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<p>O Vale do Paraíba e o Império do Brasil</p><p>nos quadros da Segunda Escravidão</p><p>O Vale do Paraíba e o Império do Brasil</p><p>nos quadros da Segunda Escravidão</p><p>Mariana Muaze | Ricardo Salles Org.</p><p>2015</p><p>Viveiros de Castro Editora Ltda.</p><p>Rua Visconde de Pirajá, 580 – sl. 320 – Ipanema</p><p>Rio de Janeiro – rj – cep 22420-902</p><p>Tel. (21) 2540-0076</p><p>editora@7letras.com.br – www.7letras.com.br</p><p>© 2015 Mariana Muaze e Ricardo Salles</p><p>Este livro segue as normas do Acordo Ortográfico</p><p>da Língua Portuguesa de 1990, adotado no Brasil em 2009.</p><p>Coordenação Editorial</p><p>Isadora Travassos</p><p>Produção Editorial</p><p>Eduardo Süssekind</p><p>Rodrigo Fontoura</p><p>Victoria Rabello</p><p>Revisão</p><p>Carolina Lopes</p><p>Imagem da capa</p><p>Charles Ribeyrolles, Brazil Pittoresco</p><p>Sumário</p><p>Introdução 11</p><p>Parte I</p><p>interpretações e grandes questões</p><p>sobre a bacia do paraíba</p><p>O Vale do Paraíba escravista</p><p>e a formação do mercado mundial do café no século XIX 21</p><p>Rafael Marquese</p><p>Dale Tomich</p><p>Novas considerações sobre o Vale do Paraíba e</p><p>a dinâmica imperial 57</p><p>Mariana Muaze</p><p>A cartografia do poder senhorial:</p><p>cafeicultura, escravidão e formação</p><p>do Estado nacional brasileiro, 1822-1848 100</p><p>Rafael Marquese</p><p>Ricardo Salles</p><p>Vale expandido: contrabando negreiro, consenso</p><p>e regime representativo no Império do Brasil 130</p><p>Alain El Youssef</p><p>Bruno Fabris Estefanes</p><p>Tâmis Parron</p><p>Parte II</p><p>população e sociedade</p><p>O paradigma da extinção:</p><p>desaparecimento dos índios puris</p><p>em Campo Alegre, sul do Vale do Paraíba 159</p><p>Enio Sebastião Cardoso de Oliveira</p><p>cip-brasil. catalogação na publicação</p><p>sindicato nacional dos editores de livros, rj</p><p>V243</p><p>O Vale do Paraíba e o império do Brasil nos quadros da segunda escravidão / organização Mariana</p><p>Muaze, Ricardo Salles. - 1. ed. - Rio de Janeiro : 7Letras, 2015.</p><p>isbn 978-85-421-0368-7</p><p>1. Paraíba do Sul, Rio, Vale - História. 2. Escravidão - Brasil - História. I. Muaze, Mariana.</p><p>II. Salles, Ricardo.</p><p>15-26215 cdd: 981.5</p><p>cdu: 94(815)</p><p>Imagem da capa: Ribeyrolles, Charles, 1812-1860. Brazil Pittoresco: album de vistas, panoramas, mo-</p><p>numentos.... [gravura 18]. Disponível em: http://objdigital.bn.br/objdigital2/acervo_digital/div_icono-</p><p>grafia/icon1113654/icon1113654_20.jpg. Acesso em 18/9/2015. (Acervo: Fundação Biblioteca Nacional,</p><p>Brasil, impressa sob permissão)</p><p>Imagem da página 101: © Acervo Arquivo Nacional, ref: BR RJANRIO 4Y.0.MAP.50, impressa sob permissão.</p><p>Imagem da página 114: © Acervo Fundação Biblioteca Nacional, Brasil, impressa sob permissão.</p><p>Imagem da página 161: © Acervo Biblioteca Nacional de Portugal, impressa sob permissão.</p><p>ippc0</p><p>Realce</p><p>Da colonização do Vale à formação de uma família:</p><p>uma introdução à história dos Werneck</p><p>e suas estratégias matrimoniais 176</p><p>Lucas Gesta Palmares Munhoz de Paiva</p><p>A morte do barão de Guaribu.</p><p>Ou o fio da meada 197</p><p>Ricardo Salles</p><p>Magno Fonseca Borges</p><p>Suspeitos, transeuntes, impermanentes: personagens liminares</p><p>e a dinâmica social em um microcosmo do Império 242</p><p>Camilla Agostini</p><p>“Tirando leite de pedra”:</p><p>o tráfico africano estimado a partir de dados etários 259</p><p>Heitor P. de Moura Filho</p><p>A força da escravidão ao sul do Rio de Janeiro:</p><p>Os complexos de fazendas e a demografia escrava</p><p>no Vale cafeeiro na segunda metade do oitocentos 302</p><p>Thiago Campos</p><p>A formação da cafeicultura em Bananal, 1790-1830 328</p><p>Breno Aparecido Servidone Moreno</p><p>Laços cativos: uma análise demográfica da família escrava</p><p>no plantel de Luciano José de Almeida, Bananal 1854-1882 351</p><p>Camila dos Santos</p><p>O espaço disciplinar escravista das fazendas cafeeiras</p><p>e a resistência escrava: Vale do Paraíba, século XIX 371</p><p>Marco Aurélio dos Santos</p><p>Para matar a liberdade seria preciso fazer desaparecer</p><p>a humanidade: o jornal abolicionista 25 de Março</p><p>em Campos dos Goytacazes 392</p><p>Tanize do Couto Costa Monnerat</p><p>Parte III</p><p>capital, economia e finanças</p><p>Terra, comércio e comerciantes na vila cafeeira de Piraí 419</p><p>Vladimir Honorato de Paula</p><p>“Associação de capitalistas” ou “Associação de proprietários”:</p><p>o Banco Commercial e Agrícola no Império do Brasil,</p><p>um banco comercial e emissor no Vale do Paraíba (1858-1862) 436</p><p>Carlos Gabriel Guimarães</p><p>Modernidade, ordem e civilização: a companhia Estrada de Ferro</p><p>D. Pedro II no contexto da direção Saquarema 477</p><p>Magno Fonseca Borges</p><p>Pedro Eduardo Mesquita de Monteiro Marinho</p><p>Terras, escravos, açúcar, café, ferrovias e bancos</p><p>em Campos dos Goytacazes: o rol dos negócios de</p><p>Saturnino Braga no século XIX 501</p><p>Walter Luiz Carneiro de Mattos Pereira</p><p>Tortuosos caminhos: obras públicas provinciais e</p><p>o difícil escoamento das mercadorias de Cantagalo,</p><p>Campos dos Goytacazes e Macaé para o Rio de Janeiro</p><p>(século XIX) 524</p><p>Ana Lucia Nunes Penha</p><p>Crédito e finanças no desenvolvimento da economia cafeeira</p><p>em Vassouras, Vale do Paraíba fluminense, durante o século XIX 545</p><p>Rabib Floriano Antonio</p><p>Sobre os autores 571</p><p>Em homenagem a Barbara (in memoriam) e Stanley Stein.</p><p>11</p><p>Introdução</p><p>Uma ideia perpassa todos os capítulos dessa obra e preside sua elaboração:</p><p>a de que a região do Vale do Paraíba e de suas áreas adjacentes nas provín-</p><p>cias do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais, organizadas em torno</p><p>da escravidão, da grande propriedade rural, da produção e exportação do</p><p>café, foram centrais na conformação socioeconômica, política e cultural do</p><p>Império do Brasil. A ideia não é nova e na época mesmo já circulava o dito</p><p>de que “o Império é o café. E o café é o Vale”.</p><p>Do ponto de vista da historiografia, o café, a escravidão e o Vale cons-</p><p>tituíram-se, desde as décadas de 1920 e 1930, em foco de importantes tra-</p><p>balhos, dentre os quais se destaca a monumental História do café no Brasil,</p><p>de Afonso Taunay.1 Nos anos 1950, o assunto foi revisitado por Alberto</p><p>Lamego, logo seguido, em 1957, pelo clássico Vassouras, fruto das pesquisas</p><p>que Stanley Stein desenvolveu na região em fins dos anos 1940.2 O livro de</p><p>Stein, tratando da questão da grande propriedade rural exportadora e das</p><p>relações entre senhores e escravos por ela engendradas, permanece insu-</p><p>perável, ultrapassando todos os modismos historiográficos que se segui-</p><p>ram. Ele foi ainda inspiração direta para o trabalho de outro historiador</p><p>norte-americano, agora já um brasilianista, Warren Dean, com o seu Rio</p><p>Claro, publicado em inglês em 1976 e, no ano seguinte, em português, que</p><p>igualmente aborda os temas da monocultura de exportação, da grande pro-</p><p>priedade e da escravidão em uma região fronteiriça entre o velho e o novo</p><p>1 Em 1927, por ocasião da Exposição do Bicentenário do Café no Brasil, o periódico O Jornal, do Rio</p><p>de Janeiro, publicou um suplemento dedicado ao evento. Mais tarde, esse material foi reunido e</p><p>publicado em livro pelo Departamento Nacional do Café, com o título O café no segundo centenário</p><p>de sua introdução no Brasil, em dois volumes (Rio de Janeiro: Departamento Nacional do Café,</p><p>1934). Em 1929, por sua vez, Afonso d’Escragnolle Taunay iniciou a publicação, da História do café</p><p>no Brasil, em 11 volumes, que só se encerraria em 1941, também patrocinada pelo Departamento</p><p>Nacional do Café (Rio de Janeiro: Departamento Nacional do Café, 1929-1941).</p><p>2 LAMEGO, Alberto. O homem e a serra. Rio de Janeiro: Serviço Gráfico do Instituto Brasileiro</p><p>de Geografia e Estatística, 1950; STEIN, Stanley. Vassouras: a Brazilian coffee county, 1850-1900.</p><p>Cambridge, MA: Harvard University Press, 1957 (primeira edição brasileira, com o título Grandeza</p><p>e decadência do café no Vale do Paraíba. São Paulo: Brasiliense, 1961. Última edição brasileira com o</p><p>título Vassouras: um município brasileiro do café, 1850-1900. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1990).</p><p>12 13</p><p>oeste paulista.3 Finalmente, cabe destacar, para a década de 1960, os livros</p><p>de Emília Viotti da Costa, Da senzala à colônia, de 1966, que, tratando da</p><p>cafeicultura escravista brasileira, em especial em seu momento de crise,</p><p>não deixou de conferir importância ao Vale do Paraíba, e Homens livres na</p><p>ordem escravocrata, de Maria Sylvia Carvalho Franco,</p><p>imediato sobre a demanda de escravos: na década de 1800, desembarcaram</p><p>ali uma média anual de 10.000 cativos africanos. No decênio seguinte (1811-</p><p>1820), sob o novo regime de comércio, a cifra praticamente duplicou: cerca de</p><p>19.000 africanos aportaram anualmente como escravos no Rio de Janeiro.37</p><p>Parte desses escravos obtidos a baixo custo no trato atlântico foi destinada</p><p>às crescentes lavouras de café, cujos proprietários tinham à sua disposição,</p><p>no porto carioca e em seus satélites ao longo do litoral até Santos, todo um</p><p>sistema comercial (armazéns, casas mercantis etc) montado há tempos para</p><p>a exportação de açúcar, couros, algodão e outros gêneros.38</p><p>Os senhores de escravos que investiram em café na década de 1810 res-</p><p>ponderam claramente aos incentivos do mercado internacional. Afora uma</p><p>série de preços pagos diretamente aos produtores entre 1798 e 1830,39 temos</p><p>o registro qualitativo de Saint-Hilaire. Nos primeiros meses de 1822, ao per-</p><p>correr o Caminho Novo da Piedade, que cortava o Vale do Paraíba paulista</p><p>em direção à cidade do Rio de Janeiro, o naturalista francês anotou que “as</p><p>terras dos arredores de Taubaté são muito próprias à cultura da cana e do</p><p>café. Antigamente, era a cana o que mais se plantava, mas depois que o café</p><p>teve alta considerável, os agricultores só querem tratar de cafezais”. Mais</p><p>adiante, na altura de Areias, após entrevistar um senhor de escravos, escre-</p><p>veu: “segundo o que me informaram ele, o filho e outras pessoas, a cultura</p><p>do café é inteiramente nova nesta região e já enriqueceu muita gente”.40</p><p>36 Cf. LENHARO, Alcir. As tropas da moderação: o abastecimento da Corte na formação política do</p><p>Brasil, 1808-1842. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Trabalho e Emprego – Prefeitura do Rio</p><p>de Janeiro, 1992, p. 47-59.</p><p>37 Cf. FLORENTINO, Manolo Garcia. Em costas negras: uma história do tráfico atlântico de escravos</p><p>entre a África e o Rio de Janeiro (séculos XVIII e XIX). Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 1995. p. 74.</p><p>38 LUNA; KLEIN, 2005, p. 58-59.</p><p>39 Ibid., p. 87.</p><p>40 SAINT-HILAIRE, Auguste de. Segunda viagem do Rio de Janeiro a Minas Gerais e a São Paulo (1822).</p><p>São Paulo: Edusp; Belo Horizonte: Itatiaia, 1974. p. 78, 100-101.</p><p>A avaliação de Saint-Hilaire encontra respaldo nos dados da exporta-</p><p>ção brasileira. A média anual no período de 1797 a 1811 (refletindo o quadro</p><p>vigente antes da abertura dos portos) era de cerca de 400 toneladas métri-</p><p>cas. No quinquênio de 1812-1816, o impacto do intercâmbio direto com o</p><p>mercado mundial e seus preços em forte alta rapidamente se fez sentir: a</p><p>produção brasileira de café subiu para uma média anual de 1.500 t. No quin-</p><p>quênio seguinte (1817-1821), cresceu quatro vezes em relação ao lustro ante-</p><p>rior, pulando para 6.100 toneladas anuais. Nos anos da independência (1822-</p><p>1823), a produção dobrou, chegando a 13.500 t, o que igualava o montante</p><p>brasileiro ao que então se obtinha em Cuba. D. Pedro tinha razões de sobra</p><p>para inscrever o ramo de café no escudo de armas do Império recém-fun-</p><p>dado: se o valor total de sua exportação ainda não suplantara a do açúcar, o</p><p>crescimento que o artigo verificava desde 1812 muito prometia para breve.</p><p>O crescimento, de fato, se acelerou sobremaneira nos dez anos seguin-</p><p>tes, quando a produção quadruplicou, de 13.500, em 1821, para 67.000 t, em</p><p>1833. Essa cifra equivalia ao montante mundial total de 1790; o teto de Saint-</p><p>Domingue pré-revolução, até então inalcançável, era definitivamente coisa</p><p>do passado. No início da década de 1830, o Brasil reinava como o maior pro-</p><p>dutor mundial, bem à frente dos demais competidores (Cuba, Java, Jamaica,</p><p>Haiti). Como explicar o salto brasileiro da década de 1820, em uma conjun-</p><p>tura de queda acentuada dos preços internacionais? Os produtores deixa-</p><p>ram de reagir ao sistema de preços, guiando suas estratégias empresariais</p><p>pelo que vislumbravam em termos de ganhos sociais e simbólicos, como</p><p>argumenta João Fragoso? E por que essa produção se concentrou quase que</p><p>exclusivamente no Vale do Paraíba?</p><p>Para responder às primeiras perguntas, é importante ter em conta duas</p><p>especificidades do artigo. O hiato entre o plantio do arbusto e a venda de</p><p>grãos beneficiados no mercado é de, no mínimo, três anos, sendo que a</p><p>planta entra em produção plena somente com cinco anos de idade. Como</p><p>meio para contornar o problema, os fazendeiros adotaram a prática, desde</p><p>os primeiros anos da atividade no Brasil, de plantar milho e feijão entre as</p><p>fileiras de arbustos, com o duplo objetivo de garantir sombreamento para</p><p>os pés recém-plantados e manter a escravaria trabalhando de forma produ-</p><p>tiva no amanho de mantimentos. A oferta de mais produto como resposta</p><p>aos preços em alta em um determinado ano, portanto, só se faria sentir de</p><p>três a cinco anos depois. O outro dado importante, como bem ressalta Pedro</p><p>Carvalho de Mello, é o fato de os arbustos possuírem</p><p>38 39</p><p>uma característica de bens de capital, pois uma vez plantados, podem pro-</p><p>duzir frutos de café por muitos anos. [...] Não se podia, pois, abandonar a</p><p>cultura, sem que isso representasse graves perdas de capital, o que contras-</p><p>tava com o algodão e a cana-de-açúcar. Mesmo com os preços em baixa, os</p><p>fazendeiros continuavam a cuidar das árvores já plantadas, na expectativa de</p><p>aumentos futuros no preço do café.41</p><p>O que os preços da década de 1820 indicam? Os valores pagos ao café</p><p>em Nova Iorque – novo centro de distribuição mundial – caíram sensi-</p><p>velmente no período de 1823 a 1830, de 21 para 8 centavos de dólares por</p><p>libra.42 Todavia, devemos lembrar aqui um aspecto da crítica de Gorender</p><p>a Fragoso, a saber, o papel da desvalorização cambial na composição dos</p><p>preços efetivamente recebidos pelos produtores brasileiros.43 A queda dos</p><p>preços em dólares diminuiu de intensidade entre 1827 e 1830, com tendência</p><p>a se estabilizar em um patamar baixo (de 9 a 8 centavos de dólares), nos</p><p>exatos anos em que os fazendeiros brasileiros – conforme dados recolhi-</p><p>dos por Luna e Klein para o fundo Vale do Paraíba paulista44 – passaram</p><p>a ganhar mais em mil réis por unidade de produto; nesses anos, portanto,</p><p>a desvalorização cambial favoreceu claramente os exportadores. A série de</p><p>Luna e Klein se encerra em 1830; a de Nova Iorque, por outro lado, indica</p><p>alta de quase 30 % nos preços pagos em dólares entre 1830 e 1835. Os índices</p><p>das exportações brasileiras encontram notável correspondência com esses</p><p>preços: a produção cresceu sensivelmente nos anos de 1826 a 1828, fruto de</p><p>cafezais que foram plantados antes de 1823, quando os preços estavam em</p><p>alta; de 1828 a 1830 (cafezais plantados entre 1824 e 1826, preços externos e</p><p>internos em baixa), a produção estacionou em torno de 27.000 t; de 1831</p><p>a 1834 (cafezais plantados entre 1827 e 1830, preços externos estacionados,</p><p>mas os internos em alta), saltou de 32.940 t para 67.770 t.</p><p>Esses números dão a ver a pronta resposta dos produtores brasileiros ao</p><p>que sinalizava o mercado. No entanto, permanece o fato de que os preços a</p><p>eles pagos caíram efetivamente na década de 1820. Segundo Fragoso, “entre</p><p>1821 e 1833, a queda anual registrada (em mil réis) para o preço unitário do</p><p>41 MELLO, Pedro Carvalho de. A economia da escravidão nas fazendas de café: 1850-1888. Rio de</p><p>Janeiro: PNPE, 1982. v. 1 de 2, p. 12.</p><p>42 Cf. BACHA, Edmar; GREENHILL, Robert. 150 anos de café. Rio de Janeiro: Marcelino Martins & E.</p><p>Johnston, 1992. p. 333-4.</p><p>43 Cf. GORENDER, 1990, p. 82.</p><p>44 Cf. LUNA; KLEIN, 2005, p. 87.</p><p>café foi de – 2,07 %”.45 Falta examinar, então, quais as condições que per-</p><p>mitiram que os senhores de escravos brasileiros ofertassem cada vez mais</p><p>café no mercado mundial, a despeito da tendência acentuada de queda dos</p><p>valores recebidos por unidade de produto.</p><p>Aqui entra o papel do Vale do Paraíba como região nova no mercado</p><p>mundial do café. Já adiantamos que havia uma infraestrutura adequada</p><p>no centro-sul do Brasil em fins do século XVIII, como resultado das alte-</p><p>rações que a mineração trouxe para sua paisagem econômica. Vale reto-</p><p>mar dois desses pontos, a saber, a disponibilidade de terras e o sistema de</p><p>transporte. O Vale do Paraíba pode ser dividido em três sub-regiões: o alto</p><p>Paraíba, ocupado por terras das nascentes até a zona de Queluz e Resende,</p><p>na atual divisa dos estados de São Paulo e Rio de Janeiro; o médio Paraíba,</p><p>de Barra Mansa até a região de São Fidélis; o baixo Paraíba, que engloba as</p><p>terras deste ponto até a foz, correspondentes a grosso modo aos Campos dos</p><p>Goitacases. O primeiro trecho foi ocupado já no século XVII, como resul-</p><p>tado da expansão paulista em busca de índios; o terceiro trecho o foi desde</p><p>a segunda metade do século XVII, com a criação de gado e, posteriormente,</p><p>produção de açúcar.46 Pouco visitada no século XVII, na centúria seguinte a</p><p>sub-região do médio rio Paraíba teve sua ocupação bloqueada por conta da</p><p>política oficial portuguesa das áreas proibidas, adotada a partir da década</p><p>de 1730; a ordenação buscava “evitar o extravio de ouro ao impossibilitar</p><p>a abertura de novos caminhos e picadas nos matos em áreas onde inexis-</p><p>tiam registros, passagens e a vigilância das Patrulhas do Mato”.47 É certo que,</p><p>mesmo antes de sua revisão na década de 1780 (no contexto do reformismo</p><p>ilustrado), as terras a leste e oeste do Caminho Novo – ou Estrada Real –</p><p>foram exploradas por garimpeiros clandestinos e pequenos posseiros, mas</p><p>o povoamento sistemático foi barrado de forma eficaz.48 Como resultado</p><p>desta política, havia, no médio Paraíba de fins do século XVIII e inícios do</p><p>45 FRAGOSO, 1990, p. 506.</p><p>46 Ver, respectivamente, MONTEIRO, John Manuel. Negros da terra: índios e bandeirantes nas origens</p><p>de São Paulo. São Paulo: Companhia das Letras, 1994, p. 81-85; e FARIA, Sheila de Castro. A colônia</p><p>em movimento: fortuna e família no cotidiano colonial. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1998.</p><p>47 As palavras são de ANASTASIA, Carla Maria Junho. A geografia do crime: violência nas minas</p><p>setecentistas. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2005. p. 36.</p><p>48 Cf. STEIN, 1990, p. 31-34; MUNIZ, Célia Maria Loureiro. Os donos da terra: um estudo sobre a</p><p>estrutura fundiária do Vale do Paraíba Fluminense, século XIX. 1979. Dissertação (Mestrado em</p><p>História) – Instituto de Ciências Humanas E Filosofia, Universidade Federal Fluminense, Niterói,</p><p>1979. p. 51-53; MOTTA, Márcia Maria Menendes. Nas fronteiras do poder: conflito e direito à terra no</p><p>Brasil do século XIX. Rio de Janeiro: Vício de Leitura: APERJ, 1998. p. 34-40.</p><p>40 41</p><p>XIX, uma enorme quantidade de terras virgens, sem travas fundiárias, ple-</p><p>namente aptas em termos de altitude e clima à cafeicultura e distantes a</p><p>não mais de 150 quilômetros da miríade de ancoradouros naturais localiza-</p><p>dos ao sul do grande porto do Rio de Janeiro. Não havia competição entre</p><p>o açúcar e o café por essas terras, como ocorria em Cuba, e tampouco a</p><p>ausência de terras virgens como na Jamaica. Trata-se, enfim, de um espaço</p><p>aberto à montagem de fazendas com escala inédita de operação.</p><p>A produtividade dos plantios em terrenos de derrubadas, já consi-</p><p>derável em vista do húmus acumulado secularmente pela mata, era ainda</p><p>maior no Vale em decorrência do método de cultivo não sombreado dos</p><p>pés, quando em plena produção. Se, por um lado, os cafezais manejados</p><p>dessa forma exigiam capinas constantes, tinham rendimento oscilante de</p><p>uma safra a outra e seus grãos eram considerados de qualidade inferior,</p><p>por outro lado apresentavam produção inicial bem mais elevada.49 Os</p><p>registros disponíveis indicam que a produtividade dos pés de café culti-</p><p>vados no Vale do Paraíba caiu ao longo do século XIX, mas, para as pri-</p><p>meiras décadas, os números são bastante altos. Saint Hilaire anotou, no</p><p>relato citado, produção de 91 arrobas de café beneficiado por 1.000 pés, ao</p><p>passo que o padre João Joaquim Ferreira de Aguiar, no primeiro manual</p><p>agronômico que apresentou o saber elaborado no Vale do Paraíba, regis-</p><p>trou a produtividade de 100 arrobas por 1.000 pés na região de Valença.50</p><p>Para efeitos de comparação, vejam-se dados relativos a duas outras regiões.</p><p>Carlos Augusto Taunay, com base na observação dos cafezais da Tijuca</p><p>(RJ) em fins da década de 1820, apontou 20 arrobas por 1.000 pés.51 O censo</p><p>cubano de 1827, por sua vez, deu 27 arrobas de produção média por 1.000</p><p>pés plantados na ilha, número superior às 9,8 arrobas por 1.000 pés que o</p><p>agrônomo cubano Tranquilino Sandalio de Noa supunha como norma em</p><p>uma grande plantation em 1829.52</p><p>Para escoar a produção crescente do Vale do Paraíba na década de</p><p>1820, havia que se ultrapassarem os obstáculos da topografia acidentada e</p><p>49 Cf. Warren Dean, A ferro e fogo, p.234.</p><p>50 Cf. Saint-Hilaire, Segunda Viagem, p.101; Pe. João Joaquim Ferreira de Aguiar, Pequena memória</p><p>sobre a plantação, cultura e colheita do café. Rio de Janeiro: Imprensa Americana de I.P. da Costa,</p><p>1836, p. 11.</p><p>51 Cf. Carlos Augusto Taunay, Manual do Agricultor Brasileiro (1ª ed: 1839). Org.Rafael de Bivar</p><p>Marquese. São Paulo: Companhia das Letras, 2001, p. 130.</p><p>52 Cf. Marrero, Cuba, p. 110-1.</p><p>da distância dos portos do litoral. Nesse ponto residiu a maior contribuição</p><p>da economia da mineração para a cafeicultura oitocentista. Em resposta à</p><p>demanda mineira, elaborou-se, na segunda metade do século XVIII, um</p><p>complexo sistema de criação e comercialização de mulas que articulava</p><p>o sul da América portuguesa às capitanias de São Paulo, Rio de Janeiro e</p><p>Minas Gerais, fornecendo o meio básico de transporte para todo o centro-</p><p>sul da colônia. Quando veio o empuxo do mercado mundial na virada do</p><p>século XVIII para o XIX, esse sistema foi imediatamente mobilizado para</p><p>o escoamento da produção cafeeira de serra acima. Na medida em que as</p><p>novas fazendas do Vale do Paraíba distavam dos portos do litoral não mais</p><p>do que sete dias de jornada (tendo por referência a jornada habitual de três</p><p>léguas ao dia), e dados os custos relativamente baixos de aquisição e manu-</p><p>tenção das tropas até meados do século XIX, a equação preço do artigo /</p><p>preço do frete / volume a transportar / distância a percorrer foi plenamente</p><p>operacional com o sistema das mulas.53</p><p>o domínio do vale do paraíba</p><p>sobre o mercado mundial do café, c.1830-1880</p><p>O gráfico das exportações globais de café entre 1823 e 1892 expressa com</p><p>muita clareza a posição que o Brasil passou a ocupar no mercado mun-</p><p>dial do artigo a partir da década de 1830. O resultado das safras de 1831 a</p><p>1833, que trouxeram a duplicação do volume anual, isolou-o bem à frente</p><p>dos demais competidores. Outros saltos vieram entre 1843 e 1847, quando</p><p>a produção se estabilizou no patamar de 150.000 toneladas / ano, na</p><p>segunda metade da década de 1860 (c.225.000 t/ano) e em fins da década</p><p>de 1870 (c.350.000 t/ano). Com ligeiras alterações de uma safra a outra, o</p><p>Brasil – leia-se o Vale escravista, ao menos até meados da década de 1870,</p><p>quando o oeste paulista e a Zona da Mata mineira aumentaram o volume</p><p>da produção – dominou de forma inconteste a oferta mundial no século</p><p>XIX, tendo por único competidor real as colônias holandesas na Indonésia</p><p>(Java), e, no intervalo de 1850-1880, porém em terceiro lugar, a colônia</p><p>inglesa do Ceilão.</p><p>53 Cf. RIBAS, Rogério de Oliveira. Tropeirismo e escravidão: um estudo das tropas de café das lavouras</p><p>de Vassouras, 1840-1888. 1989. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal do</p><p>Paraná, Curitiba, 1989. p. 170-197; KLEIN, Herbert S. The supply of mules to central Brazil: the</p><p>Sorocaba market, 1825-1880. Agricultural History, Winter Park, v. 64, n. 4, p. 1-25, 1990.</p><p>42 43</p><p>produção mundial de café – 1823 – 1892 (milhares de toneladas)</p><p>Fonte: SAMPER, Mario; FERNANDO, Radin. Historical statistics of coffee production and trade from</p><p>1700 to 1960. In: CLARENCE-SMITH, William Gervase; TOPIK, Steven (Org.). The global coffee economy</p><p>in Africa, Asia, and Latin América, 1500-1989. Cambridge: Cambridge University Press, 2003. p. 411-62.</p><p>A escala e o caráter do mercado se modificaram de modo igualmente</p><p>profundo no século XIX. Na década de 1880, a produção total de café</p><p>no</p><p>globo era 10 vezes maior do que cem anos antes. Entre uma data e outra, a</p><p>grande novidade foi o aparecimento dos Estados Unidos como comprado-</p><p>res. Nesse período, sua população aumentou quinze vezes e o consumo per</p><p>capita anual passou de apenas 25 gramas para 4 quilos. Tratava-se de um</p><p>mercado aberto, livre de tarifas de importação desde 1832, que pouco exigia</p><p>a respeito da qualidade do café adquirido. Os demais grandes compradores</p><p>do período, todos localizados no norte de uma Europa em rápido processo</p><p>de industrialização e urbanização, também se distinguiram no século XIX</p><p>pela explosão demográfica e pelo notável aumento nas taxas de consumo</p><p>per capita. Interessa destacar nisso tudo que a passagem do mercado res-</p><p>trito e de luxo do século XVIII para o mercado de massa industrial do século</p><p>XIX foi claramente induzida pela oferta a baixo custo do produto.54</p><p>As novas condições da economia internacional de artigos tropicais</p><p>exigiram, das regiões que operavam nessa arena, aumento constante de</p><p>54 Cf. TOPIK, Steven. The Integration of the World Coffee Market, p. 37-40; MARQUESE, Rafael de</p><p>Bivar. Estados Unidos, Segunda Escravidão e a economia cafeeira do Império do Brasil. Almanack,</p><p>Guarulhos, n. 5, p. 51-60, maio 2013.</p><p>produtividade, sob o risco de se verem excluídas do mercado. Para aquelas</p><p>antigas regiões produtoras sem reservas de áreas para expansão ou que haviam</p><p>sido afetadas pela crise do escravismo colonial (caso de Saint-Domingue em</p><p>fins do século XVIII, ou da Jamaica e Suriname nas primeiras décadas do</p><p>século XIX), a perda de competitividade logo as afastou das posições centrais</p><p>do mercado. Como se sabe este não foi o caso do Brasil e de Cuba, que, por</p><p>meio de pactos firmados dentro dos marcos de suas respectivas monarquias</p><p>constitucionais (Império do Brasil e Espanha liberal), construíram arranjos</p><p>políticos nas décadas de 1810 e 1820 que ajudaram a fundar a instituição escra-</p><p>vista em bases mais seguras, capazes de enfrentar as fortes pressões antiescra-</p><p>vistas externas capitaneadas pela Inglaterra.55 No entanto, em vista do desem-</p><p>penho cubano na produção açucareira, de sua ampla disponibilidade de terras</p><p>virgens e da continuidade do tráfico transatlântico de escravos até a década</p><p>de 1860, sua exclusão do mercado cafeeiro mundial chama a atenção. Por que</p><p>isso ocorreu? E por que Java, na Indonésia, cuja economia não era escravista,</p><p>conseguiu se manter como grande região produtora ao lado do Brasil?</p><p>No que se refere à primeira questão, houve uma relação estreita entre o</p><p>deslanche cafeeiro do Brasil, a crise da cafeicultura em Cuba e seu arranque</p><p>açucareiro. Como já escrevemos acima, na região ocidental da colônia espa-</p><p>nhola os cafezais haviam sido montados nas mesmas zonas de implantação</p><p>dos engenhos, competindo portanto pelos mesmos recursos em termos de</p><p>terras e trabalho. Até a década de 1820, não raro os grandes senhores de</p><p>escravos empregaram seus capitais simultaneamente nas duas atividades.56</p><p>O Médio Vale do Paraíba, por seu turno, foi construído entre as décadas de</p><p>1810 e 1830 como região exclusivamente cafeeira, distinta das zonas açuca-</p><p>reiras das terras baixas fluminenses e do Oeste Velho de São Paulo. Que as</p><p>terras do ocidente de Cuba não fossem tão aptas para a cafeicultura como</p><p>as do Vale, comprova-o a diferença na produtividade dos pés, há pouco</p><p>aludido. O caráter de bens de capital dos arbustos de café criava uma difi-</p><p>culdade adicional para a atividade no ocidente de Cuba, região bastante</p><p>visitada por furacões: se a intempérie não constituía obstáculo para os cana-</p><p>viais, capazes de, em um ano, retomar o padrão anterior à sua passagem,</p><p>ela podia ser devastadora para os cafezais, que teriam que se replantados e</p><p>esperar ao menos cinco anos para recuperar a produtividade plena.</p><p>55 BERBEL; MARQUESE; PARRON, 2010, p. 95-181.</p><p>56 Cf. RIVA, 1944, p. 141; ALVAREZ, 2006, p. 10.</p><p>44 45</p><p>Ao longo da década de 1820, os produtores cubanos tomaram consciên-</p><p>cia do peso da competição brasileira. Os preços em queda no mercado mun-</p><p>dial eram resultado evidente do aumento global da produção. Em setembro</p><p>de 1828, o Consulado de Havana, em resposta a inquérito solicitado pelo</p><p>Intendente da colônia, informava que</p><p>las nuevas plantaciones que inundaran las regiones equinociales han hecho</p><p>bajar el precio en términos que apenas da para costear los gastos de su pro-</p><p>ducción, viéndose arruinar rápidamente multitud de cafetales que constituían</p><p>gran parte del capital de la Isla, el cual no sería exagerado decir había dismi-</p><p>nuido en dos terceras partes.57</p><p>Diante da crise, a Sociedade Econômica dos Amigos do País de Havana</p><p>convocou, em 1829, debate sobre o assunto. Dentre as questões sobre o cul-</p><p>tivo do café colocadas na mesa, uma indagava se seria “prudente abando-</p><p>narlo” em vista dos ganhos decrescentes.58 A resposta, na ocasião, foi nega-</p><p>tiva, mas os debatedores concordaram sobre a necessidade de reduzir custos</p><p>e aumentar a eficiência para fazer frente aos competidores brasileiros.</p><p>No início da década de 1830, com a revisão da política tarifária nor-</p><p>te-americana que tornaria o café tax free no país, os produtores escravis-</p><p>tas brasileiros excluíram daquele mercado seus rivais caribenhos. Em um</p><p>quadro de queda acentuada dos preços, a incapacidade de os produtores</p><p>cubanos competirem com os produtores brasileiros no principal mercado</p><p>comprador do período selou o destino da cafeicultura na ilha. O início da</p><p>construção da malha ferroviária cubana em 1837, ao aumentar a vantagem</p><p>comparativa do açúcar cubano nos mercados internacionais, levou a uma</p><p>massiva transferência de recursos – terras e escravos – de uma atividade</p><p>para outra. Os devastadores furacões de 1844 e 1846 acabaram de uma vez</p><p>por todas com as perspectivas da outrora florescente cafeicultura do oci-</p><p>dente de Cuba.59 Houve, entretanto, o outro lado da moeda. O arranque</p><p>açucareiro cubano a partir da década 1830 roubou paulatinamente o espaço</p><p>57 MARRERO, 1984, p. 112.</p><p>58 A citação é de Francisco de Paula Serrano: NOA, Tranquilino Sandalio de. Memoria publicada por</p><p>la Real Sociedad Patriotica sobre esta cuestión del programa: “Cuáles son las causas a que puede</p><p>atribuirse la decadencia del precio del café, y si en las actuales circunstancias de su abatimiento seria</p><p>perjudicial empreender su cultivo, o prudente abandonarlo”. Programa publicado en el Diário del</p><p>Gobierno de la Habana en 10 de abril de 1829. In: ACTA de las Juntas Generales que celebro la Real</p><p>Sociedad Económica de Amigos del País de la Habana, en los dias 14, 15 y 16 de diciembre de 1829.</p><p>Havana: Imprenta del Gobierno: Capitanía General: Real Sociedad, 1830. p. 79.</p><p>59 Cf. GARCÍA, Antonio Santamaría; ALVAREZ, Alejandro García. Economia y colonia: la economia</p><p>cubana y la relación con Espana, 1765-1902. Madri: CSIC, 2004. p. 129; PEREZ JR., Louis A. Winds of</p><p>que os senhores de engenho do Brasil ocupavam no mercado mundial.</p><p>Durante a vigência do tráfico transatlântico de escravos, a economia açu-</p><p>careira brasileira acompanhou a duras penas a expansão dos cubanos nesse</p><p>ramo, mas isso se tornou inviável após 1850.60</p><p>A última observação nos conduz ao ponto central para a compreensão</p><p>do crescimento da produção cafeeira do Vale do Paraíba, isto é, o trabalho</p><p>escravo. Nos anos vinte e trinta do século XIX, era voz corrente em Cuba</p><p>que os escravos custavam lá o dobro do que se pagava no Brasil.61 Os dados</p><p>fornecidos por David Eltis corroboram a percepção dos contemporâneos:</p><p>até a década de 1850, as curvas nos preços dos cativos adquiridos no tráfico</p><p>transatlântico para o Brasil e para Cuba foram estritamente congruentes,</p><p>mas os valores cubanos estiveram sempre acima dos brasileiros.62 A expli-</p><p>cação para a diferença é simples. O tráfico para o centro-sul do Brasil era</p><p>comandado desde a virada do século XVII para o XVIII por negociantes luso</p><p>-brasileiros residentes na praça do Rio de Janeiro, que operavam fundamen-</p><p>talmente na zona congo-angolana: comando local das operações, viagens</p><p>mais curtas e contatos</p><p>mais sólidos no continente africano possibilitavam a</p><p>redução do preço final dos africanos embarcados como escravos. Os trafi-</p><p>cantes hispano-cubanos, a despeito de serem tão eficazes como seus pares</p><p>brasileiros e portugueses, tinham entrado no infame comércio somente no</p><p>início do século XIX, e a distância a ser percorrida no Atlântico era bem</p><p>maior do que a rota dos negreiros que se dirigiam ao centro-sul do Brasil. A</p><p>eficiência dos traficantes cariocas permitiu inclusive a importação, após 1811,</p><p>de quantidades expressivas de escravos da costa oriental da África.63</p><p>change: hurricanes & the transformation of nineteenth-century Cuba. Chapel Hill: The University</p><p>of North Carolina Press, 2001. p. 56-108.</p><p>60 Entre 1820 e 1850, enquanto a produção de açúcar do Brasil triplicou, a de Cuba quintuplicou; nos</p><p>quinze anos seguintes (1851-1865), contudo, a produção brasileira estacionou, ao passo que a cubana</p><p>duplicou. Na última data, Cuba produzia cinco vezes mais açúcar que o Brasil. Os dados são de</p><p>FRAGINALS, Moreno. O engenho, v. III, p. 356-357; e das ESTATÍSTICAS históricas do Brasil. Rio de</p><p>Janeiro: IBGE, 1987. p. 342.</p><p>61 Cf. FERNÁNDEZ, 1989, p. 163.</p><p>62 Cf. ELTIS, David. Economic Growth and the Ending of the Transatlantic Slave Trade. New York: Oxford</p><p>University Press, 1987. p. 262-263. Ver também BERGAD, Laird; GARCÍA, Fe Iglesias; BARCIA, Maria</p><p>del Carmen. The Cuban Slave Market, 1790-1880. Cambridge: Cambridge University Press, 1995. p. 150.</p><p>63 Sobre o tráfico para o Brasil, ver, além de Florentino, Em costas negras, ALENCASTRO, Luiz Felipe de.</p><p>O Trato dos Viventes: formação do Brasil no Atlântico Sul, séculos XVI e XVII. São Paulo: Companhia</p><p>das Letras, 2000. Para o tráfico cubano, afora os trabalhos citados na nota 27, ver FRANCO, José</p><p>Luciano. Comércio clandestino de esclavos. Havana: Editorial de Ciencias Sociales, 1980, e Leonardo</p><p>Marques, The United States and the Transatlantic Slave Trade to the Americas, 1776-1867. New Haven:</p><p>46 47</p><p>O custo dos escravos, contudo, não pode ser tomado como uma variá-</p><p>vel econômica independente, vinculada apenas ao jogo da oferta e da pro-</p><p>cura. A campanha sistemática comandada pela Inglaterra contra o tráfico</p><p>negreiro transatlântico e a própria escravidão exigiu dos espaços escravistas</p><p>em expansão uma resposta política concertada. No caso do Brasil, sua inde-</p><p>pendência em 1822 abrira um flanco para a pressão inglesa, pois desde o</p><p>Tratado de 1817 com a então Coroa portuguesa a questão estivera congelada</p><p>no plano diplomático. Em troca do reconhecimento formal do novo Estado</p><p>soberano, a Inglaterra exigia de D. Pedro I compromisso efetivo com o</p><p>encerramento do tráfico. A matéria se resolveu apenas em 1826, com a assi-</p><p>natura da convenção que previa o fim do tráfico entre África e Brasil para</p><p>três anos após sua ratificação pela Inglaterra, o que ocorreu em 13 de março</p><p>de 1827. A arenga diplomática, além de erodir parte não desprezível do capi-</p><p>tal político do primeiro imperador do Brasil e contribuir para sua queda em</p><p>1831, foi acompanhada de perto por negreiros e fazendeiros, que aceleraram</p><p>as importações na segunda metade da década de 1820.64 Entre 1821 e 1825,</p><p>foram desembarcados no porto do Rio de Janeiro cerca de 112.000 africanos</p><p>escravizados, ao passo que, no lustro seguinte, chegaram 186.000 cativos.65</p><p>A aceleração das importações expressava com nitidez a concepção coeva de</p><p>que o tráfico seria efetivamente encerrado em 1830.</p><p>Os anos de maior introdução de cativos africanos pelo porto carioca</p><p>(1828 e 1829, com 45.000 e 47.000 africanos respectivamente) encontraram</p><p>correspondência nas safras abundantes de 1833 e 1834, quando a cafeicul-</p><p>tura do Vale dobrou o volume da produção obtida em 1831. Vê-se, por-</p><p>tanto, que parte considerável desses novos escravos foram parar em fazen-</p><p>das de serra acima. A produção de café brasileira girou em torno desse</p><p>Yale University Press, no prelo. Sobre o trato de Moçambique no século XIX, ver KLEIN, Herbert S. O</p><p>tráfico de escravos no Atlântico. Ribeirão Preto: FUNPEC, 2004. p. 70-71.</p><p>64 A diplomacia do tráfico nas décadas de 1810 e 1820 pode ser acompanhada em BETHELL, Leslie. A</p><p>abolição do comércio brasileiro de escravos: A Grã-Bretanha, o Brasil e a questão do comércio de escravos</p><p>– 1807-1869. Brasília: Senado Federal, 2002. p. 21-112. 1. ed. 1970. Sobre as discussões no parlamento</p><p>brasileiro a respeito do tratado de 1826, ver RODRIGUES, Jaime. O infame comércio: propostas e</p><p>experiências no final do tráfico de africanos para o Brasil (1800-1850). Campinas: Ed. Unicamp,</p><p>2000; SCANAVINI, José Eduardo Finardi Álvares. Embates e embustes: a teia do tráfico na Câmara do</p><p>Império (1826-1827). In: MARSON, Isabel Andrade; OLIVEIRA, Cecília H.L. de S. (Org.). Monarquia,</p><p>liberalismo e negócios no Brasil: 1780-1860. São Paulo: Edusp, 2013. p. 167-209; e, em especial, PARRON,</p><p>Tâmis. A política da escravidão no Império do Brasil, 1826-1865. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,</p><p>2011. p. 64-80. Sobre o tratado em si, ver SANTOS, Guilherme de Paula Costa. Política e diplomacia:</p><p>os tratados assinados entre Brasil e Inglaterra, 1817-1831. 2015. Tese (Doutorado em História Social) –</p><p>Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2015.</p><p>65 Cf. FLORENTINO, 1995, p. 59.</p><p>patamar até 1838, quando voltou a crescer, de início lentamente, para dar</p><p>um novo salto a partir de 1842, com 84.221 toneladas; em 1843, 89.550; em</p><p>1844, 91.980; em 1845, 97.440; em 1846, 123.300. A produção de 1847 chegou</p><p>a 141.810 t, maior volume anterior ao tráfico, estabilizando-se até o novo</p><p>salto da safra de 1855, de 181.290 t.</p><p>Com os números das safras da década de 1840, queremos ressaltar a</p><p>correlação estreita que houve entre o crescimento da cafeicultura e a escra-</p><p>varia adquirida no trato atlântico, e, em particular, o quanto a produção de</p><p>1842 em diante contou com cativos africanos comprados após 1835. Para</p><p>tanto, a ação ensaiada dos fazendeiros do Vale do Paraíba com os grupos</p><p>políticos ligados ao Regresso foi fundamental. Conforme a letra do tratado</p><p>anglo-brasileiro de 1827, o tráfico cessaria em março de 1830. Com o obje-</p><p>tivo de reafirmar a soberania brasileira na questão, um Parlamento bastante</p><p>fortalecido com a queda de D. Pedro I aprovou a Lei de 7 de novembro de</p><p>1831, que trazia disposições draconianas para combater o tráfico: os afri-</p><p>canos que doravante fossem introduzidos em território nacional seriam</p><p>automaticamente libertados, prevendo-se seu retorno imediato à África; os</p><p>transgressores – vendedores ou compradores – seriam submetidos a pro-</p><p>cesso criminal; as denúncias contra a prática tanto do desembarque ilegal</p><p>como da mera posse de escravos ilegais poderiam ser apresentadas por</p><p>qualquer indivíduo. Nas letras da lei, portanto, os fazendeiros que adquiris-</p><p>sem africanos no trato transatlântico ficariam expostos a severas punições.</p><p>Usualmente reputado como “para inglês ver”, o Decreto de 7 de novembro</p><p>pretendia, de fato, acabar com o tráfico transatlântico, e deste modo foi lido</p><p>pelos coetâneos. Tanto é assim que, entre 1831 e 1835, as entradas diminuí-</p><p>ram abruptamente, tornando-se o tráfico como que residual.66</p><p>De 1835 em diante, ocorreu uma reversão profunda nesse quadro. As</p><p>vozes pró-escravistas voltaram a se articular nos espaços de opinião pública</p><p>após um período de refluxo, e uma ampla coalizão de ex-liberais modera-</p><p>dos e ex-caramurus com setores dos proprietários rurais mais capitalizados</p><p>do centro-sul – base da formação do futuro Partido Conservador67 – pas-</p><p>sou a advogar pura e simplesmente a anulação da Lei de 7 de novembro de</p><p>66 A ideia central deste e do próximo parágrafo foi retirada de PARRON, 2011, p. 121-191. Sobre o</p><p>volume do tráfico ilegal para o centro-sul do Brasil entre 1831 e 1835, ver THE TRANS-ATLANTIC</p><p>SLAVE TRADE DATABASE VOYAGE. Atlanta, 2009. Disponível em: .</p><p>67 Cf. NEEDELL, Jeffrey D. Party formation and State-making: the conservative party and the</p><p>reconstruction of the Brazilian</p><p>State, 1831-1840. Hispanic American Historical Review, Durham:</p><p>Duke University Press, v. 81, n. 2, p. 259-308, May 2001.</p><p>48 49</p><p>1831. Nesse movimento de mão dupla entre as demandas de grupos sociais</p><p>expressivos e os esforços de arregimentação de eleitores por parte de uma</p><p>nova força política, os fazendeiros de café do Vale do Paraíba desempenha-</p><p>ram papel fulcral. Por meio de pressão política direta e de ações no espaço</p><p>público, davam a ver sua disposição para reabrir o tráfico. Dos vários</p><p>exemplos que poderiam ser citados, cabe lembrar uma representação que</p><p>a Câmara de Valença – município do coração cafeicultor do Médio Vale</p><p>do Paraíba fluminense – endereçou ao Parlamento imperial em meados de</p><p>1836. Assinado por figuras de proa do senhoriato local (Manoel do Vale</p><p>Amado, Camilo José Pereira do Faro, João Pinheiro de Souza, Visconde de</p><p>Baependy), dizia o documento:</p><p>Augustos e Digníssimos Senhores Representantes da Nação. A Câmara</p><p>Municipal da Vila de Valença, tendo-vos já pedido providências sobre a lei de 7</p><p>de Novembro de 1831, vem hoje novamente lembrar-vos que lanceis Vossas vis-</p><p>tas sobre a mais respeitável e interessante porção da população do Império, que</p><p>a maior parte está envolvida na infração da mencionada lei, porque a necessi-</p><p>dade a ela os levou; cumpre portanto a Vós, Augustos e Digníssimos Senhores,</p><p>evitar a explosão que nos ameaça, derrogando em todas as suas partes a dita lei</p><p>de 7 de Novembro de 1831, porque sua execução é impraticável e ela, longe de</p><p>trazer benefício a Vossos Concidadãos, os insinua à imoralidade; sua derroga-</p><p>ção é de reconhecida utilidade, e sua execução seria concitar os Povos a uma</p><p>rebelião e formal desobediência, por que essa maioria respeitável de Vossos</p><p>Concidadãos de qualquer das formas procurará com todas as suas forças con-</p><p>servar intactas suas fortunas, adquiridas com tantas fadigas e suores.68</p><p>Contra a eventualidade de execução da lei, que libertaria os cativos</p><p>importados após 1831 e colocaria nas barras dos tribunais seus possuidores,</p><p>os representantes dos cafeicultores ameaçavam o poder público com a pos-</p><p>sibilidade de resistência aberta. O que estava em jogo, no entanto, não eram</p><p>apenas os africanos até então adquiridos, mas os que doravante seriam</p><p>comprados. Ao tornarem a matéria – desde 1835 – pauta de campanha polí-</p><p>tica, os agentes do Regresso Conservador acenaram aos traficantes e cafei-</p><p>cultores que dariam sinal verde à retomada do infame comércio. A estra-</p><p>tégia funcionou muito bem, pois, na segunda metade da década de 1830,</p><p>enquanto desembarcavam nos portos do centro-sul do Império 238.000</p><p>68 O SETE D’ABRIL. Rio de Janeiro, 13 jul. 1836. Para a análise da série completa em que se inscreve</p><p>esse artigo, bem como o papel crucial da imprensa do Rio de Janeiro na campanha pela reabertura</p><p>do tráfico, ver YOUSSEF, Alain El. Imprensa e escravidão: política e tráfico negreiro no Império do</p><p>Brasil (Rio de Janeiro, 1822-1850). 2010. Dissertação (Mestrado em História Social) – Faculdade de</p><p>Filosofia, Letras e Ciências Sociais. Universidade de São Paulo, São Paulo, 2010.</p><p>africanos ilegalmente escravizados, número que subiu para 308.000 na</p><p>década seguinte, os saquaremas conseguiram impor integralmente sua</p><p>agenda à política imperial.69</p><p>Vê-se, por conseguinte, que o avanço cafeeiro do Brasil dependeu de</p><p>modo estrito de acordos políticos internos que dessem segurança institu-</p><p>cional aos que investiam no ramo. Todos os escravos africanos importados</p><p>depois de 1831 eram formalmente livres, mas em momento algum o Estado</p><p>brasileiro questionou a posse efetiva dos fazendeiros. A massa de africanos</p><p>ilegalmente escravizados se tornou questão política somente após a segunda</p><p>metade da década de 1860, já no contexto de perda de legitimidade social e</p><p>política da instituição.70 Em meados do século XIX, os municípios cafeeiros</p><p>do Médio Vale do Paraíba se encontravam suficientemente abastecidos de</p><p>trabalhadores cativos; de agora em diante, a reposição dessa força de traba-</p><p>lho, bem como a aquisição dos escravos necessários à expansão em novas</p><p>frentes, como as de Cantagalo (RJ), a da Zona da Mata mineira e do oeste de</p><p>São Paulo, ocorreria basicamente por meio do tráfico interno, que foi articu-</p><p>lado econômica e politicamente logo nos primeiros anos da década de 1850.71</p><p>Com ampla oferta de terra e de trabalho, as fazendas do Vale se diferen-</p><p>ciaram de suas equivalentes em outras partes do globo por suas dimensões</p><p>espaciais e quantidade de mão de obra empregada. A historiografia clássica</p><p>veiculou a ideia de que a produção cafeeira do Brasil no século XIX advi-</p><p>nha, sobretudo, de grandes unidades rurais, usualmente com o emprego</p><p>de uma centena ou mais de escravos.72 Pesquisas cuidadosas no campo da</p><p>demografia histórica posteriores à década de 1980 procuraram rever essa</p><p>imagem. Valendo-se de fontes pouco exploradas anteriormente, como as</p><p>69 Sobre o volume do tráfico ilegal, conferir os dados em . Sobre a política</p><p>dos saquaremas para a escravidão, ver, além de Parron, A política da escravidão, o estudo clássico</p><p>de MATTOS, Ilmar Rohloff de. O Tempo Saquarema: a formação do Estado imperial.</p><p>70 Ver, a propósito, os capítulos de Beatriz Galloti Mamigonian, “O direito de ser africano livre:</p><p>os escravos e as interpretações da Lei de 1831”, e de Elciene Azevedo, “Para além dos tribunais:</p><p>advogados e escravos no movimento abolicionista em São Paulo”, ambos inseridos no livro editado</p><p>por Silvia Hunold Lara e Joseli Maria Nunes Mendonça, Direitos e justiças no Brasil: ensaios de</p><p>História Social. (Campinas: Ed. Unicamp, 2006. p. 129-160, 199-238).</p><p>71 Cf. CONRAD, Robert. Os últimos anos da escravatura no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,</p><p>1978. p. 63-87. 1. ed. 1972; SLENES, Robert W. The Brazilian Internal Slave Trade, 1850-1888: regional</p><p>economies, slave experience, and the politics of a peculiar market. In: JOHNSON, Walter (Org.). The</p><p>Chattel Principle: internal slave trades in the Americas. New Haven: Yale University Press, 2004; MOTTA,</p><p>José Flávio. Escravos daqui, dali e de mais além: o tráfico interno de cativos na expansão cafeeira paulista</p><p>(Areias, Guaratinguetá, Constituição/Piracicaba e Casa Branca, 1861-1867). São Paulo: Alameda, 2012.</p><p>72 Ver as publicações arroladas na nota 6.</p><p>50 51</p><p>listas nominativas de habitantes e os registros de matrícula de escravos ela-</p><p>borados após 1871, os investigadores apontaram para a existência de uma</p><p>grande quantidade de pequenos e médios proprietários escravistas envolvi-</p><p>dos diretamente na produção de café. A posse média de escravos, afirmam,</p><p>estaria bem abaixo do número tradicionalmente anotado.73</p><p>A questão, no entanto, permanece em aberto, pois grande parte dos</p><p>estudos demográficos disponíveis versa sobre os municípios cafeeiros de</p><p>São Paulo nas primeiras décadas do século XIX. Com exceção de Bananal</p><p>e de Campinas, antes do quarto final dos oitocentos nenhuma localidade</p><p>paulista rivalizou em volume de produção e montante relativo e absoluto</p><p>de escravos com os grandes municípios escravistas do Vale fluminense,</p><p>isto é, Vassouras, Valença, Piraí, Barra Mansa, Paraíba do Sul e Cantagalo.</p><p>Faltam pesquisas demográficas detalhadas a respeito desses municípios flu-</p><p>minenses, porém temos à disposição dois trabalhos pormenorizados sobre</p><p>Vassouras e Bananal. Se a propriedade escrava nesses dois municípios foi</p><p>desde o início da cafeicultura disseminada no tecido social, com um grande</p><p>número de homens livres possuindo escravos, a concentração foi, não obs-</p><p>tante, muito acentuada. Os dados agregados de Vassouras para o período</p><p>de 1821 e 1880, por exemplo, informam que os mega-proprietários, donos</p><p>de mais de cem escravos e correspondentes a 9% dos senhores, possuíram</p><p>48% da escravaria total; somados aos que tinham de 50 a 99 escravos (gran-</p><p>des proprietários), equivaleram a 21% dos senhores donos de 70% dos cati-</p><p>vos. Os autores desses dois estudos esclarecem ainda que a acumulação de</p><p>escravos nas mãos desses grandes e mega-proprietários</p><p>ocorreu na fase de</p><p>expansão das lavouras de café, isto é, de 1836 e 1850, durante a vigência do</p><p>tráfico transatlântico ilegal e não após seu encerramento.74</p><p>Em vista desses dados, pode-se afirmar que o grosso da produção</p><p>de café de Vassouras e Bananal era obtido em unidades com escravarias</p><p>numerosas, conclusão passível de generalização para os demais municípios</p><p>73 A bibliografia sobre o assunto já é bastante numerosa. Ver, dentre outros, MOTTA, José Flávio.</p><p>Corpos escravos, vontades livres: posse de cativos e família escrava em Bananal (1801-1829). São Paulo:</p><p>Annablume: FAPESP, 1999. p. 67-108; MARCONDES, Renato Leite. Small and Medium Slaveholdings</p><p>in the Coffee Economy of the Vale do Paraíba, province of São Paulo. Hispanic American Historical</p><p>Review, Durham: Duke University Press, v. 85, n. 2, p. 259-281, May 2005; e a síntese mais recente de</p><p>LUNA, Francisco Vidal; KLEIN, Herbert S., Escravismo no Brasil. São Paulo: Edusp, 2010. p. 108.</p><p>74 Cf. SALLES, Ricardo. E o Vale era o escravo: Vassouras, século XIX – senhores e escravos no coração</p><p>do Império Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008; MORENO, Breno A. S. Demografia e trabalho</p><p>escravo nas propriedades rurais cafeeiras de Bananal, 1830-1860. 2013. Dissertação (Mestrado em História</p><p>Social) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2013.</p><p>cafeeiros do Médio Vale fluminense. Escravaria numerosa, entretanto, não</p><p>significa necessariamente latifúndio. Não raro houve fazendas com mais de</p><p>cem escravos que contavam com menos de 100 alqueires geométricos (480</p><p>hectares). Aliás, os trabalhos sobre a estrutura fundiária do Vale documen-</p><p>tam a presença substantiva de sítios e situações, unidades com menos de 50</p><p>alqueires que englobavam a maioria das posses rurais, afora uma miríade</p><p>de agregados e pequenos posseiros que dependiam de acordos com os</p><p>grandes senhores para sua permanência na terra, em uma relação eivada de</p><p>tensões. O tamanho usual para as fazendas que empregavam mais de cem</p><p>escravos girava de cem a trezentos alqueires, sendo poucas as propriedades</p><p>com área superior a isso; seja como for, eram seus donos que controlavam a</p><p>quase totalidade da superfície de seus municípios.75</p><p>A distribuição das propriedades rurais em uma espécie de colcha de</p><p>retalhos, com uma mescla caótica de grandes fazendas, fazendolas, sítios e</p><p>posses de agregados, ligava-se não só às particularidades da ocupação agrária</p><p>da região, em especial o papel que essa assimetria desempenhava no jogo</p><p>político local baseado em práticas de clientelismo,76 como também às espe-</p><p>cificidades da organização do processo de trabalho e de produção. Por um</p><p>lado, a produção de café era plenamente viável em pequenas unidades que a</p><p>combinavam com o plantio de mantimentos destinados à venda no mercado.</p><p>Por outro lado, dadas as necessidades de controle espacial da escravaria,77 as</p><p>75 A informação das fazendas com grandes escravarias, porém inferiores a 100 alqueires, foi retirada de</p><p>RIBAS, 1990, p. 47. Sobre a composição fundiária do Vale cafeeiro e suas tensões, ver os trabalhos de</p><p>MUNIZ, 1990; MOTTA, 1998; SANTOS, Aldeci Silva dos. À sombra da fazenda: a pequena propriedade</p><p>agrícola na economia da Vassouras oitocentista. 1999. Dissertação (Mestrado em História) – Programa</p><p>de Pós-Graduação em História, Universidade Severino Sombra, Vassouras, 1999; NARO, Nancy</p><p>Priscilla. A Slave’s Place, a Master’s World: fashioning dependency in rural Brazil. Londres: Continuum,</p><p>2000. p. 30-43. Para grandes fazendeiros e suas propriedades, temos à disposição bons estudos de caso:</p><p>MUAZE, 2008; MOURA, Carlos Eugênio Marcondes de. O visconde de Guaratinguetá: um fazendeiro de</p><p>café no Vale do Paraíba. São Paulo: Studio Nobel, 2002. 1. ed. 1976; SILVA, Eduardo. Barões e escravidão:</p><p>três gerações de fazendeiros e a crise da estrutura escravista. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984;</p><p>CASTRO, Hebe Maria Mattos de; SCHNOOR, Eduardo (Org.). Resgate: uma janela para o oitocentos. Rio</p><p>de Janeiro: Topbooks, 1995; COHN, Marjorie Rocha. A fazenda Santa Sofia: cafeicultura e escravidão no</p><p>Vale do Paraíba Mineiro, 1850-1882. 2013. Dissertação (Mestrado em História Social) – Faculdade de</p><p>Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2013; LOURENÇO, Thiago</p><p>Campos Pessoa. O Império dos Souza Breves nos oitocentos: política e escravidão nas trajetórias dos</p><p>comendadores José e Joaquim de Souza Breves. 2010. Dissertação (Mestrado em História) – Instituto</p><p>de Ciências Humanas e Sociais, Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2010.</p><p>76 Cf. MOTTA, 1998; GRAHAM, Richard. Clientelismo e política no Brasil do século XIX. Rio de Janeiro:</p><p>Ed. UFRJ, 1997.</p><p>77 Cf. MARQUESE, Rafael de Bivar. Moradia escrava na era do tráfico ilegal: senzalas rurais no Brasil</p><p>e em Cuba, c. 1830-1860. Anais do Museu Paulista: História e Cultura Material, São Paulo, v. 13, n.</p><p>52 53</p><p>grandes unidades em plena operação tinham um tamanho máximo que era</p><p>ditado pelo tempo de deslocamento dos trabalhadores da quadra da senzala –</p><p>sempre acoplada à casa de vivenda e às instalações produtivas – ao eito. Nisto</p><p>reside o porquê de muitos dos mega-proprietários de escravos, donos de cen-</p><p>tenas e por vezes milhares de cativos, fundarem várias fazendas contíguas,</p><p>cada qual com sua sede (senzalas, terreiros, engenhos, tulhas), ao invés de</p><p>integrarem-nas em um único latifúndio. Fazendas com mais de 400 alquei-</p><p>res, afinal, exigiriam longas caminhadas da senzala aos cafezais, com o con-</p><p>sequente dispêndio desnecessário de tempo e de energia dos trabalhadores.</p><p>A configuração interna das fazendas era igualmente a de uma paisagem</p><p>descontínua, algo determinado antes de tudo pela topografia dos mares de</p><p>morros. Mas não apenas isso, pois as próprias estratégias de gestão agrá-</p><p>ria adotadas conduziam a tal conformação. O plantio alinhado vertical dos</p><p>pés de café ocorria nos morros de meia laranja, em terrenos de derrubada e</p><p>queima de mata. No entanto, não se alocava o arbusto em todos os outeiros.</p><p>De acordo com a altitude em que se situava a fazenda, as fileiras eram dis-</p><p>postas ou nas faces dos morros que recebiam o sol da manhã (“noruegas”),</p><p>ou nas que eram ensolaradas à tarde (“soalheiras”). Durante o período de</p><p>crescimento dos arbustos, cultivava-se milho e feijão entre as fileiras bastante</p><p>espaçadas dos pés de café; baixios, várzeas e brejos, inadequados ao cafeeiro,</p><p>eram cultivados com arroz e cana. Os arbustos assim plantados permaneciam</p><p>produtivos por no máximo 25 anos, mas seus rendimentos eram perceptivel-</p><p>mente decrescentes a partir de 15 anos. Para manter a produção em patamares</p><p>estáveis, fazia-se necessário replantar constantemente pés de café em matas</p><p>de derrubada, com vistas à substituição dos arbustos velhos e improdutivos</p><p>prestes a serem convertidos em pasto, roças de subsistência ou capoeiras.78</p><p>Na base desses esquemas de administração da paisagem, cujos dois</p><p>pontos essenciais eram o cultivo em derrubadas e o plantio alinhado vertical</p><p>2, p. 165-188, jul.-dez. 2005. Ver, também, SANTOS, Marco Aurélio dos. Geografia da escravidão na</p><p>crise do Império: Bananal, 1850-1888. 2014. Tese (Doutorado em História Social) – Faculdade de</p><p>Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2014.</p><p>78 Para a gestão agrícola empregada no Vale, ver FRAGOSO, João Luis Ribeiro. Sistemas agrários em</p><p>Paraíba do Sul (1850-1920): um estudo de relações não-capitalistas de produção. 1983. Dissertação</p><p>(Mestrado em História) – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1983. Sobre as</p><p>articulações entre administração da paisagem e administração do trabalho escravo, ver MARQUESE,</p><p>Rafael de Bivar. Diáspora africana, escravidão e a paisagem da cafeicultura escravista no Vale do</p><p>Paraíba oitocentista. Almanack Braziliense, São Paulo, n. 7, p. 138-152, maio 2008. Ver também</p><p>STEIN, 1990, p. 260-265, e o relato contemporâneo de LAËRNE, C. F. van Delden. Brazil and Java:</p><p>report on coffee-culture in America,</p><p>Asia, and Africa. Haia: Martinus Nijhoff, 1885. p. 253-382.</p><p>e bem espaçado dos pés, residia o propósito de otimizar o processo de tra-</p><p>balho. A adoção da primeira técnica permitia o rápido preparo do terreno</p><p>sem dispêndio excessivo de tempo de trabalho. A segunda técnica permitia,</p><p>por meio da visualização, o controle estrito do trabalho dos escravos. No</p><p>amanho dos cafezais, os escravos, organizados em turmas (ou ternos, na</p><p>linguagem oitocentista) sob o comando de um capataz, eram alocados cada</p><p>qual em uma fileira de arbustos, com o objetivo de seguirem todos o mesmo</p><p>ritmo de trabalho. Dado que o espaçamento entre as fileiras era considerável</p><p>(de 12 a 15 palmos, 2,64 a 3,3 metros), o capataz, na base do outeiro, poderia</p><p>observar se a linha de cativos prosseguia no mesmo passo ditado pelos tra-</p><p>balhadores das pontas. No período de colheita, a organização do trabalho</p><p>era distinta, seguindo um sistema de tarefas atribuídas individualmente a</p><p>cada escravo do eito e variáveis conforme o volume estimado da safra.79</p><p>A cafeicultura escravista brasileira combinou, assim, as duas modali-</p><p>dades básicas de organização do processo de trabalho escravo presentes nas</p><p>demais regiões de plantation do Novo Mundo, as turmas sob comando uni-</p><p>ficado (gang system) e o sistema de tarefas individualizado (task system).80</p><p>Tal arranjo, ademais, permitiu aos senhores a imposição de uma taxa assom-</p><p>brosa de trabalho a seus cativos. Na cafeicultura de Saint-Domingue, a um</p><p>escravo de eito eram atribuídos usualmente entre 1.000 e 1.500 pés de café,</p><p>o mesmo que se imputava aos escravos jamaicanos. Em Cuba, estimava-se</p><p>que um cativo de roça cultivaria em média 2.000 pés, número semelhante</p><p>ao do início da cafeicultura no Vale do Paraíba, onde, no entanto, pres-</p><p>supunha-se que os trabalhadores cultivariam também seus próprios man-</p><p>timentos.81 Registros posteriores dão conta do que se passou a exigir dos</p><p>79 Os manuais agrícolas mais importantes para a cafeicultura escravista do Vale do Paraíba, que</p><p>expressavam as práticas efetivamente empregadas pelos fazendeiros, foram a Pequena memória do</p><p>Padre Aguiar, de 1836, e o famoso opúsculo de Francisco Peixoto de Lacerda Werneck (Barão do</p><p>Paty do Alferes), Memória sobre a fundação de uma fazenda na província do Rio de Janeiro (1ª ed.</p><p>em 1847), com a organização de Eduardo Silva (Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa:</p><p>Senado Federal, 1985). Para uma análise da série completa dessas publicações, ver MARQUESE,</p><p>Rafael de Bivar. Administração & escravidão: idéias sobre a gestão da agricultura escravista</p><p>brasileira. São Paulo: Hucitec, 1999. p. 157-189.</p><p>80 Cf. MORGAN, Philip. Task and Gang Systems: the organization of labor on New World plantations.</p><p>In: INNES, P. (Org.). Work and Labor in Early America. Chapel Hill: The University of North</p><p>Carolina Press, 1988.</p><p>81 Sobre Saint-Domingue, ver GEGGUS, David P. Sugar and Coffee Cultivation in Saint-Domingue</p><p>and the Shaping of the Slave Labor Force. In: BERLIN, I.; MORGAN, P. (Org.). Cultivation and</p><p>Culture: Labor and the Shaping of Slave Life in the Americas. Charlottesville: University Press</p><p>of Virginia, 1993. p. 77; para a Jamaica, HIGMAN, 2001, p. 159-191; sobre Cuba, NOA, Tranquilino</p><p>54 55</p><p>escravos com a progressiva especialização das fazendas. Um livro de con-</p><p>tas de Cantagalo consultado pelo diplomata Johann Jakon von Tschudi em</p><p>1860 apontava cerca de 3.800 pés por escravo de roça. A tese que Reinhold</p><p>Teuscher – médico de partido das fazendas de Antonio Clemente Pinto</p><p>(barão de Nova Friburgo), também em Cantagalo – apresentou alguns anos</p><p>antes à Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro veiculava um número</p><p>ainda maior: “5 a 6000 pés de café” para cada escravo de eito.82 As conse-</p><p>quências do método agronômico que possibilitava tais taxas de explora-</p><p>ção do trabalho eram a erosão, o esgotamento do solo e o envelhecimento</p><p>precoce dos pés, o que, por sua vez, demandava replantios periódicos em</p><p>matas virgens. Sobre-exploração dos trabalhadores e devastação ambiental</p><p>eram faces da mesma moeda na dinâmica da cafeicultura escravista do Vale</p><p>do Paraíba e na formação do mercado de massa da bebida.</p><p>De 1840 em diante, a única região produtora mundial que se mostrou</p><p>capaz de competir com o Vale do Paraíba foi a possessão holandesa de Java,</p><p>na Indonésia. Suas trajetórias, porém, foram bastante distintas: enquanto</p><p>a produção brasileira verificou aumento constante, a de Java estacionou</p><p>no patamar de 75.000 toneladas métricas anuais. A discrepância muito</p><p>revela sobre a natureza do complexo cafeeiro escravista do Vale. Vimos, na</p><p>segunda parte do capítulo, que a economia de Java passou por sérias atribu-</p><p>lações na virada do século XVIII para o XIX. Os esforços de reforma poste-</p><p>riores ao fim da V.O.C. levaram, na década de 1830, à construção de um novo</p><p>modelo de exploração colonial, o Kultuur Stelsel, ou “sistema de cultivo”.</p><p>Seu elaborador, Johannes Van den Bosch, avaliava que, diante da proximi-</p><p>dade com os mercados europeus e o baixo custo do trabalho proporcio-</p><p>nado pela escravidão negra nas Américas, seria impossível a Java competir</p><p>no mercado mundial valendo-se unicamente do emprego de trabalho livre</p><p>Sandalio de. Memoria publicada por la Real Sociedad Patriotica sobre esta cuestión del programa:</p><p>“Cuáles son las causas a que puede atribuirse la decadencia del precio del café, y si en las actuales</p><p>circunstancias de su abatimiento seria perjudicial empreender su cultivo, o prudente abandonarlo”.</p><p>Programa publicado en el Diário del Gobierno de la Habana en 10 de abril de 1829, p. 131-133. As</p><p>informações para o Brasil das décadas de 1820 e 1830 estão na Pequena memória de Padre Aguiar e</p><p>no Manual do agricultor brasileiro, de Carlos Augusto Taunay, p. 130.</p><p>82 Cf. VON TSCHUDI, Johann Jakob. Viagem às províncias do Rio de Janeiro e São Paulo. São Paulo:</p><p>Edusp; Belo Horizonte: Itatiaia, 1980. p. 41. 1. ed. 1866; TEUSCHER, R. Algumas observações sobre a</p><p>estatística sanitária dos escravos em fazendas de café. 1853. 12 f. Tese (Para verificação de diploma) –</p><p>Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro: Typ. Imp. e Const. de J. Villeneuve e Comp.,</p><p>1853. p. 6. Pedro Carvalho de Mello (A economia da escravidão nas fazendas de café, p. 17), trabalhando</p><p>com documentos do Banco do Brasil produzidos entre 1867 e 1870, anotou de 2.976 a 4.955 pés de café</p><p>por escravo, indicando que, quanto menor a propriedade, maior era a taxa de exploração.</p><p>em grandes unidades pertencentes a investidores privados. Em resposta ao</p><p>problema, Van den Bosch propôs um esquema – logo implementado pelo</p><p>Estado holandês – no qual os camponeses indonésios seriam compelidos a</p><p>pagarem imposto fundiário. Tratava-se de uma reconfiguração em novas</p><p>bases de práticas pretéritas da V.O.C: sob o Kultuur Stelsel, os camponeses</p><p>deveriam alocar um quinto de suas terras para o granjeio de artigos deter-</p><p>minados pelo governo, fornecendo-os a preços fixos aos armazéns oficiais</p><p>sem serem supervisionados no processo de produção. O café se tornou a</p><p>espinha dorsal do sistema e a principal fonte de rendas para o Estado colo-</p><p>nial. Os preços pagos aos camponeses não seguiam os valores do mercado</p><p>mundial do café, o que resultava em uma imensa transferência de exceden-</p><p>tes para os poderes coloniais. Os ganhos se ampliavam com as operações</p><p>da Nederlandsche Handelmaatschappij, uma companhia semimonopolista</p><p>que remetia o artigo para venda no mercado de Amsterdã.83</p><p>O “sistema de cultivo” permitiu um notável aumento da produção de</p><p>café de Java em relação ao século XVIII, levando-a a oferecer parte signifi-</p><p>cativa do volume importado pela Europa no século XIX. O produto javanês,</p><p>entretanto, só poderia crescer caso ocorresse o mesmo com sua população</p><p>camponesa, mais preocupada com a combinação de atividades econômicas</p><p>que garantiam o provento de suas famílias do que com a maximização da</p><p>produção cafeeira, vista como uma imposição do Estado colonial.</p><p>O contraste com o Império do Brasil não poderia ser mais completo.</p><p>Em 1883, já</p><p>no contexto da crise do escravismo, C.F. Van Delden Laërne,</p><p>um agrônomo holandês com vasta experiência de terreno em Java, visitou</p><p>as províncias do Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo para examinar</p><p>qual o segredo do volume da produção brasileira. Após uma estadia de seis</p><p>meses, redigiu um minucioso relatório que ainda hoje é uma das melho-</p><p>res fontes para o estudo da escravidão na cafeicultura brasileira. Após fazer</p><p>uma avaliação da quantidade de cativos empregados diretamente nas fai-</p><p>nas do café, Laërne advertia o leitor que prestasse atenção “a esses cálculos,</p><p>por mais que pareça neste país [Holanda] que o plantio do café no Brasil</p><p>requeira mais mãos do que efetivamente ocorre. No capítulo a respeito</p><p>da agronomia do café, vamos aprender como é possível, com tão poucas</p><p>83 Sobre o Kultuur Stelsel e a cafeicultura javanesa, ver ELSON, 1994; CLARENCE-SMITH, 1994;</p><p>FURNIVALL, J. S. Netherlands India: a study of plural economy. Cambridge: Cambridge University</p><p>Press, 1944. p.80-147; BAARDEWIJK, F. V. The cultivation system, Java 1834-1880. Amsterdã: Royal</p><p>Tropical Institute (KIT), 1993. p. 12-14.</p><p>56 57</p><p>pessoas, produzir uma safra com mais de seis milhões de sacas [360.000</p><p>toneladas]”.84 A resposta ao enigma não era difícil de ser encontrada. A</p><p>fronteira aberta e a mobilidade proporcionada pelo trabalho escravo, soma-</p><p>das, após a década de 1860, à construção da malha ferroviária e à adoção de</p><p>maquinário avançado de beneficiamento que permitia poupar mão de obra</p><p>e deslocar mais cativos ao eito,85 tornaram a produção brasileira altamente</p><p>elástica, apta não somente a responder rapidamente aos impulsos do mer-</p><p>cado mundial, como, sobretudo, a comandá-los.</p><p>É aqui que se encontra o caráter radicalmente moderno da escravidão</p><p>no Vale do Paraíba. Com base nela, o Brasil se tornou capaz de determinar</p><p>o preço mundial de um artigo indissociável do cotidiano das sociedades</p><p>urbanas industriais, cujos ritmos de trabalho passaram a ser marcados pelo</p><p>consumo da bebida. Nas fábricas, no comércio, nas repartições públicas,</p><p>nos hospitais, nas escolas ou em qualquer outro lugar no qual a cadência</p><p>fosse ditada pelo tempo do relógio, o estimulante se tornou onipresente.</p><p>Não por acaso, Brasil e Estados Unidos – o paradigma do novo modo de</p><p>vida industrial e do consumo de massa – foram as duas pontas principais</p><p>da cadeia da mercadoria ao longo do século XIX, algo que se estreitou na</p><p>centúria seguinte. E, como em vários outros momentos do capitalismo his-</p><p>tórico, a formação de uma nova commodity frontier para o abastecimento</p><p>das zonas centrais articulou de forma direta a degradação do trabalho e da</p><p>natureza nas zonas periféricas. A novidade do Vale do Paraíba, em rela-</p><p>ção às outras fronteiras que o haviam precedido, consistiu em sua escala,</p><p>até então sem precedentes. Seus fazendeiros não só promoveram um dos</p><p>mais intensos fluxos de africanos escravizados para o Novo Mundo, parte</p><p>do qual sob a marca da ilegalidade, como igualmente arrasaram, no espaço</p><p>de apenas três gerações, uma das mais ricas coberturas florestais do mundo.</p><p>Produção em massa, consumo em massa, escravização em massa, destrui-</p><p>ção em massa: tais foram os signos da modernidade que conformaram a</p><p>paisagem histórica do Vale do Paraíba.</p><p>84 LAËRNE, 1885, p. 124.</p><p>85 Cf. SUMMERHILL, William R. Order against progress: government, foreign investment, and railroads</p><p>in Brazil, 1854-1913. Stanford: Stanford University Press, 2003; SLENES, Robert W. Grandeza ou</p><p>decadência? O mercado de escravos e a economia cafeeira da Província do Rio de Janeiro, 1850-</p><p>1888. In: COSTA, Iraci del Nero (Org.). Brasil: história econômica e demográfica. São Paulo: IPE:</p><p>USP, 1986; FRAGOSO, João L. R. A roça e as propostas de modernização na agricultura fluminense</p><p>do século XIX: o caso do sistema agrário escravista-exportador em Paraíba do Sul. Revista Brasileira</p><p>de História, São Paulo: Anpuh, v. 6, n. 12, p. 125-150, mar.-ago. 1986.</p><p>Novas considerações sobre o Vale do Paraíba</p><p>e a dinâmica imperial</p><p>Mariana Muaze</p><p>O presente artigo1 trabalha com a interpretação de que a ascensão da eco-</p><p>nomia cafeeira na região do Vale do Paraíba fluminense e a expansão da</p><p>classe senhorial do Império são processos interligados e interdependentes.</p><p>Sendo assim, considera que os lucros, demandas e interesses constituídos</p><p>em torno da cafeicultura no centro-sul foram imprescindíveis para a conso-</p><p>lidação da classe senhorial na sua dimensão nacional. A economia cafeeira</p><p>e as identidades constituídas em torno da manutenção da escravidão cria-</p><p>ram condições para que esta classe entretecesse práticas de vida – materiais,</p><p>econômicas, sociais, culturais e políticas – em torno da construção de um</p><p>Estado nacional, conformando-o como sua principal fonte de sustentação</p><p>social e objeto de direção política.2</p><p>Portanto, na perspectiva aqui apresentada, a história local do Vale do</p><p>Paraíba fluminense e o contexto político, econômico e social do Brasil no</p><p>oitocentos possuem conexões essenciais. Dentre elas, pode-se destacar a</p><p>transformação do Vale do Paraíba fluminense em maior exportador mun-</p><p>dial de café, processo viabilizado por uma política pró-escravista, de cunho</p><p>nacional, claramente desenhada para garantir a continuidade desta ins-</p><p>tituição no Brasil.3 Contudo, não se trataria mais de uma escravidão em</p><p>1 Esta é uma nova versão do texto “o Vale do Paraíba fluminense e a dinâmica imperial” publicado</p><p>em Inventário das fazendas do Vale do Paraíba fluminense: fase III. Rio de Janeiro: Instituto Estadual</p><p>do Patrimônio Cultural: Secretaria de Estado de Cultura, 2010. E em Instituto Cidade Viva. Rio de</p><p>Janeiro, 2010. Disponível em: .</p><p>2 Sobre as relações entre escravidão e construção do Estado imperial, ver: MATTOS, Ilmar Rohloff de.</p><p>O Tempo Saquarema: a formação do Estado imperial. São Paulo: Hucitec, 1990.</p><p>3 Ibid. Ver ainda, SALLES, Ricardo. E o Vale era o escravo: Vassouras, século XIX – senhores e escravos</p><p>no coração do Império. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008; PARRON, Tâmis. A política da</p><p>escravidão no Império do Brasil, 1826-1865. São Paulo: Civilização Brasileira, 2011.</p><p>58 59</p><p>moldes coloniais, arcaica;4 mas uma escravidão “moderna”,5 uma “Segunda</p><p>Escravidão”,6 cujas marcas seriam a alta lucratividade, a relação com o mer-</p><p>cado internacional, a exploração intensiva da mão de obra propiciada pela</p><p>inovação técnica e organizativa da exploração, além da proximidade polí-</p><p>tica com o estado nacional.7</p><p>A estrutura produtiva e comercial montada na localidade, em torno da</p><p>praça do Rio de Janeiro e suas regiões adjacentes, entre os anos de 1820 e</p><p>1840, beneficiava os fazendeiros do Vale, mas também um seleto grupo de</p><p>negociantes estabelecidos na Corte e responsáveis pelo escoamento da pro-</p><p>dução de café para o mercado internacional. Quando as tropas de mulas,</p><p>comandadas por arreadores, muitos deles portugueses, desciam a serra lota-</p><p>das de carregamentos de café com destino à Corte,8 imediatamente retorna-</p><p>vam ao Vale com africanos escravizados recém-adquiridos, além de outras</p><p>encomendas enviadas pelas casas comissárias de confiança dos fazendeiros.9</p><p>Como se vê, a Corte foi uma espacialidade fundamental para a estru-</p><p>tura política imperial e os negócios cafeeiros. Até a década de 1830, os escra-</p><p>vos africanos desembarcavam no porto do Rio de Janeiro e de lá subiam</p><p>a serra para trabalharem nas plantations. Com a Lei de 1831, declarada a</p><p>ilegalidade do tráfico Atlântico, os desembarques foram dificultados pelo</p><p>governo brasileiro e passaram a se dar clandestinamente.10 No entanto,</p><p>4 FRAGOSO, João Luis; FLORENTINO, Manolo. Arcaísmo como projeto: mercado atlântico, sociedade</p><p>agrária e elite mercantil numa economia colonial tardia. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001.</p><p>5 A denominação de escravidão moderna para o século XIX é utilizada por ambos os autores a</p><p>seguir, contudo com definições distintas: ALENCASTRO. Luiz Felipe. Vida privada e ordem privada</p><p>no Império In: ___. (Org.). História da vida</p><p>privada no Brasil: Império – a corte e a modernidade</p><p>nacional. São Paulo: Companhia das Letras, 2001 (História da Vida Privada no Brasil, v. 2); LUNA,</p><p>Francisco Vidal; KLEIN, Herbert S. Escravismo no Brasil. São Paulo: Imprensa Oficial, 2009.</p><p>6 TOMICH, Dale. Pelo prisma da escravidão, trabalho: trabalho, capital e economia mundial. São Paulo:</p><p>Edusp, 2011. Não se tratava apenas de aumentar a exploração do trabalhador escravo, aumentando</p><p>suas horas de trabalho na produção de mercadorias, mas da intensificação, dada pela introdução de</p><p>inovações tecnológicas, propiciadas pela inovação técnica e organizativa, da exploração.</p><p>7 Ibid.</p><p>8 LENHARO, Alcir. As tropas da moderação: o abastecimento da Corte na formação política do Brasil,</p><p>1808-1842. Rio de Janeiro: Moysés Baumstein, 1979.</p><p>9 FERREIRA, Marieta de Moraes. A crise dos comissários de café do Rio de Janeiro. 1977. Dissertação</p><p>(Mestrado em História do Brasil) – Instituto de Ciências Humanas e Filosofia, Universiadade</p><p>Federal Fluminense, Niterói, 1977.</p><p>10 Sobre o tráfico ilegal de escravos, ver: MAMIGONIAN, Beatriz G. A proibição do tráfico atlântico e a</p><p>manutenção da escravidão. In: GRINBERG, Keila; SALLES, Ricardo. (Org.). Coleção Brasil Imperial:</p><p>1808-1831. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009. v. 1; PARRON, 2011. Para relatos de descen-</p><p>dentes de africanos e os lugares de memória do tráfico, consultar os vídeos: PASSADOS presentes</p><p>– memória negra no sul fluminense. Direção de Hebe Mattos e Martha Abreu. Niterói: Labhoi-UFF,</p><p>em poucos anos, senhores e negociantes escravistas se articularam politi-</p><p>camente e o número de africanos traficados ilegalmente cresceu de forma</p><p>avassaladora. Esta tendência só foi interrompida em 1850, com a assinatura</p><p>da Lei Eusébio de Queiroz, quando o tráfico tendeu à extinção definitiva.</p><p>Nesta ocasião, a quantidade de escravos traficados que se encontravam tra-</p><p>balhando nos complexos cafeeiros do Vale do Paraíba já era suficiente para,</p><p>através da formação de famílias e da reprodução natural, garantir a sobrevi-</p><p>vência numérica da escravidão e o sistema produtivo das plantations cafeei-</p><p>ras funcionando por muito tempo.11</p><p>Partindo dos princípios interpretativos acima apresentados e conside-</p><p>rando a temporalidade entre a edificação dos complexos cafeeiros flumi-</p><p>nenses, ocorrida nos anos 1820/1830, e o auge da produção na década de</p><p>1870,12 este texto apresenta as seguintes proposições: I– a noção de Vale do</p><p>Paraíba como uma região eminentemente cafeeira foi construída, ao longo</p><p>do século XIX, concomitantemente com a ascensão política e econômica</p><p>dos plantadores de café, atuando como mais um elemento de identidade da</p><p>classe senhorial do Vale; II– os agentes sociais que atuaram na ocupação do</p><p>Vale do Paraíba fluminense bem como o capital investido na montagem dos</p><p>complexos cafeeiros tiveram múltiplas origens; III– as plantations do Vale</p><p>se organizavam como complexos cafeeiros que mantinham uma dinâmica</p><p>2011. Duração 43 min; e MEMÓRIAS do cativeiro. Direção acadêmica: Hebe Mattos e Martha Abreu.</p><p>Coordenação geral e roteiro: Hebe Mattos. Niterói: Labhoi-UFF, 2005. Ambos em UffTube: portal</p><p>de vídeos. Disponível em: .</p><p>11 SALLES, 2008.</p><p>12 A cronologia proposta por Stanley Stein para o Vale, durante muito tempo, foi tomada pela historio-</p><p>grafia sem grandes questionamentos. Nesta interpretação, até 1850, seria o período da montagem do</p><p>complexo cafeeiro no Vale, seguido dos anos de 1850 a 1864, quando a produção e as exportações do</p><p>produto chegariam ao auge. A falta de investimentos tecnológicos, o esgotamento das matas virgens</p><p>para continuar crescendo, o alto preço da mão de obra escrava, a escassez das terras de “fazenda velha”</p><p>seriam alguns dos elementos que desencadearam uma crise maciça do sistema a partir da segunda</p><p>metade dos anos sessenta. Contudo, estudos mais pontuais têm mostrado que, dependendo da pro-</p><p>priedade e das estratégias de manutenção do patrimônio de seus proprietários, a história era diferente.</p><p>Portanto, a crise descrita por Stein não foi generalizada e nem a mesma em todas as fazendas do Vale</p><p>fluminense. Não se trata de dizer que os problemas de esgotamento dos solos, envelhecimento dos</p><p>cafezais e da mão de obra, apontados por Stein, inexistiram concretamente; mas de afirmar que seus</p><p>efeitos foram sentidos, mais seriamente, na fronteira dos anos oitenta, e que as famílias encontraram</p><p>formas diversas de lidar com o problema. Aqueles que conseguiram superar a crise e manter suas</p><p>fazendas investiram em títulos da dívida pública, ações de bancos e empresas, montagem de empre-</p><p>sas, compra de imóveis urbanos, etc. Consultar: STEIN, Stanley J. Vassouras: um município brasileiro</p><p>do café, 1850-1900. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1990. SLENES, Robert W. Grandeza ou decadência?</p><p>O mercado de escravos e a economia cafeeira da Província do Rio de Janeiro, 1850-1888. In: COSTA,</p><p>Iraci del Nero (Org.). Brasil: história econômica e demográfica. São Paulo: IPE: USP, 1986; MUAZE,</p><p>Mariana. As memórias da viscondessa: família e poder no Brasil Império. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.</p><p>60 61</p><p>social e de trabalho hierarquizante a despeito da diversidade de sujeitos his-</p><p>tóricos que viviam e se relacionavam naquele espaço.</p><p>I</p><p>Entre os anos de 1816 e 1822, o naturalista francês Auguste Saint-Hilaire per-</p><p>correu diversas localidades do Império do Brasil. Para descrever a região</p><p>aqui estudada, usou a expressão Vale do Paraíba uma única vez: “a habita-</p><p>ção de Boa Vista da Pampulha é mais elevada que Sumidouro, que, entre-</p><p>tanto, é mais próximo três léguas da cadeia marítima, e, por conseguinte,</p><p>mais afastado do vale do Paraíba”.13 Nesta passagem, o termo foi usado como</p><p>um marco espacial para facilitar a localização especificada pelo viajante. Em</p><p>outros momentos do mesmo texto, o rio Paraíba do Sul consta como refe-</p><p>rência principal, mas mantém a mesma conotação de acidente geográfico:</p><p>“estrada nova do Paraíba”, “caminho novo do Paraíba”. Quase chegando a vila</p><p>de Nossa Senhora da Glória Valença, com o mesmo sentido, descreveu: “che-</p><p>guei às margens do Paraíba, que aqui tem, mais ou menos, a mesma largura</p><p>do que no lugar em que o atravessamos, perto de Ubá. Corre o rio, majestosa-</p><p>mente, num vale circundado de altas montanhas cobertas de mata virgem”.14</p><p>No ano 1870, Tavares Bastos usou Vale do Paraíba duas vezes em seu</p><p>livro A província: estudos sobre a descentralização do Brasil.15 Na primeira, ao</p><p>precisar por onde passava o telégrafo brasileiro, relatou: “apenas uma curta</p><p>linha percorre o litoral do Rio de Janeiro até Campos, outra corta o vale do</p><p>Paraíba”. Suas palavras, assim como as de Saint-Hilaire, ressaltavam o papel</p><p>do vale como referência geográfica. Contudo, na segunda menção feita pelo</p><p>político e escritor brasileiro, já havia a preocupação em apresentar as especi-</p><p>ficidades econômicas daquelas terras, dando-lhes um novo significado:</p><p>13 SAINT-HILAIRE, Auguste de. Viagem às nascentes do rio S. Francisco e pela província de Goiás. São</p><p>Paulo: Companhia Editora Nacional, 1937. v.1, p. 23. Brasiliana Eletrônica. Disponível em: . Acesso em: 26 set. 2014.</p><p>14 SAINT-HILAIRE, Auguste de. Segunda viagem do Rio de Janeiro a Minas Gerais e a São Paulo (1822).</p><p>São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1932. v. 5, p. 34. Brasiliana Eletrônica. Disponível em:</p><p>. Acesso em: 26 set. 2014.</p><p>15 Tavares Bastos foi um importante escritor e político alagoano. Ocupou a cadeira de deputado geral</p><p>pela província de Alagoas, entre 1861 e 1868. Consultar: BASTOS, Aureliano Tavares. A província:</p><p>estudos sobre a descentralização do Brasil. São Paulo: Companhia Editora nacional, 1937. p. 302, 368.</p><p>Brasiliana Eletrônica. Disponível em: . Acesso em: 3 maio 2011. Para</p><p>efetuar a pesquisa sobre a designação Vale do Paraíba, usamos os noventa e sete livros da Coleção</p><p>Brasiliana que estavam disponíveis na internet. Dentre os autores que também utilizaram a expres-</p><p>são Vale do Paraíba, ainda</p><p>encontramos: Alberto Torres, Manoel Bonfim e João Pandiá Calogeras.</p><p>No vale do Paraíba (Rio de Janeiro, S. Paulo, Minas) concentram-se um milhão</p><p>de escravos. Outrora, os interesses da sua grande propriedade procrastinaram</p><p>a repressão do tráfico, humilhando a nação inteira.16</p><p>Mais de meio século de grandes transformações no Império do Brasil</p><p>distanciam as falas de Saint-Hilaire e Tavares Bastos. Neste período, no</p><p>que compete ao vale do Paraíba, as mudanças vão muito além da paisagem</p><p>ou da geografia do lugar. A própria noção de “Vale do Paraíba” havia sido</p><p>resignificada. Não se tratava mais somente de um acidente geográfico, uma</p><p>referência territorial, um mero localizador. Tornara-se uma região especí-</p><p>fica, parte importante da província do Rio de Janeiro, com características</p><p>políticas, econômicas e sociais próprias. Esta singularidade foi percebida</p><p>por Tavares Bastos quando a descreveu como possuidora de muitos escra-</p><p>vos, com o predomínio de grandes fazendas e com um grupo de proprietá-</p><p>rios com respaldo político e cabedal econômico suficientes para resistir ao</p><p>fim do tráfico de escravos. Portanto, na década de 1870, o Vale do Paraíba já</p><p>havia se constituído como uma região. Mas não qualquer uma. Tratava-se</p><p>de uma região com projeção econômica e política no âmbito nacional.</p><p>O reconhecimento do potencial da região do Vale era assunto comen-</p><p>tado nas províncias e na Corte, onde era comum se ouvir nas ruas o bordão</p><p>“o Império é o café e o café é o Vale”. O dito era tão popular que o político</p><p>gaúcho Gaspar Silveira Martins, durante a campanha abolicionista, com-</p><p>pletou-o dizendo: “O Brasil é o café, e o café é o negro”.17 Suas palavras, ape-</p><p>sar de críticas à escravidão, reconheciam claramente a indissociabilidade</p><p>entre o estado Imperial, o café, a região do Vale do Paraíba e a escravidão.</p><p>A noção de Vale do Paraíba como região política e economicamente</p><p>consolidada também já aparecia nos anos sessenta, quando do debate sobre</p><p>a construção da Estrada de Ferro D. Pedro II na imprensa:</p><p>[...] A estrada de Ferro D. Pedro II, cujos destinos foram previstos e delinea-</p><p>dos, ganhasse forças servindo ao rico Vale do Paraíba da Cachoeira até o Porto</p><p>Novo do Cunha. (A ACTUALIDADE: Jornal Político, Litterário e Noticioso, Rio</p><p>de Janeiro, 2 fev. 1862).</p><p>A estrada de Ferro D. Pedro II foi feita especialmente para servir ao vale do</p><p>Paraíba e para suas partidas de imensa produção que ali se encontram. (A</p><p>ACTUALIDADE: Jornal Político, Litterário e Noticioso, 19 fev. 1862).</p><p>16 BASTOS, 1937.</p><p>17 TOPLIN, Robert Brent. The Abolition of Slavery in Brazil. New York: Atheneum, 1975. p. 136.</p><p>62 63</p><p>[...] O Vale do Paraíba dará produção para pagar e indenizar amplamente os capi-</p><p>tais que se empregarem ali em estrada de ferro, e então se aproveitará em toda</p><p>a extensão desse dinheiro que aí estará bem guardado. (CORREIO MERCANTIL:</p><p>Jornal Noticioso, Commercial e Político, Rio de Janeiro, 10 set. 1867).</p><p>Tantos investimentos em uma só localidade despertaram críticas áci-</p><p>das e deboches de representantes das províncias não contempladas:</p><p>O Vale do Paraíba é importante, vale até estrada de ouro. O resto do país não</p><p>vale nada, contentam-se com postos da guarda nacional, com os filões dos car-</p><p>gos policiais, e com os diplomas de eleitores para fabricar deputados e sena-</p><p>dores, porque de Minas é só isso que querem, com lombo de porco e feijão</p><p>fresco. Além da Mantiqueira, só campos estéreis, e o Vale do Paraíba produz</p><p>café e pode dar [...] boas empreitadas as custas do tesouro. (O GLOBO: Jornal</p><p>Philosophico, Literario, Industrial e Scientifico, Rio de Janeiro, 29 dez. 1867).18</p><p>Os diferentes significados dados ao Vale do Paraíba ao longo do século</p><p>XIX permitem caracterizá-lo como uma construção histórica. Nos primei-</p><p>ros anos do século XIX, a experiência da escassa ocupação e das imensas</p><p>matas virgens projetava o rio Paraíba como localizador para os que ali passa-</p><p>vam, com o intuito de traçar direções que facilitassem a exploração daquelas</p><p>terras. Não obstante, à medida em que o território foi colonizado, houve o</p><p>crescimento de vilas, cidades, entrepostos comerciais, estradas, pequenos e</p><p>médios sítios,19 além de imensos latifúndios. As transformações sociais, eco-</p><p>nômicas, políticas, culturais e de meio ambiente ocorridas alteraram as per-</p><p>cepções individuais e coletivas constituídas sobre aquela espacialidade. Das</p><p>relações estabelecidas e vivenciadas pelos agentes sociais, emergiu a noção</p><p>de Vale do Paraíba como região cafeeira, escravista, exportadora e economi-</p><p>camente próspera.20 Esta associação foi facilitada pela rápida ampliação do</p><p>cultivo da rubiácea nas terras banhadas pelo rio Paraíba; também conheci-</p><p>das como “Serra Acima”. Portanto, como fica aqui demonstrado, o espaço</p><p>é um produto social, resultado histórico das disputas sociais e políticas em</p><p>torno da significação do território. E com o vale do Paraíba não foi diferente.</p><p>Nas primeiras décadas do oitocentos, o café disputava espaço com</p><p>algumas culturas de subsistência e, principalmente, com a cana de açúcar,</p><p>gênero mais lucrativo na balança comercial brasileira até, pelo menos, a</p><p>18 Grifos meus. Todas as quarto citações acima foram consultadas no site: Biblioteca Nacional Digital</p><p>Brasil. Rio de Janeiro. Disponível em: . Acesso em: 5 jun. 2014.</p><p>19 Sobre a agricultura de subsistência e a fundação da vila de Paty do Alferes, ver: MUAZE, 2008, cap. 4.</p><p>20 Sobre espaço e relações sociais na história, consultar: KNAUSS, Paulo. Introdução. In: ___. Cidade</p><p>vaidosa: imagens urbanas do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Sette Letras, 1999. p. 7.</p><p>década de 1830.21 O caso da fazenda Pau Grande, uma das sesmarias mais</p><p>antigas da região, fundada na segunda metade do XVIII, por José Rodrigues</p><p>da Cruz, é bem representativo:22</p><p>AÇÚCAR AGUARDENTE RECEITA TOTAL</p><p>1797 4:661$540 (1960@e30ss) 1:818$540 (60 pipas) 6:480$080</p><p>1801 48:916:476 (3707@) 2:450$800 (92 ½ pipas) 52:492$661</p><p>1805 83:038$634 (não consta) 2:089$040 (107 ½ pipas) 85:127$675</p><p>1810 102:747$529 (1035@26ss)</p><p>2:997$920</p><p>(63 pipas e 132 medidas)</p><p>105:745$449</p><p>A análise das receitas expostas demonstra a franca expansão dos negó-</p><p>cios e confirmam que a maior parte dos lucros da fazenda advinha do comér-</p><p>cio do açúcar e da aguardente para consumo interno e exportação, ainda</p><p>nos anos de 1810. A produção era comercializada com diferentes compra-</p><p>dores estabelecidos nas localidades vizinhas de Barra do Inhomirim, Pillar e</p><p>Corte. As numerosas pipas de aguardente relacionadas tinham como destino</p><p>final Benguela e Lisboa, onde a bebida era usada no tráfico transatlântico de</p><p>escravos africanos. Com negócios tão consolidados, só houve interesse em</p><p>investir maciçamente na cultura do café por volta da década de 1830, quando</p><p>o preço da rubiácea já estava em ascensão no comércio mundial. Da mesma</p><p>forma que no exemplo descrito, muitos proprietários exploraram as duas</p><p>culturas concomitantemente até que, enfim, os lucros do cafeeiro superaram</p><p>os da cana de açúcar redundando numa substituição definitiva.23</p><p>21 Para a década de 1820, os principais produtos exportados no Império tinham os seguintes índices</p><p>gerais: 27,8% açúcar, 21% algodão e 19,2% café. Na segunda metade do século XIX, os índices do</p><p>café bateram 60% das exportações e o Vale do Paraíba tornou-se o maior exportador mundial do</p><p>produto. O açúcar, em outras localidades do Rio de Janeiro, manteve sua força econômica e o poder</p><p>político de muitos de seus produtores durante boa parte do XIX.</p><p>22 Sobre a fazenda Pau Grande e as famílias Ribeiro de Avellar e velho da Silva, consultar: MUAZE,</p><p>Mariana. 2008.</p><p>23 Para fazer esta afirmação, comparamos dois inventários de membros da família. No primeiro,</p><p>pertencente à D. Antônia Maria da Conceição (1828), não foram relacionados instrumentos de</p><p>trabalho, bens de raiz ou plantações referentes ao seu cultivo de café. Tal constatação indica que,</p><p>até aquele momento, o cafeeiro ainda não havia se tornado o principal sustentáculo da riqueza</p><p>familiar, logo, a</p><p>de 1969, analisando a</p><p>população livre e pobre com foco no município de Guaratinguetá.4</p><p>Desde então, o Vale oitocentista e suas regiões circunvizinhas nunca</p><p>deixaram de ser frequentados pela historiografia. Nesse mesmo período,</p><p>incrementaram-se a profissionalização e a expansão do campo da História,</p><p>com ênfase na pesquisa arquivística e na elaboração de dissertações e teses</p><p>de mestrado e doutorado, e novas abordagens tiveram grande impacto</p><p>entre os historiadores. O resultado da combinação desses dois processos</p><p>tem sido a redução do escopo e do foco das pesquisas, até mesmo para tor-</p><p>ná-las viáveis nos prazos estabelecidos pelos programas de pós-graduação.</p><p>Teses, dissertações, monografias, muitas delas publicadas, livros e artigos</p><p>passaram a tratar prioritariamente de temas como as famílias escravas, a</p><p>constituição de identidades afro-brasileiras, as formas de resistência das</p><p>populações cativas, o papel social, econômico e político de pequenos pro-</p><p>prietários, produtores ou da população livre e pobre, a constituição das</p><p>fortunas, a agricultura de subsistência e inúmeros outros assuntos. Esses</p><p>estudos derramaram-se sobre uma vasta dimensão territorial, cobrindo</p><p>praticamente todos os recantos, comarcas e municípios do Império, inclu-</p><p>sive os do Vale do Paraíba. O Vale, considerado como um todo, tanto em</p><p>sua especificidade regional quanto em sua articulação central com as confi-</p><p>gurações econômicas, sociais, políticas e culturais mais amplas do Império</p><p>do Brasil, contudo, deixou de ser objeto direto ou indireto da maioria des-</p><p>ses trabalhos. Isso aconteceu tanto por uma recusa, explícita ou implícita,</p><p>em buscar grandes temas e explicações, mesmo que a partir de abordagens</p><p>mais reduzidas, quanto pela escolha de estabelecer relações entre os traba-</p><p>lhos geograficamente focados e os temas acima elencados.</p><p>O livro coletivo que o leitor tem em mãos é, em parte, fruto desse</p><p>processo. Alguns de seus capítulos abordam os temas acima mencionados</p><p>em localidades específicas do Vale do Paraíba e em regiões circunvizinhas.</p><p>3 DEAN, Warren. Rio Claro: a Brazilian plantation system, 1820-1920. Stanford: Stanford University</p><p>Press, 1976. E em português Rio Claro: um sistema brasileiro de grande lavoura, 1820-1920. São</p><p>Paulo: Paz e Terra, 1977.</p><p>4 COSTA, Emilia Viotti da. Da senzala à colônia. São Paulo: DIFEL, 1966; FRANCO, Maria Sylvia</p><p>Carvalho. Homens livres na ordem escravocrata. São Paulo: IEB, 1969.</p><p>Outros capítulos, no entanto, recolocam a discussão ampla sobre o Vale e</p><p>seu significado em sua conformação com o mundo do Império do Brasil.</p><p>Tanto em um caso quanto no outro, entretanto, esse livro é, ao mesmo</p><p>tempo, fonte e resultado de um trabalho coletivo de discussão e pesquisa</p><p>que diversos pesquisadores e estudiosos têm desenvolvido sobre o Vale</p><p>nos últimos dez ou quinze anos. Nesse sentido, ele visa reunir e divulgar</p><p>uma série de trabalhos que se somam na recomposição do papel do Vale do</p><p>Paraíba no século XIX brasileiro.</p><p>Esse papel diz respeito, antes de tudo, à relação do Vale com a constru-</p><p>ção e consolidação do Estado nacional. Mais uma vez, o tema não é novo,</p><p>ainda que tenha perdido terreno na nova historiografia brasileira. José</p><p>Murilo de Carvalho, em A construção da ordem (1980) e Teatro de som-</p><p>bras (1988), que afirma a autonomia do projeto da elite política imperial</p><p>frente aos grandes proprietários rurais, não deixa de reconhecer, insuficien-</p><p>temente a nosso ver, uma “dialética da ambiguidade” que marcaria a rela-</p><p>ção do Estado com esses grandes proprietários.5 Outros dois clássicos da</p><p>história política do Brasil Império assinalaram a importância da expansão</p><p>cafeeira escravista pelo Vale no processo de construção do Estado nacional:</p><p>As tropas da moderação, de autoria de Alcir Lenharo, publicado em 1976,6</p><p>e O Tempo Saquarema, de Ilmar Rohloff de Mattos, publicado em 1987.7 A</p><p>tese de Ilmar Mattos, da relação entre a cafeicultura escravista e o Estado</p><p>imperial foi retomada, desta feita em seu momento de crise, por Ricardo</p><p>Salles em Nostalgia imperial, de 1996.8 A temática do Vale do Paraíba e sua</p><p>relação com a configuração política e socioeconômica do Império voltou à</p><p>baila no livro de Jeffrey Needell, The Party of Order, publicado em 2006,9</p><p>e, mais recentemente, no livro de Tâmis Parron, A política da escravidão no</p><p>5 CARVALHO, José Murilo de. A construção da ordem: a elite política imperial. Rio de Janeiro:</p><p>Campus, 1980; e Id. Teatro de sombras: a política imperial. Rio de Janeiro: Vértice, 1988. Nas novas</p><p>edições as duas partes da tese vêm novamente unificadas.</p><p>6 LENHARO, Alcir. As tropas da moderação: o abastecimento da Corte na formação política do Brasil,</p><p>1808-1842. São Paulo: Símbolo, 1979.</p><p>7 MATTOS, Ilmar Rohloff de. O Tempo Saquarema: a formação do Estado imperial. São Paulo:</p><p>Hucitec, 1987.</p><p>8 SALLES, Ricardo. Nostalgia imperial: a formação da identidade nacional no Brasil do Segundo</p><p>Reinado. Rio de Janeiro: Topbooks, 1996. A segunda edição traz o título modificado para Nostalgia</p><p>imperial: escravidão e formação da identidade nacional no Brasil do Segundo Reinado (Rio de</p><p>Janeiro: Ponteio, 2013).</p><p>9 NEEDELL, Jeffrey. The Party of Order: the conservatives, the State, and slavery in the Brazilian</p><p>Monarchy, 1831-1871. Stanford: Stanford University Press, 2006.</p><p>14 15</p><p>Império do Brasil, de 2011.10 A centralidade do Vale do Paraíba na formação</p><p>do Império foi ainda tematizada por Mariana Muaze, em As memórias da</p><p>viscondessa, e por Ricardo Salles, em E o Vale era o escravo, ambos de 2008.11</p><p>Uma primeira questão que surge quando se busca entender o Vale do</p><p>Paraíba no século XIX brasileiro diz respeito à “definição” do que vinha a ser</p><p>essa região. O Vale do Paraíba, de um ponto de vista estritamente geográfico,</p><p>compreende as terras banhadas pelo Rio Paraíba do Sul na parte leste do atual</p><p>estado de São Paulo e oeste do Rio de Janeiro. Entretanto, já para os contem-</p><p>porâneos do século XIX, a denominação carregava outros significados: café,</p><p>grandes propriedades e proprietários rurais e escravidão. Mais ainda, a região</p><p>era percebida como esteio econômico do Império e o locus de sua classe domi-</p><p>nante. Nenhuma outra região, ao longo do Segundo Reinado, foi berço de tan-</p><p>tos títulos nobiliárquicos quanto o Vale. Essa simples designação, aliás, já era</p><p>suficiente para passar a ideia de uma região que compreendia muito mais que</p><p>sua inscrição geográfica. Nessa área, historicamente construída, as relações</p><p>políticas, econômicas, sociais e culturais emprenharam de significados o aci-</p><p>dente geográfico que lhe servia de base territorial.12 Econômica e socialmente,</p><p>esse Vale se estendia para o conjunto da província do Rio de Janeiro, para o</p><p>Oeste Velho paulista e para a Zona da Mata mineira. Ele ainda alimentava eco-</p><p>nomicamente o porto e a praça do Rio de Janeiro, e, política e culturalmente,</p><p>estava em estreita simbiose com a Corte imperial. Por isso, seguindo Orlando</p><p>Valverde, talvez o mais correto fosse falar em Bacia do Paraíba, região que</p><p>compreenderia todas essas áreas e suas configurações socioeconômicas.13</p><p>10 PARRON, Tâmis. A política da escravidão no Império do Brasil, 1826-1865. Rio de Janeiro: Civilização</p><p>Brasileira, 2011. Pelo menos três outros trabalhos recentes trataram da política imperial bus-</p><p>cando afastar-se ou mesmo criticar as teses clássicas de Ilmar Rohloff de Mattos e José Murilo de</p><p>Carvalho: DOLHNIKOFF, Miriam. O pacto imperial: origens do federalismo no Brasil. São Paulo:</p><p>Globo, 2005; MARTINS, Maria Fernanda Vieira. A velha arte de governar: um estudo sobre polí-</p><p>tica e elites a partir do Conselho de Estado – 1842-1889. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2007;</p><p>GOUVÊA, Maria de Fátima. O Império das províncias: Rio de Janeiro, 1822-1889. Rio de Janeiro:</p><p>Record, 2008. Jeffrey Needell, em The Party of Order (já citado), por sua vez, critica a noção de</p><p>classe senhorial de Mattos, sem se deter na tese de Carvalho, ainda que o citando constantemente,</p><p>e adotando a terminologia de elite política para designar os dirigentes</p><p>fazenda continuava vigorando como um engenho por excelência. Já no inventá-</p><p>rio de seu filho, barão de Capivary (1863), encontram-se listados milhares de árvores de diferen-</p><p>tes idades, tendo as mais antigas 24 anos, levando-me a concluir que a substituição de culturas</p><p>deve ter sido iniciada na década de 1830. A fortuna acumulada por este fazendeiro foi da ordem</p><p>de 858:670$300, conforme seu inventário. Documentos consultados: INVENTÁRIO do Barão de</p><p>64 65</p><p>Desde a virada do século XIX, com a industrialização europeia e a</p><p>revolução escrava de São Domingos, houve uma reestruturação significa-</p><p>tiva dos lugares produtores de commodities. Segundo o historiador Rafael</p><p>Marquese,24 esta colônia francesa respondia por parte significativa da pro-</p><p>dução de gêneros tropicais (como açúcar, algodão e café) até 1791, quando</p><p>foi declarada a independência do Haiti. Na nova conjuntura política, houve</p><p>a desestruturação dos largos plantéis ali existentes e seu espaço no mercado</p><p>internacional foi suprido por novas áreas produtoras, a exemplo do Vale do</p><p>Paraíba. Por outro lado, a Revolução Industrial inglesa e o novo ritmo de</p><p>trabalho impulsionaram a popularização do açúcar na dieta do trabalhador,</p><p>o aumento do consumo de bebidas estimulantes a exemplo do café e o cres-</p><p>cimento da demanda de algodão para a indústria têxtil em expansão, o que</p><p>tornou a exportação destes produtos bastante lucrativa.25</p><p>As primeiras experiências de plantio do café no Brasil foram no Pará.</p><p>Na Corte, a rubiácea foi cultivada como uma planta de quintal para con-</p><p>sumo doméstico e, entre 1760 e 1820, já se percebiam plantações pioneiras.</p><p>Sobre esse período inicial, Monsenhor Pizarro atestou que a Tijuca era a</p><p>localidade de maior produção no início do século XIX: “não há chácara ou</p><p>fazenda que deixe de cultivar o precioso gênero”.26 Entre os primeiros plan-</p><p>tios na urbe, destacava-se: a rua dos Barbonos (hoje, rua Evaristo da Veiga)</p><p>pertencente aos padres capuchinhos; a encosta do Corcovado e morros</p><p>vizinhos com mais 3 mil pés; a da região ao norte do maciço da Carioca e</p><p>o plantio do Mata-Porcos, atual Largo do Estácio, pertencente ao holandês</p><p>João Hoppman.27 Para fora do centro da cidade, a cultura do café se alastrou</p><p>nas encostas de Jacarepaguá e elevações que circundam a baixada de Santa</p><p>Cruz e Inhaúma, onde se localizava a fazenda do padre Antonio Couto da</p><p>Fonseca, no local chamado Mendanha.28</p><p>Capivary. Vassouras: Faculdade Severino Sombra, 1863. CDH, caixa 116; INVENTÁRIO Antônia</p><p>Maria da Conceição. Vassouras: Faculdade Severino Sombra, 1828. CDH, caixa 76.</p><p>24 MARQUESE, Rafael. Feitores do corpo, missionários da mente: senhores, letrados e o controle dos</p><p>escravos nas Américas, 1660-1860. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.</p><p>25 TOMICH, D; MARQUESE, R. “O Vale do Paraíba escravista e a formação do Mercado mundial de café”.</p><p>In: GRIMBERG, Keila; SALLES, Ricardo. Coleção Brasil Imperial: 1831-1871. Rio de Janeiro: Civilização</p><p>Brasileira, 2009. Este texto recebeu uma nova edição revisada que compõe o primeiro capítulo deste livro.</p><p>26 PIZARRO, Monsenhor apud MACHADO, Humberto. Escravos, senhores e café. Niterói: Cromos, 1993. p. 20.</p><p>27 VALVERDE, Orlando. Estudos de geografia agrária brasileira. Petrópolis: Vozes, 1985.</p><p>28 Nestas localidades, o russo Langsdorff possuía vasta plantação na Fazenda Mandioca e o antigo</p><p>lavrador de São Domingos, Sr. Lessesne, foi fornecedor de mudas de café com mais de sessenta mil</p><p>pés plantados em sua fazenda em Jacarepaguá.</p><p>Diante da demanda crescente, o plantio da rubiácea cresceu imensa-</p><p>mente através de dois eixos principais. O primeiro partiu de Laranjeiras,</p><p>Tijuca e Serra do Mendanha, na cidade do Rio de Janeiro, e atingiu o Vale</p><p>do rio Paraíba do Sul, onde tomou dois sentidos distintos. Para São Paulo,</p><p>margeando o Caminho Novo da Piedade (desbravado em 1770 para facilitar</p><p>a comunicação entre o Rio de Janeiro e as minas de Goiás e Mato Grosso),</p><p>se destacaram as localidades de São João Marcos do Príncipe, Resende,</p><p>Piraí e São Sebastião de Barra Mansa. Em direção à Minas Gerais, nos veios</p><p>do Caminho Novo (aberto para o transporte do ouro na década de 1720),</p><p>foram fundadas as vilas de Paty do Alferes, Vassouras e Nossa Senhora da</p><p>Glória de Valença. No último caso, lembro que a proliferação das fazendas</p><p>cafeeiras também foi facilitada pelas duas variantes do Caminho Novo, as</p><p>estradas do Comércio (1813/1817) e da Polícia (1817), que serviram de vias</p><p>de escoamento para os portos fluviais de Iguaçu, Estrela e Porto das Caixas,</p><p>de onde o café seguia para as casas comissárias da Corte e, enfim, para seus</p><p>diferentes destinos nos Estados Unidos e Europa.29</p><p>O segundo eixo de expansão partiu da baixada fluminense com desta-</p><p>que para as vilas de São Gonçalo e Santo Antônio de Sá (atual Itaboraí). De</p><p>lá, o cultivo do café chegou a Cantagalo na década de 1840 e fez uma nova</p><p>penetração para o nordeste onde alcançou Nova Friburgo, Aldeia da Pedra</p><p>(atual Itaocara), Bom Jesus de Monte Verde (atual Cambuci) e São Fidélis</p><p>de Sygmaringa. Como se vê, nos idos de 1830, a cultura do cafeeiro já havia</p><p>tomado quase toda a bacia do rio Paraíba,30 incluindo Entre-Rios, Paraíba</p><p>do Sul, Santo Antônio de Sapucaia e Porto Novo.31 Neste processo, foram</p><p>imprescindíveis as imensas florestas virgens que se traduziram em uma área</p><p>de fronteira agrícola aberta para exploração e as vias de escoamento estabe-</p><p>lecidas desde a extração aurífera.</p><p>Não obstante os aspectos externos, o rápido crescimento do café no</p><p>vale do Paraíba também foi facilitado pela enorme disponibilidade de terras</p><p>(fronteira agrícola aberta), uma rede de estradas e caminhos consolidada, um</p><p>know how de transporte executado por mulas desenvolvido durante a minera-</p><p>ção, uma estrutura de tráfico negreiro eficazmente montada e uma volumosa</p><p>29 Sobre a abertura dos caminhos e sua importância para a ocupação e expansão comercial do Vale</p><p>do Paraíba fluminense, consultar: NOVAES, Adriano. Os caminhos antigos do território fluminense.</p><p>In: INVENTÁRIO das fazendas fluminenses. Rio de Janeiro: INEPAC, 2008. t. I, p. 53-78.</p><p>30 Para o geógrafo Orlando Valverde, a denominação bacia do Paraíba seria mais completo, pois tam-</p><p>bém incluiria as terras não diretamente banhadas pelo rio Paraíba do sul. VALVERDE, 1985.</p><p>31 SALLES, Ricardo. 2008.</p><p>66 67</p><p>reserva de capitais privados, acumulados em outras áreas de produção, mas</p><p>que foram investidos nos complexos cafeeiros aos primeiros sinais de pos-</p><p>síveis lucros a partir da expansão da demanda no mercado internacional.32</p><p>Todo este processo de montagem de uma estrutura cafeeira escravista</p><p>de grande porte na região do Vale do Paraíba aqui descrito deve ser enten-</p><p>dido de forma indissociável à construção do estado imperial e da própria</p><p>classe senhorial. A partir dos anos de 1840, após a intensa experiência federa-</p><p>lista da Regência, houve a ascensão de uma política de estado centralizadora</p><p>levada a cabo pelos conservadores Saquaremas. No novo contexto, os ideais</p><p>de manutenção da ordem e expansão da civilização foram legitimados como</p><p>capazes de unir diferentes interesses políticos e econômicos da classe senho-</p><p>rial em torno da Coroa, representada pela figura do Imperador.33 Enquanto o</p><p>primeiro garantia a escravidão como peça fundamental para a sobrevivência</p><p>do Império, o segundo valorizava as formas de comportamento e o habitus</p><p>europeu como modelo de civilidade a ser seguido, vislumbrando colocar o</p><p>Brasil no rol das grandes nações.34 Tal processo foi definido pelo historia-</p><p>dor Ilmar Mattos como “expansão para dentro.” Ou seja, ao transformar os</p><p>ideais de ordem e civilização em elementos de coesão e identidade social, os</p><p>Conservadores não só apaziguavam as diferenças no interior da classe senho-</p><p>rial, fortalecendo-a;35 mas também incorporavam as classes médias urbanas</p><p>e os profissionais liberais à chamada boa sociedade do Império. Com a base</p><p>de sustentação social ampliada e consolidada, foi possível manter uma polí-</p><p>tica conservadora pró-escravista favorecedora dos interesses</p><p>dos senhores de</p><p>escravos até, seguramente, a Lei do Ventre Livre, em 1871.36</p><p>32 MARQUESE; TOMICH, 2009, p. 353.</p><p>33 MATTOS, I. 1990.</p><p>34 O conceito de habitus aqui trabalhado é entendido a partir das considerações de Norbert Elias, para</p><p>quem habitus é a forma de sentir e agir não reflexiva, o equivalente a uma segunda natureza, que, atra-</p><p>vés do autocondicionamento psíquico, pouco a pouco vai fazendo parte da estrutura da personalidade</p><p>do indivíduo. Para compreender melhor a forma como Elias entende e trabalha com este instrumental</p><p>teórico, deve-se inseri-lo no contexto de sua teoria geral do “processo civilizador”. Sobre o conceito</p><p>de habitus ver: ELIAS, Norbert. A sociedade de Corte. 2. ed. Lisboa: Estampa, 1995; Id. Mi trayectoria</p><p>intelectual. Barcelona: Ediciones Península,1984; Id. Processo civilizador. São Paulo: JZE, 1993. v. I-II.</p><p>35 Desta forma, os conservadores conseguem construir a Coroa como Partido, ou seja, unem a classe</p><p>senhorial e a boa sociedade em torno da figura do imperador e do funcionamento das instituições</p><p>do estado Imperial, ao mesmo tempo em que reforçam os ideais favorecedores desta classe (ordem</p><p>e civilização) como política de estado. No bojo deste processo, muitos membros da classe senhorial</p><p>abrem mão de seu poder privado (casa) em prol da defesa de interesses maiores representados pelo</p><p>Império. MATTOS, I., op. cit.</p><p>36 A Lei Rio Branco foi aprovada, em 1871, com o intuito de minimizar as reivindicações pela abo-</p><p>lição surgidas após a guerra do Paraguai. Seu custo político em relação aos grandes senhores de</p><p>Buscando as relações aqui propostas no âmbito local, pode-se verifi-</p><p>car que, no mesmo período (1840-1860), houve a consolidação do poder</p><p>dos grandes e mega proprietários “serra acima”, no Vale do Paraíba, con-</p><p>firmando a supremacia da região mercantil do centro-sul.37 Partindo dos</p><p>dados levantados por Ricardo Salles para Vassouras, pode-se dizer que os</p><p>senhores com mais de 100 escravos ampliaram a posse de cativos de: “34,5%</p><p>para 74,23% entre 1836 e 1850; para 72,2% entre 1851 e 1865 e para 70,24%</p><p>entre 1866 e 1880”.38 Neste processo, o grupo de pequenos e médios pro-</p><p>prietários, muitos dependentes dos grandes cafeicultores (para emprésti-</p><p>mos de dinheiro, transporte de mercadoria, etc.), acabaram em dificuldades</p><p>financeiras e perderam suas posses, o que auxiliava ainda mais a concen-</p><p>tração de terras nas mãos dos grandes latifundiários que as adquiriam por</p><p>módicos preços. Em Paraíba do Sul, o mesmo processo de concentração</p><p>de terras e escravos também foi percebido por João Luis Fragoso.39 Ambos</p><p>os trabalhos demonstram que os mega e grandes senhores tiveram con-</p><p>dições excelentes em termos de disponibilidade de terra, mão de obra e</p><p>demanda por produto para competirem no mercado internacional de café.</p><p>Tais condições não eram de todo espontâneas: havia uma política de estado</p><p>escravista favorecedora da reprodução destas relações, já que as mesmas lhe</p><p>proporcionavam base de sustentação política e econômica.</p><p>Portanto, mesmo não ocupando as mais altas posições do Executivo</p><p>e do Legislativo central, os senhores do Vale do Paraíba estiveram, direta</p><p>e indiretamente, ligados à política imperial.40 Muitos mantinham cone-</p><p>escravos não era ignorado pelos conservadores, muito pelo contrário. O propósito destes políticos</p><p>era “reformar para conservar”, aprovar a emancipação do ventre escravo como forma de garantir</p><p>a sobrevivência da escravidão por mais alguns anos, num mundo em que esta instituição ruía.</p><p>Desejavam o menor abalo possível das estruturas sociais a fim de manter a ordem imperial e o</p><p>controle dos meios de produção pela classe dominante. SALLES, 2008.</p><p>37 Ibid.</p><p>38 Ibid, p. 156.</p><p>39 FRAGOSO, João Luís. Barões do café e sistema agrário escravista: Paraíba do Sul/Rio de Janeiro (1830-</p><p>1888). Rio de Janeiro: Faperj: 7Letras, 2013.</p><p>40 Neste aspecto, discordo da noção de “dialética da ambiguidade” desenvolvida por José Murilo, para</p><p>quem os interesses dos proprietários rurais e da Coroa entraram por diversas vezes em descompasso</p><p>durante o Segundo Reinado. Segundo o autor, isso pode ser percebido em relação às despesas com</p><p>justiça, administração, educação, obras de infraestrutura e assistência pública nas províncias, onde a</p><p>participação da Coroa sempre deixou a desejar. Contudo, é preciso que se pense que, ao não ocupar</p><p>este espaço a nível local no tocante às províncias, a Coroa deixava um vazio que era preenchido</p><p>pelos grandes senhores de terras e homens que o almejavam em troca de prestígio social, aquisição</p><p>de títulos e privilégios políticos. A distribuição de nobiliarquia parece ter sido o mais comum meca-</p><p>nismo de compensação, pois 14% de todos os títulos conferidos por D. Pedro II foram a fazendeiros</p><p>68 69</p><p>xões com importantes nomes da Corte como forma de garantir os inte-</p><p>resses cafeeiros na esfera nacional. No nível local, havia o domínio quase</p><p>absoluto das câmaras municipais, assembleias provinciais, guarda nacional</p><p>e execução de obras públicas por estes grandes senhores que gozavam de</p><p>uma vasta rede de solidariedades tecidas entre as “principais famílias” de</p><p>cada localidade.41 Contudo, tal forma de articulação política não prescindia</p><p>de disputas intra-classe, a exemplo das querelas entre o Partido Liberal e</p><p>Conservador ocorridas tanto no cenário nacional como local.</p><p>II</p><p>Na década de 1950, a ocupação do vale do rio Paraíba do Sul foi estudada</p><p>pelo historiador Stanley Stein em seu trabalho clássico Grandeza e decadên-</p><p>cia do café. Segundo o autor, este movimento populacional foi impulsio-</p><p>nado por dois fatores principais. De um lado, a concessão de sesmarias na</p><p>região que se intensificou durante a estada da Corte portuguesa no Brasil</p><p>devido à distribuição de terras em agradecimento aos serviços prestados a</p><p>sua Majestade. De outro, o aumento de posses de terras derivadas da intensa</p><p>movimentação proveniente da região mineradora, quando o Vale ainda era</p><p>numa zona de fronteira agrícola aberta.42 A convivência entre sesmeiros</p><p>e posseiros, que inicialmente foi pacífica, tendeu a se acirrar na medida</p><p>em que as áreas de expansão agrícola foram se escasseando e os litígios</p><p>pelas terras foram se intensificando. O resultado de tal dinâmica histórica</p><p>foi uma enorme concentração de terras, escravos, poder político-militar e</p><p>de café. Conferira a tabela abaixo. Consultar: MUAZE, 2008, p. 66-68; CARVALHO, José Murilo de.</p><p>Teatro de sombras: a política imperial. 4. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004.</p><p>41 Como exemplo, podemos citar o caso do barão de Capivary e do visconde de Uruguai, na oca-</p><p>sião de Membro do Conselho de Estado e chefe do Partido Conservador, que trocaram correspon-</p><p>dências em 1862 para acertar os nomes indicados para a próxima eleição da assembleia provincial.</p><p>Consultar: SOUSA, Paulino José Soares de – visconde do Uruguai. [Carta ao barão de Capivary]. Rio</p><p>de Janeiro, 7 jan. 1862. Arquivo Nacional, Fundo Fazenda Pau Grande, notação 74. Ainda podemos</p><p>citar o caso da revolta de Manoel Congo, ocorrida em Vassouras em 1838, estudada pelo historiador</p><p>Flávio Gomes. Na ocasião, o comandante da Guarda Nacional acionado para capturar os fugitivos</p><p>era Francisco Peixoto de Lacerda Werneck, futuro barão de Paty do Alferes e um dos maiores pro-</p><p>prietários fundiários da região com cerca de mil escravos. As demais autoridades responsáveis pela</p><p>averiguação do caso – os juízes de paz e o juiz de direito – eram todos seus parentes: “o juiz de paz da</p><p>freguesia de Pati do Alferes, José Pinheiro de Sousa Werneck, era irmão do juiz sendo ambos primos</p><p>legítimos de Lacerda Werneck.” GOMES, Flávio. História de quilombolas: mocambos e comunidades</p><p>de senzalas no Rio de Janeiro, século XIX. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p. 198.</p><p>42 A concessão de sesmarias foi abolida em 1822, quando se instituiu o reconhecimento legal das pos-</p><p>ses. Ver: STEIN, 1990.</p><p>prestígio social nas mãos das poucas famílias que conseguiram receber seu</p><p>quinhão até as primeiras décadas do século XIX.</p><p>O pioneirismo na ocupação</p><p>de terras no Vale comentado por Stanley</p><p>Stein certamente foi um fator importante para que algumas famílias con-</p><p>centrassem riqueza e poder numa fase posterior, quando o preço do café</p><p>despontou no mercado internacional. Contudo, em muitos casos, tais fortu-</p><p>nas familiares foram erguidas ou ampliadas com base em outras atividades</p><p>econômicas que não o plantio do café para o mercado externo, tais como:</p><p>comércio de grosso trato, tráfico de escravos, mineração, investimento em</p><p>imóveis, e empréstimo de dinheiro a juros. Os exemplos são distintos de</p><p>localidade para localidade. Mas, na maioria dos casos, o café não foi a única</p><p>base na qual foram erguidas as principais fortunas da região.</p><p>Em 4 de setembro de 1820, D. João VI assinou o decreto que permitia</p><p>a criação da vila de Paty do Alferes. Daquele momento em diante, todas</p><p>as casas de fazendas, casebres, ranchos para pouso de tropeiros e viajan-</p><p>tes, vendas, e demais formas de morada e trabalho, construídas dentro</p><p>dos limites das antigas freguesias de Nossa Senhora da Conceição do Paty,</p><p>Sacra Família do Caminho Novo do Tinguá, Nossa Senhora da Conceição e</p><p>Apóstolos São Pedro e São Paulo da Paraíba Nova e os curatos de Santana de</p><p>Sebolas e Senhor Bom Jesus de Matosinhos, passavam a fazer parte da vila</p><p>de Paty do Alferes.43 A região era bastante visitada por aqueles que se des-</p><p>tinavam as Minas Gerais pelos caminhos do ouro e se mantinham através</p><p>da produção de gêneros agrícolas como cana de açúcar, mandioca, milho,</p><p>legumes, café, marmelos e diversas frutas. Os produtos se destinavam ao</p><p>auto-abastecimento e, em escala reduzida, o fornecimento para Corte, com</p><p>exceção do açúcar, que era levado, em grandes quantidades, ao porto da</p><p>Estrela para ser encaixotado e transportado para armazéns da capital.44</p><p>A decisão de criar uma vila em Paty do Alferes privilegiava os núcleos</p><p>Ribeiro de Avellar e Werneck, pertencentes à mesma família de origem e</p><p>pioneiros na ocupação da região desde o século XVIII, com a fundação das</p><p>primeiras sesmarias do Pau Grande, Ubá e Guaribu.45 Já em 1711, André</p><p>43 Sobre o assunto, consultar: ALVARÁ de criação da Vila de Paty do Alferes, 4 de setembro de 1820</p><p>apud PIRES, Fernando Tasso Fragoso. Antigas fazendas de café da província fluminense. Rio de</p><p>Janeiro: Nova Fronteira, 1984. p. 14-15 e RELATO de Monsenhor Pizarro e Araújo apud RAPOSO,</p><p>Inácio. História de Vassouras. 2. ed. Rio de Janeiro: SEEC, 1978. p. 21.</p><p>44 Ibid.</p><p>45 Sobre a família Werneck, consultar o trabalho do historiador: SILVA, Eduardo. Barões e escravidão:</p><p>três gerações de fazendeiros e a crise da estrutura escravista. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.</p><p>70 71</p><p>João Antonil, ao traçar o “roteiro do Caminho Novo da cidade do Rio de</p><p>Janeiro para as minas” no livro Cultura e opulência do Brasil, fez o primeiro</p><p>registro referente às terras do Pau Grande que se tem notícia.</p><p>Dos Pousos Frios se vai à primeira roça do capitão Marcos da Costa; e dela, em</p><p>duas jornadas, à segunda roça, que chamam do Alferes. Da roça do Alferes,</p><p>numa jornada se vai ao Pau Grande, roça que agora principia, e daí se vai pou-</p><p>sar no mato ao pé de um morro que chamam Cabaru. Desse morro se vai ao</p><p>famoso rio Paraíba, cuja passagem é em canoas. Da parte de aquém, está uma</p><p>venda de Garcia Rodrigues e há bastantes ranchos para os passageiros; e da</p><p>parte d’além, está a casa do dito Garcia Rodrigues, com larguíssimas roçarias.46</p><p>O citado Garcia Rodrigues Paes havia sido o principal responsável pela</p><p>abertura do Caminho Novo em fins do século XVII e recebeu como recom-</p><p>pensa quatro sesmarias para si e uma para cada um de seus doze filhos.</p><p>Pouco tempo depois, em 1739, o capitão Francisco Tavares, também mora-</p><p>dor do caminho das Minas Gerais, ergueu uma capela em homenagem à</p><p>Nossa Senhora da Conceição em sua fazenda ao redor da qual outros habi-</p><p>tantes se estabeleceram. Em 1816, foi a vez do francês Saint-Hilaire passar</p><p>pela localidade. O cenário antes descrito por Antonil havia mudado e as</p><p>terras do Pau Grande já comportavam um grande engenho de açúcar. A</p><p>partir delas, a família Ribeiro de Avellar se fixou na região desde 1748 e</p><p>exerceu seu poder durante todo o Oitocentos.47</p><p>As festividades de criação da vila de Paty do Alferes e a posse da pri-</p><p>meira Câmara municipal ocorreram em 23 de fevereiro de 1823. Contudo,</p><p>menos de 2 anos depois a mesma foi extinta para a criação da povoação</p><p>de Vassouras em seu lugar.48 A nova vila de Vassouras, assim como Paty do</p><p>Alferes, tinha sido ocupada a partir da decadência da mineração. Em seus</p><p>Para uma abordagem memorialista, ver: MORAES, Roberto Menezes de. O casal Furquim Werneck</p><p>e sua descendência. Vassouras: Liney, 1985; CASTRO, Maria Werneck de. No tempo dos barões. São</p><p>Paulo: Bem-te-vi, 2004.</p><p>46 Grifos meus. ANTONIL, André João. Cultura e opulência do Brasil. São Paulo: Melhoramentos:</p><p>MEC, 1976. p. 184.</p><p>47 Concessão de meia légua de terras em Pau Grande aos irmãos Manuel e Francisco Gomes Ribeiro</p><p>(o moço) e ao sócio Antônio da Costa Araújo. A carta de sesmaria foi requerida pelos três sócios,</p><p>em 9 de outubro de 1748. Entretanto, na ocasião de sua assinatura, em 3 de outubro de 1750, foi</p><p>registrada uma légua de terras no nome dos dois irmãos portugueses. MORAES, Roberto Menezes</p><p>de. Os Ribeiro de Avellar na Fazenda Pau Grande. Paty do Alferes: [s.n.], 1994. p. 8.</p><p>48 WERNECK, Francisco Peixote de Lacerda. [Sem Título] O Vassourense, Vassouras, 31 dez. 1893 apud</p><p>RAPOSO, Inácio. História de Vassouras, p. 21. Sobre a data da solenidade de fundação da vila há contro-</p><p>vérsias, enquanto Raposo aponta 23 de fevereiro de 1821, Antônio Martins afirma ser 21 de fevereiro do</p><p>mesmo ano. A primeira Câmara eleita (1821-1824) foi composta pelos procuradores Antônio Gomes</p><p>primeiros anos, a produção era diversificada (mandioca, feijão, banana e</p><p>porcos) e escoava para a capital através das estradas do Comércio (1813) e</p><p>da Polícia (1820), à margem das quais nasceram as primeiras culturas dos</p><p>cafeeiros.49 Na verdade, a introdução dos cafezais na região é anterior à cria-</p><p>ção da vila de Paty do Alferes. Os tropeiros que transitavam entre os centros</p><p>da mineração e a cidade do Rio de Janeiro plantaram as primeiras mudas</p><p>de café ao longo do Caminho Novo, buscando garantir alimento em futuras</p><p>paradas. O grande florescimento da localidade de Vassouras acabou influen-</p><p>ciando a alteração do centro político e facilitando a exploração do café na</p><p>região que já, em 1836, alcançou o índice de 300 mil arrobas exportadas.50</p><p>Para Stanley Stein, “três acontecimentos se conjugaram para completar</p><p>o povoamento de Vassouras no último quartel do século XVIII e no pri-</p><p>meiro do século XIX: a exaustão das Minas ao norte, a expansão da cultura</p><p>do café e a eliminação dos índios Coroados na região atualmente ocupada</p><p>por Valença na margem norte do Paraíba”. A decisão regencial de transferir</p><p>a vila para Vassouras veio satisfazer interesses políticos e econômicos das</p><p>famílias Teixeira Leite e Correia e Castro, que enriquecidas com a minera-</p><p>ção, haviam se instalado na região de Vassouras na virada do século, após</p><p>a exaustão das minas de ouro, procurando outra atividade econômica. A</p><p>mudança da capital política também contou com a aceitação dos Ribeiro de</p><p>Avellar e Werneck que, na época, possuíam membros na câmara municipal</p><p>de Paty que votaram pela alteração.51 O florescimento da nova vila foi rápido</p><p>e, em 1850, já possuía 35.000 residentes entre pessoas livres e escravos. Em</p><p>1872, este número era de 39.253 habitantes, incluindo 20.158 escravos, 19.085</p><p>livres de diferentes raças e origens.</p><p>No caso de Valença, que também seria uma das principais exportado-</p><p>ras de café, as primeiras sesmarias distribuídas foram doadas para Francisco</p><p>Nunes Fagundes (1770), Garcia Rodrigues Paes Leme (1771) e Francisco</p><p>Antonio de Paula Nogueira da Gama (1797), ainda no século XVIII. A fun-</p><p>dação da aldeia Nossa Senhora da Glória de Valença, em 1803, é atribuída</p><p>da Cruz, Manoel João Goulart, capitão José Lopes França, o alferes José de Souza Vieira e os</p><p>juizes</p><p>ordinários capitão-mor Manoel Francisco Xavier e o Capitão Francisco das Chagas Werneck.</p><p>49 STEIN, 1990, p. 10.</p><p>50 Ibid., p. 30.</p><p>51 Para acompanhar melhor esta discussão sobre a política local, consultar: FONSECA, Magno;</p><p>SALLES, Ricardo. Vassouras – 1830/1850: poder local e rebeldia escrava. In: CARVALHO, J. M. de;</p><p>NEVES, Lúcia Maria Bastos Pereira das (org). Repensando o Brasil do oitocentos: cidadania, política</p><p>e liberdade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009.</p><p>72 73</p><p>a Ignácio de Souza Werneck, José Rodrigues da Cruz e ao padre Manoel</p><p>Gomes Leal – o primeiro e o terceiro da família Werneck e o segundo da</p><p>Ribeiro de Avellar, previamente citadas –, após terem sido nomeados pelo</p><p>vice-rei para “proceder à civilização”, “domesticar e aldear” os índios coroa-</p><p>dos que ocupavam a região. No aldeamento, foi construída e benzida a</p><p>capela de Nossa Senhora da Glória que veio a originar a cidade de Valença.</p><p>A família Werneck chegou ao Vale em 1712. Seu pioneiro foi o migrante</p><p>português João Berneque que constituiu família e se estabeleceu como lavra-</p><p>dor e comerciante na pequena localidade de N. Senhora do Pilar do Iguaçu.</p><p>Após um período em Minas Gerais investindo na exploração do ouro, seus</p><p>descendentes se fixaram no Vale fluminense por todo o século XIX. Ignácio</p><p>de Souza Werneck, natural da freguesia de Nossa Senhora da Piedade da</p><p>Borda do Campo, atual Barbacena, por exemplo, alcançou benesses da Coroa</p><p>portuguesa devido aos serviços prestados na “civilização de índios” e na cons-</p><p>trução da estrada Werneck, então chamada de Caminho da Aldeia, primeira</p><p>estrada para o sertão de Valença.52 No início do século XIX, ao passar pela</p><p>fazenda Piedade, localizada na freguesia de Conceição do Alferes de Serra</p><p>Acima (atual município de Miguel Pereira), o historiador Monsenhor Pizarro</p><p>comentou que o engenho de Ignácio Werneck “distanciava 3 ½ léguas em N.</p><p>S. da Piedade, no rio Sant´Anna.” Poucas décadas depois, em 1866, a proprie-</p><p>dade tinha 135 escravos e era parte do complexo formado por três fazendas</p><p>pertencentes ao barão e à baronesa de Paty do Alferes, seus herdeiros.53</p><p>José Rodrigues da Cruz migrou de Portugal para o Rio de Janeiro</p><p>juntamente com seus irmãos Antônio Ribeiro de Avellar e Antônio dos</p><p>Santos, para trabalhar com o tio no comércio de grosso trato. Segundo</p><p>Saint-Hilaire, José Rodrigues da Cruz recebeu como recompensa aos ser-</p><p>viços prestados à Coroa portuguesa as sesmarias de Ubá, onde estabeleceu</p><p>um engenho de açúcar, uma serraria e um moinho de fubá.54 Pouco tempo</p><p>52 PAIVA, Lucas Gesta Palmares Munhoz de. Lembranças da saudade: estratégias para a manuten-</p><p>ção de uma família cafeicultora. 2013. Dissertação (Mestrado em História Social) – Universidade</p><p>Federal do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2013.</p><p>53 INVENTÁRIO do barão e da baronesa de Paty do Alferes. Vassouras: Centro de Documentação</p><p>Histórica da Universidade Severino Sombra, [18--?]. p. 205-209. O barão e a baronesa de Paty do</p><p>Alferes possuíram três fazendas principais: Piedade, Freguesia e Monte Alegre, sendo a última sua</p><p>residência oficial.</p><p>54 Ibid., p. 42. Atribui-se ainda a José Rodrigues da Cruz, juntamente com Ignácio de Souza Werneck e</p><p>o padre Manoel Gomes Leal, a fundação de Nossa Senhora da Glória de Valença, elevada, em 1823, à</p><p>condição de Vila de Valença por D. Pedro I. Ainda segundo Saint-Hilaire, os índios coroados foram</p><p>migrando para as florestas vizinhas de Rio Bonito, mas também muitos adoeceram e morreram</p><p>depois, os irmãos fundaram a sociedade Avellar & Santos que, além das ter-</p><p>ras de Pau Grande e Ubá, também realizava serviço de comissariado para</p><p>diversos fazendeiros do Vale, além do comércio de grosso trato com sede na</p><p>Corte. Seus interesses se alastravam, ainda, para área de transporte e abaste-</p><p>cimento do mercado interno colonial, pois faziam o comércio de mercado-</p><p>rias, principalmente açúcar, do interior para a capital pelo rio Inhomirim.55</p><p>Como se vê, das quatro principais famílias do Médio Vale, todas tiveram</p><p>fortuna originária no comércio e/ou mineração e puderam ampliá-las atra-</p><p>vés da aquisição de terras e da expansão do café.</p><p>Na região do Vale que se aproxima de São Paulo, os primeiros indícios</p><p>de povoamento que se tem notícia foram concessões de sesmarias feitas na</p><p>década de 1760. Nos anos de 1820, muitas destas terras já pertenciam ao</p><p>coronel Custódio Ferreira Leite, o barão de Aiuruoca, importante comer-</p><p>ciante e minerador que foi contratado por D. João VI, em 1816, para coman-</p><p>dar a abertura da estrada da Polícia. Com o tempo, um núcleo populacional</p><p>foi crescendo em torno da capela de São Sebastião e do rio de mesmo nome</p><p>até que, em 3 de outubro de 1832, foi criada a Vila de São Sebastião de Barra</p><p>Mansa. Outros membros da família Leite também migraram para o Vale</p><p>fluminense motivados pelo cultivo dos cafezais e as vantajosas atividades</p><p>comerciais e financeiras dele derivadas. No caso da família Leite, os laços</p><p>de solidariedade familiar foram muito importantes na formação de uma</p><p>rede de poder e prestígio na região. Afonso Taunay, em “História do café no</p><p>Brasil”,56 conta que, na fundação de Barra Mansa, o coronel Custódio Ferreira</p><p>Leite esteve acompanhado de Manoel, enquanto os outros irmãos Floriano e</p><p>Anastácio se afazendaram em Valença e Conservatória, respectivamente. Em</p><p>Piraí e Vassouras, o coronel investiu juntamente com o cunhado Francisco</p><p>vítimas de doenças de pele, venéreas e varíola, adquiridas a partir do contato com o homem branco.</p><p>(BRASIL, Gerson. O ouro, o café e o Rio. Rio de Janeiro: IHGB: Livraria Brasiliana, 1970). De acordo</p><p>com rumores recorrentes na cidade de Vassouras, um dos fundadores de Valença, um grande lati-</p><p>fundiário, havia eliminado os índios, seus protegidos, dando- lhes cachaça envenenada. BELLO, Luiz</p><p>Alves Leite de Oliveira. Relatório apresentado ao excelentíssimo vice-presidente da província do Rio de</p><p>Janeiro..., p. 35 apud STEIN, 1990, p 11.</p><p>55 Segundo Riva Gorenstein, os Pereira de Almeida eram proprietários de navios que faziam a ligação</p><p>entre o Rio de Janeiro e as demais cidades costeiras do Brasil, atuando no ramo de abastecimento e</p><p>navegação de cabotagem. GORENSTEIN, Riva; MARTINHO, Lenira Menezes. Negociantes e caixeiros</p><p>na sociedade da independência. Rio de Janeiro: Biblioteca Carioca, 1993. p. 165. O Rio Inhomirim</p><p>cortava a região do vale do Paraíba e, por ser navegável, era utilizado juntamente com outros rios</p><p>da província fluminense, como Paraíba, Macaé, São João, Guandu, Magé-Assu, Macacu e Iguaçu,</p><p>para o escoamento da produção para a capital até o advento das estradas de ferro. PIRES, 1984.</p><p>56 TAUNAY, Afonso de E. Pequena História do café. Rio de Janeiro: Departamento Nacional do Café, 1945.</p><p>74 75</p><p>José Teixeira (futuro barão de Itambé) e com os sobrinhos José Eugênio,</p><p>Joaquim José e Francisco José Teixeira Leite (futuro barão de Vassouras) que</p><p>lá fixaram residência, aumentando assim suas fortunas.</p><p>O capitão-mor. José de Souza Breves, natural dos Açores, obteve uma</p><p>rápida ascensão política ao chegar ao Brasil. Através de conquista de car-</p><p>gos importantes, foi acumulando terras e poder numa área de fronteira</p><p>agrícola aberta. A mando da coroa Portuguesa, ocupou os postos de: capi-</p><p>tão e sargento-mor da Companhia do distrito de Pirahy, juiz Almotacel e</p><p>capitão-mor da Vila de São João Marcos, sede do extinto município de São</p><p>João do Príncipe. Em 1817, fundou juntamente com a família Moraes a fre-</p><p>guesia de Sant’Ana do Piraí. Seus filhos José de Souza Breves e Joaquim José</p><p>de Souza Breves multiplicaram a fortuna familiar tirando múltiplas vanta-</p><p>gens do tráfico ilegal de africanos. O primeiro, também chamado “rei do</p><p>café”, possuía um complexo de propriedades que iam de Mangaratiba, no</p><p>litoral, onde ficavam os principais portos clandestinos para desembarque</p><p>de escravos, até São João Marcos, no Vale, onde resplandecia a imponente</p><p>fazenda São Joaquim da Grama.57</p><p>A atual região serrana do estado passou grande parte do século XVIII</p><p>com sua ocupação proibida</p><p>pela Coroa portuguesa em virtude do controle</p><p>que buscava implementar sobre o tráfico ilegal de metais e pedras preciosas</p><p>nas Minas Gerais. Os únicos habitantes desta região eram os índios coroa-</p><p>dos e goitacases, que há muito ali viviam, e as ocupações clandestinas, sendo</p><p>a principal comandada por Manoel Henrique, conhecido como “Mão de</p><p>Luva”. Após 1786, com o degredo de “Mão de Luva”, a Coroa resolveu mudar</p><p>de estratégia e facultou as terras de Cantagalo aos colonos que quisessem</p><p>se estabelecer. Em 1818, foi a vez da migração suíça. Os recém chegados se</p><p>instalaram na localidade denominada Morro Queimado, onde atualmente</p><p>é Nova Friburgo, e cultivaram milho, feijão, cana e mandioca. Em 1809, foi a</p><p>vez do inglês John Mawe que recebeu autorização de D. João para visitar as</p><p>jazidas de diamantes de Minas Gerais e do interior. Na viagem, ele observou</p><p>que a mineração se esgotara e que a atividade predominante no “arraial e</p><p>distrito das Novas Minas de Cantagallo” era a agricultura.58</p><p>57 LOURENÇO, Thiago Campos Pessoa. O Império dos Souza Breves nos oitocentos: política e escravidão</p><p>nas trajetórias dos comendadores José e Joaquim de Souza Breves. 2010. Dissertação (Mestrado em</p><p>História) – Programa de pós-graduação em História, Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2010.</p><p>58 MAWE, John. Viagens ao interior do Brasil: principalmente aos distritos do ouro e dos diamantes.</p><p>Rio de Janeiro: Z. Valverde, 1944.</p><p>Durante a segunda década do século XIX, a cultura do café se intensi-</p><p>ficou na localidade que assumiu a condição de vila, em 9 de março de 1814,</p><p>sob o título de “São Pedro de Cantagallo”. O crescimento da referida vila</p><p>foi grande. Em 1820, já reunia três lojas de fazenda, mais de uma dezena de</p><p>tabernas, uma estalagem e vinte e oito engenhos de açúcar, além de uma</p><p>população de 1800 pessoas livres e, aproximadamente, 2.700 escravos. Na</p><p>ocasião, a produção de café já girava em torno de 100 mil arrobas.59 A alta</p><p>produtividade da localidade foi reconhecida nos anos sessenta e assim se</p><p>manteve nos anos oitenta do oitocentos, quando outras partes do vale já</p><p>figuravam com queda na produção.</p><p>O principal personagem da região foi Antônio Clemente Pinto, primeiro</p><p>barão de Nova Friburgo, imigrante português que enriquecera com o comér-</p><p>cio de grosso e o tráfico de escravos. Em meados do século XIX, já era uma</p><p>das maiores fortunas de todo o país, proprietário de duas dezenas de fazen-</p><p>das, nas regiões de Nova Friburgo, Cantagalo e São Fidélis, e imóveis urba-</p><p>nos, como os palacetes Nova Friburgo, (atual palácio do Catete) localizado</p><p>na Corte, e do Gavião em Cantagalo. Nos anos de 1826, Antonio Clemente</p><p>Pinto fechou sociedade com João Antonio de Moraes e sua esposa Basília. No</p><p>negócio, o casal empenhou ao sócio as fazendas Santa Maria do Rio Grande</p><p>e Macabu que correspondiam à metade do que possuíam. Em troca, João</p><p>Antônio receberia 600 mil réis por ano por seu trabalho na administração das</p><p>fazendas de café, além de uma retirada mensal do que fosse necessário para o</p><p>sustento de sua família dos proventos da fazenda Santa Maria do Rio Grande.</p><p>Em poucos anos, Antonio de Moraes já havia recuperado as propriedades</p><p>empenhadas e adquirido outras, vindo a se tornar barão de Duas Barras, com</p><p>um patrimônio superior a quatro mil contos de réis em 1872, certamente um</p><p>dos mais significativos do Império.60 Histórias como estas comprovam a alta</p><p>lucratividade dos negócios cafeeiros durante o segundo reinado.</p><p>Os casos aqui citados não esgotam os exemplos das famílias que foram</p><p>pioneiras na ocupação das terras do Vale do Paraíba fluminense e que conquis-</p><p>taram destaque político, econômico e social nas localidades onde constituí-</p><p>ram fazendas. Além da primazia na ocupação de terras numa área de fronteira</p><p>agrícola aberta, estas famílias tinham em comum um passado de migração</p><p>portuguesa relativamente recente, além de serviços prestados à Coroa, o que</p><p>59 FERREIRA, 1977, p. 116.</p><p>60 FERREIRA, loc. cit. Ver também: MELNIXENCO, Vanessa Cristina. Friburgo & Filhos: tradições</p><p>do passado e invenções do futuro (1807-1914). 2014. Dissertação (Mestrado em História Social). –</p><p>Programa de Pós-Graduação, Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2014.</p><p>76 77</p><p>facilitou a aquisição de terras, prestígio e a ocupação de cargos políticos e</p><p>administrativos nas localidades onde se fixaram.61 Chama a atenção também</p><p>o fato que muitas das fortunas constituídas no rastro do café possuíam um</p><p>capital previamente acumulado em outros setores bastante rentáveis da eco-</p><p>nomia, tais como a mineração, o comércio de grosso trato, empréstimo a juros</p><p>e o tráfico de escravos. Em alguns casos, uma ou mais de uma atividade foram</p><p>exercidas concomitantemente com o cultivo da lavoura para exportação, con-</p><p>forme explicitado nos exemplos acima. Fosse pelo recebimento de sesmarias,</p><p>fosse pela posse de terras, a aquisição de vastas propriedades era facilitada</p><p>àqueles (indivíduos ou famílias) que possuíam uma posição econômica e/ou</p><p>social de destaque, reiterando a lógica social hierárquica vigente.62</p><p>Desde tempos coloniais, a terra era um fator de produção que estava</p><p>disponibilizado no mercado, pois, na maioria das vezes, a sesmaria podia</p><p>ser alienada ou alugada por seus titulares. Desta forma, mesmo se tratando</p><p>de uma apropriação política, concedida através de merecimento militar ou</p><p>benefícios ao poder público, a sua transmissão ocorria através da venda,</p><p>mesmo que de parte do terreno. Assim, a terra não se constituiu como um</p><p>bem ilimitado e acessível a todos.63 Pelo contrário, no Vale, essa tendência à</p><p>concentração se acentuava ainda mais quando os grandes senhores de terras e</p><p>escravos se tornavam fazendeiros-capitalistas, ou seja, emprestavam dinheiro</p><p>a juros a outros fazendeiros, o que foi bastante comum durante todo o século</p><p>61 João Luís Fragoso, ao estudar a formação da primeira elite senhorial no Brasil, afirmou que, no</p><p>século XVI, as pressões demográficas sobre Portugal e as crises de fomes recorrentes transformaram</p><p>a região de Entre Douro e Minho numa área de migração, inicialmente para as ilhas Atlânticas e</p><p>depois para a colônia portuguesa nas Américas. Esses migrantes seriam, principalmente, proce-</p><p>dentes da pequena fidalguia ou da elite de alguma capitania pobre, que, ao aportarem no Rio de</p><p>Janeiro, dariam origem às melhores famílias. Nos casos aqui abordados, mesmo se tratando de uma</p><p>imigração bastante tardia, se comparada aos estudos de Fragoso, pode-se presumir que era uma</p><p>gente com nobreza no passado, contudo com dificuldades de manter a fortuna condizente com seu</p><p>status social, o que explicaria, inicialmente, suas transferências para o Brasil, na segunda metade do</p><p>setecentos. Do outro lado do Atlântico, muitos desses portugueses não tiveram dificuldades de se</p><p>integrarem às formas de comércio e atividades econômicas mais lucrativas bem como a prestação</p><p>de serviços à Coroa, auxiliados por laços de parentesco, compadrio e solidariedade. FRAGOSO, João</p><p>Luís. A formação da economia colonial no Rio de Janeiro e de sua primeira elite senhorial (sécu-</p><p>los XVI e XVII). In: FRAGOSO, João Luís; BICALHO, Maria Fernanda; GOUVÊA, Maria de Fátima</p><p>(Org.). O Antigo Regime nos Trópicos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001.</p><p>62 Como afirma Oliveira Viana, era costume dominante “concederem sesmarias, de preferência, a</p><p>pessoas fidalgas, ou com posses bastantes para construir engenho, excluindo assim da propriedade</p><p>da terra, as classes pobres ou desfavorecidas.” VIANA, Oliveira apud ANDRADE, Eloy. O Vale do</p><p>Paraíba. Rio de Janeiro: Real Rio Gráfica, 1989. p. 29.</p><p>63 FARIA, Sheila de Castro. A colônia em movimento: fortuna e família no cotidiano colonial. Rio de</p><p>Janeiro: Nova Fronteira, 1998.</p><p>XIX como bem demonstram seus inventários. A atividade usurária auxiliava</p><p>no aumento de patrimônio dos grandes senhores, já que aqueles que pediam</p><p>empréstimos, na maioria das vezes, hipotecavam suas fazendas e escravos na</p><p>negociação. Assim, se os pagamentos fossem feitos regularmente,</p><p>lucrava-se</p><p>com os juros cobrados, caso contrário recebiam-se as propriedades, bens</p><p>móveis e semoventes dos inadimplentes, dependendo do contrato.64</p><p>A vasta extensão de terras e escravaria acumuladas por estes poucos</p><p>fazendeiros os colocava no topo da classe senhorial. Estudos recentes rela-</p><p>tivizam o tamanho dos plantéis de escravos e demonstram que fazendeiros</p><p>com mais de cem escravos eram considerados grandes proprietários e cons-</p><p>tituíam uma minoria numérica no vale do Paraíba. Contudo, mesmo sendo</p><p>poucos, na região de Paraíba do Sul, por exemplo, estes homens controla-</p><p>vam de 45 e 84% do valor das fazendas entre 1830 e 1885. Para se ter uma</p><p>ideia mais aprofundada, os oito patronos das famílias Werneck, Pereira</p><p>Nunes, Andrade, Corrêa Tavares, Alves Barbosa, Moreira Castilho, Ribeiro</p><p>Avellar e Barroso Pereira possuíam 56,4% das terras do mesmo município</p><p>em 1879 e 21,5% da mão de obra cativa em 1872. Suas propriedades eram</p><p>empresas completas, verdadeiros complexos cafeeiros, que possuíam não</p><p>só a grande lavoura, mas também todos os mecanismos ligados ao benefi-</p><p>ciamento do café (terreiro, tulha, ventiladores, despolpadores e outros tipos</p><p>de maquinários especializados), os equipamentos acessórios à empresa</p><p>(ferreiro, serraria, olaria, etc.), os animais para o abastecimento interno da</p><p>fazenda e as bestas para transporte serra abaixo até o Rio de Janeiro. Muitos</p><p>destes homens possuíam, ainda, sociedades nas casas de comissão da Corte</p><p>e recebiam de outros fazendeiros menores (que não controlavam todas as</p><p>etapas de produção, beneficiamento, transporte e venda) uma parte signi-</p><p>ficativa dos lucros com a rubiácea por eles produzida. As possibilidades</p><p>de negócio e enriquecimento destes indivíduos se ampliam ainda mais se</p><p>for considerada sua inserção na família extensa, em que diferentes mem-</p><p>bros do grupo familiar possuíam terras, frotas de bestas, maquinários, casas</p><p>comissárias, recursos e contatos na Corte.65 Não foram poucas as famílias</p><p>enraizadas no Vale que, como os Furquim Werneck, os Clemente Pinto e os</p><p>Pereira de Almeida, mantiveram parentes, ou foram eles mesmos acionistas</p><p>em casas comissárias, bancos e companhias de estrada de ferro.</p><p>64 FRAGOSO, 2001.</p><p>65 MUAZE, 2008.</p><p>78 79</p><p>Como se vê, a grande concentração de terras e de escravos foi uma</p><p>característica do Vale do Paraíba no século XIX. No período de 1836 a 1850,</p><p>quando houve a grande expansão da rubiácea, os grande e mega proprietá-</p><p>rios chegaram a possuir quase a metade dos escravos da região, conseguindo</p><p>ampliar esta porcentagem para 72,2% entre 1851 e 1865.66 Nesta configura-</p><p>ção, também era comum aos mesmos possuírem mais de uma fazenda, for-</p><p>mando verdadeiros complexos cafeeiros que se estendiam por diversas loca-</p><p>lidades e se complementavam em termos de mão de obra, equipamentos,</p><p>bens imóveis e semoventes, como fica claro nas descrições dos inventários.</p><p>Ancoradas na herança acumulada previamente, em fortunas constituí-</p><p>das em outras áreas, no tamanho da propriedade, na antiguidade da ocupa-</p><p>ção de terras, nas heranças materiais e imateriais dos membros de suas famí-</p><p>lias; esses senhores puderam exercer seu controle político e econômico por</p><p>quase todo o século XIX. Muitos membros destas famílias da classe senho-</p><p>rial foram vereadores, deputados provinciais, juízes de paz, comandantes da</p><p>guarda nacional e outros postos-chave diretamente ligados à política. A esses</p><p>aspectos ainda se somavam as relações de compadrio, vínculos pessoais,</p><p>favores, interesses eleitorais, arrendamento de terras e/ou instrumentos de</p><p>trabalho, estabelecidas com os chamados “homens livres e pobres”, seus</p><p>agregados. A influência destes senhores se estendeu não só aos arrendatários</p><p>e sitiantes que se dedicavam à agricultura em suas terras e deles dependiam,</p><p>mas também aos vendeiros, tropeiros e comerciantes de pequeno porte com</p><p>negócios em suas localidades. Isso sem falar do comando exercido sobre seus</p><p>plantéis de escravos que era garantido através do “monopólio da violência”</p><p>sobre aqueles que não tinham o controle sobre a própria vida e liberdade.</p><p>Como vimos, a própria dinâmica de poder exercida por essas famílias</p><p>as colocavam no papel de classe dirigente67 com supremacia na política e</p><p>na economia local. Suas forças extrapolavam os limites da família extensa e</p><p>teciam uma verdadeira capilarização de influências e distribuição de favores</p><p>66 SALLES, 2008.</p><p>67 A noção de classe dirigente utilizada nesta pesquisa tem por parâmetro as reflexões de Ilmar</p><p>Mattos, para quem o conceito de classe dirigente não se restringe à burocracia do Estado em seus</p><p>diferentes níveis. Portanto, por classe dirigente entendem-se todos aqueles que aderiram aos prin-</p><p>cípios de ordem e civilização, envolvendo um conjunto que engloba tanto a alta burocracia imperial</p><p>– “senadores, magistrados, ministros e conselheiros de Estado, bispos, entre outros – quanto os pro-</p><p>prietários rurais localizados nas mais diversas regiões e nos mais distantes pontos do Império, mas</p><p>que orientam suas ações pelos parâmetros fixados pelos dirigentes imperiais, além de professores,</p><p>médicos, jornalistas, literatos e demais agentes não públicos”. MATTOS, I., 1990, p. 3-4.</p><p>que não se limitavam simplesmente às terras que possuíam e nem à região</p><p>onde estavam estabelecidos, podendo chegar até a Corte.68</p><p>A história da expansão do café pelas diversas regiões do Vale do Paraíba</p><p>fluminense se confunde com a própria história da expansão da classe senho-</p><p>rial do Império em termos políticos, econômicos e sociais. Homens e mulhe-</p><p>res que, através da exploração maciça da mão de obra escrava, da concen-</p><p>tração da propriedade da terra, do estabelecimento de redes de sociabilidade</p><p>e poder locais, além de suas relações com a Corte, conseguiram acumular</p><p>riqueza, prestígio social e político fortalecendo, assim, o poder de suas famí-</p><p>lias nas localidades em que viviam. No interior deste reduzido grupo, muitos</p><p>foram os casos das fortunas que se expandiram no rastro do café. Como</p><p>forma de ostentá-las e de gozar de um estilo de vida próprio à sua classe,</p><p>muitas famílias ergueram imponentes casas de vivenda em suas terras agre-</p><p>gando valor às imensas fazendas de seus complexos cafeeiros.</p><p>Buscando modelos de comportamento, ideais de civilização e hábitos</p><p>de consumo próximos do europeu, a classe senhorial se legitimou enquanto</p><p>grupo hegemônico ao mesmo tempo em que respaldou a política de cen-</p><p>tralização do Estado nacional baseada na aproximação com valores euro-</p><p>peizados e na manutenção da ordem escravocrata.69 Mas a estreita relação</p><p>entre estas famílias e o estado Imperial não para por aí. Em se tratando dos</p><p>grandes cafeicultores da bacia do Paraíba fluminense, é possível afirmar que</p><p>sem uma política de estado permissiva com a ilegalidade do tráfico transa-</p><p>tlântico de escravos (1831/1850) não teria sido possível a montagem do com-</p><p>plexo produtivo que permitiu que o Brasil dominasse o mercado mundial</p><p>de café durante praticamente todo o século XIX.70</p><p>68 Sobre a relação de cafeicultores do Vale com importantes políticos da Corte, ver: MUAZE, 2008,</p><p>cap. 1 e SALLES, Ricardo. As águas do Niágara, 1871: crise da escravidão e o caso saquarema. In:</p><p>SALLES, Ricardo; GRIMBERG, Keila. Brasil imperial. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, Rio de</p><p>Janeiro: 2010. v. III. Nesse artigo, o autor discute de forma bastante interessante o caso do marquês</p><p>de Paraná, importante político e articulador saquarema que adquiriu a fazenda Lordello, na locali-</p><p>dade de Sapucaia, em 1836, período da expansão cafeeira escravista na região, e que, na ocasião de</p><p>seu falecimento, já possuía 189 escravos trabalhando.</p><p>69 MUAZE, op. cit.</p><p>70 As relações entre a política escravista do Estado imperial e a criação das condições para o arranque</p><p>da produção do café brasileiro no mercado mundial são analisadas em: TOMICH, Dale; MARQUESE,</p><p>Rafael. Op. cit., p. 64. Os autores destacam também que sem um ambiente político que assegurasse</p><p>juridicamente aqueles que adquirissem africanos escravizados ilegalmente,</p><p>provavelmente, as con-</p><p>dições para o estabelecimento da região como maior produtora mundial de café seriam outras e,</p><p>consequentemente, os lucros obtidos pelo estado com a exportação do produto também.</p><p>80 81</p><p>Se numa perspectiva macro vislumbram-se as relações entre estado,</p><p>classe senhorial, política escravista e montagem da estrutura produtiva no</p><p>vale do Paraíba, reduzindo o foco de observação, é possível analisar a diver-</p><p>sidade de sujeitos históricos que interagiam cotidianamente nos diferen-</p><p>tes espaços das plantations cafeeiras. Senhores, escravos do eito, mucamas,</p><p>pajens e toda sorte de cativos domésticos, feitores, homens livres e pobres,</p><p>sinhazinhas, capitães do mato, condutores de tropas, crioulos, africanos -</p><p>múltiplos agentes que, através de experiências distintas, mantinham uma</p><p>dinâmica social e de trabalho baseada na hierarquia e nas relações desi-</p><p>guais. É parte desta história que contarei a seguir.</p><p>III</p><p>Deus e Nossa Senhora lhe darão alívios e tudo quanto deseja, minha boa mãe,</p><p>pelo bem e alívio que me deu emprestando-me a sua grande escrava que,</p><p>quando se comporta bem, não há dinheiro que pague.71</p><p>Há dias que me fugiu da Fazenda Manga Larga o preto Adão, oficial de fer-</p><p>reiro, e foi à casa de Sabino José Neves que mora cerca de uma légua [...] dessa</p><p>vila. [...] Mandei àquela fazenda o feitor João Henrique [...], mas o maldito</p><p>negro não quis vir, por mais diligências que lhe fizeram, atirando-se no chão</p><p>como um louco, e dizendo que cá não vem senão morto! Em tais circunstân-</p><p>cias recorro à autoridade de V. S. para que haja de prestar-me alguma força</p><p>policial (cuja despesa pagarei) para que o obriguem a vir e, até mesmo, se for</p><p>possível usar de forte correção corporal, para que ele não prossiga em sua per-</p><p>sistência e teima que é decerto um péssimo exemplo para outra escravatura.72</p><p>As relações sociais e de poder que se configuravam no universo das</p><p>fazendas de café do Vale do Paraíba fluminense, por mais diferentes que</p><p>fossem suas localidades, obedeciam à lógica excludente e hierárquica do</p><p>Império. Como forma de domínio, o paternalismo vigiava e instituía uma</p><p>“política de favores” constituída através de uma vasta rede de distribuição de</p><p>benefícios e geração de dependências, que só reconhecia as relações sociais</p><p>na sua verticalidade. Nesta ideologia de sustentação do poder senhorial, o</p><p>lugar social que os sujeitos ocupavam dependia de suas relações pessoais e</p><p>“não existia fora das formas instituídas – formalmente, mas também pelo</p><p>71 Grifo meu. Carta manuscrita de Mariana Velho de Avellar para Leonarda Maria Velho da Silva.</p><p>Petrópolis, 13 de novembro de 1862. Coleção particular Roberto Meneses de Moraes.</p><p>72 Grifos meus. WERNECK, Francisco Peixoto de Lacerdan - Barão do Paty. [Carta ao senhor delegado</p><p>de polícia do termo da Paraíba, s.d.] apud SILVA, Eduardo. Barões e escravidão: três gerações de</p><p>fazendeiros e a crise da estrutura escravista, p. 156.</p><p>costume – de hierarquia, autoridade e dependência”.73 Tal lógica de domina-</p><p>ção permeava a sociedade imperial em todos os seus estratos sociais e tinha</p><p>nas plantations escravistas um lócus privilegiado de experiência.</p><p>Nos grandes complexos cafeeiros, muitos formados por mais de uma</p><p>propriedade rural, senhores, escravos e os mais diversos tipos de homens</p><p>livres e pobres que ali residiam, transitavam e trabalhavam, pautavam suas</p><p>relações pessoais pela diferença e pelo ato de apartar-se daqueles que não</p><p>eram seus pares na configuração social vigente. Assim, as fronteiras intra-</p><p>e extra-grupo eram qualificadas e requalificadas a todo momento. Como</p><p>resultado, os espaços de circulação, formas de trabalho, educação, alimen-</p><p>tação, sociabilidade, vestimenta, acesso à terra e formação familiar a que</p><p>estes grupos sociais estavam autorizados eram fortemente demarcados.</p><p>Contudo, se na lógica paternalista tais espaços de fronteira estavam conso-</p><p>lidados, na prática cotidiana as expressões de resistência e de não aceitação</p><p>das regras de dominação se faziam valer através de experiências diárias,</p><p>como as que aparecem grifadas nas afirmações da viscondessa do Arcozelo</p><p>e o barão de Paty do Alferes citadas acima.74</p><p>Os proprietários eram o grupo social que mais se diferenciava interna-</p><p>mente, considerando o tamanho das propriedades, escravaria e composição</p><p>das redes políticas locais e nacionais tecidas. No que compete ao Vale do</p><p>Paraíba, já ficou demonstrado que esta hierarquização interna se adensou</p><p>com o fim do tráfico em 1850, quando alguns poucos fazendeiros adquiri-</p><p>ram terras e escravos de um sem fim de pequenos proprietários locais que</p><p>tiveram dificuldades financeiras para manter seus plantéis. Além destes ele-</p><p>mentos, a partir da segunda metade do século XIX, valores tais como educa-</p><p>ção, instrução, etiqueta, refinamento e novas práticas de consumo, passaram</p><p>constituir o novo habitus social da classe senhorial, tornando-se também um</p><p>campo privilegiado para disputas intra-classe por representação e prestígio.75</p><p>73 CHALHOUB, Sidney. Diálogos políticos em Machado de Assis. In: CHALHOUB, S; PEREIRA, L. A</p><p>História contada: capítulos de História social da literatura no Brasil. Rio de Janeiro: Nova Fronteira,</p><p>1998, p. 96. O paternalismo, como qualquer outra política de domínio, possuía uma tecnologia</p><p>própria, pertinente ao poder exercido em seu nome: rituais de afirmação, práticas de dissimula-</p><p>ção, estratégias de estigmatizarão de adversários sociais e políticos, eufemismos e, obviamente, um</p><p>vocabulário sofisticado para sustentar e expressar todas essas atividades.</p><p>74 JOHNSON, Walter. On agency. Jornal of Social History, Oxford: Oxford University Press, v. 37, n. 1,</p><p>Fall 2003. Do mesmo autor, o artigo: Agency: a ghost story. In; FOLLETT, R; FONER, E; JOHNSON,</p><p>W. Slavery’s ghost: the problem of freedom in the age of emancipation. Baltimore: Johns Hopkins</p><p>University Press, 2011.</p><p>75 MUAZE, 2008.</p><p>82 83</p><p>Nas muitas fazendas do Vale, essa lógica se traduziu na construção de</p><p>novas sedes mais sofisticadas, na maioria em estilo neoclássico, com jardins</p><p>contendo palmeiras imperiais como símbolo do poder e riqueza de seus</p><p>proprietários.76 Paralelamente, houve ainda o investimento da classe senho-</p><p>rial na compra de móveis, louças, viagens, indumentárias, joias, além do</p><p>aumento e especialização da escravaria doméstica. Todos os esforços eram</p><p>reunidos no sentido de representar a riqueza que essas famílias foram capa-</p><p>zes de acumular. Tal preocupação fomentava a disputa por representação</p><p>entre os membros da classe senhorial onde o ser se igualava, cada vez mais,</p><p>ao parecer, e fomentava a hierarquia interna.</p><p>A análise dos objetos e bens listados nos inventários de grandes pro-</p><p>prietários do início e de meados do Oitocentos são fontes importantes para</p><p>se perceber a valorização do luxo no interior da residência, bem como nas</p><p>formas de viver e conviver no ambiente privado. Não são raros os inventá-</p><p>rios onde aparecem listadas as sedes da “fazenda velha” e da nova erguida</p><p>com padrões de consumo bem mais sofisticadas. Eduardo Schnoor fez</p><p>esse estudo para as fazendas Pinheiro e Rio Manso, pertencentes à família</p><p>Aguiar Vallin e localizadas em Bananal, principal cidade do lado paulista</p><p>do Vale produtora de café no século XIX. Comparando diferentes inven-</p><p>tários desta família, ele demonstrou que, ao longo do século XIX, a rustici-</p><p>dade e os padrões de organização do espaço marcadamente coloniais, que</p><p>valorizavam somente os lugares e instrumentos de produção da fazenda,</p><p>se transformaram. Neste processo, a fazenda não será mais vista somente</p><p>como um local de trabalho, mas também de moradia e representação. Seu</p><p>senhor passava de simples agricultor escravista para membro da base social</p><p>do novo Império.77</p><p>O investimento em luxo nas novas sedes das fazendas e as múltiplas fun-</p><p>ções dos complexos cafeeiros foram alvo de comentário de muitos viajantes</p><p>que por ali passaram ou fizeram pouso. Em sua estada em uma das proprie-</p><p>dades do comendador José de Souza Breves, o viajante português, poste-</p><p>riormente</p><p>naturalizado brasileiro, Augusto Zaluar comentou: “a fazenda do</p><p>Pinheiro, não é uma habitação vulgar da roça; é um palácio elegante, e seria</p><p>76 D’ELBOUX, Roseli Maria Martins. Uma promenade nos trópicos: os barões do café sob as palmei-</p><p>ras-imperiais, entre o Rio de Janeiro e São Paulo. Anais do Museu Paulista: História e Cultura</p><p>Material, São Paulo, v. 14, n. 2, jul.-dez. 206.</p><p>77 SCHNOOR, Eduardo. Das casas de morada à casa de vivenda. In: CASTRO, Hebe M. M. de;</p><p>SCHNOOR, Eduardo. Resgate: uma janela para o oitocentos. Rio de Janeiro: Topbooks, 1995.</p><p>mesmo um suntuoso edifício em qualquer grande cidade”.78 Zaluar se encan-</p><p>tara não somente com a construção, mas com todo o seu entorno:</p><p>A propriedade do Sr. Comendador José de Souza Breves é pois, como já disse,</p><p>uma das maiores e das mais ricas da Província do Rio de Janeiro. A grande</p><p>extensão dos terrenos e a fertilidade deles, as vastíssimas plantações de café</p><p>que cobrem um largo espaço de elevados morros, o número prodigioso de</p><p>cativos consagrados aos trabalhos agrícolas, os grandes auxiliares de que</p><p>dispõe o proprietário, já como abastado capitalista, já como homem de bom</p><p>senso e praticamente conhecedor da nossa lavoura, conferem a este estabele-</p><p>cimento as honras de primeira grandeza.79</p><p>Na visão de Zaluar, o complexo cafeeiro do comendador Breves mere-</p><p>cia destaque, pois elencava características importantes para uma fazenda “de</p><p>primeira grandeza”: fertilidade dos campos, tamanho dos cafezais já exis-</p><p>tentes e grandes extensões de mata virgem, esta última vista como um fator</p><p>importante para garantir o investimento empregado já que a cultura do café,</p><p>da forma como era praticada no Brasil oitocentista, constantemente necessi-</p><p>tava da derrubada de mata virgem para novo plantio. Além disso, o elevado</p><p>número de escravos e trabalhadores livres – estes últimos denominados</p><p>“auxiliares” – garantiram a José de Souza Breves e a outros grandes cafei-</p><p>cultores do Vale a posição de “abastados capitalistas”, como se dizia à época.</p><p>A disposição interna da casa de vivenda e os eventos sociais lá ocor-</p><p>ridos também receberam atenção não só de Zaluar, mas também do casal</p><p>Agassiz, que lá esteve:</p><p>Um delicioso jardim se desdobra com um tapete de flores pelo pendor da</p><p>colina sobre que está assentada esta suntuosa habitação, e dá-lhe um novo</p><p>realce. Duas escadas laterais de mármore levam a uma espaçosa varanda, para</p><p>onde deita a porta do salão de espera, que é uma vasta quadra cujas paredes</p><p>78 ZALUAR, Augusto Emílio. Peregrinações pela província de São Paulo (1860-1861). São Paulo: Itatiaia:</p><p>EdUSP, 1975. A fazenda do Pinheiro, localizada em São João Batista do Arrozal, próximo de Piraí,</p><p>foi herdada pelo comendador José de Souza Breves de seu finado sogro, barão de Pirahy, e ampliada</p><p>ao longo dos anos. Este complexo cafeeiro teve grande importância no século XIX e, na década de</p><p>1860, sua produção correspondeu a cerca de 20% de todo café produzido em Piraí. Enquanto a</p><p>média anual ficava em torno de quinhentos e vinte mil arrobas de café, a fazenda do Pinheiro con-</p><p>tribuía com noventa mil arrobas e a fazenda Barra Mansa, outra propriedade do comendador, com</p><p>mais dez mil. Na região de Piraí, estes números eram superados somente pelo irmão do comen-</p><p>dador Joaquim José de Souza Breves, que além de noventa mil arrobas colhidas em Piraí, ainda</p><p>contava com outras cem mil arrobas provenientes de fazendas em Resende, São João do Príncipe e</p><p>nas freguesias de São João Marcos, Passa Três, São Vicente Ferrer e São Sebastião. Sobre os irmãos</p><p>Breves, consultar: LOURENÇO, 2010.</p><p>79 ZALUAR, op. cit.</p><p>84 85</p><p>estão adornadas pelos primorosos retratos de Sua Majestade o Imperador e</p><p>Sua Majestade a Imperatriz, devidos ao hábil pincel de Cromoelston. [...] A</p><p>sala nobre é uma peça soberba. Grandes espelhos de Veneza, ricos candela-</p><p>bros de prata, lustres de cristal, mobília, tudo disputa a primazia ao que deste</p><p>gênero se vê de mais ostentoso na própria capital do Império”.80</p><p>À noite, quando depois do jantar tomávamos o café na varanda, uma orquestra</p><p>composta de escravos pertencentes à fazenda nos proporcionou boa música.</p><p>A paixão dos negros por essa arte é um fato observado em toda parte; esfor-</p><p>çam-se muito para aprendê-la, aqui, e o Sr. Breves mantém em sua casa um</p><p>professor a quem os alunos fazem honra na verdade. No fim da noite, os músi-</p><p>cos foram introduzidos nas salas e tivemos um espetáculo de dança, dado por</p><p>negrinhos que eram dos mais cômicos. Como uns diabretes, dançavam com</p><p>tal rapidez de movimentos, com tal animação de vida e alegria espontânea que</p><p>era impossível não os acompanhar.81</p><p>A sede da fazenda é ressaltada como espaço de moradia e represen-</p><p>tação. Zaluar destacou vários elementos de composição do espaço da casa</p><p>e de seu interior que lhe atribuíam o título de requintada residência, tais</p><p>como: jardim bem cuidado; o uso de materiais nobres como o mármore</p><p>e espelhos; a disposição de objetos e mobilhas luxuosos. Contudo, o casal</p><p>Agassiz preferiu valorizar a preocupação do anfitrião em manter habitus</p><p>civilizados, como a apreciação da música clássica europeia. Contudo, cha-</p><p>mou-lhes a atenção o fato das canções serem executadas por uma banda de</p><p>música formada por escravos.82 Para nossos viajantes suíços, a escravidão</p><p>continha um lado civilizatório para os negros. Ao senhor, cabia o mérito</p><p>de custear um professor para ensinar música a seus escravos músicos. Na</p><p>descrição de Agassiz, a música clássica europeia, considerada como civili-</p><p>zada, contrastava com as danças e lundus das crianças escravas tidas como</p><p>exóticas e o pitorescas. Tal contraste pode ser percebido na denominação</p><p>utilizada. Enquanto os primeiros escravos eram descritos como “músicos”,</p><p>os outros eram denominados de “negrinhos” e “diabretes”, qualificações</p><p>80 Ibid.</p><p>81 AGASSIZ, Luis; AGASSIZ, Elizabeth Cary. Viagem ao Brasil: 1865-1866. Brasília: Senado Federal,</p><p>2000, p. 107.</p><p>82 Os escravos Benjamim, Bruno, Domingos, Elias, Emiliano, Fabiano, Roque, Valeriano eram alguns</p><p>dos cativos que formavam a banda de música da fazenda do Pinheiro. “Estavam entre os 385 escra-</p><p>vos avaliados no espólio da fazenda no início da década de 1880 e conformavam o rol dos cativos</p><p>mais valiosos do Comendador, cerca de 700 mil réis cada um, só se igualando a outros escravos</p><p>profissionais. Interessantemente todos eles eram pretos crioulos, com exceção de Domingos, ava-</p><p>liado como pardo. Aliás, quase todos eram crias da fazenda, já que somente Benjamim teria vindo</p><p>de outra propriedade.” Ver: LOURENÇO, 2010, p. 108-109.</p><p>que não se distanciavam muito daquelas compartilhadas pela maioria dos</p><p>membros da classe senhorial do Império à época.</p><p>Os estrangeiros descrevem ainda que as grandes propriedades conta-</p><p>vam com farmácia, hospital, cozinhas para os hóspedes, cozinha para os</p><p>negros, capelas, pomar, roça, vasto cafezal, estradas e toda a infraestrutura</p><p>para beneficiamento do café. Tudo funcionando na mais perfeita ordem.</p><p>Nestas narrativas, a vida nos grandes complexos cafeeiros aparece esvaziada</p><p>de violência e conflito. A escravidão era “mimetizada” na grandiosidade</p><p>estrutural das plantations. Em termos de organização e gerenciamento dos</p><p>negócios, a narrativa instituída valorizava a modernidade e o empreendi-</p><p>mento de grande sucesso. Portanto, as falas dos viajantes aqui apresentados</p><p>estava em sintonia com o discurso senhorial escravista, sendo possível a</p><p>convivência entre modernidade, liberalismo e escravidão.83</p><p>A visão da fazenda de café como um lugar moderno variava de acordo</p><p>com a magnitude do complexo cafeeiro encontrado e o prestígio de seus</p><p>donos. Como relatam Elizabeth e Luiz Agassiz:</p><p>[...] penetramos na zona das mais ricas plantações de café. [...] Próximo</p><p>à última estação, há uma grande exploração rural ou fazenda, que produz,</p><p>segundo nos disseram, cinco a seis mil quintais de café nos bons anos. Essas</p><p>fazendas são edifícios de aspecto singular, baixos (comumente de um só</p><p>andar) e muito compridos; as maiores cobrem uma área considerável. Como</p><p>se acham inteiramente isoladas e afastadas das demais habitações, os que nelas</p><p>moram têm que fazer provisão de tudo o que é preciso para as suas necessida-</p><p>des. Isto conserva nos proprietários costumes inteiramente primitivos.84</p><p>Para o casal suíço, um dos aspectos que explicaria o “primitivismo de</p><p>costumes”, não obstante o potencial da propriedade em número de cafeei-</p><p>ros plantados, era o isolamento em que a fazenda se encontrava. Contudo, a</p><p>descrição de Zaluar para a fazenda Ribeirão Frio supervalorizava sua orga-</p><p>nização espacial e eficiência produtiva:</p><p>[...] assentada no meio de uma vasta planície, circundada por um horizonte de</p><p>montanhas cujo recorte se desenha com facilidade, a casa espaçosa e branca</p><p>avulta dentro de um terreiro de trezentas e onze braças de circunferência! É o</p><p>maior que tenho visto. Esta imensa praça é fechada em torno pelas senzalas,</p><p>83 MATTOS, Hebe. Escravidão e cidadania no Brasil monárquico. Rio de Janeiro: Zahar, 2000. Ver</p><p>também: MUAZE, Mariana. A escravidão no Vale do Paraíba pelas lentes do fotógrafo Marc Ferrez.</p><p>In: BASTOS, Lúcia; CARVALHO, José Murilo. Dimensões e Fronteiras do Estado Brasileiro no século</p><p>Oitocentos. Rio de Janeiro: EdUERJ. 2014.</p><p>84 Grifo meu. AGASSIZ, L.; AGASSIZ, E., 2000.</p><p>86 87</p><p>engenho e mais oficinas, de modo que forma uma larga cidadela para onde</p><p>se entra por dois grandes portões laterais. As senzalas, caiadas todas e cons-</p><p>truídas uniformemente, destacam-se, bem como a casa, do verde graduado</p><p>das florestas, e dão a esta propriedade um aspecto novo e agradável. [...] Uma</p><p>propriedade rural montada no pé em que se acha, o Ribeirão Frio é mais do</p><p>que um prédio de simples vivenda; é uma cidade em ponto pequeno, onde se</p><p>cultivam muitos ramos de indústria e se põem em movimento todas as gra-</p><p>dações do trabalho.85</p><p>A casa de vivenda da fazenda figura, na narrativa acima, não só como</p><p>moradia dos senhores, mas também como uma empresa agrícola, local da</p><p>gerência dos negócios e da produção. Sua disposição espacial no centro era</p><p>vista como fundamental para que a fazenda mantivesse uma organização</p><p>do trabalho diversificada, em larga escala, com altos índices de produti-</p><p>vidade, comparável com uma “pequena cidade”, espaço do progresso e do</p><p>desenvolvimento. As “pequenas cidades” (complexos cafeeiros) eram, por-</p><p>tanto, aquelas com produção e exploração do trabalho em larga escala que</p><p>atendiam ao mercado mundial de café em franca expansão.</p><p>A fazenda como empresa agrícola, onde tudo é organizado em fun-</p><p>ção do trabalho e da produção, não era uma mera impressão dos viajantes</p><p>que percorriam o Vale. Os grandes cafeicultores pensavam o conjunto de</p><p>suas propriedades de forma a articularem suas produções e controlarem o</p><p>tempo daqueles que lá moravam e trabalhavam. No documento “Instruções</p><p>gerais para a administração das fazendas”, que vigorou na fazenda Areias</p><p>e em outras propriedades do barão de Nova Friburgo e do conde de São</p><p>Clemente, por exemplo, o tempo de todos os habitantes era regulado em fun-</p><p>ção do trabalho executado.86 O administrador “é responsável pelo emprego</p><p>do tempo”, afirmava o documento. Um suceder de dias e noites eram pon-</p><p>tuados pelos sinos que batiam uma hora antes do sol nascer e badalavam em</p><p>vários outros momentos da longa jornada a que os escravos eram submeti-</p><p>85 Grifo meu. ZALUAR, 1975, p. 29. Augusto Zaluar chegou ao Brasil na década de cinquenta, se estabe-</p><p>leceu na Corte, trabalhou como jornalista no Correio Mercantil e no Diário do Rio de Janeiro.</p><p>86 Em 1828, o Brasil atinge a marca de maior exportador de café do mundo e a região do Vale irá</p><p>receber um grande fluxo de escravos africanos quase que diariamente. O diplomata Johann Jakon</p><p>von Tschudi registrou no livro de contas de Cantagalo o índice de 3.800 pés de café por escravo e o</p><p>barão de Nova Friburgo, Antonio Clemente Pinto, operava com 5 a 6.000 pés em suas proprieda-</p><p>des. A região do Vale do Paraíba passava a ser uma peça chave no mercado mundial de produção,</p><p>distribuição e consumo de café em massa. INSTRUÇÕES Gerais para a Administração das Fazendas.</p><p>Boa sorte, 1870. In: AGUILLAR, Nelson (Org) Negro de corpo e alma: mostra do redescobrimento.</p><p>São Paulo: Fundação Bienal de São Paulo: Associação Brasil 500 anos artes visuais, 2000, p. 108, 110.</p><p>dos. Tudo era contado e controlado: horário, quantidade de refeições, roupa,</p><p>colheita e preparação do café, orações matinais, dias e formas de descanso,</p><p>etc. Contudo, o tempo passava de forma diversa para os diferentes sujeitos</p><p>sociais que habitavam e trabalhavam nas plantations do Vale.87</p><p>Para os proprietários, a administração da produção cafeeira era sinônimo</p><p>de preservação da riqueza, do patrimônio e de sua continuidade enquanto</p><p>membros da classe senhorial. Para os homens livres, as possibilidades e for-</p><p>mas de trabalho eram múltiplas e diferenciadas nos complexos cafeeiros:</p><p>feitores, médicos, jornaleiros, pequenos comerciantes, arrendatários, arrea-</p><p>dores,88 dentre outros. Para os escravos do eito, eram mais de 16 horas de</p><p>atividades diárias, um tempo de trabalho que se esgarçava, parecia não passar,</p><p>e só era amenizado pelos descansos aos domingos e dias santos. Uma rotina</p><p>exaustiva e extenuante em meio à violência e formas de controle incessantes.</p><p>Não obstante estejamos tratando aqui dos complexos cafeeiros perten-</p><p>centes à grande e mega cafeicultores, estes não eram a maioria numérica</p><p>dos lavradores do Vale; pelo contrário. Nas fazendas menores, os atributos</p><p>de trabalho e produção falavam mais alto e a preocupação com elementos</p><p>de representação não estavam na ordem do dia. As sedes eram simples e</p><p>se diferenciavam da arquitetura das novas casas de vivenda que buscava</p><p>demonstrar a opulência e o requinte dos senhores residentes. Contudo, não</p><p>importando os símbolos de poder e prestígio empregados, a escravidão</p><p>marcava o cotidiano de ambos os tipos de propriedades e ritmava os longos</p><p>dias de trabalho passados na lavoura. A escravidão era não só o cenário</p><p>87 A percepção de fazenda cafeeira como empresa organizada e produtiva também aparece em outros</p><p>documentos para além das narrativas dos viajantes. Como exemplo, podemos citar os livros de</p><p>conta ou cadernos de assento das fazendas Taquara e Pau Grande. Em ambas encontramos anota-</p><p>ções minuciosas da safra de café vendida, empréstimo de dinheiro a juros, pagamento de dívidas,</p><p>compra de produtos de subsistência, serviços médicos para os escravos, compra de material, dentre</p><p>outros gastos, que demonstram o envolvimento de um grande número de pessoas e principalmente</p><p>do proprietário, na administração da fazenda. Mas não era só isso. As fazendas aparecem como gran-</p><p>des empresas com interdependência entre contabilidades e índices de produção. Outro documento</p><p>que também corrobora esta ideia é o diário da viscondessa do Arcozelo, filha dos barões de Paty do</p><p>Alferes, escrito em 1887. Nele, a escrita ligeira e pontual de Maria Isabel, não deixava de demonstrar</p><p>que a produção do café era uma preocupação de toda a família, inclusive das mulheres, mesmo</p><p>não estando diretamente ligadas ao trabalho no eito. Portanto, todos aqueles que viviam na fazenda</p><p>cafeeira compartilhavam uma percepção do tempo marcada pelo trabalho. Sem negar as diferenças</p><p>brutais que separavam escravos e senhores na sociedade imperial, todos aqueles que integravam os</p><p>“mundos da fazenda” vivenciavam o tempo a partir de um ponto em comum: a produção do café.</p><p>88 As tropas de mulas que transportavam o café eram conduzidas pelos arreadores, encarregados da</p><p>direção dos escravos tropeiros (20% da força masculina da fazenda), cuja responsabilidade era a</p><p>entrega segura da mercadoria no armazém do comissário no Rio de Janeiro. Geralmente, para isso,</p><p>eram contratados imigrantes portugueses.</p><p>88 89</p><p>vislumbrado, mas a base da expansão social, econômica e política da classe</p><p>senhorial do vale do Paraíba.89</p><p>Em Monte Alegre, Arcozelo, Guaribu, Paraíso, Ubá, Piedade, Pau</p><p>Grande, Ribeirão Frio, Areias, Pinheiro, Taquara, São Joaquim da Grama,</p><p>São Luís da Boa Sorte,</p><p>Cachoeira Grande, Forquilha, Resgate e em outras</p><p>várias fazendas e sítios do Vale cafeeiro, a lida diária se repetia. Antes de o</p><p>sol nascer, os cozinheiros eram os primeiros a se levantarem para preparar a</p><p>primeira refeição composta de café, melaço e fubá cozido. Em seguida, um</p><p>feitor ou capataz tocava o sino para acordar os escravos que se lavavam em</p><p>um tanque de água, pegavam os instrumentos de trabalho e iam para fora da</p><p>senzala aguardar a reza matinal. Após a oração, o administrador da fazenda</p><p>contava os escravos, dividia-os em turmas com seus respectivos feitores e</p><p>capatazes responsáveis. Neste momento, o administrador determinava “a</p><p>cada feitor o serviço que deve fazer, e entregava o necessário mantimento</p><p>que de véspera devia estar preparado, mandando seguir, levando cada feito</p><p>diante de si todos os escravos de seu terno”.90</p><p>Nas grandes fazendas, a maioria dos cativos ia para a lavoura de café,</p><p>mas também havia aqueles que permaneciam na fazenda ou por estarem</p><p>incapacitados, com algum problema de saúde, ou porque eram incumbidos</p><p>dos serviços domésticos, ou outras atividades especializadas. No caso dos</p><p>escravos enfermos, Flávio Gomes demonstra que a sociedade vassourense do</p><p>século XIX entendia que “o senhor não era só aquele a quem deveria ser des-</p><p>tinado o produto do trabalho, mas também aquele que deveria prover seus</p><p>escravos de alimento, roupas, moradias, tratá-los nas enfermidades e casti-</p><p>gá-los quando necessário”.91 Em seu testamento, o barão de Paty do Alferes</p><p>demonstrava que a saúde de seus escravos o preocupava não só por obrigação</p><p>moral, mas também por medo de perdas financeiras já que a morte de uma</p><p>“peça” significava prejuízo para seus donos: “Os escravos ficavam sujeitos a</p><p>infecções respiratórias, nos lugares onde descascavam e peneiravam o café,</p><p>exposto ao sol por meio de pilões e peneiras produziam pó muito fino pre-</p><p>judicial à saúde dos escravos afetando-lhes particularmente os pulmões”.92 Já</p><p>89 STEIN, 1990.</p><p>90 INSTRUÇÕES Gerais para a Administração das Fazendas, p.108, 110.</p><p>91 GOMES, 2006.</p><p>92 INVENTÁRIO de 1862, falecido barão do Pati do Alferes; fazendas Monte alegre, Manga Larga,</p><p>Piedade, Sant’Ana, Palmeiras, Monte Líbano, Conceição. Vassouras: Cartório do 1° Ofício de</p><p>Vassouras apud PONDÉ, Francisco de Paula e Azevedo. A fazenda do barão de Pati do Alferes:</p><p>fazenda Piedade. RIHGB, Rio de Janeiro: IHGB, n. 327, p. 120, abr.-jun. 1980.</p><p>para o barão de Nova Friburgo e o conde de São Clemente, a doença devia ser</p><p>curada o mais rápido possível para não prejudicar a produção:</p><p>examinar com muitíssima atenção os pretos que tiverem dado parte de doentes,</p><p>e os que já estão no hospital. [...] Convencendo-se que o enfermeiro tenha fiel-</p><p>mente administrado aos doentes o que o doutor tiver prescrito, ou quando a boa</p><p>razão e experiência indicarem moléstias leves, mandem imediatamente chamar</p><p>o acultativo nas que não se conhecerem ou apresentarem aspecto grave.93</p><p>Além dos enfermos, permaneciam na fazenda escravos com funções</p><p>especializadas no espaço doméstico ou fora dele. O habitus civilizado</p><p>vigente na classe senhorial oitocentista exigia, cada vez mais, um requinte</p><p>dos modos de comportamento como elemento de diferenciação interno.</p><p>No ambiente das casas de vivenda, percebe-se pelos inventários e anúncios</p><p>de jornal, uma maior especialização dos serviços domésticos. Cozinheiras,</p><p>engomadeiras, doceira, lavadeiras, costureiras, amas de leite, pajens, vallet</p><p>de chambre, mucamas, copeiro, cocheiro, passaram a ser funções específi-</p><p>cas, com exigências distintas para as tarefas executadas. No caso dos servi-</p><p>ços especializados mais ligados à produção da fazenda propriamente dita,</p><p>contava-se com: alfaiate, candeeiro, carpinteiro, carreiro, pedreiro, sapa-</p><p>teiro, despenseiro, tanoeiro, enfermeiro, tropeiro, falqueador (derrubada</p><p>de matas), ferreiro, formigueiro (extermínio de pragas), e demais ativida-</p><p>des relacionadas às demandas por maior produtividade e profissionaliza-</p><p>ção impulsionadas pelo crescimento do mercado externo do café durante</p><p>o século XIX.</p><p>De uma maneira ou de outra, estudos comprovam que os cativos com</p><p>funções especializadas tinham mais probabilidade de conquistarem bene-</p><p>fícios, acumularem pecúlio e até adquirirem a tão sonhada alforria, do que</p><p>seus colegas cativos do eito.94 Todavia, é bom lembrar que a proximidade</p><p>com a família senhorial tanto abria chances para uma possível mobili-</p><p>dade espacial, troca de favores e aquisição de benefícios, quanto expunha a</p><p>enorme fragilidade da condição de cativo, caso este fizesse algo que direta-</p><p>mente desagradava aos senhores.95</p><p>93 INSTRUÇÕES Gerais para a Administração das Fazendas, p. 108, 110.</p><p>94 SLENES, Robert. Senhores e subalternos no oeste paulista. In: ALENCASTRO, L. F (Org.). História</p><p>da vida privada no Brasil: Império – a corte e a modernidade nacional. São Paulo: Companhia das</p><p>Letras, 2001 (História da Vida Privada no Brasil, v. 2).</p><p>95 A fragilidade das relações instituídas no contexto da escravidão doméstica nos EUA é narrado por:</p><p>FOX-GENOVESE, Elizabeth. Within the plantation household: black & white women of the old south.</p><p>90 91</p><p>Para a maioria que permanecia trabalhando no eito, eram realizadas</p><p>mais 4 refeições, sempre entremeadas com o trabalho duro, durante o qual</p><p>muitos cativos cantavam o jongo para passar o tempo.96 O almoço era ser-</p><p>vido às 10:00 horas composto de angu, um pouco de feijão temperado com</p><p>toucinho e gordura de porco. Em alguns casos, a refeição ainda podia con-</p><p>ter outros ingredientes como abóbora, batata doce e farinha de mandioca.</p><p>Esta breve pausa de mais ou menos uma hora também era aproveitada</p><p>pelas escravas para amamentarem seus bebês antes de voltarem ao trabalho.</p><p>Aproximadamente às 13:00 horas, recebiam café acompanhado do resto do</p><p>angu do almoço e o jantar ocorria por volta das 16:00 horas. O trabalho</p><p>prosseguia até o anoitecer, quando os capatazes chamavam os escravos para</p><p>a nova contagem, seguida pelas atividades noturnas, tais como: secagem do</p><p>café nos meses de inverno, moagem do milho para fazer fubá, confecção</p><p>da farinha de mandioca, preparação do café para consumo, corte de lenha,</p><p>transporte de água, etc. Ao voltar para a senzala, recebiam uma ceia e iam</p><p>dormir.97</p><p>Sobre a noite nas senzalas, o viajante suíço Johann Jakob von Tschudi</p><p>descreveu:98</p><p>Cada negro possui de 3 a 4 cobertores que usa também como colchão, se não</p><p>prefere utilizar-se da esteira. Um pequeno travesseiro completa a cama pri-</p><p>mitiva. [...] As senzalas ficam abertas até às 10 horas da noite, havendo até</p><p>lá, um convívio misto nas mesmas. A um sinal dado por uma campainha, os</p><p>homens e as mulheres se retiram, cada qual para sua habitação, e o guarda as</p><p>fecha a chave, abrindo-as na manhã seguinte, uma hora antes de iniciar-se a</p><p>tarefa diária. As crianças menores dormem com as mães, as maiores possuem</p><p>suas tarimbas individuais, dormindo em geral duas crianças em cada uma. Os</p><p>negros casados vivem em recintos menores, devidamente separados.</p><p>A dura rotina aqui descrita só era quebrada em casos de alguma intem-</p><p>périe ou problema na administração da fazenda, exceto nos sábados após a</p><p>Chapel Hill: The University of North Carolina Press, 1988; GLYMPH, Travolia. Out of house of bond-</p><p>age: the trasnformation of the plantation household. Cambridge: Cambridge University Press, 2008.</p><p>96 LARA, Silvia Hunold; PACHECO, Gustavo. Memória do jongo: as gravações históricas de Stanley</p><p>Stein – Vassouras, 1949. Rio de Janeiro: Folha Seca; Campinas: Cecult, 2007. Sobre o assunto, assistir</p><p>também ao vídeo Jongos, calangos e folias: música negra, memória e poesia (2007) realizado pelas</p><p>professoras Hebe Mattos e Martha Abreu.</p><p>97 SLENES, OP. CIT, 1997.</p><p>98 VON TSCHUDI, Johann Jakob. Viagem às províncias do Rio de Janeiro e São Paulo. São Paulo: Edusp;</p><p>Belo Horizonte: Itatiaia, 1980. p. 56.</p><p>labuta, quando geralmente era permitido que os escravos dançassem e can-</p><p>tassem ao ar livre, e nos domingos, dia do descanso semanal e da distribui-</p><p>ção de tabaco e roupas limpas</p><p>imperiais.</p><p>11 MUAZE, Mariana. As memórias da viscondessa: família e poder no Brasil Império. Rio de Janeiro:</p><p>Zahar, 2008; SALLES, Ricardo. E o Vale era o escravo: Vassouras, século XIX – senhores e escravos</p><p>no coração do Império. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008.</p><p>12 Para o conceito de região como construção histórica aplicado especificamente ao Vale do Paraíba</p><p>e, mais amplamente, à província fluminense como um todo, ver MATTOS, Ilmar R. de. O Tempo</p><p>Saquarema: a formação do Estado imperial. São Paulo: Hucitec, 1987.</p><p>13 VALVERDE, Orlando. A fazenda escravocrata de café. Revista Brasileira de Geografia, Rio de Janeiro:</p><p>IBGE, v. 29, n. 1, p. 37-81, jan.-mar. 1967.</p><p>A noção de Bacia do Paraíba, acima esboçada, que atravessa, explícita</p><p>ou implicitamente, diversos dos capítulos desse livro, estruturou-se, his-</p><p>tórica e conceitualmente, em torno da escravidão. Não apenas a escravi-</p><p>dão remanescente do regime colonial, mas uma escravidão em interação</p><p>com a construção de Estados nacionais e com a expansão internacional</p><p>do mercado capitalista. Uma Segunda Escravidão, de acordo com o con-</p><p>ceito cunhado pelo historiador norte-americano Dale Tomich, igualmente</p><p>presente como fonte de inspiração e de debate nessa obra. Essa Segunda</p><p>Escravidão se expandiu, exatamente no momento em que a escravidão</p><p>colonial era abolida, pela Revolução Haitiana, e por guerras e reformas</p><p>em outras regiões americanas. Ela alimentou e, ao mesmo tempo, derivou</p><p>de um conjunto de tendências e acontecimentos históricos, na virada do</p><p>século XVIII para o XIX, cujo epicentro foi a Revolução Industrial e a conso-</p><p>lidação da hegemonia britânica no plano internacional. Esses acontecimen-</p><p>tos e processos levaram a reconfigurações profundas no mercado mundial,</p><p>acarretando um crescente desequilíbrio nos preços internacionais entre</p><p>produtos industrializados e agrícolas; o incremento do consumo de deter-</p><p>minados produtos, como o café e o açúcar, demandados pelo aumento da</p><p>população de trabalhadores e da classe média nas cidades da Inglaterra e da</p><p>Europa; a procura por novas matérias-primas, como o algodão. Em regiões</p><p>como Cuba, o sul dos Estados Unidos e o Brasil, a escravidão expandiu-se</p><p>numa escala maciça para atender a essa crescente demanda mundial por</p><p>essas commodities. Dessa forma, e ainda de acordo com Tomich, a Segunda</p><p>Escravidão não seria uma premissa histórica do capitalismo, pressupondo,</p><p>ao contrário, sua existência como condição para sua reprodução.14</p><p>O terceiro conceito histórico que anima muitas das discussões travadas</p><p>neste livro é o de classe senhorial. A noção, elaborada por Ilmar R. de Mattos,</p><p>entende a classe senhorial como uma formação histórica particular que</p><p>teve seus comportamento e valores moldados na escravidão, em particular</p><p>naquela praticada no Vale do Paraíba, e em íntima conexão com a constru-</p><p>ção do Estado e da ordem imperiais.15 A espinha dorsal da classe senhorial</p><p>foi constituída pelos grandes proprietários escravistas, notadamente aque-</p><p>les da região da Bacia do Paraíba, e, em especial, por aqueles que detinham,</p><p>às vezes, mais de uma centena de escravos. Eram os megaproprietários de</p><p>14 TOMICH, Dale. Pelo prisma da escravidão: trabalho, capital e economia mundial. São Paulo: Edusp,</p><p>2011. Sobre a Segunda Escravidão e o Vale do Paraíba, ver capítulo 1 adiante.</p><p>15 Ver MATTOS, 1987. Ver também SALLES, 2008; MUAZE e PARRON, 2011.</p><p>16 17</p><p>cativos que, em conjunto com os grandes proprietários, possuidores de 50</p><p>ou mais escravos, tinham o controle sobre mais de 70% do total da popu-</p><p>lação cativa do Vale.16 Muitos desses megaproprietários eram proprietários</p><p>de várias fazendas e outros negócios, diretamente ligados ao ramo do café,</p><p>como casas comissárias, por exemplo, além de ativos financeiros variados,</p><p>constituindo verdadeiros complexos cafeeiros.17 Constituíam-se em verda-</p><p>deiros potentados que, em alguns casos, estendiam suas redes de negócios</p><p>por mais de uma localidade e mesmo província. Entretanto, a classe senho-</p><p>rial, associada à escravidão e à grande propriedade rural, não se formava</p><p>apenas em seu fazer econômico. Formava-se, com todo um modo de vida,</p><p>um habitus, entendido como formas de ser, sentir e agir não apenas reflexi-</p><p>vas, coetâneo com o habitus aristocrático do mundo europeu do século XIX,</p><p>marcado, no entanto, pela ascensão da burguesia.18</p><p>Esses e outros conceitos históricos, bem como análises sobre temas e</p><p>localidades específicas, serão apresentados e debatidos nas três partes em</p><p>que se divide essa obra. A primeira, intitulada “Interpretações e grandes</p><p>questões sobre a Bacia do Paraíba”, está subdividida em quatro capítulos,</p><p>onde são apresentadas grandes linhas interpretativas sobre o Vale e seu</p><p>papel na configuração socioeconômica e política do Império. A segunda</p><p>parte, “População e sociedade”, se estrutura em 10 capítulos que abordam</p><p>questões como a ocupação do Vale e extermínio das populações indíge-</p><p>nas que ali viviam, a formação da cafeicultura, o papel desempenhado por</p><p>aqueles que, sem serem senhores ou escravos, não obstante pontuavam</p><p>aquele mundo, o tráfico internacional de escravos para a região, a forma-</p><p>ção de grandes complexos cafeeiros, as relações entre senhores e escravos</p><p>16 A ideia de megaproprietário está em: BORGES, Magno Fonseca. Protagonismo e sociabilidade escrava</p><p>na implantação e ampliação da cultura cafeeira: Vassouras – 1821-1850. 2005. Dissertação (Mestrado</p><p>em História Social) – Departamento de História, Universidade Severino Sombra, Vassouras, 2005;</p><p>e SALLES, op. cit. Para Vassouras, cf. SALLES, op. cit. e BORGES, op. cit. Para Bananal, ver MORENO,</p><p>Breno A. S. Demografia e trabalho escravo nas propriedades rurais cafeeiras de Bananal, 1830-</p><p>1860. 2013. Dissertação (Mestrado em História Social) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências</p><p>Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2013. Pesquisas preliminares em Piraí indicam</p><p>igual ou maior grau de concentração da propriedade escravista.</p><p>17 Para a ideia de complexo cafeeiro, ver os capítulos 2 e 9 adiante. João Fragoso e Ana Maria Lugão</p><p>Rios trabalharam também com a noção de fazendeiro capitalista, como aquele que diversificava</p><p>seus investimentos, ver FRAGOSO, João Luís; RIOS, Ana Maria L. Comendador Aguiar Vallim: um</p><p>empresário brasileiro dos oitocentos. In: CASTRO, Hebe Maria M. de; SCHNOOR, Eduardo (Org.).</p><p>Resgate: uma janela para o oitocentos. Rio de Janeiro: Topbooks, 1995.</p><p>18 Sobre a marca aristocrática do habitus da classe senhorial, ver MUAZE, op. cit. Sobre o conceito de</p><p>habitus em geral, ver ELIAS, Norbert. A sociedade de Corte. 2. ed. Lisboa: Estampa, 1995; e ELIAS,</p><p>Norbert. O processo civilizador. São Paulo: Zahar, 1993. v. 2. (E volume 1 de 1994).</p><p>nos espaços definidos pelas grandes propriedades rurais. A terceira e última</p><p>parte, “Capital, economia e finanças”, composta por 6 capítulos, analisa as</p><p>relações e implicações financeiras derivadas da economia cafeeira, o papel</p><p>da tecnologia, especialmente da ferrovia na manutenção da escravidão e da</p><p>ordem senhorial, o papel econômico e financeiro da Baixada Campista na</p><p>conformação da região histórica da Bacia do Paraíba.</p><p>Alguns dos capítulos que se seguem já foram anteriormente publicados</p><p>em revistas, livros e outros espaços de divulgação. Sua reunião no âmbito de</p><p>uma mesma publicação, muitas vezes com modificações, visa salientar sua</p><p>importância e complementaridade. Em sua maioria, tais trabalhos, inclu-</p><p>sive, se desenvolveram e se alimentaram mutuamente no âmbito de discus-</p><p>sões e atividades coletivas que resultaram neste livro.</p><p>Fruto desse movimento e esforço coletivos de pesquisa, o livro visa</p><p>repor, direta ou indiretamente, a questão da centralidade do Vale do Paraíba</p><p>na configuração do Império do Brasil na agenda de debates historiográfi-</p><p>cos. Muito desse esforço foi realizado através de pesquisas individuais con-</p><p>duzidas nos âmbitos de diferentes departamentos e programas de pós-gra-</p><p>duação, institutos de pesquisa, em instituições públicas e privadas, sediadas</p><p>nos</p><p>aos cativos. Nestes recessos, muitos senhores</p><p>permitiam que seus escravos cultivassem roças próprias, como era o caso</p><p>de Francisco Peixoto de Lacerda Werneck:</p><p>O fazendeiro deve, o mais próximo que for possível, reservar um bocado de</p><p>terra onde os pretos façam as suas roças; plantem o seu café, o seu milho, feijão,</p><p>banana, batata, cará, aipim, cana etc. Não se deve porém consentir que a sua</p><p>colheita seja vendida a outrem, e sim a seu senhor, que deve fielmente pagar-</p><p>lhe por um preço razoável, isto para evitar extravios e súcias de taberna. Este</p><p>dinheiro serve-lhe para o seu tabaco, para comprar sua comida de regalo, sua</p><p>roupa fina, de sua mulher se é casado, e de seus filhos. Deve, porém proibir-se-</p><p>lhe severamente a embriaguez pondo-os de tronco até lhes passar a bebedeira.</p><p>[...] Estas suas roças, e o produto que delas tiram, faz-lhe adquirir certo amor ao</p><p>país, distraí-los um pouco da escravidão, e entreter com esse pequeno direito de</p><p>propriedade. [...] O extremo aperreamento desseca-lhes o coração, endurece-os</p><p>e inclina-os para o mal. O senhor deve ser severo, justiceiro e humano.99</p><p>Tanto a chamada brecha camponesa, quanto a permissão oficial para a</p><p>constituição de famílias no cativeiro faziam parte de uma política senhorial</p><p>de domínio e tratamento dos escravos que articuladas buscavam manter a</p><p>“paz nas senzalas”.100 Na fazenda Pinheiro, por exemplo, 1/3 dos cativos pos-</p><p>suíam uniões estáveis, totalizando 48 famílias, sendo a metade formada de</p><p>casais com filhos, o que também garantia a reprodução da escravaria.101 Já a</p><p>permissão para o cultivo de pequenas porções de terra além da função ideo-</p><p>lógica de controle social também dirimia os custos da manutenção desta</p><p>mão de obra. Sobre este aspecto em particular, Flávio Gomes afirma que:</p><p>[...] em vez de dar rações diárias aos cativos, alguns fazendeiros os dispen-</p><p>savam por um ou dois dias na semana para que cultivassem suas roças, de</p><p>onde tiravam produtos para a alimentação. Quanto aos escravos, o direito de</p><p>utilização de tempo para cultivar suas roças era visto como conquista. [...]</p><p>Por meio destas práticas, os cativos desenvolveram uma economia própria,</p><p>comerciando com taberneiros e cativos de fazendas próximas.102</p><p>99 WERNECK, Francisco Peixoto de Lacerda. Memória sobre a fundação de uma fazenda na província</p><p>do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa: Senado Federal, 1985. p. 63.</p><p>100 FIORENTINO, Manolo; GÓES, J. R. A paz das senzalas: famílias escravas e tráfico atlântico – Rio de</p><p>Janeiro, 1790-1850. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1997.</p><p>101 LOURENÇO, 2010, p. 64.</p><p>102 GOMES, 2006, p. 202.</p><p>92 93</p><p>Segundo o historiador Rafael Marquese tais concessões faziam parte da</p><p>“política do bom tratamento do escravo”, descrita pelo marquês de Abrantes</p><p>em seu livro, e composta de: fornecimento de alimentos, roupas e moradia</p><p>adequados aos cativos; permissão para que amealhassem alguma proprie-</p><p>dade como forma de inspirar no cativo o desejo do trabalho; incentivo a</p><p>formação de famílias; cuidado com as crianças escravas e diminuição da</p><p>carga de trabalho das grávidas e mães com crianças pequenas; algum tempo</p><p>livre para lazer e descanso; tratamento dos enfermos; punições corporais</p><p>justas e bem aplicadas.103</p><p>Como se vê, eram variadas as táticas que compunham a política senho-</p><p>rial de domínio. O barão de Paty do Alferes, certa vez, prometeu “prêmios”</p><p>de 40 réis de gratificação para cada escravo que cumprisse a tarefa de cole-</p><p>tar cinco alqueires de café. No entanto, explicava ele: “com este engodo</p><p>que era facilmente observado, consegui que apanhassem sete alqueires,</p><p>que ficou depois estabelecido como regra geral”.104 Para o barão, a quebra</p><p>do acordo era justificada pelo fato dos escravos não estarem rendendo o</p><p>máximo da sua capacidade de trabalho. Portanto, a vigilância deveria ser</p><p>constante e realizada durante o trabalho para que os escravos não lesas-</p><p>sem seus senhores em sua produção, seja prejudicando o cafeeiro durante</p><p>a coleta ou em qualquer outra fase da produção, seja produzindo menos</p><p>do que sua capacidade de trabalho, ou até roubando sacas de café, outros</p><p>produtos ou ferramentas de trabalho. Este foi o caso do escravo Manoel,</p><p>pertencente a Augusto Soares de Souza, que foi flagrado vendendo uma</p><p>saca de café roubada para um taberneiro na paróquia de Ferreiros.105</p><p>Em resumo, pode-se dizer que a política senhorial de domínio imple-</p><p>mentada possuía dois lados, mesmo que com potenciais desiguais de luta.</p><p>Enquanto os senhores buscavam a “paz das senzalas” através de diversos</p><p>recursos, entre eles a distribuição de pequenos benefícios e de posse do</p><p>monopólio da violência,106 aos escravos cabia a negociação por dentro do sis-</p><p>tema instituído. A convivência cotidiana entre livres e cativos fundava espa-</p><p>ços ambíguos em que o diálogo – mesmo que entre desiguais– era passível</p><p>103 MARQUESE, 2004, p. 268-269.</p><p>104 WERNECK, Francisco Peixoto de Lacerda. Memória sobre a fundação de uma fazenda na Província do</p><p>Rio de Janeiro, sua administração e épocas em que se devem fazer as plantações, suas colheitas etc, etc.</p><p>1. ed. Rio de Janeiro: Tipografia Universal Laemmert, 1847. p. 21 apud. SILVA, E.; REIS, J. J. Negociação e</p><p>conflito: a resistência negra no Brasil escravista. São Paulo: Companhia das Letras, 1989. p. 28.</p><p>105 Caso estudado por SLENES, 1997, p. 209.</p><p>106 Sobre o monopólio da violência como elemento de poder na sociedade imperial, ver: MATTOS, I., 1990.</p><p>de acontecer. Jogando no território do possível sem se contrapor diretamente</p><p>à lógica vigente, os escravos mapeavam estratégias de subordinação que lhes</p><p>permitiam pequenas conquistas: constituição de família, terras para plan-</p><p>tio, descansos em domingos e dias santos, compra da liberdade, alforria, etc.</p><p>Várias foram as estratégias de subordinação dos escravos domésticos e do eito</p><p>para ganhar a confiança de seus senhores e feitores. No meio de uma vida tão</p><p>precária, pequenos benefícios podiam significar muito e aliviar um pouco</p><p>as agruras do cativeiro.107 Em seu diário, a viscondessa do Arcozelo enumera</p><p>algumas destas grandes e pequenas conquistas às vésperas da abolição:</p><p>Os pretos de casa cantarão os Reis. (6 de janeiro de 1887, dia de Reis)</p><p>Os escravos farão festa. (23 de junho de 1887, dia de São João)</p><p>Chico acabou de fazer a matricula. Ficarão livres das três fazendas 37 escravos.</p><p>MONTE ALEGRE: Ventura, Miguel, Mathias, Domingos Carreiro, Caetano,</p><p>Dionísio, Jachinto, Custodio Cabinda, Laureano, Polycarpo, Eufrazia,</p><p>Carolina, Anacleto, Luiza, Maria Conga.</p><p>PIEDADE: Madalena, Eugenia, Bento, Mathias, Antonio Monjolo, Faustino,</p><p>Felipe, Thereza, Mª Cassange, Domingos Congo, Gertrudes Benguela,</p><p>Francisca Benguela, Candido, Drezida, Ambrosio Fromigueiro, Clemente,</p><p>Tude, Marcelina.</p><p>FREGUESIA: João Cassange, Ephigenia, Miguel, Rodrigo. (31 de janeiro de 1887)</p><p>Do embate entre a violenta política da dominação legitimada pelos</p><p>senhores e as estratégias de sobrevivência articuladas pela população</p><p>escrava, emerge uma dinâmica social calcada no sentimento do “sobres-</p><p>salto” que permeava os mundos da fazenda.108 Ao conseguir pertencer à</p><p>rede e fazer parte da “política de favores” de seus senhores, o escravo aca-</p><p>bava enredado em seus anseios, cativo de suas próprias conquistas, porque</p><p>passava a conviver com o temor de perdê-las. Por outro lado, na outra ponta</p><p>da gangorra de forças, os senhores viviam em constante “estado de alerta”.</p><p>As políticas de negociação implementadas cotidianamente eram instáveis</p><p>e podiam rapidamente se tornar motivo de conflito, sobretudo através</p><p>de fugas individuais ou coletivas, rebeliões nas senzalas, roubos e ataque</p><p>107 Sobre este tema, ver: CHALHOUB, S. Visões de liberdade: uma história das últimas décadas da escra-</p><p>vidão na Corte. São Paulo: Companhia das Letras, 1990. SLENES, 1997, p. 236. Ver ainda: MATTOS,</p><p>H. Das cores do silêncio: os significados da liberdade no sudeste escravista – Brasil, séc. XIX. Rio de</p><p>Janeiro: Nova Fronteira, 1998. GUEDES, Roberto, Egressos do cativeiro:</p><p>trabalho, família, aliança e</p><p>mobilidade social (Porto Feliz, SP, 1798-1850). Rio de Janeiro: Mauad: Faperj, 2008.</p><p>108 SLENES, 1997.</p><p>94 95</p><p>a senhores e feitores seguidos de morte. Como afirma Robert Slenes, os</p><p>senhores sabiam que estavam “dormindo com o inimigo”, pois os líderes das</p><p>revoltas nas senzalas eram, frequentemente, os escravos mais chegados.109</p><p>Para corroborar a afirmativa de Slenes, vale citar a revolta de Manoel</p><p>Congo ocorrida no dia 5 de novembro de 1838, em Vassouras. O episódio</p><p>teve início quando os escravos de Manuel Francisco Xavier se sublevaram e</p><p>seguiram para a fazenda Maravilha, pertencente ao mesmo dono. Ao che-</p><p>garem, atentaram contra o feitor, roubaram mantimentos e ferramentas do</p><p>paiol e puseram uma escada na cozinha da casa de vivenda para possibilitar</p><p>a fuga dos escravos domésticos que por ali dormiam.110</p><p>Para a discussão que nos interessa no momento, vale frisar aqui três</p><p>aspectos que relativizam a completa eficácia da política de domínio senho-</p><p>rial. Em primeiro lugar, nenhum dos escravos domésticos da fazenda</p><p>Maravilha resistiu à fuga ao serem convocados pelos cativos já subleva-</p><p>dos. Em segundo lugar, Manoel Congo, acusado de ser o principal líder da</p><p>revolta, era ferreiro e casado. Em terceiro lugar, a maioria dos escravos indi-</p><p>ciados no inquérito como cabeças do movimento eram escravos domésti-</p><p>cos ou possuíam alguma especialização. Portanto, nenhum dos benefícios</p><p>concedidos pela política senhorial de dominação – atuar no serviço domés-</p><p>tico, ter um trabalho especializado, constituir família – foram capazes de</p><p>impedir a fuga e a revolta por parte dos escravos que deles gozavam.</p><p>É importante que se tenha em mente que a política de dominação</p><p>senhorial vivia um equilíbrio tênue, instável e que a aceitação da mesma por</p><p>parte dos escravos era passível de ser alterada no menor sinal de possibili-</p><p>dade de liberdade. Os escravos também tinham suas estratégias. Estavam</p><p>capacitados a resistir ao sistema de dominação imposto à medida que, por</p><p>fazer parte dele (como dominado), conheciam a fundo suas brechas, limi-</p><p>tes e imperfeições. Neste contexto, as desobediências e fugas eram bastante</p><p>comuns e os anúncios de escravos fugidos povoaram os jornais da Corte e</p><p>das províncias do Vale.</p><p>50$000. O escravo chamado Antonio fugiu em 29 de junho da fazenda Tatuhy</p><p>de Pati do Alferes. Ele é carpinteiro, africano de Benguela, com marcas de</p><p>varíola, alto, pés grandes, lábios grossos, corpulento, barba branca. Como ele</p><p>fugiu com a escrava Damiana, africana de Benguela sua esposa, muito escura,</p><p>baixa, robusta, faltam-lhe 3 dedos na mão direita, fala bem. Esses escravos</p><p>109 Ibid., p. 236. Ver ainda: MATTOS, H., 1998.</p><p>110 GOMES, Flávio. “As raízes do efêmero: a insurreição quilombola de Vassouras (1838)”. In: Op. cit.</p><p>são conhecidos em Paraíba do Sul, Bemposta e Piabanha, onde trabalham,</p><p>e no município de Vassouras. Quem quer que os ajude será processado por</p><p>lei. Acima a recompensa para quem devolvê-los a senhora D. Luiza Rosa</p><p>Sampaio, em Tatuhy, ou quem possa dar informações sobre seus paradeiros.111</p><p>Convivendo bem de perto com os escravos, existia toda sorte de</p><p>homens livres que atuavam na fazenda ou nas margens das fronteiras terri-</p><p>toriais da mesma, realizando trabalhos diários ou sazonais. Eram ex-escra-</p><p>vos, feitores, arreadores, pequenos agricultores, trabalhadores por jornada</p><p>que se distinguiam dos cativos por possuírem o atributo da liberdade. Se</p><p>a liberdade os diferenciava dos cativos, não os equiparava aos senhores,</p><p>cidadãos ativos, que detinham o direito de votar e serem votados, assegu-</p><p>rado pela prerrogativa do voto censitário garantida na Constituição de 1824.</p><p>Apesar de viverem apartados do mundo dos senhores por outros elementos</p><p>diferenciadores como grau de instrução, práticas de consumo, etiqueta e</p><p>habitus social, os homens livres e pobres, considerados cidadãos passivos</p><p>na lógica política vigente, jogavam cotidianamente com suas relações pes-</p><p>soais e laços de dependência em busca de melhores condições de vida.112</p><p>O que definia toda a sorte de homens pobres, não escravizados, que</p><p>viviam no Vale do Paraíba fluminense e em toda a sociedade Imperial era o</p><p>fato de serem livres. Contudo, se atributo da liberdade os igualava, o da pro-</p><p>priedade os hierarquizava reproduzindo a lógica “verticalizadora” da socie-</p><p>dade imperial. Portanto, a posse de escravos e de terras eram elementos de</p><p>diferenciação importantes no interior de um grupo social com funções tão</p><p>diversas. Todavia, estas conquistas se tornaram cada vez mais difíceis na</p><p>conjuntura pós 1850, quando o preço do cativo e as possibilidades de acesso</p><p>à terra se restringiram na região.</p><p>Na sociedade oitocentista, os critérios de liberdade e propriedade</p><p>estavam imbricados. Ou seja, o reconhecimento social de uso da terra era</p><p>respaldado por favores, relações pessoais e familiares historicamente cons-</p><p>tituídas na região e que garantiam o acesso a tal.113 Relações de fidelidade</p><p>construídas ao longo de uma vida entre homens livres e pobres e grandes</p><p>111 O MUNICÍPIO 5 de julho de 1877 apud STEIN, 1990, p. 180.</p><p>112 Para uma discussão acerca da cidadania no Império, consultar: GRINBERG, Keila. O fiador dos bra-</p><p>sileiros: cidadania, escravidão e direito civil no tempo de Antônio Pereira Rebouças. Rio de Janeiro:</p><p>Civilização Brasileira, 2002; MATTOS, H., 2000; MATTOS, I., 1990.</p><p>113 MATTOS, H. Das cores do silêncio: os significados da liberdade no sudeste escravista – Brasil, séc.</p><p>XIX. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1998.</p><p>96 97</p><p>senhores podiam ser recompensadas no futuro. O barão de Capivary, por</p><p>exemplo, beneficiou em testamento dois de seus “agregados”. Ao compadre</p><p>José de Oliveira Barcellos deixou 3:000$000 em terras que já eram de seu</p><p>usufruto e à agregada Anna Isabel do Parahyso Ribeiro doou os escravos e</p><p>as terras já arrendados por ela, além da quantia de 50$000.114</p><p>O estudo pioneiro de Maria Sylvia de Carvalho Franco sobre os homens</p><p>livres na ordem escravocrata enfatizou a pluralidade de condições e de rela-</p><p>ções que este grupo social constituía junto aos grandes proprietários rurais</p><p>ao nível de relações de compadrio, vínculos pessoais, favores prestados,</p><p>interesses eleitorais, arrendamento de terras e/ou instrumentos de trabalho,</p><p>etc. Assim como Stanley Stein e Warren Dean, a autora destacou a pouca</p><p>oferta de terras como favorecedora de um pequeno grupo de ricos proprie-</p><p>tários que exercia seu poder, autoridade e controle político sobre um certo</p><p>número de homens pobres.115 A influência destes poucos senhores não ficava</p><p>circunscrita aos arrendatários e sitiantes que se dedicavam à agricultura em</p><p>suas terras, mas se propagava também a vendeiros, tropeiros, jornaleiros</p><p>e comerciantes de pequeno porte e outros trabalhadores com negócios e</p><p>interesses na região.116 Como decorrência, os vínculos pessoais constituídos</p><p>entre os chamados “agregados” e os grandes proprietários locais dificulta-</p><p>vam a possibilidade de um existir politicamente autônomo destes homens</p><p>livres e pobres, ao mesmo tempo em que legitimava a imposição da vontade</p><p>do mais forte sobre o mais fraco.117</p><p>Para José Murilo de Carvalho, ao contrário, o voto era um importante</p><p>instrumento de barganha dos homens pobres frente aos senhores. Apesar</p><p>de o pleito ser censitário, o número de eleitores no Império era considerável</p><p>se comparado a outros países no mesmo período. No Brasil, isso ocorria</p><p>114 TESTAMENTO do barão de Capivary, Pau Grande 20 de fevereiro de 1863. Vassouras: Centro de</p><p>Documentação Histórica da Universidade Severino Sombra, 1863. Caixa 242.</p><p>115 Stanley Stein estudou o sistema da grande lavoura em Vassouras e Warren Dean desenvolveu traba-</p><p>lho semelhante para Rio Claro, região do vale do Paraíba paulista. Ver: STEIN, 1990.</p><p>116 FRANCO, Maria Sylvia Carvalho. Homens livres na ordem escravocrata. 4. ed. São Paulo: Unesp, 1997.</p><p>Sobre o espaço de sobrevivência dos homens livres e pobres na ordem escravocrata, a autora lembra</p><p>que “foi na fímbria do sistema econômico organizado</p><p>para a produção e comercialização do café</p><p>que emergiram as atividades a eles relegadas. Foram esses serviços residuais, que na maior parte não</p><p>podiam ser realizados por escravos e não interessavam aos homens com patrimônio, que ofereceram</p><p>as oportunidades aos trabalhadores livres”. p. 65.</p><p>117 Ibid., p. 94. Esta afirmação está baseada numa interpretação clássica na historiografia brasileira a</p><p>qual enfatiza uma relação desigual entre proprietários de terras e seus trabalhadores e agregados.</p><p>Ver: LEAL, Victor Nunes. Coronelismo, enxada e voto: o município e o regime representativo no</p><p>Brasil. Rio de Janeiro: Biblioteca CCS da UERJ, 1949.</p><p>porque a renda mínima anual exigida era relativamente baixa para a época e</p><p>a fiscalização da Coroa da lista de votantes não era das mais eficazes. Desse</p><p>modo, em tempos de eleições, muitos eleitores negociavam favores com os</p><p>chefes políticos locais porque sabiam que a derrota destes grandes proprie-</p><p>tários significaria desprestígio e perda do controle de cargos públicos.118</p><p>Desta forma, se por um lado a pouca oferta de terras, que era uma rea-</p><p>lidade no Vale fluminense após a década de 1850, deixando uma grande par-</p><p>cela da população livre vulnerável as relações pessoalizadas impostas pelos</p><p>grandes senhores; por outro, estas mesmas relações pessoalizadas abriam</p><p>possibilidades de acesso à terra, benefícios e oportunidades de inserção na</p><p>comunidade local, como demonstrou a análise do testamento do barão do</p><p>Capivary. Obviamente que não se trata de dizer que as partes envolvidas na</p><p>negociação se colocavam em iguais condições. O caráter violento e desigual</p><p>das relações entre senhores e homens livres e pobres não pode ser desmere-</p><p>cido. Todavia, os espaços sociais para o desenvolvimento de negociações, bar-</p><p>ganhas, conflitos e rebeldias devem ser levados em consideração sob pena de</p><p>encobrir as especificidades destes homens livres e despossuídos e acabar por</p><p>considerá-los uma massa de manobra sem valores e pensamentos próprios.119</p><p>Mas o trabalho como lavrador agregado e pequeno sitiante ligados aos</p><p>grandes senhores não era a única função que os homens livres e pobres</p><p>exerciam nas grandes fazendas. Nas Instruções gerais para a administração</p><p>das fazendas, enumerava-se: “todo o pessoal livre da fazenda, camaradas</p><p>como oficiais de ofício, enfermeiros estão debaixo das ordens do adminis-</p><p>trador e ele é responsável pelo bom emprego do tempo dos mesmos.[...]</p><p>Tem o administrador o direito e a obrigação de demiti-los logo que cum-</p><p>pram seus deveres”.120 Além dos citados acima, era comum nas fazendas</p><p>o emprego de trabalhadores livres para outras funções específicas e este</p><p>número podia aumentar de acordo com o volume de trabalho nas diferen-</p><p>tes safras e colheitas. Na contabilidade da fazenda Pau Grande, por exem-</p><p>plo, entre os anos de 1872 e 1876, aparecem gastos com pagamento de salá-</p><p>rios a feitores (126$000 réis/ano), jornaleiros e tropeiros.121</p><p>118 CARVALHO, José Murilo de. Cidadania no Brasil: o longo caminho. Rio de Janeiro: Civilização</p><p>Brasileira, 2003. p. 33.</p><p>119 A discussão desta questão no tocante aos escravos é apresentada por REIS; SILVA, 1989.</p><p>120 INSTRUÇÕES Gerais para a Administração das Fazendas, p. 108.</p><p>121 ARQUIVO NACIONAL. Caderno de assentamentos financeiros das despesas e rendimentos mensais da</p><p>fazenda –1870-1876. Rio de Janeiro, 1870-1876. Fundo Fazenda do Pau Grande, notação 798.</p><p>98 99</p><p>Como vimos, os diversos agentes sociais que compunham o universo dos</p><p>complexos cafeeiros estavam ligados por uma imbricada teia de dependên-</p><p>cias, solidariedades e relações de poder que eram respaldadas por uma lógica</p><p>de domínio verticalizada, hierarquizada e excludente que operava a partir de</p><p>critérios de liberdade e propriedade. No cotidiano das plantations cafeeiras,</p><p>as relações sociais e de trabalho instituídas variaram no tempo e no espaço</p><p>sem, contudo, prescindirem dos princípios da hierarquia, tão caro ao fun-</p><p>cionamento das sociedades escravistas. Tais relações de força tencionavam as</p><p>dinâmicas entre os diversos grupos sociais, mas também no interior dos mes-</p><p>mos. Nas comunidades de senzala de grandes plantations, por exemplo, estas</p><p>diferenciações eram sentidas através de conflitos entre africanos e crioulos,</p><p>cativos antigos e recém-chegados.122 A situação das pessoas livres e pobres que</p><p>trabalhavam nas grandes fazendas não fugia à regra.123 Contudo, a dinâmica</p><p>social vigente acenava com hipotéticas conquistas: aos escravos com a possi-</p><p>bilidade de constituírem famílias, fazerem roça própria, realizarem festas aos</p><p>domingos e dias santos ou serem alforriados; aos homens livres e agregados</p><p>com promessas de proteção, melhor remuneração, lotes de terra, recebimento</p><p>de escravos ou pequenas doações após a morte do proprietário a quem foram</p><p>fiéis; aos senhores com a aquisição de títulos de nobreza, enriquecimento ou</p><p>boas relações com pares mais endinheirados. Todavia, as clivagens entre os</p><p>grupos sociais em questão eram fulcrais. Enquanto para os escravos a aquisi-</p><p>ção de “benefícios,” em muitos casos, significava a garantia da própria sobre-</p><p>vivência; para os senhores se tratava da manutenção de um status quo.</p><p>A título de conclusão, pode-se dizer que, como resultado histórico</p><p>do processo de ocupação das terras “serra acima”, da rápida montagem</p><p>dos complexos cafeeiros e da ascensão dos mega proprietários de terras e</p><p>escravos que residiam no centro-sul, em pouco tempo, o Vale do Paraíba</p><p>tornou-se uma peça fundamental para a economia e a política imperial,</p><p>sendo socialmente reconhecida como uma região. A opção conservadora</p><p>pela emancipação gradativa da escravidão a despeito de todas as transfor-</p><p>mações ocorridas tanto no cenário nacional quanto internacional pode ser</p><p>122 FLORENTINO, Manolo; GÓES, José Roberto. A paz nas senzalas: famílias escravas e tráfico Atlântico,</p><p>c.1790 – c.1850. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1997.. Sobre a temática da família escrava,</p><p>Robert Slenes apresenta uma interpretação oposta de que no âmbito das comunidades de senzala e</p><p>da formação de famílias foi possível aos africanos e seus descendentes manterem relações de solida-</p><p>riedade e elementos da cultura africana. SLENES, Robert. Na senzala uma flor. Rio de Janeiro: Nova</p><p>Fronteira, 1999.</p><p>123 SLENES, 1997, p. 283.</p><p>interpretada como uma prova do forte comprometimento das forças políti-</p><p>cas do Império com a classe senhorial escravista do Vale.124</p><p>Desta forma, se por um lado a concentração de mão de obra escrava,</p><p>terras e riqueza no Vale do Paraíba proporcionou uma projeção política</p><p>e econômica da região no âmbito nacional, por outro, isolou os interes-</p><p>ses escravistas naquela espacialidade. Com o fim do infame comércio, o</p><p>aumento do preço do escravo e a intensificação do tráfico interprovincial, o</p><p>mapa da escravidão mudou no Brasil.125 Nos anos de 1880, a nova configu-</p><p>ração apontava uma concentração maciça de escravos no Vale do Paraíba,</p><p>enquanto outras localidades tendiam ao esvaziamento deste tipo de mão</p><p>de obra.126 A escravidão como instituição havia perdido sua capacidade de</p><p>amalgamar interesses de grupos sociais distintos. Tornara-se reduzida aos</p><p>interesses de um grupo de grandes proprietários do centro-sul, enfraque-</p><p>cendo-a como projeto nacional.127</p><p>124 No âmbito interno, cito o crescimento do movimento abolicionista, a Guerra do Paraguai, o</p><p>aumento das fugas de escravos e ascensão das classes médias urbanas incluindo o grupo dos milita-</p><p>res. No âmbito externo, destaco a Guerra Civil Americana com a derrota do sul escravista e o forte</p><p>crescimento da opinião pública internacional contrária à escravidão.</p><p>125 “As estimativas indicam que entre 1850 e 1888, foram transferidos aproximadamente duzentos mil</p><p>escravos do Nordeste para a lavoura cafeeira. Além da venda dos cativos ter sido uma das formas</p><p>de muitos proprietários de terras nordestinos saldarem suas dívidas, as secas ocorridas na região,</p><p>no final da década de 1870, também contribuíram para que perdessem aproximadamente 50% do</p><p>seu plantel de escravos.</p><p>O trabalhador livre foi substituindo paulatinamente a mão de obra nas</p><p>lavouras nordestinas.” BASTOS, Lúcia; MARTINS, Humberto. O Império do Brasil. Rio de Janeiro:</p><p>Nova Fronteira, 1999. p. 350.</p><p>126 Neste processo, destaco a extinção da escravidão em 1884 nas províncias do Ceará, Amazonas e na</p><p>cidade de Porto Alegre e o movimento dos caifazes em São Paulo.</p><p>127 SALLES, Ricardo. Nostalgia imperial: a formação da identidade nacional no Brasil do Segundo</p><p>Reinado. Rio de Janeiro: Topbooks, 1996. Id. Guerra do Paraguai: memórias & imagens. Rio de</p><p>Janeiro: Biblioteca Nacional, 2003.</p><p>100 101</p><p>A cartografia do poder senhorial:</p><p>cafeicultura, escravidão e formação</p><p>do Estado nacional brasileiro, 1822-1848</p><p>Rafael Marquese</p><p>Ricardo Salles</p><p>o mapa de 1848 e a cartografia das fazendas de café</p><p>Em 1848, o engenheiro militar e coronel Conrado Jacob de Niemeyer, então</p><p>superintendente da fazenda imperial de Santa Cruz, localizada na provín-</p><p>cia do Rio de Janeiro, coordenou a composição e impressão de um ambi-</p><p>cioso mapa da propriedade e de seu entorno. Dentre suas peculiaridades,</p><p>encontra-se a combinação simétrica de representações planimétricas e vis-</p><p>tas frontais dos edifícios que compunham o complexo do palácio imperial</p><p>de Santa Cruz (parte direita do mapa) com uma representação cartográfica</p><p>dos imensos fundos territoriais dos antigos domínios jesuíticos, da baía de</p><p>Mangaratiba ao rio Paraíba do Sul (parte esquerda). Nesta segunda ses-</p><p>são, destaca-se a anotação, muito rara no Brasil, das fronteiras de diversas</p><p>propriedades rurais, nas quais foram anotados os nomes de seus respecti-</p><p>vos donos (Imagem 1). Essa última característica torna o mapa da fazenda</p><p>de Santa Cruz uma peça ímpar para a análise da história do Império do</p><p>Brasil, em que pouco – ou mesmo nada – se mapeou a estrutura fundiária.</p><p>O contraste entre esse documento único e as práticas cartográficas vigen-</p><p>tes em outros espaços de fato chama a atenção. Em projeto comparativo</p><p>sobre as zonas de ponta da chamada “Segunda Escravidão” (baixo vale do</p><p>rio Mississippi, zona algodoeira; ocidente de Cuba, zona açucareira; Vale do</p><p>Paraíba, zona cafeeira), foi possível constatar essa especificidade do Brasil.1</p><p>1 O projeto, financiado pela Getty Foundation e desenvolvido entre 2005 e 2009, foi desenvolvido</p><p>pela equipe composta por Reinaldo Funes, Rafael Marquese, Dale Tomich e Carlos Venegas.</p><p>Imagem 1: Planta corográfica de uma parte da província do Rio de Janeiro na qual se inclui a Imperial</p><p>Fazenda de Santa Cruz segundo as primitivas medições dos jesuítas em 1729 e remedição de 1783,</p><p>medição anulada de 1827 e de sua posse atual para ser anexa às reflexões tendentes a determinar</p><p>definitivamente os seus limites. (Acervo: Arquivo Nacional, ref.: BR RJANRIO 4Y.0.MAP.50)</p><p>O presente capítulo parte da seguinte pergunta: por que o mapa de</p><p>Niemeyer constitui peça única no Brasil imperial, quando, na quadra his-</p><p>tórica oitocentista, os Estados nacionais americanos e os poderes coloniais</p><p>europeus demonstravam intensa preocupação com o mapeamento de</p><p>territórios e de recursos naturais? Por meio do exame do mapa de 1848,</p><p>iremos explorar em que medida os processos de construção dos Estados</p><p>nacionais da Segunda Escravidão envolveram graus distintos de esquadri-</p><p>nhamento de territórios e de relações entre as estruturas do poder político</p><p>ippc0</p><p>Realce</p><p>ippc0</p><p>Realce</p><p>ippc0</p><p>Realce</p><p>102 103</p><p>e suas bases sociais de sustentação, notadamente junto às classes de pro-</p><p>prietários de terras e escravos. Em outras palavras, ao procurarmos uma</p><p>resposta para a pergunta concernente ao caráter singular do mapa de 1848,</p><p>poderemos iluminar o processo mais amplo de formação da classe senho-</p><p>rial escravista no Vale do Paraíba e suas relações com a construção do</p><p>Estado nacional brasileiro.</p><p>A composição do mapa de Niemeyer, em fins da década de 1840,</p><p>remonta aos anos imediatamente posteriores à independência do Brasil,</p><p>quando uma disputa por terras opôs, de um lado, a primeira geração de</p><p>cafeicultores escravistas do Vale do Paraíba ocidental, e, de outro, D. Pedro</p><p>I. Acompanhar essa disputa nos permitirá compreender o papel do processo</p><p>de penetração do café na região, especialmente em uma área-chave, o Médio</p><p>Vale do Paraíba, para a configuração do poder senhorial. Examinaremos a</p><p>formação de suas primeiras fazendas; o suporte que seus donos de terras e</p><p>escravos deram ao projeto de rompimento das relações com a metrópole,</p><p>capitaneado pelo próprio príncipe português; o progressivo divórcio pos-</p><p>terior entre D. Pedro I e os grupos escravistas em ascensão, que culminou</p><p>com sua abdicação em 1831; a articulação do Regresso Conservador como</p><p>parte do processo de formação da classe senhorial radicada no Vale e con-</p><p>solidação do Estado imperial; a coroação do novo imperador em 1840 e</p><p>o arranjo político então construído. Nesse percurso, poderemos, enfim,</p><p>entender o que Niemeyer pretendia em 1848.</p><p>a fazenda de santa cruz, a montagem da cafeicultura</p><p>escravista no vale do paraíba ocidental</p><p>e a independência do brasil</p><p>O rio Paraíba do Sul nasce em terras paulistas, na confluência dos rios</p><p>Paraitinga e Paraibuna, na Serra do Mar. Ele corre, inicialmente, em dire-</p><p>ção oeste, até a altura de Jacareí, quando faz uma inflexão para o Norte e em</p><p>direção a leste, adentrando terras fluminenses, até dobrar ao sul e desem-</p><p>bocar no Oceano Atlântico em São João da Barra. Seu percurso é paralelo</p><p>ao Oceano Atlântico, formando e ocupando uma grande calha que se situa</p><p>entre a Serra do Mar, que se alastra paralela e próxima ao litoral, e Serra da</p><p>Mantiqueira, que divide o Vale do Paraíba do altiplano mineiro. O Vale do</p><p>Paraíba, por suas características geoecológicas, pode ser dividido em Alto</p><p>Vale, compreendendo a região mais elevada, incrustada na Serra do Mar,</p><p>onde nasce o rio, em São Paulo; o Médio Vale, que nos interessa mais de</p><p>perto, compreendendo as terras que vão de Cachoeira Paulista até Itaocara,</p><p>no Rio de Janeiro; o Baixo Vale, quando o rio Paraíba vai se nivelando, aos</p><p>poucos, até a foz na Baixada Campista. No século XIX, a expansão do café,</p><p>que chegou à região por diferentes vias, converteu o vale geográfico em uma</p><p>unidade socioeconômica e ambiental, com ligações diretas com a Zona da</p><p>Mata mineira, o norte da província de São Paulo, a baía de Ilha Grande,</p><p>o nordeste da província do Rio de Janeiro, a zona canavieira de Campos,</p><p>a Baixada e o Recôncavo em torno da Baía de Guanabara e, finalmente,</p><p>com a praça mercantil do Rio de Janeiro e a Corte imperial. É essa região</p><p>que, seguindo o geógrafo Orlando Valverde, denominamos de Bacia do</p><p>Paraíba.2 Num segundo círculo de desdobramento, essa região escravista,</p><p>organizada em torno do café e, em menor dimensão, em torno da cana-</p><p>de-açúcar, conectava-se com o restante das províncias de Minas Gerais e</p><p>São Paulo, com ramificações para o extremo meridional da América portu-</p><p>guesa, constituindo a região Centro-Sul.</p><p>As terras compreendidas pelo Médio Vale do Paraíba no século XVIII,</p><p>e, particularmente, a porção ocidental do Médio Vale, foram regidas no</p><p>período colonial pela política de terras proibidas, que visava interditar o con-</p><p>trabando de ouro e diamantes, o que, por sua vez, permitiu que populações</p><p>indígenas continuassem a habitar a região até o início do século XIX.3 Não</p><p>obstante, durante os setecentos, a Coroa portuguesa promoveu a ocupação</p><p>de faixas dessa região por meio da concessão de sesmarias em dois grandes</p><p>eixos. O primeiro corria grosso modo de sul a norte, ao longo do chamado</p><p>Caminho Novo de Paes Leme, que ligava o porto do Rio de Janeiro às Minas</p><p>Gerais.4 O segundo eixo dispunha-se em uma faixa de leste a oeste, em torno</p><p>da Estrada Geral para São Paulo. É ele que nos interessa mais de perto.</p><p>2 VALVERDE, Orlando. A fazenda de café escravocrata no Brasil. 1. ed. 1965. In: ___. Estudos de geo-</p><p>grafia agrária brasileira. Petrópolis: Vozes, 1985.</p><p>3 Sobre a política de zonas proibidas, ver, dentre outros, ANASTASIA, Carla Maria Junho. A geogra-</p><p>fia do crime: Violência nas</p><p>Minas Setecentistas. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2005. Como ressalta</p><p>Marina Monteiro Machado (Entre fronteiras: terras indígenas nos sertões fluminenses (1790-1824).</p><p>2010. Tese (Doutorado em História) – Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2010. p. 35), as</p><p>populações indígenas que habitavam o Vale foram importantes para a eficácia relativa do bloqueio à</p><p>colonização na região durante o século XVIII.</p><p>4 Sobre as sesmarias concedidas nesse eixo, ver LEMOS, Marcelo Sant’Anna. O índio virou pó de</p><p>café? A resistência dos índios Coroados de Valença frente à expansão cafeeira no Vale do Paraíba</p><p>(1788-1836). 2004. Dissertação (Mestrado em História) – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas,</p><p>Universidade Estadual do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2004. p. 39. Para o processo mais amplo,</p><p>ippc0</p><p>Realce</p><p>ippc0</p><p>Realce</p><p>ippc0</p><p>Realce</p><p>ippc0</p><p>Realce</p><p>ippc0</p><p>Realce</p><p>104 105</p><p>O chamado “Caminho Novo da Piedade”, ligando o que hoje é o muni-</p><p>cípio de Lorena à fazenda Santa Cruz, começou a ser aberto na década</p><p>de 1720 com o objetivo de garantir um acesso terrestre entre a cidade do</p><p>Rio de Janeiro e a capitania de São Paulo, de modo a evitar os ataques</p><p>às partidas de ouro descidas de Minas Gerais e até então embarcadas em</p><p>Parati.5 A abertura da via deu ensejo às primeiras concessões de sesmarias</p><p>na zona ocidental do Médio Vale do Paraíba, algumas das quais localizadas</p><p>em terras da fazenda de Santa Cruz. A propriedade fora constituída por</p><p>concessões de sesmarias à Companhia de Jesus e da agregação de terras</p><p>doadas por particulares à mesma ordem, formando, entre as décadas de</p><p>1590 e 1650, seus imensos fundos territoriais, que iam da baía da Restinga</p><p>da Marambaia até a margem esquerda do rio Paraíba do Sul (Imagem 1).</p><p>Uma estimativa recente afirma que “em quilômetros quadrados, a proprie-</p><p>dade dos jesuítas equivaleria a 10% do atual território do estado do Rio de</p><p>Janeiro”.6 A notícia da abertura do Caminho Novo em 1725, que cruzaria</p><p>as terras da fazenda, encontrou viva oposição dos padres. A concessão de</p><p>sesmarias como a de Francisco Cordovil de Siqueira, em 1729 (Imagem 2),</p><p>na subida da Serra do Mar, porém em área do domínio jesuítico, levou os</p><p>inacianos à primeira medição sistemática de seus fundos territoriais, fina-</p><p>lizada em maio de 1731.7</p><p>MOTTA, Márcia Maria Menendes. Nas fronteiras do poder: Conflito e direito à terra no Brasil do</p><p>século XIX. 2ª ed. Niterói: Eduff, 2008.</p><p>5 RODRIGUES, Píndaro de Carvalho. O Caminho Novo: Povoadores de Bananal. São Paulo: Governo</p><p>do Estado de São Paulo, 1980. p. 23-27.</p><p>6 A avaliação é de José MENESES, José Newton Coelho. Se perpetue a Companhia nessas partes: materiali-</p><p>dade da fazenda de Santa Cruz no tempo da expulsão dos jesuítas. In: ENGEMANN, Carlos; AMANTINO,</p><p>Marcia (Org.). Santa Cruz: de legado dos jesuítas a pérola da Coroa. Rio de Janeiro: EdUerj, 2013. p. 80.</p><p>Para a história da formação da fazenda, ver, além deste livro coletivo, o trabalho exaustivo de FREITAS,</p><p>Benedicto. Santa Cruz: Fazenda Jesuítica, Real, Imperial. Rio de Janeiro: Edição do Autor, 1985. v. 1 de</p><p>3; e o artigo esclarecedor de FRIDMAN, Fania. De chão religioso a terra privada: o caso da Fazenda de</p><p>Santa Cruz. In: Cadernos IPPUR, ano XV-XVI, n. 2-1, p. 311-343, ago.-dez. 2001/jan.-jul. 2002.</p><p>7 Sobre a sesmaria concedida em 1729, representada no mapa de Niemeyer no canto inferior esquerdo</p><p>como “antiga sesmaria do Cordovil”, ver FRIDMAN, 2001-2002, p. 315; sobre a medição de 1729-1731,</p><p>ver O TOMBO ou cópia fiel da medição, e demarcação da fazenda nacional de. Rio de Janeiro:</p><p>Tipografia de Lessa & Pereira, 1829. p. 62-112.</p><p>Imagem 2: detalhe da imagem 1</p><p>Como o processo de medição de 1729-1731 deixava claro, todo o foco</p><p>da exploração econômica da fazenda estava na baixada, com uma combi-</p><p>nação de pecuária semi-intensiva e produção de mantimentos (sobretudo o</p><p>arroz), ambas dependentes das obras bastante sofisticadas de drenagem de</p><p>pântanos e construção de canais que tanto notabilizariam a fazenda de Santa</p><p>Cruz. Suas terras na região de serra acima, contudo, permaneceram inex-</p><p>ploradas ou, quando muito, utilizadas apenas para a retirada de madeira de</p><p>lei.8 Eram os indígenas não reduzidos que exerciam o domínio efetivo sobre</p><p>as terras da fazenda no Vale do Paraíba, algo que derivou tanto da opção</p><p>jesuítica pela exploração exclusiva de escravos negros na Baixada, como da</p><p>própria política metropolitana de interdição fundiária das zonas proibidas.</p><p>O início das obras de construção do Caminho Novo da Piedade trouxe</p><p>para a fazenda de Santa Cruz as tensões que já vinham polarizando jesuítas</p><p>e autoridades régias em outros quadrantes do império português. A resis-</p><p>tência jesuítica à nova via foi demovida por ordem de 1732, que os obrigou</p><p>a permitir a abertura do caminho na propriedade. Até 1758, outras sesma-</p><p>rias seriam concedidas ao longo da Estrada Geral para São Paulo. De todo</p><p>modo, as décadas de 1730 a 1750 representaram o apogeu da fazenda sob</p><p>o domínio inaciano, encerrado com a expulsão e o confisco dos bens da</p><p>Companhia em 1759. A política de ampla reordenação do Império português</p><p>8 FREITAS, 1985, p. 92-226.</p><p>ippc0</p><p>Realce</p><p>ippc0</p><p>Realce</p><p>ippc0</p><p>Realce</p><p>ippc0</p><p>Realce</p><p>106 107</p><p>promovida pelo futuro marquês de Pombal – dentre as quais se assomam a</p><p>mudança da sede do vice-reinado para o Rio de Janeiro e os esforços para</p><p>dinamizar a agricultura escravista da América portuguesa por meio do estí-</p><p>mulo a novos produtos e à ocupação de áreas despovoadas – trouxe grandes</p><p>implicações para a história de Santa Cruz, transformada em patrimônio da</p><p>Coroa de Portugal. No período pombalino, verificou-se uma concessão mais</p><p>sistemática de sesmarias em terras de serra acima da fazenda, iniciando-se,</p><p>para todos os efeitos, o processo de privatização do antigo domínio inaciano.</p><p>Afora o entorno do Caminho Novo da Piedade, foram concedidas, a par-</p><p>tir de 1764, várias sesmarias na calha do rio Piraí, um afluente da margem</p><p>direita do Paraíba, logo transformada em zona de fricção com os índios, que,</p><p>contudo, não demorariam a ficar confinados à margem esquerda.9</p><p>Nesse meio tempo, a área da baixada entrava em um período de regres-</p><p>são econômica aguda, em decorrência da dilapidação do patrimônio pecuá-</p><p>rio por particulares, da ausência de manutenção do sistema de canais, dos</p><p>problemas com a escravaria. Na década de 1790, sucederam-se planos de</p><p>recuperação econômica da fazenda Real, que procuraram retomar a antiga</p><p>opulência pela aplicação de estratégias de gestão, muitas das quais se inspi-</p><p>ravam nas práticas jesuíticas. Na documentação produzida nessa ocasião,</p><p>lemos os primeiros registros de cultivo de café nas terras da fazenda real,</p><p>mas, em uma data tardia como 1804, o terreno de serra acima formalmente</p><p>pertencente à Coroa (mesmo que com a presença de sesmeiros e posseiros)</p><p>ainda era descrito como “mais inculto, e em parte mais fragoso, [...], dila-</p><p>tando-se ao ocidente para o sertão da Paraíba do Sul, onde confina com seis</p><p>léguas ainda não reconhecidas completamente, e nem tão pouco demarca-</p><p>das.” Essas terras, no entanto, muito prometiam caso fossem solucionados</p><p>os problemas relativos ao acesso:</p><p>sendo também esta segunda parte de admirável qualidade, fertilíssima, e espe-</p><p>cial: porque oferece nos seus produtos ao agricultor cento por um: tem con-</p><p>tudo o defeito de serem mais demorados os transportes, ainda que poderão</p><p>melhorar à medida do tempo da indústria da crescida população, dos interes-</p><p>ses, e comércio.10</p><p>9 Para o impacto geral da política de fomento ilustrada pós-1763 sobre a zona da fazenda de Santa</p><p>Cruz, ver SANCHES, Marcos Guimarães. Sertão e fazenda: ocupação e transformação da serra</p><p>fluminense entre 1750 e 1820. RIHGB, v. 151, n. 366, p. 16-41, jan.-mar. 1990; sobre as sesmarias,</p><p>FRIDMAN, 2001-2002, p. 315; sobre os índios, LEMOS, 2004, p. 37-43.</p><p>10 REYS, Manoel Martins do Couto. Memórias de Santa Cruz: seu estabelecimento e economia primi-</p><p>tiva – seus sucessos mais notáveis, continuados do tempo da extinção dos denominados jesuítas,</p><p>seus</p><p>fundadores, até o ano de 1804. RIHGB, v. 17, p. 143-144, abr. 1843. Para uma análise desses planos</p><p>No início do século XIX, o café começou a se firmar ao longo do</p><p>Caminho Novo da Piedade, sempre combinado com outras atividades</p><p>como a produção de açúcar, de aguardente e de mantimentos, ou a cria-</p><p>ção de animais.11 O estabelecimento da família real portuguesa no Rio de</p><p>Janeiro, em 1808, trouxe um renovado impulso para a cafeicultura e demais</p><p>atividades econômicas, seja pelo simples aumento da demanda urbana, seja</p><p>pelo incremento do fluxo de capitais, abertura de novas vias e intensificação</p><p>do tráfico negreiro transatlântico.12 Todas essas transformações se articula-</p><p>ram diretamente à organização espacial da fazenda de Santa Cruz, tanto na</p><p>baixada quanto na serra. Se modificações importantes, como a montagem</p><p>e o posterior leilão dos engenhos de Itaguaí e Piaí (adquiridos, em 1806,</p><p>pelo grande traficante de escravos Antonio Gomes Barroso), antecederam</p><p>a chegada da comitiva de D. João ao Rio de Janeiro, foi com sua Corte que</p><p>os usos da fazenda de Santa Cruz adquiriram novo sentido.13 Já em 1808,</p><p>o príncipe regente converteu a antiga sede jesuítica em palácio real, com</p><p>amplas reformas no risco arquitetônico para adequá-la à nova função. Ao</p><p>mesmo tempo em que transformava a antiga morada jesuítica em palá-</p><p>cio, na zona de serra acima, o príncipe regente concedia amplas sesmarias</p><p>na fronteira norte da fazenda, isto é, na margem esquerda do rio Paraíba,</p><p>território indígena que estava sendo “clareado” com o estabelecimento de</p><p>aldeamentos em futuras terras da vila de Valença e com o fim definitivo da</p><p>política de “zonas proibidas”.14 Adotou-se, com essas concessões, um novo</p><p>padrão: seguindo as normativas do alvará de 5 de outubro de 1795 – que</p><p>estipulavam a obrigatoriedade de demarcação e medição prévia das terras</p><p>a serem dadas em sesmarias, confirmadas por alvará firmado já no Rio de</p><p>Janeiro –, em 25 de janeiro de 1809, o terreno além-Paraíba foi mapeado</p><p>de recuperação da fazenda em fins do século XVIII, ver ENGEMANN, Carlos; RODRIGUES, Cláudia;</p><p>AMANTINO, Márcia. Os jesuítas e a Ilustração na administração de Manoel Martins do Couto Reis da</p><p>Real Fazenda de Santa Cruz (Rio de Janeiro, 1793-1804). In: ENGEMANN, Carlos; AMANTINO, Marcia</p><p>(Org.). Santa Cruz: de legado dos jesuítas a pérola da Coroa. Rio de Janeiro: Eduerj, 2013. p. 291-314.</p><p>11 Esse processo é bem documentado pelas listas nominativas de habitantes compostas para a capita-</p><p>nia de São Paulo. Ver, dentre outros, MOTTA, José Flávio. Corpos escravos, vontades livres: posse de</p><p>cativos e família escrava em Bananal (1801-1829). São Paulo: Annablume: Fapesp, 1999. p. 109-126; e</p><p>LUNA, Francisco Vidal; KLEIN, Herbert S. Evolução da sociedade e economia escravista de São Paulo,</p><p>de 1750 a 1850. São Paulo: Edusp, 2005. p. 81-106.</p><p>12 Sobre a questão, ver o capítulo 1 deste livro.</p><p>13 FREITAS, Benedicto. Santa Cruz: fazenda jesuítica, real, imperial – vice-reis e reinado, 1760-1821.</p><p>Rio de Janeiro: Edição do Autor, 1987a. v. 2 de 3.</p><p>14 Sobre a política de aldeamentos dos coroados, ver LEMOS, 2004, e MACHADO, 2010.</p><p>ippc0</p><p>Realce</p><p>ippc0</p><p>Realce</p><p>ippc0</p><p>Realce</p><p>ippc0</p><p>Realce</p><p>ippc0</p><p>Realce</p><p>108 109</p><p>antes de ser distribuído (imagem 3). Poderosos traficantes de escravos com</p><p>amplo trânsito na burocracia joanina, capazes de arrematar os lucrativos</p><p>contratos da Coroa, como os Faro, e gente pioneira na ocupação da região</p><p>de Piraí, como os Gonçalves Moraes, foram agraciados com mais de uma</p><p>sesmaria nessa zona quadriculada.15</p><p>Imagem 3: detalhe da imagem 1</p><p>Esse duplo processo de transformação, da fazenda de Santa Cruz e de</p><p>seu entorno de serra acima, pode ser acompanhado pela chamada “missão</p><p>austríaca” de 1817. Amplas reformas no palácio foram concebidas para o</p><p>casamento do príncipe D. Pedro com a princesa Leopoldina. A chegada</p><p>dessa última foi precedida pela missão científica da qual fez parte o artista</p><p>Thomas Ender, que percorreu a Estrada Geral de São Paulo em toda sua</p><p>extensão. No fantástico conjunto de desenhos a lápis que Ender produziu,</p><p>temos o que talvez seja o primeiro documento visual a respeito da intro-</p><p>dução da cafeicultura escravista no Vale do Paraíba, a imagem intitulada</p><p>Plantação de açúcar e de café do Hilário [Gomes Nogueira], a meia milha de</p><p>São João Marcos e a 22 milhas do Rio de Janeiro.</p><p>15 Sobre os alvarás de 1795 e 1809, ver MOTTA, M., 2008, p. 133-134; e SILVA, Ligia Osório. Terras</p><p>devolutas e latifúndio: efeitos da Lei de 1850. Campinas: Ed. Unicamp, 1996. p. 70; sobre as sesma-</p><p>rias concedidas além-Paraíba, Fridman, “Do chão religioso à terra privada”, p.316; sobre os Faro,</p><p>ver GORENSTEIN, Riva. Comércio e política: o enraizamento de interesses mercantis portugueses</p><p>no Rio de Janeiro (1808-1830). In: MARTINHO, Lenira Menezes; GORENSTEN, Riva. Negociantes e</p><p>caixeiros na sociedade da Independência. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Trabalho e Emprego</p><p>– Prefeitura do Rio de Janeiro, 1992. p. 150-186.</p><p>Na futura província do Rio de Janeiro, a primeira zona de produção</p><p>cafeeira em larga escala foi exatamente a que se estruturou em torno da</p><p>Estrada Geral de São Paulo, em São João Marcos e Piraí, na década de 1810.</p><p>Somente nas décadas de 1820 e 1830 é que o café se firmaria em Vassouras</p><p>e Valença.16 É o que estava ocorrendo na propriedade em tela, a fazenda</p><p>Olaria, situada no Caminho Novo da Piedade, fomentada por Hilário</p><p>Gomes Nogueira em sesmaria comprada em 1801. Hilário era natural de</p><p>Baependi, Minas Gerais; produtor de mantimentos para o mercado interno</p><p>e envolvido no comando de tropas de mulas, deslocou-se para a fronteira</p><p>das capitanias de São Paulo e Rio de Janeiro na virada do século XVIII para o</p><p>XIX. Em 1807, foi um dos signatários da petição demandando a fundação da</p><p>vila de São João do Príncipe, atendida por D. João em 1813, período em que</p><p>obteve mais sesmarias na região. Entre essa data e seu falecimento, em 1824,</p><p>foi um dos grandes traficantes de escravos locais, com constantes compras</p><p>de africanos na praça do Rio de Janeiro para vendê-los serra acima. Hilário</p><p>era primo de Manuel Jacinto Nogueira da Gama, futuro visconde e marquês</p><p>de Baependi (títulos recebidos em 1824 e 1826), igualmente proprietário de</p><p>terras e escravos no Médio Vale do Paraíba, na região de Valença, e, assim</p><p>como o parente, figura proeminente no Primeiro Reinado.17</p><p>As trajetórias dos Gomes Nogueira, dos Pereira Faro, dos Gonçalves de</p><p>Moraes e de outros núcleos familiares envolvidos com negócios cafeeiros,</p><p>demonstram a dimensão molecular do complexo processo de formação da</p><p>nova classe senhorial brasileira e de suas relações com a independência do</p><p>país. A montagem da cafeicultura no Vale do Paraíba envolveu tanto um</p><p>movimento “serra acima”, isto é, de grandes negociantes (traficantes tran-</p><p>satlânticos de escravos, em especial) e de burocratas da praça do Rio de</p><p>Janeiro que aplicaram seus vultosos capitais na nova atividade econômica,</p><p>como um movimento “serra abaixo”, isto é, de produtores de mantimentos</p><p>e tropeiros do Sul de Minas Gerais que desceram a Serra da Mantiqueira</p><p>para investir em uma atividade muito mais rentável, voltada ao mercado</p><p>mundial, do que suas operações no mercado interno.18 Se o movimento</p><p>16 SANCHES, 1990, p. 44-56.</p><p>17 A respeito de Hilário Gomes Nogueira e seus negócios, ver SCHNOOR, Eduardo. Na penumbra: o</p><p>entrelace de negócios e famílias (Vale do Paraíba, 1770-1840). 2005. Tese (Doutorado em História)</p><p>– Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de Sâo Paulo, São Paulo, 2005.</p><p>p. 19, passim.</p><p>18 Para o movimento serra acima, ver FRAGOSO, 1992; para o movimento serra abaixo, ver LENHARO,</p><p>1992. Ver, a respeito, os capítulos 1 e 7 deste livro, bem como o artigo de MARQUESE, Rafael. As</p><p>ippc0</p><p>Realce</p><p>110 111</p><p>“serra cima” foi, em larga medida, mas não exclusivamente, decorrente da</p><p>vinda da Corte para o Brasil, o movimento de “serra abaixo” obedecia a</p><p>influxos mais antigos de expansão e povoamento, originários da ampliação</p><p>e diversificação</p><p>da economia mineradora, principalmente em sua fase de</p><p>declínio a partir da segunda metade do século XVIII.19 Quando da necessi-</p><p>dade de costurar uma ampla base de apoio para seu projeto político contra</p><p>as determinações das Cortes de Lisboa, o príncipe regente D. Pedro se fiou</p><p>nessas amplas redes de negócio e de família que articulavam as províncias</p><p>de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, e que tinham na zona oci-</p><p>dental do Vale do Paraíba um de seus principais loci. Em abril de 1821, no</p><p>episódio crucial da Assembleia na Praça do Comércio, Joaquim José Pereira</p><p>do Faro, sesmeiro e cafeicultor em Piraí e Valença, fora eleito para a Junta</p><p>Provisional que auxiliaria o regente na inspeção dos atos dos Ministros de</p><p>Estado indicados por Lisboa. Algo semelhante pode ser observado na via-</p><p>gem realizada em março/abril de 1822 para Minas Gerais e, em especial, na</p><p>viagem de agosto/setembro para São Paulo. A passagem de D. Pedro pelo</p><p>Vale do Paraíba foi calculada com o objetivo de obter o suporte de todos</p><p>os potentados em ascensão, que, com seus filhos, formaram a Guarda de</p><p>Honra do príncipe regente – o que incluía os irmãos Breves.20</p><p>desventuras de um conceito: capitalismo histórico e a historiografia sobre a escravidão brasileira.</p><p>Revista de História, São Paulo: USP, p. 223-254, 2. sem. 2013.</p><p>19 Esses dois movimentos se retroalimentaram e antecederam a vinda da Corte para o Rio de Janeiro.</p><p>Toda a região do sul de Minas, principalmente a Comarca do Rio das Mortes, em torno de São João</p><p>del Rei, com irradiações pela Zona da Mata e pelo Vale do Paraíba, foi irrigada pela produção de</p><p>gêneros de abastecimento (grãos, carnes, queijos, aguardente, entre outros), através de caminhos e</p><p>estradas locais, percorridos por tropas de muares, que visavam tanto a própria zona de mineração</p><p>quanto a cidade do Rio de Janeiro. Esta, por sua vez, era o grande centro fornecedor de cativos para o</p><p>interior, tanto para as minas quanto para a zona de abastecimento. Caio Prado Júnior, em Formação</p><p>do Brasil contemporâneo. (São Paulo: Brasilense, 1969. 1. ed. 1942), já havia chamado a atenção para</p><p>a formação e a força dessa economia mercantil de abastecimento. Cf. LENHARO, 1992, p. 60-61, que</p><p>salienta a contribuição pioneira do historiador paulista. Além da região mineradora, em torno do</p><p>eixo Rio de Janeiro/São João del Rei gravitavam o sul da colônia portuguesa, o interior paulista, toda</p><p>a zona da Baixada Campista no Rio de Janeiro, indiretamente, Bahia e Pernambuco, e todo o comér-</p><p>cio de escravos com a costa ocidental da África, principalmente em sua zona central (cf. FRAGOSO,</p><p>1992). Na verdade, foram essas condições socioeconômicas mais amplas que, em parte, propiciaram</p><p>a vinda da Corte portuguesa para o Rio de Janeiro, que, por sua vez, fortaleceu, expandiu e consoli-</p><p>dou o papel do Rio de Janeiro e do centro-sul no Império português.</p><p>20 Sobre a Assembleia da Praça do Comércio, ver SOUSA, Octávio Tarquínio de. História dos fundadores</p><p>do Império do Brasil: a vida de D. Pedro I. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. t I de III, v. II, p. 237-</p><p>238, 285-286; e OLIVEIRA, Cecília Helena de Salles. Imbricações entre política e negócios: os conflitos</p><p>na Praça do Comércio do Rio de Janeiro, em 1821. In: MARSON, Izabel; OLIVEIRA, Cecília H. L. de</p><p>S. (Org.). Monarquia, liberalismo e negócios no Brasil: 1780-1860. São Paulo: Edusp, 2013. p. 69-107.</p><p>Sobre as viagens de D. Pedro, ver BARREIROS, Eduardo Canabrava. Itinerário da Independência. Rio</p><p>O projeto de independência capitaneado por D. Pedro, enfim, contou</p><p>com o suporte decisivo de uma série de agentes econômicos que operavam</p><p>na zona compreendida pela antiga fazenda de Santa Cruz, tanto na Baixada</p><p>como na Serra: grandes traficantes e negociantes, como Antonio Gomes</p><p>Barroso e Joaquim José Pereira de Faro, bem como o crescente de proprie-</p><p>tários escravistas que estavam abrindo fazendas ao longo do Caminho Novo</p><p>da Piedade e nas terras serra acima que haviam pertencido a Santa Cruz</p><p>– os irmãos Breves, José Gonçalves de Moraes, Hilário Gomes Nogueira,</p><p>Brás de Oliveira Arruda, dentre outros. O Escudo de Armas do Brasil, esta-</p><p>belecido em 18 de setembro de 1822, logo após a viagem de D. Pedro pelo</p><p>Caminho Novo da Piedade, pode ser tomado como um reconhecimento</p><p>do peso crescente do café para a economia do império recém-fundado. O</p><p>ramo de tabaco, um dos principais produtos da área de Baependi, no sul de</p><p>Minas, por sua vez, expressava a via especificamente interiorana na forma-</p><p>ção desse complexo socioeconômico que estava na base do novo império.</p><p>o tombo de 1827 e a reação dos fazendeiros</p><p>O palácio da fazenda de Santa Cruz era o preferido do primeiro imperador</p><p>do Brasil. Desde sua adolescência, quando seu pai havia modificado os usos</p><p>dados àquele espaço pelos jesuítas e pelos administradores coloniais que se</p><p>seguiram à expulsão da ordem, D. Pedro tinha por costume realizar longas</p><p>estadias na fazenda. Entre 1826 e 1828, procedeu a uma ampla reforma da</p><p>fachada e da arquitetura interna do palácio, sob o encargo do engenheiro</p><p>militar francês José Pezerat, que lhe conferiu as feições neoclássicas obser-</p><p>váveis na parte direita do mapa de Niemeyer (Imagem 1). Naquela altura, o</p><p>superintendente da fazenda imperial de Santa Cruz era Boaventura Delfim</p><p>Pereira, barão de Sorocaba, título recebido em 12 de dezembro de 1826.</p><p>Delfim Pereira fora nomeado para administrar a propriedade nacional em</p><p>21 de abril de 1824, pouco após D. Pedro I ter um caso com sua esposa,</p><p>Maria Benedita de Castro Canto e Melo, irmã de Domitila de Castro Canto</p><p>e Melo, a futura marquesa de Santos (também em 12 de dezembro de 1826).21</p><p>de Janeiro: J. Olympio, 1972, e Id. D. Pedro: jornada a Minas Gerais em 1822. Rio de Janeiro: J. Olympio,</p><p>1973; SCHNOOR, 2005; BITTENCOURT, Vera Lúcia Nagib. Bases territoriais e ganhos compartilhados:</p><p>articulações políticas e projeto monárquico-constitucional. In: MARSON, Izabel; OLIVEIRA, Cecília H.</p><p>L. de S. (Org.). Monarquia, liberalismo e negócios no Brasil: 1780-1860, p. 139-166.</p><p>21 As relações entre o affair de D. Pedro com Maria Benedita, cuja filha com o imperador nasceu em</p><p>novembro de 1824, e a nomeação de Delfim Pereira para Santa Cruz, em abril daquele ano, foram</p><p>estabelecidas por SOUSA, Octávio Tarquínio de. História dos fundadores do Império do Brasil: a vida</p><p>ippc0</p><p>Realce</p><p>ippc0</p><p>Realce</p><p>ippc0</p><p>Realce</p><p>ippc0</p><p>Realce</p><p>112 113</p><p>Durante a administração de Delfim Pereira, a lua de mel entre D. Pedro I</p><p>e os fazendeiros de serra acima azedou. A questão fundiária na fazenda de</p><p>Santa Cruz esteve no centro dessa virada. A conjuntura era amplamente</p><p>favorável ao crescimento da atividade cafeeira, e esses fazendeiros vinham</p><p>promovendo uma forte expansão de seus investimentos em terras e escra-</p><p>vos na área. A delimitação das propriedades, nestas circunstâncias, ganhou,</p><p>então, uma relevância que não tinha tido até aquele momento.</p><p>Desde a expulsão dos jesuítas, havia uma imprecisão quanto aos fun-</p><p>dos territoriais da fazenda. Uma medição iniciada em 1783 fora suspensa</p><p>em 1784, retomada em 1787, e considerada inválida em 1814. Por Decreto</p><p>de 10 de outubro de 1820, D. João VI mandou que se fizesse nova medição</p><p>e demarcação do Tombo da propriedade, aviventando os marcos da medi-</p><p>ção jesuítica de 1731. A necessidade de corrigir ou sanar as imprecisões,</p><p>atualizando o conhecimento exato do que realmente pertencia à Coroa, era</p><p>evidente. Desde 1808, houvera um processo de amplas concessões de ses-</p><p>marias serra acima, precedidas pelas sesmarias concedidas, após 1763, ao</p><p>longo do Caminho Novo da Piedade e na calha do rio Piraí. Como vimos,</p><p>essa onda de concessão de sesmarias e de ocupação territorial expressava o</p><p>aquecimento da economia colonial na hinterlândia carioca que vinha ocor-</p><p>rendo desde fins do século XVIII. Foi essa aceleração e seu correspondente</p><p>adensamento social, com a formação de uma camada social superior de</p><p>grandes comerciantes, traficantes e proprietários escravistas, que deu sus-</p><p>tentação ao estabelecimento da Corte</p><p>portuguesa no Rio de Janeiro, e não</p><p>na Bahia. No reverso da medalha, o evento de 1808 aprofundou o processo</p><p>de fortalecimento desse novo grupo social dominante. A Independência do</p><p>Brasil, em 1822, capitaneada pelo príncipe português e sustentada, mate-</p><p>rial e socialmente, pelos grandes proprietários, comerciantes e traficantes</p><p>fluminenses, mineiros e paulistas, aparentemente representou o ponto de</p><p>chegada de todo esse processo. No entanto, mais correto seria considerá-la</p><p>como o ponto de partida da consolidação de uma nova classe senhorial.</p><p>Em 19 de dezembro de 1823, D. Pedro I suspendeu a medição das ses-</p><p>marias concedidas em anos anteriores que se acreditava estarem dentro da</p><p>fazenda de Santa Cruz, até a feitura do novo Tombo determinado pelo Decreto</p><p>de outubro de 1820. O Conselho de Fazenda do Império, em consulta de 5</p><p>de D. Pedro I, t. II, p. 612-613. Sobre Delfim Pereira à frente de Santa Cruz, ver FREITAS, Benedicto.</p><p>Santa Cruz: fazenda jesuítica, real, imperial – Império, 1822-1889. Rio de Janeiro: Edição do Autor,</p><p>1987b. v. 3 de 3, p. 125-129.</p><p>de julho de 1824, afirmou que a medição de 1731 ainda era válida, sendo des-</p><p>necessário, portanto, a confecção de um novo mapa da propriedade, como</p><p>advogava o desembargador procurador da Fazenda Nacional, José Joaquim</p><p>Nabuco de Araújo. Em 2 de setembro de 1824, o imperador demonstrou</p><p>aparente concordância com o parecer do Conselho. Poucos meses depois,</p><p>no entanto, ocorreu uma grande reviravolta: noticiou-se, em 28 de fevereiro</p><p>de 1825, que os originais do Tombo de 1731, ao serem transportados do palá-</p><p>cio de Santa Cruz para o palácio de São Cristóvão, haviam sido roubados em</p><p>Campo Grande, por marginais de beira de estrada. Instaurado o inquérito,</p><p>nada se apurou. Diante do sumiço dos originais, o que restava fazer senão</p><p>proceder a uma nova medição? Era o que Delfim Pereira vinha advogando</p><p>desde que se tornara superintendente de Santa Cruz em 1824, e que a ban-</p><p>didagem miúda tornara necessidade com o assalto de fevereiro de 1825. Mas</p><p>havia bandidagem graúda nessa história: um mês após o 7 de abril de 1831,</p><p>quando D. Pedro I foi forçado à renunciar ao Império do Brasil em nome de</p><p>seu filho, foram encontrados em seu gabinete os originais do Tombo de 1731,</p><p>os mesmos que teriam sido furtados seis anos antes.22</p><p>Imperador envolvido em adultérios, filhos fora do casamento, assaltos</p><p>fajutos: dias animados, esses do Primeiro Reinado. A despeito de, desde</p><p>1822, haver cópia do Tombo original feita pelo tabelião Caetano de Oliveira</p><p>Gusmão, Delfim Pereira – sempre com a anuência, ainda que não explícita,</p><p>de D. Pedro I – tocou adiante o novo processo de medição, que tampouco foi</p><p>tranquilo. No meio da tarefa, quando os pilotos preparavam-se para iniciar</p><p>a medição serra acima, o engenheiro militar César Cadolino recusou-se a</p><p>incluir nos fundos da fazenda imperial as terras do antigo sesmeiro Manoel</p><p>Pereira Ramos, confinante dos jesuítas em 1731. Consequência: foi demitido</p><p>pelo novo barão de Sorocaba. Em 24 de julho de 1827, o superintendente,</p><p>não obstante pequenos percalços como esse, deu a medição por concluída. O</p><p>importante a registrar é que, com este novo mapeamento, a fazenda imperial</p><p>de Santa Cruz avançara bastante para a margem esquerda do rio Paraíba,</p><p>passando a englobar praticamente toda a calha do rio Piraí (Imagem 4).</p><p>22 Para todo o episódio da confecção do Tombo de 1827, ver os ótimos esclarecimentos de Antonio Keating</p><p>inseridos em FREITAS, 1987b, p. 213-217. A notícia sobre os originais do Tombo de 1731 encontrados no</p><p>gabinete de D. Pedro I, em maio de 1831, pode ser lida em A Verdade, 19 de Outubro de 1833, p. 1-2.</p><p>ippc0</p><p>Realce</p><p>ippc0</p><p>Realce</p><p>ippc0</p><p>Realce</p><p>ippc0</p><p>Realce</p><p>ippc0</p><p>Realce</p><p>ippc0</p><p>Realce</p><p>ippc0</p><p>Realce</p><p>114 115</p><p>Imagem 4: Mapa da medição de 1827. In: O TOMBO ou cópia fiel da medida e demarcação da Fazenda</p><p>Nacional de Santa Cruz, e possuída pelos padres da Companhia de Jesus, por cuja extinção passou.</p><p>Rio de Janeiro: Tipografia de Lessa & Pereira, 1829. Em cinza, terras na calha do Piraí. (círculo preto) e</p><p>na margem esquerda do Paraíba (círculo branco). (Acervo: Fundação Biblioteca Nacional, Brasil)</p><p>Vejamos, com uma notação nossa feita no mapa de Niemeyer</p><p>(Imagem 5), quais eram as implicações desta nova medição para a configu-</p><p>ração fundiária do Vale do Paraíba: em preto, vemos o que eram os fundos</p><p>da fazenda quando Niemeyer foi seu superintendente, em 1848; em ponti-</p><p>lhado, a área do mapeamento jesuítico de 1731; em branco, o que resultou</p><p>da medição promovida por Delfim Pereira em 1827. De um momento para</p><p>outro, muitas das sesmarias concedidas entre 1763 e 1822 passariam a fazer</p><p>parte da fazenda de Santa Cruz e, portanto, estariam compelidas a pagar</p><p>foros, ou, no limite, a serem restituídas, haja vista a suspensão do estatuto</p><p>das sesmarias em 1822.</p><p>Imagem 5: detalhe da Imagem 1</p><p>Para chegar ao que Niemeyer cartografou em 1848, os fazendeiros do</p><p>Vale do Paraíba tiveram que agir politicamente, o que fizeram assim que se</p><p>tornou público o resultado da medição de 1827. A dianteira foi tomada pela</p><p>imprensa liberal, já em franca campanha de oposição a D. Pedro I. Em 11 de</p><p>agosto de 1828, o jornal Astréa afirmava que</p><p>ippc0</p><p>Realce</p><p>ippc0</p><p>Realce</p><p>116 117</p><p>uma questão de grande importância, e em que se acha comprometida a pro-</p><p>priedade de muitos cidadãos, qual tem sido a da nova medição da nacional</p><p>Fazenda de Santa Cruz, merece que dela se dê informação ao público, para</p><p>que consultando o que aqui se refere, e os Documentos que irão aparecendo</p><p>pelos tipos, façam juízo de uma atroz injustiça, em que parecem calcar-se a</p><p>equidade a Constituição, e as Leis com escândalo, e prepotência.</p><p>Com essas palavras, anunciava-se que o combate se daria em torno</p><p>dos limites da ordem constitucional da novíssima monarquia brasileira.</p><p>Toda a sequência de publicações nos meses seguintes repisou esse ponto,</p><p>salientando as irregularidades da medição de 1827, sua ausência de amparo</p><p>legal ao negar validade aos títulos de sesmaria há muito sancionados pelos</p><p>reis de Portugal e regularmente exploradas, com atividades agrícolas, pelos</p><p>seus donos, e o quanto ela afrontava a carta outorgada em 1824 ao atacar os</p><p>direitos de propriedade dos fazendeiros.23</p><p>É importante lembrar que a erosão do capital político de D. Pedro I com</p><p>os fazendeiros do Vale do Paraíba vinha, pelo menos, desde junho de 1827,</p><p>quando a convenção antitráfico assinada com a Grã-Bretanha em novem-</p><p>bro de 1826 chegara à Câmara dos Deputados. Para além das substantivas</p><p>defesas do tráfico negreiro e da escravidão como forma de inscrição positiva</p><p>do Brasil no concerto das nações modernas, a linha de frente pró-escravista</p><p>da Câmara valeu-se da discussão sobre a natureza do regime constitucional</p><p>em construção para questionar o acordo que D. Pedro I firmara com os</p><p>britânicos. Em pauta, o equilíbrio dos poderes e a natureza da responsa-</p><p>bilidade ministerial sobre assuntos que feriam a independência nacional,</p><p>tendo em vista que a pessoa do imperador, conforme a carta que ele pró-</p><p>prio outorgara em 1824, era inviolável. Abdicar da soberania brasileira em</p><p>matéria tão sensível para a viabilidade econômica do Império, como era o</p><p>tráfico transatlântico de escravos, por uma medida exclusiva do Executivo,</p><p>sem que ela passasse pelo crivo do Poder Legislativo, representava, para os</p><p>deputados pró-escravistas, a corrupção do princípio constitucional elemen-</p><p>tar de equilíbrio de poderes.24 Tal como nas vindicativas da imprensa liberal</p><p>em torno da medição da fazenda de Santa Cruz, o que estava em debate,</p><p>23 Dentre a pesada campanha da imprensa liberal em torno da querela da fazenda Santa Cruz, ver os</p><p>artigos em Aurora Fluminense, 13 e 27 de agosto, 1 e 29 de setembro, e 3 de outubro de 1828; Astréa,</p><p>27 de setembro de 1828; Astro de Minas, 18 de setembro de 1828; A Malagueta, 13 de janeiro, 6 de</p><p>fevereiro e 28 de abril de 1829.</p><p>24 PARRON, Tâmis. A política da escravidão no Império do Brasil, 1826-1865. Rio de Janeiro: Civilização</p><p>Brasileira, 2011,</p><p>p. 64-80.</p><p>portanto, era o caráter da prática do exercício do poder por D. Pedro I, ou</p><p>seja, se ela era efetivamente constitucional ou se, ao contrário, expressava</p><p>um conteúdo marcadamente absolutista. Para o conjunto dos fazendeiros</p><p>de Piraí, o tratado ratificado em 1827 com a Grã-Bretanha era uma calami-</p><p>dade, tendo-se em conta a necessidade incessante de mais escravos para</p><p>responder à bonança cafeeira. Para alguns deles, a matéria do tráfico era</p><p>ainda mais sensível. Naqueles anos, por exemplo, os irmãos Breves já se</p><p>destacavam por seus negócios negreiros transatlânticos.25</p><p>Diante das negativas dos porta-vozes da Coroa de que nada havia sido</p><p>feito de ilegal em vista do roubo da documentação de 1731, o que impusera</p><p>a necessidade de uma nova medição, os fazendeiros – com o auxílio da</p><p>pena do “Zelador do Direito de Propriedade”, autor anônimo responsável</p><p>por grande parte dos textos que apareceram na imprensa em 1828 e 1829 –</p><p>deram um passo ousado em dezembro de 1829, mandando imprimir um</p><p>grosso volume com a transcrição completa do levantamento jesuítico do</p><p>século XVIII, com os mapas demonstrativos daquela medição, contrasta-</p><p>dos com o mapa da medição de 1827 (Imagem 4) promovida por Delfim</p><p>Pereira – que, aliás, falecera há pouco, em março daquele ano. Ou seja, o</p><p>documento dos inacianos existia, estava disponível em cópia nos cartórios</p><p>do Rio de Janeiro, e vinha à luz para esclarecer a chamada “opinião pública”.</p><p>O mais importante, no entanto, não era tanto o Tombo de 1731, e sim as</p><p>representações “à Nação” que lhe foram acrescentadas.26</p><p>A que abria o volume, de 20 de novembro de 1829, era assinada pelo</p><p>“Zelador”, e sumariava os argumentos esgrimidos em mais de um ano de</p><p>campanha na imprensa. Na avaliação dos fazendeiros, o impulso imperial</p><p>para a nova medição resultara diretamente do sucesso econômico da ativi-</p><p>dade cafeeira:</p><p>a nossa indústria, e desvelado trabalho de tantos anos, à custa de imenso dis-</p><p>pêndio, e fadigas, fora abençoado pela Providência; mas suscitou a cobiça desses</p><p>homens, já de longe afeitos a sangrar os Povos, para com seus despojos irem</p><p>negociar aos pés do Trono, e à face da Nação, iludindo a um, e oprimindo a outra.</p><p>25 LOURENÇO, Thiago C. P. Os Souza Breves e o tráfico ilegal de africanos no litoral sul fluminense.</p><p>In: MATTOS, Hebe (Org.). Diáspora negra e lugares de memória: a história oculta das propriedades</p><p>voltadas para o tráfico clandestino de escravos no Brasil imperial. Niterói: Eduff, 2013. p. 11.</p><p>26 Salvo engano nosso, Affonso Taunay, (História do café no Brasil. Rio de Janeiro: DNC, 1939. v. 5 de 15,</p><p>p. 257-259), foi o primeiro a chamar a atenção para esse documento importantíssimo para a história</p><p>do café no Primeiro Reinado. Sanches, Sertão e fazenda, e Fridman, Do chão religioso à terra pri-</p><p>vada, também dele se utilizaram, mas em uma chave de leitura distinta da que apresentamos aqui.</p><p>ippc0</p><p>Realce</p><p>ippc0</p><p>Realce</p><p>118 119</p><p>Pelo que se pode notar na última oração, a representação modulava</p><p>com cuidado o ataque a D. Pedro I, manejando o velho topos do desconhe-</p><p>cimento do monarca em relação ao que era feito em seu nome. Parece claro</p><p>que o grupo em nome do qual o “Zelador” falava pretendia deixar uma linha</p><p>de escape para o imperador, que não era diretamente responsabilizado pelo</p><p>que ocorria. Nesse contexto, contudo, em que a vida pessoal questionável do</p><p>imperador era alvo constante da oposição liberal, atacar Delfim Pereira não</p><p>poderia deixar de ser lido pelos coevos como um ataque – mesmo que indi-</p><p>reto – a D. Pedro I. A artilharia por vias tortas contra o imperador também</p><p>procurou se valer da carta por ele outorgada em 1824. A atuação da oposição</p><p>apresentava-se como um esforço genuíno, patriótico, de fortalecimento da</p><p>ordem liberal no Brasil. “Os abusos do Poder Judiciário tem sido o nosso fla-</p><p>gelo, e o Poder Executivo até agora surdo aos nossos ais”: o que mais sobrava</p><p>aos fazendeiros senão recorrer ao Poder Legislativo e à “Opinião Pública,</p><p>esse Poder sobre-Soberano, que mais tarde ou mais cedo se faz obedecer,</p><p>aplicando já a censura, já o desprezo, e a infâmia, e afinal as penas legais”?27</p><p>A carga mais pesada veio com as representações inseridas ao final do</p><p>volume. No que se refere à argumentação, nada de novo em relação ao que</p><p>aparecera na imprensa entre agosto de 1828 e novembro de 1829, e que fora</p><p>sumariado na abertura do volume. O ponto chave estava na identificação de</p><p>quais eram os agentes diretamente interessados na matéria.</p><p>SENHOR = O Sargento Mor José Luiz Gomes, O Coronel José Gonçalves de</p><p>Moraes por si, e seus filhos, o Coronel Joaquim José Pereira do Faro por si, e</p><p>seus filhos, o Capitão Mor José de Souza Breves, O Capitão Antônio Gonçalves</p><p>de Moraes, o Reverendo Joaquim José Gonçalves de Moraes, o Capitão Manoel</p><p>Thomás da Silva, o Capitão Joaquim Gomes de Souza, o Padre Gonçalves de</p><p>Moraes, Francisco Luís Gomes, Antônio Esteves de Magalhães Pusso, José</p><p>Correia Porto, Joaquim Antônio de Oliveira, e outros, fundados no §.30.do</p><p>art. 179 da Constituição, e bem assim no art. 99, vêm à Presença Augusta de</p><p>V.M.I., esperando benigno acolhimento à presente súplica, de que não pouco</p><p>depende o crédito do governo Imperial, pois que a nação inteira espera ansiosa</p><p>o resultado da luta entre os Suplicantes e alguns Agentes do poder que nela</p><p>comprometem a glória de Vossa Majestade Imperial, julgando fazer serviços.28</p><p>Coronel Joaquim José Pereira do Faro, primeiro barão do Rio Bonito,</p><p>que já vimos atuando no processo de independência; José Luiz Gomes,</p><p>futuro barão de Mambucaba; José Gonçalves de Moraes, em breve barão</p><p>27 O TOMBO ou cópia fiel da medição, e demarcação da Fazenda Nacional de Santa Cruz..., p. i-xiii..</p><p>28 Ibid., p. 129.</p><p>de Piraí; Antonio Gonçalves de Moraes, primogênito do barão de Piraí,</p><p>casado com uma das filhas de Mambucaba; padre Joaquim José Gonçalves</p><p>de Moraes, irmão do barão de Piraí; capitão-mor José de Souza Breves,</p><p>primo de Mambucaba, pai de um filho homônimo e de Joaquim José de</p><p>Souza Breves, os dois últimos casados com filhas do barão do Piraí, e donos,</p><p>na segunda metade do século XIX, de uma das maiores – senão a maior –</p><p>escravarias do Império do Brasil.29 Como se vê, um grupo coeso, poderoso,</p><p>que tivera papel importante no momento da costura da independência do</p><p>Brasil, e que vinha cobrar a fatura de seu apoio anterior a D. Pedro I, “espe-</p><p>rando benigno acolhimento à presente suplica, de que não pouco depende</p><p>o crédito do Governo Imperial”. Essas figuras de proa do senhoriato de Piraí</p><p>puxaram um abaixo assinado no qual constavam 168 proprietários, que, em</p><p>conjunto, possuíam 6.309 escravos e produziam 173.820 arrobas de café.</p><p>Para não caber dúvidas em nome de que poder efetivo falavam os signatá-</p><p>rios da Representação, para cada proprietário, identificava-se o número de</p><p>escravos e as arrobas de café produzidas. Joaquim Pereira de Sousa Faro e</p><p>seus filhos eram os que possuíam o maior número de escravos, 540, produ-</p><p>zindo 10.000 arrobas de café. Eram seguidos por José Gonçalves de Moraes</p><p>e companhia, com 400 cativos e, igualmente, 10.000 arrobas de café. Ao</p><p>todo, os 15 proprietários com cem ou mais escravos, isto é, 9% dos assinan-</p><p>tes, tinham 2.900, ou 42%, do total de cativos e produziam 74.200 arrobas</p><p>de café, 43% do total. Oitenta e oito signatários, 52% do total, tinham entre</p><p>um e 19 escravos. Os 65 fazendeiros restantes, 39%, tinham entre 20 e 99</p><p>escravos. Esses dados mostram que a propriedade escravista da cafeicultura</p><p>nascente já vinha ao mundo concentrada e, ao mesmo tempo, difundida.30</p><p>Tal peculiaridade, e sua importância para a conformação da classe</p><p>senhorial em seu domínio direto sobre terras e homens, mas também em</p><p>sua relação com o poder central, era evidente na estratégia de quem assinou</p><p>a representação. Tanto grandes quanto pequenos o fizeram, mas os primeiros</p><p>29 Sobre os entrelaces familiares e breves informações biográficas desses fazendeiros, ver ALEGRIO,</p><p>Leila Vilela. O café no Vale do Paraíba fluminense no século XIX: terras,</p><p>fazendas, plantações, comér-</p><p>cio e famílias. Rio de Janeiro: Centro do Comércio de Café do Rio de Janeiro, 2008. p. 29-44.</p><p>30 Veja-se, para efeitos de comparação, as trajetórias congruentes de Vassouras e Bananal, estudadas res-</p><p>pectivamente por SALLES, Ricardo. E o Vale era o escravo: Vassouras, século XIX – senhores e escra-</p><p>vos no coração do Império. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008; MORENO, Breno Aparecido</p><p>Servidone. Demografia e trabalho escravo nas propriedades rurais cafeeiras de Bananal, 1830-1860.</p><p>2013. Dissertação (Mestrado História Social) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas,</p><p>Universidade de São Paulo, São Paulo, 2013. São necessárias pesquisas sobre o assunto, mas pode-se</p><p>aventar que a propriedade escrava em Piraí nasceu mais concentrada do que em Bananal e Vassouras.</p><p>ippc0</p><p>Realce</p><p>ippc0</p><p>Realce</p><p>120 121</p><p>encabeçaram a lista e foram salientados com as marcas de asterisco. Esses</p><p>signatários adotaram uma estratégia de demonstração explícita de riqueza</p><p>e poder. Dentro do quadro periclitante das finanças do Primeiro Reinado e</p><p>da quase que exclusiva dependência dos recursos obtidos com as taxas sobre</p><p>a exportação para mantê-las de pé, os dados relativos ao volume da produ-</p><p>ção cafeeira eram uma referência direta da importância crescente do Vale do</p><p>Paraíba para o Império, no exato momento em que seu comandante havia</p><p>rifado o acesso irrestrito de seus fazendeiros à força de trabalho africana. O</p><p>artigo 99 da Constituição de 1824, citado no trecho, rezava que “a Pessoa do</p><p>Imperador é inviolável, e Sagrada: Ele não está sujeito a responsabilidade</p><p>alguma.” Daí a estratégia de fustigá-lo pelo ataque indireto a seus prepostos,</p><p>por meio de representações endereçadas à Câmara dos Deputados, conforme</p><p>rezava o parágrafo 30 do artigo 179, também citado: “todo o Cidadão poderá</p><p>apresentar por escrito ao Poder Legislativo, e ao Executivo reclamações, quei-</p><p>xas, ou petições, e até expor qualquer infração da Constituição, requerendo</p><p>perante a competente Autoridade a efetiva responsabilidade dos infratores”.31</p><p>Quais foram os desdobramentos parlamentares da ação dos fazendei-</p><p>ros e dos políticos que se valeram do caso para fustigar o primeiro impera-</p><p>dor do Brasil? Em 5 de outubro de 1830, Bernardo Pereira de Vasconcelos,</p><p>um dos expoentes da oposição liberal moderada a D. Pedro I, e que muito</p><p>em breve se destacaria como o campeão do tráfico transatlântico de escra-</p><p>vos para o Brasil, apresentou à Câmara dos Deputados um projeto de lei</p><p>que atendia por completo à representação dos fazendeiros de dois anos</p><p>antes, anulando para todos os efeitos a medição promovida por D. Pedro I</p><p>e Sorocaba entre 1825 e 1827. A classe senhorial do Vale do Paraíba já encon-</p><p>trara seu grande porta-voz e líder no Parlamento brasileiro. Rapidamente</p><p>discutido em 13 de outubro, o projeto foi aprovado com poucas alterações,</p><p>sendo finalmente sancionado por um D. Pedro I então enfraquecido. O</p><p>Decreto de 25 de novembro de 1830, composto por três curtos artigos, esta-</p><p>belecia que a fazenda imperial de Santa Cruz compreendia “somente os</p><p>terrenos em cuja efetiva e legitima posse se achava o Senhor D. Pedro I no</p><p>dia 25 de março de 1824”, isto é, no dia em que foi outorgada a Constituição</p><p>brasileira; todos os terrenos anexados pela medição de 1825-1827 ficavam</p><p>31 Sobre a prática mais ampla das petições ao Parlamento no Primeiro Reinado, ver PEREIRA, Vantuil.</p><p>Ao soberano Congresso: direitos do cidadão na formação do estado imperial (1822-1831). São Paulo:</p><p>Alameda, 2010.</p><p>assim em propriedade plena de seus donos anteriores, justamente os que</p><p>haviam puxado a representação de 1828.32</p><p>Aprovado no final do ano legislativo, o Decreto de novembro foi</p><p>expressão cabal da corrosão do poder de D. Pedro I e, portanto, do processo</p><p>que em poucos meses levaria à sua queda. Ele deve ser lido de modo con-</p><p>junto com o envolvimento do imperador com a questão dinástica portu-</p><p>guesa, com a derrota na Cisplatina, mas, sobretudo, com seus choques com</p><p>a Assembleia Geral, nos quais a questão do encerramento do tráfico transa-</p><p>tlântico negreiro e a afirmação da soberania nacional brasileira ocuparam</p><p>papel central. O imbróglio de Santa Cruz, em realidade, representou a outra</p><p>face da luta dos senhores de escravos contra o imperador que colocara em</p><p>risco a reprodução de sua força de trabalho. O evento de 25 de novembro</p><p>de 1830 marcou uma espécie de “desforra” dos fazendeiros, que viam seus</p><p>interesses diretamente ameaçados pela iminente extinção do tráfico inter-</p><p>nacional, em relação a D. Pedro. O imperador tentou, com a medida, recu-</p><p>perar terreno, mas já era tarde. Para sintetizar nosso argumento, cremos</p><p>que a questão da fazenda de Santa Cruz na década de 1820 deve entrar no</p><p>rol dos vetores que trouxeram a queda do primeiro imperador brasileiro. E</p><p>também, uma década mais tarde, da afirmação e da consolidação no poder</p><p>do segundo imperador.</p><p>a afirmação do poder senhorial e o mapa de 1848</p><p>Até 1837, a freguesia de Sant’Anna pertenceu ao termo da vila de São João</p><p>do Príncipe. Em dezembro daquele ano, foi elevada à categoria de vila de</p><p>Piraí, com instalação definitiva em outubro do ano seguinte. Ao longo das</p><p>décadas de 1830 e 1840, os potentados que haviam se engajado na luta con-</p><p>tra D. Pedro I em torno dos direitos sobre suas terras promoveram vários</p><p>melhoramentos na região do novo município, como a abertura e conserva-</p><p>ção de estradas e pontes e a construção da infraestrutura do espaço urbano.</p><p>O paço da Câmara Municipal, por exemplo, foi erigido inteiramente a</p><p>expensas de José Gonçalves de Moraes, José Luis Gomes, Joaquim Gomes</p><p>de Souza, Raymundo de Souza Breves, Silvino José da Costa, Felisberto</p><p>Ribeiro Franco, Carlos de Souza Pinto de Magalhães, Manoel Gonçalves</p><p>Vallim, José da Conceição, Antonio José de Barros Vianna, Manoel José de</p><p>32 ANAIS DA CÂMARA DOS DEPUTADOS, [S.l.], p. 591, 5 out. 1830; Id., p. 600, 13 out. 1830; COLEÇÃO</p><p>das Leis do Império do Brasil, 1830. Rio de Janeiro: Tipografia Nacional, 1876. p. 63.</p><p>ippc0</p><p>Realce</p><p>ippc0</p><p>Realce</p><p>ippc0</p><p>Realce</p><p>ippc0</p><p>Realce</p><p>ippc0</p><p>Realce</p><p>ippc0</p><p>Realce</p><p>122 123</p><p>Barros Vianna, Domingo Pereira dos Santos e Manoel Gonçalves Pereira</p><p>– os quatro primeiros, nomes centrais das representações de 1828 e 1829. A</p><p>igreja matriz, tendo sido destruída por um incêndio, foi reconstruída entre</p><p>1839 e 1841 ao custo total de 48 contos de réis, para o que contou com uma</p><p>comissão encarregada de levantar os fundos necessários entre os fazendei-</p><p>ros da região, composta por José Gonçalves de Moraes, José Luiz Gomes,</p><p>Raimundo de Souza Breves, Manoel Gonçalves Vallim, José da Silva Penna</p><p>e Francisco Marques de Moraes. Os nomes se repetem.33</p><p>Notável, também, a expressão social e política obtida pelo grupo após a</p><p>queda de D. Pedro I. José Gonçalves de Moraes recebeu o título de barão de</p><p>Piraí em 1841, com grandeza em 1848. Joaquim José Pereira de Faro e filhos,</p><p>centrais nas representações do final da década de 1820, teriam sua base de</p><p>atuação política e econômica no município de Valença; Pereira Faro tornou-</p><p>se o primeiro barão do Rio Bonito no mesmo ano em que José Gonçalves de</p><p>Moraes recebeu seu título, em 1841. Como se vê, ambos foram agraciados</p><p>logo nos primeiros anos do Segundo Reinado. José Luiz Gomes tornou-se</p><p>barão de Mambucaba em 1854. Afinado politicamente a esses potentados</p><p>– todos eles quadros importantes do chamado Partido da Ordem – José</p><p>de Souza Breves filho foi Comandante Superior da Guarda Nacional nos</p><p>municípios de Piraí e Itaguaí (1844) e deputado na Assembleia provincial</p><p>do Rio de Janeiro em três legislaturas (1838-1843; 1844-1845; 1848-1849). Seu</p><p>irmão, Joaquim José de Souza Breves, se do ponto de vista político consti-</p><p>tuía exceção em vista de sua atuação nas fileiras liberais (com participação</p><p>importante no levante de 1842), também foi por várias vezes deputado na</p><p>Assembleia provincial do Rio de Janeiro (1842-1843; 1846-1847; 1848-1849),</p><p>e, em 1846, presidente da Câmara Municipal de Piraí.34</p><p>Com pares de outros municípios</p><p>estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e em Binghamton,</p><p>Nova York, nos Estados Unidos.19 Uma parte significativa dessa empreitada,</p><p>que sem dúvida reflete esse esforço individual disseminado por diferentes</p><p>instituições, no entanto, resulta de trabalho coletivo que vem se desenvol-</p><p>vendo ao menos nos últimos cinco anos, tanto em nível regional no Brasil</p><p>quanto em nível internacional em diferentes redes de pesquisas.</p><p>Historiar esse trabalho e os resultados expressivos obtidos até agora</p><p>demandaria um capítulo à parte, o que foge ao escopo dessa introdução.</p><p>Cabe, contudo, nomear suas articulações e eventos mais significativos. Em</p><p>primeiro lugar, vale mencionar o Seminário Internacional O Século XIX e as</p><p>Novas Fronteiras da Escravidão, realizado no Rio de Janeiro e em Vassouras,</p><p>em agosto de 2009. Muitas das ideias debatidas aqui tiveram sua origem ou</p><p>se ampliaram e consolidaram neste evento. Em segundo lugar, não poderia</p><p>deixar de constar o grupo internacional de pesquisadores articulados em</p><p>torno da Second Slavery Research Network, que tem seu centro de animação</p><p>19 Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro – UNIRIO, Universidade Federal Fluminense</p><p>– UFF, Universidade do Estado do rio de Janeiro – UERJ, Museu de Astronomia e Ciências Afins –</p><p>MAST, Universidade Severino Sombra – USS, Fundação Educacional Dom André Arcoverde – FAA,</p><p>Universidade de São Paulo – USP, Universidade Federal de Juiz de Fora – UFJF e Universidade</p><p>Estadual de Nova York – SUNY.</p><p>18</p><p>no Fernand Braudel Center for the Study of Economies, Historical Systems,</p><p>and Civilizations, em Binghamton, EUA, e que conta com a participação</p><p>direta de alguns dos autores deste volume.</p><p>No entanto, a principal vertente formadora dos debates e ideias conti-</p><p>dos aqui é o Grupo de Pesquisas O Vale do Paraíba e a Segunda Escravidão,</p><p>que busca reunir, em seminários, simpósios, grupos de discussão e outras</p><p>formas de intercâmbio intelectual, pesquisadores e estudantes de diferen-</p><p>tes instituições que tenham por fio condutor ou pano de fundo de suas</p><p>pesquisas a região da Bacia do Paraíba do Sul no século XIX.20 O grupo</p><p>vem promovendo seminários anuais desde 2010. O primeiro deles foi rea-</p><p>lizado em Vassouras, naquele mesmo ano; o segundo, em Bananal, no ano</p><p>seguinte; o terceiro, novamente em Vassouras, em 2013; e o último, em 2014,</p><p>novamente nesta cidade. Estes dois últimos eventos foram promovidos no</p><p>âmbito do projeto de pesquisa “O Vale do Paraíba no século XIX e nas pri-</p><p>meiras décadas da República”, apoiado pela FAPERJ em seu Programa de</p><p>Apoio a Núcleos Emergentes – PRONEM, em sua edição de 2011.21 Membros</p><p>do grupo organizaram e participaram ainda de um simpósio temático no</p><p>Encontro Regional da Associação Nacional dos Historiadores, seção Rio de</p><p>Janeiro – ANPUH-Rio, em 2012, e, novamente, no Encontro de 2014.</p><p>Assim, essa iniciativa é um ponto de chegada e, ao mesmo tempo, um</p><p>ponto de partida para novas pesquisas e interpretações da escravidão e seu</p><p>papel na ascensão e queda do Império do Brasil.</p><p>Mariana Muaze</p><p>Ricardo Salles</p><p>Dezembro de 2014</p><p>20 Em seu último seminário, realizado em maio de 2014, em Vassouras, o grupo resolveu ampliar</p><p>o escopo de suas atividades e pesquisas e passou a se chamar O Império do Brasil e a Segunda</p><p>Escravidão.</p><p>21 As instituições participantes do projeto são: UNIRIO, UFF, FCRB, USS, através do antigo Centro de</p><p>Documentação Histórica de Vassouras (CDH), a Prefeitura Municipal de Piraí, através de seu Arquivo</p><p>Histórico Municipal, e, agregando-se mais tarde, o Museu Casa da Hera, do IBRAM, em Vassouras.</p><p>PARTE I</p><p>Interpretações e grandes questões sobre a Bacia do Paraíba</p><p>21</p><p>O Vale do Paraíba escravista e a formação</p><p>do mercado mundial do café no século XIX1</p><p>Rafael Marquese</p><p>Dale Tomich</p><p>a montagem da cafeicultura brasileira na historiografia</p><p>Será de ora em diante o escudo de armas deste Reino do Brasil, em campo</p><p>verde uma esfera armilar de ouro atravessada por uma cruz da Ordem de</p><p>Cristo, sendo circulada a mesma esfera de 19 estrelas de prata em uma orla</p><p>azul; e firmada a coroa real diamantina sobre o escudo, cujos lados serão abra-</p><p>çados por dois ramos das plantas de café e tabaco, como emblemas da sua</p><p>riqueza comercial, representados na sua própria cor, e ligados na parte infe-</p><p>rior pelo laço da Nação.2</p><p>Essas palavras, firmadas por D. Pedro em 18 de setembro de 1822, estabe-</p><p>leciam o escudo de armas a ser gravado na bandeira do Estado nacional</p><p>recém-instituído. A letra do decreto expressava, antes de tudo, uma aposta</p><p>para o futuro. Naquela altura, ainda que suas exportações verificassem cres-</p><p>cimento acelerado há cerca de uma década, o café brasileiro estava longe de</p><p>ser um “emblema da riqueza nacional”. Se o escudo pretendesse efetivamente</p><p>traduzir o quadro econômico do novo Império, deveria trazer feixes de cana</p><p>de açúcar, fardos de algodão e um navio negreiro. A aposta embutida simbo-</p><p>licamente no decreto, no entanto, logo demonstraria ter sido certeira.</p><p>Com efeito, em 1828, o Brasil despontava como o maior produtor</p><p>mundial do artigo. Ao longo da década seguinte, os valores obtidos com</p><p>1 Uma versão anterior desse capítulo apareceu em GRINBERG, Keila; SALLES, Ricardo (Org.).</p><p>O Brasil Imperial: 1831-1870. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009. v. II, p. 339-383. Para a</p><p>presente edição, atualizamos a bibliografia e efetuamos algumas pequenas correções. O capítulo</p><p>foi originalmente escrito no âmbito do projeto coletivo “The world of the plantation and the world</p><p>the plantations made: the ‘great house tradition’ in the american landscape”, que contou com uma</p><p>Collaborative Research Grant da Getty Foundation entre 2005 e 2009.</p><p>2 D. PEDRO I, 1822 apud SCHWARCZ, Lilia Moritiz. As barbas do imperador: D. Pedro II, um monarca</p><p>nos trópicos. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. p. 179.</p><p>22 23</p><p>sua exportação ultrapassariam o que o país amealhava com o envio de</p><p>açúcar ao mercado mundial.3 Quase toda essa produção, ademais, vinha</p><p>de uma única região. O vale do rio Paraíba do Sul, ou simplesmente Vale</p><p>do Paraíba, compreendendo terras das províncias de São Paulo, Rio de</p><p>Janeiro e Minas Gerais, passou por uma completa alteração no curso de</p><p>duas gerações. Relativamente desocupado em 1800, cinquenta anos depois</p><p>havia adquirido o caráter de típica região escravista de plantation. Algo</p><p>semelhante havia ocorrido em outros momentos e espaços na história do</p><p>Brasil, como na Zona da Mata pernambucana e no Recôncavo Baiano na</p><p>passagem do século XVI para o XVII, ou no Maranhão e em Campos dos</p><p>Goitacases nas décadas finais do século XVIII. A escala do que se verificou</p><p>no Vale do Paraíba na primeira metade do século XIX, contudo, foi inédita,</p><p>e, seu impacto para a conformação do Estado nacional brasileiro, decisivo.</p><p>Já se escreveu que, se a cafeicultura tivesse deitado raízes em outra região do</p><p>território nacional e não nas proximidades da Corte, a história do Império</p><p>bem poderia ter sido outra.4 Daí o dito oitocentista “o Brasil é o Vale”, com</p><p>larga carreira no senso comum e mesmo na historiografia. Mas não apenas</p><p>isso. Poder-se-ia igualmente afirmar que o café como produto de massa era</p><p>o Vale. Afora o completo domínio que o Brasil assumiu no mercado mun-</p><p>dial do artigo ao longo do século XIX, o volume inaudito de sua produção</p><p>foi central para a própria transformação da natureza daquele mercado, que</p><p>passou das restrições ligadas ao consumo de luxo para a escala qualitativa-</p><p>mente distinta do consumo de massa.5</p><p>As articulações entre o mercado mundial e a montagem da cafeicul-</p><p>tura brasileira estiveram na pauta de investigação dos pesquisadores desde</p><p>a década de 1940. Encarando a formação da cafeicultura como uma espécie</p><p>de “destino manifesto” do Brasil, os historiadores tenderam a relacioná-la</p><p>3 Todos os dados referentes à produção mundial de café citados neste capítulo – exceto quando</p><p>fornecemos outra referência – foram retirados do cuidadoso apêndice preparado por Mario</p><p>Samper e Radin Fernando para o livro editado por William</p><p>do Vale do Paraíba, esses grandes</p><p>fazendeiros de café foram os maiores responsáveis pela reabertura do trá-</p><p>fico transatlântico ilegal de escravos para o Brasil na segunda metade da</p><p>década de 1830. Nesses anos, os irmãos Breves, em associação com o barão</p><p>de Piraí, tornaram-se eles próprios agentes negreiros, com uma organização</p><p>33 A informação sobre a construção do Paço Municipal pode ser lida no Almanack Laemmert Provincial</p><p>do Rio de Janeiro para o ano de 1875, p. 185-186; sobre a reconstrução da matriz de Piraí, ver o Relatório</p><p>do presidente de província do Rio de Janeiro para os anos de 1840 (p. 31-32) e 1842 (p. 4).</p><p>34 Informações obtidas no Almanack Laemmert do Rio de Janeiro (Corte e província) para os anos de</p><p>1844 a 1848. Sobre a atuação política dos irmãos Breves, ver também LOURENÇO, Thiago Campos</p><p>Pessoa. O império dos Souza Breves nos oitocentos: política e escravidão nas trajetórias dos comen-</p><p>dadores José e Joaquim de Souza Breves. 2010. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade</p><p>Federal Fluminense, Niterói, 2010. p. 78-121.</p><p>empresarial bastante complexa para fazer frente à pressão antitráfico bri-</p><p>tânica em águas africanas e brasileiras. Afora isso, os potentados de Piraí</p><p>expressaram sua militância pró-tráfico nas instâncias formais de represen-</p><p>tação política, apoiando e subscrevendo o conteúdo das várias petições que</p><p>foram endereçadas à Assembleia provincial do Rio de Janeiro e ao Parlamento</p><p>imperial demandando a anulação da Lei de 7 de novembro de 1831 e a lega-</p><p>lização do tráfico transatlântico de escravos, sob o argumento de que ele era</p><p>imprescindível para a riqueza do Império, escorada na exportação de café.</p><p>Essa campanha teve desdobramentos práticos: em 1840, três anos após a ins-</p><p>tituição do município, havia 11.186 escravos em Piraí, equivalendo a 64,91%</p><p>do total de habitantes, número que cresceu para 19.090 cativos em 1850, ou</p><p>quase três quartos do total de habitantes. Em pouquíssimas regiões do Brasil</p><p>o desequilíbrio demográfico entre senhores e escravos chegou aos patamares</p><p>verificados em Piraí durante a vigência do tráfico ilegal.35</p><p>Em conjunto e do ponto de vista não tão imediato e de maior alcance da</p><p>conformação das relações sociais e do Estado, a atuação desses fazendeiros</p><p>na esfera local, provincial e imperial assinala um momento decisivo na for-</p><p>mação da classe senhorial, na qual eles fizeram valer sua voz em relação ao</p><p>Estado nacional por meio de uma articulação política específica: o Regresso</p><p>conservador. Atores importantes da consolidação da hegemonia saquarema</p><p>durante a década de 1840, os fazendeiros de Piraí foram, portanto, peças-</p><p>chave para a construção do desenho institucional do Segundo Reinado.</p><p>Para escoar o volume cada vez maior de café obtido com uma escra-</p><p>varia em crescimento, o melhoramento das vias que serviam ao sistema de</p><p>transporte baseado em mulas era imprescindível. Nesse campo, os grandes</p><p>fazendeiros de Piraí contaram com o suporte técnico do engenheiro militar</p><p>Conrado Jacob de Niemeyer, responsável, entre 1837 e 1839, pela Primeira</p><p>Seção da Diretoria de Obras Públicas da Província do Rio de Janeiro, que</p><p>abrangia todo o litoral sul e a zona ocidental do Vale do Paraíba fluminense.</p><p>Sua trajetória e algumas de suas realizações como funcionário público gra-</p><p>duado, particularmente quando esteve à frente da fazenda nacional de Santa</p><p>Cruz, na década de 1840, expressam a constituição da classe dos fazendei-</p><p>ros escravistas do Centro-Sul, especialmente da região da Bacia do Paraíba</p><p>35 Sobre os Breves como traficantes nos anos 1840, ver LOURENÇO, 2010; sobre a campanha pela rea-</p><p>bertura do tráfico, PARRON, 2011, p. 121-252; sobre a demografia de Piraí, SALLES, 2008, p. 258-259.</p><p>ippc0</p><p>Realce</p><p>ippc0</p><p>Nota</p><p>parei aqui</p><p>ippc0</p><p>Realce</p><p>ippc0</p><p>Realce</p><p>ippc0</p><p>Realce</p><p>ippc0</p><p>Realce</p><p>ippc0</p><p>Realce</p><p>124 125</p><p>e do Médio Vale do Paraíba, em classe senhorial.36 Isto é, em uma classe</p><p>nacionalmente dominante, de base territorial, assentada sobre determina-</p><p>das relações de produção, escravistas, e sobre uma economia, produtora</p><p>de commodities para o mercado mundial capitalista, cuja dominação se</p><p>reproduzia por sua interseção com o Estado imperial.</p><p>No verão de 1836-1837, as três pontes da freguesia de Sant’Anna do Piraí</p><p>haviam sido levadas em uma grande enxurrada. Uma delas, orçada em três</p><p>contos de réis, teve metade de seus custos de reconstrução bancados por</p><p>José Gonçalves de Moraes, que puxou uma subscrição local para cobrir o</p><p>restante dos gastos. Outra, “na porção da Estrada que de Angra conduz</p><p>a São João do Príncipe”, também foi recomposta à custa de particulares,</p><p>neste caso com José de Souza Breves à frente. Nas duas pontes, o técnico</p><p>responsável foi Niemeyer. No ano seguinte, o futuro barão de Piraí solicitou</p><p>a Niemeyer que preparasse um projeto para a construção de uma ponte</p><p>“suspensa de ferro” sobre o rio Paraíba na altura da ponte da Escuma, para</p><p>ligar a fazenda de Três Saltos à sua unidade satélite do outro lado do rio,</p><p>além, é claro, de servir aos demais transeuntes. Conforme se lê no relatório</p><p>provincial de 1839, “essa empresa é sem dúvida importante, atenta a largura</p><p>do caudaloso Paraíba, e a afluência de tropas e passageiros, que há de trazer</p><p>o melhoramento dessa estrada, muito principalmente se a levarem até o</p><p>extremo da Província”. Ao que tudo indica, o projeto não chegou a ser reali-</p><p>zado, o que não impediu Niemeyer de continuar prestando seus serviços aos</p><p>grandes fazendeiros de Piraí. Em 1838, ele projetou e construiu uma grande</p><p>ponte sobre o rio Piraí, bancada por Raymundo de Souza Breves.37 Nesses</p><p>anos em que ocupou a diretoria da 1ª Seção de Obras Públicas, Niemeyer,</p><p>além de se responsabilizar pelo estabelecimento dos limites dos municípios</p><p>de Valença, Piraí, Barra Mansa e Resende, realizou trabalhos cartográficos</p><p>com vistas à composição de uma carta geral da província do Rio de Janeiro,</p><p>cujos exemplares foram colocados à venda em 1840.38</p><p>36 Para o conceito histórico de classe senhorial, ver MATTOS, Ilmar Rohloff de. O Tempo Saquarema:</p><p>a formação do Estado imperial. São Paulo: Hucitec, 1987; e SALLES, 2008, primeira parte.</p><p>37 VIEIRA, José Ignácio Vaz. Sem título. Niterói: Typographia Nictheroy de Rego, 1837. p. 48-49; SOUSA,</p><p>Paulino José Soares de. Discurso. Niterói: Typographia Nictheroy de Rego, 1838. p. 61; Id. Relatório</p><p>do Presidente da Província do Rio de Janeiro... para o anno de 1839 a 1840. Niterói: Typographia de</p><p>Amaral & Irmão, 1851. p. 52.</p><p>38 Mapa disponível no sítio da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro: NYEMEIER, Conrado Jacob de.</p><p>Carta da Província do Rio de Janeiro, 1840. Rio de Janeiro: Lit. do Arquivo Militar, 1849, 32 x 46,3</p><p>cm. Disponível em: .</p><p>Durante a segunda metade da Regência, enquanto Niemeyer traba-</p><p>lhava na 1ª seção, a fazenda imperial de Santa Cruz foi gerida pelo coronel</p><p>Francisco Gonçalves Fernandes Pires, administrador-geral de 1834 a 1840,</p><p>e, por portaria de 30 de junho do último ano, superintendente. Em seu</p><p>período à frente da propriedade nacional, a produção de arroz foi final-</p><p>mente recomposta após décadas de abandono, e concluída a ala direita do</p><p>palácio conforme projeto de Pezerat, que também desenhou o novo edifício</p><p>do Curtume, mais próximo das feições de um grande solar do que de um</p><p>local de produção. Os conflitos fundiários do Primeiro Reinado haviam se</p><p>tornado passado após o Decreto de 25 de novembro de 1830 e a queda de</p><p>D. Pedro I: Fernandes Pires manteve boas relações com os foreiros, elevou</p><p>as rendas da fazenda, e morreu no exercício do cargo em 1 de novembro de</p><p>1846. Nessa altura, o palácio de Santa Cruz era o preferido do jovem impe-</p><p>rador D. Pedro II, peça essencial nas engrenagens do complexo de expres-</p><p>são simbólica do poder monárquico. Sua troca por Petrópolis, cuja cidade e</p><p>palácio começaram a ser construídos após 1844, só se deu após a morte do</p><p>príncipe varrão em Santa Cruz, no verão de 1850.39</p><p>Cinco dias após o falecimento de Fernandes Pires, Conrado Jacob de</p><p>Niemeyer foi nomeado por D. Pedro</p><p>II como novo superintendente da</p><p>fazenda de Santa Cruz. Nascido em Lisboa, em 1788, pertencente a uma</p><p>família de engenheiros militares alemães que se deslocara para Portugal no</p><p>século XVIII, Niemeyer mudou-se para o Brasil em 1809. Fez parte das tro-</p><p>pas que combateram as revoluções pernambucanas de 1817 e 1824, e atuou</p><p>como comandante de armas do Ceará nos anos 1820. Como vimos, entre</p><p>1836 e 1839 realizou numerosas obras na zona ocidental do Vale do Paraíba</p><p>fluminense. Ao deixar o cargo, o conhecimento acumulado na região lhe</p><p>permitiu contratar, como empreiteiro particular, as obras de reconstrução</p><p>da Estrada do Comércio. Quando as realizava, participou, como projetista,</p><p>da construção da Igreja Matriz de Vassouras. Em 1843, Niemeyer também</p><p>cuidou de obras de reparação no sistema hidrográfico de Santa Cruz.40 O</p><p>contrato de construção com a província do Rio de Janeiro foi encerrado em</p><p>1844, ano em que Niemeyer publicou, na imprensa do Rio de Janeiro, um</p><p>39 FREITAS, 1987b, p. 131-134, 294, 400.</p><p>40 Notícia fornecida em O Brasil, em 30 de março de 1843. Sobre a trajetória de Niemeyer, ver também</p><p>PEIXOTO, R.A. A carta de Niemeyer de 1846 e as condições de leitura de produtos cartográficos.</p><p>Anos 90, Porto Alegre, v. 11, n. 19/20, p. 299-318, jan.-dez. 2004.</p><p>ippc0</p><p>Realce</p><p>126 127</p><p>mapa da Estrada do Comércio, e em que assinou com o poder provincial</p><p>um acordo adicional para sua manutenção.41</p><p>Em 1846, Niemeyer aceitou o convite do imperador para assumir a</p><p>Superintendência da fazenda de Santa Cruz. Sua vasta experiência no ser-</p><p>viço público o habilitava para a tarefa, mas o que possivelmente motivou a</p><p>escolha final de D. Pedro II foi a Carta Geral do Império do Brasil, lançada</p><p>em 1845 e premiada pelo imperador no ano seguinte, além, é claro, dos</p><p>relevantes serviços que já havia prestado aos fazendeiros do Médio Vale</p><p>do Paraíba e à Província do Rio de Janeiro. Niemeyer exerceu a função em</p><p>Santa Cruz de novembro de 1846 a março de 1856. Nesse longo período,</p><p>uma de suas medidas foi justamente a composição do mapa de 1848, objeto</p><p>deste artigo.</p><p>Segundo Benedicto Freitas, durante a administração Niemeyer, a sala</p><p>da Superintendência era decorada com uma planta topográfica da fazenda,</p><p>“em vistosa moldura dourada”. O historiador da propriedade também</p><p>informa que, por cem cópias litográficas do mapa, pagou-se à sociedade</p><p>Heaton & Rensburg a quantia de 265$000. A firma fora fundada em 1840</p><p>pelo inglês Georges Mathias Heaton e pelo holandês Eduard Rensburg.</p><p>Dentre seus múltiplos trabalhos de impressão, que incluiu as ilustrações do</p><p>Brasil pitoresco de Victor Frond, a dupla ganhou a reputação de serem os</p><p>melhores litógrafos de mapas do Império do Brasil, ainda que seu campo</p><p>mais rentável fosse a impressão de partituras musicais. Anúncios da firma</p><p>no Diário do Rio de Janeiro e no Correio Mercantil da década de 1840 per-</p><p>mitem avaliar o valor relativo que foi cobrado para a composição do mapa</p><p>de 1848. As partituras impressas pela Heaton & Rensburg eram vendidas a</p><p>um valor de 500 a 1.000 réis cada, ou seja, a um preço unitário bem maior</p><p>do que a firma recebera para imprimir os 100 exemplares de Santa Cruz.</p><p>Ademais, nossa pesquisa não logrou encontrar anúncios de venda do mapa</p><p>de Santa Cruz na imprensa da Corte, ao passo que vários outros propa-</p><p>gandearam a venda, por subscrições, da Carta Geral do Império do Brasil.</p><p>Por conseguinte, pode-se aventar a hipótese de que Niemeyer encomen-</p><p>dou a impressão do mapa de Santa Cruz para ofertá-lo como presente. Para</p><p>41 O mapa pode ser consultado no sítio da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Sua referência é a</p><p>seguinte: NYEMEIER, Conrado Jacob de. Planta hydro-topographica da Estrada do Commercio entre</p><p>os rios Iguassu e Parahiba. Rio de Janeiro: Heaton e Rensburg Lith, 1844. 80 x 17 cm. Disponível em:</p><p>.</p><p>quem, não sabemos com precisão, mas podemos supor pelo exame de seus</p><p>critérios de organização visual.42</p><p>Um rápido cruzamento das informações constantes do Registro</p><p>Paroquial de Terras para a freguesia de Sant’Anna do Piraí, lavrado entre maio</p><p>de 1854 e janeiro de 1856, com o que vemos no mapa de 1848, permite perceber</p><p>que as múltiplas unidades anotadas com nomes próprios (de indivíduos, de</p><p>núcleos familiares ou de fazendas) não equivaliam ao que os contemporâneos</p><p>compreendiam exatamente como as fronteiras das propriedades rurais dessa</p><p>região.43 Niemeyer se valeu da produção cartográfica anterior das sesmarias</p><p>distribuídas entre 1730 e 1823 para projetá-las no mapa da fazenda de Santa</p><p>Cruz. Sesmarias essas que foram bastante reconfiguradas no processo de</p><p>montagem das fazendas de café. Como a historiografia vem demonstrando,</p><p>a cartografia da estrutura fundiária no Brasil encontrou limites intransponí-</p><p>veis para se realizar ao longo do século XIX.44 A própria natureza do primeiro</p><p>“cadastro nacional” de terras, o Registro Paroquial dos anos 1850, ao envolver</p><p>apenas declarações verbais sobre o que eram os limites de cada propriedade,</p><p>porém sem quaisquer atos de mapeamento, bem o comprova.</p><p>Houve uma lógica clara na nomeação que Niemeyer adotou para</p><p>registrar as fazendas de café que faziam fronteira com as terras da imperial</p><p>fazenda de Santa Cruz. Para comprovar isso, basta uma mirada na faixa ao</p><p>longo do rio Paraíba. Na Imagem 6, observa-se como o engenheiro mili-</p><p>tar fez questão de inscrever no espaço ou o nome dos grandes potentados</p><p>cafeeiros, envolvidos ou não no abaixo-assinado de 1828 contra D. Pedro I</p><p>(“Terras dos Breves”, major José Luiz Gomes, major José Luiz Gomes e Faro,</p><p>João Pereira do Faro, marquês de Baependi etc.), ou das propriedades que</p><p>os vinham notabilizando (Mangalarga, Três Saltos, o coração das atividades</p><p>do barão de Piraí, Botafogo, Campo Alegre, propriedades de um de seus</p><p>genros, o barão de Vargem Alegre, Sant’Anna, o coração das atividades de</p><p>Pereira Faro etc.). A toponímia empregada pelo mapa marcava claramente</p><p>o domínio desses homens e de suas fazendas sobre a paisagem da província</p><p>42 FREITAS, 1987b, p. 20. Sobre a Heaton & Rensburg, ver HALLEWELL, Laurence. O livro no Brasil: sua</p><p>história. São Paulo: Edusp, 2003. p. 148, e CARDOSO, Pedro Sánchez. A lithos: edições de arte e as</p><p>transições de uso das técnicas de reprodução de imagens. 2008. Dissertação (Mestrado em História)</p><p>– Pontífice Universidade Católica, Rio de Janeiro, 2008. p. 60-62. Os anúncios podem ser lidos em</p><p>Diário do Rio de Janeiro, em 20 de setembro e 12 de dezembro de 1845; 16 de junho, 13 de julho e 21 de</p><p>dezembro de 1846; 28 de outubro e 4 de novembro de 1847; e no Correio Mercantil de 4 de abril de 1849.</p><p>43 O referido registro pode ser consultado no sítio do Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro</p><p>(http://www.aperj.rj.gov.br/)</p><p>44 Ver, em especial, MOTTA, M., 2008; e SILVA, 1996.</p><p>ippc0</p><p>Realce</p><p>ippc0</p><p>Realce</p><p>ippc0</p><p>Realce</p><p>128 129</p><p>do Rio de Janeiro. Além do mais, se voltarmos para a Imagem 5, vemos</p><p>que, em 1848, como resultado da Lei de 25 de novembro de 1830, a zona</p><p>dos grandes cafeicultores se encontrava definitivamente fora da alçada da</p><p>imperial fazenda de Santa Cruz.</p><p>Imagem 6: detalhe da Imagem 1.</p><p>Há que se ressaltar, por fim, a bissegmentação da litografia e o sentido</p><p>da inscrição, no seu lado direito, da vista frontal do palácio imperial e da</p><p>planta do complexo de edificações de seu povoado (Imagem 7). A mensa-</p><p>gem era clara: por meio dessa organização visual, o poder do imperador e</p><p>o poder dos fazendeiros se tornavam estritamente articulados: enquanto o</p><p>primeiro reconhecia sem questionamentos o domínio dos segundos sobre</p><p>serra acima e a importância deles para a economia e a ordem social do</p><p>Império do Brasil, estes se subordinavam espacial e simbolicamente ao seu</p><p>monarca. Todos sabiam que o fundamento da riqueza dos fazendeiros resi-</p><p>dia no domínio de terras e de homens, ou seja, sobre uma estrutura fun-</p><p>diária cujo estatuto era relativamente incerto e sobre seres humanos ilegal-</p><p>mente escravizados conforme a legislação do próprio país. Composto antes</p><p>de 1850,</p><p>isto é, antes do encerramento definitivo do tráfico negreiro tran-</p><p>satlântico e da aprovação da Lei de Terras, o mapa de Niemeyer promovia</p><p>uma associação visual direta entre os fazendeiros do Vale do Paraíba e D.</p><p>Pedro II, que, aliás, os visitara em janeiro daquele ano de 1848, prestando-</p><p>lhes as devidas deferências pelo papel central que vinham desempenhando</p><p>para a construção da ordem institucional do Segundo Reinado.45</p><p>Imagem 7: detalhe da Imagem 1.</p><p>D. Pedro I quisera se impor a esses fazendeiros, que haviam se cons-</p><p>tituído em uma de suas principais bases de ascensão ao trono do Império</p><p>do Brasil, e por essa razão foi destronado. Seu filho subiu e manteve-se</p><p>no poder pelas mãos desses mesmos fazendeiros. Reinou por quase meio</p><p>século. Quando finalmente foi derrubado, junto com o regime monárquico,</p><p>por um golpe militar, o mundo da classe senhorial, com a abolição da escra-</p><p>vidão, encontrava-se em processo de desagregação. Outros fazendeiros e</p><p>outro regime estavam no horizonte, mas isso é assunto para outra ocasião.46</p><p>45 Sobre a visita de D. Pedro II ao Vale em 1848, ver TELLES, Augusto Carlos da Silva. A visita de D.</p><p>Pedro II a Vassouras. RIHGB, Rio de Janeiro: IHGB, n. 290, jan.-mar. 1971.</p><p>* Rafael Marquese agradece ao CNPq pela bolsa de produtividade em pesquisa a que este texto se</p><p>vincula, e, Ricardo Salles, ao Pronem-Faperj. Os autores agradecem ainda a todos os membros do</p><p>Grupo Interinstitucional de Pesquisa O Vale do Paraíba e a Segunda Escravidão (parte da Second</p><p>Slavery Research Network), a Leila Vilela Alegrio, quem primeiro nos chamou a atenção para o</p><p>mapa de 1848, e a Iris Kantor, pelas conversas sobre Conrado Jacob de Niemeyer. O texto faz parte</p><p>de uma pesquisa mais ampla que resultará em livro, cujo título provisório é Escravidão, Café e</p><p>Poder: a vila de Piraí, o Império do Brasil e a economia mundial, 1763-1889.</p><p>ippc0</p><p>Realce</p><p>ippc0</p><p>Realce</p><p>ippc0</p><p>Realce</p><p>ippc0</p><p>Realce</p><p>ippc0</p><p>Realce</p><p>ippc0</p><p>Realce</p><p>130 131</p><p>Vale expandido:</p><p>contrabando negreiro, consenso e</p><p>regime representativo no Império do Brasil1</p><p>Alain El Youssef</p><p>Bruno Fabris Estefanes</p><p>Tâmis Parron</p><p>estado, sociedade, escravidão</p><p>As mediações entre Estado e sociedade no Brasil do século XIX é uma das</p><p>questões perenes da historiografia imperial que foram abordadas desde o</p><p>ensaísmo interpretativo da década de 1930 até os dias de hoje. A evolução</p><p>por que o tratamento do assunto tem passado nos últimos quarenta anos,</p><p>após a montagem e o incremento do sistema de pós-graduação no país,</p><p>longe de se esgotar na tradição intelectual brasileira, sofreu influência de</p><p>um debate europeu e norte-americano travado no campo da ciência polí-</p><p>tica entre o imediato pós-guerra e a década de 1980. Nas próximas pági-</p><p>nas, iremos mapear as linhas gerais dessa discussão e seguir seu impacto</p><p>em dois autores que ainda possuem grande influência na pesquisa sobre</p><p>o Brasil oitocentista: José Murilo de Carvalho e Ilmar Rohloff de Mattos.</p><p>Apurar o entendimento dos termos que eles propuseram para a análise das</p><p>mediações entre Estado e sociedade contribui não só para situar o lugar</p><p>historiográfico do presente capítulo, mas também para delinear o sentido</p><p>dos principais estudos atuais sobre a política nacional no Império do Brasil.</p><p>Na crise dos regimes ditatoriais e corporativistas que se seguiu à Segunda</p><p>Guerra Mundial, cientistas políticos norte-americanos desenvolveram a</p><p>1 O presente texto é uma versão modificada do artigo “Vale expandido: contrabando negreiro e a</p><p>construção de uma dinâmica política nacional no Império do Brasil”, publicado em Almanack,</p><p>n. 7, p. 137-159, 1. sem. 2014. Agradecemos em particular à leitura de André Nicacio Lima, Felipe</p><p>Landim, Luiz Fernando Saraiva, Ivana Stolze Lima, Leonardo Marques, Marcelo Ferraro, Marco</p><p>Aurélio dos Santos, Ricardo Salles e Waldomiro Lourenço da Silva.</p><p>chamada teoria política pluralista. Apoiados na experiência democrática dos</p><p>Estados Unidos, presumiam que o processo de tomada de decisões públi-</p><p>cas resultava de contínuas negociações entre grupos movidos por interesses</p><p>colidentes e investidos de um poder de barganha relativamente equilibrado,</p><p>numa dinâmica que tornava improvável a prevalência hegemônica de uns</p><p>sobre outros. Em suas análises, adotaram duas noções complementares. De</p><p>um lado, caracterizaram os grupos econômicos, mesmo os mais poderosos,</p><p>como politicamente incoesos. De outro, entenderam que as fontes de poder</p><p>necessárias à atuação dos grupos sociais eram distribuídas com relativa</p><p>simetria pelo conjunto da sociedade. Em resultado, julgaram pouco rele-</p><p>vante conceituar elites e definir postos formais do Estado como campo para</p><p>o exercício do poder. Em vez de estudar o Estado, parecia melhor examinar</p><p>o sistema político plural mais amplo no qual a participação democrática de</p><p>diversos grupos sociais formava a agenda pública. Como escreveu Robert</p><p>Dahl, autor do influente Who governs? (1961), a “teoria sobre elite dirigente”</p><p>pode ser “um tipo de teoria quase-metafísica”. Na hipótese de uma elite exis-</p><p>tir, cumpriria defini-la, delimitar suas preferências e verificar se elas real-</p><p>mente prevaleciam na tomada de decisões públicas.2</p><p>Embora um dos primeiros trabalhos a oferecer uma alternativa cons-</p><p>ciente à teoria pluralista tenha sido The power elite (1956), de C. Wright</p><p>Mills, a redação da investida mais sistemática contra ela coube a Ralph</p><p>Miliband, que publicou em 1969 The State in capitalist society. Miliband</p><p>levou a sério o desafio de averiguar a existência de uma elite econômica e o</p><p>modo como ela se impõe aos demais grupos ou classes sociais na formula-</p><p>ção da agenda pública. Para tanto, definiu o que entendia por elite, a fração</p><p>dominante da classe capitalista, e o que entendia por Estado, a inter-relação</p><p>de cinco instâncias: aparato de governo (Executivo e Legislativo); aparato</p><p>administrativo (banco central, burocracia do serviço público, empresas</p><p>estatais); aparato coercivo (corporações militares e policiais); aparato judi-</p><p>cial; e governos subcentrais (assembleias legislativas locais). A estratégia</p><p>de adotar uma concepção estreita do grupo de acumuladores de capital e</p><p>uma concepção ampla dos lugares formais de poder atendia a dois objeti-</p><p>vos simultâneos: o de realçar a influência política assimétrica de um grupo</p><p>social diminuto e o de mostrar que não é preciso ocupar a maior parte do</p><p>2 DAHL, Robert A. A critique of the ruling elite model. The American Political Science Review,</p><p>Cambridge: Cambridge University Press, v. 52, issue 2, p. 463, Jun. 1958; e Who governs? Democracy</p><p>and Power in an American City. New Haven: Yale University Press, 2005.</p><p>132 133</p><p>governo – nem das cinco instâncias do Estado – para induzir o processo</p><p>de decisão política. Com isso, distinguiu poder político de poder eleito-</p><p>ral, bem como governo de Estado, confusões comuns na época e hoje em</p><p>dia. A noção de que uma fração de classe exerce poder mesmo sem estar</p><p>no governo o levou a uma leitura gramsciana segundo a qual a hegemonia</p><p>deixava de ser compreendida apenas como efeito das “instituições cultu-</p><p>rais”, aparecendo também como consequência da ação do Estado, “um dos</p><p>principais arquitetos do consenso conservador” e da “socialização política”</p><p>(universalização) dos interesses peculiares a um grupo.3</p><p>The State in capitalist society ajudou a projetar Miliband como “o prin-</p><p>cipal cientista político marxista no mundo anglófono”, tornando-o um dos</p><p>estudiosos mais citados em meados da década de 1970, segundo os cálculos</p><p>da American Political Science Association. O livro, contudo, desencadeou</p><p>uma azedada troca de resenhas entre o autor e Nicos Poulantzas nas pági-</p><p>nas da New Left Review que continuou em seus respectivos livros posterio-</p><p>res. Nos textos contra Miliband, Poulantzas colocou em destaque proble-</p><p>mas de alto valor heurístico para a pesquisa histórica, entre os quais o do</p><p>sujeito como ator social e o da autonomia relativa do Estado frente à socie-</p><p>dade. Para Poulantzas, o Estado capitalista possuía uma adequação formal</p><p>à reprodução</p><p>expandida do capital que tornava dispensável a pesquisa do</p><p>perfil social dos indivíduos alocados em seus postos-chave. Ao estudar os</p><p>ocupantes do aparelho estatal, Miliband teria usado um método da ciência</p><p>política não-marxista – de Dahl, digamos – para fazer uma análise pre-</p><p>tensamente marxista, adotando, assim, uma concepção instrumentalista</p><p>de Estado. Segundo Poulantzas, os marxistas deviam usar a noção, por ele</p><p>desenvolvida, de “autonomia relativa do Estado”: mesmo desprovido da</p><p>influência direta, pessoal, volitiva, da elite capitalista (autonomia), o Estado</p><p>enseja a reprodução ampliada do capital, beneficiando os acumuladores</p><p>(relativa). Em suas respostas, Miliband identificou a posição de Poulantzas</p><p>como “super-determinismo estruturalista” irredutível às diferenças empíri-</p><p>cas dos regimes políticos particulares. As análises dos dois possuíam pontos</p><p>de contato – valendo-se de Gramsci, por exemplo, Poulantzas também con-</p><p>siderou o Estado um meio importante para que uma fração da classe capi-</p><p>talista exercesse “papel dominante” sobre as demais e conferisse ao “bloco</p><p>3 MILIBAND, Ralph. The State in capitalist society. Nova York: Basic Books, 1969. p. 191. Sobre o autor,</p><p>BLACKBURN, Robin. Ralph Miliband, 1924–1994. New Left Review, n. I/206, London, p. 15–25, Jul.-</p><p>Aug. 1994.</p><p>de poder” uma coesão ideológica que do contrário lhe faltaria. As acusações</p><p>recíprocas e a recepção do debate, todavia, reduziram a visão do Estado em</p><p>Poulantzas a um determinismo estreito e a de Miliband a um instrumenta-</p><p>lismo vulgar. Nas palavras de um estudioso do assunto, a polêmica “estilha-</p><p>çou [a incipiente] teoria política marxista”.4</p><p>O mesmo contexto intelectual da teoria política pluralista que estimu-</p><p>lou a publicação do livro de Miliband, bem como o debate subsequente</p><p>entre ele e Poulantzas, também informou a pesquisa de doutorado que José</p><p>Murilo de Carvalho defendeu em Stanford em 1974 sobre a especificidade</p><p>da política brasileira oitocentista e cujos resultados foram publicados nos</p><p>hoje clássicos A construção da ordem (1980) e Teatro de sombras (1988).</p><p>Assim como Miliband, Carvalho rejeitou o axioma da teoria pluralista</p><p>que depositava no equilíbrio dos grupos sociais o sentido do processo de</p><p>tomada de decisão política e a consequente noção de que os postos formais</p><p>do Estado eram irrelevantes para uma interpretação política. No início de</p><p>A construção da ordem, advertiu que “os estudos mais recentes que se pren-</p><p>dem excessivamente a questões do tipo ‘quem governa’” – título do livro de</p><p>Dahl – deixam “de lado a natureza do próprio governo e o sentido da ação</p><p>da elite [já que as fontes do poder são tidas por difusas].” Carvalho desen-</p><p>volveu então o conceito de “elite política imperial” para designar os ocupan-</p><p>tes dos postos políticos nacionais (deputado geral, presidente de província,</p><p>ministro, senador, conselheiro), os quais, sendo “políticos”, se destaca-</p><p>vam da esfera econômica e, sendo da “elite”, se distinguiam da vida local.</p><p>Moldados por semelhante formação intelectual (Faculdade de Direito),</p><p>percurso profissional (magistratura) e ocupação de cargos (citados acima),</p><p>esses paladinos da lei conduziram com homogeneidade e coesão as grandes</p><p>transformações que o Brasil sofreu durante a monarquia.5</p><p>Carvalho teve um segundo tipo de interlocutor. Pretendia corrigir os</p><p>excessos do ensaísmo marxista brasileiro que considerava o Estado oito-</p><p>centista epifenômeno de forças sociais ou econômicas. Sua “elite política</p><p>4 BARROW, Clyde W. The Miliband-Poulantzas debate: an intellectual History. In: ARONOWITZ,</p><p>Stanley; BRATSIS, Peter (Org.). State theory reconsidered: paradigm lost. Minneapolis: University of</p><p>Minnesota Press, 2002. p. 3; WETHERLY, Paul; BARROW, Clyde W.; BURNHAM, Peter. Class, power</p><p>and the State in capitalist society: essays on Ralph Miliband. New York: Palgrave Macmillan, 2008.</p><p>Os textos de Miliband e Poulantzas estão disponíveis nos números 58 (nov.-dez. 1969), 59 (jan.-fev.</p><p>1970), 82 (nov.-dez. 1973) e 95 (jan.-fev. 1976) da New Left Review e podem ser acessados no site da</p><p>revista ().</p><p>5 CARVALHO, José Murilo de. A construção da ordem: teatro de sombras. Rio de Janeiro: Civilização</p><p>Brasileira, 2003. p. 25. 1. ed. 1980.</p><p>134 135</p><p>imperial”, afastada das bases materiais da vida social, elegeria como plata-</p><p>forma a unidade nacional, o controle civil do poder e a democracia limitada</p><p>dos homens livres. Com a escravidão, instituição máxima do mundo econô-</p><p>mico, seu contato seria de concessão circunstancial ou “tática”, isto é, tole-</p><p>rava-a por depender dela para fechar o orçamento público: “não podiam”,</p><p>escreveu, “matar sua galinha dos ovos de ouro”. Tão logo terminasse seu</p><p>“acúmulo primitivo de poder”, essa elite conduziria a nave do Estado à erra-</p><p>dicação do cativeiro. A esse jogo de espera e destruição o autor chamou</p><p>“dialética da ambiguidade”.6</p><p>Em seu diálogo com a teoria pluralista norte-americana e com o</p><p>ensaísmo marxista brasileiro, Carvalho adotou dois pressupostos de aná-</p><p>lise. O primeiro era político. O modelo da teoria pluralista podia se apli-</p><p>car a países “como Inglaterra e Estados Unidos”, onde “o papel do Estado</p><p>tendeu a ser menos relevante e, portanto, predominaram na elite política</p><p>elementos oriundos dos mecanismos de representação parlamentar”. Em</p><p>contrapartida, “a estrutura política do Império era suficientemente sim-</p><p>ples”, sendo “as decisões da política nacional” tomadas “por pessoas que</p><p>ocupavam os cargos do Legislativo e do Executivo”. O outro pressuposto</p><p>era socioeconômico. Nos “países de revolução burguesa abortada”, como</p><p>Portugal e Brasil, “o elemento burocrático” predominou sobre as classes</p><p>sociais na composição de uma agenda pública, visto que faltaria densidade</p><p>à vida social brasileira devido à ausência de um mercado interno por onde</p><p>se aglutinassem setores do mundo produtivo. Com os dois pressupostos,</p><p>Carvalho procedeu à simplificação da estrutura política e à simplificação</p><p>da vida socioeconômica para que seu modelo pudesse concentrar poderes</p><p>decisórios nas mãos da “elite política imperial” e afastar essa elite dos influ-</p><p>xos do mundo material.7</p><p>Concebida e realizada no auge da teoria marxista do Estado, a pesquisa</p><p>de José Murilo de Carvalho se desdobrou em livros quando os instrumentos</p><p>heurísticos de Miliband e Poulantzas tinham sido reduzidos às caricaturas</p><p>do instrumentalismo e do determinismo. A publicação mais representativa</p><p>da troca de paradigmas então em curso talvez seja Bringing the State back in,</p><p>que Peter Evans, Dietrich Rueschemeyer e Theda Skocpol organizaram em</p><p>6 Ibid., p. 42, 166, 138, 194, 232. Essa leitura foi desenvolvida em CARVALHO, José Murilo de. Escravidão</p><p>e razão nacional. In: ___. Pontos e bordados: escritos de história e política. Belo Horizonte: Ed.</p><p>UFMG, 1998. p. 35-64.</p><p>7 CARVALHO, 2003, p. 32-62.</p><p>1985. Tal como a pesquisa de Carvalho, o livro reagiu contra a teoria plura-</p><p>lista do sistema político e as abordagens marxistas por serem ambas “teimo-</p><p>samente centradas na sociedade”, e condenou os “debates teóricos” travados</p><p>na década anterior como “altamente especulativos”. Não é à toa que a longa</p><p>lista das pesquisas que Skocpol cita no capítulo que dá nome à obra inclui</p><p>um texto de José Murilo de Carvalho. Em linhas gerais, pode-se dizer que</p><p>Skocpol propôs estudar o Estado como ator dotado de racionalidade pró-</p><p>pria e capaz de reunir seus membros em torno de um conjunto de interesses</p><p>socialmente autônomos. Embora assuma que “o contexto socioeconômico e</p><p>sociocultural” não deve ser desprezado na análise, ela concentra seu esforço</p><p>de reflexão em elencar: a) os casos em que o Estado goza de autonomia; b) os</p><p>meios de que dispõe para fazê-lo (financeiros, pessoais, institucionais); e c)</p><p>o poder que possui para mudar o comportamento dos atores, “em especial</p><p>os economicamente dominantes”. Como notou Leo Panitch em “The impov-</p><p>erishment of State theory”, o livro que pleiteava ver as instituições políticas</p><p>como fatores causais autônomos foi publicado</p><p>“bem no momento em que</p><p>o poder estrutural do capital e o alcance estratégico e ideológico das clas-</p><p>ses capitalistas tinham se tornado, talvez, mais plenamente visíveis do que</p><p>nunca”. Em que pese o paradoxo histórico, Skocpol, Evans e Rueschemeyer</p><p>avalizaram o institucionalismo e o empiricismo desprovido de teoria como</p><p>posturas científicas promissoras em diversas áreas das ciências humanas.8</p><p>Justamente em 1985, ano da publicação de Bringing the State back in,</p><p>Ilmar Rohloff de Mattos defendeu na Universidade de São Paulo a tese</p><p>de doutorado que seria publicada no ano seguinte com o título O tempo</p><p>saquarema – assim como Carvalho redigira sua tese antimarxista no auge</p><p>da teoria marxista do Estado, Mattos arrematou sua pesquisa marxista no</p><p>auge da abordagem antimarxista do Estado. Seu livro é bem conhecido,</p><p>mas o teor de seu enquadramento analítico, talvez pela filiação ao gênero</p><p>estilístico do ensaísmo brasileiro, nem sempre é devidamente apreendido</p><p>por seus leitores. Mattos examinou a construção do Estado imperial e a</p><p>formação da classe senhorial como dois processos que se tornaram associa-</p><p>dos sob a “intervenção consciente e deliberada de uma determinada força</p><p>social”. Incorporando a historiografia disponível sobre o mercado interno,</p><p>8 SKOCPOL, Theda. Bringing the State back in: strategies of analysis in current research. In: EVANS,</p><p>Peter B.; RUESCHEMER, Dietrich; SKOCPOL, Theda. Bringing the State back in. Cambridge:</p><p>Cambridge University Press, 1985. p. 3-37; PANITCH, Leo. The impoverishment of State theory. In:</p><p>WETHERLY; BARROW; BURNHAM, 2008, p. 92.</p><p>136 137</p><p>argumentou que essa “força social” se compôs de atores provenientes da</p><p>região de agricultura mercantil-escravista, isto é, um complexo econô-</p><p>mico integrado pelo polo açucareiro da baixada fluminense, pelos tropei-</p><p>ros engajados no comércio de abastecimento, pelos negociantes radicados</p><p>na Corte e, com destaque, pelos proprietários cafeicultores espalhados no</p><p>curso médio do Vale do Paraíba. E definiu os saquaremas, núcleo histó-</p><p>rico do Partido Conservador, como o grupo político mais envolvido com a</p><p>defesa dos interesses da região.9</p><p>Ao reintroduzir a escravidão na história política pela porta da frente,</p><p>Mattos procurou contornar os dois extremos que estigmatizaram, de modo</p><p>impreciso, o debate teórico marxista da década de 1970: reduzir o Estado</p><p>a epifenômeno instrumental da classe econômica dominante e fundar sua</p><p>análise em categorias abstratas estruturalmente deterministas. Para tanto,</p><p>fez duas leituras filtradas. Evitou referências diretas a Miliband e Poulantzas,</p><p>assimilando deles, no entanto, o entendimento de que os escritos de Gramsci</p><p>podiam conciliar teoria, ação social e tendência conjuntural. E procedeu a</p><p>uma sutil, porém crucial, adaptação da matriz gramsciana ao cenário brasi-</p><p>leiro oitocentista. O segundo ponto merece comentário à parte.</p><p>Gramsci tinha rejeitado a classificação do Estado e da sociedade como</p><p>unidades discretas da história, propondo no lugar da dicotomia o que pode</p><p>ser entendido como Estado ampliado. Por essa perspectiva, a organização do</p><p>Estado compreende tanto monopólios coercivos (extração do fisco, regra-</p><p>mento da conduta, exercício da violência) como instituições ditas privadas</p><p>(partidos, agremiações, imprensa, escolas), que universalizam interesses</p><p>de grupos sociais específicos. O uso de meios repressores e suasórios para</p><p>a generalização de valores particulares está na raiz da hegemonia, compo-</p><p>nente intrínseca à natureza dos Estados ampliados contemporâneos. Porque</p><p>os termos de Gramsci descrevessem a fundação das democracias europeias</p><p>após 1870, Mattos evitou aplicá-los à organização do Estado brasileiro que</p><p>ocorreu de 1830 a meados de 1860. Tanto é assim que o vocábulo hegemonia</p><p>ocorre uma única vez em seu livro e designa justamente o mundo que a</p><p>burguesia criou na Europa no final do século XIX. Ao contrário do que se</p><p>escreve amiúde, seu livro não contém a expressão “hegemonia saquarema”,</p><p>mas “direção saquarema”. O detalhe não é uma curiosidade lexical. Sem des-</p><p>prezar o papel da imprensa e da educação, Mattos sugeriu que as instituições</p><p>9 MATTOS, Ilmar Rohloff de. O Tempo Saquarema: a formação do Estado imperial. São Paulo:</p><p>Hucitec, 2004. p. 14, 36-37, 69 e 78.</p><p>mais capazes de universalizar valores particulares no Brasil eram a Coroa e o</p><p>Estado estritamente definido: “à Coroa incumbe ainda tornar cada um dos</p><p>Luzias parecido com todos os Saquaremas”. Na mesma passagem, endos-</p><p>sando a célebre frase de Joaquim Nabuco, advertiu que na monarquia “tudo</p><p>se espera do Estado [...], a única associação ativa”. O peso conferido ao apa-</p><p>rato formal do Estado na universalização de valores e interesses específicos</p><p>não deixava de possuir precedente na historiografia brasileira e nas próprias</p><p>leituras de Gramsci que Miliband e Poulantzas tinham feito.10</p><p>Nos últimos dez anos, as análises da política disputada na arena nacio-</p><p>nal do Império do Brasil têm delineado um panorama eclético que em</p><p>grande medida deriva ou é consequência das posições mencionadas acima.</p><p>Elas avançam nas sendas abertas pelo marxismo gramsciano (Ricardo Salles,</p><p>1996 e 2008), se inscrevem no institucionalismo não-marxista (Miriam</p><p>Dolhnikoff, 2005) ou adotam um empirismo desprovido de teoria que iden-</p><p>tifica as múltiplas dimensões do processo histórico com o ponto de vista dos</p><p>atores estudados (Richard Graham, 1990; Roderick Barman, 1999; Jeffrey</p><p>Needell, 2006).11 O presente capítulo, reconhecendo como válido o que há em</p><p>comum às interpretações de Mattos e Carvalho, bem como à maior parte das</p><p>pesquisas atuais – o Estado nacional como ator de peso nas práticas políticas</p><p>do Império –, pretende reinterpretar algumas mediações entre a economia</p><p>escravista da Bacia do Vale do Paraíba, a arquitetura institucional do Estado</p><p>imperial e a dinâmica política nacional nos quadros da expansão da econo-</p><p>mia mundial na primeira metade do século XIX. Seu propósito é delinear:</p><p>a) o papel do comércio negreiro transatlântico ilegal na projeção em nível</p><p>nacional de um grupo de políticos da Bacia do Vale do Paraíba (chamados na</p><p>10 MATTOS, 2004, p. 215, 192. A leitura que Mattos fez de Gramsci se afasta da mais recorrente</p><p>entre os gramscianos; tecnicamente, porém, dir-se-ia que ela não contradiz a obra do italiano.</p><p>Em um conhecido artigo, Perry Anderson demonstrou que Gramsci chegou a usar, embora não</p><p>frequentemente, “direção” como sinônimo de “hegemonia”; e que, em algumas passagens dos</p><p>Cadernos do Cárcere, o conceito de “hegemonia” pode até descrever o resultado do predomínio do</p><p>Estado sobre a sociedade civil. Ver ANDERSON, Perry. The antinomies of Antonio Gramsci. New</p><p>Left Review, v. 1, n. 100, p. 5-78, Nov.-Dec. 1976.</p><p>11 SALLES, Ricardo. Nostalgia imperial: a formação da identidade nacional no Brasil do Segundo</p><p>Reinado. Rio de Janeiro: Topbooks, 1996; e Id. E o Vale era o escravo: Vassouras, século XIX – senhores</p><p>e escravos no coração do Império. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008; DOLHNIKOFF,</p><p>Miriam. O pacto imperial: origens do federalismo no Brasil. São Paulo: Globo, 2005; GRAHAM,</p><p>Richard. Clientelismo e política no Brasil do século XIX. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ, 1997. 1. ed. 1990;</p><p>BARMAN, Roderick J. Citizen emperor: Pedro II and the making of Brazil – 1825-91. Stanford:</p><p>Stanford University Press, 1999; e NEEDELL, Jeffrey D. The Party of Order: the conservatives, the</p><p>State, and slavery in Brazilian Monarchy, 1831-1871. Stanford: Stanford University Press, 2006.</p><p>138 139</p><p>historiografia de saquaremas); e b) o impacto do Estado que eles moldaram,</p><p>ao aprovar a reforma do Código de Processo Criminal (Lei de 3 de dezembro</p><p>de 1841), sobre a nacionalização das disputas partidárias no Império do Brasil</p><p>e sobre o sentido de um dos poderes previstos na Constituição de 1824, o</p><p>Poder Moderador. Espera-se que, ao fim da exposição, seja possível assimilar</p><p>elementos aparentemente distantes – mercado mundial, escravidão, Bacia do</p><p>Vale do Paraíba, Código do Processo Criminal,</p><p>eleições, Poder Moderador</p><p>– como engrenagens de um conjunto dinâmico que começou a operar paula-</p><p>tinamente em meados da década de 1830 e que veio a ser objeto de sucessivas</p><p>reformas na segunda metade do século XIX.</p><p>sociedade e regresso</p><p>Assim que D. Pedro I abdicou (7 de abril de 1831), um grande debate cons-</p><p>titucional desaguou na ascensão do grupo parlamentar conhecido na his-</p><p>toriografia como moderado. O clima político era emocionalmente carre-</p><p>gado, pois estava em jogo a possibilidade de redesenhar o Estado imperial</p><p>centralista consagrado na Constituição de 1824. A feição que a monarquia</p><p>devia ter – se federativa, se próxima da fórmula adotada na república norte</p><p>-americana, se parecida com a da monarquia francesa – ocupou as mentes,</p><p>compassou os corações e pautou os jornais da época.12</p><p>Tão relevante quanto a arquitetura do edifício imperial era, por assim</p><p>dizer, o chão social em que ele se ergueria, isto é, o assunto do tráfico negreiro</p><p>transatlântico. Entre as barganhas subjacentes ao reconhecimento interna-</p><p>cional de sua independência, o Brasil tinha assinado com a Grã-Bretanha</p><p>dois tratados na segunda metade da década de 1820, um comercial fixando</p><p>por 15 anos suas tarifas aduaneiras a 15% ad valorem e outro proibindo o</p><p>comércio negreiro transatlântico três anos após sua ratificação (1827-1830).</p><p>A Câmara dos Deputados explorou o tratado antitráfico em sua campa-</p><p>nha contra D. Pedro I, acusando-o de ceder demais a Londres. Todavia,</p><p>dado o isolamento internacional do Império no assunto, os parlamentares</p><p>descriam da viabilidade de se manter o tráfico negreiro transatlântico após</p><p>12 A bibliografia sobre o assunto é extensa. Ver, entre outros, SILVA, Wlamir. Liberais e povo: a construção</p><p>da hegemonia liberal-moderada na província de Minas Gerais (1830-1834). São Paulo: Hucitec, 2009;</p><p>NEEDELL, 2006; BASILE, Marcello. O Império em construção: projetos de Brasil e ação política na</p><p>Corte imperial. 2004. Tese (Doutorado em História Social) – Instituto de Filosofia e Ciências Sociais,</p><p>Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2004; DOLHNIKOFF, 2005; e MOREL, Marco.</p><p>O período das regências (1831-1840). Rio de Janeiro: J. Zahar, 2003.</p><p>a convenção entrar em vigência e redigiram uma norma mais draconiana</p><p>que o próprio acordo anglo-brasileiro. O regulamento, longe de ser uma</p><p>“lei para inglês ver”, conferiu o status de livres (não de libertos) aos africa-</p><p>nos contrabandeados, previu processo criminal não apenas à tripulação dos</p><p>navios apreendidos, mas a todos aqueles envolvidos no comércio (interme-</p><p>diários, proprietários etc.) e permitiu a qualquer indivíduo delatar desem-</p><p>barques ilegais às autoridades responsáveis, com direito a uma recompensa</p><p>de 33$000 por africano localizado. De 1831 a 1834, os índices do comércio</p><p>negreiro transatlântico para o Brasil bateram em seu nível histórico mais</p><p>baixo desde o final do século XVII.13</p><p>A Lei de 7 de novembro de 1831 criou o enquadramento institucional</p><p>para as ações e para o discurso dos parlamentares e publicistas brasileiros no</p><p>problema do tráfico negreiro transatlântico. Um caso notável é o de Evaristo</p><p>Ferreira da Veiga. Arauto dos moderados na imprensa do Rio de Janeiro, ele</p><p>se convenceu de que “o principal meio a se empregar, para obter a efetiva</p><p>abolição do tráfico, é a persuasão” e se pôs a pregar nas páginas de sua Aurora</p><p>Fluminense os lugares-comuns do antiescravismo britânico. Entendia que o</p><p>comércio de africanos representava grande risco para a estabilidade social</p><p>do país, uma vez que o tornava um “barril de pólvora” em contato com o</p><p>facho da revolta escrava. O papel da Lei de 7 de novembro na formulação</p><p>de seu discurso terrificante é decisivo: “ficando ladinos, e sabendo que têm</p><p>a lei por si, [os africanos importados ilegalmente] podem e hão de para o</p><p>futuro demandá-[la], ou mesmo, para obterem a sua liberdade, recorrerão a</p><p>meios que ameacem a tranquilidade do país, as propriedades, e que até com-</p><p>prometam a obediência do restante da escravatura”. Os artigos de Evaristo</p><p>da Veiga foram acompanhados de perto por decisões contrárias ao tráfico,</p><p>tomadas pela principal agremiação civil da época, a Sociedade Defensora</p><p>da Liberdade e Independência Nacional. Seus membros chegaram a abrir,</p><p>em 1834, um concurso para premiar quem apresentasse “a melhor memória</p><p>analítica acerca do odioso tráfico de escravos africanos”.14</p><p>13 Cf. os dados em THE TRANS-ATLANTIC SLAVE TRADE DATABASE VOYAGE. Atlanta, 2009.</p><p>Disponível em: .</p><p>14 AURORA FLUMINENSE. Rio de Janeiro, 10 mar./7 abr. 1834. As referências a Wilberforce e ao</p><p>movimento abolicionista inglês estão nas edições de 14/05/1834 da Aurora e no Jornal do Commercio</p><p>de 17/01/1834, quando este encampava o projeto dos moderados em suas páginas. Para o quadro</p><p>geral da imprensa moderada, cf. YOUSSEF, Alain El. Imprensa e escravidão: política e tráfico</p><p>negreiro no Império do Brasil (Rio de Janeiro, 1822-1850). 2010. Dissertação (Mestrado em História</p><p>Social) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de Sâo Paulo, São Paulo,</p><p>2010. p. 111-164.</p><p>140 141</p><p>Ocupando posições estratégicas no governo nacional, o moderado</p><p>Diogo Antonio Feijó, padre e fazendeiro de São Paulo, pôde reduzir a atos</p><p>administrativos a palavra antiescravista posta em circulação na imprensa da</p><p>Corte. Como ministro da Justiça, mandou distribuir cartazes com as multas</p><p>e as penas estipuladas pela Lei de 7 de novembro de 1831, a fim de estimu-</p><p>lar os delatores e inibir os contraventores. E redigiu despachos aos juízes de</p><p>paz solicitando-lhes bons olhos de ver e bons ouvidos de ouvir no cerco à</p><p>clandestinidade. Ao vencer as eleições para o cargo de regente, tentou firmar</p><p>com o governo português uma cooperação bilateral para o combate do con-</p><p>trabando. E, por causa dos desfalques que as tarifas aduaneiras rebaixadas a</p><p>15% ad valorem abriam no orçamento imperial, enviou a Londres o marquês</p><p>de Barbacena, autor da Lei de 7 de novembro de 1831, numa missão espe-</p><p>cial para rediscutir com os britânicos o conjunto das barganhas negociadas</p><p>por ocasião do reconhecimento internacional da Independência brasileira.</p><p>Barbacena devia solicitar a revisão para cima dos direitos de entrada no Brasil</p><p>e oferecer em troca um acordo antitráfico mais severo que o vigente. Segundo</p><p>instruções de Feijó, o marquês empregaria “todos os meios a seu alcance [...]</p><p>para que se possa mais efetivamente reprimir no mar o tráfico de africanos”.15</p><p>A despeito do esforço, se não de todos, ao menos dos mais proeminen-</p><p>tes moderados ligados a Feijó na luta contra a introdução de novos africa-</p><p>nos no Brasil, a partir de 1834, se tornou cada vez mais acentuada na Bacia</p><p>do Vale do Paraíba a tendência à rearticulação do comércio negreiro sob</p><p>a forma de contrabando em escala sistêmica. O empenho de Feijó e seus</p><p>aliados mostra, na realidade, que não bastava assumir o governo (Poder</p><p>Executivo) para abafar a pressão escravista pela reabertura do infame</p><p>comércio. Era preciso engajar diversas instâncias do Estado e diferentes</p><p>grupos sociais em uníssono. Mas o arco de alianças que torna concebível e</p><p>realizável uma ação eficaz do Estado dependia da atuação de atores locais</p><p>(políticos, membros da burocracia, homens de grosso trato e proprietários</p><p>15 A distribuição de cartazes está em CONRAD, Robert. Tumbeiros: o tráfico escravista para o Brasil.</p><p>São Paulo: Brasiliense, 1985. p. 95. A tentativa de acordo com Portugal está em MARQUES, João</p><p>Pedro. Os sons do silêncio: o Portugal de oitocentos e a abolição do tráfico de escravos. Lisboa:</p><p>Imprensa de Ciências Sociais, 1999. p. 242-243. Sobre o envio de Barbacena a Londres, BETHELL,</p><p>Leslie. A abolição do comércio brasileiro de escravos: a Grã-Bretanha, o Brasil e a questão do</p><p>comércio de escravos, 1807-1869. Brasília: Senado Federal, 2002. p. 140-145. 1. ed. 1970; e ELLIS JR.,</p><p>Alfredo. Feijó e a primeira metade do século XIX. São Paulo: Cia. Editora Nacional do Livro, 1980. p.</p><p>224-229. Ver também RODRIGUES, Jaime. O infame comércio:</p><p>propostas e experiências no final do</p><p>tráfico de africanos para o Brasil (1800-1850). (Campinas: Ed. Unicamp, 2000. p. 142-164), sobre a</p><p>ineficácia dos juízes de paz para a supressão do contrabando.</p><p>de escravos) e das tendências dos processos globais que o próprio Estado</p><p>brasileiro – que dizer então do governo? – não tinha condições de controlar.</p><p>No plano externo, a reorganização mundial do comércio após o</p><p>Congresso de Viena ocasionou uma guerra fiscal entre os Estados Unidos e</p><p>a Grã-Bretanha que, indiretamente, repercutiu nos interesses escravistas do</p><p>Vale do Paraíba. Na república norte-americana, grupos manufatureiros do</p><p>Norte que desejavam fechar o mercado doméstico à Grã-Bretanha suscita-</p><p>ram uma oposição do sul livre-cambista na década de 1820, produzindo no</p><p>Congresso anos de disputas tarifárias cujo desfecho teve um trágico timing</p><p>com a proibição do tráfico negreiro transatlântico para o Brasil. Sob uma</p><p>intensa pressão política do sul, de 1830 a 1833, os Estados Unidos reduziram</p><p>o direito de entrada sobre a libra do café de 5 centavos de dólar para 2, de 2</p><p>para 1 e, finalmente, de 1 centavo de dólar para a isenção. A tarifa alfandegá-</p><p>ria zerou em março de 1833, depois de atingir, em 1831, um pico de 61% sobre</p><p>o preço do produto. A abertura irrestrita das aduanas tornaria os Estados</p><p>Unidos o maior mercado consumidor de café na economia global, e isso</p><p>teve efeito imediato sobre a atuação dos produtores e negociantes do Vale do</p><p>Paraíba. Outro evento de magnitude no sistema internacional foi o experi-</p><p>mento abolicionista que o Parlamento britânico iniciou com o Emancipation</p><p>Act, de agosto de 1833. Além de intensificar a leitura negativa das conse-</p><p>quências econômicas da emancipação, a lei tornou patente a alguns políticos</p><p>brasileiros que, a partir dali, abolicionistas e colonos do Caribe britânico se</p><p>uniriam no combate ao tráfico negreiro em outros espaços do continente</p><p>americano. Essa frente antiescravista deveria ser contida para que o Brasil</p><p>aproveitasse as oportunidades econômicas que se abriam no mercado livre</p><p>do Atlântico Norte com a reformulação alfandegária dos Estados Unidos e</p><p>com o próprio experimento abolicionista nas Antilhas britânicas.16</p><p>Os processos globais ajudam a entender por que, em 1834 e 1835, os</p><p>moderados de Feijó e Evaristo sentiram no sabor de suas maiores vitórias</p><p>um travo de derrota. Enquanto celebravam o Ato Adicional e a eleição de</p><p>Feijó para o cargo de regente, o tráfico negreiro começou a readquirir sua</p><p>16 MARQUESE, Rafael; PARRON, Tâmis. Internacional escravista: a política da Segunda Escravidão.</p><p>Topoi, Rio de Janeiro, v. 12, n. 23, p. 97-117, jul.-dez. 2011; MARQUESE, Rafael. Estados Unidos,</p><p>Segunda Escravidão e a economia cafeeira do Império do Brasil. Almanack, n. 5, p. 51-60, 1º sem.</p><p>2013; e PARRON, Tâmis, Disputas locais, competições globais: a crise da nulificação e o mercado</p><p>de café e açúcar nos Estados Unidos. In: SEMINARIO INTERNACIONAL: CUBA Y LA PLANTACIÓN</p><p>ESCLAVISTA – EL TERRITÓRIO Y EL PAISAGE SOCIAL, 5., 2013, Habana. Anais... Habana: Fundación</p><p>Antonio Núñez Jiménez de la Naturaleza y el Hombre, 6-9 nov. 2013.</p><p>142 143</p><p>antiga intensidade. No instante em que assumiu o governo, o padre paulista</p><p>começou a perder o controle sobre o Estado que tinha ajudado a reformu-</p><p>lar. A ironia se torna evidente à luz da cruzada encabeçada pelo mineiro</p><p>Bernardo Pereira de Vasconcelos, que, saído das fileiras moderadas, viria</p><p>a liderar, na segunda metade da década, o grupo conhecido por Regresso.</p><p>Astuto orador, o político transformou-se no campeão do comércio de afri-</p><p>canos no plenário da Câmara dos Deputados, acompanhado de perto por</p><p>seu conterrâneo Honório Hermeto Carneiro Leão e pelos aliados fluminen-</p><p>ses Joaquim José Rodrigues Torres e Paulino José Soares de Sousa. Juntos,</p><p>esses homens deram forma ao que se pode chamar de política do tráfico</p><p>negreiro, cujo propósito consistia em reabrir o comércio de escravos sob a</p><p>forma de contrabando em nível sistêmico, escolhendo como alvo a Lei de 7</p><p>de novembro de 1831. Eles elaboraram um discurso legal que previa a revo-</p><p>gação do diploma pelo Parlamento, mas, por conta de pressões domésticas</p><p>e britânicas, adotaram uma linha de atuação que, na prática, suspendeu</p><p>informalmente sua aplicação. No lugar de um instrumento jurídico oficial,</p><p>forjaram um procedimento político oficioso.17</p><p>Os efeitos da manobra não foram pequenos. À semelhança do que</p><p>tinham promovido os moderados, a campanha que resultou na reabertura</p><p>do tráfico negreiro também teve amplo desdobramento nos espaços públi-</p><p>cos do Rio de Janeiro, sobretudo no que diz respeito à imprensa. Enquanto</p><p>Vasconcelos emitia discursos no Parlamento, seu jornal, O Sete d’Abril,</p><p>publicava uma série de textos abertamente escravistas.18 Um deles, de 1º</p><p>de agosto de 1835, resumiu a plataforma dos regressistas, estampando com</p><p>todas as letras que a escravidão “era acomodada aos nossos costumes, con-</p><p>veniente aos nossos interesses e incontestavelmente proveitosa aos mesmos</p><p>africanos, que melhoravam de condição”. A abolição do comércio de cativos</p><p>não deveria, portanto, ser “objeto de lei, mas que devia se deixar ao tempo</p><p>e ao progresso do país”.19</p><p>A atuação na imprensa e no Parlamento ajudou a selar os interesses dos</p><p>cafeicultores e de outros atores econômicos da Bacia do Vale do Paraíba aos</p><p>dos políticos do Regresso. Em meados da década de 1830, quando o Brasil</p><p>se tornou o maior produtor mundial de café com uma safra anual superior a</p><p>17 PARRON, Tâmis. A política da escravidão no Império do Brasil, 1826-1865. Rio de Janeiro: Civilização</p><p>Brasileira, 2011. p. 121-178.</p><p>18 YOUSSEF, 2010, p. 165-187.</p><p>19 O SETE D’ABRIL, 1 ago. 1835.</p><p>70 mil toneladas métricas,20 muitas câmaras municipais enviaram petições</p><p>ao Parlamento solicitando a revogação da Lei de 1831, em clara sintonia com</p><p>o grupo liderado por Vasconcelos. A grande maioria das vilas peticionárias</p><p>se localizava nas áreas articuladas à produção cafeeira no Vale do Paraíba:</p><p>Areias, Bananal, Mangaratiba, Resende, Barra Mansa, Vassouras, Valença,</p><p>Paraíba do Sul e Vila do Presídio. Quando as representações chegavam à</p><p>Câmara, representantes do Regresso costumavam aproveitar o ensejo para</p><p>defender a revogação da Lei de 7 de novembro de 1831, fazendo, assim, com</p><p>que a notícia fosse espalhada pelos proprietários do Vale e incitasse-os a</p><p>peticionarem novamente ao Parlamento. O grau de coesão entre regressis-</p><p>tas e cafeicultores em particular pode ser visto no fato de uma curiosa peti-</p><p>ção da Câmara Municipal de Vila de Valença ser publicada na edição de 13</p><p>de julho de 1836 de O Sete d’Abril. O texto prometia “rebelião e formal deso-</p><p>bediência” dos senhores em caso de cumprimento da legislação antitráfico</p><p>pelo Estado. Ao publicá-la em seu jornal, Vasconcelos divulgou um projeto</p><p>senhorial que delimitava o raio de ação tolerável do Estado.21</p><p>Os membros do Regresso também teceram alianças com notabilidades</p><p>políticas das províncias açucareiras da Bahia e de Pernambuco. Desde pelo</p><p>menos 1837, o baiano Francisco Gonçalves Martins e os pernambucanos</p><p>Francisco do Rego Barros e Pedro de Araújo Lima – o último viria a se</p><p>tornar regente após a renúncia de Feijó – engrossaram o coro regressista na</p><p>Câmara dos Deputados,22 tornando-se fundamentais para a formação de</p><p>uma maioria parlamentar em prol do tráfico negreiro.</p><p>As alianças entre os parlamentares do Regresso e, em especial, os ato-</p><p>res da Bacia do Vale do Paraíba coincidiram com o aumento explosivo do</p><p>volume do tráfico negreiro transatlântico para o Brasil. Se, de 1831 a 1834,</p><p>entraram no país pouco mais de 46 mil cativos (média anual de 11 mil e</p><p>quinhentos), apenas no ano de 1835 cerca de 37 mil africanos ingressaram de</p><p>forma ilegal no país, a grande maioria deles (30 mil) na região sudeste, onde</p><p>irrigaram o coração da economia exportadora brasileira. Em 1836, o tráfico</p><p>entrou na casa dos 50 mil e aí permaneceu nos anos seguintes. É importante</p><p>atentar para a cronologia: não foi o governo do Regresso, iniciado</p><p>apenas</p><p>20 MARQUESE, Rafael; TOMICH, Dale. O Vale do Paraíba escravista e a formação do mercado mundial</p><p>do café no século XIX. In: GRINBERG, Keila; SALLES, Ricardo. O Império do Brasil (1808-1889): 1831-</p><p>1870. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009. v. II, p. 339-374.</p><p>21 PARRON, 2011, p. 163-171; e YOUSSEF, 2010, p. 168-187. Cf. O SETE D’ABRIL, 13 jul. 1836.</p><p>22 NEEDELL, 2006, p. 68-69.</p><p>144 145</p><p>em setembro de 1837, que reabriu o tráfico negreiro transatlântico sob a</p><p>forma de contrabando sistêmico. A retomada do infame comércio começou</p><p>de baixo para cima: penetrando primeiro nas instâncias inferiores da polí-</p><p>cia e do Judiciário, passando depois às Câmaras Municipais e, por fim, che-</p><p>gando às Assembleias Legislativas Provinciais e ao próprio Parlamento. O</p><p>Regresso assumiu o Executivo sendo ao mesmo tempo vetor e efeito dessa</p><p>força e, uma vez aboletado no poder, definiu em favor do tráfico a posição</p><p>do governo imperial, garantindo a segurança jurídica da propriedade ilegal.</p><p>A ação dos regressistas, ao lado de uma guinada imperialista da diplomacia</p><p>britânica a partir de 1839 que não cabe analisar neste espaço, contribuiu</p><p>para que, na década seguinte, a defesa do contrabando se tornasse uma</p><p>espécie de consenso suprapartidário.23</p><p>Em síntese, a entrada clandestina no Brasil dos africanos escravizados</p><p>conformou não apenas a reprodução ampliada da agroexportação escravista</p><p>por algumas décadas, provendo aos proprietários a mão de obra de que care-</p><p>ciam para montar novas fazendas ou aumentar as antigas. Forneceu também</p><p>capital político aos regressistas, ligando a trajetória de seus líderes aos interes-</p><p>ses de uma base social bem definida na Bacia do Vale do Paraíba do Sul, aqui</p><p>entendida como o complexo composto pelo norte açucareiro fluminense,</p><p>pelo curso médio do Vale do Paraíba dedicado à cafeicultura, pelas linhas do</p><p>mercado interno entre a Corte e o sul de Minas Gerais e pela praça mercantil</p><p>do Rio de Janeiro.24 Essa união trouxe benefícios aos proprietários da região</p><p>e à liderança do Regresso. Para os agentes da esfera econômica, ela conteve a</p><p>pressão britânica até a destruição definitiva do tráfico negreiro transatlântico</p><p>(1850), consagrou a legitimação da propriedade ilegal e garantiu a estabilidade</p><p>da escravidão até a promulgação da Lei do Ventre Livre (1871). Aos atores do</p><p>mundo político, rendeu o apoio necessário para que tocassem adiante uma</p><p>concepção particular de Estado. Cumpre ver agora como um grupo gestado</p><p>no interior da Bacia do Vale do Paraíba interferiu na dinâmica política de</p><p>outras regiões do Brasil. Como o Vale se tornou um Vale expandido.</p><p>23 Os dados do tráfico negreiro foram retirados de . Propondo outra visão do</p><p>problema, Jeffrey Needell escreveu: “Alguns acusam o apenas o partido reacionário pelo apoio a tal</p><p>comércio [contrabando negreiro]. As estatísticas mostram, contudo, que ele começou sob Feijó e</p><p>floresceu por todo o Quinquênio Liberal [1844-1848]. Os estadistas de ambos os partidos concordavam</p><p>com o óbvio – sem escravidão, nada de economia”. NEDELL, 2006, p. 120. Tal interpretação só é</p><p>sustentável se for suposto que o controle do governo coincide com o controle do Estado.</p><p>24 Definição baseada em MATTOS, 2004, p. 45-113; e SALLES, 2008.</p><p>regresso e estado</p><p>De 1824 a 1841, a monarquia brasileira não possuía um aparelho oficial</p><p>capaz de controlar as eleições em nível nacional. Como não havia justiça</p><p>eleitoral, isto é, uma instância dedicada ao assunto que fosse apartada dos</p><p>demais ramos administrativos do Estado, o processo de organização, apu-</p><p>ração e supervisão do sufrágio cabia a uma série de autoridades inespecífi-</p><p>cas. Uma das mais importantes era a figura do juiz de paz. Segundo uma lei</p><p>ordinária de 1827 e o Código de Processo Criminal (1832), o juiz de paz era</p><p>um cargo eleito nas paróquias que agregava funções hoje tidas como poli-</p><p>ciais (vigilância da ordem pública), pré-processuais (inquérito e exame de</p><p>corpo de delito), processuais (apresentação de denúncia) e eleitorais (qua-</p><p>lificação dos cidadãos em não-votantes, votantes e eleitores). Os parlamen-</p><p>tares que lhe deram poderes tão dilatados provinham da oposição formada</p><p>no I Reinado, a qual receava investidas abusivas de um Estado centralista</p><p>(conforme a Carta de 1824) dirigido por um suposto tirano (D. Pedro I).</p><p>Os textos legais que aprovaram ainda investiram os munícipes de poderes</p><p>na nomeação dos juízes de órfãos, dos juízes municipais e dos promotores,</p><p>bem como ampliaram as atribuições do júri, autorizando-o a formalizar</p><p>ou a barrar aberturas de processo.25 Nessa configuração, as eleições parla-</p><p>mentares dependeram, em parte, da atuação do juiz de paz, blindado na</p><p>paróquia contra as ordens do Executivo.</p><p>A reforma constitucional de 1834, conhecida como Ato Adicional, alte-</p><p>rou o quadro jurídico-político que fortalecera as localidades. Como os par-</p><p>lamentares pareciam ter perdido o controle social (segundo alegavam) e</p><p>eleitoral nas localidades, conseguiram consagrar no Ato Adicional uma fór-</p><p>mula que, sem deixar de tolher o governo central, esvaziou também o poder</p><p>municipal. Um de seus principais aspectos foi a instituição das Assembleias</p><p>Legislativas Provinciais, que podiam criar ou suprimir postos do Judiciário,</p><p>à exceção do de desembargador (art. 10º,§7º). Valendo-se do expediente,</p><p>algumas províncias (São Paulo, Pernambuco, Ceará, Sergipe, Paraíba do</p><p>Norte e Maranhão) transferiram atribuições do juiz de paz à figura do pre-</p><p>feito, cargo por elas inventado e cujo ocupante era designado pelo presi-</p><p>dente de província, o qual, mesmo sendo preposto do Executivo, agia sob</p><p>consulta das Assembleias Legislativas Provinciais. Pela perspectiva local, o</p><p>25 FIGUEIRAS JR., Araújo. Código do processo do Império do Brasil. Rio de Janeiro: Laemmert, 1874. p.</p><p>162-231.</p><p>146 147</p><p>controle dos recursos estratégicos passava da paróquia para as províncias.</p><p>O Ato centralizava. Na ótica da Corte, o centro tolerava que as periferias</p><p>redefinissem o júri, os juízes municipais, os promotores e, encaminhando o</p><p>problema do juizado de paz, regulassem a seu modo o tempo de serviço, as</p><p>competências e os critérios de remoção dos prefeitos. O Ato fragmentava.26</p><p>De 1835 a 1841, a paulatina diversidade provincial do Judiciário deu o que</p><p>pensar aos deputados e senadores do Império do Brasil. Durante os embates</p><p>parlamentares que então se travaram, os líderes do Regresso formularam</p><p>uma saída que aparentava destinar-se somente à administração racional do</p><p>bem comum. Propuseram uniformizar e centralizar o aparelho judiciário,</p><p>passando seu controle dos níveis local e provincial para o nacional. Em seus</p><p>discursos, argumentavam que as alterações judiciais efetuadas por algumas</p><p>Assembleias tornavam o país pouco administrável; e que os poderes dos juí-</p><p>zes de paz nas províncias que os mantinham intactos impediam a aplica-</p><p>ção imparcial da lei, pondo em risco a ordem social e a unidade territorial</p><p>do país, principalmente nos casos em que se devia julgar os implicados em</p><p>revoltas regionais. Criminalidade, punição de separatistas e administração</p><p>pública foram os valores substanciais de suas falas parlamentares.27</p><p>A defesa do contrabando negreiro também pode tê-los ajudado a fazer</p><p>ser aceito o novo arcabouço institucional de um Judiciário centralizado.</p><p>Como o conjunto das reformas conservadoras tinha por fim esvaziar os</p><p>poderes das autoridades locais, justamente daquelas cujo consentimento</p><p>tinha sido crucial para a retomada inicial do tráfico negreiro em larga</p><p>escala, a defesa do infame comércio que os líderes do Regresso encampa-</p><p>ram a partir de 1836 parece ter cumprido um papel político obscuro, o de</p><p>oferecer ao eleitorado da Bacia do Vale do Paraíba e de outros enclaves de</p><p>plantation do Império a fiança de que a centralização do regramento da</p><p>conduta poderia atingir diversas ações sociais, menos a dos envolvidos no</p><p>contrabando. Os efeitos práticos do projeto que os regressistas propuseram</p><p>não se esgotavam na questão do tráfico ilegal nem</p><p>possuíam a neutralidade</p><p>que suas falas parlamentares davam a entender, como se percebe na aná-</p><p>lise das reformas propriamente ditas. Em 1840, os regressistas aprovaram</p><p>uma lei de “Interpretação do Ato Adicional”, com a qual modificaram o §</p><p>26 FLORY, Thomas. Judge and jury in imperial Brazil, 1808-1871: social control and political stability</p><p>in the new State. Texas: University of Texas Press, 1981. p. 28-84, 158-163; e DOLHNIKOFF, 2005, p.</p><p>97-100.</p><p>27 FLORY, op. cit., p. 28-84; e NEEDELL, 2006, p. 73-116.</p><p>7º do art. 10º do Ato, proibindo que as províncias redefinissem funções de</p><p>agentes previstos por Lei Geral (como a de 1827 e o Código do Processo a</p><p>respeito do juiz de paz). No ano seguinte, procederam à reforma do Código</p><p>de Processo Criminal, chamada na época de Lei de 3 de dezembro de 1841.</p><p>Resumido a seu teor central, o texto depositou as funções policiais, pré-pro-</p><p>cessuais e processuais do juizado de paz – aquelas que tinham sido transfe-</p><p>ridas aos prefeitos em algumas províncias, o que agora era considerado irre-</p><p>gular – para os novos cargos de delegado e de subdelegado, nomeados ou</p><p>pelos presidentes de província ou, para driblar demandas das Assembleias</p><p>Legislativas Provinciais, pelo governo central. Também incluiu o comissá-</p><p>rio fardado na mesa eleitoral responsável pela qualificação dos cidadãos</p><p>em não-votantes, votantes e eleitores; colocou as posições da magistratura</p><p>togada (promotores, juízes municipais, juízes de órfãos e juízes de direito)</p><p>à mercê do bico de pena dos ministros da Justiça e do Império, que os</p><p>podiam remover com relativa liberdade; e criou o cargo de chefe de polí-</p><p>cia para cada província, que, designado pelo Executivo, deteve o controle</p><p>de inúmeros postos menores, como inspetores de quarteirão, carcereiros,</p><p>amanuenses, escrivães de paz etc.28</p><p>Os regressistas tinham prometido uniformizar o Judiciário, e assim fize-</p><p>ram. Embora a historiografia consensualmente identifique a Interpretação</p><p>do Ato Adicional e a reforma do Código de Processo Criminal como obras</p><p>do Regresso, não há um único entendimento sobre o sentido que elas</p><p>adquiriram. José Murilo de Carvalho e Ilmar Rohloff de Mattos, a despeito</p><p>de suas diferenças metodológicas e teóricas, partilharam a leitura de que as</p><p>reformas conservadoras efetuaram uma centralização judiciária, adminis-</p><p>trativa e política que selou a unidade do país quando as revoltas regionais</p><p>ameaçavam despedaçá-lo. Essa visão, que em linhas gerais provém do pró-</p><p>prio século XIX, foi contestada por Miriam Dolhnikoff. Em O pacto impe-</p><p>rial, a historiadora definiu o Ato Adicional como um arranjo federativo</p><p>que se tornou o maior fator isolado na preservação da unidade nacional</p><p>brasileira e argumentou que as leis do Regresso não expressavam uma con-</p><p>cepção particular de Estado nem “atacava[m] o cerne do pacto federativo”.29</p><p>Representaram apenas uma remodelação, desejada pela virtual totalidade</p><p>dos parlamentares, de um ramo específico do Estado, o Judiciário.</p><p>28 FIGUEIRAS JR., 1874. p. 162-231; e GRAHAM, Richard. Clientelismo e política no Brasil do século XIX.</p><p>Rio de Janeiro: Ed. UFRJ, 1997. p. 82-100. 1. ed. 1990.</p><p>29 DOLHNIKOFF, 2005, p. 131.</p><p>148 149</p><p>Correta em alguns aspectos, a análise de Dolhnikoff subestima o fun-</p><p>damento social das mudanças institucionais, esvaziando as diferentes con-</p><p>cepções de Estado dos atores do tempo e desatendendo a base econômica</p><p>do processo histórico subjacente à aprovação e à manutenção das leis do</p><p>Regresso. Sua leitura não leva em conta que, na ausência de uma justiça</p><p>eleitoral autônoma, instituída apenas na década de 1930, o desenho do</p><p>Judiciário modelava a dinâmica político-partidária no país. Isto é, se os</p><p>conservadores tinham prometido uniformizar o Judiciário, e assim o fize-</p><p>ram, os efeitos de sua ação extrapolaram em muito essa esfera específica do</p><p>Estado. Dotando o governo central de centenas de cargos que podiam ser</p><p>oferecidos às localidades como moeda de troca por apoio eleitoral – como</p><p>os de delegado e subdelegado, que controlavam os recursos estratégicos da</p><p>vida local –, a Lei de 3 de dezembro de 1841 deu ao Executivo influência</p><p>inédita sobre o resultado dos pleitos para a Câmara dos Deputados.30</p><p>Se a face mais evidente e propagandeada do Judiciário centralizado</p><p>era seu papel ordenador na luta contra a anarquia regencial, os próceres</p><p>do Regresso não deixaram de confessar sua importância na construção dos</p><p>partidos e na condução das eleições nacionais. Uma das mais explícitas</p><p>dessas defesas se encontra num pedido de demissão coletiva que o famoso</p><p>Ministério de 29 de setembro de 1848 – aquele que abrigaria a trindade saqua-</p><p>rema – apresentou a D. Pedro II em 1851. A motivação do gesto foi a desinte-</p><p>ligência entre a Coroa e os ministros no assunto da interferência do governo</p><p>central sobre as eleições para a Câmara dos Deputados. O Imperador dese-</p><p>java cercear as nomeações partidárias para cargos não políticos, possibilita-</p><p>das sobretudo pela Lei de 3 de dezembro de 1841. Por decoro, os signatários</p><p>elogiaram em abstrato sua iniciativa: “Não fazer das mercês, dos empregos</p><p>e das recompensas devidas aos servidores do Estado unicamente moeda</p><p>30 A primeira pesquisa a acusar isso talvez tenha sido a de Thomas Flory, cujas observações ganharam</p><p>desdobramentos nos estudos focados na arena política nacional – de Roderick Barman, Richard</p><p>Graham e Jeffrey Needell –, bem como nos que identificaram o impacto das nomeações do governo</p><p>central sobre a dinâmica política regional – de Judy Bieber, Jeffrey Mosher, Marcus Carvalho. Para</p><p>as referências, ver nota 10 e ainda BARMAN, Roderick J. Brazil: the forging of a nation, 1798-1852.</p><p>Stanford: Stanford University Press, 1988; BIEBER, Judy. Power, patronage, and political violence: state</p><p>building on a Brazilian frontier, 1822-1889. Nebraska: University of Nebraska Press, 1999; MOSHER,</p><p>Jeffrey. Political struggle, ideology and state building: Pernambuco and the construction of Brazil, 1817-</p><p>1850. Nebraska: University of Nebraska Press, 2008; CARVALHO, Marcus J. M. Os nomes da revolução:</p><p>lideranças populares na Insurreição Praieira, Recife, 1848-1849. Revista Brasileira de História, São</p><p>Paulo: Anpuh, v. 23, n. 45, p. 209-238, jul. 2003; e CARVALHO, Marcus J. M.; CÂMARA, Bruno</p><p>Dornelas. A Rebelião Praieira. In: DANTAS, Monica Duarte (Org.). Revoltas, motins, revoluções:</p><p>homens livres pobres e libertos no Brasil do século XIX. São Paulo: Alameda, 2011. p. 355-389.</p><p>eleitoral” era um preceito ético incontestável. Todavia, alegando não poder</p><p>abrir mão do recurso, explicaram como entendiam a relação entre o rodí-</p><p>zio partidário no governo, a ciranda nas nomeações para diferentes cargos</p><p>públicos e a construção das fidelidades partidárias no Brasil:</p><p>Há em todos os partidos muitos homens que os seguem, não por convicções e</p><p>princípios, mas por paixão ou conveniência. Era natural que esperassem que,</p><p>quando o seu subisse ao poder, os tratasse com a mesma largueza com que seus</p><p>adversários tinham tratado os seus. [...] Os denominados saquaremas, sobre</p><p>os quais unicamente podia apoiar-se o ministério, alguns pelo natural desejo</p><p>de vingança, outros pelo de verem consolidado o domínio de suas ideias,</p><p>outros por quererem recuperar as posições que ocupavam, saudavam o dia</p><p>29 de setembro de 1848 com grandes esperanças. Não faltou quem esperasse</p><p>e reclamasse uma inversão nas posições oficiais igual àquela que havia feito o</p><p>Ministério de 2 de Fevereiro [de 1844, do Partido Liberal]. Muitos que durante</p><p>essa administração e as subsequentes haviam perdido emprego e posição, as</p><p>reclamavam como indenizações. [...] Se não satisfizesse essas exigências, [o</p><p>ministério] descontentaria aqueles de quem unicamente podia esperar apoio</p><p>e daria assim força aos seus adversários.31</p><p>A defesa do sistema político-eleitoral pós-1841 não permaneceu oculta</p><p>nos escaninhos da administração imperial. Quando foi combatido na</p><p>década de 1850, o esquema recebeu apoio na imprensa. Num artigo de 1853</p><p>publicado no Velho Brasil, Justiniano José</p><p>da Rocha mimetizou, em tom</p><p>satírico, o discurso que a oposição liberal vazou depois de uma vitória elei-</p><p>toral do Executivo: “nessas eleições interveio o governo [...]; houve uma</p><p>completa invasão do Poder Executivo na eleição que é do povo”. Mas per-</p><p>guntou: “O que é o governo entre nós” no discurso da oposição? Concluiu</p><p>que não eram apenas “os seis ministros e os dezoito presidentes de pro-</p><p>víncia”, isto é, cargos previstos na Constituição, mas também “um subde-</p><p>legado, um inspetor de quarteirão” etc., ou seja, postos regulados pela Lei</p><p>de 3 de dezembro de 1841. Era aceitável que tais cidadãos, “que estão nas</p><p>posições oficiais”, exercessem “cada qual a sua influência”, desde que “dentro</p><p>dos limites imprescritíveis da legalidade”, o que excluía a força física. O que</p><p>“o partido ministerial fez para vencer as eleições” foi “o mesmo que fez a</p><p>oposição: combinou chapas, candidatos, eleitores, reuniu suas influências</p><p>31 VIANNA, Hélio. O pedido de exoneração coletiva do Ministério de 29 de setembro de 1848. In: ___.</p><p>Vultos do Império. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1968. p. 145-153. Assinaram o documento:</p><p>Visconde de Monte Alegre, Eusébio de Queirós, Joaquim José Rodrigues Torres, Paulino José Soares</p><p>de Sousa, Manuel Felizardo de Souza e Melo e Manuel Vieira Tosta, em 15 de novembro de 1851.</p><p>Como se sabe, os regressistas foram apodados de saquaremas a partir da década de 1840.</p><p>150 151</p><p>[nomeações], concentrou seus esforços: a diferença única é que esta foi</p><p>vencida, aquele vencedor”. O que o articulista não esclareceu é por que o</p><p>governo central foi – e sempre tinha sido desde 1841 – triunfante nas elei-</p><p>ções para a Câmara dos Deputados. A resposta veio, surpreendentemente,</p><p>numa obra de doutrina jurídica.32</p><p>Em 1862, na esteira da discussão sobre o sistema representativo no</p><p>Brasil que a política da Conciliação ajudou a despertar, Paulino José Soares</p><p>de Sousa, então visconde de Uruguai, publicou seu aclamado Ensaio sobre</p><p>o direito administrativo. Entre as várias questões que abordou ali, Paulino</p><p>defendeu as implicações eleitorais da reforma judiciária que os saquaremas</p><p>tinham composto em 1841:</p><p>A lei de Interpretação do Ato Adicional e a de 3 de dezembro de 1841 modifi-</p><p>caram profundamente esse estado de coisas. Pode por meio delas ser montado</p><p>um partido, mas pode também ser desmontado quando abuse. Se é o governo</p><p>que monta, terá contra si, em todo império, todo o lado contrário. Abrir-se-á</p><p>então uma luta vasta e larga, porque terá de se basear em princípios, e não</p><p>a luta mesquinha, odienta, mais perseguidora, das localidades. E, se a opi-</p><p>nião contrária subir ao poder, encontrará na legislação meios de governar. Se,</p><p>quando o Partido Liberal dominou o poder no Ministério de 2 de fevereiro de</p><p>1844, não tivesse achado a lei de 3 de dezembro de 1841 [...] ou teria caído logo</p><p>ou teria saltado por cima das leis.33</p><p>No passo, Paulino repertoriou os argumentos favoráveis ao uso político</p><p>das nomeações que o governo central fazia para os postos judiciários, poli-</p><p>ciais e conexos previstos na reforma do Código de Processo: a) arrancava</p><p>as disputas políticas à lógica local (o antigo “estado de coisas”), vista como</p><p>desprovida de espírito de grandeza; b) forjavam meios institucionais para</p><p>a aliança político-partidária, em nível nacional, dos diversos grupos espa-</p><p>lhados nas províncias; c) dava à relação entre o Executivo e o Parlamento</p><p>maior governabilidade; d) prevenia o uso de meios coativos para a obtenção</p><p>de resultados eleitorais favoráveis ao governo. O controle eleitoral resul-</p><p>tante do quadro judiciário do Império não é visto como abuso, distorção do</p><p>32 ROCHA, Justiniano J. da. A eleição e a câmara. O Velho Brazil, Rio de Janeiro: Typographia</p><p>Americana de Justiniano José da Rocha, v. XIII, n. 1.688, p. 2-3, 2 jul. 1853. Para uma síntese das</p><p>reformas conservadoras, suas relações com Justiniano e seu efeito sobre o debate político brasileiro</p><p>nas décadas de 1850 e 1860, PARRON, Tâmis. O Império num panfleto? Justiniano e a formação do</p><p>Estado no Brasil do século XIX. In: ROCHA, Justiniano José da. Ação; reação; transação e seus textos.</p><p>São Paulo: Edusp. No prelo.</p><p>33 URUGUAI, Visconde de. Ensaio sobre o direito administrativo. In: CARVALHO, José Murilo de</p><p>(Org.). Visconde do Uruguai. São Paulo: Ed. 34, 1999. Cap. XXX, § 8, p. 465-466.</p><p>sistema. É sua parte integrante. Como escreveu Paulino, “eleição livre, par-</p><p>lamento independente, em linguagem parlamentar, quer dizer eleição nossa</p><p>e dos nossos amigos; parlamento composto de nós e dos nossos amigos”.34 É</p><p>forte sua descrença na autonomia das urnas.</p><p>O sistema que os homens do Regresso inventaram possuía um aspecto</p><p>delicado e controverso, ao menos para um partido que blasonava de defen-</p><p>sor da Constituição de 1824. A oposição não conseguiria vencer o governo</p><p>nas eleições nacionais nem construir robustas minorias no Parlamento.</p><p>A roda do poder travava. Nesse quadro, o Poder Moderador acabaria por</p><p>adquirir um sentido novo. Segundo a Constituição de 1824, ele possuía uma</p><p>série de competências, entre as quais a de ser acionado para resolver fric-</p><p>ções insuperáveis entre o Legislativo e o Executivo: velaria “sobre a manu-</p><p>tenção da independência, equilíbrio e harmonia dos mais poderes políticos</p><p>[Executivo, Legislativo, Judiciário]” (art. 98). Quando houvesse um impasse</p><p>entre o gabinete e o Parlamento, restava ao Imperador demitir e renomear</p><p>“livremente os ministros de Estado”. Ele também podia dissolver “a Câmara</p><p>dos Deputados”, mas só “nos casos em que o exigir a salvação do Estado”</p><p>(art. 101, incisos VI e IV). Os termos são claros: a troca ministerial era livre;</p><p>a dissolução da Câmara, excepcional.</p><p>O modelo institucional que os saquaremas desenharam alterou o sen-</p><p>tido dos artigos 98 e 101 da Constituição imperial. Se o Moderador nomeava</p><p>o ministério e os ministros encaminhavam as eleições parlamentares, ele</p><p>não atendia à sua finalidade de velar “sobre a manutenção da independên-</p><p>cia” entre os três poderes. Além disso, o fim do rodízio partidário na Câmara</p><p>dos Deputados mediante eleições exigia que ele trocasse os ministros e dis-</p><p>solvesse a Câmara para que o novo Executivo tivesse um Parlamento de</p><p>sua cor política. O Poder Moderador tinha de gozar uma ampla liberdade,</p><p>não prevista na Constituição, para que as dissoluções fossem instrumento</p><p>rotineiro de alternância partidária no poder, e não recurso de “salvação do</p><p>Estado”. De súbito, D. Pedro II se viu sujeito a uma restrição e a uma ampli-</p><p>tude inéditas de suas competências políticas. Restrição porque foi prejudi-</p><p>cado no respeito à finalidade constitucional do Moderador, a preservação</p><p>da independência dos três poderes. Amplitude porque usaria um recurso</p><p>constitucional (a dissolução da Câmara) de modo inconstitucional (rotinei-</p><p>ramente, a fim de atender à alternância partidária no governo). A regra pode</p><p>conter exceções, mas será esta: sempre que um saquarema pede autonomia</p><p>34 URUGUAI, 1999. p. 410-411.</p><p>152 153</p><p>absoluta para o Poder Moderador, sub-repticiamente está pedindo auto-</p><p>nomia absoluta para suas nomeações partidárias e para a fabricação das</p><p>eleições nacionais. Numa conhecida passagem de seu livro, Ilmar Mattos</p><p>afirmou que os saquaremas “forjaram a Coroa em Partido”.35 Talvez fosse</p><p>possível dizer que eles, na verdade, forjaram uma Coroa para os partidos,</p><p>como requeria a Lei de 3 de dezembro de 1841.</p><p>O argumento exposto nas páginas precedentes possui implicações his-</p><p>toriográficas. A imagem de que o Estado imperial possuía um sistema elei-</p><p>toral pouco aberto a pleitos competitivos por causa da oferta de cargos pode</p><p>remeter à interpretação que Richard Graham elaborou em Patronage and</p><p>politics in nineteenth-century Brazil (1990). Baseado numa cuidadosa investi-</p><p>gação documental, o historiador atribuiu o emperramento da máquina elei-</p><p>toral do Império ao clientelismo, fenômeno que ele define em níveis coinci-</p><p>dentes com os do sistema eleitoral brasileiro da época: no chão da vida local,</p><p>designa a proteção social a votantes</p><p>Gervase Clarence-Smith e Steven</p><p>Topik, The Global Coffee Economy in Africa, Asia, and Latin América, 1500-1989 (Cambridge,</p><p>UK: Cambridge University Press, 2003. p. 411-62). Os dados referentes aos valores relativos das</p><p>exportações brasileiras podem ser vistos em PINTO, Virgílio Noya. Balanço das transformações</p><p>econômicas no século XIX. In: MOTA, C. G. Brasil em perspectiva. São Paulo: Difusão Européia do</p><p>Livro, 1968. p. 152; e CANABRAVA, Alice P. A grande lavoura. In; ___. História Econômica: estudos e</p><p>perspectivas. São Paulo: ABPHE: Hucitec: Ed. Unesp, 2005. p. 166. 1. ed. 1971.</p><p>4 Cf. DEAN, Warren. A ferro e fogo: a história e a devastação da Mata Atlântica Brasileira. São Paulo:</p><p>Companhia das Letras, 1996. p. 195.</p><p>5 Cf. TOPIK, Steven. The Integration of the World Coffee Market. In: CLARENCE-SMITH, W. G.;</p><p>TOPIK, S. (Org.). The Global Coffee Economy in Africa, Asia, and Latin América, 1500-1989, p. 21-49.</p><p>à crise da mineração e à retomada das atividades agroexportadoras na</p><p>virada do século XVIII para o XIX. De acordo com essa interpretação, o</p><p>café, plenamente adequado às condições naturais do centro-sul do Brasil</p><p>(terras virgens, clima, altitude, proximidade dos portos litorâneos), come-</p><p>çou a ser produzido em larga escala no momento que a demanda mundial</p><p>aumentou, após a revolução escrava de Saint-Domingue e o arranque da</p><p>industrialização nos países centrais, mobilizando, para tanto, os recursos</p><p>ociosos – capitais e escravos – derivados da crise da mineração.6 Em que</p><p>pesem as variações de ênfase, todos esses estudos se prenderam ao que</p><p>Stuart Schwartz denominou como o “paradigma dependentista” de análise</p><p>do passado colonial brasileiro, ou seja, um modelo de interpretação que</p><p>ressaltava seu caráter escravista, agroexportador, voltado para a geração de</p><p>riquezas nos centros da economia mundial capitalista.7</p><p>Os esforços de revisão desse modelo promovidos a partir da década</p><p>de 1970, aliados à verificação empírica de que o estoque de mão de obra</p><p>escrava empregada nos primeiros cafezais não era aquele das antigas zonas</p><p>de mineração, levou alguns historiadores a modificarem as lentes utilizadas</p><p>para a análise da formação da cafeicultura brasileira. O foco, agora, passou</p><p>a incidir sobre a dinâmica societária local. Um bom exemplo dessa perspec-</p><p>tiva é o trabalho de João Fragoso.8 Com base na constatação de que a expan-</p><p>são definitiva da produção escravista de café do Vale do Paraíba ocorreu em</p><p>uma conjuntura de queda nos preços internacionais do artigo (1822-1830),</p><p>Fragoso voltou sua análise para as formas de produção e de circulação</p><p>6 Ver, a propósito, os trabalhos clássicos de SIMONSEN, Roberto. Aspectos da História econômica</p><p>do café. Separata de: Revista do Arquivo, São Paulo, 1940; PRADO JR., Caio. História econômica do</p><p>Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1985. p.159-167. 1. ed. 1945; STEIN, Stanley J. Vassouras: um município</p><p>brasileiro do café, 1850-1900. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1990. 1. ed. 1957; FURTADO, Celso.</p><p>Formação econômica do Brasil. Rio de Janeiro: Companhia Editora Nacional, 1974. p. 110-116. 1. ed.</p><p>1959; VALVERDE, Orlando. A fazenda de café escravocrata no Brasil. In: ___. Estudos de geografia</p><p>agrária brasileira. Petrópolis: Vozes, 1985. 1. ed. 1965; COSTA, Emília Viotti da. Da senzala à colônia.</p><p>São Paulo: Brasiliense, 1989. 1. ed. 1966; CANABRAVA, Alice P. A grande lavoura.</p><p>7 Cf. SCHWARTZ, Stuart B. Da América portuguesa ao Brasil: estudos históricos. Lisboa: Difel, 2003.</p><p>8 Cf. FRAGOSO, João. Comerciantes, fazendeiros e formas de acumulação em uma economia escravista-</p><p>colonial: Rio de Janeiro, 1790-1888. 1990. 3 v. Tese (Doutorado em História) – Instituto de Ciências</p><p>Humanas e Filosofia, Universidade Federal Fluminense, Niterói, 1990; FRAGOSO, João Luís Ribeiro.</p><p>Homens de grossa aventura: acumulação e hierarquia na praça mercantil do Rio de Janeiro (1790-</p><p>1830). Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 1992; FRAGOSO, João; FLORENTINO, Manolo. O arcaísmo</p><p>como projeto: mercado atlântico, sociedade agrária e elite mercantil em uma economia colonial</p><p>tardia – Rio de Janeiro (c.1790-c.1840). Ed. rev. e ampl. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001;</p><p>FRAGOSO, João. Barões do café e o sistema agrário escravista: Paraíba do Sul / Rio de Janeiro (1830-</p><p>1888). Rio de Janeiro: 7Letras, 2013.</p><p>24 25</p><p>articuladas em torno da praça mercantil do Rio de Janeiro. Configurando</p><p>um “mosaico de formas não-capitalistas de produção”, elas teriam permi-</p><p>tido a acumulação de capitais nas mãos dos grandes negociantes residentes</p><p>no Rio de Janeiro, que monopolizavam o tráfico negreiro transatlântico e</p><p>operavam no mercado interno. Esses capitais, por sua vez, teriam sido rein-</p><p>vestidos em larga escala na produção escravista em zonas de fronteira, a</p><p>despeito de sua lucratividade menor em relação às atividades mercantis. O</p><p>movimento todo seria impulsionado pelo ideal “arcaico” que conformava</p><p>o êthos senhorial-escravista, isto é, a posse de terras e homens como sinal</p><p>decisivo de distinção social. Nas palavras de Fragoso, “no sistema abor-</p><p>dado, o investimento na produção está subordinado a uma lógica que é a</p><p>da recorrência de uma dada estratificação assentada nas diferenças entre</p><p>os grupos sociais, via prestígio”.9 Nada, portanto, de resposta às demandas</p><p>do mercado mundial: a cafeicultura escravista brasileira teria sido montada</p><p>única e exclusivamente em razão das ações locais.</p><p>As inconsistências empíricas e teóricas do modelo de Fragoso – uma</p><p>espécie de espelho invertido do “paradigma dependentista” – já foram</p><p>devidamente criticadas pelos historiadores.10 Em todas essas críticas, ou</p><p>mesmo nas interpretações mais recentes acerca do tema,11 os pesquisadores</p><p>ressaltam a impossibilidade de compreender o processo de montagem da</p><p>cafeicultura escravista brasileira sem se remeter a processos globais mais</p><p>amplos, examinando suas interconexões com as condições locais.</p><p>9 FRAGOSO, 1992, p. 297.</p><p>10 As críticas foram apresentadas, sobretudo, por GORENDER, Jacob., A escravidão reabilitada. São</p><p>Paulo: Ática, 1990. p. 81-83; SCHWARTZ, Stuart B. Somebodies and Nobodies in the Body Politic:</p><p>mentalities and social structures in colonial Brazil. Latin American Research Review, Albuquerque:</p><p>University of New Mexico Press, v. 31, n. 1, p. 113-134, 1996; MARIUTTI, Eduardo; NOGUERÓI, Luiz;</p><p>DENIELI NETO, Mario. Mercado interno colonial e grau de autonomia: crítica às propostas de João</p><p>Luís Ribeiro Fragoso e Manolo Florentino. Estudos Econômicos, São Paulo: Edusp, v. 31, n. 2, p. 369-</p><p>93, 2001; TEIXEIRA, Rodrigo Alves. Capital e colonização: a constituição da periferia do sistema</p><p>capitalista mundial. In: PIRES, Julio Manuel; COSTA, Iraci del Nero da (Org.). O capital escravista-</p><p>mercantil e a escravidão nas Américas. São Paulo: Educ, 2010. p. 195-199. Ver, também, MARQUESE,</p><p>Rafael de Bivar. As desventuras de um conceito: capitalismo histórico e a historiografia sobre a</p><p>escravidão brasileira. Revista de Historia, São Paulo: USP, n. 169, p. 223-253, 2. sem. 2013.</p><p>11 Como, por exemplo, os trabalhos de LUNA, Francisco Vidal; KLEIN, Herbert S. Evolução da</p><p>sociedade e economia escravista de São Paulo, de 1750 a 1850. São Paulo: Edusp, 2005. p. 81-106; e</p><p>TOPIK, Steven; SAMPER, Mario. The Latin American Coffee Commodity Chain: Brazil and Costa</p><p>Rica. In: TOPIK, S.; MARICHAL, C.; FRANK, Z. (Org.). From Silver to Cocaine: Latin American</p><p>commodity chains and the building of the world economy, 1500-2000. Durham: Duke University</p><p>Press, 2006. p. 147-173.</p><p>É o que pretendemos fazer neste capítulo, que tratará do papel do Vale</p><p>do Paraíba na formação do mercado mundial do café ao longo do século</p><p>XIX. Por um lado, a análise do quadro global partirá do pressuposto de que</p><p>os espaços produtivos mundiais se formaram uns em relação aos outros. A</p><p>unidade submetida à análise, por conseguinte, não serão as colônias ou os</p><p>países agro-exportadores tomados de forma isolada, mas sim a arena mais</p><p>ampla da economia-mundo. Isso é tanto mais premente para o caso dos</p><p>artigos tropicais: como</p><p>em troca do sufrágio para eleitores; no</p><p>alto da política nacional, descreve a oferta de cargos públicos a eleitores em</p><p>retorno de apoio a candidatos do governo. Graham é primoroso na des-</p><p>crição das práticas do patronato, todavia uma questão de método conduz</p><p>sua leitura a uma extrapolação temerária. Evitando empregar “categorias”</p><p>que “os atores históricos [...] não necessariamente reconheciam”, a fim de</p><p>“focalizar os significados que eles próprios deram às suas ações”, concluiu</p><p>que o clientelismo, ubíquo no país desde o período colonial, se impôs aos</p><p>atores do tempo como a principal finalidade da vida política, desbancando</p><p>até os temas da construção do poder central ou da defesa de interesses eco-</p><p>nômicos particulares. No símile que emprega para esclarecer o fenômeno</p><p>– “semelhante àquelas árvores altas da floresta amazônica que extraem ali-</p><p>mento das próprias folhas que caem” – evidencia-se a dimensão tautológica</p><p>de sua definição de clientelismo, a qual desconsidera diferenças de programa</p><p>partidário entre as lideranças parlamentares, o vínculo intrínseco do tripé</p><p>cargos, eleições & construção do Estado ao longo do século XIX e as relações</p><p>que proprietários das diversas regiões econômicas do país travaram com o</p><p>Estado imperial em conjunturas políticas específicas. Não importa a feição</p><p>das árvores. Juntas, elas compõem a floresta indeterminada do clientelismo.36</p><p>Segundo o argumento aqui apresentado, a oferta de cargos deve ser</p><p>entendida como componente integrante da montagem de um Estado sem</p><p>35 MATTOS, 2004, p. 192.</p><p>36 GRAHAM, 1997, p. 22, 299.</p><p>concorrência eleitoral, e não como algo que a substitui; e a construção do sis-</p><p>tema, mais que uma inevitabilidade imposta pela herança colonial, teria sido</p><p>condicionada pela distribuição assimétrica de recursos materiais que vigo-</p><p>rava no país. Em 1841, a malha centralizada do Estado se expandiu amparada</p><p>na adesão dos espaços econômicos mais expressivos e dependentes do trá-</p><p>fico negreiro transatlântico – a Zona da Mata pernambucana, o Recôncavo</p><p>baiano, mas sobretudo a Bacia do Vale do Paraíba – ao projeto parlamentar</p><p>vitorioso de Vasconcelos, Carneiro Leão, Rodrigues Torres, Paulino, Eusébio</p><p>de Queirós e Araújo Lima. Parte desse conjunto conservador, por sua vez,</p><p>guardou uma coerente defesa do contrabando negreiro e da Lei de 3 de</p><p>dezembro de 1841 como princípios que o diferenciavam, em graus variáveis</p><p>no tempo e no espaço, de outros grupos políticos do Império do Brasil.</p><p>A união entre a Bacia do Vale do Paraíba e o Regresso conservador</p><p>foi o principal veio investigativo de O tempo saquarema. Posteriormente,</p><p>Jeffrey Needell desenvolveu o assunto em seu minucioso The Party of Order,</p><p>uma boa síntese da história do Partido Conservador entre as décadas de</p><p>1830 e 1870. Uma das ideias centrais do livro é que o “regime represen-</p><p>tativo e constitucional” do Império do Brasil foi “reconstruído pelo par-</p><p>tido reacionário entre 1837 e 1842” nos termos do que fora “esboçado na</p><p>Constituição brasileira de 1824”. A reorganização regressista da monarquia</p><p>incluiria a noção conceitual do equilíbrio entre os poderes, a Interpretação</p><p>do Ato Adicional e a reforma do Código de Processo Criminal. Como</p><p>identifica as múltiplas dimensões do processo histórico com perspectiva</p><p>dos indivíduos que estuda – nesse particular, seu método não é diferente</p><p>do de Graham –, Needell considerou plenamente constitucional o que os</p><p>saquaremas fizeram e enunciaram: D. Pedro II, investido do Moderador,</p><p>podia mesmo dissolver livremente a Câmara e aqueles que discordavam</p><p>disso desferiam um “ataque ao papel constitucional do imperador”. Baseado</p><p>na opinião dos interesses escravistas dos saquaremas, concluiu que a Lei</p><p>do Ventre Livre, porque patrocinada pela Coroa, contraditou “o princípio</p><p>do equilíbrio constitucional de poderes”, derramando uma herança maldita</p><p>sobre o país. “Foi esse legado autoritário, estatista, mal coberto por uma</p><p>fina camada de legitimação institucional, que sobreviveu à monarquia, uma</p><p>presença sombria na cultura política do Brasil desde então”. Em algumas</p><p>passagens sua narrativa oferece antes uma paráfrase da visão saquarema da</p><p>história política imperial que um exame dessa política.37</p><p>37 NEEDELL, 2006, p. 2, 278, 320-321.</p><p>154 155</p><p>Cabe, por fim, perguntar se os deputados que o sistema de 3 de dezem-</p><p>bro de 1841 produzia eram dotados de uma autonomia decisória que os</p><p>alçava à condição de “elite política imperial”, mais devotada às questões</p><p>de Estado que ao meio socioeconômico que os elegeu. Em A construção</p><p>da ordem, José Murilo de Carvalho, embora mencione variações regio-</p><p>nais e note a importância da economia para a política, procedeu a diver-</p><p>sos cálculos para indicar que somente de 5% a 8% dos deputados imperiais</p><p>provinham da esfera econômica (isto é, viviam como proprietários rurais</p><p>ou negociantes), enquanto os que atuavam para o governo (na função de</p><p>magistrados ou militares) compunham de 24% a 38% do total. Tais núme-</p><p>ros corroboram sua leitura antimarxista segundo a qual o Estado imperial</p><p>brasileiro era pouco penetrável às demandas do mundo econômico. Seria</p><p>possível advertir que dois fatores concorrem para essa suposta inexpressivi-</p><p>dade numérica dos agentes econômicos. Segundo os critérios de Carvalho,</p><p>os atores que eram ao mesmo tempo magistrados/militares e proprietários</p><p>rurais foram considerados apenas como atuantes na esfera do governo.</p><p>Ademais, o corpus documental utilizado, em geral esboços biográficos</p><p>encomiásticos como a Galeria dos brasileiros ilustres (1861), não dá ênfase às</p><p>fontes de renda privada do biografado. O uso de inventários post-mortem</p><p>dos deputados (tarefa que ainda espera por ser feita) e a revisão dos crité-</p><p>rios de classificação da ocupação profissional poderiam gerar uma imagem</p><p>bem distinta da chamada “elite política imperial”.38</p><p>Outra objeção ao modelo pode ser feita em termos qualitativos. Se a</p><p>mercê de cargos públicos e as eleições parlamentares andavam unidas no</p><p>mesmo processo de construção do Estado nacional, então o ato de escolha</p><p>dos representantes políticos nascia de um amplo consórcio entre sociedade</p><p>e Estado no qual se entrelaçavam a vida local (grandes proprietários) e as</p><p>instituições nacionais (recursos públicos). O sistema podia até dar autono-</p><p>mia ao Executivo, uma vez que a influência eleitoral redundava em banca-</p><p>das mais governáveis no Parlamento. A regra, porém, valia apenas para a</p><p>solução de questões pontuais dentro do prazo de uma legislatura. A renova-</p><p>ção do Parlamento a cada quatro anos solicitava novas negociações com as</p><p>localidades, novas ofertas de cargos, nova proposição de nomes aceitáveis</p><p>pelos proprietários rurais. Como a Câmara era, em parte, moldada pelo</p><p>próprio Executivo, o deputado, fosse magistrado ou fazendeiro, não era na</p><p>verdade nem o “homem do eleitor” nem um perfil abstrato de ocupação</p><p>38 CARVALHO, 2003, p. 95-117.</p><p>profissional, mas sim uma criatura mista, meio local e meio geral, meio</p><p>particular e meio pública, meio espontânea e meio oficial. Dessa forma,</p><p>as decisões eventualmente impopulares do Parlamento podiam gerar nos</p><p>círculos dos proprietários duras críticas dirigidas não apenas aos deputados</p><p>ou aos eleitores que os escolheram, mas também ao próprio Executivo que</p><p>os recomendara. E, como o Poder Moderador, enredado no sistema criado</p><p>em 1841, era o primum mobile das eleições, parte dos erros podia correr</p><p>também por sua conta. Todos eram corresponsáveis.</p><p>A falta de uma clara cisão entre polícia, burocracia, gabinete, eleições</p><p>e Poder Moderador, além de coligar as esferas privada e pública nas corri-</p><p>das eleitorais, criou interpenetrações nas instâncias decisórias do governo</p><p>(Parlamento, Executivo, Conselho de Estado, Poder Moderador) que, con-</p><p>forme a conjuntura, podiam produzir efeitos diversos, ora fragilizando o sis-</p><p>tema como um todo, ora reforçando-o. Dois exemplos distantes no tempo</p><p>ajudam a ilustrar o argumento. Na década de 1880, durante a crise aguda da</p><p>escravidão no Império do Brasil, o Parlamento</p><p>iremos indicar no capítulo, os movimentos do café</p><p>e do açúcar guardaram uma estreita relação nos séculos XVIII e XIX. Por</p><p>outro lado, a análise do quadro local levará em conta não apenas a com-</p><p>posição regional de terra, trabalho e capital, mas igualmente a dinâmica</p><p>política, vale dizer, as relações entre fazendeiros, trabalhadores escraviza-</p><p>dos e o Estado nacional. A formação da cafeicultura escravista brasileira</p><p>dependeu de ações políticas concertadas, no plano da esfera nacional, para</p><p>criar as condições institucionais necessárias para o arranque da atividade</p><p>e o consequente controle do mercado mundial do artigo. Essas ações inci-</p><p>diram fundamentalmente no campo da política da escravidão. O período</p><p>de montagem das grandes unidades cafeicultoras do Vale Paraíba avançou</p><p>na fase de ilegalidade do tráfico negreiro transatlântico (1835-1850), com a</p><p>aquisição de escravarias que, de acordo com a lei imperial de 7 de novembro</p><p>de 1831, seriam formalmente livres. Sem a existência de um quadro interno</p><p>que desse segurança política e jurídica aos senhores possuidores de africa-</p><p>nos ilegalmente escravizados, certamente o Brasil não despejaria nos portos</p><p>e armazéns do hemisfério norte as sacas de café com as quais dominou o</p><p>mercado mundial do produto no século XIX.</p><p>a era das revoluções e os novos produtores</p><p>na arena mundial, c.1790-1830</p><p>A despeito de o café ter sido, desde o século XVI, um dos mais valiosos</p><p>bens agrícolas a entrar nos circuitos mercantis internacionais, os poderes</p><p>coloniais europeus demoraram a produzi-lo. Até fins do século XVII, os oto-</p><p>manos monopolizaram essa esfera.12 Os primeiros europeus a granjearem</p><p>12 Cf. TUCHSCHERER, Michel. Coffee in the Red Sea Area From the Sixteenth to the Nineteenth</p><p>Century. In: CLARENCE-SMITH, W. G.; TOPIK, S. (Org.). The Global Coffee Economy in Africa,</p><p>Asia, and Latin América, 1500-1989, p. 50-66. Ver, também, o volume editado por esse historiador:</p><p>TUCHSCHERER, Michel. Le commerce du café avant l’ ère des plantations coloniales. Le Caire: Institut</p><p>Français D’Archéologie Orientale, 2001.</p><p>26 27</p><p>o artigo foram os holandeses. Na década de 1690, a Companhia das Índias</p><p>Orientais (V.O.C.) implantou seu cultivo em Java, no que logo foi seguida</p><p>pelos franceses em Reunión. Na década de 1720, quando o arbusto foi</p><p>também aclimatado em colônias do Novo Mundo (Suriname, Martinica,</p><p>Guadalupe), holandeses e franceses introduziram pela primeira vez quan-</p><p>tidades substantivas do gênero nos mercados metropolitanos. Até meados</p><p>dos setecentos, contudo, o volume não foi vultoso em vista do que seria</p><p>obtido posteriormente: os holandeses não lograram produzir em Java mais</p><p>do que 2.500 toneladas anuais, volume um pouco inferior ao que os france-</p><p>ses obtinham na Martinica na década de 1750.13</p><p>O salto na produção a cargo dos europeus ocorreu após a Guerra dos Sete</p><p>Anos, em larga medida por conta da explosão cafeeira de Saint-Domingue.</p><p>As exportações dessa colônia pularam do patamar de cerca de 3.100 t, em</p><p>1755, para perto de 34.000 t, em 1790. Na última data, a produção dos fran-</p><p>ceses nas Antilhas e no Índico (Saint-Domingue, Martinica, Guadalupe,</p><p>Caiena, Reunión) somava cerca de 48.000 t, algo equivalente a 70 % do total</p><p>do globo, estimado em 69.400 t. Como se vê, às vésperas da revolução, Saint-</p><p>Domingue era, por si só, responsável por metade da produção mundial de</p><p>café, afora cerca de um terço da produção mundial de açúcar.14 Esse mercado,</p><p>contudo, era relativamente restrito, limitado ao consumo de luxo das cama-</p><p>das urbanas da Europa continental e do Levante Asiático.15</p><p>O crescimento da cafeicultura em Saint-Domingue esteve no coração</p><p>dos eventos que conduziram à revolução. Por razões técnicas e ecológicas,</p><p>as terras inicialmente cultivadas com os pés de café foram aquelas que não</p><p>eram empregadas na empresa açucareira, isto é, os outeiros – ou mornes –</p><p>do interior da colônia, cuja geomorfologia impedia a formação de grandes</p><p>unidades rurais. Com exigências iniciais de inversão bem menores que o</p><p>açúcar, a atividade cafeeira oferecia uma via de acumulação de riqueza e</p><p>mobilidade social aberta aos pequenos e médios proprietários escravistas,</p><p>sobretudo ao número crescente de mulatos e negros livres que dispunham</p><p>13 Cf. MAY, Louis-Philippe. Histoire Économique de la Martinique (1635-1763). Fort-de-France: Société</p><p>de Distribution et de Culture, 1972. 1. ed. 1930.</p><p>14 Cf. FERNÁNDEZ, Doria González. Acerca del mercado cafetelero cubano durante la primeira mitad</p><p>del siglo XIX. Revista de la Biblioteca Nacional José Martí, Habana, n. 2, p. 154, 1989; TROUILLOT,</p><p>Michel-Rolph. Motion in the System: coffee, color, and slavery in eighteenth-century Saint-</p><p>Domingue. Review, New York: Research Foundation of SUNY, v. 5, n. 3, p. 337, Winter 1982.</p><p>15 VRIES, Jan de. The Industrious Revolution: consumer behavior and the household economy, 1650 to</p><p>the present. Cambridge, UK: Cambridge University Press, 2008. p. 183.</p><p>de poucos capitais.16 O sucesso econômico da cafeicultura acirrou, na década</p><p>de 1780, os conflitos entre esses grupos racialmente subalternos, mas endi-</p><p>nheirados, e a população branca da colônia, vale dizer, os grandes empresá-</p><p>rios açucareiros e os brancos pobres (petits blancs). Esse quadro altamente</p><p>explosivo veio abaixo com os eventos revolucionários metropolitanos. A</p><p>instituição da Assembleia Nacional em Paris, no ano de 1789, estimulou de</p><p>imediato os anseios autonomistas das classes senhoriais antilhanas. Ainda</p><p>no segundo semestre de 1789, os senhores das diversas ilhas francesas, nota-</p><p>damente os de Saint-Domingue, formaram Assembleias coloniais para lutar</p><p>por maior liberdade política e econômica. Entretanto, não foram apenas</p><p>os proprietários escravistas brancos que se articularam para obter ganhos</p><p>com a nova conjuntura política: os homens livres de cor, negros e mula-</p><p>tos, muitos dos quais lastreados nos recursos obtidos com o café, também</p><p>se mobilizaram, buscando ampliar seus direitos políticos. Os proprietários</p><p>escravistas negros e mulatos exigiam em especial o direito de participação</p><p>nas eleições para a Assembleia colonial. O conflito entre negros e mulatos</p><p>livres, por um lado, e brancos, por outro, acirrou-se durante o ano de 1790,</p><p>distendendo-se logo em confronto aberto. Até meados de 1791, essas lutas</p><p>não comprometeram a economia escravista de Saint-Domingue. A grande</p><p>virada veio em agosto deste ano: a impressionante revolta dos escravos da</p><p>parte norte da colônia acabou de vez com o equilíbrio precário que vinha</p><p>sendo mantido entre brancos e mulatos desde 1789.17</p><p>Não cabe aqui sumariar o processo revolucionário que levou, em janeiro</p><p>de 1804, à proclamação do segundo Estado soberano do Novo Mundo.</p><p>Importa que a Revolução do Haiti, no curso de seus quinze anos, além de</p><p>ter acabado nos campos de batalha com a escravidão negra e assombrado os</p><p>poderes escravistas em todo hemisfério americano, alterou por completo a</p><p>configuração da oferta mundial de café e de açúcar. Mesmo que o primeiro</p><p>artigo tenha continuado a ser cultivado – agora em bases camponesas – no</p><p>país recém-independente, ao contrário do abandono do açúcar,18 somente</p><p>16 Cf. TROUILLOT, Michel-Rolph. Motion in the System: coffee, color, and slavery in eighteenth-</p><p>century Saint-Domingue; GIRAULT, Christian A. Girault. Le commerce du café en Haïti: habitants,</p><p>spéculateurs et exportateurs. Paris: C.N.R.S., 1981. p. 55.</p><p>17 A melhor análise recente da Revolução de Saint-Domingue está no livro de DUBOIS, Laurent.</p><p>Avangers of the New World: the story of the Haitian Revolution. Cambridge, MA: Harvard University</p><p>Press, 2004.</p><p>18 Sobre as implicações políticas desta reconfiguração, ver TROUILLOT, Michel-Rolph. Haiti, State against</p><p>the Nation: the origins and legacy of duvalierism. New York: Monthly Review Press, 1990, p. 36-82.</p><p>28 29</p><p>em fins do século XIX a produção de café voltou ao patamar anterior à revo-</p><p>lução, ou seja, à cifra de 30.000 toneladas anuais; nos anos do conflito e nas</p><p>décadas imediatamente posteriores, o volume caiu</p><p>para mais da metade do</p><p>que era em 1790. Em uma conjuntura de curva ascendente do consumo, a</p><p>retirada brusca de Saint-Domigue do mercado teve impacto imediato sobre</p><p>as demais zonas cafeicultoras mundiais.</p><p>De início, os espaços que mais se aproveitaram do vácuo de Saint-</p><p>Domingue foram os que já produziam café antes de 1790. Tome-se, em pri-</p><p>meiro lugar, o caso das possessões britânicas. Ao longo do século XVIII,</p><p>a produção cafeeira cresceu lentamente nas Antilhas inglesas, muito por</p><p>conta da política tarifária adotada pela metrópole. Por volta de 1730, o</p><p>governo imperial estabeleceu uma pesada taxação sobre as importações de</p><p>café, com o objetivo de proteger o trato asiático do chá comandado pela</p><p>Companhia Inglesa das Índias Orientais (E.I.C.).19 Na década de 1780, com a</p><p>redução dessas tarifas, a produção colonial aumentou, a ponto de a Jamaica</p><p>obter cerca de 1.000 toneladas métricas em 1790. Com o levante escravo</p><p>no norte de Saint-Domingue e a radicalização do processo revolucionário,</p><p>a resposta dos senhores de escravos jamaicanos foi imediata. A produção</p><p>saltou para 6.000 t nos anos finais do século XVIII, atingindo o pico histó-</p><p>rico de 13.500 t em 1808.20 Foi nesta conjuntura que P.J. Laborie, cafeicultor</p><p>escravista de Saint-Domingue refugiado na Jamaica, escreveu – em inglês</p><p>– seu famoso livro, reportado por boa parte do século XIX como o manual</p><p>agronômico mais importante sobre o assunto, traduzido para o português e</p><p>o espanhol já na década de 1800.21</p><p>19 Cf. SMITH, S. D. Accounting for Taste: British coffee consumption in historical perspective. Journal</p><p>of Interdisciplinary History, Cambridge: MIT Press Journals, v. 27, n. 2, p. 183-214, Autumn 1996.</p><p>20 Cf. SMITH, S. D. Sugar’s Poor Relation: coffee planting in the British West Indies, 1720-1833. Slavery</p><p>and Abolition: A Journal of Slave and Post-Slave Studies, Coventry, v. 19, n. 3, p. 73, December 1998;</p><p>HIGMAN, B. W. Jamaica Surveyed: plantation maps and plans of the eighteenth and nineteenth</p><p>centuries. Kingston: University of the West Indies Press, 2001. p. 159-191.</p><p>21 A edição em inglês foi publicada sob o título The Coffee Planter of Saint Domingo; with an Appendix,</p><p>containing a view of the Constitution,Government, Laws, and State of that Colony, previous to</p><p>the Year 1789. (Londres: T. Cadell & W. Davies, 1798). A tradução para o português, a cargo de</p><p>Antonio Carlos Ribeiro de Andrade, foi inserida na notável coleção dirigida pelo Frei José Mariano</p><p>da Conceição Velloso, O fazendeiro do Brazil: bebidas alimentosa, na parte II: “O café” (Lisboa:</p><p>Officina de Thaddeo Ferreira, 1800. t. III). A primeira edição em castelhano, vertida por Pablo</p><p>Boloix, saiu em 1809, sendo reimpressa onze anos depois: Cultivo del cafeto, o arbol que produce el</p><p>café, y modo de beneficiar este fruto. (Habana: Oficina de Arazoza y Soler, 1820). Em 1870, tratando</p><p>da cafeicultura no Ceilão britânico, Guilherme Sabonadière considerava o manual de Laborie como</p><p>a melhor peça já escrita sobre o assunto. Ver seu O fazendeiro do café em Ceylão. Rio de Janeiro:</p><p>Typographia do Diário do Rio de Janeiro, 1875. 2. ed. em inglês 1870. Para uma comparação entre</p><p>As terras empregadas na cafeicultura jamaicana eram diferentes das</p><p>que se utilizavam no negócio açucareiro, por razões semelhantes às regis-</p><p>tradas para a colônia francesa. Ainda que, no que se refere àquele insumo,</p><p>não houvesse competição entre o açúcar e o café, o mesmo não se pode afir-</p><p>mar em relação ao fator trabalho. O quadro se agravou sobremaneira após a</p><p>abolição do tráfico transatlântico de escravos para as colônias inglesas, não</p><p>sendo de estranhar que o ponto máximo da cafeicultura jamaicana tenha</p><p>sido atingido justamente em 1808. Para além da exaustão ecológica e do</p><p>restrito consumo metropolitano,22 os cafeicultores jamaicanos precisaram</p><p>enfrentar, na esfera local, a demanda de braços escravos por parte dos enge-</p><p>nhos de açúcar, que mantiveram a duras penas sua viabilidade econômica</p><p>nas décadas seguintes. Não obstante a queda de competitividade, decor-</p><p>rente de quase dois séculos de exploração ininterrupta e de uma planta agro</p><p>manufatureira inadequada diante das novidades trazidas por seus concor-</p><p>rentes internacionais diretos, nas três primeiras décadas do século XIX os</p><p>engenhos de açúcar jamaicanos provaram ser mais eficazes que seus con-</p><p>gêneres cafeeiros.23 Problema análogo de competição entre os engenhos de</p><p>açúcar e as fazendas de café pelos cativos cada vez mais escassos, sempre em</p><p>prejuízo das últimas, verificou-se em Demerara, antiga possessão holan-</p><p>desa adquirida pelos ingleses no curso das revoluções atlânticas.24</p><p>De todo modo, se os proprietários jamaicanos aproveitaram satisfato-</p><p>riamente o vácuo de Saint-Domingue nas décadas de 1790 e 1800, o mesmo</p><p>não se pode afirmar da V.O.C. no espaço do Índico, algo tanto mais notável</p><p>em vista do papel que Java desempenharia no mercado mundial a partir da</p><p>década de 1830. Na verdade, durante todo o século XVIII, a oferta javanesa</p><p>foi inelástica. Nos primeiros anos de exploração sistemática da atividade,</p><p>os procedimentos de tradução de Laborie para o espanhol e o português, que muito revela sobre</p><p>o corte que o Vale do Paraíba trouxe para o mercado mundial do café, ver MARQUESE, Rafael de</p><p>Bivar. A ilustração luso-brasileira e a circulação dos saberes escravistas caribenhos: a montagem da</p><p>cafeicultura brasileira em perspectiva comparada. História, Ciências, Saúde: Manguinhos, Rio de</p><p>Janeiro: Fundação Oswaldo Cruz, v. 16, n. 4, p. 855-880, out.-dez. 2009.</p><p>22 Sobre o consumo metropolitano, ver os artigos de S.D. Smith citados nas notas 19 e 20; sobre a</p><p>questão ambiental, ver MONTEITH, Kathleen E. A. Planting and Processing Techniques on</p><p>Jamaican coffee plantations, during slavery. In: SHEPHERD, V. (Org.). Working Slavery, Pricing</p><p>Freedom: perspectives from the Caribbean, África and the African diaspora. Kingston: Ian Randle</p><p>Publ.; Oxford: James Currey Publ., 2002. p. 112-29.</p><p>23 Cf. J.WARD, J. R. British West Indian Slavery, 1750-1834: the process of amelioration. New York:</p><p>Oxford University Press, 1988.</p><p>24 Cf. COSTA, Emília Viotti da. Coroas de glória, lágrimas de sangue: a rebelião dos escravos de</p><p>Demerara em 1823. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. p. 62-86.</p><p>30 31</p><p>posteriores a 1725, a V.O.C. coagiu as autoridades autóctones no oeste da</p><p>ilha, em Priangan e Ciberon, para que ofertassem café a preços fixos. Esses</p><p>poderes locais, por sua vez, obrigavam seus súditos a cultivarem o artigo</p><p>em pequena escala, retendo parte ou totalidade da renda obtida por esses</p><p>camponeses a título de impostos. O método foi aplicado em outras partes da</p><p>ilha nas décadas finais do século XVIII, tendo sido mantido após a dissolução</p><p>da V.O.C. em 1800 e o início da administração colonial direta pelo governo</p><p>holandês. Tal organização do processo de trabalho dificultava respostas rápi-</p><p>das ao aumento da demanda na arena mundial, pois envolvia necessaria-</p><p>mente negociação com as poderes locais: os camponeses, afinal, granjeavam</p><p>café em pequena escala e operavam fora do sistema de preços internacio-</p><p>nais, haja vista que o montante pago por unidade era estabelecido de modo</p><p>coercivo pela V.O.C. Os esforços dos holandeses para aumentar a produção,</p><p>na esteira da Revolução de Saint-Domingue, resultaram na séria rebelião de</p><p>Ciberon, em 1805: na ocasião, os camponeses arrancaram os arbustos de café</p><p>que cultivavam e queimaram os armazéns que estocavam as safras passadas.</p><p>Doravante, todo o sistema de trabalho e de exploração colonial em Java teria</p><p>que ser reconstruído, o que renderia frutos somente três décadas depois.25</p><p>O mercado mundial do café, no período em tela (1790-1830), passou</p><p>por sensíveis momentos de alta e de baixa, derivados não só do impacto de</p><p>Saint-Domingue como também dos conflitos militares que polarizaram as</p><p>grandes potências atlânticas. Durante o curso dos eventos revolucionários</p><p>na colônia francesa (1791-1804), os preços em Amsterdã tiveram forte alta,</p><p>que se mantiveram nos três anos seguintes.</p><p>O bloqueio continental e o agu-</p><p>çamento do confronto entre França e Inglaterra entre 1808 e 1812 criaram</p><p>um descompasso entre os preços (altos) registrados na praça de Amsterdã</p><p>e os preços (baixos) pagos nos portos das regiões produtoras.26 A volta da</p><p>paz trouxe alta global acentuada do café, que perdurou até 1822. No decênio</p><p>seguinte, os preços caíram continuamente, até atingir patamar correspon-</p><p>dente ao que vigorara vinte anos antes. O período de 1812 a 1830, assim, pode</p><p>ser apreendido como uma quadra de ajuste do mercado, sendo a primeira</p><p>fase (1812-1822) de alta, após a retração artificial, e, a segunda (1822-1830),</p><p>25 Sobre Java no século XVIII, ver as rápidas notas de ELSON, Robert. Village Java Under the Cultivation</p><p>System, 1830-1870. Sydney: Asians Studies Association of Australia: Allen and Unwin, 1994. p. 24-25;</p><p>e o estudo que lhe critica de CLARENCE-SMITH, W. G. The Impact of Forced Coffee Cultivation on</p><p>Java, 1805-1917. Indonesia Circle, London, v. 64, p. 241-243, 1994.</p><p>26 Cf. FERNÁNDEZ, 1989, p. 157.</p><p>de baixa, que conduziu à equalização entre oferta e demanda, mas que, ao</p><p>mesmo tempo, afastou do mercado os produtores menos eficazes.</p><p>Não por acaso, foram exatamente os anos de 1822 a 1830 que marcaram</p><p>a clara diferenciação no mercado mundial entre velhas e novas regiões pro-</p><p>dutoras de café. O processo que conduziu a tanto, todavia, iniciara-se três</p><p>décadas antes. A Revolução do Haiti trouxe uma disjunção no tempo histó-</p><p>rico do mundo atlântico, inaugurando simultaneamente o declínio da escra-</p><p>vidão colonial caribenha francesa e inglesa e a ascensão dos novos espaços</p><p>escravistas do século XIX. Noutras palavras, o período entre as décadas de</p><p>1790 e 1820 compreendeu tanto a crise da estrutura histórica do escravismo</p><p>norte-atlântico – cuja base geográfica eram as Antilhas inglesas e francesas</p><p>– como a montagem da nova estrutura histórica do escravismo oitocentista</p><p>– cuja base geográfica passou a residir nas vastas áreas virgens do território</p><p>cubano, brasileiro e norte-americano.27 Esses novos espaços do século XIX</p><p>estavam fora das relações imperiais tradicionais que travejavam o Caribe</p><p>inglês e francês e não apresentavam as constrições geográficas e fundiárias</p><p>aí presentes. Para o nosso objeto, o sul dos Estados Unidos – peça chave na</p><p>estrutura histórica do escravismo oitocentista – constitui caso à parte, pois</p><p>nunca produziu café e tampouco a produção de açúcar da Louisiana se des-</p><p>tacou no mercado mundial. Cuba e Brasil, no entanto, competiram palmo a</p><p>palmo pelo comércio internacional de açúcar e café após 1790.</p><p>As raízes do deslanche açucareiro e cafeeiro cubano se encontram no</p><p>período das reformas bourbônicas. Cuba dispunha de amplos recursos</p><p>naturais para o estabelecimento de uma economia de plantation, mas até</p><p>fins do século XVIII eles permaneciam subexplorados. Entre as décadas de</p><p>1760 e 1780, a política de liberalização comercial gradual promovida pelos</p><p>ministros de Carlos III e a atuação decidida das oligarquias locais possi-</p><p>bilitaram a fundação de uma sólida rede de engenhos na parte ocidental</p><p>da ilha, em torno do porto de Havana. Em fins dos anos oitenta, o mon-</p><p>tante da produção açucareira cubana era equivalente ao da produção total</p><p>da América portuguesa.28 Dentre as primeiras medidas do novo monarca</p><p>27 Cf. TOMICH, Dale. Through the Prism of Slavery: labor, capital, and world economy. Boulder:</p><p>Rowman & Littlefield Publ., 2004. Ver, também, BERBEL, Márcia; MARQUESE, Rafael; PARRON,</p><p>Tâmis. Escravidão e política: Brasil e Cuba, 1790-1850. São Paulo: Hucitec, 2010. p. 92-93.</p><p>28 Ver, a respeito, os dados de FRAGINALS, Manuel Moreno. O engenho: complexo sócio-econômico</p><p>açucareiro cubano. São Paulo: Hucitec: Ed. Unesp, 1989. 3 v, p.355; e ALDEN, Dauril. O período final</p><p>do Brasil Colônia, 1750-1808. In: BETHELL, L. (Org.). História da América Latina: América Latina</p><p>colonial. São Paulo: Edusp-Funag, 1999. v. II, p. 559.</p><p>32 33</p><p>Carlos IV, em 1789, esteve a decretação do livre comércio de escravos por</p><p>dois anos, uma medida longamente solicitada pelos proprietários cubanos,</p><p>e que foi reiterada em várias ocasiões nos anos seguintes. Ainda que por</p><p>algum tempo os traficantes hispano-cubanos não fossem capazes de domi-</p><p>nar completamente o negócio (até 1807, o abastecimento de africanos em</p><p>Cuba foi realizado basicamente por mercadores ingleses e norte-america-</p><p>nos), logo o tráfico negreiro transatlântico se tornaria um dos principais</p><p>motores da economia escravista cubana, senão o mais importante.29</p><p>Quando veio a oportunidade do colapso de Saint-Domingue, enfim,</p><p>os produtores cubanos estavam devidamente equipados para aproveitar as</p><p>novas condições do mercado mundial. O crescimento da economia escra-</p><p>vista de plantation cubana foi vertiginoso após 1791. Foram fundados vários</p><p>novos engenhos de açúcar, os antigos elevaram sensivelmente sua capaci-</p><p>dade produtiva, e, pela primeira vez, montaram-se plantações escravistas</p><p>de café, tanto no oriente como no ocidente da ilha. Esse arranque, por sua</p><p>vez, contou com a reordenação do comércio de Cuba, ocorrida em resposta</p><p>à conjuntura das guerras revolucionárias. Em 1796, as trocas de Cuba com</p><p>a Península Ibérica foram interrompidas, situação essa que durou até 1802.</p><p>Após uma pequena normalização do intercâmbio entre metrópole e colônia,</p><p>ocorreu em 1804 uma nova interrupção do comércio entre Cuba e Espanha,</p><p>que se prolongou até 1812. Nesses anos críticos, o principal parceiro comer-</p><p>cial da colônia espanhola foram os Estados Unidos: o açúcar e o café cubanos</p><p>eram adquiridos por mercadores norte-americanos (cuja nação era neutra</p><p>nos conflitos atlânticos do período), que reexportavam o que não era consu-</p><p>mido em seu país para os mercados continentais europeus. Entre 1813 e 1816,</p><p>com a volta da paz na Europa e a guerra entre Estados Unidos e Inglaterra, a</p><p>marinha mercante inglesa controlou as exportações agrícolas cubanas. O que</p><p>importa em tudo isso é o fato de a erosão da Espanha como reexportadora</p><p>dos artigos cubanos ter levado à promulgação do livre comércio colonial em</p><p>1818, autorizando nas letras da lei o comércio da ilha com mercadores de</p><p>todas as bandeiras. A partir deste decreto, o controle espanhol sobre a eco-</p><p>nomia de Cuba tornou-se apenas fiscal: a metrópole facilitava, com tarifas</p><p>29 Cf. MURRAY, David R. Odious Commerce: Britain, Spain, and the abolition of the Cuban slave</p><p>trade. Cambridge, UK: Cambridge University Press, 1980; TINAJERO, Pablo Tornero. Crescimento</p><p>económico y transformaciones sociales: esclavos, hacendados y comerciantes en la Cuba colonial</p><p>(1760-1840). Madri: Ministério del Trabajo y Seguridad Social, 1996. p. 44-107; JOHNSON, Sherry.</p><p>The Rise And Fall of Creole Participation in the Cuban Slave Trade, 1789-1796. Cuban Studies,</p><p>Pittsburgh: University of Pittsburgh Press, v. 30, p. 52-75, 1 Dec. 1999.</p><p>baixas, as saídas dos artigos cubanos ao mercado mundial, mas estabelecia</p><p>taxas de importação que protegiam os produtos espanhóis na colônia.30</p><p>As ligações da revolução em Saint-Domingue com o avanço cafeeiro</p><p>cubano foram bem mais estreitas do que o mero incentivo do mercado. O</p><p>conflito generalizado que se instaurou na colônia francesa após 1791 levou</p><p>muitos proprietários escravistas ao exílio, dentre os quais vários cafeiculto-</p><p>res. Dada a proximidade geográfica e as condições ambientais favoráveis,</p><p>a região montanhosa do oriente de Cuba foi a que mais recebeu refugia-</p><p>dos franceses. Os novos imigrantes foram decisivos para a transmissão do</p><p>know-how técnico necessário à produção do artigo, e esse saber rapidamente</p><p>foi repassado para os proprietários que estavam montando cafezais na parte</p><p>ocidental da ilha (eixo Vuelta Abajo- Matanzas). Até 1807, a produção cubana</p><p>foi diminuta, não ultrapassando a faixa de 1.000 t, mas o plantio em larga</p><p>escala efetuado a partir de 1804 permitiu que, em 1810, esse número saltasse</p><p>para 4.600 t. No decênio seguinte, a produção oscilou bastante, chegando</p><p>em anos como os de 1815 e 1821 a cerca de 10.000 toneladas</p><p>métricas anuais.31</p><p>Nesta altura (1821), a produção cubana era equivalente à jamai-</p><p>cana, sendo ambas superiores à javanesa. Na década de 1820, no entanto,</p><p>enquanto a produção jamaicana estacionou, as de Cuba e de Java cresce-</p><p>ram de forma substantiva, a primeira mais que a segunda. Não obstante os</p><p>preços internacionais terem caído de modo acentuado entre 1822 e 1830, a</p><p>produção cubana praticamente triplicou no período, atingindo, em 1833,</p><p>uma cifra próxima a de Saint-Domingue em 1790, isto é, cerca de 29.500</p><p>toneladas. Isso foi resultado da ampliação da área de cultivo e do conse-</p><p>quente aumento do número de escravos alocados na atividade. Em 1827, a</p><p>produção açucareira e a de café empregavam em Cuba o mesmo número de</p><p>trabalhadores escravizados, por volta de 50.000 cada.32 Afora isso, no oci-</p><p>dente da ilha, onde então se localizava a maior parte das fazendas, o arbusto</p><p>30 Cf. TINAJERO, 1996. p. 358-80; FRADERA, Josep M. Colonias para después de un imperio. Barcelona:</p><p>Edicions Bellaterra, 2005. p. 327-420.</p><p>31 Cf. RIVA, Francisco Pérez de la. El café: Historia de su cultivo y explotación en Cuba. Havana: Jesus</p><p>Montero, 1944. p. 50; MARRERO, Levi. Cuba: economia y sociedad. Madri: Playor, 1984. v. 11 de 15,</p><p>p.108; ALVAREZ, Alejandro García. El café y su relación con otros cultivos tropicales en Cuba colonial.</p><p>In: SEMINÁRIO DE HISTÓRIA DO CAFÉ: HISTÓRIA E CULTURA MATERIAL, 1., Itu, 2006. Anais...</p><p>Itu: Museu Republicano Convenção de Itu; São Paulo: Museu Paulista-USP, nov. 2006; NORMAN</p><p>JR., William C. Van. Shade-grown Coffee: the lives of slaves on coffee plantations in Cuba. Nashville:</p><p>Vanderbilt University Press, 2013. p. 7-33.</p><p>32 Cf. MARRERO, 1984, p. 114.</p><p>34 35</p><p>era cultivado nas mesmas zonas voltadas para a lavoura canavieira: café e</p><p>açúcar, portanto, competiam pelos mesmos recursos naturais.</p><p>A década de 1820 é significativa, pois, pela primeira vez, o volume da</p><p>produção brasileira de café se equiparou ao das grandes regiões cafeicultoras</p><p>do globo. Tal como na colônia espanhola, o granjeio do artigo na América</p><p>portuguesa foi irrelevante até a última década do século XVIII. Como se sabe,</p><p>o arbusto foi introduzido no Estado do Grão-Pará e Maranhão na década</p><p>de 1720, no mesmo movimento que levou à sua introdução na Martinica e</p><p>no Suriname, mas, até fins daquele século, foi unicamente uma planta orna-</p><p>mental. Ainda que tenha feito parte do cálculo imperial dos administrado-</p><p>res pombalinos na década de 1760, que pretendiam diversificar a pauta de</p><p>exportações agrícolas da América portuguesa, o café não teve os cuidados</p><p>que produtos como o algodão e o arroz – remetidos em grande escala para</p><p>Lisboa já na década seguinte – receberam. De todo modo, a aclimatação do</p><p>cafeeiro no centro-sul da América portuguesa ocorreu nesse período, nas</p><p>chácaras e quintais da cidade do Rio de Janeiro.33</p><p>Como se leu na introdução do capítulo, os especialistas em história</p><p>da cafeicultura brasileira relacionaram, desde seus primeiros trabalhos, a</p><p>crise da mineração à montagem das fazendas de café no início do século</p><p>XIX. Com base no conhecimento atualmente disponível, pode-se afirmar</p><p>que de fato existiu relação entre um processo e outro, porém não no sen-</p><p>tido tradicionalmente apontado. Certos pontos que seriam decisivos para</p><p>o deslanche cafeeiro do Brasil já se encontravam presentes em meados do</p><p>século XVIII, muito por conta da economia do ouro: um volumoso tráfico</p><p>negreiro transatlântico bilateral entre os portos da África Central e o Rio</p><p>de Janeiro, controlado por negociantes desta praça; a existência de vias que</p><p>cruzavam o Vale do Paraíba no sentido norte-sul (Caminho Novo entre o</p><p>Rio de Janeiro e a capitania de Minas Gerais, aberto na década de 1720) e</p><p>leste-oeste (Caminho Novo da Piedade, articulando o Rio de Janeiro a São</p><p>Paulo, aberto na década de 1770 para facilitar as comunicações da sede do</p><p>33 Sobre o café na América portuguesa setecentista, ver TAUNAY, Affonso de E. Subsídios para a</p><p>História do café no Brasil colonial. Rio de Janeiro: Departamento Nacional do Café, 1935. Sobre as</p><p>reformas pombalinas, SILVA, Andrée Mansuy-Diniz. Portugal e Brasil: a reorganização do Império,</p><p>1750-1808. In: BETHELL, L. (Org.). História da América Latina: América Latina colonial. São Paulo:</p><p>Edusp-Funag, 1997. v. I, p. 488-498; MAXWELL, Kenneth. A devassa da devassa: a Inconfidência</p><p>Mineira – Brasil e Portugal, 1750-1808. Rio de Janeiro: Paz & Terra, 1978. p. 21-53; PALÁCIOS,</p><p>Guillermo. Cultivadores libres, Estado y crisis de la esclavitud en Brasil en la época de la Revolución</p><p>Industrial. México: Fondo de Cultura Econômica, 1998. p. 112-56.</p><p>Vice-Reino com as minas de Goiás e Mato Grosso); a disponibilidade de</p><p>uma enorme área de terras virgens entre a Serra da Mantiqueira e os con-</p><p>trafortes da Serra do Mar, derivada da política oficial das “zonas proibidas”;</p><p>por fim, um complexo sistema de transporte baseado em tropas de mulas,</p><p>muito eficazes – diante dos meios disponíveis do período – para enfrentar</p><p>a topografia acidentada do centro-sul do Brasil.</p><p>Essa infraestrutura, contudo, não foi mobilizada para a cafeicultura nas</p><p>décadas de 1790 e 1800. Nesses anos, a resposta dos proprietários escravis-</p><p>tas da América portuguesa ao impacto da Revolução de Saint-Domingue se</p><p>deu, sobretudo, no campo açucareiro. Afora a recuperação e ampliação da</p><p>atividade nas antigas regiões da costa nordeste (Recôncavo Baiano e Zona</p><p>da Mata de Pernambuco e Paraíba), os produtores do centro-sul montaram</p><p>novos engenhos em Campos dos Goitacases, no Recôncavo da Guanabara,</p><p>no oeste de São Paulo (Itu, Jundiaí, Campinas) e mesmo ao longo das vias</p><p>que então cortavam o Vale do Paraíba – um exemplo é o do famoso enge-</p><p>nho Pau Grande, na beira do Caminho Novo. Nos anos noventa, o cres-</p><p>cimento da produção açucareira da América portuguesa acompanhou o</p><p>mesmo ritmo da produção cubana.34 Cabe lembrar que a conjuntura de fins</p><p>do século XVIII estimulou igualmente a produção de mantimentos e a cria-</p><p>ção de gado para o mercado interno, como o prova a diversificação ocorrida</p><p>na comarca do Rio das Mortes, no sul da capitania de Minas Gerais, ou em</p><p>diversas porções da capitania de São Paulo.35</p><p>O ponto de virada veio com a fuga da família real portuguesa para o Rio</p><p>de Janeiro. Em primeiro lugar, o súbito aumento do contingente populacio-</p><p>nal da agora sede do Império Português – somado às rotas de peregrinação</p><p>que o novo estatuto político do Rio de Janeiro imediatamente acionou –</p><p>ampliou substancialmente a demanda por gêneros de primeira necessidade.</p><p>Para atendê-la, a Coroa joanina buscou aprimorar a rede de caminhos que</p><p>cortavam o centro-sul da colônia, estimulando a construção de estradas para</p><p>ligar diretamente a zona produtora de mantimentos do sul de Minas Gerais</p><p>à nova Corte. Duas dessas novas estradas, as da Polícia e do Comércio,</p><p>concebidas para regularizar o fluxo de mercadorias de Minas ao Rio, seriam</p><p>34 Sobre o volume da produção açucareira cubana, ver FRAGINALS, 1989, p. 355; sobre a produção da</p><p>América portuguesa, ver ARRUDA, José Jobson de Andrade. O Brasil no comércio colonial (1796-1808).</p><p>São Paulo: Ática, 1980, p. 360. A respeito do engenho Pau Grande, ver o livro de MUAZE, Mariana. As</p><p>memórias da viscondessa: família e poder no Brasil Império. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.</p><p>35 Sobre Minas, ver o primeiro capítulo de BERGAD, Laird. Escravidão e história econômica: demografia de</p><p>Minas Gerais, 1720-1888. Bauru: Edusc, 2004. A respeito de São Paulo, ver LUNA; KLEIN, 2005, p. 41-53.</p><p>36 37</p><p>absolutamente centrais para o deslanche da cafeicultura no Médio Vale do</p><p>Paraíba: sua abertura gerou uma intensa febre fundiária, e em suas margens</p><p>seriam em breve fundados dois dos maiores municípios cafeeiros mundiais</p><p>do século XIX, Vassouras e Valença.36 Em segundo lugar, a abertura dos</p><p>portos permitiu, após 1808, a conexão direta dos senhores de escravos da</p><p>América portuguesa com o mercado mundial. Em conjunção com o cres-</p><p>cimento demográfico da Corte, o Decreto de Livre Comércio teve impacto</p>