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<p>Memento Legislação Especial CFP 2023</p><p>Material de apoio para a prova de Legislação Especial do 1º Curso de</p><p>Formação de Praça da 3ª EsFAEP 2022/2023.</p><p>Instrutor: Sd. Godoi</p><p>Lei 9099/95 -JECRIM</p><p>Estabelece a criação e competencia dos Juizados Especiais Criminais- JECRIM.</p><p>IMPO: Infração de Menor Potencial Ofensivo. São assim considerados aqueles crimes cuja pena máxima</p><p>não ultrapassem de 2 anos e as contarvenções penais. São de competencia do JECRIM para se julgar e</p><p>executar.</p><p>Ocorrendo IMPO, deve-se ater quanto ao encaminhamento ao Termo Circunstanciado (TCIP), onde após</p><p>o infrator assinar o termo de compromisso de comparecimento, não se imporá prisão em flagrante.</p><p>Após a confecção do TCIP, ocorrerá a Audiencia Preliminar que visa satisfazer os objetivos principais do</p><p>JECRIM: a composição dos danos civis (conciliação) através da qual busca-se a restituição/reparação do</p><p>prejuízo/dano da vítima, e a aplicação de pena não privativa de liberdade: a pena restritiva de direito.</p><p>Ocorrendo a composição dos danos civis, o acordo por eles assumido será homologado pelo juiz, sendo</p><p>válido como título executivo judicial a ser executado na esfera cível. Também advém do acordo entre as</p><p>partes a decretação da extinção da punibilidade do autor dos fatos bem como ocorrerá a renúncia do</p><p>direito de queixa ou representação por parte da vítima. Aceitando e cumpridas com as medidas</p><p>impostas, o autor dos fatos não assume necessariamente ter cometido o crime, nem tampouco perde a</p><p>sua condição de réu primário, ele apenas se submete as prévias sanções que lhe seriam impostas caso</p><p>condenado fosse, aqui busca-se a efetiva aplicação dos princípios do JECRIM: a simplicidade, a economia</p><p>processual e celeridade, a informalidade e oralidade do processo, buscando sempre que possível a</p><p>conciliação e transação penal.</p><p>Não sendo possível a conciliação entre as partes, ou sendo o Estado a vítima, passará desde logo a</p><p>apreciação por parte do Ministério Público (MP) da possibilidade de oferecimento da Transação Penal</p><p>ao autor dos fatos. Não sendo possível a transação penal, ou o autor dos fatos não a aceitando, o MP</p><p>passará ao oferecimento da Denuncia.</p><p>Após o oferecimento da Denúncia, o autor terá a oportunidade de defender-se dos fatos imputados a</p><p>ele, o que será apreciado pelo juiz antes do recebimento da Denúncia. Não sendo caso de arquivamento</p><p>com extinção do processo, novamente será ofericida a oportunidade de composição civil dos danos</p><p>entre o autor dos fatos e a vítima.</p><p>Caso novamente não seja possível a conciliação, o MP deverá oferecer ao autor a Suspensão Condicional</p><p>do Processo (SUSPRO ou SURIS PROCESSUAL), instituto despenalizador/desencarcerador pelo qual se</p><p>oferece a oportunidade do autor dos fatos submeter-se a condições préviamente ajustadas com o MP,</p><p>ficando sob período de provas, ao fim do qual deverá requerer junto ao juiz a decretação da extinção da</p><p>punibilidade, continuando a ser réu primário.</p><p>A suspensão condicional do processo serve tanto nessa fase após o oferecimento da denúncia com</p><p>relação às IMPO, quanto aos ditos crimes de médio potencial ofensivo: aqueles crimes cuja pena</p><p>MÍNIMA não ultrapasse de 1 ano. Portanto, SUSPRO serve para aqueles crimes decorrentes do JECRIM</p><p>quanto para crimes de competência do Juizado Comum.</p><p>FLUXOGRAMA DO PROCESSAMENTE DE CRIMES PERANTE O JECRIM</p><p>↗ COMPOSIÇÃO CIVIL DOS DANOS (CONCILIAÇÃO)</p><p>IMPO → TCIP → AUDIENCIA PRELIMINAR → TRANSAÇÃO PENAL</p><p>↘ DENUNCIA</p><p>↘ SUSPRO</p><p>HIPÓTESE DE CABIMENTO:</p><p>Transação penal→ IMPO</p><p>SUSPRO → IMPO ou crimes cuja pena mínima não ultrapassem de 1 ano.</p><p>ANOTAÇÕES:</p><p>LEI DE DROGAS</p><p>A lei 11343/06 traz, entre outras coisas, os crimes relativos ao uso e ao tráfico de drogas.</p><p>O crime de porte de drogas para consumo pessoal, previsto no art. 28 carece de atenção especial por</p><p>parte do agente policial para fins de sua caracterização, pois há um limiar que o separa das demais</p><p>condutas tidas como crime de tráfico de drogas.</p><p>Drogas para consumo pessoal</p><p>O art. 28 traz em seu § 2º que o juiz para decidir se a droga se destina ao consumo pessoal deverá</p><p>observar alguns pontos, a saber:</p><p>→Natureza e quantidade da substância apreendida;</p><p>→Local e condições em que se desenvolveu a ação;</p><p>→Circunstâncias sociais e pessoais, bem como</p><p>→A conduta e antecedentes do agente.</p><p>Esse é o chamado critério judicial, o qual deverá ser também observado pelo policial na hora da</p><p>abordagem a pessoa que traga consigo substâncias tidas como drogas ilícitas, para melhor</p><p>enquadramento da conduta delitiva como porte de drogas para consumo pessoal ou tráfico de drogas.</p><p>O crime de porte de drogas para consumo pessoal será de competência do JECRIM, sendo que o usuário</p><p>deverá ser encaminhado para lavratura de TCIP. Contudo, mesmo que se recuse a assinar o termo de</p><p>compromisso de comparecimento, não se imporá prisão em flagrante ao usuário de drogas, por força do</p><p>art. 48 e parágrafos da Lei de Drogas.</p><p>Tráfico de drogas</p><p>Por força de jurisprudência, as condutas previstas nos artigos 33 e 33 § 1º; 34; 35;36 e 37 da Lei de</p><p>Drogas são tidos como crime de tráfico de drogas, mesmo que guardem diferenças entre si. É, portanto,</p><p>errônea a ideia de que apenas o contido no art. 33 e seus vários verbos seria tráfico de drogas.</p><p>Associação para o tráfico</p><p>A Lei de Drogas trás em seu art. 35 a conduta tipificada como associação para o tráfico, onde 2 ou mais</p><p>pessoas associam-se, reiteradamente ou não para fim de praticar as condutas descritas no art. 33 caput</p><p>e § 1º e no art. 34. Contudo, trata-se de concurso necessário de agentes, onde ambos têm de ter o dolo</p><p>específico da associação voltada para a conduta criminosa, não sendo suficiente para a caracterização</p><p>da associação que apenas estejam no mesmo local, há de ocorrer um liame subjetivo entre ambos: de</p><p>ter sua conduta voltada à prática do crime de tráfico de drogas, ou seja, os agentes tem de agir em</p><p>conluio/concurso de agentes para o tráfico de drogas.</p><p>O parágrafo único do art. 35 diz, ainda, que se punirá com o mesmo rigor a conduta prevista no art. 36</p><p>de financiar ou custear reiteradamente o tráfico de drogas.</p><p>Tráfico privilegiado</p><p>Ainda com relação ao crime de tráfico de drogas, existe o chamado (erroneamente) “tráfico</p><p>privilegiado”. Trata-se de uma causa de diminuição de pena que é prevista no art. 33 § 4º da Lei de</p><p>Drogas: é a previsão de que para os crimes previstos no caput e no § 1º do art. 33 as penas poderão ser</p><p>diminuídas de 1/6 a 2/3 desde que o agente seja primário, de bons antecedentes, não se dedique a</p><p>atividades criminosas e nem integre organização criminosa.</p><p>Tráfico culposo</p><p>Existe essa modalidade da conduta, o qual está descrito no art. 38 e se aplica àqueles profissionais que</p><p>prescrevem ou ministrem, culposamente, sem que delas necessitem ou em doses excessivas em</p><p>desacordo com determinação legal ou regulamentar. Percebe-se, contudo, que não se trata do crime de</p><p>tráfico de drogas propriamente dito, já que as drogas aqui ministradas ou prescritas se tratam de</p><p>medicamentos.</p><p>Causas de aumento de pena</p><p>Outro ponto relevante da Lei de Drogas é a existência das causas de aumento de pena, previstas no art.</p><p>40 e incisos, as quais se aplicam aos crimes descritos do art. 33 ao art. 37. Os índices de aumento de</p><p>pena se dão na faixa de 1/6 a 2/3.</p><p>O inciso I faz referência ao tráfico internacional, quando a natureza, a procedência da substância e as</p><p>circunstâncias dos fatos evidenciarem a transnacionalidade do delito;</p><p>O inciso II implica em aumento de</p><p>pena àquele que comete o crime prevalecendo-se de função pública,</p><p>no desempenho de missão de educação, poder familiar ou guarda ou vigilância;</p><p>O inciso III por sua vez elenca locais e suas dependências/imediações onde a ocorrência do tráfico de</p><p>drogas será mais severamente punido: estabelecimentos prisionais, escolas, hospitais, sedes de</p><p>entidades estudantis, sociais, culturais, recreativas, esportivas (...) unidades policiais, militares,</p><p>transporte público(...);</p><p>O inciso IV prevê a circunstância em que o crime é cometido com emprego de violência ou grave</p><p>ameaça, assim como com o emprego de arma de fogo ou outro meio de intimidação coletivo ou difuso;</p><p>O inciso V faz referencia a situação de tráfico interestadual;</p><p>O inciso VI busca punir mais severamente as condutas que envolva ou vise envolver a criança e</p><p>adolescente ou pessoa em situação de diminuída capacidade de entendimento ou autodeterminação</p><p>no/pelo tráfico de drogas;</p><p>Por fim, o inciso VII busca uma maior punição ao agente que custeia ou financia do tráfico de drogas.</p><p>Causa de diminuição de pena</p><p>O art. 41 traz uma causa de diminuição de pena para os casos em que o indiciado ou acusado colabore</p><p>voluntariamente com as investigações e com o processo criminal, de maneira a identificar os coautores</p><p>ou partícipes e na recuperação total ou parcial do produto do crime. Essa diminuição se dá em frações</p><p>que vão de 1/6 a 2/3 da pena imposta após a condenação.</p><p>Concurso material de crimes</p><p>Alguns crimes relacionados a mercância de drogas, terão suas penas somadas. É o chamado concurso</p><p>material de crimes. Ex:</p><p>Art. 33 e art. 35. Tráfico de drogas + associação para o tráfico.</p><p>Art. 35 e art. 36. Associação para o tráfico + financiar ou custear o tráfico.</p><p>Diferente do concurso formal de crimes, onde há um acréscimo de pena aos diversos crimes praticados</p><p>mediante uma só ação na forma de frações de pena que vão de 1/6 até metade, no concurso material,</p><p>como há designíos autônomos de vontade, as penas resultantes dos crimes cometidos serão sempre</p><p>somadas, mesmo que ambos os crimes hajam sido cometidos no mesmo momento e circunstâncias.</p><p>ANOTACÕES:</p><p>ESTATUTO DO DESARMAMENTO</p><p>Lei 10826 de 2003</p><p>As armas de fogo são classificadas, basicamente em:</p><p>→ de uso permitido</p><p>→ de uso restrito</p><p>→ de uso proibido</p><p>Pelo critério “visual/tátil” passamos a considerar, grosso modo, as armas de fogo da seguinte maneira:</p><p>→Uso permitido: semiautomáticas ou de repetição, de porte ou portáteis de alma lisa (não se excluindo</p><p>as armas portáteis de alma raiada, observando critérios técnicos a respeito de sua energia cinética).</p><p>→Uso restrito: automáticas de qualquer tipo ou calibre, ou semiautomáticas ou de repetição que sejam</p><p>não portáteis.</p><p>→Uso proibido: armas dissimuladas ou assim tidas em tratados internacionais do qual o Brasil seja</p><p>signatário.</p><p>Pelo critério técnico, as armas de fogo devem ser analisadas para além do critério visual/tátil,</p><p>observando-se ainda características quanto a energia cinética resultante do disparo que, com seu calibre</p><p>nominal, com a utilização de munição comum, não atinja, na saída do cano de prova, energia cinética</p><p>superior aos limites estabelecidos pelo Dec. 10627 de 2021. Este critério só pode ser aferido através de</p><p>perícia/testes sobre o disparo efetuado pela arma ou através da consulta de manuais técnicos.</p><p>Os limites estabelecidos são: para armas de fogo de uso permitido a energia cinética com a utilização de</p><p>munição comum e calibre nominal não deve ultrapassar de 1200 libras-pé ou 1620 joules. Para energia</p><p>cinética obtida acima desses valores, a arma seria considerada de uso restrito.</p><p>Sabe-se, por exemplo, que algumas armas podem suscitar dúvidas quanto a serem de uso permitido ou</p><p>restrito, principalmente quando se observa um calibre nominal mais expressivo, a exemplo de um fuzil</p><p>de calibre 5,56 ou 762. A dúvida surge geralmente com relação a armas portáteis de alma raiada (fuzis,</p><p>carabinas, rifles...) pois somente através do critério visual, por vezes será difícil enquadrá-la como de</p><p>uso permitido ou restrito, visto que há de ser levado em consideração também o critério técnico.</p><p>Como exemplo de armas de fogo de uso permitido, observando-se os critérios do Dec. 10627 de 2021</p><p>até a presente data, podemos elencar:</p><p>Revolver cal. .22, 32, .38, .357.</p><p>Pistola semiautomática cal. 9mm, .380</p><p>Rifle cal. .22</p><p>Espingarda Gauge 12, cal .22, .36, .38</p><p>Carabina Imbel IA2 cal. 5,56 (1015 joules de energia cinética), desde que seja semiautomático o regime</p><p>de tiro.</p><p>Também é possível dar exemplos de arma de fogo de uso restrito:</p><p>Pistola automática, de qualquer calibre</p><p>Carabina/fuzil de assalto Imbel IA2 cal. 5,56 com seletor de tiro que tornem apta ao regime automático</p><p>Carabina Imbel IA2 cal. 762 (energia cinética de 2076 Joules)</p><p>É necessário saber fazer a correta classificação da arma de fogo apreendida, visto que a depender desse</p><p>critério, desde logo será possível saber a pena aplicável, assim como as causas de aumento de pena para</p><p>os crimes de comércio ilegal e tráfico internacional de arma de fogo, por exemplo, o que pode ser</p><p>relatado no boletim de ocorrências, para servir de subsídio tanto para o melhor enquadramento da</p><p>prisão do autor, quanto para o Ministério Público no momento do oferecimento da Denúncia.</p><p>Sabendo as penas aplicáveis, também será possível uma melhor orientação da pessoa envolvida ou de</p><p>seus familiares, com relação a possibilidade de cabimento de fiança ou não, assim como de haver a</p><p>possibilidade de a fiança ser arbitrada por delegado ou somente pelo juiz.</p><p>Este conhecimento além de fazer parte do profissionalismo exigido do Policial Militar, preveni possíveis</p><p>desdobramentos futuros indesejáveis, principalmente com relação a crimes cometidos com abuso de</p><p>autoridade (exemplo: Art. 29 da Lei de abuso de autoridade: Prestar informação falsa sobre</p><p>procedimento judicial, policial...).</p><p>Posse ou porte?</p><p>A posse de arma de fogo pressupõe ter uma arma de fogo devidamente registrada, ou seja, de maneira</p><p>“regularizada/regulamentada” a ser utilizada dentro da residência, local de trabalho ou empresa, desde</p><p>que o agente seja o responsável legal pela empresa.</p><p>Percebe-se assim que há o chamado critério geográfico que busca limitar/restringir a movimentação e o</p><p>trânsito da arma de fogo registrada.</p><p>A posse irregular de arma de fogo, elencada como crime no art. 12 da Lei 10826 de 2003, criminaliza a</p><p>conduta de possuir uma arma de fogo de uso permitido na residência, no local de trabalho ou na</p><p>empresa de que o autor é responsável legal, ou seja, possuir nestes locais, uma arma de fogo sem o</p><p>devido registro. Deve-se levar em conta que o registro da arma de fogo é personalíssimo, não se</p><p>estendendo este direito a outras pessoas.</p><p>O porte de arma de fogo, pressupõe a autorização para portar armas de fogo que pode ser a nível</p><p>estadual ou nacional. A autorização para porte de armas de fogo acaba por afastar/mitigar o critério</p><p>geográfico. Obviamente que junto com o documento que autoriza o porte de armas de fogo, a arma de</p><p>fogo a ser utilizada deve ser devidamente registrada ou acautelada, quando arma funcional (arma da</p><p>Polícia Militar cautelada para serviço).</p><p>O porte ilegal de arma de fogo de uso permitido, tipificado no art. 14 do Estatuto do Desarmamento</p><p>criminaliza a conduta de portar arma de fogo fora das condições elencadas no art. 12, ou seja, estar de</p><p>posse ou portar uma arma de fogo em desacordo com o critério geográfico.</p><p>Há de se ter especial cuidado para não fazer interpretação restritiva do crime, pois o referido artigo traz</p><p>vários verbos a serem tipificados como porte ilegal de arma de fogo de uso permitido que não se</p><p>resume unicamente a trazer a arma de fogo junto ao corpo, ou seja, o efetivo “porte” da arma na</p><p>cintura, o que deu a denominação popular pela qual o crime é conhecido.</p><p>Além da arma de fogo em si,</p><p>também caracteriza o crime o porte de munição ou acessório de arma de fogo.</p><p>São também condutas tipificadas como porte ilegal de arma de fogo de uso permitido, dentre outras:</p><p>→ transportar, ceder, emprestar, remeter, manter sob sua guarda, ocultar arma de fogo.</p><p>Posse/porte de arma de fogo de uso restrito (art. 16)</p><p>Quando no cometimento dos crimes do art. 12 e 14, a arma de fogo for de uso restrito, haverá uma</p><p>nova tipificação penal prevista no art. 16 que pune de maneira mais dura a posse ou porte de arma de</p><p>fogo de uso restrito.</p><p>Qual a diferença então?</p><p>A diferença básica se dá com relação a pena que agora será de reclusão de 3 a 6 anos. Implica que a</p><p>transação penal que era cabível ao crime do art. 12 deixa de ser possível, uma vez que a pena mínima</p><p>extrapolou de 1 ano. Também, com relação aos crimes do art. 12 e 14 era possível que após a prisão em</p><p>flagrante já fosse estipulada a fiança, visto serem ambos crimes com pena máxima que não</p><p>extrapolavam o teto máximo de competência do delegado de polícia para arbitrar fiança, que é de 4</p><p>anos. Portanto, nesse caso em que a pena máxima extrapola de 4 anos, será competente para deliberar</p><p>sobre a fiança, apenas o juiz.</p><p>Outra observação importante se dá quanto ao § 1º do art. 16, o qual prevê circunstâncias/condutas que,</p><p>ocorrendo, o agente irá incorrer nas mesmas penas, a saber:</p><p>→ suprimir ou alterar marca, numeração ou qualquer sinal identificador de arma de fogo ou artefato;</p><p>→ modificar características de arma de fogo, tornando-a de uso proibido ou restrito ou para fins de</p><p>dificultar ou induzir a erro autoridade policial, perito ou juiz;</p><p>→ portar/possuir ou transportar ou fornecer arma de fogo com numeração, marca ou sinal de</p><p>identificação raspado;</p><p>→ produzir, recarregar ou reciclar, sem autorização legal, ou adulterar munição ou explosivo.</p><p>Ainda, o § 2º do art. 16 trás uma qualificadora ao caput do artigo e ao seu § 1º, alterando a pena para os</p><p>índices de 4 a 12 anos de reclusão caso as condutas recaiam sobre arma de fogo de uso proibido.</p><p>Causas de aumento de pena</p><p>Os artigos 19 e 20 trazem causas de aumento de pena relativas ao objeto sobre qual recai o crime e aos</p><p>agentes que cometem os crimes. O aumento de pena em qualquer um dos casos será de ½ da pena a ser</p><p>imposta ao condenado.</p><p>Assim, nos crimes de comércio ilegal de arma de fogo de que trata o art. 17 e no crime de tráfico</p><p>internacional de arma de fogo do art. 18, a pena será aumentada de metade se a arma de fogo,</p><p>acessório ou munição for de uso proibido ou restrito.</p><p>Já com relação ao agente criminoso, a pena será aumentada de metade se nos crimes de que tratam os</p><p>artigos 14, 15, 16, 17 e 18, o agente for integrante dos órgãos e empresas referidas nos artigos 6º, 7º e</p><p>8º do Estatuto do Desarmamento. Destaca-se aqui os integrantes do art. 6º que faz referência aos</p><p>integrantes da das forças armadas, agentes de segurança pública referidos no art. 144 da CF e guardas</p><p>municipais.</p><p>ANOTAÇÕES:</p><p>LEI DE ABUSO DE AUTORIDADE</p><p>LEI 13869 DE 2019</p><p>A Lei de Abuso de Autoridade traz critérios subjetivos especiais para as condutas nela tipificadas como</p><p>crime. É o chamado especial fim de agir.</p><p>Consiste em um dolo específico, o qual afasta a possibilidade de o crime ocorrer na modalidade culposa.</p><p>Contudo, subsiste a modalidade tentada.</p><p>O especial fim de agir/dolo específico pode ser observado quando da existência do cometimento de</p><p>uma conduta com a finalidade específica de:</p><p>→prejudicar alguém ou</p><p>→beneficiar a si próprio/terceiro ou</p><p>→praticar a conduta por mero capricho ou satisfação pessoal</p><p>Quando não for possível observar esses três quesitos na conduta perpetrada pelo agente público, há de</p><p>se reconhecer a atipicidade da conduta. Nem mesmo na modalidade culposa o crime poderá ser punido,</p><p>visto que o dolo específico afasta essa possibilidade. Persiste, porém, a modalidade tentada do crime.</p><p>É sujeito ativo do crime de abuso de autoridade qualquer agente público, servidor ou não, da</p><p>administração direta, indireta ou fundacional de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do</p><p>Distrito Federal, dos Municípios e de Território.</p><p>Reputa-se agente público, para os efeitos desta Lei, todo aquele que exerce, ainda que transitoriamente</p><p>ou sem remuneração, por eleição, nomeação, designação, contratação ou qualquer outra forma de</p><p>investidura ou vínculo, mandato, cargo, emprego ou função de qualquer dos Poderes em todas as</p><p>esferas.</p><p>A lei de Abuso de Autoridade traz características próprias diferentes das demais leis. Seu objetivo é</p><p>cercear a atuação descabida e arbitraria do agente público, coibindo ilegalidades.</p><p>O agente público, no desempenho de sua atividade fim deverá ter sempre como norte de sua atuação</p><p>os princípios da administração pública: Legalidade, Imparcialidade, Moralidade, Publicidade e Eficiência,</p><p>visto serem estes os princípios dos quais decorrem tantos outros.</p><p>Dentre os agentes públicos, uma classe deles desenvolve atividade sui generis: são os Policiais. Os</p><p>agentes policiais constantemente deparam-se com situações em que por força de seu dever</p><p>constitucional acabam por cercear (mesmo que momentaneamente) e garantir direitos constitucionais</p><p>das demais pessoas. Necessário então, que para essa classe, no desempenho de sua atividade rotineira,</p><p>muito mais do que observar os princípios gerais da administração pública, diversos outros</p><p>princípios/critérios deverão ser observados/atendidos, inclusive princípios basilares do Direito Penal e</p><p>Processual Penal, oriundos, muitas vezes de direitos e garantias individuais elencados na própria</p><p>Constituição Federal, a exemplo da inviolabilidade de domicílio, do direito ao devido processo legal,</p><p>direito de imagem, direito de não fazer aquilo a que a Lei não imponha como dever, de não produzir</p><p>provas contra si mesmo, etc. Essa premissa de respeito às garantias constitucionais pode ser observada</p><p>nas diversas condutas tipificadas como crime de abuso de autoridade, podendo ser afirmado que tal Lei</p><p>busca frear o Estado frente o particular.</p><p>Por força do seu art. 39, a própria Lei de Abuso de Autoridade faz referência a possibilidade de aplicação</p><p>da Lei 9099/95, aplicando-se no que couber institutos descarcerizadores a exemplo da Transação Penal</p><p>e Suspenção Condicional do Processo. Dificilmente se visualiza a hipótese de ocorrer conciliação entre</p><p>autor e vítima, já que o cerne da Lei de Abuso de Autoridade é a punição do agente público e não a</p><p>simples reparação do dano sofrido pela vítima, o quê em muitos casos nem sequer seria possível de</p><p>mensurar/vislumbrar em um eventual dano pecuniário. Também há de se levar em conta que os crimes</p><p>de abuso de autoridade são de Ação Penal Pública Incondicionada, onde não há necessidade da vítima</p><p>se fazer presente na audiência preliminar, momento que será ofertada a transação penal/SUSPRO ao</p><p>autor dos fatos.</p><p>Da análise dos crimes e das penas cominadas, percebe-se que a maioria, os crimes de abuso de</p><p>autoridade poderão ser julgados junto ao JECRIM, o qual tem competência para julgar crimes com pena</p><p>máxima de até 2 anos. Embora existam crimes de abuso de autoridade que extrapolem a competência</p><p>do JECRIM pelo critério da pena aplicada ser superior a 2 anos, mesmo assim pode ser caso de</p><p>oferecimento da Suspenção Condicional do Processo (instituto desencarcerador previsto na Lei</p><p>9099/95) pelo critério da pena mínima cominada geralmente não ultrapassar de 1 ano.</p><p>Efeitos da condenação</p><p>Os efeitos da condenação, previstos no art. 4º da Lei de Abuso de Autoridade são:</p><p>→ tornar certa a obrigação de indenizar o dano causado pelo crime</p><p>→ inabilitação para o exercício do cargo, mandato ou função pública, pelo período de 1 a 5 anos;</p><p>→ perda do cargo, mandato ou função pública</p><p>Relevante saber que a inabilitação e a perda do cargo serão condicionadas a reincidência específica em</p><p>crime de abuso de autoridade, não sendo ainda efeitos automáticos da condenação pois ficam</p><p>condicionados a declaração motivada pelo juiz na sentença. Temos assim dois critérios a serem</p><p>atendidos para efeitos da condenação de perda da função pública: reincidência específica e ser</p><p>devidamente declarada a motivação para tanto em sentença proferida pelo juiz.</p><p>Penas restritivas de Direitos</p><p>A Lei 9099/95 tem em seu escopo a aplicação de penas não restritivas de liberdade, ou seja, a aplicação</p><p>de penas restritivas de direitos. Porém, mesmo sendo um dos objetivos do JECRIM, a lei dos juizados</p><p>especiais busca no Código Penal em seu art. 43 as penas restritivas de direitos a serem impostas ao</p><p>agente que aceite a transação penal, ou seja, vai buscar em outro diploma legal as penas restritivas de</p><p>direito a serem impostas. Já em seu art. 88 § 1º, a Lei 9099/95 traz as condições a que o agente ficará</p><p>submetido caso aceite se submeter a suspensão condicional do processo.</p><p>Por outro lado, a Lei de Abuso de Autoridade trás em seu art. 5º as suas próprias penas restritivas de</p><p>direito, não recorrendo ao Código Penal como faz a Lei 9099/95. Dessa maneira, caso o agente que</p><p>comete crime de abuso de autoridade faça jus a transação penal, a ele serão impostas as seguintes</p><p>penas restritivas de direitos, próprias da Lei de abuso de autoridade:</p><p>→prestação de serviços a comunidade ou entidades públicas;</p><p>→ suspensão do exercício do cargo, função ou mandato pelo prazo de 1 a 6 meses, com a perda dos</p><p>vencimentos e vantagens.</p><p>Ambas as penas podem ser aplicadas de maneira autônoma ou cumulativamente.</p><p>De outra maneira, sendo causa oferecimento de suspensão do processo ao agente, este ficará sujeito as</p><p>medidas que prevê a Lei 9099/95 em seu art. 89:</p><p>→ reparação do dano, salvo impossibilidade de fazê-lo;</p><p>→ proibição de frequentar determinados lugares;</p><p>→ proibição de ausentar-se da comarca onde reside, sem autorização do juiz;</p><p>→ comparecimento pessoal e obrigatório a juízo, mensalmente para informar e justificar suas</p><p>atividades.</p><p>Deve-se levar em conta, ainda, o § 2º do art. 89 que preceitua que o juiz poderá especificar outras</p><p>condições a que fica subordinada a suspensão condicional do processo, desde que adequadas ao fato e</p><p>a situação pessoal do acusado. Fica assim evidente que além das medidas aqui elencadas, o juiz também</p><p>poderá aplicar as penas restritivas de direito próprias da Lei de Abuso de Autoridade, elencadas em seu</p><p>art. 5º.</p><p>A justificativa para a Lei de Abuso de Autoridade trazer suas próprias penas restritivas de liberdade a</p><p>serem aplicadas tanto para a transação penal quanto para a suspensão condicional do processo se dá</p><p>pela interpretação da lei penal, que consiste em extrair da norma penal seu exato alcance e significado.</p><p>Para tanto deve ser considerado que o cerne da Lei de Abuso de Autoridade é justamente coibir o abuso</p><p>do poder que o agente possa vir a cometer a pretexto de estar no exercício de sua função. Assim não</p><p>seria suficiente para reprovação de tal conduta a aplicação das penas restritivas de direito de que trata o</p><p>Código Penal ou as medidas de que trata a Lei dos Juizados Especiais, foi necessário trazer penas</p><p>restritivas de direito próprias para os crimes próprios elencados na Lei de Abuso de Autoridade.</p><p>Em síntese, em comparação com a Lei 9099/95, a Lei de Abuso de Autoridade inovou, trazendo suas</p><p>próprias penas restritivas de direito e efeitos da condenação, impondo ao agente público que incorre</p><p>nos crimes por ela elencados, a certeza de perda pecuniária e o risco da perda do cargo caso reincida em</p><p>crimes de abuso de autoridade, por força de seus artigos 4º, e art. 5º.</p><p>Deve-se levar em consideração também, que, existem algumas condutas que são tidas como crime no</p><p>Código Penal e que também são criminalizadas pela Lei de abuso de autoridade, a exemplo da conduta</p><p>de invadir ou adentrar clandestina ou astuciosamente, ou a revelia da vontade do ocupante imóvel</p><p>alheio. Tal conduta é prevista tanto no Código Penal (quando o crime for cometido por pessoa comum)</p><p>quanto na Lei de Abuso de Autoridade (quando o autor for agente público).</p><p>Percebe-se que para essas condutas, quando tuteladas pela Lei de abuso de autoridade, trata-se de</p><p>crimes próprios, só respondendo por eles o agente público. Nesses casos, a pena será mais severa e o</p><p>agente ficará sujeito as penas restritivas de liberdade próprias da lei especial, assim como os efeitos da</p><p>condenação nela prescritos, por mais que o processo se dê no JECRIM.</p><p>Daí deve-se dispender atenção especial quanto as condutas perpetradas por funcionário/agente</p><p>público, pois geralmente sua conduta criminosa estará contida na Lei de Abuso de Autoridade e não no</p><p>Código Penal. Obviamente que aquela Lei punirá de maneira mais “pesada” as condutas cometidas pelo</p><p>agente público, visto ser ele um braço do Estado ante o cidadão comum.</p><p>ANOTAÇÕES:</p>