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<p>(AUTO) BIOGRAFIAS NA CULTURA DE GRUPOS DE CODEPENDÊNCIA EMOCIONAL</p><p>Caroline Nejm (IC)1*</p><p>Márcio Silva Gondim (PQ)2</p><p>1. FANOR – Faculdades Nordeste – Bolsista PICT</p><p>2. FANOR – Faculdades Nordeste – Prof. Orientador – curso de Psicologia</p><p>*carolnejm@gmail.com</p><p>Palavras-chave: Codependência Emocional. Relatos Autobiográficos. Psicologia.</p><p>1. RESUMO</p><p>A grande maioria dos autores que trabalham o tema, concorda que as causas da codependência emocional encontram-se na infância e se dão por situações ou relacionamentos abusivos que precisaram ser enfrentados. O codepedente emocional é uma pessoa insegura, controladora, que duvida de suas capacidades, e acaba outorgando a outros, que julga melhores que si próprio, o direito de determinar as diretrizes de sua vida. Há uma grande ferida na auto-estima, e dificuldade de estabelecer limites saudáveis. As opiniões de outros acabam definindo sua conduta. Frequentar grupos de apoio, parece ser uma das formas eficazes de enfrentar o problema. O presente trabalho visa compreender os discursos de pessoas que participam destes grupos a partir do entendimento da cultura dos mesmos, através da análise das narrativas de seus integrantes. Objetiva-se elencar os dados levantados, proporcionando um entendimento sobre esta coletividade. Foi feito um levantamento bibliográfico a respeito do tema. Concomitantemente foram realizadas visitas de campo a um grupo de apoio para mulheres que se identificam como codependentes emocionais, em um projeto chamado Celebrando a Restauração, em Fortaleza. Após este período foram realizadas entrevistas semi-estruturadas com seis frequentadores destes grupos, maiores de dezoito anos, três homens e três mulheres. As entrevistas foram gravadas, transcritas e categoriazadas. Dentro das categorias encontradas, foi esquematizado o pensamento e estudo de cada autor sobre a codependência emocional. As entrevistas sugerem que as pessoas frequentadoras de grupos de ajuda mútua com a temática específica da codependência emocional, apresentam conhecimento sobre o assunto, buscam aprofundar-se através da leitura informativa e encontram no grupo uma fonte autoconhecimento, sentindo-se melhor depois de sabrem sobre o problema, identificarem seus sintomas específicos e aprenderem a enfrentá-los. Para o momento, acreditamos que a frequência aos grupos seja um hábito adequado aos codependentes emocionais, uma das formas benéficas de buscar ajuda, indicada maciçamente pelos autores que estudam o tema. O campo de estudo na área ainda carece de aprofundamento, visto que no Brasil o tema é pouco academicamente explorado, o que faz da área um vasto canal de pesquisa, que gera grande interesse e ainda precisa de muitos dados.</p><p>2. INTRODUÇÃO</p><p>Este trabalho trata de uma forma de comportamento que ocorre nos relacionamentos humanos, chamado codependência emocional. Registra o levantamento bibliográfico realizado para a investigação do tema, bem como visitas de campo feitas a um grupo de pessoas que se identificam como codependentes, e também entrevistas semi-estruturadas realizadas com algumas dessas pessoas. O objetivo da pesquisa é, além de compreender os discursos dos participantes, através do entendimento dessa cultura de grupo, analisar as narrativas dos integrantes, elencar dados e categorizar suas falas dentro do material encontrado na bibliografia, a fim de uma melhor compreensão dentro do âmbito psicológico, visto que que a codependência emocional é um tema ainda pouco estudado e teorizado no Brasil.</p><p>3. METODOLOGIA</p><p>3.1 LEVANTAMENTO BIBLIOGRÁFICO</p><p>Vários livros e artigos foram examinados para a execução deste trabalho, a fim de compreender como a codependência é assimilada, tanto no meio científico, como no senso comum. Há pouca quantidade de pesquisa científica sobre a codependência emocional no Brasil, e os principais livros (norte-americanos traduzidos para o português), que são indicados para o público que se identifica com o problema, são escritos por pessoas que passaram (ou passam) pelo problema, mas não necessariamente têm formação na área psicológica. ‘Co-Dependência Nunca Mais’, o mais comentado e recomendado nos grupos de codependência emocional, foi escrito por Melody Beattie, jornalista, que se identifica com o problema da codependência. ‘O Vício de Amar’ e ‘Enfrentando a Codependência Afetiva’, foram escritos por Pia Mellody, que é consultora de um centro de tratamento para viciados e também se identifica pessoalmente com a codependência. O livro adotado como referencial teórico, escrito por uma psicóloga, brasileira, pesquisadora de codependência emocional, foi ‘Codependência: transtorno e intervenção em rede.’ “Dependência do Vínculo: uma releitura do conceito de co-dependência”, dissertação de mestrado de Lygia Vampré Humberg, que trata sobre a origem do termo, a abrangência que ganhou e a proposta de um novo ‘nome’, da mesma autora um outro trabalho, “Não existe um co-dependente, existem dois dependentes”, mostrando que o problema está na pessoa, mas se manifesta na relação. De Bety France, psicóloga com formação em terapia familiar e especialização em psicooncologia, temos a contribuição através do texto “Um mal chamado co-dependência: por trás da dinâmica familiar na qual impera a figura do cuidador pode haver um padrão traiçoeiro de relacionamento e interação, ocultando fragilidades emocionais”, publicado na revista Psique Ciência & Vida, e, publicado na mesma revista, um texto de José Antonio Mariano, psicanalista e jornalista especialista em saúde mental, chamado “Dependentes da dependência: familiares podem alimentar a dependência química de seus membros sem mesmo saber disso, apenas para – emocionalmente – esconder as próprias psicopatologias e conflitos existenciais”. Do livro “Teorias da Personalidade”, de Jess Feist, um capítulo sobre Karen Horney e a teoria sociopsicanalítica da formação da personalidade contribuem com a compreensão de como e quando a codependência se instala. Um trabalho de conclusão de curso intitulado “Casal e famílias de origem: uma possível relação na dependência emocional da mulher”, de Liandra Nogueira e Martha Henning-Geronasso, esclarecem como relações de codependência podem instalar-se dentro do lar. Em sua monografia “Quando amar é um ‘problema’: os significados de amar demais a partir do MADA”, Juliana Bem Brizola da Silva trata sobre frequentadoras de um grupo de apoio para mulheres que se reconhecem codependentes. Num capítulo chamado “O apego tóxico” do livro “Emoções Tóxicas: como se livrar dos sentimentos que fazem mal a você”, do terapeuta familiar, psicólogo, sexólogo clínico e teólogo Bernardo Stemateas, podemos compreender a codependência em termos simples, entendendo o codependente como um ‘viciado em gente’. Além de literatura própria do programa estudado, o Celebrando a restauração, esta bibliografia contribuiu procurando trazer à compreensão do leitor, um panorama sobre a codependênca emocional, suas causas, sintomas, tratamento e implicações. Após a leitura deste material, cheguei a cinco categorias para serem trabalhadas, sendo elas: 1. Causas, prevenção e por que estudar. 2. Codependência: o que é e como é. Família e amigos do codependente. 3. Consequências. O vício de amar e o vício de evitar. 4. Soluções, dificuldades no tratamento e dificuldades no diagnóstico. 5. A pessoa e o relacionamento emocionalmente saudáveis.</p><p>3.2 VISITAS DE CAMPO – A CULTURA DO GRUPO</p><p>Muitos autores indicam a frequência a um grupo de apoio baseado nos princípios dos doze passos como forma de tratar a codependência. Estive presente em algumas reuniões de um grupo que funciona neste formato, acontecendo semanalmente em um colégio da cidade de Fortaleza. O programa, chamado Celebrando a Restauração é ligado a uma igreja evangélica, embora tenha seu funcionamento de forma livre e qualquer pessoa, independente de credo ou religião, seja bem-vinda a participar. No programa existem 16 grupos de apoio diferentes, que tratam de depressão, ira, devedores compulsivos, dependência de álcool, de drogas, de amor e</p><p>muitas vezes como um pessimismo acerca do futuro. Entre as características sistêmicas mais amplas, as mais citadas foram: descuido das próprias necessidades em prol de alguém ou pela sobrevivência do sistema familiar; repetição desse padrão em grupos extrafamília mesmo que não haja risco real de falência do sistema. (ZAMPIERI, 2004 p. 68).</p><p>A autora ainda coloca outros comportamentos codependentes frequentes. Alterar defesa atuadora e depressiva, esperar dos filhos a proteção que na verdade eles deveriam fornecer, apresentar respostas pobres e estereotipadas (falta de espontaneidade), ser confuso entre sentir e perceber, tendo dificuldade para verbalizar o que pensa, fazer algo pelos outros com o objetivo inconsciente de receber algo em troca, ignorar problemas, fingindo que não existem, comunicar-se de forma pobre, ter personalidade invasiva, déficit de confiança, sentimentos de pavor, dor e fúria, ter uma relação conjugal altamente comprometida e a família disfuncional. “Parecem viver à parte ou num palco tentando contracenar com os demais.” (p. 77). Zampieri faz uma colocação interessante sobre o sistema codependente, fechado e estereotipado que se forma nestas relações: “Podemos assim afirmar que o codependente funciona como metáfora da fragilidade do sistema de sua família de origem. O dependente, uma fragilidade da família atual.” (p. 95), explicando que o codependente é um elemento programado para manter o sistema de relacionamentos fechados, e que qualquer mudança, nestas famílias, é vista como ameaça.</p><p>4.3 CONSEQUÊNCIAS: O VÍCIO DE AMAR E O VÍVIO DE EVITAR</p><p>Além dos sintomas e características, a codependência emocional traz consequências a seus portadores. Stemateas (2010) afirma que as pessoas que foram dependentes de algo ou alguém por longo período de tempo, podem passar a ter medo da independência. Zampieri (2004), alerta para a grande possibilidade de transmitir o padrão de funcionamento codependente aos filhos, gerando um ambiente que pode propiciar também a futura dependência de substâncias, além de aumentar a probabilidade de ocorrência de doenças psicossomáticas e transtornos de personalidade, como veremos mais à frente na fala da entrevistada C.</p><p>Mellody (1992) detalha mais profundamente duas consequências que ocorrem quando duas pessoas se relacionam com base em dependência emocional: o vício de amar e o vício de evitar. Ela acredita que os codependentes se atraiam por vários motivos, formando o que ela chama de relacionamento interviciado, sendo os principais: “1) atração pelo que é familiar; 2) atração por situações onde há esperança que os traumas infantis sejam curados; e 3) atração pela possibilidade de concretizar a fantasia criada durante a infância.” (MELLODY, 1992 p. 82). A autora relata principalmente relacionamentos de casais, mas alerta que o padrão pode ocorrer entre quase todos os tipos de relacionamentos possíveis: pais e filhos, amizades, terapeuta e paciente, patrão e empregado, ídolo e fã. Em primeiro lugar vamos entender o que Mellody chama de vício de amar. O viciado em amar dedica quantidade de tempo excessiva à pessoa à qual está ligado, deseja e tem expectativa de ser apreciado incondicionalmente pelo outro e por não se dar valor, negligencia os cuidados consigo. Por conta disso, opera de diversas formas, fora de seu sistema de valores, pois acaba tornando o sistema de valores do outro mais importante que o seu próprio. Seus dois maiores medos são abandono e intimidade. Julga seu companheiro melhor que ele mesmo, atribuindo a ele um poder que não tem, esperando ser protegido por ele. Manipulam o companheiro para que sejam condizentes com a imagem mental que fantasiou. Fazem do companheiro seu Poder Maior. Não conseguem manter a ideia de ficarem sozinhos. Mellody explica que uma das formas usadas pelas crianças para atenuar a sensação de abandono é se apegar a um super-herói, e este é o comportamento do viciado em amar, quando idealiza um parceiro que o salve de tudo, o que é culturalmente reforçado pelos contos de fadas, filmes, músicas românticas. Existe um ciclo que move o comportamento do viciado em amar quando se liga a um parceiro:</p><p>[...] tentam reviver a fantasia infantil de serem salvos, negam o comportamento inadequado do parceiro, experimentam frustração e fracasso porque nada do que fazem parece funcionar, tentam com mais afinco, param de negar o comportamento do parceiro, começam a comportar-se compulsiva e obsessivamente, depois recomeçam a fantasiar, iniciando outra vez o ciclo. A cada vez que esse padrão se repete, a experiência torna-se cada vez mais tóxica para o Viciado em Amar [...]. (MELLODY, 1992 p. 41)</p><p>Os viciados em amar precisam desesperadamente saber onde estão e o que estão fazendo seus parceiros, e costumam enxergar tudo o que seus companheiros fazem de forma negativa. Embora não percebam, são pessoas difíceis de conviver por focarem a atenção sempre em como seus parceiros fazem sua vida ser ruim. Caso seus companheiros os deixem, tornam-se obcecados em fazê-los voltar, ou procuram vingar-se. “[...] na verdade eles mesmos exigem mais do que qualquer um poderia dar.” (p. 56). Em sua entrevista, U nos mostra como isso aconteceu com ela:</p><p>“U: Na verdade foi quando eu descobri pela segunda ou foi terceira vez, a traição do meu marido. Eu descobri através de uma ligação, uma ligação que foi feita, uma rediscagem de telefone, quando eu ouvi, eu vi ele falando com a pessoa lá, aí nesse dia eu descobri que assim, gente eu sou louca. Como é que eu posso continuar um relacionamento desse, sabendo que a pessoa faz o que faz, e eu comecei a me incomodar, muito, a me incomodar muito e eu sabia que eu tinha meios para estar buscando auto-ajuda, né, buscando ajuda, e eu não tinha coragem de dar o pontapé, né. E aí no dia seguinte, na semana seguinte eu fui atrás. Só que eu fui atrás pensando que eu ia atrás de conhecer ele, para poder eu conviver com ele, né, aí quando eu cheguei no local que eu fui que é o CR, ele, aí lá foi dito assim muito a respeito da codependência, que eu nunca tinha ouvido, ouvido falar, né, que, que é a inabilidade de manter relacionamentos saudáveis, essas coisas assim, aquela lista toda assim que eu li, eu digo, gente sou eu, totalmente eu. Mas mesmo assim eu ainda tava achando assim que eu ia tá, é... é... era eu mas eu ainda ia tá conseguindo ver que era, eu ia tá sabendo lidar com ele, não comigo. E aí passou um bom tempo, mas foi um bom tempo mesmo, mais assim, acho que mais de dois anos eu ainda tava nessa, lutando que eu ia conhecer era ele e não a mim, e quando eu fui me tocar assim de tudo, taca era eu me conhecendo. Então foi a partir desse terceiro episódio da traição dele que eu parti para me conhecer mais, que eu fui ver que tinha algo errado em mim porque eu não conseguia. Eu achava que tinha algo errado em mim mas era mais no sentido assim de que eu era feia ou de que eu erra desarrumada, ou que eu não era inteligente, alguma coisa assim, não no sentido de, de comportamento de algo emocional, [...] eu achava que era, que eu não agradava ele fisicamente, no entanto era uma doença, né, que tava ali, que fazia com que ele se afastasse de mim, a minha doença que era um controle, né, no caso a codependência, afastava ele de mim, eu, eu sufocava ele, eu, tudo eu resolvia, tudo eu já tinha a resposta, tudo já tava pronto, tudo, ele não tinha, eu não deixava ele aparecer no casamento, entendeu? [... ] Foi... a partir do meu casamento, primeiramente, porque até eu me casar eu não me sentia codependente, eu me sentia protegida pela minha família, né, ela me protegia eu não precisava é, controlar nada, não precisava, então assim, mesmo assim, apesar de ser protegida, eu queria ter meu casam... minha casa, meu, minha família e tudo, e eu idealizei isso na pessoa do J., né, do meu marido [...] A distância é importante. A distância física é importante, muito importante. Inclusive a distância, quando eu comecei meu tratamento aqui, eu digo o tratamento no CR, a melhor coisa que aconteceu na minha vida foi o meu marido</p><p>ter arranjado um emprego pra viajar. Porque se ele tivesse continua... permanecido do meu lado dia-a-dia, tinha sido muito mais difícil pra mim. Porque nos primeiros dias que ele começou a perceber a minha mudança, ele chegou a me proibir de vir pro CR [...].”</p><p>Passemos agora ao vício de evitar. Este é o parceiro que complementa a dependência do viciado em amar. O viciado em evitar geralmente foi uma criança que teve o papel trocado na família, sendo colocado na posição de cuidar de um dos pais. Acreditam que seu papel em um relacionamento é cuidar do outro, e que se não fizer isso, o parceiro perderá o interesse por ele. Procura fugir da intimidade do relacionamento se envolvendo excessivamente em atividades fora dele, através de um vício ou atividade da qual crie dependência, tentando aliviar a sensação de estar sufocando. Não se entregam à relação, não se abrem, para não serem conhecidos e evitarem o controle do outro. Rejeitam intimidade, utilizando o que a autora chama de “técnicas de afastamento”. Não mostram quem realmente são para os filhos, e utilizam muros emocionais como proteção. Seus dois maiores temores também são de intimidade e abandono, mas o medo do abandono é inconsciente. Procura manter o relacionamento na menor intensidade possível, pois se ela aumenta, sente-se cansado, assustado. Podem utilizar o silêncio como instrumento para manter o mínimo de conversa necessário, e uma máscara de calma, fingindo-se maduro, agindo com uma polidez e educação todo o tempo para não entrar em assuntos que possam levar à discussão, sem demonstrar emoções para evitar intimidade. Procuram controlar o dinheiro para assim controlar o companheiro. Também procura dominar a relação buscando sucesso, prosperidade e estar certo em tudo, porque errar significa perda de controle. Podem chegar a usar a força física para controlar o outro. Possui um envolvimento com os filhos que não é saudável, pois se apoiam emocionalmente neles, ao invés de exercerem seu papel, que seria o oposto. As crianças por sua vez experimentam uma sensação de esvaziamento, e sentem-se usadas, tendendo a tornarem-se também, viciadas em evitar. A autora chama este envolvimento de abuso sexual emocional pois a criança é levada para o meio da relação parental. Os viciados em evitar sentem-se orgulhosos em sua família de origem, pois acostumaram a estar no lugar de Poder maior, sentindo-se importantes. Acreditam ser melhores que os outros, e algumas vezes vão ao outro oposto, sentindo-se totalmente inúteis. Viciados em evitar também agem de acordo com um ciclo de comportamentos quando entram em um relacionamento:</p><p>“[...] ciclos emocionais de efeitos tóxicos. Os Viciados em evitar são atraídos pelos Viciados em Amar, entram em contato com eles numa forma de sedução, ficam eufóricos com o fato de serem adorados, começam a ser suplantados pelas necessidades crescentes dos Viciados em Amar, abandonam a relação em função de um vício, sentem-se culpados ou têm medo de ser abandonados, retornam ao antigo companheiro ou arranjam um novo, repetindo o ciclo.” (MELLODY, 1992 p. 70)</p><p>Se o viciado em evitar for terapeuta, pode sentir atração por uma cliente viciada em amar. Sua clientela tenderá a ser carente, dependente, e fazer dele seu Poder Maior. Para atrair um parceiro, ele usa uma aparência de força, proteção e oferece muita atenção. Sentem-se importantes quando são adulados pelo outro. Com o tempo, tende a sentir-se exausto, sugado pelo outro e ainda nutrem um sentimento de raiva, oriundo da infância, por ter cuidado de um dos pais, que se transforma em intolerância com os erros do parceiro. Se percebe que seu parceiro perdeu definitivamente o interesse por ele, tenta novamente o jogo de sedução, que, se não for bem sucedido, o leva a procurar uma nova companhia, muito provavelmente viciada em amar também.</p><p>Segue abaixo uma reprodução da imagem que Mellody (1992) utiliza em seu livro para ilustrar o funcionamento do relacionamento interdependente, com as fases do ciclo pelas quais passam, em forma de engrenagem.</p><p>Reprodução da figura 4, p. 89, Mellody, 1992.</p><p>A entrevistada C, nos diz um pouco sobre a estrutura viciada de seu relacionamento com o ex-marido:</p><p>“C: Ah... e, e fui levando esse relacionamento e em 2003 eu, eu... eu tive uma filha, e... comecei a fre... a ir, a frequentar uma igreja evangélica, a convite de uma amiga, então em 2004 eu fiz uma decisão na minha vida por Jesus, e isso fez toda a diferença naquele momento no meu casamento, onde eu comecei a aprender qual é o, qual era... as minhas... as minhas tarefas, as minhas obrigações, quem Deus tinha me feito pra ser, que não era aquela mulher que eu era naquele momento, e eu f... comecei um processo de co... de auto-conhecimento. Mas mesmo assim o... a codependência tava ali, enraizada, né, e tudo, e não tinha como fazer diferente. E, conduzindo o casamento sendo abusada emocionalmente, explorada fisicamente, né, até eu eu cheguei o dia que eu não agüentei mais, tive um colapso emocional, né, um, um... colapso mesmo, eu tive síndrome do pânico, e foi um desastre; quando eu resolvi, é... tomar uma atitude foi quando eu percebi que as minhas atitudes estavam influenciando o emocional da minha filha. Eu comecei a perceber que ela tava se tornando uma criança medrosa, ela tava se tornando uma criança irada, ela tava, tinha um co.... comportamentos dela que eu via que não eram saudáveis para uma criança, influenciado pela minha atitude. Então eu escolhi procurar ajuda, né, infelizmente cheguei a me divorciar, na época, hoje eu agradeço a Deus pela oportunidade de ter tido uma segunda chance, de viver saudável, porque realmente aquele relacionamento pra mim era nocivo, [...]. E a gente vem caminhando e tem sido muito bom. Hoje eu ajudo outras pessoas a identificar a codependência, né, a cuidar, e a... e assim, eu louvo a Deus pela oportunidade de começar de novo, né, e ter uma, uma, uma casa saudável. Meu objetivo hoje é reconstruir meu relacionamento é, conjugal, não com essa pessoa porque [...] Eu tenho um, um, um... comportamento que eu tenho, eu sei onde é que são os meus limites, então, como eu identifico a codependência, se eu ident... me casar com uma pessoa mais frágil, a codependência ela vai ser desenvolvida de novo naturalmente. Então eu uso isso também como ferramenta de cura, as escolhas que eu faço.”</p><p>4.4 SOLUÇÕES, DIFICULDADES NO TRATAMENTO E NO DIAGNÓSTICO</p><p>Os autores pesquisados oferecem algumas sugestões para tratar o problema da codependência e suas consequências. Stemateas (2010) é o único a indicar soluções que podem ser alcançadas sem ajuda externa, através de mudança do pensamento, tomando consciência de seus próprios erros, colocando-se em primeiro lugar, respeitando-se, resolvendo seus próprios conflitos antes de cuidar dos outros. Ele indica que a pessoa procure dentro de si mesma o que a faz sentir que a vida não vale a pena, e renunciar a isso. Pede que seu leitor adote uma postura de serenidade, conheça seus pontos fortes, seja perseverante e encontre uma razão para ficar feliz diariamente. “Atreva-se a ser livre! Não vai se arrepender. Ser livre vale a pena”. (p. 60). Os demais autores não concordam que seja tão simples lidar com a codependência emocional, bastando reconhecê-la e rejeitá-la. Trata-se de uma construção feita na personalidade, traços de caráter que são forjados ao longo de muitos anos, marcas profundas que são impressas desde muito cedo, comportamentos reforçados pelos laços relacionais, e requerem um acompanhamento terapêutico, um processo de desconstrução e reconstrução. Feist (2008), concorda com a necessidade de autoconhecimento, auto-análise como foco do tratamento, porém, não sozinho, mas em terapia. Existe a necessidade do paciente compreender a diferença entre seu self real e aquele que idealizou. A autora esclarece que a tarefa do terapeuta é convencer o paciente de que as soluções que tem utilizado, estão na verdade perpetuando o problema, e segundo ela, isso pode requerer muito esforço e tempo, pois os pacientes tendem a buscar</p><p>soluções rápidas, que em seu parecer, não funcionam. Feist alerta ainda que o processo não é apenas informativo, mas deve ser acompanhado por experiências emocionais, “num processo longo e laborioso de autocompreensão”. (p. 178). O entrevistado R nos fala sobre isso:</p><p>“R: Então era praticamente isso, eu vivia muito de... um idealismo. E por nunca alcançar aquele padrão, que eu idealizava eu sempre me culpava.[...] Eu acredito que não existe uma resposta... absoluta pra isso não. Eu acredito que, como eu disse. Como eu disse que algumas pessoas acabam se autoconhecendo e algumas características se trabalham logo, amadurecem. [...] Cada caso é um caso. Eu sei que há pessoas, por exemplo... Eu acredito que há pessoas que precisam muuuuito, tá trabalhando os passos, tá ouvindo partilha, constantemente, pra tá se fortalecendo emocionalmente. É... mais ou menos isso. Eu não gosto, assim... outra coisa, como a codependência é essa coisa muito aberta, essa... por isso que eu falo traços, que de repente é um traço que é comum à codependência e que é comum a outros problemas, que é comum à imaturidade, que é comum a... a um neurótico; a uma neurose, né. E... e por ser uma questão muito ampla, muito aberta, talvez isso dificulte também a permanência de algumas pessoas. Quando é o álcool, tá aqui ó, (pega o livro) ‘impotente perante os outros’. Pra eu saber a minha impotência perante os outros eu tenho que ir lá na raíz, eu tenho que ir lá nas causas. E eu tenho que também perceber os hábitos, os hábitos sociais, os hábitos relacionais, que eu desenvolvi, e as minhas crenças e a minha auto-percepção e... e aí tem, tem esse esse lado, né [...] com a terapia individual, você enxerga mais. Tem muitas pessoas que não têm condição, ou vão prum CAPS, eu conheço pessoas que vão prum CAPS pra, pra ter a terapia, e a terapia individual também demanda tempo. Porque at... até você... trabalhar um... a, até o terapeuta ou a terapeuta te conhecer, e desenvolver uma linha de trabalho requer um trabalho braçal, né, requer... requerem alguns meses de sessão eu acredito. Eu acredito nisso. [...] Na, na terapia individual eu tenho um feedback, no grupo eu não tenho um feedback. A não ser que eu peça. Na terapia individual eu, eu, dentro daquilo que eu falo e, e esse feedback pra mim, é interessante porque, a terapeuta faz com que... eu enxergue as coisas por outros ângulos. Como se... me ajudasse a en... a, a, a, a... enxergar a minha própria vida por outros ângulos. O grupo também me ajuda a me,a me autoperceber, a me autoconhecer, mas... com a ajuda de outra pessoa a gente enxerga melhor, a gente enxerga diferente. Às vezes o que eu acredito, às vezes, naquele momento eu to achando que é algo saudável, ou que é algo funcional, minha terapeuta me mostra que aquilo ali tá sendo um excesso, que aquilo ali tá sendo... ou uma fuga... ou... me mostra que eu não devo me preocupar com determinada coisa, que eu devo me desligar. Então isso, isso, isso é valioso, esse lado, o profissional, ele... faz com que eu enxergue mais longe. Mas eu acredito que muita gente faz do grupo, pelo menos o CODA, faz do CODA o seu terapeuta, que ali é um momento de terapia, de ajuda mútua. Na ajuda mútua está a terapia.”</p><p>Quando perguntado sobre como as pessoas codependentes deveriam buscar ajuda, ele diz:</p><p>“R: Eu acredito que Jesus Cristo é o poder superior, né, procurar um relacionamento saudável com Deus. Não um relacionamento religioso, porque Deus, Ele... Ele é... Ele me aceita do jeito que eu sou,[...] Mas que também procure se auto-conhecer, né, através da psicoterapia, através até mesmo dos grupos anônimos, do CODA, do Celebrando Restauração, né, e pesquisando, lendo, né, dentro do que a gente abordou aqui. Eu acredito que... que é um pouquinho disso, um pouquinho da minha percepção.”</p><p>Nogueira e Henning-Geronasso (2010) ressaltam em seu estudo que a necessidade de pertencimento em um sistema é legítima, porém, muitas pessoas temem o risco de separar-se e não encontrarem mais segurança, fixando-se no padrão de possessividade.</p><p>Considerando a gravidade das consequências geradas por padrões codependentes de comportamento, Zampieri (2004), entende que toda forma de prevenção possível deve ser adotada, e indica a frequência em grupos de apoio, preventivos ou reparadores, não governamentais ou religiosos, explicando que geralmente estes grupos não têm fins lucrativos e funcionam em caráter anônimo. Para ela, a prevenção e o tratamento precisam ser feitos em família, envolvendo os complementares codependentes, que passarão primeiro por um processo de desorganização para depois poderem experimentar crescimento. A autora indica linhas psicoterápicas que permitam ter a família como foco. Esclarece que a família precisa ser conscientizada pelo terapeuta, que atuará como ‘educador’ e a preparará para enfrentar as dificuldades que surgirão no tratamento, “sem segredos, fantasias ou falsas expectativas”. (p. 130).</p><p>Mellody (1995), demonstra muita esperança na recuperação da codependência, alegando que atualmente existem muitos terapeutas experientes que lidam com a questão, e recomenda veementemente que as pessoas que se identificam com o problema devem procurar um destes e freqüentar um programa de 12 passos, que será discutido posteriormente. A autora deixa bastante claro que a codependência não vai embora sozinha, e que embora o tratamento seja feito junto a um terapeuta e/ou um grupo de apoio, cada pessoa precisa aprender a curar-se e fazer por si mesma o trabalho que tem de ser feito.Os recursos externos não são a solução do problema, e sim, ferramentas que auxiliam no processo, que exige determinação e esforço pessoais. Em seu livro, Mellody disponibiliza modelos de tabelas com exemplos de situações vividas, para auxiliar na caminhada de autoconhecimento. Ela está consciente da dor causada no processo de recuperação, mas acredita que com a ajuda do Poder Maior que chama de Deus, é possível suportar a dor de enxergar a realidade e ainda transformá-la numa vida de amor verdadeiro. Mellody fala de algumas dificuldades encontradas no tratamento da codependência e dos relacionamentos interviciados. A possibilidade de ‘trocar de vício’, pois há uma tendência viciosa geral no comportamento do codependente, que pode mascarar a recuperação, afundando-se em outra adicção, por exemplo, fazendo o desligamento emocional de alguém, mas engordando dez quilos. A dificuldade em viver uma experiência desagradável, confrontando-se com a realidade. A tendência à negação que impede a recuperação, pois nada pode ser feito até que o codependente enxergue e admita sua realidade, e isso geralmente significa aguardar até a dor se tornar tão grande e insuportável, que a casca da negação seja rompida. A sensação de privação do vício quando o processo é iniciado, causando sintomas desconfortáveis, que podem levar o codependente a buscar alívio voltando ao vício da relação. O tempo longo de tratamento, que no total, envolvendo todas as fases, Mellody estima que leve de três a cinco anos – só a fase de suspensão do relacionamento leva ao menos seis meses, e mais três a seis meses para retornar à relação sentindo-se confortável. Depois que os primeiros passos são dados, a intensidade da relação diminui e o ambiente fica quieto, causando desconforto e podendo tentar um dos parceiros ou os dois a lançar o que Mellody chama de “bombardeio”, para recriar a intensidade em forma de sedução ou de brigas, mantendo a ligação ainda que seja doentia. Há um período de provável tristeza e solidão, ao reviver as experiências infantis e dor da relação atual. Problemas em aceitar que os outros discordem de seus pensamentos. Dificuldades quando o parceiro é um viciado ativo e não está em recuperação, pois tenderá a manipular e controlar o outro impedindo de recuperar-se, ou seja, parte do problema com o parceiro, torna-se o próprio parceiro. Um grande choque de valores quando se enxerga a realidade, pode fazer com que a melhor solução seja terminar definitivamente a relação. Ao passar pelo processo,</p><p>descobrir que muitos de seus amigos são doentes, e aprender a lidar com isso, sendo talvez necessário reduzir o contato caso isso atrapalhe o processo de recuperação. Aprender a enfrentar perdas necessárias para que se tornem sadios. C nos fala sobre sua experiência no tratamento e “cura” da codependência:</p><p>“C: Eu nunca fiz terapia individual. Quando eu precisei, quando eu busquei ajuda eu busquei ajuda psiquiátrica porque eu estava num processo de depressão já provocado pela própria codependência, [...]. Então eu procurei um psiquiatra e tomei uma medicação pra poder equilibrar a parte de, de... dos hormônios, [...] Mas não tenho necessidade, não sinto necessidade hoje.[...] Pra mim foi suficiente o grupo.[...] Na minha opinião a codependência tem cura porque eu me sinto curada da codependência. Totalmente. Eu vigio, né, por, porque eu acredito que... eu preciso manter vigilância porque do jeito que foi desenvolvido durante trinta e quatro anos, é, a doença, eu não quero mais voltar a ser, então eu mantenho vigilância, só, mas assim, eu hoje eu não tenho nenhum comportamento codependente, há 9 meses. Então eu acredito que uma pessoa que tá há 9 meses é... sem cair em comportamentos codependentes, em nenhuma das áreas que eu caía antes, eu acredito que realmente eu esteja curada. E é por isso que eu acredito, embora, eu sei que... até no próprio grupo, é, é... nos é orientado a dizer que nós estamos limpos há tantos dias, em processo de restauração, né, só por hoje; mas o meu só por hoje dura nove meses e eu tenho a... e eu creio que eu não tenha mais a doença hoje, não. [...] Procure ajuda. Sozinha é impossível de se tratar codependência. Procure ajuda de um psicólogo, ptra fazer terapia individual, ou procure um grupo de apoio, o Celebrando Restauração é um grupo aberto, né, tem uma ferramenta fantástica de cura, tem várias pessoas que já foram tratadas, então meu único conselho hoje, é... é esse, procure ajuda. E, dou o caminho onde procurar ajuda. É mais ou menos isso que eu tenho feito hoje com as pessoas que têm caminhado comigo.”</p><p>Beattie (2011), também indica um processo de desligamento emocional, e explica que é o objetivo da maioria dos grupos de recuperação para codependentes, e frequentar um programa de doze passos como formas importantes de trabalhar na recuperação da codependência emocional. Assim como Mellody, Beattie acredita que é necessário deixar de ser uma pessoa reacionária, libertar-se da cadeia controlar-e-ser-controlado, deixar de compreender a si e aos outros como vítimas, aprender a arte da aceitação, deixar de sentir e perceber as emoções dos outros para viver as suas próprias, aprender a pensar e decidir por si ao invés de sempre perguntar a outros, traçar seus próprios objetivos na vida e aprender a comunicar-se. Para cada uma destas etapas, Beattie (2011) propõe atividades em seu livro, que auxiliam no processo. A entrevistada U, participou de alguns desses grupos, se sente muito melhor, mas não acredita em sua “cura”, e vê no autoconhecimento uma ferramenta importantíssima de recuperação:</p><p>“U: Não, minha codependência não tem cura. Na, na minha opinião a codependência tem controle. Eu, porque, é... eu, eu digo assim, eu, eu, eu acho assim que codepend6encia não tem cura porque eu me pego ainda codependente hoje... Eu, se eu, de repente, é... eu gosto muito de uma pessoa ali, eu não conheço a pessoa mas, é, mas a pessoa já tem, lá suas malícias, suas coisas assim, eu deixo a pessoa, a pessoa, só vou deix... a... acordar quando, quando a pessoa me, me faz uma coisa assim que eu digo epa, ela tava lá,tá é me manipulando... Entendeu, então eu deixo, eu, eu, não tenho cura não, eu tenho que tá todo dia alerta, todo dia, eu a... eu penso assim. [...] É, é... eu acho, e que ela, que ela, pare. Pare mesmo, pra se conhecer, se conhecer mesmo assim, todos os seus defeitos de caráter, seus maus hábitos, traumas, e tudo, ela vai saber que ela é uma coisa, ela é qualquer coisa, ou ela é viciada, em alguma coisa; viciada em controlar o outro, viciada em... em amar, viciada em... em rejeitar, viciada em qualquer coisa, assim. É isso, se conhecer. Porque, é o que eu precisava, nesse tempo todo era me conhecer, eu não me conhecia. E eu não ia conseguir nunca, se eu não tivesse co... é... feito o... uma, uma coisa que eu não falei aí, de sair lá daquele... daquele, aquele círculo vicioso que era a minha família com meu, meu marido e tudo, aquela briga, aquela confusão toda, geograficamente distanc... distanc... distanciar deles. E aí eu fiz isso sem nem saber que isso era a melhor coisa que eu fiz na minha vida. Por que? Porque eu longe aqui, eu ia conseguir amá-los, sem me misturar, com eles mais, entendeu? E ser outra pessoa, criar meus filhos do meu jeito, que Deus me ensinou, entendeu, sem ser contaminada pelos vícios deles, entendeu? E é isso.”</p><p>4.5 A PESSOA E O RELACIONAMENTO EMOCIONALMENTE SAUDÁVEIS</p><p>Agora que estudamos sobre a codependência, suas causas, sintomas, consequências e padrões de relações, vamos entender o que seriam relacionamentos saudáveis, para podermos comparar e compreender o alvo para o qual o codependente deve mirar a fim de recuperar-se. Zampieri (2004) cita a característica que Moreno considera como parâmetro de saúde, explicando que pode ser treinado e aprendido: a espontaneidade, pois potencializa a criatividade, e o indivíduo que a possui é vívido, original, comporta-se como um ser único, ao contrário do codependente que por não possuir espontaneidade, é uma pessoa de atitudes estereotipadas. “[...] um desenvolvimento saudável produzirá na pessoa uma sensação de poder recriar, ressignificar e dar características pessoais aos seus papéis assumidos no contexto social.” (ZAMPIERI, 2004 p. 83). O sujeito saudável tende a procurar novos contextos, ampliar seus horizontes. A autora explica que relacionamentos adultos e maduros tendem a oferecer apoio emocional mútuo, sem no entanto tentar salvar ou melhorar o parceiro, impondo uma forma de ser ou desqualificando-os. Num sistema saudável, o clima é acolhedor e não ameaçador o tempo todo. Mais tranquilo, dá espaço para um humor permissivo e engraçado, que dilui a tensão e também para o erro. C nos fala sobre como se sente, recuperada:</p><p>“C: Totalmente! Eu sou outra pessoa. Eu não me reconheço mais a pessoa que eu era, e hoje eu sou feliz dentro de qualquer circunstância, eu consigo lidar bem com, com, com as minhas emoções, eu consigo controlar as minhas emoções, é... o que eu acho mais legal que eu identifico comportamentos codependentes antes de fazê-los, é, então assim, eu, é como se eu me auto-vigiasse o tempo inteiro, eu, eu to limpa de qualquer comportamento codependente há 9 meses, e é qualquer um meeesmo, em todas as áreas, com a minha filha, com a minha mãe, eu pude me colocar, no meu dia-a-dia, eu, eu observo, às vezes eu não me reconheço. Coisas que eu faço hoje que para mim eram impossíveis de de a... de... de se aceitar. Como por exemplo dizer não a uma pessoa que eu goste, que eu não to com vontade de sair com ela hoje, ou que eu não to com vontade de conversar, que eu não to disponível naquele momento, então, eu sempre estava disponível para tudo e todos; e hoje eu limito a minha disponibilidade dando prioridade a mim mesma. Então eu sou outra pessoa.”</p><p>Silva (2008) diz que amar ‘certo’ é abrir-se ao mundo e ganhar a vida. É respeitar os valores individualistas. Ela explica que para as MADAs, grupo que apresentou em seu estudo, a mulher saudável e independente emocional e financeiramente, e por ser igual em direitos e capacidades, não se sujeita à dominação masculina. Ela esclarece que na relação baseada em amor confluente, existe recebimento e doação emocional, necessitando que os parceiros vivam em igualdade de condições. Silva entende a tarefa de aprender a capacidade de amar verdadeiramente como algo difícil, e para ilustrar, cita Fomm, que diz que</p><p>“A satisfação no amor individual não pode ser atingida sem a humildade, a coragem, a fé e a disciplina verdadeiras [...] em uma cultura na qual são</p><p>raras essas qualidades, atingir a capacidade de amar será sempre, necessariamente, uma rara conquista.” (FROMM apud. BAUMAN, 1957, p. vii in SILVA, 2008 p. 24)</p><p>Nogueira e Henning-Gernoasso (2010) explicam que pessoas que conseguem fazer boa diferenciação, conseguem posicionar-se bem diante do que acontece ao redor, se permitindo ter contato íntimo com os outros, sem porém serem modeladas por eles. U nos conta feliz, sobre como isso aconteceu entre ela e seus filhos:</p><p>“U: Demais, demais, demais. Um exemplo. É, primeiro é a, é a dinâmica da minha casa, entendeu? Que... a cada dia é uma surpresa, né? Eu direcionando os meus filhos que, que agora já tão namorando, namoraram, namoraram e deixaram, e assim, foi muito bom eu saber conduzir isso sem, sem, é... sem ser, é, com equilíbrio. É saber conduzir com autoridade, né, e eles, e conseguir ser amiga deles e saber a hora certa deles me contarem as coisas e eu contar pra eles e falar sobre tudo assim como e que é né.”</p><p>Mellody (1992) diz que em um relacionamento saudável, a pessoa pode suprir o outro de modo a promover-lhe crescimento, incentivando-o a assumir a responsabilidade por sua própria vida. Um longo período de silêncio não constitui problema dentro de uma relação saudável, pois não é baseada em intensidade, mas em serenidade e segurança. A intimidade sadia é um partilhar mútuo de realidades, mantendo fronteiras saudáveis, onde não há agressão. “Num relacionamento sadio, um adulto não cuida de outro adulto. Cada um de nós é responsável por si.” (MELLODY, 1992 p. 137). Cada parceiro opera dentro de seu próprio sistema de valores, há apoio mútuo e um alívio dos problemas, aumentando a alegria de viver. Não há negação de quem é o parceiro nem se esconde a própria realidade, havendo um reconhecimento realista de imperfeições e a consciência de que erros serão cometidos. Esse reconhecimento é um passo muito importante para R:</p><p>“R: Então a partir do momento em que eu identifico crenças equiv... é... é... crenças equivocadas, já me ajuda demais. Outra coisa, hoje eu já tenho uma autopercepção dos meus sentimentos e dos meus pensamentos maior. Não perfeito.[...] Percebo, e outra coisa, eu aceito. Eu já não fico naquele embate, eu não posso tá sentindo isso, eu não posso, eu não posso... Hoje eu já aceito, eu já começo a identificar certos pensamentos, já consigo dar respostas adaptativas... Por exemplo, uma crença equivocada antiga, que batia, quando vem eu, eu já consigo manter um diálogo interno, ter uma resposta adaptativa pra confrontar aquilo, dizer: ‘isso é mentira’, né, ‘isso é mentira’. E isso é importante pra mim. Identificar as crenças equivocadas, eu, eu costumo basicamente, pra mim é basicamente isso, isso pra mim é muito importante no, no grupo, no CODA e aqui. É... e entender quais são as minhas crenças equivocadas e quais são os meus preconceitos em relação a mim mesmo, e em relação aos meus pensamentos, referenciais equivocados, crenças equivocadas, é isso, é colocar é... pensamentos e crenças saudáveis, perfeitas não, saudáveis.”</p><p>Na relação saudável cada um é capaz de suportar a ansiedade de não ter todas as suas necessidades e desejos atendidos completamente. Existe um esforço por concentrar-se nas coisas agradáveis do parceiro, e não nos defeitos. Há confiança, que não existe simplesmente por decisão, mas é resultado de certas atitudes. Por fim, “um amor sadio e maduro exclui a exploração mútua e promove o crescimento individual e a auto-realização em ambos os parceiros.” (MELLODY, 1992 p. 260).</p><p>5. CONSIDERAÇÕES FINAIS</p><p>De acordo com o levantamento bibliográfico, a categorização e os discursos que até o momento foram analisados, o estudo sugere que os grupos pesquisados são fonte de apoio e motivadores para a busca de mudanças por parte de seus frequentadores, que, unanimemente, atribuem o fato de terem conhecido o grupo e através deste, as características da codependência emocional, conseguirem compreender melhor quem são e os passos necessários para a superação do estado codependente das relações. Acreditamos, com base nos dados coletados, que a frequência aos grupos seja um hábito adequado aos codependentes emocionais, uma das formas benéficas de buscar ajuda, indicada maciçamente pelos autores que estudam o tema. Os grupos servem também como fonte de incentivo à leitura e busca de conhecimento sobre o tema tratado, o que é bastante refletido nos relatos colhidos. Os entrevistados têm pensar divergente com relação à cura da codependência emocional, onde uma acredita na cura total, outra não acredita, e o terceiro, entende que cada caso é um caso, pode haver pessoas que se recuperem totalmente e outras não. Os autores também têm ideias inconclusivas a respeito, mas, o objetivo do trabalho era a compreensão da cultura dos grupos de apoio na área, bem como do discurso de seus participantes, e sendo assim, consideramos a frequência aos grupos de apoio para codependentes como um hábito positivo aos que se identificam com o problema, independente de alcançarem êxito absoluto em sua recuperação. O campo de estudo na área ainda carece de aprofundamento, visto que no Brasil o tema é pouco academicamente explorado, o que faz da área um vasto canal de pesquisa, que gera grande interesse e necessita de muitos dados a serem coletados.</p><p>6. REFERÊNCIAS</p><p>BEATTIE, M. Co-dependência nunca mais. Trad. Marília Braga. 15 ed. Rio de Janeiro: Nova Era, 2011.</p><p>DELORY-MOMBERGER, C. Formação e socialização: os ateliês biográficos de projeto. Educ. Pesqui., São Paulo,  v. 32,  n. 2, ago. 2006 .</p><p>FEIST, J.; FEIST, G. J. Horney: Teoria Sociopsicanalítica. In. ______. Teorias da Personalidade. Trad. Santos, I. P. F.; Mattos, C.; Crestani, W. Revisão técnica: Silva, M. C. V. M; Pinheiro O. G. 6 ed. São Paulo: McGraw-Hill, 2008. P. 160-183.</p><p>FRANCE, B. Um mal chamado co-dependência: Por trás da dinâmica familiar na qual impera a figura do cuidador pode haver um padrão traiçoeiro de relacionamento e interação, ocultando fragilidades emocionais. Psique Ciência e Vida, Ed. Escala, ano III, n.29 Junho, 2008.</p><p>HOBBS, N. Psicoterapia centrada no grupo. In: ROGERS, C. Terapia Centrada no Cliente. São Paulo: Martins Fontes, 1992. p.319-366.</p><p>HUMBERG, L. V. Dependência do vínculo: uma releitura do conceito de co-dependência. 2003. Dissertação (Mestrado em Fisiopatologia Experimental) - Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2004. Disponível em: <http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/5/5160/tde-18102005-105706/>. Acesso em 08.12.2011.</p><p>______. COHEN, C. Não existe um co-dependente, existem dois dependentes. Disponível em http://xa.yimg.com/kq/groups/19704728/1869517242/name/co-dependencia.pdf. Acesso em 08.12.2011.</p><p>JOSSO, M. C. Experiências de vida e formação. São Paulo: Cortez, 2004.</p><p>MARIANO, J. A. Dependentes da dependência. Psique Ciência e Vida, Ed. Escala, ano III, n.29 Junho, 2008.</p><p>MELLODY, P; MILLER, A. W.; MILLER, J. K. Enfrentando a Codependência Afetiva: o que é, como surge e como prejudica nossas vidas. Trad. Claudia Gerpe Duarte. Rio de Janeiro: Record: Rosa dos tempos, 1995.</p><p>______; ______; ______. O vício de amar. Trad. Esteves, L. F. M. São Paulo: Círculo do Livro, 1992.</p><p>NOGUEIRA, L. M. L. O.; HENNING-GERONASSO, M. C. Casal e famílias de origem: uma possível relação na dependência emocional da mulher. 27f. 2010. Disponível em http://www.psicologia.pt/artigos/textos/A0521.pdf. Acesso em 03.08.2011.</p><p>OLINDA, E. Artes do fazer: trajetórias de vida e formação. Fortaleza: Edições UFC, 2010.</p><p>ROEHE, Marcelo Vial. Experiência religiosa em grupos de auto-ajuda: o exemplo de neuróticos anônimos. Psicol. estud.,  Maringá,  v. 9,  n. 3, Dez.  2004 .</p><p>RODRIGUES, Joelson Tavares; ALMEIDA, Leonardo Pinto de. Liberdade e compulsão: uma análise da programação dos doze passos dos alcoólicos anônimos. Psicol. estud.,  Maringá,  v. 7,  n. 1, jun.  2002 .</p><p>SILVA, J. B. B. Quando amar é um “problema”: os significados de amar demais a partir do MADA. 2008. 47f. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais). Departamento de Antropologia do Instituto</p><p>de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade do Rio Grande do Sul, Porto Alegre. 2008.</p><p>STAMATEAS, B. O apego tóxico. In: ______. Emoções tóxicas: como se livrar dos sentimentos que fazem mal a você. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2010. p. 48-60.</p><p>TOURAINE, A. Poderemos viver juntos? Iguais e diferentes. Petrópolis, RJ: Vozes, 1999.</p><p>ZAMPIERI, M. A. J. Codependência: o transtorno e a intervenção em rede. São Paulo: Ágora, 2004.</p><p>image1.jpeg</p><p>image2.jpeg</p><p>sexo, familiares de dependentes químicos e também, de codependência emocional. Todos eles são baseados nos doze passos, que são: 1. Admitimos ser impotentes diante de nossos vícios e comportamentos compulsivos e que nossas vidas se tornaram ingovernáveis. 2. Viemos a acreditar que um poder superior a nós poderia restituir nossa sanidade. 3. Decidimos entregar nossas vidas e nossas vontades aos cuidados de Deus. 4. Fizemos um destemido e minucioso inventário moral de nós mesmos. 5. Admitimos para deus, para nós e para outro ser humano a natureza exata dos nossos erros. 6. Dispusemo-nos inteiramente a deixar que Deus removesse todos esses defeitos de caráter. 7. Humildemente pedimos a Deus que removesse todas as nossas imperfeições. 8. Fizemos uma relação de todas as pessoas a quem prejudicamos e dispusemo-nos a fazer reparações a todas elas. 9. Fizemos as reparações diretas a tais pessoas sempre que possível, exceto quando fazê-lo implicasse prejudicá-las ou a terceiros. 10. Continuamos a fazer o inventário pessoal e, quando estávamos errados nós o admitíamos prontamente. 11. Procuramos, através da oração e da meditação, melhorar o nosso contato consciente com Deus, pedindo apenas para conhecer a Sua vontade para nossas vidas e força para realizá-la. 12. Tendo experimentado um despertar espiritual como resultado destes passos, procuramos levar esta mensagem a outros e praticar esses princípios em todos os aspectos da nossa vida.</p><p>Especificamente na área da codependência emocional, existem dois grupos, um para homens e outro para mulheres. Na entrada sempre há pessoas para receberem quem chega, sorrindo, dando as boas-vindas e distribuindo um folheto informativo com os doze passos, a oração da serenidade, um mapa das salas em funcionamento e um texto sobre o tema abordado naquela noite. Antes da reunião específica do grupo de apoio, existe um momento coletivo em que são cantadas algumas músicas, é ministrada uma palestra, geralmente explicando um dos doze passos ou dando espaço para que os participantes do programa falem sobre como tem sido sua experiência em viver o programa. Em minha primeira visita, estava sendo celebrado um casamento neste tempo anterior ao acontecimento dos grupos de apoio. Apresentei-me como estudante de psicologia, pesquisadora de codependência emocional, fui muito bem recebida com um largo sorriso, e o aviso de que ali eu teria muito campo de pesquisa. Eu temi pelas barreiras que poderiam ocorrer quando soubessem que eu estava ali como pesquisadora, pois em outras pesquisas que li sobre o assunto, em outros grupos similares, as regras do grupo não permitiam muitas coisas, mas nada disso ocorreu. Fui recebida de braços abertos, inclusive pelas participantes, quando, na “minha vez de partilhar” me apresentei como pesquisadora. Embora minha presença tenha sido marcada como pesquisadora, meu objetivo não é relatar nada sobre as participantes nem o conteúdo exposto nestes momentos, em respeito à regra de sigilo do grupo. Participei do grupo aceitando as regras, com a finalidade de compreender seu funcionamento, e relacioná-lo com os futuros discursos colhidos nas entrevistas que estão propostas no trabalho, a serem feitas em outro momento, individualmente.</p><p>As reuniões se iniciam com a leitura das regras, feita pelas próprias participantes. Cartões plastificados são distribuídos para que cada uma possa ler cada uma das cinco regras, que são: 1. falar sempre em primeira pessoa, focando em seus próprios sentimentos, pensamentos e ações e evitando comentários sobre terceiros. 2. Respeito. Não estou aqui para dar conselhos nem mudar a vida de ninguém, e sim, para escutar. 3. Sigilo. As pessoas que são vistas no grupo e o que é dito aqui, não é repassado fora; tudo fica dentro do próprio grupo. 4. Tempo. Cada participante tem um limite de tempo para falar, e deve ser respeitado para que todas tenham tempo de fazer sua partilha.5. O celular deve ser desligado ou colocado no silencioso enquanto as partilhas são feitas. A regra do tempo, especificamente, é controlada pela facilitadora ou uma voluntária do grupo, de acordo com o tempo estipulado no dia, que depende do número de participantes. Normalmente, o tempo concedido é de “3+1”, ou seja, cada pessoa pode falar durante quatro minutos. Depois de três minutos de partilha, ela é avisada através de um cartão amarelo, que tem apenas mais um minuto para falar. Quando o tempo termina, é mostrado um cartão vermelho indicando o fim, e a oportunidade de falar é passada a outra pessoa. Lidas as regras, iniciam-se as partilhas, que são livres. Fala quem quiser, sobre o assunto que quiser. Normalmente, um “mote” é sugerido, dependendo da palestra que foi ministrada no momento anterior, mas a sugestão não precisa obrigatoriamente ser seguida. Exemplos de motes que foram dados nas reuniões: “Só por hoje... eu vou derrubar as paredes dos meus relacionamentos e construir pontes.”, “Como você tem lidado com as finanças.”, ou “Como o serviço tem feito diferença na sua vida.”. Houve reuniões em que ninguém falou nada sobre o tema proposto, outras em que algumas falaram sobre o tema e outras não. A fala de que o grupo tem um efeito terapêutico em suas vidas e um poder transformador, é recorrente.</p><p>A duração do tempo de partilha é de uma hora. Ao final deste tempo, as mulheres se levantam e fazem juntas o que chamam de oração da serenidade: “Deus, conceda-me a serenidade para aceitar aquilo que não posso mudar, a coragem para mudar o que me for possível e a sabedoria para saber discernir entre as duas. Vivendo um dia de cada vez, apreciando um momento de cada vez, recebendo as dificuldades como um caminho para a paz, aceitando este mundo cheio de pecados como ele é, assim como fez Jesus, e não como gostaria que ele fosse; confiando que o Senhor fará tudo dar certo se eu me entregar à Sua vontade; pois assim poderei ser razoavelmente feliz nesta vida e supremamente feliz ao Seu lado na outra. Amém.” Antes de sair da sala, as participantes devem dar um abraço em pelo menos três companheiras.</p><p>Há uma média de 15 mulheres aproximadamente por reunião. Quando não vão a todas as reuniões, dão um intervalo de duas ou três semanas, mas após frequentar durante um tempo, percebi que a maior parte das integrantes do grupo já retornaram muitas vezes e têm o hábito de frequentar o programa. Há um revezamento entre as facilitadoras do grupo, que respeitam uma escala previamente combinada. Estas mulheres também se identificam como codependentes, e facilitam a sala por estarem na “caminhada de restauração” há tempo suficiente para conseguirem caminhar “limpas”. Alguns dos lemas do programa é estar “Limpo só por hoje”, “Viver um dia de cada vez”, “A doença sai pela boca e a cura pelo ouvido” e “O segredo está na próxima”, indicando que a persistência em frequentar o programa possibilitará o êxito.</p><p>Existem sempre, disponíveis na sala, materiais impressos sobre a codependência emocional, e o local conta com uma biblioteca com diversos títulos que tratam sobre recuperação em muitas áreas, inclusive a codependência emocional. Na entrada do local existem vários folhetos expostos, sobre as várias áreas que podem ser tratadas no programa. O folheto de codependência emocional contém algumas perguntas que devem ser respondidas para constatar se há identificação com o problema. Em caso afirmativo, é indicado que a pessoa passe a frequentar a sala do grupo de apoio por algumas semanas, para confirmar se de fato precisa de ajuda específica com a codependência. As perguntas do folheto são:</p><p>· Você se sente responsável por outra pessoa? Por seus sentimentos, pensamentos, ações, necessidades, escolhas, vontades, bem-estar e destino?</p><p>· Você sente ansiedade, pena e culpa quando outras pessoas têm problemas?</p><p>· Você se flagra constantemente dizendo “sim” quando quer dizer “não”?</p><p>· Você vive tentando agradar aos outros ao invés de agradar a si mesmo?</p><p>· Você vive tentando provar aos outros que é bom o suficiente? Você tem medo de errar?</p><p>· Você vive buscando desesperadamente amor e aprovação?</p><p>Você se sente inadequado?</p><p>· Você tolera abuso para não perder amor de outras pessoas?</p><p>· Você sente vergonha da sua própria vida?</p><p>· Você tem a tendência de repetir relacionamentos destrutivos?</p><p>· Você se sente aprisionado em um relacionamento? Você tem medo de ficar só?</p><p>· Você tem medo de expressar suas emoções de maneira aberta, honesta e apropriada?</p><p>· Você acredita que se assim o fizer ninguém vai amá-lo?</p><p>· Você ignora os seus problemas ou finge que as circunstâancias não são tão ruins?</p><p>· Você vive ajudando as pessoas a viverem? Acredita que elas não sabem viver sem você?</p><p>· Você tenta controlas eventos, situações e pessoas através da culpa, coação, ameaça, manipulação e conselhos, assegurando assim que as coisas aconteçam da forma que você acha correta?</p><p>· Você procura manter-se ocupado para não entrar em contato com a realidade?</p><p>· Você sente que precisa fazer alguma coisa para sentir-se aceito e amado pelos outros?</p><p>· Você tem dificuldade de identificar o que sente? Tem medo de entrar em contato com seus sentimentos como raiva, solidão e vergonha?</p><p>A definição de codependência emocional constante no material prórpio do programa, disponibilizado gratuitamente a visitantes e participantes é “a inabilidade de manter e nutrir relacionamentos saudáveis com os outros e consigo mesmo.” , e neste mesmo material, falando sobre os relacionamentos de co-dependentes, “não existe a discussão direta dos problemas, expressão aberta dos sentimentos e pensamentos, comunicação honesta e franca, expectativas realistas, individualidade, confiança nos outros e em si mesmo.” Esta tabela faz uma breve comparação entre o indivíduo ‘verdadeiro’ e o codependente, indicando o programa como forma de reverter a situação.</p><p>De acordo com outro material, também distribuído gratuitamente no local, o programa deve encampar: uma busca pela verdadeira identidade, pela perda do contato com a alma gerada pela codependência; uma reconexão com os próprios sentimentos, pois sem contato com eles não há possibilidade de cura; conscientização das próprias necessidades, fundamental para a auto-realização; um espaço seguro, sem o qual não é possível expressar a realidade sobre quem se é, dificuldades, histórias, etc., elementos também imprescindíveis para a cura; estabelecimento de limites, reconhecendo onde foram desrespeitados e ultrapassados, gerando uma baixa auto-estima, para que o valor próprio possa ser retomado; compartilhamento da própria história, ação necessária à libertação da codependência, contando como tudo ‘realmente aconteceu’, pois a cura está na verdade; criar novas regras e mensagens, após ter se livrado das regras e crenças destrutivas do passado; e aprender a brincar e relaxar, o que acontece com a libertação da opressão auto-imposta pelos papéis e máscaras da codependência, podendo reconectar-se com a criança interior, que é mais genuína, espontânea e criativa.</p><p>Seguem abaixo, um pouco das falas dos entrevistados selecionados, a respeito de sua participação nos grupos de apoio:</p><p>“C: [...] e... comecei a passar a frequentar as reuniões dia de sexta-feira, e fui identificando na partilha de outras pessoas, comportamentos que eu tinha e que eu não percebia. Aí eu realmente vi que eu tinha uma doença e que eu precisava busca tratamento pra essa doença; [...] antes de saber que o que eu tava sentindo era codependência, eu busquei ajuda dentro do meu corpo de relacionamento. Com amigos, buscando aconselhamento, pedindo ajuda pra restaurar meu casamento, né, principalmente porque foi a, o estopim da codependência foi o meu divórcio, então assim, a, a... eu, eu, o que eu busquei em termos de ajuda anterior, não funcionou porque as pessoas também não sabiam que... lidar com a doença. Não identificavam aquele comportamento como um comportamento emocionalmente doente. Então, é, eu sofri julgamentos por conta disso, porque a, a falta de conhecimento das pessoas ao invés de me ajudar, fizeram foi piorar a codependência. Então quando eu, eu busquei ajuda no lugar certo, onde pessoas conheciam a codependência e sabiam do que tava falan..., o que tava se... acontecendo comigo, foi com uma amiga que me recomendou ir pro grupo porque lá realmente, ela como codependência, é... como codependente, ela foi curada e tratada dentro do grupo, então, é,quando eu comecei a vir, eu conhecia outras pessoas que já estavam na caminhada com mais de dois anos bem, com, com a doença, e pra mim se eu.. se... aconteceu com ela ia acontecer comigo também. Fiz tudo que o grupo me colocou pra fazer e funcionou. [...] Esse grupo de apoio, ele, ele, ele... é baseado nos princípios bíblicos, né, é... dos 12 passos, e 8 princípios bíblicos baseados nas, na... nas bem-aventuranças, e... é, lá agente... lá eu com.. eu aprendi a falar de mim mesma, né, pra não falar de outras pessoas, a gente tem um, um... grupo, tem uma reunião geral que acontece no, no primeiro tempo, onde essas pessoas, elas, ensinam cada passo, a dar um passo de cada vez, elas vão ensinando como é que funciona o programa, e existe um segundo tempo, que é uma sala de apoio onde tem um... partilhas, né. Nessa sala, é... eu apre... é, eu, eu... pude falar do que eu tava sentindo naquele momento sem ser julgado porque as pessoas que estavam naquela sala também eram vítimas da doença de codependência emocional, e... as partilhas foram me mostrando que na.. que... o que eu sentia era doença realmente e não porque eu tava com um problema, né, era, era uma circunstância que não era naquele momento, era uma coisa que tinha me acompanhado durante toda a minha vida.”</p><p>“R: mas é aquela coisa de espelhar, né. Então eu começo a me sondar, às vezes uma pessoa fala não tem nada a ver comigo, mas daqui a pouco uma pessoa fala, e... de 10 coisas que ela fala, 3 ali batem comigo e eu me sondo. E eu começo... pelo menos pra mim isso foi um...muito importante porque... eu percebi que eu tropeçava em algumas coisas e eu tinha conflitos emocionais, mas eu não sabia exatamente o que que era que eu tinha; sabia que tinham conflitos, sabia que não conseguia desenvolver relacionamentos construtivos, saudáveis, significativos, profundos, e aí o CODA e a... pelo menos as partilhas e a literatura me ajudou a me autoconhecer. [...] Porque o... é considerada uma enfermidade emocional. E... pra um homem se dobrar e dizer “eu sou codependente, eu tenho uma enfermidade emocional”, ele tem que ter coragem, porque... no nordeste nós temos... temos uma cultura muito machista, tem um pouco disso, eu acredito que o machismo ele... e o desejo de... porque pra você entrar nesse mundo de procurar se autoconhecer, dentro dessa questão da codependência, você vai ter que revirar uma... um baú. Você vai ter que se encarar. Você vai ter que encarar um... o seu lado feio, vai ter que encarar o teu passado, você vai ter que encarar os seus traumas, e admitir seus defeitos, nem todo mundo, eu acredito que nem todas as pessoas tão dispostas a terem essa... disposição, e de certa forma até coragem, de se encarar de frente assim que, ‘vamo ver aqui, como é que tão as feridas, como é que tá o meu lado feio, como é que tá os meus defeitos de caráter, quais são..’, isso exig... exige trabalho, é... exige-s... exige-s... exige-se trabalho. Eu acredito que é, as pessoas talvez abandonem porque não querem aprofundar. [...] Antigamente como eu disse, eu tropeçava em mim e eu não sabia o que era. Eu sabia que tinha um problema mas não sabia o que era. Comecei a me conhecer. E aí eu comecei a identificar alguns sentimentos, comecei a identificar algumas crenças equivocadas, eu acredito que uma pessoa codependente ela tem muitas crenças equivocadas, e que ela vai pra um grupo justamente pra desmistificar crenças equivocadas relacionadas a si mesma e ao relacionamento com outras pessoas.”</p><p>“U: Aí eu fui ficar no grupo, eu não conseguia falar, era só chorando, chorando, chorando, chorando, e isso aí, Deus mostrando as coisas pra mim. E não tinha nada assim que dissesse, que eu chorasse porque eu tava descobrindo algo de mim. Eu chorava porque eu, eu era assim...</p><p>emocionalmente doente mesmo. Não entendia, eu não entendia como era aquilo. Eu não conseguia falar nada. E até porque se eu falasse ninguém ía escutar que minha voz era tão baixa, tão baixa, (risos) eu tinha tanta vergonha de falar. E eu não sei, eu não entendia aquilo. Até hoje, não consigo responder. [...] Depois de um ano sem falar, e... e já falar chorar, né, antes eu só chorava, não falava. E aí depois eu passei a chorar e falar, falar e chorar, [...] e aí passei muuuuito tempo com ela e foi muuito gostoso o grupo, e... e aí eu comecei falar, já falava demais até (sorriso), muito mesmo, o povo já começou gostar, e aí foi quando eu fui desafiada a liderar o grupo de codependência.”</p><p>3.3 AS ENTREVISTAS</p><p>Foram realizadas ao todo 6 entrevistas semi-estruturadas, sendo 3 homens e 3 mulheres, todos maiores de 18 anos, e participantes dos grupos de codependência emocional do projeto Celebrando a Restauração, previamente mencionado. As narrativas (auto)biográficas (OLINDA, 2010) foram criteriosamente categorizadas, modo como chegarmos a dados que possibilitaram reflexões sobre esse fenômeno psicossocial. Para fim de detalhamento, foram escolhidas 3 dessas entrevistas, que compõem este trabalho, ficando as outras 3 como dados para futuras extensões desta pesquisa. Seguem as perguntas que serviram como base para as entrevistas:</p><p>1) Há quanto tempo você percebeu que havia algo em você que o fez sentir necessidade de mudança? Conte sobre a experiência da descoberta.</p><p>2) Como você define a codependência emocional?</p><p>3) Quais os relacionamentos em sua vida que considera mais afetados pela codependência? Por quê?</p><p>4) Por que você decidiu buscar ajuda? Buscou em mais de um lugar? Como acabou chegando neste grupo?</p><p>5) Há quanto tempo frequenta este grupo?</p><p>6) O que exatamente você faz no grupo de apoio?</p><p>7) Você identifica alguma diferença na sua vida, em suas emoções ou em seus relacionamentos, antes e depois de participar do grupo?</p><p>8) Já fez terapia individual? Se sim, qual a diferença que encontrou entre ela e o grupo de apoio? Se não, qual o motivo?</p><p>9) A codependência mexe com seu senso de liberdade? De autonomia? De responsabilidade? De privacidade?</p><p>10) Você lê ou pesquisa sobre o assunto? Que tipo de literatura?</p><p>11) O Celebrando Restauração oferece mais alguma ferramenta que você utilize além do grupo de apoio?</p><p>12) Na sua opinião, codependência tem cura? Por quê?</p><p>13) Faça comentários livres ou conte histórias da sua vida em seu processo de luta contra a codependência, que você considera importantes.</p><p>Cada entrevista foi feita individualmente, gravada e transcrita literalmente. As falas foram estudadas e analisadas de acordo com o levantamento bibliográfico feito, e selecionadas, conforme se encontra na próxima sessão deste artigo. Foram incluídas neste, as entrevistas de U, mulher, 46 anos, casada e mãe de 2 filhos, C, mulher, 35 anos, divorciada e mãe de 1 filha, e R, homem, 35 anos, solteiro e sem filhos.</p><p>4. RESULTADOS E DISCUSSÃO</p><p>4.1 CAUSAS E PREVENÇÃO</p><p>A grande maioria dos autores concorda que as causas da codependência encontram-se na infância e se dão por situações ou relacionamentos abusivos que precisaram ser enfrentados. De acordo com Horney (apud. Feist, 2008), na teoria sociopsicanalítica, caso os pais não venham a suprir as necessidades básicas de segurança e afeto da criança, esta desenvolve sentimentos de “hostilidade básica” para com eles, sentimentos estes que ficam reprimidos, levando a uma profunda sensação de insegurança, e uma constante apreensão, condição chamada de “ansiedade básica”. A cultura moderna acirra os comportamentos competitivos, que unidos à hostilidade básica, resultam em “sentimentos de isolamento. Esses sentimentos de solidão levam a necessidades intensificadas de afeto, as quais, por sua vez, farão que as pessoas superestimem o amor.” (p. 164) Isso faz com que as pessoas acreditem que o amor e a afeição de outrem se tornarão “a solução para todos os seus problemas.” Horney, (1939 apud. Feist 2008) acreditava que “a soma total das experiências infantis traz consigo certa estrutura de caráter, ou melhor, inicia seu desenvolvimento” (p.152). A autora conceitua de “movimento em direção às pessoas”, a relação da criança com o outro, não por amor genuíno, mas por tentar proteger-se da sensação de desamparo, que a faz agir de acordo com dois tipos de comportamentos: ou buscar desesperadamente por afeição e aprovação do outro, ou encontrar um parceiro que considere poderoso para assumir a responsabilidade sobre sua vida. Horney (1937 apud. Feist, 2008) chamava esta relação de “dependência mórbida”, conceito que antecipava o uso da palavra codependência. Esta forma de movimentar-se em direção ao outro, para a autora, “Envolve uma série de estratégias, ‘é uma forma completa de pensar, sentir e agir – uma forma completa de vida.’” (Horney, 1945 p. 55 apud Feist, 2008, p. 170). Tais processos intrapsíquicos terminam por fazer parte do sistema de crenças da pessoa, que cria uma auto-imagem idealizada, forma esta de resolver conflitos internos, divinizando a própria imagem. Uma tendência que tem relação com esta, é o auto-ódio. Ao mesmo tempo em que a pessoa passa a divinizar uma auto-imagem irreal, passa a odiar sua realidade. Quanto mais idelaliza seu self, mais distante fica do real, e este abismo criado, leva ao ódio do self atual, pois fica muito abaixo “de sua auto-imagem glorificada”. Como o self idealizado passa a integrar o sistema de crenças, ele passa a ser acionado em todos os âmbitos da vida, gerando uma busca por glória, que inclui a necessidade de perfeição, ambição neurótica e desejo de triunfo vingativo. (Horney, 1950 apud. Feist, 2008). Embora Horney não tenha sido uma especialista no tema da codependência, sua teoria da formação da personalidade contribui bastante para a compreensão do processo causal deste fenômeno, que continuaremos analisando a seguir.</p><p>Numa abordagem diferente e complementar, Zampieri (2004), baseada no Psicodrama de Moreno, afirma que o amor ou o desamor, independente de onde a criança tenha sido gerada biologicamente, afetará o desenvolvimento neuronal do bebê, desde o período de gestação. Já depois do nascimento, a autora explica que hostilidade e distorção da imagem levarão a uma dificuldade identificação com o outro na primeira infância, outro este onde a criança encontraria seu valor e espelharia sua imagem, porém termina à procura de aplausos dos outros por toda a vida, oscilando entre o sentimento de grandiosidade ou muita desvalorização, por ter tido falhas na formação da “Matriz de Identidade”. (ZAMPIERI, 2004 p. 104). Para Zampieri (2004), o abuso na infância também é palco para o surgimento da codependência. A violência física por exemplo, facilita danos na identidade, e a criança, por ser dependente do adulto, acaba atribuindo culpa a si mesma pela atitude dos pais, incorporando uma crença de que ela é uma “criança ruim”. Por “ser ruim”, precisa ser castigada, o que lhe é confirmado pelo ambiente. Isto forma um ciclo profético não verbalizado, dos pais sobre as crianças. Os pais permanecem batendo, a criança continua crendo que é má, e agindo como tal, e os pais confirmam então a profecia de que a criança “é mesmo ruim”, pois mesmo apanhando, ela não modificou seu comportamento. A criança poderá então se colocar no lugar de vítima, de “bode expiatório da família” (p. 183), e situações que gerem vergonha ou desamparo poderão fazê-la lançar mão de seu personagem de “coitadinha”. Ao invés de gerar bons relacionamentos, este falso self gerará contatos “inadequados, desastrosos, que, em vez de trazer gratificação interna, acabam por comprovar ao self que ele é ruim, ou que o mundo não pode fazê-lo feliz.”(p. 183). Isso reforça ainda mais o uso do “personagem” em lugar do self real. Zampieri acrescenta ainda como ingredientes na potencialização das chances de se gerar codependentes, a presença de “estigmas, medos de dissolução da família e vergonha”, pois se tornam segredos familiares, que influenciam com muito peso na construção</p><p>da codependência, e são também influenciados por ela. Podemos verificar isso na fala de C, uma das entrevistadas deste artigo, quando fala da causa de seu problema:</p><p>“C: [...] assim, quando eu descobri que a codependência tinha sido originada na minha infância, eu pude ver, eu pude entender o porque do meu relacionamento conflituoso com a minha mãe, eu pude entender porque a minha necs... de onde veio a minha necessidade de controle, imagine que os meus pais se divorciaram eu tinha 4 anos de idade, então eu cresci dentro de uma família onde a minha mãe, ela tinha, na época a minha mãe tinha... vinte e sete anos, mais ou menos, quando ela se separou, então era uma menina, jovem, né, e ela tinha uma necessidade de vida muito grande, então pra ela viver ela achava que os filhos eram fardo, né, então ela separou, meu pai foi embora, deixou os dois pacotes com ela, ela tinha que cuidar. Então esse fardo ela deixou transparecer pra mim, e pro meu irmão quando nós éramos ainda crianças, e pra que eu pudesse aliviar esse fardo dela ainda criança, com 6, 7 anos de idade, é... eu f... eu, eu, eu buscava agradá-la, então eu tinha essa, esse, essa preocupação de agradar minha mãe, e tudo, e por ela ter as, as lutas dela, ela não conseguia retribuir isso. Então era sempre aquele ciclo de frustração. E eu fui crescendo dentro desse ciclo de frustração, veio a adolescência, e na adolescência a... a... esse problema se agravou porque aí misturou com a rebeldia, onde eu não aceitava o comportamento dela e a maneira de chamar a atenção agora não era mais agradando, era, era afrontando, era desobedecendo, e desrespeitando ela, aí cresci, o, o... a fase da, da adolescência, vendo a minha mãe ser o homem e a mulher da casa, controlando todo mundo que tava junto dela porque ela também é codependente, é... é... e a... cheguei dentro de um relacionamento, me envolvi dentro de um relacionamento aos 18 anos, é, com uma pessoa frágil, porque, sem saber eu precisava me relacionar com pessoas mais frágeis do que eu para que eu pudesse continuar mantendo o controle, né, dominando as pessoas, a situação, sendo a, a, a melhor, e depois, quando eu via que aquela pessoa tava, é... na minha companhia, é ‘pronto, eu consegui agradar, consegui ter aquela pessoa, então agora eu vou fazer tudo por ela’. Então eu me sacrificava, eu fazia tudo em função daquela pessoa. Então se ela, é... tivesse bem, eu estava, se ela tivesse mal eu tava também, e isso eu ía cobrando, né, daquela pessoa, porque eu, eu não tinha... eu fiz, fiz, fiz e te... chegou uma hora que eu cansei de fazer porque não era essa a minha função. E quando eu cansei de fazer eu comecei a cobrar que a pessoa fizesse o que ela não tem condições de fazer, porque não era da natureza dela. E esse é... e isso foi aumentando a minha codependência, ali, ali... alimentando a auto-suficiência, eu não preciso de você, eu faço tudo sozinha, porque foi assim que eu fui educada. Foi assim que eu cresci, então como é que podia ser diferente, né, então, eu levei isso pra dentro do meu casamento, me casei com 21 anos, eu era muito jovem, porque... eu num, eu, eu... tava só, os meus pais, é, moravam em outra cidade, eu tava sozinha aqui em Fortaleza e... quis casar porque era mais fácil pra mim, era melhor pra mim.”</p><p>Outros autores falam nas causas da codependência, embora de forma não tão profunda. Stemateas (2010), atribui a causa do problema à manipulação sofrida na auto-estima, fazendo com que as pessoas não se sintam completas e capazes de alcançar o que se propoem, desenvolvendo o “apego emocional tóxico”. (p. 49) Para o autor, “sempre que há abandono, haverá necessidade de depender das pessoas.” (p. 49). Ele atesta que costuma ver este tipo de conduta em pessoas que vieram de famílias onde havia relacionamentos viciados em violência, romance, sexo, onde havia abuso e assédio moral e em pessoas que foram desvalorizadas na infância.</p><p>Silva (2008), fala no surgimento da codependência em crianças sobrecarregadas, envolvidas nos problemas dos pais, que terminam por sentir-se responsáveis por eles, e criando um descaso por si mesmas. Uma criança nestas condições tenderá à busca de resgate do amor negado na infância, apegando-se excessivamente em suas relações. R, um de nossos entrevistados, falou sobre essa visão de ambientes abusivos:</p><p>“R: Eu não tenho codependência em relação a uma pessoa, porque geralmente o termo, você deve saber que o termo codependência surgiu de pessoas que conviviam com alcoólicos e drogadictos, né, e que essas pessoas elas, elas acabavam desenvolvendo uma espécie de doença emocional pra ten... pra se adaptar a... a conviver naquele ambiente abusivo. Só que se constatou que às vezes a pessoa, ela não vive num ambiente com um alcoólico, mas o ambiente do lar, ou o ambiente na igreja ou o ambiente no trabalho, o... ela... a convivência com outras pessoas, a influência faz com que a pessoa desenvolva alguns, algum desses traços, alguma dessas características, e geralmente eu acredito que tá relacionado a uma maneira de se tentar sobreviver a um ambiente abusivo, a um ambiente aonde há instabilidade, e a pessoa ela acaba desenvolvendo, alguns desses traços que... que podem ser diferentes de pessoa pra pessoa. Podem ter pessoas que tem traços de codependência e a pessoa que tem o traço bem diferentes, mas têm algo em comum, né, então, é... mais ou menos isso.”</p><p>E falando sobre o ambiente que o afetou em particular:</p><p>“R: Honestamente, a igreja. A igreja que eu participava. Por que era uma igreja que... é... eu sei que são, são servos de Deus, são pessoas zelosas, mas era um ambiente em que se di... se dizia sempre sim, era um ambiente em que não se podia discordar da liderança, discor... discordar da liderança era discordar de Deus, é... era... um ambiente em que... em alguns aspectos eu precisava estar sempre tendo que corresponder às expectativas, então, pelo menos em relação a mim, né, aos meus traços assim que eu desenvolvi, mas que eu também, na verdade talvez eu, eu já tivesse um pouco disso, eu reconheço, mas... serviu pra exacerbar.”</p><p>E com relação à própria família...</p><p>“R: [...] eu pelo menos percebo que os meus pais, eles não me deram limites, isso foi muito ruim, na minha adolescência. Na minha infância eu tive limites, mas na minha adolescência eu não tive limites e isso me fez caminhar em direção à droga, né, das convivências né, acabei sendo influenciado, e ... o meu pai particularmente ele é um cara que... super prestativo, e que muitas vezes faz as coisas por mim. Paga uma conta por mim, vai fazer, resolve um problema que não precisaria resolver, resolve um problema dos outros, ele tem aquele, aquele lado da codependência que é o salvador, né, é o salvador, e... aquele cara super ajudador, e que isso acaba atrapalhando, acaba atrapalhando, porque... ele passa a não ter um limite saudável. Esse é um aspecto que eu vejo no meu pai, que é esse lado de querer resolver o problema dos outros. Em alguns, em alguns momentos, né. Eu não culpo ele, foi algo que ele aprendeu que ele foi repassando, e ele é um cara muito auto-suficiente, um cara que resolve mesmo e tudo e que vai fazendo as coisas, acabou extrapolando os limites dele. Eu acredito que eu peguei um pouco dele disso esse negócio de querer ajudar os outros, e às vezes até ajudar demais, além da conta, e isso é negativo.”</p><p>Em um estudo com mulheres codependentes, estão listados também a convivência com modelos disfuncionais no relacionamento parental, durante a fase de desenvolvimento da personalidade, principalmente quando houve negligência com a criança, privação afetiva. (NOGUEIRA e HENNING-GERONASSO, 2010). Elas acreditam que estes padrões de comportamento são transmitidos pelas gerações, pois são aprendidos e repetidos, assim como acontece nas relações funcionais. Citando Rosset (2003), as autoras colocam que um dos processos mais difíceis e importantes está justamente em aprender a pertencer e separar-se, e a codependência é uma dificuldade de relacionar-se justamente nesta questão. Elas ainda enquadram</p><p>nas categorias geradoras do problema, não apenas pais que abandonam, mas também pais e avós superprotetores,“que não permitem nos filhos o erro e a autonomia, e que não possuem limites estabelecidos.” (p. 19). U, uma de nossas entrevistadas, confirma que o desequilíbrio na relação parental, ainda que não seja proposital, ou conte com esforço do outro cônjuge, compromete na formação de um codependente:</p><p>“U: Primeiramente eu fui pro grupo de... eu fui pro grupo de traumas emocionais. Traumas emocionais, porque até aí eu achava que eu tinha traumas emocionais. Eu associava esses traumas à morte do meu pai, né, que foi assassino, e tudo, eu achava que eu tinha esses problemas todos, eu tava querendo descobrir porque que eu era do jeito que eu era e eu, eu queria atribuir essas coisas à minha criação, à morte do meu pai, mas aí depois eu vi que, hoje eu vejo que a minha criação foi ótima, entendeu? Meu pai morreu mas minha mãe soube criar a gente muito bem, muito bem mesmo, e o, e aí, o problema foi esse, eu fiquei realmente com uma carência do meu pai e aí eu fui querer transferir essa carência, eu acho que eu já levei essa carência pro meu casamento e deu a confusão que deu.”</p><p>A confirmação da causa do problema se dá novamente no trabalho de Humberg e Cohen. Citando Frank e Golden (1992), explicam que a doença se origina na primeira infância, “na época em que as pessoas não aprendem a entrar em relações de dependência, e muitos co-dependentes são filhos de pais negligentes, abusadores ou dependentes.” (FRANK e GOLDEN apud. HUMBERG e COHEN p. 4). Eles citam também Winnicott (1980), e o conceito do falso self, onde, se a mãe não conseguir reforçar o ego do bebê, este desenvolverá o estágio inicial do falso self que é de submissão, pois a mãe tem inabilidade de sentir as necessidades do bebê. Para Winnicott a codependência parece ter início neste ponto, pois o bebê faz o gesto da mãe como se fosse seu para agradá-la, e mais tarde, fará isso com relação às outras pessoas. Citam ainda Bleger (1978), que enfatiza a importância do processo de dessimbiotização da mãe, pois, se os conteúdos de um e de outro ficarem confusos, a criança usará mecanismos projetivos, ou seja, responsabilizará o outro por aquilo que não pode aceitar em si mesma, o que gera um relacionamento de profunda dependência.</p><p>France (2008) Atribui as causas da codependência a perfis familiares, onde há</p><p>“[...] vínculos de dependência, indefinição hierárquica, ausência de limites. [...] as famílias com essa problemática são aquelas em que não existe diálogo, cujo pai é ausente/omisso, não assume responsabilidades pela educação dos filhos, e cuja mãe é superprotetora, controladora e hiperfuncionante. Famílias que não fornecem um conjunto de regras de conduta social e negligenciam necessidades básicas (higiene, alimentação, educação, saúde). Crianças que não tiveram suas necessidades básicas supridas não se sentem dignas de afeto e temem o abandono – para evitá-lo, quando adultas, cuidam compulsivamente dos outros. No extremos oposto, as famílias que protegem excessivamente os filhos, não lhes permitindo enfrentar as consequências do próprio comportamento e fazer suas próprias escolhas. A superproteção dos pais retarda o desenvolvimento da autonomia e do interesse dos filhos por atividades extrafamiliares. Esses pais com frequência apresentam muita intimidade com os filhos, fazendo deles seus confidentes e compartilhando segredos que estão além de seu nível de entendimento. Ausência de hierarquia e excesso de intimidade são atitudes abusivas.” (FRANCE, 2008 p. 30)</p><p>Podemos constatar mais uma vez a referência a lares disfuncionais, falta de delimitações saudáveis e atitudes abusivas na infância.</p><p>Por fim, temos a contribuição de Beattie (2011), que acredita que a codependência pode surgir na infância, mas pode também ser aprendida mais tarde na vida. Uma das causas à qual ela atribui esse aprendizado, e a compreensão a respeito da religião, inclusive através do ensinamento de comportamentos codependentes a mulheres, como se fossem características femininas desejáveis. A autora, que se inclui no rol dos atingidos pelo mal da codependência, defende que a maioria das pessoas que sofrem com ela, comportam-se assim por necessidade de auto-proteção, para sobreviver emocional, mental e por vezes fisicamente. A necessidade de conviver com ambientes hostis e profundamente ultrajantes, leva estas pessoas a agirem da melhor forma que podem, infelizmente, através da codependência, que muitas vezes vira-se contra a própria pessoa e torna-se autodestrutiva. Isso aconteceu com o entrevistado R, no ambiente religioso:</p><p>“R: Porque eu acabei desenvolvendo algumas características ruins, porque... como eu tinha sede de aprovação, então eu tava sempre disponível na igreja, e aquilo ali era um... era uma forma de eu me sentir valorizado. Era fazendo as coisas, era recebendo o elogio das pessoas... ‘ah, como o R. é um cara espiritual, como o R. é um cara... dedicado...’, isso tin... tinha a ver também com a minha insegurança, né, a minha insegurança, o sentimento de baixa-estima, mas eu acredito que dentro daquela realidade, e que eu precisava tem... sempre tá bem, s... precisava s... queria sempre me vender de perfeito, tinha esse perfeccionismo, é... e... e isso foi ruim pra mim porque eu acabei desenvolvendo uma hipocrisia né, eu viv... comec... eu percebo que eu comec... criei um personagem...que queria agradar a tudo e a todos, que queria receber a aprovação de todo mundo, que queria dar um testemunho perfeito pra todas as pessoas... Então eu acabei desenvolvendo este lado; pelo menos pra mim eu percebo que... era sempre de fazer, ou ter que dar alguma coisa ou ter que ser voluntário, ou ter que tá sempre agradando as pessoas da igreja, o pastor... e sempre bem, eu não podia tá nunca mal, tinha que tá sempre... é... então eu tinha esse vício de agradar; esse vício de ser aceito, né, e... era muito ruim isso porque, eu acabei me tornando um cara artificial, acabei me tornando um mascarado; acabei usando uma máscara pra tentar viver uma pessoa idealizada e não uma pessoa real.”</p><p>Zampieri (2004) aposta em todas as formas possíveis de prevenção, como sendo importantes. Sociodrama da codependência, grupos de auto-ajuda preventivos ou de recuperação, que funcionam geralmente em caráter autônomo e têm se proliferado e crescido em número nos últimos anos. “Como parte da responsabilidade social, toda prevenção parece pouca, seja ou não governamental ou religiosa.”(p. 234). A autora tem uma visão sistêmica da sociedade, e isto aponta para mais um motivo importante no estudo e trabalho preventivo: quando mais aumentam os dependentes (químicos ou emocionais), mais aumentam os codependentes, afinal, estamos todos interligados numa rede social. A família que apresenta estrutura rígida, terá dificuldades inclusive de permitir a reinserção do membro dependente na sociedade, procurando manter as funções do padrão dependência-codependência, como que predestinando este membro a manter seu papel, impedindo-o de crescer e alcançar liberdade e autonomia. Além disso, os padrões descritos como codependentes servem de ambientes propícios, facilitadores “para o desenvolvimento do Transtorno da Conduta, bem como para o abuso de substância, como gênese desses e possivelmente outros transtornos, [...] pois a co-dependência guarda estreita relação com sistemas rígidos e transferenciados.” (ZAMPIERI, 2004 p. 271). R nos fala um pouco sobre outras dependências que são geradas pela codependência, que ele observa frequentando grupos de apoio:</p><p>“R: Como eu disse, eu não sou codependente de uma determinada pessoa porque geralmente o codependente ele é dependente, codependente de alguém. Ele é codependente da namorada, ou ela é codepen... codependente do esposo, ou ele é codependente do patrão ou ela é codependente... do filho, ou da filha, então, é muito comum por exemplo, eu não... eu não sei explicar esse fenômeno, mas é comum as pessoas que... terem... existem comedores compulsivos, existem alcoólicos</p><p>e existem... nar... narcóticos, é... pessoas que usam drogas, que descobrem que... que são codependentes. Por exemplo no CODA há pessoas que falam assim: não, eu tenho problema com álcool, eu tenho problema com droga, eu sou comedora compulsiva anônima, mas o problema maior é a codependência. Tem companheiros por exemplo que falam, reconhecem que a... ‘eu fui alcoólico durante muitos anos, mas eu sei que meu problema maior é meu problema de codependência emocional. É isso, e isso é curioso, que há uma probabilidade maior. Eu acredito que certas vulnerabilidades. O problema emocional acabam acarretando outras vulnerabilidades. O, o problema da adicção, também abre uma brecha, uma ferida, do lado emocional.”</p><p>4.2 CODEPENDÊNCIA: O QUE É E COMO SE MANIFESTA</p><p>Assim como existem muitas atribuições às causas, existem também diversas descrições de como é a codependência, quais são os sintomas, características, como são os relacionamentos. Comecemos pela descrição de Stemateas (2010). Para o autor, o codependente é uma pessoa que vive se agredindo e desqualificando porque possui a falsa crença de que o outro é mais importante que ela própria. Tem muitos medos, frustrações, e não se imagina vivendo sem a outra pessoa, à qual outorgou “o direito de determinar sua existência. Certamente, com o tempo, costuma se converter em uma viciada em gente.” (p.49). Stemateas (2010) explica que o codependente entrega ao outro o controle de sua vida, e deposita sobre o outro, expectativas demais. Submete-se incondicionalmente às avaliações e críticas dos outros, e por ter medo de enfrentar o mundo por si mesmo, agarra-se a outra pessoa como um “salva-vidas ou muleta.” É uma pessoa insegura, controladora e duvida de suas capacidades. Segundo o autor, o codependente pode apegar-se não só a pessoas, mas a “lugares, circunstâncias, acontecimentos, crenças ou costumes. Cada um deles funcionará como uma muleta interior. O problema não é o objeto em si ao qual você se apega, ou sente que quer controlar, mas a sua mente.” (p. 53). O entrevistado R, concorda:</p><p>“R: Por exemplo, agradar todas as pessoas, uma característica que eu acabei desenvolvendo, é... me preocupar mais com o que as outras pessoas pensavam de mim do que eu mesmo pensava de... a respei... de mim mesmo, a respeito de mim mesmo, é... Pra, pra eu ter, me sentir valorizado eu tinha que tá fazendo as coisas ou tendo que tá oferecendo alguma coisa, o meu valor tava relacionado não ao que eu era, mas o que eu fazia, ou o que eu, ou o que eu dava. [...] Então eu acredito que a codependência, ela... se eu puder, se eu puder definir, seria... uma pessoa que tem baixa-estima, uma pessoa que tem experiências em ambientes abusivos, e que tentou de alguma forma se adaptar àquela situação... e que ela busca o valor e a sua validação no outro, mais do que em si mesmo, na sua... na sua própria consciência. Um exemplo, um exemplo que é comum: o, o... se a pessoa ela, ela tá se sentindo, se a pessoa ela tá... chega num ambiente e se ela sente que não está sendo bem recebida, ou ela sente que... o ambiente tá digamos... tenso ou deprimido, ela tende a se contaminar, a pessoa; a pessoa que tem algum traço de codependência, porque ela, ela, digamos ela, o termômetro dela são as outras pessoas. Ela não consegue manter uma temperatura em si mesmo, ela sempre é influenciada pelas reações dos outros, pelas atitudes dos outros, então, a recuperação que eu vejo é isso, é a pess... é começar a entender meu, meu próprio auto-valor, começar a entender as minhas escolhas, me desligar.”</p><p>Humberg (2003), exatamente pela abrangência do termo e dificuldade em definir a codependência, preferiu utilizar o termo “dependência do vínculo” para definir a relação que “não é caracterizada só por cuidar. Cuidar pode ser bom para os dois, todavia o cuidar na dependência do vínculo é necessidade imperativa, não escolha; é forma de controle de si, e do outro.” (p. 22) A autora quis tirar o prefixo “co”, visto que a dependência é da pessoa, e não do outro. Humberg não restringe seu estudo só a mulheres ou familiares de dependentes, e acredita que existem casais em que nenhum dos dois tem envolvimento com drogas, mas são ambos frágeis e mutuamente dependentes emocionalmente “como se um fosse a droga do outro.” (p. 24). Em outro estudo, Humberg e Cohen esclerecem que além de problemas emocionais interpessoais, muitos codependentes sofrem de compulsões por jogo, comida, gastos financeiros, o que reforça a ideia de que a codependência é uma forma também de dependência. A entrevistada U, resume sua definição, e mostra como a codependência lhe afeta pessoalemente:</p><p>“U: Eu aprendi que é a inabilidade de manter relacionamentos saudáveis. É isso. [...] eu culpava meu esposo por tudo de errado que eu tinha feito. Eu culpava ele por não ter voltado a estudar, culpava ele por não ter cuidado de mim, culpava ele por ele não ter... feito os aniversários dos meus filhos, todos. Na verdade, a culpa foi minha. Isso que foi muito legal ter descoberto, como codependente, né, porque a culpa de tudo foi a minha impotência, entendeu. Eu não tinha, eu não tinha o cont... é... é, autonomia pra real... realizar nada se num, se num tivesse aprovação dele, ou da minha mãe, ou, ou de alguém assim, né, se alguém falasse alguma coisa eu já dava pra trás, assim, não, não ia levar nada pra frente. [...] Bagunça porque quando eu, eu era fora de mim, né, não tinha identidade, que eu passei muito tempo assim, eu bagunçava com a vida do J.(marido), bagunçava mesmo assim, uma coisa normal, pra mim era normal, pra mim era a coisa mais natural do mundo eu en... pegar a senha dele, ver os emails dele tudinho, às vezes até apagar alguns que eu não queria que ele visse, eu pegar a carteira dele, eu pegar o telefone que ele fez tudinho, as ligaçao que ele fez tudinho, às vezes ligava pra saber quem era, isso aí é muito feio, né. E isso aí foi demais, eu fiz muuuito isso.”</p><p>France (2008), reconhece que as experiências de cada pessoa codependente sejam únicas, geradas na junção de seu contexto familiar com a personalidade, porém destaca um ponto em comum que aparece em todas as histórias de codependentes:</p><p>“a influência dos outros sobre o comportamento do codependente e a maneiras como o codependente tenta influenciar os outros. [...] Em essência, os co-dependentes são muito sensíveis aos problemas alheios, dizem sim quando querem dizer não, guardam o que sentem para não ferir os sentimentos alheios, preferindo ferir a si mesmos. Essas pessoas parecem ser delicadas e prestativas, ‘tentam ajudar em nome do amor’. Porém um exame mais minucioso, revela que elas têm enorme necessidade de controlar e manipular o outro e fazer o que querem. [...] Parecem fortes mas se sentem indefesos. Parecem controladores mas na verdade são controlados pelos vícios e comportamentos de outras pessoas.” (p. 29)</p><p>Nossa entrevistada C, fala sobre sua definição e experiência com a codependência:</p><p>“C: o que eu achava que era virtude do meu caráter né, o fato de ser perfeccionista, organizada, con... é, é, líder, né, é s... é, eram virtudes do meu caráter e não sintomas de uma doença. Então eu realmente busquei ajuda porque eu não tinha mais o que fazer, a minha vida ficou totalmente desorientada, as coisas foram, é... diretamente com relação ao meu casamento eu perdi o controle total do que, do que... do que eu estava fazendo dentro do meu casamento, e... não tinha alternativa, eu tinha que buscar ajuda, realmente. [...] Codependência emocional pra mim é uma doença, é... silenciosa, é uma doença que... hmm, é mascarada, eu não... como eu disse eu não conhecia essa doença, né e eu defino a, a codependência como um comportamento emocional disfuncional, ligada ao ativismo e ao comportamento da sociedade, eu acho que a codependência é uma doença nova, né, em termos de mundo, por conta da disfunção das famílias dentro da sociedade. [...] Eu não sabia dizer não nunca, eu fazia tudo pra agradar as outras pessoas, eu não sabia que eu estava fazendo isso pra agradar, um exemplo: é... eu tava,</p><p>eu, ía receber pessoas na minha casa, eu gosto muito de cozinhar e eu preparava a melhor comida que eu tinha, não é porque eu queria fazer aquela comida, é porque eu queria agradar as pessoas que estavam vindo pra minha casa. Então isso era em todos os aspectos, eu fazia no meu trabalho pra ser a melhor funcionária, fazia isso na escola porque quando eu comecei a estudar a codependência eu percebi que eu já tinha esse comportamento desde a minha adolescência, é... mais ou menos entre 10 e 12 anos foi quando começou o processo de codependência, e a, a... assim, eu... todas as... a, o, o... a... necessidade de controlar, de chamar a atenção, de dis... ser a melhor, era em busca de aceitação, inclusive me submetendo a abusos emocionais, sem perceber. Eu não sabia que eu estava sendo abusada emocionalmente dentro do relacionamento, pra não perder aquela pessoa, pra não ficar só. Na realidade eu tinha medo de ficar só, e medo de ser vencida naquela situação, eu não podia ser vencida, então eu tinha que, que fechar a sit... a situação com chave de ouro e do meu jeito, da forma que eu achava que tinha que ser, por codependência. Então eu não dizia não nunca, eu ia no limite do meu corpo, é, uma ferramenta que eu usava também pra mascarar a... a... o, o sentimento, era o ativismo, então eu me envolvia com tudo, eu trabalhava até 18 horas por dia pra cansar o meu corpo, e eu não olhar as coisas que eu estava perdendo o controle delas.”</p><p>Mariano (2008), na tentativa de definir melhor os comportamentos codependentes, divide-o em certos padrões de ação. O Salvador ou consertador, depende do comportamento de ‘salvar vítimas’, ajudando pessoas que não se responsabilizam por suas vidas. O Agradador sempre se acha inoportuno ou impróprio, tentando agradar o tempo todo, pois não acredita que possa ser apreciado pelas pessoas que convive devido à sua baixa auto-estima. O Inadequado ou perdedor também se sente ‘errado ou defeituoso’, mas em lugar de tentar agradar, se envolve em situações difíceis ou desastrosas para confirmar o papel de perdedor. O Perfeccionista só acredita que pode ser amado se for perfeito. É muito crítico e severo com os outros e consigo mesmo. O Superempreendedor é o ‘herói da família’. Encobre as dificuldades reais através de grandes feitos, escondendo-se atrás do sucesso. É compulsivo por trabalho. O Narcisista é muito inseguro e tem baixa auto-estima, mas mascara com uma imagem de autoconfiança, e têm grande capacidade de manipular. Precisam ser o centro das atenções e não aceitam críticas e questionamentos.</p><p>Mellody (1995), lista cinco sintomas nucleares da codependência. O primeiro é “A dificuldade de vivenciar níveis adequados de auto-estima”, variando entre os extremos da auto-estima baixa ou inexistente, se colocando abaixo das outras pessoas, ou sendo arrogantes e sentindo-se grandiosos, superiores aos outros. O segundo são as “Dificuldades em estabelecer limites funcionais”, permitindo que as pessoas sejam abusivas e invasivas consigo, fazendo o mesmo com os outros, perdendo o senso de quem ela realmente é. A autora coloca as pessoas que transgridem limites como infratoras, tal qual uma pessoa fisicamente violenta ou assediador sexual. O terceiro sintoma é a “Dificuldade em admitir nossa realidade”. Não conseguem ver com precisão e realidade de como é seu corpo e como funciona, têm dificuldade em detectar quais são seus próprios pensamentos, expressá-los, e interpretam os pensamentos alheios de forma tendenciosa, sentem dificuldade em saber o que sentem, ou são oprimidos pelas próprias emoções, e têm dificuldade em compreender os próprios comportamentos, e, quando têm consciência deles, têm muita dificuldade em admití-los e assumir o que causaram a outros. O quarto é a “Dificuldade em reconhecer e satisfazer nossas próprias necessidades e desejos”. Mellody explica que existem desejos individuais e necessidades básicas que são de responsabilidade pessoal satisfazer, ou detectar e pedir ajuda quando realmente necessário. Codependentes tendem a responsabilizar os outros por satisfazê-los, ou procuram satisfazer todos os desejos e necessidades dos outros em detrimento dos seus. Esta categoria, a autora ainda subdivide em outras quatro, que são: pessoas excessivamente dependentes, que conhecem suas necessidades e desejos e ficam aguardando que outros as satisfaçam. Pessoas antidependentes que conhecem suas necessidades e desejos e tentam suprir-se de tudo sozinhos, para não se tornarem vulneráveis pedindo ajuda. Pessoas que não têm desejos nem necessidades, ou seja, como todas as pessoas, as possuem, porém, não têm consciência deles. Pessoas que confundem desejos com necessidades, sabem e buscam o que querem, mas não têm consciência clara do que realmente precisam, tendendo a tentar satisfazer necessidades com objetos de desejo. Aqui existem vários padrões e combinações de comportamento. E o quinto sintoma nuclear é a “Dificuldade em experimentar e expressar moderadamente nossa realidade”. Para Mellody este talvez seja o sintoma mais fácil de ser visto pelas outras pessoas, pois não têm moderação, comportando-se nos extremos de ligação ou desligamento total. A moderação lhe parece insuficiente, precisa agir com excesso. Isso se reflete nas quatro áreas da realidade. No corpo, vestindo-se de forma a esconder-se completamente ou camuflar-se, ou, no outro extremo, sendo totalmente chamativos e extravagantes. Esta faceta também se manifesta no corpo, na magreza ou obesidade, ou excesso de asseio ou desleixo. No âmbito dos pensamentos, é preto ou branco, certo ou errado. Não lidam bem com ‘áreas cinzas’. Não são abertos a opções e acham que só existe uma resposta certa. Nas emoções, há grande dificuldade em lidar com sentimentos e expressá-los. As emoções são poucas ou inexistentes, ou então, avassaladoras, muito angustiantes. E por fim, no comportamento há também o extremismo, confiando em todos ou em ninguém, tocando e sendo tocado por todos, ou afastando-se de todos. Fica bastante claro no pensamento de Mellody, a grande dificuldade que o codependente encontra para conduzir-se equilibradamente, alternando-se entre extremos em todas as áreas, e para ela também, vários padrões podem ocorrer, de acordo com as combinações de comportamentos dados pela história de vida e pelo ambiente em que cada um convive. Em outra obra, Mellody (1992) fala ainda em outros cinco sintomas secundários, que são controle negativo, procurando dizer aos outros como devem ser e ouvir dos outros como eles mesmos devem ser, ressentimento, arma fútil de autoproteção utilizada pelos codependentes que os atrasa, pois procuram culpar os outros pela própria incapacidade de proteger-se, disparidade espiritual, tornando outra pessoa seu ‘Poder Maior’ através de ódio, medo ou adoração, vícios, doença física ou mental, procurando fazer com que outra pessoa, hábito ou substância preencha seu senso de adequação e dificuldade com intimidade lidando com as pessoas de forma superficial, ou irreal, já que têm dificuldade de saber quem são eles próprios. Mellody (1992) alerta para um aspecto extremamente importante: nossa cultura considera o comportamento codependente como “amor verdadeiro”. Podemos perceber isso, por exemplo, ao ouvirmos as letras de nossas músicas românticas, quando um amante declara que não pode viver sem o outro, que a vida perde o sentido, se torna vazia. A autora diz que o que a cultura chama de paixão e amor são na verdade traduzidos em intensidade dos sentimentos, e que são chamados de “normais” porque muitas pessoas passam pelo mesmo processo, mas para a ela, embora um relacionamento baseado em dependência seja extremamente comum, não é sadio. “Tais comportamentos foram projetados para descobrir maneiras de forçar seu parceiro a realizar o que você quer [...]”. (p. 144). Por fim, Mellody fala sobre sentimentos não atuais, vivenciados pelos codependentes. Ela explica que os codependentes podem “captar e carregar sentimentos dos outros” (p. 154) e que isso pode ocorrer com sentimentos que foram captados dos pais</p><p>durante a infância, projetando-os nos outros, já durante a fase adulta. “[...] os codependentes podem penetrar rapidamente no ego infantil quando algum acontecimento aciona uma realidade com a qual ele não lidou bem durante a infância.[...] nos sentimos pequenos, vulneráveis [...] e na defensiva.”(p. 155). Mellody traz grande contribuição à compreensão sobre a codependência, e, como outros autores da área, escreve em primeira pessoa, pois passou pessoalmente pelo processo de ser codependente e tratar-se disso. A entrevistada C falou um pouco mais sobre “sua” codependência:</p><p>“C: Antes eu não tinha autonomia, porque eu fazia o que os outros queria, queriam, eu não tinha liberdade porque a minha vida tava no controle de outras pessoas, as minhas emoções variavam de acordo com o comportamento das pessoas que estavam ao meu redor, é... a questão da responsabilidade, o que antes era responsabilidade, é... imposta por mim mesma em termos de nível de cobrança, [...]. A minha privacidade, eu não tinha privacidade, porque a minha agenda quem controlava eram as outras pessoas, né. Hoje eu, é... e assim, eu também invadia muito a privacidade dos outros, com a minha necessidade de controlar e dizer como é que tinha que fazer.”</p><p>Nogueira e Henning-Geronasso (2010), em um trabalho sobre mulheres codependentes na relação familiar, entendem que a dependência é um tipo de submissão, na qual uma pessoa passa a viver em função de outra. Para elas, a dependência emocional trata-se de “necessidades emocionais que não foram satisfeitas e que se projetam em relacionamentos”. (p. 2). Colocam também como uma necessidade excessiva de manter um relacionamento amoroso com outra pessoa. Características presentes nesses casos são baixa auto-estima, relacionamentos de casal desequilibrados por um comportamento de submissão, “idealização do outro, necessidade do outro, chegando a extremos parasitários do medo e da solidão.” (BLASCO, 2000 apud. NOGUEIRA e HENNING-GERONASSO, 2010). Elas colocam a relação de casal dependente como simbiótica, uma espécie de parasitismo. A necessidade do outro para ser feliz, como se a vida sem a outra pessoa se tornasse impossível. “Desenvolvem-se jogos em que o outro é forçado a adotar atitudes e ações que farão com que um padrão de convivência se cristalize, cronifique, por mais doentio que seja.” (p. 5). As autoras dizem que na simbiose, o outro é responsável por minha felicidade e bem estar, retirando de mim a chance de crescimento, enfrentamento de conflitos, tomadas de decisões. “Instalada e mantida, rouba das pessoas a autonomia, a independência e dificulta o crescimento individual.” (p. 5). Ocorre uma fusão emocional, onde a pessoa tem poucas convicções firmes, não toma decisões racionais, baseando-se em sentimentos, e busca acima de tudo, a aceitação por parte das outras pessoas.</p><p>Silva (2008), em sua pesquisa em um grupo de MADA (Mulheres que amam demais), explica que este termo, “amar demais” utilizado pelo grupo, é caracterizado pelo apego excessivo ao ‘amado’ e um sentimento de responsabilidade por ele, colocando estas mulheres em uma posição de “dependente do relacionamento e, assim, alienando sua condição individual.” (p. 27). Nestes grupo entende-se que este tipo de relação é destrutivo, causando dor e sofrimento tanto para quem “ama demais” como para quem é o alvo deste “amor”. Reconhecem-se ali dois perfis de comportamento: a mulher submissa, altruísta e carinhosa ao extremo, que faz tudo pelo amado, e a controladora que é autoritária, rígida e articuladora. “Essas mulheres gostam de jogar, sendo prestativas apenas para ‘dar o bote’”. (p. 30). O que existe de comum nos dois perfis é depender de seus relacionamentos e ter uma baixa auto-estima em decorrência de estar subordinada a um homem em quase tudo. De acordo com as entrevistas feitas, as pesquisadoras concluíram que “amar demais” – a codependência - é esquecer de si e dedicar-se a outro alguém, acreditando que todo esforço é pouco para agradá-lo, ter desejo de posse do outro, sentindo um ciúme sem controle, sentir-se inferior ao outro, idolatrando-o. Trata-se de “uma doença ‘cruel e sorrateira’, que tem tratamento, mas não tem plena cura; amar demais é amar-se de menos”. (p. 46).</p><p>Em seu livro, como uma pessoa que lutou com os males da codependência, Beattie (2010) faz algumas listas extensas de características dos codependentes, e explica ainda que não estão completas, pois as pessoas são todas diferentes, e segundo ela, não há um número certo de características que determinem se uma pessoa é ou não codependente. Sua tentativa é de “pintar um quadro”, e deixá-lo exposto para livre interpretação e identificação. Beattie (2011) esclarece que dois codependentes podem discordar quanto à definição da doença, mas que provavelmente, ao discutirem seus problemas, um saberá do que o outro está falando, e diz que cada um deve se examinar e decidir por si o que é ou não um problema. Ela considera que cada definição que é dada à codependência está parcialmente correta, e alerta para a quantidade alarmante de pessoas que podem sofrer com ela, já que 80 milhões de pessoas no mundo são dependentes químicas ou vivem com alguém que o é, portanto, sendo provavelmente codependentes. Quem convive de perto com pessoas problemáticas, porque ama, trabalha ou se importa com elas, pode ser codependente. Pessoas que têm distúrbios de alimentação ou são ligadas a quem os têm. “Se a preocupação se tornou obessão; se a compaixão de transformou em tomar conta; se está tomando conta de outras pessoas e não de si mesmo – você pode estar com problema de co-dependência.” (BEATTIE, 2011 p.68).</p><p>Com uma abordagem mais técnica, Zampieri (2004) explica que, numa visão sistêmica, nos desenvolvemos vivendo em “placentas” cada vez mais amplas, abrangentes. No relacionamento codependente, as pessoas envolvidas tendem a viverem confinadas na “placenta” gerada por elas. Relacionamentos fechados, confinados, que são pobres em trocas com outros sistemas. “Poderíamos afirmar que codependência é uma patologia da evolução nos ciclos naturais da vida, uma patologia que contraria o aumento na entropia.” (p. 33). Confirmando características citadas por todos os demais autores, Zampieri explica que, em busca da sensação de proteção, a pessoa vive um “vínculo compensatório”, dependendo sempre de outro, outorgando a este a responsabilidade de dar seus limites e valores. O codependente pode fazer diversos projetos ou realizar várias coisas que não têm a ver consigo, mas comuniquem algo ao ambiente e ainda auxiliem a evitar o contato com pensamentos ou circunstâncias angustiantes. Zampieri elucida que não existe no DSM-IV (1995) ou na CID-10 (1995), uma definição para a codependência, que talvez ainda não seja reconhecida como doença, e para isso, precisa ainda de muitos estudos, mas é considerada como construção social. Ela também cita várias definições de diversos autores, reconhecendo que não existe ainda uma definição científica clara e precisa para o termo. Para Zampieri, as características e a definição mais próxima da codependência seguem abaixo:</p><p>Codependência foi definida com mais frequência como uma condição emocional, psicológica e comportamental; como um padrão relacional e como um transtorno da não-identificação do self. Poder-se-iam levantar características sistêmicas mais amplas ou centradas no par, ou ainda, mais centradas na pessoa. As características cetradas na pessoa mais citadas, foram: dificuldade de identificar uma auto-imagem; dificuldade de expressar ou de identificar sentimentos; senso de vitimização; grande ansiedade acerca de intimidade. As características centradas na relação com um par mais citadas foram: atração por pessoas explosivas; controle compulsivo de outrem em relacionamentos; necessidade de ajudar acompanhada de sofrimento (ou assumir compromissos abandonados por outrem); preocupação constante com uma pessoa dependente (ou relação disfuncional com alguém exageradamente dependente) (ou necessidade de ter um propósito nos relacionamentos), expressa</p>

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