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<p>CAP Í T U LO 4 4</p><p>Hérnias</p><p>Mark A. Malangoni</p><p>Michael J. Rosen</p><p>SUMÁRIO</p><p>Hérnias Inguinais</p><p>Hérnias Femorais</p><p>Problemas Especiais</p><p>Hérnias Ventrais</p><p>Hérnias Incomuns</p><p>Mais de 600.000 hérnias são operadas anualmente nos Estados Unidos, fazendo do reparo herniário um dos procedimentos cirúrgicos mais comuns realizados por</p><p>cirurgiões gerais. Apesar da frequência desse procedimento, os cirurgiões ainda vêm buscando os resultados ideais sem as complicações como dor pós‑operatória,</p><p>lesão do nervo, infecção do local cirúrgico e recorrência.</p><p>Hérnia é derivada da palavra latina ruptura. A hérnia é definida como uma protrusão anormal de um órgão ou tecido por um defeito em suas paredes circundantes.</p><p>Embora uma hérnia possa ocorrer em vários locais do corpo, esses defeitos mais comumente envolvem a parede abdominal, em particular a região inguinal. As</p><p>hérnias da parede abdominal ocorrem apenas em locais onde a aponeurose e a fáscia não são cobertas por músculo estriado (Quadro 44‑1).Esses locais incluem mais</p><p>comumente as áreas inguinal, femoral e umbilical, a linha alba, a porção inferior da linha semilunar e locais de incisões anteriores (Fig. 44‑1). O denominado colo ou</p><p>orifício de uma hérnia é localizado na camada musculoaponeurótica mais interna, enquanto o saco herniário é revestido por peritônio e faz protrusão no colo. Não</p><p>existe relação consistente entre a área do defeito da hérnia e o tamanho do saco herniário.</p><p>Quadr o 4 4 1 Hé rn ia s da Pa rede Abdomina l P r imár i a</p><p>Virilha</p><p>Inguinal</p><p>Indireta</p><p>Direta</p><p>Combinada</p><p>Femoral</p><p>Anterior</p><p>Umbilical</p><p>Epigástrica</p><p>De Spiegel</p><p>Pélvica</p><p>Obturador</p><p>Ciática</p><p>Perineal</p><p>Posterior</p><p>Lombar</p><p>Triângulo superior</p><p>Triângulo inferior</p><p>FIGURA 441 Tipos de hérnias da parede abdominal. (De Dorland’s illustrated medical dictionary, ed 31, Philadelphia, 2007, WB Saunders, Plate 21.)</p><p>A hérnia é redutível quando seus conteúdos podem ser reposicionados por entre a musculatura circundante, e é irredutível ou encarcerada quando não pode ser</p><p>reduzida. Uma hérnia estrangulada tem o suprimento sanguíneo comprometido para seus conteúdos, o que é uma complicação grave e potencialmente fatal. Ocorre</p><p>estrangulamento com mais frequência nas hérnias grandes que têm pequenos orifícios. Nessa situação, o pequeno colo da hérnia obstrui o fluxo sanguíneo arterial, a</p><p>drenagem venosa, ou ambos, para os conteúdos do saco herniário. As aderências entre os conteúdos da hérnia e o revestimento peritoneal do saco herniário podem</p><p>proporcionar um ponto de acorrentamento que aprisiona os conteúdos da hérnia e predispõe à obstrução intestinal e ao estrangulamento. Um tipo pouco comum de</p><p>estrangulamento é a hérnia de Richter. Nessa hérnia, uma pequena porção da parede antimesentérica do intestino é aprisionada dentro da hérnia, e pode ocorrer</p><p>estrangulamento parcial do lúmen sem a presença de obstrução intestinal.</p><p>Uma hérnia externa faz protrusão através de todas as camadas da parede abdominal, enquanto uma hérnia interna é uma protrusão do intestino através de um</p><p>defeito no interior da cavidade peritoneal. Uma hérnia interparietal ocorre quando o saco herniário é contido na camada musculoaponeurótica da parede abdominal.</p><p>Em termos amplos, a maioria das hérnias da parede abdominal pode ser separada em hérnias inguinais e ventrais. Este capítulo focaliza os aspectos específicos de</p><p>cada uma dessas condições individualmente.</p><p>Hérnias inguinais</p><p>Hérnias inguinais são classificadas como direta ou indireta. O saco herniário inguinal indireto passa do anel inguinal interno obliquamente em direção ao anel</p><p>inguinal externo e, por fim, para a bolsa escrotal. Em contrapartida, o saco de uma hérnia inguinal direta faz protrusão para fora e para adiante e é medial ao anel</p><p>inguinal interno e aos vasos epigástricos inferiores. Como as hérnias indiretas aumentam, algumas vezes pode ser difícil distinguir entre uma hérnia inguinal direta e</p><p>indireta. Essa distinção é de pouca importância, pois o reparo cirúrgico desses tipos de hérnias é semelhante. Quando os dois componentes, hérnia indireta e hérnia</p><p>direta, encontram‑se juntos, temos uma hérnia do tipo em pantalona.</p><p>Incidência</p><p>As hérnias são um problema comum; entretanto, sua verdadeira incidência não é conhecida. Calcula‑se que 5% da população venha a desenvolver uma hérnia da</p><p>parede abdominal, mas a prevalência pode ser mesmo mais alta. Cerca de 75% de todas as hérnias ocorrem na região inguinal. Dois terços dessas são indiretas, e o</p><p>restante é constituído por hérnias inguinais diretas. Hérnias femorais compreendem apenas 3% das hérnias inguinais.</p><p>Os homens são 25 vezes mais propensos a ter uma hérnia inguinal do que as mulheres. Uma hérnia inguinal indireta é a hérnia mais comum, independentemente do</p><p>sexo. Nos homens, as hérnias indiretas predominam sobre as hérnias diretas a uma razão de 2:1. As hérnias indiretas são de longe as mais comuns nas mulheres. A</p><p>razão mulher para homem nas hérnias femorais e umbilicais, entretanto, é de 10:1 e de 2:1, respectivamente. Embora as hérnias femorais ocorram com mais frequência</p><p>em mulheres que em homens, as hérnias inguinais ainda são as hérnias mais comuns em mulheres. As hérnias femorais são raras em homens. Dez por cento das</p><p>mulheres e 50% dos homens com uma hérnia femoral têm ou desenvolverão uma hérnia inguinal.</p><p>Tanto as hérnias inguinais indiretas como as hérnias femorais ocorrem mais comumente no lado direito. Atribui‑se isso a uma demora na atrofia do processo vaginal</p><p>após a descida mais lenta normal do testículo direito para o escroto durante o desenvolvimento fetal. Acredita‑se que a predominância de hérnias femorais do lado</p><p>direito se deva ao efeito de tamponamento do cólon sigmoide no canal femoral esquerdo.</p><p>A prevalência de hérnias aumenta com a idade, particularmente para as hérnias inguinal, umbilical e femoral. A probabilidade de estrangulamento e a necessidade</p><p>de hospitalização também aumentam com o envelhecimento. O estrangulamento, a complicação mais grave e mais comum da hérnia, ocorre em apenas 1% a 3% das</p><p>hérnias inguinais e é mais comum nos extremos de vida. A maioria das hérnias estranguladas são hérnias inguinais indiretas; entretanto, as hérnias femorais têm a</p><p>maior taxa de estrangulamento (15% a 20%) de todas as hérnias e, portanto, se recomenda que todas as hérnias femorais sejam reparadas no momento da descoberta.</p><p>Anatomia da Região Inguinal</p><p>O cirurgião deve ter um conhecimento abrangente da anatomia da região inguinal para selecionar e utilizar apropriadamente a melhor técnica de reparo da hérnia.</p><p>Além disso, as relações de músculos, aponeuroses, fáscia, nervos, vasos sanguíneos e estruturas do cordão espermático na região inguinal precisam ser compreendidas</p><p>para diminuir a incidência de recidivas e evitar as complicações pós‑operatórias. Essas considerações anatômicas precisam ser entendidas por ambas as abordagens,</p><p>anterior e posterior, porque ambas as abordagens são úteis em diferentes situações (Figs. 44‑2 e 44‑3).</p><p>FIGURA 442 Diagrama parassagital clássico de Nyhus, da região mesoinguinal direita ilustrando as camadas aponeuróticas musculares separadas em</p><p>paredes anterior e posterior. A lâmina posterior da fáscia transversal foi acrescida, com os vasos epigástricos inferiores cursando através da parede abdominal</p><p>medialmente ao canal inguinal interno. (De Read RC: The transversalis and preperitoneal fasciae: A reevaluation. In Nyhus LM, Condon RE, editors: Hernia, ed 4, Philadelphia, 1995,</p><p>JB Lippincott, pp 5763.)</p><p>FIGURA 443 Anatomia das importantes estruturas préperitoneais no espaço inguinal direito. (De Talamini MA, Are C: Laparoscopic hernia repair. In Zuidema GD, Yeo CJ,</p><p>editors: Shackelford’s surgery of the alimentary tract, ed 5, vol 5, Philadelphia, 2002, WB Saunders, p 140.)</p><p>De anterior para posterior, a anatomia da região inguinal inclui a pele e os tecidos subcutâneos, abaixo dos quais estão a artéria ilíaca circunflexa superficial, artéria</p><p>epigástrica superficial e artéria pudenda externa, acompanhadas</p><p>Há uma diminuição sucessiva no tempo para recidiva da hérnia com cada reparo subsequente.33 As recidivas estão associadas com o aumento dos tempos</p><p>operatórios e uma maior taxa de complicações.</p><p>Qualidade de Vida</p><p>Os principais indicadores de qualidade que foram avaliados para reparo de hérnia são dor pós‑operatória e retorno ao trabalho. As abordagens livre de tensão e</p><p>laparoscópica com base em prótese com tela têm‑se revelado ser menos dolorosas que os reparos sem tela. Os reparos laparoscópicos têm menos dor pós‑operatória e</p><p>têm proporcionado uma vantagem marginal na redução do tempo fora do trabalho.12</p><p>Hérnias ventrais</p><p>A hérnia ventral é definida por uma protrusão através da fáscia da parede abdominal anterior. Esses defeitos podem ser classificados como espontâneos ou</p><p>adquiridos, ou por sua localização na parede abdominal. Hérnias epigástricas ocorrem entre o processo xifoide e o umbigo, hérnias umbilicais ocorrem na cicatriz</p><p>umbilical, e hérnias hipogástricas são raras hérnias espontâneas que ocorrem abaixo do umbigo na linha média. Hérnias adquiridas ocorrem normalmente após</p><p>incisões cirúrgicas e são, portanto, denominadas hérnias incisionais. Embora não seja uma hérnia verdadeira, a diástase dos retos pode apresentar‑se como uma</p><p>protrusão da linha média. Nessa condição, a linha alba é estirada, resultando em uma convexidade nas margens mediais dos músculos retos. Diástase da parede</p><p>abdominal pode ocorrer em outros locais além da linha média. Não existe anel fascial ou saco herniário, e, a menos que significativamente sintomática, evita‑se a</p><p>correção cirúrgica.</p><p>Incidência</p><p>Com base nas estatísticas operatórias nacionais (americanas), as hérnias incisionais respondem por 15% a 20% de todas as hérnias da parede abdominal; as hérnias</p><p>umbilical e epigástrica constituem 10% das hérnias. As hérnias incisionais são duas vezes mais comuns em mulheres que em homens. Como resultado de quase 4</p><p>milhões de laparotomias realizadas anualmente nos Estados Unidos e a incidência de 2% a 30% de hérnia incisional, quase 150.000 reparos de hérnia ventral são</p><p>realizados anualmente. Vários fatores técnicos e relacionados com o paciente têm sido associados à ocorrência de hérnias incisionais. Não há nenhuma evidência</p><p>conclusiva que demonstra que o tipo de sutura no primeiro procedimento cirúrgico afeta a formação de hérnia.34 Fatores relacionados ao paciente, ligados à formação</p><p>de hérnia ventral, incluem obesidade, idade avançada, sexo masculino, apneia do sono, enfisema e prostatismo. Foi proposto que os mesmos fatores associados à</p><p>destruição do colágeno no pulmão resultam em cicatrização deficiente da ferida com maior formação de hérnia. A infecção da ferida tem sido associada à formação de</p><p>hérnia. Dados recentes sugerem que a técnica cirúrgica usada para fechar uma laparotomia mediana é altamente associada com a formação de hérnias incisionais. O</p><p>uso de uma sutura contínua na proporção de 4:1 mostrou reduzir de modo significativo a formação de hérnia incisional se comparado com pontos separados com</p><p>intervalos de 1 cm e avanço de 1 cm normalmente usados pela maior parte dos cirurgiões.35</p><p>Se o tipo de incisão abdominal inicial influencia de fato a taxa de hérnia incisional permanece controverso. Como observado, a incidência de hérnia ventral após</p><p>laparotomia mediana varia de 3% a 20% e dobra se a operação está associada com uma infecção do local cirúrgico. Uma metanálise de 11 estudos examinando a</p><p>incidência de formação de hérnia ventral após vários tipos de incisões abdominais concluiu que o risco é de 10,5% para a linha média, 7,5% para transverso e 2,5% para</p><p>incisões paramedianas.36 Um ensaio randomizado prospectivo publicado recentemente não encontrou nenhuma diferença na formação de hérnia quando comparando</p><p>a linha média versus incisões transversas após um ano, mas observou uma maior taxa de infecção da ferida em incisões transversais.37 Dadas as taxas semelhantes</p><p>quanto a probabilidade de formação de hérnia incisional após incisões transversas na linha média, o cirurgião deve planejar a incisão com base na exposição cirúrgica</p><p>desejada para concluir o procedimento com segurança.</p><p>Poucos dados estão disponíveis sobre a história natural das hérnias ventrais não tratadas. Como observado, hérnias inguinais assintomáticas ou minimamente</p><p>sintomáticas acompanhadas durante dois anos têm uma baixa incidência de complicações.3 Se este paradigma se aplica para hérnias incisionais ou ventrais</p><p>assintomáticas não é claro. Porque não há nenhum grupo prospectivo disponível para determinar a história natural das hérnias ventrais não tratadas, a maioria dos</p><p>cirurgiões recomenda que essas hérnias devem ser reparadas quando descobertas.</p><p>Anatomia</p><p>A anatomia da parede abdominal anterior é direta e consideravelmente mais fácil de se apreender do que a anatomia da área inguinal. Entretanto, uma compreensão</p><p>clara do suprimento sanguíneo e da inervação do abdome é importante quando da realização de reconstrução da parede abdominal. A musculatura lateral é composta</p><p>de três camadas, com os fascículos de cada uma direcionados obliquamente em ângulos diferentes para criar um invólucro forte para os conteúdos abdominais. Cada</p><p>um desses músculos formam uma aponeurose que se insere na linha alba, uma estrutura da linha média juntando ambos os lados da parede abdominal. O oblíquo</p><p>externo é o músculo mais superficial da parede abdominal lateral. Profundamente ao oblíquo externo localiza‑se o músculo oblíquo interno. As fibras do oblíquo</p><p>externo cursam na direção inferomedial (como mãos nos bolsos), enquanto as fibras do músculo oblíquo interno correm profundamente às do oblíquo externo e</p><p>opostas a ele. A camada muscular mais profunda da parede abdominal é a do músculo transverso do abdome. Suas fibras cursam em uma direção horizontal. Esses</p><p>três músculos laterais dão origem às camadas aponeuróticas laterais ao músculo reto abdominal, que contribuem para as camadas anterior e posterior da bainha do</p><p>reto.</p><p>A extensão medial da aponeurose do oblíquo externo forma a camada anterior da bainha do reto. Na linha média, as duas bainhas anteriores do reto formam a linha</p><p>alba tendinosa. Em ambos os lados da linha alba estão os músculos retos do abdome, cujas fibras são direcionadas longitudinalmente e percorrem a extensão da</p><p>parede anterior do abdome. Abaixo de cada músculo reto localiza‑se a camada posterior da bainha do reto, que também contribui para a linha alba.</p><p>Outra estrutura anatômica importante da parede abdominal anterior é a linha arqueada, que se localiza 3 a 6 cm abaixo do umbigo. A linha arqueada delineia o</p><p>ponto abaixo do qual a bainha posterior do reto está ausente. Acima da linha arqueada, a aponeurose do músculo oblíquo interno contribui para as bainhas anterior e</p><p>posterior do reto, e a aponeurose do músculo transverso do abdome passa posteriormente ao músculo reto para formar a bainha posterior do reto. Abaixo da linha</p><p>arqueada, as aponeuroses do oblíquo interno e do transverso do abdome passam completamente anterior ao músculo reto (Fig. 44‑9). A aponeurose posterior da</p><p>bainha do reto abaixo da linha arqueada é composta apenas pela fáscia transversal e peritônio.</p><p>FIGURA 449 Cortes através do músculo reto do abdome e aponeurose acima e abaixo da linha arqueada. (De Netter FT: Atlas of human anatomy, Summit, NJ, 1989,</p><p>CibaGeigy, Plate 235.)</p><p>A parede abdominal recebe grande parte de sua inervação dos nervos intercostais 7 a 12 e os primeiros e segundos nervos lombares. Esses ramos fornecem</p><p>inervação para os músculos abdominais laterais e o músculo reto e a pele sobrejacente. Os nervos atravessam a parede abdominal lateral entre o músculo transverso</p><p>abdominal e oblíquo interno e penetram a bainha do reto posterior imediatamente medial à linha semilunar.</p><p>Os músculos</p><p>abdominais laterais recebem sua irrigação sanguínea das três ou quatro artérias intercostais inferiores, artéria ilíaca circunflexa profunda e artérias</p><p>lombares. O reto abdominal tem um suprimento sanguíneo mais complexo derivado da artéria epigástrica superior (um ramo terminal da artéria mamária interna), a</p><p>artéria epigástrica inferior (um ramo da artéria ilíaca externa) e artérias intercostais inferiores. As artérias epigástricas superiores e inferiores se anastomosam próximo</p><p>do umbigo. A área periumbilical fornece vasos perfurantes críticos que, se preservados, podem diminuir a necrose do retalho de pele durante extensivas ressecções da</p><p>pele (Fig. 44‑10).</p><p>FIGURA 4410 Seção transversal da parede abdominal lateral detalhando a localização do feixe neurovascular intercostal que se desloca entre o músculo</p><p>transverso abdominal e oblíquo interno.</p><p>Diagnóstico</p><p>A avaliação das hérnias da parede abdominal exige exame físico minucioso. Como com a região inguinal, a parede abdominal anterior é avaliada com o paciente nas</p><p>posições de pé e supina, e uma manobra de Valsalva também é útil para demonstrar o local e o tamanho da hérnia. As modalidades de imagem podem ter uma grande</p><p>função no diagnóstico das hérnias mais incomuns da parede abdominal.</p><p>Classificação</p><p>Hérnia Umbilical</p><p>A cicatriz umbilical é formada pelo anel umbilical da linha alba. Intra‑abdominalmente, o ligamento redondo (ligamentum teres) e as veias paraumbilicais juntam‑se ao</p><p>umbigo superiormente, e o ligamento umbilical médio (úraco obliterado) entrainferiormente. As hérnias umbilicais nas crianças são congênitas e bastante comuns.</p><p>Elas se fecham espontaneamente na maioria dos casos por volta de dois anos de idade. Aquelas que persistem após cinco anos de idade são com frequência reparadas</p><p>por procedimento cirúrgico, embora complicações relacionadas com essas hérnias em crianças sejam incomuns. Há uma forte predisposição para o desenvolvimento</p><p>dessas hérnias em indivíduos descendentes de africanos. Nos Estados Unidos, a incidência de hérnia umbilical é oito vezes mais alta em crianças afro‑americanas que</p><p>nas brancas.</p><p>As hérnias umbilicais em adultos são em sua maioria adquiridas. Essas hérnias são mais comuns em mulheres e em pacientes com condições que resultam em</p><p>pressão intra‑abdominal aumentada, como gravidez, obesidade, ascite ou distensão abdominal. A hérnia umbilical é mais comum entre indivíduos que têm apenas um</p><p>único cruzamento aponeurótico de linha média, comparado com o cruzamento normal das fibras de todos os três músculos abdominais laterais. O estrangulamento é</p><p>incomum na maioria dos pacientes; entretanto, pode ocorrer estrangulamento ou ruptura em condições de ascite crônica. Hérnias umbilicais assintomáticas pequenas,</p><p>apenas detectáveis no exame, não precisam de reparo. Os adultos que têm sintomas, uma hérnia volumosa, encarceramento, adelgaçamento da pele sobrejacente ou</p><p>ascite incontrolável devem se submeter ao reparo da hérnia. A ruptura espontânea das hérnias umbilicais em pacientes com ascite pode resultar em peritonite e morte.</p><p>Classicamente, o reparo era feito usando‑se o reparo em jaquetão proposto por Mayo, que emprega imbricação das margens fasciais superior e inferior. Em função</p><p>da maior tensão sobre o reparo e taxas de recidiva de quase 30% com o acompanhamento a longo prazo, o reparo de Mayo raramente é realizado hoje em dia. Em vez</p><p>disso, pequenos defeitos são fechados primariamente após separação, do saco herniário, do umbigo sobrejacente e da fáscia circundante. Defeitos maiores que 3 cm</p><p>são fechados usando telas como prótese.38 Existem várias técnicas para colocar essas telas e nenhum dado prospectivo encontrou conclusivamente vantagens claras de</p><p>uma técnica sobre outra. As opções para colocação de tela incluem um suporte de transposição do defeito, a posição de um calço pré‑peritoneal de tela reforçado com</p><p>reparo de sutura, ou colocando‑o laparoscopicamente. A técnica laparoscópica exige anestesia geral e provavelmente é reservada para defeitos maiores ou hérnias</p><p>umbilicais recidivadas.39 Não existe consenso universal sobre o método mais apropriado de reparo de hérnia umbilical.</p><p>Hérnia Epigástrica</p><p>Aproximadamente 3% a 5% da população têm hérnias epigástricas. As hérnias epigástricas são duas a três vezes mais comuns em homens. Essas hérnias estão</p><p>localizadas entre o processo xifoide e cicatriz umbilical e são geralmente 5 a 6 cm do umbigo. Como as hérnias umbilicais, as hérnias epigástricas são mais comuns em</p><p>indivíduos com um único cruzamento aponeurótico. Os defeitos são pequenos e, em geral, produzem dor fora de proporção para seu tamanho, em virtude do</p><p>encarceramento de gordura pré‑peritoneal. Eles são múltiplos em até 20% dos pacientes e de aproximadamente 80% na linha média. O reparo geralmente consiste na</p><p>excisão do tecido pré‑peritoneal encarcerado e fechamento simples do defeito fascial, semelhante ao das hérnias umbilicais. Os defeitos pequenos podem ser reparados</p><p>sob anestesia local. Raramente, esses defeitos podem ser de grande tamanho e conter omento ou outra víscera intra‑abdominal e podem exigir reparos com tela.</p><p>Aconselha‑se o reparo das hérnias epigástricas porque o defeito é pequeno e a gordura que herniou da cavidade peritoneal é difícil de reduzir.</p><p>Hérnia Incisional</p><p>De todas as hérnias encontradas, as hérnias incisionais podem ser as mais frustrantes e difíceis de tratar. As hérnias incisionais ocorrem como resultado de tensão</p><p>excessiva e cicatrização inadequada de uma incisão prévia, que, em geral, se associa a infecção do acesso cirúrgico. Essas hérnias aumentam de volume ao longo do</p><p>tempo, provocando dor, obstrução intestinal, encarceramento e estrangulamento. Obesidade, idade avançada, desnutrição, ascite, gravidez e condições que aumentam</p><p>a pressão intra‑abdominal são fatores que predispõem ao desenvolvimento de uma hérnia incisional. A obesidade pode causar a ocorrência de uma hérnia incisional,</p><p>devido à maior tensão na parede abdominal proporcionada pelo tamanho excessivo de um panículo espesso e grande massa omental. A doença pulmonar crônica e</p><p>o diabetes mellitus também foram reconhecidos como fatores de risco do desenvolvimento da hérnia incisional. Medicamentos como corticosteroides e agentes</p><p>quimioterápicos e infecção do local cirúrgico podem contribuir para a cicatrização deficiente da ferida e aumentam o risco de desenvolvimento de hérnia incisional.</p><p>Hérnias volumosas podem resultar em perda do domínio abdominal, que ocorre quando os conteúdos abdominais não mais estão na cavidade abdominal. Esses</p><p>grandes defeitos da parede abdominal também podem resultar da incapacidade de fechar o abdome primariamente por causa de edema do intestino, tamponamento</p><p>abdominal, peritonite e laparotomia repetida. Com perda do domínio, a rigidez natural da parede abdominal torna‑se comprometida, e a musculatura abdominal em</p><p>geral é retraída. Pode ocorrer disfunção respiratória porque esses grandes defeitos ventrais provocam movimento respiratório abdominal paradoxal. A perda do</p><p>domínio abdominal também pode resultar em edema do intestino, estase do sistema venoso esplâncnico, retenção urinária e constipação. O retorno da víscera</p><p>deslocada à cavidade abdominal durante reparo pode gerar maior pressão abdominal, síndrome compartimental abdominal e insuficiência respiratória aguda.</p><p>Não existe um mecanismo simples para descrever a complexidade de uma hérnia incisional ventral. O tamanho do defeito, localização na parede abdominal, perda</p><p>de domínio, comorbidades do paciente, presença de contaminação, necessidade de ostomia, apresentação aguda e história de reparações prévias com ou sem prótese</p><p>permitem um número infinito de possibilidades. A ausência de um sistema de classificação universal causou comparações dentro da literatura e em reuniões,</p><p>atrasando indiretamente as conversações mais significativas sobre as técnicas</p><p>de reparação e escolha da prótese. O modelo TNM para estadiamento do câncer é um</p><p>modelo invejável, que deve ser perseguido para a reparação das hérnias. Como tal, um grupo recente tentou estratificar as hérnias ventrais em estágios usando um</p><p>número limitado de variáveis pré‑operatórias para prever com acuidade os dois resultados cirúrgicos mais significativos: taxas de ocorrência no local cirúrgico (OLC) e</p><p>de recidiva herniária a longo prazo.</p><p>Duas das ferramentas mais populares para classificação das hérnias ventrais até esta data foram geradas pela opinião de peritos: a escala do Ventral Hernia Working</p><p>Group e o sistema da European Hernia Society. A escala do Ventral Hernia Working Group usa as comorbidades do paciente e a classe da ferida para prever o risco de</p><p>OLC. O sistema da European Hernia Society avalia a largura e localização da hérnia; foi inicialmente desenhado para reunir dados sobre o risco de</p><p>recidiva.40 Utilizando dados de 333 reparações de hérnia ventral sem filtro para a técnica, os investigadores apresentaram uma análise multivariada que identificou a</p><p>largura da hérnia (2 a 3 cm de diâmetro) têm uma elevada taxa de recidiva se</p><p>fechados primariamente e devem ser reparados com prótese.39 As taxas de recidiva variam entre 10% e 50% e são normalmente reduzidas a mais da metade com o uso</p><p>de tela.41 O material da prótese pode ser colocado como um enxerto de remendo para reforçar um reparo de tecido, interposto entre o defeito fascial, em forma de</p><p>sanduíche entre os planos de tecido, ou colocado em uma posição intraperitoneal. Dependendo de sua localização, várias propriedades importantes da tela precisam</p><p>ser consideradas.</p><p>Materiais de Prótese para Reparo das Hérnias Ventrais</p><p>Materiais sintéticos</p><p>Existem vários produtos de tela sintética. As características desejáveis de uma tela sintética incluem ser quimicamente inerte, resistente a estresse mecânico e que tenha</p><p>boa complacência; que seja esterilizável e não carcinogênica; deve incitar uma baixa reação inflamatória, e ser hipoalergênica. A tela ideal ainda não está definida. Ao</p><p>selecionar a tela apropriada, o cirurgião deve considerar a posição da tela, se ela estará em contato direto com as vísceras e a presença e/ou risco de infecção. A</p><p>composição ou estrutura da tela pode ser classificada com base no peso do material, tamanho do poro, sua relação com a água (hidrofóbica ou hidrofílica), e se há uma</p><p>barreira antiaderente presente etc. Quando da colocação de uma tela extraperitoneal sem o risco de erosão do intestino, uma tela macroporosa é apropriada. As telas</p><p>de polipropileno e poliéster têm sido usadas com sucesso quando posicionadas extraperitonealmente. A tela de polipropileno é uma malha hidrofóbica macroporosa</p><p>que possibilita o crescimento de fibroblastos por entre suas malhas tornando‑a porosa. A colocação de tela de polipropileno em uma posição intraperitoneal em</p><p>contato direto com o intestino deve ser evitada uma vez que apresenta taxas inaceitáveis de formação de fístula enterocutânea.42Recentemente, as telas de</p><p>polipropileno inertes foram introduzidas para solucionar algumas das complicações a longo prazo das antigas telas de polipropileno. A definição de tela inerte foi</p><p>escolhida arbitrariamente para telas com menos de 50 g/m2, contrapondo‑se às telas pesando mais de 80 g/m2. Muitas dessas telas inertes têm um componente de</p><p>material absorvível que proporciona estabilidade no seu manuseio inicial, normalmente elas são compostas de Vicryl® (poliglactina 910) ou Monocryl®</p><p>(poliglecaprone 25; Ethicon, Somerville, NJ).</p><p>Se a utilização das telas inertes proporciona melhores resultados ainda é controverso. Dois ensaios randomizados prospectivos avaliando a incidência de dor pós‑</p><p>operatória após reparo de hérnia inguinal aberta mostraram resultados mistos.43 Um estudo randomizado controlado avaliando a tela inerte versus a de polipropileno</p><p>antiga (80 g/m2) nos reparos de hérnia ventral verificou que a de recorrência foi duas vezes maior do que no grupo inerte (50 g/m2) (17% versus 7% para telas antigas), o</p><p>que mostra significância estatística (P = 0,52).44 Vários investigadores reportaram taxas preocupantes de falha da prótese ventral com tela de polipropileno ultraleve e</p><p>tela de poliéster leve.45,46 Outro achado recente em relação à tela leve de poros grandes é a sua capacidade de resistir à contaminação bacteriana. Vários estudos</p><p>animais reportaram taxas elevadas de eliminação de bactérias com a tela sintética de grandes poros quando esta é exposta à flora gastrointestinal e ao Staphylococcus</p><p>aureus meticilino‑resistentes.47,48 Realizou‑se uma experiência retrospectiva multicêntrica grande com mais de 100 casos de tela de polipropileno de grandes poros</p><p>usada em reparações de hérnias ventrais limpas e contaminadas.49 Estes autores notaram excelentes resultados a médio prazo, com uma taxa de recidiva de 7%. Dados</p><p>a longo prazo para verificar a segurança e durabilidade dessa abordagem são ainda necessários.</p><p>A tela de poliéster é composta de tereftalato e é uma malha hidrofílica macroporosa. Essa tela tem várias texturas diferentes que podem produzir uma malha</p><p>parecida com uma tela plana bidimensional e com uma trama multifilamentar tridimensional. A malha de poliéster desprotegida não deve ser colocada diretamente</p><p>sobre as vísceras porque foram relatadas taxas inaceitáveis de obstrução</p><p>intestinal e erosão.42 Reparos, quando colocados na posição pré‑peritoneal na hérnia ventral</p><p>complexa, têm taxas de complicação baixas.9,50</p><p>Algumas alternativas devem ser observadas quando da colocação de uma tela intraperitoneal. Pode‑se optar pela utilização de uma tela que possui propriedades em</p><p>ambas as faces que seja capaz de reduzir aderência e uma tela tipo composto com um lado feito para promover a invaginação do tecido e o outro para resistir a</p><p>formação de aderências. A tela com ambas as faces redutoras de aderência é composta de politetrafluoretileno expandido (PTFEe). Essa prótese tem um lado visceral</p><p>que é microporoso (3 μm) e outro voltado para parede abdominal que é macroporoso (17 a 22 μm) que estimula o crescimento tecidual na intimidade dos poros da</p><p>tela. Esse produto difere de outras telas sintéticas porque é flexível e liso. A proliferação de fibroblastos ocorre através dos poros do PTFE, mas este é impermeável a</p><p>fluido. Ao contrário do polipropileno, o PTFE não é incorporado ao tecido subjacente. Ocorre encapsulamento lento, e pode sobrevir infecção durante o processo de</p><p>encapsulamento. Quando infectado, o PTFE deve ser removido.</p><p>Para promover a melhor integração tecidual, uma tela composta foi desenvolvida. Esse produto combina característica de polipropileno e PTFE pela aposição de</p><p>camadas das duas substâncias uma sobre a outra. A superfície do PTFE funciona como uma interface protetora do intestino, e o lado do polipropileno para ser</p><p>incorporado no tecido subjacente. Esses materiais têm taxas variáveis de contração e, quando colocados em conjunto, podem resultar em deformação da tela e</p><p>propiciar uma exposição visceral ao componente polipropileno. Recentemente, outras telas compostas foram desenvolvidas, as quais combinam uma tela macroporosa</p><p>com uma outra dotada de propriedades absorvíveis antiadesivas temporárias. Telas básicas construídas desses materiais incluem poliéster ou polipropileno leve ou</p><p>pesado. As barreiras absorvíveis são normalmente compostas de celulose oxidada regenerada, ácidos graxos ômega‑3 ou hidrogel de colágeno. Inúmeros estudos em</p><p>pequenos animais têm validado as propriedades antiaderentes dessas barreiras, mas não existem estudos em humanos avaliando a capacidade desses materiais</p><p>compostos de resistirem à formação de aderências.</p><p>Materiais biológicos</p><p>As próteses biológicas para reparo de hérnia ventral são telas de tecido não sintético ou natural. Existem numerosos enxertos biológicos disponíveis para reconstrução</p><p>da parede abdominal (Tabela 44‑4). Esses produtos podem ser classificados de acordo com a origem do material (p. ex., humanos, suínos, bovinos), segundo técnicas</p><p>de processamento pós‑coleta (p. ex., reticulado, ligado ao non‑cross) e técnicas de esterilização (p. ex., radiação gama, esterilização pelo gás óxido de etileno). São</p><p>produtos compostos de colágeno acelular e teoricamente fornecem uma matriz para a neovascularização e deposição de colágeno essencial. Essas propriedades</p><p>fornecem benefícios em casos infectados e/ou contaminados, em que a tela sintética está contraindicada. Técnicas ideais de colocação precisam ser definidas para esses</p><p>produtos relativamente novos; no entanto, alguns princípios gerais podem ser aplicados. Esses produtos funcionam melhor quando usados como um reforço da fáscia,</p><p>ao invés de como uma ponte ou interposição do reparo.51 A durabilidade a longo prazo da tela biológica foi recentemente questionada na maior série de uso de tela</p><p>protética no contexto de contaminação.52 Não existem dados prospectivos randomizados comparando a eficácia dessas alternativas de tecido natural com as</p><p>reparações com tela sintética em vários contextos de reparação de hérnia complexa.</p><p>Tabela 444</p><p>Telas Biológicas para Reconstrução da Parede Abdominal e Técnicas de Processamento Pós</p><p>resultado</p><p>PRODUTO FONTE RETICULADO</p><p>MÉTODO DE</p><p>ESTERILIZAÇÃO</p><p>Alloderm® (Lifecell, Branchburg, NJ) Derme humana Não Iônico</p><p>Allomax® (Davol, Warwick, RI) Derme humana Não Feixe E</p><p>Flex HD® (Ethicon, Sommerville, NJ) Derme humana Não Etanol</p><p>Straꬻice® (Lifecell, Branchburg, NJ) Derme suína Não Irradiação gama</p><p>Permacol® (Covidien, Norwalk, CT) Derme suína Sim Etanol</p><p>CollaMend® (Davol, Warwick, RI) Derme suína Sim Etanol</p><p>XenMatrix® (Davol, Warwick, RI) Derme suína Não Irradiação gama</p><p>SurgiMend ® (TEI Biosciences, Boston,</p><p>MA)</p><p>Derme fetal</p><p>bovina</p><p>Não Etanol</p><p>Veritas ® (Synovis, St. Paul, MN) Bovina Não</p><p>Peri‑Guard ® (Synovis, St. Paul, MN) Bovina Sim</p><p>Surgisis ® (Cook, Bloomfield, IN) Intestino suíno Não Etanol</p><p>Técnica Operatória</p><p>Hérnias ventrais</p><p>É geralmente aceito que todas, exceto as menores hérnias incisionais, podem ser reparadas com tela, e o cirurgião tem várias opções para sua colocação. A técnica de</p><p>enxerto envolve fechamento primário do defeito da fáscia e colocação de uma tela de polipropileno sobre a porção anterior da fáscia. A maior vantagem dessa</p><p>abordagem é que a tela é colocada fora da cavidade abdominal, evitando interação direta com a víscera abdominal. No entanto, as desvantagens incluem a grande</p><p>dissecção subcutânea, maior probabilidade de formação de seroma, localização superficial da tela, que a coloca em risco de contaminação se a incisão se torna</p><p>infectada, e o reparo que, geralmente, é sob tensão. Análise prospectiva dessa técnica não está disponível, mas uma revisão retrospectiva relatou taxas de</p><p>recorrência de 28%.53 Reparos com interposição de prótese envolvem fixar a tela à margem fascial sem sobreposição. Isso resulta em previsíveis taxas de recidivas</p><p>porque o material sintético muitas vezes rompe‑se da borda fascial por causa do aumento da pressão intra‑abdominal. Uma técnica de apoiar ou sustentar envolve a</p><p>colocação de prótese abaixo dos componentes fasciais. A tela pode ser colocada intraperitoneal, pré‑ ‑peritonealmente ou no espaço retrorretal (retromuscular). É</p><p>altamente desejável ter uma tela colocada abaixo da fáscia. Com a parte sobreposta da tela e fáscia, as forças naturais da cavidade abdominal atuam para manter a tela</p><p>no local. Isso pode ser feito usando diversas técnicas (Fig. 44‑11).</p><p>FIGURA 4411 Opções de posicionamento da malha para reconstrução da parede abdominal.</p><p>Colocação de tela intraperitoneal</p><p>Após ressecar a incisão anterior e com o uso da tela disponível ou tela composta, esta pode ser colocada em uma posição intraperitoneal a pelo menos 4 cm além da</p><p>margem fascial e fixada com pontos interrompidos. Essa técnica exige elevação de retalhos subcutâneos, e a tela pode ser em contato direto com o conteúdo</p><p>abdominal.</p><p>A abordagem laparoscópica para reparo de hérnia ventral usa os mesmos princípios do reparo do retrorretal: entretanto, a tela é colocada dentro da cavidade</p><p>peritoneal. Esse reparo é útil, particularmente para defeitos volumosos. Trocarteres são colocados lateralmente, tanto quanto possível com base no tamanho e</p><p>localização da hérnia. O conteúdo da hérnia é reduzido, e as aderências lisadas. A área de superfície do defeito é medida, e uma tela revestida de barreira é</p><p>confeccionada com pelo menos 4 cm de sobreposição em torno do defeito. A tela é enrolada, colocada no abdome e desdobrada. É presa à parede abdominal anterior</p><p>com suturas de colchoeiro pré‑colocadas que são passadas através de incisões separadas, e grampos são colocados entre essas suturas para prender a tela 4 cm além do</p><p>defeito. Existem poucas complicações incisionais com a abordagem laparoscópica porque grandes incisões e o consequente enfraquecimento subcutâneo são evitados.</p><p>Liberações miofasciais</p><p>Um dos princípios subjacentes da reconstrução da parede abdominal é o restabelecimento da linha branca. A restauração da linha branca na linha média tem a</p><p>vantagem de uma parede abdominal funcional,</p><p>frequentemente protege a prótese de problemas superficiais da ferida e pode resultar em uma reparação mais</p><p>duradoura. Em hérnias mais volumosas, existem várias opções para fornecer o avanço miofascial necessário à reconstrução da linha média e para restaurar o contorno</p><p>à parede abdominal. Os pontos básicos desses procedimentos são que a parede abdominal e os músculos retos estão ligados por vários compartimentos miofasciais, e,</p><p>liberando um ou mais feixes fasciais, o avanço do músculo reto para linha média é possível. No fundo, cada um desses procedimentos cria um retalho de avanço local</p><p>do músculo reto. Deve‑se ter o cuidado de identificar e preservar as estruturas neurovasculares para o músculo reto de modo a garantir um retalho funcional bem</p><p>vascularizado.</p><p>Incisão na bainha posterior dos retos com colocação de tela retromuscular</p><p>Essa técnica envolve colocação da tela de prótese em posição extraperitoneal no espaço pré‑peritoneal ou retrorretal. Essa técnica foi inicialmente descrita por</p><p>Stoppa.9 Um grande pedaço de tela é colocado no espaço retromuscular por cima da bainha posterior dos retos ou peritônio. O compartimento é acessado através de</p><p>uma incisão na bainha posterior dos retos, aproximadamente a 1 cm da borda interna do músculo reto. Esse espaço deve ser dissecado lateralmente em ambos os lados</p><p>da linha branca até uma distância de 8 a 10 cm para além do defeito. Ambos os folhetos da bainha posterior são depois suturados para criar uma bolsa extraperitoneal,</p><p>onde se coloca o material protético. A tela protética estende‑se 5 a 6 cm para além das bordas superior e inferior do defeito. O uso de suturas transfasciais para fixar a</p><p>tela continua sendo controverso, e não existe evidência definitiva dando suporte a cada método. Os autores usam suturas transfasciais seletivamente. Com defeitos</p><p>menores, a tela não precisa ser fixada porque é mantida no lugar pela pressão intra‑abdominal (princípio de Pascal), permitindo eventual incorporação aos tecidos</p><p>circundantes. Alternativamente, em defeitos maiores, a tela pode ser presa lateralmente com vários pontos de sutura. Essa abordagem evita contato entre a tela a e a</p><p>víscera abdominal e tem‑se mostrado em estudos a longo prazo que ela tem uma taxa de recidiva respeitável de 14% em hérnias incisionais grandes.</p><p>Separação de componentes posteriores</p><p>O espaço retrorretal é ladeado pela linha semilunar. Em grandes hérnias ou nos pacientes com retos estreitados atróficos, isso pode prevenir uma sobreposição</p><p>adequada da tela. Pode‑se obter mais avanço fazendo uma incisão na bainha posterior dos retos cerca de 1 cm para dentro da linha semilunar. Nessa localização, o</p><p>folheto posterior do oblíquo interno e transverso abdominal são abertos para dar acesso ao pré‑peritônio. Esse plano pode ser estendido para o retroperitônio e</p><p>eventualmente músculo psoas se necessário.54 Grandes pedaços de tela protética podem ser colocados aqui para se conseguir uma cobertura ampla do defeito.55 Uma</p><p>revisão retrospectiva da Mayo Clinic, com uma mediana de seguimento de cinco anos, documentou 5% de recidiva global em 254 pacientes submetidos a reparação de</p><p>hérnia ventral complexa durante um período de 13 anos.43 Em uma análise comparativa da separação de componentes anterior e posterior, uma quantidade</p><p>semelhante de avanço fascial foi reportada com redução significativa na morbidade da ferida com o uso da abordagem posterior.55</p><p>Separação de componentes anteriores</p><p>Outra opção para o reparo de defeitos ventrais complexos ou grandes é a técnica de separação de componentes anteriores (Fig. 44‑12). Isso envolve dissecção das</p><p>camadas musculares laterais da parede abdominal para permitir seu avanço. O fechamento fascial primário na linha média é possível. Esse procedimento é realizado</p><p>elevando‑se grandes retalhos subcutâneos acima da fáscia do oblíquo externo. Esses retalhos são transportados lateralmente acima da linha semilunar. A dissecção</p><p>lipocutânea pode proporcionar algum avanço da parede abdominal. Grandes vasos subcutâneos perfurantes podem ser preservados para evitar necrose isquêmica dos</p><p>retalhos cutâneos. Uma incisão de relaxamento de 2 cm é feita na lateral da linha semilunar para a parte lateral da aponeurose do oblíquo externo e alguns centímetros</p><p>acima da margem costal até o púbis. O oblíquo externo é então separado e afastado do oblíquo interno por dissecção romba no plano avascular, permitindo seu</p><p>avanço. Outras incisões de relaxamento foram descritas para as camadas aponeuróticas do oblíquo interno abdominal ou do transverso, mas isso pode resultar em</p><p>protuberâncias laterais problemáticas e/ou herniação neste local. A liberação adicional pode ser facilmente conseguida pela incisão posterior da bainha do reto. Essas</p><p>técnicas, quando aplicadas a ambos os lados da parede abdominal, podem produzir até 20 cm de mobilização. Embora essa técnica geral permita fechamento livre de</p><p>tensão desses defeitos, elevadas taxas de recorrência têm sido assinaladas, chegando a 20% com o uso de prótese como reforço em hérnias volumosas.56 É importante</p><p>que os pacientes entendam que a protuberância lateral pode ocorrer após a liberação da aponeurose do oblíquo externo. Admitindo que elevadas taxas de recidiva</p><p>ocorrem com a separação de componentes isoladamente, alguns autores propuseram em pequenas séries um reforço de tela biológica desses reparos.51 Até o</p><p>momento, não há estudos randomizados controlados que respaldem sobre uma menor taxa de recorrência com reforço de prótese biológica. Se uma bioprótese é</p><p>colocada, ela pode ser sustentada com a técnica de reforço e/ou enxerto. Não há dados comparativos demonstrando a superioridade desse tipo de técnica de reparo.57</p><p>FIGURA 4412 Técnica de separação de componentes.</p><p>A, A pele e a gordura subcutânea são dissecadas livres da bainha anterior do músculo reto do abdome e da aponeurose do músculo oblíquo externo do</p><p>abdome. B, O oblíquo externo do abdome é incisado 1 a 2 cm lateralmente ao músculo reto do abdome. C, O oblíquo externo do abdome é separado do oblíquo</p><p>interno do abdome. D, A dissecção é feita em direção à linha axilar posterior. E, Uma extensão adicional pode ser obtida pela incisão da bainha do reto posterior</p><p>acima da linha arqueada. F, Devese ter cuidado para evitar afetar os nervos e o suprimento sanguíneo que entra no reto do abdome posteriormente. (De de Vries</p><p>Reilingh TS, van Goor H, Rosman C, et al: Components separation technique for the repair of large abdominal wall hernias. J Am Coll Surg 196:32–37, 2003.)</p><p>Separação endoscópica dos componentes</p><p>Um dos principais problemas que ocorrem no isolamento das estruturas que compõem a parede abdominal pela técnica aberta é a necessidade de se obter um grande</p><p>retalho de pele para acessar a musculatura da parede anterolateral do abdome. Reconhecendo essas limitações, abordagens inovadoras com técnicas minimamente</p><p>invasivas têm sido utilizadas para se proceder a separação dos componentes da parede abdominal.58 O princípio básico do isolamento das estruturas que compõem a</p><p>parede anterolateral do abdome pela técnica minimamente invasiva é obter acesso direto à parede abdominal lateral sem criar um retalho lipocutâneo. Normalmente,</p><p>isso é realizado por um acesso por meio de uma incisão de cerca de 1 cm abaixo da aponeurose do músculo oblíquo externo (Fig. 44‑13). Uma vez seccionado o oblíquo</p><p>externo coloca‑se um balão dissector de hérnia inguinal bilateral‑padrão entre os músculos oblíquos internos e externos, em direção ao púbis. Três trocarteres</p><p>laparoscópicos são colocados no espaço criado e a dissecção é orientada em direção ao púbis alguns centímetros acima da borda costal. A linha semilunar é</p><p>cuidadosamente identificada e o oblíquo externo é incisado por debaixo do músculo, pelo menos 2 cm lateralmente à linha semilunar. O músculo é liberado do púbis e</p><p>dissecado em direção</p><p>à borda costal. Esse procedimento é realizado bilateralmente. A tela sintética ou biológica pode ser usada para reforçar o reparo do fechamento</p><p>da linha média. Essas técnicas relativamente novas são viáveis, mas faltam dados, a longo prazo, que demonstrem a equivalência para técnicas abertas.</p><p>FIGURA 4413 Separação de componente endoscópico: posicionamento de porta e técnica cirúrgica.</p><p>Resultados dos Reparos da Hérnia Incisional</p><p>Vários estudos prospectivos randomizados compararam reparos laparoscópico e aberto de hérnia ventral (Tabela 44‑5).59‑63 Embora a maioria desses estudos seja de</p><p>pequenas amostras, com menos de 100 pacientes, os resultados tendem a favorecer a abordagem laparoscópica nos defeitos de tamanho pequeno a médio. As</p><p>incidências de complicações pós‑operatórias e recidiva foram menores nas hérnias reparadas por laparoscopia. Vários relatos retrospectivos demonstram vantagens</p><p>semelhantes para a abordagem laparoscópica. Com base nos ensaios comparativos relacionados na Tabela 44‑5, o reparo laparoscópico da hérnia incisional resulta em</p><p>menos complicações pós‑operatórias, numa taxa menor de infecção e em menor recidiva da hérnia.54,56‑60,64 Até que um ensaio prospectivo randomizado apropriado</p><p>seja realizado, a abordagem ideal será em grande parte baseada na experiência e preferência do cirurgião. Além disso, esses ensaios necessitam de fornecer orientação</p><p>sobre o tamanho mais adequado da hérnia a ser reparada com uma abordagem aberta ou laparoscópica.</p><p>Tabela 445</p><p>Estudos Aleatórios Comparativos entre Reparo de Hérnia Ventral Aberta e Laparoscópica</p><p>ESTUDO</p><p>N.° DOS</p><p>PACIENTES TELA USADA</p><p>COMPLICAÇÕES</p><p>INTRAOPERATÓRIAS</p><p>(%) TP (DIAS)</p><p>COMPLICAÇÕES</p><p>PÓS‑ ‑</p><p>OPERATÓRIAS</p><p>(%)</p><p>ACOMPANHAMENTO</p><p>(MESES)</p><p>RECORRÊNCIA</p><p>(%)</p><p>LAP ABERTO LAP ABERTO LAP ABERTO LAP ABERTO LAP ABERTO LAP ABERTO LAP ABERTO</p><p>McGreevy et</p><p>al.,60 2003</p><p>65 71 PTFEe ou</p><p>colágeno</p><p>poliéster</p><p>+</p><p>PP N/A N/A 1,1 1,5 7,70 21,10 N/A N/A N/A N/A</p><p>Lomanto et</p><p>al.61 2006</p><p>50 50 Colágeno</p><p>poliéster</p><p>+</p><p>PTFEe 2 2 2,74 4,7 26 40 19,6 21 2 10</p><p>Bingener et</p><p>al.,62 2007</p><p>127 233 PTFEe, PP</p><p>ou PTFEe</p><p>PP N/A N/A N/A N/A 33,10 43,30 36 36 13 9</p><p>Olmi et</p><p>al.,592007</p><p>85 85 Colágeno</p><p>poliéster</p><p>+</p><p>PP N/A N/A 2,7 9,9 16,50 29,40 24 24 2 4</p><p>Pring et</p><p>al.,732008</p><p>31 27 PTFE PTFE N/A N/A 1 1 33 49 28 28 3,30 4,20</p><p>Asencio et</p><p>al.,74 2009</p><p>45 39 PTFE ou PP PP 6,70 0 3,46 3,33 5,20 33,30 12 12 9,70 7,90</p><p>LAP, Laparoscopia, TP, tempo de permanência; PP, polipropileno.</p><p>Hérnias incomuns</p><p>Há um número de hérnias que ocorrem raramente, de vários tipos.</p><p>Tipos</p><p>Hérnia de Spiegel</p><p>A hérnia de Spiegel ocorre através da fáscia de Spiegel, que é composta do folheto aponeurótico entre o músculo reto medialmente e a linha semilunar lateralmente.</p><p>Quase todas as hérnias de Spiegel ocorrem na linha arqueada ou abaixo dela. A ausência da fáscia na parte posterior do reto pode contribuir para uma fraqueza</p><p>inerente nessa área. Essas hérnias em geral são interparietais, com o saco herniário situando‑se posteriormente à aponeurose do oblíquo externo. A maioria das hérnias</p><p>de Spiegel é de pequeno tamanho (1 a 2 cm de diâmetro) e se desenvolve durante a quarta até a sétima década de vida. Os pacientes em geral apresentam‑se com dor</p><p>localizada na região, sem uma protuberância, porque a hérnia se localiza abaixo da aponeurose do oblíquo externo. O ultrassom ou a TC do abdome podem ser úteis</p><p>para estabelecer o diagnóstico.</p><p>Uma hérnia de Spiegel é reparada em função do risco de encarceramento associado a seu colo relativamente estreito. O local da hérnia é marcado antes da operação.</p><p>Uma incisão transversa é feita sobre o defeito e orientada através da aponeurose do oblíquo externo. O saco herniário é aberto e dissecado até o colo da hérnia e, então,</p><p>excisado ou invertido. O defeito é fechado transversalmente por sutura simples dos músculos transverso do abdome e oblíquo interno, seguida pela síntese da</p><p>aponeurose do oblíquo externo. Os grandes defeitos são reparados usando‑se uma tela como prótese. A recidiva é rara.</p><p>Hérnia do Obturador</p><p>O canal do obturador é formado pela união dos ossos púbis e ísquio. Esse canal é atapetado por uma membrana trespassada na borda medial e superior pelo nervo</p><p>obturador e vasos. O enfraquecimento da membrana do obturador pode resultar no alargamento do canal e formação de um saco herniário, que pode levar ao</p><p>encarceramento intestinal e estrangulamento. O paciente pode apresentar evidência de compressão do nervo obturador, que causa dor na face anteromedial da coxa</p><p>(sinal de Howship‑Romberg), que é aliviada pela flexão da coxa. Quase 50% dos pacientes com hérnia do obturador evoluem com obstrução intestinal parcial ou</p><p>completa. Se necessário, uma tomografia computadorizada do abdome pode estabelecer o diagnóstico.</p><p>A abordagem posterior por cirurgia, aberta ou laparoscópica, é preferida. Essa abordagem permite o acesso direto à hérnia. Após a redução do conteúdo do saco</p><p>herniário, qualquer gordura pré‑peritoneal no interior do canal obturador deve ser reduzida. Se necessário, o forame obturador é aberto para identificação dos nervos</p><p>e vasos. O nervo obturador deve ser manipulado delicadamente com reparo rombo para facilitar a redução de blocos de gordura. O forame obturador é reparado com</p><p>tela como prótese, tomando‑se cuidado para evitar lesão do nervo obturador e vasos. Pacientes com comprometimento intestinal geralmente necessitam de</p><p>laparotomia.</p><p>Hérnia Lombar</p><p>As hérnias lombares podem ser congênita ou adquirida após uma operação no flanco e ocorrem na região lombar da parede abdominal posterior. Hérnias através do</p><p>triângulo lombar superior (triângulo de Grynfelꬻ) são as mais comuns. O triângulo lombar superior é limitado pela 12a costela, músculos paraespinais e músculo</p><p>oblíquo interno. Menos comuns são as hérnias através do triângulo lombar inferior (triângulo de Petit), que é limitado pela crista ilíaca, músculo grande dorsal e</p><p>músculo oblíquo externo. A fraqueza da fáscia lombodorsal através de quaisquer dessas áreas resulta em protrusão progressiva de gordura extraperitoneal e um saco</p><p>herniário. As hérnias lombares não são propensas ao encarceramento. Pequenas hérnias lombares são frequentemente assintomáticas. Hérnias maiores podem estar</p><p>associadas à dor lombar. A TC é útil para o diagnóstico.</p><p>Reparos abertos e laparoscópicos são úteis. O reparo satisfatório com sutura é difícil em função das margens ósseas fixas desses defeitos. O reparo é melhor</p><p>executado mediante colocação de tela como prótese, que é suturada além das margens da hérnia. Em geral, existe fáscia suficiente sobre o osso para ancorar a tela.</p><p>Hérnia Interparietal</p><p>As hérnias interparietais são raras e ocorrem quando o saco herniário se localiza entre os músculos da parede abdominal. Essas hérnias ocorrem mais frequentemente</p><p>após incisões prévias. As hérnias de Spiegel são quase sempre interparietais.</p><p>O diagnóstico pré‑operatório correto da hérnia interparietal pode ser difícil. Muitos pacientes com hérnias interparietais complicadas apresentam‑se com obstrução</p><p>intestinal. A TC abdominal pode ajudar no diagnóstico. Volumosas hérnias interparietais em geral exigem a colocação de uma tela como prótese para sua correção.</p><p>Quando isso não pode ser realizado, a técnica de separação dos componentes musculares pode ser útil para proporcionar tecidos naturais para obliterar o defeito.</p><p>Hérnia Isquiática</p><p>O forame isquiático maior pode ser um local de formação de hérnia. Essas hérnias são incomuns e difíceis de diagnosticar e, com frequência, são assintomáticas até</p><p>ocorrer obstrução intestinal. Na ausência de obstrução intestinal, o sintoma mais comum é a presença de uma sensação desconfortável na região glútea ou intraglútea</p><p>ou mesmo a presença de fístulas. Pode ocorrer dor do nervo ciático, mas a hérnia isquiática é uma causa rara de neuralgia ciática.</p><p>Uma abordagem transperitoneal é preferida caso se suspeite de obstrução intestinal ou estrangulamento.</p><p>Os conteúdos da hérnia em geral podem ser reduzidos</p><p>com tração delicada. O reparo com tela como prótese é geralmente o preferido. Grampos podem ser usados se o diagnóstico é correto, mas a maioria dos cirurgiões</p><p>não está familiarizado com essa abordagem. Com o paciente em posição prona, uma incisão é feita na borda posterior do trocanter maior através da massa da hérnia.</p><p>O músculo glúteo maior é aberto, e o saco herniário visualizado. As bordas musculares do defeito são reaproximadas com suturas interrompidas, ou o defeito é</p><p>obliterado com tela.</p><p>Hérnia Perineal</p><p>As hérnias perineais são causadas por defeitos congênitos ou adquiridos e são pouco frequentes. Essas hérnias também podem ocorrer após ressecção</p><p>abdominoperineal ou prostatectomia perineal. O saco herniário faz protrusão através do diafragma pélvico. Hérnias perineais primárias são raras, como ocorre em</p><p>idosos e mulheres multíparas, e podem ser volumosas. Os sintomas em geral relacionam‑se com a protrusão de uma tumoração pelo defeito, que se exacerba ao sentar</p><p>ou ficar de pé. Uma protuberância é frequentemente detectada no exame retovaginal bimanual.</p><p>As hérnias perineais são geralmente tratadas por uma abordagem transabdominal ou abordagens transabdominal e perineal combinadas. Após a redução do</p><p>conteúdo do saco herniário, pequenos defeitos podem ser fechados com sutura inabsorvível, enquanto os defeitos maiores são reparados com próteses.</p><p>Perda de Domínio das Hérnias</p><p>Perda do domínio implica uma hérnia volumosa, na qual o conteúdo herniário tenha residido por muito tempo fora da cavidade abdominal e que não pode</p><p>simplesmente ser reintroduzido na cavidade peritoneal. Normalmente, classificamos de perda de domínio das hérnias em pacientes com e sem contaminação pré‑</p><p>operatória. Cada grupo é então subdividido em dois grupos. Pacientes com pequenos defeitos e um saco herniário volumoso (p. ex., hérnias inguinoescrotais</p><p>volumosas) que necessitam de restauração do domínio da cavidade peritoneal, enquanto pacientes com um grande defeito e um saco herniário volumoso (abdome</p><p>aberto com enxerto de pele) necessitam de restauração do domínio peritoneal e reconstrução complexa da parede abdominal.</p><p>Antes da correção desses defeitos complexos, o paciente deve realizar avaliação pré‑operatória cuidadosa. Um entendimento claro da morbidade e mortalidade</p><p>associadas a esses procedimentos reconstrutivos é fundamental. Redução de peso, suspensão do tabagismo, reeducação alimentar e controle de glicose são todos</p><p>aspectos importantes da reconstrução do complexo da parede abdominal. Originalmente, os métodos para alongar gradualmente a parede abdominal eram usados</p><p>para permitir restauração do domínio abdominal e fechamento. Isso era feito por insuflação de ar na cavidade abdominal para criar um pneumoperitônio progressivo.</p><p>As administrações repetidas de maiores volumes de ar em uma a três semanas permitiam que os músculos da parede abdominal se tornassem relaxados o suficiente</p><p>para o fechamento primário do defeito. Esta técnica é particularmente adequada para pequenos defeitos e sacos herniários volumosos.65 Para grandes defeitos, alguns</p><p>autores também descreveram uma abordagem em estágios utilizando a tela dupla em PTFEe para pacientes com perda de domínio abdominal e retração lateral da</p><p>musculatura da parede abdominal. O estágio inicial envolve a redução da hérnia e colocação de uma grande tela de malha dupla de PTFEe presa às bordas fasciais</p><p>com uma sutura contínua. Os estágios subsequentes envolvem ressecções elípticas seriadas da tela até a fáscia poder ser aproximada na linha média sem tensão.</p><p>Finalmente, a tela é completamente ressecada e a fáscia é reaproximada com separação dos componentes da parede abdominal e, se necessário, coloca‑se um enxerto</p><p>biológico.66 Essa abordagem é tecnicamente exequível, mas necessita de múltiplas operações e tempos de internamento mais longos e está associada a uma taxa de</p><p>morbidade consideravelmente mais elevada.</p><p>Reparo de Hérnia Paraostomal</p><p>Hérnia paraostomal é uma complicação comum das ostomias. Na verdade, a criação de um estoma pela definição literal é uma hérnia da parede abdominal. A</p><p>incidência de hérnia paraostomal é maior para colostomias e ocorre em até 50% de ostomias. Felizmente, a maioria dos pacientes permanece assintomática e</p><p>complicações potencialmente fatais, como obstrução intestinal e estrangulamento, são raras. Ao contrário do reparo da hérnia incisional mediana, o reparo rotineiro da</p><p>hérnia paraostomal não é recomendado. Reparo cirúrgico deve ser reservado para pacientes que apresentam sintomas de obstrução intestinal, disfunção da bolsa de</p><p>ostomia e/ou problemas cosméticos.</p><p>Três abordagens gerais estão defendidas para o reparo de hérnia paraostomal. Essas técnicas incluem o reparo primário da fáscia, recolocação da ostomia e reparo</p><p>com prótese. O reparo primário da fáscia envolve a redução da hérnia e reaproximação primária da fáscia através de uma incisão periostomal. Esta técnica tem</p><p>apresentado altas taxas de recidivas. A vantagem dessa abordagem é que o abdome geralmente não é acessado, tornando a operação menos complexa. Por causa da</p><p>alta taxa de recorrência com essa técnica, ela deve ser reservada para pacientes que não tolerariam uma laparotomia. A realocação da ostomia melhora os resultados;</p><p>entretanto, requer uma laparotomia e predispõe a nova hérnia paraostomal no futuro. Para reduzir a taxa de recorrência, alguns cirurgiões reforçam o reparo com tela</p><p>biológica ou sintética com forma de “buraco da fechadura” em torno dos novos estomas. Os resultados iniciais são promissores, mas ainda não foram publicados</p><p>resultados a longo prazo.67 Reparos com próteses em hérnia paraostomal podem fornecer excelentes resultados a longo prazo com uma menor taxa de recidiva da</p><p>hérnia, mas a maior incidência de complicações consequentes das próteses deve ser considerada.</p><p>Independentemente da técnica, um corpo estranho permanente colocado em aposição ao intestino pode resultar em erosão, obstrução e complicações catastróficas.</p><p>Foram descritas várias abordagens para colocação de telas. A tela pode ser colocada como um retalho de enxerto, nas regiões intra‑abdominal ou na posição</p><p>retrorretal. Quando se coloca uma tela intraperitoneal, um orifício é confeccionado em torno do estoma ou a mesma é colocada como uma lâmina plana, lateral ao</p><p>estoma que sai do abdome, como descrito por Sugarbaker.68 Vários autores descreveram abordagens laparoscópicas para reparo de hérnia paraostomal, incluindo</p><p>buraco de fechadura e reparos tipo Sugarbaker69,70 (Fig. 44‑14). Uma reparação retromuscular que tira vantagem de muitas das técnicas reconstrutivas avançadas,</p><p>descritas neste capítulo, foi reportada recentemente. Nessa abordagem, é realizada uma laparotomia e o estoma é desmontado e eventualmente recolocado no lado</p><p>contralateral do abdome. Uma separação de componentes posterior é então realizada; uma grande tela é colocada no espaço retromuscular, para cobrir o antigo local</p><p>do estoma e toda a incisão da linha média, e é usada para reforçar profilaticamente o novo local do estoma. O estoma é eventualmente colocado através de uma incisão</p><p>em fechadura na tela e é maturado.71 Todas essas séries são relativamente pequenas, com menos de 100 pacientes, e reportaram apenas um seguimento a curto e médio</p><p>prazo, limitando a nossa capacidade de realizar recomendações claras para este difícil problema.</p><p>FIGURA 4414 Abordagens cirúrgicas para reparo de hérnia paraostomal.</p><p>Complicações</p><p>Infecção das Telas</p><p>As infecções das telas são complicações sérias que podem ser de tratamento muito difícil. Se houver infecção do PTFEe, há que se fazer sua remoção com a resultante</p><p>morbidade de outro defeito que, em geral, precisa ser fechado sob tensão, o que leva a inevitável recidiva. No reparo</p><p>convencional da hérnia ventral, as infecções</p><p>incisionais e das telas não são infrequentes. Usando a técnica laparoscópica, pode‑se colocar um grande segmento de tela sem prejudicar o tecido subcutâneo evitando‑</p><p>se, assim, as complicações da ferida. Em uma série de quase 1.000 pacientes que tiveram reparo laparoscópico de hérnia ventral, as infecções da tela ocorreram em</p><p>menos de 1% dos casos.72 Talvez a maior vantagem da abordagem laparoscópica para reparo de hérnias ventrais seja essa redução das complicações infecciosas. Dois</p><p>ensaios controlados randomizados compararam reparo laparoscópico e o tratamento convencional nas hérnias ventrais.73,74</p><p>Seromas</p><p>A formação de seroma pode ocorrer após reparo laparoscópico e/ou cirurgia convencional nas hérnias ventrais. Na cirurgia convencional, os drenos em geral são</p><p>colocados na tentativa de aspirar as coleções localizadas no espaço morto causado pela generosa dissecção tecidual. Esses drenos podem causar contaminação da tela,</p><p>e os seromas podem formar‑se após a retirada do dreno. Com o reparo laparoscópico, o saco herniário não é ressecado e resultará uma cavidade de seroma. A maioria</p><p>desses seromas desaparecerá à medida que a tela se incorpora ao saco herniário. A informação pré‑ ‑operatória ao paciente detalhando a possibilidade da formação de</p><p>um seroma temporário é imperativa antes do reparo laparoscópico da hérnia ventral. Reservamos aspiração para seromas sintomáticos ou persistentes após seis a oito</p><p>semanas.</p><p>Enterotomia</p><p>A lesão intestinal durante a lise de aderências pode ser catastrófica. O tratamento de uma enterotomia durante o reparo da hérnia é controvertido e depende do</p><p>segmento do intestino lesado (delgado versus intestino grosso) e volume de conteúdo intestinal extravasado. As opções incluem abortar o reparo da hérnia, usando um</p><p>reparo de tecido primário ou tecido biológico, ou realizando um reparo retardado com tela após três ou quatro dias. Quando há contaminação grosseira, o uso de</p><p>prótese tipo tela está contraindicado.</p><p>CAP Í T U LO 4 5</p><p>Abdome Agudo</p><p>Ronald Squires</p><p>Steven N. Carter</p><p>Russell G. Postier</p><p>SUMÁRIO</p><p>Anatomia e Fisiologia</p><p>História</p><p>Exame Físico</p><p>Exames Laboratoriais</p><p>Estudos por Imagem</p><p>Monitoração da Pressão Intraabdominal</p><p>Laparoscopia Diagnóstica</p><p>Diagnóstico Diferencial</p><p>Preparação para Cirurgia de Emergência</p><p>Pacientes Atípicos</p><p>Algoritmos de Abdome Agudo</p><p>Resumo</p><p>A expressão abdome agudo refere‑se habitualmente ao sinal e sintoma de dor e hipersensibilidade na região abdominal, uma</p><p>manifestação clínica que, em geral, requer tratamento cirúrgico de emergência. Esse cenário clínico desafiador requer uma</p><p>avaliação completa e rápida para determinar se há necessidade de intervenção cirúrgica e condução adequada do caso.</p><p>Muitas doenças, algumas das quais não são cirúrgicas ou nem mesmo abdominais,1 podem produzir dor abdominal aguda.</p><p>Portanto, todo esforço deve ser feito para se ter o diagnóstico correto a fim de que o tratamento escolhido, em geral por</p><p>laparoscopia ou laparotomia, seja apropriado. Apesar das melhoras nos estudos laboratoriais e imaginológicos, o exame</p><p>físico e a história clínica continuam sendo os pilares na determinação do diagnóstico correto e do início da terapia adequada</p><p>e em tempo hábil.</p><p>O diagnóstico de abdome agudo varia conforme a idade e o sexo.2 A apendicite é mais comum em jovens, enquanto a</p><p>doença biliar, a obstrução intestinal, a isquemia e o infarto intestinal e a diverticulite são mais comuns em pacientes idosos.</p><p>A maioria das doenças cirúrgicas associadas a abdome agudo está relacionada com infecção, isquemia, obstrução ou</p><p>perfuração de uma víscera.</p><p>Causas não cirúrgicas de abdome agudo podem ser divididas em três categorias: endócrinas e metabólicas, hematológicas</p><p>e por toxinas ou drogas (Quadro 45‑1).3 Causas endócrinas e metabólicas incluem uremia, síndromes hiperglicêmicas, crises</p><p>addisonianas, porfiria intermitente aguda, hiperlipoproteinemia aguda e febre hereditária do Mediterrâneo. Os distúrbios</p><p>hematológicos são crises falcêmicas, leucemia aguda e outras discrasias sanguíneas. Condições ligadas a toxinas e</p><p>substâncias que provocam abdome agudo incluem envenenamento por chumbo e outros metais pesados, abstinência de</p><p>narcóticos e envenenamento por picada da aranha viúva‑negra. É importante considerar essas possibilidades ao avaliar um</p><p>paciente com dor abdominal aguda (Quadro 45‑1).</p><p>Quadr o 4 5 1 Causas não C i rú rg i ca s do Abdome Agudo</p><p>Causas Endócrinas e Metabólicas</p><p>Uremia</p><p>Crise diabética</p><p>Crise addisoniana</p><p>Porfiria aguda intermitente</p><p>Febre hereditária do Mediterrâneo</p><p>Causas Hematológicas</p><p>Crise falciforme</p><p>Leucemia aguda</p><p>Outras discrasias sanguíneas</p><p>Toxinas e Drogas</p><p>Envenenamento por chumbo</p><p>Intoxicações por outros metais pesados</p><p>Crises de abstinência</p><p>Envenenamento por aranha viúva‑negra</p><p>Dada a natureza potencialmente cirúrgica do abdome agudo uma consulta se faz necessária sem demora. (Quadro 45‑</p><p>2). A avaliação é realizada na ordem habitual, do histórico do paciente, seguindo‑se o exame físico, os exames laboratoriais</p><p>e os estudos por imagem. Embora os estudos por imagem tenham aumentado a precisão do diagnóstico, a principal parte</p><p>da avaliação continua sendo a anamnese completa e o exame físico cuidadoso. Os estudos laboratoriais e por imagem, ainda</p><p>que geralmente necessários, são orientados pelos achados da história e do exame físico.</p><p>Quadr o 4 5 2 Cond i ções Abdomina i s Agudas C i rú rg i ca s</p><p>Hemorragia</p><p>Trauma de órgãos sólidos</p><p>Fístula ou ruptura de aneurisma arterial</p><p>Gravidez ectópica rota</p><p>Divertículo gastrointestinal com sangramento</p><p>Malformação arteriovenosa do trato gastrointestinal</p><p>Ulceração intestinal</p><p>Fístula aortoduodenal após o enxerto vascular aórtico</p><p>Pancreatite hemorrágica</p><p>Síndrome de Mallory‑Weiss</p><p>Ruptura espontânea do baço</p><p>Infecção</p><p>Apendicite</p><p>Colecistite</p><p>Divertículo de Meckel</p><p>Abscesso hepático</p><p>Abscesso diverticular</p><p>Abscesso do psoas</p><p>Perfuração</p><p>Úlcera gastrointestinal perfurada</p><p>Câncer gastrointestinal perfurado</p><p>Síndrome de Boerhaave</p><p>Divertículo perfurado</p><p>Obstrução</p><p>Obstrução do intestino delgado/grosso relacionado com a aderência</p><p>Volvo do sigmoide</p><p>Volvo cecal</p><p>Hérnias encarceradas</p><p>Doença intestinal inflamatória</p><p>Neoplasia maligna gastrointestinal</p><p>Intussuscepção</p><p>Isquemia</p><p>Doença de Buerger</p><p>Trombose/embolia mesentérica</p><p>Torção ovariana</p><p>Colite isquêmica</p><p>Torção testicular</p><p>Hérnias estranguladas</p><p>Anatomia e fisiologia</p><p>A dor abdominal pode ser dividida em seus componentes visceral e parietal. A dor visceral costuma ser vaga e mal</p><p>localizada no epigástrio, região periumbilical ou hipogástrio, de acordo com a sua origem nos segmentos anterior, médio e</p><p>posterior do intestino primitivo (Fig. 45‑1). Em geral, é consequência de distensão de uma víscera oca. A parietal está</p><p>relacionada com a irritação das raízes dos nervos segmentares que inervam o peritônio e tende a ser mais aguda e mais bem</p><p>localizada. A dor referida é percebida em um local distante da fonte do estímulo. Por exemplo, a irritação do diafragma</p><p>pode produzir dor no ombro. O Quadro 45‑3 relaciona locais comuns de dor referida e suas respectivas fontes. Estabelecer</p><p>se a dor é visceral, parietal ou referida é importante e, em geral, isto pode ser feito mediante uma história clínica cuidadosa.</p><p>FIGURA 451 Inervação sensorial das vísceras. (De White JC, Sweet WH: Pain and the neurosurgeon, Springfield, Ill,</p><p>1969, Charles C Thomas, p 526.)</p><p>Quadr o 4 5 3 Loca l i za ções e Causas de Dor Re fe r ida</p><p>Ombro Direito</p><p>Fígado</p><p>Vesícula biliar</p><p>Hemidiafragma direito</p><p>Ombro Esquerdo</p><p>Cardíaca</p><p>Cauda do pâncreas</p><p>Baço</p><p>Hemidiafragma esquerdo</p><p>Escroto e Testículos</p><p>Ureter</p><p>A presença de bactérias ou componentes que provoquem irritação química na cavidade peritoneal causam</p><p>extravasamento de líquido na cavidade peritoneal. O peritônio responde à inflamação com aumento do fluxo sanguíneo,</p><p>maior permeabilidade e formação de exsudato</p><p>fibrinoso em sua superfície. O intestino também é acometido por paralisia</p><p>local ou generalizada. A superfície fibrinosa e a redução da motilidade intestinal provocam aderências entre os intestinos e</p><p>o omento ou a parede abdominal e ajudam a bloquear o processo inflamatório. Como resultado, um abscesso pode</p><p>provocar dor aguda localizada com ruídos hidroaéreos e função gastrointestinal preservados, enquanto um processo difuso,</p><p>como uma úlcera duodenal perfurada, provoca dor abdominal generalizada com diminuição da motilidade intestinal. A</p><p>peritonite pode acometer toda a cavidade abdominal ou somente partes do peritônio visceral ou parietal.</p><p>A peritonite é uma inflamação peritoneal com várias causas. Em geral, é reconhecida no exame físico por sensibilidade</p><p>intensa à palpação do abdome, com ou sem descompressão brusca positiva, e retração abdominal à compressão. A</p><p>peritonite é geralmente secundária a uma inflamação, mais frequentemente uma infecção por um germe Gram‑negativo</p><p>entérico ou um anaeróbio. Pode resultar também de inflamação não infecciosa, sendo um exemplo comum a pancreatite. A</p><p>peritonite primária ocorre mais comumente em crianças e é mais frequentemente causada por pneumococos e estreptococos</p><p>hemolíticos.4 Adultos com doença renal terminal em diálise peritoneal podemdesenvolver peritonite, sendo os organismos</p><p>mais comuns nestes casos os cocos Gram‑positivos. Adultos com cirrose e ascite podem desenvolver peritonite primária e,</p><p>nesses casos, os organismos são geralmente Escherichia coli e Klebsiella spp.</p><p>História</p><p>Uma história clínica detalhada e organizada é essencial para a formulação de um diagnóstico diferencial preciso e o</p><p>esquema de tratamento subsequente. Os modernos avanços nos exames de imagem nunca devem substituir a anamnese e o</p><p>exame físico feitos por um médico competente. A anamnese deve focar não somente na investigação da dor, mas também</p><p>nos problemas prévios e sintomas associados. As perguntas devem ser objetivas sempre que possível e estruturadas para</p><p>revelar o início, o tipo, a localização, a duração, a irradiação e a cronologia da dor. O examinador pode ficar tentado a fazer</p><p>questões com respostas do tipo sim ou não. Questões assim podem facilitar a anamnese, não permitindo que o paciente se</p><p>perca em narrativas improdutivas, mas podem‑se perder detalhes importantes e influenciar a resposta do paciente. Uma</p><p>prática mais adequada seria indagar como é a dor e/ou o que a melhora ou piora. Com frequência, podem‑se obter</p><p>informações observando‑se como o paciente descreve o sintoma. Dor identificada com a ponta do dedo geralmente é mais</p><p>localizada e típica de inervação parietal ou inflamação peritoneal, em comparação com a indicação da área de desconforto</p><p>com a palma da mão, que é mais típica de desconforto visceral ou doença acometendo um órgão sólido.</p><p>A intensidade e a gravidade da dor relacionam‑se com a lesão do tecido subjacente. O início súbito de dor lancinante</p><p>sugere perfuração intestinal e embolização arterial com isquemia, embora outras condições como cólica biliar possam</p><p>manifestar‑se subitamente também. A dor que se desenvolve e se exacerba ao longo de várias horas é típica de inflamação</p><p>progressiva ou infecção, como colecistite, colite ou obstrução intestinal. O relato de piora progressiva versus episódios</p><p>intermitentes de dor pode ajudar a diferenciar processos infecciosos que evoluem com o tempo, em comparação com a dor</p><p>espasmódica em cólica associada a obstrução intestinal, cólica biliar e obstrução do ducto cístico, ou obstrução do trato</p><p>geniturinário (Figs. 45‑2 a 45‑4).</p><p>FIGURA 452 Caráter da dor: dor gradual, progressiva.</p><p>FIGURA 453 Caráter da dor: dor em cólica, espasmódica, intermitente.</p><p>FIGURA 454 Caráter da dor: dor súbita grave.</p><p>Igualmente importante é a localização e a irradiação da dor. A lesão ou a inflamação do tecido podem deflagrar tanto dor</p><p>somática quanto visceral. A dor de víscera abdominal sólida é localizada quadrante correspondente ao órgão envolvido,</p><p>como, por exemplo, a dor no fígado encontrada no quadrante superior direito do abdome. A dor nas afecções do intestino</p><p>delgado é referida como dor periumbilical e pouco localizada, enquanto a dor nas afecções do cólon em geral está</p><p>localizada entre o umbigo e a sínfise pubiana. Conforme a inflamação se expande para a superfície peritoneal, as fibras de</p><p>nervos parietais provenientes da coluna provocam sensação focal e intensa. Essa combinação de inervação é responsável</p><p>pela dor periumbilical difusa clássica da apendicite aguda em sua fase inicial, que depois se transforma em dor intensa</p><p>localizada na porção direita do abdome inferior, no ponto de McBurney. Se o médico se ativer somente ao tipo da dor no</p><p>momento do exame e não investigar o seu início e evolução, não perceberá esses fortes indícios na história (Figs. 45‑5 e 45‑</p><p>6). A dor também pode se irradiar além do local onde se localiza a doença. O fígado partilha parte de sua inervação com o</p><p>diafragma e pode criar dor referida no ombro direito mediada pelas raízes nervosas de C3‑C5. A dor geniturinária</p><p>comumente tem um padrão de irradiação. Os sintomas são primariamente na região do flanco, originando‑se dos nervos</p><p>esplâncnicos de T11‑L1, mas a dor, em geral, irradia‑se para a bolsa escrotal e/ou os grandes lábios via plexo hipogástrico de</p><p>S2‑S4.</p><p>FIGURA 455 Dor referida. Os círculos inteiros são os locais primários ou de maior intensidade de dor.</p><p>FIGURA 456 Dor referida. Os círculos inteiros são os locais primários ou de maior intensidade de dor.</p><p>As atividades que exacerbam e/ou aliviam a dor também são importantes. A ingesta de alimentos em geral exacerba a dor</p><p>da obstrução intestinal, da cólica biliar, da pancreatite, da diverticulite ou da perfuração intestinal. O alimento pode aliviar</p><p>a dor da úlcera péptica não perfurada ou da gastrite. Os médicos, muitas vezes, reconhecerão uma peritonite ao considerar</p><p>a história. Os pacientes com irritação peritoneal evitam qualquer atividade que mobilize o abdome. Eles descrevem</p><p>exacerbação da dor com qualquer movimento do corpo e informam melhora quando flexionam os joelhos. O deslocamento</p><p>de carro até o hospital pode ser angustiante, com o paciente queixando‑se de qualquer solavanco no trajeto.</p><p>Sintomas associados podem fornecer informações importantes para o diagnóstico. Náuseas, vômito, constipação, diarreia,</p><p>prurido, melena, hematoquezia ou hematúria são sintomas úteis se presentes e reconhecidos. Vômitos podem ocorrer na</p><p>vigência de dor abdominal grave de qualquer causa ou como resultado de obstrução intestinal mecânica ou íleo. É mais</p><p>provável que o vômito preceda o início da dor abdominal significativa em muitas condições clínicas, enquanto a dor de um</p><p>abdome agudo cirúrgico manifesta‑se primeiro e estimula o vômito pelas fibras medulares eferentes que excitam as fibras</p><p>aferentes responsáveis pela dor visceral. A constipação ou obstipação podem resultar tanto de obstrução mecânica quanto</p><p>de redução do peristaltismo. Pode representar o principal problema e exigir laxativos e agentes procinéticos, ou</p><p>simplesmente ser sintoma de uma condição subjacente. Uma história cuidadosa deve verificar se o paciente continua a</p><p>eliminar gases ou fezes pelo reto. Uma obstrução completa estará mais provavelmente associada a isquemia ou perfuração</p><p>intestinal subsequentes à distensão intensa de uma alça de intestino delgado. A diarreia está associada a várias causas</p><p>clínicas de abdome agudo, inclusive enterite infecciosa, doença intestinal inflamatória e contaminação parasitária. A</p><p>diarreia com sangue pode ser observada nessas condições, da mesma forma que na isquemia colônica.</p><p>A história clínica pregressa pode potencialmente ser mais útil do que qualquer outra avaliação isolada. O reconhecimento</p><p>de condições preexistentes</p><p>pode aumentar ou reduzir bastante a probabilidade de determinadas doenças que de outro</p><p>modo não seriam consideradas. Os pacientes podem, por exemplo, relatar que a dor atual ésemelhante à de um cálculo</p><p>renal que vivenciaram anteriormente há uma década. Por sua vez, uma história anterior de apendicectomia, doença</p><p>inflamatória pélvica ou colecistectomia pode contribuir significativamente para o diagnóstico diferencial. Durante o exame,</p><p>todas as cicatrizes no abdome precisam ser relacionadas com a história clínica coletada.</p><p>O uso prévio de medicamentos e a história ginecológica de pacientes do sexo feminino também são importantes. Os</p><p>medicamentos podem tanto provocar quadros abdominais agudos como mascarar seus sintomas. Embora uma discussão</p><p>ampla sobre impacto de todas as classes de fármacos esteja fora do escopo deste capítulo, várias classes de medicamentos</p><p>merecem menção. O uso de opiáceos pode interferir na motilidade intestinal e provocar obstipação e obstrução. Os opiáceos</p><p>também podem contribuir para espasmo do esfíncter de Oddi e exacerbar a dor de origem biliar ou pancreática. Também</p><p>podem��suprimir a sensação de dor e ainda alterar o estado mental do paciente e, consequentemente, prejudicar a realização</p><p>de um diagnóstico preciso. Os anti‑inflamatórios não esteroides associam‑se a maior risco de inflamação e perfuração do</p><p>trato gastrointestinal alto, enquanto os esteroidais bloqueiam a ação protetora do muco gástrico produzido pelas células</p><p>principais e, assim, reduzem a reação inflamatória à infecção, inclusive relacionada com a peritonite. Agentes</p><p>imunossupressores aumentam o risco de infecções oportunistas virais e bacterianas, além de reduzir a resposta inflamatória</p><p>e diminuir a dor presente na resposta fisiológica. O uso de anticoagulantes é mais prevalente em em pacientes mais idosos.</p><p>Essas substâncias podem levar a sangramento gastrointestinal, retroperitoneal ou na mucosa retal. Os anticoagulantes</p><p>também influenciam nopreparo pré‑operatório e ainda podem ser causa de complicações se seu uso pelo paciente passar</p><p>despercebido. Por último, o uso de drogas recreativas tem influência nos pacientes com abdome agudo. O etilismo crônico</p><p>está fortemente associado a coagulopatia e hipertensão porta proveniente de doença hepática. A cocaína e a metanfetamina</p><p>podem provocar uma intensa reação vasoespástica, que pode ter como consequência crise hipertensiva grave e isquemia</p><p>cardíaca ou intestinal.</p><p>A saúde ginecológica, especificamente a história menstrual, é crucial na avaliação da dor abdominal inferior em uma</p><p>mulher jovem. A probabilidade de gravidez ectópica, doença inflamatória pélvica, dor entre as menstruações ou</p><p>endometriose grave pode ser suspeitada pela história ginecológica.</p><p>Muito pouco mudou na técnica ou nos objetivos da coleta da história clínica desde que Zachary Cope publicou pela</p><p>primeira vez seu clássico artigo sobre o diagnóstico da dor abdominal aguda em 1921.5 Uma exceção é a utilização de</p><p>diagnóstico auxiliado por computadores à denominada “arte” da anamnese, que tem sido bastante estudada na Europa.6‑</p><p>10 Os dados foram coletados por médicos em formulários detalhados e padronizados, durante a obtenção da história e do</p><p>exame físico, e registrados em computadores programados com um banco de dados médicos de doenças com seus sinais e</p><p>sintomas associados. O diagnóstico gerado por computador com base nas probabilidades matemáticas foi 20% mais preciso</p><p>quando comparado com os de médicos utilizando seus métodos habituais. Observou‑se melhoras estatiscamente</p><p>significativas na taxa de realização de laparotomia precoce e redução da necessidade de internação, e do tempo de</p><p>hospitalização.6 Entretanto, uma melhora estatisticamente significativa na precisão e na eficiência foi também alcançada</p><p>com formulários padronizados semelhantes usados para a coleta de dados. Tal fato também foi observado nos cenários de</p><p>trauma e terapia intensiva.</p><p>Exame físico</p><p>Um exame físico bem conduzido é fundamental para a definição de diagnóstico e tratamento acurados. Apesar das novas</p><p>tecnologias, incluindo tomografia computadorizada de alta resolução (TC), ultrassonografia e ressonância magnética (RM),</p><p>o exame físico ainda é a parte fundamental da avaliação do paciente e sua importância não deve ser minimizada. Médicos</p><p>experientes são capazes de realizar um diagnóstico preciso na maioria de seus pacientes após a coleta da história e do</p><p>exame físico. Os estudos por imagem e laboratoriais podem, então, ser utilizados para a confirmação adicional das</p><p>hipóteses suspeitas, reordenamento dos diagnósticos diferenciais propostos ou, menos comumente, para sugerir doenças</p><p>incomuns ainda não consideradas.</p><p>O exame físico deve sempre começar com a inspeção geral do paciente, seguida pela inspeção do próprio abdome. Os</p><p>pacientes com irritação peritoneal apresentam piora da dor com qualquer atividade que movimente ou distenda o</p><p>peritônio. Normalmente, esses pacientes ficam imóveis no leito durante a avaliação e, em geral, mantêm os joelhos e os</p><p>quadris flexionados para reduzir a tensão na parede anterior do abdome. Doenças que provocam dor sem irritação</p><p>peritoneal, como isquemia mesentérica e cólica biliar e ureteral, fazem com que os pacientes mudem continuamente de</p><p>posição no leito enquanto tentam achar um posicionamento que reduza seu desconforto (Fig. 45‑7). Outros sinais</p><p>importantes, como palidez, cianose e sudorese, também podem ser observados durante a inspeção geral.</p><p>FIGURA 457 Locais comuns de dor visceral.</p><p>A inspeção abdominal diz respeito ao aspecto do abdome, se ele está distendido ou escavado, ou ainda se abaulamentos</p><p>podem ser observados. O examinador deve estar atento a todas as cicatrizes, que devem ser correlacionadas com a história</p><p>médica e cirúrgica obtida. Podem‑se suspeitar de hérnias de parede abdominal já durante a inspeção. Estas poderão ser</p><p>confirmadas durante a palpação. Eritema ou edema da pele sugerem celulite da parede abdominal, enquanto equimoses</p><p>são, algumas vezes, observadas com infecções necrosantes mais profundas da fáscia ou de estruturas intra‑abdominais</p><p>como o pâncreas.</p><p>A ausculta abdominal pode fornecer informações úteis sobre o trato gastrointestinal e o sistema circulatório. A</p><p>quantidade e a qualidade dos ruídos intestinais devem ser avaliados. O silêncio abdominal sugere íleo, enquanto ruídos</p><p>intestinais hiperativos podem ser encontrados nas enterites e na fase precoce da isquemia intestinal. A intensidade e a</p><p>qualidade dos sons, bem como o padrão dos ruídos peristálticos, devem ser considerados. A obstrução mecânica do</p><p>intestino caracteriza‑se por ruídos metálicos em tom alto, que tendem a ocorrer em salvas e estão associados a dor. Os sons</p><p>intermitentes e tipo eco, em geral, estão presentes quando existe distensão intestinal significativa. Os sopros auscultados no</p><p>abdome refletem fluxo sanguíneo turbulento no sistema circulatório. São encontrados com maior frequência nos quadros</p><p>compatíveis com estenose arterial de alto grau, de 70% a 95%, mas podem também ser na vigência de uma fístula</p><p>arteriovenosa. O médico também pode delicadamente testar a localização e a intensidade da dor durante a ausculta</p><p>variando a posição e a força da pressão aplicada com o estetoscópio. Esses dados podem, então, ser comparados com os</p><p>achados durante a palpação, avaliando se correspondem. Ainda que uns poucos pacientes tentem intencionalmente iludir o</p><p>médico, alguns podem exagerar nas suas queixas de dor a fim de que seu quadro seja mais considerado e valorizado A</p><p>percussão é utilizada para avaliar a presença de distensão gasosa nos intestinos, ar livre intra‑abdominal, grau de ascite e</p><p>presença</p><p>de suas veias satélit. Essas artérias são ramos da artéria femoral superficial, as veias drenam para as</p><p>veias femorais proximais e são direcionadas superiormente. Se encontrados durante a intervenção cirúrgica, esses vasos podem ser afastados ou mesmo seccionados</p><p>quando necessário.</p><p>Músculo Oblíquo Externo e Aponeurose</p><p>O músculo oblíquo externo é o mais superficial dos músculos da parede abdominal lateral; suas fibras são direcionadas inferior e medialmente e estão situadas</p><p>profundamente nos tecidos subcutâneos. A aponeurose do músculo oblíquo externo é formada por uma camada superficial e uma profunda. Essa aponeurose, junto</p><p>com as aponeuroses bilaminares do oblíquo interno e transverso do abdome, forma a bainha anterior do reto e, por fim, a linha alba por intersecção linear. A</p><p>aponeurose oblíqua externa funciona como o limite superficial do canal inguinal. O ligamento inguinal (ligamento de Poupart) é a margem inferior da aponeurose</p><p>oblíqua externa e estende‑se da espinha ilíaca superior anterior ao tubérculo púbico, inclinando‑se posteriormente para formar uma margem em prateleira. O</p><p>ligamento lacunar é a expansão medial em formato de leque do ligamento inguinal, que se insere no púbis e forma a margem (borda) medial do espaço femoral. O anel</p><p>inguinal externo (superficial) é uma abertura ovoide da aponeurose oblíqua externa: que é posicionada superior e levemente lateral ao tubérculo púbico. O cordão</p><p>espermático sai do canal inguinal pelo anel inguinal externo.</p><p>Músculo Oblíquo Interno e Aponeurose</p><p>O músculo oblíquo interno forma a camada média da lateral do complexo muscoloaponeurótico. As fibras do músculo oblíquo interno são direcionadas superior e</p><p>lateralmente no abdome superior; entretanto, elas correm em uma direção ligeiramente inferior na região inguinal. O músculo oblíquo interno funciona como a</p><p>margem (borda) cefálica (ou superior) do canal inguinal. A face medial da aponeurose oblíqua interna se funde com fibras da aponeurose do transverso do abdome</p><p>para formar um tendão conjunto. Essa estrutura na verdade está presente em apenas 5% a 10% dos pacientes e é mais evidente na inserção desses músculos no</p><p>tubérculo púbico. As fibras do músculo cremastérico se originam do oblíquo interno, englobam o cordão espermático e se fundem à túnica vaginal do testículo. Essas</p><p>fibras musculares são essenciais para conservar o reflexo cremastérico, mas têm pouca relevância nos resultados dos reparos de hérnias inguinais.</p><p>Músculo Transverso do Abdome e Aponeurose e Fáscia Transversal</p><p>A camada do músculo transverso do abdome é orientada transversalmente por quase toda sua área; na região inguinal, essas fibras cursam em uma direção para baixo</p><p>levemente oblíqua. A potência e continuidade desse músculo e aponeurose são importantes para a prevenção da hérnia inguinal.</p><p>A aponeurose do músculo transverso do abdome envolve ambas as superfícies anterior e posterior. A borda inferior do transverso do abdome é arqueada com o</p><p>músculo oblíquo interno sobre o anel inguinal interno para formar o arco aponeurótico do músculo transverso do abdome. A fáscia transversal é a camada de tecido</p><p>conjuntivo que está sob a musculatura da parede abdominal. A fáscia transversal, algumas vezes referida como fáscia endoabdominal, é um componente do assoalho</p><p>inguinal. Ela tende a ser mais densa nessa área, mas ainda permanece relativamente fina.</p><p>O trato iliopúbico é uma banda aponeurótica formada pela fáscia transversal e a aponeurose do transverso do abdome e a fáscia. O trato iliopúbico está localizado</p><p>posterior ao ligamento inguinal, cruza sobre os vasos femorais e insere‑se na espinha ilíaca superior anterior e margem interna da asa do ílio.</p><p>O pilar inferior do anel inguinal profundo é composto pelo trato iliopúbico; o pilar superior do anel profundo é formado pelo arco aponeurótico do transverso. A</p><p>borda lateral do anel interno é conectada ao músculo transverso abdominal, que forma um mecanismo de obturador para limitar o desenvolvimento de uma hérnia</p><p>indireta.</p><p>O trato iliopúbico é uma estrutura muito importante no reparo das hérnias tanto pela abordagem anterior quanto posterior. Ele compreende a margem inferior para</p><p>a maioria dos reparos anteriores. A porção do trato iliopúbico lateral ao anel inguinal interno funciona como a margem (borda) inferior abaixo da qual grampos não</p><p>devem ser colocados durante o reparo laparoscópico da hérnia inguinal porque os nervos femoral, cutâneo femoral lateral e genitofemoral estão localizados</p><p>inferiormente ao trato iliopúbico. Embora ele nem sempre possa ser visualizado durante reparos posteriores, se o dispositivo do grampeador não puder ser palpado</p><p>na parede abdominal anterior, deve‑se assumir que ele está abaixo do trato iliopúbico.</p><p>Ligamento Pectíneo (de Cooper)</p><p>O ligamento de Cooper ou pectíneo é formado pelo periósteo e tecidos aponeuróticos ao longo do ramo superior do púbis. Essa estrutura é posterior ao trato</p><p>iliopúbico e forma a borda posterior do canal femoral. Em aproximadamente 75% dos pacientes, existirá um vaso que cruza a margem lateral do ligamento de Cooper</p><p>que é um ramo da artéria obturadora. Se este vaso é lesado, pode ocorrer sangramento perturbador. O ligamento de Cooper é um marco importante para reparos</p><p>laparoscópicos, e/ou cirurgia aberta e é uma estrutura de ancoragem útil, particularmente nos reparos laparoscópicos.</p><p>Canal Inguinal</p><p>O canal inguinal tem 4 cm de comprimento e está localizado logo acima do ligamento inguinal. O canal estende‑se entre os anéis inguinal interno (profundo) e externo</p><p>(superficial). O canal inguinal contém o cordão espermático em homens e o ligamento redondo uterino nas mulheres.</p><p>O cordão espermático é composto de fibras do músculo cremastérico, artéria e veias testiculares, além do ramo genital do nervo genitofemoral, ducto deferente,</p><p>vasos cremastéricos, linfáticos e túnica vaginal. Essas estruturas passam pelo anel inguinal interno, e vasos e ducto deferente saem do anel inguinal externo. O músculo</p><p>cremaster origina‑se das fibras mais inferiores do músculo oblíquo interno e engloba o cordão espermático no canal inguinal. Os vasos cremastéricos são ramos dos</p><p>vasos epigástricos inferiores e penetram na parede posterior do canal inguinal por seu próprio forame. Esses vasos suprem o músculo cremaster e podem ser</p><p>seccionados para expor o assoalho do canal inguinal durante reparo de hérnia sem lesar os testículos.</p><p>O canal inguinal é limitado superficialmente pela aponeurose oblíqua externa. As aponeuroses do músculo oblíquo interno e do transverso do abdome formam a</p><p>parede cefálica do canal inguinal. A parede inferior do canal inguinal é formada pelo ligamento inguinal e pelo ligamento lacunar. A parede posterior ou assoalho do</p><p>canal inguinal é formada pela fáscia transversal e pela aponeurose do músculo transverso do abdome.</p><p>O triângulo de Hesselbach faz parte do assoalho do canal inguinal. Os vasos epigástricos inferiores funcionam como sua borda superolateral, a bainha do reto como</p><p>margem medial e o ligamento inguinal como a margem inferior. Hérnias diretas ocorrem no triângulo de Hesselbach, enquanto hérnias inguinais indiretas originam‑</p><p>se lateralmente ao triângulo. Não é raro, entretanto, que hérnias inguinais indiretas médias e volumosas, à medida que aumentam em tamanho, envolvam o assoalho</p><p>do canal inguinal.</p><p>Os nervos ílio‑hipogástrico e ilioinguinal e o ramo genital do nervo genitofemoral são os nervos importantes na região inguinal (Fig. 44‑4). Os nervos ílio‑</p><p>hipogástrico e ilioinguinal proporcionam sensibilidade à pele da região inguinal, base do pênis e coxa superior e medial ipsilateral. Os nervos ílio‑hipogástrico e</p><p>ilioinguinal situam‑se abaixo do músculo oblíquo interno a um ponto exatamente medial e superior à espinha ilíaca superior anterior, onde penetram o músculo</p><p>oblíquo interno</p><p>de irritação peritoneal. Hiper‑ressonância, comumente denominada timpanismo à percussão, é característica de</p><p>alças do intestino subjacentes repletas de gás. No quadro de obstrução intestinal ou íleo, esse timpanismo é ouvido em</p><p>todos os quadrantes, exceto no superior direito, onde o fígado se localiza imediatamente sob a parede abdominal. Se for</p><p>identificada macicez localizada à percussão em qualquer área que não o quadrante superior direito, considera‑se que possa</p><p>haver uma massa abdominal deslocando o intestino. Quando a macicez do fígado não é detectada e a ressonância é</p><p>uniforme, sugere a presença de ar livre na cavidade abdominal. Este ar coleta‑se sob a parede abdominal anterior quando o</p><p>paciente está na posição supina. A presença de ascite é notada procurando a sensação de flutuação na cavidade abdominal.</p><p>Uma onda líquida ou vibração podem ser geradas pela compressão firme e rápida na porção lateral do abdome. A onda</p><p>resultante desloca‑se pela cavidade abdominal. O movimento do tecido adiposo no abdome do obeso pode ser confundido</p><p>com uma onda de líquido. Exames falso‑positivos podem ser evitados pressionando‑se a superfície medial da palma da</p><p>mão no tecido frouxo da linha média da parede abdominal para minimizar qualquer movimento do tecido gorduroso</p><p>enquanto se produz a onda com a mão oposta.</p><p>A peritonite também pode ser avaliada pela percussão. Os tratados tradicionais descrevem a técnica de compressão</p><p>profunda da parede abdominal seguida por descompressão abrupta. Esta prática causa sofrimento excruciante e</p><p>desnecessário ao paciente no quadro de irritação peritoneal e produz desconforto, mesmo na ausência de inflamação. Os</p><p>métodos mais sensíveis podem e deveriam ser mais utilizados. A tapotagem firme da crista ilíaca, do flanco ou do calcanhar</p><p>com uma perna estendida mobiliza a víscera abdominal e produz dor característica na presença de peritonite.</p><p>A principal etapa do exame do abdome é a palpação. A palpação fornece mais informações úteis ao diagnóstico do que</p><p>qualquer outro exame abdominal. Além de revelar a gravidade e a localização exata da dor, a palpação pode confirmar,</p><p>adicionalmente, a presença de peritonite, bem como identificar visceromegalias ou qualquer massa intra‑abdominal</p><p>anormal. A palpação deve ter início com manobras delicadas e distantes da área de dor relatada. Caso seja induzida dor</p><p>considerável no início da palpação, o paciente provavelmente contrairá voluntariamente o abdome, limitando a obteção de</p><p>novas informações. A contração involuntária, ou espasmo muscular da parede abdominal, é sinal de irritação peritoneal e</p><p>precisa ser diferenciada da contração voluntária. Para alcançar esse objetivo, o examinador faz pressão consistente na</p><p>parede abdominal afastado do ponto de dor máxima, enquanto pede ao paciente que inspire lenta e profundamente. No</p><p>quadro de contração voluntária, os músculos abdominais se relaxarão durante a inspiração, enquanto no involuntário os</p><p>músculos permanecerão espásticos e tensos.</p><p>A dor, quando focal, sugere doença inicial ou bem localizada, enquanto a dor difusa à palpação sugere inflamação</p><p>generalizada e de apresentação tardia. Se a dor for difusa, faz‑se uma investigação cuidadosa para determinar onde a dor é</p><p>mais intensa. Mesmo diante de um quadro de contaminação intensa por úlcera péptica perfurada ou de diverticulite</p><p>perfurada, o local de sensibilidade máxima frequentemente aponta a fonte subjacente.</p><p>Alguns achados físicos isolados são associados a condições específicas e são descritos como “sinais” de exame (Tabela 45‑</p><p>1). O sinal de Murphy da colecistite aguda ocorre quando a inspiração durante a palpação do quadrante superior direito</p><p>resulta em exacerbação súbita da dor consequente ao rebaixamento do fígado e da vesícula em direção à mão do</p><p>examinador. Vários sinais ajudam a identificar o local da peritonite subjacente, incluindo sinais de Rovsing, psoas e</p><p>obturador. Outros, como os sinais de Fothergill e Carneퟵ�, ajudam a diferenciar foco de origem intra‑abdominal daqueles de</p><p>parede abdominal.</p><p>Tabela 451</p><p>Sinais de Exame Abdominal</p><p>Sinal de Aaron Dor ou aperto no epigástrio ou no tórax anterior com persistente</p><p>pressão firme aplicada ao ponto de McBurney</p><p>Apendicite aguda</p><p>Sinal de</p><p>Bassler</p><p>Dor aguda criada comprimindo o apêndice entre a parede</p><p>abdominal e ilíaco</p><p>Apendicite crônica</p><p>Sinal de</p><p>Blumberg</p><p>Sensibilidade da parede abdominal de rebote transitório Inflamação peritoneal</p><p>Sinal de</p><p>Carneퟵ�</p><p>Perda de sensibilidade abdominal quando os músculos da parede</p><p>abdominal são contraídos</p><p>Fonte intra‑abdominal de dor</p><p>abdominal</p><p>Sinal de</p><p>Candelabro</p><p>Dor extrema abdominal e pélvica inferiores com movimento do</p><p>colo do útero</p><p>Doença inflamatória pélvica</p><p>Sinal de</p><p>Charcot</p><p>Febre, icterícia e dor abdominal intermitente no quadrante</p><p>superior direito</p><p>Coledocolitíase</p><p>Sinal de</p><p>Claybrook</p><p>Aumento dos sons respiratórios e cardíacos através da parede</p><p>abdominal</p><p>Ruptura de víscera abdominal</p><p>Sinal de</p><p>Courvoisier</p><p>Vesícula biliar palpável na presença de icterícia Tumor periampular</p><p>Sinal de</p><p>Cruveihier</p><p>Varizes na altura do umbigo (cabeça de medusa) Hipertensão portal</p><p>Sinal de Cullen Equimose periumbilical Hemoperitônio</p><p>Sinal de</p><p>Danforth</p><p>Dor no ombro à inspiração Hemoperitônio</p><p>Sinal de</p><p>Fothergill</p><p>Massa da parede abdominal que não cruza na linha média e</p><p>permanece palpável quando contraído o reto</p><p>Hematomas musculares do</p><p>reto</p><p>Sinal de Grey</p><p>Turner</p><p>Áreas locais de descoloração ao redor do umbigo e flancos Pancreatite aguda</p><p>hemorrágica</p><p>Sinal do</p><p>iliopsoas</p><p>Elevação e extensão da perna contra resistência provoca dor Apendicite com abscesso</p><p>retrocecal</p><p>Sinal de Kehr Pressão colocada no abdome superior esquerdo e dor no ombro</p><p>esquerdo quando em decúbito dorsal</p><p>Hemoperitônio</p><p>(especialmente de origem</p><p>esplênica)</p><p>Sinal de</p><p>Mannkopf</p><p>Pulso aumentado quando o abdome dolorido é palpado Ausente se houver simulação</p><p>Sinal de</p><p>Murphy</p><p>Dor causada pela inspiração e aplicando pressão ao abdome</p><p>superior direito</p><p>Colecistite aguda</p><p>Sinal do</p><p>obturador</p><p>Flexão com rotação externa da coxa direita, enquanto em</p><p>decúbito dorsal provoca dor hipogástrica</p><p>Abscesso pélvico ou massa</p><p>inflamatória na pelve</p><p>Sinal de</p><p>Ransohoff</p><p>Coloração amarelada da região umbilical Ruptura do ducto biliar</p><p>comum</p><p>Sinal de</p><p>Rovsing</p><p>Dor no ponto de McBurney quando comprimindo o abdome</p><p>inferior esquerdo</p><p>Apendicite aguda</p><p>Sinal de Ten</p><p>Horn</p><p>Dor causada pela tração delicada do testículo direito Apendicite aguda</p><p>O toque retal precisa ser realizado em todos os pacientes com dor abdominal aguda, em busca de massa, dor pélvica ou</p><p>sangue na luz intestinal. Um exame ginecológico deve ser realizado em todas as mulheres quando da avaliação da dor</p><p>localizada na região infraumbilical. Processos ginecológicos e anexiais são mais bem caracterizados por meio de uma</p><p>avaliação completa com espéculo e exame físico bimanual.</p><p>Exames laboratoriais</p><p>Vários exames laboratoriais são rotineiramente utilizados para a avaliação do paciente com abdome agudo (Quadro 45‑</p><p>4). Eles ajudam a confirmar a presença de inflamação ou infecção e também a avaliar a hipótese de algumas das condições</p><p>não cirúrgicas mais comuns. O hemograma com contagem diferencial é um exame útil, uma vez que a maior partedos</p><p>pacientes com abdome agudo terá leucocitose ou presença de células brancas imaturas. Dosagem de eletrólitos séricos, e</p><p>níveis de ureia e creatinina no plasma ajudarão na avaliação do efeito de fatores tais como vômitos e acúmulo de líquido no</p><p>terceiro espaço. Além disso, estes marcadores de função renal podem sugerir distúrbios endócrinos ou metabólicos como</p><p>causa do problema do paciente. As determinações da amilase e da lipase séricas podem sugerir pancreatite como causa da</p><p>dor, mas podem também estar elevadas em outros distúrbios como infarto do intestino delgado e perfuração</p><p>de úlcera</p><p>duodenal. Os níveis normais da amilase e lipase séricas não excluem a pancreatite como um possível diagnóstico, pois a</p><p>inflamação crônica afeta a produção de enzimas e fatores de regulação. Os exames da função hepática, inclusive bilirrubina</p><p>total e direta, aminotransferase sérica e fosfatase alcalina, são úteis na avaliação do trato biliar como possível foco de dor</p><p>abdominal. Os níveis de lactato e as determinações da gasometria arterial podem ser úteis no diagnóstico da isquemia ou</p><p>infarto intestinal. A análise de urina é útil no diagnóstico de cistite, pielonefrite e determinadas anormalidade endócrinas,</p><p>como diabetes e doenças renais. A urocultura, embora possa confirmar uma suspeita de infecção urinária e guiar a</p><p>antibioticoterapia, não está disponível a tempo para ser útil no manejo de pacientes com abdome agudo. As dosagens</p><p>urinárias dos níveis da gonadotrofina coriônica humana podem sugerir gravidez que, além de ser um fator de confusão,</p><p>influencia no manejo da paciente. O feto de uma paciente grávida com abdome agudo estará mais protegido ao se propiciar</p><p>a melhor assistência possível à mãe, inclusive uma operação, se indicada.11 O exame de fezes para sangue oculto pode ser</p><p>útil na avaliação desses pacientes, mas é inespecífico. Fezes para avaliação de ovos e parasitas, bem como cultura e ensaio</p><p>para toxina de Clostridium difficile, podem ser úteis caso a diarreia seja um componente do quadro do paciente.</p><p>Quadr o 4 5 4 E s tudos Labora to r i a i s Ú te i s pa ra Abdome Agudo</p><p>Nível de hemoglobina</p><p>Leucograma com contagem diferencial</p><p>Eletrólitos, níveis de ureia e creatinina</p><p>Exame de urina</p><p>Nível de gonadotrofina coriônica humana na urina</p><p>Níveis de amilase e lipase</p><p>Níveis de bilirrubina total e direta</p><p>Nível de fosfatase alcalina</p><p>Aminotransferase sérica</p><p>Níveis séricos de lactato</p><p>Exame de fezes para busca de ovos e parasitas</p><p>Cultura e dosagem de toxina de C. difficile</p><p>Estudos por imagem</p><p>O aprimoramento das técnicas de imagem, em especial a tomografia computadorizada (TC) com multidetectores,</p><p>revolucionou o diagnóstico do abdome agudo. Situações problemáticas no passado – como apendicite em mulheres jovens e</p><p>isquemia intestinal em idosos – agora podem ser diagnosticados com maior certeza e rapidez (Figs. 45‑8 e 45‑9).12‑14 Isso</p><p>resultou em intervenções cirúrgicas em uma fase mais precoce, com menores taxas de morbidade e mortalidade. A despeito</p><p>de sua utilidade, a TC não é a única técnica de imagem disponível como também não é a primeira opção de obtenção de</p><p>imagem para a maioria dos pacientes. Além disso, nenhum exame de imagempode substituir uma anamnese cuidadosa e</p><p>um exame físico minucioso.</p><p>FIGURA 458 Apendicite. A, Imagem de TC de apendicite não complicada. Um apêndice retrocecal distendido</p><p>de parede espessada (seta) é observado com processo inflamatório na gordura circundante. B, Imagem de TC de</p><p>apendicite complicada. Um abscesso apendicular retrocecal (A) com um fleimão associado posterior encontrado</p><p>em mulher obesa com 3 semanas de pósparto. A alteração inflamatória estendese pela musculatura do flanco</p><p>na gordura subcutânea (seta).</p><p>FIGURA 459 Infarto do intestino delgado associado a trombose venosa mesentérica. A, Observe a veia</p><p>mesentérica superior trombosada com baixa densidade (seta sólida) e cálculos biliares incidentais (seta</p><p>aberta). B, Espessamento da parede do intestino delgado proximal (seta) coincidente com longa porção de</p><p>intestino delgado isquêmico no momento da operação.</p><p>As radiografias simples continuam desempenhando um importante papel no diagnóstico de pacientes com dor</p><p>abdominal aguda. As radiografias do tórax com o paciente em posição ortostática podem detectar quantidades tão</p><p>pequenas quanto 1 mL de ar livre na cavidade peritoneal. As radiografias abdominais em decúbito lateral com raios</p><p>horizontais também podem detectar pneumoperitônio em pacientes que por qualquer razão não possam ficar de pé.</p><p>Quantidades tão pequenas quanto 5 a 10 mL de gás podem ser vistas com essa técnica.15 Esses estudos são particularmente</p><p>úteis em pacientes com suspeita de úlcera duodenal perfurada porque cerca de 75% desses pacientes têm um</p><p>pneumoperitônio suficientemente grande para ser visível (Fig. 45‑10).16 Isso dispensa a necessidade de avaliação adicional</p><p>na maioria dos pacientes, permitindo uma laparotomia precoce.</p><p>FIGURA 4510 Radiografia de tórax em ortostatismo revelando pneumoperitônio de tamanho moderado,</p><p>compatível com perfuração da víscera abdominal.</p><p>As radiografias também mostrar calcificações anormais. Cerca de 5% dos coprólitos apendiculares, 10% dos cálculos</p><p>biliares e 90% dos cálculos renais contêm quantidades suficientes de cálcio para serem radiopacos. As calcificações</p><p>pancreáticas observadas em muitos pacientes com pancreatite crônica são perfeitamente visíveis nas radiografias simples,</p><p>da mesma forma que as calcificações nos aneurismas da aorta abdominal, aneurismas de artérias viscerais e aterosclerose</p><p>nos vasos viscerais.</p><p>As radiografias simples abdominais nas posições ortostática e supina são bastante úteis para identificação de obstrução</p><p>gástrica distal e obstrução do intestino delgado proximal, médio e/ou distal e podem também ajudar a determinar se uma</p><p>obstrução do intestino delgado é completa ou parcial, pela presença ou ausência de gás no cólon. A presença de gás</p><p>colônico pode ser diferenciada do gás do intestino delgado pela presença de marcas das haustras das tênias da parede do</p><p>cólon. (Fig. 45‑11). Distensão concomitante do intestino delgado também pode estar presente nestes casos, em especial se a</p><p>válvula ileocecal for incompetente. As radiografias também podem sugerir volvo tanto do ceco quanto do cólon sigmoide.</p><p>O volvo cecal é identificado por uma alça distendida do cólon em formato de vírgula, com a concavidade voltada</p><p>inferiormente e para a direita. O volvo do sigmoide tem como característica a aparência de um tubo interno recurvado, com</p><p>seu ápice no quadrante superior direito (Fig. 45‑12).</p><p>FIGURA 4511 Radiografia abdominal em ortostatismo em paciente com um adenocarcinoma de sigmoide.</p><p>Observe as marcas das haustrações no cólon transverso dilatado que distingueno do intestino delgado.</p><p>FIGURA 4512 Radiografia abdominal em ortostatismo em paciente com volvo do cólon sigmoide. Observe a</p><p>aparência característica de “um tubo encurvado” com o ápice no quadrante superior direito.</p><p>A ultrassonografia abdominal é bastante precisa para a detecção de cálculos biliares e para avaliar a espessura da parede</p><p>da vesícula biliar e a presença de líquido ao seu redor.17 Também é útil para determinar o calibre dos ductos biliares intra e</p><p>extra‑hepáticos. É de pouca utilidade na detecção de cálculos do ducto biliar comum. A ultrassonografia abdominal e</p><p>transvaginal pode ajudar na detecção de anormalidades dos ovários, anexos e útero. Também é utilizada para detectar</p><p>líquido intraperitoneal. A presença de quantidades anormais de gás intestinal na maioria dos pacientes com abdome agudo</p><p>limita a capacidade da ultrassonografia de avaliar o pâncreas ou outros órgãos abdominais. Existem limites importantes</p><p>para o valor da ultrassonografia no diagnóstico de doenças que se manifestam como abdome agudo. A ecografia é</p><p>clinicamente inferior à TC no diagnóstico de apendicite.18 Além disso, as imagens da ultrassonografia são mais difíceis de</p><p>interpretar, para a maioria dos cirurgiões, do que as radiografias simples e a TC. Muitos hospitais possuem técnicos em</p><p>radiologia disponíveis para realizar a TC a qualquer hora, mas esse frequentemente não é o caso com a ultrassonografia.</p><p>Como a TC tornou‑se mais amplamente disponível e com menos probabilidade de ser prejudicada pelo ar abdominal, ela</p><p>está se tornando a segunda modalidade de escolha para a obtenção de imagem no paciente com abdome agudo,</p><p>depois da</p><p>radiografia simples do abdome.</p><p>Vários estudos têm demonstrado a acurácia e a utilidade da TC do abdome e da pelve na avaliação da dor abdominal</p><p>aguda.12‑14 Muitas das causas habituais de abdome agudo são prontamente identificadas pela TC, bem como são suas</p><p>complicações. Um exemplo importante é a apendicite. Radiografias simples e mesmo enemas de bário acrescentam pouco</p><p>ao diagnóstico de apendicite; no entanto, uma TC bem realizada possui alta precisão no diagnóstico desta doença. A</p><p>experiência prévia sugeriu que a TC ideal para a suspeita de apendicite deve incluir contraste oral, endovenoso e retal.</p><p>Recentemente, uma grande revisão retrospectiva de mais de 9.000 pacientes de 56 hospitais, incluindo instituições urbanas e</p><p>rurais, não encontrou aumento da acurácia com a inclusão de contraste entérico. Os achados operatórios correlacionaram‑se</p><p>com as observações da TC em 90% das vezes, com ou sem contraste entérico.19</p><p>É igualmente importante que um radiologista experiente, habituado à leitura de TC abdominal, interprete o estudo para</p><p>maximizar a sensibilidade e a especificidade do exame. Um estudo prospectivo holandês ilustra a variabilidade de</p><p>interpretação da TC no diagnóstico de apendicite. Três grupos de radiologistas avaliaram cegamente resultados de</p><p>tomografias computadorizadas de pacientes com suspeitas de apendicite. Todos os pacientes tinham sido submetidos à</p><p>laparoscopia exploradora e descobriu‑se que 83% dos pacientes tinham apendicite no momento da cirurgia. O grupo A era</p><p>composto de residentes de radiologia de plantão e treinados na interpretação de TC. O grupo B era composto pela equipe</p><p>de radiologistas de sobreaviso; o grupo C era composto por especialistas em radiologia abdominal. Para os grupos</p><p>de radiologistas A, B e C, a sensibilidade da TC para o diagnóstico de apendicite aguda foi 81%, 88% e 95%, as</p><p>especificidades foram 94%, 94% e 100%, e os valores preditivos negativos eram de 50%, 68% e 81%, respectivamente.</p><p>Diferenças entre os grupos A e C foram estatisticamente significativas.14 A TC é também excelente para diferenciar</p><p>obstrução mecânica do intestino delgado de íleo paralítico e pode, em geral, identificar o ponto de obstrução mecânica</p><p>(Fig. 45‑13). Algumas das doenças de difícil diagnóstico, incluindo a isquemia mesetérica aguda e a lesão intestinal após</p><p>trauma abdominal fechado, muitas vezes podem ser perfeitamente identificadas por esse método.</p><p>FIGURA 4513 TC de paciente com obstrução parcial do intestino delgado. Observe a presença de intestino</p><p>delgado dilatado e intestino delgado descomprimido. O intestino descomprimido contém ar, indicando obstrução</p><p>parcial.</p><p>As lesões traumáticas do intestino delgado podem ser um desafio para um diagnóstico clínico. As lesões associadas da</p><p>parede abdominal, da região pélvica, ou lesões na coluna vertebral podem mascarar a identificação das lesões subjacentes e</p><p>consequentemente comprometer o diagnóstico clínico. Além disso, muitos pacientes que sofrem um trauma abdominal</p><p>fechado têm comprometimento de seu nível de consciência, o que dificulta a identificação de lesões. Quando há suspeita de</p><p>lesão intestinal, está indicada a utilização de uma TC com contraste oral associada ao contraste IV. Zissin et al.17 assinalaram</p><p>uma sensibilidade global de 64%, uma especificidade de 97% e uma precisão de 82% para o diagnóstico de lesão do</p><p>intestino delgado seguido de trauma contuso usando TC com duplo contraste. Os parâmetros para o diagnóstico incluem</p><p>espessamento da parede da alça, gás fora de alça intestinal ou presença de moderada a grande quantidade de líquido</p><p>intraperitoneal sem lesão de órgão abdominal sólido visível.</p><p>Monitoração da pressão intraabdominal</p><p>Uma pressão intra‑abdominal elevada pode ser sintoma ou causa de doença abdominal aguda. A pressão intra‑abdominal</p><p>elevada reduz o fluxo sanguíneo para os órgãos abdominais e diminui o retorno venoso ao coração, aumentando a estase</p><p>venosa. O aumento da pressão no abdome também pode elevar o diafragma, aumentando o pico da pressão inspiratória e</p><p>diminuindo a capacidade ventilatória. O risco de refluxo esofágico com consequente aspiração pulmonar também se mostra</p><p>associado à hipertensão abdominal. É importante considerar a possibilidade de síndrome compartimental abdominal em</p><p>qualquer paciente que apresente rigidez e/ou significativa distensão abdominal.</p><p>A pressão intra‑abdominal normal está situada entre 5 a 7 mmHg para um indivíduo, em estado de relaxamento, que</p><p>tenha um corpo mediano e esteja deitado na posição supina. Na obesidade, a elevação da cabeceira da cama pode aumentar</p><p>a pressão abdominal normal em repouso. A obesidade mórbida leva a aumento de 4 a 8 mmHg nesses níveis normais e a</p><p>elevação da cabeceira da cama em 30 graus aumenta a pressão em 5 mmHg em média.20 Pressões são comumente medidas</p><p>através da bexiga por um transdutor de pressão conectado a um cateter de Foley. Leituras de pressão são obtidas no final da</p><p>expiração após a instilação de 50 mL de solução salina em uma bexiga previamente vazia. Pressões superiores a 11 mmHg</p><p>são consideradas elevadas acima do normal e são graduadas por gravidade de de 1 a 4 (Tabela 45‑2). A hipertensão</p><p>abdominal de graus 1 e 2 quase sempre pode ser tratada adequadamente com intervenções médicas objetivando manter a</p><p>euvolemia, descompressão intestinal por sonda nasogástrica ou laxantes e enemas, suspensão da alimentação enteral,</p><p>aspiração por punção de líquido ascítico, relaxamento da parede abdominal e o uso criterioso de líquidos hipotônicos</p><p>intravenosos. Os graus 3 e 4 frequentemente necessitam de descompressão cirúrgica via laparotomia com curativo aberto</p><p>do abdome, caso a hipertensão grave e a disfunção orgânica não responderem prontamente ao tratamento médico</p><p>agressivo.</p><p>Tabela 452</p><p>Hipertensão Abdominal</p><p>PRESSÃO</p><p>MESENTÉRICA DC PVC PIP TFG PERFUSÃO TRATAMENTO</p><p>Pressão normal 5‑7 mmHg ↔ ↔ ↔ ↔ ↔ Nenhum</p><p>Hipertensão</p><p>grau 1</p><p>12‑15 mmHg ↔ ↔/↑ ↔/↑ ↓ ↓ Manter euvolemia</p><p>Hipertensão</p><p>grau 2</p><p>16‑20 mmHg ↓ ↑* ↑ ↓ ↓ Descompressão não</p><p>cirúrgica</p><p>Hipertensão</p><p>grau 3</p><p>21‑25 mmHg ↓↓ ↑↑* ↑↑ ↓↓ ↓↓ Descompressão cirúrgica</p><p>Hipertensão</p><p>grau 4</p><p>> 25 mmHg ↓↓↓ ↑↑* ↑↑ ↓↓↓ ↓↓↓ Descompressão cirúrgica;</p><p>reexplore</p><p>DC, débito cardíaco; PVC, pressão venosa central; TFG, taxa de filtração glomerular; PIP, pressão inspiratória de pico.</p><p>* Enganosamente elevado e não reflete o volume intravascular.</p><p>Laparoscopia diagnóstica</p><p>Vários estudos confirmaram a utilidade da laparoscopia diagnóstica em pacientes com dor abdominal aguda.21‑23 As</p><p>vantagens incluem alta sensibilidade e especificidade, capacidade de tratar laparoscopicamente várias condições que</p><p>causam um abdome agudo, e ter menor morbimortalidade, menor tempo de permanência hospitalar e menores custos.</p><p>Pode ser particularmente útil em pacientes críticos que necessitem de cuidados intensivos, especialmente se a laparotomia</p><p>puder ser evitada.24 A acurácia diagnóstica é elevada; os relatórios mostram que varia de 90% a 100%, reconhecendo, no</p><p>entanto, que há limitações para a identificação dos processos retroperitoneais. Essa comparação favorável se faz com relação</p><p>a outros estudos diagnósticos como lavagem peritoneal, TC ou ultrassonografia do abdome.25 Devido a avanços no</p><p>equipamento e maior disponibilidade, essa técnica está sendo usada mais frequentemente nesses pacientes.</p><p>Diagnóstico diferencial</p><p>O diagnóstico diferencial da dor abdominal aguda é amplo. As condições variam de leves e autolimitadas às rapidamente</p><p>progressivas e fatais. Todos os pacientes necessitam, portanto, ser vistos e avaliados prontamente, e reavaliados a intervalos</p><p>frequentes quanto às possíveis alterações no seu quadro. Embora muitos diagnósticos de “abdome agudo”</p><p>exijam</p><p>intervenção cirúrgica para resolução, é importante lembrar que muitas causas de dor abdominal aguda são de tratamento</p><p>não operatório (Figs. 45‑2 e 45‑4).26 A elaboração do diagnóstico diferencial começa já na anamnese e deve ser</p><p>complementada no exame físico. Exames adicionais como a análise laboratorial e os estudos de imagens são então</p><p>solicitados; geralmente, um ou dois diagnósticos são suspeitados. Para ter êxito, esse processo exige um conhecimento</p><p>abrangente das condições clínicas e cirúrgicas que dão origem à dor abdominal aguda, a fim de permitir que as</p><p>características das doenças sejam comparadas com as condições demográficas, sintomas e sinais do paciente.</p><p>Certos achados radiológicos, laboratoriais e exames físicos são altamente correlacionados com doença cirúrgica</p><p>(Quadro 45‑5). Às vezes, alguns pacientes podem estar muito instáveis para serem submetidos a avaliações abrangentes que</p><p>exijam encaminhamento para outros departamentos, como o da radiologia. Nessa situação, o lavado peritoneal pode</p><p>fornecer informações importantes sugerindo enfermidade que demanda intervenção cirúrgica. O lavado pode ser realizado</p><p>sob anestesia local, à beira do leito do paciente. Uma pequena incisão é feita na linha média adjacente ao umbigo, e a</p><p>dissecção orientada para a cavidade peritoneal. Um pequeno cateter ou tubo de infusão intravenosa é inserido, e 1.000 mL</p><p>de solução salina são infundidos. Uma amostra do fluido é coletada por sifonagem de solução salina vazia e é, então,</p><p>analisada para anormalidades celulares e bioquímicas. Essa técnica pode fornecer informações sobre a presença de</p><p>hemorragia ou infecção, bem como alguns tipos de lesão de víscera sólida ou oca.</p><p>Quadr o 4 5 5 Achados Assoc i ados à Doença C i rú rg i ca no Con tex to de Dor</p><p>Abdomina l Aguda</p><p>Exame Físico e Achados Laboratoriais</p><p>Pressão compartimental abdominal > 30 mmHg</p><p>Distensão piora após a descompressão gástrica</p><p>Defesa involuntária ou sensibilidade de rebote</p><p>Hemorragia gastrointestinal, exigindo > 4 U de sangue sem estabilização</p><p>Sepse sistêmica inexplicada</p><p>Sinais de hipoperfusão (p. ex., acidose, dor desproporcional aos achados de exame, aumento dos resultados de</p><p>testes de função hepática)</p><p>Achados Radiográficos</p><p>Dilatação intensa do intestino</p><p>Dilatação progressiva da alça estacionária do intestino (alça sentinela)</p><p>Pneumoperitônio</p><p>Extravasamento de contraste do lúmen intestinal</p><p>Oclusão vascular na angiografia</p><p>Gordura espessada, parede intestinal espessada com sepse sistêmica</p><p>Lavagem Peritoneal Diagnóstica (1.000 mL)</p><p>> 250 leucócitos por mililitro de aspirado</p><p>> 300.000 hemácias por mililitro de aspirado</p><p>Nível de bilirrubina maior do que o nível plasmático (vazamento de bile) no aspirado</p><p>Presença de material particulado (fezes)</p><p>Nível de creatinina maior do que o nível plasmático no aspirado (vazamento de urina)</p><p>Os pacientes com doença cirúrgica de emergência, com risco de morte eminente, são levados de imediato para a sala</p><p>operatória e submetidos a laparotomia, enquanto outros em situações de urgência, mas não de emergência, podem dispor</p><p>de tempo para se proceder ao preparo pré‑operatório. Os demais pacientes com abdome agudo podem ser agrupados nos</p><p>que dispõem de condições que possam vir a necessitar de cirurgia, e outros com doenças clínicas, e também o grupo que</p><p>permanece ainda sem diagnóstico definitivo. Os pacientes hospitalizados que não são encaminhados com urgência para a</p><p>sala de operação devem ser reavaliados com frequência e, de preferência, pelo mesmo examinador, a fim de reconhecer</p><p>alterações potencialmente graves no quadro ou o desenvolvimento de complicações.</p><p>Embora o objetivo do cirurgião seja fazer o diagnóstico correto no pré‑operatório e planejar o procedimento mais</p><p>adequado antes de ir para a sala de cirurgia, deve‑se enfatizar que um diagnóstico preciso nem sempre é possível de ser</p><p>realizado em todos os pacientes. Os cirurgiões precisam estar sempre dispostos a aceitar a dúvida e indicar laparotomia</p><p>exploradora quando a situação clínica exigir. Os achados laboratoriais e por imagens, embora úteis, nunca devem substituir</p><p>o julgamento clínico à beira do leito feito por um cirurgião experiente. Os pacientes correm maior risco na demora em se</p><p>realizar uma cirurgia necessária do que em um eventual erro de diagnóstico descoberto no ato operatório. A laparoscopia</p><p>tem‑se revelado uma ferramenta útil nas dúvidas do diagnóstico. A presença de doença cirúrgica pode ser confirmada em</p><p>todos os quadrantes abdominais e, conforme a experiência do cirurgião aumenta, mais situações também serão capazes de</p><p>ser resolvidas por laparoscopia. Mesmo quando é necessária a conversão para a cirurgia aberta, a avaliação laparoscópica</p><p>facilita o posicionamento mais preciso da laparotomia, reduzindo, assim, o tamanho da incisão.</p><p>Preparação para cirurgia de emergência</p><p>O estado geral de saúde dos pacientes com abdome agudo é muito variável no momento em que se indica a operação.</p><p>Independentemente da gravidade da doença, todos os pacientes necessitam de algum grau de preparo pré‑operatório.</p><p>Deve‑se obter acesso IV para as eventuais correções das anormalidades eletrolíticas. A maioria, senão a totalidade dos</p><p>pacientes, terá necessidade de antibióticos venosos. As bactérias mais comumente encontradas na vigência de abdome</p><p>agudo são microrganismos entéricos Gram‑negativos e anaeróbios. Antibióticos para cobrir estes organismos devem ser</p><p>iniciados imediatamente após o diagnóstico presuntivo ter sido feito. Os pacientes com íleo paralítico generalizado ou</p><p>vômitos beneficiam‑se de uma sonda nasogástrica para diminuir a probabilidade de vômito e aspiração. A cateterização</p><p>vesical com cateter de Foley para avaliação do débito urinário, uma medida de adequação da reposição volêmica, está</p><p>indicada na maioria dos pacientes. O débito urinário pré‑operatório de 0,5 mL/kg/h, juntamente com pressão arterial</p><p>sistólica de pelo menos 100 mmHg e uma frequência cardíaca de 100 batimentos/min ou menos, são indicativos de um</p><p>volume intravascular adequado. Uma anormalidade eletrolítica comum que exige correção é a hipocalemia. A acidose pré‑</p><p>operatória deve ser tratada com reposição de líquido e infusão IV de bicarbonato. A acidose causada por isquemia ou</p><p>infarto intestinal pode ser refratária à terapia pré‑operatória. A colocação de um cateter venoso central facilita a reanimação</p><p>e permite uma correção mais breve da concentração de potássio. Anemia significativa não é um achado comum, de modo</p><p>que transfusões de sangue no período pré‑operatório geralmente são desnecessárias. Entretanto, a maioria dos pacientes</p><p>deve ter sangue tipado, com provas cruzadas e disponível para a operação. Na vigência de uma incerteza inerente à</p><p>necessidade de transfusão pré‑operatória, é importante que se tenha sangue disponível a fim de evitar uma eventual</p><p>demora da transfusão caso seja preciso durante a operação. A premência de estabilização pré‑operatória dos pacientes deve</p><p>ser ponderada diante da maior morbimortalidade associada a uma demora no tratamento de algumas das doenças</p><p>cirúrgicas que se apresentam como abdome agudo. A natureza subjacente da doença, como infarto enteromesentérico, pode</p><p>exigir a correção cirúrgica antes que a estabilização dos sinais vitais e a restauração do equilíbrio ácido‑base do paciente</p><p>possam ocorrer. A reanimação deve ser vista como um processo contínuo e deve ser mantida após a cirurgia. Decidir o</p><p>momento em que há benefício máximo do preparo pré‑operatório nestes pacientes requer bom julgamento cirúrgico.</p><p>Pacientes atípicos</p><p>Gravidez</p><p>Gestantes com dor abdominal aguda podem levar a situações diagnósticas insólitas e tratamento desafiador. Deve‑se</p><p>dar</p><p>ênfase especial à possibilidade de doenças ginecológicas e/ou cirúrgicas quando ocorrer uma dor abdominal aguda durante</p><p>a gravidez devido à morbidade caso elas não sejam prontamente diagnosticadas. A laparoscopia tem mostrado grande</p><p>benefício no diagnóstico e no tratamento de gestantes com dor abdominal aguda, e é agora rotineiramente utilizada em</p><p>várias situações clínicas. Embora casos de perda fetal após cirurgia laparoscópica continuem sendo relatados, sua segurança</p><p>foi considerada igual ou superior a uma abordagem cirúrgica aberta em todos os trimestres da gravidez.27,28 Um estudo</p><p>retrospectivo com meta‑análise questionou a segurança da apendicectomia laparoscópica comparada com laparotomia,</p><p>enfatizando a necessidade de mais estudos nessa área.29,30 A maior ameaça que as pacientes grávidas enfrentam com dor</p><p>abdominal aguda é a potencial demora do diagnóstico. A lentidão no tratamento cirúrgico provou ser muito mais mórbido</p><p>do que a cirurgia em si.11,31 Os atrasos ocorrem por vários motivos. Na maioria das vezes, os sintomas são atribuídos à</p><p>gravidez subjacente, incluindo dor abdominal, náuseas, vômitos e anorexia. A gravidez também pode alterar as</p><p>manifestações de algumas doenças e faz que o exame físico seja mais difícil, em decorrência do útero aumentado na pelve.</p><p>No final do terceiro trimestre de gestação, o apêndice está deslocado da pelve em direção cranial chegando até alguns</p><p>centímetros do rebordo costal anterolateral direito (Fig. 45‑14).32 Resultados de estudos laboratoriais, como contagem de</p><p>glóbulos brancos e outros testes, também sofrem alteração na gravidez, tornando mais difícil o reconhecimento da doença.</p><p>Além disso, os médicos podem hesitar em realizar estudos por imagens, como radiografia simples do abdome ou TC, por</p><p>causa da preocupação com a exposição do feto em desenvolvimento à radiação. A falta de informação radiológica pode</p><p>afastar os médicos de sua rotina diagnóstica e levá‑los a dar valor a outras modalidades de exame, como monitoramento</p><p>dos sinais vitais e estudos laboratoriais, que podem confundir ou subestimar a condição existente. Por fim, os médicos</p><p>naturalmente tendem a ser mais conservadores quando tratam pacientes grávidas. As taxas de aborto no primeiro trimestre</p><p>por cirurgias não obstétricas são tão altas quanto 38%, mas a maior parte dos trabalhos apresenta uma taxa de aborto</p><p>cirúrgico semelhante às taxas de aborto espontâneo do primeiro trimestre de 8% a 16%.27 Sem grupo‑controle para</p><p>comparação, não está claro se algumas das taxas aumentadas de aborto são secundárias à doença ou à cirurgia em si. A</p><p>cirurgia não foi associada ao aumento de natimortos e anomalias congênitas.28 A cirurgia abdominal foi associada ao</p><p>aumento da incidência de parto pré‑termo no segundo e, principalmente, no terceiro trimestre de gravidez. Pensa‑se que o</p><p>parto pré‑termo seja menos frequente no segundo trimestre devido à menor manipulação uterina. Os cuidados</p><p>intraoperatórios durante a gravidez concentram‑se nos cuidados à mãe. Se não houver viabilidade fetal, deve‑se auscultar</p><p>os sons cardíacos fetais antes e depois da cirurgia. Se o feto for viável, os sons cardíacos devem ser monitorados durante a</p><p>cirurgia, com uma equipe capacitada a de realizar uma cesariana de emergência disponível.33</p><p>FIGURA 4514 Localização do apêndice normal materno durante a gestação do feto.</p><p>Apendicite é a doença não obstétrica de tratamento cirúrgico mais comum, ocorrendo em uma em cada 1.500</p><p>gestações.29,33 Seus sintomas normalmente consistem em dor abdominal à direita, náuseas e anorexia, mas mostra</p><p>apresentações “típicas” em apenas 50% a 60% dos casos.34 A febre é incomum, a menos que o apêndice esteja perfurado</p><p>com sepse abdominal. Os sintomas, algumas vezes, são atribuídos à gravidez subjacente, devendo‑se manter um alto grau</p><p>de suspeição. Os estudos laboratoriais também podem ser enganosos. Não é infrequente leucocitose tão alta quanto</p><p>16.000 células/μL na gravidez, e o trabalho de parto pode aumentar a contagem para 21.000 células/μL. Muitos autores</p><p>sugerem que um desvio dos neutrófilos de mais de 80% é suspeito de um processo inflamatório agudo, como apendicite; no</p><p>entanto, outros têm observado que apenas 75% dos pacientes com apendicite comprovada têm um desvio e até 50% dos</p><p>pacientes com dor e desvio têm um apêndice normal.11,30 Sistemas de pontuação têm sido defendidos de modo a atribuir</p><p>uma ordenação numérica para certos sintomas, sinais e valores laboratoriais para prever a probabilidade de apendicite.</p><p>Ainda que sistemas de pontuação como o modificado de Alvarado (Tabela 45‑3) ajudem a predizer a necessidade de</p><p>intervenção cirúrgica, eles não foram validados em um modelo da gravidez.34 O ultrassom tem sido confiável como a</p><p>primeira ferramenta de imagem em muitos centros. Mostrou‑se que o ultrassom com compressão graduada tem</p><p>sensibilidade de 86% em pacientes não grávidas.29 Em uma série de casos de 42 gestantes com suspeita de apendicite, o</p><p>ultrassom com compressão graduada revelou uma sensibilidade de 100%, especificidade de 96% e precisão de 98%.35Três</p><p>mulheres foram excluídas da análise em função de um exame tecnicamente inadequado por causa da idade gestacional</p><p>avançada (> 35 semanas). Foi estabelecido que a TC helicoidal é uma ferramenta valiosa para a avaliação da paciente não</p><p>grávida e ela é promissora como estudo de segunda linha na gravidez. Comparada com a TC tradicional, a TC helicoidal</p><p>pode fornecer um estudo muito mais rápido e seguro, com exposições de radiação para o feto de aproximadamente 300</p><p>mrad.29 A RM também tem um papel importante no diagnóstico. A RM não só é capaz de demonstrar o apêndice normal</p><p>mas também consegue reconhecer um apêndice aumentado, líquido periapendicular e inflamação.36 A sensibilidade e a</p><p>especificidade em uma revisão retrospectiva de 148 pacientes com suspeita de apendicite aguda foram de 100% e 93%,</p><p>respectivamente.37</p><p>Tabela 453</p><p>Sistema de Pontuação de Alvarado Modificado para Apendicite</p><p>CARACTERÍSTICA PONTUAÇÃO</p><p>Sintomas</p><p>Dor na fossa ilíaca direita 1</p><p>Náusea/vômito 1</p><p>Anorexia 1</p><p>Sinais</p><p>Sensibilidade da fossa ilíaca direita 2</p><p>Febre 1</p><p>Sensibilidade de rebote 1</p><p>Testes</p><p>Contagem de leucócitos ≥ 10.000 2</p><p>Desvio à esquerda de neutrófilos 1</p><p>Pontuação ≥ 7 Cirurgia recomendada</p><p>De Brown MA, Birchard KR, Semelka RC: Magnetic resonance evaluation of pregnant patients with acute abdominal pain. Semin</p><p>Ultrasound CT MR 26:206–211, 2005.</p><p>As dificuldades adicionais na avaliação da paciente grávida com dor abdominal no quadrante inferior direito resultaram</p><p>em uma taxa de apendicectomia “branca” significativamente mais elevada, em comparação com mulheres não grávidas, no</p><p>passado. Embora essa taxa de erro diagnóstico seja inaceitável em uma mulher jovem saudável, ela é perfeitamente</p><p>compreenssível em razão da mortalidade fetal que ocorre quando a apendicite evolui para perfuração antes da operação. A</p><p>perda fetal perioperatória associada à apendicectomia para doença precoce é de 3% a 5%, enquanto aumenta para mais de</p><p>20% no caso de perfuração.31 Com a imaginologia moderna, especialmente a RM, as apendicectomias negativas diminuíram</p><p>sem um aumento associado de perfurações.36,37</p><p>A segunda e a terceira doença cirúrgica mais comum observada na gravidez são os distúrbios do trato biliar e a obstrução</p><p>intestinal. A cirurgia para doença biliar ocorre entre uma a seis em 10.000 gestações.38 Sintomas de dor, náuseas e anorexia</p><p>são os mesmos em pacientes não grávidas. Apesar dos níveis elevados de estrogênio serem litogênicos, a incidência da</p><p>doença é semelhante para mulheres grávidas.28 Com poucas exceções, a avaliação e o tratamento durante a gravidez são</p><p>semelhantes aos de todos os pacientes com</p><p>doença biliar. O ultrassom é o exame diagnóstico preferencial. O nível de</p><p>fosfatase alcalina está elevado secundariamente a um nível de estrógeno e os valores normais precisam ser corrigidos.</p><p>A colecistectomia laparoscópica é a técnica preferida.28,38,39 Muitos estudos sugeriram colecistectomia laparoscópica para</p><p>todas as doenças sintomáticas secundárias a recidiva pré‑parto e pós‑parto, bem como a complicações, independentemente</p><p>do trimestre.28,38 A maioria dos cirurgiões tenta tratar a cólica biliar simples com conduta conservadora no primeiro e no</p><p>terceiro trimestres e planeja colecistectomia laparoscópica eletiva para o segundo trimestre e/ou o período pós‑parto, para</p><p>minimizar o risco fetal.38 A pancreatite biliar e a colecistite aguda devem ser tratadas com mais cuidado. A pancreatite biliar</p><p>tem sido associada a taxas de perda fetal muito elevada chegando a 60%. Se uma mulher não responde rapidamente ao</p><p>tratamento conservador com hidratação, jejum, analgesia e uso de antibióticos, deve‑se reavaliar a necessidade de cirurgia.</p><p>Obstrução intestinal é bem menos comum, ocorrendo em aproximadamente 1 a 2 em 4.000 gravidezes; são causas</p><p>subjacentes as aderências em dois terços dos casos. Volvo é a segunda causa mais comum, ocorrendo em 25% dos casos, em</p><p>comparação com apenas 4% na população não grávida.30 Os sinais e sintomas são típicos e não devem ser atribuídos a</p><p>“êmese gravídica”. A dor abdominal em cólica com distensão abdominal precoce deve sugerir o diagnóstico para o médico.</p><p>Três períodos durante a gestação estão associados ao risco aumentado de obstrução e se correlacionam com mudanças</p><p>rápidas no volume uterino.30 O primeiro é de 16 a 20 semanas, quando o útero cresce além da pelve; o segundo vai de 32 a</p><p>36 semanas, quando a cabeça do feto desce, e o terceiro é no período pós‑parto precoce. A avaliação é a mesma para</p><p>qualquer paciente, e não se deve hesitar em fazer radiografias quando a situação exige. Como em outros processos</p><p>inflamatórios agudos no abdome, as morbidades materna e fetal são mais afetadas pela demora do tratamento definitivo.</p><p>Abdome Agudo em Pacientes Pediátricos</p><p>As estratégias diagnósticas do abdome agudo na população pediátrica são as mesmas que para os adultos. A apendicite</p><p>continua sendo uma das causas primárias de abdome agudo nessa faixa etária. Embora obstrução intestinal e doença</p><p>litiásica biliar sejam observadas, essas entidades são muito menos frequentes do que nos adultos. A intussuscepção deve ser</p><p>mantida no diagnóstico diferencial, especialmente para aqueles que têm menos de 3 anos de idade. A gastroenterite,</p><p>perfurações por ingestão de corpo estranho, intoxicação alimentar, divertículo de Meckel e colite causada por C. difficile são</p><p>também causas potenciais. As apresentações e os achados no exame físico são semelhantes aos do adulto. O principal</p><p>desafio na realização do diagnóstico correto consiste na obtenção de uma história precisa. As crianças normalmente</p><p>fornecem uma história pobre por causa da idade, por medo ou pela incapacidade de descrever o que sentem. Uma história</p><p>detalhada deve ser obtida também dos pais. As escolhas dos testes diagnósticos bem como dos tratamentos podem ser</p><p>influenciadas pela idade do paciente. Os médicos podem estar menos propensos para a realização de estudos que</p><p>provoquem radiação ionizante em crianças jovens. Um estudo retrospectivo de 1.228 crianças com suspeita de apendicite</p><p>avaliou o uso de ecografia como ferramenta de primeira linha, com TC usada como adjuvante para estudos</p><p>equívocos.40 Este estudo mostrou que a TC foi evitada em mais de metade dos pacientes, mantendo a taxa de</p><p>apendicectomia negativa, de 8,1%. Finalmente, existe experiência progressiva no tratamento da apendicite precoce de forma</p><p>não cirúrgica com antibióticos. Um estudo prospectivo não randomizado recente de 77 crianças com apendicite concluiu</p><p>que as taxas de sucesso imediato e em 30 dias para o tratamento não operatório foi de 93% e 90%. Dos três pacientes que</p><p>falharam na resposta ao tratamento médico, nenhum progrediu para apendicite perfurada ou complicada. As crianças</p><p>tratadas de forma conservadora voltaram à escola 2 dias mais cedo, tiveram menos 14 dias de repouso, mas tiveram</p><p>hospitalização prolongada em 18 horas, em média.41</p><p>Abdome Agudo em Pacientes Críticos</p><p>O paciente crítico com possível abdome agudo é um desafio tanto para os intensivistas quanto para os cirurgiões. Muitas</p><p>das doenças subjacentes e tratamentos realizados na unidade de tratamento intensivo predispõem a doença abdominal</p><p>aguda. Ao mesmo tempo, doença abdominal não reconhecida pode ser responsável pela permanência dos pacientes em um</p><p>estado crítico. Os pacientes críticos em geral são de difícil avaliação quando comparados com os não graves, em virtude do</p><p>comprometimento nutricional ou imunológico, da analgesia com narcóticos e do uso de antibióticos. Muitos desses</p><p>pacientes têm alteração no nível de consciência ou estão entubados e não podem fornecer informações detalhadas aos</p><p>médicos assistentes.</p><p>A circulação extracorpórea está associada a várias doenças abdominais agudas graves. Isquemia mesentérica, íleo</p><p>paralítico, síndrome de Ogilvie, úlcera péptica por estresse, colecistite alitiásica aguda e pancreatite aguda têm sido</p><p>relacionados com o estado de baixo fluxo da circulação extracorpórea, e sua incidência parece relacionar‑se com a duração</p><p>do procedimento cardíaco.42,43 Os medicamentos vasoativos e o suporte ventilatório também estão relacionados com</p><p>hipoperfusão e quadros abdominais semelhantes. Quando ocorre uma complicação abdominal aguda no paciente sob</p><p>tratamento intensivo, ela tem um efeito dramático no desfecho. Os intensivistas precisam manter um alto grau de suspeição</p><p>sobre o desenvolvimento de doença intra‑abdominal e informar de imediato aos cirurgiões para maximizar o potencial de</p><p>recuperação. Os cirurgiões devem então trabalhar para excluir a possibilidade de doença abdominal usando todos os</p><p>métodos descritos neste capítulo, bem como o ultrassom à beira do leito, paracentese ou minilaparoscopia, de modo que a</p><p>intervenção cirúrgica precoce possa ser realizada de maneira apropriada.44</p><p>Pacientes Imunocomprometidos com Abdome Agudo</p><p>Os pacientes imunocomprometidos apresentam os mais variados sintomas nas doenças abdominais agudas. A variabilidade</p><p>é altamente relacionada com o grau de imunossupressão. Não existe exame confiável para determinar o grau de</p><p>imunossupressão vivenciado por um determinado paciente, de modo que as estimativas são feitas por associações de</p><p>determinados estados de doença ou medicamentos. Comprometimento leve a moderado é visto em pacientes idosos,</p><p>indivíduos desnutridos, diabéticos, transplantados na terapia de manutenção, pacientes com câncer, pacientes com</p><p>insuficiência renal e pacientes com HIV com contagens de CD4 superiores a 200/mm3. Embora os pacientes nesse grupo</p><p>tenham os mesmos tipos de doença e infecções que seus pares imunocompetentes, eles ainda podem apresentar‑se de uma</p><p>forma atípica. A dor abdominal e os sinais e sintomas sistêmicos em geral relacionam‑se com o desenvolvimento de</p><p>inflamação. Esses pacientes podem não ser capazes de desenvolver uma resposta inflamatória completa e, portanto, podem</p><p>experimentar menos dor abdominal, atraso do aparecimento de febre e leucocitose discreta. Pacientes com</p><p>imunossupressão grave normalmente incluem transplantados que receberam altas doses de terapia para evitar a rejeição</p><p>nos últimos 2 meses, pacientes com câncer em quimioterapia, especialmente aqueles com neutropenia, e pacientes com HIV</p><p>com contagens CD4 inferiores a</p><p>200/mm3. Esses pacientes cursam, em geral, com pouca dor ou nenhuma dor, sem febre e</p><p>com sintomas sistêmicos vagos, seguidos por uma queda no estado geral irreversível.</p><p>A colite pseudomembranosa tem sido tradicionalmente associada ao uso recente de antibióticos de largo espectro,</p><p>embora seja observada cada vez mais em pacientes imunocomprometidos com doenças como linfoma, leucemia e AIDS. As</p><p>manifestações clínicas geralmente incluem diarreia, desidratação, dor abdominal, febre e leucocitose; entretanto, os</p><p>pacientes imunocomprometidos podem não apresentar muitos desses achados por causa de sua incapacidade de gerar uma</p><p>resposta inflamatória normal. Estudos de imagem, como a TC abdominal tornam‑se cada vez mais importantes para fazer</p><p>diagnósticos precisos precoces quando as apresentações são atípicas. As TC são úteis nos pacientes com colite complicada</p><p>sem indicações cirúrgicas óbvias. As TC são úteis para avaliar o megacólon, o íleo, a ascite, a perfuração e o espessamento</p><p>da parede cólica (Tabela 45‑4).45 Estes achados, quando presentes, podem ajudar muito o clínico na formulação do</p><p>diagnóstico de colite. No entanto, até cerca de 14% dos pacientes com colite pseudomembranosa comprovada terão achados</p><p>normais na TC e, portanto, o diagnóstico não deve ser excluído apenas com base em uma TC negativa. A avaliação cirúrgica</p><p>precoce diminui a mortalidade destes pacientes.46</p><p>Tabela 454</p><p>Frequência de Achados de TC Comum na Colite Pseudomembranosa</p><p>ACHADOS NA TC FREQUÊNCIA (%)</p><p>Espessamento da parede do intestino delgado (> 4 mm) 86</p><p>Distribuição pancolônica 46</p><p>Espessamento pericólico 45</p><p>Ascite 38</p><p>Espessamento nodular ou polipóide da parede 38</p><p>Maior destaque da mucosa 18</p><p>Dilatação do intestino delgado 14</p><p>Sinal da sanfona 14</p><p>De Tsiotos GG, Mullany CJ, Zietlow S et al: Abdominal complications following cardiac surgery. Am J Surg 167:553–557, 1994.</p><p>Além disso, esses pacientes podem sofrer infecções atípicas, incluindo tuberculose peritoneal, infecções fúngicas,</p><p>aspergilose e micoses endêmicas, e uma variedade de infecções virais, incluindo citomegalovírus e Epstein‑Barr</p><p>(Quadro 45‑6). Quando ocorre uma infecção abdominal, em geral, não é reconhecida como uma infecção localizada por</p><p>causa da ausência de reação inflamatória. Todos os pacientes imunodeprimidos graves necessitam de avaliação imediata e</p><p>completa para queixas abdominais persistentes. Aqueles que exigem hospitalização são submetidos a uma avaliação</p><p>cirúrgica para o diagnóstico e o tratamento oportuno. TC de alta resolução pode ser altamente benéfica nesses pacientes,</p><p>mas deve ser mantido um espaço para a laparoscopia ou a laparotomia para aqueles com resultados de exames</p><p>inespecíficos e sintomas persistentes que continuam sem explicação.</p><p>Quadr o 4 5 6 Causas de Dor Abdomina l Aguda em Pac i en te s</p><p>Imunocompromet idos</p><p>Infecções Oportunistas</p><p>Micoses endêmicas (coccidioidomicose, blastomicose, histoplasmose)</p><p>Peritonite tuberculosa</p><p>Aspergilose</p><p>Colite neutropênica (tiflite)</p><p>Colite pseudomembranosa</p><p>Colite, gastrite, esofagite, nefrite de citomegalovírus</p><p>Vírus Epstein‑Barr</p><p>Abscessos hepáticos (piogênico, fúngico)</p><p>Condições Iatrogênicas</p><p>Doença enxerto versus hospedeiro com hepatite ou enterite</p><p>Úlcera péptica ou perfuração do uso de esteroide</p><p>Pancreatite causada por esteroides ou azatioprina</p><p>Doença veno‑oclusiva hepática (secundária à imunodeficiência primária ou quimioterapia)</p><p>Nefrolitíase causada pelo tratamento do HIV com indinavir</p><p>Abdome Agudo nos Pacientes Obesos Mórbidos</p><p>A obesidade mórbida cria numerosos desafios ao diagnóstico preciso na vigência de abdome agudo. Muitos autores</p><p>descreveram alterações nos sinais e sintomas de peritonite na obesidade mórbida.47‑49 Achados de peritonite franca</p><p>frequentemente são tardios e nefastos, levando à sepse, falência de múltiplos órgãos e morte.47 O diagnóstico de sepse</p><p>abdominal é mais refinado nessa população e pode estar associada somente a sintomas inespecíficos como mal‑estar, dor no</p><p>ombro, soluços e falta de ar.48 Os achados dos exames complementares podem ser de difícil interpretação. Dor abdominal</p><p>grave não é comum, e achados menos específicos, como taquicardia, taquipneia, derrame pleural, ou febre podem ser a</p><p>primeira observação.49 A avaliação da distensão ou massa intra‑abdominal também é muito difícil, por causa do tamanho e</p><p>da espessura da parede abdominal.</p><p>O exame abdominal por imagem também é dificultado pela obesidade. As radiografias simples do abdome podem exigir</p><p>múltiplas imagens para que todo o abdome possa ser visto, e a nitidez fica reduzida. Pode ser impossível a realização do</p><p>exame por TC e RM na medida em que a circunferência ou o peso do paciente exceda o tamanho de abertura do aparelho</p><p>ou o limite de peso da maca mecanizada. Nestes quadros, um alto índice de suspeição e um baixo limiar para a exploração</p><p>cirúrgica deve ser mantido. A laparoscopia é uma ferramenta valiosa nesses pacientes.</p><p>Algoritmos de abdome agudo</p><p>Os algoritmos podem ajudar no diagnóstico do paciente com abdome agudo. Como foi dito anteriormente, o diagnóstico</p><p>assistido por computador revelou‑se mais acurado que o juízo clínico isoladamente em vários estágios de doença</p><p>abdominal aguda. Algoritmos são a base do diagnóstico por computador e podem ser úteis na tomada de decisões clínicas.</p><p>Os algoritmos mostrados são úteis em pacientes com abdome agudo e podem permitir um exame focado e uma terapia</p><p>mais rápida (Figs. 45‑15 a 45‑20).</p><p>FIGURA 4515 Algoritmo para o tratamento de dor abdominal generalizada, grave, de início agudo. TC,</p><p>tomografia computadorizada; CNG, cateter nasogástrico; EN, exame normal; SO, operação.</p><p>FIGURA 4516 Algoritmo para o tratamento de dor abdominal generalizada, grave, de início gradual. TC,</p><p>tomografia computadorizada; CPRE, colangiopancreatografia endoscópica retrógrada; PFH, provas de função</p><p>hepática.</p><p>FIGURA 4517 Algoritmo para o tratamento da dor abdominal no quadrante superior direito. TC, tomografia</p><p>computadorizada; CPRE, colangiopancreatografia retrógrada endoscópica; PFH, provas de função hepática; EN,</p><p>exame normal; US, ultrassom.</p><p>FIGURA 4518 Algoritmo para o tratamento da dor abdominal no quadrante superior esquerdo. TC, tomografia</p><p>computadorizada.</p><p>FIGURA 4519 Algoritmo para o tratamento da dor abdominal no quadrante inferior direito. TC, tomografia</p><p>computadorizada; Hist., histórico; SO, operação; ITU, infecção do trato urinário.</p><p>FIGURA 4520 Algoritmo para o tratamento da dor abdominal no quadrante inferior esquerdo. TC, tomografia</p><p>computadorizada.</p><p>Resumo</p><p>A avaliação e o tratamento do paciente com dor abdominal aguda ainda são uma parte desafiadora da prática cirúrgica.</p><p>Embora avanços nas técnicas de obtenção de imagem, no uso de algoritmos e na assistência do computador tenham</p><p>melhorado a precisão diagnóstica de condições que causam o abdome agudo, anamnese e exame físico cuidadosos ainda</p><p>são a parte mais importante da avaliação. Mesmo com essas ferramentas disponíveis, o cirurgião frequentemente deve</p><p>tomar a decisão de realizar uma laparoscopia ou laparotomia com uma boa dose de incerteza sobre os resultados esperados.</p><p>A demora no tratamento de muitas condições cirúrgicas no abdome está associada a maior morbimortalitade, o que justifica</p><p>uma abordagem agressiva e precoce nestas situações.</p><p>Falhas Comuns</p><p>• Falha em examinar corretamente e documentar os achados</p><p>• Falha na realização de exame retal e vaginal quando necessário</p><p>• Falha na avaliação das hérnias, incluindo as inguinoescrotais</p><p>• Falha em realizar um teste de gravidez ou considerar a possibilidade de gravidez</p><p>• Falha em reavaliar o paciente com frequência enquanto se desenvolve um diagnóstico diferencial</p><p>• Falha em reconsiderar o diagnóstico estabelecido quando a situação clínica muda</p><p>• Falha em reconhecer a imunodepressão e considerar seu efeito de mascaramento</p><p>nos achados da anamnese e do</p><p>exame físico</p><p>• Permitir que um valor laboratorial normal afaste uma hipótese diagnóstica quando exista motivo para</p><p>preocupação clínica</p><p>• Falha em consultar os colegas quando necessário</p><p>• Falha em considerar diagnósticos específicos para a idade e a condição clínica</p><p>• Falha em tomar providências para seguimento específicas e concretas quando se acompanha um paciente em</p><p>regime ambulatorial</p><p>• Hesitar em indicar tratamento operatório sem um diagnóstico preciso quando a situação clínica sugere doença</p><p>cirúrgica</p><p>Leitura sugerida</p><p>Ahmad TA, Shelbaya E, Razek SA, et al. Experience of laparoscopic management in 100 patients with acute</p><p>abdomen. Hepatogastroenterology. 2001;48:733–736.</p><p>Uma descrição da utilização da laparoscopia em uma série grande de pacientes com abdome agudo. Esta é uma boa</p><p>análise desta importante ferramenta diagnóstica e terapêutica.</p><p>Cademartiri F, Raaijmaker RHJM, Kuiper JW, et al. Multi‑detector row CT angiography in patients with abdominal</p><p>angina. Radiographics. 2004;24:969–984.</p><p>Boa revisão das características tomográficas da isquemia mesentérica aguda. Esboça os achados radiográficos que</p><p>ajudaram muito no diagnóstico, anteriormente difícil, dessa condição.</p><p>Graff LG, Robinson D. Abdominal pain and emergency department evaluation. Emerg Med Clin North Am. 2001;19:123–136.</p><p>Boa revisão de pacientes com dor abdominal aguda de causas variadas.</p><p>Macari M, Balthazar EJ. The acute right lower quadrant: CT evaluation. Radiol Clin North Am. 2003;41:1117–1136.</p><p>Discussão moderna do papel da tomografia computadorizada na avaliação de pacientes com dor abdominal do</p><p>quadrante inferior direito.</p><p>Silen W. Cope’s early diagnosis of the acute abdomen. ed 21 New York: Oxford University Press; 2005.</p><p>Monografia clássica enfatizando a importância da anamnese e do exame físico no diagnóstico do abdome agudo. Quase</p><p>todas as doenças que se manifestam como abdome agudo são apresentadas. Esta é uma leitura obrigatória para o</p><p>residente de cirurgia geral.</p><p>Steinheber FU. Medical conditions mimicking the acute surgical abdomen. Med Clin North Am. 1973;57:1559–1567.</p><p>Esse artigo clássico revê as várias condições clínicas que podem se manifestar como abdome agudo. É bem escrito e</p><p>continua sendo pertinente sobre a avaliação desses pacientes.</p><p>Referências Bibliográficas</p><p>1. Sethuraman U, Siadat M, Lepak‑Hitch CA, et al. Pulmonary embolism presenting as acute abdomen</p><p>in a child and adult. Am J Emerg Med. 2009;27:514: e1–514.e5..</p><p>2. Graff 4th LG, Robinson D. Abdominal pain and emergency department evaluation. Emerg Med Clin</p><p>North Am. 2001;19:123–136.</p><p>3. Steinheber FU. Medical conditions mimicking the acute surgical abdomen. Med Clin North</p><p>Am. 1973;57:1559–1567.</p><p>4. Gilbert JA, Kamath PS. Spontaneous bacterial peritonitis: An update. Mayo Clin Proc. 1995;70:365–370.</p><p>5. Silen W. Cope’s early diagnosis of the acute abdomen. ed 21 New York: Oxford University Press; 2005.</p><p>6. Paterson‑Brown S, Vipond MN. Modern aids to clinical decision‑making in the acute abdomen. Br J</p><p>Surg. 1990;77:13–18.</p><p>7. de Dombal FT. Computers, diagnoses and patients with acute abdominal pain. Arch Emerg</p><p>Med. 1992;9:267–270.</p><p>8. Adams ID, Chan M, Clifford PC, et al. Computer aided diagnosis of acute abdominal pain: A</p><p>multicentre study. Br Med J (Clin Res Ed). 1986;293:800–804.</p><p>9. Wellwood J, Johannessen S, Spiegelhalter DJ. How does computer‑aided diagnosis improve the</p><p>management of acute abdominal pain? Ann R Coll Surg Engl. 1992;74:40–46.</p><p>10. McAdam WA, Brock BM, Armitage T, et al. Twelve years’ experience of computer‑aided diagnosis in a</p><p>district general hospital. Ann R Coll Surg Engl. 1990;72:140–146.</p><p>11. Kort B, Kaퟤ� VL, Watson WJ. The effect of nonobstetric operation during pregnancy. Surg Gynecol</p><p>Obstet. 1993;177:371–376.</p><p>12. Macari M, Balthazar EJ. The acute right lower quadrant: CT evaluation. Radiol Clin North</p><p>Am. 2003;41:1117–1136.</p><p>13. Cademartiri F, Raaijmakers RH, Kuiper JW, et al. Multi‑detector row CT angiography in patients with</p><p>abdominal angina. Radiographics. 2004;24:969–984.</p><p>14. Lee R, Tung HK, Tung PH, et al. CT in acute mesenteric ischaemia. Clin Radiol. 2003;58:279–287.</p><p>15. Hof KH, Krestin GP, Steijerberg EW, et al. Interobserver variability in CT scan interpretation for</p><p>suspected acute appendicitis. Emerg Med J. 2009;26:92–94.</p><p>16. Hanbidge AE, Buckler PM, O’Malley ME, et al. From the RSNA refresher courses: Imaging evaluation</p><p>for acute pain in the right upper quadrant. Radiographics. 2004;24:1117–1135.</p><p>17. Zissin R, Osadchy A, Gayer G, Abdominal CT. findings in small bowel perforation. Br J</p><p>Radiol. 2009;82:162–171.</p><p>18. van Randen A, Bipat S, Zwinderman AH, et al. Acute appendicitis: Meta‑analysis of diagnostic</p><p>performance of CT and graded compression US related to prevalence of</p><p>disease. Radiology. 2008;249:97–106.</p><p>19. Drake FT, Alfonso R, Bhargava P, et al. Enteral contrast in the computed tomography diagnosis of</p><p>appendicitis: Comparative effectiveness in a prospective surgical cohort. Ann Surg. 2014;260:311–316.</p><p>20. De Keulenaer BL, De Waele JJ, Powell B, et al. 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Emerg Med Clin North</p><p>Am. 1989;7:437–452.</p><p>77</p><p>78</p><p>e localizam‑se abaixo da aponeurose oblíqua externa. O tronco principal do nervo ílio‑hipogástrico cursa na superfície anterior do músculo oblíquo</p><p>interno e aponeurose medial e superior ao anel interno. O nervo ílio‑hipogástrico pode fornecer um ramo inguinal que se junta ao nervo ilioinguinal. O nervo</p><p>ilioinguinal situa‑se anteriormente ao cordão espermático no canal inguinal e ramifica‑se junto ao anel inguinal superficial. O ramo genital do nervo genitofemoral</p><p>inerva o músculo cremaster e a pele do lado lateral da bolsa escrotal e/ou da vulva. Esse nervo localiza‑se no trato iliopúbico e acompanha os vasos cremastéricos para</p><p>formar um feixe neurovascular.</p><p>FIGURA 444 Nervos importantes e sua relação com as estruturas inguinais (o lado direito é ilustrado). (De Talamini MA, Are C: Laparoscopic hernia repair. In Zuidema</p><p>GD, Yeo CJ, editors: Shackelford’s surgery of the alimentary tract, ed 5, vol 5, Philadelphia, 2002, WB Saunders, p 140.)</p><p>Espaço Préperitoneal</p><p>O espaço pré‑peritoneal contém tecido adiposo, linfáticos, vasos sanguíneos e nervos. Os nervos do espaço pré‑peritoneal, de preocupação específica para o cirurgião,</p><p>incluem o nervo cutâneo femoral lateral e o nervo genitofemoral. O nervo cutâneo femoral lateral origina‑se na raiz de L2 e L3 e é ocasionalmente um ramo direto do</p><p>nervo femoral. Esse nervo cursa ao longo da superfície anterior do músculo ilíaco abaixo da fáscia ilíaca e passa sob ou através da fixação lateral do ligamento inguinal</p><p>na espinha ilíaca superior anterior. Esse nervo corre abaixo ou ocasionalmente através do trato iliopúbico lateral ao anel inguinal interno.</p><p>O nervo genitofemoral em geral origina‑se das raízes dos nervos de L2 ou de L1‑L2. Ele se divide em ramos genital e femoral na superfície anterior do músculo</p><p>psoas. O ramo genital entra no canal inguinal pelo anel profundo, enquanto o ramo femoral entra na bainha femoral lateralmente à artéria.</p><p>A artéria e veia epigástrica inferior são ramos dos vasos ilíacos externos e são limites importantes para o reparo laparoscópico da hérnia. Esses vasos cursam</p><p>medialmente ao anel inguinal interno e acabam localizando‑se abaixo do músculo reto do abdome imediatamente abaixo da fáscia transversal. Os vasos epigástricos</p><p>inferiores servem de referencial para se definir os tipos de hérnia inguinal. As hérnias inguinais indiretas ocorrem lateralmente aos vasos epigástricos inferiores,</p><p>enquanto hérnias diretas ocorrem medialmente a esses vasos.</p><p>A artéria e veia ilíacas circunflexas profundas estão localizadas abaixo da porção lateral do trato iliopúbico no espaço pré‑peritoneal. Esses vasos são ramos e</p><p>tributárias respectivamente da artéria e veia ilíacas externas ou epigástricas inferiores. É importante dissecar apenas acima do trato iliopúbico durante o reparo</p><p>laparoscópico de hérnia para evitar lesão desses vasos.</p><p>O ducto deferente cursa pelo espaço pré‑peritoneal no sentido caudal a cefálico e medial a lateral para juntar‑se ao cordão espermático no anel inguinal profundo.</p><p>Canal Femoral</p><p>Os limites do canal femoral são o trato iliopúbico anteriormente, o ligamento de Cooper posteriormente e a veia femoral lateralmente. O tubérculo púbico forma o</p><p>ápice do triângulo do canal femoral. Esse canal geralmente contém tecido conjuntivo e tecido linfático. Uma hérnia femoral ocorre através desse espaço e é medial aos</p><p>vasos femorais.</p><p>Diagnóstico</p><p>Uma saliência na região inguinal ainda é o principal achado diagnóstico na maioria das hérnias inguinais. A maior parte dos pacientes terá dor associada ou um vago</p><p>desconforto na região, mas um terço dos pacientes não terá nenhum sintoma. As hérnias da região inguinal em geral não são muito dolorosas a menos que tenha</p><p>ocorrido encarceramento ou estrangulamento. Na ausência de achados físicos, causas alternativas de dor precisam ser levadas em consideração. Algumas vezes, os</p><p>pacientes podem ter a sensação de parestesias relacionadas com compressão ou irritação dos nervos inguinais pela hérnia. Outras massas além de hérnias podem</p><p>ocorrer na região inguinal. O exame físico isoladamente em geral diferencia a hérnia inguinal e essas massas (Quadro 44‑2).</p><p>Quadr o 4 4 2 D iagnós t i co Di fe renc i a l de Tumores da Reg ião Ingu ina l</p><p>Hérnia inguinal</p><p>Hidrocele</p><p>Varicocele</p><p>Testículo ectópico</p><p>Epididimite</p><p>Torção testicular</p><p>Lipoma</p><p>Hematoma</p><p>Cisto sebáceo</p><p>Hidradenite das glândulas apócrinas inguinais</p><p>Linfadenopatia inguinal</p><p>Linfoma</p><p>Neoplasia metastática</p><p>Hérnia femoral</p><p>Linfadenopatia femoral</p><p>Aneurisma ou pseudoaneurisma da artéria femoral</p><p>A região inguinal é examinada com o paciente em ambas as posições, supina (decúbito dorsal) e em pé (posição ortostática). O examinador inspeciona visualmente e</p><p>palpa a região inguinal, observando quanto à assimetria, abaulamentos ou presença de uma massa. Solicitar ao paciente que faça o esforço da tosse ou realize a</p><p>manobra de Valsalva pode facilitar a identificação da hérnia. O examinador coloca a ponta de um dedo sobre o canal inguinal e repete o exame. Por fim, a ponta de um</p><p>dedo é colocada no canal inguinal por invaginação da bolsa escrotal para detectar uma hérnia pequena. Uma protuberância movendo‑se de lateral para medial no</p><p>canal inguinal sugere uma hérnia indireta. Se a protuberância progredir de profunda para superficial através do assoalho inguinal, suspeita‑se de uma hérnia direta.</p><p>Essa distinção não é crítica porque no reparo a abordagem é a mesma, independentemente do tipo de hérnia. Uma protuberância identificada abaixo do ligamento</p><p>inguinal é compatível com uma hérnia femoral.</p><p>Uma protuberância na região inguinal descrita pelo paciente, que não é demonstrada no exame, apresenta um dilema. Com o paciente de pé ou andando por um</p><p>período de tempo é possível que uma massa herniária não diagnosticada se torne visível ou palpável. Caso se suspeite fortemente de uma hérnia, mas ela seja</p><p>indetectável, a repetição do exame em outro momento pode ser útil.</p><p>A ultrassonografia também pode ajudar no diagnóstico. Existe um alto grau de sensibilidade e especificidade do ultrassom na detecção de hérnias ocultas, direta,</p><p>indireta e femoral.1 Outras modalidades de imagem são menos úteis. A tomografia computadorizada do abdome e pelve pode ser útil para o diagnóstico de hérnias</p><p>obscuras e incomuns, bem como para massas atípicas da região inguinal.2 Algumas vezes, a laparoscopia pode ser diagnóstica e terapêutica para casos particularmente</p><p>desafiadores.</p><p>Classificação</p><p>Existem numerosos sistemas de classificação de hérnias inguinais. Um sistema simples e amplamente usado é a classificação de Nyhus (Quadro 44‑3). Embora seu</p><p>propósito seja promover uma linguagem comum e compreensão da comunicação do médico e permitir comparações apropriadas das opções terapêuticas, essas</p><p>classificações são incompletas e controversas. A maioria dos cirurgiões continua a descrever as hérnias por seu tipo, localização e volume do saco herniário.</p><p>Quadr o 4 4 3 C l a s s ificação de Nyhus da Hérn ia da Ingu ina l</p><p>Tipo I</p><p>Hérnia inguinal indireta – anel inguinal interno normal (p. ex., hérnia pediátrica)</p><p>Tipo II</p><p>Hérnia inguinal indireta – anel inguinal interno dilatado mas parede inguinal posterior intacta; vasos epigástricos profundos inferiores não deslocados</p><p>Tipo III</p><p>Defeito da parede posterior</p><p>A. Hérnia inguinal direta</p><p>B. Hérnia inguinal indireta – anel inguinal interno dilatado, invadindo os limites medialmente ou destruindo a fáscia transversal do triângulo de</p><p>Hesselbach (p. ex., hérnia escrotal maciça, por deslizamento ou em pantalonas)</p><p>C. Hérnia femoral</p><p>Tipo IV</p><p>Hérnia recidivada</p><p>A. Direta</p><p>B. Indireta</p><p>C. Femoral</p><p>D. Combinada</p><p>Tratamento</p><p>Tratamento não Cirúrgico</p><p>A maioria dos cirurgiões recomenda a intervenção cirúrgica quando da descoberta de uma hérnia inguinal sintomática porque a história natural de uma hérnia</p><p>inguinal é a de aumento</p><p>progressivo de volume e enfraquecimento da parede abdominal e/ou inguinal, com o potencial de encarceramento e estrangulamento.</p><p>Entretanto, em pacientes com sintomas mínimos, o clínico em geral é levado a ponderar entre o risco de complicações relacionadas com a hérnia, como</p><p>encarceramento da hérnia e estrangulamento do intestino, e o potencial para complicações tanto a curto como a longo prazo. Fiꬼgibbons et al.3 relataram um estudo</p><p>prospectivo, aleatório de uma estratégia de espera vigilante para homens com hérnias assintomáticas ou minimamente sintomáticas. Esses pesquisadores selecionaram</p><p>aleatoriamente mais de 700 homens para espera vigilante ou reparo da hérnia livre de tensão. Com dois anos de acompanhamento, não houve mortes atribuídas ao</p><p>estudo e o risco de encarceramento da hérnia no grupo de espera vigilante foi extremamente baixo, 0,3% dos participantes do estudo ou 1,8 evento/1.000 pacientes‑</p><p>ano. Quase 25% dos pacientes selecionados para a espera vigilante passou para o grupo cirúrgico, geralmente por dor relacionada com a hérnia que limitava a</p><p>atividade. Em um trabalho posterior, a taxa de conversão aumentou para 68% em dez anos, com cerca de 80% dos homens com mais de 65 anos sendo operados.4 Os</p><p>pacientes que depois foram operados não tiveram aumento das infecções do local cirúrgico ou maiores taxas de recidiva do que aqueles que foram inicialmente</p><p>alocados à reparação precoce. Um ensaio prospectivo randomizado em uma única instituição na Grã‑Bretanha teve resultados a longo prazo semelhantes.5 Esses</p><p>estudos fornecem evidência conclusiva de que uma estratégica de watchful waiting é segura para pacientes idosos com hérnias inguinais assintomáticas ou</p><p>minimamente sintomáticas e que, embora a maior parte dos pacientes eventualmente sejam submetidos a reparação, quando o são, os riscos cirúrgicos e as taxas de</p><p>complicação não são diferentes das dos pacientes que são submetidos a reparação imediata. A conduta expectante pode ser uma estratégia de tratamento custo‑efetiva</p><p>para pacientes selecionados sem sintomas ou com sintomas mínimos ou que têm um risco operatório significativo. Esses resultados não devem ser aplicados a</p><p>mulheres, que não foram incluídas nesses estudos, ou a pacientes com hérnias femorais, que têm um risco de estrangulamento superior do que as hérnias inguinais.</p><p>Os pacientes eleitos para tratamento não operatório podem ter melhoras sintomáticas ocasionalmente com o uso de uma funda. Essa abordagem é mais usada na</p><p>Europa. As fundas com molas são mais versáteis que elásticas, embora a maioria das informações sobre seu uso tenha sido informal. A medida correta e o ajustamento</p><p>são importantes. O controle dos sintomas tem sido relatado em cerca de 30% dos pacientes. As complicações associadas ao uso de uma funda incluem atrofia</p><p>testicular, neurite ilioinguinal ou femoral e encarceramento da hérnia.</p><p>Em geral, aceita‑se que o tratamento não operatório não é usado para hérnias femorais em função da alta incidência de complicações associadas, particularmente</p><p>estrangulamento.</p><p>Tratamento Cirúrgico</p><p>Reparos anteriores</p><p>Os reparos anteriores são a abordagem operatória mais comum para as hérnias inguinais. As cirurgias livres de tensão são agora padrão, e existe uma variedade de</p><p>tipos diferentes. Antigos tipos de reparo tecidual são raramente indicados, exceto para casos com contaminação simultânea ou ressecções intestinais concomitantes</p><p>quando a colocação de uma prótese (tela) pode ser contraindicada.</p><p>Existem alguns aspectos técnicos do procedimento cirúrgico que são comuns a todos os reparos anteriores. Cirurgia aberta da hérnia é iniciada por uma incisão</p><p>orientada transversalmente linear ou curvilínea ligeiramente acima do ligamento inguinal e uma largura digital abaixo do anel inguinal interno. O anel inguinal</p><p>interno está localizado topograficamente no ponto médio entre a espinha ilíaca anterossuperior e o tubérculo púbico ipsilateral. A dissecção é realizada através dos</p><p>tecidos subcutâneos e fáscia de Scarpa. A fáscia do oblíquo externo e o anel inguinal externo são identificados. A fáscia do oblíquo externo é incisada pelo anel inguinal</p><p>superficial para expor o canal inguinal. O ramo genital do nervo genitofemoral, bem como os nervos ilioinguinal e ílio‑hipogástrico, são identificados e isolados ou</p><p>mobilizados para evitar transecção e retenção. O cordão espermático é mobilizado no tubérculo púbico por uma combinação de dissecção romba e cortante. A</p><p>imobilização imprópria do cordão espermático muito lateral ao tubérculo púbico pode causar confusão na identificação dos planos de tecido e estruturas essenciais e</p><p>pode resultar em rompimento do assoalho do canal inguinal.</p><p>O músculo cremastérico do cordão espermático mobilizado é separado, paralelamente a suas fibras, das estruturas subjacentes do cordão. A artéria e veia</p><p>cremastérica, que se juntam ao músculo cremaster próximo do anel inguinal, podem ser evitadas, mas podem precisar ser cauterizadas ou ligadas ou seccionadas.</p><p>Diante de uma hérnia indireta, o saco herniário está localizado profundamente no músculo cremaster e anterossuperiormente às estruturas do cordão espermático. A</p><p>incisão do músculo cremaster em uma direção longitudinal e dividindo‑o circunferencialmente próximo do anel inguinal interno ajuda a expor o saco herniário</p><p>indireto. O saco herniário é cuidadosamente dissecado das estruturas do cordão adjacente até o nível do anel inguinal interno. O saco herniário é aberto e seu</p><p>conteúdo visceral é examinado no caso de hérnias volumosas; no entanto, essa etapa é desnecessária em hérnias pequenas. O saco herniário pode ser mobilizado e</p><p>colocado no espaço pré‑peritoneal, ou o colo do saco pode ser ligado no nível do anel interno e qualquer saco em excesso excisado. Se um saco herniário grande estiver</p><p>presente, ele pode ser seccionado usando‑se o eletrocautério para facilitar a ligação. Não é necessário excisar a porção distal do saco. Se o saco for de base ampla, pode</p><p>ser mais fácil deslocá‑lo para a cavidade peritoneal em vez de ligá‑lo. Os sacos da hérnia direta fazem protrusão pelo assoalho do canal inguinal e podem ser</p><p>reduzidos abaixo da fáscia transversal antes do reparo. Na verdade, um “lipoma” do cordão representa gordura retroperitoneal que herniou pelo anel inguinal</p><p>profundo e precisa ser ligada por sutura e removida.</p><p>Uma hérnia por deslizamento apresenta um desafio especial ao se lidar com o saco herniário. Com uma hérnia por deslizamento, uma porção do saco é composta de</p><p>peritônio visceral cobrindo parte de um órgão retroperitoneal, em geral o cólon ou a bexiga. Nessas situações, a porção macroscopicamente redundante do saco (se</p><p>presente) é excisada, e o peritônio, fechado de novo. O órgão e o saco então podem ser reduzidos abaixo da fáscia transversal, semelhante ao procedimento para uma</p><p>hérnia direta.</p><p>Reparos de tecido</p><p>Embora os reparos de tecido tenham sido amplamente abandonados em função das taxas inaceitavelmente altas de recidiva, eles ainda são úteis em determinadas</p><p>situações. Nas hérnias estranguladas em que a ressecção do intestino é necessária, próteses de malha são contraindicadas, e um reparo de tecido é necessário. As</p><p>opções disponíveis para reparo de tecido incluem trato iliopúbico, reparos de Shouldice, Bassini e McVay.</p><p>O reparo do trato iliopúbico aproxima o arco aponeurótico do transverso do abdome ao trato iliopúbico com o uso de suturas interrompidas (Fig. 44‑5). O reparo</p><p>começa no tubérculo púbico e estende‑se lateralmente até além do anel inguinal interno. O reparo era inicialmente descrito usando‑se uma incisão de relaxamento (ver</p><p>adiante); entretanto, muitos cirurgiões que usam esse reparo não realizam incisão de relaxamento.</p><p>FIGURA 445 Reparo</p><p>com o trato iliopúbico.</p><p>Superior, suturas laterais ao cordão completam a reconstrução do anel inguinal profundo. Essas estruturas englobam o arco do músculo transverso do abdome</p><p>acima e a origem do cremaster e o trato iliopúbico abaixo. Parte inferior, o reparo completo está pronto para o fechamento da incisão. A reconstrução do anel</p><p>profundo deve reduzir seu diâmetro, mas ser frouxa o suficiente para permitir a introdução da ponta de uma pinça hemostática. (De Condon RE: Anterior iliopubic tract</p><p>repair. In Nyhus LM, Condon RE, editors: Hernia, ed 2, Philadelphia, 1974, JB Lippincott, p 204.)</p><p>A técnica de Shouldice é feita através de um reparo imbricado na multicamada da parede posterior do canal inguinal com uma técnica de sutura contínua. Após</p><p>completar a dissecção, a parede posterior do canal inguinal é reconstruída por linhas de sutura contínua superpostas que vão das camadas mais profundas para as</p><p>mais superficiais. A linha de sutura inicial vai do arco aponeurótico do músculo transverso do abdome ao trato iliopúbico. Em seguida, os músculos oblíquo interno e</p><p>transverso do abdome e aponeuroses são suturados ao ligamento inguinal. A técnica de Shouldice está associada a uma taxa de recidiva muito baixa e a um alto grau</p><p>de satisfação em pacientes que são altamente selecionados.</p><p>A técnica de Bassini é realizada por sutura dos arcos musculoaponeuróticos do transverso abdominal e oblíquo interno ou tendão conjunto (quando presente) ao</p><p>ligamento inguinal. Essa técnica, outrora popular, é a abordagem básica para reparos de hérnia não anatômica e foi o tipo mais popular de reparo antes do advento</p><p>das abordagens cirúrgicas livres de tensão.</p><p>Reparo do ligamento de Cooper, também conhecido como técnica de McVay, tem sido tradicionalmente popular para a correção de hérnias inguinais diretas,</p><p>hérnias indiretas grandes, hérnias recidivantes e hérnias femorais. São usadas suturas interrompidas com fios inabsorvíveis para aproximar a margem da aponeurose</p><p>do transverso do abdome ao ligamento de Cooper. Quando a face medial do canal femoral é atingida, coloca‑se uma sutura de transição para incorporar o ligamento</p><p>de Cooper e o trato iliopúbico. Lateral a esse ponto de transição, a aponeurose do transverso do abdome é presa ao trato iliopúbico. Um princípio importante desse</p><p>reparo é a necessidade de uma incisão derelaxamento. O relaxamento é feito incisando‑se a aponeurose oblíqua externa cranial e medialmente para expor a bainha do</p><p>reto anterior. Uma incisão é feita, então, em uma direção curvilínea começando 1 cm acima do tubérculo púbico por toda a extensão da bainha anterior até próximo a</p><p>sua margem lateral. Isso alivia a tensão na linha de sutura e resulta em menos dor pós‑operatória e recidiva da hérnia. O defeito fascial é coberto pelo corpo do</p><p>músculo reto, que impede herniação no local da incisão de relaxamento. O reparo de McVay é particularmente utilizado para hérnias femorais estranguladas porque</p><p>ele proporciona obliteração do espaço femoral sem o uso de tela.</p><p>Reparo de hérnia inguinal livre de tensão anterior</p><p>O reparo livre de tensão tornou‑se o método dominante no tratamento cirúrgico da hérnia inguinal (Fig. 44‑6). Com o reconhecimento de que a tensão no reparo é a</p><p>principal causa de recidiva, as práticas atuais no tratamento da hérnia empregam uma prótese de malha sintética para sobrepor o defeito, um conceito primeiro</p><p>popularizado por Lichtenstein. Existem várias opções para colocação da tela durante herniorrafia inguinal anterior, incluindo abordagem Lichtenstein, técnica de</p><p>tampão e técnica de retalho e técnica de sanduíche, com uma peça anterior e pré‑peritoneal da tela.</p><p>FIGURA 446 O reparo da hérnia livre de tensão de Lichtenstein.</p><p>A, Esse procedimento é realizado por dissecção cuidadosa do canal inguinal. A ligadura alta de um saco herniário indireto é realizada, e as estruturas do cordão</p><p>espermático são rebatidas inferiormente. A aponeurose do oblíquo externo é isolada e tracionada cranialmente o suficiente para que o músculo oblíquo interno</p><p>subjacente possa aceitar um retalho ou tela de 6 a 8 cm de extensão. É necessária a sobreposição da borda do músculo oblíquo interno por 2 a 3 cm. Uma bainha</p><p>de tela de polipropileno é colocada sobre o canal inguinal. Uma abertura é feita na face lateral da tela, e o cordão espermático é colocado entre as duas</p><p>extremidades da abertura da tela. B, O cordão espermático é afastado na direção cefálica. A face medial da tela deve ultrapassar o osso púbico por</p><p>aproximadamente 2 cm. A tela é presa ao tecido aponeurótico recobrindo o tubérculo púbico usandose uma sutura contínua de material monofilamentar</p><p>inabsorvível. A sutura contínua lateralmente suturandose a borda inferior da tela à borda lateral do ligamento inguinal até um ponto adjacente do anel inguinal</p><p>interno. C, Uma segunda linha de sutura contínua é feita no nível do tubérculo púbico e estendida lateralmente por sutura da tela no músculo oblíquo interno e/ou</p><p>aponeurose a aproximadamente 2 cm da margem aponeurótica. D, As bordas inferiores das duas extremidades são suturadas à borda em prateleira do ligamento</p><p>inguinal para criar um novo anel interno feito com tela. As estruturas do cordão espermático são colocadas no interior do canal inguinal sobre a tela. Procedese a</p><p>síntese da aponeurose do oblíquo externo sobre o cordão espermático. (De Arregui ME, Nagan RD, editors: Inguinal hernia: Advances or controversies? Oxford, England, 1994,</p><p>Radcliffe Medical.)</p><p>No reparo de Lichtenstein,6 uma peça de tela inabsorvível é confeccionada para proteger ou reforçar o canal. Uma secção é feita na margem distal e lateral da tela</p><p>para acomodar o cordão espermático. Existem várias próteses disponíveis comercialmente para uso. A sutura inabsorvível monofilamentar é usada para prender a</p><p>tela, começando no tubérculo púbico em direção a uma extensão da sutura em ambas as direções à face superior acima do anel inguinal interno no nível das</p><p>extremidades da tela. A tela é suturada ao tecido aponeurótico que reveste a espinha do púbis medialmente, continuando superiormente ao longo do transverso do</p><p>abdome ou tendão conjunto. A margem inferolateral da malha é suturada à borda do trato iliopúbico ou em prateleira do ligamento inguinal até um ponto lateral ao</p><p>anel inguinal interno. Nesse ponto, as pontas criadas pela abertura são suturadas juntas em torno do cordão espermático, formando comodamente um novo anel</p><p>inguinal interno. É importante proteger o ramo do nervo ilioinguinal e genital do nervo genitofemoral do encarceramento, colocando‑os com as estruturas do cordão</p><p>conforme são passadas neste anel inguinal interno confeccionado recentemente, ou evitar seu fechamento no reparo.</p><p>Adaptando os princípios do reparo livre de tensão, Gilbert7 relatou o uso de um tampão (plug) em forma de cone de malha de polipropileno que, quando inserido</p><p>no anel inguinal interno, deveria armar‑se como um guarda‑chuva virado para baixo e ocluir a hérnia. Esse tampão é suturado aos tecidos circundantes e mantido no</p><p>lugar por um remendo de tela de cobertura adicional. Essa tela pode não precisar ser presa por suturas; entretanto, fazer isso exige dissecção para criar um espaço</p><p>suficiente entre oblíquo externo e interno para que a tela fique no plano sobre o canal inguinal. Esse reparo denominado tampão e remendo (plug‑and‑patch), uma</p><p>extensão do reparo com tela original de Lichtenstein, tornou‑se o reparo anterior primário de hérnia inguinal mais realizado. Embora esse reparo possa ser feito sem</p><p>fixação por sutura por alguns cirurgiões experientes, muitos protegem ambos, tampão e tela, com várias suturas inabsorvíveis monofilamentares, em especial para</p><p>assoalhos inguinais fracos ou defeitos grandes.</p><p>A técnica de sanduíche envolve um dispositivo de dupla camada com três componentes de polipropileno. Um remendo circular de sustentação proporciona um</p><p>reparo posterior semelhante à abordagem laparoscópica, um conector funciona</p><p>como um tampão, e uma tela cobre o assoalho inguinal posterior. O uso de suturas de</p><p>fixação interrompidas não é obrigatório, mas a maioria dos cirurgiões coloca três ou quatro suturas de fixação nesse reparo.</p><p>Outra opção para o reparo de tela livre de tensão envolve uma abordagem pré‑peritoneal usando uma tela de polipropileno autoexpansivo.8 É criado um espaço</p><p>pré‑peritoneal por dissecção cega, e, então, uma tela de malha pré‑formada é inserida no defeito da hérnia, que se expande para cobrir os espaços direto, indireto e</p><p>femoral. O enxerto fica paralelo ao ligamento inguinal. Ele pode permanecer sem sutura de fixação, ou uma sutura simples contínua pode ser colocada.</p><p>O reparo de Stoppa‑Rives utiliza uma incisão na linha média subumbilical para colocar uma prótese de malha grande para o espaço pré‑peritoneal.9 A dissecção</p><p>cega é usada para criar um espaço intraperitoneal que se estende para o espaço pré‑vesical, além do forame obturador e posterolateral à borda pélvica. Esta técnica tem</p><p>a vantagem de distribuir a pressão intra‑abdominal natural em uma ampla área para manter a tela em um local apropriado. A técnica Stoppa‑Rives é particularmente</p><p>útil para hérnias volumosas, recidivadas ou bilaterais.</p><p>Reparo préperitoneal</p><p>A abordagem pré‑peritoneal aberta é útil para o reparo das hérnias inguinais recidivadas, hérnias por deslizamento, hérnias femorais e algumas hérnias</p><p>estranguladas.10 Uma incisão transversa da pele é feita 2 cm acima do anel inguinal interno e é direcionada para a borda medial da bainha do reto. Os músculos da</p><p>parede abdominal anterior são incisados transversalmente, e o espaço pré‑peritoneal é identificado. Se for necessária exposição adicional, a bainha do reto anterior</p><p>pode ser incisada, e o músculo reto, afastado medialmente. Os tecidos pré‑peritoneais são afastados cefalicamente para visualização da parede inguinal posterior e o</p><p>local de herniação. A artéria e as veias epigástricas anteriores estão geralmente abaixo da porção média da bainha posterior do reto e, em geral, não necessitam ser</p><p>seccionadas. A abordagem posterior evita a mobilização do cordão espermático e lesão aos nervos sensoriais do canal inguinal, que é particularmente importante para</p><p>hérnias previamente reparadas por uma abordagem anterior. Se o peritônio for incisado, ele é fechado por sutura para evitar evisceração dos conteúdos</p><p>intraperitoneais para o campo operatório. A fáscia transversal e a fáscia da aponeurose são identificadas e suturadas ao trato iliopúbico com suturas permanentes. As</p><p>hérnias femorais reparadas com essa abordagem exigem fechamento do canal femoral por fixação do reparo ao ligamento de Cooper. Uma prótese de tela é</p><p>frequentemente usada para obliterar o defeito no canal femoral, particularmente com hérnias volumosas.</p><p>Reparo laparoscópico</p><p>O reparo laparoscópico da hérnia inguinal é outro método de reparo com tela livre de tensão, com base em uma abordagem pré‑peritoneal. A abordagem</p><p>laparoscópica tem a vantagem mecânica de colocar uma grande tela atrás do defeito, cobrindo o buraco miopectíneo, e usando as forças naturais da parede abdominal</p><p>para distribuir a pressão intra‑abdominal sobre uma grande área para manter a prótese no lugar. Os proponentes argumentaram recuperação mais rápida, menos dor,</p><p>melhor visualização da anatomia e possibilidade para reparar todos os defeitos herniários inguinais. Os críticos enfatizaram períodos operatórios mais longos, desafios</p><p>técnicos, aumento do risco de recidiva e aumento dos custos. A reparação laparoscópica também está associada a aproximadamente 0,3% de risco de lesão visceral ou</p><p>vascular.11 Embora exista controvérsia sobre a utilidade do reparo laparoscópico de hérnias inguinais unilaterais primárias, a maioria concorda que essa abordagem</p><p>tem vantagens para pacientes com reparo de hérnias bilaterais ou recidivadas.12 A adoção de orientações práticas para a realização de reparos laparoscópicos da hérnia</p><p>pode ajudar a reduzir os custos.</p><p>Ao considerar a abordagem laparoscópica para reparo de hérnias inguinais, o cirurgião tem várias opções. As técnicas mais populares incluem a abordagem</p><p>extraperitoneal (TEP) e a pré‑peritoneal transabdominal (TAPP). A principal diferença entre essas duas técnicas está na sequência de acesso ganho para o espaço pré‑</p><p>peritoneal. Na abordagem TEP, a dissecção começa no espaço pré‑peritoneal usando um balão dissector. No reparo TAPP, o espaço pré‑peritoneal se faz por acesso da</p><p>cavidade peritoneal. Cada abordagem tem seus méritos. Usando a abordagem TEP, a dissecção pré‑peritoneal é mais rápida, e o risco potencial de lesão visceral</p><p>intraperitoneal é minimizado. Entretanto, o uso de balões de dissecção é oneroso, o espaço de trabalho é mais limitado e pode não ser possível criar um espaço de</p><p>trabalho se o paciente tiver tido uma operação pré‑peritoneal anterior. Por outro lado, se ocorrer uma grande laceração no peritônio durante a abordagem TEP, o</p><p>potencial de espaço de acesso pode tornar‑se obliterado, obrigando a conversão para uma abordagem TAPP. Por essas razões, o domínio de uma técnica</p><p>transabdominal é essencial durante os reparos laparoscópicos de uma hérnia inguinal. A abordagem transabdominal possibilita a identificação imediata da anatomia</p><p>da região inguinal antes de se proceder a extensiva dissecção dos planos naturais de tecido. O maior espaço da abordagem da cavidade peritoneal pode facilitar a</p><p>experiência com a técnica laparoscópica.</p><p>Não existem contraindicações absolutas ao reparo laparoscópico da hérnia inguinal além da incapacidade de tolerar anestesia geral. Os pacientes que tiveram</p><p>operação na porção inferior do abdome podem necessitar que se faça a lise de aderência significativa e podem ser mais bem abordados por via anterior. Em particular,</p><p>nos pacientes que tiveram uma prostatectomia retropúbica radical com o espaço retroperitoneal previamente dissecado, uma dissecção segura acurada pode tornar‑se</p><p>um desafio.</p><p>Na abordagem TEP, utiliza‑se uma incisão infraumbilical. A bainha do reto anterior é incisada, o músculo reto ipsilateral do abdome é afastado lateralmente, e uma</p><p>dissecção cega é utilizada para criar um espaço abaixo do reto. Um balão dissector é inserido profundamente até a bainha posterior do reto, e direcionado à sínfise</p><p>pubiana e inflado sob visão laparoscópica direta (Fig. 44‑7). Após ser aberto, o espaço é insuflado, e trocarteres adicionais são colocados. Uma lente laparoscópica de</p><p>30° fornece a melhor visualização da região inguinal (Fig. 44‑3). Os vasos epigástricos inferiores são identificados ao longo da porção inferior do músculo reto e servem</p><p>como um marco útil. O ligamento de Cooper precisa ser isolado da sínfise pubiana medialmente até o nível da veia ilíaca externa. O trato iliopúbico também é</p><p>identificado. Deve‑se ter cuidado para evitar lesão do ramo femoral do nervo genitofemoral e do nervo cutâneo femoral lateral, que são localizados lateralmente e</p><p>abaixo do trato iliopúbico (Fig. 44‑4). A dissecção lateral é realizada para a espinha ilíaca superior anterior. Por fim, o cordão espermático é esqueletizado.</p><p>FIGURA 447 Reparo laparoscópico extraperitoneal total (TEP) de hérnia.</p><p>A, A abordagem TEP para reparo laparoscópico de hérnia é demonstrada. O acesso à bainha do reto posterior é ganhado na região periumbilical. Um dissector</p><p>com balão é colocado na superfície anterior da bainha do reto posterior. B, O dissector com balão é avançado para a superfície posterior do púbis no espaço pré</p><p>peritoneal. C, O balão é inflado, criando, assim, uma cavidade óptica. D, A cavidade óptica é insuflada por dióxido de carbono, e a superfície posterior do assoalho</p><p>inguinal é dissecada.</p><p>Na abordagem TAPP, uma incisão infraumbilical é usada para o acesso à cavidade peritoneal diretamente. Dois trocarteres de 5 mm são colocados lateralmente aos</p><p>vasos epigástricos inferiores no nível</p><p>do umbigo. Faz‑se um retalho peritoneal na parede abdominal anterior estendendo‑se da prega umbilical até a espinha ilíaca</p><p>superior. O restante da operação segue como um procedimento TEP.</p><p>O saco de uma hérnia direta e a gordura pré‑peritoneal associada são delicadamente reduzidos por uma tração se não houver sido por expansão com balão do</p><p>espaço peritoneal. Um pequeno saco de uma hérnia indireta é mobilizado das estruturas do cordão e reduzido na cavidade peritoneal. Já um saco volumoso pode ser</p><p>de difícil redução. Nesse caso, o saco é seccionado com cautério próximo do anel inguinal interno, deixando a parte distal in situ. O saco peritoneal proximal é</p><p>obliterado com uma ligadura em alça para evitar a ocorrência de pneumoperitônio. Após a redução das hérnias, uma peça de 12 × 14 cm de tela de polipropileno é</p><p>inserida por meio de um trocarte e desdobrada. Ela ocupa os espaços direto, indireto e femoral e fica sobre as estruturas do cordão. É imperativo que o peritônio seja</p><p>dissecado a pelo menos 4 cm afastado das estruturas do cordão para evitar que o peritônio passe dos limites embaixo da tela, o que pode levar à recidiva. A tela é</p><p>cuidadosamente presa com uma carga do grampeador ao ligamento de Cooper junto ao tubérculo púbico até a veia ilíaca externa, e anteriormente à musculatura do</p><p>reto e arco aponeurótico do transverso doabdome pelo menos 2 cm acima do defeito herniário, e lateralmente ao trato iliopúbico. A tela estende‑se além da sínfise</p><p>pubiana e abaixo do cordão espermático e do peritônio (Fig. 44‑8). A tela não é fixada nessa área, e os grampos não são colocados inferiormente ao trato iliopúbico</p><p>além da artéria ilíaca externa. Grampos colocados nessa área podem lesionar o ramo femoral do nervo genitofemoral ou o nervo cutâneo femoral lateral. Os grampos</p><p>também são evitados no denominado triângulo do perigo, limitado pelo ducto deferente medialmente e vasos espermáticos lateralmente, para afastar a possibilidade</p><p>de lesão dos vasos ilíacos externos e nervo femoral. Enquanto se pode palpar a ponta do dispositivo do grampo, essas estruturas não são suscetíveis de serem lesadas.</p><p>FIGURA 448 Ilustração da colocação de uma tela para o reparo extraperitoneal total (TEP) de hérnia. (De Corbitt J: Laparoscopic transabdominal transperitoneal patch</p><p>hernia repair. In Ballantyne GH, editor: Atlas of laparoscopic surgery, Philadelphia, 2000, WB Saunders, p 511.)</p><p>Resultados do Reparo da Hérnia</p><p>A verdadeira avaliação do sucesso para os vários tipos de reparo da hérnia é baseada nos resultados. As melhores informações sobre os resultados do tratamento</p><p>cirúrgico das hérnias estão disponíveis em grandes estudos prospectivos randomizados, metanálises de ensaios clínicos aleatórios e dois grandes registros nacionais, a</p><p>Danish Hernia Database e o Swedish Hernia Register. A Danish Hernia Database inclui dados de mais de 98% dos reparos de hérnias inguinais; a taxa de avaliação do</p><p>Swedish Hernia Register é aproximadamente 80%.13,14 Apesar da natureza de alguns ensaios clínicos randomizados, deve‑se ter cuidado ao interpretar os resultados.</p><p>Muitos desses pacientes eram altamente selecionados, e a maioria dos ensaios excluiu hérnias recidivadas, indivíduos obesos e hérnias inguinais volumosas. Além</p><p>disso, alguns resultados do acompanhamento foram completados por entrevistas por telefone, e não por exame físico. Os registros nacionais apenas coletam</p><p>informações sobre as operações, assim a incidência de recorrência é menor do que se todos os pacientes tivessem sido entrevistados e examinados.</p><p>A mortalidade de todos os tipos de reparo é baixa e há diferenças significativas relatadas entre as várias técnicas. Há uma maior mortalidade associada com o reparo</p><p>das hérnias estranguladas. Por outro lado, o risco de morte está relacionado às comorbidades individuais e deve ser avaliado em cada paciente. O tipo de anestésico</p><p>não afeta a taxa de recorrência.14 As reparações abertas podem ser realizadas sob anestesia local, o que pode ser uma vantagem na cirurgia de pacientes de alto risco.</p><p>Existem diferenças importantes nos resultados do reparo da hérnia primária. Recidiva da hérnia é o resultado primário avaliado pela maioria dos estudos. Grandes</p><p>séries, incluindo vários tipos de reparos, sugeriram que a recorrência varia de 1,7% a 10%.13‑15</p><p>Os resultados dos reparos de tecido foram fundamentados em relatos consistindo em série institucional única ou pessoal que não eram prospectivas ou</p><p>randomizadas e tiveram períodos de acompanhamento irregulares. Não surpreende que a recorrência foi variável.</p><p>Reparos sem tensão têm uma menor taxa de recorrência do que os reparos teciduais.14,16,17 Resultados da Danish Hernia Database têm demonstrado que as recidivas</p><p>das hérnias com o tratamento pela técnica de Lichtenstein é de apenas 25% dos reparos sem tela.13 Uma revisão da Cochrane mostrou que as reparações com tela têm</p><p>um risco 50% a 75% menor de recidiva, menor risco de dor inguinal crônica pós herniorrafia e retorno mais rápido ao trabalho do que com as reparações abertas.16 A</p><p>reparação de Shouldice tem uma taxa de recidiva superior às reparações com prótese, a menos que seja usada prótese.17 Uma metanálise comparando a técnica de</p><p>Lichtenstein, enxerto de tela e reparos bienvelopados acusou diferenças significativas na taxa de recorrência, dor crônica na virilha, outras complicações e/ou tempo</p><p>para voltar ao trabalho.18 Aproximadamente 50% das recidivas são encontradas dentro de três anos após o reparo primário. Recorrência continua a ocorrer após esse</p><p>período após o tratamento, mas é incomum com reparos livres de tensão. No reparo técnica híbrida foi encontrada uma taxa de recidiva de hérnia de 20% quando</p><p>utilizados para volumosas hérnias diretas ou recidivadas.19 Esses resultados mostram as limitações da tela nessas circunstâncias.</p><p>Uma grande revisão de ensaios clínicos randomizados foi publicada em 2002 pela European Union Hernia Trialists Collaboration.20 Os autores relataram uma</p><p>metanálise de 4.165 pacientes em 25 estudos. Com base nos dados disponíveis, o reparo laparoscópico proporcionou um retorno mais rápido à atividade normal e</p><p>menos dor persistente no pós‑operatório. A taxa de recidiva para o reparo laparoscópico foi menor em comparação com os reparos sem tela pelo método aberto,</p><p>entretanto os reparos laparoscópicos e abertos com tela tiveram taxas semelhantes de recidiva.</p><p>Um estudo prospectivo, patrocinado pela Veterans Administration, randomizou em 1983 pacientes tratados pela técnica de Lichtenstein com o reparo laparoscópico,</p><p>dos quais 90% eram reparos TEP.15 Nesse estudo, a maioria dos cirurgiões pode ter tido uma experiência subótima com a abordagem laparoscópica; apenas 25 reparos</p><p>anteriores foram necessários para serem elegíveis para arrolar os pacientes, o qual é consistente com a taxa de conversão aparentemente alta de 5%. Apesar desses</p><p>fatores, esses pesquisadores encontraram uma incidência duas vezes mais elevada de recidiva após reparo laparoscópico (10%) do que reparo aberto (5%). Essa</p><p>diferença na taxa de recidiva foi mantida para hérnias primárias (10% de laparoscópica versus 4% de aberta); entretanto, as hérnias recidivadas reparadas pela</p><p>abordagem laparoscópica tenderam a ter menos recidiva (10% versus 14%). Em outro estudo realizado pelo mesmo grupo, a inexperiência do cirurgião com</p><p>laparoscopia e cirurgiões com mais de 45 anos de idade foram ambos preditores de recorrência após reparo laparoscópico.18 Um grande estudo de coorte e uma</p><p>metanálise recente mostraram um risco significativamente maior de recidiva após reparação laparoscópica, que é quase duas vezes o da reparação aberta</p><p>(4,1% versus 2,1%).21,22 O que se pode concluir desses resultados? Esses resultados mostram que o reparo laparoscópico de hérnias inguinais tem uma curva de</p><p>aprendizagem definida para alcançar</p><p>uma taxa de recidiva aceitavelmente baixa.</p><p>Em uma revisão de Cochrane de mais de 1.000 pacientes em oito estudos não randomizados, não houve diferença na taxa de recidiva da hérnia entre reparos TAPP e</p><p>TEP.23 O TAPP procedimento estava associado a um maior volume das hérnias e lesões vasculares, enquanto a abordagem TEP tinha uma maior taxa de conversão.</p><p>Hérnias femorais</p><p>Uma hérnia femoral ocorre pelo canal femoral, que é limitado superiormente pelo trato iliopúbico, inferiormente pelo ligamento de Cooper, lateralmente pela veia</p><p>femoral e medialmente pela junção do trato iliopúbico e do ligamento de Cooper (ligamento lacunar). Uma hérnia femoral produz uma tumoração ou protuberância</p><p>abaixo do ligamento inguinal. Às vezes, algumas hérnias femorais se apresentarão sobre o canal inguinal. Nessa situação, o saco herniário femoral ainda existe</p><p>inferiormente ao ligamento inguinal através do canal femoral, mas ascende em uma direção cefálica. Aproximadamente 50% dos homens com uma hérnia femoral</p><p>terão uma hérnia inguinal direta associada, enquanto essa relação ocorre em apenas 2% das mulheres.</p><p>Uma hérnia femoral pode ser tratada usando‑se o reparo do ligamento de Cooper, uma abordagem pré‑peritoneal, ou uma abordagem laparoscópica. Os elementos</p><p>essenciais do reparo da hérnia femoral incluem dissecção e a redução do saco herniário e obliteração do defeito no canal femoral, ou por aproximação do trato</p><p>iliopúbico ao ligamento de Cooper ou por colocação de uma prótese de tela para obliterar o defeito. A incidência de estrangulamento nas hérnias femorais é alta;</p><p>portanto, todas as hérnias femorais devem ser reparadas, e as hérnias femorais encarceradas devem ter os conteúdos do saco herniário examinados quanto à</p><p>viabilidade. Em pacientes com comprometimento intestinal, a abordagem do ligamento de Cooper é a técnica preferida porque a tela está contraindicada. Quando os</p><p>conteúdos encarcerados de uma hérnia femoral não podem ser reduzidos, a secção do ligamento lacunar é mandatória.</p><p>As hérnias femorais associadas às inguinais ocorrem em 0,3% dos pacientes conforme foi assinalado por um banco de dados sobre hérnias de quase 35.000</p><p>pacientes.24 A ocorrência de uma hérnia femoral após reparo de hérnia inguinal foi relatada ser 15 vezes maior do que a taxa normal esperada. Não está claro se isso</p><p>representa uma hérnia femoral negligenciada à operação prévia ou uma propensão a desenvolver uma nova hérnia após reparo de hérnia inguinal. A recidiva da</p><p>hérnia femoral após a operação é de apenas 2%. Reparos de hérnia femoral recorrente apresentam uma taxa de recorrência de cerca de 10%.</p><p>Problemas especiais</p><p>Hérnia por Deslizamento</p><p>A hérnia por deslizamento ocorre quando um órgão interno integra uma porção da parede do saco herniário. As vísceras mais comumente envolvidas são o cólon ou a</p><p>bexiga. A maioria das hérnias por deslizamento é uma variante de hérnias inguinais indiretas, embora hérnias femorais e hérnias diretas por deslizamento possam</p><p>ocorrer. O primeiro perigo associado a uma hérnia por deslizamento é a falha em se reconhecer o componente visceral do saco herniário antes de ocorrer a lesão da</p><p>bexiga ou intestino. Os conteúdos da hérnia por deslizamento são reduzidos na cavidade peritoneal e qualquer saco herniário em excesso é ligado e seccionado. Após</p><p>a redução da hérnia, uma das técnicas mencionadas pode ser utilizada para o reparo da hérnia inguinal.</p><p>Hérnia Recidivada</p><p>O reparo das hérnias inguinais recidivadas é desafiador, e os resultados estão associados à incidência mais alta de recidiva secundária. As hérnias recidivadas quase</p><p>sempre requerem colocação de prótese de tela para um reparo bem‑sucedido. A exceção é quando uma prótese infectada está associada com uma hérnia recorrente. As</p><p>recidivas após hernioplastia anterior usando tela são muito mais bem tratadas por abordagem laparoscópica ou cirurgia aberta posterior com colocação de uma</p><p>segunda prótese.</p><p>Hérnia Estrangulada</p><p>O reparo de uma hérnia com suspeita de estrangulamento é mais seguro usando‑se uma abordagem pré‑peritoneal (ver anteriormente). Com essa exposição, os</p><p>conteúdos do saco herniário podem ser diretamente visualizados e sua viabilidade avaliada por meio de uma única incisão. O anel constritor é identificado e pode ser</p><p>incisado para redução da víscera aprisionada com mínimo perigo para os órgãos circundantes, vasos sanguíneos e nervos. Se for necessário ressecar o intestino</p><p>estrangulado, o peritônio pode ser aberto e a ressecção feita sem a necessidade de uma segunda incisão.</p><p>Hérnias Bilaterais</p><p>A abordagem do reparo das hérnias inguinais bilaterais baseia‑se na extensão do defeito herniário. Reparo simultâneo de hérnias bilaterais tem uma taxa de recidiva</p><p>semelhante ao reparo unilateral, independentemente da técnica utilizada, seja aberta ou laparoscópica.25 A utilização de um reforço com uma tela maior para grandes</p><p>sacos viscerais (reparo de Stoppa)9 ou o reparo laparoscópico é preferido para reparo simultâneo das hérnias inguinais bilaterais.</p><p>Complicações</p><p>Há uma série de complicações relacionadas ao reparo de hérnia inguinal aberta e laparoscópica (Tabela 44‑1). Algumas são complicações gerais que estão relacionados</p><p>com doenças subjacentes e os efeitos da anestesia. Estes variam por risco e população. Além disso, existem complicações técnicas que estão diretamente relacionadas</p><p>com o tratamento. As complicações técnicas são influenciadas pela experiência do cirurgião e são mais frequentes durante e após reparo de hérnias recidivadas.</p><p>Existem maiores problemas de cicatrização e alteração da anatomia com a recidiva da hérnia, o que pode resultar em dificuldade na identificação de estruturas</p><p>importantes na intervenção cirúrgica. Essa é a principal razão por que recomendamos o uso de uma abordagem diferente para hérnias recidivadas.</p><p>Tabela 441</p><p>Complicações após Reparo de Hérnia Inguinal Aberta e Laparoscópica (%)</p><p>COMPLICAÇÃO REPARO ABERTO (N = 994) REPARO LAPAROSCÓPICO (N = 989)</p><p>Complicações intraoperatórias 1,9 4,8</p><p>Complicações pós‑operatórias 19,4 24,6</p><p>Retenção urinária 2,2 2,8</p><p>Infecção do trato urinário 0,4 1,0</p><p>Orquite 1,1 1,4</p><p>Infecção do local cirúrgico 1,4 1,0</p><p>Neuralgia, dor 3,6 4,2</p><p>Complicações potencialmente fatais 0,1 1,1</p><p>Complicações a longo prazo 17,4 18,0</p><p>Seroma 3,0 9,0</p><p>Orquite 2,2 1,9</p><p>Infecção 0,6 0,4</p><p>Dor crônica 14,3 9,8</p><p>Recorrência 4,9 10,1</p><p>De Neumayer L, Giobbie‑Hurder A, Jonassen O, et al: Open mesh versus laparoscopic mesh repair of inguinal hernias. N Engl J Med 350:1819–1827, 2004.</p><p>Embora a taxa de complicação geral do reparo da hérnia tenha sido estimada em torno de 10%, muitas dessas complicações são transitórias e podem ser tratadas</p><p>com facilidade. Complicações mais sérias de uma ampla experiência estão relacionadas na Tabela 44‑1.</p><p>Infecções do Local Cirúrgico</p><p>O risco de infecção da incisão cirúrgica é estimado em 1% a 2% após o reparo aberto de hérnia inguinal e um pouco menor com os reparos laparoscópicos. Essas são</p><p>operações limpas, sendo o risco de infecção principalmente influenciado por doenças associadas do paciente. A maioria concordaria que não há necessidade de usar a</p><p>profilaxia antimicrobiana de rotina para reparo de hérnia.20 Ensaios clínicos prospectivos randomizados não sustentaram o uso rotineiro de profilaxia antimicrobiana</p><p>perioperatória para reparo de hérnia inguinal em pacientes com baixo risco de infecção.26 Pacientes com doença subjacente significativa, como refletido por um escore</p><p>da American Society of Anesthesiology de 3 ou mais, recebem a profilaxia antimicrobiana perioperatória com cefazolina, 1 a 2 g, administrada IV 30 a 60 minutos antes</p><p>da incisão. Clindamicina, 600 mg IV, pode ser usada para pacientes alérgicos à penicilina. Uma única dose de antibiótico é necessária. A colocação de prótese tipo tela</p><p>não aumenta</p><p>o risco de infecção e não influencia a necessidade de profilaxia. Infecções do local cirúrgico superficial são tratadas pela abertura da incisão, cuidados</p><p>locais das feridas e cicatrização por segunda intenção. Algumas infecções irão se apresentar como um ponto de drenagem crônica decorrente do comprometimento</p><p>bacteriano da tela ou ocorrer sua expulsão. As infecções profundas do sítio cirúrgico geralmente envolvem a prótese, que deve ser retirada.</p><p>O risco de infecção pode ser reduzido com o uso de técnica operatória adequada, preparação antisséptica pré‑operatória da pele e remoção apropriada de pelos. Há</p><p>maior risco para pacientes que tiveram infecções prévias de incisão de herniorrafia, infecções crônicas da pele ou uma infecção em um local distante. Essas infecções</p><p>são tratadas antes da cirurgia eletiva.</p><p>Lesões de Nervo e Síndromes de Dor Crônica</p><p>Lesões de nervo são uma complicação infrequente e menos conhecidas do reparo da hérnia inguinal. A lesão pode ocorrer em consequência de tração,</p><p>eletrocauterização, transecção e aprisionamento. O uso de prótese com tela pode resultar em disestesias que são geralmente temporárias. Os nervos mais atingidos</p><p>durante o reparo aberto da hérnia são o ilioinguinal, ramo genital e genitofemoral e ílio‑hipogástrico. Durante o reparo laparoscópico, os nervos cutâneo femoral</p><p>lateral e genitofemoral são afetados com mais frequência.27 Raramente, o tronco principal do nervo femoral pode ser lesado durante o reparo laparoscópico ou aberto</p><p>da hérnia inguinal.</p><p>As neuralgias transitórias envolvendo nervos sensoriais podem ocorrer e são normalmente autolimitadas, ficando resolvidas em poucas semanas após a cirurgia.</p><p>Neuralgias persistentes em geral resultam em dor e hiperestesia na área de distribuição. Os sintomas são frequentemente reproduzidos por palpação sobre o ponto de</p><p>aprisionamento ou hiperextensão do quadril e podem ser aliviados pela flexão da coxa. A transecção de um nervo sensorial em geral resulta em uma área de</p><p>insensibilidade correspondendo à distribuição do nervo envolvido.</p><p>Com mais atenção aos resultados do paciente, a dor crônica na região inguinal tem substituído a recidiva como complicação primária após reparo aberto de hérnia</p><p>inguinal. Cerca de 10% dos pacientes têm dor crônica pós‑herniorrafia, definida como dor persistindo por mais de três meses após a cirurgia,28 e a dor interfere nas</p><p>atividades de via diária em 2% a 4%.29 As estratégias da secção rotineira de nervo na operação aberta não têm sido associadas à redução na dor crônica nos reparos</p><p>anteriores com base em telas.30 Em contrapartida, a secção rotineira do nervo ilioinguinal associa‑se a distúrbios sensoriais mais significativos. Pela operação em uma</p><p>área remota aos nervos comumente lesados e pela colocação de grampos, a dor crônica na virilha intuitivamente é menor nos reparos laparoscópicos. Alguns trabalhos</p><p>comparando reparações laparoscópicas e abertas reportaram taxas mais baixas de dor inguinal pós‑operatória crônica, mas essa observação permanece controversa.</p><p>Várias abordagens do tratamento de neuralgia residual têm sido descritas. Os sintomas iniciais são tratados com agentes anti‑inflamatórios, analgésicos e bloqueios</p><p>anestésicos locais. Pacientes com síndromes de aprisionamento do nervo são mais bem tratados com exploração repetida com neurectomia e remoção da tela através</p><p>de uma abordagem anterior. As lesões laparoscópicas de nervo são minimizadas quando não se colocam grampos ou grampos abaixo da porção lateral do trato</p><p>iliopúbico. Se o aprisionamento ocorre, os pacientes são reoperados para remoção do grampo agressor.</p><p>Atrofia Testicular e Orquite Isquêmica</p><p>A orquite isquêmica ocorre como consequência de trombose das pequenas veias do plexo pampiniforme dentro do cordão espermático. Isso resulta em congestão</p><p>venosa dos testículos, que se tornam entumescidos e sensíveis dois a cinco dias após a operação. O processo continua por seis a 12 semanas adicionais e, em geral,</p><p>resulta em atrofia testicular. Orquite isquêmica também pode ser causada por ligadura da artéria testicular. Ela é tratada com analgésicos e anti‑inflamatórios. A</p><p>orquiectomia raramente é necessária.</p><p>A incidência de orquite isquêmica pode ser minimizada evitando‑se dissecção desnecessária no cordão espermático. A incidência pode aumentar com dissecção da</p><p>porção distal de um saco herniário grande e entre pacientes que tiveram operações anteriores para recidiva de hérnia ou para doença do cordão espermático. Nessas</p><p>situações, o uso de uma abordagem posterior é preferido.</p><p>Atrofia testicular é uma consequência de orquite isquêmica. É mais comum após reparo de hérnias recorrentes, particularmente quando é usada uma abordagem</p><p>anterior. A incidência de orquite isquêmica aumenta por um fator de três ou quatro com cada recidiva da hérnia subsequente.</p><p>Lesão dos Ductos Deferentes e Visceral</p><p>A lesão dos ductos deferentes e da víscera intra‑abdominal é incomum. A maioria dessas lesões ocorre em pacientes com hérnias inguinais por deslizamento quando</p><p>não se reconhece a presença da víscera intra‑abdominal no saco herniário. Com hérnias volumosas, o ducto deferente pode ser deslocado em um anel inguinal</p><p>alargado, antes de sua entrada no cordão espermático. Nessa situação, o ducto deferente é identificado e protegido.</p><p>Recidiva da Hérnia</p><p>Hérnias recidivadas são, em geral, causadas por fatores técnicos, como tensão excessiva no reparo, falha para incluir uma margem adequada musculoaponeurótica no</p><p>reparo e tamanho impróprio da tela quando de sua colocação. Recidiva também pode resultar de falha em fechar um anel inguinal interno alargado, cujo tamanho é</p><p>sempre avaliado na conclusão da cirurgia primária. Outros fatores que podem causar recidiva da hérnia são pressão intra‑abdominal cronicamente elevada, uma tosse</p><p>crônica, infecções incisionais profundas e formação de colágeno deficiente na ferida. As recidivas são mais comuns entre pacientes com hérnias diretas e, em geral,</p><p>envolvem o assoalho do canal inguinal próximo do tubérculo púbico, onde a tensão da linha de sutura é maior. O uso de uma incisão relaxante quando há tensão</p><p>excessiva no momento do reparo da hérnia primária é útil para reduzir a recidiva. Uma hérnia femoral é encontrada em aproximadamente 5% a 10% dos pacientes</p><p>com recidiva da hérnia inguinal e deve sempre ser investigada na operação.13</p><p>A maioria das hérnias recidivadas exige o uso de tela como prótese para um reparo bem‑sucedido.30,31 A escolha de uma abordagem diferente (em geral posterior)</p><p>evita dissecção através do tecido cicatricial, melhora a visualização do defeito e redução da hérnia, e diminui a incidência de complicações, em particular orquite</p><p>isquêmica e lesão do nervo ilioinguinal. As recidivas após reparo inicial com tela podem ocorrer pelo deslocamento da prótese ou ao uso de uma prótese de tamanho</p><p>inadequado. As recidivas são mais bem tratadas colocando‑se uma segunda prótese por uma abordagem diferente.</p><p>Uma metanálise de 58 relatos comparando técnicas de tela sintética para os reparos mostrou uma redução de quase 60% na recorrência com o uso da tela.20 Esse</p><p>relato concluiu que não houve diferença na taxa de recidiva da hérnia entre abordagens laparoscópicas e abertas quando se usa uma tela. Uma metanálise recente de</p><p>reparos de hérnia recorrente não notou nenhuma diferença entre os reparos com tela para cirurgia aberta e/ou laparoscópica ou dor crônica inguinal.32</p><p>A recidiva é mais comum após reparo de hérnias recidivadas e relaciona‑se diretamente com o número de tentativas prévias no reparo. Grandes estudos</p><p>populacionais relataram uma taxa de recorrência de 4% a 5% nos primeiros 24 meses, que aumenta a 7,5% em cinco anos.31,33 Os reparos livres de tensão e com base</p><p>em tela têm as menores taxas de reoperação após recidiva e resultam em uma redução na recorrência de aproximadamente 60% em comparação com os reparos mais</p><p>tradicionais.30</p>