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UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE 
INSTITUTO DE HISTÓRIA 
PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA 
MESTRADO EM HISTÓRIA SOCIAL 
 
 
 
OTTO REUTER LIMA 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
“PRETO E AMARELO”: A CRISE DA ESCRAVIDÃO NEGRA NO BRASIL NA 
RECONFIGURAÇÃO DO MERCADO DE TRABALHO MUNDIAL ATRAVÉS 
DA FORÇA DE TRABALHO CHINESA 1870-1889 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Niterói 
2021 
 
 
 
OTTO REUTER LIMA 
 
 
 
 
 
“PRETO E AMARELO”: A CRISE DA ESCRAVIDÃO NEGRA NO BRASIL NA 
RECONFIGURAÇÃO DO MERCADO DE TRABALHO MUNDIAL ATRAVÉS 
DA FORÇA DE TRABALHO CHINESA 1870-1889 
 
 
 
Dissertação de mestrado apresentado 
ao Programa de Pós-graduação em 
História com requisito parcial para 
obtenção do título de mestre em 
história. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Orientador: 
Profº. Drº. Tâmis Peixoto Parron 
 
 
 
 
 
Niterói 
2021 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
OTTO REUTER LIMA 
 
 
 
“PRETO E AMARELO”: A CRISE DA ESCRAVIDÃO NEGRA NO BRASIL NA 
RECONFIGURAÇÃO DO MERCADO DE TRABALHO MUNDIAL ATRAVÉS 
DA FORÇA DE TRABALHO CHINESA 1870-1889 
 
 
Dissertação de mestrado apresentada 
ao Programa de Pós-graduação em 
História com requisito parcial para 
obtenção do título de mestre em 
história. 
 
 
BANCA EXAMINADORA 
 
 
____________________________________________________ 
Profº. Drº. Tâmis Peixoto Parron 
(orientador) 
 
____________________________________________________ 
Profº. Drº. Evandro Menezes de Carvalho (UFF/ FGV-Rio) 
 
____________________________________________________ 
Profª Drª Karoline Carula (UFF) 
 
____________________________________________________ 
Profª Drª Claudio Costa Pinheiro (UFRJ) 
 
 
 
 
 
Niterói 
2021 
 
 
 
AGRADECIMENTOS 
 
 A vida só é possível quando se está rodeado de pessoas que te apoiam, motivam, 
encorajam e que falam a verdade quando necessário. Agradeço imensamente aos meus 
familiares e amigos que, ao longo de toda a minha trajetória acadêmica, vivenciaram um 
pouco do que é ser pesquisador e amar aquilo que se estuda. Agradeço por estudar para 
ser um historiador. 
 A minha avó, Mary Zimmermann, que sempre apoiou, ajudou e deu forças a todos 
em quem sua vida tangenciou. Uma verdadeira educadora, mãe, avó e amiga que hoje nos 
olha e guia das nuvens. Aos meus pais, André e Christian, e ao meu irmão, Hans, que 
contribuíram com apoio e amor ao longo desses anos. 
 Aos parceiros João, Jean, Antonio, Elisa, Karen e a todos do grupo de estudos 
COMMUN e do Centro de Ciência Social Histórica sobre Desigualdades Globais UFF 
pelas discussões, apoio e cumplicidade. 
 Agradeço imensamente ao meu orientador, Tâmis Parron, por me dar um voto de 
confiança nesse projeto e por atuar de forma compreensiva e firme nos estudos e nas 
correções. Suas formas disruptivas de pensar e questionamentos foram fundamentais no 
desenvolvimento da pesquisa e da dissertação. A todos os professores do PPGH UFF, em 
especial à Jonis, Norberto e Leonardos Marques, com quem conversei e puderam dedicar 
um pouco do seu tempo para discutir sobre a pesquisa. 
 Agradeço também a minha primeira orientadora e amiga Angela Telles que deu a 
fagulha do que hoje compõe essa dissertação. Nossas conversas e cafés são sempre muito 
proveitosos. 
 A evolução acadêmica e pessoal não seria possível sem o apoio incondicional da 
minha companheira de vida, Nathalia, com quem passei (ou deixei de passar) noites 
devidos a pesquisa. Muitíssimo obrigado pelo companheirismo, paciência a compreensão. 
Te amo, meu amor! Estaremos sempre juntos! 
 Por fim agradeço aos funcionários da Universidade Federal Fluminense, do Instituto 
de Historia, e do Programa de Pós-Graduação em Historia que foram sempre muito 
solícitos e amigáveis. Obrigado ainda ao Programa CAPES (Coordenação de 
Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), pelo financiamento desta pesquisa. 
RESUMO 
A presente pesquisa busca inserir novas perspectivas nas discussões em andamento sobre 
a crise da escravidão negra no Brasil no final do século XIX. A crise do cativeiro será 
analisada juntamente com as discussões sobre a expansão das fronteiras agrícolas de 
commodities nas regiões cafeeiras do Império Centro-Sul. Em uma visão comparativa, 
discutiremos a gênese da discussão da política imigrantista no Brasil e o surgimento da 
ideia da migração asiática chinesa. A gênese das discussões sobre a política imigrantista 
é, portanto, profundamente relacionada ao fim da escravidão negra e a percepção difusa 
de uma suposta falta de mão de obra entre proprietários de negros escravizados. Essa 
política de imigrantes será comparada com políticas similares em outros territórios 
políticos da segunda metade do século XIX, como Cuba, igualmente vinculadas à força 
de trabalho geral do mercado mundial e aos chineses em particular. 
 
Palavras-Chave: Política imigrantista; Imigração chinesa; chins; Império brasileiro; 
Escravidão. 
ABSTRACT 
 
This research seeks to insert new perspectives into ongoing discussions about the crisis 
of black slavery in Brazil at the end of the 19th century. The crisis of slavery will be 
analyzed with discussions on the expansion of agricultural frontiers for commodities in 
the coffee-growing regions of the Center-South Empire. In a comparative perspective, we 
will discuss the genesis of the immigration policies discussion in Brazil and the 
emergence of the idea of Chinese Asian migration. The genesis of discussions on 
immigrant policy is therefore deeply related to the end of black slavery and the 
widespread perception of an alleged lack of labor among owners of enslaved blacks. This 
immigration policy will be compared with similar policies in other political territories of 
the second half of the 19th century, such as Cuba, equally linked to the general workforce 
of the world market and the Chinese in particular. 
 
Keywords: Immigration policies; Chinese immigration; chins; Brazilian Empire; Slavery. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
LISTA DE FIGURAS E IMAGENS 
 
Figura 1 - “Preto e Amarello”. ......................................................................................13 
 
Contrato 1 - “Contrata em Espanhol”..........................................................................67 
Contrato 2 - “Companhia Cubana de Emigracion para La Habana”........................68 
Contrato 2.1 - “Contrato em Chinês”...........................................................................69 
 
Imagem 3.1.1 - “O Congresso Agrícola”.................................................................81-84 
Imagem 3.1.2 - “O Horizonte Chinês”.........................................................................85 
Imagem 3.1.3 - “Costumes chineses”.......................................................................87-89 
Imagem 3.1.4 - “Preparativos para a viagem à China”..............................................91 
Imagem 3.1.5 - “Embrião Chinês”................................................................................92 
Imagem 3.1.6 - “Festa Chinesa” ..................................................................................95 
Imagem 3.1.7 - “Os reclamantes”.................................................................................97 
Imagem 3.1.8 - “Os chins na lavoura”...................................................................97-102 
Imagem 3.1.9 - “Cumprimentos a Vital d’Oliveira”.................................................104 
Imagem 3.1.10 - “Brotos chineses”..............................................................................105 
Imagem 3.1.11 - “Brotos chineses”..............................................................................105 
Imagem 3.1.12 - “A Colonização Chinesa”.........................................................106-113 
Imagem 3.1.13 - “Chino-mania”..........................................................................115-118Imagem 3.1.14 - “A China na imprensa internacional nos EUA”..........................119 
Imagem 3.1.15 - “A China na imprensa internacional na Austrália”....................120 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
LISTA DE TABELAS 
 
Tabela 1: Participantes do Congresso Agrícola, por Província (1878) ......................25 
Tabela 2: Participantes do Congresso por Complexo Socioecológico (1878) ............32 
Tabela 3: Importações de coolies para Cuba (1847-1874) ..........................................65 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
LISTA DE GRÁFICOS 
 
Gráfico 1: Valor das exportações de café, algodão e açúcar (1859/60-1880/81) …...10 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
LISTA DE MAPAS 
 
Mapa 1: Rio de Janeiro e as macrorregiões produtoras (1850-1889) ........................27 
Mapa 2: São Paulo e as macrorregiões produtoras (1850-1889) ................................29 
Mapa 3: Minas Gerais e as macrorregiões produtoras (1850-1889) ..........................31 
Mapa 4: Localização socioespacial a favor da imigração chinesa (1878) ..................40 
Mapa 5: Rebeliões na China no século XIX..................................................................54 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
SUMÁRIO 
 
INTRODUÇÃO - ESCRAVIDÃO NEGRA E TRABALHO CHINÊS NO IMPÉRIO 
DO BRASIL: INTERDEPENDÊNCIA E CONFLITO................................................1 
CAPÍTULO 1 – A CRISE DA ESCRAVIDÃO BRASILEIRA NA SEGUNDA 
METADE DO SÉCULO XIX E O CONGRESSO AGRÍCOLA (1878) ...................5 
O tráfico interno...............................................................................................................8 
A ascensão do Gabinete Sinimbu (1878) e suas pautas políticas.................................11 
Congresso Agrícola do Rio de Janeiro..........................................................................16 
Os números do Congresso Agrícola: um congresso do café.......................................24 
O Questionário do Congresso Agrícola.......................................................................33 
A questão chinesa no Congresso Agrícola...................................................................38 
Considerações.................................................................................................................44 
CAPÍTULO 2 - OS FLUXOS E REFLUXOS GLOBAIS DA MÃO DE OBRA 
ASIÁTICA CHINESA NÃO QUALIFICADA: TERRA, TRABALHO, CAPITAL 
E RAÇA..........................................................................................................................48 
Historia da China no século XIX – um voo de Dragão: O tardio Império Qing: 
apontamentos e problemas............................................................................................50 
A era dos tratados desiguais: invasões e rebeliões .....................................................55 
As papoulas e o ópio.......................................................................................................56 
Os usos e padrões de posse da terra...............................................................................57 
Os alicerces do trabalho contratados............................................................................59 
Comércio coolie..............................................................................................................62 
Cuba e Peru....................................................................................................................64 
Considerações.................................................................................................................72 
CAPÍTULO 3 - OS DISCURSOS SINÓFILOS NA SOCIEDADE BRASILEIRAS 
A Revista Illustrada e a construção do estereótipo chinês...........................................74 
Considerações...............................................................................................................122 
CONCLUSÃO..............................................................................................................124 
ANEXO.........................................................................................................................126 
FONTES CITADAS....................................................................................................131 
BIBLIOGRAFIA.........................................................................................................134
 
1 
 
INTRODUÇÃO - ESCRAVIDÃO NEGRA E TRABALHO CHINÊS NO IMPÉRIO 
DO BRASIL: INTERDEPENDÊNCIA E CONFLITO 
 
Esta pesquisa analisa as origens históricas das relações entre o Império do Brasil 
e o Império chinês na segunda metade do século 19, enfocando as discussões da época 
sobre a migração chinesa para o Brasil. Alicerçada em uma abordagem global, a pesquisa 
entende que as transformações no sistema capitalista mundial, que intensificaram as 
contradições internas do escravismo no Brasil, também criaram as condições para a onda 
de migração transnacional chinesa em massa para as Américas. Desse modo, a crise da 
escravidão negra1 e o surgimento de novos tipos de mobilidade internacional da força de 
trabalho se inscrevem nas mesmas condicionantes estruturais mais profundas do 
capitalismo mundial. Para iluminar essas relações, a pesquisa identifica e discute 
discursos publicados em jornais, revistas, anais de congressos e livros sobre a questão da 
migração chinesa para o Brasil no século XIX. 
Através de uma análise quantitativa e qualitativa dos anais do Congresso Agrícola 
realizado em 1878, o ponto chave do primeiro capítulo será entender como a gestão 
política do futuro histórico da escravidão entrou em crise nos anos 1860 e 1870, bem 
como a gênese das discussões sobre a política imigrantista sinófila. Os processos internos 
e externos são analisados como fatores interdependentes e conflituosos de uma totalidade 
processual, no entanto, cada qual tendo seus ritmos particulares de ordem econômica, 
política, cultural e ecológica. 
No segundo capítulo direcionaremos o esforço na análise dos consequentes 
processos globais de mão de obra, ou seja, os fluxos e refluxos humanitários globais. Com 
foco na imigração asiática chinesa da segunda metade do século XIX que, no caso 
brasileiro e cubano tem suas relações com o avanço da geocultura mundial para o fim da 
escravidão, buscamos compreender histórias locais particulares como elementos/partes 
integrantes de processos socioeconômicos mundiais. Ainda, a heterogeneidade das 
relações espaciais e temporais dos processos capitalistas no século XIX são também parte 
da origem dos fatores que alteram as relações de trabalho nos séculos decorrentes. 
Analisaremos também as condições globais dos fluxos migratórios dos chineses através 
da reconfiguração do mercado mundial da força de trabalho asiática. A formação de um 
mercado internacional de trabalhadores no Atlântico entre os séculos XVIII e XIX teve, 
como uma de suas consequências, a busca por mão de obra mais barata, entre outras, os 
 
1 Por escravidão negra estão inclusos pardos, pretos, cabras, crioulos, caboclos, negros e mulatos. 
 
 
2 
 
chineses e/ou coolies. A migração transnacional dos chineses, por sua vez, não deve ser 
vista como um processo desconectado do sistema capitalista global, sendo parte 
fundamental também nos processos relacionados a crise global da escravidão negra. 
Portanto, em cada país onde podemos observar a migração chinesa, devemos ter olhares 
atentos às interconexões globais. 
O foco do terceiro capítulo será na análise das fontes bibliográficas sobre a política 
imigrantista sinófila no Brasil no século XIX. Para tanto, analisaremos as principais 
fontes políticas, culturais e econômicas que conectaram escravidão, crise da escravidão, 
café, crisede mão de obra e imigração chinesa. Focaremos em uma análise comparada 
dos contratos dos trabalhadores imigrantes para o Brasil nas regiões Centro-Sul do 
Império. 
Como conclusão, entendemos que os fluxos e refluxos globais de migração 
humana são um processo importante a ser analisado não só na longa duração, como 
também em suas pequenas movimentações. As discussões sobre a transferência de 
trabalhadores asiáticos chineses tiveram como tema central a raça. Alguns dos tópicos de 
disputa no século XIX incluem dualidades como imigração ou colonização, mão de obra 
temporária ou trabalhadores contratados, melhores ou piores que os negros escravizados, 
iniciativa privada ou fomento governamental. Para cada localidade onde os chineses 
estiveram presentes podemos perceber diferentes discussões sobre esse grupo, além dos 
diferentes interesses dos chineses e suas próprias ações enquanto trabalhadores e atores 
sociais. 
Como veremos, a maioria dos autores desconsidera o Brasil da constelação da 
imigração da mão de obra chinesa pelo fato de o país não apresentar efetivamente uma 
ordem de grandeza, tendo em vista que poucos chineses aqui aportaram para trabalhar na 
lavoura. Os estudos de Juan Hung Hui2, Ana Paulina Lee3 e Rogério Dezem4 são uns dos 
poucos que citam o caso brasileiro. No entanto o que veremos é como a reformulação da 
gestão escravidão brasileira foi capaz de manter o servilismo por um maior período, 
afastando assim a ideia da imigração chinesa. A preferência pela força de trabalho asiática 
 
2 HUI, Juan Hung. Chinos en América. Madrid. Editorial MAPFRE, 1992 
3 LEE, Ana Paulina. Mandarin Brazil: Race, Representation and Memory. Stanford, California. Stanford 
University Press, 2018. 
4 DEZEM, Rogério Akiti. Matizes do “amarelo”: a gênese dos discursos sobre os orientais no Brasil 
(1878/1908). São Paulo: Associação Imperial Humanitas, 2005. & A Questão Chinesa (1879) no Brasil. 
Revista de Estudos Brasileiros Vol. 14. Portuguese Dept., Osaka University, 2018. &. The Brazilian Belle 
Epóque: new ideas, old paradigms, Osaka University Knowledge Archive, 2011. 
 
 
3 
 
chinesa conflui com a reformulação de um estado brasileiro com propostas mais liberais 
para frear maiores mudanças que incluíam a reconfiguração da terra (latifúndio) e do 
trabalho (escravidão). A elite imperial brasileira foi responsável por manter a ordem 
social que a escravidão criou no Brasil no pós-escravidão, sendo a ideia da imigração 
chinesa uma das diversas tentativas de manter as condições de funcionamento da grande 
propriedade no centro sul do Brasil sem mexer na reconfiguração estrutural dos fatores 
de mercado, que são terra e capital; foi, portanto a ordem social escravista e a gestão 
política de suas características que moldaram o nascimento de uma sociedade livre e as 
fez sobreviver ao pós-escravidão. 
Em relação aos diferentes tipos de política imigrantista, por exemplo sinófila e 
italiana, as discussões do século XIX tratavam em termos de oposição racial. No entanto 
não faz sentido opormos as políticas imigrantistas, pois esse caminho oculta uma base 
comum às duas políticas que era criar mecanismos de gestão da crise da escravidão que 
permitiriam manter alguns princípios organizadores da sociedade escravista na 
emergência de uma sociedade baseada no trabalho livre; entre os princípios dessa 
sociedade o mais importante é a estrutura fundiária, responsável pelo trabalho, 
desigualdade e capital no país. Portanto a política sinófila é uma das inúmeras gestões da 
crise política da escravidão no Brasil, sendo a própria escravidão negra o fator 
determinante das condições da sua superação.
 
 
4 
 
 
CAPÍTULO 1 - A CRISE DA ESCRAVIDÃO BRASILEIRA NA SEGUNDA 
METADE DO SÉCULO XIX E O CONGRESSO AGRÍCOLA (1878) 
 
Escorado na estabilidade internacional formada pelas políticas domésticas da 
escravidão de Brasil, Espanha e Estados Unidos, o trinômio escravista café-açúcar-
algodão foi capaz, até a final década de 1850 e início de 1860, de se resguardar 
internacionalmente contra as pressões política internacionais britânicas. 1 A relação 
dependente e conflituosa que os três espaços e produtos tinham com a economia da Grã-
Bretanha faz parte também das confluências mundiais para o fim da escravidão em nível 
global. Isso nos mostra que a constelação de forças do capitalismo, ou ainda a geocultura, 
foram também responsáveis pelo cerceamento internacional da escravidão e do tráfico 
internacional. 
Entre os anos entre 1861 e 1865 a Guerra de Secessão americana marca um dos 
pontos de um ponto de inflexão na história da escravidão mundial. Longe de ser apenas 
um golpe único e fatal, os conflitos e resoluções travados durante e depois da guerra foram 
responsáveis por alterar a cadeia global da escravidão. Os imbróglios diplomáticos com 
a Grã-Bretanha frente a escravidão brasileira acirram-se desde 1845, mas não há até o 
início de 1860 qualquer elemento com potencial de desestabilizar a política nacional em 
favor da abolição. O estopim da guerra separatista, e a proclamação por parte da Grã-
Bretanha ao assumir e garantir a neutralidade no conflito, conferem a estabilidade 
brasileira dos últimos 15 anos seu primeiro baque quando o Império precisa se posicionar 
politicamente diante da guerra. Outros fatores globais também foram responsáveis pela 
“marcha da civilização” ocidental moderna rumo ao cerco da escravidão. A supressão da 
servidão russa e a abolição da escravidão pela Holanda marcam, junto ao posicionamento 
de outros estados europeus na neutralidade da guerra americana, o caminho rumo à 
adoção pelo trabalho livre. As medidas internacionais também não passaram em branco 
pela imprensa brasileira, em especial aquela escrita e lida pela Corte, que cada vez mais 
forçou posicionamentos políticos em favor da libertação dos escravos. 2 
 
1 PARRON, Tâmis Peixoto. A política da escravidão na era da liberdade: Brasil, Espanha e Estados 
Unidos, 1787-1845. Tese (Doutorado em História) - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, 
Universidade de São Paulo. São Paulo, 2015. 
2 YOUSSEF, Alain El. O Império do Brasil na segunda era da abolição, 1861-1880. Tese de Doutorado: 
FFLCH-USP, 2019. PP. 33-41. 
 
 
5 
 
A década de 1860 também foi marcante para o Império Espanhol, com novas 
investidas do império católico ao norte do continente Africano, ao sul da península 
asiática e nas suas antigas colônias da América central. No entanto as investidas militares 
de reincorporação das antigas colônias americanas fracassaram. Restavam apenas Cuba e 
Porto Rico ao Império espanhol, assim como restava a escravidão. Cuba, por sua vez, 
ainda abastecida pelo comércio ilegal de africanos sofre um choque quando entra em 
conflito com os Estados Unidos. Soma-se a isso a ampliação do decreto britânico dando 
poder aos Estados Unidos de costa-guardar e perseguir os navios escravistas nos mares 
caribenhos, e o fim próximo da escravidão caminhava em passos curtos. A década de 
1860 é marcada por choques e processos reestruturantes para a manutenção da escravidão 
negra nas Américas. 3 
A abolição da escravidão negra em Cuba ocorrerá apenas em 1886, todavia há na 
ilha caribenha a presença de um sistema misto de mão de obra desde os finais da década 
de 1840. Contando nas extremidades de uma linha imaginária de mão de obra com 
escravos e trabalhadores livres, há ainda a presença de trabalhadores contratados em 
estado de servidão, semi-servidão (indentured labor), ou trabalho coercitivo, em sua 
maioria chinesa. Vinculados fisicamente ao seu local de trabalho por termos estabelecidos 
no contrato de trabalho, - cinco anos nas jurisdições britânicas e oito anos nas jurisdições 
espanholas - o sistema de contrato de trabalho, apesar de ser política e juridicamente 
diferente da escravidão, também contava,ainda que ilegalmente, com um sistema de 
punições físicas, mobilidade restrita, e prisão em caso de desordem ou não cumprimento 
do contrato. Tornava-se difícil distinguir visualmente a escravidão do sistema de servidão, 
visto que ambos os grupos coexistiam em ambientes próximos e seguiam as mesmas 
metodologias de trabalho. 
Entre o final da década de 1840 e início de 1850, milhares de trabalhadores foram 
recrutados e transportados para diversas localidade, como Austrália, Cuba, Peru, Havaí, 
Califórnia, Guiana Britânica e na região de Réunion, uma ilha a leste do continente 
africano. Após as Guerras do Ópio (1839-1860), um conflito que econômico e político 
que usava o ópio para fechar a cadeia mercantil intercontinental do chá e suprir as 
necessidades da classe operária britânica, a costa do Sul Pacífico Asiático tornou-se 
acessível as potências ocidentais. Dois portos, um de Xiàmén ou Amoy (廈門) e outro de 
Guǎngzhōu ou Cantão (广州), foram então abertos para a imigração forçada de 
 
3 YOUSSEF, Alain El. Op. cit, 2019. PP. 87-100. 
 
 
6 
 
trabalhadores chineses em direção às diversas partes do globo, fato conhecido como 
coolie trade, ou chinese transnational migrations. As primeiras firmas de recrutamento 
de trabalhadores, principalmente britânicas, utilizavam serviços de recrutadores chineses 
autônomos (crimps), cujos métodos de recrutamento variavam entre persuasão sobre 
falsas alegações, coerção, intimidação e sequestro.4 O século XIX é marcado, portanto 
com os fluxos e refluxos globais de migração em massa de pessoas da Índia, China e 
Japão, como resultado do legado dos movimentos de emancipação e abolição da 
escravidão africana.5 Os coolies chineses e os africanos escravizados, como no caso 
cubano, eram transportados nos mesmos navios, sob as mesmas condições desumanas, 
trabalhavam nas mesmas plantações lado a lado e compartilhavam semelhanças nos 
modelos de resistência.6 Portanto a política brasileira da gestão da crise do cativeiro foi 
influenciada, entre outras possíveis soluções e projetos de imigração para sanar a dita 
crise de mão de obra, pela questão da mão de obra chinesa. Trataremos das confluências 
globais da migração chinesa no próximo capítulo. 
Os eventos e efeitos decorrentes da Guerra do Paraguai, da Reconstrução nos 
Estados Unidos, do declínio e cerceamento cada vez maior do tráfico e da escravidão no 
Império espanhol corriam, no Império do Brasil, como frutos a serem colhidos para 
propostas da abolição gradual. O Poder Moderador podia colocar a questão em pauta, mas 
as definições das políticas escravistas imperiais ainda se concentravam nas mãos 
contrárias ao avanço. No campo financeiro os altos custos da Guerra do Paraguai e as 
oscilações do preço do café, o principal produto de exportação brasileiro, faziam parte 
das preocupações imperiais. Devido a importância dos EUA e da Grã-Bretanha na carteira 
de exportações brasileira, o Império brasileiro permanecia em alerta com a ocorrência da 
Guerra Civil e de uma possível diminuição do consumo do café.7 
 
4 LAI, Walton Look. Chinese Overseas: Coolie Trade. In: PONG, David (Ed. In Chief). Encyclopedia of 
modern China, Charles Scribner’s Sons, 2009. Volume 1, A-E. PP. 23-247. 
5 Entendemos que as reestruturações globais no mercado de trabalho mundial alteraram os fluxos e refluxos 
globais de imigração. Longe de ser apenas a imigração asiática chinesa a única atingida pelo fim da 
escravidão. Esta é apenas a que escolhemos focar neste trabalho. 
6 HU-DEHART, Evelyn; LÓPEZ, Kathleen. Asian Diasporas in Latin America and the Caribbean: An 
Historical Overview. In: Afro-Hispanic Review, Volume 27, no. 1, 2008. PP.9-21. 
7 “Indissociável do cotidiano das sociedades urbanas industriais, cujos ritmos de trabalho passaram a ser 
marcados pelo consumo da bebida. [...] Não por acaso, o Brasil e os Estados Unidos - o paradigma dos 
novos modos de vida industrial e do consumo de massa - foram as duas pontas principais da cadeia da 
mercadoria ao longo do século XIX e na centúria seguinte.” MARQUESE, Rafael Bivar & TOMICH, Dale. 
“O Vale do Paraíba escravista e a formação do mercado mundial do café no século XIX”. In GRINBERG, 
Keila & SALLES, Ricardo (orgs.). O Brasil Imperial. vol. 2 - 1831-1870. Rio de Janeiro: Civilização 
Brasileira, 2009. P.373. 
 
 
7 
 
Concomitante à guerra na bacia do Prata, cada vez mais faziam-se presentes as 
sociedades abolicionistas e as revistas ilustradas na sociedade da Corte. Entre os anos de 
1868 e 1871 essas organizações foram responsáveis também pela pressão política e social 
que motivou a aprovação de leis provinciais em favor da abolição. A criação e presença 
de sociedades abolicionistas podem, portanto, levar o tema do cativeiro para as esferas 
sociais ao deslocar a pauta da liberdade dos meios políticos para a realidade. 8 O 
surgimento de um grupo notável de cartunistas e de revistas ilustradas, - como o alemão 
Henrique Fleiuss (1824-1882), o francês Joseph Mill (?-1879), o português Rafael 
Bordalo Pinheiro (1846-1905), e o italiano Angelo Agostini (1843-1910); e revistas como 
a Semana Illustrada (1860), Bazar Volante (1863), Vida Fluminense (1868), O Mosquito 
(1877), O Mequetrefe (1875), e, talvez mais importante da época, a Revista Illustrada 
(1876) - muitos de orientação liberal, anticlerical e até republicanos, foram responsáveis 
também por divulgar os acontecimentos nacionais e internacionais até mesmo àqueles 
que não sabiam ler. As revistas ilustradas foram elementos constitutivos na formação 
imagética de uma identidade nacional que, através de um determinado modo de 
sensibilidade, souberam traduzir o debate político e social trabalhando como um fórum 
de discussão política ao compor elementos simbólicos e materiais de uma nação.9 Mesmo 
as revistas contendo em si uma narrativa própria do autor e por vezes hiperbólica e 
fantasiosa, nos servem como um excelente documento iconográfico de discussão e de 
imaginário social da época.10 Veremos no terceiro capítulo, através da Revista Illustrada, 
como esses elementos constitutivos de construção e discussão social foram capazes de 
representar as discussões políticas, sociais e culturais sobre a questão chinesa em 
comparação com outras políticas imigrantistas e também em discussão com as teorias 
raciais da época. 
O antiescravismo ascendente no interior da geocultura oitocentista era sentido nas 
províncias, no território brasileiro e pairava também nas discussões políticas dos 
gabinetes conservadores. O problema do elemento servil ganhou um impulso sem 
precedentes nas discussões políticas oficiais. Enquanto na década 1850 podemos contar 
 
8 YOUSSEF, Alain El. Op. cit, 2019. PP.158-159. 
9 TELLES, Angela da Cunha Motta. Desenhando a nação: revistas ilustradas do Rio de Janeiro e Buenos 
Aires nas décadas de 1860-1870. Brasília: FUNAG, 2010. P.299. 
10 LEMOS, Renato. Uma história do Brasil através da caricatura 1840-2001. Rio de Janeiro: Bom Texto 
e Letras e Expressões, 2002. 
 
 
8 
 
menos de meia dúzia de projetos 11 , duas leis 12 , e dois decretos 13 sobre o tema da 
escravidão, sem diminuir a importância destes, a evolução global rumo ao fim da 
escravidão começou a caminhar em passos mais largos na virada do decênio. As décadas 
de 1860 e 1870, por outro lado, possuem inúmeros projetos, sendo dezesseis na década 
de 1860, e dez na década de 1870, seis decretos e duas leis14. O condicionamento dos 
discursos políticos em uma multicausalidade global foi apresentado por quase todos 
aqueles que desejavam defender ou abolir a escravidão. Portanto, as análises multicausais 
não são apenas fruto de uma historiografia recente, sendo parte integrante também dos 
discursos políticos da segunda metade do século XIX. 
O tráfico interno 
O tráfico interno brasileirosofre uma reformulação quantitativa com a 
transformação do tráfico de escravizados em atividade ilegal na década de 1850, sendo 
este o período de crescimento abrupto, mas que não alcança o maior nível histórico. A 
década de 1860 por sua vez apresenta taxas regulares em uma espécie de platô. A 
estabilidade dos níveis de comércio ilícito e clandestino deve-se em parte a Guerra Civil 
dos EUA, pois com a queda da produção Norte-americana de algodão, o Nordeste 
brasileiro assumiu uma posição importante na produção e venda desta commodity 
agrícola. O pós-guerra Civil nos Estados Unidos é marcado pela retomada econômica do 
crescimento da produção do algodão, o que gera no Brasil perda do mercado e crises nas 
fazendas destinadas a tal cultivo. Devido ao vácuo gerado pela guerra, a crescente 
produção norte americana, e a ampliação mundial da fronteira do algodão, há como 
consequência o barateamento do preço do algodão, que exclui o algodão brasileiro da 
equação. 
 
11 1850 - Projeto do Deputado Silva Guimarães a favor da liberdade para os nascidos de ventre escravo; 
projetos dos Senadores Holanda Cavalcanti e Cândido B. de Oliveira sobre tráfico de escravos (maio de 
1850). 1852 - Projeto do Deputado Silva Guimarães considerando livres os que nascessem de ventre escravo. 
1854 - Projetos nº 117 e s/nº do Barão de Cotegipe (J, M, Wanderlei) sobre comércio interprovincial de 
escravos e sobre alforria. 
12 1850 - Lei no 581, de 4/9/1850 (Lei Eusébio de Queiroz) sobre tráfico de africanos. 1854 - Lei nº 731, 
de 5/6/1854 – punição para capitão ou mestre, piloto ou contramestre de embarcação que fizesse tráfico de 
escravos. 
13 1853 - Decreto nº 1.303 emancipando, depois de quatorze anos, os africanos livres que foram arrematados 
por particulares. 1854 - Decreto nº 1.310, de 2/1/1854 manda executar a Lei de 10/6/1835 sem recurso, 
salvo o do Poder Moderador, em caso de pena de morte para os escravos. 
14 A lista completa dos documentos enumerados pode ser encontrada em Abolição no parlamento – vol. 1, 
Sumário Cronológico 1823-1883, assim como a indicação das páginas de cada projeto e a transcrição deles. 
 
 
9 
 
Nos EUA (Estados Unidos da América), a retomada econômica não demorou 
muito para conquistar os mesmos níveis de antes da guerra e dar maior poder de compra 
aos americanos, fazendo com que os estados americanos vivenciassem uma fome de café. 
As íntimas relações políticas e econômicas já discutidas entre o Império do Brasil e os 
Estados Unidos têm aqui mais uma vez sua comprovação na balança comercial brasileira 
e no tráfico interno. Com o aumento do consumo do café, a década de 1870 atinge o ápice 
do tráfico interno no Brasil movendo os escravos no binômio Norte-Sul e cidade-campo. 
Temos, portanto, nas décadas de 1860/70 uma reformulação na gestão da escravidão 
brasileira fruto das alterações globais da escravidão. Por fim, a década de 1880 representa, 
na curva das relações do tráfico interno, o período de diminuição através das legislações 
controladoras.15 O desenho da curva aqui mencionado traça um panorama sobre o tráfico 
interno brasileiro, principalmente se considerarmos o café e a expansão da fronteira 
agrícola no sudeste brasileiro. No entanto devemos mencionar ainda a título de 
importância a expansão da fronteira da borracha no Norte do país, que motivou uma onda 
de tráfico interno e de manutenção da escravidão, sendo o último entreposto escravista do 
país. 
 Diferentemente dos Estados Unidos, o Império do Brasil não exibia altas taxas de 
reprodução vegetativa entre os negros escravizados. Ainda assim, pode ter havido 
crescimento natural dentro de determinadas escravarias e fazendas através da vontade dos 
senhores de escravos, e talvez mais importante, através da formação de famílias negras 
por relações humanas afetivas. Nesse sentido, o ano de 1871 pode ser considerado como 
uma marca no declínio definitivo da era escravista. Conforme comentado, o Império do 
Brasil não mantinha uma política nacional de manutenção/ incentivo das escravarias 
através da reprodução natural. A Lei do ventre livre, definindo a libertação dos nascituros, 
findava, para o caso brasileiro, uma possibilidade de crescimento vegetativo através de 
reprodução natural de cativos assistida pelos fazendeiros. 
 
 
 
 
 
15 SLENES, Robert W. “Grandeza ou decadência? O mercado de escravos e a economia cafeeira da 
Província do Rio de Janeiro, 1850-1888”. In: COSTA, Iraci del Nero da (org.). Brasil: história econômica 
e demográfica. São Paulo: IPE/USP, 1986. 
 
 
10 
 
Gráfico 1 – Valor das exportações de café, algodão e açúcar (1859/60-1880/81) 
 
Fonte: Estatísticas históricas do Brasil: séries demográficas, econômicas e 
sociais de 1550 a 1988. (2ª edição revista e atualizada). Rio de Janeiro: IBGE, 
1990, pp. 345 (açúcar), 346 (algodão), 347 (borracha) e 350 (café). Apud. 
YOUSSEF, Alain El. 2019, P. 211. 
Em perspectiva comparada com a linha do tráfico interno comentada acima, nota-
se uma curva parecida com o valor das exportações do café no gráfico 1. Nada acontece 
por acaso. Com a queda no preço do algodão, a variação do açúcar, e a borracha ainda 
sem grande importância, foi o café o principal responsável pela manutenção do tráfico 
interno, da escravidão e da expansão da fronteira agrícola para regiões mais afastadas. A 
fome mundial pelo café, tendo os EUA como principal consumidor, acompanhada da 
Alemanha, Inglaterra e França, foi capaz de impulsionar o cultivo cafeeiro brasileiro para 
além do Vale do Paraíba, que sozinho não consegue suprir a demanda mundial. A 
expansão da fronteira agrícola do café para regiões mais afastadas só foi possível graças 
à alta dos preços internacionais, à expansão da malha ferroviária, à plausível e futura 
exaustão ecológica das regiões cafeeiras antigas, à uma maior obtenção de crédito, e às 
propostas de imigração e o subsídio das mesmas. No entanto foi o alastramento da malha 
ferroviária o fator responsável pela exploração máxima das regiões antigas do café; por 
uma maior concentração de renda e promoção da desigualdade social ao permitir maiores 
deslocamentos; pela mercantilização da terra; pelo barateamento do custo do frete nas 
regiões cafeeiras mais distantes; e pela criação e estruturação de um mercado de mão de 
obra, dando mais mobilidade aos trabalhadores nas novas regiões do café onde a 
escravidão era reduzida ou não existente. 
 
 
11 
 
Apesar de existentes desde a década de 1850 quando o tráfico transatlântico passa 
a ser de fato proibido, os principais problemas da lavoura escravista brasileira foram 
acumulados e postergados ao seu máximo alargamento até a abolição. Reduzido por 
grande parte da lavoura brasileira no binômio de falta de mão de obra e capitais, a redução 
em dois fatores dos macroproblemas brasileiros causados pela reformulação da gestão da 
escravidão pode, na verdade, ser reduzida ainda em um: o fim da mão de obra escravizada. 
A solução proposta para e pela lavoura era gerar um novo fluxo de trabalhadores, cujo 
número fosse expressivo o suficiente para exceder o necessário e manter assim os valores 
salariais reduzidos ao ponto da exploração pela não violência ser mais vantajosa para os 
senhores da terra. Surgem então de modo mais contundente, nas décadas de 1860/70, os 
principais projetos de imigração, subsidiada ou não, para substituição da mão de obra 
escravizada. No entanto é só com a imigração subsidiada, e a evolução política e social 
das relações entre trabalhadores e fazendeiros, que os projetos passaram de experiências 
malsucedidas para relações de trabalho assalariadas, passando por sistemas de parceria e 
colonato. Um dos projetos que antes margeava o pensamento social e político brasileiro 
passa a ser discutido com mais seriedade devido ao Congresso Agrícola, a imigração de 
asiáticoschineses - ou ainda chins ou coolies, visto que a maioria das opiniões 
manifestadas não diferenciava as distintas sociedades, sendo os primeiros chineses e os 
segundos indianos. As ampliações das fronteiras globais de mercadoria, além da primeira 
crise global do capitalismo, foram também responsáveis pelos primeiros grandes fluxos 
globais de imigração. As relações globais do capitalismo através das commodities 
agrícolas, antes restritas a determinadas regiões e sem possíveis grandes competidores 
tiveram, com o fim da escravidão mundial e o desponte de uma nova potência mundial, 
os EUA, uma reformulação no mercado mundial capitalista capaz de reestruturar as 
relações interestatais e ampliar o escopo de atuação não só dos espaços econômicos, mas 
também da atuação humana. A era do mundo conectado entra em atuação de forma ainda 
não vista. 
A ascensão do Gabinete Sinimbu (1878) e suas pautas políticas 
“Trocarmos o elemento africano pelo asiático, é o mesmo que escapar de Scylla e 
cahir em Charybides”, escreveu J. I Arnizaut Furtado em seu livro Estudos sobre a 
 
 
12 
 
libertação dos escravos no Brazil, publicado em 188316. Cila e Caribdes são figuras 
imortais e monstruosas da mitologia grega que guardam o Estreito de Messina, entre a 
Península Itálica e a Sicília, descritas no canto XII da Odisseia de Homero. A primeira 
figura pode ser descrita como “uma criatura feminina sobrenatural, com 12 pés e seis 
cabeças em longos pescoços, cada cabeça com uma tripla fileira de dentes semelhantes a 
tubarões, enquanto seus lombos eram cingidos pelas cabeças de cães latindo. ” Caribdes, 
por sua vez, “espreitava embaixo de uma figueira a um tiro de arco na margem oposta, 
bebia e arrotava as águas três vezes ao dia e era fatal para o transporte. Sua personagem 
era provavelmente a personificação de um redemoinho. ”17 
Figuras mitológicas imortais e monstruosas residentes em direções opostas de um 
pequeno estreito de rochas e mar, e que constituíam um dilema: estar entre duas 
alternativas igualmente desagradáveis. O dilema fica mais explícito na imagem abaixo da 
Revista Illustrada. A charge desenhada pelo artista Angelo Agostini (Figura 1) coloca ao 
centro a representação da lavoura brasileira em seus trajes típicos de senhorio, de seus 
fazendeiros escravistas, sendo sustentada por duas cabeças, uma negra escrava e outra 
asiática chinesa sobre um chão forrado de folhas e frutos de café e cana-de-açúcar. Ainda 
de cenho franzido, elas olham diretamente para o leitor, intimando-o a pensar aquilo que 
a legenda explicita: “Preto e Amarello. É possível que haja quem entenda que a nossa 
lavoura só pode ser sustentada por essas duas raças tão feias! Mau gosto!” A charge ácida 
e em tom de denúncia explicita não só o cancro da civilização brasileira, a escravidão, 
mas relaciona ainda a dependência da lavoura brasileira do século XIX à escravidão negra 
e a uma possível escravidão asiática chinesa. O dilema, nas imagens de Angelo Agostini 
e nas discussões da época sobre o tema, como veremos ao longo do texto, estava na 
escolha de duas raças. Escolher entre Scylla e Charybides, entre “Preto e Amarello”, era 
estar entre duas alternativas igualmente desagradáveis. 
 
 
 
 
16 FURTADO, J. I. Arnizaut. Estudos sobre a libertação dos escravos no Brazil. Typographia da Livraria 
Americana, 1883. 
17 Scylla and Charybdis. Disponível em: <https://www.britannica.com/topic/Scylla-and-Charybdis> 
Acesso em 28 de julho de 2020. Tradução livre. 
 
 
13 
 
Figura 1 - “Preto e Amarello” 
 
Fonte: “Preto e Amarello”. Revista Illustrada, n. 258. Rio de Janeiro, 1881 
(Capa). Disponível em: DAMI, Acervo Digital. Coleção Revista Illustrada. 
https://museuimperial.museus.gov.br/ 
https://museuimperial.museus.gov.br/
 
 
14 
 
A ascensão de João Lins Vieira Cansanção de Sinimbu, o Visconde de Sinimbu, 
em 5 de janeiro de 1878, a dois cargos dentro do conselho de ministros imperiais, é tão 
importante quanto o congresso agrícola que ele irá convocar em 1878. Nascido no famoso 
engenho alagoano Sinimbu, a vida do Ministro vem carregada ainda por laços familiares 
importantes na historia de Alagoas. Sem informações concretas sobre a posse de escravos 
pelo Ministro alagoano18, foi necessário revirarmos a vida de seus pais: o capitão de 
ordenanças Manoel Vieira Dantas e Ana Maria José Lins. Tais personalidades são 
importantes tanto na historia de Alagoas, quanto na historia Imperial brasileira, tendo a 
família participado na Revolução Pernambucana (1817) e na Confederação do Equador 
(1824). Mesmo que ainda moço, com 7 e depois 24 anos, Sinimbu teve um significativo 
papel ao lado de seu pai na fuga pelo território alagoano após sua condenação à morte 
pela participação da insurgência contra a Monarquia em 1824.19 Homem político de longa 
data, desde 1840, Sinimbu já havia atuado em lideranças provinciais, no conselho de 
ministros e em outras funções políticas. Passando até por uma situação de denúncia de 
falência quando assume o Banco Nacional, gerando discussões nos meios políticos, com 
a sugestão de que o então diretor deveria estar preso se não fosse o seu foro de senador. 
Ministro das Relações Exteriores no Gabinete Ferraz (1859-1861), e Ministro da Justiça 
durante algum tempo no Gabinete Olinda (1862-1864), o político alagoano teve intensa 
vida política na década que reformulou as bases do cativeiro nacional. 
A escolha de político da província de Pernambuco para o cargo de Presidente do 
Conselho de Ministros e de Ministro da Agricultura, Comércio e Obras Públicas para o 
27º gabinete imperial não foi por acaso. Assumindo dois importantes cargos dentro da 
pasta, Sinimbu possuía poderes políticos como uma espécie de primeiro-ministro, pois 
 
18 No entanto há informações no Diário do Rio de Janeiro de 1825 da fuga de um escravo a serviço do 
Capitão Manoel Vieira Dantas. “50. Fugiu no dia 7 do corrente da Fortaleza de Villegaihnon, um escravo 
de nome Roque, pardo, e de idade 14 anos pouco mais ou menos, tem os sinais seguintes: cabelo 
carapinhado, baixo, e cheio de corpo, levou jaqueta, e calças pardas, e chapéu de baeta, fugiu indo a serviço 
de seu Sr. que é o Capitão Manoel Vieira Dantas, que se acha na mesma Fortaleza; roga-se qualquer capitão 
do mato, ou outro pessoa que dele saiba, queira dar noticia na Cidade Nova na rua das Flores n. 62, que ali 
se lhe satisfará seu trabalho.” Diário do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, ano 1825, número 18, edição 500018, 
p. 74, Escravos Fugidos. 
19 Informações sobre os processos referentes ao pai de Sinimbu e sua história podem ser encontrados ainda 
no: Diário de Pernambuco, Pernambuco, ano 1832, número 460; Annaes do Parlamento Brasileiro, 
Câmara dos Senhores Deputados, quarto ano da Sexta Legislatura, Sessão de 1847, Tomo Segundo, pp. 
343-347; e O Brasil Histórico: Jornal Histórico, Politico, Literário, Cientifico e de Propaganda 
Homeopática, Rio de Janeiro, Ano 1, número 35; e COSTA, Craveiro. O visconde de Sinimbu: sua vida e 
sua atuação na política nacional (1840-1889). São Paulo, Companhia Editora Nacional, Brasiliana, 
Biblioteca Pedagógica Brasileira, série 5ª, Vol. 79. Disponível em http://bdor.sibi.ufrj.br/handle/doc/161. 
http://bdor.sibi.ufrj.br/handle/doc/161
 
 
15 
 
atendia aos interesses diretos do Imperador para limar a base conservadora, e liderava a 
esfera política liberal em duas importantes funções. 
O presidente do Conselho de Ministros possui, como uma de suas funções, ser a 
ligação direta entre o quadro ministerial e o governo imperial, além de fazer a escolha, 
opinativa pelo poder moderador, dos outros ministros. A Secretaria de Estado dos 
Negócios da Agricultura, Comércio e Obras Públicas, criada em 1860 e regulamentada 
em 1861, tem como base o processo de modernização do império.20 No primeiro relatório 
da pasta,o então Ministro Manoel Felizardo de Souza e Mello (1805-1866), presente no 
Gabinete Caxias (1861), manifestou alguns fatores para a modernização da agricultura no 
país que, como veremos ao longo do texto, foram recorrentes no século XIX. A legislação 
do crédito hipotecário e territorial, facilitando a aquisição de capitais para a modernização 
das lavouras e fazendas; a construção e melhoramento das estradas de ferro para melhor 
escoamento da produção; a instrução dos lavradores através de escolas primárias de 
ensino teórico e prático; e o incentivo a imigração para o país foram as principais pautas 
da nova Secretaria e do Gabinete liderado pelo marquês de Caxias.21 Em linhas gerais, os 
apontamentos que norteiam as discussões políticas sobre a escravidão de toda a segunda 
metade do século XIX brasileiro e, em especial das décadas de 1850, 60 e 70, são os 
mesmos do Congresso Agrícola convocado por Sinimbu no ano de 1878: modernização 
da lavoura, vias de comunicação, crédito agrícola, projetos de imigração, substituição da 
mão de obra escravizada, crise do cativeiro e instrução profissional - com o adicional dos 
projetos de imigração asiática chinesa para substituição da mão de obra negra escravizada. 
 
20 LOUISE, Gabler. A Secretaria de Estado dos Negócios da Agricultura, Comércio e Obras Públicas e a 
modernização do Império (1860-1891). Cadernos MAPA n. 4. Memória da Administração Pública 
Brasileira. Rio de Janeiro, Arquivo Nacional, 2012. pp.10-11. “De acordo com o decreto n. 2.747, a nova 
secretaria teria atribuições que anteriormente pertenciam às Secretarias de Estado dos Negócios do Império 
e da Justiça. Os negócios relativos a iluminação pública da Corte, telégrafos, o serviço da extinção dos 
incêndios e as companhias de bombeiros, vieram do Ministério da Justiça. As atribuições originárias da 
pasta do Império eram mais numerosas, tais como os assuntos relativos ao comércio, à indústria e à 
agricultura, e também os seus meios de fomento, desenvolvimento e ensino, introdução e aclimatação de 
espécies, os jardins botânicos e passeios públicos, os institutos agrícolas, assim como a Sociedade 
Auxiliadora da Indústria Nacional e quaisquer outras que se propusessem aos mesmos fins, os assuntos 
relativos à mineração, a autorização para incorporação de companhias ou sociedades relativas aos ramos 
de indústria, a concessão de patentes e prêmios pela introdução de indústria estrangeira, os negócios 
concernentes ao registro de terras, a colonização, a catequese e civilização dos índios, as missões e 
aldeamentos, as obras públicas gerais no município da Corte e nas províncias e as repartições encarregadas 
de sua execução e inspeção, as estradas de ferro, de rodagem e quaisquer outras, bem como as companhias 
ou empresas encarregadas de sua construção, conservação e custeio, a navegação fluvial, os paquetes e os 
correios terrestres e marítimos.” 
21 Idem ibidem, p.13. 
 
 
16 
 
Devemos estar alertas que, no entanto, todos os apontamentos eram pano de fundo para a 
principal discussão da época, a crise da escravidão. 
As discussões decorrentes do primeiro Congresso Agrícola de 1878 serão o 
enfoque dessa sessão. Mencionaremos também, em perspectiva comparada, o congresso 
agrícola convocado pelas províncias do Norte, ou o segundo Congresso Agrícola. 
Juntamente com uma análise geopolítica dos presentes, as regiões lavoureiras, seus 
principais produtos, e a espaço-temporalidade de cada região. Mapearemos também as 
posições da lavoura brasileira contidas nos anais do Congresso em relação aos assuntos 
propostos pelo governo, e outros surgidos no decorrer do congresso para as resoluções da 
crise do cativeiro. Precisa-se reforçar, no entanto, que os Congressos Agrícolas não 
devem ser vistos como um ponto final nas reformulações dos processos políticos 
econômicos do Estado Imperial brasileiro, e nem mesmo um “raio do céu sem nuvens”. 
Também não são parte de uma linha escatológica rumo à modernidade, sendo apenas uma 
das diversas medidas tomadas no âmbito imperial brasileiro que atendia, ou buscava 
atender, aos interesses específicos de uma reduzida elite que comandava as receitas do 
império. Não que fossem os fazendeiros e senhores de escravos detentores de toda a 
receita imperial brasileira, mas, como vimos, os produtos da agro exportação brasileira, 
entre eles o café e o açúcar em maior importância, representavam bem mais da metade 
das receitas imperiais, junto da escravidão. Ao considerar ainda os bancos, hipotecas, 
empréstimos, casas comissárias, capitalistas, e as redes de ligações de todos envolvidos 
de alguma maneira na escravidão e/ou no café, um abrupto colapso nos negócios 
escravistas representaria também um colapso imperial. 
Congresso Agrícola do Rio de Janeiro 
O Congresso Agrícola do Rio de Janeiro, convocado por João Lins Vieira 
Cansanção de Sinimbu, Ministro da Agricultura e Obras Públicas e presidente do 
Conselho Agrícola de 1878, buscou opiniões e resoluções sobre a crise da lavoura 
brasileira ao considerar a grande lavoura a base da riqueza nacional e das instituições 
civis e políticas do Império. 
Congratulo-me convosco por nos acharmos hoje aqui reunidos, eu como 
representante do Governo, e vós que representais essa importante classe, sobre a 
 
 
17 
 
qual se firma a riqueza nacional e, com esta, as instituições civis e políticas do 
Império.22 
O discurso proferido pelo então ministro na 1ª Sessão em 8 de julho de 1878, ao 
alinhar seu posicionamento com as opiniões manifestadas pelo Poder Moderador, visou 
percorrer os grandes problemas da indústria agrícola brasileira. Ora limitada às regiões 
Centro-Sul do Império - Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e Espírito Santo - a 
convocação do Congresso deveria servir a todos aqueles que mantinham interesse na 
lavoura brasileira. No entanto, ao olhar em perspectiva com a subsequente convocação 
do Congresso Agrícola do Recife como uma espécie de ato político, e a importância 
econômica, política e social, também destacada por Sinimbu em seu discurso, da região 
da Corte, não foi apenas por questões logísticas que o Congresso foi convocado no Rio 
de Janeiro. A lavoura próspera e problemática do Sudeste compôs todas as discussões do 
evento ao serem discutidos seus principais problemas. Para o político nordestino, a 
lavoura do Brasil encontrava-se estacionária tecnologicamente em comparação a nações 
similares. 
Na situação atual de nossa grande lavoura, quando uma profunda 
evolução social se opera; quando completamente se transformam as condições 
do trabalho rural; quando países análogos ao nosso, com produções similares, 
procuram progredir por todos os meios, mediante máquinas e processos os mais 
aperfeiçoados, que as ciências — a química, a física e a mecânica — em suas 
variadas aplicações, tem posto ao serviço da indústria agrícola, conservamo-nos 
estacionários no meio desse grande movimento, sem ao menos empenharmos os 
esforços ao nosso alcance para evitar que enfraqueçam ou se estanquem as fontes 
da produção nacional, seria, senhores, permitam-me dizê-lo, não somente um 
erro, mas um grave crime, perante o tribunal da geração vindoura.23 
A profunda revolução social que transformava as condições de trabalho rural era, 
para o caso brasileiro, o cerceamento internacional e nacional do cativeiro negro que, nas 
palavras do Ministro, poderiam enfraquecer ou estancar as fontes da produção nacional. 
Além disso, enquanto a escravidão e a mão de obra escrava fossem possíveis para o 
trabalho e para a obtenção de crédito agrícola através de hipotecas e empréstimos 
desempenhavam com eficiência o papel de capital fixo. 
 Seguindo o discurso, o Presidente do Congresso Agrícola entende estar a grande 
lavoura brasileira se sentindo ameaçada e justifica a convocação da sessão como uma 
forma de auxiliar e criar um nexo entre a grandelavoura brasileira e o governo - a pequena 
 
22 Congresso Agrícola. Rio de Janeiro, 1878: Anais. Introdução e notas de José Murilo de Carvalho. Rio de 
Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1988, p.125. 
23 Ibidem, p.125. 
 
 
18 
 
lavoura, mesmo não sendo o foco do congresso, também é “destinada a exercer justa 
influência na riqueza e prosperidade nacionais”. 
A marcha da sociedade está, porém, sujeita às leis naturais que não 
podem ser alteradas somente pela vontade dos homens; e, por enquanto, nas 
condições atuais do país, é força reconhecer, a grande propriedade tem sido, e 
continuará, ainda por muitos anos a ser, a poderosa alavanca do nosso 
progresso em suas variadas manifestações — progresso moral, social, 
econômico e político.24 
 Para Sinimbu, a grande lavoura é fundadora da nação brasileira, assim como a 
grande propriedade é a riqueza nacional. Sinimbu discursa ainda uma ode a grande 
lavoura/ escravidão como a responsável por todo e qualquer avanço benéfico na sociedade 
brasileira, desde a consolidação do território brasileiro, à proclamação da independência. 
A grande lavoura está no lugar de plantation e plantation no lugar de escravidão. Portanto 
a decadência da lavoura só traria ruína e falência ao Império brasileiro. 
Em época, anterior à nossa emancipação política, quando os recursos do 
país eram aplicados em benefício da longínqua metrópole, quem abriu as 
principais vias regulares de comunicação através de nossas matas virgens, 
abateu florestas, fundou fazendas, levantou igrejas e criou escolas? A grande 
lavoura. Cada novo estabelecimento rural que se formava, constituía um foco de 
progresso e civilização, d’onde se irradiava com o trabalho uma vida inteiramente 
nova em uma atmosfera de felicidade. 
Mais tarde, quando assomou a aurora da liberdade, de onde surgiram os 
primeiros raios do espírito nacional, quem levantou, armou e conduziu esses 
bravos paisanos que proclamaram a independência da pátria? Foi ainda a 
grande lavoura. 
O modo como ela se fundou é fato ainda de nossos dias, mas digno de 
ser comemorado. A condição colonial do país não oferecia a mocidade outra 
carreira senão a cultura das terras.25 
Fruto também da decadência da grande lavoura é o oneroso interesse social no 
funcionalismo público que faz inchar as receitas imperiais. Enquanto a lavoura era foco 
do interesse das famílias, com a sua decadência os pais têm mandado seus filhos as 
cidades para estudar e tornarem-se funcionários públicos. Movimento do campo para a 
cidade. Deve-se opor ao movimento do campo (lavoura) para a cidade (academias) para 
salvar a pátria. Outro ponto igualmente importante no discurso é a diminuição da 
aquisição do principal instrumento de trabalho na lavoura: os escravizados. 
Começou para a grande lavoura o período difícil. A aquisição do 
principal instrumento do trabalho, em razão de sua escassez, subiu de preço, o 
 
24 Ibidem, p.126. Grifo nosso. 
25 Idem ibidem. Grifo nosso. 
 
 
19 
 
que, aumentando o custo da produção, sem dar-lhe equivalente melhoramento 
nos processos de cultura e fabricação, colocou nos grandes mercados generosos 
de nossa indústria agrícola em condições de inferioridade perante produtos 
similares. 
Daí datam os primeiros embaraços de nossa lavoura, que, se já não está 
mais decadente, deve-o à fertilidade do solo e à natureza especial do clima que 
possuímos. 
Estremecida a grande lavoura, limitado o seu horizonte a um próximo 
futuro cheio de incertezas, era natural que as aspirações da população tomassem 
nova direção. Foi essa a origem da tendência por todos manifestada para a 
carreira do funcionalismo, uma das enfermidades sérias da atualidade.26 
As reformulações ocorridas na lavoura brasileira através do cerceamento do 
tráfico de escravizados geraram não só uma escassez do “principal instrumento de 
trabalho”, como, conforme observamos, faz crescer a procura do tráfico interno. Razão 
essa responsável não só pelo aumento do preço dos cativos, mas também pelo aumento 
do custo da produção no cultivo das commodities agrícolas. Para Sinimbú, no entanto não 
há por que a grande lavoura se preocupar, pois a forma social escravista entre grande 
propriedade-plantation e grande lavoura-escravidão será mantida. 
Em nosso programa de governo e administração nada se há de antepor a 
consolidação da liberdade política e aos meios de evitar a decadência da grande 
propriedade. 
Estes dois problemas, embora pareçam de condição diversa, por 
pertencer um a ordem política e outro à ordem econômica, são, todavia, de 
origem comum e ambos tendem ao mesmo fim - a felicidade de nossa pátria —, 
pois é fácil de compreender que não se pode esperar fazer de um país pobre um 
povo livre. 
Ao vincular seu discurso, o programa do congresso, o programa do governo e os 
problemas da grande lavoura, tema central a ser discutido no Congresso Agrícola, 
Sinimbu cria uma construção verbal de unidade política no intuito de aproximar os 
membros da lavoura das decisões políticas imperiais. Nas palavras do político, foi o 
cerceamento do tráfico de escravos, e a íntima relação destes com o valor estimado da 
propriedade agrícola, “cujo valor é determinado pelo número de braços adstritos ao seu 
cultivo”27, o principal agravante para o aviltamento da lavoura, pois com ele deprimiu-se 
o crédito agrícola e consequentemente a qualidade dos estabelecimentos rurais. Para a 
resolução desse problema que acometia a lavoura, a solução proposta é a de reconstruir 
as bases da lavoura brasileira através do trabalho livre em vias de uma transição das 
 
26 Ibidem, p.127. 
27 Ibidem, p.128. 
 
 
20 
 
condições de trabalho, mas que não rompam com a ordem estabelecida e não produzam 
perturbações de ordem econômica. 
A verdade é que a crise da lavoura aqui se manifesta com suas 
consequências naturais. Encará-la de frente, sem pensar por um só momento em 
voltar atrás, procurar os meios convenientes e eficazes para debelá-la, 
reconstruindo a propriedade rural sobre as bases do trabalho livre, é esta, 
senhores, a nossa e a vossa principal missão. 
Neste ponto todos estamos de perfeito acordo; é da maior conveniência 
que essa inevitável transição nas condições do trabalho se realize sem 
perturbação na ordem econômica. 
Começam, porém, as divergências, logo que se trata da escolha dos 
meios. 
Em geral a fórmula se traduz pela aquisição de capital e de braços.28 
Conforme analisado até agora, o discurso de Sinimbu em paridade com o governo 
e os anseios da grande lavoura relacionou o fim da escravidão com a depressão do crédito 
agrícola, sendo uma solução necessária a de reconstruir a propriedade agrícola sobre as 
bases do trabalho livre. Com o alicerce da propriedade agrícola sendo fundamentado no 
valor referente ao número de braços adstritos ao seu cultivo, Sinimbu adverte que a da 
propriedade agrícola encontra-se em uma base instável que pode gerar a precariedade e 
ruína delas. A fórmula, portanto, para tal a reconstrução seria a aquisição de capital e 
braços, pois dessa maneira a propriedade agrícola encontrar-se-ia livre das bases instáveis, 
uma maior linha de crédito rural seria estabelecida, e a aquisição de trabalhadores livres 
reformularia não só a indústria agrícola, como também as estruturas basilares da 
sociedade brasileira. 
Em relação à aquisição de trabalhadores, “todos desejam”, mas “manifesta-se 
igual discordância quanto à procedência. ”29 
Há aqueles que preferem o trabalhador branco europeu, no entanto, alerta Sinimbu, 
que além da costumeira vinda para o trabalho assalariado, esse grupo social vem para 
tornar-se proprietário de terras, e não trabalhar como empregado. Ainda aqueles que são 
assalariados possuem a necessidade de uma remuneração mais alta, pois as condições 
sociaislocais europeias moldaram o padrão de vida e o patamar de renda aceitável pelo 
trabalhador europeu. Em relação ao trabalhador nacional, este é um elemento incerto, pois 
há “contra si o fato de se não prestar a serviço contínuo e aturado. ”30 Colocar, portanto, 
o futuro de uma indústria tão laboriosa nas mãos de um trabalhador incerto seria errar no 
 
28 Ibidem, p.128. 
29 Idem ibidem. 
30 Ibidem, p.129. 
 
 
21 
 
tempo e levar a falência a indústria nacional. Como saída para a questão da mão de obra, 
a proposta do governo é a de importar coolies/chins31 para suprir a falta da mão de obra 
negra escrava e reerguer a lavoura nacional. Dessa maneira, Sinimbu trabalha com 
categorias raciais como forma de controlar o custo da reprodução social da força de 
trabalho numa sociedade pós-escravidão, um dos modulares de distribuição de mais valor 
para o proprietário. 
Longe disso, a Maurícia voltou suas vistas para Bengala, de onde 
importou grande quantidade de coolies, e com o trabalho deles conseguiu 
indenizar-se da perda do braço escravo, aumentando consideravelmente sua 
riqueza agrícola. 
Na mesma fonte foi o Ceilão prover-se de 200.000 trabalhadores; e já 
apresenta no mercado uma produção anual de 3.500.00 arrobas de café, cuja 
cultura regular data apenas do ano de 1837. O Peru que, a poucos anos, exportava 
insignificante quantidade de açúcar, e que já começa a fazer-nos concorrência 
nos mercados do Chile e do Rio da Prata, foi buscar seu fornecimento de braços 
na China, de onde Cuba importou também os 60.000 trabalhadores, que vão 
suprindo a falta do trabalho escravo. 
O mesmo acontece em outros lugares das Antilhas; e, até os próprios 
Estados Unidos, tão ciosos da pureza do sangue saxônio, não desdenharam 
importar da China a massa de trabalhadores, com que povoaram grande parte da 
Califórnia; e, se hoje os repelem, é pela mesma razão que a outros países, pouco 
providos de braços para a grande lavoura, convém importá-los. 
“Não devo, porém, dissimular que contra a imigração asiática opiniões 
muito respeitáveis se declaram entre nós; e neste ponto se manifestam também 
as divergências. ”32 
Usando os exemplos da imigração asiática chinesa para as Ilhas Maurícia, Ceilão, 
Peru, Cuba e Estados Unidos, Sinimbu insere o Brasil no contexto global da crise da 
escravidão e busca uma solução já utilizada em outros territórios. Consegue-se notar 
também que a utilização da mão de obra asiática chinesa funcionaria como um movimento 
transitório entre o trabalho escravo e o trabalho livre, no entanto ao decorrer do texto e 
dos discursos proferidos, o que ocorreria seria um novo movimento de escravização. 
Os asiáticos ou a “raça amarela” entram no pensamento da época como uma raça 
intermediária entre os brancos e os negros e alguém que poderia dar conta do trabalho 
sem gerar grandes revoluções na sociedade brasileira. Surge então um projeto de 
imigração chinesa com a roupagem de um movimento transitório entre os negros 
escravizados e os brancos europeus. O estereótipo pejorativo do asiático predominou nas 
 
31 Através da leitura corrida do Anais do Congresso Agrícola não há a distinção, por grande parte dos 
participantes, dos termos descritos. Coolies e chins são usados para representar uma mesma categoria de 
trabalhadores asiáticos. Um dos poucos discursos onde há a distinção marcada dos termos é o do Sr. A. 
Scott Blacklaw, inglês, e representante do The New London & Brasilian Bank (Limited). 
32 Congresso Agrícola, p.129. 
 
 
22 
 
discussões sobre um possível projeto de imigração, sendo este debatido em diversos 
planos sociais.33 
Ao terminar o discurso, Sinimbu agradece aos participantes, inscritos no 
congresso, e aqueles que manifestaram as suas opiniões. Há a escolha ainda de dois 
secretários para o auxílio das discussões, sendo eles, Srs. Drs. Manoel Peixoto de Lacerda 
Werneck, município de Vassouras, e Antonio Moreira de Barros, do município de 
Taubaté. Em seguida, dá-se a palavra a todos aqueles que gostariam de manifestar suas 
opiniões sobre os temas da grande lavoura, e sobre os temas presentes no questionário 
enviado previamente ao Congresso Agrícola. 
Vale mencionar que houve em 1878, o Congresso Agrícola do Recife, convocado 
pela Sociedade Auxiliadora da Agricultura de Pernambuco. Ocorrido entre os dias 6 e 13 
de outubro, o congresso reuniu duzentos e oitenta e oito representantes da lavoura do 
Norte.34 Na reunião do Norte, o intuito era de discutir sobre as resoluções e propostas 
apresentadas no Congresso Agrícola do Rio de Janeiro, visto que, mesmo os 
representantes da lavoura se enxergando em uma classe comum, os interesses regionais 
eram divergentes e nem todas as resoluções atendiam aos diferentes questionamentos, 
como a seca do Norte. Apesar de o Congresso Agrícola de Recife manter o mesmo 
formato do ocorrido no Rio de Janeiro podemos notar que, pela diferença de anseios e 
expectativas, os assuntos abordados por essa comissão foram outros, devido, obviamente, 
as diferentes demandas da lavoura do norte do Brasil. 35 A participação política do 
Congresso Agrícola do Recife contou uma gama de representantes políticos, 
comerciantes, e membros da grande lavoura do Norte do país que, no intuito de mapear 
as causas da crise da agroindústria que atingia sua região, produziram um ato político de 
resposta à centralidade política do Império. 36 Os principais assuntos do congresso 
 
33 Para um panorama geral do debate, cf. SCHWARCZ, Lilian Moreira. O Espetáculo das raças. Cientistas, 
instituições e questão racial no Brasil, 1870-1930. São Paulo. Companhia das Letras, 1993. & COSTA, 
Emília Viotti da. Da Senzala à Colônia. Capítulo 2. Editora Unesp, 2012. 
34 PERES, Victor Hugo Luna. Os “Chins” nas sociedades tropicais de plantação: estudo das propostas de 
importação de trabalhadores chineses sob contrato e suas experiências de trabalho e vida no Brasil (1814-
1878), Recife, 2013, p. 151. 
35 “Entre as principais discussões levadas a cabo por estes homens estavam a dos créditos, a dos 
melhoramentos e a dos braços, em escala de importância. No que concernia aos braços, as principais 
preocupações e soluções apontadas parecem ter sido a criação de instrumentos legais que conduzissem os 
trabalhadores, ditos ‘ociosos’, para o trabalho das lavouras, fossem eles flagelados, ex-escravos ou ingênuos. 
Quanto à possibilidade de imigração europeia, apesar de alguns poucos entusiastas, a maioria dos 
congressistas resignava-se ao fato então compreendido como justificativa para a não vinda desta ordem de 
trabalhadores de que o clima e o ambiente do Norte eram hostis aos mesmos.” Idem, P. 151-152. 
36 “Os congressistas, que faziam parte da elite da região, representavam: os proprietários agrários da zona 
de exportação do mercado de Recife, fazendeiros de outras províncias do Nordeste que participavam do 
 
 
23 
 
nordestino, além das discussões em perspectiva comparada com o congresso sulista foram 
as secas constantes; escassez de créditos agrícolas; precariedade e alto custo dos meios 
de transporte; transição do trabalho escravo para o trabalho livre; exportação dos escravos 
para a região cafeeira do Sudeste; rotina do trabalho; falta de ensino profissionalizante; 
combate à ociosidade e vadiagem; relação entre estagnação econômica e organização 
política; relação entre credores e devedores; organização do crédito hipotecário; papel do 
Estado; imposto territorial; protecionismo europeu ao açúcar de cana produzido em suas 
colônias antilhanas; concorrência do açúcar de beterraba fabricado na Europa, etc.37 
Cada região do Brasil caminhava em seu próprio ritmo, fruto não só das 
reformulações globais, mas também de processos interdependentes socioespaciais. Em 
especial ao caso nordestino podemos citar ainda aconcorrência internacional do açúcar 
com a ilha de Cuba e ao açúcar de beterraba europeu. Conforme analisamos, os fluxos do 
tráfico interno, a expansão algodoeira, o aumento do preço do café frente a decadência do 
preço do açúcar, e ainda uma grande seca que assolou o nordeste do país durante a década 
de 1870 são alguns dos fatores que demonstram distintos processos frente a reformulação 
da escravidão, da expansão agrícola e dos novos fluxos de mão de obra. 
O artigo de José Flávio Motta e Luciana Suarez Lopes38, em concordância com a 
tese de Peter Eisenberg39, com o objetivo geral de analisar os anais dos congressos 
agrícolas de 1878, através de dois pontos específicos, a questão de capitais e crédito 
agrícola,40 foca em analisar a posição do Sul, colocando-a em confronto com a posição 
do Norte sobre as necessidades da lavoura; as distinções que marcaram as convocações 
 
mercado exportador com a produção de outros gêneros agrícolas, como o algodão; agricultores; membros 
da sociedade Auxiliadora da Agricultura de Pernambuco; delegados de várias corporações relacionadas à 
lavoura; homens do comércio; representantes do poder político imperial, como o presidente da província 
de Pernambuco; representantes da imprensa da região; etc.” RODRIGUES, Giselle. O Canto Dos Cisnes. 
Análise Do Pensamento Sobre A Crise Do Nordeste Nos Anais Do Congresso Agrícola Do Recife – 1878. 
Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Estadual 
de Maringá. Maringá, 2008. p.29. 
37 Idem ibidem, p.35. 
38 MOTTA, José Flávio; LOPES, Luciana Suarez. Os cisnes cantam e a onda verde passa. Os congressos 
agrícolas de 1878 e a demanda da lavoura por capitais. Econ. Soc., Campinas, v. 28, n. 2, p.587-
614, agosto. 2019. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-
06182019000200587&lng=en&nrm=iso>. Acesso em 16 de outubro de 2020. 
39 “[...] tanto os fazendeiros do Vale do Paraíba e do Sul de Minas, quanto os do Oeste Paulista, eram 
membros de uma só classe, uma classe baseada na exploração de grandes propriedades particulares e rurais, 
e trabalhadores diretos escravizados e, em grau menor, livres sem ser assalariados. Como qualquer classe, 
ela teve as suas divisões internas, mas em 1878 as divisões não obedeciam a divisões geográficas.” 
EISENBERG, Peter. A mentalidade dos fazendeiros no Congresso Agrícola de 1878. In: AMARAL LAPA, 
José Roberto do (Org.). Modos de produção e realidade brasileira. Petrópolis: Vozes, 1980. p. 167-194. 
40 “V) A grande lavoura sente carência de capitais? No caso afirmativo, é devido este fato à falta absoluta 
deles no país, ou à depressão do crédito agrícola? VI). Qual o meio de levantar o crédito agrícola? Convém 
criar estabelecimentos especiais? Como fundá-los?” Congresso Agrícola, 1988, p. 1. 
 
 
24 
 
para os congressos; as manifestações dos congressistas; e o confronto entre demandas do 
Sul e do Norte. 
Considerando que o congresso do Rio de Janeiro foi convocado primeiro, e o de 
Recife como resposta, o confronto entre as províncias do Sul e do Norte dá-se apenas no 
campo da oratória entre grande parte daqueles que manifestaram a palavra. A onda verde, 
ou seja, o movimento de expansão e interiorização do café, característico das províncias 
do Sul, exigia, através das opiniões manifestadas dos fazendeiros, a necessidade de 
crédito agrícola e a expansão do sistema bancário, devido ao problema de mão de obra e 
do aumento do custo do transporte. Enquanto os cisnes açucareiros do Norte viam suas 
dificuldades limitadas por dois grandes obstáculos, a redução dos preços de produtos de 
exportação do Nordeste e o impacto da seca enxergavam-se um dinamismo maior 
característico das províncias sulistas e uma estagnação das províncias do Norte. 
No centro-sul, as discussões, de maneira geral, giram em torno de alguns 
problemas. A falta, ou do direcionamento, do capital para os lavoureiros. Há aqueles que 
reclamam da não existência de capitais, e outros que direcionam o problema aos bancos, 
que não emprestavam dinheiro aos fazendeiros. O problema de braços, ou seja, a falta de 
mão de obra. Notam-se opiniões de diferentes pesos para o uso do trabalhador nacional, 
mas sempre através do estigma da vagabundagem e de leis que a proíbam. Sobre os 
decretos de 1864 e 1875, que versam sobre a concessão de crédito agrícola e hipoteca, a 
conclusão dos autores é que a maioria dos fazendeiros que manifestaram seu 
descontentamento e opiniões sobre as questões de capital e crédito agrícola desconhecia 
e/ou eram ignorantes quanto às finanças imperiais. Queria-se apenas crédito a juros 
módicos e prazos longos. 
Os números do Congresso Agrícola: um congresso do café 
Através de uma análise quantitativa do Congresso Agrícola, em conjunto da 
perspectiva histórica do final do século XIX, consegue-se melhor visualização dos 
participantes, suas localidades e respectivas culturas. A tabela a seguir dá um panorama 
dos componentes por província, sendo Rio de Janeiro, São Paulo e Minas as localidades 
com o maior número de integrantes. Deve-se apenas levar em consideração que há casos 
 
 
25 
 
de uma pessoa representando mais de um município, no entanto, são apenas 6 (seis) casos 
no total.41 
Tabela 1: Participantes do Congresso Agrícola, por Província (1878) 
 
*Além da presença de 400 delegados, 56 proprietários enviaram justificativa de ausência. Mais ainda, quase 
todos os que participaram tinham sido eleitos em reuniões de fazendeiros nos diversos municípios. 
Levantamento aproximado das assinaturas dos que tomaram parte dessas reuniões preliminares revela que 
pelo menos 600 pessoas estiveram envolvidas. Alguns participantes foram indicados pelas câmaras 
municipais ou por associações de classe. Tudo incluído, mais de mil fazendeiros se envolveram de uma 
maneira ou de outra no Congresso. Dadas as dificuldades de comunicação da época e dada a falta de tradição 
de tais consultas, o número é sem dúvida respeitável e surpreendente. Fonte: Congresso Agrícola. Rio de 
Janeiro, 1878: Anais. Introdução e notas de José Murilo de Carvalho. Rio de Janeiro: Fundação Casa de 
Rui Barbosa, 1988, p.VI. 
 
Em relação aos participantes, pode-se ainda esmiuçar cada província e seu espaço 
brasileiro para um melhor entendimento de quem eram os participantes do Congresso, 
qual a lavoura e os principais problemas comentados. 
A província do Rio de Janeiro contou com 146 nomes representando 39 
localidades (Anexo 1 – Tabela Rio de Janeiro). Em ordem numérica de representações 
tem-se Valença (19); Paraíba do Sul (17); Barra Mansa (13); Vassouras (12); Cantagalo, 
Resende e Sapucaia (8); São Fidelis (7); Pirai (6); Município Neutro e Santa Maria 
Magdalena (5); Niterói (4); Bemposta, Capivary, Dores do Pirai, Rio de Janeiro e São 
João do Príncipe (3); Campos, Itaguaí, Município Neutro (Jacarepaguá), Petrópolis e 
Santa Isabel (2); Angra dos Reis, Araruama, Cordeiros, Estrela, Iguassu, Ipiabas, Itaboraí, 
Mangaratiba, Marica, Muriaé42, Nova Friburgo, Parati, Pati do Alferes, Santo Antônio de 
 
41 Os casos mencionados são de: Antonio Augusto de Castilho, Antonio José Barbosa de Andrade, Antonio 
da Rocha Fernandés Leão, Christiano Benedieto Ottoni, Hilário Soares de Gouvêa, Lauriano R. de Andrade, 
Visconde de Jaguary. Juntos esses senhores foram representantes ao mesmo tempo de localidades nas 
províncias de Rio de Janeiro e Minas Gerais, ou Rio de Janeiro e São Paulo. Deixaremos esses exemplos 
de lado nas contagens e explicações diminutas. 
42 A localidade aparece grafada nos Anais do Congresso Agrícola como Muriahé – Rio de Janeiro, portanto 
acreditamos se tratar de Laje do Muriahé entre Muraé e Itaperuna no Estado do Rio de Janeiro. 
 
 
26 
 
Pádua, São João do Nepomuceno43, Serraria e Ubá44 (1). Sendo o maior número derepresentantes da região Ocidental do Vale do Paraíba com 90 representantes45, seguidos 
da região Oriental do café com 2446, triângulo açucareiro com 947 e outras regiões com 
2748; pode-se inferir que cada complexo socioecológico possui sua própria dinâmica, 
sendo aquela com maiores problemas e maior dependência da mão de obra escrava, Vale 
do Paraíba Ocidental, a que conta com o maior número de representantes dispostos a 
discutir os problemas da grande lavoura (Tabela 1: Participantes do Congresso por 
Complexo Socioecológico). Mesmo que de maneira geral, sem considerar outros cultivos, 
pode-se ainda relacionar os macros cultivos de algumas regiões, sendo Valença, 
Vassouras, Barra Mansa, Paraíba do Sul, Piraí, Resende e Cantagalo, regiões de cultivo 
do café; enquanto Angra dos Reis, Araruama, Campos, Iguaçu, Itaboraí, Itaguaí, 
Mangaratiba, Maricá e São Fidelis eram regiões de produção de açúcar e outros produtos. 
Seguindo o mapa abaixo, podem-se identificar visualmente as macrorregiões produtoras 
e sua localização espacial na província do Rio de Janeiro, sendo grande parte dos 
participantes do Congresso das regiões do Vale do Paraíba Ocidental e do triângulo 
açucareiro ao norte. Importante mencionarmos ainda que, em 1872/3, um terço dos 
escravos presentes na província do Rio de Janeiro encontravam-se na região 1 (um). 
 
 
 
 
 
43 A indicação do representante aparece nos Anais do Congresso Agrícola como Ricardo Francisco de 
Oliveira Rocha, S. João Nepomuceno – Rio de Janeiro. Ricardo aparece nos Arquivos Públicos Mineiros 
como residente de São João do Nepomuceno, no entanto o contabilizamos referente ao Rio de Janeiro por 
acreditarmos se tratar de negócios no estado fluminense. Mais informações em: 
http://www.siaapm.cultura.mg.gov.br/acervo/rapm_pdf/1318.pdf. 
44 A indicação do representante aparece nos Anais do Congresso Agrícola como João Gomes Ribeiro de 
Avelar, Ubá – Rio de Janeiro. Acreditamos ser referente ao Barão e Visconde da Paraíba, dono da fazenda 
Ubá em Vassouras. Mais informações em: http://www.institutocidadeviva.org.br/inventarios/sistema/wp-
content/uploads/2009/11/19_faz-uba.pdf. 
45 Valença, Paraíba Do Sul, Barra Mansa, Vassouras, Resende, Pirai, Bemposta, Dores Do Pirai, São João 
Do Príncipe, Itaguaí, Santa Isabel, Ipiabas e Pati Do Alferes. 
46 Cantagalo, Sapucaia, Santa Maria Magdalena, Cordeiros, Nova Friburgo e São João Nepomuceno. 
47 São Fidelis e Campos. 
48 Município Neutro, Niterói, Rio De Janeiro, Jacarepaguá, Petrópolis, Angra Dos Reis, Araruama, Iguassu, 
Itaboraí, Mangaratiba, Marica, Muriaé, Parati, Santo Antônio de Pádua, Serraria e Ubá. 
 
 
27 
 
Mapa 1: Rio de Janeiro e as macrorregiões produtoras (1850-1889) 
 
Fonte: CORRÊA DO LAGO, Luiz Aranha. Da escravidão ao 
trabalho livre – Brasil, 1550-1900. P. 115. Adaptado. 
Em relação ao contexto histórico da província acima se pode mencionar que em 
meados das décadas de 1850/60 uma praga no café acomete as produções, o que impede 
um aumento da produção até a década de 1870. Devido aos pés de café serem mais antigos, 
presentes desde a década de 1840, há um possível envelhecimento dos pés de café, no 
entanto isso não justificaria a crise da mão de obra e a depressão do crédito agrícola tão 
manifestado nas discussões do Congresso. Conforme analisado ao longo do texto, a 
relação de dependência da mão de obra escravizada na produção, e sendo este o alicerce 
do valor estimado das propriedades agrícolas, era de se esperar que com o cerceamento 
da escravidão e a escassez da mão de obra escravizada, algumas fazendas entrariam em 
colapso. Para grande parte dos manifestantes do Rio de Janeiro, a falácia da indolência 
do trabalhador nacional, e utilização de mão de obra branca europeia livre não vingariam 
devido à falta de lastro de capital na pessoa do trabalhador. Em contraponto, a província 
de São Paulo, onde medidas do governo provincial eram tomadas para incentivar a 
imigração subsidiada, e os fazendeiros de café do Rio de Janeiro defendiam, ficava cada 
vez mais, na posição de que a abolição só era aceitável mediante uma indenização aos 
proprietários de escravos.49 
A província de São Paulo contava com 72 representações de 30 localidades 
(Anexo 2 – Tabela São Paulo). Em ordem numérica de representações tem-se Campinas 
(15); Taubaté (8); São Carlos do Pinhal (5); Limeira, Pirassununga e São Paulo (4); Rio 
 
49 LAGO, Luiz Aranha Corrêa do. Da escravidão ao trabalho livre, 1550-1900. São Paulo: Cia das Letras, 
2014. PP.97-149. 
 
 
28 
 
Claro, São João do Rio Claro e Sorocaba (3); Belém do Descalvado, Caçapava, Campo 
Largo, Capivary, Indaiatuba, Itatiba, Jacarehy, Piracicaba e Porto Feliz (2); Amparo, 
Bananal, Bragança, Guaratinguetá, Itu, Lorena, Mogimirim, Pindamonhangaba, Queluz, 
São José do Barreiro, São Luiz de Parabitinga, Silveiras e Tatuí (1). Os macros cultivos 
das regiões, sendo Amparo, Bananal, Belém do Descalvado, Campinas, Capivary, 
Guaratinguetá, Jacarehy, Limeira, Lorena, Mogimirim, Pindamonhangaba, Piracicaba, 
Pirassununga, Porto Feliz, Rio Claro, São Carlos do Pinhal e Taubaté eram regiões 
marcadamente responsáveis pela produção do café. Restando apenas a Itu a produção de 
açúcar e café; e a Sorocaba o cultivo de algodão e muares. Sendo o maior número de 
representantes do Primeiro Oeste Paulista, com 42 representantes50, seguidos do Vale do 
Paraíba, com 1751, Quadrilátero açucareiro e Segundo Oeste com 752 e outras regiões 
contando com 653; o Primeiro Oeste paulista foi, portanto, a região mais disposta as 
discussões do Congresso na relação quantitativa, região essa que apesar das investidas a 
favor da imigração e do trabalho livre, ainda era dependente da mão de obra escrava 
(Tabela 1: Participantes do Congresso por Complexo Socioecológico). 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
50 Campinas, São Carlos Do Pinhal, Limeira, Rio Claro, São Jose Do Rio Claro, Campo Largo, Capivari, 
Indaiatuba, Itatiba, Piracicaba, Amparo e Mogimirim. 
51 Taubaté, Caçapava, Bananal, Lorena, Pindamonhangaba, Queluz, São José Do Barreiro, São Luiz De 
Parabitinga e Silveiras. 
52 Açúcar: Sorocaba, Porto Feliz, Itu e Tatuí; Segundo Oeste: Pirassununga, Belém Do Descalvado e 
Bragança 
53 São Paulo e Jacareí. 
 
 
29 
 
Mapa 2: São Paulo e as macrorregiões produtoras (1850-1889) 
 
Fonte: CORRÊA DO LAGO, Luiz Aranha. Da escravidão ao trabalho livre – 
Brasil, 1550-1900. P. 162. Adaptado. 
Seguindo o mapa acima se pode identificar visualmente as macrorregiões 
produtoras e sua localização espacial na província paulista, sendo parte dos participantes 
do Congresso das regiões do Vale do Paraíba e do primeiro Oeste paulista. 54 O 
desenvolvimento da província de São Paulo e suas quatro grandes regiões produtoras 
ocorreram em momentos distintos. Na primeira metade do século XIX se mencionam o 
declínio da produção açucareira e a ascensão do café em importância as regiões mais 
próximas às fronteiras orientais paulistas. A década de 1850 foi, por sua vez, um dos 
primeiros pontos de inflexão com a reestruturação do sistema escravista e com o 
surgimento da crise do cativeiro. 
 
54 A divisão conceitual entre Primeiro e Segundo Oeste Paulista devem-se aos períodos de abertura das 
fronteiras e da expansão territorial respectivamente. 
 
 
30 
 
A diferença do caso paulista para as demais províncias escravistas do Sudeste é a 
introdução do trabalho livre nas fazendas de café já na década de 1840. Uma primeira 
leva de imigrantes para as regiões de expansão da fronteira agrícola, mesmo que a título 
de experiência, foi responsável por estruturar as bases por onde o novo sistema de mão 
de obra livre viria a funcionar. Resultado da supressão do tráfico de escravizados, do 
fracasso das primeirasexperiências através do sistema de parceria, e da prosperidade 
temporária do cultivo do algodão, a segunda leva de imigrantes para o território paulista 
ocorre na década de 1860. 
A expansão da fronteira agrícola para o primeiro Oeste paulista, a volatilidade dos 
preços do café, e o boom algodoeiro fruto da Guerra Civil Norte Americana, foram 
responsáveis pelo aumento do fluxo do mercado de trabalho, visto que a mão de obra 
escravizada se concentrava cada vez mais em pequenos conclaves escravistas. A última 
fase migratória, com foco no sistema de colonato, ocorreu dos anos de 1880 até 1930. 
Fruto da expansão da malha ferroviária em solo paulista, a expansão do capital 
proporcionou também maior mobilidade geográfica aqueles interessados no trabalho na 
lavoura. Ainda, a política de imigração e os subsídios governamentais, imperiais e 
provinciais, para a vinda de trabalhadores europeus, em especial italianos, pôde 
reformular o mercado da mão de obra de trabalho em solo paulista.55 
A província de Minas Gerais contava com 56 representações de 13 localidades 
(Anexo 3 – Tabela Minas Gerais). Em ordem numérica de representações tem-se Mar de 
Hespanha (18); Juiz de Fora (16); Leopoldina (9); Baependi, Barbacena e Ubá (2); 
Ayuruoca, Lavras, Rio Novo, Rio Pardo, Rio Preto, São José de Além Paraíba e São José 
do Rio Preto (1). Marcadamente na região das Minas Gerais a região socioecológica mais 
presente no Congresso é o Vale do Paraíba Mineiro56 com 51 representantes. Em menor 
quantidade tem-se o Sul de Minas com 2 representantes de Baependi, e outras regiões 
com 1 representação de Lavras, Rio Pardo e São José do Rio Preto, respectivamente – 
portanto, estão fora a região da Zona Cafeeira do Sul de Minas, o Cerrado Mineiro e o 
norte da província. O caso de província mineira também é interessante a ser discutido 
pois há um mercado e economia interna forte propiciando uma autossuficiência produtiva 
em grande parte da província. Além do café, o gado e todos os seus consequentes produtos, 
 
55 LAGO, Luiz Aranha Corrêa do. Da escravidão ao trabalho livre, 1550-1900. São Paulo: Cia das Letras, 
2014. PP.149-204. 
56 Mar De Hespanha, Juiz De Fora, Leopoldina, Barbacena, Ubá, Ayuruoca, Rio Novo, Rio Preto e São 
José de Além Paraíba. 
 
 
31 
 
a roça e as atividades mineradoras fazem parte da economia de Minas Gerais. Desde 1830 
obtendo um grande fluxo de cativos, o movimento nessa região segue até o final do século 
XIX de entrada de mão de obra escravizada, fornecendo assim um processo de realocação 
de escravos dentro dos ambientes produtivos. Nesse contexto, o cerceamento do tráfico 
de escravos, e a reestruturação do cativeiro ocorreram de modo mais abrupto, assim como 
no Rio de Janeiro e diferentemente de São Paulo. 
Mapa 3: Minas Gerais e as macrorregiões produtoras (1850-1889) 
 
Fonte: CORRÊA DO LAGO, Luiz Aranha. Da escravidão ao trabalho livre – 
Brasil, 1550-1900. P. 225. Adaptado. 
Do ponto de vista migratório, as antigas zonas mineiras (1 e 3) sofriam com o 
envelhecimento dos pés de café e das consequências da íntima relação entre o corpo 
cativo e o lastro monetário que este representava, enquanto as regiões mais novas (2 e 4), 
abertas junto a crise da escravidão e ao Oeste Paulista, com as ferrovias das décadas de 
1870/80 sofriam menos com a exaustão do solo e a dependência da mão de obra escrava. 
Em Minas, portanto, assim como no Rio de Janeiro, o sistema da escravidão foi defendido 
e utilizado até sua exaustão, não deixando grandes margens para processos imigratórios, 
sendo ainda a antiga mão de obra negra escravizada utilizada em sistemas de trabalho 
livre nas regiões do cultivo do café.57 
 Por fim, a província do Espírito Santo contou com apenas 5 representações de 4 
localidades. Sendo duas representações de São Mateus; e uma para cada localidade 
respectivamente, Vitória, Itapemirim e Cachoeira de Itapemirim. Tendo como foco das 
 
57 LAGO, Luiz Aranha Corrêa do. Da escravidão ao trabalho livre, 1550-1900. São Paulo: Cia das Letras, 
2014. PP.204-227. 
 
 
32 
 
localidades o cultivo do café, há ainda a produção de açúcar e farinha de mandioca em 
menor escala nas regiões. A região do Espírito Santo passou também por períodos 
econômicos do declínio do preço do açúcar e a ascensão da cafeicultura, sendo a província 
dependente das variações da economia cafeeira para a manutenção provincial estável. No 
entanto a parca expansão escravista e a abundância de terra devoluta, sem lastro de 
hipotecas e empréstimos baseados em corpos escravizados, foram capazes de gerar um 
maior fluxo de imigração ou colonização europeia para a região.58 
Tabela 2: Participantes do Congresso por Complexo Socioecológico (1878)59 
 
Uma descoberta através da análise quantitativa é a grande representação dos 
interesses cafeeiros no Congresso Agrícola. Dos 285 participantes referidos na tabela 
 
58 Podemos mencionar que foram relutantes as opiniões para fontes alternativas de mão de obra. As parcas 
e falhas tentativas de imigração europeia, deixando de lado o caso paulista, foram responsáveis, no Rio de 
Janeiro e Minas Gerais por um uso mais intensificado da mão de obra escravizada nas regiões do café e de 
produção açucareira. O Espírito Santo também pode ser considerado uma exceção devido as grandes faixas 
de terras devolutas e a não expansão territorial da fronteira agrícola do café e açúcar, mostrando assim 
sucesso já no início da década de 1870 com as colônias europeias. O principal entrave comentado pelos 
fazendeiros nas outras regiões para a imigração europeia consistia no valor inicial da passagem, requerendo 
assim subsídio governamental, e as terras devolutas para o estabelecimento de colônias. Agarrados à terra 
e à mão de obra escravizada, essa interdependência dos fazendeiros consistia em um verdadeiro entrave 
para a ampliação do uso da mão de obra livre. As novas formas de trabalho decorrentes da imigração 
europeia também foram capazes de remodelar a unidade básica de trabalho nas lavouras cafeeiras. Antes 
restritas a unidade escravista, ou seja, o trabalhador individual, a flexibilidade dos novos sistemas de 
trabalho é pensada para a família migrante, pois há uma maior alocação do tempo de trabalho e de cultivo. 
LAGO, Luiz Aranha Corrêa do. Op. cit. 2014. PP.227-242 & PP.242-265. 
59 Sabemos que existem outras nomenclaturas para as macrorregiões selecionadas de cada estado, no 
entanto as escolhidas são as que melhor nos atendem sem alterar o estudo. 
1.Vale do Paraiba Ocidental 90
2.Vale do Paraiba Oriental 24
3.Triângulo açucareiro 9
4.Outras regiões 27
1.Vale do Paraiba 17
2.Quadrilátero açucareiro 7
3.Primeiro Oeste Paulista 42
4.Segundo Oeste Paulista 7
5.Outras regiões 6
1.Sul de Minas 2
2.Zona cafeeira do Sul 0
3.Vale do Paraíba Mineiro 51
4.Outras regiões 3
Minas
Gerais
Participantes do Congresso por Complexo socioecológico
Rio de 
Janeiro
São
 Paulo
 
 
33 
 
acima, 226, aproximadamente 80%, pertenciam às zonas cafeeiras escravistas. Os 
problemas já mencionados entre o cultivo do café e a dita crise da mão de obra eram o 
principal problema a ser resolvido pela maioria do Congresso. Deviam-se sanar dois 
grandes problemas: “braços e capitais”. Para os capitais, mais crédito agrícola era 
solicitado, juntamente da modernização da legislação bancária; para os braços, com o 
iminente fim da escravidão, foram manifestadas opiniões para a substituição da mão de 
obra escravizada através de trabalhadores nacionais, brancos europeus, negros libertos e 
trabalhadores asiáticos coolies e/ou chineses. A imigração de modo oriental através de 
novas formas de trabalho contratado (indetured labor) inspirada em experiências 
internacionais foi um dos temas mais discutidos durante o Congresso e compôs, 
principalmente,as palavras das regiões cafeeiras do sudeste do país. O Congresso 
Agrícola, um congresso do café, foi o responsável por uma possível relação entre 
trabalhadores asiáticos e o café nos mesmos espaços produtivos onde a escravidão esteve 
presente.60 
O Questionário do Congresso Agrícola 
O convite enviado aos possíveis participantes do Congresso contava com um 
questionário a ser preenchido para uma melhor visualização dos principais problemas da 
grande lavoura. O questionário, por sua vez, contou com sete tópicos propostos pelo 
governo para discussão, e que também ditaram as diretrizes do evento - o questionário 
também foi discutido no Congresso Agrícola do Recife. 
Será objeto de deliberação do Congresso tudo quanto diretamente puder 
interessar a sorte da lavoura, convindo especialmente esclarecer o Governo sobre 
os seguintes pontos: 
I. Quais as necessidades mais urgentes e imediatas da grande lavoura? 
II. É muito sensível a falta de braços para manter, ou melhorar ou 
desenvolver os atuais estabelecimentos da grande lavoura? 
III. Qual o modo mais eficaz e conveniente de suprir essa falta? 
IV. Poder-se-á esperar que os ingênuos, filhos de escravas, constituam 
um elemento de trabalho livre e permanente na grande propriedade? No caso 
contrário, quais os meios para reorganizar o trabalho agrícola? 
V. A grande lavoura sente carência de capitais? No caso afirmativo, é 
devido este facto à falta absoluta deles no país, ou a depressão do crédito agrícola? 
 
60 Como veremos no capítulo seguinte, grande parte dos movimentos da diáspora asiática chinesa como 
indetured laborers foi para espaços produtivos escravistas do açúcar, guano e outras produções; a única 
menção sobre a relação entre chineses e café dá-se no Havaí, mas não como trabalhadores contratados 
especificamente para as plantações de café e muito menos para o trabalho nos mesmos espaços produtivos 
da escravidão. Sobre a indústria do café no Havaí ver GOTO, Baron. Ethnic Groups and the Coffee Industry 
in Hawaii. Honolulu, Hawaiian Historical Society. Hawaiian Journal of History, volume 16, 1982. 
<http://hdl.handle.net/10524/432> 
 
 
34 
 
VI. Qual o meio de levantar o crédito agrícola? Convém criar 
estabelecimentos especiais? Como funda-los? 
VII. Na lavoura têm-se introduzido melhoramentos? Quais? Há urgência 
de outros? Como realizá-los? 61 
Estruturado em torno de três eixos, trabalho, crédito e tecnologia, as questões 
presentes no questionário mascaravam o motivo do Congresso, a crise do cativeiro. Nos 
anais do Congresso Agrícola constam 25 respostas diretas ao questionário, sem contar 
aqueles que manifestaram sua opinião e responderam também algumas perguntas de 
modo indireto. Duas respostas, no entanto, merecem ser mencionadas pois compreendem 
muitos representantes da lavoura, a da Comissão nomeada pelos lavradores do Rio de 
Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo e da Comissão nomeada pelos lavradores de São 
Paulo – convém citá-las como CRME e CSP, respectivamente.62 
Trata-se primeiro da CRME, que era composta por Barão do Rio Bonito (Valença, 
RJ), Antonio Álvares de Abreu e Silva Junior (Mar de Hespanha, MG), Pedro Dias 
Gordilho Paes Leme (Itaguaí, RJ), Barão de Nova-Friburgo (Cantagalo, RJ), Theophilo 
D. A. Ribeiro (Leopoldina, MG) e Manoel Peixoto de Lacerda Werneck (Rio de Janeiro, 
RJ). Antes mesmo de responder ao questionário proposto, a comissão relata que as 
principais necessidades da lavoura brasileira são braços, crédito, viação e instrução. 
Braços em primeiro, pois o braço escravo desaparecerá pela manumissão, ou pela morte; 
os ingênuos, embora plausíveis de serem auxiliares permanentes à lavoura, não serão tão 
leais à lavoura e nem cumprirão com todas as necessidades e obrigações do trabalho. 
Convém, portanto, a importação de braços livres para resolver o problema. Como modo 
de “ensaio e meio de transição para uma colonização de raças mais aperfeiçoadas, o 
 
61 Congresso Agrícola, p.2. 
62 A divisão entre CRME e CSP foi própria do Congresso Agrícola e manifestada pelos participantes sem 
nenhuma justificativa explicita durante o Congresso. Há no entanto artigos no Jornal do Commercio, 
publicados pelas próprias comissões ou por clubs (Club da Lavoura), explicitando a criação da CSP “no 
sentido de se fazer representar no Congresso Agrícola”. Devido ao curto prazo entre a data de convocação 
dos fazendeiros e a data marcada para o congresso, “fora impossível dar tempo para que o club e os 
lavradores em geral se prestassem para comparecer a projetada reunião [...]”. O Club da Lavoura solicitou 
ainda durante o encontro dos fazendeiros e lavradores da Província de São Paulo o adiamento do Congresso. 
No entanto foi a representação por meio de uma comissão a ideia mais votada. Jornal do Commercio (RJ). 
1870-1879. Ano 1878, Edição 174, 23 de julho de 1878, p1. Gazetilha. Disponível em: 
http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=364568_06&pasta=ano%20187&pesq=Congresso
%20Agr%C3%ADcola&pagfis=18675 . Acesso em 18 de março de 2021. 
Nos cabe fazer uma análise sobre o porquê de tal divisão. Acreditamos que a CSP, apesar de assinada por 
representantes das regiões do Vale e do Primeiro Oeste, representava os interesses das regiões de abertura 
de fronteiras mais recentes do Primeiro Oeste paulista que já enfrentava problemas com os projetos de 
imigração internacional. Enquanto a CRME possuía uma representação das regiões mais antigas do café de 
Rio e Minas, sendo o Espírito Santo um território de fronteira com tais estados. 
 
 
35 
 
jornaleiro chim é conveniente. ” 63 Em relação ao crédito é este “uma necessidade 
indeclinável” para que os lavradores consigam receber montantes financeiros 
proporcionais ao seu capital constituído na fazenda, para tanto deve-se realizar mudanças 
na legislação hipotecária. A viação, ou as ferrovias também foram citadas como meios 
estimulantes da produção, mas com um aviso ao governo para o controle das tarifas. A 
instrução, ou ainda a educação agrícola elementar deve ser desenvolvida de modo a 
provocar nas novas gerações brasileiras o desejo pelo trabalho agrícola, pois esta é a 
vocação da nação brasileira. Em relação à tecnologia, a CRME relata que existem 
melhoramentos sendo realizados na lavoura, “que se manifestam no aumento e perfeição 
dos produtos, apesar da considerável diminuição dos braços; entretanto é certo que muito 
longe estão eles de atingir os que observamos nos países mais adiantados”.64 Por fim, a 
comissão clama por uma lei eficaz de locação de serviços para que braços nacionais sejam 
chamados a trabalhar na lavoura. 
A CSP, sob a presidência de Albino José Barboza de Oliveira (Campinas), 
servindo de secretários os Drs. Moreira de Barros (Taubaté) e Campos Salles (Campinas), 
acredita que pode reduzir as interrogações em dois pontos: capital e braços. Para a 
bancada paulista, o problema do capital consiste na falha legislação hipotecária brasileira, 
tanto a de 1864, quanto a de 1875, sendo que a primeira restringe e cria desvantagens para 
os capitais nacionais; enquanto a segunda, ao favorecer as emissões em bancos europeus 
e centralizar as emissões, embaraçava as forças econômicas das províncias. As soluções 
para tais problemas seguem enumeradas pela comissão: 
1. Que seja autorizada por lei a criação de bancos de crédito real, que 
façam empréstimos a lavoura em longo prazo e juro baixo; 
2. Que cada província constitua uma circunscrição territorial, podendo 
com tudo duas ou mais províncias, por acordo entre si, formar uma 
só circunscrição; 
3. Que os bancos provinciais sejam auxiliados pelo Estado com a 
garantia de juros até 5 % ao ano e amortização das letras hipotecárias 
que forem emitidas, conforme a lei de 6 de novembro de 1875; 
4. Que na sua organização seja adotado o system da lei de 24 de 
setembro de 1864e respectivo regulamento com as modificações 
aqui indicadas; 
5. Que o processo da ação e execução seja mais expedito, não podendo 
a defesa e recursos opostos pelo devedor suspender a marcha do 
mesmo processo; 
6. Que a adjudicação deixe de ser obrigatória e torne-se facultativa ao 
credor; 
 
63 Congresso Agrícola, p.78. 
64 Idem ibidem. 
 
 
36 
 
7. Que a hipoteca legal seja em tudo equiparada à convencional65 
Em relação ao problema de braços, a CSP considera de extrema urgência saná-lo 
para o bem da agricultura do país. Servida por braços escravos e livres, sendo os livres 
subdivididos em estrangeiros e nacionais, são esses últimos um dos problemas da lavoura 
brasileira devido a indolência e a baixa locação dos serviços. O braço escravo foi e ainda 
é a principal fonte “da qual os agricultores tiram recurso para o custeio de seus 
estabelecimentos rurais”.66 Ainda em relação ao braço escravo, um fazendeiro disse: 
Mas, se a lei de 28 de setembro de 1871 não estancou essa fonte, é certo, 
todavia que a esterilizou de modo a assegurar-nos que em poucos anos estará 
extinta. Ora, se o braço nacional é escasso e o escravo tende a desaparecer, 
parece-nos que ao lavrador só resta o braço estrangeiro como o seu principal 
recurso de momento.67 
A CSP entende ainda que a lavoura não poderá contar com ingênuos “não só pela 
indolência herdada dos escravos e nacionais, como porque em geral os libertos preferem 
o mercantilismo. ”68 Observa-se ainda que, matematicamente, os ingênuos só poderão 
prestar serviços ao plantio depois dos oito anos, apenas em 1886. 
Em relação aos braços estrangeiros europeus, a CSP considera que há efetiva 
aplicação destes na lavoura, mas que de modo diminuto, pois as legislações brasileiras 
afastam o trabalho e a permanência devido às restrições na esfera social. Faz-se necessário, 
portanto, o alargamento da esfera social do estrangeiro através de leis com princípios de 
igualdade, tolerância e liberdade. A comissão paulista critica ainda os núcleos oficiais de 
colonização, pois “além de prejudiciais e onerosos aos cofres, têm sido de todo inúteis”, 
devendo o governo se limitar “ao auxílio dos particulares que empreenderem por própria 
conta a introdução e estabelecimento de colonos nas suas propriedades. ” 69 
Ainda sobre questões de imigração e colonização, a comissão paulista entende 
que, se o país necessita de mão de obra estrangeira para desenvolver todas as indústrias 
brasileiras, e em especial a agricultura, faz-se necessário olhar para a raça, origem, caráter 
e costume dos povos vindouros. 
Ora, há povos, como os indiáticos, cujo contato seria um elemento de 
regresso à nossa civilização e um prolongamento do baixo nível moral que os 
caracteriza tristemente. 
 
65 Congresso Agrícola, p.74-75. 
66 Ibidem, p.75. 
67 Idem ibidem. 
68 Idem ibidem. 
69 Congresso Agrícola, p.75. 
 
 
37 
 
Se bem que espíritos cultos e observadores tenham demonstrado a 
evidencia a alta inconveniência social da introdução dos coolies no país, cujo 
caráter subserviente e imoral há de contaminar a nossa população e afastar 
imigrantes de procedência europeia, julgamos, contudo, de rigoroso dever 
externar com franqueza esta opinião: Que podem eles prestar, serviços a lavoura, 
e ser aceitos como um meio de transição.70 
Assim como a CRME, munidos de teorias raciais presentes nos discursos do 
século XIX, os paulistas consideram os povos asiáticos de raças inferiores ao branco 
europeu. Considerando perigosa a introdução de povos indiáticos/ coolies para 
colonização e imigração, deveriam estes servir apenas como um meio de transição. 
Por fim, a CSP estabelece algumas propostas para um melhor aproveitamento da 
lavoura brasileira a fim de sanar a crise de braços e capitais. 
1. Liberdade de cultos e igualdade destes ante a sociedade temporal e 
política. 
2. Casamento civil sem prejuízo das cerimonias religiosas para os 
cônjuges que quiserem observá-las. 
3. Execução definitiva da lei e respectivo regulamento referente ao 
registro civil de nascimentos e óbitos. 
4. Efetiva secularização dos cemitérios sob a administração das 
municipalidades. 
5. Naturalização fácil, devolvendo-se a respectiva competência aos 
poderes locais e outorgando-se ao estrangeiro naturalizado o gozo de 
todos os direitos políticos. 
6. Isenção do serviço militar para o brasileiro que, tendo contrato de 
locação de serviço em um estabelecimento agrícola, apresentar 
atestado do locatário ou der outra qualquer prova de fiel 
cumprimento do contrato. 
7. O estabelecimento de crédito real auxiliado pelo Governo dará ao 
fazendeiro mais a quantia correspondente a 20 % do capital que lhe 
for emprestado com aplicação especial à construção de casas para 
colonos e com a obrigação de restituição no caso de não se realizar 
o emprego dessa quantia dentro de um ano depois de efetuado o 
empréstimo. 
8. Reforma da lei de locação de serviços.71 
Agrupavam-se ainda nas respostas ao questionário do programa, os seguintes 
problemas: o fim da mão de obra escravizada, a má reputação do trabalhador nacional, as 
experiências ruins de imigração europeia ou a má impressão que esse projeto causava o 
trabalho dos ingênuos na grande propriedade, a instalação de vias de comunicação, 
propostas por imigração de chins ou coolies, um projeto de extinção da formiga saúva, as 
dívidas contraídas da Guerra do Paraguai, a depressão do crédito agrícola, a seca no Norte 
 
70 Idem, p.76. 
71 Congresso Agrícola, p.76. 
 
 
38 
 
do país, os problemas causados pelas leis de abolição lenta e gradual, a reforma da Lei de 
Locação de serviços, ou Lei Sinimbú, assim como da Lei Hipotecária, e a necessidade de 
instrução agrícola. 
As recorrentes reclamações de falta de braços e capitais através da voz dos 
fazendeiros e da lavoura são parte estruturante das tentativas mal resolvidas de 
manutenção da escravidão. As articulações para os projetos de imigração em massa são 
parte do problema e da solução da escravidão brasileira, pois as conexões realizadas pelos 
grandes fazendeiros eram através da imigração em massa de raças superiores (alemães e 
italianos) para a obtenção lenta e gradual da abolição. A chave, no entanto, não era 
possível, pois os mesmos fazendeiros que buscavam as ditas raças superiores para a 
colonização do Brasil, buscavam o lucro através da exploração. Fez-se então a escolha 
pela importação de raças inferiores como um movimento transitório de raças para o 
projeto de branqueamento da população brasileira. 
A questão chinesa no Congresso Agrícola 
As perguntas enviadas no questionário sobre o problema da mão de obra e o 
aproveitamento dos ingênuos, somado à opinião de Sinimbu em relação à importação de 
mão de obra chinesa, colocaram os tópicos em paralelo. Há, portanto, a intenção e 
disposição para a vinda de trabalhadores asiáticos chineses como uma possível solução 
para a crise da mão de obra escravista. 
As opiniões dos congressistas para solucionar “o problema de braços” contavam, 
de maneira geral, com a possibilidade de trabalhos dos ingênuos, trabalhadores nacionais, 
escravos libertos, imigração europeia e a mão de obra asiática chinesa/coolie. A 
participação dos ingênuos como “um elemento de trabalho livre e permanente na grande 
propriedade” variava entre a plausibilidade - “se a lei que regular o trabalho providenciar 
no sentido de serem esses ingênuos educados em regime diverso do que hoje entre nós 
voga. ”72; e de negação na maioria dos casos 
Finalmente, considerando o questionário a respeito dos ingénuos, 
entendemos que a lavoura não pôde contar com eles, não só pela indolência 
herdada dos escravos e nacionais, como porque em geral os libertos 
preferem o mercantilismo. Além disto, cumpre observar que os ingénuos só72 Congresso Agrícola, pp.32-33. Respostas ao Questionário do Programa do Sr. Cândido Barreto de Souza 
Faria. Também de acordo estava a Companhia União dos Lavradores, pp.67-69. 
 
 
39 
 
poderão prestar serviços reais à lavoura depois de oito anos decorridos desta data, 
e, portanto, só em 1886 estarão eles aptos para prestar tais serviços.73 
 Os trabalhadores nacionais vistos como “inúteis, [que] se enervam no vicio, ou 
exploram o caráter bondoso do brasileiro”74 também não são passíveis de assumir a 
lavoura nacional como mão de obra devido ao seu caráter. Para a vinda de imigrantes 
europeus, como vimos no do discurso de abertura de Sinimbu, fazem-se necessárias 
diversas alterações na sociedade brasileira. Relata ainda o Conselheiro C. B. Ottoni que 
para a vinda do “colono europeu útil, deve-se preparar o país primeiro: legislação para 
fundar família legítima, liberdade de adorar o Deus que quiser e facilitar a igualdade de 
direitos políticos. ”75 Há ainda um comentário sobre a importação de negros livres 
americanos como colonos, pelo Senhor Conde de La Hure, para sanar os problemas de 
braços.76 
O projeto de imigração asiática proposto pelo governo foi o que mais rendeu 
discussões e comentários ao longo do Congresso, tanto nos questionários, quanto nas 
manifestações de opinião. Através do Anexo 4 - Opiniões manifestadas sobre asiáticos 
durante o Congresso Agrícola, somos capazes de identificar os nomes dos manifestantes, 
suas respectivas províncias e localidades, posicionamento (se a favor ou contra), qual 
nomenclatura usaram (ex: chins, coolies, asiáticos), a qual tipo de mão de obra estavam 
dispostos ou criticando (ex: locação de serviço, medida transitória, colonos, jornaleiro), 
e, de modo reduzido, as principais opiniões. 
Dentre as manifestações sinófilas temos: 2 do Espírito Santo, sendo 1(uma) a 
favor e outro contra; 5 de Minas Gerais, sendo 1(uma) a favor, 3 contras e uma posição 
neutra; 3 posicionamentos de representantes de duas províncias (Rio de Janeiro e Minas 
Gerais), sendo as 3 contra; uma manifestação da CRME a favor; 14 posicionamentos da 
província do Rio de Janeiro, sendo 4 contra e 10 a favor; e por fim 10 manifestações 
paulistas, sendo 6 a favor, 4 contra e 2 neutras. Totalizando 39 manifestações sinófilas, 
com 16 falas contra a qualquer tipo de imigração chinesa, 19 falas a favor e 4 sem 
expressão. No mapa abaixo se consegue localizar espacialmente onde há falas em favor 
da imigração chinesa. Das localidades destacadas, as pertencentes a Província de Minas 
 
73 Em concordância estavam também a Comissão nomeada pelos lavradores de S. Paulo, e a Comissão 
nomeada pelos lavradores do Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo aqui já citadas. 
74 Idem, pp.62-63. Lavradores da freguesia da Lage. 
75 Idem, pp.211-215. Opinião do Conselheiro C. B. Ottoni 5º na última sessão em 12 de julho de 1878. 
76 Idem, pp.96-104. Projeto e notas para fundação de uma sociedade de crédito territorial e agrícola pelo Sr. 
Conde de la Hure. 
 
 
40 
 
Gerais encontram-se na Zona da Mata Mineira (Mar de Hespanha e Leopoldina); do Rio 
de Janeiro temos presente as regiões do Vale do Paraíba (Valença, Vassouras, Resende) 
e do Complexo açucareiro (Cantagalo, Campos e Quissamã); e pertencentes a região 
paulista temos a presença das regiões socioecológicas do Vale do Paraíba (Taubaté), 
Primeiro Oeste Paulista (Campinas, Rio Claro e Indaiatuba) e o Quadrilátero Açucareiro 
(Sorocaba e Porto Feliz). 
Portanto, as regiões socioecológicas destacadas onde há posicionamentos 
favoráveis sinófilos são aquelas que, de maneira geral, possuem maior dependência da 
mão de obra escrava. 
Mapa 4: Localização socioespacial a favor da imigração chinesa (1878) 
 
Fonte: RIBEIRO, Duarte da Ponte. Carta do Império do Brasil, Acervo Digital 
da Biblioteca Nacional; & PARRON, Tâmis. A Política da escravidão no 
Império do Brasil 1826-1865, p. 159. Adaptado. 
De maneira geral, independente da recepção positiva ou negativa dos projetos, 
todos os congressistas baseavam suas opiniões nas teorias raciais do século XIX ao 
estabelecerem uma geografia imaginativa e representações do oriente e do oriental. O 
Brasil, portanto, ou os congressistas, ao estabelecerem as distinções marcadamente raciais 
 
 
41 
 
em seus discursos, tentam negociar com o oriente como uma instituição organizada “para 
dominar, reestruturar e ter autoridade sobre o Oriente. ” 77 
Para Carlos Marcondes de Toledo Lessa, representante de Barra Mansa, a solução 
da lavoura estava: 
Portanto na extinção dos impostos de exportação e dos de importação de 
gêneros estrangeiros de que a lavoura carece para expandir- se, e na construção 
de estradas, antes do que na de máquinas de guerra, é que está o segredo do 
restabelecimento da lavoura nacional, e não em juros cômodos que facilitem a 
introdução de alguns milheiros de chineses indolentes.78 
Outro congressista, o Dr. Eduardo Augusto Pereira de Abreu, de Silveiras, SP 
manifesta-se contra a imigração de chins e coolies, sendo este uma calamidade letal à 
lavoura brasileira, além de serem de uma raça inferior. Vale mencionar ainda que os 
conceitos usados, apesar de diferentes, não possuem distinção na opinião manifestada. 
Considero uma calamidade para a atual lavoura a introdução dos Coolies 
em nosso país. A experiência tem demonstrado a negativa mais completa e os 
resultados perigosos, insuficientes e nulos que essa classe de homens, eivados de 
maus costumes e corruptos por natureza e princípios de educação, tem acarretado 
consigo em todos os lugares em que como colonos se apresentam. Nem como 
máquinas de trabalho e esgotados que sejam todos os recursos que ainda nos 
restam nos naturais do país e na colonização europeia, podemos admitir a 
aquisição do homem asiático conhecido com o nome de coolies. Fracos e 
indolentes por natureza, alquebrados pela depravação dos costumes e hábitos que 
desde o berço adquirem, narcotizados física e moralmente pelo ópio, não poderão 
nunca no Brasil suportar o árduo e penoso trabalho da cultura do café. Os filhos 
do celeste império serão bons industriosos, metódicos, pacientes como Jó para 
aqueles trabalhos morosos e de difícil empreendimento artístico; nunca, porém, 
para o trabalho braçal e rude de nossa lavoura, vivendo nas intempéries, nutridos 
com nossa alimentação e sujeitos aos contratos de locação inerentes e próprios 
de nossas leis regulamentares.79 
As duas grandes comissões, CRME e a CSP, manifestaram seus pareceres como 
a favor da imigração, mas apenas se necessário, como última medida para salvar a grande 
lavoura. Os termos abordados foram chim e coolies/povos indiáticos, respectivamente; e 
as duas concordavam na vinda de trabalhadores como medida transitória de trabalho entre 
a escravidão negra e a colonização europeia, considerando, portanto, os asiáticos, ou 
ainda a raça amarela, como inferior. 
 
77 SAID, Edward W. Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente. Tradução de Tomás Rosa 
Bueno. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. P.15. 
78 Congresso Agrícola, p. 34. 
79 Congresso Agrícola, p.39. Conferência do Dr. Eduardo Augusto Pereira de Abreu. 
 
 
42 
 
A conferência feita pelo Sr. Blacklaw80 perante o Congresso Agrícola, em 12 de 
julho 1878, em específico sobre a experiência dos indian coolies das Índias Britânicas, 
que fizeram a transição do trabalho escravo para o livre é uma das que, além de fazer a 
distinção entre os termos, mostra uma perspectiva comparada internacional sobre o 
assunto (o conferencista inglês desconhece, portanto, o trabalho dos chins da China).81 
Os coolies foram importados já na década de 1830 para as Ilhas Maurícia para o serviço 
do cultivo da cana de açúcar, mas ao entenderem que foi um sistema de trabalho 
semelhante ao da escravidão foi abolido. Tendo retornadosomente nas décadas de 
1850/60, após o Governo da Índia redigir um regulamento para avaliar a colonização e 
nomear um funcionário como o “protetor dos emigrantes”, a importação de coolies 
indianos para colonização das Ilhas Maurícia contava em 1866 com 120.269 coolies, 
sendo 86.313 homens e 33.956 mulheres. 
Como Blacklaw nos conta, os contratos de trabalho dos índian coolies foram 
redigidos de maneiras parecidas em Cayena, Jamaica e nas Ilhas Maurícia, delegando as 
obrigações tanto dos trabalhadores, como dos fazendeiros. Entre outros estão descritos o 
salário, acesso à comida e médico, à passagem, e à liberdade. 
O coolie é gente inteiramente servil, mas é homem livre. É verdade que 
há um regulamento para seu governo, mas isto não quer dizer que seja escravo, 
sendo, aliás, este regulamento muito necessário, não só para o fazendeiro, como 
para o mesmo coolie, que assim não anda pedindo esmola, é obrigado a trabalhar. 
Ia o orador esquecendo-se de mencionar também que, quando o coolie é 
engajado na índia, os agentes têm de mostrar ao magistrado um certificado 
provando que eles estão autorizados a tratar com o emigrante, e devem declarar, 
perante o mesmo magistrado e na língua própria do coolie, as condições sob as 
 
80 Alexander Scott Blacklaw (?-1899), escocês, começou sua vida como fazendeiro em Aberdeenshire, 
depois migrou para o Ceilão trabalhando como fazendeiro de café, onde teve contato com a mão de obra 
asiática, experiência essa contada no Congresso Agrícola. Por fim Blacklaw aparece no Brasil em diversas 
ocupações: como representante da Rio de Janeiro Sugar Factory e engenheiro-diretor das obras de 
construção de dois engenhos de centrais de açúcar em Mangaratiba e Araruama; empregado como 
importador por William Reid & Co, um firma no Rio de Janeiro; representante do The New London and 
Brazilian Bank Limited (antigo London and Brazilian Bank), assim como administrador da Fazenda 
Angelica em Rio Claro, São Paulo. Foi ainda co-autor de um livro intitulado Brazil as a coffee-growing 
country, 1878, sobre o Brasil como um país plantador de café; e dois artigos sobre a questão da mão de 
obra no Brasil e a recomendação da introdução da mão de obra asiática coolie no país: sendo um publicado 
no jornal The Anglo-Brazilian Times (RJ), edição 17, 7 de Setembro, 1878, p. 2. E outro no 20º volume do 
The South American Journal intitulado Slavery in Brazil., em 1882. Mais informações em: Jornal do 
Commercio (RJ): edição 127, 8 de maio de 1877, Provincia de São Paulo, p. 5.; edição 177, 27 de junho de 
1883, Gazetilha, p. 1.; https://www.manfamily.org/about/other-families/blacklaw-family/; 
https://www.manfamily.org/wp-content/uploads/2015/01/Slavery-in-Brazil-by-Alexander-Scott-
Blacklaw.pdf; https://www.manfamily.org/wp-
content/uploads/2015/01/Brazil_as_a_Coffee_Growing_Country.pdf; https://www.manfamily.org/wp-
content/uploads/2014/12/Alexander-Scott-Blacklaw-Will.pdf. 
81 Congresso Agrícola, pp.255-262. CONFERÊNCIA feita pelo Sr. Blacklaw perante o Congresso Agrícola, 
12 de julho 1878, acerca do trabalho dos coolies. 
https://www.manfamily.org/about/other-families/blacklaw-family/
https://www.manfamily.org/wp-content/uploads/2015/01/Slavery-in-Brazil-by-Alexander-Scott-Blacklaw.pdf
https://www.manfamily.org/wp-content/uploads/2015/01/Slavery-in-Brazil-by-Alexander-Scott-Blacklaw.pdf
https://www.manfamily.org/wp-content/uploads/2015/01/Brazil_as_a_Coffee_Growing_Country.pdf
https://www.manfamily.org/wp-content/uploads/2015/01/Brazil_as_a_Coffee_Growing_Country.pdf
 
 
43 
 
quais vai ele emigrar, o salário que há de ter e as outras vantagens que tem de 
receber. 
Além disto, o coolie passa por um exame médico, que é coisa muito 
importante, porque, si assim não se fizer, talvez emigre gente que não preste para 
nada, e o fazendeiro, ou o governo, ou quem dirige esse sistema de imigração 
terá de pagar passagem de volta, o que é um prejuízo muito grande. Assim, pois, 
é muito necessário que passem os coolies por um exame médico antes de emigrar. 
Depois desse exame, o coolie é posto à disposição do protetor dos 
emigrantes, que é escolhido pelo governo da índia e pago pela colônia. Esse 
protetor tem um registro, onde consta o nome, a idade, a aldeia ou distrito de onde 
saiu o coolie e tudo o mais que possa ser necessário para futuras informações. 
O governo da colônia pode ordenar se for preciso, a volta de qualquer 
coolie para a índia, se ele não for hábil, e tem igualmente a faculdade de mandar 
que qualquer deles, que sofra maus tratos, seja retirado da fazenda. 
São estas algumas das bases do sistema de imigração adotado na ilha 
Maurícia. Nada mais tem o orador a dizer sobre a situação dos coolies nessa 
ilha.82 
A relação dos indian coolies com o tratamento e cultivo do açúcar, ajuda a 
entender a participação, ainda que diminuta, de espaços socioecológicos açucareiros no 
Congresso. Em relação ao café, o congressista diz que as plantações de café no Ceylão 
entre os anos de 1825 e 1840 eram feitas por locais cingaleses, mas não eram habilidosos. 
No entanto, um processo migratório foi motivado nos anos de 1841/2 devido a uma 
grande fome no sul da Índia, em que os coolies buscavam serviço e comida. Já nas décadas 
de 1860/70, passada a grande fome, a migração continua “pelo lucro e amor ao dinheiro” 
contando, em 1864, com 315.500 coolies trabalhando em 300 mil acres de café. 
O salário dos coolies em Ceylão, que difere dos outros lugares onde não 
há imigração espontânea, é o seguinte: os homens recebem 8 pence por dia ou 
320 rs; as mulheres 7 pence ou 280 rs; os rapazes 6 pence ou 240 rs; e os meninos 
4 a 5 pence ou 160 a 200 rs, conforme a habilidade e força de cada um. O 
fazendeiro entrega-lhes todos os sábados o arroz de que necessitam durante a 
semana seguinte, levando-lhes, porém, a conta o respectivo valor.83 
Blacklaw considera os coolies como uma raça muito superior à dos negros, e igual 
à dos brancos, tendo apenas a pele bronzeada como diferença. Os coolies seriam ainda 
essenciais para a lavoura, pois funcionam no sistema de castas, obedecendo assim seus 
contratantes, pois “tem pouca confiança no homem preto, e respeitam o branco”. 
Tem convicção de que a lavoura tropical, a lavoura do café, não serve 
para gente branca. [...] não é questão de força; é a questão de concorrência de 
nosso café com o de outros lugares. Não há um branco que possa trabalhar pelo 
mesmo salário de um preto ou de um coolie da índia.84 
 
82 Idem, p.258. 
83 Congresso Agrícola, p.261. 
84 Idem, p.258. 
 
 
44 
 
O palestrante escocês define o custo da reprodução social da força de trabalho em 
termos raciais e, com isso, justifica uma divisão internacional ‘racializada’ do trabalho. 
Por fim, os coolies são indicados por ser “uma questão de dinheiro e economia, compra-
se café onde é melhor e mais barato. ” 
A vida do coolie no seu país é inteiramente de lavoura: cultiva arroz, 
algodão, anil e papoula para a produção do ópio. Como o clima é quente, do que 
tanto gostam os coolies, as suas casas são pequenos ranchos levantados com 
taquaras e área, cobertos de palhas de arroz, nos quais moram sem gastar quase 
nada, porque 2$000 por ano é quanto lhes basta para roupa, e felizes se julgam 
quando podem cultivar arroz suficiente para seu alimento e de suas famílias.85 
Os projetos de substituição de mão de obra por trabalhadores asiáticos mostram 
que há divergências manifestadas sobre todos os temas concernentes a essa classe. No 
entanto, as grandes comissões de representantes da lavoura das províncias de Rio de 
Janeiro, Minas Gerais, São Paulo e Espírito Santo, ao manifestarem suas opiniões 
plausíveis para a imigração asiática como movimento de trabalho transitório deram o aval 
ao governo para agir. As discussões foram, portanto, levadas mais adiante através de 
medidas dogoverno imperial e do gabinete Sinimbu, como a missão à China e o futuro 
Tratado de Amizade, Comércio e Navegação entre os Impérios chinês e brasileiro. 
Considerações 
No Brasil, as narrativas criadas para a emancipação do povo negro escravizado 
sempre se basearam em um contraponto, ora um novo processo imigratório para 
substituição da mão de obra escravizada, ora a indenização aos senhores de escravos. As 
discussões para os projetos de substituição de mão de obra pautavam sua concepção 
racializada da reprodução social do trabalho, tanto no nível internacional como no 
brasileiro. A imigração de asiáticos chineses insere-se no debate ao condicionar uma 
liberdade precária (indentured labor) em vias de meio transitório de trabalho. Os chineses 
eram uma esperança e uma ameaça para a nação brasileira. Esperança pelo trabalho, e 
ameaça por serem inadequados para o liberalismo embranquecido do Brasil. As 
representações racializadas dos trabalhadores chineses não são exclusivas ao caso 
brasileiro. A presença da migração transnacional chinesa em outros países, desde o início 
do século XIX, construiu globalmente imagens culturais dos trabalhadores chineses 
através da unidade dos coolies ou chins sendo uma ameaça a evolução sociológica das 
 
85 Idem, p.260. 
 
 
45 
 
raças e um entrave a imigração europeia para o trabalho livre. No entanto foi no caso 
brasileiro o casamento experimental de trabalho forçado entre chineses e a cafeicultura 
no mesmo espaço socioprodutivo da escravidão, sendo Havaí, Ceilão e Ilhas Maurício 
espaços de casamentos distintos. Foram os cafeicultores brasileiros através da sua ótica 
centrada no fim da escravidão que, ao analisarem os processos globais de reestruturação 
das forças de trabalho da economia global, perceberam nos asiáticos chineses uma 
possível saída para a manutenção de seus processos estruturantes de reprodução da 
acumulação do capital através de mão de obra forçada. Essa mudança global é sentida ao 
iniciar do século XIX com investidas britânicas mais duras na região do Sudeste Asiático, 
principalmente na Índia. 
A visão de conjunto entre ampliação dos espaços produtivos de commodities, da 
reestruturação das relações sociais e da força de trabalho global através da desapropriação 
de terras em massa (a exemplo da Índia e sua colonização pela Grã-Bretanha) soma-se 
aos fatores responsáveis na diáspora asiática do século XIX, juntamente com o fim da 
escravidão negra. A representação orientalista foi responsável por aplainar as diferenças 
presentes na sociedade chinesa e por excluir o Império chinês como peça fundamental na 
transformação do capitalismo global do século XIX, sendo igualmente importante as 
transformações ocorridas na península do Sudeste Asiático. 86 A crise da escravidão 
negra no Brasil e a reestruturação da gestão do cativeiro brasileiro foi igualmente 
responsável pelo surgimento de projetos de políticas imigrantistas, no caso do presente 
trabalho, os asiáticos chineses. A geocultura do escravismo e da crise da escravidão 
puderam, em perspectiva comparada global, desenvolver relações globais de política 
imigrantista sinófila para a reformulação da força de trabalho. 
O Congresso Agrícola ao convocar a lavoura brasileira para discutir seus 
principais problemas teve um balanço positivo dentro dos temas propostos. Além da 
aprovação da eleição direta, o Gabinete Sinimbu pôde registrar vitórias dentro das bases 
sociais e políticas de seu governo. Reformas no ensino primário e instrução agrícola 
estavam agora em pauta imperial, assim como a missão à China, ou de circum-navegação, 
que o governo brasileiro realizou através do navio Vital de Oliveira. A missão passaria 
ainda pelo Japão, na tentativa de situar o Brasil na era dos tratados desiguais com o oriente. 
O contexto da missão brasileira na China não foi nada promissor. A falta de apresentação 
 
86 LEE, Ana Paulina. Mandarin Brazil: Race, Representation, and Memory. Stanford University Press, 
2018. P.37-39. 
 
 
46 
 
dos costumes e a dificuldade de intérpretes foram fatores que atrapalharam no 
entendimento de toda a questão. A missão ainda foi abalada pelo que se chamou de 
‘intrigas diplomáticas’, devido a uma iminente declaração de guerra da Rússia à China e 
a pressão internacional contra o comércio do ópio. O tratado, firmado em 1880, teve sua 
celebração com uma cerimônia no templo de Tientsin, que também foi um choque de 
culturas muito grande, visto que a formalidade política ocidental europeia não incluía esse 
hábito. 
Após a ratificação do tratado, Eduardo Callado prosseguiu com os intuitos da 
missão e organizou um “plano para a introdução de trabalhadores chins no Brasil”, tendo, 
no entanto, duas questões centrais que alarmavam os ânimos dos comissários chineses: 
os maus-tratos sofridos pela tripulação do navio durante a viagem e a falta do 
cumprimento das normas redigidas nos contratos de trabalho. Callado, com ótimas 
aspirações diplomáticas, sugere ações que possam minimizar as preocupações, como 
convidar alguns idosos chineses para o trajeto Brasil-China, – os mais velhos desfrutam 
de grande respeito e admiração no Celeste Império, dessa maneira o bom tratamento e um 
bom retorno deles significaria um ótimo sinal – e que eles ficariam incumbidos da seleção 
de trabalhadores imigrantes chineses, além da fiscalização dos termos contratuais. Além 
disso sugere que o trajeto seja feito por uma embarcação de bandeira chinesa. “Neste 
sentido, acrescentava que fora procurado por dois diretores da China Merchant’s Steam 
Navigation Merchant, anunciando-lhe a intenção de abrir uma linha regular de vapores, 
ligando portos da China com os do Brasil. ”87 No documento elaborado por Callado há a 
menção a um membro do capital chinês conhecido como Tong-King-Sing. O referido 
membro, no entanto, vindo ao Rio de Janeiro em 1883, foi responsável por causar um 
alvoroço entre as classes sociais cariocas, além de diversas revoltas políticas locais.88 O 
projeto, por sua vez, não teve seguimento. 
 
87 FERREIRA, Tânia Bessone da Cruz, GUIMARÃES, Lucia Maria Paschoal & NEVES, Lúcia Maria 
Bastos Pereira das. O Império do Cruzeiro do Sul e a Corte Celeste de Tien-Tsin: apontamentos sobre as 
relações sino-brasileiras no século XIX in Dossiê Poder Naval, Comércio e Instituições Militares no Brasil 
Oitocentista. Revista Navigator, V.6, N. 12, 2010. P.74. & LISBOA, Henrique Carlos Ribeiro. A China e 
os chins. Recordações de viagem. Rio de Janeiro: Fundação Alexandre de Gusmão/CHDD, 2016. [edição 
original, 1888]; LISBOA, Henrique Carlos Ribeiro. Os chins do Tetartos. Continuação d’a China e os Chins. 
Rio de Janeiro: Typ. da Emp. Democratica Editora, 1894; Cadernos do CHDD, ano XI, n. 20. Brasília: 
Fundação Alexandre de Gusmão, Centro de História e Documentação Diplomática, 2012. p.23-157. 
88 “A passagem do ilustre hóspede e de seus auxiliares pela capital do Império provocou grande rebuliço. 
Alvos de curiosidade, de murmurações e do habitual humor carioca, todos desejavam vê-los. Para se ter 
uma ideia do alvoroço, basta dizer que a extraordinária movimentação em torno da excêntrica comitiva 
serviu de mote para Artur Azevedo redigir a peça O Mandarim, a revista cômica do ano de 1983! Até o 
 
 
47 
 
 
 
escritor Machado de Assis, conhecido pela sua sisudez, dedicou uma crônica bem-humorada ao exótico 
visitante”. Idem ibidem.p.75. 
 
 
48 
 
CAPÍTULO 2 - OS FLUXOS E REFLUXOS GLOBAIS DA MÃO DE OBRA 
ASIÁTICA CHINESA NÃO QUALIFICADA: TERRA, TRABALHO, CAPITAL 
E RAÇA 
 
Momento de expansão e consolidação de impérios e estados nacionais, o século 
XIX foi também de grandes transformações globais. A mudança de paradigma global em 
200 anos (1700-1900), tendo sidoem um primeiro momento o sistema escravista uma das 
grandes engrenagens da economia global, conduz, em um segundo momento, à 
remodelação de fluxos e refluxos globais de mão de obra internacional. Portanto, a 
construção e remodelação dos novos tipos de mão de obra enquanto modelo de trabalho 
deu-se através da experiência da escravidão, sendo esta responsável por novas 
modalidades de trabalho. A íntima relação da escravidão e da posse do escravo com a 
terra, trabalho e capital fez ainda com que essas instituições fossem remodeladas através 
do olhar escravista para um novo modelo. Estudaremos a seguir um desses novos modelos, 
a imigração de mão de obra não qualificada asiática chinesa. 
De maneira geral são estimados 50 milhões de pessoas deslocando-se da Europa 
para os locais temperados (América do Norte) para trabalhar em assentamentos e 
contribuir na expansão imperial/territorial; e 30 milhões do Sudeste Asiático (Índia, China; 
e em menor número Javaneses, Japoneses e outros ilhéus do Pacífico) para trabalhar nas 
Américas tropicais em plantações, minas, construção de ferrovias e extração de guano.89 
Deve-se lembrar que as estatísticas de fluxos e refluxos de mão de obra global 
representam um padrão racial para as divisões do trabalho ao longo do século XIX. Há 
também em menor escala deslocamentos de brancos europeus para trabalharem nas 
plantações tropicais de Brasil e Cuba no período pós-escravidão, assim como na Guiana 
Britânica e Havaí; e de asiáticos, em sua maioria chinesa e indiana, para áreas emergentes 
de economias industriais, como os Estados Unidos e Canadá. Mesmo ainda dentro dos 
movimentos gerais de racialização do trabalho, entre brancos e não brancos, certos grupos 
 
89 LAI, Walton Look. Asian Diasporas and Tropical Migration in The Age Of Empire: A Comparative 
Overview. The Chinese in Latin America and the Caribbean. Leiden, Holanda. Brill. Disponível em: 
https://doi.org/10.1163/ej.9789004182134.i-242.18. & MAHMUD, Tayyab. Cheaper than a Slave: 
Indentured Labor, Colonialism and Capitalism. Whittier Law Review, Forthcoming, Seattle University 
School of Law Research. Volume 34, Issue 2, 2013. 
 
 
49 
 
eram marginalizados, em especial alguns grupos europeus de países agrícolas, como os 
irlandeses.90 
Pode-se separar ainda a migração entre inter e intrarregional, ou seja, dentro do 
mesmo continente e para fora; sem considerarmos ainda os fatores de atração e repulsão 
dos diversos movimentos migratórios. A migração e o assentamento de trabalhadores 
manuais não qualificados não são exclusivos do século XIX, como nos mostra Walton 
Look Lai.91 Para o caso asiático, a migração sazonal e de longo prazo do Sul e Sudeste 
desta região pode ser datada desde os períodos Tang (618-907 A.C) e Han (206 A.C-220 
D.C). Mesmo que não fosse ativa e legalmente encorajada pelo Império chinês a região 
do mar do Sul da China é um espaço de encontros e confluências. 
A chegada de portugueses, espanhóis, holandeses, ingleses e franceses na região 
asiática no século XVI marca o início das primeiras ligações econômicas que formarão 
uma rede de comércio, migração e influência com o passar dos anos. A rota do Galeão 
Espanhol Manilla, estabelecida pelo Império espanhol durante o controle das Filipinas 
(1565-1815), foi responsável por uma linha contínua durante 250 anos de comércio entre 
o Império espanhol e comerciantes asiáticos do mar do sul da China. A rota foi uma 
importante ligação e uma abertura para o posterior estabelecimento dos países ocidentais, 
além de representar oportunidades de imigração entre oriente e ocidente já fazendo contar 
durante o século XVII a presença de chineses no Peru e no México. 92 Essa ligação 
triangular é que ajudará na posterior expansão e estruturação de um dinamismo 
econômico global do atlântico-pacífico ao estabelecer conexões regionais econômicas, 
políticas e culturais que serão transformadas para a expansão econômica, colonização e 
exploração. No século XVII observamos também as primeiras inserções europeias para a 
 
90 O caso de irlandeses e de outros grupos europeus está relacionado com o período conhecido como “The 
Hungry Forties”, a Grande Fome, ou a Crise/Escassez da Batata. O surgimento de um fungo, a grande 
dependência do alimento em alguns países europeus e a disponibilidade de terras aráveis foi responsável 
pela morte de milhões de pessoas nas décadas de 1840 e 1850 que levaram onze países a um déficit 
populacional e a influenciarem a migração em massa na busca de sobrevivência. Sendo o mais afeto a 
Irlanda com a morte de grande parte da sua população. Vanhaute, Eric, C O’GRADA, and R PAPING. 
“The European Subsistence Crisis of 1845-1850. A Comparative Perspective.” When the Potato Failed. 
Causes and Effects of the “Last” European Subsistance Crisis, 1845-1850. Brepols, 2007. 15–42. 
Disponível em: <http://hdl.handle.net/1854/LU-359580> 
91 LAI, Walton Look. Asian Diasporas and Tropical Migration in The Age Of Empire: A Comparative 
Overview. The Chinese in Latin America and the Caribbean. Leiden, Holanda. Brill. Disponível em: 
https://doi.org/10.1163/ej.9789004182134.i-242.18. Pp. 28-31. 
92 HU-DEHART, Evelyn. & LÓPEZ, Kathleen. Asian Diasporas in Latin America and the Caribbean: An 
Historical Overview. Afro-Hispanic Review Volume 27, Issue 1, 2008. Pp.9-21. & HU-DEHART, Evelyn. 
Introduction: Transpacific Confrontation/Confrontación transpacific, Review: Literature and Arts of the 
Americas, Volume 39, Issue 1, pp. 3-12, 2006. 
https://doi.org/10.1163/ej.9789004182134.i-242.18
 
 
50 
 
exploração de indianos conduzida por portugueses, franceses e holandeses para o Ceilão, 
Ilhas Maurício e Reunião francesa no movimento de expansão dos impérios. 
 
Historia da China no século XIX – um voo de Dragão93 - O tardio Império Qing: 
apontamentos e problemas 
A última dinastia a governar a China, os Qing (1644-1912), um povo Manchu, 
fundaram as bases da China territorial como conhecemos hoje. O Império chinês era 
composto por diferentes etnias, sendo os Han o maior grupo, e os grandes responsáveis 
pela expansão territorial chinesa durante o governo Manchu Qing devido ao sistema de 
alianças políticas e militares entre algumas etnias.94 O primeiro ponto de inflexão do 
Império chinês acontece com a morte do Imperador Qianlong, nascido Hongli (1711–
1799), momento no qual o Império Qing atinge seu apogeu de prosperidade com um 
aumento populacional, crescimento econômico e investidas militares exitosas que 
aumentaram e demarcaram a China territorial. 
Como mostra Klaus Muhlhahn, a estabilidade geopolítica e econômica do Império 
Chinês na região asiática e a defesa de suas fronteiras eram (e são) de difícil manutenção, 
sendo a constância de relações pacíficas com estrangeiros e a afirmação de soberania do 
Império e da sua territorialidade um problema recorrente para as dinastias de maneira 
geral. 95 Sendo uma sociedade hierárquica cultural e socialmente, e o Imperador sendo o 
Filho do Céu, a afirmação através de simbologias e ritos era muito importante também 
nas afirmações com estrangeiros. 
Territórios distantes, mas influenciados pela política de soberania chinesa eram 
sujeitos, portanto, a um sistema de relações políticas específico, por exemplo, os 
territórios que hoje são Vietnã, Coreias e Japão. Esse não era um sistema puro e simples 
de tributações, ou ainda um típico tratado assinado entre países europeus. O sistema 
incluía a presença de grande parte da corte, de literatos e outras importantes classes, como 
 
93 Em específico para o nosso estudo analisaremos a história do Império chinês entre 1800 e 1875 apenas 
no intuito de marcarmos as confluências da dinastia Qing (1644-1912) com os poderes ocidentais, sabendo 
ainda que interseções anteriores foram feitas.Reafirmamos, no entanto, que a data e os fatos anteriores não 
são descolados da história chinesa, sendo igualmente confluências históricas e fatores de causa e 
consequência ao longo dos anos. 
94 As etnias chinesas por ordem de grandeza são: Han (汉), Zhuang (壮), Hui (回), Manchus, (man 满), 
Miao (苗), Uigures, (weiwuer 维吾尔), tibetanos, (záng 藏) e os mongóis (mengu 蒙古). 
95 MUHLHAHN, Klaus. Making China Modern: From the Great Qing to Xi Jinping. Cambridge, 
Massachusetts: The Belknap Press of Harvard University Press, 2019. Pp. 76-84. 
 
 
51 
 
uma espécie de intercâmbio financeiro cultural, em que se afirmava a soberania chinesa 
frente as outras sociedades. As conexões políticas, culturais e econômicas criadas e 
mantidas por esse intercâmbio foram capazes de manter uma determinada ordem social e 
de bonança econômica para os estados envolvidos, visto que os regimes locais não eram 
ameaçados politicamente pelo Império Chinês, que ao mesmo tempo que respeitava e 
alicerçava as bases asiáticas locais, também mantinha sua soberania na região; não apenas 
social, mas também economicamente, pois essas rotas eram parte importante da dinâmica 
comercial asiática e no seu crescimento econômico. Esse tipo de afirmação de soberania 
e dominância pacífica foi capaz de, no longo prazo, levar o Império Chinês a ser um dos 
maiores e mais influente Império durante o século XVIII e início do XIX. 
Podem-se destacar ainda três mudanças ocorridas ao longo do século XVIII que 
remodelaram o curso da história chinesa: o estabelecimento sólido da presença europeia, 
a duplicação do tamanho territorial do império chinês, e a duplicação da população 
chinesa Han.96 As mudanças foram, portanto, responsáveis por alterar não somente a 
relação do Império do Meio com as potências europeias, mas também de aumentar e 
consolidar o poder político chinês na região asiática. Por outro lado, o aumento 
populacional e a expansão do território foram também fatores responsáveis por crises de 
fome no século XIX. 
Durante o período Qing, ressaltaremos apenas os quatro primeiros do século XIX. 
O Império de Jiaqing (1796-1820), em que se podem destacar a supressão da rebelião da 
Lotus Branca em 1804, a discussão com uma embaixada britânica em 1816 de William 
Pitt Amherst para negociar redução de tarifas (que não funcionou), e a má gestão do 
controle do Rio Amarelo resultando na inundação em dezessete vezes. Posteriormente 
tem-se o Imperador Daoguang (1820-1850) com problemas recorrentes e resultantes da 
não e/ou má conservação do Rio Amarelo, rebeliões regionais, corrupção entre os oficiais, 
e a não satisfação dos britânicos com as regras e tarifas comerciais; além de novos 
problemas como a propagação do consumo do ópio, as Guerras do Ópio (1839-1860), e 
o consequente Tratado de Nanquim (1842), junto das indenizações em dinheiro acima do 
orçamento imperial chinês para a Grã-Bretanha. Em seguida o Imperador Xiangfeng 
(1851-1861) que por sua vez herdou de seu pai más e consequentes problemas da gestão 
anterior; assim como a Revolta Taiping (1851); as pressões políticas e militares francesas 
 
96 FLETCHER, Joseph. Ch’ing Inner Asia c. 1800. Chapter 2. Inn. FAIRBANK, John K. and TWITCHETT, 
Denis. (Eds.). The Cambridge History of China, Volume 10, Late Ch'ing, 1800-1911, Part 1. Cambridge 
University Press, 1991. Pp. 35-106. 
 
 
52 
 
e britânicas em relação aos tratados desiguais; a mudança de curso do Rio Amarelo em 
1855 devido as recorrentes inundações, o que causou uma catástrofe ecológica e 
humanitária em aproximadamente 1 milhão de mortes; a guerra declarada pela França e 
Inglaterra, em 1856, nas disputas por Guangzhou, além da invasão e saque da cidade de 
Beijing, dos consequentes novos tratados desiguais e tomada de territórios na nova 
política de expansão europeia. Por fim temos o Imperador Tongzhi (1861-1875) em que 
foi realizado um governo de dominação conjunta entre Ci’an, a Imperatriz, e Cixi, uma 
consorte elevada a segunda imperatriz por ter o único filho homem do Imperador, na 
tomada do poder imperial. O período de reinado das Imperatrizes, mesmo que não 
oficialmente, foi de desenvolvimento de poder compartilhado entre o Imperador criança, 
uma junta de sábios confucianos, os governadores civis e as formas militares, que 
proporcionaram o combate e a vitória sobre a rebelião Taiping (1864), Nian (1868), e a 
revolta Muçulmana (Kashgar 1873); podemos citar também os ataques russos nas 
fronteiras marítimas e do Norte de 1839 a 1860; e devido ainda às agressões europeias 
um segundo governo de dominação conjunta foi formado entre a China, Inglaterra, França 
e Estados Unidos que, findada a Guerra Taiping e as Guerras do Ópio, davam a China 
acesso aos novos recursos (empréstimos) para reconstrução.97 
Durante o século XIX temos o período conhecido como os 100 anos de decadência 
em que o império Qing enfrentou desafios econômicos, políticos, culturais e de segurança. 
As consequências de más administrações, postergação de problemas recorrentes, e da não 
perspectiva de mudança em relação ao ocidente invasor desencadearam uma explosão de 
ativismo imperial, oficial e de literatos que buscavam a reforma e renovação do Governo 
Qing. O Império do Meio que antes atuava com uma política soberana e de superioridade, 
não só dentro da Ásia, mas também com países ocidentais, via-se com novos desafios. 
Com a virada do século XIX iniciam-se também incursões imperialistas 
expansionistas europeias com mais frequência cujo intuito era de exploração e dominação 
de territórios asiáticos. Sendo a China, ou ainda Beijing, um dos epicentros das relações 
políticas, sociais, culturais e econômicas no Pacífico, ela foi a escolha para incursões 
políticas de dominação e ataques estrangeiros, por exemplo da França e Inglaterra, para 
o controle dessas relações; além dessa há ainda outra incursão na fronteira norte do país 
através da Rússia que também preocupava o Império do Meio. Foi, portanto, através do 
 
97 CROSSLEY, Pamela. EMPERORS, 1800–1912. Inn. PONG, David. (Ed. In Chief). Encyclopedia of 
modern China, Charles Scribner’s Sons, 2009. Volume 1, A-E. pp. 505-509. 
 
 
53 
 
expansionismo europeu, com os avanços tecnológicos e industriais, e as mudanças 
globais de paradigmas de capital, terra e trabalho, que a China recebe um duro golpe 
durante o século XIX. 
A administração Qing, apesar de seus problemas, foi responsável por importantes 
mudanças socioeconômicas que levaram a vida do chinês cotidiano a ser mais 
interconectada com a vida urbana e com os mercados locais e internacionais. Essa 
bonança gerou ainda um salto de crescimento populacional que quadruplicou a população 
chinesa de 100 milhões em 1660 a 430 milhões em 1850. No entanto isso intensificou a 
competição por recursos econômicos diários gerando conflitos e tensões nos menores 
níveis administrativos chineses.98 No campo da ecologia, a degradação de longo prazo, 
assoreamentos, enchentes, inundações e mudanças de curso nos principais rios da China, 
como no Rio Amarelo em 1844 e 1855, minaram diversas instalações e vilas, alterando o 
sistema de irrigação e as principais safras que alimentavam a população. Em 
consequência, junto das invasões e ataques estrangeiros, há um aumento de incidentes de 
violência através de revoltas étnicas e/ou religiosas locais, como as revoltas Taiping 
(1851–1864), Nian (1851-1868), Miao (1854-1873) e a Rebelião Muçulmana (1862-
1877). Podemos analisar no mapa abaixo, a proximidade das regiões das revoltas 
mencionadas. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
98 LEONARD, Jane Kate. OVERVIEW, 1800–1860. Inn. PONG, David. (Ed. In Chief). Encyclopedia of 
modern China, Charles Scribner’s Sons, 2009. Volume 3, N-T. pp. 205-208. 
 
 
54 
 
Mapa 5: Rebeliões na China no século XIXFonte: Nian Uprising. BOHR, P. Richard. Inn. PONG, David. (Ed. In 
Chief). Encyclopedia of modern China, Charles Scribner’s Sons, 2009. 
Volume 3, N-T. p. 41. 
Não é por acaso a proximidade regional das revoltas. Tendo o governo chinês a 
sua centralidade administrativa e política na capital, as outras províncias tinham seus 
próprios líderes regionais. Além disso, em tempos de crise, como em grande parte do 
século XIX, há o surgimento de grupos e líderes locais que não só protegem a província, 
como também se revoltam para proteger seu povo. Com o primeiro surgimento da 
rebelião Taiping, outras rebeliões surgiram para protestar, mas também para a proteção 
regional e da sua etnia, no entanto cada uma com sua particularidade cultural. Surgida 
através de um conflito étnico e das dificuldades econômicas e sociais do século XIX, a 
revolta Taiping sintetiza na China uma luta por melhores condições de vida. Tal revolta, 
apesar de sua grandiosidade e o grande número de mortos, aproximadamente 20 milhões, 
 
 
55 
 
não teve tanta penetração cultural no modo de vida chinês por ser conectada a uma 
religião estrangeira: o cristianismo. 99 
A revolta Nian, por outro lado, foi uma insurreição camponesa de defesa contra 
as tropas imperiais que buscavam erradicá-los, sendo um modelo de revolta autônoma e 
contra a autoridade imperial. Os Nian foram, portanto, uma rebelião camponesa com 
maior aproximação cultural dos modos de vida chines devido a sua proximidade com 
pensamentos budistas e confucianos, e de movimentos locais, como o grupo Lotus 
Branca.100 
A insurreição Miao representou uma das consequências da hostilidade étnica do 
governo e das tropas imperiais. Com as principais motivações e reivindicações temos a 
escassez de alimentos, a fome, competição por terras aráveis, e aumento abusivo dos 
impostos sobre os alimentos – esse último devido aos altos gastos com a rebelião 
Taiping.101 As Grandes Rebeliões Muçulmanas também eclodiram na mesma época e, 
juntamente com a revolta Miao, fazem parte do combate à violência contra as minorias 
étnicas na China e aos aumentos abusivos de impostos.102 
 
A era dos tratados desiguais: invasões e rebeliões 
Devido também às fragilidades administrativas locais e imperiais, o aumento do 
orçamento imperial e da burocracia chinesa, e a falta de uma reforma sócio-política 
eficiente que confluísse entre os novos desafios internacionais e a base confucionista 
imperial, o império Qing enfrentou o surgimento de novos desafios. O Império Qing ainda 
tentou inciativas no intuito de reformar seu sistema frente aos novos desafios, mas os 
esforços não conseguiram conter a fragilidade administrativa imperial e os contínuos 
problemas socioeconômicos. As invasões estrangeiras (Grã-Bretanha, França e Rússia), 
as Guerras do Ópio (1839-1860), o surgimento das revoltas e rebeliões locais, alguns 
desastres populacionais e ecológicos são apenas alguns dos desafios em uma era também 
conhecida como Era dos Tratados Desiguais, em que as invasões estrangeiras causaram 
prejuízos econômicos, sociais e culturais em toda a China. Nesse curto período de 100 
anos, pouco se comparado a história de um Império de mais de 2 mil anos, a abertura dos 
 
99 KUHN, Philip A. The Taiping Rebellion. FAIRBANK, John K. (Ed.) The Cambridge History of China, 
Cambridge University Press: Cambridge, 1978. Volume 10. Part 1. pp. 264-317. 
100 BOHR, P. Richard. Nian Uprising. Inn. PONG, David. Op. cit, 2009. Volume 3, N-T. pp. 40-41. 
101 SUTTON, Donald S. Miao Uprisings. Inn. PONG, David Op. cit, 2009. Volume 2, F-M. pp. 582-584. 
102 NEWVY, Laura J. Muslim Uprisings. Inn. PONG, David. Op. cit, 2009. Volume 2, F-M. pp. 651-653. 
 
 
56 
 
portos chineses ao comércio estrangeiro, a derrocada do sistema imperial, ao aumento do 
consumo do ópio, a escassez da prata chinesa, e a um fluxo e refluxo de mão de obra 
chinesa para o estrangeiro nunca visto. Essas mudanças inserem-se ainda na virada de 
paradigma do sistema capitalista global ao incluírem o sudeste asiático frente a América 
escravista (Brasil, Cuba e EUA) como um novo centro de trabalho mundial. Estudaremos 
a seguir alguns dos fatores de repulsão populacional da China continental. 
 
As papoulas e o ópio 
O fármaco derivado das papoulas era utilizado na China desde a dinastia Tang 
(618- 907) como um importante aliado no combate a doenças e como uma droga 
medicinal. O fumo do ópio, no entanto, remete a tempos mais modernos, após 1750, junto 
das primeiras importações já da exploração inglesa nas Índias e sua produção. Em 1836 
acontecem os primeiros debates na corte chinesa sobre o consumo e controle do ópio que, 
por sua vez, eram de difícil controle, tanto das plantações de papoula (localizadas em 
jurisdições estrangeiras), e a distinção entre uso medicinal e recreativo. Como nos conta 
Alan Baumler, O Império chinês não dava grandes atenções ao consumo do fármaco, 
sendo somente a interdição feita no fornecimento de ópio estrangeiro, especialmente o 
comércio do ópio indiano controlado pelos britânicos em Guangzhou (Cantão). Os fatores 
econômicos, dentro do Império favoreciam o pouco combate ao consumo e ao comércio, 
mas é durante o tardio Império Qing, depois de 1800, que há um maior consumo do 
fármaco estrangeiro no modo de fumo e psicoativo. Esse aumento fez com que as 
importações do produto aumentassem, minando ainda as reservas de prata da China para 
o pagamento desse novo hábito.103 A destruição de uma carga de ópio em Humen seria 
ainda o estopim para a invasão britânica e as Guerras do Ópio. 
As Guerras do Ópio são então uma guerra comercial em que a Grã-Bretanha, 
insatisfeita com os acordos e disposições anteriormente feitos, devido a uma série de 
mudanças nas relações sino-britânicas, inicia ataques às representações oficiais chinesas 
para o fim do monopólio comercial, como por exemplo, ao sistema de comprador.104 De 
 
103 BAUMLER, Alan. Opium 1800-1950. Inn. PONG, David. Op. cit, 2009. Volume 3, N-T. pp. 505-509. 
104 O sistema de comprador regularizava o comércio com os estrangeiros, ao obrigar que estes só poderiam 
comercializar através de mercadores chineses e pagando impostos. No entanto foi nos séculos XVIII e XIX 
que os mercadores estrangeiros se revoltaram contra o sistema por não ser transparente; sendo ainda essa 
revolta uma das razões para a eclosão da Guerra do Ópio. Para mais informações sobre esse sistema ver: 
SHIROYAMA, Tomoko. Comprador. Inn. PONG, David. Op. cit, 2009. Volume 1, A-E. pp. 345-346. 
 
 
57 
 
acordo com Emily M. Hill105, o ópio era a commodity mais importante em 1820, na 
relação comercial entre Grã-Bretanha e China, maior que chá, seda e porcelana; com o 
fim do monopólio e o acesso estrangeiro aos portos chineses, a balança comercial chinesa 
passa a ser deficitária, pois enquanto entre 1800 e 1810, 26 milhões de dólares mexicanos 
entraram para a China, entre 1828 e 1836 foram 38 milhões de dólares mexicanos e de 
prata que saíram para o pagamento das importações de ópio. 
Devem-se considerar ainda alguns pontos importantes, sendo a importância da 
prata nas reservas da economia chinesa; e outro que, apesar das investidas estrangeiras, 
não foram as Guerras do Ópio as responsáveis pela dominação chinesa, pois devido ao 
seu grande Império, era possível a existência de uma espécie de simbiose conflituosa entre 
as forças existentes. As investidas britânicas, e a força aliada anglo-francesa, vitoriosas 
nas guerras foram responsáveis pelos tratados desiguais de livre comércio e de nação mais 
favorecida em que portos e territórios foram concedidos a potencias estrangeiras, 
juntamente na ampliação de privilégios sociais e econômicos, sem esquecermos ainda dos 
direitos ao livre missionarismo cristão na China. O que nos leva também a concordarmos 
com Hill é que, ao analisarmosos tratados resultantes das guerras, nenhum deles 
menciona o comércio do ópio, sendo a concessão de territórios um fator predominante, 
juntamente do livre comércio e de paridade de direitos. 
 
Os usos e padrões de posse da terra 
Um dos pontos importantes de notarmos com o nascimento do século XIX são as 
alterações nos padrões de posse e uso da terra. Assim como no Brasil, em que, com o fim 
da escravidão, as relações socioinstitucionais de acesso à propriedade rural foram 
transformadas. Algumas partes do território chinês também sofreram uma mudança 
semelhante. 
O Estado Qing, ou ainda o Imperador, detinha a posse de toda a terra disponível 
na China. Podendo um lote agrário ser requerido mediante o pagamento de impostos. O 
Império ainda tinha o interesse em manter a terra disponível arável, pois, com a grande 
população chinesa, grandes fomes e secas eram iminentes em diversas regiões do país. 
Interessante notarmos ainda uma das diferenças nos padrões de uso e posse da terra 
chinesa na divisão do solo em "solo superficial" e "subsolo"106. 
 
105 HILL, Emily M. Opium Wars 1800-1950. Inn. PONG, David. Op. cit, 2009. Volume 3, N-T. pp. 60-65. 
106 ISETT, Christopher M. Land Tenure since 1800. Inn. PONG, David. Op. cit, 2009. Volume 2, F-M. pp. 
423-427. 
 
 
58 
 
Essa divisão de direitos foi capturada na frase “um campo, dois 
proprietários” (yi tian, liangzhu). Os direitos permanentes do solo superficial 
foram concedidos aos camponeses para a abertura de terras devastadas ou para 
investimentos significativos de trabalho e capital, ou foram adquiridos com o 
pagamento de um depósito (yazu). Por costume, os proprietários do solo 
superficial podiam vender seus direitos condicionalmente ou totalmente, 
penhorá-los como garantia de um empréstimo, transferi-los por herança ou 
arrendá-los a outra parte. O proprietário desses direitos não poderia ser removido 
da terra, exceto por falta de pagamento do aluguel, e às vezes nem mesmo assim. 
Normalmente, os proprietários não podiam aumentar os aluguéis dos 
proprietários do solo. Nas regiões onde os camponeses passaram de uma para 
duas safras por ano durante as dinastias Ming e Qing, os proprietários não podiam 
exigir um aluguel na segunda safra.107 (Tradução livre) 
Portanto em contraponto ao Brasil, onde esse movimento de precificação da terra 
na segunda metade do século 19 se relacionou com a montagem de um sistema de crédito 
hipotecário, na China os tipos de movimento de posse e uso são mais antigos e diferentes 
do caso brasileiro. Em grande parte da história brasileira os padrões de uso e posse da 
terra têm íntima relação com a escravidão e com os produtos que dela dependiam, a 
exemplo do café e açúcar. Sendo igualmente dependente disso os novos modelos de 
trabalho surgidos. 
Na história chinesa, apesar de sua vastidão territorial, as grandes áreas 
populacionais concentravam-se nos territórios litorâneos e de fronteira com outras regiões. 
A territorialidade chinesa tem ainda uma íntima relação com a disposição dos rios e suas 
confluências, sendo a movimentação fluvial de grande importância não só para o fluxo e 
refluxo de pessoas, como também de cargas e produtos. 
Os padrões e uso e posse da terra na China são, portanto intimamente ligados à 
disposição de terra aráveis e de "subordinar o ambiente natural aos ditames da agricultura 
em relação ao crescimento populacional"108. Sendo uma sociedade agrária e com grande 
aumento populacional havia diversos entrepostos comerciais ligados com as conexões 
fluviais do delta de rios, a exemplo dos rios Yangzi e Han, com alta movimentação intra 
e inter-regional de mercadorias e de pessoas.109 
Há o comércio em cidades de entreposto, como Hankou, localizada na 
confluência dos rios Yangzi e Han, de arroz e chá no Médio Yangzi; algodão, sal 
e produtos manufaturados do Baixo Yangzi; arroz, sal e ervas medicinais de 
 
107 ISETT, Christopher M. Land Tenure since 1800. Inn. PONG, David. Op. cit, 2009. Volume 2, F-M. pp. 
423-427. 
108 MACPHERSON, Kerrie L. Land Tenure since 1800. Inn. PONG, David. Op. cit, 2009. Volume 2, F-M. 
pp. 427-431. 
109 ROWE, William. Domestic Trade: 1800-1900. Inn. PONG, David. Op. cit, 2009. Volume 1, A-E. pp. 
423-425. As ferrovias só aparecerão na China continental depois da virada do século XIX para o XX. 
 
 
59 
 
Sichuan; peles, feijão, tabaco e álcool do Noroeste; milho, feijão, carvão e 
produtos de cânhamo do norte da China; madeira e laca do Sudoeste; e açúcar, 
frutas, produtos marinhos, ferragens e uma crescente variedade de produtos 
estrangeiros da costa sudeste.110 
Enquanto no Brasil o fluxo de mercadorias e de produtos era taxado mesmo que 
dentro do país, na China não havia um imposto regular sobre o fluxo. Impostos foram 
criados apenas em momentos de rebeliões e crises de fome para minimizar o aumento dos 
preços, que também não era definido pelo governo, e para regular a distribuição.111 
 Conforme comentado, a sociedade chinesa era hierarquicamente dividida dentro 
dos ditames confucianos. Uma grande classe de literatos, oficiais do governo, professores 
e acadêmicos faziam parte do topo da pirâmide; enquanto mercadores encontravam-se na 
ponta oposta, por irem contra os princípios filosóficos de Confúcio, por buscarem 
somente o lucro e não gerarem nada em troca à sociedade. Contrastavam, portanto, 
fundamentalmente com seus congêneres na Europa, onde sua posição encontrava também 
o poder político. Grande parte desses mercadores autônomos faz parte dos fluxos e 
refluxos migratórios chineses, juntamente de camponeses. 
O colapso da ordem chinesa Qing interna durante o século XIX, com rebeliões, 
fome, invasões, falta de terra arável; a remodelação de territórios fazendas globais, com 
o fim da escravidão, a necessidade de mão de obra barata para a manutenção dos preços 
globais, o estabelecimento de novas colônias, e crises sociais e de fome, são alguns dos 
fatores que levaram a emigração a ser uma saída mais viável. As províncias chinesas 
costeiras mais comuns de grande movimentação de pessoas, ou ainda os distritos de 
imigrantes - 侨乡 qiaoxiang (immigrants native areas) – compartilhavam algumas 
características comuns, entre elas o relevo de terrenos montanhosos e a escassez de terras 
aráveis, o que servia ainda mais como fatores de repulsão. 112 
 
Os alicerces do trabalho contratado 
 
110 ROWE, William. Domestic Trade: 1800-1900. Inn. PONG, David. Op. cit, 2009. Volume 1, A-E. pp. 
423-425. 
111 GARDELLA, Robert. Commercial Elite: 1800-1949. Inn. PONG, David. Op. cit, 2009. Volume 1, A-
E. pp. 320-322. 
112 NG, Wing Chung. Chinese Overseas: Sending Areas. Inn. PONG, David. Op. cit, 2009. Volume 1, A-
E. pp. 241. Entre alguns territórios podemos citar a parte sul de Fujian, especialmente Quanzhou e 
Zhangzhou, como porto dos Hokkiens, que partiram e retornaram via Xiamen; do outro lado da fronteira 
provincial no Leste Guangdong há a região nativa dos Teochews, em que o fluxo ocorria por Shantou; e ao 
sul a área cantonesa do Delta do Rio das Pérolas. Frequentemente subdividido nos Quatro Condados que 
tinham acesso no exterior por meio de Guangzhou, Hong Kong e, para um menor extensão, Macau. 
 
 
60 
 
Nos séculos XVIII e XIX é que se conseguiu apontar a remodelação de ações de 
países europeus, como Grã-Bretanha e Espanha, e de suas empresas - como a Companhia 
Britânica das Índias Orientais e a Companhia Cubana de Imigração para Havana - e dos 
Estados Unidos na exploração e utilização do trabalho contratado de asiáticos, em 
especial de indianos e chineses, devido ao processo de fim da escravidão negra global. O 
processo de 200 anos de intervenção, exploração e colonização do território asiático 
indiano pelo Império inglês, e de sua Companhia, foram responsáveis pela transformaçãosocial e econômica da utilização da terra e do trabalho em favor dos colonizadores. Os 
atos de emancipação e abolição da escravidão publicados pelos impérios europeus a partir 
da década de 1830 foram responsáveis por gerar uma crise na economia produtiva de 
commodities ao libertar a maior parte dos trabalhadores escravizados da agricultura 
mercantil de exportação. A sustentação da economia global e da alta demanda de produtos 
primários tinha, portanto, uma nova variável necessária, o trabalho contratado – o mais 
barato possível. 
Como mostra Tayyab Mahmud, a expansão dos impérios europeus no transcorrer 
do século 19 dependeu profundamente da introdução do trabalho contratado forçado, 
principalmente depois da abolição do tráfico negreiro transatlântico e da queda da 
escravidão negra. 
A transformação de modo de trabalho fez também mudar o regime de trabalho e 
a fonte da exploração de trabalhadores: da escravidão para novos tipos de trabalho 
contratado e/ou forçado, e da África para a Ásia.113 É, portanto, através da experiência de 
trabalho da escravidão que as novas formas de trabalho são modeladas e remodeladas, 
assim como os modos de dominação e exploração da terra.114 
O território asiático indiano marcado pela presença do Império Britânico e seus 
modos de exploração colonial marcaram ainda a reestruturação da economia, da terra e 
do trabalho – sendo este exemplo não só um dos primeiros historicamente, mas também 
o que serviu de base para as formas de exploração em outros territórios asiáticos e na 
estruturação dos contratos de trabalhadores. Com a expansão dos Impérios europeus, o 
aumento da necessidade de commodities, e a sua alta no mercado global, os colonizadores 
 
113 MAHMUD, Tayyab. Op. cit, 2013. PP. 1-15. 
114 No caso brasileiro, por sua vez, a sustentação da escravidão enquanto modelo de Estado deu-se por 
tempo suficiente para que as remodelações e inserções de novas forças de trabalho só fossem possíveis na 
virada para o século XX. Havia sim outros modelos de força de trabalho, como o caso dos italianos na 
Provincia de São Paulo, mas não na mesma ordem de grandeza dos números da escravidão negra. 
 
 
61 
 
despojavam a terra dos trabalhadores locais para a plantação de algodão, por exemplo. A 
mudança entre cultivo de subsistência/ mercado local para os cash crops fez com que a 
população fosse repelida, alterando a produção e distribuição doméstica de alimentos e 
deixando à margem milhões de trabalhadores rurais. No caso indiano: 
A reestruturação colonial da economia indiana, em particular a 
subordinação em todos os aspectos da economia colonial, para as necessidades 
dos colonizadores [...] produziu a desapropriação de fazendeiros e trabalhadores 
rurais, que se tornaram disponíveis para a introdução no circuito global de 
trabalhadores contratados.115 
Foram, portanto, a apropriação de terras por estrangeiros e a reestruturação para 
plantações de commodities responsáveis pela alteração dos padrões de posse de terra e, 
consequentemente, de trabalho e de acumulação de capital – sendo a terra transformada 
em um bem avaliável. Do outro lado desta mesma moeda tem-se o trabalho sendo 
comodificado, ou seja, transformado em mercadoria como resultado da incorporação 
territorial da Índia ao sistema da economia global capitalista, sendo inserida ainda na 
divisão global do trabalho.116 
No caso indiano, assim como no chinês, o processo de acumulação de capital deu-
se através da despossessão territorial que criou, como consequência, os fatores de 
repulsão local responsáveis pelo excedente populacional disponível para trabalho 
contratado. Visto que a escravidão já estava em seu fim internacionalmente, as relações 
de exploração dar-se-iam por outros modos suplementares criados pela legislação 
internacional para afirmação de soberania, ou seja, a reprodução, regulação e governança 
de territórios estrangeiros através da exploração legal.117 Veremos a seguir como isso 
ocorreu no caso chinês. 
A primeira mudança nos padrões de posse e uso de terra chinesa por potências 
estrangeiras deu-se pela Grã-Bretanha na província de Hong Kong, como mostra Peter 
Hamilton. O autor considera ainda essa primeira mudança nos padrões como uma fagulha 
de capitalismo no território asiático, ao concordar e entender o capitalismo como “uma 
 
115 MAHMUD, Tayyab. Op. cit, 2013. P. 34. TRADUÇÃO LIVRE. 
116 Assim como no Brasil, esse mesmo movimento de acumulação de terra em posse foi responsável por 
repelir novos tipos de imigração com intuitos de colonização, de afastar as populações locais mais pobres 
para além das fronteiras agrícolas e de reestruturar os meio de acumulação de capital. O movimento criou 
ainda um grupo de trabalhadores pobres e não qualificados disponíveis para o trabalho contratado – no 
casos asiáticos, chineses e indianos em sua maioria. 
117 MAHMUD, Tayyab. Op. cit, 2013. 
 
 
62 
 
entidade empenhada na acumulação de capital para seu próprio bem, desse modo 
impulsionando novos avanços nas forças produtivas e nas relações de produção. ”118 
O capitalismo, portanto, funciona como um sistema em que a estrutura do estado 
engloba as relações sociais de propriedade em volta às forças do mercado, não permitindo 
a qualquer grupo ou individuo pleno isolamento contra os processos de acumulação. O 
autor revela ainda que a China, apesar de não ser capitalista, e ter os meios necessários 
para o seu desenvolvimento, não consegue criar o capitalismo em nenhuma parte do 
território Qing; ocorrendo apenas em Hong Kong com a influência britânica. Após a 
dominação inglesa sobre a ilha, o governo colonial reestruturou os padrões de posse e uso 
da terra para maximizar a acumulação primitiva de capital ao transformar a terra em 
produto estimável e a modo de commoditie, dessa maneira fazendo todos seus habitantes 
suscetíveis às leis do mercado. 
Com a criação ainda de impostos sobre os novos bens precificáveis, o governo foi 
capaz de englobar todos os residentes, obrigando aqueles que não tivessem dinheiro a 
venderem suas terras. No entanto esse movimento não seria possível sem as conexões 
globais que impulsionaram o movimento capitalista sino-britânico. Como alicerce, a 
escravidão nas Américas foi uma das chaves a prover o capital necessário para a 
Revolução Industrial e a maturação do capitalismo industrial, sendo este último o 
responsável pela eliminação da escravidão frente a nova forma de trabalho, o trabalho 
assalariado. Outro alicerce ainda foi a corrida do ouro na California que impulsionou os 
movimentos de trabalhadores chineses, que ao iniciar do comércio transpacífico foram 
não só trabalhadores de minas e ferrovias, mas também atores chaves no processo de 
colonização da California e da transformação das Américas ao longo do século XIX. 
 
Comércio coolie 
Adota-se nesta pesquisa o termo coolie trade, ou comércio coolie, para referir-se 
às migrações de trabalhadores contratados chineses para os espaços de monocultura 
latifundiária havendo, ou não, a presença da escravidão como modo de trabalho na 
América Latina, Cuba e Peru, e em menor quantidade para as Índias Oestes britânica, 
francesa e holandesa, no século XIX.119 Sabemos ainda que outros conceitos existem 
 
118 HAMILTON, Peter. The Imperial and Transpacific Origins of Chinese Capitalism. Journal of Historical 
Sociology. Special Issue: Capitalism and American Empire. Volume 33, Issue 1. 2020. P. 135. 
119 LAI, Walton Look. Coolie Trade. Inn. PONG, David. Op. cit, 2009. Volume 1, A-E. pp. 243-257. 
 
 
63 
 
como nos conta ainda Evelyn Hu-DeHart para esse grupo de chineses huaqiao 
(imigrantes), sendo huagong os trabalhadores e huashang os mercadores. 
Independentemente do conceito tratado, devemos nos atentar para o fato de que os 
chinesesentraram em sociedades multirraciais dominadas por uma dualidade entre 
brancos europeus e sua estrutura de poder, e os negros escravizados. Suas oportunidades 
e empreitadas variaram, portanto, de acordo com o tempo e espaço que ocuparam.120 
Os movimentos asiáticos de diáspora, com foco aqui no movimento de chineses 
como trabalhadores não qualificados contratados através de contratos forçados para a 
América Latina e outras regiões, só ocorreram com o surgir das primeiras décadas do 
século XIX. 
Nesse período de crise da escravidão, as novas reordenações globais de expansão 
e desenvolvimento dos mercados mundiais, da extração mineral e de guano, têm também 
uma necessidade de aumento da infraestrutura global de transportes, com mais barcos e 
vapor e ferrovias. Em todas essas novas empreitadas há uma similaridade da mão de obra 
chinesa sendo contratada como "dócil e trabalho barato, mas sem o intuito de serem 
sujeitos políticos e formadores de nação como cidadãos".121 Esse movimento, o coolie 
trade, também chamado, em espanhol, de la trata amarilla, consistia de novas relações 
de gênero e de controle sexual da reprodução da força de trabalho, visto que apenas 
homens solteiros eram contratados para empreitadas de trabalho na segunda metade do 
século XIX, no intuito de trabalharem e retornarem (ou não) para suas casas, mas sem a 
formação de famílias para colonização. Importante notarmos ainda que em determinados 
espaços, como em Cuba, os coolies chineses não só competiam com negros escravizados 
no mercado de trabalho, mas também eram transportados nos mesmos navios, 
trabalhavam nas mesmas plantações e desenvolviam meios semelhantes de resistência.122 
Os asiáticos, chineses ou indianos, foram usados ainda como uma variante para a 
diminuição dos salários dos nativos e de outros imigrantes que desejassem entrar nas 
mesmas condições de trabalho. 
As zonas de recrutamento de trabalho na China tinham suas especificidades. 
Devido em parte às diversas rebeliões que eclodiram na China na década de 1850, bem 
como à resistência às empresas de recrutamento de trabalhadores, os importadores da 
 
120 HU-DE-HART, Evelyn. Huagong and Huashang: The Chinese as Laborers and Merchants in Latin 
America and the Caribbean. Amerasia Journal, Volume 28, no. 2, 2002. pp. 64-90. 
121 HU-DE-HART, Evelyn, & LÓPEZ, Kathleen. Op. cit, 2008, pp. 9–21. P. 14. 
122 Idem. P. 16. 
 
 
64 
 
América Latina acabaram concentrando suas operações em Macau, enquanto que os 
recrutadores das Antilhas britânicas passaram a se concentrar em Hong Kong e Guangzhou, 
com escalas menores em Xiamen e Shantou (Swatow) na década de 1860.123 Essa mudança 
demonstra uma clara divisão entre os territórios chineses de trabalho de trabalho para 
América Ibérica e para territórios com domínio além Pirineus. 
Até aqui, vimos que a organização do comércio internacional de trabalhadores chineses 
em meados do século XIX se inscreve no interior de um processo multidimensional, no 
qual se entrelaçam a crise da escravidão nas Américas e o início da incorporação da China 
ao circuito mercantil do capital europeu, com transformações nas relações sociais de 
propriedade e crise de legitimidade do próprio governo imperial chinês. Vejamos a seguir, 
de modo conciso, o uso da mão de obra chinesa nas economias de Cuba e do Peru.124 
 
Cuba e Peru 
Cuba viveu um período de prosperidade da econômica ao longo do século XIX 
devido ao aumento do preço do açúcar e a expansão para o mercado dos Estados Unidos, 
tornando-se a economia cubana cada vez menos dependente da Espanha e dependente dos 
EUA.125 A ilha hispânica de Cuba foi um dos primeiros territórios latino-americano a 
importar coolies como massa de trabalho contratado126 para atuarem em espaços da 
escravidão negra, ou seja, nos campos de produção de cana de açúcar.127 Na tabela abaixo 
(Tabela 3) somos capazes de analisar a relação entre a escravidão negra, o comércio coolie 
e a produção do açúcar, sendo, portanto, ambos os tipos de trabalho os mantenedores da 
economia cubana. 
A elite e o governo cubano tinham, assim como no caso brasileiro, uma conexão 
responsável por ditar a política da escravidão e sua gestão. Surgindo, portanto, através da 
 
123 LAI, Walton Look. Chinese Overseas: Coolie Trade. In: PONG, David Op. cit, 2009. Volume 1, A-E. 
124 SEIJAS, Tatiana. Asian Migrations to Latin America in the Pacific World, 16th-19th centuries. History 
Compass. Volume 14, Issue 12, 2016. PP. 573-581. 
125 MORENO FRAGINALS, Manuel. O engenho: complexo socioeconômico açucareiro cubano. São 
Paulo: Ed. UNESP: HUCITEC, 1988. & SILVA, João Ítalo de Oliveira e. Correntes de papel Imigração 
chinesa, contratos e conceitos de liberdade e escravidão. Universidade Federal De Minas Gerais Faculdade 
de Filosofia e Ciências Humanas. Tese de Doutoramento. Belo Horizonte, 2020. 
126 O primeiro experimento de coolie trade teria sido em 1806 em Trinidade, no intuído de este espaço ser 
um elo entre a América do Sul e o Oriente, no entanto a empreitada foi um fracasso. LAI, Walton Look. 
Images of the chinese in West Indian History. Anthurium. Volume 7, no. 1, 2010. 
127 Interessante notarmos ainda as conexões feitas entre os territórios, empreitadas e o trabalho dos chineses 
que, em sua maioria, atuaram em lavouras de cana de açúcar e na extração de guano – em contraponto ao 
caso brasileiro que, conforme analisamos, os chineses deveriam trabalhar nas lavouras de café; e é aqui em 
que se encontra a disparidade brasileira ao ser o primeiro território ao relacionar chineses e a produção de 
café. 
 
 
65 
 
elite cubana o projeto de suplementar e substituir a escravidão negra por homens chineses 
através do acesso ao trabalho contratado barato e explorável: a exploração era um projeto 
racializado em que se mascarava o medo de uma nova revolução haitiana, já que o 
pensamento da época era que os chineses não se juntariam no caso de uma rebelião.128 
 
Tabela 3: Importações de coolies para Cuba (1847-1874) 
 
Fonte: HU-DE-HART, Evelyn. Chinese coolie labor in Cuba in the 
nineteenth century: Free labor or neo‐slavery? Slavery & Abolition: 
A Journal of Slave and Post-Slave Studies, Volume 14, no.1, 2014. P. 
71. 
 
Entre 1847 e 1874 são aproximadamente 230 mil chineses homens se deslocando 
para a América Latina, sendo 92 mil para o Peru e 125 mil para Cuba. 129 Esses 
 
128 NARVAEZ, Benjamin N. Abolition, Chinese Indentured Labor, and the State: Cuba, Peru, and the 
United States during the Mid Nineteenth Century. Cambridge University Press, The Americas, Volume 76, 
Issue 1, 2019. P. 19. 
129 HU-DE-HART, Evelyn. Op. cit, 2002. P. 70. 
 
 
66 
 
trabalhadores saíam de portos chineses regulados por potências estrangeiras, Portugal ou 
Grã-Bretanha, com contratos de trabalho bilingues, conforme veremos a seguir.130 
 
130 Sabemos que os dois contratos fazem parte de uma mesma solicitação de trabalho. No entanto, embora 
estejamos estudando mandarim, não obtivemos até o momento uma tradução do contrato chinês para 
compararmos se as condições de trabalho explicitas em ambos são iguais. 
 
 
67 
 
Contrato 1: Contrata em Espanhol 
 
Fonte: Expediente general sobre la colonización asiática en Cuba 
Archivo Histórico Nacional, ULTRAMAR, 86, Exp.8. Disponível em: 
https://pares.culturaydeporte.gob.es/ 
 
 
https://pares.culturaydeporte.gob.es/
 
 
68 
 
Contrato 2: Companhia Cubana de Emigracion para La Habana 
 
 
Fonte: HU-DE-HART, Evelyn. Huagong and Huashang: The 
Chinese as Laborers and Merchants in Latin America and the 
Caribbean. Amerasia Journal, Volume 28, no. 2, 2002. 
 
 
69 
 
Contrato 2.1: Contrato em Chinês 
 
 
Fonte: Expediente general sobre la colonización asiática en Cuba 
ArchivoHistórico Nacional, ULTRAMAR, 86, Exp.8. Disponível em: 
https://pares.culturaydeporte.gob.es/ 
https://pares.culturaydeporte.gob.es/
 
 
70 
 
 Os contratos acima são para a imigração chinesa para Cuba e de maneira geral 
possuíam as seguintes similitudes: 8 (oito) anos de contrato ao senhor ou a quem possuir 
o contrato para qualquer tipo de trabalho; as horas de trabalho dependem da arbitrariedade 
do patrão (patrón) e do tipo de trabalho; sujeição à ordem e disciplina do local de trabalho 
e ao sistema de coerção; o contratado renuncia aos direitos de romper o contrato, negar 
os serviços ou tentar fugir. 
As questões de pagamento, salário, vestimentas e comida são as seguintes: 4 
(quatro) pesos ao mês; se for acometido por enfermidade e durar mais de uma semana o 
salário será suspenso; por dia são 800 onças de carne, salada e batata doce; direito anual 
a 2 (duas) mudas de roupa e cobertor; o senhor (señor) que pagou a passagem, portanto 
cabe ao mesmo adiantar uma parte do pagamento e descontar os valores do salário do 
contratado; é declarado ainda que o salário é maior do que dos jornaleiros livres e dos 
escravos cubanos. Existem pequenas diferenças entre esses e os contratos para o Peru, 
como por exemplo a não menção da diferença salarial entre os tipos de trabalhadores, 
tenha visto que no Peru os coolies trabalhavam sozinhos.131 Importante notarmos ainda a 
posse dos contratados como se fosse uma forma de um investimento de capital fixo, sendo 
os coolies passíveis de compra e venda ao também renunciarem seus direitos civis. 
 Há também outros modelos de manutenção do trabalho de chineses através do uso 
do ópio como forma de controle social.132 Com o assentamento de chineses nas plantações 
e com a presença de mercadores entre eles, o ópio apareceu em Cuba e no Peru como uma 
ferramenta de controle para beneficiar e punir seus trabalhadores. A droga em seu uso 
recreativo ainda remete a fatores sociais, pois, com uma vida limitada as plantações e sem 
a possibilidade de construção de família, era através do consumo em que havia uma 
sociabilidade entre os chineses. O ópio era usado ainda como uma fuga da difícil jornada 
até um território desconhecido e da dura jornada de trabalho. Relacionando com a Guerra 
do Ópio é no período entre 1852 e 1879 em que as importações peruanas de ópio pela 
Grã-Bretanha e pelos portos ingleses na China saem de 16,787 libras e vão para 415,691 
libras.133 
 
131 HU-DE-HART, Evelyn. Op. cit, 2002. 
132 HU-DE-HART, Evelyn. Opium and social control: coolies on the plantations of Peru and Cuba. Journal 
of chinese overseas. Volume 1, no. 2, 2005. PP. 169-183. 
133 Idem, P. 178. 
 
 
71 
 
O ópio como forma de controle social foi também a derrocada do próprio sistema 
coolie, pois além de usarem a droga como de escapar física e mundanamente com a 
overdose, com o tempo o alto consumo diminuía a produção e aumentava o absenteísmo. 
 Após constantes reclamações e com o aumento da pressão pública externa, o 
tráfico de coolies partindo de Macau em direção para Cuba foi banido em 1874 devido 
também a pressões britânicas e do governo chinês. Uma missão imperial chinesa foi 
enviada a Cuba em 1873 para investigar as condições sociais e trabalho. A Cuba 
Comission Report contou com a entrevista de mais de mil chineses e confirmou o 
tratamento do modo de escravização dos chineses.134 
O Peru, em contraste com Cuba, era uma nação independente e recém-egressa da 
escravidão negra em 1854. No entanto o pagamento do governo de 8 milhões de pesos 
para a manumissão de escravos demonstra a intima relação da sociedade com a gestão da 
escravidão e de suas classes latifundiárias.135 Nessa mesma época o Brasil começava a 
reestruturar seu sistema escravista. Com o declínio ainda das minas de prata a partir de 
1824, há o surgimento de novas indústrias, como o açúcar, guano e mais tarde o algodão. 
Assim como em Cuba, vemos a relação do governo e sua elite na busca e autorização para 
a importação de coolies (sob a mesmas condições e contratos que aqueles importados por 
Cuba).136 
O tráfico de coolies para o Peru tem seus períodos de 1849 a 1856, em 1845 há o 
aumento do negócio do guano, e de 1861 a 1874 com a chegada de aproximadamente 92 
mil chineses para trabalhar nas plantações de açúcar e nas minas de guano nas ilhas de 
Chincha. Essa pausa deve-se a um banimento devido às denúncias de maus tratos nas 
colheitas de guano. 
O guano ainda não surge sozinho como um novo produto na cadeia mundial, na 
verdade ele faz parte da reposição química de terras não férteis devido a escassez de terras 
para plantação de commodities essenciais ao novo mundo. Os chineses tiveram ainda um 
papel fundamental no desenvolvimento econômico e no crescimento populacional do 
Peru, tendo em vista estagnação pela falta de trabalhadores, e pela parca população.137 
 
134 LAI, Walton Look. Coolie Trade. Inn. PONG, David. Op. cit, 2009. Volume 1, A-E. pp. 243-257. & 
SILVA, João Ítalo de Oliveira e. Op. cit, 2020. P.219. & HELLY, Denise. (Introdução). The Cuba 
Comission Report: a hidden history of Chinese in Cuba. Baltimore: The John Hopkins University Press, 
1993. 
135 CHOY, Emilio. Lá esclavitud de los chinos en el Peru. Folklore Americano. Ano II, n. 2, 1954. PP. 259-
268. 
136 LAI, Walton Look. Coolie Trade. Inn. PONG, David. Op. cit, 2009. Volume 1, A-E. 
137 CHOY, Emilio. Op. cit, 1954. 
 
 
72 
 
Temos então nesse momento a inserção do coolie chinês no Peru como um elemento de 
trabalho, mas na missão de substituir o escravo negro. 
Enquanto em Cuba, os contratados chineses trabalhavam lado a lado com os 
negros escravizados nas plantações de cana de açúcar e na construção de ferrovias, no 
Peru os chineses eram uma força de trabalho sozinha que atuavam tanto no açúcar, quanto 
nas ilhas de guano. Sendo ainda o trabalho chinês indispensável para a manutenção 
econômica dos dois territórios citados. 
Portanto, apesar das condições de trabalho serem comparáveis ao trabalho escravo, 
o trabalho contratado coolie não era uma nova forma de escravidão; era na verdade um 
novo modelo de trabalho surgido através da experiência histórica da escravidão. Esse 
novo sistema de trabalho era ainda uma reprodução da exploração da força de trabalho 
baseado nas raças. 138 A política da imigração sinófila foi ainda uma das saídas 
descobertas pelos territórios escravistas para fugir das pressões internacionais britânicas 
da escravidão. 
 
Considerações 
Resultado de processos de reorganização da economia mundial do século XIX, 
com forte mediação do imperialismo britânico no Indo-Pacífico, a emergência de um 
comércio internacional da força de trabalho chinesa encontrou seu ponto alto nas 
economias exportadoras de Cuba e do Peru. Na colônia de Cuba, o senhoriato escravista 
explorou a imigração coolie recorrendo aos aparatos semelhantes de repressão e controle 
social usados contra os escravizados. No Peru, o Estado pós-colonial não incorporou os 
chineses ao campo dos direitos plenos da cidadania, deixando desse modo relações sociais 
escravistas e racializadas ditarem os novos modelos de sociedade. Devido às experiências 
brutais dos chineses em Cuba e no Peru, o comércio internacional de Coolies foi suspenso 
na década de 1870. 
Dessa perspectiva, pode-se dizer que há um descompasso entre a organização 
internacional do mercado da força de trabalho chinesa e as discussões sobre o emprego 
do trabalhador chinês no Congresso Agrícola de 1878 no Império do Brasil. Na altura, 
devido às experiências no Peru e em Cuba, a China Qing começaria a estudar uma política 
externa mais ativa de proteção dos chineses no ultramar, estabelecendo embaixadas e 
conexões com territórios estrangeiros. Buscando ainda novas legislações para os chineses 
 
138HU-DE-HART, Evelyn. Op. cit, 2002. P. 70. 
 
 
73 
 
é somente no apogeu de sua era que o Império Qing busca reformular sua percepção sobre 
chineses em ultramar ao considerá-los cidadãos chineses residentes em território 
estrangeiro. Tendo em vista esse descompasso entre as decisões políticas no Brasil e a 
conjuntura mundial do comércio de coolies, pode-se indagar até que ponto o poder 
político do escravismo no Brasil, garantindo estabilidade às relações sociais da escravidão, 
não desempenhou um papel importante na inviabilização prática do projeto de imigração 
que a própria crise da escravidão estava começando a suscitar no fim dos anos de 1870.139 
 
 
139 SZONYI, Michael. Historical Patterns of Governmente Policy and Emigration. Inn. PONG, David. Op. 
cit, 2009. Volume 1, A-E. 238-240. 
 
 
74 
 
CAPÍTULO 3 - OS DISCURSOS SINÓFILOS NA SOCIEDADE BRASILEIRA 
 
As discussões sobre a imigração chinesa no século XIX deram-se em todo o globo. 
Canadá, Cuba, Estados Unidos, Peru, México e Jamaica são alguns dos territórios onde 
há discussões que, sintetizadas por Juan Hung Hui,140 demonstram como os processos 
foram diferentes das demais migrações, pois os chineses não saíram de seus países na 
condição de escravizados, como os africanos, nem na qualidade de homens livres, como 
os europeus, e tampouco como os japoneses, que podiam migrar com suas famílias e, 
assim, ter melhores condições de acumular dinheiro e poder nas sociedades aonde 
chegavam. Os chineses, devido às profundas e traumáticas crises políticas e econômicas 
na China do século XIX, tiveram que sair de seu país submetendo-se a formas de trabalho 
compulsório com o intuito de fazerem dinheiro rápido e logo retornarem – algo que não 
ocorreu, como sugerido no capítulo anterior. 
A ideia, no entanto, não é nova em território brasileiro. A mão de obra chinesa já 
havia sido convocada em outro momento pelo Imperador Dom João VI para a introdução 
da cultura do chá no início do século XIX. 141 O projeto sugerido pelo Conde de Linhares 
previa a contratação de 2 mil chineses para o Rio de Janeiro para o plantio do chá, no que 
é hoje o Jardim Botânico, na Fazenda Imperial de Santa Cruz e na Ilha do Governador.142 
Do número estimado só chegaram entre 200 e 500 chineses para o Rio de Janeiro 
para essa empreitada. O projeto, no entanto, fracassou, e os chineses foram vistos como 
preguiçosos, um tanto quanto lentos e não agricultores. O projeto do chá foi abandonado, 
assim como o da imigração de chineses.143 Muitos se dispersaram em diversos bairros da 
cidade, outros no Vale do Paraíba e outros ainda em cidades como São Paulo e 
Salvador. 144 Há, em 1814, o primeiro registro oficial no Registro de Estrangeiros 
brasileiro, a entrada de quatro chineses no Brasil, que, no entanto, não aparentavam ser 
simples trabalhadores, pois, “assim que chegaram, foram hospedados pelo Conde da 
 
140 HUI, Juan Hung. Chinos en America. Madrid: Editorial MAPFRE, 1992. 
141 COSTA, Cristiane & BORBA, Cibele Reschke de. China made in Brasil: Personagens, curiosidades e 
histórias sobre dois séculos de aproximação entre o Brasil e seu principal parceiro comercial. Tradução 
para o chinês: Ana Qiao Jianzhen e Yuan Aiping. Rio de Janeiro: Babilônia Cultura Editorial, 2005. P. 44 
142 LEITE, José Roberto T. A China no Brasil: Influências, marcas, ecos e sobrevivências chinesas na arte 
e na sociedade do Brasil, UNICAMP, São Paulo/Campinas, 1992, pp. 28-30 
143 DEZEM, Rogério Akiti. Op. cit, 2005, p. 49 
144 MOURA, Carlos Francisco. “Colonos chineses no Brasil no reinado de D. João VI”. Boletim do Instituto 
Luís de Camões, Macau, v. 7, n.2, p.185-191, Verão, 1973. ICM (Instituto Cultural de Macau, Macau); 
CORD, Marcelo Mac. “Mão de Obra Chinesa em terras brasileiras nos tempos joaninos: experiências, 
estranhamentos, contratos, expectativas e lutas”. Revista Afro-Ásia, nº 57, 2018. 
 
 
75 
 
Barca, então ministro dos Negócios de Guerra e Estrangeiros, o que ‘faz supor que 
tivessem alguma missão oficial. ’”145 
Rogério Dezem tem como tema central da sua pesquisa a análise do sentimento 
anti-nipônico brasileiro, no entanto, para expor a gênese desse sentimento, entra 
necessariamente na construção de estereótipos orientais no Brasil. Dezem começa a traçar 
esse sentimento com uma primeira experiência brasileira de imigração chinesa no início 
do século XIX para o cultivo de chá no Rio de Janeiro numa fazenda em Santa Cruz; 
depois, em 1854, há uma nova investida através da iniciativa privada de Manoel de 
Almeida Cardoso, em uma proposta de navegação que ligasse o Brasil a China para a 
importação de coolies146. 
Discutindo a Questão Chinesa como um dos momentos da gênese do discurso 
sobre os orientais no Brasil, que permearam diversos setores da sociedade brasileira, 
pode-se observar a discussão sobre o projeto de imigração chinesa no processo de 
construção de estereótipos do povo oriental, a então raça amarela, que culminará na 
formação do estereótipo do povo japonês como “minoria modelo”.147 
Dezem publica ainda A Questão Chinesa (1879) no Brasil, em que conclui que a 
questão da imigração chinesa teve seu fim como uma questão fantasma, pois desde seu 
princípio era impossível de resolução, e mesmo assim foi esgotada em todos os sentidos 
nas discussões políticas. A questão servia como “pano de fundo” para as discussões sobre 
a crise da lavoura e suas soluções. “Consolidou-se dessa maneira a imagem de um dos 
elementos constitutivos do fenômeno que podemos chamar de ‘equação amarela’: o 
imigrante chinês. ”148 
A questão da imigração chinesa no final do século XIX trata não somente dos 
interesses internos brasileiros como a substituição de mão de obra escravizada, 
colonização, crise da lavoura e busca da lucratividade pela elite latifundiária brasileira. 
Ela permeia um universo de questões que envolveram discussões em jornais, nas casas 
 
145 COSTA, Cristiane & BORBA, Cibele Reschke de. Op. cit, 2005, p.44 
146 Como nos conta Alexander Chung Yuan Yang em O Comércio dos "Coolie" [1819-1920]: “A 
denominação de coolie aparece como coles nos escritos portugueses quinhentistas. A palavra origina-se do 
hindu kuli. Evoluindo a seguir para coly - koully e finalmente ao francês coulie. Em inglês passou a ser 
coolie, massa móvel de trabalhadores assalariados, quer indianos, quer chineses, que se irradiaram pelo 
Ocidente servindo a várias sociedades. ” YANG, Alexander Chung Yuan. O COMÉRCIO DOS "COOLIE" 
[1819-1920]. Revista de História, São Paulo, n. 112, p. 419-428, dec. 1977. ISSN 2316-9141. Disponível 
em: <http://www.revistas.usp.br/revhistoria/article/view/62243>. Acesso em: 20 mar. 2018. DOI: 
http://dx.doi.org/10.11606/issn.2316-9141.v0i112p419-428. 
147 DEZEM, Rogério. Op. cit, 2005. 
148 DEZEM, Rogério. A Questão Chinesa (1879) no Brasil. 2018. pp. 22-23 
http://www.revistas.usp.br/revhistoria/article/view/62243
http://dx.doi.org/10.11606/issn.2316-9141.v0i112p419-428
 
 
76 
 
políticas brasileiras, nas ciências naturais, as teorias raciais de Gobineau, os movimentos 
migratórios, os positivistas e a política externa do Brasil. 
As províncias cafeeiras, em especial aquelas mais antigas dependentes da mão de 
obra escrava, ao se convenceram de que a vinda de europeus seria difícil, que o trabalho 
de nacionais, índios e libertos era duvidável, olharam para a China em busca de 
trabalhadores. O movimento para a imigração asiática chinesa falhou não por expectativas 
nacionais, mas por experiências comparativas de chineses no novo mundo. Ao avançar 
da questão imigratória, o Império da China já estava consciente do perigo pelo qual seus 
nacionais estavam sujeitos; além das discussões internacionais sobre a migração 
transnacional de chineses já terem tomados outras perspectivas, como é o casodo Chinese 
Exclusion Act nos EUA em 1882.149 
O Brasil, portanto, chegara atrasado ao buscar soluções para a lavoura brasileira 
na imigração de trabalhadores asiáticos chineses. Os brasileiros abolicionistas ainda 
foram capazes de alarmar e denunciar as discussões sobre a vinda de trabalhadores 
chineses com a ajuda Inglaterra, oponentes da escravidão e do tráfico de coolies, que 
então convenceram o governo chinês em relação à imigração para o Brasil. 
Dentre eles pode-se citar o escrito por Miguel Lemos, Imigração Chinesa. 
Mensagem a S. Ex. o Embaixador do Celeste Império junto aos governos da França e 
Inglaterra (Dia 5 de novembro de 1881). 
O autor apresenta de forma clara os verdadeiros interesses na imigração chinesa 
entre alguns setores do governo brasileiro, esposando teorias raciais, a noção de 
subjugação do povo chinês e o projeto de imigração como um arranjo de trabalho 
transitório para a substituição da mão de obra escravizada nas plantations. A opinião 
positivista brasileira em nome de seu presidente é também exposta no livro como 
contrária à imigração chinesa pelo bem da humanidade e pelos princípios de igualdade. 
Anexados ainda ao seu livro há os Annaes do Senado brasileiro (1879) e um livro de 
Salvador de Mendonça, cônsul geral do Brasil nos Estados Unidos da América, 
Trabalhadores Aziáticos, New York, 1879. Neste livro, o então cônsul brasileiro faz uma 
breve exposição sobre a história da China, do povo chinês, de seus costumes e religião; 
dedica seu esforço ao retratar das relações da China com a Europa e com os EUA; em 
seus capítulos VI e VII denominados “Immigração Chineza” e “Coolie”, respectivamente, 
 
149 Conrad, Robert. “The Planter Class and the Debate over Chinese Immigration to Brazil, 1850- 
1893.” The International Migration Review, vol. 9, no. 1, 1975, pp. 41–55. Disponível em 
https://www.jstor.org/stable/3002529. 
https://www.jstor.org/stable/3002529
 
 
77 
 
disserta sobre as experiências chinesas de imigração nas Américas, sobre a cultura chinesa, 
além dos processos necessários para a imigração tendo em vista as experiências externas; 
o capítulo VIII trata do trabalho chinês, experiências e seus modos de trabalho, e ainda 
das relações comerciais da China. 
Por fim trata, em seu ponto de vista, dos benefícios e malefícios da imigração 
chinesa para o Brasil, apoiado no estereótipo do trabalhador oriental classificando-os 
como suspeitosos, desleais, mentirosos, de moral pagã e que não criam amor a terra, 
considerando-os ainda como trabalhadores baratos e sendo um movimento transitório 
entre o africano e o europeu. Importante que o livro de Salvador de Mendonça foi 
encomendado pelo governo brasileiro, expondo, consequentemente, uma posição oficial 
sobre os chineses e o projeto imigratório. 
O foco do capítulo 3 será na análise imagética sobre a política imigrantista sinófila 
no Brasil no século XIX, em específico através da Revista Illustrada, de Angelo Agostini. 
Focaremos ainda em uma análise comparada entre os contratos dos trabalhadores 
imigrantes para o Brasil nas regiões Centro-Sul do Império com os contratos chineses no 
intuito de espelharmos as similitudes e diferenças, por exemplo entre o tipo de unidade 
produtora e de reprodução social. Assim como as discussões no Congresso Agrícola 
foram baseadas em leituras e opiniões do exterior, acreditamos que difusão cultural da 
imagem oriental também foi importante na construção da aversão de uma política 
imigrantista sinófila. Além de funcionarem como forma de denúncia dos novos tipos de 
trabalho, serviram também no intuito de denunciar a escravidão e dar a centelha na 
discussão do que é ser brasileiro. 
 
A Revista Illustrada e a construção do estereótipo chinês 
A análise documental e imagética da Revista Illustrada de Angelo Agostini não 
pode ser trabalhada sem um breve comentário sobre a litografia, as charges, suas 
representações, e a pintura satírica. A partir do século XIX, com maiores inovações 
tecnológicas que permitiram o avanço da imprensa e da litografia, podemos elencar uma 
maior produção das revistas ilustradas e da sua conexão com as relações internacionais. 
A Litografia, “inventada por Alois Senefelder no final do século XVIII, difundiu-se 
imediatamente pela Europa por volta de 1800. Em 1815 já estava no Brasil, antes mesmo 
de chegar a alguns países europeus. ”150 
 
150 Diabo Coxo: São Paulo 1864-1865, edição fac-similar. Editora USP, 2005. p. 13 
 
 
78 
 
A litografia enquanto conceito refere-se a um processo de impressão a partir de 
uma base, conhecida como pedra litográfica, feita geralmente de calcário. Após o desenho 
feito são realizados procedimentos químicos para a fixação da superfície e então a prensa 
litográfica fixa os desenhos no papel. A flexibilidade desse processo pode gerar novas 
maneiras mais simples e menos custosas, de modo a difundir a litografia. Dessa maneira 
houve uma maior produção e emissão de revistas ilustradas e jornais no século XIX.151 
Como conta ainda Antonio Luiz Cagnin na introdução do fac-similar do Diabo 
Coxo, a litografia pôde popularizar a imagem e dessa maneira gerar mais fascínio sobre a 
ilustração. Os jornais e revistas eram lidos não só em seus textos, mas as imagens também 
podiam ser lidas e divulgadas com ainda mais facilidade. Além disso, o preço das revistas 
era relativamente popular devido ao seu modo de produção, podendo até as pessoas de 
menor poder aquisitivo e aquelas que não sabiam ler - a grande maioria da população 
brasileira no final do século XIX - terem acesso às revistas e identificar o que se 
passava.152 
Pode-se perceber como os avanços tecnológicos foram fundamentais para a 
disseminação da litografia e da arte ilustrada como um todo. Angela Telles nos conta 
sobre a relação do processo de divulgação da litografia no Brasil e de como as imagens 
puderam sensibilizar um público geral para uma noção de identidade brasileira. Essas 
imagens relacionadas a fatores econômicos, sociais e culturais puderam tornar mais 
próximo o fazer político social gerando identificação no processo de construção da 
identidade nacional brasileira. 
Complementa ainda, tratando das relações internacionais especificamente, sendo 
este o tema principal da sua pesquisa, “demonstrar que as caricaturas e charges foram 
instrumento da construção de uma identidade do Brasil na segunda metade do século XIX, 
quando as relações internacionais tiveram um papel importante. ”153 A autora elenca 
diversas revistas ilustradas, do Rio de Janeiro e de Buenos Aires entre as décadas de 1860-
1870, e suas conexões com os temas de relações internacionais, antes não trabalhados, 
mas agora disponíveis a um relativo público nacional. A Questão Christie, Questão 
Religiosa e a Guerra do Paraguai constituem, aliados as ilustrações, um momento de 
 
151 LITOGRAFIA. In: Enciclopédia itaú cultural de arte e cultura brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 
2018. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/termo5086/litografia>. Acesso em: 10 de abr. 
2018. Verbete da Enciclopédia. ISBN: 978-85-7979-060-7 
152 Diabo Coxo: São Paulo 1864-1865, edição fac-similar. Editora USP, 2005. p. 13 
153 TELLES, Angela C. da Motta. Desenhando a Nação: revistas ilustradas do Rio de Janeiro e de Buenos 
Aires nas décadas de 1860-1870. Brasília: FUNAG, 2010. p. 22 
 
 
79 
 
construção da identidade nacional brasileira. Dessa maneira os temas internacionais 
passam a fazer parte do cotidiano brasileiro. 
As imagens de relações internacionais são elementos constitutivos de 
formação da nacionalidade e da própria imagem de Brasil. As caricaturas são 
agentes de um determinado modo de sensibilidade que, através de uma 
linguagem específica, traduzem o debate político e social de seu tempo.As 
revistas ilustradas são um fórum de discussão política. Podem ser percebidas 
como artífices e multiplicadoras de imagens que compõem elementos simbólicos, 
e materiais que apresentam uma nação.154 
A construção de identidade nacional brasileira não está só ligada a fatores internos 
e aos eventos políticos brasileiros, como a Questão Religiosa ou a Guerra do Paraguai, 
mas tem íntima relação com o mundo, onde essa construção identitária dá-se no olhar ao 
diferente. Os chineses, e os asiáticos de modo geral, são esses diferentes mirados em um 
processo de identificar à época o que não era o Brasil. Angelo Agostini, ao ilustrar essa 
possível formação de uma imigração chinesa no Brasil, nos mostra como há o contraste 
entre o ser e o não ser brasileiro.155 
O momento de interconexão entre os conceitos aqui trabalhados dá-se no intuito 
de estudarmos a questão do projeto de imigração chinesa para o Brasil na segunda metade 
do século XIX, através da Revista Illustrada. Conectando o conhecimento produzido pelo 
artista às narrativas internacionais, que, talvez mesmo sem perceber à época, podemos 
observar que este ilustrava um sistema global conectado a economia, cultura e sociedade 
em seus traçados. 
A Revista Illustrada (1876-1898) é a nossa principal fonte primária de estudo. 
Entendermos que, feitas em seu tempo, carregam consigo uma fonte de autoridade e de 
conhecimento, como nos mostra Renato Lemos em Uma História do Brasil através da 
caricatura 1840-2006. Mesmo essa fonte contendo em si uma narrativa própria do autor 
e por vezes hiperbólica e fantasiosa, serve como um excelente documento iconográfico 
de discussão e de imaginário social da época. Lemos complementa ainda que “como 
qualquer construção humana, a narrativa histórica contida nas charges e caricaturas têm 
 
154 TELLES, Angela C. da Motta. Op. cit, 2010. p. 299 . 
155 LESSER, Jeffrey. A negociação da identidade nacional: imigrantes, minorias e a luta pela etnicidade 
no Brasil. São Paulo: Ed. UNESP, 2001. LESSER, Jeffrey A invenção da brasilidade: identidade nacional, 
etnicidade e políticas de imigração. São Paulo: Editora Unesp, 2015. 
 
 
80 
 
a marca individual e a do coletivo, no conteúdo, na forma e na exposição. A subjetividade 
do observador e as determinações sociais são as suas fronteiras”.156 
Como nos conta Herman Lima em História da Caricatura no Brasil, um primeiro 
estudo sistemático sobre caricatura foi feito pelo Capitão Francis Grose em seu livro Rules 
for drawing Caricatures, with an Essay on Comic Painting (Londres, 1788). Para Grose, 
sendo a arte da caricatura, um dos elementos da pintura satírica, deve-se entender que a 
sua função ao ser aplicada é apontar ao público como este sendo o próprio culpado pela 
representação imagética, tendo suas loucuras e seus vícios expostos levados ao ridículo. 
O jogo, no entanto, não está em culpar o ilustrador, mas sim expor de modo geral fatos 
caricatos que possam ser vistos com certa comicidade. 
A caricatura, com o passar do tempo, deverá assumir a posição da “arma mais 
poderosa na imprensa”, por sua universalidade e alcance. “[...] a caricatura não fez mais 
do que acrescer sua significação como arte autêntica, não só na análise de costumes 
políticos e sociais, como na fixação de elementos subsidiários da História e da 
Sociologia. ”157 
 Percebe-se como a caricatura é uma chave para a interpretação de momentos 
históricos e, que através dela, podemos analisar e interpretar não só um momento 
individual do artista, mas também o imaginário coletivo e social de onde este se 
encontrava. 
Há ainda o tom de sátira, crítica e acidez com que, alguns artistas à frente do seu 
tempo, como Agostini, usaram de suas penas e lápis para denunciarem e representarem 
esses breves momentos históricos a propagar-se com milhares de anos, e então termos o 
que Herman Lima chama de “padrão de glória da caricatura”. 
Na página dupla a seguir (Imagem 3.1.1) contamos com destaques que nos ajudam a 
analisar a posição do chinês frente a escravidão retratada por Agostini durante as sessões do 
Congresso Agrícola. No cabeçalho da página observamos Sinimbu como a representação da 
lavoura cuspindo chineses como uma solução do governo para resolver a questão brasileira 
da agricultura. No canto esquerdo observamos o passado brasileiro com o negro escravizado 
e o trabalhador nacional em tons de curiosidade, descanso e preguiça - o passado fica ainda 
mais destacado com a visão de uma cruz, um corvo e um cadáver. No destaque a direita, o 
 
156 LEMOS, Renato. Uma História do Brasil através da caricatura 1840-2006. Rio de Janeiro: Bom Texto 
Editora, JP Editora, 2ª Edição, 2006. Introdução. 
157 GROSE, Francis Apud HERMAN, Lima. História da Caricatura no Brasil. 1º Volume, Coleção Maggie 
Yvonne, Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1963. p. 5 
 
 
81 
 
futuro é representado por um chinês curioso em cima de um cafezal a observar o que 
decidiriam sobre ele; como mais destaque de progresso temos uma locomotiva a vapor. O 
chinês ainda nos diz “Querem meus braços e habilidades minha. Vejam dinheiro e 
apromptem galinhas” - dentro do estereótipo chinês no meio urbano este era conhecido por 
ser ladrão de patos e galinhas, por isso a referência. 
 
Imagem 3.1.1 - “O Congresso Agrícola” 
 
Lê-se acima: “E o Governo ficou sabendo pela própria boca da Lavoura 
representada por 200 e tantas ditas que o que ela precisa é de dinheiro, de braços, de 
chins, de europeus, de instrução de negros, de estradas, de novas leis, de...etc etc. Enfim, 
de uma infinidade de coisas que...o governo guardará com todo cuidado. ” Conforme 
temos visto, poucas providências foram tomadas em relação aos pedidos feitos no 
Congresso Agrícola, servindo como “panos quentes” aos questionamentos da grande 
lavoura brasileira. 
A seguir temos o destaque do passado, na voz do negro escravizado em cima de 
um pé de café escrito África “Ué, diz que preto já vai se acabar. Que bom. Amanhã já 
não vou mais trabalhar”. Abaixo temos o representante brasileiro com os dizeres 
América do Sul “É este o trabalho do meu coração, a rede, a viola e o tutu de feijão”. 
Ambas os escritos remetem a preguiça e a inferioridade das raças dentro das teorias raciais 
de branqueamento desenvolvidas por uma elite pensante brasileira. Interessante notarmos 
ainda no rodapé da ilustração os seguintes dizeres “Daqui a 20 anos, pelo modo como 
andou até hoje a lavoura veríamos o tumulo do último escravo ao lado do último pé de 
café”. Ou seja, é a confirmação por Agostini em 1878 que a lavoura brasileira vem 
sofrendo uma reformulação na gestão da escravidão para um prolongamento do 
escravismo. 
 
 
82 
 
 
Do lado do “futuro” temos um trabalhador a vestes europeias em cima de uma 
folha Europa com os dizeres “Se querem que eu lhes vá para as matas é (bom) darem-me 
riquezas...e mulatas. ” Vemos a representação de um europeu que só trabalha por altos 
salários e também por mulheres negras, sendo a mulher como uma espécie de pagamento 
da lavoura para satisfazer os desejos sexuais de europeus, além de ser uma figura 
sexualizada. O chinês, por sua vez, na folha Ásia diz “Querem meus braços e habilidades 
minhas. Veja (o) dinheiro e aprontem (as) galinhas”, reforçando o estereótipo da 
ganância e do roubo. 
 
 
83 
 
 
 
 
 
84 
 
 
Fonte: Revista Illustrada, n. 120. Rio de Janeiro, 1878. 
 
 
85 
 
A representação do estereótipo do chinês, ou do Oriental, como mostra Dezem em 
Matizes do “Amarelo” é representado por Agostini na charge de capa e na página dupla 
da edição número 154 de 1879 (Imagem 3.1.2). Na capa podemos observar “o novo sol 
que brevemente despontará no horizonte” como um grande rosto chinês. Ou seja, 
brevemente acompanharíamos o nascer da imigração chinesa em território brasileiro. A 
representaçãobrasileira também é forte dentro desta charge, pois podemos observar o Pão 
de Açúcar à direita do rosto chinês, igualmente como o forte, sendo a representação dos 
monumentos brasileiros um fator que nos ajuda a entender a construção da identidade 
brasileira frente ao estrangeiro.158 
Imagem 3.1.2 - “O Horizonte Chinês” 
 
Fonte: Revista Illustrada, n. 154. Rio de Janeiro, 1879. 
 
158 TELLES, Angela da Cunha Motta. Op. cit, 2010. 
 
 
86 
 
Dentro das duas páginas seguintes (Imagem 3.1.2) tem-se a representação sobre 
como seria o processo de adaptação do chinês à sociedade brasileira, além do trabalho e 
seus costumes. Há ainda uma crítica ao progresso brasileiro e “a nossa mania de imitar a 
Europa, tem trazido o país no triste estado em que se acha. ” Logo no início pode-se 
observar uma charge relacionada ao progresso do povo chinês, onde vemos um de seus 
representantes deitado sobre uma rocha, vestindo chinelos, um típico roupão e fumando 
ópio; podemos observar também os chineses extremamente magros e com seus 
“rabichos”, que servem como um alongamento de expressão de sentimento que estes 
fazem ao saberem do trabalho na cidade: “Todos os povos tem progredido, menos os 
chineses que consideram o progresso como precipício e a beira do qual estão parados a 
mais de mil anos” Veem-se os chineses como comerciantes modestos e simples de 
“saladinha e camalô”, “O comercio chinês é o mais modesto possível e entrega-se com 
especial agrado ao da sardinha e camarão.” Comendo pouco e sendo econômicos: “Que 
sobriedade! só comem arroz! E não às colheres, com palitos! .... Que boa gente para a 
economia! ”. Esse enunciado dialoga diretamente com afirmações sobre o baixo custo 
da reprodução social do trabalhador oriental ventiladas no Congresso Agrícola de 1878. 
Como vimos no Capítulo 1: 
O salário dos coolies em Ceylão, que difere dos outros lugares onde não 
há imigração espontânea, é o seguinte: os homens recebem 8 pence por dia ou 
320 rs; as mulheres 7 pence ou 280 rs; os rapazes 6 pence ou 240 rs; e os meninos 
4 a 5 pence ou 160 a 200 rs, conforme a habilidade e força de cada um. O 
fazendeiro entrega-lhes todos os sábados o arroz de que necessitam durante a 
semana seguinte, levando-lhes, porém, a conta o respectivo valor. 
[...] 
A vida do coolie no seu país é inteiramente de lavoura: cultiva arroz, 
algodão, anil e papoula para a produção do ópio. Como o clima é quente, do que 
tanto gostam os coolies, as suas casas são pequenos ranchos levantados com 
taquaras e área, cobertos de palhas de arroz, nos quais moram sem gastar quase 
nada, porque 2$000 por ano é quanto lhes basta para roupa, e felizes se julgam 
quando podem cultivar arroz suficiente para seu alimento e de suas famílias159 
Agostini reforça o senso comum do estereótipo ao trazê-los como ladrões de patos 
e galinhas e a serem “empalmadores de carteiras”, estes dois momentos como sendo 
vícios trazidos da sua terra natal; verificamos sua exímia “Habilidade para a cosinha! 
Que limpeza!”; e seu jeito zeloso de cuidar da lavoura, descansando sobre uma sombra e 
 
159 Congresso Agrícola, PP. 260-261. 
 
 
87 
 
dormindo, mas sem esquecer de que o chá é uma bebida agradável e moral. A seguir 
vemos os destaques da página inteira mencionada. 
Imagem 3.1.3 - “Costumes chineses” 
 
 
 
 
88 
 
 
 
 
 
 
 
89 
 
 
Fonte: Revista Illustrada, n. 154. Rio de Janeiro, 1879. 
 
 
90 
 
Relacionando-se os textos de Dezem e Telles, a partir dessas charges nota-se 
também a construção de elementos de um estereotipo nacional em contraponto com o 
diferente, estrangeiro e não incorporado à sociedade. 
Isso em uma sociedade de iletrados como a brasileira fin de siécle 
funcionava como reforço a certos estigmas instigando preconceitos. Alguns 
denunciavam como fazia Angelo Agostini, no entanto mesmo assim a imagem 
do chim não conseguiu desvencilhar-se de estereótipos preestabelecidos pela 
tradição. Nesse caso, podemos considerar que tanto elite alfabetizada como 
grupos intelectualizados das camadas médias contribuíram para a divulgação e 
reinvenção dos discursos.160 
Na edição da Revista Illustrada de número 173 de 1879 (Imagem 3.1.3) - 
ilustração de capa – pode-se observar o traçado crítico de Angelo Agostini ao ilustrar os 
preparativos da viagem à China. Conforme comentado anteriormente, foi proposta no 
Congresso Agrícola e aprovada pelo governo brasileiro uma viagem formal à China para 
tratar do assunto da imigração. No entanto, com ajuda dos positivistas brasileiros, 
liderados por Miguel Lemos e das denúncias internacionais, além da China já saber de 
certa maneira o que estava passando com seus nacionais em outros países, a missão, em 
termos de imigração, foi um fracasso. No entanto rendeu ao Império brasileiro um tratado 
internacional de amizade, comercio e navegação com o Império chinês. Conta-se com as 
ilustrações de Sinimbu e Eduardo Callado, diplomata brasileiro encarregado da missão à 
China. As ilustrações carregam não só a crítica da missão ao território chinês, mas 
também um estereótipo negativo do povo oriental, conhecido como ladrão de patos, 
galinhas e vendedor de camarões e sardinhas. “Preparativos para a viagem à China - A 
bagagem da embaixada. O Governo nada poupa para atrair os chins. Conservas de 
camarões, empadas de ditos sardinhas. etc. etc.” 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
160 DEZEM, Rogério. Op. cit, 2005. P. 105 
 
 
91 
 
 
Imagem 3.1.4 - “Preparativos para a viagem à China” 
 
Fonte: Revista Illustrada, n. 173. Rio de Janeiro, 1879. 
Agostini nos mostra na Revista número 162, de 1879, (Imagem 3.1.5), comentando sobre 
as “poucas ideias bonitas, filhas do Sr de Sinimbu”, a imigração chinesa. Pode-se 
observar ao centro da imagem o embrião da colonização chinesa como uma das ideias de 
Sinimbu, porém, ainda no início. Lembramos que o Congresso Agrícola do Rio de Janeiro 
aconteceu em outubro de 1878. 
 
 
 
 
 
 
92 
 
Imagem 3.1.5 - “Embrião Chinês” 
 
Fonte: Revista Illustrada, n. 162. Rio de Janeiro, 1879. 
Dentro do Congresso, os debates sobre essa questão foram muito acirrados, tendo 
até o deputado Joaquim Nabuco161, conhecido pela sua luta abolicionista, discutido com 
Sinimbu sobre o assunto. Nabuco, apesar de sua luta social, foi capaz de verbalizar o 
assunto de forma pejorativa, acusando Sinimbu de querer mongolizar o país. Dezem 
revela que Nabuco via no chinês o substituto disfarçado do escravizados, porém não abria 
mão em seus discursos da retórica racial. 162 
Perguntei, em primeiro lugar, se os chins eram reclamados pela lavoura, 
e provei que não; a lavoura do Norte não os quer, a lavoura do Sul não os pediu. 
Mas, sendo os chins reclamados pela lavoura, serão eles convenientes? Não, por 
muitos motivos; etnologicamente, porque vem criar um conflito de raças e 
degradar as existentes no país; economicamente, porque não resolvem o 
problema de falta de braços; moralmente porque vêm introduzir em nossa 
sociedade essa lepra de vícios que infesta todas as cidades onde a imigração 
chinesa se estabelece; politicamente, afinal, porque em, vez de ser a libertação 
do trabalho, não é senão o prolongamento, como até disse o nobre ministro, do 
triste nível moral que o caracteriza e a continuação ao mesmo tempo da 
escravidão. 
Coloquei a questão nestes termos: é o chim pedido? Não. É reclamado? Não. É 
conveniente? Não. [...].163 
 
161 Joaquim Nabuco (1849 - 1910) foi um político líder abolicionista, diplomata, historiador, jurista e 
jornalista brasileiro. Foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras. Nabuco foi um importante 
membro na luta a favor da abolição da escravatura e contra o processo de imigração chinesa para o Brasil. 
Para maiores informaçõesbibliográficas ver o Dicionário da Elite Política Republicana (1889-1930), FGV, 
CPDOC. Disponível em: http://cpdoc.fgv.br/dicionario-primeira-republica/1 
162 DEZEM, Rogério. Op. cit, 2005. P. 91 
163 NABUCO, J. Discursos Parlamentares (1879-1889). São Paulo: Instituto Progresso Editorial S.A., 1949. 
Apud DEZEM, Rogério. Op. cit, 2005. P. 92 
 
 
93 
 
 
Pode-se observar como Nabuco explicita as relações da lavoura com os chineses, 
de um novo movimento escravista, aliado às suas convicções sobre as relações sociais, 
econômicas, morais, políticas e étnicas. Dessa maneira, percebe-se que a racialização do 
debate sobre a mão de obra chinesa é um dos seus aspectos mais pervasivos: está presente 
tanto na boca de quem a defende a migração (os chineses seriam trabalhadores baratos) 
como na boca de quem a condena. 
Comenta-se aqui sobre os preparativos da viagem à China com Sinimbú e Eduardo 
Callado separando, alimentos, patos e galinhas, os quais atrairiam os chineses para o 
Brasil. Como nos contam Ferreira, Guimarães e Neves164, a missão à China foi chefiada 
pelo Almirante Artur Silveira da Motta, tendo adquirido e atuado nas funções de enviado 
especial e ministro plenipotenciário, contando ainda com os diplomatas Eduardo Callado 
e Henrique Carlos Ribeiro Lisboa. O Almirante Silveira da Motta, no entanto, encontrava-
se em Londres como adido naval do Império desde 1874. Dessa maneira a comitiva que 
parte do Brasil se completa em Toulon, França, na Corveta Vital de Oliveira, e dali parte 
rumo à China. Devido à presença brasileira na Europa, as primeiras consultas e 
aproximações com o Celeste Império foram feitas em Paris. 
Lá o Almirante teve como principal interlocutor o Marquês Tsêng, representante 
da China junto aos Governos da França, da Grã-Bretanha e da Rússia. Este 
aconselhara o plenipotenciário, num primeiro momento, pleitear apenas a 
assinatura de um acordo de amizade e de comércio, para mais tarde abordar 
especificamente a questão dos imigrantes. A comissão de Silveira da Motta 
enfrentou fortes entraves. A começar pela resistência imposta pela Assembleia 
Geral do Império, onde sofreu a censura severa de Joaquim Nabuco e de Afonso 
Pena, entre outros deputados. Sabe-se, por outro lado, que os ingleses não 
apoiavam os planos da chancelaria brasileira. Uma vez na China, os delegados 
encararam a desconfiança e a morosidade das autoridades locais, que quase nada 
sabiam a respeito do Brasil. Isto sem falar das dificuldades com os tradutores.165 
O contexto da missão brasileira na China não foi nada promissor. A falta de 
apresentação dos costumes e a dificuldade de intérpretes foram fatores que atrapalharam 
no entendimento de toda a questão. Após a ratificação do tratado, Eduardo Callado 
prosseguiu com os intuitos da missão e organizou um “plano para a introdução de 
 
164 FERREIRA, Tânia Bessone da Cruz, GUIMARÃES, Lucia Maria Paschoal & NEVES, Lúcia Maria 
Bastos Pereira das. O Império do Cruzeiro do Sul e a Corte Celeste de Tien-Tsin: apontamentos sobre as 
relações sino-brasileiras no século XIX. Inn Dossiê Poder Naval, Comércio e Instituições Militares no 
Brasil Oitocentista. Revista Navigator, V.6, N. 12, 2010. 
165 Idem. P. 72 
 
 
94 
 
trabalhadores chins no Brasil”, tendo, no entanto, duas questões centrais que alarmavam 
os ânimos dos comissários chineses: os maus tratos sofridos pela tripulação do navio 
durante a viagem e a falta do cumprimento das normas redigidas nos contratos de trabalho. 
Callado, por sua vez, sugeriu ações que pudesse minimizar as preocupações, como 
convidar alguns idosos chineses para o trajeto Brasil-China, – os mais velhos desfrutam 
de grande respeito e admiração no Celeste Império, dessa maneira o bom tratamento e um 
bom retorno deles significaria um ótimo sinal – e que eles ficariam incumbidos da seleção 
de trabalhadores imigrantes chineses, além da fiscalização dos termos contratuais. Além 
disso sugere-se que o trajeto seja feito por uma embarcação de bandeira chinesa. “Neste 
sentido, acrescentava que fora procurado por dois diretores da China Merchant’s Steam 
Navigation Merchant, anunciando-lhe a intenção de abrir uma linha regular de vapores, 
ligando portos da China com os do Brasil. ”166 No documento elaborado por Callado há 
a menção a um membro do capital chinês conhecido como Tong-King-Sing. O referido 
membro, no entanto, vindo ao Rio de Janeiro em 1883, foi responsável por causar um 
alvoroço entre as classes sociais cariocas, além de diversas revoltas políticas locais.167 
Não podemos deixar de citar também a contribuição da Revista Illustrada na edição 358, 
de 1883, no texto Chronicas Fluminenses: 
Querem ver que era um dia a colonização chinesa? Que toda essa 
negociata de missão para lá e missão para cá dá em água de varrela suja? E que 
é justamente a visita de Tong-Kong-Sing, que vem liquidar de uma vez essa 
questão e pôr termo á tanta especulação? Como Alexandre com a sua espada, elle 
Tong-Kong-Sing com o seu rabicho cortaria de um golpe a questão. Realmente 
o enviado do celeste império ao império celestial não deve estar muito satisfeito 
da sua missão. Ele que veio para estudar a expectativa e palpar o terreno que 
aguardam os seus compatriotas, deve ter achado muita antipathica aquella, e este 
muito frouxo e perigoso. Esperado embora, a sua presença veio produzir um 
alvoroto para admirar na gente brasileira; como a cauda do diabo, a apparição do 
seu rabicho veio pôr tudo em reboliço. Uns imaginando já toda a sociedade 
brasileira transformada sob a influência do chim, nos seus usos e costumes. 
Outros temendo pela sorte dos seus galinheiros. Todos enfim se levantaram 
contra o chim.168 
 
166 FERREIRA, Tânia Bessone da Cruz, GUIMARÃES, Lucia Maria Paschoal & NEVES, Lúcia Maria 
Bastos Pereira das. Op. cit, 2010.P. 74. 
167 “A passagem do ilustre hóspede e de seus auxiliares pela capital do Império provocou grande rebuliço. 
Alvos de curiosidade, de murmurações e do habitual humor carioca, todos desejavam vê-los. Para se ter 
uma ideia do alvoroço, basta dizer que a extraordinária movimentação em torno da excêntrica comitiva 
serviu de mote para Artur Azevedo redigir a peça O Mandarim, a revista cômica do ano de 1983! Até o 
escritor Machado de Assis, conhecido pela sua sisudez, dedicou uma crônica bem-humorada ao exótico 
visitante”. Idem. P. 75 
168 Revista Illustrada. Edição 358, 1883. 
 
 
95 
 
Voltando à edição 162, tem-se uma folha de página dupla onde há uma referência 
(Imagem 3.1.6) econômica ao orçamento às escuras da Secretaria dos Estrangeiros e o 
baile que “só será dado em Pekim, pela embaixada brasileira aos filhos do Celeste 
Império. ” 
 
Imagem 3.1.6 - “Festa chinesa” 
 
Fonte: Revista Illustrada, n. 162. Rio de Janeiro, 1879. 
Mais à frente na revista 175, de 1879, tem-se duas referências às relações dos 
brasileiros com os chineses. Em um primeiro momento (Imagem 3.1.7) Agostini retrata 
o “Grande protesto contra a colonização chineza, como perturbadora da paz domestica 
dos galinheiros d’esta corte e subúrbios”. Nada mais é do que os patos e as galinhas em 
sua população local reclamando ao ministro Sinimbu pelo sumiço dos seus semelhantes. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
96 
 
Imagem 3.1.7 - “Os reclamantes” 
 
Fonte: Revista Illustrada, n. 175. Rio de Janeiro, 1879. 
 Ainda na mesma revista, nas páginas 4 e 5 (Imagem 3.1.8), tem-se o então 
Ministro dos Estrangeiros, Antônio Moreira de Barros, discutindo com o deputado 
Joaquim Nabuco. 
No primeiro destaque pode-se observar um chinês no colo no Ministro dos 
Estrangeiros, representando a sua proteção e apreço pela colonização chinesa, enquanto 
Nabuco tenta arrancar a ideia pelo rabicho: “Grande discussão na Câmara sobre os 
negócios da China. S. Ex. dos Estrangeiros defende uma colonização amarela contra osataques do ill. Deputado Joaquim Nabuco”. No terceiro destaque da primeira linha vê-se 
a representação da lavoura brasileira como uma mulher frágil entre o negro escravizado 
e o chinês: “Pobre lavoura! Já não bastava o preto, vai ter o amarelo! Com o auxílio de 
duas raças tão inteligentes, ela há de progredir de um modo espantoso! ” As 
representações são bem estereotipadas, com traços grosseiros que ajudam a reforçar um 
tipo de retrato social negativo, tanto o negro escravizado quanto o chinês são vistos de 
maneira pejorativa. 
 
 
 
 
 
 
 
97 
 
Imagem 3.1.8 - “Os chins na lavoura” 
 
 
 
 
98 
 
Na continuação têm-se os instrumentos da lavoura necessários para que o trabalho 
com o café prossiga, como a chibata e o chicote, ou seja a ligação direta do café com a 
escravidão e suas formas violentas de manutenção. Além de reforçar o estereótipo de que 
os dois grupos sociais eram vistos como preguiçosos e só trabalhariam mediante o uso de 
coerção física: “Pobre café” Entendem que ele só pode produzir com a aplicação destes 
nossos instrumentos de lavoura. ” 
 Em seguida vemos Antônio Moreira de Barros com o chicote em mãos: “O Sr. 
Ministro dos Estrangeiros e todos os apologistas dos chins acreditarão realmente que o 
chicote é o principal motor dos nossos trabalhos agrícolas?!” Na última linha ilustrada 
vê-se o então ministro assustado ao perceber que os chineses cometeram o suicídio: 
“Quando os coolies se virem por demais amolados, eles mudar-se-ão em um instante 
para a China, por um meio rápido que a sua religião lhes ensina” – há aqui a sustentação 
de que a religião dos chineses os ensinava isso para que pudessem voltar a China no pós 
mortem.169 Interessante notarmos ainda, conforme discutido no segundo capítulo que as 
formas de resistência entre negros e chineses eram parecidas, em destaque do suicídio 
para ambos levando em consideração os negros escravizados que se jogavam dos barcos 
para voltarem pelos mares para o continente africano. 
Agostini ironiza e questiona a habilidade do Ministro Barros na lavoura, visto seu 
porte físico e seu árduo trabalho como agricultor: “O Sr. Ministro dos Estrangeiros, que 
também é um distinto agricultor, nos dirá então qual o remédio”. Por fim, duas imagens, 
uma que retrata a lavoura feminina recebendo golpes físicos duros através das mãos dos 
chineses e dos negros escravizados: “Pobre lavoura! Deus queira que eles não deem cabo 
nela”. Por fim um grupo de chineses realizando seu trabalho urbano, caso a lavoura não 
os queira: “a menos que eles fiquem nas cidades onde, segundo disse o Sr. Nabuco, eles 
poderão dedicar-se à indústria...”As opiniões verbalizadas no Congresso e na Câmara 
estão aqui representadas de forma ilustrada e satírica com os dois lados da discussão, 
contra e a favor da imigração chinesa, mas independente do posicionamento, sempre 
recorrendo as teorias raciais. 
 
 
169 Não sabemos até que ponto essa representação do suicídio é realmente algo visto entre os chineses ou 
se é uma mera cópia de situações semelhantes vividas com os negros que foram capturados no continente 
africano e que, para retornarem ao seu lugar de origem, jogavam-se dos navios, cometendo suicídio, para 
que pudessem retornar em espírito à África. No entanto a mesma referência ao suicídio é vista também nas 
charges de Edgar Holden. 
 
 
99 
 
 
 
100 
 
 
 
 
 
 
101 
 
 
 
 
 
 
102 
 
 
Revista Illustrada, n. 175. Rio de Janeiro, 1879.
 
 
 
 
103 
 
Conforme as discussões foram acontecendo, a missão à China pelo governo brasileiro 
estava em curso desde 1879. O período do final do império pode ser visto com uma maior busca 
de protagonismo internacional, como nos conta Amado Luiz Cervo, sobre as missões para o 
Oriente. 
O intuito era o de imprimir maior prestígio e extensão para a ação externa brasileira. O 
Imperador brasileiro e seus representantes viajavam o mundo marcando presença em 
congressos, feiras e foros de arbitramento internacional, como por exemplo, nas exposições de 
café na Europa, além de manterem a sua posição pan-americana junto dos Estados Unidos.174 
Existiriam ainda quatro grandes obstáculos que comprometeriam a realização do tratado 
internacional com a China: o combate feroz por Joaquim Nabuco, Alfredo d’Escragnolle 
Taunay e outros ao projeto de imigração chinesa, com argumentos de um novo projeto 
escravista no Brasil e de contaminação biológica (apesar da vanguarda dos deputados vemos 
ainda os contra-argumentos baseados nas teorias raciais e na inferioridade dos chineses); o 
embate positivista internacional de Miguel Lemos; e as outras experiências chinesas de 
imigração, como Peru e Cuba, que tinham a mesma visão e opinião, tanto pública, quanto oficial 
do governo; e que o próprio governo chinês insurgira-se contra as experiências internacionais 
de abuso e do estado de seu povo e bloqueara a saída de mais coolies.175 
 A volta do navio Vital d’Oliveira foi retratada por Agostini na capa da Revista Illustrada, 
número 236, de 1881 (Imagem 3.1.9). Notam-se os arlequins da Revista no topo do Pão de 
Açúcar saudando a volta da viagem: “Cumprimentamos a ‘Vital d’Oliveira’ de volta da 
importante viagem ao redor do mundo. O completo sucesso da missão à China faz-nos entrever 
desde já um novo horizonte cheio de rabichos chineses. ” 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
174 CERVO, Amado Luiz; BUENO, Clodoaldo. História da Política Exterior do Brasil, 4ª. Ed. Revista e ampliada. 
Brasília: Ed. UnB, 2011. 1 v. p. 129. Apud LISBOA, Henrique Carlos Ribeiro. A China e os chins: recordações 
de viagem: 1ª reed. – Rio de Janeiro: Fundação Alexandre de Gusmão. CHDD, 2016, p. 10. 
175 Ibidem. p. 136-137 Apud p. 11 
 
 
 
 
104 
 
Imagem 3.1.9 - “Cumprimentos a Vital d’Oliveira” 
 
Fonte: Revista Illustrada, n. 236. Rio de Janeiro, 1881. 
A edição 237, de 1881, tem um pequeno texto no título Chronicas Fluminenses de 23 
de julho em que há uma menção ao embate positivista sobre o tema. Podem-se ler menções a 
perspectivas internacionais como a missão à China, o livro de Salvador de Mendonça e o tratado 
assinado entre Brasil e China; o autor remete, portanto, ao texto positivista de Miguel Lemos e 
seu envio, acompanhado de anexo do livro de Mendonça e os Annaes do Senado brasileiro 
sobre a discussão da imigração chinesa. 
Continuando com a análise da Revista, têm-se, em 1882, no número 298, na última 
página (Imagens 3.1.10 e 3.1.11), referências imagéticas sobre o Banco Agrícola e o Centro da 
Lavoura e do Commercio, onde seus participantes arguiam incessantemente sobre mais dinheiro 
para lavoura e sobre a imigração chinesa. Vê-se uma espécie de plantação dos discursos sobre 
os chineses e sendo a terra tão fértil quanto a nossa, veríamos brotar dali cabeças e braços 
chineses, sendo a maior dificuldade desse cultivo a língua: “E se plantassem esses discursos, 
não sairia dali alguma coisa? Nossa terra é tão fértil”. “E a Divina Providência tão 
misericordiosa, que não seria impossível ver.... Nada é impossível entre nós desde que se 
 
 
 
 
105 
 
descobriu a navegação aérea”. “Haverá somente uma dificuldade quanto a língua. Tchan-tchi-
kola-uaka.... Nem o diabo os entende! ”. 
 
Imagem 3.1.10 e 3.1.11 - “Brotos chineses” 
 
 
Fonte: Revista Illustrada, n. 298. Rio de Janeiro, 1882. 
 
 
 
 
106 
 
Já na edição 358, de 1883, vê-se uma página dupla intitulada A Colonização Chineza 
(Imagem 3.1.12). Nessa imagem de três linhas notam-se claros exemplos sobre como 
funcionaria o projeto de imigração chinesa para o Brasil e a formação de um campesinato 
oriental na lavoura brasileira. Tem-se referências ao estereótipo inferior do chinês fisicamente 
frente ao europeu, o negro escravizado e o índio brasileiro; ao fato de os chineses só trabalharem 
sob constante vigilância,amarrados pelos seus cabelos; mais um vez a referência ao suicídio 
como fuga; os desacordos entre a lavoura querendo torná-los escravizados; e que se mesmo 
sabendo de todos essas caracteristícas sobre os chineses, se ainda assim a lavoura o quissesse, 
que os mandassem para a lavoura, pois a cidade não haveria de querer; caso nem a lavoura os 
aguentasse, que fossem mandados então para o sertão brasileiro onde haveria tribos indígenas 
canibais que resolveriam o problema. Pode-se observar a perpetuação, mesmo com o passar do 
tempo, na cosntrução e na reprodução do estereótipo do chinês como sendo preguiçoso, ladrão 
e inferior aos demais. 
Imagem 3.1.12 - “A Colonização Chinesa” 
 
Nessa página temos o Arlequim da Revista Illustarda apresentrando a opinião do autor 
satirizada sobre a ideia da imigração chinesa. Lê-se: “Uma das questões mais importantes da 
atualidade é a imigração chinesa. Contra a opinião da maior parte dos colegas, declaramo-
nos favoráveis a essa introdução de chines que devem salvar a pátria, na opinião dos ilustres 
lavradores. N.N (Continuamos sempre no gozo da mais perfeita san(idade)... etc etc.” “Sim, 
 
 
 
 
107 
 
somos apologistas dos chins, porque não conhecemos raça mais bela, tipo mais gracioso, mais 
simpático” E que belas cores!” 
 
Seguem as referências as teorias raciais da época colocando os chineses como a última 
das raças, seguindo a frente brancos europeus, negros africanos, indigenas brasileiros e por fim 
os chineses. “Plasticamente falando: conhece, formas mais belas, mais robustas, mais varonis! 
Como as outas raças ficam mesquinhas e raquiticas ao lado dos filhos do Celeste Império” Até 
o pais deles chama-se celeste! Que poesia! O governos não podia escolher melhores colonos! 
Abaixo temos ilustrações sobre o tipo de trabalho que os chineses exerceriam em solo 
brasileiro e como esse trabalho funcionaria. “O chim é um pouco descansado é verdade, mas 
incontestavelmente, ninguem trabalha melhor do que ele... em abanar-se”. Os chineses só 
funcionariam ao trabalho sob constante vigilancia, tão severa quanto a dos negros escravizados, 
“porém confiamos muito na inteligente vigilância dos nossos lavradores. Varios sistemas se 
inventarão para impedir os chins de se deitarem por ocasião do trabalho. Os Srs. Taunay, 
Telles e outros que inventaram tantas maquinas para beneficiar o café, inventarão também 
outras aplicadas aos cultivadores desse abençoado grão.” 
 
 
 
 
 
108 
 
 
 
 
 
 
 
109 
 
Em seguida vemos novamente os desentendimentos dos chineses com a lavoura, que 
além da constante vigilânia deveriam sofrer coerções físicas constantes; além também do 
suicídio como fuga para as herculeas tarefas que seriam trabalhar na lavoura brasileira. “Nem 
sempre os chines estarão de acordo com os fazendeiros sobre certos compromissis, pois que 
em geral eles tem grande predileção para se porem ao fresco... sem olhar para o prazo dos 
contratos...” “Crentes de que ressucitam na terra deles, os coolies enfircam-se por meio do tal 
rabicho, convencidos de que esse sistema de fuga não convida ninguem a segui-los, empregam-
no quase sempre com a maior sem cerimonia.” 
 
 Entre chineses e a lavoura brasileira “a malhor harmonia reinará entre lavradores e os 
novos colonos. E já que os fazendeiros querem os chins... pois tomem chins.” 
 
 
 
 
110 
 
 
 
 A Revista Illustrada segue seu papel de sátira ácida ao entregar os chineses para a 
lavoura, visto que a lavoura os queria e faria bom uso dadas as condições não tão usuais de 
trabalho e a disposição dos novos lavoureiros. O meio urbano, por sua vez, não os desejava. “E 
em nome das familias e sossego dos galinherios, desde já protestamos contra esses comedores 
de arroz. Isto de saborear canja à custa dos outros ... temos conversado”. Surge a hipotese de 
que os chineses não possuiam condições de se alimentarem devidamente nas cidades, por isso 
 
 
 
 
111 
 
a representação comum de ladrões de patos e galinhas, animais comestíveis e que ainda botam 
ovos. 
 
Por fim, caso nem a cidade e nem o campo os queiram, que fossem enviados para a roça, 
para bem longe. “Um excelente lugar é o sertão das províncias do Mato Grosso ou Alto 
Amazonas. Excelente lugar para cultivar a terra e o espírito dos habitantes da mesma, que se 
acha muito inculto.” Nessa “roça” os indigenas brasileiros seriam ainda carnivoros e os 
chineses serviriam de banquete aos habitantes “Estamos certos que estem dariam provas do 
maior reconhecimento.” 
 
 
 
 
112 
 
 
 
 
 
 
 
 
113 
 
 
Fonte: Revista Illustrada, n. 358. Rio de Janeiro, 1883. 
 
 
 
 
114 
 
É importante frisar que o referido processo de imigração chinesa na verdade nunca saiu 
do papel. As discussões sobre a questão “fantasma” chinesa , como mostra Dezem, ainda 
perpetuaram-se na Revista Illustrada por mais 14 edições até o ano de 1892.176 O discurso 
político na imprensa ilustrada contra a imigração chinesa é também um discurso político contra 
a escravidão. Seus diversos tópicos, uso da racialização, denúncia da violência física, hábitos 
morais, eram postos em cena para denunciar ao mesmo tempo a continuação do trabalho 
escravo e o projeto de recrutamento da força de trabalho chinesa. Desse ponto de vista, o 
fracasso da colonização chinesa significou a emergência de um arranjo de trabalho centrado no 
europeu que – embora também sofresse influência do regime escravista – estava muito mais 
distante dele que as modalidades de contrato firmadas com trabalhadores chineses. 
 Podemos destacar ainda outras imagens da imprensa brasileira e internacional que 
reproduziram o mesmo estereótipo social e cultural do asiático chinês: 
Vemos ainda aqui outra revista de tipo ilustrado, O Mequetrefe, que também 
representou satiricamente o posicionamento da elite sobre a imigração chinesa na charge Chino-
Mania. Lê-se: “É este o nosso ideal de hoje... e do governo, e a nossa perspectiva é teme-los. ” 
“O chim pelas costas... ao café... e quem sabe também a mesa? Pela frente. Na cama e em 
sonhos. Se vamos ao espalho...zás o chim. Se a certo lugar... toma... o Chim. A vista disso 
havemos de começar a ter chins,teremos o Chim-Ninbú. O Chim-Gazeta, o Chim-Castro, o 
Chim-Pato, o Chim-Dantas.E o Chim-Nós. Veremos o congresso dos mandarins grandes... e 
dos mandarins pequenos. O Chim-Janota. ” 
E em outra página ainda da Chino-Mania: “O Chim-Esposo. O Chim-Pai. E o Chim em 
desenvolvimento de sua indústria. Sobre sua moral corremos uma cortina. Quem diria? Éramos 
assim. Hoje somos isto. Amanhã por este feitio. E com toda a certeza, havemos de dar com o 
costado neste aperfeiçoamento o grande parto da cabeça do galinho de Taubaté.” 
 
 
 
 
 
 
 
 
176 Após a proclamação da república Brasil, em 1889, tem-se apenas quatro charges que competem o assunto da 
imigração chinesa. 
 
 
 
 
115 
 
Imagem 3.1.13 - “Chino-mania” 
 
 
 
 
 
 
 
 
116 
 
 
 
 
 
 
 
117 
 
 
 
 
Fonte: O Mequetrefe, n. 183. Rio de Janeiro, 1879. 
 
 
 
 
 
 
 
 
118 
 
 
 
 
 
 
 
 
119 
 
 
Imagem 3.1.14 - “A China na imprensa internacional nos EUA” 
 
Fonte: Edgar Holden, Harper’s New Monthly Magazine, June 1864. Courtesy of Reed College Library. 
 
 Interessante notarmos que há uma continuidade das representações imagéticas chinesas 
entre Brasil, EUA e Austrália. Talvez mesmo sem um cartunista ter conexões globais de 
desenhos e traços há uma imagem cultural e social comum a todos. Acima vemos dois destaques 
de uma revista maior que conta a revolta de um barco de imigrantes chineses. Vemos além da 
clara distinção das vestes, que dá a dualidade entre moderno e bárbaro, os rabichos e a repetição 
dos atos de violências através dos chineses. 
 Na Austrália por sua vez, os chineses que lá trabalharam, talvez por conta da 
proximidade, possuíam habilidadesmanuais de construção e reparo de móveis, o que acabou 
gerando ainda uma revolta local pela diminuição dos pagamentos aos trabalhadores locais 
devido a grande oferta de mão de obra. Por isso a imagem a seguir. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
120 
 
 
Imagem 3.1.15 - “A China na imprensa internacional na Austrália” 
 
Fonte: Chinese Furniture Makers, Little Bourke-Street. [Picture], 1880. Australia. 
Uma das principais diferenças entre o recrutamento de chineses e o recrutamento de 
europeus está na noção de unidade familiar. Presente já nos primeiros contratos redigidos ainda 
durante o sistema de parcerias, em meados do século XIX, ela desloca a célula do trabalho 
agrícola do indivíduo, submetido ao estrito controle sexual, para a família. Vejamos por 
exemplo, o contrato de parceria estabelecido entre a firma Vergueiro & Cia e o senhor Thomaz 
Davatz. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
121 
 
 
Contrato 4: Vergueiro e Cia, 1840 
 
Fonte: DAVATZ, Thomas. Memórias de um colono no Brasil (1850). Trad. 
Sergio Buarque de Holanda. Livraria Martins, São Paulo, 1850. Anexo 1, p. 
263. 
 A presença de um novo tipo de célula produtiva no interior da fazenda, a família, já 
demonstra um claro interesse na colonização e estruturação de uma sociedade brasileira a partir 
de europeus. No artigo quarto constam algumas obrigações da firma contratante, como ser 
responsável pelo transporte, as despesas iniciais e vestimentas, além de “atribuir a cada pai de 
família a porção de cafeeiros que ele possa cultivar, colher e beneficiar; e facultar ao colono o 
plantio em terras adequadas e em lugar designado dos mantimentos necessários para o seu 
sustento.” – Para o caso chinês, o empregador também era encarregado dos custos da passagem 
 
 
 
 
122 
 
e de itens essenciais a primeira viagem, mas o contrato não mencionava a faculdade de um 
plantio para sustento. Interessante notarmos ainda a definição contratual pelo tipo de produto a 
ser produzido, o café; em comparação aos chineses, estes viam-se a mercê dos patronos. Outros 
artigos ainda interessantes de serem notados são o quinto – sobre as obrigações do colono. Estes 
tinham liberdade de cultivo escrita em forma contratual, assim como o curso do trabalho sendo 
regulado de forma escrita; o artigo consiste também nas informações de pagamentos de 
passagem e juros pelos colonos, em caso de empréstimo, e da divisão da produção. O décimo 
artigo versa sobre a transferência dos contratos – assim como no caso chinês, os trabalhadores 
poderiam ser “vendidos e comprados” caso o patrão desejasse. 
 Enquanto o trabalho coolie funcionava mediante o controle físico através da violência, 
assim como a escravidão, os trabalhadores europeus eram controlados economicamente através 
do endividamento compulsivo feito pelos contratos desiguais – haja visto a necessidade de 
divisão de lucro, empréstimos, altos juros e as condições desvantajosas em anos de baixa 
produtividade.177 No Brasil, assim como Cuba e Peru, as diferenças consistiam, portanto, nos 
modelos de reprodução da violência e do controle social e econômico baseado na raça dos 
contratados. As relações sociais escravistas funcionaram como uma engrenagem ao modelaram 
as novas relações de trabalho e os usos e posse da terra. 
 
Considerações 
A reformulação, ao longo do século XIX, do mercado de comodities, de trabalhadores 
e do seu fluxo e refluxo, assim como do sistema capitalista mundial estruturou novas bases de 
exploração através de novas relações capitalistas e não capitalistas de produção. Não apenas a 
questão econômica foi forte nesse contexto, mas a questão social e cultural também. O fracasso 
da política migrantista chinesa deu-se, portanto, pela reestruturação e alargamento da 
escravidão e a consequente remodelação do mercado de trabalho brasileiro. As charges e a 
Revista Illustrada são, portanto, uma das representações culturais dessas remodelações. A 
Revista serviu para construir o estereótipo nacional frente ao estrangeiro; construir o estereótipo 
do chinês e de um possível mercado de trabalhadores no Brasil do século XIX; divulgar e 
denunciar o que aconteceria com o chinês caso o processo de imigração fosse realizado. A 
Revista Illustrada foi ainda um amplificador das discussões no âmbito político, social e cultural. 
 
177 SOUZA, Bruno Gabriel Witzel de. Imigração alemã e o mercado de trabalho na cafeicultura paulista – um 
estudo quantitativo odos contratos de parcerias. Historia Econômica & Historia de empresas. Edição XV, volume 
2, 2012. 
 
 
 
 
123 
 
 
 
 
 
 
124 
 
CONCLUSÃO 
 A proposta de trabalho apresentada tem o intuito de construir um pensamento 
reformulado sobre a política imigrantista sinófila brasileira que, através de uma constelação de 
fatores responsáveis por reconstruir e reformular as sociedades do século XIX, teve como 
alicerce a experiência histórica da escravidão. Através da apresentação de uma breve historia 
da escravidão brasileira do século XIX, fomos capazes de demonstrar sua intima relação com 
as novas políticas migrantistas e como seu desenvolvimento foi lapidado através da experiência 
desta. Esse é um ponto chave, portanto, da pesquisa. Entender que a experiência historica da 
escravidão reformulou e reconstruiu os tempos e espaços onde sua presença foi sentida 
fisicamente, ou economicamente. Devido ao alargamento do tempo da escravidão com a 
expansão de fronteiras agrícolas e um aumento do tráfico interno, a política da escravidão 
manteve-se até o final do século XIX. A perspectiva comparada que hoje historiadores tanto 
falamos, já era sentida ao longo do século XIX nas experiências compartilhadas da escravidão, 
políticas migrantitas e manutenção do capital. Foi, portanto, através da experiência histórica da 
escravidão negra nas Américas em sua tríade escravista e das investidas européias para a região 
da peninsula do Indo Pacífico que surgiram novos percurso dos fluxos e refluxos de novos 
trabalhadores e dos novos tipos de trabalho, em específico a mão de obra chinesa não 
qualificada. A crise mundial estrutural do capital na segunda metade do século XIX foi 
responsável por universalizar as novas regras de formação do mercado de trabalho através da 
experiência historica da escravidão. As novas formas prática e os novos alicerces do trabalho 
na segunda metade do século XIX são relações reconstruidas e lapidadas através de uma 
experiência trabalhista (escrava) em comum. A expansão e busca por novos territórios foi capaz 
ainda de reformular os usos e posses dos trabalhadores com a terra, criando um grande mercado 
de trabalho sucetivel aos latifundios sazonais, como o caso do café, açúcar e também de 
produtos de alta demanda, como o guano. 
 Essas mudanças e reformulações, por sua vez, só foram possíveis graças a uma 
constelação de fatores que juntos foram responsáveis pela pendulação do eixo economico 
capitalista mundial das Américas para a região do Indo Pacífico (India, China e outros 
territórios proximos). As mudanças políticas e sociais causadas pelas invasões européias em 
territórios asiáticos foram responsáveis por reformular os usos da terra, assim como ocorreu nas 
Américas por conta da escravidão, de uma maneira não comum para as sociedades asiáticas 
daquela região. Além disso as guerras, invasões e rebeliões locais e/ou internacionais inseriram 
o fator humano no centro das disputas por terriório, dinheiro e comida. A apresentação e análise 
 
 
 
 
125 
 
das charges e imagens dos trabalhadores chineses nos deram uma perspectiva comparada 
cultural do possível surgimento de um grupo de trabalhadores chineses em território brasileiro 
e também como um movimento de denúncia para a sociedade brasileira e internacional dos 
possíveis acontecimentos futuros em relação a esse grupo. 
 Em relação ao Império Chinês e a Guerra do Ópio, entendemos queo ópio fechava a 
cadeia mercantil intercontinental do chá, que por sua vez era o doping laboral da classe operária 
britânica, sendo essa uma guerra econômica. O psicoativo foi usado ainda como uma 
mercadoria-chave, pois: desempenhou papel decisivo na balança comercial da Índia, âncora da 
economia britânica; acelerou as contradições entre o modo de produção tributário e o 
espetacular crescimento demográfico na China, sendo uma das causas das diversas rebeliões 
em curso e de emigração; e funcionou como doping laboral em Cuba para os chineses 
trabalhadores nas plantations, e na organização do processo social cubano. 
 A imigração chinesa no Brasil, ou ainda a política imigrantista sinófila não foi recusada 
pela classe política, ou ainda suprimida por ideais liberais internacionais, apesar de ter seu papel 
importante na denúncia do preconceito e na construção de um questionamento sobre o ser 
brasileiro, não por comparação, mas pela exclusão. Também não foram causas principais da 
não vinda de trabalhadores chineses para o Brasil a sinofobia ou a xenofobia à asiáticos. O 
Brasil chegara atrasado em seu desempenho político internacional devido a reformulação da 
escravidão brasileira que foi ser estendida até o raiar do século XX. Foram, portanto, as 
reestruturações e continuidades na política da escravidão brasileira os principais responsáveis 
pelas parcas atuações no sentido de cooptar chineses em modo de trabalho transitório entre a 
escravidão e trabalho livre. Conforme analisamos ainda, tanto em Cuba, quanto no Peru, a 
imigração chinesa nunca serviu como um trabalho transitório, mas na verdade como uma nova 
modalidade de trabalho construída através da experiência histórica da escravidão em cima de 
um novo grupo social. Os ataques internacionais, a Guerra do Ópio, além de problemas políticos, 
sociais, econômicos e ecológicos nacionais trazidos de longa data, ou problemas recorrentes 
ignorados ou mal resolvidos, foram alguns dos fatores que eclodiram no século XIX, 
juntamente das revoltas e rebeliões, os problemas ecológicos sazonais e as crises de fome. Foi, 
portanto, na crise capitalista mundial do século XIX que a contradições do capitalismo entraram 
em choque possibilitando a derrocada da escravidão e o surgimento de novas modalidades de 
trabalho construídas através da experiência histórica da escravidão. 
 
 
 
 
 
126 
 
ANEXOS - OPINIÕES MANIFESTADAS SOBRE ASIÁTICOS NO CONGRESSO 
AGRÍCOLA 
Espírito Santo 
 
Minas Gerais 
Nome Localidade S/N Posic. Conceito Tipo OPINIÕES 
Antônio 
Cesário 
de Faria 
Alvim 
Ubá N CONTRA Chins Colonos 
NÃO CONCORDA COM 
A IMPORTAÇÃO DE 
CHINS COMO 
COLONOS, APENAS 
EUROPEUS; 
Galdino 
 Fernandes 
Pinheiro. 
Mar de 
Hespanha; 
Santo Antonio do 
Aventureiro; 
S. João 
Nepomuceno 
(municipio do rio 
novo) 
N CONTRA Chins - - 
Joaquim 
Eduardo 
Leite 
Brandão 
Mar de Hespanha N CONTRA Chins 
Elemento de 
 trabalho 
NÃO HÁ NECESSIDADE 
DE TRABALHO, MAS 
DE CAPITAIS 
Joaquim José 
Alves dos 
Santos Silva 
Leopoldina - NEUTRO 
Coolies e 
chins 
Instrumento de 
trabalho 
MEIO TRANSITÓRIO 
Nome Localidade S/N Posicionamento Conceito Tipo OPINIÕES
Francisco Antonio da Motta São Mateus N CONTRA Chins Colono
CONTRA 
COLONIZAÇ
ÃO OFICIAL 
DE CHINS
José Cesário de Miranda 
Monteiro de Barros
Cachoeira de
 Itapemirim
S A FAVOR Coolies e chins Colono
RAÇA 
INFERIOR; 
SALÁRIOS 
BAIXOS; 
ATRAVÉS DO 
SUBSIDIO 
DO ESTADO
 
 
 
 
127 
 
Julio Cesar 
de 
Moraes 
 Carneiro 
Mar de Hespanha N CONTRA 
Asiáticos/ 
coolies 
 e chins 
Colono/ 
Todo o tipo 
RAÇA DEGENERADA; 
ESCÓRIA DOS OUTROS 
PAISES/ RAÇA 
INFERIOR, 
CORROMPIDA E 
DEGRADADA; BRAÇOS 
VIRÃO COM SALÁRIOS 
MAIORES; DESVIAR A 
ATENÇÃO DA 
COLONIZAÇÃO 
EUROPEIA 
Lavradores 
de 
Baependy 
Baependy S 
A FAVOR, 
SE 
NECESSARIO 
Coolies 
da 
 India 
Medida 
transitória 
PREFEREM A 
COLONIZAÇÃO 
EUROPEIA 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
128 
 
 
Rio de Janeiro 
 
Nome Localidade S/N Posic. Conceito Tipo OPINIÕES
A. J. de Antunes 
de Abreu
Serraria N CONTRA Chins Todo o tipo
PRECISAMOS DE HOMENS 
INDUSTRIOSOS, 
INTELIGENTES E 
CIVILIZADOS; RAÇA 
INFERIOR
Albino Antonio
 de Almeida
Resende S
A FAVOR, 
SE 
NECESSARIO
Asiáticos
Locação de 
serviços
SUPRIR FALTA DE BRAÇOS
Angelo Thomaz
 do Amaral
Itaborahy S A FAVOR Chins
Medida 
transitória
PREFERE O EUROPEU, MAS 
O CHIN É SUPERIOR AO 
AFRICANO; 
RAÇA DEGRADADA; 
IMPORTAÇÃO ATRAVÉS DE 
INICIATIVA PARTICULAR
Barão do Rio Bonito Valença N CONTRA Chins Colono -
Carlos Marcondes 
de Toledo Lessa
Barra Mansa N CONTRA Chins - CHINESES INDOLENTES
Christiano 
Benedicto
 Ottoni
Rio de 
Janeiro e 
Minas
 Gerais
N CONTRA
Chins e 
Coolies
Todo o tipo
COLONO AFRICANO 
MUITO SUPERIOR AO 
COOLIE;
RAÇA VICIOSA E 
DEGENERADA
João Baptista 
Braziel
Resende S A FAVOR Chins Jornaleiro
MÃO DE OBRA BARATA; 
NAÇÃO CHINESA 
DESMORALIZADA;
MENOS IMPRÓPRIA, 
PERIGOSA E REBELDE QUE 
OUTRAS RAÇAS IDENTICAS
João Lins Vieira
 Cansanção 
de Sinimbu
Corte S A FAVOR Chins Medida transitória -
José Fernandes 
Moreira
Rio de 
Janeiro
S A FAVOR Chins
Instrumento 
de trabalho
RAÇA DEGRADADA SÃO, 
NO ENTANTO, OS 
MELHORES 
TRABALHADORES; DEVIDO 
A SUA MORAL, NÃO VEM 
CONSTITUIR A NAÇÃO 
BRASILEIRA
Lavradores da 
freguezia 
da Lage
Freguezia 
da Lage
S A FAVOR Coolies -
SERVIRÃO DE GRANDE 
UTILIDADE A LAVOURA, SE 
FOREM 
REGIDOS PELAS MESMAS 
LEIS QUE NAS COLÔNIAS 
INGLESAS
Lavradores 
de Campos
Campos S A FAVOR Chins - -
Lavradores 
de Quissaman
Quissaman S A FAVOR Chins Todo o tipo
SALVADORES DA LAVOURA 
DO PAÍS, INTRODUÇÃO DE 
400.000 MIL CHINESES; 
POVO SÓBRIO E QUE PEDE 
SALÁRIOS BAIXOS
Pedro Dias 
Gordilho 
Paes Leme
Itaguai S
A FAVOR, 
ÚLTIMO 
RECURSO
Chins
Medida 
transitória
"UM MAL, TALVEZ 
NECESSÁRIO"; 
INFERIORIDADE DO 
COOLIE EM 
RELAÇÃO AOS AFRICANOS; 
SUPERIOR O TRABALHO 
DO CHINÊS SOBRE O 
COOLIE; ELEMENTOS DE 
ATRASO NA INDIA OU NA 
CHINA;
Santiago de 
Miranda
Jacarepagua, 
Municipio 
Neutro
S
A FAVOR, 
SE
 NECESSARIO
Chins
Medida
 transitória
SOMENTE AQUELES QUE SE 
DEDICAM A AGRICULTURA 
EM SEU PAÍS
 
 
 
 
129 
 
São Paulo 
 
Nome Localidade S/N Posic. Conceito Tipo OPINIÕES
Américo Brasiliense 
de Almeida Mello
Jacarei, 
Indaiatuba, Campo 
Largo, Sorocaba e
 Porto Feliz
S A FAVOR
Asiático/ 
China
Jornaleiro
INTRODUÇÃO DE TRABALHADORES 
DA CHINA É DE MUITA
 NECESSIDADE; TRABALHADOR 
QUE PODE SERVIR COMO 
JORNALEIRO É O ASIÁTICO, 
MAS O ASIÁTICO VINDO DA 
CHINA E DOS DISTRITOS
 AGRÍCOLAS; A TERRA (CHINA) 
NEGA-LHES O SUSTENTO; 
CHINÊS É LABORIOSO, 
MORALIZADO, PACÍFICO
 E O MAIS BARATO;
Antonio Moreira 
de Barros
Taubaté S
A FAVOR, 
SE 
NECESSARIO
Chins Jornaleiro
ELEMENTO DE RAÇA INFERIOR/
 IMPORTADORES DE ÓPIO;
ELEMENTO INCONTESTÁVEL 
DE TRBALHO; 
A INDUSTRIA DO GUANO SÓ 
EXISTE POR CAUSA DO CHIN
Camargo Bragança - NEUTRO Chins -
VIAJOU A CALIFORNIA E VIU
 OS 120.00 CHINS;
O PROGRESSO É DA MECANICA 
AGRICOLA E NÃO DOS CHINS
Cesario N. de 
Azevedo Motta 
Magalhães Junior
Porto Feliz -
APENAS 
COMENTA
Chins -
NÃO RESOLVERÃO OS 
PROBLEMAS DA LAVOURA
Commissão nomeada
 pelos lavradores de 
São Paulo
 (Albino José Barboza
 de Oliveira, Moreira
 de Barros
 e Campos Salles)
Comissão Paulista - 
Campinas;
Taubaté
S
A FAVOR, 
SE 
NECESSARIO
Coolies/ 
povos 
indiáticos
Medida 
transitória
ELEMENTO DE REGRESSO A
 NOSSA CIVILIZAÇÃO;
BAIXO NÍVEL DE MORAL; 
AFASTARIAM A 
IMIGRAÇÃO EUROPEIA
Domingos José de 
Nogueira Juagaripe
 Filho
Rio Claro N CONTRA
Coolies
 = Chins
Todo o 
tipo
COLONIZAÇÃO PERIGOSA, IMORAL;
 RAÇA INFERIOR E DECREPILA
NÃO É POSSÍVEL SALVAR O 
FUTURO DA NOSSA AGRICULTURA
 COM A IMPORTAÇÃO DE COOLIES;
 COLONISAÇÃO CHINEZA 
EM TODO O MUNDO FOI 
SEMPRE PREJUDICIAL,PERIGOSA E IMMORAL.
Eduardo A. Pereira
 de Abreu
Silveiras N CONTRA
Chins ou
 coolies
Todo o
 tipo
CALAMIDADE LETAL A 
LAVOURA; RAÇA INFERIOR
João Cordeiro 
da Graça
Limeira N CONTRA Chins
Todo o 
tipo
AGRICULTOR APROVEITAVEL,
 MAS A CHINA É UM PAÍS 
BRUTAL DE LEIS 
NÃO CIVILIZADAS;
 RAÇA INFERIOR
João Marcelino
 de Souza Gonzaga
Pindamonhangaba - NEUTRO Chim - -
Luiz Ribeiro de
 Souza Resende
Valença N CONTRA Chins
Todo o
 tipo
DEPREVAÇÃO DA RAÇA; 
DEVEM VIR APENAS POR 
INCIATIVA PARTICULAR
Moreira de 
Barros
Taubaté S
A FAVOR,
 SE 
NECESSARIO
Chins Agricultores
RAÇA INFERIOR; 
MEIO TRANSITÓRIO; 
QUESTÃO DE NECESSIDADE
Rodrigo Lobato 
Marcondes Machado
Taubaté S
A FAVOR, 
SE 
NECESSARIO
Coolies
Medida 
transitória
BRAÇO DOS COOLIES; 
NÃO SÃO OS MELHORES,
MAS SÃO MEIO SEGURO
 DE PASSAR DO ESCRAVO 
AO LIVRE; 
UM REMÉDIO PARA O MAL
Scott Blacklaw
São João do
 Rio Claro
S A FAVOR
Coolies
 indianos
Medida
 transitória
OS COOLIES SÃO UMA RAÇA 
MUITO SUPERIOR A 
DOS NEGROS, IGUAL A 
DOS BRANCOS, SÓ TEM
 A PELE BRONZEADA
 
 
 
 
130 
 
Mistos 
 
Nome Província Localidade S/N Posic. Conceito Tipo OPINIÕES
Campos de Medeiros RJ MG
Rio de Janeiro; 
São Pedro da
Alcantara, 
Juiz de Fora
N CONTRA Asiáticos -
LAVOURA NECESSITA DE
 BRAÇOS INTELIGENTES
 E MORIGERADOS
Commissão nomeada 
pelos lavradores 
do Rio de Janeiro, 
Minas Geraes e 
Espirito Santo (Barão 
do Rio Bonito, 
Antonio Álvares de 
Abreu e Silva Junior, 
Pedro Dias Gordilho 
Paes Leme, Barão de 
Nova Friburgo, 
Theophilo D. A. 
Ribeiro, Manoel 
Peixoto de Lacerda 
Werneck)
RJ 
MG
 ES
Comissão Sudeste - 
Valença;
Mar de Hespanha;
 Itaguai;
Cantagalo; 
Leopoldina; 
Vassouras
S
A FAVOR, SE 
NECESSARIO
Chim
Medida
 transitória/
 Jornaleiro
RAÇA INFERIOR
Companhia União dos 
Lavradores 
(José Bernardo da 
Silva Moreira; 
Campos de Medeiros; 
Christovão Francisco 
Alves Rossadas)
RJ MG
Municipio neutro;
Juiz de Fora
N CONTRA Asiáticos -
LAVOURA NECESSITA 
DE BRAÇOS INTELIGENTES 
E MORIGERADOS
Representantes de 
lavradores de Juiz de 
Fora
 e Paraiba do Sul 
(Christiano Benedicto 
Ottoni, Viscande de 
Prados, Antonio José 
Barbosa de Andrade e 
Laurindo Rodrigues 
Andrade)
RJ MG
Paraíba do Sul; 
Juiz de Fora
N CONTRA Coolies
Todo o
 tipo
ELEMENTO DISSOLVENTE
 DA ORDEM E DO
BEM ESTAR DA 
FAMÍLIA AGRÍCOLA
 
 
 
 
131 
 
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1878 - Revista Illustrada Número 120 - Assunto: Congresso Agrícola; Substituição da mão de 
obra escravizada. 
1879 - Revista Illustrada Número 154 - Assunto: Imigração Chinesa; Relações Internacionais; 
Brasil; China - Capa: “O novo Sol”. 
1879 - Revista Illustrada Número 162 - Assunto: Imigração Chinesa; Relações Internacionais; 
Brasil; China - Ilustração de Embrião chinês. 
 
 
 
 
132 
 
1879 - Revista Illustrada Número 173 - Assunto: Imigração Chinesa; Relações Internacionais; 
Brasil; China; Viagem à China; Sinimbu - Ilustração dos preparativos para a viagem à China. 
1879 - Revista Illustrada Número 175 - Assunto: Imigração Chinesa; Relações Internacionais; 
Brasil; China; Viagem à China; Sinimbu - Ilustração da população brasileira reclamando da 
imigração chinesa. 
1879 - Revista Illustrada Número 177 - Assunto: Imigração Chinesa; Relações Internacionais; 
Brasil; China; Viagem à China; Jornal O Cruzeiro - Ilustração sobre o jornal O Cruzeiro e a 
imigração chinesa. 
1879 - Revista Illustrada Número 185 - Assunto: Imigração Chinesa; Relações Internacionais; 
Brasil; China; Viagem à China; Revista Illustrada - Missão da Revista a China. 
1880 - Revista Illustrada Número 192 - Assunto: Imigração Chinesa; Relações Internacionais; 
Brasil; China; Viagem à China; - Texto: A Gazetilha. 
1880 - Revista Illustrada Número 196 - Assunto: Imigração Chinesa; Relações Internacionais; 
Brasil; China; Economia; - Texto: Orçamento da Viagem. 
1880 - Revista Illustrada Número 198 - Assunto: Imigração Chinesa; Relações Internacionais; 
Brasil; China; Viagem à China; - Ilustração do navio Vital de Oliveira. 
1880 - Revista Illustrada Número 199 - Assunto: Imigração Chinesa; Relações Internacionais; 
Brasil; China; Viagem à China; - Texto: Salvador de Mendonça. 
1880 - Revista Illustrada Número 225 - Assunto: Imigração Chinesa; Relações Internacionais; 
Brasil; China; Música; - Texto: Música Chinesa. 
1881 - Revista Illustrada Número 236 - Assunto: Imigração Chinesa; Relações Internacionais; 
Brasil; China; Viagem à China; - Ilustração: Volta ao Mundo do navio Vital de Oliveira. 
1881 - Revista Illustrada Número 257 - Assunto: Imigração Chinesa; Relações Internacionais; 
Brasil; China; Positivistas; - Texto: Adeus Chins. 
1881 - Revista Illustrada Número 258 - Assunto: Imigração Chinesa; Relações Internacionais; 
Brasil; China; Mão de Obra; Lavoura; Escravidão; - Ilustração da cabeça de um chinês e um 
negro como a base da lavoura brasileira. 
1881 - Revista Illustrada Número 259 - Assunto: Imigração Chinesa; Relações Internacionais; 
Brasil; China; Positivistas; - Texto: Resposta aos Positivistas. 
1882 - Revista Illustrada Número 298 - Assunto: Imigração Chinesa; Relações Internacionais; 
Brasil; China; Imigração; Lavoura; - Ilustração do Centro de Lavoura e Comércio. 
1882 - Revista Illustrada Número 301 - Assunto: Imigração Chinesa; Relações Internacionais; 
Brasil; China; Imigração; Lavoura; - Texto: Pequena Crônica 
 
 
 
 
133 
 
1882 - Revista Illustrada Número 322 - Assunto: Imigração Chinesa; Relações Internacionais; 
Brasil; China; Imigração; Lavoura; - Texto: Pequena Crônica 
1883 - Revista Illustrada Número 358 - Assunto: Imigração Chinesa; Relações Internacionais; 
Brasil; China; Imigração; Lavoura; Colonização; - Ilustração sobre uma possível colonização 
chinesa. 
1884 - Revista Illustrada Número 386 - Assunto: Imigração Chinesa; Relações Internacionais; 
Brasil; China; Imigração; Congresso Agrícola; Sinimbú- Ilustração de Sinimbú discutindo 
sobre o Congresso Agrícola. 
1884 - Revista Illustrada Número 388 - Assunto: Imigração Chinesa; Relações Internacionais; 
Brasil; China; Imigração; Cólera; - Texto: Pequena Crônica. 
1888 - Revista Illustrada Número 508 - Assunto: Imigração Chinesa; RelaçõesInternacionais; 
Brasil; China; Imigração; - Texto: Livro A china e os chins. 
1888 - Revista Illustrada Número 518 - Assunto: Imigração Chinesa; Relações Internacionais; 
Brasil; China; Imigração; - Texto: Os chins. 
1888 - Revista Illustrada Número 523 - Assunto: Imigração Chinesa; Relações Internacionais; 
Brasil; China; Imigração; Barão de Cotegipe - Ilustração do Barão de Cotegipe e de um Brasil 
Chinês (Brasilchim). 
1888 - Revista Illustrada Número 524 - Assunto: Imigração Chinesa; Relações Internacionais; 
Brasil; China; Imigração; - Texto: Caixeiros contra os chineses. 
1888 - Revista Illustrada Número 525 - Assunto: Imigração Chinesa; Relações Internacionais; 
Brasil; China; Imigração; Lavoura; Condições de Trabalho - Ilustração sobre a condição de 
trabalho dos chineses; Syndicato Chinês; Texto: Pequenos Echos. 
1891 - Revista Illustrada Número 632 - Assunto: Imigração Chinesa; Relações Internacionais; 
Brasil; China; Imigração; Rio de Janeiro - Ilustração sobre a imigração chinesa no Rio de 
Janeiro e presentes que os chineses enviaram aos brasileiros. 
1892 - Revista Illustrada Número 647 - Assunto: Imigração Chinesa; Relações Internacionais; 
Brasil; China; Imigração; Rio de Janeiro - Ilustração de uma face chinesa indo embora. 
1892 - Revista Illustrada Número 648 - Assunto: Imigração Chinesa; Relações Internacionais; 
Brasil; China; Imigração; Rio de Janeiro; Senador Monteiro de Barros - Texto: Echos e Notas. 
1892 - Revista Illustrada Número 650 - Assunto: Imigração Chinesa; Relações Internacionais; 
Brasil; China; Imigração; - Ilustração de capa do Arlequim da Revista Illustrada curtindo as 
delícias da imigração chinesa. 
 
 
 
 
 
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