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A Origem da Espécie Humana - Richard Leakey pdf

Livro sobre a origem da espécie humana, por Richard Leakey. Contém capítulos sobre primeiros humanos, família numerosa, tipos humanos, caça, origem dos modernos, arte, linguagem, mente e bibliografia; prefácio narra a descoberta de um crânio de Australopithecus boisei no lago Turkana.

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<p>A ORIGEM DA ESPÉCIE HUMANAA ORIGEM DA ESPÉCIE HUMANA</p><p>Richard Leakey</p><p>Tradução de</p><p>ALEXANDRE TORT</p><p>Rio de Janeiro — 1997</p><p>Título srcinal THE ORIGIN OF HUMANKIND</p><p>Copyright© 1994 by Richard Leakey e Orion Publishing Group Ltd.</p><p>“O nome e a marca The Science Masters foram publicados com a</p><p>autorização de seu proprietário John Brockman Associates, Inc.”</p><p>Direitos mundiais para a língua portuguesa reservados com exclusividade à</p><p>EDITORA ROCCO LTDA.</p><p>Rua Rodrigo Silva, 26 — 5º andar</p><p>20011-040 — Rio de Janeiro, RJ</p><p>Tel.: 507-2000 — Fax: 507-2244</p><p>Printed in Brasil - Impresso no Brasil</p><p>Revisão técnica</p><p>RUI CERQUEIRA</p><p>(Instituto de Biologia da UFRJ)</p><p>CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte Sindicato Nacional dos</p><p>Editores de Livros, RJ.</p><p>Leakey, Richard E.</p><p>A srcem da espécie humana / Richard Leakey;</p><p>tradução de Alexandre Tort; coordenação editorial: Leny</p><p>Cordeiro — Rio de Janeiro: Rocco, 1995.</p><p>(Ciência Atual)</p><p>Tradução de: The srcin of humankind</p><p>1. Evolução humana. 2. Homem - Origem. 3. Pré-história</p><p>I. Título, n. Série</p><p>CDD — 575.01 95-0095 CDU —576.1</p><p>Sumário</p><p>Prefácio.................................................................................... 9</p><p>1 - Os primeiros humanos.......................................................16</p><p>2 - Uma família numerosa.......................................................33</p><p>3 - Um tipo diferente de humano ............................................51</p><p>4 - Homem, o nobre caçador? ................................................66</p><p>5 - A srcem dos humanos modernos.....................................83</p><p>6 - A linguagem da arte......................................................... 101</p><p>7 - A arte da linguagem......................................................... 117</p><p>8 - A srcem da mente .......................................................... 134</p><p>Bibliografia e leituras adicionais............................................151</p><p>Prefácio</p><p>É o sonho de todo antropólogo desenterrar um esqueleto</p><p>completo de um ancestral humano primitivo. Para a maioria de</p><p>nós, contudo, este sonho permanece irrealizado; os caprichos</p><p>da morte, o enterro e a fossilização conspiram para deixar um</p><p>registro insuficiente, fragmentado da pré-história humana</p><p>Dentes e ossos isolados, fragmentos de crânios, geralmente</p><p>são estas as pistas a partir das quais a história da pré-história</p><p>humana deve ser reconstruída Não nego a importância destas</p><p>pistas, embora sejam frustrantemente incompletas; sem elas</p><p>haveria pouco a ser dito sobre a história da pré-história humana</p><p>Também não descarto a excitação pura de sentir a presença</p><p>física destas relíquias modestas; elas são parte de nossa</p><p>ascendência, ligadas a nós por gerações incontáveis feitas de</p><p>carne e osso. Mas a descoberta de um esqueleto completo</p><p>permanece como o prêmio maior.</p><p>Em 1969, fui agraciado com uma sorte extraordinária. Tinha</p><p>decidido explorar os depósitos de arenito que formam a vasta</p><p>margem leste do lago Turkana, ao norte do Quênia — minha</p><p>primeira incursão independente na região dos fósseis. Eu</p><p>estava motivado por uma forte convicção de que grandes</p><p>descobertas de fósseis seriam feitas lá, porque havia</p><p>sobrevoado a região um ano antes; percebi que os depósitos</p><p>em camadas eram repositórios em potencial da vida primitiva</p><p>— embora muitos duvidassem de meu julgamento. O terreno</p><p>era áspero e o clima implacavelmente quente e seco; mais</p><p>ainda, o cenário tem o tipo de beleza feroz que me atrai.</p><p>Com o apoio da National Geographie Society, reuni uma pe-</p><p>quena equipe — incluindo Meave Epps, que mais tarde tornou-</p><p>se minha esposa — para explorar a região. Uma manhã, vários</p><p>dias após a nossa chegada, Meave e eu estávamos retornando</p><p>ao nosso acampamento de uma excursão curta de exploração</p><p>por um atalho ao longo de um leito de rio seco, ambos</p><p>sedentos e ansiosos em evitar o calor escorchante do meio-dia.</p><p>De repente, vi diretamente à nossa frente um crânio fossilizado,</p><p>intacto, pousado sobre a areia alaranjada, as órbitas dos olhos</p><p>fitando-nos inexpres-</p><p>0909</p><p>sivamente. Era inconfundivelmente humano na forma. Embora</p><p>os anos decorridos tenham apagado de minha memória o que</p><p>falei exatamente para Meave naquele instante, sei que</p><p>expressei uma mistura de alegria e descrença sobre o que</p><p>havíamos encontrado.</p><p>O crânio, que imediatamente reconheci como o de um</p><p>Australopithecus boisei , uma espécie humana há muito extinta,</p><p>emergira recentemente dos sedimentos pelos quais o rio</p><p>sazonal corria. Exposto à luz do Sol pela primeira vez desde</p><p>que os elementos o haviam enterrado há quase 1,75 milhão de</p><p>anos, o espécime era um dos poucos crânios humanos antigos</p><p>intactos que até então fora encontrado. Semanas após a sua</p><p>descoberta, as fortes chuvas encheriam o leito seco com uma</p><p>corrente caudalosa; se Meave e eu não o tivéssemos</p><p>encontrado, a frágil relíquia certamente teria sido destruída</p><p>pela enchente. As chances de nos encontrarmos ali no</p><p>momento certo de recuperar para a ciência o fóssil há muito</p><p>enterrado eram mínimas.</p><p>Por uma coincidência curiosa, minha descoberta ocorreu uma</p><p>década, quase no dia, após minha mãe, Mary Leakey, ter</p><p>encontrado um crânio similar na garganta Olduvai, na</p><p>Tanzânia. (Este crânio, entretanto, tornou-se um pavoroso</p><p>quebra-cabeça paleolítico; teve que ser reconstruído a partir de</p><p>centenas de fragmentos.) Aparentemente eu herdara a</p><p>legendária “sorte dos Leakey”, desfrutada de modo notável por</p><p>Mary e meu pai, Louis. De fato, minha boa sorte continuou, na</p><p>medida em que as expedições seguintes que conduzi ao lago</p><p>Turkana descobriram muitos fósseis humanos mais, inclusive o</p><p>crânio intacto do gênero Homo mais antigo de que se tem</p><p>notícia, o ramo da família humana que finalmente deu srcem</p><p>aos humanos modernos, o ramo Homo sapiens.</p><p>Embora quando jovem eu tivesse jurado não me envolver com</p><p>a caça aos fósseis — desejando evitar viver à sombra de meus</p><p>mundialmente famosos pais —, a magia pura do empreen-</p><p>dimento atraiu-me para ele. Os antigos e áridos depósitos da</p><p>África Oriental que sepultam os restos de nossos ancestrais</p><p>têm uma inegável beleza especial; ainda assim, são também</p><p>implacáveis e perigosos. A procura de fósseis e de artefatos de</p><p>pedra antigos é muitas vezes apresentada como uma</p><p>experiência romântica, e certamente possui seus aspectos</p><p>românticos, mas é uma ciência na qual os dados devem ser</p><p>recuperados a centenas ou milhares de quilômetros do conforto</p><p>do laboratório. É um empreendimento fisicamente desafiador e</p><p>exigente — uma operação logística da qual a segurança das</p><p>vidas das pessoas depende algumas vezes. Descobri que tinha</p><p>talento para organizar, para fazer com que as</p><p>1010</p><p>coisas fossem feitas em face de circunstâncias pessoais e</p><p>físicas difíceis. As muitas descobertas importantes na margem</p><p>leste do lago Turkana não apenas atraíram-me para uma</p><p>profissão que um dia rejeitei com veemência como também</p><p>estabeleceram minha reputação nela. Não obstante, o sonho</p><p>maior — um esqueleto completo — continuou a escapar-me.</p><p>No final do verão de 1984, com nossas respirações suspensas</p><p>e nossa esperança sempre crescente temperada pela dura rea-</p><p>lidade da experiência, meus colegas e eu vimos este sonho</p><p>começar a tomar forma. Naquele ano tínhamos decidido</p><p>explorar pela primeira vez a margem oeste do lago. Em 23 de</p><p>agosto, Kamoya Kimeu, meu amigo mais velho e colega,</p><p>localizou um pequeno fragmento de um crânio antigo que jazia</p><p>entre os seixos de uma encosta perto de uma ravina estreita</p><p>que havia sido esculpida pela corrente sazonal.</p><p>Cuidadosamente começamos uma busca por mais fragmentos</p><p>e em breve encontramos mais do que ousávamos esperar.</p><p>Durante as cinco temporadas que se seguiram a este achado,</p><p>significando mais de sete meses de trabalho de campo, nossa</p><p>equipe removeu mais de 1.500 toneladas de sedimentos na</p><p>busca intensa. Encontramos o que finalmente revelou ser</p><p>virtualmente o esqueleto completo de um indivíduo que morrera</p><p>na margem deste lago antigo há mais de 1,5 milhão de anos.</p><p>Batizado por</p><p>similar que surgira</p><p>1 milhão de anos antes, inclusive espécies de Australopithecus</p><p>e Homo. Na sua interpretação inicial dos fósseis, Taieb e</p><p>Johanson apoiaram este padrão de evolução. Entretanto,</p><p>Johanson e Tim White, da Universidade da Califórnia em</p><p>Berkeley, fizeram mais análises. Em um artigo publicado na</p><p>revista Science em janeiro de 1979, eles sugeriram que os</p><p>fósseis de Hadar não representavam diversas espécies de</p><p>humanos primitivos mas ao contrário eram ossos de apenas</p><p>uma única espécie, que Johanson chamou Australopithecus</p><p>afarensis. A grande variedade de tamanho corporal, que</p><p>anteriormente tinha sido considerada como indicação da</p><p>presença de diversas espécies, era agora explicada</p><p>simplesmente como dimorfismo sexual. Todas as espécies de</p><p>hominídeos que surgiram mais tarde eram descendentes desta</p><p>única espécie, disseram eles. Muitos de meus colegas ficaram</p><p>surpresos com esta afirmação audaciosa, e ela provocou um</p><p>vigoroso debate que durou muitos anos (ver figura 2.4).</p><p>Embora desde então muitos antropólogos tenham decidido que</p><p>o esquema de Johanson e White provavelmente está correto,</p><p>eu acredito que o esquema está errado, por duas razões.</p><p>Primeiro, as diferenças de tamanho e a variedade anatômica</p><p>dos fósseis de Hadar são simplesmente muito grandes para</p><p>representar uma única espécie. Muito mais razoável é a noção</p><p>de que os fósseis são de duas espécies, ou talvez mais. Yvens</p><p>Coppens, que era membro da equipe que coletou os fósseis de</p><p>Hadar, também é da mesma opinião. Segundo, o esquema não</p><p>faz sentido do ponto de vista biológico. Se os humanos</p><p>srcinaram-se há 7 milhões de anos, ou mesmo há 5 milhões</p><p>de anos, seria muito incomum que uma única espécie tivesse</p><p>sido a ancestral de todas as espécies que vieram mais tarde.</p><p>Esta não seria a forma típica de uma irradiação adaptativa, e a</p><p>menos que haja uma boa razão para suspeitar o contrário</p><p>devemos supor que a história humana seguiu o padrão normal.</p><p>A única maneira pela qual esta questão será satisfatoriamente</p><p>resolvida para todos é por meio da descoberta e análise de</p><p>mais fósseis de mais de 3 milhões de anos de idade, o que</p><p>parecia ser possível no começo de 1994. Desde 1990, depois</p><p>de uma década e meia de impossibilidade, por razões políticas,</p><p>de retornar aos lugares ricos em fósseis na região de Hadar,</p><p>Johanson e seus colegas fizeram três expedições. Seus</p><p>esforços tiveram grande sucesso, sendo recompensados com a</p><p>coleta de 53 espécimens de fósseis, inclusive o primeiro crânio</p><p>completo. O padrão deste período de tempo observado</p><p>anteriormente — o de uma grande varie-</p><p>4242</p><p>dade de tamanho corporal — é confirmado e mesmo ampliado</p><p>pelas novas descobertas. Como devemos interpretar este fato?</p><p>Estará a questão de uma ou mais espécies às vésperas da</p><p>solução? Infelizmente este não é o caso. Aqueles que achavam</p><p>que a variedade de tamanho dos fósseis previamente</p><p>descobertos indicava uma diferença de estatura entre machos</p><p>e fêmeas consideraram os novos fósseis como indícios que</p><p>apoiavam esta posição. Aqueles de nós que suspeitavam que</p><p>uma variedade de tamanho tão ampla deve indicar uma</p><p>diferença entre espécies, e não uma diferença dentro de uma</p><p>mesma espécie, interpretaram os novos fósseis como</p><p>indicações que reforçavam este ponto de vista. A forma da</p><p>árvore de família anterior aos 2 milhões de</p><p>4343</p><p>anos atrás deve portanto ser considerada uma questão não re-</p><p>solvida.</p><p>A descoberta do esqueleto parcialmente completo de Lucy em</p><p>1974 parecia dar um primeiro vislumbre do grau de adaptação</p><p>anatômica à locomoção bípede dos hominídeos mais antigos.</p><p>Por definição, a primeira espécie de hominídeo a desenvolver-</p><p>se teria sido um tipo de macaco bípede. Mas até que o</p><p>esqueleto de Lucy tivesse aparecido, os antropólogos não</p><p>tinham indícios tangíveis de bipedismo em uma espécie</p><p>humana anterior aos 2 milhões de anos atrás. Os ossos da</p><p>pélvis, pernas e pés do esqueleto de Lucy foram pistas vitais</p><p>para esta questão.</p><p>A partir da forma da pélvis e do ângulo entre o fémur e o joelho,</p><p>fica claro que Lucy e seus companheiros adaptavam-se a al-</p><p>guma forma de caminhar ereta. Estas características eram</p><p>muito mais semelhantes às dos humanos do que às dos</p><p>macacos. De fato, Owen Lovejoy, que realizou os estudos</p><p>anatômicos iniciais destes ossos, concluiu que a locomoção</p><p>bípede da espécie teria sido indistinguível da maneira pela qual</p><p>eu e você caminhamos. Entretanto, nem todos concordam. Por</p><p>exemplo, em 1983, em um importante trabalho científico, Jack</p><p>Stern e Randall Susman, dois anatomistas da State University</p><p>of New York, em Stony Brook, apresentaram uma interpretação</p><p>diferente da anatomia de Lucy: “Ela possui uma combinação de</p><p>características inteiramente adequada a um animal que tivesse</p><p>viajado bastante na estrada que leva ao bipedismo de tempo</p><p>total, mas que retém aspectos estruturais que lhe permitiam</p><p>utilizar-se das árvores de maneira eficiente para alimentar-se,</p><p>dormir ou fugir”.</p><p>Um dos indícios cruciais que Stern e Susman apresentaram em</p><p>favor de suas conclusões era a estrutura dos pés de Lucy: os</p><p>ossos eram algo encurvados, como se observa nos macacos</p><p>mas não nos humanos — um arranjo que facilitaria a subida</p><p>nas árvores. Lovejoy descarta este ponto de vista e sugere que</p><p>os ossos encurvados do pé são simplesmente um vestígio</p><p>evolutivo do passado simiesco de Lucy. Estes dois campos</p><p>opostos mantiveram entusiasticamente suas diferenças de</p><p>opinião por mais de uma década. Então, no começo de 1994,</p><p>novos indícios, inclusive alguns vindos de uma fonte das mais</p><p>inesperadas, aparentemente fizeram pender a balança para um</p><p>lado.</p><p>Primeiro, Johanson e seus colegas relataram a descoberta de</p><p>ossos de um braço de 3 milhões de anos de idade, um cúbito e</p><p>um úmero, que eles atribuíram ao Australopithecus afarensis. O</p><p>indivíduo obviamente tinha sido muito forte, e seus ossos do</p><p>4444</p><p>braço tinham algumas características similares aquelas</p><p>observadas nos chimpanzés, enquanto outras eram diferentes.</p><p>Comentando esta descoberta, Leslie Aiello, um antropólogo do</p><p>University College, de Londres, escreveu na revista Nature: “A</p><p>morfologia variada do cúbito do A. afarensis, junto com seu</p><p>úmero robusto e bastante musculoso, estaria idealmente</p><p>adaptada a uma criatura que não só subisse em árvores mas</p><p>que também caminhasse sobre duas pernas no solo.” Esta</p><p>descrição, com a qual concordo, claramente favorece mais o</p><p>lado de Susman do que o de Lovejoy.</p><p>Um apoio ainda mais forte a este ponto de vista vem da utili-</p><p>zação inovadora da tomografia axial computadorizada (a</p><p>varredura CAT) para discernir os detalhes da anatomia do</p><p>ouvido interno destes humanos primitivos. Parte da anatomia</p><p>do ouvido interno é constituída por três tubos em forma de C,</p><p>os canais semicirculares. Dispostos de uma maneira que os</p><p>deixa mutuamente perpendiculares, com dois dos canais</p><p>orientados verticalmente, a estrutura desempenha um papel</p><p>chave na manutenção do equilíbrio do corpo. Em um encontro</p><p>de antropólogos em abril de 1994, Fred Spoor, da Universidade</p><p>de Liverpool, descreveu os canais semicirculares nos humanos</p><p>e nos macacos. Os dois canais verticais são significativamente</p><p>maiores nos humanos quando os comparamos com os dos</p><p>macacos. Uma diferença que Spoor interpreta como uma</p><p>adaptação às exigências adicionais do equilíbrio ereto nas es-</p><p>pécies bipédes. E o que dizer das espécies humanas</p><p>primitivas?</p><p>As observações de Spoor são verdadeiramente espantosas.</p><p>Em todas as espécies do gênero Homo, a estrutura do ouvido</p><p>interno é indistinguível da dos humanos modernos. Da mesma</p><p>forma, em todas as espécies de Australopithecus, os canais</p><p>semicirculares parecem-se com os dos macacos. Significará</p><p>isto que os australopitecíneos movimentavam-se como os</p><p>macacos o fazem — isto é, que seu modo de locomoção era</p><p>quadrúpede? A estrutura da pélvis e dos membros inferiores</p><p>falam contra esta conclusão. Do mesmo modo o faz a notável</p><p>descoberta que minha mãe fez em 1976: um rastro de pegadas</p><p>muito humanóides conservadas em um estrato de cinzas</p><p>vulcânicas há uns 3,75 milhões de anos. Não obstante, se a</p><p>estrutura do ouvido interno é indicadora da postura habitual e</p><p>do modo de locomoção, ela sugere que os australopitecíneos</p><p>não eram simplesmente como eu e você, como sugeriu e</p><p>continua a sugerir Lovejoy.</p><p>Ao promover sua interpretação, Lovejoy parece querer tornar</p><p>os hominídeos totalmente humanos desde o início, uma ten-</p><p>dência entre os antropólogos que discuti anteriormente neste</p><p>ca-</p><p>4545</p><p>pítulo. Mas não vejo qualquer problema em imaginar que um</p><p>ancestral nosso exibisse um comportamento semelhante aos</p><p>dos macacos e que as árvores fossem importantes em suas</p><p>vidas. Somos macacos bipédes e não deveria ser surpresa ver</p><p>este fato refletido no modo pelo qual nossos ancestrais viviam.</p><p>Neste ponto, mudarei de ossos para pedras, o indício mais</p><p>tangível do comportamento de nossos ancestrais. Chimpanzés</p><p>são usuários eficientes de utensílios, e utilizam pauzinhos para</p><p>coletar cupins, folhas como esponjas e pedras para quebrar</p><p>castanhas. Mas, de qualquer modo, até agora, nenhum</p><p>chimpanzé selvagem foi visto manufaturando um utensílio de</p><p>pedra. Os humanos começaram a produzir ferramentas de</p><p>corte há uns 2,5 milhões de anos fazendo duas pedras baterem</p><p>uma contra a outra, dando início assim a uma trilha de</p><p>atividade tecnológica que realça a pré-história humana.</p><p>Os utensílios mais antigos são pequenas lascas, obtidas ba-</p><p>tendo uma pedra — usualmente um seixo de lava — contra</p><p>uma outra. As lascas mediam cerca de 2,2 centímetros de</p><p>comprimento e eram surpreendentemente aguçadas. Embora</p><p>simples na aparência, elas eram utilizadas em uma grande</p><p>variedade de tarefas. Sabemos isto porque Lawrence Keeley,</p><p>da Universidade de Illinois, e Nicholas Toth da Universidade de</p><p>Indiana, analisaram uma dúzia destas lascas provindas de um</p><p>sítio arqueológico de 1,5 milhão de anos de idade situado ao</p><p>leste do lago Turkana, procurando por sinais de uso. Eles</p><p>descobriram diferentes tipos de desgaste nas lascas — marcas</p><p>indicando que algumas haviam sido utilizadas para cortar</p><p>carne, algumas para cortar madeira, e outras para cortar</p><p>materiais macios srcinários de vegetais, como a grama.</p><p>Quando encontramos lascas de pedra dispersas em um sítio</p><p>arqueológico deste tipo, temos que ser inventivos para imaginar</p><p>a complexidade da vida levada ali, porque as relíquias são</p><p>raras: a carne, a madeira e a grama se foram. Podemos</p><p>imaginar um lugar de acampamento simples situado na</p><p>margem do rio, onde um grupo familiar humano cortava a carne</p><p>no abrigo de uma estrutura feita a partir de árvores novas e</p><p>coberta por juncos, mesmo que tudo o que possamos ver hoje</p><p>sejam lascas de pedra.</p><p>Os primeiros conjuntos de artefatos de pedra encontrados têm</p><p>2,5 milhões de anos de idade; eles incluem, além de lascas,</p><p>implementos maiores tais como cutelos, raspadores e várias</p><p>pedras poliédricas. Na maioria dos casos, estes itens eram</p><p>também produzidos pela remoção de diversas lascas de um</p><p>seixo de lava. Mary Leakey passou muitos anos na garganta</p><p>Olduvai estudando</p><p>4646</p><p>esta tecnologia primitiva — que é conhecida como indústria</p><p>olduvaiana, por causa da garganta Olduvai — e ao fazê-lo</p><p>estabeleceu o começo da arqueologia africana.</p><p>Em conseqüência de seus experimentos com a fabricação de</p><p>artefatos de pedra, Nicholas Toth suspeita que os primeiros</p><p>fabricantes não tinham formas específicas de artefatos</p><p>individuais em mente — um molde mental, se preferirmos —</p><p>quando os estavam fabricando. Muito provavelmente, as várias</p><p>formas eram determinadas pela forma srcinal da matéria-prima</p><p>A indústria olduvaiana — que era a única forma de tecnologia</p><p>empregada até cerca de 1,4 milhão de anos atrás — era de</p><p>natureza essencialmente oportunística.</p><p>Uma questão interessante surge com relação às habilidades</p><p>cognitivas implícitas na produção destes artefatos. Estariam</p><p>estes fabricantes primitivos de artefatos empregando</p><p>habilidades mentais comparáveis às dos macacos, mas de um</p><p>modo diferente? Ou isto exigia que tivessem uma inteligência</p><p>maior? O cérebro dos fabricantes de artefatos era mais ou</p><p>menos 50 por cento maior do que o dos macacos, assim a</p><p>última conclusão parece ser intuitivamente óbvia. Não obstante,</p><p>Thomas Wynn, arqueólogo da Universidade do Colorado, e</p><p>William McGrew, primatólogo da Universidade de Stirling, na</p><p>Escócia, não concordam com isto. Eles analisaram certas</p><p>habilidades manipulativas exibidas pelos macacos, e num</p><p>trabalho publicado em 1989, intitulado “An Ape's View of the</p><p>Olduvan”, concluíram: “Todos os conceitos espaciais aplicados</p><p>aos artefatos olduvaianos podem ser encontrados nas mentes</p><p>dos macacos. De fato, a competência espacial descrita acima é</p><p>provavelmente verdadeira para todos os grandes macacos e</p><p>não faz dos fabricantes de artefatos olduvaianos especiais.”</p><p>Acho esta afirmação surpreendente, isto porque tenho visto as</p><p>pessoas tentarem reproduzir artefatos da “idade da pedra”</p><p>fazendo duas pedras baterem uma contra a outra, com pouco</p><p>sucesso. Não era assim que era feito. Nicholas Toth passou</p><p>muitos anos aperfeiçoando técnicas de fabricação de artefatos</p><p>de pedra e tem um bom conhecimento da mecânica das lascas</p><p>de pedra. Para trabalhar eficientemente, o britador deve</p><p>escolher uma pedra que tenha a forma apropriada, que tenha o</p><p>canto correto para bater; e o movimento de bater exige grande</p><p>prática para obter-se a intensidade apropriada de força no lugar</p><p>certo. “Parece claro que os primeiros proto-humanos</p><p>fabricantes de artefatos tinham um bom senso intuitivo dos fun-</p><p>damentos do trabalho com pedras”, escreveu Toth em um</p><p>artigo de 1985. “Não há dúvida de que os primeiros</p><p>ferramenteiros possuíam uma capacidade mental superior à</p><p>dos macacos”, disse-me ele re-</p><p>4747</p><p>centemente. “A fabricação de artefatos exige uma coordenação</p><p>significativa de habilidades cognitivas e motoras.”</p><p>Uma experiência em curso no Language Research Center, em</p><p>Atlanta, Georgia, está verificando esta questão. Por mais de</p><p>uma década, Sue Savage-Rumbaugh, uma psicóloga, vem</p><p>trabalhando com chimpanzés pigmeus no desenvolvimento das</p><p>habilidades de comunicação. Recentemente, Toth começou a</p><p>colaborar com ela, tentando ensinar a um chimpanzé de nome</p><p>Kanzi como produzir lascas de pedras. Kanzi indubitavelmente</p><p>mostrou um raciocínio inovador na produção de lascas</p><p>aguçadas, mas até agora não reproduziu a técnica sistemática</p><p>de produção de lascas utilizadas pelos fabricantes primitivos.</p><p>Suspeito que isto significa que Wynn e McGrew estão errados</p><p>e que os fabricantes mais primitivos utilizavam habilidades</p><p>cognitivas superiores àquelas presentes nos macacos.</p><p>Dito isto, permanece verdadeiro que os primeiros artefatos, os</p><p>da indústria olduvaiana, eram simples e oportunísticos. Há</p><p>cerca de 1,4 milhão de anos na África, apareceu um novo tipo</p><p>de coleção, que os arqueólogos chamam indústria acheulense,</p><p>em razão do sítio arqueológico de Saint Acheul, no norte da</p><p>França, onde estes artefatos, em versões posteriores, foram</p><p>descobertos pela primeira vez. Pela primeira vez na pré-história</p><p>humana, há indícios de que os fabricantes de artefatos tinham</p><p>um modelo mental do que desejavam produzir — que eles</p><p>estavam impondo intencionalmente uma forma à matéria-prima</p><p>que utilizavam. O implemento que sugere isto é o assim</p><p>chamado machado manual, um utensílio em forma de gota de</p><p>lágrima que exigia uma habilidade notável e paciência para ser</p><p>feito (ver figura 2.5). Toth e outros experimentalistas</p><p>precisaram de vários meses para adquirir a habilidade de</p><p>produzir machados manuais de qualidade igual aos en-</p><p>contrados nos registros arqueológicos desta época.</p><p>O aparecimento do machado manual nos registros arqueológi-</p><p>cos acompanha a emergência do Homo erectus, o suposto</p><p>descendente do Homo habilis e ancestral do Homo sapiens.</p><p>Como veremos no capítulo seguinte, é razoável deduzir que os</p><p>fabricantes do machado manual eram indivíduos da espécie</p><p>Homo erectus, dotados</p><p>de um cérebro significativamente maior</p><p>que o do Homo habilis.</p><p>Quando nossos ancestrais descobriram o truque de produzir</p><p>consistentemente lascas de pedra afiadas, isto constituiu um</p><p>grande avanço na pré-história humana. Subitamente, os</p><p>humanos tiveram acesso a alimentos que lhes eram</p><p>previamente negados. A modesta lasca, como Toth muitas</p><p>vezes demonstrou, é um implemen-</p><p>4848</p><p>to altamente eficiente para cortar tudo, exceto as peles mais</p><p>duras até expor a carne vermelha contida dentro. Se eram</p><p>caçadores ou carniceiros, os humanos que fizeram e utilizaram</p><p>estas simples lascas de pedra com isto tiveram acesso a uma</p><p>nova fonte de energia — a proteína animal. Assim eles teriam</p><p>sido capazes não apenas de estender o alcance de suas</p><p>incursões mas também de aumentar as chances de uma</p><p>produção bem-sucedida de uma prole. O processo reprodutivo</p><p>é um processo dispendioso, e a expansão da dieta com a</p><p>inclusão de carne o teria tornado mais seguro.</p><p>Uma pergunta antiga para os antropólogos tem sido, é claro:</p><p>quem fez os artefatos? Quando os artefatos apareceram nos</p><p>registros arqueológicos, existiam diversas espécies de</p><p>australopitecíneos, e provavelmente diversas espécies de</p><p>Homo também. Como podemos decidir quem era o fabricante</p><p>de artefatos? Isto é extremamente difícil. Se encontramos</p><p>artefatos somente em associa-</p><p>4949</p><p>ção com fósseis do Homo e nunca com fósseis de</p><p>australopitecíneos, isto poderia implicar que o Homo era o</p><p>único fabricante. Entretanto, o registro pré-histórico não é tão</p><p>límpido assim. Randall Susman argumentou, a partir da</p><p>anatomia do que ele acredita ser ossos da mão de um A.</p><p>robustus oriundos de um sítio na África do Sul, que esta</p><p>espécie tinha habilidades manipulativas suficientes para fazer</p><p>ferramentas. Mas não há maneira de nos certificarmos se ela</p><p>realmente o fazia ou não.</p><p>Minha posição é a de que devemos procurar pela explicação</p><p>mais simples. Sabemos a partir dos registros pré-históricos que</p><p>depois de 1 milhão de anos atrás somente a espécie Homo</p><p>existia, e sabemos também que eles faziam ferramentas de</p><p>pedras. Até que haja uma boa razão para supor o contrário,</p><p>parece ser prudente concluir que apenas o Homo fabricava</p><p>ferramentas no começo da sua pré-história. As espécies</p><p>australopitecíneas e Homo tiveram claramente adaptações</p><p>específicas diferentes, e é provável que o ato de comer carne</p><p>pelo Homo era uma parte importante desta diferença. A</p><p>fabricação de instrumentos de pedra teria sido uma parte</p><p>importante das habilidades de um carnívoro; vegetarianos</p><p>poderiam safar-se sem estas ferramentas.</p><p>Em seus estudos de artefatos provindos dos sítios arqueoló-</p><p>gicos no Quênia e em seus exercícios práticos de fabricação de</p><p>artefatos, Toth fez uma importante e fascinante descoberta. Os</p><p>primeiros fabricantes eram predominantemente destros, exata-</p><p>mente como os humanos modernos o são. Embora os macacos</p><p>individualmente sejam destros ou canhotos, não há uma</p><p>tendência preferencial em sua população; os humanos</p><p>modernos são únicos a este respeito. A descoberta de Toth</p><p>nos dá um insight evolutivo importante: há uns 2 milhões de</p><p>anos, o cérebro do Homo já estava se tomando</p><p>verdadeiramente humano, de um modo que nós mesmos</p><p>sabemos o que significa.</p><p>5050</p><p>3 - Um tipo diferente de humano</p><p>Pesquisas excitantes e imaginativas só recentemente</p><p>realizadas permitiram-nos utilizar os fósseis para obter</p><p>discernimento sobre aspectos da biologia de nossos ancestrais</p><p>extintos de um modo que ninguém poderia ter previsto há</p><p>poucos anos. Por exemplo, agora é possível fazer estimativas</p><p>razoáveis de quando indivíduos de uma espécie humana</p><p>particular eram desmamados, quando tornavam-se</p><p>sexualmente maduros, qual era sua expectativa de vida, e</p><p>assim por diante. Armados com meios de descobrir infor-</p><p>mações deste tipo, chegamos à conclusão de que o Homo era</p><p>um tipo diferente de humano desde o momento em que</p><p>apareceu pela primeira vez. A descoberta de uma</p><p>descontinuidade biológica entre o Australopithecus e o Homo</p><p>alterou fundamentalmente nossa compreensão da pré-história</p><p>humana.</p><p>Até o surgimento do Homo, todos os macacos bipédes tinham</p><p>cérebros pequenos, dentes molares grandes, maxilares pro-</p><p>tubérantes e aderiam a uma estratégia de subsistência</p><p>semelhante à dos macacos. Eles comiam principalmente</p><p>alimentos fornecidos por vegetais, e seu meio social</p><p>provavelmente assemelhava-se ao dos babuínos das savanas.</p><p>Estas espécies — as australopitecíneas — eram semelhantes</p><p>aos humanos apenas no modo de caminhar e nada mais. Em</p><p>alguma época anterior aos 2,5 milhões de anos atrás — não</p><p>podemos dizer exatamente quando — as primeiras espécies</p><p>humanas dotadas de cérebros grandes evoluíram. Os dentes</p><p>também mudaram — provavelmente uma mudança produzida</p><p>pela passagem de uma dieta constituída exclusivamente de</p><p>alimentos fornecidos pelos vegetais para uma dieta que incluía</p><p>carne.</p><p>Estes dois aspectos do Homo primordial — as alterações no</p><p>tamanho do cérebro e na estrutura dos dentes — têm se</p><p>mostrado aparentes desde que os primeiros fósseis do Homo</p><p>habilis foram descobertos, há três décadas. Talvez porque nós,</p><p>humanos modernos, sejamos obcecados pela importância do</p><p>poder da mente, os antropólogos focalizaram intensamente sua</p><p>atenção no salto em tamanho do cérebro — de uns 450</p><p>centímetros cúbicos</p><p>5151</p><p>para mais de 600 centímetros cúbicos — que ocorreu com a</p><p>evolução do Homo habilis. Sem dúvida isto foi uma parte</p><p>importante da adaptação evolutiva que deu à pré-história</p><p>humana um outro rumo. Mas é apenas uma parte. As novas</p><p>pesquisas sobre a biologia de nossos ancestrais revela que</p><p>muitas outras coisas mudaram também, tornando-os mais</p><p>semelhantes aos humanos do que aos macacos.</p><p>Um dos aspectos mais significativos do desenvolvimento</p><p>humano é que os bebês nascem virtualmente desprotegidos e</p><p>passam por uma infância prolongada. Mais ainda, como todos</p><p>os pais sabem, as crianças sofrem um surto de crescimento na</p><p>adolescência, durante o qual elas adquirem centímetros a uma</p><p>taxa alarmante. Os humanos são singulares a esse respeito: a</p><p>maioria das espécies de mamíferos, inclusive os macacos,</p><p>progride quase que diretamente da infância para a idade</p><p>adulta. Um adolescente humano prestes a entrar no seu surto</p><p>de crescimento é propenso a aumentar de tamanho em cerca</p><p>de 25 por cento; em contraste, a taxa de crescimento constante</p><p>nos chimpanzés significa que o adolescente adiciona 14 por</p><p>cento a mais na sua estatura na época em que atinge a</p><p>maturidade.</p><p>Barry Bogin, biólogo da Universidade de Michigan, tem uma</p><p>interpretação inovadora da diferença das taxas de crescimento.</p><p>A taxa de crescimento corporal nas crianças humanas é baixa</p><p>quando comparada com a dos macacos, mesmo que a taxa de</p><p>crescimento do cérebro seja similar. Em conseqüência, as</p><p>crianças humanas são menores do que seriam se elas</p><p>tivessem acompanhado a taxa simiesca de crescimento. O</p><p>benefício, sugere Bogin, tem a ver com o alto grau de</p><p>conhecimento que os jovens humanos devem adquirir para que</p><p>possam absorver as regras da cultura. Crianças em</p><p>crescimento aprendem melhor com os adultos se houver uma</p><p>diferença significativa de tamanho corporal, porque uma</p><p>relação professor-aluno pode ser estabelecida. Se as crianças</p><p>tivessem o tamanho que deveriam ter caso acompanhassem a</p><p>trajetória de crescimento dos macacos, a rivalidade física e não</p><p>uma relação professor-aluno poderia desenvolver-se. Quando</p><p>o período de aprendizado termina, o corpo “põe-se em dia” por</p><p>meio do surto de crescimento adolescente.</p><p>Os humanos tornam-se humanos por meio de um aprendizado</p><p>intenso não apenas das habilidades de sobrevivência mas tam-</p><p>bém dos hábitos e costumes sociais, parentescos e leis sociais</p><p>— isto é, cultura. O meio social no qual as crianças</p><p>desprotegidas são cuidadas e as crianças mais velhas</p><p>educadas é muito mais ca-</p><p>5252</p><p>racterístico dos humanos do que dos macacos. Pode-se dizer</p><p>que a cultura é a adaptação humana, e se torna possível</p><p>pelo</p><p>padrão insólito de infância e maturação.</p><p>A fragilidade dos bebês humanos recém-nascidos é, porém,</p><p>menos uma adaptação cultural do que uma necessidade</p><p>biológica. Os bebês humanos vêm ao mundo muito cedo, uma</p><p>conseqüência do nosso cérebro grande e dos</p><p>constrangimentos do projeto da pélvis humana. Os biólogos</p><p>conseguiram entender, recentemente, que o tamanho do</p><p>cérebro influencia mais do que simplesmente a inteligência. Ele</p><p>se correlaciona a um grande número de fatores conhecidos</p><p>como fatores bionômicos, tais como a idade do desmame, a</p><p>idade em que a maturidade sexual é atingida, o período de</p><p>gestação e a longevidade. Em espécies com grandes cérebros,</p><p>estes fatores tendem a estar presentes por mais tempo: os</p><p>bebês são desmamados mais tarde do que os bebês das</p><p>espécies com cérebros pequenos, a maturidade sexual é</p><p>atingida mais tarde, o período de gestação é maior e os</p><p>indivíduos vivem mais. Um cálculo simples com base em</p><p>comparações com outros primatas revela que o período de</p><p>gestação no Homo sapiens, cuja capacidade cerebral média é</p><p>de 1.350 centímetros cúbicos, deveria ser de 21 meses e não</p><p>de nove meses como na verdade o é. Os bebês humanos</p><p>portanto têm um ano de crescimento para recuperar quando</p><p>nascem, daí a sua fragilidade.</p><p>Por que isto aconteceu? Por que a natureza expôs os humanos</p><p>recém-nascidos aos perigos de vir ao mundo tão cedo? A res-</p><p>posta é o cérebro. O cérebro de um macaco recém-nascido,</p><p>que tem em média cerca de 200 centímetros cúbicos, tem mais</p><p>ou menos a metade do tamanho do cérebro de um adulto. A</p><p>duplicação em tamanho exigida ocorre rapidamente e bem</p><p>cedo na vida do macaco. Em contraste, os cérebros dos</p><p>humanos recém-nascidos são um terço do tamanho do cérebro</p><p>de um adulto e triplicam de tamanho em um crescimento rápido</p><p>e precoce. Os humanos assemelham-se aos macacos no que</p><p>diz respeito ao crescimento precoce de seus cérebros até o</p><p>tamanho adulto: assim, se, como os macacos, os humanos</p><p>duplicassem o tamanho de seus cérebros, os cérebros dos</p><p>humanos recém-nascidos deveriam medir 675 centímetros</p><p>cúbicos. Como toda mulher sabe, dar à luz bebês que têm</p><p>tamanho normal de cérebro já é suficientemente difícil e,</p><p>algumas vezes, um risco de vida. De fato, a abertura pélvica</p><p>aumentou de tamanho no decorrer da evolução humana para</p><p>adaptar-se ao tamanho crescente do cérebro. Mas havia limites</p><p>sobre até onde esta expansão poderia ir — limites impostos</p><p>pela enge-</p><p>5353</p><p>nharia da locomoção bípede eficiente. Este limite foi atingido</p><p>quando o tamanho do cérebro do recém-nascido atingiu seu</p><p>valor presente — 385 centímetros cúbicos.</p><p>De um ponto de vista evolutivo, podemos dizer que, em prin-</p><p>cípio, os humanos afastaram-se de um padrão de crescimento</p><p>semelhante ao dos macacos quando o tamanho do cérebro</p><p>adulto excedeu os 770 centímetros cúbicos. Além deste valor, o</p><p>tamanho do cérebro deveria mais do que duplicar-se a partir do</p><p>nascimento, dando início assim ao padrão de fragilidade para</p><p>os bebês que vêm ao mundo “muito cedo”. O Homo habilis,</p><p>com um tamanho de cérebro adulto de cerca de 800</p><p>centímetros cúbicos, parece estar no limiar entre o padrão de</p><p>crescimento do macaco e o do ser humano, enquanto o</p><p>cérebro do Homo erectus primitivo, de uns 900 centímetros</p><p>cúbicos, empurra a espécie de modo significativo na direção de</p><p>um padrão humano (ver figura 3.1). Este, lembre-se, é um</p><p>argumento do tipo “em princípio”; ele pressupõe que a via de</p><p>nascimento do Homo erectus tinha a mesma largura que a dos</p><p>humanos modernos. De fato, fomos capazes de obter uma</p><p>idéia mais clara de quão humano o Homo erectus tinha se tor-</p><p>nado a este respeito a partir de medidas da pélvis do garoto de</p><p>Turkana, o esqueleto do Homo erectus primitivo que meus</p><p>colegas e eu desenterramos em meados da década de 1980</p><p>não muito longe da margem oeste do lago Turkana.</p><p>Nos humanos, a abertura pélvica é similar em tamanho nos</p><p>machos e fêmeas. Assim, ao medir o tamanho da abertura</p><p>pélvica do garoto de Turkana, obtivemos uma boa estimativa</p><p>da via de nascimento da mãe. Meu amigo e colega Alan</p><p>Walker, um anatomista da Universidade Johns Hopkins,</p><p>reconstruiu a pélvis do menino a partir de ossos que estavam</p><p>separados quando os desenterramos (ver figura 3.2). Alan</p><p>mediu a abertura pélvica, descobriu que ela era menor do que</p><p>a do Homo sapiens, e calculou que os recém-nascidos do</p><p>Homo erectus tinham cérebros de cerca de 275 centímetros</p><p>cúbicos, que é consideravelmente menor do que o tamanho do</p><p>cérebro dos recém-nascidos humanos modernos.</p><p>As implicações são claras. Como os humanos modernos, os</p><p>bebês do Homo erectus nasciam com cérebros que tinham um</p><p>terço do tamanho de seus cérebros adultos e, como os</p><p>humanos modernos o fazem, devem ter vindo ao mundo em</p><p>estado de fragilidade. Podemos inferir que os intensos</p><p>cuidados por parte dos pais, que é parte do meio social dos</p><p>humanos modernos, já tivesse começado a desenvolver-se no</p><p>Homo erectus primitivo há 1,7 milhão de anos.</p><p>5454</p><p>Não podemos fazer cálculos semelhantes para o Homo habilis,</p><p>o ancestral imediato do erectus, porque temos que descobrir</p><p>ainda uma pélvis de habilis. Mas se os bebês habilis nasciam</p><p>com o tamanho do cérebro dos neonatos erectus, então eles</p><p>também precisariam nascer “muito cedo”, mas não tanto; eles</p><p>também deveriam ser frágeis ao nascer, mas não por tanto</p><p>tempo quanto os erectus; e eles também teriam exigido um</p><p>meio social semelhante ao dos humanos, mas em grau menor.</p><p>Portanto, parece que o Homo moveu-se em direção aos</p><p>humanos desde o início. Da mesma forma, as espécies</p><p>australopitecíneas tinham cérebros do ta-</p><p>5555</p><p>manho do cérebro dos macacos, e deste modo teriam seguido</p><p>um padrão de desenvolvimento inicial semelhante ao destes.</p><p>Um período extenso de fragilidade na infância — um período</p><p>durante o qual eram exigidos intensos cuidados por parte dos</p><p>pais — já era uma característica do Homo primitivo: isto</p><p>conseguimos estabelecer. Mas o que dizer do restante da</p><p>infância? Quando esta tornou-se prolongada, permitindo que</p><p>habilidades culturais e práticas pudessem ser absorvidas,</p><p>seguida por um surto de crescimento adolescente?</p><p>O prolongamento da infância nos humanos modernos é obtido</p><p>por meio de uma taxa de crescimento físico mais baixa se</p><p>comparada com a dos macacos. Como conseqüência, os</p><p>humanos passam pelas várias instâncias de crescimento, tais</p><p>como a erupção dos dentes, depois que os macacos o fazem.</p><p>Por exemplo, os primeiros molares permanentes aparecem nas</p><p>crianças humanas mais ou menos aos seis anos de idade,</p><p>comparado com os três anos dos macacos; a segunda dentição</p><p>molar surge entre as idades de 11 e 12 anos nos humanos e</p><p>na idade de sete anos nos macacos; a terceira erupção de</p><p>molares aparece entre os 18 e os vinte anos nos humanos e</p><p>aos nove nos macacos. Para responder à questão sobre</p><p>quando a infância tornou-se prolongada na pré-história</p><p>humana, precisamos de uma maneira de olhar os fósseis de</p><p>maxilares e determinar quando os molares irromperam.</p><p>Por exemplo, o garoto de Turkana morreu quando sua segunda</p><p>dentição molar estava começando a irromper. Se o Homo</p><p>erectus seguiu o padrão mais lento de desenvolvimento infantil</p><p>humano, isto significaria que o garoto morreu quando estava</p><p>com mais ou menos 11 anos. Se, porém, a espécie tivesse</p><p>uma trajetória de crescimento semelhante à dos macacos, ele</p><p>teria sete anos. No início da década de 1970, Alan Mann, da</p><p>Universidade da Pensilvânia, realizou uma extensa análise de</p><p>fósseis de dentes humanos e concluiu que todas as espécies</p><p>de Australopithecus e Homo seguiram o padrão humano de</p><p>crescimento lento na infância Seu trabalho tornou-se</p><p>extremamente influente, e deu um grande impulso ao conheci-</p><p>mento convencional de que todas as espécies de hominídeos,</p><p>inclusive as australopitecíneas, seguiram o padrão humano</p><p>moderno. De fato, quando encontramos o maxilar do garoto de</p><p>Turkana e vi a segunda erupção de dentes molares, presumi</p><p>que ele teria 11 anos quando morreu,</p><p>porque esta teria sido</p><p>sua idade caso fosse como o Homo sapiens. Da mesma forma,</p><p>presumia-se que a criança Taung, um membro da espécie do</p><p>Australopithecus africanus, teria morrido aos 11 anos, pois sua</p><p>primeira dentição molar estava surgindo.</p><p>5656</p><p>(A página 57 do livro apresenta a Figura 3.2, colada nas(A página 57 do livro apresenta a Figura 3.2, colada nas</p><p>páginas finais desse e-livro)páginas finais desse e-livro)</p><p>5757</p><p>No final da década de 1980, estas suposições foram destruídas</p><p>pelo trabalho de vários pesquisadores. Holly Smith,</p><p>antropóloga da Universidade de Michigan, desenvolveu um</p><p>modo de deduzir os padrões de história de vida nos fósseis</p><p>humanos ao correlacionar o tamanho do cérebro com a idade</p><p>da erupção dos primeiros dentes molares. Como ponto de</p><p>partida, Smith reuniu dados sobre humanos e macacos; depois</p><p>ela observou uma grande quantidade de fósseis humanos para</p><p>determinar como estes se comparavam com os dados. Três</p><p>padrões bionômicos emergiram: um padrão humano moderno,</p><p>no qual a primeira erupção de dentes molares ocorre aos seis</p><p>anos de idade e a expectativa de vida é de 66 anos; um padrão</p><p>simiesco, com a primeira erupção molar surgindo um pouco</p><p>depois dos três anos e uma expectativa de vida de cerca de</p><p>quarenta anos; e um padrão intermediário. Os Homo erectus</p><p>posteriores — isto é, indivíduos que viveram depois de mais ou</p><p>menos 800 mil anos atrás — encaixavam-se no padrão</p><p>humano, como o fizeram os homens de Neanderthal. Todas as</p><p>espécies australopitecíneas, porém, encaixavam-se no padrão</p><p>dos macacos. O Homo erectus primordial, como o garoto de</p><p>Turkana, encaixava-se no padrão intermediário; a primeira</p><p>dentição molar teria irrompido quando ele estava com pouco</p><p>mais de quatro anos e meio de idade; não tivesse ele</p><p>encontrado uma morte prematura, poderia esperar viver cerca</p><p>de 52 anos.</p><p>O trabalho de Smith mostrou que o padrão de crescimento dos</p><p>australopitecíneos não era como o dos humanos modernos; ao</p><p>contrário, era semelhante ao dos macacos. Mais adiante ela</p><p>mostrou que o Homo erectus primitivo era intermediário em seu</p><p>crescimento entre os humanos modernos e os macacos; agora</p><p>chegamos à conclusão de que o garoto de Turkana tinha cerca</p><p>de nove anos de idade quando morreu e não 11, como eu</p><p>inicialmente havia suposto.</p><p>Em razão destas conclusões serem opostas às pressuposições</p><p>de uma geração de antropólogos, elas eram muito discutidas.</p><p>Havia uma possibilidade, é claro, de que Smith tivesse come-</p><p>tido algum tipo de erro. Nestas circunstâncias, trabalho</p><p>corroborativo é sempre bem-vindo, e neste caso ele veio</p><p>rapidamente. Os anatomistas Christopher Dean e Tim</p><p>Bromage, ambos então no University College, em Londres,</p><p>descobriram um modo de determinar diretamente a idade dos</p><p>dentes. Assim como os anéis do tronco das árvores são</p><p>utilizados para calcular quão velha ela é, linhas microscópicas</p><p>em um dente indicam a sua idade. Este método de cálculo não</p><p>é tão fácil quanto parece — principalmente</p><p>5858</p><p>por causa da incerteza sobre o modo pelo qual as linhas se for-</p><p>mam. Não obstante, Dean e Bromage inicialmente aplicaram</p><p>sua técnica a um maxilar de australopitecíneo idêntico ao da</p><p>criança Taung em termos de desenvolvimento dental. Eles</p><p>descobriram que o indivíduo havia morrido um pouco depois de</p><p>haver completado três anos de idade, exatamente quando sua</p><p>primeira dentição molar estava irrompendo — de acordo com</p><p>uma trajetória de crescimento semelhante à dos macacos.</p><p>Quando Dean e Bromage examinaram um conjunto de dentes</p><p>humanos fossilizados, eles, do mesmo modo que Smith,</p><p>descobriram três padrões: humano moderno, macaco e alguma</p><p>coisa intermediária. Mais uma vez, os australopitecíneos</p><p>encaixavam-se no padrão dos macacos, o Homo erectus mais</p><p>recente e os neanderthais seguiam o padrão humano moderno,</p><p>e o Homo erectus primitivo, o padrão intermediário. E mais uma</p><p>vez os resultados animaram os debates, particularmente sobre</p><p>se os australopitecíneos teriam crescido como humanos ou</p><p>macacos.</p><p>Este debate terminou efetivamente quando o antropólogo</p><p>Glenn Conroy e o clínico Michael Vannier, da Universidade</p><p>Washington em Saint Louis, trouxeram a alta tecnologia do</p><p>mundo médico para dentro do laboratório de antropologia.</p><p>Utilizando a tomografia axial computadorizada — a varredura</p><p>tridimensional CAT —, eles espiaram o interior do maxilar</p><p>petrificado da criança Taung e, essencialmente, confirmaram</p><p>as conclusões de Dean e Bromage. A criança Taung havia</p><p>morrido quando estava perto dos três anos de idade, um jovem</p><p>seguindo uma trajetória de crescimento semelhante à dos</p><p>macacos.</p><p>A habilidade de inferir a biologia a partir dos fósseis por meio</p><p>de pesquisas sobre os fatores bionômicos e sobre o desen-</p><p>volvimento dental é extremamente importante para a antropolo-</p><p>gia, pois permite que reconstituamos, metaforicamente, carne e</p><p>músculos junto com os ossos. Por exemplo, podemos dizer que</p><p>o garoto de Türkana teria sido desmamado um pouco antes de</p><p>seu quarto aniversário e, tivesse ele sobrevivido, ter-se-ia</p><p>tornado sexualmente maduro mais ou menos aos 14 anos. Sua</p><p>mãe provavelmente teve seu primeiro bebê quando tinha 13</p><p>anos, após uma gestação de nove meses; e daí em diante teria</p><p>engravidado a cada três ou quatro anos. Estes padrões nos</p><p>dizem que, na época do Homo erectus primitivo, os ancestrais</p><p>humanos já se haviam movimentado em direção à biologia</p><p>humana moderna e se afastado da biologia dos macacos,</p><p>enquanto os australopitecíneos permaneceram no seu padrão</p><p>simiesco.</p><p>5959</p><p>A mudança evolutiva do Homo erectus primitivo em direção aos</p><p>padrões humanos modernos de crescimento e</p><p>desenvolvimento ocorreu em um contexto social. Todos os</p><p>primatas são sociais, mas os humanos modernos</p><p>desenvolveram a sociabilidade até o seu grau mais alto. A</p><p>mudança biológica que inferimos a partir dos indícios dentários</p><p>encontrados no Homo primitivo nos dizem que a interação</p><p>social já havia começado a intensificar-se, criando um ambiente</p><p>que incentivava a cultura. Parece que a organização social</p><p>inteira também foi significativamente modificada. Como</p><p>podemos sabê-lo? Isto é evidente a partir de uma comparação</p><p>do tamanho do corpo dos machos e fêmeas, e do que sabemos</p><p>destas diferenças nas espécies primatas modernas, tais como</p><p>os babuínos e os chimpanzés.</p><p>Entre os babuínos das savanas, como observado anterior-</p><p>mente, os machos são duas vezes maiores em tamanho do</p><p>que as fêmeas. Os primatologistas sabem agora que esta</p><p>diferença ocorre quando há uma forte competição entre os</p><p>machos maduros por oportunidades de acasalamento. Como</p><p>na maioria das espécies de primatas, os babuínos machos,</p><p>quando atingem a maturidade, abandonam o grupo em que</p><p>nasceram. Eles juntam-se a um outro grupo, muitas vezes um</p><p>nas proximidades, e daí em diante estão em competição com</p><p>os outros machos já estabelecidos no grupo. Em razão deste</p><p>padrão de migração, os machos da maioria dos grupos</p><p>usualmente não se relacionam entre si. Portanto, eles não têm</p><p>um motivo darwiniano (isto é, genético) para cooperar uns com</p><p>os outros.</p><p>Entretanto, nos chimpanzés, por razões que ainda não são</p><p>completamente compreendidas, os machos permanecem em</p><p>seu grupo natal e as fêmeas transferem-se de grupo. Como</p><p>conseqüência, os machos em um grupo de chimpanzés têm</p><p>uma razão darwiniana para cooperar uns com os outros na</p><p>aquisição de fêmeas, pois como irmãos eles têm a metade de</p><p>seus genes em comum. Eles cooperam na defesa contra outros</p><p>grupos de chimpanzés, e em incursões ocasionais à caça,</p><p>quando usualmente tentam encurralar um infeliz macaco em</p><p>uma árvore. Esta relativa falta de competição e cooperação</p><p>reforçada reflete-se no tamanho dos machos quando os</p><p>comparamos com as fêmeas: eles são uns meros 15 a 20 por</p><p>cento maiores.</p><p>Com relação ao tamanho, os machos australopitecíneos se-</p><p>guem o padrão dos babuínos. É razoável supor, portanto, que</p><p>a vida social das espécies australopitecíneas era similar à que</p><p>vemos nos babuínos modernos. Quando</p><p>somos capazes de</p><p>fazer</p><p>6060</p><p>uma comparação entre o tamanho do corpo de um macho e o</p><p>de uma fêmea no Homo primitivo, fica imediatamente óbvio que</p><p>uma mudança significativa ocorreu: os machos não são mais</p><p>do que 20 por cento maiores do que as fêmeas, exatamente</p><p>como vemos nos chimpanzés. Como argumentaram os</p><p>antropólogos Robert Foley e Phyllis Lee, da Universidade de</p><p>Cambridge, esta mudança na diferença de tamanho corporal</p><p>na época das srcens do gênero Homo certamente representa</p><p>também uma mudança na organização social. Muito</p><p>provavelmente, os machos Homo primitivos permaneciam nos</p><p>seus grupos natais com seus irmãos e meio-irmãos, enquanto</p><p>as fêmeas transferiam-se para outros grupos. O parentesco,</p><p>como já observamos, reforça a cooperação entre os machos.</p><p>Não podemos ter certeza sobre o que ocasionou esta mudança</p><p>na organização social: a cooperação reforçada entre os ma-</p><p>chos deve ter sido poderosamente benéfica por alguma razão.</p><p>Alguns antropólogos argumentam que a defesa contra grupos</p><p>vizinhos de Homo tornou-se extremamente importante. Tão</p><p>provável, ou talvez até mais, é uma mudança centrada em</p><p>necessidades ecológicas. Diversos tipos de indícios apontam</p><p>para uma mudança na dieta do Homo — uma mudança na qual</p><p>a carne tornou-se uma fonte importante de energia e proteínas.</p><p>A mudança na estrutura dos dentes do Homo primitivo indica</p><p>que este comia carne, assim como são indícios também a</p><p>elaboração de uma tecnologia com base em implementos de</p><p>pedra. Mais ainda, o aumento do tamanho do cérebro, parte do</p><p>pacote evolutivo do Homo, pode ter mesmo exigido que a</p><p>espécie complementasse a sua dieta com uma fonte rica em</p><p>energia</p><p>Como todo biólogo sabe, os cérebros são, do ponto de vista</p><p>metabólico, órgãos dispendiosos. Nos humanos modernos, por</p><p>exemplo, o cérebro constitui uns meros 2 por cento do peso</p><p>total do corpo, ainda assim consome 20 por cento do gasto de</p><p>energia. De todos os mamíferos, os primatas são o grupo que</p><p>tem os cérebros maiores, e os humanos estenderam</p><p>enormemente esta propriedade: o cérebro humano é três vezes</p><p>maior em tamanho do que o cérebro de um macaco que tem</p><p>um tamanho corporal equivalente. O antropólogo Robert Martin,</p><p>do Instituto de Antropologia de Zurique, chamou a atenção para</p><p>o fato de que este aumento no tamanho do cérebro poderia ter</p><p>ocorrido apenas com um suprimento de energia reforçado: a</p><p>dieta do Homo primitivo, observa ele, deve ter sido não apenas</p><p>segura mas também rica do ponto de vista nutricional. A carne</p><p>representa uma fonte concen-</p><p>6161</p><p>trada de calorias, proteínas e gordura. Somente pela adição de</p><p>uma proporção significativa de carne à sua dieta poderia o</p><p>Homo primitivo ter “custeado” a construção de um cérebro</p><p>maior em tamanho do que o dos australopitecíneos.</p><p>Por todas estas razões, penso que a adaptação mais impor-</p><p>tante no pacote evolutivo do Homo primitivo tenha sido uma in-</p><p>gestão significativa de carne. Se o Homo primitivo caçava</p><p>presas vivas ou simplesmente aproveitava-se das carcaças, ou</p><p>ambos, é uma questão muito controversa na antropologia,</p><p>como veremos no próximo capítulo. Mas não tenho dúvida de</p><p>que a carne desempenhava um papel importante na vida diária</p><p>de nossos ancestrais. Mais ainda, a nova estratégia de</p><p>subsistência de obtenção, não apenas de alimentos de srcem</p><p>vegetal mas também de carne vermelha, provavelmente exigiu</p><p>uma organização social e cooperação significativas.</p><p>Todo biólogo sabe que, quando ocorre uma mudança funda-</p><p>mental no padrão de subsistência de uma espécie, outras</p><p>mudanças usualmente se seguem. Muitas vezes tais mudanças</p><p>secundárias dizem respeito à anatomia da espécie, na medida</p><p>em que esta se adapta à nova dieta. Vimos que a estrutura dos</p><p>dentes e do maxilar do Homo primitivo é diferente da estrutura</p><p>dos australopitecíneos, presumivelmente como uma adaptação</p><p>a uma dieta que incluía carne.</p><p>Muito recentemente, os antropólogos passaram a acreditar</p><p>que, além das diferenças dentárias, o Homo primitivo diferia</p><p>dos australopitecíneos por ser uma criatura fisicamente muito</p><p>mais ativa. Duas Unhas de pesquisas independentes</p><p>convergiram para a mesma conclusão: a de que o Homo</p><p>primitivo era um corredor eficiente, a primeira espécie humana</p><p>a ser assim.</p><p>Poucos anos atrás, o antropólogo Peter Schmid, um dos co-</p><p>legas de Robert Martin em Zurique, teve a oportunidade de</p><p>estudar o famoso esqueleto de Lucy. Utilizando moldes de fibra</p><p>de vidro dos ossos fossilizados, Schmid começou a montar o</p><p>corpo de Lucy, com a expectativa total de que este seria</p><p>essencialmente humano na forma. Schmid ficou surpreendido</p><p>com o que viu: a caixa torácica de Lucy revelou-se cônica na</p><p>forma, como a de um macaco, e não em forma de um barril,</p><p>como seria de se esperar nos humanos. Os ombros, o tronco e</p><p>a cintura de Lucy também revelaram ter fortes aspectos</p><p>semelhantes aos dos macacos.</p><p>Em uma importante conferência internacional em Paris, em</p><p>1969, Schmid descreveu as implicações do que havia</p><p>encontrado e elas são altamente significativas. O</p><p>Australopithecus afarensis,</p><p>6262</p><p>disse ele, “não teria sido capaz de elevar o seu tórax do modo</p><p>necessário ao tipo de inalação profunda que fazemos ao correr.</p><p>O abdome era pronunciado, e ele não tinha cintura, de maneira</p><p>que isto teria restringido a flexibilidade que é essencial ao</p><p>modo de correr humano”. O Homo era um corredor, o</p><p>Australopithecus não.</p><p>A segunda Unha de indício que se relaciona com esta questão</p><p>da agilidade srcinou-se do trabalho de Leslie Aiello sobre o</p><p>peso corporal e a estatura. Ela obteve medidas destas</p><p>características nos humanos e macacos modernos e as</p><p>comparou com dados similares obtidos de fósseis humanos. Os</p><p>macacos de hoje são fortemente constituídos para a sua</p><p>estatura, sendo duas vezes mais corpulentos do que um</p><p>humano da mesma altura. Os dados oriundos dos fósseis</p><p>também encaixaram-se em um padrão nítido — um que agora</p><p>estava se tornando familiar. Os australopitecíneos eram</p><p>semelhantes aos macacos em sua constituição corporal,</p><p>enquanto todas as espécies de Homo eram semelhantes aos</p><p>humanos. Ambos, as descobertas de Aiello e o trabalho de</p><p>Schmid, são coerentes com a descoberta de Fred Spoor da</p><p>diferença na estrutura anatômica do ouvido interno nos</p><p>australopitecíneos e no Homo: um compromisso maior com o</p><p>bipedismo acompanha a nova estrutura corporal.</p><p>Sugeri no capítulo anterior que outras mudanças importantes</p><p>além da relativa ao tamanho do cérebro ocorreram com a evo-</p><p>lução do gênero Homo. Podemos ver agora qual foi uma delas:</p><p>os australopitecíneos eram bipédes, mas eram limitados em</p><p>sua agilidade; as espécies de Homo eram de atletas.</p><p>Argumentei anteriormente que o bipedismo evoluiu inicialmente</p><p>como uma maneira mais eficiente de locomoção em um meio</p><p>físico alterado, permitindo ao macaco bípede sobreviver em um</p><p>habitat impróprio para os macacos convencionais. Os macacos</p><p>bipédes eram capazes de cobrir um território maior quando</p><p>faziam incursões em busca de fontes de alimentos amplamente</p><p>espalhadas pela savana aberta. Com a evolução do Homo,</p><p>surgiu uma nova forma de locomoção, ainda baseada no</p><p>bipedismo mas com maior agilidade e atividade. A estatura</p><p>flexível dos humanos modernos permite manter uma</p><p>locomoção de passadas largas e promove uma perda efetiva</p><p>de calor, que é importante para um animal que está em</p><p>atividade em ambientes quentes e abertos, como era o caso do</p><p>Homo primitivo. A passada bípede eficiente representou uma</p><p>mudança fundamental na adaptação hominídea. Como</p><p>veremos no próximo capítulo, esta mudança certamente</p><p>envolveu um certo grau de atividade de caça.</p><p>6363</p><p>A capacidade que um animal ativo tem de dissipar calor é es-</p><p>pecialmente importante para a fisiologia do cérebro, um ponto</p><p>enfatizado pela antropóloga Dean Falk, da State University of</p><p>New York, em Albany. Em sua pesquisa anatômica na década</p><p>de 1980, ela demonstrou que a estrutura dos vasos que fazem</p><p>a drenagem de sangue no cérebro do Homo é conducente com</p><p>um resfriamento</p><p>eficiente, enquanto que nos australopitecíneos</p><p>esta estrutura é muito menos assim. A chamada hipótese do</p><p>radiador de Falk é um argumento a mais em apoio à magnitude</p><p>da adaptação do Homo.</p><p>Que a adaptação do Homo foi bem-sucedida mal precisa ser</p><p>dito: estamos aqui hoje como indício. Mas por que não temos</p><p>outros macacos bipédes como companhia?</p><p>Há 2 milhões de anos, o Homo coexistia com diversas espécies</p><p>de Australopithecus na África Oriental e do Sul. Mas 1 milhão</p><p>de anos mais tarde, o Homo estava em isolamento esplêndido,</p><p>tendo as várias espécies australopitecíneas se tornado</p><p>extintas. (Somos inclinados a pensar na extinção como a marca</p><p>do fracasso — como algo que acontece a uma espécie que de</p><p>algum modo não correspondeu aos desafios que a natureza lhe</p><p>apresentou. Na verdade, a extinção parece ser o destino final</p><p>de todas as espécies: mais de 99,9 por cento de todas as</p><p>espécies que já existiram estão agora extintas —</p><p>provavelmente tanto em conseqüência de má sorte quanto de</p><p>genes ruins.) O que sabemos do destino dos</p><p>australopitecíneos?</p><p>Muitas vezes me perguntam se acho que o Homo, tendo se</p><p>tornado carnívoro, não poderia ter incluído seus primos</p><p>australopitecíneos na sua dieta, empurrando-os deste modo</p><p>para a extinção. Não tenho dúvidas de que de tempos em</p><p>tempos o Homo primitivo matava australopitecíneos</p><p>vulneráveis, do mesmo modo como matava um antílope e</p><p>outras presas animais quando podia Mas a causa da extinção</p><p>dos australopitecíneos é provável que tenha sido mais</p><p>prosaica.</p><p>Sabemos que o Homo erectus foi uma espécie extremamente</p><p>bem-sucedida, já que foram os primeiros humanos a expandir</p><p>seus domínios para além da África. Portanto, é provável que o</p><p>Homo primitivo tenha crescido rapidamente em número,</p><p>tornando-se assim um competidor importante por um recurso</p><p>essencial à sobrevivência dos australopitecíneos: a comida.</p><p>Mais ainda, entre 1 milhão e 2 milhões de anos atrás macacos</p><p>que viviam no solo — os babuínos — estavam se tornando</p><p>também bastante</p><p>6464</p><p>bem-sucedidos e crescendo em número, e também teriam</p><p>competido com os australopitecíneos pela comida. Os</p><p>australopitecíneos podem muito bem ter sucumbido em razão</p><p>de uma dupla pressão competitiva — do Homo de um lado e</p><p>dos babuínos do outro.</p><p>6565</p><p>4 - Homem, o nobre caçador?</p><p>Pelo menos algumas linhas de indícios apoiam a noção de que</p><p>a compleição física do Homo primitivo refletia uma procura</p><p>ativa de carne — isto é, como um caçador em busca de sua</p><p>presa. É salutar refletir sobre o fato de que, como meio de</p><p>subsistência, a caça e a coleta persistiram até recentemente na</p><p>pré-história humana; somente com a adoção da agricultura há</p><p>uns meros 10 mil anos nossos ancestrais realmente</p><p>começaram a abandonar uma existência simples à procura de</p><p>alimentos. Uma questão importante para os antropólogos tem</p><p>sido esta: quando este modo muito humano de subsistência</p><p>apareceu? Estava ele presente desde os começos do gênero</p><p>Homo, como sugeri? Ou foi uma adaptação recente, tendo</p><p>emergido apenas com a evolução dos humanos modernos, há</p><p>talvez 100 mil anos? Para responder a estas questões,</p><p>devemos nos debruçar sobre as pistas que os registros</p><p>arqueológicos e fósseis fornecem, procurando sinais do modo</p><p>de subsistência com base na caça e na coleta. Veremos neste</p><p>capítulo que nos anos recentes as teorias mudaram, refletindo</p><p>o modo pelo qual vemos a nós e a nossos ancestrais. Antes de</p><p>vermos como os indícios da pré-história têm sido esmiuçados,</p><p>seria útil ter em mente uma visão do modo de vida</p><p>caracterizado pela busca de alimentos, o qual podemos</p><p>aprender com os caçadores-coletores modernos.</p><p>A combinação entre a caça às fontes de carne e a coleta de</p><p>alimentos oriundos de vegetais como estratégia sistemática de</p><p>subsistência é singularmente humana. É também espetacular-</p><p>mente bem-sucedida, tendo permitido à humanidade florescer</p><p>em praticamente todos os cantos do mundo, com exceção da</p><p>Antártica. Ambientes muitíssimo diferentes foram ocupados,</p><p>desde as florestas tropicais vaporosas até os desertos, desde</p><p>faixas litorâneas fecundas até platôs virtualmente estéreis. As</p><p>dietas variam bastante de ambiente para ambiente. Por</p><p>exemplo, os nativos americanos do noroeste pescam salmões</p><p>em quantidades prodigiosas, enquanto os !Kung San do</p><p>Kalahari dependem das castanhas mongongo como fonte da</p><p>maior parte de sua proteína.</p><p>6666</p><p>Ainda assim, a despeito de diferenças na dieta e do meio eco-</p><p>lógico, há muitas coisas em comum no modo de vida dos</p><p>caçadores-coletores. As pessoas vivem em bandos pequenos e</p><p>móveis de cerca de 25 indivíduos — um cerne formado pelos</p><p>machos e fêmeas adultos e sua prole. Estes bandos interagem</p><p>uns com os outros formando uma rede social e política</p><p>interligada pelos costumes e pela língua. Atingindo tipicamente</p><p>cerca de quinhentos indivíduos, esta rede formada pelos</p><p>bandos é conhecida como uma tribo dialetal. Os bandos</p><p>ocupam acampamentos temporários a partir de onde saem em</p><p>busca da sua alimentação diária.</p><p>Na maioria das sociedades de caçadores-coletores que os</p><p>antropólogos estudaram, há uma clara divisão de trabalho, com</p><p>os machos responsáveis pela caça e as fêmeas pela coleta de</p><p>alimentos de srcem vegetal. O acampamento é um lugar de</p><p>intensa interação social, e o lugar onde a comida é partilhada;</p><p>quando há carne vermelha disponível, esta partilha muitas</p><p>vezes envolve um ritual elaborado, governado por regras</p><p>sociais estritas.</p><p>Para os ocidentais, manter uma existência a partir dos recursos</p><p>naturais do meio ambiente utilizando a mais simples das tec-</p><p>nologias parece ser um desafio amedrontador. Na realidade, é</p><p>um modo extremamente eficiente de subsistência, na medida</p><p>em que os que saem à procura de alimentos podem muitas</p><p>vezes coletar comida suficiente para o dia em três ou quatro</p><p>horas. Um importante projeto de pesquisas das décadas de</p><p>1960 e 1970 mostrou que isto é verdadeiro no caso dos !Kung</p><p>San, cuja terra natal no deserto de Kalahari, em Botswana, é</p><p>isolada ao extremo. Os caçadores-coletores estão sintonizados</p><p>com o seu meio ambiente físico de uma maneira difícil para a</p><p>mente ocidental urbana entender. Em conseqüência, eles</p><p>sabem como explorar o que para os olhos modernos parecem</p><p>ser recursos escassos. A força de seu modo de vida está nesta</p><p>exploração das fontes animal e vegetal de recursos dentro de</p><p>um sistema que promove a interdependência e a cooperação.</p><p>A noção de que a caça foi importante na evolução humana tem</p><p>uma longa história no pensamento antropológico, remontando</p><p>a Darwin. Em seu livro de 1871, A descendência do homem,</p><p>ele sugeriu que as armas de pedra eram utilizadas não apenas</p><p>como defesa contra os predadores mas também para abater a</p><p>presa. A adoção da caça com armas artificiais foi parte do que</p><p>fez dos humanos humanos, argumentou ele. A imagem de</p><p>Darwin de nossos ancestrais foi nitidamente influenciada pela</p><p>sua experiência no decorrer de sua viagem de cinco anos no</p><p>Beagle. Aqui está</p><p>6767</p><p>como ele descreveu seu encontro com o povo da Terra do</p><p>Fogo, no extremo sul da América do Sul:</p><p>Dificilmente pode haver qualquer dúvida de que descende-</p><p>mos de bárbaros. O espanto que senti ao avistar um grupo de</p><p>fueguinos na costa selvagem e irregular nunca será</p><p>esquecido por mim, pois esta reflexão imediatamente brotou</p><p>em minha mente — assim eram os nossos ancestrais. Estes</p><p>homens estavam absolutamente nus e besuntados de tinta,</p><p>seus longos cabelos eram emaranhados, suas bocas</p><p>espumavam de excitação, e suas expressões eram</p><p>selvagens, assustadas e desconfiadas. Eles mal possuíam</p><p>quaisquer artes, e como os animais selvagens viviam do que</p><p>podiam pegar.</p><p>A convicção de que a caça foi fundamental para a nossa evo-</p><p>lução, e a combinação do modo de vida de nossos ancestrais</p><p>com o dos povos tecnologicamente primitivos sobreviventes</p><p>deixaram uma impressão duradoura no pensamento</p><p>antropológico. Em um ensaio reflexivo sobre esta questão, o</p><p>biólogo Timothy Perper e o antropólogo Carmel Schrire, ambos</p><p>da Universidade Rutgers, colocaram-na sucintamente: “O</p><p>modelo da caça (...) assume que a caça e o hábito de comer</p><p>carne vermelha deram o sinal de partida para a evolução</p><p>humana e levaram o homem à criatura que hoje ele é.” De</p><p>acordo com este modelo, esta atividade moldou nossos</p><p>ancestrais de três modos, explicam Perper e Schrire, “afetando</p><p>o comportamento psicológico, social e territorial do homem</p><p>primitivo”. Em um trabalho clássico sobre o assunto publicado</p><p>em 1963, o antropólogo sul-africano John Robinson expressou</p><p>a medida da importância que a ciência atribuiu à caça na pré-</p><p>história humana:</p><p>A incorporação do hábito de comer carne à dieta parece-me</p><p>ter sido uma mudança evolutiva de enorme importância que</p><p>abriu um novo e vasto campo evolutivo. A mudança, em</p><p>minha opinião, equipara-se em importância evolutiva à srcem</p><p>dos mamíferos — talvez mais apropriadamente à srcem dos</p><p>tetrápodos.* Junto com a expansão relativamente grande da</p><p>inteligência e da cultura, ela introduziu uma nova dimensão e</p><p>um novo mecanismo evolutivo no cenário da evolução, que</p><p>quando muito são apenas vislumbrados em outros animais.</p><p>Nossa suposta herança de caçadores assumiu também as-</p><p>6868</p><p>*</p><p>Os vertebrados dividem-se em dois grandes grupos: os peixes e os tetrápodos.</p><p>Estes últimos incluem os anfíbios, répteis, aves e mamíferos. Os primeiros tetrápo-</p><p>dos eram anfíbios derivados diretamente de certos peixes. (N. do T.)</p><p>pectos místicos, tornando-se equivalente ao pecado srcinal de</p><p>Adão e Eva, que tiveram que abandonar o Paraíso depois de</p><p>ter comido o fruto proibido. “No modelo da caça, o homem</p><p>comeu carne para sobreviver na savana hostil e, em virtude</p><p>desta estratégia, tornou-se o animal cuja história subseqüente</p><p>está gravada em um meio de violência, conquista e</p><p>derramamento de sangue”, observaram Perper e Schrire. Este</p><p>foi o tema considerado por Raymond Dart em alguns de seus</p><p>escritos da década de 1950 e, mais popularmente, por Robert</p><p>Ardrey. “Nem na inocência e nem na Ásia, nasceu a raça</p><p>humana”, é a frase inicial do livro de Ardrey, African Genesis,</p><p>publicado em 1971. A imagem provou ser poderosa nas</p><p>mentes do público e dos profissionais. E, como veremos,</p><p>imagens têm se mostrado importantes para o modo pelo qual o</p><p>registro arqueológico tem sido interpretado a esse respeito.</p><p>Uma conferência na Universidade de Chicago, em 1966, sobre</p><p>o tema “Homem, o Caçador” tornou-se um marco no desen-</p><p>volvimento do pensamento antropológico sobre o papel da</p><p>caça na nossa evolução. A conferência foi importante por</p><p>diversas razões, em particular por seu reconhecimento de que</p><p>a coleta de alimentos de srcem vegetal fornecia o suprimento</p><p>principal de calorias para a maioria das sociedades de</p><p>caçadores-coletores. E, exatamente como Darwin fizera há</p><p>quase um século, a conferência equiparou o que sabemos do</p><p>modo de vida dos caçadores-coletores modernos aos padrões</p><p>de comportamento de nossos ancestrais primitivos.</p><p>Conseqüentemente, indícios aparentes do hábito de comer</p><p>carne encontrados no registro pré-histórico — na forma de</p><p>acúmulos de artefatos de pedra e ossos de animais —</p><p>passaram a ter uma implicação clara, como meu amigo e</p><p>colega Glynn Isaac, arqueólogo da Universidade Harvard,</p><p>observou: “Tendo, por assim dizer, seguido uma trilha</p><p>aparentemente ininterrupta de detritos de pedras e ossos que</p><p>remonta ao Pleistoceno, parece natural (...) tratar estes</p><p>acúmulos de restos de artefatos e fauna como 'acampamentos-</p><p>base fossilizados'.” Em outras palavras, nossos ancestrais</p><p>passaram a ser considerados como tendo vivido como os</p><p>caçadores-coletores o fazem, embora de uma forma mais</p><p>primitiva.</p><p>Isaac promoveu um avanço significativo no pensamento an-</p><p>tropológico com sua hipótese do partilhamento de alimentos,</p><p>que ele publicou em um importante artigo na Scientific</p><p>American em 1978. Nele, Isaac mudou a ênfase na caça per se</p><p>como a força que moldou o comportamento humano para o</p><p>impacto da aquisição e partilha colaborativa de alimentos. “A</p><p>adoção da partilha de ali-</p><p>6969</p><p>mentos teria favorecido o desenvolvimento da linguagem, a</p><p>reciprocidade social e o intelecto”, disse ele em um encontro</p><p>em 1982, que marcou o centenário da morte de Darwin.</p><p>Cinco padrões de comportamento separam os humanos de</p><p>seus parentes macacos, escreveu ele em seu trabalho de</p><p>1978: (1) um modo de locomoção bípede, (2) uma linguagem</p><p>falada, (3) partilha regular e sistemática de alimentos em um</p><p>contexto social, (4) o viver em acampamentos-base, (5) a caça</p><p>às grandes presas. Isto descreve o comportamento humano, é</p><p>claro. Mas, sugeriu Isaac, há cerca de 2 milhões de anos</p><p>“várias mudanças fundamentais haviam começado a acontecer</p><p>nos arranjos social e ecológico hominídeos”. Eles já eram</p><p>caçadores-coletores embrionários, vivendo em pequenos</p><p>bandos móveis e ocupando acampamentos temporários a partir</p><p>dos quais os machos saíam para predar e as fêmeas para</p><p>coletar aumentos vegetais. O acampamento fornecia o foco</p><p>social no qual o alimento era dividido. “Embora a carne fosse</p><p>um componente importante da dieta, ela poderia ter sido obtida</p><p>pela caça ou das carcaças de animais já mortos”, Isaac disse-</p><p>me em 1984, um ano antes de sua morte tragicamente</p><p>prematura. “Você seria duramente pressionado a dizer qual,</p><p>dado o tipo de indício que obtemos da maioria dos sítios</p><p>arqueológicos.”</p><p>O ponto de vista de Isaac influenciou fortemente o modo pelo</p><p>qual o registro arqueológico foi interpretado. Sempre que</p><p>artefatos de pedra eram descobertos em associação com</p><p>ossos fossilizados de animais, isto era tomado como uma</p><p>indicação de um antigo “acampamento-base”, os escassos</p><p>detritos de talvez diversos dias de atividade de um bando de</p><p>caçadores-coletores. O argumento de Isaac era plausível e, em</p><p>meu livro de 1981 The Making of Mankind , escrevi que “a</p><p>hipótese da partilha de alimentos é uma forte candidata para</p><p>explicar o que colocou os humanos primitivos no caminho que</p><p>leva ao homem moderno”. A hipótese parecia consistente com</p><p>o modo pelo qual eu via os registros arqueológico e fóssil, e</p><p>obedecia a sólidos princípios biológicos. Richard Potts, da</p><p>Smithsonian Institution, concordou. Em seu livro de 1988</p><p>intitulado Early Hominid Activities at Olduvai , Potts observou</p><p>que a hipótese de Isaac “parecia ser uma interpretação muito</p><p>atraente”, escrevendo:</p><p>A hipótese do acampamento-base e partilha de comida</p><p>integra muitos aspectos do comportamento humano e da sua</p><p>vida social que são importantes para o antropólogo —</p><p>sistemas</p><p>7070</p><p>de reciprocidade, trocas, parentesco, subsistência, divisão de</p><p>trabalho e linguagem.</p><p>Vendo nos registros, nos ossos e nas pedras o que parecem</p><p>ser elementos do modo de vida dos caçadores-coletores, os</p><p>arqueólogos inferiram que o resto era conseqüência. Era um</p><p>quadro muito completo.</p><p>No final da década de 1970 e começos da década de 1980,</p><p>porém, este pensamento começou a mudar, graças a Isaac e</p><p>ao arqueólogo Lewis Binford, então na Universidade do Novo</p><p>México. Ambos deram-se conta de que muito da interpretação</p><p>dominante dos registros pré-históricos tinha base em</p><p>suposições implícitas. De modo independente, eles começaram</p><p>a separar o que poderia ser realmente conhecido a partir dos</p><p>registros daquilo que simplesmente era suposto. O processo</p><p>começou no nível mais fundamental, questionando o</p><p>significado de se encontrar pedras e ossos de animais no</p><p>mesmo lugar. Implicaria esta coincidência espacial o</p><p>esquartejamento pré-histórico de animais, como havia sido</p><p>suposto? E se o esquartejamento pudesse ser provado, isto im-</p><p>plicaria que as pessoas que o faziam viviam como os</p><p>caçadores-coletores modernos vivem hoje?</p><p>Isaac e eu falamos muitas vezes sobre as várias hipóteses de</p><p>subsistência, e ele costumava criar cenários em que os ossos e</p><p>pedras acabavam no mesmo lugar mas sem ter nada a ver com</p><p>o modo de vida dos caçadores-coletores. Por exemplo, um</p><p>grupo de humanos primitivos poderia ter passado algum tempo</p><p>debaixo de uma árvore simplesmente para</p><p>aproveitar a sua</p><p>sombra, reunindo pedras para outros propósitos que não o</p><p>esquartejamento de carcaças — por exemplo, eles poderiam</p><p>ter tentado obter lascas para desbastar paus que poderiam ser</p><p>utilizados para desenterrar tubérculos. Algum tempo mais</p><p>tarde, depois que o grupo tivesse partido, um leopardo poderia</p><p>ter subido na árvore, carregando consigo sua presa, como</p><p>muitas vezes os leopardos o fazem. Gradualmente, a carcaça</p><p>teria apodrecido e os ossos teriam caído ao chão, ficando entre</p><p>as pedras deixadas ali pelos fabricantes de artefatos. De que</p><p>maneira um arqueólogo escavando este sítio 1,5 milhão de</p><p>anos depois poderia distinguir entre este cenário e a</p><p>interpretação previamente favorecida do esquartejamento por</p><p>um grupo de caçadores e coletores nômades? Meu instinto me</p><p>diz que os humanos primitivos de fato dedicaram-se a algum</p><p>tipo de caça e coleta, mas eu podia ver a preocupação de</p><p>Isaac com uma leitura segura dos indícios.</p><p>O ataque de Lewis Binford ao conhecimento convencional</p><p>7171</p><p>foi bem mais áspero do que o de Isaac. Em seu livro de 1981</p><p>Bones: Ancient Man and Modem Myth, ele sugeriu que os</p><p>arqueólogos que viam os arranjos de instrumentos de pedra e</p><p>ossos como restos de acampamentos antigos estavam “criando</p><p>'histórias certinhas' sobre o nosso passado hominídeo”. Binford,</p><p>que realizou pouco de seu trabalho em sítios arqueológicos</p><p>primitivos, deduziu seus pontos de vista inicialmente do estudo</p><p>dos ossos de neanderthals, que viveram na Eurásia entre 135</p><p>mil e 34 mil anos atrás.</p><p>“Fiquei convencido de que a organização do modo de vida dos</p><p>caçadores e coletores entre estes ancestrais relativamente</p><p>recentes era bem diferente daquela dos Homo sapiens</p><p>totalmente modernos”, escreveu ele em um importante artigo</p><p>de revisão em 1985. “Se isto é verdade, então os modos de</p><p>vida quase 'humanos' apresentados na visão 'consensual' dos</p><p>hominídeos muito primitivos apresentam-se como uma</p><p>condição extremamente improvável.” Binford sugeriu que a</p><p>caça sistemática de qualquer tipo começou a aparecer somente</p><p>depois que os humanos modernos evoluíram, época que ele</p><p>calcula entre 45 mil e 35 mil anos atrás.</p><p>Nenhum dos sítios arqueológicos primitivos poderia ser</p><p>considerado sobras da sala de jantar de antigos</p><p>acampamentos, argumentou Binford. Ele chegou a esta</p><p>conclusão pela análise de dados de outras pessoas sobre</p><p>ossos encontrados em outros sítios arqueológicos famosos na</p><p>garganta Olduvai. Havia os lugares de abate de predadores</p><p>não-humanos, disse ele. Uma vez que os predadores, tais</p><p>como o leão e a hiena, tivessem ido embora, os hominídeos</p><p>chegavam no lugar para pegar quaisquer restos de carniça que</p><p>pudessem obter. “As partes principais, ou em muitos casos as</p><p>únicas partes utilizáveis ou comestíveis, consistiam no tutano</p><p>dos ossos”, escreveu ele. “Não há indício de apoio à idéia de</p><p>que os hominídeos estavam retirando alimentos de pontos de</p><p>abastecimento e os transportando para acampamentos-base</p><p>para consumo (...) Da mesma forma, o argumento de que o</p><p>alimento era dividido é totalmente destituído de fundamento.”</p><p>Esta idéia apresenta um quadro muito diferente de nossos</p><p>ancestrais de 2 milhões de anos atrás. “Eles não eram</p><p>ancestrais românticos”, escreveu Binford, “mas comilões</p><p>ecléticos comumente escarafunchando as carcaças de</p><p>ungulados mortos em busca de pequenos bocados de</p><p>alimento.”</p><p>Nesta visão da pré-história humana primitiva, nossos ancestrais</p><p>tornam-se muito menos semelhantes aos humanos, não ape-</p><p>7272</p><p>nas no seu modo de subsistência mas também em outros</p><p>elementos do comportamento; por exemplo, a linguagem, a</p><p>moralidade e a consciência estariam ausentes. Binford conclui:</p><p>“Nossa espécie surgiu — não como resultado de processos</p><p>graduais e progressivos, mas de modo explosivo e num</p><p>período de tempo relativamente curto.” Este era o âmago</p><p>filosófico do debate. Se o Homo primitivo exibia aspectos de</p><p>um modo de vida semelhante ao dos humanos, então temos de</p><p>aceitar a emergência da essência de humanidade como um</p><p>processo gradual — um processo que nos leva a um passado</p><p>muito distante. Se, entretanto, o comportamento realmente</p><p>semelhante ao humano emergiu rápida e recentemente, então</p><p>nos encontramos em isolamento esplêndido, desligados do</p><p>passado distante e do resto da natureza.</p><p>Embora Isaac compartilhasse as preocupações de Binford</p><p>sobre os excessos da interpretação passada dos registros pré-</p><p>históricos, ele considerou uma abordagem diferente para</p><p>retificá-las. Enquanto Binford trabalhou principalmente com</p><p>dados de outras pessoas, Isaac decidiu que escavaria um sítio</p><p>arqueológico, olhando para os indícios com novos olhos.</p><p>Embora a distinção entre caçar e aproveitar-se de restos de</p><p>carcaças não fosse crucial para a hipótese de Isaac de partilha</p><p>de alimento, ela tornou-se importante no reexame dos registros</p><p>arqueológicos. Caçador ou carniceiro? Este era o ponto</p><p>principal do debate.</p><p>Em princípio, a caça deveria ficar impressa nos registros</p><p>arqueológicos de um modo diferente do de aproveitamento de</p><p>carcaças. O registro da diferença deveria ser evidente nas</p><p>partes do corpo deixadas pelo caçador e pelo carniceiro. Por</p><p>exemplo, quando um caçador abate uma presa, ele tem a</p><p>opção de levar a carcaça inteira ou partes dela de volta para o</p><p>acampamento. Um carniceiro, em contraste, tem ao seu dispor</p><p>apenas aquilo que pode encontrar num lugar de abate</p><p>abandonado: a escolha das partes do corpo que pode levar</p><p>para o acampamento será mais limitada. A variedade de ossos</p><p>encontrada em um acampamento de um caçador hominídeo</p><p>deveria ser portanto maior do que a encontrada no de um</p><p>carniceiro — incluindo, algumas vezes, um esqueleto inteiro.</p><p>Entretanto, há muitos fatores que podem estragar este belo</p><p>quadro. Como observou Potts: “Se um carniceiro encontra a</p><p>carcaça de um animal que acabou de morrer em razão de</p><p>causas naturais, então todas as partes do corpo lhe são</p><p>disponíveis, e o padrão de ossos que resulta disto parecerá</p><p>exatamente com o da caça. E se o carnicei'^ consegue afastar</p><p>o predador de sua presa lo-</p><p>7373</p><p>go após este tê-la abatido, novamente o padrão parecerá com</p><p>o da caça. O que você deve fazer?” O antropólogo de Chicago,</p><p>Richard Klein, que analisou muitos conjuntos de ossos no sul</p><p>da África e na Europa, acredita que a tarefa de distinguir entre</p><p>os dois modos de subsistência pode ser impossível: “Há tantas</p><p>maneiras pelas quais os ossos podem chegar a um lugar, e</p><p>tantas coisas podem acontecer com eles, que para os</p><p>hominídeos a questão do caçador versus carniceiro pode não</p><p>ser jamais resolvida.”</p><p>A escavação na qual Isaac embarcou para testar a nova hipó-</p><p>tese era conhecida como sítio 50, que é localizado perto da</p><p>escarpa Karari, cerca de 25 quilômetros ao leste do lago</p><p>Turkana, no norte do Quênia. Durante um período de três anos</p><p>que começou em 1977, ele e uma equipe de arqueólogos e</p><p>geólogos expuseram a céu aberto uma área de terreno antigo,</p><p>a margem arenosa de uma pequena corrente de água.</p><p>Cuidadosamente, eles desenterraram 1.405 peças de artefatos</p><p>de pedra e 2.100 fragmentos de ossos, alguns grandes, a</p><p>maioria pequenos, que tinham sido enterrados cerca de 1,5</p><p>milhão de anos atrás, quando uma corrente sazonal provocou</p><p>uma enchente no começo de uma estação chuvosa. Hoje, a</p><p>região é árida, com arbustos e vegetação rasteira dispersos</p><p>entre sulcos e crateras esculpidos por eras de erosão. O obje-</p><p>tivo que Isaac e sua equipe delimitaram para si mesmos era</p><p>descobrir o que havia ocorrido há 1,5 milhão de anos, quando</p><p>artefatos de pedra e muitos ossos de animais vieram repousar</p><p>no mesmo lugar.</p><p>Em suas críticas anteriores, Binford sugerira que as muitas co-</p><p>ocorrências de ossos e pedras eram o resultado da ação da</p><p>água. Isto é, uma corrente de águas velozes pode levar</p><p>consigo pedaços de ossos e pedras e então acumulá-los em</p><p>um ponto de baixa energia, tais como aqueles em que a</p><p>corrente alarga-se ou na margem de dentro de uma curva.</p><p>Neste caso, o acúmulo de ossos</p><p>e pedras no mesmo lugar</p><p>seria o resultado do acaso e não da atividade hominídea. O</p><p>“sítio arqueológico” não seria mais do que uma confusão</p><p>hidráulica. Tal explicação parecia improvável no caso do sítio</p><p>50, pois a área de terreno antigo localizava-se na margem da</p><p>corrente e não dentro dela, e porque as pistas geológicas</p><p>indicavam que o sítio havia sido enterrado lentamente. Não</p><p>obstante, uma associação direta entre ossos e pedras tinha</p><p>que ser demonstrada, não suposta. Esta demonstração</p><p>apareceu de um modo absolutamente inesperado e constituiu-</p><p>se em uma das descobertas marcantes da arqueologia nos</p><p>últimos tempos.</p><p>Quando um animal é desmembrado ou um osso é limpo com</p><p>7474</p><p>uma faca, de metal ou pedra, o esquartejador inevitavelmente</p><p>corta o osso de vez em quando, deixando longos sulcos ou</p><p>marcas de corte. Durante o desmembramento, as marcas de</p><p>corte concentram-se em torno das juntas, enquanto que ao</p><p>limpar o osso elas são inflingidas também em outras partes.</p><p>Quando o arqueólogo da Universidade de Wisconsin, Henry</p><p>Bunn, estava examinando alguns fragmentos de ossos</p><p>oriundos do sítio 50, ele observou estes sulcos. No</p><p>microscópio, eles podiam ser vistos com uma secção</p><p>transversal em forma de V. Seria isto uma marca de corte, feita</p><p>há 1,5 milhão de anos por um hominídeo? Experiências com</p><p>ossos modernos e lascas de pedra confirmaram isso, provando</p><p>conclusivamente uma relação causai entre os ossos e as</p><p>pedras no sítio: os hominídeos os haviam levado para lá e os</p><p>haviam processado para obter comida. Esta descoberta foi a</p><p>primeira demonstração direta de uma ligação comportamental</p><p>entre ossos e pedras em um sítio arqueológico primitivo. Foi o</p><p>ponto final no mistério dos sítios antigos.</p><p>Na ciência, muitas vezes acontece que descobertas impor-</p><p>tantes são feitas de modo independente, mais ou menos na</p><p>mesma época. Assim aconteceu com as marcas de corte.</p><p>Trabalhando com ossos oriundos dos sítios arqueológicos em</p><p>torno do lago Turkana e da garganta Olduvai, Richard Potts e o</p><p>arqueólogo da Universidade Johns Hopkins, Pat Shipman,</p><p>também encontraram marcas de corte. Seus métodos de</p><p>estudos eram ligeiramente diferentes dos de Bunn, mas a</p><p>resposta foi a mesma: há cerca de 2 milhões de anos os</p><p>hominídeos estavam utilizando lascas de pedra para</p><p>desmembrar carcaças e limpar ossos (ver figura 4.1). Em</p><p>retrospecto, é surpreendente que as marcas de corte não</p><p>tenham sido descobertas mais cedo, pois os ossos examinados</p><p>por Potts e Shipman tinham sido estudados muitas vezes por</p><p>muitas pessoas. Um momento de reflexão teria convencido a</p><p>mente alerta de que, se a teoria arqueológica predominante</p><p>fosse correta, sinais de esquartejamento deveriam estar</p><p>presentes em alguns ossos fossilizados. Mas ninguém havia</p><p>olhado assiduamente, porque a resposta era suposta.</p><p>Entretanto, uma vez questionadas as suposições implícitas da</p><p>teoria predominante, a época era certa para procurar e</p><p>encontrá-las.</p><p>O sítio 50 forneceu mais indícios de hominídeos utilizando</p><p>pedra em ossos como parte de suas vidas diárias. Alguns dos</p><p>ossos compridos encontrados no sítio estavam despedaçados</p><p>em pequenos fragmentos, resultado, como revelou-se, da ação</p><p>feita por alguém de colocar o osso sobre uma pedra, como em</p><p>7575</p><p>uma bigorna, e então ter ministrado uma série de golpes ao</p><p>longo do mesmo para ter acesso ao tutano no seu interior. Este</p><p>cenário foi reconstruído a partir de um quebra-cabeça</p><p>paleolítico, em que os fragmentos foram reunidos de modo a</p><p>formar o osso completo e feita uma análise do padrão de</p><p>fragmentação, que incluía sinais característicos de percussão.</p><p>“Descobrir as peças de osso quebradas com um martelo que</p><p>se encaixam convida-nos a visualizar os proto-humanos</p><p>primitivos no próprio ato de extrair e comer o tutano”,</p><p>escreveram Isaac e seus colegas em um trabalho que</p><p>descrevia suas descobertas. Das marcas de corte eles</p><p>disseram: “Descobrir a extremidade de articulação de um osso</p><p>com marcas aparentemente formadas quando uma pedra</p><p>afiada foi utilizada para desmembrar uma perna de antílope só</p><p>pode conjurar imagens muito específicas de esquartejamento</p><p>em andamento.”</p><p>Somando-se a estas imagens de atividade hominídea de 1,5</p><p>milhão de anos atrás temos uma mensagem das próprias</p><p>pedras. Quando um britador obtém uma lasca de um seixo, os</p><p>pedaços tendem a cair em uma pequena área em torno dele ou</p><p>dela. Isto é exatamente o que a arqueóloga da Universidade de</p><p>Wisconsin, Ellen Kroll, encontrou no sítio 50: a britagem de</p><p>pedras estava concentrada em uma extremidade do sítio. Da</p><p>mesma forma, pedaços de ossos — havia partes de girafa, de</p><p>hipopótamo, de um antílope do tamanho de um eland * e de um</p><p>animal semelhante a uma zebra, assim como espinhas de</p><p>peixes da família dos silúridas — estavam concentrados no</p><p>mesmo lugar. “Podemos apenas especular sobre o que fez da</p><p>extremidade norte do sítio um lugar favorito para fazer coisas,</p><p>mas o padrão observado poderia, por exemplo, implicar a</p><p>existência ali de uma árvore capaz de fornecer sombra”,</p><p>escreveram Isaac e seus colegas. Um aspecto ainda mais</p><p>notável das lascas de pedra era que, como o osso comprido</p><p>fragmentado, algumas delas podiam também ser reconstruídas</p><p>para formar o srcinal completo, um seixo de lava.</p><p>*</p><p>Um dos tipos de grandes antílopes do gêneroTaurotragus. (N. do T.)</p><p>Mencionei no capítulo 2 que Nicholas Toth e Lawrence Keeley</p><p>realizaram análises microscópicas de diversas lascas de pedra</p><p>e encontraram indicações de esquartejamento, aparamento de</p><p>madeira e corte de tecidos vegetais macios. Aquelas lascas</p><p>eram do sítio 50, e os resultados da análise enriqueceram a</p><p>imagem de uma cena de atividades diversas há 1,5 milhão de</p><p>anos. Longe da imagem de confusão hidráulica, a atividade no</p><p>sítio 50</p><p>7676</p><p>deve ter envolvido hominídeos que traziam partes de carcaça</p><p>até ali, as quais então eram processadas com ferramentas de</p><p>pedras feitas no local. Após o turbilhão teórico do final da</p><p>década de 1970, a demonstração do transporte deliberado de</p><p>ossos e pedras para um lugar central de atividade de</p><p>processamento de alimentos foi um passo importante no</p><p>realinhamento da teoria arqueológica. Mas este indício implica</p><p>que os hominídeos do sítio 50, Homo erectus, eram caçadores</p><p>ou carniceiros?</p><p>Isaac e seus colegas colocam isto desta forma: “As caracte-</p><p>rísticas do arranjo dos ossos convida a considerar seriamente a</p><p>busca por carniça e não a caça ativa como o modo</p><p>predominante de aquisição de carne vermelha.” Tivéssemos</p><p>encontrado no sítio carcaças inteiras, a conclusão sobre a caça</p><p>poderia ser obtida. Mas, como indiquei anteriormente, a</p><p>interpretação dos conjuntos de ossos é cheia de erros em</p><p>potencial. Entretanto, outras Unhas de indício têm sido</p><p>aduzidas para implicar a busca de carniça como o modo de</p><p>aquisição de carne vermelha pelo Homo primiti-</p><p>7777</p><p>vo. Por exemplo, Shipman examinou a distribuição de marcas</p><p>de corte em ossos antigos e fez duas observações. Primeiro,</p><p>cerca da metade deles somente eram indicativos de</p><p>desmembramento; segundo, muitos foram feitos em ossos que</p><p>tinham pouca carne. Mais ainda, uma proporção grande de</p><p>marcas de corte sobrepunha-se às marcas deixadas por dentes</p><p>de carnívoros, implicando que os carnívoros chegaram aos</p><p>ossos antes que os hominideos o fizessem. Isto, concluiu</p><p>Shipman, é “indício irresistível de busca por carniça”, uma</p><p>imagem de nosso ancestral, observa ela, que é “não familiar e</p><p>pouco lisonjeira”. Certamente ela está longe da imagem do</p><p>Homem, o Nobre Caçador, da teoria tradicional.</p><p>Eu suporia que a busca de carne vermelha pelo Homo primitivo</p><p>tivesse envolvido a busca por carniça. Como observou</p><p>Shipman, “os carnívoros procuram carniça quando podem e ca-</p><p>çam quando devem”. Mas suspeito que a recente revolução</p><p>intelectual na arqueologia tenha ido muito longe, como muitas</p><p>vezes acontece na ciência. A rejeição da caça no Homo</p><p>primitivo tem sido muito freqüente. Acho significativo que a</p><p>análise de Shipman da distribuição das</p><p>nós como o garoto de Turkana, mal completara</p><p>nove anos quando morreu; a causa de sua morte permanece</p><p>um mistério.</p><p>Foi uma experiência verdadeiramente extraordinária desen-</p><p>terrar osso após osso fossilizado: braços, pernas, vertebras,</p><p>costelas, pélvis, maxilar, dentes e mais fragmentos de crânio. O</p><p>esqueleto do menino começou a ganhar forma, reconstruído</p><p>como indivíduo uma vez mais, depois de jazer em fragmentos</p><p>por mais de 1,6 milhão de anos. Nada tão completo como este</p><p>esqueleto pôde ser encontrado nos registros de fósseis</p><p>humanos até a época do Neanderthal, há uns meros 100 mil</p><p>anos. Independentemente da excitação emocional de tal</p><p>descoberta, estávamos cientes de que ela prometia um grande</p><p>entendimento de uma fase crítica da pré-história humana.</p><p>Uma palavra, antes de prosseguir com a história, sobre o jar-</p><p>gão na antropologia. Algumas vezes a torrente de termos</p><p>arcanos pode ser tão intensa que desafia a compreensão de</p><p>todos, exceto a dos profissionais mais dedicados. Evitarei este</p><p>jargão tanto quanto possível. Cada uma das várias espécies de</p><p>famílias humanas pré-históricas tem um rótulo científico — isto</p><p>é, o nome de sua espécie — e não podemos evitar a utilização</p><p>destes. A família humana de espécies tem seu próprio rótulo</p><p>também: hominídea.</p><p>1111</p><p>Alguns de meus colegas preferem utilizar o termo “hominídeo”</p><p>para todas as espécies humanas ancestrais. A palavra</p><p>“humano”, argumentam eles, deveria ser utilizada para nos</p><p>referirmos apenas a pessoas como nós. Em outras palavras, os</p><p>únicos hominídeos que podem ser designados como</p><p>“humanos” são aqueles que exibem nosso próprio grau de</p><p>inteligência, senso moral, e profundidade de consciência</p><p>introspectiva.</p><p>Tenho um ponto de vista diferente. Parece-me que a evolução</p><p>da locomoção ereta, que distinguiu os hominídeos antigos de</p><p>outros macacos de seu tempo, foi fundamental para a história</p><p>humana subseqüente. Uma vez que nosso ancestral distante</p><p>tornou-se um macaco bípede, muitas outras inovações</p><p>evolutivas tornaram-se possíveis, com o aparecimento</p><p>definitivo do Homo. Por esta razão, acredito ser justificado</p><p>chamar todas as espécies de hominídeos de “humanos”. Com</p><p>isto não quero dizer que todas as espécies humanas antigas</p><p>vivenciaram os mundos mentais que conhecemos hoje. Em seu</p><p>nível mais básico, a designação “humano” refere-se</p><p>simplesmente aos macacos que caminhavam de modo ereto —</p><p>macacos bipédes. Nas páginas seguintes adotarei</p><p>1212</p><p>este uso, e indicarei quando o estarei utilizando para descrever</p><p>aspectos que caracterizem apenas o homem moderno.</p><p>O garoto de Turkana era um membro da espécie Homo erectus</p><p>— uma espécie de suma importância na história da evolução</p><p>humana. A partir de linhas de indícios diferentes — alguns</p><p>genéticos, alguns fósseis —, sabemos que a primeira espécie</p><p>humana evoluiu há cerca de 7 milhões de anos. Na época em</p><p>que o Homo erectus surgiu em cena, há quase 2 milhões de</p><p>anos, a pré-história humana já estava em marcha. Não</p><p>sabemos ainda como muitas espécies humanas viveram e</p><p>morreram antes do aparecimento do Homo erectus; houve pelo</p><p>menos seis, e talvez o dobro deste número. Entretanto,</p><p>sabemos de fato que todas as espécies humanas que viveram</p><p>antes do Homo erectus eram, embora bipédes, marcadamente</p><p>simiescas em muitos aspectos. Elas tinham cérebros</p><p>relativamente pequenos, suas maxilas eram prognatas (isto é,</p><p>projetavam-se para a frente), e a forma de seus corpos era</p><p>mais simiesca do que humana em aspectos particulares, tais</p><p>como o peito em forma afunilada, pescoço pequeno e nenhuma</p><p>cintura. No Homo erectus, o tamanho do cérebro aumentou, a</p><p>face tornou-se mais achatada, e o corpo adquiriu uma</p><p>constituição mais atlética. A evolução do Homo erectus trouxe</p><p>com ela muitas das características físicas que reconhecemos</p><p>em nós mesmos: a pré-história humana evidentemente sofreu</p><p>uma grande reviravolta há 2 milhões de anos.</p><p>O Homo erectus foi a primeira espécie humana a utilizar o fogo;</p><p>a primeira a incluir a caça como uma parte significativa de sua</p><p>subsistência; a primeira capaz de correr como os humanos</p><p>modernos o fazem; a primeira a fabricar instrumentos de pedra</p><p>de acordo com um padrão definido; a primeira a estender seus</p><p>domínios para além da África. Não sabemos de forma definitiva</p><p>se o Homo erectus possuía algum tipo de linguagem falada,</p><p>mas diversas linhas de indícios sugerem isto. E não sabemos,</p><p>e provavelmente não saberemos nunca, se estas espécies</p><p>tinham algum grau de autopercepção, uma consciência</p><p>humanóide, mas minha suposição é de que a tinham.</p><p>Desnecessário dizer, linguagem e consciência, que estão entre</p><p>os aspectos mais valorizados do Homo sapiens, não deixam</p><p>traços nos registros pré-históricos.</p><p>O objetivo do antropólogo é compreender os eventos evolutivos</p><p>que transformaram uma criatura semelhante ao macaco em</p><p>gente como nós. Estes eventos têm sido descritos,</p><p>romanticamente, como um grande drama, com a humanidade</p><p>emergindo como a grande heroína da história. A verdade é</p><p>provavelmente</p><p>1313</p><p>bastante prosaica, com modificações climáticas e ecológicas</p><p>em vez de aventuras épicas conduzindo as transformações. As</p><p>transformações não prendem menos nossa atenção por causa</p><p>disto. Como espécie, somos agraciados com uma curiosidade</p><p>sobre o mundo da natureza e nosso lugar nele. Queremos</p><p>saber — precisamos saber — como nos tornamos o que</p><p>somos, e qual é o nosso futuro. Os fósseis que descobrimos</p><p>ligam-nos fisicamente ao nosso passado e desafiam-nos a</p><p>interpretar as pistas que eles encerram como uma maneira de</p><p>compreender a natureza e o curso de nossa história evolutiva.</p><p>Até que muitas relíquias mais tenham sido desenterradas e</p><p>analisadas, nenhum antropólogo pode ficar de pé e declarar:</p><p>“Isto foi assim”, com todos os detalhes. Há, contudo, uma boa</p><p>dose de concordância entre os pesquisadores sobre a forma</p><p>geral da pré-história humana. Nela, quatro etapas-chave</p><p>podem ser identificadas com toda a confiança.</p><p>A primeira foi a srcem da família humana propriamente dita, há</p><p>cerca de 7 milhões de anos, quando espécies semelhantes aos</p><p>macacos com um modo de locomoção bípede, ou ereta, evo-</p><p>luíram. A segunda etapa foi a da proliferação das espécies</p><p>bípedes, um processo que os biólogos chamam irradiação</p><p>adaptativa. Entre 7 e 2 milhões de anos atrás, muitas espécies</p><p>diferentes de macacos bipédes evoluíram, cada uma adaptada</p><p>a circunstâncias ecológicas ligeiramente diferentes. Em meio a</p><p>esta proliferação de espécies humanas houve uma, entre 3 e 2</p><p>milhões de anos atrás, que desenvolveu um cérebro</p><p>significativamente maior. A expansão em tamanho do cérebro</p><p>marca a terceira etapa e sinaliza a srcem do gênero Homo, o</p><p>ramo da árvore humana que levou ao Homo erectus e</p><p>finalmente ao Homo sapiens. A quarta etapa foi a srcem dos</p><p>humanos modernos — a evolução de gente como nós,</p><p>completamente equipada com linguagem, consciência, ima-</p><p>ginação artística, e inovações tecnológicas jamais vistas antes</p><p>em qualquer parte da natureza.</p><p>Estes quatro eventos-chave fornecem a estrutura da narrativa</p><p>científica das páginas que vêm a seguir. Como ficará evidente,</p><p>no nosso estudo da pré-história humana estamos começando a</p><p>perguntar-nos não apenas o que aconteceu, e quando, mas</p><p>também por que as coisas aconteceram. Nós e nossos</p><p>ancestrais estamos sendo estudados no contexto de um</p><p>cenário evolutivo em desdobramento, do mesmo modo que</p><p>estudamos a evolução dos elefantes ou dos cavalos. Isto não é</p><p>negar que o Homo sapiens seja de muitos modos especial:</p><p>muita coisa nos separa mesmo do</p><p>1414</p><p>nosso parente evolutivo mais próximo, o chimpanzé, mas</p><p>começamos a entender nossa relação com a natureza no</p><p>sentido biológico.</p><p>As três décadas passadas testemunharam tremendos avanços</p><p>na nossa ciência, resultado de descobertas sem precedentes</p><p>de fósseis e de modos inovadores de interpretação e</p><p>integração das pistas que vemos neles. Como todas as</p><p>ciências, a antropologia é sujeita a diferenças de opinião</p><p>honestas, e algumas vezes vigorosas,</p><p>marcas de corte mostre</p><p>tantas destas em ossos com pouca carne. O que pode ser</p><p>obtido aqui? Pele e tendões. Com estes materiais é muito fácil</p><p>fazer armadilhas para apanhar presas bastante grandes. Eu</p><p>ficaria muito surpreso se o Homo erectus primitivo não se</p><p>engajasse nesta forma de caça. A compleição semelhante à</p><p>humana que emergiu com a evolução do gênero Homo é</p><p>consistente com a adaptação à caça.</p><p>Para Isaac o trabalho no sítio 50 foi salutar. Embora este</p><p>confirmasse que os hominideos estavam transportando ossos e</p><p>pedras para um lugar central, não demonstrava</p><p>necessariamente que os hominideos usavam-no como</p><p>acampamento-base. “Reconheço agora que a hipótese sobre o</p><p>comportamento dos hominideos primitivos que apresentei em</p><p>trabalhos anteriores os faz parecer demasiadamente</p><p>humanos”, escreveu ele em 1983. Isaac sugeriu portanto</p><p>modificar sua hipótese da “partilha de alimentos”,</p><p>transformando-a na hipótese do “lugar central da busca por</p><p>alimentos”. Suspeito de que ele estava sendo muito cauteloso.</p><p>Não posso dizer que os resultados do projeto do sítio 50 con-</p><p>firmem a hipótese de que o Homo erectus vivia como os</p><p>caçadores-coletores, deslocando-se em intervalos de poucos</p><p>dias de um acampamento-base temporário para outro — bases</p><p>para as quais eles levavam a comida e onde a dividiam.</p><p>Quanto do meio social e econômico da hipótese srcinal de</p><p>Isaac pode ter estado presente no sítio 50 permanece obscuro.</p><p>Mas em minha opinião há indí-</p><p>7878</p><p>cio suficiente a partir deste trabalho para dispensar a noção de</p><p>que o Homo primitivo estava um pouco mais além do grau de</p><p>competência social, cognitiva e tecnológica dos chimpanzés.</p><p>Não estou sugerindo que estas criaturas eram caçadores-</p><p>coletores em miniatura, mas estou certo de que nesta época a</p><p>qualidade de humanóide do caçador-coletor primitivo estava</p><p>começando a ser estabelecida.</p><p>Embora nunca possamos ter certeza de como era a vida diária</p><p>nos primeiros tempos do Homo erectus, podemos utilizar o rico</p><p>indício arqueológico do sítio 50, e nossa imaginação, para re-</p><p>criar tal cenário, há 1,5 milhão de anos:</p><p>Uma corrente sazonal segue seu leito gentilmente através da</p><p>planície aluvial no lado leste do gigantesco lago. Acácias altas</p><p>alinham-se ao longo das margens da corrente sinuosa,</p><p>projetando sombras bem-vindas que protegem do sol tropical.</p><p>Na maior parte do ano o leito da corrente permanece seco,</p><p>mas chuvas recentes nas colinas ao norte estão abrindo seu</p><p>caminho em direção ao lago, fazendo a corrente aumentar de</p><p>volume lentamente. Por umas poucas semanas, a planície</p><p>aluvial tem estado flame)ante por causa das cores, com ervas</p><p>florescentes formando manchas amarelas e roxas contra a</p><p>terra alaranjada e baixos arbustos de acácia parecendo</p><p>nuvens revoltas. A estação chuvosa é iminente.</p><p>Aqui, em uma curva da corrente, vemos um pequeno agrupa-</p><p>mento humano, cinco fêmeas adultas e um aglomerado de</p><p>crianças e jovens. Eles são de estatura atlética e fortes. Estão</p><p>conversando alto, alguns deles trocam observações sociais</p><p>óbvias, alguns discutem os planos para o dia. Mais cedo,</p><p>antes do nascer do Sol, quatro machos adultos do grupo</p><p>haviam partido em busca de carne. O papel das fêmeas é</p><p>coletar alimentos vegetais, que todos percebem ser o</p><p>principal produto econômico em suas vidas. Os machos</p><p>caçam, as fêmeas coletam; é um sistema que funciona</p><p>espetacularmente bem para o nosso grupo e por tanto tempo</p><p>quanto qualquer um é capaz de lembrar-se.</p><p>Três das fêmeas agora estão prontas para partir, nuas exceto</p><p>por uma pele de animal jogada sobre os ombros que tem o</p><p>papel dual de servir para transportar o bebê, e mais tarde</p><p>para transportar o alimento. Elas levam consigo bastões</p><p>curtos e pontiagudos, que uma das fêmeas preparara antes</p><p>usando lascas de pedra afiadas para aparar galhos fortes.</p><p>Estes bastões servem para cavar, o que permite às fêmeas</p><p>desenterrar tubérculos suculentos, profundamente</p><p>enterrados, alimentos negados à maioria dos outros grandes</p><p>primatas. As fêmeas finalmente partem, caminhando em fila</p><p>única como</p><p>7979</p><p>usualmente o fazem, em direção às colinas distantes da bacia</p><p>do lago, seguindo um caminho que elas sabem que conduz a</p><p>uma fonte rica em castanhas e tubérculos. Para colher frutas</p><p>maduras elas terão que esperar até mais para o fim do ano,</p><p>quando as chuvas tiverem feito o trabalho da natureza.</p><p>Para trás junto à corrente, as duas fêmeas restantes</p><p>repousam tranqüilamente sobre a areia macia sob uma</p><p>acácia alta, observando os trejeitos de três jovens. Muito</p><p>velhos para serem carregados na pele de animal, muito</p><p>jovens para caçar ou coletar, estes fazem o que todos os</p><p>jovens fazem: eles fazem brincadeiras que prenunciam sua</p><p>vida adulta. Esta manhã, um deles é um antílope e usa ramos</p><p>à guisa de galhada, os outros dois são os caçadores</p><p>tocaiando sua presa. Mais tarde, o mais velho dos três, uma</p><p>garota, convence uma das fêmeas a mostrar-lhe, novamente,</p><p>como fazer artefatos de pedra. Pacientemente, a mulher faz</p><p>dois seixos de lava baterem um contra o outro, com um golpe</p><p>rápido e preciso. Uma lasca perfeita desprende-se. Com uma</p><p>determinação estudada, a garota tenta fazer o mesmo, mas</p><p>sem sucesso. A mulher segura as mãos da garota e,</p><p>conduzindo-as, repete a ação necessária em câmara lenta.</p><p>Obter lascas afiadas é mais difícil do que parece, e a habilida-</p><p>de é ensinada principalmente por meio do exemplo, e não</p><p>pela instrução verbal. A garota tenta novamente, desta vez</p><p>sua ação é sutilmente diferente. Uma lasca afiada destaca-se</p><p>do seixo, e a garota deixa escapar um grito de triunfo. Ela</p><p>apodera-se da lasca, mostra-apara a mulher sorridente e</p><p>então corre para exibi-la aos seus colegas de folguedos. Eles</p><p>prosseguem juntos com a brincadeira, armados agora de um</p><p>implemento da maturidade. Eles encontram um pau, que a</p><p>aprendiz de britadeira desbasta até obter uma ponta aguçada,</p><p>e então eles formam um grupo de caça, em busca de um</p><p>peixe para matá-lo com a lança.</p><p>Ao entardecer, o acampamento na margem da corrente</p><p>fervilha novamente, as três mulheres retornaram com suas</p><p>peles de animal carregadas de bebês e comida, inclusive</p><p>alguns ovos de pássaros, três pequenos lagartos e —um</p><p>deleite inesperado —mel. Felizes com seus próprios ganhos,</p><p>as mulheres especulam sobre o que os homens trarão.</p><p>Muitas vezes, os caçadores retornam de mãos vazias. Isto faz</p><p>parte da natureza da busca à carne. Mas quando o acaso</p><p>favorece seus esforços, a recompensa pode ser grande, e</p><p>certamente é louvada.</p><p>Em breve, o som distante de vozes que se aproximam avisa</p><p>às mulheres que os homens estão retornando. E, a julgar pelo</p><p>tom de excitação na conversação destes, eles estão</p><p>retornando após terem sido bem-sucedidos. Na maior parte</p><p>do dia os homens estiveram silenciosamente tocaiando um</p><p>pequeno rebanho de antílopes, observando que um dos</p><p>animais parecia coxear ligeiramente. Repetidamente, este</p><p>indivíduo era deixado para trás pelo rebanho e tinha que</p><p>8080</p><p>fazer tremendos esforços para juntar-se a ele. Os homens</p><p>perceberam a chance de abater um animal grande.</p><p>Caçadores providos de armas naturais ou artificiais, como os</p><p>do nosso grupo estão, necessitam apenas de confiar na</p><p>astúcia. A habilidade de mover-se silenciosamente, misturar-</p><p>se com o meio ambiente e o conhecimento de quando atacar</p><p>são as armas mais poderosas destes caçadores.</p><p>Finalmente, uma oportunidade apresentou-se e, sem dizer</p><p>uma palavra, de comum acordo, os três homens moveram-se</p><p>para posições estratégicas. Um deles atirou uma pedra com</p><p>força e precisão, obtendo um impacto estonteante; os outros</p><p>dois correram para imobilizar a presa. Uma estocada rápida</p><p>com um pau curto e pontiagudo fez correr uma torrente de</p><p>sangue da jugular do animal. O animal lutou mas em pouco</p><p>tempo estava morto.</p><p>Cansados e cobertos com o suor e o sangue de seus</p><p>esforços, os três homens estavam exultantes. Um depósito</p><p>secreto de seixos de lava nas proximidades fornecia a</p><p>matéria-prima para a fabricação de ferramentas que seriam</p><p>necessárias para o esquartejamento do bicho. Uns poucos</p><p>golpes precisos de um seixo contra o outro produzia lascas</p><p>suficientes com que cortar através do couro duro do animal e</p><p>expor as juntas, carne vermelha contra o osso branco. Rapi-</p><p>damente, músculos e tendões renderam-se ao</p><p>esquartejamento hábil, e os homens partiram para o</p><p>acampamento, carregando doispernis de carne, rindo e</p><p>brincando um com outro a respeito dos eventos do dia e de</p><p>seus diferentes papéis desempenhados neles. Eles sabem</p><p>que uma recepção alegre os aguarda.</p><p>Mais tarde, naquela noite, há quase um sentido de ritual no</p><p>consumo da carne. O homem que conduziu o grupo de caça</p><p>corta os pedaços e os entrega para as mulheres que sentam</p><p>em torno dele e para os outros homens. As mulheres dão</p><p>pedaços para as suas crianças, que os trocam alegremente</p><p>entre si. Os homens oferecem pedaços para seus colegas,</p><p>que oferecem outros pedaços em troca. O ato de comer carne</p><p>é mais do que o sustento; é uma atividade de comunhão</p><p>social.</p><p>A excitação do triunfo na caça agora evanesce, os homens e</p><p>mulheres trocam relatos de seus dias separados. Há uma</p><p>compreensão de que eles em breve terão que deixar este</p><p>acampamento agradável, pois as chuvas crescentes nas</p><p>montanhas distantes em breve farão com que a corrente</p><p>inunde suas margens. Por agora, eles estão contentes.</p><p>Três dias mais tarde o grupo deixa o acampamento pela</p><p>última vez em busca da segurança de terrenos mais</p><p>elevados. Os indícios de sua presença evanescente estão</p><p>espalhados por todas as partes. Montículos de lascas feitas</p><p>com seixos de lava, paus aguçados e couro trabalhado falam</p><p>de suas proezas tecnológicas. Ossos de animais quebrados,</p><p>uma cabeça de peixe, cascas de ovos e restos de tur-</p><p>8181</p><p>bérculos falam da variedade de sua dieta. Entretanto, a</p><p>socialização intensa que é o foco do acampamento se foi,</p><p>assim como o ritual de comer carne e as histórias dos</p><p>eventos diários. Breve, o acampamento vazio e silencioso é</p><p>inundado suavemente, à medida que a corrente transborda</p><p>sobre suas margens. Uma camada fina de depósitos cobre os</p><p>detritos de cinco dias na vida de nosso pequeno grupo, en-</p><p>cerrando uma história curta. Finalmente tudo, exceto os ossos</p><p>e as pedras, decompõe-se, deixando magros indícios a partir</p><p>dos quais reconstruímos esta história.</p><p>Muitos acreditarão que minha reconstrução torna o Homo</p><p>erectus demasiado humano. Eu não penso assim. Crio um</p><p>quadro do modo de vida dos caçadores-coletores, e atribuo</p><p>uma linguagem a estas pessoas. Ambos, acredito, são</p><p>justificados, embora cada um seja necessariamente uma</p><p>versão primitiva do que sabemos dos humanos modernos. De</p><p>qualquer modo, a partir dos indícios arqueológicos fica muito</p><p>claro que estas criaturas estavam vivenciando vidas além do</p><p>alcance dos outros primatas, principalmente ao usar tecnologia</p><p>para ganhar acesso a alimentos tais como a carne vermelha e</p><p>tubérculos enterrados. Neste estágio de nossa pré-história,</p><p>nossos ancestrais estavam se humanizando de uma maneira</p><p>que reconheceríamos instantaneamente.</p><p>8282</p><p>5 - A srcem dos humanos modernos</p><p>Dos quatro principais eventos ocorridos no decurso da</p><p>evolução humana que esbocei no prefácio — a srcem da</p><p>família humana propriamente dita, há cerca de 7 milhões de</p><p>anos; a “irradiação adaptativa” subseqüente de espécies de</p><p>macacos bipédes; a srcem de um cérebro maior (efetivamente,</p><p>o começo do gênero Homo), há talvez 2,5 milhões de anos; e a</p><p>srcem dos humanos modernos — é o quarto, a srcem de</p><p>gente como nós, que é atualmente a questão mais quente na</p><p>antropologia. Muitas hipóteses diferentes são vigorosamente</p><p>debatidas, e dificilmente passa-se um mês sem que uma</p><p>conferência seja realizada ou uma chuva de livros e artigos</p><p>científicos seja publicada, cada um apresentando visões muitas</p><p>vezes diametralmente opostas. Por “gente como nós” quero</p><p>dizer o Homo sapiens moderno — isto é, humanos com uma</p><p>queda para a tecnologia e para a inovação, uma capacidade de</p><p>expressão artística, uma consciência introspectiva e um senso</p><p>de moralidade.</p><p>Quando olhamos uns poucos milhares de anos para trás na</p><p>história, vemos a emergência inicial da civilização: numa</p><p>organização social de complexidade cada vez maior, aldeias</p><p>dão lugar a chiefdoms, estes dão lugar a cidades-Estados,</p><p>cidades-Estados dão lugar a nações-Estados. Este crescimento</p><p>aparentemente inexorável no nível de complexidade é</p><p>conduzido pela evolução cultural e não pela mudança</p><p>biológica. Assim como as pessoas há um século eram</p><p>biologicamente iguais a nós mas viviam em um mundo sem</p><p>tecnologia eletrônica, da mesma forma os aldeões de 7.000</p><p>anos atrás eram exatamente como nós mas eram carentes da</p><p>infra-estrutura da civilização.</p><p>Se olharmos para trás na história além da srcem da escrita há</p><p>uns 6.000 anos, ainda podemos ver indícios da mente humana</p><p>moderna em funcionamento. Começando há cerca de 10.000</p><p>anos, bandos nômades de caçadores-coletores em todo o</p><p>mundo inventaram de forma independente várias técnicas de</p><p>agricultura. Isto também foi conseqüência da evolução cultural</p><p>ou tecnológica, e não de evolução biológica. Volte para além</p><p>daquele tempo de</p><p>8383</p><p>transformações sociais e econômicas e você encontrará</p><p>pinturas, gravações em pedra e esculturas da Europa da Idade</p><p>do Gelo e da África, que evocam mundos mentais de gente</p><p>como nós. Entretanto, volte para mais além — para além dos</p><p>35 mil anos atrás — e estes sinais da mente humana moderna</p><p>desaparecem. Não mais podemos ver no registro arqueológico</p><p>indícios convincentes de trabalho de gente com capacidades</p><p>mentais iguais às nossas.</p><p>Durante muito tempo, os antropólogos acreditaram que a</p><p>aparição súbita no registro arqueológico da expressão artística</p><p>e da tecnologia finamente trabalhada era um sinal claro da</p><p>evolução dos humanos modernos. O antropólogo britânico</p><p>Kenneth Oakley estava entre os primeiros a sugerir, em 1951,</p><p>que esta florescência de comportamento humano moderno</p><p>estava associada com o surgimento, pela primeira vez, de uma</p><p>linguagem totalmente moderna. De fato, parece inconcebível</p><p>que uma espécie humana pudesse possuir uma linguagem</p><p>totalmente moderna e não ser totalmente moderna em todos os</p><p>outros aspectos também. Por esta razão, a evolução da</p><p>linguagem é considerada de forma ampla o evento culminante</p><p>na emergência da humanidade como a conhecemos hoje.</p><p>Quando ocorreu a srcem dos humanos modernos? E de que</p><p>maneira isto aconteceu: gradualmente e começando há muito</p><p>tempo, ou rápida e recentemente? Estas questões estão no</p><p>centro da corrente de debates.</p><p>De todos os períodos da evolução humana, ironicamente,</p><p>aquele que corresponde às centenas de milhares de anos</p><p>passados é de longe o mais ricamente dotado de indícios</p><p>fósseis. Além de coleção extensa de crânios intactos e ossos</p><p>cranianos posteriores, uns vinte esqueletos relativamente</p><p>completos foram recuperados. Para alguém como eu, cuja</p><p>preocupação é com um período mais antigo da pré-história</p><p>humana, no qual os indícios fósseis são raros, estas riquezas</p><p>paleontológicas são o máximo. Ainda assim, um consenso</p><p>sobre a seqüência dos eventos evolutivos continua a escapar</p><p>aos meus colegas de antropologia</p><p>Mais ainda, os primeiros fósseis de humanos primitivos inva-</p><p>riavelmente descobertos eram de neanderthais (a caricatura</p><p>favorita de todos do homem das cavernas), que desempenham</p><p>um papel importante no debate. Desde 1856, quando os</p><p>primeiros ossos de neanderthais foram descobertos, o destino</p><p>dessa gente tem sido interminavelmente discutido: seriam eles</p><p>nossos ancestrais imediatos ou um beco evolutivo sem saída</p><p>que chegou à</p><p>8484</p><p>extinção há uns trinta milênios? Esta questão foi colocada há</p><p>quase um século e meio, e continua sem resposta, pelo menos</p><p>com uma resposta que satisfaça a todos.</p><p>Antes de considerar alguns dos pontos mais sutis da discussão</p><p>sobre a srcem dos humanos modernos, deveríamos esboçar</p><p>as questões maiores. A história começa com a evolução do</p><p>genêro Homo, anterior aos 2 milhões de</p><p>anos atrás, e termina</p><p>com o surgimento do Homo sapiens. Duas linhas de indícios</p><p>existem há muito tempo: uma que diz respeito as mudanças</p><p>anatômicas e outra que diz respeito às mudanças na tecnologia</p><p>e outras manifestações do cérebro e mãos humanos.</p><p>Apresentadas corretamente, estas duas linhas de indícios</p><p>deveriam ilustrar o mesmo relato da história evolutiva humana.</p><p>Deveriam indicar o mesmo padrão de mudança através do</p><p>tempo. Estas linhas tradicionais de indícios, o estofo da</p><p>erudição antropológica durante décadas, foram recentemente</p><p>acrescidas de uma terceira, a da genética molecular. Em</p><p>princípio, as seqüências de genes têm codificado em seu</p><p>interior um relato da nossa história evolutiva. Novamente, a his-</p><p>tória relatada deveria concordar com o que sabemos a partir da</p><p>anatomia e dos artefatos de pedra.</p><p>Infelizmente, não há um estado de harmonia entre estas três</p><p>linhas de indícios. Há pontos em comum mas não há consenso.</p><p>A dificuldade com que os antropólogos defrontam mesmo com</p><p>tal abundância de indícios é um lembrete salutar de como</p><p>muitas vezes é extremamente difícil reconstruir a história</p><p>evolutiva.</p><p>A descoberta do esqueleto do garoto de Turkana nos dá uma</p><p>excelente idéia da anatomia do homem primitivo de cerca de</p><p>1,6 milhão de anos atrás. Podemos ver que os Homo erectus</p><p>primitivos individualmente eram altos (o garoto de Turkana</p><p>atingia quase 1,98 metro de altura), atléticos, e dotados de</p><p>músculos fortes. Mesmo o lutador profissional mais forte não</p><p>seria páreo para o Homo erectus médio. Embora o cérebro do</p><p>Homo erectus primitivo fosse maior que o de seus ancestrais</p><p>australopitecíneos, ainda era menor do que o dos humanos</p><p>modernos — uns 900 centímetros cúbicos comparado com a</p><p>média de 1.350 centímetros cúbicos do Homo de hoje. O crânio</p><p>do Homo erectus era comprido e baixo, com uma testa</p><p>pequena e a caixa craniana de paredes grossas; os maxilares</p><p>eram um pouco protubérantes, e acima dos olhos ele tinha as</p><p>arcadas supraciliares salientes. Este padrão anatômico básico</p><p>persistiu até cerca de meio milhão de anos atrás, embora</p><p>durante esse período houvesse uma expansão do cérebro para</p><p>mais de 1.100 centímetros cúbicos. Por volta desta época, as</p><p>8585</p><p>populações de Homo erectus se haviam espalhado a partir da</p><p>África e estavam ocupando grandes regiões da Ásia e da</p><p>Europa. (Embora não tenham sido encontrados na Europa</p><p>fósseis inequivocamente identificados como de Homo erectus,</p><p>indícios da tecnologia associada com a espécie revelam sua</p><p>presença lá.)</p><p>A menos do que cerca de 34 mil anos atrás, os restos humanos</p><p>fossilizados que encontramos são todos de Homo sapiens</p><p>totalmente modernos. 0 corpo é menos ryo e musculoso, a face</p><p>é mais achatada, o crânio mais alto e as paredes da caixa</p><p>craniana mais finas. As arcadas supraciliares não são salientes</p><p>e o cérebro (na maior parte das vezes) é maior. Podemos ver,</p><p>portanto, que a atividade evolutiva que dá srcem aos humanos</p><p>modernos aconteceu entre meio milhão e 34 mil anos atrás. A</p><p>partir do que encontramos na África e na Eurásia nos registros</p><p>fóssil e arqueológico deste período, podemos concluir que a</p><p>evolução foi deveras ativa mas de modo confuso.</p><p>Os neanderthais viveram desde cerca de 135 mil até 34 mil</p><p>anos atrás e ocuparam uma região que se estende da Europa</p><p>Ocidental, alcança o Oriente Próximo e vai até a Ásia. Eles</p><p>constituem de longe o componente mais abundante do registro</p><p>fóssil do período pelo qual estamos interessados aqui. Não há</p><p>dúvidas de que ondas de evolução estavam em progresso em</p><p>muitas populações diferentes por todo o Velho Mundo durante</p><p>este período que vai de 500 mil até 34 mil anos atrás. À parte</p><p>os neanderthais, há fósseis individuais — usualmente crânios</p><p>ou partes de crânio, mas algumas vezes outras partes do</p><p>esqueleto — com nomes que soam romanticamente: Homem</p><p>de Petralona, da Grécia; Homem de Arago, do sudoeste da</p><p>França; Homem de Steinheim, da Alemanha; Homem de</p><p>Broken Hill, da Zâmbia; e assim por diante. A despeito das</p><p>muitas diferenças entre estes espécimens individuais, todos</p><p>têm duas coisas em comum: são mais avançados do que o</p><p>Homo erectus — possuindo, por exemplo, cérebros maiores —</p><p>e mais primitivos do que o Homo sapiens, sendo robustamente</p><p>constituídos e tendo as paredes da caixa craniana grossas (ver</p><p>figura 5.1). Em razão da anatomia variada dos espécimens</p><p>deste período, os antropólogos passaram a chamar estes</p><p>fósseis coletivamente de “sapiens arcaicos”.</p><p>O desafio com que deparamos, dado este potpourri de formas</p><p>anatômicas, é construir um padrão evolutivo que descreva a</p><p>emergência da anatomia humana e do comportamento humano</p><p>modernos. Nos últimos anos, dois modelos muito diferentes</p><p>vêm sendo propostos.</p><p>8686</p><p>(A página 87 do livro apresenta a Figura 5.1, colada nas(A página 87 do livro apresenta a Figura 5.1, colada nas</p><p>páginas finais desse e-livro)páginas finais desse e-livro)</p><p>8787</p><p>O primeiro deles, conhecido como a hipótese da evolução</p><p>multirregional, vê a srcem dos humanos modernos como um</p><p>fenômeno que abrange todo o Velho Mundo, com o Homo</p><p>sapiens emergindo sempre que populações de Homo erectus</p><p>estabeleceram-se. Nesta visão, os neanderthais são parte da</p><p>tendência que abarca os três continentes, intermediários na</p><p>anatomia entre o Homo erectus e o Homo sapiens na Europa,</p><p>Oriente Médio e Ásia Ocidental, e as populações de hoje em</p><p>dia destas partes do Velho Mundo que têm os neanderthais</p><p>como ancestrais diretos. Milford Wolpoff, antropólogo da</p><p>Universidade de Michigan, argumenta que a tendência</p><p>evolutiva ubíqua em direção ao status biológico de Homo</p><p>sapiens foi conduzida pelo novo meio cultural de nossos</p><p>ancestrais.</p><p>A cultura representa uma novidade no mundo da natureza, e</p><p>poderia ter adicionado um impulso efetivo e unificador às forças</p><p>da seleção natural. Mais ainda, Christopher Willis, biólogo da</p><p>Universidade da Califórnia, em Santa Cruz, identifica aqui a</p><p>possibilidade de um ritmo acelerado de evolução. Em seu livro</p><p>de 1993, The Runaway Brain, ele observa: “A força que parece</p><p>ter acelerado o crescimento de nosso cérebro é um novo tipo</p><p>de estimulante: linguagem, sinais, memória coletiva — todos</p><p>elementos de cultura. À medida que nossas culturas evoluíram</p><p>em complexidade, assim o fizeram os nossos cérebros, o que</p><p>por sua vez conduziu nossas culturas a complexidades ainda</p><p>maiores. Cérebros maiores e mais inteligentes levaram a</p><p>culturas mais complexas, o que por sua vez levou a cérebros</p><p>ainda maiores e mais inteligentes.” Se tal processo</p><p>autocatalisador, ou de retroalimentação positiva, realmente</p><p>ocorreu, ele poderia ter promovido a mudança genética no seio</p><p>de grandes populações de maneira mais rápida.</p><p>Tenho alguma simpatia pela visão de evolução multirregional, e</p><p>uma vez apresentei a seguinte analogia: se você pegar um</p><p>punhado de seixos e os arremessar sobre uma poça de água,</p><p>cada seixo gerará uma série de ondículas que se propagarão a</p><p>partir do ponto de impacto, e que mais cedo ou mais tarde</p><p>encontrarão outras ondículas postas em movimento pelos</p><p>outros seixos. A poça representa o Velho Mundo, com sua</p><p>população de sapiens básica. Aqueles pontos na superfície da</p><p>poça onde os seixos atingem são os pontos de transição do</p><p>Homo sapiens e as ondículas são as migrações do Homo</p><p>sapiens. Esta ilustração tem sido utilizada por diversos</p><p>participantes do atual debate; entretanto, penso agora que ela</p><p>pode não ser correta. Uma das razões de minha cau-</p><p>8888</p><p>tela é a existência de alguns espécimens de fósseis</p><p>importantes oriundos de uma série de cavernas em Israel.</p><p>As escavações nestes sítios têm se dado esporadicamente por</p><p>mais de seis décadas, com fósseis de neanderthals sendo</p><p>descobertos em algumas das cavernas e fósseis de humanos</p><p>modernos em outras. Até recentemente, o quadro parecia claro</p><p>e apoiava a hipótese da evolução multirregional. Todos os</p><p>espécimens de neanderthais — que vieram das cavernas de</p><p>Kebarra, Tabun e Amud — eram relativamente velhos, com</p><p>talvez uns</p><p>60 mil anos de idade. Todos os humanos modernos</p><p>— que vieram de Skhul e Qafzeh — eram mais jovens, com</p><p>talvez 40 mil a 50 mil anos de idade. Dadas estas datas, uma</p><p>transformação evolutiva de populações de neanderthais para</p><p>populações de humanos modernos nesta região parecia</p><p>plausível. De fato, esta seqüência de fósseis era um dos pilares</p><p>de apoio mais fortes da hipótese da evolução multirregional.</p><p>Ao final da década de 1980, entretanto, esta seqüência orde-</p><p>nada foi destruída. Pesquisadores da Grã-Bretanha e da</p><p>França empregaram novos métodos de datação, conhecidos</p><p>como ressonância do spin eletrônico e termoluminescência, em</p><p>alguns destes fósseis; ambas as técnicas dependem do</p><p>decaimento de certos radioisótopos comuns em muitas rochas</p><p>— um processo que atua como um relógio atômico para os</p><p>minerais encontrados nas rochas. Os pesquisadores</p><p>descobriram que os fósseis humanos modernos provenientes</p><p>de Skhul e Qafzeh eram mais velhos do que a maioria dos</p><p>fósseis de neanderthais em mais de 40 mil anos. Se estes</p><p>resultados estiverem corretos, os neanderthais não podem ser</p><p>os ancestrais dos humanos modernos, como o modelo de</p><p>evolução multirregional exige. Qual é, então, a alternativa?</p><p>Em vez de serem o produto de uma tendência evolutiva por</p><p>todo o Velho Mundo, no modelo alternativo os humanos moder-</p><p>nos surgiram a partir de um único ponto geográfico (ver figura</p><p>5.2). Bandos de Homo sapiens modernos teriam migrado a</p><p>partir deste ponto e se espalhado para o resto do Velho Mundo,</p><p>substituindo populações pré-modemas já existentes. Este</p><p>modelo tem recebido diversos nomes, tais como hipótese da</p><p>“Arca de Noé” e hipótese do “Jardim do Éden”. Mais</p><p>recentemente, tem sido chamado de hipótese “A partir da</p><p>África”, porque a África abaixo do Saara tem sido identificada</p><p>como o lugar mais provável para a evolução dos primeiros</p><p>humanos modernos. Diversos antropólogos contribuíram para a</p><p>formação deste ponto de vista, e Christopher Stringer, do</p><p>Museu de História Natural, de Londres, é o seu proponente</p><p>mais vigoroso.</p><p>8989</p><p>Os dois modelos não poderiam ser mais diferentes: o modelo</p><p>da evolução multirregional descreve uma tendência evolutiva</p><p>por todo o Velho Mundo em direção ao Homo sapiens, com</p><p>uma pequena migração mas sem substituição de populações,</p><p>enquanto que a hipótese “A partir da África” exige a evolução</p><p>do Homo sapiens em apenas um lugar, acompanhada de uma</p><p>migração extensiva de população através do Velho Mundo,</p><p>resultando na substituição das populações pré-modernas</p><p>existentes. Mais ainda, no primeiro modelo, a distribuição das</p><p>populações geográficas modernas (o que é conhecido como</p><p>“raças”) teria profundas raízes genéticas, tendo elas sido</p><p>essencialmente separadas há mais de 2 milhões de anos; no</p><p>segundo modelo, estas populações teriam raízes genéticas</p><p>menos profundas, tendo todas derivado de uma única</p><p>população que evoluiu recentemente na África</p><p>Os dois modelos são também bastante diferentes em suas</p><p>predições sobre o que deveríamos ver no registro arqueológico.</p><p>9090</p><p>De acordo com o modelo de evolução multirregional, as</p><p>características anatômicas que vemos na distribuição</p><p>geográfica das populações modernas deveriam ser visíveis em</p><p>fósseis da mesma região, remontando até quase 2 milhões de</p><p>anos atrás, quando o Homo erectus começou a expandir seus</p><p>domínios para além da África. No modelo “A partir da África”,</p><p>uma continuidade regional no tempo deste tipo não é esperada;</p><p>de fato, as populações modernas deveriam compartilhar</p><p>características africanas.</p><p>Milford Wolpoff, o proponente mais vigoroso da hipótese</p><p>multirregional, relatou para uma audiência reunida no encontro</p><p>de 1990 da American Association for the Advancement of</p><p>Science (Sociedade Americana para o Progresso da Ciência)</p><p>que “o caso da continuidade anatômica está claramente</p><p>esclarecido”. No norte da Ásia, por exemplo, certas</p><p>características, tais como o formato da face, a configuração dos</p><p>ossos faciais e a forma de pá dos dentes incisivos, podem ser</p><p>vistas em fósseis de 750 mil anos de idade; nos fósseis do</p><p>Homem de Pequim, que têm 250 mil anos de idade, e nas</p><p>populações chinesas modernas. Stringer reconhece isto, mas</p><p>observa que estas características não se limitam ao norte da</p><p>Ásia e portanto não podem ser tomadas como indício de</p><p>continuidade regional.</p><p>Wolpoff e seus colegas têm um argumento similar para o su-</p><p>deste da Ásia e Austrália. Mas, como observa Stringer, a</p><p>suposta seqüência de continuidade é construída sobre fósseis</p><p>datados em apenas três instantes de tempo: 1,8 milhão, 100</p><p>mil e 30 mil anos atrás. Esta penúria de pontos de referência,</p><p>diz Stringer, enfraquece muitíssimo a defesa do modelo</p><p>multirregional.</p><p>Estes exemplos ilustram os problemas com que os antropó-</p><p>logos deparam. Existem não apenas diferenças de opinião</p><p>sobre o significado de características anatômicas importantes,</p><p>mas, deixando de lado os neanderthais, o registro fóssil é muito</p><p>mais exíguo do que a maioria dos antropólogos gostaria que</p><p>fosse (e do que a maioria dos não antropólogos acredita ser).</p><p>Até que estes impedimentos sejam superados, um consenso</p><p>sobre a questão maior pode permanecer fora do alcance.</p><p>Entretanto, podemos avaliar a anatomia de um fóssil de uma</p><p>perspectiva diferente. Os neanderthais parecem ter sido</p><p>indivíduos atarracados com membros curtos. Esta compleição</p><p>é uma adaptação física apropriada às frias condições climáticas</p><p>que prevaleciam em boa parte das regiões em que viveram.</p><p>Entretanto, a anatomia dos primeiros humanos modernos desta</p><p>mesma parte do</p><p>9191</p><p>mundo é muito diferente. Estas pessoas são altas, de</p><p>constituição leve, e com membros longos. Uma compleição</p><p>corporal flexível é muito mais adequada a um clima tropical ou</p><p>temperado, e não às estepes geladas da Europa da Idade do</p><p>Gelo. Este quebra-cabeça seria explicável se os primeiros</p><p>europeus modernos, em vez de terem evoluído na Europa,</p><p>fossem descendentes de migrantes oriundos da África, e o</p><p>modelo “A partir da África”, portanto, teria algum apoio a partir</p><p>desta observação.</p><p>O modelo “A partir da África” recebe apoio adicional de uma</p><p>outra observação direta do registro fóssil. Se a hipótese da</p><p>evolução multirregional está correta, então esperaríamos</p><p>encontrar exemplos primordiais de humanos modernos</p><p>aparecendo mais ou menos simultaneamente por todo o Velho</p><p>Mundo. Isto não é o que vemos. Os fósseis de humanos</p><p>modernos mais antigos de que temos conhecimento vêm</p><p>provavelmente do sul da África. Digo “provavelmente” porque</p><p>estes fósseis são não apenas partes fragmentadas de</p><p>maxilares mas há também um certo grau de incerteza sobre</p><p>suas idades verdadeiras. Por exemplo, supõe-se que os fósseis</p><p>da caverna Border e da caverna Klasies River Mouth, ambas</p><p>na África do Sul, tenham um pouco mais de 100 nül anos de</p><p>idade, e são citados como indícios favoráveis pelos pro-</p><p>ponentes da hipótese “A partir da África”. Entretanto, os fósseis</p><p>de humanos modernos oriundos das cavernas de Qafzeh e</p><p>Skhul têm também mais ou menos 100 mil anos de idade. É</p><p>possível, portanto, que os primeiros humanos modernos</p><p>tenham surgido no norte da África ou no Oriente Médio, e então</p><p>migrado a partir de lá. Porém, com base no peso total dos</p><p>indícios (ver figura 5.3), a maioria dos antropólogos é a favor de</p><p>um srcem subsaariana.</p><p>Nenhum fóssil de humano moderno desta época foi encontrado</p><p>em qualquer outra parte do resto da Ásia ou da Europa. Se isto</p><p>reflete uma realidade evolutiva e não é simplesmente o pro-</p><p>blema perene de um registro fóssil lamentavelmente</p><p>incompleto, então a hipótese “A partir da África” realmente</p><p>parece razoável.</p><p>A maioria dos geneticistas de populações apoia esta hipótese</p><p>como a mais plausível do ponto de vista biológico. Estes cien-</p><p>tistas estudam o perfil genético dentro de uma espécie e como</p><p>este pode mudar com o decorrer do tempo. Se as populações</p><p>de uma espécie permanecem em contato geográfico umas com</p><p>as outras, mudanças genéticas que surgem por meio</p><p>de</p><p>mutações podem difundir-se por toda a região, por meio do</p><p>hibridismo. Em conseqüência, o perfil genético da espécie será</p><p>alterado, mas no todo a espécie permanecerá geneticamente</p><p>unificada, Haverá um</p><p>9292</p><p>resultado diferente se as populações de uma espécie ficaram</p><p>geograficamente isoladas umas das outras, talvez por causa de</p><p>uma mudança no curso de um rio ou o aparecimento de um</p><p>deserto. Neste caso, uma mudança genética que possa surgir</p><p>em uma população não será transferida para as outras</p><p>populações. As populações isoladas podem portanto tornar-se</p><p>geneticamente diferentes umas das outras de modo constante,</p><p>talvez, finalmente, transformando-se em subespécies</p><p>diferentes, ou mesmo espécies completamente diferentes. Os</p><p>geneticistas de populações fazem uso de modelos matemáticos</p><p>para calcular a taxa pela qual a mudança genética pode ocorrer</p><p>em populações de vários tamanhos, e podem portanto oferecer</p><p>sugestões sobre o que pode ter acontecido em tempos</p><p>remotos. A maioria dos geneticistas de populações, inclusive</p><p>Luigi Luca Cavalli-Sforza, de Stanford, e Shahin Rouhani, do</p><p>University College, em Londres, que teceram extensivamente</p><p>comentários no decorrer do debate, mostram-se céti-</p><p>9393</p><p>cos em relação ao modelo da evolução multirregional. Eles</p><p>observam que o modelo multirregional exige um fluxo extenso</p><p>de genes através de grandes populações, unindo-as</p><p>geneticamente, permitindo ao mesmo tempo que a mudança</p><p>evolutiva as transforme em humanos modernos. E, se as novas</p><p>datações dos fósseis do Homem de Java, anunciadas no início</p><p>de 1994, estiverem corretas, o Homo erectus expandiu seus</p><p>domínios para além da África há quase 2 milhões de anos.</p><p>Portanto, de acordo com o modelo de evolução multirregional,</p><p>não apenas o fluxo de genes teria que ser mantido através de</p><p>uma grande área geográfica como teria também de ser mantido</p><p>por um período muito grande. Isto, conclui a maioria dos</p><p>geneticistas de populações, é simplesmente irreal. Com a</p><p>difusão de populações pré-modernas através da Europa, Ásia e</p><p>África, há uma probabilidade maior de produzir-se variantes</p><p>geográficas (tais como de fato vemos entre sapiens muito</p><p>antigos) do que termos um todo coeso.</p><p>Deixaremos os fósseis de lado por enquanto, e nos voltaremos</p><p>para o comportamento, com o que quero dizer seus produtos</p><p>tangíveis, instrumentos e objetos de arte. Temos que lembrar</p><p>que a grande preponderância de comportamento humano em</p><p>grupos humanos tecnologicamente primitivos é do ponto de</p><p>vista arqueológico invisível. Por exemplo, um ritual de iniciação</p><p>conduzido por um xamã envolveria o relato de mitos, cânticos e</p><p>adorno do corpo — e nenhuma destas atividades entraria no</p><p>registro arqueológico. Portanto, precisamos lembrar</p><p>constantemente que, quando encontramos artefatos de pedra e</p><p>objetos pintados ou gravados, estes apenas nos abrem a mais</p><p>estreita das janelas para o mundo primitivo.</p><p>O que gostaríamos de identificar no registro arqueológico é</p><p>algum tipo de sinal da mente humana moderna em</p><p>funcionamento. E gostaríamos que este sinal esclarecesse</p><p>hipóteses que competem entre si. Por exemplo, se o sinal</p><p>apareceu em todas as regiões do Velho Mundo mais ou menos</p><p>simultaneamente, poderíamos dizer que o modelo de evolução</p><p>multirregional descreve a maneira mais provável pela qual os</p><p>humanos modernos evoluíram. Se, em vez disto, o sinal</p><p>apareceu primeiro em um lugar isolado e então gradualmente</p><p>espalhou-se pelo resto do mundo, isto daria um peso maior ao</p><p>modelo alternativo. Esperaríamos, é claro, que o sinal</p><p>arqueológico coincidisse com o padrão srcinado pelo registro</p><p>fóssil.</p><p>Vimos no capítulo 2 que o surgimento do gênero Homo coin-</p><p>9494</p><p>cide grosseiramente com o início do registro arqueológico, há</p><p>uns 2,5 milhões de anos. Vimos, também, que a maior</p><p>complexidade de conjuntos de instrumentos de pedra de 1,4</p><p>milhão de anos atrás, passando da indústria olduvaiana para a</p><p>acheulense, seguiu-se imediatamente à evolução do Homo</p><p>erectus. O elo de ligação entre a biologia e o comportamento é</p><p>portanto muito estreito: artefatos simples foram feitos pelo</p><p>Homo mais primitivo; um salto de complexidade ocorreu com a</p><p>evolução do Homo erectus. Este elo de ligação é novamente</p><p>observado com o surgimento do sapiens mais antigo, pouco</p><p>tempo após meio milhão de anos atrás.</p><p>Depois de mais de 1 milhão de anos de estagnação relativa, a</p><p>indústria simples de machados manuais do Homo erectus deu</p><p>lugar a uma tecnologia mais complexa com base em lascas</p><p>grandes. E, onde a indústria acheulense tinha talvez uma dúzia</p><p>de implementos identificáveis, as novas tecnologias</p><p>compreendiam mais ou menos sessenta. A novidade biológica</p><p>que vemos na anatomia dos primeiros sapiens, inclusive os</p><p>neanderthals, é claramente acompanhada por um novo nível</p><p>de competência tecnológica. Entretanto, uma vez estabelecida</p><p>a nova tecnologia, esta mudou pouco. A estagnação, e não a</p><p>inovação, caracterizou a nova era.</p><p>Entretanto, quando a mudança realmente chegou, foi des-</p><p>lumbrante — tão deslumbrante que deveríamos nos precaver</p><p>para não ficar cegos para a realidade por trás dela. Há cerca</p><p>de 35 mil anos na Europa, as pessoas começaram a fabricar</p><p>instrumentos da maior qualidade, obtidos de lâminas de pedra</p><p>delicadamente trabalhadas. Pela primeira vez ossos e chifres</p><p>foram utilizados como matéria-prima para a fabricação de</p><p>artefatos. Os kits de ferramentas agora abrangiam mais de uma</p><p>centena de itens, e incluíam implementos para modelar</p><p>vestimentas grosseiras, para gravar e esculpir. Pela primeira</p><p>vez, os artefatos tornaram-se obras de arte: por exemplo,</p><p>lanças feitas com chifres eram enfeitadas com gravações</p><p>representando animais vivos. Contas e pingentes aparecem no</p><p>registro fóssil, anunciando novas práticas de adorno do corpo.</p><p>E — o mais evocativo de tudo — pinturas nas paredes de</p><p>cavernas profundas revelam um mundo mental que</p><p>prontamente reconheceríamos como nosso. Ao contrário das</p><p>eras anteriores quando a estagnação dominava, a inovação é</p><p>agora a essência da cultura, com a mudança sendo medida em</p><p>milênios e não mais em centenas de milênios. Conhecida como</p><p>a Revolução do Paleolítico Superior, este sinal arqueológico</p><p>coletivo é um indício inconfundível da mente humana moderna</p><p>em funcionamento.</p><p>9595</p><p>Agora mesmo afirmei que o sinal arqueológico da Revolução</p><p>do Paleolítico Superior poderia estar nos tornando cegos para</p><p>a realidade. Com isto quero dizer que por razões históricas o</p><p>registro arqueológico na Europa Ocidental é bem mais rico do</p><p>que na África. Para cada sítio arqueológico desta era</p><p>encontrado na África, há cerca de duas centenas de sítios</p><p>similares na Europa Ocidental. A disparidade reflete a diferença</p><p>na intensidade da exploração científica nos dois continentes,</p><p>não a realidade da pré-história humana. Durante muito tempo,</p><p>a Revolução do Paleolítico Superior foi considerada uma</p><p>indicação de que a emergência final dos humanos modernos</p><p>ocorreu na Europa Ocidental. Afinal de contas, o sinal</p><p>arqueológico e o registro fóssil lá coincidiam precisamente;</p><p>ambos indicam um evento dramático há cerca de 35 mil anos:</p><p>os humanos modernos apareceram na Europa Ocidental há 35</p><p>mil anos e seu comportamento moderno torna-se</p><p>imediatamente parte do registro arqueológico. Ou assim se</p><p>presumia.</p><p>Recentemente, esta visão mudou. A Europa Ocidental é agora</p><p>reconhecida como um lugar atrasado, e podemos discernir uma</p><p>transformação varrendo a Europa, do leste para o oeste. Co-</p><p>meçando há cerca de 50 mil anos, na Europa Oriental, as</p><p>populações de neanderthals desapareceram e foram</p><p>substituídas por humanos modernos, tendo a substituição</p><p>acontecido no oeste longínquo há cerca de 33 mil anos. O</p><p>surgimento coincidente de humanos modernos e</p><p>comportamento moderno na Europa Ocidental reflete o influxo</p><p>de um novo tipo de população, o Homo sapiens moderno. A</p><p>Revolução do Paleolítico Superior foi um sinal demográfico e</p><p>não um sinal evolutivo.</p><p>Se há 50 mil anos os humanos modernos</p><p>estavam começando</p><p>a migrar para a Europa Ocidental, de onde vieram eles? Com</p><p>base no indício provido pelos fósseis, nós diríamos da África,</p><p>com toda a probabilidade — ou talvez do Oriente Médio. A</p><p>despeito da exigüidade do registro arqueológico, este apoia a</p><p>srcem africana do comportamento humano moderno.</p><p>Tecnologias baseadas em lâminas estreitas começaram a</p><p>aparecer naquele continente por volta de 100 mil anos atrás.</p><p>Isto, lembre-se, coincidiria com a primeira aparição conhecida</p><p>da anatomia humana moderna, e poderia ser considerado um</p><p>terceiro exemplo do elo de ligação entre a biologia e o</p><p>comportamento.</p><p>O elo aqui pode ser, porém, uma ilusão, o resultado do acaso.</p><p>Digo isto pois no Oriente Médio, onde ambos os registros, o</p><p>fóssil e o arqueológico, são bons, vemos algo que é claro mas</p><p>mesmo</p><p>9696</p><p>assim paradoxal. A aplicação de novas técnicas de datação</p><p>mostra que neanderthals e humanos modernos essencialmente</p><p>coexistiram na região por um período de cerca de 60 mil anos.</p><p>(Em 1989, foi demonstrado que o neanderthal de Tabun tinha</p><p>pelo menos 100 mil anos de idade, o que o toma</p><p>contemporâneo dos humanos modernos de Qafzeh e Skhul.)</p><p>Durante todo aquele tempo, a única forma de tecnologia de</p><p>artefatos que vemos é aquela associada com os neanderthals.</p><p>O nome dado a sua tecnologia é mousteriana, em razão da</p><p>caverna de Le Moustier, na França, onde foi descoberta pela</p><p>primeira vez. O fato de que as populações de humanos</p><p>anatomicamente modernos pareçam ter produzido tecnologia</p><p>semelhante à mousteriana em vez de conjuntos de artefatos</p><p>ricos em inovações tão característicos do Paleolítico Superior</p><p>significa que eles eram modernos na forma apenas, e não em</p><p>seu comportamento. O elo de ligação entre anatomia e</p><p>comportamento parece portanto romper-se. O sinal</p><p>arqueológico de comportamento humano moderno mais antigo</p><p>é fraco e esporádico, e pode ser a vítima de um registro muito</p><p>pouco conhecido. Embora a tecnologia com base em lâminas</p><p>tenha sido vista pela primeira vez na África, não é possível</p><p>apontar com toda a confiança para o continente africano e</p><p>dizer. “Este é o lugar onde o comportamento humano moderno</p><p>começou”, e então traçar sua expansão até a Eurásia.</p><p>A terceira linha de indício que se relaciona com a srcem dos</p><p>humanos modernos, a da genética molecular, é a menos</p><p>ambígua. É também a mais controvertida. Durante os anos 80,</p><p>surgiu um novo modelo para as srcens dos humanos</p><p>modernos. Conhecida como a hipótese da Eva mitocondrial, ela</p><p>essencialmente deu apoio ao modelo “A partir da África”, de</p><p>modo convincente. A maioria dos proponentes da hipótese “A</p><p>partir da África” estão preparados para considerar a</p><p>possibilidade de que, à medida que os humanos modernos</p><p>expandiram-se da África para o resto do Velho Mundo, eles</p><p>misturaram-se até um certo grau com as populações pré-</p><p>modernas já estabelecidas. Isto permitiria que alguns traços de</p><p>continuidade genética de populações antigas pudessem ser</p><p>transmitidos para as populações modernas. Entretanto, o</p><p>modelo da Eva mitocondrial refuta isto. De acordo com este</p><p>modelo, à medida que as populações modernas migraram da</p><p>África e cresceram em número, elas substituíram</p><p>completamente as populações já existentes. O intercruzamento</p><p>entre os migrantes e as populações já existentes, se de fato</p><p>ocorreu, foi em grau ínfimo.</p><p>O modelo da Eva mitocondrial fluiu do trabalho de dois labo-</p><p>9797</p><p>ratórios — o de Douglas Wallace e seus colegas na</p><p>Universidade Emory, e o de Alan Wilson e seus colegas na</p><p>Universidade da Califórnia, em Berkeley. Eles examinaram</p><p>cuidadosamente o material genético, ou ADN, que aparece em</p><p>organelas diminutas que existem dentro da célula chamada</p><p>mitocôndria. Quando o óvulo de uma mãe e um</p><p>espermatozóide do pai unem-se, as únicas mitocôndrias que</p><p>tornam-se parte das células do embrião recém-formado são as</p><p>do óvulo. Portanto, o ADN mitocondrial é herdado somente</p><p>pelo lado materno.</p><p>Por diversas razões técnicas, o ADN mitocondrial é particu-</p><p>larmente apto em permitir uma olhada para trás através das</p><p>gerações para visualizar o curso da evolução. E como o ADN é</p><p>herdado pelo lado materno, ele finalmente conduz a uma única</p><p>ancestral fêmea. De acordo com as análises, os humanos</p><p>modernos podem traçar sua ancestralidade genética até uma</p><p>fêmea que viveu na África há talvez 150 mil anos. (Devemos</p><p>nos lembrar, entretanto, que esta única fêmea era parte de</p><p>uma única população de mais ou menos 10 mil indivíduos; ela</p><p>não era uma Eva solitária com seu Adão.)</p><p>As análises não apenas indicaram uma srcem africana para os</p><p>humanos modernos, como também revelaram a ausência de</p><p>indício de intercruzamento com a população pré-modema.</p><p>Todas as amostras de ADN mitocondrial srcinárias de</p><p>populações humanas existentes analisadas até agora são</p><p>notavelmente similares umas às outras, indicando uma srcem</p><p>recente e comum. Se a mistura genética entre sapiens</p><p>modernos e antigos tivesse ocorrido, algumas pessoas teriam</p><p>ADN mitocondrial muito diferente da média, indicando sua</p><p>srcem antiga. Até agora, com mais de 4.000 pessoas de todo</p><p>o mundo testadas, nenhum ADN mitocondrial antigo foi</p><p>encontrado. Todos os tipos de ADN mitocondrial oriundos de</p><p>populações modernas que têm sido examinados parecem ter</p><p>uma srcem recente. Isto implica que os recém-chegados</p><p>modernos substituíram completamente as populações antigas</p><p>— tendo o processo começado na África há 150 mil anos e</p><p>então se disseminado através da Eurásia nos 100 mil anos</p><p>seguintes.</p><p>Quando Allan Wilson e sua equipe publicaram pela primeira</p><p>vez seus resultados, em um número da revista Nature de</p><p>janeiro de 1987, as conclusões foram apresentadas</p><p>audaciosamente, provocando consternação entre os</p><p>antropólogos e um grande interesse entre o público. Wilson e</p><p>seus colegas escreveram que seus dados indicavam que “a</p><p>transformação de formas arcaicas de Homo sapiens em formas</p><p>modernas ocorreu primeiramente na</p><p>9898</p><p>África, há cerca de 100 mil ou 140 mil anos, e (...) todos os</p><p>humanos de hoje são descendentes daquelas populações.”</p><p>(Análises posteriores revelaram datas ligeiramente anteriores.)</p><p>Douglas Wallace e seus colegas apoiaram de modo geral as</p><p>conclusões do grupo de Berkeley.</p><p>Milford Wolpoff aferrou-se ao seu modelo de evolução</p><p>multirregional e denunciou os dados e as análises como</p><p>impróprios, mas Wilson e seus colegas continuaram a produzir</p><p>mais dados e finalmente afirmaram que as conclusões eram</p><p>estatisticamente inatacáveis. Recentemente, porém, alguns</p><p>problemas estatísticos nas análises foram descobertos e</p><p>reconheceu-se que as conclusões eram menos concretas do</p><p>que se afirmara. Não obstante, muitos biólogos moleculares</p><p>ainda acreditam que o ADN mitocondrial dá apoio suficiente à</p><p>hipótese “A partir da África”. E deve ser observado que indícios</p><p>genéticos mais convencionais, com base no ADN do núcleo,</p><p>estão começando a revelar o mesmo tipo de padrão mostrado</p><p>pelo ADN mitocondrial.</p><p>Aqueles que promovem a noção de uma substituição completa</p><p>ou mesmo parcial de populações pré-modernas por modernas</p><p>têm que enfrentar uma questão desconfortável: como esta</p><p>substituição ocorreu? De acordo com Milford Wolpoff, este</p><p>cenário exige que aceitemos um violento genocídio. Estamos</p><p>familiarizados com matanças desta natureza, por exemplo, na</p><p>extinção de nativos americanos e populações absrcines da</p><p>Austrália no século XIX. E isto pode ter sido verdadeiro em</p><p>tempos remotos também, embora até o momento não haja</p><p>qualquer vestígio de que tenha ocorrido.</p><p>Dada a ausência de indícios, somos forçados a examinar pos-</p><p>síveis alternativas àquela da substituição pela violência. Se não</p><p>existe nenhuma, então aquela hipótese, embora não</p><p>demonstrada, torna-se mais forte. Ezra Zubrow, antropólogo da</p><p>State University of New York, em Buffalo, examinou tal modelo</p><p>alternativo. Ele desenvolveu modelos no computador de</p><p>populações que interagem entre si, nos quais uma tem uma</p><p>leve vantagem competitiva sobre a outra. Fazendo rodar no</p><p>computador estas simulações, ele é capaz de determinar que</p><p>tipo de vantagem pode ser exigida pela população superior</p><p>para substituir a segunda rapidamente. A resposta não é</p><p>intuitiva: uma vantagem de 2 por cento pode levar à eliminação</p><p>da segunda população em um milênio.</p><p>Podemos entender imediatamente como uma população pode</p><p>destruir outra por meio da superioridade militar. Mas é muito</p><p>menos fácil para nós compreender como uma pequena</p><p>vantagem,</p><p>9999</p><p>por exemplo na exploração de recursos tais como os alimentos,</p><p>pode destacar-se em um período relativamente curto de tempo</p><p>e conduzir a conseqüências cataclísmicas. Se os humanos</p><p>modernos tinham uma pequena vantagem sobre os</p><p>neanderthais, como podemos explicar a coexistência aparente</p><p>entre estas duas populações durante um período de mais ou</p><p>menos 60 mil anos no Oriente Médio? Uma explicação é que,</p><p>embora os humanos modernos tivessem evoluído em termos</p><p>anatômicos, o comportamento humano moderno veio mais</p><p>tarde. Uma segunda explicação, apoiada por muitos, é que a</p><p>coexistência é mais aparente do que real. É possível que as</p><p>diferentes populações tivessem ocupado a região em turnos,</p><p>acompanhando mudanças climáticas. Em épocas mais frias, os</p><p>humanos modernos dirigiam-se para o sul e os neanderthais</p><p>ocupavam o Oriente Médio; em épocas mais quentes acontecia</p><p>o contrário. Em razão do fato de a resolução temporal dos</p><p>depósitos encontrados nas cavernas ser pobre, este tipo de</p><p>“compartilhamento” de um local pode parecer coexistência.</p><p>Vale a pena notar, porém, que onde nós realmente sabemos</p><p>que os neanderthais e os humanos modernos coexistiram — na</p><p>Europa Ocidental, há 35 mil anos — eles assim o fizeram por</p><p>um milênio ou dois no máximo, de acordo com o modelo de</p><p>Zubrow. O trabalho de Zubrow não demonstra de modo</p><p>inequívoco que a competição demográfica foi o meio pelo qual</p><p>os humanos modernos substituíram as populações pré-</p><p>modernas quando eles as encontraram. Mas demonstra que a</p><p>violência não é a única candidata a mecanismo de substituição.</p><p>Onde isto tudo nos deixa? A importante questão da srcem dos</p><p>humanos modernos, a despeito da riqueza de informações que</p><p>é possível obter-se, permanece sem solução. Entretanto, sinto</p><p>que é pouco provável que a hipótese da evolução</p><p>multirregional esteja correta. Suspeito que o Homo sapiens</p><p>moderno surgiu como um evento evolutivo discreto, em algum</p><p>lugar da África; mas suspeito também que, quando os</p><p>descendentes destes primeiros humanos modernos</p><p>expandiram-se para a Eurásia, eles misturaram-se às</p><p>populações de lá. Por que o indício genético, como é</p><p>atualmente interpretado, não reflete isto, eu não sei. Talvez a</p><p>leitura atual dos indícios esteja incorreta. Ou talvez, afinal de</p><p>contas, a hipótese da Eva mitocondrial revele-se correta. É</p><p>muito mais provável que esta incerteza seja resolvida quando o</p><p>clamor do debate diminuir e novos indícios forem encontrados</p><p>em apoio a nma nu nutra Has hinnteses competidoras.</p><p>100100</p><p>6 - A linguagem da arte</p><p>Não há dúvida de que algumas das relíquias mais</p><p>impressionantes da pré-história humana são as representações</p><p>de animais — gravadas, pintadas e esculpidas — produzidas</p><p>há 30 mil anos. Nesta época, os humanos modernos tinham</p><p>evoluído e ocupado muito do Velho Mundo, mas não ainda,</p><p>provavelmente, o Novo Mundo. Onde quer que pessoas</p><p>vivessem — na África, na Ásia, na Europa e na Austrália —,</p><p>elas produziam imagens de seu mundo. A vontade de produzir</p><p>representações era aparentemente irresistível, e as imagens</p><p>elas próprias são irresistivelmente evocativas. São também</p><p>misteriosas.</p><p>Uma das minhas experiências mais memoráveis como an-</p><p>tropólogo foi visitar em 1980 algumas das cavernas decoradas</p><p>no sudoeste da França Eu estava realizando uma série de</p><p>fumes para a rede de televisão BBC e deste modo tive a</p><p>oportunidade de ver o que poucos viram, inclusive a famosa</p><p>caverna de Lascaux, perto da cidade de Les Eyzies, na</p><p>Dordonha. A mais extensivamente decorada de todas as</p><p>cavernas da Europa da Idade do Gelo, Lascaux tem estado</p><p>fechada ao público desde 1963, para proteger a integridade</p><p>das pinturas; atualmente há uma restrição rígida que permite</p><p>apenas cinco visitantes por dia Felizmente, uma duplicata</p><p>brilhantemente reproduzida das paredes decoradas da caverna</p><p>foi recentemente completada, de modo que as imagens ainda</p><p>podem ser vistas. Minha visita à caverna de Lascaux</p><p>verdadeira em 1980 me fez recordar uma época, há três</p><p>décadas e meia, quando a visitei com meus pais e Henri Breuil,</p><p>o mais famoso pré-historiador da França. As imagens de</p><p>touros, cavalos e veados eram agora tão impressionantes</p><p>quanto o eram quando eu era jovem, e elas pareciam mover-se</p><p>ante nossos olhos.</p><p>Tão espetacular quanto Lascaux, a caverna de Tue</p><p>d'Audoubert, na região Ariège da França, é única e de tirar o</p><p>fôlego. A caverna é uma das três cavernas decoradas situadas</p><p>em terras cujo proprietário é o conde Robert Bégouèn. Uma</p><p>passagem estreita e sinuosa conduz da luz brilhante do Sol por</p><p>vários quilômetros até a escuridão mais profunda. A luz da</p><p>lanterna do conde ilumina as</p><p>101101</p><p>paredes e projeta sombras em movimento, e o chão de argila</p><p>brilha com uma cor alaranjada. Finalmente, chegamos a uma</p><p>pequena rotunda no final da passagem; o conde ilumina com</p><p>sua lanterna e com dramatismo apropriado um ponto no centro</p><p>da câmara, mais adiante o teto da caverna une-se ao chão. Lá,</p><p>vemos as figuras de dois bisões, soberbamente esculpidas em</p><p>argila, repousando contra as rochas.</p><p>Eu tinha visto reproduções destas figuras famosas, é claro,</p><p>mas nada havia me preparado para a realidade. Medindo cerca</p><p>de um sexto do tamanho real, elas são perfeitas na forma,</p><p>cheias de movimento em sua imobilidade; elas encapsulam a</p><p>vida. A habilidade dos artistas que esculpiram estas figuras há</p><p>cerca de 15 mil anos é de tirar o fôlego, especialmente quando</p><p>nos lembramos das condições sob as quais eles devem ter</p><p>trabalhado. Usando tochas simples feitas de gordura animal,</p><p>eles transportaram a argila de uma câmara vizinha e criaram as</p><p>formas dos animais com seus dedos e algum tipo de</p><p>implemento achatado; os olhos, as narinas, a boca e a juba</p><p>foram criados com um bastão pontiagudo ou osso. Depois que</p><p>terminaram, eles cuidadosamente varreram o entulho de seu</p><p>trabalho, deixando apenas pedaços de argila em forma de</p><p>salsicha. Antes interpretados como falos ou chifres, estes</p><p>pedaços são agora considerados amostras com as quais os</p><p>escultores testavam a plasticidade da argila.</p><p>As razões para criar os bisões e as condições sob as quais</p><p>estes foram esculpidos perderam-se no tempo. Uma terceira</p><p>figura foi grosseiramente gravada no chão da caverna perto</p><p>das outras duas, e há uma outra, uma estatueta, pequena e</p><p>feita de argila. O mais intrigante, porém, são as marcas de</p><p>calcanhares, provavelmente de crianças, em torno das figuras.</p><p>Estariam as crianças brincando enquanto os artistas</p><p>trabalhavam? Sendo assim, por que não vemos pegadas dos</p><p>artistas? Teriam as marcas de calcanhares sido feitas durante</p><p>um ritual que continha alguma parte da mitologia do Paleolítico</p><p>Superior em que as figuras dos bisões seriam aparte central?</p><p>Nós não o sabemos, e talvez não possamos sabê-lo. Como o</p><p>arqueólogo sul-africano David Lewis-Williams diz da arte pré-</p><p>histórica: “O significado é sempre culturalmente vinculado.”</p><p>Lewis-Williams, que trabalha na Universidade do Witwaters-</p><p>rand, tem estudado a arte do povo !Kung San do Kalahari, com</p><p>um olho voltado para o esclarecimento do significado da arte</p><p>pré-histórica, inclusive a arte da Europa da Idade do Gelo. Ele</p><p>reconhe que a expressão artística pode formar uma trama</p><p>enigmática</p><p>102102</p><p>na tessitura intrincada do tecido cultural de uma sociedade. A</p><p>mitologia, a música e a dança são também parte desse tecido:</p><p>cada trama contribui para o significado do todo, mas elas por si</p><p>mesmas são necessariamente incompletas.</p><p>Mesmo que tivéssemos testemunhado esta parte da vida do</p><p>Paleolítico Superior na qual</p><p>as pinturas das cavernas desempe-</p><p>nharam seu papel, poderíamos compreender o significado do</p><p>todo? Duvido. Precisamos apenas pensar nas histórias</p><p>narradas nas religiões modernas para apreciar a importância</p><p>de símbolos crípticos que podem ser destituídos de significado</p><p>fora da cultura a que pertencem. Pense no significado para um</p><p>cristão de uma imagem de um homem segurando um cajado</p><p>com um cordeiro aos seus pés. E pense na ausência de</p><p>qualquer significado para alguém que nunca ouviu a história</p><p>cristã.</p><p>Minha mensagem não é de desesperança mas sim de cautela.</p><p>As imagens antigas que temos hoje são fragmentos de uma ve-</p><p>lha história, e, embora a vontade de saber o que elas</p><p>significam seja grande, é mais prudente aceitar os limites</p><p>prováveis de nossa compreensão. Mais ainda, tem havido um</p><p>forte, e provavelmente inevitável, preconceito ocidental na</p><p>percepção da arte pré-histórica. Uma conseqüência tem sido</p><p>uma falta de atenção à arte pré-histórica de antigüidade igual e</p><p>algumas vezes maior da África Oriental e Meridional. Uma</p><p>outra conseqüência tem sido a visualização da arte da maneira</p><p>ocidental, como se esta consistisse de quadros pendurados</p><p>nas paredes de um museu, como objetos para serem</p><p>simplesmente vistos. De fato, o grande pré-historiador francês</p><p>André Leroi-Gourhan uma vez descreveu as imagens da Idade</p><p>do Gelo como “as srcens da arte ocidental”. Isto, claramente,</p><p>não é o caso, pois ao final da Idade do Gelo, há 10 mil anos, a</p><p>pintura representativa e a gravação desapareceram totalmente,</p><p>sendo substituídas pelas imagens esquemáticas e padrões</p><p>geométricos. Muitas das técnicas empregadas em Lascaux,</p><p>tais como a perspectiva e a que transmite uma sensação de</p><p>movimento, tiveram que ser reinventadas na arte ocidental com</p><p>o Renascimento.</p><p>Antes de examinarmos algumas das tentativas de se obter um</p><p>vislumbre da vida no Paleolítico Superior por meio de imagens</p><p>antigas, devemos esboçar uma vista geral da arte da Idade do</p><p>Gelo. O período em questão começa há 35 mil anos e termina</p><p>há 10 mil com o fim da própria Idade do Gelo. Este período,</p><p>lembre-se, testemunhou a primeira aparição de tecnologia</p><p>sofisticada na Euro-</p><p>103103</p><p>pa Ocidental, a qual evoluiu rapidamente, como se estivesse</p><p>seguindo a moda. A seqüência de mudanças é marcada pelos</p><p>nomes dados a cada nova variação da tecnologia do Paleolitico</p><p>Superior; podemos olhar para as mudanças na arte da Idade</p><p>do Gelo utilizando o mesmo referencial.</p><p>O Paleolitico Superior começa essencialmente com o período</p><p>aurignaciano, que vai de 34 mil a 30 mil anos atrás. Embora</p><p>não existam cavernas pintadas conhecidas deste período, as</p><p>pessoas devotaram esforços consideráveis para fazer</p><p>pequenas contas de marfim, destinadas presumivelmente a</p><p>enfeitar vestimentas. Elas também produziram figuras humanas</p><p>e de animais primorosas, usualmente esculpidas em marfim.</p><p>Por exemplo, no sítio arqueológico de Vogelherd, na</p><p>Alemanha, foram recuperadas meia dúzia de diminutas figuras</p><p>de mamutes e de cavalos esculpidas em marfim. Uma das</p><p>figuras representando um cavalo é uma das peças mais</p><p>habilmente produzidas encontradas de todo o Paleolitico</p><p>Superior. Como já disse antes, a música certamente desempe-</p><p>nhou um papel importante na vida destas pessoas, e uma</p><p>pequena flauta feita de osso encontrada em Abri Blanchard, no</p><p>sudoeste da França, é uma testemunha disso.</p><p>As pessoas do período gravettiano, que vai de 30 mil a 22 mil</p><p>anos atrás, foram as primeiras a manufaturar figuras em argila,</p><p>algumas das quais eram animais, outras humanas. As pinturas</p><p>de cavernas deste período do Paleolitico Superior são raras,</p><p>mas marcas que representam o contorno das mãos podem ser</p><p>encontradas em algumas cavernas, feitas talvez apoiando a</p><p>mão sobre a parede da caverna, espalhando tinta e ao mesmo</p><p>tempo acompanhando o seu contorno. (Um exemplo um pouco</p><p>macabro desta prática foi descoberto no sítio arqueológico de</p><p>Gargas, na parte francesa dos Pireneus, onde foram contadas</p><p>mais de duas centenas de impressões, quase todas sem uma</p><p>ou mais partes dos dedos.) A mais famosa das inovações</p><p>gravettianas, porém, são as figuras femininas, muitas vezes</p><p>sem características faciais ou os membros inferiores. Feitas</p><p>com argila, marfim ou calcita, elas têm sido tipicamente</p><p>chamadas de Venus, e se supõe que representem um culto de</p><p>fertilidade disseminado por todo o continente. Entretanto,</p><p>exames apurados mais críticos e recentes mostram uma</p><p>grande diversidade na forma destas figuras, e poucos</p><p>estudiosos defenderiam atualmente a idéia de um culto de</p><p>fertilidade.</p><p>A pintura de cavernas, que geralmente chama mais a atenção,</p><p>começou no período solutriano do Paleolitico Superior, que se</p><p>estende de 22 mil a 18 mil anos atrás. Entretanto, outras</p><p>formas</p><p>104104</p><p>de expressão artística eram mais proeminentes. Por exemplo, a</p><p>gravação de baixos-relevos grandes e impressionantes, muitas</p><p>vezes em sítios de moradia, foi evidentemente importante para</p><p>os solutrianos. Um exemplo maravilhoso é o sítio em Roc de</p><p>Sers, na região da Charente, na França, onde grandes figuras</p><p>de cavalos, bisões, renas, bodes das montanhas e uma figura</p><p>humana foram gravadas na rocha, nos fundos de um abrigo;</p><p>algumas das figuras em relevo têm mais ou menos 15</p><p>centímetros.</p><p>O período final do Paleolítico Superior — o magdaleniano, que</p><p>se estende de 18 mil ali mil anos atrás — foi a era das pinturas</p><p>nas profundezas das cavernas: 80 por cento de todas as caver-</p><p>nas em que se encontram as pinturas datam deste período.</p><p>Lascaux foi pintada nesta época, assim como Altamira, uma ca-</p><p>verna tão espetacular quanto Lascaux na região da Cantábria,</p><p>no norte da Espanha. Os magdalenianos eram também</p><p>escultores e gravadores talentosos de objetos em pedra, osso</p><p>e marfim — alguns utilitários, tais como as lanças, outros não</p><p>tão obviamente utilitários como, por exemplo, os “bastões”.</p><p>Embora seja muitas vezes dito que a forma humana é uma</p><p>raridade na arte da Idade do Gelo, este não foi o caso do</p><p>período magdaleniano. As pessoas do magdaleniano da</p><p>caverna de La Marche, no sudoeste da França, gravaram mais</p><p>de uma centena de perfis da cabeça humana, cada uma delas</p><p>tão individualizada que dá a impressão de um retrato.</p><p>A espetacular pintura no teto da caverna de Altamira poderia</p><p>ter permanecido para sempre sem ser descoberta não fosse</p><p>por Maria, a jovem filha de Don Marcellion de Sautola, que era</p><p>o proprietário da fazenda onde a caverna está situada. Um dia,</p><p>em 1879, pai e filha exploraram a caverna que havia sido</p><p>descoberta uma década antes. Maria entrou em uma câmara</p><p>baixa que De Sautola havia explorado previamente. Ela estava</p><p>“correndo pela caverna, brincando aqui e ali”, lembrou mais</p><p>tarde Maria. “De repente percebi as formas e as figuras no</p><p>teto... 'Olhe, papai, bois'“, gritou ela. Na luz bruxuleante de uma</p><p>lâmpada a óleo, Maria viu o que ninguém havia visto em 17 mil</p><p>anos: imagens de duas dúzias de bisões agrupados em um</p><p>círculo, com dois cavalos, um lobo, três javalis e três fêmeas de</p><p>cervo em torno da periferia. Eles tinham as cores vermelha,</p><p>amarela e preta, e pareciam tão frescos como se tivessem sido</p><p>recém-pintados.</p><p>O pai de Maria, um arqueólogo amador apaixonado, ficou es-</p><p>pantado ao ver o que perdera e sua filha havia encontrado, e</p><p>reco-</p><p>105105</p><p>nheceu o fato como uma grande descoberta. Infelizmente, os</p><p>pré-historiadores profissionais daquela época não fizeram o</p><p>mesmo: as pinturas eram tão brilhantes e vitais que foram</p><p>consideradas obra de um artista recente. Elas pareciam boas</p><p>demais, realistas demais, artísticas demais para ser fruto de</p><p>mentes primitivas. Ao contrário, elas deveriam ser</p><p>consideradas fruto do trabalho de um artista itinérante recente.</p><p>Nesta época, diversas peças de arte “portátil” — isto é, ossos e</p><p>chifres gravados e esculpidos — haviam sido descobertas. A</p><p>arte pré-histórica portanto havia sido reconhecida como real.</p><p>Mas pintura alguma havia sido aceita como antiga.</p><p>Ironicamente, um pouco antes de as imagens</p><p>de Altamira</p><p>serem descobertas, Leopold Chiron, um mestre-escola,</p><p>descobrira gravações nas paredes da caverna de Chabot, no</p><p>sudoeste da França. Entretanto, as gravações eram difíceis de</p><p>ser decifradas. Os pré-historiadores relutavam em aceitá-las</p><p>como indício da arte mural do Paleolítico Superior. Como o</p><p>arqueólogo britânico Paul Bahn observou: “Enquanto as</p><p>pinturas de Chabot eram muito modestas para causar impacto,</p><p>as de Altamira eram demasiado esplêndidas para ser</p><p>verdadeiras.”</p><p>Em 1888, quando De Sautola morreu, Altamira era ainda posta</p><p>de lado como uma tentativa cristalina de fraude. A aceitação</p><p>final de Altamira como genuinamente pré-histórica foi conse-</p><p>guida pela acumulação constante, embora de menor impacto,</p><p>de descobertas similares — principalmente na França. Da</p><p>maior importância entre estas descobertas foi a da caverna de</p><p>La Mouthe, na região da Dordonha. Escavações que</p><p>começaram em 1895 e continuaram pela virada do século</p><p>revelaram uma arte mural, tais como um bisão gravado e</p><p>diversas imagens pintadas. Depósitos da era paleolítica</p><p>superior cobriam algumas destas imagens, provando sua</p><p>antigüidade. Mais ainda, o primeiro exemplo de uma lâmpada</p><p>paleolítica, esculpida em arenito, que permitia que os artistas</p><p>das cavernas pudessem trabalhar, foi descoberta nesta</p><p>caverna. A opinião profissional começou a mudar e muito em</p><p>breve a pintura do Paleolítico Superior foi aceita como uma</p><p>realidade. 0 marco mais famoso desta aceitação foi um</p><p>trabalho de Émile Carthaüac, um adversário de destaque da</p><p>autenticidade das pinturas, intitulado “Mea Culpa d'un</p><p>Sceptique” publicado em 1902. “Nós não temos mais qualquer</p><p>motivo para duvidar de Altamira”, escreveu ele. Embora o</p><p>trabalho de Carthailac tenha se tornado um exemplo clássico</p><p>de um cientista que admite o seu erro, seu tom é bastante</p><p>rancoroso, e ele defende o seu ceticismo anterior.</p><p>106106</p><p>Inicialmente, como coloca Bahn, as pinturas da Idade do Gelo</p><p>eram vistas como “simplesmente garatujas, grafites, atividade</p><p>de recreação: adornos descuidados/irracionais de caçadores</p><p>com tempo a seu dispor”. Esta interpretação, diz ele, srcina-se</p><p>da concepção de arte da França contemporânea: “A arte ainda</p><p>é vista em termos dos séculos recentes, com seus retratos,</p><p>paisagens e quadros narrativos. Ela era simplesmente 'arte' e</p><p>sua única função era agradar e decorar.” Mais ainda, alguns</p><p>pré-historiadores franceses influentes eram marcadamente</p><p>anticlericais e não lhes agradava imputar expressão religiosa</p><p>às pessoas do Paleolítico Superior. Esta interpretação inicial</p><p>pode ser vista como razoável, especialmente porque os</p><p>primeiros exemplos de arte — objetos “portáteis” — de fato</p><p>pareciam simples. Com a descoberta posterior da arte nas</p><p>paredes, porém, esta visão mudou. Pelos números relativos de</p><p>animais pintados nos tetos e nas paredes, as pinturas não</p><p>refletiam a vida real; e havia também figuras enigmáticas,</p><p>sinais geométricos sem interpretação óbvia.</p><p>John Halverson, da Universidade da Califórnia, em Santa Cruz,</p><p>propôs recentemente que os pré-historiadores retornassem à</p><p>interpretação do tipo “arte pelo amor à arte”. Não deveríamos</p><p>esperar que a consciência humana emergisse completamente</p><p>amadurecida no decorrer de nossa evolução, raciocina ele, de</p><p>modo que os primeiros exemplos de arte na pré-história têm</p><p>tendência a ser simples porque as mentes das pessoas eram</p><p>do ponto de vista cognitivo simples. As pinturas de Altamira</p><p>realmente parecem simples: representações de cavalos, bisões</p><p>e outros animais aparecem isoladamente ou algumas vezes em</p><p>grupos, mas apenas raramente num contexto que se</p><p>assemelhe a um cenário natural. As imagens são precisas mas</p><p>destituídas de contexto. Isto, diz Halverson, indica que os</p><p>artistas da Idade do Gelo estavam simplesmente pintando ou</p><p>gravando fragmentos de seu meio ambiente, com ausência</p><p>total de qualquer significado mitológico.</p><p>Acho que este argumento não convence. Uns poucos exem-</p><p>plos das imagens da Idade do Gelo são suficientes para indicar</p><p>que há mais nesta arte do que as primeiras elucubrações</p><p>hesitantes da mente humana moderna. Por exemplo, em uma</p><p>das outras cavernas de propriedade do conde Bégouën, a</p><p>caverna de Trois Frères, encontramos uma imagem de uma</p><p>quimera humano/animal conhecida como O Feiticeiro. A</p><p>criatura está ereta apoiada sobre suas patas traseiras, sua face</p><p>voltada para quem a contempla. Exibindo um par de chifres</p><p>enorme, ela parece ser constituída de partes corporais</p><p>pertencentes-a muitos animais diferentes, inclu-</p><p>107107</p><p>sive humanos. Isto não é uma simples imagem, “sem mediação</p><p>de cognição refletiva”, como Halverson teria nos feito crer. E</p><p>também não o é a primeira criatura do Salão dos Touros em</p><p>Lascaux. Conhecida como O Unicórnio, a criatura pode</p><p>representar um humano disfarçado de animal ou pode ser uma</p><p>quimera. Muitos destes desenhos são suficientes para</p><p>convencer-nos de que estamos vendo imagens bastante</p><p>mediadas pela cognição refletiva.</p><p>Entretanto, o mais significativo de tudo é que as imagens são</p><p>mais complexas do que sugerem as afirmações de Halverson.</p><p>Como já indiquei, as pinturas e gravações não são cenas</p><p>naturalistas do mundo da Idade do Gelo. Não há nada que se</p><p>assemelhe a uma pintura paisagística verdadeira. E, a julgar</p><p>pelos restos de animais encontrados nos lugares habitados por</p><p>estas pessoas, as imagens não são também um simples</p><p>reflexo da alimentação diária. Os pintores do Paleolítico</p><p>Superior tinham cavalos e bisões em suas mentes, mas renas</p><p>e ptármigas em seus estômagos. O fato de que alguns animais</p><p>são bem mais proeminentes como imagens nas pinturas das</p><p>cavernas do que eram na paisagem natural é certamente</p><p>significativo: eles parecem ter tido uma importância especial</p><p>para as pessoas do Paleolítico que os pintaram.</p><p>A primeira hipótese importante para explicar por que as</p><p>pessoas do Paleolítico Superior pintaram estas imagens</p><p>mencionava a magia relacionada com a caça. Na virada do</p><p>século, os antropólogos estavam tomando conhecimento de</p><p>que as pinturas dos absrcines australianos eram parte de</p><p>rituais mágicos e totêmicos destinados a melhorar os</p><p>resultados de uma caçada a ser realizada. Em 1903, o</p><p>historiador de religiões Salomon Reinach argumentou que o</p><p>mesmo poderia ser verdade para a arte do Paleolítico Superior:</p><p>em ambas as sociedades, a pintura representava muito mais</p><p>umas poucas espécies em relação ao meio ambiente natural.</p><p>Os povos do Paleolítico Superior podem ter feito pinturas para</p><p>assegurar o aumento dos animais totêmicos e de presas,</p><p>exatamente como se sabia que os australianos faziam.</p><p>Henry Breuil gostou das idéias de Reinach e as desenvolveu e</p><p>promoveu vigorosamente durante a sua longa carreira. Por</p><p>quase sessenta anos, ele registrou, mapeou, copiou e contou</p><p>imagens nas cavernas por toda a Europa. Ele também</p><p>desenvolveu uma cronologia para a evolução da arte durante o</p><p>Paleolítico Superior. No decorrer deste tempo, Breuil continuou</p><p>a interpretar a arte como magia relacionada com a caça, como</p><p>o fez a maior parte do establishment arqueológico.</p><p>108108</p><p>Um problema óbvio com a hipótese que relacionava a caça</p><p>com a magia era que muitas vezes as imagens representadas,</p><p>como já observado, não refletiam a dieta dos pintores do</p><p>Paleolítico Superior. O antropólogo francês Claude Lévi-</p><p>Strauss uma vez comentou que, na arte do povo San do</p><p>Kalahari e dos absrcines australianos, certos animais eram</p><p>representados mais freqüentemente não porque eram “bons</p><p>para comer”, mas sim porque eram bons “para se pensar”.</p><p>Quando Breuil morreu em 1961, era época do aparecimento de</p><p>uma perspectiva nova, que veio com André Leroi-Gourhan, que</p><p>se tomaria tão proeminente na pré-história francesa quanto</p><p>Breuil tinha sido.</p><p>Leroi-Gourhan procurava uma estrutura na arte, buscando</p><p>sentido em padrões de muitas imagens, não em imagens</p><p>individuais como Breuil havia feito. Ele realizou longos</p><p>levantamentos das cavernas pintadas e percebeu padrões</p><p>repetidos, com certos</p><p>animais “ocupando” certas partes das</p><p>cavernas. O cervo, por exemplo, muitas vezes aparecia nos</p><p>caminhos de entrada mas eram incomuns nas câmaras</p><p>principais. O cavalo, o bisão e o boi eram as criaturas</p><p>predominantes nas câmaras principais. Os carnívoros apare-</p><p>ciam na maioria das vezes bem no fundo do sistema de</p><p>cavernas. Mais ainda, alguns animais representavam a</p><p>masculinidade, outros a feminilidade, disse ele. A imagem do</p><p>cavalo representava a masculinidade, e a do bisão a</p><p>feminilidade; o cervo macho e o cabrito montes também</p><p>representavam a masculinidade; o mamute e o boi, a</p><p>feminilidade. Para Leroi-Gourhan, a ordem nas pinturas refletia</p><p>uma ordem na sociedade do Paleolítico Superior: a saber, a</p><p>divisão entre masculinidade e feminilidade. Uma outra</p><p>arqueóloga francesa, Annette Laming-Emperaire, desenvolveu</p><p>um conceito similar de dualidade masculino/feminino.</p><p>Entretanto, os dois estudiosos muitas vezes divergiram sobre</p><p>quais imagens representavam a masculinidade e quais</p><p>representavam a feminilidade. A diferença de opinião contribuiu</p><p>para a derrocada final do esquema,</p><p>A noção de que as próprias cavernas poderiam impor uma</p><p>estrutura à expressão artística foi recentemente revivida, mas</p><p>de modo incomum. Os arqueólogos franceses Iégor Reznikoff e</p><p>Michel Dauvois realizaram levantamentos detalhados de três</p><p>cavernas decoradas na região Ariège no sudoeste da França.</p><p>De modo não convencional, eles não estavam procurando</p><p>artefatos de pedra, objetos gravados ou novas pinturas. Eles</p><p>estavam cantando. Mais especificamente, moviam-se</p><p>lentamente através das cavernas, parando seguidamente para</p><p>testar a ressonância de cada seção. Utilizando-se de notas</p><p>musicais que variavam de três oita-</p><p>109109</p><p>vas, eles levantaram um mapa de ressonância de cada caverna</p><p>e descobriram que aquelas áreas com maior ressonância eram</p><p>também as mais prováveis de abrigar uma pintura ou gravação.</p><p>Em seu relatório, que publicaram no fim de 1988, Reznikoff e</p><p>Dauvois comentaram sobre o impacto atordoante dentro das</p><p>cavernas da ressonância, uma experiência que certamente</p><p>teria sido realçada sob a luz bruxuleante das lâmpadas simples</p><p>da Idade do Gelo.</p><p>Exige pouca imaginação visualizar os povos do Paleolítico</p><p>Superior entoando encantamentos em frente às pinturas das</p><p>cavernas. A natureza incomum das imagens e o fato de elas</p><p>muitas vezes encontrarem-se nas partes mais inacessíveis das</p><p>cavernas sugerem um ritual. Hoje, quando se fica parado em</p><p>frente a uma criação da Idade do Gelo, como fiz com o bisão</p><p>de Le Tue d'Audoubert, vozes antigas abrem caminho à força</p><p>em nossa mente, com um acompanhamento, talvez, de</p><p>tambores, flautas e apitos. A descoberta de Reznikoff e</p><p>Dauvois é tão fascinante que, como o arqueólogo da</p><p>Universidade de Cambridge Chris Scarre comentou na época,</p><p>atrai “uma nova atenção para a importância provável da música</p><p>e do canto nos rituais de nossos antigos ancestrais”.</p><p>Quando Leroi-Gourhan morreu em 1986, os pré-historiadores</p><p>estavam novamente prontos para uma reavaliação importante</p><p>de suas interpretações, exatamente como havia acontecido</p><p>quando Breuil morreu. Hoje em dia, os pesquisadores estão</p><p>preparados para considerar uma variedade de explicações,</p><p>mas em todos os casos o contexto cultural é enfatizado e há</p><p>uma maior percepção do perigo de se impor idéias srcinárias</p><p>de uma sociedade moderna à sociedade do Paleolítico</p><p>Superior.</p><p>Quase certamente, pelo menos alguns dos elementos da arte</p><p>da Idade do Gelo relacionavam-se com o modo pelo qual os</p><p>povos do Paleolítico Superior organizavam suas idéias sobre o</p><p>seu mundo — uma expressão de seu cosmos espiritual.</p><p>Voltaremos a este assunto um pouco mais tarde. Mas pode ter</p><p>havido aspectos mais práticos no modo pelo qual eles</p><p>organizavam seu mundo social e econômico. Margaret Conkey,</p><p>antropóloga da Universidade da Califórnia, em Berkeley,</p><p>sugeriu, por exemplo, que Altamira pode ter sido no outono um</p><p>lugar de reunião para as muitas centenas de povos da região.</p><p>O cervo vermelho e o lapa deveriam ser abundantes então. E</p><p>isto daria uma ampla justificação econômica para tal</p><p>congregação de bandos. Mas, como aprendemos com os</p><p>caçadores-coletores modernos, tais congregações, qualquer</p><p>que seja a razão econômica ostensiva, servem mais para</p><p>estabelecer alianças políticas e sociais do que para os</p><p>assuntos mundanos.</p><p>110110</p><p>O antropólogo britânico Robert Laden acredita que pode</p><p>perceber alguma coisa da estrutura de tais alianças nos sítios</p><p>arqueológicos em que se encontram as cavernas no norte da</p><p>Espanha. Os sítios principais, tais como Altamira, são muitas</p><p>vezes cercados por sítios menores dentro de um raio de</p><p>aproximadamente 16 quilômetros, como se eles fossem centros</p><p>de uma aliança política ou social. Os 32 quilômetros de</p><p>diâmetro desta esfera podem representar a distância otimizada</p><p>para a qual tais alianças podiam ser prontamente mantidas.</p><p>Nenhum padrão deste tipo foi discernido ainda entre os sítios</p><p>arqueológicos em que se encontram as cavernas da França.</p><p>Talvez o arranjo do bisão e de outras imagens de animais pin-</p><p>tadas no teto da caverna de Altamira representem de algum</p><p>modo o centro desta esfera de influência. A estrutura principal</p><p>dos tetos pintados consiste de quase duas dúzias de imagens</p><p>policrômicas de bisões, dispostas principalmente em torno da</p><p>periferia. Estas imagens, sugere Margaret Conkey, podem</p><p>representar grupos diferentes que se reuniam neste sítio. De</p><p>modo significativo, a gama de objetos gravados que os</p><p>arqueólogos encontraram em Altamira parece ser uma amostra</p><p>das muitas formas decorativas locais. Por todo o norte da</p><p>Espanha nesta época, os povos decoravam os objetos</p><p>utilitários com vários desenhos, inclusive asnas, estruturas em</p><p>forma de lúnulas, curvas similares que se encaixam uma dentro</p><p>da outra, e assim por diante. Cerca de 15 destes desenhos</p><p>foram identificados, cada um dos quais tende a ser geografica-</p><p>mente restrito, sugerindo estilos locais ou identidade de</p><p>bandos. Em Altamira, muitos destes estilos locais são</p><p>encontrados juntos, daí o argumento de que Altamira poderia</p><p>ser um sítio de reunião de alguma importância política e social.</p><p>Até agora, este tipo de indício ainda não foi descoberto em</p><p>Lascaux. Entretanto, é razoável pensar sobre este sítio como</p><p>de importância considerável para os povos dentro de uma</p><p>grande área, em vez de um produto local de pintores</p><p>entusiásticos. Talvez Lascaux derivasse seu poder do fato de</p><p>ser lugar de um importante evento espiritual, tal como o</p><p>aparecimento de uma divindade no cosmos do Paleolítico</p><p>Superior. Tal é o caso, por exemplo, com muitas das partes do</p><p>meio ambiente do absrcine australiano, partes que de outras</p><p>maneiras são estéreis.</p><p>Já disse que as imagens da arte da Idade do Gelo são de</p><p>animais fora de seu contexto ecológico, e em proporções que</p><p>não representam sua freqüência no mundo real. Isto por si</p><p>mesmo nos diz</p><p>111111</p><p>algo da natureza enigmática da arte. Entretanto, além das ima-</p><p>gens representativas, há outras marcas que são mesmo mais</p><p>enigmáticas: uma disseminação de padrões geométricos — ou</p><p>sinais, como têm sido chamados. Estes incluem pontos,</p><p>grades, asnas, curvas, ziguezagues, curvas similares que se</p><p>encaixam uma dentro da outra e retângulos, e estão entre os</p><p>elementos mais intrigantes da arte do Paleolítico Superior. Em</p><p>sua maior parte, tiveram uma explicação como componentes</p><p>de qualquer hipótese que prevalecesse, na hipótese da magia</p><p>associada à caça por exemplo, ou na hipótese da dicotomia</p><p>masculino/feminino. David Lewis-Williams apresentou</p><p>recentemente uma interpretação nova e interessante: elas são</p><p>sinais reveladores de uma arte relacionada com o xamanismo,</p><p>diz ele — imagens de uma mente em estado de alucinação.</p><p>Lewis-Williams estudou a arte do povo San do sul da África</p><p>durante quatro décadas. Muito de sua arte data talvez de 10 mil</p><p>anos atrás, mas um pouco dela foi criada dentro de uma</p><p>memória histórica recente. Gradualmente, ele percebeu que as</p><p>imagens</p><p>entre os seus</p><p>praticantes. Estas algumas vezes srcinam-se de dados</p><p>insuficientes, na forma de fósseis e artefatos de pedra, e</p><p>algumas vezes das inadequações dos métodos de interpre-</p><p>tação. Portanto, há muitas questões importantes sobre a</p><p>história humana para as quais não há respostas definitivas, tais</p><p>como: qual a forma precisa da árvore da família humana?</p><p>Quando a linguagem falada sofisticada começou a evoluir? O</p><p>que provocou o aumento dramático no tamanho do cérebro na</p><p>pré-história humana? Nos capítulos seguintes, indicarei onde, e</p><p>por que, as diferenças de opinião existem, e algumas vezes</p><p>esboçarei minhas próprias preferências.</p><p>Tive a boa sorte de colaborar com muitos colegas excelentes</p><p>por mais de duas décadas de trabalho antropológico, pelo que</p><p>sou grato. A dois deles — Kamoya Kimeu e Alan Walker —</p><p>gostaria de agradecer de modo especial. Minha esposa,</p><p>Meave, tem sido uma colega e amiga das mais extraordinárias,</p><p>particularmente nas épocas mais difíceis.</p><p>1515</p><p>1 - Os primeiros humanos</p><p>Os antropólogos há muito têm se mostrado fascinados com as</p><p>qualidades especiais do Homo sapiens, tais como a linguagem,</p><p>as altas habilidades tecnológicas e a capacidade de fazer</p><p>julgamentos éticos. Mas uma das mudanças mais significativas</p><p>dos anos recentes tem sido o reconhecimento de que, a</p><p>despeito destas qualidades, nossa ligação com os macacos</p><p>africanos é realmente muito íntima. Como esta importante</p><p>mudança intelectual surgiu? Neste capítulo discutirei como as</p><p>idéias de Charles Darwin a respeito da natureza especial das</p><p>espécies humanas primordiais influenciaram os antropólogos</p><p>por mais de um século — e como novas pesquisas revelaram</p><p>nossa intimidade evolutiva com os macacos africanos e exigem</p><p>nossa aceitação de uma visão muito diferente do nosso lugar</p><p>na natureza.</p><p>Em 1859, no seu livro A srcem das espécies * Darwin cuida-</p><p>dosamente evitou extrapolar as implicações da evolução para</p><p>os humanos. Uma frase cautelosa foi adicionada nas edições</p><p>posteriores: “A srcem do homem e sua história serão</p><p>esclarecidas.” Em um livro subseqüente, A descendência do</p><p>homem, publicado em 1871, Darwin detalhou o conteúdo desta</p><p>frase curta. Voltando-se para um assunto que ainda era muito</p><p>delicado, ele efetivamente erigiu dois pilares na estrutura</p><p>teórica da antropologia, O primeiro tem a ver com o lugar onde</p><p>os humanos primeiramente evoluíram (inicialmente poucos lhe</p><p>deram crédito, mas ele estava certo), e o segundo diz respeito</p><p>à maneira ou forma dessa evolução. A versão de Darwin da</p><p>maneira pela qual a nossa evolução aconteceu dominou a</p><p>ciência da antropologia até poucos anos atrás, e revelou-se</p><p>errada</p><p>O berço da humanidade, disse Darwin, é a África. Seu racio-</p><p>cínio era simples:</p><p>Em cada grande região do mundo, os mamíferos vivos estão</p><p>intimamente relacionados com as espécies que evoluíram</p><p>1616</p><p>desta mesma região. Portanto, é provável que a África tenha</p><p>sido habitada anteriormente por macacos extintos</p><p>intimamente relacionados com o gorila e o chimpanzé: e</p><p>*</p><p>Publicado no Brasil em co-edição pela Editora Universidade de Brasília e Editora</p><p>Melhoramentos. (N. do T.)</p><p>como estas duas espécies são agora as que se relacionam</p><p>mais de perto com o homem, de algum modo é mais provável</p><p>que nossos progenitores primordiais tivessem vivido no</p><p>continente africano do que em outro lugar.</p><p>Devemos lembrar que, quando Darwin escreveu estas pa-</p><p>lavras, nenhum fóssil humano primordial tinha sido encontrado</p><p>em qualquer lugar; sua conclusão era inteiramente baseada em</p><p>teorias. Na época de Darwin, os únicos fósseis humanos</p><p>conhecidos eram do homem de Neanderthal, na Europa, e</p><p>estes representam um estágio relativamente tardio da evolução</p><p>humana</p><p>Os antropólogos não gostaram nada da sugestão de Darwin,</p><p>porque a África tropical era olhada com desdém colonialista: o</p><p>Continente Negro não era visto como um lugar apropriado para</p><p>a srcem de uma criatura tão nobre como o Homo sapiens.</p><p>Quando mais fósseis humanos começaram a ser descobertos</p><p>na Europa e na Ásia na virada do século, mais zombarias</p><p>foram lançadas sobre a idéia de uma srcem africana, Esta</p><p>atitude prevaleceu por décadas. Em 1931, quando meu pai</p><p>disse aos seus mentores na Universidade de Cambridge que</p><p>planejava procurar as srcens humanas no leste da África,</p><p>recebeu uma pressão enorme para em vez disto concentrar</p><p>sua atenção sobre a Ásia. A convicção de Louis Leakey era</p><p>parcialmente baseada no argumento de Darwin e parcialmente,</p><p>sem dúvida alguma, no fato de que ele havia nascido e sido</p><p>criado no Quênia. Ele ignorou o conselho dos estudiosos de</p><p>Cambridge e conseguiu estabelecer a África Oriental como</p><p>uma região vital na história da nossa evolução primordial. A</p><p>veemência do sentimento anti-África dos antropólogos parece</p><p>agora estranha para nós, dado o vasto número de fósseis</p><p>humanos primordiais que tem sido recuperado neste continente</p><p>nos anos recentes. O episódio é também um lembrete de que</p><p>os cientistas são muitas vezes levados tanto pela emoção</p><p>quanto pela razão.</p><p>A segunda grande conclusão de Darwin em A descendência do</p><p>homem foi que as importantes características que distinguem</p><p>os humanos — bipedismo, tecnologia e cérebro grande —</p><p>evoluíram em conjunto. Darwin escreveu:</p><p>Se é uma vantagem para o homem ter suas mãos e braços</p><p>livres e ficar firmemente ereto sobre seus pés, (...) então não</p><p>vejo razão por que não teria sido mais vantajoso para os</p><p>progenitores do homem terem se tornado mais e mais eretos</p><p>ou</p><p>1717</p><p>bipédes. As mãos e os braços não poderiam ter se tornado</p><p>suficientemente perfeitos para manufaturar armas, ou atirar</p><p>pedras e lanças com pontaria precisa, enquanto fossem ha-</p><p>bitualmente utilizados para suportar o peso total do corpo...</p><p>ou enquanto fossem especialmente adaptados para subir nas</p><p>árvores.</p><p>Aqui, Darwin estava argumentando que a evolução de nosso</p><p>modo fora do comum de locomoção era diretamente ligado à</p><p>manufatura de armas de pedra. Ele foi mais longe e relacionou</p><p>estas transformações evolutivas com a srcem dos dentes</p><p>caninos nos humanos, que eram insolitamente pequenos se</p><p>comparados com os caninos pontiagudos dos macacos. “Os</p><p>ancestrais primevos do homem eram (...) provavelmente</p><p>providos de grandes dentes caninos”, escreveu ele em vi</p><p>descendência do homem; “mas, à medida que gradualmente</p><p>adquiriram o hábito de usar pedras, bastões ou outras armas</p><p>para combater seus inimigos ou rivais, eles poderiam utilizar</p><p>suas mandíbulas e dentes cada vez menos. Neste caso, as</p><p>mandíbulas, junto com os dentes, tomar-se-iam reduzidas em</p><p>tamanho.</p><p>Estas criaturas bipédes que manejavam armas desenvolveram</p><p>uma interação social mais intensa, que exigia mais intelecto,</p><p>argumentou Darwin. E quanto mais inteligentes nossos</p><p>ancestrais se tornavam, maior era a sua sofisticação</p><p>tecnológica e social, o que por sua vez exigia um intelecto</p><p>ainda maior. E assim por diante, à medida que a evolução de</p><p>cada aspecto realimentava-se dos outros. Esta hipótese de</p><p>evolução correlacionada era um cenário muito claro para as</p><p>srcens humanas, e tornou-se fundamental para o</p><p>desenvolvimento da ciência da antropologia.</p><p>De acordo com este cenário, a espécie humana era mais do</p><p>que simplesmente um macaco bípede; ela já possuía algumas</p><p>características que valorizamos no Homo sapiens. A imagem</p><p>era tão poderosa e plausível que os antropólogos foram</p><p>capazes de tecer hipóteses persuasivas em torno dela por</p><p>muito tempo. Mas o cenário projetou-se para além da ciência:</p><p>se a diferenciação evolutiva dos humanos em relação aos</p><p>macacos foi ao mesmo tempo abrupta e antiga, uma distância</p><p>considerável foi posta entre nós e o restante da natureza. Para</p><p>aqueles que têm a convicção de que o Homo sapiens é um tipo</p><p>fundamentalmente diferente de criatura, este ponto de vista</p><p>oferece consolo.</p><p>Esta convicção era muito comum entre os cientistas do tempo</p><p>de Darwin, e deste século também. Por exemplo, o naturalista</p><p>inglês do século XIX Alfred Russel Wallace — que também</p><p>inven-</p><p>da arte San não eram representações simplórias da</p><p>vida do povo San, como os antropólogos ocidentais tinham</p><p>assumido por um longo tempo. Ao contrário, elas eram o</p><p>produto de xamãs em estado de transe: as imagens eram uma</p><p>conexão com o espírito de um mundo xamanístico e eram</p><p>representações do que o xamã via durante sua alucinação. Em</p><p>determinado ponto de seus estudos, Lewis-Williams e seu</p><p>colega Thomas Dowson entrevistaram uma velha mulher que</p><p>vivia no distrito de Tsolo em Transkei. Filha de um xamã, ela</p><p>descreveu alguns dos agora desaparecidos rituais</p><p>xamanísticos.</p><p>Os xamãs podiam induzir a si próprios o transe por meio de</p><p>várias técnicas, inclusive drogas e hiperventilação, disse ela.</p><p>Não importa o modo pelo qual era atingido, o estado de transe</p><p>era quase sempre acompanhado de canções rítmicas, danças</p><p>e bater de palmas de grupos de mulheres. À medida que o</p><p>transe tornava-se mais profundo, os xamãs começavam a</p><p>tremer, com seus braços e corpos vibrando vigorosamente.</p><p>Durante sua visita ao mundo dos espíritos, o xamã muitas</p><p>vezes “morre”, curvando-se como se sentisse dores. O eland é</p><p>uma força poderosa na mitologia San, e o xamã pode utilizar o</p><p>sangue de cortes no pescoço e na garganta do animal para</p><p>infundir potência em alguém, esfregando-o nos cortes no</p><p>pescoço e na garganta da pessoa. Posteriormente, o xamã</p><p>muitas vezes vale-se de um pouco do mesmo sangue enquan-</p><p>to pinta um registro de seu contato alucinatório com o mundo</p><p>dos</p><p>112112</p><p>espíritos. As imagens têm poder por si mesmas, derivado do</p><p>contexto nas quais foram pintadas, e a velha mulher contou</p><p>para Lewis-Williams que um pouco deste poder poderia ser</p><p>adquirido colocando-se as mãos sobre elas.</p><p>O eland é o animal representado com mais freqüência nas</p><p>pinturas San, e seu poder vem de muitas formas. Lewis-</p><p>Williams perguntou-se se o cavalo e o bisão eram fontes</p><p>similares de poder para os povos do Paleolítico Superior —</p><p>imagens que eram invocadas e tocadas quando se necessitava</p><p>de energia espiritual. Como maneira de abordar esta questão,</p><p>ele precisava de indícios de que também a arte do Paleolítico</p><p>Superior era xamanística. Uma pista que foi fornecida pelos</p><p>sinais geométricos.</p><p>De acordo com a literatura psicológica que Lewis-Williams</p><p>pesquisou, há três estágios de alucinação, cada um mais</p><p>profundo e complexo. No primeiro estágio, o indivíduo vê</p><p>formas geométricas tais como grades, ziguezagues, pontos,</p><p>espirais e curvas. Estas imagens, seis formas ao todo, são</p><p>brilhantes, incandescentes e inconstantes — e poderosas. Elas</p><p>são chamadas imagens entópticas (“dentro da visão”), pois são</p><p>produzidas pela arquitetura neural básica do cérebro. “Porque</p><p>elas derivam do sistema nervoso humano, todas as pessoas</p><p>que entram em certos estados alterados da consciência, não</p><p>importa quais suas srcens culturais, podem vir a percebê-las”,</p><p>observou Lewis-Williams em um artigo de 1986 publicado na</p><p>revista Current Anthropology . No segundo estágio do transe, as</p><p>pessoas começam a ver estas imagens como objetos reais.</p><p>Curvas podem ser interpretadas como colinas em uma</p><p>paisagem, asnas como armas, e assim por diante. A natureza</p><p>do que a pessoa vê depende da experiência cultural individual</p><p>e de suas preocupações. Os xamãs do povo San</p><p>freqüentemente manipulam conjuntos de curvas</p><p>transformando-os em colmeias, já que as abelhas são um</p><p>símbolo do poder sobrenatural que estas pessoas controlam</p><p>quando entram em transe.</p><p>A passagem do segundo para o terceiro estágio de alucinação</p><p>é muitas vezes acompanhada da sensação de atravessar um</p><p>vórtice ou um túnel rotatório, imagens completas — algumas</p><p>banais, outras extraordinárias — podem ser vistas. Um tipo</p><p>importante de imagem neste estágio é a quimera humano-</p><p>animal, ou teriântropos, como são chamadas (ver figura 6.1).</p><p>Estas criaturas são comuns na arte xamanística do povo San.</p><p>Elas também são uma componente intrigante da arte do</p><p>Paleolítico Superior.</p><p>As imagens entópticas das alucinações do primeiro estágio</p><p>estão presentes na arte San, o que pode ser considerado um</p><p>indí-</p><p>113113</p><p>cio objetivo de que esta arte é xamanística. E estas mesmas</p><p>imagens são vistas na arte do Paleolítico Superior, algumas</p><p>vezes sobrepostas a imagens de animais, algumas vezes de</p><p>forma isolada Em combinação com a presença de teriântropos</p><p>enigmáticos, elas constituem um forte indício de que pelo</p><p>menos algo da arte do Paleolítico Superior é deveras</p><p>xamanístico. Estes teriântropos foram uma vez descartados</p><p>como produto de “uma mentalidade primitiva [que] falhou em</p><p>estabelecer fronteiras definitivas entre humanos e animais”,</p><p>como John Halverson coloca. Se, em vez disto, elas são</p><p>imagens percebidas em um transe, elas eram tão reais para o</p><p>pintor do Paleolítico Superior como os cavalos e os bisões.</p><p>Quando pensamos na arte, temos a tendência a pensar em</p><p>uma pintura sendo feita sobre uma superfície, seja ela uma tela</p><p>ou</p><p>114114</p><p>uma parede. A arte xamanística não é assim. Os xamãs muitas</p><p>vezes percebem suas alucinações surgindo de superfícies</p><p>rochosas: “Eles vêm as imagens como tendo sido colocadas ali</p><p>pelos espíritos, e, ao pintá-las, os xamãs dizem que eles</p><p>simplesmente estão tocando e marcando o que já existe”,</p><p>explica Lewis-Williams. “As primeiras representações não eram</p><p>portanto imagens representativas do modo como eu e você</p><p>pensamos sobre elas, mas sim imagens mentais fixas de outro</p><p>mundo.” A superfície rochosa em si mesma, observa ele, é uma</p><p>interface entre o mundo real e o espiritual — uma passagem</p><p>entre os dois. É mais do que um meio para as imagens; é uma</p><p>parte essencial destas e do ritual que as acompanhava. A</p><p>hipótese de Lewis-Williams atraiu uma grande dose de atenção</p><p>e, inevitavelmente, algum ceticismo. Seu valor está em permitir</p><p>que vejamos a arte com olhos diferentes. A arte xamanística é</p><p>tão diferente da arte ocidental em sua motivação e execução</p><p>que por meio dela podemos olhar a arte do Paleolítico Superior</p><p>de novas maneiras.</p><p>O arqueólogo francês Michel Lorblanchet está também nos</p><p>fazendo olhar para a arte do Paleolítico Superior de novas</p><p>maneiras. Há vários anos ele vem realizando arqueologia</p><p>experimental, fazendo réplicas das imagens das cavernas em</p><p>uma tentativa de obter uma percepção das tarefas e</p><p>experiência dos artistas da Idade do Gelo. Seu projeto mais</p><p>ambicioso foi recriar os cavalos de Pêche Merle, uma caverna</p><p>da região Lot, na França. Os dois cavalos olham para direções</p><p>opostas, com as ancas ligeiramente sobrepostas, e têm mais</p><p>ou menos 1,2 metro de altura. Eles têm manchas pretas e</p><p>vermelhas e reproduções de mãos por meio de um estêncil ao</p><p>seu redor. Em razão de a superfície da rocha sobre a qual as</p><p>imagens foram pintadas ser áspera, os artistas aparentemente</p><p>fizeram a tinta passar por um tubo em vez de utilizar um pincel.</p><p>Lorblanchet descobriu uma superfície rochosa similar em uma</p><p>caverna próxima e resolveu pintar os cavalos novamente,</p><p>usando a técnica do tubo. “Gastei sete horas por dia durante</p><p>uma semana, puff...puff...puff, contou ele para um redator da</p><p>revista Discover . “Foi cansativo, particularmente porque havia</p><p>monóxido de carbono na caverna. Mas você sente algo</p><p>especial pintando desse jeito. Você sente como se estivesse</p><p>soprando a imagem sobre a rocha — projetando seu espírito</p><p>das partes mais profundas de seu corpo sobre a superfície da</p><p>rocha.” Isto não parece uma abordagem muito científica, mas</p><p>talvez um objetivo intelectual tão esquivo exija métodos</p><p>heterodoxos. No passado, Lorblan-</p><p>115115</p><p>chet mostrou ser inovador em aventuras na feitura de réplicas.</p><p>Esta certamente merece também consideração. Se as pinturas</p><p>da Idade do Gelo eram partes da mitologia do Paleolítico</p><p>Superior, então os pintores realmente colocaram seu espírito</p><p>sobre a parede, não importa qual o método que eles utilizaram</p><p>para aplicar a tinta.</p><p>Poderemos nunca saber o que tinham em mente os escultores</p><p>de Tue d'Audoubert quando fizeram o bisão, nem os pintores</p><p>de Lascaux quando pintaram o unicórnio,</p><p>ou qualquer dos artis-</p><p>tas da Idade do Gelo no que fizeram. Mas podemos ter certeza</p><p>de que o que fizeram era importante em um sentido muito</p><p>profundo para os artistas e para as pessoas das gerações</p><p>posteriores que viram as imagens. A linguagem da arte é</p><p>poderosa para as pessoas que a compreendem, e intrigante</p><p>para quem não a comprende. O que sabemos é que aqui</p><p>estava a mente moderna em funcionamento, gerando</p><p>simbolismos e abstrações de um modo que somente o Homo</p><p>sapiens é capaz de fazê-lo. Embora não possamos ter certeza</p><p>sobre o processo pelo qual os seres humanos evoluíram, com</p><p>certeza sabemos que ele envolveu a emergência do tipo de</p><p>mundo mental que experimentamos hoje.</p><p>116116</p><p>7 - A arte da linguagem</p><p>Não há dúvida de que a evolução da linguagem falada como a</p><p>conhecemos foi um ponto de definição na pré-história humana.</p><p>Foi talvez o momento de definição. Equipados com uma lingua-</p><p>gem, os humanos foram capazes de criar novos tipos de</p><p>mundo na natureza: o mundo da consciência introspectiva e o</p><p>mundo que construímos e dividimos com os outros, o qual</p><p>chamamos “cultura”. A linguagem tornou-se nosso meio e a</p><p>cultura nosso nicho. Em seu livro publicado em 1990 Language</p><p>and Species, o lingüista da Universidade do Havaí Derrick</p><p>Bickerton exprime isto de modo convincente: “Somente a</p><p>linguagem poderia ter rompido os grilhões da experiência</p><p>imediata a que toda criatura está presa, libertando-nos para as</p><p>liberdades infinitas do espaço e do tempo.”</p><p>Os antropólogos podem ter certeza somente sobre dois pontos</p><p>que se relacionam com a linguagem, um direto, o outro indireto.</p><p>Primeiro, a linguagem falada diferencia nitidamente o Homo</p><p>sapiens de todas as outras criaturas. Nenhuma exceto o</p><p>homem tem uma linguagem falada complexa, um meio de</p><p>comunicação e um meio de reflexão introspectiva. Segundo, o</p><p>cérebro do Homo sapiens tem três vezes o tamanho do cérebro</p><p>de nossos parentes evolutivos mais próximos, os grandes</p><p>macacos africanos. Há certamente uma relação entre estas</p><p>duas observações, mas sua natureza é ferozmente debatida</p><p>Ironicamente, embora os filósofos tenham refletido durante</p><p>muito tempo sobre o mundo da linguagem, a maior parte do</p><p>que é conhecido sobre esta emergiu nas três décadas</p><p>passadas. Grosseiramente falando, surgiram dois pontos de</p><p>vista que dizem respeito à fonte evolutiva da linguagem. O</p><p>primeiro a vê como uma característica singular dos humanos,</p><p>uma habilidade que surgiu como uma conseqüência colateral</p><p>do aumento do nosso cérebro. Neste caso, a linguagem teria</p><p>surgido rápida e recentemente, na medida em que um limiar</p><p>cognitivo foi ultrapassado. A segunda posição argumenta que a</p><p>linguagem falada evoluiu por meio da seleção natural atuando</p><p>sobre várias faculdades cognitivas — inclusive, mas não</p><p>limitada por ela, a comunicação — dos ances-</p><p>117117</p><p>trais inumanos. Neste assim chamado modelo de continuidade,</p><p>a linguagem evoluiu gradualmente na pré-história humana,</p><p>começando com a evolução do gênero Homo.</p><p>O lingüista do MIT Noam Chomsky tem estado associado</p><p>principalmente com o primeiro modelo, e sua influência tem</p><p>sido imensa. Para os chomskianos, que representam a maioria</p><p>dos lingüistas, há pouca utilidade em se procurar por indícios</p><p>de capacidade lingüística nos primórdios dos registros</p><p>humanos, e ainda menos em procurá-los nos nossos primos</p><p>simiescos. Em conseqüência, um antagonismo tremendo tem</p><p>sido demonstrado em relação àqueles que tentam ensinar aos</p><p>macacos alguma forma de comunicação simbólica, usualmente</p><p>por meio de um computador e lexigramas arbitrários. Um dos</p><p>temas deste livro é a separação filosófica entre aqueles que</p><p>vêem os humanos como especiais e separados do resto da</p><p>natureza e aqueles que aceitam uma ligação íntima. Em</p><p>nenhum lugar isto aparece mais apaixonadamente do que no</p><p>debate sobre a natureza e a srcem da linguagem. O vitríolo</p><p>lançado pelos lingüistas sobre aqueles que pesquisam a</p><p>linguagem nos macacos reflete indubitavelmente esta</p><p>separação.</p><p>Ao tecer comentários sobre aqueles que defendem a singu-</p><p>laridade da linguagem humana, a psicóloga da Universidade do</p><p>Texas Kathleen Gibson escreveu recentemente: “Embora</p><p>científica em seus postulados e discussão [esta perspectiva]</p><p>encaixa-se firmemente na longa tradição filosófica ocidental,</p><p>que remonta pelo menos aos autores do Gênesis e aos escritos</p><p>de Platão e Aristóteles, que sustentam que a mentalidade e o</p><p>comportamento humanos [são] qualitativamente diferentes</p><p>daqueles dos animais.” Como resultado deste raciocínio, a</p><p>literatura antropológica há muito tem sido entulhada com</p><p>comportamentos que eram considerados exclusivamente</p><p>humanos. Estes incluem a fabricação de artefatos, a habilidade</p><p>de utilizar símbolos, reconhecimento em frente a um espelho,</p><p>e, é claro, a linguagem. Desde 1960, esta parede de</p><p>exclusividade vem desmoronando de modo constante, com a</p><p>descoberta de que os macacos podem fazer e utilizar</p><p>ferramentas, usar símbolos e reconhecer-se como indivíduos</p><p>na frente de um espelho. Somente a linguagem falada</p><p>permanece intacta, de modo que os lingüistas são efetivamente</p><p>os últimos defensores da exclusividade humana. Eles parecem</p><p>levar sua tarefa a sério.</p><p>A linguagem surgiu na pré-história humana — de algum modo</p><p>e ao longo de alguma trajetória temporal — e ao fazê-lo</p><p>transformou-nos como indivíduos e como espécie. “De todas as</p><p>118118</p><p>nossas faculdades mentais, a linguagem é a que está mais</p><p>profundamente abaixo do limiar de nossa percepção, a menos</p><p>acessível à mente racionalizadora”, observou Bickerton. “Nós</p><p>mal podemos lembrar-nos de uma época em que não</p><p>dispúnhamos dela, muito menos como a adquirimos. No</p><p>momento em que pudemos enquadrar pela primeira vez um</p><p>pensamento, lá estava ela.” Como indivíduos, dependemos da</p><p>linguagem para estar no mundo e simplesmente não podemos</p><p>imaginar um mundo sem ela. Como espécie, a linguagem, por</p><p>meio da elaboração da cultura, transforma o modo pelo qual</p><p>interagimos uns com os outros. Tanto a linguagem como a</p><p>cultura nos unem e nos separam. As 5.000 línguas existentes</p><p>no mundo são produto de nossa habilidade comum, mas as</p><p>5.000 culturas que elas criam são separadas umas das outras.</p><p>Somos de tal modo produto da cultura que nos molda que</p><p>muitas vezes falhamos em reconhecê-la como um artefato de</p><p>nossa própria fabricação, até que deparamos com uma cultura</p><p>muito diferente.</p><p>A linguagem realmente cria um abismo entre o Homo sapiens e</p><p>o resto do mundo natural. A habilidade humana de gerar sons</p><p>discretos, ou fonemas, é apenas modestamente realçada</p><p>quando a comparamos com a mesma habilidade nos macacos:</p><p>nós temos cinqüenta fonemas; o macaco cerca de 12. Não</p><p>obstante, nossa utilização desses sons é virtualmente ilimitada.</p><p>Eles podem ser arranjados e rearranjados para dotar o ser</p><p>humano médio de um vocabulário de uma centena de milhar de</p><p>palavras, e estas palavras podem ser combinadas em uma</p><p>infinidade de sentenças. Como conseqüência, a capacidade de</p><p>comunicação rápida, detalhada, e a riqueza de pensamento do</p><p>Homo sapiens não têm rival no mundo da natureza</p><p>Nossa tarefa, em primeiro lugar, é explicar como a linguagem</p><p>surgiu. Do ponto de vista chomskiano, não temos necessidade</p><p>de olhar para a seleção natural como sua fonte pois ela é um</p><p>acidente da história, uma faculdade que emergiu uma vez ultra-</p><p>passado algum limiar cognitivo. Chomsky argumenta como se</p><p>segue: “Atualmente, não temos nenhuma idéia de como as leis</p><p>físicas devem ser aplicadas quando 1010 neurônios são</p><p>colocados em um objeto do tamanho de uma bola de basquete,</p><p>sob as condições especiais que surgiram durante a evolução</p><p>humana.” Assim como Steven Pinker, um lingüista do MIT,</p><p>rejeito este ponto de vista. Sucintamente, ele afirma que</p><p>Chomsky “pegou a idéia ao contrário”. Provavelmente o</p><p>cérebro aumentou de tamanho como resultado da evolução da</p><p>linguagem e não do modo oposto. Ele argu-</p><p>119119</p><p>menta que “é a fiação precisa dos microcircuitos do cérebro</p><p>que faz a linguagem acontecer,</p><p>e não o tamanho, a forma ou o</p><p>modo de empacotamento dos neurônios”. Em um livro de 1994,</p><p>The Language Instinct , Pinker reúne indícios em favor de um</p><p>fundamento genético para a linguagem falada, os quais apoiam</p><p>sua evolução por meio da seleção natural. Muito volumosos</p><p>para ser discutidos agora, os indícios são impressionantes.</p><p>A questão é: quais eram as pressões da seleção natural que</p><p>favoreceram a evolução da linguagem falada?</p><p>Presumivelmente, esta habilidade não surgiu de um momento</p><p>para o outro já plenamente desenvolvida, assim temos que nos</p><p>perguntar que vantagens uma linguagem menos desenvolvida</p><p>conferia aos nossos ancestrais. A resposta mais óbvia é que</p><p>ela oferecia um modo eficiente de comunicação. Esta</p><p>habilidade, certamente, teria sido benéfica para os nossos</p><p>ancestrais quando estes adotaram pela primeira vez a caça</p><p>rudimentar e a coleta de aumentos, que é um modo de</p><p>subsistência mais desafiador que o dos macacos. À medida</p><p>que seu modo de vida tornava-se mais complexo, a necessi-</p><p>dade de coordenação social e econômica também crescia.</p><p>Nessas circunstâncias, a comunicação efetiva tornava-se cada</p><p>vez mais valiosa. A seleção natural portanto teria reforçado</p><p>firmemente a capacidade de linguagem. Em conseqüência, o</p><p>repertório básico de sons dos símios primitivos —</p><p>presumivelmente similares às arfadas, apupos e grunhidos dos</p><p>macacos modernos — teria se expandido e sua expressão se</p><p>tornado mais estruturada. A linguagem, como a conhecemos</p><p>hoje, emergiu como um produto das exigências da caça e da</p><p>coleta. Ou pelo menos assim parece. Há outras hipóteses para</p><p>a evolução da linguagem.</p><p>À medida que o modo de vida com base na caça e na coleta</p><p>desenvolveu-se, os humanos tornaram-se tecnologicamente</p><p>mais competentes, fabricando artefatos de modo mais refinado</p><p>e de formas mais complicadas. Esta transformação evolutiva,</p><p>que começou com a primeira espécie do gênero Homo, há</p><p>mais de 2 milhões de anos, e culminou com o aparecimento</p><p>dos humanos modernos, em alguma época nos últimos 200 mil</p><p>anos, foi acompanhada por um triplicamento do tamanho do</p><p>cérebro. O cérebro aumentou de 400 centímetros cúbicos nos</p><p>australopitecíneos primordiais para uma média que hoje é de</p><p>1.350 centímetros cúbicos. Durante muito tempo os</p><p>antropólogos estabeleceram uma relação causai entre a</p><p>crescente sofisticação tecnológica e o aumento do tamanho do</p><p>cérebro: este último implicava o primeiro. Isto, lembre-se, era</p><p>parte do pacote evolutivo darwiniano que des-</p><p>120120</p><p>crevi no capítulo 1. Mais recentemente, esta visão da pré-</p><p>história humana foi encapsulada em um ensaio clássico de</p><p>Kenneth Oakley publicado em 1949 intitulado “Homem, o</p><p>fabricante de artefatos”. Como foi observado em um capítulo</p><p>anterior, Oakley estava entre os primeiros a propor que a</p><p>emergência dos humanos modernos foi iniciada com o</p><p>“aperfeiçoamento” da linguagem até o nível que conhecemos</p><p>hoje: em outras palavras, a linguagem moderna fez o homem</p><p>moderno.</p><p>Entretanto, nos dias de hoje, uma explicação evolutiva dife-</p><p>rente tornou-se popular como explicação para o surgimento da</p><p>mente moderna — uma explicação mais orientada para o</p><p>homem como animal social do que para o homem como</p><p>fabricante de artefatos. Se a linguagem evoluiu como</p><p>instrumento de interação social, então seu realce da</p><p>comunicação no contexto da caça e coleta pode ser visto como</p><p>um benefício secundário e não como uma causa evolutiva</p><p>primária.</p><p>O neurologista da Universidade de Columbia Ralph Holloway</p><p>foi um pioneiro importante deste novo ponto de vista, intro-</p><p>duzido na década de 1960. “É minha opinião que a linguagem</p><p>cresceu a partir de uma matriz social-comportamental-cognitiva</p><p>que era fundamentalmente cooperativa e não agressiva, e</p><p>repousava sobre uma divisão social estrutural complementar do</p><p>comportamento em relação ao trabalho entre os sexos”,</p><p>escreveu ele há uma década. “Isto era uma estratégia evolutiva</p><p>e adaptativa necessária para permitir um período de</p><p>dependência infantil prolongado, períodos prolongados até</p><p>atingir a maturidade sexual, uma maturação retardada que</p><p>permite um maior crescimento do cérebro e aprendizado</p><p>comportamental.” Observe como isto está de acordo com as</p><p>descobertas nos padrões de história de vida dos hominídeos</p><p>que descrevi no capítulo 3.</p><p>As idéias pioneiras de Holloway adotaram diversos disfarces e</p><p>tornaram-se conhecidas como a hipótese da inteligência social.</p><p>Mais recentemente, Robin Dunbar, primatologistado University</p><p>College, em Londres, desenvolveu-a como se segue: “A teoria</p><p>mais convencional é que os primatas necessitam cérebros</p><p>grandes para ajudá-los a encontrar seu rumo no mundo e</p><p>resolver seu problema diário de procurar comida. A teoria do</p><p>tipo alternativo é que o complexo mundo social no qual os</p><p>primatas se encontram fornece o ímpeto necessário à evolução</p><p>de cérebros grandes.” Uma parte vital na modulação das</p><p>interações sociais entre os primatas é o ato de alisar o pêlo,</p><p>que permite um contato íntimo e monitoração entre indivíduos.</p><p>Ele é eficiente em grupos de até</p><p>121121</p><p>um certo tamanho, afirma Dunbar, mas, quando este tamanho</p><p>é ultrapassado, outros modos de lubrificação social são</p><p>exigidos.</p><p>Durante a pré-história humana, o tamanho do grupo aumentou,</p><p>argumenta Dunbar, produzindo pressões seletivas por um</p><p>“alisamento de pêlos” social mais eficiente. “A linguagem tem</p><p>duas propriedades interessantes quando comparada ao ato de</p><p>alisar o pêlo”, explica ele. “Você pode falar com diversas</p><p>pessoas ao mesmo tempo e você pode falar enquanto</p><p>caminha, come ou trabalha nos campos.” Em conseqüência,</p><p>sugere ele, “a linguagem evolui para integrar um número maior</p><p>de indivíduos nos seus respectivos grupos sociais”. Neste</p><p>cenário, então, a linguagem é o “alisamento de pêlos vocal”, e</p><p>Dunbar a vê emergindo somente “com o aparecimento do</p><p>Homo sapiens”. Tenho muita simpatia para com as hipóteses</p><p>de inteligência social, mas, como mostrarei, não acredito que a</p><p>linguagem tenha evoluído tardiamente na pré-história humana.</p><p>A época em que a linguagem evoluiu é um dos pontos</p><p>fundamentais neste debate. Teria ela surgido cedo,</p><p>acompanhada de um reforço gradual? Ou teria surgido súbita e</p><p>recentemente? Lembre-se, a questão tem implicações</p><p>filosóficas que dizem respeito ao quão especiais consideramos</p><p>nós mesmos.</p><p>Nos dias de hoje, muitos antropólogos favorecem a idéia de</p><p>uma srcem rápida e recente da linguagem — principalmente</p><p>em razão da mudança abrupta de comportamento observada</p><p>na revolução do Paleolítico Superior. Randall White,</p><p>arqueólogo da New York University, argumenta em um trabalho</p><p>científico provocativo de quase uma década atrás que os</p><p>indícios de várias formas de atividades humanas anteriores a</p><p>100 mil anos atrás implicam “uma ausência total de qualquer</p><p>coisa que os humanos modernos possam reconhecer como</p><p>linguagem”. Nesta época, anatomicamente, os humanos</p><p>modernos haviam evoluído, admite ele, mas não haviam ainda</p><p>“inventado” a linguagem em um contexto cultural. Isto</p><p>aconteceria muito mais tarde: “Há cerca de 30 mil anos, estas</p><p>populações (...) haviam dominado a linguagem e a cultura</p><p>como presentemente as conhecemos.”</p><p>White lista sete áreas de indícios arqueológicos que, sob seu</p><p>ponto de vista, apontam para um realce dramático das</p><p>habilidades lingüísticas que coincidem com o Paleolítico</p><p>Superior. Primeiro, o sepultamento deliberado dos mortos, que</p><p>quase certamente começou na época dos neanderthals mas</p><p>tornou-se refinado, com a inclusão de bens e objetos nas</p><p>sepulturas, somente no Paleo-</p><p>122122</p><p>lítico Superior. Segundo, a expressão artística, que incluiu a</p><p>feitura de imagens e de adornos para o corpo, começa</p><p>somente com o Paleolitico Superior. Terceiro, no Paleolitico</p><p>Superior há uma aceleração súbita no ritmo da inovação</p><p>tecnológica e na mudança cultural. Quarto, pela primeira vez</p><p>surgem diferenças regionais na cultura — expressão e produto</p><p>de fronteiras sociais. Quinto, o indício de contatos de longa</p><p>distância, na forma</p><p>de comércio de objetos exóticos, torna-se</p><p>forte nesta época. Sexto, os lugares de moradia aumentam</p><p>significativamente de tamanho, e a linguagem teria sido</p><p>necessária com tal grau de planejamento e coordenação.</p><p>Sétimo, a tecnologia move-se do uso predominante de pedras</p><p>para a inclusão de outras matérias-primas tais como ossos,</p><p>chifres e argila, indicando uma complexidade de manipulação</p><p>do meio ambiente físico impensável na ausência de uma</p><p>linguagem.</p><p>White e outros antropólogos, inclusive Lewis Binford e Richard</p><p>Klein, estão convencidos de que este acúmulo de “pela</p><p>primeira vez” na atividade humana é sublinhado pelo</p><p>surgimento de uma linguagem falada complexa e totalmente</p><p>moderna. Binford, como observei em um capítulo anterior, não</p><p>vê indícios de planejamento e poucas facilidades de predizer e</p><p>organizar eventos futuros e atividades entre os humanos pré-</p><p>modernos. O grande passo à frente foi a linguagem — “a</p><p>linguagem e, especificamente, a criação de símbolos, que torna</p><p>a abstração possível”, argumenta ele. “Não vejo qualquer meio</p><p>pelo qual tal mudança rápida poderia ocorrer além de um</p><p>sistema de comunicação fundamentalmente bom e com base</p><p>na biologia.” Klein, concordando essencialmente com esta</p><p>proposição, vê indícios, nos sítios arqueológicos do sul da</p><p>África, de um aumento relativamente recente e abrupto das</p><p>habilidades de caça. Isto é uma conseqüência, diz ele, da</p><p>srcem da mente humana moderna, inclusive da capacidade de</p><p>possuir uma linguagem.</p><p>Embora o ponto de vista de que a linguagem teve um desen-</p><p>volvimento relativamente rápido coincidente com a emergência</p><p>dos humanos modernos tenha amplo apoio, ele não domina</p><p>completamente o pensamento antropológico. Dean Falk, a</p><p>cujos estudos da evolução do cérebro humano me referi no</p><p>capítulo 3, defende a proposição de que a linguagem</p><p>desenvolveu-se mais cedo. “Se os hominídeos não estivessem</p><p>usando e refinando a linguagem, eu gostaria de saber o que</p><p>eles estavam fazendo com seus cérebros autocatalicamente</p><p>em expansão”, escreveu ela recentemente. Terrence Deacon,</p><p>neurologista do Belmont Hospital, em Belmont, Massachusetts,</p><p>adota um ponto de vista similar, mas</p><p>123123</p><p>com base em estudos de cérebros modernos e não fósseis: “A</p><p>competência lingüística evoluiu durante um longo período (de</p><p>pelo menos 2 milhões de anos) de seleção contínua</p><p>determinada pela interação cérebro-linguagem”, observa ele</p><p>em um artigo publicado em 1969 na revista Human Evolution.</p><p>Deacon comparou as diferenças nas conectividades neurais</p><p>entre o cérebro do macaco e o cérebro humano. Ele observa</p><p>que as estruturas do cérebro e os circuitos que mais foram</p><p>alterados no decorrer da evolução do cérebro humano refletem</p><p>as exigências computacionais incomuns da linguagem falada.</p><p>As palavras não se fossilizam, assim, como poderão os an-</p><p>tropólogos resolver esta discussão? Os indícios indiretos — os</p><p>artefatos que nossos ancestrais fabricaram e as mudanças em</p><p>sua anatomia — parecem fornecer relatos diferentes de nossa</p><p>história evolutiva. Começaremos pelo exame dos indícios</p><p>anatômicos, inclusive a arquitetura do cérebro e a estrutura do</p><p>aparelho vocal. Depois examinaremos a sofisticação</p><p>tecnológica e a expressão artística — aspectos do</p><p>comportamento que constituem o registro arqueológico.</p><p>Vimos anteriormente que a expansão do cérebro humano</p><p>começou há mais de 2 milhões de anos com a srcem do</p><p>gênero Homo e continuou de modo firme. Há cerca de meio</p><p>milhão de anos, o tamanho médio do cérebro do Homo erectus</p><p>era 1.100 centímetros cúbicos, o que é muito próximo da média</p><p>moderna. Depois do salto inicial de 50 por cento do</p><p>australopitecíneo para o Homo, não há grandes aumentos</p><p>súbitos adicionais no tamanho do cérebro do homem pré-</p><p>histórico. Embora o significado do tamanho absoluto do cérebro</p><p>seja assunto de controvérsia entre os psicólogos, o</p><p>triplicamento que ocorreu na pré-história humana certamente</p><p>reflete capacidades cognitivas reforçadas. Se o tamanho do</p><p>cérebro está também relacionado com capacidades lingüísti-</p><p>cas, então a história da expansão do tamanho do cérebro</p><p>durante os mais ou menos 2 milhões de anos passados sugere</p><p>um desenvolvimento gradual das habilidades lingüísticas de</p><p>nossos ancestrais. A comparação de Terrence Deacon da</p><p>anatomia do cérebro do macaco com a anatomia do cérebro</p><p>humano sugere que esta é uma proposição razoável.</p><p>O eminente neurobiólogo Harry Jerison, da Universidade da</p><p>Califórnia, em Los Angeles, considera a linguagem o motor do</p><p>crescimento do cérebro humano, descartando a noção de que</p><p>hahilidades maniDulativas teriam fornecido a pressão evolutiva</p><p>124124</p><p>em favor de cérebros maiores, corporificadas na hipótese “Ho-</p><p>mem, o Fabricante de Artefatos”. “Parece-me uma explicação</p><p>inadequada, principalmente porque a fabricação de artefatos</p><p>pode ser realizada com pouco tecido cerebral”, afirmou ele em</p><p>uma importante conferência no Museu Americano de História</p><p>Natural em 1991. “A produção de uma fala simples e útil, por</p><p>outro lado, exige uma quantidade substancial de tecido</p><p>cerebral.”</p><p>A arquitetura cerebral subjacente à linguagem é muito mais</p><p>complexa do que se pensava Parece haver muitas áreas</p><p>relacionadas com a linguagem, espalhadas por diversas</p><p>regiões do cérebro humano. Se estes centros pudessem ser</p><p>identificados em nossos ancestrais, estaríamos em uma boa</p><p>posição para decidir a questão da linguagem. Entretanto, os</p><p>indícios anatômicos dos cérebros dos humanos extintos são</p><p>restritos aos contornos da superfície; os cérebros fossilizados</p><p>não dão pistas de sua estrutura interna Felizmente, um aspecto</p><p>do cérebro relacionado de algum modo com a linguagem e com</p><p>a utilização de artefatos é visível sobre a superfície do cérebro.</p><p>Este aspecto é a área de Broca, uma saliência localizada perto</p><p>da têmpora esquerda (na maioria das pessoas). Se</p><p>pudéssemos encontrar indícios da existência da área de Broca</p><p>nos cérebros humanos fossilizados, isto seria o sinal, embora</p><p>incerto, de uma habilidade lingüística emergente.</p><p>Um segundo sinal possível é a diferença em tamanho entre o</p><p>lado esquerdo e o lado direito do cérebro nos humanos moder-</p><p>nos. Na maioria das pessoas, o hemisfério esquerdo é maior do</p><p>que o hemisfério direito — uma conseqüência, em parte, da</p><p>concentração, lá, da maquinaria associada com a linguagem.</p><p>Também associado com esta assimetria é o fenômeno da</p><p>destreza nos humanos. Noventa por cento da população</p><p>humana é destra; a destreza e a capacidade de linguagem</p><p>podem portanto estar relacionadas com um cérebro esquerdo</p><p>maior.</p><p>Ralph Holloway examinou a forma do cérebro do crânio do</p><p>1.470, um belo exemplo de Homo habilis encontrado a leste do</p><p>lago Turkana em 1972 e cuja idade foi determinada em quase</p><p>2 milhões de anos (ver figura 2.2). Holloway detectou não</p><p>apenas a presença da área de Broca, impressa sobre a</p><p>superfície interna do crânio, mas também uma leve assimetria</p><p>na configuração esquerda-direita do cérebro, uma indicação de</p><p>que o Homo habilis comunicava-se utilizando mais do que o</p><p>repertório arfada-apupo-grunhido dos chimpanzés modernos.</p><p>Em um trabalho publicado na revista Human Neurobiology , ele</p><p>observou que, embora fosse impossível provar quando ou</p><p>como a linguagem começou, era</p><p>125125</p><p>provável que suas srcens remontassem “ao passado</p><p>paleontológico remoto”. Embora Holloway tivesse sugerido que</p><p>esta trajetória evolutiva poderia ter começado com os</p><p>australopitecíneos, eu discordo. Até agora, toda a discussão da</p><p>evolução dos hominídeos neste livro aponta para uma</p><p>importante mudança na adaptação hominídea quando o gênero</p><p>Homo apareceu. Portanto, suspeito que apenas com a</p><p>evolução do Homo habilis alguma forma de linguagem falada</p><p>começou. Como Bickerton, suspeito que isto era um tipo de</p><p>protolinguagem, simples em conteúdo e estrutura, mas um</p><p>meio de comunicação mais avançado do que o meio de</p><p>comunicação dos macacos e australopitecíneos.</p><p>A fabricação experimental cuidadosa e inovativa de artefatos</p><p>de Nicholas Toth,</p><p>discutida no capítulo 2, reforça o ponto de</p><p>vista de que a assimetria cerebral estava presente nos</p><p>humanos primitivos. Sua reprodução de lascas de pedra</p><p>demonstrou que os praticantes da indústria olduvaiana eram</p><p>predominantemente destros, e portanto teriam uma metade</p><p>esquerda do cérebro ligeiramente maior. “A lateralização do</p><p>cérebro ocorreu com os fabricantes de artefatos mais</p><p>primitivos, como é evidenciado pelo seu comportamento como</p><p>fabricantes”, observou Toth. “Isto é provavelmente uma boa</p><p>indicação de que uma capacidade lingüística já estava também</p><p>emergindo.”</p><p>Estou convencido pelos indícios oriundos dos cérebros fos-</p><p>silizados de que a linguagem começou a evoluir com o primeiro</p><p>aparecimento do gênero Homo. Pelo menos não há nada que</p><p>possa ser utilizado como argumento contra um aparecimento</p><p>bem no início da linguagem. Mas o que dizer do aparelho</p><p>vocal: a laringe, a faringe, a língua e os lábios? Isto representa</p><p>a segunda maior fonte de informação anatômica (ver figura</p><p>7.1).</p><p>Os humanos são capazes de emitir uma ampla variedade de</p><p>sons porque a laringe fica situada na parte inferior da garganta,</p><p>criando assim uma grande câmara de som, a faringe, acima</p><p>das cordas vocais. De acordo com o trabalho inovador de</p><p>Jeffrey Laitman, do Mount Sinai Hospital Medical School de</p><p>Nova York, Philip Lieberman, da Universidade Brown, e</p><p>Edmund Crelin, de Yale, uma faringe maior é a chave para</p><p>produzir uma fala completamente articulada. Estes</p><p>pesquisadores realizaram uma quantidade de pesquisas</p><p>considerável sobre a anatomia do trato vocal em criaturas vivas</p><p>e em fósseis humanos. O trato vocal é muito diferente. Em</p><p>todos os mamíferos, exceto nos humanos, a laringe fica na</p><p>parte mais ao alto na garganta, o que permite ao animal</p><p>respirar e beber ao mesmo tempo. Como corolário, a pequena</p><p>cavidade que</p><p>126126</p><p>forma a faringe limita a gama de sons que podem ser</p><p>produzidos. A maioria dos mamíferos portanto depende da</p><p>forma da cavidade oral e dos lábios para modificar os sons</p><p>produzidos na laringe. Embora a posição mais abaixo na</p><p>laringe permita aos humanos produzir uma gama maior de</p><p>sons, isto também significa que nós não podemos beber e</p><p>respirar simultaneamente. Nós humanos exibimos uma vaga</p><p>tendência a engasgar.</p><p>Os bebês humanos nascem com a laringe na parte mais ao alto</p><p>na garganta, como típicos mamíferos, e podem respirar e beber</p><p>simultaneamente, como devem fazê-lo durante a amamenta-</p><p>ção. Depois de cerca de 18 meses, a laringe começa a migrar</p><p>para a parte mais abaixo na garganta, atingindo a posição que</p><p>corresponde à de um adulto quando a criança tem cerca de 14</p><p>anos. Os pesquisadores se deram conta de que, se pudessem</p><p>determinar a posição da laringe nas gargantas de espécies</p><p>humanas ancestrais, poderiam deduzir alguma coisa sobre a</p><p>capacidade de vocalização e linguagem da espécie. Isto</p><p>representava um desafio, pois o aparelho vocal é constituído</p><p>por tecidos macios — cartilagem, músculos e carne — que não</p><p>fossilizam. Não obstante, os crânios antigos contêm uma pista</p><p>vital. Ela está na forma da base do crânio, ou basicrânio. No</p><p>padrão mamífero básico, a base do crânio é essencialmente</p><p>chata. Nos humanos, porém, ela é distintamente arqueada. A</p><p>forma do basicrânio em um fóssil da espécie humana deveria</p><p>portanto indicar quão bem este era capaz de articular os sons.</p><p>Em uma pesquisa com fósseis humanos, Laitman descobriu</p><p>que os basicrânios dos australopitecíneos eram</p><p>essencialmente chatos. Nisto, como em tantas outras</p><p>características biológicas, eles eram semelhantes aos</p><p>macacos, e como os macacos sua comunicação vocal deve ter</p><p>sido limitada. Os australopitecíneos devem ter sido incapazes</p><p>de produzir alguns dos sons vocais universais que caracterizam</p><p>os padrões de fala humanos. “A época mais remota do registro</p><p>fóssil em que você encontra um basicrânio completamente</p><p>articulado localiza-se entre cerca de 300 mil e 400 mil anos</p><p>atrás, no que as pessoas chamam Homo sapiens arcaico”,</p><p>conclui Laitman. Significa isto que espécies sapiens arcaicas,</p><p>que apareceram antes da evolução dos humanos</p><p>anatomicamente modernos, tinham uma linguagem moderna</p><p>completamente desenvolvida? Isto parece improvável.</p><p>A mudança na forma do basicrânio é observada no primeiro</p><p>espécime de Homo erectus conhecido, o crânio 3.733,</p><p>encontrado no norte do Quênia, e que data de quase 2 milhões</p><p>de anos atrás.</p><p>127127</p><p>De acordo com esta análise, este indivíduo Homo erectus teria</p><p>tido a habilidade de produzir certas vogais, como u, a, e, i.</p><p>Laitman calcula que a posição da laringe no Homo erectus</p><p>primitivo teria sido equivalente à de um humano moderno de</p><p>seis anos de idade. Infelizmente, nada pode ser dito a respeito</p><p>do Homo habilis, pois nenhum dos crânios de habilis</p><p>descobertos até agora tem um basicrânio intacto. Minha</p><p>estimativa é que, quando realmente descobrirmos um crânio</p><p>intacto do Homo mais primitivo, veremos os começos da flexão</p><p>basicranial. Uma capacidade rudimentar de linguagem falada</p><p>certamente começou com a srcem do Homo.</p><p>Dentro desta seqüência evolutiva vemos um paradoxo apa-</p><p>rente. A julgar pelos seus basicrânios, os neanderthals tinham</p><p>habilidades verbais mais rudimentares do que outros sapiens</p><p>primitivos que viveram várias centenas de milhares de anos</p><p>antes. A flexão basicranial nos neanderthals era menos</p><p>avançada mesmo do que no Homo erectus. Teriam os</p><p>neanderthais regredido, tornando-se menos articulados do que</p><p>seus ancestrais? (De fato, alguns antropólogos sugeriram que</p><p>a extinção dos neanderthais pode ter estado relacionada com</p><p>habilidades lingüísticas inferiores.)</p><p>128128</p><p>Uma regressão evolutiva deste tipo parece improvável; não há,</p><p>virtualmente, exemplos disto na natureza. Mais provavelmente,</p><p>a resposta está na anatomia da face e do crânio do</p><p>neanderthal. Como uma aparente adaptação aos climas frios, a</p><p>parte do meio da face do neanderthal projeta-se para fora em</p><p>um grau extraordinário, resultando em grandes orifícios nasais,</p><p>nos quais o ar frio pode ser aquecido e a umidade exalada na</p><p>respiração pode condensar. Esta configuração pode ter afetado</p><p>a forma do basicrânio sem diminuir a capacidade lingüística da</p><p>espécie de modo significativo. Os antropólogos continuam a</p><p>debater este ponto.</p><p>Em resumo, então, os indícios anatômicos indicam uma evo-</p><p>lução primitiva da linguagem, seguida de uma melhora gradual</p><p>das habilidades lingüísticas. Entretanto, os indícios arqueológi-</p><p>cos relacionados com a tecnologia de artefatos e com a expres-</p><p>são artística em sua maior parte contam uma história diferente.</p><p>Embora, como já disse, a linguagem não fossilize, os produtos</p><p>das mãos humanas podem, em princípio, dar alguma percep-</p><p>ção sobre a linguagem. Quando falamos sobre expressão</p><p>artística, como o fizemos no capítulo anterior, estamos</p><p>conscientes de mentes humanas modernas em funcionamento,</p><p>e isto implica um nível de linguagem moderna. Poderão os</p><p>artefatos de pedra fornecer uma compreensão das</p><p>capacidades lingüísticas dos seus fabricantes?</p><p>Esta era a tarefa com que Glynn Isaac deparou quando lhe foi</p><p>pedido que apresentasse um trabalho sobre a srcem e a</p><p>natureza da linguagem na Academia de Ciências de Nova York</p><p>em 1976. Glynn examinou a complexidade das indústrias de</p><p>artefatos de pedra desde seus primórdios, há mais de 2</p><p>milhões de anos, até a Revolução do Paleolítico Superior, há</p><p>35 mil anos. Ele estava mais interessado na ordem que os</p><p>fabricantes de artefatos impunham aos seus implementos do</p><p>que nas tarefas que as pessoas realizavam com estes</p><p>artefatos. A imposição da ordem é uma obsessão humana; é</p><p>uma forma de comportamento que exige uma linguagem falada</p><p>sofisticada para a sua mais completa elaboração. Sem</p><p>linguagem, a arbitrariedade de uma ordem humana imposta</p><p>seria impossível.</p><p>O registro arqueológico mostra que a imposição da ordem</p><p>emerge lentamente na pré-história humana. Vimos no capítulo</p><p>2 que os artefatos olduvaianos, que datam de 2,5 milhões até</p><p>cerca de 1,4 milhão de anos atrás,</p><p>são de natureza</p><p>oportunística. Aparentemente os fabricantes de artefatos</p><p>estavam preocupados principalmente em produzir lascas</p><p>afiadas sem levar em conta a</p><p>129129</p><p>forma. As assim chamadas ferramentas básicas, tais como</p><p>raspadores, cortadores e discóides, eram subprodutos deste</p><p>processo. Mesmo os implementos nos conjuntos acheulenses</p><p>de artefatos, que se seguiram aos olduvaianos e duraram até</p><p>cerca de 250 mil anos atrás, mostram minimamente a</p><p>imposição de forma. O machado manual em forma de lágrima</p><p>foi produzido provavelmente de acordo com algum tipo de</p><p>plano mental, mas a maioria dos outros itens eram de muitas</p><p>maneiras semelhantes aos olduvaianos; mais ainda, apenas</p><p>cerca de uma dúzia de formas de artefatos foram encontrados</p><p>no kit acheulense. A partir de mais ou menos 250 mil anos</p><p>atrás, indivíduos sapiens arcaicos, inclusive os neanderthais,</p><p>fabricaram artefatos a partir de lascas preparadas, e estes</p><p>conjuntos, inclusive o mousteriano, compreendiam talvez</p><p>sessenta tipos de artefatos identificáveis. Mas estes tipos</p><p>permaneceram imutáveis por mais de 200 mil anos — uma</p><p>paralisia tecnológica que parece negar o funcionamento de</p><p>uma mente completamente humana.</p><p>Apenas quando as culturas do Paleolítico Superior surgiram em</p><p>cena, há 35 mil anos, a inovação e a ordem arbitrária tornaram-</p><p>se difundidas. Não apenas foram produzidos novos e mais re-</p><p>finados tipos de artefatos, mas os tipos que caracterizaram os</p><p>conjuntos de artefatos do Paleolítico Superior mudaram em</p><p>uma escala de tempo de milênios e não de centenas de</p><p>milênios. Isaac interpretou este padrão de diversidade</p><p>tecnológica e mudança como implicando a emergência gradual</p><p>de alguma forma de linguagem falada. A revolução do</p><p>Paleolítico Superior assinalou uma pontuação maior naquela</p><p>trajetória evolutiva, sugeriu ele. A maioria dos arqueólogos</p><p>concorda de modo geral com esta interpretação, embora haja</p><p>diferenças de opinião sobre que grau de linguagem falada os</p><p>fabricantes de artefatos tinham — se é que a tinham.</p><p>Ao contrário de Nicholas Toth, Thomas Wynn, da Universidade</p><p>do Colorado, acredita que a cultura olduvaiana em suas ca-</p><p>racterísticas gerais era semelhante à dos macacos, e não</p><p>humana. “Neste quadro, em nenhum lugar precisamos</p><p>adicionar elementos tais como a linguagem”, observa ele em</p><p>um artigo escrito em conjunto na revista Man e publicado em</p><p>1989. A fabricação destes artefatos simples exige pouca</p><p>capacidade cognitiva, argumenta ele, e portanto não era</p><p>humana em nenhum aspecto. Entretanto, Wynn admite que há</p><p>“alguma coisa de humanóide” na fabricação dos machados</p><p>manuais acheulenses: “Artefatos como estes indicam que a</p><p>forma do produto final era uma preocupação do brita-</p><p>130130</p><p>dor e que podemos usar esta intenção como uma pequena</p><p>janela aberta para a mente do Homo erectus.” Wynn descreve</p><p>a capacidade cognitiva do Homo erectus, com base nas</p><p>exigências intelectuais da produção dos artefatos acheulenses,</p><p>como equivalente àquela de uma criança humana moderna de</p><p>sete anos. Crianças de sete anos têm habilidades lingüísticas</p><p>consideráveis, inclusive referência e gramática, e estão perto</p><p>do ponto em que podem conversar sem recorrer à</p><p>gesticulação. Com relação a isto é interessante lembrar que</p><p>Jeffrey Laitman julgava, com base na forma do basicrânio, que</p><p>a capacidade lingüística do Homo erectus era equivalente à de</p><p>uma criança humana moderna de seis anos.</p><p>Aonde este conjunto de indícios, representado na figura 7.2,</p><p>nos conduz? Se fôssemos conduzidos apenas pela</p><p>componente tecnológica do registro arqueológico, veríamos a</p><p>linguagem como tendo começado cedo, progredido lentamente</p><p>durante a maior parte da pré-história humana e tido um reforço</p><p>explosivo em tempos relativamente recentes. Isto é um</p><p>compromisso baseado nas hipóteses derivadas a partir dos</p><p>indícios anatômicos. Entretanto, o registro arqueológico que</p><p>corresponde à expressão artística não permite tal</p><p>compromisso. A pintura e a gravação em abrigos rochosos e</p><p>cavernas entram no registro abruptamente, há mais ou menos</p><p>35 mil anos.</p><p>Se a expressão artística é considerada a única indicação</p><p>confiável de uma linguagem falada — como o arqueólogo</p><p>australiano Iain Davidson, por exemplo, insiste —, então a</p><p>linguagem não apenas tomou-se completamente moderna em</p><p>tempos recentes como também começou recentemente. “A</p><p>feitura de imagens que lembram coisas pode somente ter</p><p>emergido em comunidades pré-históricas com um sistema de</p><p>significados compartilhados”, afirma Davidson em um trabalho</p><p>recente em co-autoria com Willian Noble, seu colega na</p><p>Universidade da Nova Inglaterra. “Sistemas compartilhados de</p><p>significados” são mediados, é claro, por meio de uma</p><p>linguagem. Davidson e Noble argumentam que a expressão</p><p>artística foi um meio pelo qual uma linguagem referencial</p><p>desenvolveu-se, e não que a arte tornou-se possível pela</p><p>linguagem. A arte teve que fazer uso da linguagem, ou pelo</p><p>menos emergir em paralelo com ela. O aparecimento dos</p><p>primeiros trabalhos de arte do registro arqueológico sinaliza</p><p>portanto a primeira aparição de uma linguagem referencial</p><p>falada.</p><p>Claramente, as hipóteses sobre a natureza e a época da</p><p>evolução da linguagem humana são tão divergentes quanto</p><p>poderiam ser —</p><p>131131</p><p>(A página 132 do livro apresenta a Figura 7.2, colada nas(A página 132 do livro apresenta a Figura 7.2, colada nas</p><p>páginas finais desse e-livro)páginas finais desse e-livro)</p><p>o que significa que os indícios, ou uma parte deles, estão</p><p>sendo interpretados incorretamente. Quaisquer que sejam as</p><p>complexidades desta interpretação incorreta, há surgimento de</p><p>uma nova apreciação da complexidade das srcens da</p><p>linguagem. Uma conferência importante realizada em março de</p><p>1990, organizada pela</p><p>132132</p><p>Wenner-Gren Foundation for Antrophological Research (Fun-</p><p>dação Wenner-Gren para a Pesquisa Antropológica),</p><p>determinou o rumo da discussão nos anos vindouros. Intitulada</p><p>“Artefatos, linguagem e cognição na evolução humana”, a</p><p>conferência estabeleceu elos de ligação entre estas</p><p>importantes questões da pré-história humana Kathleen Gibson,</p><p>uma das organizadoras, descreveu a posição da conferência</p><p>como se segue: “Já que a inteligência social humana, o uso de</p><p>artefatos e da linguagem dependem todos de um aumento</p><p>quantitativo do tamanho do cérebro e de sua capacidade de</p><p>processamento de informação, nada poderia ter emergido</p><p>subitamente já pronto, como Minerva da cabeça de Zeus. Em</p><p>vez disto, assim como o tamanho do cérebro, cada uma destas</p><p>faculdades intelectuais deve ter evoluído gradualmente. E</p><p>mais, como estas faculdades são interdependentes, nenhuma</p><p>poderia ter alcançado seu nível moderno de complexidade</p><p>isoladamente.” Será um desafio considerável desemaranhar</p><p>estas complexidades.</p><p>Como já disse, aqui há muito mais em jogo do que a recons-</p><p>trução da pré-história. A visão de nós mesmos e do nosso lugar</p><p>na natureza está também em jogo. Aqueles que desejam</p><p>manter os humanos como especiais darão boas-vindas a</p><p>indícios que apontam para uma srcem recente e abrupta da</p><p>linguagem. Aqueles que se sentem confortáveis com a</p><p>conexão humana com o resto da natureza não ficarão</p><p>desestimulados com um desenvolvimento precoce e lento</p><p>desta faculdade humana. Imagino que se, por algum capricho</p><p>da natureza, ainda existissem populações de Homo habilis e</p><p>Homo erectus, nós as veríamos com gradações de linguagem</p><p>referencial. A distância entre nós e o resto da natureza seria</p><p>portanto coberta por nossos próprios ancestrais.</p><p>133133</p><p>8 - A srcem da mente</p><p>Três grandes revoluções marcam a história da vida na Terra. A</p><p>primeira foi a srcem da vida propriamente dita, em alguma</p><p>época situada antes dos 3,5 bilhões de anos atrás. A vida, na</p><p>forma de microorganismos, tornou-se uma força poderosa em</p><p>um mundo onde anteriormente apenas a química e a física</p><p>haviam operado. A segunda revolução foi a srcem dos</p><p>organismos multicelulares, há cerca de meio milhão de anos. A</p><p>vida tornou-se complexa, as plantas e os</p><p>animais em miríades</p><p>de formas e tamanhos evoluíram e interagiram em</p><p>ecossistemas férteis. A srcem da consciência humana, em</p><p>alguma época nos últimos 2,5 milhões de anos, foi o terceiro</p><p>evento. A vida tornou-se ciente de si própria, e começou a</p><p>transformar o mundo da natureza com seus objetivos próprios.</p><p>O que é consciência? Mais especificamente, para que serve?</p><p>Qual é a sua função? Tais questões podem parecer estranhas,</p><p>já que cada um de nós sente a vida por meio da consciência ou</p><p>da autopercepção. Ela é uma força tão poderosa em nossas</p><p>vidas que é impossível imaginar a existência na ausência da</p><p>sensação subjetiva que chamamos consciência reflexiva. Tão</p><p>poderosa subjetivamente, e ainda assim objetivamente</p><p>indefinível. A consciência apresenta-se aos cientistas como um</p><p>dilema, que alguns acreditam insolúvel. O sentido da</p><p>autopercepção que cada um de nós vivência é tão brilhante</p><p>que ilumina tudo o que fazemos e pensamos; e, ainda assim,</p><p>não há maneira pela qual, objetivamente, eu possa saber que</p><p>você experimenta a mesma sensação que eu experimento, e</p><p>vice-versa.</p><p>Cientistas e filósofos lutaram durante séculos para controlar</p><p>este fenômeno inconstante. Definições operacionais que foca-</p><p>lizem a habilidade de monitorar nossos próprios estados</p><p>mentais podem ser objetivamente precisas em certo sentido,</p><p>mas elas não se relacionam com o modo pelo qual sabemos</p><p>que estamos cientes de nós mesmos e do nosso ser. A mente</p><p>é a fonte do sentido do eu — um sentido algumas vezes</p><p>privado, algumas vezes compartilhado com outros. A mente,</p><p>por meio da imaginação, é também o canal para atingir mundos</p><p>que estão além dos objetos</p><p>134134</p><p>materiais da vida diária; e ela oferece-nos um meio de trazer</p><p>em Technicolor mundos abstratos para a realidade.</p><p>Há três séculos, Descartes tentou enfrentar o mistério per-</p><p>turbador da fonte do sentido do eu que surge em nosso interior.</p><p>Os filósofos referiram-se a esta dicotomia como o problema do</p><p>corpo e da mente. “Sinto como se tivesse caído de forma</p><p>inesperada num redemoinho profundo que me carrega</p><p>continuamente aos trombolhões, de modo que não posso ficar</p><p>de pé no seu fundo nem nadar até sua superfície”, escreveu</p><p>Descartes. Sua solução para o problema do corpo e da mente</p><p>foi descrevê-los como entidades inteiramente separadas, um</p><p>dualismo que perfazia um todo. “Era uma visão do eu como</p><p>uma espécie de fantasma imaterial que é o dono e controla o</p><p>corpo do mesmo modo como você é o dono e controla seu</p><p>automóvel”, observa o filósofo da Universidade Tufts, Daniel</p><p>Dennett, em seu recente livro Consciouness Explained .</p><p>Descartes também considerou a mente reservada aos huma-</p><p>nos, enquanto todos os outros animais eram meros autômatos.</p><p>Uma visão similar dominou a biologia e a psicologia nos últimos</p><p>cinqüenta anos. Conhecida como behaviorismo, essa visão de</p><p>mundo sustenta que os animais não humanos simplesmente</p><p>respondem com reflexos aos eventos de seus mundos e são</p><p>incapazes de processos de pensamento analíticos. Não há</p><p>uma coisa chamada mente animal, disseram os behavioristas;</p><p>ou, se há, não temos maneiras de ter acesso a ela de um modo</p><p>científico, e deveríamos portanto ignorá-la. Nos últimos tempos</p><p>esta visão vem sofrendo modificações, graças em grande parte</p><p>a Donald Griffin, biólogo do comportamento da Universidade</p><p>Harvard, que vem fazendo uma campanha há duas décadas</p><p>para derrubar esta visão negativa do mundo animal. Ele</p><p>publicou três livros sobre o assunto, o último, Animal Minds, em</p><p>1992. Os psicólogos e etologistas parecem ter ficado “quase</p><p>petrificados pela noção de consciência animal”, sugere ele. Isto</p><p>é uma conseqüência, diz ele, da influência contínua do</p><p>behaviorismo, pairando como um fantasma sobre a ciência.</p><p>“Em outros domínios do empreendimento científico temos que</p><p>aceitar uma prova que é menos do que cem por cento</p><p>rigorosa”, diz Griffin. “As ciências históricas são assim — pense</p><p>na cosmologia, pense na geologia. E Darwin não pode provar o</p><p>fato da evolução biológica de modo rigoroso.”</p><p>Os antropólogos, ao tentarem explicar a evolução da forma</p><p>humana, devem em última análise levar em conta também a</p><p>evolução da mente — e, especificamente, da consciência</p><p>humana,</p><p>135135</p><p>um assunto que os biólogos estão mais preparados para</p><p>examinar. Temos também que perguntar como tal fenômeno</p><p>surgiu no cérebro humano: isto é, terá ele surgido subitamente</p><p>e inteiramente formado no cérebro do Homo sapiens, sem</p><p>nenhum tipo de precursor no resto do mundo da natureza,</p><p>como o ponto de vista behaviorista implica? Podemos</p><p>perguntar quando na pré-história humana a consciência atingiu</p><p>o estágio que agora experimentamos: terá ela surgido cedo, e</p><p>crescido sempre cada vez mais brilhante através da pré-</p><p>história? E podemos perguntar: que vantagens evolutivas teria</p><p>tal propriedade da mente conferido aos nossos ancestrais?</p><p>Observe que essas questões são paralelas àquelas que dizem</p><p>respeito à evolução da linguagem. Isto não é mera</p><p>coincidência, pois a linguagem e a autopercepção reflexiva são</p><p>indubitavelmente fenômenos intimamente relacionados.</p><p>Ao procurar respostas a estas questões, não podemos evitar a</p><p>questão sobre para que “serve” a consciência Como pergunta</p><p>Dennett: “Haverá qualquer coisa que uma entidade consciente</p><p>pode fazer por si mesma que uma simulação inconsciente (mas</p><p>habilmente programada) desta entidade não possa fazê-lo?” O</p><p>zoólogo da Universidade Oxford Richard Dawkins admite estar</p><p>também estupefato. Ele fala da necessidade de os organismos</p><p>serem capazes de predizer o futuro, uma habilidade obtida por</p><p>meio do equivalente aos cérebros na simulação por</p><p>computadores. Este processo, afirma ele, não precisa ser</p><p>consciente. Ainda assim, ele observa que “a evolução da</p><p>capacidade de simular parece ter culminado com uma</p><p>consciência subjetiva”. Por que isto deveria ter acontecido é,</p><p>afirma ele, o mistério mais profundo com que depara a biologia</p><p>moderna. “Talvez a consciência surja quando a simulação</p><p>cerebral do mundo torna-se tão completa que ela deve incluir</p><p>um modelo de si mesma”</p><p>Há sempre a possibilidade, é claro, de que ela não “sirva” para</p><p>nada e seja simplesmente um subproduto de cérebros grandes</p><p>em ação. Prefiro adotar o ponto de vista evolutivo, que sustenta</p><p>que um fenômeno mental tão poderoso provavelmente conferiu</p><p>benefícios para a sobrevivência e foi portanto produto da</p><p>seleção natural. Se nenhum de tais benefícios pode ser</p><p>discernido, então talvez a alternativa — isto é, nenhuma função</p><p>adaptativa — pode ser considerada.</p><p>O neurobiólogo Harry Jenson realizou um longo estudo da</p><p>trajetória da evolução cerebral desde o advento da vida em</p><p>solo seco. O padrão de mudança através dos tempos é bem</p><p>suroreendente:</p><p>136136</p><p>a srcem de novos grupos importantes de fauna (ou grupos</p><p>dentro de grupos) é usualmente acompanhada por um salto no</p><p>tamanho relativo do cérebro, conhecido como encefalização.</p><p>Por exemplo, quando os primeiros mamíferos antigos</p><p>evoluíram, há uns 230 milhões de anos, eles eram equipados</p><p>com cérebros que eram quatro ou cinco vezes maiores do que</p><p>o cérebro reptiliano médio. Um impulso similar na maquinaria</p><p>mental aconteceu com a srcem dos mamíferos modernos, há</p><p>50 milhões de anos. Comparados aos mamíferos como um</p><p>todo, os primatas são os que têm cérebros maiores, sendo</p><p>duas vezes mais encefalizados do que o mamífero médio.</p><p>Entre os primatas, os macacos são os que têm cérebros</p><p>maiores; eles têm mais ou menos duas vezes o tamanho</p><p>médio. E os humanos são três vezes mais encefalizados do</p><p>que o macaco médio.</p><p>Deixando por um instante os humanos de lado, considere-se</p><p>que o aumento a passos largos do tamanho cerebral através</p><p>da história evolutiva pode implicar uma progressão em direção</p><p>a uma superioridade biológica cada vez maior, cérebros</p><p>maiores significam criaturas mais espertas. Em algum sentido</p><p>absoluto isto deve ser verdade, mas é útil adotar um ponto de</p><p>vista evolutivo sobre o que está acontecendo. Podemos pensar</p><p>nos mamíferos como</p><p>de algum modo mais espertos e</p><p>superiores aos répteis, de algum modo mais capazes de</p><p>explorar os recursos de que necessitam. Mas os biólogos</p><p>deram-se conta de que isto não é verdade. Se os mamíferos</p><p>fossem realmente superiores em seu aproveitamento dos</p><p>nichos ecológicos existentes no mundo, então uma maior</p><p>diversidade nos modos de fazê-lo, refletida na diversidade de</p><p>gêneros, deveria ser esperada Entretanto, o número de</p><p>gêneros de mamíferos que existiram em qualquer momento de</p><p>sua história recente é quase igual ao número de gêneros de</p><p>dinossauros, estes répteis altamente bem-sucedidos de uma</p><p>era anterior. Mais ainda, o número de nichos ecológicos que os</p><p>mamíferos são capazes de explorar é comparável ao número</p><p>de nichos disponíveis aos dinossauros. Onde, então, está o</p><p>benefício de possuir um cérebro maior?</p><p>Uma das forças que conduzem a evolução é uma competição</p><p>constante entre as espécies, no decurso da qual uma das</p><p>espécies ganha uma vantagem temporária por meio da</p><p>inovação evolutiva, apenas para ser superada por outra</p><p>inovação, e assim por diante. O resultado é o desenvolvimento</p><p>aparente de maneiras melhores de fazer as coisas, tais como</p><p>correr mais rápido, ver mais acuradamente, suportar ataques</p><p>de modo mais efetivo, ser mais esperto — embora nenhuma</p><p>vantagem permanente seja assegurada.</p><p>137137</p><p>No jargão militar, este processo é conhecido como uma corrida</p><p>armamentista: as armas tornam-se mais numerosas ou efetivas</p><p>em ambos os lados, mas nenhum deles, em última análise, se</p><p>beneficia Os estudiosos importaram o termo “corrida armamen-</p><p>tista” para a biologia com o intuito de descrever o mesmo fenô-</p><p>meno na evolução. A “construção” de cérebros maiores pode</p><p>ser vista como conseqüência de corridas armamentistas.</p><p>Entretanto, algo diferente deve acontecer com os cérebros</p><p>grandes quando comparados a cérebros menores. Como</p><p>poderemos visualizar este algo? Jerison argumenta que</p><p>deveríamos pensar nos cérebros como criadores da versão da</p><p>realidade da espécie. O mundo que percebemos como</p><p>indivíduos é essencialmente de nossa própria feitura,</p><p>governado por nossa própria experiência. Da mesma forma, o</p><p>mundo que percebemos como espécie é governado pela</p><p>natureza dos canais sensoriais que possuímos. Qualquer um</p><p>que possua um cachorro sabe que há um mundo de</p><p>experiências olfativas com o qual os cães são íntimos mas os</p><p>humanos não. As borboletas são capazes de ver a luz</p><p>ultravioleta; nós não. O mundo dentro de nossas cabeças —</p><p>sejamos nós Homo sapiens, cachorros ou borboletas — é,</p><p>portanto, formado pela natureza qualitativa do fluxo de</p><p>informações proveniente do mundo externo para o mundo</p><p>interno, e pela habilidade do mundo interno em processar a</p><p>informação. Há uma diferença entre o mundo real, o “lá fora”, e</p><p>o que percebemos na mente, o “aqui dentro”.</p><p>À medida que os cérebros aumentaram de tamanho através do</p><p>tempo de evolução, mais canais de informação sensorial</p><p>podiam ser manipulados de modo completo, e seus dados de</p><p>entrada integrados mais efetivamente. Os modelos mentais</p><p>atingiram portanto o ponto de igualar as realidades do “lá fora”</p><p>e do “aqui dentro” mais intimamente, embora com algumas</p><p>lacunas informacionais inevitáveis, como acabei de mencionar.</p><p>Podemos estar orgulhosos de nossas consciências</p><p>introspectivas, mas podemos estar cônscios apenas do que o</p><p>cérebro está equipado para monitorar no mundo. Embora a</p><p>linguagem seja vista por muitos como um instrumento de</p><p>comunicação, ela também é, argumenta Jerison, um meio</p><p>adicional pelo qual nossa realidade mental é aprimorada. Assim</p><p>como os canais sensoriais da visão, olfato e audição são de</p><p>importância especial para certos grupos de animais, na</p><p>construção de seus mundos mentais particulares, a linguagem</p><p>é um componente-chave para os humanos.</p><p>Há uma vasta literatura, em filosofia e psicologia, que se</p><p>relaciona com a questão de o pensamento depender da</p><p>linguagem</p><p>138138</p><p>ou a linguagem do pensamento. Não há dúvida de que muito,</p><p>talvez a maior parte, dos processos cognitivos humanos se dão</p><p>na ausência da linguagem ou mesmo da consciência. Qualquer</p><p>atividade física, tal como jogar tênis, acontece em grande parte</p><p>automaticamente — isto é, sem um comentário literal do que</p><p>fazer a seguir. A solução de um problema que surge na mente</p><p>enquanto estamos pensando sobre alguma outra coisa é outro</p><p>exemplo claro. Para alguns psicólogos, a linguagem falada é</p><p>meramente um pensamento a posteriori , por assim dizer, de</p><p>uma cognição mais fundamental. Mas a linguagem certamente</p><p>molda os elementos do pensamento de um jeito que uma</p><p>mente muda não pode fazer, desta maneira Jerison está</p><p>justificado em sua afirmação.</p><p>A mudança mais óbvia no cérebro do hominídeo em sua</p><p>trajetória evolutiva foi, como observado, um triplicamento em</p><p>tamanho. Entretanto, o tamanho não foi a única mudança; a</p><p>organização geral também mudou. Os cérebros dos macacos e</p><p>dos humanos são construídos de acordo com o mesmo padrão</p><p>básico: ambos são divididos em hemisférios esquerdo e direito,</p><p>cada um dos quais tem quatro lobos distintos: frontal, parietal,</p><p>temporal e occipital. Nos macacos, os lobos occipitais (na parte</p><p>de trás do cérebro) são maiores do que os lobos frontais; nos</p><p>humanos, o padrão é revertido, com grandes lobos frontais e</p><p>pequenos lobos occipitais. Esta diferença em organização é</p><p>presumivelmente subjacente de algum modo à criação da</p><p>mente humana como oposta à mente do macaco. Se</p><p>soubéssemos quando a mudança na configuração ocorreu na</p><p>pré-história humana, teríamos uma pista sobre a emergência</p><p>da mente humana.</p><p>Felizmente, a superfície externa do cérebro deixa um mapa de</p><p>seu contorno sobre a superfície interna do crânio. Fazendo um</p><p>molde de látex da superfície interna de um crânio fossilizado, é</p><p>possível obter-se uma imagem de um cérebro antigo. A história</p><p>que emerge de uma investigação deste tipo é dramática, como</p><p>Dean Falk descobriu em seus estudos de uma série de crânios</p><p>fossilizados oriundos da África Oriental e do Sul. “O cérebro do</p><p>australopitecíneo é essencialmente semelhante ao do macaco</p><p>em sua organização”, afirma ela, referindo-se aos tamanhos</p><p>relativos dos lobos frontal e occipital. “A organização</p><p>humanóide está presente nas espécies primitivas de Homo.”</p><p>Vimos que muitos aspectos da biologia hominídea, tais como a</p><p>estatura do corpo e padrões de desenvolvimento durante o</p><p>crescimento, modificaram-se quando a primeira espécie de</p><p>Homo</p><p>139139</p><p>evoluiu — modificações estas que vejo como sinalizadoras de</p><p>uma mudança para um novo nicho adaptativo de caça e coleta.</p><p>A mudança na organização assim como no tamanho do</p><p>cérebro é portanto neste ponto consistente e faz sentido</p><p>biológico. O quanto da mente humana está neste momento no</p><p>lugar, porém, é menos fácil de se determinar. Precisamos</p><p>saber a respeito das mentes de nossos parentes mais</p><p>próximos, os macacos, antes que possamos enfrentar esta</p><p>questão.</p><p>Os primatas são a quintessência das criaturas sociais. Apenas</p><p>umas poucas horas com um grupo de macacos é suficiente</p><p>para obter-se um sentido da importância que a interação tem</p><p>para seus membros. Alianças estabelecidas são</p><p>constantemente testadas e mantidas; novas alianças são</p><p>exploradas; amigos são socorridos, rivais desafiados; e uma</p><p>vigilância constante é mantida em busca de oportunidades de</p><p>acasalamento.</p><p>Os primatologistas Dorothy Cheney e Robert Seyfarth, da</p><p>Universidade da Pensilvânia, devotaram anos de observação e</p><p>registro da vida de vários grupos de macacos vervet * no Parque</p><p>*</p><p>Tipo de macaco africano, Cercopithecus aethiops pygerythrus, identificado por</p><p>uma mancha de cor ferruginosa na base da cauda. (N. do T.)</p><p>Nacional Amboseli, no Quênia. Para o observador casual dos</p><p>macacos, surtos de atividades, as quais são muitas vezes</p><p>agressivas, podem parecer um caos social. Entretanto,</p><p>conhecendo os indivíduos, conhecendo quem está relacionado</p><p>com quem, e conhecendo a estrutura das alianças e rivalidade,</p><p>Cheney e Seyfarth são capazes de dar sentido</p><p>ao caos</p><p>aparente. Eles descrevem um encontro típico: “Uma fêmea,</p><p>Newton, pode investir sobre outra, Tycho, enquanto disputa</p><p>uma fruta. Quando Tycho se afasta, a irmã de Newton, Charing</p><p>Cross, corre para ajudar a espantá-la. Enquanto isso,</p><p>Wormwood Scrubs, outra irmã de Newton, corre para a irmã de</p><p>TVcho, Holborn, que está se alimentando afastada uns 180</p><p>metros, e a golpeia na cabeça.”</p><p>O que começa como um conflito entre dois indivíduos expande-</p><p>se rapidamente e passa a incluir amigos e parentes, e pode ser</p><p>influenciado por surtos recentes e similares de agressão. “Não</p><p>apenas as macacas devem predizer o comportamento mútuo,</p><p>mas também avaliar as relações que elas têm umas com as</p><p>outras”, explicam Cheney e Seyfarth. “Uma macaca</p><p>confrontada com todo este tumulto não pode contentar-se</p><p>simplesmente em aprender quem lhe é dominante ou quem lhe</p><p>é subordinado; ela deve também</p><p>140140</p><p>saber quem está aliado com quem, e quem tem tendência a</p><p>ajudar uma oponente.” As exigências mentais de monitorar</p><p>alianças sociais são a chave para um paradoxo na</p><p>primatologia, argumenta Nicholas Humphrey, psicólogo na</p><p>Universidade de Cambridge.</p><p>É este o paradoxo: “Tem sido repetidamente demonstrado em</p><p>situações artificiais no laboratório que macacos antropóides</p><p>possuem poderes impressionantes de raciocínio criativo”, expli-</p><p>ca Humphrey, “e, ainda assim, estes feitos de inteligência</p><p>simplesmente não têm quaisquer paralelos no comportamento</p><p>destes mesmos animais em seu meio ambiente natural. Ainda</p><p>não ouvi falar de nenhum exemplo de campo de um chimpanzé</p><p>(...) que faz uso de sua capacidade total de raciocínio inferente</p><p>na solução de um problema prático biologicamente relevante.”</p><p>O mesmo pode ser dito a respeito dos humanos, comenta</p><p>Humphrey. Suponha, por exemplo, que Einstein fosse</p><p>observado como os primatologistas observam os chimpanzés,</p><p>por meio de um par de binóculos de campo. Apenas raramente</p><p>veriam eles cintilações do gênio de um grande homem. “No</p><p>mundo comum dos assuntos práticos, ele não usou o seu</p><p>gênio, pois não precisou usá-lo.”</p><p>Ou a seleção natural foi generosa ao fazer os primatas —</p><p>inclusive os humanos — mais espertos do que realmente preci-</p><p>sam ser, ou sua vida cotidiana é mais exigente do ponto de</p><p>vista intelectual do que parece ser para um observador externo.</p><p>Humphrey chegou à conclusão de que a segunda destas</p><p>alternativas é a correta: especificamente, que os elos sociais da</p><p>vida do primata apresentam um duro desafio intelectual. O</p><p>principal papel de intelecto criativo, sugere ele, é “manter a</p><p>sociedade unida”.</p><p>Os primatologistas agora sabem que a rede de alianças dentro</p><p>dos grupos de primatas é extremamente complexa. Aprender</p><p>as complicações de tal rede, como os indivíduos devem fazer</p><p>se quiserem ter sucesso, é suficientemente difícil. Mas a tarefa</p><p>torna-se muito mais difícil em razão da constante mudança de</p><p>alianças, na medida em que os indivíduos procuram de modo</p><p>incessante aumentar o seu poder político. Sempre cuidando de</p><p>seus interesses, e dos interesses de seus parentes próximos,</p><p>os indivíduos podem algumas vezes achar vantajoso romper as</p><p>alianças existentes e formar novas, mesmo, talvez, com antigos</p><p>rivais. Os membros do grupo encontram-se portanto em meio a</p><p>padrões de alianças variáveis, e exige-se um intelecto aguçado</p><p>para jogar o jogo sempre em mutação que Humphrey chama</p><p>xadrez social.</p><p>Os jogadores do xadrez social devem ser mais hábeis do que</p><p>os jogadores deste jogo de mesa antigo, pois não apenas as</p><p>peças</p><p>141141</p><p>mudam de identidade de modo imprevisível — cavalos viram</p><p>bispos, peões viram torres, e assim por diante — mas também</p><p>ocasionalmente aliados trocam de lado e tornam-se inimigos.</p><p>Os jogadores do xadrez social devem estar constantemente</p><p>alertas, à espreita de uma vantagem potencial, e precavidos</p><p>contra uma desvantagem inesperada. Como eles o fazem?</p><p>Para os indivíduos nas sociedades de primatas o desafio é ser</p><p>capaz de prever o comportamento dos outros. Uma maneira</p><p>seria os indivíduos terem um grande banco mental em seus</p><p>cérebros, que armazenasse todas as ações possíveis de seus</p><p>companheiros de grupo e suas respostas apropriadas. Este é o</p><p>modo pelo qual o poderoso programa de computador Deep</p><p>Thought (Pensamento Profundo) obtém o status de Grande</p><p>Mestre no xadrez. Entretanto, computadores são muito mais</p><p>rápidos do que cérebros de seres vivos o são na busca através</p><p>de todas as combinações possíveis apropriadas para um</p><p>determinado conjunto de circunstâncias. É necessário algum</p><p>outro modo. Se, por exemplo, os indivíduos fossem capazes de</p><p>monitorar o seu próprio comportamento, em vez de operar</p><p>simplesmente como autômatos computadorizados, então eles</p><p>desenvolveriam um senso heurístico do que fazer sob certas</p><p>circunstâncias. Por extrapolação, eles poderiam ser então</p><p>capazes de prever o comportamento dos outros sob as</p><p>mesmas circunstâncias. Esta habilidade de monitoramento, que</p><p>Humphrey chama o Olho Interior, é uma definição de cons-</p><p>ciência, e conferiria considerável vantagem evolutiva aos indiví-</p><p>duos que a possuíssem.</p><p>Uma vez estabelecida a consciência, não houve mais volta,</p><p>pois os indivíduos menos dotados estariam em desvantagem.</p><p>Da mesma forma, aqueles com uma pequena vantagem seriam</p><p>ainda mais favorecidos. Uma corrida armamentista se seguiria,</p><p>conduzindo o processo sempre para a frente, estimulando a</p><p>inteligência e aperfeiçoando a autopercepção. À medida que o</p><p>Olho Interior tornou-se cada vez mais observador,</p><p>inexoravelmente emergiria um sentido real do eu, uma</p><p>consciência refletiva, um Eu Interior.</p><p>A hipótese, que é parte do desenvolvimento da hipótese da</p><p>inteligência social, atraiu muito interesse e apoio. Em um artigo</p><p>de revisão de estudos de primatas publicado em 1986 na</p><p>revista Science, Cheney, Seyfarth e Barbara Smuts chamaram</p><p>a atenção para a importância da inteligência em contextos</p><p>sociais, quando comparada com sua importância em satisfazer</p><p>as exigências da tecnologia. E Robin Dunbar examinou as</p><p>diferentes quantidades de córtex cerebral — a parte “pensante”</p><p>do cérebro — em várias</p><p>142142</p><p>espécies de primatas. Ele descobriu que as espécies que</p><p>viviam em grandes grupos, e portanto deparavam com os jogos</p><p>mais complexos do xadrez social, tinham o córtex cerebral</p><p>maior. “Isto é consistente com a hipótese da inteligência social”,</p><p>conclui ele.</p><p>Duas linhas de indícios têm sido importantes na revolução da</p><p>compreensão do comportamento animal — a revolução que</p><p>erodiu o dogma behaviorista que afirma que os animais não</p><p>têm mentes. Uma foi um conjunto pioneiro de experiências</p><p>projetadas para detectar a autopercepção — isto é, sinais de</p><p>auto-reconhecimento — em animais que não os humanos. A</p><p>segunda envolvia a busca de sinais de engodo tático nos</p><p>primatas em seu habitat natural.</p><p>Uma experiência tão privada quanto a consciência está</p><p>frustrantemente além dos métodos usuais do psicólogo</p><p>experimental. Esta pode ser uma das razões por que muitos</p><p>pesquisadores afastaram-se assustados da noção de mente e</p><p>consciência nos animais não humanos. Entretanto, no final da</p><p>década de 1960, Gordon Gallup, psicólogo da State University</p><p>of New York, em Albany, projetou um teste para o sentido do</p><p>eu: o teste do espelho. Se um animal fosse capaz de</p><p>reconhecer sua imagem refletida em um espelho como seu</p><p>“eu”, então poderíamos dizer que ele possui uma percepção do</p><p>eu, ou consciência. Os donos de animais de estimação sabem</p><p>que cães e gatos reagem à sua imagem em um espelho, mas</p><p>muitas vezes estes a tratam como um outro indivíduo cujo</p><p>comportamento em pouco tempo torna-se intrigante e depois</p><p>aborrecido. (Não obstante, estes mesmos donos de animais de</p><p>estimação jurarão que seu gato ou cachorro tem</p><p>autopercepção.)</p><p>O experimento — que ocorreu a Gallup numa manhã enquanto</p><p>se barbeava—demandava a familiarização do animal com o</p><p>espelho e a seguir a marcação da sua testa com uma pequena</p><p>mancha vermelha. Se o animal percebesse que a imagem</p><p>refletida fosse apenas</p><p>um outro indivíduo, poderia ficar</p><p>intrigado com a curiosa mancha vermelha e poderia mesmo</p><p>tocar o espelho. Mas se o animal percebesse que a imagem</p><p>era de si mesmo, ele provavelmente tocaria a mancha em seu</p><p>próprio corpo. Da primeira vez que Gallup tentou fazer a</p><p>experiência com um chimpanzé, o animal agiu como se</p><p>soubesse que era a sua própria imagem; ele tocou a mancha</p><p>vermelha em sua testa. O relato de Gallup sobre a experiência,</p><p>publicado em um artigo de 1970 na revista Science, constitui</p><p>um marco na nossa compreensão das mentes dos animais, e</p><p>os psicólogos perguntaram-se o quão amplamente</p><p>disseminado o auto-reconhecimento se mostraria ser.</p><p>143143</p><p>Não muito, é a resposta. Os orangotangos passaram no teste,</p><p>mas, surpreendentemente, os gorilas não. Em situações menos</p><p>formais, alguns observadores alegam ter visto gorilas usar</p><p>espelhos como se reconhecessem a própria imagem, o que</p><p>eles consideram indicação de sentido do eu nestes animais.</p><p>Um Rubicão mental, com a autopercepção em uma margem e</p><p>sua ausência na outra, faria sentido se a margem em que se</p><p>encontra a autopercepção incluísse os humanos e os grandes</p><p>macacos, ficando o resto dos primatas e outros animais na</p><p>outra. Entretanto, alguns primatologistas consideraram esta</p><p>divisão demasiado exclusiva, dadas as suas observações da</p><p>complexa vida social de muitas espécies de símios. Um teste</p><p>para esta exclusividade surgiu recentemente, o teste do</p><p>“engodo tático”.</p><p>Andrews Whiten e Richard Byrne, da Universidade de Saint</p><p>Andrews, na Escócia, cunharam este termo, que eles definem</p><p>como “a capacidade de um indivíduo utilizar uma 'ação</p><p>honesta' de seu repertório normal em um contexto diferente, de</p><p>maneira tal que mesmo indivíduos familiares são enganados”.</p><p>Em outras palavras, um animal mente intencionalmente para</p><p>outro. Para ser capaz de enganar intencionalmente, um animal</p><p>deve ter um sentido de como suas ações parecem para um</p><p>outro indivíduo. Esta habilidade exige autopercepção. Se o</p><p>engodo realmente acontece, ele é provavelmente raro: como o</p><p>garoto que gritou “Lobo!”, você não pode aplicá-lo</p><p>seguidamente se quiser preservar sua credibilidade.</p><p>Byrne e Whiten ficaram interessados no engodo depois de ver</p><p>diversos exemplos do que poderia ser interpretado como tal em</p><p>um grupo de babuínos que eles estavam observando nas mon-</p><p>tanhas Drakensberg, no sul da África. Por exemplo, um dia</p><p>Paul, um macho adolescente, aproximou-se de Mel, uma fêmea</p><p>adulta, que estava empenhada em desenterrar um tubérculo</p><p>suculento. Paul olhou à sua volta e viu que nenhum outro</p><p>babuíno estava por perto, embora tivesse certeza de que não</p><p>estavam muito longe. Paul deixou escapar um grito penetrante,</p><p>como se estivesse em perigo. A mãe de Paul, que era</p><p>dominante em relação a Mel, reagiu como qualquer mãe</p><p>protetora o faria: ela correu para a cena e enxotou Mel, a</p><p>atacante aparente. Paul então comeu, de maneira casual, o</p><p>tubérculo abandonado. Teria Paul pensado: “Hmmm, se eu</p><p>gritar, minha mãe pensará que Mel está me atacando. Ela cor-</p><p>rerá para defender-me, e eu serei deixado com o suculento</p><p>tubérculo e poderei comê-lo?” Se verdadeiro, isto seria um</p><p>exemplo de engodo tático.</p><p>144144</p><p>Byrne e Whiten acharam que poderia ser verdadeiro, e, infor-</p><p>malmente, reuniram seus colegas primatologistas em torno de</p><p>suas observações de campo. Muitas histórias similares à de</p><p>Paul foram contadas, embora poucas tivessem constituído</p><p>páginas da literatura científica, já que eram anedóticas e</p><p>portanto não-científicas. Byrne e Whiten efetuaram</p><p>levantamentos com mais de uma centena de seus colegas, em</p><p>1985 e novamente em 1989, solicitando-lhes relatos de</p><p>supostos engodos táticos. Eles receberam mais de trezentos.</p><p>Os exemplos não se limitavam a observações com macacos</p><p>mas incluíam também observações com macaquinhos</p><p>arborícolas. Interessantemente, ninguém alegou ter visto</p><p>engodo tático em outros primatas, tais como os lemuróides e</p><p>bush babies, a não ser nos macacos e macaquinhos</p><p>arborícolas.</p><p>O problema com que os primatologistas deparam ao procurar</p><p>indícios de engodo tático é este: será a ação verdadeiramente</p><p>um exemplo de raciocínio individual, com base num sentido do</p><p>eu? Ou será ela meramente o resultado do aprendizado, que</p><p>não exige um sentido do eu? Paul, por exemplo, pode ter</p><p>simplesmente aprendido que, sob as circunstâncias que</p><p>encontrou, seu grito lhe daria acesso ao tubérculo de Mel;</p><p>neste caso sua ação seria uma resposta aprendida e não um</p><p>ato de engodo tático.</p><p>Quando Byrne e Whiten aplicaram critérios estritos aos su-</p><p>postos exemplos de engodo tático, descartando, o mais</p><p>cuidadosamente possível, possibilidades de aprendizado,</p><p>descobriram que, dos 253 casos reunidos na pesquisa de</p><p>1989, apenas 16 poderiam ser considerados, verdadeiramente,</p><p>de engodo tático. Todos estes casos eram com macacos, e a</p><p>maioria chimpanzés. Darei um exemplo, que foi observado pelo</p><p>primatologista holandês Frans Plooy na reserva Gombe</p><p>Stream, na Tanzânia.</p><p>Um chimpanzé macho adulto estava sozinho na área de ali-</p><p>mentação quando uma caixa foi aberta eletronicamente,</p><p>revelando a presença de bananas. Neste momento, chegou um</p><p>segundo chimpanzé. Então o primeiro rapidamente fechou a</p><p>caixa e afastou-se indiferente, olhando como se nada de mais</p><p>estivesse acontecendo. Ele esperou até o intruso partir, e então</p><p>rapidamente abriu a caixa e apoderou-se das bananas. Porém,</p><p>ele havia sido enganado. O intruso não havia ido embora mas</p><p>sim se escondido, e esperava para ver o que estava</p><p>acontecendo. O pretenso trapaceiro havia sido trapaceado.</p><p>Este é um exemplo convincente de engodo tático.</p><p>Observações como esta abrem uma janela para a mente dos</p><p>chimpanzés. Estes animais evidentemente possuem um grau</p><p>sig-</p><p>145145</p><p>nificativo de consciência reflexiva, uma conclusão que os</p><p>pesquisadores que trabalham com chimpanzés diariamente</p><p>endossam com entusiasmo. Os chimpanzés exibem um forte</p><p>sentido de percepção na maneira pela qual interagem uns com</p><p>os outros e com os humanos. Eles são capazes de ler a mente</p><p>como os humanos o são, mas de modo mais limitado.</p><p>Nos humanos, a leitura da mente vai além de simplesmente</p><p>predizer o que os outros farão sob certas circunstâncias: ela</p><p>inclui como os outros podem estar se sentindo. Todos nós</p><p>temos a experiência da simpatia, ou empatia, pelos outros</p><p>quando estes enfrentam situações que sabemos ser dolorosas</p><p>ou aflitivas. De modo vicário, experimentamos a angústia dos</p><p>outros, algumas vezes tão intensamente que chegamos a</p><p>sofrer dores físicas. A mais pungente das experiências vicárias</p><p>na sociedade humana é o medo da morte, ou simplesmente a</p><p>percepção da morte, que tem desempenhado um papel muito</p><p>importante na construção de mitologias e religiões. A despeito</p><p>de sua autopercepção, os chimpanzés no máximo parecem</p><p>intrigados com a morte. Há muitos relatos anedóticos de</p><p>indivíduos, ou mesmo famílias, aflitas ou desorientadas quando</p><p>um parente morre. Por exemplo, quando um bebê morre, sua</p><p>mãe algumas vezes carrega o diminuto corpo a esmo durante</p><p>alguns dias antes de descartar-se dele. A mãe parece estar</p><p>experimentando uma sensação de aturdimento e não o que</p><p>chamamos pesar. Mas, como sabê-lo? Mais significativo,</p><p>talvez, é a falta do que reconheceríamos como simpatia pela</p><p>mãe despojada por parte dos outros indivíduos. O que quer</p><p>que a mãe esteja sofrendo, ela sofre sozinha. A limitação dos</p><p>chimpanzés em ter empatia com os outros estende-se a si</p><p>próprios como indivíduos: ninguém viu indícios de que os</p><p>chimpanzés estão cientes de sua própria mortalidade, de uma</p><p>morte iminente. Mas, novamente, como sabê-lo?</p><p>O que podemos dizer sobre a autopercepção de nossos an-</p><p>cestrais? Uns 7 milhões de anos já se passaram desde que os</p><p>humanos e os chimpanzés compartilharam um ancestral</p><p>comum. Nós, portanto, devemos ser cautelosos em assumir</p><p>que os chimpanzés permaneceram inalterados, e que olhando</p><p>para eles estamos efetivamente olhando para aquele ancestral</p><p>comum. Os chimpanzés</p><p>1818</p><p>tou a teoria da seleção natural, independente de Darwin —</p><p>recusou-se a aplicar a teoria àqueles aspectos da humanidade</p><p>que mais valorizamos. Ele considerava os humanos demasiado</p><p>inteligentes, refinados, sofisticados, para terem sido o produto</p><p>de simples seleção natural. Caçadores e coletores primitivos</p><p>não teriam tido necessidade biológica destas qualidades,</p><p>raciocinava ele, e deste modo não poderiam ter surgido pela</p><p>seleção natural. A intervenção sobrenatural, achava ele, deve</p><p>ter concorrido para fazer os humanos tão especiais. A falta de</p><p>convicção de Wallace no poder da seleção natural deixou</p><p>Darwin muito abalado.</p><p>O paleontólogo escocês Robert Broom, cujo trabalho pioneiro</p><p>na África do Sul nos anos 30 e 40 ajudou a estabelecer a África</p><p>como o berço da humanidade, também expressou pontos de</p><p>vista fortes em relação à distinção humana. Ele acreditava que</p><p>o Homo sapiens era o produto final da evolução e que o resto</p><p>da natureza havia sido moldada para seu conforto. Como</p><p>Wallace, Broom buscava forças sobrenaturais na srcem da</p><p>nossa espécie.</p><p>Cientistas como Wallace e Broom debatiam-se entre forças</p><p>conflitantes, uma intelectual, outra emocional. Eles aceitavam o</p><p>fato de que o Homo sapiens srcinava-se em última instância</p><p>da natureza pelo processo de evolução, mas sua crença na</p><p>espiritualidade essencial, ou essência transcendente, da</p><p>humanidade levou-os a construir para a evolução explicações</p><p>que mantinham a distinção humana. O “pacote” evolutivo</p><p>corporificado na descrição de Darwin de 1871 das srcens</p><p>humanas oferecia esta racionalização. Embora Darwin não</p><p>invocasse uma intervenção sobrenatural, já no começo seu</p><p>cenário evolutivo tornou os humanos diferentes dos simples</p><p>macacos.</p><p>O argumento de Darwin exerceu sua influência até pouco mais</p><p>de uma década atrás, e foi efetivamente responsável por uma</p><p>grande discussão sobre quando os humanos apareceram pela</p><p>primeira vez. Descreverei o incidente brevemente, porque ele</p><p>ilustra a sedução da hipótese de Darwin de evolução</p><p>correlacionada. Ele também marca o fim de sua influência</p><p>sobre o pensamento antropológico.</p><p>Em 1961, Elwyn Simons, então na Universidade Yale, publicou</p><p>um trabalho que tornou-se um marco científico e no qual ele</p><p>anunciou que uma pequena criatura semelhante ao macaco,</p><p>chamada Ramapithecus, foi a primeira espécie de hominídeo.</p><p>Os únicos restos fósseis do Ramapithecus conhecidos na</p><p>época eram partes de um maxilar superior que tinham sido</p><p>descobertas por um jovem pesquisador de Yale, G. Edward</p><p>Lewis, na índia em 1932. Simons viu que os dentes laterais (os</p><p>molares e pré-mola-</p><p>1919</p><p>res) eram de alguma forma humanoides. E viu que os caninos</p><p>eram mais curtos e rombudos do que os dos macacos. Simon</p><p>também afirmou que a reconstituição de um maxilar superior</p><p>incompleto mostraria que ele era humanóide na forma — isto é,</p><p>um arco, alargando-se suavemente para trás e não uma forma</p><p>em “U”, como nos macacos modernos.</p><p>Nesta época, David Pilbeam, um antropólogo britânico da</p><p>Universidade de Cambridge, uniu-se a Simon em Yale, e juntos</p><p>eles descreveram estas características anatômicas</p><p>supostamente humanoides do maxilar do Ramapithecus. Eles</p><p>foram mais longe do que a anatomia, contudo, e sugeriram,</p><p>com base apenas nos fragmentos de maxilar, que o</p><p>Ramapithecus caminhava ereto sobre os dois pés, caçava e</p><p>vivia em um meio ambiente social complexo. Seu raciocínio era</p><p>semelhante ao de Darwin: a presença de uma suposta</p><p>característica humana (a forma dos dentes) implicava a</p><p>existência das restantes. Assim, o que se pensava ser a pri-</p><p>meiríssima espécie de hominídeo começou a ser vista como</p><p>um animal cultural — isto é, como uma versão primitiva dos</p><p>humanos modernos em vez de um macaco aculturado.</p><p>Os sedimentos a partir dos quais os fósseis do Ramapithecus</p><p>srcinal foram recuperados eram antigos, como aqueles que</p><p>forneceram descobertas similares subseqüentes na Ásia e na</p><p>África. Simons e Pilbeam concluíram portanto que os primeiros</p><p>humanos apareceram há pelo menos 15 milhões de anos, e</p><p>possivelmente há 30 milhões de anos, e este ponto de vista foi</p><p>aceito pela grande maioria dos antropólogos. Mais ainda, a</p><p>crença em uma srcem tão antiga colocou uma distância</p><p>confortável entre os humanos e o resto da natureza, que</p><p>muitos acharam bem-vinda.</p><p>No final dos anos 60, dois bioquímicos da Universidade da</p><p>Califórnia, em Berkeley, Allan Wilson e Vincent Sarich,</p><p>chegaram a uma conclusão muito diferente sobre quando a</p><p>primeira espécie humana evoluiu. Em vez de trabalhar com</p><p>fósseis, eles compararam a estrutura de certas proteínas</p><p>sangüíneas de seres humanos vivos e dos macacos africanos.</p><p>Seu objetivo era determinar o grau de diferença estrutural entre</p><p>as proteínas humanas e as dos macacos — uma diferença que</p><p>deveria aumentar, em conseqüência das mutações, com uma</p><p>taxa calculável em relação ao tempo. Quanto mais tempo os</p><p>humanos e os macacos tivessem se apresentado como</p><p>espécies diferentes, maior o número de mutações que teriam</p><p>sido acumuladas. Wilson e Sarich calcularam a taxa de</p><p>mutações e foram portanto capazes de utilizar seus dados</p><p>sobre as proteínas do sangue como um relógio molecular.</p><p>2020</p><p>De acordo com o relógio, a primeira espécie humana evoluiu há</p><p>apenas uns 5 milhões de anos, uma descoberta que estava em</p><p>discordância dramática com os 15 a 30 milhões de anos da</p><p>teoria antropológica dominante. Os dados de Wilson e Sarich</p><p>também indicaram que as proteínas do sangue em humanos,</p><p>chimpanzés e gorilas são igualmente diferentes umas das</p><p>outras. Em outras palavras, algum tipo de evento evolutivo há 5</p><p>milhões de anos provocou a ramificação de um ancestral</p><p>comum em três direções simultaneamente — uma ramificação</p><p>que conduziu à evolução não somente dos humanos modernos</p><p>mas também dos chimpanzés e gorilas modernos. Isto também</p><p>era contraditório com o que a maioria dos antropólogos</p><p>acreditava. De acordo com o conhecimento convencional,</p><p>chimpanzés e gorilas são os parentes mais próximos uns dos</p><p>outros, com os humanos afastados a uma grande distância Se</p><p>a interpretação dos dados moleculares era válida, então os</p><p>antropólogos teriam que aceitar uma relação biológica muito</p><p>mais próxima entre humanos e macacos do que a maioria</p><p>acreditava.</p><p>Uma disputa feroz eclodiu, com os antropólogos e os bio-</p><p>químicos criticando as técnicas profissionais uns dos outros</p><p>com o uso dos termos mais duros. A conclusão de Wilson e</p><p>Sarich foi criticada com base, entre outras coisas, no fato de</p><p>que seu relógio molecular era errático e portanto não poderia</p><p>ser confiável para fornecer um tempo preciso para os eventos</p><p>evolutivos passados. Por sua vez, Wilson e Sarich</p><p>argumentaram que os antropólogos davam importância</p><p>interpretativa em demasia a características anatômicas</p><p>pequenas e fragmentadas, e eram assim conduzidos a</p><p>conclusões inválidas. Na época fiquei ao lado da comunidade</p><p>dos antropólogos, acreditando que Wilson e Sarich estavam</p><p>errados.</p><p>O debate durou por mais de uma década, durante a qual mais</p><p>e mais indícios moleculares foram apresentados — por Wilson</p><p>e Sarich e também de modo independente por outros</p><p>pesquisadores. A grande maioria destes novos dados apoiava</p><p>a alegação srcinal de Wilson e Sarich. O peso deste indício</p><p>começou a mudar a opinião dos antropólogos, mas a mudança</p><p>era lenta. Finalmente, no começo dos anos 80, descobertas de</p><p>espécimens muito mais completos de fósseis semelhantes ao</p><p>Ramapithecus, por Pilbeam e sua equipe no Paquistão e por</p><p>Peter Andrews, do Museu de História Natural de Londres, e</p><p>seus colegas na Turquia, resolveram a disputa (ver figura 1.1).</p><p>Os fósseis de Ramapithecus srcinais são na verdade</p><p>humanóides em alguns aspectos, mas a espécie não era</p><p>humana. A</p><p>2121</p><p>tarefa de inferir um elo evolutivo com base em indício</p><p>extremamente fragmentado é muito mais difícil do que a</p><p>maioria das pessoas percebe, e há muitas armadilhas para os</p><p>incautos. Simons e Pilbeam haviam caído em uma dessas</p><p>armadilhas: a similaridade anatômica</p><p>devem ter evoluído de várias maneiras</p><p>desde que divergiram da linhagem humana. Mas é plausível</p><p>sugerir que o ancestral comum, um macaco de cérebro grande</p><p>que vivia uma vida socialmente complexa, tivesse desenvolvido</p><p>um nível de consciência igual ao do chimpanzé.</p><p>146146</p><p>Vamos assumir que o ancestral comum dos humanos e dos</p><p>macacos africanos possuísse um nível de autopercepção</p><p>equivalente àquele dos chimpanzés modernos. A partir do que</p><p>sabemos sobre a biologia e a organização social das espécies</p><p>australopitecíneas, eles eram essencialmente macacos</p><p>bipédes: a estrutura social entre estas espécies não deveria ter</p><p>sido mais intensa do que vemos entre os babuínos modernos.</p><p>Portanto, não há razão irrefutável pela qual seu nível de</p><p>autopercepção devesse ter sido reforçado durante os primeiros</p><p>5 milhões de anos de existência da família humana.</p><p>As mudanças significativas que ocorreram com a evolução do</p><p>gênero Homo, no tamanho do cérebro, arquitetura da organi-</p><p>zação social e modo de subsistência, provavelmente também</p><p>marcaram o começo de uma mudança no nível de consciência.</p><p>Os começos do modo de vida de caça e coleta certamente</p><p>aumentaram a complexidade do xadrez social que nossos</p><p>ancestrais tinham que dominar. Hábeis jogadores — aqueles</p><p>equipados com um modelo mental mais sensível, uma</p><p>consciência mais desenvolvida — teriam desfrutado um maior</p><p>sucesso social e reprodutivo. Isto é proveitoso para a seleção</p><p>natural, que teria elevado a consciência para níveis cada vez</p><p>mais altos. Este desdobramento gradual da consciência</p><p>transformou-nos em um novo tipo de animal. Transformou-nos</p><p>em um animal que cria padrões arbitrários de comportamento</p><p>com base no que é considerado certo ou errado.</p><p>Muito disto, é claro, é especulação. Como podemos saber o</p><p>que aconteceu com o nível de consciência de nossos</p><p>ancestrais durante os 2,5 milhões de anos passados? Como</p><p>podemos detectar quando esta se tomou o que</p><p>experimentamos hoje? A dura realidade com que os</p><p>antropólogos deparam é que estas questões podem ser</p><p>irrespondíveis. Se tenho dificuldade em provar que um outro</p><p>ser humano tem o mesmo nível de consciência que eu, e se a</p><p>maioria dos biólogos recua ao tentar determinar o grau de</p><p>consciência nos animais não humanos, como podemos</p><p>discernir sinais de consciência reflexiva em criaturas mortas há</p><p>muito tempo? A consciência é ainda menos visível no registro</p><p>arqueológico do que a linguagem. Alguns comportamentos</p><p>humanos, tal como a expressão artística, quase certamente</p><p>refletem ambas, a linguagem e a percepção consciente.</p><p>Outros, como a fabricação de artefatos de pedra, podem, como</p><p>vimos, dar pistas sobre a linguagem mas não sobre a</p><p>consciência. Entretanto, há uma atividade humana que é plena</p><p>de consciência e que algumas vezes deixa sua marca no</p><p>registro arqueológico: o sepultamento deliberado dos mortos.</p><p>147147</p><p>A remoção ritual dos mortos fala claramente de uma percepção</p><p>da morte, e portanto de uma percepção do eu. Todas as socie-</p><p>dades têm maneiras pelas quais a morte é aceita como parte</p><p>de sua mitologia e religião. Há miríades de maneiras pelas</p><p>quais isto é feito nos tempos modernos, variando do cuidado</p><p>extensivo do cadáver durante um longo período, talvez</p><p>envolvendo a sua movimentação de uma locação especial para</p><p>outra depois de um período de um ano ou mesmo mais, até</p><p>uma atenção mínima ao corpo. Algumas vezes, mas não</p><p>freqüentemente, o ritual envolve o sepultamento. O</p><p>sepultamento ritual nas sociedades antigas ofereceria a</p><p>oportunidade para que a cerimônia se tornasse “congelada” no</p><p>tempo, disponível mais tarde a um arqueólogo disposto a</p><p>quebrar a cabeça com ela.</p><p>O primeiro indício de sepultamento deliberado na história</p><p>humana é o sepultamento neanderthal há não muito mais que</p><p>100 mil anos. Um dos sepultamentos mais pungentes</p><p>aconteceu um pouco mais tarde, há uns 60 mil anos, nas</p><p>montanhas Zagros ao norte do Iraque. Um macho adulto foi</p><p>enterrado na entrada de uma caverna; seu corpo</p><p>aparentemente havia sido colocado sobre uma câmara de</p><p>flores de potencial curativo, a julgar pelo pólen encontrado em</p><p>torno do esqueleto fossiüzado. Talvez, especularam alguns</p><p>antropólogos, ele tivesse sido um xamã. Antes de 100 mil anos</p><p>atrás, não há indício de qualquer tipo de ritual que pudesse</p><p>indicar uma consciência reflexiva. Nem, como observado no</p><p>capítulo 6, há qualquer forma de arte. É verdade que a</p><p>ausência de tais indícios não prova definitivamente a ausência</p><p>de consciência. Mas também não pode ser acrescentada como</p><p>apoio à existência da consciência. Acharia surpreendente,</p><p>porém, se os ancestrais imediatos dos povos sapiens antigos, o</p><p>desaparecido Homo erectus, não tivessem um nível de</p><p>consciência significativamente maior do que o dos chimpanzés.</p><p>Sua complexidade social, grande tamanho cerebral, e uma</p><p>provável habilidade lingüística, todos estes fatores apontam</p><p>para isto.</p><p>Os neanderthais, como já sugeri, e provavelmente outros</p><p>sapiens antigos, tinham realmente uma percepção da morte e</p><p>portanto, indubitavelmente, uma consciência reflexiva</p><p>altamente desenvolvida. Mas, teria ela a mesma luminosidade</p><p>que experimentamos hoje? Provavelmente não. A emergência</p><p>de uma linguagem completamente moderna e de uma</p><p>consciência também completamente moderna estavam sem</p><p>dúvida interligadas, cada uma alimentando-se da outra. Os</p><p>humanos modernos tornaram-se humanos quando passaram a</p><p>falar como nós e tiveram a expe-</p><p>146146</p><p>riência do eu como nós a temos. Nós certamente vemos</p><p>indícios disto na arte da Europa e da África a partir de 35 mil</p><p>anos atrás e no elaborado ritual que acompanhava o</p><p>sepultamento no Paleolítico Superior.</p><p>Toda sociedade humana tem um mito de srcem, a história</p><p>mais fundamental de todas. Estes mitos de srcem têm como</p><p>fonte a consciência reflexiva, a voz interior que procura</p><p>explicações para tudo. Desde que a consciência reflexiva</p><p>passou a arder brilhantemente na mente do homem, a</p><p>mitologia e a religião têm sido parte da história humana.</p><p>Mesmo nesta era científica, elas provavelmente continuarão a</p><p>fazê-lo. Um tema comum da mitologia é a atribuição de</p><p>motivações e emoções semelhantes às dos humanos a animais</p><p>não humanos — e mesmo a forças e objetos físicos tais como</p><p>montanhas e tempestades. Esta tendência de antropomorfizar</p><p>flui naturalmente a partir do contexto no qual a consciência está</p><p>envolvida. A consciência é uma ferramenta social utilizada na</p><p>compreensão do comportamento dos outros ao modelar este</p><p>comportamento de acordo com nossos próprios sentimentos. É</p><p>uma extrapolação simples e natural imputar estas mesmas</p><p>motivações a aspectos do mundo que são inumanos mas não</p><p>obstante importantes.</p><p>Animais e plantas são fundamentais para a sobrevivência de</p><p>coletores-caçadores, assim como os elementos naturais, que</p><p>nutrem o meio ambiente. A vida, como um intercâmbio</p><p>complexo de todos estes elementos, é vista como um</p><p>intercâmbio de ações intencionais, exatamente como o nexo</p><p>social. Portanto, não é surpreendente que os animais e as</p><p>forças físicas desempenhem um papel importante na mitologia</p><p>dos povos que vivem à procura de alimentos em todo o mundo.</p><p>A mesma coisa deve ter sido válida no passado.</p><p>Na minha visita a muitas das cavernas decoradas da França há</p><p>uma década, este pensamento ocorria-me constantemente. As</p><p>imagens que vi diante de mim, algumas simplesmente esboços,</p><p>algumas trabalhadas com detalhes, eram sempre muito fortes</p><p>no que diz respeito ao seu impacto sobre minha mente, mas</p><p>elusivas em seu significado. As figuras meio humanas e meio</p><p>animais, em particular, desafiaram minha imaginação e a</p><p>derrotaram. Eu estava certo de estar na presença de elementos</p><p>do mito de srcem de um povo antigo, mas não tinha modo de</p><p>vê-lo. Sabemos da história recente que o eland tem uma</p><p>miríade de poderes espirituais para o povo San do sul da</p><p>África. Mas podemos apenas especular</p><p>149149</p><p>sobre o papel que o cavalo e o bisão desempenhavam na vida</p><p>espiritual dos europeus da Idade do Gelo. Sabemos que</p><p>eles</p><p>eram poderosos mas não temos idéia de que modo.</p><p>Parado em frente às figuras de bisões em Le Tuc d’Audoubert,</p><p>senti a conexão entre mentes humanas através dos milênios: a</p><p>mente dos escultores daquelas figuras e a minha própria — a</p><p>mente do observador. E senti a frustração de estar distante do</p><p>mundo dos artistas, não porque estivéssemos separados no</p><p>tempo, mas porque estávamos separados por nossas culturas</p><p>diferentes. Este é um dos paradoxos do Homo sapiens: temos</p><p>a experiência da unidade e da diversidade de uma mente</p><p>moldada por eras de vida como coletor-caçador. E temos a</p><p>experiência de sua diversidade em diferentes culturas —</p><p>expressas na linguagem, costumes e religiões — que nós</p><p>criamos e que nos criam. Deveríamos alegrar-nos com um</p><p>produto tão maravilhoso da evolução.</p><p>150150</p><p>Bibliografia e leituras adicionais</p><p>PREFÁCIOPREFÁCIO</p><p>Leakey, Richard E., e Roger Lewin, Origins (Nova York: E. P.</p><p>Dutton, 1977).</p><p>-----------, Origins Reconsidered (Nova York: Doubleday, 1992).</p><p>Tattersall, Ian, The Human Odyssey (Nova York: Prentice Hall,</p><p>1993).</p><p>1. OS PRIMEIROS HUMANOS1. OS PRIMEIROS HUMANOS</p><p>Broom, Robert, The Coming of Man: Was It Accident or</p><p>Design? (Nova York: Witherby, 1933).</p><p>Coppens, Yves, “East Side Story: The Origin of Humankind,''</p><p>Scientific American, maio de 1944, pgs. 88-95.</p><p>Darwin, Charles, The Descent of Man (Londres: John Murray,</p><p>1871). Lewin, Roger, Bowes of Contention (Nova York:</p><p>Touchstone, 1988).</p><p>Lovejoy, Owen, “The Origin of Man”, Science 211 (1981): 341-</p><p>350. [Veja as respostas no número 217 (1982) da mesma</p><p>revista: 295-306.]</p><p>-----------, The Evolution of Human Walking”, Scientific</p><p>American, novembro de 1988, pgs. 118-125.</p><p>Pilbeam, David, “Hominoid Evolution and Hominoid Origins”,</p><p>American Anthropologist , 88 (1986): 29&312.</p><p>Rodman, Peter, e Henry M. McHenry, “Bioenergetics of</p><p>Hominid Bipedalism”, American Journal of Physical</p><p>Anthropology 52 (1980): 103-106.</p><p>Sarich, Vincent M., “A Personal Perspective on Hominoid</p><p>Macromolecular Systematics”, em New Interpretations of Ape</p><p>and Human Ancestry , editado por Rüssel L. Ciochon e Robert</p><p>S. Corruccini (Nova York: Plenum Press, 1983), pgs. 135-150.</p><p>Wallace, Alfred Rüssel, Darwinism (Londres: Macmillan, 1889).</p><p>2. UMA FAMÍLIA NUMEROSA2. UMA FAMÍLIA NUMEROSA</p><p>Foley, Robert A., Another Unique Species (Harlow, Essex:Longman Scientific and Technical, 1987).</p><p>-----------, “How Many Species of Hominid Should There Be?”</p><p>Journal of Human Evolution 20 (1991): 413429.</p><p>Johanson, Donald C. e Maitland A. Edey, Lucy: The Beginnings</p><p>of Humankind (Nova York: Simon & Schuster, 1981).</p><p>Johanson, Donald C. e Tim D. White, “A Systematic</p><p>Assessment of Early African Hominds”, Science 202 (1979):321-330.</p><p>Leakey, Richard E. The Making of Mankind (Nova York: E. P.</p><p>Dutton, 1981).</p><p>Schick, Kathy D. e Nicholas Toth, Making Stones Speak (Nova</p><p>York: Simon & Schuster, 1993).</p><p>Susman, Randall L. e Jack Stern, “The Locomotor Behavior of</p><p>Australopithecus afaren-sis”, American Journal of Physical</p><p>Anthropology 60 (1983): 279-317.</p><p>Susman, Randall L., et al. “Arboreality and Bipedality in the</p><p>Hadar Hominids”, Folia Primatologica 43 (1984): 113-156.</p><p>151151</p><p>Toth, Nicholas, “Archaeologies; Evidence for Preferential Right-</p><p>Handedness in “The Lower Pleistocene, and Its Possible</p><p>Implications”, Journal of Human Evolution 14 (1985): 607-614.</p><p>------------, “The First Technology”, Scientific American, abril</p><p>1987,112-121.</p><p>Wynn, Thomas, e William C. McGrew, “An Ape's View of the</p><p>Oldowan”, Man 24 (1989): 383-398.</p><p>3. UM TIPO DIFERENTE DE HUMANO3. UM TIPO DIFERENTE DE HUMANO</p><p>Aiello, Leslie, “Patterns of Stature and Weight in Human</p><p>Evolution”, American Journal of Physical Anthropology 81</p><p>(1990): 186-187.</p><p>Bogin, Barry, The Evolution of Human Childhood”, Bioscience 40 (1990): 16-25.</p><p>Foley, Robert A., e Phyllis E. Lee, “Finite Social Space,</p><p>Evolutionary Pathways, and Reconstructing Hominid Behavior”,</p><p>Science 143 (1989): 901-906.</p><p>Martin, RobertD., “Human Brain Evolution in an Ecological</p><p>Context”, The Fifty-second James Arthur Lecture on the Human</p><p>Brain (Nova York: American Museum of Natural History, 1983).</p><p>Spoor, Fred, et al., “Implications of Early Hominid Labyrinthine</p><p>Morphology for Evolution of Human Bipedal Locomotion”,</p><p>Nature 369 (1994): 645-648.</p><p>Stanley, Steven M., “An Ecological Theory for the Origin of</p><p>Homo”, Paleobiology 18 (1992): 237-157.</p><p>Walker, Alan, e Richard E. Leakey, The Nariokotome Homo</p><p>erectus Skeleton (Cambridge: Harvard University Press, 1993).</p><p>Wood, Bernard, “Origin and Evolution of the Genus Homo”,</p><p>Nature 355 (1992): 783-790.</p><p>4. HOMEM, O NOBRE CAÇADOR?4. HOMEM, O NOBRE CAÇADOR?</p><p>Ardrey, Robert, The Hunting Hypothesis (Nova York:</p><p>Atheneum, 1976).</p><p>Binford, Lewis, Bones: Ancient Men and Modern Myth (San</p><p>Diego: Academic Press, 1981).</p><p>------------, “Human Ancestors: Changing Views of their</p><p>Behavior”, Journal of Antropológical Archaeology 4 (1985): 292-</p><p>327.</p><p>Bunn, Henry, e Ellen Kroll, “Systematic Butchery by</p><p>Plio/Pleistocene Hominids at Olduvai Gorge,Tanzania”, Current</p><p>Antropology 27 (1986): 4321-452.</p><p>Bunn, Henry, et al., “FxJj50: An Early Pleistocene Site in</p><p>Northern Kenya”, World Archaeology 12 (1980): 109-136.</p><p>Isaac, Glynn, “The Sharing Hypothesis”, Scientific American,</p><p>abril 1978,90-106.</p><p>------------, “Aspects of Human Evolution”, em Evolution from</p><p>Molecules to Man, D. S. Bendall, ed. (Cambridge: Cambridge</p><p>University Press, 1983).</p><p>Lee, Richard B., e Irven De Vore, eds., Man the Hunter</p><p>(Chicago: Aldine, 1968). Potts, Richard, Early Hominid Activities</p><p>at Olduvai (Nova York: Aldine, 1988).</p><p>Robinson, John T., “Adaptive Radiation in the</p><p>Australopithecines and the Origin of Man”, in F. C. Howell e</p><p>Bourliere F., eds., African Ecology and Human Evolution</p><p>(Chicago: Aldine, 1963), 385-416.</p><p>Sept, Jeanne M., “A New Perspective on Hominid Archeologica;</p><p>Sites from the Mapping of Chimpanzee Nests”, Current</p><p>Antropology 33 (1992): 187-208.</p><p>Shipman, Pat, “Scavenging or Hunting in Early Hominids?”</p><p>American Anthropologist 88 (1986): 27-43.</p><p>Zihlman, Adrienne, “Women the Shapers of the Human</p><p>Adaptation”, em Woman the Gatherer , Frances Dahlberg, ed.</p><p>(New Haven: Yale University Press, 1981)</p><p>5. A ORIGEM DOS HUMANOS MODERNOS5. A ORIGEM DOS HUMANOS MODERNOS</p><p>Klein, Richard G., “The Archeology of Modern Humans”,</p><p>Evolutionary Antropology 1 (1992): 5-14.</p><p>152152</p><p>Lewin, Roger, The Origin of Modern Humans (Nova York: W. H.</p><p>Freeman, 1993).</p><p>Mellars, Paul, “Major Issues in the Emergence of Modern</p><p>Humans”, Current Antropology 30 (1989): 349-385.</p><p>Mellars, Paul, e Christopher Stringer, eds., The Human</p><p>Revolution: Behavioural and Biological Perspectives on the</p><p>Origins of Modem Humans (Edimburgo: Edinburgh University</p><p>Press, 1989).</p><p>Rouhani, Shahin, “Molecular Genetics and the Pattern of</p><p>Human Evolution”, em The Human Revolution, Mellars e</p><p>Stringer, eds.</p><p>Stringer, Christopher, “The Emergence of Modern Humans”,</p><p>Scientific American, dezembro 1990, pp. 98-104.</p><p>Stringer, Christopher, e Clive Gamble, In Search of</p><p>Neanderthals (Londres: Thames & Hudson, 1993).</p><p>Thome, Alan G., e Milford H. Wolpoff, “The Multiregional</p><p>Evolution of Humans”, Scientific American, abril 1992, pp. 76-</p><p>83.</p><p>Trinkaus,Erik, e Pat Shipman, The Neanderthal (Nova York:</p><p>Alfred A. Knopf, 1993).</p><p>White, Randa, “Rethinking the Middle/Upper Paleolithic</p><p>Transition”, Current Antropology 23 (1982): 169-189.</p><p>Wilson, Allan C, e Rebecca L. Cann, “The Recent African</p><p>Genesis of Humans”, Scientific American, abril 1992, pp. 68-73.</p><p>6. A LINGUAGEM DA ARTE6. A LINGUAGEM DA ARTE</p><p>Bahn, Paul, e Jean Vertut, Images of the Ice Age (Nova York:</p><p>Facts on File, 1988).</p><p>Conkey, Margaret W., “New Approaches in the Search for”Davidson, Iain, e William Noble, “The Archeology of Depiction</p><p>and Language”, Current Antropology 30 (1989): 125-156.</p><p>Halverson, John, “Art for Art's Sake in the Paleolithic”, Current</p><p>Antropology 28 (1987): 63-89.</p><p>Lewin, Roger, “Paleolithic Paint Job”, Discover , julho 1993,64-</p><p>70.</p><p>Lewis-Williams, J. David, e</p><p>Thomas A. Dowson, “The Signs of All Times”, Current Antropology 29 (1988): 202-245.</p><p>Lindly, John M. e Geoffrey A. Clark, “Symbolism and Modern</p><p>Human Origins”, Current Antropology 321 (1991): 233-262.</p><p>Lorblanchet, Michel, “Spitting Images”, Archeology,</p><p>novembro/dezembro 1991,27-31. Scarre, Chris, “Painting by</p><p>Resonance”, Nature 338 (1989): 382.</p><p>White, Randall, “Visual Thinking in the Ice Age”, Scientific</p><p>American, julho 1989, pp. 92-99.</p><p>7. A ARTE DA LINGUAGEM7. A ARTE DA LINGUAGEM</p><p>Bickerton, Derek, Language and Species (Chicago: University</p><p>of Chicago Press, 1990).</p><p>Chomsky, Noam, Language and Problems of Knowledge</p><p>(Cambridge: MIT Press, 1988).</p><p>Davidson, Iain, e William Noble, “The Archeology of Depiction</p><p>and Language”, Current Antropology 30 (1989): 125-156.</p><p>Deacon, Terrence, “The Neural Circuitry Underlying PrimateCalls and Human Languagew”, Human Evolution 4 (1989): 367-</p><p>401.</p><p>Gibson, Kathleen, e Tim Ingold, eds., Tools, Language, and</p><p>Intelligence (Cambridge: Cambridge University Press, 1992).</p><p>Holloway, Ralph, “Human Paleontological Evidence Relevant to</p><p>Language Behavior”, Human Neurobiology 2 (1983): 105-114.</p><p>Issac, Glynn, “Stages of Cultural Elaboration in thePleistocene”, em Origins and Evolution of Language and</p><p>Speech (Nova York: New York Academy of Sciences, 1976).</p><p>Steven R. Hamad, Horst D. Stelis, e Jane Lancaster, eds.</p><p>Jerison, Harry, “Brain Size and the Evolution of Mind”. The</p><p>FiftY-ninth James Arthur Lecture on the Human Brain (Nova</p><p>York American Museum of Natural History, 1991).</p><p>153153</p><p>Laitman, Jeffrey T., TheAnatomy of Human Speech”, Natural</p><p>History , agosto 1984,20-27.</p><p>Pinker, Steven, The Language Instinct (Nova York: William</p><p>Morrow, 1994).</p><p>Pinker, Steven, e Paul Bloom, “Natural Language and Natural</p><p>Selection”, Behavioral and Brain Sciences 13 (1990): 707-784.</p><p>White, Randall, “Thoughts on Social Relationships and</p><p>Language in Hominid Evolution”, Journal of Social and Personal</p><p>Relationships 2 (1985): 95-115.</p><p>Wills, Christopher, The Runaway Brain (Nova York: Basic</p><p>Books, 1993).</p><p>Wynn, Thomas, e William C. McGrew, “An Ape's View of the</p><p>Oldowan”, Man 24 (1989): 383-398.</p><p>8. A ORIGEM DA MENTE8. A ORIGEM DA MENTE</p><p>Bryne, Richard e Andrew Whiten, Machiavellian Intelligence:</p><p>Social Expertise and the Evolution of Intellect in Monkeys,</p><p>Apes, and Humans (Oxford: Clarendon Press, 1988).</p><p>Cheney, Dorothy L., e Robert M. Seyfarth, How Monkeys See</p><p>the World (Chicago: University of Chicago Press, 1990).</p><p>Dennett, Daniel, Consciousness Explained (Boston: Brown,</p><p>1991).</p><p>Gallup, Gordon, “Self-awareness and the Emergence of Mind in</p><p>Primates”, American Journal Primatology 2 (1982): 237-248.</p><p>Gibson, Kathleen, e Tim Ingold, eds., Tools, Language, and</p><p>Inteligence (Cambridge: Cambridge University Press, 1992).</p><p>Griffin, Donald, Animal Minds (Chicago: University of Chicago</p><p>Press, 1992).</p><p>Humphrey, Nicholas K., The Inner Eye (Londres: Faber &</p><p>Faber, 1986).</p><p>-----------, A History of the Mind (Nova York: HarperCollins,</p><p>1993).</p><p>Jerison, Harry, “Brain Size and the Evolution of Mind”, The Fifty-</p><p>ninth James Arthur Lecture on the Human Brain (New York:</p><p>American Museum of Natural History, 1991).</p><p>McGinn, Colin, “Can We Solve the Mind-Body Problem?”, Mind</p><p>98 (1989): 349-366.</p><p>Savage-Rumbaugh, Sue, e Roger Lewin, Kami: At the Brink of</p><p>Human Mind (Nova York: John Wiley, 1994).</p><p>154154</p><p>não implica de modo</p><p>unívoco uma relação evolutiva. Os espécimens mais completos</p><p>encontrados no Paquistão e na Turquia revelaram que as</p><p>supostas características humanóides eram superficiais. A</p><p>mandíbula do Ramapithecus tinha a forma de um V e não a de</p><p>um arco; esta e outras características indicavam que ele era</p><p>uma espécie de macaco primitivo (a mandíbula do macaco</p><p>moderno tem a forma de um U). O Ramapithecus vivera nas</p><p>árvores, como seu parente posterior, o orangotango, e não era</p><p>um macaco bípede, muito menos um caçador-coletor primitivo.</p><p>Mesmo os antropólogos mais aferrados à sua visão do</p><p>Ramapithecus como hominídeo ficaram convencidos pelos</p><p>novos indícios de que estavam errados e que Wilson e Sarich</p><p>estavam certos: a primeira espécie de macaco bípede, o</p><p>membro fundador da família humana, evoluíra em épocas</p><p>relativamente recentes e não em um passado muito distante.</p><p>Embora em sua publicação srcinal Wilson e Sarich tenham</p><p>proposto uma data há 5 milhões de anos para este evento, hoje</p><p>indícios moleculares consensuais fizeram-na retroceder para</p><p>quase 7 milhões de anos. Entretanto, não tem havido recuos</p><p>com relação à intimidade biológica proposta entre os humanos</p><p>e os macacos africanos. Ao contrário, esta relação pode ser</p><p>muito mais íntima do que tem sido suposta. Embora alguns</p><p>geneticistas acreditem que os dados moleculares ainda</p><p>impliquem uma ramificação igual e tríplice entre humanos,</p><p>chimpanzés e gorilas, outros vêem isto de modo diferente. Do</p><p>seu ponto de vista, humanos e chimpanzés são os parentes</p><p>mais próximos uns dos outros, com os gorilas situados a uma</p><p>distância evolutiva maior.</p><p>O caso do Ramapithecus mudou a antropologia de duas</p><p>maneiras. Primeiro, demonstrou os perigos da inferência de</p><p>uma relação evolutiva em comum a partir de características</p><p>anatômicas em comum. Segundo, expôs a loucura de uma</p><p>aderência cega ao “pacote” darwiniano. Simons e Pilbeam</p><p>imputaram um estilo de vida completo ao Ramapithecus, com</p><p>base na forma dos dentes caninos: se havia uma característica</p><p>hominídea, supunha-se que todas estas características</p><p>estavam presentes. Como conseqüência da erosão do status</p><p>de hominídeo do Ramapithecus, os antropólogos começaram a</p><p>ficar inseguros em relação ao pacote darwiniano.</p><p>2121</p><p>Antes de seguir o curso desta revolução antropológica, de-</p><p>veríamos examinar brevemente algumas das hipóteses que no</p><p>decorrer dos anos têm sido propostas para explicar como a</p><p>primeira espécie de hominídeos poderia ter surgido. É</p><p>interessante notar que cada hipótese nova que ganhava</p><p>popularidade refletia muitas vezes alguma coisa do clima social</p><p>da época. Por exemplo, Darwin via a elaboração de armas de</p><p>pedra como importante para abrir o pacote evolutivo da</p><p>tecnologia, bipedismo e tamanho do cérebro grande. A</p><p>hipótese certamente refletia a noção predominante de que a</p><p>vida era uma batalha e avanços eram obtidos com iniciativa e</p><p>esforço. Este espírito vitoriano permeava a ciência, e</p><p>determinou o modo pelo qual o processo de evolução, incluindo</p><p>a evolução humana, era visto.</p><p>Nas primeiras décadas deste século, os dias de glória do oti-</p><p>mismo eduardiano, afirmava-se que o cérebro e seus</p><p>processos mentais superiores haviam nos transformado no que</p><p>somos. Dentro da antropologia, esta visão social abrangente</p><p>era expressa na noção de que a evolução humana tinha sido</p><p>propelida inicialmente não pelo bipedismo mas por um cérebro</p><p>em expansão. Nos</p><p>2323</p><p>anos 40, o mundo estava enfeitiçado com a magia e o poder da</p><p>tecnologia, e a hipótese do “Homem, o Fabricante de Artefatos”</p><p>tornou-se popular. Proposta por Kenneth Oakley, do Museu de</p><p>História Natural de Londres, esta hipótese sustentava que a</p><p>fabricação e a utilização de artefatos de pedra — não armas —</p><p>dava o impulso à nossa evolução. E quando o mundo estava</p><p>nas sombras da Segunda Guerra Mundial, uma diferenciação</p><p>mais sombria entre os humanos e os macacos foi enfatizada —</p><p>a da violência contra seus semelhantes. A noção de “Homem, o</p><p>Macaco Assassino”, primeiramente proposta pelo anatomista</p><p>australiano Raymond Dart, ganhou amplo apoio, possivelmente</p><p>porque parecia explicar (ou mesmo desculpar) os horríveis</p><p>eventos da guerra.</p><p>Mais tarde, nos anos 60, os antropólogos voltaram-se para o</p><p>modo de vida do caçador-coletor como chave para as srcens</p><p>humanas. Diversas equipes de pesquisadores vinham</p><p>estudando as populações modernas de povos</p><p>tecnologicamente primitivos, particularmente na África, a mais</p><p>notável das quais eram os !Kung San (incorretamente</p><p>chamados de bosquímanos). Disto emergiu uma imagem de</p><p>um povo em harmonia com a natureza, explorando-a de</p><p>diversas maneiras ao mesmo tempo em que a respeitava. Esta</p><p>visão da humanidade coincidia com o ambientalismo da época,</p><p>mas, de qualquer modo, os antropólogos estavam impressio-</p><p>nados pela complexidade e segurança econômica da economia</p><p>mista de caça e coleta. A caça, porém, era o que foi enfatizado.</p><p>Em 1966, uma importante conferência antropológica à qual se</p><p>deu o nome de “Homem, o Caçador” foi realizada na</p><p>Universidade de Chicago. A idéia dominante no encontro era</p><p>simples: a caça fez dos humanos humanos.</p><p>Na maioria das sociedades tecnologicamente primitivas, a caça</p><p>é geralmente uma responsabilidade masculina Não é surpresa,</p><p>portanto, que a crescente percepção das questões femininas</p><p>nos anos 70 colocasse em dúvida esta explicação das srcens</p><p>humanas centralizada no homem. Uma hipótese alternativa,</p><p>conhecida como “Mulher, a Coletora”, sustentava que em todas</p><p>as espécies de primatas o núcleo da sociedade era o elo entre</p><p>a fêmea e a prole. E foi a iniciativa das fêmeas humanas em</p><p>inventar tecnologias e coletar alimentos (principalmente</p><p>vegetais) que podiam ser compartilhados por todos que</p><p>conduziu à formação de uma sociedade humana complexa.</p><p>Pelo menos assim se dizia.</p><p>Embora estas hipóteses diferissem no que era considerado o</p><p>agente principal da evolução humana, todas têm em comum a</p><p>noção de que o pacote darwiniano contendo certas característi-</p><p>2424</p><p>cas humanas valorizadas era aceito bem no começo: ainda</p><p>pensava-se na primeira espécie de hominídeos como tendo</p><p>algum grau de bipedismo, tecnologia e tamanho do cérebro</p><p>aumentado. Os hominídeos eram portanto criaturas culturais —</p><p>e assim diferentes do restante da natureza — desde o início.</p><p>Nos anos recentes, reconhecemos que este não é o caso.</p><p>De fato, indício concreto da inadequação da hipótese</p><p>darwiniana foi encontrado nos registros arqueológicos. Se o</p><p>pacote darwiniano estivesse correto, então poderíamos esperar</p><p>ver a aparição simultânea nos registros arqueológicos e fósseis</p><p>de indícios de bipedismo, tecnologia e tamanho do cérebro</p><p>aumentado. Isto não acontece. Apenas um aspecto dos</p><p>registros pré-históricos é suficiente para mostrar que a hipótese</p><p>está errada: o registro dos artefatos de pedra</p><p>Ao contrário dos ossos, que muito raramente tornam-se fos-</p><p>silizados, os artefatos de pedra são virtualmente indestrutíveis.</p><p>Muitos dos registros pré-históricos são portanto constituídos</p><p>por eles, e são indícios sobre os quais o progresso da</p><p>tecnologia é inferido.</p><p>Os exemplos mais antigos de tais artefatos — lâminas gros-</p><p>seiras, raspadeiras e talhadeiras feitas de seixos dos quais</p><p>algumas lascas foram tiradas — aparecem nos registros de</p><p>cerca de 2,5 milhões de anos atrás. Se o indício molecular</p><p>estiver correto e a primeira espécie humana apareceu há uns 7</p><p>milhões de anos, então quase 5 milhões de anos se passaram</p><p>entre a época em que nossos ancestrais se tornaram bipédes e</p><p>a época em que começaram a fazer artefatos de pedra.</p><p>Qualquer que seja a força evolutiva que produziu um macaco</p><p>bípede, esta não era relacionada com a habilidade de fazer e</p><p>utilizar ferramentas. Entretanto, muitos antropólogos acreditam</p><p>que o advento da tecnologia há 2,5 milhões de anos realmente</p><p>coincidiu com o começo da expansão do cérebro.</p><p>A compreensão de que a expansão do cérebro e a tecnologia</p><p>são separadas no tempo das srcens humanas forçou os</p><p>antropólogos</p><p>a repensar sua abordagem. Como conseqüência,</p><p>as últimas hipóteses têm sido formuladas em termos biológicos</p><p>em vez de culturais. Considero isto um desenvolvimento</p><p>saudável para a profissão — porque pelo menos permite que</p><p>as idéias sejam testadas comparando-as com o que sabemos</p><p>da ecologia e do comportamento de outros animais. Ao fazer</p><p>isto, não temos que negar que o Homo sapiens possui muitos</p><p>atributos especiais. Ao contrário,</p><p>2525</p><p>procuramos pelo surgimento destes atributos a partir de um</p><p>contexto estritamente biológico.</p><p>Com esta compreensão, a tarefa do antropólogo de explicar as</p><p>srcens humanas foi redirecionada para a srcem do bipedismo.</p><p>Mesmo reduzida a este único evento, a transformação evolutiva</p><p>não foi trivial, como observou Owen Lovejoy, anatomista da</p><p>Kent State University. “A passagem para o bipedismo é uma</p><p>das mudanças mais impressionantes que podemos ver na</p><p>biologia evolutiva”, escreveu ele em um artigo popular em</p><p>1988. “Há mudanças importantes nos ossos, na disposição dos</p><p>músculos que os movimentam, e no movimento dos membros.”</p><p>Uma olhada na pélvis dos humanos e dos chimpanzés é</p><p>suficiente para confirmar esta observação: nos humanos, a</p><p>pélvis é achatada e em forma de caixa, enquanto que nos</p><p>chimpanzés ela é alongada; e há também diferenças</p><p>importantes nos membros e no tronco (ver figura 1.2).</p><p>O advento do bipedismo não é somente uma importante</p><p>transformação biológica mas também uma importante transfor-</p><p>mação adaptativa. Como argumentei no prefácio, a srcem da</p><p>locomoção bipède é uma adaptação tão significativa que é</p><p>justificável chamarmos todas as espécies de macacos bipédes</p><p>“humanos”. Isto não significa dizer que as primeiras espécies</p><p>bipédes possuíam algum grau de tecnologia, intelecto</p><p>desenvolvido, ou qualquer dos atributos culturais da</p><p>humanidade. Isto não aconteceu. Meu ponto de vista é que a</p><p>adoção do bipedismo era tão carregada de potencial evolutivo</p><p>— permitindo aos membros superiores a liberdade de se</p><p>tornarem um dia implementos manipulativos — que sua</p><p>importância deveria ser reconhecida na nossa nomenclatura.</p><p>Estes humanos não eram como nós, mas sem a adaptação ao</p><p>bipedismo não poderiam ter-se tornado como nós.</p><p>Quais foram os fatores evolutivos que promoveram esta forma</p><p>nova de locomoção no macaco africano? A imagem popular</p><p>das srcens humanas muitas vezes inclui a noção de uma</p><p>criatura simiesca abandonando as florestas e dirigindo-se para</p><p>as savanas abertas. Uma imagem dramática sem dúvida, mas</p><p>completamente errônea, como foi recentemente demonstrado</p><p>por pesquisadores das universidades de Harvard e Yale que</p><p>analisaram a química do solo em muitas partes do leste da</p><p>África. As savanas africanas, com suas grandes hordas</p><p>migratórias, são relativamente recentes no ambiente, tendo se</p><p>desenvolvido há menos de 3 milhões de anos, muito depois de</p><p>a primeira espécie humana ter evoluído.</p><p>Se levarmos nossa imaginação de volta para uma África de 15</p><p>milhões de anos atrás, encontraremos um tapete de florestas</p><p>2626</p><p>(A página 27 do livro apresenta a Figura 1.2, colada nas(A página 27 do livro apresenta a Figura 1.2, colada nas</p><p>páginas finais desse e-livro)páginas finais desse e-livro)</p><p>2727</p><p>estendendo-se do oeste para o leste, abrigo de uma grande</p><p>diversidade de primatas, inclusive muitas espécies de</p><p>pequenos e grandes macacos. Em contraste com a situação de</p><p>hoje, as espécies de grandes macacos superavam as espécies</p><p>dos pequenos. Entretanto, forças geológicas que alterariam</p><p>dramaticamente o terreno e seus ocupantes nos próximos</p><p>milhões de anos estavam prontas para entrar em ação.</p><p>Por baixo da parte leste do continente, a crosta da Terra estava</p><p>se separando em duas partes, em uma linha que ia do Mar</p><p>Vermelho, através da Etiópia, Quênia, Tanzânia, até</p><p>Moçambique. Como conseqüência, o terreno elevou-se em</p><p>erupções como na Etiópia e no Quênia, formando grandes</p><p>montanhas de mais de 3.000 metros de altitude. Estes grandes</p><p>domos transformaram não apenas a topografia do continente</p><p>mas também o seu clima. Perturbando as correntes aéreas no</p><p>sentido oeste-leste que eram uniformes, os domos colocaram</p><p>as terras a leste sob condições de pouca chuva, impedindo a</p><p>manutenção das florestas úmidas. A cobertura contínua de</p><p>árvores começou a fragmentar-se, deixando um ambiente</p><p>dividido em um mosaico de florestas, bosques e arbustos.</p><p>Campos limpos, porém, eram ainda raros.</p><p>Há cerca de 12 milhões de anos, a ação contínua das forças</p><p>tectônicas mudou mais ainda o ambiente, com a formação de</p><p>um vale longo e sinuoso, que se estende do norte para o sul,</p><p>conhecido como o Vale da Grande Fenda. A existência do Vale</p><p>da Grande Fenda teve dois efeitos biológicos: ele coloca uma</p><p>formidável barreira na direção leste-oeste às populações</p><p>animais; e promove mais ainda o desenvolvimento de um rico</p><p>mosaico de condições ecológicas.</p><p>O antropólogo francês Yves Coppens acredita que a barreira</p><p>leste-oeste foi crucial para a evolução separada dos humanos</p><p>e dos outros grandes macacos. “Por força das circunstâncias, a</p><p>população dos ancestrais comuns dos humanos e grandes</p><p>macacos (...) encontrou-se dividida”, escreveu ele</p><p>recentemente. “Os descendentes ocidentais destes ancestrais</p><p>comuns prosseguiram sua adaptação à vida em um meio</p><p>arborífero e úmido; estes são os grandes macacos. Os</p><p>descendentes orientais destes mesmos ancestrais comuns, ao</p><p>contrário, inventaram um repertório completamente novo para</p><p>adaptar-se à sua nova vida em um ambiente aberto: estes são</p><p>os humanos.” Coppens chama este cenário de “East Side</p><p>Story”.*</p><p>2828</p><p>O vale tem regiões montanhosas dramáticas com platôs flo-</p><p>restais de temperatura amena, encostas íngremes de mil</p><p>metros que terminam em baixadas quentes e áridas. Os</p><p>biólogos perceberam que ambientes variados desse tipo, que</p><p>apresentam muitos tipos diferentes de habitats, conduzem à</p><p>inovação evolutiva. Populações de uma espécie que antes</p><p>eram amplamente disseminadas e contínuas podem tornar-se</p><p>isoladas e expostas a novas forças de seleção natural. Esta é a</p><p>receita da transformação evolutiva. Algumas vezes esta</p><p>transformação leva ao esquecimento, se o ambiente favorável</p><p>*</p><p>Referência ao filme musical americano West Side Story, da década de 1960,</p><p>ambientado no lado pobre de Nova York. (N. do T.)</p><p>desaparece. Este, certamente, foi o destino da maioria dos</p><p>macacos africanos: apenas três espécies existem hoje — o</p><p>gorila, o chimpanzé comum e o chimpanzé pigmeu. Mas,</p><p>enquanto a maioria dos macacos sofreu com a mudança</p><p>ambiental, um deles foi agraciado com uma nova adaptação</p><p>que lhe permitiu sobreviver e prosperar. Este foi o primeiro</p><p>macaco bípede. Ser bípede conferiu-lhe claramente vantagens</p><p>importantes na luta pela sobrevivência em condições variáveis.</p><p>O trabalho dos antropólogos é descobrir quais eram estas</p><p>vantagens.</p><p>Os antropólogos tendem a ver a importância do bipedismo na</p><p>evolução humana de duas maneiras: uma escola enfatiza a li-</p><p>beração dos membros dianteiros que possibilita o transporte de</p><p>coisas; a outra enfatiza o fato de que o bipedismo é um modo</p><p>de locomoção mais eficiente do ponto de vista energético, e vê</p><p>a habilidade de transportar coisas simplesmente como um</p><p>derivado fortuito da postura ereta.</p><p>A primeira destas duas hipóteses foi proposta por Owen</p><p>Lovejoy e publicada em um artigo importante na Science em</p><p>1981. O bipedismo, argumentou ele, é uma maneira ineficiente</p><p>de locomoção, portanto ele deve ter evoluído para permitir o</p><p>transporte de coisas. De que modo a habilidade de transportar</p><p>coisas poderia ter dado aos macacos bipédes uma vantagem</p><p>competitiva sobre os outros macacos?</p><p>Em última instância, o sucesso evolutivo depende da produção</p><p>de uma prole que sobreviva, e a resposta, sugeriu Lovejoy, es-</p><p>tá na oportunidade que esta nova habilidade confere aos</p><p>macacos machos de aumentar a taxa reprodutiva das fêmeas,</p><p>ao coletar alimentos para ela. Os macacos, observou ele,</p><p>reproduzem-se lentamente, tendo um rebento a cada quatro</p><p>anos. Se as fêmeas</p><p>humanas tivessem acesso a mais energia</p><p>— isto é, comida —, elas poderiam produzir de maneira mais</p><p>bem-sucedida uma prole maior. Se um macho ajudasse a</p><p>providenciar mais energia para uma fêmea coletando alimentos</p><p>para ela e sua prole, ela seria capaz de aumentar sua</p><p>produção reprodutiva.</p><p>2929</p><p>Haveria uma conseqüência biológica adicional da atividade do</p><p>macho, desta vez no domínio social. Como o macho não teria</p><p>benefícios no sentido darwiniano em alimentar a fêmea a</p><p>menos que estivesse seguro de que ela estava produzindo a</p><p>sua prole, Lovejoy sugeriu que a primeira espécie humana era</p><p>monogâmica, com a família nuclear emergindo como uma</p><p>maneira de aumentar o sucesso reprodutivo, e assim vencer a</p><p>competição contra os outros macacos. Ele sustentou sua</p><p>argumentação com uma analogia biológica adicional. Na</p><p>maioria das espécies de primatas, por exemplo, os machos</p><p>competem entre si pelo controle sexual do maior número</p><p>possível de fêmeas. Durante este processo, muitas vezes eles</p><p>lutam um contra o outro, e são dotados de dentes caninos</p><p>grandes, que utilizam como arma. Os gibões são uma exceção</p><p>porque formam casais de macho e fêmea, e — presumivel-</p><p>mente porque não têm razão de lutar um contra o outro — os</p><p>machos têm dentes caninos pequenos. Os caninos pequenos</p><p>nos humanos primitivos podem ser uma indicação de que,</p><p>como os gibões, eles formavam casais de macho e fêmea,</p><p>argumentou Lovejoy. Os vínculos sociais e econômicos do</p><p>arranjo em torno da alimentação teriam por sua vez conduzido</p><p>a um aumento no tamanho do cérebro.</p><p>A hipótese de Lovejoy, que desfrutou apoio e atenção consi-</p><p>deráveis, é poderosa porque apela para pontos biológicos</p><p>fundamentais, e não culturais. Entretanto, ela tem pontos</p><p>fracos; por exemplo, a monogamia não é um arranjo social</p><p>comum entre povos tecnologicamente primitivos. (Apenas 20</p><p>por cento de tais sociedades são monogâmicas.) Portanto esta</p><p>hipótese foi criticada por parecer apoiar-se sobre uma</p><p>característica da sociedade ocidental, e não sobre uma</p><p>característica das sociedades de caçadores-coletores. A</p><p>segunda crítica, talvez mais séria, é que os machos das</p><p>espécies humanas primitivas conhecidas eram cerca de duas</p><p>vezes maiores do que as fêmeas. Em todas as espécies de pri-</p><p>matas que têm sido estudadas, esta grande diferença no</p><p>tamanho do corpo, conhecida como dimorfismo, correlaciona-</p><p>se com apoliginia, ou competição entre os machos pelo acesso</p><p>às fêmeas; o dimorfismo não é observado nas espécies</p><p>monogâmicas. Para mim, este fato por si só é suficiente para</p><p>afundar uma abordagem teórica promissora, e uma explicação</p><p>para os caninos pequenos que não seja a monogamia deve ser</p><p>procurada. Uma possibilidade é que o mecanismo de</p><p>mastigação dos alimentos exigisse um movimento de trituração</p><p>e não de estraçalhamento; caninos grandes prejudicariam tal</p><p>movimento. A hipótese de Lovejoy tem agora um apoio menor</p><p>do que há uma década.</p><p>3030</p><p>A segunda teoria importante do bipedismo é muito mais con-</p><p>vincente, em parte por sua simplicidade. Proposta pelos</p><p>antropólogos Peter Rodman e Henry McHenry, da Universidade</p><p>da Califórnia, em Davis, a hipótese afirma que o bipedismo foi</p><p>vantajoso em condições ambientais em mutação porque</p><p>oferecia um meio mais eficiente de locomoção. À medida que</p><p>as florestas encolhiam, os recursos alimentares dos habitats</p><p>florestais, tais como árvores frutíferas, teriam se tornado muito</p><p>dispersos para serem explorados de forma eficiente pelos</p><p>macacos convencionais. De acordo com esta hipótese, os</p><p>primeiros macacos bipédes eram humanos apenas quanto ao</p><p>seu modo de locomoção. Suas mãos, mandíbulas e dentes</p><p>teriam permanecido similares aos dos macacos, porque sua</p><p>dieta não mudara, apenas sua maneira de obtê-la.</p><p>Para muitos biólogos, esta proposta inicialmente parecia im-</p><p>provável: pesquisadores da Universidade de Harvard haviam</p><p>mostrado alguns anos antes que caminhar sobre duas pernas é</p><p>menos eficiente do que caminhar sobre quatro. (Isto não</p><p>deveria ser uma surpresa para qualquer um que tenha um gato</p><p>ou um cachorro; ambos correm, embaraçosamente, muito mais</p><p>rápido do que seus donos.) Os pesquisadores de Harvard</p><p>tinham, entretanto, comparado a eficiência energética do</p><p>bipedismo nos humanos com o quadrupedismo nos cavalos e</p><p>cachorros. Rodman e McHenry chamaram a atenção para o</p><p>fato de que a comparação apropriada deveria ser entre</p><p>humanos e chimpanzés. Quando estas comparações são</p><p>feitas, conclui-se que o bipedismo nos humanos é mais</p><p>eficiente do que o quadrupedismo nos chimpanzés. Um</p><p>argumento de eficiência energética como uma força da seleção</p><p>natural em favor do bipedismo, concluíram eles, é portanto</p><p>plausível.</p><p>Tem havido muitas outras sugestões sobre os fatores que</p><p>conduziram a evolução do bipedismo, tais como a necessidade</p><p>de olhar por cima da grama alta para controlar os predadores e</p><p>a necessidade de adotar uma postura mais eficiente para</p><p>refrescar-se durante a procura por alimentos durante o dia. De</p><p>todas elas, acho a de Rodman e McHenry a mais persuasiva,</p><p>porque tem bases firmes na biologia e adapta-se às mudanças</p><p>ecológicas que estavam acontecendo quando as primeiras</p><p>espécies humanas estavam evoluindo. Se a hipótese estiver</p><p>correta, isto significará que, quando encontrarmos fósseis das</p><p>primeiras espécies humanas, podemos deixar de reconhecê-los</p><p>como tais, dependendo dos ossos que obtivermos. Se os ossos</p><p>forem os da pélvis ou dos membros inferiores, então o modo</p><p>bípede de locomoção será evidente, e seremos capazes de</p><p>dizer “humanos”. Mas se encontrar-</p><p>3131</p><p>mos certas partes do crânio, da mandíbula, ou alguns dentes,</p><p>eles podem parecer com os dos macacos. Como saberíamos</p><p>que eles pertencem a um macaco bipède ou a um macaco</p><p>convencional? É um desafio excitante.</p><p>Se pudéssemos visitar a África de 7 milhões de anos atrás para</p><p>observar o comportamento dos primeiros humanos, veríamos</p><p>um padrão mais familiar aos primatólogos, que estudam o</p><p>comportamento dos macacos e dos pequenos macacos</p><p>arborícolas, do que aos antropólogos, que estudam o</p><p>comportamento dos humanos. Em vez de viver em agregados</p><p>de famílias nos bandos nômades, como os caçadores-coletores</p><p>modernos o fazem, os primeiros humanos provavelmente</p><p>viviam como os babuínos das savanas. Grupos de mais ou</p><p>menos trinta indivíduos buscariam alimentos através de um</p><p>grande território de modo coordenado, retornando à noite para</p><p>dormir em lugares escolhidos, como encostas de rochedos ou</p><p>grupos de árvores. As fêmeas maduras e suas proles</p><p>constituiriam a maior parte do grupo, com apenas uns poucos</p><p>machos adultos presentes. Os machos estariam continuamente</p><p>à procura de oportunidades de acasalamento, com os</p><p>indivíduos dominantes obtendo sucesso maior. Machos</p><p>imaturos ou de baixo prestígio estariam na periferia do grupo,</p><p>muitas vezes procurando alimentos por si mesmos. Os</p><p>indivíduos no grupo teriam o aspecto humano do caminhar</p><p>ereto mas se comportariam como os primatas das savanas. À</p><p>frente deles estão 7 milhões de anos de evolução — um</p><p>padrão de evolução que seria complexo, como veremos, e de</p><p>nenhum modo absolutamente certo. Pois a seleção natural</p><p>opera de acordo com as circunstâncias imediatas e não tendo</p><p>em vista um objetivo de longo prazo. O Homo sapiens fi-</p><p>nalmente evoluiu como um descendente dos primeiros</p><p>humanos, mas não havia nada de inevitável a respeito disto.</p><p>3232</p><p>2 - Uma família numerosa</p><p>Pela minha contagem, espécimens de fósseis com vários graus</p><p>de incompletude, representando pelo menos um milhar de</p><p>indivíduos das várias espécies humanas, têm sido recuperados</p><p>na África Oriental e do Sul da parte mais antiga dos registros</p><p>arqueológicos, isto é, de cerca de 4 milhões até quase 1 milhão</p><p>de anos atrás (muitos mais neste último registro). Os fósseis</p><p>humanos mais antigos encontrados na Eurásia podem ter cerca</p><p>de 2 milhões de anos de idade. (O Novo Mundo e a Austrália</p><p>foram povoados muito mais recentemente, há uns 20 mil e 55</p><p>mil anos respectivamente.) Portanto, é justo</p><p>dizer que a maior</p><p>parte da ação na pré-história humana aconteceu na África. As</p><p>questões a que os antropólogos devem responder sobre esta</p><p>ação são duas: primeiro, que espécies constituíram a árvore de</p><p>família humana entre 7 e 2 milhões de anos atrás, e como elas</p><p>viveram? Segundo, como eram as espécies relacionadas umas</p><p>com as outras sob o ponto de vista evolutivo? Em outras</p><p>palavras, qual era a forma da árvore de família?</p><p>Meus colegas antropólogos deparam com dois desafios prá-</p><p>ticos quando tratam com estes problemas. O primeiro é o que</p><p>Darwin chamava “a extrema imperfeição do registro geológico”.</p><p>Na sua A srcem das espécies , Darwin devotou um capítulo</p><p>inteiro as lacunas frustrantes encontradas nos registros, as</p><p>quais são conseqüência das forças caprichosas da fossilização</p><p>e mais tarde da exposição dos ossos. As condições que</p><p>favorecem o enterro rápido e a possível fossilização dos ossos</p><p>são raras. E sedimentos antigos podem tornar-se expostos pela</p><p>erosão — quando, por exemplo, uma corrente passa através</p><p>deles —, mas quais as páginas da pré-história que são</p><p>reabertas desta maneira é puramente uma questão de acaso, e</p><p>muitas páginas permanecem escondidas de nossas vistas. Por</p><p>exemplo, na África Oriental, o repositório mais promissor de</p><p>fósseis humanos primordiais, há muito poucos sedimentos com</p><p>fósseis pertencentes ao período compreendido entre 4 e 8</p><p>milhões de anos atrás. Este é um período crucial na pré-história</p><p>do homem, já que ele inclui a srcem da família huma-</p><p>3333</p><p>na. Mesmo para o período que vem após os 4 milhões de anos</p><p>temos muito menos fósseis do que gostaríamos.</p><p>O segundo desafio surge do fato de que a maioria dos</p><p>espécimens de fósseis descobertos são pequenos fragmentos</p><p>— um pedaço de crânio, um osso da face, parte de um osso do</p><p>braço, e muitos dentes. A identificação de espécies a partir de</p><p>indícios escassos desta natureza não é tarefa fácil e algumas</p><p>vezes é impossível. A incerteza resultante permite que surjam</p><p>muitas diferenças científicas de opinião, na identificação da</p><p>espécie e no discernimento das suas inter-relações. Esta área</p><p>da antropologia, conhecida como taxonomia e sistemática, é</p><p>uma das mais controvertidas. Evitarei os detalhes dos muitos</p><p>debates e, em vez disto, concentrarei a atenção na descrição</p><p>da forma geral da árvore.</p><p>O conhecimento dos registros de fósseis humanos na África</p><p>desenvolveu-se lentamente, começando em 1924 quando</p><p>Raymond Dart anunciou a descoberta da famosa criança</p><p>Taung. Compreendendo o crânio incompleto de uma criança —</p><p>parte do crânio, face, maxilar inferior e caixa craniana —, o</p><p>espécimen foi assim chamado porque foi recuperado da</p><p>pedreira de calcário de Taung, na África do Sul. Embora</p><p>nenhuma datação precisa dos sedimentos da pedreira fosse</p><p>possível, estimativas científicas sugeriram que a criança viveu</p><p>há cerca de 2 milhões de anos.</p><p>Embora a cabeça da criança Taung tivesse muitas</p><p>características semelhantes às do macaco, tais como um</p><p>cérebro pequeno e um maxiliar protuberante, Dart também</p><p>reconheceu nele características humanas: o maxilar era</p><p>protuberante mas menos do que nos macacos, os dentes</p><p>molares eram achatados e os caninos pequenos. Um indício</p><p>fundamental foi a posição do forâmen magno — a abertura na</p><p>base do crânio através da qual os nervos espinhais passam</p><p>para a coluna espinhal. Nos macacos, a abertura está</p><p>relativamente mais para trás na base do crânio, enquanto que</p><p>nos humanos ela está muito mais próxima do centro da base; a</p><p>diferença é um reflexo da postura bípede dos humanos, na</p><p>qual a cabeça equilibra-se em cima da espinha, em contraste</p><p>com a postura dos macacos, na qual a cabeça pende para a</p><p>frente. O forâmen magno da criança Taung era no centro,</p><p>indicando que a criança era um macaco bípede.</p><p>Embora Dart estivesse convencido do status de hominídeo da</p><p>criança Taung, passou-se quase um quarto de século antes</p><p>que os antropólogos profissionais aceitassem este fóssil</p><p>individual como um ancestral humano e não apenas como um</p><p>macaco antigo.</p><p>3434</p><p>O preconceito contra a África como sítio da evolução humana e</p><p>um repúdio generalizado à idéia de que algo tão semelhante ao</p><p>macaco pudesse ser uma parte da ancestralidade humana</p><p>combinaram-se para lançar Dart e sua descoberta no</p><p>esquecimento antropológico por um longo tempo. Na época em</p><p>que os antropólogos reconheceram o seu erro — no final dos</p><p>anos 40 —, o escocês Robert Broom juntara-se a Dart, e os</p><p>dois homens haviam descoberto vintenas de fósseis humanos</p><p>primordiais em quatro lugares onde se encontram cavernas na</p><p>África do Sul: Sterkfontein, Swartkrans, Kromdraai e</p><p>Makapansgat. Seguindo o costume antropológico da época,</p><p>Dart e Broom deram o nome de uma espécie nova para pra-</p><p>ticamente todos os fósseis que descobriram; deste modo, em</p><p>breve parecia que um verdadeiro zoológico de espécies</p><p>humanas vivera na África do Sul entre 3 milhões e 1 milhão de</p><p>anos atrás.</p><p>Nos anos 50, os antropólogos decidiram racionalizar a grande</p><p>quantidade de espécies de hominídeos propostas e reconhece-</p><p>ram apenas duas. Ambas eram de macacos bipédes, é claro, e</p><p>ambas eram semelhantes aos macacos do mesmo modo pelo</p><p>qual a criança Taung o era. A principal diferença entre as duas</p><p>espécies estava nos seus maxilares e dentes: em ambas, estes</p><p>eram grandes, mas uma das criaturas era uma versão mais</p><p>corpulenta da outra. A espécie mais graciosa recebeu o nome</p><p>de Australopithecus africanus, que era o nome que Dart dera à</p><p>criança Taung em 1924; o termo significa “macaco do sul da</p><p>África”. A espécie mais robusta foi apropriadamente chamada</p><p>Australopithecus robustus (ver figura 2.1).</p><p>A partir da estrutura de seus dentes, era óbvio que ambos, o</p><p>africanus e o robustus, alimentavam-se principalmente de</p><p>vegetais. Seus molares não eram como os dos macacos — que</p><p>têm cúspides aguçadas, aptas a uma dieta de frutas de casca</p><p>relativamente macia e a outros vegetais — mas eram</p><p>achatados formando superfícies aptas para o trituramento. Se,</p><p>como suspeito, as primeiras espécies humanas viveram de</p><p>uma dieta semelhante à dos macacos, elas teriam dentes</p><p>semelhantes a estes. Claramente, há cerca de 2 ou 3 milhões</p><p>de anos a dieta humana mudou para uma dieta de alimentos</p><p>mais duros, tais como frutas de casca rígida e nozes. Quase</p><p>certamente isto indica que os australopitecíneos viveram em</p><p>um ambiente mais seco que o dos macacos. O grande</p><p>tamanho dos molares da espécie robusta sugere que os</p><p>alimentos que ela comia eram especialmente duros e</p><p>necessitavam de trituração extensiva; não é por acaso que são</p><p>chamados “molares tipo marco de estrada”.</p><p>3535</p><p>(A página 36 do livro apresenta a Figura 2.1, colada nas(A página 36 do livro apresenta a Figura 2.1, colada nas</p><p>páginas finais desse e-livro)páginas finais desse e-livro)</p><p>3636</p><p>O primeiro fóssil de humanos primitivos foi encontrado na África</p><p>Oriental por Mary Leakey, em agosto de 1959. Depois de</p><p>quase três décadas de procura nos sedimentos da garganta</p><p>Olduvai, ela foi recompensada com a descoberta de molares do</p><p>tipo marco de estrada, como aqueles da espécie</p><p>australopitecínea robusta da África do Sul. Louis Leakey, que,</p><p>com Mary, tomara parte da longa busca, chamou-o</p><p>Zinjanthropus boisei : o nome que refere-se ao gênero significa</p><p>“homem da África Oriental” e boisei refere-se a Charles Boise,</p><p>que apoiou meu pai e minha mãe em seu trabalho na garganta</p><p>Olduvai e alhures. Na primeira aplicação dos métodos</p><p>modernos de datação geológica, foi determinado que Zinj,</p><p>como o indivíduo tornou-se conhecido, vivera há 1,75 milhão</p><p>de anos. O nome Zinj foi finalmente trocado para</p><p>Australopithecus boisei , no pressuposto de que ele era uma</p><p>versão africana oriental, ou variante geográfica, do</p><p>Australopithecus robustus.</p><p>Os nomes não são particularmente importantes por si próprios.</p><p>O que é importante é que estamos vendo diversas espécies</p><p>humanas com a mesma adaptação fundamental, o bipedismo,</p><p>um cérebro pequeno e dentes molares relativamente grandes.</p><p>Isto foi</p><p>o que vi no crânio que encontrei sobre um leito de rio</p><p>seco na minha primeira expedição à margem oriental do lago</p><p>Turkana, em 1969.</p><p>Sabemos a partir do tamanho variado dos ossos do esqueleto</p><p>que os machos da espécie australopitecínea eram muito maio-</p><p>res do que as fêmeas. Eles tinham 1,5 metro de altura</p><p>enquanto suas companheiras mal atingiam 1 metro. Os machos</p><p>devem ter pesado o dobro das fêmeas, uma diferença do tipo</p><p>que vemos hoje em algumas espécies de babuínos das</p><p>savanas. É, portanto, razoável supor que a organização social</p><p>dos australopitecíneos era similar à dos babuínos, com os</p><p>machos dominantes competindo pelo acesso às fêmeas</p><p>maduras, como foi observado no capítulo anterior.</p><p>A história da pré-história humana tornou-se um pouco mais</p><p>complicada um ano após a descoberta do Zinj, quando meu</p><p>irmão mais velho, Jonathan, descobriu um pedaço de crânio de</p><p>um outro tipo de hominídeo, novamente na garganta Olduvai. A</p><p>pouca espessura relativa do crânio indicava que este indivíduo</p><p>tinha uma constituição ligeiramente mais leve do que qualquer</p><p>uma das espécies conhecidas de australopitecíneos. Ele tinha</p><p>dentes molares menores e, o mais significativo de tudo, seu</p><p>cérebro era quase 50 por cento maior. Meu pai concluiu que,</p><p>embora os aus-</p><p>3737</p><p>tralopitecíneos fizessem parte da ancestralidade humana, este</p><p>novo espécimen representava a linhagem que finalmente deu</p><p>srcem aos humanos modernos. Em meio a um alarido de</p><p>objeções por parte de seus colegas de profissão, ele decidiu</p><p>batizá-lo Homo habilis, tornando-o o primeiro membro primitivo</p><p>do gênero a ser identificado. (O nome Homo habilis, que</p><p>significa “homem habilidoso”, lhe foi sugerido por Raymond</p><p>Dart, e refere-se à suposição de que a espécie era de</p><p>fabricantes de artefatos.)</p><p>De muitas maneiras, o alarido tinha base em considerações</p><p>esotéricas; ele surgiu em parte porque, para atribuir a</p><p>designação Homo ao novo fóssil, Louis teve que modificar as</p><p>definições aceitas de gênero. Até aquela época, a definição</p><p>padrão, proposta pelo antropólogo britânico Sir Arthur Keith,</p><p>afirmava que a capacidade cerebral do gênero Homo deveria</p><p>ser igual ou exceder os 750 centímetros cúbicos, um valor</p><p>intermediário entre o dos humanos modernos e o dos macacos;</p><p>isto tomou-se conhecido como o Rubicão cerebral. A despeito</p><p>do fato de que o fóssil recentemente descoberto na garganta</p><p>Olduvai tivesse uma capacidade cerebral de apenas 650</p><p>centímetros cúbicos, Louis julgou-o ser Homo por causa de seu</p><p>crânio mais humanóide (isto é, menos robusto). Ele portanto</p><p>propôs alterar o Rubicão cerebral para 600 centímetros</p><p>cúbicos, admitindo com isto o novo hominídeo olduvaiano ao</p><p>gênero Homo. Esta tática certamente elevou o nível emocional</p><p>do vigoroso debate que se seguiu. Ao final, porém, a nova</p><p>definição foi aceita. (Mais tarde, chegou-se à conclusão de que</p><p>650 centímetros cúbicos é muito pouco como média de</p><p>tamanho do cérebro adulto no Homo habilis: 850 centímetros</p><p>cúbicos é um valor mais próximo.)</p><p>Nomes científicos à parte, o ponto importante aqui é que o</p><p>padrão de evolução que começa a emergir destas descobertas</p><p>era o de dois tipos básicos de humanos primitivos. Um tipo</p><p>tinha um cérebro pequeno e dentes molares grandes (as várias</p><p>espécies de australopitecíneos); o segundo tipo tinha um</p><p>cérebro maior e dentes molares pequenos (Homo) (ver figura</p><p>2.2). Ambos os tipos eram de macacos bipédes, mas</p><p>claramente algo de extraordinário tinha acontecido na evolução</p><p>do Homo. Exploraremos este “algo” de maneira mais completa</p><p>no próximo capítulo. De qualquer modo, a compreensão dos</p><p>antropólogos da forma da árvore de família neste ponto da</p><p>história humana — isto é, por volta de 2 milhões de anos atrás</p><p>— era bastante simples. A árvore tinha dois ramos principais:</p><p>as espécies australopitecíneas, que se tornaram todas extintas</p><p>há cerca de 1 milhão de anos, e a Homo, que finalmente levou</p><p>a gente como nós.</p><p>3838</p><p>Os biólogos que estudaram os registros de fósseis sabem que,</p><p>quando uma nova espécie desenvolve uma adaptação nova,</p><p>muitas vezes há um florescimento de espécies descendentes</p><p>durante os milhões de anos seguintes que expressam</p><p>variações temáticas daquela adaptação inicial — o</p><p>florescimento é conhecido como irradiação adaptativa. O</p><p>antropólogo da Universidade de Cambridge, Robert Foley,</p><p>calculou que, se a história evolutiva dos macacos bípedes</p><p>acompanhou o padrão usual de irradiação adaptativa, existiram</p><p>pelo menos 16 espécies entre a srcem do grupo há 7 milhões</p><p>de anos e os dias de hoje. A forma da árvore de família começa</p><p>com um único tronco (a espécie fundadora), cresce à medida</p><p>que novos ramos desenvolvem-se com o tempo, e então reduz</p><p>suas ramificações quando as espécies tornam-se extintas,</p><p>deixando apenas um ramo sobrevivente — o Homo sapiens.</p><p>De que modo tudo isto se encaixa com o que sabemos dos</p><p>registros de fósseis?</p><p>Durante muitos anos após a aceitação do Homo habilis,</p><p>pensou-se que há 2 milhões de anos havia três espécies de</p><p>australopitecíneos e uma de Homo. Neste ponto da história,</p><p>esperaríamos que a árvore familiar fosse bem populosa, assim</p><p>quatro espécies coexistentes não parecem ser muito. E, de</p><p>fato, recentemente tornou-se aparente — por meio de novas</p><p>descobertas e novas reflexões — que pelo menos quatro</p><p>australopitecíneos viveram neste período, lado a lado com</p><p>duas ou mesmo três espécies de Homo. Este quadro não está</p><p>em absoluto acabado, mas, se as espécies humanas eram</p><p>como as espécies de outros grandes mamí-</p><p>3939</p><p>feros (e neste ponto da nossa história não há razão para</p><p>pensar que elas não o fossem), então isto é o que os biólogos</p><p>esperariam. A questão é: o que aconteceu antes dos 2 milhões</p><p>de anos atrás? Quantos ramos haviam na árvore de família e</p><p>como eram eles?</p><p>Como já observado, os registros fósseis tornam-se rapida-</p><p>mente esparsos além dos 2 milhões de anos atrás e ficam mais</p><p>raros ainda para mais de 4 milhões de anos. Os fósseis</p><p>humanos mais antigos conhecidos são todos da África Oriental.</p><p>Na margem leste do lago Turkana, encontramos um osso de</p><p>braço, um osso do pulso, fragmentos de mandíbulas e dentes</p><p>de cerca de 4 milhões de anos atrás; o antropólogo americano</p><p>Donald Johanson e seus colegas recuperaram um osso de</p><p>perna de idade similar na região conhecida como Awash, na</p><p>Etiópia. Na verdade, estes são indícios escassos para se</p><p>recriar um quadro da pré-história humana mais antiga. Há,</p><p>contudo, uma exceção neste período de raros indícios, e esta</p><p>exceção é uma rica coleção de fósseis da região Hadar, na</p><p>Etiópia, que pertencem ao período entre 3 e 3,9 milhões de</p><p>anos atrás.</p><p>Nos meados da década de 1970, uma equipe franco-</p><p>americana, liderada por Maurice Taieb e Johanson, recuperou</p><p>centenas de ossos fossilizados fascinantes, inclusive um</p><p>esqueleto parcialmente completo de um indivíduo pequeno,</p><p>que tornou-se conhecido como Lucy (ver figura 2.3). Lucy, que</p><p>era uma adulta madura quando morreu, mal atingia 1 metro de</p><p>altura e era de constituição muito semelhante à de um macaco,</p><p>com braços longos e pernas curtas. Outros fósseis de</p><p>indivíduos provindos desta área indicavam que não apenas</p><p>havia muitos deles maiores do que Lucy, atingindo mais de 1,5</p><p>metro de altura, mas também que estes eram mais</p><p>semelhantes aos macacos em certos aspectos — no tamanho</p><p>e forma dos dentes, na projeção das mandíbulas — do que os</p><p>hominídeos que viveram mais tarde na África Oriental e do Sul</p><p>há mais ou menos 1 milhão de anos. Isto é o que esperaríamos</p><p>encontrar à medida que nos aproximamos cada vez mais da</p><p>época da srcem da humanidade.</p><p>Quando vi pela primeira vez os fósseis de Hadar, pareceu-me</p><p>que eles representavam duas espécies, talvez mais. Considerei</p><p>provável que a diversidade de espécies que vemos surgir há 2</p><p>mi-</p><p>4040</p><p>(A página 41 do livro apresenta a Figura 2.3, colada nas(A página 41 do livro apresenta a Figura 2.3, colada nas</p><p>páginas finais desse e-livro)páginas finais desse e-livro)</p><p>4141</p><p>lhões de anos derivava de uma diversidade</p>

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