Logo Passei Direto
Buscar

CATEGORIAS E CONCEITOS DA GEOGRAFIA

User badge image
Básico

em

Ferramentas de estudo

Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Prévia do material em texto

<p>CATEGORIAS E CONCEITOS DA</p><p>GEOGRAFIA</p><p>APRESENTAÇÃO</p><p>Professora Esp. Karitta da Silva Lopes</p><p>● Licenciada em Geografia pela Universidade Estadual de Maringá (UEM).</p><p>● Especialista em “História da África e Cultura Afro-Brasileira, Práticas Docentes,</p><p>Relações Raciais e a Aplicação da Lei 10.639/03” pela Universidade Estadual de Maringá</p><p>(UEM).</p><p>● Atuou como professora de Geografia pelo Processo Seletivo Simplificado do</p><p>Paraná da Secretaria de Estado da Educação do Paraná (SEED-PR).</p><p>● Link do Currículo na Plataforma Lattes: http://lattes.cnpq.br/2751506907806550.</p><p>Ampla experiência como docente na rede pública de Ensino Básico do Estado do Paraná,</p><p>atuando em instituições como o Colégio Estadual João de Faria Pioli, Colégio Estadual</p><p>Silvio Magalhães Barros, Instituto de Educação Estadual de Maringá, Colégio Estadual</p><p>Antônio Francisco Lisboa e Colégio Estadual Jardim Independência, estes dois últimos,</p><p>localizados no município de Sarandi-PR.</p><p>APRESENTAÇÃO DA APOSTILA</p><p>Olá, seja muito bem vinda(o) à disciplina “Categorias e conceitos da Geografia”!</p><p>Prezada(o) aluna(o), é com grande satisfação e apreço que lhe introduzo às</p><p>temáticas e assuntos que compõem esta disciplina. Se você se interessou pelos</p><p>conhecimentos apresentados e dinamizados aqui, o presente material será o início de</p><p>uma grande jornada que vamos trilhar juntos a partir de agora. Desde já te adianto que</p><p>o desenvolvimento do conhecimento em Geografia se faz por meio de uma construção</p><p>coletiva, ou seja, por relações conjuntas e recíprocas e nunca individuais ou unilaterais.</p><p>Desta forma, é a partir do compartilhamento e socialização dos saberes</p><p>geográficos, divididos em quatro unidades, que vamos estudar alguns dos princípios</p><p>históricos, teóricos, metodológicos e epistemológicos da construção e consolidação da</p><p>Geografia como ciência.</p><p>Na unidade I vamos conhecer a disciplina de Geografia ao longo da História, com</p><p>destaque ao seu desenvolvimento por meio das correntes do pensamento geográfico,</p><p>das suas tendências mundiais e brasileiras e dos seus conceitos e categorias analíticas</p><p>principais.</p><p>Já na unidade II você irá saber mais sobre questões acerca da ação humana na</p><p>natureza e as relações estabelecidas entre a sociedade e o meio ambiente, como</p><p>também, sobre o impacto da sociedade na natureza e vice e versa, e algumas técnicas</p><p>sustentáveis desenvolvidas para diminuir esse impacto.</p><p>Na sequência, na unidade III falaremos a respeito das divisões da Geografia entre</p><p>Geografia Humana e Geografia Física, das relações entre Geografia e</p><p>interdisciplinaridade, dos princípios da Geografia Crítica enquanto uma corrente teórica</p><p>presente nos estudos geográficos e dos diversos ramos da Geografia, como a</p><p>Geomorfologia, Climatologia, Geografia Social e Geopolítica, entre outros.</p><p>Em nossa unidade IV, vamos finalizar o conteúdo dessa disciplina com estudos à</p><p>respeito da leitura do espaço geográfico por meio das categorias geográficas de lugar e</p><p>paisagem, do conceito de território e espaço geográfico de forma mais específica e</p><p>aprofundada e, por último, da representação do espaço geográfico, em especial, através</p><p>do ensino de Geografia nas escolas.</p><p>Aproveito para reforçar o convite a você, para junto comigo, percorrer esta jornada</p><p>de conhecimento a fim de multiplica-los a partir de tantos assuntos tratados em nosso</p><p>material. Almejamos que esta disciplina possa contribuir para seu crescimento pessoal,</p><p>profissional e acadêmico.</p><p>Muito obrigada pela companhia e bons estudos! Se puder, fique em casa.</p><p>UNIDADE I</p><p>CONCEITOS DA GEOGRAFIA</p><p>Professora Esp. Karitta da Silva Lopes</p><p>Plano de Estudo:</p><p>● A Geografia ao longo da História.</p><p>● As correntes do pensamento geográfico.</p><p>● As tendências da Geografia mundial e Brasileira.</p><p>● Conceitos fundamentais na compreensão do espaço Geográfico</p><p>Objetivos de Aprendizagem:</p><p>● Compreender o processo histórico de evolução do pensamento geográfico.</p><p>● Analisar os pressupostos da geografia como ciência e sua relação com outras</p><p>áreas do conhecimento, através do tempo histórico.</p><p>● Estabelecer relações entre a sociedade humana e o ambiente natural.</p><p>● Classificar as categorias geográficas e compreender como os fenômenos</p><p>espaciais se manifesta através delas.</p><p>INTRODUÇÃO</p><p>Prezada(o) Aluna(o), seja bem vinda(o) a disciplina “Categorias e conceitos</p><p>da Geografia”. É com grande satisfação e estima que te convido a compartilhar</p><p>conhecimentos acerca das bases teóricas do pensamento geográfico.</p><p>O presente material foi desenvolvido para introduzi-la(o) ao horizonte das</p><p>discussões à respeito da Geografia enquanto ciência, portanto, é destinado à</p><p>estudantes e pesquisadores interessadas(os) em compreender o processo</p><p>histórico de constituição da ciência geográfica, cujo o objetivo é pensar</p><p>epistemologicamente o espaço que vivemos, suas condições naturais,</p><p>modificações territoriais e relações com práticas e intervenções humanas.</p><p>Durante a trajetória escolar, você certamente cursou Geografia e teve</p><p>contato com diversos conceitos específicos dessa disciplina, como território,</p><p>espaço, lugar e região. A apresentação que você tem em mãos (ou à vista por</p><p>meio de arquivos digitais) pretende aprofundar esses conhecimentos, obtidos no</p><p>seu percurso educacional no decorrer do Ensino Básico, à respeito da formação</p><p>do pensamento geográfico e sua consolidação como ciência pertencente às</p><p>Humanidades.</p><p>A Unidade 1 “Conceitos da Geografia” é composta por quatro tópicos que</p><p>correspondem à um plano de estudo estruturado para que você possa obter</p><p>conhecimento sobre a Geografia ao longo da História, as correntes do</p><p>pensamento geográfico, as tendências da Geografia mundial e brasileira e os</p><p>conceitos fundamentais na compreensão do espaço geográfico.</p><p>Almejamos que esta unidade possa contribuir com sua aprendizagem, com</p><p>a expansão do seu pensamento crítico e com o aprimoramento de suas</p><p>habilidades cognitivas e investigativas em Geografia.</p><p>Bons estudos!</p><p>1 A GEOGRAFIA AO LONGO DA HISTÓRIA</p><p>Imagem do Tópico: https://www.shutterstock.com/pt/image-photo/old-vintage-retro-compass-</p><p>on-ancient-1014403549</p><p>Ao darmos início aos estudos acerca da Geografia enquanto uma disciplina</p><p>essencial para compreendermos o espaço que vivemos, suas condições naturais,</p><p>modificações territoriais e intervenções humanas, precisamos, a priori, identificar a</p><p>etimologia da palavra a fim de contextualizá-la ao longo da história. Logo, o termo em</p><p>destaque, tem sua origem na junção dos radicais gregos geo, cujo significado é terra, e</p><p>grafia, que significa descrição, ou seja, o estudo da superfície da terra.</p><p>Nascida no berço do pensamento filosófico grego, a base científica da Geografia</p><p>é reconhecida como uma das mais longínquas da Grécia Antiga, sendo classificada</p><p>enquanto uma filosofia natural ou história natural. Nesse período histórico, os objetivos</p><p>e análises que envolviam a ciência geográfica estavam voltadas a entender a localização</p><p>da Terra no universo, bem como, a dimensão de sua superfície por meio de cálculos</p><p>matemáticos e representações cartográficas.</p><p>Em virtude disso, podemos dizer que as origens dos estudos geográficos se dão</p><p>a partir do surgimento da geografia geral e da geografia matemática. De acordo com</p><p>Paulo R. Teixeira de Godoy (2010), a utilização do termo Geografia foi motivada pela</p><p>necessidade de designar aportes do cotidiano da sociedade grega, como relatos de</p><p>viagens, descrição de lugares, escritos literários, relatórios estatísticos, registros</p><p>cosmológicos, entre outros. Por esta razão, pesquisas históricas e evidências</p><p>arqueológicas e etnológicas apontam que o mapa é a mais antiga forma de comunicação</p><p>gráfica realizada pela humanidade</p><p>Nesse momento histórico na Grécia,</p><p>espécie animal viva de primata bípede do gênero Homo</p><p>cujo o cérebro altamente desenvolvido o torna um animal racional, consciente e sapiente,</p><p>o ser humano é capaz de pensar, refletir sobre suas ações, inventar, planejar, construir</p><p>pensamentos e ideologias e gerar resultados, com isso, criar conhecimento e</p><p>desenvolver técnicas e cultura.</p><p>No início, a humanidade pouco interferia na natureza, pois vivia da coleta, da caça</p><p>e da pesca. Ainda que de forma nômade, era a natureza que determinava a obtenção de</p><p>recursos para a manutenção e sobrevivência de grupos humanos. De acordo com Milton</p><p>Santos (2014), “[...] em cada momento histórico os modos de fazer são diferentes, o</p><p>trabalho humano vai se tornando cada vez mais complexo exigindo mudanças</p><p>correspondentes às inovações" (p. 74).</p><p>Neste sentido, é a partir do agir e pensar humano no tempo e no espaço, que se</p><p>dão as transformações históricas. Deste modo, por volta de 12 mil anos atrás, no período</p><p>intitulado por Neolítico, o ser humano começou a domesticar os animais e a cultivar a</p><p>terra ao mesmo tempo que passou a utilizar instrumentos fabricados a partir da</p><p>descoberta da técnica da pedra polida, marco que possibilitou grandes transformações</p><p>sociais e culturais para a humanidade, como uma maior autonomia perante as alterações</p><p>climáticas da natureza e uma vida sedentária.</p><p>As novas técnicas de domesticação de animais e cultivo de sementes foram</p><p>responsáveis pelo desenvolvimento da agricultura e da pecuária, melhorando a</p><p>expectativa de vida dos homens pré-históricos e contribuindo para o crescimento das</p><p>taxas populacionais. O homem deixa de ser nômade, assentando-se na terra,</p><p>apropriando-se da natureza e utilizando-a para satisfazer seus interesses.</p><p>A presença do homem na face da Terra muda o sistema do mundo.</p><p>Torna-se, o homem, centro da Terra, do Universo, imprimindo-lhe uma</p><p>nova realidade com sua simples presença. O homem é um dado da</p><p>valorização dos elementos naturais, físicos, porque é capaz de ação. Usa</p><p>suas forças intelectuais e físicas contra um conjunto de objetos naturais</p><p>que seleciona como indispensável para se manter como grupo. Assim o</p><p>homem é sujeito, enquanto a terra é objeto. É em torno do homem que o</p><p>sistema da natureza conhece uma nova valorização e, por conseguinte,</p><p>um novo significado. (SANTOS, 2014, p. 98)</p><p>A partir de então a natureza tem sido cada vez mais transformada de suas</p><p>condições naturais, pois através de suas ações humanas é que florestas são derrubadas</p><p>para plantar lavouras, morros deslocados para abrir túneis e enseadas niveladas para</p><p>construir cidades.</p><p>A ação humana nesse processo, exige cada vez mais conhecimentos sobre os</p><p>elementos que compõem a natureza e suas dinâmicas de funcionamento, nutrindo a</p><p>ideia de domínio do homem sobre a natureza. Atualmente esse ponto de vista é</p><p>legitimado por grande parte da humanidade, pois prevalece em nós a ideia de que</p><p>homem e natureza são opostos um do outro, onde o homem detentor de inteligência,</p><p>domina a natureza para retirar dela tudo o que necessita para sobrevivência, e a</p><p>natureza, por sua vez, é reduzida como despretensiosa e inesgotável fonte de recursos</p><p>naturais.</p><p>De acordo com Igor Moreira (2004), podemos definir o conceito de recursos</p><p>naturais como:</p><p>[...] todos os bens oferecidos ao homem pela natureza. Eles podem ser</p><p>dois tipos: renováveis e não renováveis. Os recursos naturais não</p><p>renováveis são aqueles que se esgotam depois de aproveitados pelo</p><p>homem, como o carvão, o petróleo, o ferro e os demais minerais. Os</p><p>recursos naturais renováveis são aqueles que se multiplicam ou não se</p><p>esgotam facilmente, como a água, o ar e o solo, chamados pela sua</p><p>importância de recursos básicos (MOREIRA, 2004, p. 11).</p><p>Neste panorama, a conexão do homem com a natureza é continuamente</p><p>decorrente do trabalho, este entendido como a operação de transformar recursos</p><p>naturais em produtos capazes de satisfazer e suprir as carências humanas.</p><p>1.1. As transformações técnicas e científicas</p><p>Entendemos como técnica o modo de fazer algo por meio de instrumentos de</p><p>trabalho utilizados na ação, logo, as intervenções na natureza e, consequentemente, as</p><p>modificações nela introduzidas são realizadas através de instrumentos e ferramentas</p><p>criadas para esse fim. Para Milton Santos (1996), a técnica é “a principal forma de relação</p><p>entre o homem e a natureza”, sendo definida como “um conjunto de meios instrumentais</p><p>e sociais, com os quais o homem realiza sua vida, produz e, ao mesmo tempo, cria</p><p>espaço” (p. 29).</p><p>Ao desenvolver novas técnicas, o ser humano cria novos instrumentos, visando</p><p>aumentar o rendimento do seu trabalho, motivado por interesses ou por alguma</p><p>necessidade apresentada pelo meio. Em geral, as inovações técnicas conduzem a novos</p><p>problemas, desafios e necessidade de resolvê-los, resultando na evolução da técnica,</p><p>ou seja, na continuidade de novas formas do fazer humano. Um exemplo disso se dá na</p><p>invenção do pneu, que ocorreu logo após a criação do automóvel, em 1887, pois havia</p><p>a necessidade de uma roda adaptável a esse novo modelo de transporte.</p><p>Gradativamente, os instrumentos utilizados para o trabalho vão se tornando mais</p><p>complexos, pois além de serem instrumentos manuais empregados para a</p><p>transformação de elementos naturais em produtos, as técnicas de engenharia, por</p><p>exemplo, podem se desenvolver em grandes empreendimentos impostos a natureza,</p><p>como referência à técnica de represamento das águas de um rio que cria uma queda</p><p>d'água artificial, utilizada para obter a força hidráulica necessária ao funcionamento de</p><p>uma hidrelétrica.</p><p>Figura 1: represamento das águas de um rio para geração de energia em hidrelétrica</p><p>FOTO</p><p>Fonte: https://www.shutterstock.com/pt/image-photo/hydroelectric-power-plant-on-river-</p><p>475746370</p><p>Desta forma, o aperfeiçoamento dos instrumentos de trabalho e as inovações</p><p>técnicas, fixam desenvolvimento das engrenagens de tomada da natureza, significando</p><p>grandes modificações e controle intenso sobre o meio natural.</p><p>A intensificação da dominação do homem na natureza, assim como a pressa em</p><p>desenvolver e difundir inovações técnicas, é marcada pelo início do modo de produção</p><p>capitalista nos séculos XV e XVI. Anterior a isso, as relações econômicas eram</p><p>praticamente de subsistência, os produtos artesanais eram fabricados manualmente e</p><p>destinavam-se a utilização direta do homem, não possuindo valor de troca, mas sim, de</p><p>uso. Na produção artesanal um mesmo trabalhador tinha o domínio de operar todas as</p><p>fases produtivas.</p><p>O homem vai construindo novas maneiras de fazer coisas, novos modos</p><p>de produção que reúnem sistemas de objetos e sistemas sociais. Cada</p><p>período se caracteriza por um dado conjunto de técnicas. Em cada</p><p>período histórico, temos um conjunto próprio de técnicas e de objetos</p><p>correspondentes. (SANTOS, 2014, p. 74).</p><p>O modo de produção capitalista, buscando aumentar paulatinamente a produção</p><p>de bens, entendida agora como mercadoria, promoveu a divisão do trabalho, nesse</p><p>sistema cada tarefa é realizada por um trabalhador que se torna especialista na etapa</p><p>do processo que desenvolve, gerando assim, etapas produtivas e a invenção de</p><p>ferramentas específicas e adaptadas a cada categoria de trabalho.</p><p>No século XIX, com a expansão da Revolução Industrial e intensificação do modo</p><p>de produção capitalista, novas ferramentas adquiriram funções industriais, mecanizando</p><p>o trabalho e produzindo mercadorias em grandes escalas. Com o aumento da</p><p>produtividade, aumenta, consequentemente, o uso de matérias primas retiradas da</p><p>natureza, impulsionando a exploração dos recursos naturais. Ainda, sobre as</p><p>consequências da Revolução Industrial, Igor Moreira (2004) aponta:</p><p>Fomentada por uma verdadeira corrida tecnológica e objetivando a</p><p>acumulação de riqueza, a produção diversifica-se extraordinariamente, e</p><p>os bens produzidos, inclusive os instrumentos de trabalho,</p><p>tornam-se</p><p>obsoletos em prazo cada vez mais curto, impondo sua substituição por</p><p>outros mais “modernos”, isso ocasiona um consumo maior de recursos</p><p>naturais, reforçado pela visão cada vez mais aprofundada da natureza</p><p>como manancial à disposição dos homens (MOREIRA, 2004, p. 22).</p><p>Faz-se necessário ressaltar que a concepção de supervalorizar a inteligência</p><p>humana a serviço da técnica e exploração do meio natural, contribui para estabelecer a</p><p>ideia colonizadora de que o controle do homem sobre a natureza tem possibilidades</p><p>ilimitadas e que os recursos não se esgotam, partindo de uma ideia de dominação,</p><p>universalizada por valores ocidentais impostos por séculos, e que descarta a existência</p><p>de outras formas de viver de forma integrada à natureza.</p><p>O desenvolvimento da chamada ciência moderna nos séculos XVI e XVII,</p><p>contribuiu igualmente para a construção dessa concepção pragmática de</p><p>natureza, na medida em que o saber científico, prático era aceito como</p><p>única forma de conhecimento; e o conhecimento de tudo o que fosse</p><p>externo ao homem significava controle e domínio- principalmente sobre o</p><p>mundo natural (MOREIRA, 2004, p. 12).</p><p>Portanto, nas sociedades ocidentais, o homem por meio do trabalho, e a natureza</p><p>por meio dos recursos naturais e matérias primas que dispõe, transformaram-se em</p><p>mercadorias. A civilização ocidental atual, delineada pela indústria, faz as sociedades</p><p>reféns de suas próprias criações, afastando-a cada vez mais de uma relação de</p><p>interação responsável e de preservação da natureza.</p><p>Contudo, mesmo com pretensões totalizantes e universalizadoras, o Ocidente e o</p><p>pensamento moderno não são as únicas formas possíveis de existência humana, à</p><p>exemplo dos povos originários, indígenas e tradicionais, que mesmo diante de processos</p><p>seculares de colonização, escravização e genocídio, continuam a (re)existir a partir de</p><p>suas cosmovisões e relações com a natureza.</p><p>Para algumas sociedades, como exemplo a diversidade dos povos originários do</p><p>Brasil (atualmente existem cerca de 250 etnias), a natureza é algo sagrado e fonte de</p><p>vida, não somente fonte de recursos para subsistência de sua comunidade, e nela não</p><p>há separação entre a natureza e o homem, pois fazem parte de um sistema integralizado.</p><p>Como afirma Ailton Krenak (2020) em Ideias para adiar o fim do Mundo,</p><p>O Rio Doce, que nós os Krenak, chamamos de Watu, nosso avô, é uma</p><p>pessoa, não um recurso, como dizem os economistas. Ele não é algo de</p><p>que alguém possa se apropriar; é uma parte da nossa construção como</p><p>coletivo que habita um lugar específico (KRENAK, 2020, p. 40).</p><p>A partir dessa cosmovisão indígena, o trabalho não se apresenta como uma</p><p>imposição, mas sim como forma de manutenção da vida em comunidade, tendo como</p><p>finalidade o consumo do próprio grupo, as pessoas não são indivíduos, tornam-se</p><p>pessoas coletivas.</p><p>2 IMPACTO DA SOCIEDADE SOBRE A NATUREZA</p><p>Imagem do Tópico: https://www.shutterstock.com/pt/image-photo/paraopeba-river-polluted-by-</p><p>tailings-after-1333091225.</p><p>Temos visto no decorrer da disciplina, em especial, na presente unidade, que o</p><p>meio ambiente enquanto elemento natural e social, ou seja, cuja existência se dá pela</p><p>relação entre sociedade e natureza, configura-se como o principal objeto de estudo da</p><p>Geografia. Desta forma, podemos afirmar que as preocupações que envolvem a</p><p>dinâmica entre o social e o natural se encontram presentes na origem da matriz</p><p>epistemológica da ciência geográfica, portanto, é a partir dessa disciplina que podemos</p><p>tratar e compreender o meio ambiente de forma mais completa e satisfatória.</p><p>Milton Santos (1978), em sua obra Por uma Geografia Nova, atribui centralidade</p><p>e protagonismo ao conceito de espaço, compreendendo-o como um conjunto de</p><p>representações das relações sociais, elaboradas no passado e no presente, isto é, uma</p><p>estrutura constituída por interações sociais e espaciais que se manifestam no decorrer</p><p>dos processos do tempo histórico.</p><p>Seria impossível pensar em evolução do espaço se o tempo não tivesse</p><p>existência no tempo histórico, [...] a sociedade evolui no tempo e no</p><p>espaço. O espaço é o resultado dessa associação que se desfaz e se</p><p>renova continuamente, entre uma sociedade em movimento permanente</p><p>e uma paisagem em evolução permanente. [...] Somente a partir da</p><p>unidade do espaço e do tempo, das formas e do seu conteúdo, é que se</p><p>podem interpretar as diversas modalidades de organização espacial</p><p>(SANTOS, 1978, p. 42 - 43).</p><p>À vista disto, a partir do consenso entre a comunidade científica de geógrafos e</p><p>geógrafas, defendemos uma indissociabilidade entre natureza e sociedade, visto que é</p><p>na natureza (espaço) que a humanidade se reproduz ao longo da história (tempo).</p><p>Portanto, se a sociedade é constantemente construída e reconstruída na natureza, esta,</p><p>por sua vez, também faz parte da estrutura social, caracterizando o que podemos intitular</p><p>de estrutura sócio-espacial.</p><p>O espaço por suas características e por seu funcionamento, pelo que ele</p><p>oferece a alguns e recusa a outros, pela seleção de localização feita entre</p><p>as atividades e entre os homens, é o resultado de uma práxis coletiva que</p><p>reproduz as relações sociais, [...] o espaço evolui pelo movimento da</p><p>sociedade total. (SANTOS, 1978, p. 171).</p><p>Sendo produzida pela relação entre sociedade e natureza, a estrutura sócio-</p><p>espacial pode ser alterada pela ação humana de forma contínua a partir de intervenções</p><p>entre indivíduos e grupos sociais nessas realidades. Logo, o impacto da sociedade sobre</p><p>a natureza é um fator intrínseco a essas intervenções, que podem ser tanto benéficas,</p><p>saudáveis e prósperas, como maléficas, insalubres e adversas para o meio ambiente.</p><p>Em um mundo formatado a partir da ideologia e do sistema econômico capitalista</p><p>neoliberalista, onde o consumo, a acumulação desenfreada e as necessidades de</p><p>mercado se tornam princípios primordiais para a vida humana, o impacto da sociedade</p><p>sobre a natureza é resultado de processos cruéis e nefastos ao meio ambiente, muitas</p><p>vezes, irreversíveis, e prejudiciais à humanidade, em especial, à grupos que sobrevivem</p><p>da natureza e têm nela seu local sagrado, como os povos indígenas brasileiros.</p><p>Optamos por elencar e nos concentrar em alguns desses processos, causados</p><p>pela exploração e esgotamento dos recursos naturais presentes no nosso meio</p><p>ambiente, com foco para a realidade brasileira, sendo eles: a mineração e o</p><p>desflorestamento.</p><p>2.1 Mineração</p><p>Tornada atividade socioeconômica desde a Antiguidade (de 4 000 a.C. a 476</p><p>d.C.), a extração de minérios do subsolo de forma descomedida passa a ser responsável</p><p>pelo desaparecimento progressivo de recursos naturais não renováveis.</p><p>Com essa informação, não queremos diminuir ou simplificar o papel da mineração</p><p>para a constituição das sociedades modernas e para a manutenção de bens e materiais</p><p>de grande utilidade para as nossas vidas atuais, como combustíveis, equipamentos</p><p>elétricos e eletrônicos, cosméticos, estradas e muitos outros produtos que desfrutamos</p><p>inconscientemente todos os dias. Contudo, compreendemos que o uso incontido de</p><p>recursos minerais realizados pela mineração vem causando impactos ambientais</p><p>permanentes para o meio ambiente e, consequentemente, para a humanidade.</p><p>De acordo com o Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), o conceito de</p><p>impacto ambiental pode ser definido como:</p><p>[…] qualquer alteração das propriedades físicas, químicas e biológicas</p><p>do meio ambiente, causada por qualquer forma de matéria ou energia</p><p>resultante das atividades humanas que, direta ou indiretamente, afetam</p><p>o bem-estar e a saúde da população; as atividades socioeconômicas; a</p><p>biota; as condições estéticas e sanitárias do meio ambiente; e a qualidade</p><p>dos recursos ambientais (CONAMA, 1986).</p><p>Na mineração, os impactos ambientais ocorrem desde o planejamento até as</p><p>etapas de implementação, operação (lavra) e desativação das</p><p>atividades extrativistas.</p><p>Os principais impactos ambientais causados por esses processos são:</p><p>- Desmatamento: causado pela mineração de lavra a céu aberto.</p><p>- Alteração e degradação da paisagem: causada pelo desmatamento e retirada de</p><p>solo fértil na fase de escavação de minas ou implementação de lavra à céu aberto.</p><p>- Contaminação e compactação do solo: causada pela perda de fertilidade do solo,</p><p>em especial, por meio de mineração de chumbo e zinco que possuem quantidades</p><p>relevantes de arsênio em seus rejeitos que acabam por inutilizar o solo.</p><p>- Contaminação do ar: causada por explosões que perturbam a biodiversidade e</p><p>pela alteração da qualidade do ar devido a emissão de partículas poluentes na</p><p>atmosfera.</p><p>- Contaminação dos recursos hídricos: causada pelo consumo excessivo de água</p><p>para beneficiamento do minério, pelo rebaixamento de lençóis freáticos e diminuição do</p><p>fluxo de água dos rios e do nível de recarga dos aquíferos no processo de extração e</p><p>pelo mau escoamento de rejeitos com concentração de substâncias tóxicas.</p><p>- Redução e perda de biodiversidade (fauna e flora): causada pelo desmatamento,</p><p>pela poluição atmosférica e pela contaminação dos recursos hídricos e do solo. Com</p><p>isso, muitos animais têm seus habitats perdidos, tendo que fugir para áreas onde não há</p><p>recursos para sobreviverem, como também, espécies de plantas acabam</p><p>desaparecendo devido à retirada da cobertura vegetal e impossibilidade de sua</p><p>reprodução.</p><p>Fim da disponibilidade de minerais: causadas por atividades extrativistas que</p><p>esgotam totalmente o minério explorado, afetando o meio ambiente de forma irreversível.</p><p>Um dos exemplos mais populares e revoltantes dos danos da mineração ao meio</p><p>ambiente são as tragédias causadas pelo rompimento de barragens da mineradora</p><p>multinacional brasileira Vale, nas cidades mineiras de Mariana, no ano de 2015, e de</p><p>Brumadinho, no ano de 2019.</p><p>Ambos descasos e provas cabais da irresponsabilidade ambiental, social e</p><p>trabalhista da empresa Vale, juntamente com sua subordinada Samarco, são</p><p>considerados dois dos principais desastres ambientais do Brasil, pois além de enterrarem</p><p>as cidades sob a lama de rejeitos, causando centenas de mortes, acidentes e</p><p>adoecimento físico e psíquico da população atingida, promoveram também, a perca de</p><p>biodiversidade (hectares de Mata Atlântica), a morte de animais (peixes, aves e</p><p>quadrúpedes), a poluição e contaminação de rios (Rio Gualaxo, Rio Doce e Rio</p><p>Paraopeba), o assoreamento, desvio de cursos de água e soterramento de nascentes.</p><p>Figura 3: rompimento da barragem da Samarco em Mariana-MG (2015)</p><p>https://www.shutterstock.com/pt/image-photo/mariana-oct-30th-2016-aerial-bento-519258250</p><p>Figura 4: rompimento da barragem em Brumadinho-MG causa tragédia</p><p>https://www.shutterstock.com/pt/image-photo/mineral-tailings-mud-after-dam-rupture-1564968175</p><p>2.2 Desflorestamento</p><p>Considerado como um dos impactos ambientais mais graves da atualidade, o</p><p>desflorestamento ou desmatamento consiste na redução dos tamanhos de florestas</p><p>naturais e, em casos mais críticos, no desaparecimento de floras e espécies (extinção).</p><p>Ao longo da história, a remoção de árvores têm gerado benefícios e bens para indivíduos</p><p>e grupos, sendo utilizada de formas diversas, como para fonte de energia, construções</p><p>de habitações e disponibilização da terra para agricultura.</p><p>Porém, na medida em que as sociedades começaram a desmatar não por</p><p>subsistência, mas para a acumulação de riquezas e para a urbanização como sinônimo</p><p>de progresso à todo custo, a exploração de recursos naturais terrestres intensificou-se,</p><p>colocando em risco o equilíbrio ambiental do planeta e comprometendo o futuro da</p><p>humanidade.</p><p>Com a Revolução Industrial e o surgimento de novas tecnologias e formas de</p><p>consumo, as questões acerca do desflorestamento tomaram grandes proporções, pois</p><p>foi nesse período que uma quantidade considerável de florestas temperadas e tropicais</p><p>foram devastadas para atender as demandas da indústria e do forte mercado formado</p><p>em torno da mesma.</p><p>Ao longo dos anos, as taxas de desmatamento começaram a migrar dos países</p><p>industrializados para os países considerados em desenvolvimento ou subdesenvolvidos,</p><p>em sua maioria, colônias e ex-colônias dos países industrializados, que encontraram na</p><p>exploração dos recursos naturais de países vitimados pelo domínio colonial, uma fonte</p><p>de riqueza e capital.</p><p>O Brasil, país que abriga a maior biodiversidade do planeta, detentor do maior</p><p>bioma de floresta úmida do mundo, a Amazônia, e do maior manancial de água doce do</p><p>mundo, tem sofrido com a degradação ambiental promovida pelo desflorestamento de</p><p>forma contínua ao longo dos séculos. Apesar da riqueza em ecossistemas e</p><p>biodiversidade, o nosso país é um dos líderes mundiais em desmatamento.</p><p>De acordo com um relatório emitido pela organização não governamental</p><p>ambientalista dos Estados Unidos, World Resources Institute1, o Brasil é o país que mais</p><p>desmatou florestas primárias no mundo em 2018, ou seja, regiões onde a vegetação se</p><p>encontra em seu estado original e não em condição de replantio ou reflorestamento,</p><p>sendo desmatados 1,3 milhão de hectares de floresta. Juntos, Brasil e Indonésia</p><p>desmataram aproximadamente 46% das florestas tropicais no mundo no mesmo ano.</p><p>As maiores motivações da retirada da cobertura vegetal original no Brasil estão</p><p>ligadas à busca pelo crescimento econômico: construção desenfreada de estradas,</p><p>pecuária em larga escala, expansão do agronegócio (principalmente da produção de</p><p>1Fonte: https://g1.globo.com/natureza/noticia/2019/04/25/brasil-liderou-desmatamento-de-florestas-</p><p>primarias-no-mundo-em-2018-mostra-relatorio.ghtml.</p><p>soja), extrativismo vegetal e mineral (principalmente a extração de madeira), processo</p><p>de urbanização massiva, densidade populacional e atividades ilegais que envolvem</p><p>queimadas criminosas e exploração de áreas de preservação ambiental para fins</p><p>pessoais e comerciais, como para a especulação fundiária.</p><p>Os biomas brasileiros mais atingidos pelo desflorestamento em curso são a</p><p>Amazônia, a Mata Atlântica e o Cerrado.</p><p>2.2.1 A Amazônia</p><p>A Amazônia Legal, que compreende os estados do Acre, Amazonas, Amapá,</p><p>Rondônia, Roraima, Pará, Mato Grosso, Tocantins e parte do Maranhão, cobre cerca de</p><p>60% do território brasileiro, abrigando 21 milhões de habitantes (12% da população total).</p><p>Sozinho, o bioma amazônico corresponde a quase um quinto das reservas florestais</p><p>mundiais.</p><p>Segundo o relatório Causas do Desmatamento da Amazônia Brasileira (2003)</p><p>realizado pelo Banco Mundial, o uso sustentável desse enorme patrimônio natural</p><p>poderia garantir recursos para o futuro, tornando-se uma fonte de redução da pobreza e</p><p>equidade social, já que os recursos naturais brasileiros representam uma proporção</p><p>muito maior sob os bens da população pobre (cerca de 80%) do que da rica.</p><p>Contudo, as políticas públicas destinadas à preservação da Amazônia começaram</p><p>a minguar em 2016, retomando o desmatamento via publicação de medidas legais, como</p><p>a chamada lei da grilagem implementada no início do governo Temer. Sobre a Amazônia:</p><p>Da cobertura florestal original, 17% foram desflorestados, embora pelo</p><p>menos um terço desse total esteja se recuperando. Seu valor global pode</p><p>ser visto em sua rica biodiversidade e no possível impacto climático</p><p>decorrente de seu desaparecimento. A crescente ameaça a</p><p>ecossistemas chave é ilustrada por dados preliminares que indicam um</p><p>desmatamento de 25.400 km2 em 2002, em comparação com uma média</p><p>de 17.340 km2 observada na década precedente. O quase</p><p>desaparecimento da Mata Atlântica brasileira também indica a urgência</p><p>de ações. Algumas experiências mundiais e no Brasil com o uso</p><p>sustentável de recursos naturais poderiam servir de base para uma</p><p>estratégia ambiental com inclusão social (BANCO MUNDIAL, 2003).</p><p>Figura 5: Área de desmatamento ilegal de vegetação</p><p>nativa da floresta amazônica brasileira</p><p>https://www.shutterstock.com/pt/image-photo/area-illegal-deforestation-vegetation-native-</p><p>brazilian-1156323865</p><p>2.2.2 A Mata Atlântica</p><p>A Mata Atlântica é o bioma que mais sofreu com o desflorestamento no Brasil. Em</p><p>referência a Fundação SOS Mata Atlântica, ONG ambiental brasileira atuante para a</p><p>conservação da biodiversidade atlântica, podemos afirmar que restam apenas 12,4% da</p><p>floresta original, região onde se encontra o maior número de espécies animais e vegetais</p><p>brasileiras ameaçadas de extinção2.</p><p>A Mata Atlântica abrange cerca de 15% do território nacional distribuída em 17</p><p>estados, sendo o lar de 72% dos brasileiros e concentrando 70% do PIB nacional. Do</p><p>bioma dependem serviços essenciais para a subsistência humana, como o</p><p>abastecimento de água, a regulação do clima, a agricultura, a pesca e a energia elétrica.</p><p>Devido a devastação da Mata Atlântica e, com isso, a extinção de diversas</p><p>espécies por perda de habitats e falta de água nos estados abarcados por essa região,</p><p>foi implementada no ano de 2006 a Lei da Mata Atlântica (nº 11.428/2006), tornando-se</p><p>assim, o único bioma que possui uma legislação de proteção específica que regulamenta</p><p>a criação de incentivos financeiros para restauração dos ecossistemas e regras para</p><p>exploração econômica, estimulação de doações da iniciativa privada para projetos de</p><p>conservação, delimitação do domínio da floresta, proibição do desmatamento de</p><p>florestas primárias e definição da Mata Atlântica como Patrimônio Nacional.</p><p>Embora a legislação em destaque seja uma conquista de grande valor para a</p><p>proteção da Mata Atlântica, dados apresentados pelo Atlas dos Remanescentes</p><p>Florestais da Mata Atlântica (2019) revelam que alguns estados ainda apresentam</p><p>elevadas taxas de desmatamento do bioma, associada a produção de carvão, a</p><p>plantação de soja e a indústria de celulose em larga escala, sendo eles: Minas Gerais,</p><p>Paraná, Piauí, Bahia e Santa Catarina.</p><p>Figura 6: a Mata Atlântica é o bioma que mais perdeu floresta no país até hoje</p><p>2 Fonte: https://www.sosma.org.br/politicas/lei-da-mata-atlantica/</p><p>https://www.shutterstock.com/pt/image-photo/aerial-view-deforestation-rainforest-being-removed-</p><p>1274894119</p><p>2.2.3 O Cerrado</p><p>O Cerrado configura-se como o segundo maior bioma do Brasil e a segunda maior</p><p>região biogeográfica da América do Sul ao ocupar 25% do nosso território, ficando atrás</p><p>apenas da área florestal ocupada pela Amazônia. E, assim como esta, tem sofrido com</p><p>a intensificação exacerbada do desflorestamento devido a monocultura, agronegócio e</p><p>pecuária.</p><p>Apesar da redução da taxa de desmatamento nos últimos anos, faz-se necessário</p><p>evidenciarmos que a perda da vegetação original do bioma já se encontra em 51%.</p><p>Considerada a formação savânica mais biodiversa do mundo, o Cerrado têm sido alvo</p><p>assíduo de desflorestamento devido suas características de região plana, com poucas</p><p>árvores e vegetação rasteira, e vitimado por constantes queimadas criminosas para a</p><p>expansão da atividade agrícola, em especial, da soja.</p><p>Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), foram registrados</p><p>mais de 21 mil focos de queimadas entre os meses de janeiro e agosto de 2020 no</p><p>Cerrado, episódio trágico considerado como a maior destruição do bioma já registrada</p><p>na história do Brasil3.</p><p>Figura 7: vegetação destruída após queimada no Cerrado</p><p>https://www.shutterstock.com/pt/image-photo/cerrado-area-eucalyptus-plantes-forests-burned-</p><p>1859854453</p><p>3Fonte: https://www.brasildefato.com.br/2020/09/15/avanco-do-desmatamento-cerrado-tem-mais-de-21-</p><p>mil-focos-de-queimadas</p><p>http://cerrado.obt.inpe.br/</p><p>3. IMPACTO DA NATUREZA SOBRE A SOCIEDADE</p><p>Imagem do Tópico: https://www.shutterstock.com/pt/image-photo/paulo-sp-brazil-august-23-</p><p>2019-1488024101</p><p>A partir do conteúdo dinamizado no tópico anterior, vimos alguns dos impactos da</p><p>sociedade sobre a natureza que, de tão contínuos e brutais, podem provocar danos</p><p>irreversíveis ao meio ambiente, como o fim de recursos naturais não renováveis e a morte</p><p>de biodiversidades importantes para o equilíbrio climático. Neste tópico veremos a</p><p>relação inversa, ou seja, algumas das possibilidades de impactos da natureza sobre a</p><p>sociedade.</p><p>De acordo com Ailton Krenak (2020), tudo é natureza, do cosmos à humanidade.</p><p>Logo, torna-se impossível sustentar a ideia de que nós, humanos, sejamos imunes às</p><p>reações, transições e etapas do curso da natureza.</p><p>A ideia de nós, os humanos, nos descolarmos da terra, vivendo numa</p><p>abstração civilizatória, é absurda. Ela suprime a diversidade, nega a</p><p>pluralidade das formas de vida, de existência e de hábitos. Oferece o</p><p>mesmo cardápio, o mesmo figurino e, se possível, a mesma língua para</p><p>todo mundo (KRENAK, 2020, p. 22-23).</p><p>Com isso, compreendemos que entre a natureza e a sociedade ocorre uma</p><p>relação de inseparabilidade. Quando destruímos, desperdiçamos e extinguimos os</p><p>recursos naturais disponíveis, estamos, ao mesmo tempo, destruindo o espaço onde</p><p>vivemos e de onde tiramos elementos e matérias fundamentais para nossa</p><p>sobrevivência, logo, estamos nos autodestruindo.</p><p>A natureza tem sua própria dinâmica, seu próprio ciclo. Mesmo que coloquemos</p><p>nossas imposições e vontades à frente de suas necessidades, iremos colher, juntamente</p><p>com ela, os frutos da poluição do ar, da água e da terra, do desflorestamento, da</p><p>mineração, da extinção de espécies da fauna e da flora, da erosão do solo, das</p><p>mudanças climáticas, da destruição de habitats, entre outras formas de degradação e</p><p>precarização ambiental.</p><p>Durante este tópico, abordaremos alguns desses frutos, isto é, acontecimentos,</p><p>muitas vezes, trágicos e catastróficos para a vida humana, gerados pelos maus usos e</p><p>prejuízos que praticamos sobre os recursos naturais. Tais acontecimentos, somados à</p><p>própria dinâmica da natureza e da superfície terrestre, ocasionam grandes impactos</p><p>sobre a sociedade.</p><p>O Brasil, país em que não existem desastres naturais significativos e em larga</p><p>escala provocados por abalos sísmicos, choques de placas tectônicas e vulcanismo,</p><p>como os terremotos, tsunamis e erupções de vulcões em atividade, poderia ser</p><p>considerado um local de pouco impacto da natureza sobre a sociedade.</p><p>Contudo, embora nosso país tenha uma posição estratégica em relação a</p><p>repercussão de fenômenos próprios da natureza, a sociedade sofre constantemente com</p><p>impactos naturais promovidos pela má ocupação do espaço geográfico, em especial, do</p><p>urbano, e pela não distribuição regular da população, que se concentra na fachada</p><p>litorânea.</p><p>A urbanização em massa e a internacionalização da economia brasileira</p><p>produziram a multiplicação de pobreza e de problemas sociais. O fato do poder público</p><p>estar mais preocupado com a expansão das atividades econômicas em detrimento da</p><p>satisfação das necessidades sociais, gerou um aumento significativo da população</p><p>dessas cidades, porém não o aumento de habitação, infraestrutura urbana e serviços</p><p>sociais, como a saúde, educação e segurança pública para essa população, que se</p><p>encontra em um cenário de violência urbana, pobreza e vulnerabilidade socioeconômica.</p><p>O crescimento das submoradias se dá no surgimento de favelas, localizadas, em</p><p>sua maioria, em terrenos precários, íngremes e sujeitos a deslizamentos. Portanto, tal</p><p>fenômeno torna-se um dos grandes impactos da natureza sobre a sociedade, que tem</p><p>suas habitações e pertences destruídos e, em casos mais graves, suas vidas findadas,</p><p>vítimas de soterramento da terra e dos escombros levados pela mesma.</p><p>Figura 8: deslizamento de terras ocorrido em Guarujá-SP após tempestade</p><p>https://www.shutterstock.com/pt/image-photo/guaruja-sp-brazil-march-3-2020-1664766649</p><p>Provocadas, também, pela ocupação inadequada das encostas dos morros em</p><p>algumas metrópoles brasileiras, como o Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte</p><p>e</p><p>Salvador, e pelo acúmulo de lixo doméstico e industrial, cujo os resíduos são depositados</p><p>a céu aberto e em áreas alagadas, as enchentes tornam-se um dos fenômenos naturais</p><p>de grande impacto para a vida humana.</p><p>Figura 9: enchente na periferia da cidade de São Paulo, Brasil</p><p>FOTO</p><p>Fonte: https://www.shutterstock.com/pt/image-photo/sao-paulo-brazil-august-24-2016-473335363</p><p>Ao serem agravadas pelos processos de assoreamento dos rios e dos córregos</p><p>em áreas onde ocorreram desflorestamentos e a ação erosiva da chuva é mais</p><p>acentuada, mais frequentes nos grandes centros urbanos, as enchentes são</p><p>responsáveis por inundações de casas, ruas e bairros inteiros, podendo gerar vítimas</p><p>fatais de afogamento que são levadas pela força da água e das correntezas e de doenças</p><p>como a leptospirose e a hepatite A.</p><p>Tal fato, passa a contribuir com a escassez de tratamento da água, pois</p><p>Nos grandes centros urbanos, a ausência de áreas verdes e o aumento</p><p>contínuo das áreas asfaltadas e concretadas diminuem a absorção de</p><p>água pelo solo, reduzindo o lençol subterrâneo que abastece os rios. A</p><p>água se mantém na superfície, provocando enchentes e catástrofes [...]</p><p>Nos países mais pobres, apenas 35% das pessoas têm acesso a água</p><p>tratada, o que provoca elevados índices de doenças e mortes causadas</p><p>pela contaminação (MOREIRA, 2004, p. 213 - 214).</p><p>A escassez de água além de afetar diretamente a sobrevivência humana, podem</p><p>intensificar conflitos internacionais, a exemplo da disputa entre Síria e Israel pelo rio</p><p>Jordão, da disputa entre Índia e Paquistão pelo rio Ganges e da disputa na península da</p><p>Indochina pelo rio Mekong.</p><p>Para finalizar o presente tópico, corroboramos novamente com o pensamento de</p><p>Ailton Krenak (2020), quando o autor nos dá fundamentos para questionar os sentidos</p><p>atribuídos pela humanidade não só na dimensão de subsistência e manutenção de</p><p>nossas vidas físicas, como também, na dimensão transcendente que dá significado à</p><p>nossa existência material e espiritual. Até que ponto chegaremos à explorar, destruir e</p><p>degradar o meio ambiente e os recursos naturais que ainda estão disponíveis? Que</p><p>possamos refletir e nos conscientizar a respeito disto para a nossa própria sobrevivência.</p><p>4 TÉCNICAS SUSTENTÁVEIS</p><p>Imagem do Tópico: https://www.shutterstock.com/pt/image-photo/hand-holding-light-bulb-</p><p>against-nature-1120037774.</p><p>Prezado (a) aluno (a), no decorrer dessa unidade compreendemos diversas</p><p>formas de relação entre a humanidade e a natureza e entre a natureza e a sociedade,</p><p>na qual nossas ações têm impacto direto sobre a dinâmica ambiental do planeta em que</p><p>vivemos. A partir disso, podemos afirmar que a ciência geográfica se dedica a estudar</p><p>as ações humanas que transformam a natureza, por meio de técnicas empregadas, nas</p><p>quais se desenvolveram ao longo dos séculos, e que nas últimas décadas evoluíram</p><p>para um imenso avanço tecnológico científico-informacional.</p><p>O avanço dessas técnicas, proporcionadas pelo crescimento do capitalismo por</p><p>todo o globo terrestre, intensificou a produção industrial e, consequentemente, a</p><p>exploração dos recursos naturais para a produção de mercadorias, fatos que</p><p>ocasionaram um enorme desequilíbrio ambiental, perda substancial de biodiversidade e</p><p>a ameaça de uma péssima qualidade de vida para as futuras gerações humanas.</p><p>Desde a década de 70 a problemática ambiental vem sendo pauta de diversas</p><p>conferências mundiais, que buscando diálogo com a comunidade internacional,</p><p>alertaram sobre os irreparáveis impactos que nossas atividades exploratórias causam ao</p><p>meio ambiente e trouxeram à luz o termo desenvolvimento sustentável. Tal conceito</p><p>enfatiza que a humanidade deve pensar em suprir suas necessidades sem afetar ainda</p><p>mais o futuro do meio ambiente e das próximas gerações.</p><p>Uma das conferências mundiais mais conhecidas é a Conferência das Nações</p><p>Unidas sobre o Meio Ambiente Humano, ocorrida na cidade de Estocolmo, na Suíça, em</p><p>junho de 1972, cujo um dos objetivos abordam “[...] a necessidade de um critério e de</p><p>princípios comuns que ofereçam aos povos do mundo inspiração e guia para preservar</p><p>e melhorar o meio ambiente humano” (ONU, 1972, p. 1).</p><p>No evento foram levantadas indagações sobre a emissão de poluentes causadas</p><p>pelas atividades industriais dos países desenvolvidos e discussões sobre maneiras de</p><p>diminuir os impactos negativos dessas atividades, bem como, a assinatura de um</p><p>manifesto, dos 113 países e diversas organizações internacionais e ONGs participantes,</p><p>para a preservação do meio ambiente. Elencamos alguns dos princípios da conferência:</p><p>1.O homem é ao mesmo tempo obra e construtor do meio ambiente que</p><p>o cerca, o qual lhe dá sustento material e lhe oferece oportunidade para</p><p>desenvolver-se intelectual, moral, social e espiritualmente. Em larga e</p><p>tortuosa evolução da raça humana neste planeta chegou-se a uma etapa</p><p>em que, graças à rápida aceleração da ciência e da tecnologia, o homem</p><p>adquiriu o poder de transformar, de inúmeras maneiras e em uma escala</p><p>sem precedentes, tudo que o cerca. Os dois aspectos do meio ambiente</p><p>humano, o natural e o artificial, são essenciais para o bem-estar do</p><p>homem e para o gozo dos direitos humanos fundamentais, inclusive o</p><p>direito à vida.</p><p>2. A proteção e o melhoramento do meio ambiente humano é uma</p><p>questão fundamental que afeta o bem-estar dos povos e o</p><p>desenvolvimento econômico do mundo inteiro, um desejo urgente dos</p><p>povos de todo o mundo e um dever de todos os governos.</p><p>3. O homem deve fazer constante avaliação de sua experiência e</p><p>continuar descobrindo, inventando, criando e progredindo. Hoje em dia,</p><p>a capacidade do homem de transformar o que o cerca, utilizada com</p><p>discernimento, pode levar a todos os povos os benefícios do</p><p>desenvolvimento e oferecer-lhes a oportunidade de enobrecer sua</p><p>existência. Aplicado errônea e imprudentemente, o mesmo poder pode</p><p>causar danos incalculáveis ao ser humano e ao seu meio ambiente. Em</p><p>nosso redor vemos multiplicar-se as provas do dano causado pelo</p><p>homem em muitas regiões da terra, níveis perigosos de poluição da água,</p><p>do ar, da terra e dos seres vivos; grandes transtornos de equilíbrio</p><p>ecológico da biosfera; destruição e esgotamento de recursos</p><p>insubstituíveis e graves deficiências, nocivas para a saúde física, mental</p><p>e social do homem, no meio ambiente por ele criado, especialmente</p><p>naquele em que vive e trabalha (ONU, 1972, p. 1).</p><p>Essas premissas basilares nortearam ações internacionais para o</p><p>desenvolvimento de técnicas sustentáveis, criando pautas internacionais que</p><p>culminaram em outra conferência, a ECO 92, realizada no Brasil, na cidade do Rio de</p><p>Janeiro, em 1992. Esse encontro buscou consolidar o conceito de sustentabilidade e</p><p>desenvolvimento sustentável, pensando ações a longo prazo capazes de garantir a</p><p>manutenção e preservação do meio ambiente e a proteção dos recursos naturais.</p><p>Foi a partir da Eco-92 que nasceu a Agenda 21, documento que institui a</p><p>importância da ação conjunta de todos os países acerca do desenvolvimento</p><p>sustentável, da preservação ambiental e da inclusão social. As demandas delineadas na</p><p>Agenda 21 foram novamente levantadas em 2002, na Cúpula da Terra Sobre o</p><p>Desenvolvimento Sustentável, em Johanesburgo, na África do Sul.</p><p>Essas ações movidas pela comunidade internacional, tornaram-se um importante</p><p>instrumento para a promoção de práticas socioculturais atreladas ao meio ambiente,</p><p>sendo possível entendermos a sustentabilidade não somente como conceito ambiental</p><p>descolado da sociedade, uma vez que as técnicas sustentáveis devem manifestar-se a</p><p>partir da própria sociedade como um novo parâmetro cultural a ser seguido.</p><p>É necessário olharmos para a diversidade cultural como uma aliada ao</p><p>desenvolvimento sustentável. Os diversos modos de vida são</p><p>instrumentos que podem contribuir de forma significativa para a criação</p><p>de políticas públicas, planejamento, gestão</p><p>e desenvolvimento de</p><p>práticas sustentáveis, uma vez que, as mesmas influenciam diretamente</p><p>na sociedade, através dos papéis sociais, dos gêneros de vida de cada</p><p>indivíduo (SOUSA, 2017, p. 185).</p><p>O conceito de sustentabilidade está associado ao conjunto de técnicas e</p><p>estratégias elaboradas para minimizar o impacto negativo das ações humanas aos</p><p>ecossistemas, afirmando que as técnicas empregadas a natureza devem ser:</p><p>- Economicamente viáveis: que pensem o crescimento da economia sem degradar</p><p>o meio ambiente; que priorizem a reciclagem de materiais para garantir o uso de matérias</p><p>primas provenientes da reutilização; que diminuem a emissão de gases poluentes</p><p>procedentes da produção industrial desenfreada e o acúmulo de resíduos que levarão</p><p>séculos para se decompor no meio ambiente, à exemplo do plástico, do isopor e da</p><p>borracha; que promovem o uso de energias renováveis e limpas como a energia eólica,</p><p>solar e biocombustíveis que têm impactos reduzidos ou quase nulos na geração de</p><p>energia.</p><p>- Ecologicamente corretas: que gerem um equilíbrio entre o que é retirado da</p><p>natureza e o que é devolvido a ela, evitando o desperdício para não esgotar os recursos</p><p>naturais; que privilegiam a não utilização de substâncias danosas para a vida humana e</p><p>contaminadoras dos solos, lençóis freáticos, oceanos e qualidade do ar, como elementos</p><p>tóxicos provenientes do lixo radioativo das usinas nucleares</p><p>- Socialmente justas: que envolvem ações educadoras de responsabilidade,</p><p>consciência ambiental e solidariedade ao pensar que ações individuais podem afetar a</p><p>todos os seres vivos.</p><p>- Culturalmente diversas: que valorizem as diversidades e diferenças locais de</p><p>forma a gerar benefício para todos os indivíduos sem qualquer distinção e ou</p><p>discriminação de raça, gênero, classe, região e religião.</p><p>Partindo desses pressupostos, a ação conjunta da comunidade científica</p><p>internacional se empenhou em desenvolver práticas e técnicas que, embora ainda não</p><p>sejam aplicadas em escalas globais, capazes de reduzir em grandes proporções os</p><p>impactos causados pelas por ações nocivas à biodiversidade e a humanidade,</p><p>apresentam um caminho possível para conciliação do desenvolvimento partindo do</p><p>respeito ao meio ambiente.</p><p>SAIBA MAIS</p><p>Você sabia que atualmente existem no Brasil cerca de 695 parques eólicos que</p><p>contribuem para a redução da emissão de 22.900.000 de toneladas de Co2 por ano? Em</p><p>referência à relatórios da Associação Brasileira de Energia Eólica (ABEEólica)4, o total</p><p>de emissões de Co2 evitadas no Brasil no ano de 2019, corresponde a emissão anual</p><p>de cerca de 21,7 milhões de automóveis.</p><p>O Co2, conhecido popularmente como gás carbônico, é resultado da queima de</p><p>combustíveis fósseis. O gás é um dos principais responsáveis pela ocorrência do efeito</p><p>estufa, fenômeno que resulta no aumento do buraco na camada de ozônio, filtro que</p><p>bloqueia a entrada direta de raios solares na atmosfera terrestre e que se configura como</p><p>uma das causas do aquecimento global.</p><p>A energia produzida pelos ventos é renovável, ou seja, ela não polui, possui baixo</p><p>impacto ambiental e contribui para que o Brasil cumpra com seus objetivos no acordo de</p><p>Paris, última convenção internacional sobre o clima Global, realizada pela Organização</p><p>das Nações Unidas sobre mudanças climáticas (COP21), composta por 196 nações e</p><p>que determinou diretrizes para o combate das alterações climáticas e do aquecimento</p><p>terrestre.</p><p>De acordo com dados da ANEEL (Agência Nacional de Energia Elétrica)5, em</p><p>2019 a fonte eólica correspondeu a 9,1% da matriz energética nacional, ficando atrás</p><p>apenas da principal matriz energética utilizada no Brasil, isto é, a fonte de energia</p><p>hidrelétrica.</p><p>Logo, a energia eólica torna-se um importante instrumento para a modernização</p><p>do setor elétrico ao aproveitar os bons ventos do Brasil e transformá-los em energia,</p><p>contribuindo assim, para o desenvolvimento nacional que objetive uma relação</p><p>sustentável do Estado e da sociedade com o meio ambiente.</p><p>#SAIBA MAIS#</p><p>4 Fonte: http://abeeolica.org.br/wp-content/uploads/2020/06/PT_Boletim-Anual-de-</p><p>Gera%C3%A7%C3%A3o-2019.pdf.</p><p>5 Fonte: https://www.aneel.gov.br/sustentabilidade.</p><p>REFLITA</p><p>As tragédias do rompimento de barragens nas cidades mineiras de Mariana, em</p><p>2015, e de Brumadinho, em 2019, evidenciaram, ainda mais, as negligências ocorridas</p><p>nos processos de fiscalização de barragens do Brasil, problemas graves que acabam</p><p>por incidir na falta de segurança dos trabalhadores e trabalhadoras das mineradoras,</p><p>como também, na de toda uma cidade e biodiversidade, afetada e contaminada pelos</p><p>rejeitos tóxicos.</p><p>De acordo com o último relatório da Agência Nacional de Mineração (ANM), 51</p><p>estruturas foram classificadas sob a categoria de "risco alto" e 47 delas estão em</p><p>situação de emergência. A maioria, 42 no total, fica no estado de Minas Gerais, e duas</p><p>delas pertencem à empresa Vale (Forquilha III, na cidade de Ouro Preto e Sul Superior,</p><p>na cidade de Barão dos Cocais).</p><p>Entretanto, tais números preocupantes são incompletos, pois o relatório prioriza</p><p>as mineradoras de maior expressividade e notoriedade, ou seja, esses números não</p><p>revelam toda a realidade ao ignorar empresas mineradoras locais, mais atuais e de</p><p>menor conhecimento público.</p><p>Outro problema enfrentado para a fiscalização e segurança das barragens</p><p>brasileiras é o abandono de barragens ainda em atividade. Segundo a lei n. 14.066, de</p><p>setembro de 2020, "o empreendedor deve manter o Plano de Segurança da Barragem</p><p>atualizado e operacional até a desativação ou a descaracterização da estrutura"</p><p>(BRASIL, 2020).</p><p>Contudo, o descumprimento da lei está curso, também, devido à fiscalizações</p><p>estatais falhas e incompetentes. Há diversos casos registrados de barragens que foram</p><p>simplesmente esquecidas e largadas por suas empresas responsáveis, como a da</p><p>Emicon Mineração e Terraplanagem Limitada, em Brumadinho, como mostrou</p><p>reportagem da DW Brasil em 2019.</p><p>A partir dessas informações, compreendemos que ambos crimes ambientais e</p><p>sociais, ocorridos em Mariana-MG e Brumadinho-MG, ressaltaram a importância de uma</p><p>fiscalização séria e comprometida com as necessidades básicas de preservação do meio</p><p>ambiente e de segurança à vida humana. Porém, será preciso que mais tragédias</p><p>ocorram para que o Estado e as empresas de mineração respeitem medidas de proteção</p><p>à natureza e a sociedade?</p><p>CONSIDERAÇÕES FINAIS</p><p>No decorrer da presente unidade, buscamos aprofundar nossos estudos</p><p>geográficos a respeito da relação existente entre a sociedade (ação humana) e a</p><p>natureza (ação ambiental), compreendidas como inseparáveis.</p><p>No tópico 1, evidenciamos a ação humana na natureza a partir de uma</p><p>contextualização histórica acerca das transformações da interferência humana na</p><p>natureza, que com a expansão da Revolução Industrial, no século XIX, propiciou o</p><p>aumento exacerbado do uso de matérias primas retiradas da natureza, impulsionando a</p><p>exploração dos recursos naturais, devido a intensificação do modo de produção</p><p>capitalista, industrialização e mecanização do trabalho e produção de mercadorias em</p><p>grandes escalas.</p><p>Já no tópico 2 e 3, dinamizamos o conteúdo a fim de compreender os impactos</p><p>da sociedade sobre a natureza e da natureza sobre a sociedade ao defendermos a ideia</p><p>de indissociabilidade entre ambas.</p><p>Desta forma, estudamos alguns dos impactos da sociedade sobre a natureza que,</p><p>de tão contínuos e brutais, podem provocar danos irreversíveis ao meio ambiente, como</p><p>o fim de recursos naturais não renováveis e a morte de biodiversidades importantes para</p><p>o equilíbrio climático, principalmente, provocados pela intensa atividade</p><p>extrativista/mineradora e pelo desflorestamento desenfreado no Brasil. Por outro lado,</p><p>vimos, também, a relação inversa, ou seja, algumas das</p><p>possibilidades de impactos da</p><p>natureza sobre a sociedade, das quais nos concentramos nos deslizamentos de terras,</p><p>enchentes e na escassez de água potável e tratada.</p><p>Por fim, no tópico 4, objetivamos estabelecer a importância da adesão de técnicas</p><p>sustentáveis para a preservação ambiental a partir da realização de conferências,</p><p>encontros e acordos internacionais que consolidaram a ideia de sustentabilidade e</p><p>desenvolvimento sustentável, em especial, das Conferências das Nações Unidas sobre</p><p>o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, edições de Estocolmo (1972) e do Rio de Janeiro</p><p>(1992).</p><p>E assim concluímos nosso passeio por alguns aspectos e discussões de grande</p><p>importância para a sobrevivência da natureza e, consequentemente, da nossa própria!</p><p>Até a próxima, bons estudos!</p><p>LEITURA COMPLEMENTAR</p><p>GIDDENS, Anthony. A política da mudança climática. Trad. Vera Ribeiro. Rio de</p><p>Janeiro: Zahar, 2010, 314 p.</p><p>Sinopse: As mudanças climáticas em curso podem ter consequências catastróficas para</p><p>o planeta. Sabemos que precisamos agir rápido se quisermos conter esse risco. Então,</p><p>por que não tomamos medidas imediatas? Anthony Giddens, um dos pensadores sociais</p><p>mais importantes de nosso tempo, faz uma análise profunda, lúcida e, ao mesmo tempo,</p><p>acessível sobre esse tema tão atual. Sem ser alarmista, aponta os prós e contras das</p><p>soluções pensadas até agora, introduz novas propostas e examina as ligações entre</p><p>mudança climática e segurança energética. Com abordagem multidisciplinar, Giddens</p><p>trata a mudança climática sobretudo como uma questão política e defende que toda</p><p>decisão deve observar o contexto econômico e geopolítico mundial. Disponível em:</p><p>https://www.skoob.com.br/livro/126040ED139794-a-politica-da-mudanca-climatica.</p><p>Acesso em:10/03/2021.</p><p>LIVRO</p><p>• Título: Ideias para adiar o fim do mundo.</p><p>• Autor: Ailton Krenak.</p><p>• Editora: Companhia das Letras.</p><p>• Sinopse: Ailton Krenak nasceu na região do vale do rio Doce, um lugar cuja ecologia</p><p>se encontra profundamente afetada pela atividade de extração mineira. Neste livro, o</p><p>líder indígena critica a ideia de humanidade como algo separado da natureza, uma</p><p>"humanidade que não reconhece que aquele rio que está em coma é também o nosso</p><p>avô". Essa premissa estaria na origem do desastre socioambiental de nossa era, o</p><p>chamado Antropoceno. Somente o reconhecimento da diversidade e a recusa da ideia</p><p>do humano como superior aos demais seres podem ressignificar nossas existências e</p><p>refrear nossa marcha insensata em direção ao abismo. Nas palavras do autor:</p><p>"Nosso tempo é especialista em produzir ausências: do sentido de viver em sociedade,</p><p>do próprio sentido da experiência da vida. Isso gera uma intolerância muito grande com</p><p>relação a quem ainda é capaz de experimentar o prazer de estar vivo, dançar e de cantar.</p><p>E está cheio de pequenas constelações de gente espalhada pelo mundo que dança,</p><p>canta e faz chover [...] minha provocação sobre adiar o fim do mundo é exatamente</p><p>sempre poder contar mais uma história."</p><p>Desde seu inesquecível discurso na Assembleia Constituinte, em 1987, quando pintou o</p><p>rosto com a tinta preta do jenipapo para protestar contra o retrocesso na luta pelos</p><p>direitos indígenas, Ailton Krenak se destaca como um dos mais originais e importantes</p><p>pensadores brasileiros. Ouvi-lo é mais urgente do que nunca. Ideias para adiar o fim do</p><p>mundo é uma adaptação de duas conferências e uma entrevista realizadas em Portugal,</p><p>entre 2017 e 2019.</p><p>FILME/VÍDEO</p><p>• Título: Ser Tão Velho Cerrado</p><p>• Ano: 2018</p><p>• Sinopse: os moradores da Chapada dos Veadeiros, preocupados com o fim do Cerrado</p><p>em Goiás, procuram novas formas de desenvolver a região sem agredir o meio ambiente</p><p>em que vivem. O desafio, agora, é conciliar os interesses relacionados ao manejo da</p><p>Área de Proteção Ambiental do Pouso Alto. Para isso, a comunidade científica, grandes</p><p>proprietários de terra e defensores do meio ambiente iniciam um diálogo delicado, mas</p><p>necessário.</p><p>• Vídeo disponível no link: https://www.youtube.com/watch?v=H4OSAyjAP6o.</p><p>REFERÊNCIAS</p><p>BANCO MUNDIAL. Causas do Desmatamento da Amazônia Brasileira. 1ª edição.</p><p>Brasília: Estação Gráfica, 2003. Disponível em:</p><p>https://www.terrabrasilis.org.br/ecotecadigital/pdf/causas-do-desmatamento-da-</p><p>amazonia-brasileira.pdf. Acesso em: 07/03/2021.</p><p>BRASIL. Lei nº 14.066, de 30 de setembro de 2020. Altera a Lei nº 12.334, de 20 de</p><p>setembro de 2010, que estabelece a Política Nacional de Segurança de Barragens</p><p>(PNSB), a Lei nº 7.797, de 10 de julho de 1989, que cria o Fundo Nacional do Meio</p><p>Ambiente (FNMA), a Lei nº 9.433, de 8 de janeiro de 1997, que institui a Política</p><p>Nacional de Recursos Hídricos, e o Decreto-Lei nº 227, de 28 de fevereiro de 1967</p><p>(Código de Mineração). Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-</p><p>2022/2020/lei/L14066.htm. Acesso em: 10/03/2021.</p><p>CONSELHO NACIONAL DO MEIO AMBIENTE. Dispõe sobre procedimentos relativos</p><p>a Estudo de Impacto Ambiental. Resolução CONAMA 1/86, de 23 de janeiro de 1986.</p><p>Diário Oficial da União: Brasília, p. 2548-2549, 1986. Disponível em:</p><p>https://cetesb.sp.gov.br/licenciamento/documentos/1986_Res_CONAMA_1_86.pdf.</p><p>Acesso em: 07/03/2021.</p><p>FUNDAÇÃO SOS MATA ATLÂNTICA; INSTITUTO NACIONAL DE PESQUISAS</p><p>ESPACIAIS. Atlas dos Remanescentes Florestais da Mata Atlântica. São Paulo:</p><p>ArcPlan, 2019. 65 p. (Relatório Técnico 2017-2018). Disponível em:</p><p>https://www.sosma.org.br/wp-content/uploads/2019/05/Atlas-mata-atlantica_17-18.pdf.</p><p>Acesso em: 07/03/2021.</p><p>INSTITUTO NACIONAL DE PESQUISAS ESPACIAIS. COORDENAÇÃO GERAL DE</p><p>OBSERVAÇÃO DA TERRA. PRODES – Incremento anual de área desmatada no</p><p>Cerrado Brasileiro. Disponível em: http://www.obt.inpe.br/cerrado. Acesso em:</p><p>26/04/2021.</p><p>KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. 2ª edição. São Paulo: Companhia</p><p>das Letras, 2020.</p><p>MOREIRA, Igor. O Espaço Geográfico: geografia geral e do Brasil. 47ª edição. São</p><p>Paulo: Editora Ática, 2004.</p><p>ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Declaração de Estocolmo sobre o Meio</p><p>Ambiente Humano. In: Anais Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente</p><p>Humano. Estocolmo, 6p., 1972. Disponível em:</p><p>https://www.nescon.medicina.ufmg.br/biblioteca/registro/referencia/0000001728.</p><p>Acesso: 10/03/2021.</p><p>SANTOS, Milton. Por uma Geografia Nova: Da Crítica da Geografia a uma Geografia</p><p>Crítica. São Paulo: Hucitec/Edusp, 1978.</p><p>SANTOS, Milton. A natureza do espaço – Técnica e tempo. Razão e emoção. São</p><p>Paulo: Hucitec, 1996.</p><p>SANTOS, Milton. Metamorfoses do Espaço Habitado: fundamentos teóricos e</p><p>metodológicos da Geografia. 6. ed. 2. ed. São Paulo: Editora da Universidade de São</p><p>Paulo (Edusp), 2014.</p><p>SOUSA, Victor Pereira de. Geografia e Meio Ambiente: reflexões acerca das práticas</p><p>socioculturais na concepção de sustentabilidade. Diversidade e Gestão. 1(2): 178-</p><p>188. 2017. Disponível em: http://www.itr.ufrrj.br/diversidadeegestao/wp-</p><p>content/uploads/2016/12/13.pdf. Acesso: 10/03/2021.</p><p>UNIDADE III</p><p>GEOGRAFIA COMO CIÊNCIA</p><p>Professora Esp. Karitta da Silva Lopes</p><p>Plano de Estudo:</p><p>• Divisões da Geografia.</p><p>• Geografia e Interdisciplinaridade</p><p>• Geografia Crítica.</p><p>• Ramos da Geografia.</p><p>Objetivos de Aprendizagem:</p><p>• Conceituar e contextualizar historicamente as divisões e ramos existentes no</p><p>interior da Geografia.</p><p>• Estabelecer a importância da interdisciplinaridade nas investigações em</p><p>Geografia.</p><p>• Compreender como a Geografia Crítica surgiu e se estabeleceu enquanto</p><p>corrente teórica profícua.</p><p>INTRODUÇÃO</p><p>Prezada(o) Aluna(o), seja bem vinda(o) a disciplina “Categorias e conceitos</p><p>da Geografia”. É com grande satisfação e estima que te convido a compartilhar</p><p>conhecimentos acerca das bases teóricas do pensamento geográfico.</p><p>O presente material foi desenvolvido para introduzi-la(o) ao horizonte das</p><p>discussões à respeito da Geografia enquanto</p><p>ciência, portanto, é destinado à</p><p>estudantes e pesquisadores interessadas(os) em compreender o processo</p><p>histórico de constituição da ciência geográfica, cujo o objetivo é pensar</p><p>epistemologicamente o espaço que vivemos, suas condições naturais,</p><p>modificações territoriais e relações com as práticas e intervenções humanas.</p><p>Durante a trajetória escolar, você certamente cursou Geografia e teve</p><p>contato com diversos conceitos específicos dessa disciplina, como território,</p><p>espaço, lugar e região. A apresentação que você tem em mãos (ou à vista por</p><p>meio de arquivos digitais) pretende aprofundar esses conhecimentos, obtidos no</p><p>seu percurso educacional no decorrer do Ensino Básico, à respeito da formação</p><p>do pensamento geográfico e sua consolidação como ciência pertencente às</p><p>Humanidades.</p><p>A Unidade 3 “Geografia como ciência” é composta por quatro tópicos que</p><p>correspondem à um plano de estudo estruturado para que você possa obter</p><p>conhecimento acerca das divisões da Geografia, das relações entre Geografia e</p><p>Interdisciplinaridade, dos princípios da Geografia Crítica e dos diversos ramos da</p><p>Geografia.</p><p>Almejamos que esta unidade possa contribuir com sua aprendizagem, com</p><p>a expansão do seu pensamento crítico e com o aprimoramento de suas</p><p>habilidades cognitivas e investigativas em Geografia.</p><p>Bons estudos!</p><p>1 DIVISÕES DA GEOGRAFIA</p><p>Imagem do Tópico: https://www.shutterstock.com/pt/image-photo/young-male-geography-</p><p>teacher-front-whiteboard-1706174938.</p><p>Prezada (o) aluna (o), estudamos nas unidades anteriores o desenvolvimento da</p><p>ciência geográfica, passando por diversos períodos históricos, sendo modificada e</p><p>transformada de acordo com as influências de cada época. Vimos que na Modernidade,</p><p>a Geografia se consolidou como a ciência empenhada em entender o espaço onde a</p><p>humanidade desenvolve e cria suas atividades produtivas e também onde a mesma</p><p>desenvolve relações sociais.</p><p>A humanidade, vem ao longo dos séculos e de formas distintas, se apropriando</p><p>da natureza para produzir através dela meios de garantir sua sobrevivência, portanto,</p><p>natureza e sociedade estabelece um diálogo integrado ao espaço, este compreendido</p><p>por Milton Santos (2012) como uma “acumulação desigual de tempos” (p. 256).</p><p>Com isso, podemos dizer que um dos grandes atributos da ciência geográfica é a</p><p>capacidade de estabelecer uma interpretação global e sintética da realidade</p><p>intermediando as relações entre as ciências sociais e as ciências naturais. Logo, é a</p><p>partir da divisão temática e metodológica entre Geografia Humana e Geografia Física</p><p>que a ciência geográfica é operacionalizada e dinamizada frente aos processos de</p><p>investigações acerca dos seus objetos de estudos e análises.</p><p>Cabe destacar que até o século XIX a Geografia buscava uma individualidade,</p><p>pois o conhecimento geográfico estava dissolvido em um bojo único de conhecimento. A</p><p>forte influência do positivismo no conhecimento científico do século XIX, levou a</p><p>fragmentação do diálogo entre as áreas de conhecimento ocasionando uma forte divisão</p><p>entre ciências humanas, exatas e da Terra. De acordo com seus objetivos, cada uma</p><p>delas desenvolveram seus próprios métodos, entretanto dentro de duas grandes áreas:</p><p>Ciências Humanas e Ciências Naturais.</p><p>Dentro da corrente tradicional, a Geografia, por ter um objeto de estudo amplo e</p><p>vasto em relação a outras disciplinas, carecia de um método próprio que conciliasse o</p><p>estudo de elementos humanos e naturais, levando a ter como objeto inicial a natureza</p><p>sem o homem. A corrente possibilista salientou as análises humanas e sociais em</p><p>desfavor das análises físicas, acentuando a divisão entre a Geografia Física e a</p><p>Geografia Humana.</p><p>No início do século XX, muitos geógrafos passaram a estudar o meio físico a partir</p><p>da especialização, ferramenta importante para o desenvolvimento dessa ciência, como</p><p>aponta Evandro César Clemente:</p><p>De Martonne passou a estudar o meio físico dividido em vários ramos.</p><p>Em sua obra “Tratado de Geografia Física” ele apresenta os primeiros</p><p>passos para o surgimento dos sub-ramos dentro da Geografia Física:</p><p>Geomorfologia, biogeografia e a climatologia. Cabe lembrar que a</p><p>constituição destes ramos se deu influenciados pela Geologia, biologia e</p><p>meteorologia (CLEMENTE, 2007, p. 198).</p><p>Com a chegada do neopositivismo após a Segunda Guerra Mundial, podemos</p><p>visualizar o início do chamado movimento de renovação da Geografia, que buscava</p><p>afastar-se dos métodos de pesquisas conceituados pela corrente tradicional como a</p><p>observação, empirismo e a descrição. As circunstâncias políticas, econômicas e sociais</p><p>da época, somadas a invenção dos computadores, possibilitou a utilização de:</p><p>[...] modelos matemáticos e quantitativos, bem como a Teoria dos</p><p>Modelos e a Teoria dos Sistemas. Apesar do método “renovado”, a</p><p>Geografia persistiu mascarando a dominação e o acirramento das</p><p>desigualdades sociais e espaciais derivados da expansão do capitalismo</p><p>(CLEMENTE, 2007, p. 199).</p><p>Com o advento da Nova Geografia, os geógrafos físicos passaram a usufruir da</p><p>teoria dos sistemas e dos modelos quantitativos e estatísticos, tornando cada vez mais</p><p>evidente a divisão metodológica entre a Geografia Física e Humana, que confere o</p><p>caráter científico à disciplina em destaque. “Passaram, portanto, a ignorar as produções</p><p>dos geógrafos humanos, por considerá-las muitas vezes como meras divagações</p><p>desprovidas de cunho científico” (CLEMENTE, 2007, p. 199).</p><p>Em contrapartida a isso, no começo dos anos 60 frente às enormes desigualdades</p><p>espaciais e sociais e também a grande exploração dos trabalhadores ocasionada pelo</p><p>avanço do capitalismo, que dava início a fase de mundialização, ocorreu o preludio da</p><p>corrente da Geografia Crítica, fortemente influenciada pelo pensamento marxista,</p><p>fundamentado no materialismo histórico dialético. A exploração e as desigualdades</p><p>passaram a ser denunciadas e criticadas pelos geógrafos dessa corrente,</p><p>fundamentando a crítica a Geografia Física, pois para os teóricos críticos, os geógrafos</p><p>físicos estariam servindo ao grande capital e suas produções consideradas sem</p><p>comprometimento com as mazelas sociais ocasionadas pelo capitalismo imperialista.</p><p>A visão Ocidental que enxerga o homem como descolado da natureza, intensifica</p><p>a complexidade da metodologia dentro da Geografia Moderna, dificultando a superação</p><p>da dicotomia entre Geografia Humana e Física.</p><p>Diante do exposto, podemos fazer uma alusão à “evolução” da Geografia</p><p>na citação de Norbert Elias “Sobre o tempo”, quando diz: “... ainda nos</p><p>servimos amplamente de um aparelho conceitual que traça uma linha</p><p>demarcatória muito clara entre os planos da integração física, social e</p><p>individual. [...]. Do mesmo modo, a sociedade e a natureza aparecem</p><p>frequentemente como mundos separados” (CLEMENTE, 2007, p. 199).</p><p>Como vimos na unidade anterior, a partir dos anos 70, a comunidade científica se</p><p>reuniu na conferência de Estocolmo com o intuito de discutir os graves problemas</p><p>ambientais resultantes da apropriação desenfreada dos elementos naturais</p><p>intensificados de forma predatória pelo sistema de produção capitalista. Diante dos</p><p>problemas ambientais como o aquecimento global, agravado pela destruição da camada</p><p>de ozônio, assim como a poluição dos solo, ar, rios e oceanos, os teóricos da Geografia</p><p>Física começaram reconhecer a necessidade, cada vez mais emergente, de interpretar</p><p>o modo de produção capitalista e sua organização social para compreender seus</p><p>impactos na natureza.</p><p>Vemos aí o que pode ser o início de um melhor caminho a ser percorrido pela</p><p>ciência geográfica, trazendo análises complexas de como a sociedade se relaciona com</p><p>a natureza a partir da compreensão da dinâmica interna e específica de seus elementos.</p><p>Podemos afirmar também que a dicotomia Geografia Humana x Geografia Física</p><p>enfraquece o campo de trabalho dos geógrafos, pois ao negar qualquer uma delas,</p><p>os</p><p>profissionais da Geografia acabam por limitar seu campo de trabalho, deixando de</p><p>ocupar lugares em uma sociedade que apresenta um mercado de trabalho cada vez mais</p><p>voltado à competitividade, pois debilita a possibilidade mais importante dessa ciência, a</p><p>de fazer análises sintéticas e globalizadas da realidade, não alcançada por cientistas de</p><p>outras áreas, como indica Sergio Henrique Pinto Silva (2007):</p><p>À importância da temática ambiental, possivelmente o tema que mais une</p><p>os diferentes ramos da Geografia, mas, ao mesmo tempo, é cobiçado por</p><p>várias outras ciências, essa perda da Geografia é devido à sua</p><p>fragmentação. A formação dualista da Geografia, englobando os</p><p>aspectos físicos e sociais associados à capacidade de síntese, fornece</p><p>uma ampla vantagem dessa ciência perante as demais (SILVA, 2007, p.</p><p>41).</p><p>Os caminhos distintos percorridos até então pela Geografia Humana e Física</p><p>encontram confluência no século XXI, diante a uma sociedade que demanda cada vez</p><p>mais uma visão integradora e multidisciplinar dos elementos, sendo capaz de responder</p><p>questões urgentes a seu tempo. À respeito disso, Clemente (2007) enfatiza a importância</p><p>de “[...] superarmos a clivagem Geografia Humana x Geografia Física e construir uma</p><p>Geografia Global, capaz de resgatar o velho objetivo da Geografia de estudar de forma</p><p>integrada Sociedade e Natureza” (p. 199).</p><p>A valorização de uma visão global capaz de inter-relacionar os mais diversos</p><p>dados existentes é reflexo da sociedade contemporânea e não está restrita ao meio</p><p>científico, pois demonstra uma preocupação com o conjunto devido a necessidade cada</p><p>vez mais urgente de um conhecimento não compartimentado capaz de realizar uma</p><p>leitura complexa da realidade, como afirma Sansolo (1996):</p><p>Em uma metrópole, embora o relevo tenha sido alterado pela construção</p><p>de prédios, ou cuja bacia de drenagem foi impermeabilizada pelo asfalto</p><p>e seus rios e córregos canalizados, ainda assim os processos naturais</p><p>como os geomorfológicos, expressos pelo movimento de massa de</p><p>vertentes e depósitos sedimentares em rios e córregos; processos</p><p>climáticos, como sazonalidade das chuvas, temperaturas e umidade;</p><p>migrações de aves continuam ocorrendo e vão continuar ocorrendo</p><p>(SANSOLO, 1996, p. 36).</p><p>É diante deste contexto, que o saber geográfico não fragmentado se apresenta</p><p>como uma importante ferramenta capaz de contribuir para uma leitura complexa e não</p><p>compartimentada do meio ambiente e da sociedade. A Geografia é única das ciências</p><p>humanas que tem como objeto de estudo também o quadro natural do planeta. Diante</p><p>disso, vemos a complexidade metodológica e epistêmica, pois analisar processos</p><p>contínuos na natureza e na sociedade, seja individual ou conjuntamente, é uma tarefa</p><p>que exige grandes competências.</p><p>Corroboramos que a divisão entre Geografia Física e Geografia Humana pode</p><p>contribuir para melhor delimitar metodologicamente os objetos de estudo e os fenômenos</p><p>investigados, contudo, compreendemos que a relação e imbricação teórica e</p><p>epistemológica entre ambas, combatendo possíveis hierarquizações, torna-se</p><p>fundamental para análises e interpretações mais completas da realidade pesquisada.</p><p>2 GEOGRAFIA E INTERDISCIPLINARIDADE</p><p>Imagem do Tópico: https://www.shutterstock.com/pt/image-vector/vector-monochrome-</p><p>symbols-exploration-geography-equipment-1110430922.</p><p>Cara(o) aluna(o), a partir do conteúdo do tópico anterior acerca das divisões da</p><p>Geografia, ou seja, da divisão entre a Geografia Física e Humana e, consequentemente,</p><p>das fragmentações existentes no interior dessas duas divisões centrais, podemos</p><p>compreender que o conhecimento construído de forma fragmentada pela ciência</p><p>geográfica passou a permitir uma interdisciplinaridade teórica-metodológica devido aos</p><p>dilemas existentes com o seu objeto de estudo primordial, o espaço geográfico.</p><p>Em razão das exigências formativas para obter os saberes naturais e sociais</p><p>referentes ao espaço geográfico, faz-se necessário que a comunidade científica em</p><p>Geografia estabeleça debates e diálogos com matrizes disciplinares distintas, tais quais</p><p>se encontram disciplinas pertencentes às Ciências Humanas, Exatas e Naturais.</p><p>Enquanto área do conhecimento, a Geografia traz em seu cerne epistemológico a</p><p>preocupação com a busca da compreensão das relações dinamizadas entre a sociedade</p><p>e a natureza. Em virtude disso, ela se diferencia, indo na contramão das demais ciências,</p><p>que devido às condições particulares de seus objetos de pesquisa, foram</p><p>individualizadas nos processos de classificação disciplinar.</p><p>Pelo fato de serem exigidos para sua formação uma compreensão,</p><p>um conhecimento da natureza e da sociedade e, pelo fato de</p><p>compreenderem o espaço geográfico como a materialização na</p><p>superfície da terra das diferentes formas de organização social foram</p><p>sempre levados a construir uma ciência que chegaram a conceituar como</p><p>de síntese e que internamente pode ser lida como uma ciência</p><p>interdisciplinar (SUERTEGARAY, 2003, p. 45).</p><p>Contudo, essa interdisciplinaridade intrínseca à Geografia, nem sempre foi um</p><p>consenso, pois na medida em que a expansão da racionalidade tomava conta dos</p><p>métodos e teorias científicas na Modernidade, foi sendo possibilitada, cada vez mais, a</p><p>separação e compartimentação do conhecimento, logo, a divisão entre as Ciências</p><p>Naturais/Exatas e as Ciências Sociais/Humanas.</p><p>Por conseguinte, é nesse período histórico que a Geografia foi impossibilitada de</p><p>alocar o hall de especificidades disciplinares exigidas pelo pensamento positivista da</p><p>época, passando a ser desconsiderada do seu carácter científico e fragilizada diante das</p><p>dificuldades de construção de métodos próprios, pois carregava em sua base</p><p>epistemológica, num contexto histórico onde as dimensões separatistas entre os saberes</p><p>eram o padrão aceito e reproduzido entre a comunidade científica, os dilemas relacionais</p><p>entre natureza-sociedade/sociedade-natureza.</p><p>Tais disputas para a individualização entre as ciências, premissa imposta pelo</p><p>pela Modernidade, evidenciou a preocupação dos geógrafos e geógrafas em afirmar a</p><p>Geografia como uma ciência autônoma com métodos únicos e exatos, fato que acabou</p><p>por empobrecê-la.</p><p>Como já vimos, em diferentes momentos históricos, foram construídas diferentes</p><p>análises e concepções em Geografia, transformações que serviram como base de</p><p>revisões científicas, conceituais, políticas e temáticas dessa disciplina. É a partir do</p><p>movimento de renovação da Geografia nos anos de 1970, em especial, na França, na</p><p>Inglaterra, na Itália, nos Estados Unidos e no Brasil, que ocorre a reelaboração</p><p>epistemológica da Geografia Humana baseada no conceito de espaço geográfico como</p><p>principal categoria analítica da ciência geográfica e, por consequência, a valorização e</p><p>necessidade de estudos e explicações interdisciplinares.</p><p>De acordo com Dirce Maria Antunes Suertegaray (2003), a interdisciplinaridade</p><p>na Geografia é “um exemplo da possibilidade de compreensão conjuntiva”. A autora nos</p><p>aponta que não devemos pensá-la “[...] como sombreamento mas como convergência</p><p>de leituras na busca de compreensão de um acontecimento, da decifração de um</p><p>problema, de uma questão” (p. 50-51).</p><p>Logo, a aproximação da Geografia com outras ciências indica uma disciplina de</p><p>caráter multidisciplinar, fato que não elimina possibilidades interpretativas, todo contrário,</p><p>contribui na compreensão da dinâmica do espaço geográfico e seus elementos</p><p>constituintes, bem como, de outras categorias analíticas e conceituais da Geografia.</p><p>Se de um lado ainda trabalhamos com o recorte do espaço geográfico,</p><p>de outro acreditamos que esses recortes poderão mais unir o discurso</p><p>geográfico, do que separar. Isto porque cada um deles enfatiza uma</p><p>dimensão da complexidade organizacional do espaço geográfico: o</p><p>econômico/cultural (na paisagem), o político (no território), a existência</p><p>objetiva e subjetiva (no lugar) e a transfiguração da natureza (no</p><p>ambiente) [...] Por outro lado, acreditamos que conceber esta como uma</p><p>das possibilidades analíticas da Geografia, tende a nos permitir a</p><p>diferença de enfoques, ao mesmo tempo em que nos articula pelas</p><p>conexões derivadas da fronteira tênue entre cada um desses</p><p>conceitos. Costuma- se dizer na atualidade, que o objeto de estudo se</p><p>constrói num contexto relacional. Por conseguinte, as conexões que</p><p>permeiam os conceitos que aqui denominamos operacionais, aproximam</p><p>as nossas práticas geográficas, muito mais que nos dividem</p><p>(SUERTEGARAY, 2003, p. 50).</p><p>Segundo Milton Santos em Por uma Geografia Nova (2012) a Geografia pode</p><p>auxiliar no desenvolvimento de conceitos e fenômenos estudados por outras disciplinas</p><p>e vice e versa, o autor trata do exemplo da economia neoclássica, que estuda a relação</p><p>entre humanidade e meio geográfico e, com isso, bebe da fonte dos estudos acerca da</p><p>Geografia.</p><p>Em realidade a lista de ciências chamadas afins da geografia que se</p><p>escrevia acompanhada de nomes como história, sociologia, economia</p><p>(se nos limitando a geografia humana) tornou-se muito mais longa porque</p><p>devemos acrescentar-lhe outros domínios do saber como a tecnologia</p><p>(ciência das forças produtivas), a ciência política, o urbanismo, a técnica</p><p>gerencial, a semiologia, a epistemologia, os negócios internacionais, a</p><p>história das ciências, a ciência das ciências, chamada cienciologia, e</p><p>mesmo a lógica e a dialética (SANTOS, 2012, p. 137).</p><p>Outro exemplo citado pelo autor, é o do famoso historiador francês Marc Bloch,</p><p>que defendeu a interdisciplinaridade ao compreender que o sociólogo Émile Durkheim e</p><p>o geógrafo Vidal de La Blache “[...] deixaram sobre os estudos históricos do princípio do</p><p>século XX uma marca incomparavelmente mais profunda que a de qualquer outro</p><p>historiador” (BLOCH, 1974, p. 166 apud. SANTOS, 2012, p. 130).</p><p>Desta forma, Milton Santos (2012), um dos mais significativos expoentes da</p><p>geografia brasileira, afirma que a premissa da interdisciplinaridade não se restringe</p><p>somente à ciência geográfica, tornando-se assim, geral à outras ciências também, ou</p><p>seja, “[...] toda ciência se desenvolve nas fronteiras de outras disciplinas e com elas se</p><p>integra em uma filosofia. A geografia, a sociologia, a economia, são interpretações</p><p>complementares da realidade humana” (BOUDEVILLE, 1945, p. 75 apud SANTOS,</p><p>2012, p. 131).</p><p>A partir dos pensamentos trazidos à luz, podemos compreender que a</p><p>interdisciplinaridade se encontra no horizonte de todas as disciplinas, pois contribui para</p><p>a ampliação e aprimoramento de interpretações de múltiplos fenômenos, se constituindo</p><p>como:</p><p>[...] uma prática coletiva, que surge da organização em grupo, hoje em</p><p>rede, e tem como objetivo a busca da compreensão/explicação de um</p><p>problema formulado pelo conjunto dos investigadores. O trabalho</p><p>interdisciplinar vai exigir um rompimento com os problemas específicos</p><p>de cada campo, colocando na pauta da pesquisa questões de</p><p>estruturação mais complexa (SUERTEGARAY, 2003, p. 51).</p><p>Logo, a interdisciplinaridade garante à Geografia uma integração com outras</p><p>disciplinas, que ao estabelecer relações e imbricações entre um mesmo objetivo de</p><p>estudo, sem pretensões totalizantes, busca compreender os diversos aspectos e</p><p>variáveis de um mesmo objeto de pesquisa.</p><p>3 GEOGRAFIA CRÍTICA</p><p>Imagem do Tópico: https://www.shutterstock.com/pt/image-photo/businessman-holding-world-</p><p>orange-flare-on-1662340351</p><p>Cara (o) aluna (o), vimos nos tópicos anteriores as divisões presentes no interior</p><p>da Geografia, que evidenciaram a grande dicotomia entre a Geografia Humana e a</p><p>Geografia Física, como também, os conhecimentos interdisciplinares que atravessam a</p><p>construção do conhecimento geográfico. Estudaremos agora, a formação da abordagem</p><p>crítica da Geografia, que se desenvolveu especialmente no Brasil com uma notável</p><p>importância para a produção teórica na atualidade.</p><p>A abordagem crítica pode ser entendida como um movimento de renovação</p><p>teórica e metodológica do pensamento geográfico, colocando-se como “[...] uma</p><p>revolução que procura romper, de um lado, com a geografia tradicional e, de outro, com</p><p>a geografia teorético-quantitativa” (CORRÊA, 2001, p. 23). A sua base epistemológica</p><p>está fundamentada pelo materialismo histórico dialético, proposto por Karl Marx, pois</p><p>busca refletir sobre as constantes transformações na organização espacial, influenciadas</p><p>diretamente pela acentuada urbanização, industrialização e avanço do capitalismo, que</p><p>não encontrava respostas nas outras correntes do pensamento geográfico como o</p><p>método regionalista, possibilista e determinista.</p><p>Grande parte dos autores da Geografia Crítica assumem uma postura</p><p>comprometida com as transformações sociais, utilizando o conhecimento para a</p><p>formação de uma sociedade mais justa e que sirva como ferramenta de libertação da</p><p>humanidade, assumindo um conteúdo fortemente político e militante e avaliando as</p><p>contradições intrínsecas ao sistema capitalista de produção.</p><p>O movimento da geografia crítica, em suas diversas vertentes, reproduz</p><p>o embate ideológico contemporâneo da luta de classes na sociedade. Os</p><p>geógrafos críticos, em suas diversas orientações, assumem a</p><p>perspectiva popular, de uma transformação de ordem social. Por esta</p><p>razão, buscam uma geografia mais generosa em um espaço mais justo,</p><p>que seja organizado em função dos interesses dos homens e não do</p><p>capital (MOURA; OLIVEIRA; LISBOA; FONTOURA; GERALDI, 2008, p.</p><p>2).</p><p>Analisaremos a partir de então, as diferentes escolas e os principais teóricos que</p><p>contribuíram para a formação da teoria crítica nos debates acerca da geografia mundial</p><p>e, especificamente, da geografia brasileira.</p><p>Na França, em meados das décadas de 1930 e 1940, vemos uma evidente</p><p>movimentação a favor da abordagem crítica em Geografia por meio da ala progressista</p><p>da geografia regional francesa, que aos poucos, foi introduzindo a análise da produção</p><p>do espaço aos processos sociais e econômicos, dando origem a uma discussão mais</p><p>engajada politicamente aos estudos geográficos no país.</p><p>Posterior a isso, encontramos na obra Geografia Ativa (1966), de Pierre George,</p><p>Yves Lacoste, Bernard Kayser e Raymond Guglielmo, uma representação do movimento</p><p>científico de renovação crítica ao propor a elaboração de uma análise regional que</p><p>solucionasse as contradições do modo de produção capitalista.</p><p>Neste caso, inaugurando uma geografia de denúncias das realidades</p><p>espaciais injustas e contraditórias. Critica severamente a abordagem</p><p>descritiva e enumerativa da geografia, apontando a necessidade e a</p><p>carência de informação objetiva, que permitisse traçar perspectivas que</p><p>subsidiassem tomadas de decisões. Ligada ao historicismo, seus autores</p><p>consideravam a geografia como um prolongamento da história, mas com</p><p>métodos próprios, deixando seu papel meramente contemplativo e</p><p>assumindo um papel dinâmico, atuante, por meio do que chamavam uma</p><p>“geografia ativa”, que buscasse estabelecer um elo entre passado e</p><p>futuro (MOURA; OLIVEIRA; LISBOA; FONTOURA; GERALDI, 2008, p.</p><p>3).</p><p>Mais tarde ao desenvolver seus estudos, Pierre George impulsionou o uso de</p><p>conceitos marxistas nos debates geográficos, fomentando assim, uma conciliação entre</p><p>o materialismo histórico dialético e o método regional ao aprofundar seus estudos</p><p>referentes às relações de produção x trabalho e, também, sobre a ação do grande capital</p><p>e das forças produtivas e seu impacto nas relações entre sociedade e natureza.</p><p>No ano de 1976, Yves Lacoste intensifica tais discussões com a criação de uma</p><p>revista empenhada em debater e democratizar as novas tendências da ciência</p><p>geográfica.</p><p>Lacoste cria a revista Hérodote e começa, por meio dela, a dispor</p><p>análises sobre inúmeros assuntos geográficos, como os problemas</p><p>ideológicos, da paisagem, do trabalho no campo,</p><p>havia um esforço intelectual voltado para a</p><p>compreensão do mundo, do universo e da realidade, ou como era conhecido à</p><p>época, o cosmos. Para os gregos, o cosmos era uma totalidade organizada</p><p>racionalmente, que só poderia ser descrito pela razão, levando a visualização de</p><p>uma ordem, uma unidade e uma harmonia, onde coexistem uma multiplicidade</p><p>caótica das coisas e acontecimentos (GODOY, 2010, p. 13).</p><p>https://www.shutterstock.com/pt/image-photo/old-vintage-retro-compass-on-ancient-1014403549</p><p>https://www.shutterstock.com/pt/image-photo/old-vintage-retro-compass-on-ancient-1014403549</p><p>Contudo, embora a construção e formulação das bases científicas da Geografia</p><p>remonte a Era Clássica (entre o século VIII a.C. e o século V d.C) a partir da perspectiva</p><p>dos estudos sobre as dimensões, formas e o campo gravitacional da Terra, não havia</p><p>uma unidade de análise compreendida como método, de modo que, até o final do século</p><p>XVIII, não é possível falar de um conhecimento geográfico sistematizado que</p><p>apresentasse as conexões metodológicas necessárias para ser categorizada como</p><p>ciência.</p><p>Com o fim da Idade Média, período histórico marcado por uma organização social</p><p>definida pelas aristocracias feudais, pelas imposições eclesiásticas da Igreja Católica e</p><p>por um sistema econômico baseado na troca e no escambo, surge a necessidade de</p><p>legitimar a ciência a partir do método a fim de racionalizar os seus procedimentos e</p><p>descobrimentos, antes, desacreditados e questionados pelo clero, poder religioso da</p><p>estrutura medieval que operava diretamente nas decisões políticas da sociedade</p><p>europeia.</p><p>Neste sentido, o pensamento moderno, inaugurado com as mudanças históricas</p><p>proporcionadas pelo Iluminismo, pelo capitalismo e pelo positivismo, estipulou o método</p><p>(baseado exclusivamente em concepções empiristas e quantitativas da época Moderna)</p><p>como uma condição imprescindível para se fazer ciência.</p><p>O conhecimento da realidade em diversas sociedades e na maior parte da</p><p>história da humanidade foi buscado nos signos religiosos, nas lendas, na poesia</p><p>e na religião. Foi rompendo com estas formas, até então tradicionais de</p><p>explicação da realidade, que o pensamento moderno tomou forma inaugurando</p><p>um novo período na história da humanidade onde o conhecimento foi tomado</p><p>como ação racional (LEITÃO, 2017, p.12).</p><p>Usuario</p><p>Destacar</p><p>Usuario</p><p>Destacar</p><p>Figura 1: O Homem Vitruviano (1490), obra renascentista de Leonardo da Vinci (1452 -</p><p>1519) que se tornou símbolo do Antropocentrismo (homem no centro), conceito característico</p><p>da Modernidade.</p><p>https://www.shutterstock.com/pt/image-vector/homo-vitruviano-vitruvian-man-</p><p>leonardos-detailed-602705321</p><p>Desta forma, foi a partir do século XIX que a ciência geográfica inicia os primeiros</p><p>passos na sistematização de um método por meio dos estudos dos intelectuais alemães</p><p>Carl Ritter (1779 - 1859) e Alexander Von Humboldt (1759 - 1859), que no mesmo</p><p>período histórico, dedicaram-se a estudar as interações entre o homem e a natureza.</p><p>Portanto, podemos afirmar que Humboldt e Ritter, são os percursores da geografia</p><p>sistematizada e de metodologias para se pensar tal ciência.</p><p>Carl Ritter (1779 – 1859), ao lado de Alexander Von Humboldt (1769 –</p><p>1859), é apontado como um dos organizadores das bases da Geografia</p><p>Moderna. Apesar de nenhum destes dois geógrafos ter sido pioneiro no</p><p>estudo da Geografia na Modernidade, foram os primeiros a proporem</p><p>uma ciência geográfica, cujo objetivo fosse compreender as leis que</p><p>regem a relação entre a natureza e a sociedade (LEITÃO, 2017, p. 12).</p><p>Ao analisarmos a contribuição dos autores para a sistematização da geografia e,</p><p>por consequência, sua consolidação enquanto ciência racionalizada por uma</p><p>metodologia testada, podemos perceber que o que os diferenciavam teoricamente era o</p><p>método de análise que propunham para desenvolver seus estudos. Segundo Leitão</p><p>(2017), Humboldt era um naturalista empirista que viajou por diversos locais do mundo</p><p>enquanto Ritter compôs sua obra a partir de atividades de revisão bibliográfica, propondo</p><p>um sentido para a relação homem-natureza.</p><p>Ambos os autores se encontravam inseridos em um contexto de profundas</p><p>transformações na história na Alemanha e, sobretudo, na história Ocidental. A ciência,</p><p>nesse período, estava fundamentada em uma compreensão mecanicista do universo, ou</p><p>seja, estava ancorada na razão exacerbada, herança do positivismo iluminista, como</p><p>vimos anteriormente. “Efetivamente, a epistemologia dominante fundamenta-se em</p><p>Usuario</p><p>Destacar</p><p>Usuario</p><p>Destacar</p><p>Usuario</p><p>Destacar</p><p>Usuario</p><p>Destacar</p><p>Usuario</p><p>Destacar</p><p>Usuario</p><p>Destacar</p><p>contextos culturais e políticos bem definidos: o mundo moderno cristão ocidental, o</p><p>colonialismo e o capitalismo” (TAVARES, 2009, p. 183).</p><p>O pensamento moderno baseado nas contribuições da física de Newton iniciou a</p><p>modernidade enquanto corrente científica. A física Newtoniana, concretizou a forma</p><p>mecânica de compreender a natureza, afirmando que nada poderia fugir das relações de</p><p>causa e efeito, sendo assim, as explicações dos fenômenos seriam logicamente medidas</p><p>e traduzidas em equações matemáticas adequadas a explicar todos os eventos que</p><p>acontecem no espaço.</p><p>Contudo, a inspiração científica de Ritter, não foi somente instigada pela corrente</p><p>racionalista que permeou a Modernidade, sua geografia preocupava-se em dar respostas</p><p>aos dilemas do seu tempo e as questões que preocupavam sua geração, afirmando que</p><p>a geografia seria capaz de encontrar leis racionais e universais que gerissem a conexão</p><p>entre a humanidade e a natureza quando compreendesse, que mesmo a razão, era</p><p>detentora de contradições e complexidades inerentes ao agir e pensar humano.</p><p>Ao analisar as mudanças políticas, sociais, econômicas, culturais e</p><p>epistemológicas que ocorreram no continente europeu pós-Revolução Francesa,</p><p>relacionando-as com a corrente científica racionalista, o autor aponta:</p><p>Muitos daqueles que esperavam que a Revolução Francesa fosse capaz</p><p>de inspirar em toda a Europa uma sociedade mais igualitária e livre,</p><p>assistiram à queda do tradicional Antigo Regime sem que isso</p><p>representasse mudanças significativas na vida da maior parte da</p><p>população. O homem moderno continuava refém das fraquezas</p><p>humanas, mas em contrapartida, havia perdido seu elo com a natureza,</p><p>aberto mão de sua tradição e perdido o contato integral da vida</p><p>comunitária (LEITÃO, 2017, p. 13).</p><p>À vista disto, Carl Ritter preocupou-se em sistematizar o conhecimento geográfico</p><p>ao elaborar uma interpretação científica e racional para entender a interação entre o</p><p>homem e a natureza e encontrar um significado para a existência humana. O geógrafo</p><p>acreditava que a vontade de Deus havia desenvolvido a ciência racional como condição</p><p>da humanidade se reconectar com a natureza e, consequentemente, se reconectar com</p><p>Deus através da contemplação da mesma.</p><p>Usuario</p><p>Destacar</p><p>Usuario</p><p>Destacar</p><p>Usuario</p><p>Destacar</p><p>Usuario</p><p>Destacar</p><p>Corroboramos que, mesmo com o fim da Idade Média e a ocorrência da</p><p>Modernidade, tais transformações históricas não ocorreram do dia para a noite, logo,</p><p>vale ressaltar que a religião, como instituição que molda as ações e pensamentos</p><p>humanos, continuou a exercer grandes influências nas práticas sociais modernas. Tal</p><p>fato explicaria a crença e pertença religiosa manifestada por Carl Ritter em seus estudos</p><p>a respeito da geografia.</p><p>Para Ritter, as adversidades da natureza moldam o caráter e o espírito</p><p>de um povo, da mesma maneira que o homem é capaz de alterar a</p><p>natureza. É desta relação, que é por essência conflituosa, que são</p><p>moldadas as regiões em suas particularidades. As regiões, a natureza e</p><p>os homens são, portanto, portadores de história. É a partir da história que</p><p>o geógrafo se torna capaz de compreender os meandros da relação</p><p>homem-natureza (LEITÃO, 2017, p. 29).</p><p>A fim de compreender de que forma os fenômenos apresentam-se na superfície da</p><p>Terra</p><p>do urbano, do</p><p>imperialismo ligado à colonização, entre outros. Após o trigésimo número</p><p>da revista, Lacoste convoca os geógrafos a uma maior atuação na esfera</p><p>política e reanalisa o conceito de geopolítica. Para ele, não só a geografia</p><p>como também outras ciências foram utilizadas pelos nazistas para</p><p>justificar as expansões territoriais sobre outros povos. Lacoste (1989)</p><p>procura mostrar que a geopolítica, adotada pelos Estados, poderia ser</p><p>também empregada para que os povos conquistassem a libertação</p><p>nacional, no plano externo, e a libertação interna (MOURA; OLIVEIRA;</p><p>LISBOA; FONTOURA; GERALDI, 2008, p. 3).</p><p>Concomitante a isso, a Geografia Crítica ganha espaço com o engajamento dos</p><p>geógrafos norte-americanos, no final dos anos de 1960, no curso das lutas e processos</p><p>que desembocaram em transformações sociais associadas às revoltas internacionais de</p><p>1968, como os movimentos contrários a guerra do Vietnam, os embates ao colonialismo,</p><p>os movimentos contra a segregação racial e pelos direitos civis. Desta forma, podemos</p><p>afirmar que as agitações e mobilizações políticas que abalavam a sociedade envolveram</p><p>os geógrafos, que levaram para a luta social, seus aparatos e saberes científicos em</p><p>Geografia.</p><p>Trabalhos de geógrafos, particularmente norte-americanos e</p><p>canadenses, voltados aos problemas sociais, passaram a circular e</p><p>adquiriram certa relevância. Com base em Blaut (1979), Cobarrubias</p><p>(2006) aponta como data de referência do surgimento da corrente o ano</p><p>de 1969, no encontro da Associação Americana de Geografia, que reuniu</p><p>a maioria dos movimentos locais, incluindo a Detroit Geographical</p><p>Expedition (DGE) e o grupo responsável pela publicação Antipode, da</p><p>Clark University (MOURA; OLIVEIRA; LISBOA; FONTOURA; GERALDI,</p><p>2008, p. 4)</p><p>Um outro exemplo de veículo científico acerca das discussões sobre a abordagem</p><p>geográfica crítica, é a revista Antipode, organizada em 1969, cujo o objetivo inicial era o</p><p>de divulgar e propagar os trabalhos desenvolvidos, passando a fazer uma crítica radical</p><p>tanto a geografia tradicional, quanto a geografia teorética, ao ser concebida como porta</p><p>voz de uma geografia alternativa, preocupada com a investigação e resolução de</p><p>problemas locais e regionais.</p><p>A revista Antipode teve grande aceitação, pois permitia a abertura de</p><p>novos horizontes para os novos geógrafos, já que a maioria dos</p><p>colaboradores eram geógrafos quantitativistas desolados com o método</p><p>matemático-estatístico. À medida que evoluía e se desenvolvia, fez</p><p>emergir a questão do método e do papel da ideologia na geografia</p><p>(MOURA; OLIVEIRA; LISBOA; FONTOURA; GERALDI, 2008, p. 4).</p><p>Em 1974, em plena evolução e busca teórica, a revista se ocupou da necessidade</p><p>de explorar o campo do marxismo e estimular as investigações e contribuições dos</p><p>países considerados de terceiro mundo ou subdesenvolvidos. Durante esse processo,</p><p>foram elucidando os objetivos e ampliando as perspectivas e com isso, ganhando leitores</p><p>fora dos Estados Unidos e da América do Norte.</p><p>Em razão disso, a necessidade teórica de linhas alternativas de pesquisa na</p><p>Geografia, começou a ganhar estrutura e público na América do Sul. No Uruguai e na</p><p>Argentina, essa corrente se baseava em uma agenda estruturada em princípios que</p><p>destaca o compromisso intelectual a serviço da sociedade e o tratamento das</p><p>contradições inerentes ao desenvolvimento latino-americano em uma nova forma de</p><p>compreender os processos de ensino e aprendizagem, assim como a necessidade de</p><p>fazer política com os instrumentos e conhecimentos desenvolvidos pela ciência. Essa</p><p>nova corrente de reflexão surge nas universidades e se apropria de conceitos chaves do</p><p>marxismo para compreender e intervir no território e no espaço geográfico.</p><p>Milton Santos, um dos expoentes da Geografia Crítica no Brasil, defendeu a</p><p>importância de construir uma estrutura teórica latino-americana para entender, investigar</p><p>e denunciar as contrariedades regionais compartilhadas pelos países tidos como de</p><p>terceiro mundo, destacando as desigualdades sociais e diferenças com o mundo</p><p>ocidental tido como desenvolvido.</p><p>Como os espaços para a difusão de ideias era limitado, tal corrente se organizou</p><p>através de encontros, como o Primeiro Encontro Latino-Americano da Nova Geografia,</p><p>realizado em 1973 no Uruguai e que reuniu centenas de participantes. O segundo</p><p>encontro aconteceu na Argentina em fevereiro de 1974, reunindo mais que o dobro de</p><p>participantes do anterior, sob um cenário político que rapidamente caiu em censura.</p><p>Foram convidados para esse Segundo Encontro, Pierre George, como</p><p>referencial europeu, e Milton Santos, como referencial latino-americano,</p><p>propulsores, entre os jovens geógrafos, de ideias comprometidas com a</p><p>realidade social (Martínez, 2002), assim como estiveram presentes uma</p><p>numerosa delegação uruguaia, entre os quais Germán Wettstein e Danilo</p><p>Antón, e geógrafos argentinos, com destaque para Elena Chiozza e</p><p>Carlos Reboratti, da Universidade de Buenos Aires, e Ricardo Capitanelli,</p><p>da Universidade Nacional de Cuyo. Trataram de temas acerca do papel</p><p>do geógrafo como profissional, entre outros que marcavam a realidade,</p><p>indicando a preocupação dos participantes em gerir outra Geografia, está</p><p>mais comprometida. (MOURA; OLIVEIRA; LISBOA; FONTOURA;</p><p>GERALDI; 2008, p. 6).</p><p>A geografia brasileira foi fortemente influenciada pelas diferentes formas de</p><p>interpretar a geografia nos anos 1970, através das contribuições desenvolvidas na</p><p>Europa e nas Américas. Nesse período, a censura somada às políticas de</p><p>desenvolvimento adotadas pelo regime militar, favoreceram a introdução da corrente</p><p>crítica no Brasil do final dos anos 70. Mesmo que sufocada pelo regime autoritário, a</p><p>corrente crítica representou um momento de ruptura epistemológica e política ao</p><p>influenciar os geógrafos brasileiros a procurarem novos caminhos científicos para a</p><p>Geografia.</p><p>Cabe destacar a grande importância da contribuição de Milton Santos na</p><p>estruturação epistemológica da geografia brasileira e, também, mundial. Após o golpe</p><p>militar de 1964, Milton Santos foi duramente perseguido, sendo exilado por 13 anos pelo</p><p>regime ditatorial vigente no país. O exílio sofrido por ele deu origem a reformulação de</p><p>sua visão de sociedade e do papel do geógrafo, bem como, da geografia do terceiro</p><p>mundo. Como aponta o geógrafo e historiador brasileiro Manuel Correa de Andrade</p><p>(2003),</p><p>Foram anos que o levaram a uma reflexão maior dos mecanismos de</p><p>relações entre a sociedade, o Estado e a natureza, no mundo</p><p>subdesenvolvido, sobretudo nas regiões tropicais e pobres, e sobre as</p><p>formas de utilização dos solos, a organização dos circuitos de relações</p><p>comerciais e sobre as formas de dominação. Foram dessa época os livros</p><p>de maior importância para a formação dos geógrafos e da geografia, daí</p><p>a formulação e análise das formações espaciais e sociais aplicadas ao</p><p>Brasil, das formas de sobrevivência das populações pobres, dentro de</p><p>estruturas sociais marcadas pela herança da escravidão, das formas de</p><p>relações de trabalho e os preconceitos que dificultavam a ascensão social</p><p>dos humildes, dos pobres e da população de cor: negros, indígenas e</p><p>caboclos (ANDRADE, 2003, p. 2).</p><p>Alguns dos seus livros deste período podem ser considerados clássicos, devido</p><p>aos caminhos abertos à evolução da Geografia e à compreensão do Terceiro Mundo,</p><p>vale destacar também, sua contribuição como membro da União Socialista de Geógrafos</p><p>(USG) e do comitê de redação da revista Hérodote, além de ter editado um número da</p><p>Antipode. Após o seu exílio pela ditadura civil-militar, no final dos anos 70, o professor</p><p>Milton Santos recém reintegrado à vida acadêmica brasileira publica a obra Por uma</p><p>Geografia Nova: da crítica a geografia a uma geografia crítica (1978), considerada como</p><p>uma das primeiras propostas de renovação da geografia brasileira ao propor uma</p><p>avaliação crítica a geografia tradicional e a crise</p><p>do pensamento geográfico.</p><p>Outras publicações importantes de cunho crítico espalharam pelo país,</p><p>particularmente o Boletim Paulista de Geografia, além de Território Livre, Terra Livre,</p><p>Geonordeste, entre outras.</p><p>São diversos os textos e autores que reforçam, atualmente, a concepção</p><p>amparada pela corrente crítica, reivindicando a interação entre os meios acadêmicos,</p><p>governamentais e sociedade civil, não apenas na investigação de um conhecimento</p><p>concentrado nas inúmeras esferas de atuação, como na conquista de estratégias que</p><p>contraponham a crescente desigualdade social e territorial contemporânea. Requer um</p><p>posicionamento ativo do geógrafo frente aos dilemas do mundo, dando enfoque à</p><p>preocupação da corrente crítica, contribuindo na renovação do que seria uma verdadeira</p><p>totalidade geográfica: nem divisora nem dualista, mas unificada para o desenvolvimento</p><p>da prosperidade humana.</p><p>A geografia crítica renovou o pensamento geográfico, principalmente por</p><p>admitir o papel da divisão social e territorial do trabalho. Permitiu e vem</p><p>possibilitando a exposição de lógicas, processos, agentes. Da mesma</p><p>forma, politizou o debate sobre espaço, território e ambiente, assumindo</p><p>temas como dominação, controle, exclusão, desigualdade socioespacial,</p><p>pobreza e vulnerabilidade. Em alguns casos, aproximou-se da geografia</p><p>física, como por exemplo, nos trabalhos que discutem os problemas</p><p>ambientais numa ótica crítica, relacionando a crise da sociedade ao</p><p>modelo de desenvolvimento dos países industrializados e à cultura do</p><p>consumo, além de salientar enfoques socioambientais. (MOURA;</p><p>OLIVEIRA; LISBOA; FONTOURA; GERALDI, 2008, p. 18).</p><p>Deste modo, podemos concluir que a corrente crítica, encaminhou e segue</p><p>conduzindo contribuições essenciais à ciência geográfica. No período de sua ascensão</p><p>o mundo vivia a ebulição de um momento de profundas contestações e mudanças</p><p>históricas, condição social que possibilitou seu surgimento, caracterizando-a a partir de</p><p>leituras, análises e investigações extremamente críticas ao funcionamento desigual dos</p><p>processos de formação do espaço geográfico.</p><p>4 RAMOS DA GEOGRAFIA</p><p>Imagem do Tópico: https://www.shutterstock.com/pt/image-illustration/illustration-world-map-</p><p>drawn-out-realistic-231214228.</p><p>Como vimos durante toda a unidade, o desmembramento entre Geografia Física</p><p>e Geografia Humana configura-se como a principal divisão da ciência geográfica. É a</p><p>partir dessa separação temática e metodológica que iremos estudar, neste último tópico,</p><p>os ramos dessa ciência.</p><p>Desta maneira, nosso conteúdo se concentrará nas diferentes ramificações</p><p>operacionais presentes nas preocupações e elementos de estudo da Geografia Física,</p><p>mais voltados ao relevo, vegetação, clima, rios, entre outros agentes naturais, e da</p><p>Geografia Humana, centrados na interação humana com os diversos elementos do meio</p><p>ambiente.</p><p>Corroboramos que a formação dualista da Geografia não deve ser utilizada para</p><p>excluir afinidades e confluências analíticas, teóricas e metodológicas, nem para uma</p><p>divisão sobrepor a outra, todo contrário, compreendermos que ao englobar os aspectos</p><p>físicos e sociais associados à capacidade de síntese, a Geografia reforça possibilidades</p><p>de estudar fenômenos que se relacionam a partir de ângulos diferentes, enriquecendo</p><p>assim, os processos investigativos em Geografia.</p><p>4.1 Alguns ramos da Geografia Física</p><p>Geomorfologia:</p><p>Estuda as origens e a evolução da estrutura e formas de relevos da Terra por meio</p><p>da natureza das rochas, pelo clima e por fatores endógenos e exógenos a fim de</p><p>identificar a formação dos elementos que compõem a superfície terrestre.</p><p>Tal ramificação é utilizada, também, para os estudos à respeito dos processos</p><p>morfogenéticos atuais com o objetivo de compreender os problemas ambientais em</p><p>vigência, oferecer subsídios técnicos para orientar a ocupação humana e auxiliar na</p><p>resolução dos danos provocados pelos desequilíbrios geoecológicos causados pela</p><p>ação humana.</p><p>Climatologia:</p><p>Pesquisa os climas, suas distribuições entre as diversas regiões terrestres e suas</p><p>variações, entre elas podemos citar: a chuva, o vento, a temperatura e outros elementos</p><p>climáticos mais raros, como o granizo, a neve e as geadas.</p><p>Investigações climatológicas importantes já provieram do campo</p><p>geográfico e um rico campo de trabalho se apresenta aos geógrafos na</p><p>organização das observações de estação através da livre observação e</p><p>através da reunião de observações e especialmente na ligação dos</p><p>processos climáticos com os fenômenos do balanço hídrico, do arranjo</p><p>do solo, da cobertura vegetal e da vida humana (HETTNER, 2012, p.</p><p>147).</p><p>Logo, esse ramo geográfico preocupa-se, também, com os impactos de origem</p><p>climática que causam danos nos meios físico e socioeconômico, tais como as</p><p>tempestades, enchentes, inundações, alagamentos e enxurradas, muitas vezes,</p><p>provocadas pela ação humana, como as enchentes ocorridas devido à depósitos e</p><p>descartes inadequados de lixo pelo homem.</p><p>Pedologia:</p><p>É a ciência que estuda o solo em seus diversos aspectos morfológicos, de</p><p>formação (gênese) e de classificação, buscando identificar e mapear os solos</p><p>característicos de determinada região. Os estudos pedagógicos configuram-se como um</p><p>ramo de pesquisa desafiador, pois trata da constituição e distribuição espacial dos solos</p><p>na paisagem, com suas respectivas implicações sociais e ambientais.</p><p>O solo é um recurso natural de grande importância para a sobrevivência humana,</p><p>resultado de uma interação complexa de fatores, como o clima, a topografia e</p><p>organismos nele existentes. É o solo que permite o sustento das florestas, ruas e</p><p>construções, que filtra e armazena parte da água que bebemos, e que dá vida aos</p><p>alimentos de origem vegetal que se alimentamos e às plantas que purificam o ar,</p><p>produzindo parte do oxigênio que respiramos.</p><p>Desta forma, a pedologia é uma ciência primordial para corrigir a fertilidade natural</p><p>do solo, alterada pelo agronegócio, a pecuária e a mineração desenfreadas, neutralizar</p><p>sua acidez, observar teores de matéria orgânica, preservar contra a erosão e identificar</p><p>solos apropriados para cada cultura e/ou região,</p><p>Biogeografia:</p><p>Ramo da Geografia que estuda as paisagens biológicas e as formas de</p><p>distribuição geográfica dos seres vivos (animais e plantas) em diferentes contextos</p><p>históricos.</p><p>Desde o período mais remoto, a Geografia também incluiu em sua</p><p>investigação os mundos vegetal e animal, e certamente tanto no caráter</p><p>geral da cobertura vegetal como a ocorrência de plantas e animais</p><p>individuais, especialmente aqueles que são úteis ou nocivos ao homem.</p><p>Nos tempos antigos, a descrição botânica ou zoológica esteve</p><p>diretamente ligada com sua referência; apenas pouco a pouco a</p><p>investigação geográfica se separou da [investigação] botânica e da</p><p>zoológica (HETTNER, 2012, p. 147 - 148).</p><p>Tais estudos têm por objetivo compreender os padrões de organização e</p><p>ocupação espacial reproduzidos pela fauna e pela flora e, ainda, os processos que</p><p>resultaram nesse parâmetro de disposições biogeográficas. Portanto, estudar as inter-</p><p>relações dos diversos fatores geográficos e ecológicos que atuam na distribuição,</p><p>adaptação, expansão e associação dos seres vivos, configura-se como objeto de estudo</p><p>e método imprescindível aos objetivos da Biogeografia.</p><p>Hidrografia:</p><p>Fragmentação da Geografia que estuda os fenômenos relacionados aos recursos</p><p>hídricos existentes no planeta Terra, à exemplo dos rios, bacias hidrográficas, mares,</p><p>oceanos, lagos, entre outros, buscando compreender as origens e as formações da água</p><p>em diferentes regiões terrestres.</p><p>“A água da superfície terrestre deve ser concebida como um grande sistema de</p><p>circulação, que se considera sob diferentes pontos de vista, sob o da ordenação espacial,</p><p>da formação topográfica, do balanço hídrico, das relações físicas e químicas”</p><p>(HETTNER,</p><p>2012, p. 145). Logo, é a partir dos estudos hidrográficos que as relações</p><p>topográficas das águas, suas ordenações e o balanço hídrico de uma região são</p><p>compreendidas de forma sistemática.</p><p>Cartografia:</p><p>A cartografia é o ramo da Geografia que estuda e elabora a representação gráfica</p><p>da superfície terrestre, tendo como produto final desse processo investigativo, o mapa,</p><p>isto é, configura-se como a ciência responsável pela criação, estudo, difusão e utilização</p><p>dos mapas.</p><p>Devido à diversidade temática dos mapas, a cartografia é fundamental para o</p><p>ensino de Geografia nas escolas e instituições educacionais, tanto para a compreensão</p><p>do cotidiano quanto para o entendimento das regiões do planeta Terra.</p><p>4.2 Alguns ramos da Geografia Humana</p><p>De acordo com os nossos estudos durante esta unidade, podemos afirmar que a</p><p>Geografia é uma Ciência Humana, pois seu objeto de pesquisa é o espaço geográfico</p><p>produzido pela ação do ser humano, logo, é resultante das imbricações entre natureza e</p><p>sociedade. Por consequência, métodos integradores no interior da ciência geográfica,</p><p>que analisam fenômenos que contemplam os aspectos físicos e humanos, entendidos</p><p>como problemáticas do espaço geográfico, tornam-se caras para os estudos e o</p><p>pensamento geográfico.</p><p>Geografia da População:</p><p>É composta por investigações a respeito do crescimento/quantidade, composição,</p><p>migração e distribuição da população humana em relação às características espaço-</p><p>geográficas e aos contextos históricos, ou seja, estuda de que maneira e sob quais</p><p>condições o homem se transforma em população ao longo dos séculos e períodos</p><p>históricos.</p><p>[...] aos aspectos biológicos agregam-se a organização cultural, política,</p><p>econômica e territorial da sociedade, que repercutem, por exemplo, no</p><p>número de pessoas empregadas (população economicamente ativa), no</p><p>número de pessoas que se desloca de um lugar para o outro e nas razões</p><p>e consequências dessa mobilidade (migração), no número de pessoas</p><p>que nascem e morrem em um local (crescimento populacional) e no</p><p>número de pessoas que vivem em uma localidade e na forma como</p><p>ocupam esse espaço (distribuição populacional). A busca pela</p><p>compreensão dos fenômenos que geram essas diferenças, suas causas</p><p>e consequências conduz a análise da dinâmica populacional que, na</p><p>perspectiva da Geografia da População, é investigada a partir da</p><p>espacialização da organização populacional (DANTAS; MORAIS;</p><p>FERNANDES, 2011, p. 13).</p><p>Isto posto, podemos afirmar que os estudos populacionais concentram-se nos</p><p>aspectos políticos, sociais, culturais e econômicos que diferenciam as populações ao</p><p>redor do mundo, analisando fatores importantes para a compreensão da humanidade</p><p>como gênero, raça, etnia, classe social, idade, trabalho, grau de escolaridade, entre</p><p>outros.</p><p>Geografia Social:</p><p>Ramos da Geografia Humana que pesquisa os fenômenos sociais dos grupos</p><p>humanos e suas relações no interior do espaço geográfico. Ao encontrar-se intimamente</p><p>relacionada com a sociologia e teorias sociais diversas, a Geografia Social busca</p><p>compreender a relação do fenômeno social com as características e fatores espaciais</p><p>que o constituem.</p><p>Neste sentido, os principais objetos de estudo da Geografia Social são: a origem</p><p>dos povos, as religiões, os conflitos, os índices de evasão escolar e desenvolvimento</p><p>humano e social, as relações internacionais, as dinâmicas do mercado de trabalho e a</p><p>governança da população sobre o território.</p><p>Geografia Econômica:</p><p>Campo geográfico que estuda os modos de produção e a utilização e distribuição</p><p>de recursos, considerando as características do ordenamento, localização e organização</p><p>espacial das atividades econômicas e trabalhistas disponíveis em nosso corpo social.</p><p>A paisagem, o lugar e o território geográfico influenciam diretamente as atividades</p><p>econômicas e as demandas de mercado de determinada região e/ou país, logo, a</p><p>Geografia Econômica prioriza em suas produções a localização de indústrias e</p><p>empresas, as rotas comerciais e de transporte, o mapeamento de atividades comerciais</p><p>locais, nacionais e internacionais (tanto no atacado quanto no varejo) e as variações de</p><p>valor de mercados que tratam intimamente do espaço geográfico, à exemplo do mercado</p><p>imobiliário.</p><p>Geopolítica:</p><p>A Geopolítica é responsável por estudar e analisar a organização e distribuição</p><p>espacial dos fenômenos políticos, realizando interpretações históricas de</p><p>acontecimentos e episódios da atualidade em acordo com o desenvolvimento político</p><p>das nações e suas respectivas formações sociais e geográficas.</p><p>O termo Geopolítica [...] designa de fato tudo que concerne às rivalidades</p><p>de poderes ou de influências nos territórios e as populações que nele</p><p>vivem: rivalidades entre poderes políticos de toda sorte – e não somente</p><p>entre Estados, mas também entre movimentos políticos ou grupos</p><p>armados mais ou menos clandestinos – rivalidades pelo controle ou</p><p>dominação de territórios de grande ou pequeno porte. Os raciocínios</p><p>geopolíticos ajudam a melhor compreender as causas de tal ou tal</p><p>conflito, dentro de um país ou entre Estados, mas também a considerar</p><p>quais podem ser, por repercussão, as consequências destas lutas nos</p><p>países mais ou menos distantes e por vezes até mesmo em outras partes</p><p>do mundo (LACOSTE, 2006, p. 8).</p><p>Portanto, um dos campos de pesquisa mais assíduos da Geopolítica visa</p><p>compreender e explicar os conflitos internacionais, as questões políticas e de</p><p>globalização e a utilização dos recursos naturais e energéticos no mundo.</p><p>SAIBA MAIS</p><p>Você sabia que após o golpe militar de 1964, o professor e geógrafo Milton Santos</p><p>foi perseguido por sua produção intelectual, levando a ser exilado do Brasil por 13 anos?</p><p>Durante esse período, Milton Santos viveu grande parte da cidade de Paris, na França,</p><p>percorrendo outros países como: Tanzânia na África, Canadá e Estados Unidos na</p><p>América do Norte e Venezuela e Peru na América do Sul. A volta do exílio apresentou</p><p>um Milton Santos já amadurecido, que trouxe na bagagem a experiência de acompanhar</p><p>a formação da universidade de Dar-el-Salaam na Tanzânia e também da vivência norte-</p><p>americana, com universidades típicas do mundo anglo-saxão e, finalmente, com a</p><p>observação de problemas e fatos da América Latina de colonização espanhola, vivências</p><p>que expandiram seu conhecimento em Geografia de forma crítica e enriquecedora.</p><p>REFLITA</p><p>Reflita sobre a seguinte afirmação de Milton Santos. Como ignorarmos as</p><p>constantes e contínuas transformações históricas e sociais nos estudos e investigações</p><p>em Geografia?</p><p>Se as ações sobre um conjunto de objetos se dessem segundo tempos</p><p>iguais não haveria história; o mundo seria imóvel. Mas o mundo é móvel,</p><p>em transformação permanente – formando uma totalidade em processo</p><p>de mudança para surgir amanhã como uma nova totalidade (SANTOS,</p><p>1996, p. 167).</p><p>SANTOS, Milton. Técnica, espaço, tempo. Globalização e meio técnico-científico</p><p>informacional. São Paulo: Hucitec, 1996.</p><p>CONSIDERAÇÕES FINAIS</p><p>No decorrer da presente unidade compreendemos que o desenvolvimento da</p><p>ciência geográfica passou por diversos períodos históricos, sendo modificada e</p><p>transformada de acordo com as influências de cada época. Vimos que na Modernidade,</p><p>a Geografia se consolidou como a ciência empenhada em entender o espaço onde a</p><p>humanidade desenvolve e cria suas atividades produtivas e também onde a mesma</p><p>desenvolve relações sociais. Com isso, compreendemos que um dos grandes atributos</p><p>da ciência geográfica é a capacidade de estabelecer uma interpretação global e sintética</p><p>da realidade intermediando as relações entre as ciências sociais e as ciências naturais.</p><p>Estudamos no tópico 1 que é a partir da divisão temática e metodológica entre</p><p>Geografia Humana e Geografia Física que a ciência geográfica é operacionalizada e</p><p>dinamizada frente aos processos de investigações</p><p>acerca dos seus objetos de estudos</p><p>e análises. Compreendemos então, que a divisão entre Geografia Física e Geografia</p><p>Humana pode contribuir para melhor delimitar metodologicamente os objetos de estudo</p><p>e os fenômenos investigados, contudo, devemos lembrar, que a relação e imbricação</p><p>teórica e epistemológica entre ambas, combatendo possíveis hierarquizações, torna-se</p><p>fundamental para análises e interpretações mais completas da realidade pesquisada.</p><p>No tópico 2, buscamos compreender que o conhecimento construído de forma</p><p>fragmentada pela ciência geográfica passou a permitir uma interdisciplinaridade teórica-</p><p>metodológica devido aos dilemas existentes com o seu objeto de estudo primordial, o</p><p>espaço geográfico. Logo, a interdisciplinaridade garante à Geografia uma integração com</p><p>outras disciplinas, que ao estabelecer relações entre um mesmo objetivo de estudo, sem</p><p>pretensões totalizantes, busca compreender os diversos aspectos e variáveis de um</p><p>mesmo objeto de pesquisa.</p><p>A partir disso, no tópico 3 analisamos a formação da abordagem crítica da</p><p>Geografia, que se desenvolveu especialmente no Brasil com uma notável importância</p><p>para a produção teórica na atualidade. Concluímos então que a corrente crítica,</p><p>encaminhou e segue conduzindo contribuições essenciais à ciência geográfica. No</p><p>período de sua ascensão o mundo vivia a ebulição de um momento de profundas</p><p>contestações e mudanças históricas, condição social que possibilitou seu surgimento,</p><p>caracterizando-a a partir de leituras, análises e investigações extremamente críticas ao</p><p>funcionamento desigual dos processos de formação do espaço geográfico.</p><p>Por fim, vimos no tópico 4 que o desmembramento entre Geografia Física e</p><p>Geografia Humana se configurou como a principal divisão dentro da ciência geográfica.</p><p>Pudemos assim compreender as diferentes ramificações operacionais presentes nas</p><p>preocupações e elementos de estudo da Geografia Física, voltados ao relevo,</p><p>vegetação, clima, rios, entre outros agentes naturais, e da Geografia Humana, centrados</p><p>na interação humana com os diversos elementos do meio ambiente.</p><p>Desejo que os conteúdos trabalhados nesta unidade contribuam para seu</p><p>desenvolvimento na compreensão dessa disciplina.</p><p>LEITURA COMPLEMENTAR</p><p>MOREIRA, Ruy. O que é Geografia. São Paulo: Brasiliense, 1980.</p><p>Estrabão, ao criar a geografia no século I, apresentou-a como um saber</p><p>comprometido com a construção de um mundo centrado na felicidade e na vida do</p><p>homem. Desde então, a trajetória histórica da geografia tem trafegado no caminho dessa</p><p>utopia ou do seu esquecimento, às vezes se aproximando daqueles que lutam por esse</p><p>mundo e às vezes dos que se voltam para o extremo oposto, servindo ao diabo quando</p><p>devia servir ao homem.</p><p>Este livro é um estudo dessa trajetória, mostrando os momentos de um e os</p><p>momentos de outro dos dois caminhos que trilhou, com particular atenção nos capítulos</p><p>finais com o seu vínculo com a forma e os problemas da sociedade contemporânea.</p><p>Sinopse oficial do livro disponível em:</p><p>https://www.amazon.com.br/dp/B074JJS76P?ref_=cm_sw_r_kb_dp_DbZ3ybGJMJ3GP</p><p>&tag=pc161256-20&linkCode=kpe. Acesso em: 11/04/2021.</p><p>LIVRO</p><p>• Título: Geografia: pequena história crítica</p><p>• Autor: Antonio Carlos Robert Moraes</p><p>• Editora: Hucitec</p><p>• Sinopse: Neste livro, Antonio Carlos Robert Moraes faz uma retrospectiva da ciência</p><p>geográfica desde seu surgimento, passando por sua sistematização científica, e as</p><p>principais correntes do seu pensamento de acordo com suas próprias definições, objetos</p><p>de pesquisa, premissas teóricas, métodos e contextos históricos de formação e</p><p>estruturação. Segundo o autor, tal obra foi concebida com o objetivo de contribuir com</p><p>reflexões acerca da construção, historicidade e origem das principais correntes dessa</p><p>ciência, em especial, a partir da divisão da Geografia Tradicional e da Geografia</p><p>Moderna.</p><p>FILME/VÍDEO</p><p>• Título: Viajo porque preciso, volto porque te amo</p><p>• Ano: 2009</p><p>• Sinopse: Apaixonado pela esposa, o geólogo José Renato precisa fazer sozinho uma</p><p>longa viagem pelo sertão nordestino. Longe dela, ele terá que realizar uma pesquisa de</p><p>campo para definir o possível percurso de um canal, que irá amenizar o problema da</p><p>seca na região. Apesar de a construção ser um alívio para muitas populações, pode ser</p><p>um grande problema para aqueles com quem Renato cruza, já que provavelmente a</p><p>região será alagada. Avaliando o terreno, ele percebe na seca e na pobreza daquelas</p><p>pessoas uma sensação parecida com a que está tendo. Apesar de não ter dificuldades</p><p>com a falta de recursos, José Renato sente um grande vazio, pela distância da mulher</p><p>que ama. À medida em que a viagem avança, as saudades ficam cada vez maiores, e a</p><p>distância física dela parece ser o menor dos problemas entre os dois.</p><p>• Link do vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=gperj-foF_0.</p><p>REFERÊNCIAS</p><p>ANDRADE, Manual Correia de. A trajetória de Milton Santos. Jornal do Commercio,</p><p>Recife, 20 e 27 abril., 2003, Seção de Opinião. Disponível em:</p><p>https://www.fundaj.gov.br/images/stories/observanordeste/miltonsantos2.pdf. Acesso</p><p>em: 27/03/2021.</p><p>CLEMENTE, Evandro César. Questões teórico-metodológicas da Geografia no limiar do</p><p>século XXI: A questão da problemática na dicotomia Geografia Física X Geografia</p><p>Humana. Revista Formação, v. 1, n. 14, p. 198-200, 2007. Disponível em:</p><p>https://revista.fct.unesp.br/index.php/formacao/article/view/691. Acesso em: 28/03/2021.</p><p>CORRÊA, Roberto Lobato. Espaço, um conceito-chave da geografia. In: CASTRO, I.E.</p><p>de; GOMES, P. C. da C.; CORRÊA, R.L. (Org.) Geografia: conceitos e temas. Rio de</p><p>Janeiro: Bertrand Brasil, 2001.</p><p>DANTAS, Eugênia Maria; MORAIS, Ione Rodrigues Diniz; FERNANDES, Maria José da</p><p>Costas. Geografia da População. 2. ed. Natal: EDUFRN, 2011. Disponível em:</p><p>http://bibliotecadigital.sedis.ufrn.br/pdf/geografia/geo_pop_Livro_Iva_WEB.pdf. Acesso</p><p>em: 29/03/2021.</p><p>HETTNER, Alfred. Os ramos da geografia e sua relação com as ciências da natureza.</p><p>GEOgraphia (Revista do Programa de Pós-Graduação em Geografia da</p><p>Universidade Federal Fluminense), v. 14, n. 28, p. 138-160, 2012. Disponível em:</p><p>https://periodicos.uff.br/geographia/article/view/13646/8846. Acesso em: 28/03/2021.</p><p>LACOSTE, Yves. Geopolitiqué: la longue histoire d’aujourdhui. Paris: Larousse, 2008.</p><p>MOURA, Rosa; OLIVEIRA, Deuseles de; LISBOA, Helena dos Santos; FONTOURA,</p><p>Leandro Martins, GERALDI, Juliano. Geografia Crítica: legado histórico ou abordagem</p><p>recorrente?. Revista Bibliográfica de Geografía y Ciencias Sociales, Universidad de</p><p>Barcelona, Vol. XIII, nº 786, 5 de junio de 2008. Disponível em:</p><p>http://www.ub.es/geocrit/b3w-786.htm. Acesso em: 02/04/2021.</p><p>SANSOLO, D. G. A importância do trabalho de campo no ensino de geografia e para</p><p>educação ambiental. São Paulo, 1996. 170 f. Dissertação (Mestrado em Geografia</p><p>Física) – Departamento de Geografia, Universidade de São Paulo.</p><p>SANTOS, Milton. Por uma Geografia Nova: Da Crítica da Geografia a uma Geografia</p><p>Crítica. 6. ed., 2. reimp. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo (Edusp), 2012.</p><p>SILVA, Sérgio Henrique Pinto. Geografia Física e Geografia Humana: uma dicotomia a</p><p>ser superada? Revista Outros Tempos, v. 4, n. 4, p. 40-49, 2007. Disponível em:</p><p>https://uema.openjournalsolutions.com.br/outrostempos/index.php/outros_tempos_uem</p><p>a/article/view/411/346. Acesso em: 28/03/2021.</p><p>SUERTEGARAY, Dirce Maria Antunes. Geografia e interdisciplinaridade. Espaço</p><p>geográfico: interface natureza e sociedade. Geosul, Florianópolis, v. 18, n. 35, p. 43-53,</p><p>2003. Disponível em: https://periodicos.ufsc.br/index.php/geosul/article/view/13601.</p><p>Acesso em: 27/03/2021.</p><p>UNIDADE IV</p><p>CATEGORIAS GEOGRÁFICAS</p><p>Professora Esp. Karitta da Silva Lopes</p><p>Plano de Estudo:</p><p>• Leitura do espaço geográfico através das categorias</p><p>• Conceito de território</p><p>• Espaço geográfico</p><p>• Representação</p><p>do espaço geográfico</p><p>Objetivos de Aprendizagem:</p><p>• Compreender os tipos de leitura a respeito do espaço geográfico através das</p><p>principais categorias e conceitos da Geografia.</p><p>• Conceituar e contextualizar as categorias de território e espaço geográfico</p><p>especificamente.</p><p>• Estabelecer a importância de representações acerca do espaço geográfico para</p><p>a compreensão e apropriação espacial de crianças e jovens.</p><p>INTRODUÇÃO</p><p>Prezada(o) Aluna(o), seja bem vinda(o) a disciplina “Categorias e conceitos</p><p>da Geografia”. É com grande satisfação e estima que te convido a compartilhar</p><p>conhecimentos acerca das bases teóricas do pensamento geográfico.</p><p>O presente material foi desenvolvido para introduzi-la(o) ao horizonte das</p><p>discussões à respeito da Geografia enquanto ciência, portanto, é destinado à</p><p>estudantes e pesquisadores interessadas(os) em compreender o processo</p><p>histórico de constituição da ciência geográfica, cujo o objetivo é pensar</p><p>epistemologicamente o espaço que vivemos, suas condições naturais,</p><p>modificações territoriais e relações com as práticas e intervenções humanas.</p><p>Durante a trajetória escolar, você certamente cursou Geografia e teve</p><p>contato com diversos conceitos específicos dessa disciplina, como território,</p><p>espaço, lugar e região. A apresentação que você tem em mãos (ou à vista por</p><p>meio de arquivos digitais) pretende aprofundar esses conhecimentos, obtidos no</p><p>seu percurso educacional no decorrer do Ensino Básico, à respeito da formação</p><p>do pensamento geográfico e sua consolidação como ciência pertencente às</p><p>Humanidades.</p><p>A Unidade 4 “Categorias Geográficas” é composta por quatro tópicos que</p><p>correspondem à um plano de estudo estruturado para que você possa obter</p><p>conhecimento acerca da leitura do espaço geográfico por meio das principais</p><p>categorias e conceitos da Geografia, do conceito de território e espaço geográfico</p><p>de forma mais específica e aprofundada e, por fim, da representação do espaço</p><p>geográfico.</p><p>Almejamos que esta unidade possa contribuir com sua aprendizagem, com</p><p>a expansão do seu pensamento crítico e com o aprimoramento de suas</p><p>habilidades cognitivas e investigativas em Geografia.</p><p>Bons estudos!</p><p>1 LEITURA DO ESPAÇO GEOGRÁFICO ATRAVÉS DAS CATEGORIAS</p><p>Imagem do Tópico: https://www.shutterstock.com/pt/image-vector/open-book-low-poly-vector-</p><p>illustration-1472608841</p><p>Prezada (o) aluna (o), compreender a complexa realidade do mundo em que</p><p>vivemos, é um esforço de diversas áreas do conhecimento científico. Diante disso,</p><p>podemos então questionar: de que maneira a Geografia contribui para a leitura da</p><p>realidade em que vivemos e nos encontramos inseridos?</p><p>Durante a disciplina em curso, enfatizamos a necessidade de nos atentar ao fato</p><p>de que a Geografia se depara com a importante responsabilidade de investigar o espaço</p><p>geográfico como uma ampla categoria capaz de assimilar a realidade existente,</p><p>transformando-o em objeto de análise principal de seu labor científico. A partir dessa</p><p>premissa, compreendemos que o conhecimento geográfico se atenta “ao estudo do meio</p><p>como resultante da ação do sujeito social responsável pela construção do lugar, da</p><p>paisagem e do território” (GIOMETTI; PITTON; ORTIGOZA, 2012, p. 33).</p><p>Tais categorias supracitadas, precisam ser examinadas em suas correlações,</p><p>imbricações e diferenciações, inerentes às características e dinâmicas do espaço</p><p>geográfico, que além de compor a categoria principal da Geografia é construído,</p><p>desconstruído e reconstruído ao longo da história dessa ciência, como vimos no</p><p>desenvolver das unidades anteriores. Neste sentido, trabalharemos no presente tópico</p><p>a leitura do espaço geográfico através das categorias de lugar e paisagem,</p><p>encaminhando para os próximos tópicos uma ampliação da discussão ao analisarmos,</p><p>especificamente, o conceito de território e espaço geográfico.</p><p>1.1 Categoria de Lugar</p><p>A fim de compreendermos o lugar como uma categoria de análise do espaço</p><p>geográfico, é necessário nos ater ao fato de que esse conceito esteve sempre presente</p><p>nos estudos e pesquisas geográficas, sendo amplamente modificado em diferentes</p><p>épocas e transformado de acordo com diferentes contextos históricos.</p><p>Por muito tempo, a Geografia tratou o lugar com uma expressão do</p><p>espaço geográfico sob uma dimensão pontual (localização espacial</p><p>absoluta). Para ultrapassar esta ideia, a discussão de lugar tem sido</p><p>realizada sob duas acepções: lugar e experiência, e lugar e singularidade</p><p>(GIOMETTI; PITTON; ORTIGOZA, 2012, p. 35).</p><p>Corroborando com as autoras e partindo de ambas acepções propostas pelas</p><p>mesmas, o lugar de experiência torna-se caracterizado, sobretudo, por meio do</p><p>reconhecimento e da valorização das relações afetivas desenvolvidas por sujeitos e</p><p>grupos sociais com o meio ambiente. Desse modo, o lugar resulta de sentidos</p><p>construídos pelas vivências individuais e coletivas e por referenciais afetuosos</p><p>elaborados no decorrer dessas vivências.</p><p>Por outro lado, o lugar de singularidade é qualificado por características históricas</p><p>e culturais inerentes ao seu processo de formação e transformação, como também, por</p><p>expressões advindas da globalidade. Assim, o conceito de lugar parte de uma</p><p>perspectiva histórica relacionada com experiências do cotidiano, diariamente,</p><p>manifestadas na superfície vivida.</p><p>Em razão disto, podemos compreender o lugar como uma categoria que se</p><p>diferencia conceitualmente do espaço, de modo que lugar representa algo particular,</p><p>reservado e socializado, já o espaço, por sua vez, representa algo amplo e exterior, onde</p><p>o lugar se encontra inserido. “Lugar significa muito mais que o sentido geográfico de</p><p>localização. Não se refere a objetos e atributos das localizações, mas a tipos de</p><p>experiências e envolvimento com o mundo, a necessidade de raízes e segurança”</p><p>(RELPH, 1979, p. 156).</p><p>Ao conceber e englobar espaços em que estabelecemos vínculos sociais afetivos,</p><p>o lugar encontra referências particulares e valores que conduzem diversas maneiras de</p><p>captar e edificar o espaço geográfico. Segundo a autora Ana Fani Alessandri Carlos</p><p>(1996), pensar o lugar:</p><p>Significa pensar a história particular (de cada lugar), se desenvolvendo,</p><p>ou melhor, se realizando em função de uma</p><p>cultura/tradição/língua/hábitos que lhe são próprios, construídos ao longo</p><p>da história e o que vem de fora, isto é, que se vai construindo e se</p><p>impondo como consequência do processo de constituição mundial.</p><p>(CARLOS, 1996, p. 20).</p><p>Diante das definições conceituais apresentadas, o conceito de lugar, na</p><p>perspectiva da ciência geográfica, nos conduzem a consciência de viver o espaço, “onde</p><p>estão inseridas suas necessidades existenciais, suas interações com os objetos e as</p><p>pessoas, suas histórias de vida” (GIOMETTI; PITTON; ORTIGOZA, 2012, p. 36). Logo,</p><p>o lugar pode ser compreendido pela ótica das percepções emotivas e por meio do</p><p>compartilhamento cotidiano das dinâmicas e experiências afetivas entre populações e</p><p>organizações institucionais.</p><p>1.2 Categoria de Paisagem</p><p>Semelhante ao conceito de lugar, apresentado anteriormente, o conceito de</p><p>paisagem compõe uma categoria com definição específica para os estudos em</p><p>Geografia, que ao longo dos anos teve inúmeras modificações e novos sentidos a partir</p><p>das sistematizações do conhecimento geográfico.</p><p>O caminho de assimilação do conceito paisagem está na maneira de interpretá-</p><p>lo, visto que, anteriormente, pautava-se somente no relato experienciado através da</p><p>observação dos elementos que compõe o espaço e, atualmente, é acrescentado de</p><p>“relações e conjunções de elementos naturais e tecnificados, socioeconômicos e</p><p>culturais”. (GIOMETTI; PITTON; ORTIGOZA, 2012, p. 36).</p><p>Ao ser assimilada como resultado histórico e social, a paisagem acaba por</p><p>delinear as sociedades que a desenvolveu e ainda desenvolve, ajustando-se ao</p><p>passado, presente e direcionando ao futuro,</p><p>em uma coexistência de diferentes períodos</p><p>históricos.</p><p>Como apontam as autoras Giometti, Pitton e Ortigoza (2012), utilizando das</p><p>contribuições do geógrafo francês Paul Vidal de La Blache, a paisagem é aquilo que “[...]</p><p>o olho abarca com o olhar” (p. 36). Portanto, a paisagem é marcada pelo visível e pelo</p><p>material, no entanto, ela não se configura de forma estática, pois está em constante</p><p>processo de transformação e mutação, muitas vezes, caracterizado por grandes conflitos</p><p>socioambientais.</p><p>A partir dos seus múltiplos componentes e elementos, as paisagens podem ser</p><p>classificadas como naturais, referindo àquelas que tiveram pouca ou nenhuma</p><p>interferência da ação humana, e culturais ou antrópicas, referindo àquelas resultantes</p><p>das transformações proporcionadas pela atividade humana.</p><p>A paisagem é um conjunto heterogêneo de formas naturais e artificiais; é</p><p>formada por frações de ambas, seja quanto ao tamanho, volume, cor,</p><p>utilidade, ou por qualquer outro critério. A paisagem é sempre</p><p>heterogênea. A vida em sociedade supõe uma multiplicidade de funções</p><p>e quanto maior o número destas, maior a diversidade de formas e de</p><p>atores. Quanto mais complexa a vida social, tanto mais nos distanciamos</p><p>de um mundo natural e nos endereçamos a um mundo artificial.</p><p>(SANTOS, 2014, p. 71).</p><p>Neste sentido, a paisagem passa a depender da cultura dos indivíduos que a</p><p>percebem e a constituem, tornando-se assim, um produto cultural resultado da relação</p><p>entre meio ambiente e da atividade humana. Devido ao papel imprescindível que o</p><p>aspecto cultural vem desempenhando na influência do comportamento das pessoas, as</p><p>paisagens passaram a apresentar marcas culturais na sua configuração e a receber</p><p>identidade particulares.</p><p>Em razão disto, podemos afirmar que a problemática ambiental moderna está</p><p>diretamente conectada às questões e interações culturais, pois devem considerar as</p><p>diferentes ações dos grupos humanos na paisagem. Logo, a mutação da paisagem pelo</p><p>homem representa um dos elementos centrais de sua formação.</p><p>Por fim, é importante ressaltarmos que as categorias de paisagem e território,</p><p>possuem uma relação de proximidade, visto que a paisagem pode ser compreendida e</p><p>definida como “uma unidade visível do território. Dito de outro modo, no território tem-se</p><p>um conjunto de paisagens contidas nos limites político-administrativos, como por</p><p>exemplo: cidade, estado e país” (GIOMETTI; PITTON; ORTIGOZA, 2012, p. 37).</p><p>No tópico a seguir, estudaremos de forma mais específica o conceito de território,</p><p>outra importante categoria analítica para a disciplina de Geografia e para os processos</p><p>de seu labor científico e epistemológico.</p><p>2 CONCEITO DE TERRITÓRIO</p><p>Imagem do Tópico: https://www.shutterstock.com/pt/image-photo/triple-frontier-triborder-area-</p><p>between-paraguay-1738754657</p><p>Prezada (o) aluna (o), vimos no tópico anterior que as conceitos de paisagem e</p><p>território possuem uma proximidade relacional e analítica, visto que a paisagem pode ser</p><p>entendida como uma categoria geográfica visível e material que se encontra no interior</p><p>do território. Neste tópico, buscamos evidenciar e especificar as características que</p><p>formam a categoria de território, qualificando-a como imprescindível para as pesquisas</p><p>em Geografia.</p><p>A produção acerca do conceito de território tem como pilar as conexões entre</p><p>fatores econômicos, políticos e sociais que influenciam o gerenciamento do espaço.</p><p>Posto isso, podemos compreender que a demarcação de um território está atrelada a</p><p>junção de poder e o exercício de controle em um determinado espaço. O território,</p><p>apresenta-se assim, como uma parte consistente do espaço geográfico, no qual são</p><p>ressaltadas as divergências de conjunturas ambientais e de existências das populações.</p><p>O território é fonte de recursos e só assim pode ser compreendido quando</p><p>enfocado em sua relação com a sociedade e suas relações de produção,</p><p>o que pode ser identificado pela indústria, pela agricultura, pela</p><p>mineração, pela circulação de mercadorias etc., ou seja, pelas diferentes</p><p>maneiras que a sociedade se utiliza para se apropriar e transformar a</p><p>natureza (SPOSITO, 2004, p. 112-113).</p><p>A complexidade de compreender a definição de território está atrelada a utilização</p><p>diversificada da mesma, pois acaba por expressar as diferenças culturais que alcançam</p><p>na produção do território e na autenticação de suas singularidades. A análise do</p><p>processo de produção dos diferentes territórios deve atribuir ênfase ao homem como</p><p>sujeito produtor do espaço, contemplando e sofrendo influência com aspectos sociais,</p><p>culturais, econômicos, políticos e os seus respectivos princípios.</p><p>No decorrer da história do pensamento geográfico, o território ganha</p><p>diferentes tipos de abordagens, desde a representação de uma parcela</p><p>do espaço, identificada pela posse e definida pela apropriação, até o</p><p>importante papel dado à dominação. Ou seja, o território é dominado por</p><p>uma comunidade ou por um Estado. A conotação política também ganha</p><p>força nos estudos de Geopolítica (território = espaço nacional),</p><p>significando área controlada por um Estado Nacional. O conceito de</p><p>território se alarga permitindo explicar muitos fenômenos geográficos</p><p>relacionados à organização da sociedade e suas interações com as</p><p>paisagens. (GIOMETTI; PITTON; ORTIGOZA, 2012, p. 38).</p><p>Uma importante contribuição para a elaboração do conceito pelo prisma</p><p>geográfico, é apontada pelo geógrafo e filósofo Eliseu Sposito, para o autor a categoria</p><p>de território,</p><p>Refere-se ao estabelecimento de redes de informação que, com o rápido</p><p>desenvolvimento tecnológico, permitem a disseminação de informações</p><p>em frações de tempo, tornando-se significativas por romperem com a</p><p>barreira da distância-elemento fundamental para a apreensão do território</p><p>em sua escala individual. Dessa maneira, os territórios perdem fronteiras,</p><p>mudam de tamanho dependendo do domínio tecnológico de um grupo ou</p><p>de uma nação, e mudam, consequentemente, sua configuração</p><p>geográfica. (SPOSITO, 2004, p. 114).</p><p>Para analisar o território, não podemos deixar de nos ater, portanto, a sua</p><p>dinâmica social, visto que se configura como um dos alicerces geopolíticos que sustenta</p><p>a continuidade das relações humanas. Outra premissa que integra os estudos do</p><p>território é o fato de examiná-lo enquanto uma manifestação da ação política, porém,</p><p>sem hierarquizar a sua dimensão política em detrimento da sua dinâmica social.</p><p>De acordo com os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) de Geografia,</p><p>documento oficial elaborado para orientar os profissionais da Educação por meio da</p><p>normatização de alguns conceitos e aspectos referentes à disciplina de Geografia no</p><p>Ensino Básico, a conceituação de território está ligada à formação econômica e social</p><p>de uma nação. “Nesse sentido, é o trabalho social que qualifica o espaço, gerando o</p><p>território. Território não é apenas a configuração política de um Estado-Nação, mas sim</p><p>o espaço construído pela formação social (BRASIL, 2000, p. 111).</p><p>Logo, o significado do conceito de território se encontra ligado à demarcação de</p><p>espaços delimitados, definidos, geralmente, a partir de fronteiras, visíveis ou não,</p><p>formadas e motivadas por interesses sociais, políticos, econômicos, culturais, religiosos</p><p>e geográficos, os quais podem ser transformados de acordo com dinâmicas sociais que</p><p>produzem novos interesses e relações de poder. Tais demarcações ocorrem tanto</p><p>naturalmente, promovidas pelo meio ambiente, quanto socialmente, desenvolvidas pela</p><p>ação humana devido às razões citadas acima.</p><p>Seja qual for o país e o estágio do seu desenvolvimento, há sempre nele</p><p>uma configuração territorial formada pela constelação de recursos</p><p>naturais, lagos, rios, planícies, montanhas e florestas e também de</p><p>recursos criados: estradas de ferro e de rodagem, condutos de toda</p><p>ordem, barragens, açudes, cidades, o que for. É esse conjunto</p><p>de todas</p><p>as coisas arranjadas em sistema que forma a configuração territorial cuja</p><p>realidade e extensão se confundem com o próprio território de um país.</p><p>Tipos de floresta, de solo, de clima, de escoamento, são</p><p>interdependentes, como também o são as coisas que o homem superpõe</p><p>a natureza. Aliás, a interdependência se complica e completa justamente</p><p>porque ela se dá entre as coisas que chamamos de naturais e as que</p><p>chamamos de artificiais (SANTOS, 2014, p. 84).</p><p>Para concluir, corroboramos que a divisão de territórios, em especial, a partir da</p><p>consolidação do Estado como instituição que normatiza formas de controle social, torna-</p><p>se importante para a ocupação e distribuição humana, pois regula áreas administrativas</p><p>de organização política, instituindo marcadores em determinada área por um</p><p>determinado código cultural.</p><p>Diante disso, podemos concluir que o território nos possibilita compreender as</p><p>relações sociais engendradas no transcorrer dos tempos históricos, amparando uma</p><p>dinâmica do espaço que está em constante reformulação. Alguns exemplos de território:</p><p>o Estado, as fronteiras que limitam países, regiões, estados, cidades, bairros e favelas,</p><p>o narcotráfico, as zonas de guerra, etc.</p><p>3 ESPAÇO GEOGRÁFICO</p><p>Imagem do Tópico: https://www.shutterstock.com/pt/image-photo/green-city-future-harmony-</p><p>nature-sunny-527724742</p><p>Estimada (o) aluna (o), vimos do decorrer dos tópicos anteriores categorias</p><p>geográficas de grande relevância para os nossos estudos e para o processo de produção</p><p>científica da Geografia, isto é, os conceitos e definições de lugar, paisagem e território.</p><p>No presente tópico, iremos tratar, especificamente, da categoria central dessa ciência,</p><p>ou seja, o espaço geográfico, objeto de pesquisa que protagoniza as investigações em</p><p>Geografia.</p><p>De acordo com o geógrafo brasileiro Milton Santos (1996), o espaço é constituído</p><p>por “um conjunto indissociável, solidário e também contraditório, de sistemas de objetos</p><p>e sistemas de ações, não considerados isoladamente, mas como o quadro único no qual</p><p>a história se dá” (p. 63). Para o autor, a natureza é o início, ela provê a matéria-prima as</p><p>quais são transformadas em objetos pela ação humana através da técnica, isto é, “a</p><p>principal forma de relação entre o homem e a natureza”, definida como “um conjunto de</p><p>meios instrumentais e sociais, com os quais o homem realiza sua vida, produz e, ao</p><p>mesmo tempo, cria espaço” (SANTOS, 1996, p. 29).</p><p>À vista disto, para a ciência geográfica, o espaço pode ser entendido como a parte</p><p>da superfície da Terra onde ocorrem as interações entre o ser humano e o ambiente</p><p>natural, podendo ser interpretado e dinamizado a partir de ações e práticas humanas,</p><p>que por sua vez, são impulsionadas pela natureza, se dando em uma relação circular de</p><p>influências mútuas.</p><p>Milton Santos (1996) pontua que apesar de recíproca, as relação entre sociedade</p><p>e natureza são marcadas, muitas vezes, por extremas assimetrias, desigualdades e</p><p>violências, pois</p><p>No princípio, tudo eram coisas, enquanto hoje tudo tende a ser objeto, já</p><p>que as próprias coisas, dádivas da natureza, quando utilizadas pelos</p><p>homens a partir de um conjunto de intenções sociais, passam, também,</p><p>a ser objetos (SANTOS, 1996, p. 65).</p><p>Desta forma, o espaço geográfico torna-se resultado da ação humana sobre o</p><p>próprio espaço, intermediados por tais objetos, que podem ser caracterizados tanto</p><p>naturalmente quanto artificialmente. Os objetos naturais e artificiais, apresentados por</p><p>Milton Santos, são estabelecidos pela configuração espacial, expressa pelo arranjo do</p><p>território em acordo com elementos utilizados socialmente. Como aponta o autor, tais</p><p>elementos podem ser exemplificados por meio de</p><p>Plantações, canais, caminhos, portos e aeroportos, redes de</p><p>comunicação, prédios residenciais, comerciais e industriais etc. A cada</p><p>momento histórico, varia o arranjo desses objetos sobre o território. O</p><p>conjunto de objetos criados forma o meio técnico, sobre o qual se baseia</p><p>a produção, que evolui em função desta (SANTOS, 2014, p. 120).</p><p>Neste sentido, o estudo do conceito de espaço geográfico nos possibilita a</p><p>compreensão da nossa organização social no presente, que se deu a partir de</p><p>transformações históricas, ocorridas durantes os séculos, e que permitiram a existência</p><p>e continuidade da humanidade hoje e, quiçá, no futuro. Conforme o ser humano interfere</p><p>na natureza de determinado lugar, ele gera e promove o espaço geográfico.</p><p>A partir do entendimento que o espaço geográfico é produzido através da ação</p><p>humana, balizado pela organização social e econômica da sociedade no decorrer do</p><p>tempo histórico, podemos afirmar que</p><p>O espaço geográfico como objeto de estudo vai além da dinâmica do</p><p>espaço físico e, hoje, o grande desafio que se coloca é compreender a</p><p>inter-relação entre sociedade e natureza. Esta categoria deve ser</p><p>analisada, transformada, criada e produzida pela sociedade à medida que</p><p>o Homem se apropria da natureza, que guarda a especificidade de ser</p><p>permanentemente (re)elaborada pelo fazer humano (GIOMETTI;</p><p>PITTON; ORTIGOZA, 2012, p. 34).</p><p>Com isso, o espaço geográfico pode ser compreendido como um conjunto prático</p><p>de atividades que correlacionam fatores socioeconômicos, políticos, culturais, históricos</p><p>e naturais.</p><p>No conceito de espaço geográfico está implícita a ideia de articulação</p><p>entre natureza e sociedade. Na busca desta articulação, a Geografia tem</p><p>que trabalhar, de um lado, com os elementos e atributos naturais,</p><p>procurando não só descrevê-los, mas entender as interações existentes</p><p>entre eles; e de outro, verificar a maneira pela qual a sociedade está</p><p>administrando e interferindo nos sistemas naturais. Para perceber a ação</p><p>da sociedade é necessário adentrar em sua estrutura social, procurando</p><p>apreender o seu modo de produção e as relações socioeconômicas</p><p>vigentes (GIOMETTI; PITTON; ORTIGOZA, 2012, p. 34).</p><p>Logo, estudar a ciência geográfica e suas categorias, nos possibilitam criar uma</p><p>consciência específica para compreender as ações e intervenções humanas como</p><p>transformadores ativos do meio ambiente, capazes de modificar constantemente o</p><p>espaço geográfico.</p><p>Diante do explanado até o momento, a compreensão da realidade por meio da</p><p>abordagem geográfica, estruturada de acordo com as variadas categorias analíticas,</p><p>deve ser indicada como um contínuo processo de elaboração de como essa realidade é</p><p>vivenciada e percebida, tornando esse conhecimento complexo e inesgotável fonte de</p><p>conhecimento para a compreensão da realidade que estamos inseridos.</p><p>4 REPRESENTAÇÃO DO ESPAÇO GEOGRÁFICO</p><p>Imagem do Tópico: https://www.shutterstock.com/pt/image-vector/pupils-study-classroom-</p><p>school-interior-education-1038587968</p><p>De acordo com o que estudamos e discutimos durante toda a unidade, podemos</p><p>perceber a complexidade conceitual e analítica que envolve definir e caracterizar o</p><p>espaço geográfico, um dos principais objetos de estudo e pesquisa da Geografia. Tal</p><p>complexidade é, ainda, multiplicada ao pensarmos na apropriação do conceito de espaço</p><p>geográfico por alunos e alunas do Ensino Básico através das aulas de Geografia na</p><p>escola.</p><p>Logo, abordarmos formas de representação do espaço geográfico torna-se de</p><p>grande relevância à estudantes de licenciatura em Geografia, ou seja, à professores de</p><p>Geografia em formação, pois ao tratarmos desse conceito em sala de aula,</p><p>possibilitamos o desenvolvimento do raciocínio geográfico e da aprendizagem de nossos</p><p>alunos e alunas acerca da realidade em que se encontram inseridos/as.</p><p>É na escola que deve ocorrer a aprendizagem espacial voltada para a</p><p>compreensão das formas pelas quais a sociedade organiza seu espaço</p><p>– o que só será plenamente possível com o uso de representações</p><p>formais (ou convencionais) desse espaço (ALMEIDA; PASSINY, 2009, p.</p><p>11).</p><p>Segundo as autoras Rosângela P. de Almeida e Elza Y. Passiny, ao</p><p>introduzir o</p><p>conceito de espaço geográfico em suas aulas, os professores podem iniciar com análises</p><p>acerca do espaço mais próximo ao estudante, todavia, nunca de forma isolada, sempre</p><p>acompanhada de instâncias geograficamente e historicamente distantes aos mesmos,</p><p>para que o/a jovem extraia elementos espaciais e temporais das explicações e, a partir</p><p>disso, reflita a respeito dos processos de construção das categorias geográficas e suas</p><p>respectivas especificidades científicas. Logo, analogias e comparações referentes à</p><p>proximidade e distância espacial configura-se com uma forma de representação do</p><p>espaço geográfico.</p><p>Uma das representações da categoria em destaque mais utilizadas por escolas</p><p>e instituições de ensino, no geral, como também, pela mídia e afins, é a representação</p><p>do espaço geográfico por meio de mapas. O mapa cumpre a função de sistematizar</p><p>símbolos e sentidos que proporcionam a utilização de recursos externos à memória, com</p><p>um significativo poder de sintetização e representação ao materializar noções espaciais.</p><p>Ressaltamos, no entanto, que a localização, ou mesmo o mapeamento</p><p>dos aspectos observados, não encerra uma análise geográfica, ao</p><p>contrário, marca seu início. Essa análise ocorre quando o aluno se</p><p>reporta ao processo de produção do espaço e o confronta com a</p><p>configuração espacial do mapa. Ora, a compreensão do mapa por si</p><p>mesma já traz uma mudança qualitativamente superior na capacidade do</p><p>aluno pensar o espaço (ALMEIDA; PASSINY, 2009, p. 13).</p><p>Entretanto, as autoras destacam que esse desenvolvimento cognitivo do</p><p>pensamento geográfico ocorre a partir de participações ativas no processo de ensino e</p><p>aprendizagem. Dessa forma, a construção do conhecimento em Geografia deve</p><p>funcionar como uma rua de mão dupla, pois se o/a estudante precisa participar</p><p>ativamente da construção desse conhecimento, o/a professor/a, por sua vez, necessita</p><p>socializar esse conhecimento com os alunos e alunas através de métodos e respostas</p><p>que não são dadas ou prontas, e sim, construídas de forma conjunta.</p><p>De acordo com a psicogênese, área de pesquisa citada pelas autoras, a noção</p><p>espacial passar por etapas próprias do desenvolvimento geral da criança/jovem na</p><p>construção do seu conhecimento, sendo elas: o espaço vivido, o espaço percebido e</p><p>espaço concebido.</p><p>O espaço vivido retrataria o espaço físico experienciado por meio do movimento</p><p>e do deslocamento, muitas vezes, materializado pela ação e noção corporal da pessoa.</p><p>“Daí a importância de exercícios rítmicos e psicomotores para que ela explore com o</p><p>próprio corpo as dimensões e relações espaciais” (ALMEIDA; PASSINY, 2009, p. 26).</p><p>Já o espaço percebido não teria a necessidade de ser experienciado ou testado</p><p>fisicamente/empiricamente, pois a criança/jovem passaria a identificar espaços,</p><p>distâncias e percursos e a desenvolver esquemas mentais por meio de observações</p><p>contínuas e sistemáticas.</p><p>Por fim, o espaço concebido é caracterizado pela criação de condições cognitivas</p><p>para que sejam estabelecidas relações espaciais entre elementos somente por meio de</p><p>sua representação, ou seja, pelo desenvolvimento de habilidades como compreender e</p><p>pensar sobre a área ou região tratada em um mapa sem, antes, ter estado ou visto ela.</p><p>A partir dessas noções de espaço, podemos entender que</p><p>[...] o professor deve levar o aluno a estender os conceitos adquiridos</p><p>sobre o espaço, localizando-se e localizando elementos em espaços</p><p>cada vez mais distantes e, portanto, desconhecidos. A apreensão desses</p><p>espaços é possível, como foi visto, através de sua representação gráfica,</p><p>a qual envolve uma linguagem própria – a da cartografia –, que a criança</p><p>deve começar a conhecer. Cabe, pois, ao professor introduzir essa</p><p>linguagem e através do trabalho pedagógico, levar o aluno à penetração</p><p>cada vez mais profunda na estruturação e extensão do espaço a nível de</p><p>sua concepção e representação (ALMEIDA; PASSINY, 2009, p. 27).</p><p>A fim de desenvolvermos formas de representação do espaço geográfico,</p><p>necessitamos refletir sobre o fato de cada categoria da Geografia possuir múltiplas</p><p>acepções e, consequentemente, receber diferentes elementos que fazem com que tais</p><p>definições não sejam fixas, imutáveis ou cristalizadas, pelo contrário, são definições</p><p>flexíveis e que permite transformações e mudanças, inerentes às ciências que se</p><p>preocupam com o agir e pensar humano.</p><p>Logo, tal premissa revela que os conceitos da Geografia, como o espaço</p><p>geográfico do qual temos atribuído protagonismo neste tópico, têm diferentes</p><p>significados ao longo da história e das transformações teóricas e epistemológicas da</p><p>ciência geográfica. Em razão disso, as representações acerca do espaço geográfico, em</p><p>especial, por meio do ensino de Geografia nas escolas, também recebem diferentes</p><p>sentidos e significados historicamente estipulados e definidos.</p><p>Segundo Almeida e Passiny (2009), uma educação que promova o domínio</p><p>cognitivo e a representação do espaço de forma plena e comprometida com a ciência</p><p>geográfica, torna-se tão importante e necessária quanto a aprendizagem das habilidades</p><p>de escrita e do raciocínio matemático.</p><p>O desenvolvimento da noção de espaço e sua representação não surge</p><p>em função das tarefas dadas em sala de aula [...] o professor pode de</p><p>maneira indireta estimular o estabelecimento de todos os tipos de</p><p>relações espaciais entre os objetos em diversos momentos (ALMEIDA;</p><p>PASSINY, 2009, p. 90).</p><p>Por fim, corroboramos que é por meio de ações cotidianas e autorreflexões à</p><p>respeito do próprio espaço que se encontra inserido/a, que indivíduos poderão construir</p><p>e desenvolver uma abstração cognitiva acerca da concepção do espaço e sua</p><p>organização e, dessa forma, pensar geograficamente o espaço, como também, outras</p><p>categorias e conceitos da Geografia. Com isso, a compreensão de categorias</p><p>geográficas através de representações, pode possibilitar o aprimoramento dos</p><p>pensamentos geográficos e, consequentemente, das investigações e pesquisas em</p><p>Geografia.</p><p>SAIBA MAIS</p><p>Você sabia que durante o período da ditadura militar, que se estabeleceu no Brasil de</p><p>1964 a 1985, as disciplinas de Geografia e História foram excluídas da matriz curricular</p><p>e transformadas em uma única disciplina?</p><p>Visando eliminar o pensamento crítico da matriz curricular nacional, e formar indivíduos</p><p>controlados pela nova ordem social, as disciplinas de História e Geografia foram</p><p>transformadas em Educação Moral e Cívica. Essa ação foi um reflexo da censura</p><p>imposta aos professores da época e uma das estratégias do regime para manter o</p><p>domínio em todas as esferas da vida social, econômica, política, cultural e educacional,</p><p>contribuindo para a manutenção do regime por mais de 20 anos.</p><p>REFLITA</p><p>A partir da citação de Milton Santos, reflita acerca das práticas docentes que você segue</p><p>ou quer seguir? Elas são constantemente renovadas de acordo com o tempo histórico</p><p>ou são apenas para cumprir uma agenda formatada?</p><p>A educação corrente e formal, simplificadora das realidades do mundo,</p><p>subordinada à lógica dos negócios, subserviente às noções de sucesso,</p><p>ensina um humanismo sem coragem, mais destinado a ser um corpo de</p><p>doutrina independente do mundo real que nos cerca, condenado a ser</p><p>um humanismo silente, ultrapassado, incapaz de atingir uma visão</p><p>sintética das coisas que existem, quando o humanismo verdadeiro tem</p><p>de ser constantemente renovado, para não ser conformista e poder dar</p><p>resposta às aspirações efetivas da sociedade, necessárias ao trabalho</p><p>permanente de recomposição do homem livre, para que ele se ponha à</p><p>altura do seu tempo histórico (SANTOS, 2002, p. 42).</p><p>Fonte: SANTOS, Milton. Espaço do Cidadão. São Paulo: Edusp, 2002.</p><p>#REFLITA#</p><p>CONSIDERAÇÕES FINAIS</p><p>Cara(o) Aluna(o), durante o desenvolvimento da presente unidade, tivemos como</p><p>objetivo aprofundar nossos conhecimentos à respeito da leitura</p><p>do espaço geográfico</p><p>através das categorias e conceitos da Geografia, como também, das representações do</p><p>mesmo ao atribuir ênfase para o ensino escolar da disciplina de Geografia à crianças e</p><p>jovens.</p><p>No tópico 1, buscamos compreender tipos de leitura do espaço geográfico ao nos</p><p>concentrarmos nas categorias de lugar e paisagem. As categorias geográficas</p><p>destacadas, precisam ser examinadas em suas correlações, imbricações e</p><p>diferenciações, inerentes às características e dinâmicas do espaço geográfico, que além</p><p>de compor a categoria principal da Geografia é construído, desconstruído e reconstruído</p><p>ao longo da história dessa ciência, como vimos no desenvolver das unidades anteriores.</p><p>Nos tópicos seguintes, o 2 e o 3, encaminhamos os estudos para uma ampliação</p><p>da discussão ao analisarmos de forma específica o conceito de território e espaço</p><p>geográfico, respectivamente.</p><p>Referente à categoria de território, buscamos evidenciar e especificar as</p><p>características que a formam e a qualificam como imprescindível para as pesquisas em</p><p>Geografia. Vimos que a produção acerca do conceito de território tem como pilar as</p><p>conexões entre fatores econômicos, políticos e sociais que influenciam o gerenciamento</p><p>do espaço. Posto isso, buscamos compreender que a demarcação de um território está</p><p>atrelada a junção de poder e o exercício de controle em um determinado espaço,</p><p>apresentando-se assim, como uma parte consistente do espaço geográfico, no qual são</p><p>ressaltadas as divergências de conjunturas ambientais e de existências das populações.</p><p>Já em relação à categoria de espaço geográfico, objeto de pesquisa que</p><p>protagoniza as investigações em Geografia, tivemos o objetivo de conceituá-la e</p><p>contextualizá-la. A partir das discussões, aprendemos que para a ciência geográfica o</p><p>espaço pode ser entendido como a parte da superfície da Terra onde ocorrem as</p><p>interações entre o ser humano e o ambiente natural, podendo ser interpretado e</p><p>dinamizado a partir de ações e práticas humanas, que por sua vez, são impulsionadas</p><p>pela natureza, se dando em uma relação circular de influências mútuas.</p><p>Por fim, no tópico 4, estabelecemos a importância de representações acerca do</p><p>espaço geográfico para a compreensão e apropriação espacial de crianças e jovens.</p><p>Logo, vimos que formas de representação do espaço geográfico torna-se de grande</p><p>relevância à estudantes de licenciatura em Geografia, ou seja, à professores de</p><p>Geografia em formação, pois ao tratarmos desse conceito em sala de aula,</p><p>possibilitamos o desenvolvimento do raciocínio geográfico e da aprendizagem de nossos</p><p>alunos e alunas acerca da realidade em que se encontram inseridos/as.</p><p>É a partir das discussões que compuseram a presente a unidade que concluímos</p><p>nosso passeio por alguns aspectos e debates acerca de categorias e conceitos</p><p>imprescindíveis para a ciência e o pensamento geográfico. Bons estudos!</p><p>LEITURA COMPLEMENTAR</p><p>Resumo do artigo indicado: O objetivo deste artigo é analisar o contexto sócio-histórico</p><p>de desenvolvimento da chamada Geografia Crítica brasileira. Tal movimento insere-se</p><p>no momento da ditadura civil-militar, um período de autoritarismo e repressão política,</p><p>social e intelectual. O questionamento que move essa reflexão, portanto, se deu no</p><p>sentido de compreender como um pensamento crítico – a Geografia Crítica - se fortalece</p><p>e prolifera em um momento de repressão. Para tanto, trataremos do processo de</p><p>modernização autoritária que o regime militar implementou, com especial interesse na</p><p>modernização do ensino superior e consequências para a Universidade de São Paulo</p><p>(USP), mais especificamente para a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas</p><p>(FFLCH). A intenção é compreender as possíveis relações entre tal contexto e a</p><p>elaboração de novos temas e problemáticas na ciência geográfica, a partir dos sujeitos</p><p>diretamente envolvidos nessa elaboração: os estudantes de graduação e pós-graduação</p><p>em Geografia à época.</p><p>VERDI, E. F. Pensar radicalmente sob a repressão: a geografia crítica brasileira no</p><p>contexto da ditadura civil-militar. GEOUSP Espaço e Tempo (Online), [S. l.], v. 22, n. 3,</p><p>p. 539-558, 2018. DOI: 10.11606/issn.2179-0892.geousp.2018.152423. Disponível em:</p><p>https://www.revistas.usp.br/geousp/article/view/152423. Acesso em: 18 abr. 2021.</p><p>LIVRO</p><p>• Título: Pelo Espaço – Uma nova política da espacialidade</p><p>• Autor: Doreen Massey</p><p>• Editora: Bertrand Brasil</p><p>• Sinopse: Apresentando apaixonado debate para a revitalização do modo como</p><p>imaginamos o espaço, Doreen Massey, ganhadora do mais importante prêmio mundial</p><p>da geografia, utiliza em Pelo espaço alguns pressupostos tradicionais da filosofia e</p><p>algumas formas conhecidas de caracterizar o mundo do século XXI, e, a partir daí,</p><p>mostra como limitam nossa compreensão, tanto do desafio quanto da potencialidade do</p><p>espaço. O modo como pensamos o espaço é importante. Muda nossa compreensão do</p><p>mundo, nossas atitudes para com os outros, nossas políticas. Afeta, por exemplo, a</p><p>forma como entendemos a globalização, o modo como abordamos as cidades, a maneira</p><p>como desenvolvemos e praticamos um sentido de lugar. Se o tempo é a dimensão da</p><p>mudança, então o espaço é a dimensão do social: a coexistência contemporânea de</p><p>outros. Esse é seu desafio, que tem sido, constantemente, evitado. Pelo espaço segue</p><p>essa discussão através do engajamento filosófico e teórico, e também da manifestação</p><p>de reflexões pessoais e políticas. Doreen Massey levanta questões como: qual a melhor</p><p>forma de caracterizar esses tempos ditos espaciais, de que maneira esses pressupostos</p><p>espaciais implícitos moldam nossas políticas e como poderíamos desenvolver a</p><p>responsabilidade pelo lugar para além do lugar.“O argumento fundamental deste livro é</p><p>que importa o modo como pensamos o espaço”, afirma a autora. “O espaço é uma</p><p>dimensão implícita que molda nossas cosmologias estruturantes. Ele modula nossos</p><p>entendimentos do mundo, nossas atitudes frente aos outros, nossa política. Afeta o modo</p><p>como entendemos a globalização, como abordamos as cidades e desenvolvemos e</p><p>praticamos um sentido de lugar. Se o tempo é a dimensão da mudança, então o espaço</p><p>é a dimensão do social: da coexistência contemporânea de outros. E isso é ao mesmo</p><p>tempo um prazer e um desafio.” Pelo espaço, de Doreen Massey, é leitura essencial para</p><p>todos que se interessam pelo espaço e pela virada espacial nas ciências sociais e</p><p>humanas. Sério, mas às vezes irreverente, é um manifesto que se faz necessário, que</p><p>nos obriga a reimaginar espaços para esta época e enfrentar seus desafios.</p><p>FILME/VÍDEO</p><p>• Título: Documentário: Encontro com Milton Santos - O mundo global visto do lado de</p><p>cá</p><p>• Ano: 2006</p><p>• Sinopse: O documentário “Encontro com Milton Santos ou O Mundo Global Visto do</p><p>Lado de Cá” procura analisar as contradições e os paradoxos deste modelo econômico</p><p>e cultural chamado globalização. A linha geral do documentário é a entrevista com</p><p>geógrafo baiano Milton Santos que se debruça sobre questões como: globalização,</p><p>sociedade de consumo, território, as desigualdades da globalização e crises que esta</p><p>promove, as barreiras físicas e simbólicas impostas pelo capitalismo como efeito da</p><p>globalização e o papel da grande mídia como intermediária desta relação.</p><p>Ao longo do documentário são apresentados diversos episódios em que a os efeitos da</p><p>globalização são evidenciados com maior clareza como, por exemplo, a tentativa de</p><p>privatização da água potável em Cochabamba, Bolívia, em 2000, que gerou uma forte</p><p>onda de protestos. Trata-se de um ótimo documentário para se refletir não só sobre</p><p>questões relativas à globalização, mas, também, para refletir sobre conceitos como</p><p>capitalismo, território, sociedade de consumo, etc.</p><p>• Link do vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=ifZ7PNTazgY.</p><p>REFERÊNCIAS</p><p>ALMEIDA, Rosângela P. de; PASSINY, Elza Y. Espaço Geográfico: ensino e</p><p>representação. São Paulo: Contexto, 2009. Disponível em: plataforma.bvirtual.com.br.</p><p>Acesso em: 12/04/2021.</p><p>BRASIL, Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais:</p><p>primeiro e segundo ciclos do ensino fundamental: Caracterização da Área de</p><p>Geografia. Brasília: MEC/SEF, 2000.</p><p>CARLOS, Ana Fani Alessandri. O lugar no/do Mundo. São Paulo: HUCITEC, 1996.</p><p>GIOMETTI, Analúcia Bueno dos Reis; PITTON, Sandra Elisa Contri; ORTIGOZA, Silvia</p><p>Aparecida Guarnieri. Leitura do espaço geográfico através das categorias: lugar,</p><p>paisagem e território. Conteúdos e didática de Geografia, vol. 9, Unesp, Bauru-SP,</p><p>2012. Disponível em:</p><p>https://acervodigital.unesp.br/handle/123456789/47175?locale=pt_BR. Acesso em:</p><p>12/04/2021.</p><p>RELPH, Zech C. As bases fenomenológicas da geografia. Geografia, n. 4, v. 7, p. 1-</p><p>25, 1979.</p><p>SANTOS, Milton. A natureza do espaço – Técnica e tempo. Razão e emoção. São</p><p>Paulo: Hucitec, 1996.</p><p>SANTOS, Milton. Metamorfoses do Espaço Habitado: Fundamentos teóricos e</p><p>Metodológicos da geografia. 6. ed. São Paulo: Ed. Edusp, 2014.</p><p>SPOSITO, Eliseu S. Geografia e Filosofia: contribuição para o ensino do pensamento</p><p>geográfico. São Paulo: Editora UNESP, 2004.</p><p>CONCLUSÃO GERAL</p><p>Prezada(o) Aluna(o),</p><p>No presente material, destinado aos estudos da disciplina “Categorias e</p><p>Conceitos da Geografia”, tivemos por objetivo apresentar os princípios históricos e</p><p>epistemológicos da Geografia como ciência, algumas das tendências atuais da</p><p>Geografia mundial e Brasileira, diferentes escolas e vertentes teórica-metodológicas</p><p>dos estudos geográficos e conceitos e categorias analíticas fundamentais para as</p><p>investigações em Geografia.</p><p>Na Unidade 1 “Conceitos da Geografia”, composta por quatro tópicos, versamos</p><p>acerca da disciplina de Geografia ao longo da História, do desenvolvimento das</p><p>correntes do pensamento geográfico, das tendências da Geografia mundial e brasileira</p><p>e dos conceitos fundamentais na compreensão do espaço geográfico.</p><p>Já na Unidade 2 “Natureza e Relação Humana”, composta por outros quatro</p><p>tópicos, tratamos de questões sobre a ação humana na natureza e as relações</p><p>estabelecidas entre as mesmas, sobre o impacto da sociedade sobre a natureza e vice</p><p>e versa, e sobre algumas técnicas sustentáveis.</p><p>Ainda, na Unidade 3 “Geografia como ciência”, também composta por quatro</p><p>tópicos, abordamos as divisões da Geografia entre Geografia Humana e Geografia</p><p>Física, as relações entre Geografia e interdisciplinaridade, os princípios da Geografia</p><p>Crítica enquanto uma corrente teórica presente nos estudos geográficos e os diversos</p><p>ramos da Geografia, como a Geomorfologia, Climatologia, Geografia Social e</p><p>Geopolítica, entre outros.</p><p>Por fim, na Unidade 4 “Categorias Geográficas”, integrada por quatro tópicos,</p><p>estudamos à respeito da leitura do espaço geográfico por meio das categorias</p><p>geográficas de lugar e paisagem, do conceito de território e espaço geográfico de</p><p>forma mais específica e aprofundada e, por último, da representação do espaço</p><p>geográfico, em especial, através do ensino de Geografia nas escolas.</p><p>Daqui em diante, almejamos que este material e todas as discussões aqui</p><p>disparadas, possa contribuir com sua aprendizagem, com a expansão do seu</p><p>pensamento crítico e com o aprimoramento de suas habilidades cognitivas e</p><p>investigativas em Geografia. Acreditamos que você possa estar melhor preparado para</p><p>seguir em frente em seus estudos ao desenvolver ainda mais seus conhecimentos</p><p>sobre a ciência geográfica, essencial para refletirmos sobre a vida do planeta Terra,</p><p>diretamente conectada, à nossa própria.</p><p>Até uma próxima oportunidade. Obrigada e se puder, fique em casa!</p><p>por meio de uma razão universal, ainda que estivesse focado em entender as</p><p>particularidades de cada região, o autor encontrou um método que relaciona a parte e o</p><p>todo. Logo, a partir de suas contribuições epistemológicas, Carl Ritter é reconhecido como</p><p>o percursor da Geografia Humana como método científico.</p><p>Ainda que Ritter tenha vivido no século XVIII, em um momento em que a</p><p>própria concepção de ciência era concebida de forma mais holística, seu</p><p>interesse foi o de utilizar a Geografia como forma de superar a</p><p>fragmentação imposta pelo avanço da razão em sua época (MOREIRA,</p><p>2010 apud LEITÃO, 2017, p. 14).</p><p>Por outro lado, Alexander von Humboldt buscou formular teorias sobre a Terra a</p><p>partir do empirismo racionado e do método intuitivo, isto é, a compreensão dos</p><p>conhecimentos relativos a terra se dará a partir da observação como suporte para a prática</p><p>e assimilação direta da realidade para além da razão.</p><p>Durante suas expedições, o autor observou que as características da flora e da</p><p>fauna de uma região estão estreitamente relacionadas com as condições climáticas,</p><p>latitudes e tipo de relevo existentes nesse ambiente. A partir dessa elaboração analítica,</p><p>Humboldt desenvolveu o conceito de “meio ambiente geográfico”, sendo reconhecido</p><p>como percursor da Geografia Física.</p><p>Usuario</p><p>Destacar</p><p>Usuario</p><p>Destacar</p><p>Usuario</p><p>Destacar</p><p>Usuario</p><p>Destacar</p><p>As respostas encontradas por Ritter e Humboldt para os impasses de sua época</p><p>e suas formas de pensar a Geografia podem não ser adequadas às nossas pretensões</p><p>atuais, mas entendê-los é fundamental para que possamos revisar nosso passado</p><p>encontrando elementos que possam auxiliar as respostas que buscamos dar em nosso</p><p>próprio tempo.</p><p>Ao longo do presente tópico, buscamos apresentar os primeiros passos da</p><p>sistematização da ciência geográfica como uma importante ferramenta de compreensão</p><p>da realidade, cuja formulação e desenvolvimento teórico-metodológico vem a contribuir</p><p>para que a humanidade possa entender a natureza e sua relação com ela, que pode vir a</p><p>ser, tanto saudável e respeitosa, quanto nefasta e destrutiva.</p><p>Usuario</p><p>Destacar</p><p>2 AS CORRENTES DO PENSAMENTO GEOGRÁFICO</p><p>Imagem do Tópico: https://www.shutterstock.com/pt/image-photo/aircraft-spotter-</p><p>searches-sky-binoculars-during-249573040</p><p>Prezada (o) Aluna (o), estudamos no tópico anterior que as contribuições de Carl</p><p>Ritter e Alexandre Von Humboldt, asseguraram caminhos abertos para as discussões</p><p>teóricas acerca do pensamento geográfico, formulada por levantamentos experimentais</p><p>e contagens esgotantes sobre distintos lugares da Terra. Vimos, também, a importância</p><p>dos processos de sistematização do saber geográfico, de forma particular e autônoma,</p><p>para que o mesmo fosse considerado uma ciência específica e com métodos próprios.</p><p>Tendo em vista o conteúdo trabalhado anteriormente, neste tópico iremos dar</p><p>continuidade aos estudos referentes a Geografia enquanto ciência e campo investigativo,</p><p>focando nas correntes teóricas em que o pensamento geográfico foi construído,</p><p>metodizado e elaborado cientificamente, pois para compreendermos as epistemologias</p><p>da Geografia, precisamos conhecer o desenvolvimento das principais correntes que</p><p>surgiram após a sua legitimação enquanto ciência sistematizada.</p><p>Os primeiros princípios teóricos desenvolvidos para nortear as análises</p><p>geográficas, presente em estudos até os dias atuais, foram realizados nos processos de</p><p>sistematização metodológica que estudamos no tópico passado. Como afirma Antonio</p><p>Carlos Robert Moraes (1994), fazem parte desse repertório o conhecimento acerca da</p><p>extensão do planeta, o levantamento de informações a respeito da superfície terrestre,</p><p>o desenvolvimento de técnicas cartográficas e o surgimento das teorias raciais do</p><p>evolucionismo.</p><p>Tais princípios, foram os primeiros passos rumo a consolidação da ciência</p><p>geográfica, influenciando diretamente o surgimento de correntes teóricas cujo o objetivo</p><p>é o de pensar a ciência em destaque e de servir como aporte teórico para investigações</p><p>a respeito das problemáticas que envolvem a Geografia. Logo, as correntes do</p><p>pensamento geográfico, com suas especificidades analíticas, semelhanças e cisões,</p><p>podem ser identificadas em dois grandes grupos: a Tradicional, entendendo o</p><p>agrupamento das correntes que não dialogam com as questões sociais, mas estudam a</p><p>https://www.shutterstock.com/pt/image-photo/aircraft-spotter-searches-sky-binoculars-during-249573040</p><p>https://www.shutterstock.com/pt/image-photo/aircraft-spotter-searches-sky-binoculars-during-249573040</p><p>Usuario</p><p>Destacar</p><p>Usuario</p><p>Destacar</p><p>relação entre a humanidade e a natureza amparada na percepção da Geografia como</p><p>ciência descritiva e de observação dos fenômenos naturais, ou seja, positivista; e a</p><p>Moderna, que questiona o tradicionalismo e o positivismo amparando a Geografia como</p><p>ciência atenta às questões sociais e complexidades humanas.</p><p>2.1 Geografia Tradicional</p><p>A corrente teórica da Geografia Tradicional têm seu desenvolvimento e</p><p>consolidação possibilitada por três escolas distintas, sendo elas: 1- Determinismo, cujo</p><p>o principal teórico é o alemão Friedrich Ratzel, que sustenta o argumento de que as</p><p>circunstâncias naturais definem a relação com o homem e , por consequência, intervêm</p><p>nas suas condições de evolução; 2- Possibilismo, estabelecido pelas ideias do francês</p><p>Paul Vidal de La Blache, que defendia que a natureza oferece oportunidades para que o</p><p>homem a transforme sem necessariamente indicar comportamentos; 3- Regionalismo,</p><p>escola amparada pelo norte-americano Richard Hartshorne e, também, por Paul Vidal</p><p>de La Blache, que afirmavam que o conhecimento das regiões geográficas e suas</p><p>diferenças se davam por meio do detalhamento dos lugares e fragmentações territoriais.</p><p>2.1.1 Determinismo Geográfico</p><p>Teoria formulada no século XIX pelo geógrafo alemão Friedrich Ratzel, que aponta</p><p>as influências que as condições naturais exercem sobre os seres humanos, a escola</p><p>determinista sustenta a ideia de que o meio natural determina o homem, nesse sentido,</p><p>os homens procurariam organizar o espaço para garantir a manutenção da vida.</p><p>Segundo Moraes (1994), para Ratzel “A perda de território seria a maior prova de</p><p>decadência de uma sociedade. Por outro lado, o progresso implicaria a necessidade de</p><p>aumentar o território, logo, de conquistar novas áreas (p. 19)”.</p><p>As análises de Ratzel estavam ligadas fortemente ao momento histórico que se</p><p>encontrava inserido, compreendendo o período de unificação da Alemanha no século</p><p>XIX. O expansionismo do império alemão, arquitetado pelo primeiro-ministro da Prússia</p><p>Otto Von Bismarck (1815-1898), foi legitimado pelas duas principais correntes do</p><p>Usuario</p><p>Destacar</p><p>Usuario</p><p>Destacar</p><p>Usuario</p><p>Destacar</p><p>Usuario</p><p>Destacar</p><p>Usuario</p><p>Destacar</p><p>pensamento Ratzeliano, o determinismo geográfico - que explicaria a superioridade de</p><p>algumas raças, nesse caso a alemã, que naturalmente se desenvolveriam mais do que</p><p>outras - e o espaço vital, que justificaria a conquista de novos territórios de formas</p><p>violentas para suprir a maior demanda de recursos para seu desenvolvimento, ou seja,</p><p>o expansionismo.</p><p>Ratzel elabora o conceito de “espaço vital”; este representaria uma</p><p>proporção de equilíbrio, entre a população de uma dada sociedade e os</p><p>recursos disponíveis para suprir suas necessidades, definindo assim</p><p>suas potencialidades de progredir e suas premências territoriais. É fácil</p><p>observar a íntima vinculação entre estas formulações de Ratzel, sua</p><p>época e o projeto imperial alemão. Esta ligação se expressa na</p><p>justificativa do expansionismo como algo natural e inevitável, numa</p><p>sociedade que progride, gerando uma teoria que legitima o imperialismo</p><p>bismarckiano. Também sua visão do Estado como um protetor acima da</p><p>sociedade, vem no sentido de legitimar o Estado prussiano, onipresente</p><p>e militarizado. (MORAES, 1994, p. 19).</p><p>Os discípulos</p><p>da escola determinista foram além das proposições de Ratzel,</p><p>chegando a afirmar que o homem seria um produto do meio ao defenderem que um</p><p>ambiente mais hostil proporcionaria um maior nível de desenvolvimento ao exigir um alto</p><p>grau de organização social para suportar todas as contrariedades impostas pelo meio.</p><p>Ex: O inverno justificaria o desenvolvimento das sociedades europeias, que não tiveram</p><p>grandes dificuldades em subjugar os povos tropicais, isto é, sociedades africanas e</p><p>americanas, que segundo tal pensamento, seriam mais indolentes, incivilizados e</p><p>atrasados.</p><p>Essa ideia falaciosa serviu de justificativa para a colonização, a escravidão e o</p><p>expansionismo neocolonial na África e na Ásia entre o fim do século XIX e o início do</p><p>século XX. Pensamentos que, mais tarde, foram aproveitados pelos cientistas e políticos</p><p>da Alemanha Nazista durante a Segunda Guerra Mundial a fim de sustentar as</p><p>atrocidades do Holocausto e o extermínio de populações consideradas racialmente</p><p>inferiores, como judeus, negros, ciganos e pessoas com deficiência.</p><p>Em acordo com Moraes (1994), a característica principal do Determinismo “[...]</p><p>reside no fato de haver trazido, para o debate geográfico, os temas políticos e</p><p>Usuario</p><p>Destacar</p><p>Usuario</p><p>Destacar</p><p>Usuario</p><p>Destacar</p><p>Usuario</p><p>Destacar</p><p>econômicos, colocando o homem no centro das análises. Mesmo que numa visão</p><p>naturalizante, e para legitimar interesses contrários ao humanismo” (p. 21).</p><p>2.1.2 Possibilismo Geográfico</p><p>A escola possibilista teve origem na França com Paul Vidal De La Blache, teórico</p><p>que estava inserido no pensamento político dominante da sociedade francesa em um</p><p>momento em que a nação tornou-se uma grande soberania.</p><p>Para compreender o processo de eclosão do pensamento geográfico na</p><p>França, e o tipo de reflexão que este engendrou, é necessário enfocar os</p><p>traços gerais do desenvolvimento histórico francês no século XIX, e, em</p><p>detalhe, a conjuntura da Terceira República e o conflito de interesses com</p><p>a Alemanha (MORAES, 1994, p. 22).</p><p>Paul Vidal De La Blache realizou estudos regionais procurando provar que a</p><p>natureza exercia influências sobre o homem, mas que o homem tinha possibilidades de</p><p>modificar e de melhorar o meio, ideia chave do Possibilismo. O autor delineou o enfoque</p><p>da Geografia a partir da interação homem-natureza, na concepção da paisagem,</p><p>inserindo o homem como um ser dinâmico, que sente a influência do meio, mas que</p><p>opera sobre este, modificando-o. A partir dessa elaboração, constatou que as urgências</p><p>humanas são influenciadas pela natureza, e que a humanidade procura recursos para</p><p>satisfazê-las nos elementos e nas possibilidades ofertadas pelo meio.</p><p>Conforme afirmado por Moraes (1994) a geografia vidalina tem como enfoque a</p><p>população, o agrupamento social, e nunca a sociedade em si, isto é, tal escola aborda</p><p>os estabelecimentos e feitos humanos a partir de técnicas e de instrumentos de trabalho,</p><p>não as relações e dinamizações sociais ocorridas através de processos de produção e</p><p>exploração. “Enfim, discute a relação homem-natureza, porém sem abordar as relações</p><p>entre os homens. É por esta razão que a carga naturalista é mantida, apesar do apelo à</p><p>História, contido em sua proposta” (MORAES, 1994, p. 26).</p><p>Por fim, podemos dizer que o Possibilismo considera a natureza como</p><p>fornecedora de possibilidades e o homem como o principal agente geográfico que atua</p><p>e modifica a natureza.</p><p>Usuario</p><p>Destacar</p><p>Usuario</p><p>Destacar</p><p>2.1.3 Regionalismo Geográfico</p><p>Essa corrente do pensamento geográfico tradicional, tem suas bases propostas</p><p>pelo diálogo entre Paul Vidal de La Blache, que como já vimos é o teórico principal da</p><p>escola possibilista, e Richard Hartshorne, norte-americano que afirma que os aspectos</p><p>próprios da Geografia eram o espaço e os lugares.</p><p>O método adotado por essa vertente compreendia em comparar regiões, sobre os</p><p>critérios de semelhança e diferença, dedicando-se a coleta de informações descritiva</p><p>sobre lugares ao dividir a Terra em regiões. Para Hartshorne, os espaços eram divididos</p><p>em áreas nas quais os elementos mais homogêneos determinariam cada classe e,</p><p>assim, as descontinuidades destes espaços trariam as divisões das áreas.</p><p>Hartshorne argumentou que os fenômenos variam de lugar a lugar, que</p><p>as suas inter-relações também variam, e que os elementos possuem</p><p>relações internas e externas à área. O caráter de cada área seria dado</p><p>pela integração de fenômenos inter-relacionados. Assim, a análise</p><p>deveria buscar a integração do maior número possível de fenômenos</p><p>inter-relacionados. (MORAES, 1994, p. 32).</p><p>Logo, podemos afirmar que para o teórico em destaque, o pesquisador faria a</p><p>análise de um só lugar, tentando compreender diversos elementos que levariam à</p><p>construção de um importante e significativo conhecimento sobre determinado local.</p><p>Buscamos visualizar e compreender tal método a partir dos exemplos expostos por</p><p>Moraes:</p><p>[...] o pesquisador seleciona dois ou mais fenômenos (p. ex. clima,</p><p>produção agrícola, tecnologia disponível), observa-os na área escolhida,</p><p>relaciona-os. Seleciona outros (p. ex. topografia, estrutura fundiária,</p><p>relações de trabalho), observa-os, relaciona-os; repete várias vezes este</p><p>procedimento, tentando abarcar o maior número de fenômenos (tipo de</p><p>solo, destinação da produção, número de cidades, tamanho do mercado</p><p>consumidor, hidrografia etc.); uma vez de posse de vários conjuntos de</p><p>fenômenos agrupados e inter-relacionados, integra-os inter-relacionando</p><p>os conjuntos; repete todo este procedimento, com novos fenômenos, ou</p><p>novos agrupamentos dos mesmos fenômenos, em conjuntos diferentes;</p><p>afinal, integram-se, entre si, os conjuntos já integrados separadamente</p><p>(MORAES, 1994, p. 32).</p><p>As propostas dessa corrente abriram inúmeras possibilidades para os estudos</p><p>geográficos e foram amplamente discutidas, pois possibilitou análises locais, focadas na</p><p>união de temas conectados, à exemplo de uma geografia dos recursos naturais e uma</p><p>geografia dos transportes, relacionando e integrando uma diversidade de fenômenos</p><p>relacionados a essas temáticas específicas. Tal pensamento geográfico definido como</p><p>método regional, possibilitou um trabalho investigativo com uma quantidade diversa de</p><p>elementos, relacionando interesses cada vez mais planejados e ágeis sobre determinada</p><p>região.</p><p>A partir do exposto durante o presente tópico, a Geografia Tradicional contribuiu</p><p>para a fundamentação de um campo amplo de investigações sistematizadas ao</p><p>organizar uma continuidade de discussões estruturadas em conhecimentos</p><p>metodológicos.</p><p>Nesse processo, elaborou um temário válido, independente das teorias</p><p>que desenvolveu; esse temário restou como a grande herança do</p><p>pensamento geográfico tradicional. Assim, seu grande feito foi a</p><p>identificação de problemas, o levantamento de questões válidas, às quais</p><p>deu respostas insatisfatórias ou equivocadas (MORAES, 1994, p. 33).</p><p>Concomitante à isso, a Geografia Tradicional contribuiu com uma quantidade</p><p>vasta de informações e levantamento de diversas realidades, constituindo um material</p><p>essencial para pesquisadores que vieram depois, beneficiados pelo caráter descritivo</p><p>das informações levantadas e dados minuciosos sobre uma pluralidade de fenômenos,</p><p>inclusive, para que tais teóricos subsequentes formulassem críticas e correntes</p><p>divergentes às aqui explanadas.</p><p>Para concluir, apesar de suas limitações generalistas e naturalistas, o</p><p>pensamento geográfico tradicional contribuiu para a elaboração de alguns conceitos</p><p>bases da Geografia atual como ambiente, território, região, habitat, etc. (reestruturados</p><p>e ressignificados posteriormente). O cenário apresentado diz respeito às primeiras</p><p>vertentes teórica-metodológicas da Geografia, as críticas levantadas a essa corrente,</p><p>proporcionou avanços científicos na construção do pensamento geográfico e na</p><p>produção epistemológica acerca dessa ciência.</p><p>Usuario</p><p>Destacar</p><p>Usuario</p><p>Destacar</p><p>Usuario</p><p>Destacar</p><p>2.2 Geografia Moderna</p><p>Por volta da década de 1950, com o fim da II Guerra Mundial (1939 e 1945) e a</p><p>expansão do sistema capitalista, as correntes do pensamento geográfico tradicional</p><p>foram questionadas, trazendo para as novas análises a defesa de fazer da Geografia</p><p>uma ciência humana e social. Sobre a estruturação de novas formas e sentidos para</p><p>pensar a disciplina nos anos seguintes, podemos apontar que</p><p>A crise da Geografia Tradicional, e o movimento de renovação a ela</p><p>associado, começam a se manifestar já em meados da década de</p><p>cinquenta e se desenvolvem aceleradamente nos anos posteriores. A</p><p>década de sessenta encontra as incertezas e os questionamentos</p><p>difundidos por vários pontos. A partir de 1970, a Geografia Tradicional</p><p>está definitivamente enterrada; suas manifestações, dessa data em</p><p>diante, vão soar como sobrevivências, resquícios de um passado já</p><p>superado. Instala-se, de forma sólida, um tempo de críticas e de</p><p>propostas no âmbito dessa disciplina. Os geógrafos vão abrir-se para</p><p>novas discussões e buscar caminhos metodológicos até então não</p><p>trilhados. Isto implica uma dispersão das perspectivas, na perda da</p><p>unidade contida na Geografia Tradicional. Esta crise é benéfica, pois</p><p>introduz um pensamento crítico, frente ao passado dessa disciplina e</p><p>seus horizontes futuros. Introduz a possibilidade do novo, de uma</p><p>Geografia mais generosa (MORAES, 1994, p. 34).</p><p>Em virtude disso, o surgimento e consolidação da Geografia Moderna se deu a</p><p>partir de duas grandes escolas teóricas: a Pragmática, que está ligada a Geografia</p><p>aplicada e que acredita na tecnologia geográfica, mediada por dados estatísticos e</p><p>diagnósticos que subsidiaram a estruturação das relações capitalistas ao incentivar</p><p>tomadas de decisões de governos e empresas; e a Crítica, que apresenta propostas</p><p>heterogêneas que se aproximam de análises acerca da realidade social, com suas</p><p>desigualdades, assimetrias e contradições, apontando assim, a Geografia como uma</p><p>ciência que vislumbra mudanças sociais em busca de uma coletividade mais justa e</p><p>engajada politicamente junto ao meio ambiente.</p><p>2.2.1 Geografia Pragmática (Nova Geografia, Geografia Teorética ou Quantitativa)</p><p>Usuario</p><p>Destacar</p><p>Usuario</p><p>Destacar</p><p>A Geografia Pragmática corresponde a um corrente do pensamento geográfico</p><p>desenvolvida a partir da década de 50, emergente a partir da urgência da obtenção de</p><p>dados exatos, calcados em conceitos teóricos, que fossem apoiados em análises</p><p>estatísticas, matemáticas e exatas da realidade. A escola foi utilizada como forte</p><p>ferramenta para a consolidação dos poderes do Estado através de soluções baseadas</p><p>em dados quantitativos.</p><p>Desta forma, seu intuito geral é o de uma “renovação metodológica”, o de</p><p>buscar novas técnicas e uma nova linguagem, que dê conta das novas</p><p>tarefas postas pelo planejamento. A finalidade explícita é criar uma</p><p>tecnologia geográfica, um móvel utilitário. Daí sua denominação de</p><p>pragmática (MORAES, 1994, p. 37).</p><p>As características principais dessa corrente são de que todo o conhecimento está</p><p>apoiado na experiência (empirismo) e que deve existir uma linguagem comum entre</p><p>todas as ciências. Desse modo, tal interpretação recusa a ideia de um dualismo científico</p><p>e forças complementares expressas entre as ciências naturais e as ciências sociais,</p><p>exigindo assim, uma exatidão maior na aplicação da metodologia quantitativa e no uso</p><p>de técnicas das ciências exatas.</p><p>Portanto, os resultados das investigações científicas sob a alçada da Geografia</p><p>Pragmática devem ser apresentados de forma lógica e apurada por meio do uso da</p><p>linguagem matemática. Em razão disso, tais investigações ampliam a utilização da</p><p>tecnologia na intervenção da realidade, pois se apresentam como uma artilharia de</p><p>dominação para os interesses do Estado planejador que propõe suas ações balizadas</p><p>em categorias técnicas, onde esconde os interesses de dominação almejadas,</p><p>defendendo uma suposta neutralidade científica.</p><p>A Geografia Pragmática é um instrumento da dominação burguesa, um</p><p>aparato do Estado capitalista. Seus fundamentos, enquanto um saber de</p><p>classe, estão indissoluvelmente ligados ao desenvolvimento do</p><p>capitalismo monopolista. Assim, são interesses claros os que ela</p><p>defende: a maximização dos lucros, a ampliação da acumulação de</p><p>capital, enfim, a manutenção da exploração do trabalho. Nesse sentido,</p><p>mascara as contradições sociais, legitima a ação do capital sobre o</p><p>espaço terrestre. É uma arma prática de intervenção, mas também uma</p><p>arma ideológica, no sentido de tentar fazer passar como “medidas</p><p>Usuario</p><p>Destacar</p><p>Usuario</p><p>Destacar</p><p>técnicas”, logo, neutras e cientificamente recomendadas” a ação do</p><p>Estado na defesa de interesses de classe (MORAES, 1994, p. 40).</p><p>Enfim, essa corrente predominou nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha,</p><p>principalmente na década de 1960 e meados da década de 1970. Contudo, é a partir</p><p>dos anos 60 que a Geografia Pragmática começa a sofrer diversas críticas, cuja principal</p><p>delas está relacionada ao fato da escola não considerar as particularidades dos</p><p>fenômenos ao reduzi-los a explicações estritamente exatas.</p><p>Corroboramos que o método matemático não é eficiente para explicar sozinho os</p><p>intervalos existentes entre diferentes momentos históricos, pois não alcança as</p><p>especificidades das relações estabelecidas entre ação humana e espaço geográfico ao</p><p>compreender o meio apenas de forma homogênea e quantificada em números.</p><p>2.2.2 Geografia Crítica</p><p>A Geografia Crítica surgiu na França, em 1970, e depois foi desenvolvida por</p><p>pesquisas em diferentes realidades do mundo, como na Alemanha, Brasil, Itália,</p><p>Espanha, México e outros países, ganhando força e se legitimando como um grande</p><p>movimento de renovação da Geografia na década de 80. As primeiras referências à essa</p><p>corrente do pensamento geográfico foram realizadas com ênfase na obra “A Geografia</p><p>serve, antes de mais nada, para fazer a guerra” do Francês Yves Lacoste.</p><p>Ao estabelecer o rompimento da suposta neutralidade da Geografia Pragmática e</p><p>propor maior engajamento e criticidade junto a toda a conjuntura social, econômica,</p><p>política e cultural do mundo, a Geografia Crítica possibilita uma leitura honesta e</p><p>coerente frente aos problemas e interesses que envolvem as relações de poder e os</p><p>embates históricos por território, defendendo a diminuição das assimetrias sociais,</p><p>econômicas e regionais presentes nas dinâmicas de cada sociedade. Propõe, ainda,</p><p>uma mudança significativa no ensino de Geografia ao promover uma educação que</p><p>estimule e pensamento crítico e interpretações contextualizadas historicamente que não</p><p>reduzem e simplifiquem a Geografia por reducionismos, generalismos e preconceitos.</p><p>O designativo de crítica diz respeito, principalmente, a uma postura frente</p><p>à realidade, frente à ordem constituída. São os autores que se</p><p>posicionam por uma transformação da realidade social, pensando o seu</p><p>saber como uma arma desse processo. São, assim, os que assumem o</p><p>conteúdo político de conhecimento científico, propondo uma Geografia</p><p>militante, que lute por uma sociedade mais justa. São os que pensam a</p><p>análise geográfica como um instrumento de libertação do homem</p><p>(MORAES, 1994, p. 42).</p><p>Nas ideias de Yves Lacoste (1988), o Estado possui uma visão estruturada do</p><p>espaço, pois tem o poder de agir sobre todos os lugares, exercendo mais uma ferramenta</p><p>de dominação. Logo, faz-se necessário construir uma visão integrada do espaço e da</p><p>sociedade a partir de interpretações que socializem este saber, pois possuem estratégias</p><p>fundamentais para momentos de disputas políticas e para uma organização social que</p><p>pense o espaço de forma justa com as necessidades humanas de sobrevivência, não</p><p>com ganâncias de consumo e esgotamento de terras, matérias-primas e recursos</p><p>naturais.</p><p>[...] a função ideológica essencial do discurso da</p><p>geografia escolar e</p><p>universitária foi sobretudo o de mascarar por procedimentos que não são</p><p>evidentes a utilidade prática da análise do espaço, sobretudo para a</p><p>condução da guerra, como ainda para a organização do Estado e prática</p><p>do poder. É sobretudo quando ele parece “inútil” que o discurso</p><p>geográfico exerce a função mistificadora mais eficaz, pois a crítica de</p><p>seus objetivos “neutros” e “inocentes” parece supérflua. A sutileza foi a</p><p>de ter passado um saber estratégico, militar e político como se fosse um</p><p>discurso pedagógico ou científico perfeitamente inofensivo. Nós veremos</p><p>que as consequências desta mistificação são graves (LACOSTE, 1988,</p><p>p. 25).</p><p>No Brasil, o grande nome da renovação da Geografia foi o teórico baiano Milton</p><p>Santos, que publicou as primeiras contribuições dessa nova abordagem no país. O autor</p><p>defende que toda manifestação produtiva do homem, implica em uma ação modificadora</p><p>da superfície terrestre.</p><p>Santos afirma que a organização do espaço é determinada pela</p><p>tecnologia, pela cultura e pela organização social da sociedade, que a</p><p>empreendem. Na sociedade capitalista, a organização espacial é imposta</p><p>pelo ritmo de acumulação. Na verdade, esta representa uma dotação</p><p>diferencial de instrumentos de trabalho, na superfície do planeta, uma</p><p>fixação de capital no espaço, obedecendo a uma distribuição “desigual e</p><p>combinada”. Diz que, desta forma, os lugares manifestam uma</p><p>combinação de capital, trabalho, tecnologia e trabalho morto, expresso</p><p>nas “rugosidades” (MORAES, 1994, p. 46).</p><p>O pensamento crítico na Geografia significou principalmente uma aproximação</p><p>com os movimentos sociais, na busca da ampliação dos direitos civis e humanos,</p><p>expressa pelo acesso à educação gratuita e de qualidade, à moradia, à terra, combate à</p><p>pobreza e à violência ambiental, como o desmatamento, poluição, extinção de</p><p>organismos vivos pertencentes a fauna e a flora, entre outras temáticas.</p><p>3 AS TENDÊNCIAS DA GEOGRAFIA MUNDIAL E BRASILEIRA</p><p>Imagem do Tópico: https://www.shutterstock.com/pt/image-photo/national-flags-</p><p>different-countries-world-brazilian-453959620 www.shutterstock.com/</p><p>Cara (o) Aluna (o), nos tópicos anteriores estudamos os paradigmas que</p><p>marcaram a evolução do pensamento geográfico e a estruturação dos métodos que</p><p>fundamentaram cientificamente a Geografia ao longo dos séculos. Faz-se necessário</p><p>historicizar o processo de evolução do pensamento geográfico a fim de analisarmos e</p><p>entendermos os pressupostos da Geografia como ciência e sua relação com outras</p><p>áreas do conhecimento através do contexto histórico de sua produção.</p><p>No presente tópico, temos por objetivo dar continuidade aos estudos acerca da</p><p>Geografia como ciência de referência ao nos debruçarmos pelas tendências da</p><p>Geografia mundial e, em específico, da brasileira. Corroboramos que o processo de</p><p>desenvolvimento do pensamento geográfico, ocorrido desde a Grécia Antiga, possibilitou</p><p>o surgimento de vertentes teóricas das quais são imprescindíveis para compreendermos</p><p>a ciência geográfica atualmente. Logo, a História torna-se importante para pensarmos</p><p>nossos objetivos de estudo, pois nos auxilia a confluir passado e presente para que</p><p>possamos almejar direcionamentos à respeito da Geografia no futuro.</p><p>Há um consenso entre a comunidade científica que, atualmente, a Geografia é</p><p>considerada uma ciência interativa e sistêmica. Interativa pois proporciona uma relação</p><p>com diversos elementos presentes nos fenômenos estudados a partir de um caráter</p><p>multidisciplinar, dialogando com outros saberes científicos e áreas do conhecimento, à</p><p>exemplo da História (como já vimos anteriormente). Sistêmica devido à premissas</p><p>teóricas que definem o objeto de pesquisa ao conjugar métodos necessários para sua</p><p>formulação e identificar conexões complexas presentes no mundo globalizado.</p><p>Nas últimas décadas, a Geografia distanciou-se da preocupação em descrever</p><p>fenômenos e repassar informações decoradas e repetitivas, como exemplo, as capitais</p><p>dos países e estados, a quantidade populacional de um determinado lugar, a extensão</p><p>dos rios e etc. Por conseguinte, os estudos geográficos se fortaleceram por meio de</p><p>novas metodologias de análise, priorizando uma investigação sistêmica dos processos</p><p>https://www.shutterstock.com/pt/image-photo/national-flags-different-countries-world-brazilian-453959620</p><p>https://www.shutterstock.com/pt/image-photo/national-flags-different-countries-world-brazilian-453959620</p><p>demográficos, econômicos, urbanos, sociais que dêem ênfase ao desenvolvimento das</p><p>pesquisas a partir das necessidades da nova ordem mundial.</p><p>Os estudos geográficos físicos, populacionais, econômicos e geopolíticos</p><p>são, atualmente, abordados por metodologias científicas, produzindo</p><p>conceitos e interpretações a partir de análises sobre as causas das</p><p>realidades geográficas. A relação causa-efeito só produzirá resultado</p><p>científico se for estabelecida a razão geográfica da realidade em</p><p>determinadas escalas regionais e macrorregionais. A territorialidade e as</p><p>interações sistêmicas com os ambientes naturais, os processos</p><p>demográficos e as mudanças geopolíticas nas transterritorialidades</p><p>constituem, pois, a razão da ruptura epistêmica ocorrida na Geografia nas</p><p>últimas décadas (VIEIRA, 2013, p. 74 - 75).</p><p>Uma das grandes inovações ocorridas na Geografia atual é a utilização de</p><p>ferramentas de alta tecnologia que proporcionam uma melhor análise e identificação das</p><p>ocorrências e fenômenos que modificam a superfície da Terra, usufruídas por geógrafos</p><p>e geógrafas em seus estudos e pesquisas. Como afirma Euripedes Falcão Vieira (2013),</p><p>“técnicas de geoprocessamento e imagens de satélites facilitam localizações,</p><p>movimentos da hidrodinâmica fluvial, devastação de ambientes florestais, dinâmica</p><p>marinha costeira e tantos outros” (p. 78).</p><p>Desta forma, podemos afirmar que a tecnologia advinda do desenvolvimento e</p><p>democratização da internet, dos satélites e de uma comunicação global em alta escala,</p><p>configura-se como mudanças significativas e essenciais para a ciência geográfica e para</p><p>suas produções epistemológicas nos dias de hoje.</p><p>Outra tendência importante para os estudos atuais da Geografia diz respeito às</p><p>migrações que acontecem em escala global, evidenciando dinâmicas sociais de forte</p><p>impacto na geopolítica dos espaços que sofrem e recebem grandes deslocamentos</p><p>populacionais. Para compreendermos essa complexa temática é preciso utilizar diversas</p><p>categorias analíticas, pois tal fenômeno interfere ativamente na vida social, na estrutura</p><p>econômica, nas condições culturais e na dinâmica entre territorialidades e população.</p><p>As migrações humanas ocorrem desde o Período Mesolítico – (10.000 – 8.000</p><p>a.C.), momento histórico de diversas modificações geológicas e climáticas na Terra, fato</p><p>que caracterizou a transição de uma sociedade nômade para uma sociedade sedentária</p><p>do homem pré-histórico. Podemos observar, também, migrações durante os processos</p><p>de colonização europeia nas invasões de territórios africanos e americanos no século</p><p>XVI.</p><p>As migrações em larga escala estão muitas vezes ligadas a antigas</p><p>relações de conquista e domínios coloniais. Mas é preciso considerar,</p><p>também, as que ocorrem por força da nova ordem econômica mundial,</p><p>que globalizou a produção e criou, consequentemente, uma nova divisão</p><p>internacional do trabalho. Há, ainda, o fator da intelectualidade global,</p><p>ativando a mobilidade da população mais jovem (VIEIRA, 2013, p. 79).</p><p>Desta forma, apesar de não ser um fenômeno atual, ou seja, um fenômeno que</p><p>tem uma longevidade histórica, as migrações humanas ganharam novos sentidos e</p><p>significados devido à globalização. É necessário pensarmos nos motivos que levam uma</p><p>quantidade significativa de pessoas a migrar do seu local de origem para uma análise</p><p>geográfica precisa, sem preconceitos ou reducionismos das populações migrantes, e que</p><p>interconecte as categorias de uma</p><p>sociedade global.</p><p>Já no Brasil, as tendências da Geografia perpassam as preocupações acerca da</p><p>nossa realidade histórica e social, como por exemplo análises capazes de responder</p><p>questões referentes à estrutura fundiária e o agronegócio, à pobreza e desigualdade, à</p><p>segurança política e defesa, à ameaças globais e transnacionais, à matriz energética e</p><p>meio ambiente, ao minério e indústria extrativa, à riqueza genética e biodiversidade, à</p><p>população e diversidade social, étnica-racial e de gênero, entre outras. Tais temáticas</p><p>tornam-se relacionadas à posição do Brasil frente ao mundo globalizado, apresentando-</p><p>se como novas linhas e tendências analíticas na pesquisa geográfica.</p><p>De acordo com Armen Mamigonian (1999), as tendências atuais da Geografia</p><p>aspiram dar resposta à crise da sociedade, da civilização e da própria disciplina. O autor</p><p>nos aponta que o desenvolvimento do modo de produção capitalista levou o Brasil a</p><p>mundialização da economia, fato que forçou uma redefinição dos espaços nacionais,</p><p>regionais e locais, seus papéis na divisão territorial e social do trabalho, intervenções</p><p>mais incisivas do Estado e novas tendências à concorrência internacional que</p><p>provocaram assimetrias na distribuição geográfica do nosso território.</p><p>Além do processo de urbanização tão brutal como nós vivemos nas</p><p>últimas décadas e intimamente acoplado a ele afloraram novas</p><p>problemáticas, que estão estimulando linhas de pesquisa que já existiam,</p><p>mas foram renovadas: 1) a preocupação por decifrar os processos</p><p>espaciais no interior das cidades, aprofundando os conhecimentos de</p><p>renda capitalista da terra (também na agricultura), sobre influência</p><p>marxista; 2) a preocupação por combinar desenvolvimento econômico e</p><p>preservação ambiental, como nas propostas de eco-desenvolvimento</p><p>(Ignacy Sachs na França, Aziz Ab’Saber no Brasil, por exemplo),</p><p>procurando soluções de crescimento, com vantagens sociais (por</p><p>exemplo, códigos de empregos) e ambientais (controle dos gases da</p><p>combustão nas cidades, por exemplo); 3) a preocupação por uma</p><p>geografia da percepção, cuja raiz está na crescente alienação das</p><p>pessoas, incapazes de realizar “mapas mentais”, mas também vinculada</p><p>à psicologia comportamental, de potencial totalitário (Skinner, por</p><p>exemplo) conforme seu uso (MAMIGONIAN, 1999, p. 177).</p><p>Diante dessas novas realidades, podemos afirmar que as tendências em vigência</p><p>na teoria e na prática da ciência geográfica perpassam as demandas da sociedade atual,</p><p>se apresentando em quatro grandes eixos: 1) diversidade de correntes teóricas e</p><p>premissas filosóficas; 2) interdisciplinaridade no diálogo e interação epistemológica entre</p><p>as disciplinas no interior da Geografia e da própria Geografia em relação a outras áreas</p><p>do conhecimento; 3) aumento e popularização de linhas de pesquisas destinadas à</p><p>perspectivas que estabeleçam relações dinâmicas entre a sociedade humana e o</p><p>ambiente natural, como a geopolítica por exemplo; 4) reconfigurações de saberes e</p><p>conceitos concomitantes às mudanças advindas da urbanização, globalização e</p><p>democratização das tecnologias.</p><p>4 CONCEITOS FUNDAMENTAIS NA COMPREENSÃO DO ESPAÇO</p><p>Imagem do Tópico: https://www.shutterstock.com/pt/image-photo/aerial-view-cars-</p><p>trains-intersection-junction-1457094053 www.shutterstock.com/</p><p>Estimada (o) Aluna (o), no presente tópico temos por objetivo conhecer conceitos</p><p>fundamentais para a compreensão do espaço. A priori, devemos ter em vista que o</p><p>conceito de espaço se apresenta como uma das mais importantes categorias analíticas</p><p>para o estudo da Geografia. Tal estrutura conceitual é o início de inúmeras produções</p><p>científicas de autores que dedicaram seus estudos à conceituação de espaço geográfico</p><p>como uma categoria abrangente e democrática para as pesquisas referentes à ciência</p><p>geográfica.</p><p>Iniciaremos nossas análises acerca da categoria de espaço por meio da obra A</p><p>natureza do espaço (1996) do geógrafo brasileiro Milton Santos, onde propõe que o</p><p>espaço é “formado por um conjunto indissociável, solidário e também contraditório, de</p><p>sistemas de objetos e sistemas de ações, não considerados isoladamente, mas como o</p><p>quadro único no qual a história se dá” (p. 63). Para o autor, a natureza é o início, ela</p><p>provê a matéria-prima as quais são transformadas em objetos pela ação humana através</p><p>da técnica, isto é, “a principal forma de relação entre o homem e a natureza”, definida</p><p>como “um conjunto de meios instrumentais e sociais, com os quais o homem realiza sua</p><p>vida, produz e, ao mesmo tempo, cria espaço” (1996, p. 29).</p><p>Desta forma, para a ciência geográfica, o espaço pode ser conceituado como a</p><p>parte da superfície da Terra onde ocorrem as interações entre o ser humano e o ambiente</p><p>natural, ou seja, o espaço geográfico é interpretado e dinamizado a partir de ações e</p><p>práticas humanas, que por sua vez, são impulsionadas pela natureza, se dando em uma</p><p>relação recíproca de influências.</p><p>Milton Santos (1996) nos oferece argumentos críticos para compreendermos que</p><p>apesar de recíproca, essa relação se dá, muitas vezes, por meio de extremas assimetrias</p><p>e desigualdades ao elaborar que</p><p>No princípio, tudo eram coisas, enquanto hoje tudo tende a ser objeto, já</p><p>que as próprias coisas, dádivas da natureza, quando utilizadas pelos</p><p>https://www.shutterstock.com/pt/image-photo/aerial-view-cars-trains-intersection-junction-1457094053</p><p>https://www.shutterstock.com/pt/image-photo/aerial-view-cars-trains-intersection-junction-1457094053</p><p>homens a partir de um conjunto de intenções sociais, passam, também,</p><p>a ser objetos (SANTOS, 1996, p. 65).</p><p>Em virtude disto, o estudo do espaço geográfico nos possibilita compreender a</p><p>nossa organização social no presente, que se deu a partir de transformações históricas</p><p>ocorridas durantes os séculos que, por consequência, permitiram a existência e</p><p>continuidade da humanidade hoje e, quiçá, no futuro. Conforme o ser humano interfere</p><p>na natureza de determinado lugar, ele gera e promove o espaço geográfico, categoria</p><p>imprescindível para o estudo da Geografia.</p><p>A partir da conceituação de espaço geográfico, buscamos dar ênfase a outras</p><p>categorias conceituais e analíticas em Geografia, fundamentais para a compreensão de</p><p>fenômenos espaciais que se manifestam através delas, são elas: região, lugar e território.</p><p>Região é a categoria geográfica que busca estabelecer características comuns</p><p>entre diferentes áreas espaciais, ou seja, há elementos pertencentes a determinada</p><p>região que irão caracterizar todos as localidades que a integram, estabelecendo assim,</p><p>critérios de qualidades e traços específicos compartilhados por essa região. Elas podem</p><p>ser utilizadas para divisões e organizações administrativas, como bairros, municípios ou</p><p>estados, um exemplo são as categorias designadas para agrupar a população brasileira</p><p>em cinco grandes regiões geopolíticas: Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sul e Sudeste.</p><p>Em sua obra Região e Organização Espacial (2003), Roberto Lobato Corrêa</p><p>discorre acerca do conceito de região a partir das diversas correntes do pensamento</p><p>geográfico que, como já vimos no tópico 2, estão dispostas em: Geografia Tradicional</p><p>(Determinismo, Possibilismo e Regionalismo) e Geografia Moderna (Pragmática e</p><p>Crítica). Para o autor, os conceitos de região e organização espacial são essenciais para</p><p>o entendimento do “[...] caráter distinto da geografia no âmbito das ciências sociais,</p><p>indicando a via geográfica de conhecimento da sociedade, quer dizer, das relações entre</p><p>natureza e história” (p.5).</p><p>Apesar das divergências teóricas e metodológicas, todas as correntes</p><p>compartilham do pressuposto que as raízes da Geografia estão na busca da</p><p>compreensão e diferenciação de lugares, regiões, países e continentes, resultados das</p><p>relações sociais entre homem e natureza. É a partir dessa premissa que o conceito de</p><p>região torna-se importante para os estudos geográficos, pois possibilita que agrupemos</p><p>lugares com características semelhantes ao amparar a contextualização do espaço no</p><p>qual os territórios estão inseridos.</p><p>Já o conceito de lugar consiste em uma área da superfície terrestre à qual são</p><p>conferidas especificidades e significados particulares, pois para a formação e</p><p>constituição de um lugar não basta apenas explicações descritivas a respeito da</p><p>configuração espacial ocorrida, faz-se preciso que se tenha o entendimento de como se</p><p>deu o processo da sua composição a partir das interações entre as pessoas que vivem</p><p>e produzem esse espaço. De acordo com Ana Fani Alessandri Carlos (2007),</p><p>A produção espacial realiza-se no plano do cotidiano e aparece nas</p><p>formas de apropriação, utilização e ocupação de um determinado lugar,</p><p>num momento específico e, revela-se pelo uso como produto da divisão</p><p>social e técnica do trabalho que produz uma morfologia espacial</p><p>fragmentada e hierarquizada. Uma vez que cada sujeito se situa num</p><p>espaço, o lugar permite pensar o viver, o habitar, o trabalho, o lazer</p><p>enquanto situações vividas, revelando, no nível do cotidiano, os conflitos</p><p>do mundo moderno (CARLOS, 2007, p. 20).</p><p>Desta maneira, visualiza-se que cada indivíduo é único e constituído por</p><p>experiências no tempo e no espaço de formas muito específicas, apesar de partilhadas</p><p>e com interligação entre si. Logo, um lugar terá significados diferentes para cada</p><p>indivíduo que nele vive, interfere e experiencia acontecimentos de vida.</p><p>Por fim, o significado do conceito de território se encontra ligado à demarcação de</p><p>espaços delimitados, definidos, geralmente, a partir de fronteiras, visíveis ou não,</p><p>formadas e motivadas por interesses sociais, políticos, econômicos, culturais, religiosos</p><p>e geográficos, os quais podem ser transformados de acordo com dinâmicas sociais que</p><p>produzem novos interesses e relações de poder. Tais demarcações ocorrem tanto</p><p>naturalmente, promovidas pelo meio ambiente, quanto socialmente, desenvolvidas pela</p><p>ação humana pelas razões citadas acima.</p><p>O conceito de Território, tratamos o espaço geográfico a partir de uma</p><p>concepção que privilegia o político ou a dominação-apropriação.</p><p>Historicamente, o território da Geografia foi pensado, definido e</p><p>delimitado a partir de relações de poder. Observa-se que, historicamente,</p><p>a concepção de território associa-se à ideia de natureza e sociedade</p><p>configuradas por um limite de extensão de poder. Territórios são no fundo</p><p>relações sociais projetadas no espaço. Por consequência, estes espaços</p><p>concretos podem formar-se e dissolver-se de modo muito rápido,</p><p>podendo ter existência regular, porém periódica, podendo o substrato</p><p>material permanecer o mesmo (SUERTEGARAY, 2001).</p><p>A partir das contribuições da autora, corroboramos que a divisão de territórios, em</p><p>especial, a partir da consolidação do Estado como instituição que normatiza formas de</p><p>controle social, torna-se importante para a ocupação e distribuição humana, pois regula</p><p>áreas administrativas de organização política, instituindo marcadores em determinada</p><p>área por um determinado código cultura. Exemplos de território: o Estado, as fronteiras</p><p>que limitam países, regiões, estados, cidades, bairros e favelas, o narcotráfico, as zonas</p><p>de guerra, etc.</p><p>Diante das conceituações atribuídas às categorias de espaço geográfico, região,</p><p>lugar e território, buscamos apontar que a Geografia expressa uma identidade particular</p><p>em seu arcabouço teórico, devido seu caráter de ciência social com interface a ciências</p><p>naturais e exatas. Segundo Corrêa (2003), devemos compreender que as correntes do</p><p>pensamento geográfico representam conceitos e categorias antagônicas que, apesar de</p><p>convergirem ou se completarem em alguns aspectos teórico-metodológicos, tiveram sua</p><p>emergência em um determinado espaço e tempo a partir de uma elaboração sócio-</p><p>histórica específica.</p><p>SAIBA MAIS</p><p>Você sabia que o Geógrafo Brasileiro Milton Santos, é um dos intelectuais mais</p><p>premiados da América Latina? Recebeu em 1994 o Prêmio Internacional Vautrin Lud,</p><p>correspondente ao Nobel da Geografia. Pela primeira vez na história desse prêmio, ele</p><p>era outorgado a um geógrafo que não era nem francês nem norte-americano. Para mais</p><p>informações a respeito do professor Milton Santos, consulte o site oficial do mesmo,</p><p>administrado por sua família.</p><p>SANTOS, Nina. Site Milton Santos, 2011. Disponível em:</p><p>http://miltonsantos.com.br/site/. Acesso em: 26/04/2021.</p><p>REFLITA</p><p>‘’O geógrafo é, antes de tudo, um filósofo, e os filósofos são otimistas, porque diante</p><p>deles está a infinidade’’. Milton Santos.</p><p>CONTEÚDOS de Geografia Geral e do Brasil. Horizonte Geográfico, 2016. Disponível</p><p>em: https://horizontegeografico.wordpress.com/. Acesso em: 26/04/2021.</p><p>CONSIDERAÇÕES FINAIS</p><p>Prezada (o) Aluna (o) Vimos no Tópico 1 que as contribuições de Carl Ritter e</p><p>Alexandre Von Humboldt, asseguraram caminhos abertos para as discussões teóricas</p><p>acerca do pensamento geográfico, formulada por levantamentos experimentais e</p><p>contagens esgotantes sobre distintos lugares da Terra. Vimos, também, a importância</p><p>dos processos de sistematização do saber geográfico, de forma particular e autônoma,</p><p>para que o mesmo fosse considerado uma ciência específica e com métodos próprios.</p><p>Buscamos apresentar os primeiros passos da sistematização da ciência geográfica como</p><p>uma importante ferramenta de compreensão da realidade, cuja formulação e</p><p>desenvolvimento teórico-metodológico vem a contribuir para que a humanidade possa</p><p>entender a natureza e sua relação com ela, que pode vir a ser, tanto saudável e</p><p>respeitosa, quanto nefasta e destrutiva.</p><p>No tópico 2 demos continuidade aos estudos referentes a Geografia enquanto</p><p>ciência e campo investigativo, focando nas correntes teóricas em que o pensamento</p><p>geográfico foi construído, metodizado e elaborado cientificamente, pois para</p><p>compreendermos as epistemologias da Geografia, conhecemos o desenvolvimento das</p><p>principais correntes que surgiram após a sua legitimação enquanto ciência</p><p>sistematizada. Vimos que o pensamento crítico na Geografia significou principalmente</p><p>uma aproximação com os movimentos sociais, na busca da ampliação dos direitos civis</p><p>e humanos, expressa pelo acesso à educação gratuita e de qualidade, à moradia, à terra,</p><p>combate à pobreza e à violência ambiental, como o desmatamento, poluição, extinção</p><p>de organismos vivos pertencentes a fauna e a flora, entre outras temáticas.</p><p>Em seguida no Tópico 3 seguimos refletindo acerca da Geografia como ciência</p><p>de referência ao nos debruçarmos pelas tendências da Geografia mundial e, em</p><p>específico, da brasileira. Entendemos que o processo de desenvolvimento do</p><p>pensamento geográfico, ocorrido desde a Grécia Antiga, possibilitou o surgimento de</p><p>vertentes teóricas das quais são imprescindíveis para compreendermos a ciência</p><p>geográfica atualmente. Logo, a História tornou-se importante para pensarmos nos</p><p>nossos objetivos de estudo, pois nos auxilia a confluir passado e presente para que</p><p>possamos almejar direcionamentos à respeito da Geografia no futuro.</p><p>E por fim no tópico 4 conhecemos os conceitos fundamentais para a compreensão</p><p>do espaço, tendo em vista que o conceito de espaço se apresenta como uma das mais</p><p>importantes categorias analíticas para o estudo da Geografia. Tal estrutura conceitual é</p><p>o início de inúmeras produções científicas de autores que dedicaram seus estudos à</p><p>conceituação de espaço geográfico como uma categoria abrangente e democrática para</p><p>as pesquisas referentes à ciência geográfica. Compreendemos que as correntes do</p><p>pensamento geográfico representam conceitos e categorias antagônicas que, apesar de</p><p>convergirem ou se completarem em alguns aspectos teórico-metodológicos, tiveram sua</p><p>emergência em um determinado espaço e tempo a partir de uma elaboração sócio-</p><p>histórica específica.</p><p>Desejo que o estudo dessa unidade seja de grande</p><p>valia para sua jornada nessa</p><p>disciplina.</p><p>Bons estudos!</p><p>LEITURA COMPLEMENTAR</p><p>SANTOS, Boaventura de Sousa; MENESES, Maria Paula. (Orgs.) Epistemologias do Sul. São</p><p>Paulo; Editora Cortez. 2010. 637 páginas.</p><p>O sociólogo português Boaventura de Sousa Santos vem desde o início dos anos</p><p>noventa produzindo trabalhos significativos de análise sobre a estrutura e construção do</p><p>conhecimento moderno. Podemos afirmar que inventariando as diversas raízes que</p><p>organizaram e ainda sustentam as bases do conhecimento ocidental como culturalmente</p><p>homogêneo, vem instigando a comunidade científica a debater sobre a eficácia da</p><p>ciência na construção da realidade imediata das pessoas normais. O livro em questão,</p><p>“Epistemologias do Sul” é um desdobramento desta jornada intelectual e uma busca de</p><p>novas referências epistêmicas das ciências humanas.</p><p>LIVRO</p><p>• Título: Por uma Geografia Nova- Da Crítica da Geografia a uma Geografia Crítica</p><p>• Autor: Milton Santos</p><p>• Editora: Edusp</p><p>• Sinopse: Há cerca de vinte anos, quando foi publicada a primeira edição de Por Uma</p><p>Geografia Nova, a geografia vivia uma crise interna no mundo todo, impondo à ciência</p><p>a necessidade de discussões de ordem metodológica, conceitual e epistemológica. A</p><p>publicação deste livro contribuiu para a renovação crítica da geografia: A verdade,</p><p>porém, é que tudo está sujeito à lei do movimento e da renovação, inclusive as</p><p>ciências. O novo não se inventa, descobre-se , propõe o autor na introdução deste que</p><p>se tornou um livro clássico desde então. Milton Santos contribuiu com esta obra para a</p><p>superação dos impasses que se apresentavam, propondo uma análise acurada do</p><p>objeto da ciência: o espaço, mostrando a necessidade de torná-lo verdadeiramente</p><p>humano, relacionando-o com outras disciplinas afins.</p><p>FILME/VÍDEO</p><p>• Título: O Nome da Rosa</p><p>• Ano: 1986</p><p>• Sinopse: Em uma atuação impecável, o ator Sean Connery dá vida ao questionador</p><p>monge franciscano Guilherme de Baskerville, chamado às pressas a um mosteiro italiano</p><p>medieval para investigar vários casos de religiosos que tiveram mortes enigmáticas no</p><p>lugar. A trama baseada no livro do escritor Umberto Eco se desenrola em 1327, época</p><p>em que a Igreja Católica já exercia poderio absoluto em todo o continente europeu. As</p><p>mortes, é claro, foram tidas desde o princípio como obra do demônio. Mas a investigação</p><p>minuciosa conduzida por Guilherme acabou provando o óbvio: o mistério tinha uma</p><p>explicação muito mais racional (e controversa) do que aparentava. Por embasar seus</p><p>julgamentos em evidências e não em dogmas ou verdades reveladas, o frade é</p><p>representado como uma espécie de precursor do cientista moderno. O filme também</p><p>discute a relação de intolerância do pensamento religioso para com o científico.</p><p>•disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=s0cdAv4ZODE.</p><p>REFERÊNCIAS</p><p>CARLOS, Ana Fani Alessandri. O lugar no/do mundo. São Paulo: FFLCH, 2007.</p><p>CORRÊA, Roberto Lobato. Região e Organização Espacial. São Paulo: Editora Ática,</p><p>2003. 7ª ed. Série Princípios.</p><p>GODOY, Paulo R. Teixeira de. (Org.). História do pensamento geográfico e</p><p>epistemologia em Geografia. São Paulo: Cultura Acadêmica, 2010. Disponível em:</p><p>https://repositorio.unesp.br/bitstream/handle/11449/109157/ISBN9788579831270.pdf?s</p><p>equence=2&isAllowed=y. Acesso em: 20/02/2021.</p><p>LACOSTE, Yves. A geografia – isso serve, em primeiro lugar, para fazer a guerra.</p><p>Campinas: Papirus, 1988.</p><p>LEITÃO, Joyce Oliveira. O contexto histórico-filosófico da obra “Geografia</p><p>Comparada” de Carl Ritter. Dissertação (mestrado) – Universidade Estadual de</p><p>Campinas, Instituto de Geociências. Campinas, SP: [s.n.], 2017. Disponível em:</p><p>http://repositorio.unicamp.br/jspui/bitstream/REPOSIP/325519/1/Leitao_JoyceOliveira_</p><p>M.pdf. Acesso em: 21//02/2021.</p><p>MAMIGONIAN, Armen. Tendências atuais da Geografia. Geosul, Florianópolis, v. 14,</p><p>n. 28, p. 171-178, jul./dez. 1999. Disponível em:</p><p>https://periodicos.ufsc.br/index.php/geosul/article/view/15325. Acesso em: 25/02/2021.</p><p>MORAES, Antonio Carlos Robert. Geografia: pequena história crítica. 20. ed. São</p><p>Paulo: Anablume, 1994. Disponível em:</p><p>http://files.geografia19.webnode.com/200000003-</p><p>02b9b04359/Antonio_Carlos_Robert_Moraes_-_Geografia_-</p><p>_Pequena_Histori%20a_Critica_TEXTO_1_DE_FTP_GEOG_3%C2%BA_ANO_MARCI</p><p>ANA_(3).pdf. Acesso em: 21/02/2021.</p><p>SANTOS, Milton. A natureza do espaço – Técnica e tempo. Razão e emoção. São</p><p>Paulo: Hucitec, 1996.</p><p>SUERTEGARAY, Dirce Maria Antunes. Espaço Geográfico uno e múltiplo. Scripta</p><p>Nova – Revista Electrónica de Geografía Y Ciencias Sociales, Barcelona, v. 5, n.</p><p>93, 2001. Disponível em: http://www.ub.edu/geocrit/sn-93.htm. Acesso em: 25/02/2021.</p><p>TAVARES, Manuel. Epistemologias do Sul. Rev. Lusófona de Educação, Lisboa, n.</p><p>13, p. 183-189, 2009. Disponível em:</p><p>http://www.scielo.mec.pt/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S164572502009000100012.</p><p>Acesso em: 18/02/2021.</p><p>VIEIRA, Euripedes Falcão. A Geografia atual. Revista IHGRGS – Instituto Histórico e</p><p>Geográfico do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, n. 148, p. 73-80. 2013. Disponível</p><p>em: https://seer.ufrgs.br/revistaihgrgs/article/view/57546. Acesso em: 25/02/2021.</p><p>UNIDADE II</p><p>NATUREZA E RELAÇÃO HUMANA</p><p>Professora Esp. Karitta da Silva Lopes</p><p>Plano de Estudo:</p><p>• Ação humana na natureza</p><p>• Impacto da sociedade sobre a natureza.</p><p>• Impacto da natureza sobre a sociedade.</p><p>• Técnicas sustentáveis.</p><p>Objetivos de Aprendizagem:</p><p>• Contextualizar a ação humana na natureza a partir das transformações históricas</p><p>ao longo do tempo</p><p>• Compreender os impactos da sociedade sobre a natureza e da natureza sobre a</p><p>sociedade</p><p>• Estabelecer a importância da adesão de técnicas sustentáveis para a preservação</p><p>ambiental</p><p>INTRODUÇÃO</p><p>Prezada(o) Aluna(o), seja bem vinda(o) a disciplina “Categorias e conceitos</p><p>da Geografia”. É com grande satisfação e estima que te convido a compartilhar</p><p>conhecimentos acerca das bases teóricas do pensamento geográfico.</p><p>O presente material foi desenvolvido para introduzi-la(o) ao horizonte das</p><p>discussões à respeito da Geografia enquanto ciência, portanto, é destinado à</p><p>estudantes e pesquisadores interessadas(os) em compreender o processo</p><p>histórico de constituição da ciência geográfica, cujo o objetivo é pensar</p><p>epistemologicamente o espaço que vivemos, suas condições naturais,</p><p>modificações territoriais e relações com as práticas e intervenções humanas.</p><p>Durante a trajetória escolar, você certamente cursou Geografia e teve</p><p>contato com diversos conceitos específicos dessa disciplina, como território,</p><p>espaço, lugar e região. A apresentação que você tem em mãos (ou à vista por</p><p>meio de arquivos digitais) pretende aprofundar esses conhecimentos, obtidos no</p><p>seu percurso educacional no decorrer do Ensino Básico, à respeito da formação</p><p>do pensamento geográfico e sua consolidação como ciência pertencente às</p><p>Humanidades.</p><p>A Unidade 2 “Natureza e Relação Humana” é composta por quatro tópicos</p><p>que correspondem a um plano de estudo estruturado para que você possa obter</p><p>conhecimento acerca da ação humana na natureza, do impacto da sociedade</p><p>sobre a natureza, do impacto da natureza sobre a sociedade e das técnicas</p><p>sustentáveis.</p><p>Almejamos que esta unidade possa contribuir com sua aprendizagem, com</p><p>a expansão do seu pensamento crítico e com o aprimoramento de suas</p><p>habilidades cognitivas e investigativas em Geografia.</p><p>Bons estudos!</p><p>1 AÇÃO HUMANA NA NATUREZA</p><p>Imagem do Tópico: https://www.shutterstock.com/pt/image-illustration/silhouette-farmer-raking-</p><p>earth-hoe-philosophical-1721503573</p><p>O ser humano (taxonomicamente nomeado como Homo Sapiens), assim como as</p><p>demais espécies animais, atua sobre a natureza com o objetivo de satisfazer suas</p><p>necessidades de sobrevivência, buscando abrigo, proteção e alimentos para si e seu</p><p>grupo. Contudo, como a única</p>

Mais conteúdos dessa disciplina