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<p>Teoria da reminiscência Metafísica Como é possível ultrapassar o mundo das apa- Entre as diversas contribuições de Aristóteles, rências ilusórias? Platão supõe que o puro espírito destacam-se os conceitos que explicam o "ser em já teria contemplado o mundo das ideias, mas tudo geral", área da filosofia que hoje chamamos de esquece quando se degrada ao se tornar prisionei- metafísica, embora ele próprio usasse a denomina- ro do corpo, considerado o "túmulo da alma". Pela ção filosofia primeira. teoria da reminiscência, Platão explica como os sen- tidos despertam na alma as lembranças adormecidas. Para saber mais Em outras palavras, conhecer é lembrar. o termo "metafísica" surgiu no século a.C., Esse assunto é abordado na obra Mênon. Nesse quando Andrônico de Rodes, ao classificar as obras diálogo, para ilustrar a teoria da reminiscência, o de Aristóteles, dispôs a obra de filosofia primei- personagem Sócrates chama um escravo e lhe pede ra após as obras de física: metà physis, ou seja, que examine algumas figuras sensíveis e, por meio "depois da física". Posteriormente, esse "depois", de perguntas, o estimula a "lembrar-se" das ideias puramente espacial, foi entendido como "além". e a descobrir uma verdade geométrica. por tratar de temas que transcendem a física, que estão além das questões relativas ao conhecimento Se retomarmos o que foi comentado a respeito do mundo sensível. dos pré-socráticos, podemos constatar que Platão procura superar a oposição entre o pensamento de Heráclito, que afirma a mutabilidade essencial do ser, Nas obras Metafísica e Sobre a alma, Aristóteles e o de Parmênides, para quem o ser é imóvel. Platão desenvolve sua teoria do conhecimento. o conhe- de resolve o problema com a teoria do mundo das ideias cimento sensível e o conhecimento racional são que se refere ao ser parmenídeo e do mundo dos distintos, mas ambos dependem um do outro. Para de fenômenos, referente ao devir heraclitiano. A filosofia Aristóteles, a origem das ideias é explicada pela platônica também foi estimulada pelos sofistas. No abstração, por meio da qual o intelecto, partindo esforço de se contrapor criticamente a eles, Platão das imagens sensíveis das coisas particulares (co- elaborou uma dialética que conduz à verdade. nhecimento sensível), elabora os conceitos univer- sais (conhecimento racional). Fica clara, portanto, 6 a oposição à teoria das ideias de Platão, pois, para Filosofia de Aristóteles Aristóteles, nada há no intelecto que não tenha do No século IV a.C., a reflexão filosófica já se encon- passado primeiro pelos sentidos. trava amadurecida e sistematizada nas suas diversas A filosofia primeira não é primeira na ordem do áreas com Aristóteles. Mais ainda, foi ele que estabele- conhecer, já que partimos do conhecimento sensí- ceu as linhas mestras da lógica, o principal instrumen- vel. Cabe a ela buscar as causas mais universais e, to do filosofar. Discutiu sobre os primeiros princípios, portanto, as mais distantes dos sentidos. Trata-se sobre as proposições e argumentos (indução, dedução da parte nuclear da filosofia, na qual se estuda "o e analogia). Por meio das regras do silogismo, indicou ser enquanto ser", isto é, o ser independentemente maneiras de evitar falácias e argumentos não de suas determinações particulares. É a metafísica que fornece a todas as outras ciências o fundamento 2 Mais referências à lógica no capítulo 8, "Lógica: comum, o objeto que elas investigam e os princípios aristotélica e simbólica". dos quais dependem. Quem é? Aristóteles (c. 384-322 a.C.) nasceu em Estagira, na Macedônia por isso, às vezes, recebe a designação de estagirita. Com 17 anos foi para Atenas estudar na Academia de Platão. A fidelidade ao mestre foi entremeada por críticas. Após a morte de Platão, em 347 a.C., viajou por diversos lugares e foi preceptor do jovem de 13 anos que se tornaria Alexandre, o Grande, da Macedônia. De volta a Atenas, fundou o Liceu, em 335 a.C., assim chamado por ser vizinho do templo de Apolo Lício. Segundo alguns, Aristóteles e os discípulos caminhavam pelo jardim Busto romano do do Liceu, por isso a filosofia aristotélica às vezes é designada peripatética (do grego peri, "à filósofo Aristóteles volta de". e patéo, "caminhar"). Em meados da Idade Média, seu pensamento ressurgiu com (século d.C.). vigor, adaptado às teses religiosas. Apesar das críticas sofridas a partir da Idade Moderna, per- Autoria manece até hoje como referência, sobretudo nas áreas de lógica, metafísica, política e ética. desconhecida. 112</p><p>Por exemplo, podemos dizer de uma coisa que ela A forma é "aquilo que faz que uma coisa seja o é diferente de todas as outras; ou semelhante a algu- que é". Nesse sentido, a forma é geral (o que faz mas; ou que pertence a determinado gênero ou espé- com que todo animal ou vegetal sejam o que são). cie; que é uma totalidade ou apenas uma parte; que é A forma é o princípio inteligível, a essência perfeita ou imperfeita; e assim por diante. Esses são mum aos indivíduos da mesma espécie pela qual conceitos ligados ao ser, e cabe à metafísica examiná- todos são o que são, enquanto a matéria é pura -los, ou seja, refletir sobre o ser e suas propriedades. passividade e contém a forma em potência. o movimento (devir) é explicado por meio das conhecimento pelas causas noções de substância e acidente, de matéria e for- Aristóteles define a ciência como conhecimento ma. Para Aristóteles, todo ser tende a tornar atual a verdadeiro, conhecimento pelas causas, por meio forma que tem em si como potência. Por exemplo, a do qual é possível superar os enganos da opinião e semente, quando enterrada, tende a se desenvolver compreender a natureza da mudança, do movimento. e a se transformar no carvalho que é em potência. Desse modo, recusa a teoria das ideias de Platão e Potência e ato sua interpretação radical sobre a oposição entre Ao explicitar os conceitos de matéria e forma, mundo sensível e mundo inteligível. é necessário recorrer aos de potência e ato, que Para entender a teoria aristotélica, vamos des- explicam como dois seres diferentes podem entrar crever três distinções fundamentais realizadas pelo em relação, atuando um sobre o outro. filósofo: matéria- de A potência é a capacidade de tornar-se alguma -forma; potência-ato. Esses conceitos, por sua vez, coisa, é aquilo que uma coisa poderá vir a ser. servem para compreender a teoria das quatro causas. Para se atualizar, todo ser precisa sofrer a ação Substância: essência e acidente de outro já em ato. conceito aristotélico de potência não se confunde com força: trata-se de Costuma-se dizer que Aristóteles "traz as ideias uma potencialidade, a ausência de perfeição em do céu à terra" porque, para rejeitar a teoria das um ser que pode vir a possuir essa perfeição. ideias de Platão, reuniu o mundo sensível e o inteli- gível no conceito de substância: cada ser que existe o ato é a essência (a forma) da coisa como é aqui é uma substância. A substância é "aquilo que é em e agora. do si mesmo", o suporte dos atributos. Esses atributos Não se trata de uma atualização de uma vez por podem ser essenciais ou acidentais: todas, porque cada ser continua em movimento, recebendo novas formas: os seres vivos nascem e a essência é o atributo que convém à substância de tal modo que, se lhe faltasse, a substância não morrem, o feto se transforma em recém-nascido, seria o que é; depois em criança e, na sequência, em adolescente, jovem, idoso. o acidente é o atributo que a substância pode ter ou não, sem deixar de ser o que é. Recapitulando os conceitos aristotélicos: todo ser é uma substância constituída de matéria e forma; a ma- Por exemplo: a substância individual "esta pes- téria é potência, o que tende a ser; a forma é o ato. soa" tem como características essenciais os atributos movimento é, portanto, a forma atualizando a matéria; da humanidade (Aristóteles diria que a racionalidade é a passagem da potência ao ato, do possível ao real. é a essência do ser humano). Os acidentais são, entre outros, ser gordo, velho ou belo, atributos que não Para refletir mudam o ser humano na sua essência. Até hoje costumamos nos referir às potencialida- Matéria e forma des de cada um de nós. Seguindo o critério aristotéli- Além dos conceitos de essência e acidente, reflita: quais são suas potencialidades essenciais? E as acidentais? Aristóteles recorre às noções de matéria e forma. Todo ser é constituído de matéria e forma, princí- pios indissociáveis. Teoria das quatro causas A matéria é o princípio indeterminado de que o As considerações anteriores tornam mais claro o mundo físico é composto, é "aquilo de que é feito princípio de causalidade, de acordo com Aristóteles: algo". Trata-se da matéria indeterminada. Quando "Tudo o que se move é necessariamente movido por nos referimos à matéria concreta, trata-se de outro". devir consiste na tendência que todo ser matéria segunda. tem de realizar a forma que lhe é própria. 113</p><p>Há quatro sentidos para causa: material, eficiente, Vale lembrar que, para os gregos antigos, a formal e final. matéria é eterna, portanto Deus não é criador. Por exemplo, numa estátua: Segundo Aristóteles, Deus não conhece nem ama a causa material é aquilo de que a coisa é feita (o os seres individualmente. Ele é puro pensamento, mármore); que pensa a si mesmo, é "pensamento de pensa- mento". Por isso a teologia aristotélica é filosófica, a causa eficiente é aquela que dá impulso ao não religiosa. movimento (o escultor que a modela); o Primeiro Motor Imóvel por não ser movido a causa formal é aquilo que a coisa tende a ser (a por nenhum outro é também um puro ato (sem forma que a estátua adquire); nenhuma potência). Segundo Aristóteles, Deus é a causa final é aquilo para o qual a coisa é feita Ato Puro, Ser Necessário, Causa Primeira de tudo (a finalidade de fazer a estátua: beleza, glória, o que existe. No entanto, se Aristóteles considera devoção religiosa etc.). Deus o Primeiro Motor Imóvel, como poderia Essas são as causas que explicam o movimento, algo? Porque Deus não é o Primeiro Motor como que para Aristóteles é eterno. causa eficiente, mas como causa final: Deus move por atração, ele tudo atrai, como "perfeição" que é. Crítica de Aristóteles aos antecessores Além da metafísica, Aristóteles estabeleceu os princípios da lógica formal. Com esses princípios de lógicos e os conceitos metafísicos, criticou os fi- lósofos que o antecederam, sobretudo Heráclito, de Parmênides e Platão. de Contra Heráclito, segundo o qual tudo está em constante movimento, Aristóteles demonstra que em toda transformação há algo que muda e algo que permanece; e, pelo princípio de contradição, que um ser não pode ser e não ser ao mesmo tempo. do Do mesmo modo critica Parmênides, por ter afirma- do que o ser é imóvel, reduzindo o movimento ao mundo sensível. Igualmente, rejeitou a teoria das ideias de Platão. Para Aristóteles, se o conhecimento se faz com Filosofia (1508), detalhe de afresco de Rafael Sanzio. Ao lado conceitos universais, esses mesmos conceitos são da Filosofia, anjos carregam tabuletas que lembram a base aplicados a cada coisa individualmente. Com isso, da ciência aristotélica: causarum cognitio (conhecimento não é preciso justificar a imobilidade do ser (como pelas causas). A tradução para o latim e os anjos indicam a releitura de Aristóteles levada a efeito pelos filósofos Parmênides) nem criar o mundo das essências imu- cristãos da Idade Média. táveis, como pretendeu Platão. Deus: Primeiro Motor Imóvel 7 Europa cristianizada: A descrição das relações entre as coisas leva ao fé e razão reconhecimento da existência de um ser superior e necessário, ou seja, Deus. Porque, se as coisas No período posterior à filosofia clássica, teve são contingentes pois não têm em si mesmas início o helenismo, que se caracterizou pela fusão a razão de sua existência -, é preciso concluir das culturas grega e oriental. Estendeu-se desde o que são produzidas por causas exteriores a elas. século III a.C. até o século III d.C. As principais ex- Ou seja, todo ser contingente foi produzido por pressões filosóficas foram o estoicismo, o epicurismo outro que também é contingente, e assim e o por diante. Para não in ao infinito na sequência de causas, é preciso admitir uma primeira causa, 3 por sua vez não causada, um ser necessário (e Mais referências sobre estoicismo, epicurismo e ceticismo no capítulo 16, "Teorias éticas: abordagem cronológica". não contingente). 114</p>

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