingir essa finalidade, que pode ser re- restar fora de seu controle é feito com sua permissão. Estado sumida no conceito de bem público (v. cap. o Estado em- não permite ao homem desposar a é graças à permissão do prega diversos meios, que variam conforme as épocas, os povos, os Estado que ele pode desposar a prima. Estado é a chave da abó- costumes e a cultura. Mas o objetivo é sempre o mesmo e não se bada social: modela a forma e a substância de miríades de vidas confunde com o de nenhuma outra instituição. humanas, de cujo destino ele se (Harold Laski Subentende-se e supõe-se que o Estado assim procede para rea- Grammaire de la politique, pág. 9.) lizar o bem público: por isso e para isso tem autoridade e dispõe Todas as demais sociedades têm a organização e a atividade re- de poder, cuja manifestação concreta é a força. guladas pelo que pode suprimi-las ou favorecê-las. Nenhu- Autoridade e poder são conceitos distintos. Autoridade é o di- ma delas tem poder direto sobre o indivíduo e só conseguem reito de mandar e dirigir, de ser ouvido e obedecido; o poder é a dele o cumprimento das obrigações assumidas se o Estado as reco- força por meio da qual se obriga alguém a obedecer. nhece, e unicamente este dispõe legitimamente da força para tornar Deixando de lado, por enquanto, o problema de saber quem efetiva a Por certo, essas sociedades dispõem de meios de deve governar, é evidente que essa função tem de ser exercida por coação sobre o indivíduo, mas são meios indiretos. Se ele não cum- e os que a exercem legitimamente têm o direito de exigir pre as normas da Igreja a que pertence, fica sujeito a certas conse- a obediência dos governados. Desse direito decorre a autoridade, que qüências de natureza moral, se dela se pode sofrer com a existe para realizar o bem público, e o poder torna efetiva a obe- da da estima de certas pessoas, pode sofrer excomunhão e per- diência. Por isso, a autoridade requer o poder, mas o poder que não mas. Mas, nenhuma outra coação efetiva e direta o atinge. "Com deriva da autoridade é tirania. (Maritain - L'homme et l'État, pág. 117.)</p><p>6 DARCY AZAMBUJA TEORIA GERAL DO ESTADO 7 A autoridade é intrínseca ao Estado, é o seu modo de ser, e o damos, e sim a de situação, condição. Empregavam os roma- poder é um de seus elementos essenciais. Sem dúvida, em outras nos a expressão status reipublicae, para designar formas de sociedade também existe a autoridade e o poder. Mas, o situação, a ordem permanente da coisa pública. dos negócios do Es- poder do Estado é o mais alto dentro de seu território, e o Estado tado. Talvez daí, pelo desuso do segundo termo, tenham os es- tem o monopólio da força para tornar efetiva sua autoridade. critores medievais empregado Status com a significação moderna. As normas que organizam o Estado e determinam as condições Mas, ainda muito posteriormente, na linguagem política e documen- sociais necessárias para realizar o bem público, constituem o Di- tos públicos, o termo Estado se referia de preferência às três gran- reito, que ao Estado incumbe cumprir e fazer cumprir. des classes que formavam a população dos países europeus, a no- Do que até aqui foi dito, podemos inferir uma noção prelimi- breza. o clero e o povo, os Estados, como eram abreviadamente de- nar: Estado é a organização de uma sociedade para signados. Reino e República eram as palavras que traduziam a idéia realizar o bem público, com governo próprio e território determi- de organização política, não tendo República qualquer relação com nado. a forma de governo, em oposição a Monarquia. De modo geral, no entanto, pode-se dizer que do século XVI em Idéia de que foi resumidamente exposto, é a noção de Es- diante o termo Estado vai aos poucos tendo entrada na termino- tado, é o Estado tal como se nos apresenta atual- logia política dos povos ocidentais: é o État francês, Staat alemão, mente, é o Estado moderno. em inglês State, em italiano Stato, em e espanhol Estado. Estado, não é é uma das formas da mica é a forma política da socialidade, como diz Sturzo (Essai de Sociologie, pág. 61), e por isso varia através do tempo e do espaço. Estado antigo, o Estado medieval, o Estado que se organizou sob a influência das idéias da Revolução Francesa, eram diferentes do Estado contemporâneo (v. cap. Evolução da Idéia Estado). Além disso, em todas as épocas o homem desejou mo- dificar e quase sempre modificon o Estado em que vive. Ao Estado, tal como é, os sistemas filosóficos e as doutrinas po- líticas o Estado como devia ser, ao Estado real, um Estado ideal. Essa discordância constitui um dos fatores mais evidentes das transformações pacíficas ou violentas por que passam as sociedades políticas. Origem A palavra Estado, no sentido em que hoje a empre- do Estado. gamos, é relativamente nova. Os gregos, cujos Esta- dos não ultrapassavam os limites da cidade, usavam o termo polis, cidade, e daí veio política, a arte ou ciência de go- vernar a cidade. Os romanos, com o mesmo sentido, tinham civitas e respublica. Em latim, status não possuía a significação que hoje</p>