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<p>ANEXO CAPÍTULO 2 Brincar educação infantil Quadro organizativo dos cadernos de campo transgressões e rebeldias Faixa etária Instituição Cidades observada Ano Nara Martins Moretti Pré-escola 4a6 Campinas 2008 Aparecida da Silva Creche Mogi Mirim 2008 Creche e pré-escola 0 a 3 Campinas 2008 Pré-escola 4 a 6 2008 Pré-escola 4 a 6 Itatiba 2008 Pré-escola 4 6 Campinas 2009 Creche e pré-escola 0 3 Campinas 2009 Não é a sociedade quem deve dizer quais tipos de vida são sadios Creche 3 ou É a vida quem tem de dizer se a sociedade é Mogi Mirim 2009 ou não sadia. E se a vida descobre que a sociedade conspira contra Creche e pré-escola 0 6 Campinas 2009 ela, não ha outra saída das resistências e Creche e pré-escola Alves apud 1990, p. 63 Campinas 2010 Creche e pré-escola Campinas 2010 Creche e pré-escola Campinas 2010 Pré-escola 4a6 2010 Creche e pré-escola Campinas A brincadeira é algo sério para as crianças, impossível de ser encaixotada 2010 em definições objetivas e estáticas. O brincar pertence à criança, é a Creche e pré-escola sua dinâmica de vida, a sua forma de participar, interferir e se relacionar Campinas 2010 com a cultura. A cultura que as crianças estão produzindo, já considerada por Florestan Fernandes, a cultura infantil, aquela que se expressa por pensamentos e sen- timentos que chegam até não verbalmente, mas por meio de imagens e impressões que emergem do conjunto da dinâmica social, reconhecida nos espaços das brincadeiras e permeada pela cultura adulta, não se constitui somente em obras materiais, mas na capacidade das crianças de transformar a natureza e, no interior das relações sociais, de estabelecer múltiplas rela- ções com seus pares, com crianças de outras idades e com adultos, criando e inventando novas brincadeiras e novos significados p. 101]. Mas, essa relação de diálogo entre brincadeira e produção de cultura é negada na medida em que a sociedade capitalista considera a brincadeira</p><p>algo improdutivo, permitido somente à criança, enquanto adulto é relações de poder, revela quanto existe de produção cultural nesta trabalhador produtivo, valorizado dentro desta lógica capitalista. dinâmica de vida, no Como se fosse possível separar mundo do adulto e O da criança; esta dinâmica que envolve as brincadeiras que buscamos discutir como se a infância fosse uma mera passassem para a vida adulta, uma neste capítulo ao analisarmos os registros dos cadernos de Com simulação, querendo a todo momento tornar a brincadeira algo a consciência de que as relações nas brincadeiras envolvem uma sociedade considerado útil dentro do sistema capitalista, usando brincar adultocêntrica, com ideais forjados e cristalizados por seus dirigentes, e para aprender, aprender a viver em uma sociedade capitalista, querendo que dessa forma constroem padrões de comportamentos e pré-conceitos formatar as brincadeiras na educação infantil, e criando um mercado de brinquedos padronizados. que buscam estabelecer as relações de gênero, étnica e social. Não podemos esquecer que estamos falando de uma criança que pos- sui direitos, e um deles é direito de brincar que deve ser respeitado na Há um descompasso entre discurso oficial, que reconhece a sua importância (do lúdico), e a ação social que se desenvolve neste sentido. E a restrição de educação infantil. Nosso diálogo também tem como base documento tempo e espaço para a criança acaba reduzindo a cultura infantil, pratica- Critérios para um atendimento em creche que respeite os direitos funda- mente, ao consumo de bens culturais, produzidos não por ela, mas para ela, mentais das crianças (BRASIL, 2009), destacando que este foi publicado segundo critérios adultos, contribuindo pra a transformação do brinquedo em inicialmente em 1995, fruto dos primeiros debates com a participação "mercadoria" e para comprometimento da evasão do real, que possibilita a da sociedade sobre educação infantil, que em meados de 1993/1994 re- imaginação de novas realidades. É desrespeito à cultura da criança, chegando conhece e reafirma a educação infantil como primeira etapa da educação mesmo à inibição da sua manifestação [...] 1990, pp. 53-54]. basica, formando um conjunto de livros conhecido como Cadernos Ca- A brincadeira é algo dinâmico, revelador, que acontece de diversas rinhas, que no Governo Fernando Henrique Cardoso foram esquecidos formas e jeitos, misturados a um turbilhão de sentimentos, é vida, re- pelos dirigentes e substituídos pelos Referenciais curriculares nacionais lação de poderes, resistência; transgressão e cultura. Kishimoto (1993) para a educação infantil (RCNEI), e depois remontados e republicados evidencia muito bem essa relação existente na brincadeira quando discute no Governo Lula. a influência dos negros nos jogos infantis e a relação entre as crianças Esse documento está dividido em duas partes, uma que fala dos 12 brancas e negras no período da critérios para uma educação infantil que respeite os direitos das crianças, Assim, segundo a autora, a relação entre as crianças brancas e negras escrita por Campos, e outra parte que discute uma política de educação nos tempos do Engenho, no espaço da Casa Grande, representava as infantil que respeite as crianças, escrita por Rosemberg. Aqui queremos relações de poder da época. As crianças negras não eram as amigas das dar destaque ao critério que se refere às brincadeiras como direitos das crianças brancas, mas sim o brinquedo, às vezes um cavalo que trotava crianças pequenas e pequenininhas: 36 com filho do dono de engenho nas costas, um cavalo que era chicotea- do para satisfazer os desejos do seu dono, em outros momentos, nas Nossas crianças têm direito à brincadeira 37 Os brinquedos estão disponíveis às crianças em todos os momentos. brincadeiras feitas longe do olhar do senhor de engenho ou das amas, Os brinquedos são guardados em locais de livre acesso às crianças. as crianças fugiam da relação de poder existente no mundo adulto, para Os brinquedos são guardados com carinho, de forma organizada. uma relação de poder construída pelos saberes e fazeres delas, ou seja, As rotinas da creche são flexíveis e reservam longos para as brin- era pela habilidade nos jogos por elas disputados, que determinavam a cadeiras livres das crianças. relação de poder, possibilitando dessa forma que a criança negra fosse As famílias recebem orientação sobre a importância das brincadeiras para valorizada por suas habilidades nas desenvolvimento infantil. Ajudamos as crianças a aprender a usar brinquedos novos. Essa relação entre as crianças brancas e negras, que ora representava Os adultos também brincadeiras às crianças. as relações de poder da época, ora as transgredia, que cria e produz no- Os espaços externos permitem as brincadeiras das crianças.</p><p>As crianças maiores podem organizar os seus jogos de bola, inclusive do princípio da educação, por muito tempo observado, seja na família ou As meninas participam de jogos que desenvolvem movimentos na escola, de que "as crianças devem ser vistas, mas não ouvidas" (p. 14). amplos: jogar, Uma herança que ignora a criança e seus direitos, estabe- Demonstramos O valor que damos às brincadeiras infantis participando lecendo muito mais uma relação de vigia do que de diálogo, e que está delas sempre que as crianças pedem. cristalizada em nossa sociedade e na formação das professoras. Ao passo Os adultos acatam as brincadeiras propostas pelas crianças que uma pedagogia que escuta a criança, que a observa no coletivo, ainda 2009, p. 14]. está sendo construída. Uma tentativa das estagiárias de se aproximar desse olhar para as Esses critérios são fontes para tornar nosso olhar minucioso em crianças foram os registros feitos por fotos, em que, por meio da imagem, relação aos registros dos cadernos de estágio, na busca de compreender procuravam captar a relação entre as crianças. Também os bilhetes que e analisar como se dão as brincadeiras na educação infantil. as crianças deixavam nos cadernos das estagiárias através dos desenhos que faziam, ou mesmo a anotação que pediam para que estas fizessem de Primeiros encontrados seus nomes, ou algo que estavam contando para elas, são formas usadas para completar as palavras que faltavam para expressar toda a relação Eu gosto de ouvir as crianças conversando, porque elas são absolutamente entre as crianças. como os poetas. Não a sua No entanto, conseguimos verificar que as crianças brincam, e muito, 2001, p. 209 nas instituições de educação infantil observadas. Ainda que a maior Todo trabalho de pesquisa traz em seu bojo alguns entraves a serem parte das brincadeiras seja organizada e escolhida pelas professoras, são superados, e neste não poderia ser Embora os relatos das es- as pajens e monitoras que determinam: a organização dos cantinhos, a tagiárias fossem claros, bem feitos, demonstrando um cuidado delas ao disposição dos brinquedos; quem pode ou não brincar com determinado relatar que vivenciaram em seus estágios, sentimos ao ler os cadernos brinquedo, bem como a duração das brincadeiras. Percebemos que as de estágio a ausência de uma descrição mais detalhada das brincadeiras e crianças ressignificam brincar, reinventam novas formas de interagir dos folguedos das crianças nas turmas que observaram. A maioria das es- com os colegas, o ambiente e a brincadeira imposta, transgredindo as tagiárias, ao descrever a cena das crianças brincando, limitou-se a dizer do normas, produzindo culturas, exercendo seus direitos, como bem que e com que estavam brincando, sem falar dos processos, dos olhares, enuncia Prado (1999, p. 111), "O direito destas crianças, meninas e das falas, dos gestos, dos sorrisos, da vida envolvida nesses momentos; meninos, negras, brancas e mestiças a viverem a especificidade infantil, falta a das metáforas e da poesia para registrar no papel a vida relacionando-se com outras crianças, com os adultos e com a natureza, em E, sem elas, nossa análise dos momentos de brincar da recriando e criando cultura, num espaço de educação e cuidado (indisso- 38 criança nas turmas ficou um pouco comprometida. quando se pensa na educação infantil de 0 a 6 anos) [...]". Dessa forma, os registros, como já dito muito bem feitos, expressam Assim, nos relatos que lemos das observações feitas pelas estagiárias 39 talvez a construção de um olhar diferenciado das estagiárias em observar a respeito das crianças, percebemos que elas, mesmo quando podadas, as crianças no coletivo da educação infantil em toda a sua complexidade, cerceadas pelos adultos, brincam, transgridem e se apropriam do que lhe pois temos uma formação tradicional que pouco fala das crianças, mas é mais peculiar nessa etapa de suas vidas, o brincar, como apontamos nos sim dos alunos e suas dificuldades de aprendizagem, adaptação, processo relatos a seguir: cognitivo, sobre métodos e práticas de ensino, objetivos e metas envol- vidos no processo de ensinar e aprender. Uma coisa que notei nas crianças é que, durante as atividades na sala, elas cansam e param que estão fazendo muito rápido. do parque, onde Nas palavras de Formosinho (2007), podemos encontrar um dos moti- é uma briga para guardar todos os objetos usados nas brincadeiras (baldes, vos da dificuldade de registro sobre a relação entre as crianças na máxima peneira, pratinhos etc)</p><p>Yago Sérgio estão de no parque. Estão sentados no banco, não A forma como está sendo organizada a rotina nas diferentes unidades podem Ficam andando com o bumbum no banco para la e para de educação infantil é influenciada por aspectos históricos, sociais e cultu- A prof. diz que não vão se não estão se divertindo! "Eles já estão A professora disse, mas eles querem estar Um dos exemplos dessa organização da rotina na educação [C27, 2006]. infantil diz respeito ao uso institucionalizado da roda nas atividades nas As crianças se arrumam para ir embora. Laisla pega uma e começa a instituições de educação infantil. contar para Milena, que também quer pegar uma para ver. Laisla fala para a A roda da conversa, como é chamado este momento em que meninos colega que a menina não sabe ler, que ela vai Começa a cantar a música e meninas expõem à professora que vivenciaram no seu dia a dia antes do sapo não lava pé 2007]. de entrarem na escola, segundo Abramowicz (2003), deve servir para as professoras ouvirem que as crianças falam, mas ouvir de verdade para que Através desses relatos, podemos observar que as crianças brincam o possam entender os desejos das crianças, pois de outra forma tal atividade tempo todo, transformando os objetos dados, recriando a realidade dada, perde seu sentido. Na roda, as crianças falam de tudo, expressam todos transgredindo regras e prerrogativas adultas preestabelecidas, num movi- seus anseios, medos, visões de mundo, observação do seu entorno e, no mento de construção de autonomia e apropriação dos espaços coletivos entanto, tal fala não é levada a sério. A autora diz seguinte sobre a roda: organizados para elas nas instituições de educação [...] As crianças são desejantes! Eu ouço muitas professoras que trabalham na educação infantil: Do que as crianças estão brincando? com crianças pequenas e como uma das atividades diárias com as crianças a roda da conversa; no entanto, as falas das crianças não são, ab- solutamente, levadas a sério enquanto falas propositivas, que dizem que querem, que pensam, do que gostariam. Quando optamos por fazer uma Começon com a rotina: 1. Entrada 2. Cabeçalho 3. Oração 4. Banheiro 5. Roda roda da conversa, seja por razões metodológicas, por estratégias, ou porque 6. Atividade 7. Video 8. Lanche 9. Escovação 10. Parque 11. [C16, 2006]. nos disseram sobre a necessidade de tais atividades, deveriamos acreditar que as crianças têm algo para falar. De fato, as crianças têm o que dizer, do jeito Durante a leitura dos cadernos de estágio, encontramos referências delas, nas suas diferenças. A fala das crianças é legítima tanto quanto qualquer aos diferentes momentos da rotina de educação infantil: chegada, al- outra voz pertencente às ordens discursivas e, quando achamos que, de fato, moço, "cantinhos", escovação, parque, areia, casinha, vídeo, massinha, as crianças têm que dizer e de que suas falas não são infantis, temos que "brinquedoteca", jogos, pátio, saída. Encontramos uma rotina que mescla aguentar a e o desejo delas [p. 20]. aspectos considerados assistencialistas: comer, tomar, banho, lavar as mãos e outros de caráter escolarizante: chamadinha, calendário, atividades Kuhlmann Jr. (2007) e Abramowicz (2003) contribuem para esse (muitas mimeografadas) e os momentos para as brincadeiras "livres", debate alegando que a educação infantil sempre teve um caráter peda- parque, pátio, tanque de areia, casinha. Brincadeiras sugeridas e/ou di- gógico, mas que este foi negado, através do binômio cuidar e educar. 40 rigidas pelas professoras: hora da história, caixa de fantasia, meu mestre Construindo instituições assistencialistas consideradas não educativas 41 mandou (imitar os gestos das professoras), telefone sem fio, confecção para os pobres, com uma proposta curricular dirigida para a submissão, de brinquedos seguindo um modelo, bingo de letras, jogos de tabuleiro, e as pré-escolas assumidamente educativas para os ricos, "foi a origem vídeos, tanque de areia, casinha etc. social e não a institucional que inspirou objetivos educacionais diferentes" (ABRAMOWICZ, 2003, p. 15). Além das atividades em folhinhas, combinam brincadeiras e parque para dia. Assim, segundo os autores, com a incorporação da educação infan- Cada dia da semana tem uma programação especial já "agendada", como edu- til como a primeira etapa da educação básica, a forma encontrada para cação física, atividades coletivas de historinha, desenhos etc. Organizam considerá-la oficialmente educativa foi seguir modelo de ensino escolar também a sequência das atividades de "rotina" que foram cabeçalho, chamada, tradicional, na elaboração do Referencial Curricular Nacional de Edu- caixa surpresa, atividade, merenda, brincadeiras no pátio e parque cação Infantil (1998).</p><p>a compartimentação e contorcionismo para encaixar as Parece piranha, cidades da Educação Infantil da criança na faixa etária dos 0 aos 6 anos, dal Piranha não a unha assim um recurso a expressões como "categorias curriculares categoria vem até mim. delimitada, enquanto flexibilidade retira limites uma forma de recusar cachorro que eu fix! tornar a repor disciplinares, de modo truncado e desordenado Que [KUHLMANN JR., 2007, p. 56]. Estou fazendo um pintinho! Ele tá no pergunta outro. Para corroborar tal assertiva, notamos nos relatos realizados nos Não, ainda to fazendo! cadernos a disciplinarização dos corpos dos pequenos nas atividades, Outro menino começa a cantar a música do Outro acompanha. Vou fazer Chaves! como forma de conter a espontaneidade infantil, ou, nas palavras das Ah, você não sabe fazer o Chaves! professoras, a inquietude de algumas crianças que, algumas vezes, Sei sim! polam nas suas manifestações de alegria, tristeza ou em ter [...] de praticar as atividades escolarizantes que estas insistem em trabalhar Isso aqui parece uma com as crianças. É uma cesta! Um menino continua cantando Ele canta meio erradinho! Daiane fala para mim. Miguel faz outra forma. [...] que elas não suportam e sofrem com as condutas desordenadas das É Batman! Diz. ças, esses corpos cheios de energia que insistem em produzir Parece um sapinho! As crianças não param quietas um minuto, dizem as professoras; mal se Ele começa a fazer a massinha pular sobre a mesa. As crianças continuam concentram, começam a fazer algo e no minuto seguinte já desejam outras brincando. Quando barulho aumenta muito, a professora, que está em uma coisas 2003, pp. 19-20]. das mesinhas chamando alguns alunos para a atividade de escrita (individual), reclama, pede para um ou outro se sentar ou falar mais baixo. barulho Tal fato é visível quando as professoras observadas pelas estagiárias diminui por um certo tempo [C22, 2004, grifo escolhem os lugares em que cada criança pode sentar para realizar suas atividades e com quem isso pode ocorrer; ao proibir as crianças de con- As crianças estavam criando, experimentando a massinha, a modela- versarem entre si ao tomarem lanche, pois feio"; ao determinar a gem, comunicando-se de diferentes formas, enquanto isso a professora retirada da torneira do parque porque as crianças "fazem bagunça e se perde toda essas descobertas para pensar na "escrita", negando a impor- molham muito", entre outros muitos exemplos. Para conter a exuberância tância das outras formas de comunicação e antecipando a alfabetização. infantil recorrem a atividades escolarizantes, respaldadas pelo discurso Essa situação não é algo isolado ou sem precedentes. Arelaro (2005) de que os pais e as mães pedem que alfabetizem suas filhas e filhos para discute que há uma peculiaridade na organização do sistema de educação que não cheguem ao ensino fundamental defasados em relação às outras infantil, pois o único nível ou etapa de ensino que nasceu adotando 42 crianças, que frequentaram escolas particulares de educação infantil ou o atendimento de 'cima para baixo', ou seja, atendiam primeiro as crianças 43 primeiro ano nas escolas municipais que trabalham com a alfabetização. de 6 anos nas classes de pré-alfabetização e depois foi organizando-se A nossa sociedade, ao pensar papel educativo da educação infantil, para atender as de 4 e 5 anos, sempre pensando em alfabetizá-las. também se "agarra" na cultura escrita, na valorização dessa linguagem Ver e perceber a educação infantil como algo distinto, separado do em detrimento das outras formas de comunicação e expressão. De tal ensino fundamental, ainda é uma luta posta aos pesquisadores e pesquisa- forma que os olhos pedagógicos se fecham para as outras formas de doras e defensores/as da educação infantil como espaço de con- manifestação, e isso fica evidente no episódio a seguir: flitos, experimentações de produção de cultura das crianças no coletivo. A própria política pública a respeito da educação continua adotando Caroline faz grandes "unhas" com a massinha vermelha, cola-as em seus dedos essa forma de organização "de cima para baixo", de caráter alfabetizante, e me mostra. Oh! Mexe as mãos e quando inclui as crianças de 6 anos no ensino fundamental, quando torna</p><p>a das crianças de 4 e 5 anos na educação infantil, de ouvir músicas enquanto fazem suas atividades: de vez em ainda não oferece número suficiente de para as crianças de e a 3 anos (DCNEI, quando saem pela sala dançando ou imitando encenações sobre que ouvindo" Esses enraizamentos culturais, sociais e políticos estão Elas não ficam presas à cultura adulta dominante e vão contagiando o presentes no cotidiano da educação infantil, ocupando espaço das ambiente da educação infantil com seus desejos e vontades, construindo diferentes formas de brincar, transgredindo, reivindicando seus direitos, estabelecendo múltiplas A jornada diária é chamada rotina diária e é composta por roda inicial, mada, cantinhos (atividades diversificadas), limpeza (organização As crianças a todo momento encontram formas de reivindicar da sala), hora da lavar as mãos, escovar dentes, hora seu direito à brincadeira, como fonte de descoberta, de sensibilização e da planilha, de merenda (onde marcam quem comeu ou conhecimento sobre mundo, como forma de conhecerem outro e a não, quem repetiu ou não), saída mesmo, de sentir e perceber seu corpo nos diferentes movimentos que ele produz, de reconhecer um adulto que não perdeu a sua dimensão A brincadeira que deveria ser o princípio da educação infantil vem brincalhona: acontecendo com hora marcada, mesmo assim as crianças rompem com essa rotina e estão mesmo que esse não seja desejo do adulto, Depois do lanche (teve sopa), fomos para a sala guardar material. Um me- nino se aproximou de mim para perguntar se eu sabia assoviar. Me mostrou Os Momentos de banheiro e escovação são aproveitados pelas crianças para um carrinho escondido no bolso eu perguntei se ele iria brincar com ele no andarem pela escola cobras. sacis, minhocas e outros parque, ele disse que sim, mas que a professora não podia ver, se não ela briga. Na Hora de escovar os dentes é pura alegria, uns adoram encher a boca de Virei sua cumplice [C16, 2006]. espuma e ficam fazendo graça. Depois de um certo tempo, cada um guarda a sua escova e vai voltando para a sala, mas sempre têm alguns que resistem e Uma luta contra uma sociedade adultocêntrica que ainda é incapaz voltam, estão gostando do que estão Apesar da demora de alguns, de valorizar o lúdico, que nega prazer, a contemplação, ócio. tem- todo mundo volta para a sala sem muita pressão [C20, po do adulto é o tempo do relógio, tempo da criança é quanto dura prazer do que está fazendo, é de uma outra ordem, que sempre está As crianças dentro da rotina diária encontram formas e jeitos de em confronto com mundo adulto, pois é este que organiza espaço brincar, exploram seu alfabeto corporal ao sair pela escola e tempo na educação infantil, mas as crianças sempre carinhos diferentes animais, "exploram a água, a pasta de dente mais do que escondidos no bolso. próprio ato de escovar dente, recriando no mundo da ordem outra ordem, alternativa entendida pelo adulto como desordem, barulho, livres 2005, p. 105). "Não há torneira no parque segundo a faxineira, ela foi retirada a pedido da diretora e professoras, porque, 45 "Brincam com roupas, sapatos e adereços usados! Vestem-se e que as crianças se molhavam muito e faziam muita bagunça" transformam-se nos mais diferentes personagens e saem desfilando pela Com ou sem a presença do adulto, as crianças são criativas e vão defendendo o seu espaço, levantando-se das mesinhas na hora das "ati- escola" (C18,2001). vidades" para emprestar, trocar canetinhas, lápis, conversando com os Quando as crianças ocupam os espaços da unidade de educação infan- colegas, brigando por causa de um lápis de cor, cantando um tapinha não til, colocam novas dimensões em prática, prazer, a alegria, encanta- brincando de passar os pés por debaixo da mesa, fazendo carinho mento, a imaginação, em um amplo movimento de corpos que correm, nos amigos (observações gerais dos cadernos de estágio), demonstran- pulam, giram, dançam, sobem e descem de escorregadores, criando e relacionando-se com crianças de diferentes idades, cantando músicas para do toda a sua insatisfação com esses momentos E ainda: crianças de outras turmas, combinando brincadeiras, mostrando os brin-</p><p>quedos que trouxeram de casa; usando diferentes formas de comunicação, adultos que as cercam. Não para verificar como elas estão interagin- sorrisos, olhares, gestos, construções, choros, gritos (observações gerais si e aprenderem com elas, mas para controlar seus movimentos dos cadernos de estágio), numa linguagem nem sempre de palavras, em qualquer tentativa de "indisciplina". que a dimensão do corpo ganhava amplitude especial "de transgressão, de fantasia, de músicas e histórias, do inusitado, do imprevisto da muito interessante observar como as crianças brincam. Elas vão formando cadeira!" (PRADO, 2005, p. 104). grupos e criando Um grupo de crianças, por exemplo, pegou várias As brincadeiras no parque, no tanque de areia, na casinha, no pátio, peneiras e as fizeram de volante de carro. Com as peneiras nas mãos, elas sa- dando voltas pelos parques. Mais tarde, outras crianças quiseram se unir eram criadas em um piscar de olhos, no movimento de trocas e ajustes ao grupo e as pazinhas viraram mangueiras e bombeiros. [...] Há também as entre os pares durante os momentos de brincadeiras "livres" em que crianças que preferem brincar sozinhas. Elas cantam e conversam consigo pouco ocorre a interferência e intervenção do adulto. mesmas, sempre sob olhar da professora que, de longe, observa tudo com muita atenção 2001]. No parque, uma das crianças do gira-gira (a Carol). Gustavo a Luciane pararam de rodar no referido brinquedo; 1° virou uma ambulância, Com esse relato é possível perceber que olhar da professora não a Lú começou a imitar uma enfermeira e a Carol a paciente de brincadeira voltado para deslumbramento com a troca de relações ricas que surgida com O tombo 2001]. estão se desenvolvendo no parque enquanto as crianças brincam, mas na busca do controle das ações dos pequenos e das pequenas, visando Cada um ocupa um lugar na brincadeira, na medida do movimento garantir apenas bem-estar de seus corpos. Corpos estes que, segundo e não das palavras, em ritual em que corpo, gesto teatral, comanda Finco (2007) e Horn (2004), devem ser sempre cuidados, vigiados, a brincadeira e dão ritmo das descobertas, em conjunto com outras controlados, modelados, corrigidos e construídos a partir de modelos experiências já saboreadas no Em diferentes momentos as crianças organizam as suas brincadeiras, preestabelecidos pela sociedade. Assim, as brincadeiras das crianças designadas pelas professoras não sem conflitos, algumas vezes é preciso transformar a ordem do como livres refletem sempre julgamento do adulto que a "organiza" e to, outras se confrontar com seus colegas ou ainda defender coletivo. determina como, quando e onde esta pode e deve ocorrer, bem como a intensidade delas. Isso se torna evidente ao analisarmos alguns relatos As crianças acharam um passarinho morto no parque, como as professoras falaram que não podiam pegar ele com a mão, pois não sabiam a causa da sobre dia do brinquedo determinado por quase todas as instituições sua morte, um menino pegou uma pá e pegou O passarinho, fez um observadas como o dia em que as brincadeiras das crianças são livres; e nesse dia elas trazem brinquedos de casa e os compartilham com as/os Nesta hora as três classes estavam brincando pela escola, e, como enterraram colegas como quiserem. No entanto, algumas instituições observadas passarinho, muitas crianças não viram. decidiram proibir que se trouxessem brinquedos de casa, para evitar con- 46 Indignado, um menino foi lá, desenterrou O passarinho, pediu para todos 47 sentarem (aqueles que queriam ver) e com passarinho na pá foi mostrando fusão entre as crianças que não gostam de dividir; ou, em outros casos, para cada um [C20, as crianças que não trazem não brincam, como mostra o relato: "Quem não traz brinquedo não brinca, só (C28, 2005). Outro relato expli- Percebemos que as crianças brincam e muito nas instituições de cita o descontentamento da professora com brincar livre das crianças cação infantil, ora em atividades dirigidas pelas professoras, monitoras e ao classificar algumas meninas que brincavam de cantar de "gritonas" e pajens, ora livremente. Mas o que perguntamos é o quão livre são estas mandá-las parar com a brincadeira que estava incomodando-a. ocupações pelas crianças dos espaços nas instituições para brincar? Ora, tais relatos demonstram que de livres as brincadeiras nessas Observando os relatos nos cadernos de estágio, verificamos que os instituições de educação infantil têm muito pouco, pois estas estão tão momentos de brincadeiras livres das crianças são constantemente vigiados impregnadas do modelo escolar que as decisões tomadas pelos/as profes-</p><p>sores/as em todas as atividades que são realizadas com as crianças acabam que as crianças chamam de "blaybled" e atormentam seus pais cerceadas pelas concepções de educação e escola conseguirem, em um consumismo desenfreado, desperto pelas telas coloridas dos comerciais A relação das brincadeiras com 0 cultura Somente hoje, como pesquisadoras da infância, da criança na educação dominante: relações e de gênero infantil, descobrimos que as diferentes tribos indígenas brasileiras faziam lazem piões com sementes, principalmente com a cabaça, piões "zum- Brincando a criança pode tornar-se algo que não é, ou melhor, que ainda não bidores" que emitem é da brincadeira a criança pode ser que quiser), agir com objetos As brincadeiras, os brinquedos vão sendo transformados dentro des- interagir segundo padrões não determinados pela realidade do dinâmica cultural, que tem uma hierarquia de poder. Como colocam espaço social em que vive e ultrapassar os limites que the são Abramowicz, e Rodrigues (2009), o poder hegemônico cria as 1999 regras os padrões de conduta, cujo objetivo é a produção de pessoas que se Em diferentes momentos, as crianças brincam e vão revelando as suas constituem em povo. Resgatam termo "biopolítica" de Foucault (apud ABRAMOWICZ; LEVCOVITZ & RODRIGUES, 2009), que se refere ao poder do experiências com a cultura dominante do homem branco, capital sobre a vida, que ele faz viver e deixa morrer. que procura apagar as raízes das culturas tribais africanas e indígenas pre- Por que será então que muitas brincadeiras tradicionais, fruto da relação sentes em nossa De forma que muitas brincadeiras tradicionais entre diferentes culturas, vêm sendo deixadas no esquecimento, na morte construídas na relação entre a cultura branca e a cultura das diversas tribos indígenas já existentes em nosso país e as das tribos africanas, capturadas e A resposta a essa inquietação está nesta relação de "fazer viver, deixar trazidas para Brasil como escravos negros, praticamente não apareceram morrer" em que se criam padrões de conduta: bane, maldiz diferente, nos registros dos cadernos de estágio. outro, o que vem ou tem outra cultura; cria-se racismo e preconceito, Brincadeiras tradicionais que podemos resgatar com a nossa memória de incorporados na ação da professora nas instituições que não resgatam as brincadeiras tradicionais de rua, de construção popular. Assim, esta pro- "brincante", aprendidas nas ruas, com nossos/as amigos/as de brincadeiras mais velhos/as ou mais Brincávamos de esconde-esconde, pega- fessora, que busca valorizar as manifestações culturais em determinados momentos do ano (festas folclóricas, juninas etc.), ao mesmo tempo em -pega nas suas variadas versões, pega alto, pega duro, pega mole. Uma das brincadeiras cujas versões diferem é "Bananinha que para quem não que colabora com a produção da ideia de povo, é por ela construída, isto brincou ou talvez conheça com outro nome ou versão a que brincávamos é, só valoriza multiculturalismo em momentos determinados, não O colocando como prática diária em suas atividades cotidianas, valorizando era assim: simplesmente uma amiga ou um amigo, parceira ou parceiro de brincadeira, que seria a bananinha podre, deitava na rede e a fechava, as/os as das crianças. outras/os colegas giravam a rede, davam tapinhas na bunda e diziam bana- Assim, essa lógica visa formar professoras que trabalhem para capi- 48 ninha podre, um, dois três e a bananinha correndo atrás das/os tal e não eliminação das desigualdades, determinando jeito de brincar, Havia também mamãe da rua, cobra-cega, amarelinha, pipa, pião, bola comportar-se ou mover-se, na busca incessante de homogeneizar a nação 49 de meia, pula-corda, brincadeiras com músicas, cirandas, bola de gude, e assim seu poder, apagando, inferiorizando as brincadeiras, as culturas uma infinidade de brincadeiras passadas de geração a geração, misturadas negras e indígenas do nosso país. a novos elementos de cada época e as culturas infantis. Desse modo, ao mergulhar no cotidiano da educação infantil através Os piões, que na época da colônia faziam sucesso nas mãos dos mo- dos cadernos de estágio, podemos encontrar em diferentes momentos os leques negros e eram utilizados como forma de trocas por comidas ou preconceitos de raça e gênero. outros itens da casa grande (KISHIMOTO, 1993), reaparecem na nossa Apesar de estar observando uma turminha de 5 anos, ao entrar na sala de 4 infância feitos de plástico ou madeira. Atualmente, vemos nas mãos das anos para pedir um aparelho de som emprestado e cumprimentar as crianças os piões que rodam e brilham sozinhos, com personagens da TV, as crianças estavam brincando com bonecas e vieram mostrar suas filhinhas.</p><p>A professora da sala está grávida de 8 meses e as meninas dizem que estão não existem desigualdades, usando a lógica da brincadeira que transgride grávidas A menina negra da sala disse-me que está grávida, mas lógica da cultura que seu seria branquinho, não seria da sua cor [C17, O mesmo ocorre com as relações de gênero dentro das instituições As crianças produzem cultura no contato com a sociedade de educação infantil quando as crianças brincam. Ainda que alguns este- trica e com seus O fato de querer ter um filhinho branco representa reótipos de masculinos e femininos prevaleçam nas brincadeiras infantis, quanto os padrões de povo baseados em uma cultura branca dominante lógica da coletividade, do grupo, acaba prevalecendo e as diferenças buscam reforçar e padronizar uma forma de viver em sociedade para ser entre O que de menino e de menina" se diluem no contexto da brin- cadeira; assim, O espaço ocupado deixa de ser deste ou daquele gênero e Ser negro em nossa sociedade significa estar fora do de estética se transforma em lugar de todas/os. corporal, de costumes e hábitos, ter sido escravizado e subordinado por meio de estereótipos de inferioridade. Significa sofrer com a discrimina- Luis e Jhonys brincam na areia. Tiram as sandálias sujar", mas depois resolvem usá-las como carrinho. ção contra o seu corpo e suas origens culturais, ter sua imagem estereoti- Arrastando-as no chão de areia, formam pistas. O Paulo junta-se à brincadeira pada ligada a atos criminosos, a empregos considerados desqualificados, e começa a usar chinelo como carrinho a péssimo desempenho escolar, a vícios. Não, esse não é carrinho! Nega-se preconceito através do mito da democracia racial, e culpam- É, sim! -se as próprias negras e negros por não conseguirem ascensão social, Ah! Mas não dá, esse não parece carro! Deixa eu brincar com o seu, então? como se a escravidão e suas consequências nunca tivessem existido. Mas Deixo! Luis uma de suas sandálias ao ascender socialmente significa embranquecer, ter os cabelos alisados para A e a Thifany aproximam-se do tanque e começam a formar montanhas compor uma estética corporal dentro do padrão aceito socialmente, es- de areia. Os meninos não querem brincar. Chamam a professora. quecer sua religião e seus costumes e tornar-se Esta é a democra- A professora pede aos meninos para deixarem-nas brincar. Eles reclamam cia racial: embranquecer ou ser excluído Mas sempre existiu que elas estão atrapalhando a pista. A professora "divide" tanque ao meio a resistência, como evidenciam os quilombos, as frentes negras, os jornais e separa espaço das "meninas" e dos "meninos". negros, as manifestações populares, a recusa ao padrão de vida branco. Elas vão construindo "casinhas" e eles, as "ruas". Pouco depois emendam as brincadeiras e formam uma cidade [C22, 2004]. Moretti (2009), ao observar as crianças brancas e negras brincando Em outra parte da sala as meninas se maquiavam em frente ao espelho e dois em diferentes momentos na creche, percebeu que a relação entre elas era meninos também. Mais que rápido os outros meninos vieram até Renata para envolvida por trocas, carícias, cooperação e que em outros momentos tam- fazer a "fofoca" dizendo que os meninos estavam passando batom e isso era lidavam com referências estereotipadas vindas do adulto, como "ser coisa de menina! Renata disse: "Vocês estão brincando de quê?". bom de samba", as meninas terem os cabelos difíceis de serem penteados, De faz de conta? serem denominadas cor de chocolate ou simplesmente "choco", numa fuga Então no mundo do faz de conta os animais conversam igual a gente, nem 50 todas as árvores são verdes, tudo pode acontecer, não é? 51 constante de falar que são negras, como se isso por si só fosse No entanto, as crianças, esses seres tão imprevisíveis, modificam a É, é verdade, na novela tem dois homens que se vestem de mulher e eles não são bichas - disse Guilherme. estrutura social vigente e mostram que as diferenças não impossibilitam a Então, esses meninos que vieram contar para a juntaram-se aos outros convivência, pois, como relata a autora, na creche as crianças se olhavam, dois e continuaram a brincar com as maquiagens e entre eles diziam: "Eu sou descobriam os seus corpos, os movimentos, as suas diferenças, criavam palhaço; palhaço pinta a cara!" "Eu também" 2005]. laços de amizades, escolhiam seus parceiros de brincadeiras por admi- ração às suas qualidades na hora de brincar. Em diferentes momentos, É obvio que nem tudo são flores nesta busca incessante pela banaliza- as crianças brancas observavam, admiravam e davam continuidade às ção das relações de gênero dentro das instituições de educação infantil, brincadeiras iniciadas pelas crianças negras, demonstrando que entre elas entre meninos e meninas, professoras e crianças em estabelecer que o fato</p><p>de que menino brinca de boneca menina de carrinho não vai incisiva que querem mais brincar com os colegas, sejam de que sexo nas escolhas sexuais futuras deles, ou determinar qual profissão terão, da melhor forma possível? Como vemos abaixo, ou a forma como cuidarão de suas casas e filhas/os no Afinal, criança brinca hoje vivendo seu momento presente sem pensar no que cantinho da brincadeira de casinha é que elas mais se divertiam. Tinha uma será num futuro longínquo que pode nem ocorrer. caixa grande com diversos brinquedos; panelinhas, pratinhos, bonecas, roupas Quando o adulto usa esses conceitos para estabelecer quais brincadeiras sapatos para as crianças vestirem, almofadas. Foi muito legal ver a são de meninos ou meninas, estão pensando nas crianças como um vir a ser relação entre as crianças nessa Elas fizeram "cabaninha"; prenderam futuro, esquecendo que as crianças vivem seu devir no momento os na Meninos e meninas brincaram juntos [...] [C23, 2004]. Priscila pega a casinha de boneca para Fernanda. É uma casinha de madeira, [...] Este devir é O jeito que as crianças têm de viver inventando mundo, uma maletinha que abre e vira casinha. As crianças ficam curiosas por causa produzindo acontecimentos [...]. Este é um direito essencial das deste brinquedo [...] de possibilitar e dar condições para que elas efetuem devir-criança Yago empresta jipe dele para as meninas brincarem com a Ele também 2003, p. 19]. quer ficar perto da casinha, pega um bonequinho de pano e brinca na casinha com elas [C24, 2006]. As professoras, ao definir qual lugar, com quem e com que a criança deve brincar, limitam suas escolhas, determinam padrões de julgamentos Por tais relatos, podemos ver que as crianças apenas brincam, não jul- morais, criados a partir de seus critérios particulares, não respeitando gam, nem prejulgam, apenas querem divertir-se com seus pares da melhor direito das crianças e suas famílias de construírem suas subjetividades, forma possível, tomando conta desse espaço cheio de significados e que pois modelo de padrão moral seguido ainda é cristão, de família nu- organizado para elas, que é a educação infantil. Ora de forma mais clear com pai e mãe de sexos diferentes, padrões estes que podem não ser concreta, ora de forma mais abstrata, as crianças vão transgredindo esses seguidos pelas famílias e as próprias crianças que, de repente, têm dois espaços dados, moldando-os às suas especificidades, aos seus desejos, pais e nenhuma mãe, ou duas mães e nenhum pai, ou apenas uma mãe apossando-se deles e ressignificando-os. ou um pai. O próprio Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil (RCNEI) já faz uma crítica a esse comportamento normalizado Considerações finais pelas professoras ao colocar que, Convite à vida No que concerne a identidade de a atitude básica é transmitir, por meio de ações e encaminhamentos, valores de igualdade e respeito entre as pessoas Cada dia aprendemos alguma Cada dia aprendemos alguma de sexos diferentes e permitir que a criança brinque com as possibilidades coisa com as crianças, se as soubermos observar, amar e relacionadas tanto ao papel de homem como ao da mulher. Isso exige uma Esta menina de cinco anos que foi visitar uma fabrica de e depois 52 atenção constante por parte do professor, para que não sejam reproduzidos, me suas impressões a respeito, um sentido para a vida que 53 nas relações com as crianças, padrões estereotipados quanto aos papéis do muitos adultos ignorantes, ainda não encontraram nem homem e da mulher, como, por exemplo, que à mulher cabe cuidar da casa e a sua custa nem à custa de todas as E. provavelmente, dos filhos e que ao homem cabe sustento da família e a tomada de mesmo não jamais, pelo menos nesta ou que homem não chora e que mulher não briga 1998, p. 41]. A menina chegou-se a mim, muito contente com a sua descoberta. E disse-me, descrevendo a cena com as mais vivas cores: Que direito a escola tem de determinar tipo certo de família que Naquela fabrica, os moços trabalham como se estivessem devemos ter ou as preferências sexuais dos sujeitos como sendo corretas Um pega numa coisinha, pozinbo e da ao outro É sempre Bonito, mesmo! Tal qual uma apenas as masculinas e femininas, e com quais brinquedos os meninos Sabes? Eu gostava de trabalhar naquela fabrica! e as meninas podem brincar, quando as crianças nos mostram de forma 2001. p. 20</p><p>Para fechar estas reflexões sobre as brincadeiras na educação infantil, inventar novas formas de utilizar as pegas de um jogo cujas regras em que procuramos, através dos relatos dos cadernos de estágio, trazer não conhecem como objetos de significados diferentes e com sentido à tona um pouco do que ocorre nas instituições de educação infantil relação ao lúdico, uma parte do poema Convite vida, de Cecília Meireles, próprio para grupo. Finalizando, em nossas análises percebemos que as estagiárias levam por entender que este traz uma provocação gostosa sobre brincar para adultos e crianças. para a concepção vigente nos cursos de formação, que prioriza ensino fundamental e coloca apenas no último semestre do curso uma Essa provocação foi o que nos motivou a realizar as reflexões apre- sentadas, pois ao lermos os cadernos e conversarmos com as ideias de disciplina de estágio com as crianças pequenas. Essa concepção de estágio diferentes autoras/es, fomos construindo um olhar mais cuidadoso, tem propósito de observar as práticas realizadas pelas professoras em detrimento de analisar as relações que ocorrem entre as crianças. Assim, mais crítico, mais apurado do que ocorre nas turmas das instituições de necessário repensar a formação inicial e a orientação das novas educação infantil e que isso nos revela em relação à perpetuação dos direitos das crianças pequenas e pequenininhas de viverem sua infância pois uma disciplina de apenas meio semestre não dá conta da transformação deste olhar para a infância, da educação do olhar dos plenamente, consumindo e produzindo culturas, devindo como lhes é alunos e das alunas para buscarem observar as sutilezas das trocas das de direito, como a própria legislação lhes assegura. crianças nos momentos captando essas nuances nos estágios Encontramos situações de trocas entre os pares nas ati- futuros e relatando-as com maior riqueza de detalhes para que possamos vidades lúdicas, mas estas foram poucas em relação às práticas escolari- nos deslumbrar com as relações estabelecidas pelas crianças ao brincar zantes, a disciplinarização dos corpos, a busca constante de determinar com isso, encantar, quem sabe pais, mães, professores e professoras com que as crianças podem ou não brincar, inclusive em relatos em que as estagiárias colocam que existem salas de brinquedotecas totalmente para valorizarem mais tais momentos, em detrimento da antecipação da escolarização banalizada, como vimos em alguns relatos, tornando essa organizadas pelos adultos; brinquedos colocados fora do alcance das crianças ou salas com janelas altas que não permitem que elas possam etapa da educação básica um momento rico, prazeroso e dotado ampla- olhar a vida lá fora e se deliciarem com O banquete que esta oferece. mente de sentido para as crianças. Como colocamos no início do texto, os relatos da maioria das rias infelizmente trouxeram poucas explicitações sobre as trocas entre as Referências bibliográficas crianças nas brincadeiras, ou mesmo descrição detalhada das atividades desenvolvidas, até nos deixando curiosas sobre uma brincadeira que só ABRAMOWICZ, Anete (2003). "O direito das crianças à educação infantil". Pró- teve O nome citado e cujas regras não conseguimos descobrir nos sites -Posições, vol. 14, n. 3 (42), pp. 13-24, n.-abr. de pesquisa. Elas relatam e muito a forma como as professoras tolhem as LEVCOVITZ, Diana & RODRIGUES, Tatiane C. (2009). "Infâncias em edu- 54 crianças, controlam seus tempos e corpos e cerceiam suas autonomias, cação infantil" Dossiê a educação pelas imagens e suas geografias, possivelmente espelhando a observação no modelo de formação e esco- vol. 20, n. 3 (60), Campinas, Editora da UNICAMP, pp. 179-198, set.-dez. 55 larização que tiveram, ARELARO, Lisete (2005). "Não só de palavras se escreve a educação infantil, Mas as crianças, esses serem maravilhosos, transgridem e rebelam- mas de lutas populares e do avanço cientifico". In: FARIA, Ana Lúcia G. de & -se a todo momento, encontrando formas de burlar as regras dadas MELLO, Suely A. (orgs). O mundo da escrita no universo da pequena infância. e estabelecidas, buscando lúdico a todo momento, transformando Campinas, Autores Associados, pp. 23-50. uma situação negativa para si em positiva, quer seja no castigo da pro- BRASIL (1996). Lei de diretrizes e bases da educação nacional (LDB). Disponível fessora, que vira carrinho e escorrega; quer seja na prática cotidiana da em: . Acesso em: 1 mar. 2011. escovação, que vira momento de bater papo com os amigos e amigas ou de simplesmente comer a pasta docinha que a mamãe trouxe, ou mesmo (1998). Referencial curricular nacional para a educação Dispo- nível em: Acesso em: 1 mar. 2011.</p>