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UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE INSTITUTO DE HISTÓRIA PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA MESTRADO EM HISTÓRIA SOCIAL OTTO REUTER LIMA “PRETO E AMARELO”: A CRISE DA ESCRAVIDÃO NEGRA NO BRASIL NA RECONFIGURAÇÃO DO MERCADO DE TRABALHO MUNDIAL ATRAVÉS DA FORÇA DE TRABALHO CHINESA 1870-1889 Niterói 2021 OTTO REUTER LIMA “PRETO E AMARELO”: A CRISE DA ESCRAVIDÃO NEGRA NO BRASIL NA RECONFIGURAÇÃO DO MERCADO DE TRABALHO MUNDIAL ATRAVÉS DA FORÇA DE TRABALHO CHINESA 1870-1889 Dissertação de mestrado apresentado ao Programa de Pós-graduação em História com requisito parcial para obtenção do título de mestre em história. Orientador: Profº. Drº. Tâmis Peixoto Parron Niterói 2021 OTTO REUTER LIMA “PRETO E AMARELO”: A CRISE DA ESCRAVIDÃO NEGRA NO BRASIL NA RECONFIGURAÇÃO DO MERCADO DE TRABALHO MUNDIAL ATRAVÉS DA FORÇA DE TRABALHO CHINESA 1870-1889 Dissertação de mestrado apresentada ao Programa de Pós-graduação em História com requisito parcial para obtenção do título de mestre em história. BANCA EXAMINADORA ____________________________________________________ Profº. Drº. Tâmis Peixoto Parron (orientador) ____________________________________________________ Profº. Drº. Evandro Menezes de Carvalho (UFF/ FGV-Rio) ____________________________________________________ Profª Drª Karoline Carula (UFF) ____________________________________________________ Profª Drª Claudio Costa Pinheiro (UFRJ) Niterói 2021 AGRADECIMENTOS A vida só é possível quando se está rodeado de pessoas que te apoiam, motivam, encorajam e que falam a verdade quando necessário. Agradeço imensamente aos meus familiares e amigos que, ao longo de toda a minha trajetória acadêmica, vivenciaram um pouco do que é ser pesquisador e amar aquilo que se estuda. Agradeço por estudar para ser um historiador. A minha avó, Mary Zimmermann, que sempre apoiou, ajudou e deu forças a todos em quem sua vida tangenciou. Uma verdadeira educadora, mãe, avó e amiga que hoje nos olha e guia das nuvens. Aos meus pais, André e Christian, e ao meu irmão, Hans, que contribuíram com apoio e amor ao longo desses anos. Aos parceiros João, Jean, Antonio, Elisa, Karen e a todos do grupo de estudos COMMUN e do Centro de Ciência Social Histórica sobre Desigualdades Globais UFF pelas discussões, apoio e cumplicidade. Agradeço imensamente ao meu orientador, Tâmis Parron, por me dar um voto de confiança nesse projeto e por atuar de forma compreensiva e firme nos estudos e nas correções. Suas formas disruptivas de pensar e questionamentos foram fundamentais no desenvolvimento da pesquisa e da dissertação. A todos os professores do PPGH UFF, em especial à Jonis, Norberto e Leonardos Marques, com quem conversei e puderam dedicar um pouco do seu tempo para discutir sobre a pesquisa. Agradeço também a minha primeira orientadora e amiga Angela Telles que deu a fagulha do que hoje compõe essa dissertação. Nossas conversas e cafés são sempre muito proveitosos. A evolução acadêmica e pessoal não seria possível sem o apoio incondicional da minha companheira de vida, Nathalia, com quem passei (ou deixei de passar) noites devidos a pesquisa. Muitíssimo obrigado pelo companheirismo, paciência a compreensão. Te amo, meu amor! Estaremos sempre juntos! Por fim agradeço aos funcionários da Universidade Federal Fluminense, do Instituto de Historia, e do Programa de Pós-Graduação em Historia que foram sempre muito solícitos e amigáveis. Obrigado ainda ao Programa CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), pelo financiamento desta pesquisa. RESUMO A presente pesquisa busca inserir novas perspectivas nas discussões em andamento sobre a crise da escravidão negra no Brasil no final do século XIX. A crise do cativeiro será analisada juntamente com as discussões sobre a expansão das fronteiras agrícolas de commodities nas regiões cafeeiras do Império Centro-Sul. Em uma visão comparativa, discutiremos a gênese da discussão da política imigrantista no Brasil e o surgimento da ideia da migração asiática chinesa. A gênese das discussões sobre a política imigrantista é, portanto, profundamente relacionada ao fim da escravidão negra e a percepção difusa de uma suposta falta de mão de obra entre proprietários de negros escravizados. Essa política de imigrantes será comparada com políticas similares em outros territórios políticos da segunda metade do século XIX, como Cuba, igualmente vinculadas à força de trabalho geral do mercado mundial e aos chineses em particular. Palavras-Chave: Política imigrantista; Imigração chinesa; chins; Império brasileiro; Escravidão. ABSTRACT This research seeks to insert new perspectives into ongoing discussions about the crisis of black slavery in Brazil at the end of the 19th century. The crisis of slavery will be analyzed with discussions on the expansion of agricultural frontiers for commodities in the coffee-growing regions of the Center-South Empire. In a comparative perspective, we will discuss the genesis of the immigration policies discussion in Brazil and the emergence of the idea of Chinese Asian migration. The genesis of discussions on immigrant policy is therefore deeply related to the end of black slavery and the widespread perception of an alleged lack of labor among owners of enslaved blacks. This immigration policy will be compared with similar policies in other political territories of the second half of the 19th century, such as Cuba, equally linked to the general workforce of the world market and the Chinese in particular. Keywords: Immigration policies; Chinese immigration; chins; Brazilian Empire; Slavery. LISTA DE FIGURAS E IMAGENS Figura 1 - “Preto e Amarello”. ......................................................................................13 Contrato 1 - “Contrata em Espanhol”..........................................................................67 Contrato 2 - “Companhia Cubana de Emigracion para La Habana”........................68 Contrato 2.1 - “Contrato em Chinês”...........................................................................69 Imagem 3.1.1 - “O Congresso Agrícola”.................................................................81-84 Imagem 3.1.2 - “O Horizonte Chinês”.........................................................................85 Imagem 3.1.3 - “Costumes chineses”.......................................................................87-89 Imagem 3.1.4 - “Preparativos para a viagem à China”..............................................91 Imagem 3.1.5 - “Embrião Chinês”................................................................................92 Imagem 3.1.6 - “Festa Chinesa” ..................................................................................95 Imagem 3.1.7 - “Os reclamantes”.................................................................................97 Imagem 3.1.8 - “Os chins na lavoura”...................................................................97-102 Imagem 3.1.9 - “Cumprimentos a Vital d’Oliveira”.................................................104 Imagem 3.1.10 - “Brotos chineses”..............................................................................105 Imagem 3.1.11 - “Brotos chineses”..............................................................................105 Imagem 3.1.12 - “A Colonização Chinesa”.........................................................106-113 Imagem 3.1.13 - “Chino-mania”..........................................................................115-118Imagem 3.1.14 - “A China na imprensa internacional nos EUA”..........................119 Imagem 3.1.15 - “A China na imprensa internacional na Austrália”....................120 LISTA DE TABELAS Tabela 1: Participantes do Congresso Agrícola, por Província (1878) ......................25 Tabela 2: Participantes do Congresso por Complexo Socioecológico (1878) ............32 Tabela 3: Importações de coolies para Cuba (1847-1874) ..........................................65 LISTA DE GRÁFICOS Gráfico 1: Valor das exportações de café, algodão e açúcar (1859/60-1880/81) …...10 LISTA DE MAPAS Mapa 1: Rio de Janeiro e as macrorregiões produtoras (1850-1889) ........................27 Mapa 2: São Paulo e as macrorregiões produtoras (1850-1889) ................................29 Mapa 3: Minas Gerais e as macrorregiões produtoras (1850-1889) ..........................31 Mapa 4: Localização socioespacial a favor da imigração chinesa (1878) ..................40 Mapa 5: Rebeliões na China no século XIX..................................................................54 SUMÁRIO INTRODUÇÃO - ESCRAVIDÃO NEGRA E TRABALHO CHINÊS NO IMPÉRIO DO BRASIL: INTERDEPENDÊNCIA E CONFLITO................................................1 CAPÍTULO 1 – A CRISE DA ESCRAVIDÃO BRASILEIRA NA SEGUNDA METADE DO SÉCULO XIX E O CONGRESSO AGRÍCOLA (1878) ...................5 O tráfico interno...............................................................................................................8 A ascensão do Gabinete Sinimbu (1878) e suas pautas políticas.................................11 Congresso Agrícola do Rio de Janeiro..........................................................................16 Os números do Congresso Agrícola: um congresso do café.......................................24 O Questionário do Congresso Agrícola.......................................................................33 A questão chinesa no Congresso Agrícola...................................................................38 Considerações.................................................................................................................44 CAPÍTULO 2 - OS FLUXOS E REFLUXOS GLOBAIS DA MÃO DE OBRA ASIÁTICA CHINESA NÃO QUALIFICADA: TERRA, TRABALHO, CAPITAL E RAÇA..........................................................................................................................48 Historia da China no século XIX – um voo de Dragão: O tardio Império Qing: apontamentos e problemas............................................................................................50 A era dos tratados desiguais: invasões e rebeliões .....................................................55 As papoulas e o ópio.......................................................................................................56 Os usos e padrões de posse da terra...............................................................................57 Os alicerces do trabalho contratados............................................................................59 Comércio coolie..............................................................................................................62 Cuba e Peru....................................................................................................................64 Considerações.................................................................................................................72 CAPÍTULO 3 - OS DISCURSOS SINÓFILOS NA SOCIEDADE BRASILEIRAS A Revista Illustrada e a construção do estereótipo chinês...........................................74 Considerações...............................................................................................................122 CONCLUSÃO..............................................................................................................124 ANEXO.........................................................................................................................126 FONTES CITADAS....................................................................................................131 BIBLIOGRAFIA.........................................................................................................134 1 INTRODUÇÃO - ESCRAVIDÃO NEGRA E TRABALHO CHINÊS NO IMPÉRIO DO BRASIL: INTERDEPENDÊNCIA E CONFLITO Esta pesquisa analisa as origens históricas das relações entre o Império do Brasil e o Império chinês na segunda metade do século 19, enfocando as discussões da época sobre a migração chinesa para o Brasil. Alicerçada em uma abordagem global, a pesquisa entende que as transformações no sistema capitalista mundial, que intensificaram as contradições internas do escravismo no Brasil, também criaram as condições para a onda de migração transnacional chinesa em massa para as Américas. Desse modo, a crise da escravidão negra1 e o surgimento de novos tipos de mobilidade internacional da força de trabalho se inscrevem nas mesmas condicionantes estruturais mais profundas do capitalismo mundial. Para iluminar essas relações, a pesquisa identifica e discute discursos publicados em jornais, revistas, anais de congressos e livros sobre a questão da migração chinesa para o Brasil no século XIX. Através de uma análise quantitativa e qualitativa dos anais do Congresso Agrícola realizado em 1878, o ponto chave do primeiro capítulo será entender como a gestão política do futuro histórico da escravidão entrou em crise nos anos 1860 e 1870, bem como a gênese das discussões sobre a política imigrantista sinófila. Os processos internos e externos são analisados como fatores interdependentes e conflituosos de uma totalidade processual, no entanto, cada qual tendo seus ritmos particulares de ordem econômica, política, cultural e ecológica. No segundo capítulo direcionaremos o esforço na análise dos consequentes processos globais de mão de obra, ou seja, os fluxos e refluxos humanitários globais. Com foco na imigração asiática chinesa da segunda metade do século XIX que, no caso brasileiro e cubano tem suas relações com o avanço da geocultura mundial para o fim da escravidão, buscamos compreender histórias locais particulares como elementos/partes integrantes de processos socioeconômicos mundiais. Ainda, a heterogeneidade das relações espaciais e temporais dos processos capitalistas no século XIX são também parte da origem dos fatores que alteram as relações de trabalho nos séculos decorrentes. Analisaremos também as condições globais dos fluxos migratórios dos chineses através da reconfiguração do mercado mundial da força de trabalho asiática. A formação de um mercado internacional de trabalhadores no Atlântico entre os séculos XVIII e XIX teve, como uma de suas consequências, a busca por mão de obra mais barata, entre outras, os 1 Por escravidão negra estão inclusos pardos, pretos, cabras, crioulos, caboclos, negros e mulatos. 2 chineses e/ou coolies. A migração transnacional dos chineses, por sua vez, não deve ser vista como um processo desconectado do sistema capitalista global, sendo parte fundamental também nos processos relacionados a crise global da escravidão negra. Portanto, em cada país onde podemos observar a migração chinesa, devemos ter olhares atentos às interconexões globais. O foco do terceiro capítulo será na análise das fontes bibliográficas sobre a política imigrantista sinófila no Brasil no século XIX. Para tanto, analisaremos as principais fontes políticas, culturais e econômicas que conectaram escravidão, crise da escravidão, café, crisede mão de obra e imigração chinesa. Focaremos em uma análise comparada dos contratos dos trabalhadores imigrantes para o Brasil nas regiões Centro-Sul do Império. Como conclusão, entendemos que os fluxos e refluxos globais de migração humana são um processo importante a ser analisado não só na longa duração, como também em suas pequenas movimentações. As discussões sobre a transferência de trabalhadores asiáticos chineses tiveram como tema central a raça. Alguns dos tópicos de disputa no século XIX incluem dualidades como imigração ou colonização, mão de obra temporária ou trabalhadores contratados, melhores ou piores que os negros escravizados, iniciativa privada ou fomento governamental. Para cada localidade onde os chineses estiveram presentes podemos perceber diferentes discussões sobre esse grupo, além dos diferentes interesses dos chineses e suas próprias ações enquanto trabalhadores e atores sociais. Como veremos, a maioria dos autores desconsidera o Brasil da constelação da imigração da mão de obra chinesa pelo fato de o país não apresentar efetivamente uma ordem de grandeza, tendo em vista que poucos chineses aqui aportaram para trabalhar na lavoura. Os estudos de Juan Hung Hui2, Ana Paulina Lee3 e Rogério Dezem4 são uns dos poucos que citam o caso brasileiro. No entanto o que veremos é como a reformulação da gestão escravidão brasileira foi capaz de manter o servilismo por um maior período, afastando assim a ideia da imigração chinesa. A preferência pela força de trabalho asiática 2 HUI, Juan Hung. Chinos en América. Madrid. Editorial MAPFRE, 1992 3 LEE, Ana Paulina. Mandarin Brazil: Race, Representation and Memory. Stanford, California. Stanford University Press, 2018. 4 DEZEM, Rogério Akiti. Matizes do “amarelo”: a gênese dos discursos sobre os orientais no Brasil (1878/1908). São Paulo: Associação Imperial Humanitas, 2005. & A Questão Chinesa (1879) no Brasil. Revista de Estudos Brasileiros Vol. 14. Portuguese Dept., Osaka University, 2018. &. The Brazilian Belle Epóque: new ideas, old paradigms, Osaka University Knowledge Archive, 2011. 3 chinesa conflui com a reformulação de um estado brasileiro com propostas mais liberais para frear maiores mudanças que incluíam a reconfiguração da terra (latifúndio) e do trabalho (escravidão). A elite imperial brasileira foi responsável por manter a ordem social que a escravidão criou no Brasil no pós-escravidão, sendo a ideia da imigração chinesa uma das diversas tentativas de manter as condições de funcionamento da grande propriedade no centro sul do Brasil sem mexer na reconfiguração estrutural dos fatores de mercado, que são terra e capital; foi, portanto a ordem social escravista e a gestão política de suas características que moldaram o nascimento de uma sociedade livre e as fez sobreviver ao pós-escravidão. Em relação aos diferentes tipos de política imigrantista, por exemplo sinófila e italiana, as discussões do século XIX tratavam em termos de oposição racial. No entanto não faz sentido opormos as políticas imigrantistas, pois esse caminho oculta uma base comum às duas políticas que era criar mecanismos de gestão da crise da escravidão que permitiriam manter alguns princípios organizadores da sociedade escravista na emergência de uma sociedade baseada no trabalho livre; entre os princípios dessa sociedade o mais importante é a estrutura fundiária, responsável pelo trabalho, desigualdade e capital no país. Portanto a política sinófila é uma das inúmeras gestões da crise política da escravidão no Brasil, sendo a própria escravidão negra o fator determinante das condições da sua superação. 4 CAPÍTULO 1 - A CRISE DA ESCRAVIDÃO BRASILEIRA NA SEGUNDA METADE DO SÉCULO XIX E O CONGRESSO AGRÍCOLA (1878) Escorado na estabilidade internacional formada pelas políticas domésticas da escravidão de Brasil, Espanha e Estados Unidos, o trinômio escravista café-açúcar- algodão foi capaz, até a final década de 1850 e início de 1860, de se resguardar internacionalmente contra as pressões política internacionais britânicas. 1 A relação dependente e conflituosa que os três espaços e produtos tinham com a economia da Grã- Bretanha faz parte também das confluências mundiais para o fim da escravidão em nível global. Isso nos mostra que a constelação de forças do capitalismo, ou ainda a geocultura, foram também responsáveis pelo cerceamento internacional da escravidão e do tráfico internacional. Entre os anos entre 1861 e 1865 a Guerra de Secessão americana marca um dos pontos de um ponto de inflexão na história da escravidão mundial. Longe de ser apenas um golpe único e fatal, os conflitos e resoluções travados durante e depois da guerra foram responsáveis por alterar a cadeia global da escravidão. Os imbróglios diplomáticos com a Grã-Bretanha frente a escravidão brasileira acirram-se desde 1845, mas não há até o início de 1860 qualquer elemento com potencial de desestabilizar a política nacional em favor da abolição. O estopim da guerra separatista, e a proclamação por parte da Grã- Bretanha ao assumir e garantir a neutralidade no conflito, conferem a estabilidade brasileira dos últimos 15 anos seu primeiro baque quando o Império precisa se posicionar politicamente diante da guerra. Outros fatores globais também foram responsáveis pela “marcha da civilização” ocidental moderna rumo ao cerco da escravidão. A supressão da servidão russa e a abolição da escravidão pela Holanda marcam, junto ao posicionamento de outros estados europeus na neutralidade da guerra americana, o caminho rumo à adoção pelo trabalho livre. As medidas internacionais também não passaram em branco pela imprensa brasileira, em especial aquela escrita e lida pela Corte, que cada vez mais forçou posicionamentos políticos em favor da libertação dos escravos. 2 1 PARRON, Tâmis Peixoto. A política da escravidão na era da liberdade: Brasil, Espanha e Estados Unidos, 1787-1845. Tese (Doutorado em História) - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo. São Paulo, 2015. 2 YOUSSEF, Alain El. O Império do Brasil na segunda era da abolição, 1861-1880. Tese de Doutorado: FFLCH-USP, 2019. PP. 33-41. 5 A década de 1860 também foi marcante para o Império Espanhol, com novas investidas do império católico ao norte do continente Africano, ao sul da península asiática e nas suas antigas colônias da América central. No entanto as investidas militares de reincorporação das antigas colônias americanas fracassaram. Restavam apenas Cuba e Porto Rico ao Império espanhol, assim como restava a escravidão. Cuba, por sua vez, ainda abastecida pelo comércio ilegal de africanos sofre um choque quando entra em conflito com os Estados Unidos. Soma-se a isso a ampliação do decreto britânico dando poder aos Estados Unidos de costa-guardar e perseguir os navios escravistas nos mares caribenhos, e o fim próximo da escravidão caminhava em passos curtos. A década de 1860 é marcada por choques e processos reestruturantes para a manutenção da escravidão negra nas Américas. 3 A abolição da escravidão negra em Cuba ocorrerá apenas em 1886, todavia há na ilha caribenha a presença de um sistema misto de mão de obra desde os finais da década de 1840. Contando nas extremidades de uma linha imaginária de mão de obra com escravos e trabalhadores livres, há ainda a presença de trabalhadores contratados em estado de servidão, semi-servidão (indentured labor), ou trabalho coercitivo, em sua maioria chinesa. Vinculados fisicamente ao seu local de trabalho por termos estabelecidos no contrato de trabalho, - cinco anos nas jurisdições britânicas e oito anos nas jurisdições espanholas - o sistema de contrato de trabalho, apesar de ser política e juridicamente diferente da escravidão, também contava,ainda que ilegalmente, com um sistema de punições físicas, mobilidade restrita, e prisão em caso de desordem ou não cumprimento do contrato. Tornava-se difícil distinguir visualmente a escravidão do sistema de servidão, visto que ambos os grupos coexistiam em ambientes próximos e seguiam as mesmas metodologias de trabalho. Entre o final da década de 1840 e início de 1850, milhares de trabalhadores foram recrutados e transportados para diversas localidade, como Austrália, Cuba, Peru, Havaí, Califórnia, Guiana Britânica e na região de Réunion, uma ilha a leste do continente africano. Após as Guerras do Ópio (1839-1860), um conflito que econômico e político que usava o ópio para fechar a cadeia mercantil intercontinental do chá e suprir as necessidades da classe operária britânica, a costa do Sul Pacífico Asiático tornou-se acessível as potências ocidentais. Dois portos, um de Xiàmén ou Amoy (廈門) e outro de Guǎngzhōu ou Cantão (广州), foram então abertos para a imigração forçada de 3 YOUSSEF, Alain El. Op. cit, 2019. PP. 87-100. 6 trabalhadores chineses em direção às diversas partes do globo, fato conhecido como coolie trade, ou chinese transnational migrations. As primeiras firmas de recrutamento de trabalhadores, principalmente britânicas, utilizavam serviços de recrutadores chineses autônomos (crimps), cujos métodos de recrutamento variavam entre persuasão sobre falsas alegações, coerção, intimidação e sequestro.4 O século XIX é marcado, portanto com os fluxos e refluxos globais de migração em massa de pessoas da Índia, China e Japão, como resultado do legado dos movimentos de emancipação e abolição da escravidão africana.5 Os coolies chineses e os africanos escravizados, como no caso cubano, eram transportados nos mesmos navios, sob as mesmas condições desumanas, trabalhavam nas mesmas plantações lado a lado e compartilhavam semelhanças nos modelos de resistência.6 Portanto a política brasileira da gestão da crise do cativeiro foi influenciada, entre outras possíveis soluções e projetos de imigração para sanar a dita crise de mão de obra, pela questão da mão de obra chinesa. Trataremos das confluências globais da migração chinesa no próximo capítulo. Os eventos e efeitos decorrentes da Guerra do Paraguai, da Reconstrução nos Estados Unidos, do declínio e cerceamento cada vez maior do tráfico e da escravidão no Império espanhol corriam, no Império do Brasil, como frutos a serem colhidos para propostas da abolição gradual. O Poder Moderador podia colocar a questão em pauta, mas as definições das políticas escravistas imperiais ainda se concentravam nas mãos contrárias ao avanço. No campo financeiro os altos custos da Guerra do Paraguai e as oscilações do preço do café, o principal produto de exportação brasileiro, faziam parte das preocupações imperiais. Devido a importância dos EUA e da Grã-Bretanha na carteira de exportações brasileira, o Império brasileiro permanecia em alerta com a ocorrência da Guerra Civil e de uma possível diminuição do consumo do café.7 4 LAI, Walton Look. Chinese Overseas: Coolie Trade. In: PONG, David (Ed. In Chief). Encyclopedia of modern China, Charles Scribner’s Sons, 2009. Volume 1, A-E. PP. 23-247. 5 Entendemos que as reestruturações globais no mercado de trabalho mundial alteraram os fluxos e refluxos globais de imigração. Longe de ser apenas a imigração asiática chinesa a única atingida pelo fim da escravidão. Esta é apenas a que escolhemos focar neste trabalho. 6 HU-DEHART, Evelyn; LÓPEZ, Kathleen. Asian Diasporas in Latin America and the Caribbean: An Historical Overview. In: Afro-Hispanic Review, Volume 27, no. 1, 2008. PP.9-21. 7 “Indissociável do cotidiano das sociedades urbanas industriais, cujos ritmos de trabalho passaram a ser marcados pelo consumo da bebida. [...] Não por acaso, o Brasil e os Estados Unidos - o paradigma dos novos modos de vida industrial e do consumo de massa - foram as duas pontas principais da cadeia da mercadoria ao longo do século XIX e na centúria seguinte.” MARQUESE, Rafael Bivar & TOMICH, Dale. “O Vale do Paraíba escravista e a formação do mercado mundial do café no século XIX”. In GRINBERG, Keila & SALLES, Ricardo (orgs.). O Brasil Imperial. vol. 2 - 1831-1870. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009. P.373. 7 Concomitante à guerra na bacia do Prata, cada vez mais faziam-se presentes as sociedades abolicionistas e as revistas ilustradas na sociedade da Corte. Entre os anos de 1868 e 1871 essas organizações foram responsáveis também pela pressão política e social que motivou a aprovação de leis provinciais em favor da abolição. A criação e presença de sociedades abolicionistas podem, portanto, levar o tema do cativeiro para as esferas sociais ao deslocar a pauta da liberdade dos meios políticos para a realidade. 8 O surgimento de um grupo notável de cartunistas e de revistas ilustradas, - como o alemão Henrique Fleiuss (1824-1882), o francês Joseph Mill (?-1879), o português Rafael Bordalo Pinheiro (1846-1905), e o italiano Angelo Agostini (1843-1910); e revistas como a Semana Illustrada (1860), Bazar Volante (1863), Vida Fluminense (1868), O Mosquito (1877), O Mequetrefe (1875), e, talvez mais importante da época, a Revista Illustrada (1876) - muitos de orientação liberal, anticlerical e até republicanos, foram responsáveis também por divulgar os acontecimentos nacionais e internacionais até mesmo àqueles que não sabiam ler. As revistas ilustradas foram elementos constitutivos na formação imagética de uma identidade nacional que, através de um determinado modo de sensibilidade, souberam traduzir o debate político e social trabalhando como um fórum de discussão política ao compor elementos simbólicos e materiais de uma nação.9 Mesmo as revistas contendo em si uma narrativa própria do autor e por vezes hiperbólica e fantasiosa, nos servem como um excelente documento iconográfico de discussão e de imaginário social da época.10 Veremos no terceiro capítulo, através da Revista Illustrada, como esses elementos constitutivos de construção e discussão social foram capazes de representar as discussões políticas, sociais e culturais sobre a questão chinesa em comparação com outras políticas imigrantistas e também em discussão com as teorias raciais da época. O antiescravismo ascendente no interior da geocultura oitocentista era sentido nas províncias, no território brasileiro e pairava também nas discussões políticas dos gabinetes conservadores. O problema do elemento servil ganhou um impulso sem precedentes nas discussões políticas oficiais. Enquanto na década 1850 podemos contar 8 YOUSSEF, Alain El. Op. cit, 2019. PP.158-159. 9 TELLES, Angela da Cunha Motta. Desenhando a nação: revistas ilustradas do Rio de Janeiro e Buenos Aires nas décadas de 1860-1870. Brasília: FUNAG, 2010. P.299. 10 LEMOS, Renato. Uma história do Brasil através da caricatura 1840-2001. Rio de Janeiro: Bom Texto e Letras e Expressões, 2002. 8 menos de meia dúzia de projetos 11 , duas leis 12 , e dois decretos 13 sobre o tema da escravidão, sem diminuir a importância destes, a evolução global rumo ao fim da escravidão começou a caminhar em passos mais largos na virada do decênio. As décadas de 1860 e 1870, por outro lado, possuem inúmeros projetos, sendo dezesseis na década de 1860, e dez na década de 1870, seis decretos e duas leis14. O condicionamento dos discursos políticos em uma multicausalidade global foi apresentado por quase todos aqueles que desejavam defender ou abolir a escravidão. Portanto, as análises multicausais não são apenas fruto de uma historiografia recente, sendo parte integrante também dos discursos políticos da segunda metade do século XIX. O tráfico interno O tráfico interno brasileirosofre uma reformulação quantitativa com a transformação do tráfico de escravizados em atividade ilegal na década de 1850, sendo este o período de crescimento abrupto, mas que não alcança o maior nível histórico. A década de 1860 por sua vez apresenta taxas regulares em uma espécie de platô. A estabilidade dos níveis de comércio ilícito e clandestino deve-se em parte a Guerra Civil dos EUA, pois com a queda da produção Norte-americana de algodão, o Nordeste brasileiro assumiu uma posição importante na produção e venda desta commodity agrícola. O pós-guerra Civil nos Estados Unidos é marcado pela retomada econômica do crescimento da produção do algodão, o que gera no Brasil perda do mercado e crises nas fazendas destinadas a tal cultivo. Devido ao vácuo gerado pela guerra, a crescente produção norte americana, e a ampliação mundial da fronteira do algodão, há como consequência o barateamento do preço do algodão, que exclui o algodão brasileiro da equação. 11 1850 - Projeto do Deputado Silva Guimarães a favor da liberdade para os nascidos de ventre escravo; projetos dos Senadores Holanda Cavalcanti e Cândido B. de Oliveira sobre tráfico de escravos (maio de 1850). 1852 - Projeto do Deputado Silva Guimarães considerando livres os que nascessem de ventre escravo. 1854 - Projetos nº 117 e s/nº do Barão de Cotegipe (J, M, Wanderlei) sobre comércio interprovincial de escravos e sobre alforria. 12 1850 - Lei no 581, de 4/9/1850 (Lei Eusébio de Queiroz) sobre tráfico de africanos. 1854 - Lei nº 731, de 5/6/1854 – punição para capitão ou mestre, piloto ou contramestre de embarcação que fizesse tráfico de escravos. 13 1853 - Decreto nº 1.303 emancipando, depois de quatorze anos, os africanos livres que foram arrematados por particulares. 1854 - Decreto nº 1.310, de 2/1/1854 manda executar a Lei de 10/6/1835 sem recurso, salvo o do Poder Moderador, em caso de pena de morte para os escravos. 14 A lista completa dos documentos enumerados pode ser encontrada em Abolição no parlamento – vol. 1, Sumário Cronológico 1823-1883, assim como a indicação das páginas de cada projeto e a transcrição deles. 9 Nos EUA (Estados Unidos da América), a retomada econômica não demorou muito para conquistar os mesmos níveis de antes da guerra e dar maior poder de compra aos americanos, fazendo com que os estados americanos vivenciassem uma fome de café. As íntimas relações políticas e econômicas já discutidas entre o Império do Brasil e os Estados Unidos têm aqui mais uma vez sua comprovação na balança comercial brasileira e no tráfico interno. Com o aumento do consumo do café, a década de 1870 atinge o ápice do tráfico interno no Brasil movendo os escravos no binômio Norte-Sul e cidade-campo. Temos, portanto, nas décadas de 1860/70 uma reformulação na gestão da escravidão brasileira fruto das alterações globais da escravidão. Por fim, a década de 1880 representa, na curva das relações do tráfico interno, o período de diminuição através das legislações controladoras.15 O desenho da curva aqui mencionado traça um panorama sobre o tráfico interno brasileiro, principalmente se considerarmos o café e a expansão da fronteira agrícola no sudeste brasileiro. No entanto devemos mencionar ainda a título de importância a expansão da fronteira da borracha no Norte do país, que motivou uma onda de tráfico interno e de manutenção da escravidão, sendo o último entreposto escravista do país. Diferentemente dos Estados Unidos, o Império do Brasil não exibia altas taxas de reprodução vegetativa entre os negros escravizados. Ainda assim, pode ter havido crescimento natural dentro de determinadas escravarias e fazendas através da vontade dos senhores de escravos, e talvez mais importante, através da formação de famílias negras por relações humanas afetivas. Nesse sentido, o ano de 1871 pode ser considerado como uma marca no declínio definitivo da era escravista. Conforme comentado, o Império do Brasil não mantinha uma política nacional de manutenção/ incentivo das escravarias através da reprodução natural. A Lei do ventre livre, definindo a libertação dos nascituros, findava, para o caso brasileiro, uma possibilidade de crescimento vegetativo através de reprodução natural de cativos assistida pelos fazendeiros. 15 SLENES, Robert W. “Grandeza ou decadência? O mercado de escravos e a economia cafeeira da Província do Rio de Janeiro, 1850-1888”. In: COSTA, Iraci del Nero da (org.). Brasil: história econômica e demográfica. São Paulo: IPE/USP, 1986. 10 Gráfico 1 – Valor das exportações de café, algodão e açúcar (1859/60-1880/81) Fonte: Estatísticas históricas do Brasil: séries demográficas, econômicas e sociais de 1550 a 1988. (2ª edição revista e atualizada). Rio de Janeiro: IBGE, 1990, pp. 345 (açúcar), 346 (algodão), 347 (borracha) e 350 (café). Apud. YOUSSEF, Alain El. 2019, P. 211. Em perspectiva comparada com a linha do tráfico interno comentada acima, nota- se uma curva parecida com o valor das exportações do café no gráfico 1. Nada acontece por acaso. Com a queda no preço do algodão, a variação do açúcar, e a borracha ainda sem grande importância, foi o café o principal responsável pela manutenção do tráfico interno, da escravidão e da expansão da fronteira agrícola para regiões mais afastadas. A fome mundial pelo café, tendo os EUA como principal consumidor, acompanhada da Alemanha, Inglaterra e França, foi capaz de impulsionar o cultivo cafeeiro brasileiro para além do Vale do Paraíba, que sozinho não consegue suprir a demanda mundial. A expansão da fronteira agrícola do café para regiões mais afastadas só foi possível graças à alta dos preços internacionais, à expansão da malha ferroviária, à plausível e futura exaustão ecológica das regiões cafeeiras antigas, à uma maior obtenção de crédito, e às propostas de imigração e o subsídio das mesmas. No entanto foi o alastramento da malha ferroviária o fator responsável pela exploração máxima das regiões antigas do café; por uma maior concentração de renda e promoção da desigualdade social ao permitir maiores deslocamentos; pela mercantilização da terra; pelo barateamento do custo do frete nas regiões cafeeiras mais distantes; e pela criação e estruturação de um mercado de mão de obra, dando mais mobilidade aos trabalhadores nas novas regiões do café onde a escravidão era reduzida ou não existente. 11 Apesar de existentes desde a década de 1850 quando o tráfico transatlântico passa a ser de fato proibido, os principais problemas da lavoura escravista brasileira foram acumulados e postergados ao seu máximo alargamento até a abolição. Reduzido por grande parte da lavoura brasileira no binômio de falta de mão de obra e capitais, a redução em dois fatores dos macroproblemas brasileiros causados pela reformulação da gestão da escravidão pode, na verdade, ser reduzida ainda em um: o fim da mão de obra escravizada. A solução proposta para e pela lavoura era gerar um novo fluxo de trabalhadores, cujo número fosse expressivo o suficiente para exceder o necessário e manter assim os valores salariais reduzidos ao ponto da exploração pela não violência ser mais vantajosa para os senhores da terra. Surgem então de modo mais contundente, nas décadas de 1860/70, os principais projetos de imigração, subsidiada ou não, para substituição da mão de obra escravizada. No entanto é só com a imigração subsidiada, e a evolução política e social das relações entre trabalhadores e fazendeiros, que os projetos passaram de experiências malsucedidas para relações de trabalho assalariadas, passando por sistemas de parceria e colonato. Um dos projetos que antes margeava o pensamento social e político brasileiro passa a ser discutido com mais seriedade devido ao Congresso Agrícola, a imigração de asiáticoschineses - ou ainda chins ou coolies, visto que a maioria das opiniões manifestadas não diferenciava as distintas sociedades, sendo os primeiros chineses e os segundos indianos. As ampliações das fronteiras globais de mercadoria, além da primeira crise global do capitalismo, foram também responsáveis pelos primeiros grandes fluxos globais de imigração. As relações globais do capitalismo através das commodities agrícolas, antes restritas a determinadas regiões e sem possíveis grandes competidores tiveram, com o fim da escravidão mundial e o desponte de uma nova potência mundial, os EUA, uma reformulação no mercado mundial capitalista capaz de reestruturar as relações interestatais e ampliar o escopo de atuação não só dos espaços econômicos, mas também da atuação humana. A era do mundo conectado entra em atuação de forma ainda não vista. A ascensão do Gabinete Sinimbu (1878) e suas pautas políticas “Trocarmos o elemento africano pelo asiático, é o mesmo que escapar de Scylla e cahir em Charybides”, escreveu J. I Arnizaut Furtado em seu livro Estudos sobre a 12 libertação dos escravos no Brazil, publicado em 188316. Cila e Caribdes são figuras imortais e monstruosas da mitologia grega que guardam o Estreito de Messina, entre a Península Itálica e a Sicília, descritas no canto XII da Odisseia de Homero. A primeira figura pode ser descrita como “uma criatura feminina sobrenatural, com 12 pés e seis cabeças em longos pescoços, cada cabeça com uma tripla fileira de dentes semelhantes a tubarões, enquanto seus lombos eram cingidos pelas cabeças de cães latindo. ” Caribdes, por sua vez, “espreitava embaixo de uma figueira a um tiro de arco na margem oposta, bebia e arrotava as águas três vezes ao dia e era fatal para o transporte. Sua personagem era provavelmente a personificação de um redemoinho. ”17 Figuras mitológicas imortais e monstruosas residentes em direções opostas de um pequeno estreito de rochas e mar, e que constituíam um dilema: estar entre duas alternativas igualmente desagradáveis. O dilema fica mais explícito na imagem abaixo da Revista Illustrada. A charge desenhada pelo artista Angelo Agostini (Figura 1) coloca ao centro a representação da lavoura brasileira em seus trajes típicos de senhorio, de seus fazendeiros escravistas, sendo sustentada por duas cabeças, uma negra escrava e outra asiática chinesa sobre um chão forrado de folhas e frutos de café e cana-de-açúcar. Ainda de cenho franzido, elas olham diretamente para o leitor, intimando-o a pensar aquilo que a legenda explicita: “Preto e Amarello. É possível que haja quem entenda que a nossa lavoura só pode ser sustentada por essas duas raças tão feias! Mau gosto!” A charge ácida e em tom de denúncia explicita não só o cancro da civilização brasileira, a escravidão, mas relaciona ainda a dependência da lavoura brasileira do século XIX à escravidão negra e a uma possível escravidão asiática chinesa. O dilema, nas imagens de Angelo Agostini e nas discussões da época sobre o tema, como veremos ao longo do texto, estava na escolha de duas raças. Escolher entre Scylla e Charybides, entre “Preto e Amarello”, era estar entre duas alternativas igualmente desagradáveis. 16 FURTADO, J. I. Arnizaut. Estudos sobre a libertação dos escravos no Brazil. Typographia da Livraria Americana, 1883. 17 Scylla and Charybdis. Disponível em: <https://www.britannica.com/topic/Scylla-and-Charybdis> Acesso em 28 de julho de 2020. Tradução livre. 13 Figura 1 - “Preto e Amarello” Fonte: “Preto e Amarello”. Revista Illustrada, n. 258. Rio de Janeiro, 1881 (Capa). Disponível em: DAMI, Acervo Digital. Coleção Revista Illustrada. https://museuimperial.museus.gov.br/ https://museuimperial.museus.gov.br/ 14 A ascensão de João Lins Vieira Cansanção de Sinimbu, o Visconde de Sinimbu, em 5 de janeiro de 1878, a dois cargos dentro do conselho de ministros imperiais, é tão importante quanto o congresso agrícola que ele irá convocar em 1878. Nascido no famoso engenho alagoano Sinimbu, a vida do Ministro vem carregada ainda por laços familiares importantes na historia de Alagoas. Sem informações concretas sobre a posse de escravos pelo Ministro alagoano18, foi necessário revirarmos a vida de seus pais: o capitão de ordenanças Manoel Vieira Dantas e Ana Maria José Lins. Tais personalidades são importantes tanto na historia de Alagoas, quanto na historia Imperial brasileira, tendo a família participado na Revolução Pernambucana (1817) e na Confederação do Equador (1824). Mesmo que ainda moço, com 7 e depois 24 anos, Sinimbu teve um significativo papel ao lado de seu pai na fuga pelo território alagoano após sua condenação à morte pela participação da insurgência contra a Monarquia em 1824.19 Homem político de longa data, desde 1840, Sinimbu já havia atuado em lideranças provinciais, no conselho de ministros e em outras funções políticas. Passando até por uma situação de denúncia de falência quando assume o Banco Nacional, gerando discussões nos meios políticos, com a sugestão de que o então diretor deveria estar preso se não fosse o seu foro de senador. Ministro das Relações Exteriores no Gabinete Ferraz (1859-1861), e Ministro da Justiça durante algum tempo no Gabinete Olinda (1862-1864), o político alagoano teve intensa vida política na década que reformulou as bases do cativeiro nacional. A escolha de político da província de Pernambuco para o cargo de Presidente do Conselho de Ministros e de Ministro da Agricultura, Comércio e Obras Públicas para o 27º gabinete imperial não foi por acaso. Assumindo dois importantes cargos dentro da pasta, Sinimbu possuía poderes políticos como uma espécie de primeiro-ministro, pois 18 No entanto há informações no Diário do Rio de Janeiro de 1825 da fuga de um escravo a serviço do Capitão Manoel Vieira Dantas. “50. Fugiu no dia 7 do corrente da Fortaleza de Villegaihnon, um escravo de nome Roque, pardo, e de idade 14 anos pouco mais ou menos, tem os sinais seguintes: cabelo carapinhado, baixo, e cheio de corpo, levou jaqueta, e calças pardas, e chapéu de baeta, fugiu indo a serviço de seu Sr. que é o Capitão Manoel Vieira Dantas, que se acha na mesma Fortaleza; roga-se qualquer capitão do mato, ou outro pessoa que dele saiba, queira dar noticia na Cidade Nova na rua das Flores n. 62, que ali se lhe satisfará seu trabalho.” Diário do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, ano 1825, número 18, edição 500018, p. 74, Escravos Fugidos. 19 Informações sobre os processos referentes ao pai de Sinimbu e sua história podem ser encontrados ainda no: Diário de Pernambuco, Pernambuco, ano 1832, número 460; Annaes do Parlamento Brasileiro, Câmara dos Senhores Deputados, quarto ano da Sexta Legislatura, Sessão de 1847, Tomo Segundo, pp. 343-347; e O Brasil Histórico: Jornal Histórico, Politico, Literário, Cientifico e de Propaganda Homeopática, Rio de Janeiro, Ano 1, número 35; e COSTA, Craveiro. O visconde de Sinimbu: sua vida e sua atuação na política nacional (1840-1889). São Paulo, Companhia Editora Nacional, Brasiliana, Biblioteca Pedagógica Brasileira, série 5ª, Vol. 79. Disponível em http://bdor.sibi.ufrj.br/handle/doc/161. http://bdor.sibi.ufrj.br/handle/doc/161 15 atendia aos interesses diretos do Imperador para limar a base conservadora, e liderava a esfera política liberal em duas importantes funções. O presidente do Conselho de Ministros possui, como uma de suas funções, ser a ligação direta entre o quadro ministerial e o governo imperial, além de fazer a escolha, opinativa pelo poder moderador, dos outros ministros. A Secretaria de Estado dos Negócios da Agricultura, Comércio e Obras Públicas, criada em 1860 e regulamentada em 1861, tem como base o processo de modernização do império.20 No primeiro relatório da pasta,o então Ministro Manoel Felizardo de Souza e Mello (1805-1866), presente no Gabinete Caxias (1861), manifestou alguns fatores para a modernização da agricultura no país que, como veremos ao longo do texto, foram recorrentes no século XIX. A legislação do crédito hipotecário e territorial, facilitando a aquisição de capitais para a modernização das lavouras e fazendas; a construção e melhoramento das estradas de ferro para melhor escoamento da produção; a instrução dos lavradores através de escolas primárias de ensino teórico e prático; e o incentivo a imigração para o país foram as principais pautas da nova Secretaria e do Gabinete liderado pelo marquês de Caxias.21 Em linhas gerais, os apontamentos que norteiam as discussões políticas sobre a escravidão de toda a segunda metade do século XIX brasileiro e, em especial das décadas de 1850, 60 e 70, são os mesmos do Congresso Agrícola convocado por Sinimbu no ano de 1878: modernização da lavoura, vias de comunicação, crédito agrícola, projetos de imigração, substituição da mão de obra escravizada, crise do cativeiro e instrução profissional - com o adicional dos projetos de imigração asiática chinesa para substituição da mão de obra negra escravizada. 20 LOUISE, Gabler. A Secretaria de Estado dos Negócios da Agricultura, Comércio e Obras Públicas e a modernização do Império (1860-1891). Cadernos MAPA n. 4. Memória da Administração Pública Brasileira. Rio de Janeiro, Arquivo Nacional, 2012. pp.10-11. “De acordo com o decreto n. 2.747, a nova secretaria teria atribuições que anteriormente pertenciam às Secretarias de Estado dos Negócios do Império e da Justiça. Os negócios relativos a iluminação pública da Corte, telégrafos, o serviço da extinção dos incêndios e as companhias de bombeiros, vieram do Ministério da Justiça. As atribuições originárias da pasta do Império eram mais numerosas, tais como os assuntos relativos ao comércio, à indústria e à agricultura, e também os seus meios de fomento, desenvolvimento e ensino, introdução e aclimatação de espécies, os jardins botânicos e passeios públicos, os institutos agrícolas, assim como a Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional e quaisquer outras que se propusessem aos mesmos fins, os assuntos relativos à mineração, a autorização para incorporação de companhias ou sociedades relativas aos ramos de indústria, a concessão de patentes e prêmios pela introdução de indústria estrangeira, os negócios concernentes ao registro de terras, a colonização, a catequese e civilização dos índios, as missões e aldeamentos, as obras públicas gerais no município da Corte e nas províncias e as repartições encarregadas de sua execução e inspeção, as estradas de ferro, de rodagem e quaisquer outras, bem como as companhias ou empresas encarregadas de sua construção, conservação e custeio, a navegação fluvial, os paquetes e os correios terrestres e marítimos.” 21 Idem ibidem, p.13. 16 Devemos estar alertas que, no entanto, todos os apontamentos eram pano de fundo para a principal discussão da época, a crise da escravidão. As discussões decorrentes do primeiro Congresso Agrícola de 1878 serão o enfoque dessa sessão. Mencionaremos também, em perspectiva comparada, o congresso agrícola convocado pelas províncias do Norte, ou o segundo Congresso Agrícola. Juntamente com uma análise geopolítica dos presentes, as regiões lavoureiras, seus principais produtos, e a espaço-temporalidade de cada região. Mapearemos também as posições da lavoura brasileira contidas nos anais do Congresso em relação aos assuntos propostos pelo governo, e outros surgidos no decorrer do congresso para as resoluções da crise do cativeiro. Precisa-se reforçar, no entanto, que os Congressos Agrícolas não devem ser vistos como um ponto final nas reformulações dos processos políticos econômicos do Estado Imperial brasileiro, e nem mesmo um “raio do céu sem nuvens”. Também não são parte de uma linha escatológica rumo à modernidade, sendo apenas uma das diversas medidas tomadas no âmbito imperial brasileiro que atendia, ou buscava atender, aos interesses específicos de uma reduzida elite que comandava as receitas do império. Não que fossem os fazendeiros e senhores de escravos detentores de toda a receita imperial brasileira, mas, como vimos, os produtos da agro exportação brasileira, entre eles o café e o açúcar em maior importância, representavam bem mais da metade das receitas imperiais, junto da escravidão. Ao considerar ainda os bancos, hipotecas, empréstimos, casas comissárias, capitalistas, e as redes de ligações de todos envolvidos de alguma maneira na escravidão e/ou no café, um abrupto colapso nos negócios escravistas representaria também um colapso imperial. Congresso Agrícola do Rio de Janeiro O Congresso Agrícola do Rio de Janeiro, convocado por João Lins Vieira Cansanção de Sinimbu, Ministro da Agricultura e Obras Públicas e presidente do Conselho Agrícola de 1878, buscou opiniões e resoluções sobre a crise da lavoura brasileira ao considerar a grande lavoura a base da riqueza nacional e das instituições civis e políticas do Império. Congratulo-me convosco por nos acharmos hoje aqui reunidos, eu como representante do Governo, e vós que representais essa importante classe, sobre a 17 qual se firma a riqueza nacional e, com esta, as instituições civis e políticas do Império.22 O discurso proferido pelo então ministro na 1ª Sessão em 8 de julho de 1878, ao alinhar seu posicionamento com as opiniões manifestadas pelo Poder Moderador, visou percorrer os grandes problemas da indústria agrícola brasileira. Ora limitada às regiões Centro-Sul do Império - Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e Espírito Santo - a convocação do Congresso deveria servir a todos aqueles que mantinham interesse na lavoura brasileira. No entanto, ao olhar em perspectiva com a subsequente convocação do Congresso Agrícola do Recife como uma espécie de ato político, e a importância econômica, política e social, também destacada por Sinimbu em seu discurso, da região da Corte, não foi apenas por questões logísticas que o Congresso foi convocado no Rio de Janeiro. A lavoura próspera e problemática do Sudeste compôs todas as discussões do evento ao serem discutidos seus principais problemas. Para o político nordestino, a lavoura do Brasil encontrava-se estacionária tecnologicamente em comparação a nações similares. Na situação atual de nossa grande lavoura, quando uma profunda evolução social se opera; quando completamente se transformam as condições do trabalho rural; quando países análogos ao nosso, com produções similares, procuram progredir por todos os meios, mediante máquinas e processos os mais aperfeiçoados, que as ciências — a química, a física e a mecânica — em suas variadas aplicações, tem posto ao serviço da indústria agrícola, conservamo-nos estacionários no meio desse grande movimento, sem ao menos empenharmos os esforços ao nosso alcance para evitar que enfraqueçam ou se estanquem as fontes da produção nacional, seria, senhores, permitam-me dizê-lo, não somente um erro, mas um grave crime, perante o tribunal da geração vindoura.23 A profunda revolução social que transformava as condições de trabalho rural era, para o caso brasileiro, o cerceamento internacional e nacional do cativeiro negro que, nas palavras do Ministro, poderiam enfraquecer ou estancar as fontes da produção nacional. Além disso, enquanto a escravidão e a mão de obra escrava fossem possíveis para o trabalho e para a obtenção de crédito agrícola através de hipotecas e empréstimos desempenhavam com eficiência o papel de capital fixo. Seguindo o discurso, o Presidente do Congresso Agrícola entende estar a grande lavoura brasileira se sentindo ameaçada e justifica a convocação da sessão como uma forma de auxiliar e criar um nexo entre a grandelavoura brasileira e o governo - a pequena 22 Congresso Agrícola. Rio de Janeiro, 1878: Anais. Introdução e notas de José Murilo de Carvalho. Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1988, p.125. 23 Ibidem, p.125. 18 lavoura, mesmo não sendo o foco do congresso, também é “destinada a exercer justa influência na riqueza e prosperidade nacionais”. A marcha da sociedade está, porém, sujeita às leis naturais que não podem ser alteradas somente pela vontade dos homens; e, por enquanto, nas condições atuais do país, é força reconhecer, a grande propriedade tem sido, e continuará, ainda por muitos anos a ser, a poderosa alavanca do nosso progresso em suas variadas manifestações — progresso moral, social, econômico e político.24 Para Sinimbu, a grande lavoura é fundadora da nação brasileira, assim como a grande propriedade é a riqueza nacional. Sinimbu discursa ainda uma ode a grande lavoura/ escravidão como a responsável por todo e qualquer avanço benéfico na sociedade brasileira, desde a consolidação do território brasileiro, à proclamação da independência. A grande lavoura está no lugar de plantation e plantation no lugar de escravidão. Portanto a decadência da lavoura só traria ruína e falência ao Império brasileiro. Em época, anterior à nossa emancipação política, quando os recursos do país eram aplicados em benefício da longínqua metrópole, quem abriu as principais vias regulares de comunicação através de nossas matas virgens, abateu florestas, fundou fazendas, levantou igrejas e criou escolas? A grande lavoura. Cada novo estabelecimento rural que se formava, constituía um foco de progresso e civilização, d’onde se irradiava com o trabalho uma vida inteiramente nova em uma atmosfera de felicidade. Mais tarde, quando assomou a aurora da liberdade, de onde surgiram os primeiros raios do espírito nacional, quem levantou, armou e conduziu esses bravos paisanos que proclamaram a independência da pátria? Foi ainda a grande lavoura. O modo como ela se fundou é fato ainda de nossos dias, mas digno de ser comemorado. A condição colonial do país não oferecia a mocidade outra carreira senão a cultura das terras.25 Fruto também da decadência da grande lavoura é o oneroso interesse social no funcionalismo público que faz inchar as receitas imperiais. Enquanto a lavoura era foco do interesse das famílias, com a sua decadência os pais têm mandado seus filhos as cidades para estudar e tornarem-se funcionários públicos. Movimento do campo para a cidade. Deve-se opor ao movimento do campo (lavoura) para a cidade (academias) para salvar a pátria. Outro ponto igualmente importante no discurso é a diminuição da aquisição do principal instrumento de trabalho na lavoura: os escravizados. Começou para a grande lavoura o período difícil. A aquisição do principal instrumento do trabalho, em razão de sua escassez, subiu de preço, o 24 Ibidem, p.126. Grifo nosso. 25 Idem ibidem. Grifo nosso. 19 que, aumentando o custo da produção, sem dar-lhe equivalente melhoramento nos processos de cultura e fabricação, colocou nos grandes mercados generosos de nossa indústria agrícola em condições de inferioridade perante produtos similares. Daí datam os primeiros embaraços de nossa lavoura, que, se já não está mais decadente, deve-o à fertilidade do solo e à natureza especial do clima que possuímos. Estremecida a grande lavoura, limitado o seu horizonte a um próximo futuro cheio de incertezas, era natural que as aspirações da população tomassem nova direção. Foi essa a origem da tendência por todos manifestada para a carreira do funcionalismo, uma das enfermidades sérias da atualidade.26 As reformulações ocorridas na lavoura brasileira através do cerceamento do tráfico de escravizados geraram não só uma escassez do “principal instrumento de trabalho”, como, conforme observamos, faz crescer a procura do tráfico interno. Razão essa responsável não só pelo aumento do preço dos cativos, mas também pelo aumento do custo da produção no cultivo das commodities agrícolas. Para Sinimbú, no entanto não há por que a grande lavoura se preocupar, pois a forma social escravista entre grande propriedade-plantation e grande lavoura-escravidão será mantida. Em nosso programa de governo e administração nada se há de antepor a consolidação da liberdade política e aos meios de evitar a decadência da grande propriedade. Estes dois problemas, embora pareçam de condição diversa, por pertencer um a ordem política e outro à ordem econômica, são, todavia, de origem comum e ambos tendem ao mesmo fim - a felicidade de nossa pátria —, pois é fácil de compreender que não se pode esperar fazer de um país pobre um povo livre. Ao vincular seu discurso, o programa do congresso, o programa do governo e os problemas da grande lavoura, tema central a ser discutido no Congresso Agrícola, Sinimbu cria uma construção verbal de unidade política no intuito de aproximar os membros da lavoura das decisões políticas imperiais. Nas palavras do político, foi o cerceamento do tráfico de escravos, e a íntima relação destes com o valor estimado da propriedade agrícola, “cujo valor é determinado pelo número de braços adstritos ao seu cultivo”27, o principal agravante para o aviltamento da lavoura, pois com ele deprimiu-se o crédito agrícola e consequentemente a qualidade dos estabelecimentos rurais. Para a resolução desse problema que acometia a lavoura, a solução proposta é a de reconstruir as bases da lavoura brasileira através do trabalho livre em vias de uma transição das 26 Ibidem, p.127. 27 Ibidem, p.128. 20 condições de trabalho, mas que não rompam com a ordem estabelecida e não produzam perturbações de ordem econômica. A verdade é que a crise da lavoura aqui se manifesta com suas consequências naturais. Encará-la de frente, sem pensar por um só momento em voltar atrás, procurar os meios convenientes e eficazes para debelá-la, reconstruindo a propriedade rural sobre as bases do trabalho livre, é esta, senhores, a nossa e a vossa principal missão. Neste ponto todos estamos de perfeito acordo; é da maior conveniência que essa inevitável transição nas condições do trabalho se realize sem perturbação na ordem econômica. Começam, porém, as divergências, logo que se trata da escolha dos meios. Em geral a fórmula se traduz pela aquisição de capital e de braços.28 Conforme analisado até agora, o discurso de Sinimbu em paridade com o governo e os anseios da grande lavoura relacionou o fim da escravidão com a depressão do crédito agrícola, sendo uma solução necessária a de reconstruir a propriedade agrícola sobre as bases do trabalho livre. Com o alicerce da propriedade agrícola sendo fundamentado no valor referente ao número de braços adstritos ao seu cultivo, Sinimbu adverte que a da propriedade agrícola encontra-se em uma base instável que pode gerar a precariedade e ruína delas. A fórmula, portanto, para tal a reconstrução seria a aquisição de capital e braços, pois dessa maneira a propriedade agrícola encontrar-se-ia livre das bases instáveis, uma maior linha de crédito rural seria estabelecida, e a aquisição de trabalhadores livres reformularia não só a indústria agrícola, como também as estruturas basilares da sociedade brasileira. Em relação à aquisição de trabalhadores, “todos desejam”, mas “manifesta-se igual discordância quanto à procedência. ”29 Há aqueles que preferem o trabalhador branco europeu, no entanto, alerta Sinimbu, que além da costumeira vinda para o trabalho assalariado, esse grupo social vem para tornar-se proprietário de terras, e não trabalhar como empregado. Ainda aqueles que são assalariados possuem a necessidade de uma remuneração mais alta, pois as condições sociaislocais europeias moldaram o padrão de vida e o patamar de renda aceitável pelo trabalhador europeu. Em relação ao trabalhador nacional, este é um elemento incerto, pois há “contra si o fato de se não prestar a serviço contínuo e aturado. ”30 Colocar, portanto, o futuro de uma indústria tão laboriosa nas mãos de um trabalhador incerto seria errar no 28 Ibidem, p.128. 29 Idem ibidem. 30 Ibidem, p.129. 21 tempo e levar a falência a indústria nacional. Como saída para a questão da mão de obra, a proposta do governo é a de importar coolies/chins31 para suprir a falta da mão de obra negra escrava e reerguer a lavoura nacional. Dessa maneira, Sinimbu trabalha com categorias raciais como forma de controlar o custo da reprodução social da força de trabalho numa sociedade pós-escravidão, um dos modulares de distribuição de mais valor para o proprietário. Longe disso, a Maurícia voltou suas vistas para Bengala, de onde importou grande quantidade de coolies, e com o trabalho deles conseguiu indenizar-se da perda do braço escravo, aumentando consideravelmente sua riqueza agrícola. Na mesma fonte foi o Ceilão prover-se de 200.000 trabalhadores; e já apresenta no mercado uma produção anual de 3.500.00 arrobas de café, cuja cultura regular data apenas do ano de 1837. O Peru que, a poucos anos, exportava insignificante quantidade de açúcar, e que já começa a fazer-nos concorrência nos mercados do Chile e do Rio da Prata, foi buscar seu fornecimento de braços na China, de onde Cuba importou também os 60.000 trabalhadores, que vão suprindo a falta do trabalho escravo. O mesmo acontece em outros lugares das Antilhas; e, até os próprios Estados Unidos, tão ciosos da pureza do sangue saxônio, não desdenharam importar da China a massa de trabalhadores, com que povoaram grande parte da Califórnia; e, se hoje os repelem, é pela mesma razão que a outros países, pouco providos de braços para a grande lavoura, convém importá-los. “Não devo, porém, dissimular que contra a imigração asiática opiniões muito respeitáveis se declaram entre nós; e neste ponto se manifestam também as divergências. ”32 Usando os exemplos da imigração asiática chinesa para as Ilhas Maurícia, Ceilão, Peru, Cuba e Estados Unidos, Sinimbu insere o Brasil no contexto global da crise da escravidão e busca uma solução já utilizada em outros territórios. Consegue-se notar também que a utilização da mão de obra asiática chinesa funcionaria como um movimento transitório entre o trabalho escravo e o trabalho livre, no entanto ao decorrer do texto e dos discursos proferidos, o que ocorreria seria um novo movimento de escravização. Os asiáticos ou a “raça amarela” entram no pensamento da época como uma raça intermediária entre os brancos e os negros e alguém que poderia dar conta do trabalho sem gerar grandes revoluções na sociedade brasileira. Surge então um projeto de imigração chinesa com a roupagem de um movimento transitório entre os negros escravizados e os brancos europeus. O estereótipo pejorativo do asiático predominou nas 31 Através da leitura corrida do Anais do Congresso Agrícola não há a distinção, por grande parte dos participantes, dos termos descritos. Coolies e chins são usados para representar uma mesma categoria de trabalhadores asiáticos. Um dos poucos discursos onde há a distinção marcada dos termos é o do Sr. A. Scott Blacklaw, inglês, e representante do The New London & Brasilian Bank (Limited). 32 Congresso Agrícola, p.129. 22 discussões sobre um possível projeto de imigração, sendo este debatido em diversos planos sociais.33 Ao terminar o discurso, Sinimbu agradece aos participantes, inscritos no congresso, e aqueles que manifestaram as suas opiniões. Há a escolha ainda de dois secretários para o auxílio das discussões, sendo eles, Srs. Drs. Manoel Peixoto de Lacerda Werneck, município de Vassouras, e Antonio Moreira de Barros, do município de Taubaté. Em seguida, dá-se a palavra a todos aqueles que gostariam de manifestar suas opiniões sobre os temas da grande lavoura, e sobre os temas presentes no questionário enviado previamente ao Congresso Agrícola. Vale mencionar que houve em 1878, o Congresso Agrícola do Recife, convocado pela Sociedade Auxiliadora da Agricultura de Pernambuco. Ocorrido entre os dias 6 e 13 de outubro, o congresso reuniu duzentos e oitenta e oito representantes da lavoura do Norte.34 Na reunião do Norte, o intuito era de discutir sobre as resoluções e propostas apresentadas no Congresso Agrícola do Rio de Janeiro, visto que, mesmo os representantes da lavoura se enxergando em uma classe comum, os interesses regionais eram divergentes e nem todas as resoluções atendiam aos diferentes questionamentos, como a seca do Norte. Apesar de o Congresso Agrícola de Recife manter o mesmo formato do ocorrido no Rio de Janeiro podemos notar que, pela diferença de anseios e expectativas, os assuntos abordados por essa comissão foram outros, devido, obviamente, as diferentes demandas da lavoura do norte do Brasil. 35 A participação política do Congresso Agrícola do Recife contou uma gama de representantes políticos, comerciantes, e membros da grande lavoura do Norte do país que, no intuito de mapear as causas da crise da agroindústria que atingia sua região, produziram um ato político de resposta à centralidade política do Império. 36 Os principais assuntos do congresso 33 Para um panorama geral do debate, cf. SCHWARCZ, Lilian Moreira. O Espetáculo das raças. Cientistas, instituições e questão racial no Brasil, 1870-1930. São Paulo. Companhia das Letras, 1993. & COSTA, Emília Viotti da. Da Senzala à Colônia. Capítulo 2. Editora Unesp, 2012. 34 PERES, Victor Hugo Luna. Os “Chins” nas sociedades tropicais de plantação: estudo das propostas de importação de trabalhadores chineses sob contrato e suas experiências de trabalho e vida no Brasil (1814- 1878), Recife, 2013, p. 151. 35 “Entre as principais discussões levadas a cabo por estes homens estavam a dos créditos, a dos melhoramentos e a dos braços, em escala de importância. No que concernia aos braços, as principais preocupações e soluções apontadas parecem ter sido a criação de instrumentos legais que conduzissem os trabalhadores, ditos ‘ociosos’, para o trabalho das lavouras, fossem eles flagelados, ex-escravos ou ingênuos. Quanto à possibilidade de imigração europeia, apesar de alguns poucos entusiastas, a maioria dos congressistas resignava-se ao fato então compreendido como justificativa para a não vinda desta ordem de trabalhadores de que o clima e o ambiente do Norte eram hostis aos mesmos.” Idem, P. 151-152. 36 “Os congressistas, que faziam parte da elite da região, representavam: os proprietários agrários da zona de exportação do mercado de Recife, fazendeiros de outras províncias do Nordeste que participavam do 23 nordestino, além das discussões em perspectiva comparada com o congresso sulista foram as secas constantes; escassez de créditos agrícolas; precariedade e alto custo dos meios de transporte; transição do trabalho escravo para o trabalho livre; exportação dos escravos para a região cafeeira do Sudeste; rotina do trabalho; falta de ensino profissionalizante; combate à ociosidade e vadiagem; relação entre estagnação econômica e organização política; relação entre credores e devedores; organização do crédito hipotecário; papel do Estado; imposto territorial; protecionismo europeu ao açúcar de cana produzido em suas colônias antilhanas; concorrência do açúcar de beterraba fabricado na Europa, etc.37 Cada região do Brasil caminhava em seu próprio ritmo, fruto não só das reformulações globais, mas também de processos interdependentes socioespaciais. Em especial ao caso nordestino podemos citar ainda aconcorrência internacional do açúcar com a ilha de Cuba e ao açúcar de beterraba europeu. Conforme analisamos, os fluxos do tráfico interno, a expansão algodoeira, o aumento do preço do café frente a decadência do preço do açúcar, e ainda uma grande seca que assolou o nordeste do país durante a década de 1870 são alguns dos fatores que demonstram distintos processos frente a reformulação da escravidão, da expansão agrícola e dos novos fluxos de mão de obra. O artigo de José Flávio Motta e Luciana Suarez Lopes38, em concordância com a tese de Peter Eisenberg39, com o objetivo geral de analisar os anais dos congressos agrícolas de 1878, através de dois pontos específicos, a questão de capitais e crédito agrícola,40 foca em analisar a posição do Sul, colocando-a em confronto com a posição do Norte sobre as necessidades da lavoura; as distinções que marcaram as convocações mercado exportador com a produção de outros gêneros agrícolas, como o algodão; agricultores; membros da sociedade Auxiliadora da Agricultura de Pernambuco; delegados de várias corporações relacionadas à lavoura; homens do comércio; representantes do poder político imperial, como o presidente da província de Pernambuco; representantes da imprensa da região; etc.” RODRIGUES, Giselle. O Canto Dos Cisnes. Análise Do Pensamento Sobre A Crise Do Nordeste Nos Anais Do Congresso Agrícola Do Recife – 1878. Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Estadual de Maringá. Maringá, 2008. p.29. 37 Idem ibidem, p.35. 38 MOTTA, José Flávio; LOPES, Luciana Suarez. Os cisnes cantam e a onda verde passa. Os congressos agrícolas de 1878 e a demanda da lavoura por capitais. Econ. Soc., Campinas, v. 28, n. 2, p.587- 614, agosto. 2019. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104- 06182019000200587&lng=en&nrm=iso>. Acesso em 16 de outubro de 2020. 39 “[...] tanto os fazendeiros do Vale do Paraíba e do Sul de Minas, quanto os do Oeste Paulista, eram membros de uma só classe, uma classe baseada na exploração de grandes propriedades particulares e rurais, e trabalhadores diretos escravizados e, em grau menor, livres sem ser assalariados. Como qualquer classe, ela teve as suas divisões internas, mas em 1878 as divisões não obedeciam a divisões geográficas.” EISENBERG, Peter. A mentalidade dos fazendeiros no Congresso Agrícola de 1878. In: AMARAL LAPA, José Roberto do (Org.). Modos de produção e realidade brasileira. Petrópolis: Vozes, 1980. p. 167-194. 40 “V) A grande lavoura sente carência de capitais? No caso afirmativo, é devido este fato à falta absoluta deles no país, ou à depressão do crédito agrícola? VI). Qual o meio de levantar o crédito agrícola? Convém criar estabelecimentos especiais? Como fundá-los?” Congresso Agrícola, 1988, p. 1. 24 para os congressos; as manifestações dos congressistas; e o confronto entre demandas do Sul e do Norte. Considerando que o congresso do Rio de Janeiro foi convocado primeiro, e o de Recife como resposta, o confronto entre as províncias do Sul e do Norte dá-se apenas no campo da oratória entre grande parte daqueles que manifestaram a palavra. A onda verde, ou seja, o movimento de expansão e interiorização do café, característico das províncias do Sul, exigia, através das opiniões manifestadas dos fazendeiros, a necessidade de crédito agrícola e a expansão do sistema bancário, devido ao problema de mão de obra e do aumento do custo do transporte. Enquanto os cisnes açucareiros do Norte viam suas dificuldades limitadas por dois grandes obstáculos, a redução dos preços de produtos de exportação do Nordeste e o impacto da seca enxergavam-se um dinamismo maior característico das províncias sulistas e uma estagnação das províncias do Norte. No centro-sul, as discussões, de maneira geral, giram em torno de alguns problemas. A falta, ou do direcionamento, do capital para os lavoureiros. Há aqueles que reclamam da não existência de capitais, e outros que direcionam o problema aos bancos, que não emprestavam dinheiro aos fazendeiros. O problema de braços, ou seja, a falta de mão de obra. Notam-se opiniões de diferentes pesos para o uso do trabalhador nacional, mas sempre através do estigma da vagabundagem e de leis que a proíbam. Sobre os decretos de 1864 e 1875, que versam sobre a concessão de crédito agrícola e hipoteca, a conclusão dos autores é que a maioria dos fazendeiros que manifestaram seu descontentamento e opiniões sobre as questões de capital e crédito agrícola desconhecia e/ou eram ignorantes quanto às finanças imperiais. Queria-se apenas crédito a juros módicos e prazos longos. Os números do Congresso Agrícola: um congresso do café Através de uma análise quantitativa do Congresso Agrícola, em conjunto da perspectiva histórica do final do século XIX, consegue-se melhor visualização dos participantes, suas localidades e respectivas culturas. A tabela a seguir dá um panorama dos componentes por província, sendo Rio de Janeiro, São Paulo e Minas as localidades com o maior número de integrantes. Deve-se apenas levar em consideração que há casos 25 de uma pessoa representando mais de um município, no entanto, são apenas 6 (seis) casos no total.41 Tabela 1: Participantes do Congresso Agrícola, por Província (1878) *Além da presença de 400 delegados, 56 proprietários enviaram justificativa de ausência. Mais ainda, quase todos os que participaram tinham sido eleitos em reuniões de fazendeiros nos diversos municípios. Levantamento aproximado das assinaturas dos que tomaram parte dessas reuniões preliminares revela que pelo menos 600 pessoas estiveram envolvidas. Alguns participantes foram indicados pelas câmaras municipais ou por associações de classe. Tudo incluído, mais de mil fazendeiros se envolveram de uma maneira ou de outra no Congresso. Dadas as dificuldades de comunicação da época e dada a falta de tradição de tais consultas, o número é sem dúvida respeitável e surpreendente. Fonte: Congresso Agrícola. Rio de Janeiro, 1878: Anais. Introdução e notas de José Murilo de Carvalho. Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1988, p.VI. Em relação aos participantes, pode-se ainda esmiuçar cada província e seu espaço brasileiro para um melhor entendimento de quem eram os participantes do Congresso, qual a lavoura e os principais problemas comentados. A província do Rio de Janeiro contou com 146 nomes representando 39 localidades (Anexo 1 – Tabela Rio de Janeiro). Em ordem numérica de representações tem-se Valença (19); Paraíba do Sul (17); Barra Mansa (13); Vassouras (12); Cantagalo, Resende e Sapucaia (8); São Fidelis (7); Pirai (6); Município Neutro e Santa Maria Magdalena (5); Niterói (4); Bemposta, Capivary, Dores do Pirai, Rio de Janeiro e São João do Príncipe (3); Campos, Itaguaí, Município Neutro (Jacarepaguá), Petrópolis e Santa Isabel (2); Angra dos Reis, Araruama, Cordeiros, Estrela, Iguassu, Ipiabas, Itaboraí, Mangaratiba, Marica, Muriaé42, Nova Friburgo, Parati, Pati do Alferes, Santo Antônio de 41 Os casos mencionados são de: Antonio Augusto de Castilho, Antonio José Barbosa de Andrade, Antonio da Rocha Fernandés Leão, Christiano Benedieto Ottoni, Hilário Soares de Gouvêa, Lauriano R. de Andrade, Visconde de Jaguary. Juntos esses senhores foram representantes ao mesmo tempo de localidades nas províncias de Rio de Janeiro e Minas Gerais, ou Rio de Janeiro e São Paulo. Deixaremos esses exemplos de lado nas contagens e explicações diminutas. 42 A localidade aparece grafada nos Anais do Congresso Agrícola como Muriahé – Rio de Janeiro, portanto acreditamos se tratar de Laje do Muriahé entre Muraé e Itaperuna no Estado do Rio de Janeiro. 26 Pádua, São João do Nepomuceno43, Serraria e Ubá44 (1). Sendo o maior número derepresentantes da região Ocidental do Vale do Paraíba com 90 representantes45, seguidos da região Oriental do café com 2446, triângulo açucareiro com 947 e outras regiões com 2748; pode-se inferir que cada complexo socioecológico possui sua própria dinâmica, sendo aquela com maiores problemas e maior dependência da mão de obra escrava, Vale do Paraíba Ocidental, a que conta com o maior número de representantes dispostos a discutir os problemas da grande lavoura (Tabela 1: Participantes do Congresso por Complexo Socioecológico). Mesmo que de maneira geral, sem considerar outros cultivos, pode-se ainda relacionar os macros cultivos de algumas regiões, sendo Valença, Vassouras, Barra Mansa, Paraíba do Sul, Piraí, Resende e Cantagalo, regiões de cultivo do café; enquanto Angra dos Reis, Araruama, Campos, Iguaçu, Itaboraí, Itaguaí, Mangaratiba, Maricá e São Fidelis eram regiões de produção de açúcar e outros produtos. Seguindo o mapa abaixo, podem-se identificar visualmente as macrorregiões produtoras e sua localização espacial na província do Rio de Janeiro, sendo grande parte dos participantes do Congresso das regiões do Vale do Paraíba Ocidental e do triângulo açucareiro ao norte. Importante mencionarmos ainda que, em 1872/3, um terço dos escravos presentes na província do Rio de Janeiro encontravam-se na região 1 (um). 43 A indicação do representante aparece nos Anais do Congresso Agrícola como Ricardo Francisco de Oliveira Rocha, S. João Nepomuceno – Rio de Janeiro. Ricardo aparece nos Arquivos Públicos Mineiros como residente de São João do Nepomuceno, no entanto o contabilizamos referente ao Rio de Janeiro por acreditarmos se tratar de negócios no estado fluminense. Mais informações em: http://www.siaapm.cultura.mg.gov.br/acervo/rapm_pdf/1318.pdf. 44 A indicação do representante aparece nos Anais do Congresso Agrícola como João Gomes Ribeiro de Avelar, Ubá – Rio de Janeiro. Acreditamos ser referente ao Barão e Visconde da Paraíba, dono da fazenda Ubá em Vassouras. Mais informações em: http://www.institutocidadeviva.org.br/inventarios/sistema/wp- content/uploads/2009/11/19_faz-uba.pdf. 45 Valença, Paraíba Do Sul, Barra Mansa, Vassouras, Resende, Pirai, Bemposta, Dores Do Pirai, São João Do Príncipe, Itaguaí, Santa Isabel, Ipiabas e Pati Do Alferes. 46 Cantagalo, Sapucaia, Santa Maria Magdalena, Cordeiros, Nova Friburgo e São João Nepomuceno. 47 São Fidelis e Campos. 48 Município Neutro, Niterói, Rio De Janeiro, Jacarepaguá, Petrópolis, Angra Dos Reis, Araruama, Iguassu, Itaboraí, Mangaratiba, Marica, Muriaé, Parati, Santo Antônio de Pádua, Serraria e Ubá. 27 Mapa 1: Rio de Janeiro e as macrorregiões produtoras (1850-1889) Fonte: CORRÊA DO LAGO, Luiz Aranha. Da escravidão ao trabalho livre – Brasil, 1550-1900. P. 115. Adaptado. Em relação ao contexto histórico da província acima se pode mencionar que em meados das décadas de 1850/60 uma praga no café acomete as produções, o que impede um aumento da produção até a década de 1870. Devido aos pés de café serem mais antigos, presentes desde a década de 1840, há um possível envelhecimento dos pés de café, no entanto isso não justificaria a crise da mão de obra e a depressão do crédito agrícola tão manifestado nas discussões do Congresso. Conforme analisado ao longo do texto, a relação de dependência da mão de obra escravizada na produção, e sendo este o alicerce do valor estimado das propriedades agrícolas, era de se esperar que com o cerceamento da escravidão e a escassez da mão de obra escravizada, algumas fazendas entrariam em colapso. Para grande parte dos manifestantes do Rio de Janeiro, a falácia da indolência do trabalhador nacional, e utilização de mão de obra branca europeia livre não vingariam devido à falta de lastro de capital na pessoa do trabalhador. Em contraponto, a província de São Paulo, onde medidas do governo provincial eram tomadas para incentivar a imigração subsidiada, e os fazendeiros de café do Rio de Janeiro defendiam, ficava cada vez mais, na posição de que a abolição só era aceitável mediante uma indenização aos proprietários de escravos.49 A província de São Paulo contava com 72 representações de 30 localidades (Anexo 2 – Tabela São Paulo). Em ordem numérica de representações tem-se Campinas (15); Taubaté (8); São Carlos do Pinhal (5); Limeira, Pirassununga e São Paulo (4); Rio 49 LAGO, Luiz Aranha Corrêa do. Da escravidão ao trabalho livre, 1550-1900. São Paulo: Cia das Letras, 2014. PP.97-149. 28 Claro, São João do Rio Claro e Sorocaba (3); Belém do Descalvado, Caçapava, Campo Largo, Capivary, Indaiatuba, Itatiba, Jacarehy, Piracicaba e Porto Feliz (2); Amparo, Bananal, Bragança, Guaratinguetá, Itu, Lorena, Mogimirim, Pindamonhangaba, Queluz, São José do Barreiro, São Luiz de Parabitinga, Silveiras e Tatuí (1). Os macros cultivos das regiões, sendo Amparo, Bananal, Belém do Descalvado, Campinas, Capivary, Guaratinguetá, Jacarehy, Limeira, Lorena, Mogimirim, Pindamonhangaba, Piracicaba, Pirassununga, Porto Feliz, Rio Claro, São Carlos do Pinhal e Taubaté eram regiões marcadamente responsáveis pela produção do café. Restando apenas a Itu a produção de açúcar e café; e a Sorocaba o cultivo de algodão e muares. Sendo o maior número de representantes do Primeiro Oeste Paulista, com 42 representantes50, seguidos do Vale do Paraíba, com 1751, Quadrilátero açucareiro e Segundo Oeste com 752 e outras regiões contando com 653; o Primeiro Oeste paulista foi, portanto, a região mais disposta as discussões do Congresso na relação quantitativa, região essa que apesar das investidas a favor da imigração e do trabalho livre, ainda era dependente da mão de obra escrava (Tabela 1: Participantes do Congresso por Complexo Socioecológico). 50 Campinas, São Carlos Do Pinhal, Limeira, Rio Claro, São Jose Do Rio Claro, Campo Largo, Capivari, Indaiatuba, Itatiba, Piracicaba, Amparo e Mogimirim. 51 Taubaté, Caçapava, Bananal, Lorena, Pindamonhangaba, Queluz, São José Do Barreiro, São Luiz De Parabitinga e Silveiras. 52 Açúcar: Sorocaba, Porto Feliz, Itu e Tatuí; Segundo Oeste: Pirassununga, Belém Do Descalvado e Bragança 53 São Paulo e Jacareí. 29 Mapa 2: São Paulo e as macrorregiões produtoras (1850-1889) Fonte: CORRÊA DO LAGO, Luiz Aranha. Da escravidão ao trabalho livre – Brasil, 1550-1900. P. 162. Adaptado. Seguindo o mapa acima se pode identificar visualmente as macrorregiões produtoras e sua localização espacial na província paulista, sendo parte dos participantes do Congresso das regiões do Vale do Paraíba e do primeiro Oeste paulista. 54 O desenvolvimento da província de São Paulo e suas quatro grandes regiões produtoras ocorreram em momentos distintos. Na primeira metade do século XIX se mencionam o declínio da produção açucareira e a ascensão do café em importância as regiões mais próximas às fronteiras orientais paulistas. A década de 1850 foi, por sua vez, um dos primeiros pontos de inflexão com a reestruturação do sistema escravista e com o surgimento da crise do cativeiro. 54 A divisão conceitual entre Primeiro e Segundo Oeste Paulista devem-se aos períodos de abertura das fronteiras e da expansão territorial respectivamente. 30 A diferença do caso paulista para as demais províncias escravistas do Sudeste é a introdução do trabalho livre nas fazendas de café já na década de 1840. Uma primeira leva de imigrantes para as regiões de expansão da fronteira agrícola, mesmo que a título de experiência, foi responsável por estruturar as bases por onde o novo sistema de mão de obra livre viria a funcionar. Resultado da supressão do tráfico de escravizados, do fracasso das primeirasexperiências através do sistema de parceria, e da prosperidade temporária do cultivo do algodão, a segunda leva de imigrantes para o território paulista ocorre na década de 1860. A expansão da fronteira agrícola para o primeiro Oeste paulista, a volatilidade dos preços do café, e o boom algodoeiro fruto da Guerra Civil Norte Americana, foram responsáveis pelo aumento do fluxo do mercado de trabalho, visto que a mão de obra escravizada se concentrava cada vez mais em pequenos conclaves escravistas. A última fase migratória, com foco no sistema de colonato, ocorreu dos anos de 1880 até 1930. Fruto da expansão da malha ferroviária em solo paulista, a expansão do capital proporcionou também maior mobilidade geográfica aqueles interessados no trabalho na lavoura. Ainda, a política de imigração e os subsídios governamentais, imperiais e provinciais, para a vinda de trabalhadores europeus, em especial italianos, pôde reformular o mercado da mão de obra de trabalho em solo paulista.55 A província de Minas Gerais contava com 56 representações de 13 localidades (Anexo 3 – Tabela Minas Gerais). Em ordem numérica de representações tem-se Mar de Hespanha (18); Juiz de Fora (16); Leopoldina (9); Baependi, Barbacena e Ubá (2); Ayuruoca, Lavras, Rio Novo, Rio Pardo, Rio Preto, São José de Além Paraíba e São José do Rio Preto (1). Marcadamente na região das Minas Gerais a região socioecológica mais presente no Congresso é o Vale do Paraíba Mineiro56 com 51 representantes. Em menor quantidade tem-se o Sul de Minas com 2 representantes de Baependi, e outras regiões com 1 representação de Lavras, Rio Pardo e São José do Rio Preto, respectivamente – portanto, estão fora a região da Zona Cafeeira do Sul de Minas, o Cerrado Mineiro e o norte da província. O caso de província mineira também é interessante a ser discutido pois há um mercado e economia interna forte propiciando uma autossuficiência produtiva em grande parte da província. Além do café, o gado e todos os seus consequentes produtos, 55 LAGO, Luiz Aranha Corrêa do. Da escravidão ao trabalho livre, 1550-1900. São Paulo: Cia das Letras, 2014. PP.149-204. 56 Mar De Hespanha, Juiz De Fora, Leopoldina, Barbacena, Ubá, Ayuruoca, Rio Novo, Rio Preto e São José de Além Paraíba. 31 a roça e as atividades mineradoras fazem parte da economia de Minas Gerais. Desde 1830 obtendo um grande fluxo de cativos, o movimento nessa região segue até o final do século XIX de entrada de mão de obra escravizada, fornecendo assim um processo de realocação de escravos dentro dos ambientes produtivos. Nesse contexto, o cerceamento do tráfico de escravos, e a reestruturação do cativeiro ocorreram de modo mais abrupto, assim como no Rio de Janeiro e diferentemente de São Paulo. Mapa 3: Minas Gerais e as macrorregiões produtoras (1850-1889) Fonte: CORRÊA DO LAGO, Luiz Aranha. Da escravidão ao trabalho livre – Brasil, 1550-1900. P. 225. Adaptado. Do ponto de vista migratório, as antigas zonas mineiras (1 e 3) sofriam com o envelhecimento dos pés de café e das consequências da íntima relação entre o corpo cativo e o lastro monetário que este representava, enquanto as regiões mais novas (2 e 4), abertas junto a crise da escravidão e ao Oeste Paulista, com as ferrovias das décadas de 1870/80 sofriam menos com a exaustão do solo e a dependência da mão de obra escrava. Em Minas, portanto, assim como no Rio de Janeiro, o sistema da escravidão foi defendido e utilizado até sua exaustão, não deixando grandes margens para processos imigratórios, sendo ainda a antiga mão de obra negra escravizada utilizada em sistemas de trabalho livre nas regiões do cultivo do café.57 Por fim, a província do Espírito Santo contou com apenas 5 representações de 4 localidades. Sendo duas representações de São Mateus; e uma para cada localidade respectivamente, Vitória, Itapemirim e Cachoeira de Itapemirim. Tendo como foco das 57 LAGO, Luiz Aranha Corrêa do. Da escravidão ao trabalho livre, 1550-1900. São Paulo: Cia das Letras, 2014. PP.204-227. 32 localidades o cultivo do café, há ainda a produção de açúcar e farinha de mandioca em menor escala nas regiões. A região do Espírito Santo passou também por períodos econômicos do declínio do preço do açúcar e a ascensão da cafeicultura, sendo a província dependente das variações da economia cafeeira para a manutenção provincial estável. No entanto a parca expansão escravista e a abundância de terra devoluta, sem lastro de hipotecas e empréstimos baseados em corpos escravizados, foram capazes de gerar um maior fluxo de imigração ou colonização europeia para a região.58 Tabela 2: Participantes do Congresso por Complexo Socioecológico (1878)59 Uma descoberta através da análise quantitativa é a grande representação dos interesses cafeeiros no Congresso Agrícola. Dos 285 participantes referidos na tabela 58 Podemos mencionar que foram relutantes as opiniões para fontes alternativas de mão de obra. As parcas e falhas tentativas de imigração europeia, deixando de lado o caso paulista, foram responsáveis, no Rio de Janeiro e Minas Gerais por um uso mais intensificado da mão de obra escravizada nas regiões do café e de produção açucareira. O Espírito Santo também pode ser considerado uma exceção devido as grandes faixas de terras devolutas e a não expansão territorial da fronteira agrícola do café e açúcar, mostrando assim sucesso já no início da década de 1870 com as colônias europeias. O principal entrave comentado pelos fazendeiros nas outras regiões para a imigração europeia consistia no valor inicial da passagem, requerendo assim subsídio governamental, e as terras devolutas para o estabelecimento de colônias. Agarrados à terra e à mão de obra escravizada, essa interdependência dos fazendeiros consistia em um verdadeiro entrave para a ampliação do uso da mão de obra livre. As novas formas de trabalho decorrentes da imigração europeia também foram capazes de remodelar a unidade básica de trabalho nas lavouras cafeeiras. Antes restritas a unidade escravista, ou seja, o trabalhador individual, a flexibilidade dos novos sistemas de trabalho é pensada para a família migrante, pois há uma maior alocação do tempo de trabalho e de cultivo. LAGO, Luiz Aranha Corrêa do. Op. cit. 2014. PP.227-242 & PP.242-265. 59 Sabemos que existem outras nomenclaturas para as macrorregiões selecionadas de cada estado, no entanto as escolhidas são as que melhor nos atendem sem alterar o estudo. 1.Vale do Paraiba Ocidental 90 2.Vale do Paraiba Oriental 24 3.Triângulo açucareiro 9 4.Outras regiões 27 1.Vale do Paraiba 17 2.Quadrilátero açucareiro 7 3.Primeiro Oeste Paulista 42 4.Segundo Oeste Paulista 7 5.Outras regiões 6 1.Sul de Minas 2 2.Zona cafeeira do Sul 0 3.Vale do Paraíba Mineiro 51 4.Outras regiões 3 Minas Gerais Participantes do Congresso por Complexo socioecológico Rio de Janeiro São Paulo 33 acima, 226, aproximadamente 80%, pertenciam às zonas cafeeiras escravistas. Os problemas já mencionados entre o cultivo do café e a dita crise da mão de obra eram o principal problema a ser resolvido pela maioria do Congresso. Deviam-se sanar dois grandes problemas: “braços e capitais”. Para os capitais, mais crédito agrícola era solicitado, juntamente da modernização da legislação bancária; para os braços, com o iminente fim da escravidão, foram manifestadas opiniões para a substituição da mão de obra escravizada através de trabalhadores nacionais, brancos europeus, negros libertos e trabalhadores asiáticos coolies e/ou chineses. A imigração de modo oriental através de novas formas de trabalho contratado (indetured labor) inspirada em experiências internacionais foi um dos temas mais discutidos durante o Congresso e compôs, principalmente,as palavras das regiões cafeeiras do sudeste do país. O Congresso Agrícola, um congresso do café, foi o responsável por uma possível relação entre trabalhadores asiáticos e o café nos mesmos espaços produtivos onde a escravidão esteve presente.60 O Questionário do Congresso Agrícola O convite enviado aos possíveis participantes do Congresso contava com um questionário a ser preenchido para uma melhor visualização dos principais problemas da grande lavoura. O questionário, por sua vez, contou com sete tópicos propostos pelo governo para discussão, e que também ditaram as diretrizes do evento - o questionário também foi discutido no Congresso Agrícola do Recife. Será objeto de deliberação do Congresso tudo quanto diretamente puder interessar a sorte da lavoura, convindo especialmente esclarecer o Governo sobre os seguintes pontos: I. Quais as necessidades mais urgentes e imediatas da grande lavoura? II. É muito sensível a falta de braços para manter, ou melhorar ou desenvolver os atuais estabelecimentos da grande lavoura? III. Qual o modo mais eficaz e conveniente de suprir essa falta? IV. Poder-se-á esperar que os ingênuos, filhos de escravas, constituam um elemento de trabalho livre e permanente na grande propriedade? No caso contrário, quais os meios para reorganizar o trabalho agrícola? V. A grande lavoura sente carência de capitais? No caso afirmativo, é devido este facto à falta absoluta deles no país, ou a depressão do crédito agrícola? 60 Como veremos no capítulo seguinte, grande parte dos movimentos da diáspora asiática chinesa como indetured laborers foi para espaços produtivos escravistas do açúcar, guano e outras produções; a única menção sobre a relação entre chineses e café dá-se no Havaí, mas não como trabalhadores contratados especificamente para as plantações de café e muito menos para o trabalho nos mesmos espaços produtivos da escravidão. Sobre a indústria do café no Havaí ver GOTO, Baron. Ethnic Groups and the Coffee Industry in Hawaii. Honolulu, Hawaiian Historical Society. Hawaiian Journal of History, volume 16, 1982. <http://hdl.handle.net/10524/432> 34 VI. Qual o meio de levantar o crédito agrícola? Convém criar estabelecimentos especiais? Como funda-los? VII. Na lavoura têm-se introduzido melhoramentos? Quais? Há urgência de outros? Como realizá-los? 61 Estruturado em torno de três eixos, trabalho, crédito e tecnologia, as questões presentes no questionário mascaravam o motivo do Congresso, a crise do cativeiro. Nos anais do Congresso Agrícola constam 25 respostas diretas ao questionário, sem contar aqueles que manifestaram sua opinião e responderam também algumas perguntas de modo indireto. Duas respostas, no entanto, merecem ser mencionadas pois compreendem muitos representantes da lavoura, a da Comissão nomeada pelos lavradores do Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo e da Comissão nomeada pelos lavradores de São Paulo – convém citá-las como CRME e CSP, respectivamente.62 Trata-se primeiro da CRME, que era composta por Barão do Rio Bonito (Valença, RJ), Antonio Álvares de Abreu e Silva Junior (Mar de Hespanha, MG), Pedro Dias Gordilho Paes Leme (Itaguaí, RJ), Barão de Nova-Friburgo (Cantagalo, RJ), Theophilo D. A. Ribeiro (Leopoldina, MG) e Manoel Peixoto de Lacerda Werneck (Rio de Janeiro, RJ). Antes mesmo de responder ao questionário proposto, a comissão relata que as principais necessidades da lavoura brasileira são braços, crédito, viação e instrução. Braços em primeiro, pois o braço escravo desaparecerá pela manumissão, ou pela morte; os ingênuos, embora plausíveis de serem auxiliares permanentes à lavoura, não serão tão leais à lavoura e nem cumprirão com todas as necessidades e obrigações do trabalho. Convém, portanto, a importação de braços livres para resolver o problema. Como modo de “ensaio e meio de transição para uma colonização de raças mais aperfeiçoadas, o 61 Congresso Agrícola, p.2. 62 A divisão entre CRME e CSP foi própria do Congresso Agrícola e manifestada pelos participantes sem nenhuma justificativa explicita durante o Congresso. Há no entanto artigos no Jornal do Commercio, publicados pelas próprias comissões ou por clubs (Club da Lavoura), explicitando a criação da CSP “no sentido de se fazer representar no Congresso Agrícola”. Devido ao curto prazo entre a data de convocação dos fazendeiros e a data marcada para o congresso, “fora impossível dar tempo para que o club e os lavradores em geral se prestassem para comparecer a projetada reunião [...]”. O Club da Lavoura solicitou ainda durante o encontro dos fazendeiros e lavradores da Província de São Paulo o adiamento do Congresso. No entanto foi a representação por meio de uma comissão a ideia mais votada. Jornal do Commercio (RJ). 1870-1879. Ano 1878, Edição 174, 23 de julho de 1878, p1. Gazetilha. Disponível em: http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=364568_06&pasta=ano%20187&pesq=Congresso %20Agr%C3%ADcola&pagfis=18675 . Acesso em 18 de março de 2021. Nos cabe fazer uma análise sobre o porquê de tal divisão. Acreditamos que a CSP, apesar de assinada por representantes das regiões do Vale e do Primeiro Oeste, representava os interesses das regiões de abertura de fronteiras mais recentes do Primeiro Oeste paulista que já enfrentava problemas com os projetos de imigração internacional. Enquanto a CRME possuía uma representação das regiões mais antigas do café de Rio e Minas, sendo o Espírito Santo um território de fronteira com tais estados. 35 jornaleiro chim é conveniente. ” 63 Em relação ao crédito é este “uma necessidade indeclinável” para que os lavradores consigam receber montantes financeiros proporcionais ao seu capital constituído na fazenda, para tanto deve-se realizar mudanças na legislação hipotecária. A viação, ou as ferrovias também foram citadas como meios estimulantes da produção, mas com um aviso ao governo para o controle das tarifas. A instrução, ou ainda a educação agrícola elementar deve ser desenvolvida de modo a provocar nas novas gerações brasileiras o desejo pelo trabalho agrícola, pois esta é a vocação da nação brasileira. Em relação à tecnologia, a CRME relata que existem melhoramentos sendo realizados na lavoura, “que se manifestam no aumento e perfeição dos produtos, apesar da considerável diminuição dos braços; entretanto é certo que muito longe estão eles de atingir os que observamos nos países mais adiantados”.64 Por fim, a comissão clama por uma lei eficaz de locação de serviços para que braços nacionais sejam chamados a trabalhar na lavoura. A CSP, sob a presidência de Albino José Barboza de Oliveira (Campinas), servindo de secretários os Drs. Moreira de Barros (Taubaté) e Campos Salles (Campinas), acredita que pode reduzir as interrogações em dois pontos: capital e braços. Para a bancada paulista, o problema do capital consiste na falha legislação hipotecária brasileira, tanto a de 1864, quanto a de 1875, sendo que a primeira restringe e cria desvantagens para os capitais nacionais; enquanto a segunda, ao favorecer as emissões em bancos europeus e centralizar as emissões, embaraçava as forças econômicas das províncias. As soluções para tais problemas seguem enumeradas pela comissão: 1. Que seja autorizada por lei a criação de bancos de crédito real, que façam empréstimos a lavoura em longo prazo e juro baixo; 2. Que cada província constitua uma circunscrição territorial, podendo com tudo duas ou mais províncias, por acordo entre si, formar uma só circunscrição; 3. Que os bancos provinciais sejam auxiliados pelo Estado com a garantia de juros até 5 % ao ano e amortização das letras hipotecárias que forem emitidas, conforme a lei de 6 de novembro de 1875; 4. Que na sua organização seja adotado o system da lei de 24 de setembro de 1864e respectivo regulamento com as modificações aqui indicadas; 5. Que o processo da ação e execução seja mais expedito, não podendo a defesa e recursos opostos pelo devedor suspender a marcha do mesmo processo; 6. Que a adjudicação deixe de ser obrigatória e torne-se facultativa ao credor; 63 Congresso Agrícola, p.78. 64 Idem ibidem. 36 7. Que a hipoteca legal seja em tudo equiparada à convencional65 Em relação ao problema de braços, a CSP considera de extrema urgência saná-lo para o bem da agricultura do país. Servida por braços escravos e livres, sendo os livres subdivididos em estrangeiros e nacionais, são esses últimos um dos problemas da lavoura brasileira devido a indolência e a baixa locação dos serviços. O braço escravo foi e ainda é a principal fonte “da qual os agricultores tiram recurso para o custeio de seus estabelecimentos rurais”.66 Ainda em relação ao braço escravo, um fazendeiro disse: Mas, se a lei de 28 de setembro de 1871 não estancou essa fonte, é certo, todavia que a esterilizou de modo a assegurar-nos que em poucos anos estará extinta. Ora, se o braço nacional é escasso e o escravo tende a desaparecer, parece-nos que ao lavrador só resta o braço estrangeiro como o seu principal recurso de momento.67 A CSP entende ainda que a lavoura não poderá contar com ingênuos “não só pela indolência herdada dos escravos e nacionais, como porque em geral os libertos preferem o mercantilismo. ”68 Observa-se ainda que, matematicamente, os ingênuos só poderão prestar serviços ao plantio depois dos oito anos, apenas em 1886. Em relação aos braços estrangeiros europeus, a CSP considera que há efetiva aplicação destes na lavoura, mas que de modo diminuto, pois as legislações brasileiras afastam o trabalho e a permanência devido às restrições na esfera social. Faz-se necessário, portanto, o alargamento da esfera social do estrangeiro através de leis com princípios de igualdade, tolerância e liberdade. A comissão paulista critica ainda os núcleos oficiais de colonização, pois “além de prejudiciais e onerosos aos cofres, têm sido de todo inúteis”, devendo o governo se limitar “ao auxílio dos particulares que empreenderem por própria conta a introdução e estabelecimento de colonos nas suas propriedades. ” 69 Ainda sobre questões de imigração e colonização, a comissão paulista entende que, se o país necessita de mão de obra estrangeira para desenvolver todas as indústrias brasileiras, e em especial a agricultura, faz-se necessário olhar para a raça, origem, caráter e costume dos povos vindouros. Ora, há povos, como os indiáticos, cujo contato seria um elemento de regresso à nossa civilização e um prolongamento do baixo nível moral que os caracteriza tristemente. 65 Congresso Agrícola, p.74-75. 66 Ibidem, p.75. 67 Idem ibidem. 68 Idem ibidem. 69 Congresso Agrícola, p.75. 37 Se bem que espíritos cultos e observadores tenham demonstrado a evidencia a alta inconveniência social da introdução dos coolies no país, cujo caráter subserviente e imoral há de contaminar a nossa população e afastar imigrantes de procedência europeia, julgamos, contudo, de rigoroso dever externar com franqueza esta opinião: Que podem eles prestar, serviços a lavoura, e ser aceitos como um meio de transição.70 Assim como a CRME, munidos de teorias raciais presentes nos discursos do século XIX, os paulistas consideram os povos asiáticos de raças inferiores ao branco europeu. Considerando perigosa a introdução de povos indiáticos/ coolies para colonização e imigração, deveriam estes servir apenas como um meio de transição. Por fim, a CSP estabelece algumas propostas para um melhor aproveitamento da lavoura brasileira a fim de sanar a crise de braços e capitais. 1. Liberdade de cultos e igualdade destes ante a sociedade temporal e política. 2. Casamento civil sem prejuízo das cerimonias religiosas para os cônjuges que quiserem observá-las. 3. Execução definitiva da lei e respectivo regulamento referente ao registro civil de nascimentos e óbitos. 4. Efetiva secularização dos cemitérios sob a administração das municipalidades. 5. Naturalização fácil, devolvendo-se a respectiva competência aos poderes locais e outorgando-se ao estrangeiro naturalizado o gozo de todos os direitos políticos. 6. Isenção do serviço militar para o brasileiro que, tendo contrato de locação de serviço em um estabelecimento agrícola, apresentar atestado do locatário ou der outra qualquer prova de fiel cumprimento do contrato. 7. O estabelecimento de crédito real auxiliado pelo Governo dará ao fazendeiro mais a quantia correspondente a 20 % do capital que lhe for emprestado com aplicação especial à construção de casas para colonos e com a obrigação de restituição no caso de não se realizar o emprego dessa quantia dentro de um ano depois de efetuado o empréstimo. 8. Reforma da lei de locação de serviços.71 Agrupavam-se ainda nas respostas ao questionário do programa, os seguintes problemas: o fim da mão de obra escravizada, a má reputação do trabalhador nacional, as experiências ruins de imigração europeia ou a má impressão que esse projeto causava o trabalho dos ingênuos na grande propriedade, a instalação de vias de comunicação, propostas por imigração de chins ou coolies, um projeto de extinção da formiga saúva, as dívidas contraídas da Guerra do Paraguai, a depressão do crédito agrícola, a seca no Norte 70 Idem, p.76. 71 Congresso Agrícola, p.76. 38 do país, os problemas causados pelas leis de abolição lenta e gradual, a reforma da Lei de Locação de serviços, ou Lei Sinimbú, assim como da Lei Hipotecária, e a necessidade de instrução agrícola. As recorrentes reclamações de falta de braços e capitais através da voz dos fazendeiros e da lavoura são parte estruturante das tentativas mal resolvidas de manutenção da escravidão. As articulações para os projetos de imigração em massa são parte do problema e da solução da escravidão brasileira, pois as conexões realizadas pelos grandes fazendeiros eram através da imigração em massa de raças superiores (alemães e italianos) para a obtenção lenta e gradual da abolição. A chave, no entanto, não era possível, pois os mesmos fazendeiros que buscavam as ditas raças superiores para a colonização do Brasil, buscavam o lucro através da exploração. Fez-se então a escolha pela importação de raças inferiores como um movimento transitório de raças para o projeto de branqueamento da população brasileira. A questão chinesa no Congresso Agrícola As perguntas enviadas no questionário sobre o problema da mão de obra e o aproveitamento dos ingênuos, somado à opinião de Sinimbu em relação à importação de mão de obra chinesa, colocaram os tópicos em paralelo. Há, portanto, a intenção e disposição para a vinda de trabalhadores asiáticos chineses como uma possível solução para a crise da mão de obra escravista. As opiniões dos congressistas para solucionar “o problema de braços” contavam, de maneira geral, com a possibilidade de trabalhos dos ingênuos, trabalhadores nacionais, escravos libertos, imigração europeia e a mão de obra asiática chinesa/coolie. A participação dos ingênuos como “um elemento de trabalho livre e permanente na grande propriedade” variava entre a plausibilidade - “se a lei que regular o trabalho providenciar no sentido de serem esses ingênuos educados em regime diverso do que hoje entre nós voga. ”72; e de negação na maioria dos casos Finalmente, considerando o questionário a respeito dos ingénuos, entendemos que a lavoura não pôde contar com eles, não só pela indolência herdada dos escravos e nacionais, como porque em geral os libertos preferem o mercantilismo. Além disto, cumpre observar que os ingénuos só72 Congresso Agrícola, pp.32-33. Respostas ao Questionário do Programa do Sr. Cândido Barreto de Souza Faria. Também de acordo estava a Companhia União dos Lavradores, pp.67-69. 39 poderão prestar serviços reais à lavoura depois de oito anos decorridos desta data, e, portanto, só em 1886 estarão eles aptos para prestar tais serviços.73 Os trabalhadores nacionais vistos como “inúteis, [que] se enervam no vicio, ou exploram o caráter bondoso do brasileiro”74 também não são passíveis de assumir a lavoura nacional como mão de obra devido ao seu caráter. Para a vinda de imigrantes europeus, como vimos no do discurso de abertura de Sinimbu, fazem-se necessárias diversas alterações na sociedade brasileira. Relata ainda o Conselheiro C. B. Ottoni que para a vinda do “colono europeu útil, deve-se preparar o país primeiro: legislação para fundar família legítima, liberdade de adorar o Deus que quiser e facilitar a igualdade de direitos políticos. ”75 Há ainda um comentário sobre a importação de negros livres americanos como colonos, pelo Senhor Conde de La Hure, para sanar os problemas de braços.76 O projeto de imigração asiática proposto pelo governo foi o que mais rendeu discussões e comentários ao longo do Congresso, tanto nos questionários, quanto nas manifestações de opinião. Através do Anexo 4 - Opiniões manifestadas sobre asiáticos durante o Congresso Agrícola, somos capazes de identificar os nomes dos manifestantes, suas respectivas províncias e localidades, posicionamento (se a favor ou contra), qual nomenclatura usaram (ex: chins, coolies, asiáticos), a qual tipo de mão de obra estavam dispostos ou criticando (ex: locação de serviço, medida transitória, colonos, jornaleiro), e, de modo reduzido, as principais opiniões. Dentre as manifestações sinófilas temos: 2 do Espírito Santo, sendo 1(uma) a favor e outro contra; 5 de Minas Gerais, sendo 1(uma) a favor, 3 contras e uma posição neutra; 3 posicionamentos de representantes de duas províncias (Rio de Janeiro e Minas Gerais), sendo as 3 contra; uma manifestação da CRME a favor; 14 posicionamentos da província do Rio de Janeiro, sendo 4 contra e 10 a favor; e por fim 10 manifestações paulistas, sendo 6 a favor, 4 contra e 2 neutras. Totalizando 39 manifestações sinófilas, com 16 falas contra a qualquer tipo de imigração chinesa, 19 falas a favor e 4 sem expressão. No mapa abaixo se consegue localizar espacialmente onde há falas em favor da imigração chinesa. Das localidades destacadas, as pertencentes a Província de Minas 73 Em concordância estavam também a Comissão nomeada pelos lavradores de S. Paulo, e a Comissão nomeada pelos lavradores do Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo aqui já citadas. 74 Idem, pp.62-63. Lavradores da freguesia da Lage. 75 Idem, pp.211-215. Opinião do Conselheiro C. B. Ottoni 5º na última sessão em 12 de julho de 1878. 76 Idem, pp.96-104. Projeto e notas para fundação de uma sociedade de crédito territorial e agrícola pelo Sr. Conde de la Hure. 40 Gerais encontram-se na Zona da Mata Mineira (Mar de Hespanha e Leopoldina); do Rio de Janeiro temos presente as regiões do Vale do Paraíba (Valença, Vassouras, Resende) e do Complexo açucareiro (Cantagalo, Campos e Quissamã); e pertencentes a região paulista temos a presença das regiões socioecológicas do Vale do Paraíba (Taubaté), Primeiro Oeste Paulista (Campinas, Rio Claro e Indaiatuba) e o Quadrilátero Açucareiro (Sorocaba e Porto Feliz). Portanto, as regiões socioecológicas destacadas onde há posicionamentos favoráveis sinófilos são aquelas que, de maneira geral, possuem maior dependência da mão de obra escrava. Mapa 4: Localização socioespacial a favor da imigração chinesa (1878) Fonte: RIBEIRO, Duarte da Ponte. Carta do Império do Brasil, Acervo Digital da Biblioteca Nacional; & PARRON, Tâmis. A Política da escravidão no Império do Brasil 1826-1865, p. 159. Adaptado. De maneira geral, independente da recepção positiva ou negativa dos projetos, todos os congressistas baseavam suas opiniões nas teorias raciais do século XIX ao estabelecerem uma geografia imaginativa e representações do oriente e do oriental. O Brasil, portanto, ou os congressistas, ao estabelecerem as distinções marcadamente raciais 41 em seus discursos, tentam negociar com o oriente como uma instituição organizada “para dominar, reestruturar e ter autoridade sobre o Oriente. ” 77 Para Carlos Marcondes de Toledo Lessa, representante de Barra Mansa, a solução da lavoura estava: Portanto na extinção dos impostos de exportação e dos de importação de gêneros estrangeiros de que a lavoura carece para expandir- se, e na construção de estradas, antes do que na de máquinas de guerra, é que está o segredo do restabelecimento da lavoura nacional, e não em juros cômodos que facilitem a introdução de alguns milheiros de chineses indolentes.78 Outro congressista, o Dr. Eduardo Augusto Pereira de Abreu, de Silveiras, SP manifesta-se contra a imigração de chins e coolies, sendo este uma calamidade letal à lavoura brasileira, além de serem de uma raça inferior. Vale mencionar ainda que os conceitos usados, apesar de diferentes, não possuem distinção na opinião manifestada. Considero uma calamidade para a atual lavoura a introdução dos Coolies em nosso país. A experiência tem demonstrado a negativa mais completa e os resultados perigosos, insuficientes e nulos que essa classe de homens, eivados de maus costumes e corruptos por natureza e princípios de educação, tem acarretado consigo em todos os lugares em que como colonos se apresentam. Nem como máquinas de trabalho e esgotados que sejam todos os recursos que ainda nos restam nos naturais do país e na colonização europeia, podemos admitir a aquisição do homem asiático conhecido com o nome de coolies. Fracos e indolentes por natureza, alquebrados pela depravação dos costumes e hábitos que desde o berço adquirem, narcotizados física e moralmente pelo ópio, não poderão nunca no Brasil suportar o árduo e penoso trabalho da cultura do café. Os filhos do celeste império serão bons industriosos, metódicos, pacientes como Jó para aqueles trabalhos morosos e de difícil empreendimento artístico; nunca, porém, para o trabalho braçal e rude de nossa lavoura, vivendo nas intempéries, nutridos com nossa alimentação e sujeitos aos contratos de locação inerentes e próprios de nossas leis regulamentares.79 As duas grandes comissões, CRME e a CSP, manifestaram seus pareceres como a favor da imigração, mas apenas se necessário, como última medida para salvar a grande lavoura. Os termos abordados foram chim e coolies/povos indiáticos, respectivamente; e as duas concordavam na vinda de trabalhadores como medida transitória de trabalho entre a escravidão negra e a colonização europeia, considerando, portanto, os asiáticos, ou ainda a raça amarela, como inferior. 77 SAID, Edward W. Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente. Tradução de Tomás Rosa Bueno. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. P.15. 78 Congresso Agrícola, p. 34. 79 Congresso Agrícola, p.39. Conferência do Dr. Eduardo Augusto Pereira de Abreu. 42 A conferência feita pelo Sr. Blacklaw80 perante o Congresso Agrícola, em 12 de julho 1878, em específico sobre a experiência dos indian coolies das Índias Britânicas, que fizeram a transição do trabalho escravo para o livre é uma das que, além de fazer a distinção entre os termos, mostra uma perspectiva comparada internacional sobre o assunto (o conferencista inglês desconhece, portanto, o trabalho dos chins da China).81 Os coolies foram importados já na década de 1830 para as Ilhas Maurícia para o serviço do cultivo da cana de açúcar, mas ao entenderem que foi um sistema de trabalho semelhante ao da escravidão foi abolido. Tendo retornadosomente nas décadas de 1850/60, após o Governo da Índia redigir um regulamento para avaliar a colonização e nomear um funcionário como o “protetor dos emigrantes”, a importação de coolies indianos para colonização das Ilhas Maurícia contava em 1866 com 120.269 coolies, sendo 86.313 homens e 33.956 mulheres. Como Blacklaw nos conta, os contratos de trabalho dos índian coolies foram redigidos de maneiras parecidas em Cayena, Jamaica e nas Ilhas Maurícia, delegando as obrigações tanto dos trabalhadores, como dos fazendeiros. Entre outros estão descritos o salário, acesso à comida e médico, à passagem, e à liberdade. O coolie é gente inteiramente servil, mas é homem livre. É verdade que há um regulamento para seu governo, mas isto não quer dizer que seja escravo, sendo, aliás, este regulamento muito necessário, não só para o fazendeiro, como para o mesmo coolie, que assim não anda pedindo esmola, é obrigado a trabalhar. Ia o orador esquecendo-se de mencionar também que, quando o coolie é engajado na índia, os agentes têm de mostrar ao magistrado um certificado provando que eles estão autorizados a tratar com o emigrante, e devem declarar, perante o mesmo magistrado e na língua própria do coolie, as condições sob as 80 Alexander Scott Blacklaw (?-1899), escocês, começou sua vida como fazendeiro em Aberdeenshire, depois migrou para o Ceilão trabalhando como fazendeiro de café, onde teve contato com a mão de obra asiática, experiência essa contada no Congresso Agrícola. Por fim Blacklaw aparece no Brasil em diversas ocupações: como representante da Rio de Janeiro Sugar Factory e engenheiro-diretor das obras de construção de dois engenhos de centrais de açúcar em Mangaratiba e Araruama; empregado como importador por William Reid & Co, um firma no Rio de Janeiro; representante do The New London and Brazilian Bank Limited (antigo London and Brazilian Bank), assim como administrador da Fazenda Angelica em Rio Claro, São Paulo. Foi ainda co-autor de um livro intitulado Brazil as a coffee-growing country, 1878, sobre o Brasil como um país plantador de café; e dois artigos sobre a questão da mão de obra no Brasil e a recomendação da introdução da mão de obra asiática coolie no país: sendo um publicado no jornal The Anglo-Brazilian Times (RJ), edição 17, 7 de Setembro, 1878, p. 2. E outro no 20º volume do The South American Journal intitulado Slavery in Brazil., em 1882. Mais informações em: Jornal do Commercio (RJ): edição 127, 8 de maio de 1877, Provincia de São Paulo, p. 5.; edição 177, 27 de junho de 1883, Gazetilha, p. 1.; https://www.manfamily.org/about/other-families/blacklaw-family/; https://www.manfamily.org/wp-content/uploads/2015/01/Slavery-in-Brazil-by-Alexander-Scott- Blacklaw.pdf; https://www.manfamily.org/wp- content/uploads/2015/01/Brazil_as_a_Coffee_Growing_Country.pdf; https://www.manfamily.org/wp- content/uploads/2014/12/Alexander-Scott-Blacklaw-Will.pdf. 81 Congresso Agrícola, pp.255-262. CONFERÊNCIA feita pelo Sr. Blacklaw perante o Congresso Agrícola, 12 de julho 1878, acerca do trabalho dos coolies. https://www.manfamily.org/about/other-families/blacklaw-family/ https://www.manfamily.org/wp-content/uploads/2015/01/Slavery-in-Brazil-by-Alexander-Scott-Blacklaw.pdf https://www.manfamily.org/wp-content/uploads/2015/01/Slavery-in-Brazil-by-Alexander-Scott-Blacklaw.pdf https://www.manfamily.org/wp-content/uploads/2015/01/Brazil_as_a_Coffee_Growing_Country.pdf https://www.manfamily.org/wp-content/uploads/2015/01/Brazil_as_a_Coffee_Growing_Country.pdf 43 quais vai ele emigrar, o salário que há de ter e as outras vantagens que tem de receber. Além disto, o coolie passa por um exame médico, que é coisa muito importante, porque, si assim não se fizer, talvez emigre gente que não preste para nada, e o fazendeiro, ou o governo, ou quem dirige esse sistema de imigração terá de pagar passagem de volta, o que é um prejuízo muito grande. Assim, pois, é muito necessário que passem os coolies por um exame médico antes de emigrar. Depois desse exame, o coolie é posto à disposição do protetor dos emigrantes, que é escolhido pelo governo da índia e pago pela colônia. Esse protetor tem um registro, onde consta o nome, a idade, a aldeia ou distrito de onde saiu o coolie e tudo o mais que possa ser necessário para futuras informações. O governo da colônia pode ordenar se for preciso, a volta de qualquer coolie para a índia, se ele não for hábil, e tem igualmente a faculdade de mandar que qualquer deles, que sofra maus tratos, seja retirado da fazenda. São estas algumas das bases do sistema de imigração adotado na ilha Maurícia. Nada mais tem o orador a dizer sobre a situação dos coolies nessa ilha.82 A relação dos indian coolies com o tratamento e cultivo do açúcar, ajuda a entender a participação, ainda que diminuta, de espaços socioecológicos açucareiros no Congresso. Em relação ao café, o congressista diz que as plantações de café no Ceylão entre os anos de 1825 e 1840 eram feitas por locais cingaleses, mas não eram habilidosos. No entanto, um processo migratório foi motivado nos anos de 1841/2 devido a uma grande fome no sul da Índia, em que os coolies buscavam serviço e comida. Já nas décadas de 1860/70, passada a grande fome, a migração continua “pelo lucro e amor ao dinheiro” contando, em 1864, com 315.500 coolies trabalhando em 300 mil acres de café. O salário dos coolies em Ceylão, que difere dos outros lugares onde não há imigração espontânea, é o seguinte: os homens recebem 8 pence por dia ou 320 rs; as mulheres 7 pence ou 280 rs; os rapazes 6 pence ou 240 rs; e os meninos 4 a 5 pence ou 160 a 200 rs, conforme a habilidade e força de cada um. O fazendeiro entrega-lhes todos os sábados o arroz de que necessitam durante a semana seguinte, levando-lhes, porém, a conta o respectivo valor.83 Blacklaw considera os coolies como uma raça muito superior à dos negros, e igual à dos brancos, tendo apenas a pele bronzeada como diferença. Os coolies seriam ainda essenciais para a lavoura, pois funcionam no sistema de castas, obedecendo assim seus contratantes, pois “tem pouca confiança no homem preto, e respeitam o branco”. Tem convicção de que a lavoura tropical, a lavoura do café, não serve para gente branca. [...] não é questão de força; é a questão de concorrência de nosso café com o de outros lugares. Não há um branco que possa trabalhar pelo mesmo salário de um preto ou de um coolie da índia.84 82 Idem, p.258. 83 Congresso Agrícola, p.261. 84 Idem, p.258. 44 O palestrante escocês define o custo da reprodução social da força de trabalho em termos raciais e, com isso, justifica uma divisão internacional ‘racializada’ do trabalho. Por fim, os coolies são indicados por ser “uma questão de dinheiro e economia, compra- se café onde é melhor e mais barato. ” A vida do coolie no seu país é inteiramente de lavoura: cultiva arroz, algodão, anil e papoula para a produção do ópio. Como o clima é quente, do que tanto gostam os coolies, as suas casas são pequenos ranchos levantados com taquaras e área, cobertos de palhas de arroz, nos quais moram sem gastar quase nada, porque 2$000 por ano é quanto lhes basta para roupa, e felizes se julgam quando podem cultivar arroz suficiente para seu alimento e de suas famílias.85 Os projetos de substituição de mão de obra por trabalhadores asiáticos mostram que há divergências manifestadas sobre todos os temas concernentes a essa classe. No entanto, as grandes comissões de representantes da lavoura das províncias de Rio de Janeiro, Minas Gerais, São Paulo e Espírito Santo, ao manifestarem suas opiniões plausíveis para a imigração asiática como movimento de trabalho transitório deram o aval ao governo para agir. As discussões foram, portanto, levadas mais adiante através de medidas dogoverno imperial e do gabinete Sinimbu, como a missão à China e o futuro Tratado de Amizade, Comércio e Navegação entre os Impérios chinês e brasileiro. Considerações No Brasil, as narrativas criadas para a emancipação do povo negro escravizado sempre se basearam em um contraponto, ora um novo processo imigratório para substituição da mão de obra escravizada, ora a indenização aos senhores de escravos. As discussões para os projetos de substituição de mão de obra pautavam sua concepção racializada da reprodução social do trabalho, tanto no nível internacional como no brasileiro. A imigração de asiáticos chineses insere-se no debate ao condicionar uma liberdade precária (indentured labor) em vias de meio transitório de trabalho. Os chineses eram uma esperança e uma ameaça para a nação brasileira. Esperança pelo trabalho, e ameaça por serem inadequados para o liberalismo embranquecido do Brasil. As representações racializadas dos trabalhadores chineses não são exclusivas ao caso brasileiro. A presença da migração transnacional chinesa em outros países, desde o início do século XIX, construiu globalmente imagens culturais dos trabalhadores chineses através da unidade dos coolies ou chins sendo uma ameaça a evolução sociológica das 85 Idem, p.260. 45 raças e um entrave a imigração europeia para o trabalho livre. No entanto foi no caso brasileiro o casamento experimental de trabalho forçado entre chineses e a cafeicultura no mesmo espaço socioprodutivo da escravidão, sendo Havaí, Ceilão e Ilhas Maurício espaços de casamentos distintos. Foram os cafeicultores brasileiros através da sua ótica centrada no fim da escravidão que, ao analisarem os processos globais de reestruturação das forças de trabalho da economia global, perceberam nos asiáticos chineses uma possível saída para a manutenção de seus processos estruturantes de reprodução da acumulação do capital através de mão de obra forçada. Essa mudança global é sentida ao iniciar do século XIX com investidas britânicas mais duras na região do Sudeste Asiático, principalmente na Índia. A visão de conjunto entre ampliação dos espaços produtivos de commodities, da reestruturação das relações sociais e da força de trabalho global através da desapropriação de terras em massa (a exemplo da Índia e sua colonização pela Grã-Bretanha) soma-se aos fatores responsáveis na diáspora asiática do século XIX, juntamente com o fim da escravidão negra. A representação orientalista foi responsável por aplainar as diferenças presentes na sociedade chinesa e por excluir o Império chinês como peça fundamental na transformação do capitalismo global do século XIX, sendo igualmente importante as transformações ocorridas na península do Sudeste Asiático. 86 A crise da escravidão negra no Brasil e a reestruturação da gestão do cativeiro brasileiro foi igualmente responsável pelo surgimento de projetos de políticas imigrantistas, no caso do presente trabalho, os asiáticos chineses. A geocultura do escravismo e da crise da escravidão puderam, em perspectiva comparada global, desenvolver relações globais de política imigrantista sinófila para a reformulação da força de trabalho. O Congresso Agrícola ao convocar a lavoura brasileira para discutir seus principais problemas teve um balanço positivo dentro dos temas propostos. Além da aprovação da eleição direta, o Gabinete Sinimbu pôde registrar vitórias dentro das bases sociais e políticas de seu governo. Reformas no ensino primário e instrução agrícola estavam agora em pauta imperial, assim como a missão à China, ou de circum-navegação, que o governo brasileiro realizou através do navio Vital de Oliveira. A missão passaria ainda pelo Japão, na tentativa de situar o Brasil na era dos tratados desiguais com o oriente. O contexto da missão brasileira na China não foi nada promissor. A falta de apresentação 86 LEE, Ana Paulina. Mandarin Brazil: Race, Representation, and Memory. Stanford University Press, 2018. P.37-39. 46 dos costumes e a dificuldade de intérpretes foram fatores que atrapalharam no entendimento de toda a questão. A missão ainda foi abalada pelo que se chamou de ‘intrigas diplomáticas’, devido a uma iminente declaração de guerra da Rússia à China e a pressão internacional contra o comércio do ópio. O tratado, firmado em 1880, teve sua celebração com uma cerimônia no templo de Tientsin, que também foi um choque de culturas muito grande, visto que a formalidade política ocidental europeia não incluía esse hábito. Após a ratificação do tratado, Eduardo Callado prosseguiu com os intuitos da missão e organizou um “plano para a introdução de trabalhadores chins no Brasil”, tendo, no entanto, duas questões centrais que alarmavam os ânimos dos comissários chineses: os maus-tratos sofridos pela tripulação do navio durante a viagem e a falta do cumprimento das normas redigidas nos contratos de trabalho. Callado, com ótimas aspirações diplomáticas, sugere ações que possam minimizar as preocupações, como convidar alguns idosos chineses para o trajeto Brasil-China, – os mais velhos desfrutam de grande respeito e admiração no Celeste Império, dessa maneira o bom tratamento e um bom retorno deles significaria um ótimo sinal – e que eles ficariam incumbidos da seleção de trabalhadores imigrantes chineses, além da fiscalização dos termos contratuais. Além disso sugere que o trajeto seja feito por uma embarcação de bandeira chinesa. “Neste sentido, acrescentava que fora procurado por dois diretores da China Merchant’s Steam Navigation Merchant, anunciando-lhe a intenção de abrir uma linha regular de vapores, ligando portos da China com os do Brasil. ”87 No documento elaborado por Callado há a menção a um membro do capital chinês conhecido como Tong-King-Sing. O referido membro, no entanto, vindo ao Rio de Janeiro em 1883, foi responsável por causar um alvoroço entre as classes sociais cariocas, além de diversas revoltas políticas locais.88 O projeto, por sua vez, não teve seguimento. 87 FERREIRA, Tânia Bessone da Cruz, GUIMARÃES, Lucia Maria Paschoal & NEVES, Lúcia Maria Bastos Pereira das. O Império do Cruzeiro do Sul e a Corte Celeste de Tien-Tsin: apontamentos sobre as relações sino-brasileiras no século XIX in Dossiê Poder Naval, Comércio e Instituições Militares no Brasil Oitocentista. Revista Navigator, V.6, N. 12, 2010. P.74. & LISBOA, Henrique Carlos Ribeiro. A China e os chins. Recordações de viagem. Rio de Janeiro: Fundação Alexandre de Gusmão/CHDD, 2016. [edição original, 1888]; LISBOA, Henrique Carlos Ribeiro. Os chins do Tetartos. Continuação d’a China e os Chins. Rio de Janeiro: Typ. da Emp. Democratica Editora, 1894; Cadernos do CHDD, ano XI, n. 20. Brasília: Fundação Alexandre de Gusmão, Centro de História e Documentação Diplomática, 2012. p.23-157. 88 “A passagem do ilustre hóspede e de seus auxiliares pela capital do Império provocou grande rebuliço. Alvos de curiosidade, de murmurações e do habitual humor carioca, todos desejavam vê-los. Para se ter uma ideia do alvoroço, basta dizer que a extraordinária movimentação em torno da excêntrica comitiva serviu de mote para Artur Azevedo redigir a peça O Mandarim, a revista cômica do ano de 1983! Até o 47 escritor Machado de Assis, conhecido pela sua sisudez, dedicou uma crônica bem-humorada ao exótico visitante”. Idem ibidem.p.75. 48 CAPÍTULO 2 - OS FLUXOS E REFLUXOS GLOBAIS DA MÃO DE OBRA ASIÁTICA CHINESA NÃO QUALIFICADA: TERRA, TRABALHO, CAPITAL E RAÇA Momento de expansão e consolidação de impérios e estados nacionais, o século XIX foi também de grandes transformações globais. A mudança de paradigma global em 200 anos (1700-1900), tendo sidoem um primeiro momento o sistema escravista uma das grandes engrenagens da economia global, conduz, em um segundo momento, à remodelação de fluxos e refluxos globais de mão de obra internacional. Portanto, a construção e remodelação dos novos tipos de mão de obra enquanto modelo de trabalho deu-se através da experiência da escravidão, sendo esta responsável por novas modalidades de trabalho. A íntima relação da escravidão e da posse do escravo com a terra, trabalho e capital fez ainda com que essas instituições fossem remodeladas através do olhar escravista para um novo modelo. Estudaremos a seguir um desses novos modelos, a imigração de mão de obra não qualificada asiática chinesa. De maneira geral são estimados 50 milhões de pessoas deslocando-se da Europa para os locais temperados (América do Norte) para trabalhar em assentamentos e contribuir na expansão imperial/territorial; e 30 milhões do Sudeste Asiático (Índia, China; e em menor número Javaneses, Japoneses e outros ilhéus do Pacífico) para trabalhar nas Américas tropicais em plantações, minas, construção de ferrovias e extração de guano.89 Deve-se lembrar que as estatísticas de fluxos e refluxos de mão de obra global representam um padrão racial para as divisões do trabalho ao longo do século XIX. Há também em menor escala deslocamentos de brancos europeus para trabalharem nas plantações tropicais de Brasil e Cuba no período pós-escravidão, assim como na Guiana Britânica e Havaí; e de asiáticos, em sua maioria chinesa e indiana, para áreas emergentes de economias industriais, como os Estados Unidos e Canadá. Mesmo ainda dentro dos movimentos gerais de racialização do trabalho, entre brancos e não brancos, certos grupos 89 LAI, Walton Look. Asian Diasporas and Tropical Migration in The Age Of Empire: A Comparative Overview. The Chinese in Latin America and the Caribbean. Leiden, Holanda. Brill. Disponível em: https://doi.org/10.1163/ej.9789004182134.i-242.18. & MAHMUD, Tayyab. Cheaper than a Slave: Indentured Labor, Colonialism and Capitalism. Whittier Law Review, Forthcoming, Seattle University School of Law Research. Volume 34, Issue 2, 2013. 49 eram marginalizados, em especial alguns grupos europeus de países agrícolas, como os irlandeses.90 Pode-se separar ainda a migração entre inter e intrarregional, ou seja, dentro do mesmo continente e para fora; sem considerarmos ainda os fatores de atração e repulsão dos diversos movimentos migratórios. A migração e o assentamento de trabalhadores manuais não qualificados não são exclusivos do século XIX, como nos mostra Walton Look Lai.91 Para o caso asiático, a migração sazonal e de longo prazo do Sul e Sudeste desta região pode ser datada desde os períodos Tang (618-907 A.C) e Han (206 A.C-220 D.C). Mesmo que não fosse ativa e legalmente encorajada pelo Império chinês a região do mar do Sul da China é um espaço de encontros e confluências. A chegada de portugueses, espanhóis, holandeses, ingleses e franceses na região asiática no século XVI marca o início das primeiras ligações econômicas que formarão uma rede de comércio, migração e influência com o passar dos anos. A rota do Galeão Espanhol Manilla, estabelecida pelo Império espanhol durante o controle das Filipinas (1565-1815), foi responsável por uma linha contínua durante 250 anos de comércio entre o Império espanhol e comerciantes asiáticos do mar do sul da China. A rota foi uma importante ligação e uma abertura para o posterior estabelecimento dos países ocidentais, além de representar oportunidades de imigração entre oriente e ocidente já fazendo contar durante o século XVII a presença de chineses no Peru e no México. 92 Essa ligação triangular é que ajudará na posterior expansão e estruturação de um dinamismo econômico global do atlântico-pacífico ao estabelecer conexões regionais econômicas, políticas e culturais que serão transformadas para a expansão econômica, colonização e exploração. No século XVII observamos também as primeiras inserções europeias para a 90 O caso de irlandeses e de outros grupos europeus está relacionado com o período conhecido como “The Hungry Forties”, a Grande Fome, ou a Crise/Escassez da Batata. O surgimento de um fungo, a grande dependência do alimento em alguns países europeus e a disponibilidade de terras aráveis foi responsável pela morte de milhões de pessoas nas décadas de 1840 e 1850 que levaram onze países a um déficit populacional e a influenciarem a migração em massa na busca de sobrevivência. Sendo o mais afeto a Irlanda com a morte de grande parte da sua população. Vanhaute, Eric, C O’GRADA, and R PAPING. “The European Subsistence Crisis of 1845-1850. A Comparative Perspective.” When the Potato Failed. Causes and Effects of the “Last” European Subsistance Crisis, 1845-1850. Brepols, 2007. 15–42. Disponível em: <http://hdl.handle.net/1854/LU-359580> 91 LAI, Walton Look. Asian Diasporas and Tropical Migration in The Age Of Empire: A Comparative Overview. The Chinese in Latin America and the Caribbean. Leiden, Holanda. Brill. Disponível em: https://doi.org/10.1163/ej.9789004182134.i-242.18. Pp. 28-31. 92 HU-DEHART, Evelyn. & LÓPEZ, Kathleen. Asian Diasporas in Latin America and the Caribbean: An Historical Overview. Afro-Hispanic Review Volume 27, Issue 1, 2008. Pp.9-21. & HU-DEHART, Evelyn. Introduction: Transpacific Confrontation/Confrontación transpacific, Review: Literature and Arts of the Americas, Volume 39, Issue 1, pp. 3-12, 2006. https://doi.org/10.1163/ej.9789004182134.i-242.18 50 exploração de indianos conduzida por portugueses, franceses e holandeses para o Ceilão, Ilhas Maurício e Reunião francesa no movimento de expansão dos impérios. Historia da China no século XIX – um voo de Dragão93 - O tardio Império Qing: apontamentos e problemas A última dinastia a governar a China, os Qing (1644-1912), um povo Manchu, fundaram as bases da China territorial como conhecemos hoje. O Império chinês era composto por diferentes etnias, sendo os Han o maior grupo, e os grandes responsáveis pela expansão territorial chinesa durante o governo Manchu Qing devido ao sistema de alianças políticas e militares entre algumas etnias.94 O primeiro ponto de inflexão do Império chinês acontece com a morte do Imperador Qianlong, nascido Hongli (1711– 1799), momento no qual o Império Qing atinge seu apogeu de prosperidade com um aumento populacional, crescimento econômico e investidas militares exitosas que aumentaram e demarcaram a China territorial. Como mostra Klaus Muhlhahn, a estabilidade geopolítica e econômica do Império Chinês na região asiática e a defesa de suas fronteiras eram (e são) de difícil manutenção, sendo a constância de relações pacíficas com estrangeiros e a afirmação de soberania do Império e da sua territorialidade um problema recorrente para as dinastias de maneira geral. 95 Sendo uma sociedade hierárquica cultural e socialmente, e o Imperador sendo o Filho do Céu, a afirmação através de simbologias e ritos era muito importante também nas afirmações com estrangeiros. Territórios distantes, mas influenciados pela política de soberania chinesa eram sujeitos, portanto, a um sistema de relações políticas específico, por exemplo, os territórios que hoje são Vietnã, Coreias e Japão. Esse não era um sistema puro e simples de tributações, ou ainda um típico tratado assinado entre países europeus. O sistema incluía a presença de grande parte da corte, de literatos e outras importantes classes, como 93 Em específico para o nosso estudo analisaremos a história do Império chinês entre 1800 e 1875 apenas no intuito de marcarmos as confluências da dinastia Qing (1644-1912) com os poderes ocidentais, sabendo ainda que interseções anteriores foram feitas.Reafirmamos, no entanto, que a data e os fatos anteriores não são descolados da história chinesa, sendo igualmente confluências históricas e fatores de causa e consequência ao longo dos anos. 94 As etnias chinesas por ordem de grandeza são: Han (汉), Zhuang (壮), Hui (回), Manchus, (man 满), Miao (苗), Uigures, (weiwuer 维吾尔), tibetanos, (záng 藏) e os mongóis (mengu 蒙古). 95 MUHLHAHN, Klaus. Making China Modern: From the Great Qing to Xi Jinping. Cambridge, Massachusetts: The Belknap Press of Harvard University Press, 2019. Pp. 76-84. 51 uma espécie de intercâmbio financeiro cultural, em que se afirmava a soberania chinesa frente as outras sociedades. As conexões políticas, culturais e econômicas criadas e mantidas por esse intercâmbio foram capazes de manter uma determinada ordem social e de bonança econômica para os estados envolvidos, visto que os regimes locais não eram ameaçados politicamente pelo Império Chinês, que ao mesmo tempo que respeitava e alicerçava as bases asiáticas locais, também mantinha sua soberania na região; não apenas social, mas também economicamente, pois essas rotas eram parte importante da dinâmica comercial asiática e no seu crescimento econômico. Esse tipo de afirmação de soberania e dominância pacífica foi capaz de, no longo prazo, levar o Império Chinês a ser um dos maiores e mais influente Império durante o século XVIII e início do XIX. Podem-se destacar ainda três mudanças ocorridas ao longo do século XVIII que remodelaram o curso da história chinesa: o estabelecimento sólido da presença europeia, a duplicação do tamanho territorial do império chinês, e a duplicação da população chinesa Han.96 As mudanças foram, portanto, responsáveis por alterar não somente a relação do Império do Meio com as potências europeias, mas também de aumentar e consolidar o poder político chinês na região asiática. Por outro lado, o aumento populacional e a expansão do território foram também fatores responsáveis por crises de fome no século XIX. Durante o período Qing, ressaltaremos apenas os quatro primeiros do século XIX. O Império de Jiaqing (1796-1820), em que se podem destacar a supressão da rebelião da Lotus Branca em 1804, a discussão com uma embaixada britânica em 1816 de William Pitt Amherst para negociar redução de tarifas (que não funcionou), e a má gestão do controle do Rio Amarelo resultando na inundação em dezessete vezes. Posteriormente tem-se o Imperador Daoguang (1820-1850) com problemas recorrentes e resultantes da não e/ou má conservação do Rio Amarelo, rebeliões regionais, corrupção entre os oficiais, e a não satisfação dos britânicos com as regras e tarifas comerciais; além de novos problemas como a propagação do consumo do ópio, as Guerras do Ópio (1839-1860), e o consequente Tratado de Nanquim (1842), junto das indenizações em dinheiro acima do orçamento imperial chinês para a Grã-Bretanha. Em seguida o Imperador Xiangfeng (1851-1861) que por sua vez herdou de seu pai más e consequentes problemas da gestão anterior; assim como a Revolta Taiping (1851); as pressões políticas e militares francesas 96 FLETCHER, Joseph. Ch’ing Inner Asia c. 1800. Chapter 2. Inn. FAIRBANK, John K. and TWITCHETT, Denis. (Eds.). The Cambridge History of China, Volume 10, Late Ch'ing, 1800-1911, Part 1. Cambridge University Press, 1991. Pp. 35-106. 52 e britânicas em relação aos tratados desiguais; a mudança de curso do Rio Amarelo em 1855 devido as recorrentes inundações, o que causou uma catástrofe ecológica e humanitária em aproximadamente 1 milhão de mortes; a guerra declarada pela França e Inglaterra, em 1856, nas disputas por Guangzhou, além da invasão e saque da cidade de Beijing, dos consequentes novos tratados desiguais e tomada de territórios na nova política de expansão europeia. Por fim temos o Imperador Tongzhi (1861-1875) em que foi realizado um governo de dominação conjunta entre Ci’an, a Imperatriz, e Cixi, uma consorte elevada a segunda imperatriz por ter o único filho homem do Imperador, na tomada do poder imperial. O período de reinado das Imperatrizes, mesmo que não oficialmente, foi de desenvolvimento de poder compartilhado entre o Imperador criança, uma junta de sábios confucianos, os governadores civis e as formas militares, que proporcionaram o combate e a vitória sobre a rebelião Taiping (1864), Nian (1868), e a revolta Muçulmana (Kashgar 1873); podemos citar também os ataques russos nas fronteiras marítimas e do Norte de 1839 a 1860; e devido ainda às agressões europeias um segundo governo de dominação conjunta foi formado entre a China, Inglaterra, França e Estados Unidos que, findada a Guerra Taiping e as Guerras do Ópio, davam a China acesso aos novos recursos (empréstimos) para reconstrução.97 Durante o século XIX temos o período conhecido como os 100 anos de decadência em que o império Qing enfrentou desafios econômicos, políticos, culturais e de segurança. As consequências de más administrações, postergação de problemas recorrentes, e da não perspectiva de mudança em relação ao ocidente invasor desencadearam uma explosão de ativismo imperial, oficial e de literatos que buscavam a reforma e renovação do Governo Qing. O Império do Meio que antes atuava com uma política soberana e de superioridade, não só dentro da Ásia, mas também com países ocidentais, via-se com novos desafios. Com a virada do século XIX iniciam-se também incursões imperialistas expansionistas europeias com mais frequência cujo intuito era de exploração e dominação de territórios asiáticos. Sendo a China, ou ainda Beijing, um dos epicentros das relações políticas, sociais, culturais e econômicas no Pacífico, ela foi a escolha para incursões políticas de dominação e ataques estrangeiros, por exemplo da França e Inglaterra, para o controle dessas relações; além dessa há ainda outra incursão na fronteira norte do país através da Rússia que também preocupava o Império do Meio. Foi, portanto, através do 97 CROSSLEY, Pamela. EMPERORS, 1800–1912. Inn. PONG, David. (Ed. In Chief). Encyclopedia of modern China, Charles Scribner’s Sons, 2009. Volume 1, A-E. pp. 505-509. 53 expansionismo europeu, com os avanços tecnológicos e industriais, e as mudanças globais de paradigmas de capital, terra e trabalho, que a China recebe um duro golpe durante o século XIX. A administração Qing, apesar de seus problemas, foi responsável por importantes mudanças socioeconômicas que levaram a vida do chinês cotidiano a ser mais interconectada com a vida urbana e com os mercados locais e internacionais. Essa bonança gerou ainda um salto de crescimento populacional que quadruplicou a população chinesa de 100 milhões em 1660 a 430 milhões em 1850. No entanto isso intensificou a competição por recursos econômicos diários gerando conflitos e tensões nos menores níveis administrativos chineses.98 No campo da ecologia, a degradação de longo prazo, assoreamentos, enchentes, inundações e mudanças de curso nos principais rios da China, como no Rio Amarelo em 1844 e 1855, minaram diversas instalações e vilas, alterando o sistema de irrigação e as principais safras que alimentavam a população. Em consequência, junto das invasões e ataques estrangeiros, há um aumento de incidentes de violência através de revoltas étnicas e/ou religiosas locais, como as revoltas Taiping (1851–1864), Nian (1851-1868), Miao (1854-1873) e a Rebelião Muçulmana (1862- 1877). Podemos analisar no mapa abaixo, a proximidade das regiões das revoltas mencionadas. 98 LEONARD, Jane Kate. OVERVIEW, 1800–1860. Inn. PONG, David. (Ed. In Chief). Encyclopedia of modern China, Charles Scribner’s Sons, 2009. Volume 3, N-T. pp. 205-208. 54 Mapa 5: Rebeliões na China no século XIXFonte: Nian Uprising. BOHR, P. Richard. Inn. PONG, David. (Ed. In Chief). Encyclopedia of modern China, Charles Scribner’s Sons, 2009. Volume 3, N-T. p. 41. Não é por acaso a proximidade regional das revoltas. Tendo o governo chinês a sua centralidade administrativa e política na capital, as outras províncias tinham seus próprios líderes regionais. Além disso, em tempos de crise, como em grande parte do século XIX, há o surgimento de grupos e líderes locais que não só protegem a província, como também se revoltam para proteger seu povo. Com o primeiro surgimento da rebelião Taiping, outras rebeliões surgiram para protestar, mas também para a proteção regional e da sua etnia, no entanto cada uma com sua particularidade cultural. Surgida através de um conflito étnico e das dificuldades econômicas e sociais do século XIX, a revolta Taiping sintetiza na China uma luta por melhores condições de vida. Tal revolta, apesar de sua grandiosidade e o grande número de mortos, aproximadamente 20 milhões, 55 não teve tanta penetração cultural no modo de vida chinês por ser conectada a uma religião estrangeira: o cristianismo. 99 A revolta Nian, por outro lado, foi uma insurreição camponesa de defesa contra as tropas imperiais que buscavam erradicá-los, sendo um modelo de revolta autônoma e contra a autoridade imperial. Os Nian foram, portanto, uma rebelião camponesa com maior aproximação cultural dos modos de vida chines devido a sua proximidade com pensamentos budistas e confucianos, e de movimentos locais, como o grupo Lotus Branca.100 A insurreição Miao representou uma das consequências da hostilidade étnica do governo e das tropas imperiais. Com as principais motivações e reivindicações temos a escassez de alimentos, a fome, competição por terras aráveis, e aumento abusivo dos impostos sobre os alimentos – esse último devido aos altos gastos com a rebelião Taiping.101 As Grandes Rebeliões Muçulmanas também eclodiram na mesma época e, juntamente com a revolta Miao, fazem parte do combate à violência contra as minorias étnicas na China e aos aumentos abusivos de impostos.102 A era dos tratados desiguais: invasões e rebeliões Devido também às fragilidades administrativas locais e imperiais, o aumento do orçamento imperial e da burocracia chinesa, e a falta de uma reforma sócio-política eficiente que confluísse entre os novos desafios internacionais e a base confucionista imperial, o império Qing enfrentou o surgimento de novos desafios. O Império Qing ainda tentou inciativas no intuito de reformar seu sistema frente aos novos desafios, mas os esforços não conseguiram conter a fragilidade administrativa imperial e os contínuos problemas socioeconômicos. As invasões estrangeiras (Grã-Bretanha, França e Rússia), as Guerras do Ópio (1839-1860), o surgimento das revoltas e rebeliões locais, alguns desastres populacionais e ecológicos são apenas alguns dos desafios em uma era também conhecida como Era dos Tratados Desiguais, em que as invasões estrangeiras causaram prejuízos econômicos, sociais e culturais em toda a China. Nesse curto período de 100 anos, pouco se comparado a história de um Império de mais de 2 mil anos, a abertura dos 99 KUHN, Philip A. The Taiping Rebellion. FAIRBANK, John K. (Ed.) The Cambridge History of China, Cambridge University Press: Cambridge, 1978. Volume 10. Part 1. pp. 264-317. 100 BOHR, P. Richard. Nian Uprising. Inn. PONG, David. Op. cit, 2009. Volume 3, N-T. pp. 40-41. 101 SUTTON, Donald S. Miao Uprisings. Inn. PONG, David Op. cit, 2009. Volume 2, F-M. pp. 582-584. 102 NEWVY, Laura J. Muslim Uprisings. Inn. PONG, David. Op. cit, 2009. Volume 2, F-M. pp. 651-653. 56 portos chineses ao comércio estrangeiro, a derrocada do sistema imperial, ao aumento do consumo do ópio, a escassez da prata chinesa, e a um fluxo e refluxo de mão de obra chinesa para o estrangeiro nunca visto. Essas mudanças inserem-se ainda na virada de paradigma do sistema capitalista global ao incluírem o sudeste asiático frente a América escravista (Brasil, Cuba e EUA) como um novo centro de trabalho mundial. Estudaremos a seguir alguns dos fatores de repulsão populacional da China continental. As papoulas e o ópio O fármaco derivado das papoulas era utilizado na China desde a dinastia Tang (618- 907) como um importante aliado no combate a doenças e como uma droga medicinal. O fumo do ópio, no entanto, remete a tempos mais modernos, após 1750, junto das primeiras importações já da exploração inglesa nas Índias e sua produção. Em 1836 acontecem os primeiros debates na corte chinesa sobre o consumo e controle do ópio que, por sua vez, eram de difícil controle, tanto das plantações de papoula (localizadas em jurisdições estrangeiras), e a distinção entre uso medicinal e recreativo. Como nos conta Alan Baumler, O Império chinês não dava grandes atenções ao consumo do fármaco, sendo somente a interdição feita no fornecimento de ópio estrangeiro, especialmente o comércio do ópio indiano controlado pelos britânicos em Guangzhou (Cantão). Os fatores econômicos, dentro do Império favoreciam o pouco combate ao consumo e ao comércio, mas é durante o tardio Império Qing, depois de 1800, que há um maior consumo do fármaco estrangeiro no modo de fumo e psicoativo. Esse aumento fez com que as importações do produto aumentassem, minando ainda as reservas de prata da China para o pagamento desse novo hábito.103 A destruição de uma carga de ópio em Humen seria ainda o estopim para a invasão britânica e as Guerras do Ópio. As Guerras do Ópio são então uma guerra comercial em que a Grã-Bretanha, insatisfeita com os acordos e disposições anteriormente feitos, devido a uma série de mudanças nas relações sino-britânicas, inicia ataques às representações oficiais chinesas para o fim do monopólio comercial, como por exemplo, ao sistema de comprador.104 De 103 BAUMLER, Alan. Opium 1800-1950. Inn. PONG, David. Op. cit, 2009. Volume 3, N-T. pp. 505-509. 104 O sistema de comprador regularizava o comércio com os estrangeiros, ao obrigar que estes só poderiam comercializar através de mercadores chineses e pagando impostos. No entanto foi nos séculos XVIII e XIX que os mercadores estrangeiros se revoltaram contra o sistema por não ser transparente; sendo ainda essa revolta uma das razões para a eclosão da Guerra do Ópio. Para mais informações sobre esse sistema ver: SHIROYAMA, Tomoko. Comprador. Inn. PONG, David. Op. cit, 2009. Volume 1, A-E. pp. 345-346. 57 acordo com Emily M. Hill105, o ópio era a commodity mais importante em 1820, na relação comercial entre Grã-Bretanha e China, maior que chá, seda e porcelana; com o fim do monopólio e o acesso estrangeiro aos portos chineses, a balança comercial chinesa passa a ser deficitária, pois enquanto entre 1800 e 1810, 26 milhões de dólares mexicanos entraram para a China, entre 1828 e 1836 foram 38 milhões de dólares mexicanos e de prata que saíram para o pagamento das importações de ópio. Devem-se considerar ainda alguns pontos importantes, sendo a importância da prata nas reservas da economia chinesa; e outro que, apesar das investidas estrangeiras, não foram as Guerras do Ópio as responsáveis pela dominação chinesa, pois devido ao seu grande Império, era possível a existência de uma espécie de simbiose conflituosa entre as forças existentes. As investidas britânicas, e a força aliada anglo-francesa, vitoriosas nas guerras foram responsáveis pelos tratados desiguais de livre comércio e de nação mais favorecida em que portos e territórios foram concedidos a potencias estrangeiras, juntamente na ampliação de privilégios sociais e econômicos, sem esquecermos ainda dos direitos ao livre missionarismo cristão na China. O que nos leva também a concordarmos com Hill é que, ao analisarmosos tratados resultantes das guerras, nenhum deles menciona o comércio do ópio, sendo a concessão de territórios um fator predominante, juntamente do livre comércio e de paridade de direitos. Os usos e padrões de posse da terra Um dos pontos importantes de notarmos com o nascimento do século XIX são as alterações nos padrões de posse e uso da terra. Assim como no Brasil, em que, com o fim da escravidão, as relações socioinstitucionais de acesso à propriedade rural foram transformadas. Algumas partes do território chinês também sofreram uma mudança semelhante. O Estado Qing, ou ainda o Imperador, detinha a posse de toda a terra disponível na China. Podendo um lote agrário ser requerido mediante o pagamento de impostos. O Império ainda tinha o interesse em manter a terra disponível arável, pois, com a grande população chinesa, grandes fomes e secas eram iminentes em diversas regiões do país. Interessante notarmos ainda uma das diferenças nos padrões de uso e posse da terra chinesa na divisão do solo em "solo superficial" e "subsolo"106. 105 HILL, Emily M. Opium Wars 1800-1950. Inn. PONG, David. Op. cit, 2009. Volume 3, N-T. pp. 60-65. 106 ISETT, Christopher M. Land Tenure since 1800. Inn. PONG, David. Op. cit, 2009. Volume 2, F-M. pp. 423-427. 58 Essa divisão de direitos foi capturada na frase “um campo, dois proprietários” (yi tian, liangzhu). Os direitos permanentes do solo superficial foram concedidos aos camponeses para a abertura de terras devastadas ou para investimentos significativos de trabalho e capital, ou foram adquiridos com o pagamento de um depósito (yazu). Por costume, os proprietários do solo superficial podiam vender seus direitos condicionalmente ou totalmente, penhorá-los como garantia de um empréstimo, transferi-los por herança ou arrendá-los a outra parte. O proprietário desses direitos não poderia ser removido da terra, exceto por falta de pagamento do aluguel, e às vezes nem mesmo assim. Normalmente, os proprietários não podiam aumentar os aluguéis dos proprietários do solo. Nas regiões onde os camponeses passaram de uma para duas safras por ano durante as dinastias Ming e Qing, os proprietários não podiam exigir um aluguel na segunda safra.107 (Tradução livre) Portanto em contraponto ao Brasil, onde esse movimento de precificação da terra na segunda metade do século 19 se relacionou com a montagem de um sistema de crédito hipotecário, na China os tipos de movimento de posse e uso são mais antigos e diferentes do caso brasileiro. Em grande parte da história brasileira os padrões de uso e posse da terra têm íntima relação com a escravidão e com os produtos que dela dependiam, a exemplo do café e açúcar. Sendo igualmente dependente disso os novos modelos de trabalho surgidos. Na história chinesa, apesar de sua vastidão territorial, as grandes áreas populacionais concentravam-se nos territórios litorâneos e de fronteira com outras regiões. A territorialidade chinesa tem ainda uma íntima relação com a disposição dos rios e suas confluências, sendo a movimentação fluvial de grande importância não só para o fluxo e refluxo de pessoas, como também de cargas e produtos. Os padrões e uso e posse da terra na China são, portanto intimamente ligados à disposição de terra aráveis e de "subordinar o ambiente natural aos ditames da agricultura em relação ao crescimento populacional"108. Sendo uma sociedade agrária e com grande aumento populacional havia diversos entrepostos comerciais ligados com as conexões fluviais do delta de rios, a exemplo dos rios Yangzi e Han, com alta movimentação intra e inter-regional de mercadorias e de pessoas.109 Há o comércio em cidades de entreposto, como Hankou, localizada na confluência dos rios Yangzi e Han, de arroz e chá no Médio Yangzi; algodão, sal e produtos manufaturados do Baixo Yangzi; arroz, sal e ervas medicinais de 107 ISETT, Christopher M. Land Tenure since 1800. Inn. PONG, David. Op. cit, 2009. Volume 2, F-M. pp. 423-427. 108 MACPHERSON, Kerrie L. Land Tenure since 1800. Inn. PONG, David. Op. cit, 2009. Volume 2, F-M. pp. 427-431. 109 ROWE, William. Domestic Trade: 1800-1900. Inn. PONG, David. Op. cit, 2009. Volume 1, A-E. pp. 423-425. As ferrovias só aparecerão na China continental depois da virada do século XIX para o XX. 59 Sichuan; peles, feijão, tabaco e álcool do Noroeste; milho, feijão, carvão e produtos de cânhamo do norte da China; madeira e laca do Sudoeste; e açúcar, frutas, produtos marinhos, ferragens e uma crescente variedade de produtos estrangeiros da costa sudeste.110 Enquanto no Brasil o fluxo de mercadorias e de produtos era taxado mesmo que dentro do país, na China não havia um imposto regular sobre o fluxo. Impostos foram criados apenas em momentos de rebeliões e crises de fome para minimizar o aumento dos preços, que também não era definido pelo governo, e para regular a distribuição.111 Conforme comentado, a sociedade chinesa era hierarquicamente dividida dentro dos ditames confucianos. Uma grande classe de literatos, oficiais do governo, professores e acadêmicos faziam parte do topo da pirâmide; enquanto mercadores encontravam-se na ponta oposta, por irem contra os princípios filosóficos de Confúcio, por buscarem somente o lucro e não gerarem nada em troca à sociedade. Contrastavam, portanto, fundamentalmente com seus congêneres na Europa, onde sua posição encontrava também o poder político. Grande parte desses mercadores autônomos faz parte dos fluxos e refluxos migratórios chineses, juntamente de camponeses. O colapso da ordem chinesa Qing interna durante o século XIX, com rebeliões, fome, invasões, falta de terra arável; a remodelação de territórios fazendas globais, com o fim da escravidão, a necessidade de mão de obra barata para a manutenção dos preços globais, o estabelecimento de novas colônias, e crises sociais e de fome, são alguns dos fatores que levaram a emigração a ser uma saída mais viável. As províncias chinesas costeiras mais comuns de grande movimentação de pessoas, ou ainda os distritos de imigrantes - 侨乡 qiaoxiang (immigrants native areas) – compartilhavam algumas características comuns, entre elas o relevo de terrenos montanhosos e a escassez de terras aráveis, o que servia ainda mais como fatores de repulsão. 112 Os alicerces do trabalho contratado 110 ROWE, William. Domestic Trade: 1800-1900. Inn. PONG, David. Op. cit, 2009. Volume 1, A-E. pp. 423-425. 111 GARDELLA, Robert. Commercial Elite: 1800-1949. Inn. PONG, David. Op. cit, 2009. Volume 1, A- E. pp. 320-322. 112 NG, Wing Chung. Chinese Overseas: Sending Areas. Inn. PONG, David. Op. cit, 2009. Volume 1, A- E. pp. 241. Entre alguns territórios podemos citar a parte sul de Fujian, especialmente Quanzhou e Zhangzhou, como porto dos Hokkiens, que partiram e retornaram via Xiamen; do outro lado da fronteira provincial no Leste Guangdong há a região nativa dos Teochews, em que o fluxo ocorria por Shantou; e ao sul a área cantonesa do Delta do Rio das Pérolas. Frequentemente subdividido nos Quatro Condados que tinham acesso no exterior por meio de Guangzhou, Hong Kong e, para um menor extensão, Macau. 60 Nos séculos XVIII e XIX é que se conseguiu apontar a remodelação de ações de países europeus, como Grã-Bretanha e Espanha, e de suas empresas - como a Companhia Britânica das Índias Orientais e a Companhia Cubana de Imigração para Havana - e dos Estados Unidos na exploração e utilização do trabalho contratado de asiáticos, em especial de indianos e chineses, devido ao processo de fim da escravidão negra global. O processo de 200 anos de intervenção, exploração e colonização do território asiático indiano pelo Império inglês, e de sua Companhia, foram responsáveis pela transformaçãosocial e econômica da utilização da terra e do trabalho em favor dos colonizadores. Os atos de emancipação e abolição da escravidão publicados pelos impérios europeus a partir da década de 1830 foram responsáveis por gerar uma crise na economia produtiva de commodities ao libertar a maior parte dos trabalhadores escravizados da agricultura mercantil de exportação. A sustentação da economia global e da alta demanda de produtos primários tinha, portanto, uma nova variável necessária, o trabalho contratado – o mais barato possível. Como mostra Tayyab Mahmud, a expansão dos impérios europeus no transcorrer do século 19 dependeu profundamente da introdução do trabalho contratado forçado, principalmente depois da abolição do tráfico negreiro transatlântico e da queda da escravidão negra. A transformação de modo de trabalho fez também mudar o regime de trabalho e a fonte da exploração de trabalhadores: da escravidão para novos tipos de trabalho contratado e/ou forçado, e da África para a Ásia.113 É, portanto, através da experiência de trabalho da escravidão que as novas formas de trabalho são modeladas e remodeladas, assim como os modos de dominação e exploração da terra.114 O território asiático indiano marcado pela presença do Império Britânico e seus modos de exploração colonial marcaram ainda a reestruturação da economia, da terra e do trabalho – sendo este exemplo não só um dos primeiros historicamente, mas também o que serviu de base para as formas de exploração em outros territórios asiáticos e na estruturação dos contratos de trabalhadores. Com a expansão dos Impérios europeus, o aumento da necessidade de commodities, e a sua alta no mercado global, os colonizadores 113 MAHMUD, Tayyab. Op. cit, 2013. PP. 1-15. 114 No caso brasileiro, por sua vez, a sustentação da escravidão enquanto modelo de Estado deu-se por tempo suficiente para que as remodelações e inserções de novas forças de trabalho só fossem possíveis na virada para o século XX. Havia sim outros modelos de força de trabalho, como o caso dos italianos na Provincia de São Paulo, mas não na mesma ordem de grandeza dos números da escravidão negra. 61 despojavam a terra dos trabalhadores locais para a plantação de algodão, por exemplo. A mudança entre cultivo de subsistência/ mercado local para os cash crops fez com que a população fosse repelida, alterando a produção e distribuição doméstica de alimentos e deixando à margem milhões de trabalhadores rurais. No caso indiano: A reestruturação colonial da economia indiana, em particular a subordinação em todos os aspectos da economia colonial, para as necessidades dos colonizadores [...] produziu a desapropriação de fazendeiros e trabalhadores rurais, que se tornaram disponíveis para a introdução no circuito global de trabalhadores contratados.115 Foram, portanto, a apropriação de terras por estrangeiros e a reestruturação para plantações de commodities responsáveis pela alteração dos padrões de posse de terra e, consequentemente, de trabalho e de acumulação de capital – sendo a terra transformada em um bem avaliável. Do outro lado desta mesma moeda tem-se o trabalho sendo comodificado, ou seja, transformado em mercadoria como resultado da incorporação territorial da Índia ao sistema da economia global capitalista, sendo inserida ainda na divisão global do trabalho.116 No caso indiano, assim como no chinês, o processo de acumulação de capital deu- se através da despossessão territorial que criou, como consequência, os fatores de repulsão local responsáveis pelo excedente populacional disponível para trabalho contratado. Visto que a escravidão já estava em seu fim internacionalmente, as relações de exploração dar-se-iam por outros modos suplementares criados pela legislação internacional para afirmação de soberania, ou seja, a reprodução, regulação e governança de territórios estrangeiros através da exploração legal.117 Veremos a seguir como isso ocorreu no caso chinês. A primeira mudança nos padrões de posse e uso de terra chinesa por potências estrangeiras deu-se pela Grã-Bretanha na província de Hong Kong, como mostra Peter Hamilton. O autor considera ainda essa primeira mudança nos padrões como uma fagulha de capitalismo no território asiático, ao concordar e entender o capitalismo como “uma 115 MAHMUD, Tayyab. Op. cit, 2013. P. 34. TRADUÇÃO LIVRE. 116 Assim como no Brasil, esse mesmo movimento de acumulação de terra em posse foi responsável por repelir novos tipos de imigração com intuitos de colonização, de afastar as populações locais mais pobres para além das fronteiras agrícolas e de reestruturar os meio de acumulação de capital. O movimento criou ainda um grupo de trabalhadores pobres e não qualificados disponíveis para o trabalho contratado – no casos asiáticos, chineses e indianos em sua maioria. 117 MAHMUD, Tayyab. Op. cit, 2013. 62 entidade empenhada na acumulação de capital para seu próprio bem, desse modo impulsionando novos avanços nas forças produtivas e nas relações de produção. ”118 O capitalismo, portanto, funciona como um sistema em que a estrutura do estado engloba as relações sociais de propriedade em volta às forças do mercado, não permitindo a qualquer grupo ou individuo pleno isolamento contra os processos de acumulação. O autor revela ainda que a China, apesar de não ser capitalista, e ter os meios necessários para o seu desenvolvimento, não consegue criar o capitalismo em nenhuma parte do território Qing; ocorrendo apenas em Hong Kong com a influência britânica. Após a dominação inglesa sobre a ilha, o governo colonial reestruturou os padrões de posse e uso da terra para maximizar a acumulação primitiva de capital ao transformar a terra em produto estimável e a modo de commoditie, dessa maneira fazendo todos seus habitantes suscetíveis às leis do mercado. Com a criação ainda de impostos sobre os novos bens precificáveis, o governo foi capaz de englobar todos os residentes, obrigando aqueles que não tivessem dinheiro a venderem suas terras. No entanto esse movimento não seria possível sem as conexões globais que impulsionaram o movimento capitalista sino-britânico. Como alicerce, a escravidão nas Américas foi uma das chaves a prover o capital necessário para a Revolução Industrial e a maturação do capitalismo industrial, sendo este último o responsável pela eliminação da escravidão frente a nova forma de trabalho, o trabalho assalariado. Outro alicerce ainda foi a corrida do ouro na California que impulsionou os movimentos de trabalhadores chineses, que ao iniciar do comércio transpacífico foram não só trabalhadores de minas e ferrovias, mas também atores chaves no processo de colonização da California e da transformação das Américas ao longo do século XIX. Comércio coolie Adota-se nesta pesquisa o termo coolie trade, ou comércio coolie, para referir-se às migrações de trabalhadores contratados chineses para os espaços de monocultura latifundiária havendo, ou não, a presença da escravidão como modo de trabalho na América Latina, Cuba e Peru, e em menor quantidade para as Índias Oestes britânica, francesa e holandesa, no século XIX.119 Sabemos ainda que outros conceitos existem 118 HAMILTON, Peter. The Imperial and Transpacific Origins of Chinese Capitalism. Journal of Historical Sociology. Special Issue: Capitalism and American Empire. Volume 33, Issue 1. 2020. P. 135. 119 LAI, Walton Look. Coolie Trade. Inn. PONG, David. Op. cit, 2009. Volume 1, A-E. pp. 243-257. 63 como nos conta ainda Evelyn Hu-DeHart para esse grupo de chineses huaqiao (imigrantes), sendo huagong os trabalhadores e huashang os mercadores. Independentemente do conceito tratado, devemos nos atentar para o fato de que os chinesesentraram em sociedades multirraciais dominadas por uma dualidade entre brancos europeus e sua estrutura de poder, e os negros escravizados. Suas oportunidades e empreitadas variaram, portanto, de acordo com o tempo e espaço que ocuparam.120 Os movimentos asiáticos de diáspora, com foco aqui no movimento de chineses como trabalhadores não qualificados contratados através de contratos forçados para a América Latina e outras regiões, só ocorreram com o surgir das primeiras décadas do século XIX. Nesse período de crise da escravidão, as novas reordenações globais de expansão e desenvolvimento dos mercados mundiais, da extração mineral e de guano, têm também uma necessidade de aumento da infraestrutura global de transportes, com mais barcos e vapor e ferrovias. Em todas essas novas empreitadas há uma similaridade da mão de obra chinesa sendo contratada como "dócil e trabalho barato, mas sem o intuito de serem sujeitos políticos e formadores de nação como cidadãos".121 Esse movimento, o coolie trade, também chamado, em espanhol, de la trata amarilla, consistia de novas relações de gênero e de controle sexual da reprodução da força de trabalho, visto que apenas homens solteiros eram contratados para empreitadas de trabalho na segunda metade do século XIX, no intuito de trabalharem e retornarem (ou não) para suas casas, mas sem a formação de famílias para colonização. Importante notarmos ainda que em determinados espaços, como em Cuba, os coolies chineses não só competiam com negros escravizados no mercado de trabalho, mas também eram transportados nos mesmos navios, trabalhavam nas mesmas plantações e desenvolviam meios semelhantes de resistência.122 Os asiáticos, chineses ou indianos, foram usados ainda como uma variante para a diminuição dos salários dos nativos e de outros imigrantes que desejassem entrar nas mesmas condições de trabalho. As zonas de recrutamento de trabalho na China tinham suas especificidades. Devido em parte às diversas rebeliões que eclodiram na China na década de 1850, bem como à resistência às empresas de recrutamento de trabalhadores, os importadores da 120 HU-DE-HART, Evelyn. Huagong and Huashang: The Chinese as Laborers and Merchants in Latin America and the Caribbean. Amerasia Journal, Volume 28, no. 2, 2002. pp. 64-90. 121 HU-DE-HART, Evelyn, & LÓPEZ, Kathleen. Op. cit, 2008, pp. 9–21. P. 14. 122 Idem. P. 16. 64 América Latina acabaram concentrando suas operações em Macau, enquanto que os recrutadores das Antilhas britânicas passaram a se concentrar em Hong Kong e Guangzhou, com escalas menores em Xiamen e Shantou (Swatow) na década de 1860.123 Essa mudança demonstra uma clara divisão entre os territórios chineses de trabalho de trabalho para América Ibérica e para territórios com domínio além Pirineus. Até aqui, vimos que a organização do comércio internacional de trabalhadores chineses em meados do século XIX se inscreve no interior de um processo multidimensional, no qual se entrelaçam a crise da escravidão nas Américas e o início da incorporação da China ao circuito mercantil do capital europeu, com transformações nas relações sociais de propriedade e crise de legitimidade do próprio governo imperial chinês. Vejamos a seguir, de modo conciso, o uso da mão de obra chinesa nas economias de Cuba e do Peru.124 Cuba e Peru Cuba viveu um período de prosperidade da econômica ao longo do século XIX devido ao aumento do preço do açúcar e a expansão para o mercado dos Estados Unidos, tornando-se a economia cubana cada vez menos dependente da Espanha e dependente dos EUA.125 A ilha hispânica de Cuba foi um dos primeiros territórios latino-americano a importar coolies como massa de trabalho contratado126 para atuarem em espaços da escravidão negra, ou seja, nos campos de produção de cana de açúcar.127 Na tabela abaixo (Tabela 3) somos capazes de analisar a relação entre a escravidão negra, o comércio coolie e a produção do açúcar, sendo, portanto, ambos os tipos de trabalho os mantenedores da economia cubana. A elite e o governo cubano tinham, assim como no caso brasileiro, uma conexão responsável por ditar a política da escravidão e sua gestão. Surgindo, portanto, através da 123 LAI, Walton Look. Chinese Overseas: Coolie Trade. In: PONG, David Op. cit, 2009. Volume 1, A-E. 124 SEIJAS, Tatiana. Asian Migrations to Latin America in the Pacific World, 16th-19th centuries. History Compass. Volume 14, Issue 12, 2016. PP. 573-581. 125 MORENO FRAGINALS, Manuel. O engenho: complexo socioeconômico açucareiro cubano. São Paulo: Ed. UNESP: HUCITEC, 1988. & SILVA, João Ítalo de Oliveira e. Correntes de papel Imigração chinesa, contratos e conceitos de liberdade e escravidão. Universidade Federal De Minas Gerais Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas. Tese de Doutoramento. Belo Horizonte, 2020. 126 O primeiro experimento de coolie trade teria sido em 1806 em Trinidade, no intuído de este espaço ser um elo entre a América do Sul e o Oriente, no entanto a empreitada foi um fracasso. LAI, Walton Look. Images of the chinese in West Indian History. Anthurium. Volume 7, no. 1, 2010. 127 Interessante notarmos ainda as conexões feitas entre os territórios, empreitadas e o trabalho dos chineses que, em sua maioria, atuaram em lavouras de cana de açúcar e na extração de guano – em contraponto ao caso brasileiro que, conforme analisamos, os chineses deveriam trabalhar nas lavouras de café; e é aqui em que se encontra a disparidade brasileira ao ser o primeiro território ao relacionar chineses e a produção de café. 65 elite cubana o projeto de suplementar e substituir a escravidão negra por homens chineses através do acesso ao trabalho contratado barato e explorável: a exploração era um projeto racializado em que se mascarava o medo de uma nova revolução haitiana, já que o pensamento da época era que os chineses não se juntariam no caso de uma rebelião.128 Tabela 3: Importações de coolies para Cuba (1847-1874) Fonte: HU-DE-HART, Evelyn. Chinese coolie labor in Cuba in the nineteenth century: Free labor or neo‐slavery? Slavery & Abolition: A Journal of Slave and Post-Slave Studies, Volume 14, no.1, 2014. P. 71. Entre 1847 e 1874 são aproximadamente 230 mil chineses homens se deslocando para a América Latina, sendo 92 mil para o Peru e 125 mil para Cuba. 129 Esses 128 NARVAEZ, Benjamin N. Abolition, Chinese Indentured Labor, and the State: Cuba, Peru, and the United States during the Mid Nineteenth Century. Cambridge University Press, The Americas, Volume 76, Issue 1, 2019. P. 19. 129 HU-DE-HART, Evelyn. Op. cit, 2002. P. 70. 66 trabalhadores saíam de portos chineses regulados por potências estrangeiras, Portugal ou Grã-Bretanha, com contratos de trabalho bilingues, conforme veremos a seguir.130 130 Sabemos que os dois contratos fazem parte de uma mesma solicitação de trabalho. No entanto, embora estejamos estudando mandarim, não obtivemos até o momento uma tradução do contrato chinês para compararmos se as condições de trabalho explicitas em ambos são iguais. 67 Contrato 1: Contrata em Espanhol Fonte: Expediente general sobre la colonización asiática en Cuba Archivo Histórico Nacional, ULTRAMAR, 86, Exp.8. Disponível em: https://pares.culturaydeporte.gob.es/ https://pares.culturaydeporte.gob.es/ 68 Contrato 2: Companhia Cubana de Emigracion para La Habana Fonte: HU-DE-HART, Evelyn. Huagong and Huashang: The Chinese as Laborers and Merchants in Latin America and the Caribbean. Amerasia Journal, Volume 28, no. 2, 2002. 69 Contrato 2.1: Contrato em Chinês Fonte: Expediente general sobre la colonización asiática en Cuba ArchivoHistórico Nacional, ULTRAMAR, 86, Exp.8. Disponível em: https://pares.culturaydeporte.gob.es/ https://pares.culturaydeporte.gob.es/ 70 Os contratos acima são para a imigração chinesa para Cuba e de maneira geral possuíam as seguintes similitudes: 8 (oito) anos de contrato ao senhor ou a quem possuir o contrato para qualquer tipo de trabalho; as horas de trabalho dependem da arbitrariedade do patrão (patrón) e do tipo de trabalho; sujeição à ordem e disciplina do local de trabalho e ao sistema de coerção; o contratado renuncia aos direitos de romper o contrato, negar os serviços ou tentar fugir. As questões de pagamento, salário, vestimentas e comida são as seguintes: 4 (quatro) pesos ao mês; se for acometido por enfermidade e durar mais de uma semana o salário será suspenso; por dia são 800 onças de carne, salada e batata doce; direito anual a 2 (duas) mudas de roupa e cobertor; o senhor (señor) que pagou a passagem, portanto cabe ao mesmo adiantar uma parte do pagamento e descontar os valores do salário do contratado; é declarado ainda que o salário é maior do que dos jornaleiros livres e dos escravos cubanos. Existem pequenas diferenças entre esses e os contratos para o Peru, como por exemplo a não menção da diferença salarial entre os tipos de trabalhadores, tenha visto que no Peru os coolies trabalhavam sozinhos.131 Importante notarmos ainda a posse dos contratados como se fosse uma forma de um investimento de capital fixo, sendo os coolies passíveis de compra e venda ao também renunciarem seus direitos civis. Há também outros modelos de manutenção do trabalho de chineses através do uso do ópio como forma de controle social.132 Com o assentamento de chineses nas plantações e com a presença de mercadores entre eles, o ópio apareceu em Cuba e no Peru como uma ferramenta de controle para beneficiar e punir seus trabalhadores. A droga em seu uso recreativo ainda remete a fatores sociais, pois, com uma vida limitada as plantações e sem a possibilidade de construção de família, era através do consumo em que havia uma sociabilidade entre os chineses. O ópio era usado ainda como uma fuga da difícil jornada até um território desconhecido e da dura jornada de trabalho. Relacionando com a Guerra do Ópio é no período entre 1852 e 1879 em que as importações peruanas de ópio pela Grã-Bretanha e pelos portos ingleses na China saem de 16,787 libras e vão para 415,691 libras.133 131 HU-DE-HART, Evelyn. Op. cit, 2002. 132 HU-DE-HART, Evelyn. Opium and social control: coolies on the plantations of Peru and Cuba. Journal of chinese overseas. Volume 1, no. 2, 2005. PP. 169-183. 133 Idem, P. 178. 71 O ópio como forma de controle social foi também a derrocada do próprio sistema coolie, pois além de usarem a droga como de escapar física e mundanamente com a overdose, com o tempo o alto consumo diminuía a produção e aumentava o absenteísmo. Após constantes reclamações e com o aumento da pressão pública externa, o tráfico de coolies partindo de Macau em direção para Cuba foi banido em 1874 devido também a pressões britânicas e do governo chinês. Uma missão imperial chinesa foi enviada a Cuba em 1873 para investigar as condições sociais e trabalho. A Cuba Comission Report contou com a entrevista de mais de mil chineses e confirmou o tratamento do modo de escravização dos chineses.134 O Peru, em contraste com Cuba, era uma nação independente e recém-egressa da escravidão negra em 1854. No entanto o pagamento do governo de 8 milhões de pesos para a manumissão de escravos demonstra a intima relação da sociedade com a gestão da escravidão e de suas classes latifundiárias.135 Nessa mesma época o Brasil começava a reestruturar seu sistema escravista. Com o declínio ainda das minas de prata a partir de 1824, há o surgimento de novas indústrias, como o açúcar, guano e mais tarde o algodão. Assim como em Cuba, vemos a relação do governo e sua elite na busca e autorização para a importação de coolies (sob a mesmas condições e contratos que aqueles importados por Cuba).136 O tráfico de coolies para o Peru tem seus períodos de 1849 a 1856, em 1845 há o aumento do negócio do guano, e de 1861 a 1874 com a chegada de aproximadamente 92 mil chineses para trabalhar nas plantações de açúcar e nas minas de guano nas ilhas de Chincha. Essa pausa deve-se a um banimento devido às denúncias de maus tratos nas colheitas de guano. O guano ainda não surge sozinho como um novo produto na cadeia mundial, na verdade ele faz parte da reposição química de terras não férteis devido a escassez de terras para plantação de commodities essenciais ao novo mundo. Os chineses tiveram ainda um papel fundamental no desenvolvimento econômico e no crescimento populacional do Peru, tendo em vista estagnação pela falta de trabalhadores, e pela parca população.137 134 LAI, Walton Look. Coolie Trade. Inn. PONG, David. Op. cit, 2009. Volume 1, A-E. pp. 243-257. & SILVA, João Ítalo de Oliveira e. Op. cit, 2020. P.219. & HELLY, Denise. (Introdução). The Cuba Comission Report: a hidden history of Chinese in Cuba. Baltimore: The John Hopkins University Press, 1993. 135 CHOY, Emilio. Lá esclavitud de los chinos en el Peru. Folklore Americano. Ano II, n. 2, 1954. PP. 259- 268. 136 LAI, Walton Look. Coolie Trade. Inn. PONG, David. Op. cit, 2009. Volume 1, A-E. 137 CHOY, Emilio. Op. cit, 1954. 72 Temos então nesse momento a inserção do coolie chinês no Peru como um elemento de trabalho, mas na missão de substituir o escravo negro. Enquanto em Cuba, os contratados chineses trabalhavam lado a lado com os negros escravizados nas plantações de cana de açúcar e na construção de ferrovias, no Peru os chineses eram uma força de trabalho sozinha que atuavam tanto no açúcar, quanto nas ilhas de guano. Sendo ainda o trabalho chinês indispensável para a manutenção econômica dos dois territórios citados. Portanto, apesar das condições de trabalho serem comparáveis ao trabalho escravo, o trabalho contratado coolie não era uma nova forma de escravidão; era na verdade um novo modelo de trabalho surgido através da experiência histórica da escravidão. Esse novo sistema de trabalho era ainda uma reprodução da exploração da força de trabalho baseado nas raças. 138 A política da imigração sinófila foi ainda uma das saídas descobertas pelos territórios escravistas para fugir das pressões internacionais britânicas da escravidão. Considerações Resultado de processos de reorganização da economia mundial do século XIX, com forte mediação do imperialismo britânico no Indo-Pacífico, a emergência de um comércio internacional da força de trabalho chinesa encontrou seu ponto alto nas economias exportadoras de Cuba e do Peru. Na colônia de Cuba, o senhoriato escravista explorou a imigração coolie recorrendo aos aparatos semelhantes de repressão e controle social usados contra os escravizados. No Peru, o Estado pós-colonial não incorporou os chineses ao campo dos direitos plenos da cidadania, deixando desse modo relações sociais escravistas e racializadas ditarem os novos modelos de sociedade. Devido às experiências brutais dos chineses em Cuba e no Peru, o comércio internacional de Coolies foi suspenso na década de 1870. Dessa perspectiva, pode-se dizer que há um descompasso entre a organização internacional do mercado da força de trabalho chinesa e as discussões sobre o emprego do trabalhador chinês no Congresso Agrícola de 1878 no Império do Brasil. Na altura, devido às experiências no Peru e em Cuba, a China Qing começaria a estudar uma política externa mais ativa de proteção dos chineses no ultramar, estabelecendo embaixadas e conexões com territórios estrangeiros. Buscando ainda novas legislações para os chineses 138HU-DE-HART, Evelyn. Op. cit, 2002. P. 70. 73 é somente no apogeu de sua era que o Império Qing busca reformular sua percepção sobre chineses em ultramar ao considerá-los cidadãos chineses residentes em território estrangeiro. Tendo em vista esse descompasso entre as decisões políticas no Brasil e a conjuntura mundial do comércio de coolies, pode-se indagar até que ponto o poder político do escravismo no Brasil, garantindo estabilidade às relações sociais da escravidão, não desempenhou um papel importante na inviabilização prática do projeto de imigração que a própria crise da escravidão estava começando a suscitar no fim dos anos de 1870.139 139 SZONYI, Michael. Historical Patterns of Governmente Policy and Emigration. Inn. PONG, David. Op. cit, 2009. Volume 1, A-E. 238-240. 74 CAPÍTULO 3 - OS DISCURSOS SINÓFILOS NA SOCIEDADE BRASILEIRA As discussões sobre a imigração chinesa no século XIX deram-se em todo o globo. Canadá, Cuba, Estados Unidos, Peru, México e Jamaica são alguns dos territórios onde há discussões que, sintetizadas por Juan Hung Hui,140 demonstram como os processos foram diferentes das demais migrações, pois os chineses não saíram de seus países na condição de escravizados, como os africanos, nem na qualidade de homens livres, como os europeus, e tampouco como os japoneses, que podiam migrar com suas famílias e, assim, ter melhores condições de acumular dinheiro e poder nas sociedades aonde chegavam. Os chineses, devido às profundas e traumáticas crises políticas e econômicas na China do século XIX, tiveram que sair de seu país submetendo-se a formas de trabalho compulsório com o intuito de fazerem dinheiro rápido e logo retornarem – algo que não ocorreu, como sugerido no capítulo anterior. A ideia, no entanto, não é nova em território brasileiro. A mão de obra chinesa já havia sido convocada em outro momento pelo Imperador Dom João VI para a introdução da cultura do chá no início do século XIX. 141 O projeto sugerido pelo Conde de Linhares previa a contratação de 2 mil chineses para o Rio de Janeiro para o plantio do chá, no que é hoje o Jardim Botânico, na Fazenda Imperial de Santa Cruz e na Ilha do Governador.142 Do número estimado só chegaram entre 200 e 500 chineses para o Rio de Janeiro para essa empreitada. O projeto, no entanto, fracassou, e os chineses foram vistos como preguiçosos, um tanto quanto lentos e não agricultores. O projeto do chá foi abandonado, assim como o da imigração de chineses.143 Muitos se dispersaram em diversos bairros da cidade, outros no Vale do Paraíba e outros ainda em cidades como São Paulo e Salvador. 144 Há, em 1814, o primeiro registro oficial no Registro de Estrangeiros brasileiro, a entrada de quatro chineses no Brasil, que, no entanto, não aparentavam ser simples trabalhadores, pois, “assim que chegaram, foram hospedados pelo Conde da 140 HUI, Juan Hung. Chinos en America. Madrid: Editorial MAPFRE, 1992. 141 COSTA, Cristiane & BORBA, Cibele Reschke de. China made in Brasil: Personagens, curiosidades e histórias sobre dois séculos de aproximação entre o Brasil e seu principal parceiro comercial. Tradução para o chinês: Ana Qiao Jianzhen e Yuan Aiping. Rio de Janeiro: Babilônia Cultura Editorial, 2005. P. 44 142 LEITE, José Roberto T. A China no Brasil: Influências, marcas, ecos e sobrevivências chinesas na arte e na sociedade do Brasil, UNICAMP, São Paulo/Campinas, 1992, pp. 28-30 143 DEZEM, Rogério Akiti. Op. cit, 2005, p. 49 144 MOURA, Carlos Francisco. “Colonos chineses no Brasil no reinado de D. João VI”. Boletim do Instituto Luís de Camões, Macau, v. 7, n.2, p.185-191, Verão, 1973. ICM (Instituto Cultural de Macau, Macau); CORD, Marcelo Mac. “Mão de Obra Chinesa em terras brasileiras nos tempos joaninos: experiências, estranhamentos, contratos, expectativas e lutas”. Revista Afro-Ásia, nº 57, 2018. 75 Barca, então ministro dos Negócios de Guerra e Estrangeiros, o que ‘faz supor que tivessem alguma missão oficial. ’”145 Rogério Dezem tem como tema central da sua pesquisa a análise do sentimento anti-nipônico brasileiro, no entanto, para expor a gênese desse sentimento, entra necessariamente na construção de estereótipos orientais no Brasil. Dezem começa a traçar esse sentimento com uma primeira experiência brasileira de imigração chinesa no início do século XIX para o cultivo de chá no Rio de Janeiro numa fazenda em Santa Cruz; depois, em 1854, há uma nova investida através da iniciativa privada de Manoel de Almeida Cardoso, em uma proposta de navegação que ligasse o Brasil a China para a importação de coolies146. Discutindo a Questão Chinesa como um dos momentos da gênese do discurso sobre os orientais no Brasil, que permearam diversos setores da sociedade brasileira, pode-se observar a discussão sobre o projeto de imigração chinesa no processo de construção de estereótipos do povo oriental, a então raça amarela, que culminará na formação do estereótipo do povo japonês como “minoria modelo”.147 Dezem publica ainda A Questão Chinesa (1879) no Brasil, em que conclui que a questão da imigração chinesa teve seu fim como uma questão fantasma, pois desde seu princípio era impossível de resolução, e mesmo assim foi esgotada em todos os sentidos nas discussões políticas. A questão servia como “pano de fundo” para as discussões sobre a crise da lavoura e suas soluções. “Consolidou-se dessa maneira a imagem de um dos elementos constitutivos do fenômeno que podemos chamar de ‘equação amarela’: o imigrante chinês. ”148 A questão da imigração chinesa no final do século XIX trata não somente dos interesses internos brasileiros como a substituição de mão de obra escravizada, colonização, crise da lavoura e busca da lucratividade pela elite latifundiária brasileira. Ela permeia um universo de questões que envolveram discussões em jornais, nas casas 145 COSTA, Cristiane & BORBA, Cibele Reschke de. Op. cit, 2005, p.44 146 Como nos conta Alexander Chung Yuan Yang em O Comércio dos "Coolie" [1819-1920]: “A denominação de coolie aparece como coles nos escritos portugueses quinhentistas. A palavra origina-se do hindu kuli. Evoluindo a seguir para coly - koully e finalmente ao francês coulie. Em inglês passou a ser coolie, massa móvel de trabalhadores assalariados, quer indianos, quer chineses, que se irradiaram pelo Ocidente servindo a várias sociedades. ” YANG, Alexander Chung Yuan. O COMÉRCIO DOS "COOLIE" [1819-1920]. Revista de História, São Paulo, n. 112, p. 419-428, dec. 1977. ISSN 2316-9141. Disponível em: <http://www.revistas.usp.br/revhistoria/article/view/62243>. Acesso em: 20 mar. 2018. DOI: http://dx.doi.org/10.11606/issn.2316-9141.v0i112p419-428. 147 DEZEM, Rogério. Op. cit, 2005. 148 DEZEM, Rogério. A Questão Chinesa (1879) no Brasil. 2018. pp. 22-23 http://www.revistas.usp.br/revhistoria/article/view/62243 http://dx.doi.org/10.11606/issn.2316-9141.v0i112p419-428 76 políticas brasileiras, nas ciências naturais, as teorias raciais de Gobineau, os movimentos migratórios, os positivistas e a política externa do Brasil. As províncias cafeeiras, em especial aquelas mais antigas dependentes da mão de obra escrava, ao se convenceram de que a vinda de europeus seria difícil, que o trabalho de nacionais, índios e libertos era duvidável, olharam para a China em busca de trabalhadores. O movimento para a imigração asiática chinesa falhou não por expectativas nacionais, mas por experiências comparativas de chineses no novo mundo. Ao avançar da questão imigratória, o Império da China já estava consciente do perigo pelo qual seus nacionais estavam sujeitos; além das discussões internacionais sobre a migração transnacional de chineses já terem tomados outras perspectivas, como é o casodo Chinese Exclusion Act nos EUA em 1882.149 O Brasil, portanto, chegara atrasado ao buscar soluções para a lavoura brasileira na imigração de trabalhadores asiáticos chineses. Os brasileiros abolicionistas ainda foram capazes de alarmar e denunciar as discussões sobre a vinda de trabalhadores chineses com a ajuda Inglaterra, oponentes da escravidão e do tráfico de coolies, que então convenceram o governo chinês em relação à imigração para o Brasil. Dentre eles pode-se citar o escrito por Miguel Lemos, Imigração Chinesa. Mensagem a S. Ex. o Embaixador do Celeste Império junto aos governos da França e Inglaterra (Dia 5 de novembro de 1881). O autor apresenta de forma clara os verdadeiros interesses na imigração chinesa entre alguns setores do governo brasileiro, esposando teorias raciais, a noção de subjugação do povo chinês e o projeto de imigração como um arranjo de trabalho transitório para a substituição da mão de obra escravizada nas plantations. A opinião positivista brasileira em nome de seu presidente é também exposta no livro como contrária à imigração chinesa pelo bem da humanidade e pelos princípios de igualdade. Anexados ainda ao seu livro há os Annaes do Senado brasileiro (1879) e um livro de Salvador de Mendonça, cônsul geral do Brasil nos Estados Unidos da América, Trabalhadores Aziáticos, New York, 1879. Neste livro, o então cônsul brasileiro faz uma breve exposição sobre a história da China, do povo chinês, de seus costumes e religião; dedica seu esforço ao retratar das relações da China com a Europa e com os EUA; em seus capítulos VI e VII denominados “Immigração Chineza” e “Coolie”, respectivamente, 149 Conrad, Robert. “The Planter Class and the Debate over Chinese Immigration to Brazil, 1850- 1893.” The International Migration Review, vol. 9, no. 1, 1975, pp. 41–55. Disponível em https://www.jstor.org/stable/3002529. https://www.jstor.org/stable/3002529 77 disserta sobre as experiências chinesas de imigração nas Américas, sobre a cultura chinesa, além dos processos necessários para a imigração tendo em vista as experiências externas; o capítulo VIII trata do trabalho chinês, experiências e seus modos de trabalho, e ainda das relações comerciais da China. Por fim trata, em seu ponto de vista, dos benefícios e malefícios da imigração chinesa para o Brasil, apoiado no estereótipo do trabalhador oriental classificando-os como suspeitosos, desleais, mentirosos, de moral pagã e que não criam amor a terra, considerando-os ainda como trabalhadores baratos e sendo um movimento transitório entre o africano e o europeu. Importante que o livro de Salvador de Mendonça foi encomendado pelo governo brasileiro, expondo, consequentemente, uma posição oficial sobre os chineses e o projeto imigratório. O foco do capítulo 3 será na análise imagética sobre a política imigrantista sinófila no Brasil no século XIX, em específico através da Revista Illustrada, de Angelo Agostini. Focaremos ainda em uma análise comparada entre os contratos dos trabalhadores imigrantes para o Brasil nas regiões Centro-Sul do Império com os contratos chineses no intuito de espelharmos as similitudes e diferenças, por exemplo entre o tipo de unidade produtora e de reprodução social. Assim como as discussões no Congresso Agrícola foram baseadas em leituras e opiniões do exterior, acreditamos que difusão cultural da imagem oriental também foi importante na construção da aversão de uma política imigrantista sinófila. Além de funcionarem como forma de denúncia dos novos tipos de trabalho, serviram também no intuito de denunciar a escravidão e dar a centelha na discussão do que é ser brasileiro. A Revista Illustrada e a construção do estereótipo chinês A análise documental e imagética da Revista Illustrada de Angelo Agostini não pode ser trabalhada sem um breve comentário sobre a litografia, as charges, suas representações, e a pintura satírica. A partir do século XIX, com maiores inovações tecnológicas que permitiram o avanço da imprensa e da litografia, podemos elencar uma maior produção das revistas ilustradas e da sua conexão com as relações internacionais. A Litografia, “inventada por Alois Senefelder no final do século XVIII, difundiu-se imediatamente pela Europa por volta de 1800. Em 1815 já estava no Brasil, antes mesmo de chegar a alguns países europeus. ”150 150 Diabo Coxo: São Paulo 1864-1865, edição fac-similar. Editora USP, 2005. p. 13 78 A litografia enquanto conceito refere-se a um processo de impressão a partir de uma base, conhecida como pedra litográfica, feita geralmente de calcário. Após o desenho feito são realizados procedimentos químicos para a fixação da superfície e então a prensa litográfica fixa os desenhos no papel. A flexibilidade desse processo pode gerar novas maneiras mais simples e menos custosas, de modo a difundir a litografia. Dessa maneira houve uma maior produção e emissão de revistas ilustradas e jornais no século XIX.151 Como conta ainda Antonio Luiz Cagnin na introdução do fac-similar do Diabo Coxo, a litografia pôde popularizar a imagem e dessa maneira gerar mais fascínio sobre a ilustração. Os jornais e revistas eram lidos não só em seus textos, mas as imagens também podiam ser lidas e divulgadas com ainda mais facilidade. Além disso, o preço das revistas era relativamente popular devido ao seu modo de produção, podendo até as pessoas de menor poder aquisitivo e aquelas que não sabiam ler - a grande maioria da população brasileira no final do século XIX - terem acesso às revistas e identificar o que se passava.152 Pode-se perceber como os avanços tecnológicos foram fundamentais para a disseminação da litografia e da arte ilustrada como um todo. Angela Telles nos conta sobre a relação do processo de divulgação da litografia no Brasil e de como as imagens puderam sensibilizar um público geral para uma noção de identidade brasileira. Essas imagens relacionadas a fatores econômicos, sociais e culturais puderam tornar mais próximo o fazer político social gerando identificação no processo de construção da identidade nacional brasileira. Complementa ainda, tratando das relações internacionais especificamente, sendo este o tema principal da sua pesquisa, “demonstrar que as caricaturas e charges foram instrumento da construção de uma identidade do Brasil na segunda metade do século XIX, quando as relações internacionais tiveram um papel importante. ”153 A autora elenca diversas revistas ilustradas, do Rio de Janeiro e de Buenos Aires entre as décadas de 1860- 1870, e suas conexões com os temas de relações internacionais, antes não trabalhados, mas agora disponíveis a um relativo público nacional. A Questão Christie, Questão Religiosa e a Guerra do Paraguai constituem, aliados as ilustrações, um momento de 151 LITOGRAFIA. In: Enciclopédia itaú cultural de arte e cultura brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2018. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/termo5086/litografia>. Acesso em: 10 de abr. 2018. Verbete da Enciclopédia. ISBN: 978-85-7979-060-7 152 Diabo Coxo: São Paulo 1864-1865, edição fac-similar. Editora USP, 2005. p. 13 153 TELLES, Angela C. da Motta. Desenhando a Nação: revistas ilustradas do Rio de Janeiro e de Buenos Aires nas décadas de 1860-1870. Brasília: FUNAG, 2010. p. 22 79 construção da identidade nacional brasileira. Dessa maneira os temas internacionais passam a fazer parte do cotidiano brasileiro. As imagens de relações internacionais são elementos constitutivos de formação da nacionalidade e da própria imagem de Brasil. As caricaturas são agentes de um determinado modo de sensibilidade que, através de uma linguagem específica, traduzem o debate político e social de seu tempo.As revistas ilustradas são um fórum de discussão política. Podem ser percebidas como artífices e multiplicadoras de imagens que compõem elementos simbólicos, e materiais que apresentam uma nação.154 A construção de identidade nacional brasileira não está só ligada a fatores internos e aos eventos políticos brasileiros, como a Questão Religiosa ou a Guerra do Paraguai, mas tem íntima relação com o mundo, onde essa construção identitária dá-se no olhar ao diferente. Os chineses, e os asiáticos de modo geral, são esses diferentes mirados em um processo de identificar à época o que não era o Brasil. Angelo Agostini, ao ilustrar essa possível formação de uma imigração chinesa no Brasil, nos mostra como há o contraste entre o ser e o não ser brasileiro.155 O momento de interconexão entre os conceitos aqui trabalhados dá-se no intuito de estudarmos a questão do projeto de imigração chinesa para o Brasil na segunda metade do século XIX, através da Revista Illustrada. Conectando o conhecimento produzido pelo artista às narrativas internacionais, que, talvez mesmo sem perceber à época, podemos observar que este ilustrava um sistema global conectado a economia, cultura e sociedade em seus traçados. A Revista Illustrada (1876-1898) é a nossa principal fonte primária de estudo. Entendermos que, feitas em seu tempo, carregam consigo uma fonte de autoridade e de conhecimento, como nos mostra Renato Lemos em Uma História do Brasil através da caricatura 1840-2006. Mesmo essa fonte contendo em si uma narrativa própria do autor e por vezes hiperbólica e fantasiosa, serve como um excelente documento iconográfico de discussão e de imaginário social da época. Lemos complementa ainda que “como qualquer construção humana, a narrativa histórica contida nas charges e caricaturas têm 154 TELLES, Angela C. da Motta. Op. cit, 2010. p. 299 . 155 LESSER, Jeffrey. A negociação da identidade nacional: imigrantes, minorias e a luta pela etnicidade no Brasil. São Paulo: Ed. UNESP, 2001. LESSER, Jeffrey A invenção da brasilidade: identidade nacional, etnicidade e políticas de imigração. São Paulo: Editora Unesp, 2015. 80 a marca individual e a do coletivo, no conteúdo, na forma e na exposição. A subjetividade do observador e as determinações sociais são as suas fronteiras”.156 Como nos conta Herman Lima em História da Caricatura no Brasil, um primeiro estudo sistemático sobre caricatura foi feito pelo Capitão Francis Grose em seu livro Rules for drawing Caricatures, with an Essay on Comic Painting (Londres, 1788). Para Grose, sendo a arte da caricatura, um dos elementos da pintura satírica, deve-se entender que a sua função ao ser aplicada é apontar ao público como este sendo o próprio culpado pela representação imagética, tendo suas loucuras e seus vícios expostos levados ao ridículo. O jogo, no entanto, não está em culpar o ilustrador, mas sim expor de modo geral fatos caricatos que possam ser vistos com certa comicidade. A caricatura, com o passar do tempo, deverá assumir a posição da “arma mais poderosa na imprensa”, por sua universalidade e alcance. “[...] a caricatura não fez mais do que acrescer sua significação como arte autêntica, não só na análise de costumes políticos e sociais, como na fixação de elementos subsidiários da História e da Sociologia. ”157 Percebe-se como a caricatura é uma chave para a interpretação de momentos históricos e, que através dela, podemos analisar e interpretar não só um momento individual do artista, mas também o imaginário coletivo e social de onde este se encontrava. Há ainda o tom de sátira, crítica e acidez com que, alguns artistas à frente do seu tempo, como Agostini, usaram de suas penas e lápis para denunciarem e representarem esses breves momentos históricos a propagar-se com milhares de anos, e então termos o que Herman Lima chama de “padrão de glória da caricatura”. Na página dupla a seguir (Imagem 3.1.1) contamos com destaques que nos ajudam a analisar a posição do chinês frente a escravidão retratada por Agostini durante as sessões do Congresso Agrícola. No cabeçalho da página observamos Sinimbu como a representação da lavoura cuspindo chineses como uma solução do governo para resolver a questão brasileira da agricultura. No canto esquerdo observamos o passado brasileiro com o negro escravizado e o trabalhador nacional em tons de curiosidade, descanso e preguiça - o passado fica ainda mais destacado com a visão de uma cruz, um corvo e um cadáver. No destaque a direita, o 156 LEMOS, Renato. Uma História do Brasil através da caricatura 1840-2006. Rio de Janeiro: Bom Texto Editora, JP Editora, 2ª Edição, 2006. Introdução. 157 GROSE, Francis Apud HERMAN, Lima. História da Caricatura no Brasil. 1º Volume, Coleção Maggie Yvonne, Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1963. p. 5 81 futuro é representado por um chinês curioso em cima de um cafezal a observar o que decidiriam sobre ele; como mais destaque de progresso temos uma locomotiva a vapor. O chinês ainda nos diz “Querem meus braços e habilidades minha. Vejam dinheiro e apromptem galinhas” - dentro do estereótipo chinês no meio urbano este era conhecido por ser ladrão de patos e galinhas, por isso a referência. Imagem 3.1.1 - “O Congresso Agrícola” Lê-se acima: “E o Governo ficou sabendo pela própria boca da Lavoura representada por 200 e tantas ditas que o que ela precisa é de dinheiro, de braços, de chins, de europeus, de instrução de negros, de estradas, de novas leis, de...etc etc. Enfim, de uma infinidade de coisas que...o governo guardará com todo cuidado. ” Conforme temos visto, poucas providências foram tomadas em relação aos pedidos feitos no Congresso Agrícola, servindo como “panos quentes” aos questionamentos da grande lavoura brasileira. A seguir temos o destaque do passado, na voz do negro escravizado em cima de um pé de café escrito África “Ué, diz que preto já vai se acabar. Que bom. Amanhã já não vou mais trabalhar”. Abaixo temos o representante brasileiro com os dizeres América do Sul “É este o trabalho do meu coração, a rede, a viola e o tutu de feijão”. Ambas os escritos remetem a preguiça e a inferioridade das raças dentro das teorias raciais de branqueamento desenvolvidas por uma elite pensante brasileira. Interessante notarmos ainda no rodapé da ilustração os seguintes dizeres “Daqui a 20 anos, pelo modo como andou até hoje a lavoura veríamos o tumulo do último escravo ao lado do último pé de café”. Ou seja, é a confirmação por Agostini em 1878 que a lavoura brasileira vem sofrendo uma reformulação na gestão da escravidão para um prolongamento do escravismo. 82 Do lado do “futuro” temos um trabalhador a vestes europeias em cima de uma folha Europa com os dizeres “Se querem que eu lhes vá para as matas é (bom) darem-me riquezas...e mulatas. ” Vemos a representação de um europeu que só trabalha por altos salários e também por mulheres negras, sendo a mulher como uma espécie de pagamento da lavoura para satisfazer os desejos sexuais de europeus, além de ser uma figura sexualizada. O chinês, por sua vez, na folha Ásia diz “Querem meus braços e habilidades minhas. Veja (o) dinheiro e aprontem (as) galinhas”, reforçando o estereótipo da ganância e do roubo. 83 84 Fonte: Revista Illustrada, n. 120. Rio de Janeiro, 1878. 85 A representação do estereótipo do chinês, ou do Oriental, como mostra Dezem em Matizes do “Amarelo” é representado por Agostini na charge de capa e na página dupla da edição número 154 de 1879 (Imagem 3.1.2). Na capa podemos observar “o novo sol que brevemente despontará no horizonte” como um grande rosto chinês. Ou seja, brevemente acompanharíamos o nascer da imigração chinesa em território brasileiro. A representaçãobrasileira também é forte dentro desta charge, pois podemos observar o Pão de Açúcar à direita do rosto chinês, igualmente como o forte, sendo a representação dos monumentos brasileiros um fator que nos ajuda a entender a construção da identidade brasileira frente ao estrangeiro.158 Imagem 3.1.2 - “O Horizonte Chinês” Fonte: Revista Illustrada, n. 154. Rio de Janeiro, 1879. 158 TELLES, Angela da Cunha Motta. Op. cit, 2010. 86 Dentro das duas páginas seguintes (Imagem 3.1.2) tem-se a representação sobre como seria o processo de adaptação do chinês à sociedade brasileira, além do trabalho e seus costumes. Há ainda uma crítica ao progresso brasileiro e “a nossa mania de imitar a Europa, tem trazido o país no triste estado em que se acha. ” Logo no início pode-se observar uma charge relacionada ao progresso do povo chinês, onde vemos um de seus representantes deitado sobre uma rocha, vestindo chinelos, um típico roupão e fumando ópio; podemos observar também os chineses extremamente magros e com seus “rabichos”, que servem como um alongamento de expressão de sentimento que estes fazem ao saberem do trabalho na cidade: “Todos os povos tem progredido, menos os chineses que consideram o progresso como precipício e a beira do qual estão parados a mais de mil anos” Veem-se os chineses como comerciantes modestos e simples de “saladinha e camalô”, “O comercio chinês é o mais modesto possível e entrega-se com especial agrado ao da sardinha e camarão.” Comendo pouco e sendo econômicos: “Que sobriedade! só comem arroz! E não às colheres, com palitos! .... Que boa gente para a economia! ”. Esse enunciado dialoga diretamente com afirmações sobre o baixo custo da reprodução social do trabalhador oriental ventiladas no Congresso Agrícola de 1878. Como vimos no Capítulo 1: O salário dos coolies em Ceylão, que difere dos outros lugares onde não há imigração espontânea, é o seguinte: os homens recebem 8 pence por dia ou 320 rs; as mulheres 7 pence ou 280 rs; os rapazes 6 pence ou 240 rs; e os meninos 4 a 5 pence ou 160 a 200 rs, conforme a habilidade e força de cada um. O fazendeiro entrega-lhes todos os sábados o arroz de que necessitam durante a semana seguinte, levando-lhes, porém, a conta o respectivo valor. [...] A vida do coolie no seu país é inteiramente de lavoura: cultiva arroz, algodão, anil e papoula para a produção do ópio. Como o clima é quente, do que tanto gostam os coolies, as suas casas são pequenos ranchos levantados com taquaras e área, cobertos de palhas de arroz, nos quais moram sem gastar quase nada, porque 2$000 por ano é quanto lhes basta para roupa, e felizes se julgam quando podem cultivar arroz suficiente para seu alimento e de suas famílias159 Agostini reforça o senso comum do estereótipo ao trazê-los como ladrões de patos e galinhas e a serem “empalmadores de carteiras”, estes dois momentos como sendo vícios trazidos da sua terra natal; verificamos sua exímia “Habilidade para a cosinha! Que limpeza!”; e seu jeito zeloso de cuidar da lavoura, descansando sobre uma sombra e 159 Congresso Agrícola, PP. 260-261. 87 dormindo, mas sem esquecer de que o chá é uma bebida agradável e moral. A seguir vemos os destaques da página inteira mencionada. Imagem 3.1.3 - “Costumes chineses” 88 89 Fonte: Revista Illustrada, n. 154. Rio de Janeiro, 1879. 90 Relacionando-se os textos de Dezem e Telles, a partir dessas charges nota-se também a construção de elementos de um estereotipo nacional em contraponto com o diferente, estrangeiro e não incorporado à sociedade. Isso em uma sociedade de iletrados como a brasileira fin de siécle funcionava como reforço a certos estigmas instigando preconceitos. Alguns denunciavam como fazia Angelo Agostini, no entanto mesmo assim a imagem do chim não conseguiu desvencilhar-se de estereótipos preestabelecidos pela tradição. Nesse caso, podemos considerar que tanto elite alfabetizada como grupos intelectualizados das camadas médias contribuíram para a divulgação e reinvenção dos discursos.160 Na edição da Revista Illustrada de número 173 de 1879 (Imagem 3.1.3) - ilustração de capa – pode-se observar o traçado crítico de Angelo Agostini ao ilustrar os preparativos da viagem à China. Conforme comentado anteriormente, foi proposta no Congresso Agrícola e aprovada pelo governo brasileiro uma viagem formal à China para tratar do assunto da imigração. No entanto, com ajuda dos positivistas brasileiros, liderados por Miguel Lemos e das denúncias internacionais, além da China já saber de certa maneira o que estava passando com seus nacionais em outros países, a missão, em termos de imigração, foi um fracasso. No entanto rendeu ao Império brasileiro um tratado internacional de amizade, comercio e navegação com o Império chinês. Conta-se com as ilustrações de Sinimbu e Eduardo Callado, diplomata brasileiro encarregado da missão à China. As ilustrações carregam não só a crítica da missão ao território chinês, mas também um estereótipo negativo do povo oriental, conhecido como ladrão de patos, galinhas e vendedor de camarões e sardinhas. “Preparativos para a viagem à China - A bagagem da embaixada. O Governo nada poupa para atrair os chins. Conservas de camarões, empadas de ditos sardinhas. etc. etc.” 160 DEZEM, Rogério. Op. cit, 2005. P. 105 91 Imagem 3.1.4 - “Preparativos para a viagem à China” Fonte: Revista Illustrada, n. 173. Rio de Janeiro, 1879. Agostini nos mostra na Revista número 162, de 1879, (Imagem 3.1.5), comentando sobre as “poucas ideias bonitas, filhas do Sr de Sinimbu”, a imigração chinesa. Pode-se observar ao centro da imagem o embrião da colonização chinesa como uma das ideias de Sinimbu, porém, ainda no início. Lembramos que o Congresso Agrícola do Rio de Janeiro aconteceu em outubro de 1878. 92 Imagem 3.1.5 - “Embrião Chinês” Fonte: Revista Illustrada, n. 162. Rio de Janeiro, 1879. Dentro do Congresso, os debates sobre essa questão foram muito acirrados, tendo até o deputado Joaquim Nabuco161, conhecido pela sua luta abolicionista, discutido com Sinimbu sobre o assunto. Nabuco, apesar de sua luta social, foi capaz de verbalizar o assunto de forma pejorativa, acusando Sinimbu de querer mongolizar o país. Dezem revela que Nabuco via no chinês o substituto disfarçado do escravizados, porém não abria mão em seus discursos da retórica racial. 162 Perguntei, em primeiro lugar, se os chins eram reclamados pela lavoura, e provei que não; a lavoura do Norte não os quer, a lavoura do Sul não os pediu. Mas, sendo os chins reclamados pela lavoura, serão eles convenientes? Não, por muitos motivos; etnologicamente, porque vem criar um conflito de raças e degradar as existentes no país; economicamente, porque não resolvem o problema de falta de braços; moralmente porque vêm introduzir em nossa sociedade essa lepra de vícios que infesta todas as cidades onde a imigração chinesa se estabelece; politicamente, afinal, porque em, vez de ser a libertação do trabalho, não é senão o prolongamento, como até disse o nobre ministro, do triste nível moral que o caracteriza e a continuação ao mesmo tempo da escravidão. Coloquei a questão nestes termos: é o chim pedido? Não. É reclamado? Não. É conveniente? Não. [...].163 161 Joaquim Nabuco (1849 - 1910) foi um político líder abolicionista, diplomata, historiador, jurista e jornalista brasileiro. Foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras. Nabuco foi um importante membro na luta a favor da abolição da escravatura e contra o processo de imigração chinesa para o Brasil. Para maiores informaçõesbibliográficas ver o Dicionário da Elite Política Republicana (1889-1930), FGV, CPDOC. Disponível em: http://cpdoc.fgv.br/dicionario-primeira-republica/1 162 DEZEM, Rogério. Op. cit, 2005. P. 91 163 NABUCO, J. Discursos Parlamentares (1879-1889). São Paulo: Instituto Progresso Editorial S.A., 1949. Apud DEZEM, Rogério. Op. cit, 2005. P. 92 93 Pode-se observar como Nabuco explicita as relações da lavoura com os chineses, de um novo movimento escravista, aliado às suas convicções sobre as relações sociais, econômicas, morais, políticas e étnicas. Dessa maneira, percebe-se que a racialização do debate sobre a mão de obra chinesa é um dos seus aspectos mais pervasivos: está presente tanto na boca de quem a defende a migração (os chineses seriam trabalhadores baratos) como na boca de quem a condena. Comenta-se aqui sobre os preparativos da viagem à China com Sinimbú e Eduardo Callado separando, alimentos, patos e galinhas, os quais atrairiam os chineses para o Brasil. Como nos contam Ferreira, Guimarães e Neves164, a missão à China foi chefiada pelo Almirante Artur Silveira da Motta, tendo adquirido e atuado nas funções de enviado especial e ministro plenipotenciário, contando ainda com os diplomatas Eduardo Callado e Henrique Carlos Ribeiro Lisboa. O Almirante Silveira da Motta, no entanto, encontrava- se em Londres como adido naval do Império desde 1874. Dessa maneira a comitiva que parte do Brasil se completa em Toulon, França, na Corveta Vital de Oliveira, e dali parte rumo à China. Devido à presença brasileira na Europa, as primeiras consultas e aproximações com o Celeste Império foram feitas em Paris. Lá o Almirante teve como principal interlocutor o Marquês Tsêng, representante da China junto aos Governos da França, da Grã-Bretanha e da Rússia. Este aconselhara o plenipotenciário, num primeiro momento, pleitear apenas a assinatura de um acordo de amizade e de comércio, para mais tarde abordar especificamente a questão dos imigrantes. A comissão de Silveira da Motta enfrentou fortes entraves. A começar pela resistência imposta pela Assembleia Geral do Império, onde sofreu a censura severa de Joaquim Nabuco e de Afonso Pena, entre outros deputados. Sabe-se, por outro lado, que os ingleses não apoiavam os planos da chancelaria brasileira. Uma vez na China, os delegados encararam a desconfiança e a morosidade das autoridades locais, que quase nada sabiam a respeito do Brasil. Isto sem falar das dificuldades com os tradutores.165 O contexto da missão brasileira na China não foi nada promissor. A falta de apresentação dos costumes e a dificuldade de intérpretes foram fatores que atrapalharam no entendimento de toda a questão. Após a ratificação do tratado, Eduardo Callado prosseguiu com os intuitos da missão e organizou um “plano para a introdução de 164 FERREIRA, Tânia Bessone da Cruz, GUIMARÃES, Lucia Maria Paschoal & NEVES, Lúcia Maria Bastos Pereira das. O Império do Cruzeiro do Sul e a Corte Celeste de Tien-Tsin: apontamentos sobre as relações sino-brasileiras no século XIX. Inn Dossiê Poder Naval, Comércio e Instituições Militares no Brasil Oitocentista. Revista Navigator, V.6, N. 12, 2010. 165 Idem. P. 72 94 trabalhadores chins no Brasil”, tendo, no entanto, duas questões centrais que alarmavam os ânimos dos comissários chineses: os maus tratos sofridos pela tripulação do navio durante a viagem e a falta do cumprimento das normas redigidas nos contratos de trabalho. Callado, por sua vez, sugeriu ações que pudesse minimizar as preocupações, como convidar alguns idosos chineses para o trajeto Brasil-China, – os mais velhos desfrutam de grande respeito e admiração no Celeste Império, dessa maneira o bom tratamento e um bom retorno deles significaria um ótimo sinal – e que eles ficariam incumbidos da seleção de trabalhadores imigrantes chineses, além da fiscalização dos termos contratuais. Além disso sugere-se que o trajeto seja feito por uma embarcação de bandeira chinesa. “Neste sentido, acrescentava que fora procurado por dois diretores da China Merchant’s Steam Navigation Merchant, anunciando-lhe a intenção de abrir uma linha regular de vapores, ligando portos da China com os do Brasil. ”166 No documento elaborado por Callado há a menção a um membro do capital chinês conhecido como Tong-King-Sing. O referido membro, no entanto, vindo ao Rio de Janeiro em 1883, foi responsável por causar um alvoroço entre as classes sociais cariocas, além de diversas revoltas políticas locais.167 Não podemos deixar de citar também a contribuição da Revista Illustrada na edição 358, de 1883, no texto Chronicas Fluminenses: Querem ver que era um dia a colonização chinesa? Que toda essa negociata de missão para lá e missão para cá dá em água de varrela suja? E que é justamente a visita de Tong-Kong-Sing, que vem liquidar de uma vez essa questão e pôr termo á tanta especulação? Como Alexandre com a sua espada, elle Tong-Kong-Sing com o seu rabicho cortaria de um golpe a questão. Realmente o enviado do celeste império ao império celestial não deve estar muito satisfeito da sua missão. Ele que veio para estudar a expectativa e palpar o terreno que aguardam os seus compatriotas, deve ter achado muita antipathica aquella, e este muito frouxo e perigoso. Esperado embora, a sua presença veio produzir um alvoroto para admirar na gente brasileira; como a cauda do diabo, a apparição do seu rabicho veio pôr tudo em reboliço. Uns imaginando já toda a sociedade brasileira transformada sob a influência do chim, nos seus usos e costumes. Outros temendo pela sorte dos seus galinheiros. Todos enfim se levantaram contra o chim.168 166 FERREIRA, Tânia Bessone da Cruz, GUIMARÃES, Lucia Maria Paschoal & NEVES, Lúcia Maria Bastos Pereira das. Op. cit, 2010.P. 74. 167 “A passagem do ilustre hóspede e de seus auxiliares pela capital do Império provocou grande rebuliço. Alvos de curiosidade, de murmurações e do habitual humor carioca, todos desejavam vê-los. Para se ter uma ideia do alvoroço, basta dizer que a extraordinária movimentação em torno da excêntrica comitiva serviu de mote para Artur Azevedo redigir a peça O Mandarim, a revista cômica do ano de 1983! Até o escritor Machado de Assis, conhecido pela sua sisudez, dedicou uma crônica bem-humorada ao exótico visitante”. Idem. P. 75 168 Revista Illustrada. Edição 358, 1883. 95 Voltando à edição 162, tem-se uma folha de página dupla onde há uma referência (Imagem 3.1.6) econômica ao orçamento às escuras da Secretaria dos Estrangeiros e o baile que “só será dado em Pekim, pela embaixada brasileira aos filhos do Celeste Império. ” Imagem 3.1.6 - “Festa chinesa” Fonte: Revista Illustrada, n. 162. Rio de Janeiro, 1879. Mais à frente na revista 175, de 1879, tem-se duas referências às relações dos brasileiros com os chineses. Em um primeiro momento (Imagem 3.1.7) Agostini retrata o “Grande protesto contra a colonização chineza, como perturbadora da paz domestica dos galinheiros d’esta corte e subúrbios”. Nada mais é do que os patos e as galinhas em sua população local reclamando ao ministro Sinimbu pelo sumiço dos seus semelhantes. 96 Imagem 3.1.7 - “Os reclamantes” Fonte: Revista Illustrada, n. 175. Rio de Janeiro, 1879. Ainda na mesma revista, nas páginas 4 e 5 (Imagem 3.1.8), tem-se o então Ministro dos Estrangeiros, Antônio Moreira de Barros, discutindo com o deputado Joaquim Nabuco. No primeiro destaque pode-se observar um chinês no colo no Ministro dos Estrangeiros, representando a sua proteção e apreço pela colonização chinesa, enquanto Nabuco tenta arrancar a ideia pelo rabicho: “Grande discussão na Câmara sobre os negócios da China. S. Ex. dos Estrangeiros defende uma colonização amarela contra osataques do ill. Deputado Joaquim Nabuco”. No terceiro destaque da primeira linha vê-se a representação da lavoura brasileira como uma mulher frágil entre o negro escravizado e o chinês: “Pobre lavoura! Já não bastava o preto, vai ter o amarelo! Com o auxílio de duas raças tão inteligentes, ela há de progredir de um modo espantoso! ” As representações são bem estereotipadas, com traços grosseiros que ajudam a reforçar um tipo de retrato social negativo, tanto o negro escravizado quanto o chinês são vistos de maneira pejorativa. 97 Imagem 3.1.8 - “Os chins na lavoura” 98 Na continuação têm-se os instrumentos da lavoura necessários para que o trabalho com o café prossiga, como a chibata e o chicote, ou seja a ligação direta do café com a escravidão e suas formas violentas de manutenção. Além de reforçar o estereótipo de que os dois grupos sociais eram vistos como preguiçosos e só trabalhariam mediante o uso de coerção física: “Pobre café” Entendem que ele só pode produzir com a aplicação destes nossos instrumentos de lavoura. ” Em seguida vemos Antônio Moreira de Barros com o chicote em mãos: “O Sr. Ministro dos Estrangeiros e todos os apologistas dos chins acreditarão realmente que o chicote é o principal motor dos nossos trabalhos agrícolas?!” Na última linha ilustrada vê-se o então ministro assustado ao perceber que os chineses cometeram o suicídio: “Quando os coolies se virem por demais amolados, eles mudar-se-ão em um instante para a China, por um meio rápido que a sua religião lhes ensina” – há aqui a sustentação de que a religião dos chineses os ensinava isso para que pudessem voltar a China no pós mortem.169 Interessante notarmos ainda, conforme discutido no segundo capítulo que as formas de resistência entre negros e chineses eram parecidas, em destaque do suicídio para ambos levando em consideração os negros escravizados que se jogavam dos barcos para voltarem pelos mares para o continente africano. Agostini ironiza e questiona a habilidade do Ministro Barros na lavoura, visto seu porte físico e seu árduo trabalho como agricultor: “O Sr. Ministro dos Estrangeiros, que também é um distinto agricultor, nos dirá então qual o remédio”. Por fim, duas imagens, uma que retrata a lavoura feminina recebendo golpes físicos duros através das mãos dos chineses e dos negros escravizados: “Pobre lavoura! Deus queira que eles não deem cabo nela”. Por fim um grupo de chineses realizando seu trabalho urbano, caso a lavoura não os queira: “a menos que eles fiquem nas cidades onde, segundo disse o Sr. Nabuco, eles poderão dedicar-se à indústria...”As opiniões verbalizadas no Congresso e na Câmara estão aqui representadas de forma ilustrada e satírica com os dois lados da discussão, contra e a favor da imigração chinesa, mas independente do posicionamento, sempre recorrendo as teorias raciais. 169 Não sabemos até que ponto essa representação do suicídio é realmente algo visto entre os chineses ou se é uma mera cópia de situações semelhantes vividas com os negros que foram capturados no continente africano e que, para retornarem ao seu lugar de origem, jogavam-se dos navios, cometendo suicídio, para que pudessem retornar em espírito à África. No entanto a mesma referência ao suicídio é vista também nas charges de Edgar Holden. 99 100 101 102 Revista Illustrada, n. 175. Rio de Janeiro, 1879. 103 Conforme as discussões foram acontecendo, a missão à China pelo governo brasileiro estava em curso desde 1879. O período do final do império pode ser visto com uma maior busca de protagonismo internacional, como nos conta Amado Luiz Cervo, sobre as missões para o Oriente. O intuito era o de imprimir maior prestígio e extensão para a ação externa brasileira. O Imperador brasileiro e seus representantes viajavam o mundo marcando presença em congressos, feiras e foros de arbitramento internacional, como por exemplo, nas exposições de café na Europa, além de manterem a sua posição pan-americana junto dos Estados Unidos.174 Existiriam ainda quatro grandes obstáculos que comprometeriam a realização do tratado internacional com a China: o combate feroz por Joaquim Nabuco, Alfredo d’Escragnolle Taunay e outros ao projeto de imigração chinesa, com argumentos de um novo projeto escravista no Brasil e de contaminação biológica (apesar da vanguarda dos deputados vemos ainda os contra-argumentos baseados nas teorias raciais e na inferioridade dos chineses); o embate positivista internacional de Miguel Lemos; e as outras experiências chinesas de imigração, como Peru e Cuba, que tinham a mesma visão e opinião, tanto pública, quanto oficial do governo; e que o próprio governo chinês insurgira-se contra as experiências internacionais de abuso e do estado de seu povo e bloqueara a saída de mais coolies.175 A volta do navio Vital d’Oliveira foi retratada por Agostini na capa da Revista Illustrada, número 236, de 1881 (Imagem 3.1.9). Notam-se os arlequins da Revista no topo do Pão de Açúcar saudando a volta da viagem: “Cumprimentamos a ‘Vital d’Oliveira’ de volta da importante viagem ao redor do mundo. O completo sucesso da missão à China faz-nos entrever desde já um novo horizonte cheio de rabichos chineses. ” 174 CERVO, Amado Luiz; BUENO, Clodoaldo. História da Política Exterior do Brasil, 4ª. Ed. Revista e ampliada. Brasília: Ed. UnB, 2011. 1 v. p. 129. Apud LISBOA, Henrique Carlos Ribeiro. A China e os chins: recordações de viagem: 1ª reed. – Rio de Janeiro: Fundação Alexandre de Gusmão. CHDD, 2016, p. 10. 175 Ibidem. p. 136-137 Apud p. 11 104 Imagem 3.1.9 - “Cumprimentos a Vital d’Oliveira” Fonte: Revista Illustrada, n. 236. Rio de Janeiro, 1881. A edição 237, de 1881, tem um pequeno texto no título Chronicas Fluminenses de 23 de julho em que há uma menção ao embate positivista sobre o tema. Podem-se ler menções a perspectivas internacionais como a missão à China, o livro de Salvador de Mendonça e o tratado assinado entre Brasil e China; o autor remete, portanto, ao texto positivista de Miguel Lemos e seu envio, acompanhado de anexo do livro de Mendonça e os Annaes do Senado brasileiro sobre a discussão da imigração chinesa. Continuando com a análise da Revista, têm-se, em 1882, no número 298, na última página (Imagens 3.1.10 e 3.1.11), referências imagéticas sobre o Banco Agrícola e o Centro da Lavoura e do Commercio, onde seus participantes arguiam incessantemente sobre mais dinheiro para lavoura e sobre a imigração chinesa. Vê-se uma espécie de plantação dos discursos sobre os chineses e sendo a terra tão fértil quanto a nossa, veríamos brotar dali cabeças e braços chineses, sendo a maior dificuldade desse cultivo a língua: “E se plantassem esses discursos, não sairia dali alguma coisa? Nossa terra é tão fértil”. “E a Divina Providência tão misericordiosa, que não seria impossível ver.... Nada é impossível entre nós desde que se 105 descobriu a navegação aérea”. “Haverá somente uma dificuldade quanto a língua. Tchan-tchi- kola-uaka.... Nem o diabo os entende! ”. Imagem 3.1.10 e 3.1.11 - “Brotos chineses” Fonte: Revista Illustrada, n. 298. Rio de Janeiro, 1882. 106 Já na edição 358, de 1883, vê-se uma página dupla intitulada A Colonização Chineza (Imagem 3.1.12). Nessa imagem de três linhas notam-se claros exemplos sobre como funcionaria o projeto de imigração chinesa para o Brasil e a formação de um campesinato oriental na lavoura brasileira. Tem-se referências ao estereótipo inferior do chinês fisicamente frente ao europeu, o negro escravizado e o índio brasileiro; ao fato de os chineses só trabalharem sob constante vigilância,amarrados pelos seus cabelos; mais um vez a referência ao suicídio como fuga; os desacordos entre a lavoura querendo torná-los escravizados; e que se mesmo sabendo de todos essas caracteristícas sobre os chineses, se ainda assim a lavoura o quissesse, que os mandassem para a lavoura, pois a cidade não haveria de querer; caso nem a lavoura os aguentasse, que fossem mandados então para o sertão brasileiro onde haveria tribos indígenas canibais que resolveriam o problema. Pode-se observar a perpetuação, mesmo com o passar do tempo, na cosntrução e na reprodução do estereótipo do chinês como sendo preguiçoso, ladrão e inferior aos demais. Imagem 3.1.12 - “A Colonização Chinesa” Nessa página temos o Arlequim da Revista Illustarda apresentrando a opinião do autor satirizada sobre a ideia da imigração chinesa. Lê-se: “Uma das questões mais importantes da atualidade é a imigração chinesa. Contra a opinião da maior parte dos colegas, declaramo- nos favoráveis a essa introdução de chines que devem salvar a pátria, na opinião dos ilustres lavradores. N.N (Continuamos sempre no gozo da mais perfeita san(idade)... etc etc.” “Sim, 107 somos apologistas dos chins, porque não conhecemos raça mais bela, tipo mais gracioso, mais simpático” E que belas cores!” Seguem as referências as teorias raciais da época colocando os chineses como a última das raças, seguindo a frente brancos europeus, negros africanos, indigenas brasileiros e por fim os chineses. “Plasticamente falando: conhece, formas mais belas, mais robustas, mais varonis! Como as outas raças ficam mesquinhas e raquiticas ao lado dos filhos do Celeste Império” Até o pais deles chama-se celeste! Que poesia! O governos não podia escolher melhores colonos! Abaixo temos ilustrações sobre o tipo de trabalho que os chineses exerceriam em solo brasileiro e como esse trabalho funcionaria. “O chim é um pouco descansado é verdade, mas incontestavelmente, ninguem trabalha melhor do que ele... em abanar-se”. Os chineses só funcionariam ao trabalho sob constante vigilancia, tão severa quanto a dos negros escravizados, “porém confiamos muito na inteligente vigilância dos nossos lavradores. Varios sistemas se inventarão para impedir os chins de se deitarem por ocasião do trabalho. Os Srs. Taunay, Telles e outros que inventaram tantas maquinas para beneficiar o café, inventarão também outras aplicadas aos cultivadores desse abençoado grão.” 108 109 Em seguida vemos novamente os desentendimentos dos chineses com a lavoura, que além da constante vigilânia deveriam sofrer coerções físicas constantes; além também do suicídio como fuga para as herculeas tarefas que seriam trabalhar na lavoura brasileira. “Nem sempre os chines estarão de acordo com os fazendeiros sobre certos compromissis, pois que em geral eles tem grande predileção para se porem ao fresco... sem olhar para o prazo dos contratos...” “Crentes de que ressucitam na terra deles, os coolies enfircam-se por meio do tal rabicho, convencidos de que esse sistema de fuga não convida ninguem a segui-los, empregam- no quase sempre com a maior sem cerimonia.” Entre chineses e a lavoura brasileira “a malhor harmonia reinará entre lavradores e os novos colonos. E já que os fazendeiros querem os chins... pois tomem chins.” 110 A Revista Illustrada segue seu papel de sátira ácida ao entregar os chineses para a lavoura, visto que a lavoura os queria e faria bom uso dadas as condições não tão usuais de trabalho e a disposição dos novos lavoureiros. O meio urbano, por sua vez, não os desejava. “E em nome das familias e sossego dos galinherios, desde já protestamos contra esses comedores de arroz. Isto de saborear canja à custa dos outros ... temos conversado”. Surge a hipotese de que os chineses não possuiam condições de se alimentarem devidamente nas cidades, por isso 111 a representação comum de ladrões de patos e galinhas, animais comestíveis e que ainda botam ovos. Por fim, caso nem a cidade e nem o campo os queiram, que fossem enviados para a roça, para bem longe. “Um excelente lugar é o sertão das províncias do Mato Grosso ou Alto Amazonas. Excelente lugar para cultivar a terra e o espírito dos habitantes da mesma, que se acha muito inculto.” Nessa “roça” os indigenas brasileiros seriam ainda carnivoros e os chineses serviriam de banquete aos habitantes “Estamos certos que estem dariam provas do maior reconhecimento.” 112 113 Fonte: Revista Illustrada, n. 358. Rio de Janeiro, 1883. 114 É importante frisar que o referido processo de imigração chinesa na verdade nunca saiu do papel. As discussões sobre a questão “fantasma” chinesa , como mostra Dezem, ainda perpetuaram-se na Revista Illustrada por mais 14 edições até o ano de 1892.176 O discurso político na imprensa ilustrada contra a imigração chinesa é também um discurso político contra a escravidão. Seus diversos tópicos, uso da racialização, denúncia da violência física, hábitos morais, eram postos em cena para denunciar ao mesmo tempo a continuação do trabalho escravo e o projeto de recrutamento da força de trabalho chinesa. Desse ponto de vista, o fracasso da colonização chinesa significou a emergência de um arranjo de trabalho centrado no europeu que – embora também sofresse influência do regime escravista – estava muito mais distante dele que as modalidades de contrato firmadas com trabalhadores chineses. Podemos destacar ainda outras imagens da imprensa brasileira e internacional que reproduziram o mesmo estereótipo social e cultural do asiático chinês: Vemos ainda aqui outra revista de tipo ilustrado, O Mequetrefe, que também representou satiricamente o posicionamento da elite sobre a imigração chinesa na charge Chino- Mania. Lê-se: “É este o nosso ideal de hoje... e do governo, e a nossa perspectiva é teme-los. ” “O chim pelas costas... ao café... e quem sabe também a mesa? Pela frente. Na cama e em sonhos. Se vamos ao espalho...zás o chim. Se a certo lugar... toma... o Chim. A vista disso havemos de começar a ter chins,teremos o Chim-Ninbú. O Chim-Gazeta, o Chim-Castro, o Chim-Pato, o Chim-Dantas.E o Chim-Nós. Veremos o congresso dos mandarins grandes... e dos mandarins pequenos. O Chim-Janota. ” E em outra página ainda da Chino-Mania: “O Chim-Esposo. O Chim-Pai. E o Chim em desenvolvimento de sua indústria. Sobre sua moral corremos uma cortina. Quem diria? Éramos assim. Hoje somos isto. Amanhã por este feitio. E com toda a certeza, havemos de dar com o costado neste aperfeiçoamento o grande parto da cabeça do galinho de Taubaté.” 176 Após a proclamação da república Brasil, em 1889, tem-se apenas quatro charges que competem o assunto da imigração chinesa. 115 Imagem 3.1.13 - “Chino-mania” 116 117 Fonte: O Mequetrefe, n. 183. Rio de Janeiro, 1879. 118 119 Imagem 3.1.14 - “A China na imprensa internacional nos EUA” Fonte: Edgar Holden, Harper’s New Monthly Magazine, June 1864. Courtesy of Reed College Library. Interessante notarmos que há uma continuidade das representações imagéticas chinesas entre Brasil, EUA e Austrália. Talvez mesmo sem um cartunista ter conexões globais de desenhos e traços há uma imagem cultural e social comum a todos. Acima vemos dois destaques de uma revista maior que conta a revolta de um barco de imigrantes chineses. Vemos além da clara distinção das vestes, que dá a dualidade entre moderno e bárbaro, os rabichos e a repetição dos atos de violências através dos chineses. Na Austrália por sua vez, os chineses que lá trabalharam, talvez por conta da proximidade, possuíam habilidadesmanuais de construção e reparo de móveis, o que acabou gerando ainda uma revolta local pela diminuição dos pagamentos aos trabalhadores locais devido a grande oferta de mão de obra. Por isso a imagem a seguir. 120 Imagem 3.1.15 - “A China na imprensa internacional na Austrália” Fonte: Chinese Furniture Makers, Little Bourke-Street. [Picture], 1880. Australia. Uma das principais diferenças entre o recrutamento de chineses e o recrutamento de europeus está na noção de unidade familiar. Presente já nos primeiros contratos redigidos ainda durante o sistema de parcerias, em meados do século XIX, ela desloca a célula do trabalho agrícola do indivíduo, submetido ao estrito controle sexual, para a família. Vejamos por exemplo, o contrato de parceria estabelecido entre a firma Vergueiro & Cia e o senhor Thomaz Davatz. 121 Contrato 4: Vergueiro e Cia, 1840 Fonte: DAVATZ, Thomas. Memórias de um colono no Brasil (1850). Trad. Sergio Buarque de Holanda. Livraria Martins, São Paulo, 1850. Anexo 1, p. 263. A presença de um novo tipo de célula produtiva no interior da fazenda, a família, já demonstra um claro interesse na colonização e estruturação de uma sociedade brasileira a partir de europeus. No artigo quarto constam algumas obrigações da firma contratante, como ser responsável pelo transporte, as despesas iniciais e vestimentas, além de “atribuir a cada pai de família a porção de cafeeiros que ele possa cultivar, colher e beneficiar; e facultar ao colono o plantio em terras adequadas e em lugar designado dos mantimentos necessários para o seu sustento.” – Para o caso chinês, o empregador também era encarregado dos custos da passagem 122 e de itens essenciais a primeira viagem, mas o contrato não mencionava a faculdade de um plantio para sustento. Interessante notarmos ainda a definição contratual pelo tipo de produto a ser produzido, o café; em comparação aos chineses, estes viam-se a mercê dos patronos. Outros artigos ainda interessantes de serem notados são o quinto – sobre as obrigações do colono. Estes tinham liberdade de cultivo escrita em forma contratual, assim como o curso do trabalho sendo regulado de forma escrita; o artigo consiste também nas informações de pagamentos de passagem e juros pelos colonos, em caso de empréstimo, e da divisão da produção. O décimo artigo versa sobre a transferência dos contratos – assim como no caso chinês, os trabalhadores poderiam ser “vendidos e comprados” caso o patrão desejasse. Enquanto o trabalho coolie funcionava mediante o controle físico através da violência, assim como a escravidão, os trabalhadores europeus eram controlados economicamente através do endividamento compulsivo feito pelos contratos desiguais – haja visto a necessidade de divisão de lucro, empréstimos, altos juros e as condições desvantajosas em anos de baixa produtividade.177 No Brasil, assim como Cuba e Peru, as diferenças consistiam, portanto, nos modelos de reprodução da violência e do controle social e econômico baseado na raça dos contratados. As relações sociais escravistas funcionaram como uma engrenagem ao modelaram as novas relações de trabalho e os usos e posse da terra. Considerações A reformulação, ao longo do século XIX, do mercado de comodities, de trabalhadores e do seu fluxo e refluxo, assim como do sistema capitalista mundial estruturou novas bases de exploração através de novas relações capitalistas e não capitalistas de produção. Não apenas a questão econômica foi forte nesse contexto, mas a questão social e cultural também. O fracasso da política migrantista chinesa deu-se, portanto, pela reestruturação e alargamento da escravidão e a consequente remodelação do mercado de trabalho brasileiro. As charges e a Revista Illustrada são, portanto, uma das representações culturais dessas remodelações. A Revista serviu para construir o estereótipo nacional frente ao estrangeiro; construir o estereótipo do chinês e de um possível mercado de trabalhadores no Brasil do século XIX; divulgar e denunciar o que aconteceria com o chinês caso o processo de imigração fosse realizado. A Revista Illustrada foi ainda um amplificador das discussões no âmbito político, social e cultural. 177 SOUZA, Bruno Gabriel Witzel de. Imigração alemã e o mercado de trabalho na cafeicultura paulista – um estudo quantitativo odos contratos de parcerias. Historia Econômica & Historia de empresas. Edição XV, volume 2, 2012. 123 124 CONCLUSÃO A proposta de trabalho apresentada tem o intuito de construir um pensamento reformulado sobre a política imigrantista sinófila brasileira que, através de uma constelação de fatores responsáveis por reconstruir e reformular as sociedades do século XIX, teve como alicerce a experiência histórica da escravidão. Através da apresentação de uma breve historia da escravidão brasileira do século XIX, fomos capazes de demonstrar sua intima relação com as novas políticas migrantistas e como seu desenvolvimento foi lapidado através da experiência desta. Esse é um ponto chave, portanto, da pesquisa. Entender que a experiência historica da escravidão reformulou e reconstruiu os tempos e espaços onde sua presença foi sentida fisicamente, ou economicamente. Devido ao alargamento do tempo da escravidão com a expansão de fronteiras agrícolas e um aumento do tráfico interno, a política da escravidão manteve-se até o final do século XIX. A perspectiva comparada que hoje historiadores tanto falamos, já era sentida ao longo do século XIX nas experiências compartilhadas da escravidão, políticas migrantitas e manutenção do capital. Foi, portanto, através da experiência histórica da escravidão negra nas Américas em sua tríade escravista e das investidas européias para a região da peninsula do Indo Pacífico que surgiram novos percurso dos fluxos e refluxos de novos trabalhadores e dos novos tipos de trabalho, em específico a mão de obra chinesa não qualificada. A crise mundial estrutural do capital na segunda metade do século XIX foi responsável por universalizar as novas regras de formação do mercado de trabalho através da experiência historica da escravidão. As novas formas prática e os novos alicerces do trabalho na segunda metade do século XIX são relações reconstruidas e lapidadas através de uma experiência trabalhista (escrava) em comum. A expansão e busca por novos territórios foi capaz ainda de reformular os usos e posses dos trabalhadores com a terra, criando um grande mercado de trabalho sucetivel aos latifundios sazonais, como o caso do café, açúcar e também de produtos de alta demanda, como o guano. Essas mudanças e reformulações, por sua vez, só foram possíveis graças a uma constelação de fatores que juntos foram responsáveis pela pendulação do eixo economico capitalista mundial das Américas para a região do Indo Pacífico (India, China e outros territórios proximos). As mudanças políticas e sociais causadas pelas invasões européias em territórios asiáticos foram responsáveis por reformular os usos da terra, assim como ocorreu nas Américas por conta da escravidão, de uma maneira não comum para as sociedades asiáticas daquela região. Além disso as guerras, invasões e rebeliões locais e/ou internacionais inseriram o fator humano no centro das disputas por terriório, dinheiro e comida. A apresentação e análise 125 das charges e imagens dos trabalhadores chineses nos deram uma perspectiva comparada cultural do possível surgimento de um grupo de trabalhadores chineses em território brasileiro e também como um movimento de denúncia para a sociedade brasileira e internacional dos possíveis acontecimentos futuros em relação a esse grupo. Em relação ao Império Chinês e a Guerra do Ópio, entendemos queo ópio fechava a cadeia mercantil intercontinental do chá, que por sua vez era o doping laboral da classe operária britânica, sendo essa uma guerra econômica. O psicoativo foi usado ainda como uma mercadoria-chave, pois: desempenhou papel decisivo na balança comercial da Índia, âncora da economia britânica; acelerou as contradições entre o modo de produção tributário e o espetacular crescimento demográfico na China, sendo uma das causas das diversas rebeliões em curso e de emigração; e funcionou como doping laboral em Cuba para os chineses trabalhadores nas plantations, e na organização do processo social cubano. A imigração chinesa no Brasil, ou ainda a política imigrantista sinófila não foi recusada pela classe política, ou ainda suprimida por ideais liberais internacionais, apesar de ter seu papel importante na denúncia do preconceito e na construção de um questionamento sobre o ser brasileiro, não por comparação, mas pela exclusão. Também não foram causas principais da não vinda de trabalhadores chineses para o Brasil a sinofobia ou a xenofobia à asiáticos. O Brasil chegara atrasado em seu desempenho político internacional devido a reformulação da escravidão brasileira que foi ser estendida até o raiar do século XX. Foram, portanto, as reestruturações e continuidades na política da escravidão brasileira os principais responsáveis pelas parcas atuações no sentido de cooptar chineses em modo de trabalho transitório entre a escravidão e trabalho livre. Conforme analisamos ainda, tanto em Cuba, quanto no Peru, a imigração chinesa nunca serviu como um trabalho transitório, mas na verdade como uma nova modalidade de trabalho construída através da experiência histórica da escravidão em cima de um novo grupo social. Os ataques internacionais, a Guerra do Ópio, além de problemas políticos, sociais, econômicos e ecológicos nacionais trazidos de longa data, ou problemas recorrentes ignorados ou mal resolvidos, foram alguns dos fatores que eclodiram no século XIX, juntamente das revoltas e rebeliões, os problemas ecológicos sazonais e as crises de fome. Foi, portanto, na crise capitalista mundial do século XIX que a contradições do capitalismo entraram em choque possibilitando a derrocada da escravidão e o surgimento de novas modalidades de trabalho construídas através da experiência histórica da escravidão. 126 ANEXOS - OPINIÕES MANIFESTADAS SOBRE ASIÁTICOS NO CONGRESSO AGRÍCOLA Espírito Santo Minas Gerais Nome Localidade S/N Posic. Conceito Tipo OPINIÕES Antônio Cesário de Faria Alvim Ubá N CONTRA Chins Colonos NÃO CONCORDA COM A IMPORTAÇÃO DE CHINS COMO COLONOS, APENAS EUROPEUS; Galdino Fernandes Pinheiro. Mar de Hespanha; Santo Antonio do Aventureiro; S. João Nepomuceno (municipio do rio novo) N CONTRA Chins - - Joaquim Eduardo Leite Brandão Mar de Hespanha N CONTRA Chins Elemento de trabalho NÃO HÁ NECESSIDADE DE TRABALHO, MAS DE CAPITAIS Joaquim José Alves dos Santos Silva Leopoldina - NEUTRO Coolies e chins Instrumento de trabalho MEIO TRANSITÓRIO Nome Localidade S/N Posicionamento Conceito Tipo OPINIÕES Francisco Antonio da Motta São Mateus N CONTRA Chins Colono CONTRA COLONIZAÇ ÃO OFICIAL DE CHINS José Cesário de Miranda Monteiro de Barros Cachoeira de Itapemirim S A FAVOR Coolies e chins Colono RAÇA INFERIOR; SALÁRIOS BAIXOS; ATRAVÉS DO SUBSIDIO DO ESTADO 127 Julio Cesar de Moraes Carneiro Mar de Hespanha N CONTRA Asiáticos/ coolies e chins Colono/ Todo o tipo RAÇA DEGENERADA; ESCÓRIA DOS OUTROS PAISES/ RAÇA INFERIOR, CORROMPIDA E DEGRADADA; BRAÇOS VIRÃO COM SALÁRIOS MAIORES; DESVIAR A ATENÇÃO DA COLONIZAÇÃO EUROPEIA Lavradores de Baependy Baependy S A FAVOR, SE NECESSARIO Coolies da India Medida transitória PREFEREM A COLONIZAÇÃO EUROPEIA 128 Rio de Janeiro Nome Localidade S/N Posic. Conceito Tipo OPINIÕES A. J. de Antunes de Abreu Serraria N CONTRA Chins Todo o tipo PRECISAMOS DE HOMENS INDUSTRIOSOS, INTELIGENTES E CIVILIZADOS; RAÇA INFERIOR Albino Antonio de Almeida Resende S A FAVOR, SE NECESSARIO Asiáticos Locação de serviços SUPRIR FALTA DE BRAÇOS Angelo Thomaz do Amaral Itaborahy S A FAVOR Chins Medida transitória PREFERE O EUROPEU, MAS O CHIN É SUPERIOR AO AFRICANO; RAÇA DEGRADADA; IMPORTAÇÃO ATRAVÉS DE INICIATIVA PARTICULAR Barão do Rio Bonito Valença N CONTRA Chins Colono - Carlos Marcondes de Toledo Lessa Barra Mansa N CONTRA Chins - CHINESES INDOLENTES Christiano Benedicto Ottoni Rio de Janeiro e Minas Gerais N CONTRA Chins e Coolies Todo o tipo COLONO AFRICANO MUITO SUPERIOR AO COOLIE; RAÇA VICIOSA E DEGENERADA João Baptista Braziel Resende S A FAVOR Chins Jornaleiro MÃO DE OBRA BARATA; NAÇÃO CHINESA DESMORALIZADA; MENOS IMPRÓPRIA, PERIGOSA E REBELDE QUE OUTRAS RAÇAS IDENTICAS João Lins Vieira Cansanção de Sinimbu Corte S A FAVOR Chins Medida transitória - José Fernandes Moreira Rio de Janeiro S A FAVOR Chins Instrumento de trabalho RAÇA DEGRADADA SÃO, NO ENTANTO, OS MELHORES TRABALHADORES; DEVIDO A SUA MORAL, NÃO VEM CONSTITUIR A NAÇÃO BRASILEIRA Lavradores da freguezia da Lage Freguezia da Lage S A FAVOR Coolies - SERVIRÃO DE GRANDE UTILIDADE A LAVOURA, SE FOREM REGIDOS PELAS MESMAS LEIS QUE NAS COLÔNIAS INGLESAS Lavradores de Campos Campos S A FAVOR Chins - - Lavradores de Quissaman Quissaman S A FAVOR Chins Todo o tipo SALVADORES DA LAVOURA DO PAÍS, INTRODUÇÃO DE 400.000 MIL CHINESES; POVO SÓBRIO E QUE PEDE SALÁRIOS BAIXOS Pedro Dias Gordilho Paes Leme Itaguai S A FAVOR, ÚLTIMO RECURSO Chins Medida transitória "UM MAL, TALVEZ NECESSÁRIO"; INFERIORIDADE DO COOLIE EM RELAÇÃO AOS AFRICANOS; SUPERIOR O TRABALHO DO CHINÊS SOBRE O COOLIE; ELEMENTOS DE ATRASO NA INDIA OU NA CHINA; Santiago de Miranda Jacarepagua, Municipio Neutro S A FAVOR, SE NECESSARIO Chins Medida transitória SOMENTE AQUELES QUE SE DEDICAM A AGRICULTURA EM SEU PAÍS 129 São Paulo Nome Localidade S/N Posic. Conceito Tipo OPINIÕES Américo Brasiliense de Almeida Mello Jacarei, Indaiatuba, Campo Largo, Sorocaba e Porto Feliz S A FAVOR Asiático/ China Jornaleiro INTRODUÇÃO DE TRABALHADORES DA CHINA É DE MUITA NECESSIDADE; TRABALHADOR QUE PODE SERVIR COMO JORNALEIRO É O ASIÁTICO, MAS O ASIÁTICO VINDO DA CHINA E DOS DISTRITOS AGRÍCOLAS; A TERRA (CHINA) NEGA-LHES O SUSTENTO; CHINÊS É LABORIOSO, MORALIZADO, PACÍFICO E O MAIS BARATO; Antonio Moreira de Barros Taubaté S A FAVOR, SE NECESSARIO Chins Jornaleiro ELEMENTO DE RAÇA INFERIOR/ IMPORTADORES DE ÓPIO; ELEMENTO INCONTESTÁVEL DE TRBALHO; A INDUSTRIA DO GUANO SÓ EXISTE POR CAUSA DO CHIN Camargo Bragança - NEUTRO Chins - VIAJOU A CALIFORNIA E VIU OS 120.00 CHINS; O PROGRESSO É DA MECANICA AGRICOLA E NÃO DOS CHINS Cesario N. de Azevedo Motta Magalhães Junior Porto Feliz - APENAS COMENTA Chins - NÃO RESOLVERÃO OS PROBLEMAS DA LAVOURA Commissão nomeada pelos lavradores de São Paulo (Albino José Barboza de Oliveira, Moreira de Barros e Campos Salles) Comissão Paulista - Campinas; Taubaté S A FAVOR, SE NECESSARIO Coolies/ povos indiáticos Medida transitória ELEMENTO DE REGRESSO A NOSSA CIVILIZAÇÃO; BAIXO NÍVEL DE MORAL; AFASTARIAM A IMIGRAÇÃO EUROPEIA Domingos José de Nogueira Juagaripe Filho Rio Claro N CONTRA Coolies = Chins Todo o tipo COLONIZAÇÃO PERIGOSA, IMORAL; RAÇA INFERIOR E DECREPILA NÃO É POSSÍVEL SALVAR O FUTURO DA NOSSA AGRICULTURA COM A IMPORTAÇÃO DE COOLIES; COLONISAÇÃO CHINEZA EM TODO O MUNDO FOI SEMPRE PREJUDICIAL,PERIGOSA E IMMORAL. Eduardo A. Pereira de Abreu Silveiras N CONTRA Chins ou coolies Todo o tipo CALAMIDADE LETAL A LAVOURA; RAÇA INFERIOR João Cordeiro da Graça Limeira N CONTRA Chins Todo o tipo AGRICULTOR APROVEITAVEL, MAS A CHINA É UM PAÍS BRUTAL DE LEIS NÃO CIVILIZADAS; RAÇA INFERIOR João Marcelino de Souza Gonzaga Pindamonhangaba - NEUTRO Chim - - Luiz Ribeiro de Souza Resende Valença N CONTRA Chins Todo o tipo DEPREVAÇÃO DA RAÇA; DEVEM VIR APENAS POR INCIATIVA PARTICULAR Moreira de Barros Taubaté S A FAVOR, SE NECESSARIO Chins Agricultores RAÇA INFERIOR; MEIO TRANSITÓRIO; QUESTÃO DE NECESSIDADE Rodrigo Lobato Marcondes Machado Taubaté S A FAVOR, SE NECESSARIO Coolies Medida transitória BRAÇO DOS COOLIES; NÃO SÃO OS MELHORES, MAS SÃO MEIO SEGURO DE PASSAR DO ESCRAVO AO LIVRE; UM REMÉDIO PARA O MAL Scott Blacklaw São João do Rio Claro S A FAVOR Coolies indianos Medida transitória OS COOLIES SÃO UMA RAÇA MUITO SUPERIOR A DOS NEGROS, IGUAL A DOS BRANCOS, SÓ TEM A PELE BRONZEADA 130 Mistos Nome Província Localidade S/N Posic. Conceito Tipo OPINIÕES Campos de Medeiros RJ MG Rio de Janeiro; São Pedro da Alcantara, Juiz de Fora N CONTRA Asiáticos - LAVOURA NECESSITA DE BRAÇOS INTELIGENTES E MORIGERADOS Commissão nomeada pelos lavradores do Rio de Janeiro, Minas Geraes e Espirito Santo (Barão do Rio Bonito, Antonio Álvares de Abreu e Silva Junior, Pedro Dias Gordilho Paes Leme, Barão de Nova Friburgo, Theophilo D. A. Ribeiro, Manoel Peixoto de Lacerda Werneck) RJ MG ES Comissão Sudeste - Valença; Mar de Hespanha; Itaguai; Cantagalo; Leopoldina; Vassouras S A FAVOR, SE NECESSARIO Chim Medida transitória/ Jornaleiro RAÇA INFERIOR Companhia União dos Lavradores (José Bernardo da Silva Moreira; Campos de Medeiros; Christovão Francisco Alves Rossadas) RJ MG Municipio neutro; Juiz de Fora N CONTRA Asiáticos - LAVOURA NECESSITA DE BRAÇOS INTELIGENTES E MORIGERADOS Representantes de lavradores de Juiz de Fora e Paraiba do Sul (Christiano Benedicto Ottoni, Viscande de Prados, Antonio José Barbosa de Andrade e Laurindo Rodrigues Andrade) RJ MG Paraíba do Sul; Juiz de Fora N CONTRA Coolies Todo o tipo ELEMENTO DISSOLVENTE DA ORDEM E DO BEM ESTAR DA FAMÍLIA AGRÍCOLA 131 FONTES CITADAS BARBOSA, Ruy. “Emancipação dos Escravos”. Parecer formulado pelo deputado Ruy Barbosa como relator das comissões reunidas de orçamento e justiça civil. Rio de Janeiro, Typographia Nacional, 1884. CHOY, Emilio. 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Relações Internacionais; Brasil; China; Viagem à China; Revista Illustrada - Missão da Revista a China. 1880 - Revista Illustrada Número 192 - Assunto: Imigração Chinesa; Relações Internacionais; Brasil; China; Viagem à China; - Texto: A Gazetilha. 1880 - Revista Illustrada Número 196 - Assunto: Imigração Chinesa; Relações Internacionais; Brasil; China; Economia; - Texto: Orçamento da Viagem. 1880 - Revista Illustrada Número 198 - Assunto: Imigração Chinesa; Relações Internacionais; Brasil; China; Viagem à China; - Ilustração do navio Vital de Oliveira. 1880 - Revista Illustrada Número 199 - Assunto: Imigração Chinesa; Relações Internacionais; Brasil; China; Viagem à China; - Texto: Salvador de Mendonça. 1880 - Revista Illustrada Número 225 - Assunto: Imigração Chinesa; Relações Internacionais; Brasil; China; Música; - Texto: Música Chinesa. 1881 - Revista Illustrada Número 236 - Assunto: Imigração Chinesa; Relações Internacionais; Brasil; China; Viagem à China; - Ilustração: Volta ao Mundo do navio Vital de Oliveira. 1881 - Revista Illustrada Número 257 - Assunto: Imigração Chinesa; 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Relações Internacionais; Brasil; China; Imigração; Lavoura; Colonização; - Ilustração sobre uma possível colonização chinesa. 1884 - Revista Illustrada Número 386 - Assunto: Imigração Chinesa; Relações Internacionais; Brasil; China; Imigração; Congresso Agrícola; Sinimbú- Ilustração de Sinimbú discutindo sobre o Congresso Agrícola. 1884 - Revista Illustrada Número 388 - Assunto: Imigração Chinesa; Relações Internacionais; Brasil; China; Imigração; Cólera; - Texto: Pequena Crônica. 1888 - Revista Illustrada Número 508 - Assunto: Imigração Chinesa; RelaçõesInternacionais; Brasil; China; Imigração; - Texto: Livro A china e os chins. 1888 - Revista Illustrada Número 518 - Assunto: Imigração Chinesa; Relações Internacionais; Brasil; China; Imigração; - Texto: Os chins. 1888 - Revista Illustrada Número 523 - Assunto: Imigração Chinesa; Relações Internacionais; Brasil; China; Imigração; Barão de Cotegipe - Ilustração do Barão de Cotegipe e de um Brasil Chinês (Brasilchim). 1888 - Revista Illustrada Número 524 - Assunto: Imigração Chinesa; Relações Internacionais; Brasil; China; Imigração; - Texto: Caixeiros contra os chineses. 1888 - Revista Illustrada Número 525 - Assunto: Imigração Chinesa; Relações Internacionais; Brasil; China; Imigração; Lavoura; Condições de Trabalho - Ilustração sobre a condição de trabalho dos chineses; Syndicato Chinês; Texto: Pequenos Echos. 1891 - Revista Illustrada Número 632 - Assunto: Imigração Chinesa; Relações Internacionais; Brasil; China; Imigração; Rio de Janeiro - Ilustração sobre a imigração chinesa no Rio de Janeiro e presentes que os chineses enviaram aos brasileiros. 1892 - Revista Illustrada Número 647 - Assunto: Imigração Chinesa; Relações Internacionais; Brasil; China; Imigração; Rio de Janeiro - Ilustração de uma face chinesa indo embora. 1892 - Revista Illustrada Número 648 - Assunto: Imigração Chinesa; Relações Internacionais; Brasil; China; Imigração; Rio de Janeiro; Senador Monteiro de Barros - Texto: Echos e Notas. 1892 - Revista Illustrada Número 650 - Assunto: Imigração Chinesa; Relações Internacionais; Brasil; China; Imigração; - Ilustração de capa do Arlequim da Revista Illustrada curtindo as delícias da imigração chinesa. 134 BIBLIOGRAFIA AHMAD, Diana L. 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